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2. ed. rev. e atual. 2012
2. ed. rev. e atual.
2012

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Pr. José Roberto O. Chagas — Kenosis Editora

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3

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*As referências bíblicas têm indicação específica nas próprias citações.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

C433c

Chagas, José Roberto O. Curso de capacitação teológica. 2. ed. rev. e atual. /José Roberto O. Chagas. -- Campo Grande-MS: Kenosis, 2012.

412 p.

ISBN 978-85-64401-15-0

1.

Teologia 2. Teologia - Prática cristã

3.

Cristianismo 4. Bíblia I. Título

CDD 230.071

Bibliotecária responsável: Josiane de Oliveira – CRB 1/1524

3

Direitos Reservados à:

Josiane de Oliveira – CRB 1/1524 3 Direitos Reservados à: Kenosis Editora Fones: (67) 3026.2122/8428.3733 Campo

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kenosiseditora@hotmail.com Site: www.kenosiseditora.com.br 3 CONTATO COM O IBITEK INSTITUTO BÍBLICO-TEOLÓGICO KENOSIS

CONTATO COM O IBITEK INSTITUTO BÍBLICO-TEOLÓGICO KENOSIS Rua: Albert Sabin, n o 721 Vila Belo Horizonte — Campo Grande/MS CEP: 79.090-160 Site: www.ibitek.com.br E-mail: secretaria@ibitek.com.br Fones: (67) 3026.2848/8428.3733 (VIVo)

mÓdulo 10: GESTÃO MINISTERIAL: COMO GERAR E ADMINISTRAR COM EFICIÊNCIA E EFICÁCIA O ERÁRIO SAGRADO
mÓdulo 10:
GESTÃO
MINISTERIAL:
COMO GERAR E ADMINISTRAR
COM EFICIÊNCIA E EFICÁCIA O
ERÁRIO SAGRADO
10.1. Introdução à Gestão eclesIal e à Geração de receIta
10.1. Introdução à Gestão
eclesIal e à Geração de receIta

ij

A lguém me contou que certo rapaz viajava de trem. De repente o mesmo colidiu. Foi uma tragédia de grandes proporções. A notícia calamitosa se espalhou rapidamente. Dezenas de vítimas

perderam a vida em poucos segundos; tamanho fora o impacto. Outras ficaram gravemente feridas; sem assistência médica, de forma dramática, sucumbiam lentamente. Mas, por alguma razão, o rapaz não se feriu no terrível acidente. Quando a equipe de resgate chegou ao local do abalroamento, um homem percebeu a inquietação do rapaz, dirigiu-se a ele e o interrogou:

— Você é um dos poucos sobreviventes deste acidente. Porém, mesmo não tendo ferimentos, parece infeliz, decepcionado, magoado. Por quê?

306 A resposta foi imediata: — Não consegui salvar essas vítimas! O bombeiro, no afã

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A

resposta foi imediata:

Não consegui salvar essas vítimas!

O

bombeiro, no afã de acalmá-lo, disse-lhe:

— Entendo sua aflição. Mas você já fez a sua parte: se preocupou com pessoas desconhecidas

O jovem o interrompeu:

— Você não entendeu! Sou um insigne cirurgião. Eu podia e queria

ajudar, socorrer, salvar

— Ora, e quem o coibiu? - questionou-o o bombeiro.

— A falta de instrumentos cirúrgicos! Sem eles, minha capacitação profissional, por si mesma, tem pouca utilidade!

CRIse eConÔMICA nAs

IGReJAs eVAnGÉLICAs BRAsILeIRAs

A falta de ferramentas apropriadas decerto limita até mesmo o egrégio

profissional, obstruindo sua eficiência e eficácia. E nas igrejas evangélicas contemporâneas será que é diferente? Não se reproduz situação similar entre agentes pastorais em vários espaços geográficos em nosso País na atualidade? É possível encontrar entre a liderança cristã homens e mulheres que foram vocacionados por Deus e aprovados por seus respectivos e idôneos ministérios para idealizar e realizar projetos que transformem vidas integralmente? Na história supracitada o médico, conquanto estivesse perfeitamente habilitado pelos órgãos competentes, nada pode fazer para socorrer as vítimas do sinistro episódio; faltou-lhe principalmente equipamentos necessários. Portanto, havia razão à sua indignação. Foi uma experiência inusitada, afinal, sem recursos, sua capacidade profissional tinha pouco valor. Será que não ocorre fato similar com algum(a) pastor(a) evangélico fiel atualmente, que desejam resgatar vidas, mas estão sem ferramentas ideais?

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307 Sim, certamente há líder cristão que, apesar de capacitação bíblico-teológica e chamado de Deus para

Sim, certamente há líder cristão que, apesar de capacitação bíblico-teológica e chamado de Deus para servir no ministério, está com a mente em ebulição, o coração dorido, porque não dispõe de equipamentos adequados. Quantos sonhos enobrecedores estão engavetados! Quantos propósitos egrégios e relevantes, sepultados! Quantos ministros frustrados! Quantas igrejas apáticas! Quantas

vidas perdidas! Tudo isso por falta de recursos

faltam continuamente em muitas igrejas estão os recursos financeiros. Embora seja uma questão polêmica na atualidade, sobretudo por causa da exploração do sagrado em benefício próprio, não se pode negar que captação e gestão de recursos são práticas historicamente presente na religião judaico-cristã, biblicamente homologadas e legalmente amparadas, desde que respeitem os princípios éticos, bíblicos e constitucionais. Sem recursos financeiros suficientes templos de adoração não são construídos, nem reformados ou ampliados; os eficientes e eficazes recursos midiáticos, conquanto úteis à propagação do Evangelho, são postos de lado; as necessidades dos carentes não são supridas; os planos cooperativos ficam pendentes, a prebenda pastoral não é repassada corretamente, o sustento missionário não é enviado, etc. Não é novidade dizer que boa parte das igrejas evangélicas não tem recursos financeiros suficientes. A mesma história se repete praticamente em todas as representatividades: tradicionais, pentecostais, neopentecostais. Vou mais além. Ainda falta dinheiro para manutenção e expansão das escolas de

Entre as “ferramentas” que

teologia, 1 centros de capacitação, associações beneficentes, etc. Em todos esses importantes segmentos, cujo papel é imprescindível à expansão do Reino de Deus, existem líderes preocupados, perplexos, e alguns já desanimados, pois o futuro lhes parece incerto e, às vezes, aterrador. Diante de quadro tão caótico, então, o que fazer? Desistir de tudo? Abandonar o ministério? Cancelar as instituições de educação bíblico-teológica? Fechar as portas das igrejas?

1 KoHL, Manfred W. “Educação teológica - que necessita ser mudado”. In: KoHL, M. W. & BaRRo, A. C. (orgs.). Educação teológica transformadora. 2. ed. rev. Londrina: Descoberta, 2006, p.99.

308 P oR QUe F ALTA D InHeIRo eM A LGUMAs I GReJAs e VAnGÉLICAs

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PoR QUe FALTA DInHeIRo eM

ALGUMAs IGReJAs eVAnGÉLICAs LeAIs A DeUs?

Embora a carência de verbas seja notória, as causas nem sempre são mencionadas. Já disse no Manual de Teologia Econômica 2 e no Curso de Gestão Eclesiástica, 3 que também dão ênfase à geração e administração de recursos econômico-financeiros, que por detrás do caos nessa área, estão, entre outros, os seguintes fatores:

1. Ausência de sólida teologia econômico-financeira — as crenças, os ensinos e a vivência de muitos cristãos no âmbito econômico-financeiro estão sendo determinados pelo atual capitalismo messianizado, não pela Bíblia. 2. Conceituação negativa do dinheiro — quem o venera, sempre quer ter mais; quem o repudia, não procura tê-lo para fins realmente nobres. 3. Negligência quanto às tarefas da Igreja — o dinheiro que deveria ser investido na adoração a Deus, na evangelização dos perdidos, na edificação dos santos e em importantes ações sociais, é usado para ostentar o padrão de vida nababesco de certos agentes pastorais. 4. Descuido quanto ao perfil socioeconômico do rebanho — vários eixos, interagindo, podem beneficiar ou coibir a renda dos fiéis e a arrecadação de fundos nas igrejas: econômico, político, geográfico, social, ideológico, religioso, etc. 5. Desvalorização (ou mentalidade refratária) ao trabalho e pouca qualificação profissional — sem uma fonte de renda digna, o fiel não supre suas carências nem ajuda a igreja com dízimos e ofertas. 6. Sacralização do dinheiro, economização do sagrado e a derrocada reputacional da liderança cristã no Brasil — essa combinação reforça o conceito de que dinheiro e religião são, de fato, incompatíveis.

2 CHaGaS, José Roberto O. Manual de teologia econômica. Campo Grande: Kenosis, 2011. 3 CHaGaS, José Roberto O. Como gerar receita em tempos de crises. Campo Grande: Kenosis, 2011.

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309  7. Falta de planejamentos bíblicos, eficientes e eficazes para nortear a geração e a

7. Falta de planejamentos bíblicos, eficientes e eficazes para nortear a geração e a fiel aplicação dos recursos obtidos junto à comunidade de fé — é exatamente este elemento que enfocarei nesta disciplina de Gestão Eclesiástica. Ressalto em tempo oportuno que o livro “Como Gerar Receita em Tempos de Crises” é, na verdade, um curso de orientação bíblica, teológica, prática e constitucional sobre captação e gestão de dinheiro em igrejas evangélicas. Vale a pena conferi-lo. A proposta é saudável, atual, relevante e indispensável.

PRoJeTos noBRes & eXPLosÃo De GeneRosIDADe

A Palavra de Deus ressalta que magníficas explosões de generosidade, desde os tempos mais primitivos, curiosamente ocorreram quando projetos legítimos e transformadores foram apresentados ao povo pelos líderes. Foi assim com Moisés, Ezequias, Josias, etc. São numerosos os episódios nos quais o planejamento precedeu a liberalidade das pessoas. Por outro lado, em alguns momentos da história da Igreja, certos líderes supostamente cristãos, no afã de levantar fundos para realizar os propósitos de Deus (ou seus mesmos), recorreram a planejamentos eficientes e eficazes, contudo sem o aval das Escrituras. O Papa Leão X (1475-1521) foi um deles. 4 Logo, o bom planejamento, oriundo de uma boa motivação, deve ter ainda o indispensável respaldo das Escrituras.

LIÇÕes De UM MesTRe eM GeRAÇÃo De ReCeITA

Há uma conexão pedagógica entre causa nobre e liberalidade, nas comunidades judaica e cristã. Assim, baseado na idealização e práxis de Joás, mostrarei etapas cruciais para a elaboração de um projeto bíblico, eficiente e eficaz, voltado ao levantamento de fundos e, sobretudo, que sem fidelidade o êxito do mesmo trará maldição e não bênção; assim também foi com Joás.

4 SHaW, Mark. Lições de mestre. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p.21.

310 Quando se fala do rei Joás, filho de Acazias e Zibiá de Berseba (2

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Quando se fala do rei Joás, filho de Acazias e Zibiá de Berseba (2 Rs 11.2; 12.1), a conotação é negativa. Raramente ouço algo bom a respeito dele. E não

é sem razão. Mas porque paira sobre Joás, séculos depois de sua vida e morte, um espectro sombrio? Eis algumas hipóteses:

1. Ele fez por merecer o símbolo de apostasia e decadência espiritual que ainda lhe é atribuído em plena pós-modernidade. O legado deixado por Joás, sobretudo as ações no final de sua trajetória, não serve de modelo para quem serve a Deus, seja líder ou liderado, seja pastor ou ovelha. 2. Outro motivo é que parece ser hábito comum, na sociedade em geral e até mesmo nas igrejas evangélicas, concentrar-se mais nas deficiências éticas, morais e espirituais do que na hombridade, nas virtudes das pessoas.

Há na Bíblia nomes mais apropriados, por que, então, optar por Joás? Ele pode, apesar de seus erros, ensinar alguma coisa útil à liderança cristã, em especial, no tocante à geração de receita? Em suma, o que justifica esta escolha esdrúxula?

1. Na Bíblia, do Antigo ao Novo Testamento, existem muitas pessoas fiéis, íntegras, conspícuas, espirituais, zelosas quanto ao que é honesto diante de Deus e dos homens e que poderiam servir de modelo nesta disciplina de Gestão Ministerial cuja ênfase é a captação de recursos. A lista bíblica é vasta

e fascinante! Outros líderes poderiam fornecer elementos teóricos e práticos para um compêndio de gestão eclesial.

2. Tenho consciência da pecaminosidade que caracterizou a liderança de Joás, especialmente após a morte de Joiada. Não ignoro a gravidade de seus pecados. Se ele quisesse poderia ter sido um excelente líder. Preferiu, contudo, rejeitar a Deus. Esse comportamento, apesar de certos sucessos, levou-o à destruição.

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311  3. Outra questão interessante: parece que Joás nem sempre foi um apóstata; comportou-se, por

3. Outra questão interessante: parece que Joás nem sempre foi um apóstata; comportou-se, por algum período, como homem espiritual. Essa fase da vida de Joás geralmente é ofuscada tendo em vista a profundidade da depravação posterior. Quem poderia imaginar que Joás, “o perverso”, fosse capaz de discernir e acolher uma enobrecedora visão? Ele restaurou o Templo que estava em ruínas (2 Cr 24.4, 7), repudiou o sacrilégio – os filhos de Atalia profanaram as coisas sagradas (2 Cr 24.7) -, purificou os utensílios outrora usados no serviço de baalins (2 Cr 24.7), etc. Tais atitudes ratificam que nele havia algum vestígio de espiritualidade. Não me parece que um crente carnal preocupe-se tanto com o santuário de Deus. Tal hipótese, se há, é remota!

4. Outra característica singular de Joás, durante sua possível “fase de espiritualidade”, é a competência administrativa. A mesma se manifestou quando ele decidiu restaurar o Templo. Não havia recursos disponíveis para custear as despesas da reforma; a insigne visão estava comprometida; era, portanto, mister levantar fundos, gerar receita, majorar recursos. Para resolver tal impasse o monarca dedicou-se à elaboração de um projeto eficiente e eficaz. Não pensou em procrastinar ou abortar a visão de Deus simplesmente porque faltava receita. Pelo contrário. Concentrou-se na saída, nas alternativas, nas possibilidades. Destarte, com competência administrativa ímpar, fez um projeto fantástico e arrecadou os fundos necessários à reforma. Essa capacidade, por certo, influenciou na escolha de Joás para ser o protagonista desta disciplina.

5.Finalmente, conquanto Joás seja para os cristãos sinônimo de coisas abjetas, aviltantes, abomináveis a Deus, também o escolhi porque estou convencido de que a história dele, marcada por sucessos e fracassos, espiritualidade e apostasia, devoção e sacrilégio, pode ensinar muitas lições a nós, pastores “pós-modernos”.

312 Parte deste estudo será utilizada para justificar que a excelência administrativa é uma ferramenta

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Parte deste estudo será utilizada para justificar que a excelência administrativa é uma ferramenta essencial ao líder que almeja, por motivos legítimos, aumentar a renda da igreja. Por detrás da estagnação financeira que assola tantas igrejas também está a falta de planejamentos. A ausência de senso de propósito e de destino afeta negativamente qualquer congregação. Para resolver esse impasse é necessário elaborar projetos que, além de sólida fundamentação bíblica, sejam eficientes e eficazes.

Percentual significativo deste opúsculo será empregado para auxiliar a liderança evangélica a construir um projeto de sucesso. Joás, porém, não ensina apenas a fazer planos de sucesso. A história dele mostra ainda o que não se deve fazer. Muitos líderes, como Joás, começam bem e terminam mal porque não gerenciam a própria vida com a mesma maestria. Cuidam mais da instituição do que de si próprios - ou são negligentes com ambos!

Um projeto bem construído pode trazer sucesso financeiro à comunidade evangélica. Isso, contudo, não significa necessariamente que o pastor pode relaxar. A prosperidade também traz consigo adversários perigosos. O ter pode afetar negativamente o ser. 5 Erra quem pensa que o único inimigo da igreja e do líder é a escassez de dinheiro. Não é. A estabilidade financeira pode ser igualmente nociva.

Não é demais lembrar que nem toda igreja pobre é um fracasso aos olhos de Deus - a igreja em Esmirna era pobre, mas Jesus afirma que ela era rica (Ap 2.9). O oposto pode ser verdadeiro: nem toda igreja rica do ponto de vista econômico é um sucesso espiritual - a igreja em Laodicéia dizia ser rica, que de nada tinha falta, e para Jesus era miserável e pobre (Ap 3.17). 6

5 d’aRaÚJo FILHo, Caio Fábio. A crise de ser e de ter. Niterói: Vinde, 1995. 6 LoPES, Hernandes D. Apocalipse. São Paulo: Hagnos, 2005, pp.79,80,138-143.

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313 A s ÍnDRoMe De J oÁs A própria Bíblia mostra número significativo de líderes que,

A sÍnDRoMe De JoÁs

A própria Bíblia mostra número significativo de líderes que, embora tenham iniciado a jornada ministerial com motivação santa, aspiração conspícua, visão benéfica e transformadora, se perderam em algum ponto da caminhada. Sorrateiramente o desejo de ver pessoas de todas as nações adorando a Deus, proclamando o Evangelho a todos os povos, edificando os alcançados pelas boas novas do Reino de Deus, realizando ações sociais transformadoras, desapareceram. Foram atingidos pela “síndrome de Joás”. Sua característica predominante é: começo promitente, fim desastroso!

Não é apenas a Palavra de Deus que faz tal afirmação. Especialistas na área de liderança têm constatado que, por várias razões, parte expressiva dos condutores termina mal; devido a alguns descuidos, acaba silenciosamente na obscuridade. 7 As histórias de suas vidas, que deveriam constar suas relevantes realizações, seus exemplos duradouros, são escritas em tinta invisível, sem deixar marcas positivas para as gerações posteriores. Aliás, uma marca permanece: aquela de seus aviltantes e definitivos fracassos. Este é o caso de Joás; poucas pessoas se lembram de que ele foi o visionário que idealizou um fantástico projeto para reformar a casa de Deus e, doravante, restaurar a

prática cúltica; mas, sua rebeldia posterior, jamais será esquecida; com Joás, a última impressão foi a que ficou. E com você? O que as pessoas dirão ou dizem

a seu respeito? Não podemos nos esquecer: não é difícil iniciar algo; o difícil

é terminá-lo bem; na vida, como a iniciamos e a levamos é importante, mas,

finalmente, como a terminamos é que realmente importa. 8 Precisamos, então, submeter nossa vida à profunda e contínua revisão, 9 repensar nossas crenças, sentimentos, pensamentos, ensinos e comportamentos.

7 THRaLL, Bill [et al.]. A escalada de um líder. Mundo Cristão, 2005, p.32. 8 WonG, David W. F. Vida & carreira. Santa Bárbara d’Oeste: Socep; Campinas: Instituto Haggai do Brasil, 2006, p.15. 9 aGRESTE, Ricardo. Revisão de vida. Santa Bárbara d’Oeste: Socep, 2008.

314 o BJeTIVos D esTA D IsCIPLInA  1. Esta disciplina de Gestão Ministerial dará

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oBJeTIVos DesTA DIsCIPLInA

1. Esta disciplina de Gestão Ministerial dará ênfase a um dos temas que tenho inserido na Teologia Econômica - geração de receita. 2. Uma perspectiva apropriada da Eclesiologia (estudo sistemático da Igreja), é terminante, pois antes da elaboração de projetos, mesmo para o levantamento de fundos, há a necessidade de se responder: a Igreja é uma organização ou um organismo, ou as duas coisas ao mesmo tempo? 3. Também é necessário identificar, à luz da Bíblia e também da Teologia Pastoral, quais são as atribuições primordiais do condutor da comunidade de fé, ou seja, será que a arte de planejar também se constitui uma atribuição dentre muitas outras tarefas pastorais? 4. Após a constatação eclesiológica de que a Igreja é tanto organismo como organização, e a pastoral, reiterando que o líder de uma igreja também possui responsabilidade de caráter gerencial e deve, portanto, planejar suas ações, finalmente podemos analisar as principais etapas para a construção de um projeto eficiente e eficaz. Nesta disciplina, o projeto delineado visa a gerar receita para ser investida na adoração a Deus, evangelização dos perdidos, edificação e consolidação dos súditos de Jesus e na realização de ações sociais transformadoras.

esPIRITUALIDADe e eXCeLÊnCIA ADMInIsTRATIVA sÃo ConCILIÁVeIs

Parte considerável da liderança evangélica ainda defende o conceito de que pastor/a - ou qualquer outro rótulo que indique o indivíduo que está no topo da hierarquia da denominação — não é mero administrador; alega-se que a função do líder é apascentar, não administrar; que um homem de Deus deve se preocupar e se ocupar com a espiritualidade da igreja ao invés de teorias administrativas, etc. Isto explica porque algumas denominações cristãs não crescem, não têm decência, nem ordem, nem organização.

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315 Outra parte da liderança pensa e se comporta de maneira oposta: pastor é mero gestor,

Outra parte da liderança pensa e se comporta de maneira oposta: pastor

é mero gestor, igreja é empresa, crente é cliente, adorador é consumidor,

sacerdote é negócio, vocação é profissão, salvação é mercadoria, templo é

esses pressupostos certamente são mais facilmente encontrados

nas igrejas, ou nas religião de mercado, centradas na captação ostensiva de recursos financeiros, nem sempre para finalidades dignas.

mercado

Diante do exposto, é imperioso questionar: Será que espiritualidade autêntica realmente é incompatível com excelência administrativa? E o agente pastoral que procura desenvolver sua competência gerencial, será que precisa abrir mão da fidelidade a Deus e às Escrituras? Ora, saber gerencial e espiritualidade, mesmo no cumprimento do ministério, complementam-se perfeitamente! É possível, sim, ser espiritual

e eficiente 10 e ainda ter um ministério frutífero. E “frutífero” aqui não é sinônimo de grandeza nem de quantidade, que são critérios mundanos usados para mensurar o sucesso da liderança em nossos dias. Nem todo crescimento é sinal de vida - as seitas heréticas crescem e o câncer também! 11 Ademais, não importa o número — nem o tamanho —, pois quando o buscamos em Espírito e verdade, ele se manifesta a nós (Mt 18.20). 12 A liderança cristã pode ser plenamente espiritual, eficiente e eficaz e realizar uma gestão ministerial significativa. Não importa se a igreja que lidera é pequena, mediana ou grande, isso numericamente falando; nem faz diferença se o perfil socioeconômico dela a classifica como pobre, classe intermediária ou rica. O que importa é que o agente pastoral, consciente da nobreza do seu chamado, dê o melhor de si mesmo, cumpra sua missão com excelência, pois ela honra a Deus, inspira pessoas e cria problemas para o inimigo de nossas almas! 13

10 ZaBaTIERo, Júlio P. T. “Em busca de uma eclesiologia criativa e integral”. In: BaRRo, Jorge H. [et al.]. Uma igreja sem propósitos. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p.209. 11 LoPES, Hernandes D. Morte na panela. São Paulo: Hagnos, 2007, p.23. 12 LUdoVICo, Osmar. Meditatio. São Paulo: Mundo Cristão, 2007, pp.140-141. 13 HYBELS, Bill. Axiomas. São Paulo: Vida, 2009, p251.

316 P oR QUe F AZeR P RoJeTos ? Vejamos, então, alguns fundamentos bíblicos que

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PoR QUe FAZeR PRoJeTos?

Vejamos, então, alguns fundamentos bíblicos que amparam a importante arte de planejar, principalmente quando se trata de conduzir a obra de Deus, de modo que a mesma seja um instrumento de bênção na vida das pessoas.

1. Fazer projetos eficientes e eficazes é um preceito bíblico. Tuler

ressaltou que Deus é um ser organizado: arquitetou a criação, planejou a redenção da humanidade antes da fundação do mundo, no deserto colocou

as tribos de Israel em perfeita disposição

permeia todo o universo”. Antonio Gilberto afirmou que há base para se crer que o céu é um lugar de perfeita ordem, pois certas leis preciosas e infalíveis regulam e controlam toda a natureza, desde o minúsculo átomo até os maiores

corpos celestes. 14 Declaram outros líderes que os princípios da ordem e do planejamento vêm de Deus e são exemplificados em Cristo. 15 Logo, sendo Deus organizado, não devemos imitá-lo, inclusive na gestão da congregação?

enfim, “a organização divina

2. Tentar conduzir a obra de Deus sem ordem e decência pode resultar em maldição. Outro motivo para o líder fazer projetos na igreja está relacionado ao fato de Deus ser organizado e exigir que seus filhos também o sejam, principalmente os líderes. Deus não tolera balbúrdia, desordem, pois afirma que maldito é aquele que faz a sua obra negligentemente (Jr 48.10). Paulo, que primava pela organização, ciente de que a amálgama estava comprometendo a qualidade do culto na igreja de Corinto, estabeleceu algumas normas e finalizou o assunto dizendo que tudo deve ser feito “com decência e ordem” (1 Co 14.40). Já em outra ocasião, ao escrever a Tito, ratificou a razão de tê-lo deixado em Creta: colocar em ordem algumas coisas (Tt 1.5).

14 TULLER, Marcos. Manual do professor da escola dominical. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. 15 oRR, Robert. Liderança que realiza. 4. ed. Anápolis, GO: Asas de Socorro, 2000.

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317 É certo que fazer a obra de Deus relaxadamente traz maldição, mas também é correto

É certo que fazer a obra de Deus relaxadamente traz maldição, mas também é correto afirmar que conduzi-la com ordem e decência traz bênçãos copiosas à vida do pastor e do rebanho! Lembre-se: Deus é um ser organizado e exige categoricamente atitude similar de quem o confessa como Pai!

3. O agente pastoral é um mordomo e deve desempenhar tal função com excelência! Decerto administrar faz parte dos préstimos sacerdotais. Pastor algum pode negar tal fato: Deus o constituiu como mordomo, ou seja, administrador. Não estou dizendo que o líder de uma igreja é mero gestor, que igreja é empresa ou que crente é cliente. Nada disso. Estou, sim, afirmando que a atribuição administrativa faz parte do pacote. O pastor, com maior ou menor intensidade, está envolvido em questões administrativas. Uma análise do termo mordomo pode facilitar o entendimento deste mote. O mordomo, no Antigo Testamento, era o homem que recebeu do seu senhor a incumbência de administrar certa propriedade (Gn 43.19; 44.4; Is 22.15). O Novo Testamento não modifica o relevante significado da mordomia. Vários termos gregos foram empregados para definir e conceituar o mordomo. 16

epitropos: “administrador”, “procurador”, “curador” (Mt 20.8; Lc 8.3; Gl 4.2), ou seja, pode ser resumido como “alguém a cujos cuidados de guardião a propriedade alheia foi confiada”;

“dispensar” ou “gerir” — “administrador”, “despenseiro”, 17 “mordomo”, “tesoureiro”, tutor” — refere-se a superintendente/gerente (Lc 16.2, 3; 1 Co 4.1,2; Tt 1.7; 1 Pe 4.10).

São vastas as fontes bíblicas que sustentam que administrar ou “presidir” (Rm 12.8) faz parte do ministério pastoral.

16 LaUTERT, Nelson. Mordomia cristã e oferta. Canoas: ULBRA - Porto Alegre: Concórdia, 2004, pp.19-26. 17 SToTT, John. O perfil do pregador. São Paulo: Vida Nova, 2005,p.16-20.

318 Não estou preconizando que o pastor deve ser mero gerente instituciona l nem ter

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Não estou preconizando que o pastor deve ser mero gerente institucional nem ter poderes irrestritos para conduzir a igreja. Essa doentia centralização de poder já foi, inclusive, enfocada na disciplina de Liderança Cristã. O ideal é que a liderança nas comunidades de fé seja colegiada e participativa. 18 Ainda há outra ressalva indispensável. Não estou defendendo a mera profissionalização do ministério pastoral. Piper já admoestou que essa “profissionalização”, que inibe o ministério radical, está nos massacrando e deixando um rastro de morte. 19 Estou, sim, dizendo que espiritualidade é compatível com administração eficiente e eficaz.

ALGUMAs FUnÇÕes Do AGenTe PAsToRAL

Autoridades

nas

áreas

bíblica,

teológica

e

prática

reiteram

que

a

administração, de certa maneira, também faz parte da função pastoral.

O Dr. Roldán justifica que a enobrecedora tarefa pastoral é múltipla e complexa, pois abrange 1) administração, 2) aconselhamento, 3) liderança, 4) ensino, 20 etc. Kilinski e Wofford relacionam exigências para a liderança de uma igreja local, que incluem um campo de conhecimento bem amplo: espera-se que o líder seja um analista teológico, bíblico e doutrinário; um líder moral e espiritual; um conselheiro e professor; um chefe e guia de equipe; um pacificador; um comunicador; um organizador; um administrador; um planejador, etc. 21

Ser pastor, que leva a sério a vocação, não é nada fácil. Não consiste apenas em pastorear:

18 CaRVaLHo, Antonio V. Liderança participativa na igreja. São Paulo: Hagnos, 2002, p.22. 19 PIPER, John. Irmãos, nós não somos profissionais. São Paulo: Shedd, 2009. 20 RoLdÁn, Alberto F. Para que serve a teologia? 2. ed. Londrina: Descoberta, 2004, p. 73. 21 KILInSKI, K. & WoFFoRd, J. C. Organização e liderança na igreja local. São Paulo: Vida Nova, 1991, p.201.

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319 Administrar é gerenciar, ou seja, aplicar determinados recursos para atingir objetivos cuidadosamente articulados.

Administrar é gerenciar, ou seja, aplicar determinados recursos para atingir objetivos cuidadosamente articulados. É, antes de tudo, uma questão de organização e de intelecto. Pastorear, por sua vez, é educar, uma função que envolve cuidado, que exige tanto força quanto mansidão e nasce de um profundo amor pelo bem-estar do rebanho. 22

Não há como negar: administrar também faz parte das atribuições do agente pastoral. Pode não ser a principal, mas é uma tarefa importante.

Concordo com Ben Patterson em dois vitais aspectos: 1) chamado para

o ministério é diferente de profissão ou carreira; 2) mas questões de gestão da

organização eclesiástica, 23 — planejamento e administração das atividades da igreja, 24 etc. —, que exigem aptidão do líder, não desaparecem apenas porque não são fundamentais para o chamado; se o pastor não cuidar dessas tarefas, a coisa começa a descambar! 25 Montosa, do Instituto Jetro, diz que líderes influentes que não sabiam como administrar causaram muitos danos em igrejas ao criar expectativas sem

a capacidade de efetivá-las. 26 O papel do agente pastoral na administração obviamente depende, por exemplo, da forma de governo que a igreja aderiu — congregacional, episcopal, presbiteriano, etc. 27 Assim, ele pode ou não fazer parte diretamente da equipe de gestão da igreja. Em todos esses modelos é preciso ter cuidado para que a organização não substitua a obra do Espírito na igreja. 28

22 SITTEma, John. Coração de pastor. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. 23 CaRVaLHo, Antonio V. Avaliação de desempenho na igreja. São Paulo: Hagnos, 1999. 24 CaRVaLHo, Antonio V. Planejando e administrando as atividades da igreja. São Paulo: Exodus, 1997. 25 In: PRICE, Donald E. [et al.]. Autenticidade ou hipocrisia? São Paulo: 2001, pp.33-37. 26 monToSa, Rodolfo G. Procuram-se pastores: líderes ou administradores? Disponível em: <http://institutojetro.locaweb. com.br>. Reacessado para revisão: 24/03/2010. 27 CaLdaS, Carlos. Fundamentos da teologia da igreja. São Paulo: Mundo Cristão, 2007, p.73. 28 WIERSBE, Warren W. & SUGdEn, Howard F. Respostas às perguntas que os pastores sempre fazem. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p.43.

320 A L IDeRAnÇA D eVe C onCILIAR e sPIRITUALIDADe e G esTÃo e CLesIÁsTICA

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A LIDeRAnÇA DeVe ConCILIAR

esPIRITUALIDADe e GesTÃo eCLesIÁsTICA

Já estudamos neste curso que liderança é um tema coevo — está no auge,

no figurino, na mídia, etc. Há razão para tanto: sem liderança capacitada para

conduzir o grupo mudanças significativas raramente acontecerão. Mas liderança também é uma tematização bíblica; está no Livro de Deus desde os alvores

da criação (Gn) até a restauração da ordem (Ap); ele fornece o paradigma

que define a índole, as marcas e a finalidade da liderança cristã. Jesus, por

exemplo, cujo nome consta no arrolamento bíblico, é o ideal e supremo padrão

à capacitação de pessoas, especialmente nessa era pós-moderna, saturada de

desafios. E o que o líder cristão pode aprender, no que tange à espiritualidade

e à gestão eclesiástica de excelência, em especial a partir do exemplo de Jesus?

As obras sobre tal mote campeãs de vendas no Brasil ratificam que Jesus

Cristo é o líder mais pujante da história e o que mais influenciou os avanços

da humanidade. E não é sem motivo. Com espiritualidade e excelência ao

realizar seu ministério, ele impactou as sociedades que cultuavam o poder próprio, o prazer e o dinheiro; também inspirou o cuidado integral do próximo

e da criação, incentivou a humanização e o altruísmo das instituições e das

estruturas, influenciou a literatura, a arte, etc. Pesquisadores dizem que dos vários videntes apocalípticos da época que pleiteavam a atenção das massas,

Jesus destacou-se, afinal valorizava a abertura, a flexibilidade, a comunicação,

a equidade, a caridade, tinha múltiplas fisionomias (misericordioso,

espiritualizado, combativo), além de ineditismo e misticismo (milagres e curas que formaram a aura mística). Contudo, entre tais distintivos, também deve

ser destacado o zelo de Jesus por aquilo que fazia; a excelência era marca óbvia em suas crenças, em suas doutrinárias e em suas atitudes. Não devemos então procurar conciliar excelência e espiritualidade, pessoal e ministerial?

10.2. lIções extraordInárIas de um mestre em Geração de receIta
10.2. lIções extraordInárIas de
um mestre em Geração de receIta

ij

U ma coisa é o agente pastoral administrar, outra diferente é transformar a igreja em empresa, sacerdócio em negócio, vocação em profissão, crente em cliente. Afinal, embora

a liderança do Reino de Deus envolva administração e supervisão dos seus recursos, a igreja não está no negócio de ganhar dinheiro; as finanças são apenas ferramentas para realizar a tarefa de salvar e amoldar vidas para o Reino de Deus. 29 Concluímos no capítulo anterior que a igreja é organismo e organização. E o pastor, de certa maneira, é um gestor; deve administrar, com espiritualidade e competência, a comunidade de fé. Agora vamos sintetizar alguns passos importantes para a elaboração de projetos.

29 Goodman, Paul D. [et al.]. O Pastor pentecostal. 5. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p.416.

322 • O que fazer para que o planejamento seja eficiente e eficaz? • O

322

O que fazer para que o planejamento seja eficiente e eficaz?

O que é “OBJETIVO” em um “projeto”?

Quais são as suas etapas principais?

E o que o primitivo projeto do rei Joás tinha de especial?

Quais fatores determinaram seu retumbante sucesso, mesmo naqueles dias difíceis?

Como ele mobilizou o povo a reconstruir a casa de Deus e restaurar a prática cúltica? Estes questionamentos serão brevemente analisados a seguir.

1. ConHeCenDo MeLHoR os oBJeTIVos Do PRoJeTo

A primeira característica de um projeto significativo, cuja finalidade

exclusiva é gerar receita para manter e expandir o Reino de Deus, certamente

é a definição precisa de um determinado objetivo.

O monarca Joás, diferente de muitos pastores hodiernos, logrou êxito no levantamento de fundos porque apresentou aos contribuintes potenciais uma causa digna na qual realmente valeria a pena investir: a reforma do Templo! Havia um propósito bem específico e no qual as pessoas espirituais daqueles

dias certamente estariam dispostas a investir. O fato do rei saber exatamente

o que queria facilitou a captação de fundos. Mas ele não era o único a saber

o que queria. O povo judeu da época, apesar de seus deslizes éticos, morais e espirituais, sabia que o objetivo era nobre, relevante!

Antes do rei se dirigir à nação para solicitar as ofertas já sabia aonde queria chegar; o propósito estava definido; o objetivo não era mero devaneio

e nem desejo vago; era, todavia, uma visão egrégia, clara, factível, cristalina, meritória, isto é, “renovar a casa do Senhor” (2 Cr 24.4).

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323 e QUAIs As C ARACTeRÍsTICAs De UM o BJeTIVo , s eGUnDo A s IGLA

e QUAIs As CARACTeRÍsTICAs De UM

oBJeTIVo, seGUnDo A sIGLA “s.M.A.R.T.”?

Como um líder honesto pode aumentar as probabilidades de sucesso dos seus projetos? Como obter resultados através de meios corretos e para fins verdadeiramente enobrecedores com maior aclamação? Há uma fórmula conhecida e empregada na esfera empresarial. A mesma foi baseada nas iniciais de uma palavra inglesa — S.M.A.R.T — e pode ajudá- lo a definir, de maneira lúcida, direta, concreta, o objetivo de seu projeto, mesmo que seja gerar receita para investir no Reino de Deus. Suas principais etapas são as seguintes:

ESPECÍFICO Deve mostrar com clareza as ações que serão executadas e os resultados que você (e a comunidade) deseja alcançar com a realização de tal objetivo. Vamos à Bíblia novamente. Joás, mediante a execução de seu projeto, pretendia: 1) Limpar e reformar o Templo que estava em ruínas, pois nele os filhos de Atalia cometeram sacrilégio, profanaram as coisas sagradas, usaram- nas no serviço de baalins (2 Cr 24.7); 2) restaurar a prática cúltica ao glorioso e bondoso Deus.

MENSURÁVEL Cada resultado, além de ser medido com rigorosa precisão, deve ser passível de avaliação. Era possível acompanhar cada etapa do projeto de Joás, averiguar se cada equipe estava ou não obtendo êxito na execução da tarefa que lhe fora confiada. Este detalhe é imprescindível e será retomado posteriormente.

ATINGÍVEL O objetivo deve ser factível, realizável e, de certa forma, se ajustar aos recursos técnicos, materiais, humanos, financeiros e espirituais disponíveis à sua concretização.

324 Limpar o Templo, reparar os estragos e renovar o culto a Deus eram alvos

324

Limpar o Templo, reparar os estragos e renovar o culto a Deus eram alvos que estavam perfeitamente dentro das possibilidades da nação. Eram objetivos atingíveis. Bastava um pouco de empenho da liderança e logo os entulhos seriam removidos, as brechas tapadas e o genuíno culto a Deus restabelecido! Nem sempre, porém, o alvo é atingível. Alguns projetos evangélicos, aliás, são totalmente incabíveis.

RELEVANTE O objetivo deve ter real importância. Este é um aspecto preponderante no projeto de Joás. Segundo os registros bíblicos, o rei soube chamar a atenção de sua equipe - e do povo - para um problema de expressiva gravidade: a ruína do santuário de Deus. Enquanto o mesmo não fosse totalmente restaurado a qualidade do culto oferecido a Deus ficaria comprometida. Isso resultaria no desfavor divino. O Eterno jamais aceitou o desleixo do seu povo. Urgia, então, renová-lo!

Além de identificar o problema concreto e as suas graves consequências, preconizar as razões que o levaram a planejar e executar o projeto de determinada maneira, é imprescindível ainda ressaltar qual público-alvo será o principal beneficiário quando o mesmo estiver realizado. Joás também cumpriu bem esta parte. A reforma do Templo era importante para todos os judeus. Conseguiu, assim, convencer o povo a patrocinar o viável e importante projeto.

Pode-se dizer o mesmo dos planos de arrecadação empregados nas igrejas? Os objetivos são relevantes? Para quem? Infelizmente em várias situações o objetivo apresentado é importante, mas não para o Reino de Deus. Quanto dinheiro arrecadado, sob o pretexto de promover a manutenção e expansão das igrejas, está tendo outro destino! Quanta verba recolhida para viabilizar a execução de projetos úteis à comunidade e favoráveis aos propósitos de Deus vai parar em contas particulares!

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325 Conquanto o objetivo seja, do ponto de vista teórico, relevante à causa celestial, não passa

Conquanto o objetivo seja, do ponto de vista teórico, relevante à causa celestial, não passa de engodo para estimular o contribuinte a fazer doações generosas! Esse recurso, depois, “desaparece” ou vai para causas irrelevantes.

Como saber então se o objetivo é relevante?

A reforma do Templo de Deus nos dias de Joás era importante por várias razões. Uma delas era a recuperação da qualidade do culto a Deus. Desde que Israel se organizou em nação, tornou-se necessário um santuário central, como ponto de reunião para todo o povo, como símbolo de sua unidade em torno da adoração de seu Deus. 30 Neste caso, o povo, seria o principal beneficiário. A espiritualidade dos judeus no período do Antigo Testamento estava ligada ao Templo. Outra utilidade: os templos antigos não raro serviam de tesouraria do estado, despojados para pagar tributos e repletos com despojos de conformidade com o poder da terra; se, por alguma razão, um governante lhe desse pouca atenção, este perderia suas fontes de renda e rapidamente ficava em ruínas (2 Rs 12.4-15).

Quais áreas são dignas de receber doações? O objetivo digno, no qual vale a pena investir é aquele que promove a glória de Deus, a evangelização dos perdidos, a edificação da igreja ou ameniza as mazelas sociais. 31

TEMPORAL Cada etapa deve se referir a um período de tempo específico. Talvez Joás tenha definido prazos. Talvez por essa razão pediu rapidez a todos os envolvidos diretamente na causa e irou-se profundamente ao ver que os levitas não se apressaram (2 Cr 24.5).

30 doCKERY, David [et al.]. Manual bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001, p.285. 31 In: HoRTon, Stanley [et al.]. Teologia sistemática. 3. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1997, p.554.

326 Alguns projetos jamais se realizam porque o líder não define prazos, não sabe quanto

326

Alguns projetos jamais se realizam porque o líder não define prazos, não sabe quanto tempo gastará em cada etapa, não fixa datas-limites para início e fim das execuções e dos resultados. Nesse caso, além de não ver o plano decolar, ainda revolta o povo da comunidade de fé insistindo reunião após reunião para que dê algum dinheiro para finalizar o projeto.

2. ATRIBUIÇÕes De ResPonsABILIDADe

Comumente este elemento aparece nos bons projetos após a Determinação de Metodologias. Farei, porém, por razões pessoais uma alteração. Por enquanto presumo ser mais apropriado abordá-lo primeiro. Foi preconizado que as probabilidades de sucesso de um projeto, voltado ou não à captação de recursos financeiros, aumentam quando tem as seguintes características:

1. Ser específico

2. Mensurável

3. Atingível

4. Relevante e

5. Temporal

Mas talvez ainda seja preciso algo mais. Há outra lição primordial a ser aprendida com o planejamento do rei Joás. O idealizador deve compartilhar seus ideais com uma equipe competente e dar a ela os poderes necessários para ajudá-lo a transformar o objetivo especificado em realidade; um bom projeto precisa de uma equipe adequada. Foi essa a atitude de Joás após receber a visão de Deus para restaurar o Templo. Não tentou realizá-la sozinho. Ele, antes, reuniu a liderança espiritual da nação – sacerdotes e levitas (2 Cr 24.5), revelou seus anseios, os incentivou a abraçá-la e,

depois, lhes atribuiu responsabilidades - definiu quem era responsável pelo quê.

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327 Por mais promitente que seja um projeto, dificilmente será possível realizá-lo se não houver pessoas

Por mais promitente que seja um projeto, dificilmente será possível

realizá-lo se não houver pessoas devidamente qualificadas para desempenhar

determinadas tarefas. E quem é nomeado para fazer parte da equipe,

principalmente quando o objetivo é servir a Deus e abençoar as pessoas, deve

aceitar sua função na equipe e comprometer-se com ela. Parece que Joás

também tinha consciência disso. Nomeou alguns líderes para angariar fundos

junto à população, escolheu outros para administrá-los corretamente, outros

para retirar os entulhos e cuidar exclusivamente da reforma

Poderia tal projeto fracassar? Raramente. O rei, afinal, tinha objetivo

definido, compartilhou-o com os demais líderes (administração participativa),

comunicou-se com eficácia e eficiência e, finalmente, delegou responsabilidades

a determinadas pessoas.

Esta etapa do projeto se constitui um grande desafio a boa parte da pastoral

hodierna, cujo estilo de liderança é monopolizador, autoritário, centralizador,

que não forma equipe de trabalho, não distribui tarefas nem poderes. Tal perfil

talvez tenha sido funcional no passado, mas no presente já está obsoleto e

inoperante! O líder sábio, como disse Moody, prefere conseguir dez homens para

fazer o serviço, do que fazer, sozinho, o serviço de dez homens!

A essa altura uma indagação é inevitável: por que um líder se recusaria

a delegar poderes?

Hans Finzel apresenta algumas razões:

Medo de perder a autoridade.

Medo de que o trabalho seja feito precariamente.

Medo de que o trabalho seja melhor.

Indisposição de gastar o tempo necessário.

Medo de depender de outros.

Falta de ( experiência positiva. 32

)

32 FInZELL, Hans. Dez erros que um líder não pode cometer. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 107.

328 O projeto voltado à geração de receita para manter e expandir especificamente o Reino

328

O projeto voltado à geração de receita para manter e expandir especificamente o Reino de Deus neste mundo dificilmente dará certo se o agente pastoral quiser fazer tudo sozinho, sem parceria com outras pessoas. É mister colaboração, principalmente daqueles que fazem parte da comunidade de fé e que querem vê-la cumprir a contento os propósitos de Deus. E o jeito é vencer o medo e delegar tarefas/poderes. E isso deve ser de maneira limpa. Certamente uma lição de mestre a ser aprendida com Joás é que não basta ter um projeto eficiente e eficaz e tentar realizá-lo sozinho. Qual é, então, a melhor saída? Liderar de forma participativa, democrática, colegiada, enfim trabalhar em equipe! Nada de centralização, de dominação, de imposição, de tirania. Vale a pena correr o risco ao inserir pessoas capazes e honestas no projeto para ajudá-lo. Apenas a confiança nos designado-s e apoio mútuo trarão excelentes resultados. É preciso, a exemplo da Trindade, trabalhar com alegria, em parceria, em relacionamento profundo e abençoador. O ideal é que o líder cristão siga o exemplo de Andrew Carnegie; o referido visionário, que auferiu expressiva fortuna, confessou:

“Gostaria que este fosse meu epitáfio: ‘Aqui jaz um homem que foi sábio o suficiente para trazer para trabalhar com ele homens que sabiam mais do que ele’ ”. 33

Infelizmente parte da pastoral pós-moderna pensa diferente de Carnegie. Há pastor evangélico que pensa que já sabe tudo sobre a Bíblia, conhece todos os fundamentos da teologia, domina como ninguém as ciências humanas, exatas, etc., logo não precisa dos outros. Pobre infeliz! Jamais descobrirá o caminho para a grandeza! Jamais será um líder eficiente e eficaz! Jamais deixará um legado às gerações posteriores! Escreverá sua história com tinta invisível e seus feitos medíocres o tempo apagará!

33 maXWELL, John C. Desenvolvendo líderes em sua equipe de trabalho. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p.36.

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329 A liderança eficaz e vitoriosa é aquela que sabe que ter visão a respeito do

A liderança eficaz e vitoriosa é aquela que sabe que ter visão a respeito do futuro, que seja sua própria, não é suficiente — outras pessoas precisam ser capazes de ser ver nesse futuro — e ajudar a construí-lo. 34 Claro que quando se trata de distribuir responsabilidade, é mister que o líder seja criterioso: para determinadas funções nem todas as pessoas servem; não se deve escolher gente incapaz para realizar importantes tarefas; também não está certo escolher pessoas com enorme potencial para desempenhar atividades simplórias e desperdiçar a oportunidade de usá-las em algo mais expressivo.

Ainda é possível encontrar pessoa com qualificação singular, capaz de assumir qualquer função e dar conta do recado, mas que não pode ser integrada

a uma equipe promitente porque não se importa com a causa em foco; tal

pessoa, por mais capacidade que tenha, não será útil! Certa ocasião uma agência missionária escreveu uma carta ao Dr. David Livingstone, que estava na África, como de costume, levando saúde física, psicológica e espiritual às pessoas. A mensagem dizia que algumas pessoas gostariam de juntar-se a ele, contudo queriam saber se havia estradas de acesso fácil para chegar até onde estava. David respondeu:

— Se você tem homens que virão apenas se houver boas estradas, não os quero. Eu quero homens que venham, mesmo se não houver estradas. 35

3. DeTeRMInAÇÃo De MeToDoLoGIA

Joás, ao que tudo indica, tinha uma dívida impagável para com o Templo. Minha pressuposição se baseia no fato de que, quando Atalia ordenou o

massacre da família real da casa de Judá, ele foi salvo porque Jeoseba o tomou

e o escondeu no Templo (2 Rs 11.1-3; 2 Cr 22.10-12).

34 KoUZES, James M. & PoSnER, Barry Z. (eds.). O desafio da liderança. São Paulo: Vida, 2009, p.35. 35 maXWELL, John C. Seja Tudo o que você pode ser! São Paulo: Sepal, 2002.

330 Se a hipótese está correta, tal lugar - o Templo - jamais seria esquecido

330

Se a hipótese está correta, tal lugar - o Templo - jamais seria esquecido com facilidade, tendo em vista que representava, para ele, morte e vida, maldição e bênção, tragédia e salvação, fim e recomeço.

Também é possível que a princípio a preocupação de Joás com a espiritualidade da nação fosse totalmente legítima. Ele, na verdade, estava firme enquanto Joiada o mentoreou (2 Rs 12.2; 2 Cr 24.2). Foi nessa fase auspiciosa que surgiu-lhe no coração o desejo, o objetivo de reparar o Templo (2 Cr 24.4). Finalmente a aspiração se tornou uma visão inegociável, um projeto enobrecedor. As duas referências, portanto, mostram indícios de que a Casa de Deus tinha alguma importância para o monarca. Como Joás, porém, poderia renovar o Templo, referencial de devoção e espiritualidade da nação judaica? Joás precisava de uma Determinação de Metodologia, ou seja, descobrir como fazer para chegar lá. Era mister definir as ações essenciais e a sequência apropriada para executá-las a fim de que o insigne objetivo fosse plenamente realizado. Presumo ainda que o competente monarca, ao se reunir com a liderança, já tinha as informações necessárias sobre a atual situação do Templo e sabia o que deveria ser feito em cada etapa. Uma delas consistia em convencer o povo a abraçar o projeto já que era o mesmo que, com suas ofertas generosas, iria financiá-lo. Isso explica a ordem de Joás: “Saí”, “ajuntai” (2 Cr 24.5).

Qualquer pastor evangélico honrado e detentor de relevantes e nobres propósitos, apesar da crise econômico-financeira que enfrenta, certamente gostaria de ver sua igreja gerando mais receita. Somente QUERER , no entanto, não resolve o problema econômico. É preciso saber C OMO chegar lá, descrever, com objetividade, as ações que serão desenvolvidas a fim de levantar os fundos necessários.

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331 Afirmo, sem titubear, que esta é uma das áreas mais delicadas de um projeto. Claro

Afirmo, sem titubear, que esta é uma das áreas mais delicadas de um projeto. Claro que as etapas precedentes nem sempre são fáceis. Contudo, definir o que fazer para, finalmente, chegar lá não é simples.

Conheço pastores que possuem projetos fantásticos, falam deles com notável empolgação. Quando, porém, questiono qual é o método a ser empregado para executá-los, logo perdem o fervor, o entusiasmo, a vibração. Parece que os recursos para a realização de um bom projeto cairão do céu! E não é bem assim que as coisas funcionam! É necessário se preocupar com a captação de recursos! De nada adianta sonhar alto, desejar coisas grandes, acalentar ideais enobrecedores e não saber como realizá-los!

Ainda acrescento que ter metodologia e não saber comunicá-la também pode comprometer seriamente a realização dos objetivos propostos. O ministério de levantamento de fundos, se é que assim posso nomenclaturá-lo, raramente terá sucesso pleno se a comunicação do líder não for eficiente e eficaz. É necessário, portanto, que o agente pastoral liberte-se da concha do acanhamento, confronte a relutância em conversar com a comunidade de fé sobre a carência de recursos e os peça, sem receio.

Novamente Joás tem algo a ensinar à liderança evangélica pós-moderna:

além de ter grandes projetos, aperfeiçoe sua comunicação, aprenda como falar bem público, 36 desenvolva a arte de conversar, 37 afinal é possível falar melhor 38 e fazer apresentações realmente irresistíveis. 39 O líder evangélico precisa transvisionar, isto é, compartilhar a visão com firmeza, elegância e desenvoltura.

36 doUGLaS, William & CUnHa, Rogério S. & SPIna, Ana L. Como falar bem em público. Niterói, RJ: Impetus, 2010. 37 moRRIS JR., James A. A arte de conversar. 8. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. 38 PoLITo, Reinaldo. Fale muito melhor. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. 39 LESTER, Alison. Como fazer apresentações irresistíveis. São Paulo: Universo dos Livros, 2010.

332 Afirma a Bíblia que Joás tinha algo construtivo para dizer aos líderes e “lhes

332

Afirma a Bíblia que Joás tinha algo construtivo para dizer aos líderes

e “lhes disse” (2 Cr 24.5); Joás, além de definir o objetivo e a metodologia, também sabia como repassá-los com fervor e convencimento.

Obviamente, a nociva falha na comunicação não é minudência de uma minoria em nossos dias. A própria Bíblia revela que alguns célebres homens de Deus tiveram problema com a comunicação no início de seus ministérios. Estão,

entre outros, Moisés 40 (Êx 4.10) e Jeremias 41 (Jr 1.6). Já outros se expressavam com facilidades. Joás era um dos tais; ele se mostrou um comunicador eficiente

e eficaz - sabia informar e comunicar.

Falar sobre dinheiro não é a tarefa preferida de muitos pastores. Não

é sem razão. O dinheiro deixa as pessoas aflitas e quando se fala sobre ele

é possível criar uma porção de mal-entendidos, alguns dos quais podem ser

perigosos para a saúde da igreja. 42 Nem sempre o pastor vê a igreja cooperando financeiramente, com alegria extravagante e generosidade, porque não tem objetivos definidos ou não consegue repassá-los corretamente. Veja o que ocorre quando há falha na comunicação.

Um senhor descia uma rua residencial e viu um homem lutando com uma máquina de lavar no vão da porta de sua casa. Quando ele se ofereceu para ajudar, o dono da casa ficou contentíssimo, e os dois homens, juntos, começaram a trabalhar e lutar com o grande utensílio. Depois de vários minutos de esforços infrutíferos, os dois pararam e entreolharam-se. Estavam à beira de total exaustão. Finalmente, quando readquiriram o fôlego, o homem disse ao dono da casa.

40 EImS, Leroy. A formação de um líder. São Paulo: Mundo Cristão, 1998. 41 PETERSon, Eugene. Ânimo. 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p.45. 42 In: PRICE, Donald E. [et al.]. A igreja próspera, o pastor e os recursos do reino. São Paulo: Vida Nova, 2003, p.50.

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333 — Nós nunca conseguiremos colocar essa máquina de lavar lá dentro! Ao que o dono

— Nós nunca conseguiremos colocar essa máquina de lavar

lá dentro! Ao que o dono da casa respondeu:

— Dentro? Estou tentando colocá-la para fora! 43

Saber falar, porém, não é tudo; é mister saber ouvir, pois assim se tem

enfim, saber ouvir

acesso ao conhecimento, às percepções, à sabedoria aciona todos os recursos da organização. 44

4. GeRAÇÃo e APLICAÇÃo Dos

ReCURsos nos ReAIs DesTInATÁRIos

Diz a Bíblia que Joás ordenou aos sacerdotes:

Reúnam toda a prata trazida como dádiva sagrada ao templo do Senhor: a prata recolhida no recenseamento, a prata recebida de votos pessoais e a que foi trazida voluntariamente ao templo. Cada sacerdote recolha a prata de um dos tesoureiros para que seja usada na reforma do templo (N.V.I.).

Três lições podem ser aprendidas com esta declaração de Joás:

O líder deve agregar os recursos para concretizar o projeto, ou seja, saber do que, de quem e de quanto precisará para executar o projeto. Orçar custos — estar ciente de quanto realmente custará a realização total do projeto; também comunicá-lo à igreja, assim ela saberá o tempo que estará contribuindo para a finalidade apresentada.

43 FInZELL, Hans, op. cit., p. 114. 44 maXWELL, John C. O livro de ouro da liderança. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008, pp.61-69.

334  Jamais desviar o dinheiro do destino real apresentado aos oferentes. Esta é outra

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Jamais desviar o dinheiro do destino real apresentado aos oferentes. Esta é outra parte do projeto que merece atenção. Aliás, se a liderança cristã fosse mais zelosa nesta área, teria mais dinheiro à disposição e o nobre ofício não estaria tão banalizado.

O destinatário da contribuição do povo judaico ficou óbvio: “reparar a

casa do vosso Deus” (2 Cr 24.5). Joás não usou seu poder para coagir a massa a contribuir e quando as doações chegaram não se escondeu atrás da coroa real para ocultar o rumo que daria às mesmas. Antes as investiu na renovação do Templo e, doravante, na restauração do culto a Deus. Se a causa, por si mesma, já era conspícua e suficiente para incentivar a nação a cooperar, o rei lhe deu mais um forte estímulo: a oportunidade de fiscalizar a aplicação dos fundos levantados para a referida finalidade.

Outro fator a ser ressaltado no projeto de Joás: a escolha de homem com altos preceitos espirituais, éticos e morais para contabilizar e administrar o dinheiro oriundo das contribuições. Ele indicou o secretário real para lidar com os recursos oferecidos pelo povo porque tinha capacidade e caráter para ocupar função tão delicada. Mas, para administrar as finanças, o ideal é ter mais de uma pessoa. Então Joiada, o sumo sacerdote, fez o mesmo (2 Cr 24.11).

A integridade daqueles homens evitou desconfiança e murmuração. O

dinheiro foi contabilizado e aplicado corretamente. Eles regularmente esvaziavam

a arca e a colocavam no lugar. Depois entregavam os valores ao rei e ao sumo sacerdote e, por conseguinte, os repassavam aos encarregados da obra - homens fiéis e diligentes (2 Cr 24.12,13).

A hombridade dos supervisores era tamanha que sequer exigia-se prestação de contas do dinheiro que lhes era confiado! Assim diz as Escrituras:

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335 Também não pediam contas aos homens em cujas mãos entregavam aquele dinheiro, para o dar

Também não pediam contas aos homens em cujas mãos entregavam aquele dinheiro, para o dar aos que faziam a obra, porque obravam (procediam) com fidelidade” (2 Rs 12.15) - E.R.C.; acréscimo do autor.

Que lição magnífica para os hodiernos administradores do erário sagrado! Que lição extraordinária àqueles que cuidam dos recursos econômico-financeiros provenientes de dízimos e ofertas de pessoas pobres, de poder aquisitivo irrisório que, muitas vezes, deixam de comprar o essencial à sua própria sobrevivência para ajudar prazerosamente a manter e expandir a obra de Deus; ou, de pessoas com recursos medianos, que deixam de aplicar nos seus pequenos e médios negócios para honrarem a Deus também na dimensão material da vida! E que conduta exemplar àqueles líderes que exigem poderes irrestritos para manusear, sozinho, o dinheiro do Pai!

Outro detalhe: que visão de excelência tinham os supervisores - contrataram carpinteiros, pedreiros e operários, isto é, profissionais qualificados, cuja competência era notória, para o trabalho no santuário de Deus; procuraram o melhor para restaurar o Templo! Quantos gestores financeiros comprando materiais inferiores na construção de casas de adoração a Deus no afã de sobrar dinheiro para si próprios! Quantos pastores contratando mão de obra barata para fazer melhorias nos prédios das igrejas a fim de usar a verba para reforçar sua prebenda! Quantos ministros de finanças fazendo conluios com seus líderes para beneficiarem a si mesmos!

Após a conclusão da importante obra (2 Cr 24.13), o dinheiro que sobrou foi devolvido ao rei e ao sumo sacerdote para atender a outras necessidades do santuário (2 Cr 24.14). E o que tem sido feito em nossos dias quando, por ventura, o montante arrecadado supera as necessidades do projeto?

336 5 . C onTRoLe : e LoGIos P eLos s UCessos e C oBRAnÇAs

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5. ConTRoLe: eLoGIos PeLos sUCessos e

CoBRAnÇAs AMIsTosAs, PoRÉM FIRMes, DeVIDo À DIsPLICÊnCIA

Outra marca de um projeto eficiente e eficaz é o controle/supervisão durante todas as etapas. Foi este elemento que evitou o insucesso de Joás; sem ele a visão teria se transformado numa catástrofe. O monarca antecipou-se à crise! Sabia que, em certo momento, algo sairia do rumo. Foi o que sucedeu. Parte da equipe deixou algumas tarefas inacabadas comprometendo todo o projeto. Parece que o projeto de reforma de Joás sofreu duas paralisações:

1. Houve demora no início da arrecadação, comprometendo a realização das etapas seguintes do projeto. Como não havia recursos disponíveis, a reforma permanecia estagnada. A ira de Joás aflorou! Destarte, chamou a Joiada, um dos mentores, para uma prestação de contas; em vez de elogiá-lo, questionou-o severamente (2 Cr 24.6).

2. Após a arrecadação, a liderança espiritual procrastinou o início da reforma deixando o rei encolerizado. Já havia recursos para realizar o projeto, mas não estava sendo posto em prática. Algo estava errado. Uma coisa é não cuidar da casa de Deus quando falta recurso, outra bem diferente e deixá-la às traças por falta de diligência!

Dessa vez Joás convoca Joiada e os sacerdotes e, indignado, interpela-os:

Por que os terríveis estragos que depreciavam o Templo ainda não tinham sido reparados? (2 Rs 12.7). A indiferença com a visão era um dos problemas. O outro era que a liderança talvez estivesse usando o dinheiro arrecadado para outros fins. Tal atitude estava inviabilizando a reforma. A decisão de Joás parece sensata: a proibiu de retirar dinheiro com seus tesoureiros e deixá-lo para o propósito inicial (2 Rs 12.7).

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337 Após detectar e corrigir as falhas, o rei ordenou a construção de uma arca para

Após detectar e corrigir as falhas, o rei ordenou a construção de uma arca para ficar à porta do Templo, do lado de fora; também publicou em Jerusalém e em Judá o pagamento do imposto estabelecido por Moisés a Israel no deserto. Logo os líderes e o povo, com expressiva alegria, trouxeram as contribuições de modo que a arca logo transbordou (2 Cr 24.8-10).

ConCLUsÃo:

TenHA CUIDADo CoM o sUCesso!

É possível fazer projetos eficientes e eficazes para gerar receita. Joás provou isto. Basta definir objetivo, determinar a metodologia, distribuir poder

e responsabilidades, agregar recursos, fixar os prazos, orçar o custo e partir para

a ação. Joás fez quase tudo certo. Quase. A decadência do Templo despertava mais

inquietação em Joás do que na liderança espiritual do país! Foi o rei (e não a elite espiritual) o primeiro a indignar-se com os destroços que saturavam o santuário de Deus! Foi o rei (e não a elite espiritual) que exigiu medidas imediatas, deu prioridade ao projeto de reconstrução, pois não queria mais escórias, caliças, entulhos, imundícies, na casa de adoração! Foi o rei (e não a elite espiritual) que notou a incompatibilidade entre a santidade de Deus e a imundície que grassava no Templo! Aliás, parece que os guias já estavam acostumados a servir

a Deus no meio do lixo, dos dejetos, da podridão!

Joás, no entanto, apesar da excelência administrativa e aparente zelo espiritual na elaboração e execução do projeto que renovou o Templo do povo judaíta e restabeleceu o culto a Deus, terminou se perdendo. Tamanha foi a ruína do homem considerado nesta disciplina de gestão eclesiástica um mestre na arte de captar recursos. Tal foi o fracasso do rei que, com maestria, soube como levantar recursos para a sustentabilidade do Templo judaico.

338 O rei, após a morte de Joiada (2 Cr 24.17), passou a ouvir os

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O rei, após a morte de Joiada (2 Cr 24.17), passou a ouvir os príncipes

de Judá, conselheiros sagazes, que tentaram convencê-lo a não se opor à

renovação do culto a Baal, aprovar o estabelecimento dos poste-ídolos erigidos em devoção a Astarote, etc. O processo de aviltante deterioração espiritual cresceu rapidamente e o período de prosperidade nacional chegou ao fim. A legítima religião do povo judaíta também foi abandonada ou maculada.

O visionário que projetou a restauração do Templo não soube restaurar a

si mesmo; purificou o santuário, mas deixou a própria vida em ruína; conduziu

a nação, mas não foi líder de si mesmo

por isso fracassou!

Será que a pastoral pós-moderna não corre risco similar? Temo que a história de Joás se repita atualmente. Na verdade, ela já tem se reproduzido na

vida de muitos agentes pastorais. Por trás da banalização do ofício pastoral em nosso contexto, entre outros fatores, está a síndrome de Joás. A mesma tem particularidades interessantes. Ela não atinge o “líder” que, em nome de Deus

e pelo uso indevido da Bíblia, manipula a fé de pessoas vulneráveis, neófitas,

volúveis, acríticas, motivado apenas pelo lucro vil; tal “líder” banaliza o sacro ofício, pois o vê como negócio, não como sacerdócio, profissão, não vocação!

Há pessoa que quer exercer o pastorado pensando encontrar nele a oportunidade de autopromoção, preocupada em obter projeção pessoal e cuidar

do seu próprio bem estar. Tal pessoa não será assediada pela “síndrome de Joás”

- sua motivação vil e maligna, já evidencia a ausência de espiritualidade, de

preocupação com os legítimos propósitos divinos. Mas minha inquietação é com a pastoral que inicia o ministério com as mais nobres motivações, as mais conspícuas aspirações, e depois, assediada pelo êxito financeiro da comunidade que preside, termina imperceptivelmente aderindo a letal “síndrome de Joás”. E a grande verdade é que boa parte da liderança, principalmente cristã, infelizmente, não acaba bem.

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339 O Dr. Robert Clinton, professor de liderança do Seminário Teológico Fuller, crê que cerca de

O Dr. Robert Clinton, professor de liderança do Seminário Teológico Fuller, crê que cerca de 70% dos líderes não terminam bem; seis critérios corroboram sua estatística estarrecedora:

Os líderes que não terminam bem perdem a postura de aprendizado - eles param de ouvir e de crescer. A atratividade de seu caráter declina. Param de viver conforme as convicções. Falham ao deixar para trás contribuições decisivas. Eles perdem a consciência de sua influência e de seu destino. Perdem seu relacionamento vibrante com Deus. 45

Ratifico: saber gerencial não é sinônimo de êxito ministerial. Vários líderes, como Joás, eram experts, mestres em levantamentos de fundos, todavia, terminaram suas vidas arruinados espiritualmente. Por quê? Dedicaram mais tempo à captação de dinheiro do que à construção de um caráter santo, granítico, impoluto. Esta combinação (muito dinheiro e pouco caráter) é potencialmente destrutiva. Swindoll explicou que há dois tipos de testes na vida: a adversidade e a prosperidade, e na última a integridade da pessoa é testada. 46 A própria igreja corre risco quando seu dinheiro é maior que seu caráter e sua fidelidade. Afinal, todo empreendimento humano, com o passar do tempo, tende a inverter a ordem dos fatores fins e meios, ou seja, a transformar os meios em fins e os fins em meios para alcançá-los; para uma igreja cristã, essa inversão significa a morte da esperança, o esgotamento final do poder. 47

Que Deus tenha misericórdia de nós Que Deus nos livre da síndrome de Joás

45 THRaLL, op. cit., p.32. 46 SWIndoLL, Charles. A noiva de Cristo. São Paulo: Vida, 1996, p.197. 47 FaLCÃo SoBRInHo, João. A túnica inconsútil. Rio de Janeiro: JUERP, 1998, p.11.

340 Ademais, há na Igreja Evangélica vários assuntos que sempre suscitaram calorosas altercações. Dinheiro e

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Ademais, há na Igreja Evangélica vários assuntos que sempre suscitaram calorosas altercações. Dinheiro e espiritualidade geralmente apareceram entre

os principais. Os mesmos, desde os alvores da Igreja, estiveram em pauta; hoje,

após séculos de vastas discussões, dinheiro e fé, continuam sendo motes cruciais, inclusive no ramo evangélico brasileiro. De um lado, claro que muitos disparates estão sendo cometidos em igrejas ditas evangélicas porque, entre outras coisas, há desvios na motivação religiosa das pessoas – líderes e liderados. Parte da liderança, de um lado, preocupada com a concorrência no mercado religioso, tem adaptado os seus discursos no afã de atrair mais adeptos à sua igreja — oferece-se, em nome de Deus, saúde, prosperidade financeira e felicidade, em troca de dinheiro; a barganha, porém, é realizada com maestria, inclusive, mediante a manipulação da Bíblia. O povo, de outro lado, apesar de uma parte ser inocente, também tem culpa no lamentável processo, pois não raro busca igreja que prometa-lhe vantagens concretas, com

o menor custo possível e em tempo recorde, afinal, a motivação preponderante

é tão somente alcançar os favores que o sagrado pode oferecer. Mas do outro, toda instituição sem fins lucrativos, para viabilizar a contento sua missão e seus projetos, precisa obter recursos. 48 Essas milhares de

“organizações orientadas por valores”, que são movidas por um desejo de melhorar

o mundo, 49 conquanto não desenvolvam uma atividade necessariamente “geradora de lucro”, 50 carecem de receita ou jamais concretizarão seus nobres objetivos. O mesmo acontece com as igrejas evangélicas contemporâneas, que procuram cumprir seus objetivos, que tanto possuem aspecto divino (espiritual/

transcendente) quanto terreno (material/imanente). Por isso, à luz das Escrituras

e da Constituição, compete ao agente pastoral gerar e administrar o erário sagrado, com temor e tremor, diante de Deus e dos homens.

48 CRUZ, Célia M. & ESTRaVIZ, Marcelo. Captação de diferentes recursos para organizações sem fins lucrativos. 2. ed. São Paulo: Global, 2003, p.17. 49 HUdSon, Mike. Administrando organizações do terceiro setor. São Paulo: Makron Books, 1999. 50 monTaÑo, Carlos. Terceiro setor e questão social. São Paulo: Cortez, 2002, pp.206,205.

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MInHAs AnoTAÇÕes

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