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Resenha e Redação Científica

Jorge Néris

O texto científico, ao contrário do texto literário, caracteriza-se por um ideal de


objetividade. Procura, dessa forma, que a interpretação do texto seja o mínimo possível influenciada
pela perspectiva do leitor. Esse ideal de universalidade tem sido traduzido, muitas vezes, como uma
restrição à criatividade. Na verdade, o efeito de objetividade com que se constrói o texto científico não o
torna menos criativo que o texto literário. Trata-se, no entanto, de criatividades direcionadas para
objetivos distintos e desenvolvidas a partir de estratégias, também, distintas. No texto literário, por
exemplo, prevalece o raciocínio analógico como forma de construção do texto, o que coloca, em
primeiro plano, o emissor da mensagem ou o plano da expressão. O texto científico, por sua vez, traz
para o primeiro plano a mensagem, os resultados empíricos ou teóricos com os quais se pretende
contribuir para o desenvolvimento da comunidade científica, em particular, e da comunidade como um
todo.
No entanto, isso não significa que o texto científico é necessariamente um texto descritivo.
Muito pelo contrário, pesquisas nascem de problematizações e esse caráter problemático do
conhecimento deve estar integrado à forma de construção da redação científica, independente de o
texto ser construído a partir de uma orientação indutiva, dedutiva, dialética ou sintética.
Aqui, devemos destacar que textos com orientação indutiva, dialética ou sintética são mais
adequados a pesquisas teóricas (a construção de ensaios). No caso de pesquisas empíricas,
utilizamos frequentemente textos dedutivos (os artigos científicos são como que relatórios de
pesquisa). A resenha, como texto teórico, segue geralmente uma orientação indutiva. Isso porque o
principal eixo de organização do texto resenhístico é a relação contexto/texto, considerando-se que o
principal objetivo do resenhista é situar a nova publicação no âmbito da comunidade científica. Assim,
depois de apresentar as problemáticas que engendraram a constituição do texto, o autor da resenha
situa o texto objeto da resenha. Essa forma de construção, como pode ser depreendido, exige um
conhecimento amplo e profundo por parte do resenhista, em relação ao tema abordado. Sendo assim,
quando construímos resenhas na universidade, nos primeiros semestres, não há como exigir do
graduando essa competência. É por isso que as resenhas desenvolvidas nesse período assumem um
caráter mais descritivo que crítico. O que se exige, nesse período, é o desenvolvimento de senso crítico
(mediante leitura atenta) e capacidade de reconstrução do pensamento do autor da obra a ser
resenhada. Em uma palavra, entender como o texto foi construído e com qual finalidade, observando,
de perto, o caráter argumentativo (problemático) do texto científico.
Nessa perspectiva, se manifestam, também, as implicações da realização de resenhas
para o aprimoramento da redação científica. O estudante, ao construir uma resenha, deve apreender a
estrutura redacional do texto (tema geral, tema específico, problemática, tese, fundamentação, ideias
secundárias) e apresentá-la de modo organizado, seguindo uma estrutura que obedeça a lógica do
autor e que preserve à articulação do texto. Essa articulação é preservada tendo como base a noção
de texto (unidade complexa de significação) e, no caso específico, do texto dedutivo. Assim, a
introdução é constituída como uma breve apresentação dos objetivos do texto resenhístico e da obra
resenhada, devendo conter: a estrutura da obra, sua problemática geradora, tese (objetivo), a
fundamentação. Já a conclusão, é uma retomada da obra e deve ser apresentada, portanto, como uma
recapitulação de toda obra, ou seja, em outros termos, retomar a introdução. Por fim, o
desenvolvimento, seção em que se discutem as ideias trabalhadas no texto resenhado, não deve ser
construído de modo mecânico. Ao apresentar o desenvolvimento da obra, o autor da resenha deve
comentar o sentido de cada seção, ou seja, o papel que cada uma delas desempenha no texto.
Em última análise, a resenha deve incorporar, mesmo em uma perspectiva descritiva, a
natureza do texto científico: objetividade. Tal objetividade é conseguida a partir de procedimentos de
organização que permita ao leitor da resenha compreender não apenas o que o texto traz de
mensagem, mas como essa mensagem é constituída e com que objetivo. Não se pode exigir do leitor
da resenha, assim como não se pode exigir do leitor do texto científico, o esforço de articulação das
ideias do texto, a fim de que se possa compreendê-lo. Para cumprir tal objetivo, o melhor procedimento
é o raciocínio dedutivo. Deve-se, portanto, articular as ideias em torno do objetivo geral do autor da
obra resenhada. Não devemos esquecer que cada caminho percorrido pelo autor se constitui em um
objetivo específico que, ao ser alcançado e devidamente articulado, contribui para a consecução do
objetivo geral.
Na próxima seção, segue um quadro expositivo do conceito, natureza, tipos,
características, pontos fortes e pontos fracos de uma resenha.
DEFINIÇÃO A resenha pode ser definida como a síntese comentada de um texto.

TIPOS Nesse sentido, entendemos que a palavra “comentada” não se reduz a ideia de crítica ao texto. Assim, podemos falar em dois tipos de
resenha: descritiva e crítica.

No caso da resenha descritiva, o comentário diz respeito basicamente a reprodução, na resenha, de forma explícita, da estrutura
redacional do texto, indicando, ao leitor da resenha, como o autor da obra resenhada “caminha” em direção ao objetivo geral do texto (ou
seja, a sua ideia central), tomando como porto de partida a problemática.

Já a resenha crítica, além disso, pressupõe que o autor da resenha apresente avaliação dos elementos estruturais do texto, bem como
de sua relação com o contexto, do qual emerge, no sentido de evidenciar suas contribuições e limites a determinado campo do
conhecimento, setor da sociedade ou até mesmo a sociedade como um todo.

NATUREZA A resenha de textos acadêmicos tem a mesma natureza do texto científico, no que diz respeito à precisão e a objetividade. Deve, portanto,
incorporar a linguagem técnica da obra resenhada, sem que isso signifique se apropriar de frases do texto objeto da resenha (o que
implicaria plágio, se não postas entre aspas, indicando autor, data e página de origem da frase citada). Trata-se, apenas, de apropriação
do repertório conceitual, que caracteriza a busca de precisão dos textos científicos.

ESTRUTURA A estrutura profunda da resenha, no caso da resenha descritiva, consiste na síntese textual que, por sua vez, resulta da análise textual:
PROFUNDA TEMA GERAL, TEMA ESPECÍFICO, PROBLEMÁTICA, TESE, FUNDAMENTAÇÃO E IDEIAS SECUNDÁRIAS.

Na resenha crítica, além da síntese textual, acrescentam-se: CONTRIBUIÇÕES e LIMITES do texto objeto da resenha, fundamentados em
critérios internos (elementos estruturais do texto) e critérios externos (sua relação com outros textos). Os critérios internos resultam em
uma análise lógica do texto, ao passo que os critérios externos resultam em uma análise ideológica do texto.

A introdução da resenha deve conter:


ESTRUTURA 1. Objetivo do autor da resenha
NARRATIVA
(INTRODUÇÃO) 2. Nomeação da obra resenha
3. Nomeação do autor da obra
4. Apresentação da problemática
5. Enunciação da tese
6. Apresentação da estrutura e função da estrutura
7. Objetivo da obra.
Exemplo

(1) Este texto tem como objetivo resenhar (2) o livro Teoria Crítica nas Organizações de (3) Ana Paula Paes de Paula, publicado pela
editora Thomson Learning, em 2008, na coleção debates em administração. (4) A obra é articulada em torno dos conceitos de crítica
assumidos pela teoria crítica e pelos pós-modernistas. (5 e 6) Assim, nos primeiros capítulos, a autora discute os conceitos desenvolvidos
pela Escola de Frankfurt e pelo pós-estruturalismo, a fim de demonstrar que o conceito de crítica assumido pela teoria crítica é mais
consistente com a necessidade de reestruturação dos estudos organizacionais. (6) De modo mais específico, no capítulo seguinte,
evidencia a partir do conceito de crítica da Escola de Frankfurt, a originalidade e a autonomia dos estudos críticos em administração que
são inseridos em uma perspectiva humanista radical em relação ao critical management studies, movimento europeu predominantemente
pós-estruturalista. (6) No quarto e quinto capítulos, com o objetivo de esclarecer as diferenças entre os críticos brasileiros e o movimento
critical management studies, a autora discorre sobre o pensamento de Guerreiro Ramos e de Maurício Tragtenberg, pioneiros nos estudos
críticos nacionais, (7) propondo, em seguida, um caminho de pesquisa para a corrente nacional de estudos críticos.

As seções de desenvolvimento da resenha devem conter:


ESTRUTURA 1. Especificação do capítulo comentado
NARRATIVA 2. Integração com a seção precedente
(DESENVOLVIMENTO) 3. Apresentação da temática central da seção/capítulo
4. Objetivo da autora ao construir a seção/capítulo
5. Apresentação do núcleo central da seção/capítulo
6. Implicações
7. Interação com as seções posteriores

Ana Paula Paes de Paula, (1) no segundo capítulo, (2) contrapõe a teoria crítica, discutida no capítulo precedente, às abordagens pós-
modernas, com o intuito de (3 e 4) reafirmá-la como modelo de análise e intervenção nas questões sociais. (5) Inicialmente, demonstra
como a abordagem pós-estruturalista rompe com a filosofia da consciência (promovida pela teoria crítica), ao defender a substituição do
sujeito autônomo por um sujeito descentrado e dependente das estruturas que o governam. Além disso, evidencia que o pós-
estruturalismo, ao substituir o trabalho da dialética pelo jogo da diferença, em busca de uma nova noção de crítica, não consegue alcançar
qualquer perspectiva crítica. A abordagem mostra-se inconsistente, segundo a autora, porque o jogo da diferença e a consequente
desestruturação do sujeito são incompatíveis com a arte da inservidão voluntária, traço fundamental do conceito de crítica proporcionado
por Kant e Foucault. (6) Buscando superar essa dificuldade, sugere a constituição de um neo-humanismo, que leve em consideração o
sujeito complexo apresentado pelo pós-estruturalismo, mas não rompa com a filosofia da consciência, em outras palavras, que sejam
corrigidas as supostas limitações do sujeito humanista da fenomenologia e do existencialismo, sem que seja necessário abrir mão de seu
caráter processual e da ideia de que o homem tem capacidade para atuar de acordo com seus princípios pessoais e suas convicções. (7)
É com esse referencial que pretende compreender e intervir nos estudos críticos desenvolvidos no âmbito das organizações, como fica
claro nas próximas seções do livro.
A seção de conclusão resenha descritiva deve conter:
ESTRUTURA 1. Retomada da problemática geradora do texto
NARRATIVA 2. Retomada do objetivo geral/ideia central do texto
(CONCLUSÃO) 3. Retomada dos objetivos específicos do texto
4. Apresentação das implicações do texto
5. Agenda de pesquisa (caso haja)

(1) Em última análise, Ana Paula Paes de Paula, ao discutir as origens, fundamentos e difusão dos estudos críticos nos estudos
organizacionais, (2) identifica que uma perspectiva verdadeiramente crítica precisa incorporar à necessidade de autonomia do sujeito o caráter
processual das relações sociais, de modo que a filosofia da consciência (e sua inservidão voluntária) não se perca frente ao caráter descentrado do
sujeito da fenomenologia e do existencialismo. Como pudemos observar, (3) a dinâmica de difusão dos estudos críticos é observada pela autora
mediante a comparação entre os critical management studies e a produção nacional, a partir da qual propõe (4) caminhos e (5) agendas de pesquisa
que aprofundem tais estudos.

DIÁLOGO COM O Trata-se de um recurso fundamental para que possamos evitar que nossas ideias e de outros autores (utilizados na resenha crítica) não
AUTOR sejam confundidas com as ideias do autor do texto objeto da resenha. Assim, o autor do texto resenhado deve ser permanentemente
citado, o que chamamos de diálogo com o autor: segundo o autor, conforme o autor, em seguida observa que, segundo Capra (2000) etc.

Página: A formatação da página deve seguir padrão da ABNT: (superior: 3,0; esquerda 3,0; inferior: 2,0; direita: 2,0);
FORMATAÇÃO
Fonte: Times New Roman, tamanho 12.

Espacejamento (espaço entre as linhas): 1,5 cm

Tamanho: mínimo de três (03) páginas/máximo de três (03) páginas.

Referências: no início da resenha (no caso da referência do texto objeto da resenha) e no final da resenha (textos utilizados na
construção da resenha, como fundamento para a crítica).
Uso do itálico: usar itálico para título do livro, capítulo, seções. NÃO USAR CAIXA ALTA (maiúsculas)