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HIPERPLASIA VAGINAL EM CADELA: RELATO DE CASO

Talita Bianchin Borges1; Ana Maria Quessada2; Rallyson Ramon Fernando Barbosa
Lopes3; Pollyana Linhares Sala4; Thaise Vitoria Canoff5.
1
Mestranda em Ciência Animal, Universidade Paranaense (UNIPAR), bolsista
CAPES, Umuarama, PR, Brasil. (t-borges@hotmail.com). Autor para
correspondência.
2
Professora doutora, UNIPAR, Umuarama, PR, Brasil.
3
Médico Veterinário Autônomo, Teresina, PI, Brasil.
4
Mestranda em Ciência Animal, UNIPAR, bolsista PIT, Umuarama, PR, Brasil.
5
Graduanda em Medicina Veterinária, UNIPAR, bolsista PIBIC, Umuarama, PR,
Brasil.

Recebido em: 31/03/2015 – Aprovado em: 15/05/2015 – Publicado em: 01/06/2015

RESUMO
A hiperplasia vaginal é uma condição observada em algumas cadelas jovens por
ação do estrogênio, refletindo em uma resposta exagerada à concentração destes
hormônios circulantes. Esta afecção é detectada durante o proestro, em um dos três
primeiros cios, ao fim do diestro ou ao parto. Neste relato descreve-se o caso de
uma cadela, da raça boxer, que foi atendida em um Hospital Veterinário
Universitário. A queixa principal do tutor era a protrusão de uma massa de coloração
avermelhada e com secreção sanguinolenta pela vulva. Após a anamnese e exame
físico, o diagnóstico foi de hiperplasia vaginal. O animal foi submetido à
ovariohisterectomia, mas a massa não regrediu, por isso foi realizada a reintrodução
da mucosa vaginal edemaciada e colocação de uma sutura em bolsa de fumo. O
animal se recuperou completamente.
PALAVRAS-CHAVE: canina, estrógeno, mucosa vaginal, proestro.

HYPERPLASIA VAGINAL IN BITCH: A CASE REPORT

ABSTRACT
Vaginal hyperplasia is a condition observed in some young bitches by action of
estrogen, resulting in an exaggerated response to the concentration of these
circulating hormones. This condition is detected during proestrus at one of the first
three estrus, after diestrus or parturition. This report describes the case of a bitch, the
boxer breed, which was attended at the Veterinary Teaching Hospital. The main
complaint was protrusion of a reddish mass and bloody discharge from the vulva.
After the anamnesis and physical examination the diagnosis was vaginal hyperplasia.
The animal underwent ovariohysterectomy, but the mass did not regressed, so it was
performed the reintroduction of the swollen vaginal mucosa and placing a purse-
string suture. The animal recovered completely.
KEYWORDS: canine, estrogen, proestrus, vaginal mucosa.

INTRODUÇÃO
Nas cadelas, massas vaginais protrundindo pela vulva podem ser: hiperplasia
vaginal, prolapso vaginal verdadeiro, neoplasia vaginal e uretral, aumento do clitóris,

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prolapso uterino ou retroflexão da vesícula urinária devido a hérnia perineal. A
hiperplasia vaginal é uma afecção que resulta de uma resposta exagerada da
mucosa vaginal ao estrógeno durante o proestro ou início do estro, que é
caracterizada por protrusão do tecido vaginal edematoso através da vulva (SONTAS
et al., 2010). Tal afecção pode ocorrer nos três primeiros estros, também ao fim do
diestro ou após o parto (PINTO FILHO et al., 2002). Embora o termo hiperplasia
vaginal esteja consagrado pelo uso, atualmente o termo mais utilizado para
denominar esta afecção é prolapso da prega vaginal (SONTAS et al., 2010).
A hiperplasia vaginal depende de inúmeros fatores, mas a causa exata ainda
é desconhecida. O estrógeno é considerado como o principal componente da
patogênese da condição devido aos seguintes fatos: há alta incidência da desordem
durante o proestro, estro e final da gestação, ocorre regressão espontânea da
condição no diestro e retração com desaparecimento da massa prolapsada após
ovariectomia ou ovariohisterectomia (SONTAS et al., 2010). Sob a ação do
estrógeno, em cadelas normais, a mucosa vaginal e vestibular tornam-se
edemaciadas e espessadas durante o estro. Entretanto, em algumas cadelas, este
processo é excessivo e a porção ventral da vagina, cranialmente ao orifício uretral,
torna-se extremamente edemaciada e espessada, protrundindo através da vulva
(TIVERS & BAINES, 2010).
Quando o nível de estrógeno está elevado, há um relaxamento dos
ligamentos pélvicos, edema do tecido perivaginal e relaxamento da musculatura
perivulvar, vulvar e demais tecidos (MCNAMARA et al., 1997). O estrógeno
(estradiol-17B) liberado é responsável pelo edema vulvar e pela secreção vulvar
serossanguinolenta (presente na afecção), e por estimular as células do epitélio
vaginal a se dividirem (KUSTRITZ, 2012).
A afecção é mais comum em cadelas jovens e intactas. Aspectos hereditários
da condição são debatidos, mas não foram provados (SONTAS et al., 2010). No
entanto, a raça Boxer parece bastante afetada pela desordem (PINTO FILHO et al.,
2002; SONTAS et al., 2010). Outras raças que podem ser acometidas com
frequência são as raças braquicefálicas como Mastiff (SONTAS et al., 2010; TIVERS
& BAINES, 2010).
Clinicamente, as cadelas afetadas apresentam uma massa de diversos
tamanhos protrundindo através da vulva. A condição é classificada em três tipos de
acordo com o grau de protrusão. No grau I, observa-se uma pequena ou moderada
eversão do assoalho vaginal, próximo à abertura uretral. Neste caso, a mucosa
evertida pode ser detectada por meio de exame vaginal ou pelo vaginoscópio, mas
não é visível na fenda vulvar. No tipo II, a prega vaginal fica prolapsada através dos
lábios vulvares, tornando-se assim visível externamente. Neste caso, o exame
vaginal revela que o assoalho vaginal, cranialmente ao orifício uretral, fica
prolapsado. Quando a circunferência toda da vagina protrunde através da vulva, a
condição é classificada como grau III, sendo que a abertura uretral pode ser
facilmente identificada quando a parte ventral da massa prolapsada é elevada
(SONTAS et al., 2010).
Nos casos de grau II e III a massa saliente pode ser facilmente danificada por
lambedura, fricção ou automutilação, que, se passar despercebida ou não for
tratada, resulta em vários graus de dano tecidual (SONTAS et al., 2010). A condição
pode interferir na vida reprodutiva da cadela, pois impede a cobertura, estando
incluída como uma das causas de infertilidade em cadelas (LANNA et al., 2012).
O diagnóstico da hiperplasia vaginal é baseado nos sinais clínicos associados

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ao histórico reprodutivo detalhado da fêmea. O diagnóstico diferencial inclui
neoplasias vaginais e uretrais, prolapso uterino, aumento do clitóris e pólipos
vaginais (SONTAS et al., 2010).
Em relação ao tratamento, casos brandos (grau I) podem regredir no diestro,
não necessitando, portanto de abordagem terapêutica (WIKES & OLSON, 2007). No
entanto, deve-se informar o proprietário a possibilidade do problema ocorrer no cio
subsequente. Geralmente, 100 % das cadelas que apresentam hiperplasia vaginal,
são acometidas da patologia no cio posterior (SONTAS et al., 2010). O edema dos
tecidos pode ser reduzido com polvilhamento de açúcar, dextrose 50%, água morna
ou redução manual. Após a redução, deve-se suturar os lábios vulvares com fios
não absorvíveis calibrosos (FRARI & CAMARGO, 2013).
Para resolução permanente do problema, indica-se ovariohisterectomia, que
suprime a fonte estrogênica. Amputação da massa prolapsada deve ser considerada
quando: a massa está injuriada ou necrótica e não responde ao tratamento médico;
quando a fêmea é uma reprodutora ou a condição é recidivante e em casos crônicos
que não mostram redução após supressão cirúrgica da fonte de estrógeno
(SONTAS et al., 2010).

RELATO DO CASO
Foi atendido em um Hospital Veterinário Universitário um canídeo, fêmea não
castrada, da raça Boxer, de presumidos dois anos. Na anamnese o tutor relatou que
observou a exposição da mucosa pela vulva e que o animal estava no cio. Ao exame
físico e hematológico, não foram observadas outras alterações patológicas. Diante
do quadro estabeleceu-se o diagnóstico de hiperplasia vaginal. Foi realizada a
limpeza da mucosa hiperplásica com solução fisiológica 0.9%, observando-se que a
mucosa estava em boas condições.
A cadela foi internada para ser submetida à ovariohisterectomia (OH), com a
autorização do tutor. Após jejum de 12 horas, o animal foi submetido à cirurgia. O
protocolo anestésico constou de: medicação pré-anestésica com associação de
morfina (1mg/kg), midazolan (0,5 mg/kg) e acepromazina (0,05 mg/kg) por via
intramuscular (na mesma seringa), indução anestésica com propofol (4 mg/kg)
intravenoso e manutenção com Isoflurano pela intubação orotraqueal. A técnica
cirúrgica empregada foi a convencional e está descrita na literatura (STONE, 2007).
No pós-operatório, a cadela ficou internada, recebendo cefalotina Bid (30m/kg) e
tramadol Tid (2mg/kg). Dois dias após a cirurgia, observou-se que a massa não
regrediu e apresentava hiperemia e algumas lesões discretas, indicativas de
autotrauma (Figura 1). Diante do quadro, foi feita lavagem da massa com solução
fisiológica e foi aplicado açúcar para redução. Observando-se discreta redução da
massa, o animal foi encaminhado para o centro cirúrgico, onde foi realizada
sondagem da uretra. O protocolo anestésico foi o mesmo utilizado anteriormente. A
massa foi reposta após lubrificação com óleo mineral e manobras em rotação.
Realizou-se uma sutura em bolsa de fumo, que permaneceu durante uma semana.
A sonda uretral foi fixada por meio de sutura tipo bailarina (Figura 2). Ao término do
procedimento o animal foi internado e recebeu a mesma medicação anterior
(cefalotina e tramadol). A sonda foi retirada 48 horas após a cirurgia, quando a
cadela recebeu alta. Foi prescrito: cefalotina (20mg/kg Bid; sete dias) e meloxicam
0,1 mg/kg sid; três dias). A sutura em bolsa de fumo foi retirada uma semana depois,
sendo que o animal estava completamente recuperado.

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FIGURA 1: Cadela, dois anos, boxer, portadora de hiperplasia vaginal.
Observa-se mucosa vaginal edemaciada e hiperêmica
Fonte: arquivo pessoal dos autores.

FIGURA 2: Cadela, dois anos, boxer, portadora de hiperplasia vaginal.


Aspecto da mucosa vaginal após reposição de massa prolapsada.
Notar a sonda uretral.
Fonte: arquivo pessoal dos autores.

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DISCUSSÃO
A cadela objeto deste relato pertence à raça Boxer, a qual é uma das mais
afetadas por esta afecção (PINTO FILHO et al., 2002; SONTAS et al., 2010). No
caso em questão o tutor informou que a cadela estava no cio, sendo que a
hiperplasia vaginal da qual a cadela era portadora pode ocorrer no estro,
especialmente no início (SONTAS et al., 2010). A ação estrogênica é fisiológica
durante o estro, fazendo com que ocorra edema vaginal (TIVERS & BAINES, 2010).
No entanto, em algumas cadelas, este processo é excessivo e a porção ventral da
vagina, cranialmente ao orifício uretral, torna-se extremamente edemaciada e
espessada, protrundindo através da vulva (TIVERS & BAINES, 2010), como ocorreu
na cadela objeto deste relato.
Diante do exposto, o diagnóstico foi estabelecido principalmente pelos sinais
clínicos e anamnese como informam os autores (PINTO FILHO et al, 2002; SONTAS
et al., 2010). Em alguns casos, pode ser necessária a utilização de biópsia e exame
histopatológico para diferenciar hiperplasia vaginal de tumores vaginais como o
leiomioma (MENDONÇA et al., 2012). Tal exame não foi necessário neste caso,
devido aos dados da anamnese, idade da paciente, fase do ciclo estral e aparência
macroscópica da massa prolapsada (Figura 1).
Pelos sinais macroscópicos observados na cadela, definiu-se a hiperplasia
como sendo do grau III, já que a mucosa vaginal estava completamente exposta,
com a circunferência toda da vagina protrundindo através da vulva (Figura 1) sendo
que a abertura uretral foi facilmente identificada quando a parte ventral da massa
prolapsada foi elevada (SONTAS et a al., 2010).
Tendo sido classificada como grau III, dificilmente haveria redução
espontânea, sendo que isto ocorre quando a hiperplasia é do grau I ou II (WILKES &
OLSON, 2007; SONTAS et al., 2010). Desta forma, o tratamento adotado foi a OH,
pois neste procedimento cirúrgico seria eliminada a fonte de estrógeno (SONTAS et
al., 2010), esperando-se redução da massa após sua realização, como se observa
em casos relatados na literatura. No entanto tal fato não ocorreu. Provavelmente a
massa prolapsada estava muito grande (Figura 1) e com lesões que impediram sua
completa regressão. Este evento pode ocorrer em casos de hiperplasia vaginal
principalmente em casos crônicos (SONTAS et al., 2010). O tutor não soube
informar se o animal já havia apresentado a condição.
O manejo da massa prolapsada com amputação ou reposição deve ser
considerada em casos não responsivos à OH e tratamento médico (SONTAS et al.,
2010), como foi feito nesta cadela. Em outro caso semelhante foi necessária a
amputação da massa (KUMAR et al., 2014). Esta conduta não foi necessária na
cadela objeto deste relato porque não havia áreas de necrose na mucosa vaginal,
que se apresentava viável (Figura 1). Foi realizada apenas a reposição como foi feita
em um caso semelhante no Brasil (FRARI & CAMARGO, 2013), sendo que a
manobra foi bem sucedida.

CONCLUSÃO
A hiperplasia vaginal em cadelas pode não responder à eliminação cirúrgica
da fonte estrogênica (ovários), sendo necessária reposição da massa se esta estiver
viável (sem áreas de necrose).

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