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Escola Politécnica da Universidade de São Paulo

Departamento de Engenharia de Estruturas e Geotécnica

Apostila PEF3303
Estruturas de Concreto I

Formulada a partir das Notas de Aula do Prof. João Carlos Della Bella

São Paulo
2018
2 Apostila PEF3303

Sumário
1. Introdução .......................................................................................................................... 3
2. Introdução ao concreto estrutural ....................................................................................... 5
2.1 Natureza....................................................................................................................... 5
2.2 Razões de utilização em larga escala .......................................................................... 7
2.3 Propriedades mecânicas .............................................................................................. 8
2.4 O concreto estrutural ................................................................................................. 14
2.4.1 Concreto armado ................................................................................................ 14
2.4.2 Concreto protendido ........................................................................................... 17
3. Durabilidade estrutural ..................................................................................................... 18
3.1 Mecanismos de deterioração ..................................................................................... 19
3.2 Critérios de projeto visando maior durabilidade ....................................................... 21
4. Segurança estrutural ......................................................................................................... 25
4.1 Método das Tensões Admissíveis ............................................................................. 25
4.2 Métodos Probabilísticos ............................................................................................ 26
4.3 Método Semiprobabilístico ....................................................................................... 28
4.3.1 Variabilidade das ações ...................................................................................... 30
4.3.2 Variabilidade das resistências ............................................................................ 31
5. Fundamentos da concepção estrutural ............................................................................. 33
5.1 Elementos estruturais básicos .................................................................................... 35
5.1.1 Lajes ................................................................................................................... 35
5.1.2 Vigas .................................................................................................................. 36
5.1.3 Pilares ................................................................................................................. 36
5.1.4 Paredes ............................................................................................................... 37
5.1.5 Elementos de fundação ...................................................................................... 37
5.2 Sistemas estruturais ................................................................................................... 39
5.2.1 Sistemas estruturais para transporte de cargas verticais .................................... 40
5.2.2 Sistemas para transporte de cargas verticais ...................................................... 43
5.3 Modelos estruturais para o sistema laje-viga-pilar (LVP)......................................... 44
5.4 Diretrizes gerais para concepção ............................................................................... 51
6. Pré-dimensionamento de elementos estruturais ............................................................... 53
6.1 Lajes .......................................................................................................................... 53
6.2 Vigas .......................................................................................................................... 54
6.3 Pilares ........................................................................................................................ 55
6.4 Determinação das cargas atuantes em lajes e vigas .................................................. 57
6.4.1 Lajes ................................................................................................................... 57
6.4.2 Vigas .................................................................................................................. 59
6.5 Escadas ...................................................................................................................... 62
7. Flexão Normal Simples (FNS) ......................................................................................... 69
7.1 Armadura dupla ......................................................................................................... 80
7.2 Seção T ...................................................................................................................... 85
7.3 Concretos de Alta Resistência ................................................................................... 93
7.3.1 Armadura simples .............................................................................................. 95
7.3.2 Armadura dupla.................................................................................................. 97
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8. Lajes ............................................................................................................................... 101


8.1 Lajes armadas em uma direção ................................................................................ 105
8.2 Lajes armadas em duas direções .............................................................................. 107
8.3 Disposições construtivas .......................................................................................... 108
8.3.1 Taxa de armadura longitudinal mínima ............................................................ 109
8.3.2 Altura útil.......................................................................................................... 109
8.3.3 Espessura mínima ............................................................................................. 110
8.3.4 Vão efetivo ou teórico ...................................................................................... 110
8.3.5 Taxa de armadura longitudinal secundária ....................................................... 111
8.3.6 Espaçamentos entre barras................................................................................ 111
8.3.7 Diâmetros das barras ........................................................................................ 111
8.4 Detalhamento das armaduras ................................................................................... 111
8.4.1 Armaduras principais positivas ........................................................................ 112
8.4.2 Armaduras principais negativas........................................................................ 112
8.4.3 Armaduras de borda.......................................................................................... 113
8.4.4 Armaduras secundárias ou de distribuição ....................................................... 113
8.5 Condições de contorno ............................................................................................. 119
8.6 Esforços em lajes ..................................................................................................... 122
8.6.1 Correção de momentos ..................................................................................... 123
8.7 Casos especiais ........................................................................................................ 129
8.7.1 Alvenaria sobre lajes armadas em duas direções.............................................. 129
8.7.2 Alvenaria sobre lajes armadas em uma direção, paralelamente ao maior lado 130
8.7.3 Alvenaria sobre lajes armadas em uma direção, paralelamente ao menor lado 130
8.7.4 Alvenaria sobre lajes em balanço ..................................................................... 131
9. Dimensionamento à força cortante ................................................................................. 133
9.1 Disposições construtivas .......................................................................................... 139
9.2 Armadura de suspensão ........................................................................................... 145
9.3 Armadura de costura ................................................................................................ 150
10. Dimensionamento à torção ......................................................................................... 155
10.1 Solicitações Combinadas...................................................................................... 159
11. Aderência, ancoragem e emendas .............................................................................. 164
12. Detalhamento longitudinal de vigas ........................................................................... 171
12.1 Alojamento das barras na seção transversal ......................................................... 171
12.2 Arranjo das barras longitudinais .......................................................................... 175
4 Apostila PEF3303

1. Introdução

1 INTRODUÇÃO

A disciplina PEF3303 – Estruturas de Concreto I é o primeiro contato dos alunos de


Engenharia Civil da Escola Politécnica da USP com o dimensionamento de elementos de
concreto e tem como objetivos:

 Introduzir aos alunos a prática do projeto de estruturas de concreto;

 Fornecer conhecimentos básicos sobre durabilidade e segurança estrutural, no


âmbito dos estados limites (ELU e ELS);

 Introduzir aos alunos conceitos sobre concepção e pré-dimensionamento


estrutural;

 Familiarizar os alunos com os elementos e sistemas estruturais utilizados,


assim como o comportamento local e global em uma estrutura;

 Fornecer conhecimentos sobre análise de elementos estruturais (vigas e lajes)


submetidos a solicitações normais e tangenciais, permitindo
dimensionamentos, verificações e detalhamentos.

Todo o conteúdo apresentado nessa apostila é baseado em recomendações e


prescrições das normas técnicas brasileiras, dentre as quais se destacam:
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 ABNT NBR 6118:2014: Projeto de estruturas de concreto – Procedimento;

 ABNT NBR 6120:1980: Cargas para o cálculo de estruturas de edificações;

 ABNT NBR 6123:1988: Forças devidas ao vento em edificações;

 ABNT NBR 8681:2003: Ações e segurança nas estruturas – Procedimento;

 ABNT NBR 14931:2004: Execução de estruturas de concreto armado –


Procedimento.
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2. Introdução ao concreto estrutural

2 INTRODUÇÃO AO CONCRETO
ESTRUTURAL

Na presente disciplina, uma vez que se tem o concreto como protagonista, nada mais
justo do que fazer, num primeiro momento, um breve panorama acerca de alguns de seus
aspectos como natureza, razões de utilização em larga escala e propriedades.

2.1 Natureza
O concreto, como material produzido pelo homem na tentativa de se obter resistência
e durabilidade semelhante à das rochas, utilizando-se de formas que se mostrem funcionais
e/ou esteticamente atraentes para a construção, segundo Fusco (2012), tem seus primórdios no
Império Romano, quando se utilizavam cinzas vulcânicas (pozolanas) aliadas a blocos de
pedra para a obtenção de estruturas monolíticas, que iam desde muros e fortalezas aos
famosos aquedutos e arenas romanas. O concreto armado, modalidade hoje utilizada em
grande parte das estruturas, surgiu oficialmente em 1849 na França, com o chamado “Barco
de Lambot”, e rapidamente se difundiu mundo afora dado seu potencial como material de
construção.
Define-se, num sentido mais técnico, o concreto como um material composto por
água, ligante(s)/aglomerante(s) hidráulico(s) e agregados, cujos constituintes são:
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Observações:

 As misturas pasta + areia configuram as argamassas, que também fazem parte


dos materiais cimentícios e que possuem, assim como o concreto, ampla
utilização na construção civil;

 A classificação granulométrica que distingue os tipos de agregado considera


as porcentagens passante e retida de material na peneira de malha 4,8 mm.
Com isso, para o agregado graúdo, tem-se que no máximo 5% do material
passa pela peneira, e no caso do agregado miúdo, no máximo 5% do material
é retido;

 Exemplos de adições: fíleres, pozolanas, escória de alto forno, microssílicas,


cinzas volantes, entre outros, que visam alterar propriedades como resistência
(inicial ou final) e permeabilidade, além de permitirem redução de custos de
produção e geração de CO2;

 Exemplos de aditivos: modificadores de pega (aceleradores ou retardadores),


plastificantes, impermeabilizantes, incorporadores de ar, controladores de
retração, entre outros;

A classificação das britas utilizadas na construção civil é dada pela Tabela 2.1
(geralmente, são utilizadas predominantemente as britas 1 e 2) :
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Tabela 2.1 – Tipos de brita para construção civil.


Diâmetro nominal
Brita
(mm)
0 4,8 – 9,5
1 4,5 – 19
2 19 – 25
3 25 – 50
4 50 – 75
5 75 - 100

O cimento Portland, que atua como ligante inorgânico no concreto é formado a partir
da seguinte sequência:

Antes de se prosseguir com as razões de utilização do concreto, cabe salientar a


importância da dosagem de seus constituintes supracitados para a obtenção da resistência de
projeto desejada; tal característica é expressa pelo chamado traço, que informa as proporções
relativas à sua composição, sendo que a proporção entre água e cimento, conhecida como
fator a/c, também se mostra importante no dimensionamento, uma vez que se correlaciona
com a resistência do concreto e a qualidade requerida frente ao ambiente de exposição.
Ademais, deve-se atentar aos momentos reológicos associados à transição do concreto do
estado fresco para o estado endurecido, para que se garanta ao máximo o desempenho
especificado; neles, incluem-se mistura, transporte, lançamento/aplicação (incluindo vibração,
caso não se trate de concreto autoadensável).

2.2 Razões de utilização em larga escala


Tendo em vista que atualmente o concreto é o segundo material mais consumido pelo
homem, ficando atrás apenas da água, elencam-se a seguir as principais razões para o uso do
concreto em larga escala:
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 Acessibilidade de matérias-primas: possibilidade de uso de agregados locais;

 Moldabilidade/trabalhabilidade: possibilidade de obtenção de estruturas


monolíticas e contínuas nos mais diversos formatos;

 Resistência ao fogo, à água e a choques e vibrações;

 Acessibilidade de mão-de-obra.

Entretanto, devem ser citadas também as limitações do uso do concreto (simples ou


armado), como as seguintes:

 Baixo desempenho térmico;

 Massa específica elevada ( = 2500 kg/m³), comparada com sua


resistência;

 Problemas decorrentes de má execução: fissuração e retração química e/ou


plástica excessivas;

 Efeitos de longo prazo: retração, fluência, reação álcali-agregado.

2.3 Propriedades mecânicas


O concreto, como material estrutural, possui elevada resistência à compressão, mas
possui uma baixa resistência à tração (cerca de 10% da resistência à compressão); dado que os
dois esforços costumam aparecer na maioria das estruturas, essa coexistência condiciona o
uso do aço na forma de armaduras, constituindo assim o concreto armado, de modo que os
dois materiais trabalhem conjuntamente (supondo sempre a aderência perfeita), com o
concreto e o aço resistindo aos esforços de compressão e o aço aos de tração. Percebe-se com
isso que essa “limitação” do concreto inviabiliza seu uso exclusivo como material resistente.
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As principais propriedades do concreto, presentes nos modelos constitutivos que


permitem o dimensionamento, são provenientes da curva tensão-deformação obtida
experimentalmente por meio da ruptura à compressão de corpos de prova cilíndricos, e que é
apresentada na Figura 2.1:

Figura 2.1 - Curva tensão-deformação teórica do concreto (sob compressão).

: resistência característica à compressão do concreto aos 28 dias (tal que


) = 5%);

: resistência característica à tração aos 28 dias;

: módulo de elasticidade/deformabilidade longitudinal.

Por questão de simplicidade, para os modelos constitutivos de dimensionamento,


serão utilizadas formas simplificadas da curva tensão-deformação original do concreto; tais
formas serão apresentadas, quando discutido o modelo de dimensionamento à flexão.
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Observações:

 A NBR 6118 (2014) especifica as classes de resistência do concreto para fins


estruturais no intervalo ;

 Nos níveis de serviço, o concreto pode ser aproximado como um material de


comportamento elástico linear;

 Como nomenclatura utilizada para os concretos, tem-se a referência C##, em


que os dois caracteres finais indicam o valor de em MPa (ou seja, o
concreto C20 possui resistência característica à compressão = 20 MPa);
além disso, os concretos com 50 MPa são denominados Concretos de
Alto Desempenho (CAD), e apresentam comportamento mecânico distinto
daqueles ditos concretos de resistência normal ( 50MPa).

Na ausência de ensaios, a partir dos valores de , é possível estimar o valor médio


de resistência característica à tração pelas Equações (2.1) e (2.2):

(2.1)

(2.2)

Quando não forem realizados ensaios, é possível estimar o valor do módulo de


elasticidade inicial a partir das Equações (2.3) e (2.4), em que os valores do parâmetro

são dados pela Tabela 2.2:

(2.3)

(2.4)
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Tabela 2.2 – Valores de para diferentes


constituições mineralógicas do agregado.
Fonte: NBR 6118:2014

Tipo de agregado graúdo

Basalto e diabásio 1,2


Granito e gnaisse 1
Calcário 0,9
Arenito 0,7
Basalto e diabásio 1,2
Granito e gnaisse 1

Calcula-se então o módulo de elasticidade secante por meio da Equação (2.5):

(2.5)

Por fim, condensam-se as informações descritas anteriormente, para cada classe de


resistência, pela Tabela 2.3:

Tabela 2.3 - Estimativa de em função de .


(MPa) C20 C25 C30 C35 C40 C45 C50 C60 C70 C80 C90
(GPa) 25 28 31 33 35 38 40 42 43 45 47
0,85 0,86 0,88 0,89 0,9 0,91 0,93 0,95 0,98 1 1
(GPa) 21 24 27 29 32 34 37 40 42 45 47

O coeficiente de Poisson, que corresponde à razão de proporcionalidade entre


deformações específicas longitudinal e transversal, tem-se = 0,2. Mostra-se a interpretação
física desse parâmetro na Figura 2.2:
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Figura 2.2 - Interpretação do coeficiente de Poisson (ν).

Um dos motivos pelo qual a combinação concreto-aço funciona tão bem é o fato de
eles possuírem coeficientes de dilatação térmica semelhantes, o que minimiza a ocorrência de
deformações diferenciais ( , ). Deve-se atentar à
importância dos efeitos da variação térmica, tendo em vista que em muitas estruturas há a
necessidade de utilização de juntas de dilatação (“folgas” ou espaços preenchidos com
selante) como, por exemplo, entre tabuleiros de viadutos e pontes (Figura 2.3) ou entre placas
de pavimentos de concreto (Figura 2.4).

Figura 2.3 - Junta de dilatação entre tabuleiros de um viaduto.


Fonte: GettyImages
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Figura 2.4 - Junta de dilatação entre placas de pavimento de concreto.


Fonte: Blog PET Civil UFJF

A exemplo de cálculo, para uma viga de comprimento = 30 m sujeita a uma


variação de temperatura uniforme ΔT = 15 °C, tem-se:
Variação de comprimento:
Caso não haja restrição para essa deformação, adotando-se = 30 GPa :

Daí observa-se que, caso essa variação de temperatura corresponda a um


aquecimento, a tensão normal causada por essa variação, por si só, já seria capaz de levar a
viga à ruptura por tração, a menos que se tivesse um concreto de alta resistência.
Quando se consideram efeitos de longo prazo, dois efeitos que não podem ser
negligenciados são a retração e a fluência do concreto, associados à perda de água residual
nos insterstícios do concreto devido à reação ininterrupta de hidratação do cimento,
dependentes da superfície específica dos agregados e do cimento e da umidade relativa do ar.
A retração ocorre com redução volumétrica ao longo do tempo, independentemente
do nível de solicitação (em ambiente normal), e depende de fatores como umidade do meio e
espessura das peças; a deformação associada a esse fenômeno pode ser, aproximadamente,
considerada como .
A fluência, também conhecida como deformação lenta, é caracterizada por
uma deformação sob carga constante no tempo, e pode ser expressa a partir das relações
apresentadas na Figura 2.5:
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Figura 2.5 - Análise do fenômeno da fluência e sua deformação associada.

2.4 O concreto estrutural


A introdução do elemento aço ao comportamento estrutural do concreto tem como
principal objetivo suprir a baixa resistência à tração do concreto. Como será visto no
dimensionamento à flexão de elementos de concreto, muitas vezes o elemento aço contribuirá,
ainda, com a resistência à compressão do elemento.
De qualquer maneira, não é possível evitar o aparecimento de fissuras em elementos
de concreto, uma vez que elas podem surgir, a partir do momento que esse se encontre em
estado endurecido, por mecanismos de retração (química e/ou plástica), ainda que a
capacidade resistente não tenha sido superada. Entretanto, devem-se distinguir tais fissuras,
que podem ser invisíveis a olho nu ou quase imperceptíveis, das que caracterizam
manifestações patológicas estruturais, constituindo macrofissuras que podem expor as
armaduras aos mecanismos de deterioração e reduzir consideravelmente a durabilidade da
estrutura.
Com a introdução do elemento de aço numa seção de concreto, têm-se duas
possibilidades de comportamento conjunto: concreto armado e o concreto protendido.

2.4.1 Concreto armado

O concreto armado consiste no concreto estrutural que conta com armaduras


passivas, que não sofreram pré-alongamentos antes da construção. Tais armaduras, fabricadas
em formato de barras ou fios de seção circular, se caracterizam por serem solicitadas apenas
quando a estrutura é carregada, devido ao fenômeno da aderência concreto-aço.
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Para melhorar a eficiência da aderência, ao invés de se utilizarem barras de aço lisas,


utilizam-se barras de alta aderência, que contam com nervuras; ademais, existem ainda barras
com entalhes, que geralmente são as que possuem diâmetros menores. Um exemplo de barras
nervuradas pode ser ilustrado na Figura 2.6:

Figura 2.6 - Barras de aço de alta aderência.


Fonte: Gerdau (2017)

A nomenclatura dos tipos de aço para concreto é análoga à usada para os concretos,
sendo que CA-## denota um aço para concreto armado cujos caracteres finais indicam a

tensão de escoamento característica em kN/cm² = 0,1 MPa. Os aços usados para as


armaduras passivas são do tipo CA-50 ou CA-60, ou seja, possuem tensões de escoamento de

= 500 MPa e = 600 MPa, respectivamente. Há algumas décadas atrás utilizava-se o


aço CA-25, cujas barras eram lisas e que ainda hoje são produzidas no mercado e utilizadas
para outros fins na construção civil.
Na Figura 2.7 e na Figura 2.8, apresenta-se a curva tensão-deformação do aço CA-50
(mais comumente usado), tanto em sua forma experimental quanto decorrente da aproximação
do material como elastoplástico perfeito, sendo essa utilizada para os modelos de
dimensionamento:
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Figura 2.7 - Curva tensão-deformação experimental do aço CA-50.

Figura 2.8 - Curva tensão-deformação do aço CA-50 (modelo elastoplástico perfeito).

: tensão de escoamento característica do aço tal que ) = 5%;

= : tensão de escoamento do aço em valor de cálculo (tal nomenclatura

será explicada mais adiante);


: módulo de elasticidade/deformabilidade longitudinal do aço;
: deformação específica elástica limite do aço;
: deformação específica última do aço.
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2.4.2 Concreto protendido

O concreto protendido, cada vez mais usado em diversas aplicações na construção


civil, surgiu na França em 1928 com Eugène Freyssinet baseado no pré-tensionamento
(alongamento prévio por meio de macacos hidráulicos) de armaduras de aço de alta
resistência antes da construção da peça. Nesse tipo de concreto, as armaduras são chamadas
ativas, uma vez que se encontram permanentemente solicitadas.
Esse tópico será abordado com detalhe na Apostila PEF3403, de modo a justificar a
breve apresentação realizada.
Apostila PEF3303 19

3. Durabilidade estrutural

3 DURABILIDADE ESTRUTURAL

A durabilidade é um dos fatores que compõe os requisitos de desempenho de


qualidade a serem atendidos como parte da função da estrutura, além da segurança,
desempenho em serviço e sustentabilidade, que cada vez vem mais ganhando importância.
Por durabilidade, entende-se a capacidade da estrutura em desempenhar suas funções
ao longo do tempo frente ao uso, conservando características de segurança e desempenho em
serviço; diretamente ligado à durabilidade também se insere o conceito de vida útil,
correspondente ao período de tempo no qual a estrutura é capaz de servir aos propósitos pelos
quais foi projetada e construída.
Faz-se necessária a definição, durante a fase de projeto, da chamada vida útil de
projeto, que consiste numa estimativa de vida útil da estrutura para o atendimento aos
requisitos de desempenho prescritos em norma; ademais, da consideração de estruturas em
concreto armado moldado in loco, deve-se ressaltar que a garantia da vida útil de projeto está
fortemente ligada ao cumprimento de diretrizes associadas à especificação de materiais e
execução da estrutura, prescritas pelas normas NBR 14931:2004 - Execução de estruturas de
concreto – Procedimento e NBR 12655:2015- Concreto de cimento Portland — Preparo,
controle, recebimento e aceitação. Como prática, sugere-se que projetos de estruturas de
concreto armado tomem como referência uma vida útil de projeto mínima de 100 anos, de
sorte que, durante todo esse tempo, a estrutura atenda aos chamados estados limites, que
norteiam o dimensionamento; tais estados limites são apresentados a seguir:
20 Apostila PEF3303

 Estado Limite Último (ELU): estado limite relacionado ao colapso ou ruína


da estrutura, que impede totalmente seu uso;

 Estado Limite de Serviço (ELS): estado limite relacionado ao desempenho


em serviço da estrutura, envolvendo condições de utilização, aparência e
conforto; engloba fatores que podem ser perceptíveis e/ou sentidos por seus
usuários, tais como: deslocamentos, fissuras e vibrações excessivas.

Para que se garanta a durabilidade dos elementos de concreto armado, deve-se


atentar para a proteção alcalina do aço que trata da proteção das barras/fios na peça de
concreto, por meio do cobrimento mínimo (c) e das aberturas de fissura (w).

3.1 Mecanismos de deterioração


Têm-se três tipos de mecanismos de deterioração atuantes em uma estrutura de
concreto armado: relativos ao concreto, às armaduras e à estrutura como um todo. A seguir,
são elencados os respectivos mecanismos para cada tipo:
Relativos ao concreto:

 Lixiviação: ação de águas puras, carbônicas agressivas ou ácidas que


dissolvem e carreiam os compostos hidratados da pasta de cimento;

 Expansibilidade: ação de águas e solos que contenham ou estejam


contaminados com sulfatos, dando origem a reações expansivas e deletérias
com a pasta de cimento, ou por ação de álcalis do cimento e certos agregados
reativos, dando origem à reação álcali-agregado (RAA);

 Perda de superfície ativa: reações deletérias superficiais de certos agregados,


em decorrência de transformações de produtos ferruginosos presentes em sua
constituição mineralógica;

Relativos às armaduras:

 Corrosão e despassivação: causada pelo gás carbônico atmosférico


(carbonatação), ou por ânions cloreto e/ou sulfato;
Apostila PEF3303 21

Relativos à estrutura propriamente dita:

 Abrasão e impacto;

 Variações térmicas;

 Fadiga;

 Fluência;

 Retração;

 Relaxação do aço.

É necessário ainda relevar a importância da agressividade do meio, que permeia toda


a escolha de materiais e soluções para o projeto. A Tabela 3.1, extraída na NBR6118,
classifica os ambientes conforme seu nível de agressividade.

Tabela 3.1 – Classes de agressividade ambiental (CAA).


Fonte: NBR6118
Classe de Classificação geral do tipo Risco de
agressividade Agressividade de ambiente para efeito de deterioração da
ambiental projeto estrutura
Rural
I Fraca Insignificante
Submersa
II Moderada Urbana ¹ ² Pequeno
Marinha ¹
III Forte Grande
Industrial ¹ ²
Industrial ¹ ³
IV Muito forte Elevado
Respingos de maré
¹ Pode-se admitir um microclima com uma classe de agressividade mais branda (um nível acima) para ambientes
internos secos (salas, dormitórios, banheiros, cozinhas e áreas de serviço de apartamentos residenciais e
conjuntos comerciais ou ambientes com concreto revestido com argamassa e pintura).
² Pode-se admitir uma classe de agressividade mais branda (um nível acima) em: obras em regiões de clima seco,
com umidade relativa do ar menor ou igual a 65%, partes da estrutura protegidas de chuva em ambientes
predominantemente secos, ou regiões onde chove raramente.

³ Ambientes quimicamente agressivos, tanques industriais, galvanoplastia, branqueamento em indústrias de


celulose e papel, armazéns de fertilizantes, indústrias químicas.
22 Apostila PEF3303

3.2 Critérios de projeto visando maior durabilidade


A seguir, apresentam-se algumas diretrizes para projeto para que se consiga maior
durabilidade da estrutura:

 Drenagem:

o Considerar um sistema de drenagem eficiente que permita a remoção


de águas de chuva e de limpeza e lavagem;

o Superfícies expostas horizontais, como coberturas, pátios, garagens e


estacionamentos devem dispor de sistemas de drenagem com ralos e
condutores;

o Juntas de movimento ou de dilatação expostas à ação da água devem


ser convenientemente seladas, de modo a torna-las estanques,
impedindo assim a percolação de água;

o Topos de platibandas e paredes devem ser protegidos por chapins, e


beirais devem possuir pingadeiras e serem protegidos por rufos.

 Formas arquitetônicas:

o Disposições arquitetônicas ou construtivas que possam reduzir a


durabilidade da estrutura devem ser evitadas, a exemplos de quinas
proeminentes;

o Deve ser previsto em projeto o acesso para inspeção e manutenção de


partes da estrutura com vida útil inferior à estrutura como um todo,
tais como aparelhos de apoio, caixões, insertos, impermeabilizações,
entre outros.

 Qualidade do concreto:

o Deve-se atentar que a durabilidade das estruturas é altamente


dependente das características do concreto e da espessura e qualidade
do concreto do cobrimento da armadura;
Apostila PEF3303 23

o Ensaios de desempenho da durabilidade da estrutura frente ao tipo e


nível de agressividade previsto em projeto devem estabelecer os
parâmetros mínimos a serem atendidos;

o Devem-se garantir os cobrimentos das barras e a proteção das


ancoragens das armaduras ativas, utilizadas no concreto protendido;

 Detalhamentos das armaduras:

o As barras devem ser dispostas dentro do componente ou elemento


estrutural, de modo a permitir e facilitar a boa qualidade das
operações de lançamento e adensamento do concreto;

o Deve-se garantir espaço suficiente para a entrada da agulha do


vibrador, de modo a garantir um bom adensamento do concreto.

 Controle de fissuração:

o Deve-se considerar que o risco e a evolução da corrosão do aço na


região das fissuras de flexão transversais à armadura principal
dependem essencialmente da qualidade e da espessura do concreto de
cobrimento da armadura;

o Nos elementos de concreto protendido, constituídos pelas chamadas


armaduras ativas, deve haver um controle de fissuração mais rígido,
dada sua maior sensibilidade à corrosão sob tensão.

 Medidas especiais: revestimentos superficiais para proteção do concreto e/ou


da armadura, como hidrofugantes, pinturas impermeabilizantes, entre outros.

 Inspeção e manutenção preventiva: deve-se possuir um plano tal que


procedimentos de inspeção e manutenção necessários sejam facilitados.

Assim, existem requisitos mínimos a serem adotados para um projeto de estruturas


de concreto, resumidos por meio da especificação das características do concreto e da
espessura mínima de cobrimento das barras de aço. A Tabela 3.2 e a Tabela 3.3 foram
extraídas da NBR6118:
24 Apostila PEF3303

Tabela 3.2 – Qualidade mínima do concreto.


Fonte: NBR6118

Classe de agressividade
Concreto Tipo
I II III IV
Relação CA ≤ 0,65 ≤ 0,60 ≤ 0,55 ≤ 0,45
água/cimento em
massa CP ≤ 0,60 ≤ 0,55 ≤ 0,50 ≤ 0,45

Classe de concreto CA ≥ C20 ≥ C25 ≥ C30 ≥ C40


(NBR8953) CP ≥ C25 ≥ C30 ≥ C35 ≥ C40
¹ O concreto empregado na execução das estruturas deve cumprir com os requisitos estabelecidos na
NBR 12655.
² CA corresponde a componentes e elementos estruturais de concreto armado.
³CP corresponde a componentes e elementos estruturais de concreto protendido.

Tabela 3.3 – Cobrimento mínimo das armaduras.


Fonte: NBR6118

Classe de agressividade
Tipo de Componente ou
estrutura elemento I II III IV
Cobrimento nominal (mm)
Concreto Laje ² 20 25 35 45
armado Viga/Pilar 25 30 40 50
Concreto
Todos 30 35 45 55
protendido¹
¹ Cobrimento nominal da armadura passiva que envolve a bainha ou os fios, cabos e cordoalhas, sempre superior ao
especificado para o elemento de concreto armado, devido aos riscos de corrosão fragilizante sob tensão.

² Para a face superior de lajes e vigas que serão revestidas com argamassa de contrapiso, com revestimentos finais secos tipo
carpete e madeira, com argamassa de revestimento e acabamento tais como pisos de elevado desempenho, pisos cerâmicos,
pisos asfálticos e outros tantos, as exigências dessa tabela podem ser substituídas por 7.4.7.5, respeitado um cobrimento
nominal ≥ 15 mm.

³ Nas faces inferiores de lajes e vigas de reservatórios, estações de tratamento de água e esgoto, condutos de esgoto, canaletas
de efluentes e outras obras em ambientes química e intensamente agressivos, a armadura deve ter cobrimento nominal ≥ 45
mm.
Apostila PEF3303 25

Cobrimento nominal:

Para garantir o cobrimento mínimo c em projeto, considera-se, em função da


metodologia construtiva empregada, o cobrimento nominal, que é acrescido da tolerância de
execução , de modo que se tenha (usualmente, = 10 mm, para estruturas
de concreto moldadas no local).

Abertura de fissura: e 0,2 mm para CAA IV


26 Apostila PEF3303

4. Segurança estrutural

4 SEGURANÇA ESTRUTURAL

Por segurança estrutural, entende-se o afastamento entre o estado de solicitação em


uso e o estado de ruína ou colapso da estrutura, sendo este influenciado por fatores como
variabilidade das solicitações e das resistências dos materiais, importância das estruturas e
imprecisões construtivas e de projeto. Trata-se de um conceito qualitativo e de difícil
quantificação, principalmente pelo fato de que as ações se apresentam como a principal das
incógnitas para o cálculo estrutural, cabendo ao projetista lidar com a segurança de modo a se
otimizar o projeto, maximizando a segurança da estrutura e minimizando desperdícios.
Fusco (2012) aponta que, de início, a verificação da segurança estrutural, sobretudo
na Europa, se dava de modo intuitivo e/ou condicionado por sucessos e insucessos de
experiências prévias de construções similares ou modelos, uma vez que as teorias de
Resistência dos Materiais e análise estrutural se desenvolveram de fato a partir dos séculos
XVIII e XIX, a exemplo dos estudos de Navier e da Teoria de Bernoulli-Euler. Tal método se
mostrava totalmente antieconômico e com alta probabilidade de falha, já que essas teorias
ainda não estavam consolidadas. A seguir, apresentam-se alguns métodos desenvolvidos para
avaliar a segurança estrutural ao longo das décadas de projeto de estruturas.

4.1 Método das Tensões Admissíveis


Com o desenvolvimento das referidas teorias, que possibilitou o avanço da Mecânica
das Estruturas sobretudo nos aspectos do comportamento estrutural, do estudo das tensões e
deformações e dos critérios de resistência dos materiais, desenvolveu-se o primeiro método
quantitativo de verificação de segurança das estruturas, o chamado Método das Tensões
Admissíveis, que analisa a proximidade das tensões atuantes no material com suas tensões
Apostila PEF3303 27

admissíveis, utilizando-se de um coeficiente de segurança interno a depender do material,


englobando eventuais falhas. Esse é expresso pela Equação (4.1):

(4.1)

: tensões atuantes;

: tensões admissíveis;

: tensões de ruptura;

coeficiente de segurança interno.

É interessante notar que este coeficiente de segurança é de caráter global, ou seja,


vale tanto para ponderação da resistência do material quanto para a das ações.
Embora esse modelo consista em uma primeira aproximação, é possível associar
várias críticas devido à sua simplicidade, tais como:

 Valores elevados de não significam necessariamente uma segurança


estrutural elevada, de modo que esse coeficiente não é um quantificador de
segurança;

 Não se leva em consideração combinações de ações na estrutura;

 Em problemas não lineares, como flambagem de barras esbeltas, conduz a


uma ideia falsa, levando muitas vezes a soluções antieconômicas.

4.2 Métodos Probabilísticos


Deve-se ter em mente que, mesmo anteriormente ao surgimento do Método das
Tensões Admissíveis, sempre se fez presente a ideia de se associar conceitos probabilísticos à
segurança estrutural, dado o consenso de que não existe estrutura absolutamente segura,
havendo sempre uma probabilidade de ruína, mesmo que muito remota.
28 Apostila PEF3303

O risco de colapso, expresso pela probabilidade de falha p, tal que uma solicitação S
seja comparada à resistência R do material (ou seja, ) sempre existe, ainda que
se tenha projeto, execução e controle da estrutura dentro dos mais rigorosos padrões
normativos. Tal risco é inerente à vida dos usuários da estrutura em questão, de modo que se
deva assumir um risco ao invés de adotar um coeficiente de segurança, com devida distinção
entre a falha aleatória inerente ao evento, sem culpados, e as falhas humanas causadas por
irresponsabilidade ou imperícia.
Percebe-se a complexidade relacionada à quantificação de p, uma vez que essa
envolve questões técnicas, éticas, políticas e econômicas; de um modo geral, sua escolha
acaba sendo ditada fundamentalmente por razões econômicas, constituindo a seguinte relação:

Figura 4.1 – Relação entre segurança e preço de uma estrutura.

Observação: tem-se a ruína ou colapso da estrutura quando ;


atualmente, trabalha-se com probabilidades de ruína na faixa .
Dada essa complexidade, a formulação de um método probabilístico puro, de sorte
que se cubram todas as configurações possíveis de ruína pela aleatoriedade das ações e
solicitações e pela resistência dos materiais, incluindo propriedades mecânicas e geométricas,
de acordo com Fusco (2012), “é um caminho que ainda está sendo percorrido”.
Apostila PEF3303 29

4.3 Método Semiprobabilístico


O método atualmente adotado para verificação da segurança, de grande parte dos
sistemas estruturais, é o Método Semiprobabilístico, que está num estágio avançado em
relação ao Método das Tensões Admissíveis, mas ainda aquém do chamado Método
Probabilístico “Puro”. Exceção à teoria que fornece a configuração de ruína, que continua
determinística, todos os outros fatores que permeiam a segurança estrutural são considerados
como variáveis aleatórias com distribuição normal, como ações e solicitações, resistências e
geometria da estrutura.
Para tal, realiza-se um procedimento baseado nas nomenclaturas apresentadas na
Figura 4.2 (tipicamente, aplicam-se esses conceitos às ações, solicitações e resistências):

Figura 4.2 – Interpretação do valor característico.

Valor característico: indicado pelo subíndice k, refere-se a uma variável aleatória


tal que a probabilidade de falha seja de 5%, ou seja, caso se analise a variabilidade das ações,
tem-se que , como se vê na Figura 4.2.

Valor de cálculo: indicado pelo subíndice d, refere-se a uma variável aleatória


corrigida por um coeficiente de ponderação γ; a favor da segurança, majoram-se as
solicitações e minoram-se as resistências, como será visto a seguir. Salienta-se que os
coeficientes relativos à ELU assumem valores maiores que os relativos à ELS.
30 Apostila PEF3303

Por consequência, a verificação de segurança é feita comparando-se solicitações e


resistências em valor de cálculo segundo os estados limites (ELU e ELS) como expresso na
Equação (4.2) e ilustrado na Figura 4.3, de modo que se tenha fundamentalmente:

(4.2)

Figura 4.3 – Interpretação do Método Semiprobabilístico.

De uma análise crítica acerca da funcionalidade desse método, ainda que ele não seja
o ideal, percebe-se nitidamente um progresso com relação ao Método das Tensões
Admissíveis, visto que:

 Introduzem-se dados estatísticos e conceitos probabilísticos de maneira


racional e sistemática (irregularidades do material, imprecisões do modelo,
entre outros);

 Aborda estruturas de comportamento não linear sem negligências;

 Deve-se ainda ressaltar que, como se trata de um método híbrido, não se faz
possível a determinação de um coeficiente global de segurança, nem a
determinação explícita da probabilidade de ruína da estrutura.
Apostila PEF3303 31

4.3.1 Variabilidade das ações

Como já discutido anteriormente, as ações constituem a maior dentre as incógnitas


do projeto estrutural, seja devido a variações como ocorre no caso do vento, seja por cargas
acidentais não previstas em projeto após intervalos de tempo quaisquer. A partir disso, como
as solicitações são decorrência direta das ações, justifica-se o fato de se majorar as ações por
meio de um coeficiente 1 tal que , de modo que a probabilidade de uma

solicitação superar a solicitação em valor de cálculo seja ainda menor que a relativa ao valor
característico, que é de 5%. De maneira geral, adota-se = 1,4 no ELU.
As ações numa estrutura podem ser classificadas em três tipos, a saber:

 Permanentes (g): como, por exemplo, o peso próprio dos elementos


estruturais e empuxos (água e/ou solo);

 Variáveis (q): cargas acidentais como, pessoas, veículos, vento e sobrecargas;

 Deformações impostas (ε): variações térmicas, retração e fluência, que


também são classificadas como permanentes ou variáveis.

As diretrizes e informações aqui apresentadas estão relacionadas à análise estrutural


estática. A depender do tipo de estrutura e das cargas às quais ela está sujeita, faz-se
necessária também uma análise dinâmica, cujo estudo é mais complexo, determinados os
graus de liberdade de interesse do modelo estrutural adotado. Como exemplos de casos em
que uma análise dinâmica é imprescindível, citam-se edifícios altos (ação de vento e sismos),
elementos estruturais submetidos à intensa ação dos ocupantes (arenas esportivas e
academias) e obras de arte (ação de vento e carregamentos variáveis de veículos e/ou
pedestres em seu tabuleiro).
A partir desses três tipos de cargas, no contexto de uma análise pautada em estados
limites, deve-se considerar a ação simultânea delas, em especial a combinação mais
desfavorável possível. No caso geral, propõe-se para a ação em seu valor de cálculo a
Equação (4.3):
32 Apostila PEF3303

(4.3)

: coeficientes de ponderação (majoração) das ações permanentes,


variáveis e das deformações impostas; tipicamente, adota-se e = 1,2 no
ELU;
: ação permanente em valor característico;

: combinação crítica das ações variáveis, sendo

com variando em função do tipo de carregamento.

: ação decorrente das deformações impostas.

4.3.2 Variabilidade das resistências

A favor da segurança, do mesmo modo que se majoram as solicitações, minoram-se


as resistências por meio de um coeficiente tal que , de modo que a

probabilidade de a resistência de um material ser menor que a resistência em valor de cálculo


seja ainda menor que a relativa ao valor característico, que é de 5%.
O coeficiente de minoração das resistências é composto por três fatores, conforme
a Equação (4.4):

(4.4)

: considera a variabilidade da resistência dos materiais envolvidos;

: leva em conta a diferença entre a resistência do material no corpo de prova e


na estrutura;
: considera os desvios gerados na construção e as aproximações e imprecisões
do modelo de cálculo e da análise estrutural provenientes da Resistência dos Materiais.

Para o concreto e aço, os dois materiais estruturais mais utilizados, tem-se no ELU,
respectivamente, =1,4 e =1,15. Por fim, na Tabela 4.1, relacionam-se para fatores que
afetam a segurança estrutural, as respectivas grandezas e coeficientes relacionados:
Apostila PEF3303 33

Tabela 4.1 – Relação entre fatores que afetam a segurança e grandezas afetadas.
Grandezas Coeficientes de ponderação
Fatores que afetam a segurança relacionados
afetadas
Variabilidade das ações F
Simultaneidade das ações F
Erros teóricos da análise estrutural S,R
Imprecisões de cálculo S,R
Imprecisões de execução (geométricas) S,R
Variabilidade das deformabilidades R
Variabilidade das resistências R
Capacidade de redistribuição de esforços R
34 Apostila PEF3303

5. Fundamentos da concepção estrutural

5 FUNDAMENTOS DA CONCEPÇÃO
ESTRUTURAL
Ao se pensar um projeto estrutural de modo integrado, tal que se atenda os quatro
requisitos de qualidade para uma estrutura (durabilidade, segurança, desempenho em serviço e
sustentabilidade) da maneira mais eficiente e econômica possível, deve-se realizar uma
abordagem cíclica, de sorte a estimular sua otimização. As etapas do projeto estrutural são
ilustradas na Figura 5.1:

Figura 5.1 – Ciclo do projeto estrutural.

Por concepção ou lançamento da estrutura, entende-se a definição do arranjo/solução


estrutural de modo a atender os requisitos de qualidade supracitados com máxima economia, e
respeitando a finalidade para a qual a estrutura foi projetada, levando em conta também o
quesito estético.
Apostila PEF3303 35

O modelo estrutural consiste no conjunto de modelos simples que, como


simplificações por natureza, seja capaz de representar satisfatoriamente o comportamento da
estrutura, em escala local e global. Tais modelos recorrem em estruturas hiperestáticas, em
sua maioria, ou mesmo isostáticas, que são frequentemente estudadas nas disciplinas de
Resistência dos Materiais, a exemplo de pórticos e vigas contínuas. Na Figura 5.2 e na Figura
5.3, têm-se dois exemplos de modelos estruturais:

Figura 5.2 – Modelo estrutural das vigas de um pavimento.

Figura 5.3 – Modelo estrutural de análise das vigas de um edifício.


36 Apostila PEF3303

Pelas ações, entendem-se os tipos previamente detalhados (Variabilidade das ações –


Página 29); no caso de edifícios, as ações dos tipos permanente e variável ainda possuem
especificidades como presença de vedações, revestimentos, esquadrias, equipamentos,
instalações e móveis.
Às solicitações e deformações, faz-se referência à análise dos esforços solicitantes
(N, M, V, T), tensões ( , ) e deformações (ε).
Finalmente, no âmbito do dimensionamento, atua-se visando o atendimento aos
estados limites último e de serviço (ELU e ELS) definidos para o concreto armado.

5.1 Elementos estruturais básicos


A seguir, serão elencados os principais elementos estruturais presentes em estruturas
de concreto armado, com classificação em função da forma e comportamento primário:

5.1.1 Lajes

Lajes são elementos estruturais bidimensionais com comportamento de placa,


solicitados predominantemente à flexão. Geralmente horizontais, constituem os pisos dos
pavimentos, suportando diretamente as cargas verticais e atuando como elemento “diafragma”
apoiado nas vigas em seus contornos e transferindo a elas as cargas nelas atuantes. Um
exemplo de laje é mostrado na Figura 5.4:

Figura 5.4 – Laje.


Apostila PEF3303 37

5.1.2 Vigas

Vigas são elementos estruturais unidimensionais com comportamento de barra,


solicitados predominantemente à flexão; geralmente horizontais, vencem os vãos ao se
apoiarem nos pilares, dando apoio às lajes e, eventualmente, a outras vigas, atuando na
transferência de cargas aos pilares. Ilustra-se um exemplo de viga na Figura 5.5:

Figura 5.5 – Viga.

5.1.3 Pilares

Pilares são elementos estruturais unidimensionais com comportamento de barra,


solicitados predominantemente à compressão. Geralmente verticais, garantem o pé direito
entre pavimentos, e, servindo de apoio às vigas, transferem diretamente as cargas às
fundações. Tem papel fundamental no desempenho da estrutura ao formar pórticos com as
vigas e garantir a estabilidade horizontal da edificação. Um exemplo é apresentado na Figura
5.6:
38 Apostila PEF3303

Figura 5.6 – Pilar.

5.1.4 Paredes

Paredes são elementos estruturais bidimensionais com comportamento de placa,


solicitados predominantemente à compressão, como ilustrado na Figura 5.7:

Figura 5.7 – Parede.

5.1.5 Elementos de fundação

Os elementos estruturais de fundação, formados por sapatas, blocos de coroamento


de estacas ou tubulões, são elementos tridimensionais solicitados predominantemente à
compressão. São verticais e transferem as cargas provenientes dos pilares ao solo.
Quando a transferência de carga se der a pequenas profundidades, tem-se uma sapata
direta; no caso de maiores profundidades, o elemento que atua na transferência de carga às
estacas é o bloco, o que para o tubulão ocorre de forma direta. Detalhes desses elementos em
perspectiva, elevação e planta podem ser vistos na Figura 5.8 e Figura 5.9:
Apostila PEF3303 39

Figura 5.8 – Sapata, bloco e tubulão (respectivamente).

Figura 5.9 – Elementos de fundação vistos em elevação e planta.


40 Apostila PEF3303

5.2 Sistemas estruturais


Pelos sistemas estruturais, entende-se o modo como os elementos são dispostos e se
ligam de modo a compor a estrutura e resistir aos esforços aos quais ela é solicitada.
Notadamente, o mais famoso e recorrente entre eles é o laje-viga-pilar (LVP), que constitui a
base dos pavimentos das edificações. Na Figura 5.10 ilustra-se um modelo estrutural
tridimensional de um edifício, e a seguir serão exemplificados, da Figura 5.11 à Figura 5.20
alguns dos sistemas estruturais mais utilizados:

Figura 5.10 – Estrutura tridimensional de um edifício.


Apostila PEF3303 41

5.2.1 Sistemas estruturais para transporte de cargas verticais

Figura 5.11 – Sistema laje-viga-pilar (LVP) em vista em perspectiva.

Figura 5.12 – Sistema laje-viga-pilar (LVP) em corte e em planta.


42 Apostila PEF3303

Figura 5.13 – Sistema laje-pilar ou laje sem vigas.

Figura 5.14 – Sistema de lajes nervuradas (apoiadas em uma ou em duas direções).

Figura 5.15 – Sistema de lajes mistas (contam com um steel deck).


Fonte: Açoplano (2017)
Apostila PEF3303 43

A saber, o sistema de lajes nervuradas também pode ser utilizado em conjunto com
os sistemas laje-viga-pilar ou laje-pilar, como se vê na Figura 5.16 e na Figura 5.17:

Figura 5.16 – Laje nervurada no sistema laje-viga-pilar (LVP).


Fonte: Atex (2017)

Figura 5.17 – Laje nervurada no sistema laje-pilar.


Fonte: Atex (2017)
44 Apostila PEF3303

5.2.2 Sistemas para transporte de cargas verticais

Figura 5.18 – Pilar em balanço.

Figura 5.19 – Pórtico.


Apostila PEF3303 45

Figura 5.20 – Pórticos contraventados.

Para a análise de pórticos não contraventados, como na Figura 5.19, por questão de
modelagem, é possível analisa-los globalmente ou localmente, com associação intermediária
de barras rígidas de modo a formar um conjunto de pórticos mais simples conectados entre si.
Quanto aos pórticos contraventados como os da Figura 5.20, cabe ressaltar a importância das
estruturas de contraventamento como as paredes de contraventamento ou shear walls e os
núcleos resistentes para aumento da rigidez global da estrutura.

5.3 Modelos estruturais para o sistema laje-viga-pilar (LVP)


Sabe-se que o comportamento estrutural “real” é bastante complexo, uma vez que
envolve globalmente a interação de todos os elementos da estrutura (resistentes ou não); tal
comportamento é afetado também pelos métodos construtivos, a exemplo de carregamentos
da estrutura em construção, e pela evolução no tempo tanto das propriedades do concreto
(resistência e deformabilidade) quanto eventualmente das cargas. Por consequência, cabem
aos modelos estruturais descrever da forma mais simples e eficiente possível, os
comportamentos local e global da estrutura de acordo com a precisão de análise desejada.
46 Apostila PEF3303

Ao se considerar o LVP, o mais comum dentre os sistemas estruturais apresentados


no subitem anterior, busca-se informar a seguir como costuma ser modelado o comportamento
de elementos estruturais em escala local, ou quando associados a outros elementos estruturais.

 Lajes: placas simples ou contínuas simplesmente apoiadas nas vigas, cujos


cortes fornecem seções analisadas como vigas contínuas. Sua análise é
baseada nos tipos de apoio que a suportam, correspondendo às condições de
contorno. A respectiva modelagem é apresentada na Figura 5.21:

o Supõe-se que as vigas de apoio são indeslocáveis na direção vertical e


sem inércia à torção; exceção deve ser feita à torção de equilíbrio
onde as lajes devem ser consideradas engastadas nas vigas que a
suportam, como num trecho em balanço (Figura 5.22):

Figura 5.21 – Análise de lajes.

Figura 5.22 – Laje em balanço.


Apostila PEF3303 47

 Vigas solicitadas por cargas verticais: vigas contínuas, cujo grau de precisão
do modelo aumenta de acordo com as condições de contorno adotadas
(apoios extremos):

o No modelo de viga contínua simples (menor precisão) (Figura 5.24),


faz-se necessário uma correção devido ao momento de engaste parcial
das vigas nos pilares de extremidade, o que não é demandado ao se
utilizar o modelo que considera a influência dos pilares (maior
precisão) (Figura 5.25);

o Despreza-se a influência das vigas que incidem nos nós


perpendicularmente ao plano do modelo, seja quanto à sua rigidez à
torção, ou quanto às cargas verticais por elas aplicadas;

o Eventualmente, a presença de pilares intermediários de grande rigidez


interrompe a continuidade das vigas, de modo que se deva considerar
a envoltória entre a viga contínua e a situação de engaste perfeito,
como ilustrado na Figura 5.26.

Figura 5.23 – Comportamento das vigas de um edifício, sob cargas verticais.


48 Apostila PEF3303

Figura 5.24 – Vigas contínuas sobre apoios indeslocáveis.

Figura 5.25 – Vigas contínuas sobre apoios indeslocáveis incluindo os pilares de extremidade.

Figura 5.26 – Envoltórias de viga contínua e de engaste perfeito.


Apostila PEF3303 49

 Pórticos planos solicitados por cargas verticais:

o Despreza-se, analogamente ao caso das vigas, a influência das vigas


que incidem nos nós perpendicularmente ao plano do modelo, seja
quanto à sua rigidez à torção, ou quanto às cargas verticais por elas
aplicadas (Figura 5.27):

Figura 5.27 – Pórtico plano.

 Pórtico espacial solicitado por cargas horizontais: além do caso geral,


mostrado em planta na Figura 5.28, o comportamento também pode ser
analisado por pórticos planos isolados (Figura 5.29) ou associados entre si
por barras rígidas (Figura 5.30):
50 Apostila PEF3303

Figura 5.28 – Cargas horizontais na edificação.

Figura 5.29 – Análise por pórticos isolados.


Apostila PEF3303 51

Figura 5.30 – Análise por pórticos associados.

 Pilares: os esforços solicitantes de interesse ( ) provêm da interação

com as vigas, tendo como base os modelos anteriormente apresentados.

Figura 5.31 – Pilar.


52 Apostila PEF3303

5.4 Diretrizes gerais para concepção

Para finalizar a parte introdutória sobre o concreto e se iniciem os modelos


constitutivos de resistência às solicitações, fornecem-se algumas diretrizes gerais para a
concepção estrutural, sobretudo de edifícios:

 Atendimento às condições estéticas definidas no projeto arquitetônico: deve-


se atentar às interfaces entre elementos como vigas e pilares, para que o
embutimento desses nas alvenarias, quando necessário, não comprometa o
revestimento da estrutura;

 O posicionamento dos elementos estruturais na estrutura pode ser feito com


base nos respectivos comportamentos primários: disso, verifica-se a
concordância com o apresentado no item Elementos estruturais básicos
(Página 34);

 A transferência de cargas deve ser a mais direta possível: deve-se evitar, na


medida do possível, a utilização de apoios indiretos entre vigas e o apoio de
pilares em vigas (configurando as chamadas vigas de transição, apresentadas
na Figura 5.32);
Apostila PEF3303 53

Figura 5.32 – Viga de transição.

 Uniformidade dos elementos estruturais, quanto à geometria e às solicitações:


vigas devem, em princípio, apresentar vãos comparáveis entre si;

 Dimensões contínuas da estrutura em planta devem ser, a princípio, limitadas


a aproximadamente 30 m para minimizar efeitos térmicos (temperatura e
retração do concreto): quando tais dimensões são superadas, é desejável a
utilização de juntas que decompõem a estrutura original em um conjunto de
estruturas independentes entre si, para se minimizar esses efeitos;

 Busca pela estabilidade global da estrutura: deve-se atentar à orientação das


seções transversais dos pilares, às quais devem possuir resistência e rigidez
adequadas, sobretudo considerando direções predominantes de vento.
54 Apostila PEF3303

6. Pré-dimensionamento de elementos estruturais

6 PRÉ-DIMENSIONAMENTO DE
ELEMENTOS ESTRUTURAIS
Apresentados os elementos estruturais básicos, assim como os sistemas estruturais
comumente utilizados, são fornecidas agora, num âmbito mais geral, diretrizes para o pré-
dimensionamento de lajes, vigas e pilares. Cabe informar que tais diretrizes não são prescritas
pela norma, mas provenientes do empirismo e experiência no projeto de estruturas de
concreto armado presentes no cotidiano. Com isso, será possível determinar o carregamento
atuante nesses elementos, o que permitirá obter os esforços solicitantes, imprescindíveis para
o cálculo das armaduras.
Observação: é importante mencionar que nas plantas de fôrma, com as quais se
deseja que o aluno se familiarize ao longo do curso, as dimensões de elementos como vigas e
lajes estão sempre referidas em relação à linha ou ponto médio do elemento estrutural
adjacente. Sendo assim, dimensões de lajes estarão sempre definidas com relação à linha
média das vigas que a suportam, do mesmo modo que vigas têm seu comprimento definido
entre os pontos médios dos pilares adjacentes.

6.1 Lajes
No contexto de lajes retangulares maciças sob carregamento uniformemente
distribuído (que serão posteriormente estudadas com maior detalhe), essas são definidas por

suas dimensões e . Recomenda-se , com a adoção de

valores inteiros, sendo que a depender do uso da laje são sugeridos os seguintes valores
mínimos:
Apostila PEF3303 55

 7 cm para lajes de cobertura sem balanço;

 8 cm para lajes de piso;

 10 cm para lajes em balanço;

 12 cm para lajes sujeitas à passagem de veículos.

Figura 6.1 – Laje e suas dimensões características

6.2 Vigas
Em geral, vigas de concreto armado possuem seção transversal retangular, definida
respectivamente por sua base e altura , que por questão construtiva e estética apresentam
dimensões semelhantes ou iguais à da alvenaria que eventualmente a carregará. Segue
exemplo genérico na Figura 6.2:

Figura 6.2 – Viga e suas dimensões características


56 Apostila PEF3303

Para tal, recomenda-se e vãos de viga na faixa . A

altura deve ser , sendo a distância entre pontos de momento

fletor nulo, cuja determinação é semelhante ao caso dos comprimentos de flambagem :

 Viga simplesmente apoiada: ;

 Tramo com momento em uma só extremidade: ;

 Tramo com momentos nas duas extremidades: ;

 Tramo em balanço: .

Observação: em vigas de edifícios, para a compatibilização com a alvenaria, é


frequente adotar = 14 cm para vigas internas e = 19 cm para vigas externas.
Também é sugerida a escolha de valores para a altura em casos específicos como:

 Em vigas contínuas de vãos comparáveis (relação entre vãos adjacentes entre


0,67 e 1,5), costuma-se adotar uma altura única para as vigas, calculada a
partir do vão médio dessas;

 No caso de vãos muito diferentes entre si, adotam-se alturas próprias para
cada viga;

 No caso de apoios indiretos (viga apoiada em outra viga), recomenda-se que a


viga apoiada tenha altura menor ou igual à da viga de apoio.

6.3 Pilares
Assim como as vigas, pilares de concreto armado costumam ter seção retangular
. Recomenda-se que o menor valor da dimensão da seção transversal seja .
Para situações em que , utiliza-se um coeficiente de majoração
, de modo que se tenha uma solicitação em valor de cálculo . Na
Figura 6.3 tem-se um exemplo genérico:
Apostila PEF3303 57

Figura 6.3 – Pilar e suas dimensões características

Outra forma de pré-dimensionamento de pilares advém da carga neles atuante,


constituindo o método chamado de “área de influência”, no qual a cada pilar presente na
planta de fôrma de um pavimento está associada uma área representativa, obtida a partir do
traçado das mediatrizes dos segmentos de reta correspondentes às vigas.
Nele, inicialmente calcula-se a força normal prevista para o pilar analisado com
base na respectiva área de influência , na carga média atuante (que em edifícios costuma ser
de p = 10 a 12 kN/m²) e no número total de pavimentos do edifício , de modo que calcule
a respectiva força normal pela Equação (6.1):

(6.1)

Observação: a força normal prevista obtida , para efeito de pré-dimensionamento,


engloba as solicitações de momento fletor (em torno dos dois eixos que referenciam a seção
transversal do pilar), que podem ser reduzidas a uma força normal equivalente, aplicada
excentricamente com relação ao centro de gravidade da seção.
Com isso, a área do pilar é obtida de modo análogo ao Método das Tensões
Admissíveis, tomando usualmente (já considerando que a
utilização do coeficiente de segurança interno foi incluída no cálculo de e/ou no valor
adotado de ), sendo dada pela Equação (6.2):

(6.2)
58 Apostila PEF3303

Observa-se que eventualmente, de forma arbitrária, fixa-se uma das dimensões do


pilar (b ou h), obtendo-se então a outra, visando compará-la com as recomendações descritas.

6.4 Determinação das cargas atuantes em lajes e vigas


De posse de dimensões obtidas por meio das recomendações sugeridas para os
elementos estruturais típicos, visa-se agora determinar as cargas que neles atuam,
especialmente em lajes e vigas, dado que as cargas atuantes em pilares foram vistas no item
anterior.
Faz-se necessário esclarecer que se deve primeiramente obter as cargas atuantes nas
lajes e posteriormente nas vigas, dado que essas se apoiam naquelas, fazendo com que as
vigas então recebam parte dos carregamentos provenientes das lajes. Como já é conhecido, o
carregamento atuante em uma viga ou laje é composto por uma parcela de carga permanente e
outra de carga variável, acidental ou sobrecarga, de modo que .

6.4.1 Lajes

Comumente, o carregamento permanente em lajes (dado em kN/m²) é composto por:


peso próprio, revestimentos, alvenaria e eventualmente enchimentos (quando há lajes
rebaixadas). Essas parcelas são dadas respectivamente por:

 (valor usual, que engloba a


regularização do piso e seu revestimento)


Apostila PEF3303 59

Observações:

 = 25 kN/m³ (concreto armado);

 No cálculo da parcela referente à alvenaria , determina-se um


carregamento equivalente ao peso da parede, distribuído numa área igual à da
laje em que ela se encontra;

 : cota piso a piso ou pé-direito estrutural, que costuma ser de

aproximadamente 3 m;

 costuma ser menor que , dado que esse enchimento é


frequentemente constituído por materiais mais grosseiros, como entulho de
obra.
O carregamento acidental q é determinado em função do local pela NBR 6120:1980:
Cargas para o cálculo de estruturas de edificações; para edifícios residenciais esse valor,
dependendo da região analisada, varia, entre 1,5 e 2,0 kN/m². Em edifícios comerciais adota-
se 2,0 kN/m².
Por questão de clareza e organização, sugere-se que se disponham as parcelas dos
carregamentos atuantes nas lajes como na Tabela 6.1, juntamente com as dimensões que a
definem (tal disposição é arbitrária, seja com as lajes nas linhas e cargas nas colunas ou vice-
versa); esse procedimento também é altamente recomendável no próximo passo a ser
elucidado, referente à determinação dos carregamentos nas vigas, incluindo a parcela
proveniente das lajes.
60 Apostila PEF3303

Tabela 6.1 – Disposição para a tabela de carregamentos nas lajes


L1 L2 ... Li

Peso próprio
Revestimentos
Alvenaria
Enchimentos
Carga permanente ( )
Sobrecarga (q)
p=g+q

6.4.2 Vigas

Determinadas as cargas atuantes nas lajes, pode-se agora obter as cargas nas vigas,
que fornecerão subsídios para que se obtenha, com base na utilização de um modelo ou
esquema estrutural para o carregamento nessas, o valor dos esforços solicitantes que
permitirão calcular as armaduras longitudinais e transversais, de maneira preliminar. A saber,
os carregamentos nas vigas de edifícios (dados em kN/m) podem ser de quatro tipos:

 Peso próprio: ;

 Alvenaria: ;

 Reações concentradas provenientes de apoios indiretos de outras vigas;

 Carregamentos provenientes de lajes.

No caso de lajes apoiadas em seus quatro lados, a distribuição das cargas atuantes
nessas para as vigas que as suportam se dá por meio de “áreas de influência” delimitadas a
partir das linhas de ruptura da laje. A distribuição adotada será a que ocorre a 45°, de maneira
empírica, como ilustrado na Figura 6.4, de tal modo que tais linhas de ruptura formem uma
figura semelhante a um envelope (por simplicidade, considera-se que os carregamentos
resultantes nas vigas, assim como os que incidem nas lajes, são uniformemente distribuídos).
Apostila PEF3303 61

A partir do carregamento total p da laje , as parcelas e , associadas

respectivamente aos lados e , são dadas por:

Figura 6.4 – Distribuição de cargas das lajes para as vigas (a 45°)

(6.3)

(6.4)

Disso considera-se, como passo intermediário, uma tabela que contenha para cada
laje as cargas e que solicitarão as vigas adjacentes, como a Tabela 6.2:

Tabela 6.2 – Discriminação das componentes de carregamento de cada laje para as


vigas
Laje
L1
L2
...
Li
62 Apostila PEF3303

Como último passo para se chegar ao esquema estrutural de cada viga do pavimento,
discriminam-se os carregamentos distribuídos dos tipos acima descritos (salvo as reações
concentradas, que demandarão a resolução das estruturas correspondentes às vigas cujas
reações de apoio constituem apoios indiretos em outras vigas), de modo que se tenha a Tabela
6.3:

Tabela 6.3 – Carregamentos distribuídos nas vigas


Peso Carregamentos
Viga b h Alvenaria p
próprio de lajes
V1
V2
...
Vi

Observação: caso as vigas tenham tramos com diferentes carregamentos, introduz-se


uma coluna adicional elencando-os de modo a melhor organizar os dados da tabela.
Finalmente, torna-se possível a elaboração do esquema estrutural de cada viga, sendo
sugerido para isso o modelo que utiliza pilares de extremidade (com altura igual à metade da
cota piso a piso do pavimento), que dentre os modelos para vigas de edifícios, apresenta maior
precisão; a partir dessas modelagens, obtêm-se os momentos fletores, que nortearão o
dimensionamento à flexão. Deve-se atentar ao fato de que algumas vigas recebem apoio de
outras vigas; dessa interação, as cargas provenientes da viga que se apoia, que são modeladas
como cargas concentradas na viga de apoio, correspondem às respectivas reações de apoio.
O referido modelo, apresentado na Figura 6.5, representa uma estrutura hiperestática
que pode ser facilmente resolvida com o auxílio de softwares como o FTool:

Figura 6.5 – Modelo estrutural recomendado para uma viga de edifício


Apostila PEF3303 63

6.5 Escadas
Para o pré-dimensionamento de escadas, recorre-se à Figura 6.6:

Figura 6.6 – Escada

Usualmente, os lances de escada possuem inclinação de aproximadamente 30°. A


partir da altura do degrau , determinada por relações como a Fórmula de Blondel (baseadas

em questões ergonômicas), e da altura da laje de escada , a altura média da escada, a

ser usada para estimativa do peso próprio, é dada pela Equação (6.5):

(6.5)
64 Apostila PEF3303

Exemplo 1: Pré-dimensionar os elementos do pavimento abaixo.

Dados:
= 2,7 m
= 25 kN/m³
= 15 kN/m³
Adotar = 14 cm para vigas internas e = 19 cm para vigas externas.
Adotar carga média de 12 kN/m² por pavimento e tensão ideal de compressão de 1
kN/cm² nos pilares.
Adotar sobrecarga = 1,56 kN/m² em L3 (dispensa) e carga permanente = 7,2
kN/m² em L6 (terra nos jardins, como equivalente de alvenaria).
Adotar enchimento de 28 cm na laje rebaixada L4.
Considerar viga de escada 19x35 cm.
Apostila PEF3303 65

Dimensões das vigas (assumindo valores inteiros para as alturas):


V1:
V2 = V3:
V6 = V9:
V4 = V7 = V8: Será adotada = 35 cm em função do
rebaixo.

Dimensões das lajes:


L1: Adota-se = 7 cm
L2 = L5:
L3:
L4: Adota-se = 7 cm
L6:
Laje de escada:

Dimensões dos pilares (adotando = 19 cm):


P1 = P4 = P9 = P12:

Adota-se = 19 cm
P5 = P8:

P2 = P3 = P10 = P11:

Adota-se = 19 cm
P6 = P7:

Cargas nas lajes:


𝐿3:
Alvenaria:

Sobrecarga:
L4:
Enchimentos:
Laje de escada:
66 Apostila PEF3303

L1 L2 L3 L4 L5 L6 Lescada
(m) 2 3,6 4,6 2 3,6 1 2,6
(m) 4,9 4,6 4,6 2,3 4,6 7,2 4,6
(cm) 7 9 12 7 9 7 15
Peso próprio (kN/m²) 1,75 2,25 3 1,75 2,25 1,75 6,45
Revestimentos (kN/m²) 1 1 1 1 1 1 1
Alvenaria (kN/m²) - - - 4,2 - 7,2 -
Enchimentos (kN/m²) - - 0,82 - - - -
Carga permanente
2,75 3,25 4,82 6,95 3,25 9,95 7,45
( ) (kN/m²)
Sobrecarga (q) (kN/m²) 2 1,5 1,56 1,5 1,5 - 2,5
p = g + q (kN/m²) 4,75 4,75 6,32 8,45 4,75 9,95 9,95

Determinados os carregamentos nas lajes, determinam-se agora as cargas nas vigas,


assumindo distribuição a 45°. São separadas, para cada direção, as parcelas decorrentes da
carga permanente e da sobrecarga:

Laje (m) (m)


(kN/m²) (kN/m) (kN/m) (kN/m²) (kN/m) (kN/m)
L1 2 4,9 0,41 2,75 1,38 2,19 2 1 1,59
L2 3,6 4,6 0,78 3,25 2,93 3,58 1,5 1,35 1,65
L3 4,6 4,6 1 4,82 5,54 5,54 1,56 1,79 1,79
L4 2 2,3 0,87 6,95 3,48 3,93 1,5 0,75 0,85
L5 3,6 4,6 0,78 3,25 2,93 3,58 1,5 1,35 1,65
L6 1 7,2 0,14 9,95 9,95 - - - -
Lescada 2,6 4,6 0,57 7,45 17,14 - 2,5 5,75 -

Observação: no caso da laje L6 (laje em balanço), toda a carga é transmitida à viga


V9 que a suporta, e para laje de escada idem análise vale para a viga de escada.
Passa-se então aos carregamentos nas vigas, levando em conta que algumas vigas
recebem carregamentos de duas lajes:
Apostila PEF3303 67

b h
Viga Tramo
(cm) (cm) (kN/m) (kN/m) (kN/m) (kN/m) (kN/m) (kN/m)

1 19 35 1,66 - - 6,11 7,77 - - -


1 2 19 35 1,66 1,38 - 6,11 9,15 1,00 - 1,00
3 19 35 1,66 3,58 - 6,11 11,35 1,65 - 1,65
2 - 14 50 1,75 5,54 - 4,29 11,58 1,79 - 1,79
3 - 14 50 1,75 3,58 3,58 4,29 13,20 1,65 1,65 3,30
4 - 14 35 1,23 1,38 3,48 4,58 10,67 1,00 0,75 1,75
1 19 35 1,66 5,54 - 6,11 13,31 1,79 - 1,79
5 2 19 35 1,66 3,48 - 6,11 11,25 0,75 - 0,75
3 19 35 1,66 3,58 - 6,11 11,35 1,65 - 1,65
1 19 30 1,43 5,54 - 6,24 13,21 1,79 - 1,79
6
2 19 30 1,43 - - 2,60 4,03 - - -
1 14 35 1,23 5,54 3,93 4,58 15,28 1,79 0,85 2,64
7 2 14 35 1,23 5,54 2,19 4,58 13,54 1,79 1,59 3,38
3 14 35 1,23 17,14 2,19 4,58 25,14 5,75 1,59 7,34
1 14 35 1,23 3,93 2,93 4,58 12,67 0,85 1,35 2,20
8
2 14 35 1,23 2,19 2,93 4,58 10,93 1,59 1,35 2,94
9 - 19 30 1,43 2,93 9,95 6,24 20,55 1,35 - 1,35
1 19 35 1,66 - - 2,73 4,39 - - -
Escada
2 19 35 1,66 17,14 - 2,73 21,53 5,75 - 5,75

Por fim, são apresentados os modelos estruturais/esquemas estáticos das vigas, com
os carregamentos distribuídos dados em kN/m:
68 Apostila PEF3303
Apostila PEF3303 69
70 Apostila PEF3303

7.
Apostila PEF3303 71

Flexão Normal Simples (FNS)

7 FLEXÃO NORMAL SIMPLES (FNS)

É apresentado agora um modelo constitutivo de resistência, relativo à flexão simples,


para seção transversal retangular. Dado que o dimensionamento é feito com base no ELU,
deseja-se garantir sempre:

: momento fletor solicitante em valor de cálculo,

determinado a partir do momento fletor solicitante em valor característico (obtido a partir dos
diagramas de esforços solicitantes internos);
: momento fletor resistente em valor de cálculo, que reflete a capacidade
resistente da estrutura.
Na condição do ELU, a ruptura na flexão pode ocorrer de dois modos:

 Alongamento excessivo das armaduras (Figura 7.1):

Figura 7.1 – Ruptura por alongamento excessivo das armaduras.


72 Apostila PEF3303

 Esmagamento do concreto (Figura 7.2):

Figura 7.2 – Ruptura por esmagamento do concreto.

As deformações limites últimas associadas ao concreto armado são:

 Concreto:

 Aço:
Em qualquer modelo, consideram-se hipóteses simplificadoras, como as seguintes:

 Hipótese de Navier: seções transversais permanecem planas e


perpendiculares à linha elástica;

 Aderência perfeita concreto-aço;

 A resistência à tração do concreto é desprezada.

Outras simplificações estão relacionadas às curvas tensão-deformação utilizadas para


a modelagem; no caso do aço, utiliza-se o modelo elastoplástico perfeito (Figura 7.4), e para o
concreto se utiliza o modelo parábola-retângulo, exposto na Figura 7.3:
Apostila PEF3303 73

Figura 7.3 – Modelo parábola-retângulo para a resistência do concreto em compressão.

Figura 7.4 – Modelo elastoplástico perfeito para a resistência do aço sob tração.

Observações:

 Como nova simplificação, no dimensionamento, para se obter a resultante de


compressão, considerar-se-á um diagrama de bloco simplificado, que possui
altura e largura correspondente a 80% da largura real da curva;
74 Apostila PEF3303

 Para os aços sem patamar de escoamento definido, é o valor da tensão

correspondente a uma deformação específica .

A explicação acerca do valor , que compõe uma correção na formulação do


modelo, merece uma atenção especial. Tal valor leva em conta os efeitos de longa duração na
resistência do concreto, que de acordo com Fusco e Onishi (2018) são:

 Efeito de escala com relação ao corpo de prova, visto que dos ensaios
propostos por Jaegher (1941), verificou-se uma alteração de 5% na resistência
efetiva à compressão, quando da comparação entre corpos de prova de
diferentes dimensões;

 Aumento da resistência ao longo do tempo, de cerca de 20% em um ano,


conforme pesquisas realizadas por Rüsch (1960);

 Redução da capacidade resistente ao longo do tempo em cerca de 25% por


aplicação de carga de longa duração, o que configura o chamado Efeito
Rüsch.
Da composição desses três efeitos, chega-se ao fator multiplicativo 0,85:

Da solicitação por flexão simples, num elemento da viga de comprimento unitário,


têm-se as deformações ao longo da seção transversal conforme a Figura 7.5:

Figura 7.5 – Deformações ao longo da seção transversal.


Apostila PEF3303 75

: altura da linha neutra;


: altura útil da seção transversal.

Observações:

 e são arbitrados crescentemente a partir da fibra extrema comprimida,


com ;

 Simplificadamente, toma-se , em que é a altura da seção


transversal.

Para a melhor compreensão da relação entre a capacidade resistente da estrutura e os


parâmetros e , é imprescindível a compreensão dos domínios de deformação na ruptura,
apresentados na Figura 7.6:

Figura 7.6 – Domínios de deformação na ruptura.

Observação: as ordenadas e , referentes respectivamente às fronteiras entre os


domínios D2 e D3 e D3 e D4 do diagrama de deformações, são obtidas por semelhança de
triângulos.
76 Apostila PEF3303

 Domínio D2 ( ): caracteriza uma condição subarmada, em que a


ruptura ocorre exclusivamente pelo alongamento das armaduras (dúctil), uma
vez que e ;

 Domínio D3 ( ): caracteriza uma condição normalmente


armada, em que a ruptura ocorre por esmagamento do concreto e pode
ocorrer também por alongamento das armaduras, uma vez que
e , ;

 Domínio D4 ( ): caracteriza uma condição superarmada, em que


a ruptura ocorre exclusivamente pelo esmagamento do concreto (frágil), uma
vez que e .

Para o aço CA50:

Cabe ressaltar o perigo associado a uma situação superarmada, uma vez que, mesmo
que ele se dê por precaução ou ignorância, a estrutura se torna exposta a uma ruptura frágil
quando de um aumento não previsto no carregamento a que ela é submetida, ainda que haja
aumento da resistência.
Para proceder à obtenção das relações que regem o dimensionamento, analisam-se os
esforços mobilizados na seção transversal na Figura 7.7:

Figura 7.7 – Esforços mobilizados na seção transversal (armadura simples).


Apostila PEF3303 77

Resultantes no concreto e nas armaduras:

(7.1)

(7.2)

Equilíbrio:

(7.3)

(7.4)

(7.5)

Para dimensionamento, a partir de um momento solicitante, calcula-se a quantidade


de armadura longitudinal necessária:

 De (7.4), calcula-se a posição da linha neutra:

(7.6)

 Verifica-se o respectivo domínio de ruptura:

 De (6.5), determina-se a área de armadura necessária:

(7.7)

Para verificação, a partir de uma armadura preexistente, calcula-se o momento


resistente:
78 Apostila PEF3303

 Assume-se inicialmente, por exemplo, que a armadura escoou ( ,

ou seja, a linha neutra se encontra nos domínios de deformação na ruptura D2


ou D3 ( ).

 De (6.3), calcula-se a posição da linha neutra:

(7.8)

 Por (6.4) ou (6.5), determina-se o momento resistente:

(7.9)

Exemplo 2: Dimensionar a armadura de flexão para a viga de seção retangular


sujeita ao carregamento distribuído abaixo.

Dados:
Concreto C20 ( , =1,4
Aço CA50 ( ), =1,15
=1,4

Calcula-se a posição da linha neutra por:


Apostila PEF3303 79

Por semelhança de triângulos, pode-se calcular :

A armadura necessária é determinada por:

A seguir, podem-se determinar os esforços e resultantes na seção:


80 Apostila PEF3303

Observa-se uma ligeira diferença entre o valor obtido para as resultantes de


compressão no concreto ( ) e de tração nas armaduras ( ), o que é explicado pelas
aproximações feitas ao longo dos cálculos realizados.

Exemplo 3: Para a mesma estrutura e seção do item anterior, determinar o


máximo carregamento que pode ser aplicado, dada uma armadura AS = 9 cm².
Assumindo o escoamento da armadura ( ), calcula-se a
posição da linha neutra:

O momento resistente pode ser calculado por:

O momento solicitante, por sua vez, é calculado como:

Impondo o equilíbrio de momentos finalmente obtém-se:


Apostila PEF3303 81

7.1 Armadura dupla


Considerando-se os domínios de deformação na ruptura, visando evitar que se atinja
o domínio D4 de forma a minimizar a ductilidade da seção, o que pode ser expresso por sua
rotação plástica, limita-se a posição da linha neutra por meio do uso de armadura dupla. Para
efeito de ilustração, apresentam-se na Figura 7.8 os gráficos que indicam a variação do
momento fletor com a curvatura da seção, assim como o a rotação plástica em função da
posição da linha neutra:

Figura 7.8 – Rotação plástica da seção transversal em função da posição da linha neutra.

A limitação da posição da linha neutra é expressa pela seguinte prescrição:

Para o detalhamento do modelo de dimensionamento, toma-se como base, para


, o valor . Disso tem-se:
82 Apostila PEF3303

Os esforços mobilizados na seção são:

Figura 7.9 – Esforços mobilizados na seção transversal (armadura dupla) tomados para

Resultantes no concreto e nas armaduras:

(7.9)

(7.10)

(7.11)

Equilíbrio:

(7.12)

(7.13)

Para dimensionamento:

 Dado que e :

(7.14)

 Novamente, faz-se necessária a determinação, por meio do diagrama de


deformações, da tensão atuante em uma das armaduras (nesse caso, somente
) ao se calcular de acordo com a Equação (7.15):
Apostila PEF3303 83

(7.15)

Daí tem-se:

 Com isso, a armadura secundária é calculada por:

(7.16)

 De (7.12), dado que , calcula-se a armadura principal pela Equação


(7.17) (uma vez que está no domínio D3):

(7.17)

Para verificação:

 Assume-se inicialmente que ambas as armaduras escoaram


( . Os passos seguintes constituem um processo iterativo,

detalhado a seguir:

i. De (7.12), calcula-se posição da linha neutra usada:

(7.18)

ii. Com o valor obtido, verifica-se o valor das tensões nas armaduras por meio do
diagrama de deformações;

iii. Caso , retorna-se ao passo 1 e recalcula-se uma nova posição de linha

neutra; caso contrário, de (7.13), finaliza-se a verificação calculando-se o


momento resistente:
84 Apostila PEF3303

(7.19)

Salienta-se que são feitas no máximo duas iterações, tendo em vista que, ao se
recalcular a posição da linha neutra e as tensões nas armaduras, já se obtém o valor definitivo
para a verificação.

Exemplo 4: Para a viga em balanço a seguir, dimensionar a armadura de flexão


na seção retangular.

Dados:

Concreto C20 (
Aço CA50 ( )
= 5 cm
= 0,45d = 22,5 cm

A posição da linha neutra é calculada por:

As tensões nas armaduras são dadas por:


Apostila PEF3303 85

Calculam-se então as armaduras:

Exemplo 5: Para a mesma estrutura e seção do item anterior, determinar o


máximo carregamento que pode ser aplicado quando AS = 10 cm² e AS’= 3 cm².

Assumindo :

Como ambas as hipóteses foram verificadas, calcula-se o momento resistente:

Igualando os momentos solicitante e resistente em valor de cálculo, determina-se


então a máxima carga:

Exemplo 6: Para a mesma estrutura e carregamento do Exemplo 3, mas agora


com seção b = 25 cm e h = 60 cm, determine o máximo carregamento que pode ser
aplicado.
Como a altura da seção foi alterada, tem-se agora =54 cm e =6 cm; assumindo o
escoamento das armaduras ( ):
86 Apostila PEF3303

Como a hipótese assumida não foi plenamente verificada, recalcula-se a posição da


linha neutra com os valores de e e se obtém os valores definitivos para a verificação:

Finalmente, o momento resistente é dado por:

Igualando os momentos solicitante e resistente em valor de cálculo, determina-se


então a máxima carga:

7.2 Seção T
No item anterior, foi abordado o dimensionamento à flexão em vigas de seção
retangular; entretanto, ao se observar um pavimento e a solidarização entre lajes e vigas, é de
se esperar que as lajes contribuam na resistência à flexão das vigas, ao aumentar a largura
colaborante da seção, constituindo uma mesa ou flange. Daí surge a ideia do
dimensionamento com uso de seção T, que se dá sobretudo nos vãos das vigas, conferindo
maior realidade e frequentemente fornecendo valores de armadura menores do que se esse
fosse feito com uso de seção retangular. As dimensões que caracterizam a seção T são:
Apostila PEF3303 87

Figura 7.10 – Formação de seções T ou L no pavimento.

Figura 7.11 – Seção T em suas possíveis formas.

Figura 7.12 – Seção T.


88 Apostila PEF3303

: largura da alma (que no caso da seção retangular corresponde à largura da


seção);
: largura da aba da mesa/flange (esquerda e/ou direita);
: largura da mesa/flange;

: altura da seção;
: altura da mesa/flange (corresponde a altura da laje adjacente).

Para se determinar a largura da(s) aba(s), recomenda-se que , em que é

a distância entre momentos nulos na viga analisada e é a distância entre as faces das vigas.

Figura 7.13 – Valores de a para diferentes configurações de vigas.

Salienta-se que o uso da seção T se apresenta vantajoso somente para momentos


positivos ou quando a seção T é invertida, dado que a presença da mesa tem como função
colaborar ao aumentar a área comprimida na seção.
Apostila PEF3303 89

 Para dimensionamento:

o Linha neutra na mesa ( ):

Figura 7.14 – Caso com linha neutra na mesa.

Nesse caso, o dimensionamento é idêntico ao de uma seção retangular x , já que


o dimensionamento à flexão, na seção transversal, depende exclusivamente da área
comprimida, de modo que se tenha armadura simples:

(7.20)

(7.21)

(7.22)
90 Apostila PEF3303

o Linha neutra na alma ( ):

Figura 7.15 – Caso com linha neutra na alma.

(7.23)

(7.24)

(7.25)

(7.26)

As parcelas de momento resistente, da alma e da mesa/flange, são:

(7.27)

(7.28)

(7.29)

Para armadura simples ( ):

(7.30)
Apostila PEF3303 91

Para armadura dupla ( ):

(7.31)

(7.32)

(7.33)

(7.34)

 Para verificação:
Procede-se do mesmo modo que para a seção retangular; assume-se
inicialmente a hipótese de escoamento da armadura (das armaduras, no caso de armadura
dupla), calcula-se a posição da linha neutra e as tensões reais na(s) armadura(s) e por fim
determina-se o momento resistente, que permite encontrar a máxima carga suportada pela
estrutura.

Exemplo 7: Dimensionar as armaduras para a viga abaixo para seções de


momentos fletores positivos e negativos máximos.

Dados:
Concreto C20 ( )
Aço CA50 ( ))
= 25 cm
= 5 cm
= 0,45 = 11,25 cm
92 Apostila PEF3303

Para o momento negativo no apoio central (

), dimensiona-se como seção retangular:

As tensões nas armaduras são dadas por:

Calculam-se então as armaduras:

Para o momento positivo no vão ( ),

dimensiona-se como seção T:


Assume-se inicialmente que a linha neutra esteja na mesa
( ):

Para efeito de cálculo, na seção do meio do vão, caso se usasse uma seção retangular
(19x30):
Apostila PEF3303 93

Exemplo 8: Dimensionar a armadura de flexão para a viga abaixo.

Dados:
Concreto C30 ( )
Aço CA50 ( ))
= 90 cm
= 10 cm
= 0,45 = 40,5 cm

Assume-se inicialmente que a linha neutra esteja na mesa


( ):

Como a linha neutra se encontra na alma ( ), recalcula-se sua posição com


base no momento resistente da alma:
94 Apostila PEF3303

A armadura é então calculada por:

7.3 Concretos de Alta Resistência


O avanço na área da tecnologia do concreto fez com que houvesse aumentos
significativos nas resistências características à compressão nas últimas décadas, o que vem
permitindo a economia de material e a construção de estruturas mais esbeltas. O termo
Concreto de Alta Resistência caracteriza os concretos com , cuja
abordagem será detalhada a seguir.
Ressalta-se que o modelo constitutivo para o dimensionamento e verificação se
mantém, sendo que somente tensões, deformações e parâmetros de cálculo são ajustados. Para
o aço, continua valendo o modelo elastoplástico perfeito, enquanto que para o concreto, o
modelo de resistência parábola-retângulo sofre algumas mudanças, dispostas na Figura 7.16:

Figura 7.16 – Modelo de resistência parábola-retângulo para o concreto sob compressão.


Apostila PEF3303 95

Para concretos com tinha-se:

Para concretos com , os ajustes são tais que:

(7.35)

(7.36)

(7.37)

Retoma-se a definição de domínios de deformação na ruptura na Figura 7.17:

Figura 7.17 – Domínios de deformação na ruptura.

Na forma mais geral, os limites dos domínios, obtidos por semelhança de triângulos a
partir do diagrama de deformações, são:

Observação:
96 Apostila PEF3303

Por fim, explicita-se o valor dos parâmetros e , que entram do dimensionamento:

O comportamento dos parâmetros e em função da classe de resistência do

concreto é indicado na Figura 7.18:

Figura 7.18 – Valores de e em função de .

7.3.1 Armadura simples

Os esforços mobilizados na seção para armadura simples são dados pela Figura 7.19:

Figura 7.19 – Valores de e em função de .


Apostila PEF3303 97

Resultantes no concreto e nas armaduras:

(7.38)

(7.39)

Equilíbrio:

(7.40)

(7.41)

(7.42)

Da Equação (6.41), calcula-se a posição da linha neutra:

(7.43)

Verifica-se o respectivo domínio de ruptura:

Da Equação (6.42), determina-se a área de armadura necessária:

(7.44)
98 Apostila PEF3303

7.3.2 Armadura dupla

Os esforços mobilizados na seção para armadura dupla são:

Figura 7.20 – Esforços mobilizados na seção transversal (armadura dupla).

Resultantes no concreto e nas armaduras:

(7.45)

(7.46)

(7.47)

Equilíbrio:

(7.48)

(7.49)

Da Equação (7.49), dado que e :

(7.50)
Apostila PEF3303 99

Por meio do diagrama de deformações, é necessário determinar a tensão atuante na


armadura adicional ( ) ao se calcular como na Equação (6.51):

(7.51)

Daí tem-se:

Com isso, a armadura adicional é calculada por:

(7.52)

Da Equação (6.48), dado que (uma vez que está no domínio D3):

(7.53)

Por fim, apresentam-se na Tabela 7.1 os valores de todos os parâmetros relativos ao


dimensionamento em função da classe de resistência do concreto:

Tabela 7.1 – Parâmetros do dimensionamento à flexão em função da classe de resistência do


concreto.

20 a 50 2,000 3,500 2,000 0,850 0,800 0,259 0,628


55 2,200 3,125 1,751 0,829 0,788 0,238 0,602
60 2,290 2,884 1,590 0,808 0,775 0,224 0,582
65 2,360 2,737 1,491 0,786 0,763 0,215 0,569
70 2,420 2,656 1,437 0,765 0,750 0,210 0,562
75 2,470 2,618 1,412 0,744 0,738 0,207 0,558
80 2,520 2,604 1,402 0,723 0,725 0,207 0,557
85 2,560 2,600 1,400 0,701 0,713 0,206 0,557
90 2,600 2,600 1,400 0,680 0,700 0,206 0,557
100 Apostila PEF3303

Exemplo 9: Dimensionar a armadura de flexão para a viga abaixo.

Dados:

Concreto C70

Aço CA50 ( )
= 45 cm
= 5 cm
= 0,35 = 15,75 cm

Exemplo 10: Para a mesma estrutura e seção do exemplo anterior, dimensione a


armadura de flexão para um momento fletor característico máximo = 300 kNm.
Apostila PEF3303 101
102 Apostila PEF3303

8. Lajes

8 LAJES

Nesse capítulo, serão apresentados conceitos sobre lajes, componente fundamental


do sistema laje-viga-pilar. O conteúdo abordará o dimensionamento em ELU de lajes
retangulares maciças submetidas a carregamentos uniformemente distribuídos. Enfatiza-se
que tal tipo de laje figura como o mais tradicional dentre os diversos existentes, o que justifica
a importância a ele dado.
Lajes são elementos estruturais planos, com comportamento de placa, sujeitos a
carregamentos normais a seu plano. Constituem os pisos dos pavimentos, suportando
diretamente as cargas verticais e transmitindo-as para as vigas em que se apoiam. Na Figura
8.1 é apresentada uma laje de forma esquemática:

Figura 8.1 – Laje.


Apostila PEF3303 103

O estudo de placas é feito por meio da Teoria de Placas de Kirchhoff, em que os


deslocamentos transversais são dados pela solução de uma equação de Lagrange, dada pela
Equação (8.1):

(8.1)

: carregamento distribuído constante, dado em ;

: parâmetro de rigidez.

A caracterização das lajes é feita por suas dimensões , e . A


relação entre os vãos e , e suas condições de contorno, aliás, é o que norteia a
classificação quanto ao comportamento estrutural, implicando abordagens específicas para
cada tipo. Atenta-se ainda ao fato de que a denominação de e para cada laje é relativa,
visto que, na interação entre lajes, um vão pode ser o maior relativamente a uma laje e o
menor para outra, e vice-versa. Adicionalmente, as lajes também podem atuar como
“diafragma”, quando são submetidas a ações no seu próprio plano.
A seguir, apresentam-se os principais tipos de lajes existentes, em comparação com o
objeto deste item, que é do tipo maciça.

Figura 8.2 – Laje maciça.


104 Apostila PEF3303

Figura 8.3 – Laje nervurada.

Figura 8.4 – Laje alveolar.


Apostila PEF3303 105

Figura 8.5 – Laje pré-moldada treliçada.

Figura 8.6 – Laje mista (steel deck).


106 Apostila PEF3303

Figura 8.7 – Laje lisa e laje cogumelo.

Observação: tipologias como a de laje lisa ou cogumelo podem ser adotadas em


conjunto com outras, a exemplo das lajes nervuradas (ver Sistemas estruturais– página 38).
Procede-se agora com a caracterização do comportamento das lajes em função da
relação entre seus vãos e de suas condições de contorno.

8.1 Lajes armadas em uma direção

Lajes apoiadas nos quatro cantos, com , são denominadas lajes armadas em

uma direção; esse fato permite que lajes desse tipo sejam analisadas como vigas biapoiadas ou
contínuas, tomando-as como uma faixa de largura unitária (isto é, tem-se com isso uma seção
retangular ), o que pode ser visto na Figura 8.8 e na Figura 8.9:
Apostila PEF3303 107

Figura 8.8 – Lajes armadas em uma direção (análise na direção transversal).

Figura 8.9 – Lajes armadas em uma direção (análise na direção longitudinal).


108 Apostila PEF3303

8.2 Lajes armadas em duas direções


Por sua vez, em lajes armadas em duas direções a relação entre seus vãos é tal que

, situação mais frequente nos sistemas estruturais. Dada a compatibilidade de

deformações e deslocamentos entre os vãos, observa-se que a direção de (menor vão) é a

mais rígida, resistindo com isso à maior parte da carga.


Em ambos os tipos de laje, os esforços solicitantes são determinados a partir de
resultados provenientes da Teoria de Placas de Kirchhoff para várias condições de contorno.
Adiante, serão abordadas essas condições de contorno, bem como a análise dos esforços. Na
Figura 8.10 e na Figura 8.11 ilustram-se lajes armadas em duas direções:

Figura 8.10 – Laje armada em duas direções, com os respectivos momentos fletores.

Figura 8.11 – Laje armada em duas direções, com o deslocamento a meio vão.
Apostila PEF3303 109

Tendo em vista a presença de momentos fletores nas duas direções (Figura 8.10),
faz-se necessário armar as lajes em ambas as direções. Como citado anteriormente, devido ao

fato de a direção ser a mais rígida, sendo com isso mais solicitada, depreende-se que a taxa

de armadura nessa direção será maior que na direção de . Por isso, dá-se o nome de à

armadura principal e ou à armadura secundária, com ; dessa discussão,

também decorre que , o que leva a armadura secundária a ser posicionada acima

da armadura principal . Ilustra-se tal questão na Figura 8.12:

Figura 8.12 – Armação das lajes nas duas direções.

8.3 Disposições construtivas


A seguir, são apresentadas recomendações prescritas pela NBR6118:2014 para o
dimensionamento à flexão, em ELU, de lajes maciças de concreto armado, considerando
parâmetros como taxas de armadura e espaçamentos.
110 Apostila PEF3303

8.3.1 Taxa de armadura longitudinal mínima

Definindo-se a taxa geométrica de armadura , determina-se a armadura

mínima a partir da Tabela 8.1, uma vez que :

Tabela 8.1 – Valores de armadura mínima para aço CA-50.


Fonte: NBR6114

20 25 30 35 40 45 50

0,15 0,15 0,15 0,164 0,179 0,194 0,208

Observação: adota-se para armaduras principais negativas e , para as


positivas, visto que, devido às condições de contorno (que serão apresentadas adiante),
usualmente se verificam momentos negativos maiores em módulo que os positivos.

8.3.2 Altura útil

Para edifícios, usualmente, tem-se a favor da segurança:

: cobrimento mínimo das armaduras;


: espaçamento entre barras;
Apostila PEF3303 111

Figura 8.13 – Altura útil (em ambas as direções).

8.3.3 Espessura mínima

8.3.4 Vão efetivo ou teórico

Figura 8.14 – Vão efetivo ou teórico.


112 Apostila PEF3303

8.3.5 Taxa de armadura longitudinal secundária

Observação: toma-se essa prescrição para as armaduras secundárias positivas e


negativas, no caso de lajes armadas em uma direção, e somente para as negativas, no caso de
lajes armadas em duas direções. Nesse último caso, a armadura secundária positiva é
calculada do mesmo modo que as armaduras principais.

8.3.6 Espaçamentos entre barras

Armadura principal ( ):

Armadura secundária ( ):

8.3.7 Diâmetros das barras

Para a escolha do diâmetro de barras a ser usado, são apresentadas na Tabela 8.2 as
bitolas comerciais, juntamente com as respectivas áreas de seção:

Tabela 8.2 – Bitolas comerciais.

(mm) 4 5 6,3 8 10 12,5 16 20 25 32

(cm²) 0,125 0,2 0,315 0,5 0,8 1,25 2,0 3,15 5 8,0

Observação: sempre que possível, recomenda-se a utilização das mesmas bitolas das
armaduras principais para as armaduras secundárias.

8.4 Detalhamento das armaduras


São apresentadas a seguir as diretrizes para o detalhamento da armação das lajes, a
saber: armaduras principais e secundárias, positiva e negativa, além das armaduras de borda.
Para cada uma delas, explicita-se o respectivo comprimento total necessário.
Apostila PEF3303 113

8.4.1 Armaduras principais positivas

Figura 8.15 – Armadura principal positiva.

8.4.2 Armaduras principais negativas

Figura 8.16 – Armadura principal negativa.

A armadura negativa, presente em apoios internos na laje, deve ter seu comprimento
cobrindo todo o trecho negativo do diagrama de momentos fletores junto à região desses
apoios; para tal, os valores apresentados para se mostram em geral suficientes para essa
finalidade.
114 Apostila PEF3303

8.4.3 Armaduras de borda

Figura 8.17 – Armadura de borda.

Em apoios de lajes nos quais não há continuidade com outras lajes (o que configura a
situação de extremidade) deve-se dispor deste tipo de armação com taxa , cujo
comprimento deve ser no mínimo 15% do vão menor ( ) da laje. Tal tipo de armadura tem
como função principal evitar a fissuração excessiva nas bordas de extremidade da laje
(simplesmente apoiadas), assim como nos seus cantos, para combater os efeitos dos
momentos volventes.

8.4.4 Armaduras secundárias ou de distribuição

A disposição desse tipo de armadura ocorre perpendicularmente às armaduras


principais e somente ao longo do comprimento por elas delimitado.
Observação: As armaduras secundárias negativas atuam especialmente como
“sustentação” das armaduras principais negativa e de borda até que a laje seja concretada,
sendo distribuídas junto aos apoios transversalmente às armaduras negativas, isto é, no
comprimento horizontal referente à armadura de borda e no comprimento referente à
armadura principal negativa.
Com isso, sendo e as larguras das vigas sobre as quais a laje se apoia, na

direção do vão maior, tem-se:


Apostila PEF3303 115

Em linhas gerais, a norma prescreve que as armaduras positivas sejam prolongadas


no mínimo 4 cm além do eixo teórico do apoio. Cabe mencionar também que os ganchos
feitos nas extremidades das lajes, nas interfaces com vigas e pilares, podem também ser
executados a partir do dobramento a 180° das barras, assumindo o mesmo valor apresentado
para seu comprimento.
Por fim, salienta-se que, a partir do diâmetro e espaçamentos adotados para certa
armadura (provenientes das disposições construtivas apresentadas), o número de barras
dispostas ao longo de uma das dimensões da laje ( ou ) é usualmente calculado por

, como medida de garantia que se tenham barras no começo e no final do comprimento


de distribuição.
Exemplo 11: Detalhar as armaduras para a laje a seguir e calcular a taxa de
armadura.
116 Apostila PEF3303

Dados:
Concreto C20 ( )
Aço CA50 ( ))
= 10 cm
= 2 cm
= 12,5 mm
= 0,15%
Considerar vigas de extremidade com 20 cm de largura.

As alturas úteis, tomando para o cálculo a bitola máxima = 12,5 mm do


enunciado, são dadas por:

Dimensionamento das armaduras negativas:

Posição da linha neutra:

Ressalta-se que os valores de armadura são calculados por metro de laje, visto que o
dimensionamento é feito, conforme já mencionado, para uma faixa de largura unitária e altura
igual à da laje. A armadura mínima é dada por:

Tomando as bitolas comerciais, estuda-se a melhor disposição de barras:

ϕ(mm) As1 (cm²) n = As/As1 s =100/n Adotado


6,3 0,315 17,55 5,7 ϕ 6,3c/5
8 0,5 11,06 9 ϕ 8c/9
10 0,8 6,91 14,5 ϕ 10c/14
Apostila PEF3303 117

Como para armaduras principais tem-se , qualquer uma

das três situações de detalhamento e válida. Será adotada a última delas, de ϕ 10c/14.

Dimensionamento das armaduras positivas:

Posição da linha neutra:

A armadura mínima é dada por:

Analisando as possíveis disposições de barras:


ϕ(mm) As1 (cm²) n = As/As1 s =100/n Adotado
6,3 0,315 9,21 10,86 ϕ 6,3c/10
8 0,5 5,8 17,24 ϕ 8c/17
10 0,8 3,63 27,55 ϕ 10c/27

Novamente, o espaçamento deve estar entre , possibilitando a


utilização de qualquer uma das soluções apresentadas, exceto pela última. Será adotada a
solução ϕ 8c/17.

Dimensionamento das armaduras secundárias, a serem utilizadas na outra direção,


tanto para complemento da armação positiva quanto da negativa:
118 Apostila PEF3303

Da análise das disposições de barras:

Armadura ϕ(mm) As1 (cm²) n = As/As1 s =100/n Adotado


5 0,2 5,5 18,18 ϕ 5c/18
6,3 0,315 3,49 28,65 ϕ 6,3c/28
5 0,2 4,5 22,22 ϕ 5c/22
6,3 0,315 2,86 35 ϕ 6,3c/35

Como deve-se ter para esse tipo de armadura, adota-se então ϕ 6,3c/28
para a armadura secundária negativa e ϕ 5c/22, para a positiva.
Tomando o valor de armadura mínima para as armaduras de borda
( , estudam-se as disposições:
ϕ(mm) As1 (cm²) n = As/As1 s =100/n Adotado
5 0,2 7,5 13,33 ϕ 5c/13
6,3 0,315 4,76 21 ϕ 6,3c/21

Com o espaçamento de , adota-se ϕ 5c/13.


Apresenta-se então o detalhamento final das armaduras, separado, por questão de
clareza, em duas plantas de armação diferentes, uma para armaduras negativas e outra para as
positivas:
Apostila PEF3303 119

Observação: a armadura secundária positiva será distribuída ao longo da extensão da


armadura principal positiva, na direção perpendicular, e a presença de seu gancho se deve à
presença de borda livre.
120 Apostila PEF3303

Os comprimentos totais de cada armadura são:

Conhecidas as bitolas usadas na armação das lajes, bem como os comprimentos de


cada armadura e número de barras utilizado, é possível a montagem da tabela de ferros e a
determinação do comprimento total de aço consumido:
Tabela de ferros
Comprimento Comprimento
Tipo ϕ(mm) Quantidade
unitário (cm) total (m)
N1 10 29 212 61,5
N2 6,3 20 408 81,6
N3 5 62 107 66,4
N4 8 48 423 203,1
N5 5 38 448 170,3

Por fim, a partir da massa linear (tabelada), que varia com a bitola, calcula-se a
massa total de aço consumida, bem como a taxa de consumo de armadura nas lajes:
Resumo
Comprimento total Massa linear CA-50
ϕ(mm) Massa total (kg)
(m) (kg/m)
5 236,7 0,16 37,9
6,3 81,6 0,25 20,4
8 203,1 0,4 81,3
10 61,5 0,63 38,8
Total consumido (kg) 178,4

Observação: a tabela de ferros é, comumente, fornecida pelo engenheiro de projetos


no desenho de armação e subsidia o orçamento da estrutura e a encomenda e compra do aço;
já a taxa de consumo de armadura é um calculo indicativo que caracteriza o projeto e a
estrutura, utilizada, geralmente, par aferição de sua qualidade.
Apostila PEF3303 121

8.5 Condições de contorno


Antes de se prosseguir com a análise dos esforços nas lajes, faz-se necessário
esclarecer como são consideradas as condições de contorno do problema. Tal conhecimento é
fundamental, dado que a solução para o problema da placa sob carregamento distribuído,
como ilustrado na Figura 8.1, é dependente das condições de contorno, qualquer que seja o
método utilizado para resolução.
A saber, quando da interação entre lajes, as três possibilidades são ilustradas na Figura
8.18:

Figura 8.18 – Possíveis configurações de interação entre lajes.

As condições de contorno são as da Figura 8.19:

Figura 8.19 – Condições de contorno para lajes.

 Borda livre: lajes em balanço ou que não sejam suportadas por vigas em
alguma extremidade;

 Borda simplesmente apoiada: extremidades da estrutura em que não há


continuidade com outras lajes, e também no caso de lajes rebaixadas, mas
existe o apoio de uma viga;
122 Apostila PEF3303

 Borda engastada: interface entre lajes, em que há continuidade no pavimento


sobre um apoio. Em decorrência da hiperestaticidade associada, lajes com
bordas engastadas possuem momentos negativos com módulos maiores que
no caso de borda simplesmente apoiada.

Por fim, é ilustrado na Figura 8.20 o critério para consideração das vinculações nas
bordas das lajes:

Figura 8.20 – Critério para consideração das condições de contorno.

É proposto a seguir um exemplo elucidativo, no intuito da familiarização com as


condições de contorno dentro das configurações apresentadas, considerando o exposto na
Figura 8.18 e na Figura 8.19.
Apostila PEF3303 123

Exemplo 12: Discutir as condições de contorno para as lajes do pavimento a


seguir.

Laje L1: nas extremidades do pavimento, onde estão as vigas de borda V1, V4 e V3,
a laje se encontra simplesmente apoiada nessas, ao passo que nas interfaces com as lajes L2 e
L3, onde se encontra a viga V5, a laje L1 se encontra com borda engastada.
Laje L2: assim como para a laje L1, na extremidade onde essa se apoia na viga V1 a
laje se encontra simplesmente apoiada, e na interface interna, onde está a viga V5, a borda é
do tipo engastada. Além disso, a borda é simplesmente apoiada no trecho de extremidade
onde está V6 e onde não há continuidade com a laje em balanço L4, e é engastada nas bordas
onde há continuidade com a laje L3, dada pela viga V2, bem como com a laje L4, dada pela
viga V6.
Laje L3: salvo pela borda de extremidade, simplesmente apoiada na viga V3, todas
as outras bordas são engastadas em função da continuidade com lajes adjacentes (L1, L2 e
L4).
Laje L4: exceto pela borda em que há continuidade com a laje L3 e com uma parte
da laje L2, dada pela viga V6, todas as outras bordas dessa laje em balanço são do tipo livre.
Com isso, a representação final, resultado da discussão acima, é:
124 Apostila PEF3303

8.6 Esforços em lajes


A solução da equação diferencial que rege o comportamento de uma placa sob a ação
de carregamento distribuído constante (ilustrada na Figura 8.1), a partir da qual se determinam
o deslocamento transversal e os esforços atuantes na laje nas duas direções, pode ser
determinada a partir de diversos métodos, a saber: solução analítica, métodos numéricos
(elementos finitos, diferenças finitas, elementos de contorno), analogia de grelha e soluções
tabeladas. Por simplicidade, e por ser frequentemente utilizada, recorre-se à solução tabelada
de Czèrny (1976).
Para a utilização da tabela de Czèrny, tomam-se como dados de entrada a relação

entre os vãos da laje e suas respectivas condições de contorno. Como dados de saída,

obtêm-se os parâmetros e , a partir dos quais se calculam os momentos


fletores máximos (positivos e negativos) nas duas direções e a flecha da laje pelas seguintes
relações:
Apostila PEF3303 125

Na Figura 8.21, é apresentada uma tabela de Czèrny:

Figura 8.21 – Tabela de Czèrny.

8.6.1 Correção de momentos

Da obtenção dos momentos fletores negativos atuantes nas lajes, comumente se


verificam valores diferentes, sobre um determinado apoio, entre lajes adjacentes, sejam em
decorrência das dimensões ou carregamentos envolvidos. Visando compatibilizar os
momentos de tal forma a se obter uma envoltória de viga contínua e para que não haja
momento residual significativo, gerando momento de torção na viga, realiza-se a correção
ilustrada na Figura 8.22:
126 Apostila PEF3303

Figura 8.22 – Correção de momentos em lajes.

É importante destacar que não se efetua a correção de momentos no caso de lajes em


balanço.
Apostila PEF3303 127

Exemplo 13: Detalhar as armaduras para a laje a seguir e calcular a taxa de


armadura.

Dados:
Concreto C20 ( )
Aço CA50 ( ))
= 2 cm
= 1 kN/m²
= 2 kN/m²
= 12,5 mm
= 0,15%
Considerar vigas de extremidade com 15 cm de largura.

O carregamento distribuído nas lajes, composto do peso próprio, revestimento e


sobrecarga, é dado por:
128 Apostila PEF3303

A partir da análise da figura do enunciado, percebe-se que a laje L1 possui suas


bordas de extremidade simplesmente apoiadas e as internas engastadas, enquanto que a laje
L3 possui somente sua borda de extremidade apoiada, sendo as outras engastadas. Os
momentos fletores atuantes nas lajes são determinados com o auxílio da tabela de Czèrny:

Laje
(m) (m) (kNcm) (kNcm) (kNcm) (kNcm)
L1 4 6 1,5 22,2 52,6 9,6 12,4 396 167 917 710
L3 4 6 1,5 27,8 76,9 12,5 17,5 317 114 704 503

Em seguida, faz-se a correção dos momentos negativos:

Apoio
(kNcm) (kNcm) (kNcm) (kNcm) (kNcm)
L1-L2 710 710 710 568 710
L1-L3 917 704 811 734 811
L3-L4 503 503 503 402 503
L3-L5 704 704 704 563 704

Dado que se analisam as lajes L1 e L3, corrige-se o momento positivo em L1:

Com isso, calculam-se as disposições de armadura para cada laje:

Laje Tipo adotado Adotado


(cm) (cm) (kNcm) (cm) (cm²) (cm²)
(cm²)
7,5 449 628,6 0,91 2,03 1,00 2,03 6,3c/15
6,5 167 233,8 0,38 0,85 1,00 1,00 5c/20
L1
7,5 811 1135,4 1,72 3,83 1,50 3,83 8c/13
7,5 710 994 1,48 3,31 1,50 3,31 8c/15
7,5 317 443,8 0,63 1,41 1,00 1,41 5c/14
6,5 114 159,6 0,26 0,57 1,00 1,00 5c/20
L3 7,5 811 1135,4 1,72 3,83 1,50 3,83 8c/13
7,5 503 704,2 1,02 2,28 1,50 2,28 6,3c13
7,5 704 985,6 1,47 3,28 1,50 3,28 8c/15

Dado que as armaduras secundárias positivas já foram contempladas no cálculo da


tabela anterior, calculam-se as secundárias negativas, referentes à região das interfaces com as
outras lajes:
Apostila PEF3303 129

Lajes 1 e 2:

Lajes 1 e 3:

Lajes 3 e 4:

Lajes 3 e 5:
Do cálculo das armaduras de borda, tem-se:

ϕ(mm) As1 (cm²) n = As/As1 s =100/n Adotado


5 0,2 7,5 13,33 ϕ 5c/13
6,3 0,315 4,76 21 ϕ 6,3c/21

Adota-se ϕ 5c/13.
São dispostas a seguir as plantas de armação, sendo uma para as armaduras negativas
e outra para as positivas:
130 Apostila PEF3303

Do cálculo dos comprimentos das armaduras conforme Detalhamento das armaduras


(página 110):
Tabela de ferros
Comprimento Comprimento
Tipo ϕ(mm) Quantidade
unitário (cm) total (m)
N1 5 108 105 113,4
N2 8 80 212 169,6
N3 5 40 616 246,4
N4 6,3 16 212 33,9
N5 5 43 410 176,3
N6 6,3 54 416 224,6
N7 5 127

Observação: o cálculo direto do comprimento total da armadura tipo N7, referente às


armaduras secundárias negativas, já considerou os diferentes comprimentos de distribuição (4
m ou 6 m) quando da delimitação pelas armaduras de borda ou pelas armaduras principais
negativas, além dos respectivos trechos de emenda e o gancho de 4 cm nas extremidades.
Com os valores de massa linear do aço, calcula-se o total de aço consumido, além da
taxa de consumo de armadura nas lajes:
Apostila PEF3303 131

Resumo
Comprimento total Massa linear CA-50
ϕ(mm) Massa total (kg)
(m) (kg/m)
5 663,1 0,16 106,1
6,3 258,5 0,25 64,6
8 169,6 0,4 67,8
Total consumido (kg) 238,5

8.7 Casos especiais


Por fim, serão apresentados alguns casos especiais na análise de lajes, referentes à
presença de alvenaria.

8.7.1 Alvenaria sobre lajes armadas em duas direções

Nessa situação, ilustrada na Figura 8.23, acrescenta-se à carga total atuante na laje

a carga equivalente proveniente da presença da alvenaria, dada pela Equação (8.2):

Figura 8.23 – Alvenaria sobre lajes armadas em duas direções.

(8.2)
132 Apostila PEF3303

8.7.2 Alvenaria sobre lajes armadas em uma direção, paralelamente ao maior lado

Como apresentado na Figura 8.24, considera-se a presença da alvenaria como uma


carga concentrada na direção do menor vão, referente a um comprimento unitário, conforme a
Equação (8.4):

Figura 8.24 – Alvenaria sobre lajes armadas em uma direção, paralelamente ao maior lado.

(8.3)

(8.4)

8.7.3 Alvenaria sobre lajes armadas em uma direção, paralelamente ao menor lado

Conforme a Figura 8.25, contempla-se o efeito da alvenaria por meio de uma carga
distribuída em um trecho de largura equivalente, dada pela Equação (8.5):

Figura 8.25 – Alvenaria sobre lajes armadas em uma direção, paralelamente ao menor lado.
Apostila PEF3303 133

(8.5)

Observação: no esquema estático apresentado na Figura 8.25, tomam-se os


carregamentos a partir de dimensões perpendiculares unitárias.

8.7.4 Alvenaria sobre lajes em balanço

A análise quanto à presença de alvenaria sobre lajes em balanço é balizada pelo


exposto na Figura 8.26. A NBR 6120:1980 prescreve que nesse caso devem ser consideradas
no cálculo a presença de uma carga horizontal e de uma carga vertical
, aplicadas a uma altura de equivalente de parapeito .

Figura 8.26 – Alvenaria sobre lajes em balanço.

Na faixa central, analisada para uma largura unitária , o esquema estático é


indicado na Figura 8.27, com a carga de alvenaria dada pela Equação (8.6):

Figura 8.27 – Esquema estático para faixa central.


134 Apostila PEF3303

(8.6)

Na faixa de borda, em que se toma uma largura para análise , o

esquema estático é apresentado na Figura 8.28 e os carregamentos provenientes da alvenaria


dados pela Equação (8.6) e pela Equação (8.7):

Figura 8.28 – Esquema estático para faixa de borda.

(8.7)
Apostila PEF3303 135

9. Dimensionamento à força cortante

9 DIMENSIONAMENTO À FORÇA
CORTANTE
Após apresentada a teoria de dimensionamento à flexão, que permitiu obter as
armaduras longitudinais, segue-se agora com o dimensionamento à força cortante, e
posteriormente à torção, no intuito de se obter as armaduras transversais, além das armaduras
longitudinais de torção, que constituirão o conjunto de armaduras presentes em uma viga.
Além dos modos de ruptura apresentados na Figura 7.1 (página 69) e na Figura 7.2
(página 70), o concreto também pode se romper sob a ação de força cortante devido aos
mecanismos apresentados na Figura 9.1 e na Figura 9.2:

Figura 9.1 – Fissuração diagonal por insuficiência de armadura transversal.

Figura 9.2 – Esmagamento diagonal do concreto (evitável).


136 Apostila PEF3303

O padrão de fissuração apresentado indica que as fissuras inicialmente ocorrem na


direção perpendicular às tensões principais de tração, sobre a linha neutra, o que caracteriza o
estado de tensões denominado Estado de Cisalhamento Simples (Figura 9.3). Vale ainda
relembrar a trajetória das tensões principais de tração e compressão em uma viga na Figura
9.4:

Figura 9.3 – Fissura a 45° perpendicular à tensão principal de tração.

Figura 9.4 – Trajetória das tensões principais para o carregamento apresentado.


Fonte: Leonhardt e Mönnig (1977)

Observado esse comportamento, por volta de 1900 o engenheiro alemão Emil


Mörsch propôs um modelo de treliça como o da Figura 9.5 para se descrever a resistência de
vigas de concreto armado à força cortante, fazendo analogia à forma de fissuração dessas.
Com a ajuda do suíço Wilhelm Ritter, foi proposto o Modelo da Treliça Clássica de Mörsch,
com diagonais dispostas a 45°, como se vê na Figura 9.6:

Figura 9.5 – Modelo de Treliça.


Apostila PEF3303 137

Figura 9.6 – Modelo da Treliça Clássica de Mörsch.

O panorama de fissuras apresentado sugere a existência de escoras/bielas de concreto


entre as fissuras com a direção das tensões principais de compressão, que serão responsáveis
pela resistência à compressão no modelo. Nele, as barras tracionadas da treliça correspondem
às armaduras transversais e as barras comprimidas, às escoras de concreto.
Atualmente, as armaduras transversais utilizadas em projetos são as popularmente
conhecidas como estribos, dispostas perpendicularmente ao eixo da viga; existem ainda os
chamados cavaletes, dispostos em ângulos inclinados, que se encontram em desuso.
Com o auxílio da Figura 9.7, as forças atuantes nas barras (Equação (9.1) e Equação
(9.2)) são decorrentes do equilíbrio da treliça:

Figura 9.7 – Modelo de Mörsch e forças atuantes nas barras.


138 Apostila PEF3303

(9.1)

(9.2)

Sendo o comprimento de cada barra vertical da treliça, correspondente na

realidade ao estribo e o espaçamento entre eles ao longo da viga, então cada estribo possui

uma “área de influência” , sendo a taxa de armadura transversal, calculada em cm²/m.

Tais informações são ilustradas na Figura 9.8 e na Figura 9.9:

Figura 9.8 – Espaçamento entre estribos e disposição da armadura transversal na seção.

Figura 9.9 – Vista superior da distribuição das armaduras transversais.


Apostila PEF3303 139

A tensão de cisalhamento nas armaduras é dada pela Equação (9.3):

(9.3)

Experimentalmente, observa-se que as tensões de cisalhamento atuantes nas


armaduras são menores que as propostas pelo modelo de Mörsch, determinadas
anteriormente. Essa diferença, que pode ser vista na Figura 9.10, é atribuída aos mecanismos
internos resistentes da viga, sem considerar o efeito positivo da armadura transversal,
representado, no modelo, pela , correspondente à resistência à força cortante pelos
mecanismos alternativos/complementares:

 Compressão do cordão comprimido de concreto acima da linha neutra


(compression zone shear);

 Engrenamento dos agregados graúdos (aggregate interlock);

 Efeito de pino na armadura longitudinal (pin effect).

Figura 9.10 – Comparação entre os modelos de tensão de cisalhamento nas armaduras.

é determinado pela Equação (9.4):

(9.4)
140 Apostila PEF3303

Observação: visto que não se despreza a resistência à tração do concreto como no


modelo para flexão simples, os valores de e referidos na equação estão em [MPa].
Com a correção no modelo, a taxa de armadura longitudinal é calculada pela
Equação (9.5):

(9.5)

Além disso, dado , tem-se , em que a

resistência das armaduras transversais à força cortante é indicada na Equação (9.6):

(9.6)

A tensão de cisalhamento nas escoras é indicada na Equação (9.7), sendo que essas
podem ser melhor visualizadas por meio da Figura 9.11, dado que a área de seção de cada

escora é :

Figura 9.11 – Modelo de Mörsch, com indicação das escoras.

(9.7)

Observação: o termo reflete a dependência do estado de tensões no

dimensionamento à força cortante, sendo o coeficiente de fragilidade do

concreto, para em [MPa].


Apostila PEF3303 141

Com isso, a resistência da escora/biela de concreto à força cortante é dada pela


Equação (9.8):

(9.8)

9.1 Disposições construtivas

Tabela 9.1 – Parâmetros do dimensionamento à força cortante em função da classe


de resistência do concreto.
20 25 30 35 40
(%) 0,09 0,10 0,12 0,13 0,14
0,92 0,90 0,88 0,86 0,84
0,66 0,77 0,87 0,96 1,05

Figura 9.12 – Distância transversal entre ramos dos estribos.

Observação: geralmente, usam-se estribos de dois ramos, de modo que ;


para vigas de largura elevada, faz-se necessário verificar a prescrição acima, uma vez que se
podem ter mais estribos e/ou ramos por seção.
142 Apostila PEF3303

Exemplo 14: Discutir a disposição das armaduras transversais na viga abaixo.

Ao se pensar sempre na distribuição e disposição das armaduras transversais de


forma otimizada e viável, costuma-se dividir a viga em trechos com diferentes taxas de
armadura, com base no diagrama de força cortante, estabelecendo “patamares” com valor de
força cortante e armadura constantes. Para tal, recomenda-se a determinação prévia do valor
tal que, se , usa-se armadura mínima:

Com isso, para a viga em questão, adotam-se dois trechos para distribuição dos
estribos:
Apostila PEF3303 143

Exemplo 15: Dimensionar as armaduras transversais para a viga abaixo.

Dados:
Concreto C25 ( )
Aço CA50 ( )
= 90 cm
c= 2,5 cm

Verificação do concreto:

Armadura transversal:

Os trechos com diferentes taxas de armadura transversal são:

Trecho I:
144 Apostila PEF3303

Trecho II:
Para estribos com dois ramos, determina-se a disposição dos estribos, dado que
:

Trecho ϕt (mm) 2As1 n = Asw/2As1 s =100/n Adotado


6,3 0,63 3,75 12,6 ϕ 6,3c/12
I
8 1 2,38 20 ϕ 8c/20
5 0,4 3,75 26,7 ϕ 5c/26
II
6,3 0,63 2,38 42 ϕ 6,3c/42

Adota-se com isso ϕ 5c/26.


Detalhamento dos estribos:
Apostila PEF3303 145

Exemplo 16: Para a mesma seção do exemplo anterior, dimensionar a armadura


transversal para o carregamento abaixo.

Analogamente ao exemplo anterior:


146 Apostila PEF3303

Exemplo 17: Dimensionar a armadura transversal para a viga abaixo.

Dados:
Concreto C30 ( )
Aço CA50 ( )
= 45 cm
c= 2,5 cm

Verificação do concreto:

Armadura transversal:

Os trechos com diferentes taxas de armadura transversal são:


Apostila PEF3303 147

Trecho I:
Trecho II:
Para estribos com dois ramos, determina-se a disposição dos estribos
( ):
Trecho ϕt (mm) 2As1 n = Asw/2As1 s =100/n Adotado
I 10 1,6 7,9 12,7 ϕ 10c/12
II 5 0,4 4,5 22,2 ϕ 5c/20

Observação: para o Trecho II, dado que 5 mm e que o espaçamento calculado é


maior que o máximo; reduz-se o espaçamento ao valor máximo admissível.
Detalhamento dos estribos:

9.2 Armadura de suspensão


Por motivos de segurança estrutural e também no intuito de combater a fissuração
excessiva em vigas nas quais elementos discretos ou outras vigas se apoiam diretamente, em
função do efeito local de concentração de esforços, faz-se necessário o uso de uma armadura
de suspensão. A saber, tal tipo de armadura aparece usualmente na situação de apoio de vigas
em outras vigas, seja por suspensão parcial ou completa; cabe ainda ressaltar que a armadura
de suspensão não é uma armadura transversal adicional, mas uma cujo valor calculado deve
ser minimamente respeitado na zona de suspensão, podendo assumir localmente maior taxa de
armação que os trechos adjacentes da viga. Ilustra-se a fissuração em encontros de vigas na
Figura 9.13:
148 Apostila PEF3303

Figura 9.13 – Fissuração em econtros de vigas.

O contexto apresentado é elucidado na Figura 9.14, a partir da ilustração do modo de


fissuração que frequentemente ocorre, além da representação da situação com base no Modelo
de Mörsch.

Figura 9.14 – Situação de apoio de viga em outra viga.

Conforme mencionado, deve-se considerar a distribuição da armadura de suspensão


na chamada zona de suspensão, que se dá no encontro das vigas. Na Figura 9.15, têm-se as

duas configurações possíveis de zona de suspensão, sendo a altura da viga de apoio:

Figura 9.15 – Configurações possíveis da zona de suspensão.


Apostila PEF3303 149

Deve-se também ponderar que a suspensão pode ocorrer de alguns modos diferentes,
o que influi na taxa de armadura de suspensão necessária; tais modos são apresentados nas
figuras a seguir, com correspondendo à resultante concentrada, em valor de cálculo,
proveniente da viga apoiada:

Figura 9.16 – Ausência de suspensão.

Figura 9.17 – Suspensão parcial.

Figura 9.18 – Suspensão total.

Determinado o tipo de suspensão, calcula-se a armadura de suspensão pela Equação


(9.9):

(9.9)
150 Apostila PEF3303

Para saber se é necessário o uso da armadura de suspensão, compara-se a taxa de


armadura transversal dos trechos adjacentes da viga com:

Exemplo 18: Dimensionar a armadura transversal da viga abaixo, verificando a


suspensão onde necessário.

Dados:
Concreto C20 ( )
Aço CA50 ( )
= 63 cm
c= 2,5 cm

Verificação do concreto:

Armadura transversal:
Apostila PEF3303 151

Os trechos com diferentes taxas de armadura transversal são:

Trecho I:
Trecho II:
Trecho III:

Para estribos com dois ramos, determina-se a disposição dos estribos


( ):
Trecho ϕt (mm) 2As1 n = Asw/2As1 s =100/n Adotado
I 8 1 5,3 18,9 ϕ 8c/18
II 5 0,4 2,5 40 ϕ 5c/40
III 6,3 0,63 6,1 16,4 ϕ 6,3c/16

Observação: No Trecho II, para = 1,4 cm²/m, obtém-se ϕ 5c/28.

Verificação das armaduras de suspensão:

Viga V1:

Viga V2:

Nesse caso, faz-se necessário um reforço local, de modo que para


se adote , uma vez que .
152 Apostila PEF3303

Viga V3:

Detalhamento dos estribos:

9.3 Armadura de costura


Nas mesas de seções I ou T, verificam-se tensões de cisalhamento máximas na
ligação entre essas e a alma devido à transferência dessas tensões à alma; tal comportamento,
visando garantir a segurança da ligação, demanda uma armadura de costura. Os casos que
essa armadura é usada são em vigas com as abas da seção T comprimidas (momentos
positivos) ou seções de apoios internos em vigas contínuas (momentos negativos).
Com base na Figura 9.19, analisa-se o equilíbrio de um elemento de comprimento
infinitesimal da aba ou mesa da seção, obtendo-se assim a Equação (9.10) e a Equação (9.11):
Apostila PEF3303 153

Figura 9.19 – Equilíbrio de um elemento infinitesimal da aba da seção T.

(9.10)

(9.11)

No contexto do Modelo de Mörsch, da análise do equilíbrio de um nó da treliça


conforme apresentado na Figura 9.20, obtém-se a taxa de armadura transversal de costura pela
Equação (9.13):

Figura 9.20 – Vista superior da seção na representação no Modelo de Mörsch.


154 Apostila PEF3303

(9.12)

(9.13)

Observações:

 A armadura de costura não precisa ser somada às armaduras de flexão,


devendo ser adotada a maior dentre as duas (analogamente à armadura de

suspensão, vale a comparação tal que se use a maior entre e );

 Por questão de simplicidade na modelagem, e a favor da segurança, despreza-


se a parcela de resistência por mecanismos alternativos no cálculo da taxa
de armadura transversal;

 Prescreve-se = 1,5 cm²/m.

No caso de abas tracionadas, como ilustrado na Figura 9.21, valem as mesmas


expressões, sendo a única diferença o fato de que se calcula a força cortante na aba por

, sendo a quantidade de armadura de flexão na alma da seção.

Figura 9.21 – Seção T com alma tracionada (momentos negativos).

Por fim, faz-se necessário também verificar a resistência do concreto acerca do


esmagamento das escoras/bielas diagonais, por meio da Equação (9.15):
Apostila PEF3303 155

(9.14)

(9.15)

Exemplo 19: Dimensionar a armadura de costura na viga abaixo.

Dados:
Concreto C20 ( )
Aço CA50 ( )
= 63 cm

Verificação do concreto:

= 1,5 cm²/m

Os trechos com diferentes taxas de armadura transversal são:

Trecho I:

Trecho II:
156 Apostila PEF3303

Para estribos com dois ramos, determina-se a disposição dos estribos


( ):
Trecho ϕt (mm) 2As1 n = Asw/2As1 s =100/n Adotado
I 6,3 0,63 5,8 17,2 ϕ 6,3c/17
II 5 0,4 3,8 26,3 ϕ 5c/26

Detalhamento das armaduras de costura:


Apostila PEF3303 157

10. Dimensionamento à torção

10 DIMENSIONAMENTO À TORÇÃO

Ao se abordar a resistência ao momento de torção, que devido ao seu caráter


puramente tridimensional demanda armaduras longitudinais e transversais, completar-se-á o
conjunto de armaduras resistentes utilizadas em vigas, o que permitirá a seguir a realização do
detalhamento completo.
O comportamento de barras prismáticas de concreto armado pode ser visualizado a
partir da Figura 10.1, que analisa em relação à rotação relativa de uma seção transversal em
função do momento de torção aplicado:

Figura 10.1 – Comportamento de uma barra prismática de concreto armado sob torção.

Da Figura 10.1, constata-se que o momento de fissuração da seção vazada é inferior


ao da seção cheia embora os momentos últimos sejam iguais; conclui-se com isso que, mesmo
na seção cheia, a região que mais contribui para a sua resistência última situa-se junto ao seu
perímetro externo. Sendo assim, as seções transversais serão tratadas sempre como seções
vazadas, reais ou equivalentes, empregando-se para a determinação de suas tensões as
expressões de Bredt deduzidas para tubos de parede delgada, provenientes da Resistência dos
Materiais. Para tal, fazem-se algumas definições para que se desenvolva o dimensionamento:
158 Apostila PEF3303

Figura 10.2 – Seção vazada equivalente.

: espessura equivalente da parede;


: área setorial delimitada pelo eixo médio da parede da seção
vazada equivalente;
: perímetro da seção vazada equivalente.

No caso de seções poligonais convexas, a seção vazada equivalente é definida a


partir da seção cheia com espessura da parede equivalente , dada por:

: distância entre o eixo da barra longitudinal no vértice da seção e a face


externa dessa, dada em centímetros.

Figura 10.3 – Ilustração de .

Das Fórmulas de Bredt na seção vazada equivalente, apresentada na Figura 10.4,


obtém-se as relações expressas na Equação (10.1) e na Equação (10.2):
Apostila PEF3303 159

Figura 10.4 – Tensão de cisalhamento na seção vazada equivalente.

(10.1)

(10.2)

Ainda sob a ótica do Modelo de Mörsch, o modelo resistente à torção apresentado na


Figura 10.5 e na Figura 10.6 se baseiam numa treliça cujas dimensões são as dimensões da
seção transversal são as da seção vazada equivalente. Desse modo, torna-se possível analisar
os esforços nessa treliça, de sorte a prevenir os três possíveis modos de ruptura:

 Insuficiência de armadura longitudinal;

 Insuficiência de armadura transversal;

 Esmagamento do concreto nas escoras diagonais.

Figura 10.5 – Modelo de treliça para resistência à torção.


160 Apostila PEF3303

Figura 10.6 – Modelo de treliça para resistência à torção (vista lateral).

O momento torçor resistente relativo às escoras é dado pela Equação (10.3):

(10.3)

(10.4)

O momento torçor resistente relativo aos estribos é dado pela Equação (10.5)

(10.5)

: taxa de armadura transversal de torção, contida na espessura equivalente ,

para a contribuição de um ramo.

O momento torçor resistente relativo à armadura longitudinal é dado pela

Equação (10.6):

(10.1)

armadura longitudinal de torção, distribuída ao longo do perímetro da seção

vazada equivalente .
Apostila PEF3303 161

Calculados os esforços resistentes acima, é possível perceber que ,

dado esse que será útil no dimensionamento. Como última informação, salienta-se que o
dimensionamento à torção é feito preferencialmente para torção de equilíbrio, necessária ao
equilíbrio da estrutura, em detrimento da torção de compatibilidade, não necessária ao
equilíbrio da estrutura. Tal situação pode ser melhor compreendida na Figura 10.7:

Figura 10.7 – Torção de equilíbrio (V1) versus Torção de compatibilidade (V2).

10.1 Solicitações Combinadas


Do estudo das solicitações predominantes em vigas ao longo da disciplina (momento
fletor, força cortante e momento de torção), torna-se agora possível a análise de vigas sujeitas
a solicitações combinadas, dado que já se têm os subsídios necessários para o cálculo de todas
as suas armaduras, sejam longitudinais ou transversais. Nesse aspecto, devem ser somadas as
armaduras obtidas individualmente para cada solicitação, nas respectivas disposições
longitudinal e transversal, respeitando corretas localização e distribuição na viga.
A seguir, serão apresentadas algumas prescrições e disposições construtivas:

 Nas escoras diagonais do concreto, em vigas sujeitas à força cortante e


torção, deve-se verificar a possibilidade de esmagamento, de modo que se
deva ter ;

 No banzo comprimido de vigas sujeitas à flexotorção, as tensões principais de


compressão devem ser tais que ;
162 Apostila PEF3303

 A armadura transversal relativa à força cortante é usualmente

calculada para dois ramos, enquanto que a armadura transversal relativa à

torção é calculada para cada ramo;

 Taxa geométrica de mínima de armadura mínima: ;

 Espaçamento entre barras da armadura longitudinal de torção (Figura 10.8):


35 cm (ao menos uma barra deve ser disposta por vértice, em caso de
seção poligonal);

Figura 10.8 – Espaçamento entre barras da armadura longitudinal de torção .

 Prescrições gerais para armadura transversal:


Apostila PEF3303 163

Exemplo 20: Realizar o dimensionamento completo das armaduras


longitudinais e transversais para a viga, sujeita a um carregamento de torção
proveniente de uma marquise.

Dados:
Concreto C25 ( )
Aço CA50 ( )
= 72 cm
= 2,5 cm

As cargas atuantes na laje em balanço e na viga foram calculadas da seguinte


maneira:

Armadura longitudinal de flexão:

Assumindo que a linha neutra esteja na mesa ( 12,5 cm):


164 Apostila PEF3303

Propriedades da seção vazada equivalente:

Verificação do concreto sob solicitações combinadas (cortante e torção):

Armaduras transversais para força cortante:

Como , usa-se armadura mínima ao longo de toda a viga

(dois ramos).

Armaduras para torção:

Disposição dos estribos (para um ramo):

(de fato, não é necessário o uso de estribos

para força cortante, uma vez que a armadura obtida é inferior à mínima).
Apostila PEF3303 165

Trecho ϕt (mm) As1 n = Asw/As1 s =100/n Adotado


I 8 0,5 11,2 9 ϕ 8c/9
I 10 0,8 7 14,3 ϕ 10c/14
I 12,5 1,25 4,5 22,2 ϕ 12,5c/22
I 16 2 2,8 35,7 ϕ 16c/35

Como , adota-se ϕ 12,5c/22.

Disposição das armaduras longitudinais:


Adotando que será distribuída em 8 barras ao longo da seção:

8ϕ12,5 (As1 = 1,25 cm²)

Para a flexão, a armadura longitudinal efetiva (junto à face inferior) será:


2. 1,25 = 8,3 + 2,5 = 10,8 cm² 6ϕ16 (a favor da segurança, considera-

se que os momentos fletor e de torção assumem valores máximos na mesma seção).

Por fim, tem-se:

Deixa-se claro que na configuração final apresentada, não se detalhou


completamente o alojamento das barras na seção transversal, e nem se realizou o arranjo da
armadura longitudinal de flexão da maneira mais otimizada; tais tópicos ainda serão
abordados na sequência, no detalhamento completo de vigas.
166 Apostila PEF3303

11. Aderência, ancoragem e emendas

11 ADERÊNCIA, ANCORAGEM E
EMENDAS
A aderência entre as barras de aço e concreto se dá através de três modos principais:

 Adesão devido à colagem entre a pasta de cimento e a superfície das barras;

 Atrito devido às tensões normais desenvolvidas perpendicularmente aos eixos


das barras (Figura 11.1) como, por exemplo, o efeito da retração:

Figura 11.1 – Aderência por atrito.

 Aderência mecânica das mossas da armadura (e eventuais ganchos) no


concreto (Figura 11.2):

Figura 11.2 – Aderência mecânica.


Apostila PEF3303 167

Cabe ressaltar que para barras nervuradas (alta aderência), o mecanismo de adesão
preponderante é o de aderência mecânica, enquanto que para as barras lisas, prevalecem os
mecanismos de adesão e atrito.
Com base na aderência mecânica, para que não haja “deslizamento” da barra, faz-se
necessária a ancoragem da barra; disso, define-se o comprimento de ancoragem básico
como o menor comprimento necessário para a plena transferência de esforços da barra para o
concreto, tal que haja ancoragem da força de cálculo . A partir da ilustração do
comprimento de ancoragem na Figura 11.3, analisa-se o equilíbrio:

Figura 11.3 – Comprimento de ancoragem básico.

Do equilíbrio na direção horizontal, sendo a resistência de aderência em valor de


cálculo, o comprimento de ancoragem básico é dado pela Equação (11.1):

(11.1)

Calcula-se pela Equação (11.2):

(11.2)
168 Apostila PEF3303

Observação: Com relação às considerações das regiões ou zonas de aderência (Figura


11.4), remete-se aos fenômenos de segregação e exsudação do concreto, que se manifestam
especialmente nas primeiras idades (concreto em estado fresco), passíveis de ocorrência
quando de um lançamento inadequado ou pouco adequado; atualmente, com o uso de
concretos autoadensáveis, tal preocupação acaba sendo atenuada.

Figura 11.4 – Regiões ou zonas de aderência no concreto armado.

Para regiões de boa aderência, tem-se a Tabela 11.1:

Tabela 11.1 – Parâmetros de cálculo para regiões de boa aderência.


20 25 30 35 40

44 38 34 30 28

Para utilização nas extremidades das barras tracionadas, os tipos de ganchos são os
da Figura 11.5:
Apostila PEF3303 169

Figura 11.5 – Ganchos reto, a 45° e semicircular (respectivamente).

Quando a armadura de flexão efetiva é menor que a calculada , situação

típica do arranjo de barras ao longo da viga, em que não chegam todas as barras até os apoios,
faz-se necessário o respeito a um comprimento necessário de ancoragem . Atentando-se
ao fato de que o uso de ganchos reduz , esse é calculado pela Equação (11.3):

(11.3)

Observação: ao longo comprimento de ancoragem necessário, para barras de 32


mm, as armaduras transversais devem estar dispostas de modo a resistir a 25% da força de
uma das barras longitudinais; no caso de barras diferentes, prevalece a força na barra de maior
bitola. Tal situação é ilustrada na Figura 11.6:

Figura 11.6 – Armaduras transversais na ancoragem.


170 Apostila PEF3303

Por questões de disposição construtiva e/ou econômica, levando-se em conta também


a logística de transporte das barras de aço até a obra, muitas vezes se utilizam conjuntos de
barras para se armar um determinado comprimento ao invés de somente uma barra. Nesse
contexto, se inserem emendas entre barras, cuja abordagem se concentrará em especial nas
emendas por transpasse (a saber, as emendas também podem ser feitas por solda ou luva
metálica prensada/rosqueada). Tal tipo de emenda, de larga utilização devido à sua
simplicidade e por dispensar o uso de equipamentos especiais, é empregado para barras de

32 mm e consiste na superposição das extremidades das barras a serem emendadas, de

modo a garantir o comprimento de emenda por transpasse , que para barras tracionadas é
dado pela Equação (11.4):

(11.4)

O coeficiente reflete a proporção de barras emendadas na mesma seção; são


consideradas como na mesma seção transversal emendas que se superpõem ou cujas

extremidades estejam afastadas de uma distância . No caso de barras com diâmetros

diferentes, o comprimento de transpasse deve ser calculado a partir da barra de maior


diâmetro. Por fim, para barras de alta aderência, independentemente do tipo de carregamento
(estático ou dinâmico), a proporção máxima de barras emendadas na mesma seção transversal
é de 100% para uma única camada, e de 50% para mais de uma camada. Na Figura 11.7,

ilustra-se o conceito anteriormente apresentado, além dos possíveis valores de na Tabela


11.2:

Figura 11.7 – Barras emendadas na mesma seção.


Apostila PEF3303 171

Tabela 11.2 – Valores de em função da configuração da emenda.


Proporção de barras
20 25 33 50 50
emendadas ( em %)
1,2 1,4 1,6 1,8 2

Figura 11.8 – Emenda por transpasse entre barras tracionadas.

Para barras comprimidas, o correspondente comprimento de emenda por transpasse

é dado pela Equação (11.5):

(11.5)

Eventualmente, no trecho de emenda por transpasse entre barras pode ser necessário
o uso de armaduras transversais para segurança da ligação, o que pode ocorrer de duas
formas.
No caso de 16 mm ou quando a proporção de barras emendadas na mesma
seção for menor que 25%, deve-se seguir o prescrito para as armaduras transversais nas
ancoragens conforme Figura 11.6;
Se 16 mm ou quando a proporção de barras emendadas na mesma seção for
maior ou igual a 25%, a armadura transversal na emenda deve:

 Resistir a uma força de uma barra emendada, considerando os ramos


paralelos ao plano da emenda;
172 Apostila PEF3303

 Ser constituída por barras fechadas se a distância entre as duas barras mais
próximas de duas emendas na mesma seção for menor que , sendo
correspondente ao diâmetro da barra emendada;

 Concentrar-se nos terços extremos da emenda.

Observação: no caso de armadura transversal nas emendas de barras comprimidas,


pelo menos um estribo deve ser posicionado a uma distância além das extremidades do
comprimento de transpasse , como forma de proteção contra o fendilhamento do concreto
(ex: arranque de pilares).
Na Figura 11.9 e na Figura 11.10, são ilustradas as disposições das armaduras
transversais no trecho de emenda por transpasse nos dois casos apresentados:

Figura 11.9 – Armaduras transversais na emenda por transpasse (barras tracionadas).

Figura 11.10 – Armaduras transversais na emenda por transpasse (barras comprimidas).


Apostila PEF3303 173

12. Detalhamento longitudinal de vigas

12 DETALHAMENTO
LONGITUDINAL DE VIGAS
Estudados e discutidos os modelos de resistência para esforços solicitantes em vigas,
como momento fletor, força cortante e torção, torna-se agora possível realizar o detalhamento
dessas, o que será feito com base no alojamento das barras na seção transversal, seguido do
arranjo das barras longitudinais de flexão ao longo da viga.

12.1 Alojamento das barras na seção transversal


Para a composição da área de armadura em uma dada seção, é de praxe utilizar
barras de mesmo diâmetro/bitola para armaduras de mesmo tipo por questão de clareza. Sob a
hipótese da aderência perfeita entre concreto e aço embutida nos modelos de
dimensionamento, faz-se sempre necessário respeitar o cobrimento mínimo de armadura,
visando proteger as barras de aço da corrosão. Antes de se prosseguir com as regras de
alojamento, retomam-se informações como as bitolas comerciais e as prescrições acerca do
cobrimento mínimo das armaduras, a depender do ambiente, que são dispostas,
respectivamente, na Tabela 12.1 e na Tabela 12.2:

Tabela 12.1 – Bitolas comerciais.

(mm) 4 5 6,3 8 10 12,5 16 20 25 32

(cm²) 0,125 0,2 0,315 0,5 0,8 1,25 2,0 3,15 5 8,0
174 Apostila PEF3303

Tabela 12.2 – Cobrimento mínimo das armaduras.


Fonte: NBR6118

Classe de agressividade
Tipo de Componente ou
estrutura elemento I II III IV
Cobrimento nominal (mm)
Concreto Laje ² 20 25 35 45
armado Viga/Pilar 25 30 40 50
Concreto
Todos 30 35 45 55
protendido¹
¹ Cobrimento nominal da armadura passiva que envolve a bainha ou os fios, cabos e cordoalhas, sempre superior ao
especificado para o elemento de concreto armado, devido aos riscos de corrosão fragilizante sob tensão.

² Para a face superior de lajes e vigas que serão revestidas com argamassa de contrapiso, com revestimentos finais secos tipo
carpete e madeira, com argamassa de revestimento e acabamento tais como pisos de elevado desempenho, pisos cerâmicos,
pisos asfálticos e outros tantos, as exigências dessa tabela podem ser substituídas por 7.4.7.5, respeitado um cobrimento
nominal ≥ 15 mm.

³ Nas faces inferiores de lajes e vigas de reservatórios, estações de tratamento de água e esgoto, condutos de esgoto, canaletas
de efluentes e outras obras em ambientes química e intensamente agressivos, a armadura deve ter cobrimento nominal ≥ 45
mm.

De um modo geral, o alojamento das armaduras na seção transversal pode ser


ilustrado como na Figura 12.1:

Figura 12.1 – Alojamento das barras na seção transversal.

Conhecidas as dimensões da seção transversal, seguem prescrições para o


cobrimento mínimo e para os espaçamentos horizontal ( e vertical ( ) entre as barras na
seção:
Apostila PEF3303 175

Tabela 12.3 – Tipos de brita para construção civil.


Diâmetro nominal
Brita
(mm)
0 4,8 – 9,5
1 4,5 – 19
2 19 – 25
3 25 – 50
4 50 – 75
5 75 - 100

Figura 12.2 – Armadura de pele.

Observação: a armadura de pele, ilustrada na Figura 12.2, corresponde a uma


armadura complementar/não estrutural utilizada em vigas com 60 cm para se

minimizarem os comprimentos de fissuração , sendo recomendados 0,1%/face e

5 cm²/m/face. Para efeito de visualização, também pode ocorrer que as barras

longitudinais na seção transversal sejam compostas de eventuais armaduras secundárias


ou de armaduras para torção .
176 Apostila PEF3303

No alojamento das barras, sabe-se que, eventualmente, a depender do valor calculado


para a armadura longitudinal, pode ser necessário o emprego de mais de uma camada de
barras na seção para se conseguir o que foi obtido; nesse aspecto, um cuidado especial deve
ser tomado para com o espaço destinado ao vibrador, sendo esse fundamental no processo de
lançamento do concreto para sua uniformização enquanto esse se encontra em estado fresco.
Com o auxílio da Figura 12.3, são ilustradas as regras de espaçamento para o vibrador, junto
às faces inferior e superior da seção transversal:

Figura 12.3 – Espaço para o vibrador.

Sendo a largura útil para alojamento, o número de barras que


pode ser usado na mesma camada de barras é dado pela Equação (12.1):

(12.1)

Por sua vez, na face superior, ou na face inferior (a partir da 4ª camada), o número de
barras que pode ser usado na mesma camada de barras é dado pela Equação (12.2):

(12.2)
Apostila PEF3303 177

12.2 Arranjo das barras longitudinais


Como previamente discutido, sabe-se que, ao distribuir as barras longitudinais ao
longo de uma viga, não é necessário que todas as barras que constituem a armadura de flexão
estejam presentes em todo o comprimento do elemento estrutural. A seguir, será discutido o
modo pelo qual se arranjam essas barras, cuja motivação pode ser ilustrada pela Figura 12.4:

Figura 12.4 – Carregamento concentrado numa viga biapoiada e diagramas de esforços solicitantes.

Com base na Figura 12.4, é de esperar que os esforços aos quais as armaduras são
submetidas nas seções ao longo da viga possam ser avaliados com suficiente precisão a partir
dos momentos fletores nas seções de interesse, de modo que a resultante de tração na
armadura seja calculada pela divisão do respectivo momento fletor solicitante em valor de
cálculo pelo braço de alavanca , ou seja, . Entretanto, resultados

experimentais provenientes de instrumentação das armaduras de flexão com medidores de


deformação (strain gauges) indicam a existência de um deslocamento do diagrama real de
forças na armadura, quando comparado ao diagrama de momentos fletores (observa-se que o
diagrama de resultantes de tração na armadura possui a mesma forma do diagrama de
momentos fletores, dado que esse simplesmente teve seus valores divididos pelo braço de
alavanca , constante ao longo da viga). Esse deslocamento do diagrama de forças de tração,
indicado por , é chamado decalagem, o qual não altera o valor da resultante de tração na
seção mais solicitada.
178 Apostila PEF3303

Tal fato pode ser melhor explicado a partir do modelo de treliça de Mörsch, no qual,
conforme visto anteriormente, as barras tracionadas correspondem às armaduras transversais e
às barras comprimidas às escoras/bielas diagonais de concreto. Na Figura 12.5, tem-se a
análise da mesma viga da figura acima, no contexto do referido modelo:

Figura 12.5 – Ilustração da decalagem sob a ótica do Modelo de Mörsch.

Observa-se que os esforços nas barras do banzo inferior da treliça se mantêm


constantes entre os nós, o que caracteriza o deslocamento representado pelo comprimento de
decalagem . Seu valor depende da inclinação das escoras, a qual é afetada pela taxa de

armadura transversal ; segundo prescrição da norma, esse é dado pela Equação (12.3):

(12.3)

Sendo assim, para o modelo da treliça clássica, em que a inclinação das diagonais é
de = 45°, e da escolha de estribos perpendiculares ao eixo da viga, de modo que = 90°,
tem-se , o que implica ; usualmente, adota-se = 0,75d.
Dado que em barras nervuradas a aderência mecânica é predominante, de
posse do conceito de decalagem, deve-se de levar em conta ainda o comprimento mínimo para
a plena transferência de esforços dessas ao concreto por meio da ancoragem. Numa viga,
como visto no início desse item, sempre que há variação de momento fletor (isto é, ,

uma vez que ), ocorre também variação das resultantes de tração nas armaduras e de

compressão no concreto, dado que ; essa variação, no contexto do Modelo


Apostila PEF3303 179

de Mörsch, se dá de forma progressiva, devido às componentes horizontais das forças atuantes


nas escoras, que se apoiam nos estribos ou nos apoios.
Com isso, assim como previamente disposto, o comprimento que permite que a
armadura longitudinal transfira esforços ao concreto até sua capacidade máxima é
o comprimento básico de ancoragem .
Para a distribuição ou arranjo das barras longitudinais ao longo da viga, visando
determinar os chamados comprimentos de corte dessas barras, utiliza-se um método gráfico
baseado no diagrama de resultantes de tração nas armaduras decalado, ou simplesmente
diagrama decalado. Nesse método, em que na prática se utiliza o diagrama de momentos
fletores decalado por simplicidade de elaboração e pela similaridade na forma, esse é dividido
na horizontal em trechos tantas quantas forem as barras a serem arranjadas; é de praxe
arranjá-las aos pares, de modo que a divisão no diagrama ocorra na medida do possível em
partes iguais entre si; além disso, considera-se sempre a presença de no mínimo duas barras
estendidas ao longo de todo o comprimento da viga (respeitando o cobrimento mínimo), para
o suporte dos estribos.
O procedimento adotado será melhor explicado com o auxílio da Figura 12.6,
tomando como exemplo um carregamento distribuído:

Figura 12.6 – Determinação dos comprimentos de corte.


Fonte: NBR6118:2014
180 Apostila PEF3303

Para um mesmo trecho do diagrama decalado que não chegue aos apoios, o
correspondente comprimento de corte de um tramo da barra (ou da barra inteira, caso o
diagrama analisado seja simétrico) é determinado por meio da comparação entre os valores
obtidos nos pontos denominados A e B, sendo adotado o maior deles. No processo, deve-se
considerar também a abcissa medida a partir do ponto de momento fletor máximo (positivo
para as armaduras positivas e negativo para as negativas) do diagrama de momentos.
No ponto A, referente ao ponto onde a solicitação na armadura é máxima, marcando
o início do trecho de ancoragem e de diminuição da força de tração (uma vez que o esforço
começa a ser transferido ao concreto), devem-se estender as barras de um comprimento .
Ilustra-se a referida discussão na Figura 12.7:

Figura 12.7 – Transferência de esforços ao concreto a partir do ponto A.

No ponto B, referente ao ponto onde se tem teoricamente uma tensão no aço nula
(dado que o esforço na armadura já foi plenamente transferido ao concreto), devem-se
prolongar as barras de um comprimento 10 .
Já no caso das barras que chegam aos apoios, primeiramente faz-se necessário
lembrar que nos apoios a força de tração nas barras não é nula, demandando assim, para a
ancoragem, que a armadura longitudinal resista ao chamado esforço a ancorar, ilustrado na
Figura 12.8 e dado pela Equação (12.4):

(12.4)

Observação: corresponde a um eventual esforço normal, em valor de cálculo.


Apostila PEF3303 181

Figura 12.8 – Ancoragem nos apoios.

Determinado o esforço a ancorar, a armadura longitudinal que deve chegar ao apoio


deve ser maior que a armadura longitudinal necessária para se resisti-lo, de modo que se tenha
a Equação (12.5):

(12.5)

Por fim, o comprimento de ancoragem no apoio, contado a partir de sua face interna,

deve ser tal que , em que corresponde ao raio interno de desenvolvimento

do gancho (ver Figura 11.5 – página 167).

Dado que na ampla maioria das vezes , deve-se atentar

ainda ao comprimento disponível para ancoragem no apoio, dado por . Caso


, adotam-se grampos localizados de modo a compatibilizar os comprimentos
disponível e necessário para ancoragem no apoio; para tal, recalcula-se tomando

, fazendo com que a área de grampos a ser utilizada seja igual à diferença entre
as armaduras efetivas original e recalculada.
Observação: no caso de apoios intermediários, recomenda-se que as barras que neles
chegam sejam estendidas até a face externa oposta do pilar, na condição obrigatória de que
.
182 Apostila PEF3303

Exemplo 21: Realizar, para a viga abaixo, o alojamento e arranjo das barras
longitudinais.

Dados:
= 54 cm
= 2,5 cm
= 50 cm
= 19 mm
= 6,3 mm
= 4 cm

Adotar também apoios de 20 cm, = 3 20 para o vão e = 5 20 para o apoio do


balanço.

Alojamento das barras:


Apostila PEF3303 183

Ancoragem:

Para o momento positivo no vão:


(barras de alta aderência em
região de boa aderência)

Para o momento negativo no apoio:


(barras de alta aderência em
região de má aderência)

Armaduras até o apoio:

Para o momento positivo no vão:


184 Apostila PEF3303

Para o momento negativo no apoio:

Arranjo das barras (feito em pares):

Para o momento positivo no vão:

Camada 1 ( ):

Camada 2 ( ):

Camada 3 ( ):

Dado que , ao se recalcular com , obtém-se 6,6

cm², de modo que tenha por fim um comprimento de corte no tramo esquerdo de 317 cm,
juntamente com uma área de grampos de 6,6 - 6,3 = 0,3 cm² (pode-se adotar 1 ).

Para o momento negativo no apoio:

Camada 1 ( ):
Apostila PEF3303 185

Camada 2 ( ):

Observação: a questão da compatibilização entre os comprimentos disponível e


necessário com relação a ancoragem foi tratada considerando-se o uso dos grampos
localizados; entretanto, costuma-se também considerar a presença dos ganchos nos apoios,
que nesse exercício não serão detalhados.
Finalmente, o arranjo das barras é o seguinte:
186 Apostila PEF3303

Referências

Fusco, P. B. (2012), Tecnologia do Concreto Estrutural. 2ª Ed., Editora PINI, São


Paulo.
Fusco, P. B., Onishi, M. (2012), Introdução à Engenharia de Estruturas de
Concreto. 1ª Ed., Cengage, São Paulo.
Leonhardt, F., Mönnig, E. (1977), Construções de Concreto Vol. 1. 1ª Ed., Editora
Interciência.
Gerdau (2017). Disponível em:
https://www.gerdau.com/br/pt/produtos/vergalhao-gerdau-gg-50#ad-image-0. Acesso
em 7 de dezembro de 2017.
Açoplano (2017). Disponível em:
http://www.acoplano.com.br/blog/conheca-o-processo-de-construcao-rapida-steel-
deck/. Acesso em 9 de dezembro de 2017.
Atex (2017). Disponível em:
http://www.atex.com.br/pt/formas/laje-nervurada/. Acesso em 9 de dezembro de
2017.