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Advocacia Criminal

Sidnei Prestes Junior


OAB/PR 33055

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 1ª VARA


CRIMINAL DA COMARCA DE FOZ DO IGUAÇU - ESTADO DO PARANÁ

Autos nº 2014.315-6

VILMAR MOREIRA, já devidamente qualificado nos


autos de ação penal pública em epígrafe, vem respeitosamente à presença de
Vossa Excelência, por intermédio de seu procurador, apresentar suas

ALEGAÇÕES FINAIS

aduzindo, para tanto, o que segue:

Av José Maria de Brito, n° 711 – Centro, Foz do Iguaçu, CEP:85864-320, Tel: (45) 3025-1355 (45) 9826-1919
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I – DOS FATOS

O acusado está sendo processado, pela prática, em tese,


do delito tipificado no art. 155 “caput” do Código Penal, pois segundo a
denúncia:

“No dia 14 de janeiro de 2014, por volta das


12h00min, na Avenida Paraná, em frente ao
numeral 167, bairro Jardim Central, nesta Cidade e
Comarca de Foz do Iguaçu/PR, o denunciado
VILMAR MOREIRA, com vontade e consciência de se
apoderar de bem móvel alheio, dolosamente,
subtraiu, para sim 01 (uma) carteira, cor marrom,
marca M. Valentim, contendo em seu interior R$
20,00 (vinte reais), bens de propriedade da vítima
Eliezer Vitorino da Silva, conforme Termo de
Declaração (fls. 05/06), Auto de Exibição e
Apreensão (fls. 16/17), e Boletim de Ocorrência (fls.
34-39).”

Conforme o exposto na audiência de instrução, o crime


não ultrapassou a esfera da tentativa, já que, iniciada a execução, o crime não
se consumou por circunstâncias alheias à vontade do agente. É de se dizer
que a vítima, em nenhum momento, sofreu qualquer tipo de lesão à sua
integridade corporal e que não houve transferência da posse da coisa, tendo a
vítima, bem como testemunhas perseguido o réu.

Vale ressaltar que o denunciado, conforme


interrogatórios, não premeditou o crime, agiu meramente por impulso.

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II- DO DIREITO

Evidencia-se dos autos que a materialidade do delito


encontra-se demonstrada, consoante se observa do Auto de Prisão em
Flagrante.

Outrossim, a autoria delitiva restou confirmada, eis que o


acusado, em Juízo, confessou que praticou a subtração do bem elencado na
denúncia.

II.1 - Da Aplicação do Princípio da Insignificância

In casu, é de se observar a incidência do princípio da


insignificância.

É cediço que não é a mera conduta do agente que vem


sendo utilizada para caracterizar a tipicidade, mas principalmente o
DESVALOR SOCIAL daquela, assim como o grau da lesão por ela provocada.

Observa-se nos autos que foi subtraído 1 (uma) carteira,


contendo R$ 20,00 (vinte reais), conforme auto de exibição e apreensão, que
foram posteriormente restituídos, não tendo, portanto, ocasionado qualquer
prejuízo à vítima.

Com efeito, roga-se pela aplicação à situação fática o


princípio da insignificância, a fim de tornar atípica a conduta perpetrada pelo
acusado.

Nessa esteira, aduza-se que o princípio da insignificância


vem sendo largamente utilizado como excludente da tipicidade material.
Vejamos o que ensina Luiz Regis Prado:

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Através do princípio da insignificância, formulado por


Claus Roxin e relacionado com o axioma mínima non
cura praeter, enquanto manifestação contrária ao
uso excessivo da sanção criminal, devem ser
tidas como atípicas as ações ou omissões que
afetem muito infimamente um bem jurídico-penal. A
irrelevante lesão do bem jurídico protegido não
justifica a imposição de uma sanção penal,
devendo ser excluída a tipicidade material em
caso de danos de pouca importância (destacamos).
(PRADO, 2011, P. 40)

Não se pode deixar de suscitar o princípio constitucional


da intervenção mínima ou da ultima ratio, segundo o qual “o direito penal não
deve interferir em demasia na vida do indivíduo, retirando-lhe autonomia e
liberdade” (NUCCI, 2011, P. 86). Na mesma direção, temos o posicionamento
de Anabela Miranda Rodrigues:

“na verdade, na mais recente definição de bem


jurídico, independentemente da diversidade de
formulações, o ponto de partida é o de que o bem
jurídico possui natureza social e o de que o direito
penal só pode intervir para prevenir danos sociais e
não para salvaguardar concepções ideológicas ou
morais ou realizar finalidades transcendentes.”
(MIRANDA, apud NUCCI, 2011, P. 87).

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Conforme exposto, está evidente que a conduta ora


analisada deve ser considerada materialmente atípica, ensejando a
ABSOLVIÇÃO do acusado nos termos do artigo 386, inciso III, do Código de
Processo Penal, mediante a aplicação do princípio da insignificância.

II.2 – DA TENTATIVA

Caso Vossa Excelência não entenda pela absolvição do


acusado com base nas teses expostas anteriormente, requer seja aplicada a
diminuição de pena prevista no artigo 14, parágrafo único do Código Penal,
vez que se trata de TENTATIVA.

Verifica-se, portanto, que em momento algum o acusado


ficou na posse mansa e pacífica da res furtiva, muito menos saiu da esfera
de vigilância da vitima. Característica que tanto a doutrina, quanto a
jurisprudência são uníssonas em afirmar que nessa situação consubstancia-
se este delito patrimonial na modalidade tentada.

O artigo 14, inciso II do Código Penal assim anota que o


crime será: “II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por
circunstâncias alheias à vontade do agente.”. Diante do cenário fático vê-se
que o autor do delito em tela, não consumou o crime de furto por razões
alheias a sua vontade, qual seja, a intervenção da vítima e de transeuntes.

Em sua sapiência, o renomado doutrinador Guilherme de


Souza Nucci esclarece em relação ao delito de furto que:

“É imprescindível, por tratar-se de crime material,


que o bem seja tomado do ofendido, estando, ainda
que por breve tempo, na posse mansa e tranquila do
agente. Se houver perseguição e, em momento

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algum, conseguir o autor a livre disposição da


coisa, trata-se de tentativa” 1.

Nesse mesmo sentido, segue o seguinte julgado do


Superior Tribunal de Justiça o qual alude que em sede de furto a análise
sobre a ocorrência de mansidão da posse é imprescindível para apontar se foi
tentativa ou crime consumado:

Furto. Crime consumado (momento). Tentativa


(reconhecimento).1. Diz-se consumado o furto
quando o agente, uma vez transformada a
detenção em posse, tem a posse tranqüila da
coisa subtraída.2. Segundo o acórdão recorrido,
"em nenhum momento o réu deteve a posse
tranqüila da res furtiva, porquanto foi
imediatamente perseguido e capturado pelos
policiais militares que efetuavam patrulhamento
no local".3. Caso, portanto, de crime tentado, e
não de crime consumado.4. Recurso especial do
qual se conheceu pelo dissídio, porém ao qual se
negou provimento. Decisão por maioria de votos.
(663900 RS 2004/0085716-3, Relator: Ministro
HÉLIO QUAGLIA BARBOSA, Data de Julgamento:
15/12/2004, T6 - SEXTA TURMA, Data de
Publicação: DJ 27.06.2005 p. 463). STJ. (Grifo
Nosso)

1
Nucci, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal Parte Geral e Especial. 7. Ed. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2011, p. 723.

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Furto. Crime consumado (momento). Tentativa


(reconhecimento).1. Diz-se consumado o furto
quando o agente, uma vez transformada a detenção
em posse, tem a posse tranqüila da coisa
subtraída.2. Segundo o acórdão recorrido, "em
nenhum momento o réu deteve aposse tranqüila
da res furtiva, porquanto foi imediatamente e
perseguido e capturado pelos policiais militares
que efetuavam patrulhamento no local".3. Caso,
portanto, de crime tentado, e não de crime
consumado.4. Recurso especial do qual se conheceu
pelo dissídio, porém ao qualse negou provimento.
Decisão por maioria de votos.(663900 RS
2004/0085716-3, Relator: Ministro HÉLIO
QUAGLIA BARBOSA, Data de Julgamento:
16/12/2004, T6 - SEXTA TURMA, Data de
Publicação: DJ 27/06/2005 p. 463). STJ. Grifo
Nosso

A doutrina é amplamente majoritária, no que tange à


aplicação do parágrafo único do Código Penal, quanto ao entendimento de que
a fração de um a dois terços prevista no referido dispositivo deve incidir
conforme a tentativa se aproxime da consumação. Neste sentido, a fração de
um terço deveria ser aplicada nos casos em que a conduta típica realizada
estivesse no liame entre o crime tentado e o consumado. Em situações que
tais, a diminuição da pena dar-se-ia em grau mínimo, em virtude do maior
perigo ao qual o bem jurídico teria sido exposto.

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De outro lado, aplicar-se-ia a redução em dois terços


quando, no caso concreto, a consumação se revelasse longínqua, de modo que
a ação do agente fosse interrompida ainda no início da execução. A redução
deve levar em conta o maior ou menor caminho percorrido no iter criminis,
sendo indispensável a motivação da decisão pela escolha deste ou daquele
percentual, sob pena de nulidade.

Aliás, neste sentido o entendimento predominante no


Superior Tribunal de Justiça

HC 27056/SP; Relator Ministro Paulo Medina; Sexta Turma,


DJ de 08.09.2003, p.541

“Pune-se a tentativa mediante critério objetivo, demarcado


pela proximidade da ação delitiva em relação ao ato final
da conduta, tendente à consumação do crime.”

No caso em tela, o depoimento da própria vítima revela o


fato de a empreitada criminosa não ter logrado êxito, restando interrompida
ainda longe da consumação, pois a ação foi repelida pela própria vitima. As
circunstâncias demonstram que o acusado não teve chance, pois foi rendido
pela vitima e por um transeunte. Sendo assim, é salutar que a incidência do
art. 14 do CP se dê de maneira que a fração a ser aplicada seja a de dois
terços.

Ante o exposto, em caso de condenação, requer seja


aplicada a diminuição de pena prevista no artigo 14, parágrafo único do
Código Penal, em seu patamar máximo, vez que o delito foi praticado na forma
tentada, e não consumada.

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II.3 – DO REGIME ABERTO PARA O


CUMPRIMENTO DA REPRIMENDA

Em se tratando de crime cuja pena imposta não superará


os quatro anos, deverá ser fixado o regime aberto para o cumprimento da
reprimenda. Aliás os Enunciados 718 e 719 da Súmula do Supremo Tribunal
Federal são expressos:

“718. A opinião do julgador sobre a gravidade em


abstrato do crime não constitui motivação idônea para a imposição de
regime mais severo do que o permitido segundo a pena aplicada.”

E ainda:

“719. A imposição de regime de cumprimento mais


severo do que a pena aplicada permitir exige motivação idônea.”

É bem dizer, portanto, que a gravidade do crime, por si só,


não representa fundamento idôneo para a fixação de regime de cumprimento
de pena diverso do que estabelecido em lei.

II.4 – DA ATENUANTE GENÉRICA DO ART. 65,III, d


DO CÓDIGO PENAL

Dispõe o art. 65 do Código Penal:

Art. 65. São circunstâncias que sempre atenuam a


pena:

III - ter o agente:

d) confessado espontaneamente, perante a autoridade,


a autoria do crime.

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Conforme se verifica no interrogatório no réu, faz-se


imperiosa a aplicação da atenuante da confissão.

III – DOS PEDIDOS:

Ante o exposto, requer o acusado:

a) A aplicação da pena-base no seu mínimo legal, em


virtude da primariedade e dos bons antecedentes do réu;

b) O reconhecimento da tentativa com redução da


pena em dois terços, em virtude da conduta ter sido interrompida ainda
no início da execução;

c) A fixação do regime aberto para o cumprimento da


pena;

d) O reconhecimento da atenuante genérica


inerente à confissão.

Nestes termos,

Pede deferimento.

Foz do Iguaçu, 30 de junho de 2014

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SIDNEI PRESTES JUNIOR

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