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SEMINÁRIO TEOLÓGICO EVANGÉLICO DOUTOR PEDRO TARSIER

GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA

MÁRCIO GIOVANE ROSA ARAUJO

ÉTICA CRISTÃ NA INTERNET

O USO CONSCIENTE DA REDE

Porto Alegre

2018
MÁRCIO GIOVANE ROSA ARAUJO

ÉTICA CRISTÃ NA INTERNET

O USO CONSCIENTE DA REDE

Monografia apresentada ao

Bacharelado em Teologia do

Seminário Teológico Evangélico

Doutor Pedro Tarsier

Como parte do Programa de

Integralização de Currículo

Orientador: Nelson Luiz Marins Pereira

Porto Alegre

2018
1

AGRADECIMENTOS

Acima de tudo, agradeço ao Espírito de Deus


por mais esta realização.

Dedico aos irmãos em Cristo, amigos e à


minha família, e em especial à minha esposa
Andréia.
2

SUMÁRIO

1 ÉTICA CRISTÃ NA INTERNET: O USO CONSCIENTE DA REDE .............................5

1.1 Introdução .......................................................................................................................5

1.2 Considerações gerais ....................................................................................................6

1.3 O que é ética cristã?......................................................................................................6

1.4 A falha da ética cristã na rede......................................................................................7

2 O QUE É REDE DE COMPUTADORES? ........................................................................8

2.1 Particularização da rede: a definição de “rede social” e exemplos ........................9

2.2 A segurança da rede .....................................................................................................9

2.3 A comunicação consciente é vida ............................................................................ 10

3 FORMA E CONTEÚDO .................................................................................................... 12

3.1 Conceito de Forma ..................................................................................................... 12

3.2 Conceito de Conteúdo................................................................................................ 13

3.3 A inseparabilidade entre “forma” e “conteúdo” ....................................................... 14

3.4 A evangelização pela rede ........................................................................................ 14

3.5 A diferença entre ferramenta e arma ....................................................................... 18

4 O QUE É RELACIONAMENTO? .................................................................................... 20

4.1 Os novos paradigmas de relacionamento............................................................... 21

5 A “RELAÇÃO” DESCARTÁVEL NA FALTA DE CONSCIENTIZAÇÃO ................ 24

5.1 A distorção da realidade ............................................................................................ 25


3

5.2 O isolamento e a solidão: o paradoxo da internet ................................................. 26

5.3 O uso patológico (inconsciente) da rede é caracterizado por oito sinais ........... 27

5.4 Relações sociais efêmeras – “líquidas” ................................................................... 27

5.5 A falsa sensação de privacidade .............................................................................. 29

5.6 Características objetivas da rede de computadores ............................................. 30

5.7 Postagem viral da rede – a verdade líquida é definida pela maioria .................. 30

6 A REDE CONSCIENTE A SERVIÇO DO REINO DE DEUS...................................... 32

6.1 O bom testemunho na rede ....................................................................................... 33

6.2 O uso consciente, objetivo e intencional de evangelização na rede .................. 34

6.3 Ética cristã na internet – o uso consciente da rede ............................................... 36

7 A IMAGEM DA IGREJA ................................................................................................... 37

7.1 A modernidade líquida de Bauman e a Igreja ........................................................ 37

7.2 A definição de Igreja-Empresa.................................................................................. 38

7.3 A ética cristã na pós-modernidade líquida .............................................................. 39

8 CIBERGRAÇA – UMA ANÁLISE ................................................................................... 40

8.1 A internet como lugar teológico: Ciberteologia....................................................... 41

8.2 Ciberpecado (pecado estrutural da rede) e outras “ciberdefinições”.................. 43

9 CONCLUSÃO ..................................................................................................................... 45

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ....................................................................................... 48


5

1 ÉTICA CRISTÃ NA INTERNET: O USO CONSCIENTE DA REDE

1.1 Introdução

A sociedade sofreu mudanças estruturais com o avanço tecnológico, sobretudo


com o advento da internet que tudo informa e fascina.

O fascínio humano pela novidade frente as facilidades tecnológicas de se


conectar e de se comunicar com outras pessoas em qualquer ponto do mundo através
da internet cria um quadro bastante atrativo e crescente pelo uso dessas facilidades.

A internet, a rede mundial de computadores, é que nos conecta ao mundo


digital. Nela surgiram várias aplicações (programas de computador, aplicativos em
celular smartphone, smart TV, GPS...) nas mais variadas áreas, sendo merecedoras
de destaque aquelas aplicações (Apps ou sites) que permitiram a criação da “rede
social”.

Nas redes sociais, tudo o que acontece é comentado e divulgado quase que
instantaneamente. Assim, as informações e transações derivadas destas são
transmitidas rapidamente entre emissor e receptor, ou em grupos, durante todo o
processo de comunicação.

A vida comunicada pela rede de computadores (internet e redes sociais) realiza


uma promoção ao novo relacionamento virtual ser o mesmo ou mais importante que
o relacionamento presencial, e a partir desta apologia, não só novos erros humanos
são expostos, como também novos erros teológicos são divulgados.

Com o uso da internet e das redes sociais, ambas bastante semelhantes no


quesito da falta de conscientização pelo uso, serão referenciadas neste trabalho
somente pelo termo “rede”, distinguindo-as quando for necessário.

Por fim, será desenvolvido um olhar crítico à vida comunicada pela internet à
luz dos novos conceitos de ética e da própria ética cristã: a intenção em foco no uso
consciente da rede.
6

1.2 Considerações gerais

Este trabalho foca no aspecto prático da rede de computadores, e não no


subjetivo, do que pode ser considerado a rede, e em particular, a rede social. A
definição aqui utilizada de rede social não é completa, pois carece de maiores estudos
advindos das áreas de ciências humanas, exatas e biológicas acerca do assunto.

É realizado um estudo acadêmico prático e objetivo, bastante limitado na forma,


onde há considerações genéricas acerca de redes e de redes sociais, a fim de que se
postule sob o ponto de vista ético e ético cristão. Assim, para efeitos deste trabalho,
as redes sociais serão tratadas como sendo equiparadas a sites de relacionamento
via internet, limitando o aspecto subjetivo quanto a intenção (o animus) de uso ser ou
não obediente à norma ética, sobretudo cristã.

Por fim, a Semiótica de Roland Barthes foi escolhida como ferramenta para
didaticamente separar a forma do conteúdo, tomando as mais simples definições
destas, porém as tratando necessariamente em conjunto, de forma prática e objetiva
no processo de conscientização que serve de pilar para que se haja ética, seja ela
cristã ou não, e de maneira independente da referência ser do mundo real ou de rede.

1.3 O que é ética cristã?

Será utilizado o conceito de ética cristã do site organizacional “Got Questions”1:

A ciência define a ética como: “um grupo de princípios morais, o estudo da


moralidade”. Portanto, Ética Cristã pode ser definida como os princípios que
são derivados da fé Cristã e pelos quais agimos. Enquanto a Palavra de Deus
talvez não cobre cada situação que temos que encarar em nossas vidas, seus
princípios nos dão os padrões pelos quais devemos agir nas situações onde
não temos instruções explícitas. Por exemplo, a Bíblia não diz nada
diretamente sobre o uso ilegal de drogas, no entanto, baseado nos princípios
que aprendemos das Escrituras, podemos saber que é errado. A Bíblia nos
diz que nosso corpo é o templo do Espírito Santo e que devemos usá-lo para
honrar a Deus (1 Coríntios 6:19-20). Por saber o que o uso de drogas causa
ao nosso corpo – o dano que causa a vários órgãos – sabemos que usar
drogas iria destruir o templo do Espírito Santo. Com certeza isso não iria
honrar a Deus. A Bíblia também nos diz que devemos seguir as autoridades
_________________________________________

1GOT QUESTIONS. O que é ética Cristã?, 2018. Disponível em:


<https://www.gotquestions.org/Portugues/etica-Crista.html>.
O que é GotQuestions.org?, 2018. Disponível em: <https://www.gotquestions.org/Portugues/sobre-
nos.html>. Acessos em: 29 de outubro de 2018.
7

que Deus tem estabelecido (Romanos 13:1). Dada a natureza ilegal das
drogas, ao usá-las não estaríamos nos submetendo às autoridades, pelo
contrário, estaríamos nos rebelando contra elas. Isso significa que se drogas
ilegais se tornassem legais, então não teria problema? Não sem violar o
primeiro princípio (Got Questions, 2018).

Enquanto cristãos, nos valemos dos princípios encontrados na Palavra de


Deus. A forma correta é orar e agir segundo o ensinamento da Palavra. É o Espírito
Santo quem nos orienta e nos convence de como proceder face a uma específica
situação, e não por mera e isolada interpretação humana em seu proceder. A
consciente interpretação da Palavra e a atenção em meditação, caracterizam o pleno
pensar antes de agir, e agir alinhado ao Espírito de Deus. Há um princípio bíblico pelo
qual temos de nos apoiar para proceder o nosso olhar crítico: a ética cristã.

Este trabalho não só dá o exemplo de respeito à ética cristã, ao realizar uma


referência ao site organizacional “GOT QUESTIONS”, que segundo este: “É ministério
voluntário de servos treinados e dedicados que têm o desejo de ajudar outras pessoas
em sua compreensão de Deus, Escrituras, salvação e outros tópicos espirituais.”,
como também respeita a decisão pela qual o site não apresenta nenhum autor em
cada publicação realizada, senão o da organização em si; e, por fim, apoia a
preocupação do site em conscientizar o público que o visita através da explícita
publicação da política adotada em termos de privacidade, direitos autorais, de
renúncia e liberação. No mesmo princípio ético e cristão aqui adotado em referência
ao site “GOT QUESTIONS”, e valendo-se do uso consciente da rede, este trabalho
também referencia dois sites que não citam os seus autores, senão a si mesmos:
“CONCEITO DE” e “TRIBUNA DO CEARÁ”.

1.4 A falha da ética cristã na rede

A falha da ética com o homem ocorre quando a este lhe fere a conduta,
transgride um princípio moral, muda valores de certo para errado e vice-versa, suprime
o costume ou ignora um comportamento de uma localidade numa determinada época.
A falha da ética cristã com Deus ocorre quando o homem peca, quando há quebra de
princípios bíblicos, alteração de valores revelados por Deus, e desobediência à
Soberana vontade em qualquer lugar e em qualquer tempo. A falha da ética cristã na
rede ocorre quando não há um mover de entendimento consciente e intencional em
Cristo Jesus ao se comunicar um Evangelho contaminado na internet.
8

2 O QUE É REDE DE COMPUTADORES?

Segundo Liane Tarouco e outros2, a rede de computadores ou malha ou ainda


chamada de teia, é nome da disposição de física computadores e de máquinas
dedicadas a se comunicar, visando a troca de informações. A rede de computadores
compartilha recursos de: banco de dados, impressoras, telefonia, geoposicionamento
e mensagens, dentre outros recursos.

É possível não só estabelecer a conexão física entre computadores valendo-se


de cabos e fibras óticas, como também de sinais digitais modulados pelo ar,
lembrando o princípio do rádio, porém em frequências bem mais elevadas: é o
chamado WiFi, isto é, a comunicação digital hoje denominada de sem fio.

Os elementos de rede que permitem que haja conexão entre dois ou mais
computadores são chamados de “nós de rede”, ou tipicamente de ponto de conexão.
O ponto de conexão implica ser conectado por computador(es) mais poderoso(s) que
gera(m) e administra(m) o processo de comunicação, através de um protocolo, com
demais pontos de conexão, numa forma em aspecto chamada de “topologia de rede”.

Estes computadores mais potentes são chamados de “servidores de conexão”.


Assim, valendo-se do protocolo de comunicação dos servidores de conexão, os
computadores pessoais, processadores empresariais, telefones, celulares e outros
servidores de rede (e suas unidades de apoio) podem se comunicar.

A palavra “rede” é genericamente utilizada quando há a possibilidade efetiva


de comunicação entre um elemento de rede e outro, trocando informações entre si e
compartilhando recursos, em suma, promovendo alguma forma de comunicação
próxima (aqui, tipicamente pela rede local), ou remotamente (lá, tipicamente pela
internet). Um elemento de rede pode ser: um servidor (potente ou não) de
comunicação, um hardware específico (unidade de apoio de rede), um computador
pessoal, um smartphone, um GPS, uma smart TV, e etc.

_________________________________________

2TAROUCO, Liane R. et al. Rede de computadores, 2017. Wikipedia Foundation. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Rede_de_computadores>. Acesso em: 27 de outubro de 2018.
9

2.1 Particularização da rede: a definição de “rede social” e exemplos

A “rede social” moderna surgiu no início do século XXI, permitindo aos usuários,
via aplicações (vide capítulo 1.1), reencontrar “amigos” e a encontrar “novas
pessoas”, ampliando o círculo social virtual. Os que se valem da “rede social” podem
se conectar entre si, criar um perfil, adicionar “amigos” e “conhecidos”, além de enviar
mensagens, fazer depoimentos, trocar informações, fotos e vídeos, multiplicando a
possibilidade de “vínculo relacional virtual” a uma outra “pessoa” por um critério de
cunho pessoal, mas que prefiro chamar a este “vínculo relacional virtual” de
“possibilidade de conexão”, haja vista que a “rede social” em si, em termos objetivos,
não é uma pessoa propriamente dita, mas aparenta ser.

A palavra “virtual”, há mais de trinta anos, longe do conceito subjetivo e de


outros conceitos, limitando-a e particularizando-a, tinha o entendimento simples3 de
ser um adjetivo, ou, de uma locução adverbial modal: “mentira; como se assim
fosse” (Oliveira, 1985). Recentemente, “virtual” está associado àquilo que tem
existência aparente → não propriamente real, nem física. Eis um ponto que cabe
distinção ética no uso consciente da rede e de suas “virtuais” relações. São exemplos,
por número decrescente de usuários, as cinco maiores4 redes sociais hoje: Facebook,
WhatsApp, YouTube, Instagram e Twitter, dentre outras.

2.2 A segurança da rede

A rede não é segura. Por mais que haja uma implementação de uma política
de segurança, que se aplique antivírus, proxy, firewall, e outras estruturas eletrônicas
de proteção e de segurança, os dados e as informações pessoais podem ser invadidos
por pessoas mal-intencionadas.

_________________________________________

3OLIVEIRA, Édison de. Língua Portuguesa. Porto Alegre: Disciplina do Curso Pré-vestibular
Universitário, 1985.

4COSTA, T. Quais são as redes sociais mais usadas no Brasil?, 2016. Marketing de Conteúdo.
Disponível em: <https://marketingdeconteudo.com/redes-sociais-mais-usadas-no-brasil>.
Acesso em: 15 de setembro de 2018.
10

Dentre os principais riscos associados a rede de computadores, e em especial


às redes sociais, estão:

• A invasão de privacidade;
• Danos à imagem e à reputação;
• Vazamento de informações;
• Contato consentido com pessoas mal-intencionadas;
• Perfis falsos (fakes);
• Notícias falsas (fake news);
• Comunidades polêmicas e discriminatórias e
• Conteúdos com imoralidade e com preconceitos em geral.

Sem a devida conscientização da forma em que a informação aparece na rede,


bem como de sua origem e da certificação de seu conteúdo, dado uma intenção de
uso, a falta desta ética na internet se torna um problema grave, real e crescente.

2.3 A comunicação consciente é vida

A comunicação é essencial, e faz parte tanto da vida comum, quanto da vida


cristã. A Bíblia é a palavra de Deus. Do ponto de vista do ensinamento bíblico, é
possível ler a Bíblia a partir da história da comunicação de Deus, isto é, do registro da
narrativa de história que Deus estabelece com os seres humanos, para que estes
possam entrar em comunicação com a Pessoa dEle, bem como se comunicar com
outros seres humanos, num esforço gradual e crescente de conscientização, afim de
O conhecer, e de melhor compreender os caminhos dEle, realizando a superação de
obstáculos no cumprimento de Seu plano.

Ao realizar-se o ide5, o cristianismo é comunicativo por si só, tendo algo a


continuamente comunicar: as boas novas da salvação da humanidade – o Evangelho
– realizado em Cristo Jesus por sua paixão, morte e ressurreição.

_________________________________________

5BÍBLIA. Mateus 28:19-20. Versão Almeida Revista e Atualizada. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do
Brasil, 1993.
11

A própria salvação vivida e ensinada por Jesus deve ser entendida como um
ato comunicativo. O Evangelho não é uma mera aplicação de ideias, ou de filosofia a
se comunicar, mas a comunicação da vida de uma pessoa: Jesus Cristo. Ele é o maior
diálogo que permanece vivo, a comunicação plena entre Deus e Suas criaturas, a
partir daqueles que nEle creem e que também se comunicam. Este é o princípio do
relacionamento com as Pessoas da Trindade.

“Quando oro, falo com Deus; quando leio a Bíblia, Deus fala comigo.”, assim
registra a comunicação consciente e intencional entre o homem e Deus, nas palavras
do grande líder espiritual Dwight Lyman Moody6.

_________________________________________

6 MILLER, S. Liderança espiritual segundo Moody, p 68. São Paulo: Vida, 2004.
12

3 FORMA E CONTEÚDO

3.1 Conceito de Forma

Este trabalho se vale do conceito de forma7 definido por Uchoa e outros:

De acordo com o contexto, a palavra forma pode ser empregada em diversas


situações. Seu uso mais comum serve para demonstrar que é uma figura
externa de um material sólido. É por isso que podemos classificar os
diferentes objetos [grifo meu] em quadrados, esferas, círculos, dentre
outros. Neste sentido, a classificação das formas se refere às formas
geométricas ou básicas (o triângulo equilátero, o círculo e o quadrado, cada
um tem suas características próprias e são a base para a formação de
outras), formas orgânicas ou naturais (as que o homem realiza suas criações
artísticas) e formas artificiais (as criadas pelo homem, como a cadeira, o
carro, a mesa, etc.). Por outro lado, o conceito de forma está relacionado à
área da filosofia, uma vez conhecida, ela é possível graças ao poder da
abstração, por trazê-la novamente a nossa mente, e além disso, agrupar os
objetos de acordo com suas formas; então, da mesma maneira podemos
agrupar e organizar as coisas em nossa mente, unificando os conceitos
em pensamentos [grifo meu] e destacando cada um de alguma forma. A
maneira de como algo é estabelecido, ou então, o modo de como é feito,
também é conhecido como forma [grifo meu]. Assim mesmo, o modo que
uma pessoa tem de expressar-se, seja por escrito ou em suas conversas,
costuma ser chamado como a forma de escrever ou de falar [grifo meu]
(Uchoa e outros, 2017).

Assim, a “forma” faz parte da ação de “comunicar”, e será tratada à luz da


semiótica, sendo adicionada ao conceito de Arnheim e outros8:

Em sentido amplo, “forma” pode ser definido como a parte de qualquer


fenômeno que tem a função de motivar um sentido na mente de um intérprete.
(...) Essa motivação de sentido é via de regra de natureza empírica, o que faz
com que a noção de “forma” esteja muitas vezes associada à materialidade
dos fenômenos perceptíveis, sobretudo no campo da visualidade. Não
admira, portanto, que em termos convencionais, a noção de “forma” seja ora
compreendida como “a configuração física dos seres e das coisas”, ora como
a “aparência física de uma ser ou de uma coisa”. Nesses termos, a “forma”
de uma “mesa”, por exemplo, consistiria no conjunto de disposições físicas -
cores, dimensões, texturas, tonalidades - capazes de afetar os sentidos da
visão e do tato. O próprio “formato” da “mesa” - tampo horizontal sobre quatro
estruturas verticais que tocam o chão - seria parte da “forma” da “mesa”. Por
outro lado, em oposição a essa noção empirista de “forma”, há ainda a
possibilidade de se considerar a “forma” de certos conceitos, como por
exemplo no caso da forma “O” em relação ao conceito de circunferência.
_________________________________________

7UCHOA, Florencia et al. Que conceito forma, 2017. Disponível em:


<http://queconceito.com.br/forma>. Acesso em: 17 de julho de 2017.

8ARNHEIM, Rudolf et al. Forma (filosofia da linguagem), 2017. Wikipedia Foundation.


Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Forma_(filosofia_da_linguagem)>.
Acesso em: 17 de julho de 2017.
13

Nesse caso, a forma “O” pode ser tratada de forma ideal, como quando
pensamos num “O” como a parte “formal” de um determinado “conteúdo”
(“círculo”, no caso) (Arnheim e outros, 2017).

Nesse aspecto, a “forma” é a ideia geral que norteia o conteúdo, de tal maneira
que a motivação não advém de uma experiência empírica, mas sim de uma
experiência sensorial na nossa mente: a conscientização do pleno entendimento, isto
é, a atribuição de particular significado (ou de significância) à percepção individual.

3.2 Conceito de Conteúdo

Este trabalho se vale do conceito de conteúdo9 definido pelo site “Conceito de”:

Conteúdo [grifo meu] é aquilo que está contido ou encerrado em algo ou


aquilo de que algo é constituído. O termo costuma ser usado para fazer
referência ao produto que se encontra numa embalagem ou num recipiente.
Por exemplo: “A garrafa é muito grande e vistosa, mas o conteúdo é escasso”,
“Encontrei um frasco com um conteúdo viscoso no seu interior”, “Tenho de
levar a minha própria embalagem. Depois, a empresa irá providenciar os
conteúdos necessários”. Também se dá o nome de conteúdo ao volume
interior de um recipiente, isto é, à sua capacidade. Por outro lado, conteúdo
[grifo meu] também é a informação que apresenta uma obra ou publicação.
É, portanto, o assunto ou a matéria (aquilo que é expresso por um discurso
ou texto, o cerne da ideia). Nesse caso, os conteúdos são compostos por
diferentes dados e temas: “Este filme tem um conteúdo violento e sexista”,
“Não quero que o meu filho leia livros de conteúdo adulto”, “A crítica gabou a
beleza das imagens, mas susteve que o conteúdo é pobre e previsível”. Outro
uso do conceito de conteúdo aparece na dualidade forma/conteúdo [grifo
meu]. Em vários ramos da arte ou da expressão, entende-se como forma o
modo de apresentar ou difundir uma mensagem, ao passo que o conteúdo é
a mensagem em si. Por outras palavras, a forma é a estrutura e o conteúdo
é a unidade de sentido [grifo meu e acrescento: significância]. A forma tende
a estar associada ao atrativo estético ou sensorial, como uma agradável
combinação de cores na fotografia de um filme ou uma retórica polida num
discurso. O conteúdo é aquilo que se diz, e não como se diz [grifo meu e
acrescento: que é a forma]. Na linguística, o conteúdo é o significado (o
sentido / a significação) de um signo, isto é, a face (inteligível) do signo
linguístico que corresponde ao conceito (Conceito de, 2017).

O conteúdo é tudo aquilo que está contido na forma, e ambos produzem a


mensagem em si que necessita ser conscientizada por nós: a unidade de sentido
limitada a determinada estrutura, respectivamente. Assim, o “conteúdo” faz parte da
ação de “comunicar”, e será tratado à luz da semiótica.

_________________________________________

9CONCEITO DE. Conceito de conteúdo, 2017. Disponível em: <https://conceito.de/conteudo>.


Acesso em: 17 de julho de 2017.
14

3.3 A inseparabilidade entre “forma” e “conteúdo”

Boa parte dos especialistas em linguagem concordam que a decomposição da


mensagem (signo) em “forma” e “conteúdo” é apenas uma separação didática
realizada para fins de análise semiótica, tal como explica Barthes10:

“Forma” e “conteúdo” são duas faces constitutivas do mesmo fenômeno,


como no caso dos dois lados de uma mesma folha de papel: corte um lado e
o outro será inevitavelmente afetado. Desse modo, “forma” e “conteúdo”
compõem o próprio processo de interpretação do mundo. Na experiência
concreta da realidade, vemos primeiro a "forma" das coisas para depois
interpretar lhes o “sentido” ou o “conteúdo” (Barthes, 2006).

Segundo Arruda11:

Onde se vê a forma lá está o conteúdo. (...) “a forma é a expressão exterior


do conteúdo interior”. (...) “o conteúdo nasce como tal no próprio ato em que
nasce a forma, a forma não é mais que a expressão acabada do conteúdo.”.
O invisível do conteúdo só se torna visível pela forma, isto é, pelos próprios
elementos que compõe a visualidade, a musicalidade e a teatralidade. Forma
e conteúdo são, assim, intimamente conectados, inseparáveis e imantados
(Arruda, 2010).

Por exemplo, na mensagem publicitária (a imagem publicitária é um dos objetos


de estudo da semiótica da imagem) a forma e o conteúdo também não se dissociam.
Assim, para poder se falar de ética, sobretudo de ética cristã, é necessário entender
a conscientização em Cristo daquilo que é intencionalmente comunicado em termos
de forma e de conteúdo, nunca os tratando em separado, mas de maneira conjunta.

3.4 A evangelização pela rede

Em se tratando de comunicação pela rede, é destacada a importância de se


conhecer a forma e o conteúdo que tipifica a mensagem intencional, a fim de que não
se chame de ferramenta a qualquer coisa, pois pode-se estar diante de uma arma e
inconscientemente a chamando de ferramenta.

_________________________________________

10 BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia, p 42. São Paulo: Pensamento-Cultrix Ltda., 2006.

11ARRUDA, Maria A. P. Forma e conteúdo, 2010. Arte-educação. Disponível em:


<http://alicearteducacao.blogspot.com/2010/11/forma-e-conteudo.html>.
Acesso em: 17 de julho de 2017.
15

A publicação textual imediata (ou imagética, ou ainda auditiva) na rede é típica


e intrínseca de redes sociais. Não se sobra tempo para se pensar antes (age-se de
maneira inconsciente, por ímpeto) de agir no processo de comunicação. Logo, a
velocidade em resposta produz falha de comunicação (no mundo = erro → ruído
indesejado; em espírito = pecado → morte).

Será exemplificado de maneira prática uma publicação consciente de site, ou


melhor, através de uma postagem intencional e objetiva de e-mail enquanto
ferramenta de comunicação (não como uma arma), seja no primeiro envio, seja como
resposta, realizando-se um contraponto com as redes sociais.

O e-mail ou uma publicação de site consciente é aquele que gasta um tempo


para tratar da FORMA e do CONTEÚDO no processo de comunicação e informação,
escrevendo e corrigindo o texto ANTES de finalmente postá-lo (publicá-lo). O tempo
não é o ditador de nossas ações, mas a consciência sob a intenção de não produzir
falha de comunicação.

Ao se comunicar por e-mail, pode-se usar palavras que se forem imediatamente


enviadas, não surtirão o efeito que se desejaria. A saber, pensando-se melhor, sempre
há uma maneira (forma) de escrever o conteúdo (a mensagem em si) que atinja o seu
propósito (intenção), sem ruídos ou distorções na comunicação.

Também é verdade que, em se tratando de site, sem a devida conscientização


daquilo que se faz para atualizá-lo, corre-se o risco de problemas de comunicação e
de má interpretação do publicado. É o caso, por exemplo, de um site comercial onde
na pressa de o atualizar, erra-se a vírgula, oferecendo um produto que custaria, por
exemplo, R$ 999,90 e então fosse publicado por R$ 99,99 (custando dez vezes
menos). Certamente este erro causaria transtornos e poderia passar por instâncias de
controle tais como o PROCON, e, dependendo do caso, até da Justiça. O importante,
neste caso, é destacar a necessidade do pensar antes de agir: o conscientizar, que
não fora realizado neste exemplo. Dá trabalho conscientizar, mas produz bons frutos.

A atitude inconsciente de um site em não revisar o que publica existe, mas é


pouco frequente, se comparado com as redes sociais. A postagem inconsciente em
redes sociais ocorre ad nauseam, gerando ansiedade no emissor, ou no receptor (ou
16

grupo), ou em ambos, e é potencializada pela demora na resposta que tipicamente


não deveria passar de alguns breves instantes. Uma vez constatado essa demora, há
a possibilidade de uma das partes (ou ambas, ou o grupo) bloquear(em) o contato, ou
até mesmo excluí-lo do “cardápio de opção pessoal”, deixando, assim, de se resolver
o problema. É um efeito acumulativo que pode produzir resultados somáticos12 onde
todos saem perdendo.

A obra “Você pode curar sua vida” de Louise Lynn Hay (08/10/1926 a
30/08/2017) afirma que a doença advém do prolongamento de uma causa não tratada,
tais como por exemplo (Hay, 2017):

• ACIDENTES: Rebelião contra a autoridade. Crença na violência.


• ANSIEDADE: Sem confiança no fluxo e no processo da vida.
• ARTRITE: Sentindo-se sem amor. Crítica conservada por longo tempo.
• CÂNCER: Mágoa profunda. Ressentimento antigo. Carregando ódios.
• DIABETES: Tristeza profunda.
• DOR DE CABEÇA: Invalidando a si próprio. Autocrítica.
• INSÔNIA: Medo. Culpa.
• PRESSÃO ALTA: Problema emocional duradouro não resolvido.
• RESFRIADOS: Confusão mental, desordem. Pequenas mágoas.

A ansiedade típica e prolongada de usuários que não conseguem se separar


de seu smartphone ou do computador por causa da rede, é chamada por
pesquisadores de nomofobia13. Segundo José Crippa:

Antes da popularização do celular, outras dependências comportamentais


haviam sido descritas: alimentar, exercícios, compra, trabalho (workaholics),
jogo, internet e sexo. Mais recentemente, o termo nomofobia (uma
abreviação, do inglês, para no-mobile-phone phobia) foi criado no Reino
Unido para descrever o pavor de estar sem o telefone celular disponível. Na
realidade, este neologismo atualmente tem sido muito utilizado para
descrever a dependência (também conhecida como uso problemático ou
_________________________________________

12 HAY, Louise L. Você pode curar sua vida, pp 176-219. Rio de Janeiro: Best Seller, 2017.

13CRIPPA, José A. Nomofobia: a dependência do telefone celular. Este é o seu caso?, 04/04/2017.
Veja – Blog Letra de Médico. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/blog/letra-de-
medico/nomofobia-a-dependencia-do-telefone-celular-este-e-o-seu-caso>. Acesso em: 08 de
novembro de 2018.
17

compulsão [grifo meu]) do telefone móvel. As prevalências descritas do uso


abusivo do celular variam amplamente, muito em decorrência da diversidade
dos critérios diagnósticos utilizados e da variabilidade dos indivíduos
estudados (Crippa, 2017).

Se o apóstolo Paulo hoje estivesse vivo e evangelizando, certamente preferiria


o discurso presencial a discursar pela rede, e em particular, não usaria as redes
sociais para evangelizar. Consciente em Cristo Jesus, Paulo jamais seria nomofóbico.

Paulo, sim, talvez utilizasse as redes sociais de forma breve e simples na


comunicação com os irmãos em Cristo e amigos, no sentido de se organizar através
de informação geodistribuída, isto é, no sentido de se administrar no tempo visando
as reuniões da Igreja em localidade específica e de forma presencial, mas não no
sentido de levar exclusivamente a Palavra através da rede, pois o Evangelho seria
aniquilado mediante a pergunta: “Como ir e fazer discípulos pela rede, e através da
rede os batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo?”. A resposta certamente
não estaria no campo virtual, mas única e exclusivamente no presencial e real.

Em adição, seria extrema falta de ética cristã Paulo discutir com judaizantes,
agnósticos e gentios tipificados hoje, isto é, com o povo que estivesse sendo por ele
evangelizado. Não iria surtir o mesmo efeito que surtiu em registro bíblico. No caso, o
posicionamento e atitude de Paulo contra a contenda pode ser vislumbrada na
recomendação que deixou à Igreja de Éfeso, da qual faz parte o meu chamado e
ministério14, a saber: “Nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices,
coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças.” (Bíblia, Ef 5:4).

Se houvesse a necessidade de se comunicar com a Igreja através da rede uma


mensagem que transforma à luz do Espírito Santo, Paulo iria dar preferência pelo e-
mail a esta mensagem completa da Palavra, ou por uma postagem de site (de fórum
público), haja vista que deu provas disto no Evangelho, quando enviou suas cartas
inspiradas pelo Espírito Santo (pensadas antes de dadas como prontas para serem
escritas pelo amanuense e então as enviar), não imediatamente as produzindo e
enviado sem antes meditar fora da obra da carne.

_________________________________________

14 BÍBLIA. Efésios 5:4. Op. cit., 1993.


18

Outrossim, diante de uma mensagem rápida, simples e informacional, também


seria possível que Paulo se valesse do Twitter ou do WhatsApp para
administrativamente alinhar um encontro presencial da Igreja, ou de cunho pessoal
em ajuda.

As demais redes sociais que contemplam áudio e vídeo (YouTube, Instagram,


etc.), certamente não seriam atrativas para Paulo, haja vista que são impossibilitadas
de promover o concreto relacionamento humano, limitando-se a contatos de rede.
Paulo seria sabedor que a rede no máximo informa, mas não transforma.

Sim, em suas cartas há o seu estilo e retórica características, e, se pela rede


lhe acontecesse alguma porfia comunicativa, Paulo não daria uma resposta à ofensa15
(Bíblia, At 17:18, 32-33) no sentido de incentivar a divisão, mas no sentido de
conscientizar a todos pelo ocorrido, esclarecendo e solucionando a contenda à luz do
Espírito Santo (Bíblia, Rm 14:20-23).

Percebe-se até aqui a impossibilidade de, quando não há preocupação


simultânea com a forma e com o conteúdo, isto é, quando é incentivada a
comunicação de maneira imediata e inconsciente, não se encontra elementos
suficientes para afirmar que a rede, e em particular, a rede social, possa ser chamada
de ferramenta, e que, neste caso, certamente se estaria diante de uma arma, dentre
outros problemas que disto advém, possibilitando a ocorrência de falha da ética (vide
capítulo 1.4), e em termos teológicos, de falha da ética cristã na rede.

3.5 A diferença entre ferramenta e arma

Seja o exemplo prático do uso de uma ferramenta. Consideremos o martelo. O


martelo é uma ferramenta de se pregar. Então, é utilizado de forma consciente diante
da necessidade intencional de se pregar um prego. Fim do problema.

Agora, se não for identificado o martelo pela forma (de um “T”) e pelo conteúdo
(haste de madeira que suporta um cilindro de ferro), então o que se vê (se tem) não é
um martelo! É algo (ou parte de) que se parece com um martelo, mas com nada
_________________________________________

15 BÍBLIA. Atos 17:18, 32-33; Romanos 14:20-23. Op. cit., 1993.


19

garantindo que tenha as mesmas funções e/ou características de um, isto é, que sirva
para pregar. A partir deste ponto, todos os erros associados ao “martelar” da aparente
ferramenta martelo, inclusive o de mau uso, proveem.

Eis que é possível usar uma bola de ferro (ou de boliche) para martelar um
prego? -Claro que sim! Mas não é a FORMA correta. Será necessário neste uso valer-
se das duas mãos, e não de apenas uma, forçando a coluna, com desnecessário
desgaste. Analogamente, a forma é exigida na rede, e apenas ela, não é uma
ferramenta. Bastaria isto para não mais sozinha utilizá-la, senão como arma ou para
desgaste.

Pode-se martelar com um martelo cuja cabeça seja de madeira (ou que não
tenha um cilindro de ferro)? -Claro que sim! É evidente que não se terá êxito ao pregar
um prego. Ou a cabeça de madeira do martelo irá rachar, ou simplesmente esta não
terá resistência suficiente para pregar o prego. Então, conclui-se que o CONTEÚDO
é importante. Analogamente, o conteúdo é exigido na rede, e apenas ele, não é uma
ferramenta, é uma arma. Bastaria isto para não mais sozinho utilizá-lo.

Por fim, é possível se utilizar um martelo como arma de forma consciente?


-Sim. Neste caso, o martelo é uma ARMA INTENCIONAL, isto é, estamos diante da
intenção real com o objetivo NA FORMA e COM CONTEÚDO: matar (ou morrer).

Segundo Bauman16: “Cuidemos de nossos problemas, e apenas de nossos


problemas, com a consciência limpa.” (Bauman, 2001).

Qualquer um pode ter um martelo. Agora, a arte de martelar um prego não é


para todos. Requer consciência, objetividade e sobretudo intenção focada no pregar.

Isto posto, através do uso consciente e intencional dos saberes conjuntos da


forma e do conteúdo, distingue-se a ferramenta da arma pelo uso ético, sobretudo
cristão, tanto no mundo real, quanto na internet.

_________________________________________

16 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida, p 85. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.


20

4 O QUE É RELACIONAMENTO?

O relacionamento é: humano, vivo, real, afetivo, emocional e intelectual que se


realiza no presencial contato de um ser humano com um ou mais seres humanos (vide
capítulo 1.2).

Não faz sentido aplicar a palavra “relacionamento” na rede. A rede não é um


lugar onde as pessoas possam se encontrar e se relacionar. Ao contrário, valendo-se
do mesmo conceito de Bauman e particularizando-o, a rede é um não lugar17, de tal
forma que haja neste cenário seletivas conexões eletrônicas de contato interagindo
entre si. Da mesma forma particularizada, não se pode afirmar que o mesmo conceito
presencial de amigos e de amizade se apliquem à rede.

Sendo a rede um não lugar onde interagem os contatos eletrônicos de pessoas,


implica afirmar que o lugar deste encontro não existe – dado que é virtual, e não são
pessoas que ali se relacionam - senão interações eletrônicas seletivas da
representatividade individual.

“A internet não nos rouba a humanidade, é um reflexo dela [grifo meu; uma
forma virtual, representativa de humanidade, mas não a humanidade em si]. A internet
não entra em nós, ela mostra o que há ali.”18 (Bauman e Lyon, 2013).

Assim, o indivíduo na rede não é completo (não corpóreo), e toda referência a


este será relativa, não presencial; e a partir disto, continuamente são confundidos os
conceitos de: “pessoa”, “relação” e “sociedade”, com os de: “contato”, “conexão” e
“rede”, respectivamente.

A Bíblia revela que o homem é um ser completo19 formado pelo espírito, alma
e corpo (Bíblia, 1 Ts 5:23; Hb 4:12; 1 Co 6:19), sem assim o desassociar.

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17 BAUMAN, Zygmunt. Op. cit. pp 23-24 e 131, 2001.

18 BAUMAN, Zygmunt; LYON, David. Vigilância líquida. p 31. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

19 BÍBLIA. 1 Tessalonicences 5:23; Hebreus 4:12; 1 Coríntios 6:19. Op. cit., 1993.
21

Segundo Farias20:

Todas as relações interpessoais que são tocadas pelo amor, acompanhadas


do menu: romance, parcerias, compromissos, direitos e deveres mutuamente
reconhecido, hoje estão transfiguradas pelo indivíduo que Bauman denomina
como “o homem sem vínculos” (Farias, 2017).

Inexistindo o olhar crítico da ética cristã por sobre estas confusões de diferença,
as doutrinas estranhas prevalecem e são confundias como sendo a sã doutrina.

4.1 Os novos paradigmas de relacionamento

Os novos paradigmas de relacionamento são formados a partir das novas


formas de interações sociais pela rede. Nesses paradigmas, as relações sociais
presenciais foram preemptadas pelas relações virtuais. O contato humano, a
proximidade, o estar junto no mesmo lugar para realizar o diálogo foram modificados
no conceito original, e como subproduto, as relações sociais tornaram-se voláteis,
descartáveis, efêmeras ou “líquidas”, palavra esta definida por Zygmunt Bauman na
sua obra “Modernidade líquida”.

O conteúdo da rede, em especial das redes sociais, apresenta distorções da


felicidade do indivíduo, registrado em selfies ou em outra maneira de registro
eletrônico de incentivo à forma, criando verdadeiras ilusões em seus usuários
sustentados por “likes”, ou outro tipo de aprovação eletrônica à “gestão da aparência”
(vide capítulo 5.1) do “perfeito padrão de vida” e à própria egolatria. Na rede, a
“verdade” postada é, então, não mais absoluta, mas relativa ao número de “likes”
recebida. Afinal, sob certo assunto postado, a esmagadora maioria não pode estar
errada! Será?

Conectado à rede, é possível valer-se do anonimato e da falsa ideia de existir


plena privacidade. Logo, na rede e em especial nas redes sociais, é possível que haja
o tráfego da mentira (fake news) originado por alguém que não se saiba exatamente

_________________________________________

20FARIAS, André. Uma ética para o inverno: ética cristã em tempos da modernidade líquida, p 99.
São Paulo: Fonte Editorial Ltda., 2017.
22

quem, e que existam sentimentos e paixões que redundem em relações sociais


totalmente descartáveis, senão catastróficas, pela gestão da aparência irreal.

-Isto não se aplica a poucos! Estatísticas indicam que mais da metade da


população mundial, isto é, mais de quatro bilhões de pessoas estão conectadas à
web21, e destas pessoas, quase 116 milhões (2,9%) somente no Brasil22 interagem
por meio da rede. Esses dados de uso da internet, que encampam o uso de redes
sociais, transformaram a rede num importante meio para a divulgação de informações
e de propagação de ideologias, bem como todo o tipo de ativismo, negócios, turismo,
receitas, vídeos, documentários, e etc.

Segundo Valença23:

Quanto mais conectado, maiores são as possibilidades de recebimento de


informações que circulam na rede. Deste modo, indivíduos passaram a poder
interagir e se comunicar com outros indivíduos dentro de uma rede que
permite a exploração de conexões e de padrões em suas redes sociais
(Valença, 2016).

O cristão precisa ser o verbo de ligação consciente para com o seu próximo.
Ir muito além do apenas parecer ético, mas efetivamente: ser, estar, ficar, andar,
permanecer, tornar-se, viver, e continuar consciente de suas responsabilidades e de
seus deveres como homem cristão e de vida transformada. A igreja não pode viver
alienada na rede, e, portanto, deixar de continuamente comunicar vida, e de tê-la em
abundância24 (Bíblia, Jo 10:10b).

_________________________________________

21 CIRIACO, Douglas. Mais de 4 bilhões de pessoas usam a internet ao redor do mundo, 2018.
Tecmundo. Disponível em: <https://www.tecmundo.com.br/internet/126654-4-bilhoes-pessoas-usam-
internet-no-mundo.htm>. Acesso em: 30 de janeiro de 2018.

22GOMES, Helton S. Brasil tem 116 milhões de pessoas conectadas à internet, diz IBGE. G1,
2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/brasil-tem-116-milhoes-de-
pessoas-conectadas-a-internet-diz-ibge.ghtml>. Acesso em: 21 de fevereiro de 2018.

23VALENÇA, Eduarda. C. Publicidade nas redes sociais: uma abordagem semiótica da relação
verbo-visual, p 32, 102 f. Dissertação de Mestrado – Ciências da Linguagem, Universidade Católica
de Pernambuco, 2016. Disponível em:
<http://www.unicap.br/tede//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1289>.
Acesso em: 10 de julho de 2018.

24 BÍBLIA. João 10:10b. Op. cit., 1993.


23

Por meio de novas Tecnologias de Informação e de Comunicação (TICs), a


origem da comunicação virtual na rede, o conceito, a intenção, o perigo e o mau uso
são desafios da Igreja moderna em termos de evangelização na rede.

Não restam dúvidas que, sem se valer da ética cristã na internet, fora da
intenção de agir sob a inspiração do Espírito Santo, e sem o discernimento (espiritual)
das coisas envolvidas, o uso inconsciente da rede não permite comunicar o Evangelho
da sã doutrina.

Está na Palavra de Deus25:

Rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com


astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à
consciência [grifo meu] de todo homem, na presença de Deus, pela
manifestação da verdade (Bíblia, 2 Co 4:2).

_________________________________________

25 Bíblia. 2 Coríntios 4:2. Op cit., 1993.


24

5 A “RELAÇÃO” DESCARTÁVEL NA FALTA DE CONSCIENTIZAÇÃO

A extrema velocidade da informação e a volatilidade de relacionamentos


virtuais têm provocado sérios danos nas relações virtuais, e trazidas à realidade,
também nas relações sociais presenciais. Na rede líquida, durante o inverno em
cenário retratado por Farias26, o importante é manter-se no destino patinando de
maneira rápida sobre o gelo fino, rejeitando parar, face a possibilidade desse gelo fino
quebrar e afogar a nossa vida.

Logo, não há tempo para reflexões, e sim um diminuto prazo para respostas
sem muito pensar, focando no imediatamente responder/postar, provando que o
emissor e receptor estão ligados instantaneamente ao meio pelo qual deveria haver
uma comunicação sem ruído. Em tempo, considerando o ambiente natural de
comunicação, que é vida, temos uma resposta na ponta da língua no ambiente de
comunicação virtual em rede, ou melhor, na de nossos dedos (se estivermos
teclando), agindo sem pensar e de imediato. Dessa forma, por impulso, o conteúdo
da resposta/postagem tipifica a plena falta de conscientização na rede (internet e
redes sociais), permitindo a existência do perigo da “relação” descartável, isto é, da
conexão descartável.

Temos interesse é na rede, e não nas pessoas que precisam resolver os seus
problemas. Na rede, não é desejado o cansaço, nem tampouco a indisposição
resultante do querer ajudar a se resolver um problema alheio. Antes, o mero excluir
da conexão, ou erroneamente falando, “excluir da relação” é o que é desejado e feito.

Em se tratando de forma, quando uma nova tecnologia de informação e de


comunicação é utilizada para incentivo à fuga de um problema humano, ou como
substituta da relação humana, na prática, tal avanço tecnológico torna-se um
endeusamento ao retrocesso (vide capítulo 5.4).

_________________________________________

26 FARIAS, André. Op. cit., p 21, 2017.


25

5.1 A distorção da realidade

Na rede, há um espírito de publicação de uma vida perfeita num mundo feliz,


ou melhor, na rede há uma forte propensão de não se registrar o pecado no mundo.
Poder-se-ia dizer que o pecado não tira selfie? Em particular, as redes sociais
estimulam a egolatria, sobretudo o narcisismo. O “padrão” é registrar a busca da
felicidade perfeita, já atingida, porém efêmera, apresentando fotos editadas de
situações com sorrisos falsos. Eis que é coroado o triunfo da gestão da aparência: o
tudo mentir em prol do registro perfeito, não necessariamente verdadeiro. Há a venda
da ilusão seduzida pelo viver em paz e em harmonia. -Isto existe no mundo? Estando
ou não na rede, a Bíblia condena os que creem na sedução da forma, isto é, aqueles
que se assoberbam e vivem em hipocrisia27 (Bíblia, Is 5:20-21).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a felicidade é definida


como “completo bem-estar físico, mental e social”, tal como citado por Kahn e
Simoni28.

O “Relatório Mundial sobre a Felicidade” publicado pela Universidade de


Columbia, em 2012, apontou certa multiplicidade neste conceito. A felicidade
inclui avaliações sobre a vida de maneira geral, com aspectos positivos e
negativos de emoções que afetam o dia a dia privado. Alguns fatores são
externos, tais como: o emprego, a renda e a saúde. Outros são internos,
pessoais, tais como: o gênero, a educação, a saúde mental e a idade. Por
fim, outros fatores se inter-relacionam: com uma maior renda é possível de
se ter uma melhor educação e ser mais feliz, logo, a saúde em geral também
melhora (KAHN e SIMONI, 2013).

O problema desses conceitos é que se sustentam na condição a algo, a alguém


ou a alguma coisa. Assim, não havendo o preenchimento completo desses quesitos,
a felicidade pode acabar, ou ainda, não acontecer, permitindo a instalação de
frustrações e de ansiedades, e assim por muito tempo permanecendo, corre-se o risco
de se instaurar uma doença29 (Hay, 2017). A palavra de Deus apresenta a felicidade
_________________________________________

27 BÍBLIA. Isaías 5:20-21. Op. cit., 1993.

28KAHN, Suzana; SIMONI, Walter F. de. Felicidade é considerada indicador de desenvolvimento


no século XXI, 25/01/2013. Globo Ciência. Disponível em:
<https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/revista-amanha/felicidade-considerada-indicador-de-
desenvolvimento-no-seculo-xxi-7394295>. Acesso em: 14 de dezembro de 2017.

29 HAY, Louise L. Op. cit., 2017.


26

como sendo uma alegria que não depende de nenhuma circunstância30


(Bíblia, Lc 12:15) pois é fruto do Espírito, caracterizado por um deleite e regozijo
constante na vida do cristão (Bíblia, Gl 5:22). A tentação de se buscar felicidade nos
bens efêmeros é insensatez e afoga os homens na ruína e perdição
(Bíblia, 1 Tm 6:8-9).

A verdadeira alegria só pode ser encontrada no temor e na obediência a Deus:


“Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor e anda nos seus caminhos! Do trabalho
de tuas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem.” (Bíblia, Sl 128:1-2).

5.2 O isolamento e a solidão: o paradoxo da internet

“Estamos todos numa multidão e numa solidão ao mesmo tempo.”, disse


Zygmunt Bauman. Uma frase aparentemente contraditória que elucida os
relacionamentos modernos.

Na década de 90 do século XX, pesquisadores chamaram atenção para um


mal social que surgia e deram-lhe o nome de “paradoxo da internet”. Era o registro
formal e científico da efetiva contradição de alguém ter vários relacionamentos
virtuais, na forma de excesso de contatos, e ao mesmo tempo no mundo concreto,
haver total ausência de contato humano (no sentido físico e proximal: a comunhão
bíblica).

Nalguns estudos, tem sido demonstrado que, com o aumento do uso da


internet, e em particular das redes sociais, o excesso de informação e de contatos
coincide também com o aumento da solidão e do distanciamento social. O ser humano
está sendo (des)integrado à tecnologia e tratado como se fosse também uma
máquina, descartável por sua “versão” e pelo “tempo de uso”. Essa falta de equilíbrio
humano, não sendo possível de ser tratado pela rede, dado que ela não é humana e
sim eletrônica, tem desencadeado crises emocionais, de ansiedade e de isolamento
(Bíblia, Jr 6:14).

_________________________________________

30BÍBLIA. Lucas 12:15; Gálatas 5:22; 1 Timóteo 6:8-9; Salmos 128:1-2; Jeremias 6:14. Op. cit.,
1993.
27

5.3 O uso patológico (inconsciente) da rede é caracterizado por oito sinais

Se utilizada de maneira consciente, é reconhecida a importância da rede. Uma


vez que sanamos as dificuldades de se contornar a forma e de validar o seu conteúdo,
é possível uma contribuição positiva aos benefícios proporcionados a quem da rede
se vale. No entanto, não podemos fechar os olhos diante de seus efeitos colaterais,
tais como a dependência virtual.

Estudos psicológicos detectaram oito sinais de uso patológico da rede31:

(i) incapacidade de controlar o uso da internet;


(ii) necessidade de se conectar mais vezes;
(iii) acessar a rede para fugir dos problemas ou para melhorar o estado de
ânimo [grifo meu];
(iv) pensar na internet quando se está off-line;
(v) sentir agitação ou irritação ao tentar restringir o uso;
(vi) descuidar do trabalho, dos estudos ou até mesmo dos relacionamentos
pessoais por causa da rede;
(vii) sofrer pela abstinência;
(viii) mentir sobre a quantidade de horas que passa conectado e/ou
permanecer muito mais tempo do que o previsto (Sayeg, 2000).

Neste estudo de Sayeg, o usuário enquadrado em alguns dos itens de uso


patológico da rede pode estar usando a própria rede como fuga para seus problemas
psicológicos. O não tratamento desses sintomas resulta em dependência e isolamento
cada vez maior, podendo redundar em doenças psicossomáticas32.

5.4 Relações sociais efêmeras – “líquidas”

Na concepção do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (19/11/1925 a


09/01/2017), a modernidade vivencia um momento de não solidez nas relações
sociais, caracterizando-a como líquida, isto é, como de relação descartável, não
duradoura. Bauman chama a esse fenômeno social de “modernidade líquida”. Os
tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente e não mais se “solidifica”

_________________________________________

31SAYEG, E. Psicologia e Informática: Interfaces e Desafios. São Paulo: Conselho Regional de


Psicologia, 2000.

32 HAY, Louise L. Op. cit., 2017.


28

numa forma estática e bem estruturada. Assim, nesse ambiente social líquido, nada
é feito para durar e nem mais para ser “sólido”.

Na rede, e em particular nas redes sociais, com apenas um clique (ou toque de
nossos dedos numa tela do smartphone), é possível: bloquear, deletar e excluir
pessoas de “nosso relacionamento”, que por definição e eticamente prefiro chamar de
“nosso cardápio de contatos”. E com outro clique (ou toque) pode-se: aceitar,
comentar e curtir outras pessoas. Tal situação tipifica um declínio das sólidas relações
humanas, dado que, por meio do uso de tecnologias, a amizade, o amor e o respeito
entre as pessoas são (estão) facilmente descartáveis33 (Bíblia, Ec 1:2). Eis a forma de
liquidez inerente e presente na rede. Até onde pode ir a ética cristã sem o padrão da
Rocha?

É um efeito paradoxal. A esmagadora maioria de pessoas busca na rede, e em


particular nas redes sociais, uma aproximação com outras pessoas. Em pleno
paradoxo, os “relacionamentos” virtuais têm maior importância que os
relacionamentos reais, inclusive confundindo a conexão virtual como sendo a mesma
coisa que o relacionamento presencial. Há falta de significado e de significância nisto.
Neste ponto, é que a semiologia de Barthes34 entra não como uma arma, mas como
uma ferramenta a ser utilizada na distinção e tratamento destes casos.

Segundo Valença35:

As relações entre semiótica e comunicação são íntimas, cruzando-se nas


partes mais importantes. Diante dessa premissa, a publicidade [na rede,
acrescento] se aproveita destes cruzamentos para formar anúncios com alto
grau de atratividade e capazes de persuadir o público desejado (Valença,
2016).

Em adição, percebe-se que as pessoas caminham “conectadas” na rede virtual


totalmente alienadas do mundo real. Tal situação no trânsito, dependendo do caso,

_________________________________________

33 BÍBLIA. Eclesiastes 1:2. Op. cit., 1993.

34 BARTHES, Roland. Op. cit., pp 7-8, 2006.

35 VALENÇA, Eduarda C. Op. cit., p 37, 2016.


29

pode vir a ser um suicídio e/ou de homicídio culposo (sem a intenção de querer
praticar é imputado ao réu o trinômio da culpa: imprudência, imperícia e negligência).

A conversa natural está sendo deixada de lado. Quase ninguém mais conversa
sem o uso da rede, mesmo que a uma distância inferior a cinco metros. Em bares e
restaurantes, famílias inteiras ou grupo de amigos acessam a rede e não dialogam
entre si, exceto por monólogos oriundos sobre o que estão vendo nas redes sociais.
Isto é vida, ou pelo menos, saudável?

Esse fenômeno também é observado nas escolas, no âmbito do trabalho, e até


de maneira insana e irresponsável em pleno trânsito. Este comportamento, que utiliza
a mais avançada tecnologia, é um retrocesso36, pois torna as relações humanas
superficiais, efêmeras e irrelevantes, típicas da sociedade líquida tratada por Bauman.

A tecnologia é conhecida pela cegueira; ela reverte a sequencia humana de


ações dotadas de um propósito (...), e se ela se move é porque pode fazer
isto, (...) não porque deseja chegar; enquanto Deus, além da
impenetrabilidade que deslumbra e cega aqueles que o veem, representa a
insuficiência dos seres humanos e sua inadequação à tarefa (Bauman e Lyon,
2013).

É necessário e urgente corrigir todas essas falhas provocadas pelo mau uso da
rede, especialmente em nossa vida, família, amigos e na própria sociedade. A
conscientização é primordial, dado que todo e qualquer excesso é danoso ao ser
humano. A ética clama para ser ouvida, mas não tem o atrativo da atenção.

5.5 A falsa sensação de privacidade

Na rede, o usuário inconsciente se ilude com a falsa sensação de privacidade


e se expõe a toda espécie de constrangimento. Em se tratando de redes sociais,
comentários, sentimentos de foro íntimo, fotos e vídeos comprometedores saem do
âmbito privado e se tornam públicos.

_________________________________________

36 BAUMAN, Zygmunt; LYON, David. Op. cit., p 104, 2013.


30

A “memória” da rede é praticamente infinita e é renovada todos os dias. Assim,


caso se cometa algum erro, dificilmente será “esquecido” da rede, conforme dito na
obra “Vigilância líquida” de Bauman e Lyon37. Erroneamente aqui as pessoas
interpretam essa “memória” como se tratasse de uma pessoa viva, e não como uma
informação eletrônica acessível gravada num banco de dados da rede. Tal “memória”
dificilmente será “excluída” da base de dados dos servidores de interação humana da
rede (referenciando a rede como conexão obtida via “cardápio pessoal de contatos”
que interagem), e não que a rede em si tenha uma capacidade de memória e de
pensamento da mesma forma que uma pessoa, e que a rede por si só possa tomar
decisões, julgamentos e realizar a execução de sentenças e de procedimentos.

5.6 Características objetivas da rede de computadores

A rede de computadores (vide capítulos 1.2 e 2) assim se caracteriza:

• Não é viva: tem “memória”, mas não da mesma forma que o homem tem.
• Não toma decisões: elementos de rede, sem vida, não julgam.
• É um não lugar: por não existir geograficamente, não suporta pessoas reais.
• Não contém pessoas reais: há representações digitais da personalidade.
• Não permite relacionamento: conexão digital não é relacionamento real.

Não é tema deste trabalho, mas é ressaltado aqui que existe o problema de se
tratar a rede de computadores EM SUBJETIVIDADE, e em especial, a rede social.

5.7 Postagem viral da rede – a verdade líquida é definida pela maioria

Na sociedade líquida, longe de marcos sólidos que permitam uma comparação


e que definam uma métrica, a verdade se relativiza. Um comportamento, uma ideia,
uma pregação, um agir, enfim, toda ação e situação é caracterizada por ser verdadeira
ou não em função da escolha da rede. Hoje, a rede pode optar por um sim, uma
aprovação, um “like” (positivação), um comentário de aceitação, uma humana
verdade. Amanhã, ou daqui a pouco, a tendência da verdade na rede pode ser outra:

_________________________________________

37 BAUMAN, Zygmunt; LYON, David. Op. cit., pp 28 e 29, 2013.


31

um não, uma reprovação, um “deslike” (negativação), um comentário de rejeição,


outra humana verdade, e quem sabe, até mesmo a declarada mentira.

Um ponto importante que merece atenção ética é sobre o repasse de


“postagem viral”, isto é, valendo-se da nomenclatura oriunda da própria rede social, o
típico reenvio de postagem inconsciente infecta a própria rede, e se espalha rápido
como se fosse um vírus. O que não é dito nesta analogia, é que todo viral produz uma
doença, podendo esta doença não ter cura e ser letal. Tipicamente a postagem viral
de rede varia desde a mera reprodução e repasse de pornografia, passando pela
divulgação de notícias falsas (fake news) e culminando em publicações intolerantes e
de incentivo ao ódio38 (Bíblia, 2 Tm 2:22). Que verdade repasso eu?

A falsa garantia de se manter a identidade real oculta é um dos fatores que


impulsionam o uso equivocado da rede. Há pessoas na rede que se sentem à vontade
em extravasar seus impulsos sexuais, de maneira como lhe convir, sem ter medo
dessa repercussão. Fantasiar no anonimato, sem falta de inibição, incentiva a
disseminação da imoralidade. A conduta deplorável aqui referida trata-se da postagem
de “nudes” (imagens da pessoa nua). Numa pesquisa realizada pela Tribuna do
Ceará39, mais de 50% de mulheres com acesso a um site de relacionamento (que é
um dos objetivos das redes sociais) já enviaram pelo menos uma foto de nudes, e
mais de 42% dos homens já realizaram tal façanha. A postagem de “nudes” por fotos
ou em vídeos, sem o devido pensar, pode ser responsabilizado criminalmente; mas
não repara dano moral sofrido. O ideal mesmo é não compartilhar nenhuma imagem
íntima na rede, nem sua, nem de ninguém: Primeiro, por tratar-se de uma prática
imoral cristã (Bíblia, Gl 5:19), e segundo, por ser uma conduta antiética, passível de
processo40 (Cruz, 2018) na forma da Lei.

_________________________________________

38 BÍBLIA. 2 Timóteo 2:22; Gálatas 5:19. Op. cit., 1993.

39TRIBUNA DO CEARÁ. Mais de 50% das mulheres já mandaram nudes, revela pesquisa, 2016.
Disponível em: <http://tribunadoceara.uol.com.br/mulher/mulher/mais-de-50-das-mulheres-ja-
mandaram-nudes-revela-pesquisa>. Acesso em: 13 de fevereiro de 2018.

40CRUZ, Bruna S. Mudou a lei! Compartilhar nudes sem consentimento agora dá cadeia,
25/09/2018. UOL Notícias – Tecnologia. Disponível em:
32

6 A REDE CONSCIENTE A SERVIÇO DO REINO DE DEUS

Evangelizar num ambiente digital não significa apenas postar mensagens de


cunho cristão, ou ainda, filosóficas. É necessário ter-se o bom testemunho do usuário
na rede, mas principalmente valer-se dela para objetivar a realização da presencial
comunhão, onde há manifesto de pessoas, com ambiente real que propicie a
possibilidade de manifesto da presença da terceira pessoa da Trindade: o Espírito
Santo. Disse Jesus em comunhão presencial com seus discípulos: “Porque, onde
estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles.”41
(Bíblia, Mt 18:20).

Em tempo, pode haver manifesto do Espírito Santo numa ligação telefônica?


-Pode! Não pela ligação telefônica em si, valendo-se de fios e de elementos que
sustentam a comunicação, mas pelo manifestar dEle na(s) pessoa(s) envolvida(s) na
ligação. Se tiver que envolver material não humano, o Espírito Santo agiria em
Propósito de Deus, como por exemplo, um telefone fixo ou celular discar e poder falar
sem estar conectado à malha telefônica, ou sem saldo suficiente, caso fosse celular.
Via de regra, não se espiritualiza a forma, senão em exceção de Propósito de Deus.

Analogamente, pode haver o manifesto do Espírito Santo na rede? -Pode! Via


de regra, não pela rede em si que não tem vida, valendo-se de conexões e de
elementos de rede que sustentam a comunicação via internet, mas pelo manifestar
dEle na(s) pessoa(s) envolvida(s) na comunicação. A diferença está no uso ético do
anunciar o Reino de Deus (comunicar o conteúdo da mensagem de cruz), que via de
regra, tem de ser feito por cristãos intencionados em Cristo Jesus e conscientes de
que todo o tempo estarão diante de uma forma não espiritualizada por Deus, a rede,
a exceção de quando e em específico Propósito de Deus (Bíblia, Nm 22:21-41).

_________________________________________

<https://tecnologia.uol.com.br/noticias/redacao/2018/09/25/mudou-a-lei-compartilhar-nudes-sem-
consentimento-agora-da-cadeia.htm>. Acesso em: 07 de novembro de 2018.

41 BÍBLIA. Mateus 18:20; Números 22:21-41. Op. cit., 1993.


33

6.1 O bom testemunho na rede

Cristo ensinou que o cristão é o sal e a luz do mundo42 (Bíblia, Mt 5:13-14), e


que essa luz deve resplandecer por meio das boas obras a fim de glorificar o nosso
Pai que está nos céus (Bíblia, Mt 5:16). Desse modo, para o bom testemunho na rede,
o cristão não deve postar comentários negativos, ou fazer condenação de pessoas.
Antes, em sua mente, deverá julgar à luz do Espírito Santo o apresentar Jesus, e não
uma condenação. Assim, deve-se tomar todo o cuidado e precaução com textos, fotos
e vídeos que forem publicados, quer sejam pessoais, quer de terceiros.

A ética cristã na internet clama pelo uso consciente da rede, e aponta para a
contínua necessidade de se avaliar o que se posta em termos de conteúdo e de forma,
primando sempre pela coerência e vocabulário da mensagem durante todo o processo
de comunicação. Paulo nos ensina a fazer de tudo para ganhar as pessoas para Jesus
Cristo (Bíblia, 1 Co 9:22). Sejamos imitadores de Jesus, como Paulo assim postula,
pensando conscientemente antes de agir, intencionando transmitir vida ao comunicar.

A importância da boa reputação, isto é, da imagem que se passa, é fator


decisivo na evangelização, tanto presencialmente (corpo a corpo), quanto
virtualmente (na rede: internet e redes sociais). Essa boa reputação fundamenta-se
no reconhecimento por parte de crentes, e principalmente de não crentes, do bom
caráter e da idoneidade de quem evangeliza. É esperado do cristão que vivencie o
que prega, isto é, é esperado do cristão o agir consciente e intencionado em Cristo
Jesus, valendo-se simultaneamente da forma e de conteúdo éticos e cristão:

• forma → por meio da oração e de santificação no Espírito Santo.


• conteúdo → um viver reto e íntegro na presença de Deus.

Caso não ocorra esta intenção no Espírito de Deus, todo o processo de


evangelização tornar-se-á obra da carne, sem produzir fruto no Espírito, e de quebra,
será difamado e envergonhado quem evangeliza; e, por conseguinte, colocando toda

_________________________________________

42 BÍBLIA. Mateus 5:13-14, 16; 1 Coríntios 9:22. Op. cit., 1993.


34

a Igreja em descrédito (vai muito além das placas), vilipendiando a obra da cruz de
Jesus Cristo.

Um viver inconsciente, contraditório com os valores morais e éticos do


evangelho, inviabiliza toda e qualquer possibilidade de ser reconhecido como cristão,
quanto mais como liderança espiritual dirigida por Deus. Um viver incompatível com a
sã doutrina revela o abismo existente entre o homem que se diz ser cristão e Deus.

Se somos servos de Deus, estamos sendo por Ele sondados. É necessário a


conscientização de quem somos enquanto cristãos, se tivermos a intenção de
professar o Evangelho de Cristo em nós e aos outros. O nosso agir deve ser fruto do
previamente pensar (meditar) à luz do Espírito Santo, e não de nosso ímpeto.

Assim é a nossa conduta, tolerante a todos no nosso Ide. Não é possível admitir
um cristão inconsciente na rede, de tal forma que provoque constrangimentos, brigas,
disputas desnecessárias, estímulos ao preconceito e à discriminação, mandar e/ou
receber “nudes”, curtir e compartilhar textos, imagens e vídeos com conteúdo lascivo
ou de interpretação ambígua, possa ter autoridade espiritual ou sequer moral para
poder evangelizar alguém.

Quanto à necessidade de se evangelizar conscientemente, Paulo nos dá um


alerta43: “Se o faço de livre vontade, tenho galardão; mas, se constrangido, é, então,
a responsabilidade de despenseiro que me está confiada.” (Bíblia, 1 Co 9:17).

6.2 O uso consciente, objetivo e intencional de evangelização na rede

Conscientes da forma e do conteúdo de se levar o Evangelho que não o


contamine, é possível ter uma ferramenta de evangelização na rede, a qual
objetive a reunião presencial do corpo, e não apenas na rede o tempo todo. Se a
evangelização for feita de qualquer maneira, sem se preocupar com o conteúdo, e só
se preocupar com a forma, ou se a evangelização somente se preocupar com a forma,
sem preocupar com o conteúdo, enquanto cristãos inconscientes, não haverá

_________________________________________

43 BÍBLIA. 1 Coríntios 9:17. Op. cit., 1993.


35

processo de evangelização, e sim atos de disponibilização de novas armas contra o


levar o Evangelho na rede.

Se somos cristãos conscientes, a rede (internet e redes sociais) pode se tornar


uma ferramenta (e não uma arma) na exposição inicial do Evangelho que culmina no
corpo presencial em uma geolocalidade, porém são necessários alguns cuidados:

• As postagens e vídeos devem ser claros e simples (não prolixos);


• A mensagem precisa ser fiel à Palavra e inspirada pelo Espírito de Deus;
• Antes de compartilhar imagens e/ou uma mensagem, deve-se verificar a
veracidade bíblica dessa mensagem e o seu respectivo teor teológico
[é um convite a sermos bereianos, tal como Paulo assim os exorta
(Bíblia, At 17:11)].

Em se tratando de evangelização consciente na rede, não é recomendado a


postagem de frases de efeito ou de autoajuda, mas sim a de versículos bíblicos, e se
for o caso, de breve testemunho. Em tempo, ao se reproduzir textos, áudios e vídeos,
é necessário prévia verificação da existência de algo que possa causar escândalo ou
intolerância religiosa. Não se deve atacar a ninguém, apenas anunciar e confessar a
Cristo Jesus44 (Bíblia, 1 Co 1:23-24), tendo a intenção de fazê-lo de forma ética,
discernindo a sã doutrina de doutrinas estranhas.

Evangelizar é comunicar. No registro bíblico da história da humanidade, Deus


se revela de maneira crescente ao se comunicar com o ser humano. O escritor aos
Hebreus assevera que Deus falou antigamente aos pais pelos profetas, e a nós nos
falou nestes últimos dias pelo seu Filho (Bíblia, Hb 1:1).

Desse modo, o ápice da comunicação divina acontece na Encarnação do


Verbo: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e
vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Bíblia, Jo 1:14). Jesus Cristo é
o encontro pleno alcançado entre Deus e o homem. É a comunicação viva, e não um

_________________________________________

44 BÍBLIA. Atos 17:11; 1 Coríntios 1:23-24; Hebreus 1:1; João 1:14. Op. cit., 1993.
36

mero contato de rede sob a forma textual, imagética ou auditiva, ou uma outra
representação eletrônica informativa acerca da pessoa dEle hoje e no futuro.

Ao comunicar Sua mensagem aos Seus escolhidos, Deus revela que ela fosse
compartilhada com todos os povos. Portanto, em termos de rede, evangelizar não
significa apenas postar uma doutrina sob alguma forma na rede (site, mensagem:
texto, som, imagem), mas comunicá-la ao próximo objetivando a comunhão
presencial, congregando nalguma Igreja local.

6.3 Ética cristã na internet – o uso consciente da rede

(i) Levar ao Espírito de Deus — publicação que desperta a busca por Jesus;
(ii) Alimentar a fé — forma e conteúdo que discipule a crescente Palavra;
(iii) Congregar à Igreja — almejar congregação na Igreja local, não na rede.

Para isso, não basta à Igreja:

• Ter uma página na internet atualizada (dinâmica e com fórum);


• Escutar e informar-se pela web rádio;
• Oferecer uma ou mais redes sociais e
• Transmitir cultos pela internet (ao vivo ou em acervo).

Uma evangelização objetiva e consciente na rede de computadores, começa


com a comunicação ética e que respeita a ética cristã à luz do Espírito Santo, e se
realiza na intenção de não contaminar o Evangelho. Ao discipular e ao levar a Palavra
de Deus, deve haver plena preocupação com o discernir a sã doutrina de doutrinas
estranhas que circulam na internet, tais como: Igreja-Empresa e Cibergraça45 (vide
capítulos 7.2 e 8, respectivamente).

_________________________________________

45SILVA, Aline Amaro da. Cibergraça: Fé, evangelização e comunhão nos tempos da rede, 139 f.
Dissertação de Mestrado – Faculdade de Teologia, PUCRS, 2015. Disponível em:
<http://tede2.pucrs.br/tede2/bitstream/tede/5993/2/468444%20-%20Texto%20Completo.pdf>
Acesso em: 28 de junho de 2018.
37

7 A IMAGEM DA IGREJA

As Igrejas evangélicas reconhecem a existência de autoridades como


lideranças eclesiásticas, credos, concílios, confissões de fé, etc. Logo, a imagem da
Igreja, independente da placa, influencia a opinião de todos: crentes e não crentes. A
diferença é que nenhuma autoridade humana ligada à Igreja é infalível.

Antes, a autoridade delas está condicionada à autoridade máxima das


Escrituras. Isso significa que um pastor pode errar (se contrariar a Bíblia), que um
padre pode errar (se contrariar a Bíblia), que um credo pode errar (se contrariar a
Bíblia), e assim por diante. Logo, nenhum evangélico rejeita a priori o que alguma
outra autoridade afirma – só que temos o discernimento para acreditar que estas
outras autoridades podem errar o alvo: Jesus. Esta é a correta e essencial imagem
que a Igreja deve buscar e ter de si, segundo a própria Escritura, e segundo o mover
do Espírito Santo.

7.1 A modernidade líquida de Bauman e a Igreja

A expressão “modernidade líquida” (ou tratada depois dela como “pós-


modernidade líquida”) advém da obra do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
Bauman afirmava que a forma da modernidade não é mais limitada a estruturas fixas
e de comportamento bem conhecido, mas sim a limitantes bastante flexíveis, de tal
maneira que lembram o comportamento da contenção de um líquido, isto é, da forma
“líquida” obtida pela contenção do líquido que é moldado pelo próprio limitador.
Exemplo: o líquido num cubo tem a forma cúbica; um líquido no cilindro tem a forma
cilíndrica; um líquido num cone tem a forma cônica, e etc. Assim, a forma líquida onde
está imersa a cultura da geração pós-moderna é caracterizada por ter uma dimensão
volátil (amorfa).

Não tendo mais referências, as pessoas se tornam protagonistas de seu próprio


destino. As questões sólidas e duradouras não existem mais. Há impactos na família
e questionamentos no papel da autoridade, que em nome de uma maior liberdade de
comunicação relativiza os aspectos relacionais, impactando diretamente na criação
de filhos e nos conceitos de durabilidade.
38

7.2 A definição de Igreja-Empresa

Na modernidade líquida, Cristo não é a experiência, mas o fundamento, a


identidade. “Não há afirmação que não seja autoafirmação, nem identidade que não
seja construída.”46 (Bauman, 2001).

A Igreja não é uma “opção” no mercado da fé. Porém, na pós-modernidade


líquida é esperado a melhor prestação de serviço da Igreja, de tal forma que o
Evangelho deva estar alinhado com a vontade do indivíduo, e não o contrário. Isto é
lamentável e leva à pergunta: “Como edificar uma Igreja sólida na sociedade líquida?”.
Certamente a resposta está no campo da pregação de um Evangelho não
contaminado, onde a fé possa se manter fundamentada no mesmo Cristo e no mesmo
Evangelho da Igreja primitiva à luz do Espírito Santo.

Em se tratando exclusivamente de experiência em Cristo (forma), sem


considerar o conteúdo da mensagem da morte de cruz, corre-se o risco da
desconstrução do modelo tradicional de fé (a falta da mente de Cristo → implica na
falta de consciência), permitindo a ação da “Igreja-Empresa”.

A “Igreja-Empresa”, isto é, a igreja com mais caráter de organização do que o


de organismo, se torna atrativa à sociedade líquida, pois apresenta “a Rocha” como
sendo “líquida”. A saber, a “Igreja-Empresa” apresenta Cristo como não mais sendo
o: Cabeça, Dono e centro da Igreja, mas sim as pessoas em constante mudança de
referência.

Logo, na “Igreja-Empresa” (a que se liquidifica ao atender a uma necessidade


de consumo por desejado produto) é tornada nula a seguinte afirmação de Jesus 47:
“Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela.” (Bíblia, Mt 16:18b).

_________________________________________

46 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida, p 223. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

47 BÍBLIA. Mateus 16:18b. Op. cit., 1993.


39

7.3 A ética cristã na pós-modernidade líquida

Na pós-modernidade líquida é cada vez menos claro as ordens comuns. Há


uma rejeição à estrutura hierárquica, e, por conseguinte, resistência ao comando.
Prima-se pelo caos em vez de ordem. Como a Igreja local se posiciona ante a rigidez
e ante o ordenamento? -Permitindo a liberdade como forma de punição! Tal ânsia pela
ausência de controle Legal é a mesma retratada em Isaías48 no Velho Testamento:
“Porque povo rebelde é este, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do
SENHOR.” (Bíblia, Is 30:9).

Na ausência de padrão (marco, métrica) inexiste a referência, e implica não ser


aplicável um código social e cultural. Por exemplo, a virgindade da mulher é
negligenciada enquanto código moral. No caso de “tabu”, em termos de código moral,
não há supressão de comportamentos, de tal forma que cada um “faz o altar” da
maneira que quiser, agindo segundo a sua vontade. Logo, instaura-se a perda da
COMPARABILIDADE UNIVERSAL. Desta forma, sem Jesus (a Rocha), a vara de
medir (o cânon, o Balizador) muda convenientemente de tamanho, beneficiando ao
homem em detrimento ao fruto do Espírito de Deus.

A ética é relativizada na pós-modernidade líquida, redundando na aplicação do


politicamente correto na Igreja e além paredes. O eticamente correto da Palavra, a
saber, a ética cristã, vê-se tolhida pela ausência da Rocha na sociedade pós-moderna.

O que é ético hoje, certamente não o foi há cinquenta anos ou mais, e vice-
versa. Por exemplo, há mais de cinquenta anos, seria possível a Igreja repreender um
membro dela na frente de todos, o admoestando de maneira bíblica pelo pecado
cometido. Hoje, se isto fosse feito, o pastor seria enquadrado nalgum tipo de crime
envolvendo constrangimento público, dano e/ou assédio moral.

Também é verdade que, há mais de cinquenta anos, quem jogasse futebol e


fosse diácono perderia o cargo e seria expulso da Igreja. Hoje, há ministérios
completos formados por ex-jogadores de futebol.

_________________________________________

48 BÍBLIA. Isaías 30:9. Op. cit., 1993.


40

8 CIBERGRAÇA – UMA ANÁLISE

Será feito uma análise acerca de Cibergraça49, valendo-se da dissertação de


mestrado em Teologia Sistemática da PUCRS: “Cibergraça: Fé, evangelização e
comunhão nos tempos da rede” de Aline Amaro da Silva de 2015, fruto de seu trabalho
de pesquisa exploratória, bibliográfica e documental. Esta dissertação se fundamenta,
sobretudo, nas obras e artigos de Antonio Spadaro, autor do livro e do campo teológico
“Ciberteologia”, e envolve outros autores tais como: Manuel Castells, Pierre Lévy,
André Lemos, Gisbert Greshake e John Zizioulas. A pesquisa de Silva sofre influência
do pensamento científico-teológico de Teilhard de Chardin. Segundo Silva:

Delimita-se o tema em cibergraça entendida como a comunhão [grifo meu]


entre as pessoas nos tempos de rede. Primeiro, aprende-se o ciberespaço
como um lugar profundamente antropológico onde se pode refletir
teologicamente. (...) A rede afeta ou potencializa a relação de comunhão
entre as pessoas, em especial com a juventude, público predominante no
ciberespaço. Além disso, analisa o valor eclesiológico da internet na missão
de evangelizar todos os povos, construindo a relação entre evangelização e
comunhão na era digital (Silva, 2015).

Silva não explicita em sua obra como ocorre a comunhão na rede. Limita-se a
definir “cibergraça” como “entendimento de comunhão”, isto é, não afirma que esta
comunhão seja a mesma de base bíblica. Eis o primeiro pilar na qual este trabalho
acerca de ética cristã na internet se fundamenta: não há comunhão bíblica na rede
de computadores (vide capítulos 1.2 e 2). À exceção do Propósito de Deus, a rede
não é espiritualizada. Na obra de Silva, não há respostas objetivas para as questões:
“Como realizar o IDE e fazer discípulos em todas as nações, batizando-os em nome
do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo na rede?” e “Como “ceiar” com os irmãos,
partindo o pão e bebendo o vinho, em memória de Jesus na rede?”.

Segundo Silva: “Não existe dualismo entre mundo real e digital, ambos fazem
parte de uma mesma realidade.”. Eis a primeira base da Cibergraça – não distinguir
a realidade da virtualidade. Em termos práticos, simples e objetivos: não há distinção
entre a realidade e o virtual (mentira; como se assim fosse). Como “abraçar o”,
“levantar o caído”, “impor mãos no”, “cumprimentar o” e/ou “amar o” próximo via rede?

_________________________________________

49 SILVA, Aline Amaro da. Op. cit., pp “resumo” e 10, 2015.


41

Com o primeiro pilar da ética cristã na internet, e com o entendimento


consciente de que não é na Rocha que se baseia a primeira base da Cibergraça, se
justifica a atenção dada aqui ao analisar, sob o olhar crítico, algumas assertivas de
Ciberteologia.

Silva postula que: “A graça que habita neste espaço antropológico,


vislumbrando a rede como dom de Deus para a humanidade, como um lugar onde se
possa encontrar a Deus, mais ainda, uma morada de Deus entre os homens.” 50.

Certamente não é levado em conta que na rede não há pessoas propriamente


ditas, e sim representações eletrônicas de pessoas, virtualizações, um faz-de-conta,
e que este “espaço antropológico” é um não lugar: intangível, de mentira, como se
assim fosse, aparente, e somente “existe” enquanto conexão virtual. Silva não só falha
na definição de pessoa, como também na de espaço geográfico real, “materializando”
os pontos e elementos de rede como se fossem pessoas em geolugares:

A rede, em termos estruturais, consiste num sistema de pontos ou nó


interligados. Cada ponto dessa rede é uma pessoa [sic], e cada pessoa
possui conexões próprias com diferentes outros nós. Então, cada pessoa é
uma rede social. Por isto, quando se fala na rede se remete ao conjunto
dessas redes, a rede de redes que compartilham dados entre si. (Silva, 2015).

Silva conclui afirmando o ciberespaço como sendo um “espaço ético hacker”:

“Hacker” é o sujeito que se esforça para superar criativamente desafios


intelectuais nos campos de seu interesse. (...) O bem comum não se restringe
a um bem-estar econômico, ele só existe quando ultrapassa a história e vai
ao encontro do bem comum universal da humanidade e de toda a criação, ao
Sumo Bem, Jesus Cristo. Assim, compreende-se uma conexão entre os
objetivos da ética hacker e a busca pelo bem comum, base fundamental de
uma verdadeira ética cristã na era da cultura digital. (...) O ciberespaço pode
ser compreendido como uma tentativa [grifo meu] de construir um substituto
tecnológico para o espaço cristão do Céu, mesmo que o ambiente digital não
tenha um sentido religioso em si mesmo e tampouco seja produto de um
sistema teológico (Silva, 2015).

8.1 A internet como lugar teológico: Ciberteologia

“Enquanto lugar teológico, a rede deve ser encarada como “dom de Deus”.”
(Silva, 2015). A falta de meditação acerca de tal citação que pode circular pela rede,

_________________________________________

50 SILVA, Aline Amaro da. Op. cit., pp 13, 18, 26, 28-29 e 40-42, 2015.
42

em termos de Cibergraça, transforma a verdade em Cristo na “verdade” humana,


registrada pela esmagadora maioria de disseminação opinativa entre os contatos.

Eis a ética cristã sendo pisoteada pela informação e pela opção de rede.

Quem transforma e constrange o homem é a contínua ação do Espírito de


Deus, e não a criatura; entretanto, Silva afirma que é a rede na sua “realidade”
(Ciberteologia):

A internet é um fenômeno antropológico sociocultural, um ambiente de


comunicação e de relações, de prática da fé e da espiritualidade dos seres
humanos. Por ser um princípio ativo de transformação [grifo meu] da
sociedade e da história humana, a rede [grifo meu] é uma realidade que não
deve ser ignorada pela perspectiva teológica (Silva, 2015).

Tal afirmação se contrapõe à Palavra51: “E todos nós, com o rosto desvendado,


contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória
em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (2 Co 3:18).

Segundo a Cibergraça, a Ciberteologia afirma que a internet “é um lugar”:


Cristológico – onde “o Verbo se fez bit” (dígito binário em inglês; digital); Antropológico
- onde a humanidade pode realizar o seu chamado universal e Eclesiológico: onde a
rede “transforma”, definindo-a como lugar teológico.

Poucos são os teólogos que se importam com a ética cristã na internet, ou com
os perigos da Ciberteologia, dentre outros. Não restam dúvidas de que a tecnologia
muda o nosso modo de pensar, mas ao mesmo tempo exige uma maior atenção.
Segundo Farias52:

A própria teologia, que teve sua voz suprimida pela ciência moderna, hoje
reaparece como uma modalidade que novamente e paulatinamente tem se
tornado credível. Porém, ela experimenta de resquícios do avanço vivenciado
na filosofia da linguagem e da interpretação. (...) A teologia se coloca em
movimento constante entre dois polos: a verdade eterna e seu fundamento,

_________________________________________

51 BÍBLIA. 2 Coríntios 3:18. Op. cit., 1993.

52 FARIAS, André. Op. cit., pp 117-118, 2017.


43

e a situação temporal na qual a verdade eterna deve ser recebida (Farias,


2017).

A formação de opinião, a própria personalidade, a interpretação de laços


afetivos, a educação, a disseminação de cultura, o desenvolvimento social, político e
econômico, enfim, todas as atividades seculares que envolvem o homem no século
onde ele se encontra não podem ser maiores que o fundamento bíblico, isto é, maiores
que Deus. Talvez, adaptáveis a ponto de não contaminar o Evangelho que se prega,
e com intenção fora do centro de visão humana.

Não há elementos suficientes para afirmar que a Cibergraça53 tenha


sustentação bíblica:

A cibergraça com uma ponderação sobre internet na Bíblia, isto é, como


podemos, através de metáforas bíblicas [grifo meu], discernir a rede sob a
rocha firme da Palavra de Deus. (...) Trata do conceito de pessoa e de
comunhão e a importância deles no entendimento da internet como rede
mundial de pessoas e no modo em que a Trindade opera no mundo
contemporâneo. Também aborda a espiritualidade comunial [grifo meu]
que emerge da experiência humana no ciberespaço (Silva, 2015).

8.2 Ciberpecado (pecado estrutural da rede) e outras “ciberdefinições”

A Ciberteologia trata a rede como se viva fosse e a espiritualiza o tempo todo:

Em comparação com a estrutura da rede, é possível intuir [grifo meu] que


esses mesmos fios que sustentam o aspecto comunitário da rede estão
sendo “encorpados” por maldades e pecados pessoais, formando o pecado
estrutural da rede. Assim como as gorduras nas veias vão obstruindo o fluxo
no coração que mantém o corpo vivo, as ações iníquas na rede [grifo meu]
vão impedindo a rede de ser e de exercer seu dom [grifo meu], causando
rompimentos em vários pontos. (...) A rede está ganhando vida própria e se
mutando em uma criatura super-humana [grifo meu] (Silva, 2015).

Eu, analista de sistemas por formação, alerto que quando se ressalta a multidão
por qualquer meio eletrônico é perdido a referência aos seres humanos e ao individual,
tratando-os como meros nós de rede (vide capítulos 1.2 e 2). Por serem conexões
interligadas, é impossível comparar ilusões criadas no mundo digital ao homem
propriamente dito e suas relações. Logo, a Ciberteologia e outras ciberdefinições

_________________________________________

53 SILVA, Aline Amaro da. Op. cit., pp 50, 53 e 56, 2015.


44

trata-se de confusão por não distinguir o real do virtual, gerando doutrinas estranhas:
Eis uma doutrina estranha da Cibergraça: “A rede (internet) é dom de Deus.”.

Por fim, a Ciberteologia entende algumas passagens da Bíblia como sendo em


“linguagem simbólica”, carentes de significância, não se referindo explicitamente às
parábolas de Jesus, mas sim a uma conveniente “interpretação” bíblica54 para definir
e justificar sua base doutrinária na rede de computadores, tais como (Silva, 2015):

Onde abunda o ciberpecado, superabunda a cibergraça.

O Espírito Santo pode fluir pelo ciberespaço.

E o Verbo se fez bit.

Os computadores podem revelar [grifo meu] novas facetas da humanidade,


também ajudam a elaborar novas compreensões de Deus.

O ciberespaço é a interface onde Deus pode chegar até nós.

A internet é chamada [grifo meu] a ser uma ponte entre os seres humanos e
também entre Deus e os homens.

Surge o conceito de uma Igreja líquida, isto é, uma eclesiologia que segue as
correntes da Água Viva, a dinâmica do Espírito inserida na cultura líquida.

Evangelizar na rede é testemunhar com as fotos que são colocadas, com seu
sorriso, com a sua própria vida em Cristo.

A Igreja é instituição divina neste mundo real e existe numa localidade: é a


multiforme sabedoria de Deus, onde é manifesto os dons do Espírito Santo, sendo
formada por pessoas e relações entre elas que almejam Cristo Jesus, o Cabeça e
Dono. Já a rede, e em particular as redes sociais, não têm como se equiparar à Igreja,
pois é formada não por pessoas em um não lugar. Antes, a comunicação pela internet
apenas informa, mas se realizada de maneira presencial, transforma.

Eis o ide ético e cristão sendo valorizado e realizado de forma consciente e


intencional em Cristo Jesus.

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54 SILVA, Aline Amaro da. Op. cit., pp 66, 70, 74, 94, 96, 103 e 125, 2015.
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9 CONCLUSÃO

Herança aristotélica, na qual a ética é caracterizada pela perspectiva


teleológica – o fim, neste trabalho a ênfase recomendada é sobre aquilo que é bom,
de forma prática e objetiva: a deontotológica – o dever, de tal forma que o caráter e a
ética possam ser definidos à luz da obediência a uma norma: a ética cristã, deixando
de tratar, mas não porque seja menos importante, outros aspectos humanos e
subjetivos em relação ao assunto.

Fruto do avanço tecnológico, o nosso presente é mais amplo e informativo,


apesar de nos configurarmos numa sociedade mais efêmera e em constante busca
por vida, saúde, felicidade e pelo paradoxo de relacionamentos, com supressão do
sentimento de tempo, de distância e do presencial contato humano duma localidade.

O surgimento de novas mídias em novas tecnologias que permitem a interação


humana, também cria um novo paradigma de comunicação, regido pelas formas e
pelo conteúdo daquilo que se intenciona dialogar através da rede de computadores, e
em especial, através dos aplicativos de rede social.

Os computadores não são a maldição do namoro ou de outra forma de


“relacionamento” pela internet, muito menos os salvadores. Essa confusão tem
origens na credibilidade que se dá à forma como sendo uma condição existencial
manejada à luz da fluidez de conteúdo - típico da sociedade pós-moderna líquida.
Neste cenário, justificam-se as palavras “soli?ário”, onde o metacaracter “?” pode ser
um “d” ou “t”, e “est?tica”, onde agora o metacaracter “?” pode ser um “á” ou “é”.

Na era da informação acumulada pela tecnologia, não é possível dar conta do


volume de dados coletados pelos dispositivos que se controla, quanto menos
entabular essa informação no processo de dar-lhe um (novo) significado ou uma
(nova) significância. É o excesso de informação ao indivíduo solitário, que não sendo
tratado por sua continuidade no tempo, pode redundar: nalgum problema de saúde,
na nomofobia, na falta do ser solidário, e dentre outros, num problema teológico. Eis
que é necessário a conscientização acerca da informação disponível na internet à luz
da intenção daquilo que se faz com ela: um uso estático (firme na Rocha: ético e
cristão) ou estético (valorizado somente pela forma: líquida, aparente e efêmera).
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A mente humana foi planejada por Deus para que tivéssemos um número em
torno de 150 pessoas55 (número de Dunbar) que pudéssemos ter um relacionamento
significativo em nosso mundo social. Logo, a palavra “amigo”, tal como a entendemos,
é imprópria quando se refere a milhares de pessoas, seja na rede ou não.

A tecnologia pode até fornecer os meios para se informar à distância e


promover uma conexão, e talvez até comunicação, mas o presencial e geolugar não
devem ser suprimidos. A distância humana, enquanto consequência de afastamento,
é uma categoria moral, e para superá-la, é necessário a proximidade real e concreta.
Para isto ocorrer, em termos de uso ético na internet, é necessário o uso consciente
da rede, e, em termos de ética cristã, o uso consciente e intencional em Cristo Jesus.

Qualquer tecnologia nova abre uma nova área de fatalidades antes não
vivenciadas, carecendo de entendimento e de saberes. Tendo sido inventada e
construída a malha rodoviária, nossos antepassados também inventaram o desastre
de trânsito. Neste sentido, a conscientização pelo uso e intenção se fazem
necessários à vida: -De que forma dirigir, e como passar aos outros motoristas o
conteúdo de que é realizado um fluxo de trânsito seguro, senão pela conscientização
de direção de cada motorista que deve respeitar a lei de trânsito e sinalizações, à luz
da intenção do valer-se da estrada de forma ética e unicamente para se deslocar?

O fundamento da ética se encontra na capacidade de o ser humano dizer “eu


sou”. E isto é antes de tudo uma prerrogativa da consciência que é vista como ação
viva. Não existe, porém, a consciência isolada. A consciência é um fenômeno no meio
de uma sociedade de consciências. O sujeito, e não o meio, é considerado a PESSOA
MORAL, isto é, a pessoa capaz de responder à pergunta a respeito da vida e da ética.

Vive-se uma individualização do ser moral, que diante da responsabilidade de


decidir, é questionado pela magnitude da autossatisfação e de consumo. A sociedade
está em busca de contínua experiência pessoal, agregando em si uma flexibilidade
que rejeita marcos e a impede de ultrapassar um grau mínimo de comprometimento.

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55BAUMAN, Zygmunt; LYON, David apud DUNBAR, Robin. How Many Friends Does One Person
Need?: Dunbar's Number and Other Evolutionary Quirks. Cambridge: Harvard University Press, 2010.
Vigilância líquida, p 45. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
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Para o mercado potencializado pela rede, o indivíduo é visto como um


empreendimento genérico, carente de ser suprido em suas diversas necessidades.
Neste cenário, o indivíduo é reduzido a um “não-ser”: um cliente que paga pelo que
consome, enquanto satisfeito. Se insatisfeito, há outras maleáveis opções.

A vida comunicada pela internet deve ser ética. Deve-se saber com o que se
está lidando, e em termos de mensagem, quanto à forma e conteúdo. A
conscientização e intenção fazem parte do processo de comunicar, e, portanto, da
vida. Em se tratando de ética cristã, é necessário usar a rede como ferramenta e não
como arma no anúncio do Evangelho. Para evangelizar, faz-se necessário distinguir
o que é possível no ambiente real do virtual. A saber, não se encontram elementos
suficientes que garantam que as duas ordenanças de Jesus deixadas à Igreja possam
ser fielmente cumpridas na rede: o ide com batismo no Espírito de Deus e Santa Ceia.

Enquanto ferramenta de Evangelização é recomendado a informação da


Palavra no sentido que aponte para Jesus, e para que se congregue numa Igreja local,
com presencial discipulado e em comunhão, a fim de que o homem seja constrangido
e transformado pelo Espírito Santo. Doutra forma, é possível estar-se diante de uma
falha da ética cristã na rede, ou de uma ética cristã falha, permitindo a operação e
manutenção de doutrinas estranhas, tais como a Ciberteologia e a Igreja-Empresa.

A recomendação dada aqui não é definitiva, mas sim limitada. Antes, leva a
outros questionamentos que clamam por novas pesquisas nas áreas exatas, humanas
e biológicas. Tais respostas futuras desde já são bem-vindas, e como o aqui
postulado, primem pela forma clara e objetiva, não dando margem para que a Palavra
seja contaminada, ou, que potencialize um mover de doutrinas estranhas. A
conscientização e a intenção de se comunicar deve ser ética, sobretudo a
comunicação da Palavra de Deus deve respeitar a ética cristã, seja na rede ou não.
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