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BIBLIOTECA PARA O CURSO DE

ENGENHARIA DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO E


PÂNICO

Selecionamos para você uma série de artigos, livros e endereços na Internet


onde poderão ser realizadas consultas e encontradas as referências necessárias
para a realização de seus trabalhos científicos, bem como, uma lista de sugestões
de temas para futuras pesquisas na área.
Primeiramente, relacionamos sites de primeira ordem, como:

www.scielo.br
www.anped.org.br
www.dominiopublico.gov.br

SUGESTÕES DE TEMAS

1. INTRODUÇÃO À ENGENHARIA DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIOS E


PÂNICO

2. FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS;

3. OS INCÊNDIOS;

4. A FUMAÇA NOS INCÊNDIOS;

5. MEDIDAS DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO.

6. PROPRIEDADE E COMPORTAMENTO DOS MATERIAIS

7. MATERIAIS BÁSICOS DE CONSTRUÇÃO;

8. RESISTÊNCIA DOS MATERIAIS;

9. ESTRUTURAS DE CONCRETO;

10. ESTRUTURAS DE AÇO;

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11. COMPORTAMENTO DE ESTRUTURAS DE MADEIRA FRENTE AO FOGO.

12. LEGISLAÇÃO, NORMAS, PROJETOS E PLANOS DE ENGENHARIA EM


SCI

13. LEGISLAÇÃO, NORMAS E INSTRUÇÕES;

14. RESPONSABILIDADES CIVIL E CRIMINAL;

15. PROJETO DE ENGENHARIA EM SCI;

16. PLANOS DE SEGURANÇA;

17. PLANO DE INTERVENÇÃO DE INCÊNDIO – INSTRUÇÃO TÉCNICA DO


CORPO DE BOMBEIROS;

18. IMPACTOS AMBIENTAIS DECORRENTES DE INCÊNDIOS;

19. BRIGADAS DE INCÊNDIO.

20. SISTEMAS DE PREVENÇÃO, CONTROLE E COMBATE A INCÊNDIOS

21. ARQUITETURA, URBANISMO E A QUESTÃO DA SEGURANÇA CONTRA


INCÊNDIOS;

22. COMPARTIMENTAÇÃO E ISOLAMENTO;

23. SAÍDAS DE EMERGÊNCIA EM EDIFICAÇÕES;

24. SISTEMA DE DETECÇÃO E ALARME DE INCÊNDIO;

25. ILUMINAÇÃO DE EMERGÊNCIA;

26. CONTROLE DA FUMAÇA;

27. COMBATE COM EXTINTORES PORTÁTEIS;

28. COMBATE COM ÁGUA;

29. COMBATE A INCÊNDIO POR AGENTES GASOSOS.

30. COMPORTAMENTO HUMANO E PÂNICO EM INCÊNDIOS

31. GASES TÓXICOS;

32. PRINCIPAIS GASES TÓXICOS;

33. ÍNDICE DE TOXICIDADE;

34. EFEITOS E CONSEQUÊNCIAS SOBRE O SER HUMANO;

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35. LESÕES POR INALAÇÃO DE FUMAÇA;

36. AS CIÊNCIAS DO COMPORTAMENTO HUMANO;

37. A VISÃO DA PSICOLOGIA;

38. OS ESTUDOS SOCIOLÓGICOS;

39. COMPORTAMENTO HUMANO EM SITUAÇÕES DE RISCO;

40. A RESPOSTA FISIOLÓGICA E O COMPORTAMENTO HUMANO;

41. CARACTERÍSTICAS DOS OCUPANTES;

42. O ABANDONO DE EDIFICAÇÕES – MOVIMENTO, TEMPO E


COMPORTAMENTO DAS PESSOAS;

43. O PÂNICO;

44. DEFINIÇÕES; SINTOMAS DO PÂNICO E REAÇÕES INSTINTIVAS;

45. CAUSAS DO PÂNICO;

46. CARACTERÍSTICAS DE PESSOAS EM PÂNICO;

47. PRIMEIROS SOCORROS EM INCÊNDIOS;

48. PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS: DICAS EMPÍRICAS.

49. GERENCIAMENTO DE RISCOS E MANUTENÇÃO APLICADA

50. RISCOS: TERMINOLOGIA ADEQUADA;

51. GERÊNCIA DE RISCOS;

52. IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DE RISCOS;

53. ANÁLISE GLOBAL DE RISCO;

54. AVALIAÇÃO DE RISCOS PELO MÉTODO GRETENER;

55. GERENCIAMENTO DE RISCOS APLICADO;

56. INCÊNDIO DE JATO;

57. DIMENSÕES DA CHAMA;

58. INCÊNDIO DE POÇA;

59. EXPLOSÃO DE NUVEM;

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60. VULNERABILIDADE DAS PESSOAS;

61. VULNERABILIDADE DAS ESTRUTURAS METÁLICAS;

62. AUDITORIA INTERNA DE SEGURANÇA NA PREVENÇÃO DE RISCOS;

63. EVOLUÇÃO E CONCEITOS PARA AUDITORIA;

64. A AUDITORIA APLICADA À SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO E PÂNICO;

65. MANUTENÇÃO APLICADA A SEGURANÇA;

66. DEFINIÇÕES, BENEFÍCIOS E FINALIDADES GERAIS DA MANUTENÇÃO;

67. CONCEITOS BÁSICOS EM MANUTENÇÃO;

68. O PLANEJAMENTO E O CONTROLE DA MANUTENÇÃO;

69. A MANUTENÇÃO NAS NORMAS BRASILEIRAS PARA SCI;

70. MANUTENÇÃO PREVENTIVA;

71. TRATAMENTO DE FALHAS EM SISTEMA DE SCI.

72. TÓPICOS ESPECIAIS EM SCI

73. A INSPEÇÃO PREDIAL;

74. ETAPAS PARA REALIZAÇÃO DE UMA INSPEÇÃO PREDIAL;

75. DOCUMENTOS A SEREM ANALISADOS NA INSPEÇÃO PREDIAL;

76. O SEGURO-INCÊNDIO;

77. DO NASCIMENTO AO SEGURO SAÚDE – BREVE HISTÓRIA;

78. SURGIMENTO DO SEGURO NO BRASIL;

79. O SEGURO-INCÊNDIO E O INSTITUTO DE RESSEGUROS DO BRASIL;

80. A MATRIZ DE SINISTRALIDADE;

81. PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS EM INSTITUIÇÕES DE SAÚDE;

82. INCÊNDIOS EM EDIFÍCIOS-GARAGEM;

83. PRESERVAÇÃO DE DOCUMENTOS E ARQUIVOS HISTÓRICOS;

84. A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA DE INCÊNDIOS;

85. AÇÕES DO INVESTIGADOR SEGUNDO BRAGA E LANDIM;

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86. MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO;

87. COMPREENSÃO DA DINÂMICA DO INCÊNDIO;

88. INFORMAÇÕES PARA O LAUDO PERICIAL;

89. A IMPORTÂNCIA DA COLETA DE DADOS DE INCÊNDIOS PELOS


BOMBEIROS.

90. TÉCNICAS AVANÇADAS DE MANUTENÇÃO

91. ANÁLISE VIBRACIONAL;

92. DO SURGIMENTO AOS DIAS ATUAIS;

93. CONCEITO E APLICAÇÕES;

94. O USO DA BANCADA RLAM;

95. FERROGRAFIA;

96. TRIBOLOGIA;

97. FERROGRAFIA;

98. O PROCESSO E TIPOS DE ANÁLISE DA FERROGRAFIA;

99. EXAME ANALÍTICO (AN);

100. EXAME QUANTITATIVO (DR);

101. TERMOGRAFIA;

102. APLICAÇÕES ELÉTRICAS;

103. APLICAÇÕES MECÂNICAS;

104. ULTRASSOM;

105. FUNDAMENTOS E PRINCÍPIOS DO ULTRASSOM;

106. APLICAÇÕES DO ULTRASSOM;

107. COMPONENTES E FUNCIONAMENTO DE UM ULTRASSOM;

108. ESPECTROGRAFIA;

109. HIDRÁULICA E ANÁLISE DE PRESSÕES;

110. HIDRÁULICA;

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111. BOMBAS HIDRÁULICAS;

112. BOMBAS DE ENGRENAGEM;

113. CALDEIRAS A VAPOR;

114. VASOS DE PRESSÃO;

115. LUBRIFICAÇÃO;

116. TIPOS DE LUBRIFICAÇÃO;

117. CARACTERÍSTICAS E PROPRIEDADES DOS ÓLEOS


LUBRIFICANTES;

118. PROGRAMA DE LUBRIFICAÇÃO;

119. PNEUMÁTICA.

120. PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE

121. PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE: CONCEITUAÇÃO E


IMPORTÂNCIA;

122. PROGRAMAS DE PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE;

123. CRITÉRIOS E TÉCNICAS DE AVALIAÇÃO E CONTROLE DE


POLUENTES;

124. POLUIÇÃO E SUAS VÁRIAS FORMAS E CONTROLE BÁSICO;

125. POLUIÇÃO DO SOLO;

126. POLUIÇÃO DA ÁGUA;

127. POLUIÇÃO DO AR;

128. EIA, RIMA, AIA;

129. GERENCIAMENTO DO CONTROLE DA POLUIÇÃO;

130. AUDITORIA AMBIENTAL;

131. INVENTÁRIO DE EMISSÕES DE POLUENTES PARA O MEIO


AMBIENTE;

132. CONFORMIDADE COM A LEGISLAÇÃO AMBIENTAL;

133. IMPLANTAÇÃO DA GESTÃO AMBIENTAL;

134. COMUNICAÇÃO E RELACIONAMENTO COM A COMUNIDADE;

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135. MONITORAMENTO DA POLÍTICA AMBIENTAL;

136. QUALIDADE DO AR E DA ÁGUA: PROCESSOS DE PURIFICAÇÃO


DO SOLO, SERVIÇOS BÁSICOS DE SANEAMENTO EM CASOS DE
EMERGÊNCIA;

137. DESTINAÇÃO DE RESÍDUOS INDUSTRIAIS;

138. PROCESSOS DE PURIFICAÇÃO DA ÁGUA E DO SOLO;

139. SERVIÇOS BÁSICOS DE SANEAMENTO EM CASOS DE


EMERGÊNCIA;

140. RESÍDUOS LÍQUIDOS OU ESGOTOS SANITÁRIOS;

141. ESGOTOS, COLETA E TRATAMENTO;

142. DESTINAÇÃO DE RESÍDUOS INDUSTRIAIS – RESÍDUOS SÓLIDOS


E DE CONSTRUÇÕES CIVIS;

143. GERAÇÃO, CLASSIFICAÇÃO, TRATAMENTO E DISPOSIÇÃO;

144. ASPECTOS LEGAIS, INSTITUCIONAIS E ÓRGÃOS


REGULAMENTADORES.

145. GESTÃO DA SEGURANÇA APLICADA À ENGENHARIA ELÉTRICA

146. SEGURANÇA DO TRABALHO;

147. EVOLUÇÃO DA SEGURANÇA DO TRABALHO;

148. FUNDAMENTOS;

149. O SISTEMA DE GESTÃO DA SEGURANÇA E SAÚDE NO


TRABALHO (SGSST);

150. GRUPO GESTOR EM SEGURANÇA ELÉTRICA;

151. ACIDENTES, RISCOS E SEGURANÇA;

152. PROGRAMAS E EQUIPAMENTOS DE SEGURANÇA;

153. COMISSÃO INTERNA DE PREVENÇÃO DE ACIDENTES (CPA);

154. PROGRAMA DE PREVENÇÃO DE RISCOS AMBIENTAIS (PPRA);

155. PROGRAMA DE CONTROLE MÉDICO DE SAÚDE OCUPACIONAL


(PCMSO);

156. PROGRAMA DE CONDIÇÕES E MEIO AMBIENTE DE TRABALHO


NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO (PCMAT);

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157. PERFIL PROFISSIOGRÁFICO PREVIDENCIÁRIO (PPP);

158. PROGRAMA DE CONSERVAÇÃO AUDITIVA (PCA) E PROGRAMA


DE PROTEÇÃO RESPIRATÓRIA (PPR);

159. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E COLETIVA (EPI –


EPC);

160. LEGISLAÇÃO, INSPEÇÃO E FISCALIZAÇÃO;

161. NORMA REGULAMENTADORA NR-10;

162. PREVENÇÃO E CONTROLE EM MÁQUINAS, EQUIPAMENTOS E


INSTALAÇÕES ELÉTRICAS;

163. CABINES DE TRANSFORMAÇÃO, ATERRAMENTO ELÉTRICO,


PARA-RAIOS;

164. AMBIENTES ESPECIAIS, ELETRICIDADE ESTÁTICA,


INSTALAÇÕES ELÉTRICAS PROVISÓRIAS;

165. EQUIPAMENTOS E DISPOSITIVOS ELÉTRICOS.

166. ÁREA DE UTILIDADES.

167. SUBESTAÇÕES;

168. MANUTENÇÃO PREVENTIVA E ENGENHARIA DE SEGURANÇA;

169. RISCOS NA ELETRIFICAÇÃO RURAL;

170. ACIDENTES COM CERCAS ENERGIZADAS;

171. MEDIDAS E EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO COLETIVA E


INDIVIDUAL;

172. LEGISLAÇÃO E NORMAS RELATIVAS À PROTEÇÃO CONTRA


CHOQUES ELÉTRICOS E GERAL.

173. EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA NA CONSTRUÇÃO


CIVIL

174. ANÁLISES DE RISCOS TECNOLÓGICOS AMBIENTAIS: perspectiva


para o campo da saúde do trabalhador

175. CONFIABILIDADE DOS SISTEMAS DE PREVENÇÃO CONTRA


INCÊNDIO

176. O PAPEL DE GERENCIAMENTO DE RISCO NA PEQUENA


EMPRESA

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177. AS PEQUENAS CENTRAIS HIDRELÉTRICAS E SUA RELAÇÃO COM
O MEIO AMBIENTE

178. AVALIAÇÕES E PERÍCIA - PATOLOGIAS EM CONSTRUÇÃO CIVIL

179. INSTALAÇÕES ELÉTRICAS E A SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIOS

180. SEGURANÇA DO TRABALHO: quedas em andaimes na construção


civil

181. SEGURANÇA NO TRABALHO: uma abordagem dos perigos em


espaço confinado na indústria do petróleo

182. MANUTENÇÃO PRODUTIVA TOTAL - MPT OU TPM EM UMA USINA


DE AÇÚCAR E ÁLCOOL

183. O AMBIENTE E AS DOENÇAS DO TRABALHO

184. MANUTENÇÃO PRODUTIVA TOTAL - TPM

185. ESPAÇO CONFINADO

186. A IMPORTÂNCIA DOS ASPECTOS ERGONÔMICOS NA


CARACTERIZAÇÃO E GERENCIAMENTO DE RISCOS EM AMBIENTES
TECNOLÓGICOS INFORMACIONAIS

187. PROGRAMA DE PREVENÇÃO DE RISCOS EM PRENSA E


SIMILARES - PPRPS

188. SEGURANÇA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

189. SEGURANÇA DO SETOR ELÉTRICO EM EMPRESAS


TERCEIRIZADAS NA CONSTRUÇÃO CIVIL

190. A ENGENHARIA DE SEGURANÇA E SUA EVOLUÇÃO

191. CULTURA DA EMPRESA E A INSERÇÃO DO TRABALHADOR OS


PROGRAMAS DE SEGURANÇA NO TRABALHO

192. SEGURANÇA ELÉTRICA EM INSTALAÇÕES PROVISÓRIAS

193. UMA ABORDAGEM DOS PERIGOS EM ESPAÇO CONFINADO NA


INDÚSTRIA DO PETRÓLEO

194. MÉTODOS DE CONSCIENTIZAÇÃO DOS TRABALHADORES PARA


UTILIZAÇÃO DE EPI´S

195. OS RUÍDOS EM SERRALHERIAS E A SEGURANÇA DO TRABALHO

196. AVALIAÇÃO DE RISCOS EM TRANSPORTE TERRESTRE DE


INFLAMÁVEIS

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197. EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA DA SEGURANÇA NO BRASIL

198. O USO DOS MODELOS FINANCEIROS PARA A OTIMIZAÇÃO DO


SISTEMA PRODUTIVO

199. ERGONOMIA E SEGURANÇA NO TRABALHO

200. RISCOS FÍSICOS, QUÍMICOS E BIOLÓGICOS NO PROCESSO DE


COMPOSTAGEM DE RESÍDUOS

201. ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO E CERTIFICAÇÃO


DE QUALIDADE

202. SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO E APLICABILIDADE NO


SETOR PÚBLICO

203. SEGURANÇA ELÉTRICA EM INSTALAÇÕES PROVISÓRIAS

204. INOVAÇÃO NA CONSTRUÇÃO CIVIL

205. A IMPORTÂNCIA DA APLICABILIDADE PRÁTICA DO SISTEMA DE


GESTÃO E HIGIENE DO TRABALHO

206. A IMPORTÂNCIA DA APLICABILIDADE DA SAÚDE DO


TRABALHADOR SOB O ENFOQUE DA ERGONOMIA

207. A IMPORTÂNCIA E A APLICABILIDADE PRÁTICA DA PREVENÇÃO


E CONTROLE DE RISCOS EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO
TRABALHO

208. O PAPEL DO GERENCIAMENTO DE RISCOS NA EFETIVAÇÃO DA


SEGURANÇA DO TRABALHO

209. A IMPORTÂNCIA DA PSICOLOGIA DO COMPORTAMENTO NA


SEGURANÇA COMPORTAMENTAL NO TRABALHO

210. CRESCIMENTO POPULACIONAL E A DEGRADAÇÃO DO MEIO


AMBIENTE

211. OS RUÍDOS EM SERRALHERIAS E A SEGURANÇA DO TRABALHO

212. SEGURANÇA DO TRABALHO NAS PEQUENAS E MÉDIAS


EMPRESAS

213. EFEITOS DAS ONDAS ELETROMAGNÉTICAS NOS SERES


HUMANOS

214. ERGONOMIA NAS EMPRESAS

215. O USO DO AR COMPRIMIDO EM CLÍNICAS ODONTOLÓGICAS

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216. O PAPEL DO GERENCIAMENTO DE RISCO NA INSTALAÇÃO DO
CANTEIRO DE OBRA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

217. ENGENHARIA DE SEGURANÇA DENTRO DAS ÁREAS ELÉTRICAS

218. ESPAÇO CONFINADO NR 33: DIFICULDADES DE SE


ESTABELECER SE UM ESPAÇO DE TRABALHO É CONFINADO OU NÃO

219. SEGURANÇA E TRABALHO ONLINE - SAFETY AND WORK ONLINE

220. SEGURANÇA DO TRABALHO, RISCOS DE ACIDENTES E


EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO

221. ACIDENTES DO TRABALHO: uma forma de violência

222. REPERCUSSÕES DA INTRODUÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS E


AUTOMAÇÃO NAS CONDIÇÕES DE TRABALHO NO BRASIL

223. SÓ DE PENSAR EM VIR TRABALHAR, JÁ FICO DE MAU HUMOR":


atividade de atendimento ao público e prazer-sofrimento no trabalho

224. UM NOVO OLHAR PARA OS ACIDENTES DE TRABALHO

225. ESTUDO SOBRE ACIDENTES DE TRABALHO OCORRIDOS COM


TRABALHADORES

226. O SISTEMA DE INFORMAÇÕES SOBRE ACIDENTES DO


TRABALHO

227. INCIDÊNCIA DE ACIDENTES DE TRABALHO RELACIONADA COM A


NÃO UTILIZAÇÃO DAS PRECAUÇÕES UNIVERSAIS.

228. ADESÃO AS MEDIDAS DE PRECAUÇÃO PADRÃO: RELATO DE


EXPERIÊNCIA.

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ARTIGOS PARA LEITURA, ANÁLISE E UTILIZAÇÃO
COMO FONTE OU REFERÊNCIA

Revista IBRACON de Estruturas e Materiais


versão On-line ISSN 1983-4195

Rev. IBRACON Estrut. Mater. vol.4 no.2 São Paulo jun. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-41952011000200007

DIMENSIONAMENTO DE VIGAS DE CONCRETO ARMADO EM


SITUAÇÃO DE INCÊNDIO. APRIMORAMENTO DE ALGUMAS
RECOMENDAÇÕES DO EUROCODE

V. P. Silva

Professor Doutor, Departamento de Engenharia de Estruturas e Geotécnica, Escola


Politécnica, Universidade de São Paulo, valpigss@usp.br , Av. Prof. Almeida Prado, trav.
2, 271 Cid. Universitária, São Paulo, SP, Brasil

RESUMO

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A norma brasileira ABNT NBR 15200 está em fase de revisão. Algumas omissões sobre o
dimensionamento de vigas, na versão de 2004 da norma, serão incluídas agora.
Possibilidade de redução do c1 em casos em que haja reserva de segurança,
dimensionamento distinto para laje nervurada unidirecional e aumento de c1 lateral em
algumas situações são os casos de interesse neste trabalho. O Eurocode fornece
recomendações a respeito desses itens, no entanto, não são consideradas adequadas aos
costumes brasileiros de projeto. O objetivo deste trabalho é, por meio de análise térmica
ou estrutural de vigas de concreto armado, propor alternativas às recomendações do
Eurocode, visando normatizá-las, já nesta fase de revisão da norma brasileira.

Palavras-chave: incêndio, dimensionamento, vigas, segurança contra incêndio.

Texto completo apenas disponivel em PDF.

Full text available only in PDF format.

BIBLIOGRAFIA

[01] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). Projeto de estruturas de


concreto em situação de incêndio. NBR 15200. Rio de Janeiro. 2004 [ Links ]

[02] EUROPEAN COMMITTEE FOR STANDARDIZATION (CEN). Eurocode 2: Design of


concrete structures – Part 1.2: General Rules – Structural Fire Design. EN 1992-1-2.
Brussels. 2004. [ Links ]

[03] FIRE SAFETY DESIGN. TCD with Super Tempcalc. Lund: Fire Safety Design Ltd.,
2000. Disponível emhttp://www.fsd.se/eng/index.html [acesso em 09.10.2002]
[ Links ].

[04] INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 834: fire-resistance


tests: elements of building construction: part 1.1: general requirements for fire
resistance testing. 25 p. [ Links ]

[05] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 7480: Aço destinado a


armaduras para estruturas de concreto armado - Especificação. Rio de Janeiro, 2007.
[ Links ]

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Rem: Revista Escola de Minas
versão impressa ISSN 0370-4467

Rem: Rev. Esc. Minas vol.64 no.3 Ouro Preto jul./set. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0370-44672011000300003

ESTUDO DA PRESCRITIVIDADE DAS NORMAS TÉCNICAS


BRASILEIRAS DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO

Study on the prescriptivity of Brazilian technical standards for fire


safety

Antonio Maria ClaretI; Domênica Loss MattediII

I
Coordenador do Laboratório de Análise de Riscos em Incêndio. Campus Universitário,
Ouro Preto, MG. claretgouveia@uol.com.br
II
Arquiteta, Mestre em Construção Metálica pela Universidade Federal de Ouro
Preto.domenicaloss@gmail.com

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RESUMO

A gestão da mudança do ambiente de projeto de segurança contra incêndio de normas


prescritivas para o de projeto baseado em desempenho é um desafio atual das entidades
envolvidas com a normalização técnica no País. O processo de mudança demanda a
adesão de diversas categorias de profissionais e se constitui em um autêntico processo
de educação. O trabalho descreve uma avaliação da prescritividade do conjunto de
normas técnicas brasileiras com o objetivo de verificar o grau de dificuldade na
implantação de normas baseadas em desempenho. A análise de prescritividade foi
realizada empregando um método de análise discursiva, tendo como base a atribuição de
pesos de prescritividade a categorias de comandos ou ações de projeto determinadas
pelos textos normativos. Os resultados indicam que a maioria das normas tem grau de
prescritividade mediano (grau II), menos de 10% entre as normas ABNT e 30% das
instruções técnicas têm grau de prescritividade alto (grau III), sugerindo que a
implantação futura de um ambiente de normalização baseado em desempenho deve ser
feita de forma gradual e acompanhada de atividades de formação técnica dos
profissionais.

Palavras-chave: Normalização, prescritividade, processo de projeto, segurança contra


incêndio, performance-based design.

ABSTRACT

Managing fire safety design so that it is according to prescriptive standards and


accompanies ambient performance is the current challenge for entities dealing with the
civil construction industry's standardization. It requires the adhesion of various
professional categories and is, in itself, a constant educational process. This work
presents an evaluation of the prescriptivity of a set of Brazilian technical standards for
fire safety, aiming to measure their likely grade of implementation difficulty for
performance in the ambient's design. The prescriptivity analysis was implemented using
a discourse analysis technique based on weighing some categories of prescriptive
commands against the standard's text. The results indicate that most of the rules have
an average degree of prescriptivity (grade II); less than 10% of the ABNT and 30% of
the Technical Instructions of Fire Brigades have the highest degree of prescriptivity
(grade III), suggesting that performance based on ambient design must be implemented
gradually, and should be accompanied by special training in Fire Engineering.

Keywords: Standardization, prescriptivity, design process, fire safety, performance


based design.

1. Introdução

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Diversos países europeus e asiáticos, além dos Estados Unidos e do Canadá, encontram-
se, hoje, na vanguarda da utilização dos conceitos e dos princípios do projeto baseado
em desempenho ou, na literatura de língua inglesa, performance-based design (PBD).
Nesses países, já existem edições autorizadas pelo poder público dos códigos de projeto
baseados em desempenho (performance-based codes, PBC), cujo emprego é alternativo
aos códigos de projeto tradicionais, essencialmente prescritivos. Mas, em geral, o cenário
mundial é o da mudança progressiva do ambiente de projeto prescritivo para o de
projeto baseado em desempenho (Meacham, 1997). Duas razões principais são
aventadas para justificar a mudança do ambiente de projeto: a liberdade projetual e a
optimização da relação benefício-custo.

A liberdade projetual se caracteriza como a faculdade que se atribui aos profissionais de


projeto de lançar mão de soluções criativas, empregar métodos de modelamento dos
fenômenos e de cálculo das grandezas físicas que os representam, bem como de utilizar
materiais e técnicas construtivas, respeitando unicamente os parâmetros de segurança
definidos na regulamentação. As soluções prescritivas são gerais e, como tal, tendem ora
a exceder a demanda específica de uma determinada edificação, ora a contemplá-la por
falta, gerando situações em que não se conhece uma estimativa global do risco de
incêndio resultante nos casos particulares (Mattedi, 2006). A optimização da relação
benefício-custo significa a minimização do risco de danos à vida humana, ao meio
ambiente e ao patrimônio para um dado nível de investimento em segurança. Beyler
(2001) afirma que o maior desafio da segurança contra incêndio no século XXI será o da
redução de custos. No Brasil, nas últimas décadas, observa-se uma constante
preocupação com o custo de implantação de níveis mínimos aceitáveis de segurança
contra incêndio nas edificações.

Certamente todo o potencial de redução de custos da implantação de sistemas efetivos


de segurança contra incêndio, conservando-se níveis mínimos aceitáveis de segurança
cada vez mais elevados, para contemplar os anseios das sociedades contemporâneas,
reside na introdução de normas de projeto baseadas em desempenho (Claret, 2007).
Coerentemente com os demais projetos, os profissionais são autorizados a usar sua
criatividade e conhecimento técnico para gerar as soluções que produzam maior
segurança com o menor investimento; os sistemas de segurança deixam de ser simples
acréscimos à edificação e ela passa a ser geneticamente segura.

Mas essa mudança do ambiente de projeto tradicional para o PBD representa diversos
problemas, dois deles constatáveis à primeira vista: a adequação do aparato técnico à
disposição dos profissionais de projeto e a aculturação desses profissionais com a nova
filosofia de projeto. Evidentemente o primeiro problema tem sua solução fortemente
dependente da pesquisa científica em Engenharia de Incêndio e não será abordado aqui.
Esse trabalho focaliza apenas o segundo problema, buscando avaliar a dificuldade de
implantação de um ambiente de projeto baseado em desempenho. O pressuposto para
essa avaliação consiste em admitir que, tanto mais prescritivo o ambiente de projeto
atual, maior a resistência à mudança para o PBD, ou seja, parte-se do princípio de que o
hábito de uso de normas prescritivas representa uma restrição cultural à implantação do
sistema normativo baseado em desempenho. A medida da prescritividade das normas
brasileiras mais utilizadas nos projetos de segurança contra incêndio é feita por um
método que se fundamenta na análise do discurso normativo.

2. Método proposto

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O processo de implantação da normalização brasileira de segurança contra incêndio
registra considerável atraso em relação ao de outros países desenvolvidos. Atrelada ao
sistema de metrologia e qualidade industrial, a normalização técnica como um todo não
era considerada, nos anos setentas, com a importância que deveria merecer. No caso
particular da segurança contra incêndio, a implantação das normas técnicas e da
infraestrutura laboratorial básica para a certificação de produtos somente ocorreu alguns
anos após os grandes incêndios havidos em São Paulo e no Rio de Janeiro no biênio que
compreende o início 1972 e o início de 1974 (Claret, 2000). Tratando-se de processo que
demanda lenta aculturação em paralelo com imposição legal, o uso de normas
prescritivas no Brasil sofreu expansão apenas no início dos anos noventa, justamente
quando o processo de projeto baseado em desempenho ganhava seus contornos
aplicativos na Europa e na América do Norte.

De uma forma geral, a regulamentação prescritiva descreve como o edifício deve ser
projetado, construído, protegido e mantido, considerando as necessidades dos usuários
relativas à saúde, à segurança e ao conforto. Na maioria dos casos, as normas
prescritivas conduzem a soluções padronizadas para diferentes situações de projeto,
prescindindo de uma análise global do nível de segurança requerido e da interação entre
os sistemas de segurança utilizados (Meacham, 2004).

Os códigos baseados em desempenho expressam exigências amplas para uma edificação


ou sistema construtivo em termos de metas sociais, objetivos funcionais e exigências de
desempenho, sem que sejam mencionadas as soluções para alcançar tais exigências
(SFPE, 2000). As proposições dos códigos de desempenho qualificam os níveis de risco
aceitáveis ou toleráveis sob o ponto de vista da sociedade. Nesse caso, as soluções não
estão prescritas nas normas técnicas. É de responsabilidade técnica e ética do projetista
decidir com qual nível de segurança irá trabalhar e, assim, demonstrar que sua solução
de projeto atende aos objetivos requeridos. Essas soluções tanto podem incorporar
métodos prescritivos como se constituírem em soluções completamente inovadoras.

Reflexos dos seus fundamentos, os textos, ou os "discursos", das normas prescritivas e


de desempenho possuem características específicas e bem definidas que as distinguem.
Sentenças prescritivas relativas à segurança contra incêndio estabelecem exigências
mínimas ou máximas que são genéricas por ocupação, como, por exemplo, espaçamento
máximo de detectores e chuveiros automáticos, resistência ao fogo mínima de elementos
estruturais e construtivos e, ainda, distâncias máximas a percorrer. Por outro lado, as
normas de desempenho tratam mais freqüentemente do aspecto qualitativo,
expressando as necessidades sociais e o nível de comprometimento com a segurança
contra incêndio. Então, o uso de termos como adequado, apropriado e razoável permite
ao projetista flexibilidade e fornece diretrizes gerais para a escolha do nível de segurança
a ser adotado (Custer & Meacham, 1997; Mattedi, 2006).

Nesse trabalho, foram consideradas normas técnicas, elaboradas pela Associação


Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), e instruções técnicas do Corpo de Bombeiros da
Polícia Militar do Estado de São Paulo (CBPMESP), todas com forte impacto sobre o
processo de projeto de sistemas de segurança contra incêndio de edificações. Cabe
ressaltar que a expressão "normas técnicas" é empregada nesse trabalho para definir o
gênero ao qual pertencem as "normas convencionais" da ABNT e os "regulamentos e
instruções técnicas" do CBPMESP.

O critério de escolha das normas convencionais focalizou, principalmente, as normas de


procedimento, que, por sua natureza, determinam certas condições de projeto. No
âmbito das normas convencionais, foram analisadas 12 normas brasileiras (NBR's),
especialmente as normas do Comitê Brasileiro (CB) de Segurança Contra Incêndio

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(ABNT/CB-24). A inclusão da NBR 9077/93, vinculada ao CB-02, se justifica pelo fato de
ela ser considerada, entre os profissionais de projeto, a "norma-mãe" que direciona toda
e qualquer atividade projetual no que concerne a edificações. Quanto às normas
regulamentares, foram analisadas 10 instruções técnicas (IT's) do CBPMESP, pelo fato de
tratar-se de uma das regulamentações mais avançadas do País e cuja aplicação
prevalece sobre as normas da ABNT. A Tabela 1 apresenta a relação das NBR's e das IT's
analisadas.

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Foram estabelecidos três graus de prescritividade com o objetivo de classificar as normas
técnicas componentes do conjunto escolhido: grau I: baixa prescritividade; grau II:
média prescritividade; grau III: alta prescritividade. O significado de cada um desses
graus de prescritividade vem da noção de intensidade da restrição à liberdade de
projetar que a norma técnica impõe ao profissional de projeto. Em síntese, se o projetista
está vinculado a materiais e rotinas de cálculo específicas, descritas no texto normativo,
entende-se que o seu grau de prescritividade é alto; se, por outro lado, a norma exige
que se utilizem determinadas classes de materiais, definidas por suas propriedades
físicas, ou faixas de dimensões ou, ainda, determinados grupos de materiais ou
determinadas classes de métodos de cálculo, a prescritividade pode ser vista como
mediana ou baixa, dependendo da extensão das restrições no texto normativo.

Como meio para quantificar o grau de prescritividade, o método proposto consistiu no


estabelecimento de classes de "ações" determinadas no discurso normativo. Uma "ação"
ou um "comando" é conceituado como uma determinação normativa que vincula a
atividade de projeto em certa extensão. Portanto uma "ação" ou um "comando"
representa a imposição de limites a uma solução projetual. O exame do texto normativo
permite identificar essas "ações" ou "comandos" que, inclusive, constituem o núcleo da
rotina de projeto.

Nesse trabalho, propõe-se o emprego de dois grupos de "ações" ou "comandos", o grupo


f e o grupo g, que se encontram caracterizados nas Tabelas 2 e 3, respectivamente. As
"ações" ou "comandos" constituintes do grupo f consistem em expressões que
especificam exatamente um determinado campo de atuação do profissional de projeto. A
especificação de um determinado método, de um determinado material (que a parede
deva ser de concreto, por exemplo), de dimensões e distâncias (que a largura livre de
uma passagem seja 1 m, por exemplo) ou, ainda, a especificação dos tipos de
dispositivos ou equipamentos de segurança, quantidade e local onde devam ser
instalados (caso típico dos extintores e dos chuveiros automáticos) são cláusulas que
prescrevem exatamente qual deve ser a ação do projetista. Já os "comandos" ou "ações"
do grupo g estabelecem limites (que a distância a percorrer não deva exceder a 25 m,
por exemplo) ou, ainda, especificam uma classe de métodos de cálculo ou classe de
materiais (que o material deva ser cerâmico, por exemplo).

Em ambos os grupos, f e g, o impacto prescritivo do "comando" ou "ação" determinado


pela norma técnica é avaliado pela atribuição de pesos, tanto maiores quanto maior a
vinculação imposta ao projetista. As Tabelas 2e 3 mostram também os pesos atribuídos
aos diferentes tipos de "comandos". Considera-se que as "ações" constituintes do grupo
g sejam mais brandas no seu impacto na restrição à liberdade de projetar, mas percebe-
se que esse "grau de prescritividade de uma dada ação normativa", considerada
isoladamente, não depende exclusivamente de sua pertinência a um grupo ou a outro.
Por exemplo, observa-se que o peso atribuído a g1 é maior que aquele atribuído a f3. A
atribuição de pesos foi feita tomando por base os seguintes princípios:

(a) A determinação de materiais representa uma restrição projetual de maior impacto


que a determinação do método de dimensionamento que, por sua vez, tem
prescritividade maior que a determinação de um método de execução.

(b) A determinação de uma classe de materiais vem a ser de maior impacto na liberdade
projetual que a determinação de uma classe de métodos de dimensionamento que, por
sua vez, é mais restritiva que a determinação de uma classe de métodos executivos.

O peso total de prescritividade é um número absoluto e não tem maior significado,


porque o número de "comandos" ou de "ações" determinado por uma norma varia. Mas

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um índice percentual de prescritividade absoluto, Ipa, de uma norma pode ser
calculado imediatamente, considerando

Desse modo, tem-se a informação de que, se uma norma emite C "comandos",


Ipa comandos entre eles podem ser considerados de prescritividade alta, ou seja, podem
significar grandes restrições à atividade projetual. Mas, em geral, sobre o projeto incidem
simultaneamente as determinações de várias normas. Tomando como referência um
conjunto de n normas técnicas que totalizem N "comandos" ou "ações" de projeto, sendo
Ppi o peso total de prescritividade da norma i, seu índice de prescritividade relativo, Ipri,
pode ser definido por

Cada norma é avaliada isoladamente em primeiro lugar. Seja, por exemplo, uma norma
técnica na qual se identifique um número C de "comandos", que devem ser pesquisados
e classificados nos grupos f ou g, verificando-se a freqüência Fj com que cada tipo de
"comando" (fj ou gj) compõe o texto normativo. A cada tipo de comando corresponde um
peso de prescritividade pj, conforme as Tabelas 2 e 3. Portanto pode-se atribuir à norma
considerada um peso total de prescritividade, Pp, que se define por

Observa-se na eq. 2 que, ao dividir o peso total de prescritividade, Ppi, da norma i pelo
produto do número de comandos pelo peso máximo de um comando, tem-se a
quantificação do valor prescritivo daquela norma em relação ao valor prescritivo do
conjunto das normas. Esse índice permite eliminar possíveis distorções referentes à
quantidade de comandos e seus respectivos pesos de uma norma em relação às demais
do conjunto.

Finalmente, para obter uma medida normalizada dos índices de prescritividade relativos,
situando-os na faixa arbitrariamente escolhida de 0 a 9, foi definido o índice de
prescritividade normalizado, Ipn, dado por:

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Desse modo, os graus de prescritividade das normas ficam associados a índices de
prescritividade normalizados de forma que: grau I (baixo): 0<Ipri<3,0; grau II (médio):
3,1<Ipri<6,0; grau III (alto): 6,1< Ipri< 9,0.

3. Análise

As normas técnicas que compõem o conjunto de normas incidentes sobre um projeto de


segurança contra incêndio foram examinadas com o objetivo de identificar os
"comandos" e de classificá-los de acordo com os grupos de comandos descritos
nas Tabela 2 e 3. Ao final do exame de cada norma, foi possível determinar o peso total
de prescritividade (Pp), o índice de prescritividade absoluto (Ipa) e o índice de
prescritividade normalizado (Ipni) de cada documento, conforme mostra a Tabela 4.

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Conclui-se da análise dos índices de prescritividade relativa, Ipri, que tanto o conjunto de
normas ABNT quanto o conjunto das Instruções Técnicas apresentam prescritividade
média muito próximas (5,1 para o conjunto ABNT e 5,3 para o conjunto das IT's do
CBPMESP). Esse resultado parece indicar que a demanda social por mais liberdade de
projetar não se fez ainda notar no conjunto das normas convencionais, isto é, quando a
sociedade se reúne para estabelecer uma norma, tendo a faculdade de elaborá-la de
modo avançado, fá-la com o mesmo nível de restrição que a corporação de bombeiros,
naturalmente mais restritiva nesse aspecto.

Levando a um gráfico, Figura 1, os índices de prescritividade absolutos das normas ABNT


e das instruções técnicas que compõem o conjunto analisado, considerada a ordem
crescente, verifica-se que os textos das instruções técnicas tendem a ser ligeiramente
mais prescritivos que os das normas técnicas ABNT. Isto permite concluir que, ressalvada
a inexistência de correspondência entre as normas de um conjunto e de outro, o
ambiente de projeto é igualmente prescritivo quando se usam as normas ABNT e as
instruções técnicas. O índice médio de prescritividade absoluto é da ordem de 59%, o
que faz supor uma forte vinculação da atividade de projeto às soluções determinadas
pelos textos normativos.

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Os índices de prescritividade absolutos revelam também semelhanças entre os textos
normativos. Comparando-se, por exemplo, a partir da Tabela 4, a norma NBR 14432/00
e a IT 08/01, ambas relativas ao projeto de segurança de estruturas de aço em incêndio,
verifica-se que o índice de prescritividade comum é 57%. De fato, no que tange às
"ações' de projeto determinadas por essas normas técnicas, elas são muito semelhantes,
sendo que a norma ABNT descreve o método de projeto simplificado e a instrução técnica
apenas o referencia.

É interessante observar a identidade entre os índices de prescritividade absolutos das


normas NBR 9077/93 e da IT 11/01, ambas relativas ao projeto de saídas de
emergência, tendo índice de prescritividade absoluto igual a 70%. Essa ocorrência e
outras mais que podem ser encontradas em análise mais pormenorizada, revelam que a
matriz das normalizações brasileiras de segurança contra incêndio é comum, havendo
completa identidade entre os textos normativos no que tange a seu caráter prescritivo.

De acordo com os resultados constantes da Tabela 5, verifica-se (vide Tabela 2) que há


uma predominância, tanto entre as normas NBR's, quanto entre as IT's, do grau II de
prescritividade, que corresponde ao índice de prescritividade normalizado situado no
intervalo de 3,1 a 6,0.

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4. Conclusões

A partir desses resultados, pode-se concluir que a grande incidência das normas e
instruções técnicas de grau II representa um universo de média prescritividade. Isso
significa que, em geral, esses documentos interferem de forma significativa na tomada
de decisões e na liberdade projetual, conduzindo a soluções padronizadas e pouco
flexíveis.

A não ocorrência de nenhuma norma ABNT ou instrução técnica do CBPMESP no grau I,


baixa prescritividade, reafirma a conclusão de o ambiente de projeto de segurança contra
incêndio no Brasil ser tipicamente prescritivo com grau mediano de prescritividade, isto
é, os profissionais de projeto são vinculados a grupos de materiais, de processos de
cálculo e de dimensões projetuais predeterminados pelo órgão normativo.

Registram-se apenas uma norma ABNT e três instruções técnicas no grau de


prescritividade III. Isto ocorre porque seus comandos são fortemente determinantes da
conduta profissional ao mesmo tempo em que essas normas têm considerável
importância no conjunto de normas analisadas.

Portanto o cenário normativo brasileiro atual faz supor certo grau de dificuldade na
mudança da filosofia normativa prescritiva para a baseada em desempenho. Mas, sendo
necessária a implementação de normas baseadas em desempenho no País, como
resultado de uma demanda gerada pela inserção em uma economia globalizada e pela
demanda pela optimização da relação benefício-custo, os resultados desse trabalho
sugerem uma implementação gradual com um período relativamente longo de
convivência entre normas prescritivas e normas baseadas em desempenho. Amplo
treinamento por parte dos profissionais de projeto e das autoridades fiscalizadoras
constitui também um aspecto importante para concretizar essa realidade.

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5. Referências bibliográficas

BEYLER, C. L. Fire Safety Challenges in the 21st century. Journal of Fire Protection
Engineering, v. 11, n. 01, p. 4-15, fev. 2001. [ Links ]

CLARET, A. M. Resistência ao fogo de estruturas: alternativas técnicas para a


redução do custo da proteção passiva. Ouro Preto: LARIN, 2000. 12p. (Relatório
Interno). [ Links ]

CLARET, A. M. Análise de risco de incêndio em sítios históricos. Brasília: Programa


Monumenta, 2007. 103p. (Cadernos Técnicos 5). [ Links ]

CUSTER, R. L. P., MEACHAM, Brian J. Introduction to performance-based fire


safety. Quincy: National Fire Protection Association, 1997. 260 p. [ Links ]

MATTEDI, D. L. Uma contribuição ao estudo do processo de projeto de segurança


contra incêndio baseado em desempenho. Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro
Preto, 2006. 208 f. (Dissertação de Mestrado em Construção Metálica). [ Links ]

MEACHAM, B. J. Concepts of a performance-based building regulatory system for the


United States. In: INTERNATIONAL SYMPOSIUM ON FIRE SAFETY SCIENCE,
5. Proceedings... Melbourne: International Association for Fire Safety Science, 1997. p.
701-712. [ Links ]

MEACHAM, B. J. The evolution of performance-based codes and fire safety design


methods. NIST-GCR-98-761. Gaithersburg: National Institute of Standards and
Technology, 1998. Disponível em: <http://fire.nist.gov/bfrlpubs/>. Acesso em: 08 mar.
2004, 65 p. [ Links ]

SOCIETY OF FIRE PROTECTION ENGINEERS. SFPE Engineering guide to


performance-based fire protection analysis and design of buildings. Quincy:
National Fire Protection Association, 2000. 170 p. [ Links ]

A importância da segurança contra incêndio em elementos construtivos

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Data: 26/10/2011 / Fonte: Revista Emergência

Os objetivos fundamentais da segurança contra incêndio são: minimizar o


risco à vida e reduzir a perda patrimonial. Entende-se como risco à vida a
exposição severa à fumaça ou ao calor dos usuários da edificação e, em
menor nível, o desabamento de elementos construtivos sobre os usuários
ou equipe de combate.

A principal causa de óbitos em incêndio é a exposição à fumaça tóxica ou


asfixiante que ocorre nos primeiros momentos do sinistro. Assim, a
segurança à vida depende, prioritariamente, da rápida desocupação do
ambiente em chamas. Edifícios de pequeno porte, de fácil desocupação,
exigem menos dispositivos de segurança e a verificação da estrutura em
situação de incêndio pode ser dispensada. Edifícios de maior porte, em que
há dificuldade de se avaliar o tempo para desocupação e que um eventual
desabamento pode afetar a vizinhança ou a equipe de combate, exigem
maior segurança e verificação das estruturas em incêndio.

Um sistema de segurança contra incêndio consiste em um conjunto de


meios ativos (extintores, hidrantes, detecção de calor ou fumaça, brigada

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contra incêndio, etc.) e passivos (resistência ao fogo das estruturas,
escadas de segurança, compartimentação, etc.). O nível mínimo de
segurança contra incêndio, para fins de segurança à vida ou ao patrimônio
de terceiros, geralmente é estipulado em códigos ou normas.

É intrínseco ao ser humano exigir segurança em seu local de moradia e de


trabalho. Eis porque a segurança contra incêndio é correntemente
considerada no projeto hidráulico, elétrico e arquitetônico. Atualmente, sabe-
se que esta consideração deve ser estendida também ao projeto de
estruturas de edificações de maior porte ou risco, em vista de os materiais
estruturais perderem capacidade resistente em situação de incêndio.

Leia o artigo completo na edição de outubro da Revista Emergência.

Valdir Pignatta e Silva, Fabio Domingos Pannoni, Edna Moura Pinto


e Adilson Antônio da Silva

*Este artigo foi publicado originalmente no livro "A Segurança contra


Incêndio no Brasil" com o título "Segurança das Estruturas em Situação de
Incêndio", de Silva et al. (2008). Nesta edição, publicaremos a primeira parte
do artigo.

http://revistaincendio.com.br/

ABNT/CB-024 - Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio

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ABNT/CB-024 – SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO

SUPERINTENDENTE: José Carlos Tomina

Secretaria Técnica: Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo

Secretária: Rosane Servare

Praça Clóvis Bevilacqua, 421 - 3 sobreloja

01018-001 - São Paulo - SP

Fone: (11) 3396-2324 - Fax: (11) 3396-2035

mailto: cb24@abnt.org.br

ÂMBITO DE ATUAÇÃO: Normalização no campo de segurança contra incêndio


compreendendo fabricação de produtos e equipamentos, bem como projetos e
instalação de prevenção e combate a incêndio e serviços correlatos; análise e
avaliação de desempenho ao fogo de materiais, produtos e sistemas dentro dos
ambientes a eles pertinentes; medição e descrição da resposta dos materiais,
produtos e sistemas, quando submetidos a fontes de calor e chama, sob condições
controladas de laboratório, no que concerne a terminologia, requisitos, métodos de
ensaio e generalidades. Excluindo-se a normalização de equipamentos de proteção
individual que é de responsabilidade do ABNT/CB-32.

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Site: www.ucamprominas.com.br e-mail: diretoria@institutoprominas.com.br
Legislação de Segurança Contra Incêndio e Pânico - Decreto
nº 897, de 21/09/76 e Legislações complementares


Disponibilizamos para consulta o Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico (COSCIP),
Decreto nº 897, de 21 de setembro de 1976, que tem por propósito estabelecer os requisitos de
segurança indispensáveis para as edificações construídas no território do Estado do Rio de
Janeiro bem como as suas legislações complementares mais utilizadas. Clique AQUI para ler ou
baixar em formato PDF o COSCIP
Legislações Complementares:
Decreto-Lei Estadual N° 247 – 21/07/1975 – Atribui competência ao CBMERJ para realizar
estudos, planejar, executar e fiscalizar normas que disciplinam a segurança das pessoas e seus
bens contra incêndio e pânico em todo o Estado do Rio de Janeiro.

Decreto Estadual N° 35.671 – 09/06/2004 – Segurança Contra Incêndio e Pânico nas


Edificações anteriores ao Decreto n° 897/76.

Lei Estadual nº 938, de 16/12/85 - Dispõe sobre medidas que garantam a segurança de
assistentes de espetáculos públicos e dá outras providências.

Lei Estadual nº 1535, de 26/09/89 - Medidas que orientem os frequentadores de recintos


fechados em caso de acidentes.

Lei Estadual nº 1587, de 14/12/1989 - que dispõe sobre a fabricação e o uso de para-
raios radioativos e dá outras providências.

Lei Estadual nº 1866, de 08/10/91 - Proíbe a comercialização de fogos de artifício, artefatos


pirotécnicos e dá outras providências.

Lei Estadual nº 2026, de 22/07/92 -Proíbe a realização de espetáculos que impliquem


maus tratos aos animais.

Lei Estadual nº 2460, de 08/11/95 - Torna obrigatória a abertura de portas no sentido de


dentro para fora em locais de reunião de público.

Lei Estadual nº 2780 de 04/09/1997 – Obriga os condomínios fechados ao aumento das


entradas para acesso de viaturas do Corpo de Bombeiros.

Lei Estadual nº 2803 DE 07/10/1997 – Veda utilização e instalação subterrâneas para


armazenamento ou transporte de combustíveis ou substâncias perigosas.

Lei Estadual nº nº 3021, de 23/07/1998 – Autoriza a realização de rodeios e vaquejadas


no Estado.

Resolução SEDEC nº 109, de 21/01/1993 – Ficam aprovadas as Normas Técnicas n°


EMG BM/7 001 e 002/1993.

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Resolução SEDEC nº 111 de 09/02/93 – Define o Órgão próprio para a fiscalização dos
estabelecimentos de diversões públicas.

Resolução SEDEC nº 112, de 19/03/1993 – Fixa os valores a serem pagos pelos


Estabelecimentos de Ensino do CBMERJ.

Resolução SEDEC nº 124, de 17/06/1993 – Ficam aprovadas as Normas Técnicas n°


EMG BM/7-003, 004 e 005-1

Resolução SEDEC nº 125 – 29/06/1993 - Aprova a Norma Técnica n° EMG BM/7 006.

Resolução SEDEC nº 135, de 16/09/1993 – Somente a Diretoria de Serviços Técnicos


(DGST), emitirá o Laudo nos casos que estabelece.

Resolução SEDEC nº 136, de 30/09/1993 - Preenchimento do Documento de


Arrecadação de Emolumentos.

Resolução SEDEC nº 142, de 15/03/1994 - Baixa instruções complementares para


execução do Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico (COSCIP), dando nova redação à
Portaria-002/78, e às Notas Técnicas, Normas Técnicas e Ordens de Serviço emitidas após a
vigência do mesmo, até o ano de 1992

Resolução SEDEC nº 148, de 25/05/1994 – Define normas de procedimentos na análise


dos projetos de edificações.

Resolução SEDEC nº 166, de 10/11/1994 – Baixa instruções suplementares ao Decreto n°


897/1976 - COSCIP.

Resolução SEDEC nº 169, de 28/11/1994 - Baixa Instruções complementares para a


apresentação de projetos de segurança contra incêndio e pânico na Diretoria Geral de Serviços
Técnicos do CBMERJ

Resolução SEDEC nº 180, de 16/03/1999 – Aprova a utilização das tubulações de cobre


nas instalações preventivas.

Resolução SEDEC nº 278, de 21/12/2004 - Dá nova redação aos dispositivos da Resolução


N° 112.

Resolução SEDEC nº 279, de_11/01/2005 – Dispõe sobre a Avaliação e a Habilitação do


Bombeiro Profissional Civil.

Resolução SEDEC nº 284, de_25/04/2005 – Institui o novo Documento de Arrecadação de


Emolumentos do Corpo de Bombeiros - DAEM, e dá outras providências.

Portaria CBMERJ nº 383, de_10/03/2005 – Regulamenta os dispositivos da Resolução n°


279/2005, que trata a Avaliação e a Habilitação do Bombeiro Profissional Civil.

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A NOCIVIDADE NO TRABALHO: contribuição da ergonomia

Ada Ávila Assunção


Francisco de Paula Antunes Lima
ASSUNÇÃO, A.A.; LIMA, F.P.A.. A contribuição da ergonomia para a identificação,
redução e eliminação da nocividade do trabalho In: MENDES, R. Patologia
do Trabalho. 2.ed. atualizada e ampliada. São Paulo: Atheneu, 2003. vol.2, parte III, cap.45,
p.1767-1789.

OS LIMITES DA EPIDEMIOLOGIA E DA HIGIENE PARA SE COMPREENDER A


NOCIVIDADE NO TRABALHO
A maioria das pesquisas sobre as causas dos problemas de saúde no trabalho se contentam
em identificar os fatores de risco de uma doença, ou aqueles que possam alterar um estado de
saúde.
O conceito clássico designa risco como um fator cuja presença está associada a uma maior
probabilidade de que determinada doença venha a se desenvolver. Mas quando se trata da
prevenção dos danos à saúde dos trabalhadores, considerar a nocividade como fator é um erro
conceitual, não sem poucas conseqüências na elaboração de medidas preventivas.
Dentro do objetivo de melhorar a saúde no trabalho, de prevenir os acidentes, vigiar as
instalações perigosas, de construir sistemas de trabalho que não seriam apenas destinados aos
jovens homens em boa saúde, mas também às mulheres, aos velhos, aos incapazes fisicamente
(Wisner, 1993)68, a listagem ou os check-lists de fatores de risco é insuficiente.
Primeiramente, este instrumento não considera a ação de homens e mulheres reunidos por
objetivos semelhantes em situações de trabalho. Desconsiderando a ação individual e
coletiva dos trabalhadores, não apreende os complexos mecanismos de evitação do risco, seja
pela elaboração de estratégias individuais (Gaudart, 1996)19, seja pela elaboração de
estratégias coletivas (Assunção, 1998-3; Pueyo & Gaudart, 1997-51).
O mais usual dos instrumentos de análise de postos de trabalho são as listas de verificação
(ou check lists). Estas listas tem uma série de vantagens: são facilmente utilizáveis e bastante
completas quanto aos itens considerados, pois sistematizam a experiência e o conhecimento já
consolidado. Além de funcionarem como instrumentos de medida e de avaliação, servem de

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ajuda à memória, evitando que se esqueça algum item importante na fase de análise ou de
controle dos riscos. Entretanto, o que constitui sua principal vantagem é também a sua
principal fraqueza.
Quanto mais geral um instrumento, menos ele permite identificar problemas específicos da
situação de trabalho e dos modos operatórios. Assim, uma lista extensa de fatores que podem
causar as LER, por exemplo, permite ver apenas o que já é conhecido e comum a todos os
postos de trabalho, mas não aquilo que é específico aos postos em questão. Para usar um
exemplo do cotidiano, é mais ou menos como aquelas pessoas que, para resolver seus
problemas de visão, eram obrigadas a escolher uns óculos no conjunto exposto na banca do
feirante. Certamente elas conseguiam enxergar melhor, mas não tão bem quanto poderiam se
tivessem lentes corretivas personalizadas.
Da mesma forma, na análise ergonômica do trabalho é necessário desenvolver técnicas de
observação específicas e não usar check lists padronizados.
Mas por que os check lists não funcionam e apenas fornecem, na verdade, uma visão grosseira
e deturpada das condições de trabalho? Em primeiro lugar, quem os utiliza corre o risco de
só enxergar o que a lista permite ver, isto é, o que ela já contém. Dessa forma, deixa-se de
lado tudo o que pode ser diferente do que já se conhece sobre o problema a ser analisado. É
evidente que esse tipo de análise deixa escapar a causa de novos problemas ou então a
especificidade de cada situação de trabalho, incluindo o próprio trabalhador no que ele tem
de singular.
O uso de check lists comporta outros vícios inerentes ao próprio instrumento. Além de incluir
apenas o que já se sabe sobre um problema, os check lists pretendem servir de instrumentos de
avaliação e medida do risco de um determinado posto de trabalho, quando se trata de uma
relação multifatorial.
Aqui, a deficiência advém precisamente da extensão exagerada dos itens considerados.
Quando se inclui um item que não é pertinente àquele posto, tende-se a diminuir a
probabilidade da situação ser considerada de risco. Todos os fatores se eqüivalem. No caso
das LER, por exemplo, a repetitividade é comparada ao uso de luvas, manipular materiais
congelados ou estar submetido a vibração. Não se analisa como esses fatores se associam e se
relacionam num posto de trabalho e atividade específicos, mas apenas se estão presentes ou
não numa situação de trabalho. O que se ganha em facilidade e amplitude, perde-se em
acuidade e profundidade necessárias para entender a complexidade da situação de trabalho.

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O princípio subentendido do check-list é que o parâmetro de comparação adotado passa a ser
um posto de trabalho no qual estariam presentes todos os fatores desfavoráveis - na verdade
um posto que não existe em lugar algum -, quando de fato se verifica que a presença de
apenas um fator, dependendo da sua intensidade, pode desencadear as LER, e que há fatores
que são preponderantes, notadamente o ritmo de trabalho e as posturas estáticas.
Assim, mais importante do que reconhecer a presença de riscos, é saber como um fator
determinado, afeta o corpo do trabalhador. Isto só é possível quando se entende como as
pessoas trabalham, isto é, quando se compreende o que é a atividade de trabalho.
Visto sob este ângulo, risco e condição insegura são relações, e não um fator ou uma
condição em si. Pois, em primeiro lugar, os fatores de risco presentes nos ambientes
de trabalho se combinam quando eles agem sobre o organismo. E além disso, um fator de
risco tem repercussões variadas sobre o corpo.
Em segundo lugar, os fatores de risco podem ter consequências sobre vários aspectos da vida
do indivíduo. Por exemplo, as perturbações do sono e os problemas familiares em caso
de trabalho noturno.
Em terceiro lugar, a maioria dos estudos sobre os riscos à saúde dos trabalhadores repousa
sobre a observação de grupos populacionais definidos pela sua exposição ou pela patologia
profissional. O objetivo é estabelecer uma relação entre os fatores de risco (químicos, físicos,
biológicos e ou ligados à organização do trabalho) e as doenças diagnosticadas. E quando
não se conhece nenhum e nem outro, o que fazer diante das queixas ditas inespecíficas?

OS LIMITES DA SEGURANÇA DO TRABALHO


A análise e a prevenção de acidentes tem se apoiado essencialmente na confiabilidade dos
sistemas técnicos, o que permitiu elevar o patamar de segurança naqueles setores onde há
condições favoráveis à sua aplicação, como a aeronáutica, aeroespacial e nuclear1. Desta
forma, pelo menos em setores considerados estratégicos, pôde-se chegar a uma taxa
relativamente reduzida de acidentes (ver PERROW, 1984-49; REASON, 1990-52;
AMALBERTI, 1996-2). Todavia, não há mais avanços significativos nesta área desde os anos
70, quando a taxa de acidentes nos setores mencionados atingiu um patamar que gira em torno
de um evento por milhão. Se esta taxa for comparada à frequência de acidentes em outros
setores, é evidente que houve um relativo progresso da segurança. Não obstante, os acidentes
que ocorrem são considerados inaceitáveis, em parte precisamente devido à imagem

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de segurança que lhes é associada. Além disso, o caráter catastrófico desses eventos (em
alguns casos acarretando também danos e efeitos prolongados sobre o meio ambiente) faz
com que a baixa frequência seja pouco significativa, devido ao aumento da gravidade dos
acidentes.
Mais recentemente, ao reconhecer as limitações das técnicas de confiabilidade,
a engenharia de segurança começou a se interessar pelo fator humano, tentando estender ao
comportamento humano os mesmos princípios e modelos utilizados para analisar os
dispositivos técnicos, o que, evidentemente, não resolverá de todo o problema, porquanto,
quando muito, se chegará ao mesmo impasse anterior (para uma análise crítica das técnicas de
confiabilidade aplicadas à análise do erro humano ver Reason,1990-52). Entretanto, nessa
tentativa enviesada há o reconhecimento de que o “fator humano” constitui um elo
fundamental na operação dos sistemas sociotécnicos.
Este breve balanço serve apenas para indicar que a prevenção de acidentes encontra-se diante
de limites que colocam em xeque a prática convencional da engenharia de segurança. De
modo geral, esses limites se manifestam nos seguintes aspectos, internos e externos
à segurança propriamente dita:
1) supremacia da produção e do lucro a curto prazo em relação à segurança;
2) limitações da legislação e da normatização para garantir uma melhoria contínua
da segurança dos sistemas produtivos;
3) ineficácia das prescrições de comportamentos e de procedimentos seguros, como tentativa
de evitar os ditos “erros humanos”;
4) ação meramente corretiva quando se trata de “acidentes normais” e de riscos latentes
inerentes aos sistemas complexos.
Cada uma dessas limitações constitui, ao mesmo tempo, um limite do conhecimento, da
formação e da prática da engenharia de segurança.

Além das pressões sociais e de interesses específicos em jogo, esses setores possuem outras
características que favorecem o desenvolvimento e a aplicação de técnicas sofisticadas de
confiabilidade: base técnica desenvolvida (incluindo os processos de fabricação de
componentes), facilitando o controle em toda a cadeia produtiva; custo elevado das
instalações e das perdas decorrentes de possíveis acidentes, fazendo com que a balança da
análise custo/benefícios penda na direção da prevenção.

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1. Supremacia da produção e do lucro a curto prazo em relação à segurança
É uma questão antiga se a produção e o lucro são compatíveis com boas condições
de trabalho e com a segurança. Comumente esta questão é colocada na forma de análise de
custos e benefícios, através da qual se tenta demonstrar que a segurança se paga. Noutros
termos, as melhorias de condições de trabalho deveriam ser consideradas como um
investimento, em pé de igualdade com qualquer outro investimento produtivo, e não como um
custo que apenas onera a produção.
Todavia, os esforços direcionados à demonstração dessa compatibilidade e de convencimento
dos empresários nunca deram resultados.
A análise de custos x benefícios não aumenta a segurança, ao contrário, coloca-lhe peias,
pois assume como pressuposto que as ações voltadas à segurança devem se pautar pelos
cálculos de retorno financeiro. Se uma melhoria de condições de trabalho não propicia o
retorno esperado ou se o retorno for muito incerto, então não se justificaria o investimento.
Somente uma crença metafísica na compatibilidade total entre boas condições de trabalho e
produtividade poderia justificar os investimentos, mas a realidade tem desmentido esse
princípio em várias situações práticas, onde outros critérios acabam prevalecendo no
momento de tomada de decisão. Assim, dependendo do custo da mão-de-obra, quando ela é
muito barata é mais vantajoso, e tolerável segundo uma perspectiva puramente econômica,
conviver com um número elevado de acidentes: considera-se “natural” convivermos com
piores condições de trabalho no Brasil do que na Europa.
O risco é parte inerente da atividade humana. O domínio do homem sobre a natureza só se
desenvolve quando objetos desconhecidos são explorados. Não há como fazê-lo sem assumir
uma certa dose de risco. De certa forma, o risco é o preço que se paga ao desenvolvimento da
própria capacidade humana de tornar a vida mais confortável e mais segura. Todavia, esta
argumentação abstrata não justifica a distribuição desigual dos riscos e das responsabilidades
entre trabalhadores e os tomadores de decisão. Esse é o ponto falho da ideologia do “risco
social”, que tolera os acidentes em nome do progresso econômico.
Segundo Celso B. Leite, ex-secretário da Previdência Social, os acidentes e doenças
do trabalho deveriam ser considerados como um “risco social”, sendo inadequada a
concepção de risco profissional que acarreta a responsabilidade civil da empresa. De acordo
com o autor, a concepção de que “são as máquinas da empresa que ferem ou matam os

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empregados acidentados (...) pode ter tido suas razões de ser, mas hoje está ultrapassada,
não só pelo seu teor de paternalismo mas também porque a mecanização das atividades é um
imperativo do desenvolvimento tecnológico”.
Sendo assim, afirma que “o risco profissional constitui de fato o inevitável <<risco do
progresso>>, inerente ao anseio humano por recursos mecânicos e técnicos sempre mais
avançados.” (Leite, 1977)28.
Se não é possível o progresso sem acidentes, talvez seja possível com menos acidentes, ou
mesmo diminuir o ritmo do desenvolvimento tecnológico para avaliar e controlar melhor os
riscos. Não se trata, aqui, de contrapor utopias às necessidades econômicas, mas apenas
reconhecer que a taxa de acidentes não é algo inevitável, inerente ao progresso técnico, mas
sim socialmente determinada, segundo critérios de tolerância de cada época.
Uma área particularmente crítica é precisamente aquela que está na dianteira do progresso
técnico: a ciência. Nem sempre os próprios cientistas e seus auxiliares estão protegidos dos
riscos decorrentes de suas atividades (contaminação por substâncias tóxicas e radioativas, ou
por microorganismos etc.). Mas também aqui não é inevitável que esses riscos sejam
assumidos pelos “trabalhadores da linha de frente”. Um certo controle social poderia
minimizar os efeitos imprevisíveis desta atividade que está no limiar do conhecimento2.
Assumir riscos também faz parte das atividades cotidianas que se desenrolam em qualquer
processo produtivo. O que difere em cada atividade ou situação é a gravidade dos riscos e das
consequências das decisões, o que também altera a forma de se estabelecerem compromissos
entre objetivos conflitantes. Em certas situações os efeitos de decisões equivocadas podem ser
corrigidos sem acarretar maiores consequências, em outras não se pode permitir o erro.
Trabalhar implica necessariamente suprir as lacunas do que foi prescrito e, diante do real, para
ser eficiente o trabalhador assume a responsabilidade por certas decisões (ver Quadro 4-
Acidente do manobrista de locomotiva). Parte dessa realidade do trabalho é, hoje,
reconhecida e incentivada através da melhoria contínua, do aumento do desempenho e da
busca incessante de recordes de produção. O mundo da produção é invadido por performances
esportivas: se fala em times e equipes, em bater recordes e em premiações. Mas quem arbitra
o jogo? Quem decide o risco aceitável? Hoje, o maior obstáculo para a prevenção é que estas
questões nem mesmo são colocadas: cada vez mais os móbiles da eficiência predominam
sobre a segurança e sobre a prudência.

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2. A prática prevencionista como simples aplicação de leis e normas
A intervenção da engenharia de segurança tem se limitado às exigências legais. Esse viés
profissional do engenheiro de segurança está relacionado, entre outras coisas, ao próprio
surgimento da profissão no Brasil, no bojo de uma série de medidas que procuravam conter o
escândalo dos recordes de acidentes de trabalho nos anos 60 e 70. Os serviços de segurança
internos à empresa e a presença do engenheiro de segurança se tornaram obrigatórios por
força de lei, o que favorece um certo desvio da prática prevencionista. A reserva de mercado
do engenheiro de segurança tem como contrapartida a ação nos limites do previsto na lei e de
forma apenas legal.
Não importa se a prevenção está sendo efetiva, importa se a lei está sendo cumprida.
Há uma série de procedimentos, todos criados com as melhores intenções, que se tornam
meros rituais uma vez que são incorporados à legislação e tornados obrigatórios na prática
da engenharia de segurança e de outras profissões relacionadas à saúde ocupacional. O caso
da NR-17, com a fixação de limites para entrada de dados, é paradigmático: desde que o
número de toques esteja abaixo do limite legal, os novos casos de lesões por esforços
repetitivos são descaracterizados e atribuídos a outras causas não relacionadas ao trabalho. O
mesmo ocorre com a obrigatoriedade dos mapas de risco, do PCMSO e do PPRA, cumpridos
apenas de forma ritualística e muitas vezes sem benefícios diretos para a segurança e a saúde
do trabalhador.
Ser engenheiro de segurança corresponde cada vez mais a saber de cor a pequena “bíblia
verde”, o livro que contém as portarias e normas regulamentadoras. A discussão em torno de
alterações das normas mobiliza mais tempo e esforço do que qualquer outra ação em prol
da segurança. Não se pretende, aqui, menosprezar a importância da legislação e de seu
aperfeiçoamento, mas sim colocar em questão o fato de que a aplicação da lei tenha se
tornado a maior habilidade dos engenheiros de segurança.
2 Para uma proposta de controle social das inovações industriais, ver Castleman (1979)10.

Além dessa deturpação evidente da prática prevencionista, as ações nos limite da lei reforça a
ideia de culpabilidade. Dessa forma voltamos à época da caça às bruxas, do bode expiatório, e
nos afastamos do espírito das luzes que caracteriza a produção incessante de conhecimento
necessário para fazer face a eventos incertos e imprevisíveis como são os acidentes.

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3. Ineficácia das prescrições de comportamentos e de procedimentos seguros
A engenharia de segurança é essencialmente fundada em normas e prescrições de atos
seguros.
Por isso, a maior parte das análises desemboca na identificação de atos inseguros. O acidente
corresponde ao ato inseguro, a causa é substituída pela culpa ou responsabilidade penal, o
inquérito policial substitui a análise das circunstâncias e do processo de produção. Não é a
conclusão quanto aos atos inseguros que leva à prevenção baseada em mudanças de atitude e
de comportamento, mas a sim a concepção racionalizante de que o comportamento humano é
determinado exclusivamente pela consciência e que, portanto, o acidente decorre da falta de
consciência do risco. O caso do acidente com o manobrista de locomotiva descrito no quadro
4 mostra os limites desta concepção.
Se o trabalhador não usa o cinto de segurança não se procuram as causas objetivas e as
circunstâncias que o levaram a se comportar desta forma: a análise esbarra na classificação de
ato inseguro e de imprudência. Quando deveria estar à frente da legislação, aperfeiçoando-a, a
prevenção anda, em verdade, a reboque do direito.
O caso do mapa de risco é típico. Criado no seio do movimento operário italiano como um
elemento de um conjunto de instrumentos de controle social da exposição a riscos
ocupacionais, tornou-se, no Brasil, um instrumento burocrático e um simples meio de
comunicação que enfeita paredes de escritórios e galpões, aos quais ninguém mais presta
atenção e nem poderia prestar, tão atarefados estão com a produção. É hoje o símbolo maior
do fetiche da consciência do risco, como se a regulação do comportamento decorresse direta e
unicamente da consciência dos indivíduos. Mais ainda, o mapa de risco reflete um princípio
cartesiano-racionalista extremado: todos os riscos podem ser identificados, quantificados e
localizados fisicamente no ambiente de trabalho. Não se consideram as interações entre
riscos, que podem se potencializar, sua evolução temporal e tampouco os determinantes não
materiais das situações de trabalho. Escapam a esta técnica de análise e de registro os
“acidentes normais”3 e os “riscos latentes” (Reason, 1990)52, que não são diretamente
visíveis ou que resultam de interações complexas entre falhas menores.

4. Ação corretiva quando se trata de “acidentes normais” (sistemas complexos)

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Os engenheiros e técnicos de segurança são treinados para aplicar técnicas, não para
desvendar casos, interpretar e propor novas explicações e evidenciar a complexa trama causal
dos acidentes.
De modo geral, somos treinados a ver os acidentes como eventos anormais, e não a ver nos
eventos normais do cotidiano a origem potencial e latente dos acidentes.
A prevenção encontra-se, assim, diante de um paradoxo: os “acidentes normais” reduzem a
prática de segurança a uma ação meramente corretiva; só analisamos e agimos após o fato
ocorrido. Os engenheiros se tornam bombeiros correndo atrás do prejuízo e apagando
incêndios. Podemos ainda falar de prevenção se é necessário esperar que certos tipos de
acidentes ocorram para somente então admitir sua possibilidade?
Se a resposta é afirmativa, então é necessário reconhecer que a casualidade passa uma rasteira
na causalidade e voltamos às explicações dos acidentes como fatalidade, a fortuna contra a
qual os homens nada podem fazer. Na prática, os acidentes que continuam ocorrendo, apesar
dos programas de prevenção, são considerados como decorrentes da fatalidade, de eventos
fortuitos imprevistos e imprevisíveis. No entanto, é bem possível que, tal como em uma
crônica de uma morte anunciada, eles tenham se manifestado através de sinais aos quais não
foi atribuída nenhuma importância.
Os engenheiros de segurança e as técnicas convencionais não são capazes de explicar esses
eventos, nem de aprender com eles, o que seria possível caso a análise evidenciasse alguns
princípios gerais, permitindo se antecipar a outros acidentes que possuem uma mesma
natureza.

3 O termo “acidentes normais” foi cunhado por Perrow (1984)48 para caracterizar acidentes de grandes
proporções que ocorrem quando o sistema está funcionando bem ou quando apresenta falhas menores.
Esses acidentes decorrem da complexidade dos sistemas, cujas intrincadas relações criam situações que fogem
ao controle dos operadores e que também não podem ser antecipadas pelos especialistas em segurança.

Há, aqui, uma defasagem entre a produção de novos conhecimentos, teorias e metodologias
de análise e sua assimilação pela prática. A pesquisa própria, isto é, por iniciativa dos técnicos
e engenheiros, e a incorporação de novas teorias à prática de prevenção avançam lentamente e
apenas como casos isolados.
A aprendizagem constante, o interesse em investigar as causas dos acidentes, a preocupação
em desvendar a trama complexa dos acidentes normais, em vasculhar o palheiro em busca das
agulhas que são os incidentes e os mecanismos de regulação cotidianos, em identificar e

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desarmar as bombas-relógio que são os acidentes latentes, nada disso instiga os
prevencionistas que se limitam a aplicar as normas para deixar a sua consciência jurídica
dormir em paz.

A atividade de trabalho é contextualizada


Uma dos aspectos que ajuda a explicar a diferença entre o trabalho prescrito e
o trabalho real é que a atividade se realiza sempre em contextos específicos. Apesar da
tentativa de se controlar todos os fatores intervenientes na produção, sempre ocorrem
incidentes e variações que mudam a situação de trabalho: a matéria-prima não é fornecida a
tempo ou na qualidade desejada; as ferramentas se desgastam, as máquinas se desregulam ou
quebram; colegas faltam ou entram novatos na equipe; os modelos de produtos se modificam;
etc. Mesmo se todos esses parâmetros fossem controlados e mantidos dentro de margens
de segurança aceitáveis, ainda assim haveria algo que sempre muda, o próprio trabalhador:
hoje está mais cansado do que ontem, não dormiu direito, está preocupado com a falta de
dinheiro, neste ano está evidentemente mais velho do que no ano anterior, mas também mais
experiente, aprendeu como fazer esta montagem que era considerada difícil, desenvolveu mais
uma habilidade etc.
Portanto, longe de ser um conjunto de regras conhecidas de antemão, a atividade é um
conjunto de regulações contextualizadas, no qual tomam parte tanto a variabilidade do
ambiente quanto a variabilidade própria ao trabalhador. Por isso, para se entender o que é
o trabalho de uma pessoa, é necessário observar e analisar o desenrolar de sua atividade em
situações reais, em seu contexto, procurando identificar tudo o que muda e faz o trabalhador
tomar micro-decisões a fim de resolver os pequenos mas recorrentes problemas do cotidiano
da produção. Estas situações são tão numerosas, e dependentes das circunstâncias, que os
trabalhadores as esquecem tão logo o que as motivou desapareça. Por esta razão, a análise
ergonômica do trabalho requer um longo tempo de observação, acompanhando o trabalhador
durante a realização de suas tarefas e em situações variadas.

A atividade de trabalho funda-se sobre regulações subconscientes


Um outra dificuldade para compreender a atividade de trabalho é que várias das habilidades
desenvolvidas pelos trabalhadores tornam-se automatismos, isto é, hábitos de comportamento
que são eficazes, mas que são colocados em prática de forma subconsciente. Por isso, não

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basta perguntar aos trabalhadores quais são as dificuldades de sua tarefa, porque grande parte
dos problemas já se tornaram “naturais”, isto é, não são mais percebidos como problemáticos.
A atividade está fundada na experiência dos trabalhadores, que se desenvolve ao longo da
vida profissional. Quando perguntados sobre como realizam uma tarefa, os trabalhadores
sempre dizem que é no “olhômetro”, no “sentimento”, forma como traduzem a sua
experiência acumulada, às vezes duramente devido às restrições da organização do trabalho.
Esta experiência se manifesta num “simples” toque de dedo para ajustar uma peça; num golpe
de vista para avaliar um empeno, na escuta atenta para perceber se a máquina está bem
regulada etc.
É sobretudo em razão dessas competências tácitas que as tentativas de rodízio entre funções
dificilmente são bem sucedidas. Quando se quer mudar um trabalhador de um posto
menospreza-se o tempo que lhe foi necessário para conseguir fazer o trabalho atual com mais
facilidade, e o tempo que será necessário para desenvolver as novas habilidades para realizar a
outra tarefa. Como parte desta experiência se tornou subconsciente, nem o próprio trabalhador
sabe explicar claramente como faz o seu trabalho e todos os macetes que adquiriu. Age como
um peixe dentro d’água. Dessa forma, não consegue transmitir tudo o que sabe e quase
sempre fica impaciente com os novatos, pois tudo lhe parece tão simples e evidente que o
trabalhador experiente não entende mais porque o outro não trabalha tão bem quanto ele ou
não aprende logo. Mesmo pessoas experientes que são emprestadas para outros setores têm
dificuldades de se ajustarem à forma de trabalhar de outra equipe.
Essas dificuldades para analisar a atividade podem ser contornadas através de métodos e
técnicas de observação apropriadas, capazes de evidenciar esses conhecimentos tácitos, que
não se mostram a um olhar menos cuidadoso.
Além desses seis ingredientes identificados por Schwartz, dependendo das condições para
construir tais competências, os trabalhadores desenvolvem a longo termo um saber sobre as
propriedades das suas próprias ações, sua eficácia, e suas próprias possibilidades. A partir da
reflexão sobre seus sucessos e seus fracassos, o indivíduo constrói uma representação sobre os
pontos fortes e os pontos fracos a qual lhe permite evitar deficiências que ele diagnostica no
transcorrer da sua atividade (Amalberti, 1996)2.
Os metaconhecimentos, quer dizer, a representação das suas próprias possibilidades
desempenham um papel essencial no ajuste das ações tendo em vista o seu fim (Valot et coll.,
1993)64, e podem contribuir, uma vez levados em conta nas análises das situações

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de trabalho, no planejamento de ações preventivas mais coerentes e eficazes. Trata-se de um
saber específico do trabalhador sobre as suas próprias competências num campo particular ou
numa situação dada. Os metaconhecimentos, ou o saber sobre o seu corpo e sobre si mesmo,
orientam a atividade mesmo quando as margens de liberdade deixadas pela organização
do trabalho são estreitas. Estes saberes específicos têm a função de permitir ao trabalhador
ajustar o modo operatório aos seus recursos cognitivos e fisiológicos e jogam favoravelmente
na construção da saúde. Por exemplo, às 3h o operador da sala de controle evita navegar sobre
um grande número de telas procurando parâmetros para fazer um diagnóstico, ele adota
“atalhos”, e poupa o esforço cognitivo necessário para compensar a queda de vigilância
devido ao ritmo circadiano (Terssac et. al., 1983)62.
Individualmente, a mobilização das competências adquiridas com a experiência estaria na
base da elaboração dos modos operatórios, os quais podem ser considerados estratégias para
compensar certos declínios nas funções psicofisiológicas. Com a experiência, se a
organização do trabalho permite, os operadores adaptam cada vez mais suas estratégias em
função do seu custo físico, em termos de esforços a fornecer e do tempo destinado à
realização das tarefas. Os estudos mostram uma mudança das estratégias para evitar a
mobilização de funções degradadas nas situações conhecidas (Assunção 1998)3. Para atingir
um objetivo, o sujeito colocaria em marcha uma estratégia de desvio da dificuldade por
evitação (Marquié, 1995)40. Por exemplo, o operário de uma indústria de automóveis verifica
mais freqüentemente as fichas no posto de trabalho, ele desconfia da sua capacidade de
memória e antecipa, tomando as mesmas informações mais de uma vez, para não se encontrar
sob pressão temporal (Gaudart, 1996)19.

4. PRINCÍPIOS PARA UM MODELO ALTERNATIVO DE ANÁLISE E


PREVENÇÃO
A relação entre produção do conhecimento e prática de transformação
Toda ciência ou abordagem específica de uma dada disciplina defronta-se com o problema de
transformar a realidade, isto é, de traduzir em prática os conhecimentos que produziu.
Todavia, dependendo dos princípios que a orientam, a distância entre saber e fazer pode ser
maior ou menor.
O descompasso entre os objetivos científicos e os da prevenção transparece, por exemplo, no
caso dos efeitos dos fatores de risco sobre a reprodução humana. Os agentes químicos podem

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afetar a maturação das células germinativas e o equilíbrio endócrino e, após um acúmulo no
organismo, até mesmo afetar uma gravidez futura. Esperamos os resultados dos estudos ou
que os efeitos apareçam para que possamos intervir nas situações de trabalho? Encontramos
aqui a questão de Joffe (1992)24: é preciso esperar um século para obter os resultados dos
estudos prospectivos, um século antes de explicar, por exemplo, as causas de mal formações
provavelmente relacionadas com a utilização de substâncias químicas?
Se por um lado existem questões a serem esclarecidas pela ciência, por outro lado, muitos
resultados de pesquisas são redundantes, por exemplo, a repetição de estudos transversais
sobre os efeitos neurocomportamentais de solventes em grupos de expostos produzindo ou
reforçando resultados já bastante conhecidos (Hogstedt et Lundberg, 1992)23. E os
trabalhadores continuam expostos. Alguns destes estudos partem de casos-controles, onde os
indivíduos já estão doentes.
Parece que as aquisições da ciência não jogam necessariamente a favor da diminuição da
desigualdade social entre os mais protegidos e os mais expostos. Está aí o exemplo do
amianto, o conhecimento sobre os seus efeitos não impediu, até hoje, que os trabalhadores
ficassem expostos.
Além disso, as medidas de prevenção são oriundas de estudos que se baseiam
no trabalho prescrito e não no trabalho real. Elas analisam dose, tempo de exposição, idade
(enquanto variável), mas não a maneira como o trabalhador cumpre o objetivo determinado
pela organização. Talvez aprofundando o estudo da diferença entre o trabalho real e
o trabalho prescrito em situações concretas de produção possamos explicar o resultado
paradoxal obtido por Hagberg (1988)21: apenas 20% do transporte de peso relatado pelos
trabalhadores nos questionários pode ser comprovado à observação direta. Todavia
poderíamos atribuir esse resultado aparentemente paradoxal a um viés de método: talvez essa
diferença não teria aparecido se tivessem sido feitas análises sistemáticas em situação real
de trabalho.
Da mesma forma, os estudos que avaliam as variações da função pulmonar de operários
expostos a isocianatos durante a jornada de trabalho têm o objetivo de avaliar os riscos
respiratórios e de conhecer os mecanismos de sensibilização a estas substâncias, mas se
preocupam pouco em saber como os trabalhadores estabelecem estratégias para evitar a
exposição. A investigação da exposição pregressa se contenta em identificar a presença ou
não do risco em algum período do seu passado profissional, sem interrogar sobre as possíveis

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estratégias elaboradas pelos pacientes para evitar o risco a que sempre estiveram expostos, e
porque, em um determinado momento (a ser explorado), essa estratégia falhou ou não foi
possível ser implementada por ele na intimidade da sua atividade de trabalho.
Uma questão fundamental, nem sempre problematizada, diz respeito à possibilidade efetiva de
conciliar eficiência da produção com a saúde e conforto dos trabalhadores, isto é, se saúde e
produção são sempre compatíveis. Na prática, sempre que há uma contradição manifesta entre
produção e saúde, é esta última que acaba sofrendo. Assim, se fazem horas-extras para
cumprir prazos de entrega; acelera-se o ritmo de trabalho para recuperar atrasos, paradas
inesperadas ou refugos; se dobra turno em caso de absenteísmo; trabalha-se à noite para fazer
com que as máquinas não parem; mesmo quando o trabalho é facilitado por alguma melhoria
do processo, tende-se a aumentar o ritmo e a meta de produção; e assim por diante.
O princípio ergonômico é que a produção deve ser adequada às características, limites e
capacidades dos homens e não o contrário. E este princípio deve valer imediatamente para
organizar o trabalho (ritmo, pausas, posto, metas, rodízio de tarefas, etc.) e não esperar até
que se encontre uma solução técnica que minimize a carga de trabalho. Esses
aperfeiçoamentos técnicos são evidentemente sempre bem-vindos, mas não se pode deles
esperar uma solução, pois o que define carga de trabalho é a divisão e a organização das
tarefas e não as técnicas e processos de fabricação4. A crença de que há uma solução técnica
para todos os problemas de saúde ocupacional, sem mudar a forma de organização da
produção, apenas retarda uma mudança mais efetiva, que requer alterações profundas na
forma de produzir (ver Quadro 3 – A atividade do caixa de supermercado).

4 Há uma exceção importante a esta afirmação, que é válida apenas para processos de produção (ou partes dele)
mecanizados ou automatizados. Quando o processo de trabalho ainda é manual, como na montagem, o método
de fabricação é idêntico à divisão de tarefas e à sua organização (ritmo, pausa, et.). Em consequência, definir o
método de trabalho é definir diretamente o que será a carga de trabalho. Mas isto também quer dizer que o
método de trabalho manual deixa de ser uma simples questão técnica, sob responsabilidade exclusiva dos
engenheiros de tempos e métodos: dividir tarefas e organizar o trabalho é essencialmente uma questão social,
que depende, portanto, de negociações entre trabalhadores e patrões.
Por esta razão, os estudos de tempos e métodos não têm fundamento científico.

A ergonomia, ao fundar a análise e a prevenção na compreensão da atividade, dispõe de meios


mais eficazes para implementar mudanças pertinentes (ver Quadro 1- caso da oficina de
solda).

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Para além das questões de ordem econômica, a efetividade das mudanças requer medidas
compatíveis com os objetivos e meios usuais para realizar o trabalho. Não é incomum ver
dispositivos de segurança desligados ou desativados, regras de segurança desobedecidas,
EPIs não utilizados porque sua especificação desconsiderou necessidades inerentes à
realização da atividade. Entrando em conflito com a produção, o mais comum é que
a segurança seja menosprezada.
No caso do campo eletromagnético, Thériault (1992)63 sublinha que não é difícil observar os
trabalhadores em empresas de distribuição e manutenção de energia elétrica para testar a
hipótese de uma relação entre o câncer e a exposição a esse risco físico. Concordamos com
este autor quando ele afirma: o mais difícil seria implementar as medidas de eliminação do
risco de câncer.
Elaborar as medidas de prevenção dos danos à saúde provocados pelas condições específicas
de trabalho sem considerar a atividade real de homens e mulheres reforça o modelo de
trabalhador "tayloriano", trabalhador-padrão, que inspira a concepção da maioria dos sistemas
técnicos e organizacionais. A prevenção dos danos que as condições de trabalho específicas
possam originar pode contribuir não só produzindo conhecimentos, através do estudo do
homem em situação real de trabalho, que permitam melhor compreender esta realidade, mas
também fornecer instrumentos para ação. Nesse sentido é necessário elaborar medidas de
prevenção que procurem considerar:
- as atividades mentais e atividades físicas implicadas em toda ação humana;
- a dependência entre os diversos componentes da atividade;
- que a adaptação das funções fisiológicas e psicológicas às exigências externas não é infinita;
- que os indivíduos agem, diante das mesmas circunstâncias, de maneiras diferentes;
- que os indivíduos são permeáveis às agressões do ambiente.
Estas assertivas partem de resultados de estudos ergonômicos que colocam em evidência que:
- a atividade física, gestual e postural, não é dissociável da atividade perceptiva e mental
subjacente; mesmo os trabalhos ditos manuais, os mais repetitivos possíveis, exigem uma
atividade mental intensa, mesmo que monótona, devido às exigências de tempo;
- a programação de uma atividade depende daquelas que a precedem e daquelas que a
sucedem: existem regulações e retroações contínuas na execução de tarefas consideradas
automáticas;

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- as funções humanas possuem condições limitadas de funcionamento ótimo que devem ser
respeitadas sob risco de atingirem conseqüências irreversíveis;
- todo indivíduo é variável ao longo do tempo, durante a jornada de trabalho, de um dia a
outro e ao curso de sua vida em função da sua idade e da sua história profissional em
particular,
- os indivíduos são diferentes entre eles, neste sentido, o indivíduo "padrão" é um mito.

Alternativas para análise de riscos


A maior parte dos especialistas em segurança do trabalho considera inevitável que certos
acidentes ocorram e continuem a ocorrer diante da relatividade de nosso conhecimento, da
incerteza em situações de tomada de decisão ou devido à complexidade dos sistemas
sociotécnicos. Quanto a nós, apesar de compartilharmos seus diagnósticos, acreditamos que a
análise das condições cotidianas, quer dos processos decisórios quer da gestão e do controle
da produção, permite evidenciar os mecanismos de regulação e, desta forma, se antecipar
àqueles eventos catastróficos que se anunciam já no modo normal de funcionamento dos
sistemas de produção.
Os métodos tradicionais são falhos quando se quer fazer uma análise minuciosa e que esta
requer uma análise da atividade de trabalho. Mas o que é esta “atividade”? A resposta a esta
questão mostra porque não é suficiente, como já foi discutido, utilizar check lists e a
necessidade de reorientar a observação para além dos fatores imediatamente visíveis.
Para compreender a atividade de trabalho de alguém é necessário um longo tempo de
observação, utilizando técnicas compatíveis com a natureza do que é observado. A
dificuldade maior é que a atividade não é algo estático que se pode observar e qualificar com
um simples sim ou não (como nos check-lists), ela se desenrola no tempo, é dinâmica e
variável, e por isso só pode ser compreendida se acompanhada de perto e enquanto ela se
desenrola.
Há várias características da atividade que tornam necessário proceder a uma análise demorada
e minuciosa antes de se fazer um diagnóstico. Um aspecto fundamental é que a atividade é
algo diferente de sua descrição. Realizar um trabalho é bem mais do que seguir um conjunto
de regras ou procedimentos operatórios, por mais precisa e detalhada que possa ser a
descrição da tarefa (como é feito nos procedimentos operatórios da ISO 9000). Há sempre
algo que não pode ser colocado em forma de regras explícitas e claras, o que exige que o

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trabalhador invente alguma coisa para conseguir realizar seu trabalho. Isto é o que, em
ergonomia, se denomina de diferença entre trabalho prescrito e trabalho real. Esta diferença
pode ferir o senso comum dos engenheiros, que sempre acreditam que a obediência a um
padrão qualquer é a melhor forma de se conseguir qualidade e eficiência, mas o que se
verifica em todas as situações de trabalho é que apenas obedecer ao padrão não permite obter
uma produção satisfatória. Aliás, quando os trabalhadores querem pressionar os patrões
durante uma negociação costumam recorrer à operação padrão (ou greve do zelo), limitando-
se a fazer estritamente o que é previsto nos procedimentos, o que sempre gera ineficiências e
atrasos ou interrupção quase total da produção. Há, portanto, algo na maneira como os
trabalhadores realizam suas atividades que está para além do que se conhece formalmente e
está descrito nos procedimentos operatórios.
A necessidade de analisar a atividade aqui e agora, não implica em esperar que os acidentes
ocorram. Em vários casos, a experiência acumulada permite reconhecer situações
potencialmente arriscadas, como: 1) transferência de tecnologia; 2) programas de aumento de
produtividade; 3) mudanças de processos e introdução de inovações; 4) mudanças
organizacionais (turnos, terceirização, aposentadorias e demissões).
Pode-se perceber, em contraposição a essas situações, que a segurança de um sistema
depende fundamentalmente da experiência acumulada, que pode ser desestabilizada em
situações de mudança. Inovações importantes deveriam ser reproduzidas em escala real, mas
de forma controlada, não mesclando atividades produtivas e experimentos. A produção
sempre está sujeita a certas exigências (prazos, qualidade e quantidade) que são incompatíveis
com a fase de aprendizagem e de domínio de um novo processo. Aqui é necessário mais
cautela e mais tempo de reflexão, raramente possíveis quando se entra no ritmo de produção
normal.
Em suma, a ergonomia oferece uma concepção de segurança que, revalorizando o cotidiano e
a experiência, permite antever e evitar os “acidentes normais”, baseada nos seguintes
princípios:
1. Análise voltada às situações de “normalidade”, procurando evidenciar os compromissos
cognitivos, as micro-regulações, as variabilidades do processo e os incidentes;
2. Controle especial de situações potencialmente perigosas, como inovações tecnológicas e
organizacionais, transferência de tecnologia, mudanças de procedimentos e de processos,
programas de aumento de produtividade. O fundamento desse controle também está no

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conhecimento do cotidiano mencionado no item anterior. Sobretudo quando se trata de
transferência de tecnologia, esquece-se de trazer junto com o novo equipamento as regras de
prudência que garantiam a sua operação segura;
3. Revalorização da intuição e da experiência dos trabalhadores, sobretudo daqueles que estão
em posição subalterna e que não dominam nem as habilidades discursivas nem os
instrumentos de demonstração matemática e experimental de suas opiniões, tal como ocorre
com os engenheiros;
4. Abrir espaço e valorizar a controvérsia ao invés do consenso. Em termos de antecipação de
riscos potenciais, manter a fé em demonstrações objetivas é evidentemente inadequado. De
que vale a certeza dos números diante de eventos que são, por natureza, incertos? Os cálculos
probabilísticos da confiabilidade de sistemas têm se mostrado insuficientes para lidar com
sistemas complexos. Por outro lado, o consenso, hoje tão valorizado na gestão à moda
japonesa, normalmente obtido pela coerção direta ou indireta, elimina as diferenças de
opinião e faz com que as controvérsias acabem antes de se chegar a um real convencimento;
5. Desenvolvimento coletivo e socialmente controlado de tecnologias de risco (sobre isso, ver
Castleman, 1979)10. Esta prática de cooperação já é uma realidade em pesquisa e
desenvolvimento que envolvem investimentos de risco. Nada impede que também seja um
investimento para avaliação e controle dos riscos em prol da segurança.

A contribuição da ergonomia na formalização da experiência do trabalho


Até o presente momento, todas as abordagens da segurança, das mais convencionais às mais
críticas, vêm dedicando atenção exclusivamente à análise dos acidentes. Parece ser natural
que a prevenção de acidentes deva partir da compreensão dos próprios acidentes. Todavia,
esta forma de ação, por mais que produza conhecimentos relevantes, acaba colocando a
prevenção a reboque dos acidentes: é necessário que ocorram acidentes para que se aprenda
como evitá-los.
Além de se reduzir a prevenção a uma prática meramente corretiva, se coloca um problema
analítico que limita a própria inteligibilidade das causas que produzem os acidentes. Ao
contrário do que acredita a maioria dos prevencionistas, a descrição dos acidentes ocorridos e
das causas dos "erros humanos" é menos explicativa das falhas do operador do que parece à
primeira vista. Essa mudança de perspectiva é o ponto de partida para se construir uma nova

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forma de análise de riscos e de uma prática prevencionista mais eficaz para lidar com os
acidentes normais.
Amalberti (1996)2, recorrendo à metodologia de análise ergonômica do trabalho, inverte a
preocupação central da segurança com os acidentes e erros cometidos, propondo uma
abordagem produtiva da segurança: manter a segurança ao invés de controlar os riscos. Para
tanto propõe analisar os mecanismos cognitivos colocados em ação pelos operadores em
situações normais. A normalidade é que deve revelar as causas potenciais dos acidentes, pois
as situações só são mantidas normais através de um esforço ativo dos operadores, que regulam
e corrigem múltiplos incidentes e disfunções inevitáveis do processo produtivo.
Esses mecanismos cognitivos e micro-regulações permitem ao operador estabelecer um
compromisso cognitivo e prático, quase sempre eficaz, entre três objetivos mais ou menos
contraditórios conforme as circunstâncias: 1) a segurança (sua própria segurança e a do
sistema); 2) o desempenho (imposto pela organização, mas também desejado pela equipe e
pelo operador individualmente); 3) e a minoração das conseqüências fisiológicas e mentais
deste desempenho (fadiga, estresse, esgotamento). O que é considerado extraordinário, nesta
perspectiva, não são os acidentes e situações que fogem ao controle, mas sim que isto não
ocorra mais freqüentemente, graças aos compromissos e micro-regulações que estão presentes
em qualquer atividade. “O operador humano possui uma verdadeira arte para regular esse
compromisso de modo dinâmico, em função das exigências da situação e de uma visão
reflexiva de suas próprias capacidades no momento.” (Amalberti, 1996)2.
Esta forma de entender os mecanismos de regulação permite compreender os acidentes de
outra forma: o acidente seria a ruptura da capacidade de gestão do compromisso cognitivo e
não causado por erros ou falhas humanas. Isso nos conduz a privilegiar os estudos em
situações de normalidade ou incidentais e não as grandes catástrofes ou acidentes. Os estudos
dos acidentes ocorridos ajudam a entender como o compromisso cognitivo foi rompido, não
em que ele consiste, como ele se dá e porque ele é necessário no cotidiano do trabalho.

A abordagem ergonômica da nocividade implica uma mudança de perspectiva


Na investigação das relações saúde-trabalho em situações reais de trabalho, propomos
evidenciar os sentidos latentes e a pluralidade de sentidos: ver o mundo dos trabalhadores por
seus próprios olhos, parafraseando o lema fundamental da moderna etnografia5. Esta
abordagem esbarra, inicialmente, na necessidade de desconstruir a ideologia espontânea na

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qual fomos “con-formados”, que se caracteriza por um olhar externo, o modelo do consultor,
do especialista que detém todo o saber ou do moralista que julga o comportamento do outro.
Esta ideologia perpassa todas as esferas da vida humana, manifestando-se também no
cientificismo que orienta a maior parte das análises do trabalho.
Aprender a ver o mundo do trabalho pelos olhos dos trabalhadores não é uma atitude
espontânea, sobretudo quando de trata de profissionais já impregnados de preconceitos
ideológicos, com formações e experiências que tendem a afastá-los do mundo do trabalho e a
contrapô-los socialmente aos trabalhadores, como os engenheiros de segurança e os médicos
do trabalho. Esta mudança de perspectiva deve ser construída, superando obstáculos
arraigados no senso comum e nas visões de mundo hegemônicas, pois a perspectiva da AET
consiste em compreender o comportamento no trabalho através dos olhos do próprio
trabalhador.
A etnografia moderna nasce também desta mudança de perspectiva, quando deixa de
enquadrar outros povos e culturas nos padrões eurocêntricos. Da mesma forma, constitui
princípio de sabedoria colocar-se no lugar do outro antes de julgá-lo. Nos meios acadêmicos,
todos já passamos pela experiência (infelizmente ainda predominante) de vermos nossos
próprios trabalhos e de nossos orientandos serem sempre julgados pela perspectiva do outro,
que projeta na tese avaliada a sua própria vontade, identificando, a partir daí, as
“insuficiências” do trabalho em relação àquele que ele gostaria de ter realizado. Dificilmente
se faz uma análise e crítica imanentes, tomando como fio condutor a proposta do próprio
autor, identificando, então, as deficiências reais na efetivação do que ele se propôs fazer.
Estas situações são contra-exemplos da mudança que a AET quer operar na abordagem das
relações saúde e trabalho. Seu objetivo principal é realizar uma análise imanente, colada ao
comportamento do trabalhador, de suas razões, objetivos e motivações. Trata-se de
compreender a atividade por dentro, reconstituir a sua lógica em seu curso próprio de ação.
Procurar pelos motivos do outro, compreender suas razões e possibilidades de ação, critérios
de decisão e compromissos entre objetivos conflitantes, implica estabelecer formas de inter-
relação social (e profissional, quando se pensa nos especialistas que prescrevem
comportamentos – médicos, engenheiros de segurança etc.) que reconfiguram a
personalidade dos indivíduos. A AET, ao buscar o sentido do comportamento dos
trabalhadores, permite o descentramento de perspectiva: colocar-se no lugar do outro, não
mais como um princípio moral, mas baseado em observações objetivas do sentido subjetivo e

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de explicitação de razões razoáveis e intercomunicáveis. Explicitar o sentido não implica em
objetivação da subjetividade, mas em reconhecer que cada indivíduo é, um última instância, o
juiz de si mesmo (Schwartz, 1992)57. Por isso não há análise ergonômica do trabalho sem
autoconfrontação, que se dá em três níveis: operatório (o quê o trabalhador faz?), cognitivo
(com que finalidade? para quê?) e ético (por quê?). Não se pode analisar nenhum desses
aspectos e sobretudo não se pode compreender a atividade separando-os em objetos analíticos
distintos.
A abordagem ergonômica da nocividade comporta também uma certa experiência de vida,
uma mudança pessoal e de visão de mundo, incompatível com as perspectivas autoritárias,
com o olhar externo do juiz. Na ergonomia não há lugar para a categoria de culpa, isto é
próprio ao olhar exterior do direito, que tenta regular o comportamento e os atos sem chegar à
sua base objetiva que se revela nos conflitos e contradições e sociais diante dos quais todos
somos obrigados a nos posicionar quando estamos diante de alguém que trabalha.

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rev. de sociol. Da USP. 3 (1-2):119-130, 1991

O Endereço da Prevenção
Segurança e Saúde no Trabalho
Artigo

O Risco da Exposição ao Sol na Construção Civil


( Traduzido livremente por Ricardo Mattos* )

Radiação Ultravioleta

Riscos à saúde fazem com que a proteção solar seja essencial no trabalho desenvolvido a céu
aberto, como é o caso da construção civil. A radiação ultravioleta (UV) está nos atingindo

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diariamente, proveniente do sol. Embora os raios sejam invisíveis, o seu efeito na pele pode
ser visto e sentido quando uma exposição prolongada resulta em queimaduras dolorosas. Com
a depreciação da camada de ozônio na atmosfera da Terra, cresceram os riscos da exposição à
radiação ultravioleta. Isso causou o crescimento da preocupação sobre o assunto em todo o
mundo.

A radiação ultravioleta ocupa a faixa entre a luz visível e o raio-X, no espectro


eletromagnético. Os raios UV têm comprimento de onda mais curtos do que a luz visível.
Comprimentos de onda são medidos em nanômetros (nm), que representam um bilionésimo
do metro ( 1nm = 1 x 10-9 m ).

A radiação ultravioleta pode ser dividida em três categorias, de acordo com os comprimentos
de onda, conforme mostrado a seguir:

320 – 400
UV-A
nm

UV- 290 – 320


B nm

UV- 100 – 290


C nm

Os raios UV-C do sol, entretanto, não representam uma preocupação porque os comprimentos
de onda mais curtos que 290 nm são filtrados pela camada de ozônio, na atmosfera, e não
alcançam a superfície da terra.

A superexposição à radiação UV leva à dolorosa vermelhidão da pele – a queimadura. A pele


pode ficar bronzeada, ao produzir melanina para se proteger. Embora essa pigmentação escura
bloqueie parcialmente os raios, a proteção está longe de ser completa e danos à pele ainda
acontecem. Como se vê, o bronzeado que há tanto tempo vinha sendo associado com saúde e
boa aparência é, na verdade, um sinal de uma pele danificada.

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Cada exposição aos raios ultravioletas é armazenada em nossa pele. O bronzeado pode
desaparecer no inverno mas o dano causado pela exposição à UV é cumulativo. A exposição
crônica ou prolongada à radiação ultravioleta tem sido relacionada com diversos efeitos à
saúde, incluindo o câncer de pele, envelhecimento prematuro da pele e problemas nos olhos.

Quiemaduras solares com bolhas, sofridas durante a infância e adolescência são consideradas
como origem para um melanoma, a mais perigosa forma de um câncer de pele. Melanomas
podem gerar metástases para outras pasrtes do corpo e levar à morte. Para pessoas com três ou
mais queirmaduras com bolhas antes dos vinte anos, o risco de desenvolverem melanoma é
quatro a cinco vezes maior do que para aqueles que não tiveram esse tipo de ocorrência.

Pessoas que trabalham a céu aberto, por três ou mais anos, ainda como adolescentes, têm três
vezes maior risco do que a média de desenvolverem um melanoma. Hereditariedade também
pode ser um fator com 10 % dos casos de melanoma ocorrendo em família.

Além disso, pessoas com a pele clara, louras ou ruivas ou ainda com marcas, sardas ou sinais
nos braços, rosto ou nas costas são mais propícias a adquirir melanoma.

UV-A e UV-B

A exposição a luz solar geralmente resulta na exposição tanto à UV-A quanto à UV-B.

Exposição à UV-B causa queimaduras, produção de melanina, desgaste da camada mais


externa da pele e danos aos tecidos que compõem a pele. A exposição à UV-B também é
carcinogênica. Na verdade, ela é a primeira causa de cânceres de pele que não sejam
melanomas.

A radiação UV-A penetra mais profundamente do que a UV-B, danificando as estruturas


internas da pele e acelerando o seu processo de envelhecimento.

O câncer de pele pode resultar da radiação ultravioleta, vinte ou trinta anos após a exposição.

Danos aos olhos

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A radiação UV pode danificar os olhos assim como a pele. Um estudo recente foi feito com
pescadores que permaneciam muito tempo na água e estavam expostos não somente à luz
direta mas também à luz refletida do sol. Os pescadores que não protegiam seus olhos do sol
tiveram mais de três vezes a incidência da forma mais comum de catarata do que aqueles que
protegiam seus olhos regularmente.

Proteção

Para se proteger dos raios ultravioletas, use filtro solar, utilize óculos escuros com proteção
UV e procure não se expor ao sol no final da manhã e no início da tarde, quando os raios são
mais intensos.

Qualquer pessoa que fique muito tempo exposta ao sol deve usar filtro solar. Usado
corretamente, o filtro solar irá reduzir a intensidade do dano à pele, pelo boqueio dos raios
UV. Os filtros solares devem ter no rótulo a indicação do fator de proteção solar ( FPS ).
Esse fator – FPS – estima a quantidade de proteção oferecida contra a radiação UV-B. Quanto
maior o número do FPS, maios será a proteção à UV-B. Utilizar um filtro solar com FPS 15
permite a você ficar ao sol 15 vezes mais tempo do que você ficaria sem o filtro e sofrer o
mesmo nível de exposição.
Filtros de largo espectro devem ser utilizados e devem ter um FPS maior ou igual a 15.
Coloque o filtro solar 15 a 30 minutos antes da exposição e reaplique generosamente a cada
duas ou quatro horas.

*Ricardo Pereira de Mattos é engenheiro eletricista e engenheiro de segurança. É professor


convidado dos cursos de pós graduacão em Engenharia de Segurança do Trabalho da UFRJ e
da UFF, ex-conselheiro do CREA-RJ, e sócio efetivo da SOBES – Sociedade Brasileira de
Engenharia de Segurança. Este artigo foi publicado na Revista “Construction Safety”, volume
6, nº 2, na edição de verão, em 1995. Essa revista é editada pela Associação para a Segurança
da Construção de Ontário ( Canadá ) – CSAO Construction Safety Association of Ontario.

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Nota do tradutor: A idéia de traduzir e publicar o artigo nesta página, tantos anos depois de
sua primeira leitura, me ocorreu após acompanhar o sofrimento de um colega, vítima de
melanoma. O artigo também me chama a atenção por ser originário do Canadá, um país que
tem o frio, e não o sol, como sua marca registrada. Mesmo assim, a Associação para a
Segurança da Construção Civil do principal Estado daquele país, dedicou amplo espaço em
sua revista para tratar deste importantíssimo tema. O que diremos então da importância de
tratarmos desse assunto no tropicalíssimo Brasil ?

Mais informações sobre a CSAO, podem ser conferidas em www.csao.org .

A SEGURANÇA DAS PESSOAS E O NOVO PADRÃO BRASILEIRO


DE PLUGUES E TOMADAS

Ricardo Pereira de Mattos, em 3 de agosto de 2010*

O novo padrão brasileiro de plugues e tomadas veio estabelecer um patamar de segurança e


funcionalidade para as instalações elétricas prediais. Ele foi adotado após alguns anos de
intensa discussão dentro da comunidade técnica especializada: profissionais, empresas,
associações, com o respaldo técnico da ABNT, que editou a NBR 14136, e o apoio legal
doINMETRO. Infelizmente, nem todos os profissionais se interessaram pelo debate, alguns

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até porque não acreditaram que as medidas seriam adotadas. Talvez por isso, ainda haja
muitas dúvidas entre os usuários e até mesmo entre os profissionais que atuam na área de
instalações prediais.

As diferenças

A principal diferença é que não tínhamos um padrão para esses dispositivos. Ao longo dos
anos, fomos obrigados a conviver com tipos diferentes que foram surgindo de acordo com a
demanda de novos equipamentos e de padrões estrangeiros. A maioria desses tipos era
incompatível com as normas brasileiras de instalações elétricas, principalmente pela ausência
da conexão para o aterramento, medida indispensável para a segurança das pessoas.

As novas tomadas e plugues são muito mais seguras pois foram projetadas tendo a segurança
como um de seus principais objetivos. Além dos itens visíveis como a conexão de
aterramento ( o terceiro pino ) e do formato de encaixe, que não permite o contato acidental
com os pinos durante a colocação do plugue, há inovações na parte interna das tomadas. Os
contatos internos somente se fecham quando os dois pinos entram simultaneamente. Isso
evita, por exemplo, que a inserção de um objeto metálico em um dos furos da tomada feche o
contato e provoque um choque elétrico. É uma medida contra as “travessuras” das crianças,
por exemplo, contra a distração, tentativas de conectar plugues no escuro etc.

Outro item muito importante, é que os aparelhos elétricos de maior potência, serão montados
com plugues de pinos mais grossos, de forma que não será possível conectá-los com as
tomadas comuns. É uma medida preventiva de forma que equipamentos de consumo elevado
de energia não provoquem uma sobrecarga nessas tomadas, isto é, aquecimento excessivo e
ignição de incêndios. Para esses equipamentos, com plugues mais grossos, há tomadas
equivalentes com orifícios mais grossos e portanto, com maior capacidade de suportar a
passagem da energia elétrica.

A transição

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Em um primeiro momento não há necessidade de intervir na instalação elétrica. A cada novo
equipamento adquirido, o consumidor poderá optar em usar um adaptador ou trocar a tomada.
Não se deve trocar o plugue de um equipamento, salvo no caso de um acidente que tenha
provocado a sua deterioração. Os cabos e os plugues dos equipamentos integram um conjunto
testado e aprovado. Por isso não é recomendável alterar a configuração original do fabricante
do equipamento.

No caso do aterramento, não basta trocar a tomada para garantir a segurança. Por trás de cada
tomada nova, também é necessário que exista o fio-terra, aquele fio que vai conduzir a
corrente elétrica caso ocorra um defeito, evitando que a corrente percorra o corpo de uma
pessoa que esteja em contato com o equipamento elétrico que apresentou o defeito. Esse fio-
terra (condutor de proteção) já deveria estar instalado pois é uma exigência técnica que consta
nas normas técnicas há muitos anos. Além disso, há uma lei federal (Lei 11.337/2006) que
determina a obrigatoriedade da instalação do aterramento. Portanto, todas as novas
construções, desde 2006, devem obedecer a essa exigência.

Observe que os plugues e tomadas integram um conjunto de ações para aumentar a segurança
das instalações elétricas prediais. Eles, sozinhos, não resolvem todos os problemas. Se a
instalação é nova e todas as tomadas já estão instaladas de acordo com o novo padrão, a
situação é mais simples. Para equipamentos antigos, devem usar os adaptadores. Quando
adquirirem novos equipamentos, eles já virão preparados para as novas tomadas.

Manutenção

A necessidade de substituição de uma tomada gera uma oportunidade de se pensar no


conjunto da instalação. Se nunca foi feita uma revisão das instalações elétricas, essa é uma
medida importante a ser adotada. Com o passar dos anos, aumentou de forma impressionante
a quantidade de equipamentos elétricos instalados nas residências e escritórios. Se a instalação
não acompanhar essas evolução, os fios, as tomadas e disjuntores ou fusíveis instalados há
dezenas de anos podem não suportar a carga instalada. No caso de disjuntores e fusíveis, se
tiverem sido bem dimensionados e instalados eles começarão a desarmar ou queimar. É um
sintoma de problemas a serem resolvidos urgentemente. A carga elétrica excessiva pode

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provocar aquecimento dos fios e tomadas, tornando-se focos de ignição de incêndios. Isso
também pode ocorrer se tiverem sido utilizados produtos inadequados na fabricação dos fios,
tomadas, plugues, adaptadores, extensões etc. Pode parecer estranho, mas infelizmente há
muitos produtos “piratas”, principalmente em lojas não especializadas e no comércio de rua.
Esses produtos custam menos porque usam materiais de qualidade inferior, e seu desempenho
não atende o que exigem as normas e nem mesmo as características que estampam em suas
embalagens. Outro cuidado a ser tomado diz respeito ao uso de extensões de tomadas. Os
prédios mais antigos possuem pouca quantidade de tomadas em cada cômodo. Isso fez com
que se proliferassem as extensões, fixas ou móveis, e os “tês” ou benjamins, para a instalação
dos novos aparelhos elétricos. Esses dispositivos, embora sejam extremamente práticos,
podem fazer com que em um único ponto esteja acumulada uma carga excessiva, sinônimo de
superaquecimento. Por isso, em uma reforma, é imprescindível incluir o aumento da
quantidade de pontos de tomadas, utilizando, é claro, o novo padrão.

A manutenção de qualquer tipo de instalação é fundamental para o seu desempenho


satisfatório ao longo dos anos. Entretanto, não é uma prática comum em instalações prediais.
Na maior parte dos casos, infelizmente, as intervenções só acontecem nas reformas,
ampliações etc. A manutenção pode começar com um tipo de inspeção visual que o próprio
usuário pode e deve fazer, identificando problemas tais como tomadas sobrecarregadas de
equipamentos, plugues imprensados atrás de armários, sofás ou outros móveis, cortinas e
tapetes em contato com fios ou conexões de tomadas, interruptores e tomadas com alteração
em sua cor original (causada por aquecimento). Outras observações importantes ainda a cargo
do usuário, dizem respeito à percepção de determinadas ocorrências como o aquecimento de
interruptores, queima de lâmpadas em intervalos curtos de tempo, variações muito bruscas na
iluminação quando outros equipamentos estão ligados (ar condicionado e chuveiros, por
exemplo), disjuntores desarmando ou fusíveis queimando. Em seguida, cada um dos
problemas identificados deve ser corrigido com o auxílio de profissionais qualificados. Não
há prescrições na legislação ou nas normas técnicas quanto à periodicidade da manutenção
preventiva das instalações prediais. O ideal é uma inspeção anual nos termos explicados
anteriormente e a cada cinco anos a inspeção visual qualificada das partes internas de
interruptores e tomadas, e do quadro de disjuntores, e o reaperto das conexões. Nessa
manutenção preventiva, proposta para cada cinco anos, seriam feitas as substituições,
inclusive da fiação de alguns dos circuitos elétricos, bem como o acréscimo de circuitos,

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disjuntores, proteção diferencial, tomadas, testes de continuidade e outros ensaios previstos na
normalização técnica, especialmente na NBR 5410, norma brasileira de instalações elétricas
de baixa tensão. Por sinal, essa norma estabelece, detalhadamente, os testes que devem ser
feitos antes de uma instalação ficar pronta e durante o seu funcionamento.

Profissionais qualificados

As intervenções em instalações elétricas devem ser feitas exclusivamente por profissionais


qualificados. Ao usuário leigo não deve ser permitido o acesso às partes internas das
instalações ou dos equipamentos. Portanto, sua atuação deve estar restrita à substituição de
lâmpadas e instalação de equipamentos que dependam exclusivamente de conexão direta a
uma tomada. É interessante observar que até mesmo atividades simples requerem cuidados. A
troca de uma lâmpada, por exemplo, exige que o circuito esteja desligado pois um contato
indesejado com a parte interna do bocal da lâmpada pode ocasionar um choque. Ligar um
equipamento com os pés ou mãos molhados, também pode causar um choque se houver
algum defeito de isolamento no equipamento e o circuito não estiver protegido com o fio terra
ou com um interruptor de corrente de fuga (denominado de dispositivo DR).

Cuidados

Quando se trata de eletricidade, alguns cuidados importantes são: Adquirir equipamentos e


materiais elétricos de boa qualidade. Em grande parte dos casos, esses equipamentos possuem
a certificação obrigatória assinalada pelo selo do INMETRO. Contratar serviços
especializados, com profissionais qualificados. Utilizar os recursos tecnológicos de proteção,
ou seja, circuitos elétricos com aterramento, proteção diferencial residual (DR) contra
choques, disjuntores para impedir a sobrecarga e os curto-circuitos. Tudo isso não dispensa os
cuidados básicos de não deixar fios e instalações expostas, não mexer em circuitos elétricos
ou equipamentos com os pés ou mãos molhados, manter as instalações inacessíveis para
crianças, nunca mexer nas instalações sem desligar o disjuntor correspondente e não abrir

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equipamentos elétricos sem desligá-los da tomada. Lembre-se que a eletricidade mata, mesmo
em circuitos aparentemente inofensivos.

As pesquisas realizadas no Brasil pela ABRACOPEL – Associação Brasileira de


Conscientização para os Perigos da Eletricidade comprovam que a quantidade de acidentes
com eletricidade é muito grande. Outra instituição que vem fazendo levantamentos das
condições das instalações elétricas nas grandes cidades brasileiras é o Instituto Procobre,
através do Programa Casa Segura. Esses levantamentos mostraram que, em grandes cidades
brasileiras, mais da metade dos residências com mais de 20 anos de construção, nunca fizeram
uma reforma nas instalações elétricas. Eis aí uma informação assustadora, que explica a razão
das terríveis notícias sobre acidentes domésticos fatais. Em resumo, a eletricidade não mata
apenas no trabalho, mas em residências e nas ruas. Para as instalações elétricas prediais, o
novo padrão brasileiro de plugues e tomadas vem cumprir uma parte da responsabilidade
técnica das empresas e profissionais de engenharia quanto a proteção das pessoas e do
patrimônio. Que cada um faça a sua parte.

• Ricardo Pereira de Mattos é Engenheiro Eletricista e Engenheiro de Segurança.


Professor em cursos de pós-graduação em engenharia de segurança do trabalho, no
Rio de Janeiro, mantém um portal de informações em Segurança e Saúde no Trabalho,
no endereço www.RicardoMattos.com , incluindo um grupo de discussão voltado à
Segurança em Instalações Elétricas.

DESÍDIA: palavra bonita, mas ordinária

Ricardo Pereira de Mattos*

Revendo as estatísticas de acidentes do trabalho no Brasil, me veio à lembrança esta palavra:


desídia. Não tenho dúvida que muitos empregadores e governantes ainda atuam de forma

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desidiosa em relação à prevenção de acidentes do trabalho. E podemos adotar a mesma
argumentação sobre a prevenção de acidentes em geral.
Mais utilizada no meio jurídico, encontram-se nos dicionários, vários significados para a
palavra desídia, entre eles o desleixo, a negligência, a indolência e a desatenção.
É interessante notar que ela é mais utilizada para caracterizar a ação, ou melhor, a omissão do
empregado, sendo até uma das justificativas para a sua demissão. O próprio Estatuto do
Servidor Público da União, apresenta a conduta desidiosa como proibida e a sua constatação
como passível de demissão. Quis a lei deixar claro que não tolera o servidor relapso,
desleixado, displicente, enfim aquele que se comporta de forma desidiosa. E quanto ao
empregador e seus propostos; e ao próprio Estado ?
Desídia. Palavra bonita, mas ordinária. E digo ordinária, pois ela se apresenta de forma
habitual, comum, regular, frequente, no meio ambiente do trabalho.
Vou retomar a razão da escolha deste tema, ou melhor, desta palavra, quando penso nos
acidentes do trabalho,em suas ocorrências e suas consequências.
Temos, no Brasil, inúmeros instrumentos legais que abordam o tema da segurança do
trabalho. Entre eles, com destaque, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e suas 34
Normas Regulamentadoras de Segurança e Saúde no Trabalho. O Ministério do Trabalho e
Emprego está formalmente designado para fiscalizar o trabalho seguro, integrando-se no
conceito internacional de Inspeção do Trabalho, conforme preceitua a OIT – Organização
Internacional do Trabalho. Aliás, o nosso país é signatário de dezenas de Convenções
Internacionais sobre o tema da segurança e saúde dos trabalhadores. Complementando a
legislação trabalhista, dentro dessa temática, existe a legislação previdenciária. E os
instrumentos legais e normativos, provenientes de inúmeras instituições públicas, tais como a
ANVISA, o INMETRO, a FUNDACENTRO, o INSS. Sob o ponto de vista da melhor
técnica, o Brasil integra o sistema internacional de normalização, capitaneado pela ISO, com a
representação da ABNT. E o exercício profissional apresenta-se muito bem regulamentado
por órgãos com estrutura nacional, como é o caso dos conselhos profissionais, tomando como
exemplo o CREA, CRM, OAB, apenas para mencionar alguns dos mais conhecidos.
Diante dessa superestrutura legal e normativa, a existência de trabalho escravo, infantil e de
mais de 500 mil acidentes do trabalho por ano, me incita a exclamar: desídia! Não bastassem
as mortes, repetem-se as assustadoras quantidades anuais de mais de dez mil trabalhadores
permanentemente incapacitados para o trabalho.

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Ao conhecer esses acidentes, identificamos causas ordinárias como quedas, choque elétrico,
incêndios, explosões, esmagamentos, asfixia. Todas essas ocorrências estão previstas no
arcabouço legal e normativo mencionado e para cada uma delas há medidas de prevenção.
Não se encontra outra palavra mais eloquente do que desídia ao se constatar que
recomendações explícitas de leis, portarias, resoluções, normas etc, vêm sendo desrespeitadas
por empregadores sob a omissão dos fiscalizadores. Essa conduta desidiosa busca encontrar
respaldo, infelizmente, na argumentação fajuta que as exigências são muito rígidas, que os
custos são elevados e que os prazos são exíguos. Como se legisladores e profissionais
estivessem escrevendo e publicando letras mortas e portanto inaplicáveis.
A conduta desidiosa, frente à prevenção de acidentes, está instalada de tal forma na sociedade,
que o Ministério Público do Trabalho criou um instrumento de controle denominado Termo
de Ajustamento de Conduta (TAC). Por intermédio desse TAC, as empresas firmam um
compromisso formal de... obedecer à legislação. Se isso tudo não é desídia, que outra palavra
escolher ?

*Este artigo foi publicado na internet, em 29 de janeiro de 2012, por Ricardo Pereira de
Mattos, professor e engenheiro de segurança do trabalho, no Rio de Janeiro. O autor mantém
um portal na Internet, dedicado ao tema da prevenção de acidentes, no
endereço www.RicardoMattos.com .

O ACOLHIMENTO E OS PROCESSOS DE TRABALHO EM SAÚDE: O CASO DE


BETIM, MINAS GERAIS, BRASIL

1 Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas,


Universidade Estadual de Campinas. Cidade Universitária Zeferino Vaz, Campinas,
SP 13083-970 Brasil.

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Resumo

Este trabalho relata experiência de inversão do modelo tecno-assistencial para a


saúde, tendo como base a diretriz operacional do acolhimento. O acolhimento
propõe que o serviço de saúde seja organizado, de forma usuário-centrada, partindo
dos seguintes princípios: 1) atender a todas as pessoas que procuram os serviços
de saúde, garantindo a acessibilidade universal; 2) reorganizar o processo de
trabalho, a fim de que este desloque seu eixo central do médico para uma equipe
multiprofissional ¬ equipe de acolhimento ¬, que se encarrega da escuta do usuário,
comprometendo-se a resolver seu problema de saúde; e 3) qualificar a relação
trabalhador-usuário, que deve dar-se por parâmetros humanitários, de solidariedade
e cidadania. Por meio da investigação realizada, foi possível observar um aumento
significativo do rendimento profissional, dos servidores não-médicos, que passaram
a atuar na assistência; esse elevado rendimento profissional determinou, por
conseqüência, maior oferta e aumento extraordinário da acessibilidade aos serviços
de saúde.

Palavras-chave: Avaliação de Programas; Assistência Médica; Assistência


Ambulatorial; Serviços de Saúde Comunitários

Introdução

À medida que nos aproximamos dos momentos de relações dos usuários com os
serviços de saúde e com os seus trabalhadores, para verificarmos o seu
funcionamento, vamo-nos surpreendendo com a descoberta de que, sempre que
houver um processo relacional de um usuário com um trabalhador, haverá uma
dimensão individual do trabalho em saúde, realizado por qualquer trabalhador, que
comporta um conjunto de ações clínicas. Ações clínicas aí significam o encontro
entre necessidades e processos de intervenção tecnologicamente orientados, os
quais visam operar sobre o campo das necessidades que se fazem presente nesse

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encontro, na busca de fins implicados com a manutenção e/ou recuperação de um
certo modo de viver a vida.

Esses encontros, que se dão entre dois indivíduos, são produzidos em um espaço
intercessor (Merhy, 1997a) no qual uma dimensão tecnológica do trabalho em
saúde, clinicamente evidente, sustenta-se: a da tecnologia das relações, território
próprio das tecnologias leves (Merhy, 1997b).

Olhando esses momentos pelo lado do trabalho tanto do médico, quanto do de um


porteiro de um serviço de saúde são-nos reveladas questões-chave sobre os
processos de produção em saúde, nos quais o acolhimento adquire uma expressão
significativa. Isto é, em todo lugar em que ocorre um encontro enquanto trabalho de
saúde entre um trabalhador e um usuário, operam-se processos tecnológicos
(trabalho vivo em ato) que visam à produção de relações de escutas e
responsabilizações, as quais se articulam com a constituição dos vínculos e dos
compromissos em projetos de intervenção. Estes, por sua vez, objetivam atuar sobre
necessidades em busca da produção de algo que possa representar a conquista de
controle do sofrimento (enquanto doença) e/ou a produção da saúde.

Esses processos intercessores como o acolhimento são atributos de uma prática


clínica realizada por qualquer trabalhador em saúde, e focá-los analiticamente é criar
a possibilidade de pensar a micropolítica do processo de trabalho e suas
implicações no desenho de determinados modelos de atenção, ao permitir pensar
sobre os processos institucionais por onde circula o trabalho vivo em saúde,
expondo o seu modo privado de agir à um debate público no interior do coletivo dos
trabalhadores, com base em uma ótica usuário-centrada.

No entanto, o tema do acolhimento apresenta-nos um outra possibilidade: a de


argüir sobre o processo de produção da relação usuário-serviço sob o olhar
específico da acessibilidade, no momento das ações receptoras dos clientes de um
certo estabelecimento de saúde.

Olhando assim, como uma etapa deste processo de produção, o acolhimento


funciona como um dispositivo a provocar ruídos sobre os momentos nos quais o

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serviço constitui seus mecanismos de recepção aos usuários, enquanto certas
modalidades de trabalho em saúde que se centram na produção de um mútuo
reconhecimento de direitos e responsabilidades, institucionalizados pelos serviços
de acordo com determinados modelos de atenção à saúde.

Como etapa do conjunto do processo de trabalho que o serviço desencadeia na sua


relação com o usuário, o acolhimento pode, analiticamente, evidenciar as dinâmicas
e os critérios de acessibilidades a que os usuários (portadores das necessidades
centrais e finais de um serviço) estão submetidos, nas suas relações com o que os
modelos de atenção constituem como verdadeiros campos de necessidades de
saúde, para si.

Os encontros e desencontros nessa etapa podem, ao gerar ruídos e estranhamentos


para um olhar analisador (em produção no interior da equipe de trabalhadores),
revelar uma dinâmica instituidora que se abre a novas linhas de possibilidades, no
desenho do modo de se trabalhar em saúde, permitindo a introdução de
modificações no cotidiano do serviço em torno de um processo usuário-centrado,
mais comprometido com a defesa da vida individual e coletiva.

Em síntese, o que propomos é pôr em prática o acolhimento como um dispositivo


que interroga processos intercessores que constroem relações clínicas das práticas
de saúde e que permite escutar ruídos do modo como o trabalho vivo é capturado,
conforme certos modelos de assistência, em todo lugar em que há relações clínicas
em saúde. Além disso, deve também expor a rede de petição e compromisso que há
entre etapas de certas linhas de produção constituídas em certos estabelecimentos
de saúde, interrogando centralmente as relações de acessibilidade.

Qual a vantagem de atuar sobre esses ruídos e processos?

Na medida em que, nas práticas de saúde, individual e coletiva, o que buscamos é a


produção da responsabilização clínica e sanitária e da intervenção resolutiva, tendo
em vista as pessoas, como caminho para defender a vida, reconhecemos que, sem
acolher e vincular, não há produção desta responsabilização e nem otimização

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tecnológica das resolutividades que efetivamente impactam os processos sociais de
produção da saúde e da doença.

Tendo como base essas premissas, vejamos adiante, com a descrição de um


processo iniciado junto a uma rede de serviços de saúde, no âmbito municipal, as
possibilidades de introduzir esses percursos, na busca de impactar os mecanismos
de acesso e de explorar as possibilidades de novos desenhos micropolíticos no
modo cotidiano de realização de certos modelos de atenção à saúde.

O caso de Betim: relato de uma experiência

Em Betim, vivia-se, no ano de 1996, intensa mobilização na rede básica assistencial


para a implantação do acolhimento, diretriz do modelo tecno-assistencial, orientado
nos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). O acolhimento propõe,
principalmente, reorganizar o serviço, no sentido da garantia do acesso universal,
resolubilidade e atendimento humanizado. Oferecer sempre uma resposta positiva
ao problema de saúde apresentado pelo usuário é a tradução da idéia básica do
acolhimento, que se construiu como diretriz operacional.

Pelo lugar estratégico ocupado por essa proposta, achamos que o acolhimento
deveria ser estudado, para se verificar a sua eficácia e assim oferecer subsídios à
sua consolidação nas Unidades de Saúde, procurando, ao mesmo tempo, viabilizar
seu aperfeiçoamento, enquanto tecnologia de organização de serviços de saúde.

Este estudo é devedor de uma investigação realizada pela Rede de Investigação em


Sistemas e Serviços de Saúde no Cone Sul. Pretende-se, a partir desta
investigação, manter interlocução com as entidades formadoras de recursos
humanos e os diversos serviços de saúde, como exercício por excelência da práxis
como método de construção de novas propostas, substantivas o suficiente para dar
respostas à altura dos desafios na organização de sistemas e serviços de saúde.

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Para este estudo, foi eleita a Unidade Básica de Saúde (UBS) Rosa Capuche,
situada no bairro Jardim Petrópolis, com população de 10.256 pessoas na sua área
de abrangência, para o ano de 1996, de acordo com o IBGE.

Antes do acolhimento

No ano de 1995 (considerando-se de março de 1995 a fevereiro de 1996 antes da


implantação do acolhimento), a Unidade fez 1.342 atendimentos em média por mês,
com 1.456 horas trabalhadas, entre todos os profissionais da assistência. O
processo de trabalho era o tradicionalmente conhecido, centrado na figura e no
saber do médico para o atendimento aos usuários. Em vista da baixa oferta de
consultas médicas, para o acesso às mesmas utilizava-se o velho sistema de fichas.
Esta era a única forma de administrar o serviço oferecido em vista da demanda da
população. Os que procuravam consulta e não conseguiam ficha sequer entravam
na Unidade de Saúde, "era do portão pra casa" ou para a peregrinação em outros
serviços.

Em meados de 1995, contando com a assessoria do Laboratório de Planejamento e


Administração de Sistemas de Saúde Lapa/Unicamp, o grupo dirigente da
Secretaria de Saúde de Betim (incluindo aí o corpo gerencial) discutiu a proposta de
inversão do modelo tecno-assistencial, baseado nas diretrizes do acesso,
acolhimento, vínculo e resolubilidade. Foi a partir daí que a Secretaria Municipal de
Saúde tomou a decisão de implantar o acolhimento em toda a rede de serviços.

Em que consiste o acolhimento enquanto diretriz operacional

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O acolhimento propõe inverter a lógica de organização e funcionamento do serviço
de saúde, partindo dos seguintes princípios:

1) Atender a todas as pessoas que procuram os serviços de saúde, garantindo a


acessibilidade universal. Assim, o serviço de saúde assume sua função precípua, a
de acolher, escutar e dar uma resposta positiva, capaz de resolver os problemas de
saúde da população.

2) Reorganizar o processo de trabalho, a fim de que este desloque seu eixo central
do médico para uma equipe multiprofissional equipe de acolhimento , que se
encarrega da escuta do usuário, comprometendo-se a resolver seu problema de
saúde.

3) Qualificar a relação trabalhador-usuário, que deve dar-se por parâmetros


humanitários, de solidariedade e cidadania.

Implantação do acolhimento

O ponto de partida para a implantação do acolhimento foi a decisão do grupo


dirigente da Sesa, tomada através dos órgãos colegiados de direção, quais sejam, o
Grupo de Direção Estratégica GDE (que reunia a Secretária de Saúde e os
gerentes dos projetos estratégicos) e o Colegiado Gestor (formado pelo GDE e
todos os gerentes de Unidades de Saúde). Essa decisão partia de alguns
pressupostos básicos, como:

1) A maioria das pessoas que necessitavam de atendimento em saúde estavam


excluídas dos serviços, daí a grande desconfiança e, até mesmo, opinião negativa
que os usuários têm dos serviços de saúde.

2) As pessoas que procuravam a Unidade de Saúde faziam-no, majoritariamente,


em busca da consulta médica, estrangulando completamente este serviço. Por outro

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lado, um grande número dessas mesmas pessoas não necessitava da consulta,
mesmo que essa fosse sua demanda individual.

3) O trabalho na Unidade de Saúde era centrado na pessoa e no saber médico,


ficando os outros profissionais subestimados no processo de trabalho, tendo o seu
potencial para a assistência enormemente oprimido, reduzindo a oferta de serviços.

4) A relação trabalhador-usuário sofria de crônica degeneração, causada pela


alienação dos trabalhadores do seu processo de trabalho, ou seja, este se realizava
compartimentado, com os procedimentos sem a necessária integração
multidisciplinar. O objeto de trabalho 'problema de saúde' recebia, dessa forma, um
tratamento sumário e burocrático, numa relação impessoal com o usuário. O mais
comum mesmo era a sua exclusão. No entanto, os trabalhadores, embora
conscientes dos problemas, sentiam-se impotentes para mudar aquela situação
existente, lamentada por eles próprios. O contexto sugeria, então, aparente
contradição de interesses entre trabalhadores e usuários dos serviços de saúde.

A partir da decisão de implantar o acolhimento, e sob a permanente coordenação da


gerente da UBS, definiu-se pela organização de uma equipe de acolhimento,
composta pelos profissionais de nível superior, por uma técnica e auxiliares de
enfermagem, para oferecer a escuta dos usuários. Os médicos ficaram na
retaguarda, ou seja, atendendo nos consultórios os usuários encaminhados pela
equipe de acolhimento. Eliminaram-se a ficha e a fila de madrugada, abrindo-se as
portas da Unidade de Saúde, com atendimento a todos os usuários que a
procurassem. Organizou-se a sala de espera, substituindo a recepção.

O Conselho Local de Saúde teve um papel importante para a implantação do


acolhimento. Isso se deu, principalmente, no período da semana anterior à data
prevista, quando o Conselho procurou avisar à comunidade o novo funcionamento
da Unidade de Saúde.

O processo de trabalho no acolhimento

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O acolhimento modifica radicalmente o processo de trabalho. O impacto da
reorganização do trabalho na Unidade se dá principalmente sobre os profissionais
não-médicos que fazem a assistência. No caso da UBS Rosa Capuche, consideram-
se a enfermeira, a assistente social, a técnica e a auxiliar de enfermagem. Na atual
situação, a equipe de acolhimento passa a ser o centro da atividade no atendimento
aos usuários. Os profissionais não-médicos passam a usar todo seu arsenal
tecnológico, o conhecimento para a assistência, na escuta e solução de problemas
de saúde trazidos pela população usuária dos serviços da Unidade.

A enfermeira, além de acolher, garante a retaguarda do atendimento realizado pelas


auxiliares de enfermagem. Contribuem nesse processo os protocolos, que orientam
sobre os procedimentos a serem adotados pela equipe de acolhimento. Na UBS
Rosa Capuche, por exemplo, os protocolos orientam o enfermeiro na prescrição de
vários exames e medicamentos, o que aumenta em grande medida a resolubilidade
deste profissional na assistência, favorecendo enormemente o fluxo dos usuários.
No modelo anterior, por a assistência estar centrada no médico, o enfermeiro não
realizava todo o seu potencial técnico, reduzindo sua capacidade de intervenção.
Em estudo comparando este novo modelo com o do período anterior ao
acolhimento, os dados de rendimento mostram que seu rendimento agora é
aumentado em 600%.

Esse novo papel da enfermagem na Unidade de Saúde, com acolhimento, não se


deu sem tensões. Subjacente a este processo está a disputa pela supremacia do
saber e do poder no serviço de saúde, até então, monopólio médico. Como parte
desse polêmico processo, registram-se pressões da Câmara de Vereadores contra o
atendimento realizado pela enfermeira. Foi importante também um concorrido
debate sobre o acolhimento, promovido pelo Sindicato dos Médicos de Minas
Gerais, que contou com o relato de diferentes experiências de sua implantação.

É importante registrar que, além de utilizar todo seu arsenal técnico, a enfermeira,
com a reorganização do processo de trabalho, vê-se dotada de maior autonomia na
função que exerce. Essa autonomia deve ser entendida dialeticamente como a

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condição que o profissional tem de decidir sobre seu trabalho, como o exercício
pleno do 'saber-fazer' no momento do procedimento assistencial.

Em relação à auxiliar de enfermagem, seu trabalho anterior à implantação do


acolhimento resumia-se às atividades próprias da sua função (curativo, injeção,
vacina, distribuição de medicamentos) e ao apoio aos médicos. Hoje, a relação da
auxiliar com os médicos é do acolhimento para a retaguarda, após realizar a escuta
do problema de saúde do usuário; ou seja, é uma relação circunscrita ao exercício
multiprofissional.

A assistente social participa do acolhimento e coordena os grupos programáticos.


Os programas, considerados atividade fundamental para garantir a integralidade da
assistência, são fatores importantes na garantia do sucesso do acolhimento. Isto
porque resolvem grande parte da demanda, com ações dirigidas para grupos
prioritários de atenção à saúde.

No caso dos médicos, nota-se que seu processo de trabalho não foi modificado
tanto quanto seria necessário para causar impacto na assistência, a partir da sua
atividade específica. O trabalho destes profissionais foi organizado de tal forma que
eles ficaram, às vezes, na retaguarda (consultas aos usuários encaminhados pela
equipe de acolhimento) e, outras vezes, na equipe de acolhimento. Houve inclusive
redução do agendamento, porém sem grande sucesso na sua inserção no novo
modelo. O trabalho médico permanecia incólume à velha lógica da consulta/agenda,
determinante neste processo. Voltaremos a esse tema mais à frente.

Os números do acolhimento

A seguir, relacionamos o resultado da aplicação de diversos indicadores que dizem


respeito a medidas de avaliação da Unidade de Saúde e do acolhimento.

a) Acessibilidade aos serviços da Unidade de Saúde.

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Os dados comparados de acessibilidade aos serviços demonstram o aumento
extraordinário do atendimento geral da Unidade, com a implantação do acolhimento
e a reorganização do processo de trabalho (Tabela 1). O rendimento será detalhado
a seguir, com indicador específico.

b) Rendimento profissional.

Constata-se, pelos dados de produção/horas trabalhadas, o aumento extraordinário


do rendimento da enfermeira e da assistente social (Figura 1), confirmando a tese de
que estas profissionais, com a reorganização do processo de trabalho, utilizam todo
o seu potencial para a assistência. Este rendimento, associado ao das auxiliares de
enfermagem, garante impacto extraordinário no acesso aos usuários.

c) Indicador de resolubilidade da equipe de acolhimento.

Como resolubilidade, neste caso, considera-se a solução encontrada pela equipe de


acolhimento para as queixas, sem outro tipo de encaminhamento. Como equipe de
acolhimento, considera-se a equipe multiprofissional, organizada na Unidade, para
fazer a escuta dos problemas de saúde trazidos pelos usuários. Na UBS Rosa
Capuche, essa equipe foi organizada contando com a enfermeira, a assistente social
e as auxiliares de enfermagem.

Corroboram para a resolubilidade da equipe de acolhimento (Figura 2) fatores que


atuam juntos e simultaneamente, quais sejam:

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1) Discussões permanentes entre a equipe da Unidade de Saúde, para avaliar e
reprocessar o acolhimento.

2) Capacitação da equipe, adquirida com a própria experiência no atendimento. A


experiência adquirida proporciona segurança para decidir, para efetivamente 'fazer'
com base em determinado 'saber', adquirido na vivência da assistência ao usuário.

3) Utilização de protocolos, elaborados pela equipe técnica da UBS, os quais


indicam a conduta a ser adotada diante dos problemas de saúde que mais se
apresentam no acolhimento.

4) Interação da equipe, com enfermeiras e médicos fazendo a retaguarda do


acolhimento e a capacitação em serviço. A indicação de determinada conduta
pressupõe uma decisão do profissional, o que, no modelo tradicional, apresenta-se
como um ato isolado, solitário.

5) Funcionamento dos grupos programáticos, que haviam deixado de funcionar no


início da implantação do acolhimento, em razão da prioridade dada ao trabalho
exclusivamente assistencial naquele momento específico.

A gestão da Unidade com acolhimento

O processo de gestão da Unidade de Saúde é compatível com o modelo tecno-


assistencial. Assim, o acolhimento só é possível se a gestão for participativa,
baseada em princípios democráticos e de interação entre a equipe. Isto se dá
porque a inversão do modelo tecno-assistencial, com mudanças estruturais no
processo de trabalho, pressupõe a adesão dos trabalhadores à nova diretriz. Este
compromisso com a mudança, com a construção do devir, só é possível quando os
profissionais discutem e efetivamente podem decidir sobre a organização dos
serviços na Unidade de Saúde.

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A gestão democrática e participativa criou oportunidade para que se experimentasse
na Unidade de Saúde um processo pedagógico, auto-conduzido, de extrema
riqueza. Os trabalhadores passaram a conhecer o usuário, a partir do momento em
que este adentrou a Unidade. Por outro lado, o permanente contato com a
assistência, as inúmeras reuniões dos fóruns, discussões técnicas de grupos
programáticos, o debate sobre a política de saúde, levaram os trabalhadores a
assimilar um conhecimento importante acerca da sua realidade e da realidade
institucional. Podemos dizer que eles adquiriram capacidade de auto-análise, o que
lhes deu possibilidade de autogestão na organização do processo de trabalho e, por
conseqüência, dos serviços. O Colegiado Gestor e o Fórum Saúde se tornaram
assim, por excelência, dispositivos auto-analíticos e autogestores, que
protagonizaram um processo instituidor e organizador no interior da Unidade de
Saúde (Baremblit, 1992).

Associa-se a esse modelo de gestão o planejamento estratégico situacional,


incorporado no instrumental de trabalho da Unidade de Saúde mediante a
colaboração do Lapa-Unicamp e com a interferência do Grupo de Apoio à Gestão
GAG.

Concluindo

O acolhimento como fator de mudança

O que transparece de forma enfática em todo o trabalho de investigação sobre o


acolhimento é sua contemporaneidade, ou seja, a capacidade de se colocar no
nosso tempo, mobilizar energias adormecidas, reacender a esperança e colocar em
movimento segmentos importantes dos serviços de saúde, como grupos sujeito que
se propõem à construção do novo, a fazer no tempo presente aquilo que é o objetivo
no futuro.

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No imaginário coletivo, ele é a realização da utopia construída com o advento do
SUS e perdida no momento seguinte, com a constituição de uma hegemonia
neoliberal nos serviços de saúde.

O acolhimento associa na forma exata o discurso da inclusão social, da defesa do


SUS, a um arsenal técnico extremamente potente, que vai desde a reorganização
dos serviços de saúde, a partir do processo de trabalho, até à constituição de
dispositivos auto-analíticos e autogestoress, passando por um processo de
mudanças estruturais na forma de gestão da Unidade.

Problemas de primeira hora

O primeiro problema enfrentado para a implantação do acolhimento diz respeito ao


temor, próprio da condição humana, de encarar o novo, por excelência o
desconhecido.

Vencida esta primeira dificuldade, o acolhimento chegou e encontrou uma Unidade


de Saúde que vinha há muitos anos funcionando com reduzida oferta de serviços,
baixa presença dos usuários por causa da inacessibilidade à Unidade, tendo, por
conseqüência, incalculável demanda reprimida, não apenas para os serviços
próprios da UBS, como também para os procedimentos especializados. Implantando
o acolhimento, aqueles problemas anteriormente existentes no serviço apareceram
de forma enfática, muito mais evidentes.

Olhando um pouco sobre alguns medos relacionados ao acolhimento, vale destacar


aquele que se refere à falsa noção de que o mesmo faz com que a UBS torne-se um
grande pronto-atendimento (PA). Em Belo Horizonte, onde o acolhimento já é uma
realidade mais ampla e experimentada, o acolhimento permite, de fato, tornar a UBS
em um verdadeiro estabelecimento de saúde onde se faça saúde pública, pois uma
coisa é o uso do pronto-atendimento como um recurso a mais para abordar o
usuário, e outra coisa é reduzir a UBS a um lugar exclusivo onde só se faz PA.

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Temos visto que o acolhimento tem levado a Unidade a receber e incorporar os
grupos de riscos como uma realidade sua, à qual deve dar uma resposta individual e
coletiva e pela qual tem que se responsabilizar.

Limites do acolhimento

Após um ano de implantação do acolhimento na Unidade, permanecem três


questões que se impõem como limites à nova diretriz, sobre os quais devemos nos
debruçar para encontrar as alternativas técnicas para sua consolidação.

1) A pequena inserção dos profissionais médicos no acolhimento.

2) O agendamento de consultas médicas permanece como uma questão crítica no


serviço. A diretriz do acolhimento pressupõe agenda aberta para os casos que
necessitem.

3) Um terceiro desafio é a conciliação do trabalho da assistência dentro da Unidade


de Saúde com o trabalho externo.

Desafios para a consolidação da inversão do modelo assistencial

Podemos começar por refletir sobre os limites do acolhimento, relacionados acima.


Uma primeira questão que fica evidente é a seguinte: Por que não se conseguiu
incorporar o profissional médico a esse processo, a ponto de a sua participação
específica causar impacto na solução dos problemas de saúde da população
usuária?

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A primeira questão a ser pensada é a seguinte: o trabalho nos estabelecimentos de
saúde e, entre eles, na Unidade Básica é organizado, tradicionalmente, de forma
extremamente parcelado. Em eixo verticalizado, organiza-se o trabalho do médico e,
entre estes, de cada especialidade médica. Assim, sucessivamente, em colunas
verticais, vai se organizando o trabalho de outros profissionais. Essa divisão do
trabalho se dá, de um lado, pela consolidação nos serviços de saúde das
corporações profissionais; por outro, no caso dos médicos, pela especialização do
saber e, conseqüentemente, do trabalho em saúde.

A organização parcelar do trabalho fixa os trabalhadores em uma determinada etapa


do projeto terapêutico. A superespecialização, o trabalho fracionado, fazem com que
o profissional de saúde se aliene do próprio objeto de trabalho. Desta forma, ficam
os trabalhadores sem interação com o produto final da sua atividade laboral, mesmo
que tenham dele participado, pontualmente. Como não há interação, não haverá
compromisso com resultado do seu trabalho.

O acolhimento, ao reprocessar o trabalho na Unidade de Saúde, com base na


formação de uma equipe multiprofissional, a equipe de acolhimento, conseguiu
quebrar a verticalidade da organização do trabalho na Unidade, mexendo
radicalmente no processo de trabalho dos profissionais não-médicos. Contudo, não
foi possível romper com a lógica do trabalho médico, que se dá em torno da
agenda/consulta. Assim, enquanto os outros profissionais interagem em equipe, de
forma extremamente dinâmica, acompanhando o resultado do seu trabalho, os
médicos permanecem fechados num círculo vicioso, visualizando parcialmente a
realidade.

E como poderia ser resolvida essa questão finalmente?

Nossas reflexões a partir de então seguem em sintonia e cumplicidade com as


formulações recentes do Laboratório de Planejamento e Administração de Sistemas
de Saúde Lapa (Departamento de Medicina Preventiva e Social-Unicamp). Estes
consideram o vínculo como a diretriz que, acoplada ao acolhimento, é capaz de
garantir o real reordenamento do processo de trabalho na Unidade de Saúde,
resolvendo definitivamente a divisão de trabalho compartimentada e saindo da lógica

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agenda/consulta para uma outra da responsabilização de uma equipe
multiprofissional, com o resultado do trabalho em saúde. Isto é o que Gastão
Wagner de Sousa Campos chama de 'A Obra'. Assim, "...em relação ao trabalho
clínico, não haveria como valorizar-se 'A Obra' sem um processo de trabalho que
garantisse os maiores coeficientes de Vínculo entre profissional e paciente"
(Campos, 1997:235). Considera-se vínculo a responsabilização pelo problema de
saúde do usuário, individual e coletivo.

O atendimento em saúde seria feito por meio da adscrição da clientela a


determinada equipe da Unidade de Saúde, formada, no mínimo, pelo médico,
enfermeiro, pediatra, gineco-obstetra e auxiliares de enfermagem. Esta equipe
passaria a se responsabilizar pelas pessoas inscritas, devendo, para isto, mobilizar
todos os recursos dentro e fora da Unidade que pudessem favorecer este objetivo,
tais como exames, consultas especializadas, internação etc.

A equipe deve ter autonomia para agir, mobilizar os recursos necessários para fazer
saúde. É importante a avaliação permanente do seu trabalho, agora facilitado, na
medida em que este resultado é produto do labor de um mesmo grupo
multiprofissional, ou seja, foram as mesmas pessoas que desenvolveram todo o
processo vivido pelo usuário, individual ou coletivo, no seu processo saúde-doença.

O trabalho externo pode ser feito de duas formas. Na primeira, ele deve ser
realizado pelas equipes multiprofissionais da Unidade de Saúde, que, ao
responsabilizarem-se pela sua clientela, podem mobilizar recursos até mesmo de
visitas e internações domiciliares, ou outros recursos, que se encontram juntos à
comunidade.

A segunda forma diz respeito à vigilância à saúde. Esta deve estar combinada com o
planejamento e gestão dos serviços de saúde e em perfeita sintonia com a realidade
social, econômica, epidemiológica local, bem como com as necessidades dos
usuários da região. Este trabalho deve ser executado por uma equipe, auto-intitulada
Equipe de Saúde Pública, formada especificamente com esse objetivo, podendo
atuar vinculada a uma ou a várias unidades de uma mesma região da cidade.

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Essas diretrizes gerais fazem parte da mais recente experiência de organização de
serviços de saúde, alinhados à perspectiva de efetiva construção de um sistema de
saúde com base no acesso para todos, eqüidade, integralidade das ações, eficácia,
com atendimento de qualidade e humanizado e sob controle social.

Referências

BAREMBLIT, G., 1992. Compêndio de Análise Institucional e Outras Correntes. Rio


de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos.

CAMPOS, G. W. S., 1997. Subjetividade e administração de pessoal. In: Agir em


Saúde. Um Desafio para o Público (E. E. Merhy & R. Onocko, org.), pp. 229-266,
São Paulo: Editora Hucitec.

FRANCO, T. B., 1997. Acolhimento: Diretriz do Modelo Tecno-Assistencial em


Defesa da Vida. Trabalho apresentado à Rede de Investigação em Sistemas e
Serviços de Saúde do Cone Sul, Fundação Oswaldo Cruz. (mimeo.)

MERHY, E. E., 1997a. Em busca do tempo perdido: a micropolítica do trabalho vivo


em saúde. In: Agir em Saúde. Um Desafio para o Público (E. E. Merhy & R. Onocko,
org.), pp. 71-112, São Paulo: Editora Hucitec.

MERHY, E. E., 1997b. A rede básica como uma construção da saúde pública e seus
dilemas. In: Agir em Saúde. Um Desafio para o Público (E. E. Merhy & R. Onocko,
org.), pp. 197-228, São Paulo: Editora Hucitec.

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DA MEDICINA DO TRABALHO À SAÚDE DO TRABALHADOR

René MendesI; Elizabeth Costa DiasII


I
Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas
da UNICAMP Campinas, SP; Departamento de Medicina Preventiva e Social da
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
II
Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - Belo Horizonte, MG - Brasil

RESUMO
Ensaio de revisão sobre a evolução dos conceitos e práticas da medicina do
trabalho à saúde do trabalhador, passando pela saúde ocupacional. Busca-se
responder às seguintes questões: quais as características básicas da medicina do
trabalho (na sua origem e na sua evolução); como e por que evoluiu a medicina do
trabalho para a saúde ocupacional; por que o modelo da saúde ocupacional se

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mostrou insuficiente; em que contexto surge a saúde do trabalhador; quais as
principais características da saúde do trabalhador.
Descritores: Saúde ocupacional. Medicina ocupacional, história.

Introdução
O presente artigo constitui um ensaio de revisão sobre a evolução dos conceitos e
práticas da medicina do trabalho à saúde do trabalhador, passando pela saúde
ocupacional. O caráter de ensaio decorre da natureza preliminar deste exercício,
pois que tal caminhada encontra-se em processo, e seu estudo está limitado pela
falta do distanciamento histórico e de metodologias mais adequadas à sua
abordagem.
Como artigo de revisão, tem sua base principal em documentos disponíveis, porém
não se limita à literatura "cientifica", incipiente em estudos e trabalhos que abordem
o tema proposto. Incorpora as discussões recentes deste processo que vêm se
dando, no âmbito da academia e no conjunto da sociedade.
O presente trabalha busca responder a algumas questões básicas, tais como:
- Quais as principais características da medicina do trabalho (na sua origem e na
sua evolução)?
- Como e por que evoluiu a medicina do trabalho para a saúde ocupacional?
- Por que o modelo da saúde ocupacional se mostrou insuficiente?
- Em que contexto surge a saúde do trabalhador?
- Quais as principais características da saúde do trabalhador?
Muitas outras perguntas não menos importantes, tanto de natureza epistemológica
quanto prospectiva, poderiam ser formuladas. Contudo, no presente trabalho, a
análise se restringirá a estas.

Principais características da medicina do trabalho


A medicina do trabalho, enquanto especialidade médica, surge na Inglaterra, na
primeira metade do século XIX, com a Revolução Industrial56.
Naquele momento, o consumo da força de trabalho, resultante da submissão dos
trabalhadores a um processo acelerado e desumano de produção, exigiu uma

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intervenção, sob pena de tornar inviável a sobrevivência e reprodução do próprio
processo.
Quando Robert Dernham, proprietário de uma fábrica têxtil, preocupado com o fato
de que seus operários não dispunham de nenhum cuidado médico a não ser aquele
propiciado por instituições filantrópicas, procurou o Dr. Robert Baker, seu médico,
pedindo que indicasse qual a maneira pela qual ele, como empresário, poderia
resolver tal situação, Baker respondeu-lhe:
"Coloque no interior da sua fábrica o seu próprio médico, que servirá de
intermediário entre você, os seus trabalhadores e o público. Deixe-o visitar a fábrica,
sala por sala, sempre que existam pessoas trabalhando, de maneira que ele possa
verificar o efeito do trabalho sobre as pessoas. E se ele verificar que qualquer dos
trabalhadores está sofrendo a influência de causas que possam ser prevenidas, a
ele competirá fazer tal prevenção. Dessa forma você poderá dizer: meu médico é a
minha defesa, pois a ele dei toda a minha autoridade no que diz respeito à proteção
da saúde e das condições físicas dos meus operários; se algum deles vier a sofrer
qualquer alteração da saúde, o médico unicamente é que deve ser
responsabilizado".
A resposta do empregador foi a de contratar Baker para trabalhar na sua fábrica,
surgindo assim, em 1830, o primeiro serviço de medicina do trabalho40.
Na verdade, despontam na resposta do fundador do primeiro serviço médico de
empresa, os elementos básicos da expectativa do capital quanto às finalidades de
tais serviços:
- deveriam ser serviços dirigidos por pessoas de inteira confiança do empresário e
que se dispusessem a defendê-lo;
- deveriam ser serviços centrados na figura do médico;
- a prevenção dos danos à saúde resultantes dos riscos do trabalho deveria ser
tarefa eminentemente médica;
- a responsabilidade pela ocorrência dos problemas de saúde ficava transferida ao
médico.
A implantação de serviços baseados neste modelo rapidamente expandiu-se por
outros países, paralelamente ao processo de industrialização e, posteriormente, aos
países periféricos, com a transnacionalização da economia. A inexistência ou

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fragilidade dos sistemas de assistência à saúde, quer como expressão do seguro
social, quer diretamente providos pelo Estado, via serviços de saúde pública, fez
com que os serviços médicos de empresa passassem a exercer um papel vicariante,
consolidando, ao mesmo tempo, sua vocação enquanto instrumento de criar e
manter a dependência do trabalhador (e freqüentemente também de seus
familiares), ao lado do exercício direto do controle da força de trabalho.
A preocupação por prover serviços médicos aos trabalhadores começa a se refletir
no cenário internacional também na agenda da Organização Internacional do
Trabalho (OIT), criada em 1919. Assim, em 1953, através da Recomendação 97
sobre a "Proteção da Saúde dos Trabalhadores", a Conferência Internacional do
Trabalho instava aos Estados Membros da OIT que fomentassem a formação de
médicos do trabalho qualificados e o estudo da organização de "Serviços de
Medicina do Trabalho". Em 1954, a OIT convocou um grupo de especialistas para
estudar as diretrizes gerais da organização de "Serviços Médicos do Trabalho". Dois
anos mais tarde, o Conselho de Administração da OIT, ao inscrever o tema na
ordem-do-dia da Conferência Internacional do Trabalho de 1958, substituiu a
denominação "Serviços Médicos do Trabalho" por "Serviços de Medicina do
Trabalho".
Com efeito, em 1959, a experiência dos países industrializados transformou-se na
Recomendação 11245, sobre "Serviços de Medicina do Trabalho", aprovada pela
Conferência Internacional do Trabalho. Este primeiro instrumento normativo de
âmbito internacional passou a servir como referencial e paradigma para o
estabelecimento de diplomas legais nacionais (onde aliás, baseia-se a norma
brasileira). Aborda aspectos que incluem a sua definição, os métodos de aplicação
da Recomendação, a organização dos Serviços, suas funções, pessoal e
instalações, e meios de ação45.
Segundo a Recomendação 11245, "a expressão 'serviço de medicina do trabalho'
designa um serviço organizado nos locais de trabalho ou em suas imediações,
destinado a:
- assegurar a proteção dos trabalhadores contra todo o risco que prejudique a sua
saúde e que possa resultar de seu trabalho ou das condições em que este se efetue;

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- contribuir à adaptação física e mental dos trabalhadores, em particular pela
adequação do trabalho e pela sua colocação em lugares de trabalho
correspondentes às suas aptidões;
- contribuir ao estabelecimento e manutenção do nível mais elevado possível do
bem-estar físico e mental dos trabalhadores"45.
Desta conceituação podem ser extraídas mais algumas características da medicina
do trabalho (além das anteriormente identificadas, a propósito de sua origem), assim
como alguns questionamentos que têm a ver com suas limitações, a saber:
- A medicina do trabalho constitui fundamentalmente uma atividade médica, e o
"locus" de sua prática dá-se tipicamente nos locais de trabalho.
- Faz parte de sua razão de ser a tarefa de cuidar da "adaptação física e mental dos
trabalhadores", supostamente contribuindo na colocação destes em lugares ou
tarefas correspondentes às aptidões. A "adequação do trabalho ao trabalhador",
limitada à intervenção médica, restringe-se à seleção de candidatos a emprego e à
tentativa de adaptar os trabalhadores às suas condições de trabalho, através de
atividades educativas.
- Atribui-se à medicina do trabalho a tarefa de "contribuir ao estabelecimento e
manutenção do nivel mais elevado possível do bem-estar físico e mental dos
trabalhadores", conferindo-lhe um caráter de onipotência, próprio da concepção
positivista da prática médica.
Esta visão de onipotência da medicina fica exemplificada no discurso de Selby57, em
1939, quando ao tratar da finalidade e da organização dos serviços médicos de
empresa, afirmava:
"It is the plant physician's privilege and duty to cooperate (...) to conserve human
values..."57.
ou nas palavras de Townsend59, em 1943:
"[Occupational Medicine] is concerned with every phase of the health of the man
behind the machine, wheter it is the industrial dust in the air he breathes or the food
his wife has packed in his dinner pail. In short, it is the problem of keeping the worker
on the job, and in good health, so that he can work at the top efficiency."
Aliás, tanto a expectativa de promover a "adaptação" do trabalhador ao trabalho,
quanto a da "manutenção de sua saúde", refletem a influência do pensamento

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mecanicista na medicina científica e na fisiologia. No campo das ciências da
administração, o mecanicismo vai sustentar o desenvolvimento da "Administração
Científica do Trabalho", onde os princípios de Taylor, ampliados por Ford, encontram
na medicina do trabalho uma aliada para a perseguição do seu "telos" último: a
produtividade17.
Não é ao acaso que a Henry Ford tenha sido atribuída a declaração de que "o corpo
médico é a seção de minha fábrica que me dá mais lucro" (citada por Oliveira e
Teixeira44).
A explicação é dada por Oliveira e Teixeira44 com as seguintes palavras:
"Em primeiro lugar, a seleção de pessoal, possibilitando a escolha de uma mão-de-
obra provavelmente menos geradora de problemas futuros como o absentismo e
suas conseqüências (interrupção da produção, gastos com obrigações sociais, etc.).
Em segundo lugar, o controle deste absentismo na força de trabalho já empregada,
analisando os casos de doenças, faltas, licenças, obviamente com mais cuidado e
maior controle por parte da empresa do que quando esta função é desempenhada
por serviços médicos externos a ela, por exemplo, da Previdência Social. Outro
aspecto é a possibilidade de obter um retorno mais rápido da força de trabalho à
produção, na medida em que um serviço próprio tem a possibilidade de um
funcionamento mais eficaz nesse sentido, do que habitualmente 'morosas' e
'deficientes' redes previdenciárias e estatais, ou mesmo a prática liberal sem
articulação com a empresa."

Como e por que evoluiu a medicina do trabalho para a saúde ocupacional?


O preço pago pelos trabalhadores em permanecer nas indústrias durante os anos da
II Guerra Mundial, em condições extremamente adversas e em intensidade de
trabalho extenuante, foi - em algumas categorias - tão pesado e doloroso quanto o
da própria guerra. Sobretudo porque, terminado o conflito bélico, o gigantesco
esforço industrial do pós-guerra estava recém iniciando.
Num contexto econômico e político como o da guerra e o do pós-guerra, o custo
provocado pela perda de vidas - abruptamente por acidentes do trabalho, ou mais
insidiosamente por doenças do trabalho - começou a ser também sentido tanto pelos
empregadores (ávidos de mão-de-obra produtiva), quanto pelas companhias de

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seguro, às voltas com o pagamento de pesadas indenizações por incapacidade
provocada pelo trabalho.
A tecnologia industrial evoluira de forma acelerada, traduzida pelo desenvolvimento
de novos processos industriais, novos equipamentos, e pela síntese de novos
produtos químicos, simultaneamente ao rearranjo de uma nova divisão internacional
do trabalho.
Entre muitos outros desdobramentos deste processo, desvela-se a relativa
impotência da medicina do trabalho para intervir sobre os problemas de saúde
causados pelos processos de produção. Crescem a insatisfação e o questionamento
dos trabalhadores - ainda que apenas 'objeto' das ações - e dos empregadores,
onerados pelos custos diretos e indiretos dos agravos à saúde de seus empregados.
A resposta, racional, "científica" e aparentemente inquestionável traduz-se na
ampliação da atuação médica direcionada ao trabalhador, pela intervenção sobre o
ambiente, com o instrumental oferecido por outras disciplinas e outras profissões.
A "Saúde Ocupacional" surge, sobretudo, dentro das grandes empresas, com o traço
da multi e interdisciplinaridade, com a organização de equipes progressivamente
multi-profissionais, e a ênfase na higiene "industrial", refletindo a origem histórica
dos serviços médicos e o lugar de destaque da indústria nos países
"industrializados"...
Nada mais oportuno que citar, textualmente, esta característica inovadora da saúde
ocupacional, nas palavras de Hussey26 quando, em 1947, discutia um artigo sobre o
lugar da engenharia na saúde ocupacional:
"This whole subject of Occupational Health is analogous to a three-legged stool, one
leg representing medical science, one representing engineering and chemical
science and one representing social sciences...Up to the present we have been
trying to balance ourselves on two legs and in some instances on one leg. It is a very
uncomfortable position and one that cannot get us very far and certainly will lead, as
it has, to fatigue."
A racionalidade "científica" da atuação multiprofissional e a estratégia de intervir nos
locais de trabalho, com a finalidade de controlar os riscos ambientais, refletem a
influência das escolas de saúde pública, onde as questões de saúde e trabalho já
vinham sendo estudadas há algum tempo. Na metade deste século intensificam-se o

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ensino e a pesquisa dos problemas de saúde ocupacional nas escolas de saúde
pública - principalmente nos Estados Unidos (Harvard, Johns Hopkins, Michigan, e
Pittsburgh) - com forte matiz ambiental.
Assim, de um lado a saúde ocupacional passa a ser considerada como um ramo da
saúde ambiental (como, aliás aconteceu também na Faculdade de Saúde Pública da
Universidade de São Paulo); de outro, desenvolvem-se fortes unidades de higiene
"'industrial", através de "grants" e contratos de serviços com grandes empresas. No
estabelecimento da higiene ocupacional nestes centros acadêmicos e em
instituições governamentais de projeção, os nomes de Theodore Hatch, Phillip
Drinker, Herbert Stokinger e John Bloomfield, entre outros, passam a constituir
referência obrigatória3,56.
Contudo, o desenvolvimento da saúde ambiental/ saúde ocupacional nas escolas de
saúde pública dos Estados Unidos, centrado na higiene ocupacional, deu-se, não de
forma complementar, mas acompanhado de uma relativa desqualificação do
enfoque médico e epidemiológico da relação trabalho-saúde.
Vale lembrar que havia sido Alice Hamilton -médica pioneira nos estudos das
doenças profissionais - quem dera, de 1919 a 1935, projeção à Universidade
Harvard, ao enfocar os problemas de saúde do trabalhador sob o ângulo médico-
epidemiológico. Assim fez Anna Baetjer, que por mais de 60 anos dedicou-se aos
estudos da patologia do trabalho na Escola de Saúde Pública da Universidade Johns
Hopkins. E assim foi com muitos outros centros3,24,25,56.
No Brasil, a adoção e o desenvolvimento da saúde ocupacional deram-se
tardiamente, estendendo-se em várias direções. Reproduzem, aliás, o processo
ocorrido nos países do Primeiro Mundo.
Na vertente acadêmica, destaca-se a Faculdade de Saúde Pública da Universidade
de São Paulo, que dentro do Departamento de Saúde Ambiental, cria uma "área de
Saúde Ocupacional", e estende de forma especial sua influência como centro
irradiador do conhecimento, via cursos de especialização e, principalmente, via pós-
graduação (mestrado e doutorado). Com efeito, este modelo foi reproduzido em
outras instituições de ensino e pesquisa, em especial em nível de alguns
departamentos de medicina preventiva e social de escolas médicas.

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Nas instituições, a marca mais característica expressa-se na criação da Fundação
Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO),
versão nacional dos modelos de "Institutos" de Saúde Ocupacional desenvolvidos no
exterior, a partir da década de 50, entre eles, os de Helsinque, Estocolmo, Praga,
Budapeste, Zagreb, Madrid, o NIOSH em Cincinnati, Lima e de Santiago do Chile.
Na legislação, expressou-se na regulamentação do Capítulo V da Consolidação das
Leis do Trabalho (CLT), reformada na década de 70, principalmente nas normas
relativas à obrigatoriedade de equipes técnicas multidisciplinares nos locais de
trabalho (atual Norma Regulamentadora 4 da Portaria 3214/ 78); na avaliação
quantitativa de riscos ambientais e adoção de "limites de tolerância" (Normas
Regulamentadoras 7 e 15), entre outras. Apesar das mudanças estabelecidas na
legislação trabalhista, foram mantidas na legislação previdenciária/ acidentária as
características básicas de uma prática medicalizada, de cunho individual, e voltada
exclusivamente para os trabalhadores engajados no setor formal de trabalho.
Caberia, ao encerrar esta parte, saber porque o modelo da saúde ocupacional -
desenvolvido para atender a uma necessidade da produção - não conseguiu atingir
os objetivos propostos. Dentre os fatores que poderiam ser listados para explicar
sua insuficiência, estão:
- o modelo mantém o referencial da medicina do trabalho firmado no mecanicismo;
- não concretiza o apelo à interdisciplinaridade: as atividades apenas se justapõem
de maneira desarticulada e são dificultadas pelas lutas corporativas;
- a capacitação de recursos humanos, a produção de conhecimento e de tecnologia
de intervenção não acompanham o ritmo da transformação dos processos de
trabalho;
- o modelo, apesar de enfocar a questão no coletivo de trabalhadores, continua a
abordá-los como "objeto" das ações de saúde;
- a manutenção da saúde ocupacional no âmbito do trabalho, em detrimento do setor
saúde.

A insuficiência da saúde ocupacional e o surgimento da saúde do trabalhador.


A insuficiência do modelo da saúde ocupacional não constitui fenômeno pontual e
isolado. Antes, foi e continua sendo um processo que, embora guarde uma certa

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especificidade do campo das relações entre trabalho e saúde, tem sua origem e
desenvolvimento determinados por cenários políticos e sociais mais amplos e
complexos.
Além disto, ainda que este processo tenha traços comuns que lhe conferem uma
certa universalidade, ele ocorre em ritmo e natureza próprios, refletindo a
diversidade dos mundos políticos e sociais, e as distintas maneiras de os setores
trabalho e saúde se organizarem.
Em que cenário a insuficiência deste modelo se evidencia?
Um movimento social renovado, revigorado e redirecionado surge nos países
industrializados do mundo ocidental - notadamente Alemanha, França, Inglaterra,
Estados Unidos e Itália - mas que se espraia mundo afora. São os anos da segunda
metade da década de 60, (maio de 1968 tipifica a exteriorização deste fenômeno)
marcados pelo questionamento do sentido da vida, o valor da liberdade, o
significado do trabalho na vida, o uso do corpo, e a denúncia do obsoletismo de
valores já sem significado para a nova geração. Estes questionamentos abalaram a
confiança no Estado e puseram em xeque o lado "sagrado" e "místico" do trabalho -
cultivado no pensamento cristão e necessário na sociedade capitalista.
Este processo leva, em alguns países, à exigência da participação dos
trabalhadores nas questões de saúde e segurança. Elas, mais que quaisquer outras,
tipificavam situações concretas do cotidiano dos trabalhadores, expressas em
sofrimento, doença e morte5,53.
Como resposta ao movimento social e dos trabalhadores, novas políticas sociais
tomam a roupagem de lei, introduzindo significativas mudanças na legislação do
trabalho e, em especial, nos aspectos de saúde e segurança do trabalhador. Assim,
por exemplo, na Itália, a Lei 300, de 20 de maio de 1970 ("Norme per la libertá e la
dignitá dei lavoratori, della libertá sindicale e dell'attivitá sindicale nei luoghi di
lavoro"), mais conhecida como "Estatuto dos Trabalhadores", incorpora princípios
fundamentais da agenda do movimento de trabalhadores, tais como a não
delegação da vigilância da saúde ao Estado, a não monetização do risco, a
validação do saber dos trabalhadores e a realização de estudos e investigações
independentes, o acompanhamento da fiscalização, e o melhoramento das
condições e dos ambientes de trabalho1,4,36,46,51.

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Conquistas básicas de natureza semelhante, com algumas peculiaridades próprias
de contextos político-sociais distintos, foram também sendo alcançados pelos
trabalhadores norte-americanos (a partir da nova lei de 1970), ingleses (a partir de
1974), suecos (a partir de 1974), franceses (a partir de 1976), noruegueses (1977),
canadenses (1978), entre outros36,46,55.
Toda esta nova legislação tem como pilares comuns o reconhecimento do exercício
de direitos fundamentais dos trabalhadores, entre eles, o direito à informação (sobre
a natureza dos riscos, as medidas de controle que estão sendo adotadas pelo
empregador, os resultados de exames médicos e de avaliações ambientais, e
outros; o direito à recusa ao trabalho em condições de risco grave para a saúde ou a
vida; o direito à consulta prévia aos trabalhadores, pelos empregadores, antes de
mudanças de tecnologia, métodos, processos e formas de organização do trabalho:
e o estabelecimento de mecanismos de participação, desde a escolha de
tecnologias, até, em alguns países, a escolha dos profissionais que irão atuar nos
serviços de saúde no trabalho1,3,5,43,46,51,55
A década de 70 testemunha profundas mudanças nos processos de trabalho. Num
sentido mais "macro", observa-se uma forte tendência de "terciarização" da
economia dos países desenvolvidos, isto é, o início de declínio do setor secundário
(indústria), e o crescimento acentuado do setor terciário (serviços), com óbvia
mudança do perfil da força de trabalho empregada10,50.
Ocorre um processo de transferência de indústrias para o Terceiro Mundo, - uma
verdadeira transnacionalização da economia - principalmente daquelas que
provocam poluição ambiental ou risco para a saúde (ex.: asbesto, chumbo,
agrotóxicos, e outros), e das que requerem muita mão-de-obra, com baixa
tecnologia, como é o caso típico das "maquiladoras", que rapidamente se instalam
nas "zonas livres" ou "francas", mundo afora. Os países do Terceiro Mundo, afligidos
pela elevação dos preços do petróleo e pressionados pela recessão que se instala
universalmente, buscam o desenvolvimento econômico a qualquer custo, aceitando
e estimulando esta transferência, supostamente capaz de amenizar o desemprego e
gerar divisas8,31,37.

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Num nível mais "micro", observa-se a rápida implantação de novas tecnologias,
entre as quais podem ser destacadas duas vertentes que se completam: a
automação (máquinas de controle numérico, robots, e outros) e a informatização50,60.
Apesar de a automação e a informatização virem cercadas de uma certa aura mítica
de se constituirem na "última palavra da ciência a serviço do homem", elas
introduziram, na verdade, profundas modificações na organização do trabalho. Por
exemplo, permitiram ao capital diminuir sua dependência dos trabalhadores, ao
mesmo tempo em que aumentaram a possibilidade de controle. Ressurge, com vigor
redobrado, o taylorismo, através de dois de seus princípios básicos: o da primazia
da gerência (via apropriação do conhecimento operário e pela interferência direta
nos métodos e processos), e o da importância do planejamento e controle do
trabalho17, 60.
Contudo, se de um lado o capital busca reeditar as bases da "administração
científica do trabalho", agora mais sofisticada, de outro, abre espaço a formas de
"resistência" desenvolvidas pelos trabalhadores. Como conseqüência, são
desenvolvidas, nos países escandinavos, experiências dos "grupos semi-
autônomos", na Volvo e Saab, numa perspectiva de ampliar a participação dos
trabalhadores, diminuindo os enfrentamentos.
No campo das idéias sobre saúde, predominava, até os anos'70, a concepção
positivista de que a Medicina teria ampla autonomia e estaria no mesmo nível que
outros subsistemas - como o econômico, o político, o educacional - e a suposição de
que seria possível transformar a sociedade a partir de qualquer desses setores20.
Esta visão de mundo sustenta a teoria da multicausalidade do processo saúde-
doença, onde os fatores de risco do adoecer e morrer são considerados com o
mesmo valor ou potencial de agressão ao homem, visto este como "hospedeiro". A
prática da saúde ocupacional assenta-se sobre esta concepção.
Entretanto, a partir do final dos anos'60, começam a aparecer críticas a esta
concepção e a denúncia dos efeitos negativos da medicalização e do caráter
ideológico e reprodutor das instituições médicas, com a proposta de
desmedicalização da sociedade18,20,42.
No campo da prática médica, surgem programas alternativos de auto-cuidado de
saúde, de assistência primária, de extensão de cobertura, de revitalização da

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medicina tradicional, uso de tecnologia simplificada, e ênfase na participação
comunitária20.
Apesar da "apropriação" pelo Estado de algumas destas alternativas, surgidas da
crítica às instituições médicas, e do fracasso relativo dessas medidas, elas
revitalizam a discussão teórica sobre a articulação da saúde na sociedade20,42.
Nesse intenso processo social de discussões teóricas e de práticas alternativas,
ganha corpo a teoria da determinação social do processo saúde-doença, cuja
centralidade colocada no trabalho - enquanto organizador da vida social - contribui
para aumentar os questionamentos à medicina do trabalho e à saúde
ocupacional15,30,58.
As críticas tornam-se mais contundentes, à medida que surgem, em nível da rede
pública de serviços de saúde, programas de assistência aos trabalhadores, com
ativa participação destes, e das suas organizações. Os programas contribuem para
desvelar o impacto do trabalho sobre a saúde, questionam as práticas dos serviços
de medicina do trabalho nas empresas e instrumentalizam os trabalhadores nas
suas reivindicações por melhores condições de saúde13,15,19,32,33,41,47,58.
Neste processo de questionamento da prática médica e gestação de uma nova
prática, alguns pensadores tiveram papel de destaque. Entre eles, Polack48 com
suas idéias radicais, de que "a medicina no modo de produção capitalista é a
medicina do capital"; Berlinguer5, que trabalhou ativamente a questão da saúde do
trabalhador no movimento da Reforma Sanitária italiana; e Foucault18,20, ao dissecar
questões nevrálgicas da prática médica, desnudando o poder e o controle, tão bem
representados na medicina do trabalho.
Quais as conseqüências deste intenso processo social de mudanças sobre a
aparente hegemonia do "modelo da saúde ocupacional"?
É possível identificar, entre outras:
- Os trabalhadores explicitam sua desconfiança nos procedimentos técnicos e éticos
dos profissionais dos serviços de saúde ocupacional (segurança, higiene e medicina
do trabalho); estes têm uma enorme dificuldade em lidar com o "novo", mormente
naquilo que significou perda de poder e hegemonia5,16,39,51.
- O exercício da participação do trabalhador em questões de saúde pôs em xeque,
em muitos casos, conceitos e procedimentos amplamente consagrados pela saúde

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ocupacional, como por exemplo, o valor e a ética de exames médicos pré-
admissionais e periódicos, utilizados, segundo a denúncia dos trabalhadores, para
práticas altamente discriminatórias28.
- Desmorona o mito dos "limites de tolerância" que fundamentou a lógica da saúde
ocupacional (principalmente higiene e toxicologia) por mais de 50 anos. A
fundamentação científica é questionada (para não dizer desmoralizada); o conceito
de "exposição segura" é abalado; e os estudos de efeitos comportamentais
provocados pela exposição a baixas doses de chumbo e de solventes orgânicos,
põem em xeque os critérios de "proteção de saúde" que vigiram nos países
industrializados ocidentais até há pouco6,9,14,21,29,54.
- À medida em que a organização do trabalho amplia sua importância na relação
trabalho/saúde, requerem-se novas estratégias para a modificação de condições de
trabalho, que "atropelam" a Saúde Ocupacional (até então trabalhando na lógica
"ambiental")23.
- A utilização de novas tecnologias - em especial as que introduzem a automação e
a informatização nos processos de trabalho - embora possa contribuir para o
melhoramento das condições de trabalho. acabam introduzindo novos riscos à
saúde, quase sempre decorrentes da organização do trabalho, e portanto, de difícil
"medicalização"
- As modificações dos processos de trabalho em nível "macro" (terciarização da
economia), e "micro" (automação e informatização), acrescentados à eliminação dos
riscos nas antigas condições de trabalho, provocam um deslocamento do perfil de
morbidade causada pelo trabalho: as doenças profissionais clássicas tendem a
desaparecer, e a preocupação desloca-se para as outras "doenças relacionadas
com o trabalho" (work related diseases). Passam a ser valorizadas as doenças
cardiovasculares (hipertensão arterial e doença coronariana), os distúrbios mentais,
o estresse e o câncer, entre outras. Desloca-se, assim, a vocação da saúde
ocupacional, passando esta a se ocupar da "promoção de saúde", cuja estratégia
principal é a de, através de um processo de educação, modificar o comportamento
das pessoas e seu "estilo de vida"10,22,34,35.
- Na verdade, esta nova exigência colocada à saúde ocupacional nos países
desenvolvidos e nas grandes corporações no Terceiro Mundo, se superpõe àquelas

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existentes na imensa maioria dos estabelecimentos de trabalho (pequenos e
médios) e na economia informal, onde permanecem as condições de risco para a
saúde dos trabalhadores, com os problemas clássicos e graves, até hoje não
solucionados pelos modelos utilizados.

Características da saúde do trabalhador


Do intenso processo social de mudança, ocorrido no mundo ocidental nos últimos
vinte anos, foram mencionados, anteriormente, alguns aspectos que, no âmbito das
relações trabalho x saúde, conformaram a saúde do trabalhador.
Como característica básica desta nova prática, destaca-se a de ser um campo em
construção no espaço da saúde pública. Assim, sua descrição constitui, antes, uma
tentativa de aproximação de um objeto e de uma prática, com vistas a contribuir para
sua consolidação enquanto área19,58.
O objeto da saúde do trabalhador pode ser definido como o processo saúde e
doença dos grupos humanos, em sua relação com o trabalho. Representa um
esforço de compreensão deste processo - como e porque ocorre - e do
desenvolvimento de alternativas de intervenção que levem à transformação em
direção à apropriação pelos trabalhadores, da dimensão humana do trabalho, numa
perspectiva teleológica.
Nessa trajetória, a saúde do trabalhador rompe com a concepção hegemônica que
estabelece um vínculo causai entre a doença e um agente específico, ou a um grupo
de fatores de risco presentes no ambiente de trabalho e tenta superar o enfoque que
situa sua determinação no social, reduzido ao processo produtivo, desconsiderando
a subjetividade15,30,58.
Apesar das dificuldades teórico-metodológicas enfrentadas, a saúde do trabalhador
busca a explicação sobre o adoecer e o morrer das pessoas, dos trabalhadores em
particular, através do estudo dos processos de trabalho, de forma articulada com o
conjunto de valores, crenças e idéias, as representações sociais, e a possibilidade
de consumo de bens e serviços, na "moderna" civilização urbano-industrial15.
Nessa perspectiva, e com as limitações assinaladas, a saúde do trabalhador
considera o trabalho, enquanto organizador da vida social, como o espaço de
dominação e submissão do trabalhador pelo capital, mas, igualmente, de resistência,

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de constituição, e do fazer histórico. Nesta história os trabalhadores assumem o
papel de atores, de sujeitos capazes de pensar e de se pensarem, produzindo uma
experiência própria, no conjunto das representações da sociedade15,53.
No âmbito das relações saúde x trabalho, os trabalhadores buscam o controle sobre
as condições e os ambientes de trabalho, para torná-los mais "saudáveis". É um
processo lento, contraditório, desigual no conjunto da classe trabalhadora,
dependente de sua inserção no processo produtivo e do contexto sócio-político de
uma determinada sociedade43,53.
Assim, a saúde do trabalhador apresenta expressões diferentes segundo a época e
o país, e diferenciada dentro do próprio país, como pode ser observado na Itália, na
Escandinávia, no Canadá, ou no Brasil. Porém, apesar das diferenças, mantém os
mesmos princípios - trabalhadores buscam ser reconhecidos em seu saber,
questionam as alterações nos processos de trabalho, particularmente a adoção de
novas tecnologias, exercitam o direitto à informação e a recusa ao trabalho perigoso
ou arriscado à Saúde 1,4,5,43,46
Na implementação deste "novo" modo de lidar com as questões de saúde
relacionadas ao trabalho, os trabalhadores contam com dois apoios importantes:
uma assessoria técnica especializada e o suporte, ainda que limitado, dos serviços
públicos estatais de saúde.
No Brasil surge a assessoria sindical feita por profissionais comprometidos com a
luta dos trabalhadores, que individualmente ou através de organizações como o
Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de
Trabalho (DIESAT) e o Instituto Nacional de Saúde no Trabalho (INST), no caso do
Brasil, estudando os ambientes e condições de trabalho, levantando riscos e
constatando danos para a saúde; decodificando o saber acumulado, num processo
contínuo de socialização da informação; resgatando e sistematizando o saber
operário, vivenciando, na essência, a relação pedagógica educador-educando16,27,52.
Também pode ser constatada a contribuição ao desenvolvimento da área de saúde
do trabalhador, trazida pelos técnicos que em nível das instituições públicas - as
Universidades e Institutos de Pesquisa, a rede de Serviços de Saúde e fiscalização
do trabalho - somam esforços na luta por melhores condições de saúde e trabalho,

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através da capacitação profissional, da produção do conhecimento, da prestação de
serviços e da fiscalização das exigências legais13,19,47,58.
Como características desta "nova prática" cabe ainda mencionar o esforço que vem
sendo empreendido no campo da saúde do trabalhador para integrar as dimensões
do individual x coletivo, do biológico x social, do técnico x político, do particular x
geral. E um exercício fascinante, ao qual têm se dedicado os profissionais de saúde
e os trabalhadores, que parece apontar uma saída para a grave crise da "ciência
médica" ou das "ciências da saúde", neste final de século. Os cânones clássicos
colocados a partir de formas fragmentadas de ver e estudar o mundo, se
contribuiram para o aprofundamento do conhecimento em níveis inimagináveis,
estão a necessitar de uma nova abordagem que consiga reuní-los, articulá-los,
colocando-os a serviço dos homens.
No Brasil, a emergência da saúde do trabalhador pode ser identificada no início dos
anos'80, no contexto da transição democrática, em sintonia com o que ocorre no
mundo ocidental.
Entre suas características básicas, destacam-se:
- Ganha corpo um novo pensar sobre o processo saúde-doença, e o papel exercido
pelo trabalho na sua determinação2,15,49,58.
- Há o desvelamento circunscrito, porém inquestionável, de um adoecer e morrer
dos trabalhadores, caracterizado por verdadeiras "epidemias", tanto de doenças
profissionais clássicas (intoxicação por chumbo, mercúrio, benzeno, e a silicose),
quanto de "novas" doenças relacionadas ao trabalho, como a LER (lesões por
esforços repetitivos), por exemplo16,47,52.
- São denunciadas as políticas públicas e o sistema de saúde, incapazes de dar
respostas às necessidades de saúde da população, e dos trabalhadores, em
especial12,49.
- Surgem novas práticas sindicais em saúde, traduzidas em reivindicações de
melhores condições de trabalho, através da ampliação do debate, circulação de
informações, inclusão de, pautas específicas nas negociações coletivas, da
reformulação do trabalho das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes
(CIPAs), no bojo da emergência do novo sindicalismo16,27.

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Este processo social se desdobrou em uma série de iniciativas e se expressou nas
discussões da VIII Conferência Nacional de Saúde, na realização da I Conferência
Nacional de Saúde dos Trabalhadores, e foi decisivo para a mudança de enfoque
estabelecida na nova Constituição Federal de 1988. Mais recentemente, a
denominação "saúde do trabalhador" aparece, também, incorporada na nova Lei
Orgânica de Saúde, que estabelece sua conceituação e define as competências do
Sistema Único de Saúde neste campo7,11,12,38.
À guisa de conclusão retoma-se a idéia expressa na Introdução deste ensaio.
A caminhada da medicina do trabalho à saúde do trabalhador encontra-se em
processo. Sua história pode ser contada em diferentes versões, porém com a
certeza de que é construída por homens que buscam viver. Livres.

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Cadernos de Pesquisa
Print version ISSN 0100-1574
Cad. Pesqui. no.115 São Paulo Mar. 2002
doi: 10.1590/S0100-15742002000100005

PESQUISA QUALITATIVA: REFLEXÕES SOBRE O TRABALHO DE CAMPO

Rosália Duarte
Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

RESUMO
Este trabalho discute algumas das dificuldades mais freqüentemente enfrentadas
por pesquisadores em trabalhos de campo, no que diz respeito ao uso de

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metodologias de base qualitativa. Procura-se apresentar, no decorrer do texto,
problemas que envolvem, por exemplo, a delimitação do universo de pesquisa, a
definição de critérios para a seleção dos sujeitos a serem entrevistados, elaboração
de roteiros de entrevistas e sua realização, organização e análise de dados
qualitativos, entre outros, visando contribuir com as discussões relativas à adoção
desse tipo de metodologia no campo educacional.
PESQUISA QUALITATIVA – TRABALHO DE CAMPO – PESQUISA ETNOGRÁFICA
– METODOLOGIA DE PESQUISA

INTRODUÇÃO
Uma pesquisa é sempre, de alguma forma, um relato de longa viagem empreendida
por um sujeito cujo olhar vasculha lugares muitas vezes já visitados. Nada de
absolutamente original, portanto, mas um modo diferente de olhar e pensar
determinada realidade a partir de uma experiência e de uma apropriação do
conhecimento que são, aí sim, bastante pessoais.
Contudo, ao escrevermos nossos relatórios de pesquisa ou teses de doutorado,
muitas vezes nos esquecemos de relatar o processo que permitiu a realização do
produto. É como se o material no qual nos baseamos para elaborar nossos
argumentos já estivesse lá, em algum ponto da viagem, separado e pronto para ser
coletado e analisado; como se os "dados da realidade" se dessem a conhecer,
objetivamente, bastando apenas dispor dos instrumentos adequados para recolhê-
los.
Não parece ser assim que as coisas se passam. A definição do objeto de pesquisa
assim como a opção metodológica constituem um processo tão importante para o
pesquisador quanto o texto que ele elabora ao final. De acordo com Brandão (2000),
a tão afirmada, mas nem sempre praticada, "construção do objeto" diz respeito,
entre outras coisas, à capacidade de optar pela alternativa metodológica mais
adequada à análise daquele objeto. Se nossas conclusões somente são possíveis
em razão dos instrumentos que utilizamos e da interpretação dos resultados a que o
uso dos instrumentos permite chegar, relatar procedimentos de pesquisa, mais do

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que cumprir uma formalidade, oferece a outros a possibilidade de refazer o caminho
e, desse modo, avaliar com mais segurança as afirmações que fazemos.

REFLEXÕES SOBRE O TRABALHO DE CAMPO


De modo geral, durante a realização de uma pesquisa algumas questões são
colocadas de forma bem imediata, enquanto outras vão aparecendo no decorrer do
trabalho de campo. A necessidade de dar conta dessas questões para poder
encerrar as etapas da pesquisa freqüentemente nos leva a um trabalho de reflexão
em torno dos problemas enfrentados, erros cometidos, escolhas feitas e dificuldades
descobertas.
Este trabalho surgiu da necessidade de partilhar algumas informações e reflexões
acerca do recurso à pesquisa qualitativa que, apesar dos riscos e dificuldades que
impõe, revela-se sempre um empreendimento profundamente instigante, agradável
e desafiador.

A SELEÇÃO DE SUJEITOS EM ABORDAGENS QUALITATIVAS


De um modo geral, pesquisas de cunho qualitativo exigem a realização de
entrevistas, quase sempre longas e semi-estruturadas. Nesses casos, a definição de
critérios segundo os quais serão selecionados os sujeitos que vão compor o
universo de investigação é algo primordial, pois interfere diretamente na qualidade
das informações a partir das quais será possível construir a análise e chegar à
compreensão mais ampla do problema delineado. A descrição e delimitação da
população base, ou seja, dos sujeitos a serem entrevistados, assim como o seu grau
de representatividade no grupo social em estudo, constituem um problema a ser
imediatamente enfrentado, já que se trata do solo sobre o qual grande parte do
trabalho de campo será assentado.
A pesquisa que gerou as reflexões trazidas neste trabalho (Duarte, 2000), tinha
como objeto de estudo o processo de formação profissional de cineastas brasileiros
e, nesse caso, a escolha dos entrevistados esteve vinculada à necessidade de
compreender o referencial simbólico, os códigos e as práticas daquele universo
cultural específico, que não apresenta contornos muito bem definidos. Como saber,
por exemplo, quem de fato pertencia, naquele momento, à categoria de cineasta no

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Brasil? Se não se trata de uma profissão legalmente regulamentada, com exigências
explícitas do ponto de vista da formação escolar/acadêmica, como saber quem
poderia ser considerado diretor de cinema? A partir de que critérios passa-se a ser
considerado membro de uma categoria profissional desse tipo? Essas questões
precisaram ser respondidas antes do início do trabalho de campo.
Entre 1988 e 1990, uma equipe de pesquisadores da Universidade Paris 8, na
França, realizou uma investigação que tinha como objeto de estudo as formas de
aprendizagem e de organização de uma categoria profissional denominada Les
Réalisateurs1, que, naquele contexto, é composta por diferentes setores cujas
atividades estão relacionadas a produtos audiovisuais – cinema, televisão, vídeo,
publicidade, filmes institucionais, filmes e vídeos educativos, documentários entre
outras.
A primeira parte do relatório dessa pesquisa fala, justamente da enorme dificuldade
encontrada pela equipe de delimitar seu universo de estudo e buscar uma definição,
mesmo que provisória, para um meio profissional resistente a qualquer
categorização genérica. Os pesquisadores assinalam que desde o começo puderam
perceber que, quando se trata de um setor ou grupo social cujas delimitações são
muito fluidas, a definição da base da enquete constitui-se um problema.
Naquele caso, a solução encontrada foi a de trabalhar com três abordagens
diferentes – uma genealógica: origem social do termo "realizador"; uma empírica:
verificar, mediante a pesquisa qualitativa, como os realizadores se percebem e a
partir de que categorias organizam o discurso sobre sua atividade profissional; e
outra, bibliográfica: análise de textos profissionais, da imprensa especializada e de
documentos sindicais.
Vencida essa etapa, a equipe considerou possível traçar um esboço da categoria
profissional em questão, partindo para a elaboração de um cadastro com dados
biográficos dos sujeitos reconhecidos pelo meio como profissionais da área. Esses
dados foram obtidos por meio de cadastros de instituições ou entidades de classe e
da realização de entrevistas semi-estruturadas com representantes dessas
instituições. Com isso, organizou-se um banco de dados com referências de todos
os realizadores de audiovisual em atividade na França naquele momento. Do banco

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de dados foram selecionados os sujeitos que viriam a ser entrevistados por meio de
surveys.
A pesquisa sobre cineastas brasileiros também exigiu um mapeamento da
população em estudo e a adoção de critérios bem definidos para a seleção dos
entrevistados. Nesse caso, optou-se pelo sistema de rede2, no qual se busca um
"ego" focal que disponha de informações a respeito do segmento social em estudo e
que possa "mapear" o campo de investigação, "decodificar" suas regras, indicar
pessoas com as quais se relaciona naquele meio e sugerir formas adequadas de
abordagem. De um modo geral, as pessoas indicadas pelo "ego" sugerem que se
procurem outras ou fazem referência a sujeitos importantes no setor e assim se vai,
sucessivamente, amealhando novos "informantes". Essa é uma alternativa muito
utilizada em pesquisas qualitativas e se tem mostrado produtiva. Alguém do meio, a
partir do próprio ponto de vista, tem, relativamente, melhores condições de fornecer
informações sobre esse meio do que alguém que observa, inicialmente de fora.
No meu caso, uma longa entrevista com um professor de cinema da Universidade
Federal Fluminense ajudou a esboçar um mapa do grupo profissional em estudo e
iniciar uma rede que viria permitir a incorporação progressiva de novos sujeitos à
pesquisa. Vale dizer que esse professor veio a participar ainda de etapas posteriores
da pesquisa, orientando eventualmente a seleção de entrevistados ou mesmo
contribuindo para a análise da adequação de hipóteses ad hoc formuladas ao longo
da investigação.
Contatos posteriores com o sindicato da categoria permitiriam a obtenção de
informações mais precisas acerca de suas formas e instâncias de organização e de
reconhecimento oficial. O sindicato dispunha, na ocasião, de um anuário
relativamente atualizado, no qual constavam nomes e endereços de técnicos da
indústria cinematográfica que exercem suas atividades nas regiões Norte, Nordeste,
Sudeste e Centro-Oeste, incluídas, aí, algumas centenas de pessoas oficialmente
registradas como diretores de cinema.
Um dicionário de cineastas brasileiros, que também é uma forma de legitimação
(Miranda, 1990) tornou-se, igualmente, fonte de consulta, pois trazia dados
biográficos e filmográficos, incluindo participações em festivais e premiações de
diretores de cinema socialmente reconhecidos, dados esses que viriam a ajudar na

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preparação das entrevistas. Desse modo, associando informações advindas de
diferentes fontes, foi possível organizar um pequeno banco de dados, relativamente
detalhado, que passou a funcionar como base para a construção da população da
pesquisa.

DELIMITAÇÃO DO UNIVERSO DE SUJEITOS A SEREM ENTREVISTADOS


Numa metodologia de base qualitativa o número de sujeitos que virão a compor o
quadro das entrevistas dificilmente pode ser determinado a priori – tudo depende da
qualidade das informações obtidas em cada depoimento, assim como da
profundidade e do grau de recorrência e divergência destas informações. Enquanto
estiverem aparecendo "dados" originais ou pistas que possam indicar novas
perspectivas à investigação em curso as entrevistas precisam continuar sendo
feitas.
À medida que se colhem os depoimentos, vão sendo levantadas e organizadas as
informações relativas ao objeto da investigação e, dependendo do volume e da
qualidade delas, o material de análise torna-se cada vez mais consistente e denso.
Quando já é possível identificar padrões simbólicos, práticas, sistemas
classificatórios, categorias de análise da realidade e visões de mundo do universo
em questão, e as recorrências atingem o que se convencionou chamar de "ponto de
saturação", dá-se por finalizado o trabalho de campo, sabendo que se pode (e deve)
voltar para esclarecimentos.
No que diz respeito ao número de pessoas entrevistadas, o procedimento que se
tem mostrado mais adequado é o de ir realizando entrevistas (a prática tem indicado
um mínimo de 20, mas isso varia em razão do objeto e do universo de investigação),
até que o material obtido permita uma análise mais ou menos densa das relações
estabelecidas naquele meio e a compreensão de "significados, sistemas simbólicos
e de classificação, códigos, práticas, valores, atitudes, idéias e sentimentos"
(Dauster, 1999, p. 2). Eventualmente é necessário um retorno ao campo para
esclarecer dúvidas, recolher documentos ou coletar novas informações sobre
acontecimentos e circunstâncias relevantes que foram pouco explorados nas
entrevistas.

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Na pesquisa a que se refere este texto, o trabalho de campo foi interrompido quando
se avaliou que com o material obtido seria possível: 1) identificar padrões simbólicos
e práticas empregadas no universo estudado; 2) descrever e analisar diferentes
trajetórias profissionais e construir hipóteses relativas ao processo de formação e de
socialização profissional; 3) identificar valores, concepções, idéias, referenciais
simbólicos que organizam as relações no interior desse meio profissional, buscando
compreender seus códigos, o ethos3 profissional, mitos, rituais de consagração e
legitimação, diferentes visões de cinema e concepções de aprendizagem do ofício e
4) configurar algum nível de generalização no que dizia respeito a essa categoria
profissional, ao seu sistema de aprendizagem, regras de funcionamento, relação
com o trabalho, rituais de ingresso e de consagração e assim por diante.
Para Dauster (idem), esse tipo de trabalho de campo tem como objetivo
"compreender as redes de significado a partir do ponto de vista do 'outro', operando
com a lógica e não apenas com a sistematização de suas categorias" (p. 2) e não
deve ser interrompido enquanto essa lógica não puder ser, minimamente,
compreendida.

SITUAÇÃO DE CONTATO
As situações nas quais se verificam os contatos entre pesquisador e sujeitos da
pesquisa configuram-se como parte integrante do material de análise. Registrar o
modo como são estabelecidos esses contatos, a forma como o entrevistador é
recebido pelo entrevistado, o grau de disponibilidade para a concessão do
depoimento4, o local em que é concedido (casa, escritório, espaço público etc.), a
postura adotada durante a coleta do depoimento, gestos, sinais corporais e/ou
mudanças de tom de voz etc., tudo fornece elementos significativos para a
leitura/interpretação posterior daquele depoimento, bem como para a compreensão
do universo investigado.
Entrevistas realizadas em locais de trabalho, por exemplo, geralmente trazem
problemas difíceis de solucionar: situações externas freqüentemente as interrompem
(um telefonema "importante", uma decisão "urgente", a secretária, recados etc.),
fazendo com que o entrevistado perca o "fio da meada" e se veja obrigado a retomar
a narrativa de um outro ponto ou, até mesmo, a desistir de vez daquele assunto.

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Pessoas conversando e transitando por salas contíguas, telefones tocando, a
agenda aberta sobre a mesa a lembrar outros compromissos, enfim, a presença
marcante dos sinais que caracterizam ambientes designados como "de trabalho"
costumam aguçar a ansiedade com relação ao tempo de duração do depoimento,
interrompendo o livre fluxo de idéias e precipitando a interrupção do depoimento.
Em geral esse tipo de entrevista flui muito mais tranqüilamente quando realizada na
residência da pessoa entrevistada. Em ambiente doméstico, privado, parece haver
mais liberdade para expressão das idéias e menos preocupação com o tempo. Por
essa razão, essas costumam ser entrevistas mais longas e, de modo geral, mais
densas e produtivas. Vale a pena sugerir, quando da solicitação da entrevista, que o
depoimento seja colhido na residência de quem vai concedê-lo.
Outras formas de contato podem também integrar estratégias de investigação
qualitativa como conversas informais em eventos dos quais participam pessoas
ligadas ao universo investigado (desde que registradas de algum modo – de
preferência, no diário de campo) e coleta de informações adicionais, realizadas de
forma mais ou menos regular, por telefone e/ou por correio eletrônico. Nesse caso,
trata-se de um material complementar à pesquisa e, embora não se constitua foco
central da análise, participa significativamente desta.

A REALIZAÇÃO DE ENTREVISTAS
Aprender a realizar entrevistas é algo que depende fundamentalmente da
experiência no campo. Por mais que se saiba, hipoteticamente, aquilo que se está
buscando, adquirir uma postura adequada à realização de entrevistas semi-
estruturadas, encontrar a melhor maneira de formular as perguntas, ser capaz de
avaliar o grau de indução da resposta contido numa dada questão, ter algum
controle das expressões corporais (evitando o máximo possível gestos de
aprovação, rejeição, desconfiança, dúvida, entre outros), são competências que só
se constroem na reflexão suscitada pelas leituras e pelo exercício de trabalhos
dessa natureza.
Entrevista é trabalho, alerta Zaia Brandão (2000), e como tal "reclama uma atenção
permanente do pesquisador aos seus objetivos, obrigando-o a colocar-se
intensamente à escuta do que é dito, a refletir sobre a forma e conteúdo da fala do

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entrevistado" (p. 8) – além, é claro, dos tons, ritmos e expressões gestuais que
acompanham ou mesmo substituem essa fala – e isso exige tempo e esforço.
À medida que perguntas vão sendo feitas diversas vezes, para diferentes pessoas,
em circunstâncias diversas, e passamos a ouvir nossa própria voz nas gravações
realizadas é que se torna possível avaliar criticamente nosso próprio desempenho e
ir corrigindo-o gradativamente. Elaborar roteiros de entrevistas e formular perguntas
podem, inicialmente, parecer tarefas simples, mas, quando disso depende a
realização de uma pesquisa, não o é.
Em situações de coleta de depoimentos orais, posturas mais formais do tipo
"respostas diretas a perguntas idem" não costumam produzir bons resultados e,
quando acontecem, poucas vezes resistem às primeiras interrogações referentes a
experiências de caráter pessoal. Falar de gostos e interesses pessoais, da relação
com os pais, do ambiente familiar, da própria infância e juventude, dos amigos, de
experiências escolares, de um modo geral, deixa as pessoas mais livres para
expressarem idéias, valores, crenças, significações, expectativas de futuro, visões
de mundo e assim por diante. Essas situações de contato exigem atenção
redobrada por parte do pesquisador, pois ele corre o risco de ver a entrevista
escapar-lhe completamente das mãos e perder-se dos objetivos da pesquisa,
restringindo-se a divagações ou, mesmo, resvalando para uma espécie de "troca de
experiências" mútuas, que compromete bastante a qualidade do trabalho.
Livros e artigos relatando vivências com entrevistas dessa modalidade e/ou coleta
de depoimentos orais ou de histórias de vida são de grande valia, especialmente
para pesquisadores iniciantes. Esses trabalhos costumam trazer orientações básicas
sobre formas de solicitar entrevistas, posturas a serem adotadas ou evitadas nessas
circunstâncias, erros mais comuns, elaboração de roteiros etc. Existem muitos
manuais sobre o assunto e, por mais que possam parecer simplificados, são úteis na
qualificação de pesquisadores ainda não experientes no uso dessa metodologia.
O recurso a entrevistas semi-estruturadas como material empírico privilegiado na
pesquisa constitui uma opção teórico-metodológica que está no centro de vários
debates entre pesquisadores das ciências sociais. Em geral, a maior parte das
discussões trata de problemas ligados à postura adotada pelo pesquisador em
situações de contato, ao seu grau de familiaridade com o referencial teórico-

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metodológico adotado e, sobretudo, à leitura, interpretação e análise do material
recolhido (construído) no trabalho de campo.
Para Queiroz (1988), a entrevista semi-estruturada é uma técnica de coleta de
dados que supõe uma conversação continuada entre informante e pesquisador e
que deve ser dirigida por este de acordo com seus objetivos. Desse modo, da vida
do informante só interessa aquilo que vem se inserir diretamente no domínio da
pesquisa. A autora considera que, por essa razão, existe uma distinção nítida entre
narrador e pesquisador, pois ambos se envolvem na situação de entrevista movidos
por interesses diferentes.
Camargo (1984) concebe esse formato de entrevista menos como técnica de
pesquisa do que como opção metodológica, pois implica uma teoria, e enfatiza as
contribuições oferecidas nesse campo pela Antropologia e pela História. A seu ver,
essas disciplinas, mais consensuais e homogêneas que as demais, oferecem uma
experiência comum ao procedimento, bem como um legado teórico aceito, que
devem ser tomados como referência na perspectiva de acumulação de saber
científico nesse campo.
Durhan (1986) alerta para as muitas armadilhas embutidas no processo de
identificação subjetiva que se estabelece nesse tipo de coleta da dados,
especialmente quando entrevistador e entrevistado compartilham um mesmo
universo cultural. Nesses casos, adverte, corre-se sempre o risco de começar a
explicar a realidade pelas categorias "nativas", ou seja, de passar a olhar a realidade
exclusivamente pela ótica do interlocutor.
De acordo com Velho (1986), o risco existe sempre que um pesquisador lida com
indivíduos próximos, às vezes conhecidos, com os quais compartilha preocupações,
valores, gostos, concepções. No entanto, assinala que, quando se decide tomar sua
própria sociedade como objeto de pesquisa, é preciso sempre ter em mente que sua
subjetividade precisa ser "incorporada ao processo de conhecimento desencadeado"
(p. 16), o que não significa abrir mão do compromisso com a obtenção de um
conhecimento mais ou menos objetivo, mas buscar as formas mais adequadas de
lidar com o objeto de pesquisa.
Esse autor sublinha que o uso de depoimentos colhidos nesse tipo de investigação
implica a produção de um texto no qual os recortes das falas, os indivíduos

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privilegiados, os temas destacados e tantas outras formas de intervenção
expressam menos as dúvidas e opiniões dos informantes que o posicionamento do
pesquisador-autor. A preocupação teórica particular deste, referida à formação e aos
interesses próprios, estabelece o distanciamento necessário para que seu discurso
nunca se confunda com o de seus interlocutores5.
Analisando a forma como foram colhidos os depoimentos que compõem La Misère
du Monde, livro de Pierre Bourdieu sobre pessoas "miseráveis", Nonna Mayer (1995)
critica, exatamente, a ausência desse distanciamento. Segundo a autora, a maior
parte das entrevistas realizadas pela equipe dirigida por Bourdieu contradiz, de
forma sistemática, os princípios defendidos pelo próprio autor, em trabalhos
anteriores, quanto à natureza do papel do sociólogo como aquele que, dotado de um
"habitus científico", é capaz de reinserir o discurso do interlocutor no contexto social
e cultural do qual ele é produto.
Embora reconheça o papel inovador da equipe que desenvolveu esse trabalho, bem
como o valor da obra, a autora contesta a opção feita por Bourdieu de intensificar a
proximidade social e cultural entre entrevistados e entrevistadores (que teriam sido
incentivados, inclusive, a entrevistar amigos e parentes), reduzindo, portanto, o
distanciamento. Essa postura, a seu ver, permitiu uma excessiva interferência no
discurso do interlocutor, assim como inversões no papel do sociólogo que, ao se
colocar atrás da voz do entrevistado, teria ficado reduzido a um écrivain public, a
quem cabe apenas apresentar, sem traí-las, as mensagens que lhe são confiadas.
As formas de colher, transcrever e interpretar relatos orais têm sido objeto de
severas críticas por parte da sociologia, no que diz respeito à chamada "garantia de
confiabilidade". No entanto, alguns estudos vêm mostrando a viabilidade de se
estabelecerem critérios rigorosos para avaliação de confiabilidade de conclusões
que se baseiam nesse procedimento de investigação. Em 1997, a revista Sociology
publicou estudo empírico no qual pesquisadores ingleses sugerem um procedimento
a que denominam inter-rater reliability como um desses critérios.
O que eles propõem é, basicamente, que os relatos gravados e transcritos, assim
como os procedimentos utilizados para colhê-los, sejam acessíveis a diferentes
pesquisadores que não participam da pesquisa em questão, para que cada um

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possa fazer suas própria interpretação do conteúdo dos relatos colhidos e, dessa
forma, auxiliar na validação dos resultados apresentados (Armstrong et al., 1997).
Nos limites impostos a trabalhos dessa natureza, procurar seguir o modelo ora
proposto, entre outros, levando procedimentos, análises, hipóteses etc. ao
conhecimento e crítica de outros pesquisadores, em momentos distintos da
investigação, pode contribuir para a garantia de confiabilidade e legitimidade de
resultados/interpretações apresentados ao final da pesquisa. Anexar transcrições
completas de parte das entrevistas ao corpo do relatório de pesquisa, para que o
leitor possa ter acesso ao chamado "material bruto" e tirar suas conclusões, também
pode funcionar como estratégia a ser empreendida nessa mesma direção.

PROBLEMAS MAIS FREQÜENTES COM O ROTEIRO DA ENTREVISTA


De maneira geral, a realização de entrevistas nos obriga a rever o roteiro. Uma das
razões é, por exemplo, quando o entrevistador sente necessidade de explicar a
pergunta ao entrevistado, ou seja, todas as vezes em que é formulada, tal pergunta
suscita tantas dúvidas que é preciso reiterar sempre o que se quer, de fato, saber.
Nesse caso, é melhor retirá-la do roteiro, pois, quando se tenta explicar demais,
acaba-se dizendo, de um modo ou de outro, o que se espera que o outro responda.
Algumas perguntas levam a divagações intermináveis e precisam ser repensadas,
sob pena de acrescentarem ao material "bruto" uma enorme quantidade de
informações "descartáveis", que dificultarão, em muito, o processo analítico.
Há, ainda, a dificuldade de se obterem respostas condizentes com os objetivos
traçados para uma dada pergunta. Esse problema ocorreu no curso da investigação
a que este trabalho faz referência, no tocante à questão relacionada aos filmes que
teriam sido importantes na vida dos entrevistados. Formulada de maneira direta:
"que filmes foram importantes na sua vida?", a pergunta suscitava respostas
carregadas de critérios formais de julgamento de obras cinematográficas: eram
importantes os filmes designados como tal pelos cânones da crítica de cinema e/ou
da cinefilia. Desse modo, a lista de filmes "marcantes" era praticamente a mesma
em todas as entrevistas. Não que a resposta fosse artificial; era profundamente
verdadeiro que certos filmes tivessem sido, de fato, "definitivos" para a maioria
daquelas pessoas.

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No entanto, eram outros os objetivos que levaram à formulação daquela pergunta –
esperava-se não só identificar o sistema de referência-padrão daquele grupo social,
mas, principalmente, obter um material pessoal, mais subjetivo, que permitisse
levantar hipóteses acerca de como são estabelecidas as relações "amorosas"
(afetivas) entre os espectadores e seus filmes preferidos, fora dos parâmetros da
racionalidade crítica de quem domina o assunto. Tencionava-se buscar um
inventário de emoções mobilizadas por imagens fílmicas, descrevendo marcas que
esse tipo de imagem deixa na memória.
A discussão com outros pesquisadores possibilitou a identificação da natureza do
problema: era preciso tentar trazer à tona reminiscências de filmes sobre os quais
não se tinha grandes expectativas antes de vê-los, filmes que não tinham sido objeto
de crítica, de premiações ou coisas do tipo. Desejava-se resgatar lembranças de
cenas ou seqüências vistas (vividas) na sala escura, em um momento da vida em
que não havia, ainda, o crivo do conhecimento "intelectual" do cinema, estética e/ou
politicamente condicionado. E isso não seria conseguido com uma indagação direta.
Nesse ponto, a formulação de uma outra pergunta, além da que já vinha sendo feita,
possibilitou alcançar a meta traçada.
Muitos problemas podem ser identificados no roteiro das entrevistas quando elas
saem do papel (ou do computador) e ganham significado na interação
entrevistador/entrevistado. Por essa razão, este deve ser um instrumento flexível
para orientar a condução da entrevista e precisa ser periodicamente revisto para que
se possa avaliar se ainda atende os objetivos definidos para aquela investigação.

ANÁLISE DE "DADOS" QUALITATIVOS


Métodos qualitativos fornecem dados muito significativos e densos, mas, também,
muito difíceis de se analisarem. Sempre se lê isso em textos sobre metodologias de
pesquisa em ciências sociais, entretanto só se tem idéia da dimensão dessa
afirmação quando se está diante de seu próprio material de pesquisa e se sabe que
é preciso dar conta dele.
De modo geral, ao final de um trabalho de campo relativamente extenso, pode-se ter
em mãos em torno de trinta entrevistas semi-estruturadas, de uma hora e meia cada
(cuja transcrição dá, em média, vinte a vinte e cinco laudas); registros escritos de

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conversas não gravadas; eventuais mensagens trocadas por correio eletrônico;
notas de campo; materiais audiovisuais; textos e/ou reportagens sobre o tema,
publicados em jornais e revistas; notas biográficas e, ainda, dados de outras
pesquisas sobre o mesmo tema ou temas afins.
Esse material precisa ser organizado e categorizado segundo critérios relativamente
flexíveis e previamente definidos, de acordo com os objetivos da pesquisa. É um
trabalho árduo e, numa primeira etapa, mais "braçal" do que propriamente analítico.
Para ajudar na realização de tarefas que envolvem essa etapa da análise de dados
coletados/construídos em pesquisas qualitativas, dispõe-se de bons aplicativos para
microcomputadores pessoais que facilitam bastante o trabalho. Esses aplicativos
criam um ambiente digital no qual se podem gerenciar e explorar diferentes
documentos (entrevistas, notas de campo, relatórios, tabelas e gráficos importados
de programas de análise de dados quantitativos etc.), criar categorias, codificar
textos, fazer cruzamentos, uniões, interseções de códigos já criados, armazenar
idéias, lembretes e notas sobre os dados, importar e exportar dados de e para
outros programas (editores de texto ou bancos de dados), além de estabelecer
padrões de análise para a construção de hipóteses, entre outros recursos.
Esses programas podem ser utilizados na leitura/interpretação de materiais advindos
de pesquisa do tipo etnográfica (incluindo diários de campo), de estudos de caso, de
trabalhos com grupos focais, entre outras metodologias qualitativas, e possibilitam,
inclusive, a construção de teorias a partir da combinação, confrontação e teste de
materiais codificados. Entre os mais amigáveis, encontram-se o Folio Views e o
NUD*IST.
Registrado como Qualitative Solutions and Research, para Windows e Macintosh,
NUD*IST foi criado por um casal de pesquisadores (ele, analista de sistemas, ela,
pesquisadora qualitativa) e desenvolvido em Melbourne, Austrália. Trata-se de um
pacote destinado a auxiliar o usuário na análise de dados não numéricos e não
estruturados, pela disponibilização de recursos para sua codificação por meio de um
sistema de indexação de códigos e/ou pesquisas de texto (encontrar palavras,
frases e expressões).
Vencida a etapa de organização/classificação do material coletado, cabe proceder a
um mergulho analítico profundo em textos densos e complexos, de modo a produzir

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interpretações e explicações que procurem dar conta, em alguma medida, do
problema e das questões que motivaram a investigação. As muitas leituras do
material de que se dispõe, cruzando informações aparentemente desconexas,
interpretando respostas, notas e textos integrais que são codificados em "caixas
simbólicas", categorias teóricas ou "nativas" ajudam a classificar, com um certo grau
de objetividade, o que se depreende da leitura/interpretação daqueles diferentes
textos.
Assim, fragmentos de discursos, imagens, trechos de entrevistas, expressões
recorrentes e significativas, registros de práticas e de indicadores de sistemas
classificatórios constituem traços, elementos em torno dos quais construir-se-ão
hipóteses e reflexões, serão levantadas dúvidas ou reafirmadas convicções. Aqui,
como em todas as etapas de pesquisa, é preciso ter olhar e sensibilidade armados
pela teoria, operando com conceitos e constructos do referencial teórico como se
fossem um fio de Ariadne, que orienta a entrada no labirinto e a saída dele,
constituído pelos documentos gerados no trabalho de campo.
Daqui para frente trata-se de produzir "resultados" e explicações cujo grau de
abrangência e generalização depende do tipo de ponte que se possa construir entre
o microuniverso investigado e universos sociais mais amplos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo procurou-se fazer uma apresentação sistemática de formas correntes
de uso de certos procedimentos de pesquisa, sinalizando para as dificuldades e
armadilhas mais comuns nessas circunstâncias.
Vale reafirmar que a confiabilidade e legitimidade de uma pesquisa empírica
realizada nesse modelo dependem, fundamentalmente, da capacidade de o
pesquisador articular teoria e empiria em torno de um objeto, questão ou problema
de pesquisa. Isso demanda esforço, leitura e experiência e implica incorporar
referências teórico-metodológicas de tal maneira que se tornem lentes a dirigir o
olhar, ferramentas invisíveis a captar sinais, recolher indícios, descrever práticas,
atribuir sentido a gestos e palavras, entrelaçando fontes teóricas e materiais
empíricos como quem tece uma teia de diferentes matizes. Tal é, a meu ver, a
aventura da pesquisa científica.

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BENARD, Monique; DELATTE, Jeanine; VILLEGLE, Valérie. Convention d'étude

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Ministère de la Culture. Bibliotéque du CNC, Paris: brochura, 1990. [ Links ]

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VELHO, G. Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração. Rio de Janeiro:


Zahar, 1986. [ Links ]

1. Essa pesquisa não foi publicada até o presente momento em razão de


divergências surgidas entre os financiadores ao final de sua elaboração. O acesso a
cópias somente é permitido na Biblioteca do Centro Nacional de Cinematografia da
França e foi lá que obtive, do diretor geral da biblioteca, o exemplar de que
disponho. Em muitos momentos da pesquisa busquei referências nos resultados
obtidos naquela investigação, com os quais procurei estabelecer algum nível de
diálogo.
2. De acordo com Bott (1976), o conceito de rede tem sido usado com tantos fins
que se tornou difícil adotar universalmente qualquer conjunto de definições ou
mesmo alcançar o sentido para o qual demonstra maior utilidade. Portanto, adverte
o autor, é preciso esclarecer, em cada estudo empírico, de que maneira e em que
perspectiva pretende-se adotá-lo. Nessa pesquisa, o conceito de rede tem como
referência a concepção adotada por Bott: "a rede é definida como todas ou algumas
unidades sociais (indivíduos ou grupos) com as quais um indivíduo particular ou um
grupo está em contato" (p. 299). Trata-se, aqui, de uma "rede pessoal" na qual
existe um ego focal que está em contato direto ou indireto (através de seus inter-
relacionamentos) com qualquer outra pessoa situada dentro da rede (p. 300-302).
3. Entendido como aspectos morais, estéticos e valorativos de uma cultura
determinada.

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4. Vale lembrar que, em se tratando de entrevistas de uma hora e meia a duas horas
de duração, deve-se esperar um certo nível de ansiedade por parte do entrevistado
no que diz respeito ao tempo.
5. Tais considerações levaram-me à decisão de nunca fazer referência, em artigos
ou relatórios de pesquisa, aos nomes verdadeiros das pessoas que concedem os
depoimentos. Entendo que ao recortar e editar as falas desses sujeitos, ao produzir
diálogos fictícios entre pessoas que não se falaram, ao cruzar relatos orais e
discursos acadêmicos, produzo um texto de minha autoria e de minha inteira
responsabilidade, embora tenha como fonte as falas das pessoas entrevistadas.

"SÓ DE PENSAR EM VIR TRABALHAR, JÁ FICO DE MAU HUMOR": ATIVIDADE


DE ATENDIMENTO AO PÚBLICO E PRAZER-SOFRIMENTO NO TRABALHO1

Mário César Ferreira


Ana Magnólia Mendes
Universidade de Brasília

Resumo

O texto aborda a inter-relação entre atividade de atendimento ao público e vivências


de prazer-sofrimento no trabalho. A perspectiva de investigação é interdisciplinar, a
partir de um diálogo entre a ergonomia francófona e a psicodinâmica. Em
ergonomia, são utilizadas as noções de serviço de atendimento ao público, atividade
e carga de trabalho, enquanto que em psicodinâmica são utilizados conceitos que
fundamentam o prazer-sofrimento no trabalho. A pesquisa realizou-se em uma
instituição pública do Distrito Federal com 64 sujeitos. A metodologia articula
técnicas de coleta e análise de dados qualitativa e quantitativa, utilizando Análise

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Ergonômica do Trabalho - AET e a Escala de Prazer-Sofrimento no Trabalho -
EPST. Os resultados mostram que a atividade de trabalho constitui um dos
elementos explicativos para a predominância de vivências de sofrimento dos
atendentes. Trata-se de um estudo exploratório que avança na interface entre as
duas disciplinas, estabelecendo algumas perspectivas para novos estudos.
Palavras-chave: Ergonomia, Psicodinâmica, Atividade, Atendimento ao público,
Prazer-sofrimento.

O objetivo desse texto é abordar a inter-relação entre a atividade de trabalho e as


vivências de prazer-sofrimento dos trabalhadores em um contexto organizacional
específico de atendimento ao público, buscando identificar seu impacto no bem-
estar psíquico dos sujeitos. A partir de um estudo de caso, a abordagem da temática
é construída com base em um diálogo teórico-metodológico entre duas disciplinas: a
ergonomia francófona e a psicodinâmica do trabalho.
A relação entre essas duas disciplinas tem sido amplamente discutida. O ponto de
intersecção entre elas encontra-se na preocupação de estudar o contexto de
trabalho como um fator que influencia a saúde do trabalhador. Ambas distinguem-se
nas especificidades do seu objeto de estudo e na metodologia para apreendê-lo, o
que não invalida a tentativa de buscar relações que ampliem e complementem o
entendimento da inter-relação entre bem-estar psíquico de determinada categoria
profissional e suas atividades de trabalho.
O enfoque teórico adotado para investigar a inter-relação fundamenta-se em duas
premissas interdependentes: a atividade do sujeito em situação de trabalho é um
processo permanente de regulação que visa responder adequadamente aos
objetivos das tarefas, às múltiplas determinações do contexto de trabalho
(situacionais, físicas, materiais, instrumentais, organizacionais, sociais), e à
avaliação que o sujeito faz de seu estado interno; e o prazer-sofrimento é uma
vivência subjetiva do próprio trabalhador, compartilhada coletivamente e influenciada
pela atividade de trabalho. Nessa perspectiva analítica, todo o trabalho veicula
implicitamente um custo humano que se expressa sob a forma de carga de trabalho,

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e as vivências de prazer-sofrimento têm como um dos resultantes o confronto do
sujeito com essa carga que, por conseguinte, impacta no seu bem-estar psíquico.
A importância desse estudo prende-se, principalmente, aos seguintes aspectos: o
serviço de atendimento ao público é, ainda, um campo de investigação pouco
conhecido nas ciências humanas; a abordagem centra-se na interface da ergonomia
com a psicodinâmica, cujas pesquisas têm sido conduzidas de forma isolada; e os
resultados obtidos podem contribuir para estabelecer novas linhas de investigação e
aprimorar o instrumental teórico-metodológico utilizado. Do ponto de vista
organizacional, as recomendações formuladas com base nos resultados obtidos
podem contribuir para garantir o bem-estar dos sujeitos, a eficiência e a eficácia dos
serviços prestados.
O enfoque metodológico para a análise do recorte temático ¾ centrado na atividade
de atendimento e nas vivências de prazer-sofrimento no trabalho ¾ orientou-se
pelas seguintes questões: em que consistem as atividades de atendimento ao
público no contexto organizacional estudado ? Quais são as condições de trabalho,
disponibilizadas pela instituição, que caracterizam o serviço de atendimento e
influenciam a atividade dos sujeitos? Como os atendentes percebem o trabalho que
realizam ? Como se caracterizam suas vivências de prazer-sofrimento ?
A busca de respostas para essas questões guiou-se pela construção de um quadro
teórico específico de referência, articulando conhecimentos oriundos da ergonomia e
da psicodinâmica para entender o mesmo objeto de investigação.
Quadro teórico de referência
O contexto de serviço de atendimento ao público constitui o cenário sociotécnico do
trabalho no qual se inscreve a atividade dos sujeitos. Esse cenário é um objeto de
investigação relativamente recente em ergonomia (Falzon & Lapeyrière, 1998;
Santos, Chaves, Pavão & Bijos, 1994). O esforço de elaboração conceitual do
fenômeno atendimento ao público, buscando caracterizar esse tipo de situação de
trabalho, deu origem ao primeiro esboço teórico-metodológico que tem orientado
alguns estudos (Ferreira, Araujo & Araujo, 1998; Gonçalves & Ferreira, 1999).
Nessa abordagem, o atendimento ao público constitui, freqüentemente, um serviço
terminal que resulta da sinergia de multivariáveis: a conduta do usuário, as
atividades dos funcionários envolvidos na situação, a organização do trabalho e as

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condições físico-ambientais/instrumentais. Assim, o atendimento ao público pode ser
definido como um serviço complexo que coloca em cena diferentes interlocutores,
cuja interação social é mediada por distintas necessidades, podendo ser facilitada
ou dificultada em função das condições (físicas, materiais, instrumentais,
organizacionais) disponibilizadas pela organização. Em ergonomia, o estudo da
temática é centrado nas situações nas quais se desenrola o serviço (setting
organizacional) e emergem os indicadores críticos como, por exemplo, tempo
excessivo de espera e reclamações dos usuários (Ferreira, Carvalho & Sarmet,
1999; Freire & Ferreira, 2000).
Os disfuncionamentos existentes constituem a ponta do iceberg, buscando-se
investigar sua gênese a partir de uma perspectiva tridimensional: (a) a lógica da
instituição, identificando os fatores (processos organizacionais e suportes
disponibilizados) que caracterizam o modo de ser habitual da instituição; (b) a lógica
do atendente, analisando os fatores (perfil individual, competência profissional e
estado de saúde) que caracterizam o modo operatório usual do funcionário,
estruturadores da conduta nas situações de atendimento; (c) a lógica do usuário,
analisando os fatores (perfil socioeconômico e representação social) que
caracterizam o modo de utilização dos serviços pelos usuários e seu comportamento
nas situações de atendimento. Nessa abordagem, a atividade do sujeito é uma
categoria nuclear de análise.
Segundo os enfoques e campos de interesse, o conceito de atividade varia,
evidenciando o seu caráter nômade e polissêmico (Ferreira, no prelo; Hubault,
1995). Todavia, observa-se que a variabilidade de aspectos evocados na literatura
caracteriza-se, sobretudo, pela ênfase em aspectos que se complementam
mutuamente, oriundos de disciplinas com as quais a ergonomia vem estabelecendo
um diálogo: Psicologia, Sociologia, Filosofia (Schwartz, 1992; Teiger, 1992; Terssac,
1995). Em ergonomia, a atividade constitui uma categoria teórica central que orienta
o "olhar" dos ergonomistas no estudo do trabalho (Leplat & Hoc, 1983). A noção de
atividade não tem vocação para abstração, ao contrário, ela aparece inseparável,
lato sensu, de um corpo, de uma temporalidade e de um contexto sociotécnico.
Assim, para a ergonomia o trabalho é uma atividade mediadora entre o sujeito e um
contexto singular que se caracteriza como uma via de mão dupla: o sujeito, ao agir

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direta ou indiretamente (mediação instrumental) sobre o meio pela atividade de
trabalho, é, ao mesmo tempo, transformado por ele em função dos efeitos e
resultados de sua ação. Tal interação não se opera ao acaso, mas é guiada por
objetivos que o sujeito coloca para si em função das propriedades da situação e de
seu objeto de ação (finalismo). A estruturação dos objetivos orienta a interação com
o meio e resulta de um processo de apropriação (no sentido piagetiano do termo) e
de releitura do que foi prescrito pela organização do trabalho.
Essa interação, mediada pela atividade, é abordada em termos de estratégias de
regulação e compensação do sujeito, e resultam do acúmulo de suas experiências e
do conhecimento do seu próprio funcionamento (Weill-Fassina, 1990; Weill-Fassina,
Dubois & Rabardel, 1993). Tais estratégias se expressam por meio de modos
operatórios que o sujeito constrói (de forma mais ou menos consciente), buscando
estabelecer um compromisso (não-estável) de compatibilidade entre os objetivos da
produção, a competência que ele dispõe e a preservação de sua saúde (Laville,
1983; Wisner, 1994).
Nessa perspectiva, a produção teórica em ergonomia opera uma distinção
importante entre os conceitos de atividade e tarefa. O conceito de tarefa expressa o
trabalho prescrito que estabelece, principalmente, o que e o como do trabalho a ser
executado (Laville, Teiger & Daniellou, 1989), dando visibilidade aos "braços
invisíveis" da organização do trabalho, cuja pretensão é, em certa medida, fixar os
"trilhos da atividade".
Para a ergonomia, a discrepância existente entre a tarefa prescrita e a atividade dos
sujeitos constitui uma dimensão crucial a ser explorada, buscando-se identificar,
principalmente, o custo humano do trabalho. Tal custo é abordado em termos de
carga de trabalho (Brito, 1991; Ferreira & Marcelin, 1983; Moraes & Mont'Alvão,
1998), cujos componentes ¾ físico, cognitivo e psíquico ¾ que lhe são inerentes,
exigem do sujeito um esforço permanente de adaptação e evidenciam a função
mediadora da inter-relação trabalho-desgaste vivenciada por ele (Daniellou, 1984;
Laurell & Noriega, 1989; Leplat, 1996).
A atividade expressa uma modalidade de comportamento do sujeito que tende a ser
estruturada sob a forma de estratégias e modos operatórios para responder às
exigências físicas, cognitivas e psíquicas inerentes às tarefas e às condições de

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trabalho disponilizadas pela organização. Do ponto de vista social, o trabalho
envolve diferentes sujeitos em interação com determinada realidade, dando lugar à
produção de significações psíquicas e de (re)construção de relações sociais. Por
esta razão, as influências deste contexto podem ser multideterminadas (positivas ou
negativas), dependendo do confronto entre o sujeito e a atividade, relação essa
definidora da qualidade do bem-estar psíquico do trabalhador.
Assim, a forma como o trabalho é realizado permite a percepção da atividade como
significativa ou não, influenciando o sentido particular que ela assume para cada
sujeito, sendo a partir da construção deste sentido específico que emergem
vivências de prazer e de sofrimento.
O prazer-sofrimento no trabalho tem sido estudado pela psicodinâmica do trabalho
desde os anos 80, como um constructo dialético. Pesquisas realizadas por Mendes
(1995, 1999), Mendes e Linhares (1996) e Mendes e Abrahão (1996) indicam que o
prazer é vivenciado quando o trabalho favorece a valorização e reconhecimento,
especialmente, pela realização de uma tarefa significativa e importante para a
organização e a sociedade. O uso da criatividade e a possibilidade de expressar
uma marca pessoal também são fontes de prazer e, ainda, o orgulho e admiração
pelo que se faz, aliados ao reconhecimento da chefia e dos colegas.
As vivências de sofrimento aparecem associadas à divisão e à padronização de
tarefas com subutilização do potencial técnico e da criatividade; rigidez hierárquica,
com excesso de procedimentos burocráticos, ingerências políticas, centralização de
informações, falta de participação nas decisões e não-reconhecimento; pouca
perspectiva de crescimento profissional.
Segundo Dejours (1987, 1993, 1994), o trabalho contém vários elementos que
influenciam a formação da auto-imagem do trabalhador que, por sua vez, é razão
para o sofrimento. Tais pesquisas revelam que situações de medo e de tédio são
responsáveis pela emergência do sofrimento, que se reflete em sintomas como a
ansiedade e a insatisfação. Apontam ainda para a relação entre esses sintomas e a
incoerência entre o conteúdo da tarefa e as aspirações dos trabalhadores; a
desestruturação das relações psicoafetivas com os colegas; a despersonalização
com relação ao produto; frustrações e adormecimento intelectual. Ainda em relação

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ao sofrimento, pesquisas realizadas por Jayet (1994) resultam em categorias de
signos indicadores do sofrimento associado ao trabalho (Tabela 1).

Para Dejours (1995, 1997, 1998), o sofrimento, além de ter origem na mecanização
e robotização das tarefas, nas pressões e imposições da organização do trabalho,
na adaptação à cultura ou ideologia organizacional, representada nas pressões do
mercado, nas relações com os clientes e com o público, é também causado pela
criação das incompetências, significando que o trabalhador se sente incapaz de
fazer face às situações convencionais, inabituais ou erradas, quando acontece a
retenção da informação que destrói a cooperação.
Ainda para o autor, as novas formas de sofrimento estão associadas às atuais
formas de organização do trabalho. Os itens mais relevantes nessas mudanças são
a cooperação e a reprovação. O trabalhador tem de fazer o que não fazia antes, e
esta diferença pode implicar reprovação, que não passa pela questão moral ou
social, ou de culpa do superego, mas é uma traição ao próprio eu, um risco de
perder a identidade, a promessa que fez a si mesmo, e que não pode ser resgatada,
gerando uma "ferida" na sua cidadania.

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Dessa forma, o sofrimento é capaz de desestabilizar a identidade e a personalidade,
conduzindo a problemas mentais; mas ao mesmo tempo, é elemento para a
normalidade, quando existe um compromisso entre o sofrimento e a luta individual e
coletiva contra ele, sendo o saudável não uma adaptação, mas o enfrentamento das
imposições e pressões do trabalho que causam a desestabilidade psicológica, tendo
lugar o prazer quando esse sofrimento pode ser transformado.
A partir destas pesquisas, Mendes (1999) elaborou um conceito a partir de dados
empíricos para as vivências de prazer-sofrimento, o qual fundamenta a abordagem
da psicodinâmica neste estudo. Esse conceito é uma operacionalização do
constructo que deu origem à elaboração de uma escala submetida à análise fatorial,
resultando em três indicadores de cada uma das vivências.
Nesse estudo, o prazer é definido a partir de dois fatores: valorização e
reconhecimento no trabalho. A valorização é o sentimento de que o trabalho tem
sentido e valor em si mesmo, é importante e significativo para a organização e a
sociedade. O sentimento de reconhecimento significa ser aceito e admirado no
trabalho e ter liberdade para expressar sua individualidade. O sofrimento é definido a
partir do fator desgaste, que é a sensação de cansaço, desânimo e
descontentamento com relação ao trabalho.
Verifica-se, então, que a discrepância entre tarefa prescrita e atividade real,
enquanto desencadeadora de um custo psíquico para o trabalhador, traz
consequências para a organização do trabalho em termos da natureza da tarefa em
si e das relações socioprofissionais, fazendo com que o sujeito se coloque em
estado de esforço permanente para dar conta da realidade, muitas vezes,
incompatível com seus investimentos psicológicos e seus limites pessoais, gerando
sofrimento. Quando existe uma predominância da compatibilidade entre tarefa
prescrita e atividade real, ou uma flexibilidade na organização do trabalho que
permita a negociação ou ajustamento do sujeito às condições adversas da situação,
têm lugar vivências de prazer.
Nesse sentido, a ergonomia e a psicodinâmica do trabalho contribuem para uma
análise do contexto de trabalho à medida que envolvem aspectos concretos das
situações e aspectos simbólicos representativos dessa realidade para os indivíduos;

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isso revela a importância que a atividade assume para o sujeito, desencadeando
vivências de prazer e de sofrimento no trabalho.

Abordagem Metodológica
Contexto sociotécnico do trabalho de atendimento ao público
A instituição pesquisada vincula-se à Secretaria de Segurança Pública. Ela é de uma
entidade autárquica de administração superior, integrante do Sistema Nacional de
Trânsito, cujas finalidades principais são registro e licenciamento de veículos;
formação, habilitação e reciclagem de condutores; policiamento e fiscalização de
trânsito; aplicação de penalidades. Trata-se de uma instituição, no rol das públicas,
com maior flexibilidade para gerir sua estrutura administrativa e de pessoal em
função da autonomia que lhe é garantida juridicamente.
Para operacionalizar suas finalidades, a instituição tem como uma de suas fontes de
recursos financeiros o recolhimentos de taxas pelos serviços prestados aos
usuários. Isto constitui um fator importante para a compreensão da relação
instituição-público, pois agrega um componente - usuário mais exigente - que
influencia as interações sociais estabelecidas no contexto do serviço de
atendimento.
A instituição dispõe de uma estrutura administrativa ascendente vertical, cuja
"ossatura" está baseada na existência de diretorias, divisões, seções e núcleos. Os
dados foram coletados nas seções de Cadastro e Habilitação de Condutores,
Registro e Licenciamento de Veículos, Serviço de Controle de Infrações, Serviço de
Processamento de Dados e no guichê de Recepção e Informações, unidades
organizacionais escolhidas em função do papel estratégico no contato direto com o
público.
Apesar do funcionamento ainda precário do Núcleo de Pesquisa e Processamentos
de Dados, alguns elementos servem como indicadores do volume de serviços
prestados pela instituição, relacionados direta ou indiretamente com o público: a
frota de veículos em 1999 foi estimada em 800 mil unidades; o fluxo mensal de
público na sede é de aproximadamente 16 mil usuários; a seção de licenciamento de
veículos tem a maior demanda, com cerca de 550 usuários/dia.
Participantes

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A pesquisa realizou-se com uma amostra de 64 participantes de um total de 82
funcionários lotados no serviço de atendimento da instituição. A amostra caracteriza-
se, predominantemente, por funcionários exercendo os cargos de técnico em
informática, pesquisador de veículos e assistente de trânsito, lotados na Seção de
Licenciamento de Veículos e na Seção de Habilitação, com escolaridade de 2o grau
completo, sexo feminino, casados e com tempo de serviço entre um e cinco anos.
Instrumentos
Para investigar a atividade, realizaram-se as observações livre e sistemática e
entrevistas individuais. Para medir as vivências de prazer-sofrimento, utilizou-se a
"Escala de Prazer-sofrimento no Trabalho ¾ EPST", validada por Mendes (1996).
Procedimentos
A EPST foi aplicada individualmente em todos os funcionários do serviço de
atendimento, no total de 82, dos quais apenas 64 instrumentos foram devolvidos.
Sua utilização objetivou traçar um quadro epidemiológico da situação atual dos
funcionários em relação ao seu bem-estar psíquico. Vale ressaltar que a proposta da
escala é oferecer indicadores a partir da investigação dos fatores que compõem as
vivências de prazer-sofrimento no trabalho.
As observações livres realizaram-se em dez postos de trabalho com o objetivo de
manter os primeiros contatos com os funcionários e estabelecer uma visão
panorâmica do trabalho e das condições em que é realizado. Elas tiveram a duração
de 16 horas e foram registradas a partir de anotações escritas e uso de gravações
em fitas cassetes.
As observações sistemáticas ocorreram em seis postos de trabalho com os objetivos
de: (a) identificar e colocar em contexto os modos operatórios dos sujeitos em
função das exigências e da evolução das situações; (b) registrar e quantificar
categorias de análise em intervalos de tempo pré-definidos no curso da atividade
dos sujeitos. O tempo destinado à etapa foi de seis horas e para registrá-la contou-
se com o suporte de câmera VHS e máquina fotográfica.
As entrevistas individuais semi-estruturadas foram realizadas com 31 funcionários da
amostra pesquisada e tiveram por objetivo: (a) identificar estratégias cognitivas de
trabalho dos sujeitos; (b) validar os dados coletados, sobretudo, os oriundos da

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observação sistemática. Elas tiveram uma duração média de 40 minutos e seu
registro se deu por meio de anotações manuais.
Quanto à análise dos dados, as observações e as entrevistas foram descritas
qualitativamente com base na análise de conteúdo categorial (Bardin, 1974)
referentes à atividade de atendimento e às condições de trabalho. Analisou-se a
EPST em termos de técnicas de estatística descritiva, média, desvio-padrão e teste
"t" de diferença das médias. Os dados obtidos foram sistematizados sob a forma de
quadros, tabelas e figuras.
Os resultados de cada um dos instrumentos são integrados na discussão do
trabalho e formam um conjunto de dados que, apesar de abordados
metodologicamente de maneira distinta, fornecem subsídios para o estabelecimento
de relações, tanto do ponto de vista empírico quanto teórico, no sentido de atender
aos objetivos do estudo.

Resultados e discussão
A análise da atividade de atendimento nos setores observados possibilitou construir
um cenário explicativo da inter-relação dos sujeitos com o trabalho, identificando e
avaliando diferentes fatores que caracterizam as exigências externas e fornecem
elementos para a compreensão dos resultados obtidos nas vivências de prazer e
sofrimento no trabalho.
A atividade de atendimento ao público: um ritual quotidiano de tratamento de
informações
Globalmente, o quotidiano dos atendentes é marcado por três momentos distintos:
(a) organização e preparação do posto de trabalho para o início da jornada; (b) o
atendimento das múltiplas demandas dos usuários, durante o expediente ao público;
e (c) encaminhamento e arquivamento de documentos resultantes dessas
demandas. Logo, o atendimento ao público constitui o centro das atividades dos
funcionários e sua variabilidade é determinada pelo universo de tarefas prescritas. O
serviço transferência de veículos (Figura 1), realizado com alta freqüência no Setor
de Licenciamento de Veículos, é representativo das modalidades de procedimentos
típicos no trabalho dos atendentes.

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A análise de diferentes fluxos dos procedimentos de rotina possibilitou evidenciar um
traço característico do trabalho de atendimento ao público: é uma atividade rotineira
complexa de tratamento de informações, marcada por procedimentos
administrativos habituais, estruturados em uma lógica algorítimica do tipo "Se... (tal
situação ou evento se apresenta), então... (executa-se tal procedimento)". Como no
exemplo apresentado na Figura 1, se o usuário deseja transferir a propriedade de
seu veículo (diagnóstico), então é imperioso (tomada de decisão) verificar se ele
apresenta a documentação exigida.
Assim, o tratamento de informações é baseado predominantemente no diagnóstico
das exigências da situação, com base em critérios prescritos pela instituição, que
orienta as tomadas de decisão. A atividade de atendimento implica um conjunto de
ações rotineiras, principalmente, de solicitação, identificação, cotejamento, pesquisa,
registro, emissão, orientação e arquivamento de informações.
Condições de trabalho que influenciam as atividades dos atendentes
A análise ergonômica possibilitou levantar os principais fatores que caraterizam as
condições de trabalho dos atendentes. Globalmente, eles expressam a dimensão
material e instrumental do trabalho e funcionam como elementos estruturadores das

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estratégias operatórias dos sujeitos para responder às exigências do trabalho
prescrito. Dentre os principais aspectos críticos constatados, merecem destaque: a
sinalização interna, o layout do local de atendimento, os postos de trabalho
existentes e o sistema informatizado.
A sinalização interna do espaço da insituição é praticamente inexistente. Constatou-
se enorme perturbação visual, composta por resquícios de uma sinalização que se
expressa, principalmente, sob a forma de papéis impressos e manuscritos, placas de
papelão e dizeres em vinil colados nos vidros. Regra geral, os elementos de
sinalização encontram-se dispostos de forma inadequada, dificultando a percepção
e a orientação dos usuários. Como conseqüências principais, observam-se os
seguintes problemas:
(a) deficiência estética, pois não se utilizam criteriosamente padrões cromáticos,
tipográficos e signos lingüísticos;
(b) falta de padronização dos meios de sinalização em função da diversidade de
veículos de informação utilizados;
(c) inexistência de sinalização em locais estratégicos, caso da porta de entrada do
local de atendimento;
(d) incompatibilidade com as normas de segurança, pois não há sinalização
indicando saídas de emergência e extintores.
Em síntese, a improvisação constitui a principal característica no trato institucional
da sinalização, produzindo impactos negativos para o serviço de atendimento ao
público: contribuindo para a interrupção do trabalho, potencializando a ocorrência de
erros, retrabalho e incidentes; aumentando o nível de ruído proveniente das
conversas entre usuários, dificultando a concentração dos atendentes; e,
principalmente, aumentando o esforço dos usuários no processo de busca de
informações e orientação; assim, os recursos de sinalização visual geram incertezas
nas pessoas, obrigando-as, por exemplo, comumente a entrar na fila para obter,
muitas vezes, uma informação banal.
O layout do local de atendimento constitui outro fator crítico, pois a distribuição da
estrutura organizacional e as modalidades de utilização do espaço físico não
atendem aos aspectos sociotécnicos dos serviços e às necessidades dos sujeitos.
Dentre os principais problemas existentes, destacam-se:

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(a) distribuição espacial da estrutura organizacional inadequada às rotinas e aos
procedimentos dos serviços, dificultando a circulação de usuários e o fluxo de
funcionários;
(b) co-habitação de setores de back-office e front-office no local de atendimento,
indicando uma disposisão não-criteriosa de unidades organizacionais;
(c) localização inapropriada do guichê de recepção e informação, dificultando sua
identificação pelos usuários;
(d) espaço físico insuficiente e desconfortável para os usuários no local de espera,
obrigando-os, em muitos casos, a esperar em pé para serem atendidos;
(e) arranjamento espacial dos guichês de atendimento que não atenta à diversidade,
à variabilidade e às especificidades dos usuários (por exemplo, atendimento
diferenciado para gestantes, idosos e deficientes físicos).
Tais limites de layout do local de atendimento reduzem a qualidade dos serviços
prestados pela instituição e repercutem negativamente nas situações de
atendimento ao público, pois tendem a transformar o usuário em um "barril de
pólvora" prestes a explodir no guichê, contribuindo, dessa forma, para agravar o seu
relacionamento com os atendentes.
Os postos de trabalho, disponibilizados pela organização para o atendimento ao
público, colocam limites aos atendentes para a execução eficiente dos serviços e
uma interação eficaz com os usuários. O mobiliário utilizado, regra geral, é antigo ¾
sua aquisição data de 1982 ¾ e não acompanhou a evolução dos serviços e o
crescimento das demandas.
Os limites constatados são determinados, sobretudo, pela formatação
(arranjamento) e pelas dimensões de seus componentes (Figura 2), produzindo: (a)
a perda da qualidade estética em função do uso inadequado ou não-criterioso de
formas, cores, texturas, tipos de materiais; (b) a redução da qualidade funcional pela
evolução das necessidades de funcionários e usuários, constituindo-se em
obstáculos para a eficácia dos serviços prestados pela instituição; (c) a redução da
qualidade ergonômica diante dos limites impostos às atividades dos sujeitos,
dificultando a eficiência na execução dos serviços (manuseio, compatibilidade de
movimentos, segurança e conforto) e o bem-estar dos funcionários.

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A análise de interface do sistema informatizado, à época do estudo em fase de
reconversão, evidenciou um conjunto de limites do software do serviço de
atendimento ao público, sob duas dimensões complementares:
(a) limites intrínsecos: em algumas telas, as funções de alterações, multas, consultas
e impressões não estão agrupadas espacialmente, dificultando a memorização e
discriminação dos diferentes ícones pelos atendentes; a lógica de funcionamento do
sistema impõe ao atendente a necessidade de voltar às telas iniciais toda vez que
este precisa mudar de uma função para outra, aumentando a carga de trabalho e
potencializando a probabilidade de erros e retrabalho; algumas telas iniciais
possuem funções que são utilizadas raramente, aumentando a densidade
informacional;
(b) limites extrínsecos: a lógica de funcionamento do programa concebida para a
modificação de dados do usuário requer o refazer de etapas, levando ao retrabalho;
a lógica de navegação impõe, em muitos casos, que os funcionários cliquem até
cinco vezes consecutivas no ícone com o objetivo de retornar, passo a passo, à tela
inicial; as duas funções mais utilizadas (consulta e impressão de borderô) se
encontram em páginas diferentes do menu, exigindo que o funcionário mude sempre
de uma tela para outra, em todos os serviços realizados; algumas funções no
sistema possuem uma freqüência de utilização quase nula, com relatos de total
desinformação sobre sua utilidade; as mensagens de erro em inglês geram
dificuldades de interpretação pelos funcionários que não conhecem o idioma.

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Os resultados evidenciam a vocação tecnocêntrica no uso da informática, ou seja,
vários aspectos de seu funcionamento mostram uma concepção que não atende de
modo satisfatório à lógica de trabalho dos atendentes, gerando um conflito de
interação entre os funcionários e o sistema informatizado que impacta
negativamente na qualidade da interação com o usuário. Os conflitos de interação
na interface aumentam, sobretudo, o custo cognitivo do trabalho (exemplo,
quantidade de etapas para navegar no software), levando os atendentes a construir
estratégias para amenizar as suas conseqüências.
As múltiplas exigências da atividade de atendimento ao público: indicadores da
complexidade do trabalho
O tratamento de informações que caracteriza a natureza da atividade dos
atendentes assume uma feição singular no contexto sociotécnico estudado em
função de múltiplas exigências externas, oriundas das condições e das relações
sociais de trabalho existentes. Tais exigências são reveladoras da carga cognitiva de
trabalho singular dos atendentes, e dão visibilidade aos indicadores da
complexidade do trabalho dos funcionários no setting organizacional do atendimento
(Tabela 2).

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Do ponto de vista psicológico, tais indicadores de complexidade impõem aos
atendentes exigências cognitivas (perceptivas, mnemônicas, elaboração mental) em
um contexto de trabalho singular, cuja interação de diferentes variáveis aumenta o
esforço de tratamento das informações. Assim, a construção de habilidades
cognitivas é centrada na abstração (decodificar os sentidos das situações e planejar
as ações) com base na experiência e nas informações disponíveis no campo
perceptual.
Nesse sentido, os atendentes desenvolvem estratégias de regulação que visam
atenuar o custo humano do trabalho que se caracterizam pelas habilidades de:
diagnóstico das demandas; resoluções de problemas; gestão do tempo em função
das prioridades, da comunicação e da cooperação intra e inter-equipes.
Custo psíquico da atividade de atendimento ao público: indicadores de vivências de
prazer-sofrimento
Os resultados obtidos na Escala de Prazer-Sofrimento no Trabalho são
apresentados na Tabela 3, e indicam a média total da amostra nos três fatores do
instrumento. A diferença entre as médias nos três fatores é significativa, conforme

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resultados do teste "t" de comparação de médias entre grupos de diferentes
variáveis, tendo apresentado níveis de significância de p £ 0,05. Considerando que a
EPST é uma escala de cinco pontos, apresentando um ponto médio em três, os
resultados diferenciam-se para os fatores do prazer (ambos abaixo da média, 2,3
para valorização e 2,6 para reconhecimento) e para o fator desgaste do sofrimento
que se encontra acima do ponto médio (com média de 4,5).

Os resultados dessas análises indicam que existe um predomínio da vivência de


sofrimento no serviço de atendimento ao público na organização estudada, e o
prazer é vivenciado moderadamente pela proximidade do resultado dos fatores
valorização e reconhecimento com o ponto médio da escala, significando que ambas
existem para os trabalhadores, só que em níveis diferentes. Isso demonstra que as
situações de prazer-sofrimento não são excludentes, ainda que para este grupo de
trabalhadores predomine o sofrimento.
Os resultados em relação ao sofrimento indicam a presença do desgaste no
trabalho. Os trabalhadores que sentem desgaste estão submetidos a atividades
cansativas, desagradáveis, repetitivas, com mais sobrecarga, o que gera
frustrações, desânimo, insatisfação. Também, significa pessoas submetidas a
sistemas injustos de avaliação de desempenho, bem como a injustiças ligadas ao
exercício do poder.
A vivência moderada de valorização e reconhecimento indica que os funcionários
não estabelecem, de forma satisfatória, relações significativas com sua atividade,
colegas e chefias, implicando que o contexto oferecido não apresenta condições
necessárias para o trabalho ser fonte de prazer, predominando o sofrimento.

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Não sentir valorização no trabalho significa que o sujeito não considera seu trabalho
importante por si mesmo, para a empresa e para a sociedade, indicando assim, um
reforço negativo na auto-imagem, que está relacionada ao orgulho pela atividade
desempenhada, à realização profissional, ao sentir-se útil e produtivo, tendo espaço
mais vivências de sofrimento do que de prazer.
O fato do reconhecimento aparecer um pouco abaixo da média pode significar que
as relações socioprofissionais precisam ser melhoradas. Parecem existir problemas
em relação à boa convivência com as chefias e os colegas, bem como relacionados
ao espaço para construir um coletivo de trabalho no qual estão presentes as
margens de liberdade para ajustar suas necessidades à tarefa.
Os resultados demonstram que o sofrimento se articula às imposições das
condições externas às situações de trabalho impostas aos funcionários, expressas
nos modos de organização do trabalho em termos das características da atividade.
Isso significa que, para esse grupo, que vivencia pouco prazer, o trabalho não é
lugar de realização, de identidade, valorização e reconhecimento, sendo necessário
o desenvolvimento de determinadas condições que favoreçam a busca do prazer na
direção de manter o seu equilíbrio psíquico.
A partir desses resultados, pode-se inferir que as situações de trabalho do grupo
pesquisado são críticas e geradoras de vivências de sofrimento. Por essa razão,
deve haver uma preocupação com os aspectos medidos pelo fator desgate
(exemplos, sobrecarga, cansaço, repetitividade das tarefas, tédio e injustiças na
gestão de pessoal), para que o prazer possa ser maximizado com a implantação de
transformações que visem oportunizar a valorização e o reconhecimento no
trabalho.
De um ponto de vista dinâmico, pode-se hipotetizar que o sofrimento vivenciado está
sendo enfrentado com estratégias defensivas e criativas. As estratégias defensivas
pressupõem a negação do sofrimento e a ausência de prazer. Como existe uma
vivência moderada de prazer e o sofrimento está sendo revelado, é possível que
esses trabalhadores estejam utilizando mais estratégias criativas, as quais visam
transformar a realidade que gera o sofrimento, o que se reflete na não negação de
algum tipo de sofrimento.

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Essas hipóteses sugerem que esse grupo está submetido a modos de organização
do trabalho que favorecem mais o sofrimento do que o prazer, ou ainda, a modos
que não permitem a negociação entre sujeito e realidade de trabalho, o que oferece
espaço para o sofrimento, mesmo que possa ser enfrentado, considerando-se a
vivência moderada de prazer, que pode estar indicando o uso de estratégias
criativas.
Em relação à análise da atividade levanta-se a hipótese de que o predomínio do
sofrimento está relacionado com: a) as condições físicas, materiais e instrumentais
de trabalho (setting de atendimento) como fatores dificultadores do processo; b) a
carga de trabalho, que predominantemente é cognitiva, implicando um custo maior
tendo em vista os elementos de complexidade que levam os atendentes a construir
estratégias para garantir a eficiência e a eficácia do trabalho e assegurar o bem-
estar.
A construção dessa estratégia articula-se ao uso da criatividade para enfrentar o
sofrimento, significando assim, que apesar da predominância do sofrimento na
função de atendimento ao público, os sujeitos buscam a redução do custo psíquico
no trabalho, não convivendo com o sofrimento e, possivelmente, buscando
estratégias para desenvolver o prazer, tendo em vista ser este um dos elementos
para a sua estruturação psíquica. Isso não desconsidera as transformações que
devem ser realizadas no contexto de trabalho para minimizar ou eliminar o sofrer,
ajudando o trabalhador a restabelecer sua economia psíquica e alcançar maiores
oportunidades para o seu bem-estar e saúde.

Conclusão
Os resultados do estudo evidenciam que a inter-relação entre a atividade de
atendimento ao público e o bem-estar psíquico dos sujeitos são faces de uma
mesma moeda. Os dados empíricos, provenientes das abordagens em ergonomia e
em psicodinâmica, apontam um cenário inquietante na instituição estudada.
O enfoque da ergonomia mostra que a atividade de atendimento ao público se
caracteriza por três aspectos interdependentes: (a) a execução dos serviços é
centrada em um ritual quotidiano de tratamento rotineiro de informações, exigindo
dos atendentes um trabalho mental intenso (identificação da demanda do usuário,

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busca, registro e transmissão de informações); (b) as condições ambientais,
materiais e instrumentais de trabalho, disponibilizadas pela instituição no setting de
atendimento, constituem variáveis limitadoras que dificultam as atividades dos
sujeitos e reduzem a sua margem de manobra para que possam gerir as exigências
do serviço; (c) a multiplicidade e a interação dos fatores de complexidade,
constatados no trabalho, aumentam, sobretudo, as exigências cognitivas e psíquicas
da atividade de atendimento, agregando dificuldades aos atendentes para a
construção de suas estratégias de regulação.
O enfoque da psicodinâmica do trabalho mostra que a predominância das vivências
de sofrimento estão associadas tanto às condições nas quais as atividades são
realizadas, quanto às relações socioprofissionais. Esse resultado indica um alerta no
sentido de serem desenvolvidas mudanças organizacionais para redução ou
minimização dos fatores que causam cansaço, desânimo e descontentamento com o
trabalho. Vale ressaltar, ainda, que a vivência moderada de prazer pode indicar um
ponto positivo para a neutralização do sofrimento, sendo necessário para isso
identificar os fatores geradores de prazer.
A escala de prazer-sofrimento teve papel epidemiológico. Permitiu uma descrição da
situação geral do setor sob o ponto de vista da maioria dos seus membros. São
importantes no sentido de mostrar a direção em que o fenômeno acontece no setor
estudado, naquele momento e contexto organizacional, tendo sido de grande valia
seus resultados para subsidiar e corroborar os dados provenientes das entrevistas e
das observações.
O uso da escala justifica-se no nosso interesse de ter uma descrição da situação
dos trabalhadores em dado momento. É saudável para o campo de investigação
científica nas organizações e trabalho o uso de técnicas mistas de coleta de dados.
Consideramos que do ponto de vista epistemológico, o fato de se usarem escalas de
atitude para medir conceitos ditos subjetivos - até porque qualquer fenômeno
estudado a partir da percepção é por si só subjetivo - não significa necessariamente
uma visão positivista do conhecimento. O que define o aspecto epistemológico é a
construção do conhecimento a partir do dado empírico e não o dado em si. Nesse
sentido, o uso de escalas para medir o prazer-sofrimento fornece indicadores para
se ter acesso a uma situação que extrapola o dado, que se configura num conjunto

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de relações, na maioria das vezes dialética, que permite a interpretação e o avanço
do conhecimento ao confrontar dados quantitativos e qualitativos, não sendo
negligenciados para isso, os pressupostos da psicodinâmica do trabalho, e
possibilitando o diálogo com outras disciplinas, no caso a ergonomia.
O exame da inter-relação da ergonomia e da psicodinâmica nesse estudo
possibilitou estabelecer um diálogo enriquecedor entre as duas disciplinas,
permitindo identificar, ao mesmo tempo, as contribuições e os limites da abordagem
interdisciplinar no estudo da temática.
Os dados da análise ergonômica mostram o contexto sociotécnico e a interação das
principais variáveis que marcam as atividades dos sujeitos no serviço de
atendimento ao público, em particular, os elementos críticos das situações que
aumentam a carga de trabalho dos atendentes e dificultam a estruturação de suas
estratégias de regulação. Nesse sentido, os dados constróem um cenário
característico para o setor pesquisado no qual se inscrevem os resultados das
vivências de prazer-sofrimento, obtidos pela abordagem da psicodinâmica. Tal
cenário apresenta, sobretudo, elementos empíricos das situações de atendimento
para se compreender a predominância das vivências de sofrimento entre os sujeitos,
conforme constatado com a aplicação da EPST.
Todavia, essa investigação interdisciplinar exploratória não autoriza construir um
quadro explicativo mais conclusivo, em termos de se estabelecer uma correlação
inequívoca entre o trabalho real e as vivências de sofrimento constatadas.
Globalmente, os dados da ergonomia agregam sentido aos resultados da
psicodinâmica, tornam mais compreensíveis os achados da EPST, mas não
permitem afirmações categóricas sobre a inter-relação atividade de atendimento e
sofrimento no trabalho. Pontualmente, um dos limites do estudo é a carência de
dados específicos e mais aprofundados relativos à interação social com os usuários,
que possibilitariam mapear melhor essa importante dimensão da carga psíquica de
trabalho.
Os resultados abrem novas perspectivas para intensificar o diálogo interdisciplinar,
esboçado no presente estudo. Ele possibilitou, principalmente, propor novas
questões: (a) Qual é a importância das situações críticas de trabalho, que conduzem
às "falências" de estratégias de regulação, na gênese das vivências de sofrimento

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psíquico dos sujeitos? (b) Como construir um design metodológico que incorpore de
forma interativa os pressupostos teóricos das duas disciplinas no processo de
investigação? Fica, portanto, o desafio de futuras investigações empíricas sob as
diferentes perspectivas teóricas, de forma a avançar no entendimento tanto dos
processos de adoecimento, quanto do desenvolvimento da saúde no contexto de
trabalho.

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Nota
1
Este artigo tem origem em um projeto de intervenção intitulado "Bem-estar dos
funcionários e satisfação dos usuários no serviço de atendimento ao público:
diagnóstico e recomendações", desenvolvido pelo Laboratório de Ergonomia da
Universidade de Brasília - UnB.

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Mário César Ferreira, doutor em Ergonomia pela Ecole Pratique des Hautes Etudes
(EPHE), Paris, França, bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, é Professor
do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília.
Ana Magnólia Mendes, doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília, DF,
bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, é Professora do Departamento de
Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília.
Endereço para correspondência: Universidade de Brasília (UnB), Dep. de Psicologia
Social e do Trabalho, Instituto de Psicologia, Asa Norte, Campus Darci Ribeiro,
70.910 ¾ 900, Brasília, DF. Tel.: (61) 307.26 25, ramal 224; Fax: (61) 347.77 46. E-

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A PRODUÇÃO CIENTÍFICA SOBRE OS ACIDENTES DE TRABALHO COM
MATERIAL PERFUROCORTANTE ENTRE TRABALHADORES DE
ENFERMAGEM

Maria Helena Palucci Marziale1


Christiane Mariani Rodrigues2

A investigação ora apresentada teve por objetivos identificar as abordagens


metodológicas das pesquisas publicadas em periódicos indexados nas bases de
dados Lilacs e Medline, nos últimos 16 anos, referentes, ao estudo dos acidentes de
trabalho com material perfurocortante e a identificação dos fatores predisponentes à
ocorrência de tais acidentes entre trabalhadores da enfermagem. Foram analisados
55 artigos, sendo 39 internacionais, e 16 nacionais. As abordagens metodológicas
mais utilizadas foram descritiva de campo, pesquisa-ação e bibliográfica. Dentre os
fatores predisponentes a ocorrência dos acidentes em vários países, destaca-se a
prática inadequada de re-encape de agulhas e o inadequado descarte do material.
DESCRITORES: acidentes de trabalho, trabalhadores, enfermagem

INTRODUÇÃO
Os trabalhadores de enfermagem, durante a assistência ao paciente, estão expostos
a inúmeros riscos ocupacionais causados por fatores químicos, físicos, mecânicos,
biológicos, ergonômicos e psicossociais, que podem ocasionar doenças
ocupacionais e acidentes de trabalho.
O contingente de trabalhadores de enfermagem, particularmente o que está inserido
no contexto hospitalar, permanece 24 horas junto ao paciente, em sua grande
maioria executa o "cuidar" dentro da perspectiva do "fazer" e, conseqüente, expõe-
se a vários riscos, podendo adquirir doenças ocupacionais e do trabalho, além de
lesões em decorrência dos acidentes de trabalho(1).

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Os riscos químicos referem-se ao manuseio de gases e vapores anestésicos,
antissépticos e esterelizantes, drogas citostáticas, entre outros. A exposição aos
riscos químicos está relacionada com a área de atuação do trabalhador, com o tipo
de produto químico e tempo de contato, além da concentração do produto. Isso pode
ocasionar sensibilização alérgica, aumento da atividade mutagênica e até
esterilidade(2).
Os riscos do ambiente de trabalho são classificados em real (de responsabilidade do
empregador), suposto (quando se supõe que o trabalhador conhece as causas que
o favorecem) e residual (de responsabilidade do trabalhador).
Os riscos físicos referem-se à temperatura ambiental (elevada nas áreas de
esterelização e baixa em centro cirúrgico), radiação ionizante, ruídos e iluminação
em níveis inadequados e exposição do trabalhador a incêndios e choques
elétricos(3).
Dentre os riscos psicossociais, está a sobrecarga advinda do contato com o
sofrimento de pacientes, com a dor e a morte, o trabalho noturno, rodízios de turno,
ritmo de trabalho, realização de tarefas múltiplas, fragmentadas e repetitivas, o que
pode levar à depressão, insônia, suicídio, tabagismo, consumo de álcool e drogas e
fadiga mental(4).
Dentre os riscos mecânicos, estão as lesões causadas pela manipulação de objetos
cortantes e penetrantes e as quedas(5).
O freqüente levantamento de peso para movimentação e transporte de pacientes e
equipamentos, a postura inadequada e flexões de coluna vertebral em atividades de
organização e assistência podem causar problemas à saúde do trabalhador, tais
como fraturas, lombalgias e varizes. Tais fatores causais estão relacionados a
agentes ergonômicos(3,5). Os fatores ergonômicos são aqueles que incidem na
adaptação entre o trabalho-trabalhador. São eles o desenho dos equipamentos, do
posto de trabalho, a maneira como a atividade laboral é executada, a comunicação e
o meio ambiente.
Quanto aos riscos biológicos, eles se referem ao contato do trabalhador com
microorganismos (principalmente vírus e bactérias) ou material infectocontagiante,
os quais podem causar doenças como: tuberculose, hepatite, rubéola, herpes,
escabiose e AIDS(2).

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O contato com microorganismos patológicos oriundo de acidentes ocasionados pela
manipulação de material perfurocortante, ocorre, com grande freqüência, na
execução do trabalho de enfermagem. A exposição ocupacional por material
biológico é entendida(6) como a possibilidade de contato com sangue e fluidos
orgânicos no ambiente de trabalho, e as formas de exposição incluem inoculação
percutânea, por intermédio de agulhas ou objetos cortantes, e o contato direto com
pele e/ou mucosas.
O maior risco para os trabalhadores da área da saúde é o acidente com material
perfurocortante, que expõe os profissionais a microorganismos patogênicos, sendo a
hepatite B a doença de maior incidência entre esses trabalhadores(7).
Com o surgimento da AIDS, maior ênfase passou a ser dada à exposição desses
trabalhadores ao sangue. A prevenção ocupacional do HIV tornou-se um grande
desafio aos profissionais de Controle de Infecção Hospitalar e Saúde Ocupacional,
depois de uma enfermeira ter desenvolvido AIDS, em conseqüência de picada
acidental com uma agulha que continha sangue de um paciente infectado pelo HIV,
internado em um hospital da Inglaterra(8). O Centers for Disease Control ¾ CDC,
preocupado com a questão da transmissão de HIV e outros patógenos veiculados
pelo sangue, organiza um sistema informatizado de coleta de informações (EPINet),
a partir do qual propõe estratégias para minimizar o problema dos profissionais
expostos ao risco ocupacional de contaminação(9).
Segundo dados do CDC, a estimativa anual de acidentes percutâneos com
trabalhadores da saúde nos hospitais é de 384.325 casos, e o risco de
contaminação com o vírus HIV (AIDS) é de 0,3%, vírus HBV (Hepatite B) é de 6% a
30%, e o risco de contaminação é de 0,5% a 2% para o HCV (Hepatite C)(9).
Segundo a referida instituição, as conseqüências da exposição ocupacional aos
patógenos veiculados pelo sangue não são só os referentes às infecções, mas
também os relativos ao trauma psicológico ocasionado pela espera do resultado de
uma possível soroconversão e mudanças nas práticas sexuais, no relacionamento
social e familiar, efeito das drogas profiláticas, entre outros.
Em estudo realizado no Brasil, com trabalhadores da saúde, visando à identificação
do risco ocupacional de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana(10), foi

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constatado que 88,8% dos acidentes de trabalho notificados acometeram o pessoal
da enfermagem.
Dentre os fatores predisponentes a ocorrência de acidentes de trabalho dessa
natureza, está a freqüente manipulação de agulhas pelos trabalhadores de
enfermagem(11).
A Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, por meio do programa de
DST/AIDS(12) recomenda que os acidentes que envolvam exposição à material
biológico sejam analisados quanto ao material biológico envolvido, ao tipo de
acidente e à situação sorológica do paciente fonte em relação ao HIV. Se for
indicado quimioprofilaxia, ela deverá ser iniciada nas primeiras 2 horas após o
acidente, tendo duração de 4 semanas ou até que se tenha o resultado da sorologia
do paciente fonte.
Embora considerável progresso tenha sido observado sobre o entendimento do risco
ocupacional e HIV(13), os trabalhadores da saúde e, principalmente, os da
enfermagem têm se mostrado resistentes à utilização de equipamentos de proteção
individual, à subestimação do risco de se infectar e à notificação do acidente de
trabalho.
O acidente de trabalho em nosso país deve ser comunicado imediatamente após
sua ocorrência, por meio da emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho
(CAT), que deve ser encaminhada à Previdência Social, ao acidentado, ao sindicato
da categoria correspondente, ao hospital, ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao
Ministério do Trabalho(14).
Apesar de, legalmente, ser obrigatória a emissão da CAT, observa-se, na prática, a
subnotificação dos acidentes de trabalho. O sistema de informação utilizado
apresenta falhas devido à concepção fragmentada das relações de saúde e
trabalho, marcada por uma divisão e alienação das tarefas dos profissionais
responsáveis pelo registro da CAT, os quais privilegiam o cumprimento de normas
burocráticas, mas não o envolvimento profissional com a questão acidentária(15).
As causas da subnotificação de acidentes de trabalho(16), na visão de trabalhadores
de enfermagem de uma cidade do interior paulista, foram atribuídas à falta de
importância dada às pequenas lesões, tal como picada de agulha, e o
desconhecimento sobre a importância da emissão da CAT.

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Diante da freqüente ocorrência de acidentes do trabalho ocasionados por material
perfurocortante, observada em nossa atuação profissional, e por acreditarmos que o
trabalhador de enfermagem deva se preocupar com a implementação de práticas
que lhe ofereçam condições seguras para o desempenho de suas atividades
laborais, propusemos-nos realizar a pesquisa ora apresentada cujos resultados
contribuirão para divulgação do conhecimento produzido sobre a referida temática.

OBJETIVOS
- Identificar as abordagens metodológicas dos estudos que se relacionam com a
questão dos acidentes do trabalho com material perfurocortante;
- Levantar os fatores predisponentes aos acidentes do trabalho, ocasionados por
material perfurocortante, na equipe de enfermagem, descritos na literatura.

MATERIAL E MÉTODO
Foi realizado um levantamento bibliográfico retrospectivo, dos últimos 16 anos
(2000-1985), por meio dos bancos de dados Lilacs (Literatura Latino Americana e do
Caribe em Ciências da Saúde), Medline (National Library of Medicine), utilizando os
unitermos "accidents occupational", "needlestick injuries", "nursing staff", "sharps",
"percutaneous injuries", acidentes do trabalho, perfurocortante, trabalho de
enfermagem, risco ocupacional, metodologia de pesquisa.
Os artigos foram catalogados e analisados buscando-se uma síntese dos fatores
predisponentes aos acidentes do trabalho com material perfurocortante e as
abordagens metodológicas utilizadas.
Foi utilizado, para coleta de dados, um protocolo contendo informações sobre o
periódico, tipo de metodologia usada (descritiva de campo, descritiva bibliográfica,
pesquisa ação, exploratória, experimental, reflexão teórica e relato de experiência) e
os fatores predisponentes à ocorrência dos acidentes. O referido instrumento foi
submetido à apreciação de três enfermeiros pesquisadores, quanto à clareza,
objetividade e conteúdo, sendo considerado adequado para o objeto estudado.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

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Foram analisados 55 artigos, sendo 39 internacionais e 16 nacionais. As pesquisas
analisadas foram publicadas nos seguintes periódicos internacionais: "Pediatric
Nursing", "Infection Control", "AAOHN Journal", "Arch Surgery", "American Journal of
Preventive Medicine", "Rev. Investigação Clinica", "AJIC", "American Journal of
Public Health", "AORN Journal", "AIDS Care" e "The New England Journal of
Medicine" e periódicos nacionais: Rev. Escola Enfermagem USP, Rev. Brasileira
Enfermagem, Rev. Enfermagem UERJ, Rev. Brasileira de Saúde Ocupacional, Rev.
Saúde Pública.
Através da Tabela 1, pode-se observar o número de publicações nacionais e
internacionais, segundo o ano de publicação.

O aumento no número de publicações, no início da década de 90, pode estar


relacionado às descobertas da transmissão dos vírus HIV e HBV, no contato com
sangue, via acidente perfurocortante.
Em três dos artigos (5,50%), foi utilizada a análise qualitativa dos dados, cujo
objetivo era compreender as causas dos acidentes perfurocortantes. Nos outros 52
(94,50%), foi utilizada a análise quantitativa para tratamento dos dados.
Os dados relativos às abordagens metodológicas utilizadas nas pesquisas
analisadas são apresentados na Tabela 2.

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Foi observado que as metodologias mais freqüentemente empregadas nas
pesquisas foram a descritiva de campo (40,00%), descritiva bibliográfica (14,50%),
pesquisa-ação (16,40%), exploratória (14,50%).
A pesquisa descritiva baseia-se na descrição de fenômenos relativos à profissão,
baseados em observação, descrição e classificação dos fenômenos observados. É
uma modalidade de pesquisa muito utilizada na enfermagem. Ela se subdivide em
pesquisa de campo, que busca a descrição dos fenômenos em cenários naturais,
examinando profundamente as práticas, comportamentos e atitudes das pessoas ou
grupos em ação na vida real; e pesquisa bibliográfica, que é uma modalidade da
pesquisa descritiva, sendo feita leitura, seleção e registro de tópicos de interesse
para pesquisa(17).
Pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social, com base empírica, que é concebida e
realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um
problema coletivo, sendo que os pesquisadores e os participantes representativos
da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou
participativo(17).
A pesquisa exploratória inicia-se por algum fenômeno de interesse e, além de
observar e registrar a incidência do fenômeno, busca explorar as dimensões deste, a
maneira pela qual ele se manifesta e os outros fatores com os quais ele se
relaciona(17).
Na pesquisa experimental, o pesquisador manipula a variável independente. Ele
possui o controle sobre a variável independente, ou, conscientemente, manipula

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essa variável, observando, posteriormente, seu efeito sobre a variável dependente
que lhe interessa(17).
Relato de experiência consiste em analisar e compreender variáveis importantes ao
desenvolvimento do cuidado dispensado ao indivíduo ou a seus problemas, sendo o
pesquisador um observador passivo ou ativo, e relatar, de forma clara e objetiva,
suas observações(17).
Em relação aos fatores predisponentes à ocorrência de acidente de trabalho com
material perfurocortante, foi constatada por meio das pesquisas analisadas, que a
categoria profissional mais acometida por esse tipo de infortúnio é a dos auxiliares
de enfermagem, que são profissionais que estão em contato direto com o paciente,
na maior parte do tempo, administrando medicamentos, realizando curativos e
outros procedimentos que os mantêm em constante contato com material perfurante
e cortante.
Pode-se abstrair, da análise dos resultados deste estudo, quanto à ocorrência de
acidentes de trabalho e os dados apresentados em outros estudos(7,11,18-19), que a
ocorrência desse tipo de acidentes não está relacionada apenas ao nível de
formação, mas também ao treinamento, capacitação, recursos materiais disponíveis
e cultura local.
A análise dos artigos permitiu a identificação de que o principal fator associado a
ocorrência do acidente percutâneo é o reencape de agulhas, o qual infringe as
precauções-padrão, antigamente denominadas universais, e que os auxiliares e
técnicos de enfermagem são os que mais comumente realizam esse procedimento
inadequado.
As informações descritas nas pesquisas apontam que os enfermeiros atribuem,
como causas dos acidentes, a sobrecarga de trabalho e negligência médica, e os
atendentes de enfermagem os relacionam à fatalidade.
Em relação aos fatores predisponentes aos acidentes com material perfurocortante,
por meio da Figura 1, são apresentados os fatores mais incidentes.

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A orientação para somente reencapar as agulhas usando-se um anteparo ou pinça,
conforme consta das precauções padrão, não tem demonstrado ser eficaz na
prevenção de acidentes, e o seu uso pode reduzir, mas não eliminar, o risco de
exposição ocupacional(19). A disponibilidade das caixas coletoras, utilizadas para
descarte de material, pode ser considerada inadequada, na maioria dos casos.
Recomenda-se que deve haver caixas para descarte disponíveis para pronta
substituição e que deve ser evitado o seu enchimento excessivo, sendo que a tarefa
de substituição deve ser realizada por funcionários treinados dos serviços gerais, e
não pelo pessoal da enfermagem.
Os fatores predisponentes à ocorrência de acidentes com material perfurocortante
identificados por meio das pesquisas estão apresentados na Tabela 3.

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Por meio dos dados descritos na Tabela 3 pode-se perceber que uma série de
fatores podem estar associados à ocorrência de acidentes de trabalho, dentre os
quais existe relação com a peculiaridade das atividades laborais da enfermagem, da
manipulação de materiais de design que não oferecem segurança, da forma de
organização do trabalho, do comportamento dos próprios profissionais e das
condições de trabalho oferecidas.
Os dados da literatura analisada indicam que a falta de sensibilização e
conscientização, a inadequada supervisão contínua e sistemática da prática, a não
percepção individual sobre o risco e a falta de educação continuada são fatores
associados à ocorrência de acidentes de trabalho com material perfurocortante.

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CONCLUSÕES
Os resultados obtidos através desta pesquisa permitem as seguintes conclusões:
Durante o período de 1985 a 2000, foram encontrados 55 artigos indexados cuja
temática abordava a questão dos acidentes de trabalho com material
perfurocortante. Na grande maioria das pesquisas, foi utilizada a análise quantitativa
dos dados, e as abordagens metodológicas para estudar o objeto foram variadas,
havendo predominância do tipo de pesquisa descritiva (54,50%). Alguns autores
(16,40%) utilizaram a pesquisa-ação, (14,50%) a pesquisa exploratória, (9,10%)
pesquisa experimental, (1,80%) o relato de experiência e (1,80%) a reflexão teórica.
Em relação aos fatores predisponentes, pode-se concluir que o reencape de
agulhas, a inadequação dos dispositivos utilizados para descarte e o manuseio de
agulhas foram os principais fatores identificados nas pesquisas analisadas. Uma
série de outros fatores, no entanto, são atribuídos pelos autores como
predisponentes à ocorrência de acidentes de trabalho dessa natureza tais como:
situações de urgência, a falta de capacitação dos profissionais, sobrecarga de
trabalho, fadiga, transporte de material perfurocortante, má qualidade dos materiais,
desconhecimento dos profissionais sobre os riscos de infecção e desconsideração
das precauções padrão recomendadas, desatenção.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Verificou-se que o interesse em relação aos acidentes do trabalho com material
perfurocortante vem aumentando, principalmente após a década de 90, devido aos
danos causados à saúde dos trabalhadores e às instituições e o aumento no número
de casos de AIDS.
Sabe-se que os maiores riscos dos acidentes perfurocortantes não são as lesões,
mas os agentes biológicos veiculados pelo sangue e secreções corporais,
principalmente o HIV e HBV, que estão presentes nos objetos causadores.
No Brasil, a escassez de dados sistematizados sobre esses acidentes não nos
permite conhecer a magnitude global do problema, dificultando, assim, a avaliação
das medidas preventivas utilizadas atualmente.
A análise dos resultados sugere que todas as categorias de profissionais de
enfermagem estão sujeitas a acidentes com material perfurocortante, o que faz

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necessária a realização de estudos aprofundados que detectem as causas mais
comuns e as conseqüências para os profissionais, para possibilitar a elaboração de
programas de educação, treinamento dos profissionais, supervisão contínua e
sistemática e modificações nas rotinas de trabalho, tornando um hábito a prática das
precauções de segurança.
Além da utilização das precauções padrão como medida preventiva, encontram-se
disponíveis, no mercado, dispositivos considerados seguros, como os sistemas sem
agulhas, os de agulhas retráteis e os sistemas protetores de agulhas.
Apesar de a literatura americana demonstrar o impacto positivo desses dispositivos
na redução do número de acidentes perfurocortantes, a maioria das instituições de
saúde no Brasil não tem perspectivas de implantá-los a curto prazo, devido a seu
elevado custo.
É importante que se elabore e implemente um programa de educação continuada
que aborde a questão dos acidentes e exposição a material biológico, esclarecendo
os trabalhadores de enfermagem sobre a importância da notificação, busca de
atendimento médico nas 2 horas que seguem o acidente, sensibilizá-los sobre a
eficácia da vacina para prevenção da hepatite B, esclarecer sobre a utilização de
EPI e precauções padrão.
O sucesso de qualquer programa educativo está diretamente ligado à participação e
reconhecimento por parte dos trabalhadores e apoio da instituição.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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TRABALHO: a categoria-chave da sociologia?

Claus Offe

As tradições clássicas da Sociologia burguesa e da Sociologia marxista


compartilham a visão de que o trabalho constitui o fato sociológico fundamental;
constroem a sociedade moderna e sua dinâmica central como uma "sociedade do
trabalho" (Dahrendorf, 1980; Guggenberger, 1982). Certamente, todas as
sociedades são compelidas a entrar em um "metabolismo com a natureza", através
do "trabalho", e a organizar e estabilizar este metabolismo de forma tal que seu
produto garanta a sobrevivência física de seus membros.
Por conseguinte, pode-se desprezar o conceito de uma "sociedade do trabalho",
como uma trivialidade sociológica, na medida em que o conceito se refere a uma
"eterna necessidade natural da vida social" (Marx). Antes disto, entretanto, é
importante explicitar o papel específico representado pelo trabalho, pela divisão do
trabalho, pelas classes trabalhadoras, pelas regras de trabalho, pela organização do
trabalho e seu conceito correspondente de racionalidade na Sociologia clássica.
A finalidade da teoria sociológica pode ser resumida, em geral, como o exame dos
princípios que moldam a estrutura da sociedade, programam sua integração ou seus
conflitos e regulam seu desenvolvimento objetivo, sua auto-imagem e seu futuro.
Se considerarmos as respostas fornecidas entre o final do século XVIII e o final da I
Guerra Mundial às questões relativas aos princípios organizativos da dinâmica das

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estruturas sociais, certamente chegaremos à conclusão de que ao trabalho foi
atribuída uma posição-chave na teoria sociológica.
O modelo de uma sociedade burguesa gananciosa, preocupada com o trabalho,
movida por sua racionalidade e abalada pelos conflitos trabalhistas constitui - não
obstante suas diferentes abordagens metodológicas e conclusões teóricas - o ponto
focal das contribuições teóricas de Marx, Weber e Durkheim. Hoje, a questão central
é: ainda podemos preservar esta preocupação "materialista" dos clássicos da
Sociologia?
Antes de examinar criticamente este problema, gostaria de mencionar brevemente
três pontos que levaram cientistas sociais e teóricos políticos clássicos a considerar
o trabalho como a pedra-de-toque da teoria social.

1. A extraordinária experiência sociológica do século XIX consolidou o


estabelecimento e rápido crescimento quantitativo do trabalho em sua forma pura,
isto é, o trabalho separado de outras atividades e esferas sociais (1).
Este processo de diferenciação e purificação tomou possível, pela primeira vez na
história, "personificar" o trabalho na categoria social do "trabalhador". Isto significa a
separação entre a esfera doméstica e a esfera da produção, a divisão entre
propriedade privada e trabalho assalariado, assim como a neutralização gradual das
obrigações normativas em que o trabalho tinha sido anteriormente encerrado.
Trabalho "livre", desvinculado dos laços feudais, regulado pelo mercado e não mais
orientado imediatamente para o uso concreto, mas dirigido pela "tortura da fome"
(Max Weber), da coação estrutural para ganhar a vida é, por assim dizer, a matéria-
prima das construções teóricas dos clássicos da Sociologia.

2. A antiga hierarquia entre atividades "nobres" e "vulgares", entre aquelas


meramente úteis ou necessárias e as significativamente auto-expressivas (uma
hierarquia cristalizada na maioria dos idiomas europeus, em pares conceituais como
ponos/ergon, labor/opus, labour/work, Mühe/Werk) (Conze, 1972; Arendt, 1958), foi
promovida, e depois rebaixada, na maré da vitória da Reforma religiosa, do
desenvolvimento da teoria da Economia Política e da revolução burguesa. Já na
utopia saint-simoniana de uma sociedade diligente e industrial, não somente a

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riqueza deveria ser aumentada, mas sobretudo a dominação das classes
improdutivas deveria ser abolida e, desse modo, a sociedade seria ao mesmo tempo
pacificada.
A esfera do ganho mediado pelo mercado foi teologicamente sancionada e
contemplada com um status ético (como afirmou Weber), ou ganhou o status
imperativo de "Moisés e os profetas" (Marx), através da "compulsão à acumulação",
estimulada pelo próprio modo de produção capitalista. Apenas Durkheim tentou
provar que a contrapressão deste processo conduz à emergência de uma
solidariedade orgânica, a uma sociedade burguesa ordenada em termos
corporativos, na qual a divisão de trabalho funcionava como uma nova fonte de
solidariedade social (orgânica) e integração social. (2)
A proletarização da força de trabalho e a degradação moral da ganância, induzidas
pela utilização industrial desta força de trabalho, conduzem à dominação da
racionalidade intencional, e seus dois componentes são mais claramente
distinguíveis em Marx que em Weber. Estes componentes incluem a racionalidade
técnica da busca de objetivos na interação entre humanidade e natureza, e a busca
calculada e economicamente racional de objetivos, realizada pela interação de
atores econômicos (analisada por Weber através do exemplo da contabilidade
racional).
Em Marx há uma óbvia razão teórico-estratégica para contrastar estes elementos
por meio da distinção conceitual entre os processos de "produção" e de
"valorização". Esta distinção permite a construção de um cenário evolutivo, no qual
cada processo é incompatível com o outro; a racionalidade econômica das unidades
concorrentes de capital transforma-se em uma "peia" para as forças produtivas
"técnicas". Este antagonismo dissolve-se na luta por uma formação social na qual
prevalece a racionalidade técnica (mas não mais a racionalidade econômica) do
capital.
Para o marxismo clássico, sistemas e relações sociais, políticas e culturais são
produtos (não obstante a disposição teórica para levar em consideração os "efeitos
recíprocos") e, em última instância, apêndices dependentes da produção material e
suas duas faces - os processos de "produção" e de "valorização".

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Marx e Weber concordam que a racionalidade estratégica da contabilidade do
capital e a separação do trabalho em relação às unidades domésticas imediatas, aos
critérios de valor de uso, ao ritmo da fome e da satisfação, constituem a principal
força-motriz subjacente à racionalização formal das sociedades capitalistas. Os
processos imediatos de trabalho e produção são organizados e regulados de acordo
com os ditames desta racionalidade, cujos funcionários são o staff burocrático do
capital.
Separado das famílias e das formas tradicionais de associação, e privado de
proteção política, o trabalho assalariado foi vinculado à organização e à divisão
capitalista do trabalho, assim como aos processos de pauperização, alienação,
racionalização e a formas organizadas e desorganizadas de resistência (econômica,
política, e cultural) intrínseca a estes processos.
Todas essas questões transformaram-se, conseqüentemente, no pivô em torno do
qual giram a pesquisa e a formação teórica das ciências sociais, e do qual
emanaram todas as subseqüentes preocupações teóricas com política social,
sistemas familiares e morais, urbanização e religião. E é precisamente este
abrangente poder de determinação do fato social do trabalho (assalariado), e suas
contradições, que hoje se tornou sociologicamente questionável.

O declínio do modelo de pesquisa social “centrado no trabalho”


Esta tese pode ser confirmada por uma rápida olhada nas preocupações temáticas,
nos pressupostos mais ou menos tácitos e nas opiniões relevantes que governam a
ciência social contemporânea. Deste ponto de vista, encontra-se ampla evidência
para a conclusão de que o trabalho - e a posição dos trabalhadores no processo de
produção - não é tratado como o mais importante princípio organizador das
estruturas sociais, de que a dinâmica do desenvolvimento social não é concebida
como nascendo dos conflitos a respeito de quem controla o empreendimento
industrial; e de que a otimização das relações entre meios e fins técnico-
organizacionais ou econômicos não é considerada a forma de racionalidade que
prenuncia um desenvolvimento social posterior.
Para ilustrar esta conclusão negativa, serão fornecidos alguns indicadores
preliminares. Enquanto estudos sociológicos sobre a indústria e o trabalho,

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elaborados na Alemanha Ocidental na década de 50, ainda enfatizavam a situação
industrial dos trabalhadores, na esperança de que isto pudesse indicar o futuro
desenvolvimento da organização do trabalho e da orientação sócio-política dos
trabalhadores, em inúmeros estudos contemporâneos essa situação aparece mais
como uma variável dependente da "humanização" do trabalho, iniciada pelo Estado,
e das políticas sociais e trabalhistas. Desde o início (e de forma inteiramente
plausível), a esfera do trabalho é tratada como "externamente constituída", enquanto
a Sociologia Industrial é confinada na maioria das vezes a um ramo especial da
pesquisa aplicada sobre políticas (3).
Pesquisas sociológicas sobre a vida cotidiana também representam uma ruptura
com a idéia de que a esfera do trabalho tem um poder relativamente privilegiado
para determinar a consciência e a ação social. Muitas vezes a abordagem oposta é
que é adotada, e por meio dela as experiências e os conflitos engendrados pelo
trabalho são encarados como uma conseqüência de interpretações obtidas fora do
trabalho (Mahnkopf, 1982).
A limitação do paradigma "centrado no trabalho" é também enfatizada por análises
sociológicas de comportamento eleitoral e da atividade política em geral. Estas
conduzem, por exemplo, à conclusão de que variáveis de status sócio-econômico
são indicadores menos adequados de comportamento eleitoral do que, digamos,
confissão religiosa. Da mesma forma, os conflitos e ideologias nacionais e
internacionais do Segundo e do Terceiro Mundo parecem escapar cada vez mais às
categorias da "teoria da modernização", como produção, crescimento, racionalidade
econômica e técnico-intencional, escassez e distribuição.
Também nas sociedades capitalistas industriais do Ocidente os conflitos sociais e
políticos predominantes freqüentemente atravessam o conflito distributivo entre
trabalho e capital, enfatizado pelo conceito de trabalho social. Além disso, a
pesquisa orientada para políticas em sociedades capitalistas industriais parece estar
preponderantemente voltada para estruturas sociais e esferas de atividade que se
situam nas margens, ou completamente fora, do domínio do trabalho - como família,
papéis sexuais, saúde, comportamento "desviante", interação entre a administração
pública e sua clientela etc. É interessante notar o declínio das tentativas de
compreender a realidade social através das categorias de trabalho assalalariado e

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de escassez, dentro da tradição do materialismo histórico, onde predominam agora
esforços para rever e complementar modelos de realidade social "centrados no
trabalho" (4).
Estudos tradicionais sobre estratificação e mobilidade, que procuram compreender o
parâmetro estrutural "crucial" da realidade social através de variáveis como status
ocupacional e prestígio (inclusive status educacional e níveis de consumo baseados
na renda), também tiveram que sofrer uma revisão, no sentido de uma atenção
maior a variáveis como sexo, idade, status familiar, saúde, identidade étnica, direitos
coletivos e reivindicações legais.
Diante destas observações sobre o estado atual da pesquisa sociológica, talvez não
seja muito arriscado sustentar que a defesa rígida (analítica e político-normativa) de
modelos sociais e critérios de racionalidade centrados no trabalho e na renda
constitui hoje um tema preferencial de cientistas sociais conservadores, enquanto
aqueles atrelados à tradição do materialismo histórico ou da teoria crítica tendem a
rejeitar, hoje, estes modelos e categorias ainda mais decididamente do que o
fizeram os trabalhos teóricos e empíricos clássicos da escola de Frankfurt, em favor
de um "mundo-da-vida cotidiana" a ser defendido contra abusos econômicos e/ou
políticos.
De outro lado, estas impressões e observações sugerem ainda a necessidade de se
considerar a objeção de que os temas e as preferências conceituais da ciência
social, em qualquer conjuntura particular, não precisam necessariamente nos contar
algo confiável sobre mudanças na própria vida social.
Estas opiniões podem simplesmente refletir as confusões de uma Sociologia que
fracassa ou desiste prematuramente, quando confrontada com a tarefa sociológica
clássica de localizar o ponto de origem da estrutura e da dinâmica da sociedade no
trabalho, na produção, nas relações de propriedade e no cálculo econômico racional.
Sendo este o caso, seria necessário uma teoria sociológica da transformação de seu
objeto - e não apenas a classificação empírica de temas e perspectivas que se
alteram - que assim poderia fornecer uma explicação mais sólida a respeito da
reorientação dos interesses de pesquisa, ao longo das linhas discutidas acima.
Por sua vez, isto estimularia as seguintes indagações: há indicações de um declínio
no poder objetivo de determinação do trabalho, da produção e do consumo sobre as

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condições e o desenvolvimento social como um todo? A sociedade está
objetivamente menos moldada pelo fato do trabalho? A esfera da produção e do
trabalho está perdendo sua capacidade de determinar a estrutura e o
desenvolvimento da sociedade mais ampla? Pode-se afirmar que, não obstante o
fato de uma esmagadora parcela da população depender de salário, o trabalho se
tornou menos central para os indivíduos e para a coletividade? Pode-se portanto
falar de uma "implosão" da categoria trabalho? A próxima seção irá concentrar-se
em três pontos que poderiam justificar uma resposta positiva a todas estas
questões.

Subdivisões na esfera do trabalho


O primeiro conjunto de dúvidas com relação à centralidade do trabalho emerge
assim que se leva seriamente em conta sua vasta heterogeneidade empírica. O fato
de uma pessoa "trabalhar", no sentido formal de estar "empregada", tem sido
aplicado a um segmento sempre crescente da população. Não obstante, este fato
tem cada vez menor relevância para o conteúdo da atividade social, a percepção de
interesses, o estilo de vida etc. Descobrir que alguém é um "empregado" é muito
pouco surpreendente e não muito informativo, uma vez que a expansão relativa do
trabalho assalariado coincide com sua diferenciação interna. Esta não pode mais ser
adequadamente compreendida pelo conceito tradicional da "divisão de trabalho",
pois também abrange a distinção entre aqueles que estão submetidos à divisão de
trabalho e aqueles que não estão, ou estão em escala muito menor.
Apesar desta diferenciação e da diversidade da realidade social, a suposição de sua
unidade e coerência internas é normalmente adotada por referência a cinco
argumentos sociológicos: (a) o critério comum da dependência da força de trabalho
em relação ao salário; (b) a subordinação desta força de trabalho ao controle
organizado da administração; (c) o persistente risco de interrupções na capacidade
dos trabalhadores de ganhar dinheiro, em virtude de fatores subjetivos (doença,
acidentes) ou objetivos, como mudanças técnicas e econômicas; (d) a
homogeneização indireta do trabalho, que resulta da presença e do monopólio da
representação exercidos por grandes sindicatos (Heinze, 1980); (e) o orgulho
coletivo dos produtores, uma consciência que expressa reflexivamente a teoria do

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valor-trabalho (nas palavras da Crítica ao programa de Gotha) como "a fonte de toda
a riqueza e de toda a cultura".

Se, e até que ponto, estes atributos supostamente homogeneizantes podem ser
preservados contra a diversificação objetiva do trabalho social, é uma pergunta que
permanece sem resposta. Todavia, isto parece mais duvidoso quanto mais as
situações particulares de trabalho são marcadas por uma ampla variação em termos
de renda, qualificações, manutenção do emprego, reconhecimento e visibilidade
sociais, fadiga, oportunidades de carreira, possibilidades e autonomia de
comunicação.
Sintomas de crescente heterogeneidade despertam dúvidas sobre se o trabalho
assalariado ainda pode, nesta qualidade, ter uma significação precisa e partilhada,
para toda a população que trabalha e seus interesses e atitudes sociais e políticos.
Estes sintomas abrem a possibilidade de o trabalho se ter tornado "abstrato”, num
certo sentido, de modo a ser considerado apenas uma categoria estatística
descritiva, e não uma categoria analítica para se explicar estruturas, conflitos e
ações sociais.
Qualquer que seja o caso, fica claro que os processos muldimensionais de
diferenciação, que têm sido convincentemente demonstrados em inúmeros estudos
da segmentação do mercado de trabalho, da polarização das qualificações dos
trabalhadores e das transformações econômicas, organizacionais e técnicas das
condições de trabalho, tornam o fato de ser um "empregado" menos significativo, e
não mais um ponto de partida para associações culturais, organizacionais e políticas
ou para identidades coletivas.
Nas fases iniciais do desenvolvimento capitalista industrial, é claro que a formação
de uma identidade coletiva baseada no trabalho como fonte de toda a riqueza, nada
tinha de óbvia. Pode ser que a contribuição involuntária do capital à solidariedade, a
saber, a maciça concentração de uma força de trabalho, homogeneizada e
padronizada na forma organizacional da produção industrial em larga escala (tal
como analisado por Marx), tenha ajudado a unir os trabalhadores, tanto objetiva
como subjetivamente.

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Não obstante, as condições do mercado de trabalho e, portanto, a mobilidade
vertical e horizontal do trabalho sempre confrontaram os trabalhadores, no âmbito
dos interesses, com o "triângulo mágico" - as metas sempre parcialmente
incompatíveis de salários crescentes, manutenção dos níveis de emprego e
melhores condições de trabalho - e com o dilema, situado no nível dos meios, entre
a busca individual ou coletiva de interesses, entre a "luta no interior do sistema de
salários" e a "luta contra o sistema de salários".
A contínua diferenciação interna do conjunto dos trabalhadores assalariados, assim
como a erosão das fundações políticas e culturais de uma identidade coletiva
centrada no trabalho, ampliaram estes dilemas das formas contemporâneas do
trabalho assalariado a tal ponto, que o fato social do trabalho assalariado, ou a
dependência em relação ao salário, não constitui mais o foco da identidade coletiva
e da divisão social e política. Com relação a seus conteúdos objetivos e subjetivos
de experiência, muitas atividades remuneradas pelo salário têm pouca coisa em
comum além da palavra "trabalho".
Pode-se ficar tentado a criticar esta conclusão como prematura e subjetiva, e objetar
que é a lógica essencialmente idêntica da valorização do capital que, ao mesmo
tempo, domina as formas de trabalho e fomenta sua variação crescente.
A capacidade de persuasão destas objeções parece-me limitada. Pois as inúmeras
fraturas no trabalho assalariado supostamente unificado e "formalizado" (assim
como seu impacto sobre indivíduos, organizações e ação política) são tão evidentes
que não podem ser teoricamente banalizadas.
Durante os anos 70, quatro dentre estas fraturas ocuparam o centro das atenções
da sociologia da indústria, do trabalho, da estratificação e da teoria de classes. A
primeira é a distinção entre mercado de trabalho primário e secundário, assim como
entre mercado de trabalho interno e externo. Segundo, ficou claro que, numa larga e
crescente medida, a produção de bens e serviços ocorre fora do modelo institucional
do trabalho assalariado formal e contratual, isto é, em áreas onde os trabalhadores
não são "empregados", mas membros de famílias e unidades domésticas, de
instituições compulsórias como exércitos e prisões, ou de uma economia
subterrânea, semilegal ou criminosa.

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Terceiro, sociólogos marxistas, especialmente, concentram-se na cisão vertical no
interior das fileiras dos trabalhadores assalariados e no crescimento de posições de
classe intermediárias ou "heterogêneas" (E. O. Wright), em que a dependência em
relação ao salário coincide com a participação na autoridade formal. Finalmente,
sociólogos do trabalho enfatizaram as diferenças entre formas de trabalho
"produtivas" e "de serviços".
Este último ponto, sobre o qual me concentrarei, tornou-se a base das explicações
macrossociológicas da emergente "sociedade de serviços pós-industrial" (Bell).
Enquanto se pode subordinar a maior parte do trabalho exercido no setor
"secundário" (isto é, a produção de bens industrializados) a um denominador comum
abstrato - o da produtividade técnico-organizacional e da lucratividade econômica -,
estes critérios perdem sua clareza (relativa) quando o trabalho se torna "reflexivo",
como acontece na maior parte do setor "terciário" (de serviços).
Nas sociedades capitalistas industriais, o contínuo e rápido aumento na proporção
de trabalho social empregado na produção de serviços indica que problemas de
escassez e de eficiência, que determinam a racionalidade na produção dos bens
industrializados, são suplementados com problemas de ordem e normalização, que
não podem ser adequadamente tratados através da supremacia técnica e
econômica da escassez, mas que requerem uma racionalidade específica do
trabalho em serviços.
Um aspecto essencial de todo o trabalho "reflexivo" em serviços é que ele processa
e mantém o próprio trabalho; (5) no âmbito do setor de serviços a produção é
conceitual e organizacionalmente fundamentada. Tanto em empresas privadas como
em públicas, atividades como ensino, saúde, planejamento, organização, controle,
administração e aconselhamento -isto é, atividades de prevenção, absorção e
processamento dos riscos e desvios da normalidade - são majoritariamente
dependentes de salário, exatamente como ocorre com a produção industrial de
mercadorias.
Entretanto, estas atividades de serviços são diferentes em dois aspectos. Primeiro,
em razão da heterogeneidade dos "casos" que são processados no trabalho de
serviços, e devido aos altos graus de incerteza a respeito de onde e quando eles
ocorrem, uma função de produção técnica que correlacione inputs a outputs,

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freqüentemente não pode ser fixada e utilizada como critério de controle do
desempenho adequado do trabalho.
Segundo, o trabalho em serviços difere do trabalho produtivo pela falta de um
"critério de eficiência econômica", claro e incontroverso, do qual possam ser
estrategicamente derivados o tipo e a quantidade, o lugar e o ritmo de trabalho
"aconselháveis". Este critério está ausente porque o resultado de inúmeros serviços
públicos, assim como aqueles desempenhados por "empregados" em firmas do
setor privado, não é "lucro" monetário, mas são "utilidades" concretas; os serviços
freqüentemente contribuem para evitar perdas, cujo volume quantitativo não pode
ser facilmente determinado, precisamente porque as perdas são evitadas.
No que diz respeito à nacionalidade técnica do trabalho em serviços, sua não-
padronização deve ser aceita e substituída por qualidades como competência
interativa, consciência da responsabilidade, empatia e experiência prática adquirida.
No lugar dos inseguros critérios econômico-estratégicos de racionalidade,
encontram-se cálculos baseados em convenção, vontade política ou consenso
profissional.
Os critérios de racionalidade desenvolvidos para a utilização e o controle da força de
trabalho na produção capitalista de mercadorias podem ser transferidos para a
"produção" de ordem e normalidade, pelo trabalho em serviços, apenas dentro de
limites estreitos e, mesmo assim, apenas através de uma redução no grau de
racionalidade "formal". Isto significa, "inversamente", que embora a esfera do
trabalho em serviços (públicos e privados) não esteja absolutamente "liberada" do
regime de racionalidade formal econômica, baseada no salário, ela se tornou um
"corpo estranho" separado, mas funcionalmente necessário, que é limitado
externamente (mas não estruturado internamente) por aquela racionalidade
econômica. É esta diferenciação no interior do conceito de trabalho que me parece
constituir o ponto mais crucial de sustentação ao argumento de que não se pode
mais falar de um tipo basicamente unificado de racionalidade, que organizaria e
governaria o conjunto da esfera do trabalho.
O crescimento de um trabalho em serviços mediador, regulador, ordenador e
normalizador não pode, portanto, ser interpretado através do modelo de uma
"totalização" da racionalidade do trabalho, baseada na produção técnico-

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organizacional e economicamente eficiente de mercadorias por trabalhadores
assalariados.
Ao contrário, pode ser interpretado através do modelo do "retorno do reprimido", no
sentido de um aumento de "problemas de segunda ordem" e "custos de
complexidade", que se acumularam como resultado da mobilização do trabalho
assalariado; deste ponto de vista, estes problemas e custos requerem agora um
controle, através de vários tipos de trabalho em serviços (por exemplo, educação,
saúde, seguros, comunicações), para que seja preservada a "ordem" numa
sociedade baseada na ganância formal-racional.
A racionalidade "substantiva" de base normativa, que tinha sido vitoriosamente
reprimida no trabalho produtivo e na transformação da força de trabalho numa
mercadoria comercializável, está, por assim dizer, reemergindo. Denunciando a
repressão da racionalidade "substantiva" na esfera do trabalho assalariado, ela toma
a forma de números crescentes de trabalhadores e profissionais em serviços, cuja
tarefa especial é a de garantir institucionalmente uma existência social através de
um tipo especial de trabalho.
A ambivalência e a independência deste tipo de trabalho social derivam do fato de
que se trata de um "indispensável corpo estranho", que garante e padroniza as
precondições e as fronteiras de um tipo de trabalho ao qual ele próprio não pertence.
Ao mesmo tempo que funciona como um "vigia e regulador" (Marx) do trabalho e do
processo de valorização, ele está também parcialmente livre da disciplina imediata
de uma racionalidade social ambiciosa, e de suas correspondentes restrições de
realização e produtividade. Como um agente da sintetização consciente de sistemas
e processos sociais, o trabalho em serviços da "nova classe" desafia e questiona a
sociedade do trabalho e seus critérios de racionalidade (realização, produtividade,
crescimento) em favor de medidas de valor substantivas, qualitativas e "humanas"
(Bruce-Briggs, 1979; Schelsky, 1975).
Nas sociedades "pós-industriais", a subdivisão do "conjunto dos trabalhadores" em
"produtores" e "produtores de produção" não apenas enfraquece a unidade
estrutural do trabalho social e a racionalidade que o governa, mas também desafia
os padrões de racionalidade que conduzem (e possivelmente limitam) a troca
socialmente mediada com a natureza.

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Hoje, esta linha de conflito fica evidente em inúmeras tensões culturais e políticas
entre os trabalhadores do setor público (assim como parte das equipes de serviços
do setor privado) e os protagonistas do modelo da sociedade do trabalho dentro da
velha classe média e da classe operária industrial.
Do ponto de vista sociológico, parece-me altamente inconsistente denunciar
simplesmente a "nova classe" e seu "novo hedonismo" como um corpo estranho,
sem refletir ao mesmo tempo sobre sua indispensabilidade funcional. Atualmente,
esta atitude polêmica obscurece e equipara questões concernentes à gênese e ao
crescimento da influência estrutural e cultural da "nova classe média" produtora de
serviços, no meio de uma sociedade do trabalho ambiciosa, que gera hiatos
funcionais e sofre de falta de ordem, segurança e normalidade.
A vigilância, a regulação, a garantia e a programação dos processos sociais
proporcionados pela nova classe média constituem requisitos gerados por esses
hiatos funcionais. Estes serviços (que certamente não estão limitados ao setor
público) só poderão se tornar completamente funcionais quando forem relativamente
autônomos e mobilizados contra os imperativos e as restrições do trabalho
assalariado. É, então, absurdo denunciar, em nome da racionalidade e do ethos de
uma "sociedade do trabalho intacta", aqueles grupos funcionais que só podem
prestar serviços a esta sociedade do trabalho, assumindo uma postura "reflexiva",
que está estrutural e culturalmennte em tensão com a sociedade.
Visto desta forma, confrontamo-nos hoje com uma ambigüidade sociologicamente
explicável no conceito de trabalho. Esta ambigüidade tem grandes conseqüências
para as bases conceituais da Sociologia, assim como para a consideração dos
ambíguos e contraditórios critérios de racionalidade, cristalizadas na relação entre a
"produção eficiente" e a "manutenção efetiva da ordem".

O declínio da ética do trabalho


Um segundo conjunto de dúvidas sobre a centralidade do trabalho relaciona-se com
a avaliação subjetiva do trabalho entre a população trabalhadora. Qual a significação
do trabalho assalariado para o modo de vida e a consciência dos assalariados em
geral? Que orientação e motivos eles desenvolvem a respeito das esferas do
trabalho e da atividade econômica?

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O que é paradoxal a este respeito é que, ao mesmo tempo que uma parcela sempre
maior da população participa do trabalho assalariado, há um declínio na extensão
em que o trabalho assalariado "participa", por assim dizer, da vida dos indivíduos,
envolvendo-os e moldando-os de formas distintas. Esta descentralização do trabalho
com relação a outras esferas da vida e seu confinamento nas margens das
biografias são confirmados por muitos diagnósticos contemporâneos. Dahrendorf
(1980, p. 756), por exemplo, descreve o fim de uma era na qual o "trabalho
constituía o poder irradiador da vida, aglutinando todos os aspectos de sua
construção social".
Sociologicamente falando, há dois mecanismos principais que podem assegurar que
o trabalho desempenha um papel principal na organização de uma existência
pessoal: (a) no nível da integração social, o trabalho pode ser normativamente
sancionado como um dever, ou (b) no nível da integração sistêmica, pode ser
colocado como uma necessidade.
No primeiro caso o trabalho é o ponto fundamental de uma vida correta e
moralmente boa; no segundo, é a simples condição da sobrevivência física (6).
A perda da centralidade, freqüentemente alegada, e da relevância subjetiva do
trabalho - a proposta que está sendo aqui considerada - teria que ser
conseqüentemente demonstrada e explicada através de fatores e evoluções que
tornassem inoperante um dos mecanismos (ou os dois).
Para começar, o poder de convencimento da idéia do trabalho como um dever
humano ético está provavelmente se desintegrando, não apenas por causa da
erosão das tradições culturais religiosas ou leigas. Tampouco a idéia se enfraqueceu
unicamente em virtude do crescimento de um hedonismo centrado no consumo, cuja
propagação mina a infraestrutura moral das sociedades capitalistas industriais (7).
O poder coercitivo da ética do trabalho pode ter sido adicionalmente enfraquecido
pelo fato de que ela geralmente só pode funcionar sob condições que (pelo menos
até certo ponto) permitam aos trabalhadores participar em seu trabalho como
pessoas reconhecidas e moralmente atuantes. É bastante incerto se, e em que
áreas do trabalho social, esta precondição está sendo hoje satisfeita (8).
Na medida em que são moldados no padrão de "taylorização", processos de
racionalização organizacional e técnica parecem resultar, ao contrário, na eliminação

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do "fator humano", e de suas qualidades morais, do processo de produção industrial
(Kumar, 1979, p. 15).
Do ponto de vista da estratégia empresarial, é inteiramente racional tornar o
processo de produção tão independente quanto possível deste "fator humano",
especialmente quando ele pode produzir incerteza e perturbação. Entretanto, na
medida em que as precondições estruturais e o espaço autônomo para as
orientações "morais" ao trabalho são "racionalizadas", não se pode esperar nem
reivindicar estas orientações. Junto com a degradação e a desqualificação do
trabalho (Crusius & Wilke, 1982), freqüentemente observadas, a dimensão subjetiva
do trabalho - o feixe de obrigações e demandas associadas ao "orgulho do produtor"
e seu reconhecimento social - também se enfraquece.
Max Weber considerava a vocação para o trabalho uma precondição do trabalho
assalariado e do "espírito do capitalismo". Atualmente, este prognóstico de que "uma
conduta de vida racional baseada na idéia de vocação” irá definir nossas vidas "até
que a última tonelada de carvão fossilizado seja queimada", pode ser considerado
discutível (9).
Uma razão adicional para a depreciação moral e o declínio da significação subjetiva
da esfera do trabalho é a desintegração dos millieux de vida que estão organizados
de acordo com as categorias do trabalho e da ocupação e complementados por
tradição familiar, filiação organizacional, consumo de lazer e instituições
educacionais.
Atualmente, como observa Michael Schumann, a "localização (sócio-cultural) do
contexto da vida proletária está radicalmente em declínio" (10). A tentativa de
interpretar o contexto da vida como um todo, em termos de centralidade da esfera
do trabalho, é também cada vez mais implausível, por causa da estrutura temporal
do trabalho e sua alocação na biografia das pessoas. Uma continuidade biográfica
entre aquilo em que alguém é treinado e aquilo em que esta pessoa está realmente
empregada, assim como uma continuidade ocupacional ao longo de uma vida
profissional, pode já ser hoje bastante excepcional.
Mais ainda, a proporção de tempo dedicado ao trabalho vem declinando
consideravelmente na vida das pessoas; o tempo livre também aumentou e parece
que vai continuar aumentando. Isto significa que experiências, orientações e

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necessidades paralelas estão se tornando mais proeminentes que aquelas
baseadas no trabalho (11). Descontinuidade na biografia profissional e uma parcela
crescente de tempo dedicado ao trabalho na vida de uma pessoa podem reforçar a
visão do trabalho como uma preocupação "entre outras", e relativizar sua função
como pedra-de-toque da identidade pessoal e social (12).
Na medida em que aumenta a experiência (ou a antecipação) do desemprego (13),
ou a aposentadoria involuntária (14), mais se enfraquece o efeito do estigma e da
auto-estigmatização gerados pelo desemprego porque, além de um certo ponto (e
especialmente se o desemprego estiver concentrado em certas regiões ou
indústrias), uma pessoa não pode mais ser responsabilizada em termos de fracasso
ou culpa individual.
À luz dos dados e prognósticos econômicos atuais, não parece de todo irrealista
esperar um drástico declínio no potencial de absorção do mercado de trabalho num
futuro próximo; provavelmente, estas condições reduzirão ainda mais os períodos
médios de trabalho como proporção do tempo de vida ou, ao contrário, fomentarão o
crescimento de um amplo setor "marginalizado" da população, fora da esfera do
emprego "vantajoso" (15).
Tomadas em conjunto, estas circunstâncias fazem parecer improvável que o
trabalho, a realização e a ambição continuem a desempenhar um papel central,
como norma que integra e conduz a existência pessoal. Tampouco parece provável
que esta norma de referência possa ser politicamente reativada ou reabilitada.
Recentes tentativas de "remoralizar" o trabalho e tratá-lo como a categoria central da
existência humana devem, por conseguinte, ser consideradas um sintoma da crise,
mais do que uma cura.
Significação maior pode, portanto, ser atribuída ao segundo dos mecanismos
destacados acima para condicionar as atitudes das pessoas em relação ao trabalho
- regulação através de incentivos positivos das recompensas obtidas por meio do
trabalho e/ou incentivo negativo da penúria, que deve ser evitada pelo trabalho.
Estes mecanismos correspondem à relação "instrumental" com o trabalho,
moralmente neutralizada, descrita por Goldthorpe. Entretanto, tal como acima,
gostaria de especificar alguns dos obstáculos que também parecem bloquear a
eficácia deste mecanismo.

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Em primeiro lugar, estudos recentes em psicologia econômica indicam que o efeito
motivador do salário opera assimetricamente (Scitovsky, 1976; Hirsch, 1977). O
crescimento individual e (mais ainda) o coletivo da renda não aumentam (ou
aumentam muito pouco) o sentido do bem-estar ou da satisfação coletiva, e podem
muito bem conduzir até mesmo à sua diminuição. "A utilidade marginal do dinheiro é
diferente para a redução da insatisfação e a produção da satisfação" (Lane, 1978; p.
803). Em outras palavras, o efeito motivador das alterações na renda, pelo menos
em um nível relativamente alto de renda, aparece apenas negativamente, como um
efeito punitivo. "Bens de consumo, e a renda, para comprá-los, têm uma relação
bastante fraca com as coisas que fazem a felicidade das pessoas: autonomia, auto-
estima, felicidade familiar, lazer livre de tensões, amizades" (Lane, 1978, p. 815),
enquanto "a satisfação com atividades não relacionadas com o trabalho contribui
mais do que qualquer outro fator para a satisfação existencial" (Lane, 1978, p. ,817).
Portanto, especulações sobre os efeitos motivadores positivos do crescimento da
renda podem perder muito de sua plausibilidade, pelo menos nos níveis de salário e
de saturação com bens de consumo atingidos na Europa Ocidental.
Se as mudanças positivas e negativas na renda incentivam apenas limitadamente na
quantidade e na qualidade dos esforços no trabalho, isto se aplica ainda mais
quando se compara a renda com a "não-utilidade", subjetivamente experimentada,
ligada ao trabalho.
Na Sociologia Industrial uma série de conclusões sugere a noção de um hiato
crescente entre os aumentos percebidos da não-utilidade do trabalho, de um lado, e
o declínio da satisfação intrínseca, de outro.
Durante a década de 70, a força de trabalho tornou-se mais sensível (e crítica ) às
fadigas físicas e psicológicas do trabalho e seus conseqüentes riscos de saúde e de
desqualificação. Isto resultou no aumento da reivindicação sindical sobre condições
de trabalho e estimulou, mesmo ocasionalmente fora dos sindicatos, debates sobre
o abandono da luta por melhores condições de trabalho, como inviável, e sua
substituição por uma luta contra o trabalho e sua forma industrial. Acima de tudo,
esta sensibilidade ganhou "reconhecimento diplomático", na forma de programas
estatais para a "humanização" do trabalho.

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Tudo isto foi reforçado por uma sensibilidade crescente para os custos sociais e
ecológicos da produção, inclusive aqueles não necessariamente concentrados no
local de trabalho e em empresas específicas. Permanece questão aberta se esta
evolução pode ser melhor explicada pela crescente violação das demandas
permanentes relativas à qualidade do trabalho ou pelo aumento destas demandas
(isto é, com referência à "defesa das necessidades" ou a "demandas emergentes").
Não obstante, fica claro que a maioria destas demandas ainda não foi satisfeita. Se
a crescente sensibilidade de largas parcelas da força de trabalho para a utilidade
negativa do trabalho assalariado coincidir com a percepção de um declínio no valor
de uso de seus produtos, pode-se esperar uma perda crescente na relevância
subjetiva do trabalho assalariado ou uma aceitação decrescente de suas condições
físicas, psicológicas e institucionais. É sintomático desta possibilidade o fato de que
a tradicinal reivindicação sindical por um efetivo "direito ao trabalho" - uma demanda
que atualmente já possui um pronunciado tom utópico - seja criticada como
insuficiente, e, portanto, refraseada numa demanda pelo "direito ao trabalho útil e
significativo" (Mueckenberger, s/d).
Evidências adicionais desta possibilidade são fornecidas pela discussão travada
pelos sindicatos, durante a segunda metade da década de 70, sobre a necessidade
de uma forma "qualitativa" de crescimento, que problematize explicitamente o "valor
de uso" concreto, tanto dos inputs quanto dos outputs do processo de trabalho (16).
A redução da renda pode; evidentemente, ter um efeito disciplinador nas disposições
dos trabalhadores. Argumentos persuasivos contra a probabilidade deste resultado
têm sido, entretanto, levantados até pelos economistas neo-liberais. Ressalta-se que
o princípio básico (esposado pelo apóstolo Paulo e por Josef Stálin) de que "quem
não trabalha não deve comer" não está fortemente institucionalizado nos welfare
state liberais. Na medida em que o feed back imediato entre trabalho individual e
renda individual está dissolvido em relações coletivizadas e sancionadas pelas
instituições e pelas exigências legais do welfare state, assim como por grandes
empresas e pela negociação salarial coletiva, desenvolve-se inevitavelmente um
problema clássico de bens coletivos – o de desvincular ações e suas conseqüências
para os atores individuais.

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Utilizando este argumento para uma crítica ao welfare state, pode-se dizer que a
fuga individual da compulsão para o trabalho, imposta (idealmente) pelo mercado,
não é mais punida automaticamente e que, inversamente, os esforços individuais
não são mais julgados "vantajosos", porque serão engolidos por encargos fiscais e
para-fiscais. Ao contrário, torna-se até racional para o empregado, que contribui
individualmente para sistemas coletivos de seguro, reclamar mais benefícios que
aqueles pelos quais pagou, agindo portanto como um "carona" do welfare state;
torna-se também racional para o investidor "aguardar" até que a dose antecipada de
auxílios e subsídios econômicos e políticos reduza o grau de risco a praticamente
zero (17).
Os críticos conservadores do welfare state esperam que emerjam evoluções
decisivas a partir destes arranjos, porque eles subvertem os fundamentos da
racionalidade dos processos de troca, e de sua regra de equivalência.
A lógica destas evoluções consiste em que as condições objetivas para a
estabilidade do sistema econômico não podem mais ser suficiente, efetiva, confiável
e rapidamente transformadas em orientações subjetivas de atores individuais. Na
estrutura irreversível do welfare state e da democracia pluralista, só se pode esperar
um nível adequado de responsabilidade individual diante das sistemáticas
tendências à crise, se existir uma efetiva infraestrutura moral de regras de
solidariedade e de obrigações para com o trabalho. Estas são consideradas
indispensáveis para evitar efetivamente o “caronismo”, estimulado pela política
social e o adiamento estratégico dos investimentos, possibilitado pelas políticas
econômicas intervencionistas.
É altamente duvidoso que as atitudes em relação ao trabalho possam ser
"remoralizadas", pelas razões acima mencionadas. Além disso, um compromisso
sócio-ético, recíproco e obrigatório, por parte dos investidores, não pode ser
realisticamente concebido na estrutura da ordem econômica existente.
Igualmente irrealista (e freqüentemente admitida até por seus protagonistas) é a
proposta da crítica neo-liberal ao welfare state, de "individualizar" as relações de
troca dos mercados de trabalho e de capital, através da redução das
responsabilidades do Estado com relação ao bem-estar social e econômico da
sociedade. Uma cura tão radical, através do retorno ao "individualismo" e à

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"regulação pelo mercado", colocaria em sério perigo a relativa harmonia social da
sociedade do trabalho, que historicamente só foi conquistada através de um sistema
de distribuição e seguro coletivos, garantido pelo Estado.
Neste sistema, pode haver pouca confiança no individualismo e no direto efeito
disciplinador e legitimador da penúria econômica como um dos meios integrativos da
sociedade. Aliás, este ponto é especialmente confirmado por recentes análises
marxistas, que enfatizam que o mecanismo do exército de reserva perdeu sua
eficácia geral devido, entre outros fatores, ao caráter crescentemente "heterogêneo"
do trabalho social (discutido acima) (Bowles & Gintis, 1982; Berger, 1981).
Um fortalecimento da ganância universal, ou uma diminuição das demandas
salariais e das expectativas sobre a qualidade do trabalho, também são difíceis de
esperar, como resultado da longa experiência de desemprego e subemprego em
massa, especialmente quando estiverem concentrados em certos bairros, cidades,
regiões, setores econômicos, grupos etários ou étnicos. Ao invés de estimular a
ambição dos indivíduos, estas situações conduzem os atingidos pela adversidade a
retraimentos fatalistas ou a autointerpretações coletivas que responsabilizam as
políticas econômicas, de mercado e sociais do Estado pela situação destes grupos
marginalizados e desprivilegiados.
A significação nitidamente crescente das barreiras "adscritas" que bloqueiam a
entrada no mercado de trabalho em geral, ou em suas partes preferenciais, torna
impossível, por definição, superá-las através da adaptação individual. Mesmo onde a
possibilidade de adaptação não está logicamente excluída, a disposição para
adaptar está empiricamente distribuída de maneira paradoxal: os esforços de
reciclagem e mobilidade regional são desproporcionalmente realizados por aqueles
grupos de empregados, cuja posição no mercado de trabalho menos obriga à
reciclagem e à mudança, enquanto são precisamente os menos móveis, em termos
de residência e de capacitação, os mais severamente ameaçados pela possibilidade
de desemprego.
Estes aspectos paradoxais do mercado de trabalho são evidentes na Grã-Bretanha,
na Itália e nos Estados Unidos e estimulam o prognóstico de que, onde quer que se
concentre o desemprego estrutural, subculturas baseadas numa "economia
informal", ou "subterrânea", empobrecida poderiam se desenvolver. Provavelmente,

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os membros destas subculturas são, no mínimo, passivamente hostis aos valores e
normas legais da "sociedade do trabalho", e poderiam facilmente juntar-se em uma
"cultura do desemprego" subproletária, uma "não-classe de não-trabalhadores"
(Gorz).
Na Alemanha Ocidental também há indicações da emergência de uma "sociedade
dividida", marcada por um núcleo produtivo e uma periferia crescente de pobres
sustentados (Esser, 1979). Gerhardt Brandt, por exemplo, distingue entre uma
"simples" polarização da população assalariada, que poderia ser descrita por meio
de categorias sociológicas tradicionais, como qualificação e autonomia, e uma
polarização "ampliada"; que ocorre entre setores cruciais da sociedade do trabalho e
"pessoal não-qualificado e permanentemente desempregado ou irregularmente
empregado" (18).
Acima de tudo, este breve resumo das descobertas e reflexões das ciências sociais
a respeito da relevância subjetiva e do potencial de organização da esfera do
trabalho aponta para uma "crise da sociedade do trabalho".
Uma sociedade capitalista industrial, altamente desenvolvida e conduzida por um
welfare state igualmente desenvolvido, tende evidentemente a excluir crescentes
porções da força de trabalho social da participação na esfera do trabalho
assalariado. Tampouco esta sociedade tem à sua disposição os recursos culturais
ou as sanções econômicas necessárias para estabilizar a centralidade subjetiva da
orientação para o trabalho, a realização e os salários, através de regras culturais ou
da coerção silenciosa dos processos do mercado. O trabalho foi não só
objetivamente deslocado de seu status de fato da vida, central e auto-evidente;
como conseqüência desta evolução objetiva, mas inteiramente contrária aos valores
oficiais e aos padrões de legitimação desta sociedade, o trabalho está sendo privado
também de seu papel subjetivo como a força motivadora central na atividade dos
trabalhadores.

Para uma revisão da teoria sociológica da estrutura e do conflito


Se é verdade que as formas contemporâneas de atividade social, geralmente
designadas como "trabalho", não possuem uma racionalidade comum nem partilham
características empíricas, e se o trabalho é, neste sentido, não apenas

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objetivamente disforme mas também está se tornando subjetivamente periférico,
então surge uma pergunta: quais são os conceitos sociológicos da estrutura e do
conflito apropriados para descrever uma sociedade que, no sentido aqui adotado,
deixou de ser uma "sociedade do trabalho"?
Se a consciência social não deve mais ser construída como consciência de classe;
se a cultura cognitiva não está mais relacionada primeiramente com o
desenvolvimento das forças produtivas; se o sistema político deixou de se
preocupar, em primeiro lugar, com a garantia das relações de produção e a
administração dos conflitos distributivos, e finalmente, se os problemas centrais
colocados por esta sociedade não podem mais ser resolvidos em termos das
categorias de escassez e produção, então existe claramente a necessidade de um
sistema conceitual que possa ajudar a mapear estas regiões da realidade social não
determinadas completamente pelas esferas do trabalho e da produção.
Uma proposta teórica, que está ancorada na história da teoria sociológica e que
poderia satisfazer esta necessidade, foi elaborada por J. Habermas em Theorie des
kommunikativen Handelns (1981). Num importante e controvertido afastamento dos
paradigmas teóricos clássicos, Habermas descreve a estrutura e a dinâmica das
sociedades modernas, não como um antagonismo enraizado na esfera da produção,
mas como uma colisão entre os "subsistemas" de ação racional-intencional",
mediados pelo dinheiro e pelo poder, de um lado, e um "mundo-da-vida cotidiana"
que resiste obstinadamente a estes sistemas, de outro.
Por mais de duas décadas Habermas elaborou uma crítica à "dominação
epistemológica do trabalho" no marxismo (Giddens, 1982, p. 152). Apesar de todas
as controvérsias e ambigüidades que a acompanham, esta crítica corresponde a
uma corrente amplamente "antiprodutivista", existente na tradição marxista da teoria
e da pesquisa sociológicas.
Que a fábrica não é o centro das relações de dominação nem o local dos mais
importantes conflitos sociais; que os parâmetros "metas-sociais" (isto é, econômicos)
do desenvolvimento social foram substituídos por uma "autoprogramação da
sociedade"; e que, pelo menos nas sociedades ocidentais, tornou-se altamente
enganoso equiparar o desenvolvimento das forças produtivas e a emancipação
humana - todas estas afirmações e convicções, encontradas especialmente entre

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teóricos franceses, como Foucault, Touraine e Gorz, penetraram tão fundo no nosso
pensamento, que a "ortodoxia" marxista não desfruta mais de muita respeitabilidade
nas ciências sociais.
São sintomáticas desta necessidade emergente as crescentes referências a "modos
de vida" (em lugar de "modos de produção") e "vida cotidiana" na sociologia
"marxista-leninista" produzida na Alemanha Ocidental (Kuczinsky, 1983).
Essa transformação das suposições básicas das estruturas conceituais de muitas
áreas e escolas das ciências sociais está obviamente relacionada com os novos
tipos de conflito social e político, cuja emergência Raschke (1980) caracterizou em
termos de uma transição de um paradigma político de "distribuição", para um de
"forma de vida".
A pesquisa sociológica sobre valores demonstrou, embora não tenha explicado
convincentemente, uma transformação análoga do conteúdo predominante do
conflito sócio-político, através da distinção conceitual entre "valores materialistas" e
"pós-materialistas". Agora existe um amplo consenso nas ciências sociais de que,
em muitas sociedades ocidentais, temas de conflito social e político (como paz e
desarmamento, proteção ambiental, definição e institucionalização dos papéis
sexuais, direitos civis e direitos humanos) dominam a cena.
Estes temas compartilham pelo menos o aspecto negativo de que não podem ser
plausivelmente interpretados como conflitos derivados, cujo "real" ponto de origem
devesse ser localizado na esfera da produção. Em vez disso, estes temas conflituais
são, em certa medida, confrontados pela esfera da produção a partir de fora, onde
freqüentemente encontram a resistência unificada tanto do trabalho como do capital.
Estes funcionam como estruturas de conflito, que surpreendem e confundem, e que
os cientistas sociais contemporâneos procuram reconstruir através de dicotomias
conceituais como materialista versus pós-materialista, modo de produção versus
forma de vida, ação racional-intencional versus ação comunicativa, produção
industrial versus produção doméstica e sociedade industrial versus sociedade pós-
industrial (19).
Não obstante, o uso destas dicotomias sofre de duas deficiências, com as quais o
futuro desenvolvimento teórico e a pesquisa sociológica estarão provavelmente (e
com toda a razão) preocupados durante o próximo período. Primeiro, há uma

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marcada assimetria no grau de elaboração dos elementos destes pares conceituais:
enquanto as dimensões do trabalho e da produção são bastante conhecidas, as
estruturas, os atores e os princípios racionais no domínio da "forma de vida", assim
como as categorias apropriadas para sua análise, são muito menos claros.
Esta deficiência talvez explique a visível tendência da bibliografia sociológica para
recorrer fortemente à historiografia, à literatura, à política, ao jornalismo ou à
filosofia.
A segunda fraqueza deste esquema conceitual binário é que, com as únicas
exceções de Habermas e (em parte) Bell, as dicotomias se reduzem a classificações
ad hoc, que permanecem não integradas numa teoria dinâmica da mudança social.
Esta teoria deve procurar explicar por que a esfera do trabalho e da produção, em
conseqüência da "implosão" de seu poder de determinar a vida social, perdeu sua
capacidade de estruturação e de organização, liberando, deste modo, novos campos
de ação marcados por novos atores e por uma nova forma de racionalidade.

Publicado, em inglês, em Disorganized Capitalism: contemporary transformations of


work and politics. Oxford, Basil Blackwell, 1986.

Traduzido do inglês por Lucia Hippolito.

NOTAS:

1 - "A Revolução Industrial solapou metodicamente o antigo sistema no qual o


trabalho, a família e o lazer constituíam partes de um mesmo conjunto, representado
como um todo indiferenciado." (Kumar, 1979, p. 14).

2 - "Através da divisão de trabalho, o indivíduo se torna consciente de sua


dependência em relação à sociedade. (...) A divisão de trabalho se torna a fonte
principal de solidariedade social." (Durkheim, 1960, pp. 62 e 400).

3 - Esta mudança de perspectiva, assim como a tese de uma "determinação


especificamente política" dos processos industriais, que necessitam de uma "vitória

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da separação científica e prática entre indústria e políticas", são ambas ilustradas
por G. Dörr e F. Naschold (1982) e por U. Jürgens e F. Naschold (1982).

4 - Segundo U. Beck (1981), "todo o paradigma da estratificação e das teorias de


classe deve ser discutido, a partir da força de seu realismo". (p 52) Beck menciona
uma "pluralização de formas de vida (...) que rompe os limites do esquema,
firmemente estabelecido de estratificação e diferenciação de classe", (p. 52) e de
"um ‘estrato de renda’ que não corresponde a nenhum tipo adotado de forma de
vida". (p. 53) S. Hradil (1982) adota uma abordagem similar:
"A abordagem sociológica da estratificação não revela todo o extraordinário domínio
da desigualdade social (...) O modelo de desigualdade utilizado pela sociologia da
estratificação evidentemente "funcionou" melhor no passado que hoje em dia. (...)
Em geral, são precisamente as formas de desigualdade social, especialmente
evidentes nos últimos tempos, que não sustentam os dogmas básicos da sociologia
da estratificação. Assumiu-se (falsamente) que fatores estruturais específicos (isto é,
renda e status) são, em larga medida, igualmente relevantes para a vida de todos os
membros da sociedade".
Também consistentes com esta orientação são a elaboração e a aplicação do
conceito de uma "welfare class" por R. M. Lepsius (1979).

5 - O significado quantitativo da divisão dos "trabalhadores em geral" em formas de


trabalho produtivas e produtoras de serviços só fica claro se não as desagregarmos
por "setores" (como em geral é feito), mas por postos. O mini-censo de 1980
realizado na Alemanha Ocidental indicou que aproximadamente 27% dos
assalariados estão engajados em atividades que lidam principalmente com a
manufatura e a produção de bens materiais, enquanto a maioria esmagadora (73%)
produz serviços. Ver J. Gerger e C. Offe (1980), U. Berger e C. Offe (1981) e C. Offe
(1985).

6 - Uma vez que se concentram apenas no "vínculo" motivacional dos trabalhadores


a seu trabalho, estes dois casos (e suas variantes empíricas) não contemplam a
possibilidade de que o trabalho "puro" (isto é, em sua forma moderna, de uma esfera

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especial e agudamente diferenciada de ação social) possa ser relativizado e
enriquecido com elementos extraídos da esfera da família e do consumo, de um
lado, e das esferas público-políticas, de outro. Esta possibilidade de tentar reunir o
trabalho a outras esferas da vida (através de programas de humanização do
trabalho ou da expansão de atividades autônomas e pessoais no âmbito doméstico)
domina a maior parte da discussão sobre o "futuro do trabalho" na Sociologia e na
Ciência Política contemporâneas. Ver a contribuição de F. Benseler et alii (1981) e
de C. Offe (1985).

7 - Este hedonismo é bastante evidente na indústria do turismo e do lazer, cujos


prospectos parecem, às vezes, um manifesto contra o trabalho. Observem, por
exemplo, este anúncio publicado no Neue Westfälische Zeitung em 17 de março de
1982: "Leve o seu lazer a sério. Ele é a parte mais importante de sua vida!"

8 - Ver H. Braverman (1974). Inúmeros estudos em Sociologia Industrial confirmam a


tendência para a "exploração da qualificação, da experiência e do conhecimento"'
(E. Hildebrandt, 1980, p. 75):
"Auto-iniciativa, pensamento criativo, capacidade para tomar decisões e
responsabilidade social tornaram-se não apenas supérfluos enquanto atributos
humanos fundamentais, mas foram suprimidos como disfuncionais. Pouco a pouco,
o processo de produção força os assalariados a renunciar à sua competência
ocupacional e social, à formulação do próprio trabalho, assim como às próprias
idéias sobre o trabalho concreto.

9 - Atualmente, os conhecidos sentimentos e observações sobre "pular fora"


(dropping out) contrastam com a “idéia de uma vocação": "Muitas pessoas, inclusive
aquelas que estão trabalhando duro, separaram sua conduta e sua auto-imagem (...)
de sua experiência profissional (...) sem desenvolver uma nova forma de identidade
além do trabalho". (F. R. Volz, 1982, p. 46).

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10 - Em um relatório de pesquisa do SOFI, um dos trabalhadores entrevistados
reduziu este ponto a uma fórmula concisa: "Hoje em dia ninguém mais é
adequadamente formado para ser um trabalhador".

11 - "O tempo liberado pela contração do trabalho é livre no sentido de perda de


estrutura." (R. Dahrendorf, 1980, p. 753) Evidentemente, esta tese é relativizada
pelas descobertas empíricas sobre as atitudes em relação ao lazer, que identificam
o efeito restritivo do emprego nessa esfera. Os limites externos estabelecidos pelo
trabalho consistem, subjetivamente, na exaustão física, nervosa e social ou na
desativação da força de trabalho, produzida por esta exaustão, e objetivamente no
fato de que a maioria das formas institucionalizadas de lazer (como, por exemplo, o
turismo) depende em larga medida de uma renda disponível. Apesar disto, não se
pode falar de uma "estruturação" do lazer pelo trabalho, mas antes de uma
"limitação" ou de um "condicionamento".

12 - D. Anthony (1980, p. 419) explica a santidade do trabalho na cultura ocidental, a


"ideologia do trabalho", pelo mecanismo de dissonância-redução, como uma
exaltação normativa da realidade: (International Social Science Journal, n °32, 3
(1980)
"Como o trabalho tem sido sua sina desde tempos imemoriais, o homem o investiu
com um pouco da significação que ele acredita existir na vida."
O substrato destas normas culturais está, entretanto, em processo de dissolução.
A visão tradicional exige agora sérias modificações (...) Estas mudanças têm várias
conseqüências, que ameaçam a continuação da "ideologia do trabalho", pois tornam
desnecessário ou inútil para a sociedade salientar a importância dominante do
trabalho e a zelosa adesão à sua disciplina. Elas também significam que a unidade
coincidente entre vida e trabalho não existe mais a vida do homem parece tornar-se,
de várias formas, cada vez mais independente do trabalho.
Ver ainda D. Anthony (1977) C. Jenkins e B. Sherman (1979).

13 - Todas as indicações sugerem que as conclusões de Kumar para a Inglaterra


podem ser estendidas ao restante da Europa Ocidental: "Estamos diante de um

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futuro em que o desemprego será uma experiência normal, e nada aberrante, de
toda a população". (Kumar, 1979, p. 25)

14 - Na Alemanha Ocidental, por exemplo, um em cada dois trabalhadores e um em


cada três empregados em serviços são aposentados antes de atingir a idade-limite.
De outro lado, um em cada seis trabalhadores e um em cada dez empregados em
serviços tornam-se cronicamente incapazes, antes dos 50 anos, de exercer qualquer
atividade remunerada. Estas transformações da estrutura temporal e social da
existência "Pós-industrial" são freqüentemente reforçadas por diferentes
expectativas: "Quanto mais tempo as pessoas passam fora da força de trabalho
assalariado, antes e durante uma carreira profissional, mais elas descobrem que o
trabalho não representa mais um foco suficiente de organização de suas vidas". (F.
Block e L. Hirschorn, 1979, p. 374)

15 - Certamente este ponto não deveria ser simplificado demais, porque a


descentralização moral do trabalho resulta numa perda de significado em si. Esta
perda, que acompanha a experiência do desemprego, pode ser produzida pela
desorganização do life-world. A veemente reação contra esta experiência
(antecipada) e em favor do trabalho "significativo", que contribua para a auto-
realização, pode ser encontrada particularmente entre os jovens, como indica o
exemplo dos Estados Unidos, descrito por B. Berger. Esta reação se observa
principalmente em favor de serviços organizados pelo Estado e é, a este respeito,
irrealista e "estruturalmente inadequada". A autora ressalta o problema de uma
"contradição entre as aspirações ocupacionais e o mercado de trabalho existente".
(B. Berger, 1974, p.61)

16 - Com relação a este ponto, ver minha discussão altamente especulativa,


"Alternative Strategies in Consumer Policy” (C. Offe, 1984, pp. 220-38).

17 - Sobre esta questão, ver W. A. Jöhr (1976), assim como a crítica empírica a esta
tese, tentada por P. Windolf (1982). Para uma crítica detalhada do welfare state, ver
C. Offe (1984).

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18 - Ver G. Brandt (1980, p. 19). Mais aguda é a observação de C. Deutschman
(1981): "Não são os conflitos trabalhistas gerados pela ‘subordinação real’, mas
antes um falta generalizada de trabalho, a impossibilidade de basear nele a
segurança social, que parece estar se desenvolvendo como o problema social
predominante do futuro".

19 - As reorientações políticas e estratégicas impostas à esquerda pela


descentralização objetiva e subjetiva do trabalho tornaram-se bastante evidentes
desde meados da década de 70. Considerem as seguintes citações: "Formas
obreiristas de ideologia socialista são incapazes de articular várias questões
significativas para a população e, em parte por esta razão, têm uma ocorrência e um
efeito apenas setoriais". (B. Hindess, 1981, p. 42) "O movimento e as reações
antinucleares marcam uma mudança considerável no campo político. É a primeira
vez que os problemas do trabalho e da produção deixaram de ocupar a posição
central na vida política". (A. Touraine, 1981) "Certamente os impulsos anticapitalistas
não desapareceram, porém eles provêm cada vez mais de outras variáveis (idade,
papéis sexuais, arranjos territoriais, posição no mercado de trabalho) do que da
condição dos trabalhadores assalariados em si". (A. Melucci, 1981, p. 124). Ver
ainda S. Lipset (1981)

Bibliografia

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OCORRÊNCIA DE ACIDENTE DO TRABALHO EM UMA UNIDADE DE
TERAPIA INTENSIVA1

Vera Médice NishideI; Maria Cecília Cardoso BenattiII; Neusa Maria Costa
AlexandreII

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I
Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Diretora de Enfermagem da Unidade de
Terapia Intensiva do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas,

RESUMO
Este estudo, de caráter descritivo, identificou os acidentes do trabalho ocorridos com
trabalhadores de enfermagem de uma unidade de terapia intensiva,
correlacionando-os com o procedimento que estava sendo executado pelo
trabalhador no momento do acidente. Os dados foram coletados por meio de
entrevista individual, realizado com 68 trabalhadores, no ano de 2001. Constatou-se
que os acidentes ocorreram, predominantemente, devido ao contato da pele e da
mucosa com sangue e secreções, ferimento por material perfurocortante, queda e
lesões na coluna vertebral. Os acidentes acontecidos estavam relacionados aos
procedimentos de aspiração de tubo orotraqueal, manuseio de excretas/secreções,
preparo de medicação, coleta de sangue arterial, piso molhado e transporte de
paciente. Concluiu-se que são necessárias mudanças no ambiente de trabalho e
programas de prevenção, para minimizar os acidentes em procedimentos de
assistência aos pacientes.
Descritores: hospitais; saúde ocupacional; acidentes do trabalho; unidades de
terapia intensiva; enfermagem

INTRODUÇÃO
O ambiente de trabalho hospitalar tem sido considerado insalubre, por agrupar
pacientes portadores de diversas enfermidades infectocontagiosas e viabilizar
muitos procedimentos que oferecem riscos de acidentes e doenças para os
trabalhadores da saúde. Poucos locais de trabalho são tão complexos como um
hospital. Além de prover cuidado básico de saúde a um grande número de pessoas,
muitos são freqüentemente centros de ensino e pesquisa. Como resultado, existem
riscos potenciais aos quais os trabalhadores hospitalares podem estar expostos,
dependendo da atividade que desenvolvem e o seu local de trabalho.

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Considera-se acidente de trabalho quando existe uma colisão repentina e
involuntária entre pessoa e objeto, a qual ocasiona danos corporais (lesões, morte)
e/ou danos materiais. Por ser repentino, o acidente se diferencia da doença
ocupacional adquirida em longo prazo(1). Na prevenção de acidentes, os esforços
devem ser concentrados inicialmente na eliminação dos perigos e/ou eliminação dos
riscos, não permitindo interação direta entre pessoas e perigos e, posteriormente,
orientações e fornecimento de equipamentos de proteção individual. Com a
combinação dessas medidas, é possível obter melhores resultados na prevenção de
acidentes do trabalho e de doenças ocupacionais.
As instituições hospitalares brasileiras começaram a se preocupar com a saúde dos
trabalhadores no início da década de 70, quando pesquisadores da Universidade de
São Paulo (USP) enfocaram a saúde ocupacional de trabalhadores hospitalares.
Na análise de 1506 acidentes de trabalho no Hospital das Clínicas da USP, foram
encontradas lacerações e ferimentos, contusões e torções como as mais freqüentes
causas de afastamento do trabalho(2). As dores nas costas representam um
expressivo problema para os trabalhadores de enfermagem hospitalar. Em estudo
realizado em Campinas, Estado de São Paulo, foi atribuído como fator de risco para
as lombalgias o transporte e a movimentação de pacientes, a postura inadequada e
estática, e a inadequação do mobiliário e dos equipamentos(3). Ao analisar as
condições ergonômicas da situação de trabalho do pessoal de enfermagem em uma
unidade de internação hospitalar, constatou-se que a execução da atividade de
movimentação de pacientes acamados pelos trabalhadores de enfermagem foi a
mais desgastante fisicamente. Associou-se a esse desgaste a inadequação dos
mobiliários e as posturas corporais adotadas pelos trabalhadores de enfermagem(4).
Em uma população de 1218 trabalhadores de enfermagem de um hospital
universitário, foi constatada incidência acumulada de 8,2% de acidentes de trabalho.
Neste estudo caso-controle, a autora(5) concluiu que os indivíduos ficam propensos
aos acidentes nas situações em que existe falta de tempo para descanso e adotam
posturas cansativas e forçadas durante o trabalho. Estudando os acidentes
ocupacionais e situações de risco em hospitais das redes pública e privada do
município de São Paulo(6), foi observado que as agulhas foram responsáveis por
77,5% dos casos de acidentes, sendo que a falta de material apropriado, a

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sobrecarga de atividades, a falta de conscientização sobre os riscos e a falta de
observação das medidas de segurança foram os principais fatores de risco que
interferiram nesses acidentes.
Historicamente, os trabalhadores da área da saúde não eram considerados como
categoria profissional de alto risco para acidentes do trabalho. A preocupação com
os riscos biológicos surgiu, somente, a partir da epidemia da HIV/AIDS nos anos 80,
onde foram estabelecidas normas para as questões de segurança no ambiente do
trabalho.
A equipe de enfermagem é uma das principais categorias ocupacionais sujeita à
exposição por material biológico. Esse número elevado de exposições relaciona-se
ao fato dos trabalhadores da saúde terem contato direto na assistência aos
pacientes e também ao tipo e à freqüência de procedimentos realizados(7). A grande
maioria das exposições percutâneas está associada à retirada de sangue ou à
punção venosa periférica (30 a 35% dos casos), entretanto, existem as exposições
envolvendo procedimentos com escalpes, flebotomia, lancetas para punção digital e
coleta de hemocultura(7). A transmissão ocupacional do HIV de pacientes a
trabalhadores da saúde poderá ocorrer mais freqüentemente por via percutânea ou
através de mucosas, por contato com sangue ou fluidos corpóreos. Segundo
estudos prospectivos com trabalhadores da saúde, estima-se que o risco médio para
transmissão do HIV, após exposição percutânea a sangue HIV positivo é
aproximadamente de 0,3%(8-9), e após exposição de mucosas, de 0,09%(9-10). A
soroprevalência de infecção para hepatite B entre trabalhadores da saúde é de três
a cinco vezes maior que na população em geral, sendo os mais acometidos aqueles
que mais realizam procedimentos invasivos. Já, em relação à hepatite C, a
inoculação percutânea é uma das formas documentadas de transmissão do vírus,
entretanto, os dados sobre a transmissão ocupacional são limitados(11).
No Brasil, os trabalhadores de enfermagem, através de uma concepção idealizada
da profissão, submetem-se aos riscos ocupacionais, sofrem acidentes do trabalho e
adoecem, não atribuindo esses problemas às condições insalubres e aos riscos
oriundos do trabalho(12). Em estudo realizado(13) para verificar o conhecimento dos
trabalhadores de saúde hospitalar no desenvolvimento de suas atividades,
constatou-se que eles conhecem os riscos de forma genérica e que esse

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conhecimento não se transforma numa ação segura de prevenção de acidentes e
doenças ocupacionais, apontando para a necessidade de uma ação que venha
modificar essa situação.
A razão significativa para a escolha deste tema foi prosseguir os estudos iniciados
no trabalho "Elaboração e implantação do mapa de riscos ambientais para
prevenção de acidentes do trabalho em uma unidade de terapia intensiva de um
hospital universitário"(14). Também significativa é a participação das autoras no grupo
de Pesquisa em Saúde do Trabalhador e Ergonomia do Diretório dos Grupos de
Pesquisa no Brasil, do CNPq.
Portanto, a análise de ocorrência de acidente do trabalho em uma Unidade de
Terapia Intensiva (UTI), tema do estudo proposto, justifica-se pela atualidade e pela
contribuição ao atendimento do processo saúde-doença dos trabalhadores em
unidade de atendimento hospitalar.

OBJETIVOS
Identificar os acidentes do trabalho ocorridos com os trabalhadores de enfermagem
de uma Unidade de Terapia Intensiva.
Verificar a relação dos acidentes do trabalho com o procedimento que estava sendo
executado pelo trabalhador no momento do acidente.

MÉTODOS
Trata-se de um estudo epidemiológico. A população deste estudo constituiu-se de
todos os trabalhadores lotados no quadro contratual de pessoal de enfermagem de
uma Unidade de Terapia Intensiva de um hospital universitário. Para inclusão na
amostra, considerou-se o pessoal que realizava assistência direta aos pacientes e
que aceitou participar do estudo. Foram excluídos aqueles que estavam em licença-
gestante no período da coleta de dados. Para coleta de dados, utilizou-se um
questionário desenvolvido especificamente para este estudo. Esse instrumento foi
desenvolvido tendo como suporte teórico bibliografia sobre o tema, contendo dados
de identificação e questões referentes ao acidente de trabalho tais como: as causas,
os agentes causadores, o local de ocorrência, o procedimento executado no
momento do acidente, a utilização de equipamentos de proteção individual, os

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motivos, segundo a opinião dos trabalhadores, o horário e a notificação do acidente.
Para avaliar a validade do conteúdo, o questionário foi submetido à apreciação de
três docentes da área de Saúde Ocupacional e três profissionais da assistência da
mesma área. Após a validação do conteúdo e realizadas as reformulações
sugeridas, foi realizado um teste piloto com trabalhadores da UTI-Pediátrica da
mesma instituição. A coleta de dados foi realizada através de entrevista no próprio
local de trabalho, durante o período de 12 de fevereiro a 22 de março de 2001, por
um enfermeiro independente que foi devidamente treinado. Os dados foram
organizados no programa Excel 97 e a análise estatística foi executada com o
programa Statical Analysis System (SAS). Foi realizada análise descritiva dos dados
e, para analisar a relação entre variáveis categóricas, utilizou-se o teste Qui-
Quadrado e o teste Exato de Fisher. Utilizaram-se também os testes não-
paramétricos de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis.
O projeto obteve a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição e os
participantes assinaram um termo de consentimento livre e informado.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Participaram do presente estudo 68 trabalhadores, sendo 30 enfermeiros, 13
técnicos de enfermagem e 25 auxiliares de enfermagem.
Em relação às características gerais dos sujeitos, observou-se que
predominantemente pertenciam a categoria profissional de enfermeiro (44%), ao
sexo feminino (88%), eram casados (50%), com idade mais incidente entre 30 e 40
anos (50%), com tempo de trabalho na unidade e na atual função entre três meses e
15 anos. A maioria dos trabalhadores era do plantão noturno (53%), tinham outro
emprego (31%), sendo o maior índice de outro emprego o plantão da tarde (43%).
Dos participantes, 28% freqüentava escola regularmente, sendo constatado uma
diferença significativa (p=0,016 - teste Qui-Quadrado) entre as diferentes categorias
de enfermagem, com predomínio para a categoria auxiliar de enfermagem (63%).

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Na população estudada, 30 trabalhadores de enfermagem foram acometidos por
acidentes de trabalho no período de fevereiro de 2000 a janeiro de 2001, o que
representa um índice de 44%. Entre as categorias profissionais, foi o auxiliar de
enfermagem quem mais sofreu acidentes (48%), seguido pelo enfermeiro (43%) e
técnico de enfermagem (39%).
Aparentemente, analisando-se os acidentes (Figura 2), a ocorrência através de
ferimento por material perfurocortante foi a de maior incidência (40%). Entretanto,
quando agrupado o contato da pele e mucosas com o sangue e excretas,
evidenciou-se que esses foram os acidentes de maior incidência (50%).

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Avaliando as atividades que os trabalhadores de enfermagem estavam
desenvolvendo quando se acidentaram, foram encontrados os objetos e/ou agentes
causadores desses acidentes (Figura 3).

As agulhas apareceram como principal causa de acidente perfurante entre os


trabalhadores de enfermagem (40%). Esses achados concordaram com a literatura
que afirma ser a manipulação de agulha o maior risco de acidente por material
penetrante entre trabalhadores hospitalares(6,10).
Os demais acidentes do trabalho envolveram, em geral, o contato com sangue,
fluídos corpóreos e excretas, que são decorrentes da exposição dos trabalhadores
às cargas biológicas e suas atividades freqüentes com pacientes gravemente
enfermos.
Os agentes causadores dos acidentes que envolveram piso molhado (7%) estavam
relacionados à falta de sinalização dos corredores e a técnica inadequada da divisão
dos mesmos durante o procedimento de limpeza, não permitindo acesso seguro aos
trabalhadores.
A menor causa de acidente do trabalho foi aquela relacionada ao risco de esforço
físico nas atividades com pacientes obesos e agitados que, com o decorrer do
tempo, desgasta o trabalhador em sua atividade, proporcionando-lhe doenças
ocupacionais.

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Quanto ao local de ocorrência dos acidentes do trabalho, acontecidos com os
trabalhadores de enfermagem desta pesquisa, 60% aconteceram durante a
realização de procedimentos à beira do leito, 23% no posto de enfermagem,
preparando medicação, 10% desprezando excretas no vaso sanitário e 7% no
corredor por piso molhado.
Em relação à utilização dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), no
momento do acidente, 40% dos trabalhadores faziam uso e 60% não o utilizavam.
Observou-se, então, que os trabalhadores avaliam o procedimento e julgam a
necessidade de uso do EPI, não valorizando a real importância do seu uso para a
prevenção dos acidentes ocupacionais.

O procedimento que envolveu maior número de acidentes foi pela manipulação de


material perfurante durante o preparo de medicação (23%). Esses acidentes
aconteceram através da picada de agulhas estéreis. Portanto, são considerados não
contaminados, uma vez que não tiveram contato com o paciente, estando o
trabalhador livre da transmissão de patógenos.

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Dos acidentes com os trabalhadores de enfermagem, 10% aconteceram durante o
procedimento de aspiração do tubo orotraqueal, envolvendo espirro de secreção em
pele e mucosa. O procedimento é freqüente em UTI, expondo os trabalhadores ao
contato com agentes biológicos através de secreção traqueal dos pacientes
entubados ou traqueostomizados.
Os acidentes, que envolveram desprezar excreta/secreção, (10%) atingem
normalmente o trabalhador por espirro em pele e mucosas da face, da boca e dos
olhos. Essa é uma atividade realizada essencialmente pelo técnico e auxiliar de
enfermagem e ocorre quando as secreções de frasco de aspiração, a urina, as
fezes, o líquido hemodialítico drenado são desprezados.
A coleta de sangue para exame de gasometria envolveu 7% dos acidentes do
trabalho, técnica realizada pelo enfermeiro de UTI e muito freqüente, expondo o
trabalhador a acidente perfurante com presença de sangue do paciente. Segundo o
Conselho Federal de Medicina, os acidentes com agulhas ocas (para coleta de
sangue) constituem maior risco de contaminação para o vírus da hepatite B e HIV do
que os acidentes em que a agulha é compacta (agulha de sutura), pois, nesse caso,
o volume de sangue é menor(15). O risco para infecção por HIV aumenta após
exposição percutânea, quando um procedimento envolve agulha colocada
diretamente em veia ou artéria e a profundidade do ferimento(8).
Muitas atividades desenvolvidas pelos trabalhadores de enfermagem envolvem o
fato de percorrerem corredores externos e internos à unidade, incluindo o transporte
de paciente para exames e para o centro cirúrgico de urgência, a transferência de
paciente para as unidades de internação, o encaminhamento de óbito para o serviço
de anatomia patológica, a devolução e retirada de material e instrumental na central
de material esterilizado, e outros. Entre os acidentes ocorridos, encontraram-se 7%
de quedas em corredor por piso molhado/úmido.
Em relação ao tempo decorrido, em horas, após o início da jornada de trabalho para
a ocorrência de acidente do trabalho, foi achada diferença significativa entre as
categorias profissionais (p=0,0290 - teste de Kruskal-Wallis), sendo, para os
enfermeiros, a mediana igual a duas horas (mínimo de uma e máximo de seis horas)
e para os técnicos e auxiliares de enfermagem seis horas (mínimo de uma e máximo

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de 11 horas). Esses dados incluíram os acidentes com trabalhadores que realizavam
jornada de seis e de 12 horas.
Os dados demonstram que os acidentes com os enfermeiros ocorreram nas
primeiras horas de trabalho, o que pode ser explicado pelo tipo de atividade
desempenhada pelo profissional no início do plantão. Entre as atividades, podemos
destacar o procedimento de coleta de sangue para exames laboratoriais,
principalmente, a punção arterial, de responsabilidade privativa desse profissional e
o preparo e administração de algumas drogas que exigem conhecimento
farmacológico.
Para os técnicos e auxiliares de enfermagem, os acidentes ocorreram durante toda a
jornada de trabalho, estando relacionados às atividades de higiene e conforto do
paciente, à organização da unidade, à retirada e encaminhamento de materiais e,
principalmente, à atividade de mensurar e desprezar urina, drenagens e secreções
dos frascos coletores e que são realizadas, na maioria das vezes, ao final do
plantão.

Houve alta percentagem de casos de acidentes do trabalho (83%) não notificados.


Entre as categorias profissionais não houve diferença significativa na notificação dos
acidentes (p=0,687 - teste de Fisher). Observou-se maior percentual de acidentes
comunicados entre os auxiliares de enfermagem (25%) e enfermeiros (15%). Entre
os técnicos de enfermagem não houve notificação de acidente.
Entre os trabalhadores que notificaram os acidentes (17%), o motivo alegado foi pelo
risco de contaminação, a gravidade da lesão e a segurança. Quanto à não

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notificação dos acidentes (83%), os motivos relatados foram: acidente sem risco
(28%), contato de sangue, de fluido corpóreo ou de excreta em pele íntegra (24%),
muita burocracia (12%), acidente não-grave (12%), desinteresse (8%), plantonista
da UTI descartou a necessidade (4%), medo (4%) e plantão corrido com
intercorrências (4%).
Os 28% que consideraram o acidente sem risco, julgaram estar isentos de risco, por
terem perfurado o dedo durante o preparo de medicação com agulha estéril. Esse é
um acidente que, mesmo sem risco de contaminação, é preocupante, pois está
relacionado ao método de trabalho e atenção, podendo ocorrer em outra atividade
onde a agulha esteja contaminada. Essa situação também pode ocorrer em relação
ao contato de sangue, ao fluido corpóreo ou às excretas em pele íntegra, relatada
por 24% dos trabalhadores.

A falta de atenção foi o motivo mais alegado entre os trabalhadores de enfermagem


pelo acontecimento dos acidentes. Esse dado, somado à não utilização do EPI
correto/descuido, ao condicionamento de reencapar agulha, permite compreender

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que 33% dos motivos estão relacionados a um sentimento de culpa do trabalhador
pelo acidente do trabalho acontecido.
Alguns motivos estão relacionados com materiais ou circunstâncias que ocorrem
durante o trabalho, como a obstrução do sistema hemodialítico, a grande quantidade
de drenos e cateteres e/ou o acidente como um acontecimento inesperado. Esses
motivos perfazem 30% e não são previstos ou esperados que ocorram. Parte dos
motivos que ocasionaram os acidentes envolve o paciente como causa da situação,
entre eles, paciente obeso/agitado e paciente tossiu. Esses dados somam 14% dos
motivos. Outros motivos parecem estar relacionados com as condições do ambiente
de trabalho, entre eles, os fatores psicossociais e a organização do trabalho (23%),
em que foi mencionada a pressa decorrente do plantão/estresse, piso molhado em
corredor/falta de sinalização e os perfurocortantes descartados em local inadequado.

CONCLUSÕES
Este estudo possibilitou identificar os acidentes do trabalho ocorridos com os
trabalhadores de enfermagem de uma UTI, correlacionando-os com o procedimento
que estava sendo executado pelo trabalhador no momento do acidente.
Em relação ao acidente do trabalho, foi constatado, no período de fevereiro 2000 a
janeiro de 2001, índice de 44% de acidentes entre os trabalhadores de enfermagem
da UTI. A categoria profissional mais atingida foi a de auxiliar de enfermagem (48%),
seguida do enfermeiro (43%) e do técnico de enfermagem (39%).
Quanto ao tipo de acidente, foi encontrado índice acumulado de 50% para contato
de pele e mucosa com sangue e secreções, seguindo-se de 40% de ferimento por
material perfurocortante, 7% de queda por piso molhado e 3% por esforço físico.
A principal causa ou agentes causadores dos acidentes do trabalho foram as
agulhas, os frascos de secreção, a ruptura de membrana dializadora, os tubos,
cateteres e sondas, o piso molhado, a agitação de paciente e o transporte do
paciente obeso.
A respeito dos procedimentos que os trabalhadores estavam executando no
momento do acidente, foram muito variáveis: durante o preparo de medicação
(23%), aspiração de tubo orotraqueal (10%), desprezo de excreta/secreção (10%),
manuseio de cateter (10%), coleta de sangue arterial (7%), retirada de material pós-

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procedimento (7%) e percurso em corredor (7%). Entre os procedimentos em que
ocorreram os acidentes, 47% estavam relacionados ao contato direto com o
paciente e 53% ao contato indireto e ao ambiente laboral.
Quanto à notificação dos acidentes, houve apenas 17% de notificação e 83% de
não-notificação. Os trabalhadores consideraram como o motivo principal da não-
notificação do acidente a ausência de risco, por se tratar de agulha estéril (28%) e o
contato de sangue e fluido corpóreo em pele íntegra (24%).
Em relação à opinião dos acidentados sobre o motivo que ocasionou o acidente
ocorrido, os trabalhadores indicaram vários fatores, assumindo a culpa pelo ocorrido,
culpando o ambiente, os materiais e até o paciente.
No presente estudo, chega-se à conclusão que os acidentes podem ser evitados ou
minimizados com a utilização de equipamentos de proteção individual e com os
cuidados no manuseio de materiais perfurocortantes, sangue, fluido corpóreo e
excretas.
Também, na opinião das autoras, deve haver concentração de esforços e recursos
para mudanças no ambiente de trabalho, implementação de programas de
prevenção e conscientização de práticas seguras e o fornecimento, de forma
contínua e uniforme, dos dispositivos de segurança para todos os trabalhadores.
Espera-se que este estudo tenha contribuído para o conhecimento dos
procedimentos que expõem os trabalhadores de enfermagem a acidentes do
trabalho em unidade de terapia intensiva, reduzindo, dessa forma, sua ocorrência e
proporcionando maior segurança ao trabalhador no ambiente laboral.

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1 Trabalho extraído da Dissertação de Mestrado - "Riscos ocupacionais e acidentes
do trabalho: uma realidade em unidade de terapia intensiva";

AFASTAMENTOS DO TRABALHO NA ENFERMAGEM: OCORRÊNCIAS COM


TRABALHADORES DE UM HOSPITAL DE ENSINO1

Denise Beretta BarbozaI; Zaida Aurora Sperli Geraldes SolerII


I
Enfermeira do Trabalho, Mestranda em Enfermagem, Docente do Curso de
Graduação em Enfermagem, e-mail: deniseberetta@bol.com.br
II
Enfermeira do Trabalho, Doutor em Enfermagem, Docente e Coordenador Geral do
Curso de Graduação em Enfermagem, Membro do Corpo Docente e de
Orientadores da Pós-Graduação. Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto

RESUMO
As condições laborais da equipe de enfermagem freqüentemente são marcadas por
riscos, os quais repercutem em elevado absenteísmo e licenças-saúde. O objetivo

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deste estudo foi caracterizar os afastamentos entre trabalhadores de enfermagem
de um hospital geral de ensino da cidade de São José do Rio Preto-SP, registrados
durante o ano de 1999. Trata-se de uma investigação epidemiológica censitária, cuja
coleta de dados foi efetuada por meio de consulta aos registros do Centro de
Atendimento ao Trabalhador do hospital estudado. Os resultados indicaram que, no
período, 333 trabalhadores envolveram-se em 662 episódios de afastamento. As
licenças-saúde ocorreram, principalmente, por problemas geniturinário e doenças
mal definidas entre enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem; e doenças
dos órgãos dos sentidos, doenças infecta-parasitárias e doenças respiratórias entre
os atendentes de enfermagem. Os dados obtidos subsidiam melhor análise dessa
situação neste hospital e intervenções para melhoria das condições de trabalho
vigentes.
Descritores: absenteísmo, equipe de enfermagem, licença por motivo de saúde

INTRODUÇÃO
No contexto hospitalar, a enfermagem constitui-se na maior força de trabalho, e suas
atividades são freqüentemente marcadas por divisão fragmentada de tarefas, rígida
estrutura hierárquica para o cumprimento de rotinas, normas e regulamentos,
dimensionamento qualitativo e quantitativo insuficiente de pessoal, situação de
exercício profissional que tem repercutido em elevado absenteísmo e afastamentos
por doenças.
Usualmente, a ausência ao trabalho é denominada absenteísmo, apesar de, por
definição, absentismo significar "o hábito de não comparecer, de estar ausente".
Então, neste estudo, os dois termos serão usados com significado similar(1).
Vários autores destacam que as condições de trabalho vivenciadas por muitos
trabalhadores da equipe de enfermagem, particularmente em ambiente hospitalar,
têm lhes ocasionado problemas de saúde, freqüentemente relacionados à situação e
setor de trabalho, provocando prejuízos pessoais, sociais e econômicos(2-6).
Na análise dos aspectos que podem influenciar as atividades no trabalho, abordam-
se os fatores intra, peri e extralaborais como: ambiente físico; riscos ocupacionais;
higiene, estruturação e segurança do setor de trabalho; situação social de vida e do

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processo de trabalho do funcionário; organização e divisão das atividades; os meios
disponíveis para o exercício profissional; jornada, turno, alimentação e transporte;
situação social de moradia e deslocamento; interação pessoal e as relações entre
produção e salário(7-8).
Tratando-se especificamente do ambiente hospitalar, muito se tem falado e
publicado a respeito das condições inadequadas de trabalho vigentes em grande
parte dessas instituições, expondo seus trabalhadores a riscos de ordem biológica,
física, química, ergonômica, mecânica, psicológica e social. Os hospitais constituem-
se em locais de aglutinação de pacientes/clientes acometidos por diferentes
problemas de saúde, assistidos por trabalhadores diversos, da área da saúde ou
técnico-administrativas, e vários estudos têm apontado que os serviços de saúde,
em particular os hospitais, geralmente proporcionam aos seus trabalhadores,
principalmente da enfermagem, piores condições de trabalho em relação a outros
serviços(9-14).
Como conseqüência das condições inseguras de trabalho em instituições
hospitalares, no caso da equipe de enfermagem, têm sido freqüentes os acidentes
de trabalho, o absenteísmo e os afastamentos por doenças, o que tem dificultado a
organização do trabalho em diversos setores e, conseqüentemente, a qualidade da
assistência de enfermagem prestada.
O estudo das relações entre saúde-doença-trabalho tem merecido a atenção de
muitos pesquisadores na área de saúde ocupacional, destacando-se como prejuízos
à saúde física e mental dos trabalhadores: prolongadas jornadas de trabalho; ritmo
acelerado de produção, por excesso de tarefas; automação por realização de ações
repetitivas com parcelamento de tarefas e remuneração baixa, em relação à
responsabilidade e complexidade das tarefas executadas. Em tais situações, muitas
vezes o trabalho deixa de significar satisfação, ganhos materiais e serviços sociais
úteis, para tornar-se sofrimento, exploração, doença e morte.
Freqüentemente, os trabalhadores de enfermagem estão sujeitos a condições
inadequadas de trabalho, provocando agravos à saúde, que podem ser de natureza
física ou psicológica, gerando transtornos alimentares, de sono, de eliminação,
fadiga, agravos nos sistemas corporais, diminuição do estado de alerta, estresse,
desorganização no meio familiar e neuroses, fatos que, muitas vezes, levam a

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acidentes de trabalho e licenças para tratamento de saúde. Alguns autores
destacam os fatores ergonômicos relacionados a problemas ósteo-músculo-
articulares entre trabalhadores de enfermagem(15-17). Os agentes psicossociais
causadores de danos à saúde dos trabalhadores de enfermagem associam-se ao
contato freqüente com o sofrimento e a morte(9); a monotonia de atividades
repetitivas e parceladas e turnos rotativos de trabalho(18); fadiga que leva ao
estresse(2).
Ante o exposto, como enfermeiras do trabalho e diante de nossa experiência
profissional em hospitais, em especial no hospital-campo deste estudo, a questão
norteadora deste trabalho é a preocupação com a situação de trabalho e o processo
do adoecer entre trabalhadores de enfermagem desse hospital. Nesse contexto, foi
objetivo desta pesquisa:
- descrever os afastamentos do trabalho entre trabalhadores de enfermagem de um
hospital geral de ensino da cidade de São José do Rio Preto, registrados no Centro
de Atendimento ao Trabalhador (CEAT), no ano de 1999.

MÉTODO
Trata-se de uma investigação epidemiológica censitária, por meio de análise
retrospectiva do ano de 1999, sobre a situação de afastamentos entre trabalhadores
de enfermagem de um hospital de ensino. Ressalta-se que o estudo epidemiológico
é explicativo e também tem finalidade descritiva, mostrando questionamentos do
fenômeno pesquisado quanto ao tempo, espaço, características, qual o ponto focal
da questão e se existem fatos circunstanciais(19).
Este estudo foi realizado em um hospital geral, de grande porte, da cidade de São
José do Rio Preto, região noroeste do estado de São Paulo, que tem finalidades de
prestação de assistência complexa e especializada, de ensino e de pesquisa. Em
1999, esse hospital contava com 700 trabalhadores de enfermagem, sendo 103
enfermeiros, 31 técnicos de enfermagem, 410 auxiliares de enfermagem e 156
atendentes de enfermagem, a maioria com turnos de trabalho de 36 horas
semanais, nos seguintes horários: manhã (7:00 às 13:00 horas); tarde (13:00 às
19:00 horas) e noite (19:00 às 07:00 horas - dias alternados - 12/36 horas).

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Foram analisados os afastamentos do trabalho de profissionais de enfermagem
registrados no Centro de Atendimento ao Trabalhador (CEAT) desse hospital,
revelando-se que 333 trabalhadores foram acometidos, sendo 33 enfermeiros, 4
técnicos de enfermagem, 274 auxiliares de enfermagem, 22 atendentes de
enfermagem. É importante esclarecer que esses 333 funcionários envolveram-se,
nesse ano, em 662 episódios de afastamentos, o que deixa claro que alguns tiveram
mais de um afastamento.
Preservando-se os aspectos éticos de pesquisa envolvendo seres humanos, este
projeto foi inicialmente encaminhado ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP), para
apreciação e aprovação, com prévia anuência da chefia do hospital. De posse da
autorização do CEP, procedeu-se à coleta dos dados junto ao CEAT da referida
instituição, tendo por base um formulário elaborado segundo dados da ficha de
atendimento individual do funcionário do ambulatório de saúde ocupacional. Os
dados obtidos foram organizados e analisados no programa Excel/98, sendo
configurados em forma de Tabelas e Figuras.

RESULTADO E DISCUSSÃO
Os resultados obtidos foram agrupados segundo a caracterização da população e
quanto aos diferentes afastamentos do trabalho ocorridos em 1999, entre os
trabalhadores de enfermagem.
Caracterização da população: As Figuras 1 e 2 e a Tabela 1 mostram as
características dos sujeitos deste estudo. Nota-se a predominância de trabalhadores
de enfermagem do sexo feminino, pois, dos 333 funcionários da enfermagem
afastados do trabalho, 271 (81,4%) foram mulheres. Desde os primórdios, a
enfermagem é exercida majoritariamente por mulheres, considerando-se que
cuidados aos enfermos mostram-se cultural e socialmente apropriados para o
trabalho feminino(20).

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Existem diferenças para o exercício profissional entre homens e mulheres, além de
ser comum a sobrecarga de trabalho das mulheres, visto que, muitas vezes,
conciliam atividades domésticas, às vezes em mais de um local de exercício

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profissional, o que representa desgaste físico e mental que, cedo ou tarde, pode
repercutir em agravos à saúde(4,10,13-14,21-22).
Dos 333 funcionários envolvidos em 662 episódios de afastamentos, o auxiliar de
enfermagem foi a principal categoria de enfermagem acometida (82,3%) em 1999,
resultado que se aproxima dos encontrados em outros estudos, nessa
categoria(6,8,23).
Quanto à faixa etária, Tabela 1, predominaram os afastamentos entre trabalhadores
com 21 a 40 anos: 261 (78,3%), corroborando com os resultados encontrados em
outras pesquisas(6,10,13). Esse mesmo resultado difere do obtido em estudo sobre
doenças do trabalho e o exercício da enfermagem, onde ficou constatada maior
freqüência de afastamentos do trabalho na faixa etária de 50 a 55 anos (86,4%)(3).
Como mencionado anteriormente, os 333 funcionários deste estudo envolveram-se
em 662 episódios de afastamentos, sendo 66 entre os 33 enfermeiros, 7 entre os 4
técnicos de enfermagem, 550 entre os 274 auxiliares de enfermagem e 39 entre os
22 atendentes de enfermagem, como se verifica na Tabela 2. Pode-se constatar
que, dos 333 funcionários, 197 (59,1%) afastaram-se apenas 1 vez, sendo que, dos
outros funcionários que se afastaram mais de uma vez neste ano, a maioria teve de
2 a 4 afastamentos. Destaca-se um enfermeiro que se afastou 17 vezes e um
auxiliar de enfermagem que teve 22 episódios de afastamentos do trabalho.

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Para melhor caracterizar os afastamentos, os resultados serão daqui por diante
apresentados segundo os 662 episódios ocorridos no ano de 1999. Na Tabela 3,
onde se aborda o setor de trabalho, verifica-se que 36 (54,5%) dos enfermeiros e 4
(57,1%) dos técnicos de enfermagem afastados, atuavam em setor de internação.
Chamam a atenção, nessa Tabela, os seguintes fatos: 163 (29,6%) dos auxiliares e
8 (20,5%) dos atendentes de enfermagem atuavam em UTI; que 339 (61,6%) dos
auxiliares de enfermagem e 15 (38,5%) dos atendentes de enfermagem afastados
atuavam em setores especializados e UTI e que, entre os atendentes de
enfermagem, 13 (33,3%) atuavam em unidade de Centro-Cirúrgico (CC),
evidenciando desrespeito à legislação profissional da enfermagem(24), pois tais
trabalhadores de enfermagem não estão habilitados para atuarem em tais setores.

Características dos afastamentos: Os 662 afastamentos deste estudo são


apresentados nas Tabelas 4 e 5 e Figuras 3 e 4 quanto a tipos, período e
agrupamento dos problemas de saúde, conforme a distribuição da Classificação
Internacional de Doença-CID-10(25) e enfoque dos afastamentos entre trabalhadores,
segundo o sexo.

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Pela Tabela 4, nota-se que, dos 662 episódios de afastamentos do trabalho, 88,4%
foram ocasionados por agravos à saúde (licença por motivo de saúde), nas quatro
categorias de trabalhadores de enfermagem, 57 (86,4%) dos enfermeiros, 7 (100%)
dos técnicos de enfermagem, 490 (89,1%) dos auxiliares de enfermagem e 31
(79,5%) dos atendentes de enfermagem. Analisando-se esses dados em
consonância com a Tabela 3, verifica-se que os afastamentos acometeram,
principalmente, funcionários que atuam em áreas mais complexas, como Unidades
Especializadas (30,2%), UTI (27,2%) e Centro-Cirúrgico (14,7%), onde são alvos
para um grande número de transtornos de ordem física, química e psicológica,
aumentando os riscos de agravos à saúde e afastamentos(3,6,10).
Quanto à duração dos afastamentos do trabalho, verifica-se, na Tabela 5, que, em
560 (84,6%) dos episódios, o período foi de 1 a 10 dias, resultado que se aproxima
do encontrado em outras pesquisas, embora se refiram a um período de 1 a 14 dias
(64,4%)(6,8) e de até 15 dias (74,2%)(3). Quanto à preponderância dos afastamentos
no período de 1 a 4 dias, que ocorreram em 427 (64,5%) dos episódios neste
estudo, encontrou-se, em outra pesquisa(26), que 80% dos afastamentos tiveram
duração de até três dias.
Verifica-se, na Tabela 6, que 585 afastamentos foram por agravos à saúde (licença-
saúde), sendo que os principais problemas estavam relacionados a problemas
geniturinários: 110 (18,8%), e doenças mal definidas: 108 (18,6%), que incluíram 29
(50,9%) dos enfermeiros, 5 (71,4%) dos técnicos de enfermagem, 180 (36,7%) dos
auxiliares de enfermagem. Já entre os atendentes de enfermagem, os problemas de

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saúde foram ocasionados, principalmente, por doenças dos órgãos dos sentidos: 6
(19,3%), infecciosas e parasitárias: 5 (16,1%) e do sistema respiratório: 5 (16,1%).

Por fim, apresentam-se, nas Figuras 3 e 4, as características dos episódios de


afastamentos entre os sujeitos deste estudo, considerando-se o sexo dos
trabalhadores. Observa-se que 499 (75,4%) dos trabalhadores, independente do
sexo, afastaram-se só por agravos à saúde, correspondendo a 408 (75,1%) entre as
mulheres e 91 (76,5%) entre os homens. Ressalta-se a ocorrência de 29 (5,3%)
licenças por gestação, e 34 (6,3%) acidentes de trabalho. Dados da literatura
revelam que a mulher não é mais suscetível a agravos da saúde nas ações
profissionais, mas, sim, possui alterações fisiológicas e morfológicas que,
geralmente, não são consideradas no planejamento do seu trabalho(27).

CONCLUSÃO
Segundo o objetivo definido para este estudo, verificou-se que ocorreram 662
episódios de afastamentos do trabalho em 1999, envolvendo 333 trabalhadores de

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enfermagem, principalmente mulheres, na categoria de auxiliar de enfermagem, com
idade entre 21 a 40 anos.
Considerando-se o local de trabalho, houve predominância de afastamentos entre os
enfermeiros e técnicos de enfermagem que atuavam em unidade de internação,
enquanto que, entre os auxiliares e atendentes de enfermagem, afastaram-se mais
aqueles que trabalhavam em setores especializados e UTI.
A maioria dos episódios de afastamentos foram por agravos à saúde, 75,1% entre
as mulheres e 76,5% entre os homens. As licenças-saúde ocorreram,
principalmente, por problemas geniturinários e doenças mal definidas, entre os
enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, enquanto, entre os atendentes de
enfermagem, os afastamentos relacionaram-se, principalmente, a problemas dos
órgãos dos sentidos, doenças infecciosas e parasitárias e do sistema respiratório.
Os dados obtidos neste estudo permitem uma análise mais acurada da situação dos
afastamentos do trabalho entre a equipe de enfermagem do hospital estudado, em
1999. Evidenciou-se que os funcionários afastados nas categorias de auxiliares e
atendentes de enfermagem atuavam em locais para os quais não tinham preparo e
qualificação legal, o que exige uma melhor análise da Chefia de Enfermagem quanto
à situação de trabalho da equipe de enfermagem. Ainda, os resultados dão
subsídios à Chefia de Enfermagem e à Administração Geral do Hospital para intervir
e melhorar as condições de trabalho existentes para a equipe de enfermagem e,
assim, diminuir os custos econômicos e sociais nesse contexto.

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QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO E SAÚDE/DOENÇA

1 Centro de Estudos em Saúde Coletiva (Cesco), Universidade Federal de


São Paulo, Escola Paulista de Medicina,

Resumo

A partir da discussão das noções que assumiu a Qualidade de Vida no


Trabalho (QVT), priorizou-se a que valoriza as mudanças na organização do
trabalho, a participação dos trabalhadores, conforme o Programa Internacional para
o Melhoramento das Condições e dos Ambientes de Trabalho (PIACT), da
Organização Internacional do Trabalho (OIT), 1976. Diante da escolha, são
apontados os limites da QVT na nossa realidade, em que a democracia nos locais
de trabalho é ainda frágil. Ao lado disso, vis à vis o taylorismo/fordismo, discute-se
as mudanças na organização do processo de trabalho que acompanham a QVT na
reestruturação produtiva, apontando para a necessidade de pensar-se indicadores
epidemiológicos que expressem as relações saúde/doença e as novas formas de
gestão, divisão e organização da produção, representadas pelas doenças
relacionadas ao trabalho, cujo nexo com ele têm causalidade mais complexa.

Palavras-chave Qualidade; Processo de trabalho; Participação;


Saúde/Doença

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Introdução

Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) é uma terminologia que tem sido


largamente difundida nos últimos anos, inclusive no Brasil. Como incorpora uma
imprecisão conceitual, vem dando margem a uma série de práticas nela contidas
que ora aproximam-se da qualidade de processo e de produto, ora com esta se
confundem. O conceito, através dos programas de qualidade total, vem
impregnando propostas de práticas empresariais (Rodrigues, 1991).

Se sua origem pode ser encontrada no longínquo pós-guerra, como


conseqüência da implantação do Plano Marshall para a reconstrução da Europa
(Vieira, 1993), sua trajetória tem passado por vários enfoques. Uns enfatizam
aspectos da reação individual do trabalhador às experiências de trabalho (década de
1960); outros, aspectos de melhoria das condições e ambientes de trabalho, visando
maior satisfação e produtividade (década de 1970) (Rodrigues, 1991). Articulada a
esta última abordagem, a QVT também é vista como um movimento, no qual termos
como gerenciamento participativo e democracia industrial são adotados
freqüentemente, como seus ideais (meados da década de 1970). Por fim, nos anos
80, adquire importância como um conceito globalizante, na busca de enfrentar as
questões ligadas à produtividade e à qualidade total (Zavattaro, 1999).

Observa-se, assim, que a QVT dialoga com noções como motivação,


satisfação, saúde-segurança no trabalho, envolvendo discussões mais recentes
sobre novas formas de organização do trabalho e novas tecnologias (Sato, 1999).

Aqui, interessa discutir a vertente que prioriza as condições, ambientes,


organização do trabalho e as tecnologias. Vertente esta, advogada pela
Organização Internacional do Trabalho (OIT) a partir de 1976, quando lança e
fomenta o desenvolvimento do Programa Internacional para o Melhoramento das
Condições e dos Ambientes de Trabalho (PIACT). Trata-se de uma proposta que
procura articular duas tendências: uma dirigida ao melhoramento da qualidade geral
de vida como uma aspiração básica para a humanidade hoje e que não pode sofrer
solução de continuidade no portão da fábrica. (...); a outra, concernente a uma maior

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participação dos trabalhadores nas decisões que diretamente dizem respeito à sua
vida profissional (Mendes, 1988a).

Surgida na esteira da cada vez maior mobilização dos trabalhadores


europeus pela ampliação de seus direitos no trabalho, que ocorre no final dos anos
60 e início dos 70, a proposta do PIACT incorpora tais demandas (Parmegianni,
1986). Reflexo disso, na década de 1980, consolida-se uma tendência que baseia a
QVT na maior participação do trabalhador na empresa, na perspectiva de tornar o
trabalho mais humanizado. Agora os trabalhadores são vistos como sujeitos,
estando sua realização calcada no desenvolvimento e aprofundamento de suas
potencialidades.

Assim, busca-se superar a etapa da prevenção dos acidentes e doenças


tidos como diretamente relacionados ao trabalho, para avançar na discussão dos
agravos relacionados ao trabalho. Conforme proposição do National Institute of
Occupational Safety and Health (NIOSH), passam a incorporar grupos de doenças e
acidentes que também ocorrem na população geral, mas que em determinadas
categorias de trabalhadores adquirem um perfil patológico diferenciado (Quadro 1).

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Expressão dessas preocupações, o PIACT já propunha uma estratégia de
intervenção sobre o processo de trabalho, ou seja, ... a carga de trabalho, a duração
da jornada, (...), a organização e o conteúdo do trabalho e a escolha da tecnologia
(Mendes, 1988).

Do que foi até aqui exposto, observa-se que se trata de um discurso que
remete, num extremo, a mudanças na organização do processo de trabalho como
conseqüência do movimento de qualidade do trabalho e/ou da democracia industrial
adotada nos países escandinavos no início da década de 1970 (Ortsman, 1984). No
extremo oposto, lida com práticas que se preocupam muito pouco com as condições
e organização do trabalho, na medida que sua vertente individualista apenas
incentiva a prática de hábitos de vida saudáveis (Sato, 1999). Se, em princípio, não
se pode banir tais iniciativas, é mister apontar que elas não atingem as relações e a
organização do processo de trabalho, categoria esta central para explicar os
principais problemas atuais de saúde dos trabalhadores.

Assim, a idéia de QVT procura amalgamar interesses diversos e


contraditórios, presentes nos ambientes e condições de trabalho, em empresas
públicas ou privadas. Interesses estes que não se resumem aos do capital e do
trabalho, mas também aos relativos ao mundo subjetivo (desejos, vivências,
sentimentos), aos valores, crenças, ideologias e aos interesses econômicos e
políticos (Sato, 1999). Ocorre, porém, que a possibilidade de abarcar-se tal gama de
questões e demandas envolve uma rede e um mecanismo complexo de relações,
em que o peso específico da atuação dos trabalhadores adquire papel fundamental.
A propósito disso, Ciborra e Lanzara (1985), assessores de uma central sindical
italiana, criticam a noção de qualidade de vida no trabalho e propõem a terminologia
qualidade do trabalho - mais adequada, na medida que procura incluir todas as
características de uma certa atividade humana -, apontando que ela encerra uma
concepção clínica, voltada à mudança de hábitos de vida e por isso atribuindo ao
próprio trabalhador a responsabilidade de adaptar-se, de modo a otimizar sua
qualidade de vida e de trabalho. Tal comportamento, não podemos esquecer, abre

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caminho para uma velha postura ideológica: a culpa da vítima pelo ato inseguro
(Lacaz, 1983).

Observa-se, pois, que a idéia de QVT é complexa e mutante. Pressupõe


tanto uma abordagem e um aporte informado pela saúde coletiva, como pela clínica;
além de embutir uma descontextualização e despolitização das relações saúde-
trabalho, tão marcantes no discurso sanitário.

No caso do Brasil, as políticas empresariais de programas de qualidade,


conforme mostra Heloani (1994), são caracterizadas por envolver mecanismos de
controle da percepção e subjetividade para enquadrar trabalhadores mediante
engrenagens que visam introjetar as normas e metas da empresa.

Do lado dos trabalhadores, considerando-se a história recente do movimento


sindical, do então chamado novo sindicalismo, que data do final dos anos 70 e início
dos 80, ver-se-á que qualidade de vida (no trabalho) não foi uma bandeira de luta
expressa, mas sim a melhoria das condições de trabalho e defesa da saúde como
direito de cidadania (Ribeiro & Lacaz, 1984). Não seria por isso mesmo que foi
usada para contrapor-se ao discurso sobre a saúde defendido por parcela
importante do movimento sindical de trabalhadores que, entre nós, sedimentou-se
sobre uma plataforma claramente política para explicar a determinação do processo
saúde/doença? (Rebouças et al., 1989).

Qualidade de vida no trabalho: um conceito e prática instrumentais

Para Ciborra & Lanzara (1985), são várias as definições da expressão QVT,
ora associando-a às características intrínsecas das tecnologias introduzidas e ao
seu impacto; ora a elementos econômicos, como salário, incentivos, abonos, ou
ainda a fatores ligados à saúde física, mental e à segurança e, em geral, ao bem-
estar daqueles que trabalham. Em outros casos, segundo estes autores, considera-
se que a QVT é determinada por fatores psicológicos, como grau de criatividade, de
autonomia, de flexibilidade de que os trabalhadores podem desfrutar ou, (...) fatores

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organizativos e políticos, como a quantidade de controle pessoal sobre o posto de
trabalho ou a quantidade de poder que os trabalhadores podem exercitar sobre o
ambiente circundante a partir de seu posto de trabalho.

Mais ainda: do ponto de vista do planejamento do trabalho, a categoria


qualidade do trabalho também apresenta nuanças problemáticas quando envolve
questões abstratas, que desconsideram as relações concretas de produção no
cotidiano do trabalho dos atores sociais. Assim, as questões conceituais sobre
qualidade do trabalho consubstanciam-se, ainda conforme apontam Ciborra &
Lanzara (1985): De um lado por não parecer[em] ser definida[s] a partir de
concepções explícitas que os atores da organização têm acerca de sua vida de
trabalho, assume-se que a dimensão qualitativa do trabalho envolve relações
econômicas entre os indivíduos e a empresa e, de outro, pelos problemas básicos
de saúde e segurança do posto de trabalho.

Trata-se, então, em última instância, em concordância com Mendes e Dias


(1991), de buscar a humanização do trabalho - um dos pressupostos do campo de
práticas e saberes informado pelo encontro das formulações emanadas da Saúde
Coletiva, da Medicina Social Latino-americana (Laurell, 1991) e da Saúde Pública,
campo este denominado Saúde do Trabalhador (Lacaz, 1996).

Diante dessas assertivas, defende-se que dos elementos que explicitam a


definição e a concretização da qualidade (de vida no) do trabalho, é o controle - que
engloba a autonomia e o poder que os trabalhadores têm sobre os processos de
trabalho, aí incluídas questões de saúde, segurança e suas relações com a
organização do trabalho - um dos mais importantes que configuram ou determinam a
qualidade de vida (no trabalho) das pessoas. E, frise-se, elas são o que são. Por
isso, as condições, ambientes e organização do processo de trabalho devem
respeitá-las em sua individualidade.

Aqui, a noção de controle deve ser entendida como a possibilidade dos


trabalhadores conhecerem o que os incomoda, os fazem sofrer, adoecer, morrer e
acidentar-se e articulada à viabilidade de interferir em tal realidade. Controlar as
condições e a organização do trabalho implica, portanto, a possibilidade de serem

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sujeitos na situação. O exercício do controle tem tanto uma face objetiva (poder e
familiaridade com o trabalho), como uma face subjetiva, ou seja, o limite que cada
um suporta das exigências do trabalho (Sato, 1991).

Frise-se, ainda, que problemas afetos à temática da organização (divisão de


tarefas, de homens, de tempo e de espaço) e do (re)planejamento do trabalho são
também da maior relevância para que seja abordada de maneira produtiva e objetiva
a discussão sobre qualidade do trabalho. E, aqui, é imperioso analisar como, de um
lado, o controle e a disciplina fabris e, de outro, a gestão participativa como
possibilidade de abertura de canais de negociação capital-trabalho, que levem à
busca do encaminhamento das contradições e conflitos de interesses no trabalho,
podem interferir no seu encaminhamento sob uma ótica coletiva. Assim, quando se
fala de saúde e qualidade no trabalho, é sob este prisma que devem ser tratadas as
questões a elas relacionadas. É, pois, equivocado basear a solução dos aspectos
que interferem neste binômio em medidas de ordem individual como propõem os
programas de qualidade difundidos pelas empresas, dada sua ineficácia e por serem
questionáveis seus pressupostos, inclusive do ponto de vista bioético (Berlinguer,
1993). O que se propõe é, portanto, redirecionar o foco do debate e colocá-lo no
âmbito das relações sociais de trabalho que se estabelecem no processo produtivo,
para que fórmulas simplistas não sejam priorizadas quando se objetiva enfrentar a
complexidade das questões que envolvem a temática aqui analisada.

Na perspectiva de ampliar o foco de luz sobre a temática, é esclarecedor


atentar para o que observa Cattani (1997) no que diz respeito à autonomia, ao
controle e ao poder dos trabalhadores n(d)o processo de trabalho.

O autor fala da antiga discussão do que representa a disciplina fabril sobre o


tempo disponível e a vida dos operários com o advento da chamada Revolução
Industrial na Europa Ocidental. Esta disciplina sofisticou-se com as mudanças
introduzidas a partir das novas formas de organização do trabalho (Fleury e Vargas,
1983) que se consubstanciam hoje no que se denomina reestruturação produtiva,
sempre visando a cada vez maior produtividade e a competitividade de mercado
(Gorender, 1997).

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Assim, do simples relógio da fábrica, que regulava a hora de acordar e de
dormir da família operária, ao cronômetro, base da intervenção racional sobre o
trabalho construída e difundida por Taylor (1982), houve um disciplinamento e um
assujeitamento (Foucault, 1994). Estes refinaram e aprofundaram a disciplina fabril,
a qual ganhou cores mais vivas, constituindo-se nos pilares das propostas de
organização e gestão do trabalho ainda sob o taylorismo e, posteriormente, sob o
fordismo e mesmo sob o toyotismo (Antunes, 1995; Hirata e Zarifian, 1991).

Vários estudos epidemiológicos e qualitativos têm mostrado a importância da


ausência de controle e autonomia dos trabalhadores sobre condições e organização
do trabalho para explicar diversos problemas de saúde como os cardiovasculares, o
sofrimento mental e mesmo os acidentes do trabalho (Gardell, 1982; Karasek, 1979;
Karasek et al., 1981; Marmot e Theorell, 1988; Olsen e Kristensen, 1991; Seligmann-
Silva, 1997; Vezina, 1998; Wünsch Filho, 1998). É isso que será discutido a seguir.

Perfil patológico e qualidade n(d)o trabalho: as diferentes explicações

Melhorar a qualidade das condições de saúde no trabalho, a partir do


enfoque acima discutido, acarreta identificar os problemas em cada situação, com a
participação efetiva dos sujeitos do processo de trabalho e replanejá-lo, o que
envolve sempre um processo de negociação (Laurell & Noriega, 1989). Não há
apenas um modo racional de fazer o trabalho, mas diversos. Diante disso, não cabe
somente aos gestores o papel de pensar e replanejar. Devem estar envolvidos
também os trabalhadores produtivos para, no limite, acabar com a separação,
advinda da administração racional, entre o planejamento e a execução de qualquer
trabalho (Laurell & Noriega, 1989; Sato, 1999).

Conforme aponta Dejours (1987), trabalho prazeroso é aquele em que cabe


ao trabalhador uma parte importante da concepção. Assim, a inventividade, a
criatividade, a capacidade de solucionar problemas, o emprego da inteligência é o
que deve ser buscado, e é disso que fala De Masi (1999) quando estuda as

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principais experiências criativas de trabalho entre meados do século XIX e do século
XX, tanto em empresas, como em instituições de pesquisa.

Se sob o taylorismo os indicadores mais diretos da nocividade e da


exploração do trabalho estavam relacionados aos acidentes típicos e às chamadas
doenças ocupacionais, características dos efeitos das matérias e dos agentes de
risco existentes nos ambientes de trabalho onde ocorria a transformação industrial,
também a eles associava-se uma maneira de compreender os tais agravos à saúde.
Para a Medicina Legal e a Higiene do Trabalho e Industrial, os riscos ocupacionais
eram vistos como infortúnios do trabalho: noção que aliava a fatalidade a uma certa
suscetibilidade individual para a ocorrência de tais problemas (Barreto, 1929;
Bertolli, 1992/93; Mendes, 1995).

A própria Medicina do Trabalho e depois a Saúde Ocupacional caminharam


nessa trilha, ao vincularem, de modo redutor, sua visão sobre a forma de adoecer e
morrer em conseqüência do trabalho aos agentes patogênicos de natureza física,
química e biológica dos ambientes de trabalho onde o trabalhador/ hospedeiro com
eles interage (Mendes, 1980). Com isso, o perfil de adoecimento encontrava-se
circunscrito às doenças e acidentes ocupacionais puros, isto é, não se concebia que
os trabalhadores adoecessem e morressem de maneira semelhante com o que
ocorre com a população geral e, também, em conseqüência da inserção em
processos de trabalho que se modificam historicamente dentro do mesmo modo de
produção. Assim, essas modificações determinam formas de adoecimento e morte
que devem ser analisadas do ponto de vista histórico para que se apreenda como as
transformações do trabalho atuam na saúde/doença (Dias, 1994). É a introdução da
categoria processo de trabalho, como elemento explicativo central na análise das
relações entre trabalho e processo saúde/doença, a grande contribuição e ruptura
epistemológica que fazem a Medicina Social Latino-Americana (Laurell, 1991) e a
Saúde Coletiva (Lacaz, 1996).

Sob o fordismo, o grau de automação que vai sendo imposto ao trabalho,


associado a mudanças importantes na forma de organização da jornada, como o
regime de turnos alternantes, produz uma mudança no perfil da morbi-mortalidade,

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que associa-se, no final dos anos 60, ao aumento do absenteísmo, da insatisfação
no trabalho, das operações tartaruga como maneiras de resistência ao controle
fordista. São sinais do esgotamento desta forma de gestão, divisão e organização do
trabalho (Frederico, 1979; Humphrey, 1982).

A cada vez mais clara percepção do esgotamento de um ciclo coloca ao


capital a necessidade de pensar em novas formas de gestão, divisão e organização
do trabalho, o que começa a acontecer na década de 1970, inicialmente em países
do capitalismo central, inspirados no modelo japonês. Esse modelo vai constituir-se
no novo paradigma, que reacende a discussão sobre o controle e o disciplinamento
dos trabalhadores. E, ressalte-se, é na organização do trabalho, que implica a
divisão de tarefas e delimitação das relações sociais de trabalho, que se deve
buscar as restrições para a livre manifestação da saúde mental. Ocorre que, entre
nós, quando o assunto é a busca do padrão japonês de produção como paradigma
de flexibilização produtiva e inovação na organização do trabalho, que seria
acompanhado do fim da divisão do trabalho baseada no taylorismo e no
relacionamento autoritário na empresa, existem importantes controvérsias. Essa
transição/reestruturação produtiva, que engloba a questão da qualidade, tem sido
conceituada como um processo que busca compatibilizar uma série de mudanças
organizacionais nas relações de trabalho, implicando uma nova definição de papéis
das nações e entidades do sistema financeiro, para garantir a competitividade e a
lucratividade nas quais as novas tecnologias têm um papel central (Corrêa, 1997).
Isso tudo começa no final dos anos 60 e início dos 70, quando evidenciam-se os
limites do regime de acumulação baseado no taylorismo/fordismo, até então
hegemônicos, como forma de organização do trabalho (Corrêa, 1997). O
componente relativo à organização e divisão do trabalho é o lugar dos principais
elementos que caracterizam a reestruturação produtiva que traz conseqüências para
a vida em sociedade. Junto, aparecem subprodutos, ou seja, o desemprego, a
ampliação do trabalho parcial; o trabalho de crianças e adolescentes, das mulheres
e as questões de gênero correlatas, bem como a precariedade das relações de
trabalho e dos direitos trabalhistas (Antunes, 1995; Brito, 1997; Gomez e Meirelles,
1997).

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É mister ainda ressaltar que com o aprofundamento da automação e o
avanço das novas tecnologias de informática, que passam a definir os níveis da
produção a serem alcançados, houve uma clara sofisticação do disciplinamento que
veio acompanhada de uma dissimulação do controle, sob o manto da idéia da
qualidade e da competitividade. Tais mudanças na organização do trabalho levam
ao abandono relativo as idéias de tarefas e postos de trabalho, tão caros da
organização taylorista/fordista. Daí decorrem os modos de polivalência, a articulação
das atividades de operação e o controle de qualidade e manutenção (Salerno,
1994).

No Brasil tal estratégia, também uma resposta à atuação do movimento novo


sindicalismo, já mencionado, parece assumir um caráter ambíguo: maior delegação
de poderes acoplada à dissimulação do controle, representada, por exemplo, pelos
Círculos de Controle de Qualidade/CCQs (Humphrey, 1982; Lacaz, 1983). Isso
ocorre à medida em que o país passa a se inserir cada vez mais e rapidamente no
mercado internacional, conjuntura em que a competitividade está a exigir tais
mudanças, visando à melhoria da qualidade do que é produzido. Acontece, porém,
que a Gestão Participativa e os CCQs são uma certa forma de implementá-la e,
quando se dá por... iniciativa patronal é episódica e reversível (...) ocorrendo
concomitantemente à intensificação forçada da mão de obra e da precarização (sic.)
dos contratos (Cattani, 1997).

Não por acaso, no Brasil, a possibilidade de organização dos trabalhadores


nos locais de trabalho, que deveria ser um dos pilares da busca pela qualidade do
trabalho, é uma realidade muito pouco encontrada, quando não considerada
indesejável ou até ilegal, dada a histórica repulsa do patronato às manifestações de
independência e autonomia das classes trabalhadoras (Rodrigues, 1995).

A organização nos locais de trabalho deveria ser elemento norteador das


relações de trabalho, em vista da introdução de novas tecnologias e da automação
cada vez mais intensa que se observa nos setores produtivos mais modernos.
Assim, é inadmissível falar em qualidade do produto sem tocar na qualidade dos

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ambientes e condições de trabalho, o que seria sobremaneira auxiliado pela
democratização das relações sociais nos locais de trabalho.

Na falta dos elementos acima apontados, pode-se afirmar que esta nova
empresa incorpora exigências com relações contraditórias no que se refere à saúde,
tais como: maior intensidade do ritmo, maior controle e conhecimento do trabalho;
polivalência e criatividade; maior liberdade de ação, reconhecimento maior do
trabalho e critérios rígidos de avaliação.

Tais relações expressam-se num quadro variado de queixas no qual


prevalecem o mal-estar difuso, como dores de cabeça e nas costas, dificuldade de
dormir e cansaço que não melhora com o descanso (Monteiro, 1995).

Os estudos realizados sobre as formas de gestão participativa no Brasil,


apontam para uma alienação maximizada na medida que se exige além do trabalho,
a afetividade e/ou até o inconsciente (Heloani, 1994). E, quando se trata da análise
da participação dos trabalhadores versus poder, observa-se que ela é apenas
consultiva e que o poder de decisão não pertence a eles, particularmente em
questões cruciais como no caso de demissões, por exemplo (Monteiro, 1995).

Do ponto de vista sanitário, essa realidade contraditória traz consigo um


novo perfil de morbi-mortalidade dos trabalhadores. Além das doenças e acidentes
associados à organização taylorista/fordista, hoje agrega-se a tendência de
mudança deste perfil em que predominam doenças não reconhecidas como do
trabalho, na medida que a organização (japonesa) do trabalho é o novo paradigma
mundial e dele fazem parte a informática, a automação, a polivalência, a restrição
hierárquica, o enxugamento do efetivo (downsizing), o desemprego etc. (Antunes,
1995).

Se, de um lado, a reestruturação exige o surgimento de um trabalhador


participativo, escolarizado e polivalente, esta polivalência é vivenciada de forma
ambígua, ou seja, como aumento de responsabilidade, maior carga de trabalho e
menor autonomia (Monteiro, 1995).

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A propósito disso, estudo recente realizado na indústria de papel e celulose
gaúcha, corrobora o que foi dito, tendo mostrado que o trabalho exigia forçar a vista,
ao lado de obrigar que se trabalhasse em grande velocidade, posição incômoda, o
que era acompanhado de forte pressão da chefia. Essa realidade de trabalho
predispunha à irritação/nervosismo, dor nas costas, dor de cabeça e cansaço - mais
prevalentes no setor administrativo que, mesmo tendo melhores condições e
ambientes de trabalho, apresentava cargas mais freqüentes derivadas da forma de
organização e divisão do trabalho (Fassa e Facchini, 1995).

Em realidades históricas de capitalismo dependente, tal quadro associa-se à


chamada precariedade do trabalho, em que o vínculo temporário e a subcontratação
promovem uma perda do poder de barganha dos trabalhadores, com repercussões
sobre a capacidade de negociação das condições de trabalho nos contratos
coletivos (Lacaz, 1996). Tal situação, no cotidiano, obriga a realização de tarefas
para as quais não houve treinamento adequado, em horários prolongados e os mais
variáveis, com ritmo acelerado (Monteiro, 1995).

Em busca da meta modernizar ou perecer, fala-se em implemento da


produtividade, a qual não se dá pelo aumento da produção por trabalhador, em
conseqüência de mudanças tecnológicas, mas sim pela intensificação do trabalho
reorganizado. É o que acontece, por exemplo, nas empresas que modernizam a
tecnologia de certos momentos produtivos e terceirizam outros, o que provoca a
perda de postos de trabalho, estratégia esta muito comum em empresas montadoras
(Villegas et al., 1997). A esse respeito é valioso atentar para editorial do jornal Folha
de S. Paulo, na edição do dia 14/11/1993, cujo sugestivo título era Produtividade e
Miséria e que analisava as estatísticas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatísticas (IBGE) sobre o aumento da produtividade industrial em
meio à redução do emprego. O texto assinalava que junto ao impressionante
aumento da produtividade no complexo metal-mecânico e eletrônico de cerca de
40%, nos primeiros sete meses de 1993 e de 23% no período entre 1991 e1993 o
que seria mais um recorde mundial, houve redução de 10% no nível de emprego,
considerando-se o mesmo período. Esse exército de desempregados, que demanda
serviços de saúde, assistência social em função de seu baixo consumo, de

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insegurança social, constitui a outra face da propalada qualidade e competitividade
modernizadora.

Em países periféricos, a coexistência de processos de trabalho arcaicos e


modernos explica a ocorrência de um perfil híbrido, no qual os nexos de causalidade
com o trabalho tornam-se mais complexos e onde nexos anteriormente não
cogitados ou desvalorizados devem ser (re)colocados em pauta.

Nesse panorama sobrevêm tanto uma 'subcarga' qualitativa como uma


sobrecarga quantitativa psíquica, podendo ser prognosticada a permanência da
heterogeneidade tecnológica, mas com certa homogeneidade desfavorável das
condições de trabalho e de vida (Laurell, 1991).

Diante disso, um novo perfil patológico configura-se, o qual é caracterizado


pela maior prevalência, na população trabalhadora, de agravos à saúde marcados
pelas doenças crônicas, cujo nexo de causalidade com o trabalho não é mais
evidente como ocorria com as doenças (e acidentes) classicamente a ele
relacionadas, os chamados infortúnios do trabalho. Proliferam então as doenças
cardiocirculatórias, gastrocólicas, psicossomáticas, os cânceres, a morbidade
músculo-esquelética expressa nas lesões por esforços repetitivos (LERs), às quais
somam-se o desgaste mental e físico patológicos e mesmo as mortes por excesso
de trabalho, além das doenças psicoafetivas e neurológicas ligadas ao estresse
(Gorender, 1997). Seriam, então, tais agravos os indicadores mais apropriados, nos
dias que correm, para expressar o grau em que as condições, ambientes e
organização do trabalho realmente se enquadram nos padrões de qualidade do
trabalho que incorporam os parâmetros aqui defendidos?

Assim, no bojo desse quadro, a morbi-mortalidade tendencial da população


trabalhadora aponta para uma prevalência cada vez mais freqüente de agravos
caracterizados por um mal estar difuso (Seligmann-Silva, 1997) e por doenças que
ocorrem na população geral, mas que entre os trabalhadores passam a ocorrer em
faixa etária mais precoce, quando comparada com a população geral. O quadro 2
demonstra como tal tendência se configura de maneira bastante clara.

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No quadro observa-se uma predominância das mortes por doenças
cardiovasculares, que podem se relacionar à baixa autonomia de decisões no
trabalho, às atividades pouco criativas e pequeno apoio social (Marmot & Theorell,
1988); ao que se soma as mortes por causas externas, relacionadas à violência dos
centros urbanos, muitas delas como resultado dos acidentes de trajeto ou do
trabalho (de trânsito) dos condutores de ônibus e veículos de carga (Lucca &
Mendes, 1993) e pelos cânceres relacionados ao uso de substâncias químicas cada
vez mais tóxicas (Mendes, 1988b).

Ademais, qualquer análise sobre as principais causas de aposentadoria por


invalidez previdenciária durante a década de 1980, conforme mostrado a seguir
(Quadro 3), também obriga a pensar na participação do trabalho como determinante
desta morbidade, particularmente no que se refere à hipertensão arterial, transtornos
mentais e doenças osteoarticulares (Mendes, 1988a).

Conclusão

Pode-se afirmar que a temática da QVT assume maior relevância nos anos
70, quando se dá um esgotamento da organização do trabalho de corte
taylorista/fordista, ao qual associa-se um aumento do absenteísmo, da insatisfação
no trabalho e da não aderência dos trabalhadores às metas definidas pela gerência.

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O modelo japonês é o novo paradigma de organização do trabalho, visando superar
essa realidade, apesar de tal modelo, conforme apontam alguns estudiosos, reduzir
a autonomia nas relações de trabalho, além de envolver um controle importante da
vida extraprofissional pela estrita utilização do tempo a serviço da empresa
(Antunes, 1995; Hirata e Zarifian, 1991).

Mesmo diante dos vários enfoques que vai assumindo a QVT, interessou
aqui ressaltar que para a OIT, a temática é expressada no PIACT, lançado em 1976,
procurando articular duas vertentes: uma relacionada à melhoria da qualidade geral
de vida como aspiração humana e que não poderia ser barrada no portão das
fábricas; e outra relativa à maior participação dos trabalhadores nas decisões que
dizem respeito à sua vida e atividade de trabalho. Nesse sentido, a saúde e a
qualidade do trabalho não podem ser negociadas como mais um mero elemento da
produção. Tal abordagem visava superar a prevenção dos acidentes e doenças
considerados diretamente ligados ao trabalho, priorizando a busca de outros nexos
saúde-trabalho, para além da causalidade direta. Os agravos à saúde, que também
ocorrem na população geral, quando relacionados ao trabalho assumem um perfil
diferenciado.

A Organização Mundial da Saúde, no ano de 1979, advogou a estratégia da


necessidade de desenvolver-se programas especiais de atenção à saúde dos
trabalhadores, visando promover melhorias nas condições da qualidade de vida e
trabalho nos países em desenvolvimento (Freitas et al., 1985).

Ressalte-se que a idéia de QVT aqui defendida envolve questões


intrinsecamente ligadas às novas tecnologias e seu impacto para a saúde e o meio
ambiente; aos salários, incentivos e participação nos lucros das empresas; à
criatividade, autonomia, grau de controle e quantidade de poder dos trabalhadores
sobre o processo de trabalho (Laurell e Noriega, 1989). Disso decorre que se
defenda a conquista de um (re)planejamento do trabalho em que a gestão
participativa seja real, com verdadeiros canais coletivos de negociação - capital-
trabalho, visando à resolução dos conflitos/contradições de interesses e a superação
de uma certa gestão participativa de caráter patronal, episódica e reversível, porque

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acompanhada da intensificação, da precariedade do trabalho e dos contratos e
direitos trabalhistas (Antunes, 1995).

Urge, portanto, um debate que tenha como foco a possibilidade de


organização a partir dos locais de trabalho, de forma a possibilitar uma discussão
das demandas de maneira democrática e igualitária, visando submeter as questões
ligadas à competitividade/produtividade e qualidade do produto à qualidade do
trabalho e à defesa da vida e da saúde no trabalho. Daí ser necessária a utilização
de outros indicadores sanitários que melhor espelhem as maneiras atuais de
consumo da força de trabalho, acopladas à reengenharia produtiva em que
prevalece a entrada de novos e desconhecidos insumos quanto à nocividade à
saúde e ao ambiente, aliada ao aprofundamento da automação e informatização
n(d)o processo produtivo.

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Sumário
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
17
PREFÁCIO DA 311 EDiÇÃO
19
PREFÁCIO DA 211 EDiÇÃO
21
PREFÁCIO - ALBERTO VENANCIO FILHO..
23
PRÓLOGO
29
PRIMEIRA PARTE - DIREITOS FUNDAMENTAIS: GENERAUDADES
1. A Legislação Estrangeira..
33
1.1. Generalidades
33
1.2. Igualdade de oportunidades e de tratamento no emprego
34
1.3. Direito de sindicalização
36
1.4. Acesso à justiça
38
1.5. Não discriminação no emprego
39
1.6. Saúde e segurança no trabalho
_........
42
1.7. Proteção contra assédio sexual e constrangimento moral........
45
1.8. Acesso a informações e proteção da intimidade
45
1.9. Liberdade de manifestação do pensamento
46
1.10. Proibição de trabalho forçado
47
1.11. Observações
48
2. Noção de Direitos Fundamentais
49
2.1. Generalidades
49
2.2. Definição
51
2.3. Análise da definição
51
2.4. Posição do Estado em face dos direitos fundamentais
54
3. Direitos Fundamentais: Denominações
56
3.1. A denominação consagrada
56
3.2. Direitos do homem

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56
3.3. Direitos naturais
57
3.4. Direitos individuais
58
3.5. Direitos subjetivos públicos
58

Page 2
3.6. Liberdades públicas e liberdades fundamentais
58
3.7. Direitos da personalidade
60
3.8. Direitos fundamentais
61
4. Distinções
62
4.1. Generalidades
62
4.2. Liberdades fundamentais e liberdades públicas
62
4.3. Direitos do homem e direitos fundamentais
64
4.4. Liberdades fundamentais e direitos fundamentais
66
5. Teorias sobre o Fim e a Estrutura dos Direitos Fundamentais
68
5.1. Generalidades
68
5.2. Teoria liberal
69
5.3. Teoria institucional......................................................................... 70
5.4. Teoria axiológica
72
5.5. Teoria democrático-funcional....................................................... 73
5.6. Teoria do Estado social.................................................................
74
5.7. Teoria socialista
74
5.8. Teoria conseNadora
75
5.9. Apreciação final..............................................................................
76
6. Características
78
6.1. Generalidades
78
6.2. Rejeição da inerência
79
6.3. Universalidade
80
6.4. Indivisibilidade e interdependência
84
6.5. Internacionalização (ou transnacionalidade)
90
6.6. Historicidade
92
6.7. Unidade
93
7. Classificações
94
7.1. Generalidades
94
7.2. A classificação de Karel Vasak
95
7.3. A classificação de Jean-Jacques Israel.......................................
97

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7.3.1. Função da liberdade a respeito do indivíduo segundo
sua situação
97

Page 3
7.3.2. Condições e modos de exercício das liberdades
98
7.3.3. Existência (ou inexistência) de hierarquia entre as
diversas liberdades...................
98
7.3.4. Realidade ou efetividade das liberdades
98
7.3.5. Crítica
100
7.4. A classificação de Jorge Miranda
100
7.5. A visão positivista
102
7.6. Classificação de acordo com as fontes
104
8. As Famílias (ou Naipes)
105
8.1. Nomenclatura
105
8.2. Visão diacrônica das famílias de direitos fundamentais
106
8.3. Visão sincrônica das famílias de direitos fundamentais
107
8.4. A primeira família
109
8.5. A segunda família
111
8.6. A terceira família
119
8.7. A quarta, a quinta e a sexta famílias
122
8.7.1. Generalidades
122
8.7.2. A quarta família
123
8.7.3. A quinta família
126
8.7.4. A sexta família
129
8.7.4.1. Generalidades
129
8.7.4.2. Democracia
132
8.7.4.3. Direito à informação
133
8.7.4.4. Pluralismo
134
8.8. Apreciação final: a superação da noção de "gerações" de
direitos fundamentais
136
SEGUNDA PARTE - DIREITOS FUNDAMENTAIS:
TÓPICOS PARTICULARES
1. Fundamento
141
1.1. Generalidades
141
1.2. Teorias
142

Page 4
1.2.1. Direitos naturais

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143
1.2.2. Direitos morais
145
1.2.3. Direitos históricos
147
1.3. As diferentes concepções
149
1.3.1. A tese positivista
149
1.3.2. A teoria do consenso....
155
1.3.3. A fundamentação teorético-discursiva
156
1.3.4. A tese comunitarista
159
1.3.5. A dignidade da pessoa humana
:....................... 160
1.4. Observações
167
2. Direitos Individuais e Direitos Coletivos
170
2.1. Generalidades
170
2.2. Os três critérios
172
2.2.1. Quanto ao modo do exercício
172
2.2.2. Quanto ao sujeito passivo do direito
172
2.2.3. Quanto ao titular do direito
173
2.3. Crítica
173
2.4. Evolução histórica
174
2.5. A complementaridade
175
2.6. A questão da hierarquia
177
3. Direitos Fundamentais e Ordem Pública
179
3.1. Generalidades..
179
3.2. Conceito de ordem pública
180
3.3. Classificação das normas de ordem pública......
182
3.4. Relações entre os direitos fundamentais e a ordem pública
186
3.5. A questão do arremesso de anão
189
4. Eficácia nas Relações entre Particulares
193
4.1. Fundamento histórico
193
4.2. Relevância prática
194
4.3. Os efeitos horizontais dos direitos fundamentais
196
4.3.1. O apelo às cláusulas gerais
197
4.3.2. A limitação da autonomia privada
197

Page 5
4.3.3. As posições jurídicas de efetiva desigualdade
198

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4.3.4. A eficácia erga amnes
198
4.3.5. O respeito à dignidade da pessoa humana
199
4.3.6. A jurisprudência do Bundesarbeitgericht
199
4.4. As teorias
200
4.4.1. A teoria do efeito mediato
200
4.4.2. A teoria do efeito imediato
201
4.4.3. A teoria dos efeitos em face do Estado
201
4.4.4. Observações.
201
4.5. O princípio de igualdade
203
4.6. O princípio de razoabilidade
204
4.7. O princípio de proporcionalidade
205
4.8. O princípio de equalização social..................................
208
4.9. Observações
208
5. Direitos Fundamentais dos Trabalhadores
211
5.1. Generalidades
211
5.2. Como cidadãos na palis
211
5.3. Como sujeitos de relação de emprego
213
5.4. As limitações ao exercício dos direitos fundamentais
216
5.5. A concretização da aplicação dos direitos fundamentais
220
6. Os Direitos Fundamentais na Óptica da Organização Internacional
do Trabalho
224
6.1. A globalização da economia
224
6.2. Efeitos da globalização sobre o movimento sindical.................. 226
6.3. A "cláusula social"
229
6.4. A Declaração sobre os princípios e direitos fundamentais no
trabalho........................
231
6.5. As oito convenções internacionais
233
6.5.1. A Convenção n. 87, de 1948. Trata da liberdade sindical
e proteção do direito de sindicalização
234
6.5.2. A Convenção n. 98, de 1949. Trata do direito de sindicali-
zação e de negociação coletiva
234

Page 6
6.5.3. A Convenção n. 29. de 1930. Trata do trabalho forçado
235
6.5.4. A Convenção n. 105, de 1957. Trata da abolição do traba-
lho forçado
235
6.5.5. A Convenção n. 138, de 1973. Trata da idade mínima
para admissão no emprego
235

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6.5.6. A Convenção n. 182, de 1999. Dispõe sobre a proibição
das piores formas de trabalho infantil e ação imediata
para sua eliminação
236
6.5.7. A Convenção n. 100. de 1951. Trata da igualdade de remu-
neração
237
6.5.8. A Convenção n. 111, de 1958. Trata da discriminação
(emprego e ocupação)
237
6.6. Avaliação crítica da Declaração sobre os princípios e direitos
fundamentais
238
6.7. O trabalho decente
239
7. Direitos Fundamentais nas Relações de Trabalho: no Mundo Ociden-
tal e no Japão
242
7.1. Generalidades
242
7.2. Alemanha
243
7.3. Bélgica
244
7.4. Espanha
245
7.5. Estados Unidos da América
247
7.6. França
250
7.7. Itália
254
7.8. Japão
259
7.9. Mercosul.......................................................................................... 260
7.10. Portugal
263
7.11. Reino Unido
265
7.12. União Europeia
267
TERCEIRA PARTE: OS DIREITOS FUNDAMENTAIS
NAS RELAÇÕES DE TRABALHO: BRASIL
1. Introdução
275
2. A Dignidade da Pessoa Humana
277

Page 7
3. A Proibição de Trabalho Escravo (ou Trabalho Forçado)
280
4. O Respeito à Intimidade
284
5. O Respeito à Vida Privada
289
6. O Respeito à Honra
292
7. O Respeito à Imagem
296
7.1. Imagem-atributo da personalidade
296
7.2. Imagem-retrato
299
8. Direito à Livre Manifestação do Pensamento; à Liberdade de Cons-
ciência e de Crença; e à Liberdade de Expressão e Informação
305
9. Direito ao Sigilo da Correspondência e das Comunicações Telegrá-
ficas, de Dados e das Comunicações Telefônicas. A Questão do
Correio Eletrônico

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311
10. Direito à Igualdade. Proibição de Discriminação
319
10.1. Direito à igualdade
319
10.1.1. Generalidades
319
10.1.2. Igualdade perante a lei
319
10.1.3. Igualdade em direitos (igualdade na lei)
320
10.1.4. Igualdade de direito
321
10.1.5. Igualdade jurídica
321
10.1.6. O princípio de isonomia
321
10.2. Não discriminação
323
10.2.1. Gênero (sexo)
327
10.2.2. Raça (cor)
329
10.2.3. Idade...............
332
10.2.4. Estado de saúde
336
10.2.5. Deficiência
339
10.2.6. Natureza do trabalho
345
11. Os Direitos de Solidariedade
349
11.1. Generalidades
349
11.2. Direito à sindicalização (liberdade sindical)
351
11 .3. Negociação coletiva
359
11.4. Greve
366

Page 8
11.5. Representação dos trabalhadores e dos sindicatos na empresa
375
11.6. Proteção contra a despedida injustificada
384
11.7. Direito ao repouso
389
11.7.1. Intervalos
390
11.7.2. Repouso semanal remunerado
397
11.7.3. Férias
398
11.8. Saúde e segurança do trabalho
402
11.9. Ambiente do trabalho
406
EPflOGO - OS DIREITOS FUNDAMENTAIS DOS TRABALHADORES COMO
LIMITAÇÃO AO PODER DO EMPREGADOR E À FLEXIBILIZAÇÃO DAS
CONDiÇÕES CONTRATUAIS MEDIANTE NEGOCIAÇÃO COLETIVA
1. Direito do Trabalho Clássico
415
2. O Setor Informal
416
3. O Direito do Trabalho da Sociedade Pós-industrial..

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418
4. A Dupla Função dos Direitos Fundamentais dos Trabalhadores
422
4.1. Limitação aos poderes do empregador
423
4.2. Limite à flexibilização das condições de trabalho mediante ne-
gociação coletiva
429
5. Conclusão
433
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (OBRAS CITADAS)
437
JURISPRUDÊNCIA CITADA
469

AS MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO E A EDUCAÇÃO:


novos desafios pra a gestão*

Acácia Zeneida Kuenzer**

Introdução

As profundas modificações que têm ocorrido no mundo do trabalho trazem novos


desafios para a educação. O capitalismo vive um novo padrão de acumulação
decorrente da globalização da economia e da reestruturação produtiva, que, por sua
vez, determina novas formas de relação entre o Estado e a sociedade.
Como resposta às novas exigências de competitividade que marcam o mercado
globalizado, exigindo cada vez mais qualidade com menor custo, a base técnica de
produção fordista, que dominou o ciclo de crescimento das economias capitalistas
no pós-Segunda Guerra até o final dos anos 60, vai aos poucos sendo substituída
por um processo de trabalho resultante de um novo paradigma tecnológico apoiado
essencialmente na microeletrônica, cuja característica principal é a flexibilidade. Este
movimento, embora não seja novo, uma vez que se constitui na intensificação do
processo histórico de internacionalização da economia, reveste-se de novas
características, posto que esta assentado nas transformações tecnológicas, na

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descoberta de novos materiais e nas novas formas de organização e gestão do
trabalho.
A partir destas novas bases materiais de produção estabelecem-se novas formas de
relações sociais, que, embora não superem a divisão social e técnica do trabalho,
apresentam novas características, a partir da intensificação de práticas
transnacionais na economia com seus padrões de produção e consumo, nas formas
de comunicação com suas redes interplanetárias, no acesso às informações, na
uniformização e integração de hábitos comuns e assim por diante. A sociedade
nesta etapa apresenta novos paradigmas econômicos e socioculturais, marcados
pela incorporação de culturas dominadas às culturas hegemônicas. Novos temas
passam a fazer parte da agenda internacional, como a pobreza, as questões
ambientais e raciais, a segurança coletiva, em que pese a exclusão reproduzir-se
permanentemente, posto que a lógica dominante é a da racionalidade
econômica.
Estabelecem-se novas relações entre trabalho, ciência e cultura, a partir das quais
constituise historicamente um novo principio educativo, ou, seja um novo projeto
pedagógico por meio do qual a sociedade pretende formar os
intelectuais/trabalhadores, os cidadãos/produtores para atender às novas demandas
postas pela globalização da economia e pela reestruturação produtiva. O velho
principio educativo decorrente da base técnica da produção taylorista/fordista vai
sendo substituído por um outro projeto pedagógico, determinado pelas mudanças
ocorridas no trabalho, o qual, embora ainda hegemônico, começa a apresentar-se
como dominante.
A pedagogia orgânica ao taylorismo/fordismo tem por finalidade atender a uma
divisão social e técnica do trabalho marcada pela clara definição de fronteiras entre
as ações intelectuais e instrumentais, em decorrência de relações de classe bem
definidas que determinam as funções a serem exercidas por dirigentes e
trabalhadores no mundo da produção. Este, por sua vez, tem como paradigma a
organização em unidades fabris que concentram grande numero de trabalhadores
distribuídos em uma estrutura verticalizada que se desdobra em vários níveis
operacionais, intermediários (de supervisão) e de planejamento e gestão, cuja
finalidade é a produção em massa de produtos homogêneos para atender a

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demandas pouco diversificadas. A organização da produção em linha expressa o
principio taylorista da divisão do processo produtivo em pequenas partes, onde os
tempos e movimentos são padronizados e rigorosamente controlados por inspetores
de qualidade e as ações de planejamento são separadas da produção. A mediação
entre execução e planejamento é feita por supervisores, profissionais da
administração de recursos humanos, que gerenciam pessoas por meio da utilização
de metodologias que combinam os princípios da administração cientifica (Taylor e
Fayol) e ao da administração comportamentalista que se utiliza de categorias
psicossociais, tais como liderança, motivação, satisfação no trabalho, para conseguir
a adesão dos trabalhadores ao projeto empresarial.

O principio educativo que determinou o projeto pedagógico da educação escolar


para atender a essas demandas da organização do trabalho de base
taylorista/fordista, ainda dominantes em nossas escolas, deu origem às tendências
pedagógicas conservadoras em todas as suas modalidades, as quais, embora
privilegiassem ora a racionalidade formal, ora a racionalidade técnica, sempre se
fundaram na divisão entre pensamento e ação. Esta pedagogia do trabalho
taylorista/fordista foi dando origem, historicamente, a uma pedagogia escolar
centrada ora nos conteúdos, ora nas atividades, mas nunca comprometida com o
estabelecimento de uma relação entre o aluno e o conhecimento que
verdadeiramente integrasse conteúdo e método, de modo a propiciar o domínio
intelectual das praticas sociais e produtivas. Assim é que a seleção e a
organização dos conteúdos sempre foi regida por uma concepção positiva da
ciência, fundamentada n alógica formal, onde cada objeto do conhecimento origina
uma especialidade que desenvolve sua própria epistemologia e se automatiza, quer
das demais especialidades, quer das relações sociais e produtivas concretas.
Concebidos desta forma, os diferentes ramos da ciência deram origem a
propostas curriculares que organizam rigidamente as áreas de conteúdo, tanto no
que diz respeito à seleção dos assuntos quanto ao seu sequenciamento, intra e
extradisciplinas. Os conteúdos, assim organizados, são repetidos ano após ano de
forma linear e fragmentada, predominantemente por meio do método expositivo
combinado com a realização de atividades que vão da copia de parcelas de texto à

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resposta de questões, onde mais importa cumprir a tarefa, tanto para o professor
quanto para o aluno, do que estabelecer uma profícua relação com o mundo do
conhecimento.
A habilidade cognitiva fundamental para o trabalho pedagógico é a memorização. O
livro didático é o verdadeiro responsável pela “qualidade” do trabalho escolar.
Esta proposta pedagógica foi, ao longo dos anos, reconhecidamente orgânica às
demandas de uma sociedade cujo modo dominante de produção, a partir de uma
rigorosa divisão entre as tarefas intelectuais (dirigentes) e as operacionais,
caracterizava-se por tecnologia de base rígida, relativamente estável. A ciência e a
tecnologia incorporadas que trazem em sua configuração um numero restrito de
possibilidades de operações diferenciadas, exigindo apenas a troca de uns
poucos componentes, demandam comportamentos operacionais predeterminados e
com pouca variação. Compreender os movimentos necessários a cada operação,
memorizá-los e repeti-los ao longo do tempo não exige outra formação escolar e
profissional a não ser o desenvolvimento da capacidade de memorizar
conhecimentos de repetir procedimentos em uma determinada seqüência.
A pedagogia, em decorrência, propõe conteúdos que, fragmentados, organizam-se
em seqüências rígidas. Tendo por meta a uniformidade de respostas para
procedimentos padronizados, separa os tempos de aprender teoricamente e de
repetir procedimentos práticas e exerce com rigor o controle externo sobre o aluno.
Esta pedagogia responde adequadamente às demandas do mundo do trabalho e da
vida social, que se regem pelos mesmos parâmetros das certezas e dos
comportamentos que foram definidos ao longo do tempo como aceitáveis.
Nada mais adequado do que uma escola que, para realizar o trabalho pedagógico
assim definido, se organizasse de forma rigidamente hierarquizada e centralizada
para assegurar o prédisciplinamento necessário à vida social e produtiva. E mais,
que se organizasse em duas versões, uma para a formação dos dirigentes, para o
qual o caminho é a versão acadêmica e progressivamente seletiva que conduz
poços à Universidade, e outra para a formação de trabalhadores, para o que se
constituíram historicamente alternativas com objetos e durações diversificadas, na
maioria das vezes (honrosa exceção a alguns cursos técnicos) aligeiradas.
A globalização da economia e a reestruturação produtiva enquanto macroestrategias

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responsáveis pelo novo padrão de acumulação capitalista, transformam
radicalmente esta situação, imprimindo vertiginosa dinamicidade às mudanças que
ocorrem no processo produtivo, a partir da crescente incorporação de ciência e
tecnologia, em busca de competitividade. A descoberta de novos princípios
científicos permite a criação de novos materiais e equipamentos; os processos de
trabalho de base rígida vão sendo substituídos pelos de base flexível; a
eletromecânica, com suas alternativas de solução bem definidas, vai cedendo lugar
à microeletrônica, que assegura amplo espectro de soluções possíveis desde que a
ciência e a tecnologia, antes incorporadas aos equipamentos, passem a ser domínio
dos trabalhadores; os sistemas de comunicação interligam o mundo da produção.
Em decorrência, as velhas formas de organização taylorista/fordistas não têm mais
lugar. A linha vai sendo substituída pelas células de produção, o supervisor
desaparece, o engenheiro desce ao chão de fabrica, o antigo processo de qualidade
dá lugar ao controle internalizado, feito pelo próprio trabalhador. Na nova
organização, o universo passa a ser invadido pelos novos procedimentos de
gerenciamento e passa-se a falar de Kan Ban, Just in Time, Kizen, CCQ, Controle
Estatístico de Processo e do Produto. As palavras de ordem são qualidade e
competitividade.
O novo discurso refere-se a um trabalhador de novo tipo, para todos os setores da
economia, com capacidades intelectuais que lhe permita adaptar-se à produção
flexível. Dentre elas, algumas merecem destaque: a capacidade de comunicar-se
adequadamente, por intermédio do domínio dos códigos e linguagens, incorporando,
além da língua portuguesa, a língua estrangeira e as novas formas trazidas pela
semiótica; a autonomia intelectual, para resolver problemas práticos utilizando
os conhecimentos científicos, buscando aperfeiçoar-se continuamente; a autonomia
moral, por meio da capacidade de enfrentar novas situações que exigem
posicionamento ético; finalmente, a capacidade de comprometer-se com o trabalho,
entendido em sua forma mais ampla de construção do homem e da sociedade, por
meio da responsabilidade, da crítica, da criatividade.
Evidentemente, esses novas determinações mudariam radicalmente o eixo da
formação de trabalhadores, caso ela fosse assegurada para todos, o que na
realidade não ocorre. Ao contrário, as pesquisas que vêm sendo desenvolvidas

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nessa área reforçam cada vez mais a tese da polarização das competências, por
meio da oferta de oportunidades de sólida educação científicotecnológia para um
número cada vez menor de trabalhadores incluídos, criando estratificação,
inclusive entre estes. Na verdade, cria-se uma nova casta de profissionais
qualificados, a par de um grande contingente de trabalhadores precariamente
educados, embora ainda incluídos, porquanto responsáveis por trabalhos também
crescentemente precarizados. Completamente fora das possibilidades de produção
e consumo e, em decorrência, do direito à educação e à formação profissional de
qualidade, há uma grande massa de excluídos, que cresce a cada dia, como
decorrência do próprio caráter concentrador do capitalismo, acentuado por esse
novo padrão de acumulação
No limite, a efetiva democratização da educação só será possível com a efetiva
democratização da sociedade em outro modo de produção, onde os bens materiais
e culturais estejam disponíveis a todos os cidadãos. Esta utopia, no entanto, parece
ficar mais distante na medida em que não só os esforços neoliberais, mas a própria
diversificação que ocorre entre os trabalhadores dificulta a organização coletiva
indispensável para que se operem as transformações necessárias.
Nas atuais condições, em face, inclusive, das determinações internacionais que
definem as demandas do capitalismo nesta etapa, a democratização possível, e a
educação básica, de qualidade, para todos.
Do ponto de vista da concepção de qualificação para o trabalho, há avanços,
embora já se tenha registrado que não é para todos. Solidamente fundamentada
sobre a educação básica , ela não repousa mais sobre a inquisição de modos faze,
deixando de ser concebida, como o faz o taylorismo/fordismo, como conjunto de
atributos individuais, psicofísicos, comportamentais e teóricos. Ao contrário, passa a
ser concebida como resultante da articulação de diferentes elemento, por meio da
mediação das relações que ocorrem no trabalho coletivo resultando de vários
determinantes subjetivos e objetivos, como a natureza das relações sociais vividas e
suas articulações, escolaridade, acesso a informações, domínio do método
cientifico, riqueza, duração e profundidade das experiências vivenciadas, tanto
laborais quanto sociais, acesso a espaços, saberes, manifestações cientificas e
culturais, e assim por diante.

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Em decorrência, a qualificação profissional passa a repousar sobre conhecimentos e
habilidades cognitivas e comportamentais que permitam ao cidadão cientifico, de
forma a ser capaz de se utilizar de conhecimentos científicos e tecnológicos de
modo articulado para resolver problemas de prática social e produtiva. Para tanto, é
preciso outro tipo de pedagogia, determinada pelas transformações ocorridas no
mundo do trabalho nesta etapa de desenvolvimento, das forças produtivas, de modo
a atender ás demandas da revolução na base técnica de produção, com seus
profundos impactos sobre a vida social. O objetivo a ser atingidos é a capacidade
para lidar com a incerteza, substituindo a rigidez pela flexibilidade e rapidez, de
forma a atender a demandas dinâmicas que se diversificam em qualidade e
quantidade.
Em tese, a nova pedagogia exige ampliação e democratização da educação básica,
com pelo menos onze anos de ensino, abrangendo os níveis fundamental e médio,
como fazem os países desenvolvimentos; embora isto não esteja posto
historicamente pela dura realidade da exclusão nos pais ditos emergentes; como o
Brasil, está presente no discurso do capital. Neste sentido, a clareza sobre para
onde aponta a nova pedagogia do trabalho pode ser estratégica para aqueles que
ainda acreditam ser possível a construção de um outro projeto de sociedade, sob a
hegemonia dos trabalhadores.

Nova Pedagogia do Trabalho


Tomando por base as pesquisas que estamos realizando por meio do núcleo de
estudos sobre Reestruturação produtiva e Educação, do setor de Educação da
UFPR, na região metropolitana de Curitiba e em alguns outros parques produtivos
da região sul, é possível estabelecer os primeiros delineamentos da nova pedagogia
que se desenvolve no âmbito das sociais e produtivas, para que se possa
compreender a nova pedagogia escolar, determinada pelas mudanças no mundo do
trabalho.
Estas pesquisas têm desenvolvido uma metodologia que busca identificar as
medicações entre as mudanças que ocorrem no mundo do trabalho e as novas
demandas para a escola em todos os seus níveis, a partir da categoria principio
educativo, tal como foi analisada historicamente por Gramsci (1978). Para tanto,

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foram privilegiadas as seguintes categorias: conteúdos, formas metodológicas,
espaços pedagógicos atores pedagógicos e formas de controle. A seguir, serão
apresentadas as conclusões da pesquisa nas fábricas analisadas do ramo
eletromecânico e as decorrentes implicações para a pedagogia escolar.

Os Conteúdos
A hipótese de trabalho adotada no inicio da investigação realizada foi a de que as
inovações em equipamentos, materiais, processos, de organização e gestão do
trabalho e de recursos humanos, bem como as novas formas de controle,
determinavam novos enfoques com relação aos conteúdos a serem trabalhados por
meio do processo pedagógico. Trabalhou-se com a hipótese de que esta nova forma
de tratar os conteúdos não significaria necessariamente novos recortes, mas a
democratização do acesso ao saber socialmente produzido, transformado em saber
escolar para todos os trabalhadores.
Neste plano, o debate teria outro foco que não os novos conteúdos, mas a
constatação de que os conteúdos tradicionalmente ensinados para uma camada
restrita da população, que consegue ultrapassar a barreira da seletividade, deveriam
ser objeto de ampla democratização, uma vez que são requisitos mínimos para a
participação competente em um setor produtivo que cada vez mais incorpora ciência
e tecnologia. Em decorrência, este passa a exigir competências intelectualmente
mais complexas, derivadas do domínio teórico, voltadas para o enfrentamento de
situações novas que exigem reflexão, crítica, flexibilidade, autonomia moral e
intelectual, além da capacidade de educar-se permanentemente. A primeira
constatação que as observações e entrevistas com trabalhadores e dirigentes nos
vários níveis permitiu foi reafirmação da tese da polarização. As demandas de maior
apropriação de conhecimentos científicos e tecnológicos se da para os níveis que
ocupam os lugares mais elevados na hierarquia do trabalhador coletivo, cujas
funções, entre outras, envolvem criação ou adequação de novas tecnologias,
manutenção de equipamentos, gestão de processos e produtos, gestão de
qualidade e funções administrativas de distintas naturezas.
Para os trabalhadores das unidades produtivas verificou-se que nas áreas onde a

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organização taylorista/fordista predomina, a permanência da antiga concepção de
qualificação, definida pela natureza da tarefa, determina a exigência de
conhecimentos científico-tecnológicos específicos, bem como de habilidades
psicofísicas e modos operacionais.
Para as áreas automatizadas configura-se outro tipo de demanda: conhecimentos
mais abrangentes dos campos da ciência presentes no processo produtivo, inclusive
de línguas estrangeiras, informática e formas de comunicação, com ênfase na
competência potencial para usar conhecimentos teóricos para resolver problemas
práticos, além do domínio dos cuidados operacionais necessários para lidar com
equipamentos sofisticados e de alto custo.
Parece haver contradição quando se verifica que os trabalhadores dos setores
menos automatizados têm que se utilizar de conhecimentos e destrezas especificas,
tendo o primeiro grau completo como requisito, enquanto os que trabalham nos
setores mais automatizados e apenas alimentam/vigiam as máquinas, controlando a
existência de problemas por meio de mensagens emitidas na tela do computador,
para o que se exige apenas a memorização das teclas a serem acionadas sempre
que tal situação ocorre, exige-se como requisito, segundo grau completo.
A pesquisa mostrou que, de fato, esta contradição é aparente. Em primeiro lugar
porque a certificação ISSO, requisito necessário para participar do comercio
globalizado de forma competitiva, exige que se comprove que o trabalhador tenha a
qualificação necessária ao exercício da tarefa.
Como a qualificação oferecida pela empresa e seu registro na ficha de cada
trabalhador, tendo em vista as autorias de qualidade, têm custo, é mais fácil e barato
comprovar competência por meio do certificado escolar, cabendo ao trabalhador o
ônus da prova. Não há, neste caso, correspondência entre a exigência da
escolaridade e a exigência de domínio de conteúdos, a não ser de maneira
indireta, posto que o elevado custo dos processos intensivos em tecnologia exige
trabalhadores responsáveis, atentos, flexíveis com relação à necessidade de
constantes mudanças e capazes para enfrentar situações-problema com agilidade.
Neste sentido, o trabalho escolar, além de supostamente selecionar os “mais
capazes”, desenvolve habilidades cognitivas, hábitos e condutas que facilitam o
enfrentamento de situações dinâmicas com a necessária flexibilidade. É

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desnecessário lembrar que a escola apenas referenda a inclusão dos incluídos, uma
vez que é a origem de classe que determina em boa parte mas diferenças que são
atribuídas ao trabalho escolar. Na verdade, os incluídos vivenciam um conjunto
de experiências sociais e culturais que lhes assegura larga vantagem na relação
com o conhecimento sistematizado; isto sem falar nas condições materiais
favoráveis ao estabelecimento dessa relação. Assim é que, não por coincidência, os
que permanecem na escola são também os que melhor se comunicam, têm melhor
aparência, dominam mais conhecimentos e apresentam condutas mais adequadas
ao disciplinamento necessário ao processo produtivo. Com um oferta de empregos
formais cada vez mais restrita, a escola continua a desempenhar uma função de
préseleção, articulando-se, assim, à seletividade presente no mundo do trabalho.
Basta lembrar que, em média, menos de 30% dos matriculados na primeira série
concluem o ensino fundamental e que apenas 16% dos jovens de quinze a
dezenove anos se matriculam no ensino médio, que conta com uma taxa
desperdício por volta de 50%, sendo até maior em muitos estados.
Há, contundo, uma dimensão que só se revelou ao aprofundar-se a análise: a partir
de determinado patamar de investimento em tecnologia intensiva em capital, os
ganhos de produtividade só são possíveis por meio do trabalho, principalmente por
intermédio da redução do desperdício, dos tempos mortos e da criação de novos
procedimentos, o que depende do saber tácito do trabalhador e do acesso que ele
tem ao conhecimento científico-tecnológico. Nesta perspectiva justifica-se o discurso
do capital quando defende patamares mais elevados de educação para os
trabalhadores, porque mesmo a concepção de qualificação profissional presente
nesta etapa privilegia a capacidade potencial para resolver situações-problema
decorrentes de processos de trabalho flexíveis em substituição às competências e
habilidades especificas exigidas para o exercício das tarefas nas organizações
tayloristas/fordistas, e isto exige o domínio dos conhecimentos científicos e
tecnológicos das diferentes áreas para a viabilização dos programas de qualidade,
um dos pilares da nova estratégia de acumulação.
A pesquisa mostrou exatamente isto: embora com nível de escolaridade
fundamental ou média, dada a qualidade precária do trabalho escolar, o
desenvolvimento dos programas de qualidade esbarram nas dificuldades relativas à

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comunicação oral e escrita, à compreensão e ao uso do método cientifico,
decorrentes em grande parte de uma relação inadequada com o conhecimento n
escola, tanto do ponto de vista dos conteúdos quanto do método. Evidentemente, a
mesma questão se põe para os que, excluídos do emprego formal, precisam
construir estratégias de sobrevivência por meio das novas formas de relação de
trabalho criadas nesta etapa, quer informais, quer de algum modo formalizadas.
Estes, mais do que nunca, precisam ter a posse do conhecimento, as experiências e
o domínio do método como condições determinantes de sobrevivência. Reforça-se,
portanto, a tese já defendida em Pedagogia da Fábrica (Kuenzer, 1985), de que a
posse dos conhecimentos que permitem a compreensão e a inserção no mundo do
trabalho é direito dos trabalhadores, por ser estratégica para a sua sobrevivência,
mas principalmente para a construção de seu projeto político enquanto classe
comprometida com a
transformação das relações de dominação entre capital e trabalho. Em decorrência,
com relação aos conteúdos, conclui-se que as transformações no mundo do trabalho
exigem, mais do que conhecimentos e habilidades demandadas por ocupações
especificas, conhecimentos básicos, tanto no plano dos instrumentos necessários
para o domínio da ciência, da cultura e das formas de comunicação, como no plano
dos conhecimentos científicos e tecnológicos presentes no mundo do trabalho e das
relações sociais contemporâneas.
Isto implica, em primeiro lugar, a extensão do ensino fundamental e médio para toda
a população, de forma gratuita e com qualidade.
Em segundo lugar, uma profunda revisão do trabalho pedagógico presente em
nossas escolas, de modo a construir uma nova proposta pedagógica que supere as
limitações identificadas.
Esta proposta fundamentar-se nos seguintes pressupostos;
_ Articulação entre conhecimento básico e conhecimento especifico a partir do
mundo do trabalho, concebido enquanto lócus de definição dos conteúdos que
devem compor o programa, contemplando os conteúdos das ciências exatas, das
diferentes linguagens, da tecnologia e outros;
_ Articulação entre saber para o mundo do trabalho e sabe para o mundo das
relações sociais, privilegiando-se conteúdos demandas pelo exercício da cidadania,

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que se situam nos terrenos da economia, da política, da historia, da filosofia, da ética
e assim por diante;
_ Articulação entre conhecimento do trabalho e conhecimento das formas de gestão
e organização do trabalho;
_ Articulação dos diferentes atores para a construção da proposta: setores
organizados de sociedade civil, professores e pedagogos, responsáveis pela gestão
estatal de educação e responsáveis pela formação de profissionais de educação.
A partir destes pressupostos, algumas considerações se fazem necessárias em
virtude dos resultados da pesquisa:
_ A integração entre conhecimento básico e aplicado só é possível no processo
produtivo, posto que não se resolver por meio da juntada de conteúdos ou mesmo
de instituições com diferentes especificidades; ela exige outro tratamento a ser dado
ao projeto pedagógico, que tome o mundo do trabalho e das relações sociais como
eixo definidor dos conteúdos, e não as áreas de conhecimento, que têm sua própria
lógica, e que por determinação da necessidade de sistematização teórica terá que
ser formal. São outros os conteúdos, outra forma de originar-los
(transdisciplinarmente), privilegiando as situações concretas do processo produtivo e
outro tratamento metodológico, que privilegie a relação teoria/prática; são outras as
habilidades, para além da simples memorização de passos e procedimentos, que
incluem as habilidades de comunicação, a capacidades de buscar informações em
fontes e por meios diferenciados e a possibilidade de trabalhar cientificamente com
estas informações para resolver situações problemáticas, criando novas soluções; e
principalmente, é outro processo de conhecer, que ultrapassa a relação apenas
individual do homem com o conhecimento, para incorporar as múltipals mediações
do trabalho coletivo.
A globalização da economia e a reestruturação produtiva se deram a partir da
derrubada das fronteiras também no campo da ciência, constituindo-se áreas
transdisciplinares em face da problemática do mundo contemporâneo; este mesmo
tratamento precisara ser dado aos conteúdos, derrubando-se as clássicas divisões
entre as disciplinas, para compor novos arranjos de conteúdos das várias áreas do
conhecimento, articulados por eixos temáticos definidos pela práxis social e pelas
peculiaridades de cada processo produtivo na formação profissional. Assim é que,

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na área eletromecânica, a formação devera privilegiar conteúdos que articulem a
mecânica, a eletrônica, a informática, a gestão e as formas de comunicação;
_ Os conteúdos são os mesmos; a forma de selecioná-los, organizá-los e trabalhá-
los é que é diferenciada, uma vez que os tratamentos fragmentados por área do
conhecimento e que tomam a memorização como habilidade fundamental, típicos do
taylorismo/fordismo, estão superados. A pesquisa demonstrou principalmente a
ênfase no domínio de matemática básica, do desenho geométrico, da língua
portuguesa, da estatística, de uma língua estrangeira moderna e de informática
básica enquanto ferramentas que permitem a apropriação dos conhecimentos
científicos, tecnológicos, sócio-históricos e de gestão;
_ Os conteúdos e as habilidades da área de comunicação, consideradas todas as
suas formas e modalidades, passam a ser estratégicos, para a avaliação crítica,
para a participação produtiva, para as relações interpessoais no trabalho e na
sociedade, para a participação social e política. Incluem-se neste item a língua
portuguesa, as línguas estrangeiras e os meios informatizados de comunicação;
_ Da mesma forma, os conteúdos sobre as determinações sociais, políticas que
levaram à globalização da economia, à reestruturação produtiva e às novas relações
entre Estado e sociedade, circunscritos ao campo teórico ideológico do
neoliberalismo, precisam ser apropriados pelos alunos, para que desenvolvam sua
capacidade de análise das relações sociais e produtivas e das transformações que
ocorrem no mundo do trabalho;
_ Nesta dimensão, merecem destaque os conteúdos relativos às novas formas de
organização e gestão dos processos produtivos e das novas relações sociais por
estes determinadas, incluindo-se ai os novos processos de qualidade, não
exclusivamente inscritos no âmbito da produtividade, mas principalmente no âmbito
da qualidade de vida de toda as dimensões, compreendendo a preservação do
ambiente; os conteúdos relativos aos novos instrumentos de gestão e controle do
trabalho; as transformações que estão sendo propostas para a legislação trabalhista
e previdenciária; as novas formas da organização da economia e dos trabalhadores
como alternativas às antigas formas de enfrentamento das condições entre capital e
trabalho; as novas demandas de educação geral e profissional para os

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trabalhadores; os impactos das novas tecnologia sobre a saúde a segurança em
geral e no trabalho e assim por diante.

Formas Metodológicas
A pesquisa realiza permitiu identificar significativas transformações com relação à
dimensão metodológica.
Constatou-se que as formas metodológicas historicamente construídas pelo
taylorismo/fordismo, que privilegiam a multiplicação de cursos de treinamento
fragmentado, dirigidos para a ocupações bem definidas, oferecidos de forma
desordenada, de tal modo que o trabalhador vai colecionando certificados que não
chegam a construir uma qualificação orgânica e consistente, e que tomam a
memorização de regras básicas e procedimentos técnicos específicos, estão
completamente superados.
E, no entanto, persistem tanto nas escolas quanto nas instituições especificas de
educação profissional e nos treinamentos das empresas. Do ponto de vista do
método, a pesquisa apontou para às seguintes dimensões:
_ A necessidade de definição de procedimentos metodológicos que permitem
superar a memorização, tornando-se como habilidade cognitiva fundamental a
capacidade de localizar informações e trabalhar produtiva e criativamente com elas
na construção de soluções para os problemas postos pela dinâmica da pratica social
e produtiva;
_ A necessidade de substituir o eixo de organização dos conteúdos, que
tradicionalmente repousava na estrutura lógico-formal das áreas de conhecimento,
passando-se a privilegiar a práxis social e produtiva como ponto de partida para a
seleção e organização de conteúdos.
Assim, em vez de desenvolver conteúdos teóricos que só posteriormente se
articulando na pratica, os conteúdos são selecionados a partir da analise de
processos sociais e de trabalho.
Contudo, esta forma metodologia contudo, não deve revestir as ciências de caráter
meramente instrumental, mas buscar, considerados seus estatutos epistemológicos
e lógicos específicos, construir novas formas de articulação entre teoria e pratica
que suprem o formalismo.

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_ Em decorrência da afirmação anterior, dada a característica da organicidade que
os diferentes campos do conhecimento revelam na pratica produtiva, os enfoques
tradicionais que lhes conferiam autonomia serão substituídas por enfoques
transdisciplinares, articuladores das dimensões do pensar e do fazer, o que só é
possível tomando-se como referencia o trabalho compreendido como práxis humana
(relação teórica-prática);
_ As praticas pedagógicas fundamentais da absorção passiva deverão ser
substituídas pela relação ativa e intensa entre o educando e o conhecimento por
meio da ação mediadora do professore, que organizará significativas experiências
de aprendizagem;
_ Finalmente, tomando a concepção de qualificação não como um atributo social,
mas como um processo histórico resultante da articulação de múltiplos fatores, há
que se tomar como ponto de partida para o desenvolvimento do processo
pedagógico, o conhecimento e as concepções que o aluno/trabalhador acumulou no
transcurso de sua experiência de vida, de educação e de trabalho (saber tácito).

Espaços e atores educativos


A pesquisa evidenciou fundamental mudança de eixo dos espaços e atores
pedagógicos, com relação às formas tayloritas/fordistas de organização do trabalho.
Até o final dos anos 80, o espaço pedagógico dominante era a área de relações
humanas, articulada a supervisores de linha que exerciam funções de controle
administrativo e de concepção; estes eram os verdadeiros educadores, imbuídos de
manter a concepção de trabalho, o compromisso com a empresa e o moral dos
trabalhadores em padrões condizentes com o disciplinamento exigido pelo
paradigma tradicional de organização em linha, onde a relação básica era a do
trabalhador com sua ferramenta, no seu posto; o enfoque era a gestão de pessoas.
Com o advento dos novos paradigmas, esta configuração mudou. A ciência se
aproxima do piso da fabrica e do trabalhador, por meio do exercício das funções de
gerencia pelo engenheiro de produção que, articulado à engenharia de qualidade, e
não ao RH, gerencia processos e não mais pessoas. É o engenheiro o novo
pedagogo do trabalho. O problema é que, com formação geralmente restrita à sua

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área, ele tem que aprender no trabalho os conteúdos dos novos paradigmas de
gestão, e não tem sido preparado para trabalhar com as questões relativas à
educação dos trabalhadores. O espaço de aprendizagem, mais do que nunca,
passou a ser o piso de fabrica, onde ciência e trabalho constroem uma nova unidade
e onde se estabelece outros tipos de relações sociais, agora determinadas pelas
células de produção, mini-fábricas ou outras formas.
O aprendizado coletivo, em face das situações-problema, com o aporte científico-
tecnológico do engenheiro, à luz dos paradigmas da qualidade passa a ser a forma
dominante.
Essas mudanças permitem uma série de reflexões sobre o espaço escolar. A
primeira delas respeito à constatação da vertiginosa ampliação dos espaços
pedagógicos propiciados pelo avanço cientifico e tecnológico em todas as áreas,
reduzindo os espaços e tempos nas comunicações, agora on line e permitindo o
acesso imediato a qualquer tipo de informação pelos mais diversos meios. Mais do
que nunca, o processo de aprender escapa dos muros da escola para realizar-se
nas inúmeras e variadas possibilidades de acesso ao conhecimento presentes na
prática social e produtiva. Surgem novas tecnologias educacionais e novos
materiais, o que, se não diminuem a importância da escola e o papel da relação
entre professor e aluno, as transformam substancialmente.
Assim como a ciência vai para o piso de fábrica, aproximando-se do trabalhador pela
mediação do engenheiro, que deixa de gerenciar pessoas para gerencias processos,
a escola deverá propiciar a apropriação do conhecimento por meio da articulação
com seu lócus de produção: o mundo das relações sociais e produtivas.
Esta articulação é a nova função do professor, que não mais ensina por meio de
relações interpessoais com o aluno, mas estabelece a mediação entre eles e a
ciência no seu acontecendo, na práxis social e produtiva, gerenciando, portanto, o
processo de aprender. Este processo se da não mais exclusivamente na dimensão
individual, mas por meio de relações que são sociais e, portanto, articulam as
dimensões individual e coletiva, subjetiva e objetiva, teórica e prática, que
caracteriza o trabalho humano enquanto categoria fundante dos processos de
produção do conhecimento. Em decorrência desta nova concepção, o espaço
escolar – até agora rigidamente organizado, com suas inúmeras estratégias de

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centralização e formalização que objetivam o prédisciplinamento necessário ao
trabalho e à sociedade organizado segundo o paradigma taylorista/forsita – precisa
ser repensado.
A partir da ênfase no processo, a fabrica flexibilizou sua organização, como forma de
viabilizar o novo padrão de acumulação. Quando a escola vai se descentralizar e se
desregulamentar para propiciar uma relação criativa, participativa e eficiente com o
conhecimento, que tome a organização, a disciplina, o estabelecimento das normas
a partir das demandas do trabalho coletivo, e não apenas enquanto formalização
burocrática que se explica apenas pelas demandas de prédisciplinamento do
taylorismo/fordismo?
Se para a fábrica esta é a condição para o aumento de ganhos de produtividade,
para a escola esta é, contraditoriamente, a condição para a educação de
cidadão/trabalhadores capazes de enfrentar os efeitos perversos da exclusão
gerada por esse novo padrão de acumulação.
Do ponto de vista dos atores, tanto dos novos, como a mídia, quanto dos
tradicionais, como os professores, é preciso retomar a Terceira Tese de Marx sobre
Fuerbach: os educadores precisam ser educados a partir das novas circunstancias,
para que possam desempenhar sua função no processo de construção da nova
sociedade.

As novas formas de controle


Com relação ao controle, a pesquisa evidenciou provavelmente ser esta a categoria
que passou pelas mais profundas transformações, na medida em que as formas
substituídas por formas internalizadas. Com a implantação dos novos processos de
qualidade, a ação desenvolvida pelos inspetores de qualidade foi substituída pela
avaliação feita pelo próprio trabalhador, com a expectativa de quem decorrência,
este passe, a criar alternativas para reduzir o desperdício de tempo e de material.
Novos procedimentos foram implementados, como o controle estatístico de
processo e de produto, instalando-se uma nova tensão, que se caracteriza pela
redução do espaço de decisão sobre procedimentos cada vez mais padronizados, o
que implica a redução de demanda por conhecimentos especializados e habilidades,
a par do aumento da demanda por atitudes e conhecimentos científico-tecnológicos

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e de gestão mais ampliadas para viabilizar os processos de melhoria de qualidade e
competitividade.
Neste novo contexto, o saber do trabalhador passa a ser estratégico para o aumento
da produtividade, definindo-se a necessidade do investimento na ampliação de seus
conhecimentos.
Instala-se uma nova pedagogia, que objetiva criar as condições necessárias para o
desenvolvimento de uma nova subjetividade, que viabilize a internalização do
processo de controle, o estabelecimento do controle inter-pares e a apropriação dos
conhecimentos necessários para que esta participação ativa se realize.
São várias e contraditórias as implicações dessas transformações para a escola. A
intermalização do controle com vistas ao aumento da produtividade por meio da
melhoria de qualidade decorrente das avaliações e correções feitas pelo trabalhador,
enquanto estratégia de superexploração, determina o seu contrario. Ou seja, a
necessidade de a escola investir na formação da consciência crítica por intermédio
dos novos conteúdos, métodos, espaços e atores pedagógicos, incorporando novas
sistemáticas de avaliação.
Estas novas sistemáticas deverão promover a participação do aluno no
acompanhamento, consciente e crítico, de sua relação com o conhecimento, para
que ele possa compreender as novas formas de controle social e do trabalho e
participar ativamente das negociações, de modo a usar seu conhecimento e
experiência não só como moeda de troca, mas também como insumo necessário à
construção de novas relações entre capital e trabalho menos desiguais, e que
historicamente possam um dia levar à sua superação. Outra dimensão a considerar
são os novos comportamentos originados pela internalização do controle combinada
com a responsabilização do grupo pelo atingimento das metas das células de
produção.
As novas formas de organização do trabalhador substituem a tradicional linha onde
cada um era responsável pelo seu posto; a produção individual dá lugar à produção
coletiva a partir de novas combinações entre trabalho humano e máquinas. Essas
novas formas de organização permitem, por um lado, o resgate da dimensão de
totalidade do processo produtivo, à medida que uma célula de produção é
responsável por um processo de trabalho completo. Em decorrência, estabelece-se

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a multitarefa e as metas são determinadas por unidade. Desta forma, a falta de um
trabalhador, seu despreparo ou eventuais erros são assumidos pelo grupo, deixando
de ser responsabilidade da empresa o cumprimento das metas de qualidade. Com
isto, melhora a qualidade, diminuem-se custos e, em decorrência, há aumento de
produtividade; mas também extiguem-se postos e o trabalho é mais explorado.
Seria de se esperar que essas novas relações reforçassem, no trabalho, os laços de
solidariedade necessários ao trabalho coletivo, os quais, transpostos para o
comportamento nas demais esferas da sociedade, reforçassem a organização dos
trabalhadores tendo em vista a construção de um novo projeto social que superasse
a exclusão, resultado estrutural deste modo de produção.
A pesquisa, no entanto, revelou outra direção: contrariamente, o que esta sendo
reforçado é o individualismo possessivo, irmão da propriedade privada, valores
fundamentais do capitalismo.
Este individualismo possessivo se revela por meio do uso individual do trabalho
coletivo para obter ganhos pessoais. Esta lógica se constrói a partir do estimulo ao
individualismo por meio dos ganhos de produtividade. No limite, importam os
objetivos individuais, em nome do que, pelo peru e pela festa de Natal, sacrificam-se
objetivos políticos que, viabilizados por intermédio da organização coletiva, poderiam
levar as novas relações sociais. As formas ainda existentes de sindicalismo que
mantiveram as antigas bandeiras de luta buscam contrapor-se a essa lógica,
mantendo o coletivo como ponto de partida e de chegada das negociações.
Contudo, assim que a fábrica resolver o problema atuarial de definir onde e em
quem residem as maiores taxas de agregação de valor, abrese o espaço para a
atribuição diferenciada de ganhos de produtividade, o que vem sendo buscado
insistentemente. Realizar-se, então, o pleno domínio da lógica capitalista a partir da
qual construirse-á uma sociedade cada vez mais violenta, miserável, destruidora e
desumana.
Resta saber como a escola pode enfrentar esta realidade, e se é capaz de fazê-lo.
Considerar as novas formas de controle e criar novos comportamentos que
fortaleçam o coletivo é um desafio que se impõe, se mantida a concepção de uma
escola regida pela utopia da construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

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Entre o discurso e a prática: a difícil e contraditória relação entre as mudanças
no mundo do trabalho e a função da escola

Passada a euforia do final dos anos 80, quando, ao constatar que a politécnica era
uma tendência presente na nova etapa de desenvolvimento das forças produtivas
em decorrência da necessidade da reunificação entre ciência, trabalho e cultura, os
estudos mais recentes mostram com vigor as contradições entre o discurso do
capital e a prática produtiva. Consequentemente, os impactos das mudanças
ocorridas no mundo do trabalho sobre a escola também são marcados pela
positividade e pela negatividade.
A primeira contradição é a que ocorre entre o discurso e a prática da ampliação
generalizada da educação básica, fundamento necessário para uma sólida formação
profissional. Esta é, certamente, a posição assumida por bom numero de países
desenvolvidos, que investem fortemente em educação básica e em educação
científico-tecnológica, compreendidas como condições necessárias para a cidadania
e para o desenvolvimento dos projetos nacionais.
Isto não ocorre, contudo nas economias menos desenvolvidas, onde a progressiva
redução dos fundos públicos, combina com gestões estatais que ainda não
superaram os vícios do patrimonialismo, corrói progressivamente as ações sociais
dos estados nacionais que, monitorados pelos agentes financeiros internacionais,
assistem à diminuição progressiva do seu espaço de manobra. A lógica da
racionalidade financeira determina o esvaziamento das políticas de bem-estar social
por meio do corte do gasto do governo para atender às necessidades básicas da
população, que são passadas progressivamente para o setor privado.
Com o Brasil não é diferente. Atravessado por uma profunda crise economia e
institucional, o governo adota um conjunto de políticas, definidas pelo Banco Mundial
como sendo para os países pobres, que têm profundos e negativos impactos sobre
a educação. Assim é que, regidas pela racionalidade financeira, as políticas
educacionais vigentes repousam não mais no reconhecimento da universalidade do
direito à educação em todos os níveis, gratuita nos estabelecimentos oficiais, mas

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no princípio da equidade, cujo significado é o tratamento diferenciado segundo as
demandas da economia.
Administração Escolar Prof. Dorival Rosa Brito 12

Em consonância com a progressiva redução do emprego formal e com a crescente


exclusão, o investimento em educação passa a ser definido a partir da compreensão
de que o Estado só pode arcar com as despesas que resultem em retorno
econômico. Desta forma, o compromisso do Estado com a educação pública
obrigatória e gratuita mentem-se no limite do ensino fundamental. A partir deste
nível, o Estado mantém financeiramente restrito apenas para atender as demandas
de formação de quadros e de produção de ciência e tecnologia nos limites do papel
que o país ocupa na divisão internacional do trabalho. Ou seja, no atual quadro da
progressiva redução do emprego formal, não é racional investir em ensino
profissional técnico médio e em ensino superior de forma generalizada. Assim, com
o progressivo afastamento do Estado de sua responsabilidade com a educação,
estes níveis vão sendo progressivamente assumidos, pela iniciativa privada.
Em absoluta concordância com as transformações ocorridas no mundo do trabalho,
as política públicas de educação objetivam a contenção do acesso aos níveis mais
elevados de ensino para os poucos incluídos respondendo à lógica da polarização.
Para estes, são de fato asseguradas boas oportunidades educacionais, de modo a
viabilizar a formação dos profissionais de novo tipo: dirigentes especialistas, críticos,
criativos e bem-sucedida. Para a grande maioria, propostas rápidas de formação
profissional que independem de educação básica anterior, como forma de viabilizar
o acesso a alguma ocupação precarizada, que permita alguma condição de
sobrevivência (Decreto nº. 2.208/97).
Assim, desmistifica-se a primeira falácia; ao falso discurso da necessidade da
extensão da oferta de educação básica e profissional de qualidade para todos, o
Estado responde adequadamente com uma política educacional restritiva para os
níveis posteriores ao ensino fundamental. Estas políticas são orgânicas a um
mercado de trabalho cada vez mais restrito, obedecendo-se portanto, à lógica
capitalista da racionalidade financeira.
Da mesma forma, ao discurso de ampliação da participação, da necessidade de
criatividade e da capacidade de crítica correspondem processos produtivos cada vez

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mais padronizados, gerados na maioria das vezes pelas equipes de pesquisa e
desenvolvimento dos países centrais, que determinam cada vez mais o
esvaziamento do conteúdo do trabalho, acirrando-se certas dimensões do
taylorismo/fordismo para os trabalhadores dos níveis hierárquicos mais baixos e
para as empresas menos complexas. Evidentemente, essas dimensões objetivam-
se sob novas formas, exigidas pelas novas bases materiais de produção, mas sem
descorporificar-se de sua velha lógica.
A nova pedagogia do trabalho, como se buscou analisar, é perpassada pelas
profundas contradições que marcam a relação entre capital e trabalho. As políticas
educacionais vigentes, ao optar pelo atendimento às demandas do capital,
viabilizam as positividades decorrentes dessa nova etapa para um grupo restrito de
trabalhadores, que vão desempenhar as atribuições de dirigentes/especialistas,
responsáveis pelas funções de gestão, manutenção e criação.
Resta saber qual papel que a escola vai assumir, a partir das novas e contraditórias
dimensões, posto que se configura, também, como espaço contraditório, onde a
prática conservadora concretizada na seletividade convive com a prática
transformadora concretizada no acesso ao conhecimento e ao método cientifico.
O nosso desejo, reconhecidamente ingênuo, tem como objeto uma escola que,
comprometida com os trabalhadores e os excluídos, para além das políticas
educacionais restritivas, pudesse tomar como referencia as positividades presentes
nas mudanças que ocorrem no mundo do trabalho para construir um novo projeto
pedagógico, o qual, rompendo com a lógica da racionalidade financeira, formasse os
cidadãos de novo tipo, intelectual, técnica e eticamente desenvolvidos e
politicamente comprometidos com a construção da nova sociedade.
Administração Escolar Prof. Dorival Rosa Brito 13

Bibliografia

Gramsci, Antonio. (1978) Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro:


Civilização Brasileira.

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Jones, Bryn; Wood, Stephen. (S.d.) “Qualificações tácitas, divisão do trabalho e
novas tecnologias”. Tradução prof. Luiz Carlos Faria da Silva. Paraná, Universidade
Estadual de Maringá. (mimeo)

Kuenzer, Acácia Zeneida (1985) Pedagogia da fábrica: As relações de produção e


educação do trabalhador. 4ª ed. São Paulo, Cortez.

_________. (1997) Ensino médio e profissional: as políticas do Estado neoliberal.


São Paulo, Cortez.

Machado, Lucília. (S.d.) “Qualificação do trabalho e relações sociais”, In: Fidalgo,


Fernando S. Gestão do trabalho e formação do trabalhador.

Seminário Globalização e Estado: Universidade em mudança. (1996) Anais, 1ª parte.


Curitiba, UFPR, Setor de Educação. SENAI.

Singer, Paul. (1996) “Globalização, Estado e Universidade”. Seminário Globalização


e Estado: Universidade em mudança Anais, 1ª parte, Curitiba, UFPR.

Villa Vicencio, Daniel. (1992) “Por uma definicion de la calificación de los


trabajadores”. IV Congreso Espanol de Sociologia; sociologia entre dos mundos
(mimeo)

Orientações para busca de Artigos Científicos no scielo.

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você deverá fazer a busca por artigos científicos da área, em sites especializados,
para a redação do seu próprio artigo científico. O suporte bibliográfico se faz
necessário porque toda informação fornecida no seu artigo deverá ser retirada de
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citações (indiretas e diretas) descritas nesta apostila e a maneira como elas devem
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Lembre-se que os artigos que devem ser consultados são artigos científicos,
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A seguir, temos um exemplo de busca por artigos no site do SciELO.
Lembrando que em todos os sites, embora eles sejam diferentes, o método de
busca não difere muito. Deve-se ter em mente o assunto e as palavras-chave que o
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Para iniciar sua pesquisa, digite o site do SciELO no campo endereço da
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artigos; por periódicos e periódicos por assunto (marcações em círculo).

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