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Os espírit

apapayêi e as doen
entre os mehina
tos Os espíritos
nças apapayêi e as doenças
entre os mehinako1
ako
R OBERTA GAR CIA ANFFE BRAIDA
Universidade Federal do Amazonas
Braida, R. G. A.

OS ESPÍRITOS APAPAYÊI E AS DOENÇAS ENTRE OS MEHI-


NAKO1
Resumo
Baseado em uma pesquisa etnográfica com os Mehinako, grupo
aruaque do alto Xingu, o artigo se volta para os vínculos entre
humanos e os espíritos apapayëi, com ênfase no adoecimento e
os rituais que mobilizam. Pelo que pude aprender com meus in-
terlocutores mehinako, a doença entre os humanos é produto de
uma punição mítica que gera uma assimetria original entre aqueles
que se tornaram apapayêi, e não possuem bens e recursos, e os
humanos atuais, possuidores de objetos e alimentos. Os apapayêi
tentam reverter a assimetria forçando uma reciprocidade com os
humanos através das doenças e das subsequentes festas de cura,
possibilitando a retribuição parcial da perda.
Palavras-chave: Mehinako, Alto Xingu, Apapayëi, Xamanismo e
ritual, Objetos, Negociação, Sedução.

THE APAPAYÊI SPIRITS AND THE DISEASES AMONG THE


MEHINAKO
Abstract
Based on an ethnographic research with the Mehinako, an Aru-
aque group of the upper Xingu, the article considers the bonds
between humans and apapayëi spirits, with an emphasis on illness
and the rituals they mobilize. From what I have been able to learn
from my Mehinako interlocutors, disease among humans is the
product of a mythical punishment which generates an original
asymmetry between those who have become apapayêi, and are not
owners of goods and resources, and the present humans, owners
of objects and food. The apapayêi try to change the asymmetry by
forcing a reciprocity with the humans through the illnesses and
the subsequent healing feasts, allowing the partial retribution of
the loss.
Keywords: Mehinako, Alto Xingu, Apapayëi, shamanism and rit-
ual, objects, negotiation, seduction.

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Os espíritos apapayêi e as doenças entre os mehinako

LOS ESPÍRITUS APAPAYÊI Y LAS ENFERMEDADES ENTRE LOS


MEHINAKO
Resumen
Basado en una investigación etnográfica con los Mehinako, grupo
Aruaque del alto Xingú, el artículo considera los vínculos entre
humanos y los espíritus apapayëi, con énfasis en la enfermedad y
los rituales que movilizan. Por lo que pude aprender con mis in-
terlocutores mehinako, la enfermedad entre los humanos es pro-
ducto de un castigo mítico que genera una asimetría original entre
aquellos que se volvieron apapayêi, y no poseen bienes y recursos,
y los humanos actuales, poseedores de objetos y alimentos. Los
apapayêi intentan revertir la asimetría forzando una reciprocidad
con los humanos a través de las enfermedades y las subsecuentes
fiestas de curación, posibilitando la retribución parcial de la pér-
dida.
Palabras clave: Mehinako, Alto Xingú, Apapayêi, Chamanismo y
ritual, Objetos, Negociación, Seducción.

Roberta Garcia Anffe Braida


rgabraida@yahoo.com.br

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Braida, R. G. A.

INTRODUÇÃO tensa rede de trocas de objetos, ceri-


mônias e matrimônios.
Os Mehinako são um povo falante de
língua aruaque que habita a região das Os primeiros registros sobre os povos
cabeceiras do rio Xingu, a aproximada- da área, datados das últimas décadas do
mente 70 km do município de Gaúcha século XIX, chamam a atenção para a
do Norte, junto ao Posto Indígena Le- uniformidade cultural que marcava
onardo Villas Bôas e ao Posto Indígena o que já então se configurava como
de Vigilância Kurisevo (PIV), na mar- um sistema regional de trocas e fes-
gem esquerda do rio Kuluene, afluente tas (Steinen 1940 [1886]). Os rituais
do rio Xingu, no nordeste do estado regionais são uma das mais importan-
do Mato Grosso. Hoje estão divididos tes maneiras de integração dos povos
em duas aldeias localizadas à beira dos alto-xinguanos, levando à abdicação
rios Curisevu e Kuluene. A aldeia mais da guerra intercomunitária, apontada
antiga, denominada Uwaipiwuru, con- nos termos nativos como um processo
ta com uma população de 106 pessoas de tornar-se gente (Basso, 1995). De
e localiza-se a aproximadamente 250 acordo com Franchetto (1996) e Barce-
km de Xavantina. Já a mais recente é los Neto (2008), os apapayêi seriam en-
uma aldeia de médio porte, chamada tes sobrenaturais dotados de excessos,
Utawana, que significa “curva do rio” seres monstruosos ou superseres que
na língua aruaque, com 153 pessoas habitam esta e outras ordens cósmicas.
(SESAI 2014). Durante o trabalho de Eles aparentam não estar presentes em
campo para minha pesquisa de douto- nosso mundo, mas os pajés conseguem
rado, vivi por períodos intermitentes visualizá-los e eles estão em todos os
entre 2008 e 2010 na aldeia Utawana.2 lugares escuros, como no fundo dos
rios ou embaixo da terra. Os apapayêi
Como seus vizinhos na Terra Indíge-
são providos de pontos de vista, frus-
na Xingu, os Mehinako vivem prin-
cipalmente de algumas caças, pesca trações e desejos e, sobretudo, se rela-
e do beiju de mandioca brava. Dez cionam com os Mehinako através de
povos falantes de línguas distintas vi- mecanismos patogênicos. Há diversas
vem no complexo multiétnico e mul- espécies de apapayêi: yakuitxatu (espírito
tilíngue do Alto Xingu, um sistema do mato), weyekuitxumã (espírito cabe-
regional articulado por casamentos, çudo), ewexu (espírito da ariranha), alua
comércio e rituais. Os Kalapalo, Kui- (espírito do morcego), entre outras.
kuro, Matipu e Nahukua pertencem Segundo os Mehinako, os apapayêi es-
à família linguística karib; os Wauja, tabelecem uma série de negociações e
Mehináku e Yawalapíti, à família ara- alianças com os humanos detentores
wak; os Kamayurá e Aweti, ao tron- de recursos materiais (mingau, man-
co tupi; e os Trumai, que têm uma dioca, objetos, flautas, tabaco, entre
participação periférica no sistema, outras coisas). No entanto, os apapayêi
falam uma língua considerada isolada são também presentificados por meio
(Franchetto 2011). Com esses povos, de objetos rituais, como máscaras e
os Mehinako participam de uma in- flautas. Desse modo, os objetos utiliza-

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dos nas festas se estabelecem na articu- jetos perdidos em tempos míticos. As-
lação entre mito, performance e ritual, sim, a matriz cerimonial alto xinguana
conectando humanos e espíritos. constitui um emaranhado de relações
Costuma haver duas modalidades de entre humanos, espíritos e animais que
aliança entre humanos e apapayêi. Na precedem o ritual e continuam após
primeira, a alma (yakulapi) somente sua finalização.
pode ser capturada pelos apapayêi, e
isto pode ocorrer muitas vezes ao lon-
go da vida. A tentativa de reparação de O YERUPUHU E O APAPAYËI
uma transgressão original que funda Um apapayêi pode desejar os objetos
uma assimetria, ou seja, o processo de produzidos pelos Mehinako para o uso
roubo e devolução da alma, mantém cotidiano ou cobiçar os alimentos cozi-
o ciclo de festas e trocas de objetos e dos aos quais não tem acesso, pois não
de alimentos. Nesse primeiro caso, em há esses objetos e alimentos nos mun-
todos os momentos, os indivíduos so- dos subterrâneos, aquáticos e nas flo-
frem o risco de perder a alma, e, as- restas. Nos tempos primevos, o fogo
sim, o acordo de mutualidade sofre o e os alimentos cozidos pertenciam aos
risco de ser desfeito, ou seja, a morte apapayêi, mas o mito do surgimento da
encerra qualquer possibilidade de troca humanidade conta que o Sol e a Lua
de conhecimentos, alimentos cozidos os retiraram dos espíritos e os entrega-
e produções de materiais ou músicas. ram para os humanos. Conforme relata
Na segunda situação, a doença pode Maria Heloisa Fenélon Costa:
ser um mecanismo de encontro com “Os Mehinakú acreditam que hou-
os apapayêi, estado ideal para a nego- ve outra humanidade anterior à
ciação com os espíritos que provocam nossa, que partilharia com os ani-
alguns sintomas patológicos. Ao adoe- mais a superfície da terra: quando
cer, o indivíduo pode ter sido afetado Sol e Lua nascem e por sua vez dão
pelo apapayêi ou por um feiticeiro. O origem aos homens, a população
sistema ritual proporciona o diálogo mais antiga habituada à escuridão
e a partilha de elementos fundamen- e ao frio abandona o mundo; eram
tais na sociabilidade Mehinako. Seres eles miúdos, franzinos, não conhe-
humanos e espíritos trocam objetos, ciam o fogo e não tinham meio
compartilham alimentos, dançam, can- de defesa contra as feras, contra a
tam e sentem desejos. Os Mehinako onça em especial que os dizimava.
Os Ierebuhi (assim os chamam
afirmam que pode ser perigoso desejar
os Mehinakú) eram gente desar-
aquilo que não é possível obter, recor-
mada, passiva: “Antigamente não
rendo constantemente ao controle dos tinha sol, só escuro, tem morro,
estímulos de seus desejos para evitar, tem luzinha, não tem fogo. Meni-
assim, a captura da alma pelos espíri- no, mulher, homem, senta assim,
tos apapayêi. Por outro lado, os apapayêi onça pega, come”. Um mito Kui-
também podem roubar a alma para sa- kúro registrado pelos Villas Boas,
tisfazer seus próprios desejos pelos ob- Kanassa, refere-se a esta época de

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escuro e ao advento do sol e do um dos gêmeos, Lua. Para resgatar o


fogo (1970:95-99). Existiria a ideia irmão, Sol matou o peixe e conseguiu
de que a uma falta de ordem, uma retirar Lua da barriga do espírito. Só o
indefinição inicial em que os vá- esqueleto de Lua estava na barriga do
rios seres vivos não tinham ainda peixe grande, mas o Sol fez pajelança,
seus papéis no mundo claramente
convocou inúmeros espíritos e con-
delimitados - sucedeu uma ordem
seguiu recuperar a alma do irmão. Sol
natural e social, simultânea à emer-
gência da atual humanidade. As prometeu vingança a todos os yerupuhu,
versões conhecidas do mito de ori- quando percebeu que o irmão estava
gem referem-se a antepassados re- morto.
motos da humanidade atual – sem No mundo viviam os yerupuhu (os es-
relacioná-los com a gente pequena, píritos) e os ierebuhi (humanos). En-
os Ierebuhi – os quais evidenciaram quanto os yerupuhu eram os detentores
em diversas ocasiões características
de todos os recursos, os ierebuhi eram
heterogêneas de animal e vegetal,
seres franzinos, brancos, vulneráveis,
podendo assumir também aspecto
antropomórfico e conduta huma- sensíveis, que se alimentavam de fezes
na; ou apresentaria tais característi- e bebiam urina e viviam no subsolo, ou
cas de modo simultâneo, sendo tal seja, eram presas fáceis para as onças e
heterogeneidade uma das marcas o Kuamutui, o avô, Sol e Lua, criador de
identificadoras do Papanê. Assim todos os seres. O demiurgo Sol conse-
(resumindo uma versão do Schultz guiu vingar a morte do irmão, trazendo
entre os Waurá), da união da filha a luz para o mundo dos yerupuhu. Estas
do Jatobá com o Morcego surge criaturas não suportam a claridade, por
kuamuti, um humanóide que es- isso tiveram que produzir máscaras de
culpe e anima através da pajelança pena de arara, zunidores, flautas, pane-
figuras femininas de madeira; duas las, canoas, raposas, insetos, beija-flo-
delas casar-se-ão com o chefe das
res, onças, e, assim, metamorfosearam-
onças, uma engravida nascendo
então os gêmeos Sol e Lua; estes
-se em apapayêi.
criam a humanidade através de téc- Aqueles espíritos yurupuhu que não usa-
nicas de pajelança, surgindo ela da ram máscaras protetoras do Sol conse-
transformação de flechas confec- guiram fugir para o fundo dos rios, por
cionadas pelos próprios gêmeos, de isso teriam uma forma semelhante aos
matéria-prima vegetal.” (Fénelon humanos do começo dos tempos, sen-
Costa 1988:28) do, no entanto, franzinos, com longos
Os Mehinako relataram que os demiur- e finos braços. Estes seres são de extre-
gos Sol e Lua produziram tipos de más- ma importância para compreender os
caras. Enquanto Sol usou o tucum, Lua objetos indígenas, pois, de acordo com
usou a abóbora para quebrar as cerâ- o mito, eles não fabricaram máscaras,
micas com água do avô Kuamutã, e foi mas criaram as flautas Jacuí3. Segundo
assim que surgiram os rios. Um peixe, os Mehinako, estas flautas funcionam
que era yerupuhu, denominado kukihit- como máscaras. De acordo com as ex-
sumã, foi o responsável pela morte de plicações mitológicas, as máscaras e as

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flautas possuem uma origem similar, aos apapayêi, os homens colocam más-
ambas atuando no processo de trans- caras e utilizam a flauta do jakui para
formação dos yurupuhu em apapayêi. conseguir agradá-los com os presentes
Em suma, aqueles apapayêi que não es- e convocá-los para a festa.
tavam utilizando máscaras ou flautas A familiarização dos apapayêi está ba-
estavam, provavelmente, camuflando- seada em elementos da comensalida-
-se no subsolo, no fundo do rio e nos de: é preciso compartilhar o alimento
brejos, para não ficarem expostos à luz. para produzir parentesco (Vilaça 1992;
No entanto, quando querem aparecer Fausto 2002). De acordo com o mito
para os humanos, utilizam inúmeros de origem, os humanos receberam do
tipos de máscaras e flautas como ins- demiurgo Sol o fogo e a mandioca para
trumentos de proteção solar e trans- produzir alimentos cozidos. A divisão
formação. Com o surgimento da Luz, dos recursos é assimétrica, por isso
estratégia de vingança do Sol contra os os pagamentos através das festas e da
apapayêi, os homens passaram a ser os produção dos objetos devem ocorrer
detentores do fogo, água e bens ma- com muita frequência.
teriais e se beneficiaram da vingança.
Não obstante, os seres humanos po-
Os yerupuhu, transformados em apapayêi
dem ter um mau encontro com espí-
depois da criação das máscaras e das
ritos, por isso devem estar preparados
flautas de proteção antissolar, passa-
para conviver com o imprevisível.
ram a interferir na vida dos humanos,
Como mencionado anteriormente, os
atingindo-os com flechas em partes de
apapayêi podem estar no nível subterrâ-
seus corpos, com o intuito de lhes cap-
neo da terra, no fundo do rio ou, por
turar as almas.
vezes, quando estão andando sozinhos
O roubo da alma é uma forma de for- na mata, identificam animais que po-
çar a negociação com os humanos, deriam ter intencionalidade patogêni-
considerando que os apapayêi perderam ca, ou seja, qualquer animal pode ter
os bens materiais nos tempos míticos. apapayêi, pode estar vestindo máscara
Os espíritos ficam extremamente ale- protetora da luz.
gres com as festas promovidas pelos
Os espíritos possuem substâncias pre-
humanos, compartilhando as bebidas e
as comidas. A alma, alimentos cozidos tas e patogênicas em seu corpo que, ao
e objetos passaram a ser materiais utili- atingir um humano, podem capturar
zados nas negociações entre apapayêi e sua alma. Os apapayêi são solitários, e
humanos. No entanto, a única maneira essa solidão pode ser repudiante para
de evitar o roubo da alma ou adquiri- os Mehinako. Dificilmente as pessoas
-la de volta é através de cerimônias que andam em grupo são surpreendi-
utilizadas para seduzir os apapayêi com das por um apapayêi.
danças, objetos, máscaras, instrumen- A qualidade de feio dos apapayêi está
tos musicais, pinturas corporais e ofe- vinculada à aparência peluda, esqui-
recimento de peixes, mingau, pimenta sita, cabeça grande, orelhas grandes,
e beiju. Ou seja, nos rituais oferecidos escamas, rabos, dentes grandes, ca-

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belos enrolados, barbatanas, chifres; se esconder em locais escuros; sobre-


eles alimentam-se de excrementos ou tudo, foram obrigados a abdicar dos
gordura, têm comportamento instável, recursos materiais e da convivência em
aparência de canoa, animais, flautas, sociedade. Por isso eles desejam de-
panelas, alternadamente, e, sobretudo, sesperadamente partilhar alimentos e
podem gerar doenças. Uma caracterís- elementos materiais com os humanos,
tica altamente significativa dos apapayêi assim como sentem falta da interação
é a capacidade de transformação que as com os seres humanos. Os apapayêi
máscaras lhes proporcionam. urubus recebem os Mehinako no mo-
No universo alto xinguanos, todos os mento da morte, e aos poucos estes
seres do cosmos são detentores de mortos deixam de ter alma e começam
uma humanidade originária (Andrade a obter apapayêi.
2007). Como aponta Vilaça em relação Maria Ignês Cruz Mello nos explica
aos ameríndios, “enquanto o corpo que os apapaatai, os espíritos dos Wau-
diferencia as espécies, a alma as asse- ja, podem aparecer de inúmeras for-
melha com os humanos” (Vilaça 2000: mas e jeitos, “esta categoria correspon-
59). Viveiros de Castro (1996) propõe de tanto aos seres invisíveis e temidos,
o conceito de multinaturalismo para des- que povoam o cosmo Wauja, como aos
crever o regime ontológico das socio- animais do mundo físico observável”
cosmologias ameríndias: enquanto o (2004: 64). Um Mehinako relata que
relativismo supõe uma diversidade de viu uma onça na entrada da Terra Indí-
abordagens culturais incidentes so- gena do Xingu (TIX) que tentou atacá-
bre um fundo universal de natureza, -lo, pressupondo que ela teria apapayêi.
o perspectivismo supõe uma unidade Ele ainda explica que as onças que não
formal de abordagem (a cultura) apli- possuem apapayêi nunca iriam atacar
cada diferentemente a partir de uma um ser humano. Entretanto, notamos
multiplicidade de corpos. O perspec- que nem todos os animais são espíri-
tivismo propõe uma epistemologia tos, apenas aqueles que atacam. “Se
constante para ontologias de naturezas um animal exibe uma agressividade
variáveis - é multinaturalista. Ainda, em incomum, os Wauja não duvidam em
diálogo com os Yudjá, Lima (1996:29) identificá-lo como um apapaatai (...) um
afirma que somente os sujeitos (huma- ser muito mais próximo do polo mons-
nos ou não humanos) são dotados de tro do que do polo animal” (Barcelos
alma, sendo os atributos culturais atri- Neto 2006:19).
butos da alma. Vejamos um caso etnográfico dessa
No caso dos apapayêi, o fato de estarem inter-relação entre humanos e apapayêi.
em qualquer lugar e terem várias for- Numa das vezes em que estive na al-
mas faz do mundo imprevisível e pe- deia Utawana, após uma tarde des-
rigoso. De acordo com os Mehinako, cascando mandioca, identificamos os
os espíritos se consideram humanos, passos de uma raposa que andava por
mas foram forçados a deixar a superfí- aquelas redondezas durante a noite.
cie onde hoje vivem os humanos, para Todas as mulheres estavam apreensivas

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e pediram para eu tomar cuidado, pois sejam compartilhar os bens materiais


aquela raposa poderia ter apapayêi. Elas que lhes foram retirados, e por esse
me aconselharam com as seguintes pa- motivo roubam e enfraquecem a alma
lavras: “se uma raposa tentar entrar na dos seres humanos para forçar a nego-
sua frente, você deve simplesmente ig- ciação cosmológica.
norá-la, em hipótese alguma pode sair
correndo ou se assustar, deve apenas
pensar em alguma outra coisa e não A DOENÇA
encará-la”.
De acordo com os Mehinako, a ação
Ou seja, se eu não me comportasse predadora dos apapayêi sobre os hu-
como as mulheres me aconselharam, a manos ocorre sempre através de uma
raposa poderia capturar a minha alma. substância contagiosa de cor preta e
A estratégia de ignorá-la seria a única textura de cera denominada iyalawû,
maneira de me proteger. Entretanto, que, a partir do lançamento de minia-
os Mehinako explicaram que a raposa turas de flechas, atinge partes do cor-
poderia usar feitiço contra mim. Nota- po do apapayêi e o interior do corpo da
-se que a raposa pode deixar sua condi- pessoa, deixando-a doente. José Antô-
ção de animal para tomar a posição de nio Kelly Luciani (2001), com base na
apapayêi. Vale ressaltar que as raposas, etnografia de Aparecida Vilaça junto
entre elas, veem-se como humanos.
aos Wari’, remete ao processo de per-
O perspectivismo torna-se evidente sonitude fractal, que enfatiza o encer-
nesses tipos de circunstâncias formu- ramento de pessoas inteiras em partes
ladas pelos Mehinako, uma vez que o de pessoas, para, assim, gerar réplicas
animal que as mulheres Mehinako es- de relações entre “Eus” e “Outros” em
tavam evitando pode ser um apapayêi diferentes escalas:
com características físicas de uma rapo- “Do ponto de vista de uma teoria
sa. No entanto, conforme o ponto de da troca, poder-se-ia propor ser a
vista estabelecido e com a implicação troca simbólica ou real de partes da
de sua variação, que é a transformação pessoa o que permite atravessar o
dos corpos e do modo de apreensão divisor canônico. A passagem é me-
da alteridade, uma determinada enti- diada por uma transação: o inimigo
dade pode transitar entre as dimensões dá sempre uma parte de si mesmo
animal, humana e espiritual, podendo (...). Um duplo jogo de metáfora e
possuir ao mesmo tempo as qualidades metonímia parece estar em ação: de
dessas três categorias. Na língua aruak, um lado, partes do outro são incor-
o elemento que distingue os animais poradas, o outro é um eu metafóri-
dos apapayêi é o sufixo – kumã, que co; de outro, partes de outras pes-
soas se tornam pessoas.” (2001:99).
serve para fazer as diferenciações. Um
macaco no mato é Kapulu, enquanto o Neste caso, os apapayêi atingem os ini-
kapulukumã é um apapayêi. Os espíritos migos com partes do seu próprio cor-
forçam uma reciprocidade com os hu- po, para, assim, conseguir capturar a
manos (Barcelos Neto 2002); eles de- alma dos seres humanos, ou seja, uma

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troca de frações corporais. Os iyalawû, senta a falha no processo de cura, con-


partes do corpo do apapayêi, são as fle- sequência da realização definitiva desta
chas, ou seja, sua armaria cosmológica. captura da alma.
Cada apapayêi é especialista em atin- Na cosmologia Mehinako, o vínculo
gir o corpo da presa em determinada entre humanos e apapayêi nunca pode
parte; normalmente, o ahira, beija-flor ser quebrado, em decorrência de os
grande, atinge o ouvido direito. Para os humanos não poderem contestar os
Mehinako, o iyalawû, a substância malé- ataques diretamente. Quando a alma
fica de um espírito, é incorporada pela está em processo de enfraquecimento,
pessoa atingida e, assim, se transforma a aliança pode ser estabelecida através
em doença quando entra em contato da sedução: dominando as perfor-
com o corpo humano. mances, cantos e produção de objetos.
Como uma pessoa consegue sobrevi- Notamos que são técnicas de domes-
ver com inimigos dentro do corpo? ticação através do encantamento. As-
Quando o alvo é atingido com as fle- sim, para atrair um espírito, recuperar
chas, a vítima entra em processo de a alma perdida, é preciso saber exata-
adoecimento. Compreende-se, entre os mente o que lhe agrada, reproduzir seu
Mehinako, que a alma está sendo cap- canto, criar máscaras com suas caracte-
turada progressivamente. No pensa- rísticas, oferecer beiju, peixes e pimen-
mento alto xinguano, quando uma pes- ta e, portanto, conhecer seus costumes
soa está seriamente doente, sua alma é e demonstrar afeto, para fazer com que
entregue aos espíritos. A realização das eles acreditem que são parentes dos
festas, de acordo com as regras estabe- Mehinako.
lecidas, ocorre quando o doente seduz Em suma, trata-se de ter as atitudes
o apapayêi e, assim, poderá pagar todos que o apapayêi espera que os humanos
os pagamentos necessários. Isto gera tenham, devendo-lhes cuidados, dedi-
um fenômeno de transformação, ou cação e, de preferência, estabelecendo
seja, aquele espírito devorador, mons- vínculos eternos com estes. O fato de
truoso, se converte em amigo, aquele cultivar a realização das festas constan-
que está próximo, protege, cuida con- tes e sucessivas possibilita a proteção
tra o ataque de outros apapayêi intrusos. contra os ataques de outros espíritos.
As lideranças contam que é um privi- Desta forma, funda-se a união para
légio enorme adoecer de um apapayêi ações cosmológicas que beneficiem o
grandioso, pois repele os espíritos me- Mehinako inclusive depois da morte.
nores. A realização das festas, de acordo com
De acordo com os Mehinako, alguns as regras estabelecidas, ocorre quando
apapayêi são mais poderosos do que o doente seduz o apapayêi e, assim, po-
outros. Uma vez doente da flauta Jakuí, derá fazer todos os pagamentos neces-
por exemplo, torna-se impossível ado- sários. A qualidade de sujeito é recons-
ecer de qualquer outro apapayêi menos tituída, o que ocorre imediatamente
poderoso. Desta forma, a morte repre- quando a alma é recuperada.

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Os espíritos apapayêi e as doenças entre os mehinako

Creio que, na cosmologia Mehinako, do assim, consideram os patrocinado-


a relação entre humanos e apapayêi é res da festa os pais dos apapayêi, aqueles
de fundamental importância para jus- que cuidam.
tificar os eventos realizados na aldeia. Notamos que o conceito de dono é
Sem dúvida, o espírito se transforma e utilizado em diversos contextos pelos
se familiariza com os Mehinako através Mehinako: dono de árvores, dono da
de um reposicionamento dos próprios
casa dos homens, dono dos brancos,
apapayêi, que se deslocam da posição de
dono da aldeia, dono do remédio e
inimigo para adquirir uma aproxima-
dono de luta, ou melhor, todas as coisas
ção mais amigável. Assim, os huma-
possuem donos. Alguns donos que ob-
nos preferem mostrar, nos rituais, que
têm o apapayêi mais perigoso e temido
gostam mais do espírito do que ter que
são aqueles que possuem mais prestí-
ficar apreensivo quando sentem dese-
gio. Depois de escolhidos os colabora-
jos ou caminham sozinhos pela mata,
dores, o dono determina as funções de
sofrendo o risco de terem a alma cap-
cada indivíduo: pescaria, produção dos
turada a qualquer momento. Os Patro-
objetos, flautistas. Por último, informa
cinadores (Kawukamunã)
a data do início da festa e as etapas que
Logo que o yakapá revela o apapayêi serão realizadas nos próximos dias. To-
que está roubando a alma do doente, das as pessoas convocadas aceitam a
uma das mulheres da casa providencia função de ajudante. A possibilidade de
o mingau de mandioca para colocar no não aceitar a convocação nunca foi co-
centro da aldeia. A pessoa adoentada gitada, pois a decisão de não colaborar
é convocada pelo pajé para patrocinar poderia desagradar o apapayêi e gerar
uma cerimônia para o apapayêi que pro- desconfianças e suspeitas de feitiçaria.
vocou a doença. Em seguida o kawika-
munã, o dono da festa, pode escolher Normalmente, são convocados os
quais serão as pessoas que irão colabo- membros da comunidade de acordo
rar com a festa, normalmente aquelas com o grau de parentesco: primeira-
pessoas que aceitaram beber o mingau mente, os parentes mais próximos,
no centro da aldeia. Os indivíduos que sobretudo do núcleo familiar; em se-
conseguem contratar o maior número guida, os mais distantes, e assim por
de serviços da comunidade, aqueles diante. Os parentes colaboradores
que patrocinam rituais extensos de um que se oferecem para fazer a festa de-
espírito extremamente monstruoso, monstram ter enorme consideração
possuem as chances de ser reconheci- pelo patrocinador, e uma das funções
dos com destaque entre os Mehinako. principais do colaborador é pescar para
Os donos das festas devem cuidar de ajudar na festa.
seus apapayêi, fornecendo alimentos Com a finalização das festas, os cola-
cozidos no centro da aldeia e realizan- boradores entregam panelas, miçan-
do sucessivas cerimônias. Na língua gas, colares de caramujo e flechas para
Mehinako, referem-se aos pais a mes- agradecer a realização do rito para o
ma palavra que atribuem a dono. Sen- apapayêi. Quando o patrocinador da

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Braida, R. G. A.

festa não consegue alimentar a comu- para as ervas e os chás para o tratamen-
nidade de maneira satisfatória, não re- to de doenças consideradas leves, e o
cebe bons presentes. yakapá, aquele que possui relação direta
Quando a doença é mais leve, o dono com os espíritos e consegue curar atra-
pode aguardar para fazer festa para o vés dos transes, tabacos e cantos, para
apapayêi, minimizando os efeitos pato- assim realizar a extração de feitiços
gênicos com ervas e pajelança. A con- (kauki). Os Mehinako explicam que a
dição de dono não é permanente, de mesma substância preta que transmite
modo que um mesmo apapayêi pode doença também pode ser utilizada no
obter inúmeros donos ao longo dos processo de cura. Os pajés possuem a
anos, ou melhor, cada festa realizada mesma substância que está armazena-
pode ter mais de um patrocinador. da nas flechas do apapayêi, a iyalawû, que
Identificamos casos de haver cinco do- está concentrada nas mãos e na gargan-
nos para o mesmo apapayêi. ta do curador. Os Mehinako ainda res-
Quando algum outro indivíduo é atin- saltam que qualquer pessoa consegue
gido por um apapayêi que já possui um enxergar essa pequena rodela preta de
dono, ele pode optar por manter o cera dentro da garganta de um pajé. O
patrocínio, quando há algum risco de pajé é aquele que consegue lidar com
a doença voltar, ou cessar o compro- frações de apapayêi dentro de si, sem
misso e entregar o ritual a outra pes- sentir dores ou sequelas. Os efeitos de
soa atingida. Nesse caso, ele deve fazer cura são ativados quando a fumaça en-
a declaração, em público, de que está tra em contato com a substância.
transferindo a categoria de dono para Se, por um lado, é extremamente difícil
outra pessoa, e, principalmente, deve para um pajé conseguir ficar resisten-
realizar a última festa para o espírito. te à substância preta iyalawû - os pajés
No período em que realizei a última enfrentam um treinamento intenso
pesquisa de campo, em 2010, estavam e rigoroso para obterem esse feitio -
hospedados em Utawana três suíços por outro lado, pode perder poderes.
que pagaram pela realização dos ritu- Acompanhei o caso, por exemplo, de
ais, situação considerada muito favo- um pajé que perdeu sua capacidade de
rável para a realização das festas para cura porque aceitou a comida de uma
os apapayêi aguardados. Neste caso, mulher menstruada.
aquelas pessoas que optaram por pou-
par apapayêi para uma situação determi- As pessoas que são atingidas pela fle-
nada, puderam realizar as festas para cha dos espíritos não suportam essa
mostrar aos estrangeiros e receberam pequena porção do corpo do apapayêi
dinheiro para isso. dentro de si. “O doente é aquele que
carrega em seu corpo uma extensão de
apapaatai, tornando assim uma espécie
CURA de presa: o doente é o cativo, a doença
Na aldeia Utawana existem dois tipos é um cativeiro” (Piedade 2004:55).
de pajé: o panalawekehe, aquele que pre- O pajé yakapá é um indivíduo escolhi-

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Os espíritos apapayêi e as doenças entre os mehinako

do por um apapayêi; neste caso, quando formações do cotidiano da vítima ba-


o espírito captura a alma, os efeitos são seadas em relatos dos parentes, sonhos
muito severos, havendo uma espécie e a identificação das dores. Depois de
de prolongamento da doença. Quando identificada a doença, inicia-se o trata-
isso ocorre, o pajé precisa se adaptar mento à base de sessões de transe com
com o corpo do apapayêi dentro de si. tabaco, até conseguir retirar as subs-
No caso do yakapá Mehinako que ha- tâncias do apapayêi do interior do cor-
bita a aldeia Utawana, o apapayêi que po adoentado. Após ter cumprido a
tomou conta de seu corpo foi um pás- primeira etapa de identificação e extra-
saro pequeno e poderoso, considerado ção do feitiço, o atingido pode iniciar
muito eficiente na cura de doenças4. a segunda fase, efetuando pagamentos
Esse yakapá tem sido inúmeras vezes para o apapayêi através das realizações
procurado por indígenas de outras al- de festas e partilhas de alimentos no
deias no Alto Xingu para a realização centro da aldeia. Por último, o pajé
das curas xamânicas, pois é considera- yakapá receberá do ex-doente os paga-
do um dos melhores pajés da região. mentos por ter lhe devolvido a alma:
colares de caramujo, panelas grandes,
Após o transe, numa tentativa de recu- adornos, redes e, com cada vez maior
perar a alma de uma mulher Mehinako frequência nos últimos tempos, TV,
da outra aldeia, o yakapá relatou que o DVD, fogão, botijão de gás e bacias de
feitiço (kauki) normalmente queima a alumínio.
mão, e por isso todos os pajés possuem
uma cera preta dentro da mão para Quando as dores persistem, poucas
proteger contra a alta temperatura das vezes os Mehinako desconfiam da
flechas retiradas do corpo do doente. aptidão de um yakapá, principalmente
O pajé passou suavemente a mão no quando o pajé é mais antigo e possui
local afetado do corpo, onde o feitiço certo prestígio. Em alguns casos, os
estava alojado, sentiu-o sob a pele, e, xamãs justificam que inúmeros apa-
por último, conduziu a substância pa- payêi ao mesmo tempo podem roubar
togênica para fora do corpo da doen- a alma de um doente, e os espíritos
te. Após a extração e a materialização menos perigosos podem pedir auxílio
do feitiço em suas mãos, ele soprou-o para os espíritos maiores; assim, nor-
com a fumaça do tabaco, cantou algu- malmente, um yakapá não consegue
mas palavras em baixo tom e rezou até identificar mais de um espírito em uma
o dia amanhecer. única sessão de transe, podendo de-
morar cerca de uma semana para ele
“Eu sou o espírito do pássaro pe-
conseguir visualizar quantos apapayêi
queno
roubaram a alma da vítima. Foi o que
Eu estou aqui
aconteceu com uma mulher mehinako
Eu sou o espírito do pássaro pe- da outra aldeia, transportada em uma
queno.” lona preta com varas nas pontas para
Notamos que para o diagnóstico ser a aldeia Utawana. Durante alguns dias
mais preciso é necessário coletar in- o yakapá estava tentando realizar a cura

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Braida, R. G. A.

à distância, mas não obteve êxito; por ca de São Paulo (PUC-SP). Atividade pro-
isso os familiares decidiram transportá- fissional: Docente bolsista de pós-doutora-
-la para a aldeia do pajé. Logo que ele do da Universidade Federal do Amazonas.
teve contato com a doente, percebeu Endereço físico para correspondência:
que mais de um apapayêi havia rouba- Rua Cinco, 158, CEP: 69055-230, Manaus,
do a alma dela, por isso ele não estava Amazonas. E-mail: rgabraida@yahoo.com.
br
conseguindo realizar a cura à distância
nem fazer um diagnóstico imediato, 2
Este artigo trata de um recorte de mi-
devido à quantidade de apapayêi que nha pesquisa de doutorado, voltada para
capturaram a alma da mulher. festas promovidas para os apapayëi entre
os Mehinako, que envolvem a produção
de um grande número de objetos e curas.
Hospedei-me na casa do chefe Yahati, du-
CONCLUSÃO
rante quase toda a duração das pesquisas
Objetos e rituais permitem que os apa- de campo. É muito comum no Alto Xingu,
payëi se integrem às dinâmicas sociais assim como entre outros povos indígenas,
dos Mehinako, de tal modo que sejam que todos os caraíbas tenham um anfi-
percebidos não mais sob uma ameaça trião, alguém responsável por hospedá-lo,
constante, mas como aliados em po- acompanhar em todos os momentos da
tencial. As negociações intermináveis pesquisa, observar a sua relação com to-
das as pessoas da aldeia, e algumas vezes a
permitem a internalização dos outros
disputa entre anfitriões de facções distin-
em uma rede de trocas materiais e ce-
tas pode gerar conflitos. A princípio, fui
rimoniais. recebida pelo chefe mediador das relações
Os apapayêi demonstram, enfim, que dos brancos com os Mehinako, aquele que
não há pacificação sem a produção sempre está fora da aldeia vendendo ob-
de doença, morte e violência, o que jetos e buscando contatos de parcerias, e
nos remete à hipótese de Viveiros de nome Anapuatã. Mas após algumas horas,
Castro sobre o parentesco ameríndio fui encaminhada para a casa do grande
como um processo de construção de chefe, conhecedor das tradições e dos cos-
identidade a partir da diferença, pro- tumes dos Mehinako, Yahati. Ao longo da
pesquisa, desenvolveu-se um site de ven-
cesso fadado à incompletude: todo apa-
das online para estimular a coleta de da-
payëi pode gerar doenças em graus mais
dos e a catalogação de objetos. Como os
acentuados ou não, pois a inimizade é Mehinako estavam iniciando o projeto da
algo que pode ser revertido entre os Associação Indígena Ahira, propusemos
povos alto xinguanos. para o grupo a realização de um site de
venda dos objetos produzidos por eles. O
NOTAS aumento nas vendas através desse canal de
contato cooperou com a renda da popula-
1
Formação: Graduação em Turismo pela
ção e, além disso, contribuiu com as son-
Pontifícia Universidade Católica de Campi-
nas (PUCCAMP), Mestrado em Geografia dagens que precisávamos para a realização
pela Universidade Federal de Mato Grosso da pesquisa.
do Sul (UFMS) e Doutorado em Ciências 3
As flautas Jakuí são consideradas o apa-
Sociais pela Pontifícia Universidade Católi- payêi mais perigoso e temido. Aqueles

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Os espíritos apapayêi e as doenças entre os mehinako

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