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Apostilha

de Judô
Conteúdo Básico

Elaboração:
Sensei Emeri Pacheco - 7º DAN
Revisão:
Sensei Igor Victal - 3º DAN

CLUBE

JULHO - 2018
INTRODUÇÃO

O progresso técnico de um judoca é reconhecido pelo professor através da


concessão de graus ao aluno, representados pela cor da faixa que ele leva à cintura. O
noviço usa uma faixa branca e é um 12º Kyu e, à medida que vai se evoluindo na arte,
paulatinamente será promovido até chegar ao 1º Kyu, a faixa marrom.
É meta de todo judoca, ao chegar ao 1º Kyu, se preparar para se submeter a exame
perante uma comissão de avaliação da sua Federação, composta pelos mestres e
professores mais graduados, objetivando ser promovido à faixa preta Shodan (1º Grau),
momento este de considerável relevância na vida do praticante.
Obtendo êxito, essa faixa preta que ele carregará com orgulho na cintura, pois é
fruto de muito treino e dedicação, é o atestado de que detém uma boa qualidade técnica e
moral, e buscou dentro do dojo e fora dele, adequar-se aos princípios éticos e filosóficos
vislumbrados pelo Mestre Jigoro Kano quando criou o Judô.
Com o objetivo de oferecer um melhor entendimento do aspecto pedagógico
adotado em nossa arte, podemos fazer uma similaridade entre o aprendizado do Judô e o
aprendizado escolar, conjeturando da seguinte forma: da faixa branca à faixa laranja,
teríamos o equivalente ao 1º grau escolar; da faixa verde à marrom, teríamos então o 2º
grau; a partir da faixa preta shodan até godan, equivaleria a um bacharelado; e a partir de
Kodansha, teríamos, então os mestres ou doutores em Judô. Continuando a trilhar
exatamente o exame vestibular do judoca para ter acesso aos ensinamentos superiores da
arte, pois, longe do pensamento de alguns, a faixa preta não representa o final do
aprendizado, mas sim o chamamento para o judoca ingressar no estudo das técnicas
superiores do Judô, buscando adquirir novos conhecimentos nas demais áreas que
englobam a arte, tais como competição, arbitragem, ensino, etc. Assim como acontece
nas demais áreas de conhecimento humano, no Judô a busca pelo aperfeiçoamento é
infinita, cujo estágio a ser alcançado por cada um, depende apenas da dedicação com que
se entregam ao estudo e prática da arte, razão pela qual o reconhecimento aos faixas pretas
que continuam trilhando o caminho do progresso técnico, moral e filosófico, é realizado
através da outorga de graus, denominados Dan. Para a outorga de cada Dan, exige-se uma
carência mínima entre os exames, objetivando, exatamente, a maturação dos
conhecimentos adquiridos naquele período.
A coletânea de técnicas e os assuntos abordados a seguir constituem-se, com base
em pesquisas realizadas junto às várias federações nacionais e internacionais e no
entendimento pessoal do autor, no conhecimento técnico mínimo necessário que deve
possuir o candidato a sua próxima graduação.
O JUDÔ E SUAS TÉCNICAS

O Judô teve sua origem quando o Professor JIGORO


KANO, procurou sistematizar as técnicas de uma arte marcial
japonesa, conhecida por Ju-Jutsu e fundamentar a sua prática
em princípios filosóficos bem definidos, a fim de torná-la um
meio eficaz para o aprimoramento do físico, do intelecto e do
caráter, num processo constante de aperfeiçoamento do ser
humano.
Assim, seus estudos foram se aprofundando e após
pesquisar e analisar as técnicas de lutas até então conhecidas, o Mestre Kano organizou-
as de forma a constituir um sistema adequado aos métodos educacionais, como uma
disciplina de educação física, evitando ações que pudessem ser lesivas ou prejudiciais aos
seus praticantes, sendo observados nessa análise seletiva princípios pedagógicos e
científicos, de forma que certas técnicas foram suprimidas, outras modificadas e ainda
novas foram criadas, todas obedecendo ao princípio da “máxima eficiência”, ou seja, o
uso da mínima força para obtenção do máximo resultado, que constitui um dos princípios
basilares do Judô “Zenyoko Zenyo”.
A título ilustrativo, é interessante registrarmos nesta oportunidade o próprio
esclarecimento do Mestre Jigoro Kano sobre o assunto, oferecido em seu livro
“KODOKAN JUDO”, editando sob a supervisão do Comitê Editorial do Kodokan, cuja
transcrição abaixo faz parte de um texto traduzido pelo ilustre Professor Mateus Sugizaki,
8º Dan, ex-vice-presidente da Federação Paulistana de Judô.
“Na minha juventude estudei o ju-jutsu com muitos mestres eminentes. O vasto
conhecimento deles, fruto de muitos anos de pesquisa diligente e de ricas experiências,
foi de grande valor para mim. Naquele tempo, cada indivíduo apresentava sua arte como
uma coleção de técnicas e ninguém conseguia perceber o princípio diretivo fundamental
que estava por trás do ju-jutsu.
Quando eu encontrava diferenças no ensinamento das técnicas, freqüentemente, me
via perdido e sem saber o que era correto. Isso me levou a analisar um princípio básico
no ju-jutsu, aplicado quando alguém ataca um oponente, bem como, quando ele o projeta.
Após fazer um completo estudo do assunto, pude distinguir esse princípio, que
entendi como sendo universal: fazer o uso mais eficiente da energia física e mental. Com
esse princípio no pensamento, eu fiz revisão de todos os métodos de ataque e defesa que
aprendi, retendo somente aqueles que estavam de acordo com o princípio. Os que não
estavam de acordo eu rejeitei e, em seu lugar, substitui por outras técnicas em que o
princípio era corretamente aplicado. O corpo de técnicas resultantes eu chamei de Judô
que é aquele ensinado na Kodokan para diferenciar do seu antecessor...”
Nesse diapasão, seria impossível falar de Judô, sem comentar sobre quem foi Jigoro
Kano, um homem muito à frente do seu tempo, cujo resumo de sua biografia, aqui
apresentado, por si só dispensa quaisquer outros comentários sobre as suas qualidades
ímpares, dentre elas as de educador, estudioso e visionário

CRONOLOGIA DE JIGORO KANO

1860 – Nasce Jigoro Kano, terceiro filho de Jirosaku Mareshiba em Mikage, distrito de
Kobe / Japão, em um período conturbado politicamente, pois se encerrava o Shogunato
Tokugawa e o Imperador voltava a ter o poder político no Japão.
1871 – Após o falecimento da mãe, no ano anterior, mudou-se com o pai para Tóquio
uma vez que assumiram um posto oficial no governo.
1875 – Demonstrando aptidão particular, ingressa em uma escola de línguas estrangeiras.
1877 – É admitido na Universidade Imperial de Tóquio, onde passa a estudar Ciência
Políticas, Economia e Educação Moral e Estética. Inicia seus treinamentos de Ju-jutsu
com o metre Fukuda Hachinosuke, do estilo Tenshin Shinyo.
1881 – Conclui seus estudos na Universidade Imperial de Tóquio, licenciando-se em
Letras. Inicia os estudos do estilo Kito de Ju-jutsu, com o Mestre Likubo Tsunetoshi.
1882 – Forma-se em Ciências Estéticas e Moral. Ano de criação do Kodokan e um ano
especialmente movimentado para Kano, que também fundou o Kano Juku (Escola
Preparatória para crianças). O Kobukan (Escola de ensino do idioma inglês), além de ter
se tornado professor do Colégio dos Nobres.
1884 – Nomeado Adido do Palácio Imperial.
1886 – Nomeado Vice-Presidente do Colégio dos Nobres.
1889 – Viaja a Europa como Adido da Casa Imperial.
1899 – Torna-se Presidente do Butokukai (Centro de Estudos de Artes Marciais do
Japão).
1907 – Elabora os três primeiros Katas de Judô.
1909 – Torna-se membro do Comitê Olímpico Internacional, como primeiro
representante do Japão.
1911 – Eleito Presidente da Federação desportiva do Japão.
1922 – Passa a ter assento na Câmara Alta do Parlamento Japonês.
1924 – Nomeado Professor Honorário da Escola Normal Superior de Tóquio
1928 – Participa da Assembléia geral dos Jogos Olímpicos de Amsterdã.
04/05/1938 – Morre a bordo do navio que o transportava ao Cairo para participar da
Assembleia Geral do Comitê Internacional dos Jogos Olímpicos.
CLASSIFICAÇÃO DAS TÉCNICAS DE JUDÔ

TACHI WAZA TE WAZA (Técnicas de mão ou braço)


(Técnicas de Projeção em pé) KOSHI WAZA (Técnicas de quadris)
NAGUE WAZA ASHI WAZA (Técnicas de perna ou pé)
(Técnicas de Projeções) SUTEMI WAZA MA SUTEMI WAZA (Técnica de
(Técnicas de Projeção com sacrifício para trás)
Sacrifício) YOUKO SUTEMI WAZA
(Técnicas de sacrifício para os lados)

KATAME WAZA (Técnicas de OSSAE WAZA (Técnicas de Imobilizações)


domínio no solo) SHIME WAZA (Técnicas de Estrangulamentos)
KANSETSU WAZA (Técnicas de Luxações)

ATEMI WAZA UDE ATE KOBUSHI-ATE (Mãos fechadas)


(Técnicas de ataques (Ataque com os braços e mãos) TEGATANA-ATE (Bordas das mãos)
contundentes aos pontos vitais, YUBISAKI-ATE (Ponta dos dedos)
utilizadas somente em defesa HIJI-ATE (Cotovelo)
pessoal) ASHI ATE SEKITO-ATE (Planta do pé)
(Ataques com os pés ou pernas) KAKATO-ATE (Borda lateral do pé)
HIZA-GASHIRA-ATE (Joelho)

GOKIO NO WAZA
Seguindo os princípios já comentados e objetivando a sistematização e ordenação
do ensino do Judô, o Instituto Kodokan, em 1895, reuniu as 40 projeções que considerou
mais significativas de cada categoria, dividiu-as em cinco grupos de oito técnicas cada,
classificou-as através de critérios pedagógicos preestabelecidos, e denominou essa
ordenação de GOKIO (GO = CINCO / KIO = PRINCÍPIO – FUNDAMENTO), que
caracterizam, portanto, os princípios de todas as técnicas de Judô. No pensamento da
instituição, também era imprescindível essa ordenação e registro para que não houvessem
distorções ou mudanças das técnicas ao sabor do gosto de cada professor ou praticante,
perpetuando-as para as futuras gerações, sem serem desvirtuados os seus fundamentos.
Em 1920 o Gokio passou por uma revisão realizada por uma comissão formada pelos maiores
mestres da época, entretanto, estranhamente, apontam certos autores, sem a participação direta do Professor
Jigoro Kano. Nessa revisão foram excluídos alguns golpes e incluídos outros, perdurando esta última
composição do Gokio até pouco tempo, quando então, em 1982, o Kodokan, resolveu resgatar as técnicas
anteriormente excluídas, que passaram a integrar um novo grupo, que passou a ser denominado ROKUKYO
(6º KYO). Ainda por ocasião da comemoração do centenário da criação do Judô, em 1982, após cuidadosa
consideração, o Kodokan resolveu também reconhecer um novo grupo de 17 técnicas, ao que foi
denominado SODE TSURI NO WAZA, que passou a fazer parte das técnicas oficialmente reconhecidas
por aquela instituição. Em 1997 foram adicionadas a este grupo mais duas técnicas, SODE TSURI KOMI
e IPPON SEOI NAGUE, perdurando a composição deste acervo, na forma abaixo, até a presente data.
DAÍ IKYO –
PRIMEIRA SERIE
0. KUMI-KATA
(SHIZEN-HONTAI)
1. DEASHI-HARAI
2. HIZA-GURUMA
3. SASSAE-TSURI-KOMI-ASHI
4. UKI-GOSHI
5. O-SOTO-GARI
6. O-GOSHI
7. OUCHI-GARI
8. SEOI-NAGUE

DAÍ NIKYO (SEGUNDA SERIE)


0. KUMI-KATA (MIGUI-SHIZENTAI)
1. KO-SOTO-GARI
2. KO-UCHI-GARI
3. KOSHI-GURUMA
4. TSURI-KOMI-GOSHI
5. OKURI-ASHI-HARAI
6. TAI-OTOSHI
7.HARAI-GOSHI
8. UCHI-MATA
DAÍ-SANKYO (TERCEIRA SERIE)
0. KUMI-KATA (HIDARI SHIZENTAI)
1. KO-SOTO-GARI
2. TSURI-GOSHI
3. YOKO-OTOSHI
4. ASHI-GURUMA
5. HANE-GOSHI
6. HARAI-TSURI-KOMI-ASHI
7. TOMOE-NAGUE
8. KATA-GURUMA

DAÍ YONKYO (QUARTA SERIE)


0. KUMI-KATA (MIGUI-JIGONTAI)
1. SUMI-GAESHI
2. TANI-OTOSHI
3. HANE-MAKI-KOMI
4. SUKUI-NAGUE
5. UTSURI-GOSHI
6. O-GURUMA
7. SOTO-MAKI-KOMI
8. UKI-OTOSHI
DAÍ GOKYO (QUINTA SERIE)
0. KUMI-KATA (HIDARI JIGONTAI)
1. O-SOTO-GURUMA
2. UKI-WAZA
3. YOKO-WAKARE
4. YOKO-GURUMA
5. USHIRO-GOSHI
6. URA-NAGUE
7. SUMI-OTOSHI
8. YOKO-GAKE

KATAME WAZA
Conta-se uma estória, que supostamente teria ocorrido nos primórdios do
KODOKAN, que ali teria chegado um famoso lutador de Ju-Jitsu, especialista em shime-
waza, que derrotou com facilidade a grande maioria dos discípulos do professor Jigoro
Kano através da luta de solo. Esse fato fez com que o Mestre Kano vislumbrasse da
necessidade de aperfeiçoar as técnicas de Katame Waza do Judô, até a forma como estas
se apresentam hoje. Esse fato, se realmente ocorreu, muito bem demonstra a necessidade
dos judocas realizarem sempre um treinamento completo, tanto de técnicas de luta em pé,
quanto de solo, em uma proporção ideal de 50% para cada, em uma sessão de treinamento.
Com efeito, hoje o Judô detém em seu acervo uma certa quantidade de técnicas de
Katame Waza, as quais, diferentemente das projeções, não foram classificadas através de
um Gokio, mas sim divididas através de uma forma mais simples, levando-se em conta o
tipo de domínio que é exercido sobre o adversário.
Assim temos as técnicas de:
 OSSAE WAZA – Técnicas de Imobilização
 SHIME WAZA – Técnicas de Estrangulamentos
 KANSETSU WAZA – Técnicas de Luxações
Observando o quadro abaixo, verificamos que, quantitativamente, parecem-nos
poucas as técnicas de luta de solo, entretanto isto é um ledo engano, haja vista que estas,
quando na realidade concreta do randori e do shiai, se desdobram em inúmeras variantes,
utilizadas conforme as oportunidades vão se apresentando. Acrescente-se ainda que certas
técnicas de estrangulamentos e chaves de braço podem ser utilizadas indistintamente
tanto na luta em pé quanto no solo, principalmente quando se tratar de defesa pessoal. Na
seqüência, quadro com as principais técnicas de luta de solo e, mais à frente, desenhos da
maioria dessas técnicas, pedindo escusas pelo fato de não ter sido possível obter figuras
de todas:

KATAME WAZA – OSSAE KOMI WAZA

HON KESSA GATAME KUZURE KAMI SHIHO GATAME

KUZURE KESSA GATAME TATE SHIHO GATAME

KATA GATAME KAMI SHIHO GATAME

YOKO SHIHO GATAME


KATAME WAZA – SHIME WAZA

NAMI JUJI JIME TSUKOMI JIME

GYAKO JUJI JIME KATA HA JIME

KATA JUJI JIME OKURI ERI JIME

RYOTE JIME HADAKA JIME

SODE GURUMA JIME SANKAKU JIME


KATAME WAZA – SHIME WAZA

UDE GARAMi UDE HISHIGI HARA GATAME

UDE HISHIGI UDE GATAME UDE HISHIGI GATAME

UDE HISHIGI JUJI GATAME UDE HISHIGI SANKAKU GATAME

UDE HISHIGI HIZA GATAME UDE HISHIGI WAKI GATAME

RENRAKU RENKA E RENZOKU WAZA

São golpes combinados ou seqüenciados, que podem ser utilizados, dentre outras,
nas seguintes situações:
 Quando aplicamos uma técnica que não surtiu o efeito desejado ou o adversário
nos respondeu com uma defesa, damos seqüência ao ataque com uma segunda
técnica, aproveitando o desequilíbrio já conseguido;
 Simulamos um ataque visando confundir o adversário e aplicamos outro golpe
que ele não espera naquele momento.

Define-se o RENRAKU RENKA WAZA como aquela combinação de golpes


em que as direções dos desequilíbrios dos golpes são opostas, como por exemplo: O
UCHI GARI – TAI OTOSHI; KO UCHI GARI – UCHI MATA, etc.
Por sua vez, o RENZOKU WAZA é a combinação de técnicas em que a direção
do desequilíbrio é uma só. Podemos exemplificar com O UCHI GARI – KO UCHI GARI;
SASSAE TSURI KOMI ASHI – TAI OTOSHI, etc.

GAESHI WAZA

São técnicas utilizadas em reação a um ataque. Consistem basicamente em efetuar


um contragolpe, aproveitando o momento em que o ataque do adversário foi deficiente e
não surtiu o efeito que ele desejava e o deixou em posição de desequilíbrio ou, ainda, a
defesa qie foi efetuada deixou o adversário em situação desvantajosa.
Sobre as técnicas de Gaeshi Waza, é importante comentar a respeito de algumas
que integram o acervo de projeções reconhecidas pelo Kodokan, tais como: KO UCHI
GARI GAESHI, UCHI MATA SUKASHI, HANE GOSHI GAESHI, HARAI
GOSHI GAESHI, O SOTO GAESHI, O UCHI GAESHI, TSUBAME GAESHI e
UCHI MATA GAESHI, as quais, na realidade, tratam-se de técnicas utilizadas
essencialmente em contragolpes, podendo-se ainda incluir neste contexto duas técnicas
constantes do próprio Gokio: USHIRO GOSHI e UTSURI GOSHI.
Abaixo, uma pequena coletânea dos contragolpes mais utilizados e solicitados em
exames de graduação:
GLOSSÁRIO

BIBLIOGRAFIA