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De Studiis Hodiernis

Luiz Roveran
Senhoras e senhores, a multidão começa a se aglomerar em torno da
Biblioteca Municipal! Nossa equipe de repórteres está em plena polvorosa,
num vai-e-vem FRE-NÉ-TI-CO à procura de qualquer pequeno pedaço de
informação a ser transmitido a vocês, respeitáveis telespectadores. A data
tão aguardada há meses, enfim, chegou, e a alegria transborda em nossos
corações por poder participar deste momento histórico: Joaquim Romero
tentará bater o recorde de speed-reading da obra completa de Dostoievski,
marca a ser batida que é detida pelo lendário Ivan Maraiekhin, o "Testa de
Ferro"! O evento, desde seu anúncio, serviu para recuperar a popularidade
deste tipo de competição que viveu complicados dias após a recente morte
de um atleta belga de enduro musical ao tentar escutar a obra completa de
Phillip Glass. Mas, afinal, o mundo do esporte é marcado por esta
coexistência de glórias e tragédias, não é? Só nos resta sorrir e chorar com
estes esportistas que dão tudo de si pelos louros de César!
Enquanto mais este belo espetáculo do esporte não se inicia, nossa
equipe de edição fez uma retrospectiva bacana da brilhante carreira de
Joaquim Romero. Roda!
"Nascido na pequena cidade paulista de Urupês, Joaquim Romero
logo demonstrou talento para o esporte que abraçaria. Aos onze, já era
campeão sul-americano de leitura em velocidade na categoria Romances,
chamando a atenção mundial por sua destreza singular ao devorar a obra de
Cortázar em impressionantes seis horas e vinte e dois minutos. Mudou-se
aos quinze para Los Angeles, onde treina até hoje em um dos mais
modernos CTs de leitura em alta performance do globo. Foi medalha de prata
nas Olimpíadas de Tóquio, perdendo a glória máxima por questão de minutos
para Ivan Maraiekhin na inesquecível disputa de Guerra e Paz. Contesta até
hoje a decisão dos árbitros e acusa o rival: 'Ele não leu as notas de rodapé'.
O Comitê Internacional de Speed-Reading permanece silencioso sobre o
assunto desde então e a opinião pública se divide. A final olímpica colocou
lenha na fogueira da discussão sobre o uso do recurso tecnológico em casos
duvidosos.
Não podemos esquecer as inúmeras polêmicas em que o astro
internacional se envolveu nos últimos tempos. A mais famosa, sem dúvidas,
aconteceu no Mundial de Madri do ano passado. Em atitude desleal, um
torcedor atirou uma cópia pessimamente traduzida para o espanhol de
Memórias Póstumas de Brás Cubas aos pés de Romero que, calmamente,
pegou o livro e o leu. A resposta do atleta teve ampla repercussão, sendo
estopim da questionável campanha 'Somos Todos Machados'. Dono de
temperamento estourado, protagonizou cenas lamentáveis ao agredir um
jornalista que, em entrevista coletiva, questionou sua opção por ler a
Odisséia em prosa. Para alguns, o passar do tempo trouxe a Romero uma
certa aura de charlatanismo - ainda mais quando recordamos seu estranho
lapso ao não conseguir explicar a trama de O Processo no XI Absurdismo
Open Brasil após vencer a prova em tempo recorde -, mas a grande maioria
concorda que o que importa mesmo é exaltar as conquistas da carreira deste
brilhante atleta".
Muito legal, né? Ficou demais demais o trabalho da nossa equipe e
olha lá! Eis que chega o campeão! Vamos ouvir as declarações de Joaquim
Romero.
"...difícil vai ser, né? Dostoievski é Dostoievski, tem que meter a cara
no livro e ler, né? Senão não dá pra conseguir o melhor resultado, mas vai
dar tudo certo se Deus quiser e eu vou levar mais essa pro Brasil". Estas são
as palavras de Joaquim Romero que agora sobe os degraus da Biblioteca
Municipal. Sempre alegre nosso menino Joaquim! Nossa análise prevê que
ele encontrará dificuldade em alguns pontos da prova. O internauta que votou
lá no site acredita que o grande obstáculo de nosso campeão será na reta
final com Os Irmãos Karamázov. Aqui no estúdio há muita discussão sobre a
capacidade de Romero ao ler romances pesarosos e vê Crime e Castigo
como um verdadeiro colosso a ser transposto. Vitória ou derrota? Sucesso ou
fracasso? Apenas o tempo dirá, estimados telespectadores. A nós, só resta
ficar na torcida e vibrar muito e mandar essa energia gostosa para o nosso
campeão!
Vemos agora Romero se sentando à mesa de leitura...sua equipe
empilha as obras em ordem cronológica para que o craque tenha fácil acesso
aos volumes. O árbitro dá as instruções de sempre: "Tem que ler tudo, até
nota de rodapé. Se simular leitura toma penalidade de tempo e se tentar
pular página é eliminação direta, entendido?". O olhar do atleta é de pura
determinação, há uma chama por trás de seus olhos. Essa é a vontade que
tem que ter! Esse é o nosso brasileirinho de ouro! O árbitro apita e começa o
espetáculo! Joaquim Romero estende rapidamente o braço e alcança Gente
Pobre e, senhoras e senhores, que largada espetacular! Vejam só como ele
vai!
A prova toda durou incríveis 27 horas ininterruptas. Romero
conseguira bater o recorde em dezesseis minutos e se redimir de sua amarga
derrota olímpica. Pálido, porém visivelmente satisfeito, o atleta se dirige à
sala de imprensa. Um jovem jornalista, todo pimposo e com um quê de
arrogância, levanta a mão e logo toma a palavra.
- Joaquim, em primeiro lugar, parabéns por sua conquista. É um
grande motivo de orgulho nacional e você, sem dúvidas, consagra-se como
um exemplo para as gerações futuras. Nós sabemos como é, viver em um
país que só tem olhos para o futebol, né? E que não valoriza outras
competições como o speed-reading e é aí que seu desempenho entra para
mostrar para a garotada que existem outras coisas para se praticar. A
pergunta que quero fazer é incomum e vem um pouco de curiosidade minha,
na verdade, realmente é algo que tem me atiçado muito: E aí, como foi?
Gostou?
Fez-se súbito e denso silêncio na sala. Joaquim Romero abaixa a
cabeça e esboça um sorriso no canto da boca. Ele ergue os olhos em direção
ao repórter e profere:
- Achei um saco!