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1. Intervenção urbana no circuito de informação circulante.

@Por Carlos Alberto Dias.

Agradeço a Ana, sua maravilhosa equipe por


criar esta oportunidade e parabenizar a
equipe do SESC Pompéia por bancar esta
ousadia. Agradeço a presença de todos.

Dedico esta fala à Maíra Vaz Valente e Pati Bertucci, duas belas almas
que embelezam este feio, sujo e malvado mundo.

Advertência ao ouvinte:
O conceito que se irá expor nesta fala caiu em
completo desuso a partir de meados dos anos
80 do século passado, por isso mesmo sei que
ele soará estranho para a maioria. Para
recuperá-lo foi necessário um exercício de
arqueologia dos saberes que nos pautavam
aquela época.

 Entrada de vídeo (3 minutos).

Quando nos foi dada a oportunidade para elaborar uma proposta de intervenção em
placas de outdoor em São Paulo, assumimos com gravidade as responsabilidades
implicadas. Pesquisamos e estudamos todas as manifestações de arte em outdoor
ocorridas no Brasil antes de nós. Marcello Nitsche em Curitiba. Jovem Arte
Contemporânea no MAC. Alunos da FAAP na esquina da Consolação com a Paulista,
em cima do Bar Riviera. A mostra de Arte-door elaborada por Paulo Brusque na cidade
do Recife. Os cartazes lambe-lambe de bailes da turma do Chic Show. Os cartazes da
ROSTA soviética. Decidimos: Não faríamos uma galeria de arte ao ar livre. Não
organizaríamos uma exposição com obras de arte em grande formato.
Escolhemos a dedo uma única placa de outdoor, em um universo de aproximadamente
cinco mil placas existentes no núcleo urbano de São Paulo. Na Rua da consolação em
frente à Pça. Roosevelt. Uma única placa. Como um pequeno coágulo nas veias da
informação circulante de São Paulo. Produziríamos contrainformação dentro do
circuito urbano de informação. Ainda que não soubéssemos exatamente com faríamos
isto.
Que as racionalizações próprias da memória não nos iludam. Nós não tínhamos um
grande plano racionalmente arquitetado à priori. Tínhamos, sim, aquele kairòs que nos
dotava de capacidade de resposta às oportunidades. Elaboramos o primeiro painel
como um editorial, um chamado à participação. Para isso reproduzimos ecos de uma
fala de Torquato Neto que encontramos nas páginas de Últimos dias de Paupéria, livro
póstumo de Torquato editado por Wally Sailormoon. Misturamos o sol que usávamos
como marca do Grupo Manga Rosa, com a bandeira do Brasil e berramos aos quatro
ventos: Tem espaço à beça: Ocupe e se Vire.
Era um apelo. Era uma denuncia. Era uma bandeira desfraldada. Era uma declaração
de princípios. Era um chamamento. Era antes tudo, um tremendo sarro!
Na época, este primeiro trabalho teve pouquíssima repercussão. Sugerimos aos
patrocinadores a contratação de uma assessoria de imprensa para divulgar o evento.
Era preciso manter o trabalho no ar tempo suficiente para podermos construir o
circuito de contrainformação que almejávamos.
Com a publicação do segundo outdoor deu-se inicio a divulgação do projeto “Manga
Rosa ao ar Livre”, um convite aos artistas e grupos que atuavam em São Paulo, e
mesmo fora, para intervir naquela placa. Decidimos não impor regras de seleção,
normas ou princípios de classificação, inclusive os estéticos; afinal, não faríamos um
salão ou galeria de arte ao ar livre. Todos os trabalhos enviados seriam publicados na
ordem de chegada.
“Arte Independente no espaço da propaganda”, manchetearam as folhas culturais.
Este aval da imprensa cultural e, depois o aval do circuito das artes, todos os trabalhos
veiculados naquele suporte, independentes de suas opções estéticas, se fundiriam em
uma só mensagem: Isto é arte!
Explicita-se assim a ideologia implícita nas práticas da arte contemporânea: O que
define o que é arte ou não, é o jogo de inserção da obra no circuito institucional das
artes. (Ronaldo de Brito. Malasartes, 1975).
O jogo de contrainformação ainda não estava completo.
Sim, instituímos a mídia publicitária como suporte para a arte. Porém, na mecânica de
funcionamento do “Manga Rosa ao Ar Livre” mantivemos a agenda das mensagens
publicitária em outdoor, ou seja, os trabalhos recebidos seriam trocados a cada quinze
dias. Salvo chuva salvo engano.
Em resumo construímos a seguinte situação: De um lado a institucionalização do
suporte publicitário como suporte para a arte, de outro a submissão das “obras de
arte” à mecânica da exibição publicitária outdoor. Neste choque entre estes dois
circuitos de informações distintos o jogo de contrainformação se constituiu.

Este jogo de contrainformação estabeleceu uma dupla indiferenciação: A perda da


identidade estética de cada obra particular e a perda de identidade autoral destas
mesmas obras.
Eis a ironia que o “Manga Rosa ao Ar Livre” foi capaz de produzir: A Arte
contemporânea não é resultado de trabalho autoral individualizado. Arte é aquilo que
o ‘Sistema das Artes’ designa, elege ou escolhe como arte.
[Empalhamos nosso porco e urinamos na fonte!].
Para explicitar este movimento de indiferenciação escrevemos para o artigo “Manga
Rosa ao Ar Livre”, publicado na Revista Arte em São Paulo nº 6, de 1980 o seguinte:
“Primeiro eliminou-se a criação de "objets d'art" e em seguida afastou-se por completo
a figura do artista como ser único.”.
Não estávamos sós neste movimento de desnudamento das regras do Sistema das
artes contemporâneas pela negação das obras e dos artistas:
O Grupo Viajou Sem Passaporte escreveu, no manifesto “Público Idiota” de outubro
1978: “Junto com a mensagem e a impressão de realidade jogamos no lixo a categoria
de Obra-de-arte.” (in “Perder La Forma Humana. Uma imagem sísmica dos anos
oitenta na América Latina.”).
Graciela Gutiérrez Marx, artista de Rosário, Argentina, escreveu em 1984: “Por uma
arte de base sem artistas”. (idem).
Cucaño, outro artista de Rosário, escreveu em 1982: “Sobre La aniquilacion de La obra
de arte. Sobre La imaginação liberada.”. (idem).
Pra encerrar, deixo no ar como provocação, as seguintes perguntas:
Como foi possível, naquela época, conceber esta ideia de sistema de artes sem artistas
e sem obras de arte?
E, mais importante, com qual finalidade, não apenas em São Paulo, mas em várias
cidades do mundo, artistas ou grupos de artistas se reúnem para atuar no sistema das
artes para propor exatamente a morte do Sistema das Artes?
Fica a provocação para quem quiser refletir.
São Paulo, setembro de 2018.