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ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

ADN
Nº 70070147509 (Nº CNJ: 0224944-19.2016.8.21.7000)
2016/CÍVEL

APELAÇÃO CÍVEL. CONTRATOS DE CARTÃO DE


CRÉDITO. EXIBIÇÃO DE DOCUMENTOS.
INTERESSE PROCESSUAL. EXTINÇÃO DO FEITO.
A decisão recorrida é anterior à entrada em vigor do
novo Código de Processo Civil, assim como o
presente recurso. Considerando a orientação proposta
no Enunciado nº 2 aprovado pelo plenário do Superior
Tribunal de Justiça, aplicam-se as regras do Código de
Processo Civil de 1973, bem como as interpretações
dadas, até então, pela jurisprudência.
Interesse de agir.
Nas demandas por meio das quais são buscados
contratos de cartão de crédito contendo informações
sobre a relação contratual mantida com a instituição
financeira, ficou sedimentada a necessidade de
atendimento dos requisitos de procedibilidade:
requerimento administrativo não atendido no prazo
razoável, demonstração da existência da relação
jurídica e o pagamento do custo do serviço, conforme
Recurso Especial sob nº 1.349.453-MS.
A parte autora não comprovou a realização de
requerimento administrativo.
Falta de Interesse de Agir configurada.
Sucumbência. Como conseqüência do princípio da
causalidade, deverá a parte autora arcar com o
pagamento das verbas sucumbências. Observado o
deferimento da gratuidade judiciária à parte autora (fl.
08).
APELAÇÃO DESPROVIDA.
APELAÇÃO CÍVEL VIGÉSIMA TERCEIRA CÂMARA
CÍVEL
Nº 70070147509 (Nº CNJ: 0224944- COMARCA DE GRAVATAÍ
19.2016.8.21.7000)

CRISTIANO PEREIRA DE BORBA APELANTE

BANCO BRADESCO S/A APELADO

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos.

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ADN
Nº 70070147509 (Nº CNJ: 0224944-19.2016.8.21.7000)
2016/CÍVEL

Acordam os Desembargadores integrantes da Vigésima


Terceira Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em
negar provimento à apelação.
Custas na forma da lei.
Participaram do julgamento, além do signatário (Presidente), os
eminentes Senhores DES. CLADEMIR JOSÉ CEOLIN MISSAGGIA E DES.
MARTIN SCHULZE.
Porto Alegre, 23 de agosto de 2016.

DES. ALBERTO DELGADO NETO,


Relator.

RELATÓRIO
DES. ALBERTO DELGADO NETO (RELATOR)
Recurso de Apelação Cível interposto por CRISTIANO
PEREIRA DE BORBA da sentença proferida nos autos da Ação Cautelar de
Exibição de Documentos, ajuizada contra BANCO BRADESCO S/A, que
julgou extinta a demanda (fls. 52-54). Aduziu a parte apelante, em suas
razões recursais (fls. 56-58), seu interesse de agir. Buscou pelo
reconhecimento da desnecessidade de requerimento administrativo para
configuração da apresentação de seu direito na via judicial. Pugnou, assim,
pelo provimento do recurso, para o fim de ver julgada procedente a
demanda.
Após recurso, foram intimados para contra-razões (fl. 59),
sobrevindo recurso da instituição financeira (fls. 60-64).
Registro terem sido cumpridas as formalidades dos artigos
549, 551 e 552 do CPC, considerando a adoção do sistema informatizado
por este Tribunal (Ato 24/2008-P).
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É o relatório.

VOTOS
DES. ALBERTO DELGADO NETO (RELATOR)
Recebo o recurso de apelação interposto, uma vez que
presentes os pressupostos processuais.
Em suas razões recursais pugna a parte apelante pela reforma
da sentença de extinção do pedido proferida pelo Magistrado a quo, a qual
redigida nos seguintes termos (fls. 53v-54):
No caso em tela, o autor não juntou nenhum
documento comprobatório do pedido administrativo
encaminhado ao réu, daí a caracterização da falta de
interesse de agir.
Isso posto, julgo extinto o processo, sem
julgamento do mérito, com base no art. 267, inciso VI,
terceira figura, do CPC.
Arcará a parte autora com as custas do
processo e honorários advocatícios que fixo em
R$700,00, em razão da singeleza da causa, com
repetição de teses. Suspensa a exigibilidade desses
valores porque beneficiária da AJG (art. 12 Lei
1060/50).

Preliminarmente, convém esclarecer que a decisão recorrida foi


publicada anteriormente, portanto, à entrada em vigor do novo Código de
Processo Civil, que iniciou em 18 de março de 2016.
O presente recurso também é anterior ao vigor do novo código
e tem fundamento no Código de Processo Civil então vigorante.
Destarte, considerando a orientação proposta no Enunciado nº
21 aprovado pelo plenário do Superior Tribunal de Justiça, aplicam-se as

1 Enunciado 2: Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/1973 (relativos a


decisões publicadas até 17 de março de 2016) devem ser exigidos os requisitos de
admissibilidade na forma nele prevista, com as interpretações dadas, até então, pela
jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça.
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regras do Código de Processo Civil de 1973, bem como as interpretações


dadas, até então, pela jurisprudência.
A parte autora, de acordo com a peça inicial do feito cautelar,
pretende a exibição dos documentos que embasaram a inscrição de seu
nome em órgãos restritivos de crédito.
Após o julgamento do Recurso Especial sob nº 1.349.453-MS
pelo Superior Tribunal de Justiça, com afetação nas ações de exibição de
documentos, restou definida a presente questão, razão pela qual estou
modificando alguns entendimentos.
O interesse de agir decorre da análise da necessidade e da
adequação. Compete à parte autora demonstrar que sem a interferência do
Poder Judiciário sua pretensão corre risco de não ser satisfeita pelo réu. Ao
autor cabe, também, a possibilidade de escolha da tutela pertinente, mais
adequada ao caso concreto.
Segundo Cândido Rangel Dinamarco o que caracteriza o
“interesse processual ou interesse de agir é o binômio necessidade-
adequação; necessidade concreta da atividade jurisdicional e adequação de
provimento e procedimentos desejados.” (Cândido Rangel Dinamarco,
Execução Civil, 7ª ed., São Paulo: Malheiros Editores, 2000, 406).
Assim, o interesse de agir reside no binômio necessidade-
adequação. Verificar no caso concreto se há a necessidade da atividade
jurisdicional, no momento da recusa do Banco em fornecer o documento,
bem como a adequação da medida cautelar de exibição de documentos, já
que a mesma objetiva as informações e as provas para possível utilização
nas ações de revisão de contratos.
Por outro lado, no caso das demandas em que são buscados
os contratos contendo informações sobre a relação contratual mantida com a
instituição financeira, veio a ser sedimentada a necessidade de atendimento

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a requisitos de procedibilidade, quais sejam: a demonstração da existência


de relação jurídica entre as partes, a comprovação de prévio pedido à
instituição financeira não atendido em prazo razoável, o pagamento do custo
do serviço conforme previsão contratual e a normatização da autoridade
monetária, após o julgamento do Recurso Especial sob nº 1.349.453 - MS,
mencionado, decidido conforme a sistemática dos recursos repetitivos, nos
termos do art. 543-C2, do Código de Processo Civil, com a seguinte ementa:

2 Art. 543-C. Quando houver multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica


questão de direito, o recurso especial será processado nos termos deste artigo. (Incluído
pela Lei nº 11.672, de 2008).
§ 1o Caberá ao presidente do tribunal de origem admitir um ou mais recursos
representativos da controvérsia, os quais serão encaminhados ao Superior Tribunal de
Justiça, ficando suspensos os demais recursos especiais até o pronunciamento definitivo do
Superior Tribunal de Justiça. (Incluído pela Lei nº 11.672, de 2008).
§ 2o Não adotada a providência descrita no § 1o deste artigo, o relator no Superior Tribunal
de Justiça, ao identificar que sobre a controvérsia já existe jurisprudência dominante ou que
a matéria já está afeta ao colegiado, poderá determinar a suspensão, nos tribunais de
segunda instância, dos recursos nos quais a controvérsia esteja estabelecida. (Incluído pela
Lei nº 11.672, de 2008).
§ 3o O relator poderá solicitar informações, a serem prestadas no prazo de quinze dias, aos
tribunais federais ou estaduais a respeito da controvérsia. (Incluído pela Lei nº 11.672, de
2008).
§ 4o O relator, conforme dispuser o regimento interno do Superior Tribunal de Justiça e
considerando a relevância da matéria, poderá admitir manifestação de pessoas, órgãos ou
entidades com interesse na controvérsia. (Incluído pela Lei nº 11.672, de 2008).
§ 5o Recebidas as informações e, se for o caso, após cumprido o disposto no § 4o deste
artigo, terá vista o Ministério Público pelo prazo de quinze dias. (Incluído pela Lei nº 11.672,
de 2008).
§ 6o Transcorrido o prazo para o Ministério Público e remetida cópia do relatório aos
demais Ministros, o processo será incluído em pauta na seção ou na Corte Especial,
devendo ser julgado com preferência sobre os demais feitos, ressalvados os que envolvam
réu preso e os pedidos de habeas corpus. (Incluído pela Lei nº 11.672, de 2008).
§ 7o Publicado o acórdão do Superior Tribunal de Justiça, os recursos especiais
sobrestados na origem: (Incluído pela Lei nº 11.672, de 2008).
I - terão seguimento denegado na hipótese de o acórdão recorrido coincidir com a
orientação do Superior Tribunal de Justiça; ou (Incluído pela Lei nº 11.672, de 2008).
II - serão novamente examinados pelo tribunal de origem na hipótese de o acórdão recorrido
divergir da orientação do Superior Tribunal de Justiça. (Incluído pela Lei nº 11.672, de
2008).
§ 8o Na hipótese prevista no inciso II do § 7o deste artigo, mantida a decisão divergente
pelo tribunal de origem, far-se-á o exame de admissibilidade do recurso especial. (Incluído
pela Lei nº 11.672, de 2008).
§ 9o O Superior Tribunal de Justiça e os tribunais de segunda instância regulamentarão, no
âmbito de suas competências, os procedimentos relativos ao processamento e julgamento
do recurso especial nos casos previstos neste artigo.
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PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL


REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543-
C DO CPC. EXPURGOS INFLACIONÁRIOS EM
CADERNETA DE POUPANÇA. EXIBIÇÃO DE
EXTRATOS BANCÁRIOS. AÇÃO CAUTELAR DE
EXIBIÇÃO DE DOCUMENTOS. INTERESSE DE
AGIR. PEDIDO PRÉVIO À INSTITUIÇÃO
FINANCEIRA E PAGAMENTO DO CUSTO DO
SERVIÇO. NECESSIDADE. 1. Para efeitos do art.
543-C do CPC, firma-se a seguinte tese: A propositura
de ação cautelar de exibição de documentos bancários
(cópias e segunda via de documentos) é cabível como
medida preparatória a fim de instruir a ação principal,
bastando a demonstração da existência de relação
jurídica entre as partes, a comprovação de prévio
pedido à instituição financeira não atendido em
prazo razoável, e o pagamento do custo do serviço
conforme previsão contratual e normatização da
autoridade monetária. 2. No caso concreto, recurso
especial provido. RECURSO ESPECIAL Nº 1.349.453
- MS (2012/0218955-5) Rel: MINISTRO LUIS FELIPE
SALOMÃO RECORRENTE : MARIA ELZA SALINA
GONÇALVES RECORRIDO : CAIXA ECONÔMICA
FEDERAL
No caso em apreço não restou configurado o interesse
processual da parte autora, uma vez que não comprovado a realização de
requerimento administrativo. Inexiste nos autos documento que demonstre
ter a parte postulado na via extrajudicial.
Por outro lado, a parte autora ajuizou a ação sem qualquer
adminículo de prova capaz de demonstrar a relação jurídica existente entre
as partes no período reclamado. Ainda, a instituição ré, conforme as fls. 32-
33, realizou diversas pesquisas na tentativa de localizar documentação hábil
que demonstre a relação jurídica estabelecida e não obteve êxito.
Assim, não está preenchido o requisito de procedibilidade
considerado essencial para a configuração do interesse processual para a
cautelar de exibição de documentos, já que inexiste requerimento
administrativo, conforme critério pertinente, definido em julgamento de

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recurso ao Superior Tribunal de Justiça, submetido ao rito dos recursos


repetitivos, como analisado.
Nesse sentido, a jurisprudência:
APELAÇÃO CÍVEL. BRASIL TELECOM. CONTRATO
DE PARTICIPAÇÃO FINANCEIRA. AÇÃO CAUTELAR
DE EXIBIÇÃO DE DOCUMENTO. INTERESSE DE
AGIR NÃO CONFIGURADO. EXTINÇÃO. 1. No caso
das cautelares de exibição de documentos com dados
societários, é imprescindível que, havendo ingresso na
esfera judicial, a parte demonstre ter necessitado da
tutela jurisdicional, mediante requerimento
administrativo formal não atendido em prazo razoável.
REsp Repetitivo nº 982.133/RS. 2. O Supremo
Tribunal Federal igualmente, em recente decisão
proferida sob o regime da repercussão geral (RE nº
631.240), reafirmou que a instituição de condições
para o regular exercício do direito de ação é
compatível com o art. 5º, inc. XXXV, da Constituição,
de modo que para se caracterizar a presença de
interesse em agir, é preciso haver necessidade de ir a
juízo. 3. Ausente prévio e idôneo pedido administrativo
formulado à instituição ré, resta latente a ausência de
uma das condições da ação, consistente na falta de
interesse processual da parte autora. NEGADO
PROVIMENTO AO RECURSO. (Apelação Cível Nº
70063795785, Vigésima Terceira Câmara Cível,
Tribunal de Justiça do RS, Relator: Ana Paula
Dalbosco, Julgado em 06/03/2015)

Assim, mantenho a extinção do feito por carência de ação, em


virtude da falta de interesse processual, nos termos do art. 267, VI, do
Código de Processo Civil.

Voto, pois, pelo desprovimento do recurso, de acordo com a


fundamentação;
Deixo de fixar os honorários recursais, considerando a
orientação existente nos enunciados aprovados pelo Plenário do Superior
Tribunal de Justiça, notadamente no enunciado 7, “Somente nos recursos
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interpostos contra decisão publicada a partir de 18 de março de 2016 será


possível o arbitramento honorários sucumbenciais recursais, na forma do art.
85, § 11, do NCPC”.

DES. MARTIN SCHULZE - De acordo com o(a) Relator(a).


DES. CLADEMIR JOSÉ CEOLIN MISSAGGIA - De acordo com o(a)
Relator(a).
DES. ALBERTO DELGADO NETO - Presidente - Apelação Cível nº
70070147509, Comarca de Gravataí: "NEGARAM PROVIMENTO À
APELAÇÃO. UNÂNIME"

Julgador(a) de 1º Grau: MARIA DA GRACA OLIVAES PEREIRA