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Vamos analisar os recursos nobres de educação um a um1.

1. Diálogo: a boa e velha conversa. Não estou falando de


sermão, bronca, acusação, ameaça, etc. Estou falando de conseguir, de
verdade, e sem julgamento, diante de um comportamento que você não
aprova de sua criança, ouvir o que ela tem a dizer. Perguntar: “O que
aconteceu?” ou “Por que você fez isso?” mas num tom de voz amigável e
aproximador. Cuide também da sua comunicação não-verbal. Às vezes os
seus olhos estão brigando ou sua boca ou mesmo suas sobrancelhas.

2. Confiança na competência: sem usar este recurso, também


não usará o primeiro. Nunca iremos dialogar se acharmos que a criança
não conseguirá compreender. Mas as crianças entendem muito mais do
que imaginamos e podemos confiar nisso. Use de mais gestos e emoções
para falar com bebês e crianças mais novas, assim, elas podem até não
compreender o seu vocabulário dizendo que algo é perigos e a coloca em
risco, mas pode sentir e ver sua preocupação e seu medo através do seu
rosto e de sua emoção transmitida a ela. É assim que crianças bem
pequenas entendem que a rua é perigosa e esperam seus adultos na
esquina para atravessar enquanto outras bem maiores ainda se colocam
em risco pelo fato dos adultos não confiarem em sua competência de
compreender e se cuidarem.

3. Acordos: fazer acordos ou ‘combinados’ com as crianças,


antecipando situações de conflito e preparando a criança para o que irá
viver pode facilitar muito as relações entre adultos e crianças. Exemplo: se
vamos a uma loja de brinquedos comprar um presente para o aniversário
de um colega, explicar a situação ANTES para a criança e fazer o acordo de
que hoje irão à loja de brinquedos e comprarão o brinquedo somente para
o amigo. Você pode repetir o acordo para lembrar a criança quantas vezes
julgar necessário, especialmente se ela for menor de 3 anos.
IMPORTANTE: acordos são feitos entre partes e não podem ser unilaterias

1
Para um livro com aplicações práticas da maioria destes recursos nobres a autora já publicou o
“Crianças Sem Limites” – Editora Chiado (2016).
(só interessante para uma das partes) então, para que isso funcione, a
criança tem de concordar. Caso contrário não é acordo é imposição e não
funcionará. Dependendo da idade e do temperamento da criança, ela
pode querer negociar e pedir para comprar um ‘presentinho baratinho’
para ela também, por exemplo. Essa é uma possibilidade e, sempre que
for possível aceitar as contra-propostas da criança, é legal aceitar.

4. Marcar o tempo: é um acordo de tempo. Pode ser usado em


inúmeras situações e ajuda muito o convívio com crianças da RAIVA, que
não precisam ficar explodindo o tempo todo e com as da TRISTEZA que
tem suas vontades preservadas e não ignoradas. Algumas possibilidades
de uso: quando você sabe que a criança precisará ser interrompida e
percebe que ela está muito envolvida com a atividade, pergunte: estamos
indo embora... Quantos minutos mais você quer ficar fazendo isso? E
negocie até chegar a um número aceitável. Também quando você diz que
a criança deve ir dormir, ela reluta e diz que quer fazer outra coisa,
combine poucos minutos da outra coisa e depois dormir. Quando há
disputa por algum objeto, combine um certo número de minutos em que
cada um ficará com o objeto. Este é um recurso muito versátil, útil e
funcional. Não minta. Marque realmente os minutos que combinar. Não
esteja com o controle dos minutos em sua cabeça, marque no celular ou
no relógio de tal forma que a criança possa acompanhar. Imparcialidade e
honestidade são importantes aqui.

5. Negociação: Usando o exemplo dos minutos do recurso


anterior, depois que as crianças passam dos 4 anos (às vezes antes), eles
podem começar a pedir muitos minutos. “Quero 20 mil minutos, mãe!”
Neste caso, é necessário negociar. Uma resposta poderia ser: “Qualquer
número até 10.”

6. Dizer mais ‘sim’ do que ‘não’: se alguém sempre diz ‘sim’


para você e, em alguma situação, diz ‘não’, você tende a respeitar muito
mais aquele ‘não’. Um raciocínio inconsciente acontece em que somos
levados a pensar: esta pessoa sempre diz ‘sim’ se agora disse ‘não’ é
porque deve haver um bom motivo. Este mecanismo acontece também
com as crianças. Costumo dizer que devemos ter um saldo positivo de
‘sim’ para quando precisarmos sacar o ‘não’. Se você sempre diz ‘não’,
acaba com a vontade e a iniciativa das crianças da tristeza que passam a
ficar cada vez mais passivas e, com as crianças da raiva, o resultado é
desobediência constante – “se eu for esperar um ‘sim’ não farei nada!” –
mentiras e ações escondidas. Há crianças que verbalizam aos pais dizendo:
“Eu nunca posso fazer nada!” ou “Você sempre diz que não!” Uma boa
dica a se ter como prática em nossa mente é perguntar-se “por que não?”:
tem uma série de coisas que os adultos dizem às crianças que ‘não podem’
por costume de dizer ‘não’. Antes de negar uma experiência à criança,
pense o real motivo de estar fazendo aquilo. Se for porque suja, molha ou
bagunça, deixe a criança vivenciar a experiência. Essas vivências valem
muito e desenvolvem a criança mais que tudo.

7. Dar opções positivas: este recurso permite que você pule a


frustração na cabeça da criança, levando-a direto para as opções
disponíveis. Por exemplo: a criança pede “quero maçã” e o adulto vê que
não tem maçã naquela hora. Se disser que não tem, a criança ficará
frustrada. Dependendo do seu temperamento ficará triste, ou ainda brava
e chorando. Se usar o recurso das opções, o adulto responderá “temos
uva e abacaxi, qual você quer?” e direcionará a mente da criança direto
para as opções disponíveis sem passar pela frustração.

8. Humor: adoro este recurso! A vida com crianças tem tudo


para ser leve, divertida, engraçada e o que vemos em muitas famílias é
que a vida virou um pesadelo e um estresse constante desde que os filhos
começaram a crescer. Uma aplicação deste recurso aconteceu num dia
que meu filho falou: “Viva! É hoje que vamos no sítio do João!” Na
verdade a gente iria na casa do João e não no sítio. Quando informei isso a
ele, veio a resposta toda carregada de frustração: “Mas você falou que era
no SÍTIO!” Se eu entro na discussão e digo que não falei, uma discussão se
iniciaria ali e era tudo o que não precisávamos. Então eu disse: “Eu falei
que era no sítio?? Eu devo estar doida!! Tô doida! Tô doida! Hahahaha! É
na casa do João! Na CASA!” Ele saiu rindo para se aprontar. O humor
anima, traz leveza, graça e aproxima as pessoas.

9. Metáforas: quando, ao invés de conversar diretamente com a


criança sobre um comportamento inadequado, o adulto conta uma estória
sobre a situação com outros personagens envolvidos, sem dar lição de
moral ou sermões, deixando que a própria criança chegue às conclusões.
Aqui usamos para tratar as consequências da mentira em que um boneco
de pelúcia mentiu para o outro e acabou ficando sem a confiança do
amigo que não sabia quando poderia acreditar nele. Não precisa dizer:
“Está vendo! É por isso que não pode falar mentiras e blá, blá, blá.” A
criança já entendeu. Conte outras histórias, se for necessário.

10. Rapport: entrar em conexão com a criança. Não almejar o


controle da criança mas querer se conectar com ela. Acompanhar o que
ela está fazendo, acompanhar os interesses dela genuinamente. Desta
maneira, quando você quiser conduzir ela estará muito mais aberta a
seguir o que você disser. Este é um recurso para viver constantemente e
não só quando quiser algo da criança. A ciência que ensina o rapport e
outros inúmeros recursos de melhora na comunicação e nos
relacionamentos é a PNL – Programação NeuroLinguística e eu falo mais
sobre como tenho usado a PNL na educação do meu filho num vídeo que
tem no meu canal do youtube2.

11. Reciprocidade: não trabalhar com dois pesos e duas medidas.


O que exigir da criança, o adulto deve ser modelo. A sensação de injustiça
é inimiga do vínculo e da educação. Quer que sua criança seja gentil,
então seja gentil com ela. Quando sua criança errar, quer que ela peça
desculpas, então peça desculpas a ela quando você errar. Simples assim.
Há uma frase de Ralph Waldo Emerson que resume bem o que acontece
na cabeça de qualquer pessoas em relação a pessoas que exigem uma
coisa e fazem outra que diz: “O que você faz fala tão alto que não consigo
escutar o que você diz.”

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Você pode assistir ao vídeo neste link https://www.youtube.com/watch?v=sKHjtgx2cN0
12. Interação: passar tempo com sua criança tanto brincando ou
conversando quanto observando. Olhar com olhos de ver... Quem é este
ser que agora faz parte da sua vida? Quais são seus interesses? Quais são
seus pontos fortes? Quais são suas potencialidades? O que ele está
querendo te ensinar? Escutar com ouvidos de ouvir... O que esta criança
veio te dizer? Qual a mensagem que ela veio te entregar? O que ela faz
você aprender sobre você mesmo?

13. Estímulo à concentração: aproveitando que o item anterior


falou em observação, este recurso vem para nos ensinar a não
interromper. Desde bebê a criança para diante de algo que a atrai a
atenção e, neste parar, ela aprende e se desenvolve. Quando bebê pode
parar diante de um quadro na parede, um móbile acima do berço ou
qualquer outro objeto. O adulto preparado respeita esta concentração e,
nestes momentos, evita falar, elogiar, movimentar ou fazer qualquer coisa
que interrompa a concentração da criança. Depois que vai crescendo, as
atividades que está fazendo são fontes constantes de concentração e o
papel do adulto é não permitir que ninguém obstaculize este processo.
Quantos adultos têm dificuldades para parar e ler um livro sem
desconcentrar-se? Quantos adultos têm dificuldade em encontrar algo
que os atraia fortemente? Isso pode ser resultado de um desenvolvimento
da concentração que foi constantemente interrompido pelo sinal que
indicava o fim de uma aula interessante e atraente na escola ou mesmo
pelo elogio de um adulto que fez com que a criança passasse a pensar no
fato de estar sendo observado e desconcentrasse da atividade em si.
Quando perceber uma criança concentrada – ainda que seja tirando todos
os sapatos do guarda-roupa ou as panelas do armário – apenas observe e
proteja, cuide, trabalhe fortemente para que ninguém a interrompa.

14. Vínculo: desenvolver vínculo é fundamental para que se


tenha sucesso no processo de educar. Vínculo é o que liga, o que une, o
que ata duas pessoas. Diante disso, cabe a pergunta: o que liga, une, ata
você a sua criança? Algumas crianças chegam à conclusão que só
conseguem atrair a atenção de seus pais e professores quando tem
comportamentos indesejados. Será que isso tem sido o vínculo entre
adultos e crianças em algumas famílias e escolas?

15. Busca de informações para entender as fases das crianças:


este recurso é imprescindível. Estudar sobre as fases das crianças fará o
adulto entender melhor e perceber que muitas necessidades, desejos e
comportamentos são característicos da fase que a criança está vivendo,
conseguindo ser mais adequado nas interações.

16. Tempo junto: Há quem diga que não importa QUANTO tempo
passamos com nossas crianças mas que importa, sim, a QUALIDADE deste
tempo passado junto. Para mim a QUANTIDADE também tem seu valor...
Quando o filho nasce as pessoas pensam que precisam de uma casa
maior, de um carro maior, de enxoval caro e passam a trabalhar mais e
mais e até a fazer hora extra para bancar tudo isso. Mas está mais do que
comprovado que o que os filhos querem e o que faz mais diferença no
desenvolvimento das crianças é a PRESENÇA dos pais. Presença sem TV,
celular, tablet ou qualquer outro artifício que faça com que você esteja
somente de corpo presente. É presença conversando, querendo saber
sobre o dia da criança, brincando junto, abraçando e se enrolando na
cama ou no chão... É presença jogando um jogo de tabuleiro ou qualquer
outro, contando uma história, ajudando a criança a desenvolver sua
autonomia na hora do banho, de trocar-se ou de comer...

17. Exploração conjunta: Deixar mexer inclusive em coisas


perigosas e que ofereçam riscos. Muitas das situações de birra se dão pelo
fato de a criança querer mexer em objetos que oferecem riscos. Nestes
casos o melhor a fazer é deixar que a criança mexa junto com você e,
assim, você já vai explicando a ela os riscos e a maneira mais adequada de
usar aquele objeto. Pode avisar dos perigos, pedir que sempre esteja com
um adulto para usar/mexer naquilo. Isso é tecnicamente explicado por
Piaget com o conceito de ‘desequilibração majorante’: a criança diante de
um objeto desconhecido encontra-se em desequilíbrio em relação à
quantidade de informações que tem sobre o objeto se comparada a
quantidade de informações que o objeto tem sobre ele mesmo. Isso quer
dizer que, enquanto o desequilíbrio for mantido a criança desejará tocar,
pegar, apalpar, lamber, cheirar e manipular o objeto alvo. A sugestão é
fazer uma “visita guiada”, ou seja, acompanhe sua criança na exploração
do novo objeto, deixando que toque onde isso seja possível e explicando
os riscos envolvidos com aquilo. Isto vale para produtos cortantes como
facas, aparelho de barbear; químicos como remédios, produtos de limpeza
e higiene; eletrônicos, vidros etc. Ao perceber o equilíbrio chegando,
notará que a criança se acalmará e terá mais facilidade em dar atenção a
outro estímulo que você ofereça.

18. Entender a demanda por trás do comportamento: quando


surge um comportamento indesejado por parte da criança é porque tem
alguma necessidade ou demanda por trás daquele comportamento
precisando ser atendida. Uma vez que a necessidade é atendida, o
comportamento vai embora. Enquanto procuramos, a todo custo,
combater o comportamento sem nos darmos conta da necessidade
expressa por ele, o comportamento permanece ou apenas vamos
trocando de problema. Para exemplificar vou contar o caso de uma família
que atendi. A mãe estava grávida do segundo filho quase em tempo de
ganhar o bebê e a filha mais velha, uma experiente garota de pouco mais
de 2 anos, mostrava-se birrenta e mimada como nunca. “Não faz mais as
coisas que já fazia sozinha, fica chorando por qualquer coisa, fica pedindo
colo. Estamos desesperados pois o bebê está chegando e, se ficarmos
acostumando a mais velha a ter ajuda no que não precisa e colo, como
faremos depois que o bebê nascer?” – disseram os pais. Procurei levar os
pais a buscarem compreender qual era a demanda da filha mais velha por
trás daqueles comportamentos... Ela estava percebendo a mudança que a
chegada do irmãozinho provocava e estava querendo dizer algo... O que
seria? Pedi aos pais que buscassem atender o pedido escondido da filha
mais velha. Que em cada episódio de birra ou manha buscassem perceber
qual era a demanda. Se achassem que ela pedia por colo, que dessem o
colo. Se achassem que ela queria atenção, que lhe suprissem a atenção.
Que aproveitassem os últimos dias de gestação para atender a todas as
necessidades da filha mais velha. Que isso provavelmente a acalmaria, a
deixaria segura e que os comportamentos indesejados iriam embora. Com
o recém-nascido de 6 dias nos braços, o casal veio até mim para agradecer
por aquela orientação que lhes ajudara tanto. E eu nem acreditei no
tamanho daquela gratidão!

19. Liberdade para expressar emoções: as emoções existem por


uma razão e são todas úteis e necessárias aos seres humanos, portanto
não existem emoções negativas. Até mesmo a raiva, a tristeza e o medo
existem para nos sinalizar que algo em nossa vida precisa de um olhar
cuidados e talvez uma ação especial. É por isso que a criança PODE SENTIR
todas as emoções. Dizer para a criança que “é feio (ou errado) sentir
raiva”, que “macho não sente medo” ou que “homem não chora” entre
outras tantas formas de inibir o sentir confunde a criança sobre suas
próprias emoções e as faz ignorantes emocionais. E quando se trata da
raiva, mesmo quando elas dizem que odeiam a gente ou que não gostam
da gente é importante deixar sair o que tiver que sair. E não adianta
conversar com a criança na hora em que está tomada pela raiva. Isso não
será produtivo. Depois que a raiva passar é hora de lançar mão do recurso
seguinte, a educação emocional.

20. Educação emocional: depois que a raiva passar é hora de


conversar com a criança sobre a total liberdade que tem para SENTIR raiva
e a total conexão que tem o AGIR e suas CONSEQUÊNCIAS. Por exemplo:
“Filho, isso que fez você ficar assim foi a raiva. Eu te entendo, também
sinto raiva em situações assim... Você falou uma coisa para mim enquanto
estava com raiva que me deixou muito triste... Você disse que não gostava
de mim... Eu vou ficar melhor se você me pedir desculpas por isso...”
dependendo da idade da sua criança, você pode aproveitar para dizer que
“Na hora da raiva sentimos vontade de falar ou fazer coisas que a gente
pode se arrepender depois que a raiva passar. E que tudo o que falarmos
ou fizermos trará consequências. E que, portanto, é sempre bom
esperarmos a raiva passar antes de falar ou fazer as coisas. Que podemos
sair um pouco de perto da pessoa de quem estamos com raiva, que
podemos tomar um copo de água, que podemos respirar bem fundo
várias vezes...” desta forma você oferece recursos a sua criança para que
ela consiga controlar sua raiva e voltar a um estado saudável para
conversar. Também pode ser importante orientar sobre o controle do
medo e também da tristeza. O controle das emoções é de extrema
importância já que raiva demais pode virar ansiedade, medo demais pode
virar pânico e tristeza demais pode virar depressão.

A partir de 10 dias aplicando estes recursos, você está apto ao


questionário final para encerrar a sua participação na pesquisa. Sem isso
eu não poderei usar seus dados, então, vamos até o final? 

Muito obrigada por sua ajuda!


Isa Minatel