Você está na página 1de 76

Misael Montenegro Filho

-
AÇAO DE
,.,
INDENIZA AO NO
NOVO CPC
Como Propor a Ação
Como se Defender
Dinâmica do Processo

3. 4 EDIÇÃO Novo
Revista, atualizada e ampliada CPC
,....,

AÇAO DE 11'-1

INDENIZA AO NO
NOVO CPC
Como Propor a Ação
Como se Defender
Dinâmica do Processo
Atvoliz<Jdo <X
tXordo com o

3.a EDIÇÃO Novo


Revista, atualizada e ampliada CPC
AÇÃ~O DE
INDENIZAÇÃO NO
NOVO CPC
Grupo
Editorial - - - - - - - - - - - - - -
Nacional

O GEN I Grupo Editorial Nacional, a maior plataforma editorial no segmento CTP (cientí-
fico, técnico e profissional), publica nas áreas de saúde, ciências exatas, jurídicas, sociais
aplicadas, humanas e de concursos, além de prover serviços direcionados a educação,
capacitação médica continuada e preparação para concursos. Conheça nosso catálogo,
composto por mais de cinco mil obras e três mil e-books, em ww\v.grupogen.com.br.
As editoras que integram o GEN, respeitadas no mercado editorial, construíram catálogos
inigualáveis, com obras decisivas na formação acadêmica e no aperfeiçoamento de várias
gerações de profissionais e de estudantes de Administração, Direito, Engenharia, Enfer-
magem, Fisioterapia, Medicina, Odontologia, Educação Física e muitas outras ciências,
tendo se tornado sinônimo de seriedade e respeito.
Nossa missão é prover o melhor conteúdo científico e distribuí-lo de maneira flexível e
conveniente, a preços justos, gerando benefícios e servindo a autores, docentes, livreiros,
funcionários, colaboradores e acionistas.
Nosso comportamento ético incondicional e nossa responsabilidade social e ambiental
são reforçados pela natureza educacional de nossa atividade, sem comprometer o cresci-
mento contínuo e a rentabilidade do grupo.
Misael Mont enegro Filho

"'
AÇAO DE
INDENIZAÇÃO NO
NOVO CPC
Como Propor a Ação
Como se Defender
Dinâmica do Processo

3.a EDIÇÃO
Revista, atualizada e ampliada
• A EDITORA ATLAS se responsabiliza pelos vícios do produto no que conceme à sua edição (impressão e apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem
manuseá-lo e lê-lo). Nem a editora nem o autor assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente
obra.
Todos os direitos reservados. Nos termos da Lei que resguarda os direitos autorais, é proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio,
eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor.

Impresso no Brasil - Printed in Brazil

• Direitos exclusivos para o Brasil na língua portuguesa


Copyright © 2016 by
EDITORA ATLAS LTOA.
Uma editora integrante do GEN I Grupo Editorial Nacional
Rua Conselheiro Nébias, 1384- Campos Elíseos - 01203-904- São Paulo - SP
Tel. (11) 5080-0770 I (21 ) 3543-0770
faleconosco@grupogen.com.br I www.grupogen.com.br

• O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a
suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02. 1998).
Quem vender, expuser à venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depósito ou utilizar obra ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender, obter
ganho, vantagem, proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para outrem, será solidariamente responsável com o contrafator, nos termos dos artigos precedentes,
respondendo como contrafatores o importador e o distribuidor em caso de reprodução no exterior (art. 104 da Lei n. 9.6 10198).

• A 18 edição dessa obra se chamava Ação de indenização na prática.

• Capa: Danilo Oliveira


Produção digital: Geethik

• Fechamento desta edição: 09.06.20 16

• CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS RJ

M784a

Montenegro Filho, Misael

Ação de indenização no novo CPC : como propor a ação, como se defender, dinâmica do processo I Misael Montenegro Filho - 3. ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo:
Atlas. 2016.

Inclui Bibliografia
ISBN 978-85-970-0799-2

1. Direito. 2. Direito processual ciVil - Brasil. I. Título. 11. Série.

15-27411 CDU-347.91/.95(8 1)
Ao meu filho Pedro - já um rap02 - com inesgotável amor.
Obrigado, meu filho, por existir.
À minha filhinha Comi/a, com candura e profundo amor.
À Mônica, companheira de tantos anos.
Que venham muitos outros.
"Os melhores filmes foram feitos
com pedaços de vida - simplesmente"
(Charles Chaplin- discurso final do filme O grande ditador).
AGRADECIMENTOS

A todos os meus alunos, principalmente os do Curso Completo de Processo Civil, pelo estimulo que me deram de, dia após dia, cada 1:ez mais estudar, para que algo
lhes fosse transmitido.
Ao mestre e amigo Silvio Venosa, por todo o incentivo.
APRESENTAÇÃO

O instituto da Responsabilidade Civil, como ramo do Direito das Obrigações, deu um salto de quantidade e qualidade a partir da segunda metade do século passado.
Com o advento da Constituição Federal de 1988, a Responsabilidade Civil, como ciência, consolidou-se e ganhou status constitucional.
Proliferam as demandas com o objetivo de obter reparação por danos, máxime aquelas que buscam compensação por dano moral, expressamente assegurado na
Carta Magna.
Afirma-se que, atualmente, de cada três ações propostas uma tem por escopo a reparação de danos, mercê dos direitos assegurados, do alargamento do conceito de
cidadania e da conscientização das pessoas de que seus direitos devem ser respeitados e defendidos perante o Poder Judiciário.
De algum tempo a esta data, a partir do recrudescimento das pretensões indenizatórias, com a consagração da inviolabilidade dos direitos da personalidade e a
garantia de reparação do dano moral, a doutrina passou a produzir excelentes obras sobre o tema.
Aos clássicos de um período anterior, como Antônio Chaves, Aguiar Dias, Alv ino Lima, Agostinho Alvim, \Vilson Melo da Silva, Caio Mário, Silvio Rodrigues,
De Cupis, G. Viney, Lalou, Mazeaud, Josserand, Marton., Minozzi, Planiol, Ripert, Esmein, Demogue e tantos outros, j untaram-se os autores mais recentes, todos
abordando o direito substanti\·o, a luz da Magna Carta, do Código Civil ou da enorme gama de leis especiais.
A obra denominada Ação de indenização no novo CPC, que tenho a honra de apresentar, tem outro desiderato e vem para preencher uma lacuna até então existente.
Não havia, até o momento- com maior alento e especificidade -, estudo doutrilllário acerca do procedimento nas ações indenizatórias.
A proposta do autor é o aprofundamento das questões processuais que em·olvem a pretensão indenizatória em juízo.
O traballio que agora vem a lume volta-se para o estudo dos aspectos processuais das ações indenizatórias, dividido em cinco capitulos: 1 -Propositura da demanda
indenizatória; 2- Defesa do réu; 3 -Tramitação da demanda e fmalmente, 4 e 5 - Súmulas do STF e STJ, respectivamente, relacionadas a responsabilidade civil e a
ação de indenização por perdas e danos.
Todos os aspectos processuais relevantes são analisados.
São comentários de doutrina acerca do procedimento, pressupostos da ação, da competência, da legitimidade de parte, do pedido, da causa de pedir, do valor da
causa, da prescrição, das defesas possíveis do réu, inclusive as causas de exclusão da responsabilidade, da audiência, da prova e de tantas outras questões, divididas
cientificamente e esmiuçadas com profundidade.
É, sem dúvida, um guia e um norte seguro posto à disposição dos leitores, redigido com simplicidade, em português escorreito e rigor cientifico e assentado na
mellior doutrina.
Conheci o jovem advogado Misael Montenegro Fillio em março de 2000, no Encontro Nacional de Responsabilidade Civil, por ele organizado e coordenado, como
representante da Escola da Advocacia, realizado em Recife, quando ti\·e a honra de dividir a conferência de abertura com o notável professor Sílvio Rodrigues.
Surpreendeu-me a sua capacidade de organização e de atrair um público significativo para o evento que dirigiu. Aquele evento e outros que organizou
posteriormente foram coroados de sucesso.
Surpreenderam-me, mais ainda, o seu profissionalismo e a sua postura ética no trato com as pessoas e no exercício da advocacia.
É, sem dúvida, um dos profissionais do Direito mais bem-sucedidos de Pernambuco, mas não se prevalece desse status, posto sin1ples e cavalheiro.
Porém, o que preponderou e mais influenciou para a admiração que tenho pelo caro amigo Misael foi o seu amor ao Direito, a fidelidade aos princípios e a devoção
ao instituto da Responsabilidade Civil, aliados aos conhecimentos que detém do Direito Processual Civil.
A frase que collio no prefácio do seu livro da a dimensão do seu caráter, quando disse.: "para alem da norma existe uma pessoa, que com o processo sofre, que com
ele se angustia".
Não se opera o Direito sem considerar as pessoas que participam da relação processual. Não se defende uma causa sem se indignar, emocionar e envolver-se. O
profissional não se diminui, nem se apequena pelo só fato de se converter em amigo do seu cliente. O segredo é perseverar, acreditar no que faz, \·alorizar e respeitar o
ser humano, ainda que, circunstancialmente, este ser esteja do lado contrário da demanda.
Esse é o perfil do profissional que apresento, agora oficializando e tornando pública sua \·ocação de j urista.
Aqueles que se iniciam nessa longa e difidl jornada devo alertar de que não somos o que pensamos ou falamos; somos o que fazemos; o reflexo e a projeção da
nossa conduta e da nossa obra.
Caro amigo Misael, tenha sempre em consideraç.ão as palavras de Goethe: "Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança a força
de sua alma, todo o universo conspira a seu favor!"

RuiStoco
PREFÁCIO

Muito se escreveu e muito ainda e escrito sobre a teoria da responsabilidade ci\·iJ, com justiça, já que essa teoria vem sendo utilizada para fundamentar as inúmeras
ações indenizatórias propostas pelas supostas vítimas de atos ilicitos.
A doutrina nacional e a estrangeira vêm amparando profissionais que se empenham na árdua tarefa de atuar nas ações indenizatórias, devendo ser ressaltado que a
doutrina, assim como a j urisprudência, exerce importante papel no tocante à fundamentação dessas ações, considerando que o tratamento legislativo relacionado à
materia e insuficiente.'
Embora estudemos as normas que integram a lei material, a respeito da responsabilidade civil, a obra tem foco maior nos aspectos processuais das ações
indenizatórias.
Não é raro vermos ações sendo julgadas pela improcedência dos pedidos, quando o direito era tão evidente, algumas extintas sem a resolução do merito, em
decorrência de um defeito de formação da relação processual (manifesta ilegitimidade da parte ou carência do interesse processual, por exemplo), ou porque o
advogado de uma das partes deixou de praticar algum ato que seria determinante para o sucesso da ação.
Penalizado fica o constituinte, aquele que chamamos, num linguajar próprio, de j urisdicionado, que não entende absolutamente nada das explicações que llie são
repassadas, não compreendendo o motivo de não ter obtido êxito.
No Capítulo 1, preocupamo-nos com os que se encarregam do árduo traballio de redigir a petição inicial das ações indenizatórias, ou seja, com os autores,
destacando as exigências legais que devem ser observadas pelos profissionais, incluindo o estudo dos requisitos gerais e dos requisitos especfficos, com destaque para o
dano, o ato do agente e o nexo de causalidade.
No Capítulo 2, preocupamo-nos com os profissionais que redigem as contestações em ações de indenização por perdas e danos, que podem arguir uma ou mais
excludentes de responsabilidade, na tentativa- por vezes desesperada - de se. livrar do dever de indenizar.
No Capitulo 3, estudamos a dinâmica da ação de indenização por perdas e danos, que tem as suas peculiaridades, que não poden1 ser desprezadas pelos que, de um
lado e do outro, estão envolvidos com esse tipo de ação.
No encerramento de cada capítulo, apresentamos breve resumo, com a intenção de reforçar as principais ideias.
Alem das considerações relacionadas ao direito material, estudamos as prirlcipais normas processuais aplicáveis á matéria, num momento muito oportuno,
considerando a vigência do novo Código de Processo Civil, com destaque para a pre\'isão de realização da audiência de tentativa de conciliação ou da sessão de
mediação em quase todos os processos (art. 334), de que o réu só pode contestar, não sendo mais admitida a proliferação de incidentes processuais, como a impugnação
ao valor da causa e a exceção de incompetência relativa, da possibilidade de o magistrado im-erter o ônus da prova em todas as ações, e tantas outras técnicas que
podem ser adotadas nas ações de indenização por perdas e danos.
Este lino foi escrito com amor; amor ao direito e à teoria da responsabilidade civil, não de uma forma puramente filosófica, mas atento ao fato de que essa teoria
embasa a maioria das ações que são propostas no paJS.
Dizem que essas ações representariam mais de 50% das causas que tramitam na Justiça Brasileira, muito em decorrência de filosofia importada dos Estados Unidos,
onde tudo - ou quase tudo -gera pedidos indenizatórios, algumas vezes completamente desproporcionais (em termos de valores) ao dano sofrido.
Não conhecemos, realmente, a exatidão desse percentual, mas podemos aflllllar sem hesitação que é inegavelmente expressivo, o que atesta a esperada utilidade
deste lino. Devemos sempre ter em mente, quando estudamos a teoria da responsabilidade civil, que, ao falarmos em dano, em ato do agente e em nexo de causalidade,
não podemos esquecer que a ação indenizatória apresenta uma vítima, de um lado ou do outro (o autor, por ter sofrido as consequências do ato ilícito, ou o réu, que está
sendo injustamente acusado da pratica desse mesmo ato), que nada mais e do que um ser humano, que merece especial atenção.
Fazemos essa advertência porque o Direito, como ciência, às vezes e aplicado friamente, esquecendo-se os magistrados, os promotores, os advogados e os
defensores públicos, principalmente, de que para além da norma existe uma pessoa, que com o processo sofre, que com ele se angustia.
Assim como o fizemos em outras ocasiões semelliantes, di\·idimos este trabalho com os membros da comunidade jurídica, esperando que sin·a aos que - de modo
serio- estudan1 a teoria da responsabilidade civil não como partícula do Direito, uma gota no oceano, mas como instrumento fundamental para o alcance da Justiça, na
maioria das vezes em prol dos menos favorecidos, vale dizer, das vítin1as de atos ilicitos.

O Autor

Basta dizer que-o CC praticamente. só se preocupou com o tema em seu art. 186, a CF, nos incisos V e X do art. Se, art. 24, inciso WI, art. 37, arts. 225 ss, alêm de outro$ poucos
dispositivos previstos em legislação esparsa, com destaque para os arts. 12 e 14 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor.
SUMÁRIO

Lista das principais abreviaturas

1 Ajuizamento da ação de indenização por perdas e danos


1.1 Considerações gerais
1.2 Competência
1.3 Nome e qualificação das partes
1.4 Rito do processo
1.5 Ajuizamento da ação pelo denominado pobre nafonna da lei
1.6 Legitimidade ativa
1.7 Legitimidade passiva
L8 Fundamento jurídico do pedido
1.9 O pedido com as suas especificações
1.10 Valor da causa
L 11 Provas a serem produzidas
1.12 Prescrição

2 Defesa do reu
2.1 Considerações gerais
2.2 Preliminares do art. 33 7 do CPC
2.2.1 Incompetência relativa ou absoluta do juízo
2.2.2 Incorreção do valor da causa
2.2.3 Inépcia da petição inicial
2.2.4 Coisajulgada
2.2.5 Conexão
2.2.6 Convenção de arbitragem
2.2. 7 Ausência de legitimidade ou de interesse processual
2.2.8 Indevida concessão do beneficio de gratuidade de j ustiç.a
2.3 Prescriç.ão e de.cadência
2.4 Excludentes de responsabilidade
2.4.1 Culpa exclusiva da vitima
2.4.2 Fato de terceiro
2.4.3 Caso fortuito ou de força maior
2.4 .4 Estado de necessidade

3 Dinâmica da ação de indenização por perdas e danos


3.1 Considerações gerais
3.2 Designação da audiência de tentativa de conciliação ou da sessão de mediação
3.3 Saneamento do processo
3.4 Produção da prova pericial
3.5 Designação da audiência de instrução e julgamento

4 Súmulas do STF relacionadas à responsabilidade civil e á ação de indenização por perdas e danos

5 Súmulas do STJ relacionadas á responsabilidade civil e à ação de indenização por perdas e danos

Referências
LISTA DAS PRINCIPAIS ABREVIATURAS

ADI- Ação Declaratória Incidental


Ag-Agravo
Ap.- Apelação
art. - artigo
Câm. -Câmara
CC- Código Civil
CComp - Conflito de Competência
CDC -Código de Defesa do Consumidor
CDPriv- Câmara de Direito Privado
cit. - citada
Cód. - Código
CP - Código Penal
CPC- Código de Processo Civil
CPP - Código de Processo Penal
D -Decreto
Des. - Desembargador
DJU- Diário da Justiça da União
DOE- Diário Oficial do Estado
E!- Embargos Infringentes
EmentSTJ- Ementário da Jurisprudência do STJ
ENTA- Encontro Nacional de Tribunais de Alçada
EOAB -Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil
j. -julgado em
JCCTJRS- Jurisprudência das Câmaras Cíveis do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul
JEC- Juizado Especial Cível
LINDB- Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro
LPS - Lei da Previdência Social
Min. -Ministro
OAB -Ordem dos Advogados do Brasil
p. -pagina
p. eK. -por eKemplo
priv.- privado
RBDP - Revista Brasileira de Direito Processual
RE - Recurso EKtraordinário
Recdo - Recorrido
Recte- Recorrente
ReL - Relator
REsp -Recurso Especial
RJSTJ - Revista de Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça
RJTJRS- Revista de Jurisprudência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul
RJTJSP- Revista de Jurisprudência do Tribunal de Justiça de São Paulo
RT - Revista dos Tribunais
SLlvlP - Simpósio de Direito Processual Civil, realizado em Curitiba, em outubro de 1975
STF - Supremo Tribunal Federal
STJ- Superior Tribunal de Justiça
T.- Turma
TA - Tribunal de Alçada
TARS - Tribunal de Alçada do Rio Grande do Sul
TJRS - Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul
TJSP -Tribunal de Justiça de São Paulo
v.g. - verbi gralia
1

AJUIZAMENTO DA AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR PERDAS E DANOS

SUMÁRIO: 1.1 Considerações gerais - 1.2 Competência - 1.3 Nome e qualificação das partes - 1.4 Rito do processo - 1.5 Ajuizamento da ação pelo
denominado pobre na forma da lei - 1.6 Legitimidade ativa - 1.7 Legitimidade passiva - 1.8 Fundamento jurídico do pedido - 1.9 O pedido com as suas
especificações- 1.10 Valor da causa - 1.11 Provas a serem produzidas - 1.12 Prescrição.

1.1 CONSIDERAÇOES GERAIS

Vários autores afirmam que a petição inicial é o ato mais importante do processo, no que toca ao autor, por delimitar os denominados elementos da ação (partes,
causa de pedir e pedido), dando ensejo à prática de todos os demais atos processuais, incluindo a contestação, as audiências, a sentença, os recursos e os atos
executivos, praticados na fase de cumprimento da sentença.
E por isso que o autor deve se cercar de cautelas, ao redigir a petição inicial, preocupando-se em preencher os requisitos relacionados no art. 319 da non lei
processual, que são gerais, além dos específicos. Nas ações de indenização por perdas e danos, para aqueles que conhecem a teoria da responsabilidade civil, o
adYogado que representa o autor deve redobrar os cuidados, demonstrando a coexistência do dano, do ato do agente e do nexo de causalidade, que são os requisitos
específicos desse tipo de ação, protegendo-se da arguição de matérias de defesa, que costumam se centrar nas excludentes de. responsabilidade (fato de terceiro, caso
fortuito ou de força maior, culpa exclusiva da vilima etc.).
Todas as ações de indenização por perdas e danos exigem a comproYação do preenchimento dos requisitos específicos destacados em linhas anteriores,
independentemente da natureza do dano que as fundamenta, o que significa dizer que os requisitos devem ser preenchidos em ações decorrentes do alegado erro
médico, de vícios de construção, de acidentes de veículos, da indevida devolução de cheque por instituição bancária, apenas para exemplificar.
Além disso, e como regra, o êxito da ação de indenização por perdas e danos exige a comprovação da culpa do réu, em sentido amplo, abrangendo o dolo (\'ontade
intencional de praticar o ato) e a culpa e.strito senso, nas variantes da imprudência, da negligência e da imperícia, já que a ação em exame é como regra disciplinada pela
denominada teoria subjetiva, prevendo a lei (Código Civil, Constituição Federal e leis esparsas) situações em que se adota a teoria objetiva, liberando o autor do ônus
da pro\·a no que se refere a compro\·ação da culpa do réu, o que certamente facilita a postulação.
Nas linhas seguintes, destacamos os cuidados que devem ser adotados pelo profissional encarregado da re.dação da petiç.ão inicial, não apenas com base na lei (leia-
se: nas nom1as que integram o novo CPC), como também nas lições da doutrina e nos precedentes jurisprudenciais.

1.2 COMPETÊNCIA

Em primeiro lugar, ao redigir a petição inicial, é importante definir o juízo competente para processar e julgar a ação de indenização por perdas e danos,
principalmente porque a distribuição equivocada pode justificar a arguição da incompetência relativa ou absoluta,. como preliminar da contestação (inciso li do art. 337
do no\·o CPC), resultando no encaminhamento dos autos ao juízo competente, se a incompetência for reconhecida (§ 3•• do art. 64), o que naturalmente representa
perda de tempo.
A competência é fixada por exclusão. Por essa razão, inicialmente, o autor deve \·erificar se não seria hipótese de competência da Justiça Fe-deral, o que se confirma
quando a ação envolve a União Federal, autarquia federal (como o Banco Central) ou empresa publica federal (como a Caixa Econômica Federal, a Empresa Brasileira
de Correios e Telégrafos e a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária), na condição de autora, ré, assistente ou oponente, com base. no inciso I do art. 109 da
CF, que ten1 a seguinte redação:

"Art. 109. Aos juizes federais compete processar e julgar: 1- as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na
condiç.ão de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, .as de acidentes de trabalho e as sujeitas a Justiça Eleitoral e a Justiça do Trabalho;
omi.ssi.s."

O paràgrafo unico do art. 51 da nova lei processual prevê que, se a União for a demandada, a ação poderá ser proposta no foro de domicílio do autor, no de
ocorréncia do ato ou fato que originou a demanda, no de situação da coisa ou no Distrito Federal.
A competência da Justiça Federal é absoluta, sendo inderrogável pela vontade das partes. Por conta disso, se o autor ajuizar a ação de indenização por perdas e
danos contra qualquer das pessoas jurídicas de direito público anteriom1ente mencionadas na justiça e.stadual, o magistrado pode e deve reconhecer a sua incompetência
de oficio, encaminhando os autos ajustiça federal (§ I• do art. 64 do novo CPC).
Na relação constante do inciso I do art. 109 da CF não encontramos as sociedades de economia mista, como o Banco do Brasil, por exemplo. Por essa razão, as
ações de indenização por perdas e danos propostas por ou contra essas sociedades de\·em ser ajuizadas na justiça comum estadual, nos tem1os da Sumula 42 do STJ
(Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar as causas cíveis em que é parte sociedade de economia mista e os crimes praticados em seu detrimento), regra
extensiva âs entidades paraestatais, como o SerYiço Social do Comércio (Sesc) e o SerYiço Social da lndustria (Sesi), com base na orientação da Súmula 516 do STF.'
Contudo, se a União Federal intervier nessas ações, afirmando ter interesse no processo, este deve ser imediatamente encaminhado para a Justiça Federal, que
ratificara- ou não - a existência de interesse que j ustifique a tramitação da ação perante a Justiça Federal.'
Sobre a competência da justiça estadual para processar e julgar ações que envolvem sociedade de economia mista, reproduzimos o seguinte j ulgado, que reforça a
orientação da Sumula 42 do STJ:
"CONFLITO DE COJ.\·fi>ETÊNCIA. ELETROBRÁS. AÇÃO AJUIZADA CONTRA A SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA. AUSÊNCIA DOS El'iTES
ELENCADOS NO ART. 109, I, DA CF. SÚMULA 42iSTJ. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL. Na linha de orientação desta Corte Superior, em
regra, a competência da Justiça Federal é fixada em razão da pessoa (CF, art. 109, !), sendo irrele\·ante a natureza da lide. A ação ordinária foi proposta apenas
em face da Eletrobrãs, sociedade de economia mista, não ha\·endo, portanto, interesse de nenhum ente descrito no art. 109, I, da CF, no presente fe.ito, devendo
ser julgada pela Justiça Comum Estadual, no exato teor da Súmula n• 42 deste Superior Tribunal de Justiça. Agravo regin1ental improvido" (AgRg no CC
76015/RJ 2006/0253520-1- STJ).

Não sendo hipótese de competência da justiça federal (repita-se: porque a ação :não envolve a União Federal, empresa publica federal ou autarquia federal), o autor
deve examinar se a competência é da justiça do trabalho, igualmente de natureza absoluta, por força do inciso VI do art. 114 da CF, que tem a seguinte redação:

"Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar: Omissis; VI- as ações de indenização por dano moral ou patrin10nial, decorrentes da relação de
trabalho; omissis."

A ação de indenização por perdas e danos da competência da justiça do trabalho pode ser proposta por empregado contra empregador, por ex-empregado contra ex-
empregador, por empregador contra empregado ou por ex-empregador contra ex-empregado, podendo decorrer do assédio moral, do assédio sexual, da discrin1inação,
de ofensas dirigidas ao empregado, do fato de o empregado re>;elar planos empresariais para empresa concorrente, e de várias outras situações analisadas pelos
tribunais, como:

(a) Responsabilidade civil decorrente da restrição para o uso do banheiro, como percebemos pela leitura do seguinte julgado: "ASSEDIO MOR....<\L. RESTRIÇÃO
AO USO DO BANHEIRO. CARACTERIZAÇÃO. Embora se reconheça a possibilidade de serem introduzidas no ambiente de trabalho modernas técnicas de
incentivo à produção, mostra-se abusiva a atitude do empregador em restringir o uso do banheiro por empregados, quando não se identifica, por parte destes,
abuso nas ausências ao posto de trabalho. Registre-se que a NR-17, anexo 11, item 5.7, do Ministério do Trabalho e Emprego- MTE, ao tratar da organização do
trabalho para as atividades de teleatendimento!telemarketing dispõe que, 'com o fun de pemlitir a satisfação das necessidades fisiológicas, as empresas devem
permitir que os operadorecs saiam de seus postos de trabalho a qualquer momento da jornada, sem repercussão sobre suas avaliações e remunerações'. À luz
dessas premissas, esta Corte Superior tem adotado o entendimento de que a restrição imposta ao empregado para uso do banheiro acarreta ofensa á sua
dignidade. Precedentes. Agravo de instrumento a que se nega provimento" (ARR 2518600-44.2009.5.09.0015, 4' Tum1a do TST, Relatora Desembargadora
Convocada Cilene Ferreira Amaro Santos, DEJT 22.3.2016).
(b) Responsabilidade civil decorrente obrigação imposta à trabalhadora de rebolar enquanto cantava o hino motivacional, como percebemos pela leitura do seguinte
julgado: "INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. HINO MOTIVACIONAL. Conforme se extrai do acórdão regional, a reclamante tinha que cantar e rebolar
enquanto era entoado o hino motivacional exigido pela reclamada, o que causava constrangimento na reclamante, razão pela qual é devido à reparação pelo
dano moral suportado pela obreira. Recurso de rev ista conhecido e provido" (ARR 467-69.2012.5.09.0652, 2' Turma do TST, Rei. Min. Delaide Miranda
Arantes, DEJT 22.3.2016).

Inicialmente, a jurisprudência hesitou quanto à fixação da competência em ações en1 que ex-empregado pleiteava indenização por danos morais contra ex-
empregador, por fatos ocorridos após o rompimento do vinculo, chegando o Superior Tribunal de Justiça a firmar o entendimento de que a ação não teria qualquer
vinculação com o contrato de trabalho'
Posteriormente, a jurisprudência conflfmou a competência da Justiça do Trabalho em situações como a indicada em linhas anteriores, entendendo que, mesmo
quando a ação tem fundamento em fato ocorrido após o rompimento do contrato de trabalho, a competência da Justiça do Trabalho persiste, pois abrange matéria
relacionada ao contrato de trabalho.'
Como percebemos, num primeiro momento, o auior deve observar quem participará da ação, e, além disso, qual a origem do litígio, para definir se a
competência é d.a justiça federal ou da justiça do trabalho. Não sendo o caso, resid.ualmente, a competência é atribuída à Justiç.a Comum Estadual, em funcionamento
em iodos os estados da federação.
Embora já tenha ciência de que a ação de indenização por perdas e danos terá curso pela justiça comum estadual, o autor deve identificar qual delas detém
competência para j ulgar a sua questão, sobretudo quando o fato que motiva a instauração do processo ocorreu num determinado estado, enquanto que ele e o réu
residem em outros estados, diferentes daquele. Essa identificação depende do exame de normas inseridas na lei processual.
Nesse sentido, é importante destacar que a ação de indenização por perdas e danos e fundada em direito pessoal, em principio obrigando o autor a ajuizã-la no foro
de domicílio do réu, nos termos do art. 46 do novo CPC, que tem a seguinte redação:

"Art. 46. A ação fundada em direito pessoal ou em direito real sobre bens móveis serã proposta, em regra, no foro de domicílio do réu. § l o Tendo mais de um
domicílio, o réu será demandado no foro de qualquer dele.s. § 2• Sendo incerto ou desconhecido o domicilio do réu, ele poderã ser demandado onde for
encontrado ou no foro de domicilio do autor. § 3° Quando o réu não tiver domicílio ou residência no Brasil, a ação será proposta no foro de domicilio do autor,
e, se este também residir fora do Brasil, a ação serã proposta em qualquer foro. § 4° Havendo 2 (dois) ou mais réus com diferentes domicilias, serão
demandados no foro de qualquer deles, à escolha do autor. § soA execução fiscal serã proposta no foro de domicílio do réu, no de sua residência ou no lugar
onde for encontrado."

A norma reproduzida é considerada geral, existindo exceções, pensadas em atenção ao autor, repousando na alinea a) do inciso IV e no inciso V do art. 53 do novo
CPC. Vale destacar também a Sumula 540 do STJ, que assim dispõe: "Na ação de cobrança do seguro DPVAT, constitui faculdade do autor escolher entre os foros do
seu domicilio, do local do acidente ou ainda do domicilio do réu."
A primeira norma permite a propositura da ação de indenização por perdas e. danos perante o foro do lugar do ato ou fato, enquanto que a segunda prevê que o
autor pode ajuizar a mesma ação perante o foro do seu domicílio ou do local do fato, quando a ação decorrer de dano sofrido em razão de delito ou acidente de veiculas,
com a ressalva de que o novo CPC incluiu os acidentes de aeronaves na norma Que versa sobre a competência. anteriormente restrita a acidente.s de veículos de via
terrestre.
O foro do lugar do ato ou fato é o local em que a lesão sofrida pela vitima se consumou, onde produziu os seus efeitos. A questão é facilmente visualizada quando
pensamos nas ações de indenização por perdas e danos decorrentes de publicações veiculadas na internet, com propagação no mininto nacional.
Nesse caso, a jurisprudência entende que o foro competente e o do local en1 que as pessoas prejudicadas residem e exercem atividade laborativa, onde a lesão
produz efeitos, atingindo a esfera ex1rapatrimonial das \'Ítimas'
Quanto à responsabilidade decorrente da frustração da realização de negócio j uridico, os tribunais entendem que o local do ato ou fato, para fins da flxaç.ão da
competência, e o local da negociação, não o da restituição do bem, como percebemos pela análise do seguinte julgado: "AGR..<\VO DE INSTRUN!ENTO. AÇAO DE
RESTITUIÇ.ÀO DE VALOR CUMI.J"LADA COM IN"DENIZAÇÃO POR DANO MATERIAL E RESCISÃO DE CON"TR.>\TO. SEMOVENTE. EXCEÇÃO DE
INCOMPETÊNCIA. Considerando a regra geral contida no artigo 94, do CPC (art_ 46 do CPC/2015), o foro competente para o ajuizamento da ação e em Atibaia!SP,
foro de domicilio do réu e aplicando a regra do art. 100, inc. V, alinea 'a', do CPC (art. 53, inciso IV, alinea 'a', do CPC/2015), na qual estabelece a competência do
foro do lugar do ato ou fato, deve ser entendido como o local em que a neg(J)ciação ocorreu, ou seja, em Atibaia!SP. Ainda que a negath·a de restituição do
semovente tenha ocorrido, inicialmente, em Passo Fundo!RS, as tratativas de devolução do animal foram na cidade Atibaia, o que permite a declinação para esta
comarca. NEGAR.>\M PROVIMENTO AO AGRAVO DE INSTRUN!ENTO" (Agra\·o de Instrumento 70066517780, 19, Cãmara Cível do TJRS, Rei. Des. Eduardo
João Lima Costa,j. 17.12.2015) (grifamos).
Esse foro é de opção, aplicando-se exdusi\'amente à responsabilidade e.xtracontratual (o que significa que, se a ação se fundamenta na responsabilidade contratual,
o foro competente e o da sede., para a ação em que a ré é pessoa jurídica, ou o do domicílio do réu, se a ação é proposta contra pessoa flsica ou natural)' , razão pela qual
o autor pode ajuizar a ação perante o foro de domicilio do réu (foro geral), segundo orientação pacifica da jurisprudência, consolidada na vigência do CPC/73, que, ao
que parece, não será modificada na vigência do no\·o CPC, por não ser incompatível com as suas normas.
No interior do foro (sinônimo de comarca), o autor de\'e identificar o juizo (sinônimo de vara) para o qual endereçará a sua ação {Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da
Vara Civel da Comarca do Recife, apenas para exemplificar), o que depende da anãiise do código ou da lei de organização j udiciãria, que vigora em cada estado da
federação.
Em termos gerais, se a ação for proposta contra pessoa natural ou pessoa jurídica de direito privado, deve ser distribuída para uma Vara Cínl. Contudo, quando
ajuizada contra o Estado, empresa pública estadual ou autarquia estadual, ou o Mumicípio, empresa pública municipal ou autarquia municipal, de.ve ser distribuída para
uma Vara da Fazenda Estadual ou da Fazenda Munic.ipal, prevendo alguns Códigos ou Leis de Organização Judiciária que essa competência é dos Juizados
Especiais da Fazenda Pública, como a Lei n' 5. 781, de I' de julho de 20 I O, que vigora no ãmbito do Estado do Rio de Janeiro, desde que o valor da causa seja igual ou
inferior a 60 {sessenta) salãrios minimos'
Determinados Estados mantêm a competência da Vara da Fazenda Estadual ou Municipal {quando a competência não for dos Juizados Especiais Cíveis) mesmo
quando a ação é proposta contra o de.nominado pobre na forma da lei,' afastando a competência da Vara da Assistência Judiciãria, quando existente na Comarca, sem
prejuízo da manutenção do benefício em favor do autor.
Com fundamento na doutrina e na j urisprudência, muitas ações de indenização por perdas e danos têm sido propostas por esposas contra maridos, por companheiras
contra companheiros, e vice-\·ersa, por filhos contra seus pais, nas quais os autores solicitam a condenação dos réus ao pagamento de indenização por danos morais
resultantes da infidelidade conjugal, da contaminação pelo vírus HlV, do abandono afetivo (falta de amor), e tantas outras questões extremamente interessantes do
ponto de \·ista jurídico.
Apenas como exemplos, cun·ados na jurisprudência, destacamos algumas dessas situações:

a) Da que envolve o ajuizamento de ação de indenizaç:ão por perdas e. danos por marido contra a esposa, decorrente da descoberta de que os filhos que reputava
serem seus foram concebidos em relações ex-traconjugais. Vejamos julgado ilustratÍ\'o: "APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE REPAR.<\ÇAO DE DANOS
INDENIZAÇ.ÀO - RELACION&v!ENTO EXTR.<\CONJUGAL - FILHO CONCEBIDO DUR.<\N"TE O CASAiV!ENTO - 0!\flSSÃO QUAN"TO A
INEXITÊNCIA DE VINCULO BIOLÓGICO COM O CÔNJUGE QUE O REGISTROU - VIOLAÇAO AO DEVER CONJUGAL DE FIDELIDADE -
DANO MOR.-\1 CO:Nr!GURADO - INDENIZAÇÃO DE\11DA. - A relação extraconjugal vivida pela ré e a omissão quanto à inexistência de vinculo
biológico entre o autor e os filhos concebidos durante o casamento, que acreditava serem seus, e\'idenciam a quebra do dever conjugal de fidelidade previsto no
inciso I do artigo 231 do Código Civil, então \·igente à época da celebração do casamento das partes, que se repete no atual Código Civil, no inciso I de seu
artigo 1.566. -É certo que o relacionamento extraconj ugal pela ré causou ao autor abalo moral, pois atingiu a sua honra e os seus sentimentos mais intimes
relacionados à lealdade, sinceridade e de honestidade, que devem existir no casamento. Além de gerar angústia, desespero, indignação e incerteza quanto à
manutenção do laço afetivo construido com os filhos, com os quais não possui vinculo biológico" (Apelação Cívell.0245.09.169901- 8/001, TJMG).
b) Da que em·olve o ajuizamento de ação de indenização por perdas e danos pela esposa contra o marido, fundada na alegaç.ão de infidelidade, tendo sido julgada
improcedente, por ter sido considerado que a autora perdoou tacitamente o marido, \·ivendo com ele por mais dois anos, após ter descoberto a traição. Vejamos
julgado sobre a questão: "APELAÇ.ÀO CÍVEL - AÇAO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS !vfOR.>\IS - !!\'FIDELIDADE - CIÊNCL<\ DA OFENDIDA -
FILHO HAV1DO FOR.<\ DA RELAÇÃO ESTÁVEL- PROSSEGUIMEi'ITO DA \llDA EM COMUM- PERDÃO TÁCITO E EXPRESSO- DANO
MOR..-\1 NAO CONFIGUR.WO- INDENIZAÇÃO INDEVIDA. A prática de adultério por qualquer dos cônjuges gera tão-somente a dissolução da sociedade
conjugal, com os seus reflexos. Quando ocorre o perdão por parte do cônjuge ou companheiro não culpado, não há falar em indenização por dano moral à parte
supostamente ofendida. Na hipótese dos autos, em que a requerente, após o conhecimento da infidelidade do companheiro, viYeu por mais dois anos em sua
companhia e declarou em audiência tê-lo perdoado, buscando a continuidade da sociedade conjugal, não há que se falar em dano moral decorrente de
adultério" (Apelação Civel l.071308086870-4f003, TTh.fG).
c) Da que envolve o ajuizamento de ação de indenização por filho contra os pais, decorrente de abandono afetivo. Vejamos j ulgado sobre essa questão tão
interessante: "APELAÇ.ÀO CÍVEL - AÇAO DE INDENIZAÇ.ÀO POR DANOS MOR.<\IS - ABANDONO AFETIVO - ILICITUDE POR OMISSAO -
COMPENSAÇAO POR DANOS MOR.<\IS- POSSIBILIDADE. !. Com fulcro na dignidade da pessoa humana, consagrada na CR/88, ha que se condenar os
pais negligentes ao pagamento de indenização com o escopo de firmar responsabilidades da ação volitiva de se conceber uma criança, mesmo sendo tal ato
advindo de uma situação não planejada ou até mesmo daquelas em que não há relação marital entre os genitores. 2. É inconc.ebivel a ideia de deixar os filhos à
derh·a pelo mundo, abandonados à sua própria sorte, prh·ando-os de cuidados necessários a um desem·olvimento sadio, garantido pelo nosso ordenamento
jurídico. Alguns papéis são insubstituíveis e indelegáveis: os de pai e mãe ·são bons exemplos disso. Pai e mãe são apenas rótulos, quando não se dedican1 ao
papel imposto a eles por meio legal. 3. É imperioso ressaltar que varias decisões já foram proferidas pelos tribunais com base no argumento de que não se pode
impor a obrigação de amar. Seria impossível realmente tal imposição. No entanto, tais julgadores se esquecen1 de que amor e um sentimento aprendido.
Ninguém nasce amando os pais, os irmãos ou a natureza, dai a imponância do convivio. Por isso o absenteismo de um pai é tão perverso na vida do filho, uma
vez que este foi privado de aprender a amar. Por outro lado, há de se imputar uma pena a essa conduta moralmente reprová\·eL 4. Em consonância com o
Superior Tribunal de Justiça, no voto da Ministra Nancy Andrighi, é possivd pleitear indenização por danos morais quando há comprovação de que a imposição
legal de cuidar da prole foi descumprida, ocorrendo ilicitude ch·il sob a forma de omissão» (Apelação Cível n' 1.0628.13.001301-2/001, TJMG).

Em qualquer caso, entendemos que a competência para processar e julgar a ação de indenização por perdas e danos que envolva questão de família é da Vara de
Família, pois resulta do alegado descumprimento de deveres matrimoniais (fidelidade, mútua assistência, respeito mútuo etc.) ou de deveres dos pais para com os seus
filhos (educação, guarda sustento etc.), representando matéria especializada, que de\'e ser dirimida por j uízos igualmente especializados.
Quando a ação decorre de relação de consumo, envolvendo consumidores e fornecedores (alienantes de mercadorias ou prestadores de serviços), a jurisprudência é
atenta ao art. 51 do CDC, que pre\•ê como nulas de pleno direito, ,·ale dizer, nulidade in absrracto, dentre outras, as cláusulas que estabe/$çam obrigações consideradas
iníquas, abusilias, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fo ou a equidade.
A doutrina especializada reconhece como válida a cláusula de eleição de foro inserida em contratos de consumo, que geralmente preveem como competente o foro
da sede da empresa com a qual o consumidor estabeleceu relação de consumo, exceto quando o magistrado constatar que:

a) no momento da celebração, a pane aderente não dispunha de intelecção suficiente para compreender o sentido e as consequências da estipulação;
b) da prevalência de tal estipulação resulta inviabilidade ou especial dificuldade de acesso ao Judiciário;
c) se trata 'de contrato de obrigatória adesão, assim entendido o que tenha por objeto produto ou serviço fornecido com exclusividade por determinada empresa ' .10

Assim, se o consumidor propõe ação de indenizatória contra o fornecedor, fundada em contrato anteriormente celebrado entre as partes, poderá ignorar a
estipulação do foro de eleição, alegando a ocorrência de uma das situações anteriormente identificadas, fazendo referência ao art. 6', inciso VIII do CDC, que prevê,
como direito básico do consumidor, a facilitação da defesa de seus direitos.
O § 3' do art. 63 do novo CPC estabelece que antes da citação, a cláusula de eleição de foro, se abusiva, pode ser reputada ineficaz de oficio pelo juiz, que
determinará a remessa dos autos ao juízo do foro de domicílio do réu. Também pela preocupação com a \'alidade da clàusula de eleição de foro, o § J• do mesmo
dispositivo legal pre\·ê que a eleição de foro só produz efeito quando constar de instrumento escrito e aludir expressamente a determinado negócio jurídico.
Na condição de ad\·ogados, quando ajuizamos ações decorrentes da relação de consumo, em favor de consumidores, fundadas na alegação de descumprimento de
obrigações inseridas em contrato celebrado pelas panes, no qual consta cláusula de eleição de foro, c.ostumamos incluir preliminar na petição inicial, para defender a
tese de que a cláusula deve ser reputada nula ou ine.ficaz, por ser abusiva, técnica que recomendamos seja adotada pelos colegas advogados que nos leem neste
momento.
A preliminar a que nos referimos é exposta em poucos parágrafos, sendo encerrada com a solicitação de que o magistrado permita que a ação tenha curso pela
comarca escolhida pelo autor, geralmente do seu domicilio, demonstrando que a pane contrária apresenta agências, filiais ou sucursais na cidade, não enfrentando
qualquer dificuldade para apresentar a sua defesa naquele lugar, muito menos para acompanhar o processo na comarca indicada no preâmbulo da petição inicial.
Finalmente, nesta seção, destacamos que o art. 2• da lei que disciplina a ação civil pública (n' 7.347/85) dispõe que "as ações previstas nesta lei serão propostas no
foro do local onde ocorrer o dano, cujo j uizo terá competência funcional para processar e julgar a causa", regra complementada pelo seu parágrafo único, estabelecendo
que "a propositura da ação prevenirá a jurisdição do juizo para todas as ações posteriormente intentadas que possuam a mesma causa de pedir ou o mesmo objeto".
As regras destacadas foram aperfeiçoadas pelo art. 93 do CDC, permitindo que a ação civil pública seja proposta perante a justiça local "no foro do lugar onde
ocorreu ou deva ocorrer o dano, quando de âmbito local".

RESUMO DA MATÉRIA

a) Inicialmente, o autor de\'e verificar se a aç.ão de indenização por perdas e danos que irá propor envolve a União, entidade autárquica ou empresa pública federal
na condição de autora, ré, assistente ou oponente, e, sendo afirmativa a resposta, deve distribuí-la na Justiça Federal.
b) Não sendo o caso, deve verificar se a ação se origina de relaç.ão de trabalho, atual ou desfeita e, sendo afirmativa a resposta, de\'e distribuí-la na Justiça do
Trabalho.
c) Se a ação não envolve pessoa de direito público federal e nem tem fundamento em relação de trabalho, residualmente, de\·e distribui-la na Justiça Comum
Estadual, perante o foro de domicilio do réu, como regra.
d) Se a aç.ão tem fundamento em dano sofrido em razão de delito ou acidente de veículos, inclusive aeronaves, por opção do autor, pode ser proposta no foro de
seu domicilio ou do local do fato.
e) Se a ação tem fundamento em relação de consumo, o autor/consumidor em tese pode ajuizá-la no foro do seu domicilio, afastando a aplicação da cláusula de
eleição de foro, quando inserida em contrato celebrado pelas panes.
f) No interior do foro, a ação e geralmente distribuída para uma Vara Civel, exceto quando envoh'er o Estado, autarquia estadual ou empresa pública estadual,
quando então a competência será da Vara da Fazenda Estadual, ou o Município, autarquia municipal ou empresa pública municipal, quando deve ser proposta
perante a Vara da Fazenda Municipal, com a ressah·a de que as leis estaduais podem atribuir essa competência aos Juizados Especiais da Fazenda Pública,
desde que o \·ator da causa seja igual ou inferior a 60 (sessenta) salários minimos; quando tiverem fundamento no alegado descumprimento de deveres
matrimoniais ou de deveres dos pais para com os seus filhos, quando a competência deve ser atribuída à Vara de F amilia; quando for proposta pelo pobre na
forma da lei, atraindo a competência da Vara Privativa dos Feitos da Assistência Judiciária, se em funcionamento na comarca.
DESTAQUE PARA AS MODIFICAÇOES IMPOSTAS PELO NOVO CPC

a) A no\·a lei processual inseriu as aeronaves na norma que disciplina a competência do foro de domicílio do autor ou do local do fato, para a ação de reparação de
dano sofrido em razão de delito ou acidente de \·eículos (inciso V do art. 53).
b) A nova lei processual prevê que a incompetência relativa (assim como a absoluta) deve ser suscitada como preliminar da contestação (inciso II do art. 337), não
mais através da oposição do incidente de exceção de incompetência relativa.

1.3 NOME E QUALIFICAÇÃO DAS PARTES

A elaboração da petição inicial representa tarefa árdua, já que o CPC exige o preenchimento de requisitos essenciais, relacionados no seu art. 319, quais sejam: o
juízo a que é dirigida; os nomes, os prenomes, o estado ci'\cil, a profissão, o número de inscrição no Cadastt·o de Pessoas físicas ou no Cadastro Nacional da
Pessoa Jurídica, o endereço eletrônico, o domicílio e a residência do autor e do réu; o fato e os fundamentos juridicos do pedido; o pedido com as suas
especificaç.ões; o valor da causa; as prons com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados; a opção do autor pela realização ou não de
audiência de conciliação ou de mediação.
O não pre.enchimento de qualquer dos requisitos anteriormente listados autoriza o magistrado a determinar a emenda da petição inicial, o que deve ser feito pelo
autor no prazo de 15 (quinze) dias, sob pena do seu indeferimento, atra\·és de sentença terminati\·a.
Comparando as nom1as que integram o CPC/73 e o novo CPC, observamos duas modificações substanciais relacionadas à petição inicial, a primeira impactando na
redação da parte dessa petição que versa sobre o nome e a qualificação das partes:

a) A primeira: previsão de que o autor deve indicar a existência de união estável, tanto em relação a ele como ao réu, e que terá de informar o seu endereço
eletrônico e o endereço eletrônico do réu, já que estamos caminhando para a adoção do processo eletrônico, pelo menos em boa parte da justiça brasileira.
b) A segunda: previsão de que o autor deve informar se tem interesse na realização da audiência de tentativa de conciliação ou na sessão de mediação.

Embora a primeira modificação seja digna de aplausos, percebemos que o descumprimento da regra processual - ao que parece - não será causa de indeferimento
da petição inicial, já que os parágrafos que acompanham o inciso que institui a regra a flexibilizam, certamente, porque o legislador infraconstitucional tem ciência da
dificuldade constantemente enfrentada pelos autores para a obtenção de informações relacionadas ao réu. Vejamos os parágrafos que acompanhan1 o art. 319:

"§ I• Caso não disponha das informações previstas no inciso I!, poderá o autor, na petição inicial, requerer ao juiz diligências necessárias a sua obtenção. § 2'
A petição inicial não será indeferida se, a despeito da falta de informações a que se refere o inciso II, for possível a citação do réu. § 3' A petição inicial não
será indeferida pelo não atendimento ao disposto no inciso I! deste artigo se a obtenção de tais informações tomar impossível ou excessivamente oneroso o
acesso a j ustiça."

Os parágrafos reproduzidos podem auxiliar o advogado na redação da petição inicial, sobretudo nas ações de indenização por perdas e danos, pois, com base no §
1', o autor pode solicitar a expedição de ofício ao DETRA1'-I, à RECEITA FEDER..4L, a instituições bancárias e a outros órgãos públicos e pessoas de direito prindo,
para que informem os dados indicados no inciso li do art. 319, que constem nos seus registros, como o endereço do réu, proprietário de automóvel que atropelou o
autor na \·ia pública, e que se. evadiu do local após o acidente.
Interpretando as novas normas processuais, os juízes integrantes do TJRJ e o Centro de Estudos do TJRJ apmvaram enunciados, merecendo destaque os de n"' 22,
28 e 29, que têm a seguinte redação:

Enunciado 22: A petição inicial sera indeferida quando não atendida decisão que deteffilinar a emenda á inicial, com vistas a inclusão dos endereços
eletrônico e físico do advogado, no prazo de quinze dias.

Enunciado 28: No silêncio da inicial, entende-se que será designada audiência de conciliação ou mediação, sendo desnecessário despacho para emenda.

Enunciado 29: O juiz pode indeferir pedido de buscas de endereço que extrapolem as ferramentas disponíveis no sistema informatizado do TJRJ.

1.4 RITO DO PROCESSO

O art. 318 do novo CPC estabelece a regra de que se aplica a todas as causas o procedimento comum, salvo disposição em sentido contrário deste Código ou de lei.
Além dos procedimentos comum (geral) e especial, disciplinados pelo CPC, a Lei n• 9.099195 dispõe sobre o procedimento sumarissimo, adotado no âmbito dos
Juizados Especiais Civeis, aplicável as ações que tenham \·alor de causa igual ou inferior a 40 (quarenta) salários mínimos ou que versem sobre qualquer das matérias
relacionadas no inciso I! do art. 275 do CPCI73, que ainda é utilizado no âmbito dos Juizados, até a edição de lei específica, nos termos do art. 1.063 do Código novo
("Até a edição de lei específica, os juizados especiais civeis previstos na Lei n. 9 .099, de 26 de setembro de 1995, continuanJ competentes para o processamento e
julgamento das causas previstas no art. 275, inciso II, da Lei n. 5.869, de 11 de janeiro de 1973").
A nova lei processual suprimiu as disposições do CPC/73 que \·ersavanJ sobre o rito sumário, bastante utilizado na realidade das ações de indenização por perdas e
danos, ressalvando que as disposições da Lei n' 5.869, de 11 de janeiro de 1973, relativas ao procedimento sumário e aos procedimentos especiais que forem
revogadas aplicar-se-âo às ações propostas e não sentenciadas até o início da vigência deste Código(§ JO do art. 1.046).
Em resumo, no novo sistema processual, as ações podem ter curso pelo rito comum ordinário (e isso representa a regra), pelo rito especial ou pelo rito sumarissimo,
embora, no que toca às ações de indenização por perdas e danos, ou têm curso pelo rito comum ordinário ou pelo rito sumaríssimo, já que a mesma não se enquadra em
qualquer das situações relacionadas entre os arts. 539 e 718 do novo CPC, que versam sobre as ações que tramitam pelo rito especial.
O procedimento sumaríssimo e preferido pelos autores das ações j udiciais (de modo geral), por privilegiar a celeridade processual, que se busca alcançar através da
vedaç.ão da apresentação da reconvenção e das modalidades de intervenção de terceiros (assistência, denunciação a lide, chamamento ao processo e nomeação à
autoria), da previsão da realização de audienda una, da exigência de que o réu apresente modalidade única de. defesa (contestação), da redução do prazo para a
interposição da apelação, denominada recurso inominado, interponivel no prazo de lO (dez) dias (não de quinze, como previsto no CPC), apenas para exemplificar.
Contudo, em ações de indenização por perdas e danos, como esse rito só pode ser adotado quando o valor da causa é igual ou inferior a 40 (quarenta) salàrios
mínimos, ou quando a ação decorre de acidente de veículos de via terrestre ou de dano causado em prédio urbano ou rústico, o que observamos é que os autores tendem
a ajuizar as suas ações na justiça comum tradicional, fazendo uso do rito comum ordinàrio, marcado pela prática dos seguintes atos em sequência:

a) Apresentação da petição inicial.


b) Indeferimento da petição inicial, quando for inepta, quando a parte for manifestamente ilegítima, quando o autor carecer de interesse processual, quando não
atender as prescrições dos arts. 106 e 321 (art. 330) ou quando o autor formular pedido genérico, principalmente.
c) Julgamento liminar do pedido (art. 332), o que não é comum nas ações de indenização por perdas e danos, já que essa técnica só pode ser adotada nas causas
que dispensem a fase instrutória, situação muito pouco frequente nas açõe.s indenizatórias, que apresentam intenso debate e controvérsia de fatos e de teses,
reclamando a produção de provas, com destaque para a documental, a pericial e a testemunhal.
d) Designação da audiência de tentativa de conciliação ou da sessão de mediação, técnica incorporada ao novo CPC (art. 334), que pode contribuir para o
encerramento de muitas ações dessa natureza, por serem de natureza patrimonial.
e) Apresentação da contestação pelo réu, como modalidade ilnica de defesa, embora o demandado possa reconvir, na própria contestação (art. 343).
f) Saneamento do processo, como regra no gabinete de trabalho do magistrado, sem as partes e os seus advogados, exceto quando o juiz concluir que a causa é
complexa em matéria de fato ou de direito, quando então designa audiência preliminar, determinando o aperfeiçoamento da intimação das partes e de seus
advogados (art. 357 e seu§ 3').
g) Realização da audiência de instrução e julgamento, o que é muito comum nas ações de indenização por perdas e danos, repita-se, por serem ricas em fatos e
na controvérsia de questões, reclamando quase sempre a produção da prova oral (depoimento pessoal das partes e/ou ouvida de testemunhas). Quando as partes
pretenderem produzir prova testemunhal, deverão apresentar o rol de testemunhas no prazo comum não superior a 15 (quinze) dias, contado da intimação da
decisão de saneamento do proce.sso (§ 4• do art. 357), quando a audiência preliminar não for designada, ou nesta audiência, quando marcada pelo juiz,
especificamente quando entender que a causa e complexa em matéria de fato ou de direito(§§ 3• e 5• do mesmo dispositivo processual).
h) Apresentação das razões finais.
i) Prolação da sentença.
j) Interposição dos recursos na sequência (embargos de declaração, apelação, embargos de declaração contra o acórdão que julga a apelação, recurso especial
e/ou recurso extraordinàrio, principalmente).
k) Instauração da fase de cumprimento da sentença, na qual o devedor é intimado para efetuar o pagamento da divida no prazo de 15 (quinze) dias, sob pena do
acréscimo da multa de 10% (dez por cento) e dos honoràrios advocatícios, no mesmo porcentual.

A tramitação do processo, destacada em linhas anteriores, pode ser alterada e abreviada, se o magistrado julgar antecipadamente o mérito, quando não houver
necessidade de produção de outras provas, o que não é comum nas ações de indenização por perdas e danos ou quando o réu for revel, acarretando a presunção
(meramente relativa) de veracidade dos fatos afirmados pelo autor na petição inicial, e não houver requerimento de prova, nos termos do art. 349 do noYo CPC, que
apresenta a seguinte redação:

"Art. 349. Ao réu revel serã licita a produç.ão de provas, contrapostas às alegações do autor, desde que se faça representar nos autos a tempo de praticar os atos
processuais indispensãveis a essa produção."

Como novidade, o no\·o CPC permite que as partes re.alizem o denominado negócio processual, mudando o procedimento para aj ustá-lo às especificidades da
causa, o que pode ser adotado com frequência nas ações de indenização por perdas e danos, por admitirem a autocomposição. Vejamos a nova regra processual:

"Art. 190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é licito as partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para
ajusta-lo às .especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo."

Sobretudo quando autor e réu pretendem que o proce.sso não tenha duração tão extensa (para que a indefinição não perdure por muito tempo), podem ajustar que
somente determinadas provas serão produzidas, que somente serã admitida a j untada de documentos até determinado momento processual, que o réu disporá de prazo
menor para a apresentação da defe.sa, que as partes só poderão fazer uso de recursos predefinidos, apenas para exemplificar.
O juiz controlará a validade das com·enções previstas no artigo anteriormente reproduzido, recusando-lhes aplicação somente nos casos de nulidade ou de inserção
abusiva em contrato de adesão ou em que alguma parte se encontre em manifesta situação de vulnerabilidade (parágrafo ilnico do mesmo dispositivo processual).

RESUMO DA MATÉRIA

a) A aç.ão de indenização por perdas e danos tem curso pelo rito sumarissirn.o quando o ,·alor da causa for igual ou inferior a 40 (quarenta) salàrios mínimos,
quando em·olver matéria relativa a acidente de veículo de \'ia terrestre ou dano causado em prédio urbano ou rústico.
b) Nas demais situações, a ação tramita pelo rito comum.
DESTAQUE PARA AS MODIFICAÇÕES IMPOSTAS PELO NOVO CPC

a) A nova lei processual pre\·ê a designaç.ão da audiência da audiência de tentativa de conciliação ou da sessão de mediação no inicio do processo, ato continuo ao
recebimento da petição inicial.
b) Não havendo autocomposição, o reu só pode apresentar contestação, como modalidade única de defesa, sendo admitida a apresentação da reconvenção, na
própria contestação.
c) O novo CPC estabelece que o saneamento do processo é ·como regra realizado pelo magistrado sem a participação das partes e de seus advogados, só
designando a audiência preliminar quando constatar que a causa e complexa em matéria de fato ou de direito.
d) O novo CPC suprimiu o rito sumario, preYendo apenas o comum e o especial como procedimentos, sem eliminar o sumaríssimo, disciplinado pela Lei n'
9 099195.

1.5 AJUIZAMENTO DA AÇÃO PELO DENOMINADO POBRE NA FORMA DA LEI

Considerando os elevados valores atribuídos às causas, resultantes do fato de os autores postularem o recebimento de indenizações igualmente ele\·adas, não é
incomum a formulação do pedido de concessão dos beneficios da justiça gratuita, pelos autores dessas ações, como fom1a de evitar o recolhimento das custas e o
pagamento das despesas processuais e dos honorarios ad\·ocatícios.
Quanto às custas, apenas para que tenhamos ideia da sua importãncia processual, examinando as leis que vigoram em cada estado da federação, constatan10s que
costumam ser fixadas no valor correspondente a 2% (dois por cento) do valor da causa, incluindo a taxa judiciaria e outros emolumentos.
Exemplificativamente, vejamos os valores das custas judiciais (previas ou. integrais) cobradas em alguns estados da federação:

a) No Rio Grande do Sul: valor correspondente a 2,5% (dois virgula cinco por cento} do valor da causa, nos tem10s do art. 1O da Lei n' 14.634, de 15 de
dezembro de 2014, que tem o seguinte teor: "Art. 10. A base de cálculo da Taxa Única de Serviços Judiciais é o valor da causa e corresponder:!: I- à aliquoia de
2,5% (dois \·irgula cinco por cento) sobre o valor da ação, nos processos em geral, observando-se a taxa minima de 5 (cinco) URC e a máxima de 1.000 (mil)
I.J'RC", com a ressalva de que a taxa única de serviços judiciais tem o seu valor mensalmente reajustado.
b) Na Bahia: R$ 8.769,60 (oito mil setecentos e sessenta e nove reais e sessenta centavos), quando o valor da causa for superior a RS 1.003.656,95 (um milhão três
mil seiscentos e cinquenta e seis reais e noventa e cinco centavos), nos termos da Lei n• 12.373, de 23 de dezembro de 2011.
c) No Rio Grande do Norte: R$ 800,00 (oitocentos reais), quando o valor da causa é de RS 100.000,00 (cem mil reais).
d) Em Pernambuco: RS 1.921 ,92 (um mil novecentos e vinte e um reais e noventa e dois centavos), quando o valor da causa e de R$ 100.000,00 (cem mil reais).

O pedido de concessão dos beneficios da assistência j udiciaria pode ser formulado na petição inicial, na contestação, na petição para ingresso de terceiro no
processo ou em recurso e, quando superveniente à primeira manifestação da parte na instãncia, por petição simples, nos autos do próprio processo, não suspendendo o
seu curso (art. 99 do no\·o CPC e seu§ 1'),presumindo-se verdadeira a alegação de insuficiência deduzida exclush·amente por pessoa natural, o que significa dizer que,
quando o pedido e formulado por pessoa jurídica, esta deve comprovar o estado de pobreza, através da juntada de extratos bancários, de cópia do balanço ou do
balancete, apenas para exemplificar.
Quando fom1Uiado na petição inicial, o pedido pode ter o seguinte conteúdo:

PRELIMINARMENTE

1) Inicialmente, antes de a autora expor as razões de jato e de direito que embasam a sua pretensão, solicita lhe sejam concedidos os beneficios da justiça
gratuita, afirmando que não se encontra em condições de efetuar o pagamento das custas processuais sem prejuízo do seu próprio sustento, assumindo
responsabilidade pessoal pela veracidade da afirmação.
2) Desse modo, a autora requer se digne Vossa Excelência a dispensá-la do re-colhimento das custas iniciais e de todas as demais custas, despesas e emolumentos
que seriam exigidos no decorrer do processo, o que o jaz com .fundamento na Lei i1° 1.060150 e nos arts. 98 a 102 do novo CPC.

De acordo com a jurisprudência consolidada na \'igência do CPCn 3, não é a situação patrimonial que define se o autor é ou não pobre na forma da lei. Assim, o
beneficio pode ser concedido a autor que seja proprietario de bens, inclusive de imó\·eis, desde que se encontre em situação que não lhe pemlite efetuar o recolhimento
das custas sem prejuizo do seu próprio sustento. Vejamos julgado ilustrativo sobre a questão:

"Apelação civel. Incidente de in1pugnação a assistência j udiciaria gratuita. A1egaç.ão de que a beneficiaria é proprietária de imóveis, auferiu renda pela venda
desses bens e recebe dois beneficios previdenciarios. Pro\·a. Beneficiari.a da assistência judiciaria que é idosa e apresenta saúde debilitada. O fato de a
beneficiaria da assistência judiciária gratuita, ora apelada, ser proprietãria de imóveis e de ter vendido alguns deles, auferindo renda, por si só, não impede a
concessão do beneficio da gratuidade da j ustiça. Tratando-se a apelada de pessoa idosa, com problemas de saúde e que recebe beneficios previdenciarios mas
gasta-os, em certa medida, com exames e tratamento, justifica-se a manutenção da assistência judiciaria gratuita, ainda mais quando não há prova produzida
pelo apelante em sentido contrario. Apelação improvida" (Apelação Cível n' 70016917270, 20' Cãmara Cível do TJRS, rel. Des. Carlos Cini Marchionatti).

O que define se a pessoa de\·e ou não ser contemplada com a concessão do beneficio e a comparação entre a renda e/ou a sua situaç.ão patrimonial e o valor das
custas do processo.
Além disso, e como antecipamos em linhas anteriores, quando o autor é pessoa fisica, é suficiente que declare, na petição inicial ou em qualquer outra manifestação
processual, que não tem condições de efetuar o pagamento das custas e das despe~as do processo sem prejuízo do seu próprio sustento, para fazer jus à concessão do
beneficio, pelo menos de. forma provisória,ja que o réu pode suscitar a indevida concessão do beneficio de gratuidade dejustiça como preliminar da contestação (inciso
Xlll do art. 337 do novo CPC), produzindo prova em sentido contrario, solicitando a revogação da concessão.
Em outras palavras, não se exige que o autor apresente declaração assinada por determinada autoridade do Estado, afirmando que conheceria aquele, como
antigamente se fazia. A declaração é feita pelo próprio autor, só podendo o magistrado indeferir o pedido se houver nos autos elementos que evidenciem a falta dos
pressupostos legais para a concessão de gratuidade, devendo, antes de indejêrir o pedido, determinar à parte a comprovação do preenchimento dos referidos
pressupostos (§ 2' do art. 99 do novo CPC).
A gratuidade da justiça compreende não apenas as taxas e as custas processuais, como também:

a) as despesas com publicação na imprensa oficial, dispensando-se a publicação em outros meios;


b) a indenização devida à testemunha que, quando empregada, receberá do empregador salário integral, como se em serviço esti\·esse;
c) as despesas com a realização de exame de código genético- DNA e de outros exames considerados essenciais;
d) os honorários do advogado e do perito e a remuneração do interprete ou do tradutor nomeado para apresentação de versão em português de documento redigido
em lingua estrangeira;
e) o custo com a elaboração de memória de cãlculo, quando exigida para instauração da execução;
f) os depósitos previstos en1 lei para interposição de recurso, para propositura de ação e para a pratica de outros atos processuais inerentes ao exercício da ampla
defesa e do contraditório;
g) os emolumentos devidos a notários ou registradores em decorrência da pratica de registro, a\·erbação ou qualquer outro ato notarial necessário à efetivação de
decisão judicial ou à continuidade de processo judicial no qual o beneficio tenha sido concedido.

Alem de ter incorporado algumas orientações consolidadas pela j urisprudência ao seu texto, o novo CPC criou regras interessantes, como a que permite que o
magistrado reduza percentualmente as despesas processuais que o beneficiario tiver de adiantar no curso do procedimento e a que autoriza o j uiz a conceder o
parcelan1ento de despesas processuais que o beneficiário tiver de adiantar(§§ 5' e 6° do art. 98).
Quando o magistrado constata a necessidade de produção da prova pericial e a impossibilidade de a parte remunerar profiSsional dotado de determinado
conhecimento técnico, pode nomear, para a função, profissional que ocupe cargo em algum órgão publico (hospitais publicos, IPT- Instituto de Policia Técnica, IML-
Instituto de medicina legal etc.), embutindo o valor dos serYiços nos vencimentos que lhes são pagos pelo Estado.
O beneficiário pode ser representado por membro da Defensoria Publica ou por advogado particular. Neste caso, temos visto alguns magistrados indeferindo o
requerimento de concessão do beneficio da gratuidade da justiç.a, sob o fundamento de que a presunção da alegação de insuficiência não seria possivel nessa hipótese.
Não concordamos com esse entendimento, por ausência de previsão legal, podendo o advogado particular tanto atuar sem qualquer remuneração como concordar
em ser remunerado na exclusiva hipótese de êxito. Assim, filiarno-nos ao entendimento de que o só fato de a parte ser representada por advogado particular não pode
ser utilizado para subsidiar decisões que indefiram a concessão do beneficio, o que encontra eco na jurisprudência de nossos tribunais, como percebemos através da
transcriç.ão dos seguintes julgados:

"AGRAVO DE INSTRUME!\'TO. BENEFiCIO DA ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA GRATUITA. PARTE REPRESENTADA POR ADVOGADO
P.A.R.TICULAR. Caso em que o litigante se qualifica como desempregado. Juntada da CTPS. Impossibilidade de comprovação de rendimentos. Presunção de
hipossufíciência financeira e necessidade da gratuidade de j ustiça. O patrocinio por advogado particular, por si só, não é causa ao indeferimento da gratuidade
de Justiça. AGR.A.VO DE INSTRUMENTO PROVIDO. DECIS.Ã.O MONOCR.ÁTICA" (Agravo de Instrumento n• 70065935678, 10' Cáruara Civel do TJRS,
rei. Des. Jorge Alberto Schreiner Pestana,j . 4.8.2015).

"AGR.A.VO DE INSTRUMENTO. SEGUROS. DPVAT. ASSISTÊi'ICIA JUDICIÁRIA GR.A.TUITA. COMPROVAÇÃO DA NECESSIDADE. O fato de a
assistência judiciária gratuita poder ser concedida a qualquer tempo e grau de jurisdição não exonera a parte interessada da obrigação de, instada judicialmente.,
comprovar a necessidade do beneficio. No caso, a parte j unta cópia da CTPS, comprovando que recebe quantia inferior a dez salários minimos mensais.
Hipótese em que se. afigura adequada a concessão da gratuidade da justiça. O fato de a parte estar representada por advogado particular, e ser proprietário de
uma motocicleta, não bastam, por si só, para afastar, de plano, a possibilidade de concessão do beneficio. AGRAVO DE INSTRUMENTO PROVIDO, EM
DECISÃO MONOCRÁTICA" (Agravo de Instrumento n• 70065712762, 5' Câmara Civel do TJRS, rei. Desembargadora Isabel Dias Almeida, j. 29. 7.2015).

Diferentemente, o indeferimento do pedido de concessão da gratuidade da j ustiça se mostra sensato quando o magistrado observa que, além de a parte estar
representada por advogado particular, aufere renda, embora de valor não elevado, que lhe permite arcar com o pagamento das taxas ou das custas judiciais e das demais
despesas processuais. Vejamos j ulgado nesse sentido:

"AGR.A.VO INTERNO. ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA GR.UUITA. PROVA DA POSSIBILIDADE DE ARCAR COM AS DESPESAS PROCESSUAJS.
RENDIMENTOS SUPERIORES A SEIS SALARIOS MiNIMOS MENSAIS. A concessão de assistência judiciária gratuita decorre de efetiva demonstração
de carência econômica, mesmo momentânea, independentemente da condição de pobreza ou miserabilidade da parte, consoante -estabelece o art. 2', parágrafo
único da Lei 1.060i50, combinado com o artigo 5•, LXXIV, da CF. A situação fática examinada não autoriza a concessão do beneficio, em função do
agravante perceber rendimento liquido mensal de cerca de nove salários m:inimos e estar repre.sentado por advogado particular. Por outro lado, não comprovou
a existência de despesas que justificassem a concessão da benesse pleiteada. Negado provimento ao agravo interno" (Agravo n• 70065565608, 5• Cáruara Cível
do TJRS, relator Des. Jorge Luiz Lopes do Canto, j. 29.7.2015).

Advertin1os que o advogado que representa a parte que requer a concessão da gratuidade da j ustiça deve verificar se na Comarca perante a qual terá curso existe
Vara especifica para o recebimento dos processos relacionados à assistência judiciária, para lá encaminhando a pretensão do seu cliente.
A advertência é necessária, ja que, existindo Vara especializada, se a petição inicial for distribuida para uma Vara Cível, esse procedimento acarretara entrave
processual, devendo o j uiz declinar de sua competência, encaminhando o processo à distribuição para que seja remetido à Vara especifica, o que retarda o andamento
do processo.
Finalmente, nesta seção, é importante destacar que a nova lei processual inclui a decisão pela qual o magistrado indefere a gratuidade ou acolhe pedido de sua
revogaç.ão dentre as que permitem a interposição do recurso de agravo de instrumento (inciso V do art. 1.015), no prazo geral de 15 (quinze) dias, com a ressalva de que
a defensoria gozará de pr02o em dobro para todas as suas manifestações processuais (art. 186), o que significa dizer que, se a parte estiver representada por advogado
particular, pode interpor o recurso de agravo de instrumento no prazo de 15 (quinze) dias, enquanto que, estando representada pela defensoria pública, o prazo será de
30 (trinta) dias, sempre considerando apenas os dias úteis na contagem de qualquer dos prazos (art. 219 do novo CPC).

RESUMO DA MATÉRIA

a) o estado de pobreza é que defme a concessão ou não do benefício da gratuidade da justiça, não a situação patrimonial da parte que formula o pedido de
concessão, que inclusive pode ser proprietãria de bem(ns) imovel(is), desde que o(s) mesmo(s) não gere(m) renda necessãria ao pagamento das custas e das
despesas processuais;
b) a constatação da impossibilidade de pagamento das custas e das despesas processuais decorre da comparação entre a renda auferida pela parte e o valor de
custas a ser recolhido;
c) a concessão do benefício ocorre com a só declaração de pobreza, constante da petição inicial ou de petição avulsa;
d) o benefício pode ser concedido em favor de. pessoa j uridica, sendo necessãri.a, neste caso, a comproYação da impossibilidade de a parte efetuar o pagamento das
custas e das demais despesas processuais.

1.6 LEGITIMIDADE ATIVA

Nem sempre ê simples se definir quem será o autor de uma ação de indenização por perdas e danos. Para que essa definição seja feita, inicialmente, devemos
investigar quem foi o prejudicado pela prática do ato ilicito, que fundamentará a ação.
Originariamente, o prejudicado pela prática do ato ê o legitimado para .propor a ação, legitimidade muitas veze.s confumada não com base na le.i, mas atravês da
análise da jurisprudência já que determinados casos concretos envoh'em pessoas diferentes, colocando-nos em estado de perplexidade., sem que saibamos qual delas
pode exercitar o direito de aç.ão.
Para comprovar a importància da jurisprudência no auxílio da definição da legi1imidade ativa, basta pensarmos na situação que envolve dano sofrido por condutor
de veículo, que não seja da sua propriedade, levando-nos a um estado de dúvida, sem sabermos se a ação deve ser proposta pelo proprietãrio ou pelo condutor do
automóvel.
Enfrentando ações de indenização por perdas e danos ajuizadas em situações semelhantes, a j urisprudência consolidou o entendimento de que pode ser proposta
tanto pelo condutor como pelo proprietãrio, como percebemos através da leitura do seguinte julgado:

"APELAÇAO CÍVEL- AÇAO DE INDENIZAÇAO- ACIDENTE DE TRÂNSITO- CONDUTOR DO VEÍCULO- LEGITI!viTDADE ATIVA-
CONVERSAO - INOBSERVÂNCIA DAS REGR.A.S - RESPONSABILIDADE - INDENIZAÇÃO - RECURSO NÃO PROVIDO. Em acidentes de
trânsito, tanto o proprietário do veículo quanto o condutor, possuem legitimidade para o polo ativo da ação. Demonstrada a imprudência do condutor do
veiculo ao não obserYar as regras de trânsito existentes no local, é de ser reconhecida a sua responsabilidade pelo e\·ento danoso, restando con:fígurado o dever
de inde.nizar, nos termos do art. 186 do Código Ci\'il. Sentença mantida" (Apelação Cível 10245110108561001, 9• Càmara Ch·el do TJMG, rel
Desembargador José Arthur Filho,j. 19.5.2015) (grifamos).

Contudo, se a vitima falec.e, sem que a aç~o tenha sido proposta, quem pode ajuizã-la? O art. 943 do CC estabelece a regra de que "o direito de exigir reparação e a
obrigação de prestá-la transmitem-se com a herança". O Código Ch·il de 1916 continha regra idêntica em seu art. 1.526.
Devemos separar o joio do trigo, como nos ensina o adágio popular. Se a vítima do ato ilicito propôs a ação de indenizaç.ão por perdas e danos e faleceu em seu
curso, os interessados (geralmente os herdeiros) podem solicitar a sua habilitação, c.om fundamento nos arts. 687 e 688 do novo CPC, que apresentam a seguinte
redação:

"Art. 687. A habilitação ocorre quando, por falecimento de qualquer das partes, os interessados houverem de suceder-lhe no processo."

"Art. 688. A habilitação pode ser requerida: I- pela parte, em relação aos herdeiros do falecido; 11- pelos sucessores do falecido, em relação à parte."

Os sucessores do falecido podem requerer a sua habilitação no processo, apresentando a certidão de óbito da vitima e a documentação que comprove a sua condição
de sucessor(a) daquela (certidão de nascimento ou de casamento, sentença proferida em ação declaratória de reconhecimento de união estável entre o de cujus e sua
companheira, por exemplo).
O pedido de habilitação deve ser formulado nos autos da ação de indenização, acarretando a suspensão do processo desde então, prevendo a lei processual que os
requeridos devem ser citados para se pronunciaren1 no prazo de 5 (cinco) dias, ato seguido da produção de pro\·as ou do julgan1ento imediato da questão. Admitida a
habilitação, o(s) sucessor(es) do autor originãrio passam a ser parte da ação, caracterizando o fenômeno denominado sucessão processual.
Contudo, se a vítima faleceu sem ter proposto a ação de indenização por perdas e danos, o seu ajuizamento, por outra pessoa depende do exame da jurisprudência
relacionada á matéria.
Num primeiro momento, estariamos tentados a concluir que a ação de\·e.ria ser proposta .pelos herdeiros da \·itima, respeitando-se a ordem de vocação hereditãria
(descendentes, ascendentes, cônjuge sobre\·ivente e colaterais)u Se essa ordem fosse observada, e aplicados os principies que orientam o direito sucessório, teríamos
de realizar a chamada exclusão de classes, ou seja, um herdeiro de classe secundãria (um ascendente, p. ex.) só poderia propor a ação de indenização quando constatada
a inexistência de herdeiro de dasse preferencial (no caso, um descendente).
A teoria da responsabilidade civil não adota essa regra, não se lhe aplicando o direito das sucessões. Ocorrido o falecimento da vitima, a ação de indenização por
perdas e danos pode ser proposta pelos descendentes, pelos asc-endentes, pelo cônjuge ou companheiro sobrevivente e/ou pelos colaterais, uns não excluindo o direito
dos outros.
Na teoria da responsabilidade civil predomina o entendimento de que a reparação deve ser a mais ampla possível. Assim, falecida a vítima do ato ilicito, todas as
pessoas anteriormente referidas podem propor a ação de indenização por perdas e danos, tanto para pleitear indenização por danos materiais como por
danos morais, numa única ação ou através de ações individuais.
Se os legitimados ajuízam uma única ação, (mesmo que as pretensões não sejam homogêneas)," forma-se litisconsórcio ativo, que é meramente facultativo,
confonne entendimento da jurisprudência, consolidado na vigência do CPC/73 (que nos parece não será modificado na vigência do novo CPC, por não se confrontar
com as suas normas)," de modo que o magistrado pode julgar a ação procedente para alguns autores e improcedente para outros.
Contudo, se cada um dos legitimados ajuíza a sua ação individualmente, é aconselhável a reunião dos processos, pelo fato de as ações serem conexas," em torno do
juízo prevento, para e\'itar a prolação de decisões contraditórias.
A definição do juízo pre\•ento é feita com base nos arts. 58 e 59 do no\·o CPC, que apresentam a seguinte redação:

"Art. 58. A reunião das ações propostas em separado far-se-á no juízo prevento, onde serão decididas simultaneamente."

"A.rt. 59. O registro ou a distribuição da petição inicial torna prevento o juizo.''

Quando a ação é proposta por cônjuge ou companheiro sobrevivente e/ou por descendentes (filhos menores), a jurisprudência não exige a comprovação da
dependência econômica dos autores em relação a vitima, já que essa dependência é presumida. Nesse sentido, vejamos julgado ilustrativo sobre a matéria:

"APELAÇAO CivEL - AÇAO DE INDENIZAÇÃO - ALOJAMENTO DE OPERAR..ÁRIOS - QUEDA DE BELICHE - MORTE - CULPA LV
VJGJLANDO - DEMONSTRADA - DANO MORAL - EXISTÊNCIA - PENSIONA..v!ENTO - CABIIVIENTO. Ha\·endo comprovação nos autos que a
empresa deixou de pro\'idenciar as medidas necessárias à garantia da integridade fisica e moral das pessoas que ocupavam o alojamento presente em suas
dependências, resta caracterizada a culpa in vigilando a embasar o pedido inde.nizatório, nos termos do art. 186 do Código Civil. E notório e inquestionável
que a morte de um familiar, acarreta sequelas de indole moral, subjacentes ao sofrimento e à angústia, devendo a indenização ser fixada em observância a
capacidade econômica do agente causador do dano, o grau da culpa e o bem juridicamente protegido que foi atingido. A indenização por pensão decorre do
ato ilícito e implica na reparação de todos os danos provocados pela conduta, sendo presumida a dependência econômica da companheira e dos filhos da
vitima em relação a esta, não havendo empecilho algum para a sua fixação, tendo em vista, ainda, que não foram refutadas as alegações de que os recorrentes
tinham o trabalho da vitima como fonte de renda da família. Recurso provido" (Apelação Ch·el n' 1.0704.01.007626-0/001, TJMG, rel. Des. A..i\10RIM
SIQUEIRA, j. 12.6.2015). (grifamos)

A presunção referida em linhas anteriores não é extensiva para as ações propostas por ascendentes e/ou por colaterais, por não ser frequente que essas pessoas
vivam sob a dependência econômica da vítima.
O art. 948 do CC dispõe que, no caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir outras reparações, na prestação de. alimentos às pessoas a quem o morto os
de\·ia, levando-se em conta a duração prová\·el da vida da vítima, reforçando a tese de que a prestação não de\·e ser paga em favor daqueles que não a recebiam antes do
falecimento da vítima.
Examinando outra situação, a ação de indenização por perdas e danos também pode ser proposta pelo(a) companheiro(a) da vítima falecida, com fundamento no §
3' do art. 226 da CF e no art. 1. 723 do CC.
Contudo, o(a) companheiro(a) terá de fazer prova da sua condição, na petição inicial da ação de indenização por perdas e. danos, se dispuser de prova nesse sentido,
ou pre\'iamente, atra\·es do ajuizamento de ação declaratória de existência de união estável, evitando a arguiç.ão da preliminar de ilegitimidade ativa por parte do réu da
ação indenizatória.
Em linhas anteriores, afirmamos que, falecida a vitima do ato ilícito, a aç.ão de indenização por perdas e danos pode ser proposta por todos os herdeiros e
sucessores, tanto para solicitar o recebimento da indenização pelos danos materiais como pelos morais. Contudo, a questão não e tão simples, no que toca às ações que
em·olvem o recebimento de indenização por danos morais. Alguns doutrinadores ch-egaram a afirmar que seria imoral transferir-se. o direito à reparação do dano moral.
Para eles, a dor, o sofrimento, a angústia, e outros sentimentos semelhantes, estariam inseridos num conj unto de valores intransmissíveis, personalíssimos. Não
comungamos com e.ste entendimento. Pensamos que mais grave do que se fixar valor para indenização da moral seria permitir que o ofensor ficasse impune, não sendo
atingido pelas consequências do ato que praticou, funcionando como estimulo para a prática de outros atos semelhantes. ,
O nosso entendimento se afma com o da jurisprudência, consolidada na vigência do CPC/73, que certamente não será alterado com o novo CPC, até mesmo porque
a nova lei processual não contém qualquer dispositivo em sentido contrário. Ocorr.ido o falecimento da vitima de ato ilícito, podem propor a ação de indenização por
perdas e danos todos os que, direta ou indiretamente, tenham sido atingidos pela perda do ente, não se exigindo (ao contrário do que ocorre com a indenização
decorrente do dano material) a demonstração de dependência econômica entre a vítima e a pessoa que pleiteia a indenização.'•
Da mesma forma como ocorre em relação às ações nas quais os autores pleiteiam indenização por dano material, nas que envolvem dano moral predomina a
preocupação com a reparação ampla.
Assim, tanto o cônj uge ou o companheiro sobreviYente como um irmão da vitima podem aj uizar ação de indenização por perdas e danos para pleitear a condenação
do réu ao pagamento das indenizações decorrentes dos danos materiais e dos danos morais que sofreram.
Para que a primeira pretensão seja acolhida, o autor terá de provar que vivia sob a dependência econômica da vitima, o que não ocorre em relação à parcela dos
danos morais, que lhe será conferida mediante a demonstração da existência de parentesco biológico ou afetivo, e de que a perda do ente repercutiu na esfera psíquica
do autor, para que se arbitre, de forma proporcional, o valor da indenização.
Contudo, embora todos os parentes da vítima fatal em tese possam propor a ação de indenização para pleitear a condenação do réu ao pagamento de indenização por
danos morais, o valor dessa indenização varia de acordo com o grau de parentesco, de modo que o cônjuge ou companheiro sobrevivente e os descendentes costumam
receber valores mais ele\·ados do que os que são destinados aos ascendentes e aos irmãos da vítima.
Quando nos referimos ao parentesco, não o timitamos ao biológico ou ao esta"belecido por relação de natureza civil, como o casamento, de modo que a ação de
indenização por perdas e danos pode ser proposta por parente afetivo da vítima, como o padrasto, que reclama indenização decorrente do falecimento de filho de
criação, ou o enteado, que propõe a aç.ão para receber indenização por danos morais decorrente da morte do seu padrasto. Nesse sentido, reproduzimos o seguinte
julgado sobre a matéria:

"APELAÇ.ÀO CÍVEL. AÇÃO DE ~"DENIZAÇ.ÀO POR DANOS MATERIAIS E MOR.-'\.IS. ASSALTO EM AGÊNCIA BANCÁRIA. MORTE.
LEGITIMlDADE ATIVA DO ENTEADO. Caracterizada a posse de estado de filho, deve ser reconhecida a legitimidade ati\·a do autor Fabricio para postular
a reparação por danos decorrentes do falecimento de seu padrasto, especialmente quando comprovado forte \·inculo na criação do menor. AGÊNCIA
BANCÁRIA. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. DANO 1\-tOR..A.L. OCORRÊNCIA. É cediço que o dever de segurança em relação aos clientes e ao publico
em geral, estã intrínseco à atividade bancãria, e não pode ser afastado em caso de "'assalto»>, respondendo a instituição pelos danos que, em virtude da falha
do seu sistema de segurança, causar a terceiro. Responsabilidade objetiva, fundamentada nos artigos 3', caput, § 2' e 14, caput, § F do CDC. Hipótese em que
o familiar dos autores foi atingido por projétil disparado por arma de fogo ao procurar os serviços da instituição financeira demandada, vindo a falecer,
restando eYidente o dever de indenizar da ré. Dano moral in re ipsa. Sentença mantida. QUANTUM INDENIZATÓRIO. MANUTENÇAO. Na ftxação da
reparação por dano extrapatrimonial, incumbe ao julgador, atentando, sobretudo, para as condições do ofensor, do ofendido e do bem jurídico lesado, e aos
princípios da proporcionalidade e razoabilidade, arbitrar quantum que se preste à suficiente recomposição dos prejulzos, sem importar, contudo,
enriquecimento sem causa da vítima. A análise de tais critérios, aliada às demais particularidades do caso concreto, conduz à ftxação do montante
indenizatório em R$ 93.000,00 (noventa e três mil reais) para cada autor, equivalente a duzentos salários-minimos vigentes à época do ato sentencia!.
PENSIONAMENTO. Pensão mensal aos autores fixada em 2/3 do salãrio que a vitima percebia, descontado 1/3 referente ao montante que o de cujus utilizava
em proveito próprio, devida à viuva até a data em que o falecido comple·taria 72 anos, e aos filhos até a data em que estes completarem 25 anos. Sentença
reformada, no ponto. APELAÇ.ÀO PARCIALMENTE PROVIDA" (Apelação Cível n' 70033737792, 10' Câmara Cível do TJRS). (grifamos)

Situação interessante diz respeito à possibilidade ou não de os herdeiros da vitima ajuizarem ação de indenização contra veiculo de comunicação, pelo fato de o réu
ter exposto a condição de portador do virus HIV da vítinla, o que propaga a discussão sobre a possibilidade de transmissão de direitos imanentes à personalidade da
vítima direta. O STJ assentou o entendimento de que é possível a transmissão do direito aos herdeiros da vítima, e que o direito referido em linhas anteriores não é
personalissimo. 11
Concluindo a parte relativa à legitimação ativa, destacanlOs a possibilidade de a ação de indenização decorrente de danos morais ser proposta por pessoa jurídica,
por deter conj unto de valores (reputação comercial, marca etc.) passível de proteção através da ação indenizatória. Nesse sentido, reproduzimos a Sumula 227 do STF e
recente julgado sobre a matéria:

"Sumula 227. A pessoa jurídica pode sofrer dano moral."

"EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - AÇ.ÀO DE DECLAR..A.Ç.ÀO DE N"ULIDADE DE TÍTULO CUMULADA COM CANCELAMENTO
RESPONSABILIDADE CIVIL EXTRACONTR..>\TUAL - DUPLICATA ?viERCA:N"TIL - PROTESTO POR INDICAÇ.ÀO - INDEVIDO -
~eXISTÊNCIA DE RELAÇ.ÀO NEGOCIAL - EMISS.ÀO DE DUPLICATA SEM A CORRELATA CA USA DEBENDJ- DANO MORAL -
COJ\'FIGUR..A.DO QUANTUM INDEJ\!1ZATÓRIO -VALOR R..>\ZOAVEL -SENTENÇA i\1A:N"TIDA. A Responsabilidade Civil designa o dever que
alguém tem de reparar o prejuízo em consequência da ofensa a direito alheio. 2. A duplicata é titulo de crédito causal, devendo ser comprovado o negócio
jurídico que a fundou, do contràrio, sua emissão será ilegal. 3. O aceite da duplicata constitui regra. Todavia, nas hipóte.ses em que o titulo for enviado para
aceite e o devedor, injustificadamente, retê-lo, poderá o credor, mediante protesto por indicação, constituir documento hábil a embasar e\·entu.al execução, mas,
para tanto, este deve compro\·ar a efetiva entrega das mercadorias ou prestação dos sen·iços, sob pena de arcar com os eventuais danos suportados pelo sacado.
Atualmente não pairam dúvidas sobre a possibilidade da pessoa jurídica sofrer dano moral, desde que exista ofensa à sua honra objetiva. O \·alor da
indenização há de ser ftxado com moderação, visto que não pode propiciar um enriquecimenio sem causa, mas deve apenas servir como uma compensação na
proporção da repercussão da ofensa. 6. Recurso conhecido e não provido" (Apelação Civell.0024.11.199987-61001, TJMG, rel. Desembargadora MARIZA
PORTO). (grifamos)

RESUMO DA MATÉRIA

a) como regra, a ação de indenização por perdas e danos deve ser proposta pela vítima do ato ilícito, na condição de legitimado originário;
b) se a vitima falecer, quando jã proposta a ação, os herdeiros e sucessores podem ser habilitar no processo, com fundamento nos arts. 687 ss do novo CPC;
c) no caso de legitimaç.ão derivada (dos herdeiros e sucessore.s da vitima do ato ilicito), a teoria da responsabilidade civil não adota a ordem de vocação hereditária
preüsta no CC, admitindo que a ação seja proposta pelos herdeiros individual ou coletivamente, cada um pleiteando indenização decorrente do dano que
entende ter suportado, sem exclusão de classes;
d) no caso de descendentes e de cônjuge sobrevivente, podem postular a i'ndenização decorrente dos danos materiais sem necessidade de se comprovar a
dependência econômica em relação à vitima, jã que esta é presumida, entendimento que não é extensivo aos ascendente.s e aos colaterais, por não ser esperado
que vh·essem sob a dependência econômica do falecido;
e) o(a) companheiro(a) pode propor a ação de indenização por perdas e danos, segundo entendin1ento pacifico da j urisprudência;
f) o dano moral pode ser pleiteado por pessoa jurídica.
1.7 LEGITIMIDADEPASSIVA

Como regra, a ação de indenização por perdas e danos deve ser proposta contra a pessoa que causou o prejuízo, que praticou o ato ilícito identificado pelo autor na
petição inicial.
Essa regra não e absoluta, já que a lei ci\·il permite que a ação seja proposta contra um terceiro, bem como contra o espólio, os herdeiros ou os sucessores da pessoa
que praticou o ato, e que faleceu sem adimplir a obrigaç.âo de pagar soma em dinhei:ro.
Antes de examinarmos as duas ultimas situações identificadas no parágrafo anterior, é importante destacar que, em determinados casos concretos, pelo menos em
tese, o autor pode propor a ação contra mai:s de. uma pessoa, como todos os médicos, os enfermeiros e o anestesista que acompanharam procedimento cirilrgico
realizado na vitima, que falece pouco tempo depois, além do hospital no qual a cirurgia foi realizada.
Sobre a matéria, é importante destacar que, se a obrigação for solidária, o credor pode propor a ação contra um devedor, todos ou apenas alguns deles, como prevê o
art. 275 do Código Civil."
Não obstante a permissão referida em linhas anteriores, nas ·obrigações solidárias, nas subsidiárias ou de qualquer outra natureza, quando o autor entende que a ação
pode ser proposta contra vários réus, aconselhamos que limite o litisconsórcio, propondo a ação judicial apenas contra o(s} réu(s} que tenha(m} melhor(es} condição
(ões) de efetuar o pagamento da indenização.
Esse raciocínio decorre da constatação de que a presença de ,-árias pessoas no polo passivo pode tumultuar a relação processual, a começar pela aplicação do art.
229 do novo CPC, dispondo que "Os litisconsortes que tiverem diferentes procuradores, de escritórios de advocacia distintos, terão prazos contados em dobro para
todas as suas manifestações, em qualquer juizo ou tribunal, independentemente de requerimento" , regra que é aplicável ao processo que tem curso em autos físicos.
Assim, o autor deve escolher contra quem ,.ai propor a ação, dentre aqueles que, em tese, poderiam tomar assento no polo passivo da relação processual, evitando
que o processo fique tumultuado, e que o j ulgamento da aç.ão seja postergado.
Vejam que. estamos falando da situação em que. o autor pode propor a ação contra mais de uma pessoa, pelo fato de os réus terem praticados atos ilícitos, ou de
terem contribuído para a ocorrência do resultado, como no caso em que os familiares de vitima fatal ajuízam ação de indenização por perdas e danos contra o fabricante
de avião e contra a empresa :irea responsável pelo voo, a primeira, por erro de fabricação, a segunda, por não ter realizado manutenção na aeronave, que apresentou
defeito por esta razão.
Utilizando outro exemplo, vejamos a situação que envolve erro médico cometido por profissional credenciado por empresa que explora o segmento plano de saúde,
o que em tese credencia a vitima ou os seus familiares (no caso de fale.cimento daquela} a propor a ação de indenização por perdas e danos contra o profissional, a
empresa ou os dois.
Nesse tipo de situação (em que o autor pode ajuizu a ação contra A, contra B ou contra A + B}, parece-nos mais lógico o ajuizamento da ação de indenização
por perdas e danos apenas contra a empresa que. explora o segmento plano de saúde, por apre.sentar condições de efetuar o pagamento da indenização, em tese, em
condições melhores do que as do profissional credenciado ou cadastrado.
O ajuizamento da ação contra a en1presa tem embasamento na jurisprudência, como percebemos através da simples leitura do seguinte julgado:

"PROCESSUAL CIVIL. RESPONSABILID.A.DE CIVIL. ERRO MÉDICO DE PROFISSIONAL REFERENCI.A.DO. LEGITil:vllDADE PASSIVA DA
OPER.,'.DOR.A DE PLANO DE SAÚDE. PRECEDEJ\'TES. A operadora de plano de saúde ostenta legitimidade passin ad causam em demanda cujo
objeto é a respoosabilização civil por suposto erro médico de profissional por ela referenciado, porquanto a cooperatiYa tem por objeto a assistência
médica e ce.lebra contrato com seus associados, regulamentando a prestação de seus seniços de maneira padronizada, por meio dos médicos e
hospitais a ela filiados. Precedentes. No caso, a caracterização da agravante como uma seguradora de saúde - e não como uma cooperativa de saude - é
questão que, para sua aferição, comportaria o revolvimento de matéria fático-probatória, mormente tendo o Tribunal de origem asseverado que, qualquer que
seja a sua natureza, a recorrente oferece médicos credenciados ou referenciados, e que o medico que realizou o procedimento cirilrgico foi por ela indicado,
tendo inclusive assinado o faturamento e todos os requerimentos de exames em papel timbrado da seguradora. Incidência da Sumula 7 do STJ. Agra\·o
regimental não provido." (AgRg no R.Esp 1319848/RJ, 4'TumJa do STJ, rei. Min. LUIS FELIPE SALOM..:Í.O,j. 3.6.2014}. (grifamos}

Diferente e a situação em que o autor está em dúvidas sobre contra quem deve propor a ação (ou seja, não pode ajuizá-la contra A + B, mas contra A ou B},
como no caso em que a esposa de vitima fatal não sabe se deve propor a ação indenizatória contra o médico, o anestesista, o médico plantonista da UTI ou contra o
hospital (pessoa jurídica} em decorrência do falecimento do seu esposo após a realização de procedimento cirúrgico.
Já advertín10s que, em casos como esse, o profissional que representa a autora deve analisar a jurisprudência aplicável à matéria, além dos documentos médicos de
que dispõe, não se precipitando, por exemplo, propondo a ação contra todos os profissionai:s, pensando que a ação será julgada procedente pelo menos em relação a um
deles.
Além de ampliar desnecessariamente os prazos processuai:s, se os réus forem representados por diferentes procuradores, e desde que os profissionais não integrem o
mesmo escritório de advocacia, o profissional exporá sua cliente ao risco de efetuar o pagamento das custas, das despesas processuais e dos honorários advocaticios em
favor dos réus que tiverem a sua ilegitimidade passiva reconhecida. O exame da jurisprudência e fundamental para evitar esse resultado indesejado.
Agora examinando a possibilidade de a ação de indenização por perdas e danos ser proposta contra um terceiro, é importante advertir que não estamos falando de
um terceiro qualquer, mas de uma pessoa que, em decorrência de uma relação jurídica (de subordinação, de dever de guarda e vigilância etc.}, assume obrigações
decorrentes de atos praticados pelo causador direto do prejuízo.
Essas pessoas estão listadas no art. 932. do CC, que apresenta a seguinte redação:

" Art. 932. São tan1bém responsá\·eis pela reparação ci,·il: I- os pai:s, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; I!- o
tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições; IIl - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e
prepostos, oo exerckio do trabalho que lhes competir, ou em razão dele; IV- os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por
dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos; V- os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime,
ate a concorrente quantia."
A aplicação mais frequente do dispositivo se refere à responsabilidade dos pais por atos praticados pelos seus filhos menores, 19 e de empregadores por atos
praticados por empregados, serviçais ou prepostos, além da responsabilidade das pessoas jurídicas de direito publico por atos praticados pelos seus agentes."
O art. 933 do Código Civil dispõe que as pessoas enumeradas no art. 932, ou seja, os terceiros, responderão pelos prejuízos independentemente de culpa,
estabelecendo verdadeira responsabilidade objeti\·a." Contudo, embora estejamos diante dessa modalidade de responsabilidade, a imposiç.ão do dever de indenizar
depende do reconhecimento da culpa da pessoa que praticou o ato ilícito (filho menor, empregado, preposto ou serviçal e agente), como na situação em que o hospital é
demandado por ato praticado por médico que integra a sua equipe. Vejamos julgado sobre a matéria:

"APELAÇÃO CiVEL. INDENIZAÇAO POR DANOS MORAIS E .MATERIAIS. RESPONSABILIDADE CIVIL. MÉDICO E HOSPITAL. AUSÊNCIA DE
CULPA. Firmou-se majoritariamente na jurisprudência ser subjetiva a responsabilidade dos hospitais se o evento danoso é atribuído a atividade dos médicos -
interpretação conjunta dos artigos 14, § 4•, do Código de Defesa do Consumidor, 932, III, 933 e 951 do Código Civil. Se não há prova do ilícito, não se imputa
o dever de indenizar aos réus, hospital e médico" (Apelação Ci\·el n• 1.0672.11.012.872-1 /001, TJMG, rei. Des. WAGNER WILSON,j. 24.7.2015).

Complementando a disciplina da matéria, o art. 928 do CC prevê que "o incapaz responde pelos prejuízos que causar, se as pessoas por ele responsáveis não
tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes". Não se encontrando o menor, no momento da prática do ato ilícito, sob a autoridade dos pais e
em sua companhia, sendo aquele abastado, pode ser diretamente demandado, respondendo pelo pagamento da indenização."
Quanto à responsabilidade dos pais por atos praticados por filhos menores que estejam sob a sua guarda e companhia, decorre do fato de ser detentor do pátrio
poder. Assim, olhando para a situação em que o filho menor faz uso de veículo e causa prejuízo a outrem, a responsabilidade do pai independe do fato de ser
proprietário do automóvel dirigido pelo seu fllho, como percebemos através da leitura do seguinte julgado:

"AÇAO DE INDENIZAÇÃO. ACIDENTE DE TR}..NSITO VEiCULO COl\'DUZIDO POR MENOR. RESPONSABILIDADE. Comprovada a pratica de ato
ilícito cometido por menor, que causa danos a \·eiculo de terceiro, ao invadir a contramão de direção e vir a se chocar com a lateral do outro automotor, deve
ser responsabilizado pelos prejuízos causados, por reconhecida culpa, arcando solidariamente com a reparação o seu genitor, em razão do disposto no art. 932,
I, do Código Civil, sendo a sua responsabilidade objetiva decorrente de sua condição de detentor do pátrio poder sobre o autor do ato lesivo, que. o faz
responsá\·el pelos atos praticados por seus filhos menores que estejam sob a sua guarda e companhia, pouco importando, para os fins de responsabilízação, o
fato de não ser o proprietário do veículo causador do dano" (Apelação Civel1.0134.06.076685-1!001, TJMG, rei. Des. DUARTE DE PAULA).

Quanto à responsabilidade civil dos empregadores por atos praticados por empregados, prepostos ou serviçais, além da regra constante do inciso III do art. 932 do
CC, é reafirmada pela Súmula 341 do STF, que tem a seguinte redação: "É presumida a culpa do patrão ou comitente pelo ato culposo do empregado ou preposto."
Interpretando a regra legal e a orientação sumulada, a jurisprudência vem entendendo que o patrão, amo ou comitente é responsável por atos praticados por
empregados, prepostos ou serviçais não apenas durante a jornada de trabalho ou no local de trabalho, como também por todas as situações decorrentes das atividades
prestadas pelo preposto ao seu empregador (AgRg no AREsp 139980/PR, j. 24.6.20 I 5).
A inclusão do terceiro (patrão, amo ou comitente, pai, Estado) deve ser muito bem avaliada em cada caso concreto, evitando que a ação seja proposta contra pessoa
que não tem o de\·er de indenizar, e que possivelmente será excluída do processo pelo reconhecimento da sua ilegitimidade passiva, sem prejuízo da condenação do
autor ao pagamento das custas, das despesas processuais e dos honorários advocatícios.
A maior frequência de erros dessa natureza envolve questões medicas, sobretudo ações indevidamente propostas contra hospitais, por atos praticados por médicos,
especialmente durante procedimentos cirúrgicos.
Nesses casos, além do exame da jurisprudência, é fundamental que o advogado avalie a natureza da relação jurídica estabelecida entre o médico e o hospita~
verificando se é de subordinação, de locaç.ão do espaço no qual a cirurgia foi realizada ou de outra natureza para definir se a ação será proposta apenas contra o
profissional, apenas contra a pessoa j urídica ou contra ambos.
Atentos à jurisprudência, percebemos que o entendimento aplicável à matéria foi relativamente consolidado, da seguinte forma:

a) Quando o hospital pt·esta mero serviço de hotelaria, a sua ilegitimidade tem sido reconhecida, como percebemos através da leitura do seguinte julgado: "DA
ILEGITIMIDADE DO NOSOCÕMIO CODEMANDADO. Constatado que o nosocômio demandado prestou mero sen·iço de hotelaria, tendo a demandante
procurado os serviços dos médicos réus em seus consultórios particulare.s, inviável o reconhecin1ento da legitimidade passiva do hospital co-demandado.
Precedentes do C. STJ e desta Corte. Sentença reformada" (Apelação Cível n• 70065387581, 10' Câmara Cível do TJRS, rei. Des. Paulo Roberto Lessa Franz, j.
30.7.2015, em transcrição parcial).
b) Quando inexistir relação de preposiç.ão entre o médico e o hospital, e at~s praticados por seus funcionários não tenham contribuído para a ocorrência
do resultado, a ilegitimidade do hospital tem sido reconhecida. Nesse sentido: Inexistindo \·incuto de preposição entre o hospital demandado e o médico
contratado para efetuar o tratamento da autora, tampouco verificado a fallia na prestação do serviço hospitalar, inviável o reconhecin1ento da legítima passiva do
nosocômio réu. Precedentes do C. STJ e desta Corte" (Apelação Cível n• 70064588148, 1' Câmara Civel do TJRS, relator. Des. Paulo Roberto Lessa Franz., j.
28.5.2015, em transcrição parcial).
c) Quando o ato ilícito é praticado por profissional de alguma forma vinculado ao hospital, a responsabilidade deste é solidária e objetiva, apurada a culpa
do profissional. Nesse sentido: "Quanto aos atos técnicos praticados de forma defeituosa pelos profissionais da saude vinculados de alguma forma ao hospital,
respondem solidariamente a instituição hospitalar e o profiSsional responsável, apurada a sua culpa profissional." (REsp 1.145.728/MG, rel.lviin. João Otávio de
Noronha, DJe de 28.6.2011).

Se a pessoa que causou o dano falecer, a ação de indenização por perdas e danos pode ser proposta contra os seus herdeiros e sucessores,,; observado o limite da
herança, ou, segundo alguns doutrinadores, as forças da herança. Assim, se o causador do dano falece deixando dois filhos, a eles sendo atribuída uma herança de R$
10.000,00, cabendo R$ 5.000,00 para cada um deles, em ação de indenização por perdas e danos, poderão responder pelo pagamento da indenizaç.ão até o valor
máximo de R$ 5.000,00, independentemente do valor da condenação.
A limitação da responsabilidade dos herdeiros e sucessores decorre do art. 1.792 do CC, que tem a seguinte redação:
"Art. 1.792. O herdeiro não responde por encargos superiores às forças da herança; incumbe-lhe, porém, a prova do excesso, sah·o se houver in\·entário que a
escuse, demonstrando o valor dos bens herdados."

Se o processo de inventário já foi instaurado, a ação deve ser proposta contra o espólio, sendo citado na pessoa do seu inventariante. Em caso contrário, a ação deve
ser proposta diretamente contra os herdeiros ou sucessores do (a) de cujus, que são citados pessoalmente.
Para e\·itar que o patrimônio deixado com o falecimento da pessoa que praticou o ato ilícito se dissipe, através da partilha judicial ou amigá\·el, o autor da ação de
indenização por perdas e danos pode solicitar a realização da denominada penhora no rosto dos autos, formulando re.querimento no processo de inventário, igual
técnica podendo ser adotada quando o agente (pessoa que praticou o ato ilícito, e que por esta razão é reu de ação de indenização por perdas e danos) for herdeiro em
processo de inventário, o que pode ser feito com fundamento no art. 860 do novo CPC, com a seguinte redação:

"Art. 860. Quando o direito estiver sendo pleiteado em juizo, a penhora que recair sobre ele será averbada, com destaque, nos autos pertinentes ao direito e na
ação correspondente à penhora, afunde que esta seja efetivada nos bens que forem adjudicados ou que vierem a caber ao executado."

A jurisprudência vem evoluíndo para, no caso de. re.sponsabilidade pelo fato de terceiro, abrangê-la e impô-la de forrna cada vez mais direta e objetiva. Dois
exemplos são apresentados para ilustrar esse movimento j urisprudencial.
O primeiro diz respeito à responsabilidade resultante de danos causados por v eículo de comunicação, assentando-se na j urisprudência o entendimento de que o
veículo de comunicação responde solidariamente - em conjunto com o j ornalista responsável pela matéria - por danos causados a pessoas naturais ou a pe.ssoas
jurídicas, em decorrência de veiculação abusiva.1'
A segunda das hipóteses diz respeito à responsabilidade da empresa locadora de veículos por danos causados pelo locatário durante o período de utilização do
automóvel. A questão, que já foi bastante debatida na jurisprudência, restou praticamente pacificada após a aprovação da Súmula no 492 do STF, nos seguintes termos:
"A empresa locadora de veículos responde, ci\·il e solidariamente com o locatário, pelos danos por este causados a terceiros, no uso do carro locado."
O terceiro exemplo diz respeito à responsabilidade do não condutor por acidente de. trãnsito envolvendo veículo de sua propriedade. O posicionamento da
jurisprudência majoritária, do qual ousamos divergir, como j á apontado em trabalho anterior," é no sentido de impor essa responsabilidade ao proprietário, de forma
solidária com o condutor, em decorrência da culpa in elegendo (culpa em escolher) ou in vigilando (culpa em vigiar)''
Entendemos que o ,·eículo é mero instrumento do ato ilicito, não o seu agente, não tendo ,·ontade. Assim, independentemente da sua existência, o dano decorreu da
culpa do condutor do veiculo (no seu sentido amplo, abrangendo a negligência, a imprudência e a imperícia, e restrito, abrangendo o dolo}, sem participação ou culpa
do proprietário.
Contudo, se esse mesmo proprietário emprestou o veículo a menor ou a un1a pessoa que se encontrava embriagada, por exemplo, assumiu os riscos relativos ao
empréstimo, emergindo sua responsabilidade em relação ao evento posterior, que pode ser uma colisão, acarretando danos meramente materiais, ou um atropelamento,
com consequências mais danosas.
Embora de forma minoritária, alguns julgados concluem que o proprietário só poderia ser responsabilizado quando empresta seu veiculo a pessoa inabilitada, ou
quando esta não se encontrava em condições de dirigir, por embriaguez ou por qualquer outra causa.,
Quando o ato ilícito produz resultados ch·eis e criminais, como no caso em que o agente atropela e mata pai de familia na via pública, a vitima pode propor a ação
de indenização por perdas e danas ou aguardar o encerramento da ação penal para utilizar a sentença penal condenatória como titulo executivo j udicial, desde que
transitada em julgado, com fundamento no inciso I do art. 91 do CP e no inciso Vl do art 515 do novo CPC.
Contudo, se a vitima escolheu a segunda opção, só poderá executar o titulo obtido no Juízo Criminal contra aquele que- DIRETAMEJIIIE- lhe causou o prejuízo,
não podendo utilizá-lo contra um terceiro, como pais ou empregadores da pessoa qu e praticou o ato ilícito.
Essa impossibilidade decorre do fato de os terceiros não terem integrado a aç.ão crinlinal, não podendo ser prejudicados pelos efeitos da sentença que a julgou.
Assim, ou a vitima instaura a execução contra o causador direto do dano (sobretudo quando for abastado e tiver patrimônio que possa ser penhorado), ou ajuíza ação de
conhecimento na esfera cível,zs contra a pessoa que praticou o ato ilicito e o terceiro, ou apenas contra este, que e o empregador, o pai daquele ou qualquer outra pessoa
inserida na pre,·isão do art. 932 do CC.
Comportando-se dessa forma, a vitima terá de que produzir pro,·a da culpa do reu, já que as instâncias cível, criminal e administrativa são independentes, por força
do art. 935 do CC, podendo fazer uso da sentença penal condenatória como meio de prova, ao lado das demais provas que pretenda produzir.
Se a vítima propôs ação de indenização por perdas e danos, e em paralelo tramita ação penal instaurada contra a pessoa que praticou o ato ilicito, sendo j ulgada
improcedente a ação cível e procedente a ação criminal, a vitima pode executar a sentença penal, no juizo civel.
Alguns poderiam afim1ar que a sentença penal não poderia ser executada, já que, com o julgamento da ação de indenização por perdas e danos pela improcedência
dos seus pedidos, o trânsito em julgado dessa sentença impediria que a questão fosse rediscutida.
Esse não é o entendimento da doutrina especializada," que permite a instauração da execução fundada na sentença penal condenatória conferindo à ,·ítima o direito
ã reparação cível, mesmo com a improcedência e o posterior trãnsito em julgado da sentença proferida na ação de indenização por perdas e danos ajuizada com
fundamento na denominada autonomia relativa das duas responsabilidades.

RESUMO DA MATÉRIA

a) se o ato ilicito foi praticado por várias pessoas, recomendamos que o autor limite o litisconsórcio passivo, como fom1a de evitar a demora no andamento do
processo;
b) se o causador direto do dano falec.e , a ação de indenização por perdas e danos pode ser proposta contra os seus herdeiros e sucessores, que se responsabilizarão
pelo pagamento da indenizaç:ão até o limite ou as forças da herança recebida;
c) a ação de indenização por perdas e danos pode ser proposta contra o causador direto do prejuízo efou contra um terceiro, com fundamento no art. 932 do CC,
dispondo a lei material que a responsabilidade dos terceiros independe da comprovação de culpa sua, embora seja exigida a comprovação da culpa da pessoa
que praticou o ato ilicito (art. 933 do CC).
1.8 FUNDAMENTO JURÍDICO DO PEDIDO

O processo civil moderno, orientado pelo principio da instrumentalidade das formas," que encontra o seu pilar no art. 277 do novo CPC, permite que o magistrado
apro,·eite ato processual praticado em desacordo com a forma pre\·ista em lei, desde que a finalidade seja alcançada, e desde que a parte contrária não tenha suportado
prejuízo, que é condição para o reconhecimento de qualquer nulidade processual.
Além disso, por força da máxima da mihifactum dabo tibijus (exponha o jato e direi o direito) , a lei se contenta com a exposição do fato pelo autor, impondo ao
magistrado a obrigação de adequá-lo ao dispositivo legal que fundamenta a pretensão, o que nos permite dizer que a principal tarefa atribuída aos advogados dos
autores, de redigir as petições iniciais, não e absolutamente rígida, mas relativamemte maleável, no que toca ao preenchimento do requisito relacionado aos fatos e aos
fundamentos jurídicos do pe.dido.
Nas ações de indenização por perdas e danos, como em algumas outras ações, o autor fica em dúvida em relação ao dispositivo de lei que deve ser referido na
petição inicial, e que se constitui no fundamento da ação. Independentemente da natureza do dano e da origem da pretensão indenizatória (erro médico, defeito de
construção, dano ambiental, perda de prazo pelo advogado etc.), é costumeira a referência aos dispositivos gerais, independentemente da citação dos específicos, repita-
se, que algumas vezes não são sequer conhecidos.
Assim, e frequente a reprodução dos incisos V e X do art. 5' da CF, bem como (e principalmente) do art. 186 do CC, que tem a seguinte redação:

"A.rt. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntãria, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral,
comete ato ilícito."

Estamos falando da redação da parte do direito (que corresponde à fundamentação jurídica) na qual se espera que o advogado do autor cite os dispositivos legais
que amparam a sua pretensão. Após se referir aos gerais, sobretudo ao art. 186 do- CC, sugerimos que o profissional encarregado da redação da petição inicial cite e
reproduza os dispositivos específicos, como, exemplificativamente:

a) nas ações fundadas em relações de consumo, o inciso \11 do art. 6• e os arts. 12, 14 e 18 do CDC ;
b) nas ações decorrentes de danos ambientais, os arts. 1' ss da Lei n• 7.347/85, arts. 225 ss da CF,§ I' do art. 14 da Lei n' 6.938/81;
c) nas ações decorrentes dos transportes em geral, arts. 1• ss do Decreto n• 2.681, de 7 de dezembro de 1912, geralmente citado como decreto legislativo;
d} nas ações decorrentes da responsabilidade ci\'il pelo transporte aéreo, arts. 246 ss da Lei n• 7.585/86;
e) nas ações resultantes do seguro obrigatório, Lei n• 6.194, de 19 de dezembro de 1974;
f) nas ações fundadas na alegação do cometimento de erro médico, art. 951 do CC e § 4' do art. 14 do CDC;
g} nas ações fundadas na responsabilidade civil dos advogados, art. 17 do EAO AB e § 4• do art. 14 do CDC;
h) nas ações decorrentes de acidente do trabalho, arts. 1' ss da LPS.

Após a transcrição dos dispositivos legais que fundamentam a pretensão indenizatória, aconselhamos que o advogado responsável pela redação da petição inicial
reproduza julgados de Tribunais sobre a matéria, já que a jurisprudência é quase fonte primária do direito, em ações dessa natureza, sobretudo porque a lei não foi
capaz de disciplinar satisfatoriamente toda a matéria que. envolve a responsabilidade civil.
Na atualidade, com o amplo acesso à Internet, já não há mais qualquer dificuldade em se selecionar j urisprudência sobre a questão jurídica que serã discutida na
ação de indenização por perdas e danos. Diversos sites j urídicos oferecem j ulgados de todos os Tribunais do país. A quantidade é tamanha que o autor deve selecionar
os j ulgados, incluindo na petição inicial apenas decisões proferidas por Tribunais de referência no Brasil a respeito da responsabilidade civil.
Inicialmente, e por ser dele a competência para proferir decisões paradigmáticas em matéria infraconstitucional, recomendamos a reprodução de j ulgados do STJ.
Posteriom1ente, recomendamos que o autor (através do seu ad\·ogado) reproduza julgados proferidos pelo Tribunal que se constitui na 2• instância do órgão
jurisdicional que receberá a sua pretensão, posto que, embora os julgados prolatados pelos tribunais estaduais e pelos tribunais regionais federais não tenham efeito
vinculante, o magistrado que atua no 1' grau de jurisdição tende a proferir as suas decisões de acordo com o que vem sendo decidido pelo Tribunal ao qual se encontra
vinculado.
Finalizando a parte bãsica da fundamentação jurídica, o autor pode transcrever opiniões doutrinárias, também de forma contida, sem exageros, dando preferência
aos autores que mais se dedicam ao estudo da teoria da responsabilidade civil.
Desse modo, provisoriamente, poden1os concluir que a parte do direito (fundamento jurídico do pedido) costuma ser dividida com a menção à lei, à jurisprudência e
a lições doutrinárias relacionadas á matéria que se constitui no fundamento j urídico da pretensão do autor.
Mas a parte do direito não e assim tão simples. Ao lado da reprodução da lei, da jurisprudência e da doutrina, como providência básica, algumas questões
especificas não podem ser esquecidas pelo autor.
A teoria da responsabilidade civil apresenta três pilares ou elementos, que são:

a) o dano, no gênero, com as modalidades ou espécies do dano material, do estético e do moral;


b) o ato omissivo ou comissivo do agente; e
c) o nexo de causalidade, unindo os dois primeiros elementos, estabelecendo uma relação de causa e de efeito.

Independentemente da natureza do dano e do ato que gera a insatisfação do autor e que o leva a propor a ação de indenização por perdas e danos, em todos os casos,
o advogado que o representa deve se preocupar em comprovar o preenchimento dos três requisitos referidos em linhas anteriores, sobre os quais será estabelecida toda a
contro\·ersia judicial, em relação aos quais todas as provas serão produzidas.
Assim, quando redige a petição inicial, o advogado do autor deve fazer referência a esses requisitos, se possível em tópicos separados, com boa organização
redacional.
Em relaç.ão ao dano, este pode ser material, estético e/ou moral, sendo lícita a cumulação de pedidos em relação a esses últimos dois danos (como também em
relação ao primeiro), nos termos da Súmula 387 do STJ, que tem a seguinte redação: "É licita a cumulação das indenizaç.ões de dano estético e dano moral."
Durante algum tempo, o dano estético era entendido como subespécie do dano moral, entendimento que foi modificado pela jurisprudência, como percebemos
atra\·és da leitura do seguinte julgado:

"Permite-se a cumulação de valores autônomos, um fixado a titulo de dano moral e outro a titulo de dano estético, derivados do mesmo fato, quando forem
passíveis de apuração em separado, com causas inconfundíveis. Precedentes" (REsp 595866/RJ, 4' Turma do STJ).

Ainda atentos à jurisprudência, podemos citar situações que ensejaram a condenação de réus ao pagamento de indenização por danos morais e por danos estéticos,
de forma autônoma:

a) Em ação de indenização proposta contra o estabelecimento de saude e o médico oncologista, em virtude de a vitima ter recebido resultado falso positivo para
células malignas, apontando câncer pulmonar, o qual levou a autora a se submeter a cirurgia e à implantação de cateter desnecessariamente (REsp 1381681/RS,
j. 16.6.2015).
b) Em ação de indenização por perdas e danos decorrente da queda de passageitt'o de transporte ferroviário (AgRg no AREsp 696128/SP,j. 9.6.2015).
c) Em ação de indenização por perdas e danos decorrente de acidente de trânsito causado por buraco existente na via pública (AgRg no REsp 1522864iCE, j.
2.6.2015).
d) Em ação de indenização por perdas e danos decorrente de paralisia dos musculos faciais da vítima, após cirurgia ortodõntica realizada em hospital (AgRg no
AREsp 529487/SP,j. 21.5.2015).
e) Em ação de indenização por perdas e danos decorrente de erro de diagnóstico, que levou a vítima a realizar procedimento cirúrgico desnecessário (AgRg no
AgRg no AREsp 663707JRS,j. 12.5.2015).

Em qualquer situaç.ão, para se creditar no direito de receber indenização pelo dano moral e pelo dano estético, a vitima deve compro,·ar que a sua higidez física foi
comprometida, geraltuente apresentando cicatriz deformante após a prática do ato ilícito, o que afeta a sua autoestima, sem falar nas situações em que perde membro ou
em que sofre comprometimento de função, em decorrência da prática do ato ilícito.

Dano versus mero aborrecimento. Definição necessária para creditar ou não o autor no direito de obter indenização por danos morais

A jurisprudência e a doutrina criaram uma classificação de situaç.ão jurídica aquém do dano, denominada mero aborrecimento, para e\·itar o enriquecin1ento ilicito
do autor, pois sem causa, e consequentes abusos de postulação, que infelizmente são vistos em ações de indenização por perdas e danos.
Essa expressão vem sendo utilizada com frequência em ações de indenizaç.ão por perdas e danos, tanto pelos réus, para tentar demonstrar a não ocorrência do dano
moral, como pelos magistrados, para julgar as ações pela procedência dos pedidos, quando concluem pela existência do dano, ou para rejeitar as pretensões dos autores,
quando concluem pela ocorrência do mero aborrecimento ou dissabor.
É importante destacar que o reconhecimento da ocorrência do mero aborrecimento - em \·ez do dano - não resulta na diminuição do valor da indenização, mas no
julgamento da ação pela improcedência dos pedidos, proYidência acompanhada da condenação do autor ao pagamento das custas, das despesas processuais e dos
honorários ad\·ocaticios, em respeito aos princípios da sucumbência e da causalidade".
O mero aborrecimento pode ser entendido como o dissabor experimentado pelo homem mediano, um aborrecimento decorrente de situações que frequentemente
ocorrem no dia a dia das pessoas, sem lhes causar dor, aflição, humilhação, sem colocá-las em situação vexatória.
Em alguns casos, o mero aborrecimento afasta-se imensamente do dano, enquanto, en1 outros, o limite entre aquele e este é tênue.
É importante, assim, por parte da pessoa que se acha vítima de um ato praticado por outrem, no momento em que antecede à elaboração da petição inicial, analisar o
posicionamento da jurisprudência sobre a matéria, para \·erifícar se o resultado que se constituiria o fundamento da ação vem sendo considerado mero aborrecimento ou
dano moral.
Iniciando pelas situações que evidenciam claramente o denominado mero aborrecimento, podemos citar como exemplos:

a) O mero inadimplemento contratual, como percebemos por meio da anális-e do seguinte julgado: "A jurisprudência consolidada nesta Corte Superior perrneia-
se no sentido de que o mero inadin1plemento contratual não se revela suficiente. a ensejar dano de ordem moral bábil a perceber indenização, porquanto
considerado como hipótese de dissabor do cotidiano, razão pela qual o entendimento perfilhado pela Corte de origen1 se coaduna com o posicionamento
adotado por esta Casa. Incidência da Sumula 83/STJ. Precedentes. AgRg no REsp 1.408.540, REsp 1.129.881!RJ, REsp 876.527/RJ. Ainda assim, a Corte
Estadual com base na análise acurada dos autos concluiu que o caso vertente afasta-se de hipótese extraordinária autorizadora à indenização por danos
extramateriais, e derruir o entendimento exarado implicaria o revolvimento das matérias fáticas e probatórias da demanda, o que incide no óbice da Súmula
7/STJ, em ambas as alíneas. Agravo regimental despro\·ido" (AgRg no AREsp 362136iSP, 4' Turma do STJ, Rei. Min. Marco Buzzi,j. 3.3.2016 - grifamos).
b) O envio de cobranças ao autor, referentes à divida anteriormente adimplida, como percebemos por meio da leitura do seguinte julgado: "Apelação cível.
Promessa de compra e venda. Ação indenizatória por danos morais. Preliminar de cercean1ento de defesa. A parte que, no momento oportuno, renuncia à
produção de provas não pode, em sede de apelação, alegar cerceamento de defesa. Cerceamento de defesa inocorrente. Preliminar rejeitada. Indenização por
danos morais. Simples transtornos ou meros dissabores nas relações econômicas e sociais não têm relevância suficiente para caracterizar dano moral. O
envio de boletos de cobrança, apesar da quitação integral do contrato, por si só, é insuficiente para caracterizar dano moral, configurando mero
aborrecimento. No caso concreto, inexiste comprovação de sofrimento, constrangimento, humilhação, \·exame ou abalo emocional em decorrência do em·io
dos boletos. Por isso, não procede a pretensão de indenização por danos morais. Apelação despro\·ida" (Apelação Cível n• 70065954 190, 19' Câmara Civel do
TJRS, Rei. Des. Marco Antônio Angelo, j. 12.5.2016- grifamos).
c) A queda sofrida por consumidora decorrente do defeito de fabricação de sapato, como percebemos por meio da leitura do seguinte julgado: "Ação
indenizatória. Sapato. Defeito de fabricação. Responsabilidade objetiva. Nexo causal. Ônus da prova. Dano moral. Inocorrência. A responsabilidade civil do
fornecedor é obj etiva, fato que, todavia, não exclui o encargo do consumidor de pro\·ar o dano e o nexo de causalidade. ' O ônus de comprovar a ocorrência dos
danos e da sua relação de causalidade com determinado produto ou serviço é do consumidor. Em relação a esses dois pressupostos da responsabilidade civil do
fornecedor (dano e nexo causal), não hoU\·e alteração da norma de distribuição do encargo probatório do art. 333 do CPCn 3' -lição doutrinária. Novo Código
de Processo Civil em que permanece tal regra, no artigo 373 , inciso I. Autora relatou queda em função de falha em fabricação de sapato- rompimento de
cordão de sustentação. I.nexistente comprovação dos danos efetivos e do nexo de causalidade com a queda da autora. Fatos que não transbordam os meros
aborrecimentos do cotidiano, não ensejando danos morais passíveis de compensação pecuniária. Sentença de improce.dência mantida. Negaram
provimento a apelação. Unânime" (Apelação Cível n• 70067262428, 10' Câmara Cível do TJRS, Rei. Des. Jorge Alberto Schreiner Pestana, j . 5.5.2016-
grifamos).
d) Demora excessiva no atendimento bancário, como percebemos pela analise do seguinte julgado: "Ação de indenização por danos morais. Tempo de espera
em fila de banco. Dano moral não configurado. Demora no atendimento que, por si só, não e capaz de ensejar indenização pretendida. Mero dissabor. A autora
interpôs ação de indenização por danos morais supostamente sofridos em decorrência da espera de quase uma hora na fila da instituição banc.ãria ré, acostando
ticket comprovando a entrada, no dia 07.04.20 15, ãs 15h55min, e o seu atendimento às 16h45min (fi. 12). De fato, a demora excessiva no atendimento em
instituição bancária é causa de aborrecimento. Contudo, não foi demonstrada a ocorrência de qualquer situação eícepcional a ensejar a indenização a
título de danos morais. Sentença mantida. Recurso improvido" (Recurso Civel n• 71005825971, 1' Turma Recursal Civel, Turmas Recursais do TJRS, Rei.
Des . .A.na Cláudia Cachapuz Silva Raabe,j. 23.2.2016- grifamos).

Em outros casos, a jurisprudência entendeu que não se trata de mero aborrecime.nto:

a) O fato de o autor encontrar inseto em biscoito, após ter ingerido o produto, como percebemos por meio da leitura do seguinte julgado: "Responsabilidade
civil. Ação indenizatória. Presenç.a de larva de inseto em biscoito. Danos morais ocorrentes. Cerceamento de defesa não caracterizado. Quantum. Correção
monetária. Juros de mora. Hipótese em que a demandante encontrou uma larva de inseto em biscoito produzido pela ré, após ter ingerido o produto.
Cerceamento de defesa não configurado. Prova pericial desnecessária, na medida em que, independentemente de a contaminação ter ocorrido no processo de
fabricação ou na arntazenagem de estabelecimento comercial, a ré é responsável por estar na cadeia de fornecimento. Caracterização de acidente de consumo,
cujas excludentes não restaram devidamente comprovadas pela fabricante. Responsabilidade, in casu, obj etiva. Dano moral presumido. Repulsa ao biscoito
contaminado que ultrapassa o mero aborrecimento. A indenização não de,·e. ser em valor infuno, nem tão elevada que torne desinteressante a própria
inexistência do fato. Atel!çlo às particularidades das circunstâncias do caso. Quallium fixado em F grau m:llltido em R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Correção
monetária a partir do arbitramento da condenação. Sumula 362 do STJ. Juros de mora que incidem desde a citação válida, tratando-se de responsabilidade civil
de natureza contratual. Apelação desprovida. Unânime" (Apelação Civel n• 70068683721, 10' Câmara Cível do TJRS, Rei. Des. Jorge Alberto Schreiner
Pestana, j. 5.5.2016- grifamos), com a ressalva de que a indenização e negada quando o consumidor não comprova que ingeriu o produto-" .
b) O furto sofrido por c.o nsumidor em estacionamento de supermercado, como percebemos pela leitura do seguinte julgado: "Apelação cível. Ação de
indenização por danos material e moral. Furto de veículo em estacionamento de supermercado. Dano moral. Dever de indenizar configurado. Sentença mantida.
Trata-se de apelação interposta contra sentenç.a de procedência de ação de indenização por danos material e moral decorrentes do arrombamento e furto de
objetos no interior do veiculo, em estacionamento do supermercado. De\·er de indenizar- Cabia à ré zelar pela segurança do veiculo e pelos objetos que nele se
encontram. O artigo 14, § 1•, do CDC estabelece claramente que o fornecedor responde objetivamente pela reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos relativos à prestação do serviço. Dano moral - Dano moral in re ipsa configurado. Ademais, o cenário descrito pela parte autora não pode ser
considerado mero dissabor ou aborrecimento. De outro lado, a demandada atrai clientes com a suposta comodidade de um estacionamento seguro, criando a
legitima expectativa aos seus consumidores de que irá proteger os veículos que se encontram em seu estabelecimento. Quantum indenizatório- Na fixação do
dano moral, deve-se ponderar sobre as condições socioculturais e econômicas dos envolvidos, o grau de reprovabilidade da conduta ilícita, a gravidade do dano,
bem como o caráter punitivo-pedagógico e as reparatório-retributivas da condenação, de tal forma que a quantia arbitrada não seja tão irrisória que sin·a de
desestimulo ao ofensor, tampouco exacerbada a ponto de implicar enriquecimento ilícito para a parte autora. Considerando as premissas acima especificadas,
considero justo e adequado o valor arbitrado na origem de R$ 10.000,00. Apelação desprovida" (Apelação Cível n• 70063160907, 6' Câmara Civel do TJRS,
Rei. Des. Sylvio Jose Costa da Silva Tavares, j. 28.4.2016- grifamos).
c) O cot·te indevido no fornecimento de energia elétrica, conto mew coercitivo de cobrança de valores que estão sendo judicialmente discutidos, o que ocorre
com frequência, sendo causa do ajuizamento de um número considerável de ações,. como percebemos por meio da leitura do seguinte julgado, dentre tantos
proferidos sobre a mesma matêria: "Apelação cível. Responsabilidade civil. Ação indenizatória. Danos morais. Suspensão no fornecimento de energia el étrica.
Responsabilidade obj etiva .•-'\rt. 37, § 6•, da CF e arts. 14, §§ t•, 3•, e 22 do CDC. Proposta a demanda indenizatória contra empresa prestadora de serviço
público, o regime a ser aplicado é o da responsabilidade civil objetiva, sendo desnecessário perquirir a respeito da culpa do causador dos danos. Incidência do
art. 37, § 6•, da CF e dos arts. 14 e 22, parágrafo unico, do CDC. O ônus da prova acerca da inexistência de defeito na prestação da atividade é do fornecedor, a
teor do disposto no art. 14, § 3•, I e !I, do CDC. Caso concreto em que a ré entende que a suspensão no fornecimento de energia ocorreu por culpa exclusiva da
autora, inadimplente com o pagamento de valores cobrados a titulo de PIS/Cofins retroativos. Suspensão no fornecimento de energia por dh·ida pretêrita. !licito
ch·il passível de indenização a título de danos morais. Dano moral in re ipsa. Conquanto a suspensão ou corte do fornecimento do serviço de energia elétrica
esteja previsto em lei em casos de inadimplência, tal não se justifica como medida coercitiva vi~ando á satisfação de débito sem atualidade. Nos termos no art.
42 do CDC, 'na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente. não será exposto a ridículo, nem será submetido a qualquer constrangimento ou ameaça' . bt
casu, vê-se que a suspensão do fornecimento de energia visou coagir a autora, pessoa humilde e de modesta condição ecooômico-socíal, a efetuat· o
pagamento integral de dívida de período pretérito, correspondente a rubrica acoplada ao valor da tarifa cuja legitimidade questionou em demanda
precedente. Comportamento arbitrário e abusivo da empresa concessionária., ao alijar o consumidor da plena fruição do serYiço pfiblico essencial. Danos morais
in re ipsa. Em situações tais os danos morais decorrem da força dos próprios fatos, são inerentes ao evento, impondo-se o dever de indenizar. Apelo
despro\'ido" (Apelação Cível n• 70063345433, 9' Cãmara Civel do TJRS, Rei. Des. Miguel Angelo da Silva.,j. 25.5.2016), com a ressalva de que alguns v:irios
outros julgados entendem que o corte no fornecimento de energia elétrica sem a compro\·aç.ão da ocorrência de dano moral caracteriza mero aborrecimento''

Questão interessante diz respeito à caracterização (ou não) do dano moral decorrente do fato de as empresas que exploram o segmento plano de saMe negar
cobertura a procedimentos requeridos no ãmbito administrativo pelos usu:irios dos planos contratados.
Num primeiro momento, a j urisprudência entendeu que estaríamos diante de mero descumprimento de cláusula contratual, enquadrando o resultado como
aborrecimento ou dissabor, que são sinônimos nesse tipo de situaç.ão.
Posteriormente, os tribunais passaram a afirmar que a negativa de cobertura de procedimentos, por parte das referidas empresas, caracteriza dano moral, não mero
dissabor, quando a recusa for injustificada. Vejamos j ulgado sobre a materia:

"Nas hipóteses em que há recusa injustificada de cobertura por parte da operadora do plano de saúde para tratamento do segurado, como ocorrido no presente
caso, o STJ é assente quanto à caracterização de dano moral, não se tratando apenas de mero aborrecimento" (AgRg no REsp 1470857/SP, 4' Turma do STJ,
Rel. Min. Raul Araujo, j. t •.3.2016).

Não estamos afirmando que todas as recusas manifestadas pelas empresas que exploram o segmento plano de saUde creditariam os usuários no direito de perseguir
o recebimento de indenização por danos morais, mas que esse direito lhes é garantido quando a recusa for injustificada.
Essa justificação ou não da recusa consiste matéria de prova, própria da fase de instrução probatória, o que significa que o requerimento formulado pelo autor, para
que o processo seja julgado de forma antecipada, pode se mostrar temerário.
De.sse modo, mesmo que o autor entenda que as questões de fato teriam sido esclarecidas por documentos que acompanham a petição inicial, e que, portanto, o caso
concreto estaria afmado com a previsão constante do inciso I! do art. 355 da nova lei processual, sugerimos que solicitem o encaminhamento do processo para a fase de
instrução probatória, para que a tese concernente à recusa injustificada seja reaf!fmada.
O momento de discutir se a recusa foi ou não injustificada ocorre durante a tramitação do processo na instància ordin:iria (1• e 2" graus de jurisdição), não no ãmbito
do recurso especial, já que a jurisprudência do STJ consolidou o entendimento de -q·ue o exame dessa situação exige o reexame do contexto fático-probatório dos autos,
o que é incompatível com a Sfimula 07 do mencionado Tribunal, como percebemos pela leitura de julgado exemplificativo:

"Está consolidado nesta Corte o entendimento de que é abusiva a recusa da empresa operadora à cobertura de procedimento médico necess:irio para o
tratamento de doença prevista no plano contratado. Prece.dentes. O recurso especial não comporta o exame de questões que impliquem revolvimento do
contexto fático-probatório dos autos, a teor do qne dispõe a Súmula o. 7/STJ. No caso, o Tribunal de origem, com base nas provas coligidas aos autos,
concluiu pela existência de danos morais. Alterar tal conclusão dem.andaria o reexame de fatos e provas, inviável em recurso especial, a teor do
disposto na mencionada súmula. Somente em hipóteses excepcionais, quando irrisório ou exorbitante o valor da indenização por danos morais arbitrado na
origem, a jurisprudência desta Corte permite o afastan1ento do referido óbi-ce para possibilitar a revisão. No caso, o valor estabelecido pelo Tribunal de origem
não se mostra desproporcional, a ponto de justificar sua reavaliaç.ão em recurso especial. Agra\'o interno a que se nega pro\'imento" (Aglnt no AREsp
867687/MG, 4' Turma do STJ, Rei. Min. Antônio Carlos Feneira, j . I 7.5.2016) (grifamos).

Não ha uma regra preestabelecida que nos permita inserir di\·ersas situações semelhantes no conceito de recusa injustificada. Contudo, atentos à jurisprudência,
percebemos que os tribunais têm se inclinado a entender como injustificadas:

a) A negativa a cobertura de exame (PET SCA1'l') (AgRg no REsp 1546908/RS, j. 26.4.2016).


b) A negatin de realízação de procedimento cirúrgico em paciente com aneurisma cerebral (AgRg no REsp 1014906, j . 13.5.2016).
c) A negatin de realízação de cirurgia de emergência (AgRg no AREsp 836368,j. 26.4.2016).
d) A cobertura da realização do exame de Esc1erose Multipla- Perfil (AgRg no AgRg no REsp 1513505, j . I 7.3.2016).
e) A negati\·a de fornecimento de Stent, em procedimentos cardíacos (AgRg no REsp 1470857,j. 1.".3.2016).

Em qualquer hipótese, versando sobre a alegada recusa injustificada em ações propostas contra empresas que exploram o segmento plano de saúde ou sobre
qualquer outra questão, o que percebemos e que a caracterização do dano depende da comprovação de que o resultado experimentado pelo autor ultrapassa o mero
dissabor, causando-lhe constrangimento, humilhação ou resultado semelhante.
Essa comprovação pela natureza do fato é quase sen1pre feita pela produção de prova de natureza testemunhal, o que valoriza a realização da audiência de instrução
e julgamento em ações de indenização por perdas e danos.

Quantificação do dano moral O grande problema das ações de indenização por perdas e danos. Necessidade de exame da jurisprudência para
permitir a formulação de pedido certo e determinado, evitando o indeferimento da petição inic.ial (inciso 11 do § 1" do art. 330 do novo CPC) pela
formulação do pedido genérico

Como destacamos em outras seções desta obra, talvez o maior problema das ações de indenízaç.ão por perdas e danos resida na ftxaçào do Yalor da indenização
pelos danos morais sofridos pelo autor, jã que a lei não predeíme os valores indenizatórios a depender de cada dano sofrido pelas vítimas, como R$ 300.000,00 pela
perda de filho, RS 200.000,00 pela perda do cônjuge ou companheiro, R$ 50.000,00> pela perda da visão em decorrência de erro médico, apenas para exemplificar.
Tambem destacamos que o inciso I! do§ 1• do art. 330 da nova lei processual estabelece a regra de que a formulação do pedido genérico ou indeterminado passou a
ser causa de indeferimento da petição inicial, o que impacta diretamente nas ações de indenização por perdas e danos, nas quais a fornmlação desse tipo de pedido era
corriqueira.
Assim, e contra a nossa opinião, o autor não pode mais requerer que o magistrado arbitre o valor da indenização pelos danos morais suportados, fonnulando pedido
da seguinte fom1a:

Posta a q~lleS!eS t~. oautol requer se digne Vossa Exa!lillcia a. ao final; julgara a~ pela proc~a dos pedidos, para condenar oréu ao pagarnénto de inde~ pelos d;Jnos morais sofridos, na ~tia a
ser arbitrada por esse douto Juízo.

Diferentemente, o autor deve informar o valor pretendido, sob pena de indeferimento da petição inicial, ou, no minirno, de detenninação da sua emenda, no prazo
de 15 dias, sob pena de indeferimento. Com isso, o novo CPC obriga o autor a pesquisar a jurisprudência, antes de elaborar a petição inicial, para verificar qual valor de
indenização vem sendo fiXado pelos tribunais, a depender do dano que motiva o ajuizamento da ação de indenização por perdas e danos.
Como percebemos, a nova lei processual, nesse aspecto, aproxima-nos do sistema do common /aw, adotado no Canadá, nos EUA e na Grã-Bretanha, apenas para
exemplificar, marcado pela valorização da jurisprudência consolidada, que serve como base no julgamento de ações semelhantes. Vejamos o ensinamento da doutrina" :

"Common Law é um tenno utilizado nas ciências jurídicas para se referir a um sistema de Direito cuja aplicação de nonnas e regras não estão escritas, mas
sancionadas pelo costume ou pela jurisprudência. Tal fonna de Direito tem origem na concepção do direito medieval inglês que, ao ser ministrado pelos
tribunais do reino, re.fletia os costumes comuns dos que nele vh·iam. Este sistema legal vigora no Reino Unido e em boa parte dos países que foram
colonizados por este pais. Uma das principais caracteristic.as do Common Law é de que as questões de\·em ser resoh·idas tomando-se como base sentenças
judiciais anteriores, ao contrário de preceitos legais fixados antecipadamente, como ocorre no sistema romano-germânico, utilizado por vários outros paises,
entre eks o Brasil. A reunião de sentenças judiciais sobre Yárias situações semelhantes permite ex-trair regras gerais que geram precedentes e que se convertem
em orientações para o julgan1ento futuro dos juízes, em casos análogos. O Common Lo:w representa a lei dos tribunais, como expresso em decisões j udiciais.
Além do sistema de precedentes judiciais, outras características do direito comum são julgamento por juri e da doutrina da supremacia da lei".

Por conta da adoção dessa nova técnica, o valor pretendido (inclusive a titulo de indenização pelos danos morais sofridos pelo autor) deve ser repetido como valor
da causa (inciso V do art. 292 do CPC), serYindo como base de cálculo para a apuração das custas processuais, geralmente cobradas no percentual de 2% sobre esse
valor.
Com isso, ante\·emos um aumento dos pedidos de concessão dos beneficios da justiça gratuita, pois, pensando numa pretensão indenizatória no valor de RS
500.000,00, constatamos que as custas representariam algo em tomo de R$ 10.000,00, quantia de que a maioria da população brasileira não dispõe.
Ainda como consequência da nova realidade processual, é necessário observarmos o movimento do STJ quanto à manutenção da Súmula 326, que ten1 a seguinte
redação:

"S1lmula 326. Na ação de indenização por dano moral, a condenação em montante inferior ao postulado na inicial não implica sucumbência reciproca".

Vejamos trecho de uma das decisões que inspirou o STJ a aprovar a sumula reproduzida:

"Dada a multiplicidade de hipóteses em que cabível a indenização por dano moral, aliada à dificuldade na mensuração do valor do ressarcinlento, tem-se que a
postulação contida na exordial se faz em caráter meramente estimativo, não podendo ser tomada como pedido certo para efeito de fiXação de sucumbência
recíproca, na hipótese de a ação vir a ser julgada procedente em montante inferior ao assinalado na peça inicial. Proporcionalidade na condenação já respeitada
se faz sobre o real montante da indenização a ser paga. Precedentes do STJ. Recurso conhecido em parte e parcialmente provido" (REsp n• 351.602/PR, DJ de
17.02.2003, Rei. Min. Aldir Passarinho Júnior).

Como o novo CPC exige que o autor conheça a jurisprudência, no que toca aos valores indenizatórios fixados em casos semelhantes, quer-nos parecer que a
fonnulação de pedido absurdo (leia-se: muito distanciado dos parâmetros j urisprudenciais) pode autorizar o julgador a condenar o autor ao pagan1ento dos honorários
advocatícios, sobre a parte em que este decaiu (exemplo: o autor solicita que o réu seja condenado a pagar indenização na quantia de R$ 100.000,00, quando a
jurisprudência quase unânime informava que a indenização foi fixada em aproximadamente RS 10.000,00, em casos semelhantes, e o juiz condena o réu a pagar RS
15.000,00).
De qualquer modo, considerando a importância da jurisprudência na matéria que estudamos, destacamos alguns valores de indenizaç.ão j:i fixados em casos
concretos, com base no exame de determinados julgados de tribunais estaduajs e do STJ:

Dano

AgRg no AREsp 735377/RJ, 4• Turma do STJ, Rei. Min. Raul Araújo,t


Morte de menor por eletrocussão R$150.000,00emfavordos pais
55.1016

Apelação eReeJCame Ne<essârio n• 70066814053, 5• Câmara Cível do


Morte de apenado nas dependências de presídio R$30.000,00 em faVIX da mãe da vítima fa141
TJRS, Rei. Jorge André Pereira Gailhard, j. 255.1016

Apela~ Cível.n• 70067600288, 100 Cârnara Cível do TJRS, Rei. Des. Jorge
Mocte de criança no interior de loja de departamentos RS 70.000,00 para <ada um do5 pois e R$ 35.000,00 para o irmão
Alberto S<hreillef Pestana, j. 5.5.2016
Apelaç.íoe Reexame NEcessário n• 70064789076, 12• Câmata Civel do
Morte de filho emacide!lte de tráll5ito 100 saWios mínimos para cada um dos genitores
TJRS, Rei. Oes. Ana lútia CaMiho Pinto Vieira Rebout. j. 293.1016

Morte de idosa em decorrência de atropelamento 50 saLírios mínimos para ocônjuge sobreVivente Apelaçâo Ci'lel n• 70058974691, ll'Clmara Cível do TJRS

Mone decorrente de falta de atmdimento médico em hospital RS 70.000,00 em favor do cônjuge sobreVivente Apeldção Ci'lel n•0168829-24.2009.8.19.0001, 17• Câmara Cível do TJRJ

Apelação Ci'lel Oll8766-87.2010.8.19.0001, ll• Câmara Cível


Morte em pano indevidamente antecipado RS 50.000,00 para <ada um d'.osgenitores da vítima fatal
Consumidor doTJRJ

Monede recém-nascido em decorrência de pano tardio R$ 100.000,00 em faw da genitora da vítima fatal Apelação Cível n• 0063306,96.2004.8.19.0001,6' Câmara Ci'lel do TJRJ

Morte de recém-nascido decorrente da não realização de exame


RS 20.000,00 para cada um dos pais da vitima fatal Apelação Crvel2012.070.992-3, TJSC
laboratorial necessário na fase pré-natal

Morte de paciente por negligência no seu acompanhamento em


RS 100.000,00 para ocônjuge sobreVivente Apelação Civel2011.032665- 4, TJSC
hospital

Morte de paciente em decorrência da negativa de deslocamento de


Apelação Ci'lel N• 70066571324, 10>Câmara Cível do TJRS, Rei. Oes.Jorge
ambulância por médica responsável pela triagem dos atendimentos do RS 80.000,00 em favor do filho menor da vítima fatal
Albeno SchreinerPestana, j. 313.2016
SAMU

Monede vitima de disparo de arma de fogo, decorrente da negligência Apelaç.ío Cível n' 70064805039, 10> Câmara Cível do TJRS, Rei. Oes. Jorge
RS 70.000,00 em faVOf da mãe da vítima fatal
na anâlisedinica do paciente Albeno Schreiner Pestana,j. 24.9.2015

Devolução de cheque de forma equivocada pelo banco, acarretando a Recurso Cíveln• 71006039978, 4• Turma Recursal Cível, Turmas Recursais
RS7.000,00
inscriç.ío indevida do nome do autor em órgaos de proteção do crédito do TJRS, Rei. Glaucia Oipp Oreher, j. 29.4.1016

Recuro Ci'lel n• 71005931670,1• Turma Recursal Cível, Turmas Rffursais,


Cheque compensado em valor superior ao constante na ooula Restituição, em dobro, do valor compensado de forma equivocada
Rei. Mara Lúcia Coecaro Manins Facchini, j. 26.4.2016

Apelação Cível n• 70067794602, 5• Câmara Cível do TJRS•.Rel. Oes.léo


Queimaduras graves em razão da ruptura de bolsa de água quente Rs 35.óoo;oo
Rorni Pilau Júnior. j. 30.3.2016

lace<ação de anéria gastroepiploica do autor durante oprocedimento


Apelaç.ío Cíveln• 70068004266, 9'Câmara Cível do URS, Rei.
de videolaparoscopia realizado por médico, causando isquemia de vias RS 60.000.00
Desembargador Eugênio Facchini Neto, j~ 27.4.1016
biliares comnecrose do colédoco

Recuro Ci'lel n• 71005644752, 1• Turma Recursal Cível, Turmas Recursais,


Inscrição indevida em serviço de proteç.ío ao crédito RS 7.000,00
Rei. Fabiana Zilles, j. 1.•.10101 5

Desconto realizadono beneficio previdenciirio do autor decorrente de Recurso Cível n• 71005327804, 4• Turma Recursal Cível, Turmas Recursais
RS 1500,00
empréstimo bancário naocontratado do TJRS•.Rel. Roberto Carvalho Fraga, j. 22S.2015

Apelação Cível n• 70051537926, 12• Câmara Ci'lel do TJRS, Rei. Oes. Ana
Dano estético decorrente de atropelamento de idosa R$ 20.000,00
lúiia CaMiho Pinto Vieira Rebout. j. 193.1015

Prisao indevida, que perdurou por algumas horas R$3.000,00 Apelaç.ío Cível n•00001~.1012.8.24.0041, TJ5C

Para demonstrar que o autor tem conhecimento do parâmetro da j urisprudência, sugerimos que formule o pedido da seguinte forma:

Posta a questão nesses termos, o autor requer se digne Vossa Excelência a, ao final, julgar a ação pela procedência dos pedidos, para condenar o reu ao
pagamento de indenização por danos morais, na quantia de R$ 10.000,00, confonne Apelação Cínl n'l23456/TJSP, Apelação Cinll24326/TJRJ e REsp
345789/PR (grifamos).
Por conta do art. 944 do CC, textual em estabelecer que a indenização é medida pela extensão do dano, recomendamos que o ad\·ogado encarregado da redação da
petição inicial faça referência a essa extensão desde a petição inicial, mantendo esse cuidado na fase de instrução probatória, geralmente atra\·és da produção da prova
testemunhal, como condição para obter indenização que seja proporcional ao prejuízo suportado pela vítima.
No que toca ao dano material, apresenta subespécies, que são o dano emergente (ou prejuízo já suportado) e o lucro cessante, ou seja, o que a vítima
razoavelmente deixou de ganhar, como nas situações que envoh·em taxista, que sofreu colisão de trânsito, e que por esta razão permanece por 30 (trinta) dias sem fazer
uso do seu automóvel, que se encontra na oficina, não obtendo receita nesse período, ou de vitima de acidente automobilístico, que perde a capacidade laborativa.
O dano não pode ser potencial ou hipotético, mas efetivo, concreto, real, embora parte da doutrina seja flexível quanto à possibilidade de o pedido relacionado aos
lucros cessantes se fundar na probabilidade objetiva de ocorrência do prejuízo, como percebemos através da anàlise do ensinamento de SlLVIO NEVES BAPTISTA:"

"Para a caracterização do lucro cessante, não é suficiente a simples possibilidade da realização de lucros, mas também não se exige a certeza de que ele
ocorreria não fosse o fato jurídico danoso. O que é fundamental é a probabilidade objetiva que resulta do 'curso normal das coisas' e das 'circunstâncias
especiais do caso concreto ', levando em conta inclusive o que a pessoa vinha percebendo e o que objetivamente poderia perceber."

Quanto à exigência de que o prejuizo seja real e concreto, citamos sempre como exemplo o que envolve pessoa que se encontra em determinada calçada,
aguardando a abertura do semàforo de transeuntes para iniciar a travessia da via publica.
Antes da abertura do sinal, um veiculo conduzido por outrem passa defronte do transeunte, em velocidade excessiva, além dos padrões permitidos para a via urbana.
Pois bem. Esse transeunte não pode propor a ação de indenização por perdas e danos, alegando que, se th·esse atravessado a rua teria sido atropelado.
Não existe o se na ação de indenização por perdas e danos. O dano, como já dito, deve ser prondo pelo autor, sobretudo quando for material, admitindo-se, em
alguns casos, o ajuizamento da ação para que o réu seja condenado ao pagamento de indenização por dano moral, sem a efetiva compro\·aç.ão da sua ocorrência, por ser
presumido, como na situaç.ão clàssica em que a mãe propõe ação de indenização decorrente da morte de filho, não se exigindo que compro\·e o seu sofrimento, no
decorrer da relação processual."
A perda de filhos faz presumir a dor dos seus genitores, como também dos irmãos, pela perda de outro irmão, do cônjuge ou companheiro, pela perda do outro, dos
filhos, pela perda dos pais. Essa pre.sunção foi estendida pela j urisprudência, alcançando algumas ações fundadas em relações de consumo, para, exemplificati\·amente,
garantir o recebimento de indenização por danos morais em fa\·or de consumidores, nas seguintes situações:

a) Na que envolve a lavratura de protesto e a inscrição inde\'ida do nome do consumidor em cadastro pejorativo. Nesse sentido, reproduzimos julgado
ilustrativo: "Hipótese em que o autor comprovou ter adimplido a dívida antes da lavratura do protesto, pagamento esse que somente não foi repassado ao credor
por falha no sistema de compensação de valores da casa lotérica. Evidente. portanto, o acidente de consumo, não podendo o consumidor ser prejudicado pela
falha no serviço prestado pelo agente autorizado a receber o pagamento conveniado ao credor. Relação de conswno. DANOS MORAIS. O protesto indevido e a
consequente inscrição indevida do nome da parte nos cadastros de inadin1plentes configuram abalo moral in re ipsa (da própria coisa ou pela própria coisa),
decorrente do próprio fato, dispensando a comprovação efetiva do dano. Nesses casos, o dano moral é presumido, pois evidenciado o abalo ao crédito da pessoa
lesada, que passa a ser taxado, injustamente, como ' má pagadora'. Sentença mantida. APELAÇÕES DESPROVIDAS." (Apelação Cível n• 700605999 74, 12'
Càmara Cível do TJRS, rei. Des. Ana Lúcia Carvalho Pinto Vieira Rebout, j. 30.7.2015, em transcrição parcial).
b) Na que envolve a manutenção inde\'ida do nome de consumidor em cadastro pejorativo. Vejamos o seguinte julgado: "A manutenção indevida do nome do
devedor no cadastro de inadimplentes ensejao dano moral in re ipsa (da própria coisa ou pela própria coisa), ou seja, dano vinculado a própria exístência do
fato ilícito, cujos resultados são presumidos" (AgRg no AREsp 661 456 / BA, j. 15.6.2015, em transcrição parcial).
c) Na que envolve o dano moral decorrente do atraso de \'OO. Nesse sentido:. ''O dano moral decorrente de atraso de voo prescinde de pro\·a e a responsabilidade
de seu causador opera-se in re ipsa (da própria coisa ou pela própria coisa) em virtude do desconforto, da aflição e dos transtornos suportados pelo
passageiro" (REsp 1280372/SP, j. 10.10.2014, em transcrição parcial).

Mesmo quando a lei e/ou a jurisprudência exíge a comprovação do dano, como condição para que a indenização seja ftxada, esta prova não hà de ser pré-
constituída. Uma das principais características da ação de indenização por perdas e danos é a de apresentar fase de instrução probatória rica, na qual diversas provas são
produzidas, com destaque para a pericial, a documental, a testemunhal e o depoimento pessoal das partes.
Contudo, quando a prova for de natureza documental, e o autor já dispõe do documento no momento do ajuizamento da ação, este deve acompanhar a petição
inicial, por exigência do art. 434 do novo CPC, que tem a seguinte redação:

"Art. 434. Incumbe á parte instruir a petição inicial ou a contestaç.ão com os documentos destinados a provar suas alegações. Parágrafo ilnico. Quando o
documento consistir em reprodução cinematográfica ou fonográfica, a parte deverà trazê-lo nos termos do caput, mas sua exposição será realizada em
audiência, intimando-se previamente as partes."

Não obstante a exigência legal, a mesma lei processual permite a juntada de novos documentos no curso da ação, quando "destinados a fazer prova de fatos
ocorridos depois dos articulados ou para contrapô-los aos que foram produzidos nos autos", bem assim, dos que se tornaram conhecidos, acessíveis ou disponiveis após
a petição inicial ou a contestação, cabendo à parte que os produzir comprovar o motivo que a impediu de j untá-los anteriormente (art. 435 e seu paràgrafo ilnico),
respeitando-se, sempre, os princípios da lealdade processual, da estabilização da lide, do contraditório e da ampla defesa e da bilateralidade da audiência.
No que toca ao ato do agente, a sua responsabilidade pode decorrer de ação ou de omissão, sendo que, neste caso, a jurisprudência exige a comprovação de que o
agente omisso tinha o dever legal ou contratual de agir (de praticar determinado ato), ao contràrio disso preferindo abster-se. Em outras palavras, não e qualquer
omissão que acarreta o dever de indenizar, mas apenas a verificada em situação na qual o agente se encontrava na obrigação de praticar determinado ato.
Assim, se uma pessoa sem formação médica comparece a um hospital para visitar determinado paciente, e, passando diante de um quarto aberto ouve pedido de
outro paciente, desconhecido, para que ministre determinado medicamento, o que não ocorre, omissão seguida do falecimento do paciente, não hà que se falar em
responsabilidade nesse caso, pois o visitante não estava obrigado a ministrar o medicamento, mesmo que o seu uso pudesse evitar o falecin1ento da vitima.
A responsabilidade do agente só é confirmada quando for comprovada a denominada omissão voluntaria, ou seja, o não agir decorrente da \·ontade do agente, que
prefere descumprir norma jurídica ou norma contratual a praticar o ato que seria determinante para a não ocorrência do resultado.
O ultimo dos requisitos específicos e o nexo de causalidade, que estabelece uma relação de causa e efeito, interligando os dois primeiros elementos, permitindo a
conclusão de que o dano proveio do ato do age.nte, não de outra causa. Assim, o dever de indenizar só e reconhecido se a vitima provar que o ato do agente foi
determinante para a ocorrência do resultado danoso.
Esse requisito funciona tal como uma ponte, que liga o ato do agente diretamente ao resultado. Contudo, em algumas situações, embora o ato tenha sido praticado
pelo agente, e tenha causado prejuízo, o nexo de causalidade e rompido, pelo fato de a prática do ato ser permitida pelo ordenamento jurídico.
Estamos diante de ato licito, cuja prática e permitida e por vezes estimulada pelo nosso ordenamento jurídico. As situações estão relacionadas no art. 188 do CC,
incluindo a legitima defesa, o exercício regular de um dil'eito e o estado de necessidade.
Estudamos a matéria no Capítulo 2 desta obra, quando analisamos as chamadas excludentes de responsabilidade, incluindo a culpa exclusiva da vítima, o caso
fortuito ou de força maior etc., como fatores responsá\·eis pelo rompimento do nexo de causalidade.
Ainda sobre o nexo de causalidade, e importante fazer referência às chamadas concausas, ou seja, causas (atos ou omissões) que se somam ou que se multiplicam,
tornando difícil o trabalho do magistrado de identificar qual delas teria sido a determinante para a ocorrência do resultado.
Essa matéria é extremamente importante, porque, quando os atos são praticados por pessoas distintas, o autor deve comprovar qual deles, direta e unicamente
acarretou o prej uízo informado na petição inicial, evitando o aj uizamento da ação contra parte ilegítima.
Alem disso, considerando que atos que tenha praticado também podem ser compreendidos no conceito de concausas, deve comprovar que não contribuiu para o
resultado, sob pena de deparar com o julgamento da ação pela procedência parcial dos pedidos, com redução proporcional da indenização, na medida da sua
participação. Vej amos j ulgado sobre a matéria:

"RESPONSABILIDADE CIVIL El\f ACIDENTE DE TRÁi~SITO. ACIDENTE EM PON'TE. CONCAUSAS. ATEJ\IlJAÇÃO DO QUANTUM
INDENIZATÓRIO. Dano que resultou da ação conjunta da Administração Publica e do lesado, em que ambos concorreram para gerar o resultado danoso.
Atenuação do quantum indenizatório na proporção em que cada um partici pou para a produção do evento. Redução da indenização por metade. APELAÇÃO
PARCV\.L.MENTE PROVIDA" (Apelação Cível n' 70028682292, 11• Câmara Cível do TJRS).

Ainda no que toca à fundamentação jurídica do pedido (leia-se: a parte do direito da petição inicial da ação de indenização por perdas e danos), ad\·ertimos que,
como regra e por adoção da teoria subjetiva, o autor dessa ação, além de ter de preencher os re-quisitos específicos anteriormente referidos, terá ainda de provar a culpa
da parte contrária, no sentido amplo, abrangendo o dolo (vontade intencional de praticar o ato) e a culpa em sentido estrito, nas variantes da imprudência, da
negligência e da imperícia.
O õnus imposto ao autor torna árduo o trabalho de elaborar a peça inicial e exige cuidados na fase de instrução probatória, como condição para que a ação seja
julgada pela procedência dos pedidos.
Contudo, em algumas situações, a ação e orientada pela teoria da responsabilidade objetiva, o que significa dizer que o autor é liberado de comprovar a culpa do
réu, situações que decorrem da lei, marcadas pela adoção do mecanismo das presun~ôes, conforme lições do mestre Silvio Rodrigues' '
Nesses casos, não significa que a ação será sempre julgada em favor do autor, mas que o ônus da prova e atribuído ao réu, ou que a defesa deste e limitada, em
atenção à teoria do risco-proveito, principalmente.
Sobre a matéria, listamos as principais situações que excepcionam a regra geral. versando sobre a responsabilidade objetiva, a inversão do ônus da prova ou a culpa
presumida do réu:

a) responsabilidade civil do Estado(§ 6" do art. 37 da CF");


b) responsabilidade civil decorrente das relações de consumo (inciso VIII do art. 6' e art. 14 do CDC),'9 com a ressah·a de que a inversão do ônus da prova não é
automática, ocorrendo, caso a caso, quando o magistrado constatar que o consumidor e hipossuficiente, ou quando for "verossímil a alegação", e que a
responsabilidade objetiva não é extensiva aos profissionais liberais (médicos, engenheiros, arquitetos, advogados, por exemplo), que assumem obrigação de
meio, não de resultado (§ 4' do art. 14 do CDC);
c) responsabilidade ci,;l decorrente do transporte aéreo"' (art. 246 ss da Lei n' 7.565/86);
d) responsabilidade ch-H do empregador por ato praticado por empregado (inciso III do art. 932 do CC e Sumula 341 do STF, além do art. 933 da lei material,
que apresenta a seguinte redação: "As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos
praticados pelos terceiros ali indicados");
e) responsabilidade civil do dono do animal (art. 936 do CC, que inverteu o ônus da prova em favor da vítin1a, cabendo ao dono do animal provar a "culpa da
vítima ou força maior", limitando, claramente, as excludentes de responsabilidade admitidas nesse tipo de situação);
f) responsabilidade civil do habitante" de imóvel por objetos lançados do seu interior (art. 938 do CC, admitindo-se, apenas, ação regressiva do habitante do
prédio contra o c<~usador direto do prej uízo);
g) responsabilidade ci,;l por dano ambiental (alinea c do inciso XXIII do art. 2lda CF, e art. 14, § 1' da Lei n" 6.938, de 31 de agosto de 1981);"
h) responsabilidade civil deconente de acidente do trabalho (inciso XXVI11 do art. 7' da CF, quando a ação é proposta pelo empregado contra o INSS, sem
excluir possível ação do empregado contra o empregador, aplicando-se, a esta ultima, a teoria da responsabilidade subj etiva);
i) responsabilidade civil decorrente de alguns procedimentos médicos, notadamente cirurgia plástica meramente embelezadora (estetica),'; orientada pela
responsabilidade subjetiva dos médicos, com inversão do ônus da prova, transfusão de sangue, infecção hospitalar" e erro em diagnóstico laboratorial;
j) responsabilidade civil por dano nuclear (alinea c do inciso XXIII do art_ 2l da CF, alem dos arts. 4' a 18 da Lei n' 6.453n 7, afirmando alguns autores que
estarían1os diante da chamada teoria do risco integral, sem admitir excludentes de responsabilidade, contrapondo-se a adotada pelo nosso sistema jurídico, que
é a teoria do risco administrativo, admitindo, esta ultima, a arguiç.ão de excludentes de responsabilidade como forma de afastar o dever do Estado de indenizar);
k) responsabilidade civil no acidente de Hículo, atribuindo-se a culpa, de forma presumida, àquele que colide na traseira, conforme entendimento
jurisprudencial relacionado á matéria-"

O art. 186 do CC elege a culpa como elemento central da pretensão indenizatória. A prova desse elemento é, portanto, regra geral, sendo exceções as hipõteses
anteriormente listadas.
O Cõdigo Civil de 2002, assim como o fez em relação ao elemento dano (dando a ele profunda importãncia para a fixação do valor da indenização), elegeu a culpa
como um dos principais elementos da ação indenizatõria, ao estipular, no paragrafo unico do seu art. 944, que:

"Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, a sua indenização será faada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em
confronto com a do autor do dano. "

A doutrina desde muito segmentou a culpa, classificando-a em levíssima, le>' e e grave.* Essa gradação, de acordo com a lei material, é fundamental na fixação do
valor da condenação.
Assim, mesmo nas hipõteses de responsabilidade objetiva ou de inversão do ônus da prova, nas quais o autor do processo é liberado do ônus da prova quanto à
culpa do réu, entendemos que essa prova deve ser produzida, não para legitimar o autor ao recebimento da indenização, mas para garantir que esta seja proporcional ao
dano sofrido.
Atentos ao novo CPC, percebemos que o § Io do seu art. 373 inseriu técnica que certamente sera adotada em larga escala nas ações de indenização por perdas e
danos, permitindo que o magistndo distribua de modo diverso o ônus da prova em todas as ações judiciais, não apenas nas que versam sobre relação de
consumo. Vejamos a nova norma processual:

"Art. 373. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; I! - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo
ou extinti\·o do direito do autor. § 1• Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridade-s da c.a usa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva
dificuldade de cumprir o encal'go nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da
prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que
lhe foi atribuído. § 2• A decisão prevista no§ t• deste artigo não pode gerar situação em que a desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou
excessivamente dificil. § 3• A distribuição diversa do ônus da prova também pode ocorrer por convenção das partes, salvo quando: I - recair sobre direito
indisponível da parte; I!- tornar excessivamente dificil a uma parte o exercício do direito. § 4• A convenção de que trata o § 3• pode ser celebrada antes ou
durante o processo." (grifamos)

Como e do conhecimento geral, a denominada inversão do ônus da prova era té-cnica exclusiva das ações que versam sobre relação de consumo, por força do inciso
VIII do art. 6• do CDC, tex1Ual em prer er a possibilidade de o magistrado inverter o ônus da prova em favor do consumidor, quando, a seu critério, for verossimil a
alegação ou quando constatar que o consumidor é hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências.
A hipossuficiência do consumidor, que j ustifica a inversão do ônus da prova, pode ser técnica e/ou finance.ira, apurada caso a caso pelo magistrado. O legislador
infraconstitucional se inspirou na norma consumerista, para permitir a in\·ersão do ônus da prova em todas as ações, mesmo nas que não versem sobre relação de
consumo.
Embora tenha utilizado expre.ssão diferente da que consta no CDC, estabelecendo que a atribuição do ônus da prova de modo diverso (que corresponde à
denominada inversão do ônus da prova) pode ser realizada quando o magistrado verificar a impossibilidade ou a excessiva dificuldade de cumprir o encargo ou a maior
facilidade de obtenção da pro\·a do fato contrário, entendemos que nos encontramos diante da hipossuficiêucia técnica eJou financeira de uma das partes (quase sempre
do autor, que assume o ônus da prova com muito mais frequência, se comparado ao réu).
Quer-nos parecer que a impossibilidade ou excessiva dificuldade de cumprir o encargo nada mais é do que constatação do estado de hipossuficiência fmanceira elou
técnica, como também a maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário demonstra que a parte à qual o ônus será atribuído se encontra numa posição de
superioridade em relação á parte contrária, que, por isso, e hipossuficiente.
A modificação legislativa reforça um dos pilare.s do novo CPC, qual seja, o de que o magistrado não é mero expectador do proceoSso. De\·e permanecer imparcial,
sob pena de infringir o principio da isonomia processual, mas deve, também, exercer função proativa no processo, pois e dele o encargo de prestar a j urisdição, e j a se
passou o tempo que prestá-la se limitava a prolatar uma sentença de qualquer forma.
Por tradição, nosso direito processual sempre adotou a t.e oria estática de distribuição do ônus da prova, marcada pela distribuição imutável do ônus da prova,
obrigando a quem alega o fato prová-lo. Contudo, a teoria estática não é adequada para resolver os casos de prova diabõlica ou negativa. Por conta disso, foi
desenvolvida a teoria da distribuição dinâmica do ônus da prova, fundada no princípio da igualdade ou da isonomia, atribuindo o ônus da prova a quem puder
suportá-lo, ideia que marca o novo CPC.
O parágrafo § 2° do mesmo artigo, ao prever que a decisão de inversão do ônus da prova não pode gerar situação em que a desincumbência do encargo pela parte
seja impossível ou excessivamente difícil, refere-se à denominada prova diabólica (Probatio Diabolica ou Devi/ 's Proof), muito bem visualizada no seguinte julgado:

"O regime geral, ou comum, de distribuição da carga probatória assenta-se no art. 333, caput, do Código de Processo Civil. Trata-se de modelo
abstrato, aprioristico e estático, mas não absoluto, que, por isso mesmo, sofre abrandamento pelo próprio legislador, sob o iu1luxo do ônus dinâmico
da prova, com o duplo objetivo de corrigir eventuais iniquidades práticas (a probatio diabólica, p. ex., a iuviabilizar legitimas pretensões, mormente
dos sujeitos vulneráveis) e instituir um ambiente ético-processual virtuoso, em cumprimento ao espírito e letra da Constituição de 1988 e das
máximas do Estado Social de Direito. No processo civil, a técnica do ônus dinâmico da prova concretiza e agiu tina os cânones da solidariedade, da
facilitação do acesso à Justiça, da efetividade da prestação jurisdicional e do combate às desigualdades, bem como expressa um renovado due process,
tudo a exigir uma genuina e sincera cooperação entre os sujeitos na demanda. O legislador, diretamente na lei (ope legis), ou por meio de poderes que
atribui, específica ou genericamente, ao juiz (ope ju.dicis), modifica a incidência do onus probandi, transferindo-o para a parte em melhores condições
de suportá-lo ou cumpri-lo eficaz e eficientemente, tanto mais em relações jurídicas nas quais ora claudiquem direitos indisponíveis ou
intergeracionais, ora as vitimas transitem no universo movediço em que convergem incertezas tecnológicas, informações cobertas por sigilo
industrial, conhecimento especializado, redes de causalidade complexa, bem como danos futuros, de manifestação diferida, protraída ou
prolongada." (REsp 883 .656/RS, 2'Turma do STJ, rel. Min. Herman Benjamin,j. 9.3.2010, em transcrição parcial).

Em qualquer hipótese (leia-se: quando inverte o ônus da prova ou quando não aplica o dispositi\·o por constatar que a decisão de inversão do ônus da prova poderia
gerar situação em que a desincumbência do encargo pela parte seria impossíve l ou excessiYamente dillcil), o magistrado deve fundamentar o pronunciamento
interlocutório, que pode ser atacado pela interposição do recurso de agravo de instrumento, no prazo geral de 15 (quinze) dias (inciso XI do art. !.OIS. do CPC).
Finalmente, nesta seç.ão, realizamos breve distinção entre as três subespécies de culpa stricto sensu (em sentido estrito), o que não é importante para o julgamento
do processo, já que a ação não seria julgada improcedente apenas pelo fato de o autor ter denominado de imperícia o que na verdade é negligência, p. ex., mas para que
a postulação seja tecnicamente correta:

a) imprudência: geralmente ocorre quando o agente deixa de observar regra de conduta, como no caso do motorista que avança o semáforo que sinalizava a cor
vermelha, colidindo com outro veiculo;
b) negligência: geralmente ocorre quando o agente deixa d.e adotar determinada postura recomendada para evitar a ocorrência do prejuízo, como na situação do
motorista que deixa de realizar revisões periódicas em seu veículo, que colide em outro automóvel por falta de freios;
c) imperícia: geralmente ocorre quando o agente, inabilitado para a prática de determinado ato, despreza a sua falta de conhecimentos técnicos, assume os riscos e
pratica o ato de forma desastrosa, como pode ocorrer com o médico que, sem especialidade na área cardíaca, procede com intervenção para implante de ponte
coronária em paciente.

RESUMO DA MATÉRIA

a) como fundamentação jurídica geral das ações de indenização por perdas e danos, recomendamos que os advogados que representam os autores citem e
reproduzam o art. 186 do CC, além de normas especificas, geralmente inseridas em leis esparsas;
b} após os dispositivos legais, o autor deve reproduzir julgados sobre a matéria, dando preferência pela citação de decisões do STJ, por ter a atribuição de proferir
decisões paradigmáticas sobre a interpretação das normas infraconstitucionais;
c) posteriormente, o autor deve comprovar a presença dos elementos próprios da teoria da re.sponsabilidade civil, incluindo o dano, o ato do agente (omissivo ou
comissivo) e o nexo causal;
d) em algumas situações, além dos requisitos específicos anteriormente indicados, o autor deve comprovar a culpa do réu, exceto nas hipóteses de adoção da
responsabilidade objetiva, de inversão do ônus da prova e de culpa presumida;
e) contudo, considerando a redaç.ão do art. 944 do Código CiviL aconselhamos que, mesmo nas situaçõe.s indicadas na letra anterior, o autor comprove o grau de
culpa do réu, para que o valor da condenação possa ser ftxado de forma proporcional ao dano e à culpa do agente.

1.9 O PEDIDO COM AS SUAS ESPECIFICAÇOES

O art. 322 do no\·o CPC dispõe que "o pedido deve ser certo", regra complementada pelo art. 324, textual em estabelecer que o pedido deve ser determinado, o que
nos coloca diante de uma fórmula que podemos denominar perfeita.
Com a formulação do pedido, "o autor não pode deixar qualquer margem de dúvidas sobre o que pretende"' ' Contudo, no que toca ã ação de indenização por
perdas e danos, algumas advertências de\·em ser feitas:

a) A primeira, de que é comum a formulação de pedido genérico nesse tipo de ação, com fundamento no inciso 11 do§ I' do art. 324 do novo CPC, "quando não
for possível determinar, desde logo, as consequências do ato ou do fato".
b) A segunda, de que o art. 327 do novo CPC permite a cumulação de vários pedidos num único processo, contra o mesmo reu, quando houver
compatibilidade entre eles, "seja competente para conhecer deles o mesmo juizo" e que seja adequado para todos os pedidos o tipo de procedimento.
c) A terceira, de que o art. 402 do CC" dispõe que "salvo as exceções previstas neste Código, de modo expresso, as perdas e danos devidos ao credor
abrangem, além do que efetinmente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar".

No que toca à possibilidade de formulação do denominado pedido genérico, é importante destacar que a certeza do pedido representa o denominado an debeatur,
ou o que se quer, como a condenação do réu ao pagamento de. indenização por danos materiais, enquanto que a determinação do pedido diz respeito ao chamado
quantum debeatur, ou o quanto se quer, representando a eJ<.-tensão do pedido, como a condenação do réu ao pagamento de indenização na quantia de R$ 100,00 (cem
reais).
Assim, a lei cria a expectativa de que o pedido seja perfeito, como destacamos em linhas anteriores, ou seja, que informe o que o autor quer e o quanto quer,
permitindo a prolação de sentença liquida, e\·itando a instauraç.ão da fase de liquidação após esse pronunciamento e permitindo que o credor requeira o cumprimento da
sentença.
Contudo, sobretudo em ações de indenização por perdas e danos, o que percebemos ê que o autor nem sempre tem condições de formular o pedido perfeito, não
porque não o queira, mas porque o dano que justifica a propositura da ação ainda não cessou, continuando a produzir os seus efeitos.
Apenas para exemplificar, vejan10s a situação que envolve o atropelamento de determinada vitima, que, por conta do· ato ilicito, realizou três intervenções
cirúrgicas, adquiriu medicamentos para o seu uso, sofrendo parcial comprometimento da capacidade laborativa. Essa é. a situaç.ão verificada no momento em que a
vitima propõe a ação de indenização por perdas e danos.
Durante a ação, será necessária a realização de outros procedimentos cirúrgicos, de sessões de fisioterapia, a compra de outros medicamentos, e talvez
acompanhamento psicológico em favor da \'itima, para minimizar o dano emocional decorrente da perda da capacidade laborativa, sendo impossível, nesse caso, a
formulação de pedido certo e determinado na petição inicial da ação.
Ao invés de o autor re.querer a condenação do réu ao pagamento da quantia X, relativa a procedimentos cirúrgicos, quantia Y, decorrente da compra de
medicamentos etc., pode requerer que o réu seja condenado ao pagamento de indenização por danos mate.riais, sem predefmir o seu valor, incluindo toda a despesa
relacionada aos procedimentos medico-hospitalares, à compra de medicamentos, às despesas com tratamento fisioterápico, cujos quantitativos serão informados durante
o processo, atra\·és da juntada de documentos, ou na fase de liquidação de sentença.
O autor deve informar o que pretende (pagamento de despesas médico-hospitalares, compra de medicamentos etc.), postergando a informação relativa ao quanto
pretende. O autor "expõe e comprova o an debeatur postergando apenas o quantum debeatur para ulterior oportunidade"."
Atentos ao noYo CPC, percebemos que o inciso I! do § 1° do seu art. 330 estabelece a regra de que a formulação do pedido indeterminado acaneta o
indefel'imento da petição inicial, o que pode impactar diretamente nas ações de indenização por perdas e danos. Desde o momento em que. a nova lei processual foi
sancionada, independentemente do inicio da sua vigência, a doutrina começou a comentar o dispositivo, a maioria dos autores afirmando que o demandante não mais
poderia formular pedido genérico nas ações de indenização por perdas e danos, com base não apenas no inciso destacado, como também no inciso V do art. 292, que
obriga o autor a atribuir o valor pretendido à ação de indenização por perdas e danos, inclusive quando fundada em dano moraL
Assim, para os que entendem dessa maneira, o autor não mais poderia solicitar que o magistrado arbitre o \·alor da indenização por danos morais, devendo,
diferentemente., sempre informar qual valor pretende seja arbitrado.
Ousando discordar do que parece ser a doutrina majoritária. Particularmente, entendemos que, não obstante a redação da norma, ainda é permitida a formulação de
pedido genérico em ações de indenização por perdas e danos, com fundamento no inciso I! do § I ' do art. 324, que admite a formulação desse tipo de pedido quando
não.for possível determinar, desde logo, as consequências do ato ou do fato.
Observando a realidade forense, percebemos que muitas ações de indenização por perdas e danos, inclusive as fundadas em danos morais, são propostas sem que o
dano tenha deLudo de produzir os seus efeitos, sendo necessário o percurso pela fase de instrução probatória para que o magistrado possa aquilatar o denominado
pretium doloris (preço da dor, em tradução livre}, sobretudo através da ouvida de testemunhas, sem que o autor consiga formular pedido determinado no momento em
que distribui a petição inicial.
Além disso, mesmo nos casos em que a jurisprudência presume o dano, como o decorrente da morte de filho, não temos um parãrnetro seguro e confiável de fixação
das indenizações, que oscilam em \'ários milhares de reais. Não obstante o nosso entendimento, ao que parece, a jurisprudência deve se consolidar em sentido contrário,
como percebemos pela leitura do Enunciado 24, aprendo em encontro que agregou 28 (vinte e oito) j uizes cariocas, responsável pela aprovação de mais de 100 (cem)
Enunciados sobre a noYa lei processual:

"Enunciado 24: A petição inicial deverá indicar o valor pretendido a titulo de indenização por dano moral, sob pena de indeferimento por inépcia".

Vejamos a j ustificativa que acompanha o enunciado reproduzido:

"Considerando-se que o valor da causa é requisito da petição inicial, na forma do art. 319, V, do CPC, bem como que o novo regramento processual, em seu
art. 292, V, exige a indicação do valor pretendido pela parte a titulo de indenizaç.ão por dano moral, a sua ausência acarretará o indeferimento da exordial no
caso de não suprimento do vicio no prazo de 15 dias. O enunciado faz-se necessário para desconstruir entendimento arraigado na prática forense no sentido de
que o valor pretendido de indenização por lesão ex-trapatrimonial constitui pedido genérico, a dispensar apontamento de valor líquido".

No que se refere à possibilidade de o autor formular vários pedidos numa única ação (técnica denominada cumulação de pedidos), contra o mesmo réu, observamos
que, como regra, é costumeira a formulação dos seguintes pedidos nas petições iniciais das ações de indenização por perdas e danos:

a) Condenação do réu ao pagamento de indenização pelos danos emergentes (desembolso de valores com a compra de medicamentos, despesas médico-
hospitalares etc.).
b) Condenação do réu ao pagamento de indenização pelos lucros cessantes, que representa o que a Yitima razoavelmente deixou de lucrar em \'irtude do ato ilícito
(negócios em andamento não concluídos em decorrência do ato ilícito, renda não auferida pela impossibilidade de utilização de bem deteriorado, como um táxi,
por exemplo).
c) Condenação do réu ao pagamento de pensão "correspondente à importância do trabalho para que se inabilitou, ou da depreciaç.ão que ele sofreu" (art. 950 do
CC), isto para o caso de pagamento a ser feito em fa\·or da própria vitima, ou prestação de alimentos, em favor das pessoas "a quem o morto os devia" (art. 948
do CC), para o caso de falecimento da \'itima principal em decorrência do ato ilícito.
d) Condenação do réu ao pagamento de indenização pelos danos morais, em quantia já detemlinada ou em importância a ser arbitrada pelo juiz, atendo-se aos
elementos objetivos da ação, com as ressalvas feitas em linhas anteriores, relacionadas ao inciso V do art. 292 do novo CPC, que obriga o autor a informar o
valor da causa na petição inicial ou na reconvenção, inclusive nas ações fundadas em dano moral, cuja interpretação, com o inciso I! do§ 1• do. art. 330 da nova
lei proce.ssual, pode resultar na conclusão de que o autor não mais pode solicitar o arbitran1ento da indenização nesta parte, estando obrigado a informar o ..-alor
pretendido.
e) Constituição de capital ou de renda, que assegure o cabal cumprimento da obrigação indicada na letra c.
f) Condenação do réu ao pagamento das custas, das despesas processuais e dos honorários advocatícios, pedidos considerados implícitos, de modo que, mesmo
que não sejam formulados na petição inicial, de\•em ser deferidos de oficio pelo magistrado, com fundanJento no§ t• do art. 322 do novo CPC.'0
g) Condenação do réu ao pagamento de j uros e de correção monetária, que na matéria específica da responsabilidade civil e orientada pela Stimula n• 43 do STJ,
que tem a seguinte redação: "Incide correção monetária sobre dívida por ato ilícito a partir da data do efetivo prejuizo", enquanto que., tratando-se de ilicito
contratual, predomina o entendimento de que a correção monetária incide desde o efetivo prejuízo, sendo os j uros de mora devidos a partir da citação.
Exemplificativamente, reproduzimos o seguinte j ulgado: "INDE!\i1ZAÇÃO. REPAR...A.ÇÃO DE DA..li!OS lvLA.TERIAIS. RESPONSABILIDADE
CONTRATUAL. CORREÇÃO MONETÁRIA DESDE O EFETIVO PREJUiZO. JUROS DE MOR.<\ A PARTIR DA CITAÇÃO. DANO MORAL. IMÓVEL
VENDIDO EM DUPLICIDADE. PRINCiPIO DA BOA FE OBJETIVA. VIOLAÇAO. INDENIZAÇAO. PARÂMETROS. Tratando-se de responsabilidade
contratual e danos materiais, a corr.eção monetãria e contada do efetivo p:rejuizo e os juros de mora da citação" (Apelação Cível n• 1022311 10228085001,
T.flv!G).

Como as parcelas listadas nas letras a, b e c são relacionadas aos danos materiais, é exigida a comprovação do efetivo prejuízo sofrido, para que o autor faça jus ao
recebimento da indenização.
Quanto ao pedido de condenação do réu ao pagamento de pensão, considerando que a lei é omissa em relação aos parâmetros que de\·em ser adotados, recorremos à
jurisprudência, que vem consolidando o seguinte entendimento sobre a matéria:

a) No caso de pensão decot·rente do falecimento de pessoa responsável pela manutenção do lar que não t.i nha renda comprovada, a j urisprudência tende a
fixá-la no valor correspondente a I (um) salãrio minimo, abatendo 1/3 (um terço) desse valor, como despesas pessoais da própria vítima, resultando na
condenação do réu ao pagamento de pensão na importância de 2/3 (dois terços) do \'alor do salãrio minimo. Vejamos j ulgado ilustrati\·o: "A morte do principal
responsá\·eJ pela manutenção do lar autoriza seja deferido o pedido de pensionamento mensaL Sobretudo por se tratar de família de baixa renda, a ausência de
prova relativa aos ganhos médios do falecido não Jeya à improcedência do pedido, mas, sim, à adoção do salário minimo nacional como crité.rio
balizador, devendo ser abatido l/3 (nm terço) deste, relativamente às presumidas despesas pessoais da vitima" {Apelação Cível n• 70061784625, 12'
Cãrnara Cível do TJRS, rei. Des. Mario Crespo Brum, j. 13.8.2015, em transcrição parcial). (grifamos)
b) No caso de pensão dec.o rrente do falecimento de menor de idade, que integra família de baixa renda, é presumido que este contribuiria
economicamente com o núcleo familiar, no momento em que atingisse a idade mínima que a tomasse habilitado ao trabalho (14) anos. Essa pensão e devida
desde a data em que o menor completaria 14 (quatorze) anos de idade até a data em que completaria 25 (vinte e cinco) anos de idade, no valor correspondente a
2/3 (dois terços) do salãrio mínimo, a partir desse momento sendo reduzida para 1/3 (um terço) do salário mínimo, perdurando até a data em que a vitima
completaria 70 (setenta) anos de idade (um pouco mais, em alguns julgados) ou até o falecimento do beneficiário, o que ocorrer primeiro. Vejamos julgado
ilustrativo: "Nas famílias de baixa renda, é presumida a contribuição dos f!lhos com o sustento do lar, sendo devido o pagamento de pensão mensal em favor do
respectivo genitor. V ator do salãrio mínimo nacional que deve ser adotado como parãrnetro, uma vez que não há elementos a indicar qual seria a provável
remuneração futura da ,·itima. Pensão que deve corresponder a 2/3 do salãrio minimo, entre a data em que a \'Ítima faria 14 anos e aquela em que completaria 25
anos de idade, a partir de quando o montante será reduzido a 1/3. O termo ad quem da pensão será a data em que a vitima Yiesse completar 74 anos, se antes
disso não sobrevier o passamento do beneficiãrio" (Apelação Cível n• 70059202481, 12• Câmara Cível do TJRS, rei. Des. Ana Lúcia Carvalho Pinto Vieira
Rebout, j. 21.5.2015, em transcrição parcial). (grifamos)
c) No caso de pensão decorrente do falecimento de ex-esposo da autora, do qual esta se encontrava separada de fato há anos, a jurisprudência entende que o
reu não está obrigado a pagar a pensão, em face da inexistência de dependência econômica entre a autora e o de cujU5, ao tempo do fato. Vejamos julgado
ilustrativo: "A ex-esposa do falec.ido, dele separada de fato há mais de três anos à época do acidente, não faz j us á indenização por danos morais pela morte do
ex-marido, ausente demonstração de que o casal tenha retomado a convivência amorosa. Improcedência, também, da pretensão ao re.cebimento de pensão por
morte, quando inexiste prova da dependência econômica da ex-esposa com relação à vitima. Lições doutrinarias e precedentes j urisprudenciais. Sentença de
improcedência conflffilada. APELAÇÃO DESPROVIDA" (Apelação Cível :n• 70064160609, 1o• Cámara Cível do TJRS, rei. Des. Paulo Roberto Lessa Franz, j.
28.5.2015).
d) No caso de pensão decorrente do falecimento de filho maior, que não residia com os pais no momento do acidente que o vitimou, a jurisprudência
entende que os pais não fazem jus ao recebimento da parcela, em decorrência da ausência de comprovação da dependência econômica. Vejamos julgado
ilustrativo: ·'APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL EM ACIDENTE DE TR...~'ISITO. DANOS MATERL<\IS E MORAIS.
ULTR....-\PASSAGEM DE CAlvnNHAO SOBRE MOTOCICLETA. ABALROAMENTO. MORTE. CULPA DO RÉU, CONDUTOR DO CAMINHAO,
CONFIGURADA. CULPA DA ViTIMA NAO DEMONSTRADA DANO MOR...<\L IN RE IPSA. QUANTUMMAJOR...<\00. PENSÃO MENSAL. FILHO
FALECIDO QUE NÃO MAIS RESIDIA COM OS PAIS. AUSHITE PROVA DE QUE ESTES DEPENDESSEM ECONOMICAMEN'TE DO FALECIDO,
MAmEM-SE O INDEFERIMENTO DO PEDIDO. APELO DOS RÉUS DESPROVIDO E APELO DOS AUTORES PARCIALMENTE PROVIDO.
UNÂNIME" (Apelação Cível n' 70064735046, 11' Cãrnara Cível do TJRS, relatora Desembargadora Katia Elenise Oliveira da Silva,j. 10.6.2015).
e) No caso de pensão requerida por filho absolutamente incapaz, decorrente do falecimento do seu genitor, a jurisprudência tende a fixar o termo final da
obrigação de efetuar o pagamento da pensão na data em que a vitima completaria 65 (sessenta e cinco) anos, com a ressalva de que alguns julgados estendem o
termo final até a data em que a vitima completaria 70 (setenta) anos de idade. Vejamos julgado ilustrativo: "No que se refere ao pensionamento mensal,
tratando-se de absolutan1ente incapaz, no caso de morte de seu genitor, a pensão é de\·ida até a idade em que a vítima completaria 65 (sessenta e cinco) anos de
idade" (Apelação Cível n' 1.0396.04.013320-J/001, TJ1\1G,j. 16.7.2015, em transcrição parcial).
f) No caso de pensão requerida por cônjuge sobrevivente, a jurisprudência tende a obrigar o réu a pagá-la até a data em que a vítima completaria 65 (sessenta e
cinco) anos (alguns julgados estendem o termo final até a data em que a vítima completaria 70 anos), enquanto que, no caso de pensão requerida por filhos da
vítima fatal, a jurisprudência tende a estabelecer a obrigação de pagar ate a data em que os filhos vierem a completar 25 (vinte e cinco) anos de idade. Vejamos
julgado ilustratiYo, abrangendo as duas situações: "Na esteira da jurisprudência do STJ, em se tratando de morte da esposa, a pensão ao cônjuge sobrevivente é
devida até a idade em que a vitima completaria 65 anos, e, em relação aos filhos da vítima, a pensão deve lhes ser paga até que estes completem 25 anos de
idade" (Apelação Cível n• 1.0396.09.048375-3/001, TJMG, rei. Des. João Câncio, j. 30.6.2015, em transcrição parcial).
RESUMO DA MATÉRIA

a) o pedido fommlado nas ações de indenização por perdas e danos geralmente e genérico, especificamente no que se refere à parcela dos danos emergentes, já que
o autor nem sempre consegue especificar os valores indenizatórios no momento do ajuizamento da aç.ão, pelo fato de o dano não ter cessado;
b) quanto ao pedido de condenação do réu ao pagamento de indenização pelos danos morais suportados pelo autor, é possivel a formulação de pedido para que o
magistrado arbitre a indenização, com fundamento no art. 944 do CC, segundo entendemos, embora a nova lei processual preveja que o valor da causa deve
corresponder ao da pretensão, inclusive nas ações de indenização fundadas em danos morais, e o inciso 11 do § 1• do art. 330 da mesma lei preveja que a
formulação do pedido indeterminado é causa de indeferimento da petição inicial;
c) considerando a natureza da ação de indenização por perdas e danos, os pedidos frequentemente formulados pelos autore.s nas petições iniciais dessas ações são
os de condenação do réu ao pagamento de indenização pelos danos materiais, incluindo os danos emergentes e os lucros cessantes, danos estéticos e danos
morais, alem da constituição de capital ou de renda, custas e despesas processuais, correção monetária e honorários advocatícios, com a ressalva de que o § 9•
do art. 85 do no\'O CPC estabelece a regra de que na ação de indenização por ato ilícito contra pessoa, o percentual de honorários incidirá sobre a soma das
prestações vencidas acrescida de 12 (doze) prestações vincendas;
d) no que se refere ao pensionamento, decorrente da perda- ou da diminuição- da capacidade laborativa ou do falecin1ento da Yitima, a jurisprudência fixa termos
inicial e fmal para o recebimento dessa verba, a depender do grau de parentesco e da demonstração da dependência econômica entre o autor e a vitima falecida.

1.10 VALORDACAUSA

O valor da causa, que é um dos requisitos da petição inicial (inciso V do art 319), e base de cálculo para a fixação das custas j udiciais, que como regra devem ser
recolhidas pelo autor nos 15 (quinze) dias seguintes à distribuição da petição inicial (art. 290 do CPC). Na maioria dos Estados, as custas representam aproximadamente
2% (dois por cento) do Yalor atribuído à causa, incluindo a taxa judiciária e os emolumentos judiciais.51
Alguns Estados chegam a trabalhar com percentuais de custas bem mais elevados, bastando citarmos o exemplo do Estado da Paraiba, em que o valor das custas e
da taxa judiciária representa mais de 6% (seis por cento) do valor atribuído à causa, ou RS 6. 717,60 (seis mil setecentos e dezessete reais e sessenta centavos), em ação
de indenização por perdas e danos com valor de causa igual a RS 100.000,00 (cem mil reais)."
Além de o valor da causa servir como base de cálculo para a definição das custas processuais e da taxa judiciária, também é in1portante para fixar o rito, já que, se a
causa tem valor igual ou inferior a 40 (quarenta) salários minimos, pode. ter curso pelo rito sumarissimo, no âmbito dos Juizados Especiais Civeis (art. 3• da Lei no
9.099/95), enquanto que, tendo \'alor de causa maior do que 40 salários minimos, terá curso pelo rito comum.
Finalmente, o valor da causa também e importante por se constituir na base de calculo para a fixação dos honorários advocaticios, nos termos dos §§ 2• e 9• do art.
85 do novo CPC, que apresentam a seguinte redação:

"Art. 85. A sentença condenará o \·encido a pagar honorários ao advogado do vencedor: Omissis. § 2' Os honorários serão fixados entre o minimo de dez e o
máximo de vinte por cento sobre o valor da condenação, do proveito econ·ômico obtido ou, não sendo possivel mensurá-lo, sobre o valor atualizado da causa,
atendidos: I - o grau de zelo do profissional; 11 - o lugar de prestação do serviço; III - a natureza e a importância da causa; IV - o trabalho realizado pelo
advogado e. o tempo exigido para o seu serviço. Omissis. § 9• Na ação de indenização por ato ilícito contra pessoa, o percentual de honorários incidirá sobre a
soma das prestações \·encidas acrescida de 12 (doze) prestações vincendas. Omissis."

O \·alor da causa de\·e corresponder ao conteúdo econômico do processo, ou s·e ja ao resultado que o autor pretender obter como consequência do julgamento da
ação pela procedência dos pedidos formulados na petição inicial. Se a sua pretensão é a de receber indenização no valor de R$ 1.000,00, somente para exemplificar, o
valor da causa também de\'e ser de RS I .000,00.
A regra não é tão simples, já que o autor pode formular vários pedidos na petição inicial da ação de indenização por perdas e danos, de naturezas distintas (dano
material, dano moral, dano estético etc} Estamos diante da chamada cumulação de pedidos, permitida pelo art. 327 do CPC, desde que sejam compativeis entre si, que
o juizo seja competente para conhecer de todos eles e que seja adequado para todos cs pedidos o tipo de procedimento.
Quando o autor formula pedidos cumulados, para fiXar o \'alor da causa, em tese, deveria somá-los, nos termos do inciso VI do art. 292 do novo CPC, textual em
estabelecer que o valor da causa, na ação em que há cumulação de pedidos, corresponde á soma de todos eles.
Assim, se o autor pretende obter indenização por danos materiais na quantia de RS 10.000,00 e por danos morais na quantia de R$ 20.000,00, o valor da causa deve
ser de R$ 30.000,00.
Contudo, duas situaçõecS afastam essa regra. A primeira delas diz respeito à formulação do pedido de condenação do réu ao pagamento de indenização decorrente
dos lucros cessantes. Sobre a matéria, o art. 402 do CC dispõe:

"Art. 402. Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as perdas e danos devidas ao credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu, o que
razoavelmente deixou de lucrar."

No que concerne aos danos materiais, o autor pode solicitar a condenação do reu ao pagamento de indenização decorrente dos danos já suportados (emergentes) e
da perda relacionada ao que deixou de ganhar em decorrência da prática do ato ilicito, pelo seu adversário processual. Apenas para exen1plificar, vejamos o caso do
motorista de um táxi que sofre colisão de trânsito, por culpa do outro condutor, emergindo o seu direito de pleitear a condenação do réu ao pagamento não apenas do
valor necessário à recomposição do bem, como também as diárias não auferidas durante o conserto do veiculo.
Esse raciocínio é extensivo às ações de indenização por perdas e danos em que o autor formula pedido de condenação do réu ao pagamento de pensão pela perda da
capacidade laborativa da vítima.
NeoSsas situações, o valor da c4usa deYe corresponde,r ao somatório do prejuízo material efetivo, mais danos morais e o corre,spondente a 12 vezes a parcela de
lucros cessantes (prestações vincendas), nos termos dos incisos III, V e VI do art, 292 do novo CPC,
Se a pretensão de condenação do réu ao pagamento de prestações vincendas (pensões) é limitada a período de tempo inferior a 12 (doze) me,ses, o valor da causa
não é o correspondente a uma anuidade, mas apenas ao somatório das prestações a serem cumpridas durante aquele periodo específico (dois, três, seis meses, por
exemplo).
Apenas para ilustrar, se o autor foi vítima de atropelamento, cujo tratamento exigiu o desembolso da quantia de R$ 2.000,00 para o pagamento de despesas médico-
hospitalares (danos emergentes), ficando impossibilitado de trabalhar por dois meses (lucros cessantes), deixando de auferir renda de R$ 500,00 por mês, o valor da
causa será de R$ 3,000,00, Se a incapacidade laborativa perdurasse por periodo superior a 12 meses, o valor da causa seria de R$ 8.000,00."
A segunda situação que excepciona a regra geral envolve as ações indenizatórias em que o autor solicita a condenação do réu ao pagamento de indenização por
danos morais, especificamente nos casos em que o autor solicita que o magistrado arbitre a indenização.
Essa técnica é muito comum na prática forense. Quando adotada, o autor pleiteia que o réu seja condenado ao pagamento da indenização no "valor a ser arbitrado
pelo juizo".
Nesses casos, segundo a j urisprudência consolidada na vigência do CPCn 3," o valor da causa poderia ser fixado para efeitos meramente fiscais, como RS LOOO,OO,
ou qualquer outro valor minin10, gerando o recolhimento reduzido de custas processuais.
Temos dúvidas sobre a possibilidade de manutenção dessa técnica, na vigência do novo CPC, pois o inciso V do art. 292 prevê que o valor da causa será, na ação
indenizatória, inclusive afundada em dano moral, o valor pretendido. Assim, a possibilidade ou não de formulação de pedido de arbitramento da indenização por
danos morais, o que impacta na possibilidade ou não da atribuição do valor da causa para efeitos fiscais dependerá do entendimento da j urisprudência, na interpretação
da nova lei processual,
Já apresentamos a nossa opinião, defendendo a possibilidade de formulação de pedido genérico nas ações de indenização por perdas e danos mesmo na vigência do
novo CPC, considerando que a lei não predefme valores indenizatórios, e que a jurisprudência em alguns casos oscila intensamente, sem que o autor tenha condições de
preestabelecer a sua pretensão indenizatória.

RESUMO DA MATÉRIA

a) como regra, o valor da causa deve corre,sponder ao denominado p1·oveito econômico, ou seja, o que o autor pretende obter como resultado do julgamento do
processo;
b) quando o pedido formulado na petição inicial da ação indenizatória for amplo (indenização por dano material, dano moral, lucro cessante etc.), o valor da causa
corresponde ao somatório de todos eles;
c) no caso de lucro cessante, para fixação do valor da causa, corresponde a uma anuidade, exceto se a periodicidade for inferior a um ano, quando então o valor da
causa corresponderá ao somatório desse período reduzido;
d) as custas processuais representam aproximadamente 2% do valor da causa, variando de Estado para Estado, sendo que, na Justiça Federal esse percentual é de
I% do valor da causa,

1.11 PROVAS A SEREM PRODUZIDAS

De,sde o momento em que o autor distribui a petiç,ão inicial, deseja obter sentença de procedência da ação ou dos pedidos, após a prática de todos os atos que
integram a relação processual.
Esse desejo gera ansiedade, que às vezes leva o autor a apressar-se no julgamento do proce,sso, de tudo fazendo para obter, com celeridade, a sentença judicial, Essa
pressa, contudo, não pode prejudicar o bom andamento do processo nem ser fator d!eterminante para impedir que a prova nece,ssária ao seu julgantento qualificado seja
produzida,
Em algumas situações, o autor pressupõe que as provas que acompanharam a petição inicial já seriam suficiente-S para a formação do convencimento do magistrado,
Ilustrath·amente., pensemos em acidente de trânsito, em que a suposta vitima, ao propor a ação j udicial, alega que a parte contrária teria avançado o semáforo vermelho,
que esse motorista dirigia em exce,sso de velocidade e que se encontrava embriagado,
Suponhamos que esse mesmo autor, para comprovar a veracidade de suas alegações, j unta boletim de ocorrência à petição inicial, lavrado pela autoridade de
trànsito, confirmando todas as informações indicadas, pro\·ando, sem qualquer vacilação, que o réu do processo dirigia em excesso de velocidade, que avançou o sinal
vermelho e que se encontrava embriagado.
Pois bem, Numa situação como e,ssa, o autor tende a requerer o julgamento antecipado do pedido, na própria petição inicial, afirmando que os fatos alegados teriam
sido provados através dos documentos que acompanharam a petição inicial,
Esse comportamento é precipitado, podendo causar prejuizos ao autor, que, por cautela, deve sempre protestar pela produção de todas as provas em direito
admitidas, mesmo que entenda que seria hipótese de julgamento antecipado do pedido, adequando-se ao inciso I do art. 355 do novo CPC, textual em e,stabelecer que o
j uiz j ulgarà antecipadamente o pedido, proferindo sentença com resolução de mérito, quando não houver necessidade de produção de outras provas,
A precipitação pode decorrer do fato de, ao contestar a ação, o réu suscitar a ocorrência de fato ignorado pelo autor no momento em que propôs a ação, j untando
documentos que este não conhecia, tomando necessária a produção de outras provas para o e,sclarecimento das novas questões.
O protesto pela produção de pro\·as deve ser genérico, como, por exemplo:

"Protesta provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos, tais como juntada de novos documentos, a oitiva de testemunhas, cujo rol será
oportunamente apresentado" e a tomada do depoimento pessoal do réu, sob pena de confesso."
O protesto genérico pela produção de provas não impede que o autor posteriormente requeira o julgamento antecipado do pedido, especificamente quando as provas
apresentadas pelo réu com a sua contestação não surpreendem aquele, evidenciando que a ação pode ser julgada exclusivamente com base nas proYas que
acompanharam a petição inicial.
Quanto às modalidades, a definição do tipo de prova a ser produzida depende da natureza dos fatos discutidos pelas partes no processo, o que nos faz reafirmar a
necessidade de o autor protestar pela produção de provas de modo genérico, na petição inicial, para posteriormente insistir na produç.ão de determinada(s) modalidade
(s) de prova, sobretudo após a apresentação da defesa pelo réu, manifestando-se a esse respeito na réplica, preparando o saneamento do processo.
Sobre a matéria, e importante destacar que o saneamento do processo pode ser realizado pelo magistrado isoladamente, no seu gabinete de trabalho, ou em
audiência, com a participação das partes e dos seus advogados, quando entender que a causa é complexa em matéria de fato ou de direito (art. 357 do novo CPC).
No saneamento, além de praticar os demais atos listados no art. 3 57, o magistrado delimita as questões de fato sobre as quais recairá a atividade probatória e
especifica os meios de prova admitidos, dentre as espécies tipicas (prova testemunhal, prova documental, inspeção judicial, depoimento pessoal da parte, coníJSsão e
prova pericial) e as atipicas (indícios e presunções).
Observando o que frequentemente ocorre nas ações de indenização por perdas e danos, registramos que a prova testemunhal e bastante valorizada nesse tipo de
ação, além da pericial, quando o esclarecimento dos pontos controvertidos depender da atuação de profissional dotado de conhecimento técnico, sobretudo nas ações de
indenização por perdas e danos:

(a) Decorrentes da alegada ocorrência de erro médico, demandando a produção de prova pericial, notadamente por médicos e demais profissionais da área de saúde,
já que o magistrado não é dotado de conhecimento nessa área.
(b) Decorrentes do alegado defeito de construção, demandando a produção de prova pericial, notadamente por engenheiros e demais profissionais de áreas
próxin1as à engenharia, pelas mesmas razões.
(c) Em que se discute a alegada pe.rda da capacidade laboral da vitima, demandando a produção de prova pericial, sobretudo por médicos e demais profissionais da
área, pelas mesmas razões.

Além de delinlitar as questões de fato sobre as quais recairá a atividade probatória e de deferir as pro\·as que serão produzidas, o magistrado delibera sobre a
distribuição do ônus da prova, observando o art. 373 do novo CPC, que apresenta a seguinte redação:

"Art. 373. O ônus da prova incumbe: I- ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; 11- ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou
ex-tintivo do direito do autor. § 1• Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de
cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poder:i o j uiz atribuir o ônus da pro\•a de modo diverso,
desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuido. § 2• A decisão
preYista no § 1• deste arti~p não pode gerar situação em que a desincumbência do encargo pela parte seja impossivel ou excessivamente difícil. § 3• A
distribuição diversa do ônus da prova também pode ocorrer por convenção das partes, salvo quando: I- recair sobre direito indisponivel da parte; H- tomar
excessivamente difícil a uma parte o exercicio do direito.§ 4• A convenção de que trata o § 3• pode ser celebrada antes ou durante o processo."

Se o autor pretender que o magistrado adote a té.cnica preYista no§ t• do art. 373, pode formular requerimento nesse sentido na petição inicial ou no decorrer do
processo, através de petição aYUlsa.
Especificamente quanto à prova testemunhal, o autor pode - mera faculdade - arrolar suas testemunhas na petição inicial, qualificando cada uma delas (nome,
profissão, estado civil, idade, numero de inscrição no Cadastro de Pe.ssoas Fisicas, nilmero de registro de identidade e o endereço completo da residência e do local de
trabalho - art. 4 50 do no,·o CPC), embora não aconselhamos que essa técnica seja adotada.
Para evitar que as testemunhas sejam constrangidas pela parte contrária, e, sobretudo, para reduzir o tempo para que o réu prepare a contradita da testemunha,
sugerimos que o rol seja apresentado no prazo de 15 (quinze) dias, contado a partir da intimação da decisão de saneamento do processo, ou na audiência preliminar,
quando designada, especificamente quando o magistrado entender que a causa é complexa em matéria de fato ou de direito(§§ 4' e s• do art. 357 do novo CPC).
A ação de indenização por perdas e danos costuma apresentar ampla fase de instrução probatória, considerando que a valoração dos fatos expostos pelas partes na
petição inicial e na contestação depende da ouvida de testemunhas, da produção da prova documental, da tomada do depoimento pessoal das partes e da realizaç.ão de
pericia, principais provas produzidas nesse tipo de ação.
Nesse sentido, o art. 369 do novo CPC apresenta a seguinte redação:

"Art. 369. As partes têm o direito de empregar todos os meios legais, bem como os moralmente legitimes, ainda que não especificados neste Código, para
provar a verdade dos fatos em que se funda o pedido ou a defesa e influir elfkazmente na convicção do juiz."

Em outras pala\Tas, na ação de indenização por perdas e danos, como nas demais ações, é admitida a produção de todas as pro\·as que não tenham sido obtidas de
forma imoral, imoralidade não da prova, mas da forma como foi colhida, evitando-se, por exemplo, o apro\·eitamento de provas obtidas através de interceptação ou de
gravação telefônica, embora alguns julgados admitam a utilização desse tipo de prova em ações de indenização por perdas e danos, como percebemos atra\·és da leitura
de trecho do voto proferido pelo Exn1o. Sr. Des. Odone Sanguiné no julgamento da Apelação Civel n• 70019425313/RS:

" A despeito do arrazoado recursal, entendo que a gravação da conversa entre o apelante e os jornalistas foi produzida de forma lícita, prestando-se como meio
de prova a fim de demonstrar os fatos narrados na exordial. O registro de diálogo com o fito de compro\·ar ilícito penal e civil praticado por um dos
interlocutores ofensivo a direito subjetivo do outro serve como prova licita e moralmente legitima. A jurisprudência do STF e a do STJ consideram licita a
gravação de conversa telefônica feita por um dos interlocutores, ou com sua autorização, sem ciência do outro, quando há investida criminosa deste ultimo,
não havendo violação do direito à privacidade (HC 75338/RJ, Rei. Min. Nelson Jobim, 2' Turma, STF, julgado em 11/03/1998; RESP 9012/RJ, Rel. Min.
Cláudio Santos, Rel. pl acórdão Min. Nilson Naves, 3' Turma, STJ, julgado em 24/02/ 1997). Na esfera civil, ainda que a gravação tenha sido feita por um dos
interlocutores sem a ciência dos outros, pode ser utilizada como meio de prova no processo, inexistindo razão para ser considerada ilícita, haja \·ista que a
garantia constitucional refere-se à interceptação telefônica feita por terceiros (HC 75.338, Rel. Min. Nelson Jobim, DJ 25.09.98). Além de não configurar
interceptação telefônica, cujo procedin1ento exige formalidade indispensá\•e~ os autos demonstram a ciência do apelante sobre a sua condição de entrevistado
naquela ocasião, sobre a qualidade de jornalistas das duas pessoas que ingressaram em seu gabinete, com quem desenrolou a conversa e sobre a publicação do
teor do diálogo. Ora, o réu chega a perguntar aos seus interlocutores: quem faz a impressão para \·ocês? Ao que os repórtere.s responderam que a impressão se
realizava em Cachoeira do Sul. Além disso, a fotografia do apelante, com o calendário aberto no mês de j ulho de 2005, mês da publicação jornalistica, em
postura informal, deixa entrever o caráter não oficial da foto e corrobora ainda mais a completa ciência do autor sobre o caráter de entrevista dado ao dialogo
posteriormente publicado. Nada há nos autos a conduzir para a utilização de. fotografia disponibilizada pela sua assessoria anteriormente à entrevista. Ainda no
ponto, também merece chancela a conclusão da sentença no sentido de que a audição da entrevista permite verificar que o gravador esteve disposto perto do
réu e distante dos entrevistadores, o que seria incomum em gravação clandestina, havendo ruído de pancadas, facilmente identificáveis como batidas de dedos
ou caneta sobre a mesa, onde, por ób\·io, estava posicionado o grandor. Sobre a questão, veja-se que a testemunha XXXXX também foi entrevistada pelos
mesmos jornalistas para a referida edição de julho de 2005 do jom~ afirmando que a conwrsa foi gravada e que foi informado de que se trava de uma
entrevista (fi. 132). Ademais, XXXXX (fi. 134), diz que, como recepcionista do gabinete do prefeito, conduziu os dois homens à sala de imprensa. Ora,
dificilmente dois cidadãos comuns, senão jornalistas, seriant conduzidos à sala de imprensa."

Finalmente, é importante destacar que não há hierarquia entre as provas, valendo a testemunhal tanto quanto a documental, esta tanto quanto o depoimento pessoal
da parte, apenas para exemplificar, o que decorre da adoção do sistema do com•encimento racional ou motivado do julgador."
Por mais essa razão, quando propõe a ação judicial, o autor deve antever as dificuldades que enfrentará para comprovar a \·eracidade dos fatos afirmados na petição
inicial, não apostando na produção de uma única prova, por mais qualificada que seja, sendo sempre recomendado que proteste pela produção da pron de forma
genérica.
Lembrantos que a ação de indenização ê rica em fatos, exigindo dos autores a comprovação da culpa do réu, o que é ex-tremamente subjeti\·o e difícil em
determinados casos concretos, além do dano, do ato do agente e do nexo de causalidade, comprovação que só é possível através da produção das provas, não apenas na
audiência de instrução e j ulgamento, mas desde a petição inicial, com cautela, atra\·és do protesto amplo pela produção de provas.

RESUMO DA MATÉRIA

a) a ação de indenização por perdas e danos é caracterizada por apresentar ampla fase de instrução probatória, o que recomenda que os advogados dos autores, nas
petições iniciais, genericamente protestem pela produção de todas as provas em direito admitidas;
b) não aconselhamos que o rol de testemunhas seja apresentado juntamente com a petição inici~ para evitar que a testemunha sofra pressão da parte contrária e
para permitir que a identidade da testemunha seja uma e.spécie de elemento surpresa;
c) não há hierarquia entre as modalidades de prova, de modo que a testemunhal vale tanto quanto a documental, que vale tanto quanto a pericial e assim
sucessivamente com as demais.

L12 PRESCRIÇÃO

A prescrição representa a perda do direito de ação em decorrência do decurso do prazo fixado pela lei para o seu exerctcto. Na matéria relacionada à
responsabilidade ci\'il, o inciso V do § 3• do art. 206 do CC fixa o prazo de 3 (três) anos para o ajuizamento da aç.ão de indenização por perdas e danos, contado da
violação do direito (art. 189 do mesmo Código).
Esse prazo é considerado geral. Contudo, se a ação de indenização por perdas e danos é proposta contra pessoa j urídica de direito público, o prazo pre.scricional é de
5 (cinco) anos, nos termos do art. 1• do Decreto-lei 20.910/32, que tem a seguinte redação:

"Art. 1• As dividas passivas da União, dos Estados e dos Municípios, bem assim todo e qualquer direito ou ação contra a Fazenda federal, estadual ou
municipal, seja qual for a sua natureza, prescrevem em cinco anos contados da data do ato ou fato do qual se originarem."

Do mesmo modo afastando a regra geral (em respeito ao principio da especialidade}, se a ação de indenização por perdas e danos tem fundamento na suposta
ocorrência de acidente de consumo, o prazo prescricional é de 5 (cinco) anos, de acordo com o art. 27 do CDC, adiante transcrito:

"_A.rt. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão a reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção I! deste Capitulo,
iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria."

Em casos que versam sobre a alegada ocorrência de erro médico, a jurisprudência consolidou o entendimento de que o acontecimento deve ser enquadrado no
conceito de acidente de. consumo, afastando a regra geral (constante do CC} e atraindo a previsão do art. 27 do CDC. Vejamos j ulgado ilustrativo:

"RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇAO DE REPARAÇAO DE DANOS MORAIS E MATERIAIS. ERRO MEDICO. PRESCRIÇAO. NAO
OCORRÊNCIA. ART. 27 DO CDC. Em se tratando de demanda na qual se apura eventual responsabilizaçâo por alegado erro médico, incide o prazo
prescricional de cinco (5) anos, previsto no art. 27 do Código de DefecSa do Consumidor, sendo inaplicável o prazo trienal previsto no Código Civil. Hipótese
em que não transcorreram mais de cinco anos entre a data do conhecimento do fato danoso e o ajuizamento da demanda, não havendo falar em implementação
do prazo prescricional. APELAÇAO PROVIDA. SENTENÇA DESCONSTITUÍDA" (Apelação Ci\·el n• 70056044423, 10' Cárnara Cível do TJRS, relator
Desembargador Túlio de Oliveira Martins,j . 17.9.2013).
O prazo prescricional não é contado a partir da prática do ato ilícito, mas do conhecimento do fato pela vitima. Assim, se esta se submeteu a procedimento cirilrgico
malsucedido (acidente de consumo), que resultou no fechamento da sua cavidade abdominal com material médico-hospitalar no seu interior (gaze, por exemplo), o
prazo prescricional não é contado a partir da data da cirurgia, mas do momento em que a vítima toma conhecimento do fato, como percebemos através da leitura do
seguinte julgado:

"AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. ERRO MÉDICO. PRESCRIÇÃO. O marco inicial da prescrição deve corresponder ao momento em
que a parte teve conhecimento do nascimento do direito subjetivo, ou seja, do fato gerador do seu direito ao pagamento da indenização pretendida" (Apelação
Civel n• 1.0338.10.012.640-2i0001, TJMG, rei. Des. Cláudia Maia,j. 30.4.2015).

A data da '1-iolação do direito não corresponde, necessariamente, ao dia de ocorrência de um acidente de trânsito, que pode justificar o aj uizamento de uma ação de
indenização por perdas e danos; a data da realização de uma cirurgia, que pode fundamentar a proposirura de aç.ão de indenização pela alegada ocorrência do erro
médico; a data da entrega das chaves de unidade imobiliária, que pode lastrear o aforamento de ação de indenização por alegado vicio de construção, apenas para
exemplificar.
A interpretação meramente literal do art. 189 do CC é insuficiente, na maioria -dos casos, para definir a data da violação do direito, o que fez com que a doutrina
desenvolvesse a teoria do aclio nata, para definir a contagem do prazo prescricional a partir do momento em que o titular do direito tem conhecimento da lesão
que o acometeu.
A teoria em exame vem sendo adotada em grande volume nas ações de indenização por perdas e danos, por qualquer fundamento, para definir o termo a quo da
contagem do prazo prescricional a partir do momento em que o autor toma conhecimento da ocorrência do dano e da sua extensão. Vejamos a advertência feita pelo
Exmo. Sr. Ministro Marco Aurelio Bellizze no j ulgamento do REsp 1347715/RJ:

"O instituto da prescrição tem por escopo conferir segurança juridica e estabilidade ás relações sociais, apenando, por \'ia transversa, o titular do direito que,
por sua exclusiva incilria, deixa de promover oportuna e tempestivamente sua pretensão em juizo. Não se concebe, nessa medida, que o titular do direito
subjetiYo violado tenha contra si o inicio, bem como o transcurso do lapso prescricional, em circunstãncias nas quais não detém qualquer possibilidade de
exercitar sua pretensão, justamente por não se evidenciar, nessa hipótese, qualquer comportamento negligente de sua parte. O surgimento da pretensão
ressarcitória não se dá necessariamente no momento em que ocorre a lesão ao direito, mas sim quando o titular do direito subjetivo violado obtém
plena ciência da lesão e de toda a sua extensão, bem como do responsá,•el pelo ilicito, ineristindo, ainda, qualquer condição que o impeça de exercer o
correlato direito de ação (pretensão). Compreensão conferida à teoria da aclio nata (nascimento da pretensão) que encontra respaldo em boa parte da
doutrina nacional e já é admitida em julgados do Superior Tribunal de Justiça, justamente por conferir ao dispositivo legal sob comento (art. 189, CC)
interpretação convergente á finalidade do instituto da prescrição'' (grifamos).

Pelas razões destacadas, a jurisprudência do STJ se consolidou no sentido de pontuar que a violação do direito ocorre no momento em que a vítima da prática do ato
ilícito (contratual ou extracontratual) tem conhecimento do prejuízo e da sua extensão, seja por informação prestada pela outra parte, seja por diligência direta, e, ainda,
a partir do momento em que inexiste obstáculo para o exercicio do direito de ação. Vejamos alguns julgados sobre a matéria:

"ADMINlSTRATIVO. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. PRETENSÃO DE INDENIZAÇ.Ã.O COJ\'TRA A FAZEN'DA NACIONAL. DANOS
MOR.AIS E PAT'R.llvtONL>\.IS. PRESCRIÇÃO. QUINQUÍDIO DO ART. 1• DO DECRETO 20.910!32. TERMO INICIAL DATA DA CONSOLIDAÇÃO
DO COl'l!fECIMENTO EFETIVO DA VÍTLi\1A DAS LESÕES E SUA EXTENSÃO. CONSTATAÇÃO PELO LAUDO PERICIAL Esta Corte Superior
possui entendimento no sentido de que o termo inicial do prazo prescricional para o ajuizamento de ação de indenização contra ato do Estado ocorre no
momento em que constatada a lesão e os seus efeitos, conforme o principio da actio nata. A ciência inequh·oca do ato danoso ocorreu efetivamente com a
elaboração do laudo médico atestando os efeitos decorrentes do ato le.sivo. Analisar a prescrição diante da data de elaboração do laudo médico importaria em
reexame fático-probatório, o que encontra óbice na Súmula 7 deste Tribunal. Agravo regimental improvido" (AgRg no AREsp 790522/SP, 2' Turma do STJ,
rei. Min. Humberto Martins, DJE 10.2.2016).

"AGR.A.VO REGil'vtENTAL NO AGR.WO EM RECURSO ESPECIAL. CIVIL. SEGURO OBRIGATÓRIO. DPVAT. AÇÃO DE COBRANÇA.
PRESCRIÇAO. TER.lv!O INICIAL. CIÊNCLA. INEQUÍVOCA DA INVALIDEZ PERMAI\'ENTE. LAUDO PERICIAL. NECESSIDADE. PRESUNÇAO
RELATIVA. A jurisprudência deste Tribunal Superior, inclusive fumada em recurso especial representativo de controvérsia (REsp n• 1.388.030/MG), é no
sentido de que o termo inicial do prazo prescricional, na ação de indenização fundada no Seguro de Danos Pessoais Causados por Veiculos Automotores de
Via Terrestre (DPVAT), é a data em que o segurado teve ciência inequívoca do caráter permanente da invalidez. Exceto nos casos de invalidez permane.nte
notória, ou naqueles em que o conhecimento anterior resulte comprovado na fase de instrução, a ciência inequívoca do caráter permanente da invalidez
depende de laudo médico. Agravo regimental não provido" (AgRg no AREsp 546911/SP, 3' Turma do STJ, rei. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, DJe
3.2.2015).

O entendimento definido nos julgados reproduzidos foi estendido á situação que envolve ações propostas por consumidores contra empre.sas de telefonia, nas quais
aqueles buscam a reparação de danos decorrente.s da celebração de contratos de participação fmanceira (dividendos, em sentido amplo), resultando na prolação de
acórdão proferido no j ulgamento do Recurso Representativo da Controvérsia n• 1.112.474/RS (2009/0041836-7), cuja ementa tem a seguinte redação:

"RECURSO ESPECLA.L REPETITIVO. BR.>\.SIL TELECOM. CO'N"TR.A.TO DE PARTICIPAÇAO FINANCEIR.>\.. LEGITIMIDADE PASSIVA.
DIVIDENDOS. PRESCRIÇAO. Para efeitos do art. 543-C do CPC: A Brasil Telecom S.A., como sucessora por incorporação da Companhia Riograndense de
Telecomunicações (CRT), tem legitimidade passiva para responder pela complementação acionária decorrente de contrato de participação financeira,
celebrado entre adquirente de linha telefõnica e a incorporada. A legitimidade da Brasil Telecom S.A. para responder pela chamada 'dobra acionária', relativa
às ações da Celular CRT Participações S.A., decorre do protocolo e da justificativa de cisão parcial da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT),
premissa fática infensa à análise do STJ por força das Sümulas 5 e 7. A pretensão de cobrança de indenização decorrente de dividendos relatiYos à subscrição
complementar das ações da CRT/Celular CRT prescreve em três .anos, nos termos do art. 206, § 3•, inciso 11I, do Código Civil de 2002, somente começando a
correr tal pnzo após o reconhecimento do direito à complementação acionária. No caso concreto, recurso especial parciaimente conhecido e, na
extensão, provido" (Grifamos).

Do voto do relator transcre\·emos o seguinte trecho:

"Em realidade., a j urisprudência desta Seção e uníssona em apregoar que o prazo aplicável à cobrança de indenização decorrente dos dividendos de subscrição
complementar de ações somente tem fluência após o reconhecimento do direito à subscrição, porquanto se trata de verba relativa à participação nos lucros da
companhia, possuindo natureza acessória à obrigação principal (complementação acionaria)".

Caso o STJ não adotasse o referido entendimento, seria muito simples para as empresas de telefonia fixa ou celular sepultar o direito de aç.ão dos consumidores,
bastando suprimir informações, não dhulgar resultados financeiros, não fornecer cópia de contratos, no aguardo do decurso do prazo prescricionaL
Esses comportamentos se opõem às normas que exigem a boa-fe não apenas nos negócios jurídicos (leia-se: na celebração de contratos), como também no àmbito
proc.essual, como percebemos pela leitura do art. 4 22 do CC e do art. s• do novo CPC:

".J\rt. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assina na conclusão do contrato, como em sua execuç.ão, os princípios de probidade e boa-fe".

"Art. s• Aquele que de qualquer forma participa do processo deve comportar-se de acordo com a boa-fé".

Interpretando o printeiro dispositiYo reproduzido, a doutrina nos fornece a seguinte lição:

"Compreendido o significado do principio da cláusula geral da boa-fé o bjeti\·a, que expõe a obrigação de cada um de respeitar os interesses, vontades e
objetivos do próximo, evitando desta forma dano e desvantagem excessiva, de\·e-se verificar suas funções bãsicas, que são: função limitadora; função
interpretativa e fonte de novos deveres. Pode.-se analisar como primeira função básica a boa-fé objetiva como fonte de novos d{fl!eres especiais de conduta
durante o \·inculo contratual, criando-se desta forma os deveres anexos aos da prestação contratual. Como exemplo destes deveres anexos, deve ser citado o
dever de informar, no qual a informação de\·e ser clara e minuciosa para um bom entendimento do contexto, do contrario o principio da boa-fe objetiva fica
violado. Na concreção das relações e na interpre.tação dos contratos e observada a fu nção interpretadora, pois a üníca forma cabivel de análise de qualquer
relação negociai segue a ótica da boa-fé objetiva, possibilitando observar o todo, ou seja, o negócio jurídico, da forma como foi acertado pelas partes
envolvidas. A terceira função basica do princípio da boa-fé objeti\·a é ser limitadora do exerdcio, antes lícito, hoje não mais aceito, reduzindo desta fom1a a
liberdade das partes contratantes no momento de elaborar as cláusulas contl'atuais"."

Quando o fato que fundamenta a ação cível d{fl!a ser apurado no juizo criminal, "não correrá a prescrição antes da respectiva sentença defmitiva" (parte final do art.
200 do CC).
Analisando a matéria, temos afirmado que o verbo d{fl!a não deixa margens a qualquer dúvida, permitindo-nos concluir que o art. 200 da lei material só é aplicável
às situações que versam sobre crimes de iniciativa püblica (aç.ão penal püblica), nas quais o fato deve ser apurado, compelindo o Ministério Público a propor ação
penal, orientando pelo principio da obrigatoriedade (art. 24 do CPP)."
Nos outros casos em que o ajuizantento da ação crintinal representa mera faculdade, decorrendo da prática dos crimes de iniciativa prh·ada (art. 30 do CPP, como os
crimes contra a honra, de dano, concorrência desleal, contra a propriedade imaterial ou intelectual), considerando que a iniciativa e orientada pelo princípio da
oportunidade ou conveniência, o prazo prescricional para o ajuizamento da ação civel começa a fluir da data da prática do ato ilícito, não do trânsito em julgado da
sentença definitiva, como previsto no art. 200 do Código CiviL Nossa conclusão decorre, basicantente, de uma interpretação literal do art. 200 do CC, especificamente
da palavra deva, utilizada pelo legislador.
O exercício do direito de ação dentro do prazo prescricional não impede que o réu suscite a matéria, ou que o magistrado reconheça a prescrição de oficio, pois o §
2c do art. 240 do novo CPC estabelece a regra de que, prolatado o despacho ordenando a citação do réu (o que acarreta a interrupção da prescrição), o autor dispõe do
prazo de I O(dez) dias para providenciar o aperfeiçoamento dessa citação, sob pena de a prescrição ser tida como não interrompida.
Assina, a interrupção e provisória, tomando-se defmitin se o reu for citado nos 10 (dez) dias seguintes. Diferentemente, se o autor não adotar as pro\'idências
necessarias para viabilizar a citação, o efeito provisório cede para dar lugar ao prosseguimento da contagem do prazo prescricional, com a ressah·a constante do § 4• do
art. 240 do novo CPC, ratificando a orientação da Súmula 106 do STJ, prevendo ~ue a parte não será prejudicada pela demora imputável exclusivamente ao serviço
judiciário.
RESUMO DA MATÉRIA

a) o prazo prescricional para o ajuizamento da ação de indenização por perdas e danos como regra é de 3 (três) anos;
b) quando a ação é proposta contra pessoa jurídica de direito público, o prazo prescricional é de 5 (cinco) anos;
c) tratando-se de ação de indenização por perdas e danos fundada na alegada ocorrência de acidente de consumo, o prazo prescricional é de 5 (cinco) anos;
d) a prescrição é provisoriamente interrompida com a prolação do despacho ordenando o aperfeiçoamento da citação do réu. Pro\·isoriamente, pois se o autor não
adotar as proYidências necessárias para viabilizar a citação, a contagem do prazo prescricional prossegue.

"Art. 64. Omüsis. § 3° Caso a alegação de incompetência seja acolhida, os autos serão remetidos ao juizo competente. Omissis."
"O Serviço Social da Industria- SESI- esta sujeito á jurisdição da Justiça Estadual."

Súmula 150 do STJ: ''Compete à Justiça Federal decidir sobre. a existência de interesse juridico que justifique a presença, no proce-s:~o. da União, suas autarquias ou empresas públicas."
A~nas para ilustrar, reproduzimos julgado proferido em Conflito de Competência dirimido ~la 2' Seção do STJ: "Conflito de competência. Ação de Indenização. Dano moral.
Compete à Justiça Comum Estadual o julgamento de ação de indenização por danos morais proposta por ex-empregado contra empregador. Nesse caso, inexiste qualquer vinculação
com o contrato de trabalho. Jurisprudência da 2' Secção. Conflito de que se conhece, afunde declarar-se a competência do Juízo Estadual" (CC 2907liRJ; 2' Secção do STJ).
"Conflito de competência. Ação de indenização por dano moral Empregado. Compe-tência da Justiça do Trabalho. É competente a Justiça do Trabalho para processar e julgar ação de
indenização por danos morais promovida por e.x-empregado contra seu empregador que teria praticado, por ocasião da resolução do contrato e por muitos meses depois: atos le-si\·os ã
rua honra. Embora grande-parte das ações consideradas ofensivas tenham sido cometidas depois da despedida. não se pode deixar de vincular tal comportamento ao contrato de
trabalho. Conflito de com~tência conhecido e declarada a corn~tência da Vara do Trabalho" (CC 30149/PR., :c- Seção do STJ).
"Processual civil. Ação indenizatória. Publicação de matéria jomalistica. Dano moral. Competência. Foro do lugar do ato ou fato. CPC, art. 100, V, letra a (an 53, IV, letra a, do novo
CPq. No caso de ação de indenização por danos morais causados pela veiculação de matéria jornalística em revista de circulação nacional, considera-se 'lugar do ato ou fato'. para
efeito de aplicação da regra especial e, portanto, preponderantemente, do art. 100, V, letra a, do CPC (art. 53, IV, letra a, do novo CPCj, a localidade em que residem e trabalham as
pessoas prejudicadas. pois é na comunidade onde vivem que o evento negativo terá maior repercussão para si e suas familias" (REsp 191169/DF, 4'" Turma do STJ).
"A norma do artigo 100~ inciso V, letra 'a', do CPC (art. 53, inciso IV, alínea 'a' do novo CPC, acerca da determinação da competência segundo o local do ato ou do fato, nas ações
que. tenham por objetivo a reparação de. dano, vena e.xclusivamente-sobre a responsabilidade ex:tracontratual. Com efeito, nas hipóteses em que se discute resolução e responsabilidade
contratual a regra inddente para a fi.xação da competência é a do artigo 100, inciso IV (art. 53, inciso III, alínea "a', do novo CPC, donde., sendo ré pessoa jurídica, deve ser proposta no
local da sua sede (alinea ' a')" (Agravo de Instrumento 1.0 10911001270-4i001, TJ},IG).
O art. 16 da mencionada lei apresenta a seguinte redação: "Art. 16. Os Juizados Especiais da Fazenda PUblica são unidades jurisdicionais autônomas, presididas por Juiz de Direito e
servidas por cartórios judiciais oficializados com sen:ídores próprios, com a competência de processar, conciliar e julgar causas cíveis de interesse do Estado e dos Nlunicipios, até o
v-alor de 60 (sessenta) salários mínimos."
Em Pernarnbuco, a Lei Complementar n• 31, de 2 de janeiro de 200 1, contém norma ne.se sentido.

" l\'ERY .TUN10R., Nelson. Código de processo civil comentado. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. p. 586.

" O art. 1.829 do CC apresenta a seguinte redação: "A rucessão legítima defere.-se-na ordem seguinte.: I - aos descendentes, em concordância com o cônjuge sobrevh·ente., salYo se
casado este-com o falecido no regime-da comunhão universal, ou no da separação obrigatória de bens (art. 1.640, parágrafo único)~ ou se, no regime da comunhão parcial, o autor da
herança não houver deixado bens particulares; II- aos ascendentes, em concordância com o cônjuge;_m -ao cônjuge sobreviYente; IV- aos colaterais." Ainda sobre. a matéria,_ o art.
1.830 do mesmo Código contém a seguinte regra: .:Somente ê reconhecido direito sucessório ao cônjuge sobre\·iyente $e.~ ao tempo da morte do outro, não estavam s.eparados
judicialmente.,. nem separado$ de fato há mais de dois anos, salvo prova, neste caso, de que essa convivência se tomara impossive.l sem culpa do sobrevivente. ·~

" Nesse sentido, transcrevemos parte da ementa do REsp 160125/DF: "A le-i não exige.• para a formação do litisconsórcio, que os autores possuam legitimidade em todos os pedidos
deduzidos na inicial. bastando que estejam presente.$ as condições do art. 46, CPC."
Nesse. sentido: "Em ação indenizatória. o litisconsórcio é sempre facultativo, seja ati\·o ou passivo, podendo cada um dos prejudicados. isoladamente (ou em conjunto) pleitear, em
juizo, o direito ao ressarcimento" (REsp 35.496-0, 1' Turma do STJ).
,. O art. 55 do novo CPC epresenta a seguinte redação: ".'lrt. 55. Reputam-se conexas 2 (duas) ou mais ações quando lhes for comum o pedido ou a causa de pedir. § 1• Os processos de
ações conexas serão reunidos para decisão conjunta,_ salvo se. um deles jã houver sido sentenciado. § 2~ Aplica-se o disposto no caput: I- à execução de titulo ex"trajudicial e. à ação de-
conhecimento relativa ao mesmo ato jurídico; II- ãs execuções fundadas no mesmo titulo executi\·o. § 3~ Serão reunidas para julgamento conjunto os processos que possam gerar risco
de prolação de decisões conflitantes, mesmo sem conexão entre eles."
Pela qualidade de seus comentãrios, reproduzimos lições de. Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Parnplona Filho: "Na nossa opinião, soa verdadeiramente hipócrita a se.;ia objeção
levantada contra a reparabitidade do dano moral, pois mais imoral do que compensar um.a Jesão com dinheiro é, se-m sombra de dUvida, deixar o lesionado sem qualquer tutela jurídica
e o lesionador 'livre, leve e solto' para causar outros danos no futuro" (GAGLIA?-10, Pablo Stolze. Novo CW'SO de direito civil. São Paulo: Editora Saraiva, 2003. , .. 3, p. 82-83).
" Nesse sentido: "PROCESSUAl. CIVIL E RESPOKSABILIDADE CIVIL. MORTE. DANO MORAI.. LEGITIMIDADE E INTERESSE DE IRM.ÁOS E SOBRil\'HOS DA ViTIMA.
CIRCUNSTÂNCIAS DA CAUSA. COl<v"Í\·1 0 FM!ILIAR SOB O :tv!ESMO TETO. AUSENCIA DE DEPENDENCIA ECONÔ!Iti!CA. IRRELEVÂNCIA. PRECEDE-1-ITE DA
TURMA. DOUTRIKA. RECU'R.SO PROviDO. I - A indenização por dano moral tem natureza extrapatrirnonial e origem, em caso de morte, no sofrimento e no trauma dos familiares
próximos das vitimas, irrele\·ante, assim, que os autores do pedido não dependessem e-conomicamente da vitima. II - No caso, em face das peculiaridades da espécie-, os irmãos e
sobrinhos possuem legitimidade para postular a reparação pelo dano moral" (REsp 239009/RJ, 4• Turma do STJ).
,. Apenas para exemplificar, reproduzimos o seguinte j ulgado: "PROCESSt;AI. CIVIL. DIREITO CIVIL. INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS. HERDEIROS. LEGITIMIDADE. I. Os
pais estão legitimados, por terem interesse jurídico, para acionarem o Estado na bu$C3 de indenização por danos morais~ sofrido$ por seu filho, em razão de atos administrativos
praticados por age-ntes públicos que deram publicidade ao fato de a vitima ser portadora do vírus HIV. 2. Os autores, no caso, são herdeiros da vítima,__pelo que exigem indenização
pela dor (dano moral) sofrida, em vida, ~los agentes do Estado réu, referente á sua cond:ição de portador do Yirus HIV. 3. O direito que, na situação analisada, poderia ser reconhecido
ao falecido, transmite-se, induvidosamente, aos seus pais. 4. A regra, em nossa ordem juridica, impõe. a trammissibilidade dos direitos não personalissimos, salvo expressão legal. 5. O
direito de ação por dano moral é de natureza patrimonial e, corno ta~ transmite-se aos sucessores da vitima (RSTJ, vol. 711183). 6. A perda de ~ssoa querida pode provocar duas
espê<:ies de dano: o material e o moral. 7. •o herdeiro nào sucede no sofrimento da vitima. Não seria razoável admitir-se que o sofrimento do ofendido se prolongasse ou se entendesse
(de\"e ser entendesse) ao herdeiro e este-, fazendo sua a dor do morto, quando ainda vivo. tinha contra o autor do dano. Se o sofrimento e algo entranhadamente pessoal, o direito de
ação de indenização do dano moral é de natureza patrimonial, e, como tal, transmite-se aos sucessores (Leon ~va:z.eaud, em magiMêrio publicado no Recu~il Critique Dalloz, 1943, pág.
46, citado por !'viário MoacyT Porto, conforme referido no acórdão recorrido). S. Recurso impro,·ido" (REsp 324886/PR, 1' Turma do STJ).
"O credor tem direito a e.xigir e receber de alguns dos devedores, parcial ou totabnente, a dívida comum; se o pagamento tiver sido parcial, todos os demais devedores continuam
obrigados solidariamente pe.to resto."

" Sobre a menoridade, o art. 5'" do Côdigo Civil modificou a regra do art. 9'" do CC de 1916, para estabelecer que e.ssa condição - de menoridade -cessa aos dezoito anos, e não mais aos
vinte. e um anos de idade, como no regime anterior.
Ver art. 43 do CC e art. 37, § 6', da Constituição Federal.

" O ensinamento do Prof. SÍL\>10 RODRIGUES é preciso sobre a matéria em discussão: " A solução do Projeto de Código CiYil de 1975, bastante mais audaz, merece aplauso, pois cria
uma responsabilidade objetiva. independente da ideia de culpa. Isso vem atender àquele anseio de juniça acima apontado. pois, determinando que o pai e. o patrão re-sponderão pelos
atos de seus filhos menore-s que estejam sob seu poder e em sua companhia,. ou pelos af()s praticados por seus empregados no exerc.ício do trabalho que llies competir ou por ocasião
dele independente de culpa, amplia o âmbito da indenização, pois faz por ela responsáveis justamente aquelas pessoas que têm recursos para indenizar" (RODRIG1.JES, Silvio. Direito
civil. São Paulo: Saraiva, 2001. v. 4, p. 146).
E.xemplo oferecido pela doutrina ê elucidativo sobre a questão: ~'Pouco importando~ pois. que se trate de menor absoluta ou relativamente incapaz, se o seu representante não tiver a
obrigação de indenizar (imagine que o pai e.steja em coma. e o seu filho, órfão de mãe.~ haja ficado em companhia da avó idosa, ocasião em que cometeu o dano), ou for pobre,
poderá a vitima demandar o próprio menor, objetivando o devido ressarcimento, caso haja patrimõnio disponível" (GAGLL<\NO, Pablo Stolze. Novo CID'SO de direito civil. São Paulo:
SaraiYa, 2003. v. 3, p. 171-1 72).
Conforme art. 943 do CC, que tem a .eguinte redação: "Art. 943. O direito de e.'>.igir reparação e a obrigação de prestá-la transmitem-se com a herança."
,. Ne.s-se sentido, a Súmula n~ 221 do STJ apresenta a seguinte redação: "São civilmente responsãveis pelo res$3!cimemo de dano, decorrente de-publicação pela imprensa, tanto o autor
do escrito quanto o proprietãrio do veículo de dh:ulgação. ••
MONTEl\'EGRO ffiHO, Misael. Prática do processo civil: fase de conhecimento. 2. ed_ Recife: Bagaço, 2002. p. 96-97.
Apenas para exemplificar: "APELAÇAO Ci:VEL - AÇAO ORDIN-ÁRIA - ACIDEl\'TE DE TRÂNSITO - LEG!Til'v!IDADE DO PROPRIET_4.RIO- RESPONSABILIDADE CI\>11.
-IMPRUDÊNCIA - CULPA DO COJ\'DUTOR- 1!\'DENIZAÇAO- DANOS MORAIS -JUROS MORA - TERMO 1!\lCLAI.- RESPONSABILIDADE EXTRACOJ\''TRAUAL-
EVEt\t"fO DANOSO. - Independenteme.nte do en\·olvimento direto do proprietário do veículo no acidente-, este ê solidariamente responsãvel juntame.nte como o condutor pelos danos
advindos do sinistro. - Configurada a imprudência do motorista, que. colidiu na traseira de motocideta, deve responder pelo dano que-causar a terceiro, decorre-nte de manobra
imprudente. O dano moral se configura quando a situação experimentada pela parte, fugindo à normalidade, interfira intensamente no comportamento psicolôgico do indiYiduo,
causan.do-the aflições, angústia e desequilíbrio em seu bem estar. A tlxação do valor da indenização por dano moral deve atender às circunstâncias do ca$0 concreto, não devendo ser
fi.xado em quantia irrisória. assim como em valor elevado a ponto de propiciar enriquecimento sem causa. Os: jmos de mora e a correção monetã.ria constituem matêria de ordem
pública, de modo que aplicar, alterar ou modificar s-eu termo inic.ial, de ofício, não corúí.gwa julgamento extra petita nem reformatio in pejus. - Os juros moratórios fluem a partir do
evento danoso, em caso de responsabilidade extracontratual (Súmula 54, do STJ)" (Apela)ão Cível n• 1.0433.13.0215 13-3/001, TJMG, rel. Des. Marco AurélioFerenzini, j. 9.7.2015).
Nesse sentido: "Ação de responsabilidade ci\·il. Atropelamento em via publica. Sentença penal condenatória. Condenação civil do condutor do \·eículo atropelador e do proprietãrio do
mesmo. Pensionamento devido pela vitima, a ser comprovado em liquidação de sentença, alêm das despesas com o tratamento, funeral e luto, com õnu.s da sucumbência sobre o total
da condenação. Inc.tusão do proprietãrio do veículo na condenação sem qualquer fundamento plausível. O proprietãrio do veículo sô poderia ter responsabilidade prôpria se emprestasse
o mesmo para pessoa inabilitada ou em condições que soubesse estar o mesmo incapacitado nas circurutâucias para dirigir o carro e correr o risco de produzir o dano. Reforma parcial
do julgado. Não conhecimento do primeiro recurso e proYimento do recurso" (Apelação Cível n• 6.86012000, 5• Câmara Cível do TJRJ, rei. Des. ROBERTO \VlDER).
Kesse sentido: ""Em suma: o credor pode-executar, no cíve.l, a sentença penal condenatória apenas contra o autor do delito; se quiser obter do patrão (CC 1.521, III), por exemplo. a
indenização decorrente do delito praticado por empregado, terâ de ajuizar ação de conhecimento para que se forme título executivo contra o patrão" (NERY JUNIOR,. Nelson. Código
de processo civil comentado. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. p. 1093).
Nessa linha de raciocínio, reproduzimos lição do mestre Ht;l\.lBERTO THEODORO JÚNIOR: "O sistema de nossa legislação, no tocante à responsabilidade civil frente à
responsabilidade penal é o da autonomia (Côd. Civil, art. 1.525). !>vias a autonomia ê. apenas relativa e não absoluta. pois enquanto a responsabilidade. ciril pode e.xistir sem a
responsabilidade penal, esta, no entanto, sempre acarreta a primeira (Cõd. Penal, art. 9 1, 1). Por isso, mesmo que tenha sido julgada improcedente a ação de indenização, poderá a
Yitima executar civilmente o cauudor do dano, se e.ste, posteriormente, vier a ser condenado no juizo criminal Isto porque a sentença penal condenatõria. por s.i sô, é titulo executivo
civil para assegurar a reparação e.m tela E não poderá o culpado sequer inYocar a exceçã.o de coisa julgada, diante-da autonomia apenas relativa das duas responsabilidade$" (17ocesso
de execuqão. 20. ed. São Paulo: Leud, 2000. p. 132-133).
"Os atos processuais, quando praticados em desconformidade com o que preceitua a lei,. são ditos atipicos~ ou seja, defeituosos. Nem sempre, no entanto a atipicidade do ato conduz à
rua ineficácia, pois o processo não tem um fim em si me.smo, sen·indo para a aplicação do Direito pelo Estado. É que, como dissemos, processo einstrumento de realização da Justiça;
dai dizer-se comumente, na doutrina, que tem natureza instrumental" (CRETELLA l\'ETO, Jose. Fundamentos principiológicos do processo civil. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p.
23 1).

" Vejamos julgado ilustrativo sobre a matêria: ~ 'Ação de obrigação de fazer cumulada com indenização por danos morais. Plano de. satide. Suspensão por falta de pagamento. Exames
rnêdicos. Negativa de cobertura. Danos morais. Inocorrência. Caso concreto. Nos termos do art. 14 do CPC!20 15, a norma processual não retroagirâ, respeitados os atos processuais
praticados e as situações jurídicas consoJidadas sob a vigência da norma revogada. De.ssa forma. aplicam-se ao caso as disposições: corutantes do CPC/1973, em vigor quando do
ajuizamento da ação, da prolação da sentença e da interposição do presente recurso. No que tange- aos danos morais, embora a negativa de cobertura pelo plano de saúde possa
caracterizâ-lo.s, a questão de-ve-ser e.xaminada caso a caso. Na hipôtese fática, não hã direito ã reparação por danos morais, tendo em vista que a autora deixou de realizar dois exames
médicos de rotina. Ademais, a autora. felizmente, não pos-suía nenhum problema grave de saúde que-tenha sido agravado por conta dos exames não realizados. Portanto, a situação
relatada nos autos não passou do mero aborrecimento, do mero dissabor, incapaz de atingir a esfera psiquica da autora de forma tão negativa. a ponto de gerar o direito à reparação por
danos morais. Não se tratando de dano in re ipsa. era ônus da autora demonstrar o aborrecimento, o transtorno e o constrangimento eventualmente sofridos em \·irtude-da negativa de.
cobertura, na forma do art. 333, I, do CPC/1973, do qual não se de.incurnbiu. Indenização por danos morais afastada. Apelação pnl'ida" (Apelação Cível n• 70067393629, 5'
Câmara Cível do TJRS, Rei. Des. Jorge André Pereira Gailhard, j . 25.5.2016) (grifamos).
"Apelação c.ivet. Consumidor. Ação de- indenização por danos materiais e- morais. Aquisição de alimento imprôprio para o consumo. Ausência de ingestão. Sentença de pardal
procedência. Inocorrê-ncia de danos morais. Recurso da autora Ausência de ingestão do alimento impróprio para o consumo, a desc.arac.t erizar qualquer risco conc.reto de lesão à
saúde e segurança da autora ou de sua família. Dano moral não configurado. Precedentes do STJ e desta Corte no sentido de que a ausência de ingestão de produto imprôprio para
o consumo configura hipótese de mero dissabor. Aplicação da Súmula 75 do TJIRJ. Negativa de provimento ao recurso" (Apelação Cível n• 0066157-90.2013.8.19.0002, 23' Câmara
Cível Consumidor do TJRJ, Rei. Des. Sônia de Fátima Dias, j . 20.4.2016).
"Apelação cível. Recurso adesivo. Responsabilidade civiL Ação indenizatôria. Cort-e. indevido de energia elétrica. Perda de mercadorias. De\·er de indenizar caracterizado.
Ressarcimento. Responsabilidade objetiva. A concessionâria de serviço público re.sponde objetivamente pelos danos que, na realização de-se.u oficio, por ação ou omissão, houver dado
causa bastando à vítima a comprovação do eve-n to Jesivo e do nexo causal entre a conduta do agente e o dano suportado, nos termos do art. 37, § 6c, da Constituição Federal.
Inexistência de dano moral. O fato desc.rito na e.xordial não tem relevância jurídica tratando-se de mero dissabor ou aborrec.imento. Inexistênda de prova, por parte da
apelante, de ter realmente passado por constrangimento grave. Para haver a inde-ni.zaç:âo pecuniária, a parte autora deveria ter sofrido um constrangimento relevante, uma
situação dificil, o que, em verdade, não existiu. Verba honorària mantida. Recursos não proYídos" (Apelação Cível n• 70068029719, 6' Câmara Cível do TJRS, Rei. Des. Key
Wiedemann 1\eto,j. 28.4.2016) (grifumos).
SANTL'\.GO. Emerson. Common !aw. Disponivel em: <wwwj nfoescola.com>. Ace.sso em: 31 maio 2016.
BAPTISTA, Silvio Neves. Teoria geral do dano. São Paulo: Atlas, 2003. p. 88.
Kesse sentido, reproduzimos julgado sobre. a matéria: "O argumento da ausênc.ia de pro-.~a dos danos extrapatrimociais não se sustenta, haja vista que-. ante o óbito de Antônio Carlos
Tarter, a dor moral sofrida pela viUYa e por seus filhos ê presumida e independe de prova da sua ocorrência. Ê indiscutível que a morte prematura de um familiar próximo abala a todos
que. desfrutavam de seu convhio, independenteme-nte da idade daquele que passou ou daqueles que ficaram. Também não se pode presumir que o fato de não ha..-er o com·ivio diário
com seu genitor (por morarem em Estados diferentes) atenue a dor vivida pela autora, não have.ndo prova cabal do rompimento do \incuto afetivo familiar. PRELIMINARES
REJEITADAS. APELAÇ.Õ.O DESPROviDA. RECURSO ADESIVO PROVIDO" (Apelação Cível n• 70060903234, 12' Câmara Cível do TJRS, rei. Des. Ana Llicia Carvalho Pinto
Vieira Rebout, j . 30.7.2015, em transcrição parcial).
,. Vejamos as lições do mestre.: '"Note-se., assim, que o mecanismo das presunções visa facilitar a \·ítitua na tarefa de obter ressarcimento, alforriando-se do pesadissimo ônus, que
originariamente lhe incumbia, de provar a culpa do agente causador do dano" (RODRIGliES, Sihio. Direito civil. São Paulo: Saraiva, 2001. v. 4, p. 232).
"Art. 37, A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios o~decerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade-, publicidade e eficiência e-~ também, ao seguinte: Omissis. § fJO As pessoas jurídicas de direito pUblico e. as de direito privado prestadoras de. serviços
pUblicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros., assegurado o direito de regresso contra o responsá;:el nos casos de dolo ou culpa. Omissis."
"Art. 14. O fornecedor de serviços reponde, independentemente da existência de cul~ pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos ã prestação dos
sen·iços. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. Omissis."
., O Prof. SÍL'v10 RODRIGUES, tratando da materia, apresenta a seguinte lição: "Conforme se Yê, para que a re.ponsabiJidade do transportador se caracterize, basta que sobrevenha o
acidente-e que a vitima se encontre a bordo da aeronave ou em operações de embarque e. desembarque (art. 17). Poderá. entretanto, eximir-se ele da responsabilidade. se proYar que
foram tomadas todas as medidas nece.ssárias para evitar o dano~ ou que. lhe foi impos-sivel tomá-las. A conjunção desses dois di$f!ositivos mostra que a Convenção criou uma pre-sunção
de responsabilidade, contra o transportador, invertendo o ônus da pro\·a Em vez de a vitima ter de provar a culpa do transportador, este é que. terâ de-demonstrar que tomou todas as

., medidas nec,essárias para evitar o acidente" (Idem, ibidem, p. 245) .


Incluindo locatários, comodatários e demais possuidores a qualquer titulo .
..\rt. 14. Sem prejuizo das penalidades de.fmidas pela legislação federal, estadual e municipal, o não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes
e danos causados pela degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores: omissis~ § t~ Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, e o poluidor obrigado,
independentemente de existência de. culpa. a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por rua atividade. O Ministério Público da União e. dos
Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal por danos causados ao meio ambiente." O artigo transcrito disciplinou a responsabilidade sem culpa na
reparação dos danos causados ao meio ambiente, de forma inovadora, ainda no ano de 1981, quando sequer havia sido ainda promulgada a CF de 1988.
"A cirurgia plástica de natureza estética não caracteriza obrigação de. meio, mas de resultado. Esta afirmação altera a avaliação da responsabilidade médica e a culpa passa a ser
presumida. cabendo ao cirurgião comprovar que o resultado considerado inadequado pe-la paciente não decorreu de conduta negligente, imperita ou imprudente. O direito à informação
e um dos direitos basicos do consumidor (art. 6°, m, do CDC), e tem por finalidade dot.u o paciente de elementos objetivos de realidade que lhe permitam dar, ou não, o
consentimento" (Embargos Infringentes n' 70063425367, 5• Grupo de Câmaras Cíveis do TJRS, relator Desembargador Túlio de OliYeira Martins,j. 15.5.2015, em tramcrição parcial).
~.fiGUEL KFOURI NETO afirma que a hipótese retrata caso de. inversão do ônus da prova, não da adoção da teoria do risco, como percebemos através da leitura da seguinte lição:
"Como a re-sponsabilidade dos hospitais não está contemplada no art. 1.545~ do CC, que adota a teoria da responsabilidade. subjetiva, baseada na culpa. aplica-se aos hospitais a teoria
objeti\·a, com a consequente inversão do ônus da prova Nada impede, entretanto, que a vítima fundamente seu pedido na culpa do nosocômio - e prove., ela mesma, a omissão
configuradora da negligência do hospital,. da qual adveio a infecção. Repelimos, por fim. a adoção da teoria do risco, derivante aguda da responsabilidade objetiva, que redundaria na
imposição do dever de indenizar tão-só à face do daJJ.o e da pe.rmaJJ.ência do enfermo no hospital. Neste caso, nem mesmo a infecção preexistente. ou decorrente- da própria
enfermidade, poderiam afastar a obrigação do hospital. Tal exacerbação não se coaduna com a ordem jurídica vigente entre nós" (KFOlJRI l\'ETO, lvfigueL Responsabilidade civil do
médico. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1994. p. 124).
" Nesse sentido: "AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS MO.TERIAIS. ACIDEN1E DE TRÂNSITO. COLISÃO TRO.SEIRA. PRESUNÇ.Õ.O DE CULPA N.-\0 ELIDIDA PELO REU
DO TERCEIRO VEÍCULO QUE COUDID KA TRO.SEIRA DO \'EÍCULO DO AUTOR QUE FREOU, FACE O FLUXO LENTO NA RODO'v1A EM VIRTIJDE DE FATO DE
IERCEIRO VEÍCULO QUE FEZ 1\.lO.,'<OBRA NA VIA PARA INGRESSAR À DIREITA. 'ENGAVETANIE.NTO'. Incontroverso que o réu (Ford KA) colidiu na traseira do veiculo
conduzido pelo autor (Siena), segundo veículo, que freou atrás do primeiro veiculo (Fies:ta), ante a redução repentina no trânsito por manobra de outro veículo (Vectra). Dinâmica dos
fatos e ponto de colisão com danos dos dois veículos à frente., que corroboram com versão autoral. Sabido que há presunção da culpa daquele que colide na traseira de outrem, seja por
não guardar a distância regulamentar, seja por não observar a velocidade permitida para o locaL SENTENÇA M-lli"TIDA PELOS PRÓPRIOS FUNUA.l'v!EKTOS. RECU"RSO
Th-IPROVIDO" (Recurso Ci\·e! n• 71005428974, 4' Turma Recursal Cível das Turmas Recursais do TJRS, Relator G!auciaDipp Dreher,j. 31.7.2015, em transcrição parcial).
A matéria e bem analisada pelo amigo VENOSA., da seguinte forma: "A culpa grave é a que se manifesta de-forma grosseira e, como tal. -se aproxima do dolo. Nesta se inclui também a
chamada culpa consciente-, quando o agente assume o risco de que o e\·ento daJJ.oso e previsivel não ocorrerá. A culpa leve ê a que se. caracteriza pela infração a um dever de conduta
relativa ao homem médio, o bom pai de. familia. São situações na$ quais, em tes·e-~ o homem comum não transgrediria o dever de conduta. A culpa levíssima é constatada pela faha de
atenção extraordinária, que somente uma pessoa muito atenta ou muito perita, dotada de conhecimento especial para o caso concreto~ poderia ter" (VENOSA, Silvio de Salvo. Direito
civil: responsabilidade civil. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002. p. 24).
.. Conforme FtJX, Luiz. Curso de direito processual civil. Rio de Janeiro: Forense, 2001. p. 166.
"Art. 402. Salvo as exceções e."tpfessamente previstas em lei, as perdas e danos devidas ao credor abrangem, alêm do que ele efeth-amente-perdeu, o que razoavelmente dei..,wu de
lucrar."
Idem, ibidem. p. 168.

" sentido: "O destinatário da norma e o juiz, de sorte-que-deYe condenar o \·encido e.Y o.fficio, independentemente. de pedido da parte ou intere-ssado. A condenação nas verbas da
Nes-~e
sucumbência decorre do fato obj.etivo da derrota no processo" (1\'ERY JUNIOR, Nelson. Código de processo civil comentado. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. p. 434).
No Estado de Pernambuco, a distribuição de ação de indenização por perdas e danos cujo valor da causa seja de RS 100.000,00 (cem mil reais) exige o recolhimento de custas no valor
de R$ 1.921,92 (um mil noYecentos e vinte e um reais e noventa e dois centavos).
A informação foi obtida através do ace.so ao site <www.ljpbJus.br>, no dia 17.8.2015.
RS 2.000,00 de danos materiais efetivados (parcela vencida) + 12 x RS 500,00, ou seja, uma anuidade de parcelas vincendas.
Apenas para exemplificar: "PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE INDENlZAÇÀO. JULGAMENTO EXTRA PETITA. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. PEDIDO ILiQüiDO.
VALOR DA CAUSA. CPC, ART. 258. Correta a aceitação, pelo Tribunal estadual, do Yalor dado à causa pela autora, se o seu pedido de indenização por dano moral for iliquido.
Agravo impro,·ido" (AGA 309064iAM, 4• Turma do STJ).
O§ 4~ do art. 357 do novo CPC estabelece a regra de que, quando o processo é saneado pelo magistrado sem a designação de audiência, no seu gabine.te de trabalho, sem a participação
das partes e dos seus ad\·ogados, o prazo para a apresentação do rol de testemunhas é de 15 (quinze) dias, contado a partir da intimação da decisão de saneamento. Contudo, quando o
magistrado entender que a causa apresenta complexidade em matêria de fato ou de direito, por conta disso designando data para a realização da audiência para o saneamento, o rol de
testemunhas deve ser apresentado nessa audiência, sob pena de preclusão (§ 5c da mesma norma processual).
Conforme FUX, Luiz. Curso de direito processual civil. Rio de Janeiro: Forense, 2001. p. 603.
SILVA,_ Alexandre.de-Lima. Uma breve anâlise.ao principio da boa-fê objetiva no Brasil. Disponivel em: <v~'\\l"\V.direitonet.com.br>.
"Art. 24. Nos crimes de. ação pública, esta será promovida por denúncia do Ministério Público, mas dependera, quando a lei o exigir, de requisição do l.VIinistro da Justiça, ou de
representação do ofendido ou de quem fiyer qualidade para representá-lo. Omis.sis."
2

DEFESA DO RÉU

SUMÁRIO: 2.1 Considerações gerais - 2.2 Preliminares do art. 337 do CPC: 2.2.1 Incompetência relativa ou absoluta do juizo; 2.2.2 Incorreção do valor
da causa; 2.2.3 Inépcia da petição inicial; 2.2.4 Coisa julgada; 2.2.5 Conexão; 2.2.6 Convenção de arbitragem; 2.2.7 Ausência de legitimidade ou de
interesse processual; 2.2.8 Indevida concessão do benefício de gratuidade de justiça - 2.3 Prescrição e decadência - 2.4 Excludentes de
responsabilidade: 2.4.1 Culpa exclusiva da vítima; 2.4.2 Fato de terceiro; 2.4.3 Caso fortuito ou de força maior; 2.4.4 Estado de necessidade.

2.1 CONSIDERAÇOES GERAIS

Na vigência do CPC/73, a lei processual admitia a apresentação de ate 4 (quatro) modalidades de defesa, como tais, a contestação, a reconvenção, a exceção de
incompetência relativa, de impedin1ento ou de suspeição e a impugnação ao valor da caus~ o que possibilitava a apresentação de até 4 (quatro) petições no início do
processo, com a ressah·a de que duas (exceção de incompetência relati\·a e impugnaç.ão ao valor da causa) acarretavam a formação de incidentes, o primeiro
suspendendo o processo.
O novo CPC preve a possibilidade de apresentação de uma única petição, o q11e valoriza os princípios da celeridade, da concentração e da razoável duração do
processo, embora o réu possa suscitar a incompetência relativ~ a incorreção do valor da causa e a indevida concessão do beneficio de gratuidade de justiça como
preliminares da contestação, e nela oferecer reconvenção (arts. 337 e 343).
Alem disso, a lei revogada estabelecia a regra de que a defesa do réu devia ser apresentada no prazo de 15 (quinze) dias, contado a partir da juntada do mandado ou
da carta de citação aos autos, enquanto que a nova lei processual criou técnica diferente, considerando que o recebimento da petição inicial não é seguido da
determinação do aperfeiçoamento da citação do réu, mas da designação de dia e hora para a realização da audiência de tentativa de conciliação ou da sessão de
mediação, assunto que estudamos no Capitulo 3 desta obra.
Com isso, e não havendo acordo, o réu disporá do prazo de 15 (quinze) dias úteis para a apresentação da contestação (art. 335), prazo que é contado en1 dobro,
quando a ação é proposta contra o Ministério Público, qualquer pessoa jurídica de direito público, o pobre na forma da lei e contra litisconsortes com diferentes
procuradores, neste caso, desde que os advogados que os representam integrem diferentes escritórios de advocacia, e que o processo tenha curso em autos físicos (arts.
180, 183, 186 e 229 do novo CPC).
Ainda nas questões gerais, é importante ad\•ertir que o novo CPC manteve a orientação do CPC revogado, obrigando o réu a observar o principio da eventualidade,
o que produz importantes consequências nas ações de indenização por perdas e danos. Nesse passo, o art. 336 do novo CPC apresenta a seguinte redação:

"Art. 336. Incumbe ao réu alegar, na contestação, toda a matéria de defes~ expondo as razões de fato e de direito com que impugna o pedido do autor e
especificando as provas que pretende produzir."

A aplicação prática do princípio da eventualidade impede que o réu apresente defesa por etapas, obrigando-o a incluir toda a matéria de defesa na
c.ontestação, só podendo suscitat matérias novas no curso do processo se forem de natureza pública, como a arguiçâo da conexão e da incompetência absolut~ apenas
para exemplificar.
Apresentamos exemplo para ilustrar a importância desse principio nas ações de indenização por perdas e danos. Pensemos que João se hospeda em hotel de luxo
acompanhado de sua esposa e filha menor, que vem a óbito dois dias após o check out, em decorrência de intoxicação severa, causada por bactérias que se encontravam
em alimentos ingeridos durante a permanência da família no hotel.
Por conta do resultado, marido e mulher propõem ação de indenização por perdas e danos contra o estabelecimento, pleiteando indenização decorrente do
falecimento de sua filh~ fato que é propagado pela midia, motivando o ajuizamento de ações de indenização por parte dos demais hóspedes que se encontravam no
mesmo hotel, embora nenhum deles tenha falecido.
Nessas ações de indenização por perdas e danos, influenciados pelo acontecimento que abateu os pais da vítima fatal, os autores solicitam a condenação do réu ao
pagamento da mesma soma solicitada por aqueles na sua ação individual, embora o dano suportado tenha sido muito menor, consistindo em mero desconforto
gastrointestinal, de.belado através do uso de medicamentos, sequer tendo sido necessária internação hospitalar.
Ao contestat essas ações individuais, o réu deve suscitar a inexistência de dano, afirmando que o caso concreto rewla a ocorrência de mero dissabor, que não
legitin1a os autores a pleitear indenização por perdas e danos, de acordo com o entendimento predominante da j urisprudência. Essa é a defesa principal.
Contudo, em respeito ao principio da eventualidade, considerando a possibilidade de a tese de inexistência do dano não ser acolhida pelo magistrado, o réu deve
demonstrar que, em outros casos semelhantes, a indenização foi fixada em quantias muito inferiores á postulada nas petições iniciais dos processos que o envolvem,
solicitando ao magistrado que, se julgar a ação pela procedência dos pedidos, o condene a efetuar o pagamento da indenização de acordo com os parâmetros fJXados
nos julgados reproduzidos na contestaç.ão, não observando o pedido formulado na petição inicial, por ser desproporcional ao dano.
Esse requerimento pode ser formulado da seguinte forma:

"Expostas as razões que fundamentam o pedido de j ulgamento da ação pela improcedência dos pedidos, apenas em respeito ao principio da eventualidade, e se
o pedido formulado pelo autor houver de ser acolhido, o que é admitido por mero amor ao debate, o réu requer se digne Vossa Excelência observar os
parâmetros jurisprudenciais estipulados em outros casos semelhantes, nos termos dos acórdãos que acompanham esta manifestação processual, resultando em
condenação jamais superior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais).
Nesse passo, observando a petição inicial, veriíícamos que o autor solicitou a condenação do peticionário ao pagamento de indenização na quantia de RS
100.000,00 (cem mil reais), embora o alegado dano tenha sido minimo, consistindo em simples desconforto gastrointestinal, debelado através da ingestão de
medicamentos pela via oral.
Assim, diante de dano mínimo (embora o réu entenda que estejamos diante de simples dissabor), a indenizaç.ão jamais poderia ser fixada de acordo com o
pedido formulado na petição inicial, por ser absolutamente desproporcional ao dano, sob pena de enriquecimento ilicito pelo autor, pois sem causa."

A admissão de condenação ao pagamento de determinada soma em dinheiro (menor do que o valor postulado na petição inicial) não significa que o re.u está
reconhecendo a sua culpa, mas, diferentemente, que tem conhecimento da necessidade da apresentação de defesa completa, e da possibilidade de aplicação do princípio
da eventualidade.
Além do princípio da eventualidade, á contestação se aplica o princípio da impugnação especificada, abrigado pelo art. 341 do novo CPC, que tem a seguinte
redação:

"Art. 341. Incumbe. também ao réu manifestar-se precisamente sobre as alegações de fato constantes da petição inicial, presumindo-se verdadeiras as não
impugnadas, salvo se: I - não for admissivel, a seu respeito, a confissão; !I- a petição inicial não estiver acompanhada de instrumento que a lei considerar da
substãncia do ato; III- estiverem em contradição com a defesa, considerada em seu conjunto. Parágrafo único. O ônus da impugnaç.ão especiíícada dos fatos
não se aplica ao defensor público, ao advogado dativo e ao curador especial."

A aplicação prática desse princípio impede que o réu contest.e por negação geral, de modo que deve rebater de forma expressa todos os argumentos expostos pelo
autor na petição inicial, sob pena de se presumirem aceitos os que não sejam rebatidos, caracterizando a denomínada confissão ficta, que pode ser utilizada pelo
magistrado na fom1aç.ão do seu convencimento.
Em termos de di\·isão, diferentemente da petição inicial, que exige o preenchimento dos requisitos essenciais listados no art. 319, a contestação pode ser redigida de
forma livre. Não obstante essa liberalidade., atentos á dinãnlica forense., percebemos que a contestação costuma ser dividida da seguinte forma:

a) preâmbulo, em cujo compartimento o réu informa a sua qualificaç.ão (se não constar da petição inicial, ou se a qualificação esth·er incorreta), o número do
processo e o nome da parte contrária (JOÃO DA SILVA, por seu advogado infra-assinado, co'!forme instrumento procuratório em anexo, com endereço
profissional sito na Rua Cel. Anísio Rodrigues Coelho, n• 464, sala 902, no bairro da Boa Viagem, município do Recife, capital do Estado de Pernambuco,
CEP 51021-130, local onde receberá as intimações que se fizerem necessárias, nos autos da Ação de Indenização por Perdas e Danos proposta por MARIA
DOS SAlvTOS, processo no 001.002.003, por seu advogado infra-assinado, havendo sido citado para apresentar C01•lTESTAÇÃO, vem, pela presente, isto
fazer, nos seguintes termos) ;
b) fatos;
c) preliminares do art. 337 do CPC;
d) prescrição e decadência, que são preliminares de mérito;
e) direito;
f) pedido, incluindo o protesto pela produção de provas.

Na parte do direito, nas contestações que rebatem as petições iniciais das ações de indenização por perdas e danos, é comum a arguição de excludentes de
responsabilidade, consagradas pela doutrina e pela jurisprudência. Essas excludentes têm força suficiente para quebrar o nexo de causalidade que poderia unir o dano
ao ato do agente, estabelecendo a relação de causa e de efeito.
Nas seções seguintes, estudamos algumas preliminares abrigadas pelo art. 337 da no\·a lei processual, que são suscitadas com maior frequência nas ações de
indenização por perdas e danos, para, na sequência estudarmos as excludentes de responsabilidade.

RESUMO DA MATÉRIA

a) diferentemente da petição inicial, a contestação não exige o preenchimento de requisitos essenciais, o que nos autoriza a dizer que e de redação livre;
b) não obstante essa liberalidade, a contestação é orientada pelo principio da e\'entualidade, forçando o réu a impugnar, uma por uma, todas as alegações deduzidas
pelo autor na petição inicial;
c) a praxe forense costuma dividir a contestação em: (a) fatos; (b) preliminares do art. 337 do CPC; (c) prescrição e decadência (preliminares de mérito, já que o
seu acolhimento acarreta a extinção do processo com a resolução do mérito); (d) excludentes de responsabilidade; (e) mérito; e (f) pedido;
d) de acordo com o no\·o CPC, o réu só pode apresentar contestação, nela arguindo preliminares e opondo a reconvenção;
e) não se admite a apresentação de reconvenção nas ações de curso pelo rit.o sumarissimo, no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis, embora seja admitida a
formulação do denominado pedido contraposto.

2.2 PRELIMINARES DO ART. 337 DO CPC

Embora o art. 337 do novo CPC autorize o réu a arguir até 13 (treze) preliminares, restringimos o nosso estudo às que são corriqueiramente arguidas nas
contestações que rebatem as ações de indenização por perdas e danos.
Como é do conhecimento geral, as preliminares repre.sentam defesa indireta, através das quais o réu faz referência a questões formais do processo, não se
confundindo com o mérito (defesa direta). No gênero preliminares, temos as peremptórias, cujo acolhimento acarreta a extinção do processo sem a resolução do
mérito, e as dilatórias, cujo acolhimento acarreta outra consequência processual, diferente da extinção, como o encaminhamento dos autos ao juízo prevento, como
consequência do acolhimento da preliminar de conexão, ou a alteração do valor a causa, como consequência do acolhimento da preliminar de incorreção do valor da
causa.

2.2.1 Incompetência relativa ou absoluta do juizo

Diferentemente do CPC/73, que previa a necessidade de arguição da incompetência relativa através da oposição de exceção (denominada exceção de
incompetência relativa), acarretando a formação de incidente processual, como condição para que o juízo reconhecesse a sua incompetência, o novo CPC ino,·ou, ao
prever que tanto a incompetência relativa como a absoluta devem ser arguidas como preliminares da contestação (inciso TI do art. 33 7).
Não obstante a modificação, a nova lei processual manteve a regra de que a incompetência relativa deve ser arguida no prazo preclusivo da defesa, não podendo ser
reconhecida de oficio, sendo a competência prorrogada, se o réu. não alegar a matéria em preliminar de contestação (art. 65).
A incompetência relativa é frequentemente suscitada nas ações de indenização por perdas e danos, para denunciar o descumprimento da regra constante do art. 46
do novo CPC (correspondendo ao art. 94 do CPC/73), que tem a seguinte redação:

"Art. 46. A ação fundada em direito pessoal ou em direito real sobre bens móveis será proposta, em regra, no foro de domicilio do réu.§ 1• Tendo mais de um
domicílio, o réu será demandado no foro de qualquer deles. § 2• Sendo incerto ou desconhecido o domicilio do réu, ele poderá ser demandado onde for
encontrado ou no foro de domicilio do autor. § 3• Quando o réu não tiver domicílio pu residência no Brasil, a ação será proposta no foro de domicílio do autor,
e, se este também residir fora do Brasil, a ação será proposta em qualquer foro. § 4• Havendo 2 (dois) ou mais n~us com diferentes donticílios, serão
demandados no foro de qualquer deles, à escolha do autor. § 5• A execução fiscal será proposta no foro. de domicilio do réu, no de sua residência ou no do
lugar onde for encontrado."

Como percebemos, considerando que a ação de indenízação por perdas e danos é fundada em direito pessoal, como regra deve ser proposta perante o foro de
domicílio do réu, exceto quando decorre de relação de consumo, quando então pode ser proposta no foro de domicílio do autor, com fundamento no inciso Vlll do art.
6• do CDC, ou quando decorre. de dano sofrido em razão de delito ou acidente de veicules, inclusive aeronaves, quando pode ser proposta no foro de domicilio do autor
ou do local do fato (inciso V do art. 53 do novo CPC).
O descumprimento dessas regras j ustifica a arguição da incompetência relativa como matéria preliminar, em poucos par:igrafos, que podem ter a se.guinte redação:

"Antes de o réu rebater os aspectos de mérito da contro\·ersia, suscita a incompetência relativa como matéria preliminar, já que a ação foi proposta na comarca
do Rio de Janeiro, na qual o autor reside, não na comarca do Rec.ife, local de residência e de domicilio do réu, descumprindo o art. 46 do CPC, textual em
estabelecer que as ações fundadas em direito pessoal de\·em ser proposta perante o foro de domicilio do réu.

Desse modo, demonstrado o descumprimento da regra processuaL o réu requer se digne Vossa Excelência a reconhecer a sua incompetência para processar e
julgar a ação, encaminhando os autos á comarca do Recife, para distribuição e regular e prosseguin1ento do processo."

Quanto à incompetência absoluta, embora não seja pre!in1inar frequentemente arguida nas ações de indenização por perdas e danos, pode sê-lo, por exemplo,
quando o autor ajuizar a ação contra a União, empresa publica federal ou autarquia federal, na Justiça Comum Estadual, quando a competência era da Justiça Federal
(art. I 09 da CF).
Da mesma forma, a preliminar de incompetência absoluta pode ser arguida quando o autor propõe aç.ão de indenízação por perdas e danos contra o Estado, empresa
pública estadual ou autarquia estadual, ou contra o Município, empre.sa pública municipal ou autarquia municipal perante uma Vara Cive!, em comarca que apresenta
Vara especializada nos feitos da Fazenda Publica.
Alem das situações anteriom1ente examinadas, a preliminar de incompetência absoluta também pode ser arguida se o autor ajuizar a ação de indenização por perdas
e danos na Justiça Comum Estadual, fundada em relação de trabalho, descumprindo o inciso VI do art. 114 da CF, que fixa a competência da Justiça do Trabalho para
processar e julgar as ações de indenízação por dano moral ou patrimonial, quando decorrentes da relação de trabalho.
Acolhida a preliminar, os autos são encaminhados ao j uízo competente, com uma novidade, trazida pelo novo CPC. No regime do CPC/73, reconhecida a
incompetência absoluta, além do encaminhamento dos autos ao juizo competente, os atos decisórios eram considerados inválidos. Diferentemente, o § 4• do art. 64 da
nova lei processual dispõe que salvo decisão j udicial em sentido contrário, conservar-se-ào os efeitos de decisão proferida pelo juizo incompetente até que outra seja
proferida, se for o caso, pelo j uizo competente.
Com a novidade processual, se o juízo incompetente concedeu tutela provisória em fa\·or do autor, o reconhecin1ento da sua incompetência não acarreta a
automática invalidação desse ato decisório, que em principio conserva os seus efeitos, exceto se o juizo competente não aproveita-lo.

2.2.2 Incorreção do valor da causa

Como e do conhecimento geral, na vigência do CPC/73, quando o rêu não concordava com o valor atribuído ã causa pelo autor, podia impugná-lo através da
oposiç.ão de incidente processual, denominado impugnação ao valor da causa, que, como incidente, exigia a intimação do autor para se manifestar sobre ele, e, além
disso, a prolação de decisão de natureza interlocutória, que podia ser combatida através da interposição do recurso de agra\·o.
Diferentemente, e valorizando o principio da concentração dos atos processuais, o novo CPC estabelece a regra de que a incorreção do valor da causa deve ser
arguida como preliminar da contestação (inciso III do art. 337), sob pena de preclusão, e, alêm disso, expressamente adntite que o magistrado corrija o valor da
causa de ofício, sem estar obrigado a aguardar que o réu suscite a matéria como pr.eliminar da contestação, como percebemos através da simples leitura do § 3• do art.
292, que tem a se.guinte redação:

"Art. 292. Omissis. O juiz corrigirá, de oficio e por arbitramento, o \'alor da causa, quando verificar que não corresponde ao conteúdo patrimonial em
discussão ou ao proveito econôntico perseguido pelo autor, caso em que se procederá ao re.colhimento das custas correspondentes."
Se essa correção elenr o valor da causa (o que quase sempre ocorre, não sendo comum a correção para acarretar a redução do valor inicialmente atribuído à causa),
e o autor constatar que não tem condições de efetuar o recolliimento das custas complementares, sem prejuízo do seu próprio sustento, pode protocolar petição simples,
com fundamento no art. 99 do novo CPC, cujo caput e§§ I' e 2' apresentam a seguinte redação:

" Art. 99. O pedido de gratuidade da j ustiça pode ser formulado na petição inicial, na contestação, na petição para ingresso de terceiro no processo ou em
recurso. § I ' Se superveniente à primeira manifestação da .p arte na instância, o pedido poderá ser formulado por petição simples, nos autos do próprio
processo, e não suspenderá seu curso.§ 2' O juiz somente poderá indeferir o pedido se houver nos autos elementos que e\·idenciem a falta dos pressupostos
legais para a concessão da gratuidade, devendo, antes de indeferir o pedido, determinar à parte a comprovação do preenchimento dos referidos
pressupostos" (grifamos).

No caso de o magistrado rej eitar o pedido de gratuidade da justiça, o autor pode interpor o recurso de agravo de instrumento no prazo de 15 (quinze) dias,
solicitando a atribuição de efeito suspensivo ao recurso, evitando o indeferimento da petição inicial (inciso V do art. 1.015 e inciso I do art. 1.019 do novo CPC).
Em termos de redação, a preliminar pode ser arguida da seguinte forma:

Antes de rebater os aspectos de mérito da controvérsia, o réu suscita a incorreção do valor da causa como matéria preliminar, já que, embora tenha
solicitado a condenação do peticionário ao pagamento da quantia de RS 100.000,00 (cem mil reais), o autor an·ibuiu à causa a importância módica de
RS 10.000,00 (dez mil reais), descumprindo as regras dispostas nos arts. 291 e 291 do CPC, com a clara intenção de economizar no recolhimento das
custas processuais e de se proteger da fixação de verba honorária proporcionalmente ao insucesso da ação.

Desse modo, considerando que o valor da causa deve ser igual ao resultado econômico pretendido pelo autor, o rén requer se digne Vossa Excelência
a modificar o valor da causa, apõs a ouvida do autor em réplica, com a consequente determinação de recolhimento de custas complementares, sob
pena de extinção do processo sem a resolução do mérito.

2.2.3 Inépcia da petição inicial

A inépcia da petição inicial e disciplina pelo § !• do art. 330 do novo CPC, que apresenta a seguinte redação:

"Art. 330. A petição inicial será indeferida quando: I - for inepta; 11- a parte for manifestamente ilegítima; III- o autor carecer de interesse processual; IV-
não atendidas as prescrições dos arts. 106 e 321. § I' Considera-se inepta a petição inkial quando: I -lhe faltar pedido ou causa de pedir; 11- o pedido for
indeterminado, ressalvadas as hipóte.ses legais em que se permite o pedido genérico; III - da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão; IV -
contiver pedidos incompatíveis entre si. § 2' Nas ações que tenham por objeto a revisão de obrigação decorrente de empréstimo, de financiamento ou de
alienação de bens, o autor terá de, sob pena de inépcia, discriminar na petição inicial, dentre as obrigações contratuais, aquelas que pretende controverter, além
de quantificar o valor incontroverso do débito."

Desde o momento em que o novo CPC foi sancionado, a doutrina começou a comentar o inciso U do § I' da norma reproduzida, a maioria dos doutrínadores
aftrmando que o autor não mais poderá formular pe.dido genérico nas ações de indenização por perdas e danos, com base não apenas neste inciso, como também no
inciso V do art. 292, que obriga o autor a atribuir o valor pretendido á ação de indenização por perdas e danos, inclusive quando fundada em dano moral, assunto
estudado em outras seções desta obra, nas quais registramos nossa divergência em relação á essa posição, expondo as nossas razões.
Em termos de redação, a preliminar pode ser arguida da seguinte forma:

Antes de rebater os aspectos de mérito da controvérsia, o rén suscita a inépcia da petição inicial como matéria preliminar, com fundamento no§ l' do
art. 330 do CPC, já que, não obstante tenha afirmado a existência de d!anos materiais e morais, o autor não formulou qualquel' pedido, tanto na parte
do direito como na parte final da petição inicial, denominada DOS PEDIDOS, na qual o autor se limitou a solicitar o aperfeiçoamento da citação do
peticionário, além de ter protestado pela produção de prons.

Assim, à mingua da formulação dos pedidos, e considerando que esse douto magistrado deve se ater aos requerimentos formulados na petiç.ã o inicial,
em respeito ao principio da adstrição, da correlação ou da congruência, o réu requer se digue Vossa Exc.elêucia a extinguir o processo sem t·esolução
do mêrito, providência acompanhada da condenação do autor ao pagamento das custas, das despesas processuais e dos honorários advocatícios, em
respeito aos princípios da sucumbência e da causalidade.

2.2.4 Coisa julgada

Questão interessante, relativamente à coisa julgada nas ações indenizatórias, diz respeito à possibilidade (ou não) dessa ação ser novamente proposta,
ignorando a primeira já julgada (contra a qual não e mais admitida a interposição de qualquer recurso), para que o autor, na nova ação, pleiteie verba não incluída na
primeira.
llustrativamente, pensemos em vítima de atropelamento, que propõe ação indenizatória fundada na alegação de que o réu seria o culpado pelo acidente, solicitando
que este seja condenado ao pagantento de indenização decorrente do dano material suportado.
A ação e julgada improcedente, em face do reconhecimento de que o acidente decorreu de culpa de terce-iro, que não foi parte da ação de indenização. Após o
trânsito em julgado da sentença proferida no processo, o mesmo autor propõe nova ação contra o mesmo réu, por idêntico fundamento, desta feita pleiteando a sua
Se essa correção elevar o valor da causa (o que quase sempre ocorre, não sendo comum a correção para acarretar a redução do valor inicialmente atribuído à causa),
e o autor constatar que não tem condições de efetuar o recolliimento das custas complementares, sem prejuizo do seu próprio sustento, pode protocolar petição simples,
com fundamento no art. 99 do novo CPC, cujo caput e§§ I' e 2' apresentam a seguinte redação:

"Art. 99. O pedido de gratuidade da j ustiç.a pode ser formulado na petição inicial, na contestação, na petiç.ão para ingresso de terceiro no processo ou em
recurso. § I ' Se superveniente à primeira manifestação da parte na inst.ância, o pedido poderá ser formulado por petição simples, nos autos do próprio
processo, e não suspenderá seu curso.§ 2' O juiz somente poderá indeferir o pedido se houver nos autos elementos que evidenciem a falta dos pressupostos
legais para a concessão da gratuidade, devendo, antes de indeferir o pedido, determinar a parte a comprovação do preenchimento dos referidos
pressupostos" (grifamos}.

No caso de o magistrado rej eitar o pedido de gratuidade da justiça, o autor pode interpor o recurso de agravo de instrumento no prazo de 15 (quinze) dias,
solicitando a atribuição de efeito suspensivo ao recurso, evitando o indeferimento da petição inicial (inciso V do art. 1.015 e inciso I do art. 1.019 do no\·o CPC).
Em termos de redação, a preliminar pode ser arguida da seguinte forma:

Antes de rebater os aspectos de mérito da controvérsia, o réu suscita a incorreção do valot· da causa como matéria preliminar, já que, embora tenba
solicitado a condenação do peticionário ao pagamento da quantia de RS 100.000,00 (cem mil reais), o autor an·ibuiu à causa a importância módica de
RS 10.000,00 (dez mil reais), descumprindo as regras dispostas nos arts. 291 e 291 do CPC, com a clara intenção de economizar no recolliimento das
custas processuais e de se proteger da fixação de verba honorária proporcionalmente ao insucesso da ação.
Desse modo, considerando que o valor da causa deve ser igual ao resultado econômico pretendido pelo autor, o réu requer se digne Vossa Excelência
a modificar o valor da causa, após a oU\·ida do autor em réplica, com a consequente determinação de recolliimento de custas complementares, sob
pena de extinção do processo sem a resolução do mérito.

2.2.3 Inépcia da petição inicial

A inépcia da petição inicial é disciplina pelo § I• do art. 330 do novo CPC, que apresenta a seguinte redação:

" .A.rt. 330. A petição inicial será indeferida quando: I - for inepta; 11- a parte for manifestan1ente ilegítima; III- o autor carecer de interesse processual; IV-
não atendidas as prescrições dos arts. 106 e 321. § t• Considera-se inepta a petição inicial quando: I -llie faltar pedido ou causa de pedir; 11- o pedido for
indeterminado, ressalvadas as hipótese.s legais em que se permite o pedido genérico; III - da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão; IV -
contiver pedidos incompath·eis entre si. § 2• Nas ações que tenham por objeto a re\·isão de obrigação decorrente de empréstimo, de financiamento ou de
alienação de bens, o autor terá de, sob pena de inépcia, discriminar na petição inicial, dentre as obrigações contratuais, aquelas que pretende controverter, além
de quantificar o valor incontroverso do débito."

DecSde o momento em que o novo CPC foi sancionado, a doutrina começou a comentar o inciso 11 do § I' da norma reproduzida, a maioria dos doutrinadores
afirmando que o autor não mais poderá formular pedido genérico nas ações de indenização por perdas e danos, com base não apenas neo"''e inciso, como também no
inciso V do art. 292, que obriga o autor a atribuir o \·alor pretendido a ação de indenização por perdas e danos, inclusive quando fundada em dano moral, assunto
estudado em outras seções desta obra, nas quais registramos nossa divergência em relação a essa posição, expondo as nossas razões.
Em termos de redação, a preliminar pode ser arguida da seguinte forma:

Antes de rebater os aspectos de mérito da controvérsia, o réu suscita a inépcia da petiç.ão inicial como matéria preliminar, com fundamento no § P do
art. 330 do CPC, já que, não obstante tenha afirmado a existência de d!anos materiais e morais, o autor não formulou qualquer pedido, tanto na parte
do direito como na parte final da petição inicial, denominada DOS PEDIDOS, na qual o autor se limitou a solicitar o aperfeiçoamento da citação do
peticionário, além de ter protestado pela produção de provas.
Assim, à mingua da formulação dos pedidos, e considerando que esse douto magistrado deve se ater aos requerimentos formulados na petição inicial,
em respeito ao princípio da adstrição, da correlação ou da congruência, o réu requer se digne Vossa Excelência a extinguir o processo sem t·esolução
do mérito, pl'O\;dência acompanhada da condenação do autor ao pagamento das custas, das despesas processuais e dos honorários advocatícios, em
respeito aos princípios da sucumbência e da causalidade.

2.2.4 Coisa julgada

Questão interessante, relativamente à coisa julgada nas ações indenizatórias, diz respeito à possibilidade (ou não) dessa ação ser no\·an1ente proposta,
ignorando a prin1eira já julgada (contra a qual não e mais admitida a interposição de qualquer recurso), para que o autor, na nova ação, pleiteie verba não incluída na
primeira.
llustrativamente, pensemos em vítima de atropelamento, que propõe ação indenizatória fundada na alegação de que o réu seria o culpado pelo acidente, solicitando
que este seja condenado ao pagamento de indenização decorrente do dano material suportado.
A ação e julgada improcedente, em face do reconhecimento de que o acidente decorreu de culpa de terceiro, que não foi parte da ação de indenização. Após o
trânsito em julgado da sentença proferida no processo, o mesmo autor propõe nova ação contra o mesmo reu, por idêntico fundamento, desta feita pleiteando a sua
condenação ao pagamento de indenização por danos morais.
Segundo o professor Ovidio Baptista da Silva, a coisa julgada é "a estabilidade que torna a sentença indiscutível entre as partes, impedindo que os juízes dos
processos futuros novamente se pronunciem sobre aquilo que fora decidido".'
Com base nessa lição, entendemos que, na situação analisada em linhas anterior-es, embora o pedido da segunda das ações não seja idêntico ao que foi formulado na
primeira, há coisa julgada, já que a causa remota (ou seja, o fato gerador do direito) é idêntica.'
O magistrado que atua no segundo processo não pode julgar o mérito, pois, para fazê-lo, teria de concluir pela culpa do réu, que já foi afastada pela sentença que
julgou a primeira ação, contra a qual não foi interposto qualquer recurso, ou que foi atacada por recursos não conhecidos ou improvidos.
De qualquer modo, a coisa julgada deve ser arguida como preliminar da contestação (inciso VII do art. 337 do novo CPC}, e, sendo acolhida, acarreta a extinção do
processo sem a resolução do mérito, considerando que jã foi apreciado na primeira ação, sem liberar o autor da obrigação de efetuar o pagamento das custas, das
despesas processuais e dos honorários advocatícios, em respeito aos princípios da sucumbência e da causalidade.
Em termos de redação, a preliminar pode ser arguida da seguinte forma:

Antes de rebater os aspectos de mérito da controvérsia, o réu suscita a preliminar de coisa julgada, já que a ação em exame representa uma repetiç.ã o
de ação já ajuizada e sentenciada, com a ressalva de que a parte contrária não interpôs qualquer recurso contra o pronunciamento judicial,
acarretando o trânsito em julgado, produzindo efeitos não apenas na ação anteriormente proposta, como em qualquer outra que pudesse ser em tese
ajuizada.
!'iesse passo, atentos aos documentos em anexo, percebemos que a parte contrária propôs a ação n' 001.002.003.004, que teve curso pela 2' Vara Cínl
desta comarca, e que apresenta as mesmas parte.s, a mesma causa de pedir e o mesmo pedido deste novo processo, o que caracteriza a denominada
tríplice identidade.
Desse. modo, considerando que o mérito já foi apreciado, e que a sentença proferida no primeiro p1·ocesso transitou em julgado, o réu requer se digne
Vossa Excelência a extinguir este novo processo sem o julgamento do mérito, providênc.ia acompanhada da condenação do autor ao pagamento das
custas, das despesas processuais e dos honorários advocatíc.ios, em respeito aos princípios da causalidade e da sucumbência.

2.2.5 Conexão

A conexão e preliminar bastante suscitada nas ações de indenização por perdas e danos, considerando a possibilidade de um só ato ilícito prejudicar mais de
uma pessoa, justificando o aj uizamento de várias ações dessa natureza. Além disso, a preliminar é corriqueiramente arguida, pois o litisconsórcio e sempre facultativo
nesse tipo de ação, o que significa dizer que, praticado o ato ilícito, as vítimas podem (mera faculdade} propor uma só ação ou ingressar com ações individuais.
llustrativamente, pensemos na situação que envolve a queda de avião, que transportava dezenas de pessoas, todas falecidas em decorrência da queda da aeronave.
Por conta disso, os familiares ajuízam ações individuais, todas apresentando a transportadora como ré.
Embora as ações não sej am idênticas, j á que os autores são distintos, a conexão é inegável, em face da identidade das causas de pedir e dos pedidos, que são
diferentes apenas em relação aos valores. A matéria e disciplinada pe.lo art. 55 do novo CPC, que tem a seguinte redação:

".A.rt. 55. Reputam-se conexas 2 (duas} ou mais ações quando lhes for comum o pedido ou a causa de pedir.§ 1' Os processos de ações conexas serão reunidos
para decisão conjunta, salvo se um deles já houver sido sentenciado. § 2• Aplica-se o disposto no caput I - ã execução de titulo extrajudicial e à ação de
conhecimento relati\·a ao mesmo ato j urídico; I! - às execuções fundadas no mesmo título executivo. § 3• Serão reunidos para julgamento conjunto os
processos que possam gerar risco de prolação de decisões conflítantes ou contraditórias caso decididos separadamente, me.smo sem conexão entre eles."

Constatada a existência de conexão entre duas ou mais ações, devem ser reunidas em torno do juizo prennto (não do j uizo competente, pois todos o são}, evitando
o julgamento contraditório entre elas, matéria que é de ordem pública, e que, por esta razão, pode ser reconhecida de oficio pelo magistrado e arguida a qualquer tempo
e grau de jurisdição(§ 5• do art. 337}.
Na vigência do CPCn 3, a definição do juízo prevento passa\·a pela análise de dois artigos, como tais o 106 e 219. O primeiro era utilizado quando as ações conexas
tramitavam pela mesma comarca, fL'\ando como pre\·ento o juizo que primeiramente ha\·ia despachado a petição inicial, não um despacho qualquer (determinando que
o autor emendasse a petição inicial, por exemplo}, mas o denominado despacho positivo, ordenando o aperfeiçoamento da citação do réu, enquanto que o segundo era
utilizado quando as ações tramitavam por comarcas distintas, definindo como competente o juízo que primeiramente havia aperfeiçoado a citaç.ão do réu.
O novo CPC modificou a regra relacionada ã prevenção, estabelecendo que o regi5tro ou distribuição da petição inicial torna prevento o j uízo (art. 59}, norma que
deve ser utilizada tanto no caso em que as ações conexas tramitam pela mesma comarca como na situação em que têm curso por comarcas distintas.
Em termos de redação, a preliminar pode ser suscitada da seguinte forma:

Antes de rebater os aspectos de mêrito da controvérsia, o réu suscita a conexão como matéria preliminar, com a intenção de que esse douto Juizo abra
mão de sua competência, encaminhando os autos ao juízo prevento, evitando a prolação de decisões contraditórias.
!'iesse passo, examinando os documentos em anexo, percebemos que a queda da aeronave de propriedade da ré, que constitui a causa de pedir desta
ação, abateu outras 50 (cinquenta} vítimas, cujas famílias igualmente ajuizanm ações nesta mesma comarca, cada qual pleiteando indenização
decorrente do falecimento de parente próximo.
Desse modo, caracterizada a conexão entre esta ação e as demais ações referidas anteriormente, a reunião dos processos é medida que se impõe, em
torno do juízo prevento, que, neste caso, ê o juizo da 20' Vara Cível, para o qual a primeira das ações foi distribuída (art. 59}.

Posta a questão nesses termos, considerando que nos encontramos diante de matéria de ordem públic.a , do interesse do estado, cognoscível até mesmo
de oficio, o réu requer se digne Vossa Excelência a reconhecer a conexão, encaminhando os autos ao juizo prevento, como tal ao juizo da 20• Vara
Cível desta comarca, para que sejam reunidos aos autos da ação anteriormente informada.
"Art. 55. Reputam-se conexas 2 (duas} ou mais ações quando lhes for comum o pedido ou a causa de pedir.§ 1' Os processos de ações conexas serão reunidos
para decisão conjunta, salvo se um deles já houver sido sentenciado. § 2:• Aplica-se o disposto no caput: I - ã execução de titulo extrajudicial e ã ação de
conhecimento relath·a ao mesmo ato jurídico; I! - as execuções fundadas no mesmo titulo executivo. § 3• Serão reunidos para julgamento conjunto os
processos que possam gerar risco de prolação de decisões conflitantes ou contraditórias caso decididos separadamente, mesmo sem conexão entre eles."

Constatada a existência de conexão entre duas ou mais ações, devem ser reunidas em torno do juízo prennto (não do juizo competente, pois todos o são}, evitando
o julgamento contraditório entre elas, materia que e de ordem pública, e que, por eSlta razão, pode ser reconhecida de oficio pelo magistrado e arguida a qualquer tempo
e grau de jurisdição(§ 5• do art. 337}.
Na vigência do CPCn 3, a deflll.Íção do juizo prevento passava pela analise de dois artigos, como tais o 106 e 219. O primeiro era utilizado quando as ações conexas
tramitavam pela mesma comarca, fixando como pre\·ento o juizo que primeiramente havia despachado a petição inicial, não um despacho qualquer (determinando que
o autor emendasse a petição inicial, por exemplo}, mas o denominado despacho positivo, ordenando o aperfeiçoamento da citação do reu, enquanto que o segundo era
utilizado quando as ações tramitavam por comarcas distintas, definindo como competente o juizo que primeiramente havia aperfeiçoado a citação do reu.
O novo CPC modificou a regra relacionada ã prevenção, estabelecendo que o regi5tro ou distribuição da petição inicial torna prevento o juízo (art. 59}, norma que
deve ser utilizada tanto no caso em que as ações conexas tramitam pela mesma comarca como na situação em que têm curso por comarcas distintas.
Em termos de redação, a preliminar pode ser suscitada da seguinte forma:

Antes de t•ebater os aspectos de mérito da controvérsia, o réu suscita a conexão como matéria preliminar, com a intenção de que esse douto Juízo abra
mão de sua competência, encaminhando os autos ao juízo prevento, evitando a prolação de decisões contraditórias.

Nesse passo, examinando os documentos em anexo, percebemos que a queda da aeronave de propriedade da ré, que constitui a causa de pedir desta
ação, abateu outras 50 (cinquenta} vítimas, cujas famílias igualmente ajuizaram ações nesta mesma comarca, cada qual pleiteando indenização
decorrente do falecimento de parente próximo.
Desse modo, caracterizada a conexão enrre est.a ação e as demais ações referidas anteriormente, a reunião dos processos é medida que se impõe, em
torno do juizo prevento, que, neste caso, é o juízo da 20' Vara Cível, para o qual a primeira das ações foi distribuída (art. 59}.
Posta a questão nesses termos, considerando que nos encontramos diante. de matéria de ordem pública, do interesse do estado, cognoscível até mesmo
de oficio, o réu requer se digne Vossa Excelência a reconhecer a conexão, encaminhando os autos ao juízo prevento, como tal ao juízo da 20• Vara
Cível desta comarca, para que sejam reunidos aos autos da ação anteriormente informada.

2.2.6 Convenção de arbitragem

.Mais uma vez atentos à dinâmica forense (leia-se: ao que frequentemente acontece no dia a dia do fórum}, percebemos que muitas ações de indenização por
perdas e danos têm fundamento em relações de consumo e/ou em contratos de natureza civil, sendo frequente a inclusão da denominada cláusula compromissória nos
instrumentos contratuais celebrados entre as partes, através da qual os contratantes estipulam que questões decorrentes do descumprimento de obrigações devem ser
solucionadas por um àrbitro, previamente escolhido ou não.
A inclusão da citada cláusula tem fundamento no art. 4• da Lei 9.307!96, que tem a seg\tinte redação:

"Art. 4' A cláusula compromissória e a convenção através da qual as partes em um contrato comprometem-se a submeter à arbitragem os litígios que possam
vir a surgir, relativamente a tal contrato. Omissis."

A inclusão dessa cláusula em contratos que versam sobre direitos disponíveis (que admitem transação} em princípio é válida, exceto quando o contrato for de
adesão, entendido como o que é elaborado por apenas um dos contratantes, sem que o outro tenha tido a oportunidade de participar da sua confecção.
Transpondo as considerações para questões processuais que envolvem a responsabilidade civil, percebemos que alguns autores, que aflflJlanJ terem sido vítimas da
prática de atos ilícitos, ajulzam ações no foro do seu domicilio, descumprindo a cláusula compromissória inserida em contrato celebrado com o réu, que previa a
solução do conflito de inte.resses por um àrbitro.
Nesses casos, o réu pode suscitar a com·enção de arbitragem como matéria preliirninar (inciso X do art. 337}, solicitando a extinção do processo sem a resolução do
mérito, forçando o autor a respeitar a cláusula compromissória, instituindo a arbitragem, no âmbito extrajudicial.
Como a matéria é do exclusivo interesse das partes, não pode ser reconhecida de ofício pelo magistrado, dependendo de provocação pelo n!u, no prazo preclusivo
da defesa. Assim, se o réu não suscitá-la nesse momento processual, o juizo, que inicialmente não era competente (pois a competência para solucionar os conflitos foi
atribuída a um àrbitro), torna-se competente, em decorrência da inercia do réu, que tacitamente concordou que a questão seja solucionada por representante do Poder
Judiciàrio.
A jurisprudência entende que a preliminar deve ser acolhida, quando o réu demonstrar que o contrato no qual a cláusula compromissória foi inserida não e de
adesão, ou, o sendo, que o autor teve conhecimento expresso da cláusula, no instrumento ou em documento anexo, com destaque, como percebemos através da leitura
do seguinte julgado:

"APELAÇÃO CivEL - CONTR..<\TO DE COMPRA E VENDA - ATRASO NA ENTREGA DO LMÓVEL - IN'DENIZAÇÀO CLAUSULA
COMPROMISSÓRIA- JUÍZO ARBITR.A.L- VALIDADE- OBSERVÁNCIA DO ARTIGO 4•, § 2•, DA LEI N• 9.307/96- INCOMPETENCIA DO mízo
ESTATAL- EXTINÇAO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. Não se pode falar em nulidade da cláusula contratual que instituiu a
arbitragem no contrato de adesão de compra e venda de imóvel (art. 51, Vll, do CDC}, quando demonstrado ter o aderente concordado, expressamente, com a
sua instituição, por escrito, em documento anexo ou em negrito, lançando sua assinatura ou visto especialmente para essa cláusula, conforme exigido pelo art.
4', § 2•, da Lei n• 9.307/96. Havendo convenção quanto ao uso da arbitragem, a parte que se utiliza do processo judicial, é carecedor de ação, impondo-se a
extinção do feito, sem julgamento de mérito" (Apelação Cível n• 1.0079.09.925444-7/001, TJMG, rei. Des. João Càncio,j. 18.11.2014}.
Em termos de redação, a preliminar pode ser suscitada da seguinte forma:

Antes de rebater os aspectos de mérito da controvérsia, o réu suscita a convenção de arbitragem como matéria preliminar, já que a ação proposta
pelo autor tem fundamento em contrato celebrado entre as partes, que inseriram cláusula compromissória no instrumento, prevendo que eventuais
ações originadas do eventual descumprimento de obrigações deveriam ser solucionadas por um árbitro, não por um representante do Poder
Judiciário.
Posta a questão nesses termos, considerando que a adversa parte teve pleno conhecimento da cláusula compromissória, que, além de constado no
contrato que fundamenta a ação foi reforçada em aditivo contratual, .o réu requer se digne Vossa Excelência a extinguir o processo sem a resolução
do mérito, mantendo integra a promessa ajustada entre as partes, de submeter a resolução do litígio a um árbitro, afastando a atuação jurisdicional.

2.2. 7 Ausência de legitimidade ou de interesse processual

Como sabemos, a legitimidade e o interesse processual são matérias de ordem pública, do interesse do Estado, que ultrapassam as pretensões das partes. Por
conta disso, a prolação da sentença de mérito depende da presença dessas condições, o que deve ser analisado pelo magistrado desde o momento em que mantém o
primeiro contato com o processo, após a distribuição da petição inicial, sendo inclusive causa do seu indeferimento (incisos !I e III do art. 330 do CPC), quando
constatar que a parte. é manifestamente ilegitima ou que o autor carece de interesse processuaL
Mais uma vez falando de um processo real, não de um que só existe em li\Tos, o que perc-ebemos e que, na maioria dos casos, em decorrência do volume
exacerbado de processos, os magistrados costumam detenninar o aperfeiçoamento da citação dos réus sem proceder a um exame mais detido da petição iniciaL
Em algumas situações, se esse exame fosse realizado pelo magistrado, vários processos seriam extintos sem a resolução do mérito, em decorrência do
reconhecimento da ilegitimidade de uma das partes e/ou da ausência do interesse processual.
Embora as coisas costumem acontecer desse modo, como estamos diante de n1atéria de ordem publica, esta não preclui, podendo ser suscitada pelo réu como
preliminar da contestação (inciso XI do art. 337 do novo CPC), cujo acolhimento acarreta a extinção do processo sem a resolução do mérito, por ser preliminar
peremptória.
Especifican1ente em relação à preliminar de ausência de legitimidade, como é do conhecin1ento geral, no regime do CPC/73, a tentativa de correção da postulação
era feita por meio da nomeação à autoria, como modalidade interventi\·a, disciplinada pelos arts. 62 ss daquele Código, através da qual, no prazo da defesa, o réu
requeria a nomeação de terceiro (proprietàrio ou possuidor), demonstrando que detinha a posse de determinada coisa em nome alheio, tendo sido demandado em nome
próprio.
A nomeação à autoria representava modalidade interventiva burocrática, marcada pela necessidade de apresentação de outra petição, além da contestação,
acarretando a suspensão do processo, permitindo que o autor fosse ouvido no prazo de cinco dias, admitida a recusa à nomeação, o que a tomava sem efeito.
Sin1plificando a técnica, e privilegiando o principio da concentração dos atos processuais, o novo CPC estabelece que a tentativa de correção da postulação se dá
atran~s da simples arguiç.ão da preliminar de ausência de legitimidade, preferencialmente acompanhada da indicação da pessoa que o réu entende deter legitimidade
(rectius: que, segundo entende, deveria ter integrado o polo passivo desde o momeruto da formação do processo).
Assim, quatro situações podem ocorrer:

a) o réu suscita a preliminar de ausência de legitimidade e indica a pessoa que entende de\·a atuar como réu, ato seguido da ouvida do autor, que aceita a indicação,
permitindo a extinção do processo em relação ao réu primitivo, a condenação do autor ao reembolso das despesas e ao pagamento dos honorários advocaticios
em fa\·or do advogado daquele, além da detemtinaç.ão do aperfeiçoamento da citação do no\·o réu e da designação de data para a realização da audiência de
tentativa de conciliaç.ão ou da sessão de mediação;
b) o réu suscita a preliminar de ausência de legitimidade e não indica o sujeito passivo da relação jurídica discutida, ato seguido da ouvida do autor, que altera a
petição inicial e requer a substituição do réu, perntitindo a extinção do processo em relação ao réu primitivo, a condenação do autor ao reen1bolso das despesas e
ao pagamento dos honorários advocatícios em favor do ad\·ogado daquele, além da determinação do aperfeiçoamento da citação do novo réu e da designação de
data para a realização da audiência de tentativa de conciliaç.ão ou da sessão de mediação;
c) o réu suscita a preliminar de ausência de legitimidade, indicando ou não o sujeito passivo da relação j urídica discutida, ato seguido da ouvida do autor, que não
concorda com a preliminar, o que acarreta o prosseguimento do proc.esso em relação ao réu primitivo, sem prejuizo do posterior acolhimento da preliminar e da
consequente extinção do processo sem a resolução do mérito, em face do reconhecimento da ausência de legitintidade do réu;
d) o réu suscita a preliminar de auséncia de legitimidade e indica o sujeito passivo da relação juridica discutida, ato seguido da OU\'ida do autor, que concorda
parcialmente com a preliminar, solicitando a pennanência do réu primitivo no processo e o aperfeiçoamento da citação do sujeito indicado por este, acarretando
a formação do litisconsórcio passivo.

Em termos de redação, a preliminar pode ser suscitada da seguinte fom1a:

Antes de rebater os aspectos de mérito da controvérsia, o réu suscita a ausência de legitimidade como matéria preliminar, fundada na demonstração
de que o automóvel que causou o acident.e indicado na petiç.ão inicial não é de sua propriedade, mas de João dos Santos, que o adquiriu antes do
ajuizamento da ação, não o tendo transferido para o seu nome junto ao DE TRAi'! por mera conveniência.

Nesse passo, como é do conhecimento desse douto Juizo, a Súmula 132 do STJ fixou a orientação de que a a.usência de registro da transferência não
implica a responsabilidade do antigo proprietário por dano resullante de acidente que envolva o veícu/Q alienado. Aplicando-a, a jurisprudência firmou o
seguinte entendimento sobre a matéria:

"APELAÇÃO CiVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL EM ACIDE!'iTE DE TRÂNSITO. AÇÃO DE INDENlZAÇÃO. PROPRIEDADE DO VEÍCULO.
VENDA E TRADIÇÃO DO BEM. ILEGITIMIDADE PASSIVA "AD CAUSAM". SL'l\fü'LA 132 DO STJ. Possui caráter 'juris tantum' a presunção de
propriedade do nículo decorrente do registro no DETR.Ai'll. Os depoimentos prestados embasam as alegações do reu acerca da tradição do bem em data
anterior ao acidente ocorrido. Aplicabilidade da Súmula 132 do Superior Tribunal de Justiça. Negaram provimento ao apelo" (Apelação Cível n'
70059937540, 12' Cãmara Cível do TJRS, rel. Des. Umberto Guaspari Sudbrack,j. 30.7.2015).

I"o caso concreto, o réu proYou que alienou o veículo a terceiro, antoes do ajuizamento da ação, que não o transferiu para o seu nome por razões
desconhecidas, sem que o peticionário possa ser considerado culpado por atos praticados pelo adquirente do bem.

Pelo e:tposto, evidenciada a manifesta ausência de legitimidade do peticionário para figurar no polo passivo da relação processual, este requer se
digne Vossa Excelência a extinguir o processo sem a resolução do mérito, providência acompanhada da condenação do autor ao pagamento das
custas, das despesas processuais e dos honorários advocatícios, em respeito aos princípios da causalidade e da sucumbência.

2.2.8 Indevida concessão do benefício de gratuidade de justiça

Diferentemente do regime instituído pela Lei n• 1.060/50, que exigia a apresentação de petição autônoma pelo reu, para arguir a indevida concessão do
beneficio da gratuidade da justiça, a nova lei processual instituiu a regra de que essa at"guição deve ser feita como preliminar da contestação (inciso XIII do art.
33 7), o que valoriza os princípios da razoável duração do processo e da concentração dos atos processuais.
Como a matéria e do interesse exclusivo das partes, não do Estado, o fato de o réu não argui-la como preliminar da contestação acarreta a preclusão, retirando-lhe o
direito de suscitá-la posterionnente, por petição avulsa.
Essa regra e válida para a situação em que o beneficio da gratuidade da justiça é solicitado pelo autor na petição inicial, não se estendendo para alcançar os casos em
que o pedido e fonnulado durante o processo, por petiç.ão simples, como pennite a lei processual, especificamente o § I' do seu art. 99, que tem a seguinte redação:

" Art. 99. Omissis. § 1'. Se superveniente à primeira manifestaç.ão da parte na instância, o pedido poderá ser fonnulado por petição simples, nos autos do
próprio processo, e não suspenderá seu curso."

Fonnulado o pedido pelo autor após a distribuição da petição inicial, e depois da apresentação da contestação, e quando deferido, o reu disporá do prazo de 15
(quinze) dias para impugná-lo, nos termos do art. 100 da nova lei processual, que apresenta a seguinte redação:

"Art. 100. Deferido o pedido, a parte contrária poderá oferecer impugnação na contestação, na réplica, nas contrarrazões de recurso ou, nos casos de pedido
superveniente ou fommlado por terceiro, por meio de petição simples, a ser apresentada no prazo de 15 (quinze) dias, nos autos do próprio processo, sem
suspensão de seu curso."

Considerando que presume-se verdadeira a alegação de insuficiência deduzida exclusivamente por pessoa natural (§ 3' do art. 99 do novo CPC), ao contestar a
ação e arguir a preliminar de indevida concessão do benefício de gratuidade de justiça, o réu deve provar (e não apenas alegar) que o seu ad\·e.rsário dispõe de meios
para realizar o pagamento das custas e das despesas processuais, sem prejuízo do seu próprio sustento, o que pode ser feito através da juntada de certidõe.s
comprovando que e proprietário de bens imóveis, de automóveis de luxo, bem assim, de outros documentos que atestem que o autor aufere renda, não podendo ser
considerado pobre na fonna da lei.
Em tennos de redação, a preliminar pode ser arguida da seguinte fonna:

Antes de t•ebatet· os aspectos de mérito da controvérsia, o réu suscita a preliminar de inde'l<ida concessão do beneficio de gratuidade de justiça,
fazendo prova de que o aut.o r dispõe de meios que permitem o pagamento das custas e das despesas processuais, sem que isto prejudique. o seu
sustento.

!"esse passo, as certidões que acompanham esta manifestação processual comprovam que o autor é proprietário de nada mais nada menos do que 3
(três) apartamentos, todos alugados, recebendo valores mensais dos locatários que totalizam a quantia de RS 10.000,00 (dez mil reais).

Assim, considerando que o valor das custas exigido pelo Estado para ()ajuizamento da ação é de RS 1.500,00 (um mil e quinhentos reais), bem menor
do que os ganhos mensais do autor apenas com os aluguéis anteriormente referidos, é evidente que a parte contrária prestou declaração inverídica, o
que justifica a revogação dos benefícios da gratuidade da justiça, além da sua condenação ao pagamento do valor correspondente ao décuplo do valor
das custas, a título de multa, com fundamento no parágrafo único do a:rt. 100 do CPC.

Posta a questão nesses termos, sem prejuízo da imposição de penalidades decorrentes da má-fé processual, o réu requer se digne Vossa Excelência a
revogar a decisão que concedeu o beneficio ao autor, obrigando-o a arcar com as despesas que deixou de adiantar, sob pena de extinção do processo
sem a resolução do seu mérito.

2.3 PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA

Alem das preliminares listadas no art. 337 do CPC, o réu pode arguir a ocorrência da prescriç.ã o ou da decadência como matéria de defesa, que também são
preliminares, mas de mérito, já que o seu acolhimento acarreta a extinção do processo com a resolução do mérito, nos termos do inciso TI do art. 487 do CPC.
Assim, ao oferecer a contestaç.ão,. o reu pode denunciar que o autor exercitou o direito de ação além dos prazos previstos no inciso V do § 3° do art. 206 do CC, no
art. 27 do CDC ou no art. 1' do Decreto-lei n' 20.910/32, requerendo a extinção do processo com a resolução do mérito, o que não libera o autor da obrigação de efetuar
o pagamento das custas, das despesas processuais e dos honorários ad\·ocaticios, em respeito aos princípios da sucumbência e da causalidade.
Observando o art. 295 do CPCD 3, percebemos que o reconhecimento da prescrição ou da decadência era causa de indeferimento da petição inicial, o que foi
modificado pelo novo CPC. Nesse passo, o§ 1' do art. 332 da nova lei processual estabelece a regra de que o juiz pode julgar lin1inarrnente improcedente o pedido (e
não indeferir a petição inicial, o que sugere que o merito não foi julgado) quando verificar desde logo a ocorrência da prescrição ou da decadência.
Contudo, se essa constatação não ocorrer primafacie (que se pode constatar de imediatoj, de oficio pelo magistrado, ato contínuo ao recebimento da petição inicial,
e o reu denunciar a ocorrência da prescrição ou da decadência como preliminar (de mêrito), na contestação, para reconhecê-la, o magistrado terá de conceder \"ista dos
autos às partes, de acordo com o parágrafo único do art. 487 da nova lei processual, que tem a seguinte redação:

"Art. 48 7. Omissis. Parágrafo único. Ressalvadas a hipótese do § J• do art. 332, a prescrição e a decadência não serão reconhecidas sem que antes seja dada às
partes oportunidade de manifestar-se."

Assim, em decorrência da aplicação da norma reproduzida, tanto no caso em que o magistrado, de oficio, estã ínclinado a reconhecer a ocorrência da prescrição ou
da decadência, como na situaç.ão em que o reu suscitou uma dessas preliminares na contestação, o juiz terá de conceder vista às partes (no primeiro caso) ou ao autor
(no segundo), antes de decidir sobre a questão.
A concessão de oportunidade para que as partes (ou o autor) se manifestem sobre a materia se justifica, na medida em que uma delas (sobretudo o autor) pode
demonstrar a existência de causa de ínterrupção da prescriç.ão, dentre as listadas no art. 202 do CC, que tem a seguínte redaç.ão:

"Art. 202. A ínterrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma \·ez, dar-se-á: I- por despacho do juiz, mesmo íncompetente, que ordenar a citação,
se o ínteressado a promover no prazo e na forma da lei processual; !I- por protesto, nas condições do ínciso antecedente; III -por protesto cambial; IV- pela
apresentação do titulo de credito em juizo de ínventário ou em concurso de credores; V -por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor; VI - por
qualquer ato inequívoco, ainda que ex-trajudicial, que importe reconhecimento do direito pelo devedor. Parágrafo único. A prescrição ínterrompida recomeça a
correr da data do ato que a ínterrompeu, ou do último ato do processo para a ínterromper."

Quanto à redação, a preliminar pode ser suscitada da seguinte forma:

Antes de rebater as questões de mérito da controvérsia, o réu suscita a prescrição como matéria preliminar, para requerer a extinção do processo
com a resolução do mérito, já que o autor exercitou o direito de ação além do prazo legal.

!'iesse passo, e atentos à petição inicial, percebemos que o autor confessa que o ato que deu causa ao exercício do direito de ação ocorreu no dia
10.12.2012, o que resulta em dizer que a ação deveria ter sido proposta até o dia 10.12.2015, de acordo com o inciso V do § 3• do art. 206 do CC.

A pat'te contrária descumpriu a regra de direito material, na medida em que pt·opôs a ação apenas no dia 15.12.2015, o que nos faz lembrar a
máxima dormientibus non succurritjus, ou o direito não socorre aos que dormem, em tradução livre.
Posta a quest.ão nesses termos, provada a ocorrência da pt·escríção no c.aso concreto, o réu requer se digne Vossa Excelência a reconhecê-Ia,
extinguindo o processo com a resolução do mérito, providência acompanhada da condenação da parte contrária ao pagamento das custas, das
despesas processuais e dos honorários advocatícios, em respeito aos princípios da sucumbência e da causalidade.

RESUMO DA MATÉRIA

a) a prescrição e a decadência são preliminares diferentes das listadas no art. 337, jà que o seu acolhimento acarreta a extinção do processo com a resolução do
mérito;
b) a prescrição e a decadência podem ser reconhecidas de oficio pelo magistrad!o, acarretando o julgan1ento pela improcedência liminar do pedido;
c) se a ocorrência da prescrição ou da decadência não for reconhecida de oficiO> pelo magistrado, o réu pode suscitar a matéria como preliminar da contestação.

2.4 EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE

Em tinhas anteriores, advertimos que o sucesso da ação de indenização por perdas e danos exige a demonstração da coexistência do dano, do ato do agente e do
nexo de causalidade, e que esse terceiro elemento funciona como uma espécie de po-nte, interligando os dois primeiros, estabelecendo uma relação de causa e de efeito.
Justamente para evitar que os dois primeiros elementos sejam interligados, o réu costuma suscitar as denominadas excludentes de responsabilidade, nas
contestações apresentadas nas ações de indenização por perdas e danos, com a intenção de quebrar o nexo de causalidade, acarretando o j ulgamento da ação pela
improcedência dos pedidos.
As excludentes de responsabilidade não são questões preliminares, mas de mérito, razão pela qual o re.conhecimento de qualquer delas acarreta a extinção do
processo com a resolução do mérito, retirando do autor o direito de propor outra ação fundada nos mesmos elementos (partes, causa de pedir e pedido).
Nas seções seguintes, estudamos as principais excludentes de responsabilidade, sempre utilizando a jurisprudência como fundamento de nossas considerações, que
exerce papel muito importante na matéria em exame.

2.4.1 Culpa exclusiva da vitima

Ao propor a ação de indenização por perdas e danos, o autor afirma que o réu é que teria praticado o ato ilícito identificado na petição inicial, ou que seria o
responsável pela omissão que deu causa à ocorrência do prejuízo, imputando-lhe a conduta culposa ou dolosa.
Ao fazê-lo, o autor assume o ônus da pron quanto ao fato constituti\·o do seu djreito, nos lermos do inciso I do art. 373 da nova lei processuaL Contestando a ação,
o reu pode suscitar a denominada culpa exclusiva da vítima, assumindo o ônus da prova quanto à veracidade do fato (inciso !I do art. 373).
O art. 945 do CC disciplina a chamada culpa concorrente da vitima, que é um minus, se comparada à culpa exclusi\·a. Vejamos a norma:
"Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente. para o evento danoso, a sua indenização será ftxada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em
confronto com a do autor do dano."

Como percebemos, temos duas situações distintas:

a) O reconhecimento da culpa exclusiva da vítima acarreta o j ulgamento da ação pela improcedência dos pedidos formulados pelo autor na petição inicial.
b) O reconhecimento da culpa concorrente da vitin1a acarreta o julgamento da ação pela procedência parcial dos pedidos formulados pelo autor na petição inicial.

A culpa concorrente da vitima costuma ser suscitada em ações de indenização por perdas e danos decorrentes de acidentes automobilisticos, sendo frequente o
descumprimento das normas de trànsito não apenas por parte do réu, como também do autor. Examinando a jurisprudência, e de forma ilustrativa, destacamos o
reconhecimento da culpa concorrente nas seguintes situações:

a) I"a que enYolve o albaroamento entre veiculo e bicicleta que não transitava pelos bordos de rolamento, como percebemos através da leitura do seguinte
julgado: "APELAÇ.ÁO CÍVEL - AÇAO DE IJ.';'DENIZAÇ.ÁO - ABALROAMENTO ENTRE VEÍCULO E BICICLETA - CULPA CONCORREN1E
RECONHECIDA- INDENIZAÇAO POR DANOS MOR:US E MATERLI\.IS- PROPORCIONALIDADE. Embora tenha o réu abalroado a bicicleta na
traseira, o que induz presunção de culpa, não se tem pro\·ado se a bicicleta também cumpriu as regras de circulação, pois não há prova de que se encontraYa nos
bordos da pista de rolamento, então se está diante da culpa concorrente. Neste caso, a vítima será indenizada levando-se em conta a gravidade de sua culpa, em
confronto com a do autor do dano." (Apelação Cível n' 1.0439.11.011602-7/ 001, TJMG, rei. Des. Alberto Henrique,j. 23.7.2015).
b) Ka que envolve o atropelamento de vitima desatenta, igualmente causado pelo fato de o motorista dirigir o veículo sem a devida cautela, como
percebemos através da leitura do seguinte julgado: "Em casos de acidente de trânsito, ocorre culpa concorrente entre o motorista que, ao dirigir o seu \·eículo
sem a de\·ida cautela necessária à segurança do trànsito, atropela a vitima que atravessa desatentamente a via. Reconhecida a culpa concorrente do condutor e do
pedestre para o evento danoso, sem, no entanto, terem a mesma proporção, haja vista que o grau de culpabilidade excedeu a do outro, nos termos do art. 94 5 do
Código Civil, devem ser relativamente abrandadas as verbas requeridas. Lesões ftsicas sofridas em decorrência de acidente de trânsito, por si só, acarretam dano
moral, por ser afrontosa à integridade física da \·ítima, ensejando a sua reparação, a teor do disposto nos artigos 186 e 927 do Código Civil." (Apelação Cível n'
1.0521.04037411-3/001, TJMG, rei. Des.lvlaurilio Gabriel,j. 28.5.2015).
c) Ka que envolve o atropelamento de ciclista que trafegava pela mão contrária de direção, igualmente causado por imprudência do condutor do
automóvel, como percebemos através da leitura do seguinte j ulgado: "APELAÇ.ÁO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL EM ACIDENTE DE TR-.S.NSITO.
AÇAO DE INDENIZAÇAO. Hipótese em que restou comprovada a culpa concorrente pelo infortúnio: da \'itima, que trafegava na contramão; do condutor da
ré, que, ao avistar o ciclista, deveria ter desviado, evitando a colisão. Danos morais reconhecidos. Valor indenizatório ftxado observado o grau de culpa das
partes. Pensionamento devido, abatidas as despesas pessoais e observado o grau de culpa do falecido. Lide regressiva. Ausente cobertura na apólice para os
danos morais. Abatimento do DPVAT possível. Pre.cedente do Superior Tribunal de Justiça. AGRAVO RETIDO NÃO CONHECIDO. APELO
PARCLI\.Llv!ENTE PROVIDO. DENUNCLI\.Ç.ÁO DA LIDE PARCIALMENTE PROCEDENTE. UNÂNIME" (Apelação Cível n' 70060564424, 11' Câmara
Civel do TJRS, rei. Des. Antônio Maria Rodrigue.s de Freitas Iserhard, j. 26.8.2015).
d) I"a que envolve colisão decorrente do ingresso de caminhão na pista contrária de direção, durante a realização de manobra de retorno, sem que a
vitima (motociclista) tenha adotado medida de direção defensiva, como percebemos através da leitura do seguinte julgado: "APELAÇAO CÍVEL.
RESPONSABILIDADE CIVIL EM ACIDEJ\11E DE TR-WSITO. MANOBR-1\. DE RETORNO EM RODOVIA. COLISAO COM MOTOCICLETA. VÍT!JvLI\.
FATAL. DENü'NCIAÇÃO DA LIDE. E presumida a culpa do condutor que ingressa em via preferencial e atinge veiculo que por ela trafegava, causando
acidente de trânsito. Confirmação de que o ingresso do caminhão da ré na pista contrária de direção, durante a realização de manobra de retomo, foi causa
eficiente. do acidente. Contribuição da vitima para o evento danoso reconhecida, pois não adotou medida de direção defensiva e trafegava sem a atenção
necessária. Culpa concorrente ftxada na proporção de 50% para cada parte." (Apelação Ch·el n• 70063539944, 11' Câmara Civel do TJRS, rei. Des. Luiz
Roberto Imperatore de Assis Brasil, j. 12.8.2015, em transcrição parcial).

Em qualquer caso, o reconhecimento da culpa concorrente da vítima não acarreta, necessariamente, a redução da condenação para 50% (cinquenta por cento) do
valor que seria fixado se esse reconhecimento não tivesse ocorrido. Diferentemente, o magistrado deve realiz.ar uma espécie de cálculo, para definir no que a culpa
concorrente contribuiu para o resultado, abatendo essa parcela da indenização, de forma proporcional.

RESUMO DA MATÉRIA

a) o reconhecimento da culpa exclusiva da vítima acarreta o julgamento da ação de indenização por perdas e danos pela improcedência dos pedidos formulados
pelo autor na petição inicial;
b) o reconhecimento da culpa concorrente da vítima acarreta o julgamento da ação de indenização por perdas e danos pela procedência parcial dos pedidos
formulados pelo autor na petição inicial;

2.4.2 Fato de terceiro

Outra excludente frequentemente suscitada pelos réus nas ações de indenização por perdas e danos é o fato de terceiro, que representa a ação ou a omissão
por parte de uma pessoa estranha ao processo,' respons:ivel pelo prejuízo, quebrando o nexo de causalidade, já que o dano decorreu não do comportamento do réu, mas
de um terceiro, que inclusive pode ser chamado ao processo por aquele, através da denunciação da lide, com fundamento no inciso I! do art. 125 da nova lei processual
civil, com a intenção de garantir o direito de regresso, de modo que a sentença será útil tanto para o autor como para o réu, com a ressalva de que o parágrafo único do
art. 128 do novo CPC estabelece a regra de que procedente o pedido da ação principal, pode o autor, se for o caso, requerer o cumprimento da sentença também
contra o denunciado, nos limites da condenação deste na ação regressiva.
A denunciação da lide, contudo, não acarreta a substituição, mas a "cumulação de partes",< para incluir determinada pessoa no processo, contra a qual o réu
posteriormente pretende obter (através da sentença) a garantia do reembolso da quantia paga a:o autor da ação, vale dizer, à vitima do ato ilícito.
Embora a teoria da responsabilidade civil e o inciso H do § 3• do art. 14 do CDC admitam o fato de terceiro como excludente de responsabilidade, exigem a
comprovação de que o ato praticado pelo terceiro era imprevisível e ine,;távet e de que foi causa exclusiva do prejuízo. Vejamos julgado ilustrativo sobre a
matéria:

"RESPONSABILIDADE CIVIL. BANCO. CONTRATAÇAO REALIZADA MEDIANTE FR....<\tJDE. FATO DE TERCEIRO NAO CAMCTERIZADO.
DEVER DE INDEN1ZAR. DANO MORAL CONFIGURADO. Incumbia ao demandado conferir os dados apresentados pelo suposto contratante mediante
cuidadosa analise da documentação apresentada, procedendo à eficaz conferência dos dados. A excludente prevista no artigo 14, § 3', H, do CDC somente se
aplica aos casos em que o fornecedor do serviço não concorre- de nenhum modo - para a ocorrência do evento danoso, ou seja, quando o prejuízo decorre de
ação ou omissão exclusiva do consumidor ou de terceiro. A indevida inscrição do nome do postulante em cadastros restritivos de crédito acarreta dano moral
indeniz:ivel. Trata-se do chamado dano moral in re ipsa. Indenízação mantida nos termos da sentença em R$ 7.240,00 (sete mil duzentos e quarenta reais),
consoante os parâmetros utilizados por e.sta Câmara Cível em situações ana1ogas. Verba honoraria reduzida para 10% sobre o valor da condenação, de acordo
com as diretrízes do art. 20, § 3', do CPC, pelo que deve ser mantida. RECURSO DE APELAÇAO PARCL.<\LMENTE PROVIDO" (Apelação Cível n'
70065064305, 10' Câmara Cível do TJRS, rei. Des. Túlio de Oli\·eira Martins, j. 27.8.2015).

Em determinadas atividades, como nos transportes de passageiros e de cargas, alguns comportamentos de terceiros são esperados, previsíveis, de modo que, se a
ação de indenização por perdas e danos tem fundamento em dano ocorrido durante essa atividade, por comportamento de terc.eíro, o transportador deve pro\·ar que, em
momento anterior á prática do ato, de tudo fez para evitá-lo, agindo de forma preventiva. Se não se desincumbir do ônus, responderá pelo pagamento da indenízação
correspondente.
Multiplicam-se casos, em todos os centros urbanos do país, de pedras que são arremessadas para o interior de coleti\·os, e de pe.ssoas que, em plena luz do dia,
praticam roubos ou furtos contra passageiros.
Entendemos que esses atos, praticados por terceiros, não podem ser considerados inesperados, pela sua fre.quência, em todas as grandes cidades do país, o que
significa dízer que o ato de terceiro não deve ser considerado como excludente de responsabilidade nessas situações.
Esses atos estão inseridos na teoria do risco, que se aplica ao contrato de transporte, atrelado à responsabilidade objetiva, por força do Decreto 2.681112.' A Súmula
n' 187 do STF textualíza que: "a responsabilidade contratual do transportador, pelo acidente com o passageiro, não é elidida por culpa de terceiro, contra o qual tem
ação regressiva".
No mesmo sentido, o art. 735 do CC, ratificando a orientação da Sumula anteriormente transcrita, textualiza que "a responsabilidade contratual do transportador
com acidente com o passageiro não e elidida por culpa de terceiro, contra o qual tem ação regressiva".
O fato de terceiro, no nosso entendimento, só pode ser admitido como excludente de resporu;abilidade quando - além de ser ine\•itável e imprevisível - não tem
qualquer relação com o transporte em si, conforme orientação jurisprudencial predominante, o que a doutrina e a jurisprudência denominam fortuito exierno'
Ilustrativamente, pensemos em um ônibus que transita por via pública, em area nobre de uma cidade do nosso país. Quando o veículo se encontrava em plena
a\·enida beira-mar, e em decorrência de rixa travada entre jovens que se encontravam no calçadão da avenida, um passageiro e atingido por disparo de arma de fogo,
advindo de arma que se encontrava nas mãos de. um dos jovens anteriormente referidos.
Entendemos que, neste caso, o fato era imprevisível (pelas circunstâncias apresentadas) e inevitá\·el, bem como alheio à atividade, podendo exonerar a
transportadora do dever de indenizar, desde que esta suscite a excludente na sua contestação, o que significa dizer que a excludente de responsabilidade não pode ser
reconhecida de oficio, dependendo da pro\·ocação da parte interessada.
Numa outra situação hipotética, pensemos em ônibus que costumeiramente transita por area conhecidamente violenta, na qual, repetidas vezes, ocorreu o arremesso
de pedras, por parte de moradores da região, em direção aos ônibus que por ali trafegam.
Em uma dessas ocasiões, se um dos passageiros for atingido por pedra arremessada por um terceiro, a transportadora não poderia ser exonerada do dever de
indenizar, haja \·ísta que o fato era previsível (pelas circunstâncias), não tendo o que se falar em inevitabilidade, posto que inserido no risco criado pela própria
atividade, o que a jurisprudência costuma denominar fortuito interno.
Dispondo sobre a matéria, o art. 930 do CC apresenta a seguinte regra:

"Art. 930. No caso do inciso rr do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá o .autor do dano ação regressiva para haver a importãncía
que ti\·er ressarcido ao lesado. Parágrafo único. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano."

Enfrentando questões concretas, os tribunais criaram classificação relacionada ao fato de terceiro, que pode ser considerado fortuito interno ou fortuito externo, o
primeiro nâo liberando os réus das aç.ões de indenízação por perdas e danos do dever de indenízar, enquanto que o segundo é admitido como excludente de
responsabilidade'
O fortuito interno não é estranho ao contrato de transporte, relacionando-se com a sua execução, sendo previsível e evitável,' na maioria dos casos. Nessas situações
o fato de terceiro nâo e admitido como excludente de responsabilidade, recaindo o dever de indenizar sobre o transportador desidioso, que poderia ter evitado a
ocorrência do prejuízo, cercando-se de cautelas.
Nos casos que envolvem arremesso de pedras para o interior de coletivos, o magistrado de\·e avaliar se o fortuito é interno ou externo. As circunstâncias de cada
caso é que irão determinar o sucesso ou o insucesso da ação de indenízação por perdas e danos, devendo ser principalmente considerado o local do qual o arremesso foi
feito,' ou seja, se partiu de area de controle da transportadora ou se, diferentemente, proveio da via pública.
Outra situação que devemos examinar díz respeito ao assalto ocorrido no interior do coletivo, resultando no disparo de arma de fogo por parte de meliantes, que
atinge passageiros.
Boa parte da jurisprudência, por concluir que a transportadora não poderia se responsabilizar pela segurança pública,'" isenta-a do dever de indenizar, classificando
o fortuito como sendo externo.
Entendemos que, com o atual movimento da doutrina e da jurisprudência, que se inclina para a adoç.ão, em larga escala, da teoria do risco, a admissão do fato de
terceiro como excludente de responsabilidade e cada \·ez mais reduzida, o que não retira do réu o direito de obter indenização de forma regressiva do terceiro.
A redação do art. 931 do CC demonstra essa tendência, ao dispor que:

"Art. 931. Ressah·ados outros casos previstos em lei especial, os empresários indi\·iduais e as empresas respondem independente de culpa pelos danos
causados pelos produtos postos em circulação."

RESUMO DA MATÉRIA

a) o fato de terceiro é admitido como excludente de responsabilidade em nosso sistema jurídico, exigindo-se, contudo, a demonstração de que o ato praticado pelo
terceiro era imprevisível e inevi tá\·el ;
b) alem disso, em cada caso, o magistrado deve in\·estigar se o fato de terceiro pode ser considerado fortuito externo, não inserido na rotina da atividade, como
condiç.ão para considerá-lo excludente de responsabilidade.

2.4.3 Caso fortuito ou de força maior

Primeiramente, é necessário fazermos a devida distinção entre os institutos analisados (caso fortuito e força maior), embora a doutrina moderna afirme que
eoSsa distinção não acarreta efeitos práticos, mas apenas cientificas, já que tanto o caso fortuito como a força maior podem liberar o réu do dever de indenizar, pela
quebra do nexo de causalidade que ligaria a ação do agente ao resultado.
A doutrina especializada, sintetizada na lição de SÍLVIO DE SALVO VENOSA, 11 ensina-nos que:

"O caso fortuito (act of God, ato de Deus no Direito anglo-saxão) decorre de forças da natureza, tais como o terremoto, a inundação, o incêndio não
provocado, e a força maior decorre de atos humanos, tais como guerras, revoluções, greves e determinação de autoridade (fato do príncipe). Ambas as
figuras equivalem-se para afastar o nexo causal. "

As excludentes em exame são frequentemente suscitadas nas contestações das ações de indenizaç.ão por perdas e danos, sobretudo nas ajuizadas contra o Estado
(em sentido amplo, para abranger principalmente Estados e Municípios), decorrentes de inundações que causam danos materiais aos proprietários de bens lendas ou
danificados pela força das chuvas.
Esse tipo de situação, segundo entende grande parte da doutrina, a cuja corrente nos filian10s, afastaria a regra do art. 37, § 6<, da CF (que trata da responsabilidade
objetiva, fundada na teoria do risco administrativo), sendo orientada pela teoria subjetiva,c exigindo do autor que prove a culpa do Estado, geralmente prova de
natureza testemunhal.
Essa culpa decorreria da falha na prestação do serviço público (ou da má prestação), como a omissão na limpeza de galerias pluviais, bem como a inexistência de
politica relativa a execução de obras necessárias para evitar problemas em áreas criticas.
Outros casos frequentes, que motivam a arguição das analisadas excludentes, dizem respeito à pretendida indenização resultante de roubos ocorridos no interior de
estabelecimentos particulares, sobretudo em estacionamentos, praticados por terceiros, que não mantêm qualquer relação com o estabelecimento.
A maioria da jurisprudência imputa a responsabilidade ao estabelecimento, entendendo que, ao oferecer o serviço aos seus clientes, o estabelecimento assumiu o
dever de guarda e de vigilância dos automóveis, 13 embutindo essa oferta no lucro auferido pelo empreendedor, com a venda de produtos e!ou com a prestação de
serviços.
Os magistrados entendem que o ato- o roubo do veículo- e fato previsível, notadamente em grandes centros urbanos, e que o oferecimento de estacionamento para
os clientes denota a aplicaç.ão da teoria do risco, em relação ao empreendedor.
A matéria re.stou praticamente pacificada após a aprovação da Súmula 130 do STJ, que tem a seguinte redação:

"A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de. dano ou furto de veiculo ocorrido em seu estacionamento."

Em qualquer situação, o que o magistrado deve avaliar e se o resultado era ou não evitável, ou seja, se o agente adotou as cautelas necessárias para e\·itar o prejuízo.
Exemplificativan1ente, pensemos em uma região que, pela sua localização geográfica, é constantemente castigada pela queda de raios. Se um deles partir fiaç.ão de
alta tensão, que atinge uma pessoa que por ali transitava, a concessionária deve ou não ser condenada ao pagamento da indenização? Esta poderia suscitar o caso
fortuito como excludente de responsabilidade?
A parte autora poderia alegar que o fato era previsível e evitável, já que a concessionária, ciente da reiterada ocorrência de acidentes semelhantes na região, deveria
ter substituído a fiação aerea por fiação subterrânea, impedindo que o raio a rompesse.
O parágrafo único do art. 393 do CC" estabelece a regra de que o que o magistrado deve verificar é se o reu poderia ou não ter e\·itado a consumação dos efeitos
advindos do caso fortuito ou de força maior.
A análise da possibilidade de o prejuízo ser evitado e subjetiva, encontrando-se alguns julgados que comprimem esse conceito, para exigir do agente que de tudo
faça para impedir que o prejuízo se materialize."
RESUMO DA MATÉRIA

a) a distinção conceitual entre. o caso fortuito e a força maior é. irrelevante para a teoria da responsabilidade civil, ou pelo menos de pouca importãncia;
b) an1bos os institutos são admitidos como excludentes de responsabilidade;
c) a jurisprudência entende que a excludente pode ser reconhecida quando o réu prova que o fato era inevitá\·el, embora pudesse ser previsível;

2.4.4 Estado de necessidade

O art. 188 do CC prevê o estado de necessidade como excludente de ilicitude, regra complementada pelo parágrafo único do mesmo dispositivo,
estabelecendo que o ato praticado em estado de necessidade só e considerado legítimo quando "as circunstâncias o tomarem absolutamente necessário, não eKcedendo
os limites do indispensãvecl para a remoção do perigo".
A matéria é polêmica no âmbito da responsabilidade civil. O art. 65 do CPP estabelece que:

"Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento de
dever legal ou no exercício regular de direito."

O artigo reproduzido afasta a regra geral, constante do art. 935 do CC," segundo a qual as instãncias cível e crinlinal são independentes, de modo que o que for
decidido no juízo criminal não produz efeitos no âmbito cível.
A aplicação da norma constante da lei processual penal não é absoluta, resistindo a jurisprudência em fazê-lo, considerando, principalmente, o contido no art. 930
do CC, 11 que mantém a responsabilidade da pessoa que pratica o ato, assegurando-lhe, contudo, o direito de regresso, quando o mesmo ato advém da culpa de um
terceiro.
Em outras palavras, o estado de necessidade não seria uma excludente de responsabilidade, mas garantia conferida ao agente de que pode rea\·er o valor que pagou
ã vítima, atra\·és do exercício do direito de regresso, por meio da denunciação da lide ou da propositura de ação própria (ação de cobrança, geralmente).
O STJ consolidou o entendin1ento de que, embora seja excludente da ilicitude, o estado de necessidade não libera o agente do de\·er de indenizar."
Sempre entendemos que no estado de necessidade ha dois bens jurídicos a preservar, como tais: o bem de um terceiro, que é atingido pelo ato lícito praticado pelo
agente, e o bem de outro terceiro ou do prõprio agente, que prefere preserva-lo, destruindo a coisa pertencente a outrem.
Num exemplo ilustrativo, vejamos a situação de motorista que, trafegando por uma via pública, é surpreendido por "tranca" de outro automó\·el, aproximando-se
sem perigo {dirigia em \·elocidade moderada) de sinal fechado, encontrando-se alguns veículos à sua frente., todos inertes. Se nada fizesse, o motorista colidiria o seu
veículo com outro parado, sofrendo danos meramente materiais.
Pela \·elocidade desenvolvida, o motorista tinha ciência de que a colisão seria de pequeno impacto, sem a possibilidade de lhe serem causados danos físicos, mas,
repita-se, apenas danos materiais.
Pois bem. lnobstante o resultado que se antevia {danos materiais), o motorista prefere subir a calçada do seu lado direito, atingindo criança que por ali passava,
vindo esta a falecer. A pergunta que devemos fazer é a seguinte: na sua defesa, o réu poderia invocar o estado de necessidade como excludente de ilicitude, e, portanto,
da própria responsabilidade civil? Entendemos que não.
No caso em analise, e diante das suas circunstâncias, sobretudo considerando a ciência do agente de que o seu prejuízo se limitaria a danos materiais, pensamos que
seria injusto que a vítima suportasse dano considerável, sem qualquer culpa sua, que juridican1ente seria maior, se comparado com o bem jurídico preservado pelo
agente.
O caso, contudo, não é de solução tão singela. A isenção de responsabilidade, pela licitude do ato praticado (que não é a regra dentro do nosso sistema jurídico),
depende das circunstãncias, variando caso a caso, a depender das pro\·as produzidas, sobretudo para precisar o comportamento do agente e os bens j urídicos
confrontados (o bem j urídico preservado pela parte ré e o bem por ela lesado).

RESUMO DA MATÉRIA

a) o estado de necessidade é excludente de ilicitude;


b) o Cõdígo de Processo Penal prevê que o reconhecimento do estado de necessidade produz efeitos no juízo cível, exonerando o agente da obrigação de indenizar
a vitima do ato ilícito;
c) o Cõdigo Civil não disciplina a matéria da mesma forma, atribuindo ao agente responsabilidade pelo pagan1ento da indenização, quando o ato é causado por
culpa de terceiro, garantindo àquele o exercício do direito de regresso contra o causador do prej uízo;
d) a jurisprudência não simpatiza com a admissão do estado de necessidade como excludente de responsabilidade.

SILVA, Ovídio Araujo Baptista da. Curso de processo civil. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. v. I, p. 4S5.
Vejamos julgado sobre a matéria: "Para o acolhimento da exceção deverâ concorrer, entre as duas causas, a tríplice. identidade de partes. pedido e causa de pedir. Assim, configura-se a
coisa julgada quando há identidade de fato e de relação juridica entre as duas demandas" (Apelação Cinl 2000.001.13597, 8' Càmara Cível do TJRJ, Rei. Des. LETiCLA.
SARDAS). (grifamos)
Sobre o conceito de terceiro. recorremos à lição do mestre e amigo Silvio de SalYo V-enosa: "Temos que entender por terceiro, nessa premissa, alguêm mais além da vitima e do
causador do dano. Na relação negociai, é mais fãcil a conceituação de terceiro, pois se trata de quem não participou do negóc-io jurídico. A lei, por vezes, refere-se. a ele, como na
hipótese. de coação praticada por terceiro (art. 101) e na -fraude contra credores. Na responsabilidade contratual, terceiro é, em síntese, aJguêm que ocasiona o dano com sua conduta,
isentando a responsabilidade do agente indigitado pela vitima" (VENOSA, Silvio de Salro. Responsabilidade civil. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002. p. 45).
FUX, Luiz. Curso dJJ direito processual civil. Rio de Janeiro: Forense, 2001. p . 269.
O Decreto mencionado, embora date de 1912, jã contemplava a responsabilidade quase que plena das estradas de ferro, não prenndo o fato de terceiro como excludente de
responsabilidade, como s:e depreende da tramcrição do seu art. 17: "As estradas de ferr;o responderão pelos desastres que. nas suas linhas sucederem aos viajantes e de que resulte a
morte, ferimento ou le:São corpôrea. A culpa serã presumida, só se admitindo em contrario algumas das seguintes provas: I- caso fortuito ou força maior; II -culpa do \·iajante., não
concorrendo culpa da estrada.· ~
K esse sentido: " Nos termos: do art. 37, § 6~, da CR/ 88, a responsabilidade. das conce_ssionárias de transporte coletivo, como prestadoras de serviço pUblico que são, é de caráter objetivo,
por aplicação da teoria do risco administrath.:o. A partir do contexto probatório dos aut os, podemos concluir que o condutor do veiculo de propriedade da segunda requerida, ao não
observar a sinalização existente. no cruzamento~ atingiu o ônibus em que se-encontrava a vítima, causando a sua morte Consoante jurisprudência do STJ, versando a hipótese dos autos
sobre responsabilidade de. concessionária de transporte pUblico, eventual acidente de trânsito causado por terceiros, constitui apenas fortuito interno, não sendo capaz de afastar a sua
responsabilidade pelo dano, em razão da sua pre-visibilidade e por estar tal eYento diretamente relacionado com risco inerente â exploração dessa espêcie de atividade econômica.
Ressalte.- se que o fortuito externo é aquele alheio à atividade da empresa, advindo, principalmente de fatos da natureza. estranhos ao homem. Pode ser considerado fato ineYitâvel,
invencível ou irresistivel. Em todo caso. não se confunde com o fortuito interno. inerente ao risco da atividade desenYolvida pela ré e que não a exime da responsabilização. Este
Tribunal, a exemplo de. v-árias outras Cortes brasile-iras, tem primado peta razoabilidade na fixação dos valores das indenizações. É prec-iso ter sempre em mente, que a indenização por
danos morais deve alcançar valor tal, que sirva de exemplo para a parte ré~ sendo ineficaz, para tal fím. o arbitramento de quantia ex.cessivam.ente. baixa ou simbólica,. mas, por outro
lado, nunca deve ser fonte de emiquecimento para o autor. sen.dndo-lhe-apenas como compensação pela dor sofrida Preliminares rejeitadas; primeiro recurso provido; segundo,
terceiro e quarto, desprovidos" (Apelação Civel n• 1.0433110062950/00 1, TJMG, relatora DesembargadoraEDUARDA MAJm>.'i DA CUNHA,j. 25.3 .2014).
Vejamos a lição da doutrina: ..Tais expressões têm sido, na prãtica, comideradas sinônimas~ e andam sempre j untas. _.l\5 distinções, em outros tempos fe-itas pelos civilistas, não têm
sortido efeitos. Todavia,. os modernos civilistas, tendo em ;;ista,. justamente, a teoria do risco, dividem o caso fortuito em interno e e:\.1erno. O primeiro é o que se liga â emprêsa; o
Ultimo, o que estâ fora dela,. reservada a êste a denominação de fôrça maior. Entram na categoria de caso fortuito interno todos os acontecimentos que não possam ser at:ribuidos à culpa
do responsãYel~ mas estão ligados à organização de que êle mesmo imprimiu ao negócio~· (AL VL~.f, Agostinho Neves de-Arruela Da illexecução das obrigações g suas consequéncias.
São Paulo: Saraiva, 1949. p. 276).
Nesse sentido: "APELAÇ.<\0 CÍVEL. COJ\'TRATO DE TRANSPORTE E RESPON SABILIDADE CIVIL El\{ ACIDENTE DE TRANSITO. ABALRO.•.i\ 1EN10 DE TÁXI.
PRETENSÃO INDENIZATÓRIA DO PASSAGEIRO EM FACE DO TRANSPORTADOR E DE TERCEIROS. M~OBRA EXCEPCIONAL REALIZADA PELO TAXISTA.
PROCEDÊNCIA DA AÇÃO EXCLUSIVAMENTE Ei\f RELAÇÃO AO TRANSPORTADOR. Preliminar de nulidade. da citação por edital dos sucessores de um dos reus rej eitada.
Acidente de-trânsito e.n volYendo tâxi~ em atividade de transporte e terceiro veículo, ainda que-o sinistro ocorra por culpa deste, não afasta a responsabilidade-do transportador perante o
passageiro, jã que considerado caso fortuito interno, ligado à própria exploração da athidade de transporte. Arts. 734 e 735 do CC e SUmula 18 7 do STF. Contexto em que caberia
apenas o direito de regre-s so. Ação regressiva, entretanto, que ve.io a ser julgada improcedente, não havendo, nestes autos,_ elementos de prova capazes de. afastar a conclusão de que foi
o taxista quem obrou com culpa para a ocorrência do acidente, ao empreender manobra excepcional de ingresso em rodovia" (Apelação Ci,·el n• 70055977292, 12' Câmara Civel do
TJRS, relator Desembargador José Aquino Flõres de Camargo).
Quando o arremesso parte de áreas de-controle do transportador, como de embarque e desembarque-, a j urisprudência tende a impor o dever de indenizar, como percebemos atravês ela
anãlise do seguinte julgado: " Responsabilidade civil. Responsabilidade ·objetiYa. Acidente ferroviário. Passageiro atingido por pedra atirada por pessoa que se encontrava no interior
das dependências da tr3Jb""Portadora. Local em que cumpria a ferrovia manter a segurança dos passageiros. Fato que caracteriza fortuito interno, por não ser inteiramente estranho ao
transporte em si. Inexistênc.ia, pois, de e.xcludente de sua responsabilidade. Dano mora·l. Fixação em 100 salãrios mínimos. Valor que, no caso. oorresponde à justa reparaçãO pelo
prejuízo extrapatrimonial experimentado pela 1itima. Juros de mora. Termo inicial. Tratando-~e de ilicito contratual, portanto relati1·o, contam-se o~ juros da citação. Sentença
parcialmente reformada" (Apelação Civel 2000.001.19 160, 13' Câmara Ch·el do TJRJ).
Nesse sentido: " O transportador não estã investido no poder estatal de-garantir a seguraJJ:ça pública, e, assim, não pode evitar ou impedir a morte dos passageiros do ônibus~ ainda que
se-lamente o fato ocorrido - e-suas consequências. Caso fortuito ou de força maior caracterizado, não ensejando indenização pelos prej uizos deles resultantes" (Apelação Civel n-=-
2000.001.10048, 15' Câmara Civel do TJRJ, Rei. Des. JOSE MOTA FILHO).

" VHWSA, Silvio de Salvo. Direito Civil: re.ponsabilidade ci\·il. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002. v. 4, p. 39.

" Apenas para ilustrar, reproduzimos lição do amigo Rui Stoco: "Convergimos nesse sentido, pois o Estado só poderá responder quando ficar comprovado que o prejuízo suportado pelo
particular decorreu da chamadafaute du service, quer dizer, quando ccmpetiam ao Poder Público certas providências que não foram tomadas, de modo que. o serviço não funcionou,
funcionou tardiamente. ou funcionou mal (culpa adtninistrativa ou culpa anônima" (Responsabilidade civil e sua interpretação jurisprudencial. 4. ed. São Paulo: Re.vista dos Tribunais,
1999. p. 505).

" Nesse sentido: "A empresa que explora comercialmente estacionamento de veículos é responsãvel pela indenização em caso de subtração decorrente de roubo ou furto. O roubo
mediante constrangimento com arma de fogo não pode ser invocado como motivo de força maior, porque é fato previsivel, não constituindo causa excludente da responsabilidade da
empresa. A obrigação de prestar segurança e vigilância faz parte do contrato de depósito, devendo a empresa arcar com o risco inerente à atividade explorada" (julgado repetido nos
recursos: REsp 303 776/SP, 131662/SP e 182390/SP, dentre outros, todos da 4' Turma do STJ).
" Art. 393. omissis; Pa:rãgrafo tinico. O caso fortuito ou de força maior verifica-se-no fato necessário, cuj os efeitos não era possivel evitar ou impedir."

" Nessa linha de raciocínio, transcre\·emos trecho de voto proferido em julgado da lana do Colégio Recursal do Estado de Pernambuco: "Inegavelmente.~ a prestação de serviços de
transporte por rodovias en\·olve a ideia do risco da atividade que explora e obtém lucratividade. Ora, tratando-se de uma atividade comerc.ial, têm as empresas transportadoras a
obrigação de s:er previdentes, cercando-$e de todos os cuidados para que as pessoas e coisas não sejam alvo de ação criminosa. Os meios para tanto ficam por conta da maior
criatividade de cada transportadora" (Recurso no O17 19/2001, Rei. Carlos Magno Cysneiros Sampaio).
935. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se. podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se
'~Art.
acharem decididas no juizo criminal."
,. '~No caso do inciso li do art. 188, se o perigo ocorre.r por culpa de terceiro ~ contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado. ~·
JS
Ilustrativamente, transcrevemos os seguintes j ulgados: "Civil. Ação de indenização. Acidente de trânsito. Ato de terceiro. Colisão. Estado de necessidade. E.~clusão da ilicitude.
Permanência, todavia, da obrigação de-ressarcir os danos. Direito de regresso. A empresa cujo preposto~ buscando evitar atropelamento, procede à manobra evasiva que culmina no
abalroamento de outro ,·eículo, causando danos, responde civilmente pela sua reparação, ainda que não se configure, na espêcie, a ilicitude do ato, praticado em estado de necessidade.
Direito de regresso assegurado contra o terceiro culpado pelo sinistro, nos termos do art. 1.520 d e o art. 160, II. do Código Civil. Recurso especial conhecido pela divergência, mas
improvido" (REsp 124527/SP, 4' Tunna do STJ). " Responsabilidade civil. Acidente de trânsito. Causa do evento. Veículo arremessado contra outro. O motorista do ,·eículo
simplesmente arremessado contra outro não tem sua conduta inserida na relaç-ão causal e por isso não responde pelos danos causados~ devendo a ação indenizatória ser dirigida
diretamente contra quem, culposamente, causou o primeiro abalroamento. Diferente é a situação do motorista que em estado de necessidade para se salvar de perigo posto por outrem,
vem a causar o choque com terceiro. Neste caso, ele responde, com direito de regresso contra o culpado (art. 1.520 do CC). Reconhecida no acórdão a primeira situação, não viola a lei
a decisão que julga improcedente ação promo·vida contra o proprietário cuj o veiculo foi jogado contra os automó,·eis dos: autore.s. Inexistência de ofensa aos princípios sobre. a coisa
julgada, pela simples menção à decisão adotada em outro processo, sobre o mesmo fato" (REsp S 1631/ SP, 4' Turma do STJ).
3

DINÂMICA DA AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR PERDAS E DANOS

SUMÁRIO: 3.1 Considerações gerais - 3.2 Designação da audiência de tentativa de conciliação ou da sessão de mediação - 3.3 Saneamento do
processo - 3.4 Produção da prova pericial - 3.5 Designação da audiência de instrução e julgamento.

3.1 CONSIDERAÇOES GERAIS

A ação de indenização distingue-se de outras ações por apresentar vãrios pontos controvertidos, e por quase sempre exigir a produção de pro\·as, sendo bastante
incomum o julgamento do processo de forma antecipada, o que inclush·e pode caracterizar o cerceamento do direito de defesa.
Distribuída a petição inicial. como prirueiro ato, o magistrado pode determinar que o autor a emende, no prazo de 15 (quinze) dias úteis, sob pena de ser indeferida
(art. 321),1 quando constatar a ocorrência de vicio saná\·eJ. Além de o novo CPC ter ampliado de 10 (dez) para 15 (quinze) dias o prazo para a emenda (prazo que
considera apenas os dias uteis), exige que o magistrado indique, com precisão, o que deve ser corrigido ou emendado pelo aut.or, não sendo mais admitido que
determine a emenda de forma genérica (por exemplo: intime-se o autor para emendar a petição inicial no prazo legal, sob pena de indeferimento), técnica que e digna
de aplausos.
Além da determinação da emenda da petição inicial, o magistrado pode indeferi-la, com fundamento no art. 330 do novo CPC, que tem a seguinte redação:

"Art. 330. A petição inicial será indeferida quando: I - for inepta; li- a parte for manifestamente ilegítirua; III- o autor carecer de interesse processual; IV-
não atendidas as prescrições dos arts. 106 e 321. § 1' Considera-se inepta a petição inicial quando: I- lhe faltar pedido ou causa de pedir; TI- o pedido for
indeterminado, ressalvadas as hipóteses legais em que se permite o pedido genérico; III - da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão; IV -
contiver pedidos incompati\·eis entre si. § 2' Nas ações que tenham por objeto a revisão de obrigação decorrente de empréstimo, de financiamento ou de
alienação de bens, o autor terá de, sob pena de inépcia, discriruinar na petição inicial, dentre as obrigações contratuais, aquelas que pretende controverter, além
de quantificar o valor incontroverso do débito. § 3' Na hipótese do§ 2', o \'alor incontroverso deverá continuar a ser pago no tempo e modo contratados."

Na ação de indenização por perdas e danos, o indeferimento da petição inicial pode ocorrer, sobretudo, quando o magistrado constatar que a parte é manifestamente
ilegitirua ou que o autor carece de Interesse processual ou (nova hipótese) quando verificar que o autor formulou pedido indeterminado, o que foi objeto de comentãrios
no Capítulo I desta obra.
Os dois atos que examinamos em linhas anteriores retratam obstáculos processuais. Diferentemente., quando o magistrado constata que a petição inicial é apta (ou
seja, que preenche todos os requisitos listados no art. 319), designa dia e hora para a realização da audiência de tentativa de conciliação ou da sessão de mediação, ato
bastante iruportante, sobretudo nas ações de indenização por perdas e danos, que versam sobre direito disponível.
Não havendo acordo, a partir da audiência, o réu dispõe do prazo de 15 (quinze) dias úteis para a apre.sentação da contestação, como modalidade única de defesa,
podendo ainda reconvir, na própria contestação (art. 343 do novo CPC).
Esse prazo pode ser contado em dobro se a ação de indenização por perdas e danos for proposta contra o Ministério Público, qualquer das pessoas jurídicas de
direito público, o denominado pobre na forma da lei ou contra litisconsortes, desde· que representados por diferentes procuradores, desde que estes integrem diferentes
escritórios de advocacia e, fmalmente, que o processo tenha curso em autos fisicos.
Se a contestação não for apre.sentada, o magistrado decreta a revelia do réu e julga o mérito de forma antecipada (inciso I! do art. 355), exceto se as alegações de
fato formu ladas pelo autor forem inverossímeis ou estiverem em contradição com a prova constante dos autos (inciso IV do art. 345). Diferentemente, apresentada a
contestação, o autor é ouvido em réplica, no prazo de 15 (quinze) dias.
Após a apresentação da replica, o processo pode seguir por um dentre 3 (três) caminhos:

a) Pode ser extinto sem a resolução do mérito, em qualquer das situações previstas no art. 485.
b) Poder ser julgado de fom1a antecipada, o que, como antecipamos, não e comum nas ações de indenização por perdas e danos, por exigirem a produção de pro\·as
como condição para que o magistrado possa formar o seu convencimento.
c) O magistrado pode sanear o processo e designar dia e hora para a realização da audiência de instrução e julgamento, concluída com a prolação da sentença no
próprio ato ou no prazo de 30 (trinta) dias (inciso III do art. 226).

A dinâmica a que nos referimos em linhas anteriores (passando pelo caminho indicado na letra (c)) retrata o que frequentemente ocorre nas ações de indenização
por perdas e danos, já que, como antecipamos, estamos diante de ações ricas em fatos, fazendo-se necessãria a produção de provas para esclarecê-los, e a designação de
audiências, para que o magistrado tente conciliar as partes, para que saneie o processo e para que permita a produção da pro\·a oral (tomada do depo.iruento das partes e
das testemunhas), dentre outras providências.
Em linhas seguintes, estudamos em separado cada uma das audiências, incluindo as suas finalidades, os seus atos preparatórios e o seu conteudo, com atenção
totalmente voltada para o novo CPC.

3.2 DF.SIGNAÇÃO DA AUDIÊNCIA DE TENTATIVA DE CONCILIAÇÃO OU DA SESSÃO DE MEDIAÇÃO

Na vigência do CPCn 3, a audiência de tentativa de conciliaç:ão era designada facultativamente pelo magistrado, não se constituindo em etapa obrigatória do
processo. Por essa razão, alguns juízes preferiam não designá-la, tentando a conciliação no inicio da audiência de instrução e julgamento. O novo CPC modificou
substancialmente esse ato processual, tornando-o obrigatório, exceto quando ambas as partes demonstrem desinteresse na autocomposição ou quando o juiz verificar
que a causa não a admite (§ 4' do art. 334).
A matéria está disciplinada pelo art. 334 do novo CPC, que tem a seguinte redação:

"Art. 334. Se a petição inicial preencher os requisitos essenciais e não for o caso de improcedência liminar do pe.dido, o juiz designará audiência de conciliação
ou de mediação com antecedência mínima de 30 (trinta) dias, devendo ser citado o réu com pelo menos 20 (vinte) dias de antecedência§ J• O conciliador ou
mediador, onde houver, atuará necessariamente na audiência de conciliação ou de mediação, observando o disposto neste Código, bem como as disposições da
lei de organização judiciária. § 2• Poderá haver mais de uma sessão destinada à conciliação e a mediação, não podendo exceder a 2 (dois) meses da data de
realização da primeira sessão, desde que necessárias à composição das partes. § 3' A intin1ação do autor para a audiência será feita na pessoa de seu advogado.
§ 4• A audiência não será realizada: I - se ambas as partes manifestarem, expressamente, desinteresse na composição consensual; !I -quando não se admitir a
autocomposição. § 5• O autor deverá indicar, na petição inicial, seu desinueresse na autocomposição, e o réu deverá fazê.-lo, por petição, apresentada com 1O
(dez) dias de antecedência, contados da data da audiência. § 6' Havendo litisconsórcio, o desinteresse na realização da audiência deve ser manifestado por
todos os litisconsortes. § 7' A audiência de conciliação ou de mediação pode realizar-se por meio eletrônico, nos termos da lei. § 8' O não comparecimento
injustificado do autor ou do réu à audiência de conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da j ustiça e será sancionado com multa de até dois por
cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado. § 9' As partes devem estar acompanhadas por seus
advogados ou defensores públicos. § 10. A parte poderá constituir representante, por meio de procuração específica, com poderes para negociar e transigir.§
11. A autocomposição obtida será reduzida a termo e homologada por sentença. § 12. A pauta das audiências de conciliação ou de mediação será organizada
de modo a respeitar o intervalo mínimo de 20 (vinte) minutos entre o irticio de uma e o irticio da seguinte."

Em palestras, artigos e livros, temos afirmado que, na nossa concepção, uma das maiores apostas do legislador infraconstitucional está centrada na previsão de
realização da audiência de tentativa de conciliação ou da sessão de mediação no inicio do processo, após o recebimento da petição inicial, se não for caso de
determinação da sua emenda, do seu indeferin1ento ou da improcedência liminar do pedido (arts. 321, 330 e 332, respectivamente).
A sistemática adotada pelo legislador infraconstitucional tem a sua razão de ser. Desde 1984, ou seja, a partir da criação dos Juizados de Pequenas Causas,
sucedidos pelos Juizados Especiais, observamos o atingimento de um percentual razoável de êxito nas audiências de tentativa de conciliação realizadas nas ações que
têm curso pelo rito sumaríssimo.
Além disso, igualmente observamos o mesmo resultado nas semanas de conciliação anualmente realizadas em todos os órgãos da justiça nacional, por irticiativa do
CNJ (em 2007, ano em que foi publicada a Recomendação n' 8, do CNJ, sugerindo aos tribunais ações de promoção da conciliação, o percentual de acordos na Semana
Nacional de Conciliação foi de 42%; de 2008 a 2011, os percentuais de acordo foram subindo progressivamente: 44,3% (2008); 47,2% (2009}; 47,3% (2010) e 48,2%
(2011)), o que permite a solução de milhares de conflitos de interesses, a pacificação entre as parteoS (pelo menos no processo no qual o acordo foi realizado) e a
redução da quantidade de processos em curso na justiça brasileira.
Desde a 1' edição do nosso Curso Completo de Processo Ctvil temos estimulado a adoç.ão dessa técnica, afirmando que sequer se fazia necessária a modificação da
lei processual, muito menos a aprovação de um novo código, sendo suficiente que o magistrado aplicasse norma que já existia no CPC/73, especificamente no inciso IV
do seu art. 125, textual em estabelecer que compete ao juiz tentar, a qualquer tempo, conciliar as partes.
Mas o legislador infraconstitucional foi muito além, para prever que a audiência de tentativa de conciliação ou a sessão de mediação passa a ser etapa quase
obrigatória do processo, só não sendo designada:

a) Se o juiz indeferir a petição inicial- art. 330.


b) Se o juiz rejeitar lin1inarmente o pedido (improcedência linlinar do pe.dido) - art. 332, o que não é comum nas ações de indenização por perdas e danos.
c) Se an1bas as partes manifestarem desinteresse na autocomposição, o autor na petição irticial, e o réu até 1O(dez) dias da data de realização da audiência.
d) Se o juiz verificar que a causa não versa sobre direito que admita a autocomposição (direito indisponível). como nas ações propostas contra as pessoas j urídicas
de direito publico.

Eliminando as situações referentes ao indeferimento da petição irticial e à improcedência liminar do pedido, examinemos as constantes das letras (c) e {d), a
primeira estabelecendo que a audiência de tentativa de conciliação ou de mediação não serã realizada quando ambas as partes manifestarem desinteresse na
autocomposição.
A não designação da audiência, neste caso, está condicionada à verificação de que, primeiramente o autor, na petição inicial, expressamente afirmou que não tem
interesse na autocomposição. Além disso, a lei exige que o réu, até dez dias antes da realização da comentada audiência, apresente petição simples, para também
afirmar que não tem interesse na autocomposição.
Desse modo, se o autor afirma que não tem interesse na autocomposição, na petição inicial, mas se o réu não protocolar a petição indicada no parágrafo anterior, a
audiência será realizada. Do mesmo modo, se o autor afirmar na petição inicial que tem interesse na autocomposição, mas se o réu protocolar a petição pelos menos dez
dias antes da audiência, afirmando que não tem interesse na autocomposição, a audiência serã realizada, ao que tudo indica, exclusivamente com uma das partes.
Se o juiz entender que o não comparecimento da outra parte é injustificado, aplicará a sanção processual prevista na norma, consistente na fixação de multa de até
dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado. Para tanto, exige-se que o pronunciamento seja
fundamentado, não genérico.
A segunda hipótese que libera o magistrado de designar a audiência de tentativa de conciliação refere-se à constatação de que a causa versa sobre direito que não
admite a autocomposição, como nas ações propostas contra o estado, no gênero, apresentando as diversas pessoas de direito público como espécies.
Ainda atentos à norma reproduzida, e mais uma vez reafirmando ad\·ertências, é importante destacar que o não comparecimento do autor à audiência de tentativa de
conciliação ou de mediação não acarreta a extinção do processo sem a resolução do mérito, como ocorre no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis, mas a aplicação de
multa, já comentada.
Na mesma linha de raciocínio, o não comparecimento do réu à audiência de tentativa de conciliação ou à sessão de mediaç.ão não acarreta a decretação da sua
revelia, como nas ações que têm curso pelos Juizados Especiais Cíveis (art. 20 da Lei n• 9.099/95), mas a aplicação da mesma multa jã referida.
Quando a lei condiciona a aplicação da multa ao reconhecimento de que o não comparecimento foi injustificado, é evidente que a justificativa deve ser apresentada
pela parte ausente ate a abertura da audiência de tentativa de conciliação ou da sessão de mediação, por petição. A j ustificativa pode ser fundada em doença ou em
viagem que impediu a parte de comparecer ao ato, apenas para exemplificar.
No que toca à técnica a ser adotada, conciliação ou mediação, ê importante observarmos o que dispõe o art. 165 do novo CPC, com a seguinte redação:

"Art. 165. Os tribunais criarão centros judiciãrios de solução consensual de conflitos, responsáveis pela realização de sessões e audiências de conciliação e
mediação e pelo desenvoh·imento de programas destinados a auxiliar, orientar e estimular a autocomposição. § I' A composição e a organização dos centros
serão defmidas pelo respectivo tribunal, observadas as normas do Conselho Nacional de Justiça. § 2• O conciliador,. que atuará preferencialmente nos casos em
que não houver vínculo anterior entre as partes, poderã sugerir soluções para o litigio, sendo vedada a utilização de qualquer tipo de constrangimento ou
intimidação para que as partes conciliem. § 3' O mediador, que atuará preferencialmente nos casos em que houver vínculo anterior entre as partes, auxiliará
aos interessados a compreender as questões e os interesses em conflito, de modo que eles possam, pelo restabelecimento da comunicação, ide.ntificar, por si
próprios, soluções consensuais que gerem beneficios mútuos."

A lei estabeleceu que o conciliador atuara, preferencialmente, nos casos em que não houver vínculo anteriol' entre as partes, como na ação proposta por condutor
de veículo que sofreu prejuízos decorrentes de acidente de trànsito, que envolveu outro condutor, não conhecido daquele, enquanto que o mediador atuará,
preferencialmente, nos casos em que houver vínculo anterior, como na ação de indenização por perdas e danos proposta pela esposa contra o marido, através da qual
aquela pretende que este seja condenado ao pagamento de indenização por danos morais, decorrente da alegada infidelidade conjugaL
A modificação processual deve produzir efeitos importantes nas ações de indenização por perdas e danos, pois são fundadas em direito patrimonial, o que significa
dizer que a designação do ato se constitui na regra, só excepcionada quando o magistrado constatar que a causa não admite a autocomposição, por envoh·er o estado, ou
quando ambas as partes informarem que não têm interesse em tentar encerrar o conflito de interesses através de concessões mútuas.
Havendo acordo, e desde que seja homologado, o processo é extinto com a resolução do mérito (alinea b do inciso III do art. 487 do CPC}. Não havendo, a
audiência de tentati\·a de conciliação ou a sessão de mediação frustrada é seguida da concessão do prazo geral de 15 (quinze} dias úteis para que o réu apresente a
contestação, cujo termo inicial é disciplinado pelo art. 335 da nova lei processual, qme tem a seguinte redação:

"Art. 335. O réu poderá oferecer contestação, por petição, no prazo de 15 (quinze) dias, cujo termo inicial serã a data: I- da audiência de conciliação ou de
mediação, ou da última sessão de concili.ação, quando qualquer parte não comparecer ou, comparecendo, não houver autocomposição; 11 - do protocolo do
pedido de cancelamento da audiência de conciliação ou de mediação apresentado pelo réu, quando ocorrer a hipótese do art. 334, § 4', inciso I; III- prevista
no art. 231, de acordo com o modo como foi feita a citação, nos demais casos. § l' No caso de litisconsórcio passivo, ocorrendo a hipótese do art. 334, § 6', o
termo inicial previsto no inciso 11 será, para cada um dos réus, a data de apresentação de seu respectivo pedido de cancelamento da audiência. § 2• Quando
ocorrer a hipótese do art. 334, § 4•, inciso 11, ha\·endo litisconsórcio passi\·o e o autor desistir da ação em relação a réu ainda não citado, o prazo para a resposta
c.orrerã da data de intimação da decisão que homologar a desistência."

O prazo para a apresentação da contestação é contado em dobro quando a ação é proposta contra o :Ministério Público, o pobre na forma da lei, representado pela
Defensoria Pública, pessoa j urídica de direito público ou contra litisconsortes, desde que representados por diferentes procuradores, que integrem escritórios de
advocacia distintos (arts. 180, 183, 186 e 229 do novo CPC}, com a ressalva de que, no último caso, o prazo é contado de forma simple.s, se o processo correr em autos
eletrônicos (§ 2' do art. 229}.
As regras destacadas nesta seção se aplicam exclusivamente às ações de indenização por perdas e danos que têm curso pelo rito comum, não sendo e>.1ensivas para
alcançar as que têm curso pelo rito sumaríssimo, no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis.
Nos termos do art. 20 da Lei n• 9.099/95 , aplicãvel a esse último rito, não comparecendo o demandado à sessão de conciliação ou à audiência de instrução e
j ulgamento, reputar-se-ào verdadeiros os falos alegados no pedido inicial, salvo se o contrário resultar da convicção do juiz. No que toca ao autor, se não comparecer
à audiência de tentativa de conciliação, o processo é extinto sem a resolução do mérito (inciso I do art. 51 da me.sma lei).
Além disso, independentemente de as partes terem ou não interesse na autocomposiç.ão, a audiência de tentativa de conciliação é sempre designada no ãmbito dos
Juizados Especiais Civeis, de forma automãtica, como resultado do registro do pedido, nos termos do art. 16 da lei anteriormente informada, que tem a seguinte
redação:

"Art. 16. Registrado o pedido, independentemente de distribuição e autuação, a Secretaria do Juizado designara a sessão de conciliação, a realizar-se no prazo
de 15 (quinze) dias."

RESUMO DA MATÉRIA

a} a audiência de tentativa de conciliação e a sessão de mediação passaram a se constituir em etapa quase obrigatória, após a aprovação e a vigência do novo CPC;
b} as partes devem estar acompanhadas por seus advogados ou defensores públicos, com a ressalva de que podem constituir representante (preposto), por meio de
procuraç.ão especifica, com poderes para negociar e transigir;
c) o não comparecimento injustificado da parte acarreta a aplicação de mult:JJ, na importància correspondente a até 2% (dois por cento} do valor atualizado da
causa;
d} a audiência de tentativa de conciliação é designada tão somente com esse propósito (de tentar conciliar as partes}, de modo que, se não houver êxito, o processo
prossegue regularmente, com a conce.ssão de prazo para que o réu apresente contestação;
e) nas ações de indenização por perdas e danos que. têm curso pelo rito sumaríssimo, no àmbito dos Juizados Especiais Cíveis, a ausência do autor à audiência de
tentativa de conciliação acarreta a extinção do processo sem a resolução do mérito, enquanto que a ausência do réu acarreta a decretação da sua revelia.

3.3 SANEAMENTO DO PROCESSO

Frustrada a tentativa de conciliação e apresentada a contestação pelo réu, ato ~eguido da ouvida do autor em réplica (no prazo de 15 dias), o magistrado saneia o
processo, enfrentando as preliminares eventualmente suscitadas pelo réu e praticando atos preparatórios da audiência de instrução e j ulgamento, o que, no regime do
CPCn 3, era feito em audiência espedfica, denominada audiência preliminar, disciplinada pelo art. 33 1 daquele código.
Em aulas, em palestras, em obras de nossa autoria, sempre valorizamos a audiência preliminar como um dos principais atos do processo, principalmente por ser
preparatória da audiência de instrução e julgamento e por permitir a eliminação de questões pendentes, que poderiam prejudicar a análise do mérito.
O art. 331 do CPC/73 apresentava a seguinte redação:

"Art. 331. Se não ocorrer qualquer das hipóteses pre\·istas nas seções precedentes, e versar a causa sobre direitos que admitam transaç.ão, o juiz designará
audiência preliminar, a realizar-se no prazo de 30 (trinta) dias, para a qual serão as partes intimadas a comparecer, podendo fazer-se representar por procurador
ou preposto, com poderes para transigir. § I' Obtida a conciliação, será reduzida a termo e homologada por sentença. § 2• Se, por qualquer motivo, não for
obtida a conciliação, o juiz fiXará os pontos controvertidos, decidirá as questões processuais pendentes e determinará as provas a serem produzidas, designando
audiência de instrução e j ulgamento. § 3' Se o direito e.m litígio não admitir transação, ou se as circunstâncias da causa evidenciarem ser improvável sua
obtenção, o juiz poderá, desde logo, sanear o processo e ordenar a produção da prova, nos termos do § 2'."

Pensamos que o saneamento do processo, a fixação dos pontos controvertidos e a definição das provas a serem produzidas posteriormente, em audiência e com a
partic.ipação das partes e dos seus advogados é providência democrática e saudável, em relação ao processo, pois é fácil perceber, no dia a dia forense, que sobretudo os
ad\•ogados, auxiliam o magistrado nas definições processuais, chamando a sua atenç.ão para questões relacionadas aos pontos controvertidos e às provas que os
profissionais entendem que devem ser produz.idas para esclarecê-los.
Não obstante o nosso apreço pela audiência preliminar, atentos ao novo CPC, percebemos que a sua designação não é mais a regra, mas exceção, só se
justificando quando o magistrado constatar que a causa apresenta complexidade em matéria de fato ou de direito. Vejamos a norma de regência:

"Art. 357. Não ocorrendo qualquer das hipóteses deste Capítulo, deverá o juiz, em decisão de saneamento e de organizaç.ão do processo: I - resolver as
questões processuais pendentes, se houver; I! - delimitar as questões de fato sobre as quais recairá a atividade probatória, especificando os meios de prova
admitidos; III- defmir a distribuição do ônus da prova, observado o art. 373; IV- delimitar as questões de direito relevantes para a decisão do mérito; V-
designar, se necessário, audiência de instrução e julgamento.§ 1' Realizado o saneamento, as partes têm o direito de pedir esclarecimentos ou solicitar ajustes,
no prazo comum de 5 (cinco) dias, findo o qual a decisão se torna estárei. § 2' As partes podem apresentar ao juiz, para homologação, delimitação consensual
das questões de fato e de direito a que se referem os incisos I! e IV, a qual, se homologada, vincula as partes e o j uiz. § 3' Se a causa apresentar complexidade
em matéria de fato ou de direito, deYerá o juiz designar audiência para que o saneamento seja feito em coope.ração com as partes, oportunidade em que o juiz,
se for o caso, convidara as partes a integrar ou esclarecer suas alegações. § 4° Caso tenha sido determinada a produção de prova testemunhal, o juiz fixará
prazo comum não superior a 15 (quinze) dias para que as partes apresentem rol de testemunhas. § 5' Na hipótese do § 3', as partes já devem levar, para a
audiência pre\·ista, o respectivo rol de te.stemunhas. § 6' O número de testemunhas arroladas não pode ser superior a 10 (dez), sendo 3 (três), no máximo, para
a prova de cada fato. § 7• O juiz poderá limitar o número de testemunhas levando em consideraç.ão a complexidade da causa e dos fatos individualmente
considerados. § 8' Caso tenha sido determinada a produção da prova pericial, o juiz deve observar o disposto no art. 465 e, se possível, estabelecer, de logo,
calendário para sua realização. § 9• As pautas deverão ser preparadas com intervalo minimo de 1 (uma) hora entre as audiências."

Como verificamos, o que o CPC/73 previa que se fizesse na audiência preliminar, sera feito pelo magistrado no seu gabinete de trabalho, sem a presença das partes
e dos seus advogados, o que só se justificará, repita-se, quando o magistrado constatar a complexidade das questões de fato e de direito.
Sinceramente, não obstante as intenções do legislador infraconstitucional, não acreditamos que a apresentação ao juiz, para homologaç.ão, de delimitação
consensual das questões de fato e de direito pelas partes venham a ocorrer em grande volume, pois, olhando para a dinàmic.a forense (leia-se: para o que frequentemente
acontece nos fóruns do país) percebemos que as intenções do autor e do réu quanto á fixação dos pontos controvertidos e às provas a serem produzidas são bastante
divergentes.
De qualquer modo, destacamos que a designação ou não da audiência preliminar (entendemos que essa denominação deva ser mantida, embora o noYo CPC não a
tenha utilizado expressamente) ímpacta no prazo para a apresentação do rol de testemunhas, já que:

a) Se não for designada, as partes disporão do prazo de ate quinze dias uteis para a apresentação do rol, contado da intimação da decisão proferida com base no art.
357.
b) Se for designada, as partes terão de apresentar o rol de testemunhas na própria audiência prelim.inar.

O saneamento do processo é fundamental para definir os pontos controvertidos e as provas que serão produzidas para esclarecê-los, o que é feito pelo magistrado
atran!s da prolação de decisão de natureza interlocutória, que quase sempre desagrada a pelo menos uma das parte.s, por que tinha interesse na produção de determinada
prova que não foi contemplada pelo magistrado, ou por que pretendia que este fixasse detem1inado ponto como sendo controvertido, o que igualmente não ocorreu.
A decisão de saneamento não foi inserida nas previsões do art. 1.015 do novo CPC, o que significa dizer que não pode ser atacada pelo recurso de agravo de
instrumento, embora a questão possa ser suscitada como preliminar da apelação ou nas contrarrazões desse mesmo recurso (§ 1' do art. 1.009).
Contudo, quando o magistrado redistribuir o ônus da pron na decisão de saneamento do processo, com fundamento no § 1' do art. 3 73 do no\·o CPC, essa decisão
pode ser atacada pela interposição do recurso de agravo de instrumento, no prazo geral de 15 (quinze) dias ilteis e com fundamento no inciso XI do art. 1.015, sob pena
de preclusão.
3.4 PRODUÇÃO DA PROVA PERICIAL

Em outras linhas desta obra, advertimos que a ação de indenização por perdas e danos é rica quanto aos fatos contro\·ertidos, exigindo a produção de diversas
provas para que o magistrado possa formar o seu convencimento, não apenas a oral (depoimento pessoal das partes e/ou ouvida de testemunhas), como também a
documental e a pericial, principalmente.
Essa última modalidade de pro\·a é frequentemente produzida nas ações de indenização por perdas e danos propostas contra médicos, por alegado erro profissional,
contra construtoras, por alegado vicio de construção, apenas para exemplificar, nas quais são exigidos esclarecimentos técnicos, que só podem ser prestados por
profissionais da :irea que coincide com o objeto da ação.
O legislador infraconstitucional realizou diversas modificações na seção referente à Prova Pericial. A primeira delas, menos importante, refere-se á ampliação do
prazo para quinze dias, para que as partes suscitem o impedimento ou a suspeição do perito (de cinco, no CPC/73), indiquem assistentes técnicos (de cinco, no
CPC/73), apresentem quesitos (de cinco, no CPC/73), e para se manifestar sobre o laudo (de dez dias, no CPCi73).
A segunda modificação consta dos §§ 2• a 4• do art. 461 do no\·o CPC, que têm a seguinte redação:

"Art. 464. Omissis. § 2' De oficio ou a requerimento das partes, o juiz poderá, em substituição à perícia, determinar a produção de prova técnica simplificada,
quando o ponto controvertido for de menor complexidade. § 3' A prova técnica simplificada consistirá apenas na inquirição de especialista, pelo juiz, sobre
ponto contro\·ertido da causa que demande e.special conhecimento cientifico ou técnico. § 4' Durante a arguição, o especialista, que deverá ter formação
acadêmica específica na área objeto de seu depoimento, poderá valer-se de qualquer recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens com o fim de
esclarecer os pontos contro\·ertidos da causa."

Agiu bem o legislador infraconstitucional, talvez inspirado no art. 35 da Lei n' 9.099195, que pioneiramente instituiu a denominada perícia simplificada em nosso
ordenamento jurídico, merecendo reproduç.ão:

".M. 35. Quando a prova do fato exigir, o Juiz poderá inquirir técnicos de sua confiança, permitida as partes a apresentação de parecer técnico. Parágrafo
único. No curso da audiência, poderá o Juiz, de ofício ou a requerimento das partes, realizar inspeção em pessoas ou coisas, ou determinar que o faça pessoa de
sua confiança, que lhe relatará informalmente o \·erificado."

A realizaç.ão da perícia simplificada (representada pela ouvida de especialista da confiança do magistrado, em audiência) valoriza o principio da economia, evitando
jurisdição intitil e a prática de atos desnecessários, como a manifestação das partes sobre laudos, solicitando esclarecimentos por escrito, a intimaç.ão do perito, nova
manifestação, apenas para exemplificar.
A terceira modificação diz respeito à permissão conferida às partes para que de comum acordo escolham o perito. Vejamos a norma:

".M. 471. As partes podem, de comum acordo, escolher o perito, indicando-o mediante requerimento, desde que: I- sejam plenamente capazes; 11- a causa
possa ser resolvida por autocomposição. § 1' As partes, ao escolher o perito, já devem indicar os respectivos assistentes técnicos para acompanhar a realização
da pericia, que se realizará em data e local previamente anunciados. § 2' O perito e os assistentes técnicos devem entregar, respectivamente, laudo e pareceres
em prazo fixado pelo juiz. § 3' A perícia consensual substitui, para todos os efe.itos, a que seria realizada por perito nomeado pelo j uiz."

Mais uma vez a nossa lei processual evoluiu. A escolha do perito pelas partes, só admitida em ações que versam sobre direito disponível, com as ações de
indenização por perdas e danos reduz a possibilidade de atrito entre elas, contribuindo, direta ou indiretamente, para também reduzir divergências quanto ás conclusões
do laudo pericial, já que elaborado por profissional da confiança das partes, não decorrendo de imposição do juízo.
Em termos de dinâmica, a produção da pro\·a pericial e inicialmente orientada pelo art. 465, que tem a seguinte redação:

"Art. 465. O juiz nomeará perito especializado no objeto da perícia e ftxará de imediato o prazo para a entrega do laudo.§ i• Incumbe ás partes, dentro de 15
(quinze) dias contados da intimação do despacho de nomeação do perito: I - arguir o impedimento ou a suspeição do perito, se for o caso; 11 - indicar
assistente técnico; III - apresentar quesitos. § 2' Ciente da nomeação, o perito apresentará em 5 (cinco) dias: I - proposta de honor:irios; 11 - currículo, com
comprovação de especialização;
III - contatos profissionais, em espec.ial o endereço eletrônico, para onde serão dirigidas as intimações pessoais. § 3• As partes serão intimadas da proposta de
honor:irios para, querendo, martifestar-se no prazo comum de 5 (cinco) dias, após o que o juiz arbitrará o valor, intimando-se as partes para os fins do art. 95."

Diferentemente do CPC/73, o primeiro prazo concedido às partes tem por objetivo oferecer oportunidade para a arguição do impedimento ou da suspeição do
profissional, para a nomeação dos assistentes têcnicos e para a formulação de quesitos, não incluindo a obrigação de uma delas de pro~;denciar o depósito dos
honorários periciais, o que só ocorrerá após a superação das fases de apresentação da proposta pelo perito, de ouvida das partes sobre a proposta e do arbitramento do
valor.
Atentos ao CPC/73, percebemos que o depósito dos honorários periciais era realizado pela parte no prazo de cinco dias, contado a partir da intimação da decisão na
qual o magistrado nomeava o perito. O novo CPC instituiu duas fases antecedentes ao inicio do prazo para o depósito dos honorários, como tais, a apresentação da
proposta de honorários, pelo perito, no prazo de cinco dias, contado a partir do momento em que ê intimado da nomeação e a manifestação das partes acerca da
proposta, no prazo de cinco dias, contado da intimação do despacho judicial nesse sentido.
Diante do silêncio da lei, que não predefiniu o prazo de que a parte dispõe para depositar os honor:irios periciais, entendemos que o ato deve ser disciplinado pelo §
3• do art. 218, resultando na concessão do prazo de cinco dias para a adoção da providência, contado a partir da intimação da decisão atravês da qual o magistrado
arbitra os honorários.
A remuneração do profissional deve ser antecipada pela parte que requereu a produção da prova, ou rateada, quando a perícia for determinada de ofício ou requerida
por ambas as partes. A sentença deve realizar uma espécie de acerto de contas, condenando o vencido a pagar ao vencedor as despesas que este antecipou.
Elaborado o laudo e protocolado em j uízo, o que deve ocorrer no mínimo 20 (vinte) dias antes da audiência de instrução e julgamento, as partes podem:

a) aceitar expressa ou tacitamente as conclusões do laudo, o que não e frequente na dinâmica forense;
b) requerer que o perito preste esclarecimentos por escrito, após o aperfeiçoamento de intimação específica;
c) requerer que o profissional preste esclarecimentos na audiência de instrução e julgamento, na presença das partes e do magistrado, sendo o primeiro ato
dessa audiência (inciso I do art. 361).

No último caso, para que o magistrado defira o pedido formulado pela parte, esta não pode se limitar a genericamente solicitar o comparecimento do perito,
exigindo a lei que formule quesitos, sob pena de a pretensão ser indeferida. Além <!isso, o requerimento de comparecimento do perito à audiência de instrução e
julgamento só pode ser acolhido após a parte ter solicitado que os esclarecimen·tos fossem prestados por escrito, mesmo assim permanecendo com duvidas.
O § I' do art. 4 77 do novo CPC ampliou para quinze dias o prazo de que as partes dispõem para se manifestar sobre o laudo pericial, que era de dez dias, pelo
CPCI73. Além disso, e reforçando advertências constantes do parágrafo anterior, o comparecimento do perito à audiência de instrução e julgamento é excepcional, só
ocorrendo se a parte ainda se mantiver em dú\·ída, após os esclarecimentos terem sido prestados por escrito.

RESUMO DA MATÉRIA

a) a prova pericial e produzida antes da audiência de instruç.ão e julgamento, exigindo a lei que o laudo seja protocolado em juízo no mínimo 20 (vinte) dias antes
do mencionado ato processual;
b) a prova pericial é quase sempre deferida na decisão de saneamento do processo;
c) a responsabilidade pelo pagamento dos honorários recaí sobre a parte que requereu a produção da prova, ou sobre o autor, se hou\·er sido determinada pelo
magistrado ou pelo membro do Ministério Público;

3.5 DESIGNAÇÃO DA AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO

O último ato do processo, antes da prolação da sentença ê a audiência de instrução e julgamento, designada quando o magistrado constata a necessidade da
produção da prova oral, incluindo o depoimento pessoal das partes e a ouvida de testemunhas, o que ocorre com imensa frequência nas ações de indenização por perdas
e danos.
A realízaç.ão dessa audiência e antecedida da pratica de dois atos preparatórios, como tais, a apresentação do rol de testemunhas e a intimação das mesmas, atos que
foram modificados pelo novo CPC. A primeira modificação se refere ao prazo para a apresentação do rol de testemunhas, que., na vigência do CPC/73 era de l O (dez)
dias (se outro prazo não fosse fiXado pelo magistrado), contado regressivamente, a partir da data da audiência de instrução e julgamento (art. 407 daquele Código).
No novo CPC, o prazo para a apresentação do rol está condicionado à designação ou não da audiência preliminar. Se o saneamento do processo ê realízado pelo
magistrado na sua sala de trabalho, da intimação da decisão de saneamento começa a fluir o prazo de 15 (quinze) dias para apresentação do rol de testemunhas (§ 4° do
art. 357).
Diferentemente, se o magistrado constatar que a causa apresenta complexidade em matéria de fato ou de direito, por esta razão designando audiência para o
saneamento do processo com a contribuição das partes e dos seus advogados, o rol deve ser apresentado nessa audiência, sob pena de preclusão(§ 5° do art. 357).
O segundo ato preparatório foi ainda mais modificado pelo legislador infraconstitucional, dízendo respeito à intimação das testemunhas, o que tradicionalmente
sempre se deu através do cumprimento do mandado de intimação, pelo oficial de justiça, após o chefe de secretaria (ou outro servidor) tê-lo elaborado.
O novo CPC transferiu essa atribuição aos advogados das partes, incumbindo-os de comunicar as testemunhas do dia e da hora de realização da audiência de
instrução e j ulgamento, ato que deve ser seguido da comprovação nos autos do aperfeiçoamento da intimação da(s) testenJUnha(s), no mínimo três dias antes da data
designada para a realização da audiência.
Vejamos a nom1a que disciplina a pratica do citado ato:

"Art. 455. Cabe ao ad\·ogado da parte infom1ar ou intimar a testemunha por ele arrolada do dia, da hora e do local da audiência designada, dispensando-se a
intimação do juízo. § I o A intimação deverá ser realízada por carta com aviso de recebimento, cumprindo ao advogado juntar aos autos, com antecedência de
pelo menos 3 (três) dias da data da audiência, cópia da corre.spondência de intimação e do comprovante de recebimento. § 2• A parte pode comprometer-se a
levar a testenJUnha à audiência, independentemente da intimação de que trata o § I' , presumindo-se, caso a testemunha não compareça, que a parte desistiu de
sua inquirição.§ 3' A inércia na realização da intin1ação a que se refere o § I' importa decSistência da inquirição da testemunha.§ 4' A intimaç-ão será feita pela
via judicial quando: I- frustrada a intimação prevista no § I o deste artigo; 11 -sua necessidade for devidamente demonstrada pela parte ao juíz; 11 - figurar no
rol de testemunhas servidor público ou militar, bipótese em que o juíz o requisitara ao chefe da repartição ou ao comando do corpo em que servir; IV - a
testemunha houver sido arrolada pelo Ministério Público ou pela Defensoria Pública; V - a testemunha for uma daquelas previstas no art. 454. § 5• A
testemunha que, iotin1ada na forma do § I• ou do § 4°, deixar de comparecer sem motivo j ustificado sera conduzida e responderá pelas despesas do
adiamento."

Embora não seja mais o momento de simpatizar ou de antipatizar com a norma, por ja ter sido aprovada, em termos doutrinários, pretendemos contribuir para que a
sua aplicação se dê com segurança aceitavel, evitando o reiterado adiamento das audiências de instrução e j ulgamento, sobretudo, por não se ter a certeza de que a
testemunha foi efetivamente intimada pela via postal.
Como é do conhecimento geral, o envio de correspondência pelos correios não nos garante saber qual o documento que foi efetivamente em·iado ao seu
destinatario, e, alem disso, se foi o próprio que assinou o denominado Aviso de Recebimento, que é encaminhado ao remetente após a entrega da correspondência, já
que muitas assinaturas são indecifráveis.
Assim, embora a lei tenha predefinido que a intimação deve ser aperfeiçoada por carta com aviso de recebimento, entendemos que a norma deve ser interpretada em
sentido amplo, para permitir o aperfeiçoamento da intimação através do cartório- de títulos e documentos, as custas da parte que arrolou a(s) testemunha(s), o que
torna muito mais segura a prática do ato.
O aperfeiçoamento da intimação pelo cartório de títulos e documentos nos confere a certeza de que a(s) testemunha(s) foi(ram) encontrada(s), que recebeu(ram) a
comunicação (inclusive com o conhecimento do seu teor), tudo o que é certificado pelo funcionario da sen·entia extrajudicial, dotado de fé pública.
Estamos falando de um assunto bastante importante, do ponto de vista prático, já que o não aperfeiçoamento da intimação da testemunha é causa de adiamento da
audiência de instruç.ão e julgamento, sobretudo porque a lei estinlUla que este ato seja iniciado e concluído num só dia, evitando a denominada quebra da instrução
probatória, o que pode ocorrer quando o magistrado ouve algumas testemunhas num dia e designa outra data para a ouvida de testemunhas que não tenham sido
intimadas.
Quanto à dinâmica da audiência, seguindo a tendência doutrinaria e jurisprudencial, o no\·o CPC modificou sutilmente o art. 452 do CPCn 3, para prever que as
provas orais serão produzidas em audiência, prefermcialm.mte nesfll ordem (o artigo referido estabelece que as provas serão produzidas na audiência nesta ordem),
evidenciando que o magistrado, no caso concreto, pode inverter a ordem preestabelecida pela lei, quando as circunstâncias do c.aso concreto justificarem essa inversão.
Partindo da premissa de que o novo CPC confere ao magistrado a prerrogativa de atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão
fundamentada(§ 1° do art. 373), parece-nos que, quando isto ocorrer, é mais adequado que o j uiz inicie a audiência tomando o depoimento pessoal do reu, ao invés de
primeiramente ouvir o autor, e que ouça as testemunhas do réu, antes de ouvir as do autor.
Quanto ao restante da norma, apresenta o mesmo conteudo do art. 452 do CPCn 3, correspondendo ao art. 361 do novo CPC, com a seguinte redação:

"Art. 361. As pro\·as orais serão produzidas em audiência, ouvindo-se nesta ordem, preferencialmente: I- o perito e os assistentes técnicos responderão aos
quesitos de esclarecimentos requeridos no prazo e na forma do art. 4 77, caso não respondidos anteriormente por escrito; li- o autor e, em seguida, o reu, que
prestarão depoimentos pessoais; III - as testemunhas arroladas pelo autor e pelo réu, que serão inquiridas. Parágrafo liníco. Enquanto depuserem o perito, os
assistentes técnicos, as partes e as testemunhas, não poderão os advogados e o Ministério Publico inten·ir ou apartear, sem licença do juiz."

Além dessa modificação sutil (mas importante), o no\·o CPC estabelece a regra de que as perguntas serão formuladas às testemunhas diretamente pelas partes
(entenda-se: atra\·es dos seus advogados), como percebemos através da leitura do seguinte dispositivo:

"Art. 459. As perguntas serão formuladas pelas partes diretamente à testemunha, começando pela que a arrolou, não admitindo o juiz aquelas que puderem
induzir a resposta, não tiverem relação com as questões de fato objeto da atividade probatória ou importarem repetição de outra já respondida. § 1o O juiz
poderá inquirir a testemunha tanto antes quanto depois da inquirição feita pelas partes. § 2° As testemunhas devem ser tratadas com urbanidade, não se lhes
fazendo perguntas ou considerações impertinentes, capciosas ou vexatórias. § 3• As perguntas que o j uiz indeferir serão transcritas no termo, se a parte o
requerer."

Caso o magistrado indefira perguntas formuladas pela parte, embora estejamos diante de decisão de natureza interlocutória, lembramos que não mais poderá ser
atacada pela interposição do recurso de agravo retido, que foi .suprimido pelo novo CPC. Neste caso, a parte deve guardar seu inconformismo, suscitando a nulidade do
ato como preliminar da apelação ou nas contrarrazões deste mesmo recurso(§ lo do art. 1.009).
Como primeiro ato da audiência, o magistrado ouve as partes, primeiro o autor e depois o réu, com a ressalva de que a parte não tem o direito de requerer a tomada
do seu próprio depoimento, apenas da parte contraria, já que, com esta prova, a parte tem a intenção de obter a confissão da parte contrária, não de produzir prova em
seu favor.
Vejamos a norma que disciplina o ato processual:

"Art. 385. Cabe à parte requerer o depoimento pessoal da outra parte, a fim de que esta seja interrogada na audiência de instrução e julgamento, sem prejuízo
do poder do juiz de ordená-lo de oficio".

Embora a fmalidade indireta do depoimento pessoal seja a de aproximar o magistrado dos fatos do processo, conferindo-lhe a prerrogativa de compreender a
dinãrnica dos acontecimentos, segundo a interpretação das partes, é evidente que o autor e. o reu tendem a repetir os argumentos constantes da petição inicial e da
contestação, reduzindo a importância do depoimento, já que o magistrado pode substituí-lo pela simples leitura das referidas petições.
Não obstante a circunstância, o depoimento da parte pode subsidiar o magistrado de informações, como a repercussão do dano na vida pessoal e profissional do
autor, muitas vezes captada pelos traços fisíonõmicos do depoente, extrapolando as palavras pronunciadas. Desse modo, o magistrado de.ve sopesar os elementos do
processo, para confirmar se o depoimento pessoal é necessário para a formação do seu convencimento.
O depoimento pessoal é ato personalissimo, só podendo ser prestado pela parte, não por advogado, mesmo quando investido de poderes especiais. No caso das
pessoas jurídicas, o depoimento pode ser prestado pelo sócio ou administrador ou por preposto, investido de poderes especiais.
A confissão a que nos referimos em linhas anteriores, decorrente do reconhecimento, pela parte, da veracidade dos fatos afirmados pelo seu adversario processual
pode ser ficta, resultando do não comparecimento da parte à audiência de instruç.ão e julgamento, apesar de intimada, ou da sua recusa a depor. Vejamos o § Io do art.
385:

"Art. 385. Omissis. § 1• Se a parte, pessoalmente intimada para prestar depoimento pessoal e ad\·ertída da pena de confesso, não comparecer ou,
comparecendo, se recusar a depor, o juiz aplicar-lhe-á a pena. Omissis".
Em principio, a lei não exige que a parte seja pessoalmente intimada para comparecer à audiência de instruç.ão e julgamento, sendo suficiente a intimação
aperfeiçoada através do ad\·ogado que a representa em juizo. Não obstante a regra, a intimação pessoal passa a ser necessària quando a parte. for com·ocada para prestar
o depoimento pessoal, que é ato personallssimo.
Para que o magistrado aplique a pena de confissão (que pode ser utilizada na formação do seu convencimento), é necessàrio que o mandado (ou a intimação
eletrônica) destinado à parte contenba a advertência a que o dispositivo se refe.re, cleixando-a avisada de que está sendo intimada para prestar depoimento pessoal e de
que da eventual ausência resultará a confissão.
A confissão ficta, referida na norma (decorrente da ausência da parte à audiência de instrução e julgamento, apesar de advertida, ou da sua recusa a depor),
representa o reconhecimento da \·eraddade das alegações expostas na petição inicial ou na contestação, não se confundindo com a revelia, sendo esta mais gra\·e do que
aquela.
Enquanto a revelia faz presumir a veracidade dos fatos afmnados pelo autor, sendo específica para o réu, a confissão relaciona-se à matéria de prova, autorizando o
magistrado a reconhecer determinado fato como \·erdadeiro, pela inação da parte. Mesmo com a confissão, não significa que a aç.ão será (necessariamente) j ulgada
contra a parte ausente, já que o magistrado pode mitigar os seus efeitos, em cotejo com as demais provas constantes dos autos.
Quanto à ouvida das testemunhas, o novo CPC adotou a mesma regra do CPC/73, no que se refere ao numero máximo de testemunhas, limitando-a I O(dez) para
cada parte, sendo até 3 (três) para a prova de cada fato controvertido (§ 6' do art. 357). Além disso, a nova lei processual manteve a regra de que as testemunhas podem
ser contraditadas pelas partes, com fundamento no art. 4 57, que tem a seguinte redação:

"Art. 457. Antes de depor, a testemunha será qualificada, declarará ou conflfmará seus dados e informará se tem relações de parentesco com a parte ou
interesse no objeto do processo. § I • É lícito á parte contraditar a testemunha, arguindo-lhe a incapacidade, o impe.dimento ou a suspeiç.ão, bem como, caso a
testemunha negue. os fatos que lhe são imputados, provar a contradita com documentos ou com testemunhas, até 3 (três), apresentadas no ato e inquiridas em
separado. § 2' Sendo provados ou confessados os fatos a que se refere o § 1•, o juiz dispensará a testemunha ou lhe tomará o depoimento como informante. § 3'
A testemunha pode requerer ao juiz que a escuse de depor, alegando os motivos previstos neste Código, decidindo o juiz de plano após ouvidas as partes".

A incapacidade, o impedimento ou a suspeiç.ão da testemunha deve ser suscitada no espaço de tempo que medeia a sua qualificação e o inicio do seu depoimento,
justamente para evitar que preste esclarecin1entos contaminados ao magistrado. Passado esse momento, eventual contradita da testemunha deve ser rejeitada, em face
da preclusão processuaL
A arguição da incapacidade, do in1pedin1ento ou da suspeição da testemunha gera decisão de natureza interlocutória, por parte do magistrado, causando prejuízo a
uma das partes do processo. Em decorrência disso, antes de prolatar a decisão (na audiência de instrução e julgamento), o magistrado deve conceder a palana à parte
contrària, em respeito ao princípio do contraditório e da ampla defesa (inciso LV do art. 5' da CF).
Como antecipado em linhas anteriores, o acolliimento ou a rejeição da contradita ocorre através de decisão interlocutória, que não foi inserida na relaç:ão do art.
1.015, não ensejando, por essa razão, a interposição do recurso de agravo de instrumento. Assim, a parte descontente ter:i de snscitar a questão como preliminar da
apelação ou nas contrarrazões deste mesmo recurso (§ I' do art. 1.009).
A contradita da testemunha pode se fundar em uma das hipóteses constantes do art. 44 7, que tem a seguinte redação:

"Art. 447. Podem depor como testemunhas todas as pessoas, exceto as incapazes, impedidas ou suspeitas. § I• São incapazes: I- o interdito por enfermidade
ou deficiência mental; I! - o que, acometido por enfermidade ou retardamento mental, ao tempo em que ocorreram os fatos, não podia discerni-los, ou, ao
tempo em que deve depor, não está habilitado a transmitir as percepções; III- o que tiver menos de 16 (dezesseis) anos; lV-o cego e o surdo, quando a
ciência do fato depender dos sentidos que llies faltam. § 2' São impedidos: I- o cônjuge, o companheiro, o ascendente e o descendente em qualquer grau e o
colateral, até o terceiro grau, de alguma das partes, por consanguinidade ou afinidade., salvo se o exigir o interesse publico ou, tratando-se de causa relativa ao
estado da pessoa, não se puder obter de outro modo a prova que o juiz repute necessària ao j ulgamento do mérito; I! - o que é parte na causa; 11I - o que
intervém em nome de uma parte, como o tutor, o representante legal da pessoa jurídica, o juiz, o advogado e outros que assistam ou tenham assistido as partes.
§ 3• São suspeitos: I- o inimigo da parte ou o seu amigo intimo; li- o que tiver interesse no objeto do litígio. § 4• Sendo necessàrio, pode o juiz admitir o
depoimento das testemunhas menores, impedidas ou suspeitas. § 5' Os depoimentos referidos no § 4' serão prestados independentemente de compromisso, e o
juiz llies atribuirá o valor que possam merecer.

A incapacidade da testemunha não decorre do fato desta ser parente (natural ou civil) de uma das partes, como ocorre com as hipótese.s de impedimento, nem de a
testemunha manter relação com a parte, embora não seja de parentesco. A incapacidade da testemunha decorre do seu acomet.inlento físico ou mental, bem assim, da
sua formação incompleta, prejudicando o discernimento pleno sobre os fatos do processo, não se investindo da credibilidade esperada. A incapacidade e óbice
absoluto para a ouvida da testemunha, que não pode depor sequer na condição de informante, com a ressalva do § 4', que prevê a possibilidade de o magistrado
admitir o depoimento das testemunhas menores, quando necessário.
A incapacidade do cego e do surdo não é absoluta, restringindo-se ao sentido que llies falta. Assim, o cego pode depor sobre fatos dos quais tomou conhecimento
através da audição, do olfato, do tato ou do paladar. Na mesma linha de raciocínio, o surdo pode depor sobre fatos captados pela \'isão, pelo tato, pelo olfato ou pelo
paladar.
O art. 228 do CC não admite como testemunhas: I - os menores de dezesseis anos; li - aqueles que, por enfermidade ou retardamento mental, não tiverem
discernimento para a prática dos atos da vida ci\'il; li!- os cegos e surdos, quando a ciência do fato que se quer provar dependa dos sentidos que lhes faltam.
O impedimento e marcado pelo fato de a testemunha manter relação direta com a parte, em face de parentesco civil ou natural, ou em decorrência de relações
profissionais. .Mesmo impedida, a testemunha pode ser ouvida pelo magistrado na condição de informante, representando uma testemunha desqualificada.
Mesmo inseridas nas previsões da norma, as testemunhas em principio impedidas podem ser ouvidas se o interesse publico o justificar, bem assim nas ações de
família, em decorrência da dificuldade de a prova ser produzida de outro modo, considerando que os fatos que fundamentam o ajuizamento dessas ações (o
e.spancamento da esposa, por exemplo) ocorrem em ambientes confinados, na residência das partes, não sendo presenciados por terceiros desinteressados.
O novo CPC estendeu a restrição da ouvida do companheiro, como testemunha, adequando-se as disposições do § 3' do art. 226 da CF e do art. I.790 do CC,
igualando a união estável ao casamento, inclusive para fins sucessórios. Da mesma forma, suprimiu o condenado por crime de falso testemunho (através de sentença
transitada em julgado) e o que, por seus costumes, não for digno de fe da relação d!as testemunhas suspeitas. Nessa última hipótese, a doutrina vinha incluindo o ébrio
contumaz, a pessoa que praticou qualquer crime, diferente do crime de falso testemunho, a prostituta, o usuário de drogas e o viciado em j ogos de azar.
A simples animosidade ou simpatia que a testemunha nutre em relação a uma das partes do processo não é suficiente para fundamentar a contradita. Embora o novo
CPC tenha suprimido a palavra capital, que acompanhava a palana inimizade, no sistema do CPC/73, entendemos que a orientação se mantém. Em tese, é inimiga a
testemunha que foi casada com uma das partes, tendo desfeito o vinculo através de ação de divórcio traumática; a que é inimiga processual da parte; a que foi sócia da
parte, cujo vinculo foi desfeito através de ação de dissolução de sociedade etc.
Quanto à amizade entre a testemunha e a parte, o novo CPC manteve a exigência de que seja intima, evidenciada pelo fato de aquela ser madrinha de batismo do
filho desta, ou sua madrinha de casamento, ou de frequentar a casa da parte reiteradantente, somente para exemplificar.
O informante é testemunha desqualificada. Não obstante a constatação, o depoimento do informante pode ser utilizado pelo magistrado na fomtação do seu
convencimento. Como o infomtante não presta o compromisso, na eventualidade de falsear a \·erdade, de negar ou calar a verdade, não se suj eita às penas do art. 342
do CP, exclush·amente aplicáveis á testemunha.
Após a ouvida da última testemunha, o magistrado considera encerrada a instrução, concedendo prazo para a apresentação das razões fmais, nos termos do art. 364,
que tem a seguinte redação:

"Art. 364. Finda a instrução, o juiz dará a palavra ao advogado do autor e do réu, bem como ao membro do Ministério Público, se for o caso de sua
intervenção, sucessivamente, pelo prazo de 20 (vinte) minutos para cada um, prorrogável por I O(dez) minutos, a critério do juiz. § !• Havendo litisconsorte ou
terceiro interveniente, o prazo, que formará com o da prorrogação um só todo, dividir-se-á entre os do mesmo grupo, se não convencionarem de modo diverso.
§ 2' Quando a causa apresentar questõe.s complexas de fato ou de direito, o debate oral poderá ser substituído por razões ftnais escritas, que serão apresentadas
pelo autor e pelo réu, bem como pelo Ministério Público, se for caso de sua inten·enção, em prazos sucessh·os de quinze dias, assegurada vista dos autos".

As razões finais representam a última manifestaç.ão das partes do processo, antes da prolação da sentença, servindo para que a parte (bem assim o representante do
Ministério Público, quando for caso de sua intervenção) chame a atenção do j uiz para as pro\·as que foram produzidas, não só na audiência de instrução ej ulgamento,
como também no curso do processo (prova documental, prova pericial e/ou inspeção), tentando formar o convencimento do magistrado. As razões fmais não são
adequadas para a arguiç.ão de matérias de direito, mas para a valorização dos fatos que podem contribuir para o j ulgamento pela procedência ou pela improcedência
dos pedidos.
A praxe forense admite a apresentação das intituladas razões finais remissivas. representando a mera reiteração dos argumentos expostos na petição inicial ou na
contestação.
As razões ftnais são apresentadas no espaço de tempo que medeia o término da produção da prova e a prolação da sentença, como regra no encerramento da
audiência de instrução e j ulgamento, nada impedindo que sejam prestadas por escrito, após a prática desse ato.
Partindo da premissa de que o _prazo para a apresentação das razões finais é de 20 (vinte) minutos, se a ação apresentar quatro autores, em litisconsórcio de qualquer
espécie, cada .um contará com a prerrogativa de apresentar as razões ftnais pelo prazo de 5 (cinco) minutos, sah•o acordo diferenciado, deliberado pelos próprios
litisconsortes, sem necessidade de anuência do magistrado. Se o prazo for ampliado _para 30 (trinta) minutos, no mesmo exemplo, cada autor contará com a prerrogativa
de sustentar as razões pelo prazo de sete minutos e meio.
As questões complexas a que a nomta reproduzida se refere não dizem respeito, necessariamente, a complexidade jurídica da causa. Diferentemente, a
complexidade geralmente é apurada pelo \·olume acentuado do processo e/ou das provas produzidas, reclamando tempo para o estudo do caso, a ftm de que a parte
possa praticar o ato, através do seu representante. A norma enceta mera faculdade. Assim, o magistrado pode determinar que as razões fmais sejam prestadas oralmente
(no encerramento da audiência de instrução e j ulgamento) ou por escrito, sob a forma de memoriais.
Ao ftxar data para a entrega dos memoriais, o magistrado de fato deve respeitar o principio da isonomia, garantindo que as partes permaneçam durante o mesmo
espaço de tempo com ps autos do processo, para esiudo e preparação da manifestação escrita.

RESUMO DA MATÉRIA

a) a audiência de instrução e j ulgamento, em nossa concepção, é o ato mais importante do processo;


b) a audiência deve ter inicio e término num único dia, evitando-se a fragmentação da colheita da prova oral, que pode trazer prejuízos para uma das partes,
tomando nulo o processo, com a re.ssalva de que o art. 365 do novo CPC estabelece a regra de que a audiência é una e continua, podendo ser excepcional e
j ustificadamente cindida na ausência de perito ou de testemunha, desde que haja concordância das partes;
c) a ordem dos trabalhos segue a sistemática prevista no art. 361 do CPC;
d) o depoimento de uma das partes, regra geral, não traz beneficio processual para a outra, devendo esta, portanto, refletir se insiste na tomada desse depoimento;
e) a parte não tem o direito de requerer seja tomado o seu próprio depoimento;
f) c.ada uma das partes pode ouvir até dez testemunhas no processo, sendo três para o esclarecimento de cada fato;
g) a contradita da testemunha é feita após o compromisso da mesma, mas antes de iniciado o seu depoimento, e se efetiva através da exibição de documento ou da
ou\'ida de outra testemunha;
h) quando a testemunha ti\·er interesse no obj eto do litígio, porque exposta à ação regressiva por parte do seu empregador, a tomada do seu depoimento não é
recomendada;
i) após o termino da instrução, o magistrado concede o prazo de 20 (\·inte) minutos para que cada uma das parte apresente razões fmais, que podem ser
substituídas pela apresentação de memoriais.
---
"Art. 321. O juiz, ao verificar que. a petição inicial não preenche os requisitos dos arts. 319 e 320 ou que apresenta defeitos e. irregularidades capazes de dificultar o julgamento de
mêrito, determinarâ que o autor, no prazo de 15 (quinze) dias, a emende ou a complete, indicando com precisão o que deve ser corrigido ou completado. Parágrafo único. Se o autor
não cumprir a diligência, o juiz indeferirâ a petição inicial."
4

SÚMULAS DO STF RELACIONADAS À RESPONSABILIDADE CIVIL E À AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR


PERDAS E DANOS

35. Em caso de acidente do trabalho ou de transporte, a concubina tem direito de ser indenizada pela morte do arnásio, se entre eles não havia impedimento para o
matrimônio.
151. Prescreve em I (um) ano a ação do segurador sub-rogado para haver indenização por exiravio ou perda de carga transportada por navio.
188. O segurador tem ação regressiva contra o causador do dano, pelo que efetivamente pagou, até. o limite previsto no contrato de seguro.
229. A indenização acidentaria não exclui a do direito comum, em caso de dolo -ou culpa grave do empregador.
261. Para a ação de indenização, em caso de avaria, é dispensável que a vistoria se faça judicialmente.
314. Na composição do dano por acidente do trabalho, ou de transporte, não é contrario a lei tomar para base da indenização o salario do tempo da perícia ou da
sentença.
341. É presumida a culpa do patrão, amo ou comitente pelo ato culposo do empregado ou preposto.
492. A empresa locadora de , ·eículos responde, ci\·il e solidariamente com o locatario, pelos danos por este causados a terceiros, no uso do carro locado.
562. Na indenização de danos materiais decorrentes de ato ilícito cabe a atualização de seu valor, utilizando-se, para esse fim, dentre outros critérios, os indices de
correção monetaria.
5

SÚMULAS DO STJ RELACIONADAS À RESPONSABILIDADE CIVIL E À AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR


PERDAS E DANOS

3 7. São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato.
39. Prescre\·e em vinte anos a ação para haver indenização, por responsabilidade civil, de sociedade de economia mista.
43. Incide correção monetária sobre dívida por ato ilícito a partir da data do efetivo prejuízo.
54. Os juros moratórios fluem a partir do e\·ento danoso, em caso de responsabilidade extracontratual.
89. A ação acidentária prescinde do exaurimento da via administrativa.
101. A ação de indenízação do segurado em grupo contra a seguradora prescreve em um ano.
106. Proposta a ação no prazo ftxado para o seu exercício, a demora na citação, por motivos inerentes ao mecanismo da Justiça, não justifica o acolhimento da
arguição de prescrição e decadência.
130. A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veicules ocorridos em seu estabelecimento.
132. A ausência de registro de transferência não implica a responsabilidade do antigo proprietário por dano resultante de acidente que envolva veiculo alienado.
143. Prescreve em cinco anos a aç.ão de perdas e danos pelo uso de marca comercial.
145. No transporte desinteressado, de simples cortesia, o transportador só será civilmente responsa\·el por danos causados ao transportado quando incorrer em dolo
ou culpa grave.
186. Nas indenízações por ato ilic.ito, os juros compostos somente serão devidos por aquele que praticou o crime.
194. Prescreve em vinte anos a ação para obter, do construtor, indenização por defeito da obra.
326. Na ação de indenização por dano moral, a condenação em montante inferior ao postulado na inicial não implica sucumbência reciproca.
362. A correção monetária do valor da indenização do dano moral incide desde a data do arbitramento.
370. Caracteriza dano moral a apresentação antecipada de che.que pré-datado.
385. Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao
cancelamento.
387. Elicita a cumulação das indenizações de dano estético e dano moral.
388. A simples de\·oluç.ão indevida de cheque caracteriza dano moral.
402. O contrato de seguro por danos pessoais compreende os danos morais, salvo cláusula expressa de exclusão.
403 . lndepende de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada de imagem de pessoa com fms econômicos ou comerciais.
404. É dispensa\·el o aviso de recebimento (AR) na carta de comunicação ao consumidor sobre a negativação de seu nome em bancos de dados e cadastros.
420. Incabível, em embargos de divergência, discutir o valor de indenizaç.ão por danos morais.
426. Os juros de mora na indenização do seguro DPVAT fluem a partir da citação.
465. Ressalvada a hipótese de efetivo agra\·amento do risco, a seguradora não se ex.ime do dever de indenizar em razão da transferência do veiculo sem a sua prévia
comunicação.
4 74. A indenízação do seguro DPVAT, em caso de invalidez parcial do beneficiário, será paga de forma proporcional ao grau da invalidez.
475. Responde pelos danos decorrentes de protesto indevido o endossatário que recebe por endosso translativo titulo de. crédito contendo vício formal extrinseco ou
intrínseco, ficando ressal\•ado seu direito de regresso contra os endossantes e avalistas.
532. Constitui prática comercial abusi\·a o envio de cartão de crédito sem prévia e expressa solicitação do consumidor, configurando-se ato ilícito indenizável e
sujeito á aplicação de multa administrativa.
53 7. Em ação de reparação de danos, a seguradora denunciada, se aceitar a denunciação ou contestar o pedido do autor, pode ser condenada, direta e solidariamente
junto com o segurado, ao pagamento da indenização de.\·ida á vítima, nos limites contratados na apólice.
REFERÊNCIAS

ALVES, Jones Figueirêdo; DELGADO, Mário Luiz. Novo código civil confrontado com o código civil de 1916. São Paulo: Método, 2002.
ALVRv~ Agostinho Ne\·es de Arruda. Da inexecuqão das obrigaqões e suas consequências. São Paulo: Saraiva, 1949.
ALVI!v~ Jose Eduardo Carreira. Elementos da teoria geral do processo. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998.
BAPTISTA, Sih·io Neves. Teoria geral do dano. São Paulo: Atlas, 2003.
BARBI, Celso Agricola. Comentários ao código de processo civil. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991. , .. 1.
C.-\LAl\,{ANDREI, Piero. Direito processual civil. Traduqão de LuizAbezia e Sandra Drina Fernandez Barbiery. Campinas: Bookseller, 1999.
CRETELLA l\'ETO, José. Fundamentos principiológicos do processo civil. Rio de Janeiro: Forense, 2002.
DELGADO, Màrio Luiz. Novo código civil: questões controvertidas. Coordenação de Mário Luiz Delgado e Jones Figueirêdo Alves. São Paulo: Método, 2003.
DINIZ, Maria Helena. Código civil anotado. São Paulo: Saraiva, 1995.
ESCOLA DE ADVOCACL>\ DO RECIFE. Responsabilidade civil: temas atuais. Recife: Bagaço, 2000.
FUX, Luiz. Curso de direito processual civil. Rio de Janeiro: Forense, 2001.
GAGLIANO, Pablo Stolze. Novo curso de direito civil. São Paulo: Saraiva, 2003. v. 3.
GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito das sucessões. São Paulo: Saraiva, 1997.
GRINOVER, Ada Pellegrini et al. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993.
IOB. Repertório IOB de Jurisprudência. 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999,2000,2001,2002. v. 3.
JUIZADOS ESPECL>\IS. Jurisprudhlcia cível e criminal dos primeiros colégios recursais do Estado de Pemambuco. Recife: Bagaço, 2001.
KF01.JRI l\.'ETO, !vliguel. Responsabilidade civil do médico. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1994.
LEX. Coletfmea de legislcu;ào e jurisprudência. São Paulo: Le.x Editora, 1993. v. 138.
MIR.>\BETE, Julio Fabbrini. Código de processo penal interpretado: referências doutrinárias, indicações legais, resenha jurisprudencial. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2001.
MOl\'TE.'NEGRO FILHO, lvlisael. Prática do processo civil: fase de conhecimento. 2. ed. Recife: Bagaço, 2002.
M01.iRA, Geraldo Bezerra de. Transporte aéreo e respo>tsaói/idade civil. São Paulo: Edições Aduaneiras, 1992.
NEGR..\0, Theotonio. Código civil e legislaqão civil em vigor. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 199&.
_ _. Código de processo civil e legislat;ào processual em vigor. 26. ed. São Paulo: Sarai\-a, 1995.
1-I'ERY JÚNIOR, Nelson. Código de processo civil comentado. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999.
PAULA, Alexandre de. Código de processo civil anotado. São Paulo: Re,ista dos Tribunai<, 1976. v. 2.
REIKA.LDO FILHO, Demócrito Ramos. Juizados especiais céveis. Rec.ife: Bagaço, 1996.
REIS, Dagma Paulino dos. Dicionário jurisprudmcial. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998.
REVISTA DA ESCOLA DA MAGISTRATURA DE PERNAMBUCO. Recife, v. 6, n•13,jan jjun. 2001.
_ _.Recife, v. 2, n• 4, abr.ljun. 1997.
REVISTA DE PROCESSO. São Paulo: Re\ista dos Tribunais,jul./set. 1997, abr.ljun. 1998, out.ldez. 1998 e abrl j un. 1999.
RODRIGu'ES, Silvio. Direito civil. São Paulo: Saraiva, 2001. v. 4.
SAMPAIO, Francisco Jose Marques. Responsaóilidade civil e reparação dedmzos ao meio ambiente. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 1998.
SANTOS, Emane Fidelis dos. Novos peifis do processo cl\>il brasileiro. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 1996.
SILVA, Ovidio A. Baptista da. Curso de processo civil, processo de conhecimento. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998. v. L
SILVA, Regina Beatriz Tavares da. In: DELGADO, l>.1ário Luiz; ALVES, Jonesfigueirêdo (Coord.). Questões controvertidas no novo código civil. São Paulo: Método, 2003.
STOCO, Rui. Responsabilidadecivil e sua interpretaçãojurisprudmcial. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999.
THEODORO fuNlOR, Humberto. Cur:so de direito processual civil. Rio de Janeiro : Forense, 1994. v. 2.
_ _. Processo de execuqão. 20. ed. São Paulo: Leud, 2000.
v'ENOSA, Sílvio de Sal,·o. Direito civil: responsabilidade civil. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002.