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RECONHECIMENTO DE “NOVOS” PATRIMÔNIOS:

O caso do tombamento do Terreiro Ilê Omo Agboulá - BA

LIRA, KARINA M.

IPHAN. Departamento do Patrimônio Material e Fiscalização - DEPAM


SEPS 713 / 913 Sul, Edifício IPHAN. Brasília-DF
karina.lira@iphan.gov.br

RESUMO

O reconhecimento de bens ligados ao sagrado das religiões de matriz africana não é recente, muito
pelo contrário, ele se dá desde o início do acautelamento por parte do IPHAN, com o tombamento da
coleção do Museu da Magia Negra em 1938, visando preservar os bens apreendidos pela Polícia do
Rio de Janeiro na perseguição aos terreiros, principalmente na década de 1930.

Apesar de a instituição ter olhado desde no reconhecimento patrimonial ligado à temática, o próximo
bem acautelado pela Autarquia Federal só acontece em 1980, o tombamento do Terreiro da Casa
Branca, motivado pelo risco de perda de uma das casas de candomblé mais antigas e notáveis da
Bahia.

Apesar da indiscutível importância dos bens ligados a cultura negra no Brasil, além da coleção
supracitada, apenas dez bens materiais relacionados aos povos e comunidades tradicionais de matriz
africana foram tombados pelo IPHAN: Coleção do Museu da Magia Negra (1938), Casa Branca/BA
(1980); Axé Opô Afonjá/BA (2000); Alaketo/BA (2000); Gantois/BA (2000); Bate-Folha/BA (2000);
Casa das Minas Jeje/MA (2000); Oxumaré/BA (2010); Roça do Ventura/BA (2010) e o Omo Ilê
Agboulá/BA (2016).

O índice baixíssimo de bens materiais acautelados desta tipologia frente às demais, tem origem no
processo histórico de invisibilização destes espaços sagrados e seus detentores, e suas cruéis
consequências. O não reconhecimento por parte da sociedade do valor histórico-cultural, o
desconhecimento teórico por parte dos técnicos da instituição, decorrente da ausência do tratamento
da temática em seus cursos de formação e a dificuldade no acesso a políticas públicas por parte dos
membros das comunidades são exemplos da gama de motivações.

Outro ponto a tratar é subjetividade da compreensão destes bens, totalmente díspar da lógica da
valoração histórico-artística de tantos outros reconhecidos. As casas de culto de matriz africana, além
por sua importância histórica e o reconhecimento artístico de seus elementos particulares tem um
valor arquitetônico expresso em dois aspectos. Primeiramente, na materialização dos elementos do
sagrado na implantação das edificações, da utilização dos espaços, na escolha das técnicas
construtivas e na sua relação com a natureza.

Além desse, a compreensão da arquitetura em sua essência, o abrigo. O que dá sentido a esses
espaços é o que acontece nele, e sua transmissão ao longo das décadas. Estes bens são exemplos
que escancaram a impossibilidade da separação dos aspectos materiais e imateriais na leitura e
valoração de bens patrimoniais. Assim, os atributos de autenticidade e integridade ficam em segundo
plano em relação à significância do bem.

Estas especificidades foram tratadas na instrução no processo de tombamento do terreiro Ilê Omo
Agboulá. Para tanto, foram traçados critérios de valoração que abarcam a sua importância histórica,
sua excepcionalidade, e sua representatividade mediante a comunidade que nortearam não apenas a
justificativa do acautelamento, mas também as diretrizes para demarcação da área de tombamento e
entorno, e como estas devem ser tratadas. É por entender o referido processo como uma mudança
institucional em prol da preservação dos bens culturais que este artigo visa expor tal experiência.

Palavras-chave: Reconhecimento, Preservação, Tombamento, Terreiros.

1º Simpósio Cientifico ICOMOS Brasil


Belo Horizonte, de 10 a 13 de maio de 2017
RECONHECIMENTO DE “NOVOS” PATRIMÔNIOS
O caso do tombamento do Terreiro Ilê Omo Agboulá – BA

1. Histórico Institucional do IPHAN no acautelamento de bens materiais


relacionados aos povos e comunidades tradicionais de matriz africana (PMAF)1

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é uma Autarquia Federal


vinculada ao Ministério da Cultura que responde pela preservação do Patrimônio Cultural
Brasileiro, cabendo a esta proteger e promover os bens culturais do País, assegurando sua
permanência e usufruto para as gerações presentes e futuras.

A Instituição nasce em 13 de janeiro de 1937, por meio da Lei nº 378, assinada pelo então
presidente Getúlio Vargas, e tem parte de suas atribuições estabelecidas no Decreto Lei 25
de 30 de novembro de 1937. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, o objeto
da missão instituição – o patrimônio cultural, é definido no seu artigo 216, como formas de
expressão, modos de criar, fazer e viver. Também são assim reconhecidas as criações
científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais
espaços destinados às manifestações artístico-culturais; e, ainda, os conjuntos urbanos e
sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e
científico. Nos seus artigos 215 e 216, a Constituição reconhece a existência de bens
culturais de natureza material e imaterial, além de estabelecer as formas de preservação
desse patrimônio: o registro, o inventário e o tombamento.

Transversalmente a categorização dos bens estabelecidos pela Lei Maior Brasileira, e


consequentemente aos instrumentos de acautelamento com que a referida instituição
dispõe, tem-se os bens relacionados aos povos e comunidades tradicionais de matriz
africana (PMAF) como exemplares do patrimônio cultural brasileiro dignos de salvaguarda.

1 Utilizado na Portaria Iphan nº 537/13 e 194/2016 foi definido no Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro
de 2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades
Tradicionais, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial que em seu artigo 3º define
Povos e Comunidades tradicionais de Matriz africana como: ... grupos que se organizam a partir dos
valores civilizatórios e da cosmovisão trazidos para o país por africanos para cá transladados durante
o sistema escravista, o que possibilitou um contínuo civilizatório africano no Brasil, constituindo
territórios próprios caracterizados pela vivência comunitária, pelo acolhimento e pela prestação de
serviços à comunidade.
A instituição, até o presente momento, acautelou 10 bens materiais e 13 imateriais
relacionados aos povos e comunidades tradicionais de matriz africana. É uma perceptível
disparidade entre a aplicação dos instrumentos do tombamento, instituído pelo Decreto Lei
25/1937, e do Registro, estabelecido pelo Decreto 3551/2000, a este universo de bens
culturais, como é possível perceber nos quadros 1 e 2.

Quadro 1: Relação de bens tombados pelo IPHAN relacionados aos povos e comunidades
tradicionais de matriz africana
Ano de Nº processo de
UF Município Nome do bem
tombamento tombamento
RJ Rio de Janeiro Museu de Magia Negra: acervo 1938 35
BA Salvador Terreiro da Casa Branca 1986 1067
BA Salvador Terreiro do Axé Opô Afonjá 2000 1432
BA Salvador Terreiro Ilê Maroiá Láji - Alaketo, 2004 1481
MA São Luís Terreiro Casa das Minas Jeje 2005 1464
Terreiro de Candomblé Ilê Iyá Omim Axé 2005 1471
BA Salvador
Iyamassé - Gantois
BA Salvador Terreiro de Candomblé do Bate-Folha 2005 1486
BA Salvador Terreiro de Candomblé Ilê Axé Oxumaré 2014 1498
Terreiro Zogbodo Male Bogun Seja Unde - 2015 1627
BA Cachoeira
Roça Do Ventura
Terreiro Culto aos ancestrais - Omo Ilê 2015 1505
BA Itaparica
Agboulá

Quadro 2: Relação de bens registrados pelo IPHAN relacionados aos povos e comunidades
tradicionais de matriz africana
Área de Abrangência da Ano do
Nome do bem
Salvaguarda Registro
Samba de Roda do Recôncavo Baiano Recôncavo Baiano 2004
Ofício de Baiana de Acarajé BA, RJ, DF, PE, SP 2005
Jongo do Sudeste RJ. SP, ES, MG 2005
Tambor de Crioula MA 2007
Matrizes do Samba no Rio de Janeiro:
RJ 2007
partido alto, samba de terreiro e samba-enredo
Ofício dos Mestres de Capoeira Nacional 2008
Roda de Capoeira Nacional 2008
Complexo Cultural do Bumba-meu-Boi do Maranhão MA 2010
Festa do Senhor Bom jesus do Bomfim BA 2013
Maracutu Nação PE 2014
Maracatu Baque Solto PE 2014
Cavalo Marinho PE 2014
Caboclinho PE 2016

Enquanto na aplicação do instrumento do registro há uma continuidade no acautelamento, já


na aplicação do tombamento vê-se a sua aplicação em momentos específicos da história
institucional: 1938, 1986, década de 2000 e década de 2010.

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Isso é resultado, em parte, pela aplicação do instrumento do tombamento frente a uma
situação de risco em que os bens se encontravam, e assim a instituição foi acionada em
caráter de urgência. Ainda assim, pretende-se no discorrer deste trabalho entender os
enfrentamentos institucionais para aplicação do instrumento do tombamento frente ao óbvio
universo de bens ainda não acautelados pela instituição em todo território nacional fazendo
uso do processo de Terreiro Omo Ilê Agboulà como estudo de caso.

2. O Terreiro Omo Ilê Agboulà


O Terreiro Omo Ilê Agboulà fica situado nom município de Itaparica, no estado da Bahia.
Este terreiro é o exemplar mais antigo do Culto de Baba Egun2, também conhecido como
Culto aos Ancestrais. O terreiro foi implantado na década de 1940, por Eduardo Daniel de
Paula3, na Ponta de Areia, em proximidade a praia, em área não residencial, onde hoje
funciona a Igreja de Nossa Senhora das Candeias.

Devido às perseguições policiais aos praticantes de religiões de matriz africana, bem como
pelo início do processo de urbanização da área, Eduardo Daniel de Paula teve que transferir
o terreiro para uma área mais afastada da praia, em meio a mata, sendo este um local mais
reservado, chamado Barro Vermelho. Com a transferência, restaram apenas uma cajazeira
onde o Orixá Ogun era cultuado, uma gameleira branca, que é a árvore sagrada do Orixá
Iroco e a casa do Orixá Exu. Juntamente com as árvores sagradas, impassíveis de
transferência, a casa de Exú foi mantida, segundo a tradição, por determinação do próprio
Orixá.

A área do Barro Vermelho abrigou o terreiro no período de 1942 a 1960, sendo uma área
estratégica, pois ainda permitia acesso a casa de Exú e a praia, para continuidade de rituais,
bem como ficava em uma área de mata fechada, garantindo a privacidade do culto, cercada
de elementos naturais ritualisticamente fundamentais.

Alguns anos depois, o terreiro foi transferido mais uma vez, para um local denominado como
Bela Vista, onde até hoje se encontra. Esta última mudança ocorreu, pois, Mãe Senhora4 fez
ao terreiro a doação do terreno. Até os tempos atuais, a comunidade religiosa faz uso das
três áreas de implantação de sua casa, na primeira, onde fazem os cultos relacionados a

2 Segundo Mariza Viana, “os Egungum, Baba Egum, ou simplesmente Baba, espíritos daqueles
mortos do sexo masculino especialmente preparados para ser invocados, aparecem de maneira
característica, inteiramente recobertos de panos coloridos, que permitem aos espectadores perceber
vagamente formas humanas de diferentes alturas e corpos.

3 Primeiro Alabá do Terreiro, que é o posto máximo em um terreiro de Baba Egun.

4Bibiana Maria do Espírito santo, conhecida como Mãe Senhora, falecida Ialorixá do Terreiro Axé
Opô Afonjá, que ocupou o cargo de Iá-Ubé no Omo Ilê Agboulá.
Exú, no Barro Vermelho são feitos os rituais que dependem da sua área de mata, e no Bela
Vista, está localizado o terreiro em si.

Figura 1: Localização das três áreas de implantação do Terreiro ao longo da história.

Fonte: Processo Administrativo IPHAN 01502.001139/2015-77

O local que abriga hoje o terreiro foi categorizado em três áreas funcionais distintas: espaço
profano, espaço sagrado público e espaço sagrado privado. No espaço profano, é o
estacionamento de veículos e o acesso de pedestres e ao espaço sagrado público, onde,
entre os limites destes, há uma cercadura visando garantir não só a restrição de acesso,
mas também a privacidade de culto.

Ao ultrapassar este limite, depara-se imediatamente com a casa de Exú, em seguida, em


uma área mais recuada, a casa de Xangô e o barracão5 ao centro. O barracão também tem
uma subdivisão interna, em espaço público, espaço semi-privado e privado. No espaço
público fica a comunidade, separada em alas masculina e feminina e locais específicos para
pessoas de determinados cargos religiosos do culto. Demarcando o limite do espaço público
ao semiprivado, tem-se ao eixo central o assento do Babalorixá, em seguida, na lateral
direita, o espaço para os Alabé6 e o acesso ao espaço sagrado privado (edificação
justaposta ao barracão). Entre o assento do Babalorixá, os Alabé e o espaço privado do
barracão, tem um centro livre, onde os Egun interagem com a comunidade, bem como os
Oje7 fazem atividades ritualísticas. Por fim, tem-se o espaço privado do barracão, que se

5 Locais de realização de cerimônias públicas dos cultos afrobrasileiros.

6 Tocadores de Atabaques.

7 Sacerdotes.
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trata de um plano elevado, onde ficam os tronos dos Egun, onde somente estes podem
acessar.

O espaço sagrado privado é composto pelos assentamentos dos Orixás Iroco, Ogum e Onilê
e pelo Ilê Auô8, aos quais somente os Egum e os Ojé têm acesso.

Figura 2: Divisão dos espaços do terreiro Omo Ilê Agboulà

Fonte: Processo Administrativo IPHAN 01502.001139/2015-77

Figura 3: Foto do barracão do Omo Ilê Agboulà

Fonte: IPAC, 2014

8 Casa do segredo.
3. O processo de tombamento

O pedido de tombamento do Omo Ilê Agboulà foi feito ao IPHAN ao ano de 2002, por
Balbino Daniel de Paula, descente de Eduardo Daniel de Paula, hoje Alabá da casa e
Alapini9 da tradição Baba Egun. Somente ao ano de 2015 que se percebe no processo
administrativo, a juntada de documentações técnicas produzidas por servidores com vistas
ao encaminhamento ao Conselho Consultivo do IPHAN10 para decisão sobre o tombamento.

Na documentação técnica arrolada no processo administrativo percebe-se a definição dos


valores inerentes a este bem, sendo estes os valores históricos, etnográficos e o
arquitetônico. Os valores histórico e etnográfico residem na antiguidade do terreiro e sua
representatividade perante a comunidade. Já o valor arquitetônico foi abarcado na
perspectiva da materialização dos elementos do sagrado na implantação das edificações, da
utilização dos espaços, na escolha das técnicas construtivas e na sua relação com a
natureza. Além disso, a compreensão da arquitetura em sua essência, o abrigo. O que dá
sentido a esses espaços é o que acontece nele, e sua transmissão ao longo das décadas.

A partir deste entendimento, foi proposto o tombamento do terreiro enquanto conjunto,


abarcando a casa de Exú na Ponta de Areia, a área de mata do Barro Vermelho, ainda
utilizada com fins litúrgicos e a área do terreiro atual, o que reflete materialmente toda a
trajetória histórica do bem, além de garantir a vinculação entre estes, visto que todas ainda
são utilizadas liturgicamente. (ver figura 4)

Além desta proposta de tombamento, também foi encaminhada uma delimitação da área de
entorno para a área do terreiro atual. A função desta área de entono foi pensada no sentido

9Cargo maior da tradição Baba Egun. Enquanto o Alabá é a autoridade máxima do terreiro, o Alapini
é a autoridade máxima entre todos os terreiros da tradição.

10 O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural é o órgão colegiado de decisão máxima do Instituto


do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para as questões relativas ao patrimônio brasileiro
material e imaterial. O mais recente marco legal sobre a estrutura organizacional do Iphan, o Decreto
nº 6.844, de 07 de maio de 2009, mantém o Conselho como o responsável pelo exame, apreciação
e decisões relacionadas à proteção do Patrimônio Cultural Brasileiro, tais como o tombamento de
bens culturais de natureza material, o registro de bens culturais imateriais, a autorização para a saída
temporária do País de obras de arte ou bens culturais protegidos, na forma da legislação em vigor,
além de opinar sobre outras questões relevantes.
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contrário do estabelecido no Decreto Lei 25/193711, no que se refere a garantia de sua
visibilidade.

Antes mesmo da criação do IPHAN, são muitas as discussões no âmbito preservacionista


nacional e internacional, acerca do conceito e função das cercanias de um bem tombado.
Como o próprio Decreto Lei 25/1937 evidencia, à sua época tratava-se do conceito de
vizinhança. Depois destes, vemos a aparição dos termos entorno, ambiência, zonas de
amortização, entre outros. Independente de conceituações, um fio condutor entre elas é o
entendimento desta área como uma moldura, onde o bem deve ter certo destaque enquanto
ponto focal, e as edificações circunvizinhas devem ter uma certa uniformidade em relação a
ele.

No caso da área de entorno proposta para o Agboulà, entendeu-se sua função como de
garantir a não visibilidade ao bem, considerando que sua implantação revela isso como
característica. Ponderando a importância da privacidade de culto, as diretrizes para as
edificações circunvizinhas não se referem a uma unidade tipológica, estilística ou estética
em relação ao terreiro, mas sim limitações de gabarito e restrição de abertura de vãos
voltados para toda a área do terreiro. (Ver figura 4)

Após o findar da instrução técnica, a Superintendência do Iphan na Bahia enviou o processo


administrativo para Departamento do Patrimônio Material e Fiscalização – IPHAN SEDE,
para análise e manifestação. Em seguida, este em consulta a Procuradoria Federal do
IPHAN foi orientado pelo tombamento isolado das três áreas do terreiro. O que necessitaria
da documentação que comprovasse os proprietários das três áreas, e como só havia a
época esta documentação referente a área do terreiro em sim, o processo seguiu apenas
para o tombamento da mesma.

Na reunião do Conselho Consultivo em que o tombamento do Omo Ilê Agboulà esteve em


pauta, essa questão foi apontada pelo relator do processo, Luiz Phelipe Andrès, que
defendeu o tombamento do Terreiro Omo Ilê Agboulà, e recomendou que o IPHAN juntasse
as documentações pendentes para o tombamento das outras duas áreas pendentes, para
que então o processo retornasse para nova deliberação do referido Conselho.

11Refere-se aqui ao artigo 18 do Decreto Lei 25 de 1937, “Sem prévia autorização do Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, não se poderá, na vizinhança da coisa tombada, fazer
construção que lhe impeça ou reduza a visibílidade, nem nela colocar anúncios ou cartazes, sob pena
de ser mandada destruir a obra ou retirar o objéto …”
O Conselho Consultivo votou pelo tombamento do terreiro em unanimidade e, até o
presente momento, não se teve o retorno do processo para tratar do tombamento específico
das demais áreas, ou publicação de portaria com as diretrizes de preservação do entorno.

Figura 4: Delimitação das áreas de tombamento e entorno propostas

Fonte: Processo Administrativo IPHAN 01502.001139/2015-77


:
4. Considerações Finais
Ao analisarmos a trajetória do processo administrativo referente ao tombamento do Terreiro
Ilê Omo Agboulà, percebe-se que no mesmo ano que a superintendência do IPHAN na
Bahia concluiu sua manifestação técnica e enviou o processo administrativo ao
Departamento do Patrimônio Material e Fiscalização – IPHAN SEDE, tem-se a manifestação
deste, juntamente com a da Procuradoria Federal do IPHAN e, em seguida o processo é
encaminhado ao Conselho Consultivo para deliberação.

Assim, pode-se afirmar que o “gargalo” da instrução processual se deu no âmbito da


unidade descentralizada. Este se justifica, para além dos problemas institucionais de
escassez de técnicos frente ao volume de trabalho, dificuldades específicas que
transcendem a esfera institucional.

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A primeira questão a ser evidenciada é a compreensão dos bens relacionados aos povos e
comunidades tradicionais de matriz africana como bem cultural, em especial, no âmbito do
patrimônio material. Esta questão está relacionada ao processo histórico de “invisibilização”
destes espaços sagrados e seus detentores. Esse processo decorre não apenas no não
reconhecimento desses bem como parte do patrimônio cultural brasileiro, mas até um
preconceito em relação a eles.

Outro efeito nocivo dessa trajetória histórica é a falta de capilaridade dos estudos
acadêmicos acerca da temática na disciplina de história do Brasil, nos primeiro e segundo
graus, bem como nos cursos de graduação que formam os profissionais atuantes nas áreas
afins ao patrimônio cultural, como história, ciências sociais, arquitetura e urbanismo,
museologia, conservação e restauro, entre outros.

Essa deficiência na formação de base e na graduação reflete na dificuldade dos técnicos do


IPHAN em instruir processos de tombamento em bens desta natureza. Este impasse
perpassa por questões de compreensão do que é o bem cultural, suas características, seus
valores e o que significa a sua preservação.

Percebe-se no processo de tombamento do Terreiro Ilê Omo Agboulà a caracterização do


bem, a sua valoração e a definição de diretrizes para alcance de sua preservação e
proteção dos riscos previsíveis ao mesmo. Este salto qualitativo da instituição não se coloca
de forma isolada.

Concomitantemente a instrução deste processo, o Iphan cria o Grupo de Trabalho


Interdepartamental para Preservação do Patrimônio Cultural de Terreiros (GTIT), que é
responsável pela orientação de processos de tombamento e/ou registro, apoio ao
cumprimento das metas assumidas no Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos
Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana 2013-2015, e fornecimento de
suporte técnico para conclusão dos processos de tombamento abertos. Além disso, atua
promoção de cursos de extensão e na capacitação dos servidores do Iphan que lidam
diretamente com a temática12.

12 As atribuições do GTIT foram definidas pela Portaria Iphan nº 489, de 19 de novembro de 2013: 1.
Analisar e emitir pareceres técnicos, em colaboração com o DEPAM, acerca dos processos de
tombamento abertos no Iphan relativos aos bens culturais dos povos e comunidades tradicionais de
matrizes africanas; 2. Analisar e emitir pareceres técnicos, em colaboração com o DPI, acerca dos
processos de registro abertos no Iphan relativos aos bens culturais dos povos e comunidades
tradicionais de matrizes africanas; 3. Elaborar metodologia para identificação das casas de culto e
dos bens culturais dos povos e comunidades tradicionais de matrizes africanas para o
reconhecimento integrado;4. Elaborar conjunto de critérios e diretrizes para tombamento e registro de
bens culturais relacionados aos povos e comunidades tradicionais de matriz africana; 5. Acompanhar
o andamento dos processos de tombamento e de registro de bens culturais relacionados aos povos e
Como principais desdobramentos da ação deste grupo, tem-se as Portarias IPHAN 188 e
194 de 18 de mais de 2016. A primeira versa sobre metas que a instituição assumiu com a
sociedade brasileira quanto a realização de ações para preservação de bens culturais dos
povos e comunidades tradicionais de matriz africana, disposto nos eixos de Identificação e
Reconhecimento13, Formação e Capacitação, Apoio e Fomento e Valorização, no período de
04 anos, a partir da data de sua publicação.

Já a portaria 194/2016 dispõe sobre diretrizes e princípios para a preservação do patrimônio


cultural dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana, considerando os
processos de identificação, reconhecimento, conservação, apoio e fomento.

Considerando a publicação destes documentos, espera-se da instituição uma maior e


melhor atuação na preservação dos bens relacionados aos povos e comunidades
tradicionais de matriz africana. Se a instrução do processo de tombamento do Omo Ilê
Agboulà foi considerada relevante e diferenciada em relação aos processos de tombamento
de terreiros que o precederam, devido a influência direta das discussões no âmbito do GTIT,
espera-se que os processos de mesma finalidade que o sigam, sejam instruídos mais
celeridade e qualidade técnica.

Apesar dos significativos avanços institucionais do IPHAN, a limitação da garantia de


direitos e acesso políticas públicas por parte dos membros das comunidades tradicionais
afro-brasileiras não se limitam a esfera de atuação desta autarquia federal. Ainda há muito o
que fazer, para dentro e para fora das instituições públicas. O racismo institucional existe,
pois decorre do racismo da sociedade brasileira. Para vencer esta cruel realidade, as
instituições têm que motivar rupturas dos preconceitos sociais, na mesma medida em que a
sociedade tem que cobrar do poder público o exercício desse seu papel. É uma via de mão
dupla, que é construída no dia-a-dia e que reflete na mudança da realidade de muitos
brasileiros, seja enquanto seu legado, bem como na sua relação com os demais, sua
autoestima e a garantia de seu real lugar na sociedade.

comunidades tradicionais de matrizes africanas, fornecendo subsídios técnicos para a valoração


desses bens; 6. Elaborar metodologia de monitoramento e avaliação dos planos de preservação e
salvaguarda dos bens culturais dos povos e comunidades tradicionais de matrizes africanas; 7.
Coordenar o processo de avaliação dos planos de preservação e salvaguarda dos bens culturais
reconhecidos relacionados aos povos e comunidades tradicionais de matrizes africanas; e 8.
Capacitar agentes públicos para atuar em ações de preservação e salvaguarda dos bens culturais
relacionados aos povos e comunidades tradicionais de matrizes africanas.

13 Para o eixo de identificação e reconhecimento, foi estabelecido como meta a finalização dos
processos de reconhecimento abertos até 2016 (BA, SE, PE, RJ, SP). Os processos abertos a partir
de então, seguirão os prazos estabelecidos nos atos normativos específicos de cada instrumento de
acautelamento.
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5. Referências Bibliográficas

BRASIL. Constituição Federal Brasileira de 1988.

______. Decreto Lei 25 de 30 de novembro de 1937.

FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em processo: trajetória da política federal


de preservação no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Minc-Iphan, 2005, 295p.

IPHAN. Processo administrativo IPHAN 01502.001139/2015-77.

______. Portaria IPHAN 188 de 18 de maio de 2016.

______. Portaria IPHAN 194 de 18 de maio de 2016.

VIANNA, Marisa. Baba Egum. Texto de Júlio Braga. Salvador: P555 Edições, 2008.

www.iphan.gov.br