Você está na página 1de 3

Revista de Psicologia

O DIAGNÓSTICO E O TRATAMENTO DE
PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM
EM QUESTÃO
Revista The diagnosis and the treatment of
de Psicologia learning problems in question

Lúcia Gracia Ferreira 1

Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem


Autora: Sara Paín

Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.


Resenha

Sara Paín, autora desse livro, A obra tem um valor especial, mes-
é psicóloga clínica, psicopedagoga, e mo tendo uma quantidade significativa de
ainda doutora em filosofia e em psi- publicações voltadas para o campo da Psi-
cologia. Desenvolve trabalhos rela- copedagogia, nas quais são discutidas todo
cionados aos problemas de aprendi- o processo de identificação e tratamento
zagem, além de participar de projetos dos problemas de aprendizagem. Com ex-
de formação e de pesquisa na França, trema habilidade e competência, a autora
no Brasil e na Argentina sobre este dirige-se ao público múltiplo traçando um
assunto. Diagnóstico e Tratamen- percurso envolvente alicerçado no caráter
to dos problemas de aprendizagem, ideológico, teórico e de adequação técnica
é uma obra que relata experiências para a constituição do saber na área afim.
do trabalho psicopedagógico. Nesta
obra escrita numa linguagem clara Organizada em sete capítulos, o li-
vro inicia-se com fundamentos históricos
e objetiva, a autora evidencia a ne-
da aprendizagem, indo ate o fornecimento
cessidade de alertar-nos como quão
de orientações práticas concernentes aos
facilmente marginalizamos aqueles
procedimentos básicos da devolução diag-
que fazem algo diferente da norma.
nostica.
A autora é conhecida tanto na área
de Psicologia como na área de Edu- No primeiro capítulo (Aprendizagem
cação, não somente pelos trabalhos e Educação), Paín postula, inicialmente, os
que desenvolvem, que contribui mui- fundamentos teóricos do processo de apren-
to para o crescimento dessas áreas, dizagem e suas funções interdependentes,
mas também pelas suas bibliogra- sendo que em função do caráter complexo
fias. Sara Paín traz nesse livro novas na função educativa, à aprendizagem é vis-
contribuições para área da Psicope- ta, simultaneamente, como instância alie-
dagogia e áreas semelhantes. nante e como possibilidade libertadora.

1
Pedagoga pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB/ Campus de Itapetinga-BA. E-mail: luciagraciaferreira@bol.com.br

Revista de Psicologia, Fortaleza, v. 1 n. 1, p. 149-151, jan./jun. 2010 149


Revista de Psicologia

Posteriormente, a autora fala da psi- que definem o sujeito, tanto uma quanto
copedagogia, como técnica da condução à outra podem ser estudadas em seu as-
do processo psicológico da aprendizagem, pecto dinâmico, como processos, e em seu
que tem a finalidade, com seu exercício, aspecto estrutural como sistemas. A com-
de cumprimento dos fins educativos. Alem binatória da aprendizagem, pois determina
de nos alertar da importante diferença que as variáveis de sua ocorrência.
há entre a perspectiva psicopedagogica e a
estritamente pedagógica, ela diferencia o O conceito de problema de apren-
especialista em Ciências da Educação, que dizagem e o histórico dos fatores funda-
preocupa em construir situações de ensino mentais no diagnóstico do mesmo, é foco
que possibilitem a aprendizagem, do psicó- da discussão no quarto capitulo (O proble-
logo, que se interessa pelos fatores que de- ma de aprendizagem: fatores). A autora si-
terminam o não-aprender no sujeito e pela naliza sua posição a respeito da definição
significação que a atividade cognitiva tem do termo aprendizagem, no âmbito de sua
para ele. perturbação, isto é, a patologia do mesmo.
Paín traz ate nos, através deste livro, um
Embora, faca parte da psicopedago- panorama retrospectivo-histórico dos fato-
gia se preocupar com o fortalecimento dos res que podem desencadear um problema
processos sintético do ego e facilitação do de aprendizagem: fatores orgânicos, cha-
desenvolvimento das funções cognitivas, Paín mando-nos a atenção da desestruturação
opta por uma psicopedagogia que permite ao da estrutura cognitiva por causa do corpo;
sujeito que não aprende fazer-se cargo de fatores específicos, onde são enfatizados os
sua marginalização e aprender, a apartir da transtornos que aparecem na linguagem;
mesma, transformando-se para integrar-se fatores psicógenos, marcada pela diferen-
na sociedade, mas dentro da perspectiva da ciação dos termos inibição e sintoma; e os
necessidade de transformá-la. fatores ambientais, como as possibilidades
No segundo capitulo (Dimensões do reais que o meio oferece.
processo de aprendizagem), é relatada vasti- Com relação aos problemas de
dão do lugar do processo de aprendizagem, aprendizagem, o conceito do termo, ponto
através da descrição de suas dimensões. já dito pela autora, é bom deixar claro que
Alem de nos fornecer a descrição dessas di- os mesmos não podem ser considerados
mensões (biológicas, cognitiva, social), Paín como “erros”, opinião de Freud, porque são
relaciona o id, o ego e o superego com a perturbações produzidas durante a aquisi-
aprendizagem, considerando que a mesma ção e não nos mecanismos de conservações
reúnem num só processo a educação e o é disponibilidade. Sendo, assim, com exce-
pensamento, já que ambos se possibilitam, ção das rupturas muito precisas, a signi-
mutuamente, no cumprimento do princípio ficação do problema de aprendizagem não
de realidade. deve ser procurada com conteúdo do ma-
Duas condições marcam a análise terial sobre o qual se opera, mas, preferen-
do terceiro capitulo (Condições internas e cialmente, sobre a operação como tal.
externas de aprendizagem), onde a autora O quinto capítulo (Diagnóstico do
nos fala que existem dois tipos de condições problema de aprendizagem), é composto
para a aprendizagem: as externas, que de- por sete momentos do diagnóstico – moti-
finem o campo do estímulo, e as internas, vo da consulta, história vital’hora de jogo,

150 Revista de Psicologia, Fortaleza, v. 1 n. 1, p. 149-151, jan./jun. 2010


Revista de Psicologia

provas psicométricas, provas projetivas, gos, psiquiatras, pedagogos, professores, e


provas específicas e análise do ambiente principalmente, perante os olhos dos pro-
– que procuram obter todos os dados ne- fessores universitários.
cessários para compreender o significado,
a causacao e a modalidade de perturbação No último capítulo (Tratamento),
que em cada caso motiva a demanda as- Paín prende-nos na espera de mais mate-
sistencial. O primeiro momento é a chave rial sobre a técnica de tratamento. O tra-
para compreensão diagnóstica do sinto- tamento psicopedagógico tem por objetivo,
ma; os três momentos seguintes buscam a desaparecimento do sintoma e a possi-
conhecer o sujeito, tais atividades forne- bilidade do sujeito aprender normalmente.
cem informações sobre os esquemas que A autora relata que para cumprir objetivos
organizam e integram o conhecimento e garantir a conservação do enquadre, é
num nível representativo; os dois últimos necessária a aplicação de certas técnicas
momentos tratam de desvendar quais (organização prévia da tarefa, graduação,
são as partes do sujeito depositados nos auto-avaliação, historicidade, informação,
objetos que aparecem como suportes da
indicação) que atuarão como instrumentos
identificação, e buscam fazer a análise
de transformação.
dos ambientes onde o paciente vive. Paín
apresenta neste capitulo o tema do diag- Ao meu ver, a obra aqui resenhada
nóstico. representa uma grande contribuição para
No capítulo seis (Diagnóstico e orien- as áreas da Psicopedagogia, da Psicologia
tação terapêutica), a autora toca em três e da Educação, sendo uma referência, pois
questões extremamente relevantes, onde a consegue tratar de questões relacionadas a
mesma apresenta “a hipótese diagnóstica”, essas três áreas. Sara Paín faz a relação
“a devolução diagnóstica” e “o tratamento entre a psicanálise, a teoria piagetiana e o
e contrato”, que buscam avaliar o peso de materialismo histórico, colaborando para
cada fator na ocorrência do transtorno da as tarefas realizadas em crianças que com
aprendizagem. A tarefa psicopedagógica problemas na aprendizagem. Por isso, é
começa, justamente aqui, na medida em importantíssima a tomada de consciência
que se trata de ensinar o diagnóstico, no por parte dos profissionais que trabalham
sentido de tomar consciência da situação com a aprendizagem, no que diz respeito às
de providenciar sua transformação.
dificuldades de tratamento psicopedagógi-
A autora reivindica, no quinto e sex- co. Além do mais, é indispensável aprender
to capítulo, um psicodiagnóstico abrangen- com as experiências para que o outro possa
crescer através delas, o que aumenta ainda
te, incluindo o viés do próprio diagnóstico,
mais o valor de obras como esta, que ar-
pervertido este pela ideologia do “saber” do-
ticula os saberes da psicologia e da peda-
minante, que aparecendo como saber, nada
gogia, possibilitando um entendimento do
mais é do que um poder cheio de manchas
tratamento transformador. Lembremos que
e embustes. Estes capítulos contribuem
dessa articulação surgiu a psicopedagogia,
muito para verificação de como, freqüente-
mente, a diferença de oligrofenia e oligoti- e se esta existe é porque a pedagogia é falha
mia, passam em brancas nuvens perante e não dá conta da demanda.
os olhos e inteligência de muitos psicólo-

Revista de Psicologia, Fortaleza, v. 1 n. 1, p. 149-151, jan./jun. 2010 151