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PRIMEIRA PARTE © DIAGNOSTICO DA SITUACAO ‘CAPITULO 1 © PROBLEMA DA UNIVERSIDADE * ‘A universidade enfrenta, no momento,.a pior crise com que jé se defrontou durante sua curta formacéo no Brasil. ‘Trés ameagas principais pairam sobre cla e sobre 2 natureza de sua contribuicko educactonal. Primeiro, pretende-se sub- meté-la a uma tutela exterior coga e inflexivel. Segundo, 0 radicalismo intelectual € focalizado como um mal em si mesmo e como um perigo para a sociedade, Terceiro, de uma forma ou de outra, os professores vém-se diante de um novo dilema: fortalece-se dia a dia a aspiracio de isolar-se ‘© jovem do fluxo de reconstrugso da socledade. © pior é que essas ameagas ndo procedem estritamente de fora. Muitos so os untversitarios que compartilham essas convicgées e as sustentam intra muros, num esforgo suicida dc integrar a universidade dentro de correntes que a destrui- iam, se vingassom e se viessem a definir nossos padrées de ensino superior. Desse Angulo, bem se poderia dizer que muitos universitérios se despiram de sua dignidade intelec- tual, preferindo se ajustar & presente situacéo politica como se fossem, pure e simplesmente, “pequenos-burgueses” e nada mais. Nao estamos num momento de diélogo, Mas precisamos meditar sobre esse problema. Quando menos, para termos forga para arrostar as criticas que nos fazem. # preciso que saidamos, com plena convicgdo, o que pretendemos e como avaliar as fungoes sociais construtivas da universidade. Se nao para sermos ouvidos e exercermos influéncia, pelo menos para defendermos com responsabilidade e com cora- gem as posigdes que j4 assumimos e que precisam ser man- fidas. Cada nag&o e cada povo possuem a universidade que = Artigo esertto no inicio de 1965 pare a Revista Brasiliense. Ficox inédito em virtude do truncamento da cireulagio daguolr revista. Posteriormente, fol publicado por Jornal da Senzala, Sio Paulo, N.° 1, Janeiro de 1968, pp. 88. merecem. Acabaremos multo mal, nosse terreno, se na soubermos 9 que queromos e, principalmente, se ndo sou, bermos Iutar pelo que queremos. Clarificar 0 nosso pensa- mento, a esse Fespelto, vem a ser parte de uma situagao ce Jul, na qual nio seremos poupados e nem nos podercmos ‘Com esse objetivo,’ reunimos aqui as reflexd nos parecem oportunas e atuals. Nao se trate de une Shee aitacdo sobre valores supremos gu fins Wltimos; mas de ob- servagées que giram em torno dos minimos vitais, que po- derdo condicionar a existéncia a sobrevivancia de pratieas universitdrias em nosso melo. Por isso, seguiremos. na ex- Posi¢do 0 programa oferecida pelas trés ameacas apontadas aelma, que precisam ser combatidas com animo belicoso verdadeira £6, 16 na razéo, na causa do progresso € no futuro Go Brasil como nacdo independente A Tutela Exterior Embora sé a usassem raramente e em fins Imi fs nossas “escolas superiores” nasceram, erescoram @ Se ox, pandiram sob um clima de grande liberdade intelectual. Flas exprimiam de tal modo os interesses sociais e os valores cul- ‘turais, que impregnavam a eoncepeao do mundo-das classes soclais dominates e dirigentes, que no havia a necessidade de levantar-se o problema de saber-se 0 que elas deveriam Tepresentar como forca social, cultural € politica. Aquilo que os sociélogos norte-americanos chamam de controles Teativos, que operam de modo espontanco e indireto, mas continuo e profundo, era suficiente para ajusié-las ds ex- Pectativas dos referidos efrculos socials, A diferenciacdo re- cente da sociedade, com suas repercussdes na organizacao do poder econdmico, social e politico, fez com que essa homo- geneidade fosse condenada e desaparecesse aos poutos. Nao 86 setores oxtensos dos corpos docente e discente passaram & ser recrutados em varias camadas sociais: a propria idéla de universidade impés um ideal de autonomia, que implicava nova tomada de posigéo diante das tendéncias & democrati- zago vigentes na sociedade inclusiva, Em conseqiiéncia, as“ Categorias sociais que emergiam na cena histériea como for- as renovadoras — especialmente as classes médias — am- Pararam-se nessas tendénclas para aumentar sua participagao 30 30599/06 efetiva na estrutura de poder e para destruir as antigas for mas de acomodago das “escolas superlores” aos interesses sociais e aos valores culturais das velhas elites. Nesse sentido, as transformacées que afetaram a estru- tura eo funcionamento das “escolas superiores” estavam imersas em processos histérico-sociais mais amplos. A auto% nomia universitaria néo surge, apenas, como um ideal de independéncia pelo isolamento. Ela aparece como uma forca s6cio-cultural e politica, que se erguia contra o monopélio do saber (e, através dele, das carreiras letradas) pelos compo- nentes ou representantes das “grandes familias tradicionais”. Esse proceso (que nos limitamos a apontar) teve enorme importaneia para o destino que se pretendeu dar as “escolas superiores”. Num pafs sem tradic&o intelectual e, especial- mente, destituido de experiéneis universitéria, ele condicio- nou a formagiio de ideais que favoreciam a lenta emergéncia de novos padrées do ensino superior, autenticamente ligados & nossa época e as necessidades do Brasil moerno. Projetou- nos, a esse Tespeito, no cfrculo da civilizacio @ que perten- cemios, mas de maneira prépria: o ideal de construir a uni- versidade passou a associar-se, definida e crescentemente, ao ideal corrélato de envolver o universitério nos dilemas eco- nmicos e politicos de sua comunidade. Dai a cxtraordinaria amplificagao do conceito de autonomia universitéria, que passou a designar (para estudantes e professores) um estado de espirito de participacéo Independente, mas responsével. ¥ Portanto, apesar das deficiéncias do nosso fraco_ponto de partida e da nossa tradiggo cultural, fomos além do que poderiamos extrair dos modelos institucionais e das expe- Hiénelas importados. Nunca: se procurou apenas, estrita estreitamente, proteger a liberdade do inteloctual através de ‘um isolamento que 0 colocasse ao abrigo de certas pressdes materiais ou morais de outros grupos mais poderosos. Pre-< feriu-se aleancar esse objetivo por meios que asseguras- sem tal Uberdade num elfma de comunicagio, cooperacio respeito mituo, Os grupos sociais que esttio fazendo presstio sobre os universitérios e, inclusive, exigindo deles o que chamam, sem rebucos, de “exame de conscifncia”, falam, naturalmente, como porta-vozes de uma. situacdo historicamente superada. Eles pensam que defendem um ideal livre de universidade. De fato, porém, o que querem 6 restabelecer a antiga ho- mogeneidade que existia na interac&o das “escolas supetiores” ‘com os interesses e os valores de certos segmentos da socie- 31