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ORIGEM DOS POVOS BANTU

São várias as hipóteses sobre a origem dos povos bantu, algumas versões rezam
que saíram das férteis terras do sudeste sariano ou do lago Chade. Outros afirmam que
surgiram da região dos Grandes Lagos, na África Central, ainda outros dizem que
vieram da Ásia Menor e posteriormente se foram fixando nas regiões dos Grandes
Lagos, Sudão e a posterior emigrado para o sul. Ao passo que outras teorias dizem que
os bantu entraram na África pelo istmo do Suez ou através do mar vermelho e forma se
fixando na Abissínia 1 há uns 2500 ou 2000 anos teriam migrado para o Sul e sudoeste,
espontaneamente ou pressão de outros povos.

De acordo com Luís Figueira, os primeiros antepassados dos bantu partem dos
actuais Camarões para a Ásia, onde se cruzam com os mongóis os dravidas e os árias.
Os descendentes desses cruzamentos voltam depois ao continente de origem através do
estreito de Bab El Mandab e pelo Suez, sobem o rio Nilo e espalham-se na faixa
lacustre equatorial, na região dos Grandes Lagos aonde vão se sedentarizar devido a um
favorável clima, a segurança e bons meios de vida.

Vários autores dividem os bantu em dois ramos: Cafre (ou Kafir, que quer dizer
infiel, em Árabe) e Bacongo e do resultado destes dois ramos, provem os grupos
etnilinguistico: Mbundo, Lunda-Kioco, Ganguela e Umbundo.

Afirmava-se que os povos bantu depois de se sedentarizar organizaram-se


em grupos matrilineares. O vínculo de parentesco de uma pessoa conta-se a partir
da família da mãe. Nesta região da África muitas vezes o parente era dessa
maneira. Em outras sociedades, contava-se pelo pai e havia comunidades que
contavam o parentesco por ambos os lados. Em matéria de descendência
predominava o regime matrilinear. Assim, há uma influência grande desse regime
nas questões de sucessão, herança, casamento e residência. Deve destacar que a
matrilinearidade e matriarco são coisas distintas:

Matrinear: estrutura de descendência em que o parentesco se conta a partir das


mães. Forma comum de descendência encontrada na região da África Negra.

Matriarcado: regime em que as mulheres detêm a autoridade e o poder. Até


hoje, há polêmica sobre a existência histórica deste tipo de governo.

A matrilineridade bantu era acompanhada, em geral do principio de que os


homens tinham maior autoridade sobre as mulheres. A linhagem 2 matrilinar ficou débil,
enquanto a estrutura da aldeia estava reforçada. Essa autoridade da aldeia se
fundamentava nos princípios territoriais e políticos.

OS MBUNDO

1
Império Etíope que ocupa actualmente os território da Etiópia e Eritréia.
2
Chama-se linhagem os grupos de parentes segundo um dado sistema de filiação, podendo remontar
geneologicamente, com certeza a um antepassado comum, é designado pelo termo de linha. Segmenta de
uma linha constituída pelos membros vivos
De uma forma solida, os povos da África Central, incluindo os Mbundo
mergulhavam num mundo complexo e desafiador das linhagens do parentesco e da
tradição oral. Segundo Virgílio Coelho um grande conhecedor da língua Mbundo
afirma que “o reino do Ndongo era um exemplo de unidade política na região, que
resultou na construção do Estado a partir da confederação de linhagens Mbundo. A
história deste reino pode ser contada por meio de mudanças institucional” 3.

O preceito principal entre os Mbundo era de igualdade. Toda população que


vivia junta deveria ter laços de parentesco. Na linhagem tratando-se de grupos de
parentes unilinear, seus membros se identificam como um corpo constituído e aceitam a
direção dos mais velhos. Um forte laço era a idéia de parentesco e a oposição entre
anciões e jovens, para Jean Vansina “a existência nas linhagens de muitos
dependentes, inclusive os escravos, desmascara o preceito da igualdade” 4.

As sociedades dos Mbundo eram quase matrilineares e linhageira, mas apenas


do principio de contar o parentesco e herança por meio das mulheres, a maior forma de
autoridade ficava com os homens toda linhagem tem um antepassado comum e, todos
são parentes desse fundador, formando uma linha de descendência direita.

KONGO

O fundamento do parentesco Kongo reside na Kanda5. A kanda é o grupo de


parentesco organizado em linha materna, descendente de uma antepassada comum. Ela
define exogamo. Empiricamente, a kanda costuma estar associada ao “clã6” (mvila),
embora aquela faça mais referencia ao grupo local do que o clã, que remete a categoria
de descendência mais ampla e não implique em exogomia. Ela se divide em linhagens
ou barriga (vumu), ou seja, o grupo de descendência até a quarta geração que regula os
direitos de herança. Dentro de cada “canda” contavam-se vários ramos ligados entre si
por um sistema de parentesco simbólico e perpetuo, cujas hierarquias podiam favorecer
a ampliação e a centralização da autoridade no cabeça do mais antigo segmento do clã.
A kanda, que por sua própria definição abrange os vivos e seus antepassados, estabelece
duas categorias fundamentais de pessoa entre os Bacongo: os indivíduos de livre direito,
que são aqueles pertencentes a uma dada linhagem materna, com todos os direitos
relativos à sucessão e herança, e os outros, estrangeiros ou escravos que, não possuindo
kanda e incapazes de declarar sua mvila (genealogia), têm um lugar subordinado na
estrutura social.

O sistema de parentesco, mas propriamente a caracterização da sociedade Kongo


como matrilinear, a partir de linhagem e sucessão por via materna, da concepção nativa

3
PANTOJA, Selma. História da África Central Ocidental. Brasília: Editora Universidade de Brasília,
2011, p. 46
4
PANTORA, op. Cit. 2011, p. 46
5
De forma sintetica Kanda é a autoridade ou o poder que defluia dos ancestrais e tomava forma nos clãs
ou nas linhagens e que estabelecia o vinculo genealógico entre os que a integravam e os que primeiro
tinha ocupado determinada área de terra ou haviam cedido a outros.
6
Um clã constitui-se num grupo de pessoas unidas por parentesco e linhagem e que é definido pela
descendencua de um ancestral comum.
de tradição e da declaração da mvila para definir e defender direitos de herança
ocasionou certa rigidez na definição do sistema. O sistema segmentar Kongo baseia-se
numa contradição, isto é, a um só tempo o sistema era matrilinear e virilocal que
objectivavam mudança e lutas por espaços políticos, territorial e de autoridade de
grupos colocados em posição de inferioridade por conta da primazia da primogenitura e
da antiguidade, que opõem irmãos e linhagens mais velhas ou mais antigas a irmãos
mais novos e linhagens mais recentes.

Para Wyatt MacGaffer e António Gonçalves, apud Pereira enfatizam que:

O papel tradicional do pai e da patrilinhagem na


transmissão ao filho do direito a terra, uma transmissão de
poder político. O exercício do poder sobre a terra, lhe
permitindo sua fertilidade e produtividade e dando
viabilidade ao grupo postulante. A doação da terra é assim
uma relação de pai para filho, efectivando uma doação a
um só tempo político e sagrado. O doador tem estatuto de
pai (tatá) e é como filho (mwana) que o novo chefe
político assume o comando do novo território e deve
deferência ao seu doador. Esta relação de doação permite
ao filho, exercendo seu poder sobre novo domínio,
constituir uma nova matrilinhagem 7.

O acesso a terra através do pai é um recurso principalmente do filho ou


linhagem mais jovem ou mais recente, já que a primogenitude é facultada a terra da
matrilinhagem (o sobrinho mais velho herda do tio materno). Sendo assim a relação tatá
– mwana regula as fragmentações inerentes a linhagem, ou seja, as cisões de linhagens
menores que saem à procura de novas terras e de homens em busca de exercerem
chefiam8.

A relação entre pai e filho, é a relação de aliança política propriamente dita,


que garante a legitimidade das linhagens menores ou mais novas que querem
autonomizar-se. Dá ao pai a possibilidade de produzir uma clientela que compensa sua
situação desfavorável, de propiciar para beneficio de outro (irmão da esposa), como
também de contrabalanças a pressão por poder dentro da sua linhagem, vindo dos seus
próprios sobrinhos. A estrutura segmentar, freqüentada, da organização social Kongo é
assim equilibrada pelo papel legitimar do pai, que confere a esta fragmentação uma
linguagem de parentesco, impedindo a atomização dos grupos kongos garantindo a
unidade, uma identidade e recurso comum (através da tradição) para resolução de
litígios sobre a terra e o poder.

7
PEREIRA, Luena Nunes. Religião e parentesco entre os Bacongo de Luanda. Rio de Janeiro: Áfro-
Ásia, 2013, p. 21
8
O casamento do filho com a prima cruzada patrilateral efectiva a aliança entre pai e filho, assegurando o
poder do filho sobre seu novo domínio.
A relação pai-filho é uma relação de senioridade e de transferência de
autoridade espiritual. O filho recebe do pai as insígnias para governar. Está á inscrita
nos mitos a passagem da autoridade espiritual de pai para filho, mesmo quando este é
filho primogênito que herda do tio a chefia da matrilinhagem 9.

A mecânica do casamento facilitava a concentração da riqueza do prestigio e


do poder: era de regra desposas primas em primeiros ou segundos grau por parte do
irmão ou da irmã do pai que não pertenciam à mesma kanda do marido, por ser esta
matrilinear ou por parte do irmão da mãe.

Graças ao sistema de matrimônios cruzadas entre várias linhagens, corrigiam-


se os vínculos entre elas. Cada indivíduo ligava-se, assim a mais de um horizonte
familiar. Se for exemplo por ser filho casula considerava não ter possibilidade de
secessão de seu grupo junto ao pai ou ao tio paterno ou até mesmo a um estranho um
“senhor da terra” de quem, ao dele receber o espaço em que se fixará.

Passava a ser socialmente “filho”. E como este parentesco, quer real, quer
simbólico era perpetua os liames não se apagavam no tempo. Como entre os Lundas, os
primos longínquos eram “irmãos” porque descendiam de irmãos, dos quais eram
sucessores. Pois se herdava a posição familiar e a identidade sócia: ao assumir a chefia
de uma linhagem, quem o fazia transformava-se no seu antecessor de quem tomava o
nome e assumia o parentesco. Este parentesco estendia-se ao grupo do qual ele era o
cabeça e situava o grupo em relação aos demais.

ÁFRICA CENTRAL OCIDENTAL

A África Central Ocidental são povos de diversas etnias, com predominância


do regime de descendência matrilinear, estruturados em linhagens sendo comum entre
eles o sistema de dotes. Não era uma nação na perspectiva moderna, mas eram grupos
étnicos.

Enfatiza-se que o sistema de dote na África Negra são prestações em bens ou


serviços por um pretendente, com o apoio dos seus, em reconhecimento ao dom da
mulher que é concebida em casamento. Conjunto de bens materiais e prestações
exigidas convencionalmente do grupo que recebe a mulher pela comunidade que a cede.
Simboliza antes de tudo uma aliança entre grupos de diferentes comunidades, isto é,
diferente ao dote ocidental – numa separação de bens entre Marido e esposa em que
cada um conserva o que recebera de suas respectivas famílias. Parte da herança que, no
geral, era dotada a filha. Seus bens seriam preservados sempre, independentemente do
marido. “Quem casa filha, depenado fica” 10.

DESCENDÊNCIA

9
As relações de proximidade com o pai incluem a proteção contra a feitiçaria, que é forma pela qual se
expressa em as relações de disputa entre tios e sobrinhos no sistema matrilinear. Sobre a
complementaridade da linhagem secundaria (paterna) em sociedades matrilineares e sua função espiritual.
10
Ibem
Alguns povos se dão pela linha paterna e nesse caso, considera-se a filiação por
meio do homem ficando a mulher associada à comunidade onde vive o marido. Esse
sistema de parentesco é chamado patrilinear – outras vezes o tio materno tem maior
autoridade sobre o filho da Irmã do que o marido desta. A esse sistema de parentesco é
chamado matrilinear. Em outras palavras, a patrilinearidade ocorre quando a
descendência se estabelece entre pai e filho da esposa, e a matrilineadade não se
estabelece entre a mãe e seu filhos, mas entre o irmão da mãe e os filhos desta. Portanto,
às vezes os tios têm mais autoridade sobre os sobrinhos do que o pai, e a relação entre
primos muita das vezes são mais forte do que entre irmãos. Todos os sobrinhos de
alguém e descendem de um fundador de alguma linhagem isto é, um grupo de parentes
organizados segundo um sistema de filiação.

SISTEMA DE CASAMENTO TRADICIONAL BANTU

O casamento bantu sistematizado e controla a visa social, visto que organiza as


relações entre parentes e vai fixando a filiação. Por ele, as linhagens têm direito as
descendências e dilatam-se no tempo, depois de fixadas.

O casamento é um assunto complexo em que os aspectos econômicos, sociais e


religiosos estão por vezes, intrinsecamente misturados que não se podem separar. Para
os membros bantu, o casamento é o centro da existência; é o lugar de encontro de todos
os membros de uma comunidade: os defundos, os vivos e os ainda que vão nascer.

O casamento é o drama em que cada um participa como actor ou como atriz e


ano como mero espectador. Por isso, é um dever, uma experiência fixada pela
comunidade e um ritmo de vida em que cada um deve tomar parte. Quem não participa
é uma maldição para a comunidade, é um rebelde: não só anormal como chega a um
nível inferior ao humano. Em geral, se um indivíduo não casa, significa que rejeitou a
comunidade a ele. O casamento bantu fundamenta uma relação entre grupos. o
casamento bantu é uma aliança que legitima uma nova família enriquecedora e une
linhagens sem a intervenção de autoridades políticas. Desta forma, os dois grupos,
baseando-se na união, firmam um contrato, que não diz respeito somente a uma só
pessoa – homem ou mulher – mas aos dois grupos a quem pertencem e que ficam
comprometidos. Assim, dois, que se casam, fazem no enquanto membros de duas
famílias, de dois clãs e deste facto, nasce a sua dimensão comunitária e social. A mulher
ou homem, introduzidos, pelos casamentos no novo grupo, reforçam a amizade e as
alianças entre famílias, clãs, tribos, e reinos amigos.

O bantu é consciente de que ao casar revigora a solidariedade comunitária.


Como facto social, a plena integração do homem e da mulher inicia nos ritos da
puberdade, que condiciona o casamento. Ambos se realizam e adquirem o pleno estatuto
social quando se tornam progenitores. O casamento bantu intenta, como fim primário, a
continuidade ininterrupta da comunidade. Os filos vitalizam e adquirem o pleno estatuto
social quando se tornam progenitores. Os filhos vitalizam o grupo, amparam os velhos,
continuam o culto aos antepassados e asseguram a sobrevivência dos esposos. O bantu
casa primordialmente para ter filhos. O bantu com filhos sente-se protagonista da
história da sua comunidade e ele próprio se torna história. A sua existência fica
justificada e a missão da sua vida, sacraliza. Só assim se torna se realiza um dos mais
elevados ideias.

O homem e mulher só adquirem plenitude social e religiosa pela fecundidade,


já que isso lhes autorga um novo estatuto e prova a sua maturidade pessoal e a
benevolência dos antepassados. A fecundidade emancipa o homem e mulher

Poligamia – a definição doutrinal do casamento poligâmico como sendo um


regime matrimonial monoândrico poligínico simultâneo, ou seja o casamento de um
homem com várias mulheres. No entanto a poligamia tanto pode ser poligínica (união
de um homem com diversas mulheres) como poliândrica (união de uma mulher e
diversos homens). Em outros moldes a poligamia (nsompi a kento nkama, em língua
kikongo) é um tipo de relacionamento amoroso e sexual entre mais de duas pessoas, por
um período significativo de tempo ou por toda a vida ou é uma prática de fazer filhos
com diferentes mulheres, mesmo sem viver com elas. A poligamia é praticada pelo
homem, porque se for feita por uma mulher é uma poliandria. A cultura bantu permite a
poligamia, mas condena a poliandria considerando-a de prostituição.

Para se falar de poligamia, a relação tem de ser forçosamente uma relação entre
marido e mulher. A poligamia não tinha antes aceitabilidade entre os bantu, mas a partir
dos provérbios: “uma mulher não constrói uma aldeia”, “um dedo só não consegue
introduzir os grãos de milho cozido na boca”, “uma só flecha não é capaz de matar uma
serpente”, a poligamia passou a ter certo prestigio. A poligamia é um fenômeno social e
colectivo, pode ser considerado como uma expressão da personalidade cultural africana.
A poligamia aumenta o numero de relações sociais duma família e contribui para a sua
integração na sociedade. Numa poligamia, todas as mulheres têm o estatuto de esposas e
têm direitos e deveres iguais. Na tradição kikongo, a poligamia é permitida. Um homem
casado pode celebrar uma união matrimonial com mais outras mulheres. Dependendo
das suas capacidades, um homem pode casar-se com a quantidade de mulheres que
quer. Ter muitas mulheres e muitos filhos é uma riqueza. É, para um homem uma
demonstração da virilidade e de poderes.

Os polígamos assumidos acomodam as suas mulheres, construindo casas para


elas. Nas aldeias eles constroem “lumbu” – um conjunto de casas. O homem distribui os
dias que deve permanecer em casa de cada uma das esposas, começando pela residência
da primeira-dama. Se a permanência for de uma semana e tiver cinco mulheres, será
necessário um mês e uma semana para completar a volta e regressar à casa da primeira
mulher. Numa poligamia, todas as mulheres têm tratamento igual, não pode haver
discriminação.

Para os bakongo (mukongo ou nkongo, singular; bakongo, akongo ou


minkongo, plural), um homem pode viver com uma mulher durante anos e fazer com ela
muitos filhos, sem dar o alembamento, este é considerado solteiro. O homem pode casar
com sua mulher numa Conservatória ou igreja, sem o casamento costumeiro
(alembamento ou dote) ele não tem o estatuto de genro. Ele continuará a ser
considerado solteiro, a mulher e filhos são ilegítimos.

Na cultura bantu, apenas o casamento costumeiro ou alembamento é


considerado válido. O casamento civil (na Conservatória) e religioso não valem. O
casamento costumeiro subdivide-se em quatro partes, nomeadamente noivado,
apresentação, alembamento ou dote e entrega da esposa em casa do marido. Um
matrimónio bantu é considerado como uma união entre makanda (clãs) dos noivos
(famílias materna e paterna do marido e da mulher). Razão pela qual a resolução do
processo (casamento costumeiro) é da competência exclusiva dos responsáveis das
famílias dos noivos. Não se pode celebrar um casamento na ausência dos principais
responsáveis dos noivos.

Um pai não tem competência para casar sua filha sem a autorização do chefe
da família desta, frequentemente é um tio chamado Nkulubundu ou Nkazi. Um tio é o
irmão da mãe, e uma tia é a irmã do pai. A irmã da mãe é mãe, e o irmão do pai é pai,
um filho da irmã da mãe ou do irmão do pai, é irmão. A palavra Primo(a) não existe, na
tradição bantu. Uma família bantu (kanda, makanda) não é composta apenas de pai, mãe
e filhos. Ela é larga e matriarcal. É um conjunto de todos os descendentes por via
matrilinear (clã). Um filho pertence à kanda da mãe, pois a mulher é a base da família.
Pai e filho, não pertencem à uma mesma família.

Assim, um matrimónio celebrado pelos chefes das famílias de ambas as partes


é indissolúvel. Ninguém pode divorciar-se da sua esposa, sem a anuência da sua família
e dos velhos (testemunhas) da comunidade. O divórcio não é permitido, salvo em caso
de se esgotarem as possibilidades de reconciliação do casal e se o motivo for
comprovadamente imperdoável, como o homicídio, adultério.

Segundo a cultura bantu, uma mulher só tem amiga e não amigo. Uma mulher e
um homem não fazem amizade, pois a relação de ambos termina por um escândalo.

Monogamia – situação em que o casamento é contraído entre um único


indivíduo de cada sexo.

Somente no casamento, na família elementar, o homem e a mulher realizam a


mais profunda aspiração da sua existência: prolongar-se, reviver, assegurar a
sobrevivência. Da mesma forma satisfazem as esperanças das suas comunidades:
crescer, enriquecer-se e assegurar o patrimônio social, político e religioso. “A
verdadeira família serere (pode dizer-se também da bantu) é a família maternal, “a
família alargada”. Em sentido restrito, a família não é um grupo autônomo; vive na
“casa comunal” da família clãnica, no sentido da “gens”. “Esta é a verdadeira família
negro-africana”.

O bantu goza de uma comunidade muito ampla que lhe proporciona o deleite
de viver sempre em família.
As diversas famílias alargadas formam uma densa rede totalizante que, à base
de comunidades e solidariedades, estrutura a sociedade que se compraz em ser
essencialmente comunitária. Assim, os membros se tratam como parentes. Chamam
“pai” ao tio e “irmão” ao primo. Sem se importarem com a proximidade do parentesco,
as designações de “pai” e “irmão” vão-se alargando indefinidamente. Os bantu
encontram pais e irmãos nos lugares mais afastados.

O conflito do sistema de linhagem ocorria pela competição por mulheres e


outros dependentes. Formavam-se o quase convencionou chamar de comunidade de
parentesco segmentada, em conseqüência da falta de trabalhadores, de mulheres e da
necessidade de expansão das terras por parte dos mais jovens. Ocorriam disputas entre
anciãos e jovens, resultando em um novo segmento, uma nova linha tinha iniciado
(pequenos Estados centralizados cujos soberanos preservavam os privilégios dos mais
velhos contra os jovens e estrangeiros).

FILIAÇÃO BANTU

Exogonia é um processo ou norma positiva que regula as relações entre grupos


de filiação entre os bantu, a exogomia familiar e clãnica e endogamia tribal são normas
rígidas e rigorosas, embora em certas regiões se atenuem.

Este processo obriga pessoas que são parentes, pertencentes em grupos


separados, a contrair casamento. Neste caso, é de notar que a parentela mítica exige a
exagomia e regula os casamentos. Neste caso, é de notar que a parentela mítica exige a
exogamia e regula os casamentos. Vários foram os antropólogos, sociólogos e
historiadores que deram o seu contributo na explicação deste processo. Na opinião de H.
Spencer “as mulheres apanhadas nas lutas dos grupos primitivos não eram só como
escravas mais também como troféu. Esta particularidade dava-lhes um valor extrínseco
em relação às mulheres do grupo"11. Segundo J. Lubbock sugere que “os homens para
se apoderarem de uma mulher em grupos estrangeiros”12. Já para E. Durkhein, o pai da
Sociologia da educação, atribui a sua origem no totemismo, isto é, ninguém pode se
casar ou relacionar-se sexualmente com quem o mesmo totem, porque o sangue comum
encerra perigos mágicos, sobretudo na menstruação. A exogamia está limitada pelo
tabu do incesto, isto é, o matrimonio apenas é proibido entre consangüíneos imediatos.
No clã onde o parentesco é místico e a genealogia vem marcada pela descendência
comum de um nome, brasão ou totem, pesam tabus incesto sobre matrimonio realizado
entre parentes próximos, mas pertencentes, a clãs diferentes, neste a inclusão no clã
pode realizar-se por meio de pai ou da mãe, pelo sistema de linhagem. Portanto, a
exogamia clãnica consolida a expansão, a comunicabilidade, a solidariedade e a
conquista de novas relações sociais e aliança e pactos políticos.

SISTEMA DE LINHAGEM

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Essas sociedades africanas baseavam-se no sistema de parentesco. Relação
entre duas pessoas que são parentes descendem de um ancestral comum. A dominação
desse sistema passa a caracterizar essas sociedades. O termo parentesco, no sentido em
que o empregamos é utilizado principalmente como uma relação social no interior
desses grupos e também como uma relação de parentesco consangüínea. Descute-se
hoje a centralidade do parentesco nas sociedades africanas: o caso dos Mbundo
configura-se como uma forma básica da organização social.

Na África Central Ocidental tinha um sistema de parentesco


predominantemente que era matrilinear e os grupos humanos se baseavam em formas
linhageira de organização, factor importante, se pensarmos nos pequenos Estados
Mbundo ou Kongo. Sobreponde-se a esses laços linhageiros uma rede de instituições
horizontais, verticais e transversais recobria e unia os diversificados grupos sociais. A
presença de diversificadas instituições foi fundamental para o desenvolvimento da sua
história política.

A primeira organização social era constituída por pequenas aldeias e estas eras
submetidas aos grupos de parentes que constituía em conjunto de irmãos e sobrinhos,
formando assim um grupo de filiação. As esposas residiam com os seus maridos, apesar
de pertencerem parentes em termos de descendência, aos seus grupos próprios de
parentes. Os filhos moravam com suas mães, porem quando crescidos, juntavam-se aos
tios, na aldeia de parentes da mãe. No geral os membros mais velhos de um grupo de
filiação concentravam-se em uma aldeia, reforçando se padrão de identidade linhageira.

Abaixo de uma geração de mais velho, vinha uma intermediaria de sobrinhos e


suas esposas de suas irmãs e uma geração dos mais jovens, resultantes desses
casamentos, que eram membros do grupo de filiação de suas respectivas mães. As
mulheres sozinhas (solteiras, divorciadas e viúvas) retomavam a sua aldeia de origem, e
seus irmãos. As jovens casadas residiam em outras aldeias de seus maridos.

Entre os bantu, o chefe de família faz a ligação directa com os antepassados,


presentes na vida comunitária, cuja influência, benéfica ou nefasta, deve ser cuidada.
Pela sua proximidade com eles, qualidade, poder e conhecimentos superiores, podem
arrancar-lhes favores ou torná-los propícios.

Resolve os conflitos e responsabiliza-se pelo bem-estar familiar. A sua


autoridade estende-se ao campo social, político, judicial e religioso. Quando a família
cresce e de dilata, os velhos começam a substituí-los em determinadas funções.
Aparecem os subchefes de aldeias dependentes, “pater famílias – chefe familiar” que,
por sua delegação, cumprem idênticas funções.

A sua autoridade fica limitada e subordina à dos chefes de organizações sociais e


políticas superiores: clã, tribo e reino. Os anciãos e o conselho familiar, embora gozem
de grande prestígio, não o suplantam em autoridade, a anão ser em situações extremas e
flagrantes. A sua autoridade nunca pode chegar ao despotismo porque a família forma
uma comunidade democrática. O conselho familiar, no qual atuam todos os maiores de
idade, admite a sua autoridade suprema porque lhe reconhece a superioridade de estirpe,
mas controla as suas decisões e opina em assuntos importantes, desta forma as decisões
passam por uma consulta prévia à comunidade.

O chefe desempenha uma função fundamental no grupo. Como pessoa mais


qualificada e vitalmente mais poderosa, é o guia necessário da comunidade e o guarda
das suas tradições e da sua coesão. As motivações religiosas, como veremos, marcam o
ritmo e caracterizam a sua mentalidade. Segundo esta concepção sacral, o chefe é um
carismático. Constitui, com os notáveis e os anciãos, o grupo mais autorizado, o estrato
social mais prestigiado e, como instituição presidida por um “enviado carismático”, que
dirige, pensa, solidariza, vigia e procura o bem da comunidade. Quem vê o chefe
contata com a vida que arrancou do hipônimo, e contempla este e os outros
antepassados. O chefe é o canal de conexão direta com a corrente vital ancestral. Por
ele, a comunidade realiza a participação vital na fonte genuína. Por isso, a chefia
pertence à linhagem que a comunidade reconhece como autenticidade de sangue e maior
antiguidade. Só pode ser chefe quem prove, por sua ascendência, que descende, em
linha direta, do fundador do grupo. Só assim se reúne as condições inatas que
confirmam a sua predestinação para patriarca, sacerdote, juiz, protetor e condutor da
comunidade.

Nota: Alguns clãs são patrilinear o que significa que seus membros são
vinculados a linhagem masculina; outros são matrilineares que significa que os seus
membros são vinculados a linhagem feminina. Ainda existem clãs “bilaterais” em que
todos os descendentes do ancestral maior, tanto da linhagem masculina quanto
feminina. Se um clã é patrilinear, matrilinear ou bilateral, depende das regras e normas
de parentesco que regem a sociedade onde ele insere.

O chefe é o sangue e o espírito dos antepassados, prolongamento e deposito


comunicante do dinamismo vital, pessoa sagrada, responsável pela comunidade perante
os antepassados, seu delegado por capacidade e eleição e a sua encarnação, pois que,
por intermédio dele, vivificam a comunidade a comunidade.