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Departamento de Ciências Sociais

Projeto: 1204
Título: ANTROPOLOGIA E TRADUÇÃO
Ficções Persuasivas para uma Antropologia Especulativa

Relatório: Relatório Anual


Aluno: Kauã Vasconcelos
Orientador: Valter Sinder

“O que temos hoje que imaginar não é o não-ser de algo


determinado dentro de um contexto cuja existência pode ser dada
como certa, mas a inexistência desse próprio contexto, do mundo
como um todo, ao menos do mundo enquanto humanidade”
- Teses Para a Era Atômica, Gunther Anders (1962)

Ao formularem seus textos no presente do indicativo, uma geração de antropólogos criou


um estilo que ficou conhecido como “presente etnográfico”. Seu efeito era o de registrar
um mundo como se esse ainda existisse para os leitores que abrissem e folheassem suas
páginas. O mundo do presente etnográfico, no entanto, era um mundo em
desaparecimento. É assim que Eva Gilles começa sua introdução ao livro de E.E. Evans-
Pritchard, “Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande” (1937). Os Azande, tal qual
Evans-Pritchard os descreve, não mais existiam. Já não existiam de tal forma no presente
de sua longa e apurada pesquisa. Suas ideias sobre o mundo se esvaneciam. O contexto
colonial iniciava sua transformação de um povo em campesinato e mão de obra. A
bruxaria (o mangu) ia sendo posta de lado. O sentimento de um mundo em
desaparecimento surge aqui e acolá na obra dos antropólogos. Aquele que pode ser tido
como o maior de todos não escondia em entrevistas e em partes de sua obra esse
sentimento de finitude – C. Lévi-Strauss temia pelo desaparecimento desses povos frente
a homogeneização que o tipo de comunicação do nosso tempo parece proporcionar. E é
nessa curvatura entre o falar no presente sobre povos que vão se tornando o passado e
contra a massa homogênea que nosso tempo parece evocar - com seus satélites, imagens
e vozes em demasia –, que proponho um pequeno exercício de imaginação antropológica.
Chamaremos de Futuro Etnográfico – assumindo todos os riscos que tal ginástica teórica
possa trazer. Futurólogos não são, no entanto, adivinhos (tal qual os Azande) – e trabalhar
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com previsões não é uma área privilegiada pela antropologia. As humanidades, no


entanto, parecem muito ocupadas em pensar sobre seu futuro – e como nosso estudo é,
sobre tudo, “o homem e seus trabalhos”1, é preciso olhar para o futuro que produzimos
agora.

Nessa exposição pretendo exemplificar o exercício de um futuro etnográfico com dois


filmes de ficção que exploram um mundo (ou a falta dele) por vir – Interstellar (Cristopher
Nolan, 2014) e Mad Max: Fury Road (George Miller, 2015) – e as experiências de
pensamento que nos proporcionam ao situarmos ambos em um debate sobre as mudanças
climáticas partindo de um (não-)cenário – o Antropoceno – e acossados por um advento
– a intrusão de Gaia. Uso dois filmes que tiveram uma grande recepção ao redor do mundo
e atingiram um vasto público em sua maioria fora do debate climático atual, busco com
isso um efeito cinematográfico maior.

O futuro etnográfico guarda parentesco direto com aquilo que Alexandre Nodari (2015)
chamou de antropologia especulativa, para classificar certa literatura que, através da
ficção, procura adubar o imaginário de possibilidades de mundo – frente ao desastre
ambiental que condena a existência tal qual a experimentamos hoje e, por consequência,
o modelo de vida que nos trouxe até aqui. A antropologia especulativa está juntamente
equacionada com o que a antropóloga britânica Marilyn Strathern chamou de ficção
persuasiva (1986), para classificar a importância da construção dos textos feitos pelos
antropólogos em propor mudanças significativas na forma de pensar o mundo. No contato
entre diferentes contextos, o antropólogo deve estabelecer uma comunicação em
linguagem comum. No nosso caso, estabelecer com os mundos especulados do cinema
algum tipo de relação que, a partir do efeito de sua descrição, nos possibilite agir com
cuidado (Stengers, 2009). Assim como o Zande que, ao receber as más notícias de um
oráculo sobre seu futuro não se desespera ou paralisa, fica agradecido pela informação e
procura se precaver para o pior.

O fim dos contextos: do Antropoceno à intrusão de Gaia

1
“O Inconsciente na Antropologia Lévi-Strauss”, Calude Lépine (1979)
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Vivemos hoje sob uma nova percepção do tempo e do espaço. O advento das mudanças
climáticas e da catástrofe ambiental nos coloca frente ao colapso de nossas mais altas
aspirações, cai o mito do exepcionismo humano – a humanidade não teria mais o controle
sobre a natureza, mas, pelo contrário, passa a sofrer as consequências de suas ações. Por
não conseguirmos mais imaginar aquilo que produzimos (Anders, 1962), entramos em
um processo distópico de um mundo humano em eminencia de seu fim.

Em seu ensaio “Há Mundo Por Vir?” (2014), Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de
Castro fazem coro com a distinção adotada por outros pensadores sobre o que seria essa
mudança na percepção de tempo e espaço: Antropoceno e Gaia. O Antropoceno, termo
cunhado por Paul Crutzen (renomado químico vencedor do Nobel) e Eugene Stoermer
em 2000 para marcar uma mudança geológica na termodinâmica do planeta, seria uma
nova forma de vivenciar o tempo. O tempo criado pelos efeitos da produção humana.
Muito se discute sobre onde se daria o início da saída do planeta do Holoceno (última era
glacial, há cerca de 12 mil anos) para o Antropoceno, assim como o próprio nome
“Antropoceno” não é definitivo. Alguns remetem ao início da agricultura, pouco mais de
10 mil anos atrás, Crutzen e Stoermer preferem a criação da máquina a vapor, em 1784,
e o início da Revolução Industrial. Hoje grande parte do consenso aponta para o início da
Era Atômica no pós-guerra. Há ainda uma quarta narrativa que remete ao ano de 1610 e
está sendo trabalhada por um grupo de pesquisas da University College de Londres. Sou
mais adepto dessa versão, que coloca a chegada dos europeus a América como a grande
responsável pela mudança do globo – com seu comércio em grande escala, movimentação
de espécimes, massacres, dentre outros fatores.

O Antropoceno seria então uma funesta junção entre história humana e história natural,
como apontou o historiador Dipesh Chakrabarty (2009). O ambiente passa a mudar em
uma velocidade maior que as mudanças da sociedade, tornando qualquer previsão futura
enganosa e cada vez mais impossível. O tempo do Antropoceno é, em certa medida, o fim
dos tempos.

A segunda forma de percepção a ser deformada é a do espaço. A “intrusão de Gaia”,


termo cunhado por Isabelle Stengers (2009), seria uma nova forma de experimentar esse
espaço. Quando a Terra assume a aparência de uma Potência ameaçadora.

A intrusão do tipo de transcendência que denomino Gaia faz existir


no seio de nossas vidas um desconhecido maior, e que está aí para
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ficar. É o que, aliás, talvez seja mais difícil de conceber: não existe
futuro previsível em que ela (Gaia) nos restituirá a liberdade de
ignorá-la; não se trata de um ‘mau momento que vai passar’,
seguido de alguma forma de happy end no sentido pobre de
‘problema resolvido’. Não estamos mais autorizados a esquecê-lo.
Teremos que responder sem cessar por aquilo que fazemos face a
um ser surdo às nossas justificações.

A autora nos coloca em um processo em que devemos nos localizar espacialmente dentro
de um novo cenário. Um cenário instável e de mudanças bruscas. Mas não um cenário
como plano de fundo, mas como ser com quem coabitar. Viver no dorso da criatura
desperta que, surda aos nossos pedidos e certa de sua sobrevivência ao momento atual,
varre indiscriminadamente os seres com sua força devastadora. Nesse ponto nos
remetemos de imediato a sábia colocação de C. Lévi-Strauss de que o mundo existia antes
e continuará existindo depois de nós. A “intrusão de Gaia” aponta para o início desse fim,
quando o espaço humano, apartado do espaço não-humano, é invadido.

A Terra como novo ator na história. Reagindo a nossas ações. Não devemos questionar
Gaia, mas aquilo que causou sua intrusão. Hoje nos reunimos sob o signo de “nós”
novamente. Um “nós” não hegemônico, mas que nos coloca a pensar em uma escala
maior do que nos é capaz.

“... as mudanças climáticas colocam, diante de nós, uma questão


sobre a coletividade humana, um “nós”, indicando uma figura do
universal que escapa à nossa capacidade de experimentar o
mundo. Está mais para um universal que surge como sensação
compartilhada de catástrofe. Requer uma aproximação da política
sem o mito da identidade global, pois, diferentemente do universal
hegeliano, não pode subsumir as particularidades. Podemos
chamá-la, provisoriamente, de “história universal negativa””

(O Clima da História: Quatro Teses, Dipesh Chakrabarty)

A Terra é uma só, mas não é a mesma – nos lembra o filósofo francês Patrice Maniglier.
Estar reunido sob o signo da unidade terrestre não pode subsumir as multiplicidades de
mundo que ela abarca. A Terra dos geólogos só existe quando em coexistência com a
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Terra Floresta (Urihi) dos Yanomami. Deve-se ter isso em mente mesmo ao fazer coro
com os ativistas de que não há planeta B.

Alguns, no entanto, acreditam que há. Ao contrário dos Terranos (expressão que Bruno
Latour cunhou para designar os coletivos extra-modernos que se preocupam em cuidar
de sua existência em relação a terra – no sentido territorial/ontológico de viventes de tal
terra, indígenas2), os Humanos continuam a perseguir seus sonhos do Holoceno de uma
migração interstelar. Colonizar outros planetas, dizem, é a ordem do dia.

Plantar, colonizar

Um homem, abandonado em uma terra hostil, consegue sobreviver à fome graças ao


plantio de um dos mais antigos tubérculos cultivados, a batata. Não haveria nada de
particular nessa narrativa, já que a mesma remete a diversas outras no decorrer da história
dos povos deste e de outros continentes. A não ser pelo fato do homem ser um astronauta
da NASA e a terra hostil o planeta Marte. Na história, baseada no livro de Andy Weir e
dirigida por Ridley Scott – um dos maiores nomes da ficção científica no cinema -, o
astronauta Mark Watney (Matt Damon) é dado como morto por sua equipe após uma
tempestade e é deixado para trás no planeta vermelho. Em certo ponto do filme, Mark, o
marciano do título original, precisa inventar um meio de produzir água e plantar batatas
(em certa altura o personagem de Damon chega a afirmar “Na Universidade de Chicago,
onde me formei, disseram que se você planta em algum lugar, você o coloniza
oficialmente”). Água em Marte. Essa foi a notícia divulgada pela NASA em 28 de
setembro de 2015, poucos dias antes da estreia do filme de Scott nos cinemas (no dia 2
de outubro nos EUA). Logo o furor da notícia foi associado a “coincidência”, com muitas
aspas, com o lançamento do filme. Alguns comentários no twiter sugeriam que se tratava
de uma ação de marketing. Tal suspeita surgiu pela aproximação da agência espacial com
a produção do filme. A NASA, juntamente com a Jet Propulsion Laboratory (JPL),
responsáveis junto com a universidade do Arizona por divulgar as imagens das manchas
de 100 metros que podem significar água salgada corrente nos meses de verão do planeta
vermelho, colaboraram para que o filme viesse a luz. As “coincidências” – sem nunca

2
Sobre o debate entre Terranos e Humanos, ver “Para Distinguir Amigos e Inimigos no Tempo do
Antropoceno”, Bruno Latour. Palestra proferida no Simpósio “Thinking the Anthropocene”, École
d’Hautes Études em Sciences Sociales – Paris (2013). Sobre o indígena da forma como empregado aqui
ver “Involuntários da Pátria”, Eduardo Viveiros de Castro (2016).
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abandonar as aspas – não param por aí. O Escritor Andy Weir foi convidado a visitar as
agências e observar de perto a elaboração do projeto de colonização de Marte – que o
autor havia criado em seu livro somente com pesquisas online e transformado em um
estrondoso sucesso de vendas em seu lançamento em 2011; com o filme de Scott, os
cientistas, o escritor e o equipamento de ponta da magia hollywoodiana estavam reunidos.
A descoberta científica foi a cereja do bolo. O malicioso tweet que associa a descoberta
a um golpe de marketing parece fazer mais sentido. Não que a NASA tenha se tornado
uma agência de promoção publicitária de grandes produções de Hollywood, não
diretamente, mas o quanto um filme de tal magnitude, com grandes nomes da indústria
envolvidos, circulando suas imagens mundo a fora, com um tom aventuresco, ajudaria a
vender ao grande público seus mirabolantes projetos de migração espacial
demasiadamente custosos? – É só seguir a rede de relações (Latour, 1994) e deixar os
interesses a mostra. A quem interessa a água em Marte? A toda a humanidade, defenderão
os promotores desse empreendimento. Devemos permanecer atentos. Sigam o dinheiro!
– Gritarão alguns – eu prefiro seguir as batatas.

A batata tem sua origem relatada a pouco mais de 6 mil anos nos alpes andinos. De lá
para cá ela teve grande papel na reprodução da vida humana e na formulação do espaço
geopolítico do mundo como se encontra hoje. Foi levada para Europa central no século
XVII e se espalhou pelo continente. Serviu de alimento para as populações nos períodos
de guerra, pela facilidade com que crescia em qualquer lugar.

Os europeus, no entanto, só possuíam um tipo de batata. Não tinham a diversidade de


espécimes como a dos andes e, em meados do século XIX uma praga se abateu sobre as
batatas. O período de 1845 a 1849 ficou conhecido como o da crise das batatas na Irlanda.
Foram mais de um milhão de mortos por conta da escassez de batatas. Um desastre
agrícola sem precedentes.

A falta de espécimes diferentes de batatas, que pudessem resistir a praga, foi fatal aos
irlandeses. A produção agrícola da monocultura traz consigo um processo de
empobrecimento do solo, criando uma erosão genética. Na tentativa de rever a lógica
malthusiana, A Revolução Verde, na década de 1950 nos EUA e na Europa, intensificou
esse modelo de produção agrícola em larga escala, com maior uso de fertilizantes,
defensivos e sementes geneticamente modificadas. No caminho contrário, a antropóloga
Manuela Carneiro da Cunha acompanha as plantadoras de mandioca no alto Rio Negro,
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na busca justamente pela continuidade das pesquisas e cultivos da diversidade das


espécies – como hoje, nos andes, se podem encontrar mais de 4 mil espécimes de batata.
Experimentadores é o nome que os agricultores do semiárido da Paraíba dão para suas
práticas de troca agrícolas, mostrando como resistir em uma região onde chove apenas
três meses ao ano.

Em seu “No Tempo das Catástrofes”, a filosofa da ciência Isabelle Stengers usa o
exemplo dos OGM (Organismos Geneticamente Modificados), que sofreram com a
resistência de movimentos europeus a uma eficiência tecnocrática que, junto a ciência e
aos desejos econômicos e governamentais, acreditava em poder decidir interesses
coletivos sem consultar aos mesmos.

Se pudéssemos especular um cenário em que, as forças de pressão que envolvem os


OGM dentre outros projetos monocultores, fizessem coro com diversos fatores das
mudanças climáticas atuais chegaríamos perto de outro filme recente, onde agricultores
lutam com pragas que ameaçam suas colheitas. Onde tempestades de areia varrem os
campos, algo semelhante ao que aconteceu com os campos monocultores dos EUA na
década de 1930 – o chamado Dust Bowl – que dizimou os plantios de trigo, milho, cevada
e outras gramíneas, que haviam sido plantadas aos americanos que acabavam de arrendar
terras nas Grandes Planícies (novamente, outro caso de mau uso da terra).

Em Interstellar, de Cristopher Nolan, o físico interpretado por Michael Caine chega a


fazer a comparação, não só com o fenômeno climático do Dust Bowl, mas também com
a crise das batatas da Irlanda. “As Pragas atingiram o trigo 7 anos atrás. O quiabo neste
ano. Agora só resta o milho (...), mas, como foi com a batata na Irlanda, e com o trigo na
década de 1930... o milho desaparecerá em breve”.
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Figura 2 Agricultor com os dois filhos durante uma tempestade de areia, no condado de Cimarron, Oklahoma, 1936.

Figura 3 Cena do filme Interstellar, de Cristopher Nolan (2014)

Cristopher Nolan ganhou notoriedade por comandar a reformulação do anti-herói


Batman no cinema em três filmes. Vinha de pequenos e interessantes experimentos
cinematográficos como Memento (2000) e Insomnia (2002). Durante sua ascensão na
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indústria criou outros interessantes filmes como The Prestige (2006) e Inception (2010).
Seu maior sucesso continua sendo o segundo filme do homem morcego, de 2008.

Interstellar teve sua estreia em dezembro de 2014. Faturou quase 200 milhões nos EUA,
somando mais de 660 milhões no mundo. No Brasil fez pouco mais de 6 milhões. Teve
uma recepção fria por parte da crítica e do público e ganhou sobrevida mais com os
debates científicos em volta da obra. Grande parte da dificuldade se deu por seu ritmo e
duração (pouco mais de 2h e meia de duração). Nas premiações foi discreto e levou
apenas um prêmio do Oscar, em 2015.

Até seus 25 minutos de duração, quando Matthew McGonaughey, que interpreta o ex-
piloto da NASA Cooper (a nova versão do mito cinematográfico da figura do Cowboy,
sendo explicitamente feita essa conexão no filme de 2000, Space Cowboys, estralado por
Clint Eastwood – ícone do western americano), encontra a agência espacial americana –
que pensava estar desativada – o filme se limita ao cenário de um mundo tomado pela
poeira, onde todos são agricultores procurando resistir a “intrusão de Gaia” (os pratos e
potes virados pra baixo, dentro de casa, são simbólicos nesse sentido) em suas lavouras,
cada vez mais escassas. O filme começa como se fosse um documentário, onde pessoas
idosas relatam a vida que tinham nessa época. As pragas, as rajadas de poeira.

Cooper é o personagem fora do lugar. Não aceita sua condição atual, não só como
fazendeiro e pai de família, mas tomado por um dever de ser humano – suas questões são,
em certo ponto, quanto ao destino da espécie. Duas cenas ilustram bem essa condição. Na
primeira, em uma reunião na escola dos filhos, após discutir com um dos funcionários
que o informa que seu filho não poderá cursa a universidade, uma professora questiona
por que sua filha, Murph, está levando para a escola livros sobre a ida do homem à lua,
já que a mesma havia sido forjada para que a então URSS, no contexto da guerra fria,
fosse à falência. Cooper, perplexo com a descrença da professora, escuta por fim que
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“para não repetir os excessos do século XX, as crianças têm que estudar este planeta, não
contos sobre tê-lo deixado”.

A lucidez com que a professora faz essa última colocação parece, aos olhos de Cooper,
uma heresia. Na cena seguinte, conversando com o pai de sua mulher, já falecida, recebe
novamente, em resposta ao seu desabafo condicional, um sopro de clarividência:

(Cooper) - Parece que esquecemos quem nós somos, Donald.


Exploradores, pioneiros, não trabalhadores braçais.

(Donald) – Quando eu era criança, parecia que criavam coisas


novas todos os dias. Engenhocas, ideias... Era como se todo dia
fosse natal. Mas eram 6 bilhões de pessoas. Apenas tente imaginar.
E cada uma delas tentando adquirir tudo. Este mundo não é tão
ruim (...), é você que está deslocado.

(Cooper) – Nós costumávamos olhar para o céu e imaginar nosso


lugar entre as estrelas. Agora só olhamos para baixo e nos
preocupamos com nosso lugar na poeira.

Até os 25 minutos de filme este é o tom. Cooper parece não ver o quanto o quanto da
poeira é consequência das ações humanas, e que se preocupar com seu lugar em meio a
ela é também preocupar-se com o lugar que ela está deteriorando. O lixo, não custa
lembrar, é uma invenção que parecemos perceber da mesma forma – sendo uma das
características mais marcantes de nossa civilização moderna. Nessa primeira parte,
Interstellar possui ares de uma obra de Dostoiévski. Com seu relutante protagonista
duelando com o mundo em sua fracassada missão de impor a ele sua vontade. Mas a
virada (famoso plot point do roteiro, aquilo que faz o filme andar) muda completamente
qualquer chance de uma leitura como essa. Novamente ao seu sogro, Cooper reverte a
afirmativa de Lévi-Strauss: “A humanidade nasceu na Terra, mas não morrerá aqui”.

Em Busca do Céu

Hannah Arendt, em seu prólogo de “A condição humana” (The human condition, 1958),
aponta o lançamento de um objeto, produzido pelo homem, no universo (o satélite Sputnik
em 1957 pela antiga União Soviética) como um grande marco na mudança de percepção
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da humanidade sobre sua condição. Uma das primeiras reações dadas para esse ‘grande
passo’ para fora do planeta trazia em si um alívio, o homem estava livre de sua “prisão”
terrestre. O Avanço técnico que possibilitava tão funesta afirmativa completava o
visionário sonho humano de emancipação e dominação; “a ciência apenas realizou e
afirmou aquilo que os homens haviam antecipado em sonho”, lembra a autora. Já o
havíamos sonhado na obra de Júlio Verne e o visto em imagens pela magia técnica de
George Méliès.

O rompimento final do homem o lançaria como um ser extra terrestre, o antônimo de


“indígena”, ou seja, “alienígena”. Cabe ao projeto moderno de dominação do espaço
natural, artificializar o mesmo, afastando-se de uma origem “natural” para uma outra
“forjada”, da qual possui total domínio (ou acreditava possuir).

“Devem a emancipação e a secularização da era moderna, que


tiveram início com um afastamento, não necessariamente de Deus,
mas de um deus que era pai dos homens no céu, terminar com um
repúdio ainda mais funesto de uma terra que era mãe de todos os
seres vivos”. (Hannah Arendt, The human condition, p. 16)

É partindo daqui e além que Interstellar pretende nos levar, em duas horas de viagem
intergaláctica através de um buraco de minhoca que leva a uma outra galáxia onde pode
haver planetas habitáveis para nossa espécie. Em uma coluna do El País3, o jornalista
Jesús Mota, analisando o depoimento do físico Stephen Hawking em que este dizia: “A
sobrevivência da raça humana dependerá de sua capacidade de encontrar novos lares em
outros lugares do universo, pois o risco de um desastre destruir a Terra é cada vez maior”,
remeteu ao filme de Nolan.

“A solução está em migrar para outros planetas similares e


longínquos. A ideologia do filme, não obstante, é problemática e
perigosa. Ao declarar que a essência da natureza humana é
conquistadora e expansiva, Interstellar exime o homem, por causa
do imperativo biológico, de sua responsabilidade com o planeta e

3
“A Profecia da Emigração Planetária”, Jesús Mota in El País. 29 de setembro de 2015.
http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/29/opinion/1443544467_754871.html
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desenha um futuro predador: habitar um planeta, explorá-lo até a


extenuação e ocupar o seguinte”

O ser humano se revelaria não só como “alienígena” ao planeta, mas também parasitário.
Dessa perspectiva é interessante revisitar o personagem imortalizado de outro filme de
Ridley Scott. Seu alienígena em Alien (1979), passa de parasita espacial a um certo
antivírus cósmico frente a investida da humanidade como praga intergaláctica. O plano B
para salvar a humanidade em Interstellar é levar para outro planeta uma ‘bomba
populacional’, um banco com mais de ‘5 mil óvulos fertilizados’ para estabelecer uma
colônia. Assim como os alienígenas do filme de 1979, só faltaria barrigas de aluguel para
completar o feito.

Na mesma matéria, Mota remonta a relação de astrofísicos, físicos e literatos na década


de 1960, que já especulavam sobre uma possível colonização espacial. Carl Sagan, Fred
Hoyle, Freeman Dyson e Arthur C. Clarke, colaboraram com o imaginário da época com
a possibilidade de uma economia interplanetária, com colônias de exploração de recursos
em Marte e em outros planetas do sistema solar. Arthur C. Clarke foi coautor de 2001:
Space Odyssey (1968) com o cineasta Stanley Kubrick. O nome do filme primeiramente
seria How the Solar System Was Won (algo como ‘como o sistema solar foi vencido’ ou
conquistado), em homenagem ao western A Conquista do Oeste (How the West Was Won,
1962). Nolan disse em entrevistas a influência do clássico de Kubrick em seu Interstellar.
Assim como Kubrick, Nolan teve na relação próxima com a ciência na concepção de seu
filme. O físico Kip Thorne e sua teoria gravitacional e estudo dos buracos negros e
buracos de minhoca teve participação direta na construção do filme. O cientista lançou,
também em dezembro de 2014, o livro “The Science of Interstellar”, além de dar diversas
entrevistas promocionais exaltando a forma como o filme aborda a ciência.

A missão da nave Endurance, no filme de Nolan, é encontrar, entre três prováveis


planetas, um que seja habitável para dar início a colonização. O grande problema consiste
em retirar da Terra a população de mais de 6 bilhões. No limiar entre a empreitada heroica
e o sacrifício pela espécie é onde se passa o conflito entre os personagens. A tentativa de
vencer as forças gravitacionais para a emigração vai contra aquilo que Latour já havia
observado, de que “...robôs e um punhado de astronautas-ciborgues possam ir mais longe
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e além, mas que o resto da raça, nove bilhões de nós, permanecerá preso aqui embaixo...”
(Latour, 2013).

No ápice de sua especulação com as leis da física e da representação cósmica, vemos


Cooper adentrar o buraco negro rumo ao horizonte desconhecido. Vai narrando passo a
passo aquilo que está vendo – da escuridão aos feixes de luz -, até que sua nave começa
a pulverizar-se e ele precisa ejetar. No escuro abismo espacial, Cooper é lançado para um
estranho lugar. Uma espécie de hipercubo localizado em uma quinta dimensão. Um
espaço tridimensional na realidade pentadimensional, como diz seu companheiro TARS
– um robô militar que auxilia o piloto. Nesse espaço onde o tempo é uma divisão física,
Cooper se vê dentro do quarto de sua filha, em diferentes momentos. Esta incrível solução
resolve o problema gravitacional. O robô, dentro do buraco negro, recolhe os dados que
Cooper transmite em Morse para sua filha na Terra. O que resulta com a construção de
estações espaciais que reconstituem a vida no planeta e permite a retira das pessoas em
larga escala. O tipo pobre de ‘happy end’ que Stengers torceria o nariz. Cooper, antes de
sair da quinta dimensão e ser milagrosamente resgatado à deriva no espaço como se fosse
um naufrago, trava um diálogo com TARS. Ao se referir a “eles”, os seres que teriam
construído aquele espaço e ajudado os humanos em sua empreitada para fora da Terra,
Cooper acredita se tratar de humanos. Uma civilização mais avançada que teria superado
as quatro dimensões. Em seu apogeu do potencial humano, Cooper parece proclamar que
nós salvaremos nós mesmos, através de nosso engenho, do mal que nós mesmos teríamos
criado. Um círculo umbilical vicioso onde o homem volta a ser o centro do universo.

Ao fim, vemos a imagem de terras selvagens, prontas para serem colonizadas. A bandeira
norte americana fincada no chão. Os sonhos de conquista novamente renovados.

Queda do céu e o deserto do real

Em suas ‘Teses Para a Era Atômica’ (1960), Gunther Anders faz um apelo para que,
frente ao perigo nuclear eminente, as pessoas tivessem coragem em ter medo. Preocupado
com uma indiferença generalizada, que sedasse a capacidade de percepção de nossos atos,
o autor procurava resgatar um tipo de precaução temerária, que acreditava ser – frente ao
caso atômico – pequena demais perto do tamanho do perigo real. “A imaginação deixou
de estar à altura da produção, como também o sentimento deixou de estar à altura da
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responsabilidade...” Nas proporções da crise ecológica que nos encontramos hoje,


profetiza “Quanto maior o dano, menor o sentimento de culpa”.

George Miller gravou o primeiro filme da sua série de sucesso em 1979, em seu país de
origem, a Austrália. Na época Mel Gibson, seu protagonista, era um desconhecido. O
filme ainda não carregava o tom apocalíptico que assumiu a partir do segundo capítulo
da franquia, mas já estava embebido de sua aura distópica. O interior da Austrália era o
ambiente perfeito para se imaginar uma paisagem desértica em um futuro próximo onde
os recursos são escassos. Na época o mundo vivia sob o temor do inverno nuclear,
fenômeno ambiental que previa uma catástrofe sem precedentes caso houvesse uma
guerra nuclear em larga escala. Era também a década da crise do petróleo, que teve seu
auge em 73, mas coincidiu, no ano do lançamento do longa, com um episódio particular
envolvendo a crise política no Irã.

Passados 30 anos do lançamento do terceiro filme, Mad Max: Fury Road chegava aos
cinemas. Teve grande sucesso nas bilheterias, no Brasil chegou a fazer 11 milhões de
dólares. Somando 373 milhões no mundo todo. Foi aclamado pela crítica e pelo público
e recebeu, na última cerimônia do Oscar (2016), 6 prêmios.

A reformulação da trama para o momento atual onde a catástrofe climática tem uma
presença maior que o risco de uma guerra nuclear não desloca o filme de sua premissa
árida e pobre de recursos. O cenário ainda é bastante semelhante. Na abertura, vozes em
off narram o caminho para o colapso: “É o petróleo, estupido!”, “Guerras por petróleo”,
“estamos matando por gasolina”, “o mundo está ficando sem água”, “aí vêm as guerras
por água”, “a humanidade está aterrorizando a si mesma”, “combate termo nuclear”, “a
terra está infértil”, “nossos ossos estão envenenados”, “nós só temos meia-vida”.

Com o fim dos recursos, a humanidade busca apenas a sobrevivência. O cenário


desértico, em um tom alaranjado e rochoso, lembra a superfície de um outro planeta. A
Terra tornou-se um lugar hostil, não somente pelo clima, mas também pela animalidade
com que os homens passaram a comandar os fragmentos de sociedade restantes. Em
Citadel, Immortan Joe, uma espécie de líder político/bélico/religioso comanda os recursos
locais e seu exército de filhos, os Garotos de Guerra meia-vida, paridos por mulheres
estupradas que Joe mantem em um cofre e as ordenha como vacas. Os Garotos esperam
pela redenção que os leve ao paraíso de Valhalla, oram por motores e cultuam volantes.
Correm com seus carros por estradas sem mundo.
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Max Rockantansky (Tom Hardy) surge sendo capturado por um grupo de Garotos de
Guerra e usado como bolsa de sangue e logo é atirado na ação em meio a perseguição. A
cena termina dentro de uma gigantesca tempestade de areia – novamente personagem
anunciador da catástrofe por vir. Procurando imagens sobre o Dust Bowl encontrei um
registro da Dakota do Sul, em 1934, que se assemelha com a tomada do filme de Miller
(ver figuras 7 e 8).

Figura 7 Tempestade de areia, Dakota do Sul (1934)

Figura 8 Tempestade de areia, Mad Max: Fury Road (2015)

A verdadeira estrela da Estrada da Fúria, no entanto, não é Max, mas a Imperatriz Furiosa
de Charlize Theron. Sequestrada quando criança de sua casa no mítico "Green Place",
Furiosa, desde então, aumentado através da "Hierarquia" sua influência na fortaleza-
cidade-estado militarizada. Dirigindo o petroleiro de Joe, põe em prática seu plano de
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fuga e resgate de outras cinco “parideiras” do ditador. O império do masculino no filme


aponta o quão danoso o domínio da testosterona pode ser, e o filme assume abertamente
o debate sexista. São os homens os culpados pelo declínio do mundo. São diversas as
referências que nos levam a essa conclusão – uma delas a pergunta repetida pelas
mulheres no decorrer do filme, ora ditas ora escritas na parede, “Who Killed The
World?”.- e outros contrários a mercantilização dos corpos femininos (uma senhora
dispara contra Joe “Elas não são sua propriedade! Você não pode ser dono de um ser
humano!”).

O ritmo acelerado, com carros, tambores, guitarra e amplificadores, mantém uma


atmosfera de urgência que parece mover os meia-vidas. Os lanças chamas nos carros e
até mesmo na guitarra parecem exaltar – ironicamente – a queima de combustíveis. A
inconsequência dos homens vai no caminho contrário ao “ter cuidado”, algo que só vamos
encontrar nas mulheres, que formam uma resistência armada em meio ao deserto, onde
Furiosa acreditava ainda existir o “Green Place”. Uma das senhoras carrega uma valise
que, em seu interior, delicadamente arrumadas, estão sementes e plantas. É com as
mulheres que reside qualquer esperança frente a barbárie.

As figuras masculinas, com exceção de Max, são os que comandam a guerra e o controle
dos recursos. Mas Estrada da Fúria não é um mito da humanidade contra a natureza, mas
do capitalismo contra a natureza. A exploração da economia atual dos recursos do planeta
torna possível acreditar em Miller e sua especulação. O capitalismo se apresenta como
uma forma de organizar a natureza. No caso do filme, o proprietário Immortan Joe, que
controla a procriação das crianças, os recursos de água e combustíveis fósseis.

“Hoje, os que afirmam a inutilidade da luta contra o capitalismo afirmam: ‘ A barbárie é


nosso destino’” – nos alerta Stengers -, Mad Max nos possibilita vislumbrar a barbárie
por vir, transformando em pesadelo o sonho dos modernos. O céu cairá sobre nossas
cabeças! – Já anunciava o xamã Yanomami Davi Kopenawa – e caberá a nós sobreviver
ao deserto do real.

Uma nota contra as alternativas infernais

Gostaria de encerrar com mais um exemplo, que também envolve uma polêmica digamos
mais ideológica do que puramente artística, e que nos ajudará a escapar das ditas
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‘alternativas infernais’ dos exemplos a cima. Ou seja, ou acreditar nos sonhos modernos
de colonização espacial ou se preparar para o pior, sabendo que não há como escapar.

O cineasta sul coreano, Bong Joon-Ho, após sucessos em seu país como O Hospedeiro
(2006) e Memórias de um Assassinato (2003), foi convidado por Harvey Weinstein, da
Weinstein Co., acostumada a “cravar” filmes independentes na cerimônia do Oscar, para
realizar uma produção em solo americano. O diretor, conhecido pelo tom político de seus
filmes, pediu para adaptar a graphic novel francesa de Jacques Lob, Snowpiercer, que
Weinstein acabara de adquirir os direitos.

O filme se passa em um futuro onde, na tentativa de desacelerar os impactos do


aquecimento global, a humanidade lançou a Terra em uma nova era glacial. Os únicos
sobreviventes são os habitantes de um trem que dá a volta no globo em um ano e foi
projetado por Wilford (Ed Harris), que comanda o trem em uma ponta, onde vivem a
classe alta do veículo. Na outra extremidade, empilhados em um vagão em condições
precárias fica o resto da população. Arquitetando tomar o trem, está o grupo de Gilliam
(John Hurt) e Curtis (Chris Evans).

A temida “luta de classes” é explicita na trama do filme e Weinstein viu o filme como
abertamente marxista, proibindo sua exibição nos EUA. O filme chegou antes aos
cinemas coreano e francês, por exemplo. Weinstein sugeriu um corte de 20 minutos e
uma narração em off, o que irritou o diretor.

No entanto, acredito que Weinstein tenha feito uma leitura errada do filme. Não que o
conflito de classes marxista não esteja lá, nem que ver o então “capitão américa” (o ator
Chris Evans) liderando uma revolta de trabalhadores não tenha lhe gelado a espinha, mas
o filme procura jogar justamente com o dualismo buscando uma saída pela tangente. Para
percebemos isso basta olhar para os únicos personagens coreanos do filme. Namgoong
Minsoo (Song Kang Ho), um dos projetores do trem, e sua filha Yona (Ko Asung). Ambos
são viciados em uma espécie de pedra radioativa e são mantidos em gavetas, parecidas
com as de um necrotério.

Ao contrário do restante do grupo, que tem em mente o controle do trem, Minsoo e Yona
estão atentos em observar o lado de fora. Um pedaço de avião descoberto é um sinal de
esperança. Minsoo e Yona não querem manter a história nos trilhos, continuar conduzidos
em velocidade pelo progresso. Eles querem sair do trem.
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Sabemos que hoje, especulando um mundo em que a União Soviética tivesse vencido,
não estaríamos mais confortáveis quanto ao clima do que estamos hoje. O vínculo
industrial das sociedades capitalistas e das sociedades socialistas que tivemos até hoje
sempre foi muito próximo, inclusive quanto ao uso de combustíveis fósseis.

Contra as ‘alternativas infernais’, Bong Joon-Ho recolocou a questão de uma nova


perspectiva. Seu filme termina com um urso polar – hoje, símbolo da extinção de espécies
frente as mudanças climáticas -, dando sinais de que há algum mundo por vir. Qual? Não
nos cabe responder.

Ficções persuasivas para uma antropologia especulativa

Marilyn Strathern, em ‘Fora do Contexto’, afirma que todo texto é uma ficção. A
diferença se daria no tipo de ficção que esse texto pretende se enquadrar, se numa ficção
mais literária ou mais científica. Poderíamos então ler a ficção científica dos romances e
filmes como uma conjunção dos dois fatores. Uma narrativa literária com ares científicos.

Uma ficção persuasiva, nesse caso, seria o quanto os fatores literários e científicos
confluiriam para comunicar-se com as duas metades: público e cientistas. Mundo atual e
mundo especulado. Público expectador e público interessado.

Espero ter conseguido ser persuasivo em apontar quanto os exemplos a cima estão
próximos ou em relação direta com esses fatores. Seja atuando ao lado de uma ciência
que propõe a emigração planetária como saída ou a outra ciência, que vê nos
desdobramentos da crise climática um chamado para a transformação das nossas
perspectivas de como coabitar esse mundo, permanecendo e resistindo nele.

O cinema, por meio de sua técnica, cria um tipo especial de arte para se analisar os
impactos dos mundos especulados nele. Seu efeito possui um certo encanto no
imaginário, algo próximo daquilo que Alfred Gell chamou de ‘tecnologia do encanto’.

“O poder dos objetos de arte provém dos processos técnicos que


eles personificam objetivamente: a tecnologia do encanto é
fundada no encanto da tecnologia. O encanto da tecnologia é o
poder que os processos técnicos tem de lançar uma fascinação
sobre nós, de modo que vemos o mundo real de forma encantada”
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(Tecnologia do encanto e o encanto da tecnologia, Alfred Gell)

Dessa forma, experimenta-se a ficção de outra forma. A ficção não é apenas uma
imaginação limitada de um sujeito, ou uma invenção falsa; também não é coagida aos
critérios arbitrários de uma verdade verificável: ela é o espaço onde ambos esses fatores
se cruzam, verdade e falsidade, e essa tensão essencial é sua matéria. Não a resolução do
conflito, mas o conflito em si.

Strathern já apontava para a antropologia como uma espécie de ficção controlada. Ou,
como formulou Alexandre Nodari, um saber objetivo frente as turbulências da
subjetividade, a ficção como antropologia especulativa.

Os filmes que apresentei não examina a realidade, mas sim a existência como
experiência. A existência não é o que aconteceu, a existência é o campo das possibilidades
humanas, tudo aquilo que pode tornar-se, tudo do que é capaz.

A antropologia cartografa mundos possíveis e o cinema de ficção científica cartografa


mundos inexistentes. Adentrar uma ficção é sair do “deserto do real”, alterar-se, mudando
sua própria posição existencial, re-situar essa existência diante de uma inexistência
descoberta.

A ficção científica tem como missão, diante da perspectiva catastrófica do fim do mundo,
adubar o subsolo existencial empobrecido pelo “controle do imaginário”, buscando sair
do “deserto do real” e adentrando a inexistência, que também está in-existência: dentro
da existência.

Talvez toda antropologia seja especulativa – imaginária, mas não menos real; está sempre
pensando no “como se fosse”: o sujeito como se fosse objeto, o possível como se fosse
atual, o inexistente como se fosse existente. O estado de “como se” é ontológico, define
esse entre espaço que a antropologia costuma habitar.

O princípio da contradição – do eu como outro – busca a modificação dos dois polos (o


atual e o possível, o existente e o inexistente) entrando em relação, dois mundos (reais e
possíveis/imaginários) que se chocam e se comparam.

A ficção nada mais é que o encontro ontológico desses mundos.


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A antropologia especulativa é o estudo do como-ser: ao descobrir um novo mundo, a


antropologia especulativa não o torna existente; torna existente a relação antes inexistente
entre os dois mundos. Explorar e redescobrir o próprio mundo, mudando de perspectiva
e a própria perspectiva. A antropologia especulativa deriva do encontro onde se dá a
tradução recíproca, sempre atravessada por mais de uma perspectiva.

Potencializar a imaginação, diante de um mundo gradualmente em declínio e


insustentável, demandando o impossível. Buscando nos mundos “por vir” alguma
possibilidade de mundo.

Bibliografia

1 – STRATHERN, Marylin. Fora de Contexto: As Ficções Persuasivas da Antropologia.


O Efeito Etnográfico, cap. 5. 2014.

2 – NODARI, Alexandre. A literatura como antropologia especulativa. Revista da


ANPOLL (Online), v. 1, p. 75-85, 2015.

3 – VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo & DANOWSKI, Déborah. Há Mundo Por Vir?


Ensaio Sobre os Medos e os Fins. Cultura e Barbárie, Rio de Janeiro. 2014.

4 – VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os Involuntários da Pátria. Aula pública


durante o ato Abril Indígena, Cinelândia, Rio de Janeiro. 2016.

5 – STENGERS, Isabelle. No Tempo das Catástrofes. Cosac Nayfi, São Paulo. 2015.

6 – GELL, Alfred. A Tecnologia da Encanto e o Encanto da Tecnologia. Concinnitas,


ano 6, v. 8 (1), p. 41-63, 2005.

7 – ARENDT, Hannah. A Condição Humana. The University of Chicago. 1958.

8 – ANDERS, Gunther. Teses Para a Era Atômica. The Massachusetts Review, v.3,

n,3. 1962. Extraído in Sopro 87, 2013.

9 – LATOUR, Bruno. Para Distinguir Amigos e Inimigos no Tempo do Antropoceno.


Palestra proferida no Simpósio “Thinking the Anthropocene”, École d’Hautes Études em
Sciences Sociales, Paris. 2013.