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A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

“Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos
pregados na eternidade como Cristo na cruz. Essa ideia é atroz. No mundo do eterno retorno,
cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. É isso que levava Nietzsche
a dizer que a ideia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewicht).

Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza?

O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia
amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O
mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais
intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e
verdadeira ela é.

Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o
ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus
movimentos a ser tão livres como insignificantes.

O que escolher, então? O peso ou a leveza?”

“Nunca se pode saber o que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem
compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores.

Seria melhor ficar com Tereza ou continuar sozinho?

Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação.
Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem
nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria
vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a
palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um
quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem
quadro.

Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma
vez é nunca. Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca.”

“O amor pode nascer de uma simples metáfora.”

“O sono compartilhado era o corpo de delito do amor.”

"Mesmo nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida com outro, pelo outro, no
lugar do outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos"

“Ao contrário de Parmênides, Beethoven considerava o peso como algo de positivo. "Der
schwer gefasste Entschluss", a decisão gravemente pesada está associada à voz do Destino
("Es muss sein!"); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente
ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.”
“Todos acreditamos todos que é impensável que o amor de nossa vida possa ser uma coisa
leve, uma coisa imponderável; achamos que nosso amor é o que devia ser; que sem ele nossa
vida não seria nossa vida. Convencemo-nos de que Beethoven em pessoa, triste e de cabelos
revoltos, toca seu “Es muss sein!” para nosso grande amor.
Tomas lembrou-se do comentário de Tereza sobre seu amigo Z. e chegou à conclusão de que a
história de amor de sua vida não estava colocada sobre “Ess muss sein!”, mas antes sobre “Es
könnte auch anders sein”: isso poderia muito bem ter acontecido de outra maneira..”

“"Só o acaso pode nos parecer uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo
que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. Somente o acaso tem voz.
Tenta-se ler no acaso como as ciganas lêem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pelo
borra do café. (...) . O acaso tem seus sortilégios, a necessidade não. Para que um amor seja
inesquecível, é preciso que os acasos se encontrem nele desde o primeiro instante como os
pássaros nos ombros de São Francisco.”

"Além de eloquentes, esses sonhos eram belos. Esse é um aspecto que escapou a Freud na sua
teoria dos sonhos. O sonho não é apenas uma comunicação (às vezes uma comunicação
codificada), é também uma atividade estética, um jogo da imaginação, e esse jogo tem em si
próprio um valor. O sonho é a prova de que imaginar, sonhar com aquilo que não aconteceu, é
uma das mais profundas necessidades do homem. Eis aí a razão do perigo pérfido que se
esconde no sonho. Se o sonho não fosse belo poderia ser rapidamente esquecido. Mas Tereza
voltava sem cessar a seus sonhos, repetia-os em pensamento, transformava-os em lendas.
Tomas vivia sob o encanto hipnótico da beleza dilacerante dos sonhos de Tereza.

(...) Olhava para ele com amor, mas temia a noite que ia chegar, tinha medo de seus sonhos.
Sua vida se partira em duas. A noite e o dia disputavam o poder sobre ela."

“Eu poderia dizer que a vertigem é a embriaguez causada pela nossa própria fraqueza. Temos
consciência da nossa própria fraqueza mas não queremos resistir a ela e nos abandonar.
Embriagamo-nos com nossa própria fraqueza, queremos ser mais fracos ainda, queremos
desabar em plena rua, à vista de todos, queremos estar no chão, ainda mais baixo que o chão.”

“Só encontro uma explicação: o amor era para ele não o prolongamento, mas a antítese de sua
vida pública. O amor era para ele o desejo de se abandonar às vontades e caprichos do outro.
Aquele que se entrega ao outro como um soldado se constitui prisioneiro, deve antes entregar
todas as armas. E, vendo-se sem defesa, não pode deixar de se indagar quando virá o golpe.”

“Tinha mais ou menos doze anos quando um dia se viu só, tendo sido abandonada
subitamente pelo pai de Franz. Franz suspeitava que alguma coisa de grave havia acontecido,
mas sua mãe simulava o drama com palavras neutras e medidas para não traumatizá-lo. Foi
nesse dia, quando saía do apartamento para juntos darem um passeio pela cidade, que Franz
notou que sua mãe estava com sapatos descasados. Ficou confuso, quis avisá-la, temendo ao
mesmo tempo magoá-la. Ficou com ela duas horas pelas ruas sem poder despregar os olhos
dos seus pés. Foi então que começou a ter uma vaga idéia do que significava sofrer.”
“Para ele, a música é libertadora: ela o liberta da solidão e da clausura, da poeira das
bibliotecas, e lhe abre no corpo as portas por onde a alma pode sair para confraternizar.(...)
Música era a negação das frases, era a antipalavra!”

“Ela sabe que a beleza é um mundo traído. Só é possível encontrá-la quando seus
perseguidores a esquecem por engano em algum lugar. A beleza se esconde atrás do cenário
de um desfile de Primeiro de Maio. Para encontrá-la, é preciso rasgar a tela do cenário. ”

“A volúpia que o invade exige escuridão. Essa escuridão é pura, absoluta, sem imagens nem
visões, essa escuridão não tem fins nem fronteiras, essa escuridão é o infinito que cada um de
nós traz em si. (Sim, se alguém procura o infinito, basta fechar os olhos).”

“O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era
um fardo, mas a insustentável leveza do ser.”

“Porque as perguntas realmente sérias são apenas aquelas que uma criança pode formular. Só
as perguntas mais ingênuas são realmente perguntas sérias. São as interrogações para as quais
não há resposta. Uma pergunta para a qual não há resposta é uma cancela além da qual não
há mais caminhos. Em outras palavras: são precisamente as perguntas para as quais não há
resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e que traçam as fronteiras de
nossa existência.”

“ Mas o frágil edifício do amor deles seria inevitavelmente destruído, já que esse edifício se
assentava sobre uma única coluna, a de sua fidelidade, e os amores são como os impérios:
desaparecendo a ideia sobre a qual foram construídos, morrem com ela.”

“A unicidade do ’eu’ se esconde exatamente no que o ser humano tem de inimaginável. Só


podemos imaginar o que é idêntico em todos os seres, o que lhes é comum. O "eu" individual
é o que se distingue do geral, portanto o que não se deixa adivinhar nem calcular
antecipadamente, o que precisa ser desvendado, descoberto, conquistado no outro.”

“Entre a ação e o espetáculo, ele não tinha escolha. Tinha apenas uma escolha: dar um
espetáculo ou não fazer nada. Existem situações em que o homem é condenado a fazer um
espetáculo. Seu combate contra o poder silencioso (...) é o combate de um grupo de tetaro
que enfrenta um exército.”

“Tereza acaricia a cabeça de Karenin, que descansa tranquilamente em seus joelhos. Faz mais
ou menos este raciocínio; não existe nenhum mérito em sermos corretos com nossos
semelhantes. (…) Nunca se poderá determinar com certeza total em que medida nosso
relacionamento com o outro é o resultado de nossos sentimentos, de nosso amor, de nosso
não-amor, de nossa complacência, ou de nosso ódio, e em que medida ele é determinado de
saída pelas relações de força entre os indivíduos.
A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a
liberdade, em relação aqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral
da humanidade - o mais radical, num nível tão profundo que escapa ao nosso olhar - são as
relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio
do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras.”

“Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada num tronco, acariciando a cabeça de Karenin
e pensando na falência da humanidade. Ao mesmo tempo surge para mim uma outra imagem:
Nietzsche está saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo e um cocheiro lhe
dando chicotadas. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço sob o olhar do
cocheiro e explode em soluços.

Isso aconteceu em 1889 e Nietzsche já estava, também ele, distanciado dos homens. Em
outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas,
para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir
ao cavalo perdão, por Descartes. Sua loucura (portanto, seu divórcio com a humanidade)
começa no instante em que chora pelo cavalo.

É esse Nietzsche que amo, da mesma maneira que amo Tereza, acariciando em seus joelhos
um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho em que
a humanidade, “proprietária e senhora da natureza”, prossegue sua marcha adiante.”

“Do caos confuso dessas ideias, germina na mente de Tereza uma idéia blasfematória de que
ela não consegue se desvencilhar: o amor que a liga a Karenin é melhor que o amor que existe
entre ela e Tomas. Melhor, mas não maior.

(…) É um amor desinteressado: Tereza não quer nada de Karenin. Nem mesmo amor ela exige.
Nunca precisou fazer as perguntas que atormentam os casais humanos: será que ela me ama?
será que gosta mais de mim do que eu dela? terá gostado de alguém mais do que de mim?
Todas essas perguntas que interrogam o amor, avaliam-no, investigam-no, examinam-no,
talvez o destruam no instante em que nascem. Se somos incapazes de amar, talvez seja porque
desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de
chegar a ele sem reinvindicações, desejando apenas sua simples presença.

E mais uma coisa: Tereza aceitou Karenin tal qual é, não procurou transformá-la para que
ficasse semelhante a si própria, aceitou de antemão seu universo de cachorra, não quer lhe
confiscar nada, não sente ciúmes de seus desejos secretos. Se a educou, não foi para mudá-la
(como um homem quer mudar sua mulher e uma mulher seu homem), mas apenas para lhe
ensinar a linguagem elementar que lhes permitisse se compreender e conviver.”

“Sentia agora a mesma felicidade estranha, a mesma tristeza estranha de então. Essa tristeza
significava: estamos na última parada. Essa felicidade significava: estamos juntos. A tristeza era
a forma, e a felicidade o conteúdo. A felicidade preenchia o espaço da tristeza.”