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Cândido, ou o otimismo

Josemar da Silva Alves Bonho

Nascido na França, com o nome de François-Marie Arouert, o autor de Cândido, ou o


otimismo [Candide ou l'optimisme], ficou conhecido como Voltaire (1964-1778). Ídolo de
uma burguesia liberal e anticlerical, Voltaire trazia em sua personalidade intelectual uma
mistura de poeta satírico e de filósofo militante, capaz de causar repulsa às autoridades
eclesiásticas. Seu liberalismo intransigente é, por isso, constatado no combate ao fanatismo
clerical que ocupa boa parte de suas obras, e também de Cândido, “inaugurando assim uma
tradição racionalista e deísta decididamente crítica a todas as formas possíveis de
obscurantismo religioso” (MONDAINI, p. 39). De acordo com Lopes (2003, p. 43), o autor
de Cândido manejava a pena com a destreza de um esgrimista perfeito, fato que a literatura
foi arregimentada pela primeira vez em peça de artilharia pesada, num século XVIII marcado
pela voga do anticlericalismo, pela crítica impiedosa dos desvarios da Igreja, dos excessos do
absolutismo monárquico e dos privilégios da sociedade aristocrática. Logo no início de
Cândido, Voltaire faz lembrar a necessidade do pessimismo da razão como antídoto eficaz à
visão ufanista do mundo, fazendo uma sátira às idéias otimistas dos filósofos alemães Leibniz
e Wolf, para os quais “tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis”. (MONDAINI, p. 39)
Dentro desse contexto, Voltaire apresenta sua reprovação à ingenuidade dos otimistas
mediante a narrativa irônica das desventuras do jovem Cândido na busca do encontro da sua
amada Cunegunda, não obstante as ilusões semeadas pelo seu antigo mestre, o Dr. Pangloss.
Visto que em sua época a igreja exercia forte controle sobre a sociedade civil, Voltaire, como
verdadeiro humanista, parece também juntar uma crítica à teologia medieval e ao consolo da
religião, quando critica o otimismo de Leibniz, visto que de acordo com o pensamento
religioso tudo o que sucede com as pessoas são providências divinas. As esperanças do
Cristianismo são despojadas de transcendência e aplicadas à espécie humana. (GRAY, 1999,
p. 30)
Cândido, personagem central da narrativa, era um jovem otimista por excelência. Ele
vivia no castelo1 do senhor barão de Thunder-tem-tronckh, onde aprendeu a ver o mundo com
os olhos do seu mestre Pangloss, que lhe ensinara “que as coisas não podem ser de outro
modo: porque, tudo sendo feito visando a um fim, tudo está necessariamente ordenado ao
melhor fim” (VOLTAIRE, 2009, p. 8), No entanto, Cândido foi expulso do “mais belo dos
castelos” ao ser pego trocando carícias com a bela Cunegunda e, a partir de então, os
problemas que enfrentará irão provocar uma série de questionamentos e o levará a exclamar:
“Se este é o melhor dos mundos possíveis, como serão os outros?”. Ao chegar à metade da
história, já não temos a menor dúvida de que o melhor dos mundos possíveis não existe, só se
for o Eldorado que, como todos sabem, não existe. Fora do castelo Cândido é açoitado, quase
morre, é enganado e a mulher que ama é estuprada, mas ao final ainda reencontra sua amada
já “feia e decaída, mas que se tornou uma doceira de mão cheia”.

Em Cândido, muitos dos ideiais liberais de Voltaire serão expostos. Segundo


Moscateli (2003, p. 354), estes ideiais eram um farol que apontava o caminho: a tolerância, a
liberdade e o império do direito é que levariam ao melhor dos governos possíveis. No conto,
Voltaire revive metaforicamente o ponto de vista das vítimas da Inquisição Ibérica. Para o
filósofo das Luzes, o auto-de-fé não passava de um “excesso de absurdo e ridículo ao qual se
junta um excesso de horror”. (NAZÁRIO, 2005, p. 173) No capítulo VI, Voltaire satiriza o
costume português de se celebrar um auto-de-fé em seguida a um cataclismo para apaziguar a
força da natureza e a ira divina, imaginando um auto encenado em Lisboa logo após o
terremoto de 1755: “No mesmo dia novamente estremeceu a terra, com estrépito medonho.”
(NAZÁRIO, 2005, p. 173) Voltaire, está dentro de uma nova racionalidade instituída contra a
teologia e a prática da inquisição como forma de destruição da heresia, “marcadas pelas
incumbências específicas da Igreja e do Estado, unidos num mesmo combate sustentado pela
massa.” (NAZÁRIO, 2005, p. 172) Outro questionamento dos filósofos iluministas, que
Voltaire se associa, é o repúdio da guerra. Em Cândido, o protagonista viu-se recrutado,
contra a vontade, pelo exército búlgaro, cuja disciplina extremamente rígida quase o levou à
morte. Voltaire usa o episódio para atacar a figura do herói de guerra (MOSCATELI, p. 345).

Em Cândido, Voltaire pensa o mundo como ele é. Este, mostrando-se insatisfatório,


leva-o a refletir como poderia ser e imprimir algum final feliz. O acento tônico recai sobre a
ordem, porque é esta a condição primária para o desenvolvimento e a prosperidade. É por isso
que ele deposita, por inteiro, sua confiança no príncipe virtuoso, seja ele um personagem
1
O castelo pode sinalizar já no início do conto uma crítica ao Antigo Regime, assentado sobre uma estrutura
feudal.
histórico (Henrique IV, Luís XIV ou Pedro da Rússia), seja mesmo o próprio Cândido,
indivíduo espetacular de sua ficção. (LOPES, 2004, p. 42) Em termos políticos, Voltaire
queria iluminar a cúpula do Estado para lançar fachos de luz sobre as nações e tinha a
ambição de tornar-se conselheiro de estadistas. (GRAY, 1999, p. 39)

De acordo com Matos (2001, p. 216-217), o conto é simetricamente dividido em dois


momentos, separados pelo ideal do Eldorado, que se situa exatamente no meio da história.
Neste sentido, o primeiro momento (da saída do Castelo até chegar no Eldorado) é dedicado a
contradizer a idéia do melhor dos mundos (Cândido passa o tempo fugindo). O segundo
momento, que acaba no jardim da Propôntida, muda a narrativa: agora que Cândido sabe que
o mundo não é o melhor dos possíveis, sua busca é saber como se pode viver nele (Cândido
tem agora um rumo preciso, o de Veneza, onde pensa reencontrar Cunegunda). No segundo
momento, o alvo de Voltaire é o maniqueísta Martinho, “cuja filosofia é a contrapartida do
otimismo de Pangloss e sustenta, em resumo, que tão mal andam as coisas deste mundo que
certamente Deus deve ter dado o governo delas a algum malfeitor. Deste modo, a sabedoria
final do conto recusa tanto Pangloss quanto Martinho.” (MATOS, 2001, p. 217) Cândido ouve
de um dervixe que não se deve perder tempo com explicações, mas se calar frente ao mal
deste mundo (VOLTAIRE, 2009, p. 129) e, de um ancião aprende que o trabalho afasta três
grandes males: o tédio, o vício e a necessidade. (VOLTAIRE, 2009, p. 131) Por fim, Cândido,
conclui que é preciso cultivar nosso jardim. De acordo com Matos (2001, p. 217), esta
fórmula propõe uma regeneração do indivíduo mediante a natureza e o trabalho. Diferente do
mundo do Antigo Regime, da Igreja, da nobreza e do feudo, onde o homem é conformado e
passivo com a vida, o mundo de Voltaire e Cândido é regido pelo império da razão, onde o
homem cultiva seu jardim, faz comércio e, pode até haver lugar para um déspota, mas
esclarecido.

Referências
GRAY, John. Voltaire: Voltaire e o iluminismo. São Paulo: Editora UNESP, 1999.
LOPES, Marcos Antônio. Pena e espada: sobre o nascimento dos intelectuais. In: LOPES,
Marcos Antônio (org.). Grandes nomes da história intelectual. São Paulo: Contexto, 2003.
LOPES, Marcos Antônio. Voltaire político: espelhos para príncipes de um novo tempo. São
Paulo: Editora UNESP, 2004.
MONDAINI, Marco. Direitos humanos. São Paulo: Contexto, 2006.
MATOS, Franklin de. A moral do jardim (sobre o Candide). In: MATOS, Franklin de. O
filósofo e o comediante: ensaios sobre literatura e filosofia na ilustração. Belo Horizonte: Ed.
UFMG, 2001.
MOSCATELI, Renato. Os intelectuais contra a barbárie: Voltaire, Rousseau e a defesa dos
ideais democráticos. In: LOPES, Marcos Antônio (org.).Grandes nomes da história
intelectual. São Paulo: Contexto, 2003.
NAZÁRIO, Luiz. Autos-de-fé como espetáculos de massa. São Paulo: Associação Editorial
Humanitas: Fapesp, 2005.
VOLTAIRE, F-M. A. Cândido, ou o otimismo. Porto Alegre: L&PM, 2009.