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MARIA ESTHER GARCIA AREENO

Psicodiagnóstico
Clínico
:llBLIOTECA ARTES MÉDICAS

nfAncla e Adolescêncla .
1BERASTURY - A Criança' seus Jogos
iBERASTURY - A Percepção da Morte na Criança e Outros
Escritos
,BERASTURY - Adolescência
,BERASTURY - Psicanálise de Crianças - Teoria e Técnica
,BERASTURY & KNOBEL-Adolescência Normal
JURIAGUERRA & MARCELU - Manual de Psicopatologia
Infantil
,LBUOUEROUE - Psicologia e Educação - Acompanhamento
Psicológico à Professora
,LVAREZ, Anne- Companhia Viva
.RZENO Marfa E.G. - Psicodiagnóstico Clínico - Novas
Contribuições
TKINSON & Cols. -Introdução à Psicologia-11'81
BLOS, Pelar-Transição Adolescente
OWLBY, John - Uma Base Segura
RAZELTON - A Dinâmica do Bebê
RAZELTON-0 Desenvolvimento d.o Apego- Uma Família em
Formação
RUNNET & LÉZl_NE - Desenvolvimento Psicológico da
Primeira Infância
liESS & HASSIBI - Principios e Prática da Psiquiatria Infantil
HILAND - A Criança, a Famflia e a Escola
OPPOLILLO - Psicoterapia Psicodinlimica de Crianças
CORDIÉ - Os Atrasados não Existem - Psicanálise de
C1ianças com Fracasso Escolar
RAMER & PALACIO - Técnicas Psicoterápicas Mãe/Bebê
'EBRAY, Rosine - Bebês/Mães em Revolta
ECHERF - Édipo em Grupo- Psicanálise de Grupo de
Crianças
1LEO- A Interpretação do Desenho Infantil
UARTE, BORNHOLD & CASTRO - A Prática da Psiéoterapia
Infantil
NDERLE - Psicologia da Adolescência - Uma Abordagem
Pluridimensional
NDERLE - Psicologia do Desenvolvimento - O Processo
Evolutivo da Criança
ENDRJK, Silvia- Ficção das Origens - Contribuição à Hist. da
Psicanálise de Criança
URNISS, Tilman - Abuso Sexual da Criança- Uma Abordagem
Multidisciplinar
iAP- Group for Advancement of Psychiatry- Distúrbios
Psicopatológicos na Infância - Téoria e Classificação
iARFINKEl & Cols. - Transtornos Psiquiátricos na Infância e
Adolescência
GLENN, Jules - Psicanálise de Crianças
iRA~A & Cols. - Técnica Psicoterãpica na Adolescência
IREENSPAN - Entrevista Clfnica com Crianças
ERUSALINSKY, Alfredo - Psicanálise e Desenvolvimento
Infantil
ERUSALINSKY - Psicanálise do Autismo
:ERNBERG & CHAZAN - Mn. de Psicoterapia de Crianças com
Transtorno de Cônduta
(LAUS & KLAUS - O Surpreendente Recém-Nascido
{lAUS & KENNEL - Relações Pais & FUhos - ATeoria do Apego
CLEPSCH & LOGIE - Crianças Desenham e Comunicam
CUSNETZOFF- Psicoterapia Breve na Adolescência
'LAUFER & LAUFER- Adolescência e Colapso do
DesenvoMmento - Uma Perspectiva Psicanalítica
LEBOVICI - OBebê, A Mãe e o Psicanalista
Psicodiagnóstico
Clínico
A797p ArLeno, Maria Esther García
Psicodiagnóstico clínico: novas contribuições/ Maria Esther GarcíaArzeno; trad.
Beatriz Affonso Neves. - Porto Alegre: Artes Mêdicas, 1995.

1. Psicodiagnóstico 1. Titulo.

CDU 616.89:616-071

Catalogação na publicação: MônicaBallejo Canto-CRB 10/1023


, ,
MARIA ESTHER GARCIA ARZENO

Psicodiagnóstico
Clínico
novas contribuições

Tradução:
BEATRIZ A FFONSO NEVES

Consultoria, Supervisão e Revisão Técnica desta edição:


MARIA l.ÚCIA TJELLET NUNES
Psicóloga. Doutora e1n Psicologia Clínica.
Professor" do /11stit11to de Psicologia da PUC·RS e do Dep(lrfc1111e11to de Psicologia da UFRGS

Porto Alegre / 1995


Obra originalmente publicada em espanhol sob o título
Nuevas aportaciones ai psicodiagnóstico clinico, 1993
por Ediciones Nueva Visiôn
tEi Ediciones Nueva Visiôn SAIC

Capa:
Mário Rõnhelt

Preparação do Original:
FlávioCesa

Superoisão Editorial:
Leticia Bispo

Editoração Eletrônica e Filmes:


GRAFLINEAssessoria Gráfica e Editorial Ltda.

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à


ARTMED® EDITORA S.A.
Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana
90040-340 Porto Alegre RS
Fone (51) 3330-3444 Fax (51) 3330-2378

É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou
por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na Web e outros), sem
permissão expressa da Editora.

SÃO PAULO
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SAC 0800 703-3444

IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Sumário

Prefácio ........................................................................................................ 3

1 O Psicodiagnóstico Clinico na Atualidade ........................................ . 5

2 Objetivos e Etapas do Processo Psicodiagnóstico ............................ .. 13

3 O Enquadre no Processo Psicodiagnóstico ...................................... .. 17

4 O Primeiro Contato na Consulta ...................................................... . 22

5 Algumas Contribuições Úteis para a Realização da Primeira


Entrevista com o Consultante .......................................................... . 36

6 A Hora de Jogo Diagnóstica Individual. Enfoque Atual e


Exemplos Clinicas ............................................................................ . 47

7 Seleção da Bateria de Testes e a sua Seqüência .............................. . 63

8 Objetivos, Materiais e Instruções utilizadas no Psicodiagnóstico


Clínico ............................................................................................... . 72

9 Os Testes Projetivos Gnificos .......................................................... .. 84

10 Questionário Desiderativo ............................................................... .. 102


11 O Desiderativo como Instrumento de Exploração do Narcisismo..... 119
Garcia Arzeno, M. E.; Kleiner, Yolanda e Woscoboinik, Pala R. de

12 Critérios Atuais para a Interpretação do Teste de Relações Objetais


de Phillipson ...................................................................................... 127

13 Indicadores de Analizabilidade no Teste de Relações Objetais de


Phillipson ......................................................................................... . 148

14 Atualização dos Critérios de Interpretação do C.A.T.


(Children Apperception Test). de L. Bellak, e sua Correlação
con1 o Desiderativo e o Rorschach ................................ .. 153

15 A Entrevista Familiar Diagnóstica. Importãncia da sua


Inclusão no Psicodiagnóstico de Crianças........................................ 166

16 O Estudo do Material Coletado ........................................................ . 179

17 Considerações Atuais sobre a Entrevista de Devolução dos


Resultados do Psicodiagnóstico ........................................... .. 186

18 O Informe Psicodiagnóstico ............................................................... 203

19 Alguns Exemplos de Psicodiagnósticos e os seus Informes.............. 208

20 O Psicodiagnóstico Clinico e a sua Relação com as Outras Áreas


de Aplicação....................................................................................... 234
Prefácio

Este livro significa para mim a continuação de um trabalho iniciado nos


anos 70, quando, com Maria Luisa Siquier de Ocampo, Elsa Grassano de Píccolo e
colaboradores, colocamos nossas idéias em uma obra* que continua sendo livro de
referência para os interessados no assunto.
Após quase vinte anos de trabalho ininterrupto, estudo e pesquisas sobre a
especialidade, senti a necessidade de comunicar minhas idéias atualizadas e ampli-
adas.
A acumulação de experiência clinica, o aprofundamento na formação teórtca
e a abertura face a novos enfoques e novas técnicas de estudo da personalidade
estin1ularan1-me a escrever este livro com a finalidade de transmiti-los aos interes-
sados por esta apaixonante tarefa: o psicodiagnóstico.
A inclusão de teorias e recursos técnicos como os de M. Mahler, D. W.
Winnicott, M. Mannoní, F. Dolto, etc., assim como as diferentes escolas de terapia
familiar, têm introduzido algumas modificações em meu trabalho: enquadre, critéri-
os de interpretação, estratégias para a devolução de informação e elaboração da
informação final; tudo isso tem sido adaptado e enriquecido com o passar do tempo.
Assim, por exemplo, exponho nesta obra que atualmente é impossível fazer
um psicodíagnóstico correto se não se incluir, pelo menos, uma entrevista familiar
diagnóstica, mesmo em se tratando de um estudo individual.
Para atingir minha finalidade incluí a maior quantidade possível de material
clínico.
Deixo aqui meu agradecimento a alunos, pacientes, famílias e supervisandos,
os quais con1 suas consultas, dúvidas, questionamentos e contribuições ajudaram-
me a crescer.

Maria Esther García Arzeno

Ocan1po, Maria L. S. de; Grassano, E.; Arzcno, Maria E. Garcia e col. Las técnlcas proyectivas y el
proceso psicodiagnôslico. Buenos Aires, Nueva Visiôn, 1974.

3
Capítulo 1

O Psicodiagnóstico Clínico
na Atualidade

O psicodiagnóstico está recuperando-se de uma época de crise durante a


qual poderíamos dizer que havia caído no descrédito da maioria dos profissionais da
saúde mental.
Considero imprescindível revalorizar a etapa diagnóstica no trabalho clinico
e sustento que um bon1 diagnóstico clínico está na base da orientação vocacional e
profissional. do trabalho como peritos forenses ou trabalhistas, etc.
Se somos consultados é porque existe um problema, alguém sofre ou está
incomodado e devemos indagar a verdadeira causa disso.
Fazer um diagnóstico psicológico não significa necessarian1ente o mesn10
que fazer um psicodiagnóstico. Este termo implica automaticamente a administra-
ção de testes e estes nem sempre são necessários ou convenientes.
Mas um diagnóstico psicológico tão preciso quanto possível é imprescindível
por diversas razões:

1. Para saber o que ocorre e suas causas, de forma a responder ao pedido


con1 o qual foi iniciada a consulta.
2. Porque iniciar um tratamento sem o questionamento prévio do que real-
mente ocorre representa um risco muito alto. Significa, para o paciente,
a certeza de que poderemos "curá-lo" (usando termos clássicos). E o que
ocorre se logo aparecem patologias ou situações complicadas com as
quais não sabemos lidar, que vão além daquilo que podemos absorver,
através de supervisões e análises? Buscaremos a forma de interromper
(consciente ou inconscientemente) o tratamento com a conseguinte hos-
tilidade ou decepção do paciente, o qual terá muitas dúvidas antes de
tornar a solicitar ajuda.
3. Para proteger o psicólogo, que ao iniciar um tratamento contrai auto-
maticamente un1 compromisso em dois sentidos: clínico e ético. Do pon-
to de vista clinico deve estar certo de poder ser idôneo perante o caso
sem cair em posturas ingénuas nem onipotentes. Do ponto de vista éti-
co, deve proteger-se de situações nas quais está implicitamente com-
prometendo-se a fazer algo que não sabe exatamente o que é. No entanto,
as conseqüências do não cumprimento de um contrato terapêutico são,
em alguns países, a cassação da carteira profissional.

5
6 García Arzeno

Por estas razões insisto na importância da etapa diagnóstica, sejam quais


forem os instrumentos científicos utilizados na mesma. Na obra "A iniciação do
tratamento"' Freud fala da importância desta etapa, â qual ele dedicava os primei-
ros meses do tratamento. Coloca que ela é vantajosa tanto para o paciente quanto
para o profissional, que avalia assim se poderá ou não chegar a uma conclusão
positiva.
Não sou favorável à idéia de dedicar tanto tempo ao diagnóstico, porque se
estabelece assim uma relação transferencial muito dificil de dissolver se a decisão
. for a de não continuar. Além do mais, dispomos na atualidade de todos os recursos
descritos neste livro (e muitos outros) que permitem solucionar as dúvidas em um
tempo menor.
Vej"1 . com que finalidades

1) Diagnóstico. Conforme o exposto acima é óbvio que a primeira e principal


finalidade de um estudo psicodiagnóstico é a de estabelecer um diagnóstico. E cabe
esclarecer que isto não equivale a "colocar um rôtulo~, mas a explicar o que ocorre
além do que o paciente pode descrever conscientemente.
Durante a primeira entrevista elaboramos certas hipóteses presuntivas. Mas
a entrevista projetiva, mesmo sendo imprescindível, não é suficiente para um diag-
nóstico cientificamente fundamentado.
Lembremos do que diz Karl Meninger, que foi diretor da Meninger Clinic
(E.U.A.) no prefácio do livro de David Rapaport2

Durante sêculos o diagnóstico psiquiátrico dependeu funda1ncntalmente da observa-


ção clínica. Todas as grandes obras n1estras da nosologia psiquiátrica( ... ) foram realizadas sen1
a ajuda das têcnicas de laboratório e de nenhum dos instrumentos de precisão que atualn1ente
relacionan1os com o desenvolvimento da ciência n1oderna. Tanto a psiquiatria do século XIX
cmno a da primeira parte do século XX, era uma psiquiatria de impressões clínicas, de in1pres-
sõcs colhidas graças a un1a situação privilegiada: a do n1édico capacitado para submeter o paci-
ente â exan1e. Mas esse cxan1e â sua disposição não era de modo algun1 uniforme ou cstâvel; e
tan1pouco poderia ter sido padronizado de forma que fosse passivei con1pararos diferentes da-
dos obtidos (... ). Con1 o advento dos n1odernos métodos de exan1e psicológico através de testes. a
psiquiatria atingiu a idade adulta dentro do n1undo científico{... ). Sem n1edo de exagerar pode-se
afirn1ar que é o campo da ciência n1ental que te1n tido o 1naior progresso relativo nos últimos
anos.

Meninger foi durante muitos anos chefe da Clinica que leva seu nome e
apoiou e animou a criação e o desenvolvimento dos testes tanto projetivos como
objetivos. Cada paciente que ingressava na clínica era submetido a uma bateria
completa de testes (T.A.T.. Rorschach, Weschler e outros).
Eu concordo ainda hoje com este modelo de trabalho, porque acredito que a
entrevista clínica não é un1a ferramenta infalível, a não ser quando em mãos de
grandes mestres, e às vezes, nem mesmo nesses casos.
Os testes tampouco o são. Mas se utilizarmos ambos os instrumentos de
forma complementar há uma margem de segurança maior para chegar a um diag-
nóstico correto, especialmente se incluirmos testes padronizados.
Além do mais, a utilização de diferentes instrumentos diagnósticos permite
estudar o paciente através de todas as vias de comunicação: pode falar livremente,
dizer o que vé em uma lâmina, desenhar, imaginar o que gostaria de ser, montar
quebra-cabeças, copiar algo, etc. Se por algum motivo o domínio da linguagem ver-

1. Freud, Sigmund. La iniciación dei tratamiento, t. li, Obras Completas, Madrid: Biblioteca Nueva,
1948.
2. Rapaport, David. Testes de diagnóstico psicológico. Buenos Aires: Paidós, 1959.
Psicodiagnóstico Clínico 7

bal não foi alcançado (idade. doença, casos de surdos-mudos, etc.) os testes gráficos
e lúdicos facilitam a comunicação.
A bateria de testes utilizada deve incluir instrumentos que permitam obter
ao máximo a projeção de si mesmo.
Por isso, se pedimos ao paciente que desenhe uma figura humana, sabemos
que haverá projeção, mas muito mais se lhe pedirmos que desenhe uma casa ou
uma árvore, já que ele não pode controlar totalmente o que projeta.
Como disse antes, é importante incluir testes padronizados porque nos dão
uma margem de segurança diagnóstica maior.
---b Lembro o caso de uma jovem que foi consultar d_~vido a fracª"-"-~lar,
impossibilidade de concentração nos estudos e dificuldades de compreensão. Con-
siderava-se de baixo nivel intelectual. Após ter solicitado a ela o Desenho Livre e o
H.T.P., entreguei-lhe o pequeno caderno do Teste de Matrizes Progressivas de Raven.
O mesmo dá ao paciente trinta minutos para realizá-lo. Ela o fez em quinze. Eu
observava as suas anotações e percebi seu excelente resultado. Por isso, quando a
tarefa foi concluida, entreguei-lhe a grade de avaliação, para que ela mesma fizesse
a correção. Fizemos o cálculo devido e buscamos.a cifra na tabela mais apropriada.
O resultado final indicava um Q.I. superior à média. Ela ficou surpresa e incrédula,
mas os resultados eram irrefutáveis. Voltou à sua casa muito contente. Obviamen-
te, essa não era a solução final do problema. Haviamas desarticulado um mecanis-
mo através do qual ela brincava de "menina boba". Agora era necessário estudar o
porquê. Apareceu então (principalmente pela reiteração de respostas de "uma figura
e a outra é o reflexo em um espelho", no Rorschach) seu enorme narcisismo e seu
grau de aspiração de ser a número um em tudo. A ferida narcisística por não conse-
gui-lo era tão terrivel que, inconscientemente, preferia ser "a burra" para não se
expor.
--- )? Outro elemento importante que nos é dado pelo psicodiagnóstico refere-se à
relação de transferência-contratransferência.
Ao longo de um processo que se extende entre três e cinco entrevistas apro-
ximadamente, e observando como o paciente se relaciona diante de cada proposta e
o que nós sentimos em cada momento, podemos extrair conclusões de grande utili-
dade para prever como será o vinculo terapêutico {se houver terapia futura), quais
serão os momentos mais difíceis do tratamento, os riscos de deserção, etc.
Porém, nem todos os psicólogos, psicanalistas e psicólogos clinicas concor-
dam com este ponto de vista. Alguns reservam a utilização do psicodiagnóstico para
casos nos quais surgem dúvidas diagnósticas ou quando querem obter uma infor-
mação mais precisa, diante, por exemplo, de uma suspeita de risco de suicidio,
dependência de drogas, desestruturação psicótica, etc. Em outras ocasiões o solici-
tam porque têm dúvidas sobre o tratamento mais aconselhável, se a psicanálise ou
uma terapia individual ou vincular. Finalmente, existe outro grupo de profissionais
que não concordam em absoluto com este ponto de vista e prescindem totalmente
do psicodiagnóstico. Ainda mais, não concedem valor científico algum aos testes
projetivos. Alguns vão mais longe, dizendo que de forma alguma é importante fazer
um diagnóstico inicial, que isso chega com o tempo, ao longo do tratamento. Ouvi
isto de um palestrante estrangeiro durante um congresso internacional, ao que
outro especialista replicou: "Então o senhor começaria com antibióticos e transfu-
sões de sangue, mesmo antes de saber qual o problema do paciente?"
Acredito que todas as posições são respeitáveis, porém devem ser funda-
mentadas cientificamente e, até o momento, não tenho encontrado ninguém que me
demonstre, baseado na teoria da projeção e da psicologia da personalidade, que os
testes projetivos carecem de validade.
8 García Arzeno

2) Avaliação do tratamento. Outra forma de utilizar o psicodiagnóstico é como


meio para avaliar o andamento do tratamento. É o que se denomina "re-testes" e
consiste em aplicar novamente a mesma bateria de testes aplicados na primeira
ocasião. Havendo suspeita de que o paciente lembre perfeitamente o que fez na
primeira vez e se deseje variar, pode-se criar uma bateria paralela selecionando
testes equivalentes, como o teste "Z" de Zullliger no lugar do Rorschach.
Algumas vezes isto é feito para apreciar os avanços terapêuticos de forma
mais objetiva e também para planejar uma alta. Em outras é para descobrir o moti-
vo de um "impasse" no tratamento e para que tanto o paciente como o terapeuta
possam falar sobre isso, estabelecendo, talvez, um novo contrato sobre bases
atualizadas. Em outros casos ainda, é porque existe disparidade de opiniões entre
eles. Um deles acredita que pode dar fim ao tratamento, enquanto que o outro se
opõe.
Estes casos representam um trabalho difícil para o psicólogo, pois passa a
ocupar o papel de um árbitro que dará a razão a um dos dois. É então conveniente
esclarecer ao paciente que o psicodiagnóstico não será realizado para demonstrar-
lhe que estava enganado, mas, como um fotógrafo, ele. registrará as situações para
depois comentá-las. O mesmo esclarecimento deve ser dado ao terapeuta. Obvia-
mente, é conveniente que a entrevista de devolução seja feita por aquele que reali-
zou o estudo, tendo um cuidado muito especial em mostrar uma atitude imparcial e
fundamentando as afirmações no material dado pelo paciente.
Nos tratamentos particulares, o terapeuta é quem decide o momento ade-
quado para um novo psicodiagnóstico (ou talvez para o primeiro). No entanto, nos
tratamentos realizados em instituições públicas ou prtvadas, são elas que fixam os
critérios que devem ser levados em consideração. Algumas deixam isto a critério dos
terapeutas. Outras decidem pautá-lo, considerando tanto a necessidade de avaliar
a eficiência de seus profissionais quanto a de contar com um banco de dados úteis,
por exemplo, para fins de pesquisa. Assim, é passivei que o prtmeiro psicodiagnóstico
seja indicado quando o paciente entra na instituição, e o outro de seis a oito meses
após, dependendo isto do pertodo destinado a cada paciente.

3) Como meio de comunicação. Existem pacientes com dificuldades para con-


versar espontaneamente sobre sua vida e seus problemas. Outros, como é o caso de
crianças muito pequenas, não podem fazê-lo. Outros emudecem e só dão respostas
lacônicas e esporádicas. Com adolescentes e crtanças podemos introduzir algumas
modificações que muitas vezes despertarão seu entusiasmo. Assim que é sugertdo,
as crtanças começam a desenhar ou a modelar; o jogo do rabisco de Winnicott entu-
siasma a todos, especialmente porque quebra a assimetria do vínculo.
Favorecer a comunicação é favorecer a tomada de insight. ou seja, contribuir
para que aquele que consulta adquira a consciência de sofrimento suficiente para
aceitar cooperar na consulta. Também provoca a perda de certas inibições, possibi-
litando assim um comportamento mais natural.
Não se trata de cair em atitudes condescendentes, mas de realizar a tarefa
dentro de um clima ideal de comunicação, na medida do passivei. Procura-se tam-
bém respeitar o timing do paciente. ou seja, o seu tempo. Alguns estabelecem rapport
imediatamente, enquanto que para outros isso pode exigir bastante tempo.
Por isso seria grotesco ficar em silêncio por um longo período, apoiando-se
no prtncipio de que a entrevista é livre e é o consultante quem deve falar, como seria
também grotesco interrompê-lo enquanto está relatando algo importante para im-
por-lhe a tarefa de desenhar.
O psicodiagnóstico possui um fim em si mesmo. mas é também um meio
para outro fim: conhecer esta pessoa que chega porque precisa de nós. A finalidade
Psicodiagnóstico Clínico 9

é conhecê-la da forma mais profunda possível. Para isso o bom rapport é imprescin-
dível.

4) Na investigação. No que se refere à investigação, devemos distinguir dois


objetivos: um, é a criação de novos instrumentos de exploração da personalidade
que podem ser incluídos na tarefa psicodiagnôstica. Outro, o de planejar a investi-
gação para o estudo de uma determinada patologia, algum problema trabalhista,
educacional ou forense, etc. Neste caso, usa-se o psicodiagnôstico como uma das
ferramentas úteis para chegar a conclusões confiáveis e, portanto, válidas.
Um exemplo do primeiro caso é o que fez o próprio Hermann Rorschach
quando criou as manchas e selecionou entre milhares aquelas que demonstravam
ser mais estimulantes para os pacientes.
Para dar validade a este teste mostrou as lâminas a um grupo de pacientes
selecionados aleatoriamente e, apôs, a outro grupo já diagnosticado com o método
de entrevista clinica (esquizofrênicos, fóbicos, etc.). Assim pôde estabelecer as res-
postas populares (próprias da maioria estatística selecionada aleatoriamente) e as
diferentes "síndromes" ou perfil de respostas típico de cada quadro patológico'.
Da mesma forma procedeu Murray, criador do T.A.T. (Thematic Apperception
Test). As respostas estatisticamente mais freqüentes foram denominadas "popula-
res". Os desvios dessas respostas populares eram considerados significativos tanto
no aspecto enriquecedor e criativo como no sentido oposto, ou seja, no aspecto
patológico, podendo proceder do mesmo modo que Rorschach.
A criação de um teste não é uma tarefa fácil. Não podem ser colhidos alguns
registros e deles extraídas conclusões com a pretensão de que sejam válidas para
todos. É necessário respeitar aquilo que a psicoestatística indica como modelo de
investigação para que as suas conclusões sejam aceitáveis. Também é necessário
um conhecimento abrangente e o trabalho em equipe para a correta interpretação
dos resultados. Assim, por exemplo, se se pretende criar um teste que avalie a
inteligência em crianças surdas-mudas, será imprescindível a presença de um es-
pecialista dessa área. Se a intenção é criar um teste para pesquisar determinados
conflitos emocionais em crianças pequenas, é indispensável que alguém conheça
perfeitamente como é o desenvolvimento normal da criança a cada idade e da crian-
ça do grupo étnico ao qual pertence o pesquisador, já que, não sendo assim, se a
pesquisa tratasse de estudar o mesmo aspecto, mas em crianças suecas ou japone-
sas, sem a presença de um antropólogo e um psicólogo conhecedores da matéria,
como integrantes da equipe pesquisadora, poderiam ser tiradas conclusões incorre-
tas. Em relação ao segundo objetivo, trata-se em primeiro lugar de definir clara-
mente o que se deseja pesquisar. Suponhamos que a finalidade é descobrir se existe
um perfil psicológico típico dos homossexuais, dependentes de drogas ou
claustrofóbicos. O primeiro passo deve ser selecionar adequadamente os instru-
mentos a serem utilizados, a ordem que será seguida, as ordens que serão dadas, o
material (tamanho do papel, número do lápis, etc.) e os limites dentro dos quais
podemos admitir variações individuais (por exemplo, podemos admitir que desenhe
o Bender em mais de uma folha, que queira usar o verso, que acrescente detalhes às
figuras, mas não que use borracha, de forma que tudo fique registrado). Isto é o que
é chamado de padronizar a forma de administração do psicodiagnôstico. Se cada
examinador trabalhasse à sua maneira, seria impossível comparar os registros co-
lhidos e, portanto, não poderiamas pretender tirar deles conclusões cientificamente
válidas.

3. Rorschach, Hermann. Psicodiagnóstico. Buenos Aires: Paidós, 2.ed., 1955.


10 García Arzeno

Logo após, administraremos este psicodiagnóstico assim planejado: por um


lado, a uma amostra de homossexuais, dependentes de drogas, etc., e, por outro
lado, o mesmo psicodiagnóstico, à outra amostra chamada de controle, que não
registra a mesma patologia do grupo em estudo. Em uma terceira etapa, serão bus-
cadas as recorrências e convergências em ambos os grupos, para poder-se assim
chegar a conclusões válidas. Por exemplo, é significativo que os homossexuais dese-
nhem primeiro a figura do sexo oposto, já que na amostra de controle a pessoa
desenha primeiro a do seu próprio sexo, no Teste das Duas Pessoas. Estou usando
um exemplo simples com a finalidade de transmitir claramente em que consiste
essa tarefa. A utilidade destas pesquisas varia muito. As mais interessantes são
aquelas que permitem identificar indicadores que servirão para detectar precoce-
mente problemas clinicas, trabalhistas, educacionais, etc., com a conseqüente eco-
nomia de sofrimento, problemas e até complicações institucionais.

Método para que o Consultante Aceite Melhor as Recomendações


O psicodiagnóstico inclui, além das entrevistas iniciais, os testes, a hora de
jogo com crianças, entrevistas familiares, vinculares, etc. As conclusões de todo o
material obtido são discutidas com o interessado, com seus pais, ou com a familia
completa, conforme o caso e o sistema do profissional.
Os testes realizados individualmente são reservados, geralmente, para a
entrevista individual com essa pessoa, para a entrega dos resultados. Porém o que
tem sido feito e conversado entre todos pode ser mostrado ou assinalado para exem-
_plificar algt.Im conflito que os consultantes minimizam ou negam.
. · .Par 'exemplo, um rapaz em torno dos 25 anos que consultou por se sentir
'aniliti'àdli~i!lemais à noiva e a mãe, disse no Questionário Desiderativo que gostaria
de ·Sêr'á""V'énto porque é livre e também um cão porque é uma companhia fiel. Além
. do resfante do registro, estas duas catexias serviram para enfrentá-lo com sua pró-
pria contradição: querer ser livre como o vento e ao mesmo tempo precisar da com-
panhia de alguém que lhe desse afeto. Logo aceitou que isto criava uma situação
interna dificil e que não podia pensar que o problema seria solucionado trocando de
noiva ou distanciando-se de sua mãe.
Em outra ocasião, com os pais de um menino de doze anos que se recusa-
vam a aceitar a seriedade da doença do mesmo, usei outro recurso. Mostrei-lhes a
lâmina lll do Rorschach dizendo que o teste não estava sendo feito com eles, mas
que a observassem silenciosamente por um instante e logo cada um dissesse o que
havia visto. Ambos disseram algo semelhante à resposta popular: "Duas pessoas
fazendo algo". Então disse-lhes que o menino havia respondido: "Dois esqueletos".
Ambos ficaram muito impressionados e começaram a levar mais a sério minhas
advertências.
Poderia eu ter tido a surpresa de que eles também dessem respostas muito
patológicas. Nesse caso teria comentado de passagem o que o filho tinha visto e
desviado a atenção para outro material. Quando as distorções são compartilhadas
por pais e filhos, a conclusão inevitável é a de que uma terapia familiar é urgente.
Outro caso é o de uma moça de uns 20 anos que chega a um Serviço de
Psicopatologia de um Hospital pedindo um estudo vocacional. Toda a sua conduta
na sala de espera e ao pedir a entrevista deixava clara uma grave patologia. A ansi-
edade era enorme, apertava nervosamente as mãos, sentava-se e levantava-se in-
cessantemente, etc. Queria que fosse feito exclusivamente o "teste" vocacional. Com
muita relutância, aceitou responder o Desiderativo. Suas respostas foram: 1+, "Gos-
taria de ser uma pomba, que é graciosa e alegre", e no 1-. "Não gostaria de ser uma
Psicodiagnóstico Clínico 11

hiena porque vive se alimentando de desperdicios"; 2- "Um gladiolo porque me lem-


bra velórios"; 3- "Algo mineral. o carvão. Não me pergunte por quê".
Entre a aparência alegre e inocente da pomba, inevitavelmente associada à
vida e à paz, e a hiena que vive de cadáveres há uma dissociação abismal. As três
colocações negativas estão relacionadas com a morte: o gladiolo com velórios, e o
carvão é um vegetal sepultado sob a terra durante milênios. Isto facilitou o inicio da
conversa com ela, sobre o quanto a preocupava a idéia da morte e como isso a
deixava ansiosa. Ela deixou de insistir com o teste vocacional e começou a relatar
fatos da sua vida, especialmente sobre a perda de vários seres queridos. Mesmo
assim, recebeu algumas sugestões vocacionais, mas aceitou ir ao Serviço uma vez
por semana para continuar falando sobre essas coisas que tanto perturbavam o seu
dia-a-dia.

Escolha da Estratégia Terapêutica Mais Adequada


Um psicodiagnóstico completo e corretamente administrado permite-nos es-
timar o prognóstico do caso e a estratégia mais adequada para ajudar o consultante:
entrevistas de esclarecimento, de apoio, terapia breve, psicanálise, terapia de grupo,
familiar ou vincular, sistêmica ou estrutural; análise transacional, gestáltica, etc.
Assim, por exemplo, um paciente trabalhará muito bem na psicanálise se
aceitar a sua responsabilidade no conflito, se mostrar colaboração para fazer asso-
ciações, contar lembranças, entrar em sua vida particular, em seu passado. Diante
da tarefa do Desenho Livre, aceita com prazer e responde com um bom nivel de
simbolização e riqueza em suas associações. As lâminas menos estruturadas como
as do Rorschach não lhe causam impacto. A lãmina em branco do Phillipson o
estimula favoravelmente. A entrevista final torna-se agradável devido à escassez de
resistência. O diálogo é fluido. Aparece a necessidade de se preocupar, chorar, ou ao
menos ficar deprimido na medida certa para empreender a tarefa psicanalitica com
uma boa motivação.
Muito diferente seria o caso de outra pessoa que não tolera a entrevista
aberta e prefere um inquérito pautado, que se bloqueia no Desenho Livre, no
Rorschach e na lâmina branca do Phillipson. Pergunta "O que faço, que desenho?"
e sente alívio quando nós damos uma ordem mais precisa, por exemplo "Bem, dese-
nhe uma casa, uma árvore e uma pessoa". A série A do Phillipson o deixa muito
ansioso e gosta mais da B que é mais definida e menos difusa. Esta pessoa trabalha-
rá melhor com uma terapia cara a cara. na qual se combinem interpretações caute-
losas com sugestões e alguns direcionamentos. A situação de solidão e de regressão
do divã seria para ele, por enquanto, insuportável, e só poderia aceitá-la após uma
primeira etapa com as características descritas.
As entrevistas diagnósticas vinculares e familiares são de grande utilidade
para decidir entre a recomendação de um tratamento individual, vincular ou fami-
liar.
Existem algumas técnicas projetivas idealizadas para serem aplicadas si-
multaneamente a um casal ou a um grupo [filial, familiar, de trabalho, etc.)
Entre elas posso citar o Teste do Casal em Interação [TPI) do psicólogo de
Rasaria, Luis Juri, o Teste Cinético da Familia de Renata Frank de Verthelyi [adap-
tação) em suas formas atual e prospectiva; também o teste de Rorschach com a
técnica de consenso.
Estes testes são muito úteis para decidir a capacidade de agrupamento ou
não de um indivíduo, ou para fazer um diagnóstico sobre como irá funcionar um
grupo em formação. Os terapeutas de grupo têm usado muito, para isto, o teste das
12 García Arzeno

bolitas do Dr. Usandivaras. Ester Romano apresentou seu MEP (Modelo Experimen-
tal Perceptivo) à Associação Argentina de Psicanálise, idealizado sobre a base de
estimulas gráficos ao estilo do Wariegg e não estruturados ao estilo do Rorschach.
No psicodiagnóstico individual, o motivo da consulta manifesto e latente dá-
nos uma pauta para recomendar ou não a terapia de grupo. Quando as dificuldades
situam-se na relação do indivíduo com os demais (pares, superiores ou subalternos)
o mais indicado é recomendar a terapia grupal. Se, no entanto, o conflito está mais
centralizado no intrapsiquico, o mais adequado seria terapia individual.
O teste de Phillipson (especialmente as lãminas grupais AG, BG e CG) nos dá
uma informação muito útil a respeito, já que, se nelas a produção for boa, compro-
varia a nossa suspeita de que .uma terapia em grupo seria adequada, enquanto que
se nelas o paciente se desarticula, sofre impactos, as nega ou distorce a produção,
haveria que pensar que, longe de ser uma ajuda, a terapia de grupo aumentaria a
sua angústia. De forma que, independentemente do motivo da consulta, isto seria
um elemento para contra-indicá-la.
Em síntese, tentei resumir as diferentes aplicações que pode ter o
psicodiagnôstico, e certamente serão abertos outros novos caminhos ainda não ex-
plorados.
Capítulo 2

Objetivos e Etapas do
Processo Psicodiagnóstico

O psicodiagnóstico é um estudo profundo da .personalidade, do ponto de


vista fundamentalmente clínico.
Quando o objetivo do estudo é outro (trabalhista, educacional, forense, etc.)
o psicodiagnôstico clínico é anterior e serve de base para as conclusões necessárias
nessas outras âreas.
A concepção usada da personalidade parte da base de que a personalidade
possui um aspecto consciente e outro inconsciente; que tem uma dinâmica interna
que foi descrita muito bem pela psicanálise; que existem ansiedades básicas que
mobilizam defesas mais primitivas e outras mais evoluídas (como colocaram Melanie
Klein e Anna Freud, respectivamente); que cada indivíduo possui uma configuração
de personalidade única e inconfundível, algo assim como uma gesta!! pessoal; que
tem um nível e um tipo de inteligência que pode manifestar-se ou não segundo
existam ou não interferências en10cionais, que há emoções e impulsos mais inten-
sos ou mais moderados que o individuo pode controlar adequada ou inadequada-
mente; que existem desejos, inveja e ciúmes entrelaçados constantemente com todo
o resto da personalidade; que os impulsos libidinosos e tanáticos lutam para ganhar
primazia ao longo da vida; que o sadismo e o masoquismo estão sempre presentes
em maior ou menor escala: que o nível de narcisismo pode ser baixo demais, ade-
quado ou alto demais e isto incide no grau de submissão, maturidade ou onipotên-
cia que demonstre; que as qualidades depressivas ou esquizóides que predominarem
como base da personalidade podem ser razoáveis ou sofrer um aumento até trans-
formarem-se em um conflito que atrapalha ou altera o desenvolvimento do indiví-
duo; que as defesas que o mesmo tem usado ao longo da vida podem ou não ser
benéficas dependendo do contexto, sem que o sejam em si mesmas; que sobre a
estrutura de base de predomínio esquizóide ou depressivo instalam-se outras estru-
turas defensivas de tipo obsessivo, fóbico ou histérico; que os futores hereditários e
constitutivos desempenham um papel muito importante, razão pela qual não é re-
comendável trabalhar exclusivamente com a história do indivíduo e o fato
desencadeante da consulta, mas estar aberto à possibilidade de incluir outros estu-
dos complementares (médico-clínicos, neurológicos, endocrinológicos, etc.). lsto sig-
nifica levar em consideração a hipótese das séries complementares de Freud.
Além do mais, conforme as últimas pesquisas, o contexto sócio-cultural e
familiar deve ocupar um lugar importante no estudo da personalidade de um i:1di-
víduo, já que é de ondé ele provém. Portanto, o estudo da personalidade é, na reali-

13
14 Garcia Arzeno

dade, um estudo de pelo menos três gerações, que se desenvolveram em um deter-


minado contexto étnico-sócio-cultural.
Até pouco tempo atrás este enfoque era dado quase exclusivamente ao estu-
do da psicose. Atualmente é usado para o estudo de todas as patologias, pois senão
estaríamos fazendo um recorte artificial da história do indivíduo.
É muito importante saber claramente qual é o objetivo do psicodiagnóstico
que vamos realizar.
Quando o consultante chega dizendo: "Me mandaram ... " "Minha noiva diz
que vai me fazer bem ... " "É por curiosidade, para ver o que aparece ... " sabemos em
primeiro lugar que o que está sendo dito não é verdade, pois ninguém consulta
exclusivamente por estes motivos. Em algum recanto de si mesmo existe o desejo de
fazer a consulta. Em segundo lugar, a motivação é muito inconsciente e não a per-
cebe, por isso a colocação soa muito superficial.
De forma que, antes de iniciar a tarefa, o psicólogo deve esclarecer com o
consultante qual é o motivo manifesto e mais consciente do estudo e intuir qual
seria o motivo latente 1 e inconsciente do mesmo. É importante dedicar a isto todo o
tempo que for necessário e não iniciar a tarefa se o consultante insistir na idéia de
que o faz por mera curiosidade, já que isso se refletirá negativamente no momento
da devolução de informação.

'Í0\ Vejamos agora algo so.bre.. a.s etapas do processo p. sic. odiagno_· stic. 0 2.
(:;y O_I'rj_meirQ_Qasso oco!fe_ge_s_c!_e_o moment()_ern_.gue 9. çun_sultante.faz a solici-
tação a con3ulta at~_o_enco11tro_pessoal com o profissio!l'11_,___
0 O segundo passo ocorre na ou nas primeiras entrevistas nas quais tenta-se

e ·vo latente e o motivo rnanjfesto da consulta. as ansiedades e defe-


sas que a pessoa que consulta mostra (e seus pais ou o resto da familia). a fantasia
de doença, cura e análise que cada um traz' e a construção da história do indivíduo
e da familia em questão. ·
Foi totalmente deixado de lado o tipo de inquérito exaustivo e entediante,
tanto para o profissional como para os consultantes, e como veremos no desenvolvi-
mento detalhado deste passo mais adiante, nos guiamos mais pelo que vai surgindo
c~rme o motivo central da consulta.
1 O terceiro moment<LLcLqu_uie_dJçamos -ª-tdleJir_sobre_o_ mati:_Jj_a)_colhido
a~eriormente e sobre nossas hipóteses iniciais para planejar os passos "-ªerem
seguidos e os instrumentos diagnósticos a serem utilizados: ho_ra do jo_gQJndiyj_dual_
com criançase_1iúberes, entrevistas familiares diagnósticas, testes g@fLç_q_s~ verbais,
!ilciicJi.§~~-,,lc.-Em alguns casos é imprescindível íncluir entrevistas vinculares com os
mbros mais implicados na patologia do grupo familiar.
O quarto momento consiste na realização....da estratégia.diJlgnóstlc.a_pJan.ej.ao....
Muitas vezes age-se de acordo com este plano em outras, no entanto, são neces-
sárias modificações durante o percurso. Por isso, insistimos em que não pode haver
um modelo rígido de psicodiagnóstico que possa ser usado em todos os casos, sendo
que a melhor orientação para cada caso virá da experiência clínica e nivel de análise
soai do profissional.
O quinto m_omento é aquele dedicado ao estudo do material colhido para ob-
@um quadro o -mais claro passivei sobre o caso em questão. É um trabalho árduo

1. Motivo manifesto e latente ê uma terminologia introduzida por Ocampo, Maria S. L. de; Arzeno, Maria
E. Garcia; Grassano, E. e col., em Oprocesso psicodiagnóstico e as técnicas projetivas, ob.cit.. cap. II.
2. Reforn1ulação e atualização do colocado em: Ocampo, GarcíaArzeno, Grassano e col., ob.cít, cap 1.
3. Fantasia de doença e cura é um termo introduzido por A. Aberastury em Teoria y técnica dei psicoonálisis
de nir1os. Buenos Aires, Paidós, e Fantasia de análisis, por Baranger, M. en1 Fantasia de enfermedad
y desarrollo del insighten el anô.lisis de tm nifto, Revista Uruguaya de psicoanãlisis, t 1, nº 2, 1956.
Psicodiagnóstico Clínico 15

que freqüentemente desperta resistências, mesmo em profissionais de boa forma-


ção e que trabalham com seriedade. É necessário buscar recorrências e convergênci-
as dentro do material, encontrar o significado de pontos obscuros ou produções
estranhas, correlacionar os diferentes instrumentos utilizados, entre si e com a
história do indivíduo e da familia. Se foram aplicados testes, eles devem ser tabula-
dos corretamente e deve-se interpretar estes resultados para integrá-los ao restante
do material.
Não se trata de um trabalho mecãnico de montar um quebra-cabeça, mesmo
tendo alguma semelhança com essa tarefa. É mais uma busca semelhante à do
antropólogo e do arqueólogo (como muito bem foi comparada a tarefa do psicanalis-
ta por Freud) ou à de um intérprete de uma língua desconhecida pelo paciente e sua
família cuja tradução ajuda a desvendar um n1istério e reconstruir uma parte da
história que desconhecem a nível consciente, mas que se refere a quando foi gerada
a patologia.
O mais difícil nesse 1nomento do estudo é compreender o sentido da presen-
ça de algumas incongruências ou contradições e aceitá-las como tais, ou seja, re-
nunciará onipoténcia de poder entender tudo. É justamente a presença de elementos
ininteligíveis que vai nos alertar acerca de algo que será entendido muito mais adi-
ante, no decorrer do tratamento, quando a comunicação entre o sistema consciente
e inconsciente tenha-se tornado 1nais porosa e o indivíduo estiver, então, em melho-
res condições para suportar os conteúdos que vierem à tona. Estes elementos não
deverão ser desprezados, pelo contrário, deverão ser colocados no laudo que enviar-
mos a quem solicitou o estudo para deixá-lo de sobreaviso. No entanto, pode ser
imprudente incluí-los na devolução ao paciente, pois isso poderá angustiá-lo muito
e Jrovocar uma crise, um ataque ao psicólogo ou uma deserção.
6':;:. Chegamos assim ao /sexto moíTíêritõ? do processo psicodiagnóstico: a entre-
vista de devolucão de jnforr~ocresef somente uma ou várias. Geralmente é
leita de forma separada: uma com o indivíduo que foi trazido como protagonista
principal da consulta e outra com os pais e o restante da família. Se a consulta foi
iniciada como familiar, a devolução e nossas conclusões também será feita a toda a
família.
Esta última entrevista está impregnada pela ansiedade do paciente, da sua
fanülia e, por que não dizê-lo, n1uitas vezes tan1bém pela nossa, especialn1ente nos
casos mais complexos.
Em primeiro lugar, cabe destacar que se mantém em vigor tudo o que foi
exposto à respeito no livro já citado de Ocampo, Garcia Arzeno, Grassano e colabo-
radores.
Mas desejo acrescentar algo, e sublinhar outros pontos. Antes, desejo enfatizar
que o psicólogo não deve assumir a posição do que "sabe" diante dos que "não
sabem".
Primeiro, porque isso não é verdade. Segundo, porque essa posição contém
muita onipotência e dá lugar a reações que atrapalham o trabalho. É insustentável
afirmar que em umas quantas entrevistas tenhamos esgotado o conhecimento de
um indivíduo e, ainda mais, de un1 casal ou família. Mas é possível dizer que conse-
guimos desvendar, com a maior certeza possível, o motivo que provoca o sintoma
que dá origem à consulta.
Às vezes o próprio indivíduo ou seus pais podem assumir o papel daquele
que pergunta e esperar que todas as suas dúvidas sejam respondidas, como se o
profissional tivesse uma "bola de cristal". Nesse caso é necessário reformular os
respectivos papéis, especialmente o do profissional, que não é propriamente um
vidente.
O profissional irá gradualmente aventando suas conclusões e observando as
reações que estas produzem nele ou nos entrevistados. A dinân1ica usada deve favo-
16 García Arzeno

recer o surgimento de novos materiais. Assim como evitamos o tédio no inquérito da


primeira entrevista, evitaremos também agora transformar a transmissão de nos-
sas conclusões em um discurso que não dê espaço para que o interlocutor inclua
suas reações. Ao contrário, as mesmas serão de grande utilidade para validar ou
não nossas conclusões diagnósticas
O sujeito ou seus pais podem não ter mencionado algo que surge no material
registrado, e aproveitaremos essa entrevista para perguntar: um parente falecido,
uma operação séria em um dos integrantes do grupo, uma mudança ocorrida em
um momento-chave, uma crise depressiva de algum parente significativo, um abor-
to, etc. Muitas vezes esta informação pode mudar radicalmente as hipóteses levan-
tadas pelo profissional, e sua presença é um bom sinal porque aumenta o grau de
sinceridade e confiança do consultante.
Além do mais, em alguns casos específicos, especialmente em uma familia
com crianças, dependendo do que tenhamos percebido na ou nas entrevistas fami-
liares diagnósticas, pode ser adequado realizar a entrevista de devolução com uma
técnica lúdica que se alterne com a verbal, especialmente naqueles casos nos quais
o individuo ou a familia são movidos mais por códigos de ação que de verbalização.
Em relação a isso, lembro a utilidade que mantém o conceito de "interpreta-
ção lúdica" colocado por Emilio Rodrigué em seu valioso livro "El contexto del proceso
psicoanalítico" [O contexto do processo psicoanalitico). Com algumas modificações,
foi o capitulo "La interpretación lúdrica: una actitud hacia eljuego" [A interpretação
lúdica: uma atitude diante do jogo) que me deu meios para passar a transmitir
conclusões, não somente ao nivel verbal mas fazendo dramatizações de forma a
serem melhor assimiladas pelos interessados.
No capítulo dedicado a essa etapa do processo psicodiagnóstico serão dados
mais detalhes.
Finalmente, o sétimo passo do processo consiste nuJ~ do -informe_
__ps!c'!l.ó_!Qco, ~-~olicit~C[o, e para isso remeto o leitor ao capitulo correspondente.
Capítulo 3

O Enquadre no Processo
Psicodiagnóstico

Em todas as atividades clinicas, e entre elas se inclui o psicodiagnóstico, é


necessário partir de um enquadre.
O enquadre pode ser mais estrito, mais amplo, mais permeável ou mais
plástico, conforme as diferentes modalidades do trabalho individual ou conforme as
normas da instituição na qual se trabalhe. Varia de acordo com o enfoque teórico
que serve como marco referencial predominante para o profissional, conforme a sua
formação (seus antecedentes genealógicos, dizia Heinrich Racker), suas caracterís-
ticas pessoais e também conforme as características do consultante.
Alguns profissionais afirmam que trabalham sem enquadre. Esta afirma-
ção, no entanto, encerra uma falácia, pois essa posição de não-enquadre já é por si
mesma uma forma de enquadre, em todo caso do tipo laissezjaire.
Cada profissional assume um sistema de trabalho que o caracteriza, além
das variáveis que possa introduzir no caso.
A qualidade e grau da patologia do consultante nos obrigam a adaptar o
enquadre a cada caso. Não é possível trabalhar da mesma forma com um paciente
neurótico, com um psicótico ou com um psicopata grave. Cada caso implica diferen-
tes graus de plasticidade. Uma pessoa absolutamente dependente exigirá esclareci-
mentos permanentes do que deve ou não fazer, enquanto que outros sentirão nossas
intervenções como interferências desagradáveis. Um psicopata precisa ser limitado
constantemente. O psicótico exige de nossa parte uma total concentração, precisa
ser limitado, mas também cuidado, protegido ... e precisamos também proteger-nos.
A idade do paciente também influi no enquadre escolhido. Com uma criança
pequena, sentaremos para brincar no chão se ela assim o solicitar: mas não com um
adulto. Com adolescentes, sabemos que precisamos ser mais tolerantes quanto á
sua freqüência, sua pontualidade e suas resistências para realizar certos testes dos
quais "não gostam". Talvez queiram antes acabar de escutar uma música em seu
toca-fitas. A escutaremos até ele dizer que podemos começar. Talvez fizéssemos o
mesmo com uma criança ou com um adulto psicótico.
Conclusão: é impossível trabalhar sem um enquadre, mas não existe um
único enquadre.
Quando questionados sobre o enquadre que usamos, muitas vezes aconte-
cerá que a reflexão vem a posteriori da· prática clínica. Em primeiro lugar, agimos, e
depois refletimos sobre como e por que trabalhamos daquela forma. Bion recomen-
da trabalhar com absoluta atenção flutuante e liberdade, e após terminada a ses-

17
18 García Arzeno

são, então sim, é aconselhável tomar notas e pensar sobre o ocorrido. No


psicodiagnóstico isto aplica-se principalmente à entrevista inicial. Nas seguintes já
é necessárto agir de outra forma para atingir nosso objetivo.
Seja com um adolescente, um adulto ou com os pais de uma criança, a
primeira entrevista nos dará subsídios que facilitarão o enquadre a ser escolhido.
Seu comportamento. seu discurso, suas reações, são indicadores que nos ajudam a
resolver que tipo de enquadre usaremos, se mais estrito ou mais permissivo.
O enquadre inclui não somente o modo de formulação do trabalho mas tam-
bém o objetivo do mesmo, a freqüência dos encontros, o lugar, os horários, os hono-
rártos e, principalmente, o papel que cabe a cada um.
O papel do psicólogo não é o do que sabe enquanto que o do paciente é o do
que não sabe. Ambos sabem algo e ambos desconhecem muitas coisas que irão
descobrindo juntos. O que marca a assimetria de papéis é que o psicólogo dispõe de
conhecimentos e instrumentos de trabalho para ajudar o paciente a decifrar os seus
problemas, a encontrar uma explicação para os seus conflitos e para aconselhá-lo
sobre a maneira mais eficiente de resolvê-los.
Quando alguém chega pela primeira vez, eu pergunto: "Em que posso ajudá-
lo?" e com a resposta obtenho a primeira chave sobre a forma de encarar o caso. Se
a resposta for: "Venho porque estou preocupado, estou muito nervoso, não consigo
dormir, não me concentro no trabalho e não sei por que isso acontece", não provoca
a mesma reação do que se responde: "Não sei, foi o médico que me mandou porque
estou com úlcera e ele diz que é psicológico". Perguntaríamos: "Mas você, o que
pensa. Acha que o médico está certo?" Sua resposta pode ser afirmativa, o que abre
uma perspectiva mais favorável, ou pode responder: "Não, eu não acredito nessas
coisas". Essa resposta deixa pouquissima margem para encarar qualquer tipo de
trabalho. Se o médico nos enviou seu paciente e espera receber um informe psicoló-
gico, devemos explicar-lhe que mesmo que ele não acredite faremos alguns testes
para poder enviar ao médico uma resposta conforme o que ele espera de nós.
Não sendo assim, é muito dificil realizar o psicodiagnóstico e quase é conve-
niente colocar que o prorrogaremos até que ele sinta a necessidade de fazê-lo, até
que esteja mais convencido de que seu médico está com a razão. Do contrário,
mesmo que ele faça de boa vontade o que lhe pedirmos, as conclusões que obtiver-
mos não terão valor nenhum para ele, e a entrevista de devolução poderia tornar-se
uma espécie de desafio no qual nós queremos convencê-lo de algo que ele se nega a
aceitar.
Sobre o assunto do enquadre cabe lembrar José Bleger, respeitado e
prestigiado psicanalista argentino, que em seu artigo "El psicoanálisis dei encuadre
psicoanalítico" {A psicanálise do enquadre psicanalítico) publicada na "Revista Ar-
gentina de Psicoanálisis" comenta que existem certos aspectos do enquadre que
permanecem "mudos" até que alguma circunstância nos obriga a rompê-los, e en-
tão aparecem com clareza.
Suponhamos que o terapeuta tenha sido sempre pontual. até que um dia
um problema no trânsito o obriga a chegar vinte minutos mais tarde. O paciente
está esperando furioso, quase o insulta e grita "porque o senhor deve estar aqui
quando eu chego". Se não houvesse surgido esta "ruptura" do enquadre, essa rea-
ção teria permanecido sempre encoberta pela seriedade do comportamento do
terapeuta.
Tanto Bleger como Donald Meltzer, em sua obra "El proceso psicoanalítico"
{Paidós) {O processo psicanalitico), concordam em que tanto o profissional como o
paciente trazem para o encontro um aspecto mais infantil e outro mais maduro. Se
o contrato analitico {e o do psicodiagnóstico também) é feito sobre a base dos aspec-
tos infantis de ambos, os resultados serão negativos e perigosos. Assim, por exem-
plo, a avareza de um profissional pode levá-lo a aceitar um enquadre fixado pelos
Psicodiagnóstico Clínico 19

pais, que podem ser horários exóticos, ou menos vezes por semana do que seria
aconselhável em troca de poder receber ótimos honorários. O mesmo pode ocorrer
entre a criança ou o adolescente e o profissional, se este aceitar condições de traba-
lho que eles impõem por um capricho. Suponhamos que a criança propõe brincar
de quem escreve mais rapidamente o maior número de palavras que começam com
uma letra determinada. É óbvio que o terapeuta será o vencedor. A não ser em casos
nos quais seja terapêutico fazer a criança passar por esta prova de realidade, aceitar
o desafio é colocar-se à altura da criança onipotente que pode vencer o adulto em
tudo.
Em La entrevista psicológica (publicação interna da Faculdade de Filosofia e
Letras da Universidade de Buenos Aires), coloca Bleger:

Para obter o campo particular da entrevista que descrevemos, devemos contar com um
enquadre fixo que consiste na transformação de certo conjunto de variãveis em constantes.
Dentro deste enquadre inclui-se não somente a atitude técnica e o papel do entrevistador corno o
ten1os descrito mas tan1bém os objetivos, o lugar e a duração da entrevista. Oenquadre funciona
como um tipo de padronização da situação estimulo que oferecemos ao entrevistado, e com isso
não pretendemos que deixe de agir como estimulo para ele mas que deixe de oscilar como variá-
vel para o entrevistador. Se o enquadre sofre alguma modificação {por exemplo, porque a entre-
vista é realizada em um lugar diferente) essa modificação deve ser considerada como uma variã.vel
sujeita à observação, tanto como o próprio entrevistado. Cada entrevista possui um contexto
definido {conjunto de constantes e variáveis) devido ao qual ocorrem os emergentes e estes só
fazem sentido e são significativos em relação e devido a esse contexto. O can1po da entrevista
também não é fixo, ntas dinãn1ico, o que significa que está sujeito a uma mudança permanente,
e a observação deve se estender do can1po específico existente a cada momento á continuidade e
sentido dessas mudanças ... Cada situação humana é sempre única e original, sendo assim tam-
bém o serã. a entrevista, mas isto não se aplica somente aos fenômenos humanos mas também
aos fenômenos da natureza, o que já era do conhecimento de Herã.clito. Esta originalidade de
cada acontecimento não impede o estabelecimento de constantes gerais, ou seja, das condições
em que os fatos se repetem com maior freqüência. O individual não exclui o geral nem a possibi-
lidade de introduzir a abstração e categorias de análise... a forma de observar bem é ir formulan-
do hipóteses enquanto se observa, e no transcurso da entrevista verificar e retificar as hipóteses
durante seu próprio transcurso em função das observações subseqüentes que, por sua vez, vão
ser enriquecidas pelas hipóteses prévias. Observar, pensar e in1aginar coincidem totalmente e
fazem parte de um único processo dialético.

Como vemos, Bleger enfatiza a importância do enquadre para manter o cam-


po da entrevista de uma forma tal que uma série de variáveis (aquelas que depen-
dem do entrevistador) se mantenham constantes. Isto contribui para uma melhor
observação.
Meltzer, de formação puramente kleiniana, enfatizou a importância do res-
peito ao enquadre, mas a sua idéia de enquadre defendia a atitude do terapeuta
como a de uma tela de projeção (conceito de Paula Heimann) ou um espelho mudo,
o que o conduziu a exageros ridículos, suprimidos na atualidade.
Segundo Bleger, o enquadre seria o fundo ou a base, e o processo analítico
(nós o chamariamos de processo psicodiagnóstico). a imagem do que, unindo ambos
os conceitos (enquadre e processo) configuraria a situação analítica. O enquadre
seria o fator constante, o que não é processo. o processo seria aquilo que é variável,
o que se modifica. Isto é o que explica de que forma vai se desenvolvendo o processo
terapêutico. No caso de um psicodiagnóstico podemos fazer uso destes conceitos. A
situação não é a analítica. Mas, da mesma forma, precisamos observar o indivíduo
para fazer um diagnóstico correto. Devemos ter certeza de que aquilo que surgir
será material do paciente (variáveis por ele introduzidas) e não nosso.
Como colocamos anteriormente, Bleger e Meltzer concordam ao afirmar que
tanto o terapeuta como o paciente trazem um lado infantil e outro mais maduro. O
enquadre, ponto de partida de importância decisiva para o processo psicodiagnóstico,
20 García Arzeno

tanto como para o terapêutico, se torna ainda mais complicado quando considera-
mos que cada um dos pais e de seus filhos também trazem ambos aspectos. Por
isso, advertimos sobre o risco de que se estabeleçam situações nas quais são coloca-
das em jogo as partes infantis (primitivas e onipotentes) de cada um, inclusive do
próprio profissional.
Vejamos um exemplo. Uma senhora marcou uma consulta para uma meni-
na de seis anos. Chamou minha atenção o fato de que me chamara de você desde o
início. Atualmente, este é um fato comum, mas não há quinze anos. Eu mantive a
postura de chamá-la de senhora e disse-lhe que deveria comparecer com seu esposo
à primeira entrevista. Ela negou-se terminantemente, alegando que ele viajava cons-
tantemente e não dava atenção à menina. Acrescentou ainda que ele "não acredita-
va nessas coisas" e que a deixava resolver esses assuntos. Esta senhora colocou-se
no papel de "dona de casa" e colocou-me num papel tipo o de uma professorinha
para a menina que estava com problemas na escola. Sua forma autoritária de dis-
por o contrário daquilo que eu solicitava jã me fazia pensar em outros problemas
além daqueles que ela colocava. Expliquei-lhe, sempre ao telefone, que eu tinha
interesse em escutar a opinião do pai e que tudo o que fosse resolvido devia ser
responsabilidade do pai e não somente da mãe. Mesmo assim, na hora marcada
chegou sozinha e tentou constantemente estabelecer comigo uma aliança contra o
marido, a quem ao mesmo tempo usava, dispondo, em seu lugar, das suas decisões
e da sua situação financeira. Isto poderia ser produto do despeito de uma esposa
abandonada, mas de fato impunha a mim a exclusão do marido.
Além do mais, esclareceu que a menina era filha adotiva e que não devia
sabê-lo nunca. Isto criou dificuldades intransponíveis para trabalhar, pois não só
excluía o marido como também a própria filha. Devido à minha insistência, o mari-
do assistiu à segunda entrevista e foi possível falar sobre a relação dos problemas de
aprendizagem com os desentendimentos do casal e o fato de ocultarem da menina a
verdade sobre a sua origen1. O n1arido era, de fato, evasivo e resistente, mas não
tanto quanto ela o fazia parecer, devido ao seu rancor de esposa e mãe frustrada. Eu
insisti quanto à necessidade de contar à menina sobre a adoção e não aceitei vê-la
enquanto eles não decidissem encarar a situação sem mais mentiras. Nunca mais
ouvi sobre eles.
Em outro caso semelhante, o resultado foi positivo, pois a consulta ficou
centralizada na necessidade que eles tinham de uma ajuda externa para encarar a
dificuldade do momento de dizer a verdade.
Perto do final da primeira entrevista, costumamos explicar ao paciente (ou a
seus pais) que deverá fazer alguns desenhos, inventar algumas estórias, etc. e que
logo após nos reuniremos para conversar sobre os resultados. Quando está prevista
uma entrevista familiar, devemos também adverti-lo com tempo. Geralmente não há
resistência quando é dito que desejamos conhecer como é a família quando estão
todos juntos.
·-t> Durante a hora do jogo diagnóstico e das entrevistas familiares diagnósticas,
nosso papel será o de um observador não participante. O mesmo acontece no mo-
mento de aplicar os testes. Somente após colher a produção espontãnea do indivi-
duo deveremos intervir mais ao fazer algum inquérito (como no Rorschach, TAT,
CAT ou Phillipson) e inclusive algum exame de limites.
Nosso papel é muito mais ativo durante a entrevista final, na qual o espera-
do é justamente que demos a nossa opinião sobre o que ocorre. A recomendação da
estratégia terapêutica mais adequada deve ser formulada e devidamente fundamen-
tada pelo profissional, dada a autoridade que o seu papel lhe confere. Quando, para
o paciente, é muito difícil assimilar toda a informação que temos para dar-lhe, é
aconselhável marcar 1nais uma ou duas entrevistas.
Psicodiagnóstíco Clínico 21

É muito difícil definir o papel do psicólogo no momento da devolução de


informação. Com alguns adultos ou adolescentes poderemos trabalhar com elastici-
dade e plasticidade, enquanto que com outros deveremos ser mais drásticos.
Lembro um caso bem sério, de uma menina de quatorze anos que já havia
passado por um aborto e duas fugas de seu lar com seus namorados. Toda vez que
eu tentava mostrar a gravidade destes fatos, os pais, principalmente a mãe,
desconsideravam n1inha opinião, dizendo que esses eram fatos habituais entre os
adolescentes. Precisei então adotar um papel mais fechado e definido. Essa senhora
era uma executiva importante e não soltou sua pasta durante toda a entrevista,
como se isso definisse o seu papel: o de uma executiva. Usando essa linha de pensa-
mento estabelecida por ela, coloquei: "Bem, a senhora sabe mais do que eu sobre
como administrar uma empresa. 1nas eu sei mais do que a senhora sobre o que é
um adolescente, e posso afirmar que o caso da sua filha não é algo habitual nem
inconseqüente. Mas ela é sua filha e não minha. Portanto, pode acreditar ou não em
mim. Faça de conta que eu fiz nela um exame de sangue e lhe disse que está anêmi-
ca e a senhora me responde que é habitual na adolescência. O que acha? Quem está
n1ais próxima da verdade?
Este não é o meu modo habitual de trabalhar, mas a ética profissional orien-
ta-nos a dizer a verdade, porque para isso somos consultados, e se em determina-
dos casos precisamos fazer intervenções mais drásticas, é imprescindível fazê-lo,
pelos pais, pela filha e por nós mesmos.
Muitas vezes o processo psicodiagnóstico não acaba com a aceitação fácil de
nossas conclusões. Os consultantes precisam tempo para pensar, para assimilar o
que lhes foi dito. Muitas vezes também nós precisamos de tempo para ratificar e
retificar as nossas hipóteses. De modo que algumas vezes é necessário modificar o
enquadre inicial no que se refere ao número de entrevistas e deixar mais espaço
para concluir o processo con1 maior clareza.
Até aqui tenho feito uma descrição de meu trabalho particular. Quero agora
dedicar um breve espaço ao enquadre no ãmbito institucional.
Cada instituição pode (e deve) fixar os limites dentro dos quais vai se desen-
volver o trabalho do psicólogo. Por exemplo, a duração de cada entrevista, o tipo de
diagnóstico que se espera, o modo de deixar registrado e arquivado o material, o tipo
de informe final, etc.
Mas o tipo de bateria que será usada e a sua seqüência é de responsabilida-
de exclusiva dos psicólogos. Eles decidirão de comum acordo o modus operandi. Do
contrário, podem ocorrer situações ridiculas, iatrogênicas e até legalmente objetáveis.
Lembro como exemplo o caso de um grupo de psicólogos que me solicitou
uma supervisão. No caso, o Questionârio Desiderativo era indispensâvel para con-
cluir o diagnóstico, mas os psicólogos n1e responderam que esse teste não era apli-
cado nessa instituição: assim fora estabelecido pelo Chefe de Serviço, médico
psiquiatra. Em outra ocasião, tomei conhecimento de que em outro Serviço de
Psicopatologia era proibido fazer testes porque "isso já passou de moda e é uma
perda de tempo".
Como pode-se pretender que o profissional arrisque um diagnóstico e 'realize
uma psicoterapia se ao mesmo tempo não lhe é dada a liberdade para usar os
instrumentos científicos dos quais precisa para esse fim?
Os jovens psicólogos, ávidos por experiência clínica, não percebem essas
ar1nadilhas e tornam-se suas vítimas quando devem recorrer à supervisão para
satisfazer as exigências da instituição.
Capítulo 4

O Primeiro Contato na
Consulta

Mesmo havendo afirmado que o processo psicodiagnóstico consta de vários


passos (e estes de fato ocorrem). nunca se pode afirmar que um vem antes e outro
vem depois de uma forma mecânica, fixa e estática. Tudo depende de diversas ra-
zões.
Esses diferentes passos já foram anteriormente abordados.
O primeiro consiste na primeira tomada de contato. Isto significa que nessa
primeira etapa teremos recebido o telefonema do paciente ou o pedido de uma pro-
fissional para realizar o estudo de um paciente determinado. Se quem nos solicita o
estudo é o terapeuta que vai se encarregar do tratamento, nosso papel ficará restrito
basicamente â aplicação dos testes pertinentes. Nestes casos é necessário tomar
cuidado para não interferir demais na relação transferencial que o paciente já tenha
estabelecido com seu terapeuta. Numa consulta desta natureza tentaremos reduzir
a entrevista inicial ao mínimo possível. Em alguns casos, prefiro trabalhar pratica-
mente às cegas com os dados mínimos de identidade do grupo familiar, motivo da
consulta, e muito especificamente o motivo que levou o terapeuta a solicitar o estu-
do. Seria preferivel que a devolução (que é um dos passos finais do processo) fosse
feita pelo próprio terapeuta na medida e no momento que considerasse adequados,
e somente seria feita pelo profissional que realizou o psicodiagnóstico se aquele o
considera mais conveniente, explicitando a razão. O informe que enviaremos a esse
profissional tem uma relevância especial, pois ali deve estar contida toda a informa-
ção que ele necessita. Devemos então realizá-lo com dedicação especial para poder
cumprir com a finalidade a que se destina o estudo.
Se não foi possível atingir nossos objetivos, será importante continuar com
mais uma entrevista. Isto acontece freqüentemente com os pais de uma criança,
pois cinqüenta minutos podem ser insuficientes para todo esse trabalho. Podemos
então prolongá-la ou fazer mais de uma entrevista inicial.
Se o nível de ansiedade (persecutória, depressiva ou confusional) dos pais·
tornar difícil manter um clima adequado, torna-se aconselhável chamá-los nova-
mente, pois geralmente na segunda entrevista estão mais tranqüilos, menos tensos,
menos na defensiva, mais recuperados e melhor situados.
No caso contrário, a situação é pouco promissora e seria aconselhável pen-
sar que a terapia individual do filho exclusivamente não é o mais adequado. Deve
ser complementada com orientação aos pais, ou indicação de terapia de casal, fami-
liar, vincular, etc.

22
Psicodiagnóstico Clínico 23

Concluímos então que a "primeira entrevista" é um conceito referente à pri-


meira etapa diagnóstica, que tem um objetivo especifico, mas não significa que deve
ser só uma nem que deve ser realizada obrigatoriamente no inicio do processo diag-
nóstico. Em circunstâncias especiais podemos obter dados após a aplicação dos
testes, e não no inicio da consulta.

Motivo da Consulta
Durante a primeira entrevista o paciente deve expor o que acontece com ele
(ou seus pais ou familiares), esclarecer por que deseja consultar. O motivo apresen-
tado é o que chamamos de motivo manifesto, uma vez que o n1esmo ou os motivos
que afloram na primeira entrevista não são os mais autênticos. No entanto, nem
sempre é assim, e ao longo do processo podem ser descobertos outros motivos
subjacentes, latentes e geralmente inconscientes, sobre os quais se deverá falar da
forma mais ampla passivei e aconselhável.
As vezes são somente comunicados ao terapeuta desse paciente, no informe
correspondente, explicitando a conveniência de não falar sobre isso com o paciente
até que aflorem em seu próprio tratamento. É este um dos aspectos mais valiosos de
um psicodiagnóstico, pois alerta o terapeuta a não agir de uma forma abrupta, ou
seja, que não obrigue o paciente a fazer "insight" fora do "timing". Por outro lado,
também adverte o terapeuta sobre o tipo de conflitos que pode encontrar ao longo
da terapia de um paciente, que, talvez, tenha solicitado tratamento por um motivo
muito menos transcendente do que aquele que perceberemos existindo em camadas
mais profundas.

O Sintoma
Chamaremos provisoriamente "sintoma" aquilo que o consultante traz como
motivo manifesto da consulta.
A medida que a primeira entrevista se desenvolve poderemos perceber se é
realmente um sintoma, do ponto de vista clínico, ou se está somente encobrindo
outros. O que ocorre comumente é que o motivo latente não aflora no início porque,
geralmente, angustia muito e permanece no inconsciente.
Quando o motivo manifesto parecer trivial demais para justificar uma con-
sulta é que suspeitaremos com maior segurança da presença de um motivo latente
de maior envergadura e deveremos prolongar a entrevista inicial ou realizar outra
atê obter maior esclarecimento sobre o caso. Da forma possível devemos aproximar-
nos do motivo latente ou "sintoma" real da consulta, principalmente considerando
que deveremos retomar o diálogo desse ponto na entrevista final.
Suponhamos que uma mulher de trinta anos consulta porque está muito
deprimida e se sente muito só. Certas perguntas sobre o seu modo de vida, suas
amizades, suas experiências amorosas, nos levarão até hipóteses de um
homossexualismo descompensado pelo abandono de sua parceira. O verdadeiro
problema é a homossexualidade. Será necessário ver até que ponto a paciente aceita
falar francamente sobre isso ou prefere manter-nos à margem do problema para
que possamos ajudâ-la a ser uma homossexual feliz.
Para falar sobre sintoma devemos levar em consideração a etapa de desen-
volvimento em que se encontra a pessoa que nos consulta.
24 García Arzeno

Alma Freud, 1 em seu trabalho "Neurose e Sintomatologia na Infância", clas-


sifica os motivos de consulta começando com as reações absolutamente apropria-
das à idade cronológica, continuando com condutas reativas à condutas inadequadas
dos pais, prosseguindo com crises evolutivas e regressões ao serviço do desenvolvi-
mento, interrupções do desenvolvimento, para depois chegar às neuroses, psicoses,
etc. Isto é importante porque algumas vezes a consulta acaba com uma breve orien-
tação para os pais sem necessidade de tratamento para o filho.
Outro elemento a ser levado em consideração é a razão pela qual esse sinto-
ma preocupa o paciente ou a seus pais, ou a ambos, ou então que sintomatologia
preocupa a cada um dos interessados na consulta. E possível que a professora se
preocupe com a sua má conduta, o que para a mãe não é motivo de preocupação,
mas sim o fato de que a criança não seja caprichosa e organizada. O pai não gosta
que a criança não reaja quando agredida. A professora diz que incomoda aos outros
sem mostrar a sua agressão, ê o provocador de reações agressivas nas outras crian-
ças. A criança em questão, por sua vez, pode vir preocupada porque tem pesadelos.
Teríamos assim diferentes motivos de consulta manifestos dentro de um
mesmo caso. A sintomatologia descrita por cada um dos interessados no processo
de estudo psicológico pode diferir enormemente, mas essa contradição é apenas
aparente. Neste caso, digamos que cada parte interessada esta preocupada com um
aspecto da problemática, que a não ser que seja creditada a projeções pessoais de
cada um dos interessados, pode ser a descrição de uma faceta dos conflitos da
criança.
E possível que cada um tenha se detido mais a observar o aspecto da condu-
ta do individuo, que coincide mais com a que ê mais conflituosa para si próprio.
Então, entre a professora, os pais e a criança teríamos a descrição de uma conduta
realmente não contraditória mas coerente. Será nossa tarefa integrar essa imagens
de uma única personalidade, definir o que realmente ocorre com a criança, entre
todas aquelas projeções feitas pelos outros envolvidos, e decidir a ordem de relevãn-
cia de tão rica sintomatologia.
Outra pergunta a ser formulada é por que o sintoma preocupa agora, em
casos em que existe sintomatologia bastante antiga. Por exemplo, enurese perma-
nente em um menino de sete ou oito anos. tiques que vêm sendo apresentados há
dois ou trés anos ou problemas crõnicos de aprendizagem em um menino que jã
está na terceira sêiie e rodou váiias vezes. Quanto maior o tempo transconido entre
o aparecimento da sintomatologia até o momento em que se concretiza a consulta,
maior a nossa suspeita de que exista outro motivo latente, que foi o desencadeante
para realizar a consulta. Certamente, o problema foi ignorado até esse momento,
mas algo ocorreu que os fez tomar a decisão de consultar. E provável que fosse
"egossintõnico" para a familia, mas que algo tenha provocado a ruptura desse "equi-
líbrio". Por exemplo, agora o menino pode ter começado a roubar ou não quer co-
mer, ou aos dez anos começou novamente a chupar o polegar.

Fantasias de Doença e Cura


Outro conceito importante a ser levado em consideração, do ponto de vista
teórico, é que em uma consulta na qual o interessado deve expor a sua preocupa-
ção, o motivo que o leva a consultar, o que ele considera o sintoma preocupante,
está implícita uma fantasia de doença e de cura que guarda uma estreita relação
com o motivo latente da consulta.

1. Freud, A. Neurosis y sintomatologia en !a injancia. Buenos Aires: Paidós, 1977.


Psicodiagnóstico Clínico 25

Há uma fantasia de doença em cada um dos pais, no paciente e no profissi-


onal que escuta o que é relatado. Estas fantasias nem sempre coincidem. Assim, às
vezes, para a mãe toda a patologia do filho é devido a que ela tem sido condescen-
dente demais na educação do menino desde o inicio. O pai pode pensar da mesma
forma e dizer-nos que na realidade para ele tudo vai se resolver quando o menino
tiver mais experiência na rua ou à medida que for crescendo, porque tudo pode ser
corrigido exclusivamente com a experiência; ou seja, a vida ensina a .cada um como
resolver os seus problemas. O menino, por sua vez, pode ter a fantasia de que o seu
problema seja incurável e tem muito medo de não poder ser ajudado. De~ectar isto
é in1portante porque nos informa que as resistências são n1uitas. A fantasia de cura
na mãe é o rigor vindo de fora, e deixa pouca margem para a reparação de um dano
causado em uma época passada que não pode ser modificada. O que pode haver por
trás desta atitude? Poderia ser algo assin1: "Eu sou con1 meu filho como a minha
mãe foi comigo". A fantasia do pai é que o homem se faz a pancadas, descarta a
possibilidade de ajudar o filho e, ainda mais, desqualifica qualquer intervenção
reparadora. A fantasia do menino é a de que tem uma doença incurável e essa
fantasia pode ter surgido na hora do jogo.
Suponhamos que diz que não pode brincar porque ali não tem o que ele
quer, que o que está à sua frente não lhe serve, e finalmente escolhe estragar algu-
ma coisa que nem ele nem o psicólogo podem consertar, por exemplo, um lápis. Está
transmitindo o seu drama de não poder aproveitar o que ele tem de positivo nen1 a
ajuda que lhe é oferecida, ficando à mercê de circunstâncias tão adversas sem re-
cursos para repará-las.
Tudo isto alertará ao terapeuta em relação ao enquadre de sua tarefa, e a ser
muito cauteloso na entrevista final para ajudar aos pais de forma que revejam a sua
concepção da vida, da doença e da cura.
É provável que a mãe reconheça que não é justo fazer com seu filho o mesmo
que fizeram com ela, e que o pai "descubra" sua rivalidade diante desse filho com
quem sua mulher tanto se preocupa, e que isso tem relação com um sentimento de
ficar relegado (virar-se sozinho) devido a um irmão mais moço asmático que atraía
toda a atenção materna. Trabalhando sobre isso, provavelmente poderemos modifi-
car as suas fantasias em relação à necessidade de ajuda e de que tipo. A fantasia
subjacente neste caso seria a necessidade dos pais de refazer antigos acertos da
infância, com suas respectivas famílias para perceber mais corretamente o que ocorre
com seu filho. Partindo desta perspectiva, o psicólogo pode descobrir que, longe d1
ser impossível ajudá-los, há nos três um dramático apelo de ajuda.
A fantasia de doença e cura é um conceito desenvolvido do ponto de vist:
teórico por Arminda Aberastury2 • Ela considera essa fantasia como algo muito im
portante a ser levado em consideração na primeira hora do jogo diagnóstico.
De acordo com esta perspectiva recomendamos incluir e correlacionar:

• Em crianças pequenas: horas do jogo, desenho livre, respostas ás lãmi


nas do Rorschach, se já fala, e a Nº 9 do CAT.
• Em crianças com mais de dez anos, adolescentes e adultos: entrevist:
projetiva, desenho livre, Teste de Rorschach e as catexias do Desiderativ1
(especialmente 1+ e 1-) e lãminas 1, 5 e em branco do Teste de Phillipson

A hipótese proposta é a de que encontraremos resultados coincidentes (re


correntes ou convergentes).

2. Abcrastury, Arn1inda. Teoria y têcníca dei psicoanálisis de nírios. Buenos Aires: Paidós.
26 García Arzeno

Madeleine Baranger" enfatizou o conceito de fantasia de análise que vai se


desenvolvendo ao longo do tratamento. Este conceito é importante porque fala da
fantasia de doença com um núcleo enquistado com o qual a pessoa mantém um
determinado tipo de relação; é algo que está ali, dentro dela; é algo diferente de si
mesmo; é algo que é sentido como egodistônico (do contrário não seria fantasia de
doença) e que exerce uma enorme influência sobre si mesmo (selj) e com o qual
existe um determinado tipo de vínculo. É isto o que vai se modificando no decorrer
do tratamento psicanalítico, até chegar ao ponto em que essa espécie de núcleo
enquistado deixa de sê-lo. Transforma-se no ponto central da análise, mas, mesmo
tomando-se mais frágil e menos perigoso, ficará sempre um resto irredutível à aná-
lise (algo assim como um ponto cego), com o qual manteremos relações mais perme-
áveis e maduras. Ou seja, esse núcleo se tornará cada vez menos patolôgico em si
mesmo, no vínculo que o "self' mantém com ele e nos efeitos (de sua presença e
desse vinculo) no resto da personalidade. É muito importante estudar o material
dos testes e das entrevistas, tentando encontrar essas fantasias. Por exemplo, o
desenho livre, o Questionário Desiderativo e também as lâminas 1, V, VI, XII e em
branco do Teste de Phillipson. Mais adiante, quando nos detivermos no estudo de
cada um dos testes tentaremos fazê-lo baseados em exemplos.
É importante que durante a primeira entrevista, além de explicitar o sinto-
ma que o paciente traz, e as suas fantasias de doença e cura, tentemos obter uma
história ou novela familiar. Os dados cronológicos exatos são importantes, mas mais
importante ainda é a versão que os pais ou o paciente trazem sobre essa história.
Isto significa desvendar a história do sintoma em tomo do qual vai se entre-
laçando a história do paciente e de sua familia. Assim, por exemplo, ao relatar que
o filho sempre molhou a cama e que então os pais o levavam para a sua a fim de
evitar perturbações durante a noite, podemos indagar qual a repercussão que isto
teve na vida do casal. Poderia funcionar como uma interferência nas suas relações
sexuais ou, pelo contrário, como uma presença desejada para preencher um vazio
do casal, ou também para eximir a mãe de ter relações, ou ainda para esconder a
impotência sexual do pai. Isto explicaria por que a consulta não foi feita antes e
somente agora, quando o filho está com idade para ir acampar ou dormir na casa de
amigos, e tendo medo de que seu problema seja descoberto, o que o envergonharia.
A vergonha do menino seria o motivo manifesto da consulta. Subjacentemente exis-
te outro: a angústia do casal que já não poderá mais negar seus conflitos e que deve
assumir que o menino está pedindo que o deixem crescer e seguir seu próprio rumo.
O sintoma ou os sintomas trazidos como motivo da consulta devem ser colo-
cados dentro de um contexto evolutivo, de forma a não serem superdimensionados
e para prever a sua perda através de terapia ou não.
O sintoma apresenta:

1. Um aspecto fenomenológico. Por exemplo, o medo da escuridão: a criança


evita ir a peças escuras ou pede para dormir com a luz acesa.
2. Um aspecto dinâmico. Mostra e esconde ao mesmo tempo um desejo in-
consciente que entra em oposição com uma proibição do superego. O ego sente-se
então diante de um conflito, que resolve parcialmente evitando fobicamente a situ-
ação angustiante. O desejo inconsciente é o de espionar os pais em sua cena primá-
ria, dominar para si a mãe e afastar o pai. O superego o proíbe. Surge a fobia como
doença e como solução transacional. A criança não satisfaz seu desejo (que no fun-
do é um desejo edípico, que provoca angústia de castração projetada na escuridão)
e paga um preço por ele: vive angustiado, não dorme tranqüilo, está submisso a
auto-restrições e às piadas dos outros.

3. Baranger, M. ob.cit.
Psicodiagnóstico Clínico 27

3. Mas em todo sintoma há um beneficio secundário: através de seus medos


exige luz e companhia, que podem funcionar como interferência para a intimidade
dos pais.
4. Esta análise, feita a nível individual, deve se estender ao nível familiar. O
sintoma está expressando alguma coisa (algo não dito, nas palavras de M. Mannoni) 4
dentro do contexto familiar. Suponhamos que a fobia desta criança tenha começado
em uma época em que o pai viajava constantemente, deixando-o sozinho com a
mãe. O aparecimento da fobia à escuridão seria explicado pelo incentivo do desejo
edipico da criança, a percepção da privação sexual da mãe e a facilitação paterna
(devido ás suas ausências) à realização de seu desejo inconsciente. A angústia da
castração é então acentuada e surge a fobia. Em outros casos o motivo da consulta
é o apego de uma menina de oito ou nove anos à sua mãe. Mas observamos durante
a entrevista familiar que o pai não dá atenção nenhuma a ela nem á sua esposa, que
os irmãos homens tem um "mundo à parte" e que a única saída para as mulheres é
aliar-se entre elas.
Este enfoque do sintoma dentro do contexto da situação familiar faz com que
em alguns casos se opte por uma terapia vincular ou familiar ou, ao menos, por
uma orientação psicológica aos pais, paralela ao tratamento individual do filho para
que consiga superar o problema.
5. Todo sintoma implica fracasso ou rompimento do equilíbrio entre as séri-

Herança
const~uição
l
es complementares. É sempre bom relembrar este conhecido gráfico freudiano:

+
{
H1stóna

[a~~~~ª
}
+
Situação }
desenca-
{ deante
conflito interno
L
angústia
L
defesas
L
neurose
L
sintonia

Na obra El nirio, su erifermedad y los otros (A criança, sua doença e os outros)


M. Mannoni diz:

O sintonia, cmno foi n1ostrado por Freud, inclui scn1prc o indivíduo e o outro {... ) C
sintoma cstã no lugar de unia palavra que falta{ ... ). O sintoma vem con10 máscara ou palavrê
fantasiada. A mãe, nesse sintonia, é participante( ... ) Osintoma então se desenvolve com outro (
para outro.

No segundo capitulo dessa obra diz:

Concluin1os: os pais estão sen1pre, de certa forma, envolvidos no sinton1a apresentadc


pela criança. Js_to não deve ser perdido de vista, porque tocan1os as molas mestras da resistência·
o desejo inconsciente de que Mnada tnude" deve ser encontrado nos pais patogênicos. A criançf
pode, assim, responder pelo desejo de que Mnada se n1ova" perpetuando seu sintoma para cscon·
der as suas fantasias de destruição relativas à sua n1ãe. (,, .} Na anãlise de uma neurose nós nm
rcfcrin1os igualn1entc a um discurso coletivo que aparece na palavra da criança. Ele torna pre·
sente a sombra dos pais, n1csmo se na realidade não queren1os referir-nos a eles. Somente z
distinção introduzida por Lacan entre o desejo, a demanda e a necessidade, assim como a intra·
dução do registro do hnaginãrio, o real e o simbólico, pern1item situar a noção de transfcrênciz
en1 um nível do qual seja possível ajudar o paciente a descobrir u1n sentido nisso que as sua~
den1andas colocan1 em jogo ... Antes de iniciar iuna anâlise, os indícfos de transferência podemjé
estar presentes e, conscqüentcn1ente, a anãlise não faz outra coisa a não ser substituir o que já

4. Mannoni, Maud. L'enfant, sa ~ntaladfe" et les autres. Paris: Scuil, 1967.


28 García Arzeno

havia sido previsto por ele na fantasn1ãtica fundamental do sujeito; a sorte estã lançada, de
algu1na fonna, desde o inicio ... Aquestão é tirar a criança de u1n certo jogo de enganos cm que
vivecon1 a cun1plicidadc dos pais. Isto só pode ser feito se con1preendermos que o discurso é um
discurso coletivo: a experiência da transferência é feita entre o analista, a criança e os pais. A
criança não é un1a entidade cn1 si. Nós a abordamos desde o inicio através da representação que
o adulto ten1 dele. (Sublinhado n1cu).

Considero oportuno incluir este extenso trecho de Mannoni, pois o que ela
diz à respeito da psicoterapia pode ser perfeitamente aplicado ao processo
psicodiagnóstico.
Efetivamente, antes de começar, já podemos encontrar indícios dessas trans-
ferências cruzadas e complicadas que ela descreve. A via através da qual nos chega
a consulta, a voz que ouvimos ao telefone, o modo de falar, etc., já causam em nós
uma certa reação que tem a ver com a relação transferência-contratransferência.
Na primeira entrevista, os pais, o adolescente, a criança ou o adulto chegam cada
um con1 un1a expectativa, porque também a via através da qual o meu nome lhes
chegou, o nosso tom de voz, o modo de falar-lhes, etc. provocou algo que tem a ver
com a transferência. Do esquema referencial não se pode falar da transferência,
mas das transferências. Isto é tão verdadeiro que algun1as vezes temos escutado o
con1entãrio de que tudo correu n1uito ben1 e a menina estava muito entusiasmada
para iniciar o tratamento sugertdo logo após o psicodiagnóstico, mas que de repen-
te, antes da primeira sessão, os pais ligaram dizendo que de momento não iriam
começá-lo. Ou seja. que a relação transferencial da menina pode ter sido positiva,
mas não a dos pais, que preferiam que por enquanto "nada mudasse". Claro que
podemos pensar que a jovem estava tão predisposta porque no fundo tinha certeza
de que os pais não aceitariam, de modo que a sua teria sido apenas un1a saída
elegante.
Embora existan1 casos em que não é tão claro entender o sintoma corno un1a
palavra não dita pelos pais, há alguns nos quais isto é muito verdadeiro e, por isso,
durante o trabalho diagnóstico devemos manter uma posição de abertura a todos os
enfoques teóricos serian1ente desenvolvidos, pois cada caso torna-se mais faciln1en-
te compreensível se focalizado a partir de uma determinada teoria.
Quando a ligação é feita pelos pais de uma criança, o primeiro contato será
feito com eles. No caso de jovens adolescentes é diferente. Às vezes são eles mesmos
que nos ligam, e então as primeiras entrevistas serão com eles. Somente mais tarde,
geralmente antes de decidir se vai ser necessário ou não o tratamento e de que
natureza, será indispensável incluir a entrevista com os pais, não só para tomar
esta decisão mas também para colher dados sobre a história do paciente.
É diferente o caso do adolescente tardio, pois provavelmente já possui inde-
pendência econômica e idade suficiente para poder enfrentar a responsabilidade de
um contrato terapêutico por si próprio. A opinião dos pais ainda pode ter influência,
mas não tanta. Talvez já não tenha nenhuma influência. Mas em se tratando de
crianças e jovens adolescentes é -imprescindível contar com a presença e colabora-
ção dos pais.
Com psicóticos pode ocorrer o mesmo, e atualmente não se rejeita a presen-
ça de membros da família que os acompanhem nas entrevistas. Pelo contrário, par-
te-se da base da necessidade de uma investigação no nível do contexto familiar.
Geralmente, o paciente psicótico não consulta com um psicólogo mas com
um psiquiatra e este, por sua vez, solicita o estudo e decide sobre a possibilidade de
interná-lo, medicá-lo ou trabalhar de forma exclusiva ou complementar com
psicoterapia.
Não significa que um psicólogo não possa atender um psicótico infantil, ado-
lescente ou adulto; é uma questão prática: em se tratando de pacientes adultos
Psicodiagnóstico Clínico 29

psicóticos, a consulta é iniciada por um membro da família que, geralmente, se


dirige a um psiquiatra, ou leva o familiar a uma instituição com essa finalidade
Este primeiro contato, assim feito, nos dá uma imagem dos pais do paciente,
do próprio paciente, conforme ele nos foi enviado, por que motivo, e segundo as
características de seu primeiro vínculo conosco. Assim, por exemplo, respeitar o
horário marcado, ligar na hora combinada, implica desde o início uma atitude de
respeito com o profissional. As consultas canceladas repetidamente não dão uma
imagem positiva do paciente ou daquele que consulta, pois a atitude é evidentemen-
te bastante fóbica. Não só os fóbicos podem ter este comportamento; também pode
ser psicótico ou até uma atitude inconsciente de preservação, quando o paciente
prevê que iniciar uma consulta vai ser algo muito mobilizador e talvez desestruturante.
De forma que no profissional ficará a dúvida em relação ao cancelamento da consul-
ta, se esta não foi concretizada porque o paciente projetou nele o seu temor e evitou
o encontro (ou seja, uma conduta fóbico-evitativa), se cancelou a entrevista porque
no momento preferiu manter o status quo e não modificar nada ou se, finalmente,
trata-se de uma conduta psicótica na qual deixar esperando é o cartão de apresen-
tação do paciente. Sem dúvida, a resposta encontra-se muitas vezes no tipo de
contratransferência que provoca em nós mesmoS. Assim, o fóbico é percebido como
inseguro, temeroso, talvez fale de uma forma peculiar e se mostre mais dependente.
Inspira necessidade de tranqüilizá-lo. O psicopata provoca sentimentos agressivos
ou pelo menos de impaciência; geralmente são casos que não avisam com a anteci-
pação devida e esse "deixar esperando" provoca rejeição e um sentimento de não
atendê-lo se tornar a ligar. No terceiro caso, o daqueles que chamaremos de pré-
psicóticos, isso não ocorre, mas dá-se uma reação de espera paciente até a chegada
do momento apropriado para concretizar a consulta.
A seguir, relatarei um caso no qual o diagnóstico baseou-se no que o pacien-
te não pôde fazer. Tratava-se de uma casal que consultou a respeito da única filha,
de aproximadamente doze anos. Essa menina soflia seriamente devido à problemâ-
tica de seu desenvolvimento sexual. Não havia ainda menstruado, mas isso era
iminente. As reações de ciúme dessa menina em relação a seu pai eram tremendas
e semelhantes às que poderiam em todo caso ser demonstradas por sua esposa.
Essa menina negou-se terminantemente a entrar. Mais tarde, ambos, o pai e a mãe,
juntos tentaram trazê-la. No início não conseguiram. Finalmente o pai impôs-se
com maior firmeza e entraram com ela praticamente à força. Acomodou-se num
canto sem olhar para mim em momento algum. De costas para mim, ficou descas-
cando a parede e dando pontapés no rodapé. O que descrevo, como processo diag-
nóstico, é atípico mas não excepcional. Instalou-se desde o início uma atitude
transferencial negativa massiva da menina comigo, ao mesmo tempo que uma atitu-
de de comando ou controle dela em relação aos pais. Também era clara a falta de
limites da menina com sua mãe e a necessidade de intervenção constante do pai
para estabelecer algum controle entre elas.
Não tive nenhum contato a sós com a menina, cujo rosto não pude ver. Mas
estas duas entrevistas (a primeira, na qual não entrou, e a segunda na qual entrou
por pressão dos pais, especialmente do pai, e ficou em silêncio) foram eloqüentes.
Não tenho a menor dúvida de que ouviu tudo o que foi falado, mesmo quando o
negava com a cabeça ou tapava os ouvidos. Decidi transformar esta entrevista em
diagnóstica e verbalizar minhas conclusões como devolução. Tentava assim aliviar a
culpa da menina, do tipo persecutória, que traria associado o fato de não poder
receber nenhuma informação e ter ido embora em plena vitória maníaca. Em se-
gundo lugar, quis evitar a sensação de fracasso, tanto meu como de seus pais. Disse
à menina que em situações comuns costumava ter uma entrevista a sós, para ver o
que ela poderia fazer com um material que eu lhe daria, observar seus desenhos
30 García Arzeno

realizados com ordens determinadas ou escutar suas estórias diante de algumas


lâminas, mas que do jeito que as coisas estavam era impossível trabalhar com ela
dessa forma, portanto me limitaiia a tirar conclusões daquilo que eu havia podido
observar. Disse-lhe que achava que ela devia estar muito assustada por coisas ter-
riveis, coisas que ela prefeiia não encarar {o fato de não me olhar), que certamente
estavam relacionadas com se sentir muito culpada e ter medo de que quisessem
colocá-la em uma câmara de tortura. Que ela não queria olhar para mim porque
achava que eu era a torturadora cruel e sádica; que o pai e a mãe não podiam ajudá-
la a sair dessa situação, e que era imprescindível que alguém a ajudasse, não eu,
mas outra psicóloga. Que eu ficaria taxada de "a má" e que certamente isso era
necessáiio, porque assim teiia acontecido com qualquer psicóloga que ela houvesse
consultado antes. De forma que a aconselhava a consultar com outra profissional
que ela verta como menos má, mais bondosa e certamente teiia coragem para entrar
e pedir a sua ajuda. Assim aconteceu. Efetivamente, põde começar um tratamento
sem tantas resistências e evoluiu positivamente até receber alta.

Objetivos e Requisitos da Primeira Entrevista


No caso de ser a plimeira consulta que os pais {ou o paciente adulto) fazem,
a plimeira entrevista é o plimeiro passo do processo psicodiagnóstico e deve reunir
certos requisitos para cobrir seus objetivos, tais como: no começo ser muito livre,
não direcionada, de forma que possibilite a investigação do papel que cada um dos
pais desempenha, entre eles e conosco; o papel que cada um parece desempenhar
com o filho, a fantasia que cada um traz sobre o filho, a fantasia de doença e cura
que cada um tem, a distância entre o motivo manifesto e o latente da consulta, o
grau de colaboração ou de resistência com o profissional, etc. Para isso, serão leva-
dos em consideração tanto elementos verbais como não verbais da entrevista, a
gesticulação dos pais, seus lapsos, suas ações, como por exemplo ir ao banheiro,
esquecer algo ao partir, segurar o tempo todo uma bolsa ou pasta, fazer comentários
sobre o consultório {agradáveis ou desagradáveis) ou sobre a nossa pessoa como
profissionais, fazer alguma queixa {mesmo parecendo justificada pode estar enco-
biindo uma queixa de outra natureza), desencontro do casal ao chegar para a pri-
meira entrevista, trocar o horário por engano, trazer uma lista escrita com dados
excessivamente detalhados, olhar o teto o tempo todo, pedir um conselho rapida-
mente, etc.
Contratransferencialmente, deveremos auscultar de maneira constante aquilo
que sentimos e as associações que fazemos à medida que eles vão relatando a sua
versão do que ocorre. Assim, ficaremos com uma imagem desse filho, a imagem que
eles nos transmitiram, cada um a sua, e a que fica conosco, que nem sempre é o
reflexo fiel do que os pais têm tentado nos passar.
Quando conhecermos o filho, o passo seguinte do processo, já poderemos
comparar essa imagem que temos dele com a que realmente estamos recebendo.
Disse acima que o primeiro requisito da entrevista projetiva é de que seja
livre. Um segundo requisito é que em um outro momento, quando for mais oportu-
no segundo o julgamento do profissional que está fazendo o trabalho, seja bastante
diiigida de forma a poder elaborar uma histórta clínica completa do paciente. Deve-
se solicitar dados; deve-se colher informação exaustiva sobre a históiia do sintoma;
também deve-se deixar estabelecido um contrato para esta etapa do trabalho diag-
nóstico. Por exemplo, quantas entrevistas serão feitas, quem deve participar, em
que horário, que ordem serà dada ao filho, quais serão os honoráiios, qual o objeti-
vo de todo este estudo, em que vamos centrá-lo, qual é o motivo mais profundo, que
Psicodiagnóstico Clínico 31

destino terá a informação que obtivermos (se será transmitida a eles ou ao filho, ou
além deles ao pediatra, ã professora, a um juiz, etc.)
É importante detectar na primeira entrevista, seja com os pais, com o filho,
com o adolescente ou com o adulto que chegam pela primeira vez, o nível de angús-
tia, o nível de preocupação que provoca isso que esta ocorrendo com eles. É neces-
sãrio e saudável que se produza num momento determinado da entrevista, quando
o paciente ou seus pais tenham insight de que o que ocorre é triste, preocupa ou
assusta, notar que surja neles algum indicio de tais sentimentos, pois se não for
assim pode predominar um clima de negação parcial da verdadeira importãncia do
conflito, ou um clima maníaco de negação total e projeção, como quando tudo pare-
ce ser preocupação da professora ou do pediatra, mas não dos pais.
Este ponto não tem nada de original. mas não posso deixar de incluí-lo devi-
do ã sua importância clínica. Em um processo diagnóstico é fundamental trabalhar
com um nível de ansiedade instrumental, ou seja, saudável. Isto é importante por-
que o nível de ansiedade e o modo como reagem o paciente, os pais ou a familia para
contê-la ou manejá-la é um dado diagnóstico e prognóstico muito significativo.
Não tem o mesmo significado que os país de uma criança entrem numa crise
da qual nós dificilmente poderemos tirá-los, que se vemos que eles mesmos são
capazes de conter a própria angústia ou um deles é capaz de conter a angústia do
outro, também o é se eles reagem positivamente ã ação moderadora do psicólogo.
Quando isto ocorre, essa criança tem um respaldo, uma contenção muito
mais forte que aquela que oferecem pais negadores, ou aqueles que estão atraves-
sando sua própria crise de angústia. Nestes casos, também eles deverão receber
uma ajuda pertinente, porque não há alguém capaz de resgatar o grupo familiar da
situação angustiante. Existe um nível de angústia ou ansiedade cujo aparecimento
é saudável, mas a exacerbação é negativa, pois o paciente entra numa crise de
angústia da qual não consegue se afastar, e não podemos de maneira alguma pen-
sar em aplicar algum teste; podendo isto ser, inclusive, um.a conduta pouco huma-
na, absurda e iatrogênica. Ocorre freqüentemente sob algum comando, ou diante
de determinada lâmina de algum teste (tem ocorrido, especialmente com algumas
lâminas do teste de Phillipson) que o paciente as associa automaticamente com
alguma morte ou com algum acontecimento que desencadeou o seu conflito. É isto
o que o autor do Teste de Relações Objetais, H. Phillipson, denomina de "encaixe" da
lâmina. Nestes casos pode ocorrer um bloqueio total, uma crise de choro ou uma
rejeição violenta, talvez negando-se a realizar a tarefa. Todas estas reações têm
importância diagnóstica, porque indicam quais são as reações do paciente quando
tocamos seus pontos mais vulneráveis e dolorosos. É provãvel que nestes casos
tenhamos que suspender a tarefa, escutar o que ele precisa contar, o que lembrou
ou associou, sendo que nesse momento teremos então uma nova etapa de entrevista
aberta, mesmo já estando na fase de aplicação de algum teste.
Cabe aqui uma recomendação. Não devemos esquecer que trabalhando com
um enfoque psicanalítico estamos desde o início incluindo aspectos transferenciais
da relação do paciente ou dos pais conosco, e também (mesmo se não as verbalizamos)
contratransferenciais. Não devemos esquecer também que aquilo que se reestrutura,
seguindo a teoria da Gestalt, é um campo no qual cada um dos integrantes (no qual
nós estamos incluídos) terá uma constante mobilidade dinâmica, de tal modo que o
que vier a ocorrer é algo além do mero somatório de condutas individuais. Se os pais
forem um casal bem estruturado, os sentiremos unidos e havera uma distância
ideal entre eles e nós. Se o casal não estiver bem unido poderemos notar que um
deles quer excluir o outro e fazer uma aliança conosco. Ou então, que um deles se
exclui desde o início, não vindo ã entrevista, ou tentando ser uma presença ausente
(por exemplo, olhando para o teto o tempo todo). fazendo que o outro não tenha
32 García Arzeno

outra solução que falar conosco constantemente. Pode ocorrer também que não
queiram vir juntos. No caso de já existir a separação, devemos aceitar esta situação,
mas deveremos tentar de todas as formas possíveis que assistam juntos à entrevista
final para que tomem uma decisão conjunta, pois trata-se de compreender o que
está acontecendo com o filho e decidir o seu futuro. Em outros casos, o casal repre-
senta uma espécie de frente unida contra o profissional. Parecem consultar com a
finalidade de desqualificá-lo repetidamente e não buscando a sua ajuda.
Lembro de um caso que foi extremamente dificil para mim, devido a que a
indiferença dos pais em relação ao sofrimento do filho era tal que tornava-se tre-
mendamente complicado manter a devida objetividade.
Começaram fazendo-me todo tipo de perguntas sobre o trabalho do psicólo-
go, os efeitos que suas interpretações produziriam, como era o meu trabalho, etc. às
quais respondi da forma mais clara e estrita possível. Era evidente que apesar de
ambos estarem em análise vinham a mim com uma enorme desconfiança, que logo
puderam verbalizar claramente: o temor de que o psicólogo se adonasse da vontade
do filho e eles perdessem seu papel de pais. Ficou absolutamente claro que isso não
ocorre, e que quando e se ocorre é porque o psicólogo confunde os papéis e os pais
não defendem os seus. Logo começaram a contar que estavam muito preocupados
porque o filho estava muito mal na escola. Estava no primeiro ano do segundo grau
e saindo-se muito mal. Tinha um irmão maior que era brilhante e havia iniciado na
Universidade a mesma carreira de seus pais, relacionada à administração de em-
presas.
Ao mesmo tempo, o descreviam como um gênio com o computador, que o
haviam proibido de usar como castigo pelas notas baixas. Contaram que havia feito,
inclusive, um programa incluindo as lâminas de Rorschach, e que na empresa, os
técnicos em computação o chamavam quando surgia algum problema, pois ele o
solucionava em um segundo.
Confesso que enquanto aguardava a chegada desse rapaz sentia que não
dispunha de nenhum teste que pudesse ser adequado a ele, a quem imaginava
"sabendo de tudo". Quando chegou, seu aspecto era o de um pobre menino frágil,
tristonho, com uma conduta e um olhar dóceis. O desenho livre mostrava um carro
em mau estado, feito com traço inseguro, sobre o qual disse que era um carro velho.
No Rorschach não era "conhecedor" como seus pais haviam colocado e suas respos-
tas eram banais, alternando-se com algumas patológicas. Na lãmina em branco de
Phillipson disse que via um helicóptero que estava caindo porque havia sido feito
com material que não prestava. Resumindo, este menino estava pedindo ajuda,
sentia-se muito mal e seu ego estava muito enfraquecido. Seu próprio prognóstico
era de perigo e queda.
Na entrevista de devolução comecei pelos aspectos positivos, como a sua
doçura, sua colaboração para fazer o que lhe solicitei, sua pontualidade, etc. e gra-
dualmente fui me aproximando ao que era mais patológico. A mãe contou de forma
passageira que depois de um dia de um grande fracasso na escola havia se deitado
com todos os bonecos da sua infância e ninado seu ursinho enquanto se embalava.
Esta regressão até um estado claramente autista havia dado a pauta para um diag-
nóstico de patologia certa. Expliquei aos pais que existiam no filho dois aspectos:
um, o intelectual brilhante com os computadores; outro, o pequeno, quase bebê,
que necessitava de muito carinho e atenção. Disse-lhes que se fosse atendido nesse
momento, isso poderia ser resolvido pois tratava-se de fazer amadurecer seus as-
pectos emocionais e nivelá-los com o resto de sua personalidade. Os pais insistiram
com perguntas que me fizeram sentir como se eu estivesse tentando vender-lhes um
aparelho e eles precisassem conhecer até o ultimo detalhe do seu funcionamento.
Não demonstraram o menor registro emocional diante do que eu dizia. Foi tal a
insistência ao pedir garantias de que o filho ficaria perfeito, de acordo com o critério
Psicodiagnóstico Clínico 33

deles, que esclareci que eu não faria o tratamento que estava recomendando para
ele: psicanálise, no mínimo, três vezes por semana e com uma mulher, para aumen-
tar sua autoconfiança, na minha opinião. Ficaram de pensar. Telefonaram-me após
um mês, insistindo com suas perguntas sobre a metodologia psicanalitica. De re-
pente, a mãe disse-me que achavam que uma pessoa não deveria ser analisada
enquanto não tivesse dezoito anos, pois assim seria menos influenciável. Comparei
a situação com uma doença orgãnica e perguntei-lhes se não chamariam o médico
até que o seu filho tivesse dezoito anos. Não responderam. Nesse momento, compre-
endi que deveria dizer-lhes claramente que tratava-se de um risco de surto
esquizofrênico ao entrar em cheio na adolescência, pois senti que não aceitariam o
tratamento, mas que deviam entender a responsabilidade que tinham diante dos
episódios que se aproximavam. Mesmo assim, ficaram de continuar pensando. Não
tive mais notícias deles. Em todas as instâncias, deveremos auscultar a nossa rea-
ção contratransferencial, e através dela, metabolizada, imaginar-nos no lugar que
ocupa o filho, no casal formado pelos pais, conforme o que nós estamos sentindo
nesse momento. O enfoque com o qual se trabalha desde a primeira entrevista ini-
cial é, de acordo com o modelo proposto, fundamentalmente psicanalitico. Nesse
sentido, seria muito aconselhável seguir a propostas feitas por José Bleger em seu
trabalho "La entrevista psicológica", devendo também incluir todos os autores de
orientação psicanalítica que tenham abordado o assunto.
A diferença entre um entrevista clinica habitual e aquela que é ponto de
partida para um estudo psicodiagnóstico com testes projetivos é que nesta devere-
mos manter um duplo papel: no inicio, um papel de não intervenção ativa, limitan-
do-nos a sermos um observador da situação que está se desenvolvendo no campo do
qual estamos participando. Tentaremos manter o nosso papel de observador que
escuta e registra (através do material do paciente e dos efeitos contratransferenciais).
A posteriori e gradualmente, iremos intercalando perguntas ou tentando dirigir o
diálogo, por exemplo: "vocês já falaram bastante sobre o comportamento de seu
filho atualmente, o quê podem me contar da época em que ele era pequeninho?" Em
outros casos, ocorre o contrário: os pais descrevem muito sobre a época em que o
filho era bebê e faltam dados sobre a atualidade, ou contaram algo ligado exclusiva-
mente a uma área da sua vida e nada em relação a outras. Devemos considerar isso
e, então, no momento mais oportuno, adotar um papel mais ativo, tal como intervir,
investigar, e inclusive enfrentar os pais com suas próprias contradições, falta de
recordações ou falta de sensibilidade para registrar a seriedade da sintomatologia e
os riscos que o filho está correndo. Na entrevista com um adulto ocorreria o mesmo.
Tecnicamente, isto pode ser feito simplesmente assinalando alguns pontos, sem
fazer interpretações. o que não é recomendável em uma primeira entrevista. Mas o
grau de permeabilidade é muito variável. Alguns pais (ou adolescentes ou adultos)
vem com muito insight e possibilitam-nos trabalhar desde o primeiro contato, de
uma maneira muito mais ágil e terapêutica. Isso, no entanto, não é o usual, e às
vezes ocorre totalmente o contrário.
Nessa entrevista inicial, trabalhando com um esquema referencial psicana-
litico, aconselhamos usar o enquadre de uma entrevista aberta projetiva, funda-
mentalmente no inicio; mas logo deve ser dirigida para colher todos os dados
necessários ou enfrentar os pais, mostrando-lhes situações que observamos muito
negadas, deslocadas ou dissociadas ..Çomsrian_ças, o equivalente à entrmsia_proje-
tiva inicial é a hora do jogo diagnóstico. Tanto com eles quanto com adolescentes e
· adultas; continuarênrn.-Iogo com os testes, e na maioria dos casos teremos que
fazer os respectivos inquéritos. Espera-se que o mesmo modelo se repita: no inicio
colheremos a produção espontãnea do paciente e logo faremos um inquérito para
especificar detalhes das respostas (solucionar ambigüidades ou contradições, com-
pletar, esclarecer, etc.) e isso exige de nós uma atitude abertamente dirigida. Mais
34 García Arzeno

ainda no teste de Rorschach ou de Phillipson, nos quais é feito um exame de limites,


colocando o indivíduo diante de uma situação concreta que ele tem tentado evitar.
Por sua vez, este exame de limites é feito com técnicas cada vez mais dirigidas, até
chegar às perguntas feitas diretamente. Por exemplo, mostrando-lhe todas as lãmi-
nas, se não houve nenhuma resposta sobre cor, pode-se pedir que escolha uma na
qual a cor influi naquilo que ele vê. Se não escolher nenhuma, vamos mais adiante:
mostramos a lâmina X e dizemos: "Tente ver algo onde a cor que há na lâmina
coincide com o que você vê". E ainda mais dirigido seria mostrar-lhe a lâmina Ili e
dizer-lhe: "Olhe, aqui algumas pessoas vêem um laço vermelho, você também?" O
paciente pode responder, por exemplo: eu vejo um laço, mas se é vermelho ou não,
dá na mesma, eu veria um laço igual". Isso é diferente de que se ele dissesse: "Sim,
vi, mas a cor não teve importância alguma; importou mais dizer-lhe que era um
laço, pois o que mais importa é a forma, mas posso ver também que é vermelho". Ou
então: "Agora que senhora o está mostrando, sim, consigo vê-lo". Cada uma desta
reações implica numa conclusão diagnóstica diferente. A correlação estaria, por
exemplo, em que a negação da percepção da cor retifica o observado na primeira
entrevista, no que se refere à falta de registro emocional dos conflitos que mostrou.
Aqueles que enriquecem a produção no inquérito podem ser os mesmos que respon-
dem melhor na entrevista quando guiados por nossas perguntas.
É por isso que dizemos que a atitude do profissional que realiza o estudo da
personalidade com testes projetivos é composta: não é totalmente de taissez faire,
nem tampouco uma atitude absolutamente fechada ou de dirigismo rígido. E é bas-
tante dificil esgotar todas as possibilidades porque cada caso é um psicodiagnóstico
único e que não se repete, devido a que, com já disse, não pode existir um modelo
único e rígido. A atitude do psicólogo deve ser ao mesmo tempo plástica, aberta,
permeável e concretamente precisa e centralizada em um objetivo que não podemos
ignorar ou perder de vista em momento algum. Ficarmos com uma resposta ambí-
gua significa não podermos chegar às conclusões necessárias para realizar o diag-
nóstico ou prognóstico, nem tomar um decisão ou dar sugestões quanto à estratégia
terapêutica, confeccionando um bom informe.
Por esta razão, se um paciente resiste a realizar uma tarefa determinada,
podemos trocá-la por outra equivalente, mas não omiti-la. Podemos encontrar um
outro teste paralelo ou propor-lhe uma outra atividade. Podemos, inclusive, não
aplicar nenhum teste nesse momento, simplesmente dedicar horas de jogo com
uma criança, ou realizar entrevistas com um adolescente ou adulto, mas isso não
significa que deixaremos de fazê-lo mais adiante, no momento mais oportuno.
Nos casos em que estivermos fazendo um psicodiagnóstico grupal, não há
uma primeira entrevista inicial individual ou, se ela existe, é muito breve. Nesses
casos, deve-se iniciar convocando o grupo para a aplicação de uma série de provas
coletivas (ou seja, cada um fará o seu trabalho simultaneamente com o dos outros)
ou grupais (nas quais, entre todos, vão elaborar uma resposta a uma solicitação
nossa). Nestes casos, a informação que viermos a obter será algo assim como uma
mera discriminação entre os que possuem e os que não possuem um requisito de-
terminado. Suponhamos que trate-se de um grupo no qual é necessário avaliar a
capacidade de concentração da atenção, porque são jovens que serão selecionados
para um trabalho que exige que sejam observadores, detalhistas e com capacidade
de concentração constante. Aplicaremos então alguns testes que considerarmos
fundamentais para observar quantos detalhes guardaram em quanto tempo, e
quantos erros e omissões teve cada um. Isto será comparado com a média de erros
esperados para um grupo de idade e condições sócio-culturais equivalente à destes
jovens. Aqueles que estiverem acima dessa média serão os selecionados. Talvez a
nossa tarefa seja encerrada nesse ponto, a não ser que seja necessário continuar
escolhendo conforme outros requisitos. Sendo assim, então, por exemplo, entre os
Psicodiagnóstico Clínico 35

quinze melhores finalistas buscaremos aquele que melhor se adapte ao grupo no


qual deverá trabalhar, e que demonstre melhores traços obsessivos em geral. É
possível que só então tenhamos uma entrevista com cada um deles.
Nestes casos pode acontecer que não se inclua o contato individual nem a
relação transferência-contratransferência, ou seja, o campo dinâmico que é criado
em uma entrevista individual. Tudo isso é excluído para poder-se obter informações
sobre um grupo muito maior no menor tempo possível. Se estivermos trabalhando
em escolas, por exemplo, é muito importante detectar patologias sérias. Pode-se
conseguir fazê-lo em pouco tempo, projetando as lâminas do Teste "Z", que é uma
adaptação feita por Zulliger do teste de Rorschach. Estas três lâminas podem ser
projetadas em, no máximo, dez minutos. Cada um deve responder por escrito o que
vê, onde e por que acha isso. Com essa finalidade, recebe um protocolo de localiza-
ção. Isto permite detectar patologias sérias em um curto período de tempo, pois
estão estipuladas as respostas consideradas normais e as consideradas patológicas.
Pode-se fazer o mesmo com o Rorschach se não se domina o teste "Z''. O pedido de
desenho de uma casa, uma árvore e uma pessoa poderia completar este tipo de
mini-bateria. Na segunda etapa deste trabalho, s.eriam convocados os indivíduos
cujo material apresenta o que chamamos de indicadores de conflito ou de patologia.
Serâ então necessário entrevistar os pais e fazer um estudo mais minucioso e indi-
vidual de cada um. Não podemos esquecer que o objetivo de uma pesquisa assim
realizada é ajudar um número grande de pessoas, detectando precocemente a pato-
logia, e esta é uma técnica extremamente útil. Suponhamos que diante da lâmina I
do Rorschach, onde o comum, e portanto normal, estatisticamente falando, é ver
um animal alado, uma criança diz que vê um esqueleto ou um monstro deformado,
ou uma folha de árvore furada, como se tivesse sido comida por bichos. Estas res-
postas são, sem dúvida, patológicas, e logicamente, um diagnóstico não pode ser
feito a partir de uma resposta, mas isto seria um indicador, tipo um sinal de alarme.
Deve ser feito um estudo mais profundo e individual com a criança que deu essa
resposta, para poder comprovar a desconfiança de patologia e dar-lhe a ajuda ne-
cessária, ou então descartá-la se for o caso, após haver reunido mais material projetivo
profundo e entrevistado os pais.
Se a primeira entrevista cumpriu sua finalidade, terminaremos a mesma
com:

• uma imagem do conflito central e seus derivados;


• uma história da vida do paciente e da situação desencadeadora;
• alguma hipótese inicial sobre o motivo profundo do conflito, a qual será
ratificada ou modificada, segundo o material projetivo dos testes e da
entrevista de devolução;
• uma estratégia para usar determinados instrumentos diagnósticos se-
guindo uma determinada ordem, de modo que sirvam para ratificar e
ampliar as .nossas hipóteses prévias ou para retificá-las.
Capítulo 5

Algumas Contribuições Úteis para


a Realização da Primeira Entrevista
com o Consultante

A "primeira entrevista" é a primeira etapa do processo psicodiagnóstico, que


possui diversos objetivos. Isto não significa que deva necessariamente ser uma só.
Se o nivel de ansiedade dos pais ou de um adulto for muito alto ao chegar
para a primeira entrevista (seja essa ansiedade persecutória, depressiva ou
confusional), torna-se dificil manter um clima ideal de trabalho. Talvez o objetivo
desse primeiro encontro seja, para eles, conhecer-nos e comprovar que não iremos
acusá-los de seus fracassos e erros.
Nesses casos, a primeira pode ser uma entrevista mais curta e centralizada
na descrição daquilo que causa preocupação no momento. Uma segunda consulta
pode ser o mais indicado para encontrá-los menos tensos e mais colaboradores. Se
isso não ocorrer, a situação será n1enos alentadora. Talvez tenham passado por
uma experiência anterior muito negativa, ou realmente não acreditem que possam
ser ajudados por um psicólogo. Este é um ponto no qual devemos deter-nos todo o
tempo necessário, evitando assim que o estudo precise ser interrompido mais adi-
ante.
Lembro o caso dos pais de um adolescente, que insistiram em fazer tantas
perguntas sobre a minha forma de proceder, a minha concepção em relação ao
psicodiagnóstico e ao tratamento que poderia ser necessário a posteriori que resolvi
esclarecer-lhes que não aceitaria fazer o tratamento com seu filho, limitando-me a
fazer o seu psicodiagnóstico, para transmitir-lhes uma maior confiança em minhas
recomendações terapêuticas ulteriores.
Mesmo permanecendo em vigor o afirmado por psicanalistas da Escola In-
glesa, com Melanie Klein à frente, sobre a presença constante da transferência posi-
tiva e da transferência negativa no psicodiagnóstico, devemos tomar cuidado para
que esta última não seja tão intensa ao ponto de impedir o nosso trabalho.
Não se trata de negar ou diluir a transferência negativa, mas de mantê-la
controlada para facilitar um clima de rapport aceitável. Em geral, bastam alguns
assinalamentos ou comentários para consegui-lo.
Recordo o caso de um homem de aproximadamente 35 anos, enviado por
seu psiquiatra para um estudo completo da sua personalidade. O seu olhar era
fugidio e seu primeiro desenho foram três figuras geométricas. Quando solicitei
figuras humanas desenhou o clássico bonequinho de pauzinhos. Resolvi então, fa-
zer uma breve interrupção e esclarecer-lhe que ele desconfiava do valor daquilo que
estava fazendo e talvez, também, do verdadeiro motivo pelo qual o seu terapeuta o

36
Psicodiagnóstico Clínico 37

havia enviado. Fui enfática colocando-lhe que, quanto mais expressivo e explícito
ele fosse nisso, melhor poderia ser a minha ajuda através de uma comunicação
mais detalhada e acertada ao seu terapeuta. Assim, sua atitude modificou-se, e
conseguimos trabalhar melhor.
Esta era uma primeira entrevista, pois quando se trata de um paciente de
outro profissional, prefiro trabalhar "às cegas", para não criar interferências na
relação transferencial preexistente. Nestes casos, a assim chamada "primeira entre-
vista" consta de uma breve conversa e do início da aplicação dos testes, especial-
mente os gráficos.
Essa breve conversa será sobre dados de filiação, constelação familiar pri-
mária e atual, profissão, etc., e se tem conhecimento do motivo pelo qual foi enviado
e se já fez antes algo semelhante. Esse momento deve levar entre dez e quinze minu-
tos, e devemos evitar que se transforme em um relato detalhado e prolongado da
história de sua vida, já que é isso o que tende a estabelecer um vínculo transferen-
cial que interfere naquele estabelecido previamente com o seu terapeuta, confun-
dindo o paciente. Nestas circunstâncias, o psicólogo deve controlar a sua curiosidade
e manter uma distância ideal que possibilite um clima agradável para trabalhar,
sem fomentar falsas expectativas no sentido de criar um vínculo que muito breve-
mente será interrompido.
Retomarei agora o assunto da "primeira entrevista", tal como ela é realizada
em termos gerais, ou seja, depois de um primeiro contato telefônico com alguém que
inicia a consulta diretamente conosco.
Uma forma delicada e adequada de "abrir" esta entrevista, após as respecti-
vas apresentações, pode ser a seguinte pergunta: "Em que posso ajuda-lo?" e ade-
quar-se a resposta recebida para decidir a estratégia seguinte.
Quando falo de "estratégia" não me refiro a um plano rígido nem a uma
dinãmica da entrevista previamente planejada. Ao contrario, refiro-me a que a res-
posta a essa pergunta vai dar uma pauta que dirigirá a nossa atenção para um ou
outro caminho, dando-nos a possibilidade de fazermos novas perguntas. Estabele-
ce-se assim um dialogo e não um monólogo.
No início da primeira entrevista, nossas perguntas devem ser mínimas, para
dar mais liberdade ao sujeito ou casal de pais, mas à medida que formos elaborando
hipóteses presuntivas sobre o que estiver ocorrendo sera imprescindivel fazer co-
mentários e perguntas pertinentes.
O motivo da consulta vai guiar a nossa busca, e é conveniente explorar
detalhadamente todas as âreas com ele relacionadas, deixando para uma entrevista
ulterior outras perguntas que vierem a surgir, para não transformar o primeiro
encontro em um inquérito tão entediante quanto persecutório.

Motlvo da consulta. Será considerado o motivo manifesto da consulta a res-


posta da nossa primeira pergunta nessa entrevista inicial.
É aquilo que está mais próximo da consciência e o que o indivíduo prefere
mencionar em primeiro lugar. Talvez, ao ter mais confiança, venha a mencionar
outros motivos de preocupação mais dificeis de comunicar.
Ocampo, Garcia Arzeno, Grassano e cal. (ob. cit.) usam este conceito para
diferenciá-lo de motivo latente ou inconsciente da consulta, que ira surgir à medida
qu~ formos realizando o estudo, e sera ou não transmitido ao paciente dependendo
de certas circunstâncias.

O sintoma. Como já foi dito anteriormente, chamaremos provisoriamente


"sintoma" àquilo que o paciente traz como motivo manifesto da solicitação de
psicodiagnóstico. Este assunto ja foi abordado no capítulo IV (p. 37 e seguintes) e a
ele nos remetemos.
38 García Arzeno

Motlvo manifesto da consulta e consciência de doença. Poderíamos estabele-


cer um paralelo entre ambos conceitos.
A preocupação do paciente, o que ele considera sintoma preocupante, e as-
sim o coloca desde o início, deveria ser considerado como consciência da doença: ele
sabe que algo estã mal e o descreve como pode: "Não consigo estudar e estou preo-
cupado ... " 'Tenho pesadelos ... " etc. Se ele não registrar nenhum desconforto, pode-
remos falar sobre consciência da doença. O paciente então responderia: "Vim porque
fui mandado ... " "Estou bem mas quero me conhecer melhor.. .", etc. A perspectiva
não é muito alentadora e deveremos descobrir tanto o motivo manifesto como o
motivo latente, pois ninguém resolve fazer um psicodiagnóstico somente por "espor-
te". Nesses casos, existem poucas probabilidades de que nossas conclusões sejam
logo aceitas, ou então só serão aceitas no nível intelectual. Esse não seria um bom
final, pois não haveria nem ao menos uma mínima incorporação de elementos in-
conscientes que contribuíssem para a tomada de insight daquilo que é mais profun-
do e que deixaria o paciente motivado para iniciar um tratamento psicanalítico (neste
caso) que o ajudaria a chegar até a causa de seus problemas.
Para sermos bem precisos, devemos esclarecer que existe uma distância
enorn1e entre o grau de consciência de doença com o qual o paciente chega para a
primeira entrevista e aquele que é obtido no início do tratamento, ou quando este já
está bem adiantado. É nesse momento que o paciente, criança, adolescente ou adul-
to, poderá falar de seus conflitos, depois de tornar consciente o que era inconscien-
te, ou seja, quando à consciência de doença original tenham sido incorporados
aspectos importantes que pertenciam ao plano mais inconsciente.

Consciência de doença e fantasia mconsciente de doença. São dois conceitos


distintos. Uma grande parte das discussões entre Anna Freud e Melanie Klein sobre
se a criança tem ou não consciência de doença foi devido ao fato de que elas fala-
vam de duas idéias diferentes. A. Freud dizia que a criança não tem consciência de
doença e Melanie Klein dizia que sim. A. Freud estava certa, já que a maioria das
crianças respondem que estão bem e não sabem o que ocorre com elas. É excepcio-
nal que possam relatar sintomas e mostrar preocupação ou sofrimento pelos mes-
mos. Geralmente são os pais os que fazem essa parte. Mas estamos falando de
"consciência de doença". As crianças (e os outros também) só conseguem falar de
seus conflitos quando já entraram na etapa final do tratamento, e isso é um dos
elementos que indica justamente o êxito do mesmo e a proximidade de seu fim.
Melanie Klein falava, no entanto, da fantasia inconsciente de doença, que
pode ser encontrada em todo sujeito que consulta, mesmo naquele que chega dizen-
do que "foi mandado".
Isto significa que todo aquele que consulta percebe, mesmo a nível inconsci-
ente, que há algo mal e causa dor, mal-estar, etc. dramatizando-o ou visualizando-
º como num sonho. É por isso que mais adiante recomendo interpretar o Desenho
Livre como um sonho, justamente para detectar este material.

Motivo latente da consulta e fantasia de doença e cura. Em nosso meio,


Arminda Aberastury 1 , seguindo Melanie Klein, colocou que já na primeira hora de
jogo a criança dramatiza, associa, desenha, modela e brinca, mostrando, sem sabê-
lo, qual é a sua fantasia de doença e cura. Talvez isso não apareça exatamente na
primeira hora de jogo e seja necessário realizar outras. Isto fica, no entanto, a crité-
rio do profissional.

1. Aberastuiy, Arminda. Teoria e técnica da psicanâlise de crianças. Buenos Aires: Paidós.


Psicodiagnóstico Clínico 39

Com crianças. essa atividade pode ser complementada com o Desenho Livre
e com as histórias do C.A.T., especialmente a da lâmina 9. Em adolescentes e adul-
tos, com a entrevista projetiva, com Desenho Livre, com as histórias do T.R.O. de
Phillipson, especialmente as A!, AG e Branca, como também com o Questionário
Desiderativo, especialmente nas catexias l + e 1-.
Poderiamas agora acrescentar que não somente o sujeito que consulta tem a
sua própria fantasia inconsciente de doença, mas também cada um dos pais e o
psicólogo possuem as suas.
Por isso, este é um trabalho difícil, mas ao mesmo tempo apaixonante.
A fantasia inconsciente de doença é aquilo que o sujeito sente. sem dar-se
conta disso, o que passa por baixo do nível consciente. Tem relação con1 o sentimen-
to de responsabilidade e compromisso com o sintoma descrito conscientemente e se
refere ao que estâ mal e à sua causa.
Se o paciente diz: "Estou me sentindo mal porque não consigo me concen-
trar" e nôs perguntarmos o que ele acha sobre esse problema de não conseguir
concentrar-se, estaremos a caminho de descobrir algo sobre a sua fantasia incons-
ciente de doença. Suponhamos que ao longo do psicodiagnóstico vamos descobrin-
do que ele não consegue concentrar-se porque pensa que é o filho não desejado da
família. Este sentimento é o ruido desagradável, e render bem no estudo é vivido,
sempre inconscientemente, como um prêmio que ele não merece, nem tampouco os
seus pais.
A fantasia inconsciente de doença estâ correlacionada com o conceito de
fantasia de cura, que implica aquilo que o sujeito poderia imaginar como a solução
para os seus problemas.
No exemplo anterior, poderiamas descobrir que a sua fantasia de cura é de
que algo ocorra com o irmão mais velho afastando-o do lar, o que permitiria que ele
funcionasse como filho único.

A fantasia inconsciente de análise: é um terceiro conceito que, juntamente


com os dois anteriores, configuraria uma espécie de tripé de grande importância
quando se pretende iniciar um trabalho psicanalítico com um sujeito. Trata-se de
um conceito colocado por M. Baranger (ob. cit.}, e refere-se ao que o sujeito concebe
inconscientemente como método para obter aquilo que a ~ua fantasia de cura coloca
como solução de seus conflitos.
O desfecho dos testes projetivos verbais com histórias é um elemento que dá
uma informação valiosa a respeito, e por isso é imprescindível incluir alguns deles
na bateria de testes.
Suponhamos que o que o sujeito vê na primeira lâmina do Phillipson é um
homem com os pés e as mãos amarradas e que está comparecendo diante de um
tribunal. Ele é culpado por um crime, julgado, e subitamente aparece um jurado
que testemunha a seu favor, liberando-o da pena de morte e salvando-o. Os inten-
sos sentimentos de culpa ligados a alguma atividade considerada criminosa consti-
tuem a fantasia inconsciente de doença; a fantasia de cura está relacionada a um
jurado, que o absolve da culpa e da acusação. A fantasia de análise é a da descober-
ta de alguém que "traga algo" que alivie a sua culpa, mas que venha de fora. Tudo
possui um toque mágico e isto faria pensar que este sujeito colocaria pouco de si
mesmo para solucionar seus conflitos, esperando que tudo venha do analista.
Lembremos agora o exemplo do menino de oito anos. É trazido ao consultó-
rio porque a professora diz que ele não se adapta à escola, que não se integra com os
outros colegas e incomoda; o pai reclama que ele não sabe se defender nas brigas; a
mãe coloca que a sua falta de capricho a incomoda e o menino conta que tem sonhos
ruins. Até aqui, escutamos o motivo manifesto de consulta que cada um traz. À
medida que a consulta avança, descobrimos que a mãe é muito condescendente
40 García Arzeno

com este filho e permite a desordem para não ser como sua mãe havia sido com ela:
severa e rígida. Fantasia inconsciente de doença: "Ele é assim porque não me esfor-
cei para educá-lo, para qu_e ele não me odeie, como eu odeio a minha mãe". O pai
pode estar sentindo que: "E fraco e teria que tornar-se forte brigando: falta-lhe mais
vivência na rua". Isto encobriria a seguinte fantasia: "Que saia à rua e me deixe só
com a minha mulher, não vá se transformar em um perigoso rival, como meu pai,
que me afastou de minha mãe". Por sua vez, o menino poderia estar sentindo: 'Te-
nho sonhos ruins. Alguém me persegue e quer me matar. Não posso brigar porque
me mataria. Não quero ser forte, posso matar o meu pai. Isto não tem saída".
Suponhamos que na hora do jogo este menino diz que não pode fazer nada
porque nada do que está ali serve para ele, mexe em tudo e finalmente quebra um
lápis. Poderíamos pensar que a sua fantasia de cura envolve muito ceticisn10, que
pensa que nenhum psicólogo poderia ajudá-lo (o lápis quebrado não tem conserto),
que não encontra os meios para que se possa ter acesso ao seu conflito (nada serve
para ele} e que a culpa masturbatória (lápis quebrado} é tão intensa que somente a
morte seria o castigo merecido.
Vemos assim, os três elementos do tripé citado interagindo, jogando a sua
dinâmica, especial e intrincada, por trás do motivo manifesto da consulta.
Como dissemos anteriormente (p. 40}, M. Baranger afirma que a fantasia de
doença é um núcleo enquistado, com o qual a pessoa mantém um determinado tipo
de relação.
No que se refere à fantasia de cura, essa autora descreve através do trata-
mento de um menino a fantasia inicial de cura e o seu desenvolvimento e variações
ao longo do mesmo.
Poderíamos dizer, em geral, que as fantasias iniciais de cura possuem um
marcante toque mágico e onipotente que vão adquirindo caracteristicas mais realis-
tas e menos onipotentes à medida que o sujeito amadurece.

O romance familiar. Geralmente, o objetivo primordial da primeira entrevista


é conhecer a história do sujeito e de sua familia. Porém, mais importante que o
registro cronológico dos fatos de três gerações é a reconstrução do "romance famili-
ar" com seus mitos, seus segredos, suas tradições, etc.
Mesmo tendo que fazer uso do inquérito, principalmente sobre fatos que os
pais ou o próprio sujeito nos relataram, tentamos fazer com que este seja ameno e,
principalmente, que mantenha uma certa lógica em relação ao assunto que está
sendo tratado.
Uma vez conhecido o motivo manifesto da consulta, faremos perguntas so-
bre tudo o que possa estar relacionado com ele. Por exemplo, se os pais dizem que a
criança de sete anos ainda molha a cama à noite, perguntaremos se ele tem um
sono muito pesado, se bebe muito liquido antes de dormir, qual é a atitude deles a
este respeito; se o menino está preocupado ou não com a sua enurese e aos poucos
iremos entrando em níveis mais profundos. Perguntaremos então se na familia há
algum membro enurético; se tiverem mencionado que o levam para a cama do casal
porque assim ele não urina, perguntaremos se isto interfere ou não nas relações
sexuais do casal e finalmente indagaremos se, pelo contrário, o levam para a sua
cama para preencher um vazio que existe no casal e essa super-estimulação provo-
ca o sintoma. Se assim for, isso explicaria por que não consultaram antes, mas só
agora, quando o menino se queixa de que assim não pode acampar nem dormir na
casa de um amigo. A vergonha do menino encobre os seus sentimentos de culpa por
ser um terceiro incluído no casal ao qual realmente separa. Aqui aparecem, então,
o motivo manifesto e o motivo latente da consulta. Ao mesmo tempo, os pais trazem
como motivo a enurese do filho, mas logo a seguir colocam as suas próprias cartas
sobre a mesa. E como se nos dissessem: "Viemos devido aos nossos conflitos sexu-
ais".
Psicodiagnóstico Clínico 41

É essencial que o profissional esgote todas as perguntas que possam ter


relação com este assunto. Por exemplo, como foi a infãncia de cada um, que lem-
branças tem do vinculo com os seus pais e irmãos, etc. Todo o resto é importante,
mas deve ser perguntado como complemento do assunto anterior. Assim, se os pais
disserem que foram consultar porque a filha de quatorze anos fez um aborto, seria
ridículo começar a perguntar se essa filha foi ou não desejada, se foi amamentada,
etc. Isso poderia ser catalogado como uma conduta fóbica do profissional.
Poderíamos, sim, dirigir as nossas perguntas lembrando o seguinte:

1. O sintoma apresenta um aspecto fenomenológico: nesse sentido devemos


perguntar minuciosaroente tudo aquilo que se refere ao mesmo, sem dar nada por
sabido. Os pais dizem "é teimoso", mas ao pedir descrições podemos descobrir, tal-
vez, que seja uma conduta de reafirmação muito madura de um menino que não se
submete aos seus pais, excessivamente rígidos e obsessivos.

2. O sintoma apresenta um aspecto dinâmico: mostra e esconde ao mesmo


tempo um desejo inconsciente que entra em opo.sição com uma proibição do superego.
Por isso é importante perguntar como a criança ou o adolescente reagem diante dos
sintomas descritos pelos pais. A vergonha, a repulsa e o pudor são elementos que
indicam a existência de um conflito intrapsiquico, que o sujeito irâ cooperar no
trabalho do psicodiagnóstico e no tratamento posterior, e que a patologia é predomi-
nantemente neurótica.

3. Todo smtoma causa um beneficio secundlirio, sendo importante então cal-


cular o que esse sujeito obtém nesse sentido e o que ele perderia no caso de que
abandonasse o sintoma. Isso nos ajudará a medir as resistências que ele colocará
para a superação do mesmo.

4. O sintoma expressa algo no nível familiar: a entrevista familiar diagnósti-


ca nos dará maior informação em relação a esse aspecto do que a entrevista inicial,
mas, mesmo assim, deveremos estar alertas para captar sinais referentes a isso,
desde o inicio. O enfoque familiar, tanto estrutural quanto sistêmico, nos dá a sua
valiosa contribuição a esse respeito, assim como também a Escola Francesa, tende
à frente Maud Mannoni e Françoise Dolto.
Também os psicanalistas decidiram usar esse novo enfoque, o familiar, d
maneira que o psicólogo dispõe agora de vários esquemas referenciais entre os quai
poderá escolher o mais convincente, sem omitir essa perspectiva tão importante n
atualidade.
Seguindo este enfoque, torna-se imprescindivel interrogar, durante a pr
melra entrevista, sobre o nome e sobrenome de cada progenitor, idade atual, se o P'
e a mãe vivem ou são falecidos {quando e de quê), se os encontros são freqüentes ff
não e como é a relação. Tarobém serão feitas perguntas sobre os irmãos de cada ur
e as suas idades, assim como a história e todos os detalhes do ou dos nomes escc
lhidos para o filho que foi trazido para consultar, ou para o adulto que está consu:
!ando.
Recordo o caso de um menino extremamente inquieto e com desejos de st:
uma menina expressos conscientemente. Seu nome e sobrenome eram exatament
iguais aos de um irmãozinho do pai, falecido aos sete anos. Ele tinha cinco anm
Investigando essa história familiar foi passivei entender tanto a inquietação do me
nino como a sua vontade de ser uma menina: seria a forma de escapar a um tipo d
destino mortal ao qual o seu nome o condenava. A sua fantasia inconsciente era
"Meu destino é morrer como o meu tio. Todos os que têm esse nome morrem cedo"
Após vários anos de tratamento, durante os quais houve períodos em que se fanta
42 García Arzeno

siava de mulher com a toalha do banheiro e giz colorido, dançando desenfreada-


mente diante de mim, consegui captar que, mais do que travestismo, isso era um
ritual exorcista para escapar da morte, da qual eu era a repre5entante. Mais adian-
te, isso foi cedendo e dando lugar a outra etapa de maior conexão com a realidade.
Um dia trouxe uma medalha. Seu avô havia falecido e essa era a lembrança que ele
havia pedido. Olhei a medalha e pude ler também ali o seu nome e sobrenome.
Desta vez, no entanto, não mais se referia ao tio, falecido muito pequeno, mas ao
avô, morto com bastante idade e muito venerado entre os seus, entre outros motivos
porque havia sido condecorado. Essa mudança refletia alterações internas impor-
tantes nas figuras escolhidas como modelos de identificação. Agora valia a pena
ficar tranqüilo, ser um homem e viver a vida, pois "temos todo o futuro pela frente e
até podemos morrer velhos e receber galardões".
Mannoni2 diz que o sintoma estã expressando algo que não foi dito, que ele
ocupa o lugar dessa verdade não dita, que surge com e para outro. Seria inütil,
então, procurar a etiologia da doença exclusivamente dentro do sujeito. Devem tam-
bém ser explorados o contexto atual e a história familiar dentro dos quais ela sur-
giu.
A Escola Francesa nos proporciona também outra hipótese de grande valor
para compreender o gênese de muitos problemas: qual é o lugar do filho no desejo
de seus pais: é um prolongamento narcisistico ou falo da mãe? Ou é reconhecido
como um-Outro c.om autonomia e vontade próprias? Isso não pode ser objeto de um
inquérito direto. E mais fácil que seja observado nas entrevistas familiares. Se tiver-
mos dúvidas, é indicado realizar uma entrevista vincular mãe-filho e outra pai-filho,
além da familiar, para registrar fatos que nos tragam informações a esse respeito.

5. Todo sintoma implica o fracasso ou a ruptura do equilíbrio intrapsíquico


prévio. O momento no qual os pais de uma criança, adolescente ou adulto que
consulta decidem fazê-lo é quando esse sintoma já não mantem o equilíbrio familiar
ou não basta, e a estrutura familiar balança.
Mannoni (ob. cit. cap. li) diz:

Concluindo: os pais estão sempre, de certa forma, implicados no sintoma mostrado


pela criança. Isto não deve ser perdido de vista porque estamos tocando a mola mestra da resis-
tência: o desejo inconsciente de que "nada mude" deve, às vezes, ser encontrado nos pais
patogênicos(. .. ]
Ao analisar uma neurose, nôs nos referimos tambêm a um discurso coletivo que apare-
ce na palavra da criança. Ele torna presente a sombra dos pais, mesmo se na realidade não
queremos nos referir a eles. Somente a distinção introduzida por Lacan entre o desejo, a exigên-
cia e a necessidade, assim como a introdução do registro do imaginârio, o real e o simbólico,
permite situar a noção de transferência em um nível a partir do qual se pode ajudar o paciente a
desvendar um sentido naquilo que as suas exigências colocam em jogo.{...) Aquestão é conse-
guir tirar a criança de un1 certo jogo de enganos que ele apresenta com a cumplicidade dos pais.
Isto não pode ser feito a não ser que tenhamos compreensão de que o discurso é um discurso
coletivo ... A criança não é u1na entidade em si. Nós a abordamos desde o início através da
representação que o adulto possui dela. (Tradução da autora).

Recordando o esquema freudiano, poderemos utilizá-lo como um guia ideal


para saber quais as informações que devemos colher na entrevista inicial e nas
posteriores:

1. Herança e constituição (ou seja, a história dos seus antepassados):


2. História previa do sujeito (seja ela real ou fantasiada):
3. Situação desencadeante (individual e familiar).

2. Mannoni, Mau d. L·enfant, sa maladíe et les autres. Paris: Seuil. 1967; cap. I.
Psicodiagnóstico Clínico 43

Estes fatores contribuem para a criação de um conflito interno que provoca


angústia e mobiliza defesas. O sujeito entra então num quadro neurótico com for-
mação de sintomas, os quais, como afirmamos anteriormente, serão o motivo tanto
manifesto como latente da consulta.
Em relação aos recursos de que dispõe o psicólogo para registrar tudo o que
é necessário desde a entrevista inicial, cabe resumir o seguinte:

1. Sem dúvida, a comunicação verbal é a via essencial para tal objetivo.


Nesse sentido, quero remeter o leitor ao modelo de história clínica
publicada por A. Aberastury (ob. cit.). sem a intenção de indicá-lo como
modelo para ser aplicado mecanicamente mas como guia para os as-
suntos considerados como os mais importantes.
2. O registro do não-verbal também é essencial e por isso o psicólogo deve
ser um ouvinte atento a gestos, lapsos, atuações, etc., que possuem um
valor inestimável, pois não são produto de um discurso planejado, mas
de um discurso do inconsciente. Neste momento não é o inquérito mas
a observação atenta que serve ao psicólogo como fonte de coleta de da-
dos.
A esse respeito, quero remeter o leitor ao colocado por Ocampo, Garcia
Arzeno, Grassano e colaboradores (ob. cit.) no capítulo respectivo.
3. Finalmente, existe outro nível de registro com o qual o psicólogo pode
contar: seu registro contratransferencial. Para que ele seja confiável, o
psicólogo deve ter realizado uma boa psicanálise de forma a não confun-
dir aquilo que ele registra como algo do outro com efeitos das suas in-
tervenções em áreas não resolvidas de si mesmo. H. Racker' deixou-nos
uma maravilhosa obra, cuja leitura recomendo.

No encerramento da primeira entrevista, que é o momento da despedida desse


primeiro encontro entre os pais ou o adulto e o psicólogo, é indicado combinar os
passos que serão seguidos, os horários das consultas posteriores, assim como es-
clarecer também quais serão os honorários e a forma de pagamento dos mesmos.

Presente ou passado, por onde começar? Se o psicólogo aplicar mecanica-


mente a técnica habitual do inquérito cairá no erro de começar pelo passado. Por
exemplo: Foi um filho desejado? Como foi a gravidez? E o parto? Foi com fórceps ou
não? Foi com anestesia ou não?, etc. Se os pais (ou o adulto). chegarem muito
angustiados por algum fato recente, isso seria contraproducente e até poderíamos
pensar que é uma defesa do profissional para impedir a sua própria angústia.
Por isso, assinalamos que o mais conveniente é começar pelo motivo mani-
festo da consulta passando por todas as áreas que possam ter conexão com o mes-
mo, para logo investigar as outras cautelosamente sem descartá-las sob nenhuma
hipótese, já que podem surgir dados muito valiosos. Por exemplo, uma adolescente
consulta porque não consegue parar de comer e seu peso já é excessivamente alto.
Quando entrevistarmos seus pais. deveremos pedir que descrevam a maneira como
ela se alimenta atualmente e depois investigar todos os antecedentes nesta área
desde a época da amamentação. Se não dermos atenção ao resto, talvez não descu-
bramos que ela nasceu cianótica e com circular dupla do cordão, o que explicará
outras manifestações do comportamento da jovem. Ou seja, não se trata de omitir
áreas mas de inseri-las inteligentemente, segundo o caso.

3. Racker, H. Estudios de técnicapsicoanalitica. Buenos Aires: Paidós, 1960.


44 Garcia Arzeno

Quando o sujeito ou os pais chegam angustiados demais pelo presente, é


contraproducente remetê-los ao passado.
Pode acontecer o oposto: ficam presos à primeira infància e parece impossi-
vel que consigam descrever o filho como o vêem nesse momento. Quando tratamos
com um adulto, notamos a facilidade com que ele se refere à sua infància e a dificul-
dade com que responde às perguntas sobre o que está acontecendo no presente.
Quando notarmos que é impossível para o paciente desprender-se do passa-
do ou do presente, devemos deixar essa etapa da história, que ficou incompleta.
para uma próxima entrevista. evitando assim a pressão para obter uma informação
que possivelmente acabará chegando mais adiante.
A seguir, tentarei reconstruir a primeira entrevista de um menino de sete
anos.
Seus pais chegam pontualmente para a primeira entrevista. Sentam-se di-
ante de mim. Ela à minha esquerda. Ele à direita. Ela começa a falar de Francisco.
Seu estilo é o de falar quase aos borbotões. Seu rosto é muito expressivo. A sua
expressão é aberta e franca. "Francisco tem pânico de muitas coisas; especialmente
de ir só da sala de jantar até o banheiro ou até o seu quarto. Dorme cobrindo a
cabeça com o cobertor e diz que é por medo de ser seqüestrado. Nôs fomos criados
no interior e estamos acostumados a outra vida. Deix:âvamos as portas abertas, as
bicicletas na calçada e não acontecia nada. Aqui é diferente. O meu marido trabalha
em uma empresa multinacional. Por isso estamos aqui. Eu sinto muita saudade.
Estou fazendo Licenciatura em História da Arte. para fazer alguma coisa. Mas tudo
é muito diferente. Viemos para cá há três anos e parece que foi ontem''.
Todo esse relato foi feito em poucos minutos. Enquanto isso. o marido man-
------------ ------fem-se atento mas calado. Calado demais. Então resolvo dar-lhe espaço e pergunto:
"E o senhor, o que pensa?" - "Sobre o quê?" - responde. "Sobre o que o senhor
preferir". digo. "Bem, responde, eu também estou preocupado com os medos do
---------F-ranciscon.

Eu: Quando começaram?


M (mãe): Há uns dois anos.
Eu: (Calculo mentalmente que foi próxima da fase edípica e para ter certeza pergun-
to:) E como era antes?
M: Era um menino desembaraçado. andava por todos os lugares e não tinha medo
de nada. Uma vez se perdeu e foi como se nada tivesse acontecido.
Eu: Qual era a sua expressão quando vocês o encontraram?
M: Estava tranqüilo, normal.
Eu: E vocês. como reagiram?
M: No começo. como estávamos muito assustados. com gritos. choro. mas logo fica-
mos mais tranqüilos, o beijamos e explicamos que não podia se afastar de
nós. Era um lugar onde havia muita gente e de um segundo para outro ele
poderia sumir. No fim. ele acabou ficando sentadinho na saída esperando
por nós.

Relatam outros episódios semelhantes e eu explico então que se quando era


menorzinho não se assustava e agora se assusta tanto. existe a possibilidade de que
somente agora esteja demonstrando todo o susto que quando era menorzinho (dois
ou três anos) não mostrou. Mas fico pensando que é bem dificil que isso aconteça,
porque vai contra as normas evolutivas. Pergunto então:

Eu: O surgimento dos medo coincidiu com a chegada a Buenos Aires?


M: Não. Ele tinha três anos quando viemos para cá, e os medos começaram quando
ele já estava com cinco.
Psicodiagnóstíco Clínico 45

Eu: A quê motivos o senhor os atribui? (dirigindo-me ao pai).


P: Não sei. Não vejo nada especial. Ele diz que alguêm pode entrar no apartamento
e seqüestrá-lo.
Eu: Como ê o apartamento?

Descrevem o apartamento entre os dois. Comprovo que, realmente, não há


nenhuma possibilidade de que alguém entre no mesmo. Sendo o pai um executivo
importante de uma empresa, seria possível que o menino estivesse sugestionado
pela onda de seqüestros que aconteciam nessa época. Havendo descartado essas
possibilidades, pergunto sobre a história de cada um.
O pai tem uma irmã mais moça, com a qual tem um bom relacionamento.
Seus pais vivem no seu estado natal e a lembrança que tem da sua infância é de que
eram muito severos e exigentes com ele e ele um filho muito obediente.
Ela tem um irmão dois anos mais moço com quem tem um péssimo relacio-
na1nento e uma irmã mais moça com quem convive muito bem. Seus pais moram na
mesma cidade que seus sogros e a lembrança que tem da sua infância é de muita
liberdade. Descreve-se como muito solta, rebelde e teimosa, bastante mimada espe-
cialmente por seu pai. ·
Quando conheceu o seu marido, trabalhava em uma empresa importante da
área administrativa, e demitiu-se ao casar.
Então, pergunto sobre a história de Francisco: foi um filho muito desejado, a
gravidez e o parto foram tranqüilos. Não pode amamentá-lo por "falta de leite", como
já havia acontecido com as suas duas filhas mais velhas. Mas o menino aceitou bem
a mamadeira. Pergunto como ela dava a mamadeira e ela descreve com um gesto de
colocá-lo ao peito com uma expressão de ternura.
O pai continua escutando com atenção, com uma expressão muito séria
mas inexpressiva
Os olhos da mãe brilham quando descreve o nascimento do filho e o seu
primeiro ano de vida. Diz que tem um bom relacionamento com as filhas mas que
este filho a encheu de felicidade.
Pergunto sobre o primeiro ano de vida e não aparece nada significativo no
referente ao sono Uá que uma criança ansiosa e com medo não dorme bem). Tampouco
foi um bebê vomitador (outro indicador de ansiedade). A fala, o andar, a dentição,
etc. apareceram normalmente. Não teve doenças além das habituais, não teve ten-
dência a acidentes nem intervenções cirúrgicas de importância.
Descartadas todas estas possibilidades que poderiam levar-me a pensar em
seqüelas traumáticas, começo a investigar mais profundamente o presente.

Eu: Me contem como é a vida de vocês, em termos gerais.


M: O meu marido trabalha o dia todo e volta à noite. Eu levo as crianças ao colégio.
Arrumo a casa. Cozinho. Estudo durante algumas horas, mas poucas por-
que já chega a hora de buscá-los e preciso levá-los o médico, dentista, enfim,
isso tudo. Na escola eles têm horário duplo (manhã e tarde). Dormem todos
no mesmo quarto mas como a filha mais velha já está com onze anos, estamos
pensando em procurar um apartamento maior.
Eu: Vocês têm observado algo relacionado com a masturbação?
Ambos respondem que sim. A máe descreve que ele têm ereções quando sai
do banho, então abre o robe e diz: "Olha mãe". Ela conta rindo e o pai continua
olhando muito sério. Pergunto se ele tem informação sexual suficiente. Respondem
afirmativamente. Todas essas conversas são mantidas entre o filho e a mãe. Inter-
rogo o pai e ele diz que não tem facilidade para dialogar e tampouco encontra o
momento oportuno. A mãe descreve Francisco como um .menino muito sapeca e
para exemplificar diz:
46 García Arzeno

M: Ele vem para a nossa cama para ver televisão. Gosta dos programas nos quais as
garotas aparecem com o bumbum de fora e fica tocando o pênis o tempo
todo.
A mãe ri, o pai sorri. Então eu penso que este menino cumpre uma função
nesse lugar e paga um preço: os medos.

Eu: Preciso perguntar-lhes uma coisa íntima: Como estão vocês sexualmente?
O rosto da mãe se transfigura. Fica séria e quase brava. O pai a olha, me
olha e cala. Finalmente ela diz: "Mal". E descreve uma situação na qual quando ele
a procura, ela não quer. Segundo as palavras dela: "Não é que ele não queira, mas
não sabe como me motivar."
Pergunto desde quando isto vem acontecendo e ambos concordam que antes
do casamento as relações eram muito satisfatôrias e que isso começou poucos anos
atrás. Pergunto se foi na mesma época em que começaram os medos de Francisco.
Ficam pensando. Parece que sim. Pergunto sem olhar diretamente para nenhum
dos dois (de propósito): "O que acontece quando o Francisco não está?" E a mãe
pergunta:

M: Francisco pai ou filho?


Eu: Esse é o problema. Eles têm o mesmo nome, o que confunde o menino. Vocês o
colocam na cama e causam uma confusão ainda maior. Os medos estão
relacionados com o sentimento de estar usurpando um lugar que é do pai.

Expliquei-lhes, mesmo assim, que gostaria de ter um encontro com o meni-


no e aplicar alguns testes para diagnosticar se os medos revelavam algum conflito
intrapsiquico que exigisse atenção individual ou se poderiamas conduzir tudo atra-
vés das entrevistas com os pais. Marcamos horários para o Francisco, fixamos os
honorários e nos despedimos.
Assim terminou esta primeira entrevista. Mas quero adiantar aos leitores
que embora o menino registrasse uma grande ansiedade persecutória e muitas res-
postas com monstros, sangue e explosões no psicodiagnóstico de Rorschach, assim
como também desenhos com personagens do tipo piratas, vampiros, bruxas, etc., o
excelente nível de simbolização e verbalização constante e adequada dos seus me-
dos permitiu obter uma melhora notável enquanto, paralelamente, trabalhava em
consultas quinzenais com os seus pais. Foram suficientes poucos meses para resol-
ver o problema do menino, que exigiu dos pais que lhe dessem um apelido para
evitar as confusões com o pai e deixou de ir para a cama do casal. Foi então possível
centralizar o trabalho na relação do casal até visualizar melhor a base do problema.
A indicação foi de psicanálise para a mãe devido a elementos histéricos que a impe-
diam de viver uma felicidade que se oferecia a ela sem reservas.
A Hora de Jogo
Diagnóstica Individual.
Enfoque Atual e Exemplos Clínicos

Os psicólogos clínicos que trabalham com crianças sabem que a primeira


hora de contato com a criança ou o púbere equivale à primeira entrevista que faze-
mos com o adulto.
Essa primeira entrevista com a criança é livre, assim como a do adulto, mas
existem diferenças entre elas. ~!to fala, geralmente sobre os seus problemas, e
quando fica em silêncio consegue to.!Q:!:]o melhor que a criança. Esta, na melfüír
das hipóteses, consegue dizer umas poucas palavras sobre o que está acontecendo
com ela.
Na entrevista prévia que tivemos com seus pais, combinamos que estes lhe
diriam o motivo pelo qual a levariam ao consultório, sem faltar à verdade, mas sem
detalhes profundos.
~~ É nesse ponto que se inicia o nosso diálogo com eles: ".YQ!'ê_s~ue s~s
___ __paisy ![~uxeramZ::, Se responder sim, nos dará uma pauta a partir da quãrjJOdO:-
o
mos iniciái- diálogo. Se sua resposta for negativa, deveremos resumir o que foi
falado com seus pais e o que combinamos que seria dito a ele. Às vezes as crianças
respondem com uma negação para provar se o que os pais lhe disseram equivale
efetivamente ao que nós estamos dizendo.
Eu, pessoalmente prefiro dizer: "Bem, se eles não disseram nada, diga você,
se quer a minha ajuda, e em que eu posso ajudá-lo". Alguns insistem no seu: "Não
sei". Outros, no entanto, usam essa porta aberta para iniciar um diálogo que pode
ser inesperadamente rico. Talvez nos cause surpresa que a criança inclua causas de
preocupação que nem foram mencionadas por seus pais. Por exemplo, os pais estão
preocupados porque seu rendimento escolar está caindo e ele conta que está preo-
cupado porque seus pais discutem muito e falam em separar-se. Este diálogo assim
iniciado dá oportunidade para continuar a conversa até um ponto em que as pala-
vras acabam, e, quando isso ocorre, é hora de apelar para outros recursos, outras
formas de linguagem muito apropriadas ao nível da criança e do púbere: a lingua-
gem lúdica e gráfica.
Seguindo o título deste capitulo, farei referência especial à linguagem lúdica.
Na história da psicanálise um ponto muito controvertido foi o da legitimida-
de de equiparar ou não o brincar da criança com a livre associação e os sonhos dos
adultos. Anna Freud considerou que isso não poderia ser feito, enquanto que outras
psicanalistas de crianças, lideradas por Melanie Klein, sustentavam que sim e cada
posição expunha as suas razões.

47
48 García Arzeno

Para a{prim~o jogo é uma forma de acting que em nada pode ser compa-
rado ao sonho ou as 1vres associações dos adultos. Para ~. pioneira da sua
utilização como técnica psicanalítica e em escrever os argumentos teóricos que sus-
tentavam tal posição, é a via regia ao inconsciente, como o são os sonhos nos adul-
tos.
Para Aima Freud, a análise de crianças diferenciava-se enormemente da dos
adultos por lima série de razões. A criança não possui consciência de doença, está
ainda presa aos seus objetos originais, não sente prazer nenhum em ser analisada,
as resistências são intensas e explicáveis, etc. 1 ~ei!J,..JlclQ_c;~~
é a lin uagem ti ica da crian a._ Qu_'!_ndo {~lta a l'ª\~vra, o. bJill"."f expr~
mesmo quando a palavra já tiver-sicfo i11çàfporada~~il)g__~_g~~J~i_c'!,é_mais ex-
_pressiva que a verbal O_!J.___e~__!lll~m_,-CQm_Jllem~~· Afir-
ma ijlréã~existentes entre a análise ae adultos e a de crianças restringe-se
a algumas questões técnicas como esta de brincar e interpretar a brincadeira ou o
jogo da criança mais do que as suas palavras.
Arminda Aberastury desenvolveu amplamente em nosso meio a posição
kleiniana3 e afirma que durante a m:imeirn_J1onu:l.l'.Jo@,_que ela chamou pela pri-
meira vez de hora de jogo diagnóstico, a criança expressa. as suas fantasia.,,ge._ç!Qen-
ca e cura. Nem sempre isso ficará claro elli-Uma hora; às vezes descobrir tais fantasias
pode levar duas ou três horas; mas não há dúvida de que estarão presentes. Mais
adiante darei alguns exemplos.
~ outra autora argentina, publicou um artigo•_ no qual acrescenta
outro con_ceito: ~fantas.ia..dall_nálê\:.· De forma que, na hora ou nas horas de jo$.'?----,
cITagnóstiCãS--e"Speramos encontrar as f~ntasias que a criança nos transmite:r~~!/
sobre aquilo que está lhe fazendo mal; (2J) sobre o que lhe faria bem para melhoràt;
(3) )obre o que nós vamos fazer a ela ou o que ela quer ou teme que nós façamos.
'~-- ' Ela também vai nos transmitir toda a sua vivência da relação com seus
irmãos, com colegas de escola, com sensações diante do seu desenvolvimento fisico,
etc. Ou seja, nem todo o material colhido em uma hora de jogo será considerado
exclusivamente como expressão de fantasias inconscientes, assim como, atualmen-
te, nem todo o material de um paciente adulto é interpretado desde e na transferên-
cia, mesmo que guarde alguma relação com ela.
Se eu comparar minha própria atitude atual com aquela que eu mantinha
durante uma hora de jogo há vinte ou vinte e cinco anos, noto uma grande diferen-
ça: não estou mais esperando que apareçam os sinais ou reações citadas por Klein,
Aberastmy ou Baranger. Estou observando aquilo que eu vejo. Não sou mais uma
principiante e não estamos mais na época da idealização quase dogmática da teoria
e técnicas kleinianas.
A escola francesa fez também as suas contribuições.~ Francoise Dolto nª2_
usa o jogo,_J1la_s_ someµte a moclelagem e o_cies_enho',_ Maud Mannoni incorpora ma-
- teria! -do brincar à entrevista diagnóstica com os pais quando a criança está presen-
te e fica atenta ao brincar da criança paralelamente ao diálogo com os pais'. Outro
tanto faz Winnicott desde um esquema referencial muito diferente, também diferen-
te do kleiniano'.

1. Freud, Anna. Normalidadee y patolofia eri la niftez. Buenos Aires: Paidós, 1975.
2. Klein, Melanie. "La técnica psicoanalítica dei juego: su históiia y su significado", em Contriliuciones al
psicoanâlisis. Buenos Aires: Paidós, 1964.
3. Aberastury, Arminda. Teoria y técnica en psicoanâlísís de nifios. Buenos Aires: Paidós, 1977.
4. Baranger, M. ob. cit.
5. Dolto, Françoise.ElcasoDominique,SigloXXI, 8.ed., 1986.
6. Mannoni, Maud. La primera entrevista con el psicoanalista. Buenos Aires: Granica, 1973.
7. Winnicott, David W. Realidadyjuego.Barcelona: Gedisa. 1979.
Psicodiagnóstico Clínico 49

Assim, .o~vimento da p~ic_a_n<íli§e_il.!' çrianç~s_t':_ .'! _surgi!llt:_nto de di-


versas es_colas provocaram_ nõprofÍSsional um,efeito positivo: p_!]de observar com
_·uma atenção mais flutuante, tal como recomendava Freud, para registrar a mensa,
_::gem da:éi-í_;i11ç'!.-8.l'j'l esta qual for, sem ficar enclausurado no que aparecerá na sua
fantasia de doença,_ por exemplo.
-- Outro- conceito de $k:ip8 é o de que toda hora de jogo expressa uma fantasia
masturbatória. Refere- a que o brincar transmite algo que está no fundo do in-
consciente da cri , que tem relação com a cena primária, e a natureza desta vai
depender 1vel de desenvolvimento das relações objetais no qual ela se fürnu.
_antasia masturbatória signifl!'-ª-1aaj_ªsia cl_e_que_el)Íie_u_ma coisa e outra
~~to primitivo será entre dois obje~e
sadicamente tentam chupar-se, morder-se, aplastar-se, aniquilar-se. Se o nivel for
mais evoluído, típico da posição depressiva (e não da esquizóide-paranóica como no
exemplo anterior) são dois objetos completos e diferentes: mamãe e papai, entre os
quais algo acontece, um dá ou faz alguma coisa com o outro e vice-versa, mas
predominantemente com amor e não mais com o sadismo máximo da primeira eta~
pa.
~Suponhamos que um menino de três anos chega, anda em volta da caixa, a
esvazia, senta-se dentro dela e nos olha dali com olhar de satisfação. Poderemos
j_
e1;'/ inferir que está dizendo como ficaria feliz se pudesse voltar a barriga da mamãe e
viver desde esse lugar toda a sua vida, evitando, também, que aparecessem
irmãozinhos. Meu primeiro impulso serta perguntar à mãe se está grávida. A fanta-
sia de doença dessa criança serta: "Adoeci porque me tiraram de dentro", a fantasia
de cura e análise seria "Quero voltar para dentro, você me ajuda?", e a cena prima-
ria ou masturbatória seria a dos pais em cópula constante, de modo que a única
forma de evitar o aparecimento de irmãos seria estar dentro controlando tudo o que
acontece e tentando impedir a fecundação.
Se numa s~~~ essa criança bate com dois carrinhos repeti-
damente, logo após olha com atenção a parte inferior ou o interior de cada um deles,
os enche de massa de modelar para depois tirá-la com uma faca ou uma espátula e
finalmente corre para o banheiro para lavar as mãos, eu ficaria completamente
segura quanto às minhas hipóteses da prtmeira hora. Agora acrescentam-se defe-
sas obsessivas (lavar-se) como complemento do que já havia sido observado antes, o
que significa que não é tão fácil ocupar a posição da primeira hora, pois tem que
carregar culpas que tenta evitar com rituais obsessivos (se o ato de lavar-se é repe-
tido a toda hora) o que pode ser o motivo da consulta.
P~o~em_E_lo. É uma menina de cinco anos que entra, olha
para a catxa de-jogos, não-a toca: l1Cã o mais longe possível e vai para baixo do divã
cobrindo o rosto com as almofadas, mas deixando uma fresta através da qual me
espia. Posso pensar que a caixa seja a barriga da mãe, cheia de coisas que a assus-
tam e da qual ela precisa se afastar bastante para não receber os efeitos do que ali
ocorre, mas não tanto (se não, poderia ter ido embora) a ponto de não poder ver o
que ali ocorre. A cena primária é sádica porque seu rosto é de susto e porque não
pode brincar; a fantasia é de que está ocorrendo algo perigoso e sanguinário, por
isso ela deve se afastar. E a fantasia de análise é a de que eu também posso ser
sanguinária assim e deve afastar-se, proteger-se e me espiar. É lógico que ela proje-
tou na caixa e em mim tudo o que ela têm em seu interior, e essa mãe sádica
também é o resultado de seus ataques sádicos à mãe que teve outro bebê tão cedo (o
irmão está agora com três anos e meio). Esconder-se é também uma medida de
proteção porque ela é culpada, e o fato de me espiar mostra que teme que eu a

8. Klein, Melanie. ob. cit.


50 García Arzeno

castigue, não porque eu seja sádica, mas porque ela cometeu um crime e merece ser
castigada por alguém. Suponhamos que ela tenha escutado que a mãe quer engravidar
novamente e não consegue. Esse fato, então, explicaria tudo. Estes exemplos foram
eloqüentes e de leitura fácil. Mas nem sempre é assim. Algumas vezes a criança
chega muito na defensiva e isso é tudo o que conseguimos observar. Talvez escolha
trazer um brinquedo a pilha e brincar sozinha sem dar atenção à nossa presença.
Nesse caso teremos que dizer-lhe isso e esperar a sua reação. Se continuar com a
mesma atitude, poderemos lembrá-la do motivo pelo qual, segundo seus pais, teve
que vir até aqui e pedir a sua opinião. Possivelmente assim comece a ligar para nós.
Mas se continuar com a sua brincadeira solitária e o nosso registro contra-transfe-
rencial e de que "nos mata com a sua indiferença", já poderíamos interpretar que
não sente que tenha problema algum, que não precisa de nós para nada e que pode
se virar sozinho. Mas se nos olha furtivamente enquanto brinca e olha para a caixa
de brinquedos fugazmente enquanto continua com o seu brinquedo poderíamos
dizer-lhe que preferiu trazer um brinquedo conhecido de casa, para que lhe servisse
de companhia, pois não sabia o que nem com quem iria se encontrar, mas que aos
poucos irá se acostumando e poderemos conversar. Na primeira situação estamos
verbalizando a sua resistência; na segunda, a sua desconfiança.
Sei que se perguntarão se cabe fazer essas interpretações já na primeira
hora de jogo diagnóstica. Essa era outra premissa sagrada alguns anos atrás. Era
quase proibido interpretar em uma primeira hora diagnóstica. Atualmente, temos
um papel mais flexivel, principalmente para reparar o vínculo desde o início.
~o1;9n:erifLse .ficJ:>s.ernos observando p_assil'arn_\'.nte até o fin~ con-
~ulta aquela criança que nos "mata" com a sua indiferença? Poderia ser assim, mas
lfiêilfnamos então que na próxima vez vamos pedir que ela faça uns desenhos e que
invente umas histórias, deixando então mais aberta a comunicação para o próximo
encontro. Se colocarmos a nossa opinião, como falei antes, na realidade estaremos
descrevendo aquilo que estamos vendo e o que achamos que está acontecendo com
ela. É quase um assinalamento, mais do que uma verdadeira interpretação. Çom as.
nossas in_tervenções poderemos aliviar a sua angústia diante de um Jlrime.irlLencon-
trôT~ssivelmente acabe. deixando o seu brinquedo para ap~ox~ma~
para iniciar um outro jogo. ·
'-)Creio que estas intervenções contribuem para manter o "I:l!jljlill:I:", principal-
mente levando em consideração que a criança deverá voltar para continuar com os
testes.
Não quer dizer que "deve" brincar. Essa concepção é uma interpretação gros-
seira da teoria psicanalítica do jogo como técnica de estudo da personalidade e de
terapia. Há silêncios eloqüentes como os dos adultos, há momentos de inatividade
que não significam passividade, assim como há muitas conversas que não podem
ser consideradas como comunicação e atividades que tampouco podem ser conside-
radas como tais.
Um paciente pode chegar e contar tudo o que fez na escola como se estivesse
simplesmente relatando um noticiário, carente de qualquer emoção. A nossa
contratransferência será de falta de aborrecimento. Esse é o sinal de que esse "blá-
blá-blá" serve somente para encobrir o silêncio e deixar-nos confusas. O mais opor-
tuno seria interrompê-lo e dizer-lhe: "Bem, agora vamos falar do motivo que traz
você aqui, o que acha?"
Alguém comentou comigo em certa ocasião que teria entendido que a primei-
ra entrevista com o paciente devia ser livre e projetiva e o profissional não deveria
falar durante 45 minutos, após os quais poderia começar uma entrevista mais
estruturada. Considero que se o paciente falar todo esse tempo podemos escutar
sem interrupção nenhuma, mas se ele permanecer calado, essa postura será insus-
tentável tanto para ele quanto para o psicólogo. Essa indicação é uma má interpre-
Psicodiagnóstico Clínico 51

lação do que seria uma atitude não intervencionista, não interferente, para recolher
a produção espontãnea do paciente.
Se essa é uma situação violenta com um adulto. muito mais o é com uma
criança. A sua angústia pode chegar a limites intoleráveis. chorar insistindo para ir
embora ... e não voltar.
--:>o papel do psicólogo na hora de jogo diagnóstica é o de um observador não
participante,JYlas ess_a_não Pª-r1Jc_ipgtç_ão tem um limite. Existem crianças que ao
chegar já solicitam que façamos alguma coisa com elas. Essa pode ser a forma que
elas encontram para manter-nos entretidos porque temem que possamos fazer-
lhes algum mal, uma sedução por motivos mais ou menos semelhantes, ou então,
uma verdadeira forma de buscar contato. Como negar-lhes esse contato? No máxi-
mo tentaremos que a criança marque na folha de respostas para não misturar as
nossas projeções com as suas. da mesma forma que faríamos em uma hora tera-
pêutica.
Isabel Luzuriaga' dizia que havia decidido não mais brincar com seus paci-
entes, somente falar. Mas referia-se a casos nos quais a interpretação verbal do
analista ficava anulada pela outra mensagem não verbal do jogo. Isso pode aconte-
cer, mas não concordo com as suas conclusões taxativas. O que considero, no en-
tanto, certissimo em seu trabalho é o cuidado que devemos ter para não cair em
contradições tais como dizer à criança que está tentando nos distrair e, ao mesmo
tempo. ficar presos pela curiosidade de olhar durante vários minutos o caderno de
aula que ele nos ofereceu ao chegar.
Responder ao pedido de brincar é fi1ncjonar como Ego auxiliar da criança; é
responder com a mesma freQ.Dência de....onda-q.ue_nõ.s_mesmo_s....PJ:Q.JlUSemos para à
-- nossa comunicacão. Se não, para que então colocarmos brinquedos sobre a mesa,'
que serão vistos pela criança?
Quero agora chamar a atenção brevemente para algo que geralmente ocorre
e interfere muito na comunicação com o paciente:
Refiro-me ao fato de fazer anotações durante o transcurso da sessão. seja ela
diagnóstica ou terapêutica. O ideal é não fazê-lo. Podemos em todo cas 0 anotar
algum item, algum detalhé, algum_sroqll,i _gu~ __n_o_s_.P!.f!:!lil_a,.Q.~Q~S.Ql!§,llii}I__ a
seqüência complet.~.:--.,
• ~:;;. sicólo o anotando minuciosamente tudo o que a criança faz torna-se
persecutório, istrai tanto a criança como a si mesmo e provoca outras reações na
criança (ou adolescente e, inclusive. nos adultos). como, por exemplo, rivalidade se
eles não sabem escrever ou não o fazem tão rapidamente quanto nós, intriga se não
entendem a nossa letra, te_ntação de_tr_apsfQrl!lªI-ª _s_e_&S-ão_em_uma..auJa __esc:ol?r,
favorecendo assim as resistências, ou então em um escritório no qual somos a sua
secretária e ele nos dita o que devemos escrever. _..
Mesmo no momento da administração dos testes deve-se cuidar desse deta-
lhe. escrevendo sem deixar de observar o paciente e sem cair no exagero de parecer
uma taquigrafa.
Atualmente. com tantos avanços técnicos. o uso de u_m gravador para facili-
tar esta tarefa já não perturba tanto como há alguns anos. Mas na hora ou nas
horas de jogo diagnósticas individuais prefiro não usá-lo para não introduzir variá-
veis que interfiram no campo a ser observado.
Nos casos de crianças muito pequenas. digamos, menores de três anos, é
aconselhável não somente não distrai-los com o nosso papel e o nosso lápis, mas
devemos também estar dispostos a brincar perto delas, talvez no chão ou em uma
cadeirinha pequena para ficar ao seu alcance.

9. Luzurriaga, Isabel. La lucha contra la interpretación en e! anãlisis de niõ.os, Revista Argentina de


Psícoanálisis, t.XXX, n2 3/4, 1973.
52 García Arzeno

Quando ainda não sabem falar devemos comunicar-nos com elas através da
brincadeira ou jogo e de algumas palavras simples que possam captar claramente.
Nestes casos é bom lembrar o que escreveu Rodrigué 10 sobre a interpretação lúdica:

~
Poderíamos dizer que a criança é mais poliglota que o adulto ... Acomunicação verbal é
linear... A comunicação infantil não é linear... acontece freqüentemente que a criança está falan-
do e brincando, além do n1ais nos deu uma tarefa e um papel complementar que de alguma
forma se integram com a sua própria atividade.

Fala de uma atenção lúdica mais que flutuante no trabalho com crianças, no
sentido de um estado mais ativo do analista. O que ele chama de "interpretação
lúdica" é uma maneira original de comunicar à criança o que pensamos e pode ser
de muita utilidade com os pequenos (ou grandes) não falantes. Diz:

A interpretação lúdica começa com o contato direto e sensorial con1 o material. .. cstã
orientada do n1cio de expressão não verbal e plástico para a comunica.ção verbal ... Consta de dois
tempos: no prin1eiro o analista inlita o jogo da criança e no segundo transmite verbalmente
aquilo que con1prccndcu, mas fazendo uso complementar dos meios não verbais que a criança
empregou.
\
Suponhamos que a criança monte uma torre, a destrua e nos olhe assusta-
da. Nós podemos. então, montar a torre, destrui-la e ao mesmo tempo dizer-lhe:
~~"Menino se assusta quando destrói; acha que é mau". "Menino bom não destrói".
ç ;" "Menino mau destrói". Mas se repetirmos o seu jogo e nós também o destruirmos, e
\\) não fizermos cara de bravos quando ele o destrói, vai entender que estamos inter-

pretando que a sua atividade motora não é ruim, pois se fosse, nós não o faríamos.
Nosso olhar afetuoso reafirma a idéia de que não nos zangamos. Se ele sentir alivio
e começar a rir, serâ um sinal de que com uma boa orientação a seus pais, certa-
mente muito caprichosos e obsessivos, estará resolvido o problema. Mas, se obser-
varmos que ele se angústia mais ainda, chora e se agarra à mãe, indicaremos a
necessidade de tratamento pois existe um conflito intrapsíquico.
Geneviéve Rodrigué escreveu um artigo muito interessante no qual faz a
equivalência da caixa de brinquedos da criança com a "caixa" de fantasias do adul-
to". Ela foi outra das pioneiras da psicanálise de crianças na Argentina, junto a
Teresa V. de Grinberg. Dora Faigón, Raquel Soifer e tantos outros.
Citarei um artigo de R. Grinberg 12 que pode ser de utilidade para incluir uma
atividade lúdica no psicodiagnóstico. Refim:mL~QjQgo_d.e construir casas. também
usado por Arminda Aberast1J!J'.1.'.__0.Ji20 de construção,_ como_tJu!lbém os comentá--
. rios da crianç.a~p.ossuem um_g@nde valor_ diagnóstico. O material consiste em um
tabuleiro com orifícios nos quais são colocadas varetas de alturas diferentes com
ranhuras para colocar porias, janelas e teto. Este material pode estar integrando a
caixa de brinquedos ou ser introduzido pelo psicólogo quando considerar oportuno.
Cabe assinalar aqui que é conveniente colocar material variado ao alcance
· da criança. sobre uma mesa, e deixar a caixa próxima a ela, aberta, com o restante
"'"-.,do material. Esse material deve incluir alguns brinquedos: xicaras, pires, carrinhos,
··.· · ·' índios e soldados, animais domésticos e selvagens. etc., como também material não

10. Rodrigué, Emilio. "La interpretación \údrica: una actitud bacia el juego~, El contexto del proceso
analítico, Buenos Aires: Paidós, 1966.
11. Rodrigué, Geneviéve. "E! cajón de juego dei nino y e! "cajón~ de fantasias dei adulto" emEl contexto del
processo analilico.
12. Grinberg, Rebeca. "Evolución de la fantasia de enfcrmedade a través de la construcción de casas~.
RevistaArgentinade Psicoanálisis, t. X:V, n2 1-2, 1958.
13. Aberastury, Arn1inda. Eljuego de construir casas, Paidós.
Psicodiagnóstico Clínico 53

estruturado tal como papelão, papel, barbante, isopor, madeirinhas, cubos,


ganchinhos, etc.
Sendo a mesma caixa que usaremos durante a entrevista familiar diagnósti-
ca, todos os membros encontrarão algo de seu interesse. 1\.._Jl!:,senç~
.lrriRquedoa_limi~.r.eeJn[anti.Le_g_ dos pais se este§SQ!l..si<.!l:l:ID:!!L~
~rn-eJlk_a'l__C_Ijal}ças brincam. Isso, por si só, já se constitui em um elemento diagnós-
tico, mas se o pai vêquená elementos próprios para construir alguma coisa e não o
faz, teremos mais certeza das nossas conclusões, do que se os pais só tiverem sido
expostos ao contato com carrinhos e bonecas. Nem todos os adultos aceitam a re-
gressão implícita na atividade lúdica e tudo vai depender de como foi a passagem,
'>l durante a sua infância, pelo que Winnicott chama de "fenômenos transicionais" 14.
ct Para facilitar o surgimento de reações de todo tipo e nível é conveniente
/,(- \trabalhar em uma sala que não seja o consultório dos adultos. E preferivel um lugar
";iw..i.'" ~Q.-.'~~ com piso e paredes laváveis, com uma mesa comum e outra mais baixinha, cadeiras
_rei' r/'-"0" comuns e uma ou duas pequenas e um divã ou um conjunto de 'almofadas espalha-
')f1 Sf.\~'V das.
Alguns profissionais incluem um quadro e giz que possibilita a expressão de
fantasias, desejos e temores, especialmente daquelas crianças que entraram no pe-
ríodo de latência ou aquelas que trazem como motivo manifesto da consulta as
dificuldades de aprendizagem.
Água, paninhos, um copo, uma toalha, fósforos e um banheiro próximo po-
dem ser imprescindíveis, por isso é conveniente ter todos esses elementos à mão e o
banheiro disponível e sem objetos pessoais ou frágeis que a criança possa estragar.
Quando a criança propõe brincar com fogo ou quando quer sujar ou molhar,
prefiro sugerir que trabalhemos na cozinha (preparada para isso) ou no banheiro,
pois nesse lugares será mais fácil limpar a sujeira ou apagar o fogo que, além do
mais, fará menos dano se lhe indicarmos que o faça sobre um piso de lajota que
sobre um de madeira, ou dentro da banheira e não sobre a mesa, mesmo que esta
seja de fórmica.
~ .lleJ:!!J:a-<le_JJm-aunário_ perman~guar~~
-~e _n~~a criança e mília as exami ·v
~sse Yambêm é um elemento im ortante nquad e · · ica e prometemos
-ll~Sliilàl...Jlão-~ interferência.d~~
1 indivic]ualidade assim como nes e momento n - eles to uem o que
. nac(lhes pertepce.
"-----------NOjlriffieirO contato com os pais, ou seja, durante a primeira entrevista,
faremos perguntas sobre as diferentes áreas da vida da criança. Uma dessas áreas
a serem exploradas é o seu temp.o_livre,_o.. f de brín e com em. Se
existir um material que seja de sua especial preferência, podemos inclui-lo no mate-
rial da caixa ou, dependendo do que for, pedir á mãe que o traga quando vier com o
filho para a hora de jogo. ~- rsinho de e ·eia a
boneca que sem re a acompanha. d~-~-idaiis~,~~~'ji~~Eci~~t';~:~~
v-- 1 a 1 ico , · um "ob·,e.t-e , ue é o ue a à-lo a
_separar-se~e~~~
' ~ alguns casos a fIXaÇãO patológica a essa etapa do desenvolvimento trans-
forma esse brinquedo em um objeto contrafóbico, ou em um fetiche. O diagnóstico
diferencial é feito tendo como base o uso do brinquedo e do papel que a criança lhe
confere segundo o seu próprio relato, segundo o que foi comentado pelos pais e
segundo o que nós observarmos quando o traz na hora de jogo.

14. Winnicott, David D., ob.cit.


54 Garcia Arzeno

Por exemplo, se na segunda enti:el'ista, quando começaremo_s a aplicar os


testes, ·a~ch~--p.--ç~_ yºga e_()~ o_ mesmo brinq:u_etjo _e . não o solta. em~nenhum_!Ilomento,
paqeriinos pensar que a função atribuída é mais a_ de um amuleto que__!llªgi_camente
a_ ])LOJege. -se,-iio -eiifanto~ não o traz, ou o traz mas o deixa sobre uma mesa e se
dirige ao lugar que lhe indicarmos para trabalhar. o diagnóstico inclina-se mais
para o de objeto transicional. O material da hora de jogo e dos testes projetivos vai
dar-nos mais elementos para um diagnóstico mais claro sobre essa conduta e a sua
relação com o motivo manifesto da consulta.
Em certos casos. é conveniente incluir brinquedos ou materiais que estejam
relacionados com o conflito da criança para ver quais as associações que surgem.
Assim, por exemplo, se o motivo de uma consulta for a intensa rivalidade de uma
n1enina com a sua irmã, incluiremos duas bonecas; ou se o motivo for o pavor de
um menino por um animal, o incluiremos junto aos outros para ver o que faz com
ele.
Tudo o qne vjer a acont.e.c.eLna_hnra..._clf!_.jogo~é_signill.catiYo. lncli1sjve o que
acontec~__Q§_ p_ais,.Suponhamos que se trate de um,meriino _de<j11i.ftro >moDjue
·naoqu1s que a mãe fosse embora e ela o está aguardando em_ outra sala. De repente,
ela entra na sala em que nós estamos para dizer ou oferecer algo ao filho ou a nós.
Trat~a_ju_terferência, de um acting, se previamente havíamos esclarecido
OeVidamente que ela esperasse em outro lugar. Mas atualmente sabemos que tam-
bém um acting expressa algo muito importante, já que o impulso inconsciente deve
ser muito forte para fazer fracassar o controle consciente de uma pessoa adulta e
provocar a quebra de uma regra. Se ela entrar para oferecer-lhe um lenço que não
é imprescindível e então a criança romper em pranto pedindo-lhe que fique junto
dele, podemos p_ensacque__é__a_mãe-quem nã_<J_ consegue separar:§J~__do filho (em seu
prolongamento narcisístico): a criança percebe isso e responde agarrando-se a ela
com maior intensidade. Se seu choro for_muito angustiado podemos_JJ_ensar que se
deve ao medo de ser abandonada se ousar ficar separada dela; percebe il}_co~n­
temente a hostilidade dela e a su_a_p!"2P_rj'!,__ ~~ª ~ulpa e o temor_ da retaliação expli-
cam o ·seu desespero. Em um caso extremo que recordo, aconteceu algo semelhante,
mas a criança pediu à mãe que a pegasse no colo, deixou de brincar. negou-se a
continuar comigo e pediu para ir embora. Compreendi que a entrevista havia chega-
do ao fim e o meu diagnóstico de uma simbiose profunda já havia sido feito.
Em outra ocasião, com um §enino de cinco ano]', _E.!]12US que uma vez fosse
_tgzicJ9__2!'.la. m_ãe e esperasse em outra sala, e uma segunda vez _o pai e fize~e a
mesma coisa. O objetivo era observar se havia reações diferentes conforme quem
-~e-stiVesse na outra sala. ·§uando-v.eio com_J!_!!!fil:, o menino brincou tranqüilo, mas ia
a todo momento mostrar-lhe algo ou fazer algum comentário. Qu.ando veio com o_
l!fil, que ficou lendo o jornal que havia trazido, o menino não repetiu essas saidas do
consultório, até que em certo momento ouvi barulho na porta de entrada do consul-
tório e, bastante preocupada por não estar entendendo o que estava acontecendo e
por que o pai havia aberto a porta sem a minha autorização, fui verificar. Para
minha surpresa ví que era a m.i\~_djz_~ndo: "1'?.t"'0_ passando por aqui e resolvi vir".
O menino não suportou a idéia de que o pai e a mãe estivessem juntos e ele sozinho
em outro lugar, com uma estranha. Correu para seus pais. e decidi dar por termina-
da essa entrevista dado que o meu objetivo havia sido frustrado. _A mãe mostrava
_surpresa diante do meu enfoque e_ iI1si~_ti_a_u_a in0_cência da sua atitude. Como esse
menino tinha dOis irmãozinhos, convoquei a família inteira para a entrevista se-
guinte. Durante a mesma a mãe sentou-se no chão à minha frente. mas de costas,
de forma tal que eu não conseguia observar grande parte da seqüência do jogD que
entabulou com as três crianças, deixando também o pai de fora. Ficou óbvio que
essa senhora não deixava que nem o pai nem eu estabelecêssemos um bom vínculo
com esse filho, do qual não conseguia separar-se e ao qual superprotegia. O pai
Psicodiagnóstico Clínico 55

também não se esforçava muito para recuperar o filho pois haviam combinado que
ela não tocaria no porteiro eletrônico para anunciar a sua chegada, "para não inco-
modar", e haviam acertado: que a uma hora determinada ela subiria e ele abriria a
porta do consultório. Em conclusão, eu sofri uma sabotagem na minha tentativa,
por ambas as partes e não só pelo lado da mãe. Como é de se supor, foi bem dificil
transmitir tudo isso na entrevista de devolução, já que ela insistia na inocência da
sua conduta e taxava as minhas colocações de rigidas demais. Partiram sem nenhu-
ma convicção no meu diagnóstico, pois na realidade esperavam que eu suprimisse o
sintoma (fobias) sem mexer em nada dessa dinãmica familiar.
Em outras ocasiões encaramos situações nas quais um irmão ou uma irmã
da criança vem junto e chora desesperadamente porque quer entrar também. A
nossa reação vai depender de cada caso. Se soubermos pela história prévia que esse
irmão não tolera que a criança tenha alguma coisa própria e sempre o quer para si,
tentaremos fazê-lo compreender que essa hora não é para ele e que terá uma hora
em que virá com toda a familia. Se isso nos pega de surpresa, lhe perguntaremos
por que deseja entrar, qual é o seu problema, pois aqui vêm as crianças que têm
alguma dificuldade. Perguntaremos também à criança que veio consultar o que
pensa sobre essa vontade do seu irmão. Ela pode tanto opor-se totalmente quanto
aceitar a entrada do irmão. No primeiro caso, respeitaremos a negativa da criança;
no segundo transformaremos a hora individual em vincular, mas deixando claro
para o visitante inesperado que da próxima vez queremos uma entrevista com o
irmão a sós. Isso permitirá observar se é um caso de simbiose ou de rivalidade e
ciúmes entre ambos. A insistência dessa próxima entrevista a sós deve-se à neces-
sidade de observar a criança sem o seu acompanhante contrafóbico, sem uma me-
tade de seu "self' ou sem um rival.
Algumas vezes teremos a surpresa de ver que o visitante inesperado nos traz
um material de grande importáncia para entender a situação.
A imensa gama de possibilidades torna impossivel esgotar aqui os comentá-
rios sobre todas as circunstâncias possíveis.
--/\Em algumas ocasiões não colocamos a hora de jogo individual no inicio e sim
mais adiante dentro do processo psicodiagnóstico. Por exemplo, quando a criança
se nega a brincar. Isto pode acontecer com crianças de qualquer idade com sérias
inibições ou com púberes que se recusam a desempenhar uma atividade lúdica por
ser "coisa de crianças". Nesses casos, podemos começar com os testes e só depois
voltar à caixa para ver se haveria alguma coisa com a qual gostaria de fazer algo.
Podemos decidir também que após a entrevista com os pais faremos a entre-
vista familiar diagnóstica, deixando a individual para depois, principalmente nos
casos em que ficarmos com sérias dúvidas sobre quem realmente sofre o conflito e
qual o papel desempenhado pelo resto da familia na suposta patologia do paciente
identificado.
Em algumas ocasiões decidi fazer o estudo individual de duas das crianças
da mesma familia, esclarecendo que isso era necessário para esclarecer dúvidas. E
impossível suprimir o estudo do paciente identificado pois ele aceitou vir e foi assim
designado por algum motivo. Mas pode ser necessário incluir o estudo de outro ou
outros membros do grupo familiar para compreender melhor a situação.
Em outros casos, a hora de jogo individual transforma-se em uma hora
exclusiva de desenho. Esses desenhos são essenciais para o estudo, mas, se decidir-
mos que é imprescindível saber o que ele fará se não desenhar, poderemos propor
que na próxima vez lhe daremos novamente a caixa de brinquedos eliminando o
papel e os lápis, dizendo-lhe por exemplo: "Já vi como você desenha e depois fare-
mos mais desenhos; agora gostaria que você tentasse fazer algo diferente, o que tem
vontade de fazer?"
56 García Arzeno

-i>É muito importante moderar a mobilização de angústi"Jl'lc hora de jogo, pois


geralmente continuaremos depois com os testes e deveremos ~er um bom
"rapport".
Se chegarmos a um ponto de muita angústia ou a um "impasse" poderemos
buscar uma saída dizendo-lhe. "Bem, o que acha de fazer alguma coisa diferente?"
Geralmente a criança concorda. Às vezes resolvo levá-la para o consultório de adul-
tos e começar ali com os testes, para dissociar claramente as duas situações e para
ajudá-la, aceitando que tudo o que a angustiava ficou na outra sala e que tempora-
riamente tentaremos deixá-lo lá.
Devemos lembrar que o registro contratransferencial é tão importante quan-
to o simbolismo do material que a criança (púbere, adolescente ou adulto) produzir.
[ E é também importante quando se trata de decidir sobre a colocação de limites.
A esse respeito, gostaria de citar um artigo de Raquel Soifer 15 sobre a coloca-
ção de limites, que permanece muito atualizado. Quero remeter os leitores a esse
artigo e somente resumirei algumas das suas idéias: Qê. psicanalistas de crianças
_con_cordam e1n que não se dev_e deixar_gue a criªDça (é valido também para o adoles-
cente e o adulto psicótico ou psicopata grave) c_<1_use algum dano que ela própria não
___gossa solucionar. Por exemplo, quebrar um vidro, o pé ae uma mesa, atacar-nos
fisicamente e machucar-nos, deixar-nos sem condições, em suma, de continuar
trabalhando.J'lão_.§.edeve, tampouco, aceitar papéis atribuidos p_ela criança que
signifiquem sedução, submissão masoquista, etc. --- -- --- -- ---- -
Em certa ocasião, foi feita uma pesquisa sobre certos assuntos e foram con-
sultados psicanalistas de crianças de muito renome naquele momento 16 • Remeto os
leitores a esse trabalho, mas vale a pena resumir aqui o essencial: não é permitjdo
seguindo a regra de abstinência de S. Freud, assumir papéis _qJlf..1!_crianca (ou
-adolescente ou adulto) nos atribua e que impliquem uma atuação..da.~cia
agressiva OU erótic0c, JlOiS(SSO perturba O sentido da situação an_;ili_\i_c_a A meSiiia
postura aplica~"-' à situação diagnóstica.,
~--suponhamos que um menino de quatro anos nos pede para abrir a sua
braguilha para fazer xixi. Geralmente a minha resposta é: "Essas são coisas que as
mamães fazem; pede a ela ou tenta fazê-lo sozinho". Somente quando a mãe não
está presente e observo que ele realmente não pode e a angústia é evidente, abro o
primeiro botão e digo para ele continuar, que vai conseguir., Se a criança é maior não
concordo de maneira nenhuma e interpreto ainda, mesmo que seja durante o
psicodiagnóstico, tanto a dependência como o desejo de que eu coloque a minha
mão nos seus genitais. Pode acontecer que algumas mães enviam o menino ou a
menina com uma roupa complicada que realmente excede aquilo que ele ou ela
poderiam dominar com as suas próprias mãos. Nesses casos faço a primeira parte,
deixando para a criança a tarefa de continuar a operação após ter sido transposto o
primeiro obstáculo .
.Em_ relaç_ão às condutas agressivas, tais como sujar ou estragar, devemos
deixar fazer até o ponto em que possamos nós mesmos consertar o objeto danifica-
do. ~ar exemplo, podemos aceitar que suje uma parede de azulejos, mas não uma
que não possamos lavar facilmente, podemos aceitar que rasgue papéis, giz, lápis,
mas não a cadeira na qual logo após deverá sentar outra criança; podemos jogar
bola, sempre que a criança aceitar não quebrar o abajur ou os vidros da janela com
ela. Nem ele nem nós poderiamas consertá-los para continuar com o nosso traba-
lho. Esse é o critério para a aceitação ou não de uma proposta de trabalho feita por

15. Soifer, Raquel. "La puesta de limiles en e\ análisis de niõos", Revista de ASAPPIA {Asociaciôn Argen-
tina de Psicologia y Psiq_uiatria de la lnfanciay Adolescencia} aõo 1, ne 1 /2, 1970.
16. Grinberg. Rebeca V. de; Faigon, De\ia y Soifer, Raquel. KConceptos actuales sobre psicoanãlisis de
nifl.os en el grupo argentino", ReuistaArgenânade Psicoanálisis, t. XX.V, n. 2, 1968.
Psícodíagnóstíco Clínico 57

uma criança. Nesses casos é necessária uma colocação severa dos limites: a sua
aceitação ou a sua recusa é também um elemento diagnóstico muito importante.
Quando os pais estiverem presentes e a criança fizer algo perigoso ou danoso, serão
eles os que, em primeiro lugar, deverão colocar os limites. Se não o fizerem, já tere-
mos uma informação muito valiosa. Se o fizerem, observaremos quem e como o faz.
Em uma ocasião foi a filha mais velha quem resolveu colocar limites nas
atitudes de um dos irmãos, enquanto os pais observavam a situação impassíveis.
Tudo isso se constitui em informações de grande valia para as nossas conclusões.
No caso de nenhum dos membros da família colocar um limite necessário, isso
deverá ser feito pelo profissional.
Às vezes ocorre o inverso: alguns pais insistem em que não se pode usar cola
plástica porque vai sujar, nem desarrumar demais o consultório. É importante,
nesse momento, assinalar que isso não tem importância, sem insistir demais, pois
essa reação mostra que eles se angustiam com a conduta tão solta do filho ou dos
filhos. Mas enquanto essa não chegar aos limites intoleráveis mencionados anteri-
ormente, deveremos permanecer como observadores e ver as reações tanto dos pais
como dos filhos.
Às vezes, os pais insistem em que a criança precisa guardar tudo antes de ir
embora, como se estivesse em casa ou na escola. Pessoalmente prefiro que deixem
tudo como estava, porque isso vai me permitir uma melhor reconstrução da sessão.
Vejamos agora alguns exemplos de hora de jogo diagnóstica individual.
Procederei como na maioria dos casos que supervisiono, trabalhando às ce-
gas com o material projetivo para depois ir para a história clinica. método que me
proporciona maior segurança nas minhas conclusões pois não trabalho influencia-
da por hipóteses extraídas da história. Proponho ao leitor o mesmo método, pois ele
tem se mostrado útil também para fins de aprendizagem.

Caso Juan
Tem cinco anos. Entra e fica sozinho. A mãe vai embora, conforme o combi-
nado. Entramos na sala de jogo. Olha os objetos que estão sobre a mesa. Em suas
mão traz um caderninho. Me olha de soslaio e abre o caderninho. Há figuras pinta-
das. Pergunto se é dele e me d.iz que não, que é de sua irmã mais velha, quando ela
estava no jardim de infãncia. E três anos mais velha do que ele. Finalmente deixa o
caderno, pega uma folha e desenha uma casinha com canetinha hidrocor azul cla-
ro. Depois procura outra rosa e passa por cima dos riscos azuis. Depois pega papel
glacê brilhante e recorta pedaços com as mãos que depois cola fazendo uma colagem
semelhante às feitas pelas crianças no jardim de infãncia, sem nenhuma seqüência
especial. Aviso que faltam cinco minutos para o fim da sessão. Ele acaba a colagem
e me olha como se estivesse dizendo que acabou. A mãe chega para buscá-lo e vão
embora.

Comentário

Juan entrou sozinho mas na realidade chegou como se estivesse de mão com
a sua irmã mais velha. Está na pré-escola mas sente-se menor (o caderninho do
jardim e a colagem). Não manifesta angústia, mas me olha com desconfiança. Não
brincou mas procurou fazer algo habitual na escola, como estabelecendo uma equi-
valéncia desta situação com a outra mais conhecida. Até aqui não há nada muito
significativo. Mas podemos interpretar que o que ele traz na mão é algo de menina e
não de menino. A casinha, simbolo do próprio corpo e de "si mesmo", está pintada
58 García Arzeno

de azul claro, cor tradicionalmente atribuida aos bebês do sexo masculino, mas logo
ele a anula, cubrindo-a com a cor rosa, cor de meninas ... e me olha. Entendo que
aqui ele me conta que nasceu como menino mas que se sente uma menina. Eu
interpretaria a colagem como a confusão que ele deve ter na sua cabeça devido a
essa mistura de identidades. Como a cor rosa é a segunda, penso que ele está me
pedindo ajuda para se transformar em uma menina e assim sair da confusão.

Sua História

Quando Juan nasceu, a mãe estava passando por um periodo profunda-


mente depressivo. A filha mais velha, no entanto, nasceu em uma fase melhor. O
motivo da consulta foi o comportamento inquieto do menino, que revirava os armá-
rios, desarrumava tudo e deixava todo mundo nervoso. Isso não foi observado na
hora de jogo individual, de modo que podemos pensar que algo na dinâmica familiar
é o que provoca essa inquietação. Foi na entrevista final, quando encarei o assunto
da identidade sexual de Juan, que a mãe, bastante contrariada, contou que às vezes
o menino dizia: "Quando eu crescer, vou ser puto" mas que isso não a incomodava;
que o que ela queria era que ele se acalmasse e deixasse os outros em paz. Expli-
quei-lhe que a agitação era produto do conflito sexual, o qual era, por sua vez,
conseqüência de não saber se era ou não um filho amado, já que a depressão da
mãe poderia ter sido sentida pelo menino como efeito de uma decepção ao nascer
um menino. Juan sentia que a sua irmã era mais amada por ser menina. Ou seja,
nos encontramos diante de um caso de inveja do menino em relação à menina, que
é o que Melanie Klein denominou "fase feminina" no menino, correlacionada com a
inveja fálica ou fase masculina na mulher descrita por S. Freud.
Mas neste caso a situação é mais grave porque o menino vem com a fantasia
de que o terapeuta funcione como um cirurgião, que mude o seu corpo e o transfor-
me em uma mulher com quem, em vez de competir, ele se identifica. A cor rosa
usada em segundo lugar indica que é esse o seu pedido e que por trás de tudo isso,
que é um mau prognóstico, aparece uma história na qual compreendemos que o
que ele na realidade está tentando é ser amado pela mãe. Em outra entrevista a mãe
relacionou sua rejeição a esse filho agitado com um irmão muito odiado por ela.
Ficou assim evidente que ela, mesmo estando deprimida anteriormente, deve
ter rejeitado o menino recém nascido que reacendia nela sentimentos que não teve
quando do nascimento da menina. Logicamente o bebê capta isso com toda clareza.
O maior perigo devido a esta falta de libidinização com o bebê por parte da mãe é a
psicose. A colagem aparece então como significando o perigo: homossexualismo ou
loucura. A força constitutiva dessa criança e a presença de um pai um tanto cari-
nhoso o fazia lutar pela primeira opção, como fantasia patológica de cura, diante da
outra, a fragmentação psicótica como fantasia de doença. A mãe me pedia que fizes-
se do menino um "puto tranqüilo"; o pai não dizia nada, como se não pudesse se
incluir nessa relação. O menino, sentindo-se ainda muito pequeno, não renunciava
ao amor de sua mãe e tentava conquistá-lo, mesmo às custas da sua identidade
sexual. Ou seja, o fato de querer ser bicha significa que ele quer fugir do lugar de um
homem odiado pela mãe.
Isso possibilita o estabelecimento de um prognóstico mais benigno, já que
trabalhando o vínculo com a sua mãe e incluindo mais o pai ele vai gostar do seu
próprio corpo masculino, se a sua mãe assim o aceitar e amar.
Psicodiagnóstico Clínico 59

Caso Pedro
Tem seis anos e meio. Chega acompanhado de sua mãe, que, conforme o
combinado, dessa vez se retiraria pois ele voltaria com ela na próxima consulta,
depois viria com o pai e finalmente vüiam os três juntos. A mãe me olha ao sair,
como dizendo: "Estou lhe deixando o monstro". Pedro entra sem me olhar e vai
rapidamente para a sala que lhe indiquei. Joga-se sobre o material de jogo. Desenha
uma casa clássica, mas com ondas no telhado e com uma chaminé da qual sai
muita fumaça. Pega outra folha e desenha uma figura humana bastante ridícula
com um chapéu de três pontas. faces pretas e um corpo quase de animal com rabo
e três patas.
Conversa bastante mas num monólogo no qual anuncia o que vai fazer ou
descreve o que está fazendo. Logo começa uma corrida incongruente misturando
carrinhos com lápis, a tesoura, blocos, borracha. Todos competem nessa corrida
pela beira da mesa. Cai alguma coisa, a recupera e continua a corrida. Cai outra
coisa ou até várias coisas. As recolhe e continua. Durante toda a corrtda faz sons de
carros correndo com a boca.
Não me olha nem me inclui em momento algum. Pega outra folha de papel e
desenha com a canetinha hidrocor verde, do lado esquerdo da folha, um edifício de
quatro andares inclinado para a direita e diz: "Está pegando fogo". À direita desenha
uma montanha. "É um vulcão, sai fogo e os caras fogem". Desenha cinco figuras
humanas de pauzinhos descendo da montanha. Sai muito fogo do vulcão e um tipo
de nuvem indo para o lado esquerdo e cobrindo o edificio. Pega tinta plástica ama-
rela e cobre tudo o que seria a lava e o fogo, sujando bastante o desenho. Aviso que
faltam cinco minutos para o fim da sessão. Brinca de corrida enlouquecida nova-
mente. A mãe chega e vão embora.

História
Pedro tem dois irmãos, de vinte e dezoito anos. Quando a mãe marcou a
hora pelo telefone me disse que estava desesperada pois não sabia se tinha um filho
ou um monstro. Ela ocupou toda a primeira entrevista relatando cenas de violência
entre ela e o menino, com ameaças, insultos e espancamentos recíprocos. O motivo
da consulta é a enurese. Mas logo conta que os dois filhos mais velhos também
haviam sofrido de enurese e que isso tinha passado com o crescimento. Ela nunca
havia insistido com o controle dos esfincteres, pois a sua mãe a torturava com isso.
O seu discurso era um discurso psicótico no qual não era possível distinguir se
estava falando do filho ou de um objeto interno com o qual mantinha uma relação
delirante, sadomasoquista e alucinante. Pedro negava-se a levantar para ir à escola,
ela gritava, ele dizia que se ela trouxesse o café na cama ele obedeceria mas logo
continuava ali (a cama superior de um beliche triplo); um dia a mãe empurrou o
beliche e ele caiu. rolando pelo chão e ambos ameaçando-se de que se matariam. Na
escola também não estava bem. A diretora contou-me que quando eles estavam
chegando à escola todos percebiam pois se ouviam os gritos e empurrões de ambos.

Comentário
Em momento algum da hora de jogo individual Pedro mostrou o comporta-
mento que tinha com a sua mãe. Não precisei impor-lhe limites. A figura estranha
que desenhou expressa o seu sentimento de ser uma coisa rara, um "animal" (cer-
60 García Arzeno

tamente um termo usado com bastante freqüência por sua mãe quando grita com
ele), e é necessário examinar com maior profundidade a situação triangular ("cha-
péu com três pontas"). A casa com ondas no telhado e muita fumaça na chaminé
indica toda a turbulência que há dentro da sua cabeça. Essa turbulência é drama-
tizada durante a corrida desenfreada de objetos diversos, misturados sem fazer
sentido (bizarros?). Há muita confusão em seu Interior, a ansiedade é persecutória e
o ritmo, maníaco. No último desenho consegue expressar simbolicamente como é a
sua relação com o peito-vulcão. E um peito sádico do qual sai leite-mau-fogo e está
a ponto de sucumbir (edifício inclinado), por estar envolto por esse emaranhado
sadomasoquista. O fato de estar inclinado para a direita indica que ele também faz
parte do vínculo patológico, que ele se "engancha", como diríamos em termos popu-
lares. Ele não me considera em momento algum como se eu representas.se o pai que
não intervém na relação mãe-filho, confessando a sua impotência. A tinta amarela
que cobre a área de fogo indica que a sua enurese é uma expressão do ódio provoca-
do por toda essa situação e que envolve toda a família: cinco figuras humanas que
fogem do vulcão. Os irmãos já cresceram e fazem a sua própria vida. Ele ficou preso.
É o terceiro filho, como a sua mãe, que também mantêm uma relação psicótica com
a sua própria n1ãe. Fica assim evidente que esse é um caso de psicose simbiótica,
que a mãe não conseguiu resolver com a sua própria mãe e transferiu para o seu
vínculo com Pedro. O menino expressa claramente a sua fantasia de perigo total de
destruição (loucura) se não for salvo por alguém dessa situação sinistra. Mas não
tem esperança de saída, como fica claro na corrida sem ponto de chegada, como se
fosse um círculo vicioso: se não se rebelar sucumbirá e se mostrar rebeldia o perigo
aumentará, aumentando com isso também o perigo de destruição.
Na entrevista com seus pais desenhou uma figura geométrica semelhante a
uma teia de aranha e uma pequena figurinha humana no centro. Na outra folha
desenhou um crucifixo e Cristo pregado nele, mesmo a família não sendo católica.
Isso deixou clara a sua sensação de estar preso e sem saida e um implícito S.0.S.
Enquanto eu lhe dizia isso durante a entrevista de devolução, desenhou
uma figura fen1inina com uma coroa na cabeça e algo na mão que ele chamou de
varinha mágica mas parecia n1ais um chicote com uma bola com pontas em vez de
uma estrela na ponta. Então foi possível dizer-lhe que ele tinha muita esperança de
que eu fosse uma fada maravilhosa que o libertaria da sua situação através de um
milagre mas que, ao mesmo tempo, ele tenlia que eu me transformasse em uma
torturadora cruel. A coroa simbolizava o quanto ele me idealizava. O chicote, o
quanto ele me temia. Justamente para evitar que as sessões viessem a se transfor-
mar em um campo de batalha, preferia indicar terapia individual para o menino
com entrevistas esporádicas com o pai e a mãe para sondar sobre as mudanças que
fossem ocorrendo e para tentar que o pai interviesse mais. Os pais já estavam fazen-
do terapia individual e havia sido o terapeuta da mãe quem havia me e1,1caminhado
o menino. Devido a isso não propus uma terapia de casal paralela à do menino.
Na medida em que Pedro encontrasse na terapia um espaço para reencon-
trar a si mesn10, sen1 os embates inoculantes de sua mãe, poderia ir melhorando a
sua prôpria imagem e a sua relação com o mundo.
Ou seja, o prognóstico com ajuda terapêutica era favorável, pois mesmo em
se tratando de uma psicose simbiótica, a psicose ainda não havia se instalado real-
mente no menino. Isso havia sido demonstrado pelo resto do psicodiagnóstico, espe-
cialmente pelo Rorschach.
Psicodiagnóstíco Clínico 61

CasoMaría

É uma menina de nove anos. Entra no consultório muito decididamente.


Escolhe primeiro papel e canetinhas hidrocor para desenhar, e desenha um casal
formado por uma menina e um menino. A figura feminina é mais importante que a
masculina, que parece ser menor do que a idade que ela lhe dá (doze anos para a
menina e treze para o menino). Além do mais, a menina usa sapatos de salto alto e
bolsa de adulta, enquanto que o menino exibe uma profusão de bolsos e botões,
símbolos de grande dependência que ela confere ao sexo masculino. Logo após,
querendo mostrar um gesto casual, olha o resto do material e diz que vai brincar de
mamãe. Estabelece vários cantos dos quais um será a sala de jantar, outro o quarto
e outro a cozinha. Começa a brincar, falando muito e movimentando-se num ritmo
desenfreado. Telefona para as suas amigas. Diz que está esperando o seu marido. O
bebê chora. Quer a mamadeira. Vai para o canto-cozinha e prepara a mamadeira.
Queixa-se porque o marido está demorando. Dá a mamadeira para o bebê mas é
notório que ela "enfia" a mamadeira atê o ponto de afundá-la na boca do boneco-
bebê.
Logo diz que vai fazê-lo dormir, mas na realidade o joga para o canto-quarto
com uma expressão que significaria "pára de incomodar". Continua arrumando a
casa e depois, no canto-quarto, penteia-se e maquia-se esperando o marido atrasa-
do. Aviso-lhe que faltam cinco minutos para o final da sessão. Continua brincando
de pintar as unhas, mudar o penteado e a roupa. "Já deu", diz, porque a sua hora
havia chegado ao fim.

Comentário

Apesar de dizer que ia brincar de mamãe, brincadeira bastante regressiva se


o tivesse feito, na realidade a sua atividade é muito diferente. É uma brincadeira
mais apropriada à sua idade cronológica, mas mostra um conflito feminino que não
tem nenhuma relação com o desejo de ser uma mamãe. Ela quer ser a sua mamãe.
O seu conflito é a rivalidade com a sua mãe, a raiva produzida pelas decepções
provocadas por seu pai e os ciúmes que tem em relação ao seu irmão mais moço,
prova contundente da união sexual entre seus pais, o que a transforma em uma
amante frustrada. Ela não quer saber de bebês chorões e chatos como foi algumas
vezes o seu irmão, três anos mais moço.
Seu desenho parece fazer uma caricatura do sexo masculino e enfatizar os
atributos femininos, com certeza bastante fálicos. Tendo uma base marcadamente
narcisista (pentear-se, pintar-se e trocar de roupa constantemente), essa menina
arrasta um conflito edipico nem um pouco resolvido na fase edipica e que é reativado
na fase inicial da puberdade, manifestando-se como uma luta. O motivo da consulta
eram os medos noturnos e fobias antigas reativadas.
Foi fácil compreender que a sua fantasia era a de que eu lhe permitisse
nesse mesmo momento, magicamente, ser uma mulher-amante, atraente para con-
quistar o seu pai. Mas os seus medos tinham como base aquilo que ela dramatizou
com o bebê: ser uma menina odiada pela sua mãe, objeto de maus tratos e de
abandono (como o próprio Édipo). A sua fantasia de ser mulher já está destinada ao
fracasso e isso é evidenciado no final da sua hora de jogo, na qual ela acaba "prepa-
rada e sem visitas".
Assim, os seus medos não são causados pela culpa que sente por odiar o seu
irmão, mas sim à sua própria mãe, que é quem tem domínio sobre o seu amante-
amado-pai.
62 García Arzeno

Neste caso a indicação foi de psicanálise para a menina, dado que era evi-
dente a existência do conflito intrapsíquico. Mas, paralelamente. recomendei entre-
vistas de orientação aos pais para que estes tivessem uma melhor compreensão da
menina e acompanhassem melhor a terapeuta (era aconselhável que fosse uma
mulher) nas mudanças e crises que viriam a ocorrer.

Bibliografia
Efron, Feinberg, Dleiner, Sigal y Woscoboinik, "A hora de jogo diagnóstica", em Ocampo, M.L.S. de; Arzeno,
M.E. Garcia; Grassano, E. e col. em O processo diagnóstico e as técnicas projetivas", ob.cit.,
cap.Vll. {Consultara bibliografia desse capitulo.).
Konblit, Analia, "Hacia un modelo estructural de la hora dejuego diagnóstica", em Ocampo, M.L.S. de;
Arzeno, M.E. Garcia; Grassano, E. e cal., ob.cit., cap.VII. (Consultar a bibliografia desse capítu-
lo.).
Capítulo 7

Seleção da Bateria de Testes


e a sua Seqüência

Neste capítulo proponho-me a transmitir algumas reflexões sobre a forma


de organizar um bateria de testes, como decidir sobre quais são pertinentes, im-
prescindíveis ou acessórios.
Não existe um modelo único de bateria de testes, assim como não existem
dois indivíduos iguais. Mesmo tendo, em geral, um modelo básico de trabalho, cada
paciente obriga-nos a pensar na estratégia a ser seguida.
Apesar de ser impossível esgotar todas as situações que podem apresentar-
se, tentarei abordar as mais comuns.

Fatores que Devem Ser Considerados


Quem Formula a Solicitação
Se a consulta chegar diretamente a nós, podemos agir com inteira liberdade
e selecionar os testes conforme as hipóteses provisórias surgidas na primeira entre-
vista e com base na história clinica do paciente.
Se, no entanto, a solicitação for feita por outro profissional (psicanalista,
advogado, professor, pediatra, etc.) é imprescindível pedir-lhe que seja absoluta-
mente claro no que se refere ao motivo da solicitação de psicodiagnóstico, de forma
a selecionar a bateria mais adequada. Algumas vezes eles enviam um paciente com
a solicitação de que façamos um Rorschach ou um Bender. Os testes não são um
objetivo em si mesmos, mas um meio para se chegar a um fim, e é isso que o pacien-
te ou o profissional que o enviou devem esclarecer. Mas o teste que foi solicitado não
deve ser excluído da bateria de testes a ser aplicada.

Idade Cronológica do Consultante


Este é um fator muito importante, já que nem todos os testes são usados em
todas as idades e, além disso, a técnica de administração valia.
Uma caixa de brinquedos será imprescindível se a consulta for para uma
criança. Na entrevista familiar também será incluída a caixa de brinquedos se hou-

63
64 García Arzeno

ver crianças ou púberes. Nem sempre estes se sentem atraídos pelos brinquedos na
entrevista individual, mas às vezes os usam.
Há idades limites que nos despertam dúvidas. Nesses casos deve-se ter cui-
dado para não incluir a palavra "brincar" nas propostas pois isso está associado à
infância. Talvez dizendo-lhe que procure ali alguma coisa que possa lhe interessar
para fazer algo, o sujeito resolva utilizá-la.
As atividades lúdicas não são exclusivas das crianças. Muitas vezes faço uso
da escala de execução completa e não do Wechsler, quando sinto que essas ativida-
des variadas vão aliviar o sujeito antes de despedir-nos. Mesmo que a inclusão
desse teste não estivesse prevista, o fato de montar quebra-cabeças competente-
mente e copiar corretamente os desenhos com cubos pode ser algo útil e comple-
mentar quanto ao esforço do sujeito, para os testes projetivos.
Se as crianças forem muito pequenas, ainda não falarem de forma clara nem
tiverem superado a fase da garatuja, devemos guiar-nos exclusivamente pelas ho-
ras de jogo, e quanto menores elas forem mais indicado serâ começar com a entre-
vista familiar diagnóstica (logo após a entrevista com os pais). Só depois dessa
entrevista devemos continuar com uma entrevista vincular ~ãe-filho e outra pai-
filho. É mais provável que a criança após conhecer-nos melhor aceite ficar a sós
conosco em uma hora de jogo individual ou, pelo menos, com o pai ou a mãe aguar-
dando-a em outra sala.
Já com adolescentes mais velhos acontece o contrário. Eles preferem vir
sozinhos para a primeira entrevista e que os pais venham somente depois. Se ainda
não tiverem 18 anos, ê imprescindível que os pais se apresentem, pelo menos uma
vez, para conhecê-los, para que eles nos conheçam e para dar o seu consentimento
ao que viermos a fazer.
Quanto à administração dos testes não tenho encontrado diferenças subs-
tanciais em relação aos adultos.
Podemos também ter a surpresa de que o adolescente ou adulto chegue com
os seus pais, a sua esposa, um irmão, etc. Nesse caso começaremos a entrevista
com todos os que vierem e deixaremos o restante para o final. Isso, por si só, já é um
indicador diagnóstico importante. Pode-se estar tratando com um psicótico ou um
fóbico grave, um paranóide, um débil mental, etc.
A importância da aplicação dos testes projetivos e objetivos será justamente
a possibilidade de fazer um diagnóstico diferencial entre esses quadros para uma
correta indicação terapêutica.
Recordo um caso no qual a entrevista foi solicitada pelo irmão de uma jovem
de 16 anos. Na primeira entrevista vieram ele, de 26 anos, o mais velho de quatro
irmãos e a jovem.
A atitude do rapaz era como a de um pai que trazia a sua filha porque não a
via feliz, porque tinha fracassos constantes na escola (aprovada somente no primei-
ro ano) e ficava permanentemente fechada em casa com a sua mãe. Insisti para que
na próxima entrevista viesse todo o grupo familiar, mas vieram somente o irmão
mais velho, outro irmão, que vinha a seguir, e a mãe, que manteve uma atitude
totalmente passiva.
A jovem tinha a aparência de uma menina abobada, gorda, escabelada, mais
para feiosa. Aceitou vir fazer os testes, além dos projetivos, incluindo Raven e Wechsler.
A sua produção era aceitável com uma inteligência de nível médio como rendimento
efetivo. Certamente poderia ser um pouco superior se não pertencesse a um grupo
familiar no qual as mulheres só serviam para limpar, parir filhos e ostentar peles e
jóias que mostrassem o status do mando.
Quando insisti em ver o pai, ele veio com sua mulher, o filho mais velho e
outro mais moço. Era meu objetivo dizer-lhes que felizmente a sua filha não era
Psicodiagnóstico Clínico 65

uma menina boba cujo destino era ficar solteira agarrada à saia da mãe. Mas o pai
tomou a palavra dizendo-me: "Olhe, eu não acredito nessas coisas". "Quais?", res-
pondi. "Isso que fazem aqui" - respondeu. Expliquei-lhe que assim como o médico
explora o carpe, o psicólogo estuda a mente e a sua relação com o corpo. Apresentei-
lhes brevemente os resultados e o pai disse que não tinha intenções de fazer nada
para ajudar uma filha que jamais o havia chamado de "papai" e que não servia nem
para ser apresentada ao filho de algum de seus amigos importantes. Quero adiantar
que a minha conclusão foi a de que essa menina se protegia dessa forma de ser
objeto de um casamento por conveniência acertado pelo pai sem o seu consentimen-
to.
Quando se apresenta toda a familia e a atitude é mais colaboradora pode-se
alternar a entrevista livre com a administração de testes projetivos grupais como os
já citados de Juri e de Frank, deixando os testes individuais para outra entrevista
posterior com o paciente "identificado".
Com pessoas bem mais velhas, os testes mais difíceis de incluir são os gráfi-
cos, pois elas já perderam o hábito da conduta gráfica e sentem-se mal ao percebe-
rem a sua falta de habilidade. Essas pessoas freqüentemente têm problemas de
visão e de artrose, ou então a sua habilidade para essa via de expressão diminuiu
bastante. Mas elas reagem bem ao Phillipson, ao Rorschach, ao Wechsler, quando o
caso justifica a sua administração, mostrando-nos o que é deterioração normal da
idade e o que é fruto da patologia.
Outros testes contra-indicados nesses casos são o Desiderativo e o Teste do
Desenho Cinético Prospectivo da Familia (se houvesse a tentativa de fazer um gráfi-
co), já que nesses testes a sua idade avançada os enfrenta com a proximidade da
n1orte.

O Nível Sócio-cultural do Paciente e o Seu Grupo Étnico

Existem algumas dificuldades para administrar certos testes e outras que se


referem mais à correta interpretação dos mesmos. A seleção de uma bateria de
testes deve levar em consideração o seguinte:

Que a instrução dada ao sujeito seja perfeitamente entendida. Isso ocorre


com uma maioria estatística do grupo de idêntico nível sócio-cultural e
pertencente ao mesmo grupo étnico.
Que a conduta através da qual esperamos a resposta à instrução dada
seja a habitual para o sujeito comum pertencente a esse grupo.
Que o material usado como estímulo seja também o habitual para a
maioria.

Somente assim poderemos aplicar a bateria de testes e interpretá-la de ma-


neira correta: aquelas respostas com distorções ou fracassos podem ser atribuídas
à patologia do individuo que estamos estudando.
Devemos recordar como exemplo a adaptação feita por Thompson ao TAT de
Murray para poder aplicá-lo a grupos de raça negra: repetiu as mesmas situações,
mas com personagens negros e não com brancos como nas lâminas originais.
Outra situação especial surge quando se quer investigar o nível mental e se
utiliza o WJSC ou o Wechsler, que constam de subtestes na escala verbal nos quais
o nível de conhecimentos culturais e escolares é tão alto que um não-alfabetizado
acaba sendo diagnosticado como infradotado. Coloquemos a pergunta: "Por que é
melhor pagar com cheques que com dinheiro vivo?". Quando feita nos E.U.A. a
66 García Arzeno

crianças porto-riquenhas ou mexicanas, elas ficavam olhando sem responder. Ja-


mais nas suas vidas haviam visto os seus pais pagando com cheques nem sabiam o
que era isso.
O mesmo ocorre com grande parte do subteste "Vocabulârio", pois muitas
palavras não são usadas comumente na linguagem cotidiana nem mesmo nas ins-
tituições educacionais ou culturais em geral. Estão sendo estudadas adaptações
desse teste à realidade atual e por isso deve-se ter cuidado ao escolher a versão que
será selecionada para cada caso.
Nos níveis sócio-económicos mais baixos a produção fica empobrecida devi-
do à escassez de estímulos que os individuas recebem.
Quando se trata de grupos étnicos diferentes, o entrevistador deve estar bem
familiarizado com o grupo em questão ou, ainda melhor, pertencer a ele. A nossa
mentalidade não é a mesma que a dos japoneses, africanos, suecos ou esquimós.
Ainda mais, podemos incorrer no erro de interpretarmos como pobreza o que na
realidade é incapacidade nossa para extrair a riqueza implícita em uma produção
que talvez conste de dez ou doze vocábulos.
Também modifica-se aquilo que nôs podemos interpretar como melancolia
do individuo quando talvez seja uma qualidade endêmica.
Podemos também interpretar como mais patológico do que é realmente o
homossexualismo feminino ou masculino em populações nas quais isso ê comum e
passageiro como o era entre os gregos da antiguidade. Muitos colegas, residindo em
diversos pontos do Brasil, encontraram-se diante de situações como essa, conside-
radas como menos transcendentes pelos colegas brasileiros do que por nós.
Compreender realmente a hora de jogo diagnóstica de uma criança da pro-
víncia de Jujuy, um holandês ou um australiano pressupõe ter conhecimento dos
padrões de respostas de cada região e das características evolutivas da infância em
cada sociedade.
No que se refere ao nível social, uma criança muito pobre fica tão deslum-
brada diante de uma caixa com muitos brinquedos como se a tivéssemos levado a
uma loja de brinquedos. Nessa caixa deveríamos incluir materiais com os quais ela
estã acostumada a brincar com freqüência, especialmente material descartável como
papelão, barbante, rolhas, alguns carrinhos baratos, e algumas canetinhas hidrocor
em vez de colocar bonecos Playmobil, carros em profusão, tintas e pincéis. E quero
que fique bem claro que isso não significa subestimar a criança mas adaptar-nos a
ela para vê-la brincar com aquilo que ela conhece bem, sem ficar fascinada com o
que estamos mostrando nem humilhada por não possui-lo. Essas crianças reagem
muito bem ao CAT, por exemplo, pois estão mais acostumadas com os animais e a
natureza do que as crianças de apartamentos e da cidade.
Diversos serviços de saúde costumam atualmente pedir que cada criança
traga de sua casa uma sacolinha com os materiais e brinquedos que prefere. Isso
deve-se à falta de recursos dos hospitais, mas é também muito válido pois a criança
acaba usando meios de expressão com os quais está habituada.

Casos com Deficiência Sensorial ou Comunicativa


Os casos de pacientes surdos, cegos, incapazes de desenhar ou falar de for-
ma inteligível constituem-se em casos dificeis, tanto no que se refere aos testes que
podem ou não ser usados quanto à correta interpretação dos mesmos. O diagnósti-
co pode ser totalmente erróneo devido a uma escolha inadequada da bateria. A
necessidade de ter que diferenciar surdez, autismo e debilidade mental é uma das
situações que oferecem maiores dificuldades.
Psicodiagnóstico Clínico 67

Nesses casos a experiência clínica torna-se muito importante e os testes que


vierem a ser aplicados são mais do que nunca um meio complementar. A hora ou as
horas de jogo serão muito importantes não só para observarmos se a criança brinca
e como brinca, mas também os seus movimentos, a expressão do seu rosto, o seu
olhar, as suas palavras, as reações a barulhos ou à nossa palavra. etc.
Os testes com histórias relatadas podem ser transformados em histórias
escritas pelo próprio sujeito se as suas dificuldades são com a fala. Até o Rorschach
pode ser respondido por escrito (se souber escrever).
Tratando-se de um cego pode-se usar, por exemplo, o teste de frases incom-
pletas, os Questionários de Personalidade ou o Questionário Desiderativo.
Existe uma versão do Raven para crianças pequenas de blocos com sistemas
de encaixe. O Rorschach poderia ser adaptado a esse sistema, mas isso já seria
objeto para futuras pesquisas.

O Momento Vital

Outro elemento a ser considerado no momento da seleção da bateria é o


rriomento evolutivo no qual se encontra o sujeito.
O momento ideal é aquele em que ele pode estabelecer pelo menos um míni-
mo de "rapport" com o psicólogo, ou seja, de contato com ele, e que ele consiga
também ligar-se na tarefa que a bateria projetiva lhe propõe. Os testes projetivos
exigem um maior esforço que os objetivos quanto ao trabalho psicológico de
introspecção e projeção do inconsciente.
Não me refiro aqui a momentos de resistência, que também ocorrem, mas a
momentos evolutivos nos quais necessariamente a capacidade libidinal do sujeito
estará voltada para si mesma (introversão) porque o Ego está enfrentando situações
atuais complicadas.
Poderíamos afirmar categoricamente que é contra-indicado realizar um
psicodiagnóstico quando o sujeito estiver atravessando uma séria crise evolutiva ou
existencial, e que as conclusões que possam ser tiradas, se este for feito, não pode-
rão ser tomadas como traços estáveis da personalidade do sujeito.
Às vezes o psicodiagnóstico é feito para estabelecer um diagnóstico diferenci-
al entre crise evolutiva e processo patológico, possibilitando assim uma melhor es-
colha do caminho terapêutico a ser seguido.
Quando falo de crises vitais estou referindo-me, por exemplo, à puberdade,
à franca eclosão da adolescência, a uma decisão vocacional conflituada, ao casa-
mento, ao primeiro filho, ao casamento de um filho, à viuvez, ao papel de vovó, etc.
Há pouco tempo abordei este assunto durante um importante evento cientí-
fico' em um workshop: "São as crises vitais motivo de consultas cada vez mais fre-
qüentes?", no qual o grupo chegou a uma conclusão afirmativa devido a diversas
razões:

l. Os momentos críticos são cada vez mais freqüentes, deixando pouco


tempo para a assimilação das diferentes etapas.
2. As situações patogênicas estão demasiado próximas do individuo, que
antes podia manter uma distância maior ou criar um "micro-clima pes-
soal mais sadio".
3. Cada vez a familia é menos continente dos seus conflitos.

1. 1!!Encontroe6º Sin1pósio organizado pela "Asociación Escuela Argentina de Psicoterapia para Gra-
duados". Tema: "Clínica Psicoanalitica Aetua!", 1988.
68 García Arzeno

4. Cada vez mais a própria sociedade torna-se criadora de conflitos e ca-


rente de meios ou instituições que propiciem à família o holding que em
outra época nossos avós encontravam em seus pais e os nossos pais nos
seus.
5. No seio familiar há uma menor distinção entre as gerações, menor espa-
ço para o diálogo e uma total invasão de elementos de consumo que
alienam o individuo. Por exemplo, na hora do jantar, quando toda a
família está reunida, ficam todos assistindo televisão.

O diagnóstico diferencial proposto nessa oportunidade foi o seguinte: reali-


zar entrevistas familiares nas quais seria imprescindivel aplicar o Teste do Desenho
Cinético da Família atual e prospectivo nas suas duas formas: individual e de con-
senso, vinculares e individuais com o sujeito que foi trazido como paciente; estudar
a mobilidade de papéis familiares, a permeabilidade dos pais para absorver uma
orientação psicológica; indagar sobre a personalidade prévia do paciente. Quanto
mais sadia houver sido a personalidade do paciente antes da consulta, mais inclina-
dos ficaremos a diagnosticar uma crise evolutiva, p~incipalmente se no
psicodiagnóstico aparecerem traços patológicos "pontuais" dentro de um protocolo
de resto aceitavelmente sadio. (ver p. 102 1º parágr.)
Todas as crises evolutivas são mon1entos de luto, tal como foi colocado por
Grinberg em /dentidad y cambio. Seguindo também Freud e Melanie Klein esse au-
tor destaca o trabalho de luto que o Ego realiza perante qualquer mudança e as
ansiedades que isso pode despertar, desde as mais leves e lógicas até as mais primi-
tivas, massivas e psicóticas. Peter Blos fala de "regressões a serviço do desenvolvi-
mento" expressão usada também por Anna Freud. Essas regressões distinguem-se
das patológicas pela brevidade de sua duração e pelo enriquecimento do Eu quando
consegue superá-las. Por isso a importância, na história clínica e no psicodiagnóstico
em geral, do conhecimento da personalidade prévia do paciente sobre a qual se
estabelece essa "patologia" atual.
Quando emergem ansiedades muito primitivas, vemos o sujeito em um esta-
do agudo de ansiedade paranóica, totalmente confuso ou melancolicamente depri-
mido. Associado a isso ele pode mostrar-se tanto colaborador como desconfiado e
resistente.
Nessas condições ê conveniente esperar para realizar o psicodiagnóstico e
encarar a situação com os meios de que dispõe a psiquiatria dinâmica atual (entre-
vistas, medicação, internação, etc.).
Somente após um periodo de tratamento seria válido realizar o
psicodiagnóstico e, entre todos os testes mencionados, o Questionário Desiderativo
e o Teste de Relações Objetais de Phillipson seriam imprescindiveis, como também o
Rorschach. Mas as histórias do Phillipson que pedem explicitamente que o paciente
invente um conflito e um desenlace dão indicações claras quanto à fantasia de do-
ença que o paciente possui e o prognóstico de cura inconscientemente formulados
por ele mesmo. Por exemplo, na A 1 ele vé um homem no meio de um incêndio do
qual não vai conseguir escapar e vai morrer. Se no final do teste pedirmos a ele uma
história alternativa para a mesma lâmina e ele não conseguir dar outra diferente,
sendo todos os finais pessimistas e sinistros, não indicarão o mesmo diagnóstico
nem o mesmo prognóstico que se na làmina A 1 ele criar essa mesma história, mas
na história alternativa disser que vê um homem no meio da fumaça porque o incên-
dio acabou ou ele conseguiu apagá-lo e está indo para a sua casa. Os testes com
figuras humanas são insubstituíveis nesses casos pois a patologia já instalada, crõ-
nica e incurável sem um tratamento intensivo e prolongado, aparecerá na patologia
dos traços formais do desenho e na deformidade, distorção ou perda da gestalt
humana, enquanto que ela permanecerá nos casos de crises vitais suscetíveis de
Psicodiagnóstico Clínico 69

serem tratadas com psicoterapias mais breves. Além do n1ais. nestes casos os traços
formais possuem características positivas e não há estereotipia no formal nem no
conteúdo das diferentes figuras desenhadas.

Contexto Espaço-Temporal no Qual se Realiza


Existem diferenças entre trabalhar em nossos próprios consultórios e em
·instituições públicas ou particulares.
Há diferença entre poder dispor do tempo estipulado por nós e precisar fazer
un1 psicodiagnôstico de emergência, mesmo particularmente, ou então ter que se
adaptar ao tempo estipulado para isso por cada instituição.
Ein condições normais faço uma prin1eira entrevista com os pais, logo rece-
bo o paciente para uma entrevista livre {hora de jogo se for uma criança). Após uns
trinta 1ninutos começo con1 os testes gráficos. Na entrevista seguinte aplico o
Desiderativo e o Rorschach, deixando para uma terceira o Phillipson e Bender. Se
for necessário aplicar o WISC ou Wechsler os divido entre as três entrevistas indivi-
duais. Finalmente realizo a entrevista familiar.
Esclareci anteriormente que isso não é uma seqüência mecânica. A entrevis-
ta familiar tanto pode ser a primeira quanto a segunda; pode ser necessário incluir
entrevistas vinculares. Tudo depende do caso. No final faço a entrevista de devolu-
ção para os pais, para o filho e, às vezes, para toda a família. Dificilmente isso tudo
levará mais de seis entrevistas, já que algumas vezes, após uma entrevista familiar
peço, por exemplo, que a mãe e o filho fiquem, pedindo aos outros que voltem de-
pois, para observar a dinâmica familiar vincular.
Esse processo desenvolve-se dentro de um período de uma semana ou de no
máximo dez dias. Mas às vezes acontece que a solicitação ê feita por uma família que
mora longe e quer aproYeitar, por exemplo, um fim de semana para consultar sem
perder dias de trabalho. Nesses casos deve-se "comprimir" as entrevistas, tendo-se
a precaução de que as duas {mínimas) destinadas para a aplicação dos testes sejam
feitas uma de manhã e outra à tarde para garantir ao paciente um tempo para
relaxar.
No que se refere às instituições, podem ocorrer situações muito especiais,
como precisar trabalhar em uma sala onde se escuta tudo o que é dito na sala ao ·
lado, ou precisar aplicar os testes gráficos sentada no pátio porque não há consul-
tórios disponíveis.
O fator tempo também deve ser comentado. É comum que as instituições
peçam ao psicólogo um diagnóstico muito preciso e completo, administrado em con-
dições precárias, sem poder contar com o material necessário e dentro de um prazo
1nínimo.
Quando é preciso escolher uma minibateria, escolho um Desenho Livre, Duas
Pessoas, Desiderativo e Rorschach. Em crianças, o Rorschach raramente leva mais
de dez minutos. Nos mais velhos ele pode ser aplicado em quinze ou vinte minutos
usando a técnica de limitar ao máximo de três respostas por lâmina. Costumo usar
também o teste "Z" de Zulliger, semelhante ao Rorschach mas com três lâminas, que
é possível aplicar em dez minutos com adolescentes e adultos. Nessas condições de
trabalho é também necessário limitar o tempo dos testes gráficos. Se observarmos
que o paciente está demorando muito devemos dizer-lhe: "Gostaria que acabasse o
desenho para que possamos fazer o resto da nossa tarefa''.
Essa minibateria também não é única. Vai depender da patologia a ser
investigada. Se houver suspeita de organicidade pode ser suficiente solicitar Duas
Pessoas, Desiderativo, Bender e Rorschach ou teste "Z".
70 García Arzeno

O Phillipson admite a possibilidade de selecionar algumas lâminas adequa-


das ao conflito do paciente, e isso permite inclui-lo em uma minibateria.
Com crianças bastam vinte minutos de hora de jogo e outros tantos para
Desenho Livre, H.T.P. e Rorschach. Em uma segunda entrevista podemos aplicar
C.A.T., Desiderativo e Desenho Cinético da Família.
Devo insistir no ponto de que tudo depende do motivo de consulta e que,
conforme o que vier a ocorrer após vinte minutos de jogo, pode-se pedir somente
C.A.T. e Desenho Cinético da Familia.
Cabe acrescentar que o psicólogo que possuir uma grande experiência clini-
ca e profundos conhecimentos poderá trabalhar com baterias menores. Assim, é
aconselhâvel que uma instituição designe para essas tarefas seus profissionais mais
experientes.

Elementos da Personalidade a Investigar


Baseada no que já descrevi como uma bateria que uso de forma estável,
gostaria de acrescentar aqui os testes aos quais dou ênfase em determinados casos
e qual a seqüência que é usada.
Geralmente não coloco no início da bateria aquele teste que considero o mais
importante, pois o paciente vem com uma certa desconfiança lógica em relação à
tarefa e à nossa pessoa. Assim, colocando-o em uma segunda entrevista obtenho
resultados mais confiáveis.
Também não o deixo para o final, quando o paciente já poderá estar cansado
de responder a tantas instruções.
Quando é preciso investigar organicidade, o H.T.P. Cromático, o Rorschach e
o Bender são imprescindíveis.
Quando a dúvida está entre oligofrenia e oligotimia em crianças, incluo o
teste de figura humana com a instrução de Koppitz para avaliá-lo seguindo o siste-
ma de escores de Goodenough (revisado e atualizado por Harris) e o sistema de
escores de nível de maturidade de Koppitz. Quando o nível de escolaridade é aceitá-
vel e a criança, mesmo com dificuldades, chegou até uma quarta ou quinta série,
incluo o WISC. Com as crianças menores será usada a última versão do Wechsler
feita para elas. E recomendável alternar subtestes verbais com os de execução para
torná-los mais amenos. Geralmente os aplico em partes, alternando-os com a hora
de jogo, o H.T.P. e o Rorschach. Se a criança já fez dez anos incluo o Raven dizendo-
lhe que quero vê-la trabalhar em atividades diferentes, e essa é diferente do que fez
até então.
Se surgir a mesma dúvida diagnóstica com um adolescente ou um adulto,
uso o Wechsler, o Rorschach, o Raven para adultos, junto a outros testes gráficos e
algumas lâminas do Phillipson para verificar se consegue ou não ver o clichê.
Quando a dúvida refere-se a neurose ou psicose, em quadros duvidosos,
aplico a bateria completa de testes projetivos incluindo a escala de execução do
Wechsler para verificar se há ou não uma área do Ego livre de conflito que permite
ao sujeito ter um desempenho aceitável na área educacional e/ ou profissional.
Quando a investigação precisar ser centralizada no perigo de atuações (adi-
ção a drogas, homossexualismo, condutas anti-sociais, abortos, etc.) é imprescindí-
vel o uso da bateria completa de testes projetivos, sendo muito importante deter-se
nas associações verbais (que estimularemos ao máximo) e nos inquéritos do Rorschach
e do Phillipson.
Lembro de um caso que me foi enviado para que fosse investigado o risco de
recaída no consumo de drogas. No H.T.P. desenhou uma casa tipo chalé com uma
janelinha no teto. Perguntei o que havia ali: "Nada, está vazia". Perguntei: "Então
Psicodiagnóstico Clínico 71

não serve para nada?" Disse: "Bem, às vezes eu gostaria de ter um quarto para
descansar, não pensar em nada, olhar a paisagem". Além do mais no Questionário
Desiderativo respondeu como primeira catexia: "Uma vibração" (?), e não conseguiu
explicar por quê. Na lãmina CG do Phillipson as figuras da parte inferior (represen-
tantes das pulsões do !d) são vistas como "gente" (?) esperando algo. Pergunto:
"Como são?", e responde: "Abatidas, cansadas", e - "O quê esperam?" - "Não sei,
um trem, vão viajar". "E isto o que poderia ser?", pergunto apontando para a som-
bra superior e ele responde: "Alguém que também vai viajar".
A conclusão é óbvia: há um altíssimo risco de recaída pois o Ego é frágil
demais, o Superego não impõe as sua normas (sombra de CG) e tende a fugir da
realidade mais do que enfrentar a sua luta e as suas frustrações (quarto da casa e
outras histórias do Phillipson).
Capítulo 8

Objetivos, Materiais e
Instruções Utilizadas no
Psicodiagnóstico Clínico

Esta é uma síntese da palestra feita por mim durante um Seminário sobre
testes projetivos e sobre psicodiagnóstico clínico em geral.
Considero útil colocá-la aqui para que o leitor tenha uma pequena síntese de
cada teste e uma bibliografia básica de consulta sobre o assunto.

Desenho Livre
É de utilidade para a exploração da fantasia de doença, cura e análise que
são trazidas pelo sujeito. Entrega-se ao sujeito uma folha em branco, cujo eixo
horizontal é maior que o vertical, um lápis preto Nº 2 e uma borracha para apagar.
Diz-se ao sujeito: "Nessa folha desenhe o que você quiser. Pense em alguma coisa e
tente desenhar a primeira idéia ou motivo que lhe ocorrer."
Deve-se registrar o que ele desenhar, qual a seqüência, o que ele apagar, os
gestos e os comentários. Diante de qualquer pergunta responderemos: "Como qui-
ser". Não lhe é permitido colorir o desenho. As crianças, especialmente, tendem a
fazê-lo. Elas poderão fazer outro desenho para colorir, pois todos os testes gráficos,
com exceção do HTP Cromático, foram idealizados para serem feitos somente com
lápis, exigindo atenção especial à comparação dos traços.
Quando o desenho estiver terminado, pede-se ao sujeito que faça associa-
ções: "Fale-n1e de seu desenho, o que é isso?, e isto?, o que está acontecendo aqui?,
para onde vai esse caminho?, qual o título que você daria a ele?, etc.

Bibliografia:
Ver a publicada no final do livro de E. Han1mcr, Los tests proyectivos grãficos, Buenos Aires, Paidós, 1969.

Figura Humana
Àquelas crianças de cinco a dez anos de idade cronológica cujo nível intelec-
tual e de maturidade deixam dúvidas, pode-se solicitar uma figura humana com a
instrução de Koppitz e avaliá-la conforme seu sistema de escores no que se refere à
maturidade e o de Goodenough-Harris no referente ao aspecto intelectual. Entrega-
se a ela uma página com eixo vertical maior que o horizontal e pede-se: "Agora quero

72
Psicodiagnóstico Clínico 73

que você desenhe uma pessoa de corpo inteiro. Pode ser qualquer tipo de pessoa que
você queira desenhar, mas tem que ser uma pessoa completa e não uma caricatura
ou uma figura feita de pauzinhos". Logicamente, será registrada a seqüência, co-
mentários, o que for apagado, etc. para a interpretação projetiva que será acrescen-
tada à investigação do nível intelectual e de maturidade.

Bibliografia:
Caligor, L. Nueva interpretación psicológica del dibajo de lafigurahumana. Buenos Aires: Kapelusz, 1960.
Oi Lco, Joseph. El dibujo y el diagnóstico psicológico del nili.o normal y anormal de 1 a 6 mi.os. Buenos
Aires: Paidós, 1974.
Harris, D ale. El test de Goodenough, Revisión, actualización y ampliación. Buenos Aires: Paidós, 1981.
Koppitz, Elizabeth. El dibigode lajigurahumanaen los ninas. Buenos Aires: Guadalupe, 1976.

Quando for dada a instrução de Koppítz, poderemos continuar pedindo que,


em outra folha, desenhe a pessoa do outro sexo, seguindo o estilo do teste de Karen
Machover, que consta também de um questionário para a coleta de material projetivo.
Esse questionário, atualmente, já não é feito de forma tão minuciosa e estruturada
como foi proposto pela autora quando o criou há quase quarenta anos. Hoje ele é
feito de forma mais espontânea e seguindo as associações do paciente.
Outra opção após o Koppitz é solicitar o Teste das Duas Pessoas.

Teste das Duas Pessoas


Criado por Jaime Bernstein, é uma modificação do de Machover. Entrega-se
ao paciente uma folha com eixo vertical maior, lápis e borracha e dá-se a seguinte
instrução: "Nessa folha desenhe duas pessoas, como quiser, mas devem ser duas.
Por favor, não faça caricaturas nem figuras de pauzinhos porque não servem para
que eu possa ajudá-lo".
E registrada a seqüência do que ele desenha e apaga, os gestos e os comen-
tários.
Quando o paciente entrega o desenho, lhe pedimos que coloque o nome e a
idade em cada figura e que escreva uma história na mesma folha (se não souber
escrever, deve ditá-la) dizendo quem são essas pessoas, o que fazem ali, o que está
acontecendo com elas, se existe ou não alguma relação entre elas, etc.
Lemos o que ele escreveu para poder perguntar-lhe aquilo que não se enten-
der, estiver incompleto ou confuso, etc.
Finalmente é solicitado que o paciente dê um titulo ao trabalho.
O objetivo do teste está de acordo com as suas três abordagens interpretativas:
(!) dois aspectos dissociados e internalizados de sua personalidade aparecem
projetados um em cada figura: (2) é o modelo de vínculo de casal que ele possui
internalizado: (3) é o tipo de vínculo transferencial com o psicólogo.

Bibliografia:
Ocampo, Maria L. S. de; Arzeno, Maria E. Garcia; Grassano, E. e col. Las técnicas projectivas y el processo
psicod.iagnóstico. Buenos Aires: Nueva Sision; 1976.
Oprocesso psicod.iagnóstico e as técnicas projetivas. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
Bell, John. Técnicas proyectivas. Buenos Aires: Paidós, 1956, Apêndice.
Frank, Rena ta. ldentidad y vinculo en el test de las dos personas. Buenos Aires: Paidós, 1984.
Juri, Luis. Test de laparejaen interaccfón. Buenos Aires: Nueva Visión, 1979.
Valeta, Rina. El testde Machoveren adolescencia. Uruguay: Imago, s/d.
74 García Arzeno

Teste da Casa, a Árvore e a Pessoa (H.T.P.) de E. Hammer


Existem duas técnicas de aplicação do teste: cada conceito em uma folha ou
os três na mesma. Geralmente adotamos a última por ser mais econômica no que se
refere ao tempo de administração e porque acrescenta aos três conceitos um outro
dado que é a gesta!! que o paciente constrói com eles.
Dizemos: "Nessa folha desenhe uma casa, uma árvore e uma pessoa. Como
você quiser, basta que apareçam as três coisas".
A folha em branco deve ser aquela cujo eixo horizontal for maior que o verti-
cal.
Registra-se a seqüência daquilo que ele desenha e apaga, gestos e comentá-
rios. Logo, pede-se associações verbais:

Casa: quantos anos tem?, onde está localizada?, qual a sua parte mais bonita?, por
quê?, e a mais feia?, por quê?, para onde conduz essa porta?, e essa outra?,
está habitada?, por quem?, etc
Árvore: conhece uma assim?, como se chama?, quantos anos tem?, está viva?, tem
alguma relação com a casa?, etc.
Pessoa: como é o nome?. qual a idade dela?, o que está fazendo ali?, tem alguma
relação com a casa?, etc.

O inquérito deve ser fluido seguindo o material gráfico e as associações de


cada paciente.

Bibliografia:
Arzeno, Maria E. García. Algunas aportaciones a la interpretación dei dibujo dei árbol y de la casa, Revista
Argentina de laAssociación de Rorschach, afio 10, nº 1, 1987.
Hammer, E. Tests proyectivos gráficos. BucnosAlres: Paidós, 1969, cap. nª 8.
Koch, Karl. El test de árbol. Buenos Aires: Kapelusz, 1962.

H.T.P. Cromático
Retira-se a folha anterior (do HTP aC) e entrega-se outra dizendo: "Agora
desenhe novamente uma casa, uma árvore e uma pessoa. Pode ser o mesmo dese-
nho que você fez antes ou outro diferente, como você quiser".
Em vez de usar o lápis preto e a borracha agora ele deverá usar uma caixa
com giz de cera.
O teste é administrado, registrado e interpretado da mesma forma que o
HTP, com o acréscimo da interpretação do uso da cor.
As crianças gostam de fazê-lo, com exceção daquelas muito obsessivas, que
expressam as mesmas queixas dos mais velhos, tais como: os lápis quebram ou se
torcem, é ditlcil respeitar os limites do desenho e borra facilmente. Isso permite
observar também a tolerância à frustração e o controle ou manejo da agressão,
motivos para os quais este teste foi criado.
Não é permitido de forma alguma o uso do lápis para depois colorir com giz
de cera. Se o paciente insistir, pode-se permitir, mas esse material não é e BTP
cromático. A seguir, é conveniente insistir com ele para que o faça con:G áevc.
Tampouco é permitido colorir com lápis de cor ou canetinhas hidrocor porque estes
materiais não apresentam para o sujeito as mesmas condições propostas pelos cri-
adores do teste.
Psicodiagnóstico Clínico 75

É útil administrá-lo quando se quer indagar situações como as expostas


acima, nos casos psicossomáticos, borderline, suspeitas de organicidade, psicose e
impulsivos.

Bibliografia:
Ver Hammer, E., ob. cit., cap. 9.
Luscher, Max. Test de los colores. Buenos Aires: Paidõs, 1974.

Desenho Cinético da Fanúlia Atual e Prospectiva


Neste teste, entrega-se uma folha em branco, o lápis e a borracha e dá-se a
seguinte instrução: "Desenhe a sua familia fazendo alguma coisa. Você pode desenhá-
la como quiser, mas não esqueça que estou pedindo que eles estejam fazendo algu-
ma coisa". Somente se o sujeito já houver tentado fazer figuras com pauzinhos ou
muito esquemáticas será solicitado que não o faça agora. Depois pede-se que colo-
que em cada figura quem é e o que está fazendo. Pede-se que coloque o primeiro
nome também, por exemplo: irmão, André.
Para qualquer pergunta, a resposta será sempre: "Como você quiser". Se
perguntar sobre a inclusão ou não de uma ou outra pessoa deve-se responder que
ele/ela deve definir quem são os membros da sua família.
Se perguntar: "Eu também?" Responde-se que, sim.
Se entregar o desenho sem haver-se incluído <lhe-se dizer-lhe: "Está faltan-
do você." Se relutar em fazê-lo pergunta-se por quê, m~s sem insistência.
Se solicitar outra folha pede-se que continue na mesma. Aceita-se que dese-
nhe também no verso.

Desenho Cinético da Família (DCF)


Esse teste pode ser administrado a partir do momento em que a criança
adquiriu a noção de passagem do tempo. Pode-se aplicá-lo em qualquer idade par-
tindo desse pré-requisito.
Instrução: "Desenhe a sua família fazendo alguma coisa como a imaginarias
daqui a cinco anos".
Segundo a autora, Renata Frank, "escolheu-se um período de cinco anos
para ter um periodo longo o suficiente que permita fantasiar mudanças mas ao
mesmo tempo breve o bastante que permita ao sujeito representá-los como próprios
e com carga afetiva".
São interpretadas as fantasias de mudanças e é de grande utilidade no início
de um tratamento familiar para indagar as fantasias de cada um dos integrantes a
esse respeito.

Bibliografia:
Frank, Renata. Jnteracciôn y proyecto familiar. Evaluación individual, didática y grupal por medio del Test
de la familia kinética actual y prospectiva. Barcelona: Gedisa, 1985.
Juri, Luis, ob. cit.
76 García Arzeno

Desenho Cinético da Família com Técnica de Consenso


Os dois autores supracitados, Jmi e Frank, propõem uma técnica extrema-
mente útil quando queremos acrescentar às informações provenientes do teste uma
outra: a interação grupal [casal, familia, grupos de trabalho, terapêuticos, etc).
Pode ser aplicado após uma hora de jogo familiar (crianças) ou após uma
entrevista familiar [adolescentes).
Ambos, tanto o FKA como o FKP podem ser aplicados individualmente ou
com técnica de consenso. Se em forma individual, distribuem-se tantas mesas de
trabalho quantos forem os integrantes da família. Cada um recebe um lápis, papel
e borracha, dá-se a instrução pedindo-lhes que não copiem uns aos outros e logo
pode-se pedir o FKP em outra folha. Após, comparam-se os desenhos e toma-se nota
da dinâmica do grupo e dos comentários. Se for usada a técnica de consenso pode-
se também aplicar antes o FKA e depois o FKP.
Instrução: "Agora gostaria que juntos desenhassem a sua familia fazendo
alguma coisa (daqui a cinco anos). Podem fazê-lo como vocês quiserem (tentem
imaginá-la e desenhem)".
Se vai ser usada a técnica de consenso após a aplicação individual não deve
ser permitido que olhem os desenhos uns dos outros até o fim do trabalho, evitando
assim interferências na produção espontânea.
O pioneiro dessa técnica é o psicólogo Luis Juri, da Universidade Nacional
de Rasaria, que modificou o teste das Duas Pessoas de Bernstein. Os dois autores
contribuem com essas técnicas e critérios de interpretação muito úteis para as tera-
pias vinculares, familiares e de grupo (critérios de agrupabilidade. Remeto, para
isso, ao teste da Dra. Esther Romano, publicado na Revista Argentina de Psicoanálisis).
Frank prefere deixar muitas folhas, lápis e borrachas ao alcance dos mem-
bros da família, enquanto que L. Juri opta por entregar uma folha de cartolina
branca, um lápis e uma borracha para todo o grupo e observar qual a interação que
irá se produzir.

Teste Gestáltico Visomotor de L. Bender


Entrega-se uma folha de pape!, sempre tamanho oficio, lápis, e se a borra-
cha estiver próxima deve ser retirada. ·
Instrução: "Nesta folha quero que copie umas figuras que vou mostrar. Ten-
te copiá-la com a maior exatidão possível. Esta é a primeira''.
Se isso despertar em crianças, adolescentes e adultos obsessivos muita an-
siedade pela exigência de exatidão, pode-se aliviar isso acrescentando: "Ninguém
consegue fazê-las exatas, mas parecidas".
Se pedir borracha explica-se que precisamos conservar o registro de todas as
suas tentativas e que pode repeti-lo em outro lugar da folha.
Se pedir mais folhas lhe serão dadas.
Se perguntar: "Devo desenhar o cartão também?" Responderemos repetindo
a instrução e acrescentando: "Como você quiser".
É interessante ver a ação dos mecanismos de dissociação quando desenham
os cartões.
Obviamente, deve-se registrar tudo minuciosamente: como os copia, direção
de cada traço, comentários e gestos.
Psicodiagnóstico Clínico 77

Bibliografia:
Koppitz, Elizabcth. El test Gestáltico vfsomotor en niíl.os. Buenos Aires: Guadalupe, 1976.
I3ender, Lauretta. El test gestâltico viso motor. Buenos Aires: Paidós, 1975.
Zenequclli, E.ElBenderenadolescentes marginales.BuenosAlres: EUDEBA, 1973.

Questionário Desiderativo
Investiga a possibilidade de usar o mecanismo de identificação projetiva de
n1aneira normal ou patológica.
O normal é poder "brincar" de perder a própria identidade e recuperá-la,
sem entrar em crises de angústia, estados confusionais ou desestruturação psicôtica.
Instrução: "Agora vamos usar a imaginação. Não sendo pessoa (você é uma
pessoa, um menino, urna menina] o que gostarias mais de ser?". Aceita-se a respos-
ta, mesmo sendo uma escolha que implique a manutenção da identidade humana.
Por exemplo: "Astronauta". Pergunta-se por quê e repete-se a instrução.
Após obter uma resposta é necessário perguntar tudo o que for necessário
para esclarecê-la devidamente. Por exemplo: "Gostaria de ser um cavalo". - "Que
tipo de cavalo? - "De corrida". -"Por quê?" - "Porque são elegantes e velozes".
Depois diz-se: "Agora pense em outra coisa que você gostaria de ser".
A partir desse n1omento existem duas técnicas: un1a é a de passar à outra
catexia e outra é a de perguntar livremente e, por exemplo, aceitar duas ou três
respostas referindo-se à mesma catexia para depois induzir uma mudança ("Bem,
você Já escolher três animais, o que mais você gostaria de ser que não seja pessoa
nem animal?"). Tenta-se obter três catexias: animal, vegetal e inanimado (não usar
a palavra "coisa" porque limita a resposta a algo material). Assim obteremos três
níveis de identificação complementários.
É importante registrar, como no Rorschach, os tempos de reação, porque
são indicadores úteis.
Após as três escolhas positivas pedem-se três negativas. "Agora vamos pen-
sar no contrário: o que menos gostarias ... ?" E da mesma forma recolhem-se as três
catexias na ordem em que espontaneamente surgirem.
É um teste econômico no que se refere ao tempo (dez minutos podem ser
suficientes) e dá uma informação muito útil tanto na área clínica como na vocacional
e profissional. É útil interpretar as catexias positivas como as defesas que o sujeito
usa diante de situações limite, tal como foi proposto por M.C. de Schust e E. Grassano
de Píccolo em seu excelente trabalho sobre o assunto. Elas propõem também inter-
pretar as catexias negativas como uma advertência inconsciente do Ego sobre o que
pode vir a acontecer-lhe se não as usar ou o preço que vai pagar por usá-Ias.
Partindo de outro enfoque, o material pode ser interpretado como aquilo que
o paciente deseja para chegar a ter o seu narcisismo completo e o que considera
como a maior ameaça para o seu narcisismo.

Bibliografia:
Bell, John. Técnlcas proyectiuas.Apêndice. Buenos Aires: Paidós, 1956.
Carpossi, M.C. y Grassano, E. G. Indices diagnóstico y prognósticos en el Test Desideratívo a partir del
estudio de las defensas~. em Ocampo, GarciaArzeno e cal., ob. cit., cap. 3.
Garcia Arzeno, M. E. y Klciner y P. Woscoboinik. KEI Cuestfonalio Desiderativo como instrumento de
exploración dei narcisismo", trabalho lido durante o Congresso sobre psicotcrapias, Universidad
de Belgrado. Buenos Aires {Ver capítulo sobre Desiderativo).
Sclenek, G. y Brande, M. El Cuestionario Desiderativo. Buenos Aires: Lugar, 1990.
78 García Arzeno

Teste de Matrizes Progressivas de Raven e


Teste de Dominós de Anstey
Estes testes têm como objetivo medir a inteligência do indivíduo através de
estimulas com a menor contaminação cultural possível.
Eles são incluidos em uma bateria não tanto para "medir" a inteligência mas
para observar seu nível real de eficiência, com a interferência ou não de fatores
emocionais.
É útil para casos de consultas devido a problemas de aprendizagem ou mau
rendimento no trabalho. É conveniente incluí-los também em estudos de orientação
vocacional ou profissional.
Torna-se interessante registrar o comportamento do sujeito, suas distra-
ções, seus comentários, a resposta diante de situações difíceis, seu comportamento
organizado ou não, etc.
Podem ser incluídos em qualquer momento da bateria mas é melhor deixá-
los mais para o final.
Em alguns casos nos quais o paciente insiste em afirmar que ele "não é
inteligente" pode ser aplicado registrando antecipadamente o resultado. Se esse
resultado for realmente baixo, deve-se explicar ao paciente quais os obstáculos que
impedem o seu maior rendimento. Se o resultado for bom pode-se pedir a ele que
faça a sua própria avaliação, aplicando ao mesmo tempo a tabela respectiva e con-
sultando o resultado na grade. É uma prova de realidade de grande utilidade.
O Raven possui uma escala geral (12 a 65 anos) e uma especial (4 a 11 anos).
Existe também uma versão em blocos para os de menos idade ainda e para os não-
videntes.
O Dominó é usado com crianças mais velhas, adolescentes e adultos.

Bibliografia:
Anstey, E. Teste de dominó. Buenos Aires: Paidós, 1955.
Raven, J. C. Test de matrices progressivas. Buenos Aires: Paidós, 1976.

Teste de Apercepção Infantil


(Children Apperception Test) de L. Bellak
Este teste obtém a projeção através de lâminas, ou seja, mediante um estí-
mulo visual. Seu objetivo é investigar em que tipo de situações concentram-se os
conflitos da criança, as defesas com as quais os enfrenta, o ponto de fixação de sua
libido, as suas relações parentais, filiais, etc.
Instrução: "Vou mostrar-lhe umas lâminas. Você deve inventar histórias (ou
historinhas se a criança tiver quatro ou cinco anos). Diga-me o que vê e o que está
acontecendo. Também quero saber o que aconteceu antes e como acaba a histórta.
Esta é a primeira".
Registra-se a produção verbal e as respostas de conduta.
Ao final, pergunta-se aquilo que tiver ficado incompleto, confuso ou ambí-
guo. É importante tentar obter conteúdos com ações, conflitos e desenlaces.
A simples descrição minuciosa do que está sendo visto não é de grande valor
projetivo e é uma defesa típica dos obsessivos.
Às vezes ocorre o contrârio e é necessário pôr fim a uma história interminá-
vel perguntando: Como termina essa história?
É imprescindível conhecer as histórias-clichê de cada lâmina para interpre-
tar o teste corretamente.
Psicodiagnóstico Clínico 79

Usamos o CAT -A em todos os casos e entre quatro e dez anos.


O CAT-H não mostrou validade em nosso meio.
É conveniente esclarecer que não é válido usar fotocópias das lâminas pois o
estímulo sofre alteração e, assim, as distorções de percepção ou de conteúdo podem
ser devido a essas alterações e não aos conflitos do sujeito. Ao final do teste, todas as
lâminas podem ser entregues ao sujeito, pedindo-lhe que escolha aquela que mais
gostou e a que menos gostou e explique por quê. Isso relaxa o sujeito, inclui uma
nota lúdica e leva à produção de material projetivo de utilidade. Este recurso tam-
bém é usado ao final do Phillipson e do Rorschach, em todas as idades.

Bibliografia:
Ocampo. Maria L. S. de; Arzeno, Maria E. G.; Grassano, E. e col., ob. cit.
Baringoltz, Sara; Frank, Renata e Menêndez, Florencia. ELCAT en el psfcodiagnóstico de niilos. Buenos
Alrcs: Nueva Visión, 1979.
EL CAT. Revisión y aportes. Buenos Aires: Tarshis, s.d.
Dellak, L. El test de apercepción irifantil. Apêndice. Buenos Aires: Paidós.

A partir dos dez anos pode tornar-se absµrdo mostrar lâminas com bichi-
nhos a crianças quase púberes. Pode-se usar o CAT dizendo: "Vamos inventar histó-
rias para os pequeninhos" ou então usar diretamente o Teste de Relações Objetais
de Phillipson.

Teste de Relações Objetais de H. Phillipson


Geralmente os testes projetivos verbais com estímulo visual (CAT, TAT,
Phillipson, Rorschach) são administrado em três tempos ou etapas:

1) Administração: É o registro da produção verbal e não verbal espontânea.


2) Inquérito: Uma vez colhida a última história ou resposta, mostram-se as
lâminas em ordem e pergunta-se tudo o que pode ter ficado incompleto,
confuso ou contraditório.
3) Exame de limites: É feito ao final do inquérito e consiste em colocar o
sujeito em condições mais limitadas para obter uma resposta sobre algo
que espontaneamente evitou. Por exemplo, nenhuma história tem um
desenlace. Diz-se então: "Procure uma lâmina cuja história possa ter
um final..." Se ainda assim não responder coloca-se o seguinte: "Alguns
dizem que isto acaba assim (diz-se o clichê), o que você acha? Poderia
ser?" ...

Se no Phillipson não viu seres humanos, não incluiu a cor ou não se referiu
nunca ao conteúdo de realidade, usa-se também esse recurso.
No CAT ele é útil para o diagnóstico diferencial se em todas as lâminas a
percepção foi distorcida; por exemplo, viu cachorros em vez de pintinhos, ou morce-
gos em vez de macacos, etc. Quando o paciente consegue aceitar o clichê, o diagnós-
tico será mais a favor de borderline do que de psicose.
Essa ordem é recomendável por duas razões: (1) recolhe-se a produção es-
pontãnea do sujeito e o tempo total de duração sem interferências (isto é fundamen-
tal no Rorschach); (2) evita-se que o sujeito "aprenda" o que deve responder segundo
as perguntas que vamos formulando, se o fizermos durante a aplicação do teste.
O TRO de Phillipson baseia-se na teoria das relações objetais de Melanie
Klein. Investiga, portanto, as fantasias inconscientes mais primitivas, o modelo de
relação objetal, as ansiedades básicas e as defesas mais regressivas, além das mais
80 García Arzeno

evoluídas {séries A e B, respectivamente). A inclusão da cor e a pouca estruturação


do estímulo permitem uma comparação e uma complementação ideal com o
Rorschach.
Para um esclarecimento detalhado do que é investigado por cada série e
cada lãmina, recomendamos consultar a bibliografia específica.
Instrução: "Vou mostrar-lhe umas lãminas. Você deve dizer o que está ven-
do, o que está acontecendo, o que aconteceu antes e como acaba. Deve inventar
uma história. Eu vou ajudá-lo com a primeira. É esta."
Se o sujeito demonstrar não haver entendido a instrução pode-se explicar
que é como ver a capa ilustrada de um livro e imaginar o seu conteúdo. O autor
recomenda ajudar o paciente na primeira lâmina para certificar-se de que entendeu
o processo. Partindo dessa lâmina, irá colher a produção espontânea. Por exemplo:
"Vejo um homem. Está pensando. Está na rua" ... Pergunto: "Qual a idade dele? Em
quê ele está pensando? Por quê está na rua? Como continua depois? Como acaba?,
etc.
O tempo de reação é registrado da mesma forma que no Rorschach.
Também o é a hora do início e do final da administração e do final do teste.
Assim como no CAT, neste teste também pode ser necessário limitar o tempo
daqueles sujeitos que contam histórias intermináveis e confusas.
Se, pelo contrário, o sujeito reagir com um negativismo total poderemos,
como último recurso, mostrar-lhe todas as lâminas e pedir-lhe que escolha aquela
ou aquelas que ele quiser para criar uma história {exame de limites) e finalmente
sugertr a história clichê de alguma para ver se a aceita ou não.
Se houver uma total rejeição, deve haver ocorrido isso também no
Desiderativo. Não ê conveniente insistir, pois isso significa que o mecanismo de
projeção está alterado e a nossa insistência pode desencadear reações desestruturadas
e, portanto, iatrogênicas.
Assim como no Rorschach, o Phillipson deve ser administrado de forma com-
pleta em uma única entrevista. Respeito à quantidade de lâminas, no Rorschach
não deverá ser omitida nenhuma e no Phillipson poderá ser feita uma seleção de
acordo com o que está sendo investigado se j6. houver sido administrado o Rorschach.
Sem o Rorschach, o Phillipson fracionado não tem valor.
Para fazer a interpretação é útil redistribuir as histórias na ordem seguinte:

série A: Al A2 A3y AG
série B: B1 B2 B3y BG
série C: ei C2 C3y CG
lâmina em branco.

No que se refere à lâmina em branco a instrução é: "Agora vou mostrar esta


lâmina {mostra-se) que como você vé não tem nada. É para que você imagine tam-
bém a lâmina, além da história".
É de grande utilidade comparar Al, na qual pode aparecer o que é mais
pessimista e patológico, com a lâmina em branco que oferece ao sujeito uma maior
possibilidade de fantasiar {defesa maníaca) ã vontade, da mesma forma que no de-
senho livre. Phillipson pede finalmente uma história alternativa da lãmina Al {a
primeira). Nós propomos que isso seja feito no inicio do teste nos casos em que essa
história inclui uma temática muito dramática, sinistra ou também naqueles casos
de produção descritiva ou fracasso total.
Psicodiagnóstico Clínico 81

Bibliografia:
Phillipson, H. El test de relaciones objetales. Buenos Aires: Paidôs, 1965.
Ocampo, Maria L.S. de; Arzeno, Maria E. G.; Grassano, E. e col., ob. cit.
Frank, Rena ta (comp). Actualizaciones en el Test de relaciones objetales de Pltillipson. Buenos Aires: Paidós,
1983.

O Psicodiagnóstico de Rorschach
É administrado dos quatro anos em diante. Com as crianças pequenas é
aplicado como se fosse uma brincadeira.
Instrução: "O quê você vê aqui?" Como introdução deve-se esclarecer: "Vou
mostrar umas lâminas. Você tem que dizer o que está vendo. Não se trata de acertar
ou errar porque cada um imagina alguma coisa diferente. Diga o que você está
vendo aqui". Após a resposta espera-se para ver se o sujeito dará outras. Se não,
pergunta-se: "Está vendo mais alguma coisa ou é só isso?" E nesse momento escla-
rece-se: "Eu as mostro assim mas você pode movê-las como quiser", e isso é anotado
assim ( õ ) registrando-se se realmente as faz girar ou não e se dá mais respostas.
Anota-se a hora do início e do fim da aplicação do teste: a hora em que cada
lâmina foi entregue e o tempo de reação (TR) entre a cabeça da lâmina e a resposta
a ela.
Por "resposta" no Rorschach entende-se o primeiro conceito emitido pelo
sujeito e não qualquer verbalização. Enquanto não emitir um conceito, mesmo que
fale, é contado como tempo de reação, por exemplo, 75 segundos, até que finalmen-
te diz: "Uma máscara". Se isso não se concretizar pode-se perguntar: "Bem, mas o
quê estás vendo aqui?" e ele poderá responder: "Na verdade não estou vendo nada".
Neste caso estaremos diante de um fracasso por choque (diante do espaço branco,
preto, vermelho, à cor, etc., conforme a lâmina).
Se entre a primeira resposta e a seguinte o sujeito demorar, é conveniente
registrá-lo pois a primeira pode ser uma resposta "por compromisso" ocultando o
verdadeiro choque delatado por uma demora, por exemplo, de 30 segundos para
continuar.
Logicamente, todos os comentários e gestos serão registrados.
Ao finalizar a última lâmina diz-se: "Bem, agora vou mostrá-las novamente
para fazer algumas perguntas porque eu tenho que imaginar a mesma coisa que
você".
Isso é verdade. Além do mais precisamos saber a localização de cada respos-
ta, o determinante e o conteúdo, elementos que nem sempre são evidenciados.
Isto pode parecer entediante mas é o momento-chave na administração do
teste e essencial para quem realizar a tarefa de tabulação.
Se está-se tratando de crianças pequenas (pela labilidade da sua atenção) ou
pacientes muito ansiosos ou confusos, pode ser indicado fazer as perguntas ao final
de cada lâmina, já que se realizamos o inquérito somente ao final poderemos nos
encontrar com outro registro, ou seja, seria como começar a aplicar outro Rorschach
e assim sucessivamente. O tempo fica alterado, mas nesses casos isso faz parte da
sua patologia.
O mais fácil é interrogar sobre o conteúdo. "Você disse que via aqui um ani-
mal, qual é? É parecido com qual? No último caso posso desenhá-lo".
A localização não oferece maiores dificuldades pois o próprio paciente indica
com o seu dedo a área que o conceito abrange. Pode ser tudo (W), quase tudo IWI.
um pequeno detalhe (Dd), um detalhe muito pequeno (dd), um detalhe raro (Dr), um
82 García Arzeno

detalhe com espaço em branco (DS), o todo com espaço em branco (WS) ou somente
o espaço em branco (S). Pode ser um detalhe interior (Di) ou um detalhe da borda
(De).
E mais dificil interrogar sobre os determinWJtes. Os mais importantes entre
eles são aqueles que aparecem no quadro que é feito ao final da tabulação:

1. Movimento humano.
2. Movimento animal.
3. Movimento inanimado.
4. Respostas de claro-escuro.
5. Respostas de forma.
6. Respostas de textura.
7. Respostas de cor acromática.
8. Respostas de forma cor, cor forma e cor pura.

Sugerimos consultar a bibliografia para conhecer a definição de cada


determinante.
A pergunta chave é: "Por qué achas que é um/uma ..... ?"
Se a resposta não for muito clara, deve-se perguntar mais. Por exemplo, na
lâmina 1 o sujeito diz que vê um pássaro. Durante o inquérito perguntaremos:
"Onde o vé?" E ele responde vagamente: "Ali". Nós diremos: "Assinale com o dedo."
Ele aponta as laterais. Pergunto: "Onde está a cabeça?" Ele aponta. Pergunto: "O
que mais vês do pássaro?" Aponta o resto e descreve. "Que tipo de pássaro é?" Ele
responde: "Qualquer um". Pergunto: "Por que parece um pássaro?" E ele diz: "Por
causa da cabeça, o bico, as asas, o rabo ... São dois."
Se isso viesse a ocorrer em outra lâmina em uma zona colorida, seria conve-
niente perguntar: "A cor tem algo a ver ou não?". Quando se refere ao branco, cinza
ou preto como cor é conveniente ter certeza de que o inclui como cor, já que eles
serão classificados como cores acromáticas (C) e isso é importante no diagnóstico.
Se o sujeito diz que algo que vé numa zona colorida é de determinada cor sem dar
uma explicação lógica - por exemplo: "Ursos cor de rosa" na lâmina Vlll -, é
importante tomar nota pois esse uso arbitrário da cor implica uma adaptação emo-
cional passiva e superficial. Também é importante ver se usa os diferentes tons da
cor para definir formas, porque sendo assim a cor não será tal e estará funcionando
conio claro-escuro. Pode também ser usada para diferenciar áreas, por exemplo: o
verde é um homem, o laranja são duas bruxas e o rosa duas crianças (lâmina IX). O
uso simbólico da cor é outra possibilidade. Por exemplo: "O ser, o nada e a violên-
cia", disse um sujeito de 35 anos ao ver a lãmina II. Referia-se ao cinza, ao branco e
ao vermelho respectivamente.
Quando o sujeito descreve figuras em movimento é conveniente indagar se
projetou uma kinestesia ou se é como uma foto que detém o movimento em uma
"pose". O movimento inanimado aparece nas figuras humanas, animais ou objetos
que são movidos por forças estranhas a eles mesmos. Por exemplo: "Pássaros mor-
tos que caem n é movimento inanimado.
A propósito de seres mortos, críticas â lãmina ou a si mesmo, choques, etc.,
recomendamos consultar a lista de "fenômenos especiais" que aparecem no manual
do Rorschach de Bohmm'.
O claro-escuro é um determinante que aparece cada vez que o que atrai o
paciente é o cinza. Pode aparecer como escuridão, como luz, como fumaça, como
vista aérea, como radiografia, etc. (não como cor).

1. Bohmm, E\vald. Manual dei Psicodiagnóstico de Rorschach. 2.ed. Barcelona: Científica Médica, 1957.
Psicodiagnóstico Clinico 83

Em relação à forma não é conveniente conformar-se com a resposta: "Por


causa da forma". Deve-se pedir uma descrição mais detalhada pois pode ser uma
forma muito bem vista (F+) uma popular ou standard (F], uma forma vaga (F±) ou
uma forma mal vista (F-). Disso vai depender o F% e o F+%, elemento diagnóstico
importante.
Além do mais, essas perguntas servem para estabelecer se são respostas
verdadeiramente populares (indicador de adaptação à realidade) ou Originais posi-
tivas ou negativas.
Após o fim do inquérito, poderá ser necessário fazer um exame de limites
toda vez que o sujeito houver omitido algo essencial nas etapas anteriores. Por exem-
plo: não há nenhuma figura humana (a partir da puberdade). nenhuma em movi-
mento, nada de cor, nenhuma popular, etc. Isso será feito progressivamente:

l. "Algumas pessoas véem seres humanos nestas lâminas, você vê algu-


ma?" E apontamos para todas as lâminas.
2. Se responder que não, mostraremos as lâminas III e VII. "E aqui?"
3. Se responder que não, apontaremos a figura popular nas lâminas e ele
então poderá dizer: "Ah! Sim, agora sim" e será conveniente pedir a
descrição para que não seja um sim somente por obrigação. Se não a vê,
diz-se: "Bem, não tem importância, cada uma vê o que vê", evitando
decepcioná-lo.

Às vezes respondem logo, assinalando diretamente as figuras das lâminas II,


III e IV. Então faz-se a pergunta: "O que achas, por que não as viste antes? As
respostas são interessantes, pois algumas vezes dizem: "E óbvio demais, por isso
não disse".
Uma forma de terminar o teste com menos tensão e colher mais material é
dar-lhe todas as lâminas e pedir que escolha a mais bonita, agradável ou fácil e a
mais feia desagradável ou dificil e que diga por quê. Isso sempre irá proporcionar
um material diagnóstico interessante, principalmente se for feita a correlação com a
parte mais bonita e a mais feia da casa do HTP.

Bibliografia:
Klopfer, Bruno. Técnica del psfcodiagnóstico de Rorschach. Buenos Aires: Paidós, 1952.
Rorschach, Herman. Psicodiagnóstico. Buenos Aires: Paidós (1 ªedição Berna, 1921).
Bohmm, Ewa\d.Manual de psicodiagnósticode Rorschach. Barcelona: Cientifico Mêdica, 1958.
Orlando, Irene. La interpretación dinâmica del Rorschach. Buenos Aires: Paidós, 1976.
Noccti e Sorribas, Las histerias y el Rorschach psicoanalitico. Buenos Aires: Paidós, 1982.
KJopfer e Kelly, Técnica de psicodiagnóstico de Rorschach. Buenos Aires: Paidós, 1972.
Ames, Louise Bates. El Rorschach infantil. Buenos Aires: Paidós, 1972.
Ames, L-Ouise Bates yotros. ElRorschach de 10a16 aii.os. Buenos Aires: Paidós, 1977.
Aust, M. e Garcia, MariaJulia. "Respuestas populares en una muestra argentina". Revista de laAsociacíón
Aryentina de Psicodiagnóstico de Rorschach, afio 1O, Nº 1, 1987.

Bibliografia geral
Anzieu, D. Los métodos proyectivos. Buenos Aires: Kapelusz, 1962.
Bell, John. Técnicas proyectivas. Buenos Aires: Paidós, 1956.
Regadas, E. Gonzâlez. Estudios psicodiagnósticos. Uruguay: Imago, 1979.
Grassano, Elsa. Indicadores de psicopatologia en técnicas proyectivas. Buenos Aires: Nueva Visión, 1977.
KJopfer, Walter. El informe psicológico. Buenos Aires: Tiempo Contcmporáneo, 1975.
Ocampo, Maria L. S. de; Arzeno, Maria E. G.; Grassano, E. e col., Oprocesso psicodiagnósticoeoi;,técnicas
projetivas. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
Rapaport, David. Tests de diagnóstico psicológico. Buenos Aires: Paidós, 1959.
Capítulo 9

Os Testes Projetivos Gráficos

Antes de passar direto ao assunto gostaria de relembrar o que foi dito a esse
respeito por alguns autores renomados, verdadeiros especialistas no assunto.
Jaime Bernstein, no prólogo do livro de E. Hammer1 , coloca:

Oinstrun1cnto principal da clinica psicológica é a entrevista: os testes projetivos estão


a se1viço da n1csma pois, a rigor, não são senão n1ecanismos para conduzir un1a forma de cntre-
Vista.

Mais adiante comenta o desenvolvimento precoce· da grafologia dizendo:

Essa precoce preferência pelo exarne psicolôgico através do comportamento gráfico mostra
uma percepção precoce do seu valor comunicativo, da sua eficiência para coletar inforn1ações
niais verdadeiras, menos disfarçadas que aquelas obtidas pela via enganosa da linguagem. (...)A
cultura alenta e compele o indivíduo desde o inicio do seu desenvolvimento a transmitir e receber
quase exclusivamente n1ensagens verbais levando-o a abandonar, mais cedo ou mais tarde, qual-
quer tentativa de comunicação por outras vias ... (mas) o psicôlogo clinico sabe que o traço e as
figuras lhe darão acesso aos eslralos básicos e que constituen1 expressões menos controladas da
personaiidade do sujeito. Ele sabe que pode confiar nessa linguagem mais ingênua e espontânea;
mais complexa e dificil; nessa linguagen1 estranha que, com a sua formação humana já ben1
avançada, deve aprender a decifrar profissionaln1ente alé1n de exercitar-se para poder manejá-la.

Nessa oportunidade Bernstein lembra daqueles que foram pioneiros nesse


assunto: psicanalistas do quilate de Paul Schilder, Lauretta Bender, John Buck,
Karen Machover, Abrams e Schwartz, entre outros. Cita também Harrower, autor
do teste do conceito mais desagradável e Kinget com sua técnica de completar dese-
nhos e a técnica da garatuja livre.
Por sua vez, Caligor' fala que o homem tem usado o desenho como forma de
comunicação desde o tempo das cavernas. Menciona Paul Schilder, para quem os
desenhos podem ser estudados durante o tratamento analítico com adultos da mes-
ma forma que o material oferecido pelos sonhos. Schilder' descobriu a permanência
dos esquemas gráficos que podiam ser observados e descritos. Deduziu então que

1. Hammer, E. Los tests ptroyectivos gráficos. Buenos Aires: Paidós, 1969.


2. Caligor, L. Nueva interpretación psicológicadel dibujode la figura humana. Buenos Aires: Kapclusz,
1971.
3. Schilder, P. Imagen y apariencia dei cuerpo humano. Buenos Aires: Paidôs, 1958.

84
Psicodiagnóstico Clínico 85

havia nos desenhos aspectos estruturais relativamente persistentes. A partir dai,


lembra Caligor, eles têm sido muito usados. Caligor é autor do TDSH, o teste das 8
folhas, certamente muito interessante já que cada folha modifica o desenho da folha
anterior conseguindo diferenças significativas entre a primeira e a última produção.
Biedma e D'Alfonso• trabalharam sobre um teste cujo autor é Wartegg5 . Esse
psicólogo escolheu temas gráficos segundo o poder de sugestão de cada um (um
ponto no centro, uma curva, duas linhas curtas paralelas, etc.). Baseado na teoria
da Gestalt, tenta conhecer a orientação dinâmica e genética da personalidade do
sujeito e estuda em etapas distintas o processo da estruturação no teste do dese-
nho. Baseia-se na Psicologia do caráter e na Tipologia, muito em voga naquela épo-
ca.
Biedma e D'Alfonso acrescentaram oito aspectos aos originais de Wartegg
(WZTSD) para ampliar a informação obtida com a primeira série. É proibido usar
borracha e a instrução é: "Complete o desenho."
Podemos ver assim que o interesse pelas têcnicas gráficas surgiu a partir de
fontes diferentes: a grafologia, a psicanálise, a teoria da Gestalt, a Psicologia do
caráter e a Tipologia.
Gostaria de mencionar outro autor: Joseph Di Leo6 , que ficou in1pressionado
com algumas semelhanças entre os desenhos de crianças contemporâneas e dos
egípcios antigos. Como, por exemplo, o desenho do corpo humano e as extremida-
des para a frente, o rosto de perfil e um olho na testa. Lembra, como Caligor, que
nossos antepassados recorreram ao desenho porque as imagens eran1 entendidas
por todos como uma linguagem universal. Partindo desse ponto lança a hipótese de·
que o desenvolvimento da escrita na raça é paralelo ao do individuo. Para isso apóia-
se na teoria psicológica de Stanley Hall, discutível mas atraente, a qual considera
que a história ancestral da raça é reproduzida no desenvolvimento do individuo.
Essa teoria afirma que "a ontogenia recapitula a filogenia".
Di Leo dedica seu livro a analisar as semelhanças, certamente assombrosas,
entre as duas séries de desenhos (egípcios antigos e crianças de hoje) e também
aquelas que surgem ao comparar pinturas de famosos pintores de séculos passados
com as de crianças da atualidade.
Lauretta Bender7 criou seu Teste Gestáltico Visomotor baseada na teoria da
Gestalt (como indica o seu nome). Mas, como coloca Bernstein ao escrever o prólogo
do seu livro, John Bel! e Hutt. da Universidade de Michigan (E.U.A.) o classificaram
como um teste projetivo, acrescentando ao mesmo a livre associação sobre as figu-
ras desenhadas e outros procedimentos similares.
Finalmente chegamos à década de 60-70, época durante a qual a escola
inglesa de Melanie Klein tomou uma enorme importância na Argentina.
Como catedráticos de Técnicas Projetivas da Universidad de Buenos Aires
tivemos que trabalhar ardorosamente para neutralizar um certo furor que estimu-
lava a criação de técnicas sem a devida validação, com o conseqüente risco de diag-
nósticos errados.
Atualmente chegamos a demonstrar que é imprescindível que um teste seja
submetido a provas de validade e confiabilidade antes de ser lançado para fins diag-
nôsticos.

4. Bicdn1a y D'Alfonso. El lenguqje del dibiijo. Buenos Aires: Kapelusz, 1960.


5. \Vartcgg. El test de Warlegg. Buenos Aires: Paidós.
6. Oi Leo, J. El dibLifo y el diagnóstico psicológico del nifto normal y anormal de 1 a 6 aftas. Buenos Aires:
Paidós, 1974.
7. Bender, Lauretta. El testeguestâlticoo visomotor. Buenos Aires: Paidós, 1964.
86 García Arzeno

Características Gerais dos Testes Gráficos


- A linguagem gráfica, assim como a lúdica, é a que está mais próxima do
inconsciente e do Ego corporal.
- Conseqúentemente, oferece maior confiabilidade que a linguagem verbal,
a qual é uma aquisição mais tardia e pode ser muito mais submetida ao controle
consciente do indivíduo.
- É um instrumento acessível às pessoas de baixo nível de escolaridade e/
ou com dificuldades de expressão oral.
- Por esse mesmo motivo os testes gráficos são de grande utilidade com
crianças pequenas que ainda não falam com clareza, mas que já possuem um nível
excelente de simbolização nas atividades gráficas e lúdicas.
- Sua administração é simples e econômica.
- É imprescindível considerar que todo teste gráfico deve ser complementado
com associações verbais que possibilitarão uma correta interpretação dos mesmos.
- Também deve-se considerar o nível sócio-econômico-cultural do indiví-
duo, a sua idade cronológica e o seu nível evolutivo e de maturidade. Muitos erros de
interpretação devem-se ao desconhecimento da produção tipica de cada idade e de
cada grupo social.
- Os gráficos mostram uma produção muito próxima do inconsciente. Por-
tanto mostram o que há de mais regressivo e patológico. Sendo assim, é imprescin-
dível a sua comparação com o material coletado em outros testes projetivos e objetivos
da personalidade para completar a visão geral que se possui e fazer o diagnóstico
sobre bases mais confiáveis. Podemos então, por exemplo, aplicar o Phillipson e o
Rorschach em adultos e adolescentes, e o CAT de Bellak e o Rorschach em crianças.
- Quando se trabalha em instituições, os testes gráficos são escolhidos
pela simplicidade da sua administração e economia de tempo. Mas é importante,
conforme o exposto anteriormente, que eles sejam complementados com um teste
verbal. O Questionário Desiderativo é de fácil administração então para contar as-
sim com uma "minibateria". No entanto, não é possível fazer um diagnóstico fino e
exaustivo mas sim descartar as patologias graves.
- É de muita utilidade considerar os indicadores formais do gráfico para
fazer o diagnóstico e, principalmente, o prognóstico. Eles estão menos sujeitos ao
controle consciente que aqueles de conteúdo. O sujeito desconhece o significado do
seu traço frágil e entrecortado ou grosso e emplastado, mas pode imaginar a dife-
rença entre desenhar um esqueleto ou uma pessoa viva.
- Para fazer o acompanhamento de uma tratamento psicoterapêutico de
um paciente é importante administrar os mesmos testes gráficos e, sempre que
possível, seguindo a mesma instrução, para poder compará-los. Espera-se que apa-
reçam diferenças nos indicadores formais e de conteúdo. Os formais são os que
devem aparecer modificados positivamente, pois são eles que nos dão informações
sobre os aspectos estruturais da personalidade. É interessante fazer a correlação
dos indicadores formais dos gráficos com os dois protocolos do Rorschach. Os indi-
cadores formais são os de modificação mais difícil. Os de conteúdo, no entanto, são
tão variáveis quanto o conteúdo de um sonho, os seus detalhes, não a sua estrutu-
ra.
- A estereotipia nos gráficos indica uma falha em aspectos estruturais da
personalidade. Não indica estabilidade e sim rigidez. A estereotipia pode ser total ou
parcial. Por exemplo, desenhar todas as figuras humanas seguindo o mesmo esque-
ma sem diferença de idades, sexos, papéis, etc. Ou então, pode acontecer a inclusão
dessas diferenças mas sempre omitindo os rostos ou então desenhando três dedos
nas mãos em todas as figuras. Nesses casos, os problemas registram-se no nível da
própria identidade (sem rosto) ou de sentimentos de castração (três dedos em dese-
Psicodiagnóstico Clínico 87

nhos de pessoas com mais de 6 anos). Se, no entanto, desenha a sua família e omite
o rosto da mãe, está demonstrando mais um transtorno no seu vínculo com ela, e
nesse caso não falaríamos de estereotipia.
- A plasticidade nos desenhos indica maior força do Ego, que pode se adap-
tar a situações diferentes.
- Os testes gráficos podem servir também como excelentes recursos para
melhorar a comunicação com um paciente quando há falhas na possibilidade de
comunicação verbal. Isso é freqüente com crianças e com adolescentes muito jo-
vens, sem que isso possa significar necessariamente a existência de resistências. A
proposta de desenhar alguma coisa costuma provocar entusiasmo. Isso ocorre tam-
bém com a proposta de desenhar alguma coisa entre os dois no estilo da técnica do
rabisco de Winnicott ou de fazer um desenho cada um, rompendo assim uma
assimetria que poderia estar perturbando o sujeito. Oferecer-nos como centro de
suas críticas a nossa produção pode favorecer a comunicação com pacientes que se
envergonham de desenhar "mal" ou que devido ao seu narcisismo não suportam ser
observados por um profissional passivo.

Enquadre em Gráficos
- Usar folhas de papel oficio ou papel de carta {segundo a preferência de
cada um, mas sempre o mesmo) mas sem linhas ou outros traços na frente ou verso
da folha, pois isso distorce a produção apresentando parâmetros que de certo modo
guiam ou perturbam a conduta do paciente. Isso deve ser respeitado muito especi-
almente no teste de Bender. As vezes ocorre que são usadas folhas não totalmente
em branco. Os resultados desses gráficos não teriam que ser descartados, mas não
poderiam ser incluídos em trabalhos de investigação nos quais é necessário padro-
nizar ao máximo a administração. Por exemplo, se um sujeito desenhar um marci-
ano, os traços no verso da folha não importam muito. Mas não podemos deixar de
pensar no que ele teria desenhado se tivesse recebido uma folha totalmente em
branco. Talvez o marciano esteja relacionado com o "outro" desconhecido que escre-
veu antes na mesma folha. Para evitar essas dúvidas é preferível ter o trabalho de
usar o material adequado.
- O fato de usar sempre o mesmo tamanho de folhas está relacionado com
o de oferece-lhe sempre o mesmo espaço psicológico quanto à dedicação. Também
tem relação com o fato de o espaço diante do qual ele deve se organizar ser constan-
te. Se ele desenhar figuras maiores porque lhe damos folhas maiores, não podere-
mos depois interpretar essas diferenças de tamanho como algo significativo, enquanto
que se em folhas do mesmo tamanho ele desenhar figuras menores e outras maio-
res, teremos todo o direito de fazê-lo.
- Usar lápis n' 2 {nem claro nem escuro). Dessa forma saberemos que o
traço claro deve-se à pouca pressão exercida pelo paciente.
- Usar borracha macia. Para todos os testes projetivos gráficos a borracha
deve estar próxima do sujeito. Devemos registrar se a usa ou não, com que freqüên-
cia e quais os detalhes que apaga e em que figura. Também devemos registrar se
deveria usá-la e não o fez. Ao aplicar o Bender retira-se previamente a borracha, já
que é importante conservar o registro de todas as tentativas feitas pelo sujeito. Ele
poderá fazer tantas tentativas quanto desejar e nós registraremos a sua ordem. Não
são confiáveis aqueles protocolos que aparecem como excelentes devido ao uso cons-
tante da borracha.
- Ao aplicar o H.T.P. cromático retira-se também o lápis e são entregues os
giz de cera, seguindo as indicações do autor. O sujeito deve desenhar diretamente
com o giz de cera, sendo assim possível a observação não só de como desenha e
88 García Arzeno

colore mas também de como reage quando eles quebram ou o traço sai com desvio,
emplastado, etc.
- É conveniente começar a bateria de testes com os gráficos porque são os
mais simples. Crianças gostam de desenhar. Os adolescentes e adultos também,
apesar de ás vezes rejeitarem essa tarefa por considerá-la coisa "de criança". Se for
contraproducente insistir poderen1os começar com um teste verbal e esclarecer que
logo após desenharão porque precisamos comparar tudo.
Assim, por exemplo, se a pessoa diz que não sabe desenhar e insiste para
que lhe demos uma idéia, aplicaremos antes o teste das Duas Pessoas e deixaremos
o Desenho livre para uma outra ocasião. Se insistir que sô sabe copiar, usaremos o
Bender, mesmo não estando previsto administrá-lo, pois essa atividade vai encantá-
la e aos poucos iren1os animando-a para que tente alguma coisa mais livre, por
exemplo, Família Cinética e finalmente algum dos outros testes mais projetivos.
- Se trabalharmos com crianças ou adolescentes jovens poderá acontecer
que desenhem durante a Hora de Jogo Diagnóstica. Nesse caso, pedir o Desenho
Livre seria uma redundância. Pode ocorrer a mesma coisa con1 outros desenhos que
coincidam com os que pensávan1os pedir-lhes. Se desenhou_ unia casa, árvores, sol,
etc., suprimiremos o HTP a não ser que o que ele tenha feito antes não satisfaça as
condições requeridas.
Em alguns casos o HTP é administrado na mesma folha, em outros, é entre-
gue uma folha em branco para cada conceito porque assim se evita que o sujeito
venha a "encobrir" algum deles. Por exemplo, se disser que a pessoa está dentro da
casa e não vai embora. Nesse caso é conveniente solicitar-lhe logo o Duas Pessoas.
se já não as desenhou. Alguns psicólogos aplicam o HTP em três folhas e após,
numa quarta folha. solicitam uma figura humana do outro sexo, seguindo o estilo
do teste de Karen Machover.
- O Desenho da Família Cinética em suas formas individual e de consenso,
atual e prospectiva, dá uma informação muito rica, principalmente para a devolu-
ção dos resultados do psicodiagnóstico e especialmente se o trabalho vai ser feito
com os pais e com toda a familia. Em alguns casos é quase iatrogênico aplicá-lo
como, por exemplo, quando um dos membros do grupo familiar acabou de falecer,
quando os pais acabaram de separar-se, quando houve a perda de um filho ou saiu
de casa devido a desavenças sérias. A inclusão desses membros seria tão angustian-
te como a sua exclusão e a insistência em aplicá-lo perturbaria o bom rapport da
relação sujeito-psicólogo. Outro caso pode ser o de filhos de casais separados, cada
um com novos parceiros e filhos de casamentos anteriores. Se bem que isso pode
não gerar angústia, é certo que pelo menos colocaremos o sujeito em uma situação
de confusão e de conflito de lealdades. Nesses casos costumo seguir a instrução de
Corrnan: "Desenhe uma fainília con10 você quiser". Assim o sujeito fica à vontade
para ater-se à realidade ou negá-la, idealizá-la, etc.
- No que se refere ao pedido de associações verbais devemos agir com liber-
dade absoluta, pois são equivalentes ás associações livres que pedimos para inter-
pretar um sonho. Alguns testes tém um tipo de inquérito fixo, mas é melhor solicitar
todo tipo de associações complementares. Por exemplo: "Este sol, está nascendo ou
é um entardecer? Para onde vai este senhor? Está saindo fumaça da chaminé, por
quê? Para onde dá essa janelinha? E essa outra? Para onde vai esse caminho? Que
pássaros são estes? Esta paisagem lembra a você alguma coisa?", etc.

Interpretação dos Testes Gráficos


- Visão gestãltica. É a primeira recomendação de Hammer, autor do HTP.
Observá-lo na sua totalidade com uma atitude de "atenção flutuante" e ficar atentos
Psicodiagnóstico Clínico 89

para a primeira impressão causada contratransferencialmente, o primeiro que as-


sociarmos com o que vemos e o detalhe que mais chama a nossa atenção: algum
contra-senso, alguma omissão, alguma distorção, alguma adição estranha, o movi-
mento, a monotonia, a ênfase sobre algum ponto especial, a dispersão, a compreen-
são, etc.
- Após essa visão global devemos fazer uma análise detalhada seguindo:
(!] indicadores formais; (2) indicadores de conteúdo; (3) análise das associações
verbais; (4) análise do conjunto das anteriores.
- Seguindo o modelo da interpretação dos sonhos de Freud (1900) podere-
mos decifrar mais eficientemente o seu significado, especialmente, mas não exclusi-
vamente, no Desenho Livre que é tão dificil de ser padronizado como uma entrevista
projetiva ou uma hora de jogo.
- Sobre a base de tudo isto devemos elaborar uma hipótese sobre o diag-
nóstico e prognóstico depreendidos de cada desenho e do conjunto de gráficos em
geral.
- Logo após faremos a correlação dos gráficos com as entrevistas projetivas,
hora de jogo individual e familiar e com os outros testes aplicados (verbais e/ou
lúdicos).

No que se refere ao uso do modelo de Freud gostaria de lembrar alguns dos


pontos desse trabalho que se aplicam perfeitamente à interpretação dos gráficos
projetivos, tanto mais quanto mais livres eles forem.
Freud esclarece que o sonho tem um conteúdo manifesto e um conteúdo
latente. Assim também os desenhos.
O sonho é a realização ele um desejo reprimido do indivíduo submetido a um
processo de elaboração. Eu afirmo que um processo semelhante ocorre no sujeito
quando dou a instrução seguinte: "Desenhe o que quiser; concentre-se em alguma
coisa e tente desenhar a primeira idéia que vier à sua cabeça". "Agora, fale-me do
que desenhou".
Segundo Freud um sonho é: (1) a realização disfarçada de um desejo repri-
mido; (2) os sonhos mostram um desejo não reprimido; (3) os sonhos disfarçam um
desejo reprimido; (4) os sonhos mostram sem disfarce um desejo reprimido e aquele
que sonha acorda angustiado (O.C. Madrid, Biblioteca Nueva, 1948, v.I, p. 244 e ss.).
Acredito que isto se aplica perfeitamente à interpretação dos gráficos projetivos.
Cada uma dessas possibilidades nos proporciona algum critério para interpretar
um desenho. Por exemplo, se o sujeito desenhar a figura humana até a cintura
porque "não cabe na folha~ veremos em funcionamento a repressão dos desejos
sexuais proibidos. Se essa mesma figura for um homem que toca uma flauta dese-
nhada minuciosamente de perfil e com ênfase no detalhe dos dedos colocados cor-
retamente para essa ação, observaremos em funcionamento o mecanisn10 de
deslocamento para disfarçar um desejo reprimido (felação?). Alguns gráficos mos-
tram claramente o que está reprimido e o sujeito se esforça para apagar tudo e se
angustia porque estragou a folha. Suponhamos que no Desenho Cinético da Famí-
lia ele tenha desenhado os pais dormindo e ao dar-lhes nomes colocou o próprio
nome no lugar do da mãe ou do pai.
Pode ocorrer também que inclua o amado pai morto e desenhe mas logo
apague a odiada mãe que sobreviveu.
"Por transmutação dos valores psíquicos - diz Freud - o insignificante
pode ser o essencial" (v. l, p. 241)
Devemos ficar atentos a isso também nos gráficos. Poderão aparecer ele-
mentos muito chamativos que tentam atrair a nossa atenção. No entanto, uma
análise minuciosa pode mostrar que numa figura está faltando um dedo, ou que os
olhos estão olhando para lados opostos na figura que o representa dentro da sua
90 García Arzeno

família, ou então, que uma pequena transparência superpõe duas figuras sem que
o sujeito o modifique de forma tal que aparece como um corte abrupto no discurso
gráfico. Em certos casos isso pernlite centralizar a atenção em núcleos psicóticos
muito bem "disfarçados" pelo resto do desenho, que dava mostras de uma boa pseudo-
adaptação.
Segundo Freud o sonho é um processo de regressão, o material é fragmenta-
do, o processo de compressão o condensa e o deslocamento complementa o trabalho
de elaboração onírica para que o verdadeiro significado não fique evidente. A elabo-
ração interpretativa faz que o sonho se torne um relato compreensível.
Isto pode ser observado nos desenhos de pessoas normais ou neuróticas. Os
psicóticos, no entanto, projetam as suas imagens e fantasias inconscientes sem
esses "disfarces" e sem que possamos registrar neles qualquer angústia ou tentati-
vas de racionalizar a sua produção. Por exemplo, dizendo: "Hoje estou com humor
negro" ou "É um homem que tem passarinhos na cabeça" {o desenho mostra um
homem cujo pescoço é o tronco de uma árvore e a cabeça é a copa da mesma com
um ninho e um passarinho).
Nem todos os gráficos permitem a aplicação desse método, assim como nem
todas as pessoas lembram todos os seus sonhos ou trazem ricas associações livres.
Freud aconselha a fazer a divisão do sonho em fragmentos, pedir associa-
ções com cada um e finalmente chegar à interpretação completa que vai revelar o
desejo reprimido. Ele diz: "O sonho é semelhante a um ieróglifo e este, a uma compo-
sição pictórica" {sublinhado da autora) (v.l p. 394)
Sendo que toda análise de gráficos projetivos parte da primeira captação
gestáltica, é impossível estabelecer regras de interpretação idênticas para todos os
protocolos. Vejamos alguns exemplos.
Um desenho livre feito por uma jovem de 14 anos mostrava uma casa bas-
tante sóbria, uma árvore à esquerda e outra à direita e um sol. A primeira idéia que
me ocorreu foi observar que a árvore da esquerda tinha quatro "frutas", que associei
com um rosto pela distribuição das mesmas {orificio dos olhos, nariz e boca) com
uma imagem um tanto sinistra. Dobrei então, a folha no sentido vertical ficando
assim um fragmento à esquerda com essa árvore tão estranha e outro fragmento à
direita com a casa, o sol e a outra árvore mais convencional. O lado esquerdo está
relacionado com o passado, com o que é mais inconsciente e regressivo, com a mãe
inicial. O lado direito refere-se ao presente, à realidade atual; o sol, com a figura
paterna já que o seu papel é fecundante. Pensei que sobre uma relação inicial com
uma mãe vivida como sinistra, essa jovem havia-se refugiado na figura paterna,
mais calorosa e realista. O tamanho das figuras era o normal e o traço era contínuo,
mas dava a sensação de haver sido feito muito "às pressas", o que foi confirmado
pela psicóloga que trouxe esse material. Ficava assim encoberta uma grande dificul-
dade para fechar as figuras. Tudo ficava sem acabar. Poderíamos dizer que esse
fragmento passado da sua história ainda não resolvido a impedia de continuar com
um desenvolvimento normal na atualidade. A história clinica revelou que essa me-
nina havia sido criada por babás porque a mãe a ignorou totalmente até ela comple-
tar dois anos. O motivo da consulta eram dificuldades para dormir e pesadelos, o
que era plausível de explicação vendo o rosto sinistro do desenho livre. As associa-
ções verbais foram poucas: "Uma árvore frutifera, outra qualquer, na casa não mora
ninguém, não me faz lembrar nada''. Isso revelou-se pouco estimulante para a psi-
cóloga, que optou por não fazer mais perguntas. Disso podemos inferir que, apesar
do real abandono materno, essa menina não reclamava a sua presença, por exem-
plo, chorando, e se conformava com qualquer presença que mecanicamente a su-
prisse, gerando o conseqüente sentimento final de "casa vazia", tal como ela se
sentia interiormente. A ausência de um caminho para entrar ou sair da casa era
outro detalhe que coincidia com a sua atitude "fechada", o que fazia inferir que seria
Psícodíagn6stíco Clínico 91

uma paciente dificil, o que realmente estava acontecendo quando a psicóloga solici-
tou uma consulta comigo.
No caso do homem de 35 anos que desenhou a figura de uma árvore no lugar
da cabeça, esse indicador de conteúdo revelou-se de tanto peso que demos pouca
importância a outros indicadores que poderiam ser aplicados. Mas, observando o
seu traço decidido, contínuo, sem cortes, podíamos acrescentar ao diagnóstico de
psicose a presença de uma estrutura de base "forte" o suficiente que lhe permitia
suportar os embates dos surtos que certamente havia sofrido, já que o desenho era,
em si, uma tentativa de restituição.
Em outro caso, uma mulher de 28 anos desenhou uma folha cheia de zigue-
zagues muito juntos e entrecruzados, dando-lhe o título de "Mecanismos". Asso-
ciou-os a momentos vitais e muita mobilidade e estava consultando porque nesse
momento estava atravessando um deles. O nível de abstração do desenho dava-nos
um único indicador formal para a sua interpretação: o traço. No entanto, ela foi
extremamente eloqüente permitindo formular um prognóstico favorável que acabou
sendo confirmado após três anos de tratamento.
Vejamos agora o Desenho Livre de um menino de dez anos. Claramente po-
demos diferenciar dois fragmentos como nos sonhos. O superior e o inferior. A su-
perficie das águas de um mar divide ambos fragmentos. Sobre a superficie há um
barco com quatro janelinhas redondas [há quatro membros na familia) e uma ban-
deirinha sem nenhum detalhe de identificação, um sol radiante e sorridente e duas
nuvens alongadas no sentido horizontal. Por baixo do nível da água há um polvo e
um peixe-espada. Há também um peixinho que parece estar observando o polvo e o
peixe espada e outro, apoiado sobre a linha que define o nível da água, olhando o
barco que está no centro da folha. Ele diz: "Peixinhos, um peixe espada e um polvo.
Eles brigam e os peixinhos correm perigo: um quer subir no barco mas um pirata
com uma faca [não aparecem no desenho) não os deixa". Esse menino tinha dificul-
dades na escola, devido à falta de concentração, e para dormir. A partir desse dese-
nho podemos interpretar que nos mostra um conflito edípico precoce [abaixo do
nível da água) sem resolver, sobre o qual se apóia o conflito edípico mais tardio
reativado pela proximidade da puberdade. O peixe-espada e o polvo, seguindo a
conceituação kleiniana, representam uma cena primária cruel entre uma mãe pré~
edípica fálica, bissexual e agressiva e um pai com um pénis terrivelmente castrador,
mortífero. A cena primária que esse menino retém ainda no seu inconsciente é, pois,
uma luta sem tréguas, entre dois elementos igualmente perigosos. Predomina o
sadismo. Os peixinhos são representações de si mesmo. De um lado, ligado ao as-
pecto mais regressivo, o que não o deixa dormir nem concentrar-se. De outro lado,
ligado ao mais atual e conflituoso: uma situação edípica na qual o pai é percebido de
forma ambivalente, tanto como um sol radiante e sorridente mas também, por efeito
de transferência do édipo precoce não resolvido, como um pirata que não permite
que ele se salve jogando-o às águas povoadas por seres tão amedrontadores.
Como todos nós sabemos, o chamado Teste do Desenho Livre não é realmen-
te um teste, mas uma técnica, pois é impossível submetê-lo à padronização, a não
ser que sejam selecionados quatro ou cinco parâmetros recorrentes. Não sendo
assim, como as instruções são totalmente amplas, cada protocolo será único e a
quantidade de variáveis, infinita.
Por isso alguns profissionais outorgam maior poder de fidedignidade aos
indicadores formais do que aos de conteúdo, já que são mais fáceis de isolar e
classificar.
92 García Arzeno

Sistema de Escores para a Análise Formal do Desenho Livre


Em 1933, G. W. Allport e P. E. Vernan publicaram as conclusões dos seus
estudos sobre o movimento expressivo.
Tomaram como base os trabalhos de Werner Wolff, entre outros, e dedica-
ram-se a investigar a congruência intra-individual dos movimentos expressivos. A
importância de demonstrar a validade dessa hipótese residia em que, por caráter
transitório, daria validade à outra hipótese subjacente, aquela segundo a qual todos
estes movimentos possuem uma conexão intima com traços interiores da persona-
lidade, de forma que partindo dos movimentos expressivos pode-se fazer um diag-
nóstico clínico da mesma.
Os autores colocam:

As ações n1otoras não são tão especificas a ponto de carecerem de sentido, e sendo
organizadas, devem refletir en1 alto grau a organização do campo total do cérebro ...
Com certeza, ê pertinente afirmar que quando a personalidade for organizada, o n1ovi-
n1cnto ô..-prcssivo serã também harn1onioso e conseqüente consigo n1cs1no, e quando a persona-
lidade for desintegrada, o 1novin1cnto expressivo será contraditôrio8 .

Idealizaran1 urna série de experin1entos cuidadosamente controlados n1as


não conseguiram ir além da seguinte conclusão: não hâ evidentemente generaliza-
ção completa nem especificidade completa.
Mas deve-se levar en1 consideração que estes autores concebian1 os movi-
mentos como mensageiros portadores de uma informação sobre a personalidade de
cada um por separado.
Wolff, por sua vez, partiu da mesma hipótese de trabalho, mas com uma
concepção mais gestáltica da personalidade. Além da medida objetiva dos movimen-
tos, interessou-se por apreciar as suas diferenças considerando-os intimamente
ligados a diferentes formas de organização da personalidade. Seus estudos abran-
gem vinte anos de trabalho. É útil transcrever a tabela de significações gráficas para
a interpretação grafológica de um desenho livre, publicada em 1947.9

8. Allport, W. e Vcrnan, P.E. Studies inexpressive move1nent.NewYork: McMillan, 1935.


9. Wolff, W. The personality off lhe preschool child. The child·s search of his self. Ncw York: Grune and
Straton, 1947.
Psicodiagnóstico Clínico 93

Qualidade dos Traços


Indicador Signljkado

Pressão forte Força, vitalidade


Pressão fraca Fraqueza
Linhas retas predon1inantes Rapidez, decisão
Linhas interrompidas Lentidão, indecisão
Linhas em diferentes direções Impulsividade
Restrição nas linhas Inibição
Linhas curvas, linhas circulares Ritmo, balanço
Regularidade Ritmo
Movimentos bruscos Impulsividade
Movin1entos monótonos Passividade, indiferença
Movimentos grandes e amplos Expansão
Movimentos limitados Restrição

Qualidade das Formas


Indicador Sign!ficado

Formas em idade muito precoce Grande desenvolvimento


Forn1as inventadas {ncn1 ao acaso, nem cópia) Ingenhosidade
Formas consistentes Decisão
Formas diferenciadas Capacidade de adaptação
Formas não diferenciadas Falta de ordem e nitidez
Ausência de sentido formal Falta de observação ou de imaginação
Boa distribuição em idade precoce Habilidade criadora
Mã distribuição em idade tardia Perturbação ritmica
Preferência pelas formas grandes Tendência à expansão
Preferência pelas formas pequenas Tendência à restrição
Grande contraste de tamanhos Conflito
Conexão de formas por meio de linhas Habilidade para captar relações
Inclusão de elementos pequenos em outros maiores Habilidade para integrar
Livre manejo das formas Livre acesso aos objetos
Exatidão Habilidade na obseIVação da realidade
Formas imaginártas Predomínio do mundo interior
Emolduração Diferenciação, proteção, isolamento

Comparação dos Traços


Indicador Significado

Linhas fracas e vacilantes Vaguidade, passividade


Linhas dentadas Irritação
Linhas nitidan1ente definidas Decisão, detern1inação
Preferência pelo sombreado Sensibilidade tátil
Preferência por nianchas an1plas Etapa anal, falta de asseio, desordem
Preferência pelos contrastes Decisão, determinação
Forn1as vagas e restritas Inibições, medos
Intemipções Inflexibilidade, negativismo
Limite a linhas pequenas Sonhador
Grandes linhas traçadas in1pulsivarnente Atividade
94 García Arzeno

Direção dos Traços


Indicador Significado

Preferência por linhas angulosas Tensão, reflexão, crítica, dúvida, freio (a escolha
de um desses termos depende da relação dos
elementos gráficos entre si)
Preferência pelos movimentos circulares Oscilação, mudanças de humor, fuga de toda
decisão, maníaco-depressivo.
Preferência pelos movimentos verticais Ação, determinação, atividade neivosa, tendên-
cia masculina.
Preferência pelos movimentos hoctzontais Tranqüilidade, perseverança, fragilidade, tendên-
cias femininas
Direção precisa Determinação, segurança
Direção imprecisa Falta de determinação, insegurança
Direção da cúspide à base Introversão, ansiedade, masoquismo, tendência
a ensimesmar-se e sonhar
Direção da base para a cúspide Extroversão, dominio, agressão, curiosidade
Direção da direita para a esquerda Introversão, auto-determinação, isolamento, de-
salento
Direção de esquerda para a direita Extroversão, tendência a mandar, condução, bus-
ca de apoio
Traços com interrupções Cautela, premeditação
Falta de direção e interrupção Vaguidade, insegurança, ausência de organir.a-
ção

Valor Tipológico dos Indicadores Gráficos


Tipo realista

Indicador Significado

Representação em forma realista Temperamento mais ciclóide


Exatidão Observação
Preferência por contornos Tipo visual
Preferência por curvas Tipo auditivo
Preferência por contrastes Tipo emocional
Movimentos seguros Mobilidade
Pressão larga Agressividade
Mudança de movimento pronunciado Humor maníaco-depressivo
Aspecto sujo Fase anal
Exagero nos detalhes Ausência de integração

Tipo abstrato

Indicador Signijkado

Representação de forma abstrata Tipo mais esquizóide


Falta de exatidão Mais sonhador
Preferência por pequenos detalhes Auto-consciência
Preferência por ângulos Tensão, mundo interior
Preferência por sombras Tipo tãtil, sonhador
Movimentos inseguros lnestabilidade
Movimentos esquematizados Rigidez
Pressão aguda Tendências sã.dicas
Exatidão extrema Submissão
Figuras grotescas Bloqueio das reações naturais
Dissolução das formas Insegurança, ausência mental
Psicodiagnóstico Clínico 95

Estes indicadores devem ser valorizados por serem um trabalho pioneiro


sobre o assunto e que já tem mais de trinta anos de existência. Se os analisarmos
criticamente veremos que possuem alguns erros, ambigüidades e superposições.
Por exemplo, Wolf menciona como um indicador a pressão forte ou fraco do traço.
Isso é a descrição de um elemento observável e, portanto, objetivo. Mas quando fala
de "boa" ou "má" distribuição ou de "formas consistentes" ou "diferenciadas", reme-
te a uma classificação do observável que requer uma clara definição daquilo que o
autor entender por uma e outra coisa. Portanto intervém mais a subjetividade da-
quele que interpreta.
Outra objeção possível é que os indicadores que são contraditórios entre si
deveriam ter um significado contrário. Mas Wolff diz, por exemplo, "Formas diferen-
ciadas: capacidade de adaptação" ... "Formas indiferenciadas: falta de ordem e niti-
dez". Torna-se então confuso se as segundas devem ser interpretadas como
indicadores de incapacidade de adaptação e as primeiras como capacidade de or-
dem e nitidez ou se esse procedimento seria incorreto.
Mesmo assim, usando-as com bom senso, são ainda de muita utilidade e
valeria muito a pena planejar uma investigação para validá-las ou modificá-las.
Por sua vez, Paula Elkisch trabalhou entre os anos 60 e 70 com o mesmo
assunto. Estudou a expressão artística livre e concluiu que ela revela um elemento
que poderia ser denominado inconsciente, instintivo, primitivo, arcaico e que está -
relacionado com as sensações e com a imagem corporal da pessoa". Ela analisou
2.200 gráficos produzidos por crianças durante as sessões individuais com ela, com-
parados com outros tantos que podiam produzir durante a sua vida escolar. Eles
manifestavam o estado egóico da criança e as fixações em etapas prévias do desen-
volvimento psicossexual. Para fazer a análise do material baseou-se em dois critéri-
os: A e B.

Critério A
Ritmo versus regra
1. Ritmo: Expressa-se:
a} explicitamente atravês de qualidades de flexibilidade do traço, que é resultado
kinestésico dos movimentos relaxados livres:
b) implicitamerite, através da distribuição prazerosamente proporcionada do objeto re-
presentado dentro do espaço disponível.
2. Regra: expressa-se de duas maneiras opostas entre si: rigidez e inércia.
a} a regra como rigidez expressa-se através de uma qualidade rígida (adormecida) do
traço, kinestesicamente afetado pelos movimentos espasmódicos tensos que
freqüentemente tornam-se automáticos e mecânicos.
b) a regra como inércia expressa-se através da qualidade borrada e sem capricho do
traço, kincstesicamente afetado pela imprecisão. Ainércia parece escapar completa-
mente ao controle regente da rigidez.
No ritmo, a expressão gráfica transmite uma sensação de continuidade temporal dentro do espa-
ço. Na regra não há um funcionamento dinâmico do espaço. As coisas estão detidas.
O predomínio de cada uma dessas caracteristicas sugere diferentes caracteristicas egóicas. As-
sim, a capacidade de uma criança para se expressar ritmicamente e a sua resposta espontânea ao ritmo
sugerem flexibilidade. Pode-se diagnosticar um Ego que está desenvolvendo defesas sadias. No entanto, se
predominar a regra, nas suas duas modalidades, nos encontramos diante de um Eu frágil.
A rigidez indica que as defesas são fortes demais e se estabeleceram cedo demais. A repressão
predomina e o Superego é muito severo. Pode-se suspeitar da existência de traços fóbicos e de uma
neurose obsessivo-compulsiva. A inércia indica que as defesas não são sólidas o bastante e que a repres-
são não se estabeleceu de forma satisfatória. Se a capacidade de reprimir é uma aquisição essencial

1O. Pelkisch, "Pautas para la interpretación de los dibujosft .In: Rakin,A. e Haworth, M., Técnicas proyeclivas
para nili.os. Buenos Aires: Paidós, 1966.
96 García Arzeno

durante a latência, a inércia durante esse período é um sintoma mais sério que a rigidez. Sem traços
compensatórios, a inércia durante a latência poderia indicar regressão, limites egõicos defeituosos e pos-
síveis tendências delituosas. Tanto a rigidez como a inércia supõem perturbações nos níveis mais precoces
do desenvolvimento psicossexual.

Complexidade versus simplicidade


1. A complexidade se expressa:
a) através da tendência a uma representação bastante completa e ãs vezes detalhada do
objeto, bem individualizado e diferenciado;
b) estruturalmente, através de uma sensibilidade imaginativa em relação ã forma e aos
padrões gestãlticos.
2. A simplicidade se expressa reduzindo o objeto diferenciado ou a forma estrutural ao seu
padrão mais simples, ao seu esquema. Isto revela um empobrecimento na diferenciação
formal. Acomplexidade indica relações objetais potencialmente boas. Asimplicidade suge-
re a fixação a etapas anteriores do desenvolvimento.

Expansão versus compressão


1. A expansão se expressa de quatro maneiras:
a) por uma ampliação do espaço de que se dispõe, desenhando somente uma parte do
objeto que a imaginação completa;
b) atravês da criação de um fundo espaçoso:
c) pela representação de um objeto que explode;
d) por uma espêcie de expansão invertida na qual um objeto Mentra" no campo visual
desde um espaço exterior.
2. Acompressãose expressa:
a) no aspecto espacial do prõprio objeto (minúsculo em si);
b) na sua relação espacial com outros objetos (objetos demais dentro do mesmo espaço).
Acompressão revela um sentimento de mal-estar, de estar preso, de pressão e compulsão. Revela
um Ego severamente limitado, propenso a transtornos fõbicos e/ou obsessivo-compulsivos â depressão
ou ao retrain1ento csquizõide. Aexpansão indica limites egõicos bem estabelecidos, dentro dos quais não
ê somente provável que se estabeleçam relações objetais boas, mas tambêm que exista espontaneidade,
independência, tendência a estabelecer contato e vigor. Aforma {a) de expansão indica maior extroversão.
Aforma [b] indica bom desenvolvimento egóico mas maior introversão. As formas {e) e (d) indicam vigor,
agressividade sadia, dinamismo, sempre e quando estas expressões formais expressem também certo
controle e organização.

Integração versus desintegração


1. A integração baseia-se na organização interna e pode aparecer de duas maneiras:
a) como uma função sintética ou combinatõrta, chamada Msíntese". Há sensibilidade
para a totalidade;
b) como Mcentricidade" ou integração ao nível comparável ao de uma verdadeira obra de
arte.
As coisas parecem estar desenhadas no lugar adequado e na proporção e relação
reciproca apropriadas. Cada elemento desenhado ê uma parte indispensável do todo.
2. A desintegração implica desorganização interna. Todas as suas forn1as de expressão impli-
cam carência da função sintética, ou seja, de Mcentrtcidade". As coisas podem estar repre-
sentadas:
a] fragmentariamente: nada tem relação com nada;
b} de forma contaminada (Mcondensação"] ou seja, duas ou mais coisas são representa-
das como uma só sem haver conseguido realmente uma unidade.
O produto não faz sentido, é frio e provoca rejeição.
Aintegração supõe um alto grau .de maturidade (real ou potencial): capacidade de relacionar e
combinar, de assimilar, unificar e organizar. Acentrtcidade se refere ã capacidade para a sublimação.
Centricidade durante a latência somente pode ser encontrada em urna criança com um Ego
sadiamente defendido e com talento adicional.
Adesintegração remete a limites egóicos defeituosos, relações objetais distorcidas, ausência total
do sentido da forma (gestalt). Predomina o pensamento segundo o processo primário e portanto o nivel de
desenvolvimento é primitivo.
Psicodiagnóstico Clínico 97

Realismo versus simbolismo (refere-se ao conteúdo)


1. No realismo o elemento representativo predomina sobre o estrutural.
2. No sírnbolismoo elemento desenhado se refere a outra coisa ou então predomina o estrutu-
ral.

Critério B
Ritmo versus regra
Às vezes o ritmo pode se dar sem tendência para forma alguma. Esse deslizar continuan1ente
sem intenção de representar coisa alguma é indicador de transtorno mental.
O aspecto positivo da regra é que a estâtica é importante como sinônimo de solidez.

Complexidade versus simplicidade


Aexcessiva multiplicidade de objetos representados ou a ênfase desnecessâria em detalhes po-
dem tornar-se negativos por quanto seriam sinônimos de escrupulosidade.
Por sua vez, a simplicidade torna-se positiva enquanto implicar simplicidade de formas com
conservação da multiplicidade das mesmas, tal como pode ser observado em algumas obras de grandes
pintores.

Expansão versus compressão


A expansão pode aparecer como fuga de idéias ou como uma fuga de si
mesmo. Se a dinâmica não aparecer controlada vai sugerir estados de elação, infla-
ção ou agressividade. Se os movimentos forem mais passivos e controlados sugerem
uma capacidade excessiva de ser sugestionado. O aspecto positivo da compressão é
que ela expressa auto-disciplina e bom controle sobre os impulsos do Id.

Integração versus desintegração


A integração corre o risco de ser repetitiva ou estereotipada. Então torna-se "estérir, devido a
que um certo grau de desintegração, mesmo que seja potencial, é útil como confirmação do valor de uma
verdadeira integração.

Realismo versus simbolismo


Odominio exclusivo de qualquer um dos dois é negativo. Sintetizando, esta autora baseia-se na
concepção de Bleuler segundo a qual todo impulso é antinômico. Essaambitendêncianormal nunca leva
a uma inibição ou alteração da ação. Muito antes pelo contrário, é requisito indispensável para a sua
perfeição e coordenação. Aautora recomenda avaliar cada traço segundo esta interrogação: "Que outros
traços ou tendências estão em combinação com esta caracteristica?fl.

A patologia é então diagnosticada por excesso ou defeito das possibilidades


defensivas do Ego, e para isso se observa a integração dos significados dos diferen-
tes indicadores levados em consideração.
Elkish esclarece que o valor discriminativo dos critérios diagnósticos refere-
se especificamente ao funcionamento egóico da criança e usa como parâmetro a
enumeração que Anna Freud faz das "funções egóicas essenciais"". Assim, a "prova
de realidade interna e externa" é avaliada no critério A. Nº V: realismo versus sim-
bolismo; a "construção de recordações" corresponde ao critério A Nº 11: complexida-
de versus simplicidade; a função de "síntese do Eu" corresponde ao critério A Nº lV:
integração versus desintegração e o "controle egóíco da motilidade" é avaliado pelo
critêrio ANº 1: ritmo versus regra.
Atualmente nós usamos todos esses indicadores, não de um modo
esquemático mas numa inter-relação constante com indicadores de conteúdo, tudo

11. Freud, Anna. Neurosis y sintomatologia en la irifancia. Buenos Aires: Paidós, 1977. "Indications for
child analysis", Psych. Stud. Child, 1945, l.
98 García Arzeno

sendo considerado como emergente de um aparelho psíquico entendido conforme


um esquema referencial predominantemente kleiniano, já que é o que mais tem
desenvolvido o conceito de identificação projetiva e de que toda obra do ser humano
é uma projeção de si mesmo.
Conseqüentemente, tem-se tentado relacionar a constância de certos indi-
cadores em determinados quadros psicopatológicos. Como exemplo, poderiamas
tomar o tipo de traço e observar que no esquizofrênico a pressão é variável e o traço
é geralmente entrecortado; no melancólico a pressão é muito fraca tanto quanto na
depressão e os traços são geralmente curtos e dirigidos para dentro; na neurose
obsessiva o traço é duro, as linhas fortes claramente demarcatórias e freqüentemente
refeitas, correlacionadas com os mecanismos de dissociação e isolamento típicos
desse quadro, etc.
Resumindo, a interpretação dos testes gráficos é feita com o somatório de
todos os fatores ou enfoques citados, a observação detalhada da série de gráficos
administrados na ordem em que foram aplicados e a leitura do restante do material
projetivo.
Alguma vezes, somente depois de ler todo o material e voltar ao Teste das
Duas Pessoas ou ao HTP compreendemos claramente algum detalhe que havia pas-
sado despercebido ou ao qual não havíamos dado importância.
Para um maior aprofundamento nesse assunto remeto os leitores aos traba-
lhos realizados por Elsa Grassano de Píccolo. 12
A seguir, farei uma síntese dos critérios que devem ser levados em considera-
ção para diagnosticar a predominãncia de mecanismos neuróticos ou psicóticos nos
testes projetivos gráficos.

Indicadores de neurose ou psicose nos testes gráficos


de figura humana

Neurose Psicose

- O desenho mostra uma síntese aceitável. A sintese é defeituosa. Euma massa confusa e
desordenada de detalhes sem nenhuma idéia
diretriz (nas esquizofrenias)
Existe uma idéia diretriz. Na psicose maniaco-depressiva há melhor
síntese nos mon1cntos 1nais estáveis.
Gestalten conservadas; integradas. Gestalten rompidas, desintegradas, desvirtuadas,
com distorções fora do comum a qualquer idade.
Exemplo: um homem com pés de ave e flores
comon1ãos.
Provocam sentimentos agradáveis Aparecem elementos sinistros que
ou não, n1as toleráveis. provocam medo, rejeição ou consternação a
nível contratransferencia1.
São figuras realizadas de acordo com a São atípicas para qualquer idade. Nas
idade cronolôgica, sexo e grupo sõcio- esquizofrenias simples são regressivas
econõmico-cultural do individuo. mas não idênticas às da criança pequena.
São de um primitivismo cada vez mais regressivo.
Por exemplo: corpo como saco com olhos, boca,
extremidades unidimensionais, etc.

12. Ocampo, M.L.S. de; Garcia Art:eno, M.E. e Grassano, E. Ob. cit. O processo psicodiagnóstico e as
técnicas projetivas, Cap.VIII: Os testes gráficos.
Grassano, E. Indicadores psfcopatolôgicos en técnicas proyectivas. Nueva Visión: Buenos Aires, 1977.
Psicodiagnóstico Clínico 99

Neurose Psicose

O uso da cor ê adequado e os limites Uso inadequado da cor e


são respeitados, pelo menos a partir descontrolado, sem respeitar limites
dos cinco anos. nem realidade (tronco verde, folhas vermelhas
da árvore)
Se aparecerem figuras sombreadas, o São desenhos que prescindem
uso é discriminado como assinalando o absolutamente do sombreado ou então
que provoca angústia; o Ego pode discri- fazem uso dele massivamente como
n1inar e assinalar esses focos de angústia. cor preta.
Os traços são mais plâsticos, de pressão Os traços são interrompidos, mudam
média, com ritmo (segundo Elkish) de rumo ou são sem rumo (rigidez ou
inêrcia, Elkish)
Nos Mborder" são traços ansiosos mas São traços descontrolados, não
a gestalt é boa, e acompanhados de acompanhados de sinais visíveis de
vi.sível ansiedade. Nas neuroses ansiedade.
obsessivas graves são traços muito fortes
e rígidos.
As figuras ~fecham" bcn1 sen1 ênfase Os Mfechos" não existem, se ocorrem ê
excessiva como a observada nas neuroses por acaso, o indivíduo não se incomoda
obsessivas graves ("Nada deve entrar, nada por não-fechar, não-encaixar, com as
deve sair"). Pode faltar fecho mas se a transparências, as superposições e as
gestalt for boa indicarã sentimentos de falhas de perspectiva. Ele não se queixa
perda, dificuldades para reter ou para se nem tenta corrigi-las. Por exemplo, urna
defender mas dentro de limites neuróticos. figura mistura-se com a outra sem que seja
possível distinguir se o braço é de um ou de outro
homem, se o olho é do homem ou da mulher.
Isto ê comum em casos de simbioses psicóticas,
quando a confusão é total.
O tamanho ê o habitual, dois terços Nas esquizofrenias o tamanho pode
da folha. São menores se predominar guardar as proporções, mas a gestalt
um sentimento de Mmenos-valia" ou está Mrompida". Nas psicoses maníaco-
em estados depressivos. depressivas o tamanho varia: é enorme nos
momentos maníacos e mínimo ou muito fraco
na melancolia. (Expansão versus Compressão
deElkish)
O desenho sadio e tambêm o O desenho psicõtico é um "monólogo
neurótico comunicam algo. interno" absolutamente subjetivo, inexplicável.
Do ponto de vista psicanalitico sempre tem um
significado {a lógica da ilógica igual â dos sonhos),
mas devemos lembrar a diferença entre equação
simbólica e verdadeira simbolização
{Marion Milner, Mclanie Klein).
Nunca desenham nus, nem os Aparecem figuras nuas ou com órgãos
órgãos internos, a não ser que internos visíveis como se fossem
isso seja solicitado expressamente. transparentes sem que tenha sido solicitado.
Isto indica a falta de pudor pela falta de sentido
de realidade, a preocupação por ter perdido
os genitais ou pelo que ocorre dentro do
corpo especialmente se há deli rios
hipocondriacos.
Exceto nas crianças muito pequenas Às vezes aparece o animismo de casas
não aparece o animismo de figuras não árvores, nuvens, flores, pela qualidade
humanas, pelo predomínio do paranóide da sua psicose. Por ex.: a
pensamento mágico e a necessidade casa tem quatro olhos no teto, dois em
de projetar em tudo a imagem materna cada janela, un1 na chaminé, etc.
de quem ainda tanto depende. Ou seja, tampouco se parecem com os rostinhos
que o pequeno projeta nos objetos como
reprodução da imagem materna.
100 García Arzeno

Neurose Psicose

Presença de movimento ou expressão Ausência total de movimento e de


nas figuras. As kinestesias desenhadas expressão. São figuras estáticas,
aparecem somente aos 1Oanos para inexpressivas.
representar que alguêm está correndo,
cumprimentando, lendo, etc.
Aparecen1 contradições como indicadores Aprodução ê monotonamente
de conflito. Por ex: a figura feminina sem homogênea e se há contradições são
mãos e a masculina com mãos. bizarras e não perturbam o indivíduo.
Por exemplo: a figura que parece feminina tem só
um olho no meio da testa.
Omissões e distorções são significativas As omissões e distorções que
e encerram grande valor simbôlico aparecerem pertencen1 ao mundo interno bizarro
do indivíduo, conseqüência da ruptura psicótica
do discurso gráfico. Não encerram um verdadeiro
sentido simbólico. Estão mais próximos da
equação simbólica. Ex: um homem desenhado
com o pescoço con10 tronco de ãrvore e a cabeça
como a copa. Outro desenhou todas as figuras
humanas com cubos no lugar da cabeça
e dos pês.
Predomina a integração porque as Predomina a desintegração pela perda
funções sintéticas do Ego estão das funções cgóicas, a fragmentação
conseivadas. do Ego e a projeção direta do n1undo interno
povoado por objetos biza.rros.
Predomina o realismo ou um simbolismo Predomina a "simbólica interna, o
fl

autêntico. sentido do sen1-sentido, a lógica da ilógica.


Sin1bolização Equação sin1bólica.
Freqüentemente misturam desenho e escrita num
esforço para compensar uma sensação de
ruptura da comunicação bãsica, diz Hammer, e
cita Malraux, que expressou que "o artista insano
manten1 u1n monólogo interno no qual só fala para
ele mesmo, n1as hoje sabe-se, continua Hammer,
que as projeções simbólicas dos doentes mentais
são todas significativas independentemente de que
no momento o psicólogo possua ou não a
capacidade de compreendê-las".

Bibliografia para Desenho Livre e Testes Gráficos em Geral


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Capítulo 10

O Questionário Desiderativo

A sua História e a sua Administração


O Questionário Desiderativo surgiu de uma idéia de dois psiquiatras, Pigem
e Córdoba, que em 1946 propuseram essa técnica. Perguntavam ao paciente: "O
que você mais gostaria de ser se tivesse que voltar ao mundo não sendo uma pes-
soa?" A resposta era interpretada do ponto de vista da psicologia existencial.
Mais tarde, o psicólogo holandês van Krevelen adaptou a idéia para aplicá-la
a crianças pequenas, e a modificação por ele introduzida tinha como objeto não
defrontar a criança, de forma tão abrupta, com a idéia da morte. O teste transfor-
mou-se então no teste dos três desejos e dos três sacos de ouro. Pergunta-se à
criança: "Você sabe o que é uma fada?" E explica-se: "Se viesse uma fada e você
pudesse pedir-lhe que com a sua varinha mágica a transformasse em alguma coisa,
o que gostaria de ser? Você pode escolher qualquer coisa. O que você responderia à
fada?" Após ter sido dada a resposta perguntava-se por que queria ser isso que
havia escolhido. Além disso, introduziu uma outra inovação: a indagação do que a
criança não quer ser. Dizia-lhe: "A fada não conseguiu transformar você naquilo que
você pediu. Ela diz: Que pena! Não consigo fazer o que você pediu mas não quero
transformar você em algo que você não goste, por isso, diga-me o que você não
gostaria de ser nunca, jamais''. Após ter obtido a resposta também pergunta o mo-
tivo.
Na outra modificação, o Teste dos três desejos e dos três sacos de ouro, diz-
se à criança: "Se viesse uma fada e dissesse a você que pode conceder-lhe três
desejos, o que você pediria? Ou então: "Se você encontrasse três sacos de ouro, o
que você faria com cada um deles?"
Na prática, essas modificações não são mais usadas, mas às vezes, com as
crianças menores, é bom dar o exemplo da varinha mágica que pode transformá-la
naquilo que ela mais gosta, de forma a que ela comece o teste entendendo melhor as
instruções e sem confundir "ser" com "ter".
Finalmente, na Argentina, Jaime Bernstein, da sua cátedra de Técnicas
Projetivas da Universidade de Buenos Aires, aproximadamente em 1960, introduziu
outras modificações que transformaram esse teste em um verdadeiro Questionário
Desiderativo, publicado no apêndice do livro de John Bel!'.
1. Bell, John. Técnicas proyectivas. Buenos Aires: Paidõs, 1956.

102
Psícodíagnóstíco Clínico 103

Em primeiro lugar, foi suprimida da instrução original a referência tão direta


à morte, quando é dito: "Se você tivesse que voltar ao mundo .. .", porque isso supõe
tê-lo deixado através da morte. Isso contribui para aliviar em parte a angústia de
· morte que é mobilizada com a instrução.
A instrução proposta por ele diz o seguinte: "o que você mais gostaria de ser
se não fosse uma pessoa?"
A segunda modificação foi acrescentar a palavra mais para induzir o sujeito
a projetar, na primeira escolha, aquele aspecto de si mesmo que é mais valorizado,
aquilo no que ele deposita o maior grau de idealização, o seu ideal do Ego ou, de
uma perspectiva narcisista, como ele considera que alcançaria maior onipotência e
completude.
Após essa pergunta, vem outra: "O que gostaria de ser se não fosse uma
pessoa nem ... ?" Repetindo-lhe aquilo que ele escolheu em primeiro lugar. Se ele
tiver respondido que gostaria de ser um cachorro, se pergunta por quê. Deve-se
tentar obter respostas bem detalhadas para poder fazer depois uma interpretação
mais minuciosa e correta. "Cachorro" é uma resposta ambígua. Pode-se perguntar
qual o tipo de cachorro que ele gostaria de ser. Talvez ele não possa especificar mais
a resposta. Talvez sim. Não tem o mesmo significado a resposta de que gostaria de
ser um cachorro policial, um Lassie, um vagabundo ou um cachorrinho de estima-
ção.
A escolha é o que é chamado de "catexia" (positiva nas três primeiras respos-
tas e negativa nas três seguintes). A resposta dada à pergunta do por quê é chamada
de "explicação desiderativa" e é imprescindível, já que a interpretação considera a
simbologia universal, mas fundamentalmente tenta investigar o significado indivi-
dual de cada símbolo.
Devemos considerar que a interpretação é feita correlacionando a catexia, a
explicação desiderativa e a correlação existente entre ambas. Por isso devemos per-
guntar tudo o que for necessário, como quando realizamos o inquérito no Rorschach,
para depois tabular e interpretar corretamente.
Depois que o paciente tiver feito a sua primeira escolha, pergunta-se o que
ele gostaria de ser não sendo pessoa nem ... (aquilo que ele escolheu, por exemplo,
um cachorro) animal. Então, ele pode responder que gostaria de ser uma mesa e nós
perguntaremos por que razão. Dessa forma, a catexía l + corresponde à categoria
animal e a 2+ corresponde à categoria do inanimado. Faltaria um vegetal, então
repetiremos a pergunta: "Se não fosse uma pessoa, um animal ou algo inanimado,
o que gostaria de ser? Se a pessoa responder que não há mais nada pode-se induzir
que ainda há os vegetais.
Após a obtenção das três escolhas positivas, pergunta-se: "Agora pense no
oposto, o que você menos gostaria de ser?" e recolhem-se as três escolhas negativas.
Pode ocorrer que a primeira resposta seja: "Astronauta". Aceita-se essa resposta e
pergunta-se por que para obter maiores informações, mas repete-se a instrução
pois isso pressupõe ser uma pessoa. Por isso essa resposta não se enquadraria na
catexia l +.
Pode ser que após ter escolhido um animal ou vegetal ele escolha outro. Isso
é aceito, pergunta-se por que e se induz o paciente a mudar de categoria.
Quando se deve induzir à escolha de algo inanimado é conveniente não usar
a palavra "coisa", já que ela lembra algo material e pode ser que o paciente queira
escolher ser "música", "felicidade" mi não queira ser "o mal" ou "algo etéreo".
Se responder, por exemplo, que gostaria de ser "um pássaro, um cachorro
ou um leão", perguntaremos o porquê de cada escolha para logo pedir-lhe que esco-
lha qual dos três ele escolheria se tivesse que ficar com um só. Todos eles
correspondem à catexia l+. Dessa forma será mais fácil para fazermos a compara-
ção de cada catexia positiva com a sua correlativa negativa.
104 García Arzeno

É importante tomar nota do ritmo em que o teste é realizado, se o paciente


responde mais rapidamente às catexias positivas do que às negativas ou o inverso,
ou se se detém em alguma especial (tempo de reação TR).
As respostas instantâneas são duvidosas; as pausas excessivas indicam tam-
bém um Ego fraco, talvez confuso, assim como numa reação de choque no Phillipson
ou no Rorschach. No primeiro caso o Ego tenta se desembaraçar o mais breve pos-
sível da situação ansiogênica. Seria uma defesa contrafóbica. No segundo caso apa-
rece um fundo fóbico ou uma situação de confusão ou de psicose, segundo o que
aparecer mais adiante no teste.

Critérios de Interpretação do Questionário Desiderativo


Este teste deixa o sujeito numa situação ambivalente. Por um lado o enfren-
ta com a sua finitude, com a morte, com a castração. Por outro lado, permite-lhe
"brincar" com a sua fantasia onipotente de ressurreição e eternidade.
A primeira catexia positiva nos dâ informação sobre o mais valioso que perde
ao morrer; o que é perdido ao aceitar a castração e qual é a primeira defesa com a
qual ele enfrenta essa situação angustiante para evitar a morte e a castração.
Essa fantasia está ligada ao ideal do Ego e representa aquilo que está mais
carregado narcisisticamente; o que mais ele teme perder.
Graças ao mecanismo que inconscientemente coloca em ação, o sujeito salva
da morte uma parte de si. Salva também o objeto interno mais amado (Klein) ou a
parte do seif mais apreciada (Kohut, etc.).
A sucessão de perguntas dá a ele a oportunidade de resgatar outras partes
valorizadas de si mesmo.
Se a instrução despertar muita angústia o sujeito poderá ficar paralisado.
Poderá responder: "nada". Em alguns casos o paciente poderá fazer uma única
escolha e não conseguirá continuar. Isso significa que terá entrado em funciona-
mento um mecanismo de identificação projetiva massiva, o que é freqüente em
psicóticos.
As escolhas segunda e terceira dão ao sujeito ajuda para realizar outras ten-
tativas defensivas e resgatar outros aspectos egóicos. Ao mesmo tempo vamos des-
pindo-o das suas defesas, e ele deve apelar a outras.
Nas escolhas positivas aparece a maior ou menor força do Ego, e nas negati-
vas, os pontos fracos ou os aspectos não desejados contra os quais deve lutar.
Uma prova do sucesso da elaboração da instrução é a escolha de elementos
que implicam transcendência, tais como: "Casa, acolheria muita gente", "Macieira,
dá frutos", etc.
As catexias positivas também podem ser interpretadas como as defesas que
o Eu usa, e as negativas, como o preço que o Eu deve pagar por usá-las. Esse
enfoque foi desenvolvido exaustivamente por Mary Carpossi de Schust e Elsa
Grassano de Píccolo no capítulo sobre esse assunto incluído em nosso livro anterior
sobre o processo psicodiagnóstico.
Assim, por exemplo, se o sujeito responder que desejaria ser um cachorri-
nho pequeno porque é cuidado e mimado e logo diz que não gostaria de ser uma
trepadeira porque ela está sempre presa ao muro· e não sobrevive sem ele, fica evi~
dente que a primeira defesa é fazer uma regressão até um estado infantil dependen-
te, prender-se a outro que o. complemente narcisisticamente, abrir uma distância
maior da morte permanecendo como um cachorrinho pequeno e que a busca de
contato pele a pele com outra pessoa é essencial. Mas na catexia negativa fica claro
que o preço que paga é a angústia diante da separação-individuação (sem o muro a
trepadeira não sobrevive). Seu maior temor é a dependência tirânica, e se essa defe-
Psicodiagnóstico Clínico 105

sa permanecer o preço será ficar sempre em um estado de necessidade imprescindi-


vel do outro.
As mesmas autoras citadas anteriormente descreveram nesse artigo as defe-
sas que atuam nesse teste.
A identljkação projetiva é o mecanismo básico. A dissociação também. já que
o induzimos a escolher o mais idealizado e o mais persecutório. Há deslocamento, já
que quando afirma que gostaria de ser um cachorro ou um pássaro ou um puma,
essa cadeia associativa é composta por uma série de deslocamentos. A defesa maní-
aca age desde a instrução ao ajudar o sujeito a negar a morte, mas às vezes aparece
de forma mais manifesta em escolhas como "sequóia, para viver muitos anos", ou "o
mar, ele é só movimento, imensurável". Podem aparecer mecanismos de controle
obsessivo (ser um computador porque está cheio de informações) ou de controle
onipotente (ser um relógio porque todos dependem dele; ser o ar porque é imprescin-
divel). Os mecanismos regressivos aparecem na escolha de algo que depende neces-
sariamente dos outros. O mecanismo de repressão histérica aparece nas escolhas
realizadas pelas qualidades de atração e sedução do objeto (rosa, pela sua cor e
perfume, pavão pelas suas plumas). Nesses casos é típico que a primeira negativa
seja a rejeição da cobra que pode picar.
Pode aparecer a identificação com o agressor quando ele diz, por exemplo,
que gostaria de ser uma cadeira elétrica porque faz cócegas, ou uma planta carnivo-
ra porque come todas as formigas miúdas que picam muito.
O mecanismo de anulação é observado quando o sujeito faz as mesmas esco-
lhas tanto para as catexias positivas quanto para as negativas. Por exemplo, gosta-
ria de ser uma rosa pela cor e pelo perfume, e nas negativas não gostaria de ser uma
rosa porque tem espinhos. Às vezes pode misturar isto numa mesma resposta até o
extremo de demonstrar muita confusão. Nesse caso é conveniente perguntar-lhe se
vai se decidir positivamente ou não por essa escolha.
Os mecanismos fóbicos aparecem na escolha de algo que permite evitar a
situação ansiogênica (pássáro ou avião para voar). Os esquizóides são observados
em escolhas que permitiriam ao individuo manter o máximo de distância em relação
ao objeto ansiogênico e temido (uma nave espacial para conhecer o espaço; ser o Sol
ou as estrelas; ser uma planta flutuante porque não está amarrado a nada).
A negação onipotente da morte pode se manifesta em escolhas de algo
atemporal como por exemplo uma estátua, um livro célebre, a música, a ave Fênix,
etc.
A fragilidade ou força do Ego pode ser avaliada de diversas formas. Uma
delas é medindo a distância das dissociações, ou seja, entre o animal aceito e o
rejeitado, o vegetal aceito e o rejeitado e o inanimado aceito e o rejeitado. Uma
identidade forte é aquela que dissocia menos, ou seja, na qual há uma maior coin-
cidência entre a identidade manifesta e a latente: o que demonstra e o que realmen-
te tem. Por exemplo, se quiser ser um elefante e não quiser ser uma formiga, a
profunda dissociação indica uma identidade frágil. No entanto, se desejar ser um
cachorro e rejeitar ser um verme, a dissociação menor indica uma identidade mais
forte. Encontramos também uma maior plasticidade e condições de adaptação de
um Eu mais forte e isso é observado na possibilidade de mudar de catexia e de
passar das positivas para as negativas sem maiores inconvenientes. Como já disse
anteriormente, as respostas rápidas demais assim como os tempos de reação longos
demais indicam uma fragilidade egóica.
Além do mais, podemos encarar o teste de uma perspectiva kleiniana no
sentido de interpretá-lo como uma sucessão de perdas que o sujeito deve elaborar.
Partindo dessa perspectiva, uma identidade forte pode aceitar e responder
com êxito ao teste na medida em que aceita e elabora cada catexia como perdas
parciais que o mesmo lhe propõe. Os mecanismos depressivos sadios são aqueles
106 García Arzeno

que permitem levar a cabo essa tarefa, e então o sujeito busca identificar-se com
algo que transcende, que permanece, como, por exemplo, a árvore frutífera, uma
casa porque abriga uma família. Se os mecanismos são melancólicos, é mais provâ-
vel que o sujeito não consiga realizar o teste, chore, emudeça, etc. Sua angústia
visivel nos indicará que é um melancólico, diferente das psicoses nas quais o sujeito
não consegue realizar o teste mas não demonstra nenhum sentimento, exceto con-
trariedade e agressão.
A força do Ego também pode ser estimada de acordo com o grau de ligação
das identificações e isto pode ser observado no grau de convicção das escolhas que
faz, a segurança que evidencia. Se, no entanto, for confuso, duvidar muito, ou tanto
fizer uma coisa como outra, a fragilidade é marcante. Por exemplo, se disser que
gostaria de ser uma planta qualquer, porque todas são bonitas, ou um animal qual-
quer, porque não pensa e sofre menos que o homem. Um Eu mais forte duvida
menos na escolha e, além do mais, pode justificá-la muito bem na expressão
desiderativa. Por exemplo, diz que gostaria de ser um puma porque é forte, ágil e
tem linhas bonitas.
Vejamos alguns exemplos.
Trata-se de um rapaz de 19 anos.

1+ Âgua, gosto. Estâ en1 todos os lugares, cheia de peixes, baleias e em lugares diferentes.
2+ A pomba; gosto de voar bem alto, conhecer.
Uma cobra não é animal, é?
2·+ Uma borboleta porque sai na primavera e no verão, não no inverno, conhecer flores, luga-
res, igual que a pon1ba ... não sei onde vou chegar, a borboleta tem vida curta.
3+ As flores, são alegres.
1- Répteis, não gosto deles porque a cobra quando morre, a envenenam.
2- Uma chave, é um elemento fantasioso, gosto de não ter perigo a nada, gosto na fechadura.
3- Vegetal? Uma planta, por exen1plo, a Sra. disse? Rosa sim. Planta carnívora não, é algo
agressivo. A rosa é alegria.

A primeira resposta inclui a negação onipotente da morte ao escolher algo


onipresente (está em todo lugar) até chegar a um certo fracasso do sentido de reali-
dade pois a água não está em todos os lugares; existe também a terra. Mas além do
mais faz alusão a que a água contém tudo: peixes, baleias. Ao nível de simbologia
psicanalítica, a água faz alusão ao liquido amniótico e ao que ele contém, o feto. De
forma que essa escolha inclui um desejo de completude através de uma identidade
feminina à qual atribui a perfeição e na qual nega a castração.
Pomba para voar bem alto, é outra frase na qual se infiltra outro fracasso do
sentido de realidade. A pomba não é um animal que voe tão alto. Voar para conhecer
indica que está equiparando o "vôo" à capacidade intelectual e é evidente que o seu
Ideal do Ego está muito longe do que realmente ele pode conseguir. lsto é reforçado
quando pergunta afirmando implicitamente que a cobra não é um animal.
A cobra é uma animal e réptil: exatamente o oposto da ave que voa. De forma
que ao escolher um animal, a sua mente misturou dois opostos: o voador e o réptil,
simbolo de um desejo (voar) e da conseqüência de não consegui-lo (cobra, lingua
venenosa, inveja).
A borboleta está associada com o calor, mas reconhece que ela é efêmera.
Aqui ele está se aproximando da sua verdadeira identidade, muito mais frágil do que
ele tentou mostrar na primeira escolha. E, finalmente, acaba com um lamento: "Não
sei onde vou chegar". Vemos assim como se esvai a onipotência inicial, a verdadeira
fragilidade do seu Ego, a fragilidade das suas defesas e do sentimento de fracasso
mitigado apenas pela tentativa maníaca de se agarrar a algo alegre (flores).
Nas negativas ficam mais evidentes as falhas de pensamento, a fragilidade
do Ego e certas incongruências que levam a pensar que se trata de um psicótico.
Psicodiagnóstico Clínico 107

Assim, por exemplo, quando diz que envenenam a cobra, ou quando diz: "gosto de
não ter perigo a nada" sem que isto tenha alguma relação com a chave na fechadu-
ra. Há muita confusão com um fundo definidamente paranóide que aparece clara-
mente na última catexia: planta carnívora.
Quando diz que não gostaria de ser uma chave porque é um elemento
fantasioso, fica difícil entender a lógica da sua ilógica. A chave faz alusão a um
símbolo sexual masculino. Gosta na fechadura, representação clara do ato sexual.
Parece assim evidente que deve ter sérias dificuldades com a sua masculinidade,
reforçando o que coloquei a propósito da primeira catexia e que talvez recorra a uma
sexualidade compulsiva para encobrir as suas ansiedades paranóides e homosse-
xuais.
Outro exemplo: moça, 15 anos.

1t O leão, é forte, o rei da selva, é sociável, só mata quando precisa de comida.


2+ Estátua; vi verta eternamente {?] de uma pessoa importante.
3+ Árvore porque viveria muitos anos e ao ar livre.
1- Verme, dá repulsa. Odeio o jeito de caminhar, de se mover.
2- Bola, porque seria onde as pessoas se descarregariam
3- Planta trepadeira porque está sempre presa a algo e não poderia se manter por si só.

Este protocolo é contrastante com o anterior, deixando manifesta a presença


de uma maior força egóica, uma identidade mais definida e mais plástica, apesar de
alguns obstáculos que veremos agora.
Essa menina odeia estar "presa a algo" e escolhe símbolos masculinos asso-
ciados à força. Parece estar disposta a renunciar ao sexo e a todo o corpo, se isso lhe
possibilitar fugir da dependência e da morte (estátua). É muito narcisista e bastante
esquizóide: estátua de uma pessoa importante, o leão, rei da selva.
Poderiamas dizer que o preço que paga ê a renúncia ao sexo, fonte de desejo
de um outro, principalmente quando o desejo sexual pode transformá-la em alguém
que se rebaixa ou se arrasta (verme) para satisfazer-se.
A idade indica que está entrando na plena adolescência, o que modera a
severidade destas afirmações.
Vejamos o caso de outra moça de 16 anos.

1+ Não sei. Ave; qualquer uma. Gaivota para voar.


2+ Nada mais. Rosa pela cor. Dá vida.
3+ Nada mais.
1- Inseto. Nenhum. Não gosto deles.
2- Nada inanimado.
3- Nenhum vegetal não desejaria ser.

As dificuldades dessa moça para realizar o teste indicam uma fragilidade


egóica marcante. A sua atitude ê bastante negativista e resistente. Isto é o que mais
se destaca em seu protocolo, sendo, por isso, dificil analisá-lo de acordo com todos
os parâmetros desenvolvidos acima.
Ave para voar é uma resposta clichê já que a grande maioria estatística
responde isso em primeiro lugar.
A segunda resposta dá indícios de maior colaboraçâo e de uma pulsâo de
vida que estâ presente, apesar de que a sua negativa de responder mais precisa-
mente induz a pensar o contrário.
Ela se movimenta em termos de tudo ou nada. Essa ê uma característica
bastante freqüente na adolescência, mas comparando este protocolo com os outros
de outros adolescentes vemos como se destaca por essa razão.
108 García Arzeno

Vejamos agora o de um rapaz de 18 anos.

l+ Um avião, são lindos, poderosos, voam.


2+ Golfinho, são lindos, simpâticos e livres.
3+ Uma rosa, é linda, ambígua porque também tem espinhos; é completa.
1- Qualquer coisa; bichinhos daninhos.
2- Planta carnívora, é má, daninha, peligosa.
3- Guilhotina, são muito letais, são más den1ais para as pessoas.

A primeira escolha é muito apropriada para um rapaz pela simbologia fálica


ativa, ou seja, ele acentua a sua masculinidade como o primeiro que quer resgatar.
Mas a terceira negativa joga por terra essa tentativa já que faz alusão a uma castra-
ção "letal", ou seja, mortal. O que é rejeitado é o que se teme, portanto ele deve
reforçar a sua masculinidade porque tem muito medo de se sentir castrado irreme-
diavelmente. A segunda positiva é uma resposta muito sadia e muito rica em signi-
ficados: chama-se "delfin" (N.T. golfinho em espanhol no original) o sucessor de um
rei e mesmo não sabendo se ele é o primogênito, sabemos pelo menos que é assim
que ele se sente. A inteligência, simpatia e excelente contato com o homem fazem a
fama desse animal e essas devem ser qualidades exibidas por esse rapaz na sua vida
diária. Mas, por baixo de tudo isso, as catexias negativas demonstram que ele está
cheio de temores, que pode chegar a ter reações muito violentas, "más demais para
as pessoas". Nem todos os bichinhos são daninhos, de forma que esta falha do seu
pensamento nos mostra que está muito na defensiva. Atribui à mulher caracteristi-
cas de algo completo (rosa ... é completa) e a segunda negativa parece indicar que
tem temores terriveis do contato com ela. É passivei que seja um "expert" da sedu-
ção e que no nivel da fantasia desperte uma grande paixão, julgando pela primeira
positiva, mas na hora da verdade acabe tentando evitar o contato sexual, pelo me-
nos, o genital.
O caso seguinte é o de outro rapaz de 16 anos, internado por vontade pró-
pria, com diagnóstico de esquizofrenia. Havia brigado com seu pai e logo foi se
internar devido ao que ele chamou de "disritmia". Em alguns momentos sofre uma
paralisia histérica da qual é retirado a base de fincadas.

l+ Nada; alma, porque é linda.


i ·+ Algo que cure todas as doenças, o câncer, minha mãe ê propensa ao câncer.
l "+ Um carro, carro de corrida, Fórmula 1, correm a 300km/h.
l '"+ Selos, gosto de classificá-los.
l '"'+ Deus, para que não exista guerra nem doenças
2+ (Animal?) Um animal selvagem, livre, qualquer un1, leão ou tigre(?) o primeiro por sorteio,
porque é selvagem, livre, faz o que quer.
3+ {Vegetal?) Jasn1im, eu gosto, minha mãe também, pelo aroma.
1- Qualquer coisa que destrua; bombas, armas, gosto, de qualquer tipo.
l ' - Diabo, é um anjo que se rebelou contra Deus.
1"- Doença, nenhuma das más, das que não são curáveis agora.
2- (Animal?) Um que esteja amarrado; cachorros amarrados. Se não estão amarrados, gosto,
são inteligentes; entenden1 dependendo do lugar e do meio.
3- Planta carnivora porque destrói, é perigosa.

Neste protocolo chama a atenção a insistência na catexia do inanimado. Isso


é incomum, principalmente em um rapaz e na adolescência, já que o que eles mais
desejam resgatar é o impulsivo e o emocional. Mas acontece que para este rapaz isso
significa ser muito perigoso, tanto quanto uma doença mortal. Ele brigou com o pai
e se internou em um hospital psiquiátrico. Rejeita toda dependência, como pode ser
inferido das catexias 2 + e 2-. No entanto, parece estar muito preso à mãe, em
relação a quem revela uma grande ambivalência, já que associa com ela o aroma de
jasmim mas a condena a morrer de cãncer. Move-se entre extremos de uma marcada
Psicodiagnóstico Clínico 109

dissociação no que a sua doença se faz tangível: Deus ou o Diabo, algo que cure o
incurável ou armas mortais. Na primeira negativa ele trata de se desembaraçar da
sua pulsão agressiva mortal, mas a sua confusão ao dizer "gosto" indica que está tão
doente justamente porque o seu Ego não pode continuar mantendo tal dissociação
. por muito mais tempo. Busca a liberdade mas para ele está associada a uma corrida
desenfreada (300km/h).
Na resposta J"', o mecanismo de identificação projetiva fracassa porque não
se refere a "ser" mas a "ter". Mas de qualquer forma, consegue fazer o teste o que é
um prognóstico muito bom, junto ao fato de haver procurado a internação, ou seja,
a ajuda, por ele mesmo.
Os episódios classificados como paralisia histérica, eu preferiria classificá-
los como momentos catatônicos mais de acordo com o diagnóstico de esquizofrenia,
pois se fossem histéricos, corresponderiam a um nível muito mais evoluído e de
patologia mais leve. Certamente esse rapaz que teme tanto a emergência dos instin-
tos desenfreados tenha momentos durante os quais paralisa o corpo através de
mecanismos psicóticos delirantes, sentindo-se assim transformado em uma alma
sem corpo (primeira catexia positiva).
Isso é indicado pela sua primeira resposta: "Nada: alma", ou seja, sem corpo.
O seu Ego fica aniquilado pela instrução sem que ele possa apelar à defesas que
dêem "sinais de vida".
Ele oscila entre o controle onipotente (catexia l "") e o fracasso total do con-
trole da sua agressão.
Deseja a liberdade mas a associa como sendo um diabo tal como aparece na
catexia l'-.
Tratando-se ele de uma pessoa muito doente não podemos falar de defesas
exitosas. Aquelas usadas são muito primitivas e massivas, o que Melanie Klein clas-
sificaria como esquizoparanóides patológicas. Portanto o preço que paga é a loucu-
ra.
Vejamos agora o caso de uma mulher de 29 anos, que solicita tratamento
apôs várias tentativas frustradas, cuja queixa ê sentir-se mal em seu casamento,
como mãe, na criatividade em geral. Diz haver começado muitas coisas sem terminâ-
las e ter se dedicado inteiramente ao filho durante quatro anos.

l+ Música porque gosto e é mâgica {?)é um mundo de sons que é o que n1ais se aproxima do '
n1eu estado ótimo (Existir como músico?) sim, tudo clássico, sinfônica, estudei piano e
entendo.
2+ Por exemplo, os veados me fascinam, são bonitos, têm uma graça infinita, os bambis, pela
sua forma de correr, porque parecem muito bons. Tambêm são musicais(?), me dão essa
sensação quando corren1, parecem bailarinos e me dão uma sensação de enorme liberdade.
Tambêm devo ter me sentido como a imagem que dão quando são pegas que ê patética,
uma caçada. Mas são muito bonitos. Eu me sinto numa armadilha muito freqüentemente,
mas ê causado por mim mesma.
3+ (Longo TR) Gosto de todas as plantas mas não gostaria de ser uma planta (?) Não sei,
porque estaria ali pela raiz. A raiz a transforma em algo fixo.
1- Um gato. Não gosto. Não os entendo. Causam-me rejeição, un1a espantosa rejeição. {O que
você sente se fosse um gato? Traiçoeiros, desgraçados, sempre sós. Não gostam de nin-
gué1n. Estão com um dono e podem ir embora tranqüilamente por ai. São livres, não?
2- Aloucura. Porque acredito que na loucura hâ un1a loucura que é bela, crtativa, que dá asas
e uma loucura que marginaliza a pessoa de tudo; é a morte; o fim.
2'- Não gostaria de ser uma grade de uma cadeia porque creio que se chega a situações limite
que são essas: um gato raivoso, a marginalização e a coisa sem saída.
3- (Indução minha) Não gosto de cactus(?) sim, aí fora (faz sinal para a sacada) não gosto.
110 García Arzeno

Penso que esta mulher pode ser classificada como histérica mas de base
narcisística aguda. Elízabeth Zeltzer2 classifica essas pacientes como não analísáveis.
Na verdade, ela tem tentado fazer análíse mas em vão. O que ela busca? Aquilo que
preencha o seu narcisismo. Seu filho cumpriu essa função mas já está com quatro
anos e deve entrar na escola. Isso pode ter funcionado como fator desencadeante já
que a obriga a se separar do filho como prolongamento fálico de si mesma e reconhecê-
lo como pessoa, como outro. Então procura encontrar isso em outro lugar: com o
analísta.
Usa a línguagem como uma música; se deleita falando e tenta nos "ofuscar"
para que deixemos passar ao largo a sua patologia se ficarmos fascinados com a sua
"sinfonia".
A sua primeira defesa é fascinar como um equivalente de hipnotizar. Mas
monta uma armadilha para sí mesma já que de repente entra no delírante. Apresen-
ta-se como um bambi de graça infinita e grande bondade (catexia 2+) mas descreve-
se como realmente é na primeira catexia negativa: traiçoeira, desgraçada, não gosta
de ninguém a não ser de si própria e isso a impede de "lançar raízes" ou seja estabe-
lecer verdadeiros vínculos. Ela se recusa a estabelecer vínculos mas o preço que
paga é por um lado, uma grande solídão interna e, por outro, cair na armadilha de
situações límite entre a normalídade e a loucura. Nesse aspecto é uma "border'',
como estado límítrofe; não como estrutura. Como já coloquei, a estrutura é histéri-
co-narcisista. É por isso que mesmo procurando tratamento, pouco tempo depois
de iniciar percebe que o terapeuta não cai vítima dos seus encantos e não lhe dá
satisfação narcisística que ela necessita. Então o abandona.
A própria vida impõe límites e frustrações, ou seja, a castração. Nesta mu-
lher os componentes agressivos do narcisismo estão pesando demais, de forma que
haveria que advertir ao terapeuta que solícitou este estudo sobre a possibilidade de
tentativas de suicidio nos momentos de ira provocados pelas decepções que a vida
impõe.
Por isso, apesar de ter excelentes condições, não consegue criar, a criação
tem relação com a própria vida.
Vejamos agora o caso de um homem de 27 anos.
Ele consulta porque não consegue estabelecer um vinculo duradouro de ca-
sal. Não tem problemas no aspecto sexual, mas sim no afetivo.

1+ Um animal não doméstico, selvagem. Mesmo as pessoas não sendo livres, não sendo uma
pessoa percebo como pode ser terrível ser um animal não livre. Não acreditando que as
pessoas são totalmente livres, ser um animal selvagem{?) qualquer, que viva na selva sem
ser um lobo; não um mau. Pode ser uma zebra, uma girafa.
2+ {Longo TR) Coisa alguma porque não acredito en1 nenhuma religião mas tenho a questão da
vida bem endeusada. Associo Vida com Deus. Uma coisa não tem vida, ê feita pelo homem
e não pode ser comparada com uma coisa feita por Deus.
3+ Não sei. .. um vegetal. .. uma seringueira, não. Os vegetais são enfeites, apesar de serem
naturais. Gosto da seringueira, uma planta carnuda, mas não me enfiar dentro.
1- Zorro {N. T. raposa). não o agüento por suas caracteristicas de ladrão ou brutal como o
lobisomem. É uni animal fantasioso [Conhece a lenda, se refere a isso?} Sim, como eu tenho
que me transformar.
2- Para uma coisa rege o mesmo. É ruim ser uma coisa.
3- Não gostaria de ser nenhum vegetal venenoso que provocasse a morte {Conhece algum?)
Não. Uma planta que ao tocã-la, ao ter contato, envenenasse.

Na primeira catexia esse homem coloca que diante da menor possibilidade


de aproximação de um ser humano ele foge apavorado tal como o fazem as zebras e
as girafas. Deseja ser absolutamente livre e viver em um estado primitivo (selva).

2. Zeltzer, Elizabeth. "The so ca\\ed good hysteric". Int. J. of Psychoanalisis, p. 49-256: 1968.
Psicodiagnóstico Clínico 111

Na natureza existem coisas "feitas por Deus" e ele não as escolheu. De forma
que podemos pensar que ficou impressionado diante da morte associada ao inani-
mado e racionalizada com esses argumentos de endeusamento.
A terceira catexia é congruente com a primeira já que faz alusão ao medo de
ser tratado como um simples enfeite se chegar a se enfiar em laços familiares, em
uma casa, o que é o motivo manifesto da sua consulta. Rejeita algo que significa
"deitar raizes". Teme ser portador de um sadismo intenso e mortal que mata através
do contato. Por isso procura o contato, mas infrutiferamente. Assim protege o outro
do seu sadismo mas também protege a si mesmo dos contatos perigosos. Teme ser
escravizado pela mulher, a quem teme profundamente. Certamente há algo de rapo-
sa no seu comportamento com elas, com as quais consegue ter relações sexuais mas
não estabelecer relações objetais porque dessa forma se transformam em algo que
envenena e isso faz com que ele se transforme no lobisomem.
Trata-se, no meu ponto de vista, de um quadro de histeria masculina, pare-
cido ao clássico Don Juan. Seduz e foge como uma abelha com as flores, para não
cair na armadilha mas também para não chegar ao fundo da relação que é onde se
encontra o veneno mortífero. Assim, o medo de ser castrado pela mulher nesse caso
toma um matiz mais paranóide porque é medo da morte.
O preço que ele paga por usar sexualmente a mulher e fugir é o de sentir-se
um ladrão (1-) que deve fugir rapidamente tal como aparece na primeira catexia
positiva.
Trata-se pois de uma pessoa dificil, inclusive como paciente. É surpreenden-
te que tenha procurado uma mulher como terapeuta pois o mais lógico seria pensar
que fugiria. De todas formas, no H.T.P. havia desenhado uma casa com duas portas
principais de entrada na mesma parede. Isso serviu de advertência sobre uma du-
pla face, uma que mostra e outra que esconde, como dissemos, é de desconfiar.
Foi sugerido que fizesse o tratamento com um homem mas insistiu em fazê-
lo com uma mulher. Poderíamos definir todo o seu tratamento, que se prolongou
por alguns meses como um constante acting no qual relatava as suas aventuras
amorosas sem trabalhar atentamente nenhuma interpretação. Resolveu abandonar
o tratamento e foi embora sem pagar as últimas sessões, com o que confirmou tudo
o exposto anteriormente. Felizmente o psicodiagnóstico havia servido para dar ante-
cedentes à terapeuta que, apesar de tudo, não conseguiu sair ilesa da situação:
ficou "pagand?"·
Vejamos agora o protocolo de uma menina de seis anos.
Seus pais consultam porque seu comportamento em casa é insuportável,
deixa a todos nervosos e especialmente ao irmão mais velho. Se dá melhor com a
irmã mais moça.
A mãe é intérprete oficial e vive trabalhando de Congresso em Congresso,
inclusive viajando. O pai é um europeu que foi para a Argentina quando criança e
trabalha em suas terras. É um homem simples e rústico. Ela aparece como a "cul-
ta".
A menina responde:

1+ Menino (?) porque em vez de ser animal gosto de outra coisa.


l+ Um papagaio porque a n1inha irmã também quando eu falo ela repete. Eu digo: Mamãe
compra isso para mim? Ela diz a mesma coisa. (Bem, mas gostarias de ser um papagaio?
Sim.
l '+ Gosto também da tartaruga{?} porque é bonita. Eu tinha uma tartaruga pequeninha e er;
bonita(?) aqui em casa.
{Você a tem agora?} Não porque a água tinha cloro; morreram, entrou' nos olhos ou :
engoliram.
2+ Um carro (?) porque posso andar e as pessoas entram nele, tenho muitos botões. Olht
{mostra~me como o lápis escreve com o extremo oposto ao da ponta).
112 García Arzeno

3+ (Muito indecisa). Uma planta que é roxa e branca, a cravina(?) Porque são lindas, são roxas
e brancas e a minha mãe as compra.
1- Uma casa e uma ârvore. Un1a casa não porque a casa é muito grande e as vezes se estraga
então não gosto.
2- E a ãrvore porque muitas pessoas a cortam e às vezes caem os seus galhos.
3- O tigre, o leão e o macaco. {De qual gostas menos?) O macaco porque não gosto de ter um
rabo comprtdo. O tigre porque é mau e o leão também porque é mau e não gosto de ter
aquela barba.

Este protocolo é bastante confuso porque a menina oscila constantemente


entre identificações femininas e masculinas, ativas e passivas.
Ser menina bonita (ela é linda) é ser muito vulneràvel.
Tudo o que ela responde é altamente duvidoso jà que pode estar repetindo
"como papagaio" coisas que escuta ao seu redor, tal como a mãe, que sendo intêr-
prete simultânea somente traduz, não pode parar para pensar naquilo que diz.
A segunda positiva é muito estranha, porque parece uma escolha tipicamen-
te masculina mas lhe dà um papel passivo, talvez fazendo alusão ao pai que se
apresenta como um camponês rude e mudo. Temo muito que isso, no futuro, con-
duza a identificações masculinas homossexuais jà que na terceira parece dizer: "Eu
serei como a minha mãe preferir" e certamente a mãe não perdia oportunidades de
denegrir a imagem do marido de quem somente valorizava o sobrenome europeu, o
que a ajudava a abrir mais portas para a sua tarefa de intérprete.
Nas duas primeiras negativas aparece o medo de uma catástrofe que pode se
referir à ruptura de suas frágeis defesas ou, inclusive, à ruptura da família devida
às cenas constantes que a mãe faz ao pai.
A terceira negativa indica uma rejeição às características masculinas, pênis
e pelos. A figura masculina é associada à agressividade a maldade. Por isso poderí-
amos pensar que no futuro, quando o desenvolvimento da puberdade eclodir, essa
menina poderá ter problemas sérios em assumir o sexo feminino. Não será uma
"machorra" porque rejeita a aparência masculina. Mas poderia ser uma bela ho-
mossexual quem, como descreve Marie Bonaparte'. simplesmente ignora o sexo
masculino como feio e admira o seu próprio corpo amando somente "outras" mulhe-
res, na realidade, a si própria. Essa é uma explicação muito complexa. Ela parece
compartilhar com a mãe todos os seus gostos, e a mãe despreza o marido constan-
temente e tem algo estranho, entre fóbico e perverso, pois diz que não consegue
cortar as suas unhas dos pés porque fica impressionada.
Ser um papagaio faz alusão a falsas identificações que servem somente para
sair da situação. A tartaruga não é bonita e além do mais a considera facilmente
exterminável e tola.
Acho que o lápis que escreve ao contrário nos dá a chave para o entendimen-
to deste desiderativo ao contrário. Ela fala muito para poder falar (ou dizer) pouco.
Trata de evitar a castração mas não consegue (segunda negativa) mas também rejei-
ta a feminilidade (primeira negativa).
Em síntese, eu diria que essa menina sofre as conseqüências de sérios con-
flitos de casal protagonizados por seus pais, que, por sua vez, não devem mostrar-
lhe identificações claramente femininas e masculinas, e sim muito misturadas. É
uma menina forte o suficiente para não estar ainda mais afetada por essas confu-
sões, mas o preço que talvez precise pagar será a submissão à mãe através de uma
identificação homossexual que despreza e ignora o homem tal como o faz a sua mãe.
Nesses casos é imprescindível trabalhar com os pais, mas neste caso parti-
cular foi impossivel pois a mãe encontrava todo tipo de desculpas para não coincidir
com o marido e finalmente retirou a menina do tratamento indicado.

3. Bonaparte, Marie. La sexualidad de la majer. Península, Barcelona, 1978.


Psicodiagnóstico Clínico 113

O próximo caso é o de um menino de nove anos. Seus pais consultaram


devido aos seus intensos medos "desde sempre" mas intensificados a partir da re-
cente separação do casal.
Diz o seguinte:

1+ Pãssaro, para voar, mas não porque existem pessoas que os maltratam (Então sim ou não?)
Sim, um pássaro qualquer.
l '+ Um cachorro, porque gosto de brincar, que seja brincalhão como o meu. (Ocorre um longo
silêncio, menciono vegetais e coisas inanimadas mas não responde e o seu rosto mostra
angústia, então resolvo mudar a tática e pergunto sobre as negativas. Responde rapida-
mente).
1- Mosquito porque o maltratam muito, batem nele e também uma formiga porque a pisam.
2- Uma folha de papel, se estraga e quando escrevem eu sentiria dor. {Bem, agora você sabe o
que não gostaria de ser. Pense o que você gostaria de ser.)
2+ Uma nuvem, poderia ver todas as crianças brincando.
3+ Uma palmeira, porque estã nas praias, fresquinho. (Bem, gostaria de ser uma palmeira,
agora pense nun1 vegetal que não gostaria de ser.)
3- Uma rosa. porque hã crianças que quando procuram flores para a sua mãe sempre encon-
trama mais bonita e arrancam rosas.

Estou incluindo este protocolo para mostrar as variações que podem ser
incluídas com a finalidade de conseguir que o paciente realize o teste. Evidentemen-
te o trabalho de se desidentiflcar e voltar a fazê-lo provocou angústia. É como se ao
pedir-lhe novas identificações tivéssemos tirado todas as suas defesas. Então res-
ponde rapidamente a todas as negativas para poder ver-se livre daquilo que consi-
dera perigoso dentro e fora de si: os maus tratos. Por isso tentei dar ao teste um tom
quase lúdico, evitando que a insistência na seqüência comum se transformasse
numa forma de maus tratos.
A primeira defesa é clichê: evitar o perigoso. A segunda e a sedução do meni-
no-mimoso-cachorro.
Sem esses recursos ele fica desprotegido diante da agressão, por isso surge a
angústia e o posterior alívio por poder "renunciar" ao agressor. A segunda e terceira
positivas indicam o predomínio de defesas esquizóides como outra possibilidade de
evitar o mundo perigoso e daninho.
É um menino muito agradável, másculo mas suave e bonito. Talvez a tercei-
ra negativa tenha relação com o temor de ser objeto de desejo sexual-sádico de
outros meninos que o atacariam. Por outro lado, acredito que a mãe exerça um
grande poder sobre esse menino, que, além do mais, tem o mesmo nome do marido
que acaba de abandoná-la. Possivelmente ele deseja dar a ela coisas boas, as melho-
res do mundo, como uma compensação. Entre essas coisas, urna é a inibição da
agressão e o fato de permanecer filhote ligado a ela por muito tempo.
Por isso observamos que o seu Ideal do Ego é muito pobre em relação ao
constante medo de maus tratos. Poderia ter-se identificado com um animal mais
forte de quem ninguém se atreve a aproximar nem a tocar. Porém, ele se conforma
com fugir ou seduzir como um bebê mimoso.
Quando na hora de jogo enfrenta dois bonecos homens e diz: "O direito de
viver é do mais jovem, o outro tem bigode", nos dá a chave de seus intensos medos
intensificados desde que o pai partiu: ele é o mais jovem e matou o pai passando a
ocupar o seu lugar. As fantasias que causam os medos apareceram claramente no
Rorschach tais como: bichos do futuro, borboleta com asas de vampiro, um marci-
ano, um esqueleto, outro esqueleto, um vampiro, um cara mau da guerra das galá-
xias com armadura, um animal estranho do futuro e uma máscara de fantasia.
Essas imagens mostram claramente por que não quer deixar de ser um fi-
lhote. O futuro é terrível e está associado com a morte. Se ele se transformar em um
114 García Arzeno

homem "com bigode" estará destinado a ser objeto do ataque de todos esses seres
malvados e sinistros.
Na lâmina BG do Phillipson aparece a situação atual mais consciente: "Um
menino brigou com todos os meninos e saiu porque não o deixavam brincar: os
meninos estavam fazendo algo para fazer-lhe mal (?) jogar um balde com água (?)
vai contar para a mãe e vai pôr as crianças de castigo".
Mas na primeira lâmina (AI) aparece o futuro muito temido e mais inconsci-
ente: "Um homem no céu, nas nuvens (?) Foi para lá quando morreu. Ele não está,
é a sombra. (?) De um ataque do coração. (?) Tinha familia. Mãe, duas filhas e um
filho".
A sua família é composta dessa maneira, o que deixa evidente que o morto é
a figura de seu pai. Crescer é matar o pai e isto explica que uma vez tenha dito:
"Quero me suicidar". A mãe aceitou que foi isso o que a assustou e precipitou a
consulta. O pai não considerava isso como algo importante. Eu insisti em dar-lhe a
importância devida já que ele é um menino com uma base melancólica, com defesas
frágeis e facilidade para se sentir agredido sem poder agredir nem mesmo em defesa
própria. Isso, somado ao terror de consumar o drama edipico, poderia precipitar
saídas auto-destrutivas. A necessidade de um tratamento psicanalítico centrou-se
em torno disso, devendo ser acompanhado de entrevistas com a mãe e o pai, mas
em dias separados dada a situação real de separação do casal.
O exemplo seguinte refere-se a um rapaz de 14 anos.

1+ Uma pomba porque é muito livre, todos se sentem tentados por voar, mas é muito fácil que
a matem e não vive muito.
1- ... ou se não um cachorro, mas lindo, de raça, assim vão gostar de mim, não um cachorro
vagabundo. (?)Fico com o cachorro ou com um pombo correio que não o procuram para
matá-lo.(?) Um ovelheiro alemão; um Doberrnan, não.
2+ Um quadro porque ê algo que expressa sem ser uma pessoa. Por exemplo, uma jarra não
diz muito.(?] Os quadros pintados pelo meu avô que faleceu, o pai de meu pai.
3+ (Induzida). Uma rosa porque ê a flor mais bonita; vermelha ou branca, sem espinhos.
1- Um rêptil, do qual ninguém gosta, como a cobra, dão medo.
l '- Um cachorro vagabundo faminto e magro, dã pena.
2- Uma guilhotina porque não é nem um pouco agradãvel o trabalho da guilhotina ou um ...
revólver, metralhadora ou arma, não de caça ... servem para matar.
3- (Induzida) Uma planta camivora porque é a pior. Os vegetais são bons, bonitos en1 geral. A
carnívora eu não sei se é bonita ou feia mas não é nada boa.

Se considerarmos a primeira positiva e a última negativa, veremos que o


conflito está centralizado em torno da díade "liberdade-maldade". Associa a possibi-
lidade de viver em liberdade com o fato de estar exposto a morrer de fome no exílio
(l+ e!'-). Por isso parece se esforçar para ser útil (levar mensagens ou ser guardião)
para um amo do qual depende e cuja vingança teme se dele tentar se desligar. Por
isso retira os espinhos das rosas sem os quais elas ficam indefesas. As três catexias
negativas indicam não somente o que é temido como algo terrivelmente cruel, sinis-
tro e implacável, mas nos mostram também a ferocidade da sua pulsão de morte e a
fantasia de ser portador, como o Doberman, de um impulso irresistivel de matar e
devorar seus pais num ato psicótico de ataque alienado. Devorar o pai para se
libertar ou então escolher o exílio ou sofrê-lo como castigo: vemos aqui a tragédia
edípica descrita pelos gregos e retomada por Freud.
O problema edípico desse rapaz é muito claro; mas não se trata de algo
normal e sim de um conflito tremendo e dramático no qual a angústia de castração
transformou-se em angústia de morte, por se sentir portador de uma pulsão mortal ,
se a liberar.
Os sintomas apresentados por este rapaz desde criança e até a atualidade
são episódios asmáticos que sempre restringiram a sua vida social. Quando o co-
Psicodiagnóstico Clínico 115

nheci, seus pais relataram que ele sofria muito porque os seus amigos o subestima-
vam e porque assumia tudo o que acontecia ao seu redor (discussões dos pais)
pensando sempre que ia ocorrer o pior: se o pai discutia significava, para ele, que já
estaria saindo de casa; se tomasse duas aspirinas já estaria com úlcera. Ficava
muito sensibilizado quando a mãe estava deprimida. Quando nasceu, quase mor-
reu devido à incompatibilidade sangüínea dos pais. Vinte dias depois foi operado de
hérnia. Aos cinco meses teve um problema genital e precisou sofrer um corte para
poder urinar. Entre os 2 e 3 anos apareceu outra hérnia e aos 7 foi operado de
apendicite. Todas essas cirurgias precisaram ser feitas de forma urgente e sem muita
explicação prévia. Esses dados justificam amplamente as hipóteses extraídas do
Desiderativo. Desde bebê sofreu tantas agressões fisicas que, dentro da fantasmática
do primeiro ano de vida, intensificaram-se as ansiedades esquizoparanóides pela
confirmação da realidade externa. Para um bebê as operações não são salvadoras,
são agressões mortais porque ele é muito mau e alguém quer matá-lo fazendo justi-
ça. Por isso, aos 14 anos, idade em que novamente se debate o conflito edípico para
conseguir a independência e partir para a exogamia, ele pede ajuda porque a angús-
tia de morte é insuportável. A indicação dada foi de tratamento psicanalítico, de no
mínimo três vezes por semana, com entrevistas periódicas com seus pais e ele para
checar o seu processo de recuperação.
Vejamos agora o protocolo de um menino de 9 anos.

l+ (Longo TR) Uma das tantas coisas das quais gosto é de jogar futebol. (Deixo-o pensar um
pouco e como permanece calado digo-lhe que para isso deve ser um homem, um menino,
que é o que ele ê e então repito a instrução.)
Pescar, diz. (Repito que isso fazem os meninos)
Gostaria de ser um lutador de boxe infantil.
(Então, lembrando a versão de Van Krevelen, digo-lhe que imagine que eu posso transformá-
lo no que ele quiser e que pense o que ele pediria)
l+ Ah!, um animal(?) um cavalo, ah, sim, um cavalo.{?) Porque ê mais cuidado, são melhor
tratados. Seria um cavalo forte {O que gostaria de ser?)
2+ Um brinquedo[?) Um soldadinho de brinquedo: aqui não existem mas acho que na Ingla-
terra sim. Meu avô, meu tio, onde mora o meu tio, quis comprar um para mim, mas custam
muito dinheiro, acendem uma luzinha. {Por que gostarias de ser um soldadinho assim?)
Porque gosto das coisas de armas.
3+ (E uma planta, induzo, para abreViar, qual gostaria de ser?)
Flores. {?) Copo-de-leite. (?) Porque ê aberta, gosto, tem um pau longo, se pode pôr em
qualquer lugar. Se fosse necessârio colocâ-lo menor, pode-se cortâ-lo
1- {Responde rapidamente) Apantera negra, porque qualquer coisa que acontecer o caçador
dâ um tiro e a mata.
2- Uma arma de ar con1primido porque nesse caso as Maeli são muito ruins [Por que não
gostarias de ser uma arma como essas?} Porque o pai diz que são muito ruins, são pura
lata e com uma batida quebram.
3- Uma planta carnívora porque con1e qualquer coisa. Come um homem.

Nesse protocolo salientam-se as dificuldades desse menino para poder colo-


car-se na posição daquele que perde a vida mas a recupera nas escolhas desiderativas.
Para ele, perder a vida significa não recuperá-la jamais. A instrução o angustiou
tanto que parece não entendê-la; na realidade não quer acatá-la pela angústia que
isso provoca, pois no fim vemos que conseguiu realizar o teste.
A força muscular parece ser o mais desejado, e a defesa privilegiada (jogador
de futebol, lutador de boxe infantil, cavalo forte), o que nos levaria a pensar que o
ponto de fIXação mais forte tenha sido a etapa anal. Mas oscila entre o retentivo e o
expulsivo, como podemos observar na comparação entre 2+ e 1-; o soldadinho de
chumbo representa o bloqueio total da pulsão anal-muscular pois o soldadinho
somente obedece ordens. Mas o mesmo acende uma luzinha, a arma dispara e a
116 García Arzeno

pantera dispõe de uma musculatura ágil e poderosa o suficiente para matar o caça-
dor que é quem está com a arma em suas mãos.
Diante do medo da perigosa pulsão anal-sádica, este menino retorna para o
oral: planta carnívora. Mas depara-se com um sadismo tão perigoso quanto o anal.
E se tentar ir adiante, a sua tentativa de entrar na fase edipica (3+) também é
angustiante porque arrasta consigo o sadismo da etapa anal ainda não resolvido: o
pau longo (pênis) pode-se colocar em qualquer lugar e se precisasse ser menor, pode
ser cortado. A angústia aqui não fica evidenciada, é mais uma angústia causada ao
psicólogo pela alusão a um símbolo bissexual (copo-de-leite) e a castração tomada
no sentido literal como algo que ele aceitaria sem resistências. O pau-pênis longo
simboliza o crescimento como homem e parece dizer-nos que se o problema é o
pênis longo, corta-se e o problema acaba.
O fato de responder rapidamente às negativas indica que se sentiu aliviado
com essa oportunidade oferecida pelo teste de projetar o que é mau e reter o que é
bom.
Nas três a morte aparece como inevitável a partir dos três pontos de fixação
libidinal incluídos nas catexías positivas: a pulsão anal-muscular mata; a oral-sádi-
ca também e a fálica é tão fraca que o atacante a destrói porque e "pura lata".
É significativo que faça alusão à figura paterna e substitutos na 2+ e 2-.
Gosta das armas mas não aparece nenhuma que realmente seja para disparar com
êxito. Parece que a mensagem é que "tenho que ser um soldado de chumbo senão
meu pai n1e mata e se eu usar toda a minha potência muscular o mato eu".
Na vida real esse menino pertencia a uma família cujos pais haviam se co-
nhecido no "Tiro Federal". Ambos sabiam atirar e, muito freqüentemente, saíam
para caçar com as crianças. Existiu um tio que morreu durante uma tentativa
onipotente de atravessar os trilhos antes do trem que se aproximava visivelmente
(luz vermelha, luzinha disparada pelo soldadinho).
O motivo da consulta era a atitude de brigão que o menino mostrava na
escola, no bairro, mas não em casa. Tratava-se de uma reação ao medo intenso
diante das possibilidades reais de morrer, já que seu pai dirigia em alta velocidade
com as crianças dentro do carro e quando iam caçar o mandava buscar a presa sem
parar de atirar. Além disso, o menino tinha sérios problemas nos estudos e estava a
ponto de rodar na quarta série. Esse foi o motivo que levou os pais a solicitar uma
consulta, pois a sua atitude de brigão enchia de orgulho a mentalidade fálico-narci-
sista ou machista predominante na família.
Impressionou-me muito a resposta que deu à segunda lãmina do-Rorschach:
"Um pato sendo agarrado pelas patas, e o sangue escorrendo". Ao fazer o inquérito
esclarece que não aparece a cabeça porque não está ali, foi arrancada e jogada no
lixo; o pato está pendurado para baixo com a lãmina na posição normal. Aqui é
condensado o pavor ao sangue, à morte, a ser decapitado e ao fracasso, portanto o
medo de usar a cabeça para pensar, num ambiente em que tudo é resolvido através
da ação.
Lembro que esse menino, com quem comecei a trabalhar três vezes por se-
mana, pediu-me uma outra entrevista para vir com a sua mãe. Já havia transcorri-
do um ano de terapia. Veio desesperado para alertar a sua mãe e a mim sobre o fato
de que seu pài queria matá-lo. Relatou com detalhes que o pai matava um animal e
o mandava buscá-lo sem esperar a sua volta para continuar atirando. "Ele pode me
matar", dizia angustiado. Sua mãe confirmou isso. Expliquei-lhe que eu sabia disso
desde o primeiro dia mas que somente agora ele conseguira pensá-lo quando come-
çava a surtir efeito o tratamento. Em termos psicanaliticos o que estava ocorrendo
é que o menino acabara de ter o "insight" de algo que até então só estava presente
dentro de mim. Aconselhei a mãe a levar em consideração o pedido implícito no
Psicodiagnóstico Clínico 117

relato do filho e que o protegesse um pouco mais, colocando limites ao pai no exces-
so de velocidade e nas caçadas.
Lembro também que num período posterior esse menino oscilava entre ser o
brigão que me ameaçava e o morto de medo que me temia.
Em certa ocasião disse que havia trazido uma navalha escondida na meia e
que poderia me matar. Outra vez trouxe um revólver que parecia de verdade (eu não
entendo absolutamente nada de armas) e fez pontaria em mim. Eu disse: "Está
morto de medo e quer passar o medo para mim". Instantaneamente baixou a arma
e começou a desenhar.
A isso, seguiu-se um período no qual ele trazia uma cruz e a colocava diante
dos meus olhos ao mesmo tempo que me perguntava se poderiam entrar morcegos
pela janela. Movimentava a cruz de uma maneira peculiar e dei-me conta de que eu
era o vampiro e que tentava exorcizar-me com a cruz.
Finalmente, quando ficou mais tranqüilo e elaborou as suas terríveis ansie-
dades paranóides, chegou com um papagaio e uma cestinha muito semelhante à
que eu lhe dera no primeiro dia do seu tratamento. O papagaio subiu em meu
ombro. Ele dizia "não tenha medo Perico, essa senhora não vai fazer-lhe mal ne-
nhum". Estávamos já na fase final do tratamento. O papagaio o representava e ele
encenava como teria gostado de ter iniciado o tratamento: com um pai protetor que
o acompanhasse e o apresentasse explicando-lhe que eu não iria fazer-lhe mal al-
gum.
O que apareceu na catexia 3- do Desiderativo ficou claro quando já no perí-
odo final da terapia ele sofreu de fortes dores causadas por uma inflamação do
apêndice. Ligou-me pedindo que fosse fazer as sessões em sua casa pois o médico
havia recomendado repouso até a data da cirurgia. Aceitei ir e trabalhamos o assun-
to de que o bisturi não iria seccionar o seu pênis mas, pelo contrário, iria extrair
algo que provocava dor, para curá-lo. Agora sim ele encarava a sua angústia de
castração e pedia ajuda.
Vejamos agora o protocolo de uma mulher de 23 anos.

1+ Um coelho porque são tenros; é lindo vê-los.


2+ Uma flor, uma rosa, tcn1 formato bonito, é um presente tnuito bonito.
3+ Uma casa porque não sofre tanto, os moradores a cuidam.
1- Algo no ar, que sofrem, árvores na intempérie.
2- Montanha na intempêrte; sofre.
2'- Uma carteira de cigarros; fazen1 mal; estão sempre fazendo n1al aos outros.
3+ Um elefante ou um tigre, porque são perigosos(?)

A primeira resposta evidencia um nível muito infantil e a busca de depen-


dência como defesa: gostaria de ser sempre pequeninha. Busca receber caricias e
ser objeto de olhares de ternura de uma mãe.
A segunda catexia, mesmo sendo uma escolha muito feminina, não dá ênfa-
se ao feminino tanto como o fato de ser um lindo objeto de presente. Ou seja, a
feminilidade não está realmente assumida mas funciona como um presente para
deixar o outro contente (o marido, substituto da mãe de cujas caricias ela sente
falta). A casa é um símbolo que faz clara alusão ao útero que abriga o bebê. Parece
que ser mãe é correr o risco de muito sofrimento.
A resposta 2'- reafirma isso pois concede a algo fálico características muito
danosas, enquanto o símbolo do peito (2-) aparece novamente como sofredor tal
como a casa no 3+. No 3- vê-se que a vida para ela deve correr como se estivesse
entre algodões e erradicar a agressividade como sinônimo de perigo. É por isso que.
crescer é sofrer e ficar "na intempérie" (!-), sem uma mãe que a mime.
Essa jovem tinha dois anos de casada e estava preocupada porque não con-
seguia engravidar. O período não é tão grande a ponto de justificar a sua preocupa-
118 García Arzeno

ção. Considerei mais provável que estivesse preocupada porque com toda a proble-
mática que aparece no Desiderativo, nunca chegará o momento de aceitar realmen-
te o papel de mãe. A esterilidade primária, se quisermos falar assim neste caso, é
psicológica e obedece ao seu desejo de continuar sendo uma menina cuidada por
sua mamãe que a protegerá do pênis daninho e do sofrimento que a maternidade
traz consigo. Mas isso significa renunciar à própria maternidade. Internamente ela
não abriu um espaço para abrigar o filho. Esse espaço ainda está sendo ocupado
por ela.
Como o motivo da consulta era a esterilidade e se trabalha com o conceito de
casal estéril e não de mulher estéril, tive tarobém a oportunidade de estudar o ma-
rido e seu protocolo foi o seguinte.

l+ Um cachorro, é fiel ao homem. Oanimal é diferente do homem, mata por instinto; o homem
tem prazer em matar: o animal tem a relação sexual para procriar.
2+ Uma árvore que tenha utilidade; um pessegueiro.
3+ O cobre; é ú.til.
3'+ Uma faca; gosto; gosto de fazer churrasco e se precisa de urna faca ben1 afiada.
1- Um vírus porque causa doença.
2- Um espinho ou erva-daninha porque são daninhos.
3- Um metal precioso, o ouro, porque desperta a cobiça.
3'- Quatro paredes de un1 quarto escuro, porque dão medo.

O marido confirma os temores da mulher e por isso não pode ajudá-la a


neutralizá-los.
Enfatiza a natureza sanguinária do lwmem (não diz "ser humano") e parece
ter sérios con~itos com a sexualidade associada ao prazer e não somente à procria-
ção.
A mulher tem pressa em engravidar para tranqüilizar o marido, já que isso
legitimaria as relações sexuais que poderiam muito bem estar associadas ao gozo
nessa primeira etapa do casamento.
Esse homem parece ter aspectos bons (utilidade do pessegueiro ou o cobre)
mas misturados com outros muito agressivos (faca afiada) não colocados clararoen-
te a serviço dos prazeres da vida.
Em 1- faz alusão ao seu medo de ser contaminado (pelos medos da mulher)
e de contaminar (projetando nela seus próprios temores, por exemplo, a sua própria
esterilidade).
Na 3'- aparece um símbolo uterino muito perigoso e, sendo a ültima respos-
ta, o prognóstico tem um resultado negativo. Não possuo informação sobre como foi
o desenvolvimento dele na barriga da sua mãe, mas não parece ter sido uma expe-
riência feliz. Ele tem medo de se introduzir na genitália apavorante e ela teme que
algo danoso possa ser introduzido na sua. A esterilidade é, então, também o resul-
tado de mãs relações sexuais, que haveria que explorar profundamente para não
cair no ridiculo de uma situação na qual finalmente o casal acaba dizendo: "é que
não temos relações".
Capítulo 11

O Desiderativo como Instrumento


de Exploração do Narcisismo*
María Esther García Arzeno, Yolanda Kleiner,
Pala R. de Woscoboinik

Este trabalho tem como finalidade o enriquecimento da interpretação do


Questionário Desiderativo, incorporando uma nova dimensão à sua abordagem, a
partir da estrutura teórica que lhe é fornecida pelo estudo do narcisismo.
Em vista da natureza da tarefa determinada pela instrução, acreditamos
que se dispõe de um material extremamente rico em matizes para fazer a análise
dos componentes narcisistas da personalidade, a partir do estrutural: Ego - Ego
Ideal - Negativo do Ego Ideal; e também a partir do dinámico: tipo de eleição de
objeto.

Fundamentação Teórica
Colocamos ênfase em alguns dos desenvolvimentos freudianos sobre o as-
sunto, sistematizados em "Introducción al narcisismo" e em outros trabalhos do mesmo
autor. Acrescentamos também contribuições de autores como Herbert Rosenfeld,
Kohut e, entre os pensadores argentinos, Hugo Bleichmar.
Em primeiro lugar interessa-nos destacar as duas concepções que Freud
desenvolve sobre o narcisismo: uma concepção económica na qual o liga à teoria da
libido e outra na qual é entendido como a valorização que o indivíduo faz de si
mesmo. Nesse sentido o narcisismo passa a ser um reduto de certas qualidades da
vida anímica das crianças e dos povos primitivos, tais como a superestimação do
poder dos desejos, a onipotência do pensamento e a utilização da magia como técni-
ca de ação. Tudo isso relaciona-se com as vivências de perfeição e de vulnerabilidade
que remetem, por sua vez, à consideração do Complexo de Castração.
A partir da classificação em "libido do Ego" e "libido objetal", Freud conceitua
dois modos fundamentais da relação de objeto:

1) segundo o tipo narcisista na qual a carga libidinal é colocada num objeto


escolhido de acordo com a própria imagem ou num objeto pelo qual a
pessoa sente-se amada e/ ou valorizada;

Trabalho apresentado no Congresso Argentino de Psicoterapias. Universidad de Belgrano, Buenos


Aires, 1982.
Agradeço aos meus colegas a autorização para incluir este trabalho no livro. Os parágrafos incluídos
entre parênteses foram acrescent.1.dos posteriormente por mim, M.E.G.A.

119
120 García Arzeno

2) segundo o tipo anaclitico ou de ligação no qual o objeto escolhido segue


o modelo da mãe nutriz ou do pai protetor.

Um conceito importante a ser aprofundado é o do Ego Ideal em seu aspecto


de estrutura narcisista.
Na verdade, essa parte do Ego na qual cada pessoa deposita o amor a si
próprio e a incapacidade de renunciar à completude constitui-se no herdeiro do
narcisismo infantil e passa a funcionar como se fosse "um personagem" possuidor
de todos os atributos de valorização máxima.
Bleichmar destaca que o "Ego-Representação" inclui sempre elementos
valorizáveis com uma escala de preferências, síntese da história pessoal. Tudo o que
vai ser colocado no extremo superior vai formar o Ego-Ideal. Ideal funciona como um
qualificativo equivalente a "perfeito, desejado e ilusório". Deste enfoque depreende-
se o conceito do Ego Ideal Negativo, que condensa os atributos mais desvalorizados
no outro extremo da escala.
Bleichmar destaca também os conceitos de tensão narcisista, elaborados com
base em modelos de "tensão de necessidade" por um lado e pelo de "inibição, sinto-
ma e angústia" de Freud, por outro.
Seria a ordem de largada, diante de uma ameaça, de um movimento psíquico
que tende ao reencontro da identificação com o Ego Ideal, ao mesmo tempo que uma
mobilização para evitar o desmoronamento de um colapso narcisista.
Colapso narcisista é a queda na identificação do Ego com o Ego-Ideal-Nega-
tivo, o que traz junto a vivência de uma grande distância com os valores que se
tornam inatingíveis. A auto-estima foi perdida.
[Recordo o caso de uma paciente de aproximadamente 48 anos que depois de
vários anos de tratamento havia conseguido sair de um quadro depressivo e recuperar
em grande parte a sua auto-estima; mas certas circunstâncias da vida foram adver-
sas logo após uma série de sucessos profissionais e amorosos que havia conquistado
logo após uma viuvez prematura. Essas circunstâncias escapavam tanto ao seu con-
trole como ao meu. Mas o seu narcisismo restabelecido através do tratamento havia se
tornado o inimigo de ambas, fazendo que as suas queixas apontassem ao meu fracas-
so no sentido de evitar a sua queda inesperada nesse "poço". Estava deprimida mas
não como no início do tratamento. Estava indignada com a sua depressão sentida
como um fracasso imperdoável de minha parte e como algo desconfortável que os
demais percebiam e que ela devia esconder com um profundo sentimento de vergonha.
Nesse momento lembrei esse conceito de Bleichmar sobre Colapso Narcisista:
estava vivenciando-o diretamente. Lembrei também do maior perigo que correm os
tratamentos em momentos como esse: o abandono do mesmo. E foi isso o que ocorreu.
Deixou-me de um dia para outro e "por outro", escolhendo um terapeuta homem. Deu-
me tempo somente para esclarecer-lhe que Eu não aspirava a ser onipotente e aceita-
va os meus limites mas que não repetisse a história buscando em um homem a
onipotência que havia falhado nela. Obviamente, não ouviu absolutamente nada, pelo
menos no nível consciente, e foi embora com ar de triunfo como aquele que se dirige ã
"terra prometida"1
Finalmente, incluímos em nosso trabalho o conceito de Herbert Rosenfeld
referente à importância da neutralização reciproca de agressão e libido por meio da
fusão e defusão de ambas as pulsões.
Rosenfeld destaca os aspectos agressivos do narcisismo, analisando os fato-
res que levam a uma fusão normal ou patológica.
Enquanto na primeira ambas as pulsões se neutralizam. na segunda elas se
potenciam reciprocamente.
[Retomando o exemplo da minha paciente para explicitar melhor isto, podería-
mos dizer que se a psicoterapia funcionar adequadamente. não serão fortalecidos
Psicodiagnóstico Clínico 121

somente os aspectos do narcisismo ligados à libido, mas também os ligados à pulsão


de morte. É esse o motivo para agir com muita cautela, porque se se produzir uma
fusão salutar entraremos em wna etapa do tratamento com muitas vitórias e progres-
sos associados ao reconhecimento do paciente de que o seu sucesso é também o nos-
so. Mas se prevalecer a defusão, e isso é impossível de ser previsto, o paciente irã
oscilar entre a vitória onipotente e maníaca e a queda em depressão narcisista que são
clinicamente evidenciados pelo sentimento de humilhação (não de tristeza) e a proje-
ção no terapeuta do fracasso dessa onipotência oscilando com tentativas de auto-
destruição suicida.]

Hipóteses de Trabalho
Levando em consideração estes desenvolvimentos teóricos, colocamos as se-
guintes reflexões como hipóteses de trabalho.

1. Entendemos que a forma da instrução ("Se não fosse pessoa, o que mais
gostaria de ser?) funciona como produtora de uma ferida narcisistica ao Eu do
sujeito.
Implica a evidência da sua mortalidade e das vicissitudes às quais ele está
exposto devido à sua condição de ser humano.
Efetivamente, a mensagem faz referência, de maneira encoberta, à finitude e
vulnerabilidade da vida e à possibilidade de precisar renunciar ao que é ou ao que
gostaria de ser.
A mesma pergunta dá ao sujeito a oportunidade de recuperar o perdido, mas
ein outros níveis que falam de uma renúncia e de uma acomodação.
A primeira parte da instrução ("Se não fosse pessoa ... ") coloca, então, um
estado de alerta, de "tensão narcisista", enquanto que a segunda ("O que mais gos-
taria de ser?], oferece a ele a oportunidade de instrumentalizar um sistema defensi-
vo que tende a evitar que a subtração de valores fundamentais de seu Eu Ideal o
exponham ao perigo de desorganização e de pânico.

2. Por outro lado, a alternativa que o teste apresenta nas três primeiras
colocações {as positivas) remetem, por um lado, à possibilidade de pôr em algo ou
em alguém o seu Ego Ideal; e por outro, a de escolher um objeto que sintetize ou
represente o que a pessoa sente que lhe faz falta para ser completa; aquilo que
idealisticamente incorporaria ao seu seif para realizar a fantasia de perfeição. Isso
significa que ocorre uma profunda mobilização da angústia de castração.

3. Paralelamente, o Questionário Desiderativo mostra nas escolhas negati-


vas:
a) os objetos e qualidades dos objetos aos que deve renunciar para manter
o narcisismo necessário para sobreviver (o amor e aprovação dos pais,
os colegas e pessoas significativas do seu ambiente);
b) aqueles aspectos que o paciente sente que o colocam como castrado e
incompleto no extremo inferior da sua escala de valores {Ego Ideal Nega-
tivo).

4. Através das racionalizações podemos inferir a verdadeira natureza da


escolha de objeto; se a mesma é de predominio narcisista ou do tipo anaclitico ou de
ligação.
122 Garcia Arzeno

5. A estrutura da seqüência (três escolhas positivas e três negativas em


nível decrescente de preferências e rejeições) permite indagar na escala de valores
do paciente do extremo superior (Ego Ideal) até as áreas inferiores (Ego Ideal Nega-
tivo) através de uma ampla gama de matizes. Ao mesmo tempo facilita a compreen-
são do nível de realismo ou idealização das metas, tudo isso numa relação íntima
com o seu narcisismo.
[Isso faz com que esse teste tenha um valor inestimável para ser usado dentro
de uma bateria quando a consulta é por Orientação Vocacional ou Profissional, além
de todo o material que oferece para o prognóstico e planejamento de um tratamento
clínico].

Inferência de Indicadores
Partindo dessas hipóteses, e numa tarefa que uniu o material teórico com o
material clínico de diagnóstico psicológico, inferimos os seguintes indicadores para
a avaliação dos componentes narcisistas da personalidade.

A Rejeição Total ou Parcial à Realização do Teste


a) Total
É um indicador de alto grau de estancamento da libido narcisista ou de uma
tensão narcisista hipertrofiada que renuncia a toda relação de objeto. Por ex.: "Não:
não posso, se não sou uma pessoa não posso ser nada". É muito esclarecedora a
conhecida expressão de Freud a esse respeito: "Um forte egoísmo preserva de adoe-
cer mas no fim temos que começar a amar para não adoecermos".
[Essa expressão de Freud vem a calhar, pois quem não consegue encontrar
nada com que possa se identificar renunciando ã sua identidade humana, tampouco
poderia encontrar alguém "amável" ao seu redor].

b) Parcial
bi) Pode ocorrer que o paciente após a primeira resposta positiva não consi·
ga continuar realizando o teste. Isso é também indicador da preponderãncia de ele-
mentos narcisistas porque mostra o fracasso diante daquilo que impede a vivência
de completude. É que a segunda pergunta coloca um novo desafio ao paciente ao
qual ele não pode responder {porque depositou toda a sua fantasia de completude
narcisista na primeira resposta}.
Por ex.: na primeira responde: "Quero ser espaço infinito, que não tem limi-
tes, abrange tudo, tudo está dentro dele, não tem fim". Nega-se a continuar dizendo:
"Se não posso ser isso quero ser outra coisa".
b2) A não realização das positivas mas sim das negativas. Quando o pacien-
te pretende expressar o desejado e valorizado, e isso o remete a uma zona muito
conflituada e confusa (a do Ideal), pode acontecer que não responda às positivas
mas sim às negativas. Isso coloca-nos em vicissitudes dolorosas do narcisismo des-
sa pessoa. É comum encontrar esse tipo de respostas em pacientes que estão atra-
vessando crises de identidade normais (como a adolescência, por ex.) ou patológicas.
b3) A realização das positivas mas não das negativas. É a forma de evitar a
qualquer custo o contato com aspectos que possam atacar a imagem idealizada de si
mesmo.

j
Psicodiagn6stico Clínico 123

Respostas Desorganizadas e Confusas


Observáveis através de:

a) verbalizações inseguras e/ ou incoerentes;


b) verbalizações extremamente pobres e/ou estereotipadas;
c) reações neurovegetativas acompanhando as respostas verbais (rubor,
tremuras, sudorese, etc.);
d) tempos de reação inestáveis, muito prolongados ou muito rápidos;
e) anulação recíproca entre as escolhas positivas e negativas;
O incongruência entre o simbolo escolhido e a explicação desiderativa (este
indicador terá um parágrafo à parte).

Todo este tipo de manifestações deixam em descoberto falhas das categorias


centrais do narcisismo: a onipotência e a perfeição. A tensão narcisista não conse-
guiu realizar aqui a sua função protetora e adaptadora. Por ex.: nas positivas: "Não,
nào sei... não consigo imaginar... Uma flor porque é bonita ... um gato porque é
bonito ... um livro porque é bonito". Ao convencionalismo das três escolhas soma-se
a estereotipia e a pobreza na racionalização.
Outro exemplo: o paciente diz nas positivas: "Um computador porque assim
eu me comunicaria com as pessoas" e nas negativas: "Uma máquina industrial,
sempre desempenha a mesma função". Produz-se por um lado uma falha conceitua!
na positiva ao que se acrescenta a anulação pela aceitação e a rejeição simultànea
sem uma explicação satisfatória.

Natureza do Objeto-símbolo Escolhido nas Catexias Positivas


A maioria dos objetos, devido a certas caracteristicas, passaram a ter signi-
ficados e valores determinados dentro da cultura em geral e de cada grupo sócio-
econômico em particular.
Propomos observar a natureza de tais objetos no que se refere a:

a) a idéia de perfeição e completude (ou não) que implicam em si mesmos;


b) o grau de auto-suficiência e autonomia versus dependência e necessida-
de do outro implicado em cada símbolo escolhido.

No que se refere ao primeiro caso, é óbvio que algumas escolhas implicam


num alto grau de onipotência e perfeição, denunciando o refúgio arrogante em uma
idealização extrema. Por ex.: "Mar, é majestoso"; "Montanha inexplorada"; "Planície
imensurável"; "Pavão real"; "Orquídea: é uma flor perfeita". No outro extremo esta-
riam os símbolos com conotação de impotência, fracassos, incompletude, etc., rara-
mente escolhidos como catexias positivas, mas altamente significativos se assim
ocorrer. Por ex.: "Uma casa velha para que não entrem ladrões"; "Uma ameba por-
que é o começo da vida": "Uma luz na escuridão, serve de guia".
No segundo caso, se predominar a libido narcisista sobre a objetal, os sím-
bolos caracterizam-se por evitar a dependência e a necessidade do outro. Por ex.:
"Uma fórmula de Einstein que ninguém entende"; "Energia solar": "Um Robot". No
outro extremo estariam as escolhas de símbolos que indicam uma dependência
total do outro. Por exemplo: "Um animal doméstico"; "Uma planta cultivada,. não
nativa".
124 García Arzeno

Natureza da Explicação Desíderatíva


É a racionalização que responde à pergunta do por que da escolha. Coloca-
nos no mundo das motivações do paciente, na sua simbologia pessoal. Há casos nos
quais a explicação desiderativa muda radicalmente as características essenciais do
objeto escolhido. Nosso interesse é orientado para detectar onde está colocada a
ênfase da escolha:

a) nos atributos;
b) nas funções.

Uma escolha positiva que somente destaca atributos dirigidos a garantir as


bondades absolutas do objeto e na qual o outro não aparece, permite inferir um alto
grau de narcisismo. Por ex.: "Gostaria de ser um livro de iniciação à leitura, que
importante!, tem como missão ensinar a ler e escrever a todos". "Gostaria de ser
uma casa confortável onde morasse uma família grande, uma casa linda, um lar
alegre e que as pessoas gostassem de viver ali". Cada exemplo ilustra cada uma das
possibilidades.

Modos e Graus da Inclusão do Outro


Podemos distinguir matizes diferentes que permitem uma valorização sobre
o tipo de escolha de objeto.

a) Quando o outro não está presente: a não-inclusão do outro denuncia o


predominio absoluto da idéia de auto-abastecimento e autonomia. Por ex.: "Um
cactus, porque não tem necessidade de condições muito favorâveis para viver e
crescer. Pode se aclimatar a condições adversas e sobrevive a qualquer adversida-
de".
b) Quando a inclusão do outro é sentida como uma ofensa narcisista: surge
especialmente nas escolhas negativas. Subjaz a rejeição da própria demanda e as-
pectos carentes como elementos que aumentem a sua impotência. Estabelecer situ-
ações de ligação com os objetos é o mais temido ou evitado porque implica o
reconhecimento da própria limitação e a necessidade do outro. Por ex.: "Não gosta-
ria de ser um animal doméstico. Não sabem se virar sozinhos. Precisam cuidá-los,
abrigá-los e fazem que eles tenhas vida de pessoas". "Gostaria de ser um quadro
famoso (?) a Mona Lisa. É contemplado por milhares de turistas e está bem protegi-
do da cobiça de todos".
c) Quando o outro está presente somente como provedor narcisista: o objeto
está conformado como um espelho desde e em função da demanda do sujeito. A
verbalização conota um alto grau de egolatria e desprezo pelos outros. A identifica-
ção dá-se então com um objeto que requer atenção, cuidado e admiração por seus
atributos excelsos, mas sem exigir o mínimo compromisso de reciprocidade. Por ex.:
"Gostaria de ser um quadro do Louvre, a Gioconda, para que os outros tenham algo
belo para admirar". A beleza é aqui um meio para obter admiração e são os outros os
que precisam de algo para admirar. "Gostaria de ser uma casa nas mãos de um
arquiteto 'legal' para ser decorada e arrumada com originalidade e bom gosto. Um
desses lugares onde as pessoas entram e dizem: que beleza!"
d) Quando o outro está presente como aquele que dá o reconhecimento neces-
sário: encontramo-nos então com uma pessoa em boas condições de suportar uma
"tensão narcisista", já que parte do reconhecimento das próprias necessidades e da
sua falta de completude. Podemos inferir a possibilidade de relações anacliticas na
Psicodíagnóstico Clínico 125

busca da mãe nutriz e do pai protetor. Por ex.: "'Uma linda planta, qualquer. De um
bom jardim, que é cuidada. Uma pessoa que fale com ela; quando se fala com as
plantas elas ficam mais bonitas; e que se dedique a essa planta que sou eu".
e) Quando entre ambos os termos da relação estabelece-se um bom intercãm-
biD: dá-se então um equilibrio narcisista no qual se valoriza a contribuição do outro
mas recalcando simultaneamente qualidades que apóiam a auto-valorização. Por
ex.: "Gostaria de ser uma árvore frutífera porque dá sombra e alimento: quando
floresce é linda; um pessegueiro por exemplo". A escolha mostra o gozo de qualida-
des próprias que são benéficas para o objeto mas que de maneira alguma supõem o
esgotamento de funções carregadas de libido narcisista. O outro beneficia-se e o
beneficia. Há um intercâmbio de doações.
n Quando o sujeito se constitui em doador com um sentido de poderio e doa-
ção total: encontramos aqui uma semelhança com o que foi mencionado em (a) em
muitos aspectos. O sujeito coloca-se com arrogância no Ego Ideal todo-poderoso e
onisciente. Os outros estão presentes mas como receptores passivos e desvaloriza-
dos. Por ex.: "Gostaria de ser uma gota d'água. Sou indispensável para o homem
para qualquer coisa que se possa imaginar. Essencial para a vida. Sem mim não há
nada".
gJ Quando o paciente é doador com um sentido de perda e esvaziamento total:
aqui o outro toma conta de tudo o que é valioso e apreciado. A alternativa para esses
sujeitos é de uma renúncia total ás próprias necessidades e de uma consideração
exclusiva ás demandas do objeto. Isso implica um déficit do narcisismo próprio que
sadiamente defende e protege o sujeito de vir a ser vitima de seu próprio masoquis-
mo e também do próprio sadismo projetado no objeto. Por exemplo: "Uma verdura,
uma fruta comestível para que as pessoas se alimentem de mim; seria útil aos de-
mais". Essa escolha leva em consideração o cuidado do objeto mas ás custas do
desaparecimento do indivíduo que exerce a função nutriz.

Inclusão de Elementos Agressivos no Narcisismo


Devemos considerar três situações:

a) Quando há uma neutralização recíproca dos aspectos libidínais com os


agressivos, numa mútua prestação de serviços que enriquece a vida
psíquica. Indica bom equilibrio porque a libido pode intrincar-se com a
pulsão agressiva como garantia da integridade do Ego. Por ex .. "Um
cachorro. É amigo do homem. Mas é melhor que não o incomodem mui-
to; também tem os seus dentes". "Uma rosa; é uma bela flor pelo seu
perfume, sua cor. Mas também tem espinhos; sabe se defender. Não
pode ser arrancada facilmente".
b) Quando esses elementos agressivos estão negados. Isso é observado di-
ante da negativa ou da dificuldade de escolhas negativas. É subjacente
ao temor do colapso narcisista. ou seja, a identificação com o Eu Ideal
Negativo. Por ex.: "Todos os seres são bons por isso não há nada que eu
não gostaria de ser". "Uma rosa devido ao seu aroma e à sua suavidade".
c) Quando estão enfatizados. Detecta-se com facilidade quando nas esco-
lhas positivas encontram-se subjacentes atributos de força, domínio,
agressão, etc. Por exemplo: "Um tigre porque é agressivo, audacioso.
Primeiro pela agressividade". b) e c) são exemplos de uma difusão pato-
lógica que oscila entre o masoquismo e o sadismo.
126 García Arzeno

Congruência Entre o Objeto e a Racionalização


Este indicador é geralmente instrumentalizado para examinar o teste de
realidade pelo reconhecimento das qualidades essenciais do objeto. Observamos
que muitas vezes um narcisismo elevado faz cambalear o teste de realidade, não
somente deixando óbvias essas caracteristicas próprias do objeto mas sobrepondo
outras que não lhe cabem, para conformar de forma coercitiva o Ideal narcisista.
Podemos repetir aqui o exemplo do computador. Quanto maior a distãncia e a falta
de congruência mais grave será a patologia na estrutura narcisista do sujeito, até
chegar à psicose.

Conclusões
!. Consideramos que através desses indicadores de modo algum pretendem
ser exaustivos, teremos condições de avaliar a qualidade e intensidade do narcisismo
em jogo na tarefa que o teste propõe. Se é um narcisismo positivo colocado ao ser-
viço de uma valorização realista de si mesmo, do reconhecimento da falta e a neces-
sidade e, por isso, da ajuda de outro, ou se, pelo contrário, trata-se de um narcisismo
enfatizado na linha da megalomania e da onipotência. Do mesmo modo irá orientar-
nos para detectar o predominio do tipo de relação de objeto.
2. A partir disso pensamos que se torna um instrumento auxiliar valioso
para o diagnóstico diferencial entre psicose e neurose.
3. Acreditamos que está aberto um campo rico para o estudo e a investiga-
ção visando um maior aprofundamento no que se refere ás caracteristicas peculia-
res do narcisismo nos diferentes quadros psicopatológicos.

Bibliografia
Bleichmar, Hugo, La depresiôn. Un estudío psicoanalitico. Buenos Aires: Nu eva Visión, 1976.
Freud, Sigmund, "Tres ensayos y una teoria sexuar, Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1978, t.
vii.
Freud, Sigmund, "Introducción ai narcisismo". Obras completas. BuenosAlres: Amorrortu, 1978, t. xiv.
Ocarnpo, M. L. S. de; Garcia Arzeno M. E.; Grassano, E., e col. O processo psicodiagnóstico e as técnicas
projetivas {cap. sobre "Desiderativo"). Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1990.
Rosenfeld, Herbert, "Notes on the Psychopathology of Confusional States in Chronic Schizophrenia", Int. J.
of Psychoanal..1950.
Rosenfeld, Herbert, ~Notes on theAggressive aspects ofNarcisism" Int. J. ofPsychoanal.
Capítulo 12

Critérios Atuais para a Interpretação


do Teste de Relações Objetais
de Phillipson

Em nosso primeiro livro sobre psicodiagnóstico, María Luisa Siquier de


Ocampo e eu nos dedicamos a analisar as semelhanças e diferenças entre o T.A.T.
de Murray, o Teste de Relações Objetais de Phillipson e o Psicodiagnóstico de
Rorschach. Fizemos também uma análise minuciosa e completa de cada lâmina.
Remeto o leitor a esse material, pois ele mantem lodo o seu valor para ser aplicado
na prática atual.
Dizíamos que, geralmente, preferíamos usar o Phillipson mais que o T.A.T.,
visto que o primeiro, por ler lâminas menos estruturadas, presta-se a uma produ-
ção carregada com maior saturação projetiva.
Além do mais, o T.A.T.. por possuir elementos mais nitidamente estruturados,
está necessariamente mais afetado pelos fatores históricos (moda, etc.) e sócio-cul-
tu rais.
No T.A.T. existem lâminas de conteúdo agressivo explícito, o que não ocorre
no Phillipson. de forma que se aparecer agressão é válido interpretá-lo como con-
teúdos do sujeito.
No T.A.T., há figuras que aparecem em atitudes de evidente movimento. No
Phillipson o movimento pode ser projetado pelo sujeito, que poderia também visualizar
figuras estáticas, como estátuas, múmias, figuras humanas imóveis, sem entrar em
contradição flagrante com a imagem que estamos mostrando.
Finalmente, o Philli pson pode ser correlacionado com o Rorschach. já que
ambos introduzem a textura (e). o claro-escuro (K) e a cor (C). No Phillipson isto
ocorre na série A, B e C, respectivamente.
É importante incluir ambos os lestes na bateria projetiva. O Rorschach nos
dá uma visão muito profunda da personalidade e eu o compararia com uma
tomografia computadorizada. O Phillipson nos oferece o mesmo mas mais como um
filme no qual cada aspecto da estrutura da personalidade aparece em constante
relação dinâmica com os outros.
É recomendável aplicar primeiro o Rorschach (na segunda entrevista) e após
o Phillipson (na terceira), pois se procedermos ao inverso o sujeito tenderá a fazer
histórias com as manchas distorcendo o sentido do teste e os cálculos de tempo, que
oferecem uma informação muito importante para o diagnóstico e o prognóstico.
Quero agora transmitir ao leitor o meu esquema e o meu enfoque para inter-
pretar o Phillipson, elaborado ao longo de tantos anos trabalhando com a sua apli-
cação.

127
128 García Arzeno

Na obra citada acima incluímos uma análise exaustiva das lâminas do


Phillipson. Prefiro fazer aqui uma colocação dos critérios de interpretação, do modo
de encará-lo, já que é o que mais tem variado, pelo menos no meu atual estilo de
trabalho.

Critérios de Interpretação
Após trabalhar por aproximadamente vinte e cinco anos com esse teste
internalizei um método de interpretação que considero mais dinâmico e motivador
que o que usávamos no início, na década de 60, seguindo minuciosamente os indi-
cadores fixados pelo autor. Esses indicadores continuam válidos, mas não é impres-
cindível explicitá-los na análise ele cada lâmina.
Conforme o método original seria considerado: (a) percepção cognitiva, (b)
apercepção, (c) história. Em (a) era necessário detalhar o que via, aspectos enfatizados,
omissões, percepções de acordo com respostas populares ou incomuns. Na (b). con-
teúdo humano, conteúdo de realidade e contexto de realidade ou clima emocional
do relato baseado em algo perceptual (por ex., é um assassinato porque vejo verme-
lho e me sugere sangue). Na (c). verificar se a história consta de três tempos, se há
ou não conflito, se há ou não desenlace.
Esse é o tipo de análise que deveríamos realizar se quisermos estudar uma
amostra para investigação. Mas ele se torna muito complicado e acaba cansando o
psicólogo no momento pior, que é quando ele está começando a usá-lo. Cria-se um
tipo de motivação negativa devido ao esquematismo excessivo.
Tentarei resumir o meu método atual de interpretação desse teste, imposto
na realidade pela necessidade de agir com o máximo de certeza no menor tempo
possível.
Resumiria-o assim: (1) agrupar as histórias por série; (2) comparar as histó-
rias de cada série entre si e com suas respostas populares respectivas, anotando
aquilo que chamar a atenção (omissões, adições, distorções no perceptual ou nas
histórias); (3) após resumidas as conclusões de cada série, comparar todas as histó-
rias de um personagem, de dois, de três e de grupo; comparar com as respostas
populares e proceder da mesma maneira que em (2). Poderemos ver assim, por
exemplo, que somente nas lâminas triangulares são produzidos sérios desvios das
respostas populares tanto no perceptivo (vê duas ou quatro pessoas, nunca três)
como na fantasia (a história de um crime ao invés de um encontro pacífico para
beber um chá).

Protocolo para a Interpretação do T.R.O. de Phillipson

AI Síntese temãliea. Fantasia de doença, cura e


analise. Auto-diagnóstico e auto-prognóstico.
Sozinho consigo mesmo. Conclusões série A:
Diante de situações muito regressivas
A2 Síntese temãtica. O casal na intimidade. que o fazem sentir-se muito desprotegido
Projeto de casal. tende a: sentir-se perseguido, confuso ou
deprimido e as suas defesas são a
A3 Síntese tcmãlica. A separação dos pais da ) negação maníaca, cvitação fóbica. não
infãncia. Oadolescente diante ele seus pais. hã defesas. etc. Melhora ou piora quando
esta... (só. acompanhado, com seus pais.
AG Síntese temãlica. Modelo ele dono ele em grupo)
situações ele perda.
Psicodiagnóstico Clínico 129

BI Sinl. tcmál. Sozinho consigo mesmo em


situações menos regressivas.
Conclusões Série B:
82 Sinl. temál. Aimagem do casal cm relação Se o enfrentarmos com a realidade atual.
aos pais. suas melhores possibilidade são ... Seu
sentido de realidade é ... Persistem ou
B3 Sint. temál. Asituação triangular. não distorções. omissões. ele. da série A
)
O terceiro excluído. ou melhora conforme o clichê.

BG Sinl. temãt. Situação de exclusão em


relação ao grupo de iguais.

CI Sinl. lemál. Sozinho consigo mesmo


submetido á estimulação emocional.
Conclusões Série C:
C2 Sinl. lcmát. O casal cm relação ao sexo e Em situações que provocam forte estima
à doença. dos impulsos e emoções reage ... Melhora
ou piora dependendo se está só, com o
C3 Sint. lcmál. Asiluação triangular e sob efeito ) parceiro. com seus pais ou cm grupo. O
de fortes emoções conílilo central do !d-Ego-Superego é ...

CG Sinl. lcmál. A relação !d-Ego-Superego.


Desenlace e prognóstico.

Branca Sinl. lcmál. Fantasia maníaca de Se tiver oportunidade de apelar a


doença. cura e análise. já que não deve se defesas maníacas. poderá fazê-lo ou
prender a uma imagem. Comparar com o não: mantém o sentido ele realiclaclc ou
Desenho Livre. ) não. ele.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

AI Sinl. lcmál. Sozinho consigo mesmo em


siluações regressivas.
Fica bem quando sozinho, se
BI Sozinho consigo mesmo em situações clcscslrutura. se desespera, mantém
progressistas ou aluais. o sentido de realidade. é olimista. etc ...
)
CI Sozinho consigo mesmo mui lo excitado

A2 Com parceiro cm siluações regressivas.


Com parceiro sente-se melhor. o evita.
82 Com parceiro cm situações mais atuais. faz projetos. busca somente contato
superficial. o sexo o assusta, etc...
C2 Com parceiro diante cio sexo. doença. )
morte. ele.

A3 Confrontado com seus pais em siluações


de abandono. Aceita a triangularidade. a evita,
desperta nele rivalidade e ciúmes,
B3 Como terceiro excluído diante dos pais. sente-se traido. ele...
)
C3 Diante dos pais submetido a fortes emoções.

AG Em grupo diante de perdas importantes .


Quando imagina estar cm grupo senle-
BG Excluído diante cio grupo. se melhor. aula-exclui-se. sente-se
acusado e perseguido. deprime-se.
CG Enfrentando um grupo violento ou a ) Identifica-se mais com as suas pulsões
au loridacle. ou com ordens su pcrcgóicas, ele ...
130 García Arzeno

Síntese diagnóstica: é importante sintetizar o seguinte: estrutura de base (de predomínio esquizoparanóidc
ou depressiva). ansiedades mais profundas. defesas mais regressivas (A). mais evoluídas (8) e capacidade
para conter suas próprias emoções e impulsos (C).

Vejamos alguns exemplos.

Mulher de 19 anos
AI. Um homem de costas olhando para a sua sombra à frente. Está olhando os seus músculos: as
máo para a frente. Dois coelhos falando (ângulo inferior esquerdo) mas ele nào os vê porque cslà
muito entretido se olhando: triste acho. não sei; hà muito silêncio e duas sombras de outras
duas pessoas mais atrás com forma de múmias mas não dá para ver as pessoas (espaços bran-
cos superiores). Ele não as vê. (O qué significa ludo isso?) Um representa a estabilidade perma-
nente que seriam as múmias: são sombras: nem são pessoas. Outras representam a depressão e
o narcisismo. Os coelhos representam a união e a felicidade. É uma cena ele um filme. (Fim?)
Essa cena não tem nada a ver com o resto cio filme. O homem lenta aproximar-se dessa sombra
dele da qual gosta tanto e acaba arrebentando a prõpria cabeça contra a parede porque não
consegue penetrar nessa sombra sem se dar conta de que é ele.
A2. Duas pessoas apaixonadas. tímidas. que custam muito a se aproximarem mas se querem muito.
Um casal que no fim vai acabar num abraço e dizendo que se amam muito.
C3. Um casal que vive junto com o avô. Pessoas bem adultas que estão resolvendo onde ir cm férias.
já dando por certo que o avô irá e que na realidade irão para Mar dei Piata como todos os anos.
(?)O avô sentado numa poltrona. Mulher (ele frente) e homem (em pé). de 40 e tantos anos. Eles
têm filhos casados. Uma família típica, normal.
83. Vejo um casal que está se dcspcclinclo após uma saída á noite. Estão conversando e a mãe, muito
invasora, metida. espia para ver como é a relação cio casal para ler armas: não é por curiosiclaclc.
Finalmente o noivo vai embora e a moça vai dormir sem saber que a mãe esteve espiando.
AG. Uma reunião ele cspirilos que se reúnem no cemitério todas as noites e discutem sobre como vão
trocar os caixões de lugar. Conversam sobre como tratar os mortos novos. De madrugada voltam
ao caixão.
81. Outro espião. Não. Esse homem é um homem que vive só. Chega cio trabalho e a cozinha é no
andar de balxo porque mora numa pensão. Uma cozinha comum. Sobe. DcLxou u ca:saco nu
quarto. Desceu para comer alguma coisa. Dorme. É uma vicia triste. rotineira e ruim.
CG. Esse homem (sombra acima) é o primeiro homem voador e a sua sombra se reflete sobre uma
escadaria. Os homens estão olhando-o clcsclc baixo (zona inferior) e grilam coisas para ele (o
quê?) "Cuidado. desça e diga-nos como se faz. o que se sente". Vai descer e vão fazer reportagens
com ele. Vai aparecer na televisão: todas essas coisas que acontecem quando aparece uma novi-
dade.
A3. Três membros ele um coro de uma ópera que estão. dois e um, esperando a entrada da figura
principal. Entra pelo espaço mais claro e vai ficar ao lado do que está só. São quatro cantores
famosos e uma opereta muito bonita apesar ele que cu não gosto nem um pouco mas desta cu
gosto (Qual é?) Cavalaria rusticana. (Sexo?) Amulher grnndona típica (mais ao centro). Os dois
baLxinhos são homens (Entrar?) a mulher mas imagino alguém gordo e vai entrar alguém esbelto
e fino.
82. Outra cena romântica do século passado. Uma casal á sombra de uma árvore falando de utopias
amorosas irrealizáveis. Uma noite de lua cheia sob uma arvore, passeando pelos bosques ela
grande casa. Amoça volta á sua casa. O pai diz que ela vai casar com um general. Ela se revolta:
sai ele casa. Vai encontrar o seu homem. Se unem. São felizes.
BG. O mestre e seus discípulos. que os levou para conhecer os restos de Roma. Isso traz ao homem
muitas lembranças. Dá-se conta de que está velho. Olha o céu. Quantas recordações. Foi cm
Roma que ele fez a sua vicia. Mas não é a sua vida. Os alunos se aborrecem, conversam entre eles.
Não dão bola ao homem.
C2. Nunca coloco cores cm minhas histórias. Este homem tem um punhal no estômago. Acaba de
cravá-lo ele mesmo. Vai morrer na sua cama vendo que não linha possibilidades de futuro. É
uma noite de sangue.
C1. Esse homem na janela tem uma arma nova da época cio futuro que destrói as coisas: as clcsinlc-
grn. Agora está fazendo um teste desintegrando uma parle ela cadeira. Mas ele não nota o poder
da arma. Está caduco. Não quer contar a ninguém. Aquer só para ele. Biinca. brinca até que fica
entediado e a estraga.
Branca. Ocomeço do mundo. As duas molcculazinhas pcqueninhas (dois pontinhos quase invisivcis) que
aos pouquinhos. cm muito tempo (repele três vezes) vão ir c1iando o mundo. Alomos. coisas cada
vez maiores (repete três vezes) mais criadoras. Subdividem-se até chegar ao que é o mundo
Psicodiagnóstico Clínico 131

agora. Depois não vão gostar do que fizeram e aos pouquinhos vão ir se desintegrando até ficar as
duas sozinhas de novo mas com consciência do passado.

AI. Homem de costas olhando seus músculos. Relação totalmente Autista.


Persegue a sua própria sombra sem notar Mau prognóstico. Intelectualização.
que é a dele e arrebenta a cabeça. Conteúdos sinistros. Total dissociação
Duas múmias representam a estabilidade. sem questionamento.
Dois coelhos. união e felicidade. Outras
sombras representam a depressão e o
narcisismo. O homem não vê nada além da
sua sombra.

A2. Dois apaixonados tímidos finalmente se Conforme o clichê. Mas enfatiza


abraçam e dizem que se amam. dificuldades de aproximação.

A3. Três membros de um coro. uma mulher Opera se torna opereta. Critica
e dois homens. esperam uma mulher. Coro maníaca da imagem dos pais.
de ópera. Opereta muito linda. Cavalaria Negação da triangularidade. Acréscimo
rusticana. Mulher grandona; homens de um quarto personagem.
baixinhos. Não entra uma mulher gorda
mas alguém esbelto e fino.

AG. Reunião de espíritos no cemitério. Clima macabro levado como sátira


Discutem como vão trocar o lugar dos burlesca. Ridiculariza aquilo que teme
caixões e sobre como vão tratar dos para não ficar deprimida.
novos mortos.

Síntese série A: Por trás da tentativa superficial de uma relação de objeto amorosa (A2). subjaz uma
absoluta incapacidade para consegui-lo. Cantores de opereta. mortos, múmias. coelhos são uma mostra
da sua dificuldade para humanizar os personagens. É rebuscada e isso se constitui numa defesa para
disfarçar a sua depressão e a sua loucura. Supcrintcrprcta detalhes de uma forma quase delirante. Ansi-
edades apavorantes. Defesas maníacas. Foge da solidão (na A1 coloca muitos personagens). Não tolera a
triangularidade (na A3 coloca quatro).

131. Um espião vive sozinho. Chega do trabalho. Há uma contradição entre perceber o
Desce até a cozinha para comer alguma homem como espião e dar-lhe uma vida
coisa. Vida riste. rotineira. ruim. rotineira. O resto conforme o cliché.

132. Cena romântica do século passado. Casal O amor e o romantismo são taxados
falando sobre utopias embaixo de uma árvore. de utopias irrealizáveis (redundância)
O pai da moça diz que ela vai casar com um e de coisas do século passado. Tenta
general. Ela vai embora com o seu homem. um drama que acaba cm final feliz.
São felizes.

133. Um casal está se despedindo. Amãe da Este triângulo não é o clichê: é um


moça, invasora, espia. O noivo vai embora. casal e a terceira pessoa é a mãe-
A moça vai dormir sem dar-se conta que cspiã-invasora.
a mãe os espiava.

13G. O mestre e seus discípulos. Visitam os Coloca no personagem excluído a


restos de Roma. O homem nota que está velhice. o passado, os sentimentos.
velho devido às suas lembranças. É a sua tentando não ligar para essas coisas.
vida mas não é a sua vida. Os alunos ficam
entediados: não ligam para ele.

Síntese série B: Presta atenção ao número de personagens de cada lã mina. O triãngulo não é a resposta
popular (pai-mãe-filho que espia). Coloca a mãe no papel do filho. O clima emocional é mais adequado que
na série A. Surgem nostalgia e romantismo, mas rejeitados para não se comover. Os pais são vistos como
132 García Arzeno

interferindo nas relações amorosas dos fil hos. Dentro de urna produção de respostas populares aparecem
ansiedades paranóidcs (espiões) porém bem controladas. 1-lã um maior senso comum e sentido de realida-
de que na série A.

CI. Homem com uma arma do futuro que Por um lado é o que ela faz em sua
desintegra coisas. Não se da conta do relação com os outros. Primeiro fica
poder da arma. Caduco. Aquer só para fascinada. Depois brinca até ficar
ele. 13rinca até ficar entediado e a estraga. entediada e a estraga. Impactos
emocionais produzem reações
destrutivas e possessivas.
Dificuldades no "insighl·.Tudo é
ação. Faz alusão às suas
dificuldades para usar o seu
potencial cm seu próp1io beneficio.
Mau prognóstico por ser a última
história.

C2. Homem. Cravou um punhal no cslõmago O impacto emocional


e veio a morrer cm sua cama. provoca reações sangüinárias
porque não linha possibilidades de futuro. Omite um personagem.
Noite ele sangue. Fantasias suicidas.

C3. Um coral. mais ou menos quarenta anos e Não é um triângulo


o avó. Irão para Mar dei Plata como lodos cliché. Avõ no
os anos. Familia tipica. normal. lugar do pai.
O marido no lugar
do filho. Clima convencional

CG. Um homem voador. Embaixo homens que Percepção delirante.


o olham e lhe gritam coisas. Vai aparecer Seu Superego parece
na 1V depois que descer. alcntã-la nessas
loucuras associadas à
fama. O Ego perde o
sentido de realidade.
Megalomania.

Síntese série C. A lâmina triangular não é delirante mas é trivial. Volta ao triângulo parceiro-progenitor.
Nas outras predomina o fantástico e delirante; o vinculo é autista e oscila entre a megalomania e o suicí-
dio. Mau prognóstico.

Lâmina em branco: Começa com uma proposta onipotente. O processo que descreve é o de suas próp1ias
tentativas de construir seu mundo interno. Mas desintegra-se todo para acabar como no inicio.

Sínlesefinal:O mau prognóstico que aparece na primeira história reaparece cm outra e culmina na última
e na branca, o que indica um mau prognóstico. Oscila entre relações triviais e outras dramáticas, sinis-
tras. ridiculas ou incompreensíveis. Move-se constantemente dentro de relações objetais autistas e com
uma lógica também autista. Tudo isso piora nas séries Ae C e melhora na 13. Por isso poderíamos pensar
que se trata de uma estrutura (não estado) borderline: há uma profunda dissociação entre um aspecto dela
que percebe e raciocina com senso comum aceitável e outro que distorce o sentido de realidade até cair cm
absurdos sem o menor sinal de racionalizá-los nem a menor capacidade de auloc1ilica. Seu modelo de luto
é sinistro (AG). tornando sátira o que é macabro para não apavorar-se. Ê explosiva no manejo de suas
emoções e impulsos. 13usca ser original porque despreza o "comum·. Provavelmente venha da fami lia
estimulo para isso (na CG a figura que simboli7.a o Superego é vista como o primeiro homem voador do
mundo). Mas seu desejo de originalidade a conduz a uma zona intermediária entre pensamentos de "vóo
alto" e associações livres psieólicas. Ê dominada por uma intensa ansiedade persecutória e as defesas são
predominantemente maníacas. Nesses momentos maníacos aparecem tanto vitórias megalomaníacas (ho-
mem voador) como derrota do seu narcisismo com perigo de suicídio devido ao sentimento de fracasso.
Tem sérias dificuldades para conseguir uma boa triangulação: os pais são espiões, intrusos que interfe-
rem.
Psicodiagnóstico Clínico 133

Não são registradas variações significativas no referente ao número de personagens das lãminas,
com exceção das de três, nas quais inclui mais gcnlc ou distorce o lriãngulo colocando um progenitor no
lugar do terceiro excluído. É o conlcxlo ele rcaliclaclc (clima emocional) o que mais a afclajá que o cinza não
a deprime mas a apavora e a cor provoca nela a ncccssiclacle compulsiva de agir destrutivamente. para fora
(C1-) ou para si mesma (C2. CG e Branca).
Não há clcscnlaccs ou então há vários e podem ser triviais ou macabros.
Essa moça havia realizado várias tentativas ele tratamentos psicanalíticos inacabados e pouco
eficientes. Ajulgar pelos resultados do psicodiagnóstico. mas especialmente do Phillipson e do Rorschach
(que mostra as mesmas conclusões) seria mais eficiente tentar um tratamento face a face no qual o terapeuta
seja bem moderador e funcionc mais como um Ego-auxiliar do que como uma figu ra de autoridade porque
isso aumenta a sua rejeição. A psicanálise parece não ler funcionado com ela porque justamente o seu
forte são as associações livres alocadas cm uma cómoda posição evacuativa (46 respostas no Rorschach
cm 10 minutos) sem escutar as interpretações e deixando o terapeuta cncan-cgado exclusivamente das
funções de reflexão e síntese. Isso foi observado no Phillipson sendo necessário fazer perguntas durante a
administração já que. de outra forma. inventaria, sem dúvida. outro protocolo equivalente. mas compli-
cando a interpretação cio teste por parle do psicólogo. Além disso, não linha nenhuma preocupação cm
procurar a lógica nem a solução para determinadas situações que permaneciam como incógnitas para o
profissional sem que ela mostrasse a minima preocupação.

Vejamos outro exemplo. Homem, 29 anos.

AI. Não sei. Esse senhor parece que está entretido olhando: olhando uma névoa. uma nebulosa,
indeciso. não sabe o que fazer. preso. Não dá para ver a situação dele claramente. Pode ser um
momento cm que ele lcm que decidir e não vê com clareza (?) Olhando para a frente. (?) 40 anos
(?}não é um lugar real. é ideal. uma fotografia ou uma imagem na s ua mente. Ele imagina que
cslá num lugar assim? (?) Não lcm final: ê igual.
A2. Vejo um casal que está conversando mas não sei sobre o que: conversando deles. num bosque,
uma árvore (aponta a sombra ã direita). Inquérito: Antes? ludo ótimo. eslava ludo bem. Idade?
Menos de 30. Amulher (aponta para a figura à esquerda) 20 anos. uma menina. bem mais jovem
que ele. Final?. Não sei.
C3. Estão numa sala de estar: são dois homens (na poltrona e cm pé) e uma mulher (de frente): is lo
(vermelho) é um abajur. Conversando: tomando café. Inquérito: (Relação?) casados. Este cara
parece ler algum problema (o do meio), cslà comentando alguma situação ruim. um problema
que leve. sensação de preocupação e estas duas pessoas o estão escutando. (São?) amigos. Este
senhor é mais velho (o do meio) que os outros dois que são jovens. Amulher poderia ser esta (de
frente) apesar de que as feições não são muito definidas. (Final?) Não vão conseguir resolver o
problema que foge às suas possibilidades.
133. Uma mulher. mãe desse menino (sombra escura) e esse é um senhor (sombra cinza mais alta)
que não é o pai desse menino e este observa a conversa, sente-se mal porque a mãe ou esse
senhor não souberam explicar-lhe de que se trata. É um senhor que ama essa menina: sofre
porque não lhe explicam como é o negócio; de que brinca. Inquérito: (Estado civil da mãe?) Desde
o começo tive a sensação de que era separada.
AG. Parecem fan tasmas (aponta os lrês maiores) e aqui lrês pessoas (os três menores) pode ser uma
imagem mas não sei. Um fantasma de uma imagem no céu. Todos no cêu. Sobre nuvens ou algo
assim. Três tcrTáqucos e três cxtra-tcn-cnos como se surgissem da mesma nuvem ... como espíri-
tos. Pode ser um sonho. Três figuras vão subindo e se encontram com esses três seres desse
lugar.
131. Um senhor que vai dormir. Um senhor comum. Acho que vive só e que essa é a sua casa. Vai
dormir.
CG. Gcnlc sentada (aponta embaixo) nessa parle ela escada e a sombra de um pessoa que desce.
Podem estar conversando. Podem ser quatro pessoas e este. cinco (cmbaLxo. braço levanlaclo).
Inquérito: (Relação?) Colegas de estudos. Aescada é como a da Faculdade de Direito. (Relação
com o de cima?) Colegas também. Eslc (o de cima) vai aliar-se ao grupo.
A3. Parece esses filmes cm Nova York. com fu maça suja. dois caminhando e este. nada a ver (o
sozinho). Ou é um velório, estão quietos conversando pouco. Mon-cu um amigo: não estão aflitos
como se tivesse morrido uma pessoa querida. Ou uma pessoa próxima da fam ilia.
132. É um cena mui lo romântica. Um casal ali. conversando: mas Lenho a sensação de que eles têm
algum problema na relação. Por causa do lugar. estão fugindo de algo. Alguém entra no meio. A
dama lcm problemas que não a dcLxam ler relações com esse senhor. Adolcsccnle ela não é; é
casada. Quem não a deixa ê o pai ou pertencem a diferentes níveis sociais ou económicos. É um
problema familiar. Acasa é do pai da moça e se encontram numa hora cm que não possam ser
vistos. Pode haver fugido. Inquérito: (Final?) Não sei.
134 García Arzeno

BG. Tu1istas. Um grupo de turistas aos quais estão mostrando alguma coisa aqui; não sei o que é. O
guia ou líder do grupo (o mais alto do grupo) e este cstã olhando para cá (para o grupo} meio
desintegrado do grupo mas talvez para ter uma visão melhor. Estão passeando visitando alguma
coisa. (Não perguntei mais porque sabia que a resposta seria popular).
C2. Parece que há uma mulher ali. doente ou morta. Ocabelo (aponta conforme a resposta popular}
pode estar sofrendo. doente ou pode estar morta. Esse senhor tem alguma relação. Se estiver
morta. Ou pode ser o marido. Não sei. Um pouco culpado ele é. Se ela está doente é culpado. Se
morta, pode tê-la matado. Parece mais que a matou. Inquérito: (Razão do crime?) Não sei. Porque
pode ser um louco. Descarto que seja um problema de infidelidade. Ela está doente e ele a matou
num surto de loucura.
C1. Parece que é uma cozinha. É uma janela? (pergunta duvidando) e esse senhor quer entrar ou algo
assim. Suponho que é um senhor que quer entrar ou ver. Não sei se quer entrar pela janela ou se
quer ver se tem alguém. não necessariamente com más intenções. Pode ser um amigo ele quem
mora ali.
Branca: Teria gostado de encontrar uma paisagem com lagos e montanhas. colorida, e com casinhas na
beira da montanha.

AI. Um senhor de 40 anos entretido olhando Clima de confusão e indecisão ao qual


uma nebulosa, indeciso, preso. Não vê a o paciente se resigna: 40 anos é lodo o
sua situação com clareza. Não é um lugar futuro para a sua idade real. Dificuldades
real. Ele imagina estar num lugar assim. para avaliar a realidade: tudo é como ele
Não tem final. imagina. Pouca capacidade ele "insight".

A2. Um casal conversando num bosque. O Relação idilica sem final. Conforme o
homem 30 anos; ela 20. uma menina. Antes clichê; mas a mulher é uma menina de
ludo ótimo. Final. não sei. 20 anos! Infantiliza a mulher ao mesmo
tempo que a deixa sem futuro porque
não há um final.

A3. Três amigos conversando. Morreu um amigo. Não há triângulo cclipico. Oclima
Não estão aílitos porque não era uma pessoa emocional esta de acordo com o
querida nem uma pessoa próxima da familia. clichê mas o que é triste é sujo para
ele. Localiza a cena bem longe como
outra forma de evitar a depressão.
Finalmente coloca que estão tristes
sem dar um motivo válido pois trata-se
de um amigo e não de um desconhecido.

AG. Três fantasmas e três pessoas. Todos no Percebe o clima de morte mas o
céu. Sobre as nuvens. Três terráqueos e soluciona num sonho. Além do mais
três cxtra-tcncstrcs. Pode ser um sonho. inclui um loque não-humano ao incluir
ex1ra-lencslres.

Síntese série A:O que é mais notório é a falta de registro emocional nestas histórias. Não se responsabiliza
por suas próprias indecisões; não questiona seus pontos fracos; tudo é como é e mio se preocupa cm
encontrar uma solução. Os estados depressivos são associados a coisas do outro mundo, a algo longínquo
e "sujo" ou então a algo quase "trivial" (A3} finalizando com uma história água com açúcar mas sem um
final. Inclusive o falo de se rcfe1ir a uma mulher de 20 anos como a uma "menina· encobre certo sarcasmo
por trás da atitude respeitosa. A menina deve estar associada ã mulher ingênua, pura e assexuada.
Psicodiagnóstico Clínico 135

I3 l. Um senhor comum vive ali sozinho e vai História conforme o clichê.


dormir.

I32. Cena romântica. Casal conversando. A Acrescenta um terceiro personagem


dama tem problemas: é casada. O pai que interfere no casal amoroso. A
não a deixa. A menina foge. Sem final. "dama" é uma mulher casada amante
de outro. Clima de triângulo amoroso.
O terceiro personagem é o pai. O
quarto é o marido enganado.

B3. Um senhor ama essa menina. mãe desse Reaparece um triângulo amoroso
menino, separada. O menino observa e conílituoso. Hã um quarto personagem
sente-se mal porque não lhe explicam do incluido (o pai cio menino}.
que se trata.

I3G. Turistas. Guia (o mais alto do grupo). De acordo com o clichê mas chama
Outro desintegrado do grupo para obter a atenção que ê ncccssá1io
uma visão melhor. "desintegrar-se" cio grupo. Esquizóide.

Síntese série B: Apercepção dessas lâminas está dentro das respostas populares mas acrescenta persona-
gens que criam um clima emocional de suspense. inlliga e enganos amorosos. Em meio a estes retorcidos
vinculas de parentesco e amores, aparece uma referência ã solidão como um estado p1ivilcgiado (I31 e I3G}
corno se a opção estivesse entre solidão ou conílilos amorosos.

Cl. Uma cozinha. Um senhor amigo do que O não é um sim: desconfia ele lodo
mora ai quer entrar e ver. não necessaria- aquele que se aproxime demais: atê
mente com más intenções. dos amigos. Clima de suspense.

C2. Uma mulher doente ou morta. Esse ê o Explode o drama sugerido na sêric B.
marido. Se ela está doente. ê culpado. Se A infidelidade não é descartada. Pelo
está morta, ele a matou. Está doente e a contrâ1io, parece ser o que mobiliza.
matou num surto de loucura. Descarto a
infidelidade.

C3. Numa sala uma casal e um amigo tomando O lugar cio filho é ocupado por um amigo
cafê. O amigo ê mais velho e comenta um mais velho. Emuito fugidio é foi necessá-
problema. Não podem ajudá-lo. Isto é um rio interrogar muito. Passa a sensação de
abajur (vermelho}. não dizer ludo o que pensa.

CG. Cinco pessoas sentadas conversando Percepção conforme uma elas passiveis
e a sombra de uma que desce. São respostas do clichê. Mas a palavra "aliar"
colegas de estudo. O de cima vai se sugere aliança do Superego cm conivên-
aliar ao grupo. cia com o ld.

Síntese Série C: Há muita violência ligada ao aspecto sexual, dirigida contra a mulher, insinuada nas
outras séries e que fica explicita nesta. A intensa repressão desses sentimentos o leva a insistir cm um não
que na realidade é um sim. A repressão é relativa e estâ a ponto de sucumbir jâ que definitivamente o
Superego desce e se alia com o ld (CG}. Oque expressa parece ser muito menos intenso que o que pensa
e encobre quase deliberadamente.

Síntesefinal: As lãminas de um personagem não se tornam coníliluosas para ele. As de dois, oscilam entJ·e
um cena romântica e água com açúcar (A2}. um encontro de amantes ao que se unem um pai e um marido
que interferem (I32} e culmina com um crime passional (C3}. As lâminas triangulares não respondem ao
clássico triângulo cdipico mas não provocam as paixões violentas que as de duas pessoas. As de grupo
ficam bem próximas âs respostas populares. O problema central está então locali7.ado na possível relação
de casal. O motivo da consulta desse jovem era justamente esse: dificuldade para ter uma relação amorosa
eslãvel.
136 García Arzeno

Ao acabar o leste diz que foi agradável. especialmente a 83. a mais triste para ele. devido á
siluação do menino.
Possivelmente ele lenha tido na sua história infantil episódios de desavenças entre seus pais,
que, na realidade ou na sua fantasia. misturavam amor com enganos e agressão, sem que ele recebesse
nenhuma explicação sobre o que ocorria. Isso explicaria também que. não sendo um personalidade csqui-
zóide. recorra a isso como uma defesa, desconfiando de ludo o que se aproxima. terapeuta incluído,
devido ao pensamento: ·antes só do que mal acompanhado".
Também por esse motivo são observados rela los implicitamente carregados de emoções. sem que
ele dê sinais de que as registra. AI. BI e Cl. mesmo mostrando uma produção conforme respostas
populares. indicam dificuldades para o "insighl" analítico. especialmente para tomar contato com momen-
tos depressivos (A 1).
Justamente na AG o seu modelo de elaboração dos lutos inclina-se mais para o esquizoparanóidc.
mas o fa to de identi fica r-se com um menino triste. sem pai, a quem não explicam em que situação se
encontra. nos dá idéia da sua profunda necessidade de contato e afeto.
As llguras de pais aparecem como interferentes. As de mães. ou pelo menos as de mulheres
casadas. enredadas cm histórias amorosas com terceiros ou quartos homens.
O aspecto da sexualidade merece um parágrafo separado já que a figura feminina está claramen-
te dissociada entre a mulher "menina· e a mulher amante. Tal como afirmei na sintcsc da série C. há mui la
violéncia reprimida cm torno da mulher sexuada: mas essa repressão parece estar a ponto de sucumbir e
há perigo de passar para a ação pela ·associação ilícita·. por assim dizer. entre a pulsão e o Superego
complacente.
As dificuldades amorosas vinham de longa data. de maneira que a percepção inconsciente do
perigo descrito anteriormente configuraria. segundo o meu critério, o motivo latente da solicitação de
tratamento.
Esse homem insistiu cm fazer análise comigo. Eu havia indicado como mais adequado que um
terapeuta homem o atendesse, uma vez que a enorme ambivalência diante da mulher seria transferida
para a situação terapêutica e as suas táticas defensivas. claramente manifestas no Phillipson. eram as de
"lavar as mãos· e evitar o cnfrentamcnto do conílito. Ou seja. o perigo de abandono do tratamento era
grande.
No entanto. aceitei devido à sua insisténcia. Trabnlhamos durante uns poucos meses ao fi nal dos
quais ... abandonou. Todas as interpretações crnm postas cm dúvida como sendo idéias minhas muito
subjetivas. Por ex.: quando relatava uma cena erótica com uma mulher e um amigo e eu mostrava que
com outro ele se atrevia a cslnbcleccr conta lo sexual mas sozinho não, ele dizia que cu estava enganada.
que logicamente ele podia. só que assim era mais interessante... obviamente ·eu não deveria saber muito
sobre o assunto". Esse ataque repetia-se uma e outra vez. Evidentemente cu estava dividida para ele: se
era a "menina· não sabia de que ele me falava: se sabia era porque era das outras. dns infiéis, as pulas.
Devido a um motivo de mudança de horário cm seu trabalho sugeriu a interrupção. Foi embora
sem pagar as últimas duas ou três sessões e nunca mais soube dele. Depositou em mim esse aspecto
psicopático. dcsvalori1.ador e humilhante diante da mulher e precisou fugir. Possivelmente tenha sido útil
o meu conselho de tentar a análise com um homem. Socialmente eaceito que o homem tenha tido todo
tipo de cxpcriéncias sexuais. devido ao que. ele não poderia submetê-lo ao mesmo tratamento transfcrcn-
cial e haveria maior probabilidade de continuidade e êxito terapêutico.

Vejamos agora o caso de um adolescente de 14 anos.


AI. l lá um personagem. com certew, mas aqui tem alguma coisa que não sei o que é (ângulo inferior
esquerdo). qualquer cois:i. Essa é uma pessoa que fez uma coisa errada, uma coisa muito errada
e ele se deu conta de que era muito errada ... pnrccc tempo antigo porque isso se fazia antes. mais
antes do que agora. Eram tantos os seus remorsos que botou fogo, um fogo grande na sua casa
e entrou. Depois vai chegar gente no incêndio mas ele vai estar morto. Já está.
Inquérito: (Coisa e1Tada?) Dizem que Hitler também se queimou: quem sabe. talvez fosse muito religioso (o
personagem) e aqueles que são muito religiosos. mesmo que seja por um pecado não muito
grave. ficam perseguindo-se por isso e esse não agüentou mais e acabou se suicidando. (Idade?)
Não sei porque está de costas. mas deveria ter 35 anos.
A2.. São duas crianças. dois adultos. um menino e uma menina, uma jovem e um jovem. Se fosse um
filme seria um fil me de amor. Se apaixonaram e aqui eles devem estar se ... ele está perguntando
se ela quer casar com ele e parece que está lhe dando ílorcs. Depois vão casar, daqui a pouco
tempo. Quando eles resolverem. Antes tinham se conhecido. depois tinham saido um pouco e
agora já estão apaLxonados.
Psicodiagnóstico Clínico 137

C3. Estão reunidas duas pessoas de idade e um. não sei se um menino ou um jovem; seria o neto,
tomando chá na fazenda dos avós que moram no campo. Antes haviam estado tomando chá,
agora não sei se as xicaras estão cheias ou não. Recostaram-se para trás, um levantou e estão
conversando.
Inquérito: (Na poltrona?) a avó. (Em pé?) O avó. (O neto é menino ou jovem?) É um menino. (Sobre o que
eles conversam?) Estão discutindo sobre alguma coisa da hora. O avô foi olhar bem o relógio
(objeto claro sobre a lareira) e diz ·sem, já são tantas horas, vamos fazer tal coisa· , o que farão
não sei. se tomam o chá ou talvez estejam tomando o café da manhã. Depois o neto irá acompa-
nhar o avô para fazer uma coisa, falar com um peão ou visitar uma fazenda próxima ou alguma
coisa assim e se for a hora do chá vão assistir1V e depois vão se dei lar. (Mais?) O café da manhã
(por quê?) por isto vermelho (esfumaçado) parece a luz do dia.
B3. E noite e são os pais que têm um filho menor. dois meninos, um mais moço e outro mais velho.
Os pais estão falando com o filho mais velho (cinza claro). Estão explicando alguma coisa ou
talvez estejam dizendo algo que não querem que o mais moço saiba. Mas o outro filho escuta do
mesmo jeito. Os dois dormem no mesmo quarto. Mas os pais vieram e chamaram um deles. estão
contando alguma coisa que não querem que o outro fique sabendo; mas o outro está olhando
(cinza escuro) e escuta. Vão deitar e ninguém vai ficar sabendo que ele ouviu.
Inquérito: (Pai?) o mais alto. a mãe mais baixa. O filho mais moço está com ele (curva cinza claro). O mais
velho à direita. (Antes era ao contrário, como é?) Como estou dizendo agora. (O que ele ouviu?)
Não sei.
AG. frcm bocejado muito desde o inicio do teste mas ao ver essa lâmina se repele e esclarece que
dormiu mal porque estava com alergia e não podia respirar).
Parece esses filmes de terror... (assoa o nariz), parece um cemitério (boceja). Uma pessoa que é a
encarregada do cemitério traz outras duas pessoas que viriam visitar um parente. mas por trás
de uns túmulos. de umas lápides, aparecem lrés figuras que estão espiando. Eles vão fazer a
visita e eles (as três figuras curvadas) vão continuar espiando.
Inquérito: (Guia?) é o do meio (das três figuras menores). Uma senhora (à sua esquerda) e outro senhor (ã
sua direita). Túmulos (aponta zonas cinzas alongadas) sem lápides e as lápides são as parles
mais brancas. Mais túmulos (zonas cinza) as lápides tapam parle de alguns túmulos. (O que são
os que estão espiando?) O que são? (repele sorrindo). Se acontecer alguma coisa vão avisar o
chefe: é uma organização que se vale de que tem medo deles para estar... há dois ou três espiando
para ver se notam alguma coisa. avisam o chefe e vão para baLxo dos túmulos: deve ser a sua
guarida. (São pessoas ou espirilos?) Pessoas; o que acontece é que eles vestem alguma coisa
estranha para que os outros fiquem com medo e não os peguem.
Bl. Não é de terror, é de suspense. Quando se vê que uma pessoa entra e a cama está ai. alguma
coisa está acontecendo. O homem vai entrar nesse quarto que é de uma mulher, que é uma
mulher muito. que já esteve. que já saiu com esse homem que vai entrar: agora não sai mais. o
traiu e o homem está apaixonado por ela ou então é muito orgulhoso e não permite que uma
mulher faça isso com ele e vai entrar e vai tentar matá-la mas não sei se a mala. É um mulher
porque tem um espelho. O homem também pode ler um mas tenho mais a impressão de que e
uma mulher e também porque tem isto que pode ser um chambrc. Amulher está dormindo ou
pode ser um casaco de pele ou seja que a mulher está dentro. tirou o casaco e o deixou ali.
Inquérito: (Mais?) Qualquer uma das duas possibilidades.
CG. (E isto? O que é?) Tudo a mesma coisa. Parecem dois encapuzados. São dois encapuzados que
estão sob as ordens de uma pessoa que pode ser um agiota ou algo assim. Essa pessoa da qual
aparece a sombra cm cima, que está observando; parecem encapuzados e um que não pagou.
talvez seja de outra organização. tem sangue (refere-se a uma figura da parte inferior cm tom
ma1Tom) usa barba e óculos e os outros todos batendo nele ou talvez com armas.
Inquérito: (O atacado vai conseguir se libertar?) Não: ou talvez o chefe diga ·basta· e era só para dar-lhe
uma lição; sim, isso é mais certo: sempre acontece isso.
A3. Opa! (gesto de rejeição como em toda a série A) É um seqüestro. o que já aconteceu. Seqüestra-
ram uma pessoa e acertaram o resgate, onde seria e quanto se pagaria e disse á pessoa que viesse
só. Aqui tem um arroio (cmbaLxo) muito pequeno (cinza claro) e aqu i está o scqüestrador (só). A
vítima não aparece na cena. Aqui está a pessoa com quem este havia acertado (o mais alto) mas
agora estão discutindo porque haviam dilo que ele deveria vir só mas veio acompanhado.
Inquérito: (Quem linha que vir só?) O pai ou um parente do seqüestrado ou seqüestrada; mas o pai tinha
contratado um detetive (o mais alto). O pai insistiu muito com ele. ·se não vou não pago·. Teve
que vir. Não sei qual o acerto que vão fazer. Talvez vá devolver o dinheiro se o dinheiro der. porque
o outro é inofensivo (Olha os quadros de Bollicclli: ·o nascimento de Vénus· e "A primavera".)
132. Parecida com a dos meninos (A2). Estão numa praça, na frente da casa dela. Planejam o casa-
mento. Casam.
138 García Arzeno·

BG. Não sei onde posso localizá-la. Sei que existe acho que no Egito ou na Arábia. melhor Egito ... e
isso teria que ser uma pessoa (só) mas não é. Se é isso leria que ser na época moderna. Não é
porque é muito rela. muilo exala para ser uma pessoa e se não é uma pessoa os anligos não
poderiam ler feilo algo assim. Não é uma pessoa e é na época moderna por islo aqui (aponta o
arco). Uma zona onde lém muros e essas coisas ...
Tinha muila gcnle. Voltamos aos policiais, porque islo é um bando de rapazes que são delin-
qüentes comuns e islo é para praticar lira ao alvo. Tem isto (figura só) tem armas. Eslão plane-
jando o próximo golpe ou irão se separar e cada um dará o seu. O que aconteceu é que o chefe (o
mais alto) reuniu todos e agora esta rã falando ele que todos deverão dar o próximo golpe juntos.
É um pouco estranho, não?, que na Arábia ou no Egito tenha assim porque, gente que está ai.
Não sei. O pais está desfigurado. Talvez de propósito porque ninguém desconfia. Estes passaram
por ali porque era um bom lugar.
C2. Os dois ela outra lãmina (131) ele a matou e vai embora.
Cl. (É a primeira vez que leva mais de cinco segundos para começar. Demora quinze segundos. Tosse
um pouco). Depois preciso fazer-lhe uma pergunta.
É uma cozinha, é certo, uma janela e aqui lem uma silhueta mas (assoa o nariz) pode eslar de
frenle para a janela; mas já disse várias vezes coisas assim. Pode eslar ele frente para a janela ou
quase entrando. Mas isto eslá quenle (comida). Tem que ter alguém. Uma mulher esteve antes
nessa cozinha preparando o café ela manhã para o filho. Então agora foi buscá-lo para tomar o
café ela manhã. 13em na hora estava passando um amigo da familia e viu que o chá quenlc estava
ali. Vai fazer a volta. Vai entrar. Ele tem muita inlimiclade com a família e não é nada de mais.
Branca: Não sei (Longo tempo para reagir, 40") Uma mesa. Uma casa. Sala de janlar mui lo bem arrumada.
Há uma lareira. uma mesa e cinco pessoas estão comendo. Um é o pai. Eslá na cabeceira; â
direita, a mãe; à direi la um filho.já cio outro lado outros dois filhos; duas filhas. Eslão comendo;
mas mais que comendo eslão conversando. Sobre coisas que aconteceram durante o dia. Nada
mais. Tem um cachorro.
AI. (Devido à intensa dramaliciclade da história que contou no início e seguindo a orientação usada
sempre por Phillipson, peço-lhe uma história alternaliva). É parecida demais.
Fogo. Poderia ser uma pessoa que nolou o fogo e entrou cspccíalmcntc para salvar uma pessoa.
Sabe que a situação é muito grave e que se procurar outra pessoa não encontrará com vida
aquela que eslá procurando. que pode ser a sua amada. Então aqui tem outra já caída (ângulo
inferior esquerdo) que não sei se jã esta morta.

AI. Um homem de 35 anos põe fogo na sua casa A percepção está dentro do clichê mas
e se suicida devido a um erro que cometeu o clima emocional não; textura: fogo:
mas que talvez não seja muito grave mas sente suicídio. Culpa avassaladora. Mau prog-
tantos remorsos que se mata. Parece do tempo nóslico. O assunto se repete mas o
antigo. História alternativa: uma pessoa vê homem é o salvador. O amor poderia ser
o fogo e entra para procurar a sua amacia. uma salvação. Talvez o erro seja
Não vai encontrá-la com vida. a masturbação e o fogo a excitação
sexual.

A2. Um rapaz e uma moça.jovens. estão Conforme o clichê. Final feliz.


apaixonados. Vão casar.

A3. Gesto de rejeição como em toda essa série. O triângulo edípico é atípico: o pai, uma
O seqüestrador, o que vinha com o dinheiro filha ausente seqüestrada. Um seqücs-
e contratou o detclive. Vai devolvê-la se lhe lrador inofensivo e um delelive que joga
der o dinheiro porque é inofensivo.
as duas pontas: trata com o pai e com o
Olha meus quadros. seqüeslrador. Exclui a mãe. Desejo de
excluir a irmã por ciúmes. Desejo de
comprovar quanto o seu pai o ama .
Bollicelli: rostos angelicais. Inventa uma
situação tensa e depois foge com cara de

AG. Boceja. Fala da sua alergia. Filme de terror. Seu bocejo equivale a uma rejeição
Duas pessoas vão visilar um parente. Três passiva. A situação de luto está
os espiam. Um guia. Os que espiam vão associada ao sintoma. Emergem
avisar o chefe se algo acontecer. É uma or- ansiedades aterrorir.antes pouco
ganização que se vale de que lem medo deles. disfarçadas logo com a "fantasia·.
Psicocliagnóstico Clínico 139

Túmulos. lápides. Tem a guarida embaixo dos Ficar deprimido é aterrorizante. é tomar
túmulos. São pessoas mas vestem alguma contato com um ser morto-vivo. ou seja.
coisa estranha para que tenham medo deles sinistro.
e não os peguem.

Si11tese série A: As situações depressivas ou que podem provocar ansiedades ligadas às perdas, despertam
nele sentimentos ligados ao tc1Tor e à morte. A única exceção é a lãmina 2. Tem propensão a sentir culpas
persecutórias e pareceria que tudo està estruturado em termos de culpa e castigo. Não expressa a sua
rejeição abertamente. O bocejo e a alergia que o impedem de respirar e dormir tranqüilo são indicadores
de estados de angústia que permanecem inconscientes.
Talvez a dinâmica seja: dormir angustiado, ter sonhos aterrorizantes, acordar sufocado.

131. É de suspense. O homem vai entrar no quarto Sobre a base da percepção cliché ele
de uma mulher por quem està apaixonado. Jà cria um clima de suspense. intriga e
não ·saem mais". Ela o traiu. Vai tentar matà- crime passional. Acrescenta uma mulher
la mas não sei se a mala. à história.

132. Dois apaLxonados debaixo de uma àrvore Conforme o cliché.


fazem planos para casar. Amoça mora nessa
casa.

133. Os pais estão explicando ao filho mais velho Inclui um quarto personagem conílituoso
alguma coisa que não querem que o mais pois tem dúvidas se o excluído é o mais
moço saiba. O outro escuta mesmo assim. velho ou o mais moço.
O mais moço está com eles.

13G. No Egito. Uma zona onde hà muros. É uma Duvida entre a história clichê que tem
época moderna. Um bando de delinqüentes relação com rui nas de outros paiscs mas
comuns praticam tiro ao alvo com esta silucta se impõe uma história de delinqüência.
(só). O chefe os reuniu e fala com eles do pró- Elimina o personagem só, transformando-
ximo golpe. Um pouco estranho isso no Egito º em um silucta.
ou na Arábia.

Síntese série B: Mantém a tendência de incluir mais personagens. O clima emocional nessa série também
é diferente das respostas populares: suspense, c1ime passional. assaltos. com a única exceção da história
132. certamente bem banal.

CI. Longo TR. Tosse. É uma cozinha. Urna Inclui um triãngulo onde não hà. Mãe,
silucta. Assoa o nariz. Ochã está quente. filho e amigo. Ahistória passional fica
Uma mulher esteve antes preparando o café de lado mas é insinuada.
da manhã para o Ilibo. Passa um amigo e
entra. Não vai acontecer nada. Hà muita
intimidade com a familia.

C2. O homem entrou e matou a mulher. É concretizado o crime passional


colocado na 131 .

C3. Avós e neto tomando chã. Discutem sobre Através dos avós restabelece-se um
a hora. Luz do dia. Neto e avó vão embora clima familiar que falta cm todo o pro-
juntos. tocolo. Realiza o seu desejo de ser
Ilibo único com um pai ·parceiro".

CG. Dois encapuzados às ordens de um agiota. O Superego aparece como um líder


Um que não pagou tem sangue. Todos batem mafioso implacãvel. As pulsões estão
nele. O chefe diz "basta". ao seu serviço. O Ego parece não
intervir nisto.
140 García Arzeno

Síntese série C: Repelem-se as cenas de crimes passionais, agora consumados. e de vingança por acerto de
contas. Na lâmina de u111 personagem esboça u111 lliângulo a111oroso que poderia ser também uma silua-
ção passional perigosa. Somente na lâ111ina de três aparece pela pri111cira vez cm lodo o protocolo u111a
siluação amena e calorosa mas entre avôs e netos, ou seja, pulando uma geração.

Branca: Cinco pessoas. pai, mãe, duas filhas, Evoca uma situação ideal que
um filho e um cachorro. Estão conversando corresponde ao seu grupo íamiliar real.
sobre coisas que aconlecera111 durante o dia O desejado é a co111unicação que falta
c111 lorno de uma mesa de u111a sala de jantar cm sua vida colidiana.
muilo bem arrumada.

Síntese final: As lrés hislôrias de um pcrsonagc111 são dra111álicas: C1 insinua u111drama,B1 o coloca e o
deixa cm suspense e na A 1 acaba co111 um suicídio. As lâminas de dois parecc111 banais (A2 e 82) mas
também acabam c111 cri111c passional (C2}. As triangulares la111bém são conflituosas: A3. um seqüestro;
83. um filho cxcluido expressamente e os pais e o outro lllho formam uma aliança contra ele. Na C3 a
situação é mais harmoniosa mas os pais aparecem como avôs e ele como lllho único. As lâminas grupais
são ainda mais conflituosas: AG. mortos-vivos forma111 um bando perigoso: OG acontece outro tanto
mesmo sendo pessoas comuns e na CG aparece um grupo de mafiosos que leva a cabo uma "vcnddclla".
Comparando as três séries os dramas repelem-se sem variações. Ou seja, os conílitos deste rapaz são tão
intensos que os ·sobrepõem" a qualquer siluação que perceber. É muilo ciumento. desejaria compensar a
sua menos-valia com mui lo poder. Asua predisposição para entrar c111 pânico transforma-se no oposto
quando os seus personagens são criminosos, chefes de bandos ou assassinos. Muito ciumento, desconfia
das mulheres. Arelação com os pais parece posta de lado ou aparece como ai lamente conflituosa. 1lá u111a
estrutura csquizoparanóidc de base. sem defesas que consigam ncutrali?.ar com êxito essas ansiedades.
Tudo está estruturado cm tcr111os de culpa e castigo e toda situação de perda intensifica o seu terror que
se transforma c111 fadiga. É imprescindível u111 lratamenlo psicanalilico intensivo.
A hístória:Tcm uma irmã de 20 anos e outra de 18. Sofre de fadiga desde pequeno e dc1rjdo a isso passava
para a cama dos pais. Há 7 anos tem o seu próprio quarto. Antes disso a sua cama estava no quarto das
irmãs. Estuda num colégio de meninos. Não lcm amigas e se qucLxa de ser 111uilo baixinho cspccial111cnlc
quando se compara com as suas ir111às que são rclaliva111cnlc ai las. Seu pai lambé111ébaixinho.A 111ãc diz
que ele leva ludo ·a ponta de faca". Se ouve u111a discussão já imagina o pior: que o pai vai sair de casa.
Dois dias após o seu nascimento quase 111orrcu por inco111palibilidade sangüínea. Co111 cinco meses preci-
sou fazer um pequeno corte no pênis para corligir um problema de eslrcila111enlo; fazia xixi ·c111 viés". Aos
dois ou três anos foi operado de hérnia a aos sele de apendicite; tudo ás pressas.
Quando ingressou na escola começou a sofrer de rinite, cspccialmcnlc quando tem provas. Tem
infor111ação sexual, segundo os pais, e leve uma namorada 111as terminou com ela porque segundo ele era
u111a pula que andava com outro.
As agressões fisicas sofridas desde pequeno e sem nenhuma explicação conlribuira111 para fixar
nele uma estrutura csquizoparanóide. Asua paranóia está generalizada. Desconfia de todos. Alé de seus
prõprios pais. Sente as mulheres como poderosas e traidoras.
Gostaria de transcrever um parágrafo da primeira entrevista co111 este rapaz que ilustra muito
bem ludo o que ocorre.
Chega pontualmente. Aperta a minha mão. "Não sei se a senhora vai me explicar; vai me enten-
der". "Na escola ludo sai errado comigo. Faço comparações dentro de mi111 , que cu teria que ser mais
adulto. Sou ... demais. não sou ... deveria ser 111ais tranqüilo apesar de achar que lodos são co1110 cu, não
está 111c entendendo. está? Sei que lodos são como cu mas, dentro de mi111 ainda acho que sou diferente;
os meninos não gostam que cu seja tão excitado. fico co111 medo que mexam comigo. me inco111odcm. não
é assim, mas penso assim do mesmo jeito.
Não sei como íalar para a Sra. O co!Cgio que se foda. Asra. permite que cu lhe fale assim? Acho
que é comigo mas é com lodos" ...

Vejamos agora o caso de uma menina de 10 anos.

AI. Vejo um senhor parado de costas, pensando no que est:irá faze ndo a sua fa milia porque ele está
no trabalho. Depois irá para a sua casa. [?} 30 anos mais ou menos [fa111ilia?l a n:u!hcr e um
lllho.
A2. Uma senhora sem cabelo [esquerda} e um srnhor (d ireita}e um menino pequcninho. Estão ves-
tidos; mui lo aqui [aponta para os quadris ela mulher}. Estão olhando o dia pela janela.
Inquérito: (O que são entre eles?}parentes. uma familia. (De onde era essa janela?} da sua casa. Olhavam
como eslava o dia. Depois vão sai r.
Psicodiagnóstico Clínico 14 1

C3. Depois entraram, tomaram o café da manhã. se vestiram, arrumaram a casa e sairam.
Inquérito: (Quem é cada um?) A mãe (na poltrona) o pai (cm pé) e o filho (sentado de frente). É a sala de
jantar; o pai está fazendo fogo na lareira.
B3. Este é... Não, risque isso. Estão os pais e o filho (aponta para a sombra mais escura) e a sombra
qelcs (em cinza claro). Estão se abraçando. Vão sair para passear.
AG. Saíram os três para brincar na neve com os trenós.
B1. O pai subiu para o quarto do filho porque tinha esquecido o casaco cm cima da cama e estava
muito frio porque estava nevando.
CG. Depois foram ver uma Maratona. Ainda não começou. Eles estão no camarote (aponta para a
parte inferior). A mãe. o pai e o filho (parte inferior da esquerda para a direita).
Inquérito: (O que poderia ser isto?) (apontou para a sombra na parte superior). A sombra de alguém que
está vindo.
A3. Os pais estão esperando o filho que vem na Maratona. Eles ficaram. Ele foi embora e depois
voltou e foram embora juntos.
82. Aqui os pais conversam embaixo de uma árvore numa praça enquanto o filho brinca um pouco
por ali.
BG. Depois. o filho foi para o rio ver como pescavam.
Inquérito: (Rio?) aponta o cinza claro. (Quem estava pescando?) (aponta o grupo de cinco). Qual é o filho?
(aponta o que está só).
C2. Os pais voltaram para a casa. Amãe deitou um pouco. estava cansada. O pai está quase entran-
do no quarto.
C1. O filho veio. Eslava indo para casa. Dá para ver a sombra pela janela. Era de tarde.
Branca: Não significa nada para mim. Não sei.

AI. Um senhor pensando na sua família: É muito pouco o que pode ser apreciado
mulher e um filho. com característico de cada série. A per-
A2. Os três olhando o dia pela janela da casa. cepção sempre está de acordo com o
Vão sair. clichê. Nesta série estão sempre os três
A3. Os pais esperam o filho que foi embora e juntinhos.
voltou. Vão embora juntos.
AG. Os três saíram para brincar na neve com
os trenós.

131. O pai sobe para buscar o casaco que o filho Nesta série aparece primeiro o pai só.
esqueceu. associado a muito frio; logo os pais
132. Os pais conversam embaixo de uma árvore juntos e o filho brinca separado. Na 83
enquanto o filho brinca. volta com a imagem do três juntinhos e
133. Os três estão se abraçando. Vão sair para na BG o filho se separa para ver outro
passear. cenário.
13G. O filho foi ver como outros pescavam no rio.

CI. O filho está voltando para casa. Era de tarde. Nesta série estão lodos juntos em duas
C2. Os pais voltaram para casa. A mãe deitou-se ocasiões; numa os pais e cm outra o
um pouco. O pai está entrando. filho que retorna por sua conta. Sendo
C3. Na sala de jantar tomaram o café da manhã. esta a última lãmina. o prognóstico é
o pai fez fogo na lareira. organizaram a casa bom.
e foram embora.
CG. foram ver uma Maratona. Ainda não come-
çou. Asombra de alguém que está vindo.

Branca: Nada.

Sintesejinal:ê incrível o esforço (Maratona) feito por essa menina para integrar todas as lãminas cm uma
única história. o que ocorre quando o individuo lenta diminuir a imporlãncia do desconhecido e opta por
considerar como certo que o que vem depois tem relação com o que já viu antes. O que chama a atenção
é a persistência da triangularidade (Pai-mãe-filho) reiterada durante lodo o protocolo sem alterar demais
as respostas populares. ou seja. com inteligência e vivacidade. É muito importante. então, que na série B
apareça a possibilidade de separação entre os pais por um lado e o filho por outro. Ou seja. as ansiedades
mais primitivas giram cm torno da separação dos pais e ela usa todo tipo de sutilezas para evitá-lo. Mas a
142 García Arzeno

série 8 indica que pode consegui-lo com um pouco de ajuda porque dispõe de força suficiente. Também a
CJ indica essa possibilidade.

História: a consulta foi solicitada pelos pais porque não sabiam o que fazer com essa menina que não
queria separar-se da mãe ·nem para ir ao banheiro". Amãe estava angustiada e desesperada. Trabalha-
mos sobre a temática puberal. Amenina não somente exigia que a mãe a levasse e trouxesse de todos os
lugares mas também que permanecesse observando-a enquanto ela fazia ginástica ou participava de um
aniversário. O teste de Phillipson deu a ela a oportunidade de realizar os seus desejos de ser filha única. de
ter os pais com ela o tempo inteiro e assim controlar as suas ansiedades intoleráveis de separação. O
fracasso na lâmina cm branco deve-se a que não conseguiu continuar projetando esse desejo. Talvez a cor
branca tenha aparecido associada à solidão. Trabalhando com a ambivalência dissociada (amava a mãe e
odiava uma professora) conseguimos modificar essa situação. A·senhora sem cabelo e muito aqui (qua-
dris)" da A2 nos deu uma pista: era o esboço de uma critica à mãe (muito magra e de farta cabeleira
encaracolada). Fiz a proposta de que cada uma brincasse de dizer à outra ou que a incomodava nela.
Assim a mãe conseguiu dizer. sentindo-se menos culpada, que sentia-se exausta e perseguida por essa
filha tão ·grude". A filha pode dizer que não gostava das amigas da sua mãe, que gritava muito e que
gostava do vestido que tinha comprado para ela. A professora odiada passou para segundo plano. A
odiada passou a ser então uma colega do colégio; alguém da sua idade. Ao transferir a hostilidade de
ambas da "clandestinidade" para a "legalidade" conseguiram separar-se melhor e, ao mesmo tempo, res-
tabelecer o autêntico carinho que sentiam uma pela outra e que havia corrido um sério risco de destruição
se não houvessem consultado a tempo.

O protocolo seguinte é de urna menina de 12 anos.


AI. Dois homens no parque. Um cm pé. Outro correndo. as patas (aponta o ângulo inferior esquer-
do). Não têm nada a ver... talvez vá dizer alguma coisa para este (o primeiro). Que horas são. (não
tem relógio).
Inquérito: (0 que vai fazer o primeiro?) Vai para casa (E o outro?) Para a sua.
A2. Uma mulher e um homem e um menino. Parentes. Pai. mãe. filho. Em casa. Estavam comprando
roupa para ele. Compraram um blusão e uma calça e vão contentes para a casa.
C3. Um aniversário (e isto?) um balão ou uma lâmpada (o vermelho). É uma lâmpada porque lem luz
e cor (aponta para o vermelho esfumaçado). Estão tomando o café da manhã.
Inquérito: (Quem são?) Dois homens e uma menina. São irmãos. O mais velho (poltrona) outro rapaz (cm
pé) e a menina. como cu, a mais moça. Têm 20. 18 e 16. Cada um irâ para o seu trabalho.
83. Um pai. um fil ho e um espiando ou escutando. O pai falando e o que cstâ espiando é o filho mais
velho. escondido para escutar.
Inquérito: (De que falam?) Não sei.
AG. Gansos. três gansos (figuras curvadas) e duas pessoas jogando coisas para eles comerem. Os
gansos estão na água (aponta para matizes cinzas muito visíveis).
81. Um menino acaba de levantar e desce para a cozinha ou o banheiro. Melhor para a cozinha
porque o banheiro é do lado do quarto. Toma o café e vai para a escola.
CG. (Demora bastante para responder)
No clube, a piscina. Todos homens. São cinco. Mostrando músculos, fala ndo.
Inquérito: (O que seria isto?) (sombra superior). Um homem pareceria mas não sei o que é. Pulando na
piscina mas de um trampolim mais alto... Não, espere. É uma janela com persianas (refere-se aos
traços inclinados) a piscina está embaixo da lã mina. não dá para ver. Isto é o trampolim (varan-
da). Porque senão o homem cairia sobre os meninos.
A3. Na escola três alunos. Dois estão conversando: são da mesma série e o outro está esperando que
venham buscá-lo.
82. Namorados. Estão falando na frente de um edifício.
13G. Seis crianças. muito sol. esperando o ónibus. Um está cuidando quando ele vem para avisar os
outros (só) e os outros estão conversando.
C2. Um homem vai para a sala: não para o quarto. Vai buscar alguma coisa no guarda-roupa; não.
na cómoda. Um lenço. Não acha. Estavam sujos. Não tinham sido lavados e teve que usar papel
higiênico.
C1. Na cozinha e alguém olha pela janela. Não tem nada a ver com a casa.
Inquérito: (Mora alguém ali?) Mora uma velha. Um ladrão espia ou alguém que quer ver se pode entrar, dá
na mesma. (~ntra?) Não consegue entrar.
Branca: As crianças de um colégio fazendo um piquenique. Diz que a mais bonita é a dos gansos e a mais
feia é a última porque tem um ladrão.
Psicodiagnóstico Clínico 143

AI. Dois homens no parque. Um correndo Inclui outro personagem mas o vínculo
pergunta a hora ao outro. Cada um para é o não vínculo; cada um na sua. Falam
a sua casa. de algo trivial. Tentativa de controle
obsessivo sobre ansiedades provocadas
por estar a sós cm situação de perda.

/':2. Pai, mãe e filho. Compram roupa para ele. Inclui outro personagem: é um triãngulo
Vão para casa contentes. no qual os pais cuidam do filho. Clima
gratificante.

A3. Dois alunos de uma série conversando. O clima de A2 muda bastante. Hâ três
Outro esperando que venham buscá-lo. mas um esta isolado. Não é o triãngulo
clássico

AG. Três gansos na água. Duas pessoas dão É uma distorção muito marcada mas
comida a eles (as duas siluctas mais feita com muita inteligência e originali-
juntas). dade. Evita assim os senlimentos de-
pressivos. As pessoas são alimentadoras.
Situação prazerosa. Omissão ele um
personagem com o que somam cinco,
como na sua família.

Síntese série A: Parece que essa menina se esforça para que uma s ituação ele perda se transforme cm
prazerosa procurando figuras protetoras que dão algum conforto: roupa nova, comida. etc. Não sendo
assim, surge uma situação esquizõiclc em que cada um fica na sua e então não há molivo para preocupa-
ções. Na primeira fica evidente a sua tentativa ele aproximação de uma figura que responde, mas com
indiferença, âs suas exigências.

I31. Um menino levanta. Vai para a cozinha Projeta o papel ele filha e aluna obediente.
toma café e vai para o colégio. Esboça necessidades uretra is mas as
substitui pelas orais.

I32. Namorados falando cm frente a um Apesar ela sua idade esta imagem não
eclificio. sugere a ela nada romãnlico. E muito
seca.

B3. Um pai falando com um filho. O filho mais Não é o triãngulo clássico. Exclui a
mais velho espia escondido para escutar. mãe. O lugar ela mãe no clichê é o-
cupado pelo filho mais moço (ela?)

BG. Seis crianças. Cinco conversam, outro olha Pela primeira vez refere-se explicita-
para ver se vem o ónibus para avisar aos mente ao contexto da realidade (claro-
outros. Muito sol. cscuro} e o associa com muito sol. Sem
dúvida o grupo ele iguais é um refúgio
para ela. Longe ele ver o solitário como
excluído, o percebe como um colabora-
dor do resto do grupo.

Síntese série B:A sua percepção é sempre adequada âs respostas populares. Há uma referência ao claro-
cscuro como sol radiante mas geralmente parece não dar-lhe muita importância. Chama a atenção que
enquanto na série A percebeu um triângulo papai-mamãe-filho (claro que na A2 e não na A3}na série B
exclui ostensivamente a mãe na B3. Ela parece estar ocupando esse lugar. já que como diz na C3 ·a menor,
como cu·.
144 García Arzeno

Cl. Uma cozinha. Mora uma velha. Inclui outro personagem na história.
Um ladrão olha. Não consegue entrar. Aparece um conflito e um estado ele
tensão ligado ao medo ela intromissão
ele estranhos dentro dela. Casa ele uma
velha parece ser um ataque clisfarçaclo
ao feminino.

C2. Um homem vai para a sala: não, para o Omite o personagem ela cama. Percebe
quarto. Procura lenços. Não os lavaram. primeiro como sala. Corrige. Parece re-
Usa papel higiênico. solver entrar numa maior intimidade.
Alusão disfarçada a si luações de tristeza
ou ele necessidades básicas não satis-
feitas por uma mãe que não se ocupa de
suas tarefas domésticas.

C3. Aniversário? Lâmpada vermelha. Luz. Não percebe o lriángulo clichê. Além do
Três irmãos. Dois rapazes e a menor é mais o aniversário se dilui numa cena
uma mulher. Tomam café da manhã. Vão cotidiana. Não aparecem pais. Incl ui
para o trabalho. muito bem a cor. ·se· coloca como mais
velha.

CG. Piscina. Homens mostrando museu los. São Chama muito a atenção como ela trata
cinco. Outro vai pular cio trampolim. Não. É esta lâmina. É nesta que demora mais
uma janela. Apiscina está embaixo. Senão para responder; e por isso podemos
o homem cairia sobre as crianças. pensar que lhe causou impacto. Cinco
!como a sua familia) em atitude exibi-
cionista. Embora sendo possível visua-
lizar ambos os sexos ela só vê os ho-
mens. Quando se faz necessário inte-
grar o personagem superior se produz
uma virada da percepção "porque senão
o homem cairia sobre as crianças". O
perigo é ele que o Superego castigue os
exibicionistas. e os "protege" reestrutu-
rando a percepção.

Síntese série C: Esta série a mobilizou bastante. Aparece um ataque disfarçado à figura feminina como ·a
velha" e uma crítica de que "a velha" não se ocupa elas suas tarefas domésticas: um aniversário que se
transforma cm uma situação cotidiana sem graça e um possível conflito violento entre as pu lsões
exibicionistas-narcisistas e um Superego que vai esmagar essas pulsões.

Síntese final: Oseu conflito principal parece ser com a figura materna. lugar que ela passa a ocupar mas
sofrendo a privação do cuidado materno, o que, por outro lado, aparece claramente nas lâminas mais
regressivas. Parece dizer que sente falta da época em que era pcqueninha e a enchiam de presentes e
carinho. A situação mudou agora que ela é uma ptibere. Não lhe dão "bola" !AI). não a atendem, eleve
cumprir sendo boa aluna e obedecer IB 1). Felizmente seus colegas são um reftigio l!3G e Branca).
História: a consulta foi solicitada porque chora no colégio porque não entende: não tem vocabulário: às
vezes parece boba. Ela tem dois irmãos de 19 e 16 anos. Amesa, eles falam com o pai ele coisas que ela não
entende e chora. Geralmente a mãe não está em casa porque é uma executiva importante ele uma loja ele
moela e viaja mui lo ou fica lodo o dia no escritório delegando as suas funções à empregada ou ao marido.
Confirma-se que sente uma grande hostiliclacle pela mãe ao mesmo tempo que a inveja. Não a desculpa por
deixar o pai só tanto tempo mas tem prazer em ocupar o seu lugar. por exemplo, cozinhando alguma coisa
que ele goste. O que não entende é como o pai e a mãe podem viver assim e chora humilhada quando não
entende os irmãos que exibem a sua inteligência e destreza !como na CG) fazendo-a sentir-se uma menina
boba. a quem eles não dão "bola· IA l ).
Psicodiag nóstico Clínico 145

Vejamos agora o caso de um rapaz de 13 anos.

AI. Uma pessoa. Árvores [esquerda. parte inferior). Plantas e uma catarata [cinza mais claro). Ro-
chas (cinza mais escuro). Um homem olhando uma paisagem. Vive cm Buenos Aires e foi passear
nas Cataratas do lguaçú. Está num hotel. Chegou de avião. Depois o senhor vai embora e volta
para sua casa em Buenos Aires para trabalhar.
A2. Duas senhoras tomando banho num lago.
Inquérito: (O que elas são entre elas?) amigas e estão num lago que é para reumatismo [Idade?)jovens.
Chegaram de carro, moram nos E.U.A., se curaram e foram para os E.U.A. muito contentes.
C3. Senhoras. Dois senhores sentados e um cm pé. O que está sentado é o dono da casa [aponta a
poltrona). Os outros dois são convidados. Uma biblioteca, um mesa, xícaras, café, cafeteira,
lareira. janela, flores e uma lãmpada [a cor clara). Conversam sobre negócios. Depois os convida-
dos vão embora muito contentes para as suas casas porque descobriram uma coisa muito im-
portante.
Inquérito: (O que descobriram?) Ah! é um segredo.
B3. Um senhor [sombra cinza claro) e um menininho sentado sobre um móvel (na mesma parte
cinza). Uma porta com manchas pretas (na parte cinza mais escura) que parece que tem uma
senhora. O pai chegou do trabalho e pegou o filho: o pós cm cima do móvel. Sua mulher muito
contente porque tinha chegado e foi cumprimentá-lo.
AG. Seis pessoas que parecem estar olhando alguma coisa e nada mais. Seis pessoas quaisquer na
Igreja em torno ao altar. Não acontece nada.
Bl . Um quarto, uma toalha. um espelho. uma cómoda. uma porta. uma escada, um senhor subindo.
O senhor tinha tomado banho. Deitou-se. Levantou e foi almoçar. Tirou a roupa da cómoda.
Quando ia se pentear se olhou no espelho. Foi comer e agora vai se enfiar na cama.
CG. Muitas pessoas reunidas que não podem passar um degrau porque tem uma corda e o pai está
cm cima. Isto [varanda) me lembra o escritório de meu pai.
A3. Três pessoas que querem atravessar uma ponte. A metade da ponte está caída. Eles têm que
pular ou fazer uma ponte nova.
Inquérito: (0 que fazem?) Fazem uma ponte nova muito boa que não cai nunca.
B2. Duas árvores, duas pessoas, um hotel. As duas pessoas estão morando no hotel. Foram conver-
sar embaixo das árvores. Acabam de voltar da visita ao Perito Moreno. Chegaram de avião. Estão
muito contentes.
Inquérito: [O que são entre eles?) Marido e mulher.
BG. Pessoas esperando o trem e parecem duas portas grandes. Cinco pessoas de um lado. Cinco
pessoas de um lado e uma só na outra porta. Atrás, uma rua. Eles estão cm pé numa calçada
esperando o trem para ir para as suas casas.
C2. Uma pessoa que chega depois de comer, vai para a sua cama. Amulher vai para a cama com ele.
Estão em lua de mel. Muito contentes.
Cl. É uma cama? Não. parece mais uma banheira. uma pia, uma cadeira. Uma pessoa olha pelo
vidro. O banheiro é muito bonito.
Branca: Uma pessoa chega em casa depois de um longo caminho e de ter trabalhado muito tempo. É um
senhor que fica muito contente ao ver seus filhos e poder estar com eles.
Amais bonita é a C2 porque dá para falar bastante.
A mais feia ê a 82 porque não tem nada para falar.

AI. Um homem que mora em Buenos Aires É uma organização perceptual muito
olhando uma paisagem de plantas, rochas boa com uma rica elaboração do
e água. As Cataratas do lguaçú. conteúdo de realidade e um clima emo-
Chega de avião. Volta para a sua casa para cional de rclax.
trabalhar.

A2. Duas senhoras tomando banho num lago. Evita o casal heterossexual. São jovens-
Amigas. Vieram dos E.U.A. devido ao velhas já que o reumatismo é mais
reumatismo. São jovens. Estão cu radas. freqüente nos velhos. Evita uma situação
mais romântica ou erótica.

A3. Três pessoas que querem atravessar Nesta lâmina que explora a separação
uma ponte. Ametade caiu. Precisam elos pais da infância, ele visualiza uma
pular ou fazer uma ponte nova. Fazem ponte. imagem muito comum nos pú-
uma ponte nova que não cai nunca. beres devido â sua idade de transição.
Dramatiza muito bem este conllito.
146 García Arzeno

evolutivo e o prognóstico é muito


favorável.

AG. Seis pessoas olhando um altar na Igreja. Trata-se de um menino de familia muito
Não acontece nada. católica. devido ao que a morte fica
encoberta com a promessa tranquiliza-
dora de uma vida eterna no além.
Devido ao fato de que "não acontece
nada" num protocolo tão rico em ação,
significaria que lhe causou impacto.

Síntese série A: Parece manejar muito bem as ansiedades depressivas. Tem excclc1~tes recursos culturais
de forma a transformar uma perda em uma aquisição: viagens, descanso, cura. E até positivo que esse
Tour seja detido na AG e adquira um tom mais sério. É como se ele dissesse: "É preciso saber aproveitar
o bom da vida mas com a morte não se brinca·.

Bl. É um senhor subindo. Tinha tomado banho. Parece que esta lã mina o comoveu
Deitou. Levantou. Foi almoçar. Tirou a roupa muito porque perde a sequência orga-
da cômoda. Quando ia se pentear se olhou nizada dos seus outros relatos. O falo
no espelho. Foi comer e agora vai se enfiar de se enfiar na cama deve estar associa-
na cama. do com a masturbação ou coito mas fica
encoberto pela sua descrição obsessiva
e a sequência desordenada da sua
história.

82. Duas árvores, duas pessoas. um hotel. São Novamente dá a sensação de começar
marido e mulher que acabam de voltar do com a história de um "fato" cm
Perito Moreno. Chegaram de avião. Estão um "leio". Mas ludo fica nos moldes da
morando no hotel. mais estrila seriedade: casal fazendo
tmismo.

B3. Um senhor chegou do seu trabalho. pegou Visualiza a esposa na moldura de


o seu filho: o colocou sobre o móvel. Sua manchas pretas e como terceira
mulher contente foi cumprimentá-lo. excluída mas contente. Arelação
Manchas pretas. mais carinhosa é a do pai com seu
filho a quem cumprimenta e dá destaque
cm primeiro lugar.

BG. Pessoas esperando um trem. Cinco de um O personagem isolado não pertence ao


lado e uma só. Atrás uma rua. Parados na grupo mas também não há conílito. Não
calçada esperando o trem para ir para casa. há laços g1upais.

Síntese série B: Na lãmina de grupo a histeria é bastante trivial e dcsafetivada. Na lámina de três. aparece
um lriãngulo bastante aproximado das respostas populares. Na lâmina de dois. parece haver estimulado
uma cena de clara conotação erótica que fica disfarçada mudando o mmo associativo para alguma coisa
"legar. Na lâmina de um personagem este mecanismo fica ainda mais evidente: a sexualidade parece estar
presente como o conílito básico nesse momento da sua vida e fica evidente como aquilo que está reprimido
se "mostra· claramente mesmo que logo seja "disfarçado".

Cl. É uma cama? Não, uma banheira. Asenhora Repele-se o mecanismo descrito anlc-
cstã tomando banho. Vai sair. Uma pessoa Iiormenlc mas o reprimido é expresso
olha pelo vidro. O banheiro é muito bonito. com mais clareza: espiar uma linda
senhora tomando banho. ou seja. nua.

C2. Um homem e uma mulher cm sua lua de mel. Nesta cena aparece com toda franqueza
Vão para a cama. Estão muito contentes. a cena heterossexual erótica. Acor pare-
ce ter aluado como um estimulo positivo.
Psicodiagnóstico Clínico 147

C3. Três senhores. O dono da casa e dois convi- Não aparece o triângulo clichê. Ades-
dados. Conversam sobre negócios. Vão em- crição é correta. O clima emocional é
bora contentes porque descobriram alguma de suspense.
coisa muito importante. É um segredo.

CG. Muitas pessoas reunidas que não podem O Papai-papai-Superego aparece corno
passar um degrau porque têm urna corda muito distante, imponente, que deve ser
e o papai está no andar de cima. Escritório reverenciado mas sem aproximação.
do pai.

Síntese série C: Acor parece ter agido positivamente animando-o a expressar as suas idêias mais aberta-
mente. Afigu ra severamente repressora é a de um pai imponente que estabelece uma distância impossível
de ser transposta. A curiosidade sexual. as suas necessidades sexuais já à flor da pele, exacerbam a
severidade do Superego reprovador. Chama a atenção a eliminação da mulher na C3.

Síntesefinal: É interessante observar como as três series provocam respostas muito significativas.
Parece ser uma personalidade bastante rica e sadia criada em um ambiente bastante severo. Diz
que a lâmina que mais gostou foi a C2 que é a que mais representa o encontro sexual-amoroso de um casal
heterossexual. Da que menos gosta é, justamente, da CG, na qual aparece um pai severamente repressor
da sexualidade. É esse o ponto central da sua problernãtica pubcral.

llislória: Os pais queLxam-se de que não consegue se concentrar nos estudos. de que rói as unhas
exageradamente e que sofre de acessos de pãnico se está sozinho. Morre de medo de dormir sozinho e teme
que alguém possa entrar pela janela do seu quarto. A mãe linha a aparência de uma mulher-menina
muito esguia e predisposta ás reflexões filosóficas e religiosas. O pai, um homem muito corpulento era um
profissional de sucesso que não deixava de mencionar que na sua ascendência havia personagens ilustres.
Muito inquieto, parecia sempre apressado para terminar as entrevistas da forma mais rápida possível.
Indiquei a necessidade de cnlrc,~stas do menino com a mãe e com o pai alternadas com outras só com ele.
Ficava evidente que o pânico desse menino estava ligado ao crescimento, à possibilidade real de se apaixo-
nar pela mãe (sempre de mini-saia) e "malar· o pai corno no drama cdipico. A mãe insistia para que
estudasse como tentando relê-lo na latência.
O pai não percebia os si nais do desenvolvimento sexual do filho, mas nas entrevistas com os
dois. puderam iniciar um diálogo a esse respeito. As unhas roídas eram um deslocamento de uma ativida-
de maslurbatória existente mas muito cheia de culpa devido à formação religiosa que recebera. O homem
que poderia entrar pela janela simbolizava o pai que viria matar um rival tão pc1igoso, ou seja, ele mesmo
excitado. Assim. a excitação reprimida entraria "pela janela· e finalmente o Deus-Papai-Superego que o
casligaiia pelas suas atividades masturbatórias.
As entrevistas deram resultados muito bons. Em certa oportunidade me propôs um jogo. Ele
escrevia com os dedos sobre a mesa e cu deveria dizer o que ele ha~a escrito. Comecei ojogo: de~a ler ao
contrário e somente com seus gestos. As palavras eram: imbecil, sacai. merda, etc.
Nesse momento disse-lhe que disso que ele fazia não ficava m provas mas ele me obrigava a dizer
palavrões como se nascessem de mim e não dele. Que dessa forma, então, ele queria provar que cu não me
importava cm dizê-las. Ríu e a partir desse momento pode contar coisas relacionadas com o sexo, fazer
criticas a um professor "doido", comentar que seu irmão mais velho jã saia com ·gatas" e reconhecer que
para ele ainda faltava idade para fazer a mesma coisa, e que por isso às vezes se masturbava porque não
linha outra alternativa. Seu corpo f01ie e bem desenvolvido indicava um desenvolvimento sexual paralelo
forte e pujante. Acho que foi isso que assustou a mãe que um dia solicitou uma entrevista urgente para
dizer -me que era completamente contra a imposição de assuntos relacionados com a sexualidade na
psicanálise. Ela retirou-se descontente e pouco tempo depois o menino me disse que deixaria de vir porque
já estava bem. Que passaria para o 1º ano com certeza e que estava muito mais tranqüilo. Que conseguia
dormir só e que não se importava com o que a mãe dizia. Essa última parte foi dila com uma expressão de
sem-vergonha como se quisesse dizer o seguinte: "Não dou bola para essa doida. Eu sou grande".

Bibliografia
Frank. Rcnata (comp,). EI test de Relaciones Objetales de /-1. Phillipson. Buenos Aires: Nucva Visión, 1976.
Frank. Rena ta, (comp.). Actualizaciones en el Test de Phillipson. Buenos Aires: Paidós. 1983.
Ocampo, Maria L. S. de. Garcia Arzcno Maria E.. Grassano, E.. e col. EI processo psicodiagnóstico y las
técnicas projectivas. ruo de Janeiro: Martins Fontes. 1990 (cap. sobre Phillipson)
Phillipson. Herbert. Test de relaciones objetales. Buenos Aires: Paidós, 1965.
Capítulo 13

Indicadores de Analizabilidade no
Teste de Relações Objetais
de Pillipson

Neste trabalho tomei como ponto de partida os indicadores de capacidade de


análise em geral, apontados por Carlos Paz em seu livro sobre o assunto'. Gostaria
de agradecer -lhe a solicitação de que investigasse o perfil do paciente "limítrofe" no
Phillipson, trabalho que não chegou a ser publicado, e também por fo rnecer -me o
material necessário para fazê-lo, do qual extraí, em relação a este outro assunto, as
conclusões seguintes.

Partes Sadias, Adultas ou Não Regressivas do Ego que


Devem Estar Presentes para Facilitar a Aliança Terapêutica Sadia
Freud, Fenichel, Zetzel, Glover, Meltzer e Kl ein são a lguns dos autores
pesquisados por Carlos Paz, e todos eles concordam em apontar isto como algo
muito importante.
Zetzel define assim a parte adulta da personalidade:

a) motivação para algo mais que a cura sintomática;


b) capacidade para tolerar frustrações;
c) capacidade para tolerar ansiedades e não ser invadido por elas;
d) habilidade para manter uma regressão estável;
e) habilidade para manter o pensamento do processo secundário.

Indicadores no Phillipson
a) Cura sintomática ou algo mais.
Isso pode ser detectado no conteúdo das histórias. Deve aparecer um confli-
to. A sua natureza e o desenlace fan tasiado indicarão a presença de esperança em
soluções realistas ou, pelo contrário, em saídas mágicas, rápidas, que não impli-
quem a necessidade de pensar nem sofrer demais. A presença destas últimas con-
tra-indicaria a psicanálise, já que ela requer uma atitude reflexiva, pensante e

1. Paz, Carlos . Analizabilidad. Alcances y límiles dei psicoanálisis. Buenos Aires: Paidõs, 197 1.

148
Psicodiagnóstico Clínico 149

tolerante da angústia. Essas pessoas precisariam rever o seu desejo de tratamento


em algumas entrevistas prévias, de forma a que o terapeuta possa ter um idéia mais
precisa sobre a possibilidade ou não de realizar um trabalho psicanalítico ou sobre
qual seria a terapia mais apropriada.
A história que o sujeito cria na lâmina AG, a Nº 5 do teste, nos dá informa-
ções sobre o modelo de luto mais primitivo que está internalizado no indivíduo.
Saberemos assim se essas soluções mágicas têm relação com o papel defensivo do
desejo ele uma cura sintomática, ou se são uma verdadeira "fuga" rumo â saúde
devido a ansiedades primitivas intoleráveis e desestruturantes. Isso pode ocorrer
quando este tipo ele produção aparecer exclusivamente na série A, e o resto cio teste
mostrar uma boa produção com soluções elaboradas de melhor forma , o que indica
a presença de um Ego frágil em certas circunstâncias mas capaz ele estabelecer uma
boa aliança terapêutica, para abordar com cautela a análise dessas ansiedades pri-
mitivas.
Também deve-se prestar atenção se no momento do inquérito o sujeito mo-
difica estes desenlaces triviais e mágicos ou os reitera. Se os melhora, também me-
lhora o prognóstico.
O desenlace permite estimar se o vínculo terapêutico fantasiado é tão onipo-
tente que dele nasce a idéia de uma cura rápida, ou se é um sentimento persecutório
que o induz à cura sintomática ou , por exemplo, a t rivialidade do sujeito que não
apresenta aptidões para o questionamento e a reflexão.

b] Capacidade para tolerar f rnstrações.


Obviamente o conteúdo das histórias é o primeiro indicador. Por exemplo, o
sujeito diz: "Um homem numa esquina esperando a sua namorada. Cansou de es-
perar e foi embora"(?] Esperou dez minutos, na Al. Na CG, diz: "Os da parte inferior
brigam; são estudantes, um tirou um livro do outro e causou uma briga enorme".
Além do conteúdo das histórias, é importante também a conduta do sujeito
durante a administração cio teste. Pode tentar ver as lâminas antes de que nós as
mostremos porque não consegue esperar. Pode ten tar devolvê-la porque não lhe
agrada. No inquérito pode mostrar um comportamento ele muita irri tação, evitá-lo
ou negar-se a responder. Talvez a história em si forneça um bom material mas não
consiga trabalhar sobre ele. Será então um paciente capaz de relatar sonhos mas
incapaz ele trabalhar em cima deles com associações livres.
É possível que essa atitude tenha ocorrido também nos testes grâficos quan-
do solicitado a fazer associações verbais e no inquérito do Rorschach. Tudo isso
permitiria conversar na devolução sobre as suas dificuldades para fazer reflexões e
a sua predisposição a sentir-se perseguido, ferido ou exigido ao ter que trabalhar
sobre seus próprios materiais, e que por isso seria adequado pensar em outro tipo
de terapia.

c] e d] Capacidade para tolerar ansiedades e não ser invadido por elas e para manter
uma regressão estável.
Para avaliar isto devemos comparar a produção das três séries. Na série A
aparece o qu e é mais regressivo. Na B, o mais maduro e evoluído do Ego. Na C é
possível apreciar as reações emocionais (cor intrusiva] e a capacidade de tolerar
impulsos sem derivá-los imediatamente â ação.
O surgimento de conteúdos inconscientes muito arcaicos, regressivos e até
bizarros na série E indica que eles aparecerão na análise e isso é positivo. O tom
emocional das histórias e o estado de ânimo do suj eito enquanto as relata nos clarão
uma idéia ela sua capacidade egóica para tolerá-las e para suportar esses estados
regressivos sem que se produza uma regressão estrutural. Se as histórias dessa
150 García Arzeno

série estiverem muito distorcidas, deverão ser tomadas precauções ao fazer a re-
gressão com o paciente ou então escolher terapias não regressivas.
Os autores referem-se aqui a regressões temporais "a serviço do desenvolvi-
mento" [como diriam Anna Freud e Peter Blos), neste caso, ao desenvolvimento do
processo analítico, muito diferentes das regressões estruturais nas quais é difícil
para o paciente recuperar-se desses estados para continuar com a sua vida cotidi-
ana e pode vir a exigir internação.

e) Habilidade para manter o pensamento do processo secundário:


O estilo verbal usado pelo sujeito nos dá informações sobre este aspecto. O
senso de realidade que se depreende dos seus relatos, a percepção do estímulo
dentro do que é co ns iderado respostas populares, assim como o predomínio de
situações e soluções lógicas acima das soluções mágicas, ajudam-nos a esclarecer
isto. Em casos duvidosos devemos utilizar a etapa do inquérito e a técnica de exame
de limites para eliminar as dúvidas.

Flexibilidade para Assimilar as Mudanças


Carlos Paz cita Freud e todos os outros autores consultados por ele, que
concordam em afirmar que este é um requisito indispensável.

l. No T.R.O. de Phillipson as reações diante da mudança de séries são um


indicador importante. Ao estarem misturadas as três séries, evitam a "acomodação"
do sujeito a cada uma e as suas reações são um meio importante para avaliar a sua
flexibilidade ou a sua rigidez. Alguns negam inconscientemente estas mudanças
unindo todas as histórias numa mesma temática. Às vezes isso é feito com muita
habilidade e de forma engenhosa; outras, com recursos pobres, tentativas absurdas
para que tudo "entre" conforme a história inicial. Nesses casos é aconselhável soli-
citar histórias alternativas para avaliar se pode ou não sair dessa forma" (Se tivesse
que imaginar uma s ituação diferente, que história poderia relatar?")
2. Uma produção pobre, associada ao uso de controle obsessivo rígido em
todas as lãminas não é um bom prognóstico no que se refere à flexibilidade. As vezes
são descrições minuciosas mas não conseguem montar um roteiro. Se isso ocorrer
numa série e não no teste como um todo, pode estar somente obedecendo ao impac-
to emocional e não à falta de flexibilidade em geral.
3. Os desenlaces das histórias são importantes a esse respeito enquanto o/
a protagonista elas mesmas precisar seguir por um "caminho" fixo rumo a metas
imóveis ou puder questionar-se sobre o seu destino e sugerir soluções opcionais.
4. É importante prestar atenção às mudanças que poderiam ocorrer nos
aspectos formais do teste como indicadores de intolerãncia ás mudanças registradas
a nível perceptivo: crítica de objeto, distorções de respostas populares para adaptar
o estímulo à sua vontade, omissão do contexto de realidade (clima emocional) com o
que o teste se torna algo inócuo ou inofensivo.
5. As mudanças entre a etapa da administração e a do inquérito são impor-
tantes. Se há flexibilidade, superada a ansiedade da etapa da administração, poderá
introduzir modificações positivas.
6. Levar em consideração a reação diante das mudanças propostas pelos
diferentes testes como também as reações durante a entrevista de devolução.
Psicodiagnóstico Clínico 151

Narcisismo Não Pronunciado, Inveja Não Excessiva,


Receptividade para com as Interpretações
Estes requisitos foram formulados por Freud, M. Klein e H. Rosenfeld, res-
pectivamente.

Indicadores no Phillipson
1. O conteúdo das histórias fornecerá informações claras sobre estes aspec-
tos. Os personagens podem ser descritos como orgulhosos ou mais permeáveis;
como fechados em seu narcisismo ou mais abertos à comunicação; como dispostos
a receber uma crítica ou não; como invejosos, ressentidos, atenciosos ou indiferen-
tes.
2. Isso ficará mais evidente durante o inquéri to ao pedir que o sujeito am-
plie a informação ou acrescente detalhes que possam se tornar indicadores.
3. Na entrevista ele devolução usaremos esses indicadores para avaliar se
aceita o que o psicólogo diz ou se o questiona permanentemente. Se fica na defensi-
va esperando que cada comentário seja um ataque ao seu amor próprio. Se perma-
nece impassível. etc.
4. O Phillipson é importante para detectar qual é o desencadeante ela inveja
excessiva ou do colapso narcisista (terminologia de Hugo Bleichmar). Por exemplo,
poderá aparecer na primeira lãmina de três personagens e isso mostraria a sua
relação como o conflito eclipico. Se voltar a aparecer nas outras duas lâminas trian-
gulares não restariam dúvidas a esse respeito. Pode aparecer nas lâminas grupais
devido à rivalidade que se manifesta.

Inteligência para Captar as Interpretações


Assim como é afirmado por Carlos Paz. os autores concordam no que se
refere à importância desse fator.

Indicadores no PhillijJson
O Phillipson não é um teste de' inteligência, mas como acontece com os ou-
tros testes sempre pode-se inferir algo sobre ela, mesmo que seja indiretamente.
Há histórias triviais, pobres e desinteressantes assim como há outras mais
ou menos, e finalmente as que se tornam interessantes, originais e ricas. No primei-
ro caso não significa que a inteligência seja de baixo nível. Pode haver interferências
emocionais. Nesses casos impõe-se usar um teste de inteligência (Raven, Anstey,
etc.) para acabar com as dúvidas. A terminologia usada, o uso de metáforas, as
idéias espontâneas. tudo pode dar-nos uma idéia sobre a sua capacidade de captar
as interpretações.

Benefícios Secundários Adquiridos às Custas da Neurose


"Conseruação ambiental". O primeiro fator foi considerado por todos os auto-
res consultados por Paz, mas foi especialmente enfatizado por Lebovici e Nacht. O
segundo, por Donald Meltzer.
152 García Arzeno

O primeiro seria o elemento que oporia resistência à mudança para evitar o


sofrimento que isso implica.
O segundo, dà ênfase aos elementos positivos do paciente como um todo,
que podem apoiar ou atrapalhar a tarefa terapêutica.

Indicadores no Phillipson
1. Isto pode ser avaliado no conteúdo das histórias de cada lâmina enquan-
to aparecer um conflito que possa incomodar ou não o protagonista ou o próprio
sujeito. Por exemplo: a história fala de um jovem a quem os pais impedem de casar
com a mulher que ele ama. O desenlace é que ele aceita a imposição paterna. No
inquérito esclarece que assim seria melhor para não precisar se afastar de seus
pais.
2. De qualquer forma, isto deve ser comparado com o material da entrevista
clínica inicial e o da entrevista de devolução.

Consciência de Doença, Responsabilidade Diante dos Conflitos


Estes requisitos foram especialmente enfatizados por Numberg e Bion. Re-
meto os leitores ao capítulo XX deste livro, onde desenvolvo o assunto do uso dos
testes projetivos para discriminar o predomínio da parte neurótica ou psicótica da
personalidade.

Tolerância à Dor, à Tensão, às Separações e


à Falta de Gratificações Imediatas
Esse aspecto foi destacado por Numberg, Anna Freud, E. Zetzel e M. Klein.

Indicadores no Phillipson
l. O conteúdo das histórias é decisivo para avaliar este aspecto. Se o sujeito
evitar todas as situações que pudessem provocar tais sentimentos ou diminuir a
sua importância, é conílitivo. Se o desestruturam, também. É positivo que apare-
çam situações de separação ou morte (série A) que possam ser contidas pelo Ego.
O conflito que se espera que o sujeito coloque é tão importante quanto o
desenlace que ele escolher.
2. Há lâminas que nos dão melhores informações do que outras sobre isto.
Por exemplo, as da série A. Também as de um só personagem, que mostram se o
sujeito suporta ou não a solidão.
3. É útil correlacionar o nivel de fLXaçâo libidinal predominante com a situ-
ação colocada pela lâmina na qual apareçam sinais evidentes de frustração, dor,
agressão, etc.
Assim, não têm o mesmo significado uma história na qual o rapaz é proibido
de ver a sua noiva e outra na qual o repreendem porque quer comer mais torta
(lâmina C3). No primeiro exemplo, a dor e a frustração referem-se â pulsão oral,
enquanto que no segundo, estão relacionadas com a oralidade receptiva.
Capítulo 14

Atualização dos Critérios de


Interpretação do C.A.T.
(Children Apperception Test),
de L. Bellak, e a sua Correlação com
o Desiderativo e o Rorschach

Quando o psicanalista americano Murray criou o T.A.T. (Themalic Apperceplion


Tesl) um colega seu, Leopolcl Bellak, começou a trabalhar numa adaptação cio mes-
mo para crianças. Surgiu assim, primeiramente, o C.A.T.-A (Animal) que apresenta
animais como protagonistas elas histórias, considerando que as crianças se identi-
ficam mais com estes que com as pessoas elas lãminas do Teste de Murray. Mais
tarde, e com a colaboração de sua mulher, continuou trabalhando com o teste e
criou uma série complementária do anterior que chamou ele C.A.T.-S (Suplemento),
destinado a explorar áreas conílitivas mais especificas tais como a situação escolar,
gravidez da mãe, doença física, situação no grupo de pares, etc. Finalmente traba-
lharam em uma série com personagens humanóides destinada às crianças maiores
de dez anos. Esta, sob o nosso ponto de vista, é a série menos adequada, já que os
personagens são nitidamente femininos ou masculinos e o resultado é uma série ele
figuras amorfas, assexuadas ou francamente homossexuais. Em outros casos as
figuras tornam-se sinistras como o gigante ela lâmina 7 que está prestes a devorar
um menininho.
Por esse motivo preferimos aplicar em nosso meio o Teste de Relações Objetais
ele H. Phillipson em crianças de mais ele dez anos ou usar o C.A.T. -A dizendo-lhes
que elevem tentar inventar histórias para crianças pequenas.
O C.A.T.. assim como o Rorschach, pode ser administrado sempre que a
criança for capaz de se expressar verbalmente, e ambos complementam-se muito
bem. Os critérios ele interpretação cio teste têm variado muito desde que foram
colocados pelo autor, atê chegar aos desenvolvidos em nosso meio por Sara Baringoltz,
Renata Frank e Florencia Menéndez 1• Remeto os leitores a essas obras e prefiro
dedicar este capitulo a relatar alguns exemplos.

1. Consulte-se a bibliografia deste capitulo.

153
154 García Arzeno

Iniciarei com o caso de uma menina de 4 anos e meio.

Lâmina!: (Faz um gesto negativo) Pintinhos e uma galinha. (O que faziam?) Comiam. (O quê?)
Salsichas. (E a galinha fazia o quê?) Estava olhando como eles comiam. (Comeram?) Sim.
(0 que aconteceu depois?] Foram para a cama dormir.
Lâmina li: Ursos. três ursos. a mãe. o pai e o fllhinho. (Mãe aponta primeiro á esquerda. logo á
direita: o pai á esquerda) (0 que fazem?) Estavam puxando uma corda (Por quê?] Não ...
(Como acaba essa história?) Que todos os animais foram dormir.
Lâmina Ili: Um leão... (Pausa) ... (O que acontece com o leão?] Estava sentado numa cadeira e cami·
nhava com o que caminham os velhinhos. uma bengala... estava fumando um cachimbo
(Acontecia algo com ele?) Não. (Como acaba?) Que todos os animais vão dormir.
Lâmina IV: Um canguiu (o grande) e outro canguruzinho que está andando de vclocipede e a mamãe
vai caminhando e foram para a praça.
L<"1mina V: Têm dois ursinhos pequeninhos no berço, estão num berço. (Que acontece com eles?]
Estavam chorando porque a mamãe e o papai foram embora. (O que mais aconteceu?) A
mamãe não estavam deitados. (Como acabou?) Que todos os animais foram dormir.
(Com a mamãe e o papai?] Foram viajar. (Para onde?) Para Mar dei Plata. (E depois?)
Voltaram. Os ursinhos ficaram contentes.
Lâmina VI: E agora está a mamãe e o papai. Esta é a mamãe (aponta o menor) e este é o papai (figura
maior como se fosse um só). (Fazendo o quê?) Estão olhando os filhinhos. o papai só, a
mamãe só, o papai está dormindo.
Lâmina VII: Tem um tigre e um macaco que o tigre queria comer o macaco e o macaco estava assus·
lado e o leão rugiria. (Como acaba?] Comeu o macaco.
Lâmina VIII: Aqui está a fam ilia macaca. Amamãe (esq.) o papai (dir.) e o fllhinho. e este é um convi·
dado (esq.) e esta ê uma convidada. (Fazendo o qué?) Conversando. (Sobre o qué?) Do
fllho. (Como está se sentindo o fllho?) Bem. (O papai diz alguma coisa a ele?). Não sei. (E
depois?) Vão tomar um cafezinho.
Lâmina IX: Tem um coelho numa cama: está numa cama: está na cama: está na cama. (Bola a lingua
várias vezes.) (O que acontece com o coelho?] Que eslava dormindo porque eslava docn·
te. (O que ele linha?) Catapora. (E depois?) Nada. {Ficou bom?] Sim. Eslava assustado
mas melhorou.
Lâmina X: É a mamãe cachorro e o fllhinho cachorro. a mamãe fazendo o filhin ho dormir (chupa
todo o tempo o lápis que lhe dei para fazer os desenhos). Depois o filhinho levantou do
berço para pedirá mamãe que o fizesse fazer xixi no vaso (lenta desenhar a lâmina). Os
cachorros não fazem xixi no vaso mas os das historinhas sim.

Este material é caracterizado por respostas muito pobres e, portanto, há necessidade de intcrro·
gar bastante. O inquérito foi feito ã continuação de cada lãmina por tratar-se de uma menina pequena. É
comum que esqueçam o que disseram e digam outra coisa que. embora equivalente. complica a tarefa de
interpretação do teste. É uma menina bastante reticente mas, responde bem. Os finais são convencionais
(foram dormir). mas alguns são significativos: na Vos pais vão embora deixando seus filhin hos: na VII o
tigre come o macaco: na IX o coelho doente fica curado e na X o fil ho pede à mãe que o faça fazer xixi no
vaso, ou seja, como os adultos. Ela diz isso enquanto bota a lingua e chupa um lápis. Ou seja. alterna
reações mais maduras com outras mais regressivas. Consegue visualir.ar o ltiângulo mamãe-papai-filho
na li mas evita o conílito: na Vos pais vão para longe e na VI omite o fllho e a sua imagem é percebida como
a mamãe vigilante e o casal que está dentro da toca é visto como uma única pessoa (o pai).
AVIII mostra uma situação familiar confusa na qual não se entende muito bem quem é quem.
Também chama a atenção que na IV veja a mamãe canguru passeando com o filho no vclocipcde
mas não mencione o bebê, o que nos leva a pensar que rejeita a idéia de ter irmãos. gesto de rejeição que
já apareceu na primeira lâmina na que aparecem três irmãozinhos.
Deixemos agora o C.A.T. e vejamos o Horschach desta menina.

Lâminal:5" Uma borboleta que estava voando. Que linha pontinhos.


Lâmina li: 1O" Acho que não sei o que tem ai. Não sei o que é. Não sei o que é.
Lâmina Ili: Também não sei o que é.
Lâmina IV: Esse também não sei. 10". Acho que é como uma planta. Uma margarida. Tem no meu
jardim.
LâminaV:5" Isto é uma borboleta.
LáminaVI: Isto mio sei. 1O". Parece uma girafa.
Lâmina VII: Isto não sei. 1O" Parece uma casinha, o telhado (aponta o espaço cm branco).
Lâmina VIII: Aqui tem dois csquilinhos e uma borboleta.
Ps icodiag n óstico Clín ico 155

Lâmina IX: lslo não sei. Esponlaneamenle a inverle. 10" Acho que é uma borboleta. (Qual é a cabe-
ça?] (Aponta o rosa no centro)
Lâmina X: Isto não sei. 10" Aranhas (as azuis populares). Uma tesoura (verde no centro, parle
inferior)
A mais bonita? Gosto deste laço (na III)
Gosto disto (aponta o centro da 1) Aborboleta? Sim. Das outras todas não gosto.

Tentaremos estabelecer uma correlação entre o C.A.T. e o Rorschach desta menina, como faze-
mos ao realizar o psicodiagnóstico.
Geralmente é muito simples tabular o Rorschach de crianças pequenas. Com freqüência elas dão
só uma resposta por lâmina e os determinantes são poucos.
Esta menina dedicou 8' como tempo total e deu 11 respostas.

1-5"- il)W FM A p borboleta


FC" pontinhos
II-Fracasso Choque com vermelho
Ao casal
111-10"- i2)D F Obj. p laço
IV-10"- i3)W F:t: PI margarida Auto-referência
V-5"- i4)W F A p borboleta
Vl-10"- i5)W F:t: A girafa
Vll-10"- i6JWS F:t: Arq. casinha
Vlll-5"- i7)D F A -) p esquilinhos
8JD F A borboleta
IX-10"- l 9)0 FC A borboleta
X- 10"- i IO)D F A p aranhas
II)D F Obj. tesoura

A primeira resposta é excelenle, popular e com movimento. Acrescenta o detalhe de FC" (cor
acromática) que tem relação com dificuldades para a adaptação emocional.
Em quase todas a primeira reação é de choque com exceção da segunda na qual o fracasso
permanece. Nas restantes este parece ser conseqüência da sua auto-exigência por não conseguir captar
instantaneamente o significado da lâmina, ou do que ela trata. Penso que na segunda o que a impressio-
nou foi a possibilidade de perceber uma dupla (palhaços, ursos, cachorros, etc.) num enfre ntamento
violento (o vermelho) e algo semelhante ocorreu na III. Na sua idade é muito comum que vejam dois
animais onde os adultos vêem figuras humanas.
No entanto, conseguiu fazê-lo na VIII (dois esquilinhos) porque morfologicamente não possuem a
conotação humana das figuras li e Ili.

Revela uma boa estrutura de base, bom nivel formal (F%). alto A% como é devido, com inclusão
de outros conteúdos que emiquccem o protocolo. É significativa a resposta à lâmina VII (feminina) porque
o pai é arquiteto e porque o símbolo femini no é uma casa cujo telhado está faltando; ela aponta a parte
branca quando menciona o telhado. Ou seja, um continente que não protege e que lhe provoca rejeição.
Essa é a única resposta ele espaço em branco.
De qualquer forma é um protocolo normal, apesar de mostrar a sua auto-exigência e o conílito
com o casal parental.
Isso é o que podemos correlacionar com o C.A.T.: o pai e a mãe não aparecem nem num verdadei-
ro conílito (li) nem cm atitudes carinhosas.

1-listória:Os pais consultaram porque ela fazia xixi na cama (às vezes também durante o dia). Conseguiu
controlar mas começou novamente quando a mãe engravidou de s ua irmãzinha mais moça que estava
com oito meses no momento ela consulta. A professora notava-a muito ansiosa e com dificuldades para
concentrar-se. Custa a pegar no sono à noite: está sempre inquieta.
Sem dúvida essa menina não aceitou o nascimento da irmãzinha. mas é muito provável que isso
seja devido a uma atitude da mãe, que chegou a contar que tem um irmão excepcional e que não fez
nenhum estudo genético durante as gestações mesmo estando muito ansiosa. A menina pergunta tudo,
mas nunca se refere a esse tio com quem às vezes compartilha as refeições. Amãe fica impressionada ao
vê-lo (olhos estrábicos. gordo, pernas tortas] e o descreve como "um móvel". Aprimeira coisa que a menina
fez quando chegou para a primeira hora de jogo com a sua mãe foi perguntar: Oque tem dentro do guarda-
roupa?, referindo-se ao armário do consultório.
A menina teve alguns episódios de bronquite espasmódica. A mãe relata que teve bronquite
asmática quando era pequena c também durante a gravidez dessa menina, precisando fazer nebulizações
156 García Arzeno

principalmente durante o quarto e o quinto mês da gestação. Poderíamos concluir que trata-se de uma
menina muito sensível que registra os sentimentos da mãe como se ainda estivesse unida a ela pelo cordão
umbilical (nunca conseguiu ficar sozinha durante as cinco entrevistas). Amãe, por sua vez, também não
consegue passar-lhe uma sensação de tranqüilidade nem favorecer o seu desenvolvimento pois hã um fato
familiar que não foi esclarecido. Para ela seu irmão nasceu assim porque a sua própria mãe tomou um
banho muito quente quando eslava grávida desse irmão, que nasceu prematuro. Outra versão é que ele
leve um rcsf1iado muito forte quando pequeno e tomou uma dose muito alta de penicilina. Averdade é que
ninguém fala nesse tio e lodos vivem num clima de tensão que obviamente acaba refletido na menina.
Foi aconselhada uma terapia para o casaljá que o marido lentava cm vão apoiar e tranqüilizar a
sua mulher e o laço afetivo estava fragilizado; ludo isso refletia-se na menina. que. por sua vez, dava sinais
de querer saber a verdade oculta e de querer crescer (C.A.T.-10).

Vejamos agora o caso de uma menina de 9 anos e meio.

C.A.T.
Lâmina!: Aqui tem passarinhos que estão lo mando sopa e uma galinha grande que também quer
comer.
Inquérito: (Antes?) brincavam no quarto.
(Final?l Colorin. colorado*.
Lâmina li: Três ursos esquiando na neve e o maior ia cair (o da clircitajunlo ao pcqucninho). Não.
estavam brincando. Brincavam ele que o que caissc levava a corda para a casa. Ganha-
ram estes dois (os grandes) o pequeninho perdeu.
Inquérito: (0 que eles eram entre eles?) Este (o que está só) é o avó destes dois, não deste
(o mcnorlinho) e este é o tio (o da esquerda).
Lâmina Ili: Tinha um vovozinho leão. um tigre. não. um leão. que era muito velhinho e linha uma
bengala; fumava cachimbo e eslava assistindo TV. Nada mais.
Inquérito: (Antes?) tomava banho (Final?) Não.
Lc"unina IV: Que aqui linha um burro com dois, um galinho e um cachorrinho que ia de bicicleta e o
bun-o linha flores na cabeça. Nada mais.
Inquérito. (Onde iam?) Viajando para Baiiloche.
(O que eram entre eles?) eram irmãos. O bun-o era o pai dos dois. os dois eram irmãos.
Lámina V: Aqui linha uma, duas, uma cama dos pais e um bercinho do bebé pcqueninho. Era de
noite e foram para uma festa e embaixo das cobertas estavam os tios cuidando. viu?.
para que ninguém visse o bercinho, vigilantes. Os pais tinham saido com as crianças.
Tinha dois policiais. Tinham se enfiado nessa cama. As pessoas os chamaram para que
se escondessem e se viesse alguém o pegavam. Depois vieram e não tinham roubado
nada.
Lâmi na VI: Um urso grande, o papai urso e o urso pcqucninho numa chácara que estavam fazendo
um piquenique. Vieram pessoas e pegaram no sono.
Inquérito: (Quem você vê na lâmina?) o papai e o ursinho.
Lâmina VII: Tem um macaco com um tigre selvagem que queria comer o macaco que grilava: Socon-o!
e caiu dali e ia ser comido pelo leão, pelo tigre; o tigre, não, o leão. E o macaco caiu da
árvore e começou a grilar: Socorro! para que o tigre não o mordesse; porque o tigre ia
mordê-lo e caiu da árvore cio susto e o comeu e nada mais.
Lâmina VIII: Tinha duas macacas e dois macaquinhos. Uma macaca dizia segredos ao macaco e a
macaca dizia ao macaquinho: Filhinho- disse para ele ir para a cama. Estavam senta-
dos no sofá, linha uma festa ... com brincos... e a mamãe disse ao macaquinho que fosse
dormir e ficaram falando entre eles três. Disseram que não linha mais gente. que não
sabiam quem mais podiam convidar. Depois não sei o que mais.
Lâmina IX: Um menininho eslava dormindo numa caminha pequcninha. Eslava no quarto dele sozi-
nho com um boneco com a porta aberta. Dormia tranqüilo. O quarto dos pais era ao
lado. Como estavam longe os pais diziam ao menino que viesse. O menino dormindo não
escutava. Os pais foram buscá-lo e não o encontraram porque o boneco caiu em cima
dele, do rosto. Abriram os lençóis e o encontraram e não sei o que mais contar.
Lâmina X: Que tinha um papai com um cachon-inho no banheiro e o cachorrinho ia entrar aqui na
pia e o pai o pegou no colo porque não queria que ele entrasse. Disse que ia subir aqui (no
colo) daqui até aqui (aponta o vaso). Caiu. O pai disse que ele linha que descer. Quando
caiu machucou uma pala. Disse que não ia fazer mais nada e rasgou a toalha. Saiu para

Colorin. colorado é o fecho clássico das histórias infantis cm espanhol. (N. da T.)
Psícodíagnóstico Clínico 157

a rua. O procuraram. Uma senhor o roubou. O pai saiu. O senhor também o roubou
[sinto que está me envolvendo num relato confuso) mas apareceu a policia. O filhinhojá
foi curado. já foram para o hospital. Para o veterinário.

Aaplicação deste leste levou 15 minutos. Ela disse que gostou mais da ultima lá mina e menos da
primeira.

Gostaria de transcrever o Desiderativo desta menina para correlacioná-lo com o C.A.T.

Dcsidcralivo
l+ Uma senhora(?) não sei porque ... e... para ter filhos.
l+ Um passarinho porque gosto de voar (Qual?) um que seja bonito. Amarelo (Você conhece um
assim?) Muitos, na rua.
l '- Um cachorro. não sei por quê (Como qual?) o da minha avó. (Como é?) Pcqucninho prelo. O nome
é Samanla, é bonita e boazinha.
2+ Um boneco, um boneco, sim. Mas tem que ser grande e que não me joguem fora. que não me
façam coisas. (Por que gostaria de ser um boneco?] não sei, cu digo coisas porque gosto delas.
(Ser ou ler?) Ser e ler. (Você tem um assim?) Tenho dois. Um é ele Paris, Gcraldinc. O meu pai
também não se lembra. E outro que ê muito pequeninho. (Em qual deles você estava pensando
quando respondeu?) Na pequeninha. se essa pcqucninha fosse grande... e também quero uma
que tem a minha pequena, com cabelo louro, vestido vermelho e um ramalhete de flores na mão.
3+ Uma rosa porque é bonita. (Cor?] Rosa.
1- Um tigre e um leão porque são feios e bravos. (O que fazem?] Arranham e mordem.
2- (Pensa muito) o piso porque me pisam.
3- Essas plantas que são assim, têm na casa da minha avó, na fáb1ica, são feias. fincudas. não dão
ílorcs.

Interpretação do C.A. T
I. "Passa1i nhos· é um desvio da resposta popular. Essa falta de correlação direta entre passarinhos
e galinha mesmo não caindo dentro das distorções mais patológicas como poderia ser "passari-
nhos e uma girafa" indica, pelo menos. uma relação materno-filial não muito boa. Além do mais
a galinha "também quer comer" ou seja, está no mesmo nivel ele demanda que aqueles que
clcvc1iam ser os seus filhos . O final é convencional e cvilativo.
li. Parle ela base ele três iguais numa situação esportiva (desvio ela resposta popular) mas o final é
adequado: alguém vai cair. Logo após nega a situação ele risco; é um jogo e inclusive o que cai
recebe um premio pois fica com a corda. Finalmente o trio fica formado por um avó e seu neto
versus um tio do mcnorLinho. Ou seja, os pais desapareceram para evitar o conflito implicito na
lâmina.
No inicio ela disse que ia cair o que eslava junto do pcqueninho que depois acaba sendo o tio.
substituto evidente do pai. Assim, ela ataca tanto a figura materna que não aparece, como a
paterna que é a que cai.
lll. Afigura masculina de autoridade aparece diminuida tanto por ser um "vovozinho leão" quanto
por reforçar a idéia dizendo "era muito velhinho e usava uma bengala". Evita lodo confli to tanto
pela omissão do ralo que aparece da toca quanto pela inatividade cio leão.
IV. Reaparecem as diferenças elas espécies (burro, galinho) para mostrar as clifkukladcs que existem
nos vinculos dessa familia. Além do mais a mãe canguru da resposta popular é visuali7Â'1da como
um burro com flores na cabeça. Não signiflca falta de conhecimentos; penso que é mais provável
que a escolha de um "burro" seja o disfarce ele uma atitude de despeito cm relação à mãe. Isso é
reforçado quando coloca o pai como o que vai passear com seus filhos e não a mãe como na
resposta popular. Ataca também. por deslocamento. o pai. descrevendo-o como "burro·.
V. Esta histó1ia é lrcmcndamenlc confusa, produto ele ler visualizado perfeitamente a cama na qual
os pais dormem e o bercinho. Mas vê um unico bebê como se quisesse eliminar o irmão ou
evitando suspeitas sobre os jogos sexuais entre ambos. Os pais são "enviados· a uma festa e
subsliluidos primeiro pelos tios, depois por policiais que vigiam para que ninguém entre para
roubar. Podemos pensar que esta menina está muito ciumenta cm relação à "festa" que papai e
mamãe podem ler sob as cobertas, os manda para longe e desejaria roubar-lhes o lugar para seu
próprio prazer. É por isso que no inicio ela tem duvidas sobre o numero de camas, se são duas ou
só uma.
VI. Dentro de um clima maniaco de piquenique a mãe fica excluida, e a história tipo resposta popu-
lar do ursinho que. como terceiro excluiclo, espia os pais dormindo.
Vil. Aqui aparece o que foi negado na lâmina elo leão. por isso ela tem um lapso (o tigre. não o leão).
O macaco não pode se defender. Ou seja. se responder ele acordo com a sua identidade infan til
158 García Arzeno

senlir-se-ã muilo exposta evulnerãvcl, além de desprotegida: ni nguém responde a lanlos pedi-
dos de socorro.
VIII. Duas macacas e dois macaquinhos equilibram a situação de três adultos e uma criança. Final-
mente reconhece o "macaquinho" cuja mamãe manda dormir como se quisesse se ver livre dele.
Afesta parece ser a dos três adultos que "falaram entre eles três".
IX. Ahistória começa conforme a resposta popular mas logo aparecem os desvios: são os pais que
chamam o filho cm vez de ser o coelho assustado que o faz. São os pais que abrem os lençóis com
a desculpa de procurar o filho.
Aqui voltam a aparecer mecanismos maníacos de inverter as situações e projetar nos adultos
sentimentos, desejos e conflitos infantis.
X. Novamente começa visualizando conforme a resposta popular mas desvia-se para um relato
confuso no qual aparecem tanto os seu desejo de atacar o pai (é scqücslrado) quanto o de colocar
que o seu verdadeiro sentimento de dor (pala quebrada) estã ligado ã sua vontade de permanecer
no colo do pai, que aparece exigindo ·que ela desça·. A dor da frustração dos seus desejos
incestuosos cm relação ao pai seria o motivo da sua busca de cura.

No Desideratioo: Ela deseja mais do que nada ser "uma senhora· ... ·para ter filhos·. Jã que não
pode sê-lo agora então desejaria ser... Dã mui las voltas como se quisesse levar-nos a pensar que dã uma
resposta, mas, na verdade, são rodeios para chegar à mesma conclusão na segunda resposta: cm vez de
ser pequeninha quero ser grande, loura (ela é], com um vestido vermelho (atrativos sexuais) e um ramalhe-
te de flores na mão como sinal da mulher que espera o marido. A terceira combina com a segunda.
Nas negativas aparece toda a sua agressão reprimida, a sua recusa a ser pcqucninha sentida
como uma situação humilhante e o medo do fracasso da sua feminilidade, transformando-se em uma
mulher ressentida, "fincuda" e estéril.

Hislória:Tem um irmãozinho de dois anos. Desde que ele nasceu começou a ter desvios nos olhos. Agora
os pais foram chamados ao colégio porque ela cstà muito rebelde, não reconhece autoridades e não obede-
ce ãs professoras. Ao mesmo tempo comporta-se como uma "bebezona·. Começou a falar bem com um
ano e meio. Antes de fazer um ano jã caminhava. No colégio, se ela não abre um livro os outros vinlc
também não o fazem. Os pais a castigam proibindo-a de sair. O pai diz que ela é muito vaidosa, que é uma
graçinha. Diz que ela sofreu imensamente quando começou a perder os dentes. A mãe acrescenta que ela
diz coisas lógicas ·que cu não posso dizer·. Quer trabalhar na TV e quando vê a atuação de Andrca dei
Boca (nessa época era uma menininha) fica desesperada. Tem namorados e namoradas. A mãe diz que
esterilizava as mamadeiras antes de preparà-las para ela. Só a amamentou durante um mês porque não
gostava de fazê-lo. Amenina passeia com o pai e acaricia o cachorro. Não pode fazê-lo com a mãe porque
ela tem medo de cachorros. Com o pai atravessa a rua perfeitamente. Com a mãe lcm dificuldade, ela
precisa estar ao seu lado e pegá-la pela mão. A menina pergunta: "Mamãe, por que lcns medo de ludo?"
Na sua aparência havia um contraste chocante entre a primeira apresentação tipo "vcdctc· com
boina, manlõ e luvas (que demorou muilo a lirar enquanto me olhava sorridente e quase fazendo pose) e
a voz de bebê que u~ou ao falar comigo. Quando o pai chegou para a primeira cnlrcvisla mostrou-me uma
folo dela dizendo: "E uma Raquel Wclch". Na primeira entrevista a menina chegou radiante acompanhada
pelo pai. Na segunda fallou. Depois fiquei sabendo que como a mãe não poderia lrazê-la. mandou-a com
uma amiga mas deu-lhes o endereço errado. Quando pedi a ela que desenhasse a familia desenhou duas
figuras masculinas e duas femininas idênticas, o que confirmou a sua tremenda rivalidade com a mãe.
quem, além do mais, ainda não a aceitava. É evidente que essa menina lenta se auto-afirmar através da
rebeldia apoiada pelo pai que a ama com um amor que vai além de um amor paterno (Raquel Welch) e
exacerba os ciúmes da mãe em relação a ela.
Amãe reconhece que a filha não a suporta e volta-se lotalmenle para o filho. O pai acrescentou
que as diferenças no tratamento dado pela mãe aos dois filhos são lão evidentes e grosseiras que a menina
percebe. Todos os traços histéricos da sua personalidade são explicados pela necessidade de conquistar o
pai e assim compensar a rejeição da mãe. Jã que não conseguiu conquistar o amor da mãe. deseja. ao
menos, conquistar o do pai. Mas, mesmo que esse desejo hislérico seja satisfeito porque o pai também se
senle deslocado por seu filho e "jogado" nos braços da sua filha, ficarã sempre subjacente o scnlimcnlo
depressivo de não ler lido um peilo que a aceitasse e amasse. Talvez por isso lenha dilo que linha namo-
rados e... namoradas. Por isso no C.A.T. apareceram confusões de identidades e papéis. Por isso, lambém
no Desideralivo aparece. cm primeiro lugar. a supcradaplação e adullificação como se estivesse nos avi-
sando que casarã prccoccmenlc para fugir dessa siluação e ao mesmo lcmpo para "alcançar· a mãe. É
compreensível que essa menina desloque a sua agressividade para lodas as autoridades femininas da
escola que além do mais a repreendem, mas não deLxam de goslar dela por isso.
Psicodiagnóstico Cl ínico 159

O caso seguinte é o de um menino de 7 anos e meio

C.A.T.
Lâmina!: Uma galinha? Aapagaram? (As lãminas são assim.)
Uma vez, uma girafa. não sei o que são, um urso. o urso toma a sopa? Ursos os três,
pãssaros, não. um pãssaro (aponta o da direita) e dois ursos (os outros dois pintinhos)
que uma vez tinha dois ursos e um passarinho e uma vez o passarinho fugiu e depois que
fugiu foi voar pelas estrelas (ri} e voltou e depois se encontraram. Bateu na porta uma
galinha e depois entrou e o ursinho a apontou com a colher e pararam de tomar a sopa.
Você escreve tudo isso que eu estou ditando? Depois tomaram a sopa e foram passear os
quatro juntos. Quiseram ir para casa. Foram e se chateavam muito em casa. Quiseram ir
cortar o cabelo e depois foram e disseram que lhes deram licença e colorin colorado este
conto estã acabado.
Lâmina li: (Ri) Era uma vez três ursos que estavam brigando. Dois com uma corda, dois com um
grandão, com um pequeninho. dois com um pequenocjã cstã sobre a terra (como conti-
nua?) ... (Me dã um ponta pê ·sem querer· por baixo da escrivaninha.) Eram amigos estes
dois; este estava bravo (o que estã só) com este (o maior que cstã com o pequeninho).
Puxaram a corda para dizer-lhe que vã por ali (esquerda) Dois contra um pequeninho.
este é pequeno (o que estã só) menor que este (o maior que cstã com o pequeno).
Lâmina III: Era uma vez um leão que estava sentado com barba, com rabo, com uma bengala, com
ílorcs no chão, com um, dois, três, quatro dedos, e... estava a Mafalda (aponta o ratinho:
é uma percepção original muito bem vista). Com muitos raios (Quais?) isto redondo
(aponta vagamente para o piso). Acabou. (Como estava se sentindo o leão?) Estava cho-
rando, triste, porque a mamãe foi embora. (O quê havia acontecido antes?) Ontem aca-
bou a história. (Como acaba?) Chorou. (Joga a lâmina ao chão).
Lâmina IV: Uma bolsa e um senhor. Tinha um vclocipcdc que cm cima um urso. três ursos (fala
agitadamcntc) um caminhava, andava no velocípede: outro levava um balão e o maior
um patinho, um chapéu, o nariz (ri) um broche. um cesto e uma bolsa e um estava
machucado, que também era levado pelo urso grandão e tinha árvores, nuvens e o velo-
cípede linha duas rodas. (Qual eslava machucado?) ... (aponta para o menor) (Onde?) na
perna (aponta a perna do canguru do velocípede) é do pcqucninho (Qual?) do grande, não
vê? e a do pequenininho estava para trãs porque o estavam levando para que fosse cura-
do e um carro o atropelou e colorin colorado este conto eslã acabado. (Desisto de inter-
rogar mais).
Lâmina V: Que fãcil! Era uma vez um abajur em cima de uma mesa com uma janela, com uma cama
de casal. com um bercinho, com uma bolsa. com um piso, com cinco listras, com as
paredes forradas .. . (Não tem ninguém?) com dois ursinhos e uma escada (aponta para o
tapete) ... (O que acontecia?) Tinha uma cama ... Uma vez um abajur, um senhor que
eslava dormindo na cama apagou a luz para dom1ir e dcLxou os dois ursinhos pequcninhos
na cama. no bcrcínho. Subiram pela escada para o bcrcinho e colorin colorado .. .
Lâmina VI: Tinha duas azeitonas. Tinha dois ursos que se chamavam Leopardo e outro se chamava
Gustavo, outro Marisa, e o mais e estavam dentro de uma jaula dormindo um só e
colorin colorado...
(Quantos ursos estãs vendo na lâmina?) Três. não, dois. não Gustavo não, apague; um
começava com ·o-, não com "J" (observa algo na parte inferior. ã direita) ... (Qual é a
jaula?) ... (Aponta a toca) ejá deu, colorin ...
Lâmina VII: Estou com medo. Tem espinhos, me finquei (está apontando para o macaco). É um
macaco. Era uma vez um tigre: colorin, colorado... Um tigre e um senhor então o tigre
queria pegar o senhor, o senhor fincava o tigre não sabia, foi correndo, pulou, água. para
a outra pedra. Quis pegar o rabo e pegou a pedra. Tinha filas (os cipós) galhos, pedras.
rochas. ei ... (O que foi?) Digo mais? O macaco tinha muitos espinhos e o leão queria tirar
e como não conseguia o mordeu e eslava mordendo, fincou o rabo com as unhas. (Como
acaba?) Acaba que colorin, colorado ...
Lâmina VIII: São macacos de verdade? Quatro macacos. Os quatro estavam sentados e um estava na
foto. Um se chamava Dop (aponta a parte inferior) outro lcs e outro loplico ... então este
apontava para o outro macaco (o menor) o outro macaco apontava o outro (repele). Então
todos sentaram, quero dizer, deitaram para dormir. No dia seguinte me deram outra
cartolina.
Lâmina IX: Como é esta? (Ele mudou a posição e a inverteu) Não entendo nada... Bem, coelho mau,
a porta. Tinha um coelho e tinha uma porta ao contrário é o coelho, sempre a abria do
lado contrário. direito, e estavam dormindo. Nunca conseguia abrir a porta e começou a
chorar. Então tinha um tronco (a cortina) espelho, uma, duas, três, quatro, cinco, seis,
160 García Arzeno

sele janelinhas e o coelhinho se chamava (se aproxima para olhar) Rosa e sempre os pais.
a mamãe gostavam dele porque gostavam da ílor rosa. O papai caiu na cama do coelho e
quebrou a cama e no dia seguinte quis, quiseram arrumar a cama mas caiu de novo.
Mandaram arrumar a cama e o coitado do ursinho ficou sozinho com o papai na cama
dele. O papai não deixava ele ficar. Mandaram arrumar o bcrcinho e leve que dormir no
chão. Com a chave bateram. Não podia abrir a porta. Bateram e colorin ...
Lâmina X: Tinha ... Tudo é de ursos? dois cachorros e foram fazer xixi (me dá um pontapé) é o seu
pé? a varandinha (não sei o que é) (O que acontece ai?) e depois um estava sentado no
banquinho, o outro estava com sede, foi fazer xixi e depois foi tomar água e depois
limpou a boca com a toalha. depois pendurou a toalha e caiu o cabide. Depois o outro fez
xixi. Limpou a boca. Quis tomar água. Teve que arrumar isso. quando veio o papai
pendurou a toalha. Caiu. "Não fui cu. não fu i eu". O papai bateu nele e nos dois . (0 que
eram?)Amigos, um tinha 100 anos e o outro tinha quatro, não. dois. Esse ursinho depois
sentou no vaso e caiu para baixo: fechou a tampa e caiu para baixo. Caiu ... tampa. as
duas borrachinhas se estragaram e colorin ....

Este menino desenhava casas de cujas chaminés saia uma gigantesca e desproporcionada colu-
na de fumaça muito escura tanto no HTP quanto no HTP cromático.
No Dcsidcralivo disse que gostaria de ser sempre um nenê mas também:

1+ Uma girafa, tem manchas e olhos azuizinhos como cu.


l '+ Um peixinho, uma jibóia, são bonitos. as manchinhas, alguns são pequenos e alguns são gran-
des: os que comem mais crescem mais.
2+ Uma rosa porque são bonitas e gosto da cor.
l "+ Uma tartaruga porque são bonitas. boas e uma amiga da minha irmã e minha tem uma.
Acatcxia dos inanimados precisou ser induzida.
3+ O sol porque queima(?) assim fico preto como minha mãe(?) então cu não me queimo (por que
gostaria de ser o sol?) porque é bonito.
1- Uma planta. todas as que cu não gosto estão aqui: a violeta, são feias. são como as folhas, são
feias.
2- Hipopótamo. o porco porque eu não sou um porco e porque é nojento, é feio; ninguém gosta de
ser porco.
l '- Uma árvore(?) porque não gosto (?) porque espetam (Todas?) Sim, com a costa (?) crosta.
3- Piso porque todos me pisam.

No Desenho da F'amilia Cinética este menino desenhou primeiro o pai e a irmã sem diferenciação
Se>.'Ual e da mesma altura; depois a mãe cinco centímetros mais alta e finalmente a si mesmo da mesma
altura que os dois primeiros mas muito mais rudimentar. Ele é o único que não tem cabelo e o cabelo e o
corpo é igual nas outras três figuras. Adele é como a do pai e a das duas mulheres tem muitos botões. As
três figuras têm o pescoço muito sombreado e o da mãe se sobressai medindo quatro centímetros.
As chaminés das casas que ele desenha também estão fortemente sombreadas.

Interpretação:
O C.A.T. é um protocolo claramente psicótico por diversas razões:

!) A confusão constante da identidade dos animais. Por exemplo, na lãmina 1 percebe a


galinha mas a apaga e se transforma numa girafa. Os outros são três ursos ou três pássa-
ros. Depois. dois ursos e um pássaro. Isto é absolutamente ilógico já que a figura mostra
três seres semelhantes. Portanto a distorção obedece ao uso de uma lógica totalmente
autista.
2) Aincoerência elas histórias. Isso se repele em todas.
3) Adiílculcladc para compreender a orientação no que se refere a antes. agora e depois, o que
já deveria ser capaz de fazer na sua idade.
4) A magnitude das distorções pcrccptuais. Por exemplo. na lãmina VI começa dizendo "duas
azeitonas" ou a inversão da IX.
5) Aperda de consciência de interpretação quando na VI I diz: Me finquei , tem espinhos, estou
com medo. Nesse momento a percepção é delirante e sente que o macaco e o tigre se lançam
da lâmina cm direção a ele ferindo-o. Ou na lãmina VIII quando diz · no dia seguinte me
deram outra cartolina·.
61 O aparecimento ele neologismos como os nomes que inventa na VIII: Dop. lese loplico. etc.
Psico diagn óstico Clínico 161

7) Aincoerência das ações em relação aos personagens inventados: por exemplo. pãssaros ou
ursos que vão cortar o cabelo (lâmina I); ·o senhor fincava o tigre" na VII, quando na
realidade quem finca é o que tem garras e pode arranhar.
8) O aparecimento de um momento no qual a linguagem perde a sua qualidade simbólica
adquirindo a condição de algo concreto como na lâmina IXquando diz que o coelhinho se
chamava Rosa e os pais gostavam dele porque gostavam "da ílor rosa·.

No cnlanto, os lestes gráficos não poderiam ser qualificados de psicólicos. O Goodcnough (do
nível inlelcclual) e o WISC moslravam um resultado de nível médio. Mas há um dela lhe que indica que é
um nenê muito mais inteligente porém imbuído de outros problemas: é o do perceber o ratinho da lâmina
Ili como Mafalda.
No Dcsidcralivo são observadas dificu Idades para realizar o leste que já não deveriam aparecer
na sua idade. Alêm do mais "um peixinho" acaba sendo uma cobra "jibóia" e diz que "são bonitos" quando
qualquer criança sente medo de uma jibóia. Insiste no que é bonito e bom. Talvez o mais ilustrativo seja a
resposta 3+ na qual aparece uma atitude de submissão lotai â mãe. tão idealizada no Teste da Familia
Kinêlica e tão atacada nas lâminas do C.A.T.. e na 3- "piso porque lodos me pisam" na qual expressa
claramcnlc a sua recusa a essa condição de submissão.

//istória:cslc menino ê o irmãozinho da menina do exemplo anterior e foi trazido para consultar devido a
estar enfrentando sérias dificuldades no colégio.
O pai diz que tem problemas de expressão, que diz "começou" por exemplo. /\ mãe diz que tem
problemas para integrar as palavras. O pai diz que é compclilivo com a irmã "que é a menina dos meus
olhos".
O que podemos perceber neste material ê o preço que esse menino paga por ser o super-protegi-
do da mãe e rejeitado pelo pai que não o aceitou atê ele fazer seis meses.
Ele quer ser sempre um menino porque não está preparado para enfrentar o mundo sem a mãe.
que por sua vez transmite a ele todos os seus medos: ambos dormem com a luz acesa e têm medo de
cavalos e de cachorros.
Talvez o traço de maior lucidez do menino seja o que aparece na última calcxia do Desidcralivo.
quando coloca como cgodislónico o estado de submissão que implica não só submissão mas maus tratos.
O prognóstico ê muito negativo jâ que sem a ajuda de um lralamcnlo adequado e intensivo os
traços psicóticos do C./\.T. anunciam uma psicose clinica iminente. na medida cm que a rcalidaclc exigir
clelc uma autonomia cada vez maior. pensamento lógico, linguagem socializada, ele.
Está com quase oi lo anos e o seu diálogo na hora de jogo diagnóstica é o ele um menino de três
ou quatro. Por exemplo. como o jeito de falar comigo é o de um "bcbczão" digo, fazendo um comentário:
·você ê o mcnor1.inho da familia· e me responde: "Não. a mcnorlinha é a Marta·. Depois de um momento
de dúvida pergunto: ·você tem outra irmã?" Responde: "Não. Ela é minha prima; tem três anos".
Ele pede ludo conslanlcmcnlc para que cu poupe o seu trabalho de olhar. procurar. fazer força,
abrir ou fechar algo. São as funções desempenhadas pela mãe anulando as dele. Como cu não desempe-
nho esse papel. ele se vira sozinho e ao mesmo tempo diz: "não, se cu consigo abrir" referindo-se às caLxas
fechadas de massa de modelar. Isso indicaria um prognóstico mais favorável mas infelizmente a mãe não
coopera e essa simbiose com traços psicólicos pode tornar -se mais grave: ela escondeu durante anos o
conselho do colégio de fazer uma consulta. e na primeira hora o enviou com a lia sem nenhum motivo que
ojustificasse. como uma expressão e\rjdcnlc ela sua resistência à mudança cio seu filho já que isso exigiria
grandes mudanças nela também.

O caso seguinte é o de um menino de 6 anos e 3 meses.

C.A.T.
Lámina 1: Uma galinha ... pintinhos. O prato ela comida, a fruta (na travessa) e a sopa (nos pratos).
Estão fazendo bagunça. /\galinha cstâ cm pé cm cima da mesa (Por quê?) para fazer
bagunça. para tomar a sopa cio pinto (E os outros?) Estão mandando ele embora com a
col her. depois o outro pintinho diz que ele mande ela embora com a colher (Quem?) A
galinha. Isto ele disse para este (o da direita para o da esquerda) que bala nela. (O que
aconteceu antes?) Não acontece nada mais.
(Final?)/\ galinha ficou ali.
(Como se sentiram os pintinhos?) Porque vai tomar a sopa deles. Mostro outra? não. ah!
mas lenho que (conta-as) Tem dez.
Lámina li: Os ursos estão puxando com a corda até que descem ela montanha e depois se ... e
assopraram na orelha do outro. Depois o mais moço está dizendo ao outro, assoprou a
162 García Arzeno

orelha e depois diz: "Ah! porque você vai cair". Vamos ler todas as histórias? Depois um
estava quase caindo embaixo, estava descendo. Depois ficou sério com os olhos... (O que
são entre eles?) Irmãos. O mais moço assoprou no que estã sô. Ah! Vai cair. Vai cair.
Estava subindo pela corda. Não empurre. dizia o outro e depois o outro queria dar um
pontapé no outro. Brigaram com este (os dois maiores). Este eslava quase caindo: eslâ
voando em cima da terra e puxando uma corda. Jã fizemos duas.
Lâmina lll: É um leão. Estã sentado num banco ... e aqui vejo a loca do esquilo. Mordia os pés dele:
fazia cócegas e ele gritava com ela. Saiu da toca. O rato escondeu a bengala. "Minha
bengala. aonde estã?" e não se dã conta. "Vou malar esse rato!" Foi ver e não viu nada.
Comeu pão. Quebrava o pão e fugia do pão. [Penso que é como nos desenhos de Tom e
Jerry). Foi ver a toca e coçava a bunda dele. "Não vai conseguir me malar. coisa nenhu-
ma·. "Sim". "Não". "Sim" e veio de novo. Fumou o cachimbo, botou na boca de novo.
sujou o rosto dele e fugiu. [Se retorce como se estivesse se espreguiçando e fala errado:)
"Aqui cstã a minha bengala!" Pega, o empurra para jogá-lo da cadeira. Dai o rato foi com
a bengala para a toca e depois veio o ralo de novo, puxava pela juba e depois o leão estava
rugindo. Botou óculos nele.juba, roupa. tirou tudo ... e depois jogou tudo fora e tapou a
toca. O rato tirou e puxou a juba. o chapéu. o casco. O leão tapou o buraquinho e deu um
pontapé e quando veio o leão estava destapada. (Como acaba?) Mas não acabou. (Conti-
nuam brigando?) O rato ganhou.
Lâmina IV: Aqui vinham os coelhos com uma bicicleta e um chapéu botou com palha e depois o
outro vinha numa bicicleta pequeninha. Caíram n"ãgua com a bicicleta e saiam com
chapéus. bolsa e o outro pequeninho sobe a montanha com a bicicleta. O menorlinho
fazia cócegas no maior. na mamãe. Abicicleta estava enganchada, bateu numa árvore.
Pegaram e foram embora. "Estã ficando de noite·. "Não faz mal". O outro levava uma ílor
na mão. (Qual?). O menorlinho. (Refere-se ao balão). A mamãe tirou a ílor dele. O
menor1.inho tirou o chapéu dela. a cesta. O maior tirou tudo dele e foi embora com a
cesta. Vamos acabar ali. o que acha?
Lâmina V: E depois aqui cstã dormindo um bebê pequeno. não é? e depois subiu . Acendeu a luz e
olhou pela janelinha. Aqui acho que cstã ficando de noite. Se jogou na cama. A mamãe
não estava. Se enfiou na cama. A mamãe eslava na cozinha. O bebê quando a mãe
apagou a luz. a mamãe disse: "Vou sair de baixo da cama·. Saiu pela janelinha. Entrou.
Se enfiou na cama, apagou a luz. entrou o lobo pela janelinha. Deu um soco no filhinho ...
no trem. "Pare. pare·. Não está a máquina. É um vagão cheio de vacas. leões; o bebê
estava tranqüilo. Subiu no teto do trem e se jogou do teto do trem na cama. [Era um
sonho ou era verdade?) Não: estava sonhando. Não coelho. cangurus. [Nesta lâmina?)
Um canguru.
LãminaVl: Isto é um hipopótamo (aponta os dois ursos juntos) e isto é um urso. O urso vem incomo-
dar o hipopótamo. Vem comer um cachorro quente. Saiu os hipopótamos e não se dão
conta que está cm cima um urso comendo um cachorro quente. Bolou a cabeça para
baixo, para cima. para baixo. se sentou tranqüilo na cabeça e o hipopótamo disse: Au.
aul e depois humm. caiu a montanha. caiu n"ãgua.
Depois o urso fugiu e o urso encontrou seus filhinhos hipopótamos baixou a cabecinha
deles. o outro ... rr.. rr.. ro. tirou a cabecinha que estava pendurada, depois tirou o grande
que eslava pendurado e depois ninguém tirou o pequeno que estava pendurado.
Lâmina VII: E depois aqui tinha um tigre e depois dois macacos subiam nas árvores e depois o
macaco fugiu e depois os filhos tigres estão dormindo e outro atacando o macaco e não
conseguiu atacar porque subiu no macaco. humm. humm. macaco caiu cm cima dos
seus filhos tigres e depois o tigre se levantou. o tigre se soltou. um senhor estava atacan-
do o tigre. Atacava o tigre. mordia a barriga dele, arranhava, o tigre deixou o homem frito
e o macaco subiu com uma pedra, abriu a boquinha dele, a abriu, ficou todo o dia
segurando a barriguinha; a amarrou com a corrente; ficou deiladinho [Quem?) o tigre e o
macaco o queria, subiu cm cima das plantas e não conseguiu chegar nele.
Lâmina VIII: Depois a mamãe está tomando um cafezinho. O fil hinho. a mamãe. o papai, a vovozinha
na sua casa tomavam um chazinho fantasiados de gaúchos e depois quando chegava
para tomar um cafezinho sim dos macacos. humm, humm. um se pendurava em cima do
outro; depois se soltava e depois num banquinho para tomar um café (boceja). O pai
macaco disse: "Me deixe tomar café. porque se não vou dar um soco. Quer que eu dê o
soco? Vamos·. "Depois vamos passear·. O filho disse "Posso tomar café?". A mamãe
disse: "Não pode lomarum cafezinho". "Por quê?" "Toma água, você não pode tomar chã.
nem leite. nem café". Foi. tomou água e depois disse: "Me dá a faca para cortar pão?" e
cortou pão. Bolou os óculos e disse: Não fico tão bem. "Este é um macaco de verdade".
Psicodiagn6stico Clínico 163

disse olhando o quadro. Queria acariciá-lo. Todos caíram no chão, o outro saiu com o
cafezinho derramado. Secaram o piso. Disse: "Chega·.
LãminalX: Outra historinha. Aqui está dormindo um coelho, ho, ho, e depois aqui o coelho quando
ouviu o barulho da porta e quando subiu em cima da cama, humm. humm, depois
dormir, humm. humm. se encheu de água, foi embora correndo, disse para a minha
mamãe: ·se encheu de água a casal". "Olha" disse depois o coelho "Não faz mar. Humm,
humm. "Posso tomar café, não é? Bem, está bem. Não tome porque faz mar. "Bom, então
não tomo". ·oom". Tirou a máscara.
Lâmina X: Depois tinha dois cachorrinhos e um subiu, o maior para brincar de cavalinho. Corria,
corria, corria e caiu o cachorro e depois e depois disse: "Estou com vontade de fazer
xixi!". No banheiro, baixou a tampa apertou o botão. Foram brincar de cavalinho. "Vá
mais forte"disse: "Não, não posso!" Fugiu pela porta. "Volte para casa!" disse o grandão.
Fugiam pela grama e voltavam pela casa. humm. humm. Então disse o menor: '"Tínha-
mos que estragar o vaso". "Não, não vamos estragá-lo" (Por que tinham que estragar o
vaso?l Porque queria fazer xixi e o vaso não funcionava: ia cair toda a água nele e ia se
molhar: então disse "Não vamos estragar·. Um cachorro (boceja) colocou uma barba e
depois brincou mal e caiu do cavalinho onde brincava, humm, humm. Um cachorro era
o assento, um está caindo (Dá para ver ai?) está brincando no cavalinho. Aqui um , outro,
outro. outro, (aponta as diferentes partes do corpo de cada cachorro).
Diz que a lâmina que mais gostou foi a Vil, que não gostou nem um pouco da VI : que da
11 lambém não e das outras sim.

Aseguir desejo transcrever o Desideralioodcssc menino.

1+ Ur.1 senhor porque vou estudar com Nacho, porque vou comprar uma lancha.
1+ Um robot porque gosto, porque o meu irmão gosta de ser robot (E você?) porque o meu irmão
estava me dizendo, porque vai me meter numa armadilha. Não me mete nunca [Por que você
gostaria de ser um robol?) porque se não me mete na armadilha.
l '+ Lipi (?) um boneco, é muito grande.
2+ (Induzida) Um leão porque o meu irmão gosta de ser leão e diz para cu fazer isso. Eu não obedeço
e não faço porque cu gosto de ser leão (por quê?) porque vi um leão: era muito bonito, no
zoológico.
3+ Rosa. minha mãe gosta de rosa, cu gosto de rosa(?) não, não gosto, gosto de ser leão. rosa não.
A margarida(?) porque a minha mãe gosta de ser rosa e cu gosto de ser margarida.
1- Acobra(?) porque senão vão cortar a cabeça dela, vão cortá-la pela metade.
l '- Um dragão(?) porque me ... nunca vi um (Nem em desenhos?) numa revista. Eslava fazendo fogo
(o que faz o dragão?) me bola a língua vermelha e tem fogo. fujo. porque é um animal muito feio
que brinca com o rabo.
2- Um tronco(?) porque o meu irmão não gosta e cu não gosto porque senão veneno (Como?l sim
com veneno, os que têm veneno.
l "- Galinha, pintinho ou planta (Sim ou não?) não.
3- Faltam os móveis. Amesa(?) porque senão ficam cm pé cm cima da mesa, pegavam pirulitos do
bolo e se escondiam para comer.

É interessante também transcrever o Rorschach desse menino já que foi decisivo para o diagnós-
lico.

Rorschach
Lâmina 15": Uma mancha grande, tinta que caiu, querosene. Unta. carvão que caiu e também alguma
coisa preta.
(Faz a lãmina girar várias vezes) Alguma areia, terra. fumaça.
Lâmina 115": Poderia ser tinta vermelha e outra tinta preta que caiu de enfeite (deixa-a na posição A)
ou tinta. assim querosene, carvão (O que parece mais?) como se fosse uma mancha no
chão.
Lâmina lll 5": Aqui caiu um vidro de areia (loca o vermelho) uma flor úmida, uma rosa (loca o cinza) ...
pode ser alguma coisa vermelha (Me olha com olhar muito assustado). Barro que joga-
ram (o cinzai. Pode ser querosene.
Lâmina IV 5": Isto poderia ser querosene ou alguma outra coisa manchada de preto. tinta que pintaram
as paredes (olha cm volta) que puseram no piso que mancharam tudo.
Lâmina V 5": Poderia ser coisas de (olha cm volla) aquecedores (tem um ã vista) que se colocam. (Achas
que esta figura parece um aquecedor?) Alguma coisa que queriam desenhar (O quê?)
164 García Arzeno

uma borboleta nas paredes. Sim. essa é a borboleta que desenharam; tinta preta que as
c1iança podiam pintar um desenho. querosene.
Lá mina VI 5": Alguma coisa queimada. alguma coisa manchada. Alguma coisa queimada, alguma coisa
manchada ou alguma coisa que pintaram: que caiu; uns enfeites. Colocaram tinta numa
folha toda horrorosa e colocaram nas paredes (olha as parceles) e depois a queimaram
toda. Queimaram ou pintaram as paredes.
Llmina VII 5": Isto é alguma coisa meio branca meio preta. alguma coisa meio branca. meio preta. (0
que poderia ser?) Alguma coisa que pintaram branco e preto e também tudo de branco
pintaram as paredes e depois pintaram de preto.
Llmina VIII 5": Isto pode ser pintaram preto, branco. vermelho, amarelo e aqui dois ratos, alguma coisa
manchada que vieram ratos, formigas. estão trepadas, preto e branco (aponta área cinza
do centro. parte superior). Os ralos querem chupar o branco a tinta. Alguma coisa que
caiu ele cor preta, massa de modelar de todas as cores.
Lámina IX 5": Aqui está manchado ele cor azul claro. laranja e vermelho, tinta prcla, queimada, baratas
(mostra o laranja) e tinta que puseram e depois vieram as baratas.
Lámina X 5": ... e aqui as cores azul claro, amarelo, meio preto, meio vermelho, vereie, meio claro e
aqui uma aranha (popular) e uma nuvem (aranha à direita, nuvem a mesma mancha à
esquerda) eslava toda manchada. também de cor preta. vermelho, amarelo, meio claro.
azul claro, vereie, meio verde.
Diz que gostou mais da X e menos da IX.

Os testes gráficos mostraram uma grande instabilidade emocional e pobreza geral. OGooclcnough
indicou uma lclaclc mental ele 6 anos e 9 meses. O WISC deu como resultado um Q.1. ele 90 pontos. jã que
na escala verbal a sua pontuação foi muito baixa: informação mínima, ainda sem pensamento pré-lógico
mas mágico. procura diferenças quando pergunto por semelhanças, cm aritmética perde-se facilmente e
não consegue usar um mínimo ele lógica (Por exemplo: Quanto é 12 menos 4? 12.)
No C.A.T. registramos um protocolo francamente psicótico devido a:
1) pensamento confusional. Incapacidade ele manter uma lógica minima;
2) não existe imagem disc1iminada de pai-mãe-filho, mas o psicótico estaria na incongruência
cio pai hipopótamo com filhos ursos;
3) o relato ele ações muito sádicas com um tom ele tranqüilidade e uso de diminutivos. Por
exemplo. quando na lâmina VI diz: 'Tirou a cabecinha cio oulro que eslava pendurada" com
o mesmo tom que diria "fez um carinho na cabecinha". Isso também ocorre na lâmina VII
quando diz "abriu a boquinha, ficou lodo o dia segurando a barriguinha. a ama1Tou com
uma corrente. ficou dcitadinho" ...
No Dcsidcrativo reitera-se o confusional. as sérias dificuldades para realizar o teste. as confusões
da sua identidade com a ela mãe e os outros em geral, as dificuldades para responder às perguntas sobre
as razões de cada escolha e a grosseira incoerência cm geral.
Disse antes que o Rorschach era decisivo neste diagnóstico. O C.A.T. oferecia-lhe a oportunidade
ele "sairpcla tangente". Além cio mais parecia assustado quando olhava algumas figuras. Sendo o Rorschach
tão clcseslruluraclo e não pedindo nenhuma história. seu resultado era importante. Realmente. trata-se de
um protocolo no qual aparece uma síndrome de ansiedade aguda: choque ao cinza. ao branco. ao prelo, ao
vermelho e as outras cores. Este estado ele angústia intensa impede-o de estruturar respostas. É reiterativo
com a resposta de manchas de alguma coisa o que indica o seu estado confusional. Apesar ele que aparece
a borboleta na V, ela está desvitalizada (as crianças a pintaram) e na VIII os ursos populares são vistos
como ralos e aparece uma interpretação delirante: "querem chupara branco, a tinta". As baratas que vê na
IX também indicam muita deterioração e predominio do sadismo e da destruição: algo queimado. man-
chado, caiu. ele. Constantemente usou o branco e preto como cores. o que indica um fracasso na adapta-
ção emocional. A persistência do choque manifesta-se ao descrever preto e vermelho nas lâminas
multicoloridas (três últimas). A"flor úmícla" que menciona nas três é outra resposta bizarra e não conse-
gue justificá-la.
Em síntese, poderiamas dizer que se trata ele um menino que está "à beira" ela psicose mas que
ainda registra o perigo que está correndo, já que a sede da angústia é o Ego e no Rorschach vemos como
ela fica registrada. Se a psicose já estivesse instalada claramente a ansicclaclc não seria registrada e as
respostas leriam a nitidez e ao mesmo tempo a clcte1ioraçáo da loucura. Evidentemente o C.A.T. e o
Dcsiclerativo são indicadores de enorme ansiedade. mas quando o diagnóstico presuntivo é psicose. con-
sidero que a última palavra eleve ser dada pelo Rorschach.

l listória: Este menino tem um irmão um ano mais moço e seus pais estão separados hã três anos. O casal
sempre teve problemas e a separação ocorreu logo após o terceiro surto esquizofrênico do pai do menino.
A mãe é uma pessoa muito dura, exigente, sem insigltl elas necessidades infant is. O pai é mais suave e
doce mas dura nte os seus surtos transforma-se no louco furioso. O menino foi trazido para consultar
Psicodiagnóstico Clínico 165

devido ao fracasso total na escola e devido às suas "fugas· da mesma. Ele tem um coleguinha que é o seu
amigo intimo e fogem juntos. Ele faz tudo o que o amigo fizer. Se um dia o amigo falta ao colégio ele fica
como se estivesse perdido. Acho que esse menino apresenta cm nível psicológico o que cm nível corporal
seria a sindrome da criança espancada. Desde o seu nascimento tem presenciado cenas violentas. cenas
de afeto alternadas com fúria. tem lido falta de contato emocional e possivelmente é o que ele procura
nessa "aderência· ao amigo.
Em casos como este o mais indicado ê a terapia fam iliar. Somente assim seria passivei evitar que
a iníluéncia dos pais o prejudique ainda mais precipitando-o definitivamente na psicose. O menino neces-
sitaria de sessões individuais paralelas ao tratamento familiar e um apoio escolar para evitar um atraso
marcante na aquisição do aprendizado esperada para a sua idade. Os testes de nivcl intelectual através cio
desenho (Coodcnough) mostram um nível adequado à sua idade cronológica, o que lança uma luz de
esperança no que se refere ao prognóstico.

Como vemos, o C.A.T. responde ao objetivo proposto por seus criadores. o


casal Bellak: explorar através das diferentes situações apresentadas por cada lâmi-
na, nas quais pode-se refletir algum conflito, as ansiedades que o mesmo desperta,
as defesas com as quais tenta enfrentá-lo e a solução que propõe ... quando conse-
gue.
Quando todas as lâmi nas despertam o mesmo tipo ele reação desviada da
resposta popular podemos pensar que a patologia é mais estrutural, ou seja. que
afeta toda a personalidade, todo o aparelho psíquico e todos os vínculos cio sujeito.
No entanto, quando algum desvio ela resposta popular aparece em alguma
ou algu mas lâminas e não em todas, pensamos mais num conflito neurótico que
está instalado no aparelho psíquico mas que não afeta a estrutura fundamental ela
personalidade nem os outros vínculos cio sujeito.
Indicadores ele conflitos neuróticos:

1. Marcada diferença cios tempos de reação que se aceleram ou se alongam


em relação às outras histórias.
2. Perda ela coerência do pensamento e da linguagem, presente nas outras
histórias.
3. Inclusão no relato de uma situação altamente conílitiva ou uma chamativa
negação cio conflito.
4. Contraste, ou seja, que em uma lâmina ou mais consegue montar a
história com desenlace ou , ao contrário, nessas não consegue fazê-lo.
Por exemplo, nas que o casal parental é visualizado [II , V, Vl) ou então
nas que aparecem rivais {l, VI) etc.
5. Traços de conduta que merecem destaque: bocejos, expressões faciais
especiais, gagueira, deixa cair as coisas, dar pontapés no entrevistador
"sem querer", distração, idas ao banheiro, etc.
6. Presença de omissões, acréscimos e distorções quando o resto cio proto-
colo se atém às respostas populares.

Bibliografia
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1979.
!3cllak. L.. Manual dei CAT (Test de Apercepción Infantil). Buenos Aires: Paidós, 1959.
Ocampo, M.L.S. de. Garcia Ar1.eno. M.E .. Grassa no. E. e col.. O processo psicodiagnóstico e as técnicas
projetivas, ob. cit.. (cap. sobre o C.A.T.).
Capítulo 15

A Entrevista Familiar Diagnóstica.


Importância da sua Inclusão
no Psicodiagnóstico de Crianças*

Síntese Introdutória
Neste trabalho propõe-se a necessidade de incluir pelo menos uma entrevis-
ta familiar no psicodiagnóstico individual.
Fundamenta-se teoricamente a conveniência dessa forma de trabalho e su-
gerem-se algumas regras técnicas para a sua realização.
Destaca-se também a importãncia da entrevista familiar diagnóstica para
possibilitar uma entrevista ele devolução mais dinãmica e convincente acerca das
conclusões.
Finalmente coloca-se a sua importãncia para decidir a indicação ou contra-
indicação de terapia individual para o paciente e para decidir a estratégia que será
sugerida como a mais adequada ao caso.
A entrevista familiar tem sido um técnica ou método reservado, du ra nte
muito tempo , aos terapeutas formados para trabalhar com o grupo familiar como
ponto de partida ou nível de análise na investigação diagnóstica e na psicoterapia.
Alguns psicólogos e psicanalistas de crianças começaram a usar posterior-
mente essa forma de abordagem.
Outros, entre os quais inclui-se a autora, têm trabalhado por mais tempo
com a metodologia clássica: entrevista inicial com os pais, entrevista com a criança
que consulta e entrevista final com o casal para a devolução de informação. As
entrevistas com a criança incluem uma hora de jogo diagnóstica e a administração
de testes projetivos.
À medida que houve mais intercâmbio e contato entre as diferentes formas
de trabalho ficou evidente a necessidade de incluir entrevistas familiares no proces-
so psicodiagnóstico.

Este capitulo é a ampliação de um trabalho apresentado pela autora na ocasião cm que participou
como p<iinclista na Primeira Jornada Nacional de Psicologia da Criança e sua familia, organizada
pela Universidad dei Salvador, 13uenos Aires. 1979. Por esse motivo o trabalho esta centralizado na
temática infantil mas é possível fazê-lo extensivo ao caso do psicodiagnóstico de adolescentes.

166
Psicod iagnós tico Clínico 167

Fundamentos para Sua Inclusão


1. O sintoma da criança é o emergente de um sistema intrapsíquico que
está. por sua vez. inserido no esquema familiar também doente, com a sua própria
economia e dinâmica. Este principio tem sido aceito por todos os setores das dife-
rentes escolas psicanalíticas e outras.
Aurora Pérez diz a esse respeito:'
Aentrevista familia r é conslituida por dois sistema em convívio estável que modelam
entre si uma relação continente-conteúdo. Ambos sistemas estão cm crescimento e desenvolvi-
mento. O continente (... ) está conslituido pelo casal parental. (.. .)O conteúdo está representado
pelos filhos. (... ) Assim o fun do da criação é uma situação assimétrica cm relação de dependên-
cia. (... )Quando a trama fa miliar não abriga. não mctaboliza. não transforma adequadamente, a
atmosfera familiar torna-se rarefeita, intoxicada e começa a aparecer a doença ... É um sinal de
alarme de que algo está acontecendo no ãmbito familia r. (...)Assim o clima de saúde vai sendo
perturbado e começam a instalar-se paHernsdc doença.

Uma criança psicótica é a depositária da loucura de todo o grupo familiar,


que permitirá que ela se recupere ou não, dependendo de até que ponto cada um
dos membros da familia estiver disposto a assu mir o grau de doença pelo qual é
responsável.
Surge aqui a necessidade de adaptar os métodos de investigação diagnóstica
aos avanços obtidos pela teoria: somente ass im se rá possível um maior
aprofundamento na realidade clínica e a obtenção de um diagnóstico mais preciso.
Raquel Soifer2 colocou:
Vimos que podiamos trabalhar de três for mas diferentes com o grupo familiar:
a) como diagnóstico:
b) como informação diagnóstica ao acabar o estudo:
e) como terapia (p. 196)

Soifer indica a entrevista familiar quando "surgirem dúvidas no estudo diag-


nóstico da criança". Neste trabalho é focalizado o segundo aspecto exposto por ela,
mas não somente se surgirem dúvidas diagnósticas. e sim em lodos os casos, a não
ser que exista alguma contra-indicação.
No entanto, não é somente esta a razão que justifica a sua inclusão.

2. As hipóteses originadas nas entrevistas com o casal e naquela com o(a)


filho(a) (ou seja, aquilo que a sua hora de jogo e os testes indicam) devem ser consi-
deradas provisórias até serem comparadas com as que aparecerem na entrevista
familiar. Só então, aquelas poderão ser validadas ou retificadas. enriquecidas ou
modificadas.
Por esse motivo. propomos aqui a realização de pelo menos uma entrevista
familiar mesmo em se tratando do diagnóstico individual de uma criança ou de um
adolescente .

3. Quanto menor a criança. mais importante será considerar esta recomen-


dação, pois ela está em pleno processo de formação e em estreita e direta dependên-
cia emocional de seus pais. Neste aspecto são novamente importantes as
recomendações de Anna Freud3 .

1. Pérez. Aurora. "El nif10, la fa milia y el pediatra·. Revista del Hospital de Ninos. V. XIX. n9 76. outubro
de 1977.
2. Soifcr. Raquel. Para qué lafarnilia?Buenos Aires: Kapelusz. 1979.
3. Freud, Anna. Normalidad y patologia en la niriez. Buenos Aires: Paidós, 1975.
168 García Arz eno

No que se refere ao papel dos pa is na cau sa de doenças, o a na lisla infantil deve le r


muilo cuidado para que as a parências superficia is não o desorienlem e principalmenle para não
con fundir os efcilos da anorma lidade infantil sobre a mãe, com a influência patogênica da mãe
sobre a criança. O mélodo mais seguro e lrabalhoso para avalia r eslas inlerações é a a nà lise
simultâ nea dos pa is com seus filhos ... Algumas mães ou pais dão ã cria nça um papel denlro da
sua prõpria palologia, eslabelccendo as suas relações sobre essa base e não sobre as necessida-
des reais da criança. Muilas mães realmenle lra nsferem seus sinlomas para seus filh os e logo os
encenam conjunlamenle como se fosse umafolie à detL'l'.(p. 42) .
No lrala menlo. principalmenle os menores revelam até que ponto estã o dominados
pelo mundo objelal. ou seja. cm que medida o ambien le chega a infl uenciar pa ra determina r a
sua conduta e a sua patologia (p. 45).

Os pais são modelos que a criança está incorporando durante uma etapa
decisiva. Detectar o modelo que os pais estão apresentando e ajudá-los a retificá-lo,
se necessário. pode constituir-se em ajuda para todo o grupo familiar, mais útil que
qualquer tratamento individual de um de seus filhos.

4. Quanto mais grave for a hipótese diagnóstica, mais necessan a será a


entrevista familiar. por exemplo. nos casos de psicose. quadros borderline, perver-
são . ps icopatias ou hipocondrias graves. Quando há sus peita de uma psicose
simbiótica ou. pelo menos, de uma s imbiose não resolvida é conveniente incluir
também uma entrevista com o binômio em questão.

5. Outro motivo importante para realizar uma entrevista familiar é que ela
propicia condutas observáveis para os pais, a criança e o profissional que podem ser
tomadas como ponto de referência na devolução do diagnóstico. Em muitos casos o
conflito é evidente somente para o profissional, sempre que houver confirmação das
suas hipóteses no material clínico. Mas isso nem sempre é suficiente para que os
pais aceitem tanto o diagnóstico como a recomendação terapêutica cio psicólogo.
Eis aqui um breve caso ilustrativo. Tratava-se ele um casal jovem com três
crianças: dois meninos de sete e cinco anos e uma menina ele três. Os pais preocu-
pavam-se com o filho do meio por suas birras intoleráveis e a repetição ele seus
acidentes. A mãe era quem relatava os problemas. O pai demonstrava que "não
acreditava nessas coisas" e que o menino cresceria e ficaria como ele, na rua; que os
problemas eram fabricados por sua mulher e a empregada. Ao explorar em profun-
cliclade a sintomatologia e a história cio menino, foi assinalado que tudo aquilo por si
só justificaria recomendar psicoterapia para o menino, mas que o mais importante.
e antes do tratamento, seria descobri r por que e como eram geradas essas situa-
ções. Foi proposto que toda a família viesse à entrevista e eles aceitaram. Logo que
chegaram o pai começou a bocejar e a dizer que estava com fome e com sono; que se
dependesse dele, ti raria os sapatos. o casaco e deitaria para dormir no divã. A mãe,
que no início escutava e observava como se fosse uma irmã mais velha, disse-lhe:
"Aqui não tem bebês. Você é o bebê". O pai mudou logo de atitude dirigindo-se ao
filho mais velho. que estava fazendo recortes em papel, para sugerir que o colasse
na parede. O filho não o obedeceu. Então o pai propôs que brincassem ele labirinto
(naquele mesmo papel recortado) mas de uma forma que era impossível superar os
obstáculos que ele introduzia. O menino dizia: "Não dá". O pai insistia que s im.
Realmente era impossível e para não precisar reconhecê-lo o pai inventou soluções
rebuscadas. Contratransferencialmente essa situação fazia surgir a vontade de di-
zer-lhe: "Jogue comigo em vez ele exibir-se castrando o menino!". Este menino não
respondeu com raiva nem fez comentário algum em defesa própria. Enquanto isso a
menina havia começado a brincar com a mãe e faziam trocas de objetos. O menino
cio meio, motivo das suas preocupações, ficava só. agindo como mestre de ceri môni-
as ao distribuir material para os outros; tentava chamar a atenção mostrando os
Psicodiagnóstico Clínico 169

seus papéis recortados. mas sem sucesso. O pai propôs ao maior desenhar com
tinta plástica e continuou com as suas criticas. O do meio começou a fazer o mesmo
que o seu irmão na tentativa de atrair a atenção e aprovação do pai, sem consegui-
lo. A mãe era um pouco mais bondosa com ele mas estava mais concentrada em
brincar com pratinhos e xícaras com a menina.
Em resumo, o pai desempenhava dois papéis, ou era o bebê malcriado e
exigente, ou o pai rigoroso, castrador, implacável. Não tomava nem conhecimento
do filho do meio. A mãe sim, mas não conseguia dar atenção a ele porque era solici-
tada pela menina e pelo "bebê esfomeado". Assim, as impertinências do menino,
bem como os acidentes sempre repetidos eram provocados por sua necessidade de
receber atenção e gratificação, já não como um protesto ativo mas como uma entre-
ga auto-destrutiva ou suicida, causada pelo sentimento de não ser importante para
ninguém.
Foi proposto um primeiro período de entrevistas familiares e de casal para
modificar os papéis. Se o filho não melhorasse paralelamente ã evolução dos pais,
seria recomendável começar um tratamento individual paralelo.
O pai, tão resistente no início, aceitou a proposta ao sentir-se confrontando
com o jogo do labirinto e suas outras atitudes e comentários, que criariam também
problemas com o filho mais velho e com a mulher. A mãe conseguiu expressar que
precisava dele para educar os filhos e que sentia demais que ele fosse mais uma
criança. Além do mais, o pai foi advertido sobre as conseqüências que suas atitudes
provocariam quando os meninos chegassem à adolescência: ou se submeteriam ou
o enfrentariam numa luta sem trégua. Esse quadro serviu para fazê-lo reconsiderar
que não seguindo a recomendação estaria impedindo o tratamento, já que era ele
quem tomava as decisões do casal. E que esse era o seu futuro e o da sua família,
não o do profissional. O pai decidiu pensar no assunto e depois de um tempo come-
çaram o tratamento do menino.
Neste caso a terapia familiar teve resultados excelentes e o menino apresen-
tou uma grande melhora.
Este é um exemplo que serve para ilustrar a utilidade da entrevista familiar
para planejar uma devolução de informação bem-sucedida.

6. Além do mais, oferece elementos muito valiosos para decidir qual a estra-
tégia terapêutica que será recomendada na entrevista de devolução de informação
final.

7. Em certos casos a entrevista familiar pode dar indicadores para contra-


indicar o tratamento analítico individual, a saber:

a) Quando não se vislumbra a possibilidade de modificação da patologia


familiar e principalmente se esta for severa. Começar um tratamento
individual do filho seria fazê- lo o único responsável pela doença familiar.
Além disso, supõe-se que o tratamento modificaria defesas que teria
desenvolvido para sobreviver dentro desse meio patológico, deixando-o
desprotegido e vulnerável, ou desestruturado. Por outro lado, são escas-
sas as possibilidades de que o tratamento tenha sucesso, e pode ocorrer,
então, que continuem com ele porque é inócuo ou então que o interrom-
pam alegando o fracasso que será atribuído ao terapeuta.
b) Quando a melhora do filho poderia trazer associada a descompensação
de outro membro do grupo familiar. No caso de que esse membro fosse
um dos pais a situação poderia ser realmente séria. Surgindo uma crise
do casal, todo o clima familiar sentiria os efeitos, ficando sem continen-
170 García Arzeno

te. Nestes casos a recomendação de terapia individual do filho deve ser


complementada com a terapia do casal.
c) Quando o filho atravessar uma crise evolutiva que obrigue os pais a
reviverem essa etapa. Se para eles essa etapa foi conflitiva não consegui-
rão ser apoio para o filho enquanto tenta superá-la ou então não permi-
tirão que ele o faça. Aurora Pérez refere-se nesses casos a crises paralelas;
Raquel Soifer. ao nível de aprendizado e desenvolvimento de pais e fi -
lhos.
d) Quando os pais mantêm e reforçam inconscientemente a sintomatologia
do filho, porque isso lhes proporciona um importante benefício secun-
dário, e a não ser que se pretenda modificar esta "economia" familiar, o
pedido de tratamento será somente uma tentativa infrutífera.

No suposto caso de uma criança adotiva que desconhece a verdade e os pais


não aceitam contá-la e cujos sintomas são sérios transtornos de aprendizado com
um bom nível intelectual e de maturação, o psicodiagnóstico no nível intelectual
pode mostrar severas resistências ao aprendizado devido á intensa angústia que
provoca nela o conhecimento da verdade. Esta oposição estaria bloqueando os me-
canismos de introjeção, básicos para o funcionamento do processo de aprendizado.
O resultado será que a criança pareça tola e talvez o aconselhamento será no senti-
do de trocá-la para um colégio especializado. Mas com um maior aprofundamento
na história aparecerá o motivo subjacente da resistência paterna em contar a ver-
dade ao filho, aparecendo assim, por exemplo, que a adoção não foi legalizada e
teriam que confessar algo vivido como o roubo de uma criança. Isto poderá ser
verdade ou não, mas sempre terá um resultado equivalente para o seu inconsciente.
Dado o somatório de resistência que se estabelece em casos como este, o tratamento
individual, além de infrutífero, funcionaria como um pacto encobridor, porque o
terapeuta estaria aceitando dinheiro e trabalho em troca de não tocar no assu nto da
verdade. Alguns desses casos chegam a ser realmente não analisáveis e acabam
desfilando diante de uma multidão de outros especialis tas (pediatras. neurologis-
tas, psicopedagogos) que tampouco conseguem solucionar o problema de base.

Indicadores na Observação da Entrevista Familiar Diagnóstica


Os mais importantes são:
1. Se os papéis pais-filhos. continente-contido, pai-mãe, feminino-masculi-
no, etc. aparecem e es tão bem discriminados ou se estão confusos ou inclusive
invertidos.
2. Se esses papéis permanecem focos ou se são intercambiáveis.
3. Determinar quem exerce a liderança executiva no cargo familiar. Se é um
dos pais, é importante que o terapeuta possa discriminar o seu espírito de colabora-
ção ou ver o grau de aliança terapêutica com a qual poderá contar.
4. O nível de desenvolvimento obtido por esse progenitor líder para permitir
ao filho que consiga um desenvolvimento completo ou refreá-lo. se ele não consegue
crescer junto com os filhos. A esse respeito, Raquel Soifer4 diz:

Poroutro lado chegamos a entender que havia um ponto de fixação no desenvolvimento


psicológico idêntico na criança e na sua familia que determinava que os pais não tivessem com-
pletado um aprendizado e, por isso. tornava-se impossível para eles ajudar a criança a fazê-lo e
elaborar essa fixação. Foi possível compreender que a incidência da familia na doença da criança
linha suas raizes nesse aprendizado não alcançado (p. 196).
Psicocliagnóstico Clínico 171

5. As identificações que predominam: o que é ser como o pai ou como a mãe


para essa família; o que é ser bobo ou legal; o que significa ser inteligente, agressivo,
estranho, bom, caprichoso ou não.
6. Tentar extrair a fantasia de doença e cura no nível do grupo familiar,
assim como saber também se predomina o depósito da doença em um dos seus
membros ou a capacidade de assumir cada um a sua parte. Em relação ao deposi-
tário é importante que se observe se ele opõe resistência ou presta-se passivamente
ao papel de "saco de pancadas".
7. Outro elemento importante é o que Raquel Soifer descreveu em seu livro
Para quê a família?5 como uma função fundamental dos pais: transmitir conheci-
mentos e estabelecer limites, ajudando assim a delimitar a fantasia de realidade.
Este é um fator decisivo para evitar a instalação de uma psicose. Diz o seguinte:

é fundamental que o pai ou a mãe, dependendo do caso. se coloquem na idade que tem
o filho nesse momento. Na psicanálise esse processo de deslocar-se para uma idade anterior é
chamado de regressão: no caso a que nos referimos ela é parcial e inconscientemente aceita ... Os
pais, enfrentando esse estado emocional da criança, sentem reativadas as suas recordações de
situações equivalentes experimentadas no momento evolutivo correspondente.( ...).
Assim, o modo como os pais transmitem os diferentes ensinamentos aos seus filhos
depende de:
a) a possibilidade de regredir parcial e inconscientemente, que será maior ou menor
conforme a flexibilidade da sua personalidade e a rigidez ou permeabilidade da regressão das
suas vivências infantis(...).
b) a possibilidade de retornar da regressão voltando a sua condição de adultos (p. 51)

Acaraclcristica da atitude do pai é a sua tendência a observar a realidade e a usar a


objetividade com um menor componente emotivo.
Por sua vez, a maior capacidade para o pensamento lógico leva o pai a exercer com
maior firmeza o principio da autoridade... Essa intervenção ajuda a mulher a liberar -se da sua
adesão emocional com o filho, quem por sua vez vai aprendendo a separar-se gradualmente
dela ... A função do pai inclui seu papel como esposo c protetor da mulher (p. 55)
Finalmente é sua função servir como modelo masculino adulto para seus filhos homens
que se identificarão com ele, e ao mesmo tempo, passar a imagem viril a suas filhas. que logo
buscarão caractcrisUcas semelhantes cm seus companheiros... Amaior capacidade de intuição e
compreensão psicológica increntes ã condição feminina fazem da mãe a principal reguladora das
emoções no lar (p. 57).

8. No mesmo livro Raquel Soifer descreve, como é visto no texto anterior,


outro aspecto importante do comportamento dos pais que deve ser observado du-
rante a entrevista familiar. Trata-se de algo que funciona também como requisito
para ser um bom educador e um bom terapeuta de crianças: a capacidade de fazer
uma regressão para compreender o filho e, ao mesmo tempo, retornar da regressão
voltando à sua condição de adulto.
9. Mitos familiares encobertos pela rotina do funcionamento familiar. Um
renomado investigador e clínico em psicoterapia familiar do grupo de Palo Alto
(Califórnia, E.U.A.). Antonio Ferreira6 , assinala a importância de descobrir os mitos
familiares que são crenças sistematizadas e compartilhadas por todos os membros
da familia em relação aos seus papéis respectivos e sobre a natureza da relação
entre eles. Estes mitos possuem um valor econõmico, promovem rituais e áreas de

4. Soifer. Raquel. "Psicoterapia dei grupo familiar con niflos estilizando juguctcts". /n: Abcrastury, Arminda.
(comp.) El psicoanálisis de nirios y sus aplicaciones, 3.cd. Buenos Aires: Paidós, 1972, 3ª parte. cap.
10.
5. Soifer. Raquel. Para que la familia?. Ob.cit.
6. Ferreira, Antonio. "Mitos familiares·. ln: Bateson, G. e outros. lnteracciônfamiliar. Buenos Aires:
Tiempo Contemporánco. 1971.
172 García Arzeno

acordo automático. Para cada papel definido existe um contra-papel oculto em ou-
tro ou outros membros da fam ília. Os mitos ocorrem em todas as famílias. não
somente nas patológicas. Significam para a família o mesmo que as defesas para o
indivíduo. Por exemplo, um pai impulsivo. alcoólico e uma mãe abstênia, severa e
repressora. é um mito enquanto esconde a parte oposta de cada um encenada pelo
outro membro do casal. O mito promove a homeostasc pois permite que a relação se
mantenha inalterada. Segundo Ferreira, desvendar o mito familiar requer delicade-
za e discrição porque pode colocar toda a família contra o terapeuta.
10. Outra pauta importante é a capacidade de proceder espontaneamente
durante essa entrevista e depois ter insight do ocorrido. Por isso a autora deste
trabalho inicia a entrevista de devolução perguntando ao grupo familiar sobre os
pensamentos provocados pela entrevista familiar em relação a si mesmos e ao grupo
familiar. Logicamente o diagnóstico e a recomendação terapêutica não serão basea-
dos na presença de alterações cm alguns destes itens e sim no somatório ou coexis-
tência de vários e no seu peso sobre a patologia do filho.

Contra-indicações
Por todas estas razões recomenda-se realizar pelo menos uma entrevista
familiar diagnóstica. mas cabe esclarecer que nem sempre isso é possível e às vezes
não é nem recomendável a sua realização. Por exemplo, quando os pais estão sepa-
rados; quando resistem reiteradamente; quando estima-se que isso elevará o nível
de angústia da criança até um limite extremo com o que poderá ser destruído o bom
rappori que conseguiria com o profissional, deixando-o com uma predisposição ne-
gativa para uma futura terapia. Isto é difícil de prever, mas ás vezes é verbalizado
pela própria criança ou adolescente.

Alguns Aspectos Té cnicos da Entrevista Familiar


Geralmente a consulta tem início com a ligação de um dos pais de uma
criança. O trabalho começa então com uma entrevista com ambos. A primeira en-
trevista diagnóstica deve ter como finalidade chegar a um diagnóstico inicial, após o
qual será decidido quando a criança será entrevistada individualmente. com os seus
pais ou com toda a familia. Isso vai depender do nível no qual se imagina que este-
jam as raízes da patologia principal. De qualquer forma deve-se advertir aos pais
que provavelmente deverão comparecer uma vez todos juntos e que a criança deverá
comparecer duas vezes sozinha para a aplicação de alguns testes.
Isso geralmente é aceito. Se surgirem resistências fortes, se o casal estiver
separado ou algum cios filhos se recusar a comparecer ou ainda se o grupo estiver
incompleto por alguma razão (viagens, etc) haverá que prescindir ela entrevista fa-
miliar. Os pais poderão vir juntos ou alternadamente com a criança que os preocu-
pa. Sobre a necessidade de comparecimento de todos, Virginia Satir coloca o seguinte7:

É necessá1io o comparecirnenlo de lodos porque são parle da homeoslase familiar mes-


mo que não aprescnlcm sinlomas ... Partindo do pressuposto de que quando exisle um mal-estar
na frtmília, lodos os membros o sentem de alguma forma e mesmo que nesse momento não
apareçam os sintomas. eles poderão surgir mais tarde. (...)Acredito que o terapeuta de família
poderá realizar muito trabalho preventivo incluindo todas as crianças no processo terapêutico.
(... )Às vezes cu recebo um casal quando as crianças estão com quatro anos ou menos. Mas ainda

7. Satir. Virginia. Conjoint Family 111erapy. Palo Alto (Calif.): Scicnce anel Behavior Books, 1967.
Psicodiagnóstico Clínico 173

insisto cm trazer lodos os filhos para a terapia, pelo menos para duas sessões de forma que cu
possa obscrv;ir por mim mesma como a familia funciona como um todo. (... ) Quando as crianças
são menores de quatro anos convoco-os à terapia pelo menos nas duas sessões iniciais. [fradu-
ção da autora).

O número de entrevistas vai depender da clareza com que seja possível ex-
trair material significativo. Porém não é aconselhável estender demais o número de
entrevistas diagnósticas, pois os pacientes não suportam uma interação prolongada
sem interpretações.
Quando a família chegar será repetida a orientação após ter cumprimentado
cada um pelo seu próprio nome: "Nesta caixa têm coisas para que joguem, conver-
sem ou trabalhem, façam de conta que eu não estou presente. Eu observarei o que
acontece quando estão juntos".
No que se refere ao registro do material é aconselhável limitar-se ao mínimo
possível. Há familias que se sentem muito perseguidas pela presença do profissional
e ainda mais se este estiver escrevendo tudo o que eles fazem. É então preferível
observar e anotar alguma coisa que sirva de chave para reconstruir a sessão com-
pleta mais tarde. Há outros casos em que as pessoas sentem-se perseguidas pelo
olhar, então não se sentem perturbados se o profissional estiver concentrado na
tarefa de escrever. Isso até os alivia.
Outras famílias insistem em engolfar o observador para diminuir a angústia
persecutória impedindo-o de ser um observador não participante. É primordial des-
cobrir a intenção que essa atitude esconde e não aceitá-la se tiver raízes psicopáticas
e visar impedir que o profissional observe e pense. Se o pedido funcionar como
forma de distração eleve ser rejeitado.
No entanto, se a intenção for buscar no profissional um ego-auxiliar que
ocupe um papel que está vazio no grupo familiar, poderá aceitar-se o pedido dentro
das normas recomendáveis, usando o mesmo critério usado quando se aceita ou
não fazer algo proposto pelo paciente durante a terapia infantil ou de adultos
psicólicos.
Em outros casos a intenção é eliminar a dicotomia persecutória observador-
observado e, então, aceitar certas intervenções inócuas poderá baixar o nível de
persecução e "aliviar" o clima emocional.
Pode ocorrer que um ou alguns dos membros do grupo tentem estabelecer
uma aliança com o profissional deixando outro ou outros excluídos. Isso pode ocor-
rer quando se dirigirem a ele iniciando uma tentativa de diálogo através de comen-
tários, perguntas, relatos, etc. Nessas ocasiões é aconselhável responder somente o
indispensável (dentro daquilo que se entende como cortesia e boa educação) para
não provocar uma quantidade excessiva de agressão (com o silêncio frustrante) e o
desconcerto familiar diante da reação do profissional que não é lida como a habitu-
al. Pode ser oportuno repelir a orientação inicial no sentido de que o papel do psicó-
logo é o de um observador não participante.
Logicamente, essa seqüência não deverá ser omitida no registro da entrevis-
ta, dado que dela poderão ser extraídas conclusões diagnósticas e prognóslicas im-
portantes.
Não deve ser esquecido que a entrevista familiar diagnóstica é um meio, não
um fim em s i mesma. Seria um fim na etapa subseqüente se a terapia familiar
houvesse sido recomendada. Assim, as recomendações técnicas são semelhantes às
ela primeira hora de jogo diagnóstica. No que se refere ao estabelecimento de limites
diante de situações de muita violência e destruição, Satir8 coloca:

8. SaUr. Virginia. Ob. cif.


174 García Arzeno

O pai ou a mãe são os que devem responder e estabelecer limites na conduta de seus
filhos. Por outro lado, se eu assumisse esse papel perderia a oportunidade que estou procuran-
do: a oportunidade de observar como o pai e a mãe lidam com a sua função parental.

Ela dá à família uma série de regras muito precisas sobre o que é ou não é permitido
fazer no consultório.
No que se refere ao lugar é conveniente realizar a entrevista familiar num
meio apropriado. Para isso deve-se levar em conta o número e a idade dos integran-
tes do grupo familiar. O lugar deve permitir o deslocamento confortável da família
para que possa haver interação lúdica e não somente verbal, especialmente se as
crianças forem pequenas. A idade dos membros do grupo deve ser levada em consi-
deração para selecionar o tipo de jogo ou material que supostamente preferirão
usar. Se forem incluídos materiais que possam provocar sujeira é aconselhável rea-
lizar a entrevista num local apropriado evitando assim que o profissional fique pen-
dente das conseqüências.
Quanto aos materiais devem ser variados conforme a idade e o sexo dos
integrantes do grupo para que cada um encontre alguma coisa atraente. Materiais
para montar, cortar, enganchar, construir, costurar, colar, modelar, pintar, dese-
nhar, etc. freqüentemente atraem também a atenção do pai e da mãe. A orientação
já havia advertido que a caixa não era para uso exclusivo das crianças.
No que se refere à interpretação dessas construções, modelagens, monta-
gens, etc., podem ser utilizados os critérios habituais da psicanálise de crianças e
também de alguns testes lúdicos, tais como os de Lowenfeld9 , Arthus 10 , Rambert 11 ,
Aberastury 12 , etc.
Assim, por exemplo, Aberastury 13 diz:

Cada paciente possui e expressa uma determinadaco11figuração espacial e esta deno-


minação criada por Homburger significa a relação espacial dinâmica das formas. tamanhos e
distâncias de cada pessoa (p. 21).
Em cada configuração espacial determinada o sujeito expressa: a) a sua experiência no
espaço: b) a sua situação atual diante do espaço e do seu próprio corpo (p. 22)

Seria aconselhável dispor de uma mesa de altura padrão, outra mais baixa,
algum lugar onde sentar da altura padrão para um adulto e almofadas no piso e
tapete para os pequenos. É importante registrar onde se localiza cada um e qual o
lugar que tenta escolher. É muito significativo que a mãe sente diretamente no chão
e sua filha mais velha numa cadeira. Também é significativo que o pai não abando-
ne a sua cadeira mesmo que o seu filho mais moço lhe peça ajuda de longe. Isso tem
relação com a possibilidade de fazer uma regressão útil para compreender as crian-
ças mas. também, de recuperar o nível de adulto que deve funcionar como continen-
te deles.
É impossível esgotar todas as variáveis que possam aparecer durante uma
entrevista familiar, mais ainda dentro das dimensões limitadas impostas por este
tipo de publicação.
Por isso, consideramos impossível evitar a sensação de que ainda restam
muitas interrogações sem resposta e que serão, em todo caso, objeto de um futuro
trabalho.

9. Lowcnfcld, Jane Margarct !Teste do mundo(. Play in c/1ildhood. London: Gallanca, 1935.
10. Arthus. Henry !Teste do povoado!. Le village: Test dáctivité créative. Paris: Paul Harman. 1949.
11. Rambert, Madeleine. ·une nouvelle technique en psychanclyse infantile: Le jcux dcs guignols". Revue
Française de Psychanalyse. X, 1938.
12. Aberastury. Armida. Eljuego de construir casas, 3.ed. Buenos Aires: Paidós. 1976.
13. Idem.
Psicodiagnóstico Clínico 175

Outros Exemplos de Entrevista Familiar Diagnóstica


CasoN9 1
Trata-se de um menino de 26 meses que tem um irmãozinho de um ano. Na
entrevista com os pais a mãe diz que ele sempre foi um problema. desde a época da
gravidez, porque dava pontapés. Depois do nascimento do irmãozinho ficou muito
chorão. O pai confirma que a partir desse momento o menino não se satisfaz com
nada.
A mãe acrescenta que o problema agora é na creche. No inicio chorava mas
ficava. Agora não quer mais ficar. Nos poucos dias em que ficou permanecia gruda-
do na professora chamando seus pais e seu irmão. Mesmo quando o deixam com
uma avó chora pensando que a mãe irá embora e não voltará.
Quando ele era pequeninho o pai viajava com freqüência por motivos de
trabalho, e a mãe ia para a casa da sua própria mãe. O menino não comia até que a
situação começasse a se normalizar. Bastava que visse a mãe na calçada da frente
para que começasse a chorar desesperadamente. Agora o pai parou de viajar. Per-
gunto a ela como se sentia quando o marido ficava ausente e responde que ficava de
mau humor, com medo de que lhe acontecesse alguma coisa e que por isso ia para
a casa da mãe para que o menino não ficasse só. Finalmente diz: "Me enche que me
sobrecarregue com tanta responsabilidade - referindo-se ao marido - fisicamente
não posso". Começa então a contar que ela não queria engravidar. Que preferia
adotar crianças abandonadas em vez de trazer crianças ao mundo. (?) "Porque nas-
cem para morrer". Começa a contar que seus pais a proibiam de sair com rapazes
porque isso era coisa de putas, que no principio teve problemas de vaginismo, que o
marido é muito inseguro.
Ela também tem uma irmã que nasceu logo depois dela e sofreu bastante
por isso.
Passava a impressão de uma mulher saturada pelo seu papel maternal e que
desejava retomar o seu trabalho e delegar a outra o papel de mãe. Achei que o
menino devia perceber que "queriam ver-se livres dele". Chamou a minha atenção
um tique no rosto dela enquanto falava e ria, parecia como se estivesse com nojo ou
cheirasse algo ruim.
Ela é quase profissional e ele tem uma fruteira e açougue. Davam a impres-
são de ser um casal com poucas afinidades, como se ela se sentisse muito superior
a ele. Ele parece mais sensível e mais simples; obviamente deve sentir-se inseguro
ao lado dessa mulher e sofre muito. Ela não luta junto a ele; ou pede dependência
ou se sente superior.
Dentro de todo o quadro ele parece um homem mais simples e direto. Ela é
mais complicada, há momentos em que o seu pensamento perde coerência e a sua
atitude é de demanda constante.
Essa idéia de adotar porque ter filhos é para que morram é muito séria,
possui um traço delirante e implica desejos filicidas inconscientes.
O motivo desencadeante da consulta é que o marido ficou assustado pelas
rápidas mudanças no seu estado de ânimo, que variava desde o desejo de beijar o
filho até gritar que a deixasse em paz.
Na entrevista familiar chegaram com 15 minutos de atraso sem dar nenhu-
ma explicação. O pai permaneceu á margem e participou muito pouco. O menino
mais moço brincava de enfiar tudo em qualquer orificio que encontrasse. A. Aberastury
diria que ele está perfeitamente localizado na sua idade já que isto equivale à etapa
ou fase genital prévia. Por exemplo, introduz um lápis dentro de um carretel de
linha ou do rolo de Durex e o faz girar, ou dentro de uma panelinha, a faz girar e
sorri contente.
176 García Arzeno

O mais velho, que chamaremos de Pedro, me diz: "Olhe os sapatos de Juan


(o mais moço) olhe os meus (não são novos nem brancos como os do irmão); olhe
(aponta um carro bordado em sua camiseta). E continua insistindo para que eu olhe
para ele. Entrou de mão com o pai e no início ficou encostado nele. A mãe estava
com Juan no colo. O primeiro a ir para a mesa de brinquedos é Juan, então Pedro
vai até a sua mãe e se encosta nela. Banca o mimoso. Juan começa a jogar coisas. É
outro jogo habitual para a sua idade. Pedro diz: "Olha, jogou o lápis, jogou tudo".
No início Pedro limitou-se a juntar tudo o que o irmão jogava e a entregar-
me. Juntava coisas até que não cabiam mais em suas mãos e não podia brincar. A
mãe fez um boneco com massa de modelar e o entregou a Pedro; foi quebrando. Fez
outro para Juan. Pedro o pediu e a mãe o entregou a Juan.
Pedro estava com as mãos cheias com tudo o que Juan ia jogando e soltava
tudo sobre o divã. Brincou com um barbante que se enredava no botão superior
direito do seu macacão. A mãe ensinava-o a desenredá-lo mas ele puxava: "Quero
tirá-lo", mas se a mãe o tirava ele o colocava do mesmo jeito novamente.
A mãe insistiu durante toda a sessão com a higiene e a ordem. "O nariz sujo,
está com o nariz sujo. Cuidado com isso. Pegue o lápis". Pedro não pediu nada e no
entanto ela esteve atenta a ele o tempo todo.
O mais moço estava com o nariz correndo, o pai notou mas corno o menino
se afastava dele nesse momento pediu à mãe que o limpara. Só então a mãe o fez.
Quase no fim da consulta Pedro se aproximou ele mim e disse: "Olhe corno o
Juan joga tudo", e é a mãe que responde como se ele tivesse falado com ela. Sinto
que a mãe o absorve.
O pai permanecia à margem e Juan começa a fazer barulho. Bate com as
coisas e finalmente é ele que bate a porta e chora dizendo que quer ir embora já que
o irmão (que está brincando) tira tudo dele e a mãe não lhe dá muita atenção.
Nos últimos minutos Pedro consegue concentrar-se na brincadeira com dois
carrinhos, fazendo-os bater.
A mãe diz: "Vamos recolher tudo". Pedro conti nua brincando. A mãe diz:
"Vou limpar o seu nariz", se aproxima mas ele a afasta com um gesto. A mãe diz:
"Não risque a mesa" (é de fórmica). Então o pai, que por um instante brincou com os
dois ele acender um fósforo para que eles o apagassem e que quando Pedro pediu
que acendesse um disse que não, que só quando fosse para acender um cigarro.
acende um e o oferece como forma de distraí-lo e para ajudar naquilo que a mãe está
se propondo, que é que ele pare de riscar (?) a mesa. Pensei que essa insistência
injustificada ela mãe seria devido a que na realidade quando Pedro se concentra em
qualquer brincadeira a exclui afastando-se dela e ela sente-se relegada.
Finalmente vão embora.
Comentário: fica claro que Pedro é um menino sadio, preso pela mãe, mas
que tenta soltar-se dela. A mãe intensifica seu vínculo com ele, tira importãncia das
demandas cio marido e do mais moço que no final mostra o que sente: que o mais
velho absorve tudo da mãe, não sobrando quase nada para ele. O jogo com o bar-
bante mostra que para ele não é tão fácil "desenredar-se" cio vínculo que tem com a
mãe. Quer mas não consegue e precisa de ajuda. O pai mantém a sua atitude pres-
cindível. mas quando organiza um jogo o mesmo consiste em "brincar com fogo", ou
seja. a sua aparente passividade encobre a possibilidade ele reações "fogosas" já que
se sente como Juan, deixado de lado, desvalorizado e com o seu lugar usurpado por
Pedro. Seria necessário trabalhar com toda a família para localizar cada um no
papel que lhe cabe. Além cio mais, seria necessário ver o menino sozinho uma vez
por semana para explicar -lhe como é que ele chora pensando que seus pais vão
abandoná-lo porque é um menino mau que ocupa o lugar do papai; além do mais
chora porque ai nda é pequeno, mesmo sendo o mais velho e tendo um irmão tão
próximo. Isso provoca uma grande ambivalência, gosta dele mas ao mesmo tempo o
Psicodiagnóstico Clínico 177

odeia porque precisa compartilhar a mãe com ele. A mãe precisará compreender
que em parte esse choro é provocado e induzido por ela que também sente cada vez
que precisa separar-se de sua mãe, para quem corre cada vez que seu marido vai
embora, coisa que a desagrada enormemente. O pai deverá ter consciência da raiva
que essa situação provoca nele, pois da mesma forma que no jogo do barbante no
qual a mãe desenreda e o menino volta a ficar enredado, a mulher pede a ele que se
aproxime mas quando ele o faz ela mostra só ter olhos para Pedro. O pai mostrou ter
renunciado ao poder sobre Pedro. Precisará intervir, tanto para recuperar o seu
filho como para ajudá-lo a cortar esse cordão umbilical (barbante) que ainda o man-
tém preso à mãe.
Partindo ele uma perspectiva sistémica poderíamos dizer que neste sistema
familiar existem dois subsistemas claramente diferenciados: mãe-Pedro e, por bai-
xo, pai-Juan. A tarefa terapêutica consistiria em resgatar o sistema parental e
diferenciá-lo do filial.
Do ponto de vista da psicanálise essa mãe deve tomar consciência de que
trata Pedro como se fosse um prolongamento narcisístico de si mesma, como um
substituto materno. Ela ainda está, de forma muito ambivalente, ligada à sua mãe.
O fato de não querer ter filhos porque nascem para morrer é uma estranha filosofia.
logo atenuada quando afirma que se preocupa com a possibilidade ele que eles (pais)
morram e os filhos fiquem sós. Isso é uma indicação de que o verdadeiro sentimento
dela em relação à mãe inclui fortes desejos de morte unidos a uma grande idealização
(sem a mãe a pessoa morre). É provável que ela precise de uma terapia individual
para aprofundar-se nesse aspecto.
O pai não faz nada para modificar essa s ituação porque em sua história
infantil devem existir também razões que o impedem de ter uma maior segurança
como homem e pai.

Caso N!! 2
Trata-se de um casal de aproximadamente cinqüenta anos que consulta
com uma filha de quinze anos. É única filha. Há um ano está namorando um rapaz
da sua idade. Os pais estão alterados porque a menina passa quase todos os dias na
casa do namorado. Não gostam nem um pouco dele, nem como fala, veste, nem do
que faz ou deixa ele fazer.
Ambos são pessoas muito educadas, cultas e elegantes. A filha também o é.
mas destacam-se principalmente a sua beleza e elegãncia.
O pai comporta-se muito formalmente o tempo inteiro e por trás disso perce-
be-se muita violência. Quando a filha resolve convidar o namorado para ir à sua
casa "não conseguem ver-se livres dele". Queixam-se de que acaba com a sua inti-
midade.
Comentam que a família do namorado é muito diferente da deles, que são
descendentes de centro-europeus. Aqueles, no entanto, são italianos e tem uma
família grande no melhor estilo da familia unita. Ali a filha, a quem chamarei de
Maria, sente-se muito acompanhada e mimada. Queixa-se de que em sua casa está
muito só já que seus pais são profissionais e trabalham o dia todo. Quando voltam
ela é o centro das atenções, perguntas, queixas, etc. Maria diz que está farta de
ouvir que toda a desordem é culpa sua, que tudo o que falta é devido ao seu descaso
e assim sucessivamente. Explica aos seus que é por isso que fica tantas horas na
casa de seu namorado. É mais divertido e ali ela é homenageada. Maria sabe perfei-
tamente que sendo solteira sua mãe fez um aborto e sempre lamenta não haver tido
um irmão. Conta que quando era pequena fantasiava que ele existia e falava com
ele.
178 García Arzeno

Observo então que a mãe fica muito nervosa e muda de assunto.


O pai também parece ficar tenso e ajeita o nó da gravata.
Nesse momento tenho a sensação de ter captado o essencial do caso.
É inegável que a família com um único filho se organiza de uma maneira
especial, que o filho carrega com tudo sobre as suas costas, que custa muito admitir
a sua própria saída exogãmica porque o casal fica só e que para um pai bastante
severo é difícil deixar de ser o "senhor" e admitir outro homem em casa.
Mas além de tudo isto que poderíamos denominar de uma crise vital existe
um problema muito sério: um lu to não elaborado.
Maria faz empenho em trazer esse assunto quando traz o namorado. Lembro
que tive um lapso e ao querer referir-me a ele o chamei "Maria" em vez de Ricardo.
Todos notaram e compreendi que a união s imbiótica de Maria com seu namorado
foi o motivo de meu lapso então aproveitei para mostrar-lhes que quanto mais eles
insistissem em separá-los mais acirrado ficaria o vínculo, ressábio do estreito amor
que Maria sempre sentiu por seus pais.
Mas além disso achei que Maria trazia Maria-seu-irmão-morto. A mãe men-
cionou isso durante a primeira entrevista mas agora esse "dado" adquiria um tom
emocional dramático. Partindo dos pais o "não tragas esse traste para nossa casa"
significava "Não nos faças relembrar o menino que poderíamos ter tido".
Assim ficavam melhor explicadas as críticas implacáveis feitas ao rapaz. No
fundo o que ocorria poderia ser assim verbalizado: "Não é este o que nós queremos.
Em seu lugar deveria estar o teu irmão centro-europeu e não esse italiano".
Eles elogiavam a vida que Maria havia levado nos dois anos anteriores quan-
do saía com um grupo de meninas e rapazes. Ou seja, quando Maria era uma púbere
e não uma adolescente apaixonada por "um" rapaz.
No fundo o que eles me pediam era que eu desse marcha-ré no tempo e os
ajudasse a recuperar uma Maria-púbere.
Durante outra entrevista, quando Maria sentou-se diante deles e os olhou
firmemente, eles perguntaram o que ela estava pensando. Ela começou a chorar
angustiadamente ao mesmo tempo que gritava: "O que vocés querem de mim, me
digam o que querem de mim?"
O psicodiagnóstico individual de Maria tinha dado resu ltados ótimos e apa-
reciam enfatizados logicamente os medos do crescimento adolescente. Tudo parecia
muito simples mas agora manifestava-se uma situação dramática. Os pais esperam
que ela pule a etapa problemática da adolescência, que lhes apresente um namora-
do à imagem e semelhança do que eles querem e que se adapte ao modelo que eles
lhe impõem, no qual um dos ingredientes mais importantes é: "Não nos faças
relembrar esse aborto pois o personagem de quem estamos falando é para nós um
morto e para ti um vivo".
O mais sadio que Maria poderia ter feito seria essa oposição a se "encaixar"
no programa familiar, que excluía toda possibilidade de reviver o luto. Essa era a
verdadeira desordem da qual a culpavam e por isso era objeto de um controle estrito
e obsessivo. Mas a menina, muito sadia, ao final rebelava-se. Maria colocou: "E aqu i
eu não venho mais. Venham vocês."
A consulta terminou com algu mas entrevistas com os pais, deixando claro
que Maria não estava fugindo mas que uma vez cumprida a sua missão deixava-me
os seus pais (que na realidade ela havia trazido) para falar sobre essas intimidades
nas quais algum estranho devia se infiltrar para ajudá-los. Não era Ricardo precisa-
mente, mas eu. E a essa tarefa nos dedicamos.
Passados quatro ou cinco anos encontrei Maria na rua. Cumprimentou-me
muito sorridente e carinhosa. Contou-me que havia trocado de namorado, que era
muito feliz e que estava muito contente na Faculdade.
Capítulo 16

O Estudo do Material Coletado

Após completar as etapas de coleta de dados (entrevista inicial, testes, entre-


vistas vinculares, familiares , etc.) o psicólogo precisa dedicar -se a tabular alguns
testes, classificar e interpretar suas respostas para poder usar as suas conclusões e
integrá-las ao resto do material. De cada entrevista realizada deve ter feita uma
leitura de maneira a extrair certos padrões de conduta do sujeito e de sua família,
certas condutas chamativas, comentanos significativos, etc.
~ O mais útil de todo este trabalho feito pelo psicólogo é observar, durante as
diferentes entrevistas, o momento em que a2arece o s intoma, se ele chega a ser
observável ou não, quais as circunstâncias em que isso ocorre e como reagem de-
pois o sujeito e os outros membros presentes.
Pode acontecer que se registre uma confirmação da sintomatologia descrita
pelos pais ou, pelo contrário, outra completamente diferente que passava desperce-
bida para todos.
O importante é que o psicólogo cons iga uma boa integração de tudo o que foi
registrado, incluindo um registro contratransferencial, suas próprias associações,
sua própria intuição, etc.
A personalidade é uma (uma totalidade] e única. Isto significa que em cada
caso ocorre uma espécie de começar de novo", já que não podemos trabalhar com
um computador nem usar critérios invariáveis como parâmetros.
Possivelmente seja este o momento mais difícil para o profissional pois deve
incorporar um certo rigor a seu trabalho sem renunciar ao seu pensamento psica-
nalítico, aos seus conhecimentos sobre a dinâmica da personalidade, à gestalt, etc.
Além disso deve "contextualizar" as suas conclusões, ou seja, colocá-las dentro de
uma moldura sócio-econômica-cultural e dentro de uma história que abrange três
gerações.
Como não se trata de uma ciência exata não podemos aplicar critérios fixos.
Trata-se de um minucioso estudo das recorrências e convergências que vão
aparecendo e assim esclarecendo cada caso .
.., Conseguir elaborar \.!!!!_d iagnóstico consiste pois em_conseguir descrever
_uma personalidade. Não significa colocar um rótulo ou enquadrar o su~. Todos
aqueles que são contra o psicodiagnóstico usam esseargumento para invalidá-lo.

"º@·
Eu concordo com essa crítica. Todos os ps icólogos que atualmente valorizam o
psicodiagnóstico concordam com ela. O que ocorre é que ainda estamos pagando o
pceço pelos erros cometidos quando muitos psicólogos tenlados por
180 García Arzeno

certas circu nstâncias empenhavam-se e precipitavam-se para chegar a esse rótulo.


Outros, pelo contrário, apresentavam as suas conclusões na forma de uma intermi-
nável descrição na qual cabia tudo, e aquilo que era específico do indivíduo ficava
completamente diluído.
De forma que não é uma tentativa de encontrar o rótulo adequado para cada
indivíduo. Às vezes não o encontraríamos porque em infinitos casos a patologia é
mista e complexa constituindo um verdadeiro desafio para o profissional, que, se
não souber reconhecer os seus limites e aqueles que toda ciência possui poderá cair
em afirmações tão onipotentes quanto equivocadas.
Não obstante. muitas vezes o pedido de psicodiagnóstico é feito para um
diagnóstico diferencial e então devemos tentar ser claros e precisos: trata-se de uma
crise evolutiva adolescente ou de um surto esquizofrênico? É uma oligofrenia ou
uma oligotimia? Há organicidade ou não? Trata-se de um autismo secundário ou de
uma interrupção do desenvolvimento? Quem coloca essas perguntas espera respos-
tas defi nidas porque disso vão depender as diferentes estratégias terapêuticas a
serem aplicadas. Mas mesmo nestes casos o psicólogo deve reservar-se o humilde
direito de dizer: "Não sei".
- Lembro do caso em que um psicanalista solicitou-me o estudo de um pacien-
te que acabava de pedir-lhe tratamento. Todo o seu comportamento era o de uma
pessoa impulsiva, encenadora. carente de sentido de realidade, em alguns momen-
tos psicótica. Seus desenhos mostravam também esse quadro. Mas para minha
surpresa o Rorschach e o Phillipson eram perfeitamente aceitáveis como normais.
Cheguei a suspeitar que pudesse ter vindo com as respostas do Rorschach, "apren-
didas" já que numa causa jurídica que havia enfrentado tinha respondido a esse
teste. Mas ela não sabia que o Phillipson seria aplicado, que é um teste menos
conhecido e suas respostas populares não são tão divulgadas a ponto de que pudes-
se ocorrer o mesmo. Finalmente resolvi incluir ambas as impressões no informe e
acrescentar as minhas dúvidas sobre uma caso muito especial de "border'' ou de
uma forma muito especial de simulação.
Descartamos então a procura por um rótulo mas também a descrição confu-
sa e prolixa que não tem utilidade para ninguém.
Vejamos então como proceder para chegar a conclusões claras, simples e
convincentes para o paciente, à sua família e para o destinatário do informe que
será elaborado a posteriori.
- • Em primeiro lugar começaremos fazendo uma listagem de tudo o que o paci-
ente traz como motivo de consulta, assim como o que preocupa seu pai, a sua mãe
e irmãos.
É este o ponto de partida do estudo, e após haver estudado todo o material
deveremos voltar novamente ali para tentar encontrar uma explicação.
A partir da análise de todas e de cada uma das entrevistas teremos esboçado
hipóteses preliminares. Trata-se então de estudar o material para encontrar um
grau de certeza tal que essas hipóteses sejam convincentes. Todos os instrumentos
diagnósticos usados são um meio para se chegar a esse fim.
As entrevistas, tanto individuais, vinculares, familiares, assim como a hora
de jogo da criança ou do púbere, não podem ser tabuladas devido à infinidade de
parâmetros de respostas possíveis. Isso só poderia ser feito escolhendo alguns, que
é o que tem feito um grupo de colegas' cujos resultados foram incluídos na obra de
Ocampo, García Arzeno, Grassano e col. (ob. cit.). Geralmente esse material permite

1. Efron. A. M.; Fainbcrg. E.; l<lcincr, Y.; Sigal. A.M. e Woscboinik. P. La hora dejuego diagnóstica.
ob.cit .. cap VII. Kornblit An<tlia, /·/acia un modelo estruch1ral de la hora dejuego diagnóstica. ob. cit..
cap. VII.
Psicodiagnóstico Clínico 181

diversas leituras que dependem, em grande parte, no que se refere à riqueza de


material que ofereçam, da formação, experiência e abertura antidogmática com a
qual o profissional se dispuser a lê-lo.
Por outro lado. os testes gráficos mostram o que é mais profundo e patológi-
co. De forma que, se precisarmos dirimir dúvidas quanto ao grau da patologia eles
nos serão de grande valia. Mas o diagnóstico não pode passar pelo mais patológico
excluindo outros aspectos da personalidade mais desenvolvidos, adaptáveis e ma-
duros. Por isso escolhemos uma bateria de testes que nos proporcionem informa-
ções sobre um quadro completo. Além do mais, alguns testes como o Rorschach e o
Phillipson, assim como alguns gráficos, estão padronizados, o que nos permite com-
parar a produção do paciente com a maioria estatística e extrair conclusões que nos
resguardam de cair numa subjetividade que mistura a produção do sujeito com
nossos próprios conteúdos.
---f Os testes objetivos de personalidade também cumprem esta função. Pesso-
almente faço uso dos projetivos incluindo os que mencionei, devido ao seu alto grau
de fided ignidade.
A maior patologia aparece nos traços formais, como é dito no capítulo sobre
esse assunto. São os mais relacionados com a parte estrutural da personalidade e,
portanto, os mais estáveis. São os que variam mais lentamente à medida que o
indivíduo amadurece ou se modifica e os mais confiáveis para medir os resultados
de um tratamento ou fazer um outro teste.
Didier Anzieu2 diz:
A validação de um teste é o conjunto das operações através das quais se clã a prova de
que o leste possui um valor, ou mais exatamente um valor triplo: de discriminação dos indivídu-
os testados (sensibiliclaclc). ela estabilidade ela medição (fidcclignidacle) e da pertinência do objeto
medido (validade].

Define a sensibilidade como a capacidade do teste de refletir toda modifica-


ção da variável independente (o objeto medido pelo teste) na variável dependente (a
performance do sujeito). .b fidedignidade é - diz - a "e~tabilidade das respostas do
sujeito em duas aplicações sucessivas, t~sido elimi nado o fator aprendizagem",
Isto significa que diferentes "juízes" poderiam saber a quem pertence um grupo de
testes, poderiam comparar em séries paralelas aqueles que correspondem ao mes-
mo paciente ou então, vários "j uízes" analisando os resultados de um protocolo,
chegariam a conclusões semelhantes. No que se refere à validade, a sua apreciação
poderá ser feita com diversos métodos, e Anzieu os resume muito corretamente
assim: (a) correlação com um critério externo; (b) correlações estatísticas externas e
(c) a previsão.
Remeto os leitores a essa obra para maiores detalhes e gostaria de deter-me
neste último ponto: o valor da previsão de um teste.
Quando após algum tempo alguém (psicoterapeuta, professor, pediatra, pais)
nos diz que ficou amplamente demonstrada a certeza de nossas conclusões, experi-
mentamos uma grande satisfação e sentimento de haver feito um trabalho correto.
Isso fica muito evidente quando, através deles, podemos advertir o terapeuta
sobre conteúdos mui to reprimidos que, se o tratamento funcionar bem, "explodi-
rão", determinando momentos difíceis e cruciais tanto para o paciente como para o
próprio terapeuta, que, já colocado de sobreaviso, poderá conter melhor o seu paci-
ente e manter com pulso mais firme o rumo da análise.
Disse anteriormente que o estudo do material consiste fundamentalmente
na busca de recorrências e convergências. Isto significa que aparecem "constelações

2. Anzieu, Didier. Los métodos proyecliuos.13uenos Aires: !<apclusz, l 962.


182 García Arzeno

simbólicas" que se repetem e que são complementárias com outras. Este é outro
\ "'\ critério que fornece segurança para nossas conclusões. Por exem2lo, nos gráficos
aparecem indícios constantes de fortes sentimentos de castração: figura cortada. na
ct: zona genital, faltam dedos nas mãos ou estão ocultas nos bolsos, os galhos da árvo-
\ \l re aparecem cortados, a chaminé da casa está torta e a fumaça segue uma-linhª-.
I
horizontal. etc. No Desiderativo diz que não gostaria de ser um lápis porque se
acaba muito rapidamente, nem uma formiga porque ela é pisada. No Rorschach dá
muitas globais cortadas (W) e há choque na IV e Vl, especialmente diante das saliên-
cias fálicas. No Phillipson diz que "vê um homem que se sente culpado por algo que
fez e não pode esconder e que está esperando o seu castigo". Nas lâminas triangula-
res sempre aparecem dois que enfrentam um terceiro para reprovar alguma coisa.
Se fizermos uma conexão de todo esse material observaremos as coincidên-
cias, ou seja, as recorrências.
As concorrências têm relação com a relação de complementaridade. Os ma-
teriais não se repetem mas se complementam. Por exemplo, nos gráficos esse
sujeito desenhou figuras humanas com o nariz proeminente e gravatas chamativas
ou revólveres na cintura, ombros largos, a árvore com uma copa muito frondosa, a
casa com grandes dimensões. Tudo isso pode ser interpretado como uma super-
compensação dos seus sentimentos de inferioridade e culpa ligados à masturbação.
Por exemplo, pode dizer nas catexias do Des iderativo que gostaria de ser algo
indestrutível ou muito forte e isso será interpretado no mesmo sentido.
Tratando-se de um púbere e se já houvermos feito entrevistas familiares
deveremos ficar atentos às condutas inibidas do menino e às correlativas dos pais
(alentadoras ou limitantes). Suponhamos que observamos que seus pais são real-
mente repressores de toda atitude expansiva. Podemos ter resolvido fazer uma ou-
tra entrevista na qual estaremos atentos para ver se a atitude inibida e temerosa se
mantém ou se, pelo contrário. desaparece. Nesse caso poderemos discriminar entre
uma conduta de reação à atitude repressora dos pais e um conflito entre instâncias
intrapsíquicas. Se observarmos o registrado no Phillipson na làmina CG, veremos
que se é o primeiro caso a história versará em torno de um grupo (zona inferior) que
pede liberdade e faz reivindicações. Tratando-se do segundo, o grupo rebelde será
tachado negativamente e o sujeito interpretará que a sombra da zona superior deve
por ordem por imposição (Superego).
Em se tratando de uma conduta reativa e se estivermos com dúvidas sobre o
vinculo com cada progenitor, deveremos realizar uma entrevista com este sujeito e
cada um de seus pais separadamente para depois poder comparar o seu comporta-
mento, como também o do progenitor presente na ausência do outro.
Poderíamos chegar assim à conclusão de que a figura dominante é a mãe,
excessivamente preocupada com a organização e a limpeza, estando o seu marido
presente ou não, que constantemente limita o menino com os seus comentários
insistentes sobre sujeira e desordem. Mas poderia ocorrer que a mãe agisse assim
somente na presença do marido. À sós com seu filhà ela consegue ser mais permis-
siva sem chegar ao outro extremo. Então, relendo nossas notas sobre a entrevista
familiar poderiamas descobrir que, se bem que o pai não ê quem "canta de galo", a
sua mera presença impõe um rigor que a mãe verbaliza e de acordo com o qual age.
Partindo dessa perspectiva deveriamos revisar o que ocorreu na entrevista do meni-
no com o seu pai. Cabe esperar que seja o pai quem assuma o papel castrador e todo
o quadro ficaria claro. Mas poderíamos ter uma surpresa ao comprovar que não é
assim, que se estabelece entre eles uma relação mais relaxada de "cúmplices". En-
tão as nossas conclusões começarão a variar rumo à outra hipótese: se a mulher
estiver presente o pai assume o papel de "durão" do filme porque é essa a figura de
pai internalizada por ele e, pelo seu lado, a mãe assume o papel que tem internalizado
porque teme ser criticada ou atacada pelo marido se "afrouxar".
Psicodiagnóstico Clínico 183

Seria pertinente observar o desenho da família Kinética feito pela criança


para ver se isso aparece e como, porque isso indicaria até que ponto a criança capta
a situação.
Se houvermos escolhido a técnica de que ao final da entrevista familiar cada
um desenhe a s ua família, o material recolhido terá um valor inestimável já que
poderemos comparar a imagem que cada um dos componentes possui do grupo
familiar, por um lado, e por outro, se todos coincidem em representar o púbere
como inibido e medroso ou se isso aparece somente, por exemplo, no desenho da
mãe. Sendo assim poderíamos dizer que ela necessita que a criança cumpra com
esse papel para que ela, por sua vez, cumpra com o seu perante o marido que, por
sua vez, manterá o papel de "durão"; e se não fosse assim tudo ficaria cambaleante.
Isto nos traz uma luz vermelha para a entrevista de devolução de informação: os
pais consultam porque vêem que o menino é muito submisso e tímido demais. Seria
necessário enfrentá-los com a realidade de até que ponto eles estão preparados para
a sua mudança. Só depois seria indicado um tratamento que mudaria a criança
mas aumentaria a atitude castratória dos pais.
Com este exemplo quero mostrar como o trabalho de interpretação do mate-
rial é constituído por idas e vindas constantes de um material a outro, cio observável
ao inferível, da teoria á prática, das entrevistas livres às pautadas e os testes, etc.
Mas esse ir e vir não é feito ao azar. Somos guiados tanto por nossos conhe-
cimentos como pelas nossas dúvidas. Somos guiados pelas próprias associações do
sujeito observado e ouvido. Também por nossas próprias associações. Como no
caso de uma mulher de 30 anos que numa das histórias do Phillipson diz que é um
casal que não se dá bem porque um depende muito do outro e discu tem o tempo
todo. Nesse momento ocorreu-me a imagem de uma fita de Moebius, cujos extremos
juntam-se atravessando a fita e fechando-a em forma de 8. Tomei isso em conside-
ração para indagar depois sobre uma possível relação simbiótica patológica entre
essa mulher e o seu marido como motivo latente da consulta. O motivo manifesto
era a sua timidez para encarar de forma mais resoluta os seus vínculos com a
sociedade, devido ao que o seu trabalho via-se seriamente limitado.
Efetivamente, durante a entrevista de devolução dos resultados essa mulher
entrou em detalhes sobre a relação com o marido, que exercia o papel de executivo
inibindo-a ainda mais, em troca de que ela trouxesse para o casal fama e brilho
através da sua inteligência criativa.
Lembro que quando solicitei a ela que desenhasse duas pessoas, fez um
homem e uma mulher muito juntos com uma zona intermediária na qual era im-
possível saber a quem pertencia um traço determinado. Isso indicaria que o proble-
ma não era a impossibilidade de se soltar de um marido dominante mas de analisar
as suas próprias tendências para estabelecer relações simbióticas das quais era
muito difícil sair (tão difícil como é dizer onde começa e onde acaba a fita de Moebius).
Até aqui tentei descrever a metodologia de trabalho desta delicada etapa do
processo psicodiagnóstico.
É necessário ainda fazer mais uma advertência: nem sempre será possível
fazer com que as peças do quebra-cabeças se encaixem (por recorrências ou conver-
gências). Pode ocorrer que encontremos algumas que "não encaixam". Pode apare-
cer algum elemento estranho em algum desenho e nesse caso devemos pedir
associações ao sujeito. Talvez isso esclareça alguma coisa. Não sendo assim precisa-
mos aceitar o não entendimento do seu significado. Talvez se trate de uma resposta
muito estranha do Rorschach, dentro de um contexto de um protocolo muito coe-
rente. Talvez sejam algumas verbalizações ou gestos do sujeito durante alguma
entrevista. Poderíamos catalogar isso como escotomas ou núcleos estranhos, talvez
psicóticos. que deveremos colocar no informe como advertência para o terapeu ta,
pediatra, etc. Durante a devolução ao sujeito e/ou a seus pais aproveitaremos para
184 García Arzeno

fazer algumas perguntas sem despertar suspeitas, pois a presença desses elemen-
tos bizarros não deve ser comunicada porque despertaria uma grande ansiedade
persecutória e não conseguiríamos nem mesmo dar alguma explicação sobre isso.
Seria como se o médico clínico nos dissesse: "O que você tem é algo simples devido
a falta de proteínas. Será solucionado com uma dieta apropriada". "Mas, doutor,
aqui estou vendo uma sombra estranha na radiografia do tórax. O que pode ser?"
Não sei, não fique preocupado, o resto está bem". Certamente procuraríamos outro
especialista para acabar com as dúvidas. Ou o nosso médico não quer nos assustar
ou então é negligente.
Em alguns casos tenho optado por recorrer a outros testes para explorar
mais a fundo esse elemento estranho. Por exemplo, se for uma resposta estranha no
Rorschach poderei aplicar o teste "Z" de Zulliger em outra entrevista, que é uma
série paralela do primeiro para ver se surge algo semelhante. Ou se isso surgiu
durante uma história do Phillipson, poderei selecionar duas ou três lâminas do
T.A.T. pelos mesmos motivos.
Solicitar o relato ele um sonho e de lembranças agradáveis e desagradáveis
depois do Desideratiuo não é uma indicação casual. Nestes casos teria um valor
inestimável.
J á foi dito que os instrumentos de que dispomos são um meio para chegar a
um fim, e devemos usá-los com eficiência mas também com liberdade.
Lembro do caso de urna mulher de 28 anos que consultou porque tin ha
problemas com o marido devido à sua instabilidade emocional. À medida que avan-
çávamos no psicodiagnóstico minha hipótese inicial era que o problema dessa mu-
lher era o seu enorme narcisismo oculto sob um verniz de sedução e mimos. Tanto
para tirar minhas dúvidas quanto para poder demonstrá-lo na devolução, resolvi
aplicar o Teste de Dominó de Anstey. E um teste que avalia a inteligência através de
uma série de fichas de dominó com a última em branco. O paciente deve indicar
aquela que deveria ser colocada.
Não havia nenhuma dúvida de que se tratava de uma mulher muito inteli-
gente. Meu interesse era registrar as suas reações e dediquei-me a observá-la. Quando
o problema colocado pelo teste começou a ficar mais complicado franziu a testa e
batia com o lápis na escrivaninha. Mais adiante mordeu a ponta. Finalmente, dian-
te de uma situação muito difícil de resolver perguntou-me se poderia fumar, mas
pegou o cigarro da carteira com tanta violência que o quebrou. O teste representava
para ela tudo aquilo que ferisse o seu narcisismo. Neste caso eu seria a destinatária
de batidinhas, mordidas e outras agressões porque a fazia tornar contato com a sua
castração (cigarro quebrado]. Na sua casa quem desempenha esse papel é o seu
marido.
O meu diagnóstico inclinou-se para uma histeria de base marcadamente
narcisista, e sabemos que estes casos dificilmente são analisáveis, mesmo para aqueles
que sentem a necessidade e o solicitam, porque é justamente o narcisismo ferido a
maior fonte de resistência contra a qual precisamos lutar. Por isso, neste caso escla-
reci a esta mulher desde o início que tentaríamos um trabalho ele análise e após um
tempo avaliaríamos os resul tados para decidir se continuávamos ou não. Passa-
ram-se quatro meses durante os quais assistiu às suas três sessões semanais com
bastante regularidade mas com pouco trabalho analítico. O que mais fazia era rela-
tar a sua infância sofrida com uma atitude evacuativa, descarregando o ódio contra
a sua mãe. A partir daí começou a faltar cada vez com mais freqüência até fazê-lo
durante semanas inteiras.
Evidentemente não suportava que as minhas intervenções não lhe dessem
razão nem alimentassem o seu narcisismo, mas, pelo contrário, tentassem fazê-la
tomar consciência da inutilidade de suas exigências. Chegou a dizer-me: "Que im-
porta se eu não venho, estou pagando igual e quem paga é o meu marido". Aqui
Psicocliagn óstico Clínico 185

vemos o ataque direto ao meu narcisis mo, encenado de forma indi reta antes en-
quanto eu aplicava o teste de Anstey.
Voltando à análise desta etapa do psicodiagnóstico cito novamente Anzieu,
que adverte sobre duas posições extremas e danosas: uma é o fato ele denegrir os
testes projetivos e a sua recusa ele plano como é, por exemplo. a posição do psiqui-
atra inglês Eysenck; outra é a posição daqueles que afirmam que tudo é projetivo e
caem em extremos de interpretar psicanaliticamente o que pode ser um simples
produto de crescimento, aprendizagem ou outros fatores evolutivos.
Entre as duas posições Anzieu toma uma terceira e menciona com justiça o
psicanalista norte-americano David Rapaport como o principal representante. Seu
livro Teste de diagnóstico psicológico é um exemplo ele seriedade cientifica e pensa-
mento psicanalítico apresentando uma bateria usada na Meninger Clinic, onde seu
trabalho foi desenvolvido, que demonstra claramente como existe compatibilidade
entre a psicoestatística e o pensamento psicanalítico.
Em outro parágrafo Anzieu destaca a importância ele que o psicólogo que
realiza esta tarefa conheça não somente a Psicopatologia mas também a Psicologia
Geral. Eu acrescentaria também a Psicologia Evolutiva ele todas as idades. noções
ele Psiquiatria e logicamente o domínio (o máximo possível) cio conhecimento elas
Técnicas Projetivas e da Psicanálise.
Mas não se trata somente de um acúmulo de conhecimentos. É aconselhável
que o psicólogo tenha passado por uma experiência pessoal psicanalítica e, se pos-
sível, que alguém o tenha submetido a um ps icocliagnóstico para ter a vivê ncia
direta ela experiência que isso significa.
Isso impedirá que ele confunda as projeções do sujeito estudado com as
suas próprias e coloque o que na realidade não existe deixando de ver o que é óbvio.
A inclusão de testes devidamente validados é outro recurso para obter resul-
tados mais exatos.
Finalmente é recomendável a supervisão cio trabalho por outro colega com
mais experiência. Essa recomendação é feita especialmente para aqueles que estão
iniciando, mas não exclusivamente para eles. Casos dificeis podem surgir para to-
dos e esse é um recurso valioso. já que alguém que não esteja implicado transferen-
cial e contratransferencialmente no trabalho pode ver mais "do exterior" e ajudar-nos
a desvendar as incógnitas que nos preocupam ou ratificar nossas dúvidas como
legítimas.

Bibliografia
Lunazzi, Helena. Lectura clel psicocliagnóstico. Buenos Aires: Paidós, 1992.
Capítulo 17

Considerações Atuais sobre


a Entrevista de Devolução dos
Resultados do Psicodiagnóstico

Corno já colocamos em nossos trabalhos anteriores', o psicodiagnóstico cli-


nico acaba com uma entrevista (ou com o número de entrevistas que for necessário)
na qual o profissional explica ao entrevistado as conclusões extraídas e conversa
sobre isso. O mesmo é feito com os pais, tanto de uma criança corno de um adoles-
cente jovem ou de um adulto psicótico. No caso deste último a devolução deve ser
dada ao cônjuge, aos filhos, aos seus pais ou a outro membro da familia encarrega-
do dessa pessoa.
Essas idéias foram apresentadas pela primeira vez em 1966, durante a X
Conferência Argentina de Saúde Mental (Mar dei Plata) por Elsa Grassano, Maria L.
S. de Ocampo, Mary C. de Schust e E. Arnigorena no trabalho titulado "A importãn-
cia da devolução dos resultados do psicodiagnóstico em crianças".
De todas as razões expostas nos trabalhos anteriores há duas que colocaria
como as fundamentais para mim:

1. a curiosidade do sujeito e de sua familia para saber o que pensamos que


ocorre depois de faze r os estudos;
2. a necessidade do profissional de transmitir esses resultados e o fa to de
qu e as reações que forem registradas nessa entrevista final poderão ra-
tificar o nosso diagnóstico ou modificá- lo substancialmente.

É comum nessa ocasião o surgimento de lembranças que não tenham sido


transmitidas antes ou associações úteis para o diagnóstico.
A reação emocional diante das nossas mensagens é tão importan te quanto
as reações verbais. Assim, por exemplo, se nessa ocasião um dos pais falta a uma
entrevista sem urna justificativa fica muito evidente que não deseja saber o que está
ocorrendo, essa possibilidade o assusta, nega tudo, prefere que sua mulher se en-
carregue disso, etc. Nesses casos costumo fazer a entrevista com a pessoa que com-
pareceu e depois marco outra com ambos. Considero, conforme critérios da terapia
familiar, que é tão importante a presença daquele que acorreu quanto a ausência
daquele qu e falto u ao encontro. Anular a entrevista poderia ser adequado em ai-

1. Ocampo. M.L.S. de: Garcia Arlcno, M.E.: Grassano. E. e col., Oprocesso psicodiagnóstico e as técni·
cas projetivas. ob.cit .. cap IX., -A entrevista de devolução de informação".

186
Psicodiagnóstico Clínico 187

guns casos, mas em outros pode significar "entrar no jogo" do ausente que tenta
invalidar a entrevista.
Além do mais, a importância da presença de ambos os pais ou dos adultos
tutores ou responsáveis é importante para que escutem as conclusões diagnósticas
e a recomendação terapêutica {se houver), já que ambos deverão concordar e dividir
responsabilidades.
Pode acontecer que só a mãe acorra dizendo que o marido não poderá vir
devido aos seus horários de trabalho e que concorda com o que "nós" resolvermos.
Isso também pode acontecer com o pai, embora seja menos freqüente. Se o profissi-
onal passar a ocupar o lugar do ausente estará distorcendo a realidade, prestando-
se a uma certa cumplicidade negativa e dando por certo o acordo do ausente sem
que isso tenha ocorrido na realidade.
Sendo a consulta feita por um menor de idade ou por um adulto incapacita-
do devem se apresentar nessa ocasião todos os que possuem e compartilham o
pátrio poder ou a responsabilidade legal.
No nosso trabalho anterior2 expressamos uma série de idéias que funda-
mentam teoricamente a necessidade de que após as entrevistas iniciais e a aplica-
ção dos testes ou outras técnicas diagnósticas, seja realizada uma {ou mais) entrevista
de devolução.
Entre esses fundamentos teóricos gostaria de dar ênfase a alguns. Dizíamos:

é necessário devolver-lhes (aos pais) uma imagem do filho. deles e do grupo familiar, corrigida.
atualizada, ampliada ou diminuída. que nem sempre coincide com aquela que eles trazem na
primeira consulta. Mostrando-lhes que o filho é diferente do que eles pensam, os colocamos cm
condições de tomar consciência da verdadeira identidade dele. das mudanças que deverão acei-
tar no filho. neles e no grupo familiar como um lodo. se estiverem realmente dispostos a modifi-
car o status quoem vigor (p. 396).

Mas colocá-los em condições de tomar consciência da identidade real do


filho não equivale a dizer que esse ê o resultado infalível (e mágico) dessa comunica-
ção. Obviamente devemos contar com as resistências que isso pode mobilizar. É
imprescindível observar como fu nciona a resistência. quem ê o porta-voz dela, etc ..
ou seja, agindo "ao vivo e diretamente". As reações dos pais e dos filhos perante a
nossa comunicação se repetirão durante um tratamento ps icoterápico ou durante a
atividade no trabalho, na escola, etc. Por isso, isto propicia uma orientação mais
segura sobre o caso.
Conforme os conhecimentos vigentes, incipientes na época, sobre a teoria
sistémica e estrutural sobre a familia, sabemos que ela ê um s istema constituído
por diversos subsistemas ou uma estrutura com as suas próprias leis de funciona-
mento.
A teoria psicanalítica sobre a família adverte-nos sobre a presença de mitos
familiares imprescindíveis, às vezes sadios, às vezes muito patológicos que agirão
contra qualquer tentativa de inovação. Também nos dà informações sobre como são
desempenhados os papéis, complementares ou não. as resistências e os mecanis-
mos de defesa em nível familiar.
Assim, a tarefa do psicólogo não ê uma tarefa fácil. Não se trata de "marte-
lar" na cabeça do sujeito atê obter o seu reconhecimento, mas de chegar a mobilizar
as suas resistências e obter um pouco de "insight". Nesses momentos estamos tra-
balhando com um alto risco de cometer erros devido ao nosso narcisismo ferido e
com um alto grau de responsabilidade profissional. Em alguns casos cheguei a dizer
aos pais de uma adolescente: "Bem, ela ê a sua filha, não minha. Eu disse o que está

2. Idem.
188 García Arzeno

acontecendo e que pode vir a acontecer se ela não receber ajuda. Agora a decisão é
de vocês". Quando percebo intensas resistências e manifesta desconfiança desde a
primeira consulta, coloco-lhes nessa mesma entrevista que a minha função será
tão-somente fazer o psicodiagnóstico e que não aceitarei fazer o tratamento, visando
assim evitar a suspeita de que durante a devolução estarei ten tando convencê-los
de algo em vantagem própria (especialmente económica). Lembro de um caso no
qual não pude nem sequer indicar alguns nomes de profissionais para continuar o
tratamento ele um menino, pois o pai foi logo dizendo: "Eu sei como isso funciona;
mandou-me um paciente, eu lhe mando outro".
Estes esclarecimentos elevem ser feitos com a finalidade de obter maior con-
fiança no nosso trabalho e não como uma forma de retaliação, algo assim como:
"Não acreditam em mim, os abandono, não quero mais vocês".
Voltemos ao texto original:

Se os pais não vieram por inicialiva própria mas enviados por um terceiro (professor.
pediatra. ele) a enlrevisla de devolução funcionará como uma oporluniclacle para fazer com que
todos lenham um certo "insight" ela situação real. Estes pais não são os que "erram" o sintoma
mas os que não percebem nenhum. O psicólogo funciona como o segundo clelector cio conílilo e
como o encarregado de fazeras pais perceberem o que ocorre (...1Contratransfcrencialmente são
esses os casos nos quais a devolução se torna mais clificil. devido á dose ele frustração que supõe
para o psicólogo e a carga ele angúslia que nele depositam (p. 396 e 397).

Este parágrafo merece as mesmas reflexões que o anterior. Lembro muitos


casos nos quais fui consultada como supervisora. Os jovens profissionais chegavam
sempre com uma intensa carga ele raiva ou angústia. A pergunta que me faziam era:
"O que devo fazer para convencê-los?" ou então uma atitude pessimista e de derro-
ta. Considerava importante antes de mais nada esclarecer que eu também não po-
deria fazer o que era impossível. Então alguns deles sentiam-se aliviados aprendendo
algo com aquilo que haviam considerado um fracasso. Outros, os que haviam depo-
sitado em mim toda a onipotência que desejavam para si, retiravam-se frustrados.
Até aqui relembrei parágrafos nos quais se fu ndamenta a necessidade da
devolução ele informação sobre a base elas necessidades cio filho e seus pais. Inclu-
ímos também razões que se apóiam em necessidades do psicólogo.

A entrevista de devolução é mais um passo no conhecimento cio caso. passo que ás


vezes toma uma importância enorme quando nela surgem lembranças reprimidas ou alitucles
inesperadas ou não mostradas até aquele momento. que levam a uma mudança cio plano lálico
iclcalizaclo previamente para o caso. Geralmente possibilita fazer uma boa sintese. Ovolume ele
informações fica enriquecido não somente para o profissional que faz o cliagnóslico mas também
para o terapeuta para quem o caso foi enviado ou que o enviou para o psicocliagnóslico. Saberá
quais são as reações prováveis do sujei lo quando tentar incluir o que habitualmente dissocia,
nega, isola, ele .. através da interpretação. o que permite planejar a terapia com um maior senso
ela rcaliclacle (p. 397)

Quando dizíamos: "o plano tático idealizado para o caso", ou mais adiante:
"planejar a terapia"... , o leitor pode ter tido a sensação de que se tratava de algo
preparado rigidamente segundo parâmetros prefixados.
Não é isso. A expressão verbal pode não ter s ido totalmente clara mas a
nossa intenção não era a de estabelecer um planejamento esquemático e rígido.
J ustamente se dissermos: "o volume de informações fica enriquecido" é por-
que o psicólogo traz uma idéia e age como observador receptivo para uma resposta
que pode não ser a esperada. Conforme a resposta que receber poderá optar por
uma caminho ou outro. É um jogo dialético entre introduzir certos elementos e
esperar que o sujeito estruture o campo. como dizia Eleger. Este esquema ele traba-
Psicodiagnóstico Clínico 189

lho não tem nenhuma semelhança com o do médico quando lé um diagnóstico que
não admite modificações nem discussão.
É por isso que os jovens profissionais ficam angustiados e não assumem a
responsabilidade de transmitir um diagnóstico inteligível ou desenvolvem uma ob-
sessão com um planejamento esquemático que então sim se tornaria contraprodu-
cente.
Dentro do contexto geral do processo psicodiagnóstico, a devolução de infor-
mação é o passo que manifesta mais a experiência clinica do profissional e o grau
em que ele pode analisar os seus próprios conteúdos inconscientes e a sua história
pessoal.
Se isso não foi suficientemente elaborado, é o momento em que ele pode
"entender errado" ou reagir ele forma inadequada, seja porque transforma a entre-
vista com os pais numa batalha edípica ou porque percebe no filho o próprio irmão
que desperta os seus ciúmes, etc.
Entra então em ação o mecanismo já mencionado ele "contra-identificação
projetiva" (ver os primeiros capítulos) e os resultados do trabalho terão uma valida-
de duvidosa.
Alguns afirmarão que esta entrevista ele devolução é desnecessária ou in-
conveniente. mas assim como dizíamos em nosso livro anterior:

A falha não reside na teoria da devolução la! como nós a postulamos. e dentro dos
limites cm que a postulamos. mas na técnica usada para o caso (p. 399)

Dizíamos também:

O psicólogo funciona dentro do grupo como um aspecto cgóico que possui numa maior
medida que os demais a capacidade de percepção, discriminação, integração e síntese. Ele per-
cebe com um maior senso da realidade o que está ocorrendo e o que pode ocorrer e está cm
condições ele sentir uma angústia menor clianle dessa percepção. Mas se ele só percebesse a sua
função seria limitada demais e ineficiente. Se concebermos o psicólogo como um agente que
promove mudanças devemos também dar-lhe um papel mais alivo e direto. o de transmitir
aquilo que percebe e perceber novamente para avaliar o resultado da sua mensagem (p. 399).

Estávamos então, descrevendo o papel do psicólogo como o ele um observa-


dor participante, em maior ou menor medida, conforme o caso e método pessoal.
Em alguns momentos deverá colocar uma distância prudente e silenciosa
para aceitar a dinâmica cio que está ocorrendo e o seu significado profundo. Em
outros, participar ativamente e recorrendo a diversos meios técnicos para alcançar
o objetivo principal que é a tomada ele "insight" em relação ao conflito central.
Isto não significa que o profissional eleva atuar como uma figura superegóica
e cruel ou como um tirano que, sem levar em consideração as possibilidades reais
cio paciente ele tomar consciência cio que lhe ocorre e os limites impostos pela neces-
sidade ele proceder com prudência e cautela, "vomita" uma série ele afirmações em
nome de dizer a verdade quando na realidade está agindo como agressor e repressor
que julga o sujeito. O resultado inevitável dessa atitude é que o sujeito fica assusta-
do, não volta mais, sua estrutura se desfaz e quer matar o primeiro que surgir pela
frente. ou atacar o próprio profissional já que a intensa ansiedade pôs em marcha
mecanismos ele ação para atenuá-la (ou evacuá-la).
Muitos terão tido a oportunidade de conhecer, dentro da teoria kleiniana, o
que se refere à seguinte colocação: quando o sujeito introjeta algo, .qual é o destina
da introjeção? Aquilo que é introjetado é introjetado no Ego ou no Superego? A
resposta foi dada por uma discípula de M. Klein, Anna Segai, que diz que isso de-
pende da forma com que o inlrojetado foi incorporado. O tom afável de um conselho
190 García Arzeno

protetor faz com que isso seja introjetado no Ego. O tom de imposição e censura faz
que o introjetado seja incluído no Superego, aumentando a sua rigidez e crueldade.
É muito importante considerar isso para ter conhecimento da importãncia
da técnica a ser empregada no momento de transmitir algo.
Assim, por exemplo, dizer: "Não devem permitir que seu filho durma com
vocês, isso é errado" contribui para aumentar a severidade do Superego a quem o
Ego se submete ... temporariamente. De forma que além de contraproducente é
ineficiente. Se, no entanto, dissermos: "Não faz bem a uma criança dormir com
adultos, a excita e assusta, mesmo que possa não parecer". Obviamente isso será
incorporado como algo útil para o Ego dos pais que recebem uma informação e uma
sugestão; não uma ordem. Assim, os pais podem se omitir diante dessa mensagem
sem sentirem-se perseguidos pelo profissional e com um menor risco de abandono.
Em nosso texto anterior dizíamos: ·o psicólogo pode agir identificado com
um Superego exigente que não contempla as possibilidades reais de insight" (p.
400). A palavra "pode" foi usada no sentido não de aprovação de uma possível atitu-
de do profissional mas no de assinalar uma das suas possíveis atitudes, com certe-
za, contraproducente. Isto está relacionado com o que já era então percebido: o
risco de transformar a entrevista de devolução numa situação traumática que gere
condutas negativas no que se refere a um bom final do processo diagnóstico.
No que se refere á técnica de devolução, assunto que já foi abordado anteri-
ormente, poderíamos resumir alguns indicadores de forma não exaustiva já que é
impossível prever todas as variáveis possíveis numa entrevista dessa natureza. ou
seja, livre.
Dentro daquilo que pode ser planejado pelo psicólogo recomendamos o se-
guinte:

1. Uma vez concluídas todas as entrevistas prévias, deveremos estudar


detalhadamente todo o material diagnóstico. Pessoalmente prefiro interpretar cada
teste separadamente e depois procurar as recorrências e convergências, para che-
gar assim às conclusões a que elas levam. Logo após, integro esse material com as
entrevistas iniciais e familiares (se houver). Retomo então as hipóteses preliminares
elaboradas após entrevista inicial para retificá-las ou ratificá-las e explicitá-las de
forma acessível para os consultantes.
Em relação ao estudo do material projetivo gostaria de fazer uma análise
mais profunda. pois é o que apresenta maiores dificuldades para aqueles que reali-
zam este trabalho.
Após a interpretação dinãmica, psicanalítica, evolutiva e sócio-cultural de
cada entrevista e de cada teste, tentamos encontrar recorrências e convergências
para chegar com um maior grau de certeza á conclusão final, ou seja, ao diagnóstico
situacional da família e o da patologia do filho que os levou a consultar. se ela existir,
e, de acordo com isso, à indicação terapéutica mais adequada.
Lembremos o significado do conceito de "recorrências": é a repetição da mes-
ma fantasia, conflito ou problema expressos através de elementos semelhantes ou
de significado simbólico equivalente. Por exemplo, em todos os desenhos falta algu-
ma coisa que de acordo com a interpretação psicanalítica é fálica. Faltam alguns
dedos. faltam os pés, não aparecem finais nas histórias do Phillipson e no Rorschach,
as zonas fálicas provocam reações de choque.
O conceito de "convergência", por sua vez. leva a reunir material que informa
sobre fantasias, conflitos ou problemas diferentes mas complementares. Por exem-
plo, elementos de castração nos desenhos, escolha de elementos onipotentes nas
catexias positivas do Desiderativo, escolha de elementos frustrados ou castrados
nas catexias negativas do Desiderativo. condutas grandiloqüentes nas entrevistas
acompanhadas de gestos tais como tocar na gravata constantemente ou, como ocorreu
Psicodiagnóstico Clínico 191

num caso. dizer: "Com licença, preciso ir ao banheiro, estragou o fecho da minha
calça". Na lâmina IV do Rorschach pode aparecer uma resposta do tipo: "Sem isso
(ârea fâlica) um sapo feio, é repugnante ... (a inverte) assim uma águia poderosa,
essa que aparece em alguns escudos reais".
Podem aparecer pseudo contra-indicações que nos deixam desorientados.
No entanto, podemos superar a confusão se entendermos que se trata de diferentes
aspectos de uma personalidade dissociada, ou de aspectos mais conscientes e ou-
tros mais profundos ou inconscientes; também podem ser diferentes aspectos pro-
duto de identificações com diferentes figuras significativas do meio, podendo alguns
estar relacionados com ansiedades mais profundas e outros com as defesas diante
delas; ou então com diferentes métodos defensivos usados conforme as circunstân-
cias vitais. Quando aparecem aspectos totalmente fragmentados estaremos diante
das patologias mais graves: as psicoses.
Como já foi dito anteriormente, tudo isso no levará a conclusões que serão
depois comparadas com as primeiras hipóteses preliminares, elaboradas nas entre-
vistas iniciais.
Vejamos o caso de um menino de onze anos cujos pais consultaram porque
estava sempre puxando a roupa na região do ânus. Surgiram três hipóteses passi-
veis: (1) é um tique; (2) é uma conduta não constante como o tique e mostra situa-
ções ansiogênicas e (3) existem dificuldades na identidade sexual e o gesto tem
implicações de masturbação anal. Essa última hipótese foi exposta com prudência
já que observei nos pais a existência da possibilidade de pensar nela sem susto.
Depois de entrevistar com o meni no cheguei a conclusão de que não poderia ser a
terceira porque nos testes gráficos, no Desiderativo e nas lâminas IV e VI do Rorschach
aparecia uma excelente identificação masculina. Também não se tratava de um
verdadeiro tique porque não era uma conduta constante; foi registrada uma única
vez durante todas as entrevistas. A conduta do tique é muito freqüente com interva-
los curtos devido à força do conteúdo inconsciente que é expresso através dele e que
ao mesmo tempo fica reprimido pelo tique. Isso foi observado somente uma vez
nesse menino e dentro das seguintes circunstâncias: olhou a caixa de brinquedos
(na sua idade digo que olhem para ver se tem alguma coisa que lhes interesse para
fazer algo) e me disse que queria jogos de mesa. Escolheu o xadrez. Eu sabia que ele
jogava muito bem. A primeira partida durou dois minutos e eu perdi, obviamente
por "xeque mate". A segunda foi diferente.
Tentei concentrar -me ao máximo e "abrir" o jogo de uma forma diferente.
Desta vez ele precisou de quinze minutos para ganhar a partida e dez minutos após
o início do jogo observei que mesmo estando sentado incorporava-se levemente na
cadeira e puxava a calça. Ficou então óbvio que o que provocava essa conduta eram
as situações de desafio altamente competitivas. Visto que, além do mais, o xeque
mate é dado por um rei ao outro e equivale à morte, ficou claro que o conílito era
puramente edípico com um pai percebido ao mesmo tempo como bom, suave e
compreensivo mas também imponente e impossível de ser atingido e superado.
Na entrevista de devolução explicitei isso. Os pais trouxeram muito material
em forma ele anedotas reconhecendo que o pai era o número um em tudo e que, sem
maldade nenhuma, ganhava do filho em tudo. Sem maldade, porque ele não compe-
tia com o filho mas com seu próprio pai inconscientemente, sem perceber os efeitos
que caiam sobre o seu filho. Era impossível que esse pai retificasse a sua conduta já
incorporada como algo caracterológico, que, além cio mais. fazia dele um vitorioso
na sociedade. No entanto, recomendei a ele que, ele vez em quando, fizesse pergun-
tas ao filho sobre algum assunto sobre o qual o filho soubesse mais do que ele. Por
exemplo, sobre o significado de palavras ela gíria dos jovens ou sobre personagens
da televisão. Poderia também jogar algum jogo comum entre os jovens mas que
fosse desconhecido por ele como. por exemplo, a "batalha naval" ou "forca", etc.
192 García Arzeno

2. Uma vez elaborada a hipótese que melhor ex-plica a situação, é importan-


te resumir o ou os motivos da consulta trazidos pelo sujeito e seus familiares. É
importante colocá-los numa ordem de patologia crescente, ou seja, começar com o
mais trivial avançando até o mais patológico. Ao longo das entrevistas teremos tido
a oportunidade de observar aspectos positivos do sujeito não apresentados na pri-
meira entrevista, já que supostamente cada um começa a falar daquilo que o preo-
cupa e não do que "está bem". Mas é muito importante que na entrevista de devolução
se fale primeiro dos aspectos sadios e positivos para depois entrar naqueles que não
"estão bem" na ordem exposta anteriormente.
Por exemplo, no caso de um jovem de vinte anos cujo pai consultou porque
o considerava um vagabundo, comecei colocando que era um rapaz muito cumpridor,
pontual e bem disposto a colaborar em tudo aquilo que sugeri que fizesse; que era
muito criativo colocando sempre um toque pessoal no que fazia, o que irritava de-
mais o seu pai obsessivo. Descrevi também a sua condu ta da seguinte forma: come-
ça com rodeios para aproximar-se parcimoniosamente do objeto que logo será
alcançado com sucesso. Isso é interpretado pelo pai como "vagabundagem", pois ele
não consegue esperar até a fase final das reações do filho. Enquanto os olhos da
mãe se iluminavam e em alguns momentos se enchiam de lágrimas, o pai se remexia
desconfortável em sua cadeira. Assim, no final, precisei encarar essa situação como
incompatibilidade de caracteres devido a diferenças substanciais ele personalida-
des, para que o pai não o encarasse como um julgamento entre o "bom" e o "mau".
Em nosso texto anterior dizíamos:

Devemos destacar que é muito imporlanle eslabelecer com clareza o que deve ser dilo
ou não, como elcmenlos de limile dentro dos quais poderã se desenvolver a cnlrevisla de dcvolu·
ção (p. 401)

Isso significa que, tal como já foi colocado, nem tudo o que aparecer no mate-
rial cio psicodiagnóstico deve ser dito inexoravelmente. Deveremos pesar, em cada
caso, até onde poderemos chegar sem que existam leis precisas para isso. Muitas
vezes os pedidos ele supervisão ele psicodiagnósticos chegam para planejar a entre-
vista de devolução e separar ele uma forma mais objetiva o que deve ou não ser dito.
De qualquer forma há situações especiais nas quais o psicólogo fica diante
de uma dúvida pois ele foi consultado para saber o que ocorre e por quê. Por pru-
dência algumas afirmações não deveriam ser feitas durante uma entrevista diag-
nóstica, mas uma situação limite é aquela em que a pessoa corre sérios riscos de
loucura ou ele morte, de cair na marginalidade, prostituição, abortos reiterados,
abuso de droga, etc.
Nesses casos tento apelar progressivamente para todos os meios para que o
sujeito e ou seus pais tomem consciência ela gravidade do caso e da necessidade de
um tratamento. Se até o final da entrevista não consegui convencê-los é possível
que marque uma outra consulta para ver se nesse período de tem po conseguem
elaborar alguma coisa a mais sobre o que foi exposto. Se o resultado for negativo,
incluo o prognóstico reservado da forma mais acessível ao caso.
Por exemplo. no caso ele uma menina ele quatorze anos que já havia feito um
aborto e costumava fugir de casa durante vários dias, o pai escutava mudo enquan-
to a mãe minimizava as minhas afirmações. "São coisas de adolescentes" dizia. Era
uma "executiva" que em nenhum momento soltou a sua pasta e manteve sempre
uma expressão de contrariedade demonstrando que estava ali perdendo o seu tem-
po. Chegou um momento no qual eu cheguei a dizer que eu tin ha me dado ao
trabalho de investigar se essa era uma conduta habitual ou não e que sabia que não
era. Continuou rebatendo as minhas afirmações. Então perguntei-lhe: "Se você ti-
vesse ido ao médico com a sua filha e ele houvesse solicitado urna exame ele sangue,
Psicocliagnóstico Clín ico 193

discutiria com o especialista a normalidade ou não dos resu ltados?" Ficou calada,
mas não convencida. O pai fazia intervenções tímidas apoiando as minhas conclu-
sões, mas sem a força suficiente para torná-la mais flexivel. Eu não podia penetrar
na história pessoal dessa mulher nem fazer entrevistas vinculares com a filha já que
isso era incumbência do psicanalista que havia solicitado o psicodiagnóstico e que
havia preferido que a devolução fosse feita por mim porque entrava em choque com
o mesmo inconveniente da impermeabilidade da mãe. De modo que para colocar um
ponto final na entrevista disse: "Bem, trata-se de s ua filha , não da minha. Minha
fu nção é dizer -lhes tudo o que foi possível entender e foi o que fiz. Se ela fosse minha
filha me preocuparia pois os abortos podem voltar a acontecer deixando seqüelas
muito fortes na iden tidade femi nina. Outra preocupação é que ela pode ser levada
pelo primeiro que passar e acabar não se sabe onde nem como". Na despedida fiquei
com uma sensação de impotência e é isso o que devemos aprender a assimilar para
que esta não se transforme numa tarefa insalubre. Este é um dos exemplos das
limitações com as quais trabalha o psicólogo. devido a que nem sempre são obtidos
todos os resultados esperados, de acordo com um planejamento ideal.

3. Na entrevista de devolução, como em todas, estamos trabalhando cons-


tantemente com a transferência e a contratransferência. Por isso a técnica da devo-
lução deve incluir este fato integrando conhecimentos e experiências provenientes
da clínica e da s ua própria análise. O exemplo anterior presta-se para ver como
podemos facilmente cair na classificação desta como uma mãe "má" e transformar a
situação em um campo de batalha para dominá-la e convencê-la à força do perigo
que corre a sua filha "inocente". Não se trata de contar -lhe a história ele Chapeuzinho
Vermelho nem ele iniciar u m combate. Cabe perguntar-se: Por que não consegue ver
o perigo, o que representa para ela esta filha a quem ela não consegue proteger?
Se o caso continuasse em nossas mãos, o mais lógico seria incluir a menina
em outra entrevista e observar o que ocorre entre elas, entre elas e o pai, entre eles
e nós.
Essa senhora estabeleceu uma relação de transferência negativa hostil des-
de o início, mas não comigo como pessoa. Na verdade, o mesmo já havia acontecido
com o psicanalista que me enviara o caso. Portanto devemos considerar que muitas
reações dos consultantes devem -se não a uma questão pessoal mas a que já se
instalou desde o início uma questão transferencial muito especial. diferente de caso
para caso, que suscita também uma reação contratransferencial nossa diferente em
cada caso. O importante é não ficar preso nela e revertê-la como outro parâmetro de
imensa importância para o d iagnóstico final. Por isso d izemos que a entrevista de
devolução é o úllimo passo do processo psicodiagnóstico. e não uma etapa alheia a
ele.

4. Vejamos agora algo a respeito da escolha do método verbal e/ou não ver-
bal para obter uma melhor devolução tanto para os adultos como para as crianças,
mesmo as muito pequenas. Geralmente é mais fácil comunicar as nossas conclu-
sões aos adultos, mas isto não pode ser aplicado sem abrir algumas exceções. Com
as crianças é mais difícil pois geralmente compreend em melhor quando fazemos
uso de alguma metáfora, algum jogo ou então lhes mostramos suas respostas aos
testes ou à hora de jogo.
Em todos os casos devemos escolher uma terminologia acessível a quem nos
escuta. Usaremos uma linguagem mais formal com um adulto com características
obsessivas, asseado e cordial. Poderemos ser menos formais com outros mais sol-
tos. Com adolescentes teremos que usar os termos da moda porque, não sendo
assim, estaremos nos arriscando a não sermos entendidos ou então estaremos des-
pertando as suas resistências em aceitar o que está dizendo "essa velha". Além do
194 García Arzeno

mais, devemos levar em conta que em todos os casos, ou pelo menos em sua grande
maioria, observa-se uma diminuição gradativa no uso do vocabulário e por isso
devemos ter certeza de que fomos compreendidos.
Recordo um caso em que disse a uma jovem de quinze anos: "Você se sente
abrumada com tudo isso". Ela perguntou: "O que quer dizer abrumada?" Respondi:
"Com um grande peso em cima".
Os adultos são menos propensos a perguntar com tanta naturalidade, mas
a sua expressão facial certamente irá mostrar se compreenderam ou não.
A linguagem têcnica é totalmente descartada nessas entrevistas, mesmo
quando algum dos consultantes for colega. Os outros sentir-se-iam excluídos e soa
a intercãmbio intelectual mais que a compreensão da mensagem.
Além do mais, a nossa terminologia cientifica nem sempre é única, de forma
que cada um pode entender algo diferente ao escutar a mesma palavra.
Geralmente mostramos o registro dos testes somente a quem os fez. Em
nosso texto anterior dizíamos: "A propósito do material de teste, cabe esclarecer que
de forma nenhuma deve ser mostrado aos pais" (p. 403). Atualmente considero que
essa afirmação se mantém em termos gerais, mas há casos nos quais é positivo usá-
los. Quando fizemos uma colocação tão categórica, estávamos fazendo referência a
uma equivalência entre o material recolhido no processo psicodiagnóstico e o das
sessões psicanaliticas. O sigilo profissional impõe certas reservas de forma a permi-
tir uma ação cautelosa. Para um filho adolescente pode ser chocante o fato de mos-
trarmos os seus desenhos. Uma menina pode sentir-se inibida se souber que a sua
mãe verá os seus desenhos, se sentir vontade de omiti-la no desenho da família.
Certas produções com traços sinistros podem consternar os pais de uma criança ou
de um adulto se não estiverem preparados para ver a patologia nessa forma gráfica.
Vejamos alguns exemplos. Lembro do caso de uma menina cuja problemáti-
ca estava ligada a uma intensa rivalidade com sua mãe. Usei com ela e também com
seus pais o desenho da família já que a imagem era mais eloqüente que as minhas
palavras: o tamanho da sua própria figura era maior que o da mãe; seu aspecto era
o de uma princesa enquanto que o da sua mãe assemelhava-se mais à gata
borralheira. Colocou-se junto ao pai e disse que ambos estavam escutando música,
enquanto que a mãe aparecia num plano inferior junto ao filho homem cozinhando.
Logicamente eu não teria mostrado o desenho a uma mãe que abrigasse a mesma
rejeição que sua filha sentia por ela pois isto aprofu ndaria ainda mais o conflito
existente entre elas. Desde o início da entrevista inicial e logo na entrevista de devo-
lução havia constatado a boa relação do casal e a atitude compreensiva da mãe com
a fil ha, que sofria de diversos medos intensos que limitavam bastante a sua vida e a
do resto da família. Mostrei o desenho à menina e disse-lhe: 'Veja que grande você
se desenho u", ao que ela respondeu: "É porque eu estou mais na frente". "Bem,
disse-lhe, assim é como você se sente, à frente da mamãe e mais juntinho do pai do
que ela; gostaria de ser a rainha da casa mas a rainha é a mamãe e isso provoca
raiva em você; depois você fica com medo da escuridão, dos cachorros, dos fantas-
mas, mas é só medo de que a mamãe queira vingar-se". Em certos casos este é todo
o conteúdo da devolução porque observamos que o aspecto cari nhoso do vínculo
com a mãe a faz sentir muita culpa ao escutar-nos. As crianças muito pequenas
mostram seus conteúdos inconscientes com mais naturalidade e conseguem escu-
tar-nos com uma permeabilidade maior. Elas podem dizer naturalmente, por exem-
plo, ao fazer o desenho dos seus pais: "Esta é a minha mãe, vou desenhá-la como
uma bruxa porque ela é uma bruxa e o meu pai vou desenhar como um diabo
porque ele é bravo".
Em outra ocasião escolhi uma lâmina do Rorschach e perguntei à família de
um homem de trinta anos o que viam ali. Estavam presentes um tio e uma sobri-
nha, já que o homem era órfão. A consulta devia-se à necessidade de esclarecer em
Psicodiagnóstico Clínico 195

que grau apareciam nele associados sinais de deficiência mental com outros de
psicopatia e alguns de franca psicose. Mostrei-lhes o H.T.P. comparando-o com o de
um menino de quatro anos e com outro de um adulto sadio. Ali foi possível perceber
o nível infantil das suas respostas. Na lâmina Ili do Rorschach viram as duas figu-
ras humanas e mostrei-lhes a imagem de um bicho que o rapaz havia visto. O
conteúdo animal aumentado é próp rio das crianças mas as características
aterrorizantes do bicho em questão ilustravam as ansiedades psicóticas que ele
sofria nos momentos mais difíceis da sua vida: a morte de sua mãe e logo a do pai,
três meses antes.
Logicamente cabe uma pergunta: o que haveria ocorrido se os membros da
família dissessem alguma coisa que indicasse uma patologia grave? Por um lado
serviria para saber que o paciente pertencia a um meio familiar psicótico. Por outro.
alteraria o rumo da entrevista para outro material, por exemplo, a lâmina AG do
Phillipson que investiga o modelo de luto mais primitivo. Se a família persistir nos
seus desvios patológicos, será confirmado o fato de que o contexto no qual vive o
paciente é muito doente e toda a família precisa de ajuda. Se as respostas dadas
fossem populares, estaríamos trabalhando com um lado mais sadio da família ao
qual poderíamos recorrer como aliados no processo terapêutico do mais doente.
No que se refere à escolha da linguagem mais apropriada é importante ter
certeza de que todos, crianças, adolescentes e adultos tenham compreendido clara-
mente o que dissemos.
Às restrições idiomáticas somam-se as resistências para escutar e entender.
Por isso é recomendável agir "em espiral", ou seja, repetindo o que foi dito no início
e acrescentando cada vez um elemento novo até completar tudo aquilo que deseja-
mos transmitir. Também é importante provocar respostas elo sujeito para certificar-
nos de que nos compreendeu. O uso de metáforas pode ser muito útil assim como o
de contos e lendas populares. Lembro também que tratando ele um homem ele apro-
ximadamente trinta anos disse-lhe: "Você espia por trãs do seu olhar", para marcar
a sua desconfiança e paranóia disfarçada por trás de uma atitude direta. Em outro
caso, para explicar a um menino ele onze anos os seus temores permanentes surgi-
dos de repente disse-lhe que o que ocorria com ele acontecia com todos os meninos
que se transformam em homens e sentem mudanças em seu próprio corpo, inclusi-
ve ereções. Disse-lhe também que isso ocorre desde que o homem civilizado existe e
que os gregos já haviam escrito sobre isso. Em forma ele novela, relatei-lhe a tragé-
dia ele Edipo. A mãe estava presente pois o menino não queria separar-se dela. Ela
ouviu a história com muita atenção. Acabei dizendo que isso era simplesmente um
conto e que na vida real as histórias não acabam dessa forma, mas que criam certas
dificuldades. O seu medo de ser abandonado pelos pais assemelhava-se muito à
condenação ao exílio sofrida por Édipo. O seu pavor ele ser seqüestrado por um
homem é produto elo medo de competir com o pai, que repentinamente transforma-
se num velho decrépito a quem ele poderia matar como acontece com Édipo. Mas ...
"isso ocorre na s ua fan tasia. Na realidade o pai continua o mesmo e ainda falta
muito tempo para que você tenha realmente mais poder físico que ele. Mesmo sen-
tindo-se seu rival. ele ama você e não pensa em tirá-lo do meio". O menino sentia-se
mais e mais aliviado. Notei que soltou a mão de sua mãe e que esta, por sua vez,
sentia-se mais relaxada da tensão produzida nela por esse filho que repentinamente
havia se tornado temeroso e absorvente.
Em outra ocasião, lembro ter dito a uma mulher ele quarenta e cinco anos:
"Eu não sou Mandrake e o que você procura é alguém que o seja para dessa forma
evitar enfrentar todas as frustrações impostas pela vida, tanto a você como a mim".
Assim usei um caminho muito mais curto para deixar o maior tempo possível ela
devolução para observar os efeitos dessa afirmação e ajudá-la a elaborar esse "NÃO",
aceitando assim o fato ele realizar uma psicoterapia sobre bases mais realistas.
196 García Arzeno

Recapitulando, gostaria ele sintetizar alguns pontos.

1. Definição ela devolução de informação:


Consiste em transmitir os resultados do psicodiagnóstico ele forma dis-
criminada, organizada e dosada segundo o destinatário. Também a lin-
guagem verbal. gráfica ou lúdica deve ser apropriada ao mesmo para
que seja clara e adequadamente compreendido.

2. Objetivos da entrevista de devolução:


a) Transmitir uma informação.
b) Observar as reações diante da mesma (verbais, gestuais, etc.) e a
capacidade para fazer "insight" com o que está latente, já que isso
nos indicará até onde poderemos chegar na devolução.
c) É a última oportunidade para o surgimento de elementos novos, ou
seja, é o passo final do processo que vai nos proporcionar um pano-
rama complementar em relação ao material anteriormente recolhi-
do.
d) Conforme as reações dos pais do filho, ou do adulto em questão,
durante esta entrevista manteremos a recomendação terapéutica
previamente pensada ou a modificaremos apropriadamente.

3. Por que o fazemos?:


a) Comecemos com o mais elementar: se alguém chega pedindo ajuda
é lógico que expressemos a nossa opinião sobre o que achamos que
ocorre e a solução possível.
b) A pessoa que consulta colabora mais quando sabe que tudo o que
fizermos juntos será para chegar finalmente a essa opinião final.
c) Falar dos resultados significa que não se trata de algo terrível ou
incurável, sobre o que deve ser guardado segredo absoluto.
d) Assim damos aos consultantes a oportunidade de que se vejam com
maior senso de realidade, com uma maior objetividade.
e) Já foi demonstrado que, seguindo a teoria da Gestalt, toda forma
tende ao seu próprio fechamento. Isso cumpre-se em termos de
processos ou de condutas . Tanto para aquele que consulta como
para nós. Aquilo que não é concluído fica como algo pendente e
incômodo.
O Reintegrar ao paciente aquilo que foi projetado por ele favorece uma
boa separação e evita que se fique como depositário crônico do que
cada paciente deixar. É esse o motivo pelo qual em outras especiali-
dades como psicologia do trabalho, forense, educacional, etc., nas
quais não se fala sobre os resultados da parte clínica, as condições
de trabalho tornam-se insalubres para o profissional.
g) Quando a consulta é feita por uma parte da família (geralmente os
pais) em relação à outra (geralmente um filho) a devolução separa-
da a cada uma das partes ajuda a discriminá-la e a reconhecer que
foi trazida como um ser humano e não como um objeto de manipu-
lação.
h) Finalmente. porque é uma experiéncia clínica de valor incalculável
que nos dará o maior grau de segurança possível na delicada tarefa
psicodiagnóstica.
Psicodiagnósti co Clínico 1 97

4. Com que material isso é feito?:


a) Partimos do motivo manifesto da consulta.
b) Tentamos descobri r o motivo latente da mesma.
c) Elaboramos algumas hipóteses provisórias.
d) Selecionamos uma bateria apropriada de lestes projetivos e objeti-
vos se forem necessários e também planejamos entrevistas vincula-
res e familiares dependendo do caso.
e) Estudamos todo o material para encontrar elementos recorrentes e
convergentes, tomando cuidado para fazer uma interpretação dos
mesmos que inclua tanto o psicanalítico como o evolutivo e sócio-
cultural, para não confundir patologia com pad rões de condutas
esperadas na idade cronológica ou pelas condições sócio-cultu rais
da vida.
O Tentamos elaborar hipóteses baseadas em todos esses dados para
explicar tanto o sintoma como a patologia ele base que o provoca.
g) Mesmo nos casos mais clificeis tentaremos encontrar aspectos sadi-
os e ada ptativos, e é por eles que começaremos nosso trabalho.
h) Levaremos muito em conside ra ção a diacle transferência-
contratransferência ao longo de todo o processo psicodiagnóstico. e
muito especialmente na entrevista de devolução para facilitar uma
autêntica aceitação das indicações que viermos a dar como possí-
veis soluções.

A Té cnica da Devolução de Informação


Como já coloquei anteriormente, nesta entrevista ocorre algo semelhante ao
que acontece na hora ele jogo diagnóstica ou na entrevista projetiva (livre): é impos-
sível padronizá-la e cm conseqüência é impossível elaborar um modelo válido para
todos os casos. Poderemos somente expor alguns parãmelros. mas a nossa experi-
ência e a nossa intuição clínicas (além do nosso bom senso) indicarão o caminho
mais apropriado.
Em termos gerais a devolução é feita em primeiro lugar para a pessoa ou as
pessoas que consultaram em primeiro lugar. Por exemplo. aos pais. se consullaram
por um filho. O filho será chamado mais adiante. já que na devolução a ele destina-
da será incluída a decisão que os pais tenham tomado em relação a alguma reco-
mendação terapêutica.
Em certos casos a consulta pode ter sido solicitada por um irmão mais velho
ou pelo marido preocupado com a sua mulher. Nessas circunstâncias costumo cha-
mar aquele que iniciou a consulta para antecipar os resultados. e deixo estabelecida
uma próxima entrevista â qual comparecerão ambos os membros do casal ou o filho
mais velho com seus pais, ou então toda a família.
Essa cautela é importante principalmente se for confirmada a existência de
uma patologia muito severa na família , que causava preocupações justificadas na-
quele que solicitou a primeira entrevista. mas sobre a qual não se pode falar aberta-
mente diante do interessado. Todavia, se a consulta foi solicitada pelo membro mais
doente o quadro deverá ser completamente alterado mudando-se a ordem dos acon-
tecimentos. O prim eiro a ser chamado s erá aquele com quem foi realizado o
psicodiagnóstico, que certamente já terá adiantado ao psicólogo algo do que aconte-
ce na família.
Com o próprio sujeito da consulta a tarefa é mais fácil já que trabalharemos
com todo o material projetivo (seus desenhos. suas respostas, etc.). Mas não deve-
mos confundi-lo com um colega a quem mostramos a produção de um paciente.
198 García Arzeno

Nosso papel tem mais semelhança com o de um intérprete do inconsciente ou com


o de um investigador que procura encontrar algo que precisa entender e que lhe
proporcionará alívio.
Em alguns casos administro novamente algum teste para eliminar dúvidas
antes da devolução ou na própria entrevista. Aconteceu, por exemplo, com uma
menina de cinco anos e meio. O motivo da consulta era a sua imaturidade, e havia
sido encaminhada pela escola. O seu Bender era atípico e mostrava índices claros
de uma grande ansiedade. Neste caso chamei primeiro a menina, por esse motivo, e
depois a seus pais. Disse-lhe que faríamos novamente desenhos porque na primeira
vez ela estava muito assustada. Poderiam ter acontecido duas coisas: repetiria-se o
mesmo protocolo ou melhorava. No primeiro caso o diagnóstico inclinaria-se mais
para elementos estruturais do aparelho psíquico que provocavam uma ansiedade
tão alta. Se ocorresse o segundo caso, me levaria a pensar que se tratava mais de
angústia diante do desconhecido com boas possibilidades de elaborá-la em algumas
poucas entrevistas. Ocorreu o segundo caso. Comparei os dois protocolos com a
menina e depois com seus pais: a produção padrão (o desenho típico em crianças da
sua idade cronológica) e o cartão com cada desenho-estímulo. Esta comparação
mostrou-se importante pois a orientação inclui a indicação de que copie da forma
mais exata possível e foi isso o que funcionou como ativador de tanta ansiedade. A
criança percebe que seu desenho não está ficando igual e fica brava, deprimida.
frustrada ou ansiosa . Quando mostramos o desenho tí pico das crianças da sua
idade aliviamos o nível de exigência despertado no início. Os pais também ficam
mais tranqüilos e se são eles os que provocam um elevado nível de exigência, isto os
aj udará a retificar a sua atitude, a não ser que seja preciso ajudá-los porque eles
não o conseguem.
Sendo essa a hipótese mais adequada, certamente o resto elo material projetivo
será sadio em termos gerais, enquanto que se houvesse sido mantido o mesmo
protocolo distorcido teriam aparecido elementos que indicariam qual era o conflito
gerador de tamanha ansiedade (por ex.: um luto não elaborado por um irmãozinho
que morreu ao iniciar o primário).
As entrevistas familiares fornecem um material muito ilustrativo e útil espe-
cialmente com pais ou filhos resistentes em aceitar o seu grau ele comprometimento
com os conflitos pelos quais consultam . Nesses casos é conveniente selecionar algu-
mas passagens eloqüentes e propor que nesse momento digam o que isso os leva a
pensar, não como protagonistas mas como observadores.
Algumas vezes a devol ução será feita para toda a família, principalmente
quando o conflito envolve a todos, e fracionar o grupo em entrevistas sucessivas
pode favorecer a tendência a evitar o compromisso de cada um ou reações paranói-
cas difíceis ele corrigir posteriormente.
Como já coloquei anteriormente as entrevistas familiares fornecem elemen-
tos observáveis e recordáveis para os membros ela família que logo o profissional
poderá retomar na devolução.
Transcreverei um fragmento de uma entrevista. Os pais consultam por seu
filho asmático de nove anos. Para a entrevista vem a sua filha ele cinco anos. Cha-
maremos o menino ele José. Ele sentou-se diretamente na mesa grande ao meu
lado. O pai num divã e a mãe em outro que formava um ângulo reto com o primeiro.
A menina foi para a caixa ele brinquedos e acomodou-se na mesa menor e mais
baixinha com alguns brinquedos.

O pai a José: Que desenho é esse?


José: Uma paisagem
Pai: Vai desenhar o nosso campo?
Psicodiagnóstico Clínico 199

José: Pode ser.


Pai: O que tem no campo? Onde são guardados os tratores? O que os tratores levam
atrás? De que cor são as maçãs? ... Você não disse que ia desenhar vários
meninos também? (Tudo isso quase sem intervalos e sem esperar uma res-
posta clara do filho)
José: (Tosse e diz num sussurro) ... Bom, pa ...
Mãe: Não insista tanto com ele (uma só vez) {Dirigindo-se a José): Tome cuidado com
a cola plástica, não se suje.

A irmãzinha remexe na caixa procurando uma faca {de plástico, natural-


mente) porque "está arrumando a mesa para comer", e a mãe diz "as crianças não
usam faca".
Na devolução aos pais li este parágrafo e o pai admitiu que estão "muito em
cima" e a mãe disse que não se atreve mais a frear o marido. Chamei sua atenção
para a proibição da descarga de agressão representada pela proibição de usar facas
quando ambos já estão em idade de fazê-lo. Isso implica uma inibição de aprendiza-
dos correlativos, por exemplo, quem corta a sua comida? "Eu" respondeu a mãe.
José tosse quando já não suporta mais as pesadas orientações de seu pai e as
obsessivas exigências da mãe que completam um quadro no qual a única forma
possível de "descarregar", se assim pode ser chamada, é o ataque asmático durante
o qual cessam tais atitudes da parte cios pais. A mãe reconheceu ser muito medrosa
e muito obsessiva com a limpeza. Tratava-se de uma família muito aglutinada na
qual esses pais dependiam tanto dos seus próprios pais que realizaram esta consul-
ta sem que eles soubessem, já que "não concordariam com isso ele psicologia". Ten-
do isso em vista seria impossível recomendar um tratamento baseado em mentiras
e fatos ocultos. Eles queriam somente que eu lhes dissesse como proceder de forma
a suprimir a asma. Por isso recomendei aos pais que continuassem a vir "conver-
sar", esclarecendo aos seus respectivos pais que se tratava ele uma "orientação para
pais" e não psicoterapia, palavra que desperta muita rejeição nesse ambiente.
Psicoterapia deveria significar para eles a rebelião cios filhos, ele forma que o proble-
ma era de três gerações. O que poderíamos então esperar do coitado do José se o seu
próprio pai esperava permissão de seus progenitores para absolutamente tudo. Pre-
cisei recorrer a uma espécie de psicologia caseira para fazer com que eles sentissem
menos culpa por consultar, já que era uma "inocente conversa".
Se, como já coloquei, a informação que transmitimos provoca um aumento
da ansiedade e significa aceitar que se deixou de fazer algo ou então que algo foi mal
feito, em casos como o que acabo de mencionar isto eleva-se à máxima potência
porque sente-se o peso dos próptios pais dos pais que se negam a aceitar algo que se
torna danoso.
Poderíamos formulá-lo também como a aceitação de uma ferida narcisística
ou a elaboração de um luto, dependendo da perspectiva teórica que preferirmos. Já
sabemos que diante dessa ferida ou desse luto cada um reage conforme a sua estru-
tura de personalidade prévia e a sua história pessoal. Dominar todos esses conheci-
mentos é algo que excede aquilo que pode abranger um psicodiagnóstico. Além do
mais, há familias mais comunicativas e com maior "insight" associativo e outras
mais esquizóides, introvertidas e fechadas, além daquelas realmente resistentes.
Tudo isso dificulta o planejamento de uma técnica de devolução e obriga-nos
a elaborar aquela que for a mais adequada para cada caso, e geralmente. durante o
andamento da entrevista.
Neste aspecto o registro contratransferencial do profissional é um instru-
mento de muita importância. Por esse motivo é imprescindível ter feito uma boa
psicanálise pessoal para não confundir o que é pessoal com o que o consultante
200 García Arzeno

estiver projetando. Não sendo assim, podem surgir sérias dificuldades devido à
contraiclentificação projetiva3 com algum aspecto ela criança, adolescente ou adulto
que consulta, levando- nos a não perceber o problema ou a percebê-lo ele forma
errônea.
O ponto de partida ela devolução deve ser o que o consultante mencionou
como motivo ela solicitação ele psicocliagnóstico.
Às vezes esses motivos possuem um possível componente orgãnico e nesses
casos é aconselhável solicitar a consulta com um especialista para ter esses resulta-
dos antes da entrevista ele devolução, podendo assim agir sobre bases mais sólidas
no aspecto psicológico.
Em certos casos devemos nos deter na descrição do que é normal cio ponto
ele vista evolutivo, tal como: birra aos dois anos, medos aos quatro ou cinco. a
rebelião adolescente, a crise da meia-idade, o luto da velhice, etc. Na maioria cios
casos isto alivia a quem consulta. Quando isso não acontece e, pelo contrário. insis-
tem em que isso é algo anormal (ao contrário daqueles que minimizam a importãn-
cia ele patologias graves) diríamos que tentam "fabricar" sintomas e isso nos faria
suspeitar que realmente estão com a razão mas que temos que procurar por outro
lado o verdadeiro conflito preocupante. Estas entrevistas ele devolução costumam
ser mais prolongadas e requerem uma maior concentração.
Em certos casos a melhor forma ele obter uma boa comunicação e "insight"
com os resultados do psicocliagnóstico é apelar para a dramatização.
Isto é comum com crianças pequenas e seremos mui to bem compreendidos
se para explicar-lhes que faz xixi na cama porque está com ciúmes de seu irmão
recém nascido, fizermos uma expressão bem significativa enquanto batemos na
mesa ao mesmo tempo que dizemos: "Eu não queria um irmão. por que o trouxe-
ram?" e acrescentarmos: "Acho que é assim que o Pedrinho está se sentindo". Em
crianças é freqüente também que a resposta ao nosso comentário venha pela mes-
ma forma lúdica ou dramàt.ica. Se nesse momento ele pegar um carrinho e o colocar
dentro ela caixa ele brinquedos poderemos dizer, como continuando o nosso comen-
tário: "Como seria bom poder devolvê-lo, é possível?"
Com os latentes a devolução é mais difícil e geralmente após alguns mi nutos
temos a sensação ele já não ter mais nada a dizer. O mesmo ocorre com os púberes,
principalmente se são pacientes neuróticos, porque a repressão coloca uma barrei-
ra às vezes insuperável.
Em alguns destes casos, após transmitir as minhas conclusões, proponho
que escolham um jogo e observo o que resolvem fazer. talvez desenhar, talvez brin-
car sozinhos, talvez comigo e tento então encontrar nisso uma resposta não consci-
ente aos meus comentários. Dessa forma confirmo que. apesar ela frieza e aparente
indiferença, a informação chegou ao seu destino.
Com os adolescentes é mais fácil conversar sobre os resultados e ficam fas-
cinados se lhes mostrarmos os seus testes explicando a sua interpretação.
O que foi dito sobre a dramatização ela informação para as crianças é válido
também para os adultos em determinadas circunstâncias.
Os terapeutas especializados em família conhecem isso muito bem, princi-
palmente aqueles que trabalham dentro ela linha sistémica.
Alguns ele seus métodos podem ser incorporados como técnica ele devolução.
Por exemplo, o intercâmbio ele papéis entre os membros cio casal ou ela família; a
sugestão de troca de papéis a alguns deles; a adoção de algum papel ausente pelo
psicólogo, etc.

3. Grinbcrg. L. "Pcrturbacioncs cn la intcrprctación motivadas por la contraidcntilkación proycctiva-.


Rev. de la Asoc.Psicoa11. Arge111i11a (APA]. T. XVI. 1959. "Contribución ai cstudio de las modalidades de
la idcntilkación proycctiva·. idem. T. XXII, Nº 4. 1965.
Psicodiagnóstico Clínico 201

Justamente, lembro aqui o caso de um menino de onze anos que, chegando


para a entrevista de devolução, sentou-se na minha poltrona olhando-me com ex-
pressão marota. Então eu sentei no lugar que supostamente seria o seu e esperei.
Ele disse: "O que a traz por aqui?".
Eu respondi: "Veja doutor, eu sou muito estranho, tenho muitos problemas
para comer porque se toquei na carne com o garfo depois não posso tocar no purê
com o mesmo garfo . Meu pai fica bravo porque diz que isso é uma mania. Minha
mãe também. O que faço?"
O menino escutava com atenção e respondeu: 'Tente explicar a seus pais
que não faz isso por ser má".
Eu disse: "É claro que não é por isso. Sabe o que eu acho? acho que .. ." e logo
após fiz um resumo das minhas conclusões como se fossem pensamentos expressos
em voz alta pelo próprio menino.
Após um bom período seguindo a dinãmica imposta pelo próprio menino
disse-lhe: "Bem, até aqui brincamos que eu sou você e você é Maria Esther-doutor.
Agora, mesmo com os nossos lugares trocados, vamos ser cada um quem é de ver-
dade. Falemos da tua vontade ele ser adulto já para estar do lado dos aclultos-
venceclores e não do lado das crianças-perdedoras". Disse isto lembrando da hora
familiar quando ele havia entabulado um diálogo com o pai (economista) sobre regra
ele três simples e composta, assunto completamente desconhecido para os seus
quatro irmão mais moços. Também na hora individual havia me proposto alguns
jogos inventados por ele que exigiam muita memória de alguma coisa que eu devia
aprender naquele instante. Se eu falhava ele me dava um zero.
Geralmente a devolução é feita em primeiro lugar para a pessoa ou as pesso-
as que consultaram em primeiro lugar. Se a consulta for por uma criança ou por um
jovem adolescente, é recomendável chamar primeiro os pais para incluir na devolu-
ção ao filho as decisões tomadas pelos pais (pensar com calma sobre o assunto.
iniciar um tratamento, deixar tudo como está, etc).
Pode acontecer que o primeiro contato tenha sido feito por um filho do grupo
familiar preocupado com a irmã ou então o marido preocupado com a mulher. Cer-
tamente teremos falado com eles em primeiro lugar, chamando depois a família toda
ou então o casal. Para a devolução. especialmente se ficar confirmada a existência
de uma patologia grave, é conveniente repetir a mesma seqüência porque supomos
que nem todos estarão em condições de falar sobre o assunto e por outro lado
porque queremos falar francamente com quem está assumindo a responsabilidade
pelo caso para conduzir o parente doente a um neurologista. psiquiatra, etc.
Não elevemos confundir nunca o paciente com um colega a quem mostramos
a produção de um paciente. quem neste caso seria ele mesmo.
Se o estudo foi feito com um adulto neurótico (ou predominante neurótico) a
entrevista final será feita com ele e ele tomará as decisões do caso. Se. no entanto. o
caso for o de um adulto psicótico, será necessário entrar em contato com algum
membro ela família responsável. de preferência o mesmo que entrou em contato
inicial conosco. para conversar sobre os resultados. especialmente sobre o prognós-
tico e a estratégia terapêutica. Esta incluirá uma abordagem psiquiátrica e uma
medicação indicada pelo especialista ele cuja administração será encarregada essa
mesma pessoa.
Gostaria agora ele destacar que nestes últimos anos de trabalho tenho toma-
do consciência de que o obstáculo principal com o qual tenho me deparado é o do
narcisismo ferido e a onipotência daquele que não quer aceitar ouvir falar sobre o
que ocorre com ele.
Em certos casos precisei recorrer à seguinte colocação: é a sua vicia ou a cio
seu filho, não a minha ou cio meu; a minha responsabilidade acaba quando eu
transmito a você as minhas conclusões; a sua começa logo após.
202 García A r zeno

Esta posição implica aceitar um limite da nossa própria onipotência e do


nosso narcisismo.
Mas nem sempre esta estratégia gera bons resultados. Devemos aceitar que
existem pessoas que preferem ouvir falar somente sobre os seus aspectos sadios e
bem-sucedidos; não querem aceitar a sua implicação em conflitos próprios ou de
algum membro da família e procuram uma explicação e uma resolução quase mági-
ca do problema que não exija deles responsabilidade alguma.
Nas ocasiões em que tenho sido consultada como su pervisora de
psicodiagnósticos tive oportunidade de viver a experiência de que o jovem profissio-
nal acode a mim com a fantasia de conseguir que eu sugira alguma hipótese para
explicar o inexplicável e alguma metodologia para atingir o inatingível. Inúmeras
vezes foi possível ajudá-los, mas em muitas outras precisei explicar -lhes que
tampouco eu teria conseguido o que eles não haviam sido capazes de conseguir.
Alguns sentiram-se aliviados, outros, pelo contrário, retiraram-se com raiva e de-
cepção porque confiavam na minha provável onipotência, que ficava assim definiti-
vamente descartada.
A entrevista de devolução é o momento do psicodiagnóstico que deixa mani-
festa mais do que nunca a experiência clínica do profissional, o grau em que conse-
guiu analisar os seus próprios conteúdos inconscientes e a sua história pessoal,
como também os conhecimentos que possui sobre essa especialidade.
Quando tudo isso houver sido insuficiente essa entrevista transforma-se
num verdadeiro obstáculo e o profissional pode suprimi-la alegando algu m pretexto
que pode até parecer convi ncente: ninguém pode "saber" alguma coisa diante de
quem "não sabe". A realidade é que se trabalharmos com seriedade teremos conhe-
cimento de algo que o consultante não conhece e veio até nós porque tem interesse
em saber. Decepcioná-lo seria transformar essa experiência em algo frustrante.
Além do mais, o papel do psicólogo nessa entrevista não é nem um pouco
fácil. Não está somente transmitindo os seus resultados mas também escutando a
resposta do outro e observando as suas reações.
Disso vai depender a possibilidade de seguir o plano que traçou previamente
ou não, e essa modificação durante o andamento da entrevista exige uma grande
perícia de forma a não aumentar ansiedades e resistências.
Como dizíamos em nossos trabalhos anteriores, é recomendável começar
pelos aspectos positivos mostrados por cada paciente. Isto dá uma melhor predispo-
sição tanto ao paciente como a seus familiares, apesar de que nem sempre é isso o
que ocorre.
Como coloquei em outro capítulo, nem tudo o que obtivermos como informa-
ção será necessariamente transmitido ao sujeito ou a seus pais. Às vezes decidimos
conscientemente omitir certo material e, em todo caso, transmiti-lo a quem se fará
responsável pelo caso.
Capítulo 18

O Informe Psicodiagnóstico

Em nosso trabalho anterior, Renata Frank apresentou um caso 1 no qual


analisou detalhadamente todo o material, fazendo um esboço da entrevista de devo-
lução e detendo-se minuciosamente no informe respectivo.
Gostaria de incluir aqui algumas reflexões teóricas e alguns exemplos, não
só da área clínica, para transmitir ao leitor a forma e formas de confeccionar um
informe que seja claro e de utilidade para o destinatário.
O informe consiste no resumo das conclusões diagnósticas e prognósticas
do caso estudado e inclui muitas vezes as recomendações terapêuticas adequadas
ao mesmo.
O informe deve constar em cada conjunto de documentos, tanto no nosso
trabalho particular como no institucional. Neste último ele ê imprescindível devido
á rotatividade permanente de profissionais, permitindo assim que o terapeuta que
vier a se encarregar de um caso deixado por outro possa ter informação adequada
sem precisar estudar teste por teste do material todo, o que seria entediante. Além
do mais, se numa interconsulta os resultados do estudo forem solicitados podemos
oferecer o informe psicodiagnóstico e não uma cópia dos testes, que não serão en-
tendidos por neurologistas. pediatras, cardiologistas, etc.
Alguns terapeutas, professores, etc, solicitam também um novo teste após
algum tempo. O correto é fazer então uma comparação entre o informe atual e o
anterior. Somente outro psicólogo especializado poderia comparar dese nhos,
Rorschach. etc .. e decidir se o paciente está melhor ou não. O informe. então, deve
ser compreensivel para todos (a não ser que se destine a um colega e seja utilizada
uma linguagem técnica).
Mas já foi visto e comprovado que é a tarefa mais evitada pelo psicólogo e
muitas vezes acusada de inútil, criticada na sua validade e desprezada como algo
obsoleto. No entanto, é o corolário lógico ele uma tarefa realizada. Mas é dificil, exige
muito conhecimento, muita experiência clínica e... muita dedicação. É uma tarefa
que compromete muito e por isso o profissional inseguro a evita. Provavelmente
seria melhor não escrever nada que deixasse assentada uma série de informações
de certeza duvidosa, que podem ir contra o indivíduo se a sua validade não for
verificada.

1. Ocampo, M.L.S. de: Garcia Arlcno, M.E.: Grassano. E. e cal.. ob. cil. cap. X.

203
204 García Arzeno

Mas comparando o nosso trabalho com o de outros especialistas que devem


realizar algum tipo de estudo em qualquer aspecto psicofisico do ser humano, con-
seguiríamos imaginar que não inclua alguma conclusão como forma de informe?
Para que serviria ao outro colega receber uma série de cifras, formulas, radiografias,
etc. , se não conseguir decifrá-las, já que isso não é a sua especialidade? O importan-
te é a opinião do especialista como forma de conclusão diagnóstica, para saber qual
o caminho a ser seguido no processo que está sendo estudado.
Tenho conhecimento ele que muitos colegas não compartilham dessas opini-
ões e não trabalham com psicodiagnósticos.
Tenho tido oportunidade de ouvir muitas versões sobre esse assunto em
congressos internacionais aos quais assistiam psicólogos ele posturas teóricas mui-
to diferente. "O diagnóstico é feito durante o tratamento". "O informe é um rótulo
inútil". "A postura elo psicólogo que estuda e o outro que é o estudado é uma dicotomia
obsoleta", etc. Essas eram algumas das opiniões expostas. De minha parte, sempre
defendi a posição de que tanto com os conflitos da mente, como com os do corpo,
que afinal são ele ambos, deveremos saber ela forma mais clara possível o que ocorre
antes ele introduzir modificações tentando solucioná-los. Todos os cuidados serão
necessários para evitar um procedimento iatrogênico, ou seja, prejudicial.
Não ouvi nenhuma critica feita ao psicocliagnóstico em si. Simplesmente ele
é descartado como um pacote que é jogado no lixo. Então minha pergunta fica sem
resposta: se não for esse. qual o método usado para saber o que está ocorrendo?
'-j:gue o diagnóstico seja feito durante o tratamento é o que era preconizado por Freud,
mas ele próprio recomendava um período inicial cio tratamento com objetivos diag-
nósticos para decidir sobre a continuação ou interrupção cio mesmo. Mas elevemos
lembrar que Freud não realizava tratamentos que durassem tantos anos como ocorre
atualmente. Além cio mais, não é possível começar uma psicoterapia ou uma psica-
nálise sem saber, no mínimo, com que poderemos deparar-nos dentro ele um curto
prazo ela decorrência do mesmo.
Lembro sempre elas palavras ele O. Menninger na introdução cio livro ele D.
Rapaport sobre testes psicológicos. Afirmava que, mesmo com a maior experiência
clínica e uma intuição incomum para fazer um diagnóstico, a entrevista clínica era
um instrumento válido mas insuficiente, e insistia no ponto ele que com o surgimento
cios testes mentais "a psiquiatria havia chegado à sua época de ouro"2 •
Estamos já muito longe da década ele 40 e ele 50, nas quais famosos psicana-
listas como Karen Machover, Henry Murray, David Rapaport, Paul Schilder e mui-
tos outros, centralizados na maioria na clínica Menninger, idealizaram os primeiros
testes projetivos que ainda hoje mantêm a sua validade, apesar ele que muitos dei-
xaram de usá-los. Muitos psicólogos têm trabalhado atualizando padronizações
desatualizadas devido à evolução cio ser humano ao longo cios anos ou para encon-
trar respostas típicas ele nossa população. De forma que se a objeção for essa, a
solução é trabalhar sobre os testes ou criar outros novos. mas ele forma nenhuma
decidir qualificar como não válido um método respeitável ele estudo ela personalida-
de.
De qualquer forma aceito corno cientificamente válida a postura daqueles
que usam somente entrevistas rigorosamente analisadas. O que considero inaceitá-
vel é a resposta que considera que não é necessário partir de um diagnóstico inicial;
seja este situacional, gestáltico, fenomenológico ou psicanalítico, é um ponto ele
partido imprescindível. Eu mesma não começaria um tratamento sem ter uma idéia
clara cio motivo pelo qual o começo, ou seja. um diagnóstico e uma justificativa para
optar entre uma psicanálise, terapia breve, etc.

2. Rapaporl, David. Los tests de diagnóstico psicológico. Buenos Aires: Paidós.


Psicodiagn óstico Clínico 205

Considero tão lógico o meu raciocínio que me ocorre até compará-lo com a
tarefa de um eletricista a quem eu procurasse para consertar um aparelho que não
está funcionando. O primeiro que ele fará é revisá-lo para dizer onde está o defeito,
como seria o conserto e quanto vai custar.
Do ponto de vista da epistemologia poderão existir linhas teóricas que inva-
lidem a minha posição. Eu tomo como ponto de partida a experiência clínica e o
senso comum.

Diferentes Tipos de Informes


No sentido estrito, falamos de fazer um informe quando alguém o solicitou
por escrito. Nesse caso pode tratar-se tanto de uma breve síntese ou de um trabalho
mais detalhado.
Vejamos alguns casos entre os mais comuns atualmente.

A um Colega
É o informe que relata em linguagem técnica, fazendo referência concreta ao
material de teste do qual foi extraída esta ou aquela conclusão e com uma descrição
minuciosa da estrutura básica da personalidade, das suas ansiedades mais primiti-
vas, das suas defesas mais regressivas e das mais madu ras. O diagnóstico e o prog-
nóstico serão expressos nos termos comuns à psicopatologia e à psicoterapia usados
correntemente em nosso meio profissional.

A um Professor
Neste caso o informe será breve, referindo-se exclusivamente ao que o pro-
fessor precisa saber, expresso em linguagem cotidiana, e serão tomadas precauções
para que não transpareçam intimidades do caso que não se relacionam com o cam-
po pedagógico.

A um Advogado

É nestes casos que deveremos ser mais cuidadosos com o termos utilizados
e a informação que ofereceremos. Geralmente se refere a uma perícia que terá peso
numa sentença e isso faz dele um trabalho difícil. principalmente no campo penal.
Além da atitude desconfiada e reticente do sujeito a ser estudado, pesa sobre nós a
esperança daquele que nos designou para fazer a pericia, com o intuito de encontrar
no nosso informe elementos que forneçam uma maior força aos seus argumentos,
sejam estes de parte da defesa ou da promotoria. É muito difícil que o sujeito acre-
dite que teremos uma atitude imparcial, e lançará sobre nós um olhar acusador ou
então tentará nos seduzir com uma atitude cúmplice. Isto ocorre também no campo
trabalhista, ao qual farei referência a seguir.
O informe para um advogado deve ser expresso em termos inequívocos e
com afirmações que não deixem margem para que sejam usadas conforme convier à
causa. Uma vez formulada a nossa conclusão em relação à dúvida que levou à
solicitação cio estudo. é conveniente justificar essa conclusão usando como apoio
alguns pontos cio material. mas sempre expressando-nos em termos claros e de uso
comum no âmbito forense. Se, por exemplo, devemos falar de uma personalidade
206 García Arzeno

psicopática, ê necessário esclarecer em seguida o que se entende por isso de forma


a dar uma clara definição, pois o termo pode ser interpretado desde uma simples
impulsividade atê condutas delinqüentes.

Ao Empresário no Âmbito de Trabalho

Nestes casos trabalharemos também com a desconfiança e as resistências


do indivíduo que aspira a obter um trabalho e vem fazer o ps icodiagnóstico porque
é obrigado a isso. Por outro lado, também nos sentimos pressionados pelo diretor da
procura ou pelo dono da empresa n o sentido de darmos um informe favorável ao
candidato que venha melhor "recomendado". A tarefa fica ainda mais dificil e insa-
lubre para o psicólogo quando o estudo é fei to para transferência de pessoal ou
redução do número de empregados mantendo os mais "sadios". A minha recomen-
dação nesses casos é a de evitar expressar -nos no sentido de que esse ou aquele
indivíduo não está em condições de desempenhar tal tar efa, mas de que "estaria
melhor colocado na função tal ele forma a fazer um uso mais proveitoso das suas
potencialidades". A primeira formulação serve como funda mento para uma demis-
são inexorável e isto tem criado sérios problemas nas relações cio psicólogo com os
representantes sindicais. A segunda formulação, no entanto, deixa a porta aberta
para uma redistribuição mais racional do pessoal, para um rendimento maior, e se,
de qualquer forma, ocorrer a demissão, ela será de responsabilidade absoluta do
chefe ele recursos humanos, ou seja, da empresa.
Neste informe para fins profissionais partiremos da base elas qualidades que
devem a presenta r os aspirantes a um cargo devida mente descrito e definido por
aquele que está solicitando o estudo. Portanto, o informe responderá se os traços de
personalidade requeridos para a função estão presentes num nível excelente, ade-
quado, aceitável ou se estão a usentes. Tudo isso será acompanhado de uma exaus-
tiva fu ndamentação sempre no sentido ele funções da personalidade sem unir isto
de forma alguma com elementos inconscientes e muito íntimos que não têm porque
aparecer num informe que poderá ser lido até por um funcionário ela administra-
ção. Insisto neste ponto pois ocorrem situações que dizem respeito à ética profissi-
onal que deve ser mantida pelo psicólogo: dizer o necessário e de tal for ma qu e
sempre possa ser interpretado com objetividade e não possa ser usado em prejuízo
do indivíduo em questão.
O mesmo ocorre, por exem plo, com o radiologista de quem o clínico espera a
infor mação sobre se ocorre ou não uma patologia na área cio tórax e qual o tipo
dessa patologia, e não que lhe informe se o sujeito é gago, tímido e tem duas aman-
tes.
Por insegurança. inexperiência ou o intuito de fazer muito bem o seu traba-
lho, o psicólogo pode vir a colocar no informe tudo aquilo que foi observado, mas
assim como na entrevista de devolução não deve ser dito absolutamente tudo, isso
também eleve ser seguido no caso do informe, a não ser que o mesmo seja destinado
a um colega. Mas também entre eles devemos discernir entre os que preferem um
informe detalhado e aqueles que preferem uma conclusão sucinta.

Ao Pediatra, Neurologista, Fonoaudiólogo, etc.

Geralmente estes profissiona is estão in teressados em receber info rmação


sobre a presença ou não de transtornos emocionais que ex pliqu em ce rta
sin tomatologia cuja etiologia não pode ser atribuída à parte orgânica. Po rta nto o
nosso informe fará referência simplesmente ao registro ou não ele transtornos emo-
Psicodiagn6stico Clínico 207

cionais, à sua gravidade e à conveniência de um tratamento psicológico do sujeito,


da sua família, etc. Este paciente retorna ao profissional que o enviou; ele não é o
nosso paciente. Este é outro problema da ética profissional ignorado com muita
freqüência, especialmente em momentos de crise econômica.

Aos Pais
É muito raro que ocorra mas pode surgir o caso de que os pais solicitem
"algum relatório por escrito". Se o motivo for apresentá-lo em algum lugar, pergun-
taremos onde e elaboraremos o informe pertinente, que será enviado diretamente ao
destinatário. Se, no entanto, expressam o desejo de conservar algo escrito para que
sirva como um auxilio para a memória sobre tudo o que foi falado, aceitamos entre-
gar-lhes um informe redigido numa linguagem simples resumindo tudo o que foi
falado de forma tal que possa ser lido também pelo próprio sujeito (criança, adoles-
cente ou adulto) com quem foi realizado o estudo.
Numa dessas ocasiões fiz o informe dirigido à família X, recomendando que
fosse lido em família, comentado e discutido, e logo voltassem a me consultar se
assim o desejassem.
Algumas vezes os pais ou o próprio sujeito pedem o informe por escrito du-
rante a entrevista de devolução por temer que a ansiedade os impeça de reter o que
dizemos e entendê-lo corretamente.
Em outros casos isso deve-se mais a uma atitude intelectualizada e desliga-
da de qualquer compromisso afetivo. Nesses casos prefiro explicitar a impotência de
concentração no que falaremos e reter o essencial para não favorecer uma escuta
passiva do nosso discurso como se estivéssemos fazendo uma palestra, descansan-
do sobre a promessa de que receberão o nosso informe e privando-nos de ter acesso
ao registro emocional que nossas palavras provocam como efeito.
Não faltarão também aqueles sujeitos ou seus familiares que ao receber a
convocação para a entrevista de devolução responderão com o pedido de que a envi-
emos pelo correio. Jamais aceitei uma proposta como esta, sempre esclareci que
esses são assuntos que devem ser abordados pessoalmente e que quando estives-
sem dispostos a se apresentarem para a entrevista os atenderia com muito prazer.
Não seria estranho que pessoas muito onipotentes, com grandes resistênci-
as e escassos conhecimentos sobre psicologia nos dissessem algo assim como: "Mande
a sua secretária com o informe e o recibo dos seus honorários e eu lhe enviarei o
cheque". Estes casos são difíceis de solucionar e pode acontecer que não nos reste
outra alternativa a não ser a de solicitar a intervenção de um advogado para cobrar
os nossos honorários sem cair na chantagem implícita nessa proposta. O advogado
assessor do Conselho Regional de Psicologia ou do Sindicato dos Psicólogos• é a
pessoa mais adequada para saber como proceder nessas circunstãncias.
Finalmente quero destacar a importãncia de pedir a quem solicita o informe
o motivo cio pedido, já que isso estará dando-nos a chave da forma como deveremos
fazê-lo.

Equivalente, no Brasil. às instituições citadas no original. (N. do R.)


Capítulo 19

Alguns Exemplos de
Psicodiagnósticos e os
Seus Informes

A um Colega
Caso Lila, Dezoito Anos
Foi enviada por um psicanalista que deseja saber o que ocorre na personali-
dade dessa moça. que tem sido anal isada desde criança por diversos terapeutas
excelentes e solici ta uma nova análise.
Ela diz que sempre teve problemas com a gordura e por isso fez análise; que
desde os doze anos tem sonhos terríveis com nazistas; que nesse verão viajou e
emagreceu mas que no inverno já havia recuperado oito quilos.
Diz que no verão planeja viagens e faz projetos, enquanto no inverno se
pergunta qual é o sentido da vida. "Ourante a vida inteira me senti gorda, na primei-
ra série emagreci muito mas depois comecei a comer compulsivamente. Longe da
minha família mantenho o meu peso. Tentei morar só mas não consigo".
Tem três irmãos mais velhos com os quais tem um bom relacionamento. O
mais velho já casou e tem sua própria casa. "Sou dominadora, sempre fiz o que quis,
mas para mim nada é o bastante. Sei disso tudo mas não sou feliz".
Não prolongo mais a breve entrevista livre por tratar -se ele uma paciente de
outro profissional. Nesses casos prefiro trabalhar o mais "às cegas" possível para
não contaminar a minha interpretação do material com conhecimentos adquiridos
previamente sobre o caso, e também para não favorecer o desenvolvimento de um
vínculo transferencial que possa interferir naquele que ela eleve estabelecer com o
seu terapeuta.
Esclareço que solicitarei alguns desenhos, umas histórias, etc. e concorda
de bom grado.

208
Psicodiagnóstico Clínico 209

\ \
\
'·,_
\
210 García Arz eno
Psicocliagnóstico Clínico 211

Desenho livre: Desenha uma pipa, a linha, o carretel e diz: "Não tem nin-
guém, não sei por quê ... Seria um menino .. ." (Pode acrescentá-lo se quiser). Dese-
nha um homem "de pauzinhos". O aceito porque se trata do Desenho Livre. Seus
comentários continuam: "Mas já não é a mesma coisa. Ontem sai com um rapaz que
desenhou uma pipa; idéia de voar, acreditando que voava; mas é mentira". "Falta
alguém que saiba fazê-lo voar; depende do vento; depende de muitas coisas; voa;
tem movimento, depende de fatores externos. Nunca empinei uma pipa". (Então
este desenho teu representa "O que nunca fiz?") "Sim".

Duas pessoas: Esclareço ao dar a orientação que desenhe figuras da forma


mais completa possível. Desenha rapidamente. "Sou um fracasso desenhando". (Não
tem pressa.) "Posso apagar?". Apaga a zona do ombro da figura feminina que foi a
primeira que desenhou e o braço próximo do rapaz. "Assim o braço como é" ... apon-
ta para o braço esquerdo. "Assim como eu queria". Aponta para o braço direito. "Eu
queria desenhar uma menina com um balão, mas ... " Logo retoca a figura masculina
dizendo: "Um menininho (ri). que rosto triste. coitado". Observo que não é um rosto
triste.
Logo peço que lhes dê nomes, idades, que escreva uma história breve e que
finalmente dê um título.

Segunda Entrevista
Psicodiagnóstico de Rorschach:
11:20 h Lâmina 1-5" i Dois homens discutindo. ao mesmo tempo a mão é urna boca.
i Dois cachorros corredores... Pi,pi ... não me lembro, é perseguido o
tempo Lodo (fala rãpido) cada um olha para o seu lado.
i Uma cara feia de urna animal muito bravo.
i Dois padres muito divertidos tipo Fred flinston (devolve a lãrnina) .
Lâmina 11-5" i Um autornõvel do espaço que vai para a frente com ar. fumaça. tudo
em volta.
i De novo as caras opostas mas mais antropomõrfico. dois velhinhos e
por baixo a mesma coisa repetida mas ao inverso. também são pessoas
i Também cm vermelho uma borboleta
i Duas pessoas unidas aqui (zona fãlica)
i Umalicate
11 :22 h Lâmina Ili 5" i É lindíssima!
i Dois bichos pendurados na parede
i Um bicho nojento
i Duas pessoas se divertindo apesar desse bicho brincando como num
balanço
i Duas pessoas rezando (zona escura do centro) e cm cima outros mais
magrinhos fazendo o mesmo
i Duas pinças de caranguejo (pés da resposta PJ
i Duas pessoas embaixo como desequilibradas, falta-lhes corpo e uma bota
em cada um
i De novo a borboleta, corpo real, as asas grandonas ...
.... mas na realidade não seriam duas pessoas mas somente o esqueleto
11:25 h Lâmina IV5" i Um lobo tipo homem-elefante deitado. Caíram galhos como erguidos
logo apôs uma tormenla .. .fumaça muito forte
i Um patinho isolado (é Dd em "bota").
i Dois pequenos penhascos (é ddge)
i Um desmoronamento
11 :25 h Lâmina V-5" i Dois cavalos com cada um mostrando uma pala (lal.)
i De novo as pinças
i Dois pés de bailarinas de ponta mas ao contrãrio. para cima ("antenas")
i Duas pessoas lendo o jornal recostadas numa cadeira de balanço (é ddge)
e dois tipo gorilas olhando para cima
212 García Arzen o

Lâmina VJ-5" i Uma espécie de animal comprido. gusa no, mas mais bravo que o gusa no
i pés de bailarina mas desta vez estão abertas
i Um pãssaro muito bonito cslilizado
i Um animal aberto. quatro palas, faltaria o rabo. tem quatro fe rrões
cm vez do rabo
i Uma pele meio gasta
PranVIll-5" i De novo duas pessoas se olhando, simpáticas. mas estão com a boca toda
suja. especialmente uma. os corpos se juntam mas é mentira. esculpidos
em pedra. aprendendo a dizer tchau ou oi, mais?
i (atitude de procurar mais) no fim duas cabecinhas que estão se olhando
PranVIll-5" i Dois animais encostados. de lado, são bonitos, não sei se já os vi alguma
vez, são cor -de-rosa .. . uma combinação de cores muito bonita. claridade,
é mais tranqüilo mas mais estático; vejo novamente urna coluna vertebral
mas mais acabada. de novo com um formato de pinça
i Duas pessoas que olham para cima estão olhando o mesmo lugar que
olham para cima os animais estão estáticos mas é como se isso tivesse
movimento. uma nave cm movimento, é a nave que dirige.
i Dois cães de guarda. aos lados pés de pessoas
l 1:32h PranlX-5" i De novo imagens feias
i Três tipos de deformação antropomórfica mui lo feia
i Dois fetos deformados
i Malignos os do meio como trabalhando com a experiência cm branco que
é o que está meio coberto e cm cima os bruxos que são os que realmente
dirigem o assunto é a cúpula a coluna que está aqui mais difusa. pobre ...
11:32 h PranX-5" i Tem muito pouca coluna, ficam os espaços vazios com duas patinhas
i Para trás, longe. se vê o conteúdo do corpo. rosto. bigodão, como se fosse
um rei, os olhos são dois bichinhos, o bigode não seria bigode mas
um caminho...
i Um animal lançando fogo na direção do cabelo vermelho do rei
i Dois bichinhos verdes olhando a coroa do rei mas essa coroa na realidade
começa mais embaixo
i A coroa é o rosto de um homem. Dom QuLxolc
i Dois animais que estão se agarrando por um lado e caindo pelo outro
i Dois rostos contornados pelo colorido como figura e fundo
i Anjinhos no meio das duas pessoas
11:33 h

Inquérito e exame de limites


11:34 h Lámina 1: Asalvação de dois participantes dentro de uma figura (aponta para as
laterais)
Acara de um animal monstro mui lo feia (é global)
Duas pcssoinhas pedindo ajuda (centro cm cima)
Ex. de limites: Alguns vêem aqui um animal alado. conseguirias vê-lo?
Só um? não. dois (aponta para as laterais)
11:40 h Lâmina li: Dois homens. cabeça (saliência lateral cinza) cabeça saída corpo.
deformação de patinhas (é um F-) rabo comprido para trãs. de pedra
porque leriam barriga mas não é uma barriga.
Manchada a pele de vermelho. idéias que brotam da cabeça que ao
mesmo tempo são as mesmas idéias de cada um (aponta vermelho
superior)
(Duas pessoas batendo a mão consegue vê-las agora?) Não.
(Você fez um gesto) Ah, sim, pulando,lcvanlando a patinha juntando as
mãos
(Cabeça?) aponta o cin1.a
13ailc tipo lai-chi-chuan.
Lâminalll Duas pessoas. homens. coisas de feminilidade. busto. mulheres
cozinhando numa panela mas náo me... tanto mulheres como homens. a
altura. um pouco mais alto o homem (esquerda) mulher (direita).
13icho, olhos. boca mui lo feia. muito má. me inibe (0 quê?) o que
lenho dentro
É um desenho de animais de agora. esses terríveis
Duas asas, é mentira. não é uma borboleta. é um esqueleto perfeito, asas
Psicodiagnóstico Clínico 21 3

abrem o seu caminho mas podem fechar-se cm qualquer momento e voltar a


guarda-lo.
(Bichos pendurados na parede?) Feios. lagostas. não, não lcm na terra. na