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Norbert Elias
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Introdução
à Sociologia
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ISBN �?a-�72-��-t�ab-7

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11 1 11111
789724 414867
Assinada por um dos nomes máximos da
Sociologia contemporânea, esta introdu­
ção tem o mérito de constituir uma abor­
dagem diferente, nada convencional e de
grande poder de síntese. Sucessivamente,
Norbert Elias retoma as interrogações
formuladas por August Comte acerca
da Sociologia; fala do papel do sociólogo
como destruidor de mitos, das caracterís­
ticas universais da sociedade humana e da
teoria do desenvolvimento social.

I
A cultura como sistema aberto, como acto e drama
que se expressa na palavra e na imagem para análise
e interpretação do quotidiano.
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Introdução
à Sociologia
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Tftulo original:
Iq
Was ist Soziologie?

@ Juventa Verlag, �unique 1970
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Tradução; Maria Luísa Ribeiro Ferreira

Capa de F.B.A.

Depósito Legal n• 283730/08


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Biblioteca Nacional de Portugal- Catalogação na PubUcaçiio

ELIAS, Norbert, 1897-1990

Introdução à sociologia. - Reimp.- (Biblioteca 70; 16)


ISBN 978-972-44-1486-7

CDU316 ' Norbert Elias


1 Introdução
Impressão e acabamento;
PENTAEDRO

lj
para
EDIÇÕES 70, LDA.

à Sociologia
Outubro de 2008

ISBN: 978-972-44-1486-7
ISBN da 3" edição: 972-44-1227-X
ISBN da z• edição: 972-44-1005-6
ISBN da 1" edição:972-44-0400-5
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Direitos reservados para todos os palses de língua ponuguesa
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por Edições 70 il
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Rua Luciano Cordeiro, 123- J• Esq"- 1069-157 Lisboa I Portugal
Telefs.: 213190240- Fax: 213190249
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www.edic::oes70.pt

I Esta obra está prmegida pela lei. Não pode ser reproduzida,

I
no todo ou em parte, qualquer que seja o modo utilizado,
incluindo fotocópia e xerocópia, sem prévia autorização do Edi10r.
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;I Qualquer transgressão à lei dos Direitos de Autor será passivel
de procedimento judicial. 'I
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AGRADECIMENTOS DO AUTOR*

Se, QO escrevermos uma introdução a sociologia, nos des­


viamos um pouco dos caminhos USWlis e, ao fazé-lo, tentamos
ajudar o leitor a encarar de um modo novo os problemas
bdsicos da sociedade, em primeiro lugar só podemos confiar
em nós mesmos. No entanto, estamos sempre dependentes da
ajuda, encorajamento, estlmulo e sugestões dos outros. Não
posso aqui mencionar todos os que, de um ou de outro modo,
me ajudaram neste trabalho. Porém, além do director desta
colecção, Professor Dieter Claessens, a quem dedico este livro,
devo mencionar explicitamente o Doutor W. Lepe,nies, que com
grande habilidade e tacto adaptou o manuscrito do autor (dema­
súulo longo, difícil e não facilmente sujeito a cortes) ao formato
adequado para a colecçdo. Volker Krumrey prestou-me conside­
"

'I
rdvel au:dlio e conselho na preparação do manuscrito. Também

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gostaria de exprimir os meus calorosos agradecimentos aos
meus amigos e colegas Eric Dunning, Johan Goudsblom e Her­
mann Korte, pelos estimulas e conselhos que me prestaram.
!I
'
Finalmente, nQo posso deixar de agradecer ao meu editor Dou­
tor M. Falternulier, cuja pacilncia de tempos a tempos pus d.
IWOVa.

Leicester, 1969

NORBERT ·EUAS

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PREFÁCIO A EDIÇAO INGLESA

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,. Norbert Elias foi um dos cientistas alemães que fugiu

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I dd Alemanha nos anos 30, fazendo da Inglaterra o seu lar.
A sua contribuiçilo cienUfica fundamental, Uber den Pro­
zess der Zivilisation, foi publicada em 1939 na Sufça, sendo
·I' também publicada at, ein 1969, uma nova ediç4o, com um
I novo e importante prejdcío. No entanto,_ s6 agora as prin­
'
cipais obras de Elias, incluindo o presente livrO, começam
:[

i
a ser acessfvets aos leitores ingleses. Contudo, a obra de

·
Norbert Elias como professor na Universidade de Leicea­

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ter teve uma influéncici considerável. Podenios hoje /falar
de toda uma geração ãe sociólogos ingleses que foram seu
:1' alunos e que, como tal, difundiram o seu entusiaSmo con­
tagiante por este tema. Os leitores deste livro reconhece­
I
rão o que os cativOu- os dotes naturais de Elias como
:I
professor. Também podemos falar de um interesse reno­

.I
I vado pela obra deste autor na Alemanha e na Holanda
onde, depois de reformado pela Universidade de Letcester
em 1962, leccionou em diversas universidades como pro.

I
fessor vtsttante. O destino de Norbert Elias tem sUio sfn.
gular pots se o seu maior impacto cómo professor se deu
em Inglaterra. o impacto posteriOr do seu trabalho- cten­
tfff,co tem-se dado no universo académko da Alemanha.
What is Sociology? foi publicado pela primelra vea
em 1970, produto tardio da carreira do aeu :autor. Na
última Jrase de uma última nota c:Uz.se: cTo,Cra o teoria
I tardio se desenvolve simultaneamente como conüntWQão
I de teorias anteriores e como ponto de, partida crittco

I
decorrente destas.» Embora esta afir11UIÇIJo se re/iia- a·
Mar.r, ela também se aplka a Elias. Numa bretJe intro.

l
duçOO, ·ilusoriamente super/iCkll, o leftor descobrtrd Um4

11
nova justlfkaçao dll sociologia, recorrendo-se 1:8 Jdefu INTRODUÇAO
básicas primeiramente traçadas por Augusto Comte. Pos­
teriormente, Elias �rá retomar categorias básicas do pen­
samento sociológico, continuando asstm a «tracUção socfo.
lógtca» embora tomando uma posição crUka relattvamente
a contrfbutos matores tats como os de Marz, Weber e Par­
sons. Neste proce8so vai induzindo o lettor a repensar
temas funOOmentafs do discurso sociológico tais como indi­
viduo, grupo e outros.
A ideia deste tipo de abordagem decorre da própria
obra socto-hfstórica do autor. Esta versa essencialmente
sobre padrões mutdvets de tnterdepentUncía relatiVamente
às relações de poder entre os homens em sociedade. A uma
primeira análise das mudanças de etiqueta, relativas ao
aparecimento do «absolutismo» monárquico (na França

,I
medieval), seguiu-se um estudo da sociedade cortes4
(Dle hõfiscbe Gesellschaft, 1969). Em ambas as obras o Para compreendermos de que trata a sociologia, temos
autor acentua que que nos distanciar de nós mesmos, temos que nos consi­
'
" derar seres humanos entre os outros. Na verdade, a socio­
da interpenetração de inúmeros interesses e intenções indivi·
I'
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duais-sejam eles compatíveis ou opostos e hostis·-algo vai logia trata dos problemas da sociedade e a sociedade é
decorrendo que, ao revelar-se, se verifica não ter sido planeado
nem requerido por nenhum indivíduo. No entanto apareceu
devido às intenções e actos de muitos indivíduos. E isto, na
verdade, representa todo o segredo da interpenetração social
ilI
formada por nós e pelos outros. Aquele que estuda e
pensa a sociedade é ele próprio um dos seus membros.
Ao pensarmo-nos na sociedade contemporânea, é diffcil
-da sua obrigatoriedade e regularidade, da sua estrutura, da [j" fugir ao sentimento de estarmos a encarar seres humanos
sua natureza processual e do seu desenvolvimento; isto é o !\ como se fossem meros objectos, separados de nós por um
segredo da sociogénese e da dinâmica sociais. [Ober den P� 'I
,, fosso intransponível. Este sentido de separação é expresso,
zess der Zivilisation (1969), 11, p. 221]. I
reproduzido e reforçado por conceitos e idiomas correntes
2 evidente que Elias clarifica o facto de, nesse jogo de
interdependências, governantes e rets, personagens impor· I que fazem com que este actual tipo de experiência surja
como evidente e incontestável. Falamos do indivíduo e d o

,I
tantes e outros, terem uma 1.nfluhzcia considerável, insts· seu meto, da criança e da famfiia, do indivíduo e da socie­
tindo no entantQ_ no jacto de eles próprios constttutrem dade ou do sujeito e do objecto, sem tennos claramente
uma parte das interdependéncias em que são relativamente presente que o indivíduo faz parte do seu ambiente, d a
dominantes (Die htlfische Gesellschaft (Neuwted: Hermann
Luchterhand Verlag, 1969), pp. 213·221].
Ao relatar sistematicamente esta visão ela história e
I
I

sua familia, d a sua sociedade. Olhando mais de perto o
c ado «meio ambiente» da criança, vemos que ele con­
SlSte primariamente noutros seres humanos, pai, mãe,
'
das diferenças de poder, Norbert Elias deu um contributo irmãos e irmãs. Aquilo que conceptualizamos como sendo
fundamental para a moderna sociologia. A fntroduç4o que I a «família», não seria de todo uma família se não hou­

1
se segue pode ser proveitosamente lida em separado, mas vesse filhos. A sociedâde que é muitas vezes colocada em
o leitor aperceber-se-á ele que Introdução à Sociologia oposição ao indivíduo, é inteiramente formada por indi­
se baseia num trabalho cientifico, que reune simultanea­ '! viduas, sendo nós próprios um ser entre os outros.
mente aspectos de história política, de psicologta das pro­ No entanto, os instrumentos convencionais com que
fundezas e de soctologfa, numa síntese original de consi­ Pensamos e falamos são geralmente construidos como s e


tudo aquilo que experienciássemos
derável vigor. como externo a o indi­
vi uo fosse uma coisa,
um «objecton' e, pior ainda, um
REINHARD BENDIX ' ObJecto estático. Conceitos como «famflian ou «escola»
'I
Universidade da Califórnia, Berkeley ,, reterem-se essencialmente a
grupos de seres humanos

12

L 13
lnterdependetites, a configurações especificas que as pes· geralmente ao diagrama apontado, que nos mostra a pes.
soas fonnam umas com as outras. Mas a nossa maneira soa Individual, o ego putlcular, rodeado de ealrÚturas
tradicional de formar esses conceitos faz com que esses soctats. Estas sio entendidas como objectos -em· ·01Jna. e
grupos formados por seres huqtanos interd�endentes apa­ acima do ego individual. O conceito de sociedade Iam·

sóciolÓgtca,
reçam como bocados de matéria-objectos tais como as bém é encarado deste modo.
rochas, árvores ou casas. Este modo reificante de falar, Para melhor compreender a problemátiCa
que tradicionalmente usamos, e os modos usuais de pen­ ou o que habitualmente se designa como o seu tema.
sar sobre grupos de pessoas- mesmo quando se trata de precisamos de reortentar a nossa compreensio do con·
grupos a que pertencemos- manifestam-se de muitas ceito de «Sociedade» do modo 1mplfcito na figura 2.
maneiras, não só no termo «sociedade» e no modo como

+ """""""
o consideramos conceptualmente. J!: usual dizermos que
a sociedade é a «coisa» que os socJólogos estudam. Mas
este modo reificante de nos exprimirmos levanta grandes (Ego, Eu)
dificuldades, chegando por vezes a impedir a compreen­

T
são da naturêZa dos problemas sociológicos. Símbolo de um
No modelo de senso commn qp.e hoje domina a nossa équilibriode poder
mais ou menos
própria experiência ou a dos outros, a relação com a inslável
sociedade é ingenuamente egocêntrica, tal como é indi­ Valêflcias abertas
cado na figura 1. Configurações como a universidade, (desligadas)
a cidade, o sistema e inúmeras outras, podem ser substi·
tufdas por famflia, escola, indústria ou estado.

Figura 2- �presentação de indivlduos interdependentes («ftJml.


'

� Ira», •estado», cgrupo», csociedade», etc.) 1

I Este diagrama deveria ajudar o leitor a transpor a


frágil barreira de reificação de conceitos, que obscurece


Familia
e distorce a compreensão da nossa própria vida em socie­


dade. Tal reificação· é um encorajamento constante k :ldeia
SOCIEDADE de que a sociedade é constituida por estruturas que nos
são exterioreS- os indtviduos- e que os indivíduos sio
simultaneamente rodeados pela sociedade e separados dela
por uma barreira invisfvel. Como veremos, estas eon­
. cepções tradicionais serão substituídas por uma visão
lllais realista das pessoas que, através das suas disposi·
Ç6es e inclinações básicas sio orientadas umas para as
outra s e unidas umas às outras das mais diversas manei·
ras. Estas pessoas constituem tetas de interdependência
ou configurações de muitos tipos, tais como fan"iotas,
Figura 1- Padrão bdsico de uma visão egochltrica da socie­ escolas, cidades, estratos sociais ou estados. Cada uma
dade dessas pessoas constitui um ego ou uma pessoa, como
QuaiSquer que sejam essas configurações, o modo
tipico e predominante de conceptualizar esses grupos . 1 As figuras reportam-se ao capítulo cNotas e referên·
sociais e a autopercepção que expressam, correspondem CJ.as., p. 193.

14 15
]I
, I
Muitas vezes se c:Uz numa linguagem reificante. Entre explicavam as forças naturais em termos e modos de pen­
essas pessoas colocamo-nos nós próprios. sar decorrentes da experiência que tinham das forças inter­


pessoais. O sol e a terra, as tempestades e os sismos
Tal como já foi dito, para compreender ele qué tráta
a sociologia temos que estar çonsctentes de nós próprios que hoje consideramos manifestações naturais de forç
físicas e qufmicas, eram interpretados em termos da sua
como seres humanos entre outros seres humanos. A pri·
própria experiência de fenómenos humanos e sociais.
metra vista isto parece um lugai comúm. Cic:lades e ald&ias, '

universidades e fábricas, estados e classes, fanúltu e gru. 'I Viam-nos quer como pessoas, quer como resultados de
pos operactonats. todos eles constituem uma rede de tncU·
I' acções e ,?esignios de pessoas. Só gradualmente se operou

I
víduos. Cada um de nós pertence a esses tndlviduos- á IssO ,I a transiçao d? pensamento mágico e metafísico para o
que significam as expressões «a minha aldeia, a mlnh4 uni· pensamento Clentffico interpretativo dos aspectos fisico­
-qufmicos do universo. Esta mudança de perspectiva está
versidade, a minha classe, o meu Pais». Ao nfvel de uma 'i

:1
linguagem quotidiana, tais expressões sio perfeitamente ' largamente dependente do desaparecimento de modelos
explicativos heterónomos e ingenuamente egocêntricos,
usua.Js e inteligiveis. No entanto, se quisennos pensar de _
' cujas funçoes foram assumidas por outros modelos de
um modo cientifico, geralmente esquecemos que é possfve1
�IJ

i!
discurso e de pensamento, mais estreitamente correspon­
designar essas estruturas sociais de «minha», «dele», «nos­
dentes à dinâmica imanente dos acontecimentos naturais.
sas», «vossas», «deles». Em vez disso, referimo-nos habi­
tualmente a essas estruturas como se elas existissem nio Ao procurarmos alargar a nossa compreensão dos pro­
cessos humanos e sociais e adquirir uma base crescente

!
só acima e para além de nós mesmos, mas também actma
e para além de qualquer pessoa. Neste tipo de }lensamentp, de conhecimentos mais sólidos acerca desses processos
parece evidente que o «eu» ou aos indivíduos part1cu1areS» -isto já em s i constitui uma das tarefas fundamentais
estio de um lado, havendo do outro lado a estrutura soclal, da sociologia-confrontamo-nos com uma tarefa seme­
o «meio ambiente» que me rodeia, a mim e aos outros lh��e de emancipação. Também nesta esfera as pessoas
«eus». verif1cam que estão sujeitas a forças que as compelem.
Isto explica-se por várias razões; aqui apenas nos orien­ Procuram compreendê-Ias para que, com a ajuda deste
tamos para uma delas. O constrangimento caracterlstieo conhecimento, possam adquirir um certo controlo sobre
que as estruturas sociais exercem sobre aqueles que as o decurso cego dessas forças compulsivas, cujos efeitos
formam é particularmente significativo. Procuramos dar são muitas vezes destruidores e destituídos · de qualquer
uma explicação satisfatória a esta imposição, atribuindo significado, causando muito sofrimento. O objectivo é
uma existência a essas estruturas- uma realidade objectiva, orientar essas forças de modo a encontrar-lhes signifi·
que se coloca acima dos indivíduos que as constituem e cado, tornando-as menos destruidoras de vidas e de recur·
para além desses próprios indivíduos. A maneira corrente sos Daqui decorre ser fundamental para o ensino da socio­

í de formarmos ás palavras e os conceitos reforça a ten­ logm e para a sua prática de investigação, a aquisição de

i
dência do nosso pensamento para reitJcar e desumanizar uma compreensão geral dessas forças e um aumento de
as estruturas sociais. Isto conduz, por um lado, k «caraete­ conhecimentos seguros das mesmas' através de campos
rfstica metaffsica das estruturas sociais», que hoje tantas J;!Specializados de investigação.
vezes aparece no pensamento quotidiano e no pensamento
sociológico. Uma das suas expressões mais tipicas reside I ? primeiro passo · não parece muito dificil. Não é
difícil compreender que o que pretendemos conceptualizar

I
na :imagem da relação entre o individuo e a sociedade, como forças sociais são de facto forças exercidas pelas
stmbollzada na figura 1. P8Ssoas, sobre outras pessoas e sobre elas próprias. No
Esta concepção metaffstca é posteriormente sustentada entan�, logo que queremos continuar, partindo deste
pela transposição automática de modos de pensar e de Princípto, verificamos que o mecanismo social do pensa­
mento e da linguagem apenas coloca à nossa disposição
falar, primeiramente desenvolvidos e testados na investiga­
quer modelos de um tipo ingenuamente egocêntrico como
ção de relações naturais em ffsica e em qufmtca; Esses
! 0 tnágico-mitico, quer modelos tirados das ciências natu­
modos foram transpostos para a investigação das relações
rais. Encontramos os primeiros sempre que as pessoas
sociais entre os individuas. Antes de ser posslv'el UDlQ.
Procuram explicar as forças que as compelem com base

�·
aproximação cientffica dos factos naturais, as pessoas

i!i',' .
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'
16 17
nas representações que elas próprias formam conjunta· ciênCias naturais, onde novos processos de falar e de pen·
mente com os outros, totalmente em termos de caracter s ar, mais adequados do que os anteriores, substituíram os
pessoal ou de objectivos ou intenções pessoais de outros velhos processos mágico-míticos. No entanto, sabemos
indivíduos ou grupos de indivíduos. t: muito comum esta muito pouco a este respeito. Muitos dos conceitos funda­
necessidade de nos excluirmos ·(ou de excluirmos o nosso mentais das ciências da natureza, que gradualmente se
grupo) de uma explicação em termos de representações foram desenvolvendo, foram provando ser mais ou menos
formadas com base noutras pessoas. É mesmo uma das adequados à observação e manipulação de processos físico­
muitas manifestações de um egocentrismo ingénuo ou -quím icos. Por esta razão, estes conceitos fundamentais
(o que é quase a mesma coisa) de um antropomorfismO surgem àqueles que os herdam como se fossem eterna­
primário, que ainda enferma o nosso pensamento � o mente válidos e oonsequentemente eternos. As oorrespon·
nosso discurso no que diz respeito aos processos socwis. dentes palavras, categorias e modos de pensamento pare­
Estes modos de expressão, ingenuamente egocêntricos, cem tão evidentes, que é fácil imaginar que cada ser
estão ligados a outros que, modelados pelo vocabulário humano os conheceu intuitivamente. Foram precisas mui­
usado na explicação das forças compulsivas da natureza, tas gerações de cientistas que, à custa de um trabalho
passaram agora a ser usados para � licar as forças com­ duro de observação, de uma luta árdua e por vezes peri­
pulsivas da sociedade. gosa, chegaram a noções tais como as de causalidade
Tem-se verüicado uma tendência para tornar cientí­ mecânica ou causalidade não intencional, não dirigida e
ficos modos de pensamento e de expressão usados naq�lo não planeada. Só muito lentamente e com muita dificul­
que hoje designamos por ciência física, em nítida di$till­ dade estes conceitos emergiram de noções e modos de peno
ção com o mundo humano e social. Muitas das descober­ sar antropomórficos e egocêntricos. Por fim, essas noções
tas das estruturas químicas e físicas passaram para o foram difundidas por uma pequena elite, até que hoje
stok de conceitos e palavras usados quotidianamente na enformam o pensamento e o discurso quotidianos de cer·
sociedade europeia, enraizando-se nela. Muitas palavras e tos grupos sociais. Aparecem actualmente às gerações pos­
conceitos cujas formas actuais derivam essencialmente da teriores como conceitos e modos de pensamento «Verda­
interpretação de factos naturais, foram transferidos inde­ deirosll, ((racionaisll ou «lógicosll. Passam em geral no teste
vidamente para a interpretação dos fenómeros humanos da observação constante e da acção e, por conseguinte,
e sociais. _Juntamente com as diversas manüestações de já não nos interrogamos sobre o como e o porquê de
pensamento mágico e mítico, contribuem para que se per­ uma tão perfeita adaptação do pensamento humano rela­
petuem nas ciências humanas muitos modos usuais de tivamente a este nfvel particular de integração no cosmos.
'
discurso e de pensamento totalmente inadequados a esses Daqui decorre que esta evolução social do discurso
domínios. Impedem assim que se desenvolva um modo I e do pensamento, sobre as forças compulsivas dos pro­
i mais autónomo de falar e de pensar, mais adequado às
particularidades especificas das configurações humanas.
,I cessos naturais, tenha sido negligenciada como tema de
li" investigação sociológica. A concepção filosófica de um

11
Consequentemente, as tarefas da sociologia incluem conhecimento científico estático, considerado como forma
não só o exame e interpretação de forças compulsivas de conhecimento «eternamente humanall, impediu quase
especificas que agem sobre as pessoas nos seus grupos !i

l
completamente qualquer investigação sobre a soctogénese
e sociedades empiricamente observáveis, mas também a
il
e a psicogénese do vocabulário cientifico e sobre modos
libertação do discurso e do pensamento relativos a essas de discurso ou de pensamento. No entanto, só investiga­
forças, das suas ligações com modelos heterónomos ante­ ções deste tipo nos colocarão no caminho certo, que nos
riores. Em vez de palavras e de conceitos marcados pela
lj
Permite explicar esta reorientação da experiência e d o

sua origem mágico-mitica ou vindos das ciências naturais, j Pensamento humanos. O problema é geralmente minimt·
a sociologia deverá produzir gradualmente outros concei· i zado mesmo antes de ser colocado pois é visto como
1
tos, que sejam mais adequados às particularidades das " «um assunto meramente histórieoll, oposto ao� chamados
representações sociais do homem. Problemas de teoria sistemática. Mas esta distinção cons­
Isto seria fácil se já dispuséssemos de uma visão clara titui em si mesma uma ilustração de como é inadequada
da fase que hoje corresponde ao desenvolvimento das a utilização de modelos vindos das ciências naturais na

18 19
:I '

I''
interpretação de processos sociais a longo prazo, em que
se inclui a ucientifização» do pensamento. Estes processos cias e a indústria, entre in\Íllleras outras estruturas sociais,
tossem entidades extra-humanas, com as suas leis pró­
são totalmente diferentes daquilo a que se chama a his­
prias e, por conseguinte, totalmente independ�tes da
tória da ciência, contrastando com uma filosofia da ciên­
acção ou da inacção humanas. Surgem no sentldo dado
cia aparentemente imutável, tãJ. como a história natural
pela figura 1, como se c1a sociedade», ou uo meto ambiente»,
era habitualmente contrastada com o estudo do aparen­
exercessem influência sobre cada ser humano, cada c1eu»
temente imutável sistema solar.
indiVidual. Muitos dos substantivos usados nas ciências

!
eorrespondentemente a estas deficiências na investiga·
sociais- e no discurso quotidiano- são formados e usa­
ção de processos de desenvolvimento social a longo termo, 11
dos como se se referissem a coisas materiais, a objectos
ainda nos falta a compreensão geral de uma reorientação
visíVeis e tangíveis no tempo e no espaço, existindo inde·

i
a longo prazo da linguagem e do peru:amento nas sociedades
pendentemente das pessoas.
europeias, nas quais o aparecimento das ciências naturais
No entanto, tsto não significa que actualmente já fosse
desempenharia um papel central. Tal compreensão é essen·
possível ensinar e investigar sem este tipo de vocabulário
cial se pretendemos obter uma visão mais clara e nítida
de:: estrutura conceptual. Por mais dolorosamente conscien­
das transformações operadas. 'l'am.bém facilitaria muito
tes que estejainos da sua insuficiência, ainda nos é impos­
se as pessoas compreendessem que a sociologia atingiu
sível utilizar meios de pensamento .e de comunicação mais
actuaimente um novo nível de experiência e de conscien·
adequados. Podíamos consequentemente tentar libertar de
cialização. Com o constante feedback do volume sempre
modelos heterónomos de discurso e de pensamento o stock
crescente de investigação empírica, podemos detectar .mui·
usual de conhecimentos e de linguagem, agora utilizados
tos modelos de conhecimento e pensamento e podemos
para alargar a nossa compreensão das teias humanas e das
também, à medida que o tempo passa, colocar no devido
configurações sociais. Podíamos procurar substituí-los por
lugar outros instrumentos de linguagem e de pensamento
modelos mais autónomos. No entanto, qualquer tentativa
mais adequados à investigação cientifica das representa·
deste tipo estaria votada à falência. Certas transformações
ções sociais.
sociais só se podem efectuar- se é que se podem mesmo
É tão difícil às ciências humanas emanciparem-se de
efectuar- quando houver um desenvolvimento que abar­
conceitos heterónomos, com os seus consequentes modos
que várias gerações. Esta reorientação do discurso e do
de discurso e de pensamento, como o foi às ciências
pensamento é uma delas. Necessita de uma grande inova­
naturais há dois ou três séculos. Aqueles que nessa altura
ção linguistica e conceptual. Feita de um modo apressado,
abraçaram a causa das· ciências naturais tinham como
poderia fazer pertgar as suas possibilidades actuais de com­
única escolha combater os modelos institucionalizados de
preensão. É claro que em circunstância� favoráveis os
percepção e de pensamento de carácter mágfco-nútico; hoje
t) neologismos simples podem passar muito rapidamente a
os protagonistas�das ciências sociais também têm que lutar
i ser utilizados socialmente. Mas a compreensão e afinidade
contra uma utilização heterónoma de modelos próprios das "
íi em relação a novos modos de falar e de pensar nunca
ciências da natureza que também se tornaram firmemente
se desenvolveu sem entrar em conflito com modos mais
institucionalizados. ;
--
velhos e mais comuns. Torna-se necessária uma reorgani­
Mesmo tendo presente que as forças sociais são forças I
I zação da percepção e do pensamento de todas as muitas
exercidas por pessoas sobre si mesmas e sobre os outros,
� pessoas interdependentes numa sociedade. Se uma grande
é ainda muito difícil quando falamos e pensamos, preca­
vermo-nos contra a pressão social das estruturas verbais i maioria tiver que reaprender e repensar tudo isto, tendo
que se acostumar a todo um complexo de conceitos novos

II
e conceptuais. Estas fazem com que as forças sociais pare· J -ou conceitos velhos com um novo significado- então
çam forças exercidas sobre os objectos da natureza- for­ torna-se necessário um período de duas ou três gerações,
ças exteriores às pessoas, exercidas sobre elas como se por vezes mesmo de muitas mais. Por tudo isto, talvez
fossem «Objectos». Demasiadas vezes falamos e pensamos que uma visão mais clara da tarefa comum em curso possa
como se não só as montanhas, nuvens e tempestades, 'i facilitar e apressar uma mudança de orientação, mesmo
mas também as aldeias e estados, a economia e a poli·

l
desta Envergadura. O meu objectivo aqui é contribuir para
tica, os factores de produção e o avanço técnico, as ctên· a sua clarificação.

20 21
Tendo presente este objectivo, a discussão da dificul­ cando com as ideias. É muito diffcll dirigir um precurso
dade e morosidade de uma tal reorientação da linguagem entre o Cila da ffsica e o Carfbtdes da metafísica.
social e do pensamento podia dar-nos já uma ideia do tipo Não se deveria esperar demasiado de ·um simples
de forças que as pessoas exercem umas sobre as outras. uVro. -Uma orientação e inovação radicais como as que
Seria mais fácil compreender ·que tais forças são total­ agora se esboçam, apresentadas com o esforço de definir
mente distintas, se a nossa linguagem e pensamento não sociologicamente as relações sociais, não podem ser man­
estivessem tão totalmente penetrados por palavras e con­ tidas pela imaginação e o poder criativo de qualquer indi·
ceitos tais como 11necessidade causal>), udeterminismo», uleis _ viduo. Precisam dos esforços convergentes de multa gente.

II
científicas)) e outras do mesmo tipo. Estes denotam mede· Afinal de contas, o factor critico é a direcção do desen·
los derivados de uma experiência prática no campo das volvimento social em todos os seus aspectos- o desen­
ciências naturais, da física e da química. Foram mais tarde volvimento da teia de relações humanas como um todo.
transferidos para outros campos de experimentação, para uma onda forte de novas ideias pode influenciar o decurso
os quais ná<r tinham sido de modo algum primeiramente do desenvolvimento soctal global, contando que as tendên­
destinados, como por exemplo o campo das relações huma­ cias de flutuação na distribuição do poder e nas canse­
nas, a que chamamos sociedade. :Neste processo perdeu-se quentes lutas para o adquirir não levem esta reorientação
a consciência da sua relação original com as descobertas a wna paralização total, destruindo o impulso que a sus­
.relativas a acontecimentos físico-químicos. Assim, apresen· tenta. Na situação actual, as ciências sociais encontram
tam-se-nos agora como conceitos gerais, que, de certo a mesma dificuldade que afligiu as ciências naturais
modo, surgem como concepções a priort do modo como durante os séculos da sua ascensão: quanto maior for a
os acontecimentos se interligam; todos os homens pare­ cólera e a paixão surgidas com o conflito, menor será a
cem possui-los como fazendo parte- de um senso comum possibilidade de uma mudança para um pensamento mais
ou de uma razão inatos, independentes da experiência. realista e menos fantasioso. E quanto mais fantasioso
Na maioria dos casos, quando penetramos numa nova - mais longe da realidade- for o seu pensamento, menos
área de experiência, deparamos simplesmente com wna controláveis serão a cólera e a paixão. Na antiguidade,
insuficiência de conceitos adequados ao tipo de forças e surgiu rapidamente uma concepção da natureza mais de
de relações que ai encontrámos. Tomemos por exemplo a acordo com a realidade; mas foi posteriormente destruída
noção de «força». A nossa utilização da linguagem vulgar, com o aparecimento de um novo surto da mitologia ligado
com que comunicamos uns com os outros, exerce wna à absorção de estados menores, auto-governados, por gran­
espécie de força sobre o discurso e o pensamento dos des estados imperialistas. Isto mostra como pode ser frá­
indivíduos. Este género de força é de tipo muito diferente gil uma. tentativa prematura de mudança. Outro exemplo é
por exemplo da força da gravidade que, de acordo com o desenvolvimento de idetas utópicas saindo do pensamento
as leis científicaS, atrai uma bola para a terra quando cientifico de carácter social, durante os séculos XIX e XX.
esta é lançada ao ar. No entanto, quais são hoje os con­ Ambos os exemplos apontam para um circulo vicioso; este
representa em si mesmo uma das forças compulsivas que
ceitos distintos e específicos que conseguem exprimir esta
necessitam de uma investigação mais precisa. Referências
diferença de um modo claro e inteligivel? Talvez que as
a este facto poderão lançar luz sobre as tendências de
sociedades científicas, m8.is do que outros tipos de socie­
Cientifização do pensamento, que ainda não tiveram a
dade, tenham uma maior oportunidade de inovação no
atenção que merecem 2• '
campo linguistico e social. Mesmo assim, a sua oportu­
' Uma das características que distingue a aquisição cien­
' nidade não é ilimitada. Levada muito longe, corre o risco tífica do conhecimento de uma aquisição pré-cientifica do
de não ser compreendida pelos outros indivíduos. Além mesmo, está intimamente ligada ao mundo real dos objec­
·I! disso, os nossos próprios discurso e pensamento são de tos. O modo cientifico dá às pessoas a possibilidade de
um modo geral controlados pelos outroS e, se esse con­ distinguir mais claramente, à medida que se vai avan­
trolo se perder totalmente, também corremos o risco de çando, as ideias fantasiosas dos realistas. A primeira vista,
perdermos o controle sobre nós mesmos, ou de nos per· isto pode parecer demasiado simplificado. A forte corrente
dermos em especulações sem limites, em fantasias, brin· de nominalismo filosófico, que ainda invade e obscurece

22 23
•. '!
0 pensamento filosófico, veio desacreditar conceitos tais práticos, podem aumentar as possibilidades de evitar o
como "realidade)) e !�facto». Mas não se trata aqul de perigo dos acontecimentos naturais, aumentando também
especUlação filosófica, quer de tipo nominalista quer de as oportunidades de nos encaminharmos para metas que
ttpo positivista; trata-se sim de, relativamente à teoria da n6s próprios escolhemos. Por exemplo, como podemos
ciência, estabelecer algo que possa ser verificado por obser­ explicar que em muitas sociedades haja uma melhoria de
vações detalhadas e, se possível, revisto. Numa certa oca­ nível de vida e de saúde, senão pelo facto dos nossos
sião pensou-se que a lua era uma deusa. Hoje temos uma cenhecimentos e pensamentos nesses campos se terem
tdeia mais adequada, mais realista da lua. Amanhã poder· tornado menos carregados de emotividade e menos fanta­
-se-á descobrir que há ainda elementos fantasiosos na ideia siosos, menos mágico-míticos e mais objectivos e realistas?
que hoje temos da lua, podendo as pessoas chegar a uma Hoje em dia, muita gente, incluindo os próprios soció·
concepção deste planeta, do sistema solar e de todo o Iogas, fala da ciência com uma preocupação evidente, por
universo, mais aproximada da realidade do que aquela vezes mesmo com um certo desprezo. Perguntam. «0 que é
que actualmente temos. O comparativo desta asserção é que todas essas descobertas cientificas- máquinas, fábri­
importante; pode ser utilizado para conduzir as ideias cas, cidades, bombas nucleares e todos esses horrores da
entre os dois potentes e inamovíveis rochedos do nomina­ guerra tecnológica- têm feito por nós?» Este argumento
lismo e do positivismo, servindo para deter a corrente de é um exemplo típico da supressão de uma explicação mal
uma evolução a longo prazo de conhecimentos e de pen­ aceite e da sua substituição por um tipo de explicação
samentos. Descrevemos a orientação desta corrente, cha· mais aceitável (um processo chamado c<deslocação»). De
mando especial atenção para a diminuição dos elementos facto, os progressos da bomba de hidrogénio foram insti­
fantasiosos e para o aumento dos elementos realistas do gados por homens de estado, que seriam os primeiros a
nosso pensamento, como sendo características da cienti­ ordenar a sua utilização caso a pensassem necessária. Con­
fização dos nossos modos de pensamento e de aquisição tudo, para nós, a bomba nuclear funciona como uma espé­
de conhecimentos. Seria preciso um estudo muito mais cie de feitiço, como um objecto no qual projectamos o s
profundo do que aquele que podemos desenvolver neste nossos medos, enquanto o perigo real na hostilidade reci­
livro, para que se investigassem as mudanças de equillbrio, proca manifestada por grupos de pessoas pas suas rela­
a frequência relativa e o peso de elementos fantasiosos ções umas com as outras. J!! de certo modo essa hostilidade
e realistas nos conceitos aceites relativamente às socieda­ recíproca que faz com que grupos hostis dependam uns
des humanas. Ambos os conceitos podem ser vistos a mui· dos outros, podendo tornar-se tão profundamente envolvi·
tos níveis. O de fantasia por exemplo; pode referir-se aos dos que já não consigam encontrar uma saída para essa
sonhos individuais, aos sonhos acordados e aos desejos, situação. Censuramos a bomba e a actividade C 'lS cientis­
à expressão imaginativa pela arte, à especulação metafí­ tas, cuja investigação a possibilitou, como pretexto para
sica, aos sistemãs colectivos de crenças ou às ideologias, escondermos a nós mesmos a cumplicidade que temos
e a muitos mais para além destes. nessa hostilidade reciproca, pelo menos para escondermos
No entanto houve um tipo de fantasia que desempe­ a nossa incapacidade de uma ameaça ou de uma contra­
nhou um papel indispensável no processo de cientifização -ameaça. Censurando os cientistas, também fugimos à obri­
e nos processos de aquisição crescente de dominio sobre gação de procurar uma explicação mais realista para o s
a realidade. Foi o tipo de fantasia simultaneamente colo­ conflitos sociais, q u e levam a uma troca crescente d e
cada em cheque e tornada frutífera por um contacto ameaças entre grupos d e pessoas. A queixa d e que nos
estreito com a observação factual. Como regra, nas suas tornámos "escravos da máquina11 ou da tecnologia, é seme­
meditações os filósofos nominalistas não se dignam tra· lhante. Apesar dos pesadelos da ficção científica, as máqui­
çar a relação complexa dos factos com a fantasia nem os nas não têm uma vontade própria. Não podem por si
assimilam conceptualmente. Consequentemente, não estão mesmas inventar ou produzir e não podem obrigar-nos
em posição de explicar ao seu público os efeitos da cres­ a que as sirvamos. Todas as decisões que tomam e actt­
cente cientifização do pensamento no que respeita a fenó­ Vidades que desempenham são decisões e actividades huma­
menos naturais não humanos. A medida que ocorre este nas. Projectamos nelas ameaças e coerções mas, se as exa­
processo, com um constante jeedback sobre os aspectos tnl.narmos mais atentamente, veremos sempre grupos d e

24 25
pessoas ameaçando-se e coagindo-se mutuamente por inter­ mente realistas. Este domínio pode ser infinito. Mas den·
tro dele, cresce contínua e cumulativamente o capital de
médio das máquinas. Quando nas sociedades cientffico­
conhecimentos científicos pouco seguros. O nível de auto·
·técnico-industriais atribuímos o nosso mal-estar às bom ­
bas ou às máquinas, aos cieptistas ou aos engenheiros, disciplina é relativamente elevado, e uma visão pessoal,
estamos a fugir à difícil e talvez desagradável tarefa de egocêntrica, é contrariada por um controlo mútuo rela·
tivamente eficiente, por parte de todos os investigadores,
procurar uma interpretação mais clara e mais realista da
estrutura das conexões humanas, particularmente dos orientando as suas observações e pensamento essencial­
mente para os objectos da sua investigação. Há relativa­
padrões de cmúlito que nelas se fundamentam. Esta
estrutura é a única responsável pelo desenvolvimento e mente pouco espaço para que as fantasias egocêntricas e
pela eventual utilização de armas científicas, pela vida etnocêntricas influenciem os resultados da investigação,
atribulada nas fábricas e nas metrópoles modemas. pois estes são postos em cheque e descontados por meio
O desenvolvimento tecnológico tem uma influência real de uma comparação atenta em cada fase ou momento da
no curso que tomam as interconexões humanas. Mas a investigação. O elevado grau de auto-controlo na conside­
realidade tecnológica <1em si mesman nunca pode ser a ração dos fenómenos naturais e o correspondente grau de
causa da vida atribulada das pessoas e das forças com­ centração nos objectos, o realismo e a «racionalidaden de
pulsivas; estas são sempre provocadas pela utilização que pensamento e de acção nestes domínios, já não são exclu­
fazemos da técnica e do seu ajustamento à estrutura social. sivos de investigadores especializadOs. São hoje atitudes
Devemos temer, não tanto o poder destruidor das bombas básicas sustentadas por pessoas de todas as sociedades
nucleares. como o poder dos seres humanos ou :i:riats industriais mais desenvolvidas. Na medida em que toda a
exa.ctamente das interconexões humanas. O perigo não nossa vida, mesmo nos seus aspectos mais fnttmos, foi
reside no progresso da ciência e da tecnologia, mas no invadida pela técnica, estes princípios governam todos os
modo como são usadas as descobertas cientificas e as nossos pensamentos e acções. Contudo, há ainda lugar na
investigações tecnológicas sob pressão da sua estreita nossa vida privada para fantasias egocêntricas sobre os
interdependência, reside nas lutas comuns pelas oportu­ fenóme�os naturais, embora na maior parte das vezes
nidades de distribuição de toda a espécie de poder. Pouco exista uma perfeita consciência de que não passam d e
se dirá destes problemas agudos nas páginas que se seguem fantasias pessoais.
desta introdução à sociologia. É preocupação fundamental Em contraste, há nas mesmas sociedades um campo
desta obra promover a evolução de um pensamento e de ime�o para fantasias egocêntricas e etnocêntrioas. que
uma imaginação sociais relativamente à percepção das constituem factores decisivos de percepção, pensamento e
interconexões e configurações elaboradas pelas pessoas. acção, em áreas da vida social não relacionadas com pro­
Mas poderá ser útil como introdução, lembrar os pro­ blemas técnicos e científicos. No domínio das ciências
blemas agudos que afligem as interconexões sociais. sociais nem sequer os investigadores dispõem de padrões
A fixação mental em fenómenos familiares e tangiveis comuns para um controlo e auto-controlo mútuos, facto
como bombas nucleares e máquinas, ou, num sentido mais que lhes permitiria examinar o trabalho dos seus colegas
lato, na ciência e na tecnologia, obscurecendo as causas com tanta segurança como fazem os seus homónimos
sociais de medo e de mal-estar, é sintoma de uma das das ciências naturais. Nem para eles é fácil distinguir

é
aqUilo que constitui um produto arbitrário da fantasia
caracteristicas fundamentais da nossa época: esta reside


na �iscrepãncia entre, por um lado, a nossa capacidade ou de ideais políticos ou nacionalistas. daquilo que
relativamente grande de ultrapassarmos- de um modo modelo da realidade, teoricamente orientado e veri­
adequado e realista- problemas causados por aconteci· flcável numa investigação empírica. E em grande parte da
mentos naturais extra-humanos, e, por outro, a nossa limi· sociedade os padrões sociais de pensamento sobre pro­
tada capacidade de resolver com a mesma segurança os blemas sociais ainda permitem que nos entreguemos às
problemas de coexistência humana. noss as fantasias, sem as reconhecermos como tal. Isto faz
lembr ar a quantidade de fantasias que havia na Idade
Embora possa parecer estranho, temos dois níveis de
pensamento já adquiridos. No dominío dos fenómenos Média sobre os acontecimentos naturais. Nesta época, os
naturais, todos esses processos são elevada e crescente- estrangeiros, particularmente os judeus. eram considera�

26 27
11' •11'
1, ,
'
:1, : !
dos responsáveis pelos surtos de peste tendo muitos deles actualmente não queremos ou ainda não conseguimos

ri'.
axplicar e ultrapassar com mais eficiência.
sido massacrados. Neste tempo, não se conhecia uma
A esperança do Nacional Socialismo em resolver pro­
causa mais científica e realista para explicar estas mor-
blemas sociais com o extermínio dos judeus surge como
tíferas epidemias maciças. •
um exemplo máximo do que ainda prevalece universal­


Como acontece tantas vezes, os grupos dominantes
mente na vida social da humanidade. No entanto demons­
C<_?nvertiam em fantasias a sua ansiedade (tal como hoje,
tra a função desempenhada pelas explicações f tasiosas
nao controlada por um saber mais realista), o seu medo
para a miséria social e para a ansiedade, cujas verdadeiras
dos horrores inexplicáveis da peste e a sua cólera apaixo­
causas não podemos ou não queremos ver. Simultanea­
nada contra aquilo que percepcionavam como um ataque
mente, é sintomática de um dualismo signüicativo do pen­
incompreensível, fantasias pelas quais viam nos estrangei­
samento contemporâneo- que haja como que uma capa
ros e nos grupos socialmente mais fracos a causa do seu
dd respeitabilidade dada pelas ciências naturais e pela
próprio sofrimento. O resultado era o assassinato em
biologia a envolver uma fantasia social.
massa. Durante o século XIX, as sociedades europeias
A palavra fantasia parece inofensiva. Não se trata de
foram atacadas por várias epidemias de cólera. Graças
discutir se a fantasia desempenha um papel indispensável
ao desenvolvimento do controle estatal no que respeita


e construtivo na vida humana. Tal como a capacidade de
ao domínio da saúde pública, graças ao progresso dos
apresentar uma série de expressões faciais, de nos rirmos
co imentos científicos e à difusão de explicações cien­
ou de chorarmos, a elevada capacidade que o homem tem
tiftcas para a epidemia, esta infecção foi finalmente con­
de fantasiar é sua característica e:l(clusiva. Mas aqui refe­
trolada. No século XX, tanto a competência da ciêticia
rimo-nos à fantasia de um determinado tipo, ou mais pro­
como o grau de prosperidade social cresceram, tornando
priamente a fantasias que são erradamente aplicadas à
possível que 'teorias sobre a higiene pública se concreti·
vida social. Quando não controlado pelo conhecimento dos
zassem em medidas preventivas. Assim, pela primeira vez
factos, este tipo de fantasia, especialmente · numa ocasião
desde que a densidade populacional começou a aumentar,
' ,, de crise, coloca-se entre os impulsos mais falíveis e mesmo
os europeus estão quase livres da ameaça de uma doença
�ais assassinos que governam a acção humana. Nestas

li
epidémica e quase se esqueceram dela. No entanto, os
situações, as pessoas não precisam de ser loucas para dar

li
nossos pensamentos e acções, no que diz respeito à coexis­
livre curso a estes impulsos.
tência social, estão quase no mesmo nível de desenvolvi·
Hoje gostamos de pensar que o elemento de fantasia,
menta que o pensamento e comportamento dos medievais,

�11il
que desempenha um papel importante na orientação das
no que respeitava à peste. Em -assuntos sociais, ainda hoje
acções e ideias de um grupo relativamente às suas metas,
as pessoas estão sujeitas a pressões e ansiedades que não não é mais do que um esconderijo- um disfarce sedutor
conseguem compreender. Como não conseguem viver na
e excitante de propaganda. Imaginamos que líderes astu­
angústia, sem que para tal tenham uma explicação, preen­ .
Ciosos a usam para esconder os seus fins arrojados que,


chem os lapsos de compreensão com fantasias. em termos dos seus <<próprios interesses,, são altamente
No nosso tempo, o mito Nacional Socialista foi um
<<racionais,, ou «realistas». É claro que p r vezes o são.
exemplo deste tipo de interpretação para a inquietação
Mas quando usamoso conceito de «razão» em expressões
e angústia sociais. Para elas procurou alivio através da tais como «razões de estado» e o conceito de ((realismo»
acção. Também aqui, tal como no caso da peste, a ansie· em termos como Realpolitik e muitos outros conceitos

?
dade e inquietação sobre as misérias sociais encontraram �melhantes, ajudamos a reforçar a ideia já muito difun­
saída em explicações fantasiosas, que consideravam as dida e que as considerações racionais objectivas e realis­
minorias socialmente fracas como agitadoras e culpadas, tas sao geralmente as que dominam, quando há grupos
levando consequentemente ao seu extermínio. Constatamos Que lutam. A utilização do conceito de 1deologia- mesmo

1 '·
que é característica do nosso tempo a coexistência de Por parte dos sociólogos - mostra a mesma tendência.

fi
,'i
uma compreensão factual altamente realista, no que res­ Porém, num estudo mais aprofundado, não é muito difícil
_
peita a aspectos físicos e técnicos, e de soluções fanta­ yerificannos que tanto ideias realistas como fantasiosas

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siosas dadas aos problemas sociais, problemas esses que Impregnam grandemente a concepção de «interesses de

li
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28 29
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1l'''i1i''
1: '

'

grupon. Planos de mudança social realizados de um modo Jllente umas às outras, devido aos seus sistemas de cren­
j: ' realista e metódico - mesmo temporários - traçados com ças, co_Jno hoje parecem desejosas de matar indisc�a­
a ajuda de modelos cientüicos de desenvolvimento, são damente, pela simples razão de que alguns preferem o
uma inovação muito recente. Muitas vezes os próprios ,sistema de crenças dos russos, outros o dos americanos
n:octelos de desenvolvimento são ainda muito imperfeitos, e outros o dos chineses. Tanto quanto podemos observar,
nao correspondendo adequadamente às estruturas sociais é essencialmente a contradição entre os sistemas de cren­
sempre mutáveis a que se referem. Até agora, a história ças dos estados e o seu sentido carismático de uma mis­
não tem sido mais do que um cemitério de sonhos huma­ são nacional que toma este tipo de interligação opaco e
nos. Os sonhos realizam-se muitas vezes a curto prazo; incompreensível para aqueles que são apanhados nela.
contudo, no seu longo curso, parecem sempre acabar esva­ 0 que, por conseguinte, os torna incontroláveis. (Inciden­
ziados de toda a substância, sendo, portanto destruidos. talmente, os sistemas nacionais de crenças têm pouco a
A causa é que esperanças e objectivos a alcançar estão ver com a análise feita por Marx do antagonismo de clas­
de tal forma saturados de fantasia, que o actual curso ses dentro dos estados, análises que, nessa altura, foi muito
de contecimentos na sociedade lhes desfere golpes con­ adequada).
secutivos e o choque com a realidade revela a sua irrea­ Também isto é um exemplo da dinâmica das inter­
lidade, como sonhos que são. A esterilidade particular de conexões sociais, cuja investigação sistemática cabe à

, .1'II
muitas análises de ideologias resulta da tendência para sociologia. A este nivel, as configurações são fonnadas por
as considerarmos basicamente como estruturas racionais grupos interdependentes de pessoas, organizados em esta­
de ideias, coincidindo com actuais interesses de grupos. dos e não por indivíduos singulares interdependentes. Mas.
A sua carga de afectividade e de , fantasia, a sua falta também aqui, as unidades a que as pessoas se referem na
egocêntrica ou etnocêntrica de realidade é omitida, pois primeira pessoa- não só o <<eU» singular mas também o
presumimos que elas são uma camuflagem calculada para <mós» plural - são experienciadas como se fossem total­
um conteúdo altamente racional. mente autónomas. Quando crianças, na escola, já tinham
Como exemplo, consideramos a situação de conflito aprendido que o estado possuía uma «soberania» ilimi­
'
entre as grandes potências. Esta persiste desde a Segunda tada, que era conceptualmente independente dos outros
Guerra Mundial, tendo influenciado e obscurecido de um estados. A imagem etnocêntriea da humanidade dividida
modo sempre crescente os conflitos entre estados em todo em estados nacionais é análoga à imagem egocêntrica
o mundo. Parece que os representantes de cada uma das expressa na figura 1. As elites dominantes e muitos dos
grandes potências pensam possuir um carisma nacional seus seguidores em cada nação (ou pelo menos em cada
único e que só eles e os seus ideais estão aptos a gover­ grande potência) imàginam-se no centro da humanidade,
nar o mundo. É muito difícil descobrir qualquer real como se estivessem numa fortaleza, reprimidos e rodeados
conflito de inter-esses justificativo da grande escalada de Por todas as outras nações e. no entanto, separados delas.
preparação para a guerra. Também neste caso, ainda não se alcançou propriamente
As diferenças sociais práticas entre esses representan­ o estádio de autoconsciência em pensamento e acção,
tes são obviamente muito menores de que seria de espe­ expresso na figura 2 - tomando-se aqui como unidade de
rar, se tivermos presentes os contrastes nítidos entre os base as nações e não os indivíduos singulares.
seus sistemas de crenças e de ideaiS. Muito mais do que Presentemente, ainda mal começou a esboçar-se a con­
qualquer conflito real de interesses, o que faz com que cePÇão da nossa própria nação como sendo uma entre
as grandes potências - e não só elas - sejam reciproca­ muitas outras interdependentes e a compreensão da estru­
tura das configurações que todas formam. lf: raro encon­
mente tão dura e irremediavelmente hostis é a colisão dos
seus sonhos. Este antagonismo, que hoje assume uma trarmos um modelo sociológico inteligivel da dinâmica das
dimensão mundial, assemelha-se consideravelmente na sua relações entre os estados. Tomemos. por exemplo, a dinA.­
Illica da «guerra fria» entre as grandes potências. Ambas
estrutura ao antagonismo existente numa antiga Europa,
em que os sonhos de príncipes e generais protestantes e as Partes envolvidas procuram aumentar o potencial do
seu próprio poder, à custa do medo perante o potencial
católicos se chocavam. Nesses tempos, as pessoas eram
de POder do
tão apaixonadamente ávidas de matar-se indiscriminada- adversário. Assim se justificam os seus receios

30 31
reciprocas. Continuam, portanto, a aumentar cada vez ·� interconexões sociais, com doutrinas dogmáticas, paruu;:etas
o seu próprio poder o que, por sua vez, instiga o rival a ou considerações de interesses partidários a curto prazo.
fazer um esforço correspondente. como não há nenhum como apenas por acaso tomam medidas. ficam à mercê
árbitro com suficiente poder para os fazer sair deste beco dos acontecimentos e os governos percebem tão pouco do
sem saída, a não ser que ambos os lados se apercebam encadeamento destes como pouco percebem das pessoas
simultaneamente da dinâmica imanente da configuração que governam. Entretanto, os governados submetem-se aos
que formam em conjunto, as forças compulsivas farão seus chefes, confiando a estes a tarefa de empenhar os
esforços contínuos para aumentar inevitavelmente o seu riscos e dificuldades com que a sociedade se depara e
potencial de poder. Mas os blocos rivais interdependentes exigindo-lhes que, pelo menos, saibam para onde cami·
e especialmente os oligarcas do partido em ambos os lados nham. Quanto à máquina governativa, à burocracia, talvez
não tntuem isto. A sua crença fundamental é que o seu não seja deslocado dizer, como Max Weber, que a estru­
próprio perigo e os esforços constantes para aumentar tura das burocracias e as atitudes dos burocratas se tor­
o seu potencial de poder se podem explicar totalmente se naram mais racionais se as compararmos com as dos
apontarmos para o outro lado, para os rivais de momento, séculos anteriores; mas será pouco correcto pretendermos,
com o seu (!Sistema social erradon e as suas «perigosas como Max Weber na realidade pretendeu, que a burocracia
crenças nacionaisn. As nações são ainda incapazes de se contemporânea é uma forma racional de organização e
olharem a si mesmas como componentes integrais de uma que o comportamento dos seus funcionários é um com­
configuração, cuja dinâmica as obriga a fazer estes esfo.r· portamento racional. Isto é altamente enganador. Como
ços. A rigidez do sistema antagónico de crenças impede. os exemplo, apontemos apenas um aspecto: a burocracia tende
oligarcas dos partidos dominantes de ver claramente que hoje a reduzir as interdependências sociais complexas a
eles próprios, as tradições do seu partido e os ideais departamentos administrativos singulares; cada um deles
sociais com os quais justificam as suas pretensões gover· tem a sua área de jurisdição estritamente definida, sendo
nativas, estão constantemente a perder credibilidade. Esta equipados com uma hierarquia de especialistas e uma oli·
i. falha de credibilidade deve-se ao contributo que vão dando garquia de chefes administrativos, que raramente pensam
à hipótese de uma confrontação bélica perigosa, ao facto para além da sua própria área de competência. Este tipo
de desperdiçarem em material de guerra os recursos cria­ de burocracia está muito mais perto de uma organização
dos pelo trabalho humano e, finalmente, à sua actual uti­ tradicional que, na verdade, nunca foi racionalmente pla­
lização de força. Aqui novamente e, desta vez, de forma neada, do que de uma _organização clara e cuidadosamente
paradigmática, encontramos um domínio altamente rea­ pensada, cuja adequação às funções que desempenha
"' i'
lista do meio físico e tecnológico, coexistindo com uma deverá estar constantemente sujeita a revisões.

'r
abordagem fantasiosa de prGblemas interpessoais sociais. Este exemplo basta. Talvez que com a sua ajuda se
Olhando em -volta, não é difícil encontrar mais exem­ detectem mais claramente certas preocupações fundamen­
'J plos desta discrepância. Contudo, há muita gente que hoje tais da sociologia. O facto das sociedades humanas serem
:r
'.!
acredita ser possivel uma abordagem dos problemas sociais
do ponto de vista da sua própria uractonalidaden intrín·
constituídas por seres humanos, por nós próprios, leva
:1 a que esqueçamos muito facilmente que o seu desenvol­
I seca, independentemente do actual estádio de desenvolvi· vimento, estrutura e funções dos domínios fisico-cíuimicos
mento do conhecimento e pensamento sociológicos e, no e biológicos. E é importantissimo que haja uma compreen·
entanto, com a mesma uabordagem objectiva11 que um são gradual e crescente de todos os domínios. Os contactos
físico ou um engenheiro trazem aos problemas cientificas que temos uns com os outros são tão banais e quotidianos,
ou tecnológicos. que facilmente escondem o facto de que somos actualmente
Assim, de um modo geral os governos actuais defen· o objecto de investigação menos conhecido; somos tão
dem - talvez de boa fé- que conseguirão ultrapassar de ignorados no mapa dos conhecimentos humanos como os
um modo <!racionaln e <<realistan os seus problemas sociais Pelos terrestres ou a face da lua. Muita gente tem medo
mais prementes. Mas a verdade é que só conseguem preen­ de explorar mais profundamente este domínio, tal como
cher as lacunas do nosso ainda muito rudimentar conhe· outrora, se temiam as descobertas cientificas sobre o orga­
cimento dos factos sociais, no que respeita à dinâmica das nismo humano. E tal como antigamente, há pessoas que

32 33
I "Ii l''
I
,I
1
argumentam que as investigações cientificas feitas em indi­
víduos humanos por indivíduos humanos- algo que nio
querem- são simplesmente impossfveis. Mas comO homens;
a quem falta uma compreensão mais sólida da dinâmica
das interconexões sociais, vogando desamparados de actos
insignificantes de autodestruição para outros inuito mais A SOCIOLOGIA
graves, e de um deslize para outro, tal ignorância romAn­
tica perde muito do seu encanto como permissão para - AS QUESTÕES POSTAS POR COMTE
todos os sonhos.

Seja ou não sociólogo, quem abordar com ideias pré­


-concebidas as obras de grandes homens que durante o
século XIX fizeram evoluir a ciência da sociedade, priva-se
de uma herança intelectual importante. Vale a pena sepa­
rar algumas das ideias que ainda são de utilidade na ten­
tativa de construir uma análise científica das sociedades,
das que são mera expressão dos valores transitórios da
época. Enquanto a nossa concepção da herança marxista
tem sido demasiadas vezes distorcida por ódios e louvores,
Augusto Comte (1798-1851), que foi o primeiro a destacar
a palavra ((Sociologian para título expresso de uma nova
ciência, tem sido muito menos f�lado.
A marca da herança de Comte (que. é como que um
fantasma presente nos livros de estudo) apresenta-se como
uma peça poierenta de museu. E podemos, na verdade,
deixar alegremente ao pó uma parte considerável dos seus
escritos. Comte escreveu muito. O seu estilo foi muitas
Vezes pomposo. Tinha obsessões, como por exemplo a
noção de que todas as coisas importantes eram trtparti­
das - e muito provavelmente foi um tanto ou quanto
louco. E, no entanto, se limparmos as suas ideias do pó
das manias, excentricidades e perturbações, encontramos
na obra de Comte conceitos que são virtualmente novos,
ideias que foram parcialmente esquecidas ou mal com­
Preendidas e que são, a seu modo, tão importantes para


o desenvolvimento da sociologia como as de Marx- que
s ria do túmulo se soubesse que ele e Comte poderiam
Víl' a ser mencionados num mesmo momento. Mas a dis­
Paridade entre as suas atitudes políticas e os seus ideais
não cteveria constituir obstáculo. Aqui, eles não represen-

34 35
1 1.
I' '
, I :. .
,,

tam a salvação. Para sermos categóricos, Comte foi um ritos necessitam de


uma teoria. Se, ao considerarmos os fen�
grande homem, e a discrepância entre os problemas que rnenos, os não relacionarmos imediatamente com alguns princí­
I • lhe dizem respeito e as ideias que geralmente lhe são pios, não só nos seria impossível relacionar estas observações
i. atribuídas é, na maior parte dos casos, espantosa. Nem isoladas e, por conseguinte, tirarmos delas um significado, como
sempre é fácil encontrar as fazões desta discrepância e também seríamos totalmente incapazes de as recordar e, na
não será aqui que o faremos. Comte fez muito mais para rnaior parte dos casos, os factos passariam despercebidos 2.
o desenvolvimento da sociologia do que simplesmente
arranjar-lhe uma designação. Como todos os pensadores, A interseção constante destas duas operações mentais,
Comte construiu a partir daquilo que os seus antecessores dirigidas para a síntese teórica e os pormenores empi·
já tinham produzido. Não vamos analisar detalhadamente rjCOS, é uma das teses fundamentais de Comte. ·Ele foi
quais as ideias que Comte foi buscar a Turgot, Saint-Simon tudo menos um positivista no actual sentido do termo;
e outros autores e quais das suas ideias foram totalmente não acreditava que o trabalho científico resultasse de uma
originais. Ninguém começa do nada; todos começam onde pura indução da observação de coisas particulares, for·
outros ficaram. Comte definiu uma série de questões de mando-se amplas teorias baseadas em observações parti·
um modo mais claro do que os· seus predecessores. Trouxe culares, como se fossem quase sua consequência. Comte
nova luz para uma quantidade de problemas. Muitos foram negou tão energicamente esta ideia como contrariou a
hoje esquecidos, embora tenham um grande signüicado asserção de que a investigação científica proviesse de
cientifico. Da sua rejeição podemos inferir que a ciência teorias puras, formuladas sem qualquer referência aos
não progride em linha recta. factos, ou de hipóteses primeiramente formuladas arbitrá·
Considera-se Comte não só como o pai da sociologia, ria e especulativamente, só mais tarde confrontadas com
mas também como o fundador do positivismo filosófico. os factos. Comte tinha boas razões para contar tão defi·
A sua primeira grande obra, que apareceu em seis volu· nitivamente com uma tradição filosófica em que se tinha
mes entre 1830 e 1842, foi o Cours de philosophie positive. procurado provar incessantemente que uma destas opera­
A palavra npositivon foi usada por Comte como sinónima ções mentais deveria ter precedência sobre a outra. Durante
de �wientificon, entendendo por este termo a aquisição de séculos, deducionistas e inducionistas, racionalistas e empi­
conhecimentos por meio de teorias e observações empí· ristas, aprioristas e positivistas ou quaisquer que fossem
ricas 1• Comte passou a ser chamado npositivistal). E um as designações que reciprocamente se davam, tinham lutado
positivista é habitualmente considera-do como aquele que com tuna obstinação tenaz. Ora é um leitrmotiv da teoria
defende a teoria da ciência que sustenta serem e cognição comtiana da ciência, que a · investigação científica repousa
e o trabalho cientifico exclusivamente baseados na obser· ntuna combinação indiviSível de interpretação e observa·
vação a partir da qual se constroem as teorias. A ideia ção, de trabalho teórico e empírico.
de que Comte ·foi um positivista deste tipo é uma das A sua insistência constante no carácter positivo e clen·
muitas distorções a que foi sujeito o seu pensamento. tifico de toda a investigação explica-se pelo facto de ele,
De tempos a tempos, as pessoas txoçam da ingenuidade como filósofo com experiência científica, se ter voltado
deste «positivismo grosseirm1. Admiram-se como foi pos· determinantemente contra a filosofia dos séculos anteriores.
sivel imaginar que se podem fazer observações não havendo Rejeitou muito particularmente a filosofia do século XVIII,
previamente uma teoria determinante da selecção de factos CUjos representantes se permitiam concluir proposições
a observar e uma definição do problema ao qual esperá· sem as consubstanciar por meio de uma relação sistemá·
"
':' ! vamos responder por meio da dita observação. E, no ttca com a observação. Muitas destas proposições eram for­
entanto, ninguém melhor do que Comte salientou explí· nluladas de tal modo que não podiam ser contestadas pelos
cita e consistentemente a interdependência da teoria e da factos observados. comte, escolhendo a designação de «posi·
observação, como núcleo de todo o .trabalho cientifico. tivan para a sua filosofia, exprimiu a sua rejeiçio cons­
Ciente desta filosofia especulativa. Ela não tinha relações
Pois se, por um lado, toda a teoria positiva deve necessa­ com o trabalho cientifico e não progredia cientificamente.
riamente basear-se na observação, por outro, é também verdade A. representação distorcida de um Comte «arquipositivista»,
que, para que se possam efectuar observações, os nossos espi· Usando o termo no sentido diametralmente oposto às suas

36 37
verdadeiras opiniões, demonstra uma vingança inconsciente cb8Jllamos ccsociedaden. Quanto a isto, Comte deu um passo
por parte daqueles filósofos que continuaram a trabalhar eJil frente. Como estudante e mais tarde como professor
nos moldes da antiga tradição. Embora as soluções propos­
e examinador na famosa Ecole Polytechnique, adquiriu
tas por Comte nem sempre resultassem, embora a sua luta uD19. educação científica e matemática mais sólida do que
constante para exprimir concêitos novos com velhas for·
a da maioria dos homens do seu tempo que se dedicavam
mas de discurso nos tome difícil uma compreensão retros­ a problemas sociológicos. Compreendeu mais claramente
pectiva dessas ideias novas, e embora uma tradução mal do que os seus predecessores que a investigação científica
feita e incompreensível tenha obscurecido a obra de Comte, da sociedade não podia ser levada a cabo do mesmo modo
o seu modo de definir os problemas ainda surge como algo que as ciências naturais, como se fosse um outro tipo de
de fresco e frutífero. fisica. Diz-se muitas vezes que Comte inventou o termo
Três dos problemas que Comte levantou e tentou resol­ «sociologia)) para a nova ciência. Mas a razão por que
ver na sua Philosophie posittve têm particular importância inventou uma nova designação !ai o ter compreendido que
numa introdução à sociologia. Comte procurou: a ciência da sociedade era um novo tipo de ciência; e esta
ciência não podia abrigar-se sob o mesmo guarda-chuva
1. Desenvolver uma teoria ·sociológica do pensamento conceptual da física e da biologia. O avanço decisivo de
e da ciência. Comte foi reconhecer a autonomia relativa da ciência da
2. Determinar as relações entre os três mais impor­ sociedade vis à vis das ciências mais antigas. Dando um
tante grupos de ciências do seu horizonte- as nome novo a esta nova ciência expressou claramente esta
ciências físicas, biológicas e sociológicas. ideia decisiva.
3. Estabelecer na estrutura do seu sistema de ciên­ Comte considerou função essencial da nova ciência,
cias uma autonomia relativa da sociologia face à detectar as regularidades tendenciais do desenvolvimento
física e à biologia- uma autonomia firmemente social. Para ele, como para muitos outros pensadores do
alicerçada na diferente natureza e finalidade do século XIX, o problema básico centrava-se nas questões
seu objecto fundamental - e determinar os méto­ prementes postas às élites intelectuais pelo desenvolvi­
dos de actuação mais adequados para a sociologta. mento do progresso social e pela situação da burguesia e
da classe trabalhadora adentro desse progresso. Para onde
A sua formulação de todos estes problemas está estrei· vamos? Onde nos leva o desenvolvimento da humanidade?
tamente ligada a uma intuição fundamental, comum a mui­ Será que se orienta na lldirecção devida)) e será essa a
tos pensadores da sua épocà: a de que as mudanças sociais direcção dos meus objectivos e ideais? O modo como Comte
não se podiam explicar simplesmente em termos de fins ataca estas questões trai o velho dilema que sempre con­
e actuações de pessoas singulares, não se podendo com frontou os filósofos. Tanto para eles como para os outros,
certeza explicar--pela acção exclusiva dos príncipes e dos aparecem como especialistas do pensamento. Portanto, o seu
governantes. Portanto, a sua tarefa seria chegar a instru­ pensamento centra-se muitas vezes na mente humana, na
mentos de pensamento que nos permitissem reconhecer sua capacidade de pensar, na razão humana como chave
que os processos gradualmente compreendidos como rela­ de todos os aspectos da humanidade. Um pouco como
tivamente impessoais podiam ser expressos teoricamente Hegel- sem no entanto se exprimir de um modo meta­
como tal. As únicas categorias e conceitos então dispo­ flstco- Comte considerou umas v�s a evolução do pen­
níveis como modelos para este fim tinham a sua origem samento humano como apenas um dos problemas chave
nas ciências físicas e biológicas. Assim, durante muito e outras vezes como o problema chave da evolução da
tempo, recorreu-se inadvertidamente a instrumentos con­ humanidade.
ceptuais, que tinham sido aplicados na resolução de pro­ Marx foi o primeiro a afastar-se desta tradição com
blemas físicos e biológicos, usando-os para resolver proble­ certa determinação. Neste ponto, Comte manteve-se imper­
mas sociológicos; isto ainda hoje acontece. Contudo, para turbavelmente dentro da tradição filosófica. E, no entanto,
além disso, era dificil distinguir claramente entre a «natu­ Para quem examine o problema mais de perto, é nítido que
reza» no sentido antigo das ciências naturais e os pro­ ele cortou realmente com a tradição filosófica em três
cessos novos então em vias de descobrimento, a que hoje Pontos decisivos. A sua ruptura teve consequências que

38 39
ainda hoje não foram totalmente compreendidas, pois o trai o problema das relações entre fonnas cientificas e não

llngtia.g
próprio Comte muitas vezes só as esboçou levemente e cientificas de conhecimento. :t: característico da sua atitude ,
numa em um tanto ou quanto antiquada. Mas o sociológica o não ter considerado o pensamento pré-cienti­
impulso que deu foi muito signüicatlvo para o desenvol· fico fUndamentalmente pela sua validade, enca.rand.o-o sim·
vimento da sociologia e para a filosofia da ciência. plesmente como facto social. :t: um facto observável, dizia
ele, que todo o conhecln'l;ento cientifico surge de tdeias e
conhecimentos não científicos. Formulou esta intuição como
DK UMA TEORIA FILOSóFICA DO CONHECIMENTO uma regularidade tendencial do desenvolvimento social:
A UMA TEORIA SOCIOLóGICA DO MESMO
... Cada uma das nossas ideias fundamentais, cada ramo
do nosso conhecimento, passa sucessivamente por três diferen­
A teoria - clássica do conhecimento e da ciência exa­
tes estados teóricos: o estado teológico ou especulativo, o estado
mina o que acontece quando «O sujeito11, um indivíduo
metafísico ou abstracto e o estado cientifico ou positivo. Por
solitário, pensa, percepciona e realiza um trabalho cienti­
outras palavras, a mente humana, devido à sua própria natu­
fico. Comte cortou com esta tradição. Parecia-lhe estranha
reza, utiliza sucessivamente em cada um dos seus campos de
aos factos observáveis. O pensamento e investigação huma­
investigação três métodos de filosofar- primeiro o teológico,
nos são muito mais um processo continuo ao longo de
depois o metafísico e, finalmente, o método positivo 8•
gerações. O modo como uma pessoa individual pensa,
percepciona e realiza um trabalho científico cimenta-se nos
O pensamento e o conhecimento humanos podem énca­
1 ', processos de pensamento das gerações anteriores. Para
rer-se de dois modos� utilizando-se diferentes estruturas con­
'

i! compreendermos e explicarmos como é que se iniciam


i· '· ceptuais. No primeiro, trata-se da concepção de pessoas indi·
estas actividades, também temos que examinar o processo
viduais, cada uma das quais- por sua própria iniciativa e
social a longo prazo da evolução do pensamento e do
sem que a tal seja instigada- concebe a natureza como um
conhecimento. A transição de uma teoria filosófica para
mecanismo cego, automático, sem qualquer fim objectivo,
uma teoria sociológica do conhecimento, o que Comte reali·
mas funcionando no entanto de acordo com princípios
zou, surge essencialmente como a substituição da pessoa
teóricos. Se rejeitarmos estas concepção, como Comte rejei·
individual, enquanto sujeito' de conhecimento, pela socie­
tou, e se considerannos o conhecimento humano como o
dade humana. Se Comte considerava as questões relativas
produto final de um processo de evolução que abarca cen·
ao pensamento centrais para o problema da sociologia,
tenas, talvez rotlhares de gerações, dificilmente poderemos
nunca tornou sociológica a nossa concepção do sujeito
saber como a procura de um conhecimento cientifico se
pensante.
relaciona com o conhecimento pré-cientifico. Comte tentou
estabelecer uma tlpologia classificatória dos estados do
desenvolvimento da humanidade. Nela assinalou que pri·
DO CONHECIMENTO NAO CIENTlFICO metro reflectimos sobre a natureza inanimada, depois sobre
AO CONHECIMEN-TO CIENTlFICO a natureza animada e, finalmente, sobre as sociedades.
A nossa reflexão foi primeiramente baseada em especula­
Na filosofia clássica europeia, o pensamento «racional" ções, na busca de respostas absolutas, concludentes e dogmá·
- que encontra a sua expressão mais nítida nas ciências ticas para todas as interrogações, com o desejo de explicar
naturais- é encarado como o tipo normal de pensamento todos os acontecimentos emocionalmente significativos em
para todos os seres humanos. As teorias clássicas do conhe­ tennos de acções, objectivos e fins de certas entidades
cimento e da ciência não têm reconhecido que este tipo de criadoras, sempre consideradas como pessoas. Durante a
pensamento só surgiu numa fase tardia da evolução humana fase metafísica, as explicações em termos de criadores
e que durante grande parte desse período de desenvolvi­ Personificados são substituídas por explicações que tomam
mento as·pessoas não se esforçavam por obter conhecimen­ a forma de abstracções personüicadas. Aqui, Comte visava
especialm
tos de um modo cientifico. Qualquer teoria deste género ente os filósofos do século XVIII, que habitual­
era posta de lado. Para Comte, tomou-se uma questão cen- mente personificavam abstracções tais como «Natureza»

40 41
ou uRazão» para explicar muitos acontecimentos. Quando, mos e, finalmente, da linguagem. Mostrou que a génese
finalmente, se alcança o estado do pensamento positivo do conhecimento cientifico só se pode conceber assentando
ou cientifico num ramo particular do conhecimento, deixa-se nos alicerces daquilo a que chamou conhecimento teoló­
de procurar as origens abSOlJitas ou os destinos; estes. gico e ao qual nós talvez chamemos simplesmente conhe­
embora possam ter um significado pessoal e emocional cimento religioso. A explicação comtiana deste facto mos-­
bastante relevante, não enéontram qualquer suporte na trB como ele era pouco ((positivista». As pessoas, explicava
observação. O objectivo do conhecimento será então o de comte, deverão fazer observações para construir as suas
encontrar relações entre factos reais. Numa linguagem de teorias. Mas também terão que possuir teorias que lhes
hoje, poderíamos dizer que as teorias são modelos de reJa. pennitam fazer observações.
ções observáveis. O próprio Comte, de acordo com o está·
dio de conhecimento da sua época, ainda falou em «leis» . . . a mente humana foi primeiro apanhada num círculo
que regulam essas relações. Hoje usariamos termos como vicioso, do qual nunca teria tido possibilidades de saír se não
regularidades tendenciais, estruturas e relações funcionais. tivesse felizmente encontrado uma saída natural para essa difi­
No entanto, para um trabalho ulterior, o problema culdade no desenvolvimento espontâneo de concepções teoló­
formulado por Comte é mais significativo do que a solu­ gicas 4•
ção por ele proposta. Uma teoria sociológica do conheci­
mento e da ciência não pode pOr de lado questões reJa.
'I tivas ao desenvolvimento dos tipos de conhecimento e de
Aqui, Comte tocou num aspecto fundamental da evo·
I'
Iução humana.
'!:" pensamento pré-científicos e à sua passagem ao estàdo
científico, assim como não pode ignorar quais os proces­
Imaginemo-nos num tempo em que a sociedade pos­
suía um stock de conhecimentos muito menor. Para sua
sos de transfOrmação social que constituem o contexto
orientação, as pessoas precisavam de ter uma visão com­
deste desenvolvimento. O levantamento deste tipo de ques­
preensível, uma espécie de mapa que lhes mostrasse como
!I tões é uma irrupção nas fronteiras até aqui fixadas por
se relacionavam reciprocamente os fenómenos naturais
I· uma sociologia do conhecimento, bem como por uma teoria
que percepcionavam. Hoje, devido ao nosso próprio stock
filosófica do conhecimento. Classicamente, a sociologia do
de experiências, sabemos que as teorias <mostrando como
conhecimento limitava-se a tentar demonstrar as relações
os fenómenos individuais se relacionam uns com os outros)
que as ideias e ideologias pré-científicas tinham com as
estruturas sociais. Os escritores que elaboraram conexões
são extremamente úteis para a nossa orientação, permi­
tindo-nos controlar os acontecimentos, quando são produ­
entre certas ideias e a condição social particular dos seus
defensores, sempre tenderam para uma visão muito rela­ zidos com um feedback coilstante, proveniente da obser­
tivista dessas ideias, considerando-as meras (ddeologias» vação. Porém, nos tempos primitivos, as pessoas não tinham
sem grande validade cientüica. A circularidade deste argu­ uma experiência que lhes pennitisse saber que a obser­
mento pode quebrar-se, se investigarmos sobre o período vação sistemática lhes ensinaria algo sobre as relações
de completa mudança social durante o qual os processos entre os factos. E, no entanto, é indispensável que haja
pré-científicos de aquisição de conhecimentos foram substl­ modelos dessas relações, para que nos orientemos no
tuidos por processos científicos. A lei comtiana dos três nosso mundo, que se construa aquilo a que hoje chama­
estados indicava entre outras coisas a possibilidade de mos teorias, com base no que Comte descreveu como a
considerarmos o desenvolvimento das ideias e processos capacidade espontânea do homem para formar imagens
de pensamento num contexto mais lato de mudanças das relações entre factos por meio da imaginaçào e da
sociais, não os pondo simplesmente de parte como ideolc> fantasia. Esta explicação, dada por Comte na sua lei dos
gias falsas e pré-científicas. Comte assinalou todo este três estados, sublinha mais uma vez a produtividade de
grupo de questões mas não lhes deu resposta. No entanto, uma teoria do conhecimento baseada na sociologia da evo­
chamou-nos a atenção para um aspecto da relação entre lução. É um cometo que precisa de ser examinado mais
formas científicas e pré-científicas de conhecimento, o que de perto; mas o modelo intelectual que aqui se sublinha
tem uma significado considerável para a compreensão da é certamente merecedor de uma atenção maior do que
evolução do pensamento, de todos os conceitos que usa· a que até agora tem recebido.

42 43
A INVESTIGAÇAO CIENT1FICA DAS CI:e:NCIAS numa investigação dos factos verdadeiros. Baseia-se antes
na necessidade humana de segurança- a necessidade de
descobrir algo de absoluto e de imutável para além da
A tradição filosófica da epistemologia e a teoria da
ciência que a acompanha repoJ,1Salll numa hipótese sobre superficie mutável. Muitos conceitos e hábitos de pensa­
a relação entre a forma e o conteúdo do pensamento; mento, profundamente enraizados nas Unguas europeias,
ou, expresso de outro modo, entre as categorias e os ingre­ apoiam a ideia de que o processo de pensamento é natural,
dientes do conhecimento, ou entre o método cientifico e necessário, produtivo e aplicável a todos os problemas,
os objectos da ciência. Esta hipótese tem sido transmitida especialmente aos problemas científicos. :1!': o processo de
de gerações para gerações e indubitavelmente aceite como reduzir mentalmente tudo o que se observa como variável
evidente. Mirma que a «forman do pensamento humano e mutável a um estado absolutamente imutável. Uma obser­
vação mais atenta mostra-nos que a tendência que temos
é eterna e imutável, por muito que o seu conteúdo possa
mudar. Esta asserção corre como um fio inquebrável ao para reduzir tudo o que muda a algo de imutável tem a
longo de muitas discussões da teoria filosófica do conhe­ ver com um juizo de valor até então não discutido, que
cimento. Considera-se que a ciência se identifica pela uti­ Comte diagnosticou como um sintoma do modo teológico
lização de um método particular ·e não pelo carácter espe­ de pensamento. Considera-se evidente que aquilo que é
cífico do seu objecto fundamentaL Comte opôs-se decidi­ em si mesmo imutável e que , pode ser detectado em ou


damente a esta separação entre forma e conteúdo método na base de toda a mudança, é mais valioso do que a pró­
cientifico e objecto cientifico, pensamento e conh imento. pria mudança. Este juizo de valor exprime-se na teoria
Pode-se fazer uma distinção, dizia, mas não uma diviSão. filosófica do conhecimento e da ciência- na ideia de que
há formas eternas de pensamento, representadas por «cate­
Para que em cada instância do conhecimento haja uma goriasJI ou 'regras a que chamamos dógicasll, subjacentes
correspondência com a natureza especifica e com a complexi­ a todas as comunicações interpessoais de ideias através
dade dos fenómenos, o método deve ser variado na sua aplica­ dos séculos, quer orais quer esCritas.
ção e amplamente modificado. Assim, todas as concepções que Tanto neste caso como noutros, a ideia de que as
o encaram como algo de geral são demasiado vagas para terem regras de lógica supostamente imutáveis constituem na
qualquer utilidade. Nos ramos mais simples das ciências; realidade padrões regulares presentes em todo o pensa­


o método e a teoria não se separam: abstenhamo-nos então mento humano, assenta numa confusão (que passa desper­
d� os s�parar quando es udamos os fenómenos complexos da cebida) entre factos e valores. Aristóteles, que deu ao con­
vtda soctal ... Portanto, nao tentei fazer um cômputo da meto­ ceito de lógica o seu significado monumental, compreendeu
dologia da sociologia antes · de ter lidado deste modo com a isto essencialmente, atribuindo-lhe regras, de argumentação,
ciência�. instruções sobre o modo como se deveriam construir os
argumentos de uma discussão filosófica e como se pode­
C«:>mte referia-se aqui a um problema que desde então riam demonstrar os erros do adversário. A ideia de que
tem s1do posto de lado: a questão de como as formas de a dógica1> devia constituir a prova da existência de leis
pensamento se relacionam com o conhecimento. Há provas eternas do pensamento só foi associada à herança aristo­
suficientes de que o conhecimento humano se altera à télica nos fins da Idade Média ou mesmo depois. Quando
hoje se usa o termo «lógican confunde-se muitas vezes uma
medida que evolui e de que tem aumentado, abarcando
áreas cada vez mais latas de experiência com maior con­ asserção- que as leis· da lógica são eternas e universal­
mente aplicáveis- com outra - que essas leis têm sido a
fiança e adequação. Basta-nos considerar o controlo cres-.
base do pensamento das pessoas, observáveis em cada
c?nte e cada vez mais amplo que �cem sobre as sequên­
Cl8S de acontecimentos que nos influenciam. E, no entanto,
sociedade e em cada época. O mesmo se passa com a
asserção de que existe apenas um único método cientifico.
mesmo nos nossos dias, imaginamos que embora o conhe­
'I'ambém aqui aquilo que é norma e ideal é representado
cimento possa mudar e crescer há ainda uma lei eterna e
como um facto. A transição iniciada 'POr Comte de uma
imutável subjacente à capacidade humana de pensamento.
Mas a nossa distinção entre a «forma eterna de pensa­ teoria filosófica do conhecimento e do pensamento para
uma teoria sociológica, baseou-se. entre outras coisas, no
mento» e os seus «conteúdos mutáveis» não se baseia

44 45
I 11
,j!
,

'

I, facto de Comte ter deslocado do centro da teoria a ques­ adeQ.uados e melhor orientados para a realidade. Esta ideia
' i!
tão de como é que a ciência deveria ser conduzida. Preo­ anuncia outra «revolução copemicianan. E, no entanto,
cupou-se mais em descobrir quais eram exactamente as passados mais de cem anos, as perspectivas de Comte
características especificas do método cientifico, caracterfs­ encontraram pouco eco, não tendo mmca sido considera­
ticas que distinguiriam o penSamento cientifico do pré­ daS, desenvolvidas e trazidas ao conhecimento de circulas
-científico. Uma teoria cientifica da ciência só pode partir sociais mais latos, como componentes do conhecimento
de um exame positivo e científico daquilo que as ciências sociológico. Este facto demonstra as dificuldades que se
conseguem realizar, e ter na sua base uma pesquisa cien­ depararam e ainda se deparam no caminho do cumpri­
tífica, que considera as próprias ciências como o seu mento desta resolução.
objecto fundamental Ao longo destas linhas, depressa se Em tempos, considerou-se evidente que a terra repou­
verifica ser expressão de um determinado juizo de valor sava, imóvel e imutável, no centro do universo. Hoje, muita
a ideia de que um método cientifico particular, geral­ gente considera evidente que os seus próprios processos
mente o da física, possa ser aplicado a todas as outras de pensamento são imutáveis para toda a humanidade.
ciências como um modelo eternamente válido. Em casos Esta ideia é constantemente reforçada pela sua própria
como este, os filósofos instituem-se juízes, decidindo como experiência; estes processos cientifico e racional de pen­
cada um deve realizar o seu trabalho para passar por samento têm dado provas de ser cada vez mais válidos
cientista. Até então, tal como Comte assinalou, o desen­ numa investigação empírica e numa aplicação prática aos
volvimento autónomo da sociologia tinha sido contrariado pormenores técnicos da vida quotidiana. Apresentam-se
pela mistura de facto e de valor feita pela filosofia. Esta infalivelmente como os processos «certosn de pensamento:
selou o método usado numa ciência singular - a física achamos que foram uma dádiva da natureza, uma mani­
clássica - como se este representasse a quinta essência do festação do ((senso comumn ou da ((razãon- algo total­
método científico. mente independente do seu próprio crescimento numa
A abordagem tradicional que a filosOfia faz aos pro­ determinada sociedade ou do desenvolvimento dessa socie­
blemas é egocêntrica, pois que se limita à questão de como dade. Não nos podemos lembrar, e também ninguém nos
é que um indivíduo pode adquirir conheCimentos cientf­ ensina, como foi difícil para a nossa sociedade chegar a
ficQs. Contudo, as leis imutáveis do pensamento, que apare­ processos científicos de pensamento, emergentes de modos
cem na filosofia clássica, têm que ser compreendidas como pré-científicos, e como foi dlficil a esse$ processos cien­
resultado de um desenvolvimento social do pensamento e tíficos ganhar ascendência sobre todos os estratos sociais.
do conhecimento durante milhares de anos. Vistas sob Isto conseguiu-se devido a um ulterior desenvolvimento
este prisma, surge também o problema de haver qualquer de stocks de pensamento' e conhecimento que tinham sido
justificação factual para a distinção tradicional entre as anteriormente acumulados por muitas outras sociedades
formas de pensamento, consideradas invariáveis e os con­ humanas. Mas as pessoas não estão conscientes das mudan­
teúdos variáveis do conhecimento. Certamente que é uma ças particulares e totais que foram necessárias aos paises
das realizações de Comte o facto de ter abandonado esta europeus a fim de lhes permitir realizar a passagem a um
tradição filosófica ingenuamente egocêntrica, orientada para Pensamento cientffi�o, primeiramente em ligação com os
o pensamento científico natural. Talvez tenha ido demasiado fenómenos naturais. Assim, toda a gente interpreta instin­
longe ao afirmar que, em conformidade com a sua lei dos tivamente como uma dádiva natural as suas ideias «racio­
três estados, as formas pré-científicas de pensamento devem natsn e as suas atitudes em relação aos factos naturais.
necessariamente transformar-se em formas científicas. Ora Considerou-se automaticamente- como sinal de fraqueza ou
isto tem que estar condicionado à orientação tomada pelo de inferioridade o facto de outros povos noutras socieda­
desenvolvimento social total. Mas certamente que Comte des serem fundamentalmente influenciados nas suas atitu­
não foi longe demais ao afirmar que todos os factos cien­ des em relação às forças naturais pelas ideias pré-cienti­
tfficos de pensamento surgiram de forn,1as pré-científicas. ficas e mágioo-mfticas.
Estas primeiras formas de pensamento a que ele chamou O modo como Comte formulou as suas ideias pode
teológicas ou metafísicas foram os primeiros e mais espon­ impedir a utilização da brecha que ele tentou fazer na
tâneOs tipos de pensamento humano: foram talvez os mais fortaleza da velha filosofia ou, finalmente, facilitar a des-

46 47
:I
'
'

'i
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' truição completa das suas muralhas. A sequência dos tipos feita a partir do indivíduo humano, porque as condições sociais

1i
de pensamento que ele, de acordo com o hábito intelectual que modificam os efeitos das leis fisiológicas são precisamente
da sua época, designou por leis, compreende-se mais facil­ a consideração fundamental. Assim, a sociologia deve basear-se
mente se a evolução das estruturas de pensamento for em num campo de observações directas próprias, embora se atenda
si própria encarada como um aspecto da evolução das

,
à sua intima e necessária relacionação com a fisiologia num
' estruturas sociais. Comte tinha perfeita consciência disto, sentido estrito 6,
i,
pois falava sobre a relação entre o predomínio dos tipos
de pensamento mágico-míticos e o governo de uma classe Muitas das expressões que Comte utilizou têm desde
mfutar ou sacerdotal, e da relação entre o predomínio de então alterado o seu significado. A expressão «espécie
tipos científicos de pensamento e o domínio de classes bumanan (por vezes traduzida por ((raça humanan) tem
industriais. Desde o seu tempo aumentou tanto o manan­ hoje em dia um nitido travo biológico. Comte usou-a sem
cial de conhecimentos sociológicos sobre o desenvolvi· esta conotação, como sinónimo de ((humanidaden que, por
menta da sociedade humana, que não seria düícil fazer sua vez, era para ele sinónimo de sociedade.
maior justiça à diferenciação e complexidade de tais A düiculdade intelectual com que se debateu deve-se
conexões. ã. sua tentativa de explicar a inseparabilidade do estudo
das sociedades humanas do estudo das características
biológicas humanas, tentando, no entanto, estabelecer
A SOCIOLOGIA simultaneamente uma relativa autonomia das primeiras
COMO CI�NCIA RELATIVAMENTE AUTONOMA em relação ã.s segundas. Hoje, esta relação expressa-se
mais facilmente com a experiência e os novos instrumen­
Comte demonstrou e explicou parcialmente, que o tos de pensamento de que dispomos. De há uns tempos
objecto fundamental da sociologia é sui generis, não para cá tem-se notado, em circulas biológicos, uma cres­
podendo ser reduzido às peculiaridades estruturais da bio­ cente düusão da compreensão de tipos específicos de orga-­
logia humana- ou, para usar a terminologia de Comte, nização, entre os quais urna hierarquia de níveis interde­
da fisiologia. Foi o discernimento de uma autonomia rela­ pendentes de funções de coordenação e integração de tal
tiva do objecto da sociologia que constituiu o_ passo deci­ modo que as relações nos níveis mais complexos de coorde·
sivo para o estabelecimento da sociologia· como ciência nação e integração são relativamente autónomos dos níveis
relativamente autónoma. O problema ainda é actual. Ainda menos amplos. Substancialmente, os níveis mais amplos de
hoje se fazem tentativas de reduzir a estrutura dos pro­ integração não são mais do que uma combinação de figu­
cessos sociais à biologia ou à psicologia. Portanto, vale a rações de níveis menos amplos, que de certo modo os
' pena ver o modo como um homem como Comte, há mais primeiros regulam. Porém, o modo como funcionam os
'
de cento e trinta anos, combateu esta concepção errónea. níveis mais altos de integração é relativamente autónomo

I :'i
no que respeita aos seus componentes:
i Em todos os tenómenos sociais, observamos primeiramente
'
i1 a influência das leis da fisiologia individual e, para além des· A actividade num nível inferior é sempre determinada pela
'
,, tas, algo de especial que · modifica os seus efeitos e que diz actividade num nível superior, mas em cada nivel a coordena­
'

··I':1 ',1 i,.


'' I respeito à influência reciproca dos indivíduos, singularmente ção é relativamente autónoma . . . O princípio da autonomia rela­
I complicada na espécie humana pela influência de cada geração tiva a cada nível particular de coordenação e integração dentro
na geração seguinte. Ê pois evidente que para estudarmos devi­ deste esquema hierarquizado foi recentemente alvo de uma
damente os fenómenos sociais devemos começar por ter um atenção especial 1,

!
! conhecimento completo das leis do organismo individual. Mas,
·'
por outro lado, a dependência necessária destes dois tipos de Tal como aqui se expõe, esta intuição apenas se refere
investigação não nos obriga a considerar a sociologia como sim· a estrutura dos organismos. Mas como _modelo intelectual,
pies apêndice da fisiologia, tal como muitos fisiologistas emi· ajuda grandemente à compreensão das relações entre os
nentes foram levados a crer ... De facto, seria impossível consi· campos de investigação dos vários tipos de ciência. Ciên­
dcrar o estudo colectivo da humanidade como uma pura dedução cias como a física, a biologia e a sociologia dizem respeito

48 49
1'11! :'
'
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I
, a diferentes niveis de integração no cosmos. Também aqui
1 ',,! se encontram em cada nível tipos de relações, de estrutu­
ter a formulação comtiana do problema: perdeu pouco
da sua actualid.ade.
ras e de regularidades que não podem ser explicadas ou
compreendidas em termos do nível anterior de integração. No estádio primitivo do nosso conhecimento não existe
Assim, o fUncionamento do organismo humano não pode qualquer divisão regular entre os nossos sforços intelectuais;
ser explicado ou compreendido apenas em termos das �
todas as ciências são simultaneamente culttvadas pelos mesmos
características físico-químicas dos seus átomos; nem o fun­ espíritos. Este processo de organização dos estudos humanos,
cionamento de um estado, de uma fábrica ou de uma famí­ primeiramente inevitável e mesmo essencial �ansforma-se a
lia pode ser unicamente compreendido em termos das pouco e pouco, proporcionalmente ao desenv lvt�ento das dtfe­ _
caracterfsticas biológicas ou psicológicas dos seus mem­ � .
rentes classes de conceitos. Devido a uma let, cUJa necesstdade
bros individuais. Comte reconheceu de um modo inequí­ é óbvia' cada ramo do sistema científico se separa gradualmente
voco a autonomia de certos grupos de ciências dentro de do seu tronco, logo que cresceu suficientemente para constituir
'
todo o sistema das ciências. Registou esta ideia mas não uma disciplina distinta. Isto significa que alcançou o ponto de
I
,, a verificou com a ajuda de uma investigação empírica e se tomar apto para chamar a atenção de alguns intelectos.
de modelos teóricos. Esta ideia manteve-se nele de um Evidentemente que é a esta divisão dos vários tipos de conhe·
modo intuitivo. Mas o problema tinha sido detectado. cimento pelos diferentes grupos de especialistas que devemos
A tarefa agora seria encontrar uma solução mais convin­
o desenvolvimento notável verificado actualmente em cada um
cente. Como veremos, os capítulos seguintes dedicam uma dos distintos ramos de conhecimento. Isto fez com que fosse
atenção particular a esta tarefa. Temos que mostrar como

'
manifestamente impossível ao homem moderno chegar ao conhe­
e porquê a interpenetração de individuas interdependentes cimento polimático de todas as disciplinas especializadas, facto
I
'
fonna um nivel de integração no qual as formas de orga­ tão fácil e comum nos primeiros tempos. Em resumo, a divisão
nização, estruturas e processos não podem ser deduzidos intelectual do trabalho, levada cada vez mais longe, é um dos
das características biológicas e psicológicas que constituem atributos fundamentais e característicos da filosofia positivista.
os indivíduos. Mas, embora reconhecendo os resultados prodigiosos desta
divisão do trabalho, e embora vendo que constitui actuai ente
n;
o fundamento real da organização geral do mundo culto, e por
O PROBLEMA outro lado impossível não nos impressionarmos com as des·
DA ESPECIALIZAÇÃO CIENTlFICA vantagens produzidas pela especialização excessiva das ideias
que ocupam a atenção exclusiva de cada intelecto individual.
Sem dúvida que esta cOnsequência infeliz é até certo ponto
Por fim, temos de mencionar outra questão posta por inevitável e inerente ao próprio princípio de divisão de tra­
Comte que antecipou dois dos problemas mais prementes balho. Por mais que façamos, nunca conseguiremos igualar a
do nosso tempo. Talvez seja surpreendente que no começo omnisciência dos nossos antecessores, os quais deviam esta
do século XIX um homem se tenha preocupado com as superioridade essencialmente ao desenvolvimento limitado dos
consequênclas de uma especialização científica crescente seus conhecimentos. No entanto, parece-me que hà processos
e tenha ponderado de um modo profundo o que se poderia adequados por meio dos quais podemos evitar os efeitos mais
fazer para obviar as ·dificuldades que, segundo previa, se perniciosos de uma especialização exagerada, sem detrimento
relacionariam com essa especialização. Não podemos enca­ para a influência revigorante da separação das disciplinas ...
rar como coincidência o facto de pioneiros tais como Comte Todos concordamos que as divisões cfectuadas entre os dife­
e Spencer se terem preocupado com um problema de teoria rentes ramos da ciência são sempre artificiais. Porém, apesar
da ciência a que a teoria filosófica da ciência prestava desta concordância' não esqueçamos que no mundo culto já
pouca atenção. Em última instância, a diferença de atitu­ há poucos espíritos que se preocupam com a totalidade, mesmo
des deve-se a que a teoria sociológica da ciência orienta de uma só ciência que, por seu lado, é apenas uma entre as
a sua investigação como se as ciências fossem de facto muitas ciências. A maior parle já se limita quase exclusiva­
sociais, enquanto na teoria filosófica da ciência a visão mente à consideração isolada de uma secção mais ou men s
dos factos se mistura com uma visão ideal. Vale a pena . �
extensa de uma ciência determinada, sem dar m�uta atençao

50
51
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à relação destes esforços particulares com o sistema geral das

2
'

ciências positivas, Apressemo-nos a remediar este mal antes


que se torne mais sério, Acautelemo-nos, não vd a mente humana
perder-se numa confusão de detalhes. Não nos podemos iludir
-este é o lado particularmente sensível onde os defensores
da filosofia teológica e metafísica podem atacar a filosofia O SOCIÓLOGO
positiva com alguma esperança de sucesso.
O modo corrente de deter a influência nociva de uma COMO DESTRUIDOR DE MITOS
superespecialização na pesquisa individual (ameaça para o nosso
futuro intelectual), não seria obviamente um regresso à primi­
tiva confusão de esforços. Isso levaria a uma regressão do
espírito humano, aliás impossível nos tempos que correm. Pelo
contrário, a solução consiste no aperfeiçoamento da divisão do
próprio trabalho. Tudo o que precisamos é fazer do estudo
geral da ciência uma outra grande especialidade, Temos nece,s..
sidade de uma nova classe de intelectuais devidamente prepa­
rada que, sem se entregar ao estudo especifico de qualquer
Hoje em dia, a própria sociologia corre o p�o de
ramo particular da filosofia natural, a relacione inteiramente .
se fragmentar em sociologias cada vez mais especial�­
com as várias ciências positivas no seu estado actual, definindo
das - da sociologia da família à sociologia das orgamza­
com precisão a natureza de cada uma e revelando como se
ções industriais, da sociologia do conhecimento à so�ologia
ligam e se relacionam umas com as outras ... Ao mesmo tempo,
das mutações sociais, da sociologia do crime à soCiolo�a
outros cientistas, antes de se entregarem às suas respectivas
da arte e da literatura, da sociologia do desporto a sOClo­
especialidades, receberiam de futuro alguma instrução sobre os logia da linguagem. Em breve, haverá especialistas em todos
princípios gerais das ciências positivas. Isto permitir-lhes-ia um estes campos, elaborando os seus próprios termos técnicos,
aproveitamento imediato dos conhecimentos obtidos por aque­ as suas teorias e métodos que se tornarão inacessíveis aos
les que se dedicam ao estudo geral da ciência. E, por seu lado, não especialistas. Terão então realizado o ideal básico do
os especialistas estariam aptos a corrigir os resultados dos profissionalismo - a autonomia absoluta das novas es�
globalistas. Este é o estado de coisas de que os cientistas
cializações. A forteleza estará completa, as pontes levadi­
actuais se vão dia a dia visivelmente aproximando s.
ças erguidas. Este processo tem-se repetido vezes sem
conta ao longo da evolução das actuais ciências sociais
- psicologia, história, aritropologia, economia, ciências poU­
ticas e sociologia, para apenas nomearmos algumas delas.

Se temos de explicar o que é a sociologia, não pode­


mos deixar de mencionar este processo, que ainda hoje se
considera correcto. Levantam-se poucas objecções à cres­
cente divisão do trabalho no campo das ciências sociais
em gerai e da sociologia em particular. As pessoas não se
desligaram suficientemente dos problemas criados pela cres­
cente especialização científica para os poderem investigar
sistemática e cientificamente.

Foi esta a possibilidade que Comte tentou assinalar.


Para lidar com problemas deste tipo, requere-se um novo
tipo de cientista especializado, encarregado de investigar
os processos sociais de longo curso, tais como a crescente

52 53
diferenciação do trabalho cientifico e das forças sociais guesa dos séculos XVIII e XIX na Europa; muitos inte­
que o conduzem. Tal como Comte afirmou, é óbvio que há lectuais aderiram então à crença de que o desenvolvimento
toda uma série de factores sociais que inibem o desenvol­ social total lutava implacavelmente por uma melhoria da
vimento da investigação científica d&s ciências. Desde o qualidade de vida. Entre os seus sucessores, esta crença
seu tempo que a especializaçãO científica tem continuado foi perdendo a sua reputação. Como critério de desenvol­
de um modo que ainda se mantém socialmente inexplicável vimento social total, ou como expressão de uma Convicção
e incontrolável - como se fosse um processo desordenado. dogmática, o conceito de progresso é na verdade inútil.
E, no entanto, como a especialização tem aumentado tanto, Porém, como expressão do modo como os próprios cien­
estamos agora numa posição melhor para compreender o tistas avaliam os resultados da sua investigação, leva-nos
alcance dos problemas decorrentes de uma ci�ncia espe­ ao cerne do assunto.
cializada de llsegundo grau». Podemos agora ver como uma

'i
investigação científica deste tipo difere das tentativas pré­ É düícil dizer se há (!verdades eternas», válidas para
·filosóficas de formulação de uma teoria da ciência. todo o sempre, na teoria da relatividade de Einstein, na
descoberta do bacilo da cólera ou na evolução dos mode­
I Estudos jüosójicos das ciências têm como tarefa impU­ los tridimensionais da estrutura atómica das grandes molé­
cita - e por vezes explicita - determinar, baseados em cer­ culas. Conceitos tradicionais tais como o de ((Verdades eter­
tos princípios, como a ciência deveria ser conduzida. Estes nas!! incluem valores inefáveis, eles próprios carecendo de
princípios estão muitas vezes estreitamente relacionados justificação. São basicamente de natureza edificante. Em

edifican­
com a ideia, proveniente da teologia, de que a finalidade clima de transição é claro que é reconfortante acreditar
da ciência é formular afirmações eternamente válidas ou que certas coisas são imperecíveis. Os conceitos
promulgar verdades absolutas. Tal como já dissemos, isto tes têm o seu lugar na vida humana, mas não há lugar
é uma visão imaginária da ciência, baseada numa tradição para eles na teoria da ciência. Todo aquele que, sob o
teológica e filosófica que vem de longe; aplica-se às ciên­ pretexto de dizer o que a ciência é, dá de facto a sua

neces­
cias como um dogma pré-concebido, um postulado moral opinião sobre o que ela idealmente deverá ser, engana-se
parcialmente implícito. As pessoas não consideram a si próprio e aos outros. � abusivo falarmos de uma
sário que se verifique por meio de uma investigação expe­ teoria da ciência sem que primeiro tenhamos assimilado
rimental se esta hipótese dogmática corresponde àquilo que aquilo que na verdade pode ser observado e experimen­
os cientistas realmente fazem. Por exemplo, John Stuart tado por meio de um estudo científico das ciências.
Mill (1806-'73) parecia acreditar que o processo indutivo
tinha primazia sobre o_ dedutivo, de modo que proceder Se empreendermos este tipo de estudo, depressa des­
do particular para o geral era melhor do que proceder cobrimos que a causa da ciência tem avançado em certas
do geral para o particular. Fl.lósofos actuais, como por sociedades pela acção de pequenos grupos que lutam con­
exemplo Karl Popper, parecem mais inclinados a dar pri­ tra sistemas de pensamento pré-científicos, não compro­
mazia à dedução sobre a indução. Mas tudo isto só se vados experimentalmente. Para outros grupos, geralmente
torna compreensível se partirmos da noção irreal de que muito mais poderosos, estas crenças surgem como perfei­
a finalidade da teoria da ciência é decidir como é que tamente naturais. Grupos que pensam de um modo cien­

i i.
I
alguém terá que proceder de modo a que o seu compor­ tifico são grupos que geralmente criticam ou rejeitam as

lli::i' tamento seja considerado de carácter cientwco. A teoria


filosófica da ciência assenta numa concepção falsa do
ideias dominantes aceites pela maioria da sociedade em
que vivem, mesmo quando são defendidas pela autoridade
]J'I
;; I problema. reconhecida, pois descobriram que não correspondem aos
' ' i.
factos observáveis. Por outras palavras, os ctentistas são
,;,,,. iI
., destruidores de mitos. Por meio de uma observação dos
O critério decisivo pelo qual o trabalho de um cien­

'i
''til·.
tista individual pode ser na verdade reconhecido, parece factos, esforçam-se por substituir mitos, ideias religiosas,
ser a sua contribuição para o progresso do conhecimento especulações metafísicas e todo o tipo de imagens não
fundamentadas dos processos naturais, por teorias testá­
cientifico. Hoje, o conceito de «progresso» tem caido em
descrédito. Foi um dogma central da inteUigentsfa bur- Veis, verificáveis e susceptíveis de correcção por meio da
i
54 55
observação factual. A tarefa que a ciência tem de perseguir tem de se centrar na natureza dos processos cognitivos no
os mitos até à morte e de demonstrar que certas c�ças decurso dos quais, primeiro poucos, depois grupos maiores
generalizadas não são baseadas nos factos, nunca será e melhor organizados conseguiram trazer o conhecimento
totalmente realizada, pois que,. tanto dentro como fora dos e o pensamento humanos a uma concordância mais intima
grupos de cientistas especializados-, há sempre quem con­ com uma série cada vez maior de dados observáveis.
verta as teorias cientificas em sistemas de crenças, Extra­
polam-se as teorias e usam-se de um modo perfeitamente Reconhecer esta tarefa é romper tanto com o absolu·
divorciado de uma investigação dos factos teoricamente tismo filosófico como com o relativismo sociológico, que
orientada. ainda prevalece grandemente. Podemos sair do circulo
vicioso que vezes sem conta nos prende a um relativismo
A despeito de tudo isto, o progresso ainda é critério sociológico no próprio momento em que nos tínhamos
pelo qual são julgados os resultados da investigaçio, quer libertado do absolutismo filosófico; querer sair dessa arma·
a nível teórico, quer a nivel empírico, quer em ambos. dilha leva-nos de novo ao refúgio falso e dogmático do
Que avanço representam os resultados quando avaliados absolutismo filosófico.
por um conhecimento social corrente ou, mais especifica·
mente, por stocks de conhecimentos científicos? Este tipo Assim, por um lado temos a teoria filosófica do conheci­
de progresso tem muitas facetas. Pode implicar um acrés­ mento que toma o conhecimento científico como certo. Não
cimo dos stocks de conhecimento. Pode implicar que se se preocupa como e porquê o modo cientifico de conhecer
estabeleça de um modo mais correcto um tipo de OOilhe­ emergiu do modo pré-científico. O problema filosófico ape­
cimento que anteriormente assentava em alicerces relati­ nas é posto em termos de alternativas estáticas e, deste
vamente inseguros. Pode implicar que se incluam numa modo, descobertas e formas de conhecimento pré-cientificas
mesma teoria certos factos que até então não se con· ou não cientificas são consideradas «erradas)) e «incor·
sideravam relacionados, ou que se relacionem aconteci· rectasn, enquanto as formas cientificas são «certas" e «ver·
mentos uns com os outros sob um modelo mais amplo dadeirasn. Portanto, a teoria filosófica da ciência não nos
do que o oferecido por anteriores teorias. Também oferece qualquer hipótese de tomar como sua preocupação
pode simplesmente significar que a teoria e a evidência central os problemas actuais do desenvolvimento científico.
empíricas se adequam mais intimamente uma à outra. Em Não pode lutar com o processo pelo qual os esforços de
cada um destes casos, é fundamental que critérios tais investigação relativamente indiferenciados dos tempos pri·
como «verdadeiro» ou «falso», «certo» ou «errad.Ol), deci· mitivos foram transformados em processos de investigação
sivos na filosofia tradicional da ciência, se desloquem do cada vez mais especializados. Mesmo hoje, ao falarmos de
centro para a periferia da teoria da ciência. :1!:: claro que teoria da ciência, falamos de «Ciência)) e de «método cien­
ainda é possivei provar como absolutamente erradas cer· tifiCOII, como se só houvesse uma ciência e um método
tas descobertas cientificas. Porém, nas ciências mais desen­ científico- ideia tão quimérica como a antiga noção de
volvidas, a medida de comparação principal é a relação que s6 havia uma cura para todas as doenças.
das novas descobertas com os conhecimentos anteriores
disponíveis. Isto é algo que não se pode exprimir em pola­ Depois, por outro lado, há a teoria sociológica da
ridades estáticas como «verdadeiro» e «falson, mas apenas ciência que trata exclusivamente da determinaÇão social
pela demonstração da düerença entre velho e novo; facto dos padrões de conhecimento pré-científicos. Tal como a
que se vai manifestando através da dinâmica dos processos teoria filosófica do conhecimento tomou quase exclusiva­
científicos, no decurso dos quais o conhecimento teórico mente como modelo o conhecimento científico dos aconte­
·
e empírico se toma mais extensivo, mais correcto e mais Cimentos naturais, assim também a teoria sociológica do
adequado. conhecimento se tem preocupado até agora quase exclusi·
vam.ente com conceitos sobre a sociedade e com ideologias
Se uma teoria sociológica do conhecimento se basear Políticas e sociais. Não se tem interrogado acerca de como
não no postulado de utopias cientificas mas na investiga­ e em que condições é possível o conhecimento não-ideoló­
ção das ciências como processos sociais observáveis, então gico e Científico de relações naturais e sociais. Nem os

56 57
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sociólogos clarificaram totalmente, quer para eles próprios do conhecimento, sem se arrastar por ideias e valores arbi·
quer para os outros, de que modo as teorias sociológicas trãrios e pré-concebidos.
diferem das ideologias sociais e se existe de facto tal dife­ O desenvolvimento da ciência tem sido frequente­
I'
1 renciação. A prevalecente sociologia do conhecimento, tal
como a teoria filosófica do êonhecimento, negligencia o
problemas das condições que permitem que os mitos e
mente encarado como um tema de estudo meramente
histórico, enquanto a ciência como objecto de investiga­
çãO filosófica sistemática tem sido vista como se estivesse
ao:; ideologias pré-científicas se desenvolvam até formarem num estado eterno e imutável A abordagem que aqui
teorias cientificas, quer sobre a natureza quer sobre a defendemos evita esta dicotomia simplista. Não é nem
sociedade. sistemática nem histórica no sentido tradicional destes
conceitos. O desenvolvimento do conhecimento cientifico,
A teoria sociológica da Ciencia, que .emergiu primeira­ seja ele sobre a natureza ou sobre a sociedade, tem que
mente da obra de Comte e que hoje finalmente se está ser considerado como uma transição para uma nova fase
a tornar mais inteligível, coloca este mesmo problema numa na busca geral do conhecimento efectuada pela humani­
posição de fundamental importância. Levanta uma ques­ dade; só então poderá ser investigado e definido teorica­
tão chave: sob que condições sociais foi possível alargar mente. Este processo tem muitos aspectos e varia enor­
o conhecimento das sociedades ·humanas e reconciliar cons­ memente nos seus pormenores. Mas é possível estabelecer
tantemente esse conhecimento com os factos observados? com precisão a direcção de qualquer desses processos. Por
Não podemos afirmar com segurança que o desenvolvi­ exemplo, sempre que se encontram no vocabulário de uma
mento social global levará necessariamente a uma eman­ sociedade conceitos exprimindo ideias sobre uma relação
cipação progressiva das ciências sociais, tal como acon­ de acontecimentos impessoal e, até certo ponto, auto­
teceu com as ciências naturais. É demasiado cedo para -regulada e autoperpetuada, é certo que descendem em
fazermos esta afirmação, pois o processo de emancipação linha recta de outros conceitos que implicam uma relação
ainda não terminou. No entanto, podemos estar mais segu­ pessoal de acontecimentos. Em qualquer dos casos, esta
ros sobre o passado. A estrutura do pens�mento começou última foi o ponto de partida. As pessoas modelam as
a orientar-se numa direcção razoavelmente óbvia no período suas ideias sobre todas as suas experiências, essencialmente
em que os problemas sociais começaram a ser tratados sobre as experiências que tiveram dentro do seu próprio
como se fossem de carácter científico e não de carácter grupo. Os modelos de pensamento que desenvolveram
teológico ou filosófico. Examinando o processo de cienti­ sobre as suas próprias intenções, acções, planos e fins
fização do pensamento e da percepção à luz da sociologia nem sempre foram adequados, quer para a compreensão
do desenvolvimento, podemos clarificar teoricamente as quer para a manipulação de relações de acontecimentos.
propriedades estruturais que distinguem a pesquisa cientí­ Na verdade, isto é uma ideia de difícil compreensão e
fica do conhecimento pré-cientifico. IstO está para além levou muito tempo a ser alcançada, implicando uma série
da capacidade da tradicional teoria filosófica da ciência, de esforços cumulativos e árduos de muitas gerações.
pois esta é dominada pela hipótese fictícia de que o conhe­ O que hoje designamos por <matureza)) tem sido sempre
cimento cientifico é o 1cnatural)), «razoáveb, cmormal)) ou, uma série de acontecimentos largamente auto-regulados,
de qualquer modo, a forma eterna, imutável e fixa do autoperpetuados e mais ou menos autónomos; mas decor­
conhecimento humano. . Consequentemente, rejeita o estudo reu muito tempo antes que a humanidade estivesse apta
das origens sociais e do desenvolvimento da ciência como a conceber a infindável variedade de acontecimentos indi·
«meramente históricos)), 1mão filosóficos)) e, portanto, irre­ viduais naturais como um sistema fortuito, mecânico

i' . I
levantes para uma teoria da ciência. Contudo, uma obser­ e regular, que ninguém tinha planeado ou pretendido.
vação deste tipo, em que se utiliza um método compa­ O desenvolvimento da sociedade hwnana e, consequente­

1,I! ,
rativo, é a única forma de separar sistematicamente a tnente do conhecimento e do pensamento, começou por
produção de conhecimento não científico e menos cientí­ ser vagaroso e intermitente, mas acelera-se a partir da
fica da mais científica. Ao recusá-la, a abordagem filosófica Renascença. Como e porquê as pessoas aprenderam a
nega-se a si mesma a única possibilidade de detenninar as Percepcionar e a interpretar relações de acontecimentos
prOpriedades estruturais distintas da pesquisa científica ocorrentes na natureza, de um modo muito diferente das

1" 1·,,
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58 59
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I ,
suas experiências pessoais imediatas, é um facto que não conhecem os planos e as intenções secretas. Pensa-se mui·
tas vezes que a transição para tipos científicos de conhe­
nos interessa actualmente explicar.
cimento depende essencialmente de uma mudança para a
A comparação com o processo de crescimento das
utilização de um determinado método de investigação.
ciências naturais facilita-nos ttma visão precisa das d.tfi·
A ideia de que podemos descobrir. um mé-todo ou um
culdades que os homens tiveram de combater- e ainda
inStrumento conceptual independentemente do modo como
combatem - ao tentar compreender as suas próprias inter­
concebemos o objecto principal cujo conhecimento se pre­
conexões sociais. Têm vindo lentamente a compreender
tende alcançar, é produto da imaginação filosófica. Muitas
que as estruturas que formam com os outros podem ser
vezes se admite, provavelmente quase sem se pensar, que
melhor explicadas e compreendidas se não forem simples­
a imagem da natureza como um processo auto-regulado foi
mente consideradas como uma acumulação de indivíduos
sempre predominante e que só precisaríamos de descobrir
particulares conhecidos pelo seu nome, mas também como
wn método que trouxesse luz aos exemplos individuais de
configurações impessoais, até certo ponto auto-reguladas
relações regulares. Na verdade, a concepção teórica de uma
e autoperpetuadas. Não se pretende de modo algum suge·
relação de acontecimentos e o método de a investigar
rir que as relações sociais nada tém de comum com o
desenvolveram-se numa interdependência funcional. J!: par­
tipo de relações que os jisicos encontram no seu trabalho.
ticularmente difícil desenvolver uma concepção de socie­
O que se mostra claramente é que em ambos os casos
dade relativamente autónoma, que possa servir de chave
a transição para processos científicos de pensamento se
para a descoberta científica, uma vez que tal concepção
relaciona com uma nova concepção da natureza de acon·
entra em conflito não só com concepções pré·Qientificas
tecimentos particulares. O que anteriormente fora éipe­
da sociedade, mas também com as concepções cientificas
rimentado, um pouco trreflectidamente, como uma varie­
dominantes sobre a natureza. As interconexões funcionais
dade de acções, intenções e fins por parte de seres vivos
na sociedade não são idênticas às interconexões de um
particulares, é hoje concebido como um tipo distinto de
nível mais baixo de integração, representadas pela natu­
relação factual. 11': realmente experimentado com maior
reza física; isto não é universalmente reconhecido. Todas
imparcialidade como sendo relativamente autónomo, rela·
a.<; nossas ideias sobre as relações impessoais de aconte­
tivamente incontrolado e impessoal. Podemos dizer que
cimentos radicam directamente no nível da natureza física;
é condição de transição para o pensamento cientifico que
deste domínio de experiência derivam todas as categorias
estejamos aptos a percepcionar deste modo uma relação
tais como a causalidade, todos os instrumentos de pensa­
particular de acontecimentos. Dizendo de outro modo,
mento e métodos de investigação que podem ser utilizados
é sintomático da transição de processos pré-cientificas
na compreensão de tais relações. Mais, os grupos profis­
para processos científicos de conhecimento que os instru·
sionais que se dedicam à investigação nas ciências naturais,
mentes conceptuais que usamos passem lentamente de
detêm um poder social considerável e, consequentemente,
conceitos de acÇão a conceitos de junção. O reconheci·
um estatuto social elevado. Os cientistas sociais, como
mento crescente da autonomia relativa de um campo de
todos os grupos móveis ascendentes, estão ávidos de gozar
investigação, encarado como tipo especial de relação fun·


da glória das ciências mais velhas, apressando-se em
cional é uma condição prévia das duas operações caracte­
adaptar os seus prestigiosos modelos. Se não tivermos isto
rísti do procedimento cientüico. São elas a construção
Presente, é impossível avaliannos por que motivo a socio­
de teorias relativamente autónomas sobre as relações entre logia levou tanto tempo a constituir-se como um campo
pormenores observáveis, e a verificação destas teorias por de investigação relativamente autónomo. .
meio de observações sistemáticas.
Lembrando tudo isto, estamos mais aptos a reconhe­
Enquanto as pessoas acreditarem que os acontecimen·
Cer o que se pode aprender sobre as propriedades estru·
tos são consequência de planos e intenções mais ou menos
turais do conhecimento cientifico, estudando a sua eman­
caprichosos de alguns seres vivos, não podem considerar
Cipação relativamente ao conhecimento pré-cientifico. Ten­
razoável o examinar de problemas com base na observa·
tativas de estabelecimento de um método determinado
ção. Se os acontecimentos forem atribufdos a seres sobre­
como critério decisivo da ciência não nos levam ao cerne
naturais ou mesmo a seres humanos lCDObres», o «mis­
elo problema. Nem é suficiente confiarmos no recmheci-
tério» só se pode resolver tendo acesso às autoridades que

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60
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mento de que todo o procedimento cientifico se baseia raro as interconexões socl81s como relativamente aut6no­
numa referência constante de modelos intelectuais inclu- ' J118S e até certo ponto como relações funcionais auto-regu­
sivos a observações particulares e destas observações a ladas, não guiadas por objectivos ou intenções e não se
. modelos intelectuais inclusivos. O que está mal nestas afir­
",I esforçando por alcançar metas fixadas pelos valores cor­
mações é o seu carácter formâl. A - observação sistemática rentes - tem como consequência um sentimento de ausên­
só adquire significado se· tivermos uma ideia geral do cia de significado. Porém, mais uma vez, neste longo per­
campo de investigação. Mais uma vez se prova que a cnrso, as pessoas só têm hipótese de dominar e dar sen­
separação da teoria e do método tem por base uma con­ tido a estas conexões funcionais, sem qualquer finalidade
cepção errada. A evolução da concepção que as pessoas e significado, se as conseguirem reconhecer como inter­
têm sobre o objecto fundamental é inseparável da con­ conexões funcionais autónomas e distintas e se as investi­
cepção que têm sobre um método adequado à investigação. garem sistematicamente.
Ao mesmo tempo, compreende-se perfeitamente que lhes
repugne a ideia de que a sociedade, da qual elas próprias Este é o cerne da transição para processos científicos
são membros, é uma relação funcional relativamente autó­ de pensar as sociedades. Tem-se feito frequentes referên­
noma dos objectos e intenções dos seus membros. Encon­ cias ao conceito de «autonomia relativan. Esta refere-se a
trou-se uma resistência semelhante durante o período em três aspectos diferentes, mas totalmente interdependentes
que se lutou para que triunfasse a ideia de que os acon­ das ciências. Primeiro, temos a autonomia relativa do
tecimentos naturais eram uma relação funcional cega e objecto fundamental de uma ciência no interior do uni­
sem qualquer finalidade. Na sequência imediata deste verso total de acontecimentos interdependentes. A divisão
reconhecimento, muitas vezes se experimentou uma sen­ do mundo científico numa quantidade de diferentes tipos
sação de falta de significado: «Então não há nenhum de ciências, essencialmente centrados na física, na biologia
fim?)) perguntava-se habitualmente. uNão haverá qualquer e na sociologia, dificultaria muito o trabalho do cientista
objectivo para além da circulação eterna dos planetas?». se esta divisão não correspondesse a uma organização do
Para chegarmos a um conceito de natureza como relação próprio cosmos. Consequentemente, o primeiro nível de
de funções mecânicas e regulares tivemos que nos libertar uma autonomia relativa, e o fundamento dos outros dois é
da ideia muito mais satisfatória de que por detrás de a autonomia relativa do objecto fundamental de uma ciên­
cada acontecimento natural há uma finalidade significa­ cia relativamente ao objecto fundamental das outras ciên­
tiva, a actual força motivadora. O paradoxo está em que cias. O segundo nível é a autonomia relativa da teoria
fomos incapazes de nos orientar contra a ameaça cons­ científica em relação a este objecto fundamental. Isto signi­
tante dos acontecimentos naturais, até sermos capazes de fica duas coisas. Já não está intimamente ligado a con­
perceber a ausência de significado, a ausência de finali· cepções pré-cientificas do seu objecto fundamental, expresso
dade e a regularidade cega e mecânica dos acontecimentos em termos de finalidade, signüicado e intenção. lf: também
físicos. Ao tentar levar a cabo a ideia de que os processos relativamente autónomo quanto a teorias sobre outros cam­
sociais também são relativamente autónomos das intenções Pos de investigação. O terceiro nível é a autonomia relativa
e das finalidades humanas, ocorrem constantemente as de uma dada ciência dentro das instituições académicas que
mesmas dificuldades e os mesmos paradoxos. Muita gente Orientam o ensino e a investigação. Isto também envolve
considera esta ideia repugnante. :É assustador compreen­ a autonomia relativa dos grupos de cientistas profissionais,
dermos que formamos interconexões funcionais no interior os especialistas de uma dada matéria, relativamente tanto
das quais muito do que fazemos é cego, sem finalidade e os grupos que representam outras ciências como aos não
involuntário. 't: muito mais reconfortante acreditarmos que cientistas. Esta deflnição social científica das propriedades
a história - que é sempre a história de sociedades huma­ estruturais de uma ciência baseia-se inteiramente no estudo
nas particulares- tem um significado, um destino, talvez daquilo que realmente existe. Emergiu da busca contínua
mesmo uma finalidade. E, na verdade, há sempre uma de conhecimentos e pode ser rectificada à luz de uma inves­
quantidade de gente que nos quer dizer qual é esse signi­ tigação ulterior, quer teórica quer experimental. Mas se o
ficado. É certo que a curto prazo o resultado imediato de estudo científico das ciências· for limitado deste modo, as
uma descrição feita nestes termos - em que se constde- sua descobertas serão cada vez mais aplicáveis aos proble-

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' was práticos. Constantemente, grupos de cientistas procuram uJilS. investigação teórica e empírica. Em breve será evidente
I justificar a sua posse ou aquisição de instituições académi�
cas relativamente autónomas por meio do desenvolvimento
que a concepção do objecto principal, tal como emerge no
deCurso do trabalho cientifico, é funcionalmente interdepen­
das suas próprias teorias, métodos e termos técnicos, dente da concepção do método de investigação usado. Isto
enquanto a autonomia relativa· dos seus dispositivos teó· é compreensível. O que pensaríamos de alguém que susten­
ricos e conceptuais não se justifica pela autonomia relativa tasse ser sempre necessária a utilização de um eixo para
do seu objecto principal. Por outras palavras, lado a lado moldar qualquer material, fosse ele madeira, mármore ou
com a especialização cientifica jl,tstificada pelos campos cera.? Igualmente, a estrutura social da actividade científica
correspondentemente separados de investigação, existe uma não pode ser ignorada, embora muitas vezes pareça sê-lo,
grande dose de pseudo-especialização. por todo aquele que pretenda compreender os critérios que
Diferentemente da teoria filosófica, a teoria sociológica determinam o valor científico das suas descobertas. O pro­
'
da ciência não nos dita leis nem decreta princípios esta­ gresso em cada campo cientifico está em parte dependente
! belecidos para determinar quais os métodos que são uciên· dos padrões e costumes científicos dos que trabalham nesse
cia válida» e quais os que não são. O que faz realmente é campo. E o seu carácter competitivo, seja ele brando ou
manter um contacto estreito com os resultados práticos aceso, o seu terreno de luta e desacordo, determinam em
das ciências. Utilizando a teoria sociológica da ciência como Ultima instância se e até que ponto os resultados obtidos
ponto de partida, é possível investigar até que ponto as por um determinado cientista podem ou não ser regista­
linhas de demarcação habituais e institucionalizadas entre dos como um progresso, como um avanço no conhecimento
os objectos científicos correspondem em qualquer altura cientifico.
ao estado actual do conhecimento sobre a organização dos A natureza social da investigação científica é demons­
vários campos de investigação, e até que ponto o desen· trada pelo pedido muitas vezes renovado de que as suas
volvimento das ciências tem causado discrepâncias. Final­ descobertas sejam «susceptíveis de repetição e verüicação».
mente, pode dizer-se que as teorias filosóficas se concentram A verificabilidade foi sempre entendida como capacidade de
na ciência ideal e, no interior desta, no método cientifico; algo ser verificado tanto por outras pessoas como pelo
como tantas vezes acontece na filosofia tradicional, as regras investigador. Certamente que nenhum método científico
do jogo colocam uma espécie de barreira invisível entre o poderá garantir em si próprio a validade de todos os resul­
pensador e o objecto do seu pensamentO- neste caso as tados obtidos pela sua aplicação. Se as atitudes de um
ciências. Muitos problemas científicos agudos, aos quais se investigador e os seus critérios científicos são de algum
dedica muito esforço prático no mundo real da ciência, são, modo modelados por considerações heterónomas, extracien­
dentro da estrutura da teoria filosófica da ciência, postos tíficas, quer políticas, religiosas ou nacionais- ou mesmo
de lado como sendo filosoficamente irrelevantes. De acordo considerações derivadas do estatuto profissional- todos os
com as regras do jogo estão fora de questão. Assuntos que seu esforços podem equivaler a uma perda de tempo. Este
parecem fora de questão de acordo com as regras filosó­ tipo de coisas acontecia frequentemente nas ciências sociais
ficas são no entanto altamente significativos para uma teoria e, na verdade, ainda hoje acontece. Não é difícil descobrir­
mais orientada para a realidade. ruas a razão. A investigação nas ciências sociais, pelo menos
Assim, as características comuns estruturais de aqui­ na sociologia, apenas alcançou uma relativa autonomia. As

­
sição cientifica do conhecimento não podem ser descober­ divergências internacionais· e nacionais são tão violentas e
tas sem que se tome em consideração a totalidade do uni intensas que os esforços para aumentar a autonomia das
verso cientifico, atendendo-se à multiplicidade das ciências. teorias sociológicas relativamente a sistemas de crenças
A orientação da nossa concepção de ciência para uma dis­ extracientfficas apenas obtiveram até agora um sucesso
ciplina particular, por exemplo para a física, é de certa limitado. Aconteça o que acontecer, os padrões pelos quais
forma equivalente ao modo como certas sociedades acre­ os especialistas na matéria julgam a investigação ainda são
ditam que toda a gente se lhes assemelha, e que se por grandemente determinados por este tipo de critério hete­
acaso são diferentes, já não são verdadeiramente pessoas. l'ónomo. Uma das razões por que as pessoas em muitas
Temos que voltar costas às regras restritivas do estudo filo­ das ciências sociais se apegam a um certo método, como
sófico da ciência, e considerar as ciências como objecto de l:>rova da sua respeitabilidade científica, é provavelmente

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' o facto de a veemência das suas disputas extracientfficas ll).esmas como sociedades- uma consciência comprovada
as impedirem de ultrapassar o problema das influências não só na fonna da sociologia mas também nas suas dis­
ideológicas na actividade científica, quer a nivel teórico putas extracientificas.
quer a nivel prático. A mudança estrutural efectuada na autoconsciência dos
Com estas reflexões, podetilos avaliar melhor como a indivíduos encontrou expressão na sua tendência para luta­
transição para processos mais científicos de pensar a rem cada vez mais em nome de grandes «ismoM; mas a
sociedade, iniciada lentamente nos fins do século XVIII e ll).Udança não pode ser compreendida a menos que ela
desenvolvida nos séculos XIX e XX, foi um acontecimento própria seja considerada como reflexo de certas mudan­
espantoso. Por um lado, é de lamentar que a teoria sacio· ças na vida social humana.
lógica não tenha chegado a uma maior autonomia; a defi­ Toda a gente conhece essas mudanças e, no entanto,
nição e selecção de problemas ainda se mistura com o nem sempre são percebidas de um modo claro e inequivoco
pensar os problemas sociais de um modo irreflectido e como mudanças de estrutura social. São geralmente clas­
não cientifico. Por outro lado, atendendo-se à intensidade süicadas como «acontecimentos históricosll. Por outras
dos conflitos sociais desse tempo, podemo-nos interrogar palavras, apercebemo-nos de uma riqueza de pormenores
como foi possivel que as pessoas nunca se emancipassem sobre acontecimentos ocorridos nos diferentes paises indus­
suficientemente dessas lutas, de modo a fazerem um pri­ triais europeus durante os séculos XIX e XX Em França
.

meiro esforço no sentido dEi um estudo científico destes houve uma revolução. Reis e imperadores apareceram e
fenómenos. desapareceram. Eventualmente, partidos burgueses e ope­
Compreende-se melhor a ascensão da sociologia,-· se rários lutaram por uma república e criaram-na. Em Ingla­
tivermos presente que os conflitos sociais e as próprias terra os Retorm Acts alargaram o direito de voto à bur­
disputas sofreram uma despersonalização caracteristica guesia e aos trabalhadores, admitindo representantes seus
durante o período de industrialização nos séculos XIX em lugares do governo. Diminuiu o poder dos Lordes,
e XX Houve uma tendência Crescente para que se con­
. enquanto aumentou o dos Comuns. Como consequência,
duzissem as lutas sociais não tanto em nome de determi­ a Inglaterra tornou-se um pais governado por uma bur­
nadas pessoas, mas antes em nome de certos principias guesia intelectual e pelos trabalhadores da indústria. Na
impessoais e de certas crenças. Isto parece-nos óbvio e, Alemanha, o facto de se terem perdido guerras contri·
portanto, muitas vezes não nos apercebemos de como foi buiu para o declínio do poder dos estratos sociais domi­
estranho e singular as pessoas desses séculos começarem nantes dinástico-agrários e militares, enquanto se tornaram
a lutar já não em nome dos príncipes regentes e dos seus mais importantes os indivíduos de estratos sociais mais
generais, nem em nome da religião, mas sobretudo em baixos. Consequentemente, depois de muitas oscilações do
nome de princípios impessoais fixoS, tais como {{Conser­ pêndulo, as velhas assembleias de estados foram substi­
vantismo», «comunismo», ((SOcialismo» e ((Capitalismo». No tuídas por assembleias parlamentares com representações
centro de cada um desses sistemas de crenças sociais, em de partidos. Podíamos continuar a lista. Tal como disse­
nome dos quais se lutava, estava a questão de como iriam mos, os pormenores são-nos familiares. Porém, tal como
as pessoas organizar conjuntamente as suas vidas em hoje, a percepção científica não está suficientemente bem
sociedade. Não só -da sociologia e de todas as ciências organizada de modo a que se veja em toda esta massa
sociais, mas também das ideias que dominaram as lutas de pormenores uma direcção uniforme de desenvolvimento.
em que participavam, se pode deduzir que nessa altura As árvores impedem-nos de ver a floresta. Não temos
as pessoas começavam a encarar-se a si mesmas de uma provas suficientemente profundas para descobrir o pro­
nova maneira- como sociedades. blema real. Quais as razões para as transformações de
Decerto que muitas vezes se considerou difícil com­ toda a situação humana nestes e noutros pafses? Todos se
preender o que os sociólogos verdadeiramente pretendiam rnovtam numa mesma direcção; tinham em comum uma
quando diziam ser a sociedade o objecto fundamental da Cientifização crescente do controlo sobre a natureza, uma
sua investigação. Assim, talvez se torne mais fácil explicar diferenciação ocupacional crescente e muitas outras ten­
qual o objecto da sociologia, se encararmos as circuns­ dências. lf: precisamente este o problema sociológico. Até
tâncias em que as pessoas chegaram à consciência de si chegarmos a este ponto, é difícil compreendermos o que

66 67

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os sociólogos entendem por IISociedaden. Quando lá che­ esferas «económicas», «políticas» e «sociais». Todas elas
garmos poderemos ver que entre as muitas diferenças de se referem a relações especificas de funções que as pes.
.!· ! pormenor histórico nos vários países, houve um parale­ soas desempenham para si próprias e para os outros. se
lismo estrutural no seu desenvolvimento de conjunto como
·
as esferas politicas, económtcas e todas as outras forem
sociedades. encaradas como relações funcionais de _pessoas interdepen­
O aparecimento de ciências que se dedicaram ao estudo dentes, em breve se verá que . a divisão é meramente con·
das sociedades foi em si mesmo uma faceta desta fase ceptual. Mais, veremos que não tem relação com qualquer
de desenvolvimento de sociedades estados. Este episódio modelo sociológico da sua interdependência e, assim, des­
distinguiu-se, entre outras coisas, pela crescente cientüi­ viamos a investigação sociológica do seu caminho. Bast.
zação de controlo sobre a natureza, que se verificou, por -nos considerar um fenómeno como os impostos. Serão os
exemplo, na descoberta de novas fontes de energia, e num impostos fenómenos de natureza «económica», «social» ou
avanço correspondente na diferenciação ocupacional. Houve 11pOlítica11? Será a decisão quanto ao modo como a carga
uma relação entre a tendência incipiente para uma cienti­ fiscal é suportada de carácter «puramente económtco»,
fização do pensamento sobre a sociedade e as mudanças 11puramente politiCOII ou 11puramente social»? OU ní\o será
estruturais no interior das sociedades estados onde ocorre­ antes a consequência de um equilíbrio de poder entre
ram estas transformações intelectuais. No entanto, a rela­ vários grupos de pessoas, entre governantes e governados,
ção só se torna evidente através da consciência da ten­ entre os estratos sociais mais ricos e mais pobres, que
dência comum que atrás referimos, no seu desenvolvimento podem ser razoavelmente bem determinados sociologica­
global. mente? .
Este paralelismo escapa-nos muito facilmente se ape­ Ainda passará algum tempo até possuirmos conceitos
nas atendermos a uma esfera do desenvolvimento, seja ele facilmente comunicáveis para facilitar o estudo de tais
económico, político ou social. Isto é uma das dificuldades. mudanças sociaiS globais. Neste campo, é suficiente indi·
A industrialização, a cientifização, a burocratização, a urba­ car uma mudança central na representação global da
nização, a democratização ou o crescimento do naciona­ sociedade. Entre as principais características mais comuns
lismo - seja qual for o conceito que se tome para demons­ do desenvolvimento da maioria dos países europeus dos
trar o paralelismo na mudança social, só realça um ou séculos XIX e XX, temos uma certa mudança no equlli­
outro aspecto particular. Os nossos instrumentos con­ brio de poder. Os cargos governamentais passaram a ser
ceptuais não estão suficientemente desenvolvidos para cada vez mais preenchidos por representantes de partidos
exprimir a natureza da transformação social global, nem políticos- organizações de massas que substituiram peque­
para explicar as relações entre os seus aspectos indivi­ nas élites que se distinguiram pela propriedade hereditária
duais. E, no entanto, o problema sociológico que nos diz
ou pelos privilégios hereditários. Hoje em dia, os partidos
respeito está precisamente nisso. A direcção comum tem ocupam um lugar tão evidente na nossa vida social que,
que ser esclarecida, não só numa esfera mas nas trans­
mesmo em estudos de carácter científico, nos limitamos a
formações mutuamente interligadas das relações humanas.
descrever e explicar apenas o seu exterior institucional. Já
Isto poderá realizar-se melhor- talvez provisoriamente­
não se fazem mais esforços para explicar porque é que
por meio de uma re-humanização mental de todos os con­
ceitos desumanos utilizados para caracterizar o desenvol· em todas essas sociedades, o governo oligárquico composto
vimento. Apesar de tudo, a industrialização não significa Por pequenos grupos privilegiados de carácter dfnástico­
mais do que haver cada vez mais pessoas a trabalhar como ·agrário-militar, deu mais cedo ou mais tarde lugar a um
empresários, empregados e operários. A cientifização de governo desempenhado por partidos, seja o regime pluri­
controlo sobre a natureza significa que cada vez há mais partido ou de partido único. Que mudança global de estru­
pessoas a trabalhar como fisicos e engenheiros. A demo­ tura dessas sociedades terá provocado um declínio de poder
cratização significa que o equilíbrio do poder se inclinou dos estratos governamentais dos séculos anteriores relati­
até certo ponto a favor daqueles que anteriormente eram vamente aos herdeir.os sociais daqueles que eram muitas
considerados «plebeus''· O mesmo se passa com o modo vezes referidos como a ralé? Sob o ponto de vista histórico,
lisongeiro como dividimos mentalmente a sociedade em todos estes pormenores se conhecem bastante bem mas,

68 69
i': i ' no entanto, para além desses pormenores não vemos clara­ nados relativamente aos governantes. Mas isto é pôr o
i-, 1 ! mente. Não nos conseguimos aperceber de uma óbvia carro à frente dos bois. O alargamento legal do direito
i! direcção comum das transformaÇões dentro das intercone­ de voto, muitas vezes contra uma forte resistência, foi a
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xões funcionais e das configurações que as pessoas formam
em conjunto. Nem, consequentêmente, vemos os problemas
cansequência institucional manifesta da mudança latente
na distribuição de poder relativamente a estratos mais
-i' sociológicos levantados pela orientação comum do pro­ aJargados. Nos séculos anteriores, o acesso ao monopólio
gresso em muitas sociedades-estado. Em muitos aspectos, central do poder e influência estatais para a concessão de
a sua história é diferente. Como explicar então que o equi­ cargos governamentais era geralmente limitada a pequenas
librio interno de poder em cada um desses países se tenha élites dinásticas e aristocráticas. No entanto, as mudanças
deslocado numa mesma direcção? na textura das relações humanas, que ocorreram em todos
A definição de um dos problemas fundamentais da os países mais desenvolvidos durante os séculos XIX e XX ,

sociologia do progresso pode ter ajudado a mostrar sobre foram de tal ordem, que nenhuma parte da sociedade se
o que versa a sociologia. Não podemos compreender as manteve simplesmente como um objecto relativamente
origens da sociologia à margem desta transformação radi· passivo de dominação SUieia. Nenhuma delas se manteve
cal da sociedade. As sociedades governadas oligarquica­ inteil'amente sem. canais institucionais através dos quais
mente pelos privilegiados hereditariamente transforma· . podiam exercer pressão, directa ou indirectamente, sobre
ram-se em sociedades governadas por representantes revo­ os governos e, nalguns casoS, podiam influenciar nas
gáveis de partidos políticos de massas. A alteração no equi­ escolhas para os cargos públicos governamentais. O apare­
líbrio interno de poder é sintomática da transformação cimento de organizações de massas de carácter partidário
global da sociedade. Podemos dizer das ciências sociais, e político nos séculos XIX e XX foi simplesmente uma
especialmente da sociologia, que têm o mesmo parentesco manifestação desta redução limitada das diferenças de
social que os sistemas de crenças dos grandes partidos poder entre governantes e governados. Vistas na pers­
de massas, as maiores ideologias sociais da nossa época. pectiva da nossa época, é certo que essas diferenças de
Por muito diferentes que possam ser a ciência social e poder se mantêm bastante grandes. Mas, no entanto, vistas
a ideologia social, ambas são manifestações das mesmas na perspectiva de um desenvolvimento a longo prazo das
transformações da estrutura da sociedade. Aqui temos que sociedades, as possibilidades que a massa dos governados
nos limitar a um breve levantameJl;tO de alguns aspectos tinha de controlar os governantes, relativamente às possi·
destas relações. bilida.d.es do governo de controlar os governados, aumen­
taram substancialmente. Os governantes de todos os países
tiveram que se justüicar ·aos olhos dos seus súbditos em
L A redução de dijerengas de poder entre governan­ nome de princípios relàtivamente impessoais e em nome
tes e goVernados de ideais relativos à ordenação das condições sociais. Tive­
ram que apresentar os seus próprios programas ideais
O alargamento do direito de voto foi a expressão ins­ para a reorganização social como uma maneira de captar
titucional mais evidente desta redução de diferenças de seguidores e crentes. E procuraram. conquistar a simpatia
poder. Surgiu geralmente por estádios, variando de pais das massas com planos de melhorame11to das suas condi·
para pais, embora a direcção fosse sempre a mesma. Mui· ções de vida. Tudo isto constituiu sintoma característico
tas vezes, o direito de voto estendeu-se primeiramente à da mudança relativa na distribuição de poder entre gover­
classe média proprietária, depois a todos os adultos do nantes e governados. Só por estes factos se vê bem como
sexo masculino, depois a todos os adultos, tanto homens um aumento de interdependência acarreta uma transfor­
como mulheres. Uma visão da história que descreve as lllaçã.o do pensamento sobre a sociedade e a formação de
mudanças sociais como resultando de acontecimentos indi· Programas relativamente impessoais para a melhoria das
viduais específicos pode facilmente levar à conclusão de COndições sociais. Também conduz, consequentemente,
que a legislação estatal de alargamento do direito de voto à percepção das sociedades como relações funcionais de
foi a causa do aumento comparativo do poder dos gover- P6ssoas interdependentes.

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2. A redução de diferenças de poder entre os dife­ Geralmente, designamos esta tendência pelo conceito
rentes estratos de «democratização funcional!�. Este não se identifica com
a tendência para um desenvolvimento da «democracia in&­
j,:;
titucionalll. Refere-se a urna alteração na distribuição social
'I Vistas isoladamente, as diferenças na possibiUdade de
'" acesso ao poder, por parte dÕS diferentes estratos sociais do poder, e isso pode manifestar-se de várias fonnas insti­
nos países mais desenvolvidos, são ainda na verdade muito tucionais, tanto em sistemas de partido único como em
.grandes. Porém, encaradas no contexto da orientação de sistemas pluripartidários.·
um desenvolvimento social a longo prazo nos últimos dois
ou três séculos, são correctas. :11:: evidente que as diferen­
ças de poder diminuiram, não só entre governantes e 3. Transformação de tocüts as relaÇões sociais no sen­
governados, mas também entre os diferentes estratos tido de um maior grau de dependéncia multtpolar
sociais. Há alguns séculos, os proprietários nobres eram reciproca e de um maior controlo
muito menos dependentes dos seus aldeãos e os oficiais
de exército dos seus soldados mercenários do que os No centro desta transformação social total têm estado
actuais industriais relativamente aos seus trabalhadores impulsos que se orientam no sentido de uma especiali­
ou os oficiais de carreira relativamente aos milicianos. zação crescente ou no sentido de uma diferenciação de
Para a maioria da população, que na verdade não tinha todas as actividades sociais. Correspondentemente, tem
qualquer poder, este último desenvolvimento resultou no havido impulsos orientados para uma integração de acti4
aumento do seu poder potencial relativo. Excepto nos vidades especializadas, que muitas vezes têm ficado para
sitios em que o equilíbrio institucionalizado de poder trás. Também neste caso os cientistas sociaiS apenas ·aten­
correspond.ia ao verdadeiro poder potencial das massas, dem ao aspecto institucional e não à estrutura total da
este aumento concretizou-se em manifestações difusas de sociedade. Assim, falam de CISOCiedades pluralistas" signi­
descontentamento e de apatia, em rebeliões indistintas e ficando essencialmente um sistema estrutural de institui­
em violência. Desde que a sociedade tivesse desenvolvido ções sujeitas a uma auto-regulação ou a um controlo por
meios institucionais que estabelecessem a distribuição de parte do governo. Mas a multipolaridade institucional cres­
poder e os processos legais que permitissem efectuar ajus­ cente e o controlo reciproco entre os vários grupos sociais
tamentos constantes para acompanhar as mudanças nas é mais uma vez apenas uma manifestação institucional da
relações de poder, estes sentimentos podiam encontrar atenuação das diferenças de poder entre todos os grupos
expressão através da escolha eleitoral, através de greves e todos os indivíduos no decurso da sua transfonnação.
Devido às suas funções especializadas especWcas, todos
e em demonstrações partidárias e movimentos de massas,
os grupos e indivíduos se tornam cada vez mais ftmcio­
cada um com os seus sistemas de crenças sociais. Por
nalmente dependentes de um número cada vez maior de
muito que assini fosse, na esteira da transformação social
pessoas. As cadeias de interdependência alargam-se e tor­
global, geralmente rotulada por um dos seus aspectos tais
nam-se mais diferenciadas; tornam-se consequentemente
como dndustrializaçã.o», tem havido uma diminuição de
mais opacas e mais incontroláveis, por parte de qualquer
diferenças de poder entre todos os grupos e estratos grupo singular ou por parte de qualquer indivíduo.
sociais- enquanto permanecem dentro da órbita funci"
nal constantemente mutável da sociedade. Esta última qua­
lificação indica que cada vez mais no decurso da diferen­ 4. As ctências sociais e os ideais sociais como ins4
ciação social e da sua correspondente integração, certos trumentos de orientação quando os vfnculos socfats
grupos sociais sofreram reduções no âmbito das suas fun­ são relativamente opacos e quando a conscténcia
ções, tendo mesmo sofrido total perda de funções; as con­ da sua opacidade é crescente.
sequências têm sido uma perda de poder potencial. Mas
a tendência global das transformações tem sido reduzir A ligação entre o desenvolvimento das ciências sociais
e o desenvolviment
todos os poderes potenciais entre os diferentes grupos, o social global surge aqui com maior
mesmo entre homens e mulheres, pais e filhos. nitidez. A opacidade das teias sociais relativamente às pes-

72 73
soas que as constituem, devido ao seu controlo mútuo e grandemente auto-reguladas e relativamente autónomas;
' à sua dependência, é uma caracteristica das teias em todos etn resumo, aplicam-se métodos cientificas. Outro resul­
os estádios do seu desenvolvimento. Porém, só numa deter­ tado tem sido o facto de as pessoas tenderem a orientar-se
I' minada fase de desenvolvimento· as pessoas puderam tomar para situações sociais relativamente opacas, com a ajuda
consciência desta opacidade e, consequentemente, também
• de sistemas de crenças e de ideais relativamente impes­
da sua incerteza enquanto sociedade. Algumas das proprie­ soais. mas carregados de emotivi(lade. Estes são altamente
dades estruturais desta fase de desenvolvimento têm sido satisfatórios, pois geralmente prometem um alivio ime­
aqui expostas- propriedades que permitiram que as pes­ diato para todas as doenças e sofrimentos sociais, ou
soas tomassem consciência de si próprias como sociedades, J]lesmo uma cura completa num futuro próximo. Os dOis
como pessoas que conjuntamente formam várias espécies tipos de orientação, o científico e o ideológico, têm-se
de relações funcionais e configq.ra.ções em constante desenvolvido habitualmente numa associação estreita.
mudança. Tornar-se superior entre elas é uma democra­ A diferença entre estes dois tipos de orientação inte­
tização funcional, um estreitamento das diferenças de lectual no universo humano ainda terá que ser traba­
poder e de desenvolvimento para com uma distribuição lhada em pormenor. O desenvolvimento da sociedade
mais igual de oportunidades de poder; penetra em toda humana ainda se mantém opaco e aquém dos poderes de
a gama de vínculos sociais, embora haja impulsos que se controlo. Mais cedo ou mais tarde teremos que decidir
dirigem simultaneamente contra esta tendência. Por seu conscientemente quais dos dois tipos de orientação- a cien­
lado, este desenvolvimento relaciona-se com a diferencia­ tüica ou a que se baseia em crenças sociais pré-concebi­
ção crescente ou com a especialização de todas as acttvi­ das -terá mais possibilidades de conseguir elucidar essa
dades sociais, e a correspondente dependência crescente sociedade e torná-la mais susceptível de controlo.
de cada pessoa e de cada grupo relativamente aos outros.
O desenvolvimento de cadeias de interdependência humana
cada vez mais· complicadas, torna crescentemente óbvio
como é inadequado explicar os acontecimentos sociais em
termos pré-cientificas. singularizando pessoas como se
estas fossem a sua causa. As pessoas experimentam a
opacidade e a complexidade crescentes das teias de rela­
ções humanas. Pensam que diminuiu obviamente a possi­
bilidade de qualquer individuo (por muito poderoso que
seja) tomar decisões só por si, independentemente dos
outros. São testemunhas das decisões constantes tomadas
no decurso de piavas de força e de lutas pelo poder entre
muitas pessoas e grupos - lutas muitas vezes conduzidas
estritamente de acordo com as regras, outras vezes não.
Toda esta experiência prática força-as a compreender que
são necessários outros modos de pensar mais impessoais
se é que querem compreender estes processos sociais
opacos.
Um dos resultados deste despertar da consciência da
relativa opacidade dos processos sociais e da inadequação
de explicações unicamente construídas em termos de pes·
soas individuais foi um esforço para que se examinassem
os processos sociais por meio de uma abordagem análoga
àquela que é feita em ciências já mais antigas. São tra­
tadas como relações fWlcionais internamente consistentes,

74 75
3
MODELOS DE JOGO

11 !
i
' I' l

Dado o actual estado do Pensamento sociológico, este


é um dos problemas que nele persiste: como podem os
sociólogos reivindicar um domínio próprio, distinto do
domínio dos biólogos, psicólogos, historiadores e outros
grupos de especialistas? Porque o tema central da socio­
logia é a «sociedade)) e as sociedades, no fim de contas,
não são mais do que unidades compósitas em que os seres
humanos individuais são as partes componentes. Não será
então necessário que os sociólogos confiem primeiramente
nas descobertas de todas as outras disciplinas, que, como
a biologia, a psicologia ou a história, estudam os seres
humanos individuais- as partes constituintes das socie­
dades- e depois vejam se, como sociólogos, têm algo a
acrescentar a estas descobertas? Além do mais, não seria
melhor e mais óbvio que os sociólogoS estudassem primei­
ramente- as pessoas individuais isoladamente e depois vis­
sem se podiam formular algumas generalizações a partir
de uma série desses estudos individuais, generalizações
essas que poderiam ser apresentadas como propriedades
das ((Sociedadesn?
Na verdade, há um número considerável de sociólogos
que procedem deste modo. Investigam o comportamento,
as perspectivas e as experiências das pessoas individuais
e submetem os seus resultados a processos estatísticos.
Por meio deste tipo de investigações, centradas nas llpar­
tes componentes11 das sociedades, procuram tornar evi­
dentes as características das «unidades compósitasll das
Próprias sociedades. E, como algumas das suas descober­
tas indicam de facto relações sociais e regularidades que
Ultrapassam o alcance de outras disciplinas relacionadas

77
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�i! �; com o estudo dos seres humanos isoladamente, estas des­


cobertas sociológicas são muitas vezes implicitamente tra.
gia, à biologia ou à física: o seu campo de estudo- as con­
figurações de seres humanos interdependentes - não se
tadas como solução para o problema de ser ou não possível pode explicar se estudarmos os seres hwnanos isolada­
que a sociologia reivindique qualquer espécie de autono­ mente 2. Em muitos casos é aconselhável um procedimento
mia relativamente às outras ciências sociais centradas no cantrário- só podemos compreender muitos aspectos do
indivíduo. I!: uma resposta que assenta na prática cientí­ Comportamento ou das acções das pessoas individuais se
fica, no êxito real ou pretenso de solução dos problemas começarmos pelo estudo do tipo da sua interdependência,
empíricos, mais do que numa resposta teórica clara como, da estrutura das suas sociedades, em resumo, das configu­
por exemplo, porque é que seria possível aos sociólogos, rações que formam uns com os outros.
pelo estudo do comportamento ou da exp.;,riência das Há indivíduos que recusam esta ideia. Confundem-na
pessoas individuais, delimitar para si próprios um campo com uma asserção metafísica muito antiga que muitas
especifico de investigação que já não tenha sido coberto vezes se resume na afirmação de que «O todo é maior do
por outras disciplinas que também estudam as pessoas que a soma das suas partes». Usando o termo «todO» .ou
individuais. ((totalidade» cria-se um mistério para resolver outro mis­
1!: perfeitamente compreensível que muita gente no tério. Devemos mencionar esta aberração, porque parece
passado tenha acreditado, e ainda hoje acredite, que toda que muita gente acredita que ·só podemos ser uma coisa
a realidade social pode e deve ser explicada em termos de ou outra - ou atomistas ou holistas. Poucas controvérsias
I' '
características psicológicas ou mesmo físicas das pessoRs. têm sido tão desinteressantes como eSta em que dois gru­
A tradição clássica das ciências físicas tem tido muita pos antagónicos andam à volta, em círculo, cada qual
influência. De acordo com essa tradição, o modo correcto defendendo a sua própria tese, especulativa e não veri­
de investigar uma unidade compósita será dissecá-la nos ficável, atacando o parceiro cuja tese é igualmente espe­
seus componentes, depois estudar isoladamente as proprie­ culativa e não experienciável, pela razão de que não há
dades das partes componentes e, finalmente, explicar as uma terceira alternativa. No caso do atomismo e do
propriedades distintivas dessa unidade comPósita em ter­ holismo, certamente que há.
mos_ dos componentes. Assim, as propriedades das molé­ Como é possível chegar à conclusão de que os indi­
culas podem ser explicadas· em termos das propriedades víduos, devido à sua interdependência e ao modo como
dos átomos e estes, por seu lado, em termos das suas as suas acções e experiências se interpenetram, fonnem
partículas- componentes. Mas será que este método se con­ um tipo de configuração, uma espécie de ordem relati·
firma em todos os campos de investigação? A dificuldade vamente autónoma do tipo de ordem dominante, se, tal
é que a tradição do atonüsmo cientifico (como podemos como os biólogos ou os pSicólogos, estudamos os indivíduos
resumidamente chamar-lhe) ainda vive em teoria, enquanto quer como representativos da sua espécie quer como pes­
a prática científica já tomou um rumo diferente em mui­ soas isoladas?
tos campos. Como já demonstrámos algures mais detalha­ Esta questão apresenta dificuldades. Toma-se mais fácU
damente 1, quanto mais intimamente integrados forem os
_ responder-lhe se demonstrarmos, como se fosse um tipo de
componentes de uma unidade compósita ou, por outras experiência mental, por meio de uma série de modelos,
palavras, quanto mais al_to for o grau da sua interdepen­ o modo como se entrelaÇam os fins e acções dOs homens.

,: : �·
dência funcional, menos possível será explicar as proprie­ Deste modo, os processos inerentemente complexos de
dades dos últimos apenas em função das propriedades da interpenetração são temporariamente isolados e facadas
I ' primeira. Toma-se necessário não só explorar uma uni· d� perto, tomando-se mais facilmente compreensiveis. Os

.
II 1:.I
dad-e compósita em termos das suas partes componentes, rnoctelos a descrever resumidamente são, com excepção do
·,

como também explorar o modo como esses componentes Primeiro modelos de competição que (pelo menos nas
. individuais se ligam uns aos outros, de modo a formarem suas fo mais simples) se assemelham a jogos reais
uma unidade. O estudo da configuração · das partes unitá· tais como o xadrez, bridge, futebol ou ténis. Representam
rias ou, por outras palavras, a estrutura da unidade cam­ a competição realizada - mais ou menos- segundo regras.
pósita, toma-se um estudo de direito próprio. Esta é a O primeiro modelo, a que chamaremos «Competição Pri­
razão pela qual a sociologia não se pode reduzir à p.sicolo- rnáriall, é no entanto uma excepção teórica altamente signi�

78 79
I' . ..
'

p.asee, a criança tem poder sobre os pais, e não só os pais


ficativa; representa uma competição real e mortal entre
dois grupos e não é de modo algum um jogo. Tanto a sobre a criança. Pelo menos a criança tem poder sobre
Competição Primária como os modelos de jogo são úteis eles, desde que estes lhe atribuam qualquer tipo de valor.
como treino para a hnaginação sociológica, que tende a No caso contrário, perde o seu poder. Os pais podem aban·
ser bloqueada por formas correntes de pensamento. Todos danar a criança se ela chorar demasiado. Podem deixá-la
os modelos se baseiam em duas ou mais pessoas que 01orrer de fome e, deliberadamente ou não, causar a sua
medem as suas forças. Esta é a situação básica que encOn­ morte, no caso de esta não desempenhar qualquer função
tramos sempre que os indivíduos entram ou se encontram para eles. Igualmente bipolar é o equilíbrio de poder entre
em relação uns com os outros. No entanto, a consciêncifl um escravo e o seu senhor. O senhor tem poder sobre o
desse facto é multas vezes suprimida quando renectimos escravo, mas o escravo também tem poder sobre o seu
sobre as relações humanas. Não há necessictade de dizer senhor, na proporção da função que desempenha para o
porque é que isto se verifica. Cada leitor poderá pensar senhor- é a dependência que o senhor tem relativamente
para si mesmo quais as razões, sem muita dificuldade; a ele. Nas relações entre pais e filhos e entre senhor e
pode encarar esta tarefa como uma espécie de jogo de escravo, as oportunidades de poder são distribuídas muito
competição entre ele e o autor. De facto, é este tipo de desigualmente. Porém, sejam grandes ou pequenas as dife­
desafio que aqui discutimos. Ele constitui um elemento renças de poder, o equilibrio de poder está sempre pre­
normal de todas as relações humanas. Constantemente se sente onde quer que haja uma interdependência funcional
sucedem provas de força maiores ou menores: serei eu o entre pessoas. Sob este ponto de vista, a utilização sim*
mais forte?- serás tu o mais forte? Passado algum tempo pies do termo upoder11 pode induzir em erro. Dizemos que
poderemos chegar a um certo equilíbrio de poder que, uma pessoa detém grande poder, como se o poder fo�
de acordo com circunstâncias pessoais e sociais' poderá ser uma coisa que ela metesse na algibeira. Esta utilização da
estável ou instável. palavra é uma relíquia de ideias mágico-míticas. O poder
Para muita gente, o termo «poder» tem um arema não é um amuleto que um individuo possua e outro não;
desagradável. Isto deve-se ao facto de, durante todo o é uma característica estrutural das relações humanas - de
processo de desenvolvimento das sociedades humanas, todas as relações humanas.
o equilibrto de poder ter sido extremamente desigual; pes­ Os modelos demonstram de um modo simplificado o
soas ou grupos de pessoas com possibilidades relativa· carácter relaciona! do poder. Ao utilizanrios os modelos
mente grandes de acesso ao poder, exerciam habitualmente de jogos de competição para tornar evidentes as confi*
essas possibilidades em pleno, muitas vezes de um modo gurações de poder, o .conceito de ((relação de poder11 é
brutal e sem escrúpulos, tendo em vista os seus próprios aqui substituído pelo termo «força relativa dos jogado­
fins. As conotações Ofensivas que consequentemente acom· res)), E mesmo esta frase pode ser mal interpretada, se a
p�nham o conceito de <<poder" podem impedir que se considerarmos como um absoluto. Contudo, é óbvio que
diStinga entre os dados factuais a que o conceito de poder a «força)) do jogo de um jogador varia relativamente ao
se refere e a avaliação que se faz desses dados. Portanto, seu adversário. O mesmo acontece com o poder, e com
é útil que aqui nos concentremos nos primeiros. o equilí· muitos outros conceitos da nossa linguagem. Os modelos
brio de poder não se encontra unicamente na grande arena de jogo ajudam a mostrar como os problemas sociológicos
das relações entre os estados, onde é frequentemente se tomam mais claros e como é mais fácil lidar com eles
espectacular, atraindo grande atenção. Constitui um ele­ se os reorganizarmos em termos de equilíbrio, mais do
mento integral de todas as relações humanas. Este é o Que em termos reificantes. Conceitos de equilíbrio são
modo como deveríamos ler os modelos que se seguem. muito mais adequados ao que pode ser realmente obser*
Também deveríamos ter presente que o equilíbrio de poder, vado quando se investigam as relações funcionais que os


tal como de um modo geral as relaçOes humanas é pelo seres humanos interdependentes mantêm uns com os
menos bipolar e, usualmente, multipolar. Os model pode­ outros, do que os conceitos modelados em objectos
rão ajudar relativamente a uma melhor compreensão do im.óveis.
tal equilíbrio de poder, não como uma ocorrência extraor­ As relações humanas orientadas por regras não se
dinária mas como uma ocorrência quotidiana. Desde que Podem compreender se houver uma suposição tácita de

80 81
que as normas ou 'as regras estão universalmente presen­ como objectos de estudo, são indivisíveis e de igual impor­
tes desde o início como propriedades invariáveis das rela­ tância. Por conseguinte, seria ilusório explicar o processo
ções humanas. Esta suposição impede que se pergunte e daS interpenetrações sociais apenas em termos de modelos,
que se referem às relações humanas regulamentadas por
se observe como e em que circunstâncias as competições
sem regras se transformam em relações com regras fixas. normas fixas. A competição Primária pode servir como
Guerras e outros tipos de relações humanas com poucas uma advertência daquilo que é e se torna socialmente
ou mesmo nenhumas regras provam s6 por si de que não regulado.
se trata de um problema meramente hipotético. As teorias
sociológicas segundo as quais as normas são a mola prin­
A COMPETIÇAO PRIMARIA:
cipal das relações sociais não têm em conta as possibi­
UM MODELO DE COMPETIÇAO SEM REGRAS
lidades de uma relação humana sem normas e regras; dão
uma visão distorcida das sociedades humanas. Esta é a Duas pequenas tribos, A e B, encontram-se quando
razão por que os modelos de jogo têm como preâmbulo andam à caça numa grande extensão de floresta. Ambas
a Competição Primária, um modelo que mostra a relação têm fome. Por razões que lhes são alheias, há já algum
entre dois grupos não regulados por normas. De acordo tempo que lhes tem sido cada vez mais dificil encontrar
com uma tradição sociológica relevante, as normas identi­ comida suficiente. A caça tem-se tornado cada vez mais
ficam-se com a estrutura. A Competição Primária pode rara, as raízes e os frutos selvagens cada vez mais dificeis
servir como advertência de que é perfeitamente possível de encontrar e, consequentemente, a rivalidade e inimizade
estruturar as relações sociais entre os individuas, mesmo entre os dois grupos cada vez mais feroz. O grupo A é
que estas se desenrolem sem regras. Mesmo uma situação formado por homens e mulheres bem constituídos e tem
que aparece às pessoas nela envolvidas como o cúmulo poucos jovens e crianças. N-o grupo B, seu adversário, os
da desordem faz parte de uma ordem social. Não há qual­ indivíduos são mais pequenos, menos r-obustos, mais rápi­
quer razão para que as udesordens» históricas - guerras, dos e, em média, consideravelmente mais jovens.
revoluções, rebeliões, massacres e toda a espécie de lutas Assim, os dois grupos encontram-se no caminho. Envol­
pelo poder - não possam ser explicadas. Fazê-lo, é na ver­ vem-se numa luta prolongada. Os indivíduos mais pequenos
dade uma das tarefas da sociologia. Seria" impossível expli­ do grupo B rastejam de noite até a-o outro campo, matam
car conflitos sem normas, se estes não tivessem qualquer um ou dois dos outros no escuro e desaparecem rapida­
estrutura e, nesse sentido, qualquer ordem. A distinção mente quando os companheiros dos homens mortos, mais
entre 110rdem» e <!desordem», tão significativa para as vagarosos e bem constituid,os, tentam persegui-los. Os
pessoas envolvidas nestes fenómenos, sociologicamente homens do grupo A vingam-se pouco tempo depois. Matam
falando não tem qualquer significado. Entre os homens, mulheres e crianças do grupo B, enquanto os homens
tal como na natureza, não é possfvel o caos absoluto. estão fora, na caça.
Portanto, se a palavra usociologiall é aqui utilizada Aqui, como noutros casos semelhantes, um antag-o­
como um termo técnico, para um nível especifico de inte­ nismo razoavelmente estável revela-se como f-orma de
gração, e se as relações são vistas a este nível, como interd�pendêncla funcional. Os dois grupos são rivais na
constituindo um tipo particular de ordem, a palavra recolha de reservas alimentares. Dependem um do outro,
11-ordem11 não está a ser usada no mesmo sentido do que como num jogo de xadrez (que originariamente foi um
que quando se fala de <!Ordem e lei» ou, de uma forma jogo guerreiro), os movimentos de um grupo determinam
adjectiva, de uma pessoa !!Ordenada» em oposição a uma os movimentos do outro grupo e vice-versa. As estruturas
pessoa udesordenadall. Fala-se de ordem no mesmo sentido internas de cada grupo são determinadas. em maior ou
em que se fala de uma ordem natural, na qual a decadên· lllenor grau, pelo que cada grupo pensa que o outro
cia e a destruição têm o seu lugar como processos estru­ irá fazer depois. Por -outras palavras, os grandes rivais
turados lado a lado com o crescimento e a síntese e a desempenham uma função reciproca, pois que a interde­
morte e a desintegração lado a lado com o nascimento e Pendência de seres humanos devido à sua hostilidade não
a integração. Para as pessoas nelas envolvidas, estas mani· constitui menos uma relação funcional do que a que é
festações parecem ser- contraditórias e irreconciliáveis. devida à s� posição como amigos, aliados e especialistas.

82 83
ligados uns aos outros por meio de uma divisão de tra­ a bipolaridade ou a multipolaridade de todas as funções.

I balho. A função reciproca que desempenham baseia-se na


coerção que exercem mutuamente devido à sua interde­
]!'! impossível compreendermos a fundo que A desempenha
relativamente a B, sem atendermos à função que B desem·

.I pendência. Não é possível explicar as acções, os planos


e os objectivos de qualquer um. dos dois grupos se eles
penha relativamente a A. Isto é o que se pretende dizer
quando se afirma que o conceito de função é um conceito
forem conceptualizados como decisões, planos e objectivos de relação.
comuns a cada grupo, considerado por si mesmo, indepen­ De um modo mais simples, poderíamos dizer: quando
dentemente do outro grupo. Só se podem explicar se a alguém (ou a um gTUpo de pessoas) falta algo que outro
tomarmos em consideração as forças coercivas que os alguém ou grupo de pessoas possui, o último desempenha
grupos exercem um sobre o outro, devido à sua interde­ uma função relativamente ao primeiro. Assim, os homens
pendência, à função bilateral que desempenham como ini· têm uma função para com as mulheres e as mulheres
migos. para com os homens, os pais para com os filhos e os filhos
O conceito de ufunção)), tal como tem sido usado em para com os pais. Os inimigos desempenham uma função
certo tipo de literatura sociológica e antropológica, espe­ reciproca, pois uma vez que se tornaram interdependentes
cialmente pelos teóilcos ((estruturalistas-funcionalistas)), não têm o poder de possuir reciprocamente necessidades ele·
só se baseia numa análise inadequada do objecto a que mentares, como por exemplo a de conservação da sua inte­
se refere, como também contém um juízo de valor impró­ gridade física e social e, em última instância, a da sua
prio que, para mais, não se explicita nem na interpretação sobrevivência.
nem na utilização. O carácter inadequado da avaliação Compreender deste modo o conceito de «funçãou
deve-se ao facto de- sem intenção premeditada - se ten­ demonstra a sua relação com o poder dentro do quadro
der a usar estes termos para designar as tarefas empreen­ das relações humanas. Pessoas ou grupos que desempe­
didas por uma parte da sociedade, que são uboas)) para a nham funções recíprocas exercem uma coerção mútua.
((totalidade11, pois que contribuem para a conservação e O seu potencial de retenção reciproca daquilo que neces­
integridade do sistema social existente. As actividades sitam é geralmente desigual, o que significa que o poder
humanas que real ou aparentemente fracassam nessa coercivo é maior de um lado do que do outro. Mudanças
realização atribui-se consequentemente o estigma da udis· na estrutura das sociedades, nas relações globais de inter·
functonais11. É evidente que neste ponto as crenças sociais dependências funcionais, podem induzir um grupo a con­
5\'! misturaram com a· teoria científica. Só por esta razão testar o poder de coerção do outro grupo, o seu upotenctab
é útil considerarmos com .mais cuidado as implicações d.J retenção. Neste caso, estas mudanças iniciam provas
do modelo constituído pelos dois grupos de guerreiros de força, que podem irromper subitamente, sob formas de
rivais. Como inimigos, desempenham reciprocamente uma lutas agudas e mesmo violentas pelo poder, ou podem
função, da qual temos de estar conscientes se queremos existir de um modo latente, durante longos períodos, como
compreender as acções e planos de cada uma das duas um conflito permanente- inerente à estrutura da sociedade
tribos rivais. Aqui, como podemos ver, o termo «função)) durante uma fase do seu desenvolvimento. Hoje em dia,
não é usado como expressão de uma tarefa desempenhada as tensões e os conflitos construídos deste modo são
por uma parte, dentro de uma ((totalidade)) harmoniosa. característicos das funções interdependentes de trabalha·
O modelo indica-nos que, tal como o conceito de poder, dores e empresários, assim como entre grupos de estados.
o conceito de função deve ser compreendido como um Em períodos anteriores, foram· característicos de relações
conceito de relação. Só podemos falar de funções sociais triangulares entre reis, nobres e cidadãos, ou entre segmen­


quando nos referimos a interdependências que constran­ tos de uma tribo ". Não são menos caracteristicos das


gem as pessoas, com maior ou menor amplitude. Este ele­ interdependências funcionais entre maridos e mu res ou
mento de coerção pode observar-se nitidamente na função Pais e filhos. Na raiz desta provas de força estao ger ­
desempenhada por cada grupo tribal enquanto inimigo mente problemas como estes: quem tem maior potenCial
reciproco. A dificuldade em utilizarmos o conceito de fun· de reter aquilo de que o outro necessita? Quem, por con­
ção como uma qualidade de uma unidade social singular sequência, está mais ou menos dependente do outro?
é simplesmente o facto de ele omitir a reciprocidade, Quem, portanto, tem que se submeter ou adaptar mais

84 85
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às exigências do outro? Em termos mais gerais, quem tem Cisica e planeamento de estratégias para a sobrevivência
wna proporção de poder mais ele�o e pode, por conse­ e para a aniquilação, são constantemente postos à prova
guinte, orientar mais as actividades do outro grupo do por meio de incursões e escaramuças. Cada um dos lados
que propriamente as suas, pode exercer mais pressão sobre tenta por todos os meios enfraquecer o outro. cada um
eles do que ser pressionado? 'se muda a estrutura global é confrontado com uma interpenetração continua, num
das sociedades, o problema pode tornar-se este: um dos movimento em que cada indivíduo singular se envolve
lados pode disfuncionalizar o outro, destruir todo o con­ totalmente. Neste caso, como se pode ver, os grupos já
junto de posições sociais sobre o qual assenta o poder do não são concebidos em termos de conceitos tais como
adversário, ou destruir fisicamente a globalidade dos seus normas, regras, tipos-ideais, etc., o que faz com que pare­
adversários 4• çam constituídos exclusivamente por processos intelectuais;
A Competição Primária apresenta-se como um caso de as interpenetrações dizem respeito aos seres circundantes.
fronteira. Nela, um dos lados tem como fim privar o outro, os modelos têm que ser interpretados como representações
não só das suas funções sociais como também da sua de seres humanos ligados uns aos outros no tempo e no
própria vida. Ao estudarmos as interdependências mutáveis espaço. Entre os problemas que a competição primária
dos homens e a interpenetração dos seus objectivos e acti­ implica consideremos os seguintes: o grupo de indivíduos
vidades, não podemos esquecer a interdependência dos mais velhos, mais altos, mais musculosos, mas mais vaga­
antagonismos violentos representada pelo modelo de Com­ rosos conseguirá atrair os indivíduos mais rápidos, mais
petição Primária. Só quando tivermos consciência desse pequenos, menos experientes, mas mais ágeis para fora do
último recurso da relação entre os seres humanos- a inter­ seu campo, matando algumas das mulheres e crianças?
dependência através de uma luta acérrima pela sobrevi­ E o outro grupo conseguirá incitar o primeiro com insultos
vência - é possível compreender a natureza básica dos até que este se enfureça e persiga de modo a cair nas suas
problemas que aqui mencionámos: como é que as pessoas ratoeiras, sendo aniquilado? Será que se enfraquecem e
foram capazes - e como é que são capazes - de regular destroem mutuamente a ponto de não terem ambos hipó­
algumas das suas interdependências, de tal modo que não tese de recuperação? Esta é a razão por que, mesmo este
precisem de recorrer a esta última saida para a resolução caso de interdependência entre inimigos violentos encerra­
das suas tensões e conflitos. Ao mesmo tempo, este modelo dos_numa luta de vida e de morte, é um processo de inter­
de uma competição sem regras lembra-nos que todas as penetração. A sequência de movimentos em ambos os lados
relações entre os homens, todas as suas interdependências só pode ser compreendida e explicada em termos da dinâ­
funcionais, são processos. Hoje usamos muitas vezes estes mica imanente na sua interdependência. Se a sequência
conceitos de modo a sugerir a sua relação com uma con­ das acções em ambos os lados fosse -estudada isolada­
dição estacionária em que qualquer mudança é acidental. mente, perderia todo o sentido. A interdependência frmcio­
Termos como ((interpenetração)) asstnalam a natureza pro­ nal dos movimentos em ambos os lados não é menor neste
cessual de tais relações. caso do que no caso de um conflito ou de uma cooperação
Voltemos ao exemplo do comportamento de luta entre com regras. Embora a interpenetração de ambos os lados
as duas tribos. Ele mostra-nos claramente a dinâmica ima· seja, no decorrer do tempo, um processo sem nonnas,
nente de uma relação de conflito. Neste conflito de vida é no entanto um processo com uma estrutura nítida
ou de morte, cada um dos lados está constantemente a Podendo esta ser analisada e explicada.
planear um próximo ataque, vivendo num estado de alerta
permanente, antecipando-se às movimentações que o outro
lado poderá eventualmente fazer. Como não se orientam MODELOS DE JOGO:
por regras comuns, apoiam totalmente a sua orientação MODELOS DE PROCESSOS
' '' ', ', na ideia que cada um faz dos recursos de poder que o

I
: DE INTERPENETRAÇÃO COM NORMAS
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' lado tem relativamente aos seus - na tdeia que fazem
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1' ' " 1
I sobre a força, astúcia, armas, abastecimento e reservas Tal como o modelo inicial de competição sem regras,
, ·� ,! ; de comida respectivos. Estes recursos de poder e força os �odelos de jogos de competição com regras são �e­
I; ;i i riências intelectuais simplificadoras. Com a sua BJUda,
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é-nos possível destacar graficamente o carácter processual Também lhe dá, em acréscimo, um alto grau de controlo
das relações entre pessoas interdependentes. Ao mesmo sobre o jogo enquanto tal. Embora o seu controlo sobre
tempo, mostram como a teia de relações humanas muda 0 jogo não seja absoluto, pode em grande parte deter­
quando muda a distribuição de poder. Uma das maneiras minar o seu curso (o processamento do jogo) e, portanto,
de conseguir uma simplificaçãO, tem sido a substituição também o seu resultado. Ao interpretarmos este modelo,
de uma série de hipóteses sobre a força relativa dos joga. é importante fazer esta distinção conceptual entre dois
dores, pelas diferenças de potencial de poder das pessoas tipos de controlo, que resultam da força bastante superior
ou dos grupos nas suas relações uns com os outros. de um dos jogadores; por um lado, o controlo que ele
Os modelos têm sido dispostos de modo a destacar pode exercer sobre o seu adversário e, por outro, o con­
mais nitidamente a transformação sofrida pela onda de trolo que como tal lhe é dado sobre o decurso do jogo.
inter-relações humanas quando diminuem as diferenças de Isto não significa que, pelo facto de ser possivel fazermos
poder. wna distinção entre o controlo sobre o jogador e o con­
trolo sobre o jogo, se possa pensar e falar como se o
Jogos de duas pessoas jogador e o jogo existissem independentes um do outro.

(la) Imaginemos um jogo entre duas pessoas, sendo (lb) Imaginemos que a diferença entre a força de A
uma delas muito superior à outra - A é um jogador muito no jogo e a de B diminuía. Não interessa que isto aconteça
forte e B é muito fraco. Neste caso, A tem uma grande pelo facto de a força de B aumentar ou pelo facto da
capacidade de controlo sobre B. Até certo ponto, A pode de A diminuir. As possibilidades de A controlar as joga­
forçar B a fazer determinadas jogadas. Por outras pala­ das de B - ou seja o seu poder sobre B - diminuem pro­
vras, A tem ((poder» sobre B. Estes termos significam porcionalmente; as possibilidades de B controlar A aumen­
exactamente que A consegue controlar em alto grau os tam proporcionalmente. O mesmo se verifica quanto à capa­
movimentos de B. Mas esta ((capacidade de obrigar» não cidade de A determinar o decurso e o resultado do jogo.
é ilimitada; o jogador B, embora seja relativamente fraco, Quanto mais diminui a düerença de forças entre A e B
tem um grau de poder sobre A. Na verdade, tal como B, menos poder terá cada jogador para forçar uma determi­
ao realizar cada uma das suas jogadas, tem de se orientar nada táctica no outro. Ambos os jogadores terão corres­
tomando em conta as anteriores jogadas de A, também A pondentemente menos possibilidades de controlar as con­
tem de se orientar atendendo às jogadas anteriores de B. figurações mutáveis do jogo; e menos dependentes serão
B pode não ser tão forte como A, mas tem de ter uma as configurações mutáveis do jogo relativamente aos objecti·
certa força - se ele fosse zero não haveria jogo. Por outras vos e planos que cada jogador formará por si mesmo sobre
palavras, em todos os jogos os participantes têm de exer­ o decurso do jogo. Inversamente, mais forte se torna a
cer sempre um eontrolo mútuo. Ao falarmos do ((poderll dependência dos planos globais dos jogadores e das suas
que A tem sobre B, este conceito não se refere a um jogadas relativamente às configurações mutáveis do jogo
absoluto mas a uma proporção de poder- a diferença - ao processamento do jogo. Quanto mais o jogo se asse­
(a favor de A) entre a força que A e B têm no jogo. Esta melha a um processo social, menos se assemelha à reali­
diferença- o equilibrio desigual entre as forças dos dois zação de um processo individual. Por outras palavras,
jogadores no jogo- determina até que ponto as jogadas à. medida que a desigualdade de forças dos dois jogadores
de A poderão moldar as de B, ou vice-versa. De acordo diminui, resultará da interpenetração de jogadas de duas
com estas hipóteses de modelo (la), a diferença entre a I>essoas individuais, um processo de jogo que nenhuma
força dos jogadores no jogo (a sua proporção de poder) delas planeou.
é muito grande a favor de A. Igualmente grande é a
capacidade que A tem de forçar um movimento determi·
nado (um determinado <(comportamento» ou ((acçáon) no Jogos de muitas pessoas a um só nível
seu adversário �.
Contudo, a grande força de A no jogo não lhe dá (2a) Imaginemos um jogo em que o jogador A está
apenas ·um grau de controlo sobre o seu adversário B. Simultaneamente a jogar com vários outros indivíduos B.

88 89
C, D, etc. nas seguintes condições: A é muito mais forte tensões internas fortes, isto constituirá um factor de poder
do que qualquer um dos seus adversários e está a jogar em seu favor. Inversamente, se os grupos formados por
separadamente com cada um deles. Neste caso, a dispo. jogadores mais fracos tiverem fortes tensões internas, isso
sição dos jogadores não é mu1t9 diferente da que foi des­ constituirá um factor de poder a favor do seu adversário.
crita no modelo (la). Os jogadores B, C, D, etc., não estio Quanto maiores forem as tensões, mais possibilidades A
a jogar em conjunto mas separadamente, e a única Uga­ terá de controlar as jogadas de B, C, D e os seus aliados,
ção que têm entre si é o facto de cada indivíduo jogar assim como de controlar o decurso geral do jogo.
separadamente contra o mesmo adversário mais forte, A. Em contraste com modelos de tipo < 1) e cont o modelo
Portanto, basicamente é uma série de jogos para duas pes­ de transição (2a), em que os jogos em questão são para
soas, tendo cada jogo o seu equilíbrio de poder e proces­ duas pessoas ou, falando de outro modo, para grupos
sando-se de um modo próprio. O processamento dos jogos bipolares, (2b) é exemplo de um jogo multipolar, ou seja,
não é directamente interdependente. Em cada um dos de um jogo para várias pessoas. Pode ser considerado
jogos, A é esmagadoramente mais poderoso; tem um alto como um modelo de transição para (2c).
grau de controlo, tanto sobre o seu adversário como sobre
(2c) Imaginemos que a força de A diminui num jogo
o decurso do próprio jogo. Em cada um destes jogos a
multipolar, comparada com a dos seus adversários B, C,
distribuição de poder é inequivocamente desigual, não elás­
D e outros. As possibilidades de A controlar as jogadas
tica e estável. Talvez tivéssemos que acrescentar que a
dos seus adversários e de controlar o curso do jogo como
posição se alteraria com desvantagem para A se aumen­
tal mudam no mesmo sentido que (lb), contando que o
tasse o número de jogos independentes que ele joga.
grupo de adversários seja razoavelmente unido.
É possível que a sua superioridade sobre os jogadores
independentes B, C, D e outros, pudesse diminuir - gra­ (2d) Imaginemos um jogo em que dois grupos B, c,
dualmente devido a um aumento do número dos adver­ D, E . . . . .
e U, V, W, X
. jogam uns contra os outros,
. . . . . .

sários, todos independentes uns dos outros. Há um limite segundo regras que dão a ambos os lados oportunidades
para o número das relações activas independentes umas iguais de vencer, tendo cada lado aproximadamente a
das outras que uma pessoa pode realizar simultaneamente mesma força. Neste caso, nenhum dos lados consegue
- por assim dizer, em compartimentos estanques. exercer uma influência decisiva sobre o outro, na confusão
de jogadas e contra-jogadas. Neste caso o decurso do jogo
(2b) Imaginemos um jogo em que o jogador A joga não pode ser controlado isoladamente por nenhum dos
simultaneamente com vários adversários mais fracos, nãO grupos. O entrelaçar de jogadas efectuados alternadamente
separadamente, mas contra todos eles ao mesmo tempo. por cada jogador e grupo de jogadores esboça-se de modo
Assim, joga um jogo isoladamente contra um grupo de a formar um certo tipo de ordem, que pode ser definido
adversários, em qUe cada um por si é mais fraco do que A. e explicado. Mas, para proceder assim, um observador tem
Este modelo permite a formação de várias constelações que se distanciar das posições tomadas por ambos os
no equilíbrio de poder. A mais simples é aquela em que lados, tal como aparecem quando considerados isolada­
os jogadores B, C, D e os seus colegas formam um grupo mente. A ordem em questão é de um determinado tipo,
dirigido contra A, e não são perturbados por tensões entre uma teia ordenada de configuração, na qual nenhuma
si. Mesmo neste caso há mais dúvidas do que em (2a) acção por parte de cada um dos lados poderá ser enca­
sobre a distribuição de poder entre A e o grupo que se rada como acção exclusiva desse lado. Antes deverá ser
lhe opõe, e sobre a possibilidade de um lado ou de outro interpretada como continuando o processo de interpene­
controlar o decurso do jogo. Sem dúvida que o facto de tração e fazendo parte da futura interpenetração de acções
um grupo ser inequivocamente formado por muitos joga­ realizada por ambos os lados.
dores mais fracos representa um enfraquecimento para a
superioridade de A. Comparando com <la) há muito menos Jogos multipessoais a vários níveis
certeza sobre o controle e planeamento do jogo e, por­
tanto, menos certeza na previsão do seu resultado. Se os Imaginemos um jogo para muitas pessoas, em que o
número de participantes está constantemente a crescer.
grupos formados por jogadores mais fracos não tiverem

90 91
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Isto aumenta a pressão efectuada sobre os jogadores para mais desorganizado; o seu funcionamento deteriorar-se-á.
que mudem o seu agrupamento e organização. Um jogador E, ao deteriorar-se o funcionamento ", há uma pressão
individual terá que esperar cada vez mais pela sua vez crescente que se exerce no grupo de jogadores com vista
;. d
de jogar. Tornar-se-á cada ve2t mais difícil ao jogador a à sua reorganização. Abrem-se várias possibilidades; men­

constituição de uma representação mental do decurso do cionaremos três, embora só nos seja possível abordar deta­
jogo e da sua figuração. Faltando-lhe tal representação Jhadamente uma delas.
pode sentir-se perdido. Precisa de uma representação Um acréscimo no número de jogadores pode levar o
razoavelmente clara do decurso do jogo e da sua confi­ grupo à desintegração, fragmentando-o numa série de
guração geral, que muda constantemente à medida que o pequenos grupos. A sua relação uns com os outros pode
jogo avança, para poder, de acordo com ela, planear a revestir-se de duas formas possíveis. Os grupos fragmen­
sua próxima jogada. A configuração dos jogadores inter­ tados podem, quer movimentar-se à parte e continuar a
dependentes e a do jogo que conjuntamente jogam, cons­ jogar totalmente independentes dos outros grupos, quer
titui uma estrutura para cada uma das jogadas indivi· constituir uma nova configuração de grupos interdepen·
duais. O jogador individual deve estar em posição de ver dentes, cada um jogando de um modo mais ou menos
esta configuração de modo a poder decidir qual a jogada autónomo, embora todos rivalizem em certas oportunida­
que lhe dará melhor oportunidade de ganhar ou de se des, que todos eles procuram. Uma terceira possibilidade
defender contra os ataques do adversário. Mas há um é a de o grupo de jogadores - em certas circunstãncias
limite para a expansão da teia de interdependências den­ que aqui não podemos referir - se manter integrado, for­
tro da qual um jogador individual se pode orientar adequa· mando, no entanto, uma configuração altamente complexa;
damente planeando a sua estratégia pessoal sobre uma pode desenvolver-se um grupo de dois níveis a partir de
série de jogadas. Se o número de jogadores interdepen­ um grupo de um único nível.
dentes crescer, a configuração, desenvolvimento e orien­
tação do jogo tornar-se-ão cada vez mais opacas para o
jogador individuaL Por muito forte que seja, cada vez Modelos de ioga de dois níveis: tipo oligárquico
estará menos apto a controlá-los. Contudo, do ponto de
vista do jogador individual, há uma teia entrelaçada, cons­ (3a) A pressão exercida sobre os jogadores individuais,
tituída por um número cada vez maior de jogadores, fun­ devido a um aumento do seu número, pode provocar uma
cionando cada vez mais como se tivesse uma vida própria. mudança dentro do grupo. Um grupo em que os indiví·
Também aqui o jogo não é mais do que um jogo jogado duas jogam com os outros a um mesmo nível, pode con­
por muitos indivíduos. Porém, à medida que cresce o verter-se num grupo de jogadores de «dois níveisn. Todos
número de jogadores, o jogador individual não só começa os jogadores se mantêm interdependentes mas já não
a achar o jogo ·cada vez mais opaco e incontrolável como jogam directamente uns com os outros. Esta função é
também se torna consciente da sua impossibilidade em desempenhada por funcionários especiais que coordenam o
compreendê-lo e controlá-lo. Tanto a configuração do jogo, jogo- representantes, delegados, líderes, governos, cõrtes
como a visão que o jogador individual tem dele- o modo régias, élites monopolistas e assim por diante. Conjunta­
como ele se apercebe do decurso do jogo- mudam con· mente, formam um segundo grupo mais pequeno. Pode­
juntamente numa direcção específica. Mudam numa inter· ríamos dizer que formam um grupo de nível secundário.
dependência funcional, como duas dimensões inseparáveis Estes são os que jogam directamente uns com os outros
do mesmo processo. Podem ser considerados separada­ e uns contra os outros, mas que se mantêm, no entanto,
mente, mas não como se tossem separados. ligados de um ou de outro modo à massa de jogadores
que agora constituem uma <(primeira camada)). Também
A medida que cresce o número de jogadores, toma-se não pode haver um segundo nivel sem que haja um pri­
cada vez mais difícil para cada indivíduo - e consequente­ meiro nível; as pessoas num segundo· nivel apenas têm
mente para todos os jogadores - efectuar jogadas adequa­ como função respeitar as do primeiro nível Cada um dos
das ou correctas, avaliadas a partir da sua própria posição níveis é mutuamente dependente possuindo reciprocamente
na totalidade do jogo. O jogo tornar-se-á progressivamente diferentes oportunidades de poder, correspondentes ao grau

92 93

·'.1'
da sua dependência mútua. Mas a distribuição de poder ucas aristocráticas que correspondem a um modelo oli­
entre os indivíduos do primeiro e do segundo níveis pode gárquico de dois níveis. O jogo que o grupo joga a nível
variar muitíssimo. As diferenças de poder entre eles podem superior será encarado pelos jogadores não como um pro­
ser muito grandes - em favor dos últimos- e podem tor­ cessamento do jogo mas como uma acumulação de acções
nar-se cada vez mais pequenas. · de indivíduos. O valor explicativo desta «visão do jogo» é
Consideremos o primeiro caso. A diferença entre o tanto mais limitado quanto nenhum jogador individual num
primeiro e o segundo nível é muito grande. Só os joga­ jogo de dois níveis, por muita força que tenha, possui algo
dores do segundo nível participam directa e activamente de semelhante à habilidade do jogador A no modelo (la)
no jogo. Têm o monopólio de acesso ao jogo: cada um de controlar os outros jogadores, ou, ainda mais, de deter­
dos jogadores do segundo nível encontra-se num círculo minar o processamento do jogo. Mesmo num jogo que não
de actividade, que já pode ser observado em jogos de um tenha mais do que dois níveis, a configuração do jogo e
só nível. Há um pequeno número de jogadores de modo rios jogadores já possui um grau de complexidade qlK>
que cada um está em posição de ter uma visão da confi­ impede qualquer individuo de usar a sua superioridade
guração dos jogadores e do jogo; pode planear a sua estra­ orieiitando o jogo na direcção das suas próprias metas e
tégia de acordo com esta visão e pode intervir directa· desejos. Ele realiza as suas jogadas tanto para fora como
mente em cada jogada na configuração do jogo que está para dentro da teta constituída por jogadores interdepen­
em constante movimento. Al6m do mais, pode influenciar dentes, onde há alianças e inimizades, cooperação e rivali­
esta configuração com maior ou menor alcance, conforme dade a diferentes nfveis. Podemos distinguir pelo menos
a sua própria posição no grupo, podendo seguir as con­ três, senão quatro diferentes formas de equllibrio de poder
sequências das suas jogadas no processo do jogo. Pode num jogo de dois nfvets. Ajustam-se como rodas dentadas e,
observar as jogadas contrárias dos outros jogadores e o assim, indivíduos que são inimigos a um determinado nivel
modo como a interpenetração das suas próprias jogadas podem ser aliados a outro nível. Primeiro, há o equilíbrio
com as dos outros se expressa através da configuração de poder dentro do grupo pequerio de nível superior; em
sempre mutável do jogo. Pode imaginar que o decurso do segundo lugar, o equilíbrio de poder entre jogadores do
jogo, à medida que ele o vê desenrolar-se, lhe é mais ou primeiro nível e jogadores do segundo; em terceiro lugar,
menos transparente. Membros de élites oligárquicas pré­ o equilibrio de poder entre os grupos de nível mais baixo
-industriais- por exemplo cortesãos, homens como o duque e, se quisermos prosseguir, poderiamos acrescentar o equi­
de Saint-Simon, que escreveu as suas memórias no tempo líbrio de poder dentro de cada um desses grupos de nivel
de Luis XIV- sentiam habitualmente que tinham um baixo. Modelos com três, quatro, cinco ou mais níveis
conhecimento exacto das regras não escritas que orienta­ teriam formas de equilfbrio de poder correspondentemente
vam o jogo no centro da sociedade-estado. mais interligadas. De facto, seriam modelos melhores e
A ilusão de que o jogo é essencialmente transparente mais adequados à maioria das sociedades estados 1 contem­
nunca se justifica completamente na realidade; e configu· porâneas. Aqui, limitamo-nos aos modelos de jogo de dois
·

rações de dois níveis- para não mencionarmos configu· niveis.


rações de três, quatro ou cinco níveis, que aqui não tra­ Num jogo de dois níveis de um género mais antigo
taremos devido à sua complexidade - são construções e oligárquico, o equilibrio de poder a favor do nfvel mais
demasiado complicadas 'pela sua estrutura e orientação elevado é muito desproporcionado, rígido e estável. O cir­
para serem clarificadas sem que haja uma investigação culo mais pequeno de jogadores, a nível mais alto, é muito
cientifica completa. Mas tais investigações só começam a superior em força ao circulo maior no nível mais baixo.
ser possiveis num estádio de desenvolvimento em que as N"o entanto, a interdependência dos dois círculos impõe
pessoas já são capazes de ter consciência da sua falta limitações a cada jogador, mesmo aos de nfvel mais alto.
de conhecimentos. Isto permite-lhes reconhecer a opaci­ hlesmo um jogador no nível mais alto, numa posição muito
dade relativa do jogo a que se referem as suas jogadas forte, tem menos possibilidade de controlar o curso do
e a possibilidade de corrigir a sua falta de conhecimentos Jogo do que por exemplo o , jogador A no modelo (2b).
por meio de uma investigação sistemática. Isto só é possí· 'I'atnbém é de notar que as suas possibilidades de controlar
vel marginalmente dentro da estrutura de sociedades dinás- o jogo são mais fracas do que as do jogador A no

94 95
modelo (la). Há uma razão forte para mais uma vez A, o jogador mais forte do nível mais alto, pode ser
acentuarmos esta diferença: nas descrições históricas - que ainda superior aos outros jogadores de nível mais alto.
muitas vezes apenas dizem respeito ao núcleo restrito de Quando os jogadores de nível mais baixo se tomam mais
jogadores nos níveis mais altos de uma sociedade de mui· poderosos, as jogadas que A realiza durante o jogo cairão
tos níveis - as acções dos jogatlores em questão são mui­ sob o controlo de uma configuração muito mais compli­
tas vezes explicadas como se fossem as jogadas do joga­ cada do que aquela que influenciou A no modelo ante­
dor A no modelo (la). Mas, na verdade, as três ou quatro rior (3a). Também aqui, a disposição dos jogadores que
formas de equilíbrio de poder, interdependentes num formam o nível mais baixo não tem meios para conduzir
modelo oligárquico de dois níveis, tornam possíveis mui­ o curso do jogo. Mas ainda tem um poder manüesto com­
tas constelações que limitam consideravelmente as possi­ parativamente pequeno e nenhum controlo directo sobre
bilidades de controlo mesmo pOr parte do jogador mais o grupo de nivel mais alto. Geralmente, os jogadores de
forte no nível superior. Se o equilíbrio global de um tal nível mais baixo apenas exercem uma influência latente
jogo possibilitar que todos os jogadores em ambos os e indirecta, sendo uma das razões a sua falta de organi­
níveis se possam unir e jogar em conjunto contra o joga­ zação. Entre os sinais manüestos da sua força latente estão
dor mais forte, A, então são extremamente ténues as possi­ a vigilância incessante dos jogadores de nível mais alto
bilidades que A tem de usar de uma estratégia que os e a rede de precaução hermeticamente tecidas, servindo
force a jogar de modo a lhe serem favoráveis, tendo estes para os manter sob controlo, e que se estreita muitas vezes
grandes hipóteses de usar uma estratégia que leve A a quando aumenta a sua força potencial. Em qualquer dos
efectuar as jogadas que eles escolheram. Por outro lado, casos, as dependências que unem os jogadores de nível
se houver grupos rivais de jogadores no nível superior, mais alto aos de nfvel mais baixo constrangem os primei­
razoavelmente iguais em força, se estes se equilibrarem, ros de um modo muito menos visível. A sua superioridade
sem que um ou outro possuam a chave de uma vitória ainda é tão grande que tendem a crer que são absoluta­
decisiva, então um jogador individual A, de nível mais alto ''"',ente livres relativamente aos jogadores de nível mais
mas estando fora de qualquer um dos grupos, terá uma baixo e que se poderão comportar como muito bem qui­
boa oportunidade de conduzir os grupos rivais e, portanto, serem. Sentem que apenas estão constrangidos e limita­
o decurso do jogo, contando que o faça com a maior cau­ dos pela sua interdependência relativamente aos camaradas
tela possível e com a maior .compreensão das caracterís­ - jogadores do mesmo nível - e pelo equilíbrio de poder
ticas destas configurações complexas. Neste caso, a sua que entre eles existe.
força repousa na intuição e habilidade com que capta as Se diminuírem as diferenças de poder entre os dois
oportunidades oferecidas pela constelação das forças de nfveis, a dependência do nível mais alto em relação ao
poder, fazendo dela as bases da sua estratégia. Na ausên· mais baixo tornar·se-á rilais forte - e sendo mais forte,
cia de A, os grupos de nível mais baixo serão fortalecidos todos os participantes têm dela maior consciência. Torna-se
pela rivalidade entre os grupos de nível mais alto. mais evidente. Se as diferenças de poder continuarem a
diminuir, mudam as funções dos jogadores de nível mais
alto e, por fim, mudam os próprios jogadores. Enquanto
Modelos de jogo a dois niveis: as diferenças de poder forem grandes, parecerá às pessoas
tipo democrático crescentemente simplificado de nível superior que todo o jogo e, particularmente, os
jogadores de nível inferior estão lá para os beneficiarem.
(3b) Imaginemos um modelo de dois nfveis em que A medida que o equilibrio de poder se altera, muda este
a força dos jogadores de nível mais baixo vai crescendo, estado de coisas. Cada vez mais parece a todos os parti­
lentamente mas de um modo nítido, relativamente à força cipantes que os jogadores de nível mais alto estão no jogo
dos jogadores de nfvel mais alto. Se dtminuirem as dife­ Para benefício dos jogadores de nível mais baixo. Os pri­
renças de poder entre os dois grupos, reduzindo-se as suas tneiros tornam-se gradualmente, de uma fonna mais aberta
desigualdades, então o equilibrio de poder tornar-se-á mais e precisa, funcionários, porta-vozes ou representantes de
flexível e elástico. Tenderá mais a flutuar, numa ou noutra um ou outro grupo de nível mais baixo. No modelo (3a)
direcção. o jogo compreendido no pequeno circulo de alto nfvel

96 97
�· !
I é nitidamente o centro de todo o jogo de dois níveis, situação nas condições do modelo (3a). Neste modelo, pode
aparecendo globalmente os jogadores de baixo nivel como parecer que, em condições semelhantes o jogador e o
figuras periféricas, como meras estatísticas. Porém, no seu grupo controlam e orientam eles próprios todo o
modelo (3b), à medida que cresce a influência dos joga. jogo. A medida que a distribuição de poderes se torna
I dores de baixo nível, o jogo tôrna-se cada vez mais com. menos desigual e mais difusa, também é mais evidente
plexo para todos os jogadores de nível mais alto. A estra­ que um jogador isolado ou uma posição do grupo, pouco
tégia de cada um, nas suas relações com os grupos de podem controlar e guiar o jogo. Na verdade, passa-se o
nível mais baixo que representa, toma-se um aspecto do contrário. Torna-se claro que o decurso do jogo - que é
jogo tão importante como a sua estratégia relativamente 0 produto de jogadas que se cruzam, efectuadas por um
aos outros jogadores de nível mais alto. Agora cada joga­ grande número de jogadores, entre os quais há uma dife­
dor individual está muito mais constrangido e limitado, rença de poderes enfraquecida e tendendo cada vez mais
refreado pelo número de jogos simultaneamente interde­ a enfraquecer- por sua vez detennina a estrutura das
pendentes que tem que jogar com jogadores ou grupos jogadas individuais de cada jogador.
de jogadores que se tornam cada vez menos inferiores Portanto, vai mudar a concepção que os jogadores
socialmente. A configuração global destes jogos entrecru­ têm do seu jogo - ou seja, as suas «ideias», os processos
zados torna-se visivelmente düerenciada e muitas vezes de discurso e pensamento com as quais tentam assimllar
não pode ser avaliada de um modo nítido, mesmo pelo e dominar a sua experiência do jogo. Em vez dos joga.
jogador mais dotado, de modo que se torna cada vez mais dores acreditarem que o jogo vai tomando fonna a partir
difictl para o jogador, decidir por si mesmo qual a jogada das jogadas individuais, manifestam uma tendência (que
mais adequada a efectuar. cresce lentamente) a produzir conceitos impessoais que
Os jogadores de nível mais alto - por exemplo, os oli· dominem a sua exper:iência do jogo. Estes conceitos impes­
garcas de uma partido - só estão aptos a efectivar as suas soais têm em conta uma certa autonomia do processamento
posições especiais se se tornarem membros de grupos mais do jogo relativamente às intenções dos jogadores indivi­
ou menos organizados. Grupos de jogadores de ambos os duais. Implicam um processo longo e laborioso, produ·
níveis ainda se podem reunir para formar uma espécie de zindo meios de pensamento transmissíveis que correspon­
configuração que permita a um indivíduo manter um equi­ derão à natureza do jogo, considerando-o como algo nio
hõrio entre grupos interdependentes mas rivais. Deste imediatamente controlável, mesmo pelos próprios jogado­
modo, alcança uma posição que lhe dá mais oportunidades res. Usam-se metáforas que oscilam constantemente entre
de poder do que a qualquer outro individuo da confi· a ideia de que o decorrer do jogo pode reduzir-se às
guração. Mas em condições que produzem um decréscimo acções dos jogadores individuais e a outra ideia que é a
nas diferenças de poder- uma difusão geral de oportuni· de que este é de uma natureza surprapessoal. Como o
dades de poder -entre os jogadores e os grupos de joga­ jogo não pode ser controlado pelos jogadores é facilmente
dores - se uma configuração torna as oportunidades de concebido como uma espécie de entidade «super-humana».
poder invulgarmente grandes, acessíveis a um único joga­ Durante muito tempo é particularmente düfcil que os joga­
dor ou a um pequeno grupo de jogadores, será extrema· dores compreendam que a sua incapacidade de controlar
mente instável, de acordo com esta estrutura de poder o jogo deriva da sua dependência mútua, das posições que
latente. Tal configuração só aparecerá em tempos de crise ocupam enquanto jogadores e das tensões e conflitos ine­
e só com dificuldades consideráveis se poderá manter por rentes a esta teia que se entrelaça.
um período mais longo. Mesmo um jogador que presen·
temente ocupe uma posição de grande força terá muito
mais responsabilidades para com os jogadores do nível COMENTÁR.IO
mais baixo cuja posição se tomou mais forte, do que
tinha um jogador numa posição igualmente forte, nas 1. Seja qual for o seu conteúdo teórico, estes mode­
condições do modelo (3a). O jogo coloca o jogador desta los de interpretação não são teóricos no sentido habitual

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posição num estado de tensão permanente, muito maior do termo. São modelos didácticos. Deste modo, a sua fina·

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do que a suportada pelo jogador colocado na mesma lidade essencial é facilitar a reorientação dos nossos pode-

98 99

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res imaginativos e conceptuais de modo a que compreen­ a tarefa não é resolver o problema do poder mas simples­
damos a natureza das tarefas com que se defronta a mente <cdesbloqueá-lo''• tornando-o facilmente acessivel como
sociologia. Diz-se que é tarefa da sociologia investigar sobre sendo um dos problemas centrais em que a sociologia se
a sociedade. Mas não se define . claramente o que devemos empenha. A necessidade de um trabalho deste tipo rela­
entender por 1<sociedade11. Em muitos aspectos, a sociolo­ ciona-se com a dificuldade óbvia em examinarmos as ques­
gia parece ser uma ciência em busca do seu objecto. Isto tões relativas ao poder sem nos envolvermos emocional­
deve-se em parte ao facto dos materiais verbais e instru­ :rnente. O poder de outra pessoa deve ser temido: pode
mentos conceptuais de que a nossa língua dispõe para defi­ obrigar-nos a praticar um determinado acto quer queira­
nir e investigar esse objecto, não serem suficientemente :rnos quer não. O poder é suspeito: as pessoas usam de
flexíveis. Qualquer tentativa feita no sentido de os desen­ poder para explorar outras para os seus próprios fins.
volver, de modo a que correspondam à especificidade deste O poder parece imoral: todos devíamos poder tomar por
objecto fundamental, causará dificuldades de comunicação. nós próprios todas as nossas decisões. E a névoa de medo
Estes modelos didácticos são meios de ultrapassar tais difi­ e desconfiança que se apega a este conceito transfere-se
culdades. Utilizando a imagem dos participantes dum jogo compreensivelmente para a sua utilização numa teoria cien­
como metáfora das pessoas que formam as sociedades, tífica. Podemos dizer que alguém 11tem» poder e ficarmos
é mais fácil repensar as ideias estáticas que se associam por ai, embora tal utilização, que implica tomar o poder
à maior parte dos conceitos correntes usados neste con­ por uma coisa, nos conduza a Um beco sem saída. Uma
i, ' '
''! .' texto. Elas deverão transformar-se nos conceitos muito mais · solução mais adequada para os problemas de poder seria
'

versáteis de que necessitamos, se queremos melhorar- o o considerarmos este, de um modo inequívoco, como sendo
equipamento mental com que tentamos resolver os proble­ uma característica estrutural de uma relação, que a pene­
mas da sociologia. Só precisamos de comparar as possibi­ tra totalmente; como característica estrutural que é, não
lidades imaginativas de conceitos tão estáticos como o de é boa nem má. Pode mesmo ser boa e má. Dependemos
indivíduo e sociedade, ou o de ego e sistema, com as possi­ dos outros; os outros dependem de nós. Na medida em
bilidades imaginativas abertas pelo uso metafórico de várias que somos mais dependentes dos outros do que eles são
imagens de jogos e de jogadores; a comparação ajuda-nos de nós, em que somos mais dirigidos pelos outros do que
a compreender que estes modelos serviram para desenvol­ eles são por nós, estes têm poder sobre nós, quer nos
ver as nossas potências imaginativas. tenhamos tomado dependentes deles pela utilização que
fizeram da força bruta ou pela necessidade que tínhamos
2. Simultaneamente, os modelos servem para tomar de ser amados, pela necessidade de dinheiro, de cura, de
mais acessíveis à reflexão científica certos problemas rela­ estatuto, de uma carreira ou simplesmente de estimulo.
tivos à vida social Na verdade, estes problemas desem­ Seja qual for a razão, numa relação directa entre duas
penham um paper fundamental em todas as relações huma­ pessoas, a relação que A tem para com B é também a
nas, mas são muitas vezes ignorados quando se teóriza relação que B tem para com A. Neste tipo de relações,
acerca delas. O mais importante entre eles é o problema a dependência de A relativamente a B está sempre rela­
do poder. Esta omissão pode em parte ser justificada pelo cionada com a dependência de B relativamente a A, excepto
simples facto de os fenómenos sociais a que este conceito em situações marginais. Mas pode ser que um seja muito
se refere serem extremamente complexos. Para simplificar menos importante do que o outro. Pode acontecer que o
o problema, uma forma única- talvez a forma militar ou Poder de B sobre A, a sua capacidade de controlar e orien­
a económica -, das muitas possíveis origens do poder aces· tar o decorrer da acção de A, seja superior ao poder que A
síveis às pessoas, é muitas vezes tomada como a origem tem sobre B. Este equilíbrio de poder é avaliado em favor
do poder, da qual se decalcam todas as outras formas de de B. Os modelos da primeira série ilustram alguns dos
exercício de poder. As dificuldades que encontramos ao tipos mais simples de equilibrio de poder que ocorrem nas
reflectir sobre os problemas do poder, radicam na natu· relações directas entre duas pessoas, e as respectivas con·
reza polimorfa das suas origens. Estes modelos não têm sequências destas relações. Ao mesmo tempo, também nos
como finalidade explorar os problemas aqui levantados, tra­ Poderão ajudar a corrigir o hábito de utilizar o conceito
tados quer de um modo extensivo quer restrito. Neste caso, de relação como um conceito estático, recordando-nos que

11)1) 101
f'
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todas as relações - tal como os jogos humanos -são pro­ que começa com a interseção de dois inclivfduos, inicial­
cessos. mente independentes um do outro. Expresso de outro
Mas as relações, e as condições de dependência que modo, começa com a interacção do «ego» e do «alter».
implicam, podem compreender não só duas mas muitas Mas o modelo não tem sido devidamente examinado.
pessoas. Tomemos uma configl.fração formada por muitos A relação ainda é vista essencialmente como um estado
indivíduos interdependentes, em que todas as posições são e não como um processo. Os problemas levantados por
dotadas de oportunidades de poder aproximadamente iguais. esta visão da natureza das interdependências humanas e
A não é mais poderoso do que B, nem B mais poderoso dos equilibrios de poder, conjuntamente com todos os
do que C, nem C mais poderoso do que D e assim por problemas envolventes, estão ainda aquém do horizonte
diante e vice-versa. O facto de serem interdependentes de das chamadas teorias da acção. Quanto muito, levam em
tantas pessoas, obrigará muito provavelmente os indivíduos conta o facto de que as interacções intencionais têm conse­
a agir de uma forma diferente da que adaptariam caso quências não intencionais. Mas escondem uma circunstân­
não fossem obrigados a tal. Neste caso, temos tendência cia que é fundamental na teoria e na prática sociológicas,
para personüicar ou reificar a interdependência. A mito­ nomeadamente que existem interdependências humanas não
logia que a utilização linguistica· impõe leva-nos a acre­ intencionais, na base de todas as interacções intencionais.
ditar que deve haver «alguém» que «detenha o poder». O modelo de competição primária talvez expresse este
E assim, porque sentimos a pressão do upoder», inventa­ facto de um modo mais directo. Não é possível construir
mos sempre alguém que o exerça, ou um tipo de entidade um modelo sociológico adequado sem tomar em conside­
sobre-humana como seja a «natureza11 ou a «sociedade» ração que há tipos de interdependência que impelem o
nas quais o poder reside. Em pensamento, tornamo-las res­ ego e o alter a guerrear-se e a matar-se reciprocamente.
ponsáveis pela coacção a que nos sentimos sujeitos. Há Certamente que o modelo (la) tem utilidade como
certas desvantagens práticas e teóricas no facto de não modelo de certas relações. Há casos em que pode ser
estarmos presentemente aptos a distinguir nitidamente aplicado e seria um erro desprezá-lo. A relação entre o
entre as coacções que qualquer interdepetu:Uncia possível jogador A e o jogador B pode ser semelhante à que existe
entre as pessoas exerce sobre essas pessoas- mesmo numa entre um especialista e um não especialista, um proprietá­
configuração em que todas as posições são igualmente rio de escravos e um escravo, ou um pintor famoso e um
dotadas de oportunidades de poder - e as coacções que mecenas. Mas como modelo de sociedades, o modelo (la)
radicam na variação de oportunidades de poder entre posi· é de uso marginal.
ções sociais diferentes. Mas não podemos entrar agora no Em contraste, o modelo (2c) e mais ainda o modelo (3b)
âmbito dos problemas aqui vislumbrados. Basta-nos dizer oferecem uma certa ajuda para a compreensão daquilo que
que os seres potenciais que somos à nascença nunca se menctonámos como sendo a experiência básica da ciência
desenvolveriam até aos seres que somos, se nunca tivésse­ incipiente que é a sociologia - a experiência de que do
mos sido sujeitos às obrigações impostas pela interdepen·
entrecruzar das acções de muitas pessoas podem emergir
dência. Porém, devemos acrescentar ainda que as formas
consequências sociais que ninguém planeou. Ambos estes
actuais de interdependência exercem um tipo de coer·
modelos indicam as condições em que os jogadores podem
ção que conduz à realização óptima das potencialidades
humanas. começar lentamente a encontrar um problema- o de que
o processamento de um jogo, que surge inteiramente como
um resultado do cruzamento das jogadas individuais de
3. No modelo (la) a estrutura do jogo é grandemente
determinada pelas intenções e acções de uma pessoa. muttos jogadores, toma um rumo que não foi planeado,
O decurso do jogo pode ser explicado em termos de pla·
determinado ou pensado antecipadamente por nenhum dos
nos e objectivos de um individuo. Assim, o modelo (la) jogadores individuais. Pelo contrário, o decurso não pla­
corresponderá provavelmente às ideias de 'um maior número neado do jogo influencia repetidamente as jogadas de cada
de pessoas sobre o modo como se poderão explicar os jogador individual. Assim, estes modelos ajudam a escla­
acontecimentos sociais. Ao mesmo tempo, é uma reminis· recer um dos problemas centrais com que a sociologia se
cência dum bem conhecido modelo teórico da sociedade, defronta, cuja insuficiente compreensão constantemente nos

102 103
r'
,,

r
'
leva a equivocas sobre o objecto e problemas da socio­ entrando mais na estrutura dinâmica do jogo. A autono­
logia. mia relativa da sociologia quanto a disciplinas tais como
Há uma discussão constante sobre o que é realmente 8 fisiologia e a psicologia, que tratam de pessoas indivi­
o objecto principal da sociologia. Se a resposta for «a socie­ duais, é baseada em última instância na autonomia rela­
dade», como muitas vezes se· pretende, então muitos a tiva, no que respeita às acções individuais, dos processos
! : pensarão como sendo um agregado de pessoas individuais. estruturais que resultam da interdependência e interpene­
' ,,
A questão que se nos depara põe-se muitas vezes deste tração de acções de muitas pessoas. Esta autonomia existe
modo: poderá dizer-se algo sobre a sociedade que não possa sempre, mas temos dela uma consciência mais aguda nas
ser detectado a partir do estudo das pessoas individuais, alturas em que a sociedade se torna mais diferenciada,
por exemplo a partir de análises individuais, tanto psicoló­ alargando-se as cadeias de interdependência. O número
gicas como fisiológicas? O modelo (2c) e particularmente crescente de indivíduos que formam estas cadeias implica
o modelo (3b) mostram-nos como devemos procurar as distâncias cada vez maiores, devido à especialização das
respostas para estas questões. Estes modelos indicam-nos suas funções. Dadas as condições desta configuração, nota­
a possibilidade de o decurso de um jogo realizado por 30, mos especialmente que os processos de interpenetração são
300 ou 3 000 jogadores não pode ser controlado e orientado auto-reguladores e relativamente autónomos em relação às
por nenhum desses jogadores. A medida que diminui a pessoas que formam a trama. Em resumo, lidamos com
düerença de possibilidades de poder entre os jogadores, um nível de integração que, relativamente a níveis inferio­
isto torna-se mais provável. Neste caso, o processamento res de integração, como sejam os organismos individuais
do jogo adquire uma autonomia relativa quanto a planos humanos, revelam características especificas, formas de
e intenções de qualquer dos jogadores individuais que, organização totalmente inacessíveis à compreensão e inves­
através das suas acções, criam e mantêm o jogo. Isto pode tigação cientificas, se as tentarmos explicar reduzindo-as
ser expresso negativamente dizendo-se que o decurso do unicamente aos seus componentes individuais (pessoas
jogo não está no poder de qualquer jogador. O reverso individuais, organismos individuais), como acontece nas
da moeda é que o decurso do próprio jogo tem poder sobre fonnas de explicação psicológica ou biológica.
o comportamento e pensamento dos jogadores individuais,
uma vez que as suas acções e ideias não podem ser expli· Os modelos de jogo são urna forma excelente de repre­
cadas e compreendidas se forem consideradas em si mes­ sentar o carácter distintivo das formas de organização que
mas; precisam de ser compreendidas e explicadas no inte· encontramos no nivel de integração que as sociedades
rlor da estrutura do jogo; O modelo mostra-nos como a humanas representam. A nossa herança de discursos e pen­
interdependência das pessoas enquanto jogadores exerce samento pressiona-nos de certo modo a que interpretemos
coacção sobre cada um dos individuas que estão ligados todas as relações de acontecimentos como cadeias unlli�
deste modo; a coacçã.o radica na natureza particular da neares de causa e efeito. Há duas explicações de cadeia
sua relacionação e dependência enquanto jogadores. Tam· unilineares que se relacionam intimamente. A mais antiga
bém nesta instância o poder, é a característica estrutural Põe-se em termos das acções de um criador pessoal. Ao
de uma relação. Num primeiro contacto com modelos de longo da história humana, esta explicação junta-se gradual­
tipo (3b) pode parecer desconcertante o facto de não mente à explicação de uma cadeia unilinear em termos de
podermos indicar nenhum individuo ou mesmo grupo de uma causa impessoal. Quando se encontram padrões com­
individuas que exerçam um poder unilateral sobre todos plexos de interpenetração, é habitual tentar explicá-los em
os outros. Passado algum tempo, torna-se mais fácil com· termos das mesmas categorias de causa e efeito e da
preender que, à medida que diminuem as diferenças de mesma visão de sequências unilineares. Só que, neste caso,
poder entre indivíduos e grupos interdependentes, se toma as pessoas imaginam que basta fazer um grupo de cadeias
decrescente a possibilidade de quaisquer participantes, por de ligações deste tipo, curtas e unilineares. Em vez de
si próprios ou enquanto grupo, estarem aptos a influenciar explicar tudo aquilo que necessita ser explicado em termos
o decurso global do jogo. Mas as oportunidades de con· de uma causa ou de um criador, explicam tudo a partir

;
trolar o jogo podem aumentar à medida que as pessoas de cinco dez ou mesmo cem «factores», <<variáveis» ou de
se tomam cada vez mais distanciadas da sua própria teta, qualque outro termo. Mas tentemos aplicar este tipo de

104 105
explicação à duodécima jogada de um jogador num jogo «ambiente» ou o seu «background». O contraste repetida·
de duas pessoas num só nível, em que ambos os joga.. mente traçado entre «individuo» e «Sociedade» faz com
dores são igualmente fortes. Temos tendência para in�r­ que pareça que os indivíduos podem, até certo ponto,
pretar esta jogada em termos do carácter da pessoa que existir independentemente da sociedade e vice-versa. Isto
a efectuou. Talvez pudesse ser · explicada psicologicamente, surge como altamente duvidoso à luz dos modelos que
como manifestação da sua grande inteligência, ou fisiolo­ revelam processos de interpenetração. E é uma supers­
gicamente, em termos do seu cansaço extremo. Qualquer tição científica pensarmos que para investigar cientifica­
destas explicações se podia justificar, mas nenhuma delas mente os processos de interpenetração temos de os dissecar
é suficiente, pois a duodécima jogada desse jogo já não necessariamente nas suas partes componentes. Os sociólo­
pode ser explicada adequadamente em termos de sequên­ gos já não procedem assim, embora alguns deles pareçam
cias causais curtas e unilineares. Nem uma explicação se ter um complexo de culpa devido a esta omissão.
pode basear �o carácter individual de um ou outro joga..
dor. Esta jogada só pode ser interpretada tendo em conta Os sociólogos, especialmente quando trabalham empi­
o modo como se entrecruzavam as anteriores jogadas dos ricamente, utilizam muitas vezes uma estrutura teórica e
,,, dois jogadores e a configuração específica que resultou instrumentos conceptuais que, na maior parte das vezes,
I', deste cruzamento. Qualquer tentativa de atribuir este entre­ são perfeitamente adequados ao carácter especifico do tipo
·,. cruzamento a um ou outro jogador individual, ou a uma de ordem produzida pela interpenetração humana e às
' mera acumulação da acção dos dois, como sendo a sua características das sociedades e das configurações mutá­
origem ou causa, está condenada ao fracasso. Só o ent-re­ veis, constttuidas por pessoas interdependentes. Porém:
cruzar progressivo de jogadas durante o processo do jogo talvez seja conveniente que planeiem claramente as suas
e o seu resultado - a configuração do jogo anterior à actividad.es, de modo a tomarem delas consciência plena
12.a jornada- pode ser útil para a explicação da duodé­ e assim as justificarem. Consideremos por exemplo a expli­
cima jogada. O jogador utiliza esta configuração para se cação que Dul'kheim dá a certas regularidades existentes
orientar antes de efectuar a sua jogada. E, no entanto, na proporção de suicídios dos vários grupos de pessoas.
este processo de entrecruzamento e o estado ou configu· Ele vai baseá-la nas diferenças especificas existentes entre
ração actuais do jogo, pelo qual o jogad_or individual se as estruturas de interpenetração a que eles pertencem.
orienta, revelam uma ordem própria. Esta ordem é um A estatística desempenha um papel essencial; mas a sua
fenómeno com estruturas, relações e regularidades de dife­ função é de indicador, assinalando as variações especificas
rentes tipos, nenhuma dás quais existe actma dos indivi­ no modo como as pessoas são apanhadas numa rede de
duas e para além deles, sendo antes o resultado da sua relações. Quer tentemos estudar as relações entre reis e
combinação e entrecruzamento constantes. Tudo o que parlamentos na Europa medieval8, quer investiguemos a
dizemos sobre as� «sociedades» ou «OS factos sociais» se relação entre ecos instalados» e os t�de fora» 9, ou a estra­
refere a esta ordem que, tal como dissemos, inclui tipos tégia de um lider carismático ou de um governante abso­
específicos de «desordem» semelhantes aos do modelo de luto nos círculos internos da sua corte, lidamos sempre
competição primária, tal como tipos constantemente recor­ com tipos de interpenetração que aqui ilustrámos com a
rentes de processos desintegrados e separados. ajuda de alguns modelos.

Quando consideramos estes factos, torna-se óbvio que 4. Será útil alongarmo-nos um pouco no modo como
muitas das estruturas conceptuais correntes, que se nos os modelos (3a) e (3b) foram simplificados. Como nos
impõem quando neles pensamos, não correspondem ao recordamos, a série de modelos começou com um breve
nível particular de integração a que se referem. Entre apanhado das mudanças possíveis no agrupamento dos
elas estão por exemplo expressões muito usadas tais como jogadores que podiam resultar de um aumento do número
«o homem e o seu ambiente» ou o seu «background dos mesmos. A maneira como o modelo começa pode dar
social». Consideremos os modelos de jogo. Não ocorreria azo a confusões. Se se tomar como hipótese um aumento
a ninguém descrever o processo de jogo, em que wn no número de jogadores é possível demonstrar de um modo
jogador coopera com e contra outros, como o seu relativamente simples e claro certas mudanças na confi-

106 101

il·
,,
guração. Mas isto não signüica que alterações na popu­ investigação da biologia ou da física. No entanto, poderá
lação, tomadas em si mesmas, sejam o principal estimulo ser útil dar ao leitor oportunidade de formar uma ideia
para as mudanças sociais. As mudanças na população são da. complexidade das sociedades humanas.
mudanças no número de pessoas que pertencem a uni­ Isto pode ser feito com razoável simplicidade se per­
dades sociais particulares. Neste movimento populacional, guntarmos em quanto aumenta o número das possíveis
a unidade de referência pode ser toda a humanidade ou relações dentro de um grupo, quando se eleva o número
uma parte do mundo, um estado ou uma tribo. No entanto, de pessoas nesse grupo. 1!: útil levantar esta questão,
I a ideia de um movimento populacional não tem signüicad.o mesmo que ela tenha apenas como efeitos lembrar-nos
'
sem que se tenha em conta uma unidade específica de que a. sequência de ideias muitas vezes complicadas dos
referência. Uma mudança na população não é um fenó· sociólogos só têm êxito e justificação se forem baseadas
meno que possa ocorrer no vazio. Constitui sempre apenas na complexidade demonstrável do campo em estudo. Não
um aspecto de uma mudança mais compreensiva numa deviam ser o mero produto das contorções do investigador
unidade social particular. Se a sua população aumenta ou quando este procura incluir forçosamente as suas obser­
, ·
: I' r' diminui num determinado período, podemos estar absolu­
tamente seguros de que há uma mudança não s6 no
vações nos moldes de um sistema pré-concebido de pen­
samento, totalmente rígido, devido a nele se envolver
número de membros, mas também em muitos outros emocionalmente. A sociologia trata de pessoas; as interde­
aspectos - por outras palavras, a unidade de referência pendências que ocorrem entre elas são o seu problema
como um todo altera-se durante este período. Mas seria central. O termo <<relações humanaSl> evoca muitas vezes
precipitado concluir que nestas circunstâncias a alteração ideias do dia a dia, da experiência de hora a hora, que
da população seria a causa, sendo todas as outras mudan· se processa dentro do círculo restrito que nos inclui a
ças as consequências. Nestes e noutros casos semelhantes, nós, à nossa familia e ao nosso emprego. Mas temos
os estudantes de sociologia debatem-se com certas dlficul· consciência do problema criado pela possibilidade de cen­
dades pelo facto de terem sido educados numa tradição tenas, milhares e milhões de pessoas poderem estar rela­
que os leva a esperar encontrar numa causa única a expli· cionadas umas com as outras e dependentes umas das
cação para cada facto aparentemente inexplicável. Como outras, mesmo que isto possa acontecer no mundo
já foi indicado, este hábito mental não nos ajuda a com­ moderno. Apesar desta ausência geral de consciencializa­
preender as formas de organização que se encontram no ção, a larga rede de dependências e interdependências que
nível de integração das sociedades humanas. Isto também hoje ligam as pessoas situa-se entre os aspectos mais ele­
se aplica a este caso. O rápido crescimento da população mentares da vida humana.
europeia nos séculos XVIII e XIX constitui simultanea· O quadro 1 ajuda a que nos introduzamos nesta com­
mente uma causa e um efeito no mecanismo das mudanças plexidade. Não há necessidade de aqui explorarmos outras
globais ocorridas--nas sociedades europeias durante este significações teóricas que ele possa ter. De um modo rela·
período. Os actuais processos de democratização reflecti· tivamente simples, permite-nos ver como se torna impos­
dos nos modelos (3a) e (3b) não se relacionam apenas sível às pessoas individuais, que constituem uma rede de
com o crescimento da população mas também com esta
iI inter-relações, compreender esse facto e nele traçar o seu

''I
" mudança global. No entanto, é perfeitamente compensador caminho, sem qualquer ajuda. Também nos permite com­
" '
perguntarmo-nos (a nivel de experiência mental) que tipos Preender mais facilmente · o facto desta trama de relações

11!' I'
de mudanças nos grupos só são possíveis quando há um influenciar constantemente o seu próprio desenvolvimento,
aumento de membros de uma sociedade. de um modo relatiVamente independente das intenções e
metas subjacentes às acções dos indivíduos que a cons­
' A digressão: tituem. Dado que é tarefa da sociologia tornar esta opaci­

'',II,� i','
'
'
índice da complexidade das sociedades dade mais transparente, é importante que os estudantes
'
..· I•;'
'

de sociologia tenham consciência desta opacidade se que­


· Não é necessário discutir se o objecto central da socio­ rem, na realidade, compreender o que é a sociologia. Este
! logia é mais complexo do que o dos níveis precedentes índice de complexidade é um simples auxiliar. Mostra como
de integração - isto é, mais complexo do que o campo de aumenta o número possível de relações, à medida que

('!
' · I '
' r 108 109
·
. , ,.:
I
'-------" '
aumenta -o número de pessoas. Esse número de relações
cresce de um modo relativamente lento, se apenas aten�
dennos a relações entre duas pessoas. Mas cresce de um
' modo muito rápido, se considerarmos, em termos pura­
'

I'
I

mente numéricos, todas as possibilidades de relações que
envolvem mais do que duas pessoas. Se, mais realistica..
mente, também atendermos ao facto de que cada partici­
-
pante, naquilo que se considera como uma relação, tem
dela uma perspectiva diferente, ficamos com uma boa ideia


do aumento de complexidade que acompanha um aumento
no número de pessoas que constituem uma trama de rela­
ções. A relação entre A e B, homem e mulher, estudante
" e professor, secretária e patrão, constitui, quando consi­
11
derada de um modo mais preciso, não uma mas duas
"
relações- a de A para B e a de B para A.
Mas isto não basta. Até aqui, só atendemos aos
aspectos quantitativos das mudanças do número das pos­

I·,,
síveis relações que acompanham um aumento do número

, '·
de individues num grupo. Ainda não tomámos em consi­

' 1·1: deração os modos como poderão ser modelados na confi­


guração, especialmente o facto de que o equilibrio de poder

Ilij, '
,
em cada uma das possíveis relações que considerámos pode

i�
!,! + variar muitissimo. Limitar-nos-emas a ilustrar dois padrões
5
'l.j ; simples de configuração - a possibilidade de uma distri·

,
' buição de poder relativamente equilibrada e a de uma dis­
- �::: � &:; _
� C",IIf'I
!;i: 8 O :=:l
'''· .j! - tribuição desigual de poder. No último caso, há uma rela­
. 11
ção nítida de superordenação e de subordinação entre as

'l i
I'

'
pessoas. Tomemos como exemplo uma relação de quatro
pessoas. Em quanto aumentará o número de possíveis
' •i '
l
relações, se incluirmos tais diferenças de configuração na

l i'
" nossa taxa de complexidade, excluindo por agora a consi­
deração de que todas as relações também têm múltiplas
perspectivas sociais? Aqui, limitamos a nossa discussão a
grupos de quatro pessoas. A coluna 4 mostra a possibi­
lidade de onze relações singulares para esse grupo: seis
I N relações de duas pessoas, quatro relações de três pessoas
5 e uma relação de quatro pessoas. Atendendo aos possíveis
c equtUbrios de poder acima mencionados, há duas vezes
" mais relações de duas pessoas (doze), seis vezes mais
" relações de três pessoas (vinte e quatro) e catorze vezes
mais relações de quatro pessoas (catorze). Em vez de
termos num grupo de quatro pessoas onze possíveis rela­
ções singulares, temos agora cinquenta relações possiveis
diferentes. Se ainda considerarmos as variações de pers­
Pectiva dos participantes das relações, aumentará o grau
' • de complexidade. Certamente que estas possibilidades não

l!i.'!i
I.
'

111

"
' i :'

4
se irão concretizar todas num dado tempo. Mas quando
as estudamos ou quando meramente as vivemos, não pode­
mos deixar de considerar esta cadeia de possibilidades'
nem de perguntar quais delas realmente ocorrem.
Aqui, a preocupação imediàta é tornar mais fácil a
compreensão de qual a tarefa da sociologia. Isto não se CARACTERÍSTICAS UNIVERSAIS
pode fazer sem que chamemos a atenção para a opacidade
e para o carácter consequentemente incontrolável das teias DA SOCIEDADE HUMANA
entrecruzadas de relações, formadas pelas pessoas. Um dos
problemas centrais que a sociologia deve fixar é tornar
estas teias mais transparentes e, por conseguinte, impedir
que arrastem consigo os seus membros, de um modo cego
e arbitrário. Isto aplica-se sobretudo às teias entrecruza­
das que se difundem e estendem em grandes espaços e
num tempo prolongado. Uma pergunta a que dificilmente
se dá resposta é até que ponto estamos habitualmente cons­
cientes de que formamos uma relação funcional que se A MUTABILIDADE NATURAL DA HUMANIDADE
estende pelo mundo e que, embora seja composta por pes­ COMO CONSTANTE SOCIAL
soas, é muito pouco controlável e compreensível. Há tam­
bém a questão de saber até que ponto a situação é distor­ Pode-se investigar como é que determinadas socieda­
cida pelas habituais fórmulas explicativas que atribuem des humanas diferem umas das outras. Também se pode
todos os acontecimentos às pessoas individuais ou a sis­ investigar como é que todas as sociedades humanas se
temas sociais de crenças hostis. Talvez os fndices de com­ assemelham. Rigorosamente falando, estas duas preocupa­
plexidade que aqui se estabelecem possam ajudar a que os ções são inseparáveis. Quem procurar uma visão clara das
assuntos quotidianos surjam como algo de estranho. E isto semelhanças básicas de todas as sociedades- as caracte­
é necessário se queremos compreender porque é que o rísticas universais da sociedade humana - tem que se
campo de investigação da sociologia- os processos e estru­ socorrer de grande riqueza de conhecimentos, válidos para
turas de interpenetração, as configurações formadas pelas a sua própria sociedade, sobre as variações possíveis das
acções de pessoas interdependentes, em resumo, pelas sacie· sociedades humanas. Por outro lado, uma grande quanti­
dades- constitui um problema. dade de informação sobre as diferenças existentes nas
sociedades pode apenas conduzir a um amontoado de
factos sem qualquer relação. Para que tudo isto adquira
significado, torna-se essencial uma concepção de base empí­
rica sobre as semelhanças entre todas as possíveis socie­
dades. Estas fornecerão uma estrutura de referência den­
tro da qual se podem efectuar investigações particulares.
Dentro dos limites desta introdução à sociologia, é total­
mente impossível realizar tal tarefa de um modo satisfa­
tório. Mas podem indicar-se alguns dos problemas que
deveriam facilitar uma abordagem ulterior mais detalhada.
Esta torna-se muito necessária pois uma abordagem des­
tes problemas requer uma reorientação radical dos hábi­
tos correntes de pensamento. Nada há de supreendente
se percebermos de um modo claro a situação em que nos
encontramos quando lutamos pa.ra obter uma melhor com­
preensão das sociedades que constituímos. Séculos de tra-

112 113
balho proporcionaram um conhecimento razoável do mOdo tadas como se realmente constituissem wna espécie de


como os acontecimentos se inter-relacionam, naquilo que superorganismos. Isto deve-se primeiramente ao facto de
relativamente falando, constitui o nível mais simples d que o poder que as pessoas tinham para �ma compreensão
integração. Este conhecimento é-nos simbolizado por con­ intelectual se limitava a uma concentraçao sobre as seme­
ceitos tais como os de matéria -e energia, que, dado o pre­ lhanças entre os niveis mais altos e mais baixos de inte­
sente estado do conhecimento, abarcam a cadeia total de gração. Ainda não estavam aptas para compreender as dife­
fenómenos naturais, das partículas subatómicas às galáxias. renças em que se baseava a sua autonomia relativa.

:i
Neste campo, alargaram-se os limites do conhecimento e De tudo isto não se deduz a ideia de uma barreira

''' !
as nossas oportunidades de controlar os factos aumen­ ontogenética entre os fenómenos naturais orgânicos e inor­
taram a uma velocidade enormíssima. A ilha de conheci­ gânicos, ou a existência de uma barreira, den ro desta
mentos seguros que para nós próprios construímos no última categoria, entre fenómenos hwnanos e nao huma­
oceano da nossa ignorância, cresceu muito rapidamente, nos. Significa muito simplesmente que o esforço para pro­
pelo menos no que respeita à natureza física. Só a preo­ duzir um domínio conceptual do universo observável tem
cupação humana com a felicidade diária e acima de tudo como resultado a ideia de que o universo está organizado
com as desventuras de momento, impediu que chegásse­ em vários níveis de integração. Depois de muitas tentativas
mos a uma visão completa do desenvolvimento do conhe­ de tornar adequados a esta organização observada os nos­
cimento e do significado que ele tem para a sociedade, sos processos de linguagem e de pensamento, ficou mais
especialmente devido à concepção que fazemos de nós pró­ claro ser este o centro de todas as düiculdades com que
prios. Processo semelhante está em curso, ganhando ter­ nos debatemos. No decurso do jeedback comum na oiên­
reno no nível seguinte de integração - o nivel dos orga­ cia, jeedback que vai da observação ao pensamento e do
nismos. � evidente que as pessoas se empenham na defesa pensamento à observação, pode concluir-se que a este alto
da ideta aparentemente paradoxal de que as relações de nivel de integração há fonnas de organização, tipos de
factos altamente organizadas possam ser relativamente estrutura e de função, fenómenos das mais variadas espé­
autónomas das relações de factos menos organizadas. Esta cies, que diferem daqueles que encontramos no nível ante­
concepção, mesmo que não esteja sempre presente quando rior de integração. Também podemos tirar outras conclu­
de uma abordagem teórica, está-o pelo menos numa prática sões: é que os fenómenos de nível mais alto não podem
de esforço científico. Vai crescendo lentamente a ideia ser explicados em termos de fenómenos de nível mais
de que um conjunto de fenómenos físicos, organizados baixo, que os primeiros são relativamente autónomos dos
como organismos, plantas e animais, possuem regularidades segundos e que, para a sua compreensão, são necessários
e características estruturais que não podem ser compreen­ processos de pensamento diferentes dos ocorridos no nível
didas pela mera redução a reacções físico-químicas. Por anterior de integração.


outras palavras, _unidades organizadas a um nível mais Porém, se tirarmos tais conclusões, somos considera­
alto de integração, são relativamente autónomas no que dos pelos outros - e podemos considerar-nos a nós pr
respeita aos factos de nível de integração mais baixo. prios - como aqueles que postulam uma rotura na conti­
E, para os cientistas comprenderem de um modo correcto nuidade ontogenéttca e, por consequência, uma divisão
as formas organizativas dos niveis mais altos de integra· básica do universo em duas esferas absolutamente sepa­
ção, requerem-se formas distintivas de pensamento e de radas: a física e a metafísica. Podemos argumentar, em
métodos de investigação. autodefesa, que no âmbito da nossa experiência social­
O mesmo se passa com os níveis mais altos de inte­ mente verificável - que nos fornece o único tipo de infor­
gração que se seguem- os das espécies humanas. Mais mação válida sobre o mundo em que vivemos - não há
uma vez, unidades que consideramos isoladamente, pare· observações que justüiquem uma tal divisão do m�do em
cem pertencer a um nível anterior de integração, apare­ nfveís de integração absolutamente separados, na� tendo
cem ligadas por uma relaç-ão funcional, mas de um modo entre si qualquer relação, tal como são os de matérJa orgâ­
completamente novo, totalmente diferente do modo como nico e inorgânica. Mas esta asserção deixa uma porta aberta
as unidades físicas se unem para formar unidades bioló­ a equivocas - por exemplo, deduzir que as várias caracte­
gicas. No passado, as sociedades foram muitas vezes retra- risticas de nivel mais alto podem ser explicadas de um

114 115
modo conveniente e adequado em termos de factos
de nível
mais baixo de integração - ou, por outras palavra necessário assentar neste ponto antes de discutir as
s, que
características universais da sociedade humana. O factor
t
todos os fenómenos de nível mais alto se podem
reduzir
a fenómenos de nível mais baixo. Não é tmediatament centrai e inalterável em todas as sociedades é a natureza
e as
evidente a ideia de que são compatíveis uma continu
idade bttrnana. Mas 0 que torna 0 homem singular entre
ontogenética total nos vários níveis de integração
e a exis­
outras formas de vida, é demonstr ado pelo
.
facto de �
tência em cada nível de formas de organização caracter significado da palavra lmaturezan quando re�er�d� à hum .
fs. u
ttcas e irredutíveis, mas, tanto quanto podemos verifica nidade diferir em certos aspectos do seu S1gmf1cado no ·
r, e «nat'l!rezan
os múltiplos progressos nas ciências biológicas tros c�ntextos. De um modo geral, entende-s
e agora
I ,
da
em sociologia, sugerem-na. Numa última análise como algo que se mantém inalterável, alg? para alem
, a auto­
nomia tanto das ciências biológicas relativamente mudança um aspecto singular da humamdade é que os
à física,
como das ciências sociais relativamente à biologi seres hu�anos são, de certo modo, mutáveis ??r natureza�
a, baseia-se
na autonomia relativa dos respectivos campo uma pergunta de exame, bem formulada e �na, �s �u
s de inves­
tigação. poucas vezes aparece é: ((Quais as caracteristicas biológtcas
Muitos factos nos indicam este caminho. do homem que tornam a história possível?!> OU, p�ndo-a
Conceitos tais
como nascimento e morte só têm significado m termos sociológicos mais precisos: llQue caracter1sticas
quando rela­
cionados com tipos de lntegração a nível biológi �iológicas são requeridas para a mudança e, particuia:r·
co. Não têm
equivalente no nível anterior, que se aplica mente, para a capacidade de evolução patenteada nas soCie-
tanto aos átomos
como às galáxias. mesmo se surgirem formas dades humanas?!> .
de transição.
(Esta é outra ilustração de como o conce
ito de integraçao, Dispomos de uma grande riqueza de evidências empi·
tal como aqui se utiliza, inclui formas particulares ricas para responder a esta questão. E, no entanto� ele: é
de desin­
tegraçã o- neste caso o fenómeno da morte
- tal como o pouco levantada, muitas vezes porque as várias �ênc�as
conceito de ordem tem sido usado num sentid humanas (incluindo a biologia humana e a so�1olo�)
o que inclui
desordem.) prosseguem nos seus ensinamentos e investi�çoes, nao
Do mesmo modo, encontramos em sociolo numa autonomia relativa mas numa autonoii?a ab!ozut_a.
gia formas
distintas e específicas de integração e desintegração
, mode­ consequentemente, os seus pressupostos teóriCos sao tao
_
los de ordem e de desordem, tipos de relacionação
e tipos diversos que quase não têm pontos de contacto. Nos ulti·
de estrutura e fUnção. Estas formas são diferen
tes das que mos vinte anos verüicou-se um avanço consideráv�l �
encontramos nos níveis anteriores de integra nossa compreensão da estrutura das sociedades amm�,
podendo reduzir-se a elas. E, no entanto, as
ção, não
formas que particularmente da natureza dos laços que unem os �m­
encontrámos em todos os níveis constituem,
sob o ponto mais. Isto deve-se essencialmente ao estudo empreendido
de vista ontogenético, um continuum único, embor por membros da escola etológica. Mas, embora possam
vidido.
a subdi·
contrariar as intenções dos investigadores, estas �
outras
A primeira vista, pode parecer desnecessário ir tão descobertas apenas servem para sublinhar as �erenças
ao fundo numa mera discussão das caract entre as sociedades humanas e animais. Estas düerenças,
erísticas univer·
sais da sociedade humana. Mas poucos problemas têm
sido por seu turno, indicam düerenças entre a nat�reza do
tratados de um modo tão confuso como
o problema da homem e a dos animais, ou, mais exactamente, diferenças
relação entre sociologia e biologia. Consta
ntemente se entre a constituição -biológica do homem e a de outros
encontram tendências quer para reduzir
os problemas organismos. Ern resumo, a estrutura das sociedades com­
sociológicos aos biológicos quer para tratar se
os proble· postas por criaturas não humanas só muda quando
mas sociológicos como se fossem totalm da
ente autónomos altera a estrutura biológica dessas criaturas. Animai
e independentes de tudo o que se possa dizer �
organismos humanos. A autonomia da sociol
sobre os mesma espécie formam sempre sociedades do mesmo po,
ogia relativa· muito ligeiras. Isto porque
mente à biologia baseia-se, em última instân excep1uando van·ações locais
cia, no facto · deter-
de as pessoas serem realmente organismos, o comportamento que têm uns Para com os outros e
mas orga·
nismos que têm um carácter singular em certos d r características estruturais hereditárias, caracte-
.

aspectos.
= ca� re cada espécie, que apenas permitem um espaço

116
117
padrões de comportamento de uma criança não só podem
muito limitado de modificações. Por seu lado, as sociedades
mas devem evoluir muito por meio da aprendizagem, se é
humanas podem mudar sem que ocorra qualquer alteração
que a criança pretende sobreviver. «Comportamento)) signi­
na espécie - isto é, na constituição biológica do homem
fica ajustamento a situações mutáveis. De um ponto de
Não há a mínima razão para supormos que a transforma:
vista meramente técnico, é muito mais eficiente que o
ção. das sociedades europeias pré-industriais em sociedades
comportamento seja orientado por uma aprendizagem indi·
industriais se baseou numa mudança da espécie humana.
vidual do que por mecanismos inatos, funcionando às
O esp�ço de tempo em que se efectuou esta mudança é
cegas. O processo de aprendizagem individual actua por
demasiado curto para que consideremos a ideia de uma
' '' : mudança na estrutura biológica da humanidade. E o mesmo
meio da acumulação mnésica de experiência, de modo que
podemos mais tarde recorrer a estas para .que nos �jud�m
se pode dizer quanto ao desenvolvimento social do homem '
a diagnosticar e prognosticar qualquer nova s1tuaçao.
- dos caçadores e segadores aos agricultores e pastores ou
A bagagem extra de que o homem precisa para a aprendi·
dos grupos tribais pré-estatais à formação das socieda­
zagem foi-lhe fornecida pela evolução da mão, do cérebro

I
des - estado. Isto também se aplica a muitas outras mudan­
e da musculatura da face e da garganta. li: condição desta

1 .I1 ji
ç�s sociais que, embora tendo ocorrido em épocas muito
evolução uma diminUição ou um relaxamento do controlo
diferentes, em partes do mundo muito diversas e, tanto
, , �, ' comportamental por impulsos cegos, automáticos e inatos.
quanto sabemos, totalmente independentes umas das outras'
Através da evolução dos mamüeros podemos seguir o pas­
'I I I
se têm efectuado em direcções paralelas.
sado desta mudança evolutiva orientada nitidamente nesta
Este é um exemplo gritante da autonomia relativa do
direcção ao longo de quase todo o reino animal. O co�­
' campo da investigação sociológica no que respeita à biolo­
portamento das rãs é muito mais orientado por mecams­
gia - e consequentemente também da diferença entre os


mos reflexos inatos e instintivos do que o comportamento
problemas da sociologia e da biologia. As mudanças nas
do ouriço ou da raposa e o destes muito mais do que o
socie�es são aspectos da evolução biológica. As
dos símios antropóides. Mas mesmo que o comportamento
relaçoes SOCiais das espécies animais situadas abaixo do
dos sú:níos seja mais dado a modificações por meio �a
nível do homem alteram-se em função da constituição
aprendizagem, e apesar dos instintos serem neles mrus
biológica global dessas criaturas. Mas as relações sociais
facilmente mitigados do que em animais de um nível mais
e o comportamento da espécie Homo sapiens mudam sem
baixo da evolução biológica, estas tendências estão ajnda
que haja qualquer alteração da sua constituição bio�ógica.
muito pouco desenvolvidas em comparação com as asse­
Isto confronta-nos com a tarefa de descobrirmos a ({natu­
guradas pela organização biológica humana 1• Isto é no
rezall - no sentido de <lcarácterll - dessas mudanças sociais
entanto outro exemplo do preceito l'nuitas vezes errada­
e de as explicarmos sem recurso a teórias biológicas. Pel�
mente interpretado, de que a continuidade ontogenética é
menos, só dev�ríamos recorrer a estas na medida em que
perfeitamente compatível com a emergência de novas est�­
permitem explicar --como é possível a mudança nas socie­
turas. Os símios antropóides produzem ruídos muito m�IS
dades humanas e, portanto, no comportamento das pes­
variados quando comunicam uns com os outros e sao
soas individuais e nos círculos que as unem, sem que haja
muito mais capazes de modüicar o seu comportamento
qualquer mudança na natureza biológica do homem
por meio da aprendizagem do que_ animais cuja organiza·
Há uma resposta bastante simples para este probl�ma.
ção está a um nível muito baixo na escala evolutiva. E, �o
Vamos esboçá-la brevemente. Por natureza- por constitui·
entanto, comparados com a capacidade hum� �e var�ar
ção hereditária do organismo humano-, o comportamento
_ do que qualquer comportamento de outros e modificar os sons que produzem na comumcaçao sOCl&.l,
do homem, :mrus
as suas capacidades são extremamente lim�tadas. Certas
seres vivos, é menos dirigido por pulsões inatas e mais
situações levam o símio antropóide a prod�z1r, auto�ática
orientado por impulsos modelados pela experiência e pelo
e quase involuntariamente, sons como gemidos, suspiros e
conhec�ento individuais. Devido à sua constituição bioló­
risos involuntários. Estes sons sobrevivem no homem de
gica, nao só é verdade que os homei\5 estão mais aptos
uma forma rudimentar mas sobrepondo-se a eles como
a aprender a controlar o seu comportamento do que qual­
meto de comunicação, t�mos sistemas de sinai�. Estes não
quer outra criatura, como também que o seu comporta­ são inatos, adquirem-se por meto da aprendizagem com
mento deve trazer a marca daquilo que aprenderam. Os

119
118
os outros e são únicos no reino animal. Estes sistemas das características universais da sociedade, começamos a
de sinais, ou línguas, são tão mutáveis como as sociedades tomar consciência das condições responsáveis pela auto­
que os usam como meio de comunicação e de coesão. nomia relativa do nível de integração representado pelas
Podemos obter uma visão nítida dos problemas dis­ sociedades humanas. Devemos agora interrogar-nos se os
'·'· ·, tintos e específicos da sociologiâ se compararmos o sis­ processos de pensamento e de pesquisa de que dispomos
tema inato de sinais de que dependem os animais de nível são suficientemente autónomos dos processos emergentes
evolutivo mais baixo do que o Homo sapiens e que só se da investigação em outros campos da realidade, de modo
podem modificar ligeiramente pela. aprendizagem, com os a que se ajustem à investigação dos aspectos humanos e
sistemas de sinais provenientes da aprendizagem, como por sociais. Na maior parte dos casos, revelam-se inadequados.
exemplo as línguas, por meio das quais as pessoas comu­ De um modo geral, continuamos a usar os instrumentos de
nicam e que, tal como as sociedades humanas, são tor· comunicação e de pensamento que derivam de uma tra·
nadas possíveis pela organização biológica humana. Não se dição particular de discurso e de pensamento, sem que se
podem compreender os caracteres distintivos da vida social proceda a uma nova avã.liação, até se chegar ao ponto
humana sem que se faça referência à laringe, à cavidade de os pôr de lado como inúteis. A razão por que são tão
bucal e à língua humanas, ao sistema nervoso e muscular duradouros os modos de falar e de pensar, reside na sua
especializado, à evolução - nos lobos frontais - de uma natureza social. Para que cumpram o seu objectivo, têm
região de controlo das capacidades motoras da fala. Em que ser comunicáveis. Quando a sua inutilidade relativa
resumo, não há compreensão possível sem que haja conhe­ é reconhecida e, portanto, se procura alargá-los, só é possi·
cimento da adaptação da organização biológica humana em vel fazê-lo muito lentamente. Se esta regra não for obser­
função da aprendizagem. Porém, devido a esta dissociação vada, as palavras e as ideias perdem rapidamente a sua
relativa dos mecanismos biológicos, biologicamente deter· comunicabilidade.
minada, e devido à dependência dos seres humanos na sua A primeira vista, pode parecer que um primeiro esforço
aprendizagem uns com os outros, as sociedades humanas para reorientarmos o nosso pensamento pode complicar
constituem um campo de investigação com um tipo de o trabalho da sociologia. Porém, verifica-se precisamente o
ordem e com formas de organização diferentes das que inverso. Se se fizer um tal esforço, o trabalho torna-se
interessam aos biólogos. Assim, em qualquer discussão mais simples. A complexidade de muitas teorias socioló­
sobre as características universais da sociedade humana, gicas modernas deve-se não à complexidade do campo de
temos que considerar três factores fundamentais. São eles� investigação que elas procuram elucidar, mas ao tipo de
primeiro, a libertação relativa dos mecanismos comporta· conceitos usados. Estes podem ser conceitos que ou já
mentais não aprendidos; em segundo lugar, a grande capa­ provaram a sua validade noutras ciências, geralmente nas
cidade de modificação e alteração da experiência e com· ciências físicas, ou não se adequam de modo algum à
portamento humanos dentro das suas próprias fronteiras investigação de relações funcionais especificamente sociais.
naturais; e em terceiro lugar, a dependência constitucional Talvez já tenha ocortido a muitos leitores a necessi·
da criança relativamente à aprendizagem com os outros. dade de uma reformulação substancial em muitos aspectos
do discurso e do pensamento sobre aquilo que é obser­
vável. As nossas linguas são construídas de tal modo que
A NECESSIDADE muitas vezes só conseguimos expressar quer o movimento
DE NOVOS MEIOS DE FALAR E DE PENSAR quer a mudança constantes, de uma forma que lhes con­
fere as características de um objecto isolado em des·
Esta rubrica tem como objectivo revelar de um modo canso e, _depois, quase como uma explicação, acrescen·
claro os obstáculos que repetidamente têm impedido o tamos um verbo que exprime que o objecto possuidor
desenvolvimento da sociologia enquanto ciência relativa· dessa característica está agora a mudar. Por exemplo,
mente autónoma. Os recursos de linguagem e de pensa· junto de um rio vemos o fluxo perpétuo da água. Porém,
mento de que o sociólogo presentemente dispõe são na. Para dominarmos conceptuatmente este facto e p�a o
maior parte das vezes desproporcionados em relação à comunicarmos aos outros, não dizemos ((Vejam o fluxo
tarefa que lhe é exigida. Ao tentarmos elaborar uma lista constante da água», mas sim «vejam como o rio corre

120 121
í

depressa». Dizemos eco vento sopra» como se o vento fosse vidade, entre estruturas e processos ou entre objectos e
realmente algo em descanso que num dado momento relações. Esta última tendência é particularmente restri­


começa a mover-se e a soprar. Falamos como se o vento tiva quando tentamos compreender as teias humanas·

'II· se pudesse separar do seu usopr011, como se pudesse haver


um vento que não soprasse. Esta redução de processos a
a nossa lingua obriga-nos a
todos
falar e a pensar
os uobjectos)> de pensamento - incluindo as pes­
como

condições estáticas, a que chamaremos «redução-proces­ soas - fossem na realidade estáticos. Também os consi­
sualn, surge como evidente para quem sempre usou essa dera como não estando implicados em relações. Exami­

.i lingua. Muitas vezes se imagina ser impossivel pensar ou nando o conteúdo de manuais de sociologia encontramos

1 falar de outro modo. Mas isto não é correcto. Os linguistas muitos termos que transmitem a ideia de referência a

' ''I1' �
' ',
mostraram que muitas línguas têm estruturas que tornam objectos isolados e parados; mas se o examinarmos mais
�· , I.
•. .
, possível uma assimilação diferente de tais experiências. minuc osamente vemos que se referem a pessoas que estão

. �
A análise mais ousada e sugestiva destas limitações da ou estiveram constantemente em movimento e que se rela­

'I
" tradição europeia de discurso e de pensamento encontra-se cionam constantemente com outras pessoas. Pensemos em
na obra de Benjamin Lee Whorf Language, Thought and conceitos como norma e valor, estrutura e função, classe
I,
Ii!
Este autor demonstra-nos
que nas línguas de _
Reality 2. soctal e sistema social. O próprio conceito de sociedade
tipo europeu as frases se constroem com dois elementos tem características de objecto isolado em estado de
I �
'

fundamentais - o substantivo e o verbo ou o sujeito e repouso, assim como o conceito de natureza. O mesmo
lI! o predicado. Antigamente, estas tendências linguísticas já acontece com o conceito de indivíduo. Em consequência,
se afirmavam e sistematizavam, constituindo um processo t?ndemos sempre a fazer distinções conceptuais sem ·sen­
!. i ' a que o trabalho de lógicos e gramáticos de tradição tido, tais como uo indivíduo e a sociedaden, o que leva a
aristotélica deu uma grande ajuda. Considerava-se ser este pensar que «o indivíduon e a l!SOciedadeu são duas coisas
o processo universal (o chamado processo «lógicon e «racio­ separadas como mesas e cadeiras ou tachas e panelas.
naln) de transpor para conceitos e de expressar verbal­ Podemos sentir-nos enredados em longas discussões sobre


mente a realidade observada. a natureza das relações entre dois objectos aparentemente
O próprio Whorf aponta a possibilidade de que t s separados. E, no entanto, a um outro nivel de consciên­
características limitativas das nossas estruturas tradiCio­ cia, podemos saber perfeitamente que as sociedades se
nais de pensamento e linguagem sejam em parte respon­ co�põem de indivíduos e que os indivíduos só podem pos­
sáveis pelas grandes düiculdades que os físicos encontram SUir características especificamente humanas tais como
quando tentam compreender certos aspectos da investiga­ c�pacidades de falar, pensar, e amar nas e pelas suas rela­
ção recente - especialmente a investigação relativa às par­ çoes com as outras pessoas- 11em sociedaden.
tículas atómicas �-�e quando tentam conceptuali.zá-los ade­ Estes exemplos podem bastar para nos convencer de
quadamente. que temos que encarar criticamente as estruturas do dis­


Não há dúvida nenhuma de que o mesmo se aplica à curso e do pensamento que herdámos para vermos como
sociologia. As nossas línguas tendem a destacar substan­ e as são úteis na investigação de relações ao nivel espe­
tivos que têm características de coisas em estado de Cífico de integração que a sociedade humana representa.
repouso. Mais, tendem· a expressar toda a mudança e toda
a acção por meio de um atributo ou um verbo ou, pelo
menos, como algo adicional, mais do que integral. Em UMA CRlTICA
muitos casos, trata-se de uma técnica inadequada de con· DE «CATEGORIAS, SOCIOLOGICAS
ceptualizar aquilo que realmente observamos. Esta cons­
tante redução processual tem como resultado que os Não teríamos que nos defrontar com dificuldades tão
aspectos imutáveis de todos os fenómenos sejam inter· grandes se muitas das tendências de conceptualização aqui
pretados como sumamente reais e significativos. Isto discutidas não tivessem sido reforçadas e estabilizadas por
certas características das ciências físico-químicas e pela
alarga-se a esferas onde impõe uma limitação totalmente
�onstrução

falsa Whorf menciona como involuntariamente estabele­ de teorias filosóficas da ciência que nelas se
cem s distinções conceptuais entre o actor e a sua acti· aseiam. No período clássico do seu desenvolvimento,

122 123
1·: 'I i!

não consideramos a existência de algo que não muda e


o objectivo da investigação da natureza física era reduzir
e que portanto é anterior a toda a mudança.
tudo que se move e muda a algo de estático e imutável
Pode verificar-se que os padrões de discurso discuti­
- ou seja, reduzir tudo às eternas leis da natureza. Uma
dos anteriormente contribuem para uma reflexão sobre
teoria filosófica do conhecimento e da ciência sancionou
tod?s estes arg�u:nentos tradicionais. Temos que imaginar
subsequentemente esta tendência. Tem sido tarefa central
o riO como estático ante..<> de dizermos que ele corre. Mas
de toda a ciência, constitUindo critério para o estatuto
quando falamos das características universais da sociedade
científico de todo o campo de investigação, a redução de
humana não estaremos à procura do imutável nas socie­
tudo aquilo que se observava como sendo móvel e mutá­
dades sempre em mutação? De modo algum. Acentuou-se
vel a algo de imutável e eterno. Consequentemente, mui­
q�e as pessoas se adaptam naturalmente à mudança e
tos cientistas, especialmente sociólogos, sentem uma certa
inquietação e talvez mesmo a consciência pesada: por um sa? dotadas constitucionalmente de órgãos que lhes per­
'i
mitem aprender constantemente, armazenar constantemente
lado, pretendem ser considerados cientistas mas, por outro,
novas experiências, ajustar o seu comportamento de modo
não querem sujeitar-se àquilo que se considera como o
ideal filosófico da ciência. Uma investigação mais apro­ adequado e mudar o padrão da sua vida social. A sua
fundada talvez revele que, mesmo nas ciências fisico-qui­ mutabilidade característica, que surgiu através de uma
micas, a procura das leis eternas da natureza e a redução �ud�ça evolutiva, é o próprio factor imutável que aqui
de toda a mudança a formas eternas e imutáveis já não �1scut1mos. Mas �sta mutabilidade não é sinónimo de caos.
E um determinado tipo de ordem. Homens como comte,
ocupam a mesma posição central que detinham na física
:. ·, Marx, Spencer, e muitos outros sociólogos clássicos do
clássica Mas para os sociólogos é importante demonstrai:
século XIX, preocuparam-se com a investigação desta
que a tendência para a redução processual se baseia num
jillzo de valor muito especifico, consagrado pela tradição. ordem, a . ordem da própria mudança. No século XX,
Que tudo aquilo que muda tem que ser efémero, menos a tendência para uma redução processual tem vindo gra­
dualmente a ganhar vantagem em sociologia' em parte

I
importante, menos significativo e, em resumo, menos
válido, aparece como uma proposição quase auto-evidente, devido à reacção contra aspectos especulativos das teorias
. ,
·!I reforçada constantemente por um consenso de silêncio. sociológicas clássicas sobre a mudança social. Foi-se tão
Compreende-se esta escala de valores. Corresponde à l �nge na direcção oposta, que líderes teóricos da sociolo­

.1,I' necessidade que temos de algo imortal. Mas não se devia gm, como por exemplo Talcott Parsons, consideram a esta­
considerar que modos de pensar concordantes com esta bilidade e a imutabilidade como características normais de
.;.i'" t necessidade e com estes valores são necessariamente mais um sistema social, e a mudança apenas como consequên­
·lIi I'
l,i i adequados para a facilitação da investigação científica. Não cia de perturbações do estado normal de equilíbrio das
sociedad:_s. Não p �demos aqui considerar as razões por
" são necessariamente os mais adequados para investigar
qualquer dos aspeCtos do mundo em que vivemos, e muito que o pendulo oscilou tanto 8• Mas quando mencionámos
menos daquele mundo que mais nos diz respeito- a socie· uma reorientação do pensamento sociológico, pretendía­
dade humana. Podemos afirmar inequivocamente que tanto mos em parte dizer que a reacção contra as teorias evolu­
a tendência verificada nas ciências para a redução proces­ cionistas do século XIX sobre a ordem subjacente à
sual como as teorias científicas que dão a esta tendência mudança social, foram longe demais na direcção oposta,
um estatuto de ideal já deram os seus frutos. Foi uma nela permanecendo demasiado tempo. Numa altura em
das ideias mais importantes a que os homens chegaram: que, na prática, os problemas do desenvolvimento social
a de que qualquer mudança observável pode ser explicada são m�is importantes do que nunca para a sociedade,
como efeito de uma «Primeira Causa,> imóvel e estática. as teorms que consideram as mudanças sociais como mani·
Uma reflexão breve e desprovida de preconceitos sobre !estações de desordem roubaram-nos a possibilidade de
este tema mostra-nos que só podemos relacionar o movi· um contacto mais íntimo entre a teoria e a prática.
mento com o movimento e a mudança com a mudança. Isto requer uma certa reorientaÇão do pensamento e
Esta ideia pode levantar certa inquietação. Então não há da p�rcepção sociológicos. Presentemente, a sociologia está
nada que dure, nada estático? Um velho argumento filo· donunada por uma espécie de abstracção que parece lidar
sófico pergunta-nos como podemos falar de mudança se com objectos isolados num estado de repouso. Mesmo o

124 125
I['
I

,,
,,
:I conceito de mudança social é muitas vezes usado como se
se referisse a um estado fixo. Flutuamos, por assim dizer,
em sociologia mas também no pensamento quotidiano. Tal
como é hoje utilizado, este conceito transmite a impressão

'I entre o considerarmos o estudo de repouso como sendo


algo normal e o movimento como um caso especial. Che­
de que se refere ao adulto isolado, indf!pendente dos outros,
adulto esse que nunca foi criança. Com este sentido, o con­

.[1 garemos a uma melhor compreebsão das matérias-primas


com que lida a sociologia, se não nos abstrairmos do seu
ceito tem perseguido como fantasma as línguas modernas,
e tem o seu eco em ideias como «individualidaden e «indi­
movimento e do seu carácter processual e usarmos con­ vidualismo>>. Encontra-se nas teorias de muitos sociólogos
ceitos que captem a natureza processual das sociedades que se esforçam em vão por descobrir como é que tal
em todos os seus diferentes aspectos, como uma estrutura nindivíduou se pode relacionar com a usociedade>> que eles
.: t
de referência para a investigação em qualquer situação concebem como uma entidade estática. Max Weber (1864·
social dada. Raciocínio semelhante se aplica à conceptua­ ·1920 ) - grande sociólogo da síntese intelectual dos dados
lização da ligação entre as relações e os objectos relacio­ empíricos, pensador de grande intuição, que se esforçou
nados. Em sociologia, muitos termos técnicos, de acordo por clarificar as categorias básicas da sociologia - nunca
com a tradição já mencionada, são formados de wn modo conseguiu resolver o problema da relação entre os dois
que implica que aquilo que procuram representar é um objectos basicamente isolados e estáticos que os conceitos
objecto sem quaisquer relações com outros objectos. Por de indivíduo singular e de sociedade aparentemente indi­
outras palavras, formas actuais de análise sociológica tor­ cavam. Weber acreditava axiomaticamente no dndivíduo
' nam possível a separação de coisas inter-relacionadas em absoluto!l, no sentido atrás referido, como sendo a ver­
! !,,, componentes individuais- uvariáveisn ou ufactoresll- sem dadeira realidade social. Procurou forçar esta crença num
.: .1
que haja qualquer necessidade de considerar como aspectos molde teórico, esperando que a sociologia pudesse, nesta
tão separados e isolados de um contexto compreensivo se base, estabelecer-se como uma disciplina mais ou menos
relacionam entre si. Aconteça o que acontecer, a relação autónoma. Mas desde o começo que este esforço esteve
aparece como uma consequência, uma soma, que mais votado ao fracasso.
tarde se adapta a objectos isolados, intrinsecamente não Isto em nada diminuiu a grandeza do seu trabalho
relacionados. nem a importância que teve para a sociologia. As lutas
Também aqui há necessidade de uma reorientação. e os conflitos, os erros e as derrotas dos grandes homens
O tipo especial de ordem associado aos processos de inter· podem ter um papel muito importante no desenvolvimento
penetração social é melhor considerado se começarmos da ciência. Porém, passado um certo tempo, os erros podem
pelas conexões, pelas relações, e trabalharmos a partir obstruir a via. Um leitor atento da literatura sociológica
delas para os elementos nelas envolvidos. Os nossos mode· clássica, encontrará frequentemente vestigios deste pro­
los de processos de interpenetração já mostraram que blema complexo da relação entre o indivíduo e a socie­
tipos de conceitos ,são necessários se não queremos tornar dade. Dada a utilização prescritiva, estática e isolada destes
abstractas as relações fundamentais que os indivíduos têm dois conceitos, o problema era insolúvel. Weber procurou
uns com os outros. O mesmo se passa com o conceito de evitar as armadilhas tanto no seu trabalho teórico como
poder. Mais uma vez o termo «podern é usado como se no seu trabalho empírico, representando ttudo o que pode
se referisse a um objecto isolado em estado de descanso. ser dito sobre as 11sociedadesn como abstracções sem reali­
Em vez disso, mostrou-se que o poder denota uma relação dade actual, e considerando a sociologia como uma ciência
entre duas ou mais pesscias, ou talvez mesmo entre pessoas generalizadora. O uestadon e a 1maçãou, a ufamílian e o
e objectos naturaL.o:;, que o poder é um atributo de relações, uexérciton apareciam-lhe, consequentemente, como <<estru­
que o termo é melhor usado conjuntamente com uma turas sem outro significado que não o de um padrão par­
advertência das alterações de poder mais ou menos flu­ ticular da acção social das pessoas individuaisn.
tuantes. Isto é um exemplo da transformação num con· Segundo este autor, os abstractos juízos da sociologia
ceito de relação, de um conceito que tradicionalmente se não podem nunca fazer justiça à multiplicidade das acções
baseia em componentes estáticos. individuais, tendo, contudo, a vantagem da precisão. Na
Há muitos outros exemplos. O conceito de indivíduo, sua teoria, Weber destruiu a usociedaden transformando-a
por exemplo, é um dos conceitos mais confusos, não só numa massa de acções mais ou menos desordenadas,

126 127
efectuadas por indivíduos adultos separados, totalmente a cuidar de si próprios nesta ou naquela poSJçao social,
independentes e autoconfiantes. Esta atitude forçou-o a podem casar e ter filhos e, finalmente, morrem. Assim,
uma posição em que as estruturas, tipos e regularidades um indivíduo pode definir-se justificadamente como uma
observáveis surgem como irreais. Pôde considerar as estru­ pessoa que se automodifica, que, tal como muitas vezes
turas caracteristicamente sociais, tais como as administra­ se diz, atravessa um processo- um tipo de afirmação
ções burocráticas, os sistemas económicos capitalistas ou semelhante à de uo rio corre» e «o vento soptall, como
os tipos de domínio carismáticos, apenas como produtos já mencionámos. Embora vá contra os nossos hábitos de
artüiciais dos próprios sociólogos, como concepções cien­ discurso e pensamento, seria muito mais adequado dizer
tificas precisas e ordenadas, referentes a. algo que na reali­ que uma pessoa está em constante movimento; ela não
dade não é estruturado e ordenado. só atravessa um processo, ela é um processo. Então por­
Assim, Max Weber foi no seu trabalho teórico um que é que os eruditos usam tantas vezes conceitos como,
dos grandes representantes do nominalismo sociológico; por exemplo, o de individuo, que levam a que cada pessoa
para aqueles que se inclinavam por este modo de pensar, pareça um adulto totalmente auto-confiante, não estabe­
a sociedade humana surge como sendo um mero flatus lecendo quaisquer relações e mantendo-o totalmente iso­
voeis. Emile Durkheim (1858-1917) perfi1hou a concepção lado, como se nunca tivesse sido criança e, portanto, nunca
oposta. Também ele se esforçou por encontrar uma solu­ se tenha tornado adulto? A resposta é relativamente sim­
ção para o beco sem saida em que sempre se caiu, quando, ples. O conceito tradicional de indivíduo, veicula uma ima­
tal como foi dito, contrapomos o conceito de indivíduo ao gem mental. Fomos educados desde pequenos para nos

i
j' de sociedade como se fossem dois fenómenos estáticos. tornarmos independentes, adultos perfeitamente auto-con­
� Em De la division du travail social escreveu: fiantes, desligados de toda a gente. Acabamos por acre­
ditar e por sentir que somos realmente o que deveríamos
� uma verdade evidente que não há nada na vida social e talvez desejássemos ser. Mais precisamente, confundimos
', '
que não esteja nas consciências individuais. Contudo, tudo o os factos com os ideais, ou seja, aquilo que é com aquilo
que encontramos nestas vem da sociedade. A maior parte dos que deveria ser.
nossos estados de consciência não se teriam produzido entre Porém, recorrendo apenas a valores semiconscientes,
seres isolados e produzir-se-iam de um modo totalmente dife­ não nos apercebemos totalmente desta estranha dissocia­
rente entre seres que se agrupassem de uma outra maneira 4- ção das pessoas como indivíduos relativamente às pessoas
como sociedades. As raizes dessa dicotomia residem, em
A literatura sociológica e outra literatura recente con­ última instância, no modo peculiar como nos autoconhe­
têm exemplos incontáveis deste problema ((do ovo e da cemos, modo que tem sido característico de círculos cada
galinha». Quer a <<sociedade» quer o <dndividuou podem ser vez mais latos nas sociedades europeias a partir do Renas­
valorizados e, como tal, considerados como reais. Ou, tal cimento e que, eventualmente, caracterizaram algumas éli­
como tentou Talcott Parsons, podemos considerar como tes intelectuais dos tempos primitivos. Somos levados a
reais primeiro um e depois o outro (com o ({egon ou o acreditar que o nosso ((eun existe de certo modo «dentrm>
<(indivíduo actuante», de um lado, e o ((Sistema social)), de nós; e que há uma barreira invisível separando aquilo
do outro). Mas não pode haver saída para esta ratoeira que está «dentron daquilo que está doran - o chamado
intelectual enquanto ambos os conceitos- quer lhes cha· ((mundo exterior». Aqueles que tomam consciência de si
roemos <<actonl e «sistema», ((pessoa única» e utipo idealn próprios deste modo - como uma espécie de caixa fechada,
ou uindivíduoll e ((Sociedadell - mantiverem a sua caracte· como um Homo clausus- pensam que isto é imediata­
rfstica tradicional enquanto substantivas, parecendo refe· mente evidente. Não conseguem imaginar que há indivíduos
rir-se a objectos isoladOs em estados de repouso. que não se vêem nem vêem deste modo o mundo em que
Examinemos ao microscópio o conceito de indivíduo. vivem. Nunca perguntam qual a parte de si próprios que
Ao reunir os factos observáveis a que se refere, nada mais constitui, de facto, o muro de separação e qual a parte
encontramos do que seres isolados que nascem, têm de que está encerrada dentro deles. Será a pele uma parede
ser alimentados e protegidos durante largo tempo pelos que encerra o verdadeiro eu? Será o crânio ou a caixa
pnis ou por outros adultos, crescem lentamente, passant toráxica? Onde está e qual é a barreira que separa o

128 129
' ''

intimo humano de tudo o que está lá fora, onde está vez que distinguiu entre as acções individuais que são
e qual é a substância que contém? E: difícil sabê-lo, por­ sociais e as acções individuais que o não são - que são,
que dentro do crânio apenas encontramos o cérebro, den­ por conseguinte, puramente uindividuaisn. Dos exemplos
tro da caixa toráxica, o coração . e os órgãos vitais. Será que deu, toma-se evidente como esta distinção era proble­
verdadeiramente este o cerne da individualidade, o eu ver­ mática. De acordo com Weber, abrir um chapéu de chuva
dadeiro, com uma existência à parte do mundo exterior e, quando chove não é uma acção social. Aos seus olhos,
portanto, à parte da «sociedade>>? Usam-se muitas vezes a acção de abrir um chapéu de chuva é realizada sem
metáforas espaciais que nos localizam numa posição inde­ que se atenda aos outros. Jr: claro que nunca lhe ocorreu
monstrável, dentro de limites que de certo modo somos que os chapéus de chuva só se encontram em certas socie­
nós próprios, mas cuja existência é difícil provar. Estas dades, não se fabricando nem se utilizando noutras. Do
metáforas exprimem um sentimento humano extrema­ mesmo modo, interpretou como não-social um choque entre
�mente forte e recorrente, de cuja autenticidade não pode­ dois ciclistas; só os insultos e a pancada que eventual·
mos duvidar. Mas é duvidoso que esta concepção do eu, mente se seguissem eram acções sociais. Weber sustentava
e esta imagem do ser humano em geral, correspondam serem não sociais todas as acções que apenas se dirigem
aos factos. Sem que aprofundemos todos os problemas a objectos inanimados, embora seja evidente que pessoas
aqui levantados, devemos dizer que a imagem do homem diferentes poderão dar significados diversos a uma rocha,
como Homo clausus é problemática�. Bastará apontar que a um rio ou a uma tempestade. Assim, as pessoas nas
é este modo de autopercepção e esta imagem da humani­ sociedades mais rudimentares, com sistemas de crenças
dade que dão poder e convicção à ideia de que a usocie=­ mágico-míticas, atribuirão diferentes significados a esteS
dade)) existe para além dos individues ou que os <dndiví· objectos e, assim, o seu comportamento para com eles
duosn existem para além da sociedade. Os teóricos da também será diferente do comportamento de pessoas de
sociologia demonstram-no claramente nas suas lutas fúteis sociedades industriais mais secularizadas. Teve grande
com tais problemas; como escreveu Durkheim: influência no pensamento de Max Weber o sentimento de

,, I
'· Temos, por conseguinte, que considerar os fenómenos sociais
que deve haver algures uma linha de demarcação ou uma
divisão entre o que podemos designar como individual e
' .'
I, , I em si mesmos como sendo distintos das representações cons· o que pode ser considerado social. Mais uma vez se pode
'' cientes que deles temos; temos que os estudar objectivamente ver como este modo de definir o problema foi modelado
ii:' como coisas externas, pois é esta a característica que eles nos pelo conceito de indivíduo, parecendo referir-se a uma
I!
'·.I 'I,
apresentam. Se se provar que essa exterioridade era apenas pessoa aparentemente estática, mais do que a alguém que
aparente, o avanço da ciência trará desilusões c veremos que cresceu, mudou e está ainda a mudar, que está ainda a
a nossa concepção dos fcnómenos sociais muda. tornando-se l(transformar-sen.
\i' i
I' ; Esta pessoa estática é um mito. Se cada um for visto
de objectivos que ctám em subjcctivos o;.
como um processo, podemos provavelmente dizer que,
Durkheim lutou toda a sua vida com este problema, à medida que cresce, se torna cada vez mais independente
mas em vão. Ao abordá-lo, deparou com problemas que - embora isto só seja verdade em sociedades que ofere­
se centravam na existên'cia de fenómenos sociais uexterio· cem um escopo bastante lato de individualização. Mas cer­
res)) em relação ao individuo e à sua consciência 11íntiman, tamente que, quando criança, cada um de nós foi tão
e, estreitamente relacionados com estes, um conjunto de dependente quanto possível dos outros - tivemos que
problemas mais antigos da teoria do conhecimento que aprender com eles a falar e mesmo a pensar. E tanto
giram em torno da existência de objectos 11exterioresn c quanto podemos averiguar, é totalmente alheio às crian­
da sua relação com o sujeito gnosiológico individual e da ças o sentimento de estarem desligadas, de estarem presas
sua 11consciêncian, uespírito)), urnzãon e outros atributos lldentro)) do seu próprio eu. Encontram-se repetidamente
igualmente uinternosn. Max Weber pegou no problema de certas dificuldades sempre que queremos chegar a uma
um modo diferente. Mas, embora talvez tenha tido menos solução convincente para o problema das relações entre
consciência do que Durkheim das dificuldades, esta<> não aquilo a que chamamos o indivíduo e aquilo a que chama­
deixam de aparecer claramente nos seus trabalhos, uma mos a sociedade. Certamente que estas dificuldades se

' I 130 131


'"i ·:'
''
, r
! separados, distintos tanto das outras pessoas como dos
relacionam estreitamente com a natureza destes dois con­
objectos naturais. A reflexão e a consciência interpõem-se
ceitos. Ao procurarmos libertar as nossas mentes das limi­
de um modo crescente no processo de adestramento social,
tações impostas pelas ideias que estes conceitos fomentam,
como inflUências controladoras e dominadoras entre os
a primeira coisa a notar é que elas se baseiam num sim­
ples facto. Um conceito refere-Se a pessOas no singular, impulsos espontâneos que cada um tem para agir, e as
o outro a pessoas no plural. Depois de traduzirmos isto outras pessoas, os outros objectos naturais. Portanto, é difí­

por palavras, este estranho modo de nos conhecermos cil combinar a ideia de que o sentimento de uma linha
--como se cada pessoa singular existisse acima e para de demarcação entre o ((eu interior11 e o ((mundo exterior>'
além das outras pessoas- vai afrouxando um pouco. Não é genuína e a ideia de que essa linha de demarcação é
inexistente. De jacto, requere-se um esforço ulterior de
podemos imaginar uma pessoa isolada e absolutamente
sozinha num mundo que é, e sempre foi, desligado dos
auto-distanciamento. E isto é essencial se reconhecermos
outros. A imagem do homem que necessitamos para o que a separação aparentemente real entre o eu e os outros,

estudo da sociologia não pode ser a da pessoa singular, o individuo e a sociedade, o sujeito e os objectos, é de
do Homo Sociologicus. Tem que ser antes a de pessoas facto a reificação da libertação da nossa própria experiên­
no plural; temos obviamente que começar com a Imagem cia, libertação essa instilada pela própria sociedade.
de uma multidão de pessoas, cada uma delas constituindo
um processo aberto e interdependente. Tudo isto estava
implícito nos modelos de jogo do capítulo anterior. Logo OS PRONOMES PESSOAIS
que nasce, todo o individuo começa a jogar com os outros.

:i;'
': ·
COMO MODELOS FIGURACIONAIS
Mesmo o mais frágil bebê tem os seus trunfos no choro

'I
e no riso. Mas se fizermos justiça ao processo nunca
acabado pelo qual cada um se relaciona constantemente Seria estranho que a nossa linguagem quotidiana não
' com os outros, será necessário modificar o processo de nos fornecesse meios de discurso capazes de um desen­
'
' volvimento posterior ao longo destas páginas. De facto,
' auto-experiência de que falámos anteriormente.
'
li: provável que nunca compreendamos os problemas temos à nossa disposição toda uma cadeia destes instru­
da sociologia se não nos conseguirmos ver como pessoas mentos. 1!: precisamente pelo facto de diferirem do tipo
entre outras pessoas, envolvidas em jogos com os outros. habitual de reüicação de conceitos que temos uma cons­
ciência insuficiente do seu potencial na conceptualização

1: I
Poderá parecer fácil, talvez mesmo trivial, esta formu­
lação da reorientação. Mas não é. Este processo de tomar­ científica. Um dos modelos mais promissórias que encon­
mos consciência de nós próprios como seres cujo ((eu inte­ tramos na nossa linguagem para uma formação não reifi­
' rior» se situa à parte dos outros, desligado das «coisas exte­ cante de conceitos está nos pronomes pessoais. Em ciências

rioreS�� - que sigi1ificam tanto a ((Sociedade» como os humanas não constitui novidade a utilização destes prono­
uobjectos»- por uma espécie de barreira invisível, tem mes para formar novos conceitos. Mas os primeiros pro­
as suas raizes muito profundas em sociedades altamente cessos de tal procedimento d�monstram como é forte a
individualizadas, ajustadas a uma grande reflexão inte­ tradição que nos força (quando pensamos nelas) a trans­
lectual; isto está de tal modo enraizado, que temos de formar relações em objectos estáticos não relacionados.
fazer um esforço ulterior de distanciamento antes de con­ O pronome ((ellll é geralmente usado para comunicar aos
seguirmos chegar à ideia aparentemente simples de que outros que uma certa asserção se refere à pessoa que
cada pessoa é uma entre as outras, e a todas as conse­ fala. Mas numa utilização científica é transformado abrupta­
quências que dai advêm. Actos de reflexão realizados como mente num substantivo e, dado o hábito predominante de
coisas naturais pelos membros individuais de sociedades discurso, parece referir-se a uma pessoa independente e
diferenciadas, implicam actos de autodistanciamento - dis­ isolada. O conceito de ego tal como é u�ado por Freud
tanciamento relativamente aos objectos do seu próprio ou Parsons é um bom exemplo de como este conceito de
pensamento. A medida que a sociedade humana se desen­ relação se pode transformar num conceito de substância,
volve, as pessoas vão tomando consciência de si mesmas no conceito de uma coisa. A utilização que Parsons faz do
de um modo cada vez mais intenso, como sendo entes termo ((ego» demonstra a força de um modo de pensar

132 133
r ,i
!
,
,
'
'

que se centra no individuo. Foi muito característico o facto


de um sociólogo como Parsons ter deslocado o ({eun, iso­
últimos termos devem (dentro de uma detenninada forma
de comunicação> referir-se sempre à mesma pessoa. Carac­
lando-o da série de pronomes, contrastando--o com todas as risticamente, podemos usar numa mesma situação, o mesmo
outras pessoas, embora na verdade nós as experimentemos pronome pessoal, referindo-nos a várias pessoas. Isto é pos­
como tu, ele, ela, nós, vós e eles e não como l<altern ou sível porque os pronomes são relacionados e funcionais;
«o outrm1. Há poucas características da sociologia teórica exprimem uma posição que é relativa quer àquele que fala
hoje predominante que mostrem tão claramente como estas nesse momento quer a todo o grupo que comunica. O con­
as suas limitações. ceito de 1ceun- o pronome da primeira pessoa- é sinto­
Compreende-se facilmente que a posição individual mático da natureza de todo o conjunto, indicando a posi­
neste tipo de relações não possa ser tratada separada­ ção tomada pelas pessoas que comunicam nas suas relações
mente. A função que o pronome <<eun desempenha na umas com as outras. Serve de meio de orientação num
comunicação humana só pode ser compreendida no con­ grupo, quer os seus membros estejam ou não realmente
texto de todas as outras posições relativamente às quais presentes, quer as pessoas apenas se refiram a si próprias

,
se referem os outros termos da série. As seis outras pro­ em voz alta como ffeUII quando estão na presença dos
posições são absolutamente inseparáveis pois não conse­ outros, quer usem o conceito silenciosamente quando pen·
,
guimos imaginar um ffem> sem um lftun, sem um llelen ou sam em si mesmas. De qualquer modo, tem que incluir a
' '
'' uma uelan, sem nós, vós ou eles. ideia de outras pessoas que ocupam outras posições na
i Os pronomes pessoais representam o conjunto elemen­ trama de relações a que o conjunto de pronomes pessoais
,I '
tar de coordenadas com as quais se podem esboçar todas se refere. Como já dissemos, não pode haver um «eu» sem
as sociedades ou agrupamentos humanos. Ao comunicar que haja um cctm1, ffelen, ((ela», ffllósn, <<Vósn, «eles». Jt per·
directa ou indirectamente, referimo-nos a nós próprios j, feitamente ilusória a utilização dos conceitos de eu ou
como c1eun ou unósn e designamos por ((tun aqueles com ego, independentemente da sua posição dentro da trama
quem queremos comunicar nesse momento. A terceira pes­ de relações a que se referem os restantes pronomes.
soa que, de um modo temporário ou pennanente, fica Os pronomes pessoais são no seu conjunto uma expres­
fora do grupo de comunicação, é designada por f<elen ou são elementar do facto de que cada um se relaciona fun­
ffela>l, ou no plural por f<elesn ou uelas11. Há sociedades damentalmente com os outros e de que cada ser humano
que utilizam outros sinais que permitem aos seus mem· individual é essencialmente um ser social. Isto vê-se muito
bros comunicar qual das posições básicas na trama das claramente na eonsciencialização que uma criança vai tendo
comunicações é ocupada pela pessoa . a quem nos estamos de si mesma como alguém desligado dos outros. A cons�
a referir. Mas parece que todos os grupos humanos têm ciência que cada um tem da sua própria existência sepa�
certos símbolos estandardizados para o conjunto de coor­ rada é idêntica à consciência que cada um tem de que os
denadas que é em··st mesmo uma das propriedades univer­ outros existem separadamente. A compreensão do signifi­
sais das sociedades humanas. Os níveis mais baixos de cado do conceito de ffeUII - que nem sempre é a mesma
integração não têm qualquer fonna de relação equivalente coisa que a utilização da palavra eu- relaciona-se intima­
à experiência e agrupamento de f<eusn como eu, tu, ele, mente com a compreensão do significado dos conceitos de
ela, vós e eles. Esta forma de relação não pode ser reme­ tu ou de nós. No desenvolvimento quer de indivíduos sfn·
tida para níveis anteriores nem explicada em tennos des· guiares quer da totalidade de grupos de pessoas, pode
tes. Ilustra a autonomia relativa das sociedades fonnadas haver etapas durante as quais a diferenciação conceptual
por pessoas e dos tipos de comunicação que as caracte­ entre as várias posições na trama de relações é menos
rizam. pronunciada do que no caso de uma utilização linguistica
Como vimos, o conjunto de proposições a que se refe­ em sociedades mais diferenciadas. É certamente possivel
rem os pronomes pessoais diferem Ç.aquilo que habitual· que as expressões simbólicas da primeira e da terceira
mente temos em mente quando falamos de posições sociais pessoas sejam menos distintas; para se referir a si mesmo,
como sendo papéis- conjuntos de posições como pat-mãe­ um homem pode usar o mesmo símbolo que os outros
·filha·filho ou subalterno - sargento, cabo, recruta. Estes usam - o seu nome. As crianças fazem-no muitas vezes.

134 135
E provavelmente as expressões para a primeira pessoa do No entanto, há um outro grupo de problemas que
singular e do plural não são igualmente diferenciadas em pode ser abordado com a ajuda deste modelo, mas que
todos os casos; nalgumas sociedades pode ser habituai seria de abordagem impossivel se nos limitássemos a apli­
dizermos «nósn em situações particulares em que outras car-lhes o tipo de formação de conceitos que habitualmente
sociedades se diz «eu)). Há aqut um grande escopo para predomina. Ao utilizar conceitos que parecem referir-se a
estudos comparativos. Podem começar como estudos pura­ objectos isolados e estáticos, é difícil fazer justiça ao facto
mente linguísticos, mas manter-se-iam incompletos a não de que todas as relações entre as pessoas são uma questão
ser que se encarassem as diferenças de natureza e utili­ de perspectiva. Em relação com o índice de complexidade
zação dos pronomes pessoais como sendo sistemas das (ver p. 112) já foi sugerido que a relação AB entre duas
diferenças existentes na estrutura dos grupos relevantes, pessoas compreende na realidade duas relações distintas
na sua relação interpessoal e no modo como essas rela­ - a relação AB vista sob a perspectiva de A e a relação BA
ções são percebidas. Por exemplo, teria interesse ver como vista sob a perspectiva de B. Ao trabalhar com conceitos
conjuntos de pronomes de designação se diferenciaram e que fazem as relações regulares parecer objectos estáticos,
evoluiram nas diferentes línguas europeias r. é difícil fazer justiça à natureza perspectivacional de todas
'· Não podemos, contudo, explorar a ampla série de as relações humanas. A sequência de pronomes pessoais

' problemas empíricos afins. A nossa discussão sobre o dá-nos um material bruto de conceitos, permitindo-nos tra­
!'I significado da série de pronomes pessoais conduz-nos ime­ balhar nestes problemas de um modo muito mais adequado.

1. .: diatamente a uma transição fácil da imagem do homem


como Homo clausus à de Homines aperti. Também nos
Para começar, toma-nos conscientes de que todas as pessoas
de que falamos na terceira pessoa, falam de si próprias na
ajuda a compreender algo mais - que o conceito de indi· primeira, e de nós, na terceira pessoa. O conceito de função
viduo se refere a pessoas interdependentes, e o conceito dá-nos um exemplo simples da natureza perspectivacional
I'
i
de sociedade a pessoas interdependentes no plural. das relações humanas. 1:: geralmente utilizada em relação
Justifica-se perfeitamente (tomando-se mesmo absolu· com a manutenção de um sistema social particular. De um
:· .: mente necessário), que o trabalho cientifico nestes dois modo geral, diz-se que uma determinada instituição desem­
· ji campos seja atribuído a dois grupos diferentes de espe­ penha esta ou aquela função para a sociedade. Mas se
cialistas. O primeiro deveria ser do âmbito de psicólogos ultrapassarmos o uso reificante do conceito de instituição,
e psiquiatras e o segundo de sociólogos e psicólogos sociais. olhando para aqueles que a formam, torna-se evidente que
Considerannos os pronomes pessoais como modelos, torna considerarmos as funções .sociais de uma única perspectiva
mais fácil a compreensão de que é possível distinguir, nesta. é uma simplificação grosseira. Isto liga-se com outra ins­
longa caminhada, a pesquisa efectuada sobre pessoas no tância em que a reificação esconde a verdadeira natureza
singular da pesquisa realizada sobre pessoas no plural, mas dos factos. Como o conceito natural de função é de natureza

',,
' que é impossível separá-las - tal como as pessoas no sin· substantiva, fica oculto que as fnnções são atributos de
,''·i ' guiar não podem ser separadas das pessoas do plural. relações e que são objecto de múltiplas perspectivas.
Ao mesmo tempo, este modelo torna-nos mais clara a Assim, do ponto de vista daqueles que as constituem,
,: i ': as instituições nunca desempenham uma função exclusiva
'' ' ideia de que certos hábitos de pensamento são pouco ade­
': i ' ' quados à situação humana. Estes hábitos descrevem o ((eu»
para o chamado fiSistema11, tal como um estado ou uma
'
· ''i '
tribo; desempenham também uma função para com os
real como se este residisse algures na pessoa individual,
seus membros. Por outras palavras, têm uma flfunção de
·: : perfeitamente isolado dos outros a quem nos dirigimos
eu11 assim como uma «função de ele11 •. Cada uma dessas
como lltUll, <mósn, lleles)) ou llelas11. Tenhamos presente que
funções pode predominar, de acordo com o modo de dis­
o facto de nos percepcionarmos como pessoas de quem se
tribuição do poder. Por exemplo, na França de Luis XIV,
diz ueun, implica que percepcionemos os outros como «ele11,
«elan, fmósn, <<vósn, «elesn. Talvez esta lembrança nos torne
mais fácil atingir um grau de distanciamento quanto ao * 1t function no original inglês e cs Funktion no original
sentimento de que a nossa existência como pessoa é <cinte­ alemão. It e es são pronomes pessoais neutros sem correspon·
riorll enquanto a existência dos outros é ffexteriorn. dência na língua portuguesa (N. do T.).

136 137
o ofício de rei desempenhava uma função para o próprio
pensáveis mas por si só não conseguem explicar o decurso
Luis XIV que tinha precedência sobre a sua função para
do jogo. Já foi explicado como e porquê as perspectivas
a França. Co�o resultado de uma democratização cres­
dos jogadores individuais se cruzam de modo a constituir
cente, a funçao que os cargos governamentais desempe..
um jogo que nenhum jogador individual consegue contro­
nham numa sociedade-estado, têm precedência sobre a

á.u
lar. Pelo contrário, é mais provável_que as jogadas, os pla­
função que eles têm para aqueles que os ocupam embora
nos e as perspectivas dos jogadores sejam influenciados
esta não desapareça completamente. Qualquer an se das
pelo jogo. O modelo de pronome ajuda-nos a compreender
posições sociais e das funções sociais que não atenda a
a natureza perspectivacional das teias de interdependência
estas múltiplas perspectivas manter-se-á unilateral. Não


humana. Num aspecto, torna possivel uma afirmação mais
conseguirá captar o que realmente acontece. Além disso
nitida do problema sociológico. Utilizando termos como
�ma análise mais profunda mostra realmente que, pel
<<estrutural,, «sistema11 e «função''• procura tornar mais
menos no que respeita a sociedades mais complexas de
clara a perspectiva do «elesll nos caminhos que os jogos
vários níveis, o tema não se esgota nas funções de ((eun
tomam. Mas os sociólogos têm muitas vezes simultanea­
I' (ou de «ele»). Muitas vezes são precisos todos os pro­
'l mente outro problema - o de decidirem como é que os
nomes da série para que se faça justiça às múltiplas pers­
'1 ·i próprios participantes vivem as suas jogadas no decurso
"i ·i pectivas que caracterizam as funções das instituições

:I'
I
''
': ·I· sociais.
do jogo. Portanto, a sociologia deve atender tanto à pers­
I pectiva da primeira como da terceira pessoas. Do mesmo
' I Já Max Weber se colocava na peugada deste pro­
modo, o modelo de pronome mostra que nunca podemos
blema. Tal como muitos dos seus predecessores, tentou
.: : considerar as pessoas como seres singulares e isolados;
chamar a atenção para as perspectivas do «eun e do cmá:m
temos sempre que as encarar inseridas em configurações.
nos factos sociais, tanto na sua obra teórica como ocasio­
Um dos aspectos mais elementares e universais de todas
nalmente também no seu trabalho empírico. No centro
,.!
as configurações humanas é o de que cada ser é inter­
da sua teoria há um desafio aos sociólogos para que estes
depente - cada um se pode referir a si mesmo como «em>
resolvam o problema do significado, o sentido pretendido
e aos outros como «tun, «ele11, ou «elan, unós11, «vós» ou
que as acções e as metas sociais têm para os seus próprios
((elesn. Não há ninguém que nunca tenha estado inserido
autores. O próprio Max Weber só em parte resolveu este
numa teia de pessoas. E designamos isto oralmente ou
problema, mas aproximou-se mais da sua resolução do
que qualquer dos seus predecessores. De um modo geral,
pensamos nisto por meio de conceitos que se baseiam
têm dado a este processo de abordar o problema menos em pronomes ou noutros meios análogos de expressão.
atenção do que ele merece. Uma das razões fundamentais A concepção que cada um de nós tem destas configu­
�este esquecimento é o facto de não podermos fazer jus­ rações é uma condição básica para a concepção que cada
tiça ao carácter multiperspectivacional das interconexões um tem de si próprio, como pessoa isolada. O sentido que
sociais sem que tenhamos uma estrutura relativamente cada um tem da sua identidade está estreitamente relacio­
precisa de tais relações, como por exemplo a que é for­ nado com as «relações de nósu e de <<eles11 no nosso pró­
necida pelo modelo de pronome. prio grupo e com a nossa posição dentro dessas unidades

I
O modelo de pronome pode ser assim utilizado como que designamos por «nóS>I e c<elesu. Contudo, os pronomes
conj�nto de coord�nadas com referência não só às funções nem sempre se referem às mesmas pessoas. As configura­
. . _
socuus mas também a qualquer ((estrutura social parti­ ções a que habitualmente se referem podem mudar no
'! cular». Teve a vantagem de nos permitir ver novamente
as pessoas por detrás de tudo quanto é impessoal, mesmo
decurso de uma vida, tal como uma pessoa muda. Isto é
verdadeiro não só para todas as pessoas consideradas sepa·
'
das estruturas sociais extra-humanas, que tão copiosa e
!' radamente como também para todos os grupos e mesmo
desordenadamente enchem as páginas dos manuais de
't para todas as sociedades. Todos os seus membros dizem
sociologia.
c<nósn quando se referem a si mesmos e «eles» quando se
Mas é claro que não nos podemos simplesmente limi­


referem aos outros, porém, à medida que o tempo passa,
tar a definir as perspectivas (de momento unilaterais )
podem dizer «nós» ou «eles» referindo-se a diferentes
dos jogadores que participam num jogo. El s são indiS·
pessoas.

138 139
r.1
I ! O CONCEITO DE CONFIGURAÇÃO víduo. l! óbvio que uma coisa não pode ser feita sem a
outra. Ao estudar a humanidade, é possível fazer incidir
É pouco comum hoje em dia que uma obra sobre um feixe de luz primeiro sobre as pessoas singulares e
problemas da sociedade trate de um modo profundo a depois sobre as configurações formadas por muitas pes­
''I '' noção de indivíduo, da pessoa "singular. A especialização soas separadas. Mesmo assim, a compreensão de cada um
' científica é actualmente tão rigorosa que a inclusão na
: dos níveis será afectada, a não ser que ambos os aspectos
I consideração das caracteristicas universais da sociedade sejam constantemente considerados. A utilização que hoje
]·'':
de problemas que envolvam as pessoas no singular e no fazemos destes conceitos poderia levar-nos a acreditar que
plural aparece quase como uma ilegalidade, uma infracção o dndivídum> e a usociedaden denotam dois objectos que
de fronteiras ou mesmo como uma alteração das linhas existem independentemente, enquanto, na verdade, se refe­
de demarcação. Talvez já se tenham feito suficientes rem a dois níveis diferentes mas inseparáveis do mundo
sugestões de que o divórcio convencional do estudo cien­ humano.
da pessoa relativamente ao estudo cientifico das pes­
tifico Se queremos introduzir novos conceitos de modo a
soas é um problema discutível - mas notemos que se abordar adequadamente o problema devemos refrear-nos
trata apenas de divórcio e não de distinção. Uma das falhas um pouco. Muitas vezes os cientistas abusam do direito
mais sérias das teorias sociológicas convencionais reside que têm de pôr a circular novos conceitos que exprimam

'i'
'" no facto de estarem de acordo quando tentam apresentar novas ideias. Ora isto pode bloquear certos canais de
uma concepção clara das pessoas enquanto sociedades, comunicação, tanto dentro da disciplina em questão como
< , I '' fracassando quando pretendem fazer o mesmo no que entre esta e outras disciplinas. No entanto, dado o estado
' ' respeita às pessoas enquanto individuas. presente da discussão sociológica, há uma razão especifica
'

. 1 ·,
Deste modo, os horizontes da sociologia estão limi­ para introduzirmos aqui o conceito de uconfiguraçãon.
tados, não porque estes dois aspectos constituam real­ Torna-nos possível resistir à pressão que sofremos por
mente assuntos separados, mas devido a uma comparti­ parte da sociedade e que nos leva a fragmentar e pola­
mentação profissional. Como resultado, os teóricos traba­ rizar o nosso conceito de humanidade. Este tem-nos impe­
I , . lham como base numa certa concepção do indivíduo, ((bem­ dido repetidas vezes de pensarmos as pessoas como indi­
' -fundada11, mas que na verdade nunca foi submetida a um víduos ao mesmo tempo que as pessoas como sociedades.
escrutínio crítico. Devido às suas teorias e hipóteses sobre Esta polarização conceptual é um reflexo muito nítido de
a sociedade, aceitam sem quaisquer críticas uma das con­ vários ideais sociais e sistemas de crenças. Por um lado,
cepções pré-científicas sobre a pessoa, misturada com toda há um sistema de crenças cujos adeptos atribuem o mais
a espécie de juízos de valor e de ideais que lhe estão alto valor à <(sociedaden; por outro, há um sistema de
implícitos. Se encararmos de frente este problema, logo crenças cujos adeptos atribuem o mais alto valor ao
se torna evidente que a divisão entre concepções da pessoa ((indivíduon. O que daqui resulta- que há dois valores
e concepções das pessoas na sociedade é uma aberração diferentes correspondendo a dois objectos que existem
intelectual. O prejuízo que isto provoca nas disciplinas separadamente - está a tornar-se uma ideia fixa na cons­
! i psicológicas não precisa de ser agora examinado de perto. ciência contemporânea. Isto reforça a ideia do eu como
As suas teorias são como holofotes que iluminam a pessoa ((estando numa caixa fechadan e do homem como Homo
individualixada; o modo como esta se insere na sociedade clausus.
fica, no entanto, nos limites sombrios da sua visão e dos O conceito de configuração s serve portanto de sim­
seus interesses, chamando-lhe indiscriminadamente ((back­ ples instrumento conceptual que tem em vista afrouxar o
ground)), uambienten ou ((ffieion. Os sociólogos não deviam constrangimento social de falarmos e pensarmos como se
de modo algum estar de acordo com uma tradição que o uindividuon e a ((sociedade11 fossem antagónicos e dife­

' 1 1 '1
, , ., restringe o escopo das teorias sociológicas exclusivamente rentes.
,'

;1
,, ; I
à ((sociedade)), que examina à lupa as teorias sobre a socie­

''�i ..';
Os modelos de processos de interpenetração já des­
dade, que as critica procurando conciliá-las com outros critos neste livro tornam bastante clara a utilização do
conhecimentos disponíveis mas que, no entanto, não segue conceito de configuração. Se quatro pessoas se sentarem
i
'
o mesmo caminho no que respeita às ideias sobre o indi- à volta de uma mesa e jogarem cartas, formam uma con-

140 141
rli) ,,
·:,
!� :
figuração. As suas acções são interdependentes. Neste caso Assim, ainda se torna mais evidente o pouco sentido que
ainda é possível curvarmo-nos perante a tradição e falar� teria a consideração de cada jogador individual como sendo
mos do jogo como se este tivesse uma existência própria. algo de 11concreto» e a configuração formada pelo conjunto
Ê possível dizer: llO jogo hoje 4 noite está muito lento!». dos jogadores como algo de «abstracto»; ou encarar cada
Porém, apesar de todas as expressões que tendem a jogador individual como 11realn e o grupo de jogadores
objectivá-lo, neste caso o decurso tomado pelo jogo será (na configuração fluida que formam quando em campo)

I
·. obviamente o resultado das acções de um grupo de indi­ como 11irrealn. Mais, torna-se mais claro, porque é que
·' o conceito de poder se transformou de um conceito de
: , ., víduos interdependentes. Mostrámos que o decurso do jogo
: ! é relativamente autónomo de cada um dos jogadores indi­ substância num conceito de relação. No seio das configu­
viduais, dado que todos os jogadores têm aproximadamente rações mutáveis- que constituem o próprio centro do pro­
a mesma força. Mas este decurso não tem substância, não cesso de configuração- há um equilíbrio flutuante e elás­
· I' tem ser, não tem uma existência independente dos joga. tico e um equilíbrio de poder, que se move para diante
dores, como poderia ser sugerido pelo termo «jogo)). Nem e para trás, inclinando-se primeiro para um lado e depois
! �
'' .. o jogo é uma ideia ou um 11tipo idealn, construído por um para o outro. Este tipo de equilíbrio flutuante é uma
i '· observador sociológico através da consideração do com­ característica estrutural do fluxo de cada configuração.
. portamento individual de cada um dos jogadores, da Estes exemplos podem ajudar a exprimir o significado
I :
: . abstracção das características particulares que os vários do conceito de configuração, tal como ele é aqui usado.
' •I
:' jogadores têm em comum e da dedução que destas se Este pode ser aplicado tanto a grupos relativamente peque­
I' faz de um padrão regular de comportamento individual. nos como a sociedades constituídas por milhares ou milhões
,. \i
! O lljogm> não é mais abstracto do que os l<jogadoresn. de pessoas interdependentes. Professores e alunos numa
O mesmo se aplica à configuração formada pelos quatro aula, médico e doentes num grupo terapêutico, clientes
jogadores à volta de uma mesa. Se· o termo uconcreton habituais num bar, crianças num infantário - todos eles
tem algum significado, podemos dizer que a configuração constituem configurações relativamente compreensíveis.
formada pelos jogadores é tão concreta como os próprios Mas os habitantes da aldeia, da cidade ou da nação, tam­
jogadores. Por configuração entendemos o padrão mutável bém formam configurações embora, neste caso, as confi·
criado pelo conjunto dos jogadores - não só pelos seus gurações não se possam percepcionar directamente, porque
intelectos mas pelo que eles são no seu todo, a totalidade as cadeias de interdependência que os ligam são maiores
das suas acções nas relações que sustentam uns com os e mais diferenciadas. Configurações tão complexas terão

outros. Podemos ver que esta configuração forma um de ser abordadas indirectamente e compreendidas mediante
', ) entrançado flexível de tensões. A interdependência dos uma análise dos elos de interdependência. Isto ilustra uma
jogadores, que é uma condição prévia para que formem vez mais porque é que a análise sociológica nunca pode
uma configuração, pode ser uma interdependência de usar justificadamente substantivos desumanizados como
aliados ou de adversários. instrumento de investigação. Conceitos como estrutura, a
Tomando como exemplo o futebol, podemos ver que função, papel ou organização, economia ou cultura, não
uma configuração é uma estrutura de jogo que pode ter conseguem traduzir uma referência a determinadas conft·
uma hierarquia de várias relações de uem> e «ele>>, unós» gurações de pessoas. O mesmo se aplica ao conceito de
ou «elesn �. Torna-se evidente que dois grupos de adver­ 1<jogm1, se perdermos de vista o facto do jogo ser um
sários, que têm entre si uma relação de «nósn e de «eles», aspecto de uma configuração particular de jogadores.
formam uma configuração singular. Só podemos compre­ Torna-se, portanto, problemático o facto da sociologia
ender o fluxo constante do agrupamento dos jogadores de ser designada como l(Ciência do comportamentO>>, como
um dos lados, se virmos que o grupo de jogadores do tantas vezes acontece. Descrevê-Ia como tal dá a impressão
outro lado também está num fluxo constante. Se se pre­ de que os problemas sociológicos estariam em via$ �e
tende que os espectadores compreendam e gostem do jogo, solução se os sociólogos se concentrassem no comporta­
terão que estar aptos a compreender o modo como estão mento dos individuas que, em conjunto; constituem as
relacionadas as disposições mutáveis de cada lado - para formações sociais em questão. As situações sociais apare­
seguir a configuração fluida de cada uma das equipas. ceriam então como meras abstracções das características

142 143
de muitas pessoas separadas enreda-se de modo a formar
comuns do comportamento de muitos indivíduos distintos.
estruturas entrelaçadas. Uma visão atómica da sociedade
Contudo, sem dúvida que isto representa uma visão dema.
baseia-se certamente em parte numa incapacidade de com­
siado estreita e distorcida da tarefa sociológica. Uma inves­

: íl
preensão de que estas estruturas, sejam elas casamentos
tigação que se restrinja ao comportamento de muitos indi­
. ou parlamentos, criSes económicas ou guerras, não podem
víduos separados apenas permite um acesso limitado a
ser compreendidas nem explicadas pela sua redução ao
problemas de estruturas sociais, de configurações mutáveis
comportamento dos seus participantes tomados isolada­
I,! de pessoas, de distribuição de poder ou de equilíbrio de
mente. Este tipo de redução implica uma falha na com­
' '

. I'
tensões nas configurações, ou a muitas outras questões
' ' preensão da autonomia relativa do campo da investigação
I' . especificamente sociológicas.
I' sociológica no que respeita ao campo da psicologia e, con­
'I. Isto não significa que não haja lugar na investigação

', 'i, '


. . sequentemente, na compreensão da sociologia como discl·
socwlóg:ICa para os estudos estatisticos que lidam com

II ,
plina que se relaciona com a psicologia.
características comuns do comportamento dos membros
,, '
11 de certos grupos. Estes são em muitos casos indispensá­
I
' veis. O ponto em questão é a hipótese teórica na base da
'
I I qual se empreende um inquérito estatístico. Ou, por outras
pal�vras, como é que o inquérito define o problema que
esta a procurar resolver? A estrutura teórica de uma socio­
logia de configurações e de desenvolvimento deixa natural­
mente um espaço para os inquéritos estatísticos. Porém,
hoje em dia, as exigências da estatística muitas vezes ditam
o modo como os sociólogos põem as suas questões. Fre­

. ::.' �uen�me:-te, o tipo de estatística apenas se presta à


mvestigaçao do comportamento de muitos indivíduos sepa­
rados, imaginando-os como sendo absolutamente indepen­
I : dentes uns dos outros. Em termos coloquiais, ((é a cauda

I que abana o cãon. Se a sociologia tem de investigar os


processos configuracionais que se assemelham a jogos
complexos, então os apoios estatísticos terão de ser desen­
volvidos de acordo com esia tarefa.
O conceito de configuração chama a atenção para a
interdependência das pessoas. O que é que, na realidade,
u:-e as pessoas em configurações? Perguntas como estas

;I
I

'
nao podem ser respondidas se começarmos por considerar
todas as pessoas individuais em si mesmas, como se cada
uma fosse um Homo clausus. Isto seria ficarmos ao nível

' ,1
i !: d� psicologia e da psiquiatria, que estudam a pessoa indi­
vtd'!al. De facto, o termo ((Ciência do comportamenton
deriva delas, através de certas noções teóricas do behavio­
rismo. Por outras palavras, todos os problemas especifi·
camente sociológicos se reduzem por este meio a problemas
_ _
de psiCologia social. Há um assentimento tácito de que
as sociedades- configurações formadas por pessoas inter­
dependentes- não passam essencialmente de agregações
de átomos individuais. Os exemplos de jogos de cartas e
de desafios de futebol podem ajudar a tomar mais notó­
rias as consequências desta hipótese. o comportamento

145
144
I
5
I
AS INTERDEPENDtNCIAS HUMANAS
- OS PROBLEMAS DAS LIGAÇÕES SOCIAIS
I

AS LIGAÇOES AFECTIVAS

O conceito de configuração coloca o problema das


interdependências humanas no centro da teoria socioló­
'I : gica. O que faz com que as pessoas se liguem umas às
,, outras e sejam dependentes umas das outras? Este pro­
blema é demasiado lato e multifacetado para o podermos
abordar totalmente no âmbito desta obra. As dependências
recíprocas das pessoas não são obviamente sempre as
mesmas em todas as sociedades nos seus vários estádios
de desenvolvimento. Podemos, no entanto, tentar centrar­
-nos numa ou duas formas de dependência e mostrar
resumidamente como é que as interdependências mudam,
à medida que as sociedades se tornam cada vez mais
diferenciadas e estratificadas.
A opinião de que as caracteristicas biológicas do homem
(contrastando com as das formas sub-humanas de vida)
não têm qualquer participação na formação das socie­
dades, é amplamente divulgada. Por exemplo, certa teoria
sociológica postula que as normas humanas são essenciais
para uma integração da sociedade. Na verdade, isto faz
com que as condições biológicas do homem aparentem não
ter dado qualquer contribuição para a dependência deste
relativamente aos outros homens. Não há dúvida de que
as normas não se fixam biologicamente. Já mostrámos que

, 'I
é uma característica humana o facto do domínio das for­
mas inatas de comportamento poder ser alargado, permi·
" tindo que as sociedades se desenvolvam sem que a huma­
' nidade se desenvolva como espécie biológica. Isto também
,' : , poderia significar que os dotes biológicos do homem não

"i'
!
147
I
I ;

li
1 1: 1
! i'
II

I
' •
têm qualquer papel na formação das configurações sociais.
e a acentuar um aspecto central, mas relativamente breve
Se considerarmos certo - como faz Talcott Parsons 1 - que e transitória das relações humanas. A possibilidade de uma
a estrutura da personalidade humana é independente da
duração emocional superior ao acto sexual, e para além


estrutura social, então não admira que seja tomado como
dele é característica das ligações emocionais humanas.
uma evidência ulterior da independência do indivíduo,
Assi se coloca a possibilidade de haver uma grande varie­
o facto de o corpo humano ser uma fonte de nenergias
dade de ligações emocionais muito fortes sem qualquer
motivantesl>, podendo servir de ((Objecto de recompensa)),
tonalidade sexual.
((Complacência)) e satisfação. Parsons não é o único teórico
As categorias adequadas à investigação em niveis rela­
a considerar a privacidade e individualidade das sensações
tivamente baixos de integração são inadequadas quando
corporais de cada um como uma evidência de que o
investigamos ao nível da integração humana e social.
homem é, por natureza, um ser fechado e solitário. Neste
Quando alguém que amamos morre, não significa que algo
caso, a concepção do homem como indivíduo solitário é
tenha acontecido no mundo social <<exterior)) daquele que
tão forte que esquecemos muitas vezes que a luta que
lhe sobrevive, que actua como uma causa externa no seu
cada um trava pela satisfação própria é orientada desde
«eu interiorll; nem interessa dizer que algo aconteceu «alill
o início para os outros. Nem a própria satisfação deriva
de que se sente o efeito Mquin. Tais categorias não con­
inteiramente do nosso corpo - também está muito depen­
seguem exprimir a relação emocional entre o sobrevivente
dente dos outros. Esta é, na verdade, uma das interdepen­
e a pessoa que ele amava. A morte desta S!gnifica que o

'I·
dências universais que ligam as pessoas.
sobrevivente perdeu uma parte de si mesmo. Na confi�­
I Além disso, seria certamente um erro imaginar que
ração das suas valências de afeição ou de independênc41-,
!: esta dependência elementar e biológica relativamente aos
uma dessas valências fixara-se na outra pessoa. Agora essa
outros se limita à satisfação de necessidades sexuais. Uma
·.
pessoa morreu. Foi destruída uma parte integrante do seu
série de evidências mostram que para além e acima da
eu' a sua imagem de t<eu e nósn.
imediata satisfação das necessidades sexuais, procuramos
A valência que se afeiçoara a outro foi destruída.
os outros para a realização de toda uma gama de necessi·
Como resultado, houve uma alteração da configuração par­
dades emocionais. Seria desnecessário investigar aqui o
ticular de todas as valências do sobrevivente e mudou-se
problema de serem ou não de origem libidinosa as liga­
o equilibrio de toda a tela de relações pessoais. A sua
ções extraordinariamente diversas e subtis que os indiví·
relação com uma outra pessoa, que anteriormente apenas
duos estabelecem uns com os outros. Há boas razões para
ocupara um lugar marginal na configuração das suas valên·
crermos que precisamos de estimulação emocional por
cias, pode tornar-se muito mais cordial Pode haver um
parte dos outros, mesmo quando as nossas valências sexuais
certo arrefecimento nas suas relações com os outros, que
estão nitidamente unidas numa relação duradoira. Isto
desempenhavam uma função especial na sua relação com
expressa-se melhor- se imaginarmos uma pessoa que tenha
a pessoa que morreu, talvez porque actuassem como cata­
muitas valências numa dada altura. Todas elas se orien­
lizadores ou como espectadores benevolentes. Assim, é ver·
tam para os outros e muitas delas já estão nitidamente
dadeira a afirmação de que quando morre alguém que


relacionadas com eles.- Mas outras valências estarão livres
muito amamos toda a configuração das valências do sobre·
e abertas, procurando pessoas com quem possam estabe­
vivente e tod o equilíbrio da sua teia de relações se
lecer articulações e relações. O conceito de valências emo­ altera.
cionais abertas, orientadas para os outros, ajuda à substi· Este exemplo chama a atenção para a orientação fun­
tuição da imagem do homem como Homo clausus, pela
damental de cada um relativamente aos outros. Em socie­
imagem de «individuo abertO)) �.
dades sub-humanas, esta orientação manifesta-se em modos
Isto pode ilustrar-se com um simples exemplo. Pen· _
de comportamento mais ou menos rígidos e estereotipado�.
Estes perderam-se nas sociedades humanas, mas a própn�
semos numa pessoa a quem morreu alguém que amava.
Este exemplo demonstra como nos é necessário reorgani· orientação nunca se perdeu - ou seja, a profUnda necessi·
zar a percepção se queremos compreender a duraçáo tipica _
dade emocional que cada ser humano tem relativamente
das ligações emocionais elementares entre as pessoas. aos outros membros da sua espécie. A sexualidade apenas
Quando falamos das ligações sexuais estamos u separar constitui uma manifestação mais forte e mais demons-
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trativa dessa necessidade. Estão ainda presentes os ins­ pessoas a símbolos de unidades maiores, unindo-as por
tintos biologicamente determinados; podem no entanto ser exemplo, a cotas de armas, a bandeiras e a conceitos carre­
grandemente modificados por meio da aprendizagem, da gados de aspectos emotivos.
experiência, e por meio de processos de sublimação. Não Deste modo, as pessoas ligam-se emocionalmente umas
se justifica que consideremos a êonstituição biológica do às outras por meio de símbolos. Este tipo de ligação não
I

l
homem como algo que apenas é relevante para o <dndivf. é menos significativo da interdependência humana do que
duon e não para a «sociedade)), e à qual, consequentemente, as ligações criadas, tal como acima mencionámos, por uma
'
não se dá atenção no estudo da sociologia. especialização crescente. As valências emocionais que unem

I
É fundamental o tratamento destes problemas se que­ as pessoas, quer directamente por meio de relações face
remos resolver a questão de quais as relações que ligam a face, quer indirectamente pela .sua ligação a símbolos
as pessoas umas às outras, constituindo os alicerces da comuns, constituem um nível à parte de lig&ções. Fundi­
I'
sua interdependência. Os sociólogos estão acostumados a das com outro tipo de ligação mais impessoal, sublinham
encarar as ligações humanas essencialmente sob a pers­ a consciência alargada do ((eu e nósn, que até aqui sem­
pectiva do (<elesn. Por exemplo, é possível proceder como pre pareceu indispensável na ligação não só de pequenas
Durkheim e encarar as ligações humanas essencialmente tribos mas de grandes unidades sociais como estados e
no contexto de uma especialização de trabalho crescente, nações, abrangendo muitos milhões de pessoas. A afeição
que faz com que as pessoas se tornem cada vez mais das pessoas por estas grandes unidades sociais é muitas
dependentes umas das outras. Estas ideias são importantes, vezes tão intensa camo a sua afeição por uma pessoa
mas as ligações a que se referem são ainda meramente­ amada. O individuo que formou esta ligação será tão pro­
económicas. Torna-se, no entanto, impossível tratar adeqUa­ fundamente afectado quanto esta unidade social, à qual
damente os problemas das ligações sociais das pessoas, está afectivamente ligado, for conquistada ou destruída,
especialmente das suas ligações emocionais, se apenas con­ depreciada ou humilhada, como quando morre alguém
siderarmos interdependências relativamente interpessoais. amado. Uma das maiores lacunas das teorias mais antigas
Podemos obter uma visão mais completa da teoria socioló· da sociologia contemporânea é o facto de investigarem
gica se incluirmos as interdependências pessoais e sobre­ essencialmente as perspectivas sociais do ((eleS)), quase não
tudo as ligações emocionais entre as pessoas, conside­ se servindo de instrwnentos conceptuais rigorosos para
rando-as como agentes unificadores de toda a sociedade. investigar a perspectiva de ueu e nós)).
O significado destes aspectos pessoais das ligações
humanas pode não ser inteiramente claro se usarmos como
única ilustração o nexo de relações de uma pessoa isolada. LIGAÇOES POLtTICAS E ECONóMICAS
No entanto, é essencial voltarmos à teia de relações pes·
soais dessa pessoa isolada, para ver como é que ela aparece A maior parte das afirmações que hoje se fazem em
do seu ponto de vista - como é que é sentida do ponto sociologia referem-se essencialmente a sociedades que se
de vista da perspectiva do «eun. Só assim se torna possível organizam em estados ou tribos. E, no entanto, dificil­
'i-�. comprender toda uma cadeia de interdependências mais mente podemos justificar a selecção desses tipos par':i­

'
,,
alargadas, baseadas em ligações pessoais emocionais. Em culares de sociedade como base de tudo o que se diz
unidades sociais pequenas, contendo relativamente pouca sobre a ((sociedaden ou sobre os sistemas sociais «em
gente, a teia de relações pessoais de cada pessoa singular geraln. Porque não escolhemos a aldeia ou a cidade como
pode incluir nessa unidade todas as outras pessoas. A con­ modelos de sociedade ou (como se fazia no século XIX)


figuração das valências de afeição e de desapego de cada a sociedade humana como um todo? O que tornará tão


um será certamente düerente da dos outros. Contudo, importantes conjuntos como os estados e as tr bos de
enquanto a unidade se mantiver pequena, a configuração modo que o seu significado é a:eite sem cussao sem­
incluirá toda a tribo. A medida que as unidades sociais pre que nos referimos a ((totahdadesn sociais?
se tornam maiores e mais estratificadas, encontram-se Ao tentar resolver tais questões, a · primeira conside­
novas formas de ligação emocional Simultaneamente com ração que fazemos é que os estados e as tribos são, até
ligações interpessoais, encontrar-se-ão ligações unindo as certO ponto, objectos de identificação comuns - objectos

150 151
'li

i
'

a que se ligam muitas valências individuais. Mas porque sentavam indivíduos esfomeados devido a uma desigual
é que as ligações emocionais às sociedades-estados � que distribuição de poder dentro de wn estado, enquanto lhe
hoje em dia são nações-estados - têm prioridade sobre as pareceria secundário o risco de ser subjugado ou morto
ligações a outras configurações? Noutros estádios de desen­ por wn inimigo externo. Assim, Marx foi wn homem
volvimento social, as cidades, as tribos e mesmo as aldeias característico da sua época, ao percepcionar, embora de
também tiveram prioridade. Quais serão as características um modo mais agudo e claro do que qualquer um antes
comuns das diferentes configurações que, nos vários está­ dele, as interdependências decorrentes da divisão de tra·
dios de desenvolvimento, ligaram os indivíduos por este balho na produção dos meios de subsistência e de outros
tipo de vínculo predominantemente emocional? bens. Consequentemente, também se apercebeu mais cla­
Primeiro que tudo, todas estas unidades aparentam ramente d.o que os seus predecessores da estrutura de
ter exercido um controlo bastante severo sobre o recurso conflito associada ao monopólio dos meios de produção

•,,i'•
'
" à violência física nas relações entre os seus membros. de certos grupos. No entanto, é também característico o
Ao mesmo tempo, permitiram e muitas vezes encorajaram facto de Marx não ter percebido que o perigo de wn
os seus membros a usar de violência física sobre os não­ grupo ser subjugado ou extinto fisicamente por outro era
-membros. Até à data, faltou à sociologia uma concepção altamente significante, como base para certos tipos de inte­
clara das características comuns deste tipo de agrupamen­ gração e interdependência. Marx observou um determinado
tos solidários nos vários niveis de desenvolvimento social. estádio de desenvolvimento da sociedade industrial. Nesse
Jt óbvia a função que desempenham: unem as pessoas em contexto, acredito que as funções e recursos de poder do
torno de objectivos comuns - a defesa comum das suas estado podiam. ser explicados como derivando de funções
vidas, a sobrevivência do seu grupo em face de ataques e recursos de poder dos grupos empresariais burgueses.
efectuados por outros grupos e, por uma variedade de Finalmente, acreditou que eles também derivam dos inte­
razões, ataques em comum a outros grupos. Assim, a pri­ resses de classe daqueles grupos sociais a qUem devemos
meira função de uma tal aliança é, quer a extinção física o significado dos conceitos de «economiall e l<económico»,
dos outros, quer a protecção dos seus próprios membros uma vez que, na altura em que Marx escrevia, ainda era
quanto a um perigo de extinção física. Visto que o poten­ wna ideia relativamente nova que certas formas de inter­
cial de ataque de tais unidades é inseparável do seu poten­ dependência - aquelas que mais intimamente se ligam às
cial de defesa, podem ser chamados ltunidades de ataque actividades de negócios dos estratos empresariais- tinham
e de defesau ou uunidades de sobrevivênciall. No estádio leis próprias, seado até certo ponto autónomas em relação
actual do desenvolvimento social, tomam a forma de nações­ a todas as outras actividades sociais. Esta esfera de acti­
-estados. No futuro, poderão ser amálgamas de várias vidades era designada pelo termo, então relativamente
nações-estados anteriores 3• No passado, eram representa­ novo, de ((economia». Por um lado, o reconhecimento da
dos por cidades-estados ou por habitantes de uma forta­ sua autonomia associava-se ao desenvolvimento da nova
leza. O seu tamanho e estrutura variam: a função man­ ciência económica. Por outro, a exposição teórica da auto­
tém-se a mesma. Esta ligação destaca-se de todas as outras nomia das relações funcionais «económicas» e da sua auto­
em todos os estádios de desenvolvimento, sempre que as nomia dentro do contexto geral de uma sociedade-estado
pessoas se vincularam e integraram em unidades, tendo estava muito intimamente ligada à rica classe média inglesa
como fim o ataque e a defesa. Esta função de sobrevi· em ascensão, na sua procura de libertação da intervenção
vência, envolvendo o uso da força física contra os outros, estatal nas suas próprias empresas. Pretendiam que dei­
cria interdependências de determinado tipo. Desempenha xassem as leis «econóroicasu - o jogo livre da oferta e da
um papel nas configurações que as pessoas formam, talvez procura -� seguir o seu próprio curso llnatural».
não superior mas também não mais desprezível que as Para a burguesia empresarial ascendente, lutando por
ligações «OCUpacionaisu. Embora não possa ser reduzida uma libertação da intervenção governamental, cujos mem·
a uma função «económica», não pode também dela ser bras eram ainda essencialmente influenciados ' pela aris-­
separada. tocracia pré-industrial, podia parecer que a «economia»
Devido a toda uma série de experiências, o europeu tinha uma autonomia funcional absoluta relativamente ao
do século XIX compreenderia o perigo imediato que repre- nestado». Esta ideia encontrou a sua expressão simbólica

L
152 153
• ii
,!

no desenvolvimento do nome da ciência nascente. De volvimento das instituições políticas estava intimamente
«economia política11, simbolizando que a esfera económica ligado ao alargamento das redes de comércio e indústria.

.;
é uma subdivisão da política, derivou o termo «economia)) De um ponto de vista sociológico, o desenvolvimento da
expressão simbólica da ideia de que à medida que a soei organização estatal e política e da estrutura ocupacional
dade se desenvolve, surge uma êsfera económica indepen. eram aspectos indivisíveis do desenvolvimento da mesma
dente, com as suas leis próprias, autónomas e imanentes. relação funcional. Na verdade, as chamadas ((esferas11 da
A reivindicação da burguesia empresarial de que a «econo­ sociedade não são mais do que aspectos respectivamente


mia)) deveria ser autónoma e livre da intervenção estatal integradores e diferenciados do desenvolvimento da mesma
' '

'
metamorfoseou-se. A partir dela se desenvolveu a idei teia de interdependências. Porém, muitas vezes a diferen­
de que a economia, enquanto campo de uma relação fun­ ciação social da sociedade udesloca-sen dissimuladamente,
cional da sociedade-estado, era na verdade autónoma. Este ultrapassando o desenvolvimento das instituições de inte·
conjunto de ideias liberais reflectiu-se nitidamente na con­ gração e de coordenação da época. Na industrialização de
cepção de Marx da relação entre a economia e o estado. Inglaterra, o grande salto em frente realizado cerca de 1800
Levou-o a pensar a esfera da «economia>) como uma rela­ é um exemplo de como os processos de diferenciação se
ção funcional autónoma e isolada, com leis próprias, podem superar deste modo. O desenvolvimento correspon­
embora dentro das relações funcionais de toda a socie­ dente das instituições coordenadoras era manifestamente
dade. Tanto a burguesia empresarial como a ciência econó­ vagaroso. Esta situação apoiava-se na ideia de que a
mica defendiam que o estado devia obviamente ser uma «esfera económican pode ser considerada como motor de
instituição visando a protecção dos interesses burgueses; todo o desenvolvimento social. Contudo, o desenvolvimento
De acordo com estas concepções, Marx descreveu a orga­ da economia sem o correspondente desenvolvimento das
nização estatal como se ela na verdade nada mais fizesse organizações estatais e politicas é tão absurdo como o
que isto, não tendo qualquer outra função que não a destas sem o desenvolvimento da primeira, dado que ambas
defesa dos interesses económicos da burguesia. Por outras são parte de teias de interdependência crescente. A sepa­
palavras, apropriou-se de uma ideologia derivada da Ciência ração conceptual destas duas esferas, e a autonomia abso­
económica burguesa, mudando, por assim dizer, o sinal de luta das ciências sociais que delas se ocupam, são um
mais para menos. Do ponto de vista da classe trabalhadora, resíduo do período (ddeologicamenten definido por libera­
a defesa dos interesses burgueses parecia nociva; conse­ lismo económico. Sociologicamente falando; foi, tal como
quentemente, a organização estatal também deveria ser dissemos, um período em que as diferenças funcionais de
perniciosa. cadeias de interdependência ultrapassaram os processos
Numa análise mais cuidada, à luz da sociologia do correspondentes de integração. Se, em lugar do modelo
desenvolvimento �, torna-se claro que o desenvolvimento tradicional das «esferasn, utilizarmos um modelo de fun·
das estruturas politicas e económicas são dois aspectos ções diferenciais e de integração crescentes e decrescen­
absolutamente inseparáveis da evolução de toda a relação tes, avançaremos imediatamente. Somos levados a uma
funcional da sociedade. Intimamente associados ao desen· concepção sociológica da sociedade, afastando a imagem
volvimento das instituições políticas, havia muitos preces· extremamente artificial da sociedade como sendo uma mis­
sos conducentes ao alargamento das cadeias de interdepen­ tura de esferas adjacentes mas não relacionadas, onde
dência soci_al. Entre esses processos estavam a crescente primeiro uma e depois a outra é individualizada como
divisão «económica)) do trabalho e a substituição de mer­ a força verdadeiramente orientadora do desenvolvimento
cados locais restritos e de empresas, enquanto pontos social.
nodais de uma rede social, por outros pontos muito mais Mas a correcção destes hábitos de pensamento terá
amplos. As instituições estatais eram capazes de garantir grandes consequências, quer teóricas quer práticas. Aqui
a segurança dos comerciantes e dos seus bens (agora apenas mencionamos uma implicação. Enquanto a esfera
transportados a distâncias cada vez maiores), de assegurar ueconómica11 for encarada como funcionando de um modo
o cumprimento dos contratos, de cobrar taxas de impor­ mais ou menos autónomo, por si e para si, dentro do
tação para proteger as indústrias nascentes da competição contexto global da sociedade-estado, a estratificação social
estrangeira, e muito mais do que isso. Por seu lado, o desen· é passível de ser encarada em termos desta separação de

154 155
I ':
'

esferas. Assim, a estratificação nas sociedades industriais siva à análise da distribuição das possibilidades económi­
é considerada em termos de classes sociais e dos seus cas. Uma parte considerável da força trabalhadora vivia
conflitos de interesses, sendo estes primariamente deter­ ao nivel da mera subsistência. Os trabalhadores estavam
minados por factores económicos. · Esta concepção corres­ muito pouco organizados a nível de fábrica e ainda menos
,! pende exactamente à visão central 'dos estratos sociais nela nos níveis mais altos do estado nacional. De qualquer modo,
envolvidos. Nesta perspectiva, as lutas pelo poder parecem o conceito que Marx fazia de classe aplicava-se apenas a
surgir simplesmente em função da distribuição das possi­ um nivel. Tal como verificou, o único ponto de contacto
bilidades económicas, em função do equilíbrio mutável de entre as classes trabalhadoras e as classes capitalistas
ganhos e perdas. residia nos locais de produção; o seu resultado era exclu­
No entanto, também aqui um estudo mais atento revela sivamente o resultado da natureza das suas posições no
como é pouco adequada a ideia de que as tensões e con­ processo de produção. No seu tempo, trabalhadores e
flitos entre as duas grandes classes da sociedade industrial patrões nunca se encontravam em qualquer outro nível,
- a classe industrial trabalhadora e a burguesia indus­ dado que nenhum dos grupos possuía quaisquer organi­
trial - podem ser explicados se nos centrarmos nas possi­ zações de unificação em níveis mais altos de integração
bilidades ueconórnicas)), excluindo todas as outras possibi­ da sociedade, exceptuando algumas organizações nacionais
lidades sujeitas a conflito. Quando comparado com o que ou de partido. Portanto, é compreensível que a sua con­
hoje se pode observar, isto pode ser verdadeiramente enga­ cepção de classe se referisse unicamente a grupos espe­
nador. Num exame mais cuidado, o problema parece rela­ cíficos de posições no processo de produção e a sua aná­
cionar-se com a distribuição de poder em toda a extensão lise não perdeu de modo algum relevância, à medida que
e em todos os níveis das multifacetadas sociedades-estados as sociedades industriais se desenvolveram. Mas agora
industriais. Por exemplo, um dos seus aspectos é a dis­ podemos ver de um modo mais claro que a análise,
tribuição de possibilidades de exercer poder ao nível de embora indispensável, é incompleta. Mesmo no tempo de
uma fábrica. Quais os grupos que nela têm acesso a posi­ Marx, o equilibrio de poder na fábrica entre trabalhadores
ções de comando, responsabilizando-se pela coordenação e patrões não era um fenómeno isolado; alguma diferença
e integração? E quais os grupos que não têm acesso ao se fazia sentir se os então agentes estatais viciavam a
poder? Os que ocupam a posição de patrões são interde­ balança, beneficiando um ou outro lado. A medida que
pendentes dos que ocupam a posição de trabalhadores, se desenvolveram as socieQades industriais, houve uma
devido à relação funcional que existe entre as duas posi­ tendência para o declínio da importância das lutas, esca­
ções. Mas a sua dependência recíproca não é a mesma ramuças, compromissos e acordos passados a nivel de
-as forças do poder não são igualmente distribuídas. fábrica relativamente a níveis mais altos de integração,
Mesmo a este nível, o problema não diz apenas respeito nomeadamente as instituições centrais do estado, tal como
ao modo como o rendimento disponível é realmente divi­ o parlamento e o governo.
dido entre grupos que ocupam posições diferentes. A dis­ Torna-se, pois, necessária a correcção da concepção
tribuição destas possibilidades <<económicasll é ela própria tradicional de classe a um só nível, que parecia basear-se
função de um maior equilíbrio de poder - a distribuição inteiramente na distribuição das possibilidades económi­
das possibilidades de exercer o poder entre estes grupos. cas. É necessária uma concepção de classe que atenda ao
O equilíbrio de poder dos interesses comerciais, não se facto de que as lutas funcional e organizacionalmente
expressa unicamente na distribuição de possibilidades interdependentes entre trabalhadores e patrões se proces­
ffeconómicasn mas também na distribuição de possibili­ sam a muitos outros niveis de integração que não os da
dades que os membros de um desses grupos têm de con­ fábrica. Processam-se especialmente ao mais alto nível de
trolar, de comandar e de despedir os outros, no decurso integração de uma sociedade-estado. Esta nova concepção
do seu trabalho. tem de atender a que, nas sociedades mais desenvolvidas,
Tendo presente a distribuição de poder entre capita­ as duas classes organizadas estão hoje muito mais inte­
listas e trabalhadores, que Marx testemunhou na Inglaterra gradas nessas organizações estatais do que estavam no
da primeira metade do século XIX, compreende-se perfei­ t.empo de Marx. De facto, ambas essas classes industriais
tamente que ele tenha prestado uma atenção quase exclu- se tomaram classes dominantes, pois estão representadas

156 157
I
li

em todos os diferentes níveis de integração da sociedade tribuidas de um modo menos dcsigua1, e a confiança mútua
industrial - a nivel local e regional, assim como a nfvel da interdependência de posições tornar-se-á relativamente
nacional. A distribuição de poder entre as duas classes menos unilateral e mais reciproca. No entanto, isto tam­
bém significa que, à medida que a diferenciação funcional

I
é ainda muito desigual, especialmente ao nível da fábrica,
mas não tão desigual como era no 'tempo de Marx. E sur­ torna as pessoas interdependentés a muitos níveis, elas
gem tensões de outro tipo, acompanhando as tensões que se tornam simultaneamente mais dependentes do centro,
no que respeita à sua coordenação e integração. Aqueles
;. I Marx assinalara na sua época, quando essas classes sociais
' ainda podiam ser encaradas como formações sociais homo­ que têm acesso e que ocupam posições de coordenação
'
géneas de um só nível, a nível de fábrica. Estas novas e de integração disporão obviamente de grandes possibi·
tensões surgem entre governantes e governados, não impe­ !idades de poder. Consequentemente, embora a integração
dindo as tensões entre pessoas que representam a mesma e a coordenação das posições sociais sejam indispensáveis,
classe em diferentes níveis de integração. um dos problemas principais em sociedades altamente
, A relação muitas vezes desprezada dos processos de diferenciadas é o de como manter um controlo institu­
integração e de diferenciação é muito útil quando se estu­ cional efectivo sobre elas. Como poderemos assegurar
dam as mudanças sociais a longo termo. Estes processos socialmente que aqueles que ocupam tais posições não
não são tão complicados como muitas vezes parecem. Isto subordinem em grande parte as suas funções de (lelen *
é um exemplo de como as dificuldades se devem mais a e de <(eles11 aos seus próprios fins?
confusões teóricas do que à complexidade do próprio
assunto. Há toda uma variedade de possibilidades relati­
vamente simples de análise de processos de integração e A EVOLUÇÃO
diferenciação sociais a longo tenno. Quando consideramos DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO
a integração, uma das possibilidades será a determinação
do número de níveis de integração hierarquicamente gra­ Quando, na segunda metade do século XX, se fala
duados que se encontram nas Sociedades sujeitas a uma do desenvolvimento das sociedades, utiliza-se de um modo
análise estrutural. Verificar-se-á que se as diferentes socie­ geral este conceito em relação a problemas práticos clara­
dades têm o mesmo número de níveis, também terão outras mente definidos. É muito comum falar-se de países uem
semelhanças estruturais. Há também processos igualmente vias de desenvolvimenton, em que cada um dos governos
simples de análise de estádios de diferenciação. Um é _
respectivos luta com diferentes graus de energia (mas
determinar o número de ocupações que a sociedade designa geralmente com a ajuda de sociedades mais ricas e mais
com nomes düerentes. 1!: claro que este material de base poderosas) no sentido de desenvolver o seu próprto país.
nem sempre é disponível e acessível, mas muitas das fontes Neste sentido, o ((desenvolvimentml signüica uma activi·
disponíveis ainda não foram exploradas. dade, algo que as pessoas fazem tendo em vista objectivos
Este simples processo de determinar com maior pre­ nítidos e com um certo grau de planeamento. Naquilo que
cisão o estádio a que chegou a divisão de trabalho, numa tem de essencial, o grande objectivo deste desenvolvimento
dada época, esclarece curiosamente aquilo que, um pouco planificado é bastante simples: melhorar a pobreza rela­
unilateralmente, designávamos por «processos de industria­ tiva -dessas sociedades. Procura-se vias e processos de
lização». Comparado com todo o tipo de sociedades pré· aumentar o rendimento da maioria e não o aumento da
-industriais, e especialmente com as sociedades medievais,

I
riqueza de um grupo de pessoas- porque em quase todos
é espantoso o número de grupos ocupacionais nas socie­ os países pobres há usualmente alguns indivíduos extraor­
dades industriais designados por um nome diferente. Além dinariamente ricos, geralmente mais ricos do que em países
disso, esse número aumenta em proporções desconhecidas em melhor situação. Face a problemas tão concretos, ecli-
em épocas anteriores. Isto significa que o indivíduo fica
preso em cadeias de interdependência cada vez maiores,
instituindo relações funcionais que não consegue controlar. "' It function no original inglês e es Funktion no original
Ao mesmo tempo, em comparação com o que sucedia nas alemãq. It e es são pronomes pessoais neutros sem correspon­
sociedades anteriores, as possibilidades de poder serão dis· dência em português (N. do T.).

I
158 159
'
psam·se frivolidades filosóficas tais como o da existência Toma-se hoje óbvio que as consequências não planeadas
ou não existência da sociedade acima e para além de mui. de acções humanas planeadas surjem das suas repercus·
tos indivíduos separados, e de poderem ou não os llindi­ sões no interior de uma teia tecida pelas acções de muitos
viduosll existir sem as sociedades .ou as «sociedades)) sem indivíduos. Ao tornar explícita esta ideia, um conceito de
os indivíduos. Quando somos confrontados com os pro. acção transforma·se em conceito de função. Em vez de
blemas dos «países em vias de desenvolvimento11, varrem-se falarmos de pessoas que actuam para desenvolver as socie·
os obstáculos à compreensão de que as sociedades são con. dades, temos que falar de um modo mais impessoal, no
figurações de pessoas interdependentes. Ao procurar o processo de desenvolvimento.
desenvolvimento destas soci�es. tentando aliviar a Embora não planeado e não imediatamente controlá·
pobreza de todo o povo e não só a de alguns dos seus vel, o processo global do desenvolvimento de uma socie­
membros, são necessárias medidas decisivas para regular dade não é de modo algum incompreensível. Por detrás
a produtividade e o rendimento de todos os indivíduos dele não há quaisquer forças �ociais ((misteriosas». É uma
politicamente integrados num estado particular. questão de consequências decorrentes da interpenetração
Neste sentido, o «desenvolvimenton surge como sendo das acções de inúmeras pessoas, cujas propriedades estru·
'!1 , essencialmente uma actividade levada a cabo por pessoas. turais já foram ilustradas por meio dos modelos de jogo.

:::
l!: sobretudo executada por aqueles que detêm cargos A medida que se entrecruzam as jogadas de milhares de
governamentais e pelos seus ajudantes, peritos no desen· jogadores interdependentes, nenhum jogador isolado ou
volvimento de países 11mais avançados11. Especialmente aos grupo de jogadores, actuando sozinhos, poderão determinar
olhos destes, o desenvolvimento aparece como um pro-­ o decurso do jogo, por muito poderosos que sejam. Aquilo
blema 11económico11. Lutam para aumentar o «potencial que no capítulo 3 se descrevia como sendo o udecurso do
económicon dessas sociedades-estados mais pobres. Pro­ jogou encontra-se aqui como uevoluçãon. Implica uma
curam aumentar o stock de capitais. Constroem centrais mudança parcialmente auto-regulada numa configuração
de energia, estradas, pontes, caminhos de ferro e fábli· de pessoas interdependentes parcialmente auto·organizada
cas. Tentam impulsionar a produção agrícola. Mas quando e auto-reprodutora, tendendo todo o proces�o para uma
o desenvolvimento especificamente «económiCOII é assim certa direcção. Lidamos com estados de equilibrio entre
impulsionado, tendo como objectivo limitado o melhora· duas tendências opostas para a auto-regulação dessas con·
mento do nível de vida, toma-se evidente que é impossível figurações: a tendência para se manter como antes e a
desenvolver o potencial económico sem que haja uma tendência para a mudança. São muitas vezes, mas nem

,I I
transformação total da sociedade. Planos puramente econó­
micos podem falhar, porque outros aspectos não eConó­
sempre nem exclusivamente, representadas por dois gru·
pos de pessoas. É perfeitamente possivel que, devido às
'
micos, mas funcionalmente interdependentes de uma socie­ suas próprias acções, haja grupos conscientemente orien·
dade, actuam como -um travão, empurrando-os na direcção tados para a conservação e manutenção da configuração
oposta. É possível que o (1desenvolvimento11, orientado presente, mas que de facto fortalecem a sua tendência para
conscientemente no sentido de uma transformação econó­ a mudança. É igualmente possível que grupos orientados
mica, ponha em acção um desenvolvimento de um tipo conscientemente para uma mudança fortaleçam a tendê:n·
muito diferente, que o próprio governo que fez os planos cia da sua configuração para se manter tal qual está.
não pretendia. Se a actividade desempenhada pelo governo As hipóteses teóricas dominantes dão precedência às
no planeamento do desenvolvimento (que constitui urna tendências para a persistência. Inclinamo-nos para consi·
acção humana intencional) se pode descrever conceptual· derar nnormalll o facto de uma sociedade se manter no
mente por meio de um verbo, então será necessária uma estado que atingiu, contanto que os defeitos e os desvios
expressão mais impessoal para aquelas mudanças sociais da norma deixem imperturbável o seu equilíbrio. Facil·
que não foram deliberadamente iniciadas nem controladas mente compreendemos este facto como expressão de um
por projectistas ou actores. Acções planeadas, revestindo ideal, particularmente num periodo em que todas as con·
a forma de decisões governamentais, podem ter conse­ dições da vida estão num fluxo permanente, que aparen·
quências inesperadas e indesejadas. De um modo bastante temente ninguém conseguirá controlar. 110nde encontra­
optimista, Hegel designou·as por 11a habllidade da razão». mos ordem, a não ser nesse fluxo implacável?11, escreveu

160 161
li

I um investigador que se debruçou sobre este tipo de pro­


blemas económfcos �. Mas talvez a verdadeira razão pela
qual o desenvolvimento social se nos afigura tão descon­
sarnento, e de um acresClmo contínuo e cumulativo do
stock da experiência social e de conceitos, tendo entre si
um contínuo feedback.
certante, seja o facto de os nossos esforços se dirigirem Durante muito tempo foi extremamente difícil imagi­
menos para a compreensão e exp!icação daquilo que real· nar-se que uma série de acontecimentos encadeados (quer
mente acontece e para a elaboração de um diagnóstico, fossem ou não controlados) pudesse ser simultaneamente
do que para a elaboração de um esperançoso prognóstico. ordenada e não planificada, estruturada e, contudo, não
Contudo, é-nos difícil compreender o conceito de «evo­ intencional. Uma das razões da dificuldade devia-se a que
lução», considerando-o mais como funcional do que como esta concepção não correspondia às questões que se levan­
operacional. Talvez na vida quotidiana já não seja muito tavam sobre os acontecimentos, as questões que inte:res­
difícil perceber o significado da afirmação «a sociedade savam as pessoas. Estava numa oposição directa aos valo­
evolui», uma vez que há hoje em dia muita gente com res prevalecentes e aos sistemas de crença. Mas adquirimos
a bagagem intelectual necessária, para quem a palavra uma ideia muito mais clara sobre o significado e função
«evolução» comunica uma ideia de transformação social do conceito, se compreendermos as dificuldades que sur­
relativamente impessoal e espontânea. Contudo, há duzen­ giram no seu caminho: Talvez o maior obstáculo para a
tos ou trezentos anos, tal facto não era compreendido conceptualização de certas mudanças observáveis, consi­
deste modo. Mesmo os homens mais instruidos dessa época derando-as como ((evolução)), estivesse relacionada com o
eram incapazes de compreender o conceito de evolução que as pessoas esperavam quando levantavam questões
que hoje é aceite. O verbo <<evoluir» e os seus derivados - sobre estas mudanças observáveis. O principal objectivo,
eram apenas usados para exprimir certas acções humanas subjacente a todas as questões fundamentais levantadas
' -por exemplo era compreendido como o contrário de a propósito do que se observava como mutável, era a
I� : <<envolver» •. O único vestigio que ficou deste significado descoberta de algo imutável em toda a mudança ou para
mais antigo da palavra foi o da sua aplicação às foto­ além dela. A única resposta satisfatória às dúvidas que
grafias. Quando falamos em <<revelaru fotografias utiliza­ se levantavam sobre as mudanças observáveis, seria a que
mos apenas um conceito de acção. Revelamos a imagem fizesse referência a um último objectivo. As pessoas for­
escondida. Antigamente também podiamos falar em revelar mulam sempre as suas perguntas consoante aquilo que
um segredo escondido. Mas nem o conceito nem a Imagem pensam ser uma resposta satisfatória. Assim, naquele
mental que hoje associamos ao termo <<evolução)) eram tempo, as perguntas eram estruturadas de tal modo que
acessíveis aos indivíduos de outras épocas. se chamava a atenção para o fim que lhes estava subja­
Porém, interrogamQ·nos, será que eles não viam que cente. As perguntas eram formuladas de modo a revelar
as crianças evoluíam, tomando-se adultos? Não viam que a ((essência)), ((0 princípio básicon, ((a lei fundamentah!,
a sua própria sociedade evoluía constantemente? Não, a <<primeira causa)), na última meta)), ou qualquer outra
eram incapazes de ver, nunca viam. Não conseguiam con­ explicação que se julgava eterna e imutável. Queria-se
·
ceptualizar aquilo que «viam11 tal como nós o fazemos e, conhecer o que estava por detrás da cadeia sempre mutá­
assim, eram incapazes de percepcionar a realidade do vel dos acontecimentos. Mais uma vez se faziam avaliações
mesmo modo que nós. Eventualmente, o conceito de evolu­ com conceitos pré-determinados. Atribuía-se implicitamente
ção foi remodelado, associando-se a uma sequência impes­ mais valor ao imutável do que àquilo que mudava. Deste
soal de acontecimentos, sendo esta grandemente auto-regu­ modo, aceitava-se como verdadeiro que, na busca de conhe­
ladora e tendendo para uma determinada dll'eCção. Mas cimentos, o mutável se deveria reduzir ao imutável.
esta transformação necessitava de muitas gerações de pen· A humanidade trilhou um caminho longo e laborioso antes
de se conseguir libertar do controlo desta escala domi­
nante de valores, pois ela estava profundamente intlincada
* O autor joga com os termos «develop» e «envolop�>. em toda a busca de conhecimentos, dominando totalmente
O termo inglês «develop» tem também o significado de revelação vários campos de investir,ação. Nfto nos é possível traçar
fotográfica, facto de que o autor se serve quando examina um de novo esta históriu, mas podemos dizer que esta esc.-.la
dos seus possíveis significados (N. do T.). de valores c os padrões de pensamento, métodos de inves-

162 163
tigaçã.o e tipos de perguntas que a acompanhavam não que noutras épocas, os fundadores da sociologia advoga­
tinham na sua base qualquer exame deliberativo da sua ram a ideia geral de uma mudança social e fizeram-no
adequação ao campo de investigação a que se destinavam. referindo-se estreitamente a evidências empíricas de um
Antes se baseavam nas necessidades daqueles que levan. ou de outro tipo. As teorias da evolução, propostas pelos
tavam as questões - necessidades · do tipo expresso nas grandes sociólogos do século XIX, foram apenas um passo
questões a que já nos deferimos. Onde podemos encon­ na direcção certa; e, como agora sabemos, seguiu-se-lhes,
trar uma ordem entre o fluxo incessante das coisas? no século XX, um passo em direcção contrária. Porém,
Neste sentido, a ordem deve eo ipso signüicar algo de à medida que os cientistas começaram a afastar-se de
imutável que nos ajuda intelectualmente a fugir ao fluxo uma redução da mutabilidade observada a uma imutabi·
inquietante dos acontecimentos. lidade imaginária, efectuou-se um grande progresso no sen·
Contudo, a partir da segunda metade do século XVIII, tido de tornar os instrumentos do pensamento humano
depois de muitos começos em falso, iniciou-se uma alte­ mais adequados às relações observáveis.
ração gradual na avaliação dos fenómenos mutáveis. Pri­ No século XX, desencadeou-se uma reacção extraor·
meiramente, esta alteração limitou-se a certas áreas em dinariamente forte contra as teorias evolucionistas da
que o conhecimento cientifico progredia. Algumas mudan­ sociologia do século XIX. Os conhecimentos que serviam
ças sociais (tendo-nos já referido a algumas delas), parti­ de base aos sociólogos do século XIX eram muito limi­
cularmente a exigência de uma mudança social durante tados, comparados com a quantidade crescente de conhe­
e depois da Revolução Francesa, a actuação dos mecanis­ cimentos isolados sobre a evolução das sociedades hutna·
mos do mercado em condições comerciais relativamente nas, hoje disponíveis a qualquer interessado. Foi-lhes assim
livres, e o progresso cientifico, hõertaram a capacidade muito mais fácil perceber a orientação nítida na evolução
imaginativa das pessoas, permitindo-lhes a compreensão da sociedade. A sua capacidade de compreensão não fora
de relações que até aí não tinham lugar nos esquemas ainda submersa pela imensidade de pormenores a que hoje
tradicionais. Adquiriu-se a capacidade de conceber uma temos de atender em qualquer modelo compreensivo de
ordem que não se detectava através da redução de toda conhecimento. Viam mais nitidamente o bosque do que
a mudança a algo de imutável, mas que antes se mostrava as árvores - exactamente o que nós mal conseguimos
como uma ordem imanente de mudança. Começaram a fazer. Muitas vezes parece que a quantidade de informa­
descobrir-se, tanto na natureza como na sociedade, alte· ções de que hoje dispomos não se ajusta a nenhum
rações que· não podiam ser explicadas em termos de esquema unificado da evolução social.
substâncias externas ou de causas imutáveis. Gradual­ Certamente que não se ajusta aos modelos sinópticos
mente as questões cientificas passaram a ter outra orien· da evolução social que nos foram legados pelos grandes
tação - de uma procura do imutável passam a procurar pioneiros da sociologia do século XIX. E, no entanto, foi
uma ordem imanente-de mudança. O exemplo mais conhe­ precisamente porque este pioneiros não se curvaram sob
cido é o de como as classificações estáticas dos organis· o peso de uma informação parcelar excessiva, não tendo
mos, primeiro a de Aristóteles e depois a de Lineus, se consciência das lacunas dos seus conhecimentos, que esti·
converteram gradualmente no conceito darwiniano de uma veram aptos - inocentemente, mas com muito êxito -
ordem evolutiva. Esta concepção defende essencialmente a preencher as lacunas com urna especulação inspirada,
que, com algumas regressões, há formas de vida mais com­ essencialmente influenciados pelos problemas sociais mais
plexas e diferenciadas que se desenvolvem de um modo agudos da sua época. Quase todos os pioneiros da socio­
cego e sem qualquer finalidade, a partir de formas de vida logia evolutiva do século XIX estavam obcecados com o
menos complexas e menos diferenciadas. problema de uma ordem nova e melhor, que esperavam
A diferença entre a concepção da sociedade de Aris· e acreditavam que surgisse num futuro não muito dis­
tóteles e mais tarde de Montesquieu, por um lado, e a de tante. Consideravam como um axioma que a condição
Comte, Spencer e Marx, por outro, é um exemplo ulterior futura da humanidade deveria ser melhor do que a da
desta mudança de orientação. Estes davam grande impor­ sua época. Como uma espécie de religião social, partilha­
tância à questão da ordem imanente de mudança. Certa­ vam a crença de que a sociedade evoluía e progredia numa
mente que tiveram precursores, porém, muito mais do paz serena. No entanto, as ideias que tinham sobre_ a

164 165
direcção deste progresso pacífico variavam muito, de de problemas de evolução social a longo prazo, procuram
acordo com a diversidade dos seus ideais politicos e dominá-los reduzindo-os primeiramente a várias fases da
sociais. A ideia que Marx tinha do progresso era muito evolução social e, finalmente, a tipos estáticos tais como
diferente da de Comte, cuja ideia era também muito dife­ a «Sociedade feudab e 1m sociedade industrialn. Teóricos
rente da de Spencer. Mas partilhavam a compreensão de eminentes da sociologia abandonaram pura e simplesmente
que a sociedade evoluía de um modo mais ou menos «auto­ o problema de como as sociedades mudaram de uma para
mático», rumo a uma ordem social melhor. Valorizavam outra fase, à medida que evoluíram. A imutabilidade é
certos elementos da evolução social passada em detn. tratada como condição normal da sociedade. Encaixa-se
menta de outros, sendo seu critério o ideal que tinham em conceitos sociológicos básicos como os de l<estrutura
de uma ordem social futura mais perfeita. Neste sentido, socialn e «função sociah). Problemas de mudança social
todas as teorias sociológicas do século XIX tinham cono­ aparecem hoje adicionalmente, reservando-se-lhes um capí·
tações teológicas muito fortes; caíam na velha noção de tulo designado por «Mudança Socialn. Não se atribui qual·
que toda a mudança ocorre dentro de um contexto mais quer ordem imanente à própria mudança. Houve uma
ou menos imutável. Mesmo Marx não conseguiu libertar-se revivescência da velha ideia de que as alterações devem
completamente da ideia de que a vitória do proletariado ser reduzidas a algo de imutável, constituindo as actuais
poria de lado a causa essencial da evolução social - a luta l<regularidadesn estruturais. Perdeu-se o grande avanço dos
de classes e as contradições internas da sociedade- e de sociólogos do século XIX, no sentido de um reconheci·
que a evolução social, na sua forma conhecida, cessaria. menta de que a própria mudança tem uma ordem e uma
Assim, levadas à sua conclusão lógica, estas ideias sobre - estrutura imanentes. Isto não signüica que <lordemll seja
a mudança levavam ao conceito de sociedade no seu estado sinônimo de «consensoll e de uharmonian. O termo uordemn
último imutável; um conceito de ideal realizado que cons· significa simplesmente que a sequência da mudança não
tituía a medida última ou o ponto de referência. é udesordenadall ou ucaótica11. Significa que é possível
Esta mistura constante de referências factuais com descobrir e explicar como é que formações sociais tardias
ideais sociais nos modelos da evolução social, construidos emergem de formações primitivas. Este é o problema
pelos grandes sociólogos do século XIX, é sem dúvida essencial da «sociologia evolutiva11.
uma das razões por que, durante muito tempo, a sociolo­
gia do século XX não os tomou em consideração nas suas
teorias modernas da evolução social. O pensamento socio­ VALORES SOCIAIS E CIÊNCIA SOCIAL
lógico deixou de preocupar-se com a dinâmica a longo
prazo da sociedade, preocupando-se com problemas a um Mesmo hoje, a investigação sociológica, especialmente
curto prazo relativo, especialmente com os que dizem res· de nível teórico, conseguiu pouca autonomia relativamente
peito a condições imediatas e actuais. O factor decisivo aos grandes sistemas de crenças sociais pelos quais as
desta mudança não foi tanto qualquer critica aos modelos pessoas se orientam face a crises e revoltas por elaS
clássicos da evolução, mas antes o facto de que as teorias consideradas opacas e inexplicáveis. Como se vê pelo des·
sociológicas do século XX se misturaram com ideais sociais tino que teve o conceito de uevolução soctahl, a própria
e políticos que valorizam grandemente certas sociedades evolução da ciência sociológica tem·se ligado a mudanças
existentes. Talvez se tenha deitado fora o bebé com a de distribuição do poder e a lutas entre os grandes siste­
água do banho. Devido a uma oposição relativamente aos mas sociais de crenças.
ideais implicitos nos modelos clássicos da sociologia, rejei· Todo aquele que se dedica à sociologia deve levantar
taram-se de improviso muitas produções férteis do pensa­ as seguintes questões. Primeiro: ao construir ou ao cri·
mento sociológico clássico, inclusivé um interesse pela inves· ticar as teorias sociológicas, até que ponto estou e�se?­
tigação da mudança social enquanto mudança estruturada. cialmente a tentar estabelecer a validade de urna 1dem
De acordo com ideais centrados em certas sociedades pré-concebida de como as sociedades humanas deviam ser


de hoje, os teóricos da sociologia viraram-se para a cons­ ordenadas. Segundo: até que ponto aceito os resultados
trução de modelos de sociedade em estado de repouso d� investigações teóricas e empíricas que o confirmar
- modelos de «sistemas sociais11. Quando ainda se ocupam os meus próprios objectivos e esperanças, nao atendendo

166 167
aos que com eles são incompatíveis? Terceiro: até que e acções, ainda lhes é opaca- e, assim, um melhor con­
ponto me preocupa essencialmente encontrar ligações entre trolo desta. Contudo, para que tal aconteça, a visão de
os acontecimentos sociais particulares, perceber como pode­ que a sociedade parece centrar-se em nós próprios, ou no
mos explicar a sua sequência? E, por último: que ajuda grupo com o qual nos identificamos, tem de ser substi­
poderão Qar as teorias sociológiclts à explicação e deter­ tuída pela visão de que nós próprios e o nosso grupo nio
minação do curso dos problemas sociais e até que ponto somos o ponto central. Esta transição exige um certo
estou interessado em encontrar soluções práticas para eles? esforço de distanciamento, tal como aconteceu com a tran­
Subjacente a esta obra há uma resposta clara para sição da perspectiva geocêntrica do sistema planetário para
estas interrogações. Não se devia pedir ao sociólogo (nem a heliocêntrica. Este distanciamento é a parte difícil. Mesmo
se devia esperar dele) que expressasse as suas convicções nos nossos dias, a distinção entre tal distanciamento socio­
sobre o modo como a sociedade deveria evoluir. Os soció­ lógico e um compromisso ideológico centrado a curto prazo
logos deviam libertar-se da noção de que há ou haverá nos problemas e valores actuais, fica para além do alcance
qualquer correspondência necessária entre a sociedade que de muitos, quer em pensamento quer na acção. Parece
estudam e as suas próprias crenças sociais, os seus dese­ que muitas vezes esperamos ençontrar revelações sobre
jos e esperanças, as suas predilecções morais e as suas o futuro nas entranhas da história, tal como faziam os
concepções daquilo que é justo ·e humano. áugures romanos nas entranhas dos animais que sacri­
Esta atitude no tratamento dos problemas sociológicos ficavam. Apesar de toda a evidência �passada e presente,
baseia-se na convicção de que não é relevante nem per­ ainda nos é difícil chegar à ideia de que embora os pro­
missivel que estes dois problemas se misturem ou con- - cessos evolutivos da sociedade humana possam na verdade
fundam. A sociologia e a ideologia têm funções muito dife­ ser explicados, não têm qualquer objectivo ou significado
rentes. Há quem defenda que é impossivel separar as pré-existentes. O seu único significado poderá ser aquele
convicções pré-concebidas de cada um, da abordagem teórica, que as pessoas um dia atribuirão às sequências de aconte­
científica e sociológica que se faz dos problemas. Clamam cimentos que hoje nos parecem fortuitos e incontroláveis,
que todos nós misturamos os dois aspectos, que todos nos uma vez que aprenderam a compreendê-los e a controlá­
envolvemos e comprometemos. São muito claros nas hipó­ -los melhor.
teses tácitas que levantam quando defendem uma mistura É óbvio que então, muitcJs acharão confuso que de
da teoria e do valor na ciência social. Assumem implici­ um ou de outro modo o curso da evolução social possa
tamente uma espécie de harmonia pré-estabelecida entre tomar uma direcção aparentemente 11significativa11 em ter­
o ideal social e a realidade social. Esta visão corresponde mos do seu próprio sistema de valores. Lembremo-nos que
de um modo tosco às concepções da natureza que muitas Condorcet 0743-94), a quem Comte por vezes chamava o
vezes se encontram nos séculos XVII e XVIII. Predominava seu <<verdadeiro pai espiritualll, afirmou durante o turbi­
então a noção de que a natureza era fundamentalmente lhão da Revolução Francesa que as esperanças futuras da
organizada, de tal modo que as pessoas a consideravam humanidade podiam resumir-se a três tópicos 6• Estas espe­
racional, útil e boa. De igual modo, muitos teóricos da ranças tinham como objectivo primeiro o fim da desigual­
sociologia aceitam sem discussão que as sociedades huma· dade entre raças e paises; visavam em segundo lugar o
nas evoluem de acordo com os seus próprios valores, progresso para uma maior igualdade entre todos os habi­
modelando-se espontaneamente de um modo que lhes parece tantes de um país; e, em terceiro lugar, a perfeição da
significativo. humanidade. Se pusermos cuidadosamente de parte este
Aqui não está implícita qualquer hipótese deste género. último ponto, podemos afirmar que a humanidade conti­
Durante um período de tempo bastante longo, as sequên· nuou a evoluir desde então na dtrecção que Condorcet
cias sociais prosseguiam cegamente, sem orientação- tal esperava. Mas isto levanta um problema ainda não devi­
como o decurso de um jogo. A tarefa da pesquisa socio­ damente apreciado. Embora se tenha verificado, desde �
lógica é tornar mais acessiveis à compreensão humana finais do século XVIII, uma ·redução progressiva da desi­
estes processos cegos e não controlados, explicando-os e gualdade entre os países e dentro deles, é absolutamente
permitindo às pessoas uma orientação dentro da teia social certo que ninguém a planeou conscientemente ou a reali­
- a qual, embora criada pelas suas próprias necessidades zou intencionalmente. O problema que então se põe é o

168 169
seguinte: como podemos explicar o facto de que durante maior dif.erenciação flincional, para uma integração a mui­
todo este tempo certos mecanismos de interpenetração, tos níveis e para a formação de organizações mais amplas
embora não planeados e incontroláveis, se tenham orien­ de ataque e de defesa? Sem a estrutura de uma teoria
tado cegamente para uma humanização crescente das rela­ evolutiva não podemos aspirar a um diagnóstico adequado
ções sociais? Primeiro que tudo é · essencial termos cons­ e a uma explicação dos problemas sociológicos da socie­
ciência do carácter cego dessas tendências e da possibilidade dade contemporânea. Uma estrutura deste tipo torna-nos
de elas serem modificadas por razões desconhecidas. Só possível compreender como é que formas actuais da socie­
então o problema sociológico da análise e explicação de dade emergiram de formas primitivas. Assim, as caracte­
tais processos sairá da sombra projectada por aquilo a rísticas estruturais das nações-estados mal se poderão dis·
que chamámos fé na harmonia pré-estabelecida do ideal tinguir, a não ser que se disponha de um modelo teórico
e do real. que explique como é que os estados dinásticos se torna­
Mas isto não diz respeito apenas aos processos evolu­ ram nações-estados e todo o processo da formação do
tivos a curto prazo, que se efectuaram desde o tempo de estado 1•
Condorcet. Conhecemos muitas orientações da evolução a Nesta altura, poderá ser útil darmos pelo menos um
longo prazo, para as quais precisamos de uma explicação. exemplo de conceitos com os quais podemos identificar
Há uma orientação a longo prazo que visa uma maior e medir os diferentes estádios da evolução social a longo
diferenciação de todas as funções sociais, patente na pro­ prazo. Entre as características universais da sociedade,
liferação de actividades sociais especializadas. Tende-se coloca-se a tríade dos controlas básicos. O estádio de evo­
para que unidades de ataque e de defesa, relativamente lução atingido por uma sociedade pode determinar-se:
pequenas e de um só nível, se tornem maiores e de vários
níveis. Tende-se a longo prazo para uma civilidade que 1. Pelo maior ou menor alcance das possibilidades
leva a um controlo mais firme e mais completo das emo­ de controlar séries de acontecimentos não huma­
ções e a uma identificação reciproca mais fácil, sem que nos - ou seja, o controlo daquilo a que normal­
se atenda às origens sociais de cada um. Há, pelo menos mente se chama «Os acontecimentos naturais».
nas sociedades-estados, a tendência para uma diminuição 2. Pelo maior ou menor alcance das possibilidades
das desigualdades na distribuição do poder. Mas nenhuma de controlar relações interpessoais- ou seja, aquilo
dessas tendências se orienta linearmente; todas se envol· que usualmente se designa por «relações sociais».
vem em conDitos, por vezes muito grandes. Também 3. Pela maior ou menor facilidade com que cada um
ocorrem mudanças sociais numa direcção oposta. :1!: :Prá· dos seus membros se controla a si próprio enquanto
tica corrente referirmo-noS apenas à «mudança social» indivíduo - pois que, por muito dependente que
geralmente sem qualquer indicação de que esta se pode seja dos outros, aprendeu desde a infância a con­
orientar numa direcção consistente, para uma maior ou trolar-se a um maior ou menor grau.
menor diferenciação e complexidade. Quando existe essa
indicação, o conceito de «mudança social» geralmente ape· Estes três tipos de controlo são interdependentes,
nas se aplica a tendências para uma maior complexidade; tanto na sua evolução como no seu funcionamento, em
talvez devesse ser aplicado à mudança em qualquer direcção qualquer estádio evolutivo. Podemos dizer dos dois pri­
consistente. De qualquer modo, o verdadeiro problema é meiros, que as oportunidades de controlo aumentam gra­
a estrutura destas mudanças. Podemos seguir muitas des­ dualmente à medida que a sociedade evolui, embora haja
tas orientações evolutivas a longo prazo durante centenas muitos retrocessos. Mas não aumentam na mesma pro­
e milhares de anos. Planear e realizar tais mudanças estru· porção. Por exemplo, é altamente característico das socie­
turadas, está para além da previdência ou do poder huma· dades modernas o facto das suas oportunidades de controlo
nos. Portanto, como podemos interpretar a consistência sobre as relações naturais não humanas serem maiores
com que as sociedades humanas evoluem numa determi­ e crescerem mais rapidamente do que as suas oportuni­
nada direcção? Como podemos, por exemplo, explicar o dades de controlo sobre relações sociais interpessoais. ·Esta
facto de que apesar de todas as regressões, as sociedades diferença reflecte-se, entre outras coisas, no desenvolvi­
recuperem sempre o seu curso, que as orienta para uma mento a que chegaram as ciências naturais e sociais. Estas

l10 111
6
últimas estão ainda grandemente encurraladas num cír­
culo vicioso caracteristico, semelhante àquele de que saí­
ram com grande dificuldade, num estádio anterior da
evolução social, as ciências naturais, ao mudarem da sua
forma mágico-mítica para uma forma científica. Resu.
mindo, quanto menos uma dada esfera de acontecimentos O PROBLEMA DA "INEVITABILIDADE"
for passível de controlo humano, quanto mais emocionai.
mente as pessoas a pensarão; e quanto mais emocionais DA EVOLUÇÃO SOCIAL
e fantasiosas forem as suas ideias, menos capazes serão
de construir modelos mais exactos dessas relações, con.
seguindo assim um maior controlo sobre elas.
Alternativamente, podíamos distinguir a tría.de de con­
troles básicos de um modo mais comum. O primeiro tipo
de controlo corresponde ao que habitualmente se designa
por desenvolvimento técnico. O segundo tipo corresponde
grosso modo ao desenvolvimento da organização social;
os processos gémeos de diferenciação crescente e de cres· Quando se faz referência a estas sequências a longo
cente integração das ligações sociais serão um exemplo prazo da evolução como um crescente domínio do homem
de como este tipo de controlo se expande. Um exemplo - sobre a natureza ou uma divisão progressiva do trabalho.
do terceiro tipo de controlo é aquilo que se conhece por surge muitas vezes a pergunta se tais processos de evolu·
uprocesso civilizador)) 8• O processo civilizador é um caso ção são inevitáveis.
especial, uma vez que, contrariamente aos dois primeiros Surge como evidência para muita gente que a des·
tipos, a direcção em que evolui não pode ser simplesmente crição de qualquer tendência a longo prazo no fluxo eon­
descrita como um alargamento ou um aumento de con· flguracional dos acontecimentos passados, implica imedia·
troto. Num processo civilizador, ocorrem mudanças no tamente urna previSão definitiva para o futuro. Se na
autocontrolo de cada um que não são necessariamente (<modelaçãon do comportamento interpessoal se demons­
unilinea.res. O aumento de controlo sobre a natureza é trou uma tendência civilizadora a longo prazo, aceita-se
directamente interdependente das mudanças tanto de auto­ sem discussão que o investigador estava a tentar provar
controlo como de controlo sobre relações lnterpessoais, que as pessoas são obrigadas no futuro a tornar-se mais
facto que as viagens espaciais evidenciam espectacular­ civilizadas. Um modelo que mostre como e quando uma
mente. Mesmo assim, será útil estarmos de sobreaviso configuração passada de unidades sociais relativamente
contra a concepção mecanicista de que a interdependência centralizadas e indiferenciadas evolui no sentido de uma
dos três tipos de controlo se deve entender em termos configuração mais centralizada e mais complexa, facil·
de aumentos paralelos nos três. mente nos desperta a suspeita de que o investigador na
sua pesquisa projectou no passado os seus objectivos e
desejos de presente e de futuro. Supõe-se que ao trabalhar
um modelo do processo de formação dos estados, o inves­
tigador atribuiu um determinado valor ao estado, e quis
provar que este teria sempre uma determinada importân·
cia. Quem quer que se preocupe com a construção de
modelos de evolução social de base empírica, está sujeito
a defrontar-se com a obstrução constante dos argumentos
que se tornaram correntes, em oposição aos modelos de
evolução das gerações anteriores.
Diz·se muitas vezes que os generais planeiam uma
nova guerra como se ela fosse u1113 continuação da ante-

172 173
rtor. Do mesmo modo, parece haver muitas ideias aceites Por exemplo, não é possível utilizar a teoria da evolução
que constituem um obstáculo às teorias da evolução social como base para prever o futuro desenvolvimento da huma­
-as mesmas idetas que foram utilizadas contra modelos nidade, anunciando talvez uma raça de super·homens. É, no
anteriores de evolução. Uma delas é a noção de que o eritanto, possível utilizar a teoria da evolução. conjunta­
diagnóstico de uma tendência evolUtiva a longo prazo no mente com algumas outras afirmações teóricas, para pre­
passado, implica necessariamente que essa mesma tendên. ver que nunca nenhum dente humano poderá ser encon­
cia deva continuar, automática e inevitavelmente no futuro. trado num sulco de carvão - a não ser que algum mineiro
Muitas vezes, esta ideia é ainda fortalecida pela então ai o coloque. Se alguma vez se encontrasse um dente
dominante filosofia das ciências, a qual, de entre todas humano num sulco de carvão, toda a teoria da evolução
as funções de uma teoria científica, selecciona a função precisaria de uma correcção substancial. De igual modo,
de previsão como critério decisivo da validade científica. com a ajuda de um modelo de processos de formação do
Assim, talvez seja útil a discussão da finalidade das estado, baseado no estudo da formação do estado no
teorias sociológicas da evolução social e dos modelos dos passado, poderão fazer-se certas predições sobre os pro­
processos específicos de evolução - tais como os proces­ cessos de crescimentos dos estados contemporâneos. Neste
sos de uma especialização ocupacional ou da formação ponto, uma simples analogia pode ajudar à clarificação da
dos estados- baseada no estudo das sequências dos acon­ função das teorias. Em certos aspectos, as teorias asseme­
tecimentos passados. Tais modelos são instrumentos de lham-se a mapas. Se estamos num ponto A, em que se
diagnóstico e de explicação sociais. Exemplificando: as cruzam três caminhos, não podemos ((Ver)) directamente
nações·estados surgiram geralmente de estados dinásticos, onde estes nos levam. Não podemos (cver)l se aquela estrada
e os estados dinásticos de organizações menos centrali­ ou aquele caminho conduzem a uma ponte sobre o rio
zadas ou tribais. Por vezes as primeiras surgiram directa­ que pretendemos atravessar. Portanto, usamos um mapa.
mente das últimas, omitindo-se os estádios intermédios. Por outras palavras, uma teoria dá ao homem que se
Como e porque se passaram deste modo as coisas em encontra no sopé da montanha, a visão que um pássaro
cada um dos casos? Ou, pegando noutro exemplo, de sacie· tem dos caminhos e relações que esse homem não con­
dades com mercados locais, com pequena divisão de tra­ segue ver por si próprio. A descoberta de relações previa­
balho, com cadeias limitadas de interdependência e com mente desconhecidas constitui uma tarefa central da inves­
níveis de vida relativamente humildes, surgiram sociedades tigação científica. Tal como os mapas, os modelos teóricos
com redes comerciais de longo alcance, com grande varie­ mostram as conexões entre acontecimentos que já conhe­
dade de profissões especializadas, longas cadeias de inter­ cemos. Como os mapas de regiões desconh,ecidas, mostram
dependência e um nível de vida relativamente alto. Uma espaços em branco onde ainda não se conhecem as rela­
vez mais, como e porque se desenvolveu esta última fonna ções. Como os mapas, a sua falsidade pode ser demons­
de organização a partir das primeiras? Este é o tipo de trada por uma investigação ulterior, podendo ser corri­
sequência de acontecimentos para a qual procuramos expU· gidos. Talvez se deva acrescentar que, contrastando com
cação. Um modelo teórico de tal sequência tem uma função os mapas, os modelos sociológicos devem ser vizualizados
dupla - como explicação e como escala de medida. Não no tempo e no espaço, como modelos em quatro dimensões.
se trata necessariamente de uma medida quantitativa, mas Afirmou-se que os modelos de evolução podem ser exa­
sim de assinalar graficamente as diferenças existentes nas minados e corrigidos à Iúz de uma ulterior investigação,
configurações. O modelo serve para responder a questões, mais detalhada. Mais se disse ainda que podem ter funções
como por exemplo que nivel representa esta ou aquela de diagnóstico e de explicação, bem como funções de pre­
sociedade numa determinada sequência da evolução, ou visão. Isto talvez seja melhor ilustrado por meio de uma
que estádio atingiu agora a sociedade. Um modelo evolu­ simples reflexão, que também ajudará a clarificar o que
tivo serve para explicar e, portanto, para diagnosticar, mas signüica dizer-se que qualquer evolução social é ((inevi­
também serve para fazer prognósticos. Toda a explicação tável».
torna possível previsões de outro tipo. A evolução pode ser representada esquematicamente
Contudo, as previsões científicas não têm de modo como uma série de vectores A - B - C - D. Aqui as letras
algum o carácter relativamente impreciso das «profecias)). representam várias configurações de pessoas, decorrendo

174 175
cada configuração da anterior, à medida que a evolução veis t�ormações até surgir uma única consequêncta.
Retrospectivamente, é tão plausivel examinarmos a cadeia
se processa de, A para D. Muitas vezes um estudo retros­
de potenciais consequências como descobrir a constelação
pectivo mostrará claramente não só que a configuração
particular de factores responsáveis pela emergência desta
no ponto C é uma condição prévia necessária para o
e não doutra configuração, dentro das alternativas pos­
assim como B para c e A parã B, como também a�
razões porque isto se processa deste modo. Contudo, futu­ síveis.
ramente, de qualquer ponto do fluxo das configurações, Isto explica porque é que uma investigação evolutiva
efectuada retrospectivamente pode muitas vezes demons­
só podemos geralmente estabelecer que a configuração B
é uma transformação possível de A, e de igual modo c trar com alto grau de certeza que uma configuração teve
de B e D de C. Por outras palavras, ao estudarmos o de surgir de certa configuração anterior, ou mesmo de
fluxo das configurações, há duas perspectivas possíveis na um tipo determinado de séries sequenciais de configura­
relação entre uma configuração escolhida a partir de um ções, mas não afirma que as configurações anteriores tives­
fluxo continuo e outra configuração posterior. Do ponto sem necessariamente que se transformar nas que lhe são
de vista da configuração anterior, a última é-em quase subsequentes. Assim, quando se estuda a alteração confi­
todos senão em todos os casos -:-- apenas uma das düeren­ guracional, é útil termos presente a ideia chave de que
tes possibilidades de mudança. Do ponto de vista da con. toda a configuração relativamente complexa, relativamente
figuração posterior, a primeira é geralmente uma condição diferenciada e altamente integrada deve ser precedida e
necessária para a formação da que se lhe segue. Será útil deve surgir de configurações relativamente menos comple·
acrescentarmos que tais relações sociogenéticas entre con- - xas, menos diferenciadas e menos integradas. Sem qual­

figurações anteriores e posteriores, poderão ser expressas quer referência ao fluxo de configurações que as produziu,
mais adequadamente se evitarmos conceitos como os de será impossível c�mpreender e explicar a interdependência
(ccausa11 e de uefeiton. de todas as posições de uma configuração, num dado
Resumindo, é esta a razão da diferença entre as duas �omento, o� a disposição das pessoas cujas relações
perspectivas. O grau de maleabilidade e plasticidade (ou directas, soctalmente reguladas, dão siginüicado a estas
inversamente o grau de rigidez) varia de uma configu­ posições. Esta afirmação não é idêntica a uma outra alter­
ração para outra. Assim, também varia a cadeia de pos­ nativa com a qual facilmente se confunde- a de que um

I
sibilidades de mudança. Uma configuração pode ter um fluxo configuracional tem inevitavelmente de produzir quer
potencial de mudança muito maior do que outra. uma uma dete�minada configuração mais complexa, quer qual­
vez mais, configurações diferentes podetrt ter um potencial quer configuração mais complexa. Quando lidamos com a
para düerentes tipos de mudança. Por conseguinte, uma inevitabilidade da evolução temos de distinguir claramente
configuração pode ter um grande potencial de mudança entre a proposição que afirma dever a configuração A ser
sem que nenhuma dáS possíveis alterações seja de carácter im�tamente segu�da d� configuração B, e a proposição
evolutivo- nenhuma delas implica uma mudança estru­ que diz que a configuraçao A era necessariamente precur­
tural; por mudança entendemos potencial de poder de cer­ sora da configuração B. Encontrar-se-ão constantemente
tas posições sociais (mais do que meras alterações de relações deste tipo quando se investigam problemas de
conjunto) entre os ocupantes dessas posições. Ou pode evolução social. E qualquer inquérito sobre as origens das
uma configuração ter pouco potencial de mudança e, no conf�gurações científicas aponta para essas relações. Como
entanto, haver grandes possibilidades de ser evolutiva surgiram os estados? Quais foram as origens do capita­
qualquer mudança que ocorra. lismo? Como surgiram as revoluções? Estas e muitas
Em muitos, senão em todos os casos, as configurações outras questões semelhantes são variações da seguinte
formadas por pessoas interdependentes são tão plásticas, questão: é a configuração B resultado inevitável de uma
qu� a configuração num estádio tardio do fluxo configU· configuração anterior A? Neste sentido, o conceito de evo­
raCional é de facto apenas uma das muitas possíveis trans· lução refere-se a uma ordem genealógica. Tem que se
formações de uma configuração anterior. Porém, à medida explicar como e porquê uma determinada conflguraQão
q�e .uma determinada configuração se transforma noutra, ulterior surgiu de uma configuração prévia. Enquanto a
dâ-se o estreitamente de uma grande dispersão de possf· existência desta última configuração for aceite simples-

176 177
mente sem que se levantem problemas, e enquanto ela rior de integração e, organizacionaJmente, uma nova série.
for destacada do fluxo configuracional do qual emergiu, Tensões e conflitos estruturados, que ainda não podem
será apenas possível descrever e não compreender ou ser muito controlados por aqueles que neles se envolvem,
explicar, como funciona a configuração e como determt. formam como sempre parte integrante desta tendência
nadas posições particulares se relacionam umas com as evolutiva, cuja dinâmica está ainda por investigar. Dando
outras. outro exemplo, podemos observar nos últimos estádios do
Uma fonte de confusão é o facto de, presentemente, Império Romano uma forte tendência para a descentra­
uma explicação científica ser geralmente compreendida limção e, depois, para a desintegração. Embora tenha
como sendo de tipo unilinear e causal. Assim, conceitos havido repetidos movimentos de insurreição .e esforços de


como os de capitalismo e protestantismo são muitas vezes reintegração, é óbvio que esta tendência fOi adquirindo
ut ados como se denotassem dois objectos separados, gradualmente um ímpeto que a tomou irreversível OUtro
eXlStindo independentes um do outro. Há discussões sobre exemplo significativo é a tendência imanente pela qual
o facto de Max Weber estar ou não certo, quando afirma uma configuração de muitas unidades aproximadamente
que o protestantismo é a causa e o capitalismo o efeito. do mesmo tamanho, competindo livremente, se orienta
Uma das diferenças fundamentais da sociologia evolutiva no sentido de uma configuração monopolística. Vemos
é precisar de modelos para representar configurações em algo de semelhante a este processo nos estádios primi­
constante mudança, sem começo nem fim. Tradicional­ tivos da formação dos estados, assim como na evolução
mente, o conceito de causalidade implicou sempre a da configuração de unidades económicas competitivas nas
procura de um começo absoluto - na realidade, de uma _ sociedades-estados europetas dos séculos XIX e XX. Ao
primeira causa. Assim, não podemos esperar que o tipo explicar- estes processos. não se deveriam excluir certos
de explicação necessária para a investigação na sociologia factores exógenos. Contudo, os exemplos dados são pro­
evolutiva seja semelhante às explicações que se ajustam cessos que se devem entender primariamente em termos
ao padrão dos modelos tradicionais de causalidade. Em da sua própria dinâmica configuracional endógena. O meca­
vez desse tipo de explicação, temos de explicar as mudan­ nismo de monopólio, que analisei profundamente noutra
ças ocorridas nas configurações por meio de outras obra 1., é um bom exemplo de como as forças sociais podem
mudanças anteriores; cada movimento deverá ser expli­ ser compulsivas, de modo a justüicar a asserção de que
cado por outro movimento e não por uma ccprimeil;a é provável que mais tarde ou mais cedo surja uma con­
causan que, por assim dizer, pôs tudo em movimento, figuração ainda não existente, a partir de uma conftgu·
sendo ela própria imóvel raç-ão anterior já existente.
li: sempre possível estabelecer que a configuração B Presentemente, a discussão de tais problemas é muitas
tinha de ser precedida de uma determinada configura­ vezes obscurecida por equívocos na aplicação de conceitos
ção A, embora não--se possa afirmar com a mesma cer­ como os de «inevitabilidade» e «probabilidade)), Quando
teza que a configuração A leve inevitavelmente à configu­ aplicados à dinâmica evolutiva das configurações, que se
ração B. 11As forças compulsivas11 deste segundo tipo não compõem de pessoas, não significam o mesmo como
são desconhecidas no seu conjunto. Contudo, aplicar-lhes quando se aplicam a relações causais mecânicas. É prová·
o conceito de «inevitabilidaden é arriscarmo-nos a ficar vel que para muitas pessoas, polaridades conceptuais rela·
· ttvamente indiferenciadas, como «determinaçãÇ))) e «inde­
envolvidos na selva das associações físicas e metafísicas.
que mesmo hoje são evocadas sempre que se menciona tenninação», sejam emocionalmente satisfatórias. Mas difi­
i a 1dnevitabilidadeu em relação a uma evolução social pro- cultam que se faça justiça às muitas gradações existentes

I
' ·
gressiva. entre os dois pólos, presentes nas configurações de indi·
Neste caso, é mais justificável e correcto falarmos viduos e no seu processo de mudança. Assim, uma dada
em graus variáveis de possibilidade e de probabilidade, configuração dentro de um fluxo configuracional pode ter
il' do que em inevitabilidade. Recorrendo a um exemplo uma flexibilidade muito grande (embora não ilimitada)

i,
"
óbvio, pode observar-se que a configuração das nações­ sem que as tlltimas fases da configuração deixem de ser
-estados tende actualmente, de um modo muito nítido, de um modo distinto e reconhecível a consequênci� de
a formar unidades vastas que representam um nível ulte- certas formas anteriores da configuração. 1t claro que a

178 179
comparação de duas configurações muito distantes no
mesmo fluxo configuracional, tais como a Inglaterra dos ponto devem ter seguido o seu curso respectivo de acordo
séculos XII e XX, pouco revela daquilo que se mantém com dinâmicas configuracionais imanentes, relativamente
característico desta configuração, ao longo de toda a sua autónomas. Contentamo-nos muitas vezes com pseudo­

civilização e tradição, usados num sentido estático, podeo{


evolução. Por consequência, conceitos como os de cultura -explicações de tais mudanças configuracionais paralelas.
São muitas vezes atribuidas à capacidade especial de
ser muito enganadores quando se referem a sequências certas pessoas para a fonnação de um estado- por exem­
configuracionais a longo prazo. plo os Incas ou os antigos Egípcios. Este tipo de explica­
Por outro lado, as configurações não têm de modo ção revela, quanto muito, um certo expediente. Em todos

a probabilidade é de que, se mudam alguma coisa, será


algum a mesma capacidade de mudança, Em muitos casos estes casos, lidamos nitidamente com configurações que
possuem uma tendência interna muito forte num certo
numa certa direcção. Uma análise configuracional mostra­ rumo. Conceitos como os de probabilidade e inevitabili·
-nos muitas vezes porque é que isto tem de ser assim. dade denotam mudanças observáveis em configurações que
Embora tais tendências não sejam independentes das inten­ não podem - ou ainda não podem - ser controladas e
ções e acções dos ind.iv!duos que constituem as configu­ dirigidas pelos indivíduos que as constituem. A tendência
rações, a forma que a configuração toma não será deter­ moderna dos estados contemporâneos para se envolverem
minada por planos deliberados ou pelas intenções de em problemas militares hostis é outro exemplo deste tipo
alguns dos seus membros, nem por grupos deles, nem de tendência evolutiva. Os problemas são criados unica·
mesmo por todos eles em conjunto. Por exemplo, para_ mente por forças que certas pessoas exercem sobre outras,
se explicar como sociedades-estados bastante centralizadas que grupos de homens exercem sobre outros grupos de
evoluíram recentemente a partir de unidades sociais muito homens; e, no entanto, as tendências evolutivas são opacas
menos centralizadas e diferenciadas, têm de se elaborar e incontroláveis para os próprios individuas que as origi·
modelos verificáveis e modificáveis de processos de for­ naram. Tais configurações são produzidas por tipos espe­
mação a longo prazo dos estados. COntudo, estes cons­ cíficos de interpenetração, e é certamente possível que a
tituem obviamente processos evolutivos de uma tal dura­ investigação sociológica empírica nos possa aproximar da
ção, que estão para além do alcance da imaginação sua compreensão. Porém, estas tendências evolutivas ape­
sociológica contemporânea; esta centra-se em perspectivas nas se podem compreender e comunicar aos outros, se
de prazos muito breves. estivennos libertos de uma total identificação com qual­
Hoje em dia, é-nos bastante familiar a ideia de que quer das unidades que conjuntamente constituem a con­
processos de evolução num passado recente- tais como figuração. Por outras palavras, a compreensão da autono­
os de urbanização, industrialização e burocratização nos mia relativa e da dinâmica imanente de uma configuração
países europeus -_foram processos perfeitamente bem é impossível para aqueles que a constituem, enquanto
determinados de mudança configuracional com caracterís· estiverem totalmente envolvidos e intrincados nas alter·
ticas estruturais e específicas próprias. E, no entanto, falar cações e conflitos decorrentes das suas interdependências.
da estrutura dos processos ainda está em desacordo com Para compreendennos as configurações humanas, é neces­
o modo estático como se utiliza hoje o conceito de estru­ sário que tenhamos alcançado um distanciamento inte·
tura. E a estrutura de certas transfOrmações sociais fun­ lectual considerável relativamente à configuração em que
damentais, raramente se vê- incluindo a de uma trans­ participamos, às suas tendências de mudança, à sua «inevi·
formação no sentido de uma centralização crescente, tabilidadeu e às forças que certos grupos que se entre­
seguida muitas vezes de um controlo crescente sobre con· cruzam, mas que simultaneamente se opõem, exercem uns
tratadores centrais, por parte de pessoas até aí sujeitas sobre os outros.
a regras unilaterais vindas de cima. Uma vez adquirido um maior grau de distanciamento
Vale a pena lembrar que, tanto quanto sabemos, os intelectual relativamente à configuração de que se faz
processos de formação do estado têm prosseguido inde­ parte, surge a possibilidade de uma melhor compreensão
pendentemente uns dos outros, em épocas diferentes e das forças que todos os membros exercem mutuamente,
em diferentes partes do globo. Isto significa que até certo em virtude da sua interdependência, e a resultante «inevi·
tabilidade» de uma mudança configuracional. E, se houver
180
181
f.1 .
'
. '
uma opor t;m idade de comunicar aos centros de poder a
determinação mecânica do tipo que se observa nas sequên­
cias fisicas casualmente condicionadas. CoD.trariamente,
compreensao que se vai adquirindo dentro dos grupos
quando se acentua a indeterminação e a liberdade do indi·
entrecruzados, também haverá uma possibilidade cres­
víduo, esquece-se geralmente que existem sempre simul·


cent� �o sentido de se aliviar a. pressão destas forças e,
taneamente muitos indivíduos numa dependência mútua,


em ultima � . s �cm,. de as c�ntrolar e dirigir. Mas nenhuma
cuja maior ou menor dependência limita o escopo de acção
essas posstbthdades (e mutto menos a do distanciamentO
de cada um. Por seu lado, estas limitações constituem uma

� �
mtelectual) depende simplesmente dos dons pessoais dos
parte essencial da sua humanidade. Se queremos resolver


� vfduos uma configuração. Dependem todas, em
estes problemas necessitamos de instrumentos conceptuais
últrma an hse, das características especificas da própria
mais subtis do que a habitual antítese (diberdade-d.etermi·
configuraçao.
nismOJl.
Surge aqui, uma vez mais, o círculo vicioso anterior­
mente discutido. Para que os individues tenham uma visão
udo e�terioru, têm necessidade de se distanciar da contt­
guraçao em que se situam como adversários. Contudo TEORIA DA EVOLUÇAO SOCIAL
não estão em posição de o fazer enquanto forem relati:
vamente grandes os perigos e ameaças que representam
Restam alguns pontos sobre a evolução social, insu·


uns para os outros na sua interdependência e enquanto
ficientemente confirmados pela soCiologia contemporânea.
cons�quentemente, encararem e percepcionarem com grand
O primeiro deles refere-se à unidade social que se con­
emot1vidade o seu envolvimento mútuo. No entanto, 0 perigO
sidera em evolução. No século XIX, os modelos de evolu­
e as ameaças reciprocas só diminuem se o seu pensamento
ção eram geralmente construídos como se fosse caracterís·
e comportamento se tornarem afectivamente menos pesa-­
tica de toda a humanidade uma única linha de evolução,
dos, o que, Por sua vez, depende da diminuição de perigo.
_ repetindo-se mais ou menos do mesmo modo em todas
Na sua relaçao com as forças naturais não humanas, tam­
as sociedades isoladas. Entendia-se vulgarmente por socie­
bém a humanidade esteve durante muito tempo encurra­
dade isolada a que era constituída por um único estado.
lada neste círculo vicioso; a evolução do controlo humano
Hoje em dia, quando falamos de evolução, temos geral­
sobre a natureza é um feito não menos difícil do que
mente em vista a evolução de um determinado país - nova­
hoj� é a fuga ao circulo vicioso das suas relações mútuas.
mente uma sociedade-estado ou, possivelmente, uma tribo.
HoJe em dia está grandemente realizada a fuga a essa
De qualquer forma, as unidades actuais de ataque e defesa
primeira ratoeira. Valeria a pena um estudo detalhado do
consideram-se implicitamente como unidades de referên­
modo como as pessoas nessa esfera conseguiram esca·
cia para a ,evolução social.
par ao circulo vicioso das ameaças nobjectivas» auto-agra·
Facilmente nos apercebemos como é insatisfatório
vantes e a um pensamento e comportamento emocional
limitar os modelos evolutivos aos processos internos dos
' nsubjectivOil - e quanto tempo demoraram a fazê-lo.
'I
� �
estados. Uma razão óbvia para os restringir deste modo
A génese social de uma racionalidade crescente acarre­
é o facto de, presentemente, a atenção se concentrar
tando uma libertaç o de forças até aí incontrolávei , repre­
I senta uma evoluçao longa e difícil. A compreensão do
naquilo a que podemos chamar os aspectos económicos
da evolução. Mas mesnio no caso dos países em vias de
carácter específico das forças configuracionais que as


desenvolvimento, é perfeitamente artificial considerarmos
pessoas exercem umas sobre as outras representa uma
os chamados processos de evolução económica como sendo
sacudidela na velha disputa sobre o pr blema da deter·
o núcleo real do desenvolvimento social. Estamos mais
minação e ((inevitabilidadeJJ do desenvolvimento social.
próximos da realidade se encararmos os processos de dife­
Torna possível navegar com segurança entre Sila, repre­
renciação e de integração como o verdadeiro centro da
sei?-tado pela física e Caríbides, representado pela meta­
evolução social. Consequentemente, os aspectos económicos
ffslCa, As discussões tradicionais pouco se preocuparam
da evolução deveriam ser considerados ao mesmo tempo
com as qualidades únicas que se encontram ao nivel da

I
que os processos de formação dos estados. Estes últimos
integração que a sociedade humana representa. Historica·
são aspectos estruturados de evolução global, e é certa-
mente, ((0 determinismo» tem habitualmente denotado uma

I
183
182

1
mente' impossível separá-los dos aspectos econômicos nos com os conflitos reais que se processam diante dos nossos
países em vias de desenvolvimento. olhos. O nosso processo habitual de formação conceptual
Mas quer examinemos o desenvolvimento dos países leva-nos a efectuar uma distinção nítida entre dois tipos
do <lTerceiro Mundon, quer o d,esenvolvimento contínuo de conflito. Os conflitos que requerem a utilização da
dos paises altamente industrializados - onde os processos força física dentro de uma sociedade-estado aparecem con·
de evolução estatal não desempenham um papel de menor ceptualmente distintos dos conflitos que envolvem o uso
importância - os processos endógenos de evolução social de forças entre as diferentes sociedades-estados, sendo este
manter-se-ão incompreensíveis e inexplicáveis, a menos que o processo de evolução da sociedade de estados. Classifi·
se atenda simultaneamente à evolução dos sistemas dos cam-se habitualmente os primeiros como revoluções e os
estados, dado que cada uma das sociedades-estados isolada segundos como guerras. A teoria das revoluções que Marx
está imiscuída num sistema de estados. Há uma tradição e os seus seguidores apresentaram, constitui ainda, em
no facto dos sociólogos se limitarem quase inteiramente larga medida, veículo para esta distinção conceptual entre
ao estudo dos processos dentro das sociedades. As teorias a estrutura de conflitos violentos nos dois níveis de inte­
sociológicas, especialmente num passado recente, agar­ gração. Da evidência de lutas revolucionárias vitoriosas
ram-se quase sempre a uma tradição em que se conside­ empreendidas por estratos sociais oprimidos dentro de
ram as fronteiras dos estados cOincidentes, de um modo uma sociedade-estado isolada, Marx e Engels deduziram
lato, com as das «SOciedadesn. Por um consenso geral, como teoricamente certo que em todo o lado as classes
as relações entre os estados pertencem a um outro campo oprimidas mais tarde ou mais cedo iniciariam revoluções.
académico - o da llCiência politican. o facto de Marx e Engels não terem encarado os conflitos
A distinção entre as relações dentro das sociedades violentos simplesmente como caóticos e não estruturados
ou estados e as que existem entre as sociedades ou esta­ foi um grande passo em frente na teoria sociológica. Con­
dos não só é falsa no contexto dos problemas actuais da sideravam-nos como estando enraizados na estrutura da
evolução; ela é sempre enganadora. Seja uma tribo ou evolução social e, por conseguinte, como possuindo de seu
um estado, a evolução interna de cada uma das unidades próprio dlreito uma estrutura. A teoria de Marx reflectiu
de ataque e defesa relaciona-se sempre fUncionalmente com um estádio de desenvolvimento das ciências sociais onde
a evolução do uequillbrio de poder)) predominante, na con­ a evolução intra-sociedade é encarada como estruturada e,

Ó
figuração mais ampla em que as várias unidades de ataque assim como um objecto possível de investigação cientí­
e de defesa se unem. fica. ontudo, as relações entre os estados- especialmente
Num passado recente, a interdependência de uma evo· os conflitos que implicam a utilização de força - eram
lução intra e inter-sociedades tem-se tornado mais do que ainda percepcionados como nãO estruturados. Deste modo,
nunca familiar, abarcando uma série de aspectos. Aper· os conflitos entre os estados não eram considerados como
taram-se e alongarafu-se as cadeias de interdependência material bruto que proporcionasse a construção de teorias
econômica. A produção de armas intercontinentais simul· cientüicas. Com a interdependência crescente das lutas
taneamente com outros progressos da ciência e da tecnolo­ pelo poder intra e inter-sociedades- quer nas suas for·
gia tornaram a evolução interna de cada sociedade-estado mas controladas e não violentas quer nas suas formas
mais significativa do que nunca, no que respeita à evolução incontroladas e violentas- os processos de evolução intra
de relações entre os estados - muitas vezes à escala mun­ e internacionais interpenetram-se e aglutinam-se de muitas
dial e vice-versa. Assim, cada vez é menos realista a dis· formas.
tinção teórica entre, por um lado, a evolução social consi­ um exemplo (de entre os muitos possíveis) é suficiente
derada interna para o estado em questão e, por outro, para demonstrar a impossibilidade de tratarmos se
�­
a evolução das relações entre os estados, do sistema de damente os processos evolutivos nos dois diferente� niveiS
equilíbrio de poder à escala mundial, ou, por outras pala­ de integração. Consideremos a dialéctica dos movunentos
vras, a sociedade de estados, que se considera tema de revolucionários e contra-revolucionários no xadrez das
llpolítica externan. repúblicas sul-americanas. como em muitas outras socie­
lsto toma-se sobretudo evidente se compararmos o dades-estados relativamente pequenas, a polarização de
tratamento teórico tradicional que se faz do conflito social, grUpos mais vastos de poder na cena internacional levou

184 185
à polarização das élites dominantes dentro das sociedades. potencial vitória do outro. Enquanto persistir esta confi­
-estados. Mas os estratos que englobam a maioria dos indi­ guração de poderes polarizados, cada �ntativa séria de
viduas- neste caso os camponeses-ficam desamparados alteração da fronteira aproxima-nos mais da fase critica
'
e são comprimidos num autêntico tomo. As sociedades­ em que uma confrontação armada entre opositores inter­
' -estados mais poderosas não são menos constrangidas do dependentes degenera para a utilização aberta da força
que as sociedades mais pequenas e menos poderosas, que armada.
têm sido arrastadas na sua órbita. Formam em conjunto A fronteira entre os grupos de poderes adversários
uma configuração comum-um ucorpo a corpOit estrutu­ já. não é uma simples linha geográfica, embora haja ainda
ral. O equihõrio de poder entre estados interdependentes no mapa da Europa e da ÃSia uma linha estratégica nítida
é tal, cada um está tão dependente dos outros, que vê que vai do Oceano Pacífico ao Mar Báltico. Fora disso,
em cada estado que se lhe opõe uma ameaça à sua pró­ a interdependência mundial crescente da evolução intra
pria distribuição interna de poder, à sua independência e e inter-sociedades, levou a confrontações quer latentes quer
mesmo à sua existência física. O resultado deste ucorpo abertas entre muitas sociedades-estados médias ou peque­
a corpoll é que cada uma das partes tenta constantemente nas, entre partidos que apeiam quer uma quer outra das
uma melhoria do seu potencial de poder e das suas possi­ principais sociedades polarizadas. É certo que, durante
bilidades estratégicas no que respeita a qualquer eventual outras fases da evolução humana houve divisões parti·

I· ),
i
reencontro guerreiro. Cada um dos aumentos das possi­ dãrias dentro de estados, vinculados em maior ou menor
bilidades de poder verificado numa das partes, por muito grau a divisões que transcendem as fronteiras estatais.
pequeno que seja, será encarado pelo outro lado comõ contudo, à medida que se estreita a teia de relações mun­

fort�s. Sociologicamente falando, a guerra e a guerra civil


um enfraquecimento e um recuo da sua própria posição. diais estas interdependências alastram-se e tornam-se mais

ii
Constituirá um recuo dentro da estrutura desta configU­
ração. Assim, desencadear-se-ão contramovimentos à medida - e mesmo a sua ameaça- cada vez mais se entrosam
que o lado mais fraco tenta melhorar as suas possibili­ e interpenetram. Os eixos fundamentais de tensão nas
dades; e estes, por sua vez, provocarão o primeiro lado relações internacionais exercem uma espécie de atracção
a empreender os seus próprios contramovimentos. O poten­ magnética sobre muitas divisões partidárias locais, dentro
cial de poder da humanidade é assim polarizado em dois das sociedades-estados individuais.
campos- ou três, se incluirmos a Chtna. Os membros de Um eixo de tensões internas de um estado tende a
um dos grupos reúnem-se sob o estandarte dos sistemas ·convergir com os eixos de tensões entre os estados. Con­
de crenças comunistas de variadas matizes; os do outro sequentemente, a fronteira estratégica entre as grandes
grupo sob o do capitalismo. Um dos lados apoia o governo potências passa muitas vezes, de um modo franco ou
permanente de um partido; o outro lado, o governo de .
latente, por meio das sociedades-estados individuais. Ass�,
qualquer dos vário�S partidos que na altura adquira domi­ os países menos desenvolvidos e mais pobres são parti·
nância. Esta polarização tem-se imposto e difundido em cularmente susceptíveis a eclosões de conflitos armados e
' '"
"I conflitos locais, por todo o mundo. �
1·1-1, as suas élites alinharão provavelmente com a polarizaç�
' Isto aplica-se particularmente a todas as sociedades­ dominante das superpotências. Todo o tipo de grupos locais
I ,' -estados que se situam na fronteira entre os bastiões vigentes - guerrilheiros e tropas do governo, revolucionários e con­
(aquilo a que antigamente se chamavam as esferas de tra-revolucionários- entrarão em conflitos subalternos uns
influência) das maiores unidades de ataque e de defesa. com os outros, como representantes dos grandes podere�
O equilíbrio de poder entre estes agrupamentos das gran­ opostos. Nas sociedades altamente desenvolvidas e rela!I­
des potências tornou-se bloqueado e, em muitas das socie­ vamente prósperas, a ameaça dialéctica da força nao
dades-estados ao longo de uma fronteira estratégica, tal
facto levou a rupturas entre zonas ou secções da popu·
impede, e pode mesmo promover positivamente, um esen­�
volvimento ulterior e uma riqueza social crescente, con­
lação que se inclinam para diferentes blocos de poder. tudo, em todos os paises pobres, a polarização de revolu­
De cada vez que se altera a fronteira, dá-se uma pertur· cionários e contra-revolucionários, geralmente apenas con­
bação no equilíbrio flexível de tensões entre os grandes duz a um empobrecimento. Examinada mais de perto,
blocos de poder, uma perda potencial de um lado e uma a ajuda das grandes potências prova ser apenas um palia-

186 187
r
:
'
.

I tivo. Com ela, pretendem essencialmente, não tanto ajudar


no desenvolvimento dos paises em questão, como ganhar
adeptos para um ou outro lado.
tãncia dentro de uma sociedade mais lata. Assim, é inade­
quado, quando analisamos uma mudança social, para não
dizer quando a planificamos, confinarmo-nos a uma mani­
pulação intelectual de conceitos aparentemente impessoais

1 11
i I• O entrelaçamento das duas formas principais de violên· tais como: investimento de capital, salários, produtividade
cia social, entre estados (guerra) e dentro dos estados e assim por diante.
'
I
,[
·:, (revolução), é um exemplo entre os muitos para os quais Não se deve dar mais atenção ao novo, que está a
'' os modelos de evolução social de um só nível se revelam aparecer, enquanto se despreza o velho, que está em declf­
i não adequados. É igualmente insatisfatória a utilização de n1o ou em desaparição no decurso da evolução. Podem
modelos de processos de evolução econ6mica como resumo surgir novas posições com novas funções; podem-se aumen­
de tudo o que pode ser dito sobre a evolução social. As tar ou reduzir (talvez mesmo anular) as funções das velhas
teorias que apenas tratam os aspectos económicos da posições. Mas é errado pensar que duas correntes dentro
mudança configuracional como estruturados, só podem ter de uma configuração, uma ascendente, a outra em declínio
um valor muito limitado como linhas orientadoras para no decurso da evolução social, podem ser encaradas como
uma investigação empírica ou para uma solução prática acontecimentos impessoais num plano extra·humano. Na
do} problemas. A sua fraqueza reside em que tratam todos realidade, esta ascenção e queda significam a ascenção e
os outros aspectos (embora estes sejam funcionalmente queda de grupos de pessoas. Significam que certos grupos
interdependentes de um modo nitido) como não estrutu· terão maiores oportunidades de poder; significam que
rados, como meros acidentes, incapazes de ser estudados outros, perdendo algumas ou todas as suas funções, per­
cientificamente ou representados num modelo teórico. Tais - derão todas ou parte das suas oportunidades de poder 2•
teorias negligenciam mesmo a posição mutável dos esta­ uma das características mais surpreendentes de muitas
dos dentro da sociedade de estados em desenvolvimento. teorias sociológicas e económicas é que mal reconhecem
A crença de que a evolução global da sociedade se pode o papel central que as tensões e os conflitos desempenham
explicar ou pode mesmo ser controlada apenas sob o ponto em toda a evolução social. Dá-se muitas vezes a impressão
de vista económico, leva necessariamente a juizos impre­ de que os cientistas sociais imaginam semiconscienteme�te


cisos e a planos erróneos. Ora, em vez disso, são precisos que sem qualquer intenção, poderão produzir tais tensoes
modelos de evolução económica de dois níveis, incluindo e c nflitos caso os incluam nos seus modelos de sociedade.
processos de integração assim como de diferenciação, evo­ Ou que receiam pareoor aprovar estas tensões e eonflit�s.
lução internacional assim como interna, reconhecendo-se _
Mas nunca as tensões e conflitos desaparecerao da socze.
que todos eles são aspectos estruturados de um processo dade pelo facto de terem sido omitidos nas teorias.
global.
É fácil verific.ar que tensões e conflitos entre grupos
Muitas vezes parece que esquecemos deliberadamente que estão a perder funções e outros que adquirem fun­
que a evolução sociãl está relacionada com alterações na ções novas ou as aumentam, são uma característica estru·
interdependência humana e com mudanças nos próprios tural vital de toda a evolução. Por outras palavras, não
homens. Mas se não se atender ao que se passa com as
se trata apenas de uma questão de tensões e conflitos pes­
pessoas no decurso da mudança social - as mudanças nas soais, essencialmente acidentais, embora quem neles esteja
configurações compostas por pessoas - então não vale a envolvido os encare habitualmente como tal Do ponto de
pena qualquer esforço cientifico. Embora possa ter um
vista dos grupos que se entrecruzam, podem por vezes
significado diferente, a evolução social implica sempre considerar-se como expressões de uma animosidade pes­
alterações da natureza e daS relações das posições sociais,
soal, outras como consequência da ideologia de um ou
ocupadas pelos vários grupos de pessoas. Tem que signi­
de outro iado. E, no entanto, trata-se antes de conflitos
ficar sempre e inevitavelmente que no decurso da evolução
e tensões estruturados. Em muitos casos, eles e os seus
há certas posições sociais ou grupos de posições que cedem, resultados constituem o centro de um processo de evo-
total ou parcialmente, as suas funções, dentro de um com­ lução.
plexo funcional. Ao mesmo tempo, outros grupos de posi­ .
São ainda raras as investigações sociológicas SlStemá­
ções (por vezes mais antigos, mas na maioria das vezes,
ticas sobre estas deslocações de função e as consequentes
bastante novos) adquirem novas funções ganhando impor·

189
188
I'
11
'

''Ii'
1 11 lhadamente o decurso desta evolução, é evidente que a
alterações de equilfbrio· de poder no centro dos processos
,,
evolutivos. ·No entanto, o que acima se disse sobre as expropriação revolucionária das funções do rei e da nobreza

J:
propriedades estruturais da evolução social, pode-se ilus­ não surgiu simplesmente pelo ataque violento dos estratos
'
trar com um exemplo evidente. O seu significado, embora rebeldes. Foi também iniciada pela incapacidade compre­

: ;i
comum, é facilmente omitido. No decurso de certos pro­ ensivel do rei e da nobreza em se adaptarem ao facto
. de as suas posições perderem gradualmente funções,
cessos evolutivos das sociedades europeias durante os

,
séculos XIX e XX, deu-se uma erosão- por vezes gradual, e pela sua recusa em concordar numa redução dos seus
, por vezes rápida- das funções de posições de príncipes privilégios correspondente ao seu potencial de poder em
e nobres. Até ao século XVIII, em todos os estados mais decréscimo.
importantes, as subversões e -revoltas tinham sempre como A ascensão e queda de grupos dentro das configura­
objectivo derrubar um soberano em favor de outro, ou ções e as tensões e conflitos estruturais concomitantes, são
aumentar ou reduzir o poder de partes da nobreza rela­ centrais em todos os processos evolutivos. Têm que ser
tivamente ao soberano, ou em relação a outros estratos colocados no centro de qualquer teoria sociológica da
da nobreza. Mas estes esforços nunca foram permanentes evolução. De outra forma, torna-se impossível chegar ao

'
e raras vezes tinham como objectivo a abolição das posi­ problema (teórico e prático) central com o qual os soció­
ções de soberanos e nobres enquanto taL Mesmo depois logos constantemente se defrontam. Este problema é se

I
da execução do rei de Inglaterra (Carlos I em 1649), e até que ponto as tensões e os conflitos não controlados,

i.!
a posição do líder revolucionário ( Cromwell) em breve entre diferentes grupos de pessoas, podem ser sujeitos a
reverteu a favor de uma posição monárquica, quando o_ um controlo e a uma orientação conscientes por parte
regresso representativo da antiga dinastia real (Carlos 11 daqueles que neles estão envolvidos, ou se tais tensões

. I:
;j que reinou de 1660 a 1685) reassumiu a posição tradicional e conflitos apenas podem ser resolvidos pela violência,

l
de rei. Uma análise mais aprofundada poderia facilmente quer como revoluções dentro dos estados, quer como guer­
revelar as propriedades estruturais das sociedades-estados ras entre eles.
'
pré-industriais, responsáveis pela eventual ocorrência de
tais revoltas. Porque, apesar de todas as suas fantasias,

, . '!
estas sociedades caiam sempre em configurações que trans­

! ',I1
. ' formavam pequenos estratos privilegiados em nobres e
reis, revestindo-se este tipo de élite de grandes oportuni­
dades de poder, em comparação com as da maioria da
população. Desde então, o poder tem sido gradualmente
escoado das posições da nobreza em todas as sociedades
europeias semelhan�s; em muitos casos, estas posições
desapareceram totalmente. No entanto, as explicações não
sociológicas da evolução da sociedade europeia dão muitas
vezes a impressão de que tudo isto foi uma ocorrência
fortuita, um acontecimento histórico singular.
Porém, um estudo mais atento do decurso da Revo­
lução Francesa, mostra muito nitidamente que, mesmo
antes da revolução, sob a capa do ancien régime as posi­
ções do rei- e da nobreza tinham vindo a perder funções
à medida que a sociedade francesa pré-industr�ªl se tor­
nava mais comercializada. Os privilégios associados às suas
posições, particularmente a desigual distribuição de impos­
tos a seu favor, parecia a muitos observadores coevos. não
ter qualquer relação com a sua «função para a nação)),
como o Abade Sieyes lhe chamou. Se examinarmos deta-

190 191

"'"
NOTAS E REFER�NCIAS

, ,

Introdução
1
Para simplificar, só se mostram neste diagrama os tipos
mais elementares das necessidades recíprocas de cada um e
das suas ligações recíprocas - apenas as valências afectivas
(v. p. 147 e segs.). Há muitos outros tipos com funções seínelhan­
tes. Precisamos uns dos outros, orientamo-nos uns para os outros
e estamos ligados uns aos outros. Isto resulta da divisão do
trabalho, da especialização ocupacional, da integração em tribos
ou estados, de um sentido comum de identidade e de um anta­
gonismo partilhado com os outros ou de um ódio e de uma
inimizade recíprocos.
O principal objectivo da figura 2 é facilitar a reorientação
dos conceitos e modelos sociológicos, que se torna possível se
deixarmos de encarar os seres humanos, incluindo nós próprios,
como unidades totalmente autónomas, passando então a per­
cepcioná-los como unidades semi-autônomas . precisando umas
das outras, dependentes umas das outras e ligadas umas às
outras de modo muito diversos. O diagrama indica estes equi­
líbrios de poder instáveis (ver p. 80) e as provas de força
referidas colocam-se entre as propriedades básicas de todas as
relações humanas, quer sejam relações relativamente simples
entre duas pessoas, como ocorre no casamento, ou configUra·
ções de muitos membros como as cidades ou estados, consti­
tuídas por muitos indivíduos.
2 Ver N. Elias, «Problems of Involvement and Detachment»,
British Journal af Sociology; vol. 7, n.� 3, 1956, pp. 226-52.

L A Sociologia-As questões postas por Comte


1 Muitos homens desta época usaram o termo «positivo,.
neste sentido. Comte, tal como antes dele Turgot, utilizou-o como
antônimo de tudo aquilo que considerava especulativo, quer se
revestisse da forma teológica quer da filosófic-a. Comte chamou
à sua teoria das ciências «Filosofia positiva» para a distinguir
como sendo uma filosofia científica (ou, como poderíamos dizer,
uma teOria científica) da ciência, opondo-se às teorias filos&

193
ficas da ciência, de carácter especulativo, habituais na sua simples e frouxo como a dos antigos lroqueses, o processo
época, tal como na nossa. federal quando um individuo queria propor algo à federação,
2 Auguste Comte, Cours de Philosophie Positive, 183042, era o seguinte (a fonte é um relato contemporâneo feito pelo
5.' edição, 1907, vol. 1, p. 5. Rev. Asher Wright, citado por Edmund Wilson, Apologies to
3 lbid., p. 2. the Iroquois, Londres, 1960, p. 174):
4 lbid., p. 5. «:Uma medida tem de obter primeiro o consentimento da
6 lbid., p. 6. família do proponente, depois o do seu clã, depois o dos quatro
� lbid., p. 52. clãs que, por sua vez, se relacionam com a casa do conselho,
1 Wolfgang Wiener, Orqanismen, Strukturen Maschinen· depois o da nação e, por último, na devida altura o assunto
Zu eine Lehrer vom Organtsmus, Frankfurt am' Main, 1959: será apresentado aos representantes da Confederação. Numa
pp. 64, 68. ordem inversa, as medidas tomadas pelo Conselho Geral eram
8 Comte, pp. 15-16 (os itálicos são da minha autoria). apresentadas ao povo para serem aprovadas. Era regra esta­
belecida que toda a acção deveria ser unânime. Por isso, todas
as discussões, sem qualquer excepção, se prolongavam até ser
3. Modelos de jogo rebatida toda a oposição, ou até a medida proposta ser aban­
donada.»
1 Ver N. Elias, «Problems of involvement and detachment»' a H. J. Kõnigsberger, cDominium regale or dominium et
British Journal of Sociology, vol. 7, n.o 3, 1956, pp. 226-52. regale?: Monarchies and Parliaments in Early Modem Europe&,
2 Aquilo a que chamamos «configuração» em relação às em Human Figurations: Essays for Norbert Elias, ed. P. Glei­
partes constituintes é semelhante àquilo a que chamamos «estru­ chmann, J. Goudsblom and H. Korte, Amesterdão, 1m.
tura» em relação à unidade composta. Se falamos da estrutura "�� N. Elias e J. Scotson, The Established and the Outsiders,
das sociedades e da configuração ou padrão de vinculação dos Londres, 1%5.
16 O meu colega Richard Brown da Universidade de Durham,
indivíduos que formam essas sociedades, estamos de facto a
falar da mesma coisa encarada de diferentes ângulos. teve a amabilidade de ler esta parte do manuscrito e observou-me
a A análise bem conhecida de E. E. Evans-Pritchard da que cálculos deste tipo já apareceram em E. F. C. Brech, Orga­
função dos feudos entre os grupos de linhagem Nuer constitui nisation, Londres e Nova Iorque, 1957, pp. 77 e segs., embora
um �emplo instrutivo da uti.Ji;zação teleológica do conceito de num contexto de problemas teóricos bastante diferente.
funçao. B;Sta .é adulterada, utiyzando-se C!Jmo um conceito que
tem por fmalidade a conservaçao de um Sistema social existente.
«A função do fe!J-dO,_ encarada deste modo, é por conseguinte a 4. Características universais da sociedade humana
de manter o equilíbno estrutural entre segmentos tribais opostos
que, no entanto, se fundem politicamente relativamente a unida­ 1 Ê impossível dar aqui suficientes exemplos que provem
des maiores» (E. E. Evans-Pritchard, The Nuer Oxford 1940 que neste domínio ainda é tudo muito confuso. Mas devíamos
cap. 3, p. 159). Seria mais adequado dizer que du;ante o p'enodÓ mencionar que mesmo um cientista da envergadura de Konrad
da . investigação, as funç�es que cada um dÓs grupos segmen­ Lorcnz, líder teórico e empírico no seu campo de investigação,
tános desen;-penhava !ec1procamente, na qualidade de aliados pode esquecer a simples distinção entre os tipos humanos de
e companheiros de. tr}bO, ultrapassava a função que desempe­ comportamento que são na sua maioria aprendidos, e os tipos
nhavam enquanto nva.Is. de comportamento de organismos não humanos, que são na sua
I ' Podemos encontrar um exame mais detalhado das fun­ maior parte automáticos e não aprendidos. Ele observa um para­
ções � das . rela�s de poder entre grupo� especializados em lelismo superficial entre certos tipos de comportamento social
N. Ehas Die Hofische Gesele schaft, Neuw1ed e Berlim, 1970, humano 1·egido por normas e o comportamento social dos lobos
caps. 11 e N. e dos gansos europeus. Na sua especialidade, a sociologia animal,
� Não há necessidade de acentuar a reflexão crítica sobre Konrad Lorenz apoia-se habitualmente num trabalho elaborado
as teorias da �cção e da interacção, q!;IC prestam pouca ou com grande cuidado e minúcia, tomando-o como base de formu­
nenhuma atençao à estrutura das pressoes que a «acção» de lação das suas teorias. Por isso, poderíamos ter esperança em
uma pessoa ou de um grupo exerce sobre os outros. que ele se familiarizasse com os resultados da investigação socio­
6 O conceito de «funcionamento enfraquecido» no contexto lógica sobre as sociedades humanas, prestando-lhes a mesma
de processos sociais observáveis não pode ser confundido com atenção cuidadosa e a mesma minúcia, antes de formular con­
o .C?nceito de. «disf:un�o» de . Met:ton, que não tem qualquer clusões sobre a agressão humana e as leis que a regem- con·
utilidade na mvestigaçao sociológica. O conceito mertoniano clusões extraídas dos seus conhecimentos sobre a agressão e
baseia-se num conjunto pré-determinado de valores· refere-se suas leis no que respeita às sociedades animais (ver Konrad
a uma imagem ideal de sociedades estáticas funci01Íando bar· Lorenz, edição portuguesa - A Agressão, «Temas e Problemas»,
moniosamente-uma imagem que em nada corresponde ao que Moraes, Lisboa, 1974). Pode facilmente demonstrar-se que a
se observa na vida real. formação de normas e toda a impregnação social do compor­
1 Contudo, muitas sociedades que ainda não se transfor· tamento agressivo hllmano no decurso das relações recíproças
maram em estados funcionam em mais do que dois níveis. que vamos sofrendo, são extremamente variáveis. Podem vanar
Mesmo numa federação de tribos integradas de um modo tão grandemente de uma para outra sociedade ou mesmo entre

194 195
diferentes estratos de uma mesma sociedade. Diferem muito instrumentos habituais de orientação - apenas são válidos den­
de sociedades industriais para sociedades em que os estratos tro da estrutura da nossa própria sociedade, é colocarmo-nos
dominantes se compõem de guerreiros. Encontra-se material e aos outros no risco de sucumbirmos de desespero relativista.
relevante para este problema em Norbert Elias, Ober den Pro­ Contudo, este perigo só persiste enquanto o criticismo radi­
zess der Zivilisation, 2.a ed., Berna. e Munique, 1969. cal das formas de discurso e de pensamento se não combinar
O único processo de concluir com alguma certeza se e com tentativas de abrandamento. E isto para aqueles que se
até que ponto a raiz de todo o comportamento agressivo se consciencializam do carácter não adequado dessas formas rela­
encontra numa tendência comportamental comum a toda a tivamente às tarefas em que são utilizadas. Resumindo, :podemos
espécie, implica a promoção de exaustivos estudos comparativos evitar o risco usando esta critica como meio de abnr possi­
em muitas sociedades em graus variáveis de evolução social bilidades para tornar os modos de falar e pensar habituais
Como já foi afirmado, o comportamento humano, tal como O numa sociedade mais adequados às suas tarefas, se tal for
observamos, é sempre a consequência de um equilíbrio de ten­ necessário, Entre os llnguistas, há alguns estruturalistas que por
sões muitas vezes extremamente complexo entre impúlsos corti­ vezes se referem à estrutura das línguas como se a estrutura
cais e subcorticais. Lorenz parece desprezar a interiorização dos existente na língua de uma sociedade fosse concomitante dessa
controlas comportamentais aprendidos, que é possível na natu­ mesma sociedade, pertencendo-lhe para todo o sempre. Isto é
reza humana, mas não, fazendo fé nas suas investigações, na apenas uma outra versão da ideia de que a condição actual
natureza dos gansos europeus. Está fora de questão acreditar­ de uma determinada sociedade - e neste caso também da sua
mos que a história natural da agressão se processa numa linha língua- é fixa e imutável.
recta do esgana-gata ao homem. ,_
8 Pode encontrar-se um breve estudo sociológico deste
Sobre este tema seria interessante apontar outro equivoco balançar do pêndulo no prefácio a Norbert Elias Vber den Pro­
que está na base das teses do filósofo Arnold Gehlen. Este parece zess der Zivilisation, 2." ed., Berna e Munique, 1%9.
' Emile Durkheim, De la Division du Travail Social, 7." ed.,
confundir a maior plasticidade do comportamento instintivo
humano, que implica uma maior habilidade por parte do homem Paris, 1960, p. 342.
no controlo dos seus instintos, com a humanidade enquanto � Ver Norbert Elias, Vber den Prozess der Zivüisation,
espécie, possuindo instintos fracos. A evidência de que dispo­ e Elias, Die HOfische Gesellschajt, Neuwied e Berlim, 1%9.
e
mos não justifica a conclusão de que, sendo os instintos huma­ Emile Durkheim, Les Régles de la Méthode Sociologique,
nos os mais maleáveis, tem necessariamente de ser fracos. Não U.• ed., Paris, 1950, p. 28.
há qualquer prova de que os instintos humanos sejam mais r Ver R. Brown e A. Gilman, «The Pronouns of Power and
fracos que os dos leões, macacos ou pardais. Solidarity», em P. P. Giglioli (Ed.), Language and Social Context,
� B. L. Whorf, Language Thought and Reality: Selected Penguin, Harmondsworth, 1972.
Writings, MIT, Press, Cambridge, Mass., 1956. Ê muito agra­ a Ver a figura 2, p. 15 e a nota 1 da Introdução, p. 193.

dável ler Whorf, pois com grande conhecimento do assunto, 11 Estes problemas são abordados mais detalhadamente em
ataca vigorosamente problemas q_ue têm necessidade urgente Norbert Elias e Eric Dunning, «Dynamics of sport groups with
de investigação. A comparação SIStemática dos tipos de lin· special reference to football, British Journal of Sociology, vol. 17,
guagem, primeiramente empreendida por Humboldt, parece vir n.� 4, 1966, pp. 388-401.
a dar fruto em sociologia. Cçmtudo, Whorf começou pela hipó­
tese posteriormente elaborada por Lévy-Strauss, de que a estru·

il
tura da linguagem constitui um estrato independente da reali· 5. Aq intenJependéncias humanas - Os problemas das liga­
dade, existindo por §i e para si. Bem podemos perdoar aos lin· çoes SOCiaiS
guistas, se eles de vez em quando se esquecem do facto de
,
que aquilo que reificamos enquanto linguagem não é mais do Talcott Parsons, «Psychology and Sociology», em John
,

;"
que um sistema de sinais que as pessoas utilizam para comu· Gillin (Ed.), For a Science of Social Man, Nova Iorque, 1954,
nicar umas com as outras. Não é muito fácil compreender o p. 84. Aqui, Parsons afirma que «a estrutura da personalidade
que Lévy-Strauss tem em mente quando toma a estrutura de é uma espécie de 'imagem num espelho' da estrutura do sistema
uma língua por um modelo, mesmo por uma matriz da estru· - objecto sociaL., e depois acrescenta imediatamente, como uma
tura social, em vez de se limitar a relacionar a estrutura de espécie de advertência, que «devemos ter muito cuidado na inter·
uma língua com a estrutura da sociedade onde essa língua é pretação destas afinnaçõcs. Elas não significam que uma pcrso­
falada. (Ver Claude Lévy..Strauss, Anthropologie Structural.) lidade enquanto sistema seja simplesmente um reflexo da situa·
O próprio Whorf não conseguiu evitar completamente o perigo ção social desse tempo. Isto sena a negação do postulado da
de tratar uma língua falada como algo que não evolui e não independência do sistema de personalidade». Não faz qualquer
muda. Assim, tende a neutralizar a ameaça que wna crítica tentativa para explicar como é que a ideia de uma persona­
radical tem de fazer não só a conceitos particulares mas a todo lidade tomada como imagem num espelho da sociedade terá que
o processo tradicional de formação de conceitos numa socie­ estar de acordo com a sua defesa da independência do indi·
dade - às formas de linguagem e de pensamento que se aceitam víduo. As duas afirmações colocam-se lado a lado no sistema
sem discussão. Uma critica deste tipo ameaça a confiança de de Parsons, nunca sendo verdadeiramente reconciliadas.
uma tal sociedade. Suçerir que as formas habituais de pensa· � Este conjunto de _Problemas é abordado mais detalha­
mente - auxiliares indispensáveis de uma experiência arguta, damente em Norbert Elias, cSociology and Psychiatry», em

196 197
s. H. Foulkes and G. S. Prince (Eds.), Psychiatry in a Chan­ INDICE REMISSIVO
ging Soâety, Londres, 1%9, pp. 117-44.
3 Este problema manter-se-á até ·que as primitivas unida­

I'!
des de ataque e defesa sejam efectivamente mtegradas numa
só- a humanidade.
4 Ver Elias, Ober den Prozess der Zivüisation, 2.• ed.,
Berna e Munique, 1%9.
6 Allen M. Sievers, Revolution, Evolution and the Econo­
mic Order, Englewood Cliffs, N. J., 1%2, p. 1.
' Ver S. Krynska, Entwicklung und Fortschritt nach Con­
dorcet und Comte, Berna, 1908, p. 27.
1 Podemos encontrar um modelo dos processos de forma­
ção de estados- embora pudesse evidentemente ser mais alar­
gado e aperfeiçoado- em Elias, Vber den Prozess der ZiviU­
sation.
s Ibid., vol. I.

6. O problema da «inevitabilidade» da evolução social Absolutismo filosófico, 57. Capitalistas, 157 seg., v. também
Acção Burguesia.
1 Ver N. Elias, Vber den Proze�s der Zivilisation, 2.' ed., conceitos de, 60, 131, 161, 162. Características biológicas humanas,
Berna e Munique, 1969.
v�orias de, 102, 194 n. 147 seg.
2 Uma das maiores realizações de Marx, e de maior utili:
dade para a evolução da sociologia, foi o facto de ter reconhe­ Alemanha, 67. Carlos I, rei de Inglaterra, 190. ·

' cido a ascensão e queda das classes sociais como de importância Antropomorfismo, 16. 19. Carlos li, rei de Inglaterra, 190.
!:i central para wna teoria da evolução social, tentando investigá-la Apriorismo, 37. Categorias sociológicas, 44-45, 123-
empiricamente. No entanto, tal como outras teorizações ante­ ·133.
Aristóteles, 49, 122, 164.
riores, o seu modelo estava impregnado dos seus conceitos
metafísicos de valores. Era incapaz de se libertar da ideia de Ataque e defesa, unidades de, Causalidade, 22, 61, 176-177, 179.
que os estratos que subiam eram «bons» e os que declinavam 152, 153, 170, 186, 198 n. Ciência, teoria sociológica da,

!
eram «maus». Trayou com grande nitidez a frente de batalha Atomismo científico, 78, 144-145. 38-40, 58 seg.
da classe média mdustrial ascendente, contra a classe mais
Autodistanciamento, v. Distancia­ Ciência, teorias filosóficas da, 19,
baixa de trabalhadores industriais, também em .ascensão. Por
outro lado, desprezou a luta (ainda muito eVidente na época) mento. 40 seg., 54 seg., 123-124, 193 n.
travada pelas classes médias ascendentes pela superação das Autonomia relativa «Ciência do comportamento», a
classes dominantes tradicionais (aristocráticas, militares e pro­ conceito de, 48, 50, 63, 116-117. sociologia como, 143-144,
prietárias), como se a Revolução Francesa tivesse de facto des­
da sociologia relativamente à Ciências naturais, modelos das,
truído totalmente o poder destas. Devido à sua superioridade
nest� �atalha,_ foi incapaz de ver clara�ente 9ue en!re a bur­ biologia e à psicologia, 38 seg., 16 seg.
guesta mdustnal c a classe trabalhadora mdustnal havta estratos 48, 50, 77 seg., 114-116. Cientifização do pensamento, 16
ascendentes e decadentes, como de resto sempre houve, Talvez da sociologia relativamente às
fosse impossível na sua época compreender tal facto. Hoje esta­ seg., 23-24, 67-69.
ideologias, 65.
mos em posição de construir um modelo muito mais com­ Civiliz.ação, conceito de, 180.
preensivo e difcrenciador da ascensão e queda dos estratos dos processos sociais, 38 seg.,
Civiliz.ação, processo de, 170, 172,
sociais. Mas em sociologia, tal como nas outras cil!ncias, toda 60 seg., 89, 103-104.
195-198 n.
a teoria ulterior se desenvolve simultaneamente como continua­
ção de teorias anteriores, tomando-as, no entanto, dum ponto Brech, E. F. C., 195 n, Classe média, 198 n, v. também
d� vista crítico. Brown, Richard, 195 n. Burguesia.
Brown, Roger, 197 n. Classe social, conceito de, 123.
Burguesia, 153 seg. Classe trabalhadora, 154-195, 198 n.
Burocracia, 33. Competição primária, 79-87, 106.
Burocratização, 68. Complexidade, fndice de, 108-11 1 ,
Cadeias de interdependência, v. 137.
Interdependência. Comte, Auguste, 35-52, 125, 164,
Capitalismo, 177. 166, 169, 193 n, 194 n.

198 199
Conceitos, formação de, 13 seg., Elias, Norbert, 193-198 n. Holismo, 79 seg. Ligações
99-100, 120 seg., 133 seg. tlite, 31, 69, 93, 129, 198 n. Homines aperti, 136, 148. afectivas, 147-151.
Homo clausus, 129-130, 136, 141-, sociais, v. Interdependência.

I
Concepção de si próprio, 139. Empirismo, 37.
Condorcet, marquês de, 169.170. Engels, Friedrich, 185. 144, 148. Lineu, 164.
ConHguração, 15, 18, 21, 88 seg., Epidemia, 28. Homo sociologicus, 132. Língua, 120 seg.
139-145, 161, 175 seg., 194 n, Especíalização Humboldt, W. von, 196 n, Lógica, 45-46, 122.
v. também Interdependência, científica, 50-52, 63-64. Lorenz, Komad, 195-196 n.
Interpenetração. ocupacional, 150. Ideais, v. Ideologias, Valores. Luís XIV, rei de França, 137-138.
Conflito, 26, 189 seg. Estatística, utilização na investiga­ Identidade pessoal, 139.
Mágico-mítico, pensamento, 18,
Conflito de classe, 30. ção social, 77, 107-108, 144. Ideologias, 42, 57-58, 66, 73-75, 99,
131.
Conhecimento Estrutura, v. Configuração. 165-172.
Marx, Karl, 31, 35, 39, 125, 153-
científico, 40 seg. Estruturalismo, 196-197 n, Império Romano, 179.
·154, 156-158, 164-166, 185, 198 n.
não cientírico, 38 seg. Etnocentrismo, 27, 30..3 1. Indeterminação, 179, 183.
Marxismo, 35.
sociologia do, 57-58. Etologia, 117. «<ndividuo», conceito de, 1l seg.,
Mercados, 154, 174.
teoria filosófica do, 40 seg. Eu, funções do, 138. 107, 123, 126 seg., 140 seg.
Merton, Robert K., 194 n.
teoria sociológica do, 40 seg. Eu, perspectivas do, 150. Indução, 37, 54.
Mill, John Stuart, 54.
Consenso, 167. Evans-Pritchard, E. E ., 194 n. Industrialização, 68.
Mitos, 55 seg.
Conscquências inesperadas, 160. Evolução Inglaterra, 67, 155.
Montesquieu, Charles, barão de,
Continuidade ontogenética, 115- social, 173-191. Instintos humanos, 149-150, 195-
164.
Cromwell, Oliver, 190. teorias da, 164 seg. ·1% n.
Cultura, conceito de, 179-180. Expressão e pensamento, formas Integração social, 158, 172. Nacional Socialismo, 28-29.
de, v. Conceitos, formação de. Interacção, teorias da, 194 n. Necessidades sexuais, 148-150.
Darwin, Charles, 164-165.
Interdependência, 15, 26, 69, 73, Neologismos, 21.
Dedução, 37, 54. «Factores» da explicação socioló- 81 seg., 130 seg., 147-172, 174, Nobreza, posição social de, 190-
Democratização, 67·69, 108-109. gica, 126. 184, v. também Configuração, ·191.
Desenvolvimento Fantasia, 22-24, 27-30, 32, 43. Interpenetração. Nominalismo, 23-24, 128.
conceito de, 159-167. Física e sociologia, 38 seg., 46. «Interesses de grupo», 29-30. Normas, 82 seg., 123, 147.
tecnológico, 25-26. Força, provas de, 85, 193 n. Interpenetração, 86-107, 141-170, Nuer, 194 n.
Deslocação, 25. Forças sociais compulsivas, 17-18. v. também Configuração, Inter­
Determinismo, 22, 179, 183. Observação, 24, 36.
20-21 , 23, 32, 178. dependência.
Diferenciação social, 67, 147, 158, França, 67. Oligarquias, 69 seg., 93 seg.
lroqueses, 195 n.
172. Freud, Sigmund, 133. Opacidade (das configurações so-
Disfunção, cbnceito de, 194 n. Função, conceito de, 60, 84-85, ciais), 73 seg., 92, 94. 167,
Jogo, modelos de, 77-108, 138-139,
Distanciamento, 132-133, 169, 137-139, 143, 160..161. 169, 181.
!60-161.
193 n, 194 n, Ordem social, conceito de, 82, 167.
Funcionalismo estrutural, v. Fun· Jogos, 142·143.
Dunning, Eric, 197 n. ção, conceito de. Judeus, 27-29. Parscns, Talcott, 125, 128, 133-
Durkheim, J::mile, 107, 128-131, «Funcionamento enfraquecido», ·134, 148, 197 n.
150, 197 n. conceito de, 194 n. Kõnigsberger, H. J,, 195 n. Partidos políticos, 69-71 .
Economia, 152-153. Futebol, 142-143, 197 n. Krynska, S., 198 n. Perspectivas múltiplas, 109·110, 137
Ego, conceito de, 14·15, 103, 128, seg.
Gehlen, Arnold, 196 n.
133-134. Lei dos Três Estados (Comte), 4Q Poder
Gilman, A., 197 n.
Egocentrismo, 14 seg., 19, 26-27, seg. conceito de, 80 seg., 99·102,
Guerra fria, 30-31.
29-31. «Leis cientfricas», 22. 126, 143.
Ele, função de, 137, t59. «Habilidade da razão» (Hegel), Lévi-Strauss. Claude, 196 n. diferenças de, 70 seg., 88-99.
Eles, função de, 159, 160. Liberalismo, 154. distribuição de, 23, 88 seg.,
Eles, perspectivas de, 139, 150, 151. Hegel. G. W. F., 39, 160. Liberdade, v. Indeterminação. 153 seg., 170.

200 201
e interdependência, 102. Saint-Simon, Claude, duque de, í N D I C E
equilíbrio do, 68, 80 seg., 143, 94.
184 seg., 193 n. Saint-Simon, Hcnri, conde de, 36.
forças de, 96. Scotson, J. L., 195 n.
lutas pelo, 23. Senso comum, 22, 47.
origens do, 100. Sievers, Allen M., 198 n.
potencial de, 32. Sieyês, Abade, 190.
Popper, Sir Karl R., 54. Símbolos, 151.
População, efeitos do aumento dn, Sistema social, conceito de, 123,
107-108. 128, 137-138, 166.
Positivismo, 24, 36. Soberania, 31.
Previsão cientifica, 174 seg. «Sociedade», conceito de, v. In­
Processos de fonnação de estados, divíduo, conceito de.
154-155, 173-183, 198 n. Sociedades animais, 117.
Processos sociais não planeados, Sociedades-estado, 68, 70, 152, 157,
161, 170, v. também Opacidade. 183 seg. Agradecimento do Autor 9
Profecias históricas, 174. «Sociedades pluralistas», conceito
Prefácio 11
Progresso, 54 seg., 166. de, 73.
Pronomes pessoais, 133-139. Sociologia do desenvolvimento, INTRODUÇAO l3
Protestantismo, 178. 144, 154-155, 167.
Psicologia, a sociologia na sua Spcncer, Herbert, 125, 164, 166.
relação com a, 50, 105-106, 140. Suicídio, 107. 1. A SOCIOLOGIA- AS QUESTõES POSTAS POR
-141, 143-145, 197 n. COMTE . . . . . . 35
Teia social, v. Interdependência,
Configuração, Interpenetração.
Racionalidade, 27, 29, 32, 40, 182. De uma teoria filosófica do conhecimento a uma teoria
Teias de Interdependência, v. In·
Racionalismo, 37. sociológica do mesmo . . . . . . . . . 40
terdependência.
«Rnzão», 22, 29, 39, 47, 130.
Teorias cientificas, 36, 175. Do conhecimento não científico ao conhecimento
R�alidade, 24.
Teorias sociais evolucionistas, 125. científico 40
Realismo, 29, 32.
Tipos ideais, 128, 142.
Realpolitik, 29. A investigação científica das ciências 44
Tradição, conceito de, 180.
Redução processual, 122 seg. · A sociologia como ciência relativamente autônoma 48
Transferência (das configurações
Reducionismo, 144-145; v. também
sociais), v. Opacidade. O problema da especialização cientffica . 50
Atomismo científico.
Turgot, Jacques, 36, 193 n.
Rcform Acts (Inglaterra), 67.
Rei, posição social de, 190-191. Urbanizaçi'io, 68.
2. O SOCióLOGO COMO DESTRUIDOR DE MITOS . . 53
Rcificação, 133.
Valências, 15, 148-149, 193 n.
Relações entre os «instalados» e
Valores sociais, 123, 128-130, 140
os «de fonl», 107.
scg., 163, 167-172. 77
Relações internacionais, 30-31, 184 3. MODELOS DE JOGO .
«Variáveis» em sociologia, 126.
scg.
Relações orientadas por regras, Weber, Max. 33, 127-128, 130-131, A Competição Primária: um modelo de competição
81-82. 138, 178. sem regras . . . . 83
Relativismo sociológico, 57. Whorf, Benjamin Lee, 122, 196 n.
Modelos de jogo: modelos de processos de intcrpenc·
Renascença, 59, 129. Wienen, Wolfgang, 194 n.
tração com normas 87
Revoluções, 185 seg. Wilson, Edmund, 195 n.
Wright, Rev. Asher, 195 n. Comentário 99
francesa, 67, 169, 190, 198 n.
. . . . . . . . . . • •

202
4. CARACTERlSTICAS UNIVERSAIS DA SOCIEDADE
HUMANA 1!3

A mutabilidade natural da humanidade como cons-


tantc social 1!3
A necessidade de novos meios de falar e de pensar 120

Uma crítica de «Categorias» sociológicas . . . . 123


Os pronomes pessoais como modelos figuracionais 133
O conceito de configuração . . . . 140

5. AS INTERDEPEND�NCIAS HUMANAS-OS PRO-


BLEMAS DAS LIGAÇõES SOCIAIS . . . . 147

As ligações afectivas . . . . . . . 147


Ligações políticas e econômicas . . 151
A evolução do conceito de desenvolvimento 159
Valores sociais e ciência social . . . . . 167

6. O PROBLEMA DA uiNEVITABILIDADE» DA EVO-


LUÇÃO SOCIAL . . . . . . . . . . 173

Teoria da evolução social 183

Notas e Referências 193

lndice Remissivo 199


Tendo sido eminentemente um sociólogo
com vasta obra publicada, pese embora
o seu reconhecimento tardio, Norbert
Elias abordou no entanto vários assuntos
que transcendem a esfera das ciências
SOCiaiS.

I' I.