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APOCALIPSE 2:18-29

INTRODUÇÃO

A URSS implodiu, apodrecendo de dentro para fora. A podridão intestina


do regime era, na verdade, a grande ameaça à sua sobrevivência. Os Estados
Unidos nada precisaram fazer para que o regime desmoronasse. A ameaça vinha
de dentro e não de fora!
O que ameaçaria mais a sobrevivência de uma igreja bem estabelecida:
perseguições ou concessões à secularização? A igreja corre também o risco de
apodrecer de dentro para fora. Esta é uma constante ameaça às igrejas bem
estabelecidas. A tentativa do diabo é minar a base sólida do ensino da verdade
bíblica na igreja. É fazer com que a gente ceda às pressões da secularização da
sociedade. É querer convencer a gente de que é preciso transigir com os valores
do mundo para sobreviver no mundo. É deturpar o ensino do Evangelho.

DESENVOLVIMENTO

A oeste da atual Turquia Asiática ficava a cidade de Tiatira, na antiga


província romana da Ásia Menor. Os romanos passaram a governar a cidade em
133 a.C. Ela era um importante ponto do sistema de estradas, pois ficava no
caminho de vinda de Pérgamo, capital da província, passando por Laodicéia, e
daí continuava em direção às províncias orientais. Além disso, Tiatira era um
importante centro manufatureiro - tinturaria, confecção de vestes, cerâmica e
trabalhos em bronze - estes figuravam entre os produtos ali fabricados e
comercializados na região. Do ponto de vista religioso, a cidade de Tiatira era
extremamente pagã. As atividades sociais e econômicas estavam sempre
associadas à idolatria. Os cristãos de lá eram tentados a transigir com os
costumes pagãos e fazer concessões. O perigo residia em abrir-se mão da sã
doutrina do Evangelho, do seu ensino e da sua moral, e assim se conformar com
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os valores do mundo. Foi então que a igreja de Tiatira se viu diante de um


problema que provinha de dentro de suas próprias entranhas. Não era nenhuma
ameaça que vinha de fora, que colocava em risco a sobrevivência da
comunidade cristã ali, mas um problema interno que precisava ser resolvido
antes que fosse tarde demais, pois os cristãos de Tiatira estavam fazendo
concessões e mais concessões, às expensas da verdade do Evangelho.
Mas, Jesus é o Senhor da Igreja. Ele tudo vê e tudo sabe. Nada lhe foge
ao controle no governo soberano e absoluto da vida de sua Igreja. Ele conhecia
a sua igreja em Tiatira. Como Senhor glorioso, Jesus se apresentou à sua Igreja.
Ele é aquele que a exorta e disciplina (2:18).
Em primeiro lugar, nem tudo estava indo bem na igreja bem
estabelecida (2:19-23). Jesus conhecia as obras, a fé, o serviço, a perseverança
e as últimas obras dos cristãos de Tiatira, que foram mais numerosas do que as
primeiras. A igreja de Tiatira era cheia de qualidades e virtudes aqui
reconhecidas pelo Senhor Jesus Cristo. Ela era uma igreja reconhecidamente
operosa no serviço cristão, entretanto nem tudo estava bem na vida daquela
comunidade. Nem sempre a operosidade de uma igreja é sinal de saúde
espiritual, até porque nós crentes caímos com muita facilidade no ativismo,
como se fazer muito fosse tudo o que a nossa igreja precisa. O ambiente cristão
dos nossos dias nos cobra resultados, pois queremos ver os resultados do que
fazemos e por isso fazemos sempre cada vez mais para acharmos que tudo vai
bem só porque estamos fazendo compulsivamente um monte de coisas. Esses
são tempos de ativismo, de fazer sem saber porque estamos fazendo, mas ainda
assim fazemos bem muito porque a igreja precisa ser uma usina de coisas para
fazer. Os cristãos de Tiatira eram tão operosos que se esqueceram de que não
pode haver ação sem teologia, obras sem fidelidade ao Evangelho, serviço
cristão autêntico sem sã doutrina, porque o que fazemos não pode ser mais
importante que a verdade da Palavra de Deus, pois só a Palavra de Deus pode
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dar sentido ao que fazemos. O problema do ativismo na igreja é fazer, e fazer


muito, mas muitas vezes fazer, fazendo concessões que comprometem a
integridade do Evangelho. Este erro nos custará muito caro. Os cristãos de
Tiatira produziam muito, tinham uma prática operosa, eram, quem sabe, grandes
ativistas, mas toleraram a perversão do Evangelho, porque fazer se tornou mais
importante do que aprender como fazer de acordo com a sã doutrina. Não basta
fazer, porque fazer não significa necessariamente fazer o que Deus nos manda
fazer. É preciso fazer, mas é preciso fazer de maneira coerente com o ensino da
verdade e da ética do Evangelho. Tiatira permitiu que o Evangelho, em nome do
qual era operosa, fosse deturpado por falsos ensinos. A igreja ali tolerou a
presença de uma mulher que se dizia profetisa, mas que, como Jezabel, mulher
do rei Acabe, fez o povo de Deus se prostituir espiritualmente (I Rs. 16:31; II
Rs. 9:22). Ela seduziu alguns da igreja à infidelidade. Quem sabe, estes não
estavam transigindo com os valores do mundo? Quem sabe, estes não estavam
abrindo mão da ética do Evangelho? Quem sabe, estes não estavam fazendo
concessões à moral idólatra da sociedade de Tiatira? Eles estavam se
prostituindo, como muitos têm se prostituído ainda hoje, porque estão cedendo
às pressões da secularização da sociedade, preferindo se deixar levar pela
correnteza das tendências do mundo a se manter íntegros e fiéis à vocação do
Evangelho, nestes tempos de tantas novidades e doutrinas estranhas que surgem
no meio da Igreja. O caminho destes é a apostasia, pelo que Jesus os julgará,
pois, embora tenha lhes dado tempo para se arrependerem, permanecem na
prática da infidelidade. Portanto, Jesus advertiu que viria para disciplinar a sua
igreja em Tiatira. O seu zelo consumiria a infidelidade da igreja. Ele condenará
a nossa transigência com o pecado, a nossa concessão aos valores do mundo, a
nossa tolerância a falsos ensinos, que distorcem a verdade e a ética do
Evangelho, apesar do nosso ativismo.
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Em segundo lugar, a fidelidade da igreja ao Evangelho conferirá


autoridade para proclamá-lo (2:24-29). Jesus chamou a sua igreja à
responsabilidade. Os cristãos de Tiatira não seriam onerados com nenhuma
outra obrigação a não ser conservar o que tinham, a verdade e a moral do
Evangelho, até a volta do Senhor da Igreja. Eles deveriam permanecer fiéis ao
Evangelho que receberam. Eles deveriam perseverar na integridade desse
Evangelho. Se eles guardassem o Evangelho que receberam do modo como
receberam, a igreja de Tiatira teria autoridade para proclamar o Reino de Deus.
É uma questão de coerência. Os cristãos pregariam o Evangelho e autenticariam
a sua pregação com as suas vidas. Eles viveriam o que anunciavam e
anunciariam o que viviam. Jesus, o Senhor da Igreja, lhes conferiria a
autoridade que tem sobre as nações, - ecoando aqui as palavras do Salmo 2, -
para que, no poder da sua autoridade, a igreja proclamasse o Evangelho da
graça, em Tiatira, na Ásia Menor, no mundo de então, no bairro hoje, em João
Pessoa, na Paraíba, no nosso país. A verdade é que só teremos autoridade para
proclamar o Evangelho aqui se formos coerentes com a verdade e a ética desse
Evangelho. Não adianta promover campanhas evangelizadoras e encontros e
mais encontros, porque tudo isso não vai passar de ativismo, se não formos
íntegros e fiéis ao Evangelho que recebemos. A solução não é colocar as
pessoas para trabalhar na igreja, mas sim ensiná-las a serem discípulos de Jesus
Cristo. O Senhor Jesus conclui a sua exortação, dizendo que ao vencedor, Ele
daria a estrela da manhã. Aqueles que fossem íntegros e fiéis ao Evangelho de
Cristo receberiam a estrela da manhã. Jesus, Ele mesmo, será a recompensa da
igreja fiel. Ele é a estrela da manhã (22:16).

CONCLUSÃO

Muitos de nós pensam que serviço cristão é ativismo. Muitos de nós


pensam que, aos novos convertidos, basta lhes dar trabalho, e muito trabalho, na
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igreja, para mantê-los ocupados. Muitos de nós pensam que o Evangelho é


fazer. É aí que nos enganamos e negligenciamos o discipulado cristão, o ensino
do Evangelho, as verdades da Palavra de Deus. Fazer passa a ser mais
importante que aprender o Evangelho. Por isso, o nosso povo faz muito, mas,
também, assimila muito facilmente coisas erradas que são ensinadas como
verdades do Evangelho.
Nós estamos evangelizando o povo sem lhe dizer que é preciso mudar de
vida, que é preciso ser discípulo de Jesus, que é preciso abraçar os valores
morais do cristianismo, que é preciso conhecer a doutrina do Evangelho, que é
preciso ter comunhão com uma igreja local. As pessoas se convertem, mas não
são discipuladas e, porque não aprenderam o Evangelho, não conhecem o
padrão da verdade e da ética do Evangelho. Esta é a evangelização de
resultados, de números, de muita gente convertida, mas de poucos que
amadurecem como cristãos. A porta da Igreja Evangélica está aberta para que
falsos mestres entrem, deturpem a verdade e a ética do Evangelho e convençam
aqueles que não discipulamos, que a mentira do diabo é verdade de Deus. Que
Deus nos livre do ativismo. Amém.