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“Poucas pessoas que leem a Bíblia em inglês hoje entendem a dívida que

temos para com o mártir William Tyndale. Até entre os que conhecem o
nome do pai das traduções modernas da Bíblia para o inglês, poucos
compreendem que Tyndale se manteve resolutamente firme em favor das
doutrinas de justificação somente pela fé e salvação somente pela graça. Este
livro valioso revela os labores de Tyndale pela verdade, seus sofrimentos por
causa da verdade e seu amor pela verdade. Que Deus use este livro de Steven
Lawson para acender esse amor no coração de muitos outros.”
— JOEL R. BEEKE
Presidente, Puritan Reformed Theological Seminary
Grand Rapids, Michigan

“Mais do que um biografia, esta crônica emocionante revitaliza o coração


do crente e acende as chamas de resolução para defender e proclamar
corajosamente a verdade. O trabalho diligente do Dr. Lawson deveria ser
considerado leitura essencial para todo o crente, enquanto expõe
cuidadosamente o esquecido legado da fidelidade de Deus em usar um
homem, apesar de toda a improbabilidade, para nos dar o evangelho numa
linguagem compreensível.”
— DAVID PARSONS
Fundador, Truth Remains
Granada Hills, California

“Na história da fé cristã entre os povos de fala inglesa, a tradução da


Bíblia realizada por William Tyndale foi aquilo que os tornou um povo do
Livro. A sua vida foi gasta até ao ponto de morte para atingir este alvo, e
cada geração de crentes precisa ouvir de novo a história de sua vida e sua
morte. E um dos melhores guias para a história de Tyndale e suas lições para
nossos dias é este novo estudo escrito por Steven Lawson. Eu o recomendo
entusiasticamente!”
— MICHAEL A. G. HAYKIN
Professor de História da Igreja e Espiritualidade Bíblica
The Southern Baptist Theological Seminary
Louisville, Kentucky
A Difícil Missão de William Tyndale –
Um perfil de Homens Piedosos

Traduzido do original em inglês


The Daring Mission of William Tyndale por Steven Lawson
Copyright © 2014 por Steven Lawson

Publicado por Reformation Trust,


Uma divisão de Ligonier Ministries,
400 Technology Park, Lake Mary, FL 32746

Copyright © 2015 Editora Fiel


Primeira edição em português: 2015

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária
PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE LIVRO POR QUAISQUER MEIOS, SEM A PERMISSÃO ESCRITA DOS EDITORES, SALVO
EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.

Diretor: James Richard Denham III


Editor: Tiago J. Santos Filho
Tradução: Francisco Wellington Ferreira
Revisão: Marilene L. Paschoal
Ilustração: Steven Noble
Diagramação: Rubner Durais
Adaptação da Capa: Rubner Durais
Ebook: Yuri Freire

ISBN: 978-85-8132-323-7
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

L425d Lawson, Steven J.


A difícil missão de William Tyndale / Steven J.
Lawson ; [tradução: Francisco Wellington Ferreira]
– São José dos Campos, SP : Fiel, 2015.
2Mb ; ePUB – (Um perfil de homens piedosos).
Inclui referências bibliográficas
ISBN 978-85-8132-323-7
1.Sofrimento – Aspectos religiosos – Cristianismo.
2. Vida cristã. I. Título.

CDD: 270.6092 B

Caixa Postal, 1601


CEP 12230-971
São José dos Campos-SP
PABX.: (12) 3919-9999
www.editorafiel.com.br
Este livro é dedicado
a um amigo fiel,
David Parsons,
que compartilha de minha paixão
e amor pela Palavra de Deus escrita
e seu principal tradutor inglês
e mártir heroico,
William Tyndale
ÍNDICE

Apresentação: Seguidores dignos de serem seguidos

Prefácio: Pai da Bíblia em inglês

Capítulo 1: Uma paixão perigosa


Vida e estudos iniciais
Nascendo uma visão
A obra começa
Oposição e obstáculos
Traído, preso e condenado
“Senhor, abre os olhos do rei.”

Capítulo 2: Alicerçado na graça soberana


Corrupção radical
Eleição soberana
Redenção particular
Chamada irresistível
Graça perseverante
Uma posição a manter

Capítulo 3: A obra perigosa começa


Chegada à Alemanha
A primeira impressão
Fontes para a tradução
Características da primeira edição
Um revés temporário

Capítulo 4: O Novo Testamento para um lavrador


Uma nova base
Características da edição de Worms
Correções e distribuição
Resistência católica
Vida como fugitivo
Pai do inglês moderno

Capítulo 5: Produzindo o Pentateuco


Aprendendo hebraico
Traduzindo hebraico
Imprimindo em Antuérpia
Prólogos de abertura
Os cinco livros de Moisés
Uma realização monumental

Capítulo 6: Sempre aprimorando


Edições não autorizadas
Formato de impressão
Página de título
Prólogos de abertura
Trabalho de tradução
Notas marginais
Edição de 1535

Capítulo 7: Os Livros Históricos


Permanecendo em Antuérpia
Livros Históricos
John Rogers
Tyndale preso
A Bíblia Matthew
O legado de Tyndale

Conclusão: Queremos Tyndales novamente!


APRESENTAÇÃO

Seguidores Dignos de Serem


Seguidos

N o decorrer dos séculos, Deus levantou providencialmente uma extensa


linha de homens piedosos, os quais ele usou de maneira poderosa, em
momentos estratégicos, na história da igreja. Estes indivíduos valorosos
procederam de todas as classes sociais – desde os prédios luxuosos das
escolas de elite até as oficinas empoeiradas de artesãos. Surgiram de todos
os pontos do mundo – desde locais de alta visibilidade em cidades
densamente populosas a obscuros vilarejos dos mais remotos lugares.
Apesar das diferenças, estas figuras cruciais têm muito em comum.
Antes e acima de tudo, cada um destes homens possuía uma fé inabalável
no Senhor Jesus Cristo. E mais pode ser dito a respeito destes homens
extraordinários. Cada um deles tinha profundas convicções sobre as
verdades que exaltam a Deus, conhecidas como doutrinas da graça. Embora
tivessem diferenças secundárias em questões de teologia, andavam ombro a
ombro na defesa dos ensinamentos bíblicos que engrandecem a soberana
graça de Deus na salvação. Estes líderes espirituais sustentavam a verdade
fundamental de que “do SENHOR é a salvação” (Sl 3.8; Jn 2.9).
As doutrinas da graça humilharam a alma destes homens diante de Deus
e inflamaram seu coração com grande paixão por Deus. Estas verdades da
soberania divina deram coragem a estes homens para se levantarem e
promoverem o avanço da causa de Cristo em sua geração. Qualquer
avaliação da história de redenção revela que aqueles que adotam estas
verdades reformadas obtêm confiança extraordinária em seu Deus. Com
uma visão amplificada quanto à expansão do reino de Deus na terra, eles
avançaram ousadamente para realizar a obra de dez, vinte ou trinta homens.
Estes indivíduos magníficos subiram com asas como águias e voaram acima
de seu tempo. As doutrinas da graça os fortaleceram para que servissem a
Deus no momento da história que lhes fora designado por Deus, deixando
um legado piedoso para as gerações posteriores.
Esta série, Um Perfil de Homens Piedosos, destaca personagens-chave na
incessante procissão de homens da graça soberana. O propósito desta série é
examinar como eles utilizaram os dons e as habilidades dados por Deus para
impactar seu tempo e promover o reino do céu. Sendo corajosos seguidores
de Cristo, seus exemplos são dignos de serem imitados hoje.
Este volume se focaliza no homem que é considerado o pai da Bíblia
inglesa, William Tyndale. No século XVI, William Tyndale abandonou sua
terra natal, a Inglaterra, e viajou para a Europa, a fim de traduzir a Bíblia
para a língua de seus compatriotas. Numa época marcada por grandes trevas
espirituais, e ao custo de sua própria vida, Tyndale deu corajosamente ao
mundo de fala inglesa uma Bíblia que eles poderiam ler e entender. Talvez
nenhum outro homem foi usado como ele para afetar a vida espiritual de
tantas pessoas por muitos séculos. William Tyndale permanece como um
personagem de destaque, eminentemente digno de ter seu perfil nesta série.
Somos grandemente devedores a este esforço tão singular.
Que o Senhor use este livro para dar coragem a uma nova geração de
crentes, a fim de que eles deem seu testemunho por Jesus Cristo neste
mundo. Por meio deste perfil, que você seja fortalecido para andar de modo
digno de seu chamado. Que você seja zeloso em seu estudo da Escritura para
a exaltação de Cristo e o avanço de seu reino.
Soli Deo gloria

– Steven J. Lawson
Editor da Série
PREFÁCIO

Pai da Bíblia em Inglês


Todo progresso verdadeiro na história da igreja é condicionado por um novo e
profundo estudo das Escrituras... Enquanto os humanistas retornaram aos
clássicos da antiguidade e reviveram o espírito do paganismo grego e romano,
os reformadores retornaram às Escrituras sagradas em suas línguas originais e
reviveram o espírito do cristianismo apostólico.1
— PHILIP SCHAFF

D estacada proeminentemente em meu escritório, como que olhando por


cima de meu ombro direito, há uma cópia de um impressionante
retrato de William Tyndale, o grande tradutor da Bíblia. Pintada em óleo
sobre tela, a obra original é da autoria de um artista desconhecido. Foi
produzida no final do século XVII ou início do século XVIII e agora é exibida
na Galeria Nacional, em Londres.2 Como objeto do retrato, Tyndale está
sentado, vestido de preto e cercado por um fundo marrom escuro. Sua face e
mãos parecem brilhar à luz da vela que está oculta da visão.
A mão esquerda de Tyndale está sustentando um livro, mantendo-o na
horizontal para não cair. Este livro é a Bíblia, a coleção dos escritos
divinamente inspirados aos quais Tyndale dedicou sua vida, a fim de
traduzir do hebraico e do grego para o inglês. A mão direita parece estar
repousando sobre uma mesa escura, enquanto seu dedo indicador direito
está apontando enfaticamente para a Bíblia. Tyndale está dirigindo a
atenção do observador para longe de si mesmo e, em vez disso, atraindo
cada olhar para este Livro sagrado, no qual ele acreditava resolutamente e ao
qual dedicou toda a vida.
Abaixo da Bíblia, o artista pintou uma faixa desdobrada, aparentemente
suspensa no ar. Para significar que Tyndale era um erudito de Oxford e de
Cambridge, o escrito da faixa está em latim: Hac ut luce tuas dispergam Roma
tenebras sponte extorris ero sponte sacrificium. Isto significa: “Para dispersar as
trevas romanas por meio desta luz, considerarei insignificante a perda de
bens e da vida”. Esta mensagem enfática representa a missão de vida de
Tyndale. Por traduzir a Bíblia para o inglês, este brilhante linguista acendeu
a chama que baniria as trevas espirituais na Inglaterra. A tradução das
Escrituras realizada por Tyndale revelou a luz divina da verdade bíblica que
resplandeceria no mundo de fala inglesa, anunciando o raiar de um novo dia.
No fundo deste retrato, por trás de Tyndale, estão as palavras Gulielmus
Tindilus Martyr. Esta é a tradução latina do primeiro e do último nome deste
erudito, acompanhados da palavra mártir, que identifica o alto preço que ele
pagou para colocar as Escrituras na língua de seus compatriotas. Esta figura
heroica morreu como mártir em 1536, estrangulado por uma corrente de
ferro, após o que seu corpo foi queimado e explodido por pólvora que fora
colocada ao redor do corpo incinerado.
Na base do retrato, há um painel que dá a explicação do martírio de
Tyndale. As palavras estão em latim e podem ser traduzidas assim:

Este quadro representa, tanto quanto possível, William Tyndale, ex-aluno deste edifício
universitário [Magdalen] e seu ornamento, que, depois de estabelecer aqui os começos felizes
de uma teologia pura, dedicou, em Antuérpia, suas energias a traduzir para o vernáculo o
Novo Testamento e o Pentateuco, um labor que contribuiu tão grandemente para a salvação
de seus compatriotas, que ele foi chamado o Apóstolo da Inglaterra. Ele ganhou sua coroa de
mártir em Vilvoorde, perto de Brussels, em 1536, um homem (se pudermos acreditar até em
seu adversário – o Procurador Geral do Imperador) erudito, piedoso e bom.

A ironia deste retrato é que Tyndale nunca se sentou para tal pintura.
Para proteger seu anonimato, ele não podia ter sua aparência facial
reproduzida numa tela. A obra que ele realizava era valiosa demais para lhe
permitir ser reconhecido. Somente depois de sua morte horrível, Tyndale
poderia ser conhecido.
Este retrato de Tyndale está pendurado em meu escritório como um
lembrete visual constante do tesouro incalculável que está sobre a minha
mesa: a Bíblia em inglês. Ressalta o fato de que, à medida que eu prego as
suas verdades, luz espiritual está sendo refletida nas trevas deste mundo
tenebroso. Além disso, este retrato de Tyndale dá para mim testemunho do
grande preço exigido para expor as verdades da Escritura nesta época
entenebrecida pelo pecado.
Quando Tyndale entrou no cenário mundial, a Inglaterra estava
encoberta por uma densa noite de trevas espirituais. A igreja na Inglaterra
permanecia enclausurada na escuridão da ignorância espiritual. O
conhecimento da Escritura havia sido extinto na terra. Embora houvesse
alguns vinte mil sacerdotes piedosos na Inglaterra, dizia-se que eles não
podiam nem mesmo traduzir para o inglês uma simples frase do Pater noster
– a Oração do Pai Nosso. O clero estava tão fechado no meio do nevoeiro de
superstição religiosa, que não tinha nenhum conhecimento da verdade. As
únicas Escrituras em inglês eram algumas poucas cópias feitas à mão de
Bíblias de Wycliffe, traduzidas da Vulgata Latina no fim do século XIV. Os
lolardos, um pequeno grupo de pregadores corajosos e seguidores de
Wycliffe, distribuíam ilegalmente estes livros banidos. A mera posse da
tradução de Wycliffe levou muitos a sofrer. Alguns até enfrentaram a morte.
Em 1401, o Parlamento aprovou uma lei conhecida como o De haeretico
comburendo, que, como o título indica, legalizava a queima de hereges na
estaca. Por causa da ameaça dos lolardos, traduzir a Bíblia para o inglês era
considerado um crime capital. Em 1408, Thomas Arundell, o arcebispo de
Canterbury, escreveu as Constituições de Oxford, proibindo qualquer
tradução da Bíblia para o inglês, a menos que fosse autorizada pelos bispos.

É uma coisa perigosa... traduzir o texto da Escritura Sagrada de uma língua para outra,
porque o mesmo sentido nem sempre é facilmente preservado na tradução... Portanto,
decretamos e ordenamos que daqui para frente nenhum homem traduza, de sua própria
autoridade, qualquer texto da Escritura para o inglês ou para qualquer outra língua...
Nenhum homem pode ler tal livro... em parte ou no todo.3

Até ensinar ilegalmente a Bíblia em inglês era considerado um crime


digno de morte. Em 1519, sete lolardos foram queimados na estaca por
ensinarem a seus filhos a Oração do Pai Nosso em inglês. Uma noite
espiritual caíra sobre o país da Inglaterra. As trevas que o encobriam não
poderiam ter sido mais inóspitas.
Ao mesmo tempo, as chamas da Reforma estavam incendiando lugares
como Wittenberg e Zurique e não podiam ser contidas. Centelhas da verdade
divina logo saltaram pelo canal inglês e acenderam o pavio na Inglaterra. Por
volta de 1520, as obras de Lutero eram lidas e discutidas por eruditos em
Cambridge e Oxford. Avivando esta chama, havia o acessível Novo
Testamento de Erasmo, acompanhado de sua tradução em latim, que fora
compilado em 1516, um ano antes de Lutero fixar suas 95 teses. Este
recurso foi de grande valor para eruditos que liam grego e latim. Mas foi
inútil para o cidadão inglês comum, que não podia ler tais idiomas. Se a
Reforma tinha de chegar à Inglaterra, não bastava apenas clamar sola
Scriptura. Tinha de haver a tradução da Bíblia para o inglês para o povo ler.
Mas como isso aconteceria?
Nesta hora de trevas, Deus levantou William Tyndale, um indivíduo
singular que possuía habilidades linguísticas extraordinárias combinadas
com uma inabalável devoção à Bíblia. Ele era um erudito admirável,
proficiente em oito idiomas – hebraico, grego, latim, italiano, espanhol,
inglês, alemão e francês. Possuía uma inigualável habilidade de trabalhar
com sons, ritmos e sentidos da língua inglesa. Mas, para fazer sua obra de
tradução, Tyndale seria forçado a deixar sua terra natal, a Inglaterra, para
nunca retornar. Esta figura resiliente viveria, pelo resto de sua vida, na
clandestinidade como um herege condenado e um fugitivo procurado. Por
fim, pagaria o preço supremo em dar a sua vida como mártir para dar a seus
compatriotas o Novo Testamento e metade do Antigo Testamento em
inglês. Sua proeza de traduzir a Bíblia do original grego e hebraico nunca
havia sido realizada. Este reformador notável se tornaria o mais importante
dos primeiros protestante ingleses.
É este homem, William Tyndale, que consideraremos neste pequeno
volume. É o homem que deu ao povo de fala inglesa a Bíblia em seu próprio
idioma. Talvez ele seja sempre estimado como aquele que tornou, pela
primeira vez, a Escritura um livro acessível à pessoa comum na Inglaterra.
Antes de prosseguir, quero agradecer à equipe de publicação na
Reformation Trust, por seu compromisso com esta série. Sou grato pela
influência constante de meu ex-professor e agora amigo, Dr. R. C. Sproul.
Devo também expressar minha gratidão a Chris Larson, que é tão prestativo
em supervisionar esta série.
Além disso, sou devedor à Christ Fellowship Baptist Church de Mobile
(Alabama), à qual tenho servido como pastor principal durante mais de onze
anos. Nenhum outro pastor tem recebido tanto encorajamento para servir
em um nível tão abrangente como eu tenho recebido. Sou grato pelo apoio
de meus colegas presbíteros e da congregação, que me encorajam
continuamente em meu ministério no exterior.
Quero expressar minha gratidão por minha secretária executiva, Kay
Allen, que digitou este documento, e a Dustin Benge, um pastor colega na
Christ Fellowship, que ajudou a preparar este manuscrito.
Agradeço a Deus por minha família, que me apoia em minha vida e
ministério. Minha esposa, Anne, e nossos quatro filhos – Andrew, James,
Grace Anne e John – são pilares de fortalecimento para mim.

— Steven J. Lawson
Dallas
Julho de 2014
1. Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 7 (1888; repr. Peabody, Mass.: Hendrickson,
2006), 1.
2. Um dos retratos mais reconhecidos e mais famosos de William Tyndale está fixado no salão do
Hertford College, na Universidade de Oxford. O retrato ao qual me refiro é agora parte da coleção
principal da Galeria Nacional em Londres.
3. Brian Moynahan, God’s Bestseller: William Tyndale, Thomas More, and the Writing of the English Bible:
A Story of Martyrdom and Betrayal (New York: St. Martin’s, 2002), 1.
CAPÍTULO 1

Uma Paixão Perigosa


A única reforma verdadeira é aquela que emana da Palavra de Deus. As
Escrituras Sagradas, por darem testemunho da encarnação, morte e
ressurreição do Filho de Deus, geram no homem, por intermédio do Espírito
Santo, a fé que o justifica.4
— J.H. MERLE D’AUBIGNÉ

W illiam Tyndale, por traduzir a Bíblia do grego e do hebraico, se tornou


o pai da Bíblia em inglês5 e desencadeou uma influência global pela
propagação da Palavra de Deus, que se estende até aos dias atuais. Ele
também se tornou o pai da Reforma Inglesa, bem como o pai da língua
inglesa moderna. Esta obra monumental de traduzir a Bíblia de suas línguas
originais fez surgir o movimento protestante na Inglaterra e afetou a
padronização da língua inglesa moderna. Tyndale ajudou a desencadear a
Reforma Inglesa por dar ao povo da Inglaterra uma tradução pura da
Escritura em sua língua nativa.
Tyndale foi um pioneiro ousado que abriu o caminho para a Reforma em
sua terra natal. O famoso historiador de Reforma J. H. Merle d’Aubigné
chama Tyndale de “a poderosa causa impelidora da Reforma Inglesa”.6 Isto
quer dizer: Tyndale colocou em movimento a propagação da Reforma em
toda a Inglaterra e além. Preeminente entre os tradutores da Bíblia, Tyndale
possuía “um gênio linguístico cuja proficiência em múltiplas línguas causava
admiração no mundo erudito de seus dias”.7 De acordo com Brian Edwards,
um biógrafo de Tyndale, ele foi “o âmago da Reforma na Inglaterra”. Na
verdade, Edwards exclama: Tyndale “foi a Reforma na Inglaterra”.8
Estes homens respeitados não estão sozinhos em seus elogios a Tyndale.
O famoso martirólogo John Foxe enalteceu Tyndale como “o Apóstolo da
Inglaterra... a figura mais notável entre a primeira geração de protestantes
ingleses”.9 Por sua obra de tradução, Tyndale é considerado “o primeiro dos
Puritanos ou, pelo menos, o avô deles”.10 Ele se tornou a força propulsora
que remodelou e reconfigurou a língua inglesa. Por traduzir a Bíblia para o
inglês acessível à pessoa comum, Tyndale é celebrado como o “profeta da
língua inglesa”.11 Tyndale dominou as Escrituras hebraicas e gregas e as
colocou nas mãos de pessoas comuns numa Bíblia em inglês legível.
Com esses altos louvores vinculados a Tyndalde, surgem algumas
perguntas que precisam ser abordadas para que seu lugar no escopo mais
amplo da história da igreja seja totalmente apreciado. Que passos este
grande arquiteto da Bíblia inglesa tomou para produzir sua magnífica
tradução das línguas originais? Que desafios ele teve de superar para
oferecer este presente extraordinário ao povo de fala inglesa? Que preço
elevado Tyndale pagou finalmente para realizar este feito extraordinário?
Antes de abordar estas questões pertinentes, queremos primeiramente
considerar o homem William Tyndale. Quem era este homem brilhante?
Onde ele realizou esta obra que mudou a história? É a estas perguntas que
nos dedicaremos primeiramente.
Vida e Estudos Iniciais

William Tyndale nasceu no início dos anos 1490, talvez entre 1493 e
1495, mais provavelmente em 1494. Sua família vivia no oeste rural da
Inglaterra, na área de Slymbridge, no condado de Gloucester, perto da
fronteira com o País de Gales e do rio Severn. Durante as Guerras das Rosas,
no século XV, os ancestrais de Tyndale migraram para o condado de
Gloucester e se tornaram proprietários de terras. Tyndale foi colocado por
Deus numa família laboriosa de fazendeiros respeitáveis que obtinham sua
subsistência pelo cultivo de suas terras. A família de Tyndale era
razoavelmente próspera, que florescera em um dos mais prósperos condados
na Inglaterra. Esta relativa prosperidade permitiu aos pais de William
mandá-lo para Oxford, a universidade mais prestigiada da Inglaterra.
Pouco se sabe a respeito dos anos de infância de Tyndale, que
permanecem ocultos em obscuridade. Entretanto, o que se sabe é que
Tyndale tinha pelo menos dois irmãos, Edward e John. Como seu pai, seu
irmão John se tornou um gerente de terras hábil e bem-sucedido que
supervisionava a fazenda deles em Gloucester. O outro irmão, Edward, se
tornou um administrador para a coroa, em Gloucester, que recebia para o rei
aluguéis pelo uso das terras de Berkeley. Nos anos futuros, William exerceria
uma influência direta sobre seus irmãos em favor da causa da Reforma na
Inglaterra. Como resultado, John seria multado por possuir e distribuir
Bíblias, um crime sério naquele tempo na Inglaterra. Por ocasião de sua
morte, Edwards deixaria vários livros reformados em sua última vontade e
testamento.
Em 1506, com a idade de 12 anos, William ingressou no Magdalen Hall,
que era localizado dentro do Magdalen College e ligado à Universidade de
Oxford. Ele passou dez anos, de 1506 a 1516, estudando em Oxford.12 No
Magdalen Hall, Tyndale gastou os dois primeiros anos no equivalente de
uma escola preparatória de gramática. Ali, ele estudou gramática, aritmética,
geometria, astronomia, teoria musical, retórica, lógica e filosofia. Ao entrar
em Oxford, ele demonstrou grande aptidão e progresso em idiomas sob o
ensino dos melhores eruditos em clássicos. Enquanto esteve ali, Tyndale foi
ordenado para o sacerdócio, embora nunca tenha entrado numa ordem
monástica.
Depois de graduar-se como um bacharel em artes em 4 de julho de 1512,
Tyndale estabeleceu como alvo uma graduação de mestre em Oxford. Foi
somente na última etapa de sua educação, depois de oito ou nove anos, que
por fim lhe foi permitido estudar teologia. No entanto, era apenas teologia
especulativa, com prioridade dada a Aristóteles e outros filósofos gregos e
não à Bíblia. Pensando sobre isso, Tyndale expressou seu grande
desapontamento por ser privado da Bíblia e de teologia:

Nas universidades, eles têm ordenado que nenhum homem olhe para a Escritura enquanto
não for nutrido de aprendizado pagão por oito ou nove anos e armado de princípios falsos
com os quais ele fica totalmente excluído do entendimento da Escritura... A Escritura é
lacrada com... falsas exposições e com princípios falsos da filosofia natural.13

Essa educação espiritualmente empobrecida impediu Tyndale de


conhecer a verdade da Escritura. Em julho de 1515, Tyndale se formou com
um mestrado de artes como um linguista qualificado na altamente aclamada
Universidade de Oxford. Sabe-se pouco a respeito do que Tyndale resolveu
fazer logo depois. Há um consenso de que ele talvez tenha seguido estudos
posteriores em Oxford e dado aulas ali.
Em 1519, Tyndale foi estudar em Cambridge, considerada “o principal
concorrente intelectual de Oxford na Inglaterra”.14 Eruditos sugerem que ele
pode ter recebido uma graduação ali.15 Antes da chegada de Tyndale, o
famoso humanista da Renascença Desidério Erasmo (1466-1536), de
Roterdã, deu palestras sobre grego em Cambridge de 1511 a 1514. Durante
o tempo de Tyndale ali, Erasmo viajava pela Europa, compilando seu famoso
Novo Testamento Grego.
Cambridge havia se tornado uma incubadora para o ensino protestante
do reformador alemão Martinho Lutero. Muitas das obras de Lutero
estavam disponíveis em Cambridge, circulando ampla e igualmente entre
professores e alunos. Esta exposição gerou uma empolgação crescente no
campus, à medida que as verdades cativavam muitas mentes brilhantes.
Como tal, Cambridge estava se tornando a base de treinamento para futuros
reformadores e mártires. Sob esta influência da Bíblia, Tyndale abraçou o
profundo compromisso com as verdades essenciais do movimento
protestante.
Em 1520, um pequeno grupo de eruditos de Cambridge começou a se
reunir para discutir aquela nova teologia. Apenas três anos antes, Lutero
havia fixado suas 95 Teses em Wittenberg, na Alemanha, em 31 de outubro
de 1517. Estes alunos que buscavam a verdade se reuniam numa taberna
local no campus do King’s Colegge, chamada White Horse Inn, para debater
as ideias de Lutero. O grupo ficou conhecido como “Pequena Alemanha”.
Naquele pequeno círculo, estavam muitos dos futuros líderes do movimento
reformado na Inglaterra. Entre eles, estavam Robert Barnes, Nicholas
Ridley, Hugh Latimer, Miles Coverdale, Thomas Cranmer, Thomas Bilney e,
acreditem, William Tyndale.16 Deste grupo, dois se tornaram arcebispos,
sete se tornaram bispos, e oito seriam mártires protestantes – Bilney,
Tyndale, Clark, Frith, Lambert, Barnes, Ridley e Latimer. As reuniões
informais se tornaram a ignição para a Reforma Inglesa que logo se
propagaria como um fogo incontrolável pelas ilhas britânicas.
Nascendo Uma Visão

Em 1521, Tyndale chegou à conclusão de que precisava se afastar da


atmosfera acadêmica para dar mais consideração diligente às verdades da
Reforma. Especificamente, este jovem erudito queria tempo para estudar e
digerir o Novo Testamento grego. Ele assumiu um trabalho no condado de
Gloucester, a menos de vinte quilômetros de seu local de nascimento,
trabalhando para a rica família de Sir John Walsh, na propriedade dele,
Little Sodbury. Tyndale serviu como o principal tutor para as crianças,
capelão particular para a família e secretário pessoal de Sir John. Durante
esse período, ele pregava regularmente para uma pequena congregação na
vizinha St. Adeline.
Ao considerar o estado espiritual da Inglaterra, Tyndale chegou à solene
compreensão de que a Inglaterra nunca seria evangelizada pelo uso de
Bíblias em latim. Ele concluiu: “Era impossível estabelecer o povo leigo em
qualquer verdade, exceto se a Escritura fosse colocada diante de seus olhos
em sua língua materna”.17 Enquanto viajava pela região, cumprindo
oportunidades de pregar, as crenças de Tyndale se tornavam bem
conhecidas como distintamente semelhantes às de Lutero. Suas convicções
se tornaram tão fortes que ele se viu em disputas com oficiais da Igreja
Católica Romana quanto à natureza da verdade evangélica. Por volta de
1522, Tyndale foi chamado diante de John Bell, o chanceler de Worcester, e
foi advertido quanto às suas opiniões controversas. Nenhuma acusação
formal foi levantada contra ele na ocasião, mas este conflito foi uma
amostra do que estava por vir.
Quando os sacerdotes locais iam jantar na casa senhorial dos Walsh,
Tyndale testemunhava em primeira mão a ignorância bíblica da Igreja
Romana. Durante uma refeição, ele se viu num debate intenso com um
clérigo católico. O sacerdote afirmou: “É melhor ficarmos sem a lei de Deus
do que sem a lei do papa”.18 Tyndale respondeu corajosamente: “Eu
desprezo o papa e todas as suas leis”. E acrescentou que, “se Deus lhe
poupasse a vida, em alguns anos ele faria um rapaz que toca o arado saber
mais da Escritura do que ele sabia”.19 Tyndale estava ecoando as palavras de
Erasmo no prefácio de seu recém-publicado Novo Testamento Grego:
“Desejo que o arador cante um texto da Escritura ao trabalhar com seu arado
e que o tecelão os cantarole na melodia de seu tear”.20 Deste ponto em
diante, a ambiciosa tarefa de traduzir a Bíblia para o inglês foi a busca
dominante de sua vida.
Tyndale viajou para Londres em 1523, à procura de autorização oficial
para tradução e publicação aprovada de uma Bíblia em inglês. Ele conseguiu
um encontro com o bispo de Londres, Cuthbert Tunstall, um homem erudito
e classicista bem conhecido que havia trabalhado com Erasmo em seu Novo
Testamento Grego. Por causa da associação de Tunstall com Erasmo,
Tyndale imaginou que ele seria aberto ao projeto de tradução. No entanto,
Tunstall apresentou grande resistência à ideia de uma tradução em inglês.
Tunstall ficou altamente desconfiado da teologia de Tyndale, que ele temeu
propagaria as doutrinas protestantes de Lutero e levaria a uma reviravolta
na Inglaterra, como ocorrera na Alemanha. A Bíblia em alemão, traduzida
recentemente por Lutero, distribuída em setembro de 1522, colocara em
tumulto a região da Saxônia. Tunstall acreditava que a Bíblia em inglês,
acessível ao povo, produziria o mesmo efeito na Inglaterra e, por essa razão,
ofereceu resistência a Tyndale.
No entanto, esta tática serviu apenas para aprofundar a convicção de
Tyndale de que a Inglaterra precisava urgentemente de uma Bíblia que o
homem comum pudesse ler. A única questão era como e onde ela poderia ser
feita.
Enquanto esteve em Londres, Tyndale pregou várias vezes na Igreja de St.
Dunstan. Um dia, um rico comerciante de tecidos, chamado Humphrey
Monmouth, ouviu Tyndale pregando na igreja e decidiu custear suas
despesas. Este benfeitor permitiu que Tyndale permanecessse em Londres
por um ano, enquanto desenvolvia um plano para sua tradução da Bíblia.
Esse plano envolvia uma mudança radical. Se Tyndale tinha de realizar
sua missão ousada, ele compreendeu, “não havia lugar para fazê-la na
Inglaterra”.21 Enfrentando oposição tanto da igreja inglesa quanto da coroa,
Tyndale compreendeu que tinha de deixar o país e realizar sua obra épica em
algum outro lugar.
Na primavera de 1524, aos 30 anos de idade, Tyndale navegou para o
continente europeu para iniciar seu empreendimento de tradução e
publicação. Ele faria isso sem o consentimento do rei da Inglaterra, uma
transgressão franca da lei estabelecida. Como resultado, todo texto bíblico
que Tyndale traduziu, ele o fez ilegalmente. Quando ele partiu de suas praias
nativas, viveu no exílio pelo resto de sua vida. Nunca mais retornaria à sua
amada terra natal. Nos doze anos seguintes, Tyndale viveria em solo
estrangeiro, como um fugitivo e criminoso da coroa inglesa.
A Obra Começa

Chegando primeiramente em Hamburgo, na Alemanha, em 1524,


Tyndale viajou logo para Wittenberg, para ouvir o ensino do grande
reformador alemão Martinho Lutero. Ele pode ter feito isso de maneira
incógnita. O erudito inglês Tony Lane escreve:

Parece que ele foi a Wittenberg primeiramente para estudar. Contemporâneos como Thomas
More se referem ao tempo de Tyndale em Wittenberg. Há também um registro no livro de
matrículas referente a 27 de maio de 1524 que menciona “Guillelmus Daltici Ex Anglia”. Se o
final “ci” é um erro de copista quanto à letra “n”, temos um anagrama de “Tindal”, com as
duas sílabas invertidas.22

Se isto é, de fato, o nome de William Tyndale na lista do registro de


matrículas em Wittenberg, ele teria se encontrado com Lutero. Este
encontro teria acontecido num tempo em que o reformador alemão se
livrara dos últimos vestígios de lealdade papal.23 Essa influência sobre
Tyndale teria sido importante.
Enquanto esteve em Wittenberg, Tyndale começou a obra de tradução do
Novo Testamento do grego para o inglês. Parece que ele realizou uma grande
porção de sua obra de maio a julho de 1525. A influência de Philip
Melanchthon, um mestre da língua grega, teria sido também de valor
inestimável.
Acompanhado de seu amanuense, Tyndale viajou para Colônia, a cidade
mais populosa da Alemanha, em agosto de 1525, onde completou sua
tradução do Novo Testamento. Nesta cidade agitada, era fácil os dois
ingleses se ocultarem na mistura de pessoas. Ali eles acharam um tipógrafo,
Peter Quentell, que concordou em imprimir a nova tradução de Tyndale.
Contudo, o segredo da impressão foi interrompido quando um dos
empregados da gráfica ficou sob a influência do vinho e falou abertamente
do empreendimento secreto. John Cochlaeus, um oponente feroz da
Reforma, escutou a conversa sobre o projeto proibido e conseguiu
imediatamente uma incursão na gráfica. Tyndale foi avisado de antemão e
pegou rapidamente algumas páginas impressas, com o resto de sua tradução
do Novo Testamento ainda não impresso, escapando na escuridão da noite.
Descendo pelo rio Reno, Tyndale chegou a Worms, cidade mais amiga de
protestantes, em 1526. Esta era a própria cidade onde Lutero havia
enfrentado o tribunal por heresia, poucos anos antes. Os ensinos de Lutero
exerceram uma grande influência sobre a cidade, tornando-a simpática à
causa protestante. Tyndale achou novamente um tipógrafo, Peter Schoeffer,
disposto a publicar sua obra.
O Novo Testamento de Tyndale foi o primeiro a ser traduzido do original
grego para o inglês. Além disso, foi a primeira Bíblia em inglês a ser impressa
mecanicamente. Antes, em inglês havia apenas algumas cópias escritas à
mão da Bíblia de John Wycliffe, traduzida um século e meio antes. Mas a
versão de Wycliffe era uma tradução feita livremente do latim e não do
grego. A tradução de Tyndale era muito superior. Schoeffer terminou a
tiragem inicial produzindo uns três mil exemplares. Nos oito anos seguintes,
duas edições revisadas adicionais do Novo Testamento de Tyndale seriam
impressas, bem como diversas edições pirateadas, publicadas por tipógrafos
não autorizados.
Prontas para entrega na primavera de 1525, Tyndale despachou suas
Bíblias para a Inglaterra, escondidas em fardos de algodão, pelas rotas de
comércio internacional. Comerciantes de tecido alemães, que eram
luteranos, recebiam na Inglaterra o despacho disfarçado, prontos para
distribuírem as Bíblias. Depois que passavam pelos agentes da coroa, esses
livros proibidos eram pegos por uma sociedade protestante secreta, os
Irmãos Cristãos, e levados para várias cidades, universidades e monastérios
em toda a Inglaterra. As Bíblias recém-publicadas eram vendidas a ingleses
ávidos – comerciantes, estudantes, alfaiates, tecelões, pedreiros e
camponeses – todos ansiosos por lerem e crescerem em seu conhecimento
da Palavra de Deus. Cada Novo Testamento custava três xelins e dois pences,
o salário de uma semana para um trabalhador habilidoso – um preço
admiravelmente acessível para a pessoa comum.
No verão de 1526, os oficiais da igreja na Inglaterra descobriram esta
circulação secreta da Bíblia de Tyndale. O arcebispo de Canterbury e o bispo
de Londres ficaram enfurecidos e confiscaram cada Bíblia de Tyndale que
puderam achar. Os oficiais da igreja declararam imediatamente a compra, a
venda, a distribuição e a posse desta Bíblia como um crime que resultaria em
punição severa. Na igreja St. Paul’s Cross, em Londres, o bispo Cuthbert
Tunstall pregou um sermão desdenhoso contra a Bíblia de Tyndale e
queimou cerimonialmente cópias deste volume ilícito. Esta demonstração
pareceu uma advertência pública, embora não tenha abafado o desejo do
povo pelo acesso à Palavra de Deus em sua própria língua.
Oposição e Obstáculos

Em maio de 1527, os oponentes de Tyndale formularam um plano


habilidoso para cessar a propagação das Bíblias não autorizadas. William
Warham, o arcebispo de Canterbury, conspirou para comprar as cópias
remanescentes da Bíblia e destruí-las. A princípio, esta trama diabólica
pareceu brilhante. Mas logo o tiro saiu pela culatra, porque o dinheiro das
vendas proveram os recursos de que Tyndale precisava para produzir a
segunda edição revisada desta obra. O que Warham tencionou para o mal,
Deus usou para o bem. Isto permitiu que fosse produzida uma versão ainda
melhor, com uma tiragem maior.
Tyndale publicou sua primeira grande obra teológica, A Parábola do
Perverso Mamom, em maio de 1528. Este tratado se focalizava no próprio
âmago do evangelho, ou seja, a justificação apenas pela fé tão somente em
Cristo. Tyndale proclamou que a fé salva sozinha, e a verdadeira fé produz
uma obediência viva à Palavra de Deus. Esta obra significativa se apoiou
grandemente nas obras de Lutero sobre este mesmo assunto. Em alguns
trechos, os escritos de Tyndale são meramente uma tradução ou paráfrase
das próprias palavras do reformador alemão. Quando a hostilidade para com
Tyndale aumentava, ele disfarçava sua localização por ter o nome de um
tipógrafo não existente – Hans Luft – impresso no título da página,
acompanhado de um falso lugar de publicação – Marburgo, Alemanha. Na
realidade, esta importante obra doutrinária foi impressa por John
Hoochstraten, na cidade de Antuérpia.
Os oponentes de Tyndale logo implementaram um plano mais agressivo
para pararem Tyndale. Em 18 de junho de 1528, um cardeal inglês, Thomas
Wosley, enviou três agentes para o continente em busca de Tyndale. Wosley
também ordenou que John Hacket, embaixador da Inglaterra nos Países
Baixos (a atual Holanda), exigisse que o regente autorizasse a detenção de
Tyndale. Uma perseguição foi desencadeada contra este notório inimigo do
estado, e quem o ajudasse devia ser punido. Mas todas as tentativas para
apanhar este reformador esquivo foram improdutivas, visto que, por
segurança, ele se retirou astutamente para Marburgo. Voltando à Inglaterra,
Hacket relatou que Tyndale não fora achado em lugar nenhum.
Enquanto esteve em Marburgo, Tyndale escreveu uma segunda obra, A
Obediência de um Homem Cristão, em 1528. Ele exortou todo cristão a se
submeter a toda autoridade, incluindo reis e magistrados. A hierarquia da
Igreja Católica existente na Inglaterra, ele afirmou também, não possuía
nenhuma autoridade espiritual autêntica. Quando o rei Henrique VIII leu
esta obra, aprovou imediatamente sua mensagem, comentando: “Este livro é
para mim e para todos os reis lerem!”24 À parte de sua tradução do Novo
Testamento, A Obediência de um Homem Cristão foi sua obra de mais
influência.
Em setembro de 1528, os oponentes de Tyndale fizeram outra tentativa
para localizá-lo. Um frade chamado John West foi mandado da Inglaterra ao
continente europeu para achar, prender e trazer este reformador foragido de
volta à Inglaterra. West chegou a Antuérpia, vestido de roupas civis, e
começou a explorar cidades e a interrogar tipógrafos, procurando pelo
tradutor furtivo. Ao mesmo tempo, Hermann Rinck, um senador de Colônia,
estava comprando e destruindo todas as Bíblias de Tyndale que pudesse
encontrar. Sentindo a pressão, Tyndale permaneceu oculto em Marburgo,
aprimorando sua habilidade em hebraico, uma língua desconhecida na
Inglaterra. Com esta nova habilidade à mão, Tyndale começou
imediatamente a traduzir o Antigo Testamento hebraico para o inglês,
enquanto continuava uma revisão cuidadosa de seu Novo Testamento.
Para ocultar seu paradeiro, Tyndale mudou, em 1529, sua localização de
Marburgo para Antuérpia, que, na época, era parte do Sacro Império
Romano e hoje está na Bélgica moderna. Esta metrópole florescente lhe
ofereceu acesso a tipógrafos capazes, comunhão com ingleses de
mentalidade reformada e uma rota de envio mais direta para a Inglaterra.
Ali, Tyndale completou sua tradução dos cinco livros de Moisés.
Com uma nova perseguição em andamento, Tyndale concluiu que o
perigo era muito grande para permanecer naquela cidade grande.
Compreendendo que o Pentateuco deveria ser impresso em outro lugar, ele
embarcou num navio em Antuérpia, que se destinava à foz do rio Elba, na
Alemanha. Seu plano era arriscar-se indo para o Sul, para Hamburgo. No
entanto, a viagem foi obstruída por uma tempestade severa, causando o
naufrágio na costa dos Países Baixos. Tragicamente, todos os seus livros e
escritos e a tradução do Pentateuco foram perdidos. Com determinação
inflexível, Tyndale foi obrigado a realizar de novo esta enorme obra de
tradução.
Depois de suportar essa perda devastadora, Tyndale chegou finalmente a
Hamburgo. Foi recebido na casa da família von Emerson, que se mostravam
grandemente simpáticos para com a causa da Reforma. Enquanto ficou ali,
Tyndale se uniu de novo com Miles Coverdale, um colega de Cambridge.
Coverdale terminaria sua própria tradução da Bíblia para o inglês, embora
não a partir das línguas originais e a publicaria em 1535 no que é conhecido
como a Bíblia Coverdale. Neste ambiente enclausurado, Tyndale realizou a
laboriosa tarefa de retraduzir o Pentateuco, do hebraico para o inglês. Esta
tarefa árdua, com o auxílio de Coverdale, levou de março a dezembro de
1529.
Nesse mesmo ano, Thomas More, o piedoso e inteligente lorde chanceler
do rei, foi comissionado pelo rei e pela igreja na Inglaterra a desencadear um
aniquilamento da reputação de Tyndale. O ataque se intensificou com a
publicação de Um Diálogo Concernente a Heresias, uma obra perversa em que
More atacava Tyndale, rotulando-o de “o capitão dos hereges ingleses”, “um
cão infernal no canil do Diabo”, “um novo Judas”, “pior do que Sodoma e
Gomorra”, “um idólatra e adorador do Diabo” e “uma besta de cuja boca
bestialmente selvagem sai imundície”.25 More, um inimigo constante da
Reforma, sustentava que a Igreja Católica Romana era a única igreja
verdadeira. Quem quer que se oponha ao ensino infalível de Roma, ele dizia,
é um herege. O reformador inglês, por contraste, argumentava que
confiança devia ser colocada tão somente na Escritura e não na igreja. O que
fica aquém disso, insistia Tyndale, é do espírito do Anticristo.
Não impedido pela resistência da parte de seus contemporâneos, Tyndale
publicou os cinco livros de Moisés em janeiro de 1530, em Antuérpia.
Hoochstraten imprimiu este pequeno volume sob o pseudônimo gráfico de
Hans Luft em Marburgo. À semelhança do Novo Testamento de Tyndale,
vários anos antes, estes livros foram levados para a Inglaterra e distribuídos.
Os planos de Tyndale continuavam ambiciosos: completar a tradução de
todo o Antigo Testamento.
No final de 1530, A Prática de Prelados apareceu da pena do reformador.
Esta obra era uma forte polêmica contra o clero católico, documentando o
relacionamento corrupto entre a coroa da Inglaterra e o papado. Como
resultado, este livro transformou o rei Henrique VIII num inimigo declarado
de Tyndale.
Ainda outra estratégia foi lançada para prender Tyndale. Em novembro
de 1530, Thomas Cromwell, um conselheiro do rei Henrique VIII,
comissionou Stephen Vaughan, um comerciante inglês simpático à causa
reformada, a achar Tyndale. Vaughan foi instruído a oferecer a Tyndale um
salário e trânsito seguro de volta à Inglaterra. Em sua chegada ao
continente, Vaughan despachou três cartas para Tyndale, cada uma delas
dirigida a uma cidade diferente – Frankfurt, Hamburgo e Marburgo.
Surpreendentemente, ele recebeu uma resposta de Tyndale. Como resultado,
uma série de encontros secretos foram arranjados em Antuérpia, em abril de
1531.
Vaughan tentou persuadir Tyndale a retornar para a Inglaterra. O
resoluto tradutor concordou em retornar, mas sob uma condição. O rei teria
de escolher alguém para traduzir a Bíblia para o inglês. Se Henrique
concordasse, Tyndale retornaria à Inglaterra, cessaria sua obra de tradução e
ofereceria sua vida para serviço do rei. Promessas semelhantes de segurança
haviam sido feitas antes a John Hus e Lutero, mas foram quebradas.
Tyndale sabia que a promessa do rei não seria cumprida.
Vaughan escreveu de Antuérpia, em 19 de junho, estas simples palavras:
“Eu o encontro sempre dizendo a mesma coisa”.26 Em outras palavras,
Tyndale se recusou a mudar o tom. Ele não prometeria cessar de escrever
livros ou retornar para Inglaterra, enquanto o rei não ordenasse a tradução
de uma Bíblia na língua inglesa. Vaughan retornou à Inglaterra de mãos
vazias. Tyndale era intrépido em sua missão e não podia ser desviado de
cumprir a paixão singular de seu coração. Em desafio ao trono inglês, ele
escolheu continuar seu empreendimento ousado.
Fracassadas as tentativas de prender Tyndale, Cromwell divisou uma
estratégia mais agressiva. Sir Thomas Elyot, um novo emissário, foi enviado
à Europa para prender Tyndale. Suas ordens eram achar Tyndale e trazê-lo
ao rei, a todo custo. Elyot procurou em todo lugar, mas seu esforço intenso
não produziu nenhum resultado positivo. E retornou à Inglaterra sem o
apóstata execrado.
Em 1531, Tyndale publicou um tratado em resposta aos ataques feitos no
Diálogo, de More, lançado em 1529. Foi intitulado Resposta. Nela, Tyndale
defendia exegeticamente sua tradução de passagens bíblicas selecionadas
que More declarava afastariam as pessoas da teologia e da prática católica
romana. Tyndale argumentou que a Escritura era tão clara que podia ser
entendida sem a liderança da igreja impor sua tradição corrupta, feita por
homens. More rebateu em 1532 e 1533 com sua obra Refutação da Resposta
de Tyndale, em seis volumes. Em quase meio milhão de palavras, a Refutação
era a mais imponente das obras polêmicas de More, escrita como um diálogo
imaginário entre More e Tyndale, em que More abordava cada uma das
críticas de Tyndale quanto aos ritos e doutrinas católicos. Estes volumes
densos alegavam que Tyndale era um traidor da Inglaterra e um herege.
Apesar do severo ataque de More sobre Tyndale, a causa da Reforma estava
se propagando pela Europa e, agora, pela Inglaterra.
Traído, Preso e Condenado

Nos primeiros meses de 1534, Tyndale mudou-se para uma casa de


comerciantes ingleses em Antuérpia, como convidado de Thomas Poyntz,
um rico comerciante inglês. Simpático à causa da Reforma, Poyntz era “um
bom amigo astuto e simpatizante leal”.27 Ele colocou Tyndale sob sua
proteção, provendo até um subsídio enquanto ele trabalhava em seu projeto
de tradução e outros escritos. O capelão desta casa inglesa era um homem
chamado John Rogers. Por meio da influência e da instrução de Tyndale,
Rogers se tornou um leal apoiador das doutrinas reformadas.
Posteriormente, Rogers compilaria sua própria Bíblia em inglês, em 1537,
conhecida como Bíblia Matthew. Esta edição famosa continha o Novo
Testamento, o Pentateuco, os Livros Históricos e Jonas, de Tyndale, com
pequenas alterações. O resto do Antigo Testamento foi extraído da Bíblia
Coverdale. Em 1555, Rogers se tornaria o primeiro mártir protestante no
reinado de Maria I, também conhecida como “Maria Sanguinária”.
Sentindo-se mais seguro, Tyndale começou a trabalhar na revisão de sua
tradução do Novo Testamento, que foi chamado “a glória da obra de sua
vida”.28 Esta segunda edição apareceu em 1534, oito anos depois da
primeira. Ela contém umas 4.000 mudanças em relação à primeira edição de
1526, embora alguns afirmem que ela contém umas 5.000 alterações. Estas
correções numerosas foram o resultado de seu estudo posterior da língua
original e do retorno que ele recebia dos leitores. Um pequeno prólogo foi
colocado antes de cada livro do Novo Testamento, exceto Atos e Apocalipse.
Além disso, Tyndale acrescentou ao texto bíblico referências correlatas e
notas explicativas na margem exterior e delimitou as unidades literárias de
cada livro na margem interior. Todos os seis mil exemplares da segunda
edição revisada do Novo Testamento de Tyndale se esgotaram em um mês.
A terceira edição seguiria em dezembro de 1534 e no início de 1535, mas
com bem menos correções. Por esse tempo, o domínio do hebraico por
Tyndale era tão desenvolvido quanto seu conhecimento de grego. Isto lhe
deu a habilidade de traduzir a seção seguinte do Antigo Testamento, Josué a
2 Crônicas. Nessa época, a vida de Tyndale foi extremamente produtiva. Mas
tudo estava prestes a mudar.
Na Inglaterra, um homem chamado Henry Phillips se viu numa situação
desastrosa, depois de perder em jogos uma grande soma de dinheiro que seu
pai lhe dera para pagar uma dívida. Um alto oficial na igreja, talvez o bispo
de Londres, John Stokesley, ficou ciente de sua condição desesperada.
Phillips foi visto como um cúmplice perfeito para outra estratégia desonesta
para prender Tyndale. Ofereceram-lhe grande soma de dinheiro para que
viajasse à Europa e localizasse Tyndale. Como Judas, Phillips aceitou a
oferta.
Phillips chegou a Antuérpia no início do verão de 1535. Fez os contatos
necessários entre os comerciantes ingleses e seguiu a pista que o levou
diretamente a Tyndale. Phillips estabeleceu diabolicamente uma amizade
fingida com Tyndale. Apesar do aviso de Poyntz, Phillips ganhou a confiança
de Tyndale e o atraiu a uma viela, onde soldados esperavam para prendê-lo.
Depois de 12 anos como fugitivo, o esquivo Tyndale foi finalmente preso
e levado em custódia. No tempo de sua detenção, o denso manuscrito de seu
mais recente trabalho de tradução, Josué a 2 Crônicas, escapou da
confiscação. Foi provavelmente Rogers, seu amigo íntimo e companheiro,
quem o apanhou para guardá-lo em segurança. Posteriormente, Rogers
assumiu a causa de Tyndale e teve sua obra final impressa na Bíblia
Matthew.
Logo após sua captura, Tyndale foi aprisionado a dez quilômetros ao
norte de Bruxelas, no castelo de Vilvoorde. Com um fosso imponente, três
pontes levadiças e muralhas impenetráveis, o castelo era uma fortaleza de
confinamento. Tremendo nas masmorras frias e úmidas deste castelo-
prisão, Tyndale esperou mais de um ano por seu julgamento, que foi uma
zombaria da justiça. Durante seu confinamento de 500 dias, Tyndale
escreveu outro tratado, A Fé Sozinha Justifica Diante de Deus. Até ao fim,
Tyndale defendeu a verdade crucial que estava por trás de seu
aprisionamento.
Durante o inverno severo de 1535, Tyndale escreveu numa carta final:
“Eu sofro grandemente de frio na cabeça e sou afligido por um catarro
perpétuo... que aumenta muito nesta cela... Meu sobretudo está desgastado;
minhas camisas também estão desgastadas”. Ele pediu uma “lâmpada à
noite; é realmente fatigante sentar-se sozinho na escuridão. Mas,
principalmente, eu suplico e imploro sua clemência de ser urgente com o
comissário... permita-me ter minha Bíblia hebraica, minha gramática
hebraica e meu dicionário de hebraico, para que eu passe o tempo nesse
estudo”.29 Aqueles meses foram “um longo morrer que levava à morte”.30 O
martirólogo John Foxe escreveu que, enquanto Tyndale permaneceu na
prisão, ele “estava afetando seus próprios... inimigos”, visto que “converteu
seu carcereiro, a filha do carcereiro e outros de sua família”.31 Embora frio e
sofrendo no interior desta prisão de pedras, como o apóstolo Paulo em
Roma, o coração de Tyndale ainda estava incandescente com a verdade do
evangelho e gozo indizível.
Em agosto de 1536, Tyndale enfrentou julgamento diante de seus
acusadores, que apresentaram uma longa lista de acusações contra ele. Entre
suas ofensas, Tyndale afirmava que a justificação é somente pela fé, as
tradições humanas não podem reger a consciência, a vontade humana está
presa ao pecado, não existe purgatório, nem Maria nem os santos oferecem
orações por nós e não devemos orar a eles. Tudo isto fez de Tyndale um
inimigo tanto da igreja quanto do estado. Ele foi condenado como herege.
Durante uma cerimônia pública, Tyndale teria sido excomungado e
destituído de seu sacerdócio. De acordo com os costumes de tais cerimônias,
Tyndale apareceria diante de um grande ajuntamento vestido de suas
túnicas sacerdotais. Seria obrigado a ajoelhar-se, enquanto suas mãos seriam
laceradas com uma faca ou vidro afiado, simbolizando a perda de todos os
privilégios do sacerdócio. O pão e o vinho da missa seriam colocados em suas
mãos e, depois, removidos. Ele seria despido de suas vestes e vestido de
novo como um leigo. Então, seria entregue às autoridades civis para a
inevitável sentença de morte. Levado de volta à sua masmorra, um grupo de
sacerdotes resolutos viria para incomodá-lo e obter uma retratação.
“Senhor, Abre os Olhos do Rei”

Em 6 de outubro de 1536, Tyndale saiu do castelo e foi conduzido em


desfile até ao portão sul da cidade, onde sua estaca de execução o aguardava.
Uma grande multidão estava reunida por trás de uma barricada. No meio de
um espaço circular, duas grandes traves foram levantadas na forma familiar
de uma cruz. Pendente do topo da trave central, havia uma forte corrente de
ferro. Palha, galhos e troncos foram amarrados e empilhados em sua base.
Em meio à pompa e ao esplendor farisaico, o procurador geral e os grandes
doutores tomaram seus assentos como espectadores. A grande multidão
abriu caminho, permitindo aos guardas levarem Tyndale para mais perto de
sua execução.
Tyndale se encaminhou para a cruz. Os guardas prenderam seus pés à
base da cruz, enquanto a corrente foi presa ao redor de seu pescoço,
apertando-o na trave de madeira. A madeira foi arrumada ao redor do
prisioneiro, para cercá-lo com material combustível. Pólvora foi derramada
por sobre os galhos. O carrasco estava atrás da cruz, esperando o sinal do
procurador geral para realizar a sentença. Foi talvez nesse momento que
Tyndale olhou fixamente para os céus e clamou em oração: “Senhor, abre os
olhos do rei da Inglaterra”.32
O procurador geral deu o sinal, e o carrasco apertou rapidamente o laço
de ferro, estrangulando Tyndale. A multidão viu Tyndale ofegando por ar,
enquanto sufocava e morria. Entretanto, apenas a sua morte não satisfazia.
O procurador geral pegou uma tocha acesa e a entregou ao carrasco, que a
lançou na palha e nos galhos. O fogo incandescente fez a pólvora explodir,
destroçando o cadáver. O que restou do flácido corpo pendente e incinerado
de Tyndale caiu no fogo intenso.33
No devido tempo, Deus respondeu a oração que Tyndale fez ao morrer.
No ano em que ele foi martirizado, 1536, uma Bíblia completa em inglês já
estava circulando na Inglaterra, o que Tyndale desconhecia. Esta obra era
baseada predominantemente na própria tradução de Tyndale. A primeira
destas Bíblias foi a Bíblia Coverdale, impressa em 1535. Uma segunda
tradução em inglês de toda a Bíblia apareceria como resultado dos esforços
de John Rogers em 1537. Esta versão era conhecida como a Bíblia Matthew.
Em menos de um ano depois da morte de Tyndale, Thomas Cranmer, que
se tornara arcebispo de Canterbury, e Oliver Cromwell persuadiram
Henrique VIII a aprovar a publicação de uma Bíblia oficial em inglês. Quando
o rei Henrique viu a Bíblia Coverdale, ele declarou enfaticamente: “Se não
houver heresias nela, deixem que seja difundida entre todas as pessoas!”34
Em setembro de 1538, o rei emitiu um decreto estabelecendo que uma cópia
da Bíblia em inglês e latim deveria ser colocada em cada igreja da Inglaterra.
As cópias permitidas da Bíblia eram a Bíblia Coverdale e a Bíblia Matthew,
ambas procedentes, em grande medida, da influência e da pena de William
Tyndale. Em 1539, Coverdale publicou uma edição revisada de sua tradução
chamada a Grande Bíblia (por causa de seu tamanho), que recebeu
aclamação popular e aprovação oficial do rei.
O historiador J. H. Merle d’Aubigné escreveu que, depois da morte de
Tyndale, o fluxo de Bíblias para a Inglaterra foi “como um rio caudaloso que
leva continuamente novas águas para o mar”.35 À medida que estas Bíblias
em inglês se tornavam acessíveis ao homem comum na Inglaterra, o arador
de Tyndale estava, finalmente, lendo, discutindo, vivendo e proclamando as
verdades da Bíblia entre seus parentes, amigos e compatriotas.
Quase 500 anos depois, o rio da Escritura continua a fluir poderosamente
pela face do globo. A tradução de Tyndale e as que se basearam nela
formaram a base da versão King James de 1611, e, por meio desta, de quase
toda tradução em inglês desde então. Hoje, traduções em inglês são
numerosas, mas têm sua origem singular na obra fundamental de Tyndale.
Publicadores de Bíblias em inglês continuam a se beneficiar dos esforços
pioneiros de Tyndale. Visto que o inglês é uma língua internacional, a
influência permanente de William Tyndale se estende aos cantos mais
remotos do mundo.
Enquanto o rio da verdade se avoluma no tempo presente, que as
verdades da Palavra de Deus inundem a nosso coração e as ondas da graça
soberana se derramem sobre a nossa mente. Que haja um renovado
compromisso com a suficiência e a exclusividade deste Livro manchado de
sangue.

4. J. H. Merle d’Aubigné, The Reformation in England (Edinburgh, Scotland: Banner of Truth, 1853,
1994), 1:167.
5. Sir Frederick Kenyon, Our Bible and the Ancient Manuscripts: Being a History of the Text and Its
Translations (Whitefish, Mont: Kessinger, 2007), 211, 217.
6. J. H. Merle d’Aubigné, The Reformation in England, 1:167.
7. Leland Ryken, The Word of God in English: Criteria for Excellence in Bible Translation (Wheaton, Ill.:
Crossway, 2002), 48.
8. Brian H. Edwards, God’s Outlaw: The Story of William Tyndale and the English Bible (Darlington,
England: Evangelical, 1976, 1999), 170. Itálico no original.
9. John Foxe, Foxe’s Book of Martyrs (Nashville, Tenn.: Thomas Nelson, 2000), 114.
10. Robert Sheehan, “William Tyndale’s Legacy”, The Banner of Truth 24, no. 557, February 2010, 24.
11. Ibid., 29.
12. David Daniell, William Tyndale: A Biography (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1994), 38.
13. William Tyndale, “The Practice of Prelates”, The Works of William Tyndale (1849 e 1850; repr.
Edinburgh, Scotland: Banner of Truth, 2010), 2:291.
14. Allister E. McGrath, In the Beginning: The Story of the King James Bible and How it Changed a Nation,
a Language, and a Culture (New York: Doubleday, 2001), 68.
15. Daniell escreve que o tempo de Tyndale em Cambridge pode ter sido “curto ou longo, entre 1517 e
1521”. William Tyndale, 49.
16. Alguns historiadores, incluindo Brian E. Edwards e S. M. Houghton, afirmam que William Tyndale
esteve, com toda a probabilidade, na White Horse Inn. Outros, como Daniell, pensam que Tyndale não
esteve presente.
17. William Tyndale, “The Preface of Master William Tyndale, That He Made Before de Five Books of
Moses, Called Genesis”, em The Works of William Tyndale (1848, repr. Edinburgh, Scotland: Banner of
Truth, 2010), 394.
18. John Foxe, Foxe’s Book of Martyrs (Nashville, Tenn.: Thomas Nelson, 2000), 1:77.
19. “Biographical Notice of William Tyndale”, em Works, 1:xix.
20. Erasmo, conforme citado em Philip Schaff, History of the Christian Church (1858; repr. Peabody,
Mass.: Hendrickson, 2006), 6:274.
21. Works, 1:xxii.
22. A. N. S. Lane, “William Tyndale”, em Biographical Dictionary of Evangelicals, ed. Timothy Larsen
(Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press, 2003), 678.
23. John McClintock e James Strong, eds., Cyclopedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical
Literature, vol. 10 (1867-87; repr., Grand Rapids, Mich.: Baker Academic, 1981), s. v. “William
Tyndale”.
24. Robert Demaus e Richard Lovett, William Tyndale: A Biography (London: The Religious Tract
Society, 1886), 205.
25. Thomas More, citado em N. R. Needham, 2000 Years of Christ’s Power, Part 3: Renaissance and
Reformation (London: Grace, 2004), 381.
26. David Daniell, William Tyndale: A Biography (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1994), 217.
27. Ibid., 361.
28. Ibid., 316.
29. William Tyndale, introdução de Tyndale’s New Testament, editado e com uma introdução por David
Daniell (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1989), ix.
30. John Piper, Filling Up the Afflictions of Christ: The Cost of Bringing the Gospel to the Nations in the
Lives of William Tyndale, Adoniram Judson, and John Paton (Wheaton, Ill.: Crossway, 2009), 50.
31. John Foxe, Foxe’s Book of Martyrs (Nashville, Tenn.: Thomas Nelson, 2000), 127.
32. Ibid., 83.
33. Esta cena foi reconstruída por David Daniell com base em outras punições capitais semelhantes no
tempo de Tyndale. Daniell, William Tyndale, 383.
34. William J. McRae, A Book to Die For: A Practical Study Guide on How Our Bible Came to Us (Toronto:
Clements, 2002) xiv, citado em Tony Lane, “A Man for All People: Introducing William Tyndale”,
Christian History 6, no. 4 (1987), 6-9.
35. J. H. Merge d’Aubigné, The Reformation in England (1866-78: repr. Edinburgh, Scotland: Banner of
Truth, 1994), 2:348.
CAPÍTULO 2

Alicerçado na Graça Soberana


Tyndale foi mais do que um pensador levemente teológico. Ele está sendo,
finalmente, entendido nos aspectos teológico e linguístico como muito à frente
de seu tempo. Para ele, como décadas depois para Calvino,... a mensagem
preponderante do Novo Testamento é a soberania de Deus. Tudo está contido
nisso. E esse fato nunca deve ser esquecido. Para Tyndale, Deus é, acima de
tudo, soberano, ativo no indivíduo e na história.36
— DAVID DANIELL

A clamado como “o maior dos primeiros protestantes ingleses”,37 William


Tyndale foi um reformador em todo sentido da palavra. Isto inclui
certamente sua teologia. Sua crença na verdade da Reforma era
fundamentada por seu compromisso inabalável com a soberania de Deus na
salvação de pecadores. Foi esta profunda confiança nas doutrinas da graça
que deu a Tyndale poder de perseverar em seus incansáveis esforços de
traduzir a Bíblia para o inglês. Ele estava convencido de que só o poder de
Deus poderia mudar tanto o coração dos reis como o das pessoas comuns. A
gloriosa verdade de que Cristo edificaria sua igreja compeliu Tyndale a levar
as Escrituras para o povo inglês em sua própria língua, apesar dos perigos
que enfrentou.
Na Reforma Protestante do século XVI, as doutrinas da graça soberana
proveram um alicerce firme para muitas traduções da Bíblia. Na Alemanha,
em 1522, Martinho Lutero traduziu o Novo Testamento para a língua de seu
povo. Este companheiro alemão é igualmente conhecido por ser arraigado e
fundamentado no solo fértil da graça soberana. Nas ilhas britânicas, os
ingleses Miles Coverdale e John Rogers produziram respectivamente a Bíblia
Coverdale (1535) e a Bíblia Matthew (1537); e cada um destes homens foi
sustentado por uma crença firme na soberania de Deus. Na Suíça, esta
mesma confiança inabalável na soberania de Deus na salvação do homem
resplandeceu intensamente nos tradutores da Bíblia de Genebra (1560),
incluindo John Knox, da Escócia. Genebra se tornou quase sinônimo da
verdade da eleição divina. Na Inglaterra, um século e meio antes de Tyndale,
John Wycliffe traduziu a Bíblia para o inglês a partir da Vulgata Latina. Este
professor de Oxford também era firmemente leal às doutrinas da graça.
A soberania divina foi a estrutura básica que sustentou tanto a vida
quanto a teologia de Tyndale. Ele acreditava resolutamente na absoluta
soberania de Deus em seu governo sobre todas as coisas.38 A doutrina
reformada fomentou o implacável ímpeto na vida e ministério de Tyndale.
No âmago de sua teologia, estava a crença de que a soberania de Deus se
estendia desde o controle e a ordem do universo criado até à salvação de
pecadores indignos. Brian Edwards escreve:

Tyndale... sabia que a causa do estado corrupto da igreja era sua doutrina corrupta, e,
enquanto a doutrina da igreja não fosse corrigida, os abusos continuariam. Em torno disso
girava toda a questão da Reforma. Os reformadores evangélicos se viram obrigados a sair da
Igreja de Roma, não porque não podiam aceitar as práticas corruptas, mas porque
descobriram cedo que doutrinas corruptas jamais poderiam ser mudadas.39

Antes de examinarmos a missão ousada de William Tyndale, devemos


investigar as crenças essenciais que alimentaram o coração deste homem
que foi uma força motivadora a favor de Deus. Em específico, nos
focalizaremos nas cinco verdades da corrupção radical, eleição soberana,
expiação limitada, chamada irresistível e graça soberana. Estas doutrinas
gloriosas deram a Tyndale a confiança para perseverar em tempos difíceis e
perigosos, a confiança que não pôde ser removida nem pelo fogo, na estaca,
nem pelo estrangulamento do mártir.
Corrupção Radical

Tyndale acreditava na depravação total da raça humana. Nisto, Tyndale se


posicionou ao lado dos autores bíblicos e de outros reformadores. Ele
afirmava que o pecado original de Adão operou a queda e a ruína de toda a
raça humana. Portanto, todas as pessoas são nascidas em pecado, um estado
herdado de Adão. Logo, todos os homens são incapazes de salvar a si
mesmos sem a graça de Deus. Ele escreveu: “A queda de Adão nos tornou
herdeiros da vingança e da ira de Deus, bem como herdeiros de condenação
eterna, e nos colocou em cativeiro e servidão ao Diabo”.40 Tyndale tinha a
convicção de que o pecado original subjugara toda a raça humana ao pecado,
morte e julgamento.
Tyndale ensinou que no momento da concepção todas as pessoas herdam
uma natureza radicalmente corrompida pelo pecado:

Por natureza, por intermédio da queda de Adão, somos filhos da ira, herdeiros da vingança
de Deus por nascimento, sim, desde a nossa concepção. E temos nossa comunhão com
demônios condenados, sob o poder das trevas e o domínio de Satanás, enquanto ainda
estamos no ventre de nossa mãe; e, embora não mostremos os frutos do pecado [logo que
nascemos], estamos cheios do veneno natural, do qual procedem todos os atos pecaminosos,
e não podemos senão pecar no exterior, mesmo sendo bem jovens [logo que somos capazes
de agir], se a ocasião nos for dada, pois a nossa natureza é cometer pecado, assim como a
natureza da serpente é picar.41

Tyndale sustentava fortemente que toda parte da natureza humana está


corrompida pelo pecado, e o pecado afeta toda a pessoa – mente, vontade e
afeições. Esta condição herdada torna cada pessoa contaminada fatalmente
com veneno mortal. Tyndale escreveu sobre os efeitos abrangentes do
pecado de Adão em cada pessoa:

Com que ódio malévolo, venenoso e letal o homem odeia o seu inimigo! Com que grande
malícia de coração, matamos e assassinamos interiormente! Com que violência e ira, sim, e
com que intenso desejo cometemos adultério, fornicação e impurezas semelhantes! Com que
prazer e dedicação um glutão serve, interiormente, ao seu ventre! Com que diligência
enganamos! Quão ativamente buscamos as coisas deste mundo!42

Esta corrupção radical é tão grande, que torna cada membro da raça
humana abominável e culpado diante de um Deus santo. Tyndale escreveu:

O que quer que façamos, pensemos ou imaginemos é abominável aos olhos de Deus. [Pois
não podemos oferecer nada à honra de Deus; a sua lei, ou vontade, não está escrita em
nossos membros ou em nosso coração; também não há em nós nenhum poder para fazer a
vontade de Deus, assim como uma pedra não pode se erguer por si mesma.]43

A depravação total devastou a raça humana, Tyndale acreditava, de tal


modo que faz o homem nascer num estado de incapacidade moral. Em
outras palavras, o homem caído não pode ver ou sentir sua necessidade da
graça salvadora. Ele escreveu: “Estamos como que dormentes em profunda
cegueira, de modo que não podemos nem ver nem sentir a miséria, a
desgraça e a escravidão em que estamos, até que Moisés venha e nos
desperte, publicando a lei”.44 Neste estado caído, o homem pecaminoso é
inconsciente de sua necessidade urgente do evangelho. Somente a lei pode
despertá-lo para a ruína de sua condição espiritual.
No entanto, quando a lei revela ao homem a necessidade de salvação, ele
não pode fazer o que a lei exige. Tyndale explica: “Não é possível um homem
natural concordar com a lei”.45 Neste ponto Tyndale afirmou que o homem
pecaminoso é tão debilitado pela queda de Adão que é totalmente incapaz de
fazer qualquer coisa que agrade a Deus.
Tyndale acreditava que a natureza humana é inerentemente má,
produzindo pensamentos e obras ímpias. Ele ensinou:

Somos maus por natureza; portanto, pensamos e fazemos coisas más, estamos sob a ira da
lei, condenados à perdição eterna pela lei, e somos contrários à vontade de Deus em toda a
nossa vontade.46
O homem caído, ele afirmou, é escravizado por sua natureza depravada:

Nossa natureza não pode senão pecar se ocasiões forem dadas, exceto se Deus nos impedir
por sua graça especial.47

Consequentemente, o homem pecaminoso não pode fazer qualquer coisa


aceitável a Deus:

Como é possível fazermos qualquer coisa boa aos olhos de Deus, enquanto ainda estamos em
cativeiro e servidão ao Diabo, que nos possui totalmente e detém nosso coração, para que
não concordemos com a vontade de Deus?48

De acordo com o entendimento de Tyndale, o pecado aprisiona todo


homem incrédulo, impedindo-o de qualquer movimento em direção a Deus.
Ele comparou todo recém-nascido a uma serpente nova, cheia de veneno
mortal pronto para ser liberado. Tyndale escreveu:

Como uma serpente, jovem ou que ainda não veio ao mundo, está cheia de veneno e,
posteriormente (quando o tempo chegar e houver ocasião), não pode senão produzir os
frutos correspondentes; e como uma víbora, um sapo ou uma serpente são odiados pelo
homem, não pelo mal que fazem, mas pelo veneno que está neles e o ferimento que causam
inevitavelmente, assim também somos odiados por Deus, por causa desse veneno natural,
que é concebido e nasce conosco antes de fazermos qualquer mal exterior.49

Tyndale afirmava que Satanás domina todas as almas não convertidas.


Ele acreditava que o poder de Satanás no coração dos incrédulos os faz
permanecer sob o seu domínio:

A lei e a vontade do Diabo estão escritas tanto em nosso coração quanto em nossos
membros; e seguimos irrefletidamente o Diabo, com zelo completo e todo o ímpeto de todo o
poder que temos, como uma pedra que é lançada ao ar e cai naturalmente por si mesma, com
toda a violência e força de seu próprio peso.50
A vontade do homem está em escravidão ao príncipe das trevas. Sua
capacidade de volição é mantida em servidão para fazer a vontade do Diabo.
Tyndale escreveu:

O Diabo é nosso senhor, nosso governador, nosso príncipe, sim, nosso deus. E nossa vontade
está mais presa e unida à vontade do Diabo do que poderiam milhares de algemas prenderem
um homem a um poste.51

Tyndale rejeitava a falsa noção da liberdade da vontade humana,


afirmando que a vontade do homem está aprisionada pelo Diabo. Tyndale
afirmou que cada pessoa é nascida espiritualmente morta. Portanto, cada
pessoa não convertida é mantida sob o domínio do Diabo.

O texto é claro: éramos pedras mortas e sem vida ou poder para fazer ou concordar com o
que é bom. Toda a nossa natureza estava cativa ao Diabo e guiada à sua vontade. E éramos
tão ímpios quanto o Diabo é agora... e concordávamos com o pecado, de corpo e alma, e
odiávamos a lei de Deus.52

Tyndale sustentava que a pessoa não convertida é possuída pelas


concupiscências depravadas do próprio Diabo:

Somos sempre pecadores, embora não segundo o propósito e a malícia da natureza dos
demônios condenados, mas segundo a enfermidade e a fragilidade de nossa carne.53

Aqueles que pensam que estão sem pecado, insistia Tyndale, enganam-se
a si mesmos. Os espiritualmente cegos não podem ver sua necessidade de
Deus e da graça de Deus:

Se pensamos que não há nenhum pecado em nós, somos iludidos e cegos, e a luz da Palavra
de Deus não está em nós.54

Em resumo, Tyndale afirmava que toda a humanidade é merecedora de


condenação eterna:
Somos todos pecadores, sem exceção. E a Escritura testifica que somos pecadores
condenados e que nossa natureza é pecar; essa natureza corrupta e envenenada, embora
tenha começado a ser curada, nunca é totalmente curada até a hora da morte.55
Éramos pecadores e inimigos de Deus... nosso coração era tão morto para todas as boas obras
quanto aquele cuja alma se separou do corpo.56

Esta doutrina podia explicar o tratamento cruel que ele enfrentou no


mundo.
Tyndale afirmou que toda a raça humana é como um cadáver sem alma e
espiritualmente morta. John Piper conclui: “Este ponto de vista sobre a
pecaminosidade do homem prepara Tyndale para compreender a glória da
graça soberana de Deus no evangelho”.57 Esta é a condição fatal em que
existem todos os humanos não regenerados.
Eleição Soberana

Tyndale era comprometido com o ensino bíblico da eleição soberana de


Deus. Ele acreditava que Deus agiu em amor eterno, antes de o tempo
começar, em escolher um povo que ele salvaria. Deus amou um povo e o
elegeu dentre a massa de humanidade caída para ser sua possessão. Esta
eleição do homem não foi baseada em qualquer escolha prevista no homem.
Pelo contrário, foi realizada totalmente pelo livre exercício da vontade de
Deus:

Predestinação... e salvação são removidas de nossa mão e colocadas exclusivamente nas mãos
de Deus... pois somos tão fracos e tão inseguros, que, se dependesse de nós, certamente
nenhum homem seria salvo; sem dúvida, o Diabo nos iludiria.58

Tyndale foi claro quanto ao fato de que Deus colocou suas afeições sobre
seus eleitos desde a eternidade passada. Ele afirmou que Deus escolheu
soberanamente amá-los com amor salvífico. Também disse que Deus
escolheu amar seus eleitos visando à sua própria glória e ao bem deles.

Deus é sempre afetuosamente inclinado para com os membros eleitos de sua igreja. Ele os
amou em Cristo antes de o mundo existir.59
O fim de todas as coisas será para a glória de Deus e o benefício dos eleitos.60

Tyndale entendia que foi Deus quem primeiramente escolheu seus


eleitos, e não os pecadores que primeiramente o escolheram, e que Deus fez
sua escolha distinguidora na eternidade passada. Isto que dizer: toda graça
salvadora é rastreada até a escolha soberana de Deus para a salvação:

Deus os [os eleitos] escolheu primeiro, e não eles a Deus.61


Em Cristo, Deus nos escolheu e nos elegeu antes de o mundo começar, nos criou de novo pela
palavra do evangelho e colocou em nós o seu Espírito, para que façamos boas obras.62
A eleição divina é para a salvação e não deve ser simplificada como
meramente para serviço. A escolha divina determina que os eleitos não
estarão mais em Adão e sim em Cristo. Tyndale ensinou que a eleição é para
a vida eterna:

Por graça (quer dizer, por favor), somos removidos de Adão, a base de todo o mal, e
enxertados em Cristo, a raiz de toda a bondade.63
Vocês são eleitos por causa de Cristo para a herança da vida eterna.64

Tyndale explicou que a eleição soberana leva ao conhecimento pessoal de


Cristo no evangelho. Os eleitos são escolhidos por Deus para conhecerem a
Cristo:

Em Cristo, Deus nos amou, seus eleitos e escolhidos, antes de o mundo existir e nos separou
para o conhecimento de seu Filho e de seu santo evangelho.65

Tyndale acreditava que nem todos que frequentam uma igreja são
contados entre os eleitos. Somente aqueles que foram escolhidos por Deus
constituem a verdadeira igreja. Ele explicou:

Haverá na igreja uma descendência carnal e uma descendência espiritual de Abraão: um Caim
e um Abel, um Ismael e um Isaque, um Esaú e um Jacó; como já disse, uma grande multidão
deles são chamados, um pequeno rebanho deles são eleitos e escolhidos.66

Embora muitos argumentem que a eleição é uma doutrina perigosa que


deve ser temida e retida do povo, Tyndale sustentava o oposto total. Ele
acreditava que esta verdade divina encoraja o pregador porque garante o
sucesso de seu ministério de pregação. Não importando quão endurecido
seja o coração do homem, Tyndale insistia, a eleição divina garante a
recepção do evangelho:
Quando Cristo é... pregado... o coração daqueles que são eleitos e escolhidos começa a
derreter-se e dilatar-se ante à generosa misericórdia de Deus.67

Em resumo, Tyndale acreditava que a eleição soberana exalta a Deus


como digno de toda a honra. Esta verdade coloca a Deus como separado e
acima do homem. Deus não é sujeito à sabedoria ou à vontade do homem.
Esta verdade da eleição incondicional exalta a Deus como o supremo
governante sobre o homem:

Por que Deus abre os olhos de um homem e não de outro? Paulo (Rm 9) nos proíbe de
perguntar por quê; porque é muito profundo para a capacidade do homem. Vemos que Deus
é honrado por meio disso; e sua misericórdia é manifestada e vista cada vez mais nos vasos
de misericórdia. Mas os papistas não podem admitir que Deus tenha segredos, ocultos
consigo mesmo. Eles têm procurado chegar ao fundo da insondável sabedoria de Deus; e,
porque não conseguem chegar a esse segredo e são orgulhosos demais para deixá-lo quieto e
para se reconhecerem ignorantes, com o apóstolo, que reconhecia nada mais do que a glória
de Deus nos eleitos; eles estabelecem o livre-arbítrio, com os filósofos pagãos, e dizem que o
livre-arbítrio do homem é a causa por que Deus escolhe um e não outro, em contrário a toda
a Escritura.68

Tyndale afirmava que a eleição soberana glorifica a Deus, humilha o


homem, inicia a salvação e honra a Escritura. Esta doutrina deu a Tyndale
grande confiança em todos os seus esforços porque ele dependia de Deus
para todas as coisas.
Redenção Particular

Tyndale acreditava na expiação vicária de Jesus Cristo. Embora suas


declarações sobre a extensão da morte salvífica de Cristo não sejam tão
definidas quanto às dos outros reformadores – por causa, em parte, do fato
de que ele era principalmente um tradutor da Bíblia e não um teólogo
comentador ou profissional – Tyndale afirmava o ensino de que a morte de
Cristo foi oferecida pela redenção daqueles que foram escolhidos por Deus
antes da fundação do mundo. Tyndale afirmava que Cristo comprou, na
cruz, a salvação para todos os crentes. Ele escreveu: “O sangue de Cristo
comprou vida para nós e nos tornou os herdeiros de Deus, para que o céu
nos seja dado pelo sangue de Cristo. Se você quer obter o céu pelos méritos e
dignidade de suas próprias obras, sim, e menosprezar o sangue de Cristo,
para você Cristo morreu em vão”.69 Aqui, “nós” se refere apenas aos crentes.
A obra consumada de Cristo na cruz, Tyndale sustentava, fez uma
satisfação real pelo pecado: “Somente as obras de Cristo justificam você, e
fazem satisfação pelo seu pecado, e não suas próprias obras [humanas]”.70 A
palavra-chave nesta afirmação é “somente” e está refletida no slogan da
Reforma solus Christus – somente Cristo. Roma dizia que Cristo salva, mas
alguma coisa do homem sempre deve ser acrescentada ao que Cristo fez na
cruz para realizar a salvação. Tyndale insistiu em que a morte vicária de
Cristo não pode ser completada com nada, para que não tornemos seu
sacrifício sem valor algum. Nenhuma obra humana pode ser acrescentada à
obra consumada de Cristo. Tyndale escreveu: “A promessa de misericórdia é
feita a você por causa da obra de Cristo, e não por causa de suas próprias
obras [humanas]”.71 A salvação promove a glória de Cristo e não a aclamação
do homem.
Tyndale asseverou que a cruz de Cristo não torna a salvação meramente
possível, sendo a resposta do homem necessária para torná-la em expiação
salvadora. Em vez disso, ele escreveu que Cristo comprou realmente a
salvação para todos que creriam, garantindo para eles a vida eterna. Tyndale
afirmou: “Eu sou herdeiro do céu pela graça e pelo comprar de Cristo”.72 Se
Cristo comprou a salvação para todos, então todos serão salvos. Mas ele
morreu pela igreja verdadeira, e somente os crentes serão salvos. John Piper
atribui a Tyndale o ensino de “graça soberana comprada por sangue”.73
Tyndale foi enfático em dizer que obras humanas não fazem nenhuma
contribuição à salvação do homem: “Deus nunca prometeu que as suas obras
salvarão você; portanto, a fé em suas próprias obras nunca pode aquietar a
sua consciência ou lhe dar segurança diante de Deus”.74 Novamente,
Tyndale escreveu: “O céu, a justificação e o perdão, são todos dons da graça,
e tudo que lhes é prometido, eles o recebem de Cristo e livremente pelos
méritos dele”.75
Não há nada que o homem possa fazer para merecer a vida eterna. Toda a
salvação é por meio de Cristo somente. Tyndale disse: “Ele é nosso Redentor,
Libertador, Reconciliador, Mediador, Intercessor, Advogado, Procurador,
Solicitador, Esperança, Conforto, Escudo, Proteção, Defensor, Força, Saúde,
Satisfação e Salvação”.76 Do começo ao fim, Cristo é tudo na salvação e digno
de louvor e exaltação, para que ninguém se vanglorie na gloriosa presença de
Cristo.
Chamada Irresistível

Tyndale sustentava que a eleição divina está ligada inseparavelmente à


chamada irresistível por parte do Espírito. Ele entendia que a escolha de
Deus de pecadores individuais leva à obra do Espírito no novo nascimento.
Aqueles que o Pai escolheu serão trazidos pelo Espírito à nova vida. Eles
odiarão o seu pecado, verão sua necessidade de graça e crerão em Cristo:

De toda a multidão de seres humanos, àqueles que Deus escolheu e aos quais designou
misericórdia e graça em Cristo ele envia seu Espírito, que lhes abre os olhos, mostra-lhes sua
miséria e os traz ao conhecimento de si mesmos, para que odeiem e abominem a si
mesmos.77

De acordo com Tyndale, o novo nascimento é uma obra soberana de


Deus. A regeneração, ele acreditava, é um ato monergístico de criação divina
na alma espiritualmente morta, implicando que Deus faz a obra sem a
cooperação do indivíduo:

Nós somos, em... nosso segundo nascimento, obra e criação de Deus em Cristo; pois, assim
como aquele que ainda não foi gerado não tem vida ou poder de agir, também nós não o
tínhamos, até que fomos feitos de novo em Cristo.78

Onde não existe vida espiritual por causa da natureza pecaminosa do


homem, Deus tem de criar vida nova. Precisa haver uma obra sobrenatural
que mude as afeições do coração:

O Espírito tem de vir primeiro e despertar o homem de seu sono, usando o trovão da lei,
fazê-lo temer a Deus, mostrar-lhe sua perversidade e seu estado miserável; fazê-lo odiar e
abominar a si mesmo e desejar ajuda; e, depois, confortá-lo de novo com a chuva refrescante
do evangelho.79
Nesta obra soberana do Espírito, Tyndale acreditava que a fé salvadora
vem exclusivamente de Deus. O homem só pode crer quando Deus o
capacita a confiar em Cristo:

A fé não provém da imaginação do homem, e nenhum homem tem o poder de obtê-la. A fé é


totalmente o dom puro de Deus derramado gratuitamente sobre nós, sem qualquer
realização de nossa parte, sem merecimento e méritos, sim, sem qualquer busca de nossa
parte; é... dom e graça de Deus, comprado por Cristo.80

No que concerne à graça de crer, Tyndale afirmava que o dom gratuito de


Deus é não somente a vida eterna, mas também o dom de crer. Assim, a
salvação é toda por graça. Tyndale escreveu:

A fé verdadeira é... o dom de Deus; é dada a pecadores depois que a lei agiu sobre eles e
trouxe a sua consciência à beira do desespero e tristezas do inferno.81

Consequentemente, Tyndale resistia à falsa noção de que o homem tem


livre-arbítrio para crer em Cristo; ele via isto como uma impossibilidade por
causa da morte espiritual no homem. Ele escreveu.

Acautelem-se do fermento que diz: temos em nosso livre-arbítrio poder, antes da pregação
do evangelho, para merecer a graça, para cumprir a lei da harmonia, pois, do contrário, Deus
seria injusto... E, quando eles disserem que nossas obras feitas com graça merecem o céu,
digam, com o apóstolo Paulo (Romanos 6), que “o dom gratuito de Deus é a vida eterna em
Cristo Jesus, nosso Senhor”.82

O Espírito dá a fé salvadora a pecadores eleitos, capacitando-os a crer. A


conversão verdadeira ocorre quando o Espírito desperta o pecador de sua
morte e lhe dá fé para crer em Cristo. Tyndale ensinou:

A Escritura atribui tanto a fé quanto as obras não a nós, mas somente a Deus, a quem elas
pertencem exclusivamente, a quem são adequadas e de quem são dons e realizações próprias
de seu Espírito.83
Tyndale entendia que a graça de Deus deve outorgar o dom divino da fé
salvadora antes que o pecador possa crer. O pecador é totalmente
dependente de Deus para lhe dar capacidade para crer. Como um filho não
pode causar seu próprio nascimento físico, assim também um pecador não
pode causar seu próprio nascimento do alto. A regeneração é um ato
soberano de Deus no qual ele ressuscita o espiritualmente morto para que
ele creia:

A vontade não tem operação nenhuma no produzir a fé em minha alma, assim como um filho
não tem nenhum envolvimento no ato de gerar por parte de seu pai; pois Paulo disse: “É dom
de Deus e não de nós”.84

Tyndale reconheceu que Deus é o único iniciador da regeneração. O


Espírito tem primeiro de iluminar e dar a fé antes de qualquer pecador crer:

Note a ordem: primeiro Deus me dá luz para ver a bondade e a justiça da lei, bem como meu
próprio pecado e injustiça; desse conhecimento emana o arrependimento... Então, o mesmo
Espírito opera em meu coração confiança e fé, para eu crer na misericórdia de Deus e em sua
verdade, que ele fará como tem prometido; e esse crer me salva.85

Tyndale afirmava que o Espírito Santo tem de criar a fé salvadora no


coração do pecador, se ele tem de crer no evangelho. Quando a Palavra de
Deus é pregada, Tyndale ensinou, Deus outorga a fé salvadora nos corações
daqueles que crerão. Em outras palavras, a fé salvadora é dada por Deus por
meio da pregação da Palavra, entra no coração incrédulo e,
simultaneamente, a Palavra é crida. Nesse momento, o pecador é tornado
livre de sua servidão ao pecado:

Quando a Palavra de Deus é pregada, a fé se enraíza no coração dos eleitos; a fé surge, e a


Palavra de Deus é crida, e o poder de Deus liberta o coração do cativeiro e da servidão ao
pecado.86
Uma confiança firme não existirá enquanto Deus não trouxer um homem
ao fim de si mesmo, para que confie totalmente nele. Para haver o
nascimento da fé em Cristo, tem de haver a morte do “eu”:

Não é possível que Cristo venha para um homem enquanto ele confia em si mesmo... ou
tenha qualquer justiça própria ou riquezas de obras santas.87

Este é o ponto de divisão entre a teologia católica e a protestante. Tyndale


sustentava que os católicos romanos dizem, “em contrário a toda a
Escritura, que o livre-arbítrio de um homem é a causa por que Deus escolhe
uns e não outros. Paulo disse que a escolha vem não da vontade, nem das
obras, mas da misericórdia de Deus”.88 Tyndale mostra claramente o abismo
entre católicos e protestantes. Os católicos creem que o livre-arbítrio do
homem prevalece sobre a escolha de Deus, enquanto os protestantes
afirmam a completa, total e soberana vontade de Deus.
Dizer que o homem caído tem em si mesmo a capacidade de crer, afirmou
Tyndale, é roubar de Deus a sua glória. Ele escreveu: “Não é cegueira
perversa e audaciosa ensinarem que um homem não pode fazer nada de si
mesmo, e, ao mesmo tempo, tomarem arrogantemente para si mesmos a
maior e mais sublime obra de Deus, e fazerem da fé em si mesmos um fruto
de seu próprio poder, bem como de seus pensamentos e imaginações
falsas?”89
Desde antes da fundação do mundo, Deus escolheu todos os que estariam
em Cristo, e ele os chama para si mesmo por dar-lhes o dom da graça e da fé
para crerem em Cristo. Esta verdade gloriosa demanda o louvor e a adoração
de Cristo, o único que é digno de toda a honra na salvação de seu povo.
Graça Perseverante

Tyndale afirmava a perseverança dos santos, a doutrina de que os eleitos


em Cristo não podem ser tirados das mãos do Pai nem cair de novo em
condenação. Em palavras simples, todos os que se arrependem e creem
verdadeiramente em Cristo nunca cairão da graça. Tyndale disse: “Os eleitos
de Deus não podem cair de modo que não se levantem de novo, por causa da
misericórdia que paira sobre eles, para livrá-los do mal, como o cuidado de
um pai amoroso paira sobre seu filho para avisá-lo, guardá-lo de situações e
chamá-lo de volta outra vez, se acontecer de ele ir muito longe”.90 Apesar
das dificuldades que Tyndale enfrentava constantemente em sua vida, ele
sustentou firmemente a gloriosa verdade de que todos os crentes que
tropeçam e caem serão levantados pelos braços sustentadores de Deus.
Com o resultado final garantido, Tyndale ensinou que todos os crentes
são eternamente seguros em Cristo: “A vida eterna e todas as coisas boas são
prometidas à fé e confiança; portanto, aquele que crê em Cristo estará
seguro”.91 Todos os que colocam sua confiança em Cristo estão eternamente
protegidos da condenação divina e são livres da ira eterna por vir.
Tyndale asseverava que todos os crentes podem desfrutar da segurança
de sua salvação. Ele acreditava que um pecador convertido “sente tão grande
misericórdia, amor e bondade em Deus, que está seguro, em si mesmo, de
como é impossível que Deus o abandone ou retenha dele sua misericórdia e
seu amor. Com Paulo, ele clama ousadamente: ‘Quem nos separará do amor
com que Deus nos amou?’”92 Tyndale estava convencido, pelo testemunho
da Escritura, de que Deus nunca abandonará aquele que crê em Cristo, nem
removerá dele o seu amor.
Uma Posição a Manter

Enquanto Tyndale servia a Deus, ele o fazia com uma visão elevada de
Deus. Ele acreditava firmemente que não há constrangimentos externos
para Deus. O Senhor todo-poderoso é livre para fazer conforme escolhe
soberanamente. Ninguém pode forçá-lo a agir de uma maneira contrária à
sua prerrogativa divina. Tyndale escreveu: “Deus é livre, e seria restrito
apenas nas restrições que imporia sobre si mesmo”.93 As únicas restrições
em Deus, afirmou Tyndale, são as que ele coloca sobre si mesmo, dentro de
seu caráter santo e sua vontade perfeita.
Apesar da oposição que enfrentou, Tyndale tinha confiança de que Deus
age livremente na história e ordena todos os eventos de acordo com seu
conselho perfeito. Até os maiores dos homens, incluindo reis e governantes,
estão sujeitos à suprema vontade de Deus: “Deus [tem] todos os tiranos em
suas mãos e não os deixa fazer o que querem, mas apenas o que ele
determina que façam”.94
Em outras palavras, Deus levanta soberanamente um governante e
remove outro. Estes líderes designados por Deus fazem apenas o que Deus
planeja que façam. Isto incluía o rei da Inglaterra, Henrique VIII, que se opôs
aos esforços de tradução de Tyndale. Tyndale escreveu:

Deus faz do rei o cabeça deste reino; e até lhe dá mandamento para executar leis sobre todos
os homens indiferentemente. Portanto, a lei é de Deus e não do rei. O rei é apenas um servo
que executa a lei de Deus... Deus instituiu governantes no mundo... eles receberam seus
ofícios de Deus, para ministrarem e prestarem serviço.95

Tyndale via toda a sua vida como que estando em sujeição aos grandes
propósitos de Deus, até em suas horas de maior adversidade. À medida que
ele realizava sua missão ousada, estas verdades o fortaleceram para assumir
grandes riscos em sua vida, a fim de cumprir o que acreditava ser a vontade
de Deus. Tyndale reconheceu que sua obra só avançaria “se for a vontade de
Deus que eu labute mais em sua seara”.96 Apesar dos que se levantavam
contra ele, Tyndale era convicto de que os propósitos eternos de Deus
estavam seguindo adiante de acordo com seu plano eterno e soberano. Com
intensa e vigorosa dependência em Deus, Tyndale prosseguiu em sua obra,
confiando na providência predominante do Deus soberano. Seriam estas
doutrinas fundamentais que alimentariam a fé de Tyndale e lhe dariam
confiança resoluta em Deus.

36. David Daniell, introdução a William Tyndale, Selected Writings, editado e com uma introdução por
David Daniell (New York: Routledge, 2003), viii-ix.
37. N. R. Needham, 2000 Years of Christ’s Power, Part 3: Renaissance and Reformation (London: Grace,
2004), 378.
38. David Daniell, William Tyndale: A Biography (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1994), 150.
39. Brian H. Edwards, God’s Outlaw: The Story of William Tyndale and the English Bible (Darlington,
England: Evangelical Press, 1976, 1999), 70.
40. William Tyndale, “A Pathway into the Holy Scripture”, em The Works of William Tyndale (1849 e
1850; repr. Edinburgh, Scotland: Banner of Truth, 2010), 1:17.
41. Ibid., 1:14.
42. Ibid., 1:17.
43. Ibid., 1:17-18.
44. Ibid., 1:18.
45. Ibid.
46. Ibid., 1:14.
47. William Tyndale, “Exposition of the First Epistle of St. John”, em Works, 2:151.
48. Tyndale, Works, 2:497-98.
49. Ibid., 1:14.
50. Ibid., 1:17.
51. Ibid.
52. Ibid., 2:199.
53. Ibid., 2:152.
54. Ibid., 2:150.
55. Ibid.
56. Ibid., 2:199.
57. John Piper, Filling Up the Afflictions of Christ: The Cost of Bringing the Gospel to the Nations in the
Lives of William Tyndale, Adoniram Judson, and John Paton (Wheaton, Ill.: Crossway, 2009), 39.
58. Tyndale, Works, 1:505.
59. William Tyndale, An Answer to Sir Thomas More’s Dialogue (1531; repr. Cambridge, England: The
Parker Society, 1850), 111.
60. Tyndale, Works, 2:171.
61. Tyndale, Answer, 35.
62. Tyndale, Works, 1:77.
63. Ibid., 1:14.
64. Ibid., 1: 49.
65. Ibid., 1:14.
66. Tyndale, Answer, 107.
67. Tyndale, Works, 1:19.
68. Tyndale, Answer, 191.
69. Tyndale, Works, 1:65.
70. Ibid., 1:509.
71. Ibid.
72. Ibid., 1:22.
73. Piper, 42.
74. Tyndale, Works, 1:509.
75. Tyndale, Answer, 109.
76. Tyndale, Works, 1:19.
77. Ibid., 1:89.
78. Ibid., 2:200.
79. Ibid., 1:498.
80. Ibid., 1:53.
81. Ibid., 1.12-13.
82. Ibid., 1:466.
83. Ibid., 1:56.
84. Tyndale, Answer, 140.
85. Ibid., 195-96.
86. Tyndale, Works, 1:54.
87. Ibid., 1:22.
88. Tyndale, Answer, 191-192.
89. Tyndale, Works, 1:56.
90. Tyndale, Answer, 36.
91. Tyndale, Works, 1:65.
92. Ibid., 1:22.
93. Ibid., 1:316.
94. Ibid., 1:140.
95. Ibid., 1:334.
96. Ibid., 1:397.
CAPÍTULO 3

A Obra Perigosa Começa


Traduções da Bíblia estiveram entre os mais poderosos instrumentos de
promoção da Reforma. Lutero traduziu a Bíblia para o alemão; Calvino fez
uma tradução francesa. A tradução da Bíblia para o holandês foi uma grande
ajuda para a reforma na Holanda. E Tyndale traduziu a Bíblia para o inglês.97
— B. K. KUIPER

S e William Tyndale foi alguma coisa, ele foi audacioso – um homem


fortalecido para assumir grandes riscos ao cumprir sua missão perigosa
para Deus. Sendo alguém que nunca ficava esperando as coisas acontecerem
passivamente, alguém que nunca se acovardava ante a perspectiva de uma
jornada tumultuosa, Tyndale avançava sempre, mesmo em face de oposição
crescente, perseguindo seu alvo de prover os seus compatriotas com uma
Bíblia em inglês. Nenhuma dádiva maior poderia ser dada a qualquer povo
do que presentear-lhes as Escrituras em sua própria língua. Como pode ser
argumentado, Tyndale fez a maior contribuição a este movimento
transformador da história que foi a Reforma Inglesa. Entretanto, a dádiva
que ele outorgou ao mundo de fala inglesa veio a um custo elevado. Custou
um grande preço para Tyndale, visto que ele renunciou uma vida de conforto
e, por fim, a sua própria vida.
A tradução da Bíblia para o inglês, realizada por Tyndale, foi uma obra
exigente que não aconteceu toda de uma só vez. Aconteceu em estágios
sucessivos durante uma década inteira. Em 1525, Tyndale traduziu
primeiramente o Novo Testamento, embora sua impressão tenha sido
interrompida inesperadamente. Em 1526, ele revisou essa tradução e a
imprimiu sucessivamente em Worms. Quatro anos depois, em 1530,
Tyndale traduziu e imprimiu os cinco livros de Moisés, em Antuérpia. No
ano seguinte, em meio de 1531, Tyndale traduziu e imprimiu o livro de
Jonas. Três anos depois disso, Tyndale revisou e reimprimiu sua tradução de
Gênesis e do Novo Testamento, em Antuérpia. Em 1535, outra edição
melhorada do Novo Testamento seguiu em Antuérpia. No mesmo ano,
1535, Tyndale traduziu o conjunto de livros de Josué a 2 Crônicas, que foi
publicado postumamente por John Rogers na Bíblia Matthew, em 1537.
Havendo examinado o inabalável compromisso de Tyndale com a
soberana graça de Deus na salvação, procedemos agora para um exame mais
cuidadoso de seus esforços em traduzir a Bíblia para o mundo de fala inglesa.
Ao começarmos a traçar a ousada missão de Tyndale, nós o faremos por
mover-nos cronologicamente por meio de vários estágios de sua obra de
tradução. Este capítulo se focalizará na primeira edição do Novo Testamento
em inglês, feita por Tyndale, traduzida da língua grega original, e em sua
tentativa de impressão. Este esforço inicial em 1525 estabeleceu uma base
firme sobre a qual Tyndale faria as revisões subsequentes. Uma longa
jornada começou com este passo inicial, o primeiro na caminhada de dar ao
povo inglês uma tradução correta da Bíblia a partir da língua grega original.
Chegada à Alemanha

Para chegar à Europa em 1524, Tyndale viajou em secreto como alguém


que em breve seria um fugitivo da coroa inglesa. Sua movimentação inicial
ao redor do continente está oculta em ambiguidade. Alguns eruditos pensam
que ele viajou primeiramente para a cidade alemã de Hamburgo, onde uma
viúva, Margaret Van Emerson, o hospedou até que ele prosseguiu para
Colônia. Um renomado biógrafo de Tyndale, J. F. Mozley, argumenta que ele
foi primeiramente para Wittenberg, na Alemanha, onde os famosos
reformadores Martinho Lutero e Philip Melanchton estavam ensinando na
Universidade de Wittenberg. Mozley examinou os registros dessa instituição
e achou um nome específico na data de 27 de maio de 1524 – Guillelmus
Daltici ex Anglia. Mozley especula que o nome é um anagrama latinizado que
corresponde a “William Tyndale da Inglaterra”,98 o qual Tyndale usou para
disfarçar sua identidade e preservar seu anonimato.
Se este registro foi realmente feito por William Tyndale, é provável que
ele tenha interagido com Lutero e Melanchton quanto à obra de Deus na
Europa. Sem dúvida, eles teriam conversado sobre a tradução da Escritura
para as línguas de seus respectivos povos. Um ano ou dois antes, em 1522,
Lutero havia terminado sua tradução do Novo Testamento para a língua
alemã. O tempo de Tyndale em Wittenberg também ajudaria a explicar seu
recém-adquirido conhecimento de hebraico, porque ele não sabia a língua do
Antigo Testamento antes de deixar a Inglaterra.
Tyndale teria permanecido em Wittenberg por nove ou dez meses, até
cerca de abril de 1525. Durante esse tempo, ele pode ter trabalhado em sua
tradução inglesa do Novo Testamento. Dali, ele teria retornado a Hamburgo
a fim de solicitar a transferência de seu dinheiro da Inglaterra, como
preparação para a impressão de sua nova obra.
Com recursos financeiros à mão, chegou o tempo de Tyndale imprimir
seu Novo Testamento em inglês. Após reflexão pessoal, ele escolheu a cidade
alemã de Colônia para o processo de impressão. A cidade empregava muitos
tipógrafos capazes de produzir e encadernar muitas tiragens da tradução
inglesa de Tyndale. Contudo, de muitas maneiras, Colônia era uma escolha
implausível como um lugar para imprimir uma tradução inglesa do Novo
Testamento. Apenas quatro anos antes, em abril de 1521, Lutero enfrentara
julgamento a meros 160 quilômetros dali, em Worms, onde fora condenado
com herege pela Igreja de Roma. Quando Tyndale chegou, Colônia era uma
base católica sob a liderança severa do arcebispo e eleitor católico.
Colônia representava tudo que Tyndale havia rejeitado na Inglaterra. Esta
cidade pró-católica tinha o mau cheiro das superstições religiosas de Roma.
Peregrinos afluíam para suas relíquias e templos idólatras; indulgências
eram vendidas por sacerdotes não convertidos. Elevando-se acima dos
prédios da cidade, havia a catedral de Colônia, uma das maiores construções
na terra. A construção começara três séculos antes e permanecia não
terminada nos dias de Tyndale. Seria somente no século XIX, depois de
séculos de inatividade, que este ambicioso projeto de edificação seria
terminado. A catedral abrigava, supostamente, os ossos dos magos que
visitaram Cristo em seu nascimento. Os restos mortais eram mostrados
orgulhosamente no maior sarcófago de ouro da Europa. Esta era Colônia –
romana, papista, religiosa, supersticiosa e perdida.
Em resistência à Reforma, as autoridades emitiram uma ordem para
punir todos os autores da “heresia reformada” em Colônia. Roma
estabeleceu um corpo local de sacerdotes e teólogos para censurarem todas
as obras que não se conformavam à doutrina católica. A tradução e a
impressão de qualquer livro sem a autorização da Igreja Católica eram
estritamente proibidas. Pouco tempo antes, os livros e panfletos de Lutero
haviam sido queimados publicamente diante dos degraus frontais desta
catedral.
Foi para este ambiente hostil que Tyndale se dirigiu a fim de imprimir sua
tradução do Novo Testamento em inglês. Ele escolheu Colônia porque era
um centro comercial próspero. Possuía a maior praça comercial de qualquer
cidade na Alemanha. Por ser um lugar de encontro para homens de negócios
de países diferentes, a presença de outro inglês, como Tyndale,
provavelmente não levantaria suspeita. O fluxo constante de atividade
comercial ali existente tornou fácil, para Tyndale, transferir os fundos
necessários de Londres para financiar seu projeto de impressão.
Colônia também estava localizada às margens do rio Reno, que oferecia
acesso ao Mar do Norte e, por conseguinte, aos portos da Inglaterra. Isto
tornou o envio das Bíblias muito mais fácil do que se tivesse de ser realizado
por terra. Uma rota por terra envolveria carroças rudes e estradas
lamacentas e sujeitaria as remessas a inspeções inesperadas do governo,
aumentado o perigo de detenção e possível morte. Enviar as Bíblias pela
água era um meio de transporte amplamente superior.
Além disso, Colônia oferecia uma grande variedade de tipógrafos dentre
os quais Tyndale poderia fazer escolha para seu projeto. Em Colônia havia
também um diversificado conjunto de livreiros que mantinham os
tipógrafos em negócio próspero. Embora Colônia fosse uma cidade católica,
alguns dos tipógrafos locais estavam dispostos a correr o risco de prisão a
fim de imprimirem obras reformadas em troca de ganho financeiro. Era
difícil para as autoridades católicas monitorarem cada atividade de
impressão. A fim de permanecerem em segredo, muitos tipógrafos
imprimiam obras controversas sem uma página de título, omitindo assim
seus nomes. Por essas razões, Colônia era idealmente apropriada para esta
obra ambiciosa. Ali, Tyndale daria andamento a seu projeto audacioso nos
próprios umbrais do inferno.
A Primeira Impressão

Tyndale se aproximou de Peter Quentell para realizar a tarefa de


imprimir seu Novo Testamento. Quentell era uma segunda geração de
tipógrafo que aprendera seu negócio de seu pai, um tipógrafo eminente.
Tyndale começou seu projeto por dar a Quentell o evangelho de Mateus em
inglês. Ele pode ter dado também o evangelho de Marcos, como o livro
seguinte na ordem. Ele pretendia uma tiragem que era entre três e seis mil
exemplares, embora o homem tenha concordado provavelmente com três
mil exemplares.
A impressão do Novo Testamento feita por Quentell era requintada para
a época. O evangelho de Mateus começa dramaticamente com um retrato
xilográfico do apóstolo que ocupa a página inteira. Mateus é mostrado com
uma pena em sua mão, enfiando o instrumento de escrita num tinteiro
segurado por um anjo. Em cada divisão de capítulo, há grandes ilustrações.
As margens interiores estão cheias de referências bíblicas correlatas, levando
o interesse do leitor a passagens que apoiam o texto. As margens exteriores
estão esparsas com explicações do texto bíblico. Asteriscos nas notas de
estudo identificam para o leitor a passagem específica que está sendo
explicada. A Bíblia de Tyndale possui uma notável semelhança com o Novo
Testamento de Lutero, impresso três anos antes. Entretanto, o Novo
Testamento de Tyndale foi impresso em tamanho menor do que a versão de
Lutero. Tencionava ser bastante compacto para ser carregado de maneira
imperceptível. Afinal de contas, era ilegal possuir um exemplar desta obra.
Tanto a tradução quanto a impressão foram feitas sob um manto de
segredo total. Tyndale sabia muito bem as consequências severas que lhe
sobreviriam se fosse pego realizando sua missão. Por conseguinte, esta
primeira versão da Bíblia foi impressa sem uma página de título. Isto
permitia que a identidade de Tyndale permanecesse desconhecida e ajudava
a proteger sua segurança. Além disso, os nomes do publicador e da cidade
estavam ausentes, protegendo Quentell neste projeto arriscado.
Quando a folha inicial saiu da impressão, na gráfica de Quentell, ainda
molhada de tinta, a Palavra de Deus impressa estava se tornando, pela
primeira vez, acessível ao homem comum na língua inglesa. A Escritura não
mais ficaria oculta na aparência de outro idioma.
Tyndale não podia realizar sozinho esta tarefa heroica. Ao seu lado estava
William Roye, um colega inglês, que atuou como seu assistente pessoal.
Roye, à semelhança de Tyndale, era um homem de Cambridge que tinha
ideais reformados. Era um frade franciscano, de Greenwich, que se tornara
um renegado da Igreja Católica e fugira para o continente europeu por
questão de segurança. Ele estudou sob o ministério de Lutero na
Universidade de Wittenberg e se graduou em 1525. Se Tyndale viajou
realmente para Wittenberg, ele deve ter estabelecido conexão com Roye ali.
Em seus escritos, Tyndale explicou que havia esperado que outro
indivíduo se unisse a ele na Europa. Esta pessoa não identificada teria vindo
provavelmente da Inglaterra. Se isso é verdade, tem sido conjecturado que
esta pessoa era Miles Coverdale, o futuro compilador da Bíblia Coverdale.
Enquanto Tyndale esperava por esta pessoa, Roye se aproximou dele e lhe
ofereceu ajuda.99 Tyndale aceitou sua oferta, e os dois começaram juntos sua
tarefa perigosa. O dever de Roye seria ajudar a preparar a tradução de
Tyndale para impressão.
A parceria entre Tyndale e Roye era embaraçosa e, frequentemente,
tensa. Tyndale descreveu Roye como um indivíduo “astuto”, e isso tornava
difícil confiar nele. Devido à natureza secreta da obra deles, esta suspeita
permanente era um detrimento para Tyndale. Roye, Tyndale afirmou, tinha
uma língua que era “capaz não somente de fazer os insensatos ficarem
totalmente loucos, mas também de enganar até os mais sábios”.100 Embora
tenham se separado posteriormente, Roye trabalhou ao lado de Tyndale
durante a impressão da primeira edição do Novo Testamento, em Colônia.
Fontes para a Tradução

A primeira fonte para a tradução do Novo Testamento de Tyndale foi o


recém-compilado texto grego produzido pelo erudito humanista Desidério
Erasmo, de Roterdã. Tyndale trabalhou usando como base a terceira edição
da obra de Erasmo, compilada menos de dez anos antes. O trabalho original
de Tyndale na língua distinguiu sua tradução daquela que John Wycliffe,
professor de Oxford, havia realizado 140 anos antes. Por haver trabalhado
exclusivamente com base na Vulgata Latina, a obra de Wycliffe ficou
limitada em exatidão. O Novo Testamento de Tyndale foi a primeira
tradução em inglês do texto grego.
O Novo Testamento fora escrito no grego koinē, a língua comum do
século I. Esta forma de grego era a língua usada mais amplamente na região
oriental do Mediterrâneo. Os primeiros cristãos também usavam uma
versão grega do Antigo Testamento chamada de Septuaginta. Por volta do
início do século V, o erudito Jerônimo (c. 347-420) traduziu o grego e o
hebraico para a língua franca de seus dias, o latim. Esse texto se tornou
conhecido como a Vulgata, proveniente da palavra latina vulgar, que se
referia à língua comum do povo. Com o passar do tempo, a Igreja Católica
adotou a Vulgata como seu texto oficial da Escritura, com autoridade
superior ao grego e ao hebraico ou a qualquer tradução vernácula. A Vulgata
se propagou pelo Império Romano, incluindo as ilhas britânicas, durante os
mil anos seguintes.
A Vulgata foi bem-sucedida porque o latim era a língua comum do
Império Romano. No entanto, o grego e o latim eram línguas
fundamentalmente diferentes. O latim não pode transmitir o significado
preciso da língua grega original. Consequentemente, a tradução da Vulgata
no Novo Testamento ficava aquém de comunicar o verdadeiro significado do
texto grego.
Com o advento da Renascença, surgiu uma nova geração de eruditos
europeus. Estes pensadores expressaram sua insatisfação com a imprecisão
da Vulgata. Entre outros de seus efeitos, o movimento intelectual da
Renascença deu origem a um renovado interesse na língua grega. Quando a
Vulgata foi examinada em confrontação com o texto grego, achou-se que ela
era deficiente. E, por isso, motivado por um amor às línguas originais e
estimulado pela forte atmosfera intelectual de seus dias, Erasmo viajou pela
Europa a fim de compilar os melhores manuscritos antigos da Bíblia em
latim e grego.
O Novo Testamento de Erasmo foi intitulado Novum instrumentum, que
significa “novo instrumento”. Este novo texto para o Novo Testamento
deveria ser seu “novo instrumento” para produzir uma reforma na educação
da igreja. Publicado em 1516, ele foi a primeira nova tradução latina do
Novo Testamento em mais de mil anos. Mostrou-se popular, visto que de
1516 a 1522 foram vendidas 3.300 cópias do Novum instrumentum. Erasmo
colocou a versão latina lado a lado com seu texto grego compilado. Esta
Bíblia paralela foi a primeira vez que o texto grego da Escritura foi impresso.
Este Novo Testamento grego se tornou o fundamento para toda nova
versão da Escritura traduzida para as línguas da Europa, por muitos anos.
Este texto grego foi o que Lutero usou em 1521-22 para traduzir o Novo
Testamento para o alemão. Diz-se que Erasmo pôs o ovo, mas Lutero o
chocou e o deu ao seu povo. De modo semelhante, o texto grego de Erasmo
foi a base da tradução do Novo Testamento por Tyndale para o inglês.
Além do texto grego de Erasmo, Tyndale tinha diante de si a nova
tradução alemã do Novo Testamento de Lutero. Depois da Dieta de Worms,
Lutero foi sequestrado por seus amigos e levado para o castelo de
Wartburgo. Ali, ele traduziu a Bíblia do grego original para a língua alemã.
Ele fez isso sob a proteção de Frederick III, eleitor da Saxônia, e o fez com
rapidez incrível, completando o projeto em apenas onze semanas – de
dezembro de 1521 a fevereiro de 1522. Melanchton, um erudito em grego, e
outros especialistas em línguas citaram posteriormente a obra de Lutero.
Exemplares de seu Novo Testamento começaram a sair da impressão em
setembro de 1522. De dois a cinco mil exemplares foram impressos até
dezembro.
O Novo Testamento de Lutero era tremendamente popular em áreas
protestantes em toda a Alemanha. Esta aceitação por toda parte resultou no
desenvolvimento de uma forma escrita padronizada da língua alemã. Por
volta de 1534, Lutero e outros traduziram o Antigo Testamento e o
imprimiram. Foram publicadas 87 edições do Novo Testamento de Lutero
no dialeto do Alto Alemão e umas 90 edições foram impressas no dialeto do
Baixo Alemão. Em um tempo relativamente curto, mais de 200.000
exemplares haviam sido vendidos, uma distribuição impressionante.
Tyndale, que era proficiente em alemão, consultou a segunda e a terceira
edições do Novo Testamento de Lutero. Quando Traduziu para o inglês,
Tyndale usou o que ele achou proveitoso na Bíblia alemã de Lutero. Embora
seguisse o texto grego como sua fonte primária, Tyndale considerou o texto
alemão de Lutero uma fonte secundária bastante proveitosa. Apesar disso,
ele manteve sua personalidade em realizar sua obra de tradução, diferindo
muitas vezes de Lutero em sua escolha de palavras e frases.
Como mencionamos antes, Tyndale dependeu também da versão latina
aprimorada de Erasmo. Esta nova versão do texto latino continha perto de
400 mudanças em relação ao texto da Vulgata. Erasmo viajara pelos
monastérios da Europa e compilara os melhores manuscritos disponíveis em
sua obra de melhorar a Vulgata de Jerônimo. Com esta nova versão latina,
que apareceu com a versão grega de Erasmo, Tyndale tinha outra obra como
referência com a qual podia fazer comparação. A nova versão latina foi
completada em 1516, um ano antes de a Reforma começar.
B. F. Westcott, que posteriormente editou um texto crítico influente do
Novo Testamento Grego, comentou a dependência de Tyndale para com a
versão latina do Novo Testamento de Erasmo: “Há, porém, outra autoridade
que teve grande influência sobre Tyndale, além da Vulgata e de Lutero. O
texto grego do Novo Testamento publicado por Erasmo, que Tyndale usou
necessariamente, foi acompanhado por uma versão latina original na qual
Erasmo traduziu fielmente o texto que havia impresso. A tradução de
Erasmo foi seguida muito frequentemente por Tyndale”.101
Não há nenhuma indicação de que Tyndale tenha consultado o Novo
Testamento de John Wycliffe quando realizou sua obra de tradução. Esta
versão inglesa antiga havia sido traduzida quase um século e meio antes pelo
professor de Oxford que desencadeara o movimento lolardo na Inglaterra do
século XIV. Tyndale pode não ter querido a influência da escolha de Wycliffe
quanto às palavras inglesas. Em vez disso, ele quis escolher as melhores
palavras inglesas para transmitir o significado das línguas originais. Por não
ter tido acesso a qualquer outra tradução em inglês, a obra de Tyndale foi
totalmente original.
Características da Primeira Edição

As primeiras páginas do Novo Testamento de Tyndale que saíram da


gráfica no final de agosto de 1525 foram seu prólogo. Tyndale começa por
emitir um bem-vindo ao leitor e, em seguida, defende a necessidade de uma
tradução em inglês. Explica o que os dois testamentos são e mostra a relação
entre a lei e o evangelho. Tyndale também oferece um resumo da teologia de
Lutero, focalizando especialmente a justificação somente pela fé. E
prossegue para uma abordagem ampla da depravação do homem e da
natureza do pecado. Neste ponto, Tyndale dá mais detalhes sobre o prólogo
de Lutero em sua tradução alemã. Até usa as palavras de Lutero, mas subtrai
alguns dos pensamentos do reformador alemão para falar mais sobre outras
verdades.
No prólogo, Tyndale usa os escritos e a teologia de Lutero para instruir
seu próprio pensamento. Ele toma os pensamentos de Lutero e os expande
com o uso de suas próprias palavras. Tyndale faz uma apresentação de várias
doutrinas importantes, mais especialmente a justificação pela fé. Coloca em
notório contraste a lei e o evangelho. Começa com a lei, mostrando a
necessidade do evangelho e prossegue imediatamente para abordar a graça
de Deus no evangelho. Embora Tyndale use suas próprias palavras, os
escritos de Lutero são um guia constante. Em seguida, Tyndale expõe com
grande clareza o evangelho de Jesus Cristo.
Este prólogo ao Novo Testamento de Tyndale é seu primeiro escrito
confirmado do qual ainda temos uma cópia original. Ele escreve com
referência constante à Bíblia, usando linguagem bíblica e muitas alusões
bíblicas. Escreve como alguém profundamente imergido na Bíblia. Tyndale
não estava apenas traduzindo as Escrituras; ele as estava absorvendo
pessoalmente. No prólogo, ele afirma:
Eu tenho aqui traduzido (irmãos e irmãs muito queridos e ternamente amados em Cristo
Jesus) o Novo Testamento para sua edificação, conforto e consolação espiritual, exortando
instantemente, e implorando àqueles que são melhores nas línguas do que eu mesmo e têm
dons da graça mais elevados para interpretar o sentido da Escritura e a intenção do Espírito
do que eu mesmo, a considerarem e ponderarem meu labor, e isso com espírito de mansidão.
E, se perceberem que não atingi em algum lugar o sentido da língua ou o significado da
Escritura ou que não usei a palavra inglesa correta, que tomem em suas mãos a correção
adequada, lembrando que é seu dever fazer isso. Pois não recebemos os dons de Deus apenas
para nós mesmos ou para escondê-los, mas para empregá-los para a honra de Deus e de
Cristo e para a edificação da congregação, que é o corpo de Cristo.102

Ao listar os livros do Novo Testamento, Tyndale se afasta do esquema de


duas classes de Lutero. Em sua Bíblia alemã, Lutero colocou no nível mais
alto os quatro evangelhos e Atos, com as epístolas de Paulo, Pedro e João. E
no nível mais baixo, ele incluiu Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse. Em vez
disso, Tyndale afirma a importância igual dos 27 livros canônicos do Novo
Testamento.
David Daniell, o preeminente erudito em Tyndale, escreve: “Este prólogo
é um dos mais importantes documentos de Tyndale. É como se fosse o seu
manifesto... Este prólogo é quase totalmente uma exposição teológica da
Escritura: as passagens curtas de abertura que não são a respeito da
necessidade de ler a Escritura”.103 Tão importante foi este prólogo que
Tyndale o expandiu e o imprimiu separadamente sob o título Um Caminho
para a Escritura Sagrada.
Tyndale escreve seu prólogo à medida que traduz – com vocabulário claro
e fácil de entender. Suas ideias não são abstratas e vagas, mas concretas e
estruturadas. Ele se mostra organizado em pensamento e fácil de ser
seguido. Com linguagem e sintaxe assertivas, Tyndale se recusa a usar
palavras complexas e evita a rigidez de termos técnicos. O gênio de Tyndale
está em sua capacidade de afirmar verdades profundas de maneira clara.
Daniell comenta: “O alvo não é deslumbrar com arabescos e floreados de
palavras, mas ser claro para o mais humilde ouvinte”.104 O alvo de
disponibilizar a Palavra de Deus para o homem comum sempre esteve diante
de Tyndale.
Quando Tyndale traduziu o Novo Testamento, ele o fez sem um
dicionário de inglês para ajudá-lo na grafia e na definição de palavras. De
fato, tal dicionário ainda não existia. O seu assistente, Roye, estava ao seu
lado para ajudá-lo principalmente nas questões físicas e práticas do projeto.
Entretanto, Roye, que era bem instruído, também teria estado disponível
como consultor linguístico. Mas Tyndale permaneceu quase sozinho nesta
obra, guiado apenas pela mão orientadora de Deus.
Brian Moynahan descreve nestes termos o processo de tradução de
Tyndale:

A fonte primária de Tyndale era o Novo Testamento Grego de Erasmo, já em sua terceira
edição por volta de 1524, com tradução e notas em latim, que acompanhavam o texto grego.
Ele também tinha a Vulgata latina e o Novo Testamento de Lutero de 1521. Ele não tinha
consigo nenhuma Bíblia dos lolardos. E disse que não tinha nenhum homem a imitar ou a
“falsificar”; “nem”, acrescentou ele, “fui ajudado com o inglês de qualquer pessoa que já havia
interpretado anteriormente o texto ou algo parecido da Escritura”.105

Quando Tyndale traduziu o texto grego, ele o fez com extraordinária


destreza e capacidade. Seu dom singular era traduzir de uma maneira
pessoal e direta. Ele usou as palavras que as pessoas falavam no dia a dia,
para ter sua obra entendida pelo homem comum. Além disso, ele dispôs suas
palavras bem escolhidas em sentenças simples para facilitar a compreensão.
Tyndale não escreveu para a elite na academia, mas para o homem nas ruas.
Escreveu com o alvo de levar a verdade da Escritura para as multidões de
pessoas comuns. Seu estilo era contemporâneo, e também majestoso. Sua
obra estabeleceu o padrão para todas as traduções em inglês que viriam
depois.
Tyndale não somente traduziu as palavras da Escritura, mas também
colocou notas explicativas nas margens exteriores de muitas páginas de seu
Novo Testamento. Por exemplo, nos primeiros 22 capítulos do evangelho de
Mateus, há 90 notas marginais. Estes comentários proporcionam ajuda
interpretativa para assistir o leitor no entendimento do texto bíblico. O alvo
do reformador inglês era ajudar o leitor a compreender a intenção do autor
na passagem.
As notas de Tyndale são curtas, em comparação com as notas de estudo
mais longas de Lutero. Como o fez com a tradução do reformador alemão,
Tyndale usou as notas de Lutero como uma ajuda – dois terços dos 90
comentários em Mateus 1 a 22, na tradução de Tyndale, procedem de Lutero
– mas, frequentemente, ele as encurtou ou modificou. O tom de Tyndale
tinha também uma ênfase diferente da de Lutero, sendo menos polêmica.
Quando o reformador alemão explica a Escritura, ele é frequentemente
combativo. Às vezes, Lutero parece que sai de seu objetivo para inserir notas
contra o papa e os sacerdotes. Tyndale, por sua vez, escreve de uma maneira
mais expositiva.
Um Revés Temporário

Enquanto a obra de impressão estava em andamento, aconteceu uma


interrupção inesperada. Depois que as primeiras dez folhas foram
impressas, oficiais do governo chegaram de repente à gráfica. Uma incursão
parou imediatamente a operação secreta. As autoridades da cidade haviam
sido alertadas quanto à obra secreta e irromperam na gráfica para por um
fim naquela obra. Visto que imprimir a Bíblia na língua inglesa era
considerado herético, a obra foi parada abruptamente. A impressão havia
chegado até Mateus 22.12, quando foi interrompida de repente. Todos os
materiais deixados na gráfica foram confiscados e se tornaram propriedade
oficial do governo local.
A última folha a ser completada foi designada H. Isto significava que ela
era a oitava folha impressa, sendo o H a oitava letra do alfabeto inglês. Cada
folha individual seria cortada em oito páginas separadas. Isto significava que
um total de 80 páginas do Novo Testamento fora impresso.
Aproximadamente, metade do que fora impresso era o prólogo de Tyndale.
As autoridades da cidade tencionavam prender Tyndale e Roye. A captura
teria implicado em morte certa para esses dois ingleses subversivos. Mas
Tyndale e seu assistente conseguiram escapar antes que pudessem ser
presos. Também conseguiram pegar e levar com eles algumas das páginas
que haviam sido impressas. Quando fugiram, viajaram pelo rio Reno até
Worms. Ali, Tyndale continuou sua obra de tradução e impressão secreta.
Seis meses depois, em 1526, um exemplar completo do seu Novo
Testamento saiu da gráfica.
Hoje, existe apenas um único jogo destas oito folhas terminadas deste
Novo Testamento de Colônia, de 1525. Contém tudo que Quentell
imprimiu, começando com o prólogo e incluindo Mateus 1.1-22.12. As
folhas soltas foram encadernadas em forma de livro, no século XIX, e estão
na Biblioteca Britânica. Esta edição de Colônia do Novo Testamento de
Tyndale foi a primeira vez que qualquer porção do Novo Testamento foi
traduzida do original grego e impressa em inglês. Embora apenas poucas
páginas tenham sido impressas, estas folhas foram distribuídas na
Inglaterra e ajudaram a propagar a causa da Reforma. Por fim, estas
verdades se estenderiam para o mundo, influenciando gerações futuras.
Muitos de vocês que leem estas páginas sabem algo dos desafios
enfrentados em seguir a vontade de Deus. Alguns de vocês podem estar
vagueando, com num denso nevoeiro, incertos quanto a se devem avançar
mais na realização da vontade de Deus. E outros de vocês estão começando
uma tarefa que acreditam ser dada pelo Senhor, mas estão dispostos a
abandonar sua causa porque ela foi inicialmente mal sucedida ou tem
enfrentado grande oposição. Estão começando a duvidar se isto é a missão
de Deus para vocês por causa da falta de sucesso e da oposição que
enfrentam. Esta é a situação em que vocês se encontram agora?
Que aprendamos da vida e da perseverança de William Tyndale. Mesmo
quando a gráfica sofreu uma incursão dos oficiais e a obra de Tyndale foi
parada abruptamente, ele perseverou e continuou até ao fim. Este inglês não
bateu em retirada, nem deu um passo para trás, afastando-se de seu alvo
tencionado de trazer a Palavra de Deus ao povo comum. Semelhantemente,
que cada um de nós prossiga no serviço ao Senhor e no que sua Palavra quer
que façamos, avançando sempre com os olhos fixos adiante, nunca olhando
para trás. Não questionemos a mão soberana de Deus. Em vez disso,
contemplemos a Deus e sigamos, onde ele nos colocar, na obra para a qual
nos dotou. Por sua graça e para sua glória, que a realizemos fielmente até ao
seu fim consumado.

97. B. K. Kuiper, The Church History (Grand Rapids, Mich. Eerdmans, 1951), 277.
98. J. E. Mozley, William Tyndale (1937; repr. Westport, Conn.: Greenwood, 1971), 53.
99. William Tyndale, “Preface to the Reader: The Parable of the Wicked Mammon”, em Works, 1:38.
100. Ibid., 1:39.
101. Brooke Foss Westcott, A General View of the History of the English Bible (New York: Macmillan,
1916), 135.
102. William Tyndale, “A Pathway into the Holy Scripture”, em Works, 1:7.
103. Daniell, William Tyndale, 124.
104. Ibid., 126.
105. Brian Moynahan, God’s Bestseller: William Tyndale, Thomas More, and the Writing of the English
Bible; A Story of Martyrdom and Betrayal (New York: St. Martin’s, 2003), 56.
CAPÍTULO 4

O Novo Testamento para Um


Lavrador
Em todas as cidades e vilas do país de Tyndale, as páginas sagradas foram
abertas, e os leitores jubilosos acharam nelas os tesouros de paz e de alegria
que o mártir havia conhecido. Muitos clamaram, com ele: “Sabemos que esta
Palavra é de Deus, como sabemos que o fogo queima; não porque alguém nos
disse, mas porque um fogo divino consome nosso coração”... Tyndale desejara
ver o mundo em fogo pela Palavra de Deus, esse fogo estava aceso.106
— J. H. MERLE D’AUBIGNÉ

W illiam Tyndale era um homem motivado e determinado, uma figura


indomável que não podia ser desviado do alvo de dar a Bíblia em
inglês à sua terra natal. Os esforços iniciais de Tyndale para ter o seu Novo
Testamento impresso em Colônia, em 1525, foram parados
inesperadamente por uma incursão de oficiais na gráfica. Um homem menos
resoluto teria desistido, concluindo que sua tarefa não era a vontade de
Deus. Mas não Tyndale. O pensamento de abandonar sua missão dada por
Deus era completamente estranho para este reformador resiliente. O senso
de dever para com Deus não poderia ser abafado. Menosprezando os riscos,
Tyndale fugiu rapidamente para o sul, de Colônia para Worms, para evitar a
prisão pelos oficiais que procuravam acabar com seu empreendimento ilegal.
Não importando o que viesse a acontecer, Tyndale estava determinado a
traduzir o Novo Testamento para o inglês. Seu alvo permanecia inalterado:
permitir que um lavrador soubesse tanto da Escritura quanto o papa.
Inflamando esta paixão ardente na alma de Tyndale, havia sua crença
fundamental de que a fé salvadora exige conhecimento da verdade; e tal
conhecimento exige que a pessoa tenha a Palavra de Deus em sua própria
língua. Ninguém pode entrar no reino de Deus, afirmava Tyndale, sem
conhecer a verdade do evangelho. Se o povo inglês precisava ter o
conhecimento salvífico de Jesus Cristo, o obstinado Tyndale sabia que
possuir as Escrituras em inglês era crucial. Além disso, ele acreditava que
nenhum crente pode ser santificado sem a Palavra, tornando a tradução
inglesa ainda mais importante. Tyndale queria tornar as Escrituras abertas e
acessíveis ao povo inglês e desejava colocar a Bíblia nas mãos deles, para
lerem com seus próprios olhos.
Agravando seu senso de urgência, Tyndale já havia testemunhado que os
líderes da Igreja Católica Romana não conheciam nem mesmo as verdades
básicas pertinentes à salvação. Os próprios sacerdotes eram terrivelmente
ignorantes da Escritura – os cegos guiando os cegos. Como resultado, a
Inglaterra estava sufocando em nevoeiro espiritual. Havia no país uma fome
asfixiante pela Palavra de Deus.
A missão que estava diante de Tyndale era clara. Ele estava muito
preocupado com o destino eterno do mundo de fala inglesa. Uma Bíblia em
inglês não era opcional, era obrigatória. Sem uma Bíblia em inglês, Tyndale
afirmou, o pregador poderia também estar falando para porcos:

É verdadeiramente tão bom pregar para porcos quanto para homens, se você prega numa
língua que eles não entendem. Como me prepararei para os mandamentos de Deus? Como
serei grato a Cristo por sua bondade? Como crerei na verdade e nas promessas que Deus fez,
enquanto você fala para mim numa língua que eu não entendo?107

Quando o idioma da Bíblia não pode ser entendido, Tyndale reconheceu,


não há diferença entre porcos e pecadores. Em palavras simples, se a
mensagem das Escrituras não pode ser compreendida, ninguém pode entrar
no reino de Deus.
Este capítulo se focalizará na viagem de Tyndale de Colônia para Worms,
onde ele veria o Novo Testamento em inglês finalmente impresso e enviado
à sua própria terra. Há muitos aspectos singulares a serem examinados para
entendermos como Tyndale realizou esta tarefa incrível. Mas um fato é
inconfundível: Tyndale foi persistente em realizar sua missão ousada.
Uma Nova Base

Ao escolher uma cidade em que imprimiria seu Novo Testamento, houve


alguns critérios que Tyndale sabia tinham de ser satisfeitos. Primeiro, sua
nova base tinha de ser uma cidade florescente onde ele poderia conduzir sua
obra sob o encobrimento das distrações de um lugar intensamente habitado.
Segundo, a cidade precisava ter várias gráficas dentre as quais ele poderia
escolher. As gráficas precisavam ter à disposição delas os relativamente
novos tipos móveis da prensa de Gutenberg, para que pudessem imprimir
rapidamente, a custo baixo. Terceiro, a cidade precisava estar localizada
estrategicamente perto de uma fábrica de papel que pudesse suprir grande
quantidade de papel de boa qualidade. Seria muito caro e demorado
imprimir em velino. Quarto, a cidade precisava ser bem localizada às
margens de um rio navegável que fluísse até ao mar, para que as Bíblias
fossem distribuídas de maneira eficiente. Considerando todos estes fatores,
Tyndale se decidiu por Worms.
Sendo por muito tempo uma fortaleza constantemente leal à Igreja
Católica, Worms era o lugar ao qual Lutero havia sido convocado para
julgamento por heresia em abril de 1521. No entanto, a estratégia de Roma
resultou no contrário. Foi ali que Lutero desafiou a tradição da igreja e a
autoridade eclesiástica por dizer: “Minha consciência está cativa à Palavra de
Deus. Não posso e não me retratarei de qualquer coisa, porque não é seguro
nem correto ir contra a consciência. Não posso agir de modo contrário;
mantenho a minha posição. Que Deus me ajude, amém!”108
A postura ousada de Lutero em favor da Palavra o introduziu num papel
de campeão do povo. A coragem deste gigante alemão alimentou uma fonte
de crença protestante em Worms. Por volta de 1525, a cidade havia mudado
sua lealdade religiosa do catolicismo para convicções luteranas. Isto
significava que, quatro anos depois do julgamento de Lutero, Worms era o
melhor lugar para Tyndale imprimir seu Novo Testamento. No final de
1525, Tyndale, acompanhado de Roye, viajou pelo rio Reno até chegar a
Worms.
Worms estava situada adequadamente ao lado do rio Reno, provendo a
rota aquática necessária para exportar as Bíblias recém-impressas de
Tyndale. Isto permitiria que seu Novo Testamento fosse carregado em
barcaças e transportado para o Norte, até que chegasse a um porto no Mar
do Norte. As Bíblias poderiam, então, ser transferidas para navios mercantes
que se dirigiam para a Inglaterra. O percurso com o transporte das Bíblias de
Worms para a Inglaterra era apenas pouco maior do que o percurso que
fariam se fossem enviadas a partir de Colônia. Ironicamente, estas Bíblias
subiriam pelo rio Reno passando por Colônia, onde a obra de impressão de
Tyndale havia sido abortada anteriormente.
Além disso, Worms proporcionava a Tyndale o contato necessário para se
tornar mais proficiente na língua hebraica. Enquanto ele preparava seu
Novo Testamento em inglês, também se tornava mais hábil em traduzir o
Antigo Testamento. Em meados do século XVI, poucos eruditos na
Inglaterra sabiam hebraico. E menos ainda eram capazes de ensiná-lo. Mas
Worms era um dos raros lugares em que se podia aprender hebraico. Uma
grande comunidade de judeus vivia ali, e isso permitiria a Tyndale estudar e
aprender o velho idioma do Antigo Testamento com judeus eruditos. A mais
antiga casa de cultos judaicos na Europa, a sinagoga Hintere Judengasse,
ficava também em Worms. Esta cidade alemã tinha uma forte reputação de
ser “um lugar tão bom para alguém estudar hebraico como qualquer outro
lugar na cristandade”.109 Por estas razões estratégicas, Worms foi a segunda
escolha de Tyndale, depois de Colônia, para imprimir seu Novo Testamento.
Ao chegar em Worms, Tyndale procurou logo achar um tipógrafo
conveniente. Sua escolha foi Peter Schoeffer – filho do tipógrafo pioneiro de
Mainz – que era considerado o principal gráfico na cidade. O arranjo do
negócio entre Tyndale e Schoeffer foi estabelecido provavelmente no início
de 1526. O nome de Schoeffer não aparece no Novo Testamento de Tyndale,
sem dúvida para proteger seu anonimato como aquele que o imprimiu. No
entanto, vários indícios revelam que a Bíblia de Tyndale foi obra de
Schoeffer. O tipo gótico usado na impressão, as marcas d’água distintivas no
papel e as xilogravuras para as ilustrações – tudo isso identifica Schoeffer
como seu impressor.
No século XVI não havia tipos padronizados para impressão. Cada
tipógrafo criava suas próprias formas de letras. Quando Schoeffer tentou
completar a impressão que fora iniciada em Colônia, ele foi incapaz de
produzir um tipo de tamanho e estilo idênticos ao anterior. Contudo, esta
discrepância não parou o projeto. Moynaham explica: “Era um livro para ser
lido em secreto, não para ser mostrado numa coleção”.110 Schoeffer era
bastante qualificado para levar avante este projeto ambicioso e concluí-lo.
Certamente, um tipo de letra diferente não pararia este projeto.
Para imprimir o Novo Testamento de Tyndale, um papel de alta qualidade
era exigido. Imprimir em pele de ovelha ou de boi finamente preparada,
conhecida como velino, teria sido muito caro para uma tiragem enorme. O
papel necessário foi provido por uma fábrica em Troyes, na França. Esta
fábrica, operada pela família Le Bé, produzia papel de alta qualidade, mas a
um preço mais elevado. Mas o importante projeto, que portaria o evangelho
de Jesus Cristo, era digno deste produto melhor, e Schoeffer foi capaz de
obter um grande suprimento de papel de qualidade da fábrica dos Le Bé para
atender ao compromisso com Tyndale.
O papel procedente da fábrica dos Le Bé era manufaturado com uma
técnica inventada na Itália dois séculos antes. Era feito de fibras de algodão e
não com polpa de madeira, resultando num papel forte e durável. Esta
inovação tornava uma grande tiragem possível e razoável. Para fazer o papel,
era necessário um abundante suprimento de pedaços de pano branco. Os
pedaços de pano branco eram cortados em tiras finas, imergidos em água,
pendurados e secados. Eram tratados com sabão a fim de produzirem polpa,
que, por sua vez, era imergida em água quente. Uma estrutura de madeira
com arames cruzados era descida à água. A estrutura era, então, levantada
para fora, e o excesso de água era removido das folhas por pressioná-la entre
as camadas de feltro. As folhas eram penduradas e revestidas com uma fina
camada de cera e argila. Eram secadas e raspadas com sílex. O resultado era
papel, pronto para ser entregue em resmas de 25 folhas às gráficas em
Worms. Schoeffer era um dos principais compradores deste papel.
Características da Edição de Worms

Schoeffer imprimiu o Novo Testamento de Tyndale no formato oitava


menor, significando que cada folha seria dobrada para produzir 16 páginas
de texto em oito folhas. A versão de Colônia fora impressa no formato
quarta maior, com oito páginas de texto em quatro folhas. A edição de
Worms não continha um prólogo no começo. Ilustrações foram colocadas no
começo de cada livro do Novo Testamento. Não havia também quebras de
capítulos, como havia na edição de Colônia. Nem havia uma página de título
na edição de Worms que levasse o nome de Tyndale. No prefácio de uma de
suas obras posteriores, A Parábola do Perverso Mamom, Tyndale explicou que
a omissão de sua identidade visava proteger seu anonimato. Tudo o que
importava para Tyndale era a distribuição da Bíblia em inglês às mãos do
povo comum. Tyndale não dava a mínima para louvores pessoais.
Este tamanho menor da edição de Worms do Novo Testamento teve
várias vantagens. Primeiramente, esta versão foi mais produtiva em relação
aos custos. Imprimir neste formato exigiu menos tinta e menos papel do que
para a edição maior de Colônia. Em segundo, uma Bíblia menor seria mais
fácil de exportar para Inglaterra, porque exigiria menos espaço a bordo de
um navio. Em terceiro, uma Bíblia menor seria mais fácil de esconder em
fardos de algodão a fim de contrabandeá-la para a Inglaterra. Em quarto,
seria mais fácil para um possuidor de um Novo Testamento carregá-lo no
bolso do casaco ou numa sacola, sem ser notado. Numa época em que o
Novo Testamento impresso em inglês ainda era ilegal, o tamanho menor era
uma vantagem definitiva.
Quando Tyndale traduziu o Novo Testamento para o inglês, ele tinha
uma abordagem específica em mente. Seu objetivo preeminente era fazer a
versão inglesa em exatidão ao texto bíblico e torná-la acessível ao leitor
comum. Acima de tudo, o estilo deveria ser animado e cativar o leitor. David
Daniell, erudito em Tyndale, elogia a obra de tradução de Tyndale nesta
edição de Worms:

O Novo Testamento de 1526... é triunfantemente a obra de um erudito em grego que


conhecia bem essa língua, de um tradutor capacitado que pôde fazer uso do latim da Vulgata
e de Erasmo e do alemão para obter a ajuda de que precisava, mas, acima de tudo, de um
escritor de inglês que estava determinado a ser claro, não importando quão árdua fosse a
tarefa de ser claro.111

No que diz respeito à obra de tradução de Tyndale, várias coisas poderiam


ser notadas. Primeiramente, Tyndale procurou fazer uma tradução que seria
fácil de entender pela pessoa comum. Ele traduziu para o lavrador, no
campo, e não para o professor, na sala de aula. Daniell explica: “Tyndale
busca o inglês claro, falado no dia a dia”112 que “faz o melhor sentido para
seus leitores comuns de inglês”.113 O gênio real de Tyndale está em
descobrir a forma de inglês mais simples para comunicar o sentido das
profundas expressões gregas. Este estilo acessível de inglês foi extraído “da
linguagem corrente da época”.114 Em outras palavras, Tyndale escreveu em
linguagem cotidiana para a pessoa comum. Nisto está o grande encanto de
sua obra de tradução.
Em segundo, Tyndale tencionava que o leitor se movesse rápido à medida
que lesse o texto bíblico. No melhor que pôde, Tyndale preferiu escolher
palavras mais simples e de uma sílaba a palavras mais complexas e de várias
sílabas. Quanto menor a palavra, ele acreditava, tanto mais fácil seria para
os olhos do leitor se moverem pela página. Ele estava convencido de que
palavras mais curtas têm frequentemente mais clareza do que palavras mais
longas. Quando eram necessárias palavras mais complicadas, Tyndale as
colocava intencionalmente no final da sentença, para que o versículo
começasse com mais facilidade de leitura. Quando possível, Tyndale vertia as
frases gregas participiais em cláusulas inglesas para colocar menos exigência
sobre o leitor. Ele também deu propositadamente atenção ao ritmo da
sentença. Tyndale fez tudo isso a fim de produzir uma cadência vibrante
para o leitor.
Em terceiro, Tyndale almejava fazer mais do que alcançar a mente. Seu
intento era também atingir a alma. Tyndale era tão interessado no estilo de
sua linguagem quanto o era na substância de cada palavra e frase. Ele
elaborou cuidadosamente cada aspecto de suas sentenças para que o Espírito
Santo comunicasse a verdade de uma maneira que tocasse o coração. A
missão de Tyndale era criar uma obra que não somente ensinasse a mente,
mas também “falasse ao coração”.115 Nisto, ele foi muito bem-sucedido.
Esta abordagem tríplice estava na mente de Tyndale à medida que ele
avaliava cada palavra, frase, cláusula e sentença. Na realidade, ele funcionou
como um mediador entre o texto grego original e a página em inglês. Seu
propósito era construir uma tradução que seria exata ao intento do autor,
fluísse diante dos olhos do leitor e tocasse o seu coração. Por meio de
esforços árduos, Tyndale estava alterando o curso da história inglesa.
Nesta edição de Worms, Tyndale escolheu não incluir o prólogo inicial
que havia incluído antes na edição de Colônia. Também não acrescentou as
notas marginais de sua versão de 1525. Em vez disso, ele escreveu um breve
pós-escrito no final de seu Novo Testamento. Esta mensagem de conclusão
tencionava chamar o leitor à ação, em resposta à verdade da Escritura.
Num apelo franco, este pós-escrito final é expresso com paixão crescente.
Tyndale convoca o autor a considerar atentamente o inestimável tesouro
que está em suas mãos – a Palavra de Deus escrita. Além disso, ele o chama a
responder à mensagem com arrependimento e fé em Jesus Cristo.
Neste pós-escrito, Tyndale ressalta as riquezas espirituais do evangelho
para pecadores moralmente arruinados. Ele chama o leitor a confiar sua vida
a Deus por meio da fé em Cristo e a não confiar em seus próprios méritos.
Tyndale escreve:

“Dedique diligência, leitor, eu o exorto, para que tenha uma mente pura, e, como diz a
Escritura, olhos bons, às palavras de saúde e de vida eterna, pelas quais, se nos
arrependermos e crermos nelas, somos nascidos de novo, criados outra vez, e desfrutamos
dos frutos do sangue de Cristo”... Esse sangue “comprou vida, amor, favor, graça, bênção e
tudo que é prometido nas Escrituras para aqueles que creem em Deus e lhe obedecem”; e é o
sangue de Cristo que “permanece entre nós e a ira, a vingança, a maldição”.116
Correções e Distribuição

Tyndale estava ciente de que seu Novo Testamento, como um projeto de


longo prazo, exigiria futuras revisões. Na revisão de 1525 da edição de
Colônia, ele havia descoberto 72 erros que exigiram correção em sua edição
de Worms, de 1526. Como um artista que analisava cada pincelada de sua
obra prima, Tyndale era um perfeccionista que sempre se esforçava para
tornar sua tradução o melhor que pudesse ser.
Outros erros de tradução na edição de 1526 seriam descobertos e
corrigidos posteriormente. Tyndale faria estes ajustes em suas edições de
1534 e 1535. De fato, ele faria aproximadamente 4.000 correções nestas
edições futuras. Alguns eruditos têm fixado o número em 5.000 mudanças e
correções.117 A maioria delas são pequenos ajustes, entretanto poucas são
importantes.
Quando a edição de Worms do Novo Testamento de Tyndale foi impressa,
estava pronta para ser embarcada para o exterior. Algumas das páginas
recém-impressas foram deixadas sem encadernação, como folhas soltas.
Outras páginas foram encadernadas em Worms. Ambas as versões foram
cuidadosamente escondidas em fardos de algodão para ocultá-las dos olhos
dos inspetores do governo. Estes fardos eram carregados em barcaças e
transportados pelo rio Reno até um porto no Mar do Norte. Os fardos de
algodão eram transferidos para navios mercantes que navegavam para as
ilhas britânicas. Estes navios faziam rotas comerciais do continente europeu
para a Inglaterra a fim de entregarem sua carga preciosa. As docas de portos
ingleses estavam prontas para receber estes tesouros valiosos. O mais
estratégico dentre estes portos era o da maior cidade da Inglaterra: Londres.
Outros navios transportavam as Bíblias recém-impressas até portos
menores ao longo da costa sudeste da Inglaterra. Alguns navios que
continham as Bíblias de Tyndale navegavam até ao Norte, até a Escócia. O
conhecimento da Palavra estava se propagando pelo mundo de fala inglesa.
A partir destes portos, o Novo Testamento de Tyndale era distribuído
para as principais cidades das ilhas britânicas. Compradores ávidos
adquiriam todas as cópias que haviam sido embarcadas. Não ficava
nenhuma sem ser vendida. Todo o espectro da sociedade inglesa tinha a
Bíblia disponível em sua própria língua. As duas principais universidades
inglesas, Oxford e Cambridge, receberam cópias deste livro proibido.
Pessoas de todos os níveis sociais compraram o Novo Testamento de
Tyndale, incluindo latifundiários, lavradores, alfaiates, advogados,
carpinteiros, pedreiros, latoeiros, professores, estudantes, ferreiros e outros.
O custo de uma das Bíblias de Tyndale era relativamente baixo. Quando
comparada com outros livros de tamanho semelhante, a tiragem maior deste
Novo Testamento manteve o preço acessível. Isto permitiu que pessoas
comuns comprassem seu próprio exemplar. O custo era aproximadamente a
metade do salário de uma semana para um trabalhador comum. Agricultores
ofereciam uma carroça de feno por um Novo Testamento. Algumas pessoas
juntavam recursos para comprar um exemplar e doar. Pela primeira vez, um
Novo Testamento impresso estava disponível na Inglaterra para aqueles que
podiam pagar um xelim e oito pences por um exemplar não encadernado.
Um exemplar encadernado era vendido por um xelim adicional.
O sonho de Tyndale estava se realizando. A Palavra de Deus estava
finalmente disponível ao lavrador no campo.
Resistência Católica

Quando as Bíblias de Tyndale foram distribuídas em toda a Inglaterra, a


Igreja Católica não ficou quieta. Alertada quanto ao esquema de Tyndale, a
igreja na Inglaterra começou a comprar exemplares da Bíblia, quando as
descobria, e queimá-las nas ruas da Inglaterra. Os líderes da igreja na
Inglaterra temiam uma revolta do povo semelhante à ocorrida na Alemanha,
havendo testemunhado o papel que a Bíblia de Lutero desempenhara na
Guerra dos Camponeses.
Cuthbert Tunstall, bispo de Londres, emitiu em outubro de 1526 uma
proibição contra qualquer pessoa possuir uma Bíblia de Tyndale. F. F. Bruce
descreve Tunstall como “especialmente perturbado com a importação e a
distribuição do Novo Testamento de Tyndale, porque naturalmente a sua
diocese era mais afetada do que qualquer outra no país”.118 Tunstall rotulou
estas Bíblias como “pestilentas” e um “veneno muito pernicioso”. Livreiros
da Inglaterra foram ameaçados com prisão e morte, se transportassem o
livro proibido.
Em 26 de outubro de 1526, Tunstall organizou uma queima pública do
Novo Testamento de Tyndale, na famosa Catedral de São Paulo. Diante da
multidão reunida, Tunstall afirmou ter achado dois mil erros na tradução de
Tyndale. Essa afirmação não era surpreendente, visto que Tyndale havia
feito sua tradução a partir do original grego, e Tunstall levantara sua
acusação baseado na investigação que fizera a partir da Vulgata Latina. A
tradução inglesa de Tyndale era muito superior à versão inferior de Tunstall.
Os dois mil erros estavam na versão de Tunstall e não na de Tyndale. Este
gracejou que ficara contente com o fato de que Tunstall havia estudado a
Bíblia, ainda que para achar erros em sua tradução.
Esta forte resistência por parte da Igreja Católica era apenas um
precursor do que por fim sobreviria a Tyndale. Dez anos depois, esta
oposição resultaria em seu martírio. Por ora, apenas Bíblias foram
queimadas. Posteriormente, o próprio Tyndale seria queimado.
Vida como Fugitivo

Acredita-se que a tiragem de 1526, impressa em Worms, foi de três a seis


mil exemplares, talvez mais próximo de três mil. Deste número, sabe-se que
existem apenas três exemplares no século XXI. Com estas edições chegando
à Inglaterra, o tempo de Tyndale em Worms foi sem dúvida um sucesso. Mas
ele não permaneceu ali.
A próxima residência conhecida de Tyndale foi Antuérpia, nos Países
Baixos. Entretanto, foi apenas em 1529 ou no início de 1530 que ele pode se
estabelecer nesta cidade. Onde ele esteve no intervalo entre seu tempo em
Worms e sua residência em Antuérpia? E o que estava fazendo nesse
período? A maioria dos eruditos acredita que ele residiu por breve tempo em
Antuérpia, e, quando achou que era muito perigoso ficar ali, retornou para
Hamburgo, onde residira antes de ir para Wittenberg e Colônia. Em
Hamburgo, ele tomou residência novamente com a Sra. Emerson e
continuou sua obra de tradução. No entanto, não há nenhuma informação
adicional sobre estes eventos.
Há boas razões para acreditarmos que, depois da impressão do Novo
Testamento em Worms, Tyndale voltou seus interesses para sua tradução do
Antigo Testamento. Parece que ele havia traduzido uma boa porção dos
livros de Moisés antes de embarcar em sua viagem para Hamburgo. Na
viagem, seu navio naufragou, e todos os livros e a tradução que Tyndale
havia feito se perderam. Isto foi um grande revés à sua tentativa de traduzir
a Bíblia para o inglês.
No entanto, esta provação no mar apenas impeliria Tyndale a perseverar
ainda mais em sua missão de fazer que o lavrador nos campos abertos da
Inglaterra soubesse mais da Escritura do que os sacerdotes nas catedrais e
igrejas da Inglaterra. Não importando se Tyndale foi outra vez para
Hamburgo, nós o encontramos de novo em Antuérpia na última parte de
1529 ou no início de 1530. Este fugitivo resoluto estava disposto a ter os
primeiros cinco livros de Moisés impressos em língua inglesa.
Tyndale era tomado por uma inflexível resolução de avançar em face a
muitas dificuldades e hostilidades. No decurso da vida cristã, é fácil nos
focalizarmos tanto em nossas circunstâncias que ficamos desanimados,
retrocedemos ou desistimos de tudo. Aprendamos do exemplo do espírito
persistente de Tyndale a não desistirmos, e sim nos dedicarmos a fazer tudo
que Deus colocou soberanamente diante de nós. Para Tyndale, a questão
mais importante era colocar a Bíblia nas mãos do povo. Tenhamos a mesma
determinação para ler, conhecer e assimilar a Palavra de Deus, como Tyndale
teve para colocá-la em nossas mãos.
Pai do Inglês Moderno

Com seu Novo Testamento, Tyndale se tornou o pai da língua inglesa


moderna. Ele moldou a sintaxe, a gramática e o vocabulário da língua
inglesa, mais do que qualquer outro homem que já viveu – mais do que o
autor Geoffrey Chaucer, o dramaturgo William Shakespeare ou os poetas
Percy Shelley e John Keats.
A língua inglesa na aurora do século XVI era rude e não requintada.
Faltava precisão e padronização, uma estranha mistura de características
anglo-saxões e normandas com antigo vocabulário latino, contida numa
sintaxe desorganizada. Tyndale foi seu agente de mudança. Enquanto
traduzia a Bíblia, dedicando pensamento cuidadoso às palavras, às frases e
às cláusulas, Tyndale moldou a língua em seu ponto de transição do Inglês
Médio para os primeiros tempos do Inglês Moderno. A fala de uma nação
estava construída na mente de Tyndale e fluiu de sua pena. Ao produzir a
Bíblia em inglês, Tyndale se tornou o pai do Inglês Moderno.
Além disso, Tyndale é reconhecido como o pai da Bíblia em inglês. Sua
influência a respeito de como a Bíblia em inglês seria escrita, lida, estudada e
pregada chega até aos dias atuais. Sua tradução se tornou tão fundamental
que até ao século XX toda tradução inglesa bem-sucedida dependia
amplamente dos labores de Tyndale. Oitenta e quatro por cento do Novo
Testamento King James é uma cópia palavra por palavra da obra de Tyndale.
E, quanto aos livros do Antigo Testamento que Tyndale traduziu, 76% da
King James se acha em Tyndale.119 Daniell comenta que Tyndale escreveu
em “sentenças saxônicas curtas, com vocabulário amplamente saxônico,
numa maneira semelhante a provérbios”.120 Ao fazer isso, Tyndale traduziu
a Bíblia para o vernáculo do povo, o que explica sua mais ampla audiência
possível e influência prolífica no mundo de fala inglesa.
Ainda, Tyndale é amplamente considerado como o pai da Reforma
Inglesa. O que os reformadores, em sua maioria, realizaram por meio de
pregação, Tyndale o fez por meio de sua tradução da Bíblia. Embora ele
tenha pregado durante seus anos de juventude na Inglaterra, em seus anos
posteriores toda a sua atenção foi colocada em traduzir a Bíblia para a língua
inglesa. Em vez de proclamar a Escritura, ele deu as palavras da Bíblia a
homens ingleses em sua língua nativa. Se as pessoas pudessem ler e
entender a Palavra, Tyndale acreditava, Deus acenderia no coração delas um
zelo pela verdade. Foi a esta missão ousada que Tyndale se dedicou,
dirigindo todas as suas energias, durante o resto de sua vida, a esta tarefa
designada por Deus.

106. J. H. Merle D’Aubigné, The Reformation in England (1878; repr., Edinburgh, Scotland: Banner of
Truth, 1963), 2:350.
107. William Tyndale, The Works of William Tyndale (1848–50; repr., Edinburgh, Scotland: Banner of
Truth, 2010), 1:234.
108. Martin Luther, Luther’s Works, vol. 32, ed. George W. Forell (Philadelphia: Fortress, 1958), 113.
109. Brian Moynahan, God’s Bestseller: William Tyndale, Thomas More, and the Writing of the English
Bible; A Story of Martyrdom and Betrayal (New York: St. Martin’s, 2003), 77.
110. Ibid.
111. Daniell, William Tyndale, 141.
112. Ibid., 135.
113. Ibid., 136.
114. Ibid., 135.
115. Ibid.
116. Tyndale, conforme citado por Moynahan, 84. A ortografia desta citação foi modernizada por este
autor para ajudar o leitor contemporâneo.
117. Moynahan, 297.
118. F. F. Bruce, The English Bible: A History of Translation (New York: Oxford University Press, 1961),
37.
119. Moynahan, 402-3.
120. David Daniell, editado e com uma introdução a William Tyndale, Selected Writings (New York:
Routledge, 2003), vii.
CAPÍTULO 5

Produzindo o Pentateuco
William Tyndale viu a necessidade de uma nova tradução... A visão de Tyndale
foi mais ampla e mais profunda do que a de Wycliffe... Tyndale teve uma
apreciação muito melhor do que envolvia uma tradução inglesa do grego e do
hebraico.121
— HUGHES OLIPHANT OLD

I ndomável em vontade e resoluto em espírito, William Tyndale era alguém


que nunca esmorecia quando havia a obra de Deus para fazer. A
necessidade era muito grande. Tyndale estava plenamente determinado a
traduzir toda a Bíblia pra sua língua nativa, e nada poderia desviá-lo desta
tarefa valiosa. Ele acreditava que a obra tinha de ser terminada com pressa,
porque sua amada terra natal, envolta em trevas espirituais, se achava em
extrema necessidade do evangelho de Cristo. Estava convencido de que o
que ele fazia tinha de ser feito com urgência. Tyndale foi inegavelmente um
reformador não somente em sua doutrina, mas também na propulsão e no
ritmo de sua vida.
Havendo revisado e publicado o Novo Testamento em 1526, este homem
altamente ativo começou o desafio colossal de traduzir o Antigo Testamento
para o inglês. A julgar pela maior extensão da Lei, dos Profetas e dos
Escritos, combinada com a maior dificuldade da língua hebraica, isto seria
uma realização monumental para qualquer tradutor. Esse empreendimento
nunca fora tentado antes. E certamente nunca fora realizado. Apesar disso,
Tyndale estava comprometido em dar ao povo inglês, em sua própria língua,
toda a Palavra de Deus. Para atingir este objetivo, ele se dedicou
persistentemente.
Várias coisas importantes eram exigidas para que Tyndale traduzisse e
publicasse o Antigo Testamento. Primeiramente, ele teria de aprender a
difícil língua hebraica. Já proficiente em várias línguas, ele teria de dominar
esta antiga língua semítica; e isto seria o mais difícil e o mais exigente de
tudo. Em segundo, ele teria de dar atenção a cada versículo, frase e palavra
do Antigo Testamento hebraico. Em terceiro, Tyndale precisaria de uma casa
em que viveria e realizaria seus estudos e empenho de tradução. Precisaria
novamente de várias coisas das quais necessitara para seu projeto do Novo
Testamento: uma cidade europeia bastante agitada, que tivesse um tipógrafo
competente e disposto a assumir o risco de ser preso e sofrer as
consequências; acesso a um suprimento amplo de papel de ótima qualidade;
uma localização próxima de um grande rio que provesse exportação
tranquila para a Inglaterra; e uma comunidade de negócios internacionais
que lhe permitisse desaparecer nas vastas multidões de pessoas quando
necessário.
Cada um destes componentes indispensáveis foi provido na cidade de
Antuérpia. Ali, Tyndale seria capaz de prosseguir à fase seguinte de seu
projeto ambicioso e ousado. Ciente de que o Antigo Testamento seria mais
desafiador do que o Novo, Tyndale estava pronto para colocar as mãos no
arado para este compromisso exigente. A obra demandaria estudo
meticuloso, disciplina inflexível e determinação inabalável. Pela graça de
Deus, Tyndale estava pronto para o desafio.
Aprendendo Hebraico

O primeiro passo na escalada deste Monte Everest seria aprender


hebraico, uma língua difícil que não se parece com nenhuma das sete que ele
aprendera antes. Aos olhos de um homem inglês, o hebraico é lido de trás
para frente, movendo-se da esquerda para direita através da página. As
palavras são baseadas numa raiz de três consoantes, e as formas básicas são
alteradas para produzirem as palavras relacionadas. As vogais – só
acrescentadas à forma escrita por volta do século IX – têm a forma de pontos
ao redor das consoantes. Estas características singulares constituíam um
desafio para qualquer pessoa que tentasse aprender esta língua antiga e
trabalhar com ela. Quase nada de hebraico era ensinado, estudado ou
conhecido na Inglaterra ou no Sacro Império Romano naquele tempo.
Nenhum professor de hebraico existia em qualquer universidade inglesa até
1524. Não havia um contexto inglês em que Tyndale poderia ter obtido pelo
menos um conhecimento elementar de vocabulário hebraico, formas
verbais, gramática e sintaxe. Antes de partir para o continente europeu,
Tyndale não teve nenhum acesso a qualquer forma de hebraico.
Ao chegar à Europa em 1524, Tyndale começou a aprender hebraico quase
imediatamente. Tornar-se proficiente em hebraico em pouco tempo teria
sido coerente com suas capacidades intelectuais e linguísticas. É difícil saber
com exatidão onde, quando e como ele aprendeu a língua, visto que Tyndale
estava levando a vida de um fora da lei; por isso suas vagueações e ações
estão ocultas em mistério. Ele não manteve um diário, não escreveu cartas e
não pregou sermão do qual temos registro. Nenhum rastro escrito havia que
levasse seus inimigos a achá-lo. Tyndale não pousou para nenhum retrato,
para que sua aparência não fosse reconhecida. Sua missão exigia que ele
permanecesse um enigma. Por consequência, Tyndale revela pouco a
respeito das circunstâncias em que atingiu proficiência em hebraico.
A explicação mais plausível é que Tyndale começou a adquirir
conhecimento de hebraico enquanto esteve em Wittenberg. Daniell explica:
“A Alemanha era o centro do pouco conhecimento de hebraico que havia na
Europa nos anos 1520, e, evidentemente, Tyndale aprendeu hebraico ali”.122
O historiador Alister McGrath diz que Tyndale foi atraído a Wittenberg
como o aço é atraído a um ímã porque “o coração de Tyndale se harmonizava
com a agenda de Lutero”.123
Anteriormente, o próprio Lutero havia ensinado hebraico usando o livro-
texto De rudimentis hebraicis (Sobre os Fundamentos do Hebraico), de
Johannes Reuchlin, em 1506. Reuchlin era um linguista exímio que
retornara à Alemanha para aperfeiçoar seu hebraico entre os judeus eruditos
que viviam no país. A gramática e dicionário de Reuchlin se tornou o
primeiro texto em hebraico impresso na Alemanha. Ajudou Lutero em sua
tradução do Antigo Testamento para o alemão. Visto que Tyndale
provavelmente conversou com Lutero e leu a tradução que o reformador fez
do Antigo Testamento para o alemão, o texto de Reuchlin deve ter
desempenhado um papel importante no aprendizado de hebraico de
Tyndale. Aquilo que instruiu Lutero instruiu, por sua vez, Tyndale.
Traduzindo Hebraico

Certos instrumentos se tornaram necessários quando Tyndale começou a


traduzir o Antigo Testamento. Como Lutero antes dele, Tyndale teria
precisado do livro-texto de Recuhlin sobre hebraico. E, igualmente, teria
comprado um Antigo Testamento hebraico de um dos vários livreiros
alemães. Entretanto, Tyndale teria sido incapaz de fazer um estudo
comparativo com quaisquer documentos não bíblicos escritos na época do
Antigo Testamento, porque nenhum existia no século XVI. O melhor que ele
poderia fazer seria consultar obras em outras línguas semíticas antigas,
como o árabe. Esses materiais lhe estariam acessíveis numa universidade,
numa biblioteca ou num monastério local. Ele também utilizou os volumes
de um comentário aramaico, a Bíblia Poliglota Complutense e uma paráfrase
do Antigo Testamento em aramaico.
Além disso, Tyndale possuía um exemplar da tradução do Antigo
Testamento para o alemão, feita por Martinho Lutero, impressa meros sete
anos antes, no verão de 1523. A tradução de Lutero do Pentateuco, do
hebraico para o alemão, foi a primeira do gênero. Lutero também consultou
várias fontes hebraicas que teriam beneficiado indiretamente Tyndale. Entre
estas fontes estariam as obras de Nicolau de Lira, Rashi, Pagnimus,
Sabastian Munster, Bernard Zieglar, Matthew Aurogallus e Andreas
Osiander.124
Tyndale teve igualmente à sua disposição exposições do Antigo
Testamento de outro famoso expositor, o reformador suíço Ulrico Zuínglio.
Seus sermões sobre o Pentateuco estavam em circulação por esse tempo.
Estes discursos publicados baseavam-se num estudo meticuloso do texto
hebraico e teriam provido a Tyndale conhecimento adicional desta língua
difícil.
Tendo aparecido providencialmente em Antuérpia pouco antes de
Tyndale chegar ali, havia uma tradução francesa do Antigo Testamento feita
por Jacques Lefevre, impressa em 1528, que sem dúvida Tyndale consultou.
Além disso, Tyndale teria examinado também a Septuaginta, a tradução
grega da Bíblia hebraica, produzida 100 ou 200 anos antes do tempo de
Cristo. Cada um desses instrumentos fez uma contribuição enorme à obra
que Tyndale estava realizando.
Ao traduzir o Antigo Testamento, Tyndale desenvolveu seu próprio estilo
distintivo em verter com clareza e exatidão o hebraico para o inglês. Ele
procurou dar o sentido literal e claro do texto hebraico na língua inglesa, de
uma maneira que a pessoa comum compreendesse facilmente seu
significado. Onde foi possível, Tyndale escolheu palavras de origem anglo-
saxônica, em vez de palavras de derivação latina ou normanda. Assim, ele
escolheu palavras como faith em vez de fidelity, worship em vez de adoration
e goodness em vez de virtue. Em vez de usar palavras de muitas sílabas,
Tyndale procurou usar palavras de uma só silaba, sempre que pôde. Para
Tyndale, menos é mais na tradução. Esta simplicidade contribuiria para a
facilidade de leitura e de entendimento por parte da audiência.
Um exemplo desse fato pode ser visto na tradução que ele fez em Êxodo.
Sua tradução dos Dez Mandamentos contém palavras familiares que são
entendidas facilmente:

Não terás outros deuses aos Meus olhos... Não farás nenhum ídolo... Lembra-te do sábado
para santificá-lo... Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias sejam longos. Não matarás.
Não quebrarás o matrimônio. Não roubarás. Não darás falso testemunho contra teu
próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem cobiçarás a mulher do teu próximo.125

Ao transferir o Pentateuco para o inglês, Tyndale cunhou muitas palavras


inglesas, usadas pela primeira vez, como Jehovah,126 Passover,127
scapegoat,128 showbread129 e mercy seat.130 Ele também desenvolveu muitas
frases e sentenças que se tornaram comum no mundo de fala inglesa. Por
exemplo, ao traduzir Êxodo, Tyndale cunhou frases notáveis como an eye for
an eye (olho por olho), a tooth for a tooth (dente por dente).131 Ao lidar com o
livro de Números, Tyndale traduziu o hebraico na memorável forma: O
Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça o seu rosto resplandecer sobre
ti e tenha misericórdia de ti. O Senhor levante o seu rosto sobre ti e te dê a
paz.132
O estilo de tradução de Tyndale era coerente com seu trabalho anterior
no Novo Testamento. Por exemplo, ele deu continuidade à sua prática de
traduzir construções possessivas com frases preposicionais, incluindo: a
fartura da terra,133 o melhor do campo e a lei do Senhor. Com o emprego de
cada palavra e frase, Tyndale fez algo que ninguém fizera antes em
linguística, vocabulário e gramática inglesa.
Imprimindo em Antuérpia

Havendo aprendido hebraico durante um período de uns cinco anos,


Tyndale estava pronto para começar a tarefa de traduzir os livros da lei. No
final de novembro ou início de dezembro de 1529, ele navegou de Hamburgo
para Antuérpia, para supervisionar o trabalho de impressão inicial do
Pentateuco. John Foxe apresenta Tyndale trabalhando em associação íntima
com Miles Coverdale, traduzindo os livros de Moisés em 1529.
Uma razão possível por que Tyndale deixou a Alemanha foi um surto de
doença do suor que ameaçava a vida, em Hamburgo. Contudo, uma razão
mais persuasiva para a mudança foi que ele permaneceria desconhecido
pelos oficiais que procuravam prendê-lo e deportá-lo para a Inglaterra. Sua
captura teria significado o fim do projeto de tradução e morte imediata. Um
novo local em uma cidade diferente aumentaria sua capacidade de
permanecer não detectado.
No século XVI, a cidade de Antuérpia estava localizada nas Dezessete
Províncias (também conhecidas como Países Baixos Espanhóis) no Sacro
Império Romano. Seria a base das operações de Tyndale nos cinco anos
seguintes. Com sua orla de acesso no Rio Scheldt, Antuérpia era o porto
predominante da Europa. Como tal, era a maior cidade comercial do Norte
da Europa nos anos 1520 e 1530 e desfrutou de um período de riqueza e
progresso conhecido como Era de Ouro. Foi tão bem-sucedida
financeiramente que chegou a ser conhecida simplesmente como a
Metrópole.
Sendo apenas nominalmente católica, seus tipógrafos estavam dispostos
a correr o risco de produzirem Bíblias ilegais em troca de ganho. De modo
semelhante, seus comerciantes também estavam dispostos a transportar as
Bíblias pelo Mar do Norte até à foz do Rio Tâmisa. Por ocasião de sua
chegada em Antuérpia, Tyndale foi para uma hospedaria conhecida como a
Casa Inglesa, localizada numa rua estreita próxima a uma enorme catedral
católica, cujo pináculo se elevava acima dos outros prédios da cidade.
Tyndale escolheu um tipógrafo de Antuérpia chamado John
Hoochstraten, que era um publicador, encadernador e livreiro. Um edito
governamental emitido em 7 de dezembro de 1530 tornou ilegal qualquer
pessoa escrever ou imprimir um novo livro sem primeiramente obter cartas
de aprovação oficial. A penalidade para tal violação seria “execução sem
demora e sem misericórdia”.134 Um transgressor seria “marcado com um
ferro quente”, e seus olhos seriam arrancados de seu rosto, e suas mãos,
decepadas.135 Apesar disso, Hoochstraten aceitou o projeto de Tyndale e
começou o trabalho.
Em pouco tempo, a Igreja Católica e os governantes locais souberam que
um “herege” estava presente em sua cidade. Muito provavelmente,
informantes do arcebispo local descobriram exemplares do Antigo
Testamento de Tyndale sendo contrabandeados por navios no porto. Em
maio de 1530, o arcebispo de Canterbury, William Warham, emitiu uma
condenação de Tyndale, citando “a tradução da Escritura corrompida por
William Tyndale, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento”.136 Em
junho de 1530, outra proclamação foi emitida, identificando as traduções do
Antigo e do Novo Testamento de Tyndale como obras heréticas “agora
impressas”.137
Cada um dos cinco livros de Moisés traduzido por Tyndale foi impresso e
publicado separadamente. O comprador podia adquirir um livro ou comprar
todos os cincos e encaderná-los juntos. Cada livro de Moisés foi impresso
individualmente para que fossem contrabandeados discretamente para a
Inglaterra. Um único livro seria mais fácil de esconder nos fardos de algodão
do que cinco livros impressos em um volume enorme. Uma vez que estes
livros chegavam à Inglaterra, o comprador podia adquiri-los separadamente.
Muitos compradores ingleses encadernavam os cinco em um único volume.
Tyndale também escreveu e imprimiu cada um dos livros com seu prólogo
individual.
Para agilizar a obra, Hoochstraten manteve duas prensas trabalhando ao
mesmo tempo. Esta impressão em prensas não somente ganhou tempo, mas
também reduziu o tempo de exposição do tipógrafo ao crime de publicar
ilegalmente os livros proibidos. Semelhantemente, Tyndale vivia num
estado de urgência, desejando que a Palavra impressa se tornasse disponível
na Inglaterra tão rápido quanto possível.
Gênesis e Números foram impressos com o mesmo tipo romano usado
para o Novo Testamento. Êxodo foi o único livro que teve ilustrações com o
texto bíblico. Este segundo livro da lei continha onze xilogravuras de página
inteira. Uma gravura era a de Arão vestido com as roupas de um sumo
sacerdote, e as outras mostravam os utensílios do tabernáculo. As
xilogravuras haviam sido usadas dois anos antes por outro gráfico de
Antuérpia, Willem Vostermann, que as preparara para uma nova Bíblia
flamenga. Tyndale tinha recursos financeiros limitados, e usar estas velhas
xilogravuras economizava recursos valiosos.
Prólogos de Abertura

No início de sua edição do Pentateuco, Tyndale inseriu um prólogo de


abertura que escrevera como uma introdução geral para os cinco livros de
Moisés. Era intitulado “W. T. para o Leitor”.138 Ele explicou quanta oposição
havia recebido por produzir sua versão inglesa do Novo Testamento. Citou
às afirmações de seus oponentes – de que era impossível alguém traduzir as
Escrituras para o inglês com alguma exatidão ou que era perigoso para leigos
possuírem uma Bíblia em inglês – e as confrontou em seu prólogo:

Quando traduzi o Novo Testamento, acrescentei no final uma epístola dirigida ao leitor, na
qual desejei que os que fossem eruditos corrigissem a obra, se qualquer parte fosse achada
defeituosa. Mas os nossos hipócritas maliciosos e ardilosos, tão obstinados e duros de
coração em suas abominações ímpias, que não é possível para eles corrigirem qualquer
coisa... dizem, alguns deles, que é impossível alguém traduzir a Escritura para o inglês;
alguns, que não é lícito para os leigos tê-la em sua língua materna; alguns, que isso os
tornaria todos hereges; como os tornaria, sem dúvida, as muitas coisas que eles têm
ensinado falsamente há muito tempo e que são a razão por que fazem a proibição, embora
finjam outras coisas; e alguns, ou melhor, todos, dizem que isso os faria levantar-se contra o
rei, a quem eles mesmos (para sua condenação) nunca obedecem.139

Tyndale descreveu sua primeira viagem a Londres como que tendo o


propósito de assegurar a permissão do bispo de Londres para traduzir a
Bíblia em inglês:

Quando estive diante do chanceler, ele me ameaçou severamente, e me injuriou, e me


classificou como se fosse um cachorro... Quando pensei nisto, veio-me à lembrança o bispo
de Londres, que Erasmo... elogia grandemente, entre outros, em suas Anotações no Novo
Testamento, por sua grande erudição. Então, pensei: se eu pudesse estar no serviço deste
homem, ficaria feliz. E, assim, cheguei a Londres, e, por intermédio da familiaridade de meu
senhor, fui até ao senhor Harry Gilford, o controlador da graça do rei, e lhe dei um Discurso
de Isócrates, que eu havia traduzido do grego para o inglês, e desejei que ele falasse ao meu
senhor de Londres por mim.140
Quando o bispo de Londres recusou a permissão, Tyndale compreendeu
que não havia lugar na Inglaterra onde ele pudesse realizar a obra de sua
vida. Por isso, ele tinha de viajar ao exterior para realizá-la. Tyndale
comenta: “Não havia nenhum lugar no palácio de Londres de meu senhor
para traduzir o Novo Testamento, mas também... não havia nenhum lugar
para fazê-lo em toda a Inglaterra”.141
Tyndale também anexou ao início do Pentateuco um segundo prólogo que
escrevera. Esta introdução estava intitulada “Um Prólogo que Mostra o Uso
da Escritura”.142 Este prólogo aborda a suprema importância da Bíblia na
vida do crente. Tyndale comparou a Bíblia a uma joia preciosa nas mãos de
uma pessoa que não conhece seu verdadeiro valor. Depois, ele comparou a
Escritura a um remédio forte que deve ser aplicado às feridas espirituais de
todo homem. Ele disse:

Ainda que um homem tivesse uma joia preciosa que o enriquecesse, se não soubesse o valor
dessa riqueza, nem para o que ela serve, não estaria em melhor situação nem seria mais rico
do que se tivesse palha. Ainda assim, embora leiamos a Escritura e balbuciemos sobre ela, se
não sabemos a sua utilidade, nem para que nos foi dada, nem o que devemos buscar nela, ela
não tem nenhum proveito para nós. Não basta, portanto, apenas ler a Escritura e falar a seu
respeito; devemos também desejar que Deus abra instantaneamente nossos olhos, dia e
noite, para nos fazer entender e sentir para o que a Escritura nos foi dada, a fim de
aplicarmos o remédio da Escritura – cada homem às suas próprias feridas.143

Tyndale disse que a Bíblia é uma luz que brilha num mundo tomado de
trevas que sozinha pode iluminar o caminho de viagem para o crente:

A Escritura é uma luz e nos mostra o verdadeiro caminho, tanto do que fazermos quanto do
que esperarmos. E uma defesa de todo o erro e um conforto na adversidade, para que não
desesperemos; e nos faz temer na prosperidade para que não pequemos.144

Ele instou o leitor a considerar cada sílaba de cada palavra da Escritura


como sendo dirigida diretamente a ele da parte de Deus mesmo. Sem
importar o quanto o texto não pareça importante, é Deus falando ao leitor:
Portanto, à medida que você lê, pense que cada sílaba diz respeito a você mesmo, sugue o
âmago da Escritura e se arme contra todos os ataques.145
Os Cinco Livros de Moisés

Depois do prólogo a Gênesis, Tyndale colocou o texto do livro sob o título


“O Primeiro Livro de Moisés Chamado Gênesis”.146 O texto começa em
forma bem conhecida: “No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era
desprovida e vazia, e havia trevas sobre o abismo, e o Espírito de Deus se
movia sobre as águas”.147 Não há números de versículos, e o número de cada
capítulo é escrito por extenso. Não há referências correlatas, e a primeira
nota explicativa aparece na margem exterior em Gênesis 4. Incidentalmente,
é uma comparação entre Caim e o papa. Há apenas seis notas marginais para
os 50 capítulos de Gênesis, e três delas são escritas contra a Igreja de Roma.
A nota explicativa em Gênesis 32 é de natureza mais prática, tratando do
assunto da oração de um crente.
A maioria das notas de Tyndale no Pentateuco são explicativas,
destinadas a esclarecer a intenção do autor e o significado do texto bíblico.
Somente algumas poucas notas são polêmicas, tencionadas a refutar Roma e
o papa. Vinte e três notas têm como alvo o papa, focalizando a conduta infiel
da Igreja de Roma. Quarenta das notas procedem diretamente de um livro
que Tyndale havia escrito antes, A Obediência do Homem Cristão. No restante
do Pentateuco, há 46 notas expositivas em Êxodo, 21 em Levítico, 19 em
Números e 41 em Deuteronômio. A maioria destas notas explicativas são
relativamente curtas. Isto faz um total de 126 notas marginais no
Pentateuco de Tyndale.
Depois de Gênesis, Tyndale acrescentou um glossário de palavras-chave
usadas neste primeiro livro de Moisés. Ele chamou esta lista de palavras em
Gênesis e suas definições de “Uma Tabela que Explica Certas Palavras”.148
Esta tabela funciona como um dicionário que define palavras que o leitor
possa achar difíceis. Ele colocou estas palavras-chave em ordem alfabética e
explicou o significado das palavras em termos simples. No século XVI, não
existia dicionários ingleses. Por isso, com esta tabela, Tyndale se tornou “o
pioneiro da lexicografia inglesa”.149 Eis alguns exemplos do que Tyndale
listou:

ARCA. Um navio achatado, como se fosse um baú ou um cofre.

BÊNÇÃO. As bênçãos de Deus são seus dons.

MALDIÇÃO. A maldição de Deus é a remoção de seus benefícios, como Deus amaldiçoou a


terra e a tornou estéril. Portanto, fome, escassez, guerra, pestilência e coisas semelhantes
que existem agora são maldições corretas e sinais da ira de Deus sobre os incrédulos.

FIRMAMENTO. O céu.

FÉ, é o crer nas promessas de Deus e uma confiança segura na bondade e na verdade de
Deus; essa fé justificou Abraão e foi a origem de todas as suas boas obras que ele realizou
depois de crer.

GRAÇA. Favor. Noé achou graça; isso quer dizer que ele achou favor e amor.

JEOVÁ. É o nome de Deus. Nenhuma criatura é chamada por este nome e descreve alguém
que existe por si mesmo, que não depende de nada.

TESTAMENTO, ou seja, um compromisso entre Deus e o homem; as promessas de Deus.

ANDAR. Andar com Deus é viver piedosamente e andar em seus mandamentos.150

Um prólogo separado foi colocado antes do livro de Êxodo, intitulado


“Um Prólogo ao Segundo Livro de Moisés Chamado Êxodo”.151 A ideia
central do livro é explicada como o viver dos crentes segundo a Palavra de
Deus. Tyndale afirma que a Escritura foi dada para que o crente possa saber
“como se comportar”. Tyndale considera o lugar da lei na vida dos cristãos
como guia para seguir a piedade. Ele disse que bênçãos ou maldição resultam
de guardar ou quebrar a lei de Moisés. Em outras palavras, Tyndale
enfatizou para seus compatriotas que as Escrituras que eles estavam lendo
pela primeira vez, em sua própria língua, deviam ser aprendidas pelo leitor,
mas também obedecidas e vivenciadas. Ele incentivou o leitor:

Que você aprenda, neste livro e em todos os livros da Escritura, como conduzir a si mesmo.
Prenda-se ao texto e à história simples, esforçando-se para encontrar o significado de tudo
que é descrito nele e o verdadeiro sentido de todas as maneiras de falar da Escritura.152

Como o fez em Gênesis, Tyndale também incluiu uma tabela de palavras


em Êxodo. Em sua tradução, ele definiu para o leitor o significado de
palavras básicas que julgou precisavam de esclarecimento. As seguintes
palavras são exemplos da lista em Êxodo:

CONSAGRAR. Designar uma coisa para uso santo.

DEDICAR. Purificar ou santificar.

POLUIR. Contaminar.

RECONCILIAR. Fazer a unidade e trazer graça ou favor.

SANTIFICAR. Limpar ou purificar; designar uma coisa para uso santo e separar de usos sujos
ou impuros.

ADORAR. O prostrar-se de um homem ao chão; como fazemos muitas vezes, ao ajoelhar-nos


em nossas orações, quando nos prostramos e deitamos nossos braços e mãos, com a face no
chão.153

Imediatamente após o texto bíblico de Êxodo, há “Um Prólogo ao Terceiro


Livro de Moisés Chamado Levítico”.154 Tyndale descreveu o lugar dos
sacrifícios sacerdotais e das cerimônias que Deus havia prescrito para
aqueles que o adoram. Porque só podemos nos aproximar de um Deus santo
da maneira exigida por ele mesmo. Tyndale também fez uma advertência ao
leitor contra alegorizar o verdadeiro significado da Escritura.
As cerimônias que foram descritas no livro seguinte foram ordenadas por Deus (como disse
no final do prólogo sobre Êxodo): para ocupar a mente daquele povo, os israelitas, e impedi-
los de servir a Deus segundo a imaginação de seu zelo e boa intenção corrompidos; para que
sua consciência fosse estabelecida.155

Antes do livro de Números, há “Um Prólogo ao Quarto Livro de Moisés


Chamado Números”.156 Esta introdução é a mais longa dos cinco prólogos
no Pentateuco. Tyndale conclui o prólogo com esta exortação final ao seu
leitor: “Leia diligentemente a Palavra de Deus, com bom coração; e ela lhe
ensinará todas as coisas”.157 No que diz respeito à lei entregue no Monte
Sinai, Tyndale explicou que o crente deve praticá-la em seu viver diário.
Tyndale deu grande ênfase à necessidade de obediência pessoal à Palavra por
parte do crente:

No segundo e no terceiro livros, eles receberam a lei; e, neste quarto, começam a agir e
praticar. Desse praticar, vemos muitos bons exemplos de incredulidade e do que o livre-
arbítrio faz quando toma para si o guardar a lei em suas próprias forças, sem a ajuda da fé
nas promessas de Deus... Ora, ser filho de Deus significa amar a Deus e seus mandamentos,
bem como andar em seu caminho, segundo o exemplo de seu Filho, Cristo.158

O mais curto dos cinco prólogos no Pentateuco é “Um Prólogo ao Quinto


Livro de Moisés Chamado Deuteronômio”.159 Sua mensagem exorta os
crentes a terem “o amor a Deus que vem da fé”,160 que produz “o amor ao
próximo”.161 Este quinto prólogo apresenta um resumo da maioria dos
capítulos de Deuteronômio.

Este é um livro digno de ser lido, dia e noite, e de ter sempre à mão; porque é o mais
excelente de todos os livros de Moisés. É também fácil e leve, um evangelho muito puro, uma
pregação de fé e amor: deduzindo o amor de Deus a partir da fé e o amor ao próximo a partir
do amor a Deus. Neste livro você também pode aprender a meditação ou a contemplação
correta, que é nada mais do que chamar à mente e repetir no coração as gloriosas e
maravilhosas obras de Deus e o seu terrível lidar com seus inimigos.162
No final do livro, Tyndale inclui um breve glossário de termos que usou.
Entre eles, estão:

BELIAL. Ímpio ou impiedade, aquele que removeu de seu pescoço o jugo de Deus e não quer
obedecer a Deus.

HOREUS, um tipo de gigante, e significa nobre; por causa de orgulho eles chamavam a si
mesmos de nobres ou gentis.

ROCHA. Deus é chamado uma rocha porque tanto ele quanto sua palavra permanecem para
sempre.163
Uma Realização Monumental

Depois que seus livros ficaram prontos, Tyndale continuou sua prática de
escondê-los em fardos de algodão para enviá-los às ilhas britânicas. Estes
exemplares da Escritura foram contrabandeados para a Inglaterra e a
Escócia, sem serem detectados.
Durante esse tempo, todas as literaturas religiosas eram escritas em
latim, e todos os serviços de culto eram conduzidos em latim, incluindo
leituras bíblicas. A pessoa comum tinha pouco ou nenhum entendimento do
que era dito.
A versão inglesa do Pentateuco de Tyndale entrou em cena como se
tivesse caído do céu. Tyndale havia traduzido os cinco livros de Moisés para
o inglês com clareza e simplicidade. Qualquer pessoa inglesa poderia, então,
compreender facilmente a Palavra de Deus. O estilo claro que Tyndale usou
era dinâmico e envolvente. Ele foi bem-sucedido em seu objetivo de tornar a
Escritura disponível ao lavrador.
O Pentateuco de Tyndale foi a primeira porção do Antigo Testamento a
ser traduzida para o inglês. Somente uns 12 exemplares sobreviveram até
aos nossos dias. A maioria deles está completa, contendo todos os cinco
livros de Moisés encadernados. Um exemplar, na Biblioteca Bodleian, em
Oxford, é apenas de Gênesis. Outro, em Nova Iorque, contém Êxodo-
Deuteronômio.
Ao produzir esta primeira tradução do Pentateuco, Tyndale se distinguiu
como um notável erudito em hebraico. Em vista dos instrumentos de seus
dias, o domínio de Tyndale na língua hebraica era impressionante. Tyndale
realizou sua obra em tão elevado nível de excelência que uns 80 anos depois,
quando um grupo de eruditos se reuniu para criar a Versão Autorizada ou a
Versão King James, eles fizeram poucas melhorias na tradução de Tyndale.
Na verdade, a tradução de Tyndale foi realizada com tal nível de proficiência
que sua obra permanece até ao presente em muitas traduções inglesas
subsequentes que ela influenciou. De todos os dons que a Inglaterra deu ao
mundo, nenhum pode superar este tesouro excelente. Onde o inglês é lido, a
Bíblia de Tyndale é um legado de valor incalculável.
Já foram produzidos muitos quadros que representam a influência
abrangente do Império Inglês ao redor do mundo. Um desses quadros,
intitulado O Segredo da Grandeza da Inglaterra, está exposto na Galeria
Nacional, em Londres. Nesta obra famosa, pintada em 1863, por Thomas
Jones Baker, um príncipe africano mandou um embaixador à rainha Vitória,
monarca da Inglaterra no século XIX, para indagar o segredo da
superioridade da Inglaterra entre as nações. O quadro retrata o embaixador
ajoelhando-se diante da rainha, na sala de audiências, no Castelo de
Windsor. Ao fundo, está o príncipe Albert, o marido da rainha, e os
membros da corte. A rainha Vitória está dando um exemplar da Bíblia ao
humilde dignitário. A rainha está silenciosamente dizendo: “Vá e diga a seu
príncipe que este é o segredo da grandeza política da Inglaterra”.
A verdadeira grandeza da Inglaterra tem sido a Bíblia em inglês. No
decorrer dos séculos, a Inglaterra tem sido um povo da Bíblia e tem
distribuído a mensagem deste livro santo aos quatro cantos do mundo. A
principal influência nesta disseminação da verdade bíblica foi a obra de
tradução e publicação de William Tyndale. Ele foi o primeiro a presentear a
Inglaterra com uma Bíblia traduzida em sua própria língua a partir dos
originais gregos e hebraicos.
Que a Palavra de Deus se propague às nações do mundo nesta época. Que
a influência do sacrifício feito por Tyndale, cinco séculos atrás, continue a se
expandir no tempo presente.

121. Hughes Oliphant Old, The Reading and Preaching of the Scriptures in the Worship of the Christian
Church, Vol 4: The Age of the Reformation (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 2002), 137.
122. David Daniell, introdução a Tyndale’s Old Testament, ed. (New Haven, Conn.: Yale University
Press, 1992), vii.
123. Alister McGrath, In the Beginning: The Story of the King James Bible and How It Changed a Nation, a
Language, and a Culture (New York: Doubleday, 2001), 70.
124. David Daniell, William Tyndale: A Biography ( New Haven, Conn.: Yale University Press, 1994),
298.
125. William Tyndale, Tyndale’s Old Testament, editado e com uma introdução por David Daniell (New
Haven, Conn.: Yale University Press, 1992), 116.
126. Ibid., 82.
127. Ibid., 106.
128. Ibid., 172.
129. Ibid., 582.
130. Ibid., xxii.
131. Ibid., 118.
132. Ibid., 209.
133. Tyndale, introdução a Tyndale’s Old Testament, xxv.
134. Brian Moynahan, God’s Bestseller: William Tyndale, Thomas More, and the Writing of the English
Bible; A Story of Martyrdom and Betrayal (New York: St. Martin’s, 2003), 188.
135. Ibid.
136. Ibid., 190.
137. Ibid.
138. Tyndale’s Old Testament, 3.
139. Ibid.
140. Ibid., 4.
141. Ibid., 5.
142. Ibid., 7.
143. Ibid.
144. Ibid.
145. Ibid., 8.
146. Tyndale’s Old Testament, 15.
147. Ibid.
148. Ibid., 81.
149. Moynahan, 199.
150. Tyndale’s Old Testament, 81-83.
151. Ibid., 84.
152. Ibid.
153. Tyndale, Works, 1:419.
154. Tyndale’s Old Testament, 145.
155. Ibid.
156. Ibid., 191.
157. Ibid., 198.
158. Ibid., 191.
159. Ibid., 254.
160. Ibid.
161. Ibid.
162. Ibid.
163. Ibid., 304-5.
CAPÍTULO 6

Sempre Aprimorando
Aqueles dias anteriores de poder, com as verdades que na época moveram
multidões, pareciam todos esquecidos em meio à teologia acadêmica estéril e
um evangelicalismo moderno que parecia nada saber a respeito de William
Tyndale.164
— IAIN H. MURRAY

E nquanto William Tyndale perseverava em cumprir sua missão ousada,


ele o fazia como um homem marcado. Ele cumpria esta perigosa obra de
sua vida em ameaça constante. Repetidas vezes, agentes do governo e da
igreja foram enviados da Inglaterra para esquadrinhar o continente europeu
em busca do fugitivo. Muitos esforços foram realizados para capturá-lo de
qualquer maneira. Os emissários estavam sob ordens severas para acharem
Tyndale, prendê-lo e levá-lo para sua execução.
Com seu pescoço em risco e sua cabeça a prêmio, Tyndale fez a revisão de
seu Novo Testamento com um senso da sublime chamada de Deus para sua
vida.
Depois de terminar sua tradução inicial do Novo Testamento em 1526, do
Pentateuco em 1530 e de Jonas em 1531, Tyndale se recusou a descansar de
seus labores. Ele estava firmemente determinado a revisar sua tradução do
Novo Testamento para aprimorar sua exatidão e facilidade de leitura.
Exposto diariamente à possiblidade de martírio, Tyndale foi tenaz em
prosseguir na revisão de sua tradução, apesar do perigo iminente de captura.
Quando o Novo Testamento de 1526 foi impresso, Tyndale já havia
começado a compilar uma lista de correções que ele sabia precisavam ser
feitas. No pós-escrito da edição de 1526, ele pedia aos seus leitores que lhe
dessem retorno quanto a melhorias necessárias para uma tradução revisada.
Em 1534, oito anos e meio depois da publicação da primeira edição, Tyndale
terminou sua cansativa revisão, que se tornou sua realização suprema. B. F.
Westcott, erudito em Novo Testamento, chamou esta revisão de “o mais
nobre monumento”165 de Tyndale. David Daniell, erudito em Tyndale, a
elogiou como “a glória da sua obra de vida”.166
Uma década depois de haver chegado à Europa, Tyndale havia aprimorado
em alto nível suas habilidades de tradução do grego. A edição de 1534 sofreu
4.000 mudanças e correções – 5.000, de acordo com alguns eruditos – um
número significativo e um aprimoramento admirável. A edição de 1526
continha apenas o texto em inglês, algumas notas explicativas e um breve
epílogo. Entretanto, a edição de 1534 continha o texto bíblico, dois prólogos
gerais, um prólogo para cada livro do Novo Testamento, exceto Atos e
Apocalipse, mais notas explicativas, referências correlatas e divisões de
parágrafos. Na conclusão do Novo Testamento, foram acrescentadas 15
páginas que listavam e traduziam 40 das passagens mais importantes do
Antigo Testamento.
O foco deste capítulo é a investigação do espírito tenaz de William
Tyndale e seu trabalho árduo no Novo Testamento de 1534. Nos anos
anteriores à publicação desta edição, um desafio ameaçou a edição de 1526.
Pelo menos quatro versões não autorizadas apareceram em circulação. Estas
edições não aprovadas forneceram motivação intensa para Tyndale produzir
uma versão corrigida de sua obra original. Seu Novo Testamento revisado de
1534 comprovou ser a maior de suas obras.
Edições Não Autorizadas

Quase imediatamente após o Novo Testamento de 1526 sair da


impressão, cópias não autorizadas começaram a ser impressas e distribuídas
na Europa. O maior responsável por essas versões piratas era um gráfico,
publicador de Antuérpia, chamado Christopher Van Endhoven. Não menos
do que quatro edições não aprovadas saíram de sua gráfica sem o
conhecimento ou permissão de Tyndale. A primeira foi produzida em 1526-
27, a segunda em 1530, a terceira em 1533, e a última em 1534. A edição de
1534 foi especialmente incômoda para Tyndale por causa do trabalho de um
homem chamado George Joye.
Um erudito de Cambridge que se tornara proficiente em latim, Joye
realizou uma obra editorial na última edição. Rejeitado como um herege por
seu pensamento reformado, Joye deixou a Inglaterra e viajou para
Antuérpia, onde se engajou em tradução da Bíblia por conta própria.
Produziu a primeira tradução impressa de vários livros do Antigo
Testamento para o inglês, embora não a partir do original hebraico.
Em 1530, Joye produziu sua própria tradução impressa dos salmos, a
partir do latim, para o inglês. Em 1531, Van Endhoven foi preso por
imprimir e embarcar exemplares do Novo Testamento para Inglaterra. Foi
mandado para Londres quando as autoridades de Antuérpia não o quiseram
processar; por isso, foi aprisionado em Westminster e morreu ali. Em 1532,
Joye publicou as traduções de Provérbios e Eclesiastes. Em 1534, Jeremias e
Lamentações foram traduzidos para o inglês com base no latim.
Na primavera de 1534, a esposa de Van Endhoven pediu a Joye que
supervisionasse a revisão na quarta edição pirateada do Novo Testamento
de Tyndale de 1526. Os tipógrafos flamengos enfrentavam dificuldades
financeiras; e grande lucro seria obtido com a venda da Bíblia de Tyndale.
Joye fez quase 100 correções na versão de 1526 de Tyndale, muitas das
quais eram insignificantes. Algumas das mudanças eram correções
tipográficas, enquanto outras demonstraram ser irrelevantes. O trabalho de
Joye foi inferior ao de Tyndale porque ele trabalhou usando como base a
Vulgata para examinar a edição de Tyndale, em vez de usar os originais
gregos e hebraicos.
Uma mudança não autorizada na edição de Joye foi um grande
afastamento da teologia de Tyndale. E criou uma tempestade de
controvérsia. Joye alterou a palavra ressurreição usada por Tyndale,
mudando-a em a vida depois desta vida ou vida verdadeira em cerca de 20
passagens. Na época, havia uma disputa entre alguns dos reformadores
sobre a ideia de “sono da alma” como um estado intermediário da alma. Joye
negava que o crente vai imediatamente para a presença de Deus.
Estas mudanças na tradução de Tyndale afetaram adversamente a
percepção pública de sua postura doutrinária. Tyndale negava este ensino e
produziu um segundo prólogo à sua edição do Novo Testamento de 1534,
acusando Joye de negar a ressurreição corporal. Tyndale reteve a palavra
ressurreição no texto desta sua nova edição.
Formato de Impressão

Como fizera com o Pentateuco quatro anos antes, Tyndale escolheu a


agitada cidade de Antuérpia para imprimir e publicar o Novo Testamento de
1534. Este atarefado centro comercial oferecia a Tyndale a vantagem de um
centro de negócios florescente com vários comerciantes ingleses. Nesta
metrópole do século XVI, Tyndale permaneceu facilmente não detectado.
Antuérpia possuía também vários tipógrafos dentre os quais Tyndale
poderia escolher para este importante empreendimento. Afastando-se do
tipógrafo que escolhera para o seu Pentateuco de 1530, Tyndale contratou
os serviços de um homem francês chamado Martin de Keyser.
A revisão foi impressa em formato in-oitavo. Media 15 cm de altura, 10
cm de largura e 4 cm de espessura. Era um volume robusto, de bolso e
pequeno suficiente para acomodar na mão. Embora fosse de tamanho
pequeno, era um volume substancial de 400 páginas. Esta edição foi
impressa em tipo gótico, em vez do tipo romano que Tyndale usara nas
traduções anteriores, com uma generosa moldura branca. As margens
exteriores tinham 2,5 cm de largura, contendo múltiplas notas explicativas e
referências correlatas, e as margens do topo e da base eram espaçosas. As
margens interiores continham letras de seção que indicavam as divisões de
parágrafo. No topo de cada página, aparecia o nome do livro específico,
ajudando o leitor a achar um texto específico. O número de cada capítulo era
escrito por extenso, em vez de ser escrito em numerais romanos. Afinal de
contas, a audiência primária de Tyndale era os comerciantes e agricultores
da Inglaterra, não os eruditos das universidades.
A técnica de impressão no século XVI continuava a progredir com nova
tecnologia. Os donos de gráficas usavam uma grande folha de papel dobrada
de uma a cinco vezes, dependendo do tamanho desejado para o livro
impresso. Cada folha seria impressa em ambos os lados. O livro mais simples
a se produzir era o fólio, que envolvia apenas uma dobra da folha grande.
Isto criava duas folhas impressas na frente e no verso, produzindo quatro
páginas de texto. Uma folha dobrada duas vezes era conhecida como quarto,
fazendo oito páginas de texto em quatro folhas. Um oitavo era uma folha
dobrada três vezes, produzindo dezesseis páginas de texto em oito folhas.
Tyndale escolheu o formato oitavo para seu tamanho compacto, que
permitia ao possuidor carregar imperceptivelmente a Bíblia. Esta versão
menor era também mais fácil de esconder em fardos de algodão para ser
contrabandeada para a Inglaterra.
Página de Título

O Novo Testamento de 1534 precisava ser distinguido das edições não


autorizadas da tradução de Tyndale de 1526. Para proteger contra qualquer
erro de identidade, Tyndale não seguiu sua prática anterior e incluiu uma
página de título que levava seu nome completo. Não havia dúvida quanto a
Tyndale ser o tradutor e editor. A página inteira de título identificava-o
desta maneira:

O NOVO TESTAMENTO
Corrigido e comparado diligentemente com o grego
Por
WILLIAM TYNDALE
E terminado no ano de nosso Senhor Deus
A. 1534
No mês de novembro167

Com sua data de novembro de 1534, esta edição é, às vezes, referida como
o Novo Testamento de Novembro. Esta nomenclatura é semelhante ao Novo
Testamento alemão de Martinho Lutero, conhecido como o Testamento de
Setembro, porque foi impresso em setembro de 1522. Embora tenha
identificado a si mesmo como o tradutor, Tyndale resolveu inventar o nome
do publicador na página de título, que dizia: “Impresso em Antuérpia por
Martin Emperor, Ano 1534”.
Prólogos de Abertura

Na frente desta edição de 1534, Tyndale colocou primeiramente dois


prólogos introdutórios que abordam a natureza de sua tradução do Novo
Testamento. O primeiro prólogo começa por identificar o tradutor e editor
com as iniciais “W. T.”, uma referência inconfundível a William Tyndale. O
prólogo é intitulado “W. T. ao Leitor”.168 Ele explica cuidadosamente como
esta versão específica é uma edição aprimorada em comparação com sua
obra anterior. O primeiro prólogo começa assim:

Aqui você tem, querido leitor, o Novo Testamento ou aliança que Deus fez conosco no
sangue de Cristo, que examinei de novo, agora finalmente, com toda a diligência, e o
comparei com o grego, e removi dele muitos erros, que, por falta de ajuda e supervisão no
início, estavam contidos nele.169

Tyndale se referiu também à maneira apropriada de traduzir de uma


língua para outra. Deu uma explicação de sua obra de tradução com tempos
verbais do grego para o inglês:

Se alguma coisa parece mudada ou não concorda totalmente com o grego, que o descobridor
do erro considere a expressão ou maneira de falar hebraica, deixada em palavras gregas, cujos
tempos pretérito e presente são, ambos, frequentemente um, e o tempo futuro é também o
modo optativo, e o tempo futuro é frequentemente o modo imperativo na voz ativa e, na
passiva, sempre. De modo semelhante, pessoa por pessoa, número por número e
interrogação por uma condicional, e coisas semelhantes, são para os hebreus usos
comuns.170

Voltando sua atenção para o assunto de suas notas explicativas colocadas


nas margens exteriores, Tyndale descreveu os benefícios de tais notas em
ajudar o leitor a entender um versículo específico ou em mostrar sua
relevância. Ele escreveu: “Coloquei também, em muitos lugares,
esclarecimentos na margem para, por meio deles, oferecer compreensão do
texto”.171 Como na primeira edição, Tyndale repetiu seu convite a que os
leitores apresentassem quaisquer correções que precisassem ser feitas.

Se pessoas acharem erros, quer na tradução, quer em outros textos (o que é mais fácil para
muitos fazerem do que traduzi-lo originalmente, com sua prolífica inteligência, sem um
exemplo), a esses é lícito traduzir eles mesmos e colocar o que desejarem. Se eu perceber, por
mim mesmo e pela informação de outros, que algo me escapou ou pode ser traduzido com
mais clareza, farei que isso seja corrigido rapidamente.172

Tyndale não concluiu o prólogo sem afirmar explicitamente a verdadeira


natureza do evangelho. Ele escreveu: “O evangelho é as boas novas de
misericórdia e graça e de que nossa natureza corrupta será curada
novamente por causa de Cristo e somente pelos méritos de sua
dignidade”.173 O evangelho da graça é recebido exclusivamente pela fé
apenas em Jesus Cristo. A fé salvadora, Tyndale argumentou, não é uma
mera confissão a um sacerdote, e sim o compromisso total da vida de uma
pessoa com Cristo. Ele afirmou:

Confissão, não ao ouvido de um sacerdote (pois isso é apenas invenção do homem), mas a
Deus, no coração, e diante de toda a congregação de Deus; de como somos pecadores e
pecaminosos, que toda a nossa natureza é corrupta, inclinada para o pecado e toda a injustiça
e, portanto, má, ímpia e condenável.174

Em adição ao seu primeiro prólogo, Tyndale incluiu um segundo prólogo


ao Novo Testamento. Começa assim: “William Tyndale, Novamente ao
Leitor cristão”.175 Identificando-se não apenas com as iniciais, mas com o
nome completo, Tyndale estava decidido a abordar a apresentação errônea e
desonesta que George Joye fizera ao imprimir uma versão não autorizada.
Ele explicou que nunca havia aprovado as muitas mudanças feitas por Joye.
Este prefácio era um “violento protesto contra Joye”.176 Tyndale asseverou:

George Joye não usou o expediente de um homem honesto, pois sabia que eu mesmo estava
envolvido em corrigir o texto; também não andou segundo as regras de amor e brandura que
Cristo e seus discípulos nos ensinam, como a de que não devemos fazer nenhum esforço para
promover conflito, ou por vanglória, ou por cobiça... quando a minha impressão estava quase
terminada, alguém me trouxe um exemplar e me mostrou tantos lugares alterados com
muitas sagacidades, que fiquei admirado e me perguntei que grande fúria o havia compelido
a fazer tamanha mudança e chamá-la de correção diligente.177

No âmago desta controvérsia, Tyndale se sentiu constrangido a esclarecer


que as mudanças feitas por Joye em substituir ressurreição por vida depois
desta vida eram obviamente desonestas:

Pois continuamente em Mateus, Marcos e Lucas, e frequentemente em Atos, e, às vezes, em


João, e também em Hebreus, onde ele acha esta palavra ressurreição, ele a muda para a vida
depois desta vida, ou vida verdadeira, ou algo semelhante, como alguém que detesta o nome
da ressurreição... Mas nisto eu confronto Joye: ele não colocou seu próprio nome na
tradução e a chamou de sua própria tradução; ele dissimulou a verdade.178

O biógrafo J. E. Mozley estava correto quando escreveu: “A principal


queixa de Tyndale... foi que Joye não tinha nenhum direito de impor sua
própria interpretação no Novo Testamento de Tyndale e de constranger seu
irmão com traduções que ele desaprovava fortemente”.179 Onde envolvesse
a sua teologia, Tyndale queria colocar o texto franco. Ele discordava
veementemente da ideia doutrinária do “sono da alma” e almejava corrigir
esse mal-entendido nesta sua revisão bíblica.
Nesta edição, cada livro do Novo Testamento tem seu próprio prólogo,
com a exceção de Atos e Apocalipse. A maioria dos livros e dos prólogos tem
ilustrações no alto que variam em tamanho. A Epístola aos Romanos recebe
a abordagem mais extensa, sendo quase tão extensa quanto a própria
epístola. Os outros prólogos são “na maioria bem curtos”,180 cerca de uma
página de extensão.
O prólogo à Epístola de Paulo aos Romanos estabelece de modo
inconfundível Tyndale como um teólogo e comentador bíblico capaz. Ele
começa por apresentar um exame, capítulo por capítulo, da mensagem
essencial do livro de Romanos e uma sinopse doutrinária do evangelho.
Todos os 16 capítulos de Romanos têm resumos individuais escritos por
Tyndale:

Visto que esta epístola é a principal e a mais excelente parte do Novo Testamento e o mais
puro evangelho, ou seja, boas novas... e também é uma luz e um caminho para toda a
Escritura, acho apropriado que todo cristão não somente a conheça, de memória e sem o
livro, mas também se exercite nela mais continuamente, como o pão diário de sua alma. É
impossível alguém lê-la demasiadamente ou estudá-la excessivamente bem; pois, quanto
mais ela é estudada, tanto mais fácil ela é; quanto mais é meditada, tanto mais agradável ela
é; e, quanto mais profundamente é examinada, tanto mais coisas preciosas são achadas nela
– tão grande tesouro de coisas espirituais está oculto nela.181

Coerente com a doutrina reformada, Tyndale afirma ousadamente que o


poder do evangelho é totalmente suficiente para mudar a vida do homem.
Enfatizando a primazia do evangelho conforme afirmado claramente na
Escritura divinamente inspirada, ele assevera que a Epístola aos Romanos
contém uma mensagem vivificadora e de transformação para todos os que a
leem e obedecem às suas palavras. Quando a Palavra é pregada e recebida
pela fé, ela liberta aqueles que estão presos nas trevas por Satanás: “Quando
cremos nas boas notícias que são pregadas a nós, o Espírito Santo entra em
nosso coração e solta os laços do Diabo, que antes possuía e mantinha nosso
coração em cativeiro”.182 A fé que é exigida para crer no evangelho é uma fé
viva e ativa que confia totalmente em Deus. Por consequência, a verdadeira
fé leva a pessoa a entregar sua vida a Jesus Cristo. De acordo com Tyndale, o
resultado da fé genuína no coração é alegria abundante:

A fé é, portanto, um confiança firme e inabalável no favor de Deus, pela qual nos entregamos
completamente a Deus; e essa confiança está tão seguramente arraigada e se prende tão
firmemente em nosso coração, que um homem não duvida dela, ainda que venha a morrer
milhares de vezes por isto. E essa confiança, operada pelo Espírito Santo por meio da fé,
torna o homem alegre, entusiasta, animado e sincero para com Deus e todas as criaturas.183
Trabalho de Tradução

A parte mais importante do Novo Testamento revisado de Tyndale é seu


meticuloso trabalho de tradução. J. F. Mozley, biógrafo de Tyndale, escreve:
“A principal glória do segundo Novo Testamento não está em seus
acessórios, mas no próprio texto. Este foi completa e cuidadosamente
revisado”.184 A proficiência de Tyndale em traduzir o grego para o inglês
revelou seu brilhantismo. Quase nove anos depois da tradução de 1526, o
entendimento de Tyndale sobre a língua grega havia progredido e
amadurecido firmemente. Enquanto estudava hebraico, entre 1526 e 1530,
ele continuou a aprimorar suas habilidades em grego. Daniell escreve que o
conhecimento de hebraico de Tyndale lhe deu “discernimento quanto ao
grego como nenhum outro erudito ou tradutor possuía naquele tempo”.185
A perícia linguística de Tyndale o colocou “bem adiante de qualquer outro
erudito na Europa”, comenta Daniell, além “até mesmo de Philip
Melanchthon, o mais importante professor de grego em Wittenberg”.186
Tyndale trabalhou em “alto nível como um tradutor de grego”187 e era “um
erudito de categoria suprema, guiando toda a Europa em seu conhecimento
de grego”.188
Comentando sobre as inúmeras mudanças que Tyndale fez nesta edição,
Westcott escreveu:

Às vezes, as mudanças são feitas para garantir uma concordância mais próxima com o grego;
às vezes, para ganhar uma tradução mais dinâmica e mais idiomática; às vezes, para
preservar uma uniformidade correta; às vezes, para introduzir uma nova interpretação. As
laudas das mudanças que ele fez são um testemunho singular quanto à diligência com a qual
Tyndale trabalhou em sua obra designada. Nada parecia trivial para ele.189

Fiel ao texto, Tyndale escrutinizou cada palavra e removeu quaisquer


termos católicos que haviam sido impropriamente traduzidos para o latim.
Esses erros de tradução portavam séculos de bagagem teológica que
pervertia o verdadeiro significado do texto. Por exemplo, Tyndale substituiu
igreja por congregação. Substituiu sacerdote por ancião (1526) e, depois,
presbítero (1534). Escolheu arrepender em lugar de fazer penitência e
reconhecer em lugar de confessar. Estas mudanças solaparam drasticamente o
falso sacerdotalismo de Roma que prevalecera nos mil anos anteriores. Um
reformador genuíno, Tyndale escolheu ser fiel ao texto bíblico, apesar do
inevitável julgamento de Roma.
A influência duradoura do trabalho de Tyndale pode ser vista nas muitas
frases familiares que ele elaborou. Entre elas estão: não nos deixes cair em
tentação, mas livra-nos do mal; batei, e abrir-se-vos-á; abrir e fechar de olhos;
num momento; buscai e achareis; não julgueis para que não sejais julgados; haja
luz; as autoridades que existem; o tutor de meu irmão; o sal da terra; lei para si
mesmos; lucro desonesto; aconteceu que; rendeu o espírito; os sinais dos tempos; o
espírito está pronto; vivemos, nos movemos e existimos; e combater o bom
combate. As adaptações destas frases se tornaram expressões permanentes
para as pessoas de fala inglesa no decorrer dos séculos.
Mozley lista exemplos de aprimoramentos feitos por Tyndale na edição
de 1534. A fraseologia da edição de 1534 aparece primeiro, e a versão de
1526 segue em parêntesis. As palavras mudadas estão em itálico. Dos
evangelhos até Atos, as seguintes mudanças são destacadas:

Mateus 1.18. Maria estava desposada (casada) com José.


Mateus 5.9. Bem-aventurados são os pacificadores (mantenedores de paz).
Mateus 8.26. Ó vós, de (dotados de) pequena fé.
Mateus 11.29. E achareis descanso (alívio) para vossa alma.
Marcos 7.11. Corbã, que (isso) é: Aquilo que desejas de mim para te ajudar é dado a Deus. (Aquilo
que eu ofereço, isso mesmo é benéfico para ti.)
João 1.1: No princípio era a (aquela) palavra, e a (aquela) palavra estava com Deus, e a palavra
era Deus (Deus era aquela palavra).
João 20.27. Não sejas incrédulo mas crente (sem fé mas crê).
Atos 7.60. Senhor, não lhes atribuas este pecado (não lhes imputes este pecado).
Atos 19.27. Mas que também (também que) o templo da grande deusa (omite deusa) Diana seja
desprezado, e sua magnificência (majestade) seja destruída.190

Tyndale fez também revisão e correções adicionais em seu trabalho nas


epístolas e Apocalipse. Novamente, a edição de 1534 é escrita primeiro,
seguida pela edição de 1526 em parêntesis. Os itálicos indicam a correção de
Tyndale.

1 Coríntios 5.11. Mas, agora, eu vos escrevo (tenho escrito).


1 Coríntios 15.51. Eu vos mostro um mistério (um mistério a vós).
Efésios 5.19. Falando entre vós com salmos, hinos e canções espirituais, cantando e fazendo
melodia (tocando) ao Senhor em vosso coração.
Filipenses 2.12. Desenvolvei (realizai) a vossa salvação (saúde) com temor e tremor.
Hebreus 5.7. Tendo sido ouvido por causa da sua piedade (foi reverente a Deus).
Hebreus 12.16. Esaú, o qual, por uma refeição, vendeu seu direito de primogenitura (seu direito
que lhe pertencia porque era o irmão mais velho).
Hebreus 13.14. Não temos aqui cidade permanente: mas buscamos uma (uma cidade) por
vir.191
Tiago 5.12. Seja o vosso sim sim, e o vosso não não (dizer seja sim sim, não não).
1 Pedro 2.19. Porque isto é digno de graça (vem da graça), que alguém, por causa de sua
consciência para com Deus, suporte tristeza, sofrendo injustamente.
Apocalipse 13.5. Poder lhe foi dado para fazer (continuar) por quarenta e dois meses.

Na forma literária, a tradução de Tyndale para o inglês produziu um estilo


prosaico bonito. Seu uso da língua inglesa se afastou dos modos formais de
expressão medieval, pois este gênero antigo era muito requintado para o
homem comum ler com clareza, entendimento ou prazer. Em vez disso, a
técnica de tradução de Tyndale produziu um texto claro, legível e direto que
era majestoso em sua redação e fraseologia, mas facilmente compreensível.
Como ele dissera antes, era um livro para o lavrador.
Notas Marginais

Uma característica distintiva da edição de 1534 foi o acréscimo de notas


explicativas nas margens exteriores. A versão de 1526 não continha notas
marginais. Ao explicar um versículo, Tyndale considerava o contexto mais
amplo de uma passagem. Em harmonia com outros reformadores, ele
acreditava que a Escritura só pode ser entendida no contexto. Algumas das
notas marginais têm um foco teológico e conectam uma doutrina com a
estrutura mais ampla de todo o cânon da Escritura. Este método é chamado
analogia da Escritura. Em outras palavras, a Escritura interpreta melhor a
Escritura. Tyndale rejeitava o método alegórico de interpretação e, em seu
lugar, escolheu descobrir o significado claro da Escritura. Em seguida, há
exemplos de suas notas marginais:

Mateus 16.21. Quando dizem ou fazem algo que deveria levar ao orgulho (ou seja, a
confissão de Pedro), Jesus os frustra com a afirmação de sua morte e paixão.192
1 Coríntios 7.26. Se um homem tem o dom, a castidade é boa, para servir a Deus mais
tranquilamente; pois o homem casado tem frequentemente muito mais dificuldades; mas, se
a mente do casto ficar sobrecarregada com outros negócios mundanos, que proveito há
nisso? E, se o homem casado for mais tranquilo neste estado, que mal há nisso? Nenhuma
destas condições é, de si mesma, melhor do que a outra ou agrada a Deus mais do que a
outra. Nem a circuncisão exterior, nem o batismo exterior têm, em si mesmos, valor algum,
exceto que nos trazem à lembrança que devemos guardar a aliança feita entre nós e Deus.193
2 Coríntios 11.20. (Tolerais quem vos escravize, quem vos devore, etc.) Mansidão e
obediência exageradas não são permitidas no reino de Deus, mas tudo deve ser de acordo
com o conhecimento.194
1 Tessalonicenses 4.11. (Diligencieis por viver tranquilamente, cuidar dos vossos próprios
negócios e trabalhar com as próprias mãos.) Uma boa lição para monges e frades ociosos.195
1 Pedro 2.5. (Casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios
espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.) Somos esta igreja, e a
obediência de coração é o sacrifício espiritual. O sacrifício do corpo deve ser oferecido ao
nosso próximo; pois, se você o oferece a Deus, faz dele um ídolo corporal.196
1 Pedro 4.8. (O amor cobre multidão de pecados.) Odeie fazer de qualquer trivialidade um
pecado, mas ame não atentar para coisas insignificantes e suporte todas as coisas.197
As notas da edição de 1534 são menos polêmicas do que as da edição
anterior de Tyndale e menos severas do que as notas de Lutero em seu Novo
Testamento de 1525. Tyndale escolheu primariamente explicar o texto
bíblico e abordar questões do viver cristão diário, relacionadas a passagens
específicas. Tyndale afirmou as doutrinas essenciais da Reforma, como a
justificação pela fé, e também sustentou que a verdadeira fé dá evidência em
boas obras. Ele exortou repetidas vezes o leitor a obedecer e seguir a Palavra.
Edição de 1535

A nova edição de 1534 do Novo Testamento de Tyndale se esgotou


rapidamente, quando chegou às praias da Inglaterra. Dentro de um mês de
sua publicação, em novembro de 1534, a edição seguinte já estava sendo
impressa e oferecida para venda no início de 1535. Os evangelhos foram
impressos no final de 1534, e o restante do Novo Testamento, no início de
1535.
Esta edição de 1535 do Novo Testamento continha duas páginas de
título, cada um com data diferente. A primeira página é datada de 1534,
quando os evangelhos foram impressos. A segunda página de título é datada
de 1535, quando os demais livros foram impressos, e diz: “O Novo
Testamento corrigido novamente por William Tyndale, 1535”. Nesta edição,
as iniciais “G. H.” também aparecem na página de título. Estas letras
representam o nome do publicador, “Godfrey van der Haghen”. Martin de
Keyser fora outra vez o tipógrafo. Nesta versão, Tyndale faz mais correções à
edição de 1534, visto que procurava constantemente fidelidade e exatidão
para com o texto bíblico.
Tyndale fez mais de 350 correções neste seu Novo Testamento de 1535, e
a maioria delas, de pouca importância. Também fez mudanças em sua
tradução dos primeiros cinco livros do Antigo Testamento. Ele estava
continuamente aprimorando sua tradução, para ser o melhor que pudesse.
Exemplos destas correções são os seguintes:

João 8.44. Quereis fazer (seguir) os desejos de vosso pai.


1 Coríntios 15.10. Trabalhei muito mais do que todos eles; todavia (omite), não eu.
Filipenses 2.4. Cada homem considere não as suas próprias coisas, mas cada homem, as coisas dos
outros homens (1535). E que nenhum homem considere o que é seu próprio, e sim o que é
conveniente para o outro (1534).
Hebreus 9.22. Sem derramamento (efusão) de sangue não há remissão.
Tiago 1.27. Visitar os órfãos (sem amigos) e viúvas nas suas tribulações.198
Esta edição de 1535 foi a revisão final de Tyndale em seu Novo
Testamento. Hoje existem apenas quatro exemplares desta edição. Cada um
deles é incompleto, e somente um ainda possui a primeira página de título,
identificando-o como obra de William Tyndale. John Rogers usou a edição
de 1535 para compilar sua Bíblia Matthew. Como resultado, foi esta última
edição que se tornou “o fundamento de nossa versão inglesa padrão”.199
O período de tremenda produtividade de Tyndale estava chegando
rapidamente ao fim. Ele não veria outra edição de seu Novo Testamento,
nem veria publicada a sua tradução dos livros históricos do Antigo
Testamento. Dentro de três meses, este servo fiel seria detido e lançado na
prisão. Não haveria libertação deste aprisionamento. Depois de um ano e
meio de confinamento, Tyndale caminharia para a estaca de martírio.

164. Iain H. Murray, David Martyn Lloyd-Jones: The Fight of Faith, 1939-1981 (Edinburgh, Scotland:
Banner of Truth, 1990), 2:355.
165. Brooke Foss Westcott, A General View of the History of the English Bible (New York: Macmillan,
1916), 141.
166. David Daniell, William Tyndale: A Biography (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1994),
319.
167. William Tyndale, Tyndale’s New Testament, editado e com uma introdução por David Daniell
(New Haven, Conn.: Yale University Press, 1989), 1.
168. Ibid., 3.
169. William Tyndale, The Works of William Tyndale (1848–50; repr., Edinburgh, Scotland: Banner of
Truth, 2010), Works, 1:468.
170. Ibid.
171. Ibid.
172. Ibid.
173. Tyndale’s New Testament, editado e com uma introdução por David Daniell (New Haven, Conn.:
Yale University, Press, 1989), 8.
174. Tyndale, Works, 1:477.
175. Tyndale’s New Testament, 13.
176. J. F. Mozley, William Tyndale (1937, repr.; Westport, Conn.: Greenwood, 1971), 282-83.
177. Tyndale’s New Testament, 13.
178. Ibid.
179. Mozley, 282-83.
180. Ibid., 285.
181. Tyndale’s New Testament, 207.
182. Tyndale, Works, 1:488.
183. Ibid., 1:493.
184. Mozley, 287.
185. Daniell, William Tyndale, 317.
186. Ibid., 318-19.
187. Ibid., 319.
188. Ibid.
189. Westcott, 144-45.
190. Conforme listadas por Mozley, 286-87.
191. Conforme listadas por Mozley, 286-87.
192. Tyndale’s New Testament, 42.
193. Ibid., 250.
194. Ibid., 271.
195. Ibid., 302.
196. Ibid., 328.
197. Ibid., 330.
198. Conforme listadas por Mozley, 291-92.
199. Mozley, 292.
CAPÍTULO 7

Os Livros Históricos
As traduções bíblicas de William Tyndale têm sido os segredos mais bem
guardados na história da Bíblia inglesa. Muitas pessoas já ouviram sobre
Tyndale: bem poucos o leram. Mas, nenhum outro inglês – nem mesmo
Shakespeare – alcançou tanto.200
— DAVID DANIELL

D eterminado a atingir o alvo de dar a Palavra de Deus ao povo inglês,


William Tyndale prosseguia continuamente na obra de Deus. A
adversidade que ele enfrentou foi desanimadora, e os perigos com que se
deparou foram ameaçadores da vida. Apesar disso, como um homem de
perseverança admirável, Tyndale persistiu em sua missão. Resoluto em seus
labores, Tyndale não cessaria até que houvesse traduzido toda a Bíblia para o
inglês e ela fosse colocada nas mãos de pessoas comuns, em sua terra amada.
Com tenacidade obstinada, Tyndale não poderia parar até que o laço o
estrangulasse e o fogo o consumisse.
Uma vida de grandeza é marcada muito frequentemente por um espírito
indomável. Indivíduos de caráter mais fraco desistem muito rapidamente
quando seu caminho é obstruído. Mas aquele que deixa marcas indeléveis
gravadas no mundo é distinguido por determinação implacável mesmo em
face de censura e antagonismo. William Tyndale foi esse tipo de homem, um
personagem destemido, com resolução inabalável.
Havendo traduzido apenas os primeiros cinco livros do Antigo
Testamento (1536) e Jonas (1531), Tyndale tinha diante de si todo o vasto
território do restante do Antigo Testamento, implorando por ser libertado
da velha obscuridade. Isto incluía os Livros Históricos, os Livros Poéticos e o
restante dos Profetas. O foco deste capítulo é o trabalho final que Tyndale
completou antes de sua prisão e martírio.
Permanecendo em Antuérpia

Havendo revisado a terceira edição do Novo Testamento em 1534-35,


Tyndale resolveu permanecer em Antuérpia para continuar sua obra de
tradução. Como mencionamos no capítulo anterior, Antuérpia se tornara o
principal centro comercial na Europa e tinha uma considerável população de
empresários ingleses. O tráfego intenso da cidade oferecia a Tyndale
ocultação segura para preservar seu anonimato durante seu projeto; e os
comerciantes da cidade proviam os meios para embarcar facilmente seus
trabalhos.
Nesta cidade florescente, havia um número abundante de tipógrafos
dentre os quais Tyndale poderia fazer escolha. Este lugar estratégico oferecia
o acesso aquático fácil e necessário para transportar as Bíblias em navios, a
fim de serem contrabandeadas para a Inglaterra. Além disso, Tyndale tinha
uma familiaridade com Antuérpia que lhe permitiu continuar agindo com
certo grau de tranquilidade. Por essas razões, Tyndale continuou a sediar sua
operação em Antuérpia.
Alguns comerciantes ingleses que haviam mudado para Antuérpia eram
simpáticos à causa da Reforma. Um desses empresários, Thomaz Poyntz,
proveu acomodação para Tyndale numa hospedaria chamada Casa Inglesa.
Nesta hospedaria, Tyndale achou refúgio e um lugar tranquilo para realizar
seu trabalho de tradução.
Poyntz era um comerciante de North Ockendon e, com sua esposa,
hospedou graciosamente Tyndale quando ele foi pela primeira vez a
Antuérpia. A conexão vinha por meio de Lady Anne Walsh, a quem Thomas
Poyntz estava relacionado e cuja família Tyndale servira anos antes,
enquanto estava na Inglaterra, na propriedade deles, Little Sodbury. Depois
de sair de Cambridge, Tyndale havia servido como capelão e tutor para a
família Walsh. Por meio de Tyndale, Sir John e Lady Anne Walsh se
tornaram convictos da doutrina reformada e deram dinheiro para apoiar e
promover os esforços de Tyndale enquanto esteve na Europa.
Durante a estadia de Tyndale na hospedaria, Poyntz lhe foi uma grande
ajuda. Poyntz deu a Tyndale um lugar para viver e estudar, a fim de
aprimorar suas habilidades linguísticas e levar avante sua enfadonha obra de
tradução. Os Poyntz mantiveram o sigilo de Tyndale e lhe deram
encorajamento e conselho necessários à medida que seu trabalho prosseguia.
Livros Históricos

Tyndale nunca se afastou de seu alvo de traduzir o restante do Antigo


Testamento para o inglês. Havendo completado os primeiros cinco livros do
Antigo Testamento e Jonas, ele se dedicou a traduzir os oito livros seguintes
ao Pentateuco, começando com Josué. Ele prosseguiu consecutivamente por
esta seção do Antigo Testamento, livro por livro, capítulo por capítulo e
versículo por versículo até completar 2 Crônicas. Esta tradução coincidiu
com suas revisões do Novo Testamento.
A tradução dos Livros Históricos foi um desafio maior do que a tradução
do Pentateuco, devido à sintaxe e ao vocabulário dos livros. O livro de
Gênesis tinha um vocabulário hebraico limitado e uma sintaxe bem
elementar, e isso fez o trabalho de tradução menos árduo. Por outro lado, o
vocabulário dos Livros Históricos era muito amplo e sua sintaxe muito mais
exigente; isso tornou mais difícil o trabalho de Tyndale em traduzi-los em
inglês compreensível. Por exemplo, os livros de Samuel e Reis usam
frequentemente palavras raras, uma tendência que criou dificuldade para
Tyndale em traduzir os versículos com exatidão e de modo compreensível
para o leitor comum.
Tyndale enfrentou também o desafio de traduzir as longas listas contidas
nos livros Históricos de uma maneira que não perdesse a atenção e o
interesse do leitor. Quando a mesma palavra hebraica era usada múltiplas
vezes no mesmo contexto, Tyndale procurava usar palavras alternadas em
inglês para manter a cadência do leitor num passo relativamente rápido. Ele
acreditava que sinônimos ajudavam em reter a atenção do leitor. Por
exemplo, o erudito David Daniell ressalta que Tyndale traduziu a preposição
hebraica tahtaw de várias maneiras, incluindo “em seu canto”, “em sua
posição”, “em seu lugar”.201 Dependendo do contexto, Tyndale também
traduziu a palavra hebraica mahaloqet como “número”, “hoste”, “parte” ou
“companhia”. O uso destas palavras alternadas oferecia ao leitor variedade e
interesse visual.
John Rogers

Em 1534, enquanto Tyndale trabalhava incessantemente em sua


tradução dos Livros Históricos, um inglês chamado John Rogers chegou a
Antuérpia. Nascido em 1500 e educado em Pembroke Hall, Cambridge,
Rogers se tornou um pároco na igreja católica Holy Trinity the Less, em
Londres. Depois, ele viajou para Antuérpia a fim de ser o capelão para os
mercadores ingleses da Companhia de Aventureiros Comerciantes. Este
grupo era formado de empresários ingleses que viviam juntos na grande
hospedaria da família Poyntz. Esta residência oferecia um abrigo seguro para
seus habitantes, que estavam longe de casa. Simpáticos à religião, estes
homens associaram seus recursos e contrataram Rogers para servir como
seu capelão, enquanto estavam no estrangeiro.
Rogers se mudou para esta nova capelania e logo conheceu Tyndale. O
relacionamento deles foi mutuamente benéfico. Tyndale se tornou uma
forte influência espiritual sobre Rogers e, por fim, levou Rogers a abraçar a
graça salvadora de Cristo e a se converter ao protestantismo. Se Rogers foi
convertido enquanto esteve com Tyndale ou logo depois da morte de
Tyndale, isso é difícil determinar. No entanto, por meio da influência de
Tyndale, Rogers abandonou seu dogma católico romano e chegou à fé
somente em Jesus Cristo. Como John Foxe relata, neste tempo Rogers
“lançou fora o pesado jugo do papado”.202
Rogers desempenharia um papel importante em promover a obra vital de
Tyndale, a tradução da Bíblia. Em 1537, Rogers publicou todo o conjunto do
trabalho de tradução de Tyndale no que se tornou conhecido como a Bíblia
Matthew. Hughes Oliphant Old comenta: “Rogers foi o herdeiro de Tyndale
no que diz respeito àquela mui importante obra de erudição cristã”.203
Rogers se tornou o primeiro mártir a perecer sob o reinado de Maria, a
Sanguinária, por isso “ele foi o herdeiro de Tyndale também no martírio”.204
Tyndale Preso

Depois de traduzir de Josué a 2 Crônicas, Tyndale foi preso devido ao


embuste de um traidor. Um inglês chamado Harry Phillips havia chegado a
Antuérpia no início do verão de 1535, sob o compromisso de achar Tyndale e
levar o governo e os oficiais da igreja a prendê-lo. Phillips perdera uma
enorme quantidade do dinheiro de seu pai, na Inglaterra, e estava
desesperado para recuperar a fortuna perdida. A Igreja Católica se serviu da
situação e ofereceu pagar-lhe uma boa recompensa em troca de sua ajuda
para prenderem Tyndale. Ao chegar, Phillips fez os contatos necessários que
o levaram à hospedaria de Poyntz. Tornou-se rapidamente amigo de
Tyndale, ganhando sua confiança. Poyntz advertiu Tyndale a respeito de
Phillips, mas Tyndale se manteve ingênuo quanto às táticas secretas de
Phillips.
Depois de haver terminado sua tradução dos oito Livros Históricos,
Tyndale baixou sua guarda para com Phillips e se tornou como um cordeiro
levado ao matadouro. Numa noite, enquanto caminhavam para jantar,
Tyndale e Phillips entraram numa viela perto da hospedaria de Poyntz.
Phillips insistiu que Tyndale caminhasse à frente dele pela viela, onde, por
acerto antecipado, soldados o esperavam, escondidos, em cada lado de um
portal. Quando o seguiu pela viela, Phillips apontou para Tyndale a fim de
indicar que ele era a pessoa que os soldados deveriam prender. Os soldados
agarraram Tyndale e o colocaram em detenção. Depois de ser um fugitivo
por 12 anos, ele se achava então sob a custódia dos oficiais.
Neste momento caótico, o quarto de Tyndale na hospedaria foi revistado
e suas posses, confiscadas. Providencialmente, Rogers havia apanhado a
obra não publicada de Josué a 2 Crônicas e escapara em segurança. Rogers
tinha agora em mãos todo o conjunto do trabalho de tradução, incluindo
todo o Novo Testamento e o trabalho de Tyndale no Antigo Testamento.
Além disso, ele possuía os prólogos de Tyndale, as notas marginais e as
tabelas de palavras para cada livro traduzido. Tyndale foi levado para o
castelo de Vilvoorde e aprisionado ali por um ano e meio. Foi amarrado a
uma estaca, estrangulado e queimado em 1536 por causa de seus esforços
em traduzir a Palavra de Deus para a língua inglesa.
A Bíblia Matthew

Em 1537, o ano seguinte ao martírio de Tyndale, John Rogers compilou,


editou e imprimiu a Bíblia Matthew, assim chamada porque foi publicada
sob o pseudônimo Thomas Matthew. Tyndale não viveu para ver impressa a
totalidade de seu trabalho de tradução. Rogers vestiu o manto de Tyndale e
publicou o que seu mentor havia completado. Rogers não foi o tradutor
neste projeto, mas, em vez disso, agiu como um editor geral que coletou e
publicou esta versão inglesa da Bíblia, com pequenas modificações.
A Bíblia Matthew foi a obra conjunta de três indivíduos. Este trio
dinâmico era William Tyndale, John Rogers e Miles Coverdale. Todo o Novo
Testamento foi obra exclusiva de Tyndale. Seu Novo Testamento foi
publicado, por completo, primeiramente em 1526 e, depois, revisado e
impresso duas vezes, em 1534 e 1535. O Pentateuco foi também a obra
exclusiva de Tyndale, impresso primeiramente em 1530 e, depois, revisado
em 1535. O livro de Jonas foi provavelmente traduzido por Tyndale e
impresso em 1531. Somados a este, foram os livros de Josué a 2 Crônicas,
traduzidos por Tyndale em 1535. Estes livros constituíram a obra de toda a
vida do inimitável William Tyndale.
Completando a obra de Tyndale na Bíblia Matthew, estava a tradução do
Antigo Testamento feita por um erudito que ele conheceu enquanto esteve
em Oxford, Miles Coverdale. Este inglês traduziu toda a Bíblia para o inglês e
a publicou como a Bíblia um ano antes do martírio de Tyndale, em 1535. Foi
a primeira Bíblia impressa em língua inglesa que continha tanto o Antigo
quanto o Novo Testamento. Foi aprovada oficialmente por Henrique VIII,
que autorizou sua distribuição “entre todas as pessoas”. Entretanto, as
traduções de Coverdale se baseavam em latim e alemão, e não no original
hebraico e grego, como a obra mais precisa e mais erudita de Tyndale.
Em adição à tradução de Tyndale no Pentateuco, Josué a 2 Crônicas e
Jonas, John Rogers compilou o trabalho de Coverdale para o restante de seu
Antigo Testamento. Quando estivera em Hamburgo, Coverdale servira como
assistente de revisão de texto para Tyndale, enquanto este traduzia o
Pentateuco.
Há várias evidências que apontam para o fato de que o texto dos Livros
Históricos na Bíblia Matthew procede da pena de William Tyndale.205
Embora o nome de Tyndale não apareça na obra, ela carrega suas impressões
digitais linguísticas. Sua autoria pode ser verificada de várias maneiras.
Primeira, o estilo da tradução inglesa dos oito livros do Antigo
Testamento revela claramente a abordagem distintiva de Tyndale. Há certas
palavras traduzidas que são peculiares a Tyndale. Por exemplo, David
Daniell ressalta que Tyndale usa “imperativo” e “apelativo” de forma
intercambiável para traduzir a palavra hebraica na’. Tyndale a entende como
um rogo entre pessoas que se empenham para expressar igualdade de status,
como “uma amizade” (2 Rs 2).206 Esta palavra se acha no Pentateuco de
Tyndale e nos Livros Históricos da Bíblia Matthew, indicando ser o trabalho
do mesmo tradutor. Além disso, o instrumento músico denotado pela
palavra hebraica toph é traduzida fielmente por Coverdale em Esdras e nos
livros seguintes como “tambor”. No entanto, a mesma palavra é traduzida
por Tyndale como “tamborim” no Pentateuco. De modo semelhante, esta
mesma palavra se acha em Juízes 11, 1 Samuel 10 e 18, 2 Samuel 6 e 1
Crônicas 13. Muitas dessas palavras são usadas em ambas as seções. Esta
continuidade aponta para Tyndale como o mesmo tradutor.
Segunda, aquele que traduziu de Josué a 2 Crônicas fez tentativas
notáveis para ser facilmente entendido pelo leitor comum. A mesma
facilidade de acesso achada no Pentateuco traduzido por Tyndale é evidente
também nos Livros Históricos da Bíblia Matthew. Uma leitura comparativa
de Tyndale e Coverdale revela o trabalho superior de Tyndale na
simplicidade de leitura, sugerindo que o tradutor do Pentateuco e o tradutor
dos Livros Históricos na Bíblia Matthew são a mesma pessoa.
Terceira, os Livros Históricos na Bíblia Matthew exibem o mesmo desejo
por variação na escolha de palavras que se acha no Pentateuco de Tyndale.
As mesmas palavras diferentes podem ser reconhecidas tanto no Pentateuco
quanto nos Livros Históricos da Bíblia Matthew, indicando que o mesmo
tradutor atuou em ambas as seções. Ao mesmo tempo, algumas outras
palavras hebraicas são idênticas tanto na tradução de Tyndale quanto na de
Coverdale, como a palavra “aliança”.
Quarta, o Pentateuco de Tyndale e os Livros Históricos da Bíblia Matthew
usam, ambos, expressões preposicionais para traduzir possessivos. Em vez
de traduzir a locução como “palavra de Deus” (God’s word), por exemplo, o
tradutor usa consistentemente a expressão preposicional “a palavra do
Deus” (the word of the God). Daniel referencia outras expressões
idiossincráticas como “o melhor da terra”, “experimentado dias maus”,
“sobre as altas montanhas, sobre os outeiros e debaixo de toda árvore
verde”.207 Esta tradução de prosa aponta inconfundivelmente para Tyndale.
Quinta, há iniciais grandes em toda a Bíblia Matthew. Estas letras foram
usadas para indicar o responsável por sua obra. A introdução da Bíblia
Matthew apresenta as iniciais “I. R.” e “H. R.”. Estas representam os autores
da introdução, John Rogers e Henricus Rex. Antes dos Profetas, há as
iniciais “R. G.” e “E. W”, referindo-se a Richard Grafton e Edward
Whitchurch, os tipógrafos de Londres que financiaram e distribuíram o
volume. No final do Antigo Testamento, há as iniciais “W. T.”, que
indubitavelmente representam William Tindale, indicando talvez Tyndale
como o maior contribuinte. Isto faz de Tyndale o tradutor de metade do
Antigo Testamento na Bíblia Matthew.
Em sua Chronicle, de 1548, o historiador Edward Hall acrescenta os Livros
Históricos na lista de obras de Tyndale. Hall escreve:
William Tyndale também chamado Hichyns... Este homem traduziu o Novo Testamento para
o inglês e o colocou em forma impressa; também traduziu os cinco livros de Moisés, Josué,
Juízes, Rute, os livros dos Reis e os livros de Paralipômenos, Neemias ou o primeiro de
Esdras, o profeta Jonas e nenhum mais da Escritura Sagrada.208

Hall menciona “os livros dos Reis”, que incluem os dois livros de 1 e 2
Samuel e 1 e 2 Reis. O que Hall chama de “os livros de Paralipômenos”
aponta para 1 e 2 Crônicas. “Neemias” incorpora tanto Esdras quanto
Neemias. A única discrepância no registro de Hall é que estes dois livros,
Esdras e Neemias, foram provavelmente traduzidos por Coverdale.
O resultado desta evidência interna e externa comprova o argumento em
favor de identificar Tyndale como o tradutor dos livros de Josué a 2
Crônicas na Bíblia Matthew. Isto também consolida a obra de tradução
realizada por William Tyndale no Antigo Testamento como verdadeiramente
impressionante.
A impressão da Bíblia Matthew foi realizada na Europa, e, quando estava
meio completa, dois tipógrafos de Londres, Richard Grafton e Edwards
Whitchurch, uniram-se ao projeto e o terminaram. Grafton foi
posteriormente encarcerado na Prisão Fleet e exigido que pagasse uma
fiança enorme, prometendo que não imprimiria ou venderia qualquer Bíblia
até que o rei e os bispos concordassem com uma tradução – algo que nunca
aconteceria.
Terminada a sua impressão em 1537, a Bíblia Matthew teve um destino
semelhante à de Tyndale anteriormente: foi escondida em fardos ou barris e
contrabandeada para a Inglaterra. Esta era uma missão altamente arriscada,
visto que oficiais, nos portos da costa leste da Inglaterra, estavam vigiando
constantemente quanto a tais contrabandos.
Qualquer um que escondesse uma Bíblia em inglês seria imediatamente
acusado de traição e sujeito à pena capital.
Neste empreendimento ousado, embarques tinham de ser feitos no meio
da noite. Desembarcavam frequentemente perto das cidades inglesas de
Purfleet ou Dogenham, a mais de 300 quilômetros de Antuérpia.
O Legado de Tyndale

William Tyndale foi um linguista e filólogo notável. S. M. Houghton


escreve: “Em qualquer das sete línguas que ele falasse, o ouvinte suporia que
ele estava falando em sua língua natal”.209 Como erudito linguístico, Tyndale
introduziu muitas palavras na língua inglesa. Em resumo, Tyndale sabia
como as pessoas comuns falavam. Muitas das palavras introduzidas por
Tyndale têm sido creditadas erroneamente a outros autores,
especificamente Miles Coverdale, William Shakespeare, a Bíblia King James
e outros.
Por exemplo, a palavra behold (ver,observar) é atribuída à Bíblia Coverdale,
quando, de fato, apareceu primeiramente no Novo Testamento de Tyndale
de 1526 (Mt 1.20; 7.4; 8.29; 12.49; 18.10; 26.65; Jo 11.3; Ap 21.5). Outras
palavras que acham sua origem nas habilidades linguísticas de Tyndale
incluem: fig leaves (folha de figueira) (Gn 3), birthright direito de
primogenitura) (Gn 25), ingathering (colheita) (Êx 34), sin offering (oferta
pelo pecado) (Lv 4), morning watch (atalaia) (1 Sm 2), handbreadth (palmo) (1
Rs 7), spoiler (saqueador) (2 Rs 17), swaddling clothes (faixas de bebê) (Lc 2),
slaughter (matar) (At 9; Hb 7; Tg 5) e ministering (ministério) (Hb 1).210
Além disso, há muitas palavras que acham seu primeiro uso no Novo
Testamento de Tyndale, incluindo: apostleship (apostólico), brotherly
(fraternal), busybody (intrometido), castaway (réprobo), chasten (disciplinar),
dividing (divisor), fisherman (pescador), godly (piedoso), holy place (lugar santo),
intercession (intercessão), Jehovah (Jeová), justifier (justificador, live (vivo), log
(cepo), mercy seat (trono), Passover (páscoa), scapegoat (bode expiatório),
taskmaster (capataz), unbeliever (incrédulo), viper (traiçoeiro) e zealous
(zeloso).211
O biógrafo David Teems cita Stephen Greenblatt dizendo: “Sem o Novo
Testamento de Tyndale... é difícil imaginarmos William Shakespeare, o
dramaturgo”.212 Até Shakespeare deveria admitir que é um herdeiro deste
grande tradutor das Escrituras. Repetidas vezes, Shakespeare usa palavras e
frases que adotou obviamente do Novo Testamento de Tyndale. Por
exemplo, na peça Sonho de Uma Noite de Verão, Shakespeare escreveu: “O
olho de homem não viu, o ouvido de homem não ouviu, a mão de homem
não é capaz de provar, sua língua, de conceber, nem seu coração, de relatar o
que foi o meu sonho”. A Tradução de Tyndale em 1 Coríntios 2.9, na edição
de 1526, diz: “O olho não viu, e o ouvido não ouviu, nem penetrou no
coração do homem as coisas que Deus tem preparado para aqueles que o
amam”.213 O uso de Tyndale nas obras de Shakespeare é inconfundível.
Repetidas vezes, Tyndale prova ser o pai da língua inglesa moderna.
A obra de Tyndale se propagava como um fogo descontrolado pela
Inglaterra e no exterior. Por fim, o povo inglês tinha acesso à Palavra de
Deus em sua língua nativa. Incontáveis multidões desde o século XVI até aos
nossos dias se beneficiaram dos esforços incessantes deste eminente
tradutor da Bíblia. Mesmo depois de seu martírio, a obra de Tyndale
mudaria a trajetória da civilização moderna. A luz da verdade de Deus estava
rompendo o denso manto de trevas para resplandecer em todo mercado,
campo e lar da Inglaterra.

200. Daniell, introdução a Tyndale’s New Testament (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1989),
vii.
201. Daniel, William Tyndale: A Biography (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1994), 339.
202. John Foxe, The Acts and Monuments of the Church: Containing the History and Sufferings of Martyrs
(New York: Robert Carter & Brothers, 1855), 713.
203. Hughes Oliphant Old, The Reading and Preaching of the Scriptures in the Worship of the Christian
Church, Vol. 4: The Age of the Reformation (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 2002), 138.
204. Ibid.
205. Listadas por Daniell, introdução a Tyndale’s New Testament, xxv-xxvi.
206. Listadas por Daniell, introdução a Tyndale’s Old Testament (New Haven, Conn.: Yale University
Press,1992), xxv.
207. Listadas por Daniell, introdução a Tyndale’s Old Testament, xxv.
208. Edward Hall, conforme citado por Daniell, William Tyndale, 333.
209. S. M. Houghton, Sketches from Church History (Edinburgh, Scotland: Banner of Truth, 2001), 120.
210. David Teems, Tyndale: The Man Who Gave God an English Voice (Nashville, Tenn.: Thomas Nelson,
2012), 268.
211. Ibid., 269-70.
212. Ibid., xxii.
213. Ibid., xxi.
CONCLUSÃO

Queremos Tyndales Novamente!


[Tyndale] é como um homem que envia mensagens durante uma guerra e
envia frequentemente a mesma mensagem porque há uma chance de que um
dos mensageiros chegue ao seu destino... [Tyndale] era dedicado, direta ou
indiretamente, ao mesmo propósito: divulgar o “evangelho” ou por comentário
ou por tradução.214
— C. S. LEWIS

A s palavras finais de Tyndale, antes de a corrente ao redor do seu


pescoço estrangulá-lo, foram: “Senhor, abre os olhos do rei da
Inglaterra”. Essa oração de alguém prestes a morrer foi respondida dois anos
depois da morte de Tyndale, quando o rei Henrique VIII ordenou que a
Bíblia de Miles Coverdale fosse usada em toda paróquia na Inglaterra. A
Bíblia Coverdale se baseava grandemente na obra de Tyndale. Portanto, em
1539, a própria edição da Bíblia de Tyndale se tornou oficialmente aprovada
para ser impressa.
A tradução de Tyndale inspirou grandes tradutores posteriores, incluindo
a Grande Bíblia (1539), também compilada por Coverdale, a Bíblia de
Genebra (1560), a Bíblia dos Bispos (1568), a Bíblia Douay-Rheims (1582-
1609) e a Versão Autorizada ou King James (1611). Uma análise completa
da King James mostra que as palavras de Tyndale respondem por 84% do
Novo Testamento e mais de 75% do Antigo Testamento. Muitas das grandes
versões modernas em inglês se mantêm na tradição da King James e, por
isso, também extraem inspiração de Tyndale, incluindo a Revised Standard
Version, a New American Standard Version e a English Standard Version.
A dívida do mundo de fala inglesa para com William Tyndale é
incalculável. A sua proficiência na língua inglesa introduziu novas palavras
no vocabulário inglês, palavras que são faladas em países ao redor do
mundo. Em última análise, sua obra em traduzir a Bíblia das línguas
originais para a língua de seu país contribuiu para desencadear a Reforma
Inglesa. O chamado de Deus ao coração de Tyndale se tornou uma paixão
ardente por ver pessoas comuns lendo a genuína Palavra de Deus.
Infelizmente, a maioria das pessoas nunca ouviu falar deste homem, e sua
vasta contribuição tem sido menosprezada grandemente através dos
séculos.
Queremos Tyndales novamente para enfrentarem os obstáculos
intransponíveis diante deles e os vencerem com determinação fervorosa,
para a glória de Deus. Precisamos de Tyndales para traduzirem a Bíblia para
línguas de povos esquecidos ao redor do mundo. Precisamos de Tyndales
para proclamarem o evangelho por meio da página impressa mesmo em face
de perigos iminentes. Precisamos de Tyndales que amem apaixonadamente
a Palavra de Deus, para ocuparem cada púlpito, cada seminário, cada classe
de Escola Dominical, cada gabinete pastoral.
Digamos com Davi – e, sem dúvida, com Tyndale – “Quão doces são as
tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca” (Sl 119.103).

214. C. S. Lewis, English Literature in the Sixteenth Century (New York: Oxford University Press,
1954), 182.
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