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O Retorno na Legislação Brasileira

Gabriel Pereira da Silva¹

RESUMO: O trabalho tem como escopo dissertar sobre o histórico da teoria do retorno alinhada
à noção e objeto do Direito Internacional Privado, abordaremos o famoso caso Forgo e a
aplicabilidade da teoria do reenvio na legislação brasileira.
Baseado em autores como Mazzuoli (2018) e Florisbal de Souza (2014) discorreremos sobre o
assunto apresentando.
PALAVRAS-CHAVES: retorno; reenvio; Forgo; Florisbal; Mazzuoli

1. INTRODUÇÃO:

Inicialmente recordaremos a noção de Direito Internacional Privado e qual seu objeto.


Florisbal de Souza em seu livro Curso de Direito Internacional Privado, nos ensina que o DIPr
se trata de um “conjunto de normas de direito público interno que busca, por meio dos
elementos de conexão, encontrar o direito aplicável, nacional ou estrangeiro, quando a lide
comporta opção entre mais de uma ordem jurídica para solucionar o caso” (Del’ Olmo, Florisbal
de Souza, 2014, não paginado).
Amparado nas linhas italianas e alemãs dos últimos dois séculos, conclui-se que o Direito
Internacional tem como escopo, objeto principal a solução dos conflitos entre leis no espaço.
Neste diapasão Mazzuoli (2018) nos apresenta duas espécies de conflitos, um positivo e outro
negativo.
2. HISTÓRICO DO RETORNO NO DIPr E CASO FORGO

Segundo o autor, o conflito positivo se dá quando “cada um dos ordenamentos em causa


indica a sua própria norma para reger a questão jurídica com conexão internacional. ”
(Mazzuoli, 2018, p.80), o jurista exemplifica a situação com o conflito que há no caso de
direitos de família e sucessão de um português domiciliado no Brasil, pelo art.7 º da LINDB o
juiz deverá aplicar a regra brasileira, segue-se a regra da lex domicilii, todavia, o código civil
português em seu art. 25 determina que em tal caso seja aplicado a lei da origem da pessoa, tem
por critério a nacionalidade do indivíduo. Já o conflito negativo se dá quando ocorre o contrário,
acontece quando cada um dos ordenamentos se eximem da causa, nas palavras de Mazzuoli
(2018) ocorre “quando cada um dos ordenamentos em causa exclui a aplicação de suas normas
internas para a resolução da questão jurídica com conexão internacional, fazendo incumbir a
outro sistema jurídico esse mister. ”

¹ Gabriel Pereira da Silva, graduando em direito pela UCAM de Jacarepaguá, 6º Período, Matutino,
Matricula 11662039-7
A solução adotada para se resolver o problema causado pelo conflito negativo das leis no
espaço foi a chamada teoria do reenvio ou retorno que de acordo com Osíres Rocha trata-se de
uma “operação pela qual o juiz do foro volta ao seu próprio direito ou vai a um terceiro direito,
seguindo a indicação feita pelo Direito Internacional Privado da jurisdição cuja legislação
consultara de acordo com a norma de DIPr de seu país” (p.57, apud Del’ Olmo, 2014, não
paginado). Há entre alguns autores divergências quanto a terminologia, não entraremos no
mérito da questão, contudo, achamos válido mencionar que há dois tipos de retorno ou reenvio,
um de primeiro grau que consiste “ (n)aquele em que a lex causae devolve a questão à lex fori
(reenvio de primeiro grau) e a em que remete a solução a terceira lei (reenvio de segundo grau)”
(Mazzuoli).
As discussões sobre a teoria do reenvio ganhou notoriedade no célebre caso Forgo, julgado
pela Corte de Cassação Francesa em 1882. François-Xavier Forgo era nacional da Baviera,
mudou-se para França aos cinco anos de idade com sua mãe, onde ao decorrer da vida fez
grande fortuna e veio a falecer aos 68 anos de idade, sem deixar herdeiros ou testamento,
seguindo a lei bávara, um casal colateral de sua mãe se habilitou para receber a herança,
contudo, seguindo a lei francesa só poderiam se habilitar à sucessão os irmãos, logo, o
patrimônio de Forgo deveria ser transferido ao Tesouro francês a título de herança vacante.
Todavia, o falecido nunca oficializara seu domicilio na França, dessarte pela norma
internacional do Direito francês sua herança seria regulada pelo Direito da Baviera, contudo
pela lei bávara a norma competente era a de domicilio de fato do de cujus, o remetendo à França,
com isso a Corte francesa em consonância à lei bávara, aceitou o domicilio de Forgo em solo
francês, negando consequentemente as alegações pretendidas pelos colaterais de sua mãe,
decidindo pela sucessão da herança ao Tesouro francês.
3. RETORNO X LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

O Direito positivo brasileiro era silente a questão abordada até 1942, conforme nos
ensina Mazzuoli aceitava-se o retorno, porém não havia disciplina regulamentadora, até que
inspirado no art. 30 das disposições preliminares ao Código Civil italiano de 1942 e
contrariando a anterior doutrina e jurisprudência consolidada, o legislador brasileiro decidiu
por vetar o instituto do retorno, disciplinando tal entendimento no art. 16 da LINDB.
Mazzuoli afirma que o conflito espacial negativo das normas de DIPr se resolve
exclusivamente pela lex fori na legislação brasileira.
Há divergência na doutrina quanto ao posicionamento tomado diante da proibição de tal
instituto, Mazzuoli, Clóvis Beviláqua, Eduardo Espínola, Lafayette Pereira e Haroldo
Valladão militam em favor da aceitação do retorno, já Florisbal de Souza junto a Oscar
Tenório e o chamado Grupo Mineiro militam em favor da proibição.

4. CONCLUSÃO
O atual sistema brasileiro em consonância à Convenção Interamericana sobre Normas
Gerais de Direito Internacional Privado, realizada em 1979 em Montevidéu, assinada pelo
Brasil em 1994, decidiu por não reconhecer o instituo do retorno/reenvio, explicitando tal
entendimento no art. 16 da LINDB, a doutrina diverge quanto ao posicionamento nessa
situação, alguns projetos de lei foram sugeridos para mudança da legislação, como o PL 269
do Senado em 2004, contudo até a presente data o Brasil posiciona-se pela proibição da
aplicação de tal instituto.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ROMANO, Rogerio Tadeu – A Teoria do Direito do retorno no Direito Internacional,


disponível em <https://jus.com.br/artigos/57509/a-teoria-do-retorno-no-direito-internacional-
privado>.Acesso em 17 set. 2018

RECH, Carolina Magalhães – As Conferências Interamericanas de Direito Internacional


Privado, disponível em
<http://www.pucrio.br/pibic/relatorio_resumo2007/relatorios/dir/dir_carolina_magalhaes_rec
h.pdf>. Acesso em 18 set. 2018

PACHECO, Catalina Fuentes – Caso Forgo, disponível em


<http://catalinainternacional.blogspot.com/2007/09/caso-forgo.html>. Acesso em 17 set. 2018

MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de Direito Internacional Privado – 3ª ed. – Rio


de Janeiro: Forense, 2018. Não paginado. (ebook)

Del’ Olmo, Florisbal de Souza. Curso de Direito Internacional Privado – 10ª ed. – Rio
de Janeiro: Forense, 2014. Não paginado. (ebook)

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