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LÍLIAN BARRETO MANARA

ÉTICA E MORAL

Universidade do Sul de Santa Catarina


Florianópolis, setembro de 2002
LÍLIAN BARRETO MANARA

ÉTICA E MORAL

Monografia apresentada como requisito


parcial à obtenção do grau de
Especialista, pelo Curso de Pós-
Graduação em Segurança do Cidadão
da Unisul, em convênio com a
Secretaria de Estado da Segurança
Pública, sob a orientação do professor
José Dimas Maciel Monteiro.

Universidade do Sul de Santa Catarina


Florianópolis, setembro de 2002
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Esta monografia foi aprovada para a obtenção do título de

ESPECIALISTA EM SEGURANÇA DO CIDADÃO

Professor José Dimas Maciel Monteiro


Orientador

---------------------------------------------------------------
(assinatura)
iii

DEDICATÓRIA

Ao meu pai, Osny Manara (in memorian),


e a minha mãe, Terezinha de Jesus
Barreto Manara, pela formação moral que
recebi.
iv

AGRADECIMENTOS

Às Psicólogas Policiais Liliane Machado da


Silva, Maria Beatriz Négri Periard e Mariza
Clairê Mandelli Pecoits, pelo exercício
profissional com moral e ética, e aos
Psicólogos Policiais Maria Cristina D’Avila de
Castro e Jacinto Antônio Pereira e
Comissário de Polícia Dorian da Silva Rosa,
pelo apoio teórico.

Ao Dr. Luciano Bottini e demais funcionários


da Gerência de Fiscalização de Armas e
Munições, pela contribuição.

A meu orientador, José Dimas Maciel


Monteiro, pela compreensão e por fazer
pensar questionando a relação moral e ética
na minha atividade profissional.
v

“Ver de um jeito agora,


E de outro jeito depois,
Ou melhor ainda,
Ver na mesma hora, os dois.
A diferença deve estar,
Naquilo que a gente faz.”

Jandira Mansur
vi

RESUMO

Este trabalho consiste na identificação e avaliação da ética e da moral na Gerência de


Fiscalização de Armas e Munições da Delegacia Geral da Polícia Civil; tais
identificação e avaliação tiveram como base as normas e condutas do Policial Civil
prescritas no seu Estatuto, bem como as condutas praticadas na referida gerência e
suas conseqüências no cumprimento das suas funções. O questionamento levantado
foi se é possível, fazendo ética e tendo e sendo moral, sobreviver no Setor de
Fiscalização de Armas e Munições?
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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 1

DESENVOLVIMENTO .......................................................................................... 7

CONCLUSÃO ....................................................................................................... 40

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................... 43

ANEXOS ............................................................................................................... 46
1

INTRODUÇÃO

O presente século tem se caracterizado pelos profundos avanços


tecnológicos que tem marcado os estilos de vida da sociedade atual, que por sua vez
tem se tornado mais exigente.

O processo de automatização industrial e suas repercussões no mundo


do trabalho fez com que surgisse a necessidade de se realizar uma reorientação do
progresso dirigida a um incremento da qualidade de vida do trabalhador; qualidade de
vida esta que remete a considerar os valores culturais da comunidade na qual o
trabalhador está inserido.

Eticamente um valor não é uma qualidade, senão um preceito moral e, os


juízos de valor são estabelecidos por consenso na sociedade e uma vez aceitos,
dirigem os destinos da mesma.

O ideal da polis é o de viver em sociedade com normas e regras.

Visto que homem algum tem autoridade natural sobre seus semelhantes
e que a força não produz nenhum direito, só restam as convenções como base de toda
a autoridade legítima existente entre os homens; sendo assim, pode-se afirmar que a lei
nasce da sociedade, dos usos e costumes.

Para que os homens pudessem reunir-se em sociedade civil foi preciso


construir uma forma de governo, em virtude da qual os direitos da liberdade fossem
circunscritos pelas leis e pelo poder supremo dos que governam; assim, as
necessidades privadas deram lugar às necessidades públicas, surgindo o cidadão.
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O indivíduo se torna cidadão quando age conforme a lei, sem


inclinações, sem paixões, desejos, e/ou interesses pessoais, ou seja, quando está apto
a viver no social, quando escolhe a sociedade e reprime seus desejos.

A cidadania significa a qualidade ou nacionalidade de cidadão, em que


cidadão vem a ser indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um estado
(Ferreira, 1993); pode se referir à: identidade legal , documental e/ou de país(es) de
origem (como em casos de dupla cidadania) e direitos do cidadão.

Na filosofia grega, a cidade antecede o cidadão, é nela que o homem se


desenvolve e se forma. Quando se fala em cidadão, não se fala em indivíduo, mas num
todo coletivo; o que importa aqui é a necessidade coletiva, pública e não a pessoal.

E todo homem traz consigo um código moral, que não nasce com ele,
mas que adquire na aprendizagem familiar, que capta com sua inteligência da natureza
e do social, e que se torna convicção; e este código moral está, não na vontade, mas
na razão.

Para René Descartes, a razão é a única forma de definir e explicar


regras, normas, fatos; fora disto, só existe a fé; e para Aristóteles, o homem possui
condições de conhecer através da razão, da ciência.

Na realidade, o homem é o resultado de três aspectos: razão, vontade e


sensibilidade. Através do desenvolvimento da razão é que o homem conhece e se
organiza em grupos ou sociedades e é aí que entram não só o direito, mas o dever do
indivíduo perante o social.
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O dever é a necessidade de uma ação por respeito à lei e o direito, além


de ser uma conquista da sociedade, é a necessidade do homem ser tratado igualmente
no meio dos outros homens, independentemente de sexo, raça, religião e posição
econômico-cultural; sendo que o direito positivado é a lei, a norma.

O dever deve estar baseado na razão. O âmbito do “dever ser” é


universal, é conceitual; o âmbito do “o que é” é individual, é particular de cada um. No
“dever ser” aplica-se a lei; não há aqui ação moral; no “o que é” é que há ação moral.

Abre-se um parêntese aqui para dizer que, não é a lei que faz com que o
homem aja racionalmente e sim, agindo racionalmente é que o homem age pela lei.

Para alguns autores, toda decisão social é limitada por uma razão; já a
decisão individual recebe influência das condições psicológicas do indivíduo; o homem
pode decidir pela razão ou pela intuição, que inclui este último o “feeling” e as
experiências de vida.

Dentro disto, a ordem é um estado de conformidade com as leis e as


normas, mas a lei naturalmente considerada em si, bem como a força do Estado, não
mantém a ordem. É a convicção do homem de que é necessário obedecer a lei, e que
isto além de ser um dever moral do mesmo lhe traz vantagens, que mantém a ordem.
Quando a convicção diminui ou se evapora, por exemplo pelo uso de drogas, pela
permissividade, pela corrupção, pelo falecimento das instituições, etc., a lei não é mais
respeitada e o caos se instala.

Mas, as questões morais passam pela concepção que cada pessoa tem
de homem e são os valores morais que estão por trás das regras constitucionais.
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A moral surgiu no momento em que o homem superou a sua natureza


puramente natural, instintiva e se tornou membro de uma coletividade; assim, o
comportamento moral se encontra no homem desde as sociedades mais primitivas. E
para pensar em ética é necessário pensar que o homem é capaz de escolher: tomar
determinada conduta ou não.

Se tornando membro de uma coletividade, o homem desenvolve uma


personalidade sociocultural, que é o conjunto de todas as normas integradas no
indivíduo através dos processos de educação ou de formação.

Assim, também, as organizações não são entidades construídas em si,


são o resultado das intenções humanas e desde que o homem concebeu a idéia de
Governo, ou de um poder que suplantasse a dos indivíduos, para promover o bem-estar
e a segurança dos grupos sociais, a atividade de polícia surgiu como decorrência
natural.

A atividade de polícia é uma das partes integrantes do emprego


público, que é, ainda, a atividade profissional central dos servidores: aquela da qual
sobrevivem, onde constróem suas referências profissionais, onde passam a maior parte
do seu tempo útil.

E para julgar a responsabilidade moral do servidor não basta apenas


analisar determinado ato segundo uma norma ou regra de ação, mas é preciso também
examinar as condições concretas nas quais este ato se realiza.

Dentro de tudo o que foi anteriormente explanado, faz-se o


questionamento de se é possível, fazendo ética e tendo e sendo moral, sobreviver
dentro da Gerência de Fiscalização de Armas e Munições?
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Este questionamento surge de um dilema constante, dentro da


instituição Secretaria de Estado da Segurança Pública/Polícia Civil no geral e mais
especificamente, no caso desta monografia, dentro da Gerência de Fiscalização de
Armas e Munições sobre o que é ético e moral na prestação do serviço à população;
pois, apesar de haver normas escritas que norteiam não só as condutas dos
funcionários da Polícia Civil (vide Anexo I – Estatuto da Polícia Civil do Estado de Santa
Catarina), mas também o serviço prestado (vide Anexo II – Decreto n° 3.008/92/SC;
Anexo III - Lei n° 9.437/97/DF; Anexo IV - Decreto n° 2.222/97/DF; Anexo V - Lei n°
11.617/00/SC e Anexo VI - Resolução n° 007/GAB/DGPC/SSP/00), estas variam na
prática dependendo de qual partido está no poder e a quais interesses pessoais ou de
determinado grupo se recebe “pressão” para atender. Assim, identificar e avaliar as
principais normas e condutas praticadas dentro da Gerência de Fiscalização de Armas
e Munições/GEFAM da Delegacia Geral da Polícia Civil/DGPC representa a
possibilidade de reforçar as normas e condutas éticas e morais e dentro da lei.

Neste momento definindo-se ética como a reflexão que se faz sobre a


moral, como um tipo de reflexão filosófica acerca de problemas morais, e, moral como o
conjunto de regras e normas que norteia a ação dos seres humanos em sociedade, e,
ainda, como a conduta, a prática, a ação, que pode ser modificada pela cultura, pela
religião, pela economia, etc., a pesquisadora levanta, a partir destas definições, a
hipótese de que é possível, sim, fazendo ética e tendo e sendo moral, sobreviver dentro
da Gerência de Fiscalização de Armas e Munições/GEFAM da Delegacia Geral da
Polícia Civil.

Para tanto, foi utilizada nesta monografia como método de abordagem


o método indutivo e como técnica de pesquisa a técnica da documentação indireta,
mediante levantamentos bibliográficos, e observação da pesquisadora dentro da
Gerência de Fiscalização de Armas e Munições/GEFAM. É importante, aqui, ressaltar
que a bibliografia base desta monografia, e que norteou as demais, é a da Teoria Geral
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dos Sistemas, que está intimamente ligada à formação profissional da pesquisadora


enquanto Psicóloga.

A pesquisadora aproveita o momento para declarar, ainda, para os


devidos fins, que assume responsabilidade pelas opiniões contidas no presente
trabalho, isentando, dessa forma, a Universidade do Sul de Santa Catarina, o Professor
Orientador Msc. José Dimas Monteiro, a Gerência de Fiscalização de Armas e
Munições/GEFAM da Delegacia Geral da Polícia Civil, atualmente conduzida pelo
Delegado de Polícia Dr. Luciano Bottini, bem como demais funcionários de qualquer
responsabilidade sobre o aporte ideológico conferido à presente monografia.
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DESENVOLVIMENTO

Todo ser vivo é um sistema, onde na base estão as heranças pré-


definidas e a partir daí cresce uma organização de níveis hierarquicamente superiores,
resultado das vivências, aprendizagens e aquisições novas que o sistema vai
adquirindo e se enriquecendo nas trocas com outros sistemas.

Mas, afinal, e o que é um sistema?

A Teoria Geral dos Sistemas ou Holismo ou ciência geral da totalidade


de Ludwig Von Bertalanffy e Gregory Bateson, veio responder a este questionamento.

Esta teoria surgiu em 1930 e pregava a passagem do pensamento


científico objetivo (princípio de causa-efeito) e da lógica mecanicista (isolando o
subjetivo) para o pensamento científico sistêmico incluindo o objetivo e o subjetivo, ou
seja, a relação do objeto da pesquisa e o pesquisador.

As bases do pensamento sistêmico vêm de três vertentes:

1) do pensamento processual (Alfred North Whitehead), que leva em consideração as


forças e mecanismos por meio dos quais as estruturas fundamentais interagem,
dando, assim, origem a processos;

2) da tectologia (Alexander Bogdanov), que é a ciência das estruturas, a qual busca


esclarecer e generalizar os princípios de organizações de todas as estruturas vivas
e não vivas; e
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3) da Teoria Geral dos Sistemas (Ludwig Von Bertalanffy), que é uma ciência geral de
“totalidade”, onde o organismo não é um sistema estático fechado ao mundo exterior
e contendo sempre os componentes idênticos; mas é um sistema aberto num estado
(quase) estacionário, onde materiais ingressam continuamente vindos do meio
ambiente exterior, e neste são deixados materiais provenientes do organismo.

O ponto de referência sistêmico é o contexto (a organização e a


estrutura); além disto, para esta teoria a realidade pode ser reconstruída e o ser
humano é um ser em construção.

O Holismo leva em consideração o todo, o ambiente, onde nenhuma


parte é fundamental, todas tem sua importância: se uma parte falha, o todo continua,
pois há outras partes que o compõem.

Um sistema é, portanto, dentro desta teoria, uma organização de


partes numa interação dinâmica; é um conjunto de elementos que interagem entre si e
com o meio e que tem uma forma de funcionamento, que é a sua identidade; é só
através da interação (da troca) entre seus elementos que se dá um sistema. Enfim, um
sistema é uma organização hierárquica estruturada.

As propriedades das partes do sistema somente podem ser


compreendidas dentro do contexto do todo, razão pela qual o pensamento sistêmico é
contextual (como já citado anteriormente), pois considera o meio-ambiente, sendo
também denominado pensamento ambientalista.

O que quer o holismo é reconhecer que todos os fenômenos humanos


estão ligados, e que toda a leitura possa ser feita do fenômeno da vida na sua
integralidade; ou seja, pretende superar a visão fragmentada do mundo.
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Qualquer sistema é parte de um suprasistema que por si mesmo


mostra todas as qualidades de um sistema; semelhantemente, as partes de um sistema
são por si mesma subsistemas que mostram características do sistema.

Propriedades e/ou funções semelhantes são observáveis em todo


sistema, subsistema e suprasistema; esta similaridade é conhecida como isomorfismo.

Os processos de conservar estabilidade (morfostase) e os processos


de diferenciar, crescer, mudar (morfogênes) ocorrem simultaneamente e continuamente
em todo sistema vivo.

Como os sistemas desenvolvem e crescem, os subsistemas surgem


como estruturas especializadas que irão lidar com os processos autônomos de
regulação do limite e com os processos de manutenção do estado continuado de
estabilidade e mudança.

O que caracteriza um sistema é a forma de relação entre seus


elementos (sub-sistema), é estar inserido num contexto (circunstâncias de espaço e de
tempo) e suas funções básicas de regulação.

As funções básicas de regulação de um sistema são duas:

1) função de fechamento, que permite ao sistema manter sua continuidade frente a


mudanças interiores ou exteriores ao mesmo; é a volta ao equilíbrio conhecido para
manter a coesão e a identidade do sistema, para poder “digerir” o novo dentro de
seu padrão; e

2) função de abertura, que permite mudança na estrutura básica do sistema, seu


crescimento e transformação através de sua capacidade de se abrir para
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estabelecer trocas com o novo e o desconhecido.

Normalmente pelo hábito (pelo homem sempre fazer do mesmo modo),


o “novo” é sutil, é pouco percebido e vivenciado; já o antigo, o “velho”, é mais figura e
mais sentido, daí a dificuldade de soltar o “velho” ou de nele incorporar o “novo”.

A forma de relação entre os elementos do sistema acontece nas


interações, formando o padrão de interação do sistema. O padrão de interação de um
sistema é o elemento que se repete sempre nas interações e que obedece a um
conjunto de regras; é a repetição de uma seqüência de interações (verbais ou não-
verbais).

Por sua vez, as regras ou normas do sistema funcionam como o


estatuto interno que regulamenta o permitido, o exigido, o proibido e o negado; são as
regras que mantém o controle do sistema, controlando os sentimentos e as relações de
poder dentro do mesmo (quem pode mandar, falar, tomar iniciativas, etc.).

Percebe-se que normas, regras e punições aplicadas à pessoas


diferentes nem sempre surtem o efeito desejado, sendo eficazes para alguns e não
para outros; é o estado físico e psicológico de cada um interferindo nas reações frente a
um mesmo estímulo.

Esta contraposição entre igualdade e desigualdade é tão antiga quanto


o universo, pelo simples fato de que os homens são, ao mesmo tempo, iguais e
desiguais: são iguais pois pertencem ao gênero humano, mas são desiguais, se
considerados como indivíduos, um a um.
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Rousseau já dizia que, os homens nascem iguais e a civilização


corrompida os torna desiguais, daí a necessidade de instaurar uma nova sociedade na
qual todos tivessem os mesmos direitos.

Para Nietzsche, os homens eram desiguais por natureza e somente a


civilização, com a sua moral igualitária, os tornava injustamente iguais; e daí a
necessidade de se restaurar uma ordem hierárquica.

Já para Kant, quando se submetia as regras e normas da sociedade é


que o homem se tornava livre, pois liberdade, neste caso, não era fazer o que se
queria, mas fazer algo dentro daquilo que se aprendeu na sociedade.

E, por fim, para Freud, os modelos sociais que o indivíduo incorpora


vêm das figuras parentais: até os cinco anos de vida a estrutura psíquica do homem é
formada pela inscrição da cultura nele, o que vai formar tanto a sua subjetividade
quanto a sua identidade; com a introjeção da lei e da figura simbólica de pai há a
estruturação do superego, que por sua vez vai possibilitar a participação e inserção do
homem no social.

Voltando à Teoria Geral dos Sistemas, as regras e os valores do


sistema podem ser identificados através de três fatores:

1) a posição que ocupa cada elemento dentro da organização hierárquica do sistema e


de sua estrutura (limites); ex.: posição de autoridade;

2) as funções necessárias à sobrevivência da organização; ex.: provedor do sistema; e

3) os papéis desempenhados, distribuídos ou delegados a cada pessoa do sistema;


ex.: papel de muito “boazinha” no sistema, papel de “vilão”. Aqui, os papéis são
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distribuídos em decorrência das características externas e internas de cada pessoa;


ex.: sexo, ordem de nascimento, época em que nasceu, idade atual, habilidades ou
dificuldades, características físicas, etc.

As fronteiras ou limites do sistema têm a função de proteger a


diferenciação do mesmo como um todo e se constituem nas regras que definem quem
participa e de que maneira em cada sub-sistema. São funcionais quando são claras,
definidas com precisão, permitindo aos membros do sub-sistema o desenvolvimento de
suas funções sem interferências indevidas, sem obstruir o contato entre membros do
sub-sistema com outros sub-sistemas; ao contrário, respostas rígidas possibilitam
padrões disfuncionais, como a conduta perturbada, o sintoma.

O sintoma é uma expressão das relações que serve para algum


propósito, que pode ser manter a coesão às custas da individuação; ou que pode ser
uma resposta irracional a um contexto igualmente irracional; ou que pode ser um modo
de adaptar-se a situações intoleráveis; ou, ainda, que pode ser a proteção de si mesmo
e do sistema.

O sintoma pode aparecer quando alguém está numa situação


impossível e não sabe ou não pode sair dela; ou aparece, ainda, quando a hierarquia
nas relações se disfunciona: por exemplo, quando o que se posiciona como superior é
o que afirma sua competência apoiado na incompetência de outro; ou aparece,
também, no sistema enrijecido e empobrecido pela imobilidade.

Com as desestabilizações e crises (sintoma) de uma organização há a


necessidade de se reorganizar e redistribuir as funções e papéis nas relações dentro
desta organização; é impossível tratar o sintoma sem que se produza uma mudança
básica na situação social, nas relações e interações.
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A força do sistema está em que se ele muda, a pessoa pode mudar; se


ele não permite e não acompanha a mudança, a pessoa é expulsa do sistema e
substituída por outro elemento.

Dentro da visão holística ou sistêmica, a saída seria atacar


conseqüências e causas, o todo do sistema e para isto se deveria mudá-lo:
primeiramente, através da ruptura com o sistema do ter e associação com o sistema do
ser; e depois, com as mudanças de paradigma onde o homem assumiria
responsabilidades por seus atos ou decisões e não somente seria um mero cumpridor
da lei.

Em tempo, aqui define-se paradigma como um conjunto de crenças e


valores que dominam um certo tempo e espaço. O paradigma sistêmico reconhece que
todas as concepções e teorias científicas são limitadas e aproximadas; diferente do
paradigma cartesiano que se baseava na crença da certeza do conhecimento científico.

A sociedade mais sadia e ideal sempre terá um comportamento infrator


segundo o Professor Nazareno, pois a sociedade ideal é aquela que sabe lidar com as
contrariedades, com a relação entre os contrários.

Para o mesmo professor, o paradigma vigente, na sociedade atual, é


de que os contrários precisam ser repelidos; e portanto, tendo como foco a Teoria
Sistêmica, se faz necessário reconceitualizar isto: olhar a mesma coisa de outro foco ou
com outros focos, ou seja, olhar a mesma coisa de várias maneiras.

Do ponto de vista da Teoria dos Sistemas, toda infração cometida,


todo crime, é uma resposta funcional num sistema disfuncional; ou seja, um sistema
que sempre responde da mesma maneira, que sempre enxerga só uma parte do todo,
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que tem a função meramente de diagnóstico e de “tratamento” já definido de antemão e


tipificado, terá sempre os mesmos resultados.

E, partindo-se do pressuposto de que não existe um sistema que não


gere problemas e que respostas definitivas não existem, o que se precisa fazer é gerir
os problemas, tentando-se alternativas.

Neste processo, dependendo de como estabelecemos uma interação


poderemos identificar uma dificuldade ou criar um problema.

Para a sistêmica, aquilo que é apontado como problema não é algo que
existe em si, mas no modo de ver, sentir, perceber, lidar com algo, pessoa ou coisa.

A dificuldade é um estado de coisas indesejáveis, que poderão ser


resolvidas pelo bom senso, ou que não tem solução e que portanto já estão
solucionadas.

O problema é uma resposta inadequada, buscada fora do contexto


global (espaço e tempo), ou seja, é uma solução que responde a uma parte da
dificuldade, mas não atende a situação como um todo.

Para responder a uma dificuldade temos que considerar dois aspectos:

1) o contexto composto por leis, regras do sistema que dão o seu limite; e

2) o contexto onde ocorrem trocas, intercâmbios, negociações, livre iniciativa, liberdade


de escolha.
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Onde, segundo a Teoria Geral dos Sistemas, contexto é o conjunto de


situações que compõem a realidade (situação econômica, financeira, social, cultural,
histórica, emocional, orgânica, etc.).

Já o problema surge de três modos:

1) nega-se a uma parte da dificuldade, tentando simplificá-la; ou

2) cria-se uma resposta idealizada, fora do contexto e da situação; ou

3) situa-se a dificuldade fora do seu nível de organização hierárquica, ou seja, fora do


sistema.

Ou seja, no surgimento do problema não há alteração do todo; muda-


se algumas características do sistema como posições, funções, papéis, mas a
organização continua a mesma, com as mesmas regras e valores; muda-se de atitude,
mas não o comportamento.

Por isto, a Teoria Geral dos Sistemas diz que, pensar e atuar
sistemicamente é sair do reino das verdades absolutas, estabelecidas, dos dogmas,
para operar com hipóteses, buscando novas alternativas e aprendizagens na
compreensão e intervenção das relações e interações humanas. É ver uma mesma
situação, de vários pontos de vistas, tratando de entender a forma como o todo e as
partes se relacionam, numa interação reciprocamente reforçadora e mantenedora da
situação.

Para a Teoria Geral dos Sistemas não existe conhecimento absoluto,


mas conhecimento aproximado, pois um subsistema é ligado a outro e se
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inter-relacionam e se influenciam. Para esta teoria, o homem com uma saída, não
escolhe; com duas, está em dilema; com três saídas, é que começa a escolher.

Hoje em dia, através da Teoria dos Sistemas, se sabe que cada


pessoa afeta e é afetada pelo comportamento de outra pessoa, e consequentemente as
relações de trabalho, também desta forma, são afetadas; e que o comportamento do
homem é resultado da lei, da regra e da estratégia, onde: a lei vai dizer como ele tem
ou pode se comportar, tem um caráter imutável; a regra vai nortear e interferir na lei, vai
dar suporte para a lei se manter, vai responder por sua coerência e estabilidade; e a
estratégia vai dar a flexibilidade ou rigidez à regra, sendo guiada pelas contingências do
ambiente.

Resumindo, as regras fixas são invariáveis, responsáveis pela


coerência e estabilidade do sistema; são os estatutos internos, ditam a fronteira, os
limites, e a hierarquia, que por sua vez mantém as regras. As regras são escolhidas em
função dos valores “maiores”, que são os ideais, que são escolhidos pelo sistema e
depois passam a ser a sustentação do mesmo. O normal é determinado pelas regras do
social. E a estratégia é o que flexibiliza as regras, garantindo as possibilidades de
escolha.

Atualmente, se fala em sociedade organizacional, pois vivemos no


meio de organizações e em organizações.

Dentro desta sociedade organizacional surge o Estado, que é a


sociedade politicamente organizada, com governo, território, soberania, etc.; existe com
a finalidade de promover o bem estar social, de defender o bem comum, de colocar
limites.
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O grande marco do Estado moderno foi o iluminismo com a pregação


da racionalidade. Com o constitucionalismo, principalmente com a constituição
americana e a francesa, surgiu os direitos humanos ou estado de direito e a colocação
de limites nos governantes. A partir daí, surgiram conceitos como:

1) Segurança, que é um estado em que a pessoa ou o grupo se sente protegido


contra ameaças ou agressões a bens, interesses ou valores (estado de
proteção);

2) Segurança Pública, que é um estado de proteção sentida pelo povo;

3) Ordem, que é um estado de conformidade dos atos, das coisas ou das pessoas com
as normas (morais, éticas ou jurídicas);

4) Ordem Pública, que é um estado de conformidade com as normas éticas e jurídicas


do povo; e

5) Perturbação da Ordem, que é um estado de desconformidade com a ordem


estabelecida pelo indivíduo ou pela coletividade; pode ser em face de um
comportamento inovador (desconformidade somente em relação aos meios),
ritualista (desconformidade somente em relação aos fins), apático (desconformidade
em relação aos fins e meios, mas sem oposição à ordem) e revolucionário
(desconformidade em relação aos fins e meios, com oposição à ordem).

Enfim, sendo a segurança um estado de proteção de bens e valores


e a ordem um estado de conformidade com as normas, aquela pressupõe esta, pois,
para que as pessoas se sintam individual ou coletivamente seguras, é necessário que
elas, os atos e as coisas estejam em conformidade com as normas.
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E por fim, a segurança pública pressupõe a ordem pública; a ameaça


ou agressão à ordem pública é a perturbação desta ordem, reduzindo ou extinguindo a
segurança pública.

Num estado autoritário a ordem jurídica é um valor fundamental, pois


dela resulta a segurança; num estado democrático a ordem social é o que importa.

Outros conceitos que, também surgiram, foram o que é instituição e o


que é organização e qual a relação entre ambas.

Instituição é o um complexo integrado por idéias, padrões de


comportamento, relações interpessoais e equipamento material, organizados em torno
de um interesse socialmente reconhecido.

Organização é a constituição de um estabelecimento público ou


particular, ou o conjunto de diversas partes que desempenham funções distintas, mas
estão inter-relacionadas e coordenadas de tal forma que constituem um todo ou
unidade sistematizada.

Pode-se afirmar a partir destas definições, que, ambas, Instituição e


Organização são um sistema, ou seja, um conjunto de elementos que interagem entre
si e com o meio e que tem uma forma de funcionamento, que é a sua identidade; e,
ainda, que este sistema é formado por sub-sistemas (o indivíduo com suas
particularidades subjetivas e suas relações), que faz parte de um supra-sistema (o
contexto social) e possui uma estrutura hierarquicamente organizada, onde dentro
desta hierarquia existem relações verticais ou seja, entre os níveis de hierarquia, e
relações horizontais, dentro de cada nível de hierarquia.

A Organização pode ser uma estrutura formal (inscrita) ou não formal


(informal), maior ou menor no tamanho (quanto maior mais formal) com objetivos a
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serem alcançados, com divisão de trabalhos (estrutura formal), com funções a serem
executadas (diferenciação funcional), com regras e normas escritas e/ou internalizadas.
É formada pelo arcabouço estrutural mais os padrões interacionais, que são:

1) a estrutura, que é a maneira como o trabalho está organizado;

2) a infra-estrutura, que tem a ver com as condições (material, qualificação do pessoal,


etc.) para realizar o trabalho; e

3) as crenças e valores individuais que influenciam as duas anteriores e por elas


são influenciados.

À medida que cresce a organização necessita ter um processo de


formalização para se manter: isto é dado pela comunicação escrita, o organograma, a
divisão de funções, ou seja toda a escrita sobre a organização faz com que a mesma se
mantenha e se torne competitiva, comprometendo os funcionários e a direção e
realizando o controle.

Segundo Marilym Ferguson, os novos referenciais de instituição e


organização são:

1) todo homem é responsável pelo que acontece na sociedade e não apenas o


governo;

2) é necessário criar uma estrutura que potencialize a força dos talentos humanos e
não mais apenas ter o homem certo no lugar certo;
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3) na medida em que o potencial do homem seja estimulado, ele cresce e se


desenvolve por si só e não apenas com a transferência de conhecimentos; até
porque não se transfere conhecimento, mas sim informação; e

4) nunca é tarde demais para aprender, pois todo homem tem um enorme potencial.

Dentro destes novos referenciais de instituição e organização acima


citados, surge a discussão do que é ético e moral na relação do trabalhador com sua
atividade profissional, com sua chefia, com seus colegas e com a comunidade em que
está inserido e para a qual presta seu serviço.

Ética, da palavra grega “éthica”, é a teoria ou a ciência de uma forma


específica de comportamento humano: o comportamento moral dos homens em
sociedade(Novaes,1992). O objeto de estudo da ética são os comportamentos
conscientes e voluntários dos indivíduos que afetam outros indivíduos, determinados
grupos sociais ou a sociedade em seu conjunto; explica a razão de ser das diferentes
práticas morais de cada sociedade e das mudanças de moral; esclarece o fato dos
homens terem recorrido a práticas morais diferentes e até opostas no decorrer da
história. Enfim, é a ciência que tem por objetivo o estudo da moral da sociedade e suas
constantes modificações.

A ética depara com uma experiência histórico-social no terreno da


moral, ou seja, com uma série de práticas morais já em vigor e, partindo delas, procura
determinar a essência da moral, sua origem, as condições objetivas e subjetivas do ato
moral, as fontes da avaliação moral, a natureza e a função dos juízos morais, os
critérios de justificação destes juízos e o princípio que rege a mudança e sucessão de
diferentes sistemas morais. É a ética, a teoria ou ciência do comportamento moral dos
homens em sociedade.
21

Ética é a reflexão da moral, é a teoria; a moral envolve regras, o ato


em si, a prática. A ética não cria a moral, embora toda moral supõe determinados
princípios, normas ou regras de comportamento, não é a ética que os estabelece numa
determinada sociedade.

A Justiça é a virtude centrada na ética, pois esta comanda todas as


virtudes. O homem só pode ser justo quando está em relação com outro homem
(ninguém é justo consigo mesmo), assim sendo, o homem só pode ser ético com um
outro homem (ninguém é antiético consigo mesmo).

Moral, da palavra latina “mores”, é o conjunto de regras e normas,


aceitas livre e conscientemente, que regulam o comportamento individual e social dos
homens numa determinada sociedade (Kant, 1995); é a conduta, a prática, a ação;
neste conjunto de regras há as condutas imorais e as condutas morais, ou seja não
aprovadas e aprovadas.

A cultura, a religião, a economia e os costumes modificam este


conjunto de regras e normas. Uma mudança radical da estrutura social provoca uma
mudança fundamental de moral, pois a moral possui uma qualidade social: manifesta-
se somente na sociedade, respondendo às suas necessidades.

A moral está em prol de uma finalidade que é o bem comum e é


pelo bem que causa ao cidadão que se regula se a moral é válida; a função social da
moral consiste na regulamentação das relações entre os homens para contribuir assim
no sentido de manter e garantir uma determinada ordem social.

A raiz da moral está acima dos homens e estes não adquirem a


moral naturalmente, mas é necessário construí-la: primeiro através da família, depois da
22

religião e após através da escola. É assim que os homens a tornam convicção; se não
há convicção, não há moral e o indivíduo faz a sua própria lei.

Encontramos na moral dois planos:

1) o normativo, constituído pelas normas ou regras de ação e pelos imperativos que


enunciam algo que deve ser; e

2) o factual, ou plano dos fatos morais, constituído por certos atos humanos que se
realizam efetivamente, isto é, que são independentemente de como pensemos que
deveriam ser.

Ambos os planos estão numa relação mútua: o normativo exige ser


realizado e, por isso, orienta-se no sentido do factual; o factual (o realizado) só ganha
significado moral na medida em que pode ser referido (positiva ou negativamente) a
uma norma (Kant, 1995).

A moral em ação, a moral prática e praticada é a moralidade; a


moral tende a transformar-se em moralidade devido à exigência de realização que está
na essência do próprio normativo.

Para que o sujeito possa ser responsabilizado moralmente por seus


atos, duas condições fundamentais são necessárias:

1ª) que o sujeito não ignore nem as circunstâncias nem as conseqüências da sua
ação, ou seja, que o seu comportamento possua um caráter consciente; e

2ª) que a causa de seus atos esteja nele próprio e não em outro agente que o
force a agir de certa maneira, contrariando a sua vontade, ou seja, que a sua
23
conduta seja livre.

A moral exige que o homem esteja em relação com os demais


homens e uma certa consciência – por mais limitada e imprecisa que seja – desta
relação para que possa se comportar de acordo com as normas ou prescrições que o
governam.

O ato moral supõe um sujeito real dotado de consciência moral, isto


é, da capacidade de interiorizar as normas ou regras de ação estabelecidas pela
comunidade e de atuar de acordo com elas. O comportamento moral é um
comportamento obrigatório e devido; o sujeito é obrigado a comportar-se de acordo
com uma regra ou norma de ação e a excluir ou evitar os atos proibidos por ela (Kant,
1995).

Assim, portanto, tão somente o conhecimento, de um lado, e a


liberdade, do outro, permitem falar legitimamente de responsabilidade. Pelo contrário, a
ignorância, de uma parte, e a falta de liberdade, de outra, permite eximir o sujeito da
responsabilidade moral.

Resumindo, a obrigação moral supõe necessariamente uma livre


escolha: quando esta não pode verificar-se não é admissível exigir do homem uma
obrigação moral, já que não pode cumpri-la; mas basta a possibilidade de escolher
livremente para que se dê tal obrigação.

Mas, partindo do pressuposto de que toda conduta é sempre uma


comunicação e que a conduta chamada de imoral ou perturbada também é uma
comunicação, pode-se supor que tal conduta, em muitos casos, resulte de uma
incongruência na organização hierárquica do sistema, ou seja, de uma organização
incoerente, sem limites definidos ou com limites muito rígidos, mas não uma conduta
separada do todo deste sistema mas sendo gerada por ele e nele interagindo.
24

Quando se lida com pessoas, se depara com diferentes


interpretações da realidade, portanto há que se poder pensar em todas as
possibilidades de conduta e não apenas em uma possibilidade.

Em nossa sociedade atual, as normas vêm sendo utilizadas como


meios de controlar esta conduta imoral, é o controle social. E por este controle social
passam o conceito de saber e poder.

Foucault relacionava o conceito de saber com o de poder: para ele,


o saber era todo e qualquer conhecimento de uma certa época; e o poder era a
capacidade de influenciar outra pessoa, era uma variável relacional, que, algumas
vezes era mantida pela força, pela coerção, e toda prática de poder estava associada a
um determinado saber. Ele não estava afirmando que saber era poder, mas que
sempre que se falava em relação estavam incluídos poder-saber; era uma “espiral
contínua” que se retroalimentava: o poder era alimentado pelo saber e vice-versa.

Uma nova modalidade de poder, segundo Foucault, que não se


reduzia a violência era o poder disciplinar, até hoje utilizado, cujo objetivo era a
necessidade do surgimento de um novo homem, fisicamente produtivo e com menor
capacidade política ou de revolta. Esta modalidade surgiu com o capitalismo e com a
burguesia .

As características do poder disciplinar são:

1) a arte das distribuições, ou seja, o controle do espaço vinculado à produtividade;

2) a organização das gêneses, ou seja, o controle ininterrupto de tempo para a


realização das atividades; e
25

3) a composição das forças, ou seja, junção de espaço e tempo, com controle de


ambos, pois se parte do princípio que quando se controla todo o espaço e todo o
tempo a produtividade sempre será maior.

No poder disciplinar são utilizados os seguintes instrumentos:

1) o olhar hierárquico, que tudo vê e a todos;

2) a sanção normalizadora, que classifica, hierarquiza as pessoas, criando


estereótipos; e

3) o exame, que é uma vigilância ininterrupta e uma sanção normalizadora; por


exemplo, os concursos.

É certo que, em virtude da própria natureza dos homens, uns sejam


governados por outros, e é também indispensável que em qualquer grupo humano o
exercício da autoridade confira ao titular um poder. A necessidade da obediência não
decorre propriamente do pacto que os homens fizeram entre si para viverem sob o
manto da boa ordem; a necessidade da obediência nasce, assim, com a própria
natureza, da necessidade do poder.

Mas o poder não é estático, é dinâmico e portanto variável,


permeando as escolhas que o homem faz, bem como sua ética e moral, no exercício de
suas funções; pode se manifestar dentro da organização, especificamente aqui a
organização policial, de três formas distintas e, algumas vezes, também
interrelacionadas, a saber:

1) o poder delegado por um grupo político partidário e/ou empresarial, que em


determinado momento está no governo ou no comando;
26

2) o poder conseguido através da dominação do discurso, como dizia Platão; e

3) o poder conseguido pela retenção da informação.

No item 1, claro está que a política trata do que há de mais


complexo no universo – os assuntos humanos – e sua relação com os assuntos
humanos tornou-se extremamente complexa. Hoje, pode-se dizer que a política diz
respeito a todas as áreas do conhecimento do homem e da sociedade e efetivamente, o
não político não pode ser isolado do político; tudo o que é não político comporta, pelo
menos, uma dimensão política, e vice-versa: a ecologia, a demografia, a natalidade, a
juventude, a velhice, a saúde, a habitação, o bem-estar, etc.

Mas, como as pessoas dentro das organizações se reúnem para


receber as mudanças?

Isto pode ser respondido através da observação do surgimento dos


grupos, de como estes se estabelecem dentro da organização; neste caso há,
normalmente, uma tríade, composta de diferentes movimentos e jogos.

O movimento tem a ver com o impulso inicial que leva à proposta


de mudança, e o jogo com o que realmente se faz com este impulso, a saber:

1) O Movimento Oficial, que organiza, constrói, coordena, conduz, possui a


autoridade e o comando; constitui apenas 20% dos grupos que formam a
organização; acaba fazendo, na prática, o:

1.1) Jogo Subgrupo Oficial, que é autoritário, castrador, ditador, legalista, coercitivo e
repressor; normalmente realizado por pessoas que só “olham seu umbigo”, que
barram qualquer iniciativa que não os favoreça e que impõem sua vontade;
27

2) O Movimento Oscilante, que integra, concilia, articula, media; constitui 75% dos
grupos que formam a organização; acaba fazendo, na prática, o:

2.1) Jogo Subgrupo Oscilante, que é oportunista, barganhador, omisso,


submisso, adulador, que aplaude ou reclama; normalmente realizado por
pessoas que estão pouco se importando para o resultado do trabalho, que
“ficam sobre o muro” e não se decidem; e, por último,

3) O Movimento Natural, que é inovador, transformador, propõe, questiona; constitui


5% dos grupos que formam a organização; acaba fazendo, na prática o:

3.1) Jogo Subgrupo Natural, que é obstrutor, anárquico, insuflador, divicionista; é


realizado por pessoas que se rebelam contra e qualquer ordem ou norma ou
idéia nova, vendo tudo como incômodo, propondo a desorganização.

Ou seja, toda idéia de mudança tem sempre um grupo que vai


trabalhá-la, um grupo que discorda da idéia e um grupo que precisa ser convencido da
mesma.

As organizações de polícia estão baseadas na forma de


administração científica de Taylor e Fayol, onde cada pessoa se especializa numa
determinada tarefa apenas, por isto aceitar as mudanças, muitas vezes, é difícil levando
a conflitos, como os descritos nos jogos dos subgrupos anteriormente.

Do ponto de vista do trabalho, a alienação do servidor aparece na


constatação de que o funcionário não vê, nem se apropria simbolicamente do resultado
do seu trabalho; a fragmentação das tarefas o transforma em simples elo de uma
corrente, da qual não consegue enxergar o início, o fim, nem a finalidade.
28

Outro ponto pode ser localizado nos estilos de gestão,


particularmente no que diz respeito à hierarquia e à centralização das decisões nas
figuras de autoridade; figuras estas que, apesar de uma certa falta de legitimidade nos
cargos (decorrente da politização indiscriminada dos órgãos públicos) e muitas vezes
da incompetência profissional, assumem os louros do trabalho de suas equipes,
deixando no anonimato aqueles que realmente produziram.

Associado a tudo isto ainda, infelizmente, há uma deterioração da


imagem social do servidor público associada a estereótipos pejorativos que denigrem o
funcionário como profissional: falta de ambição intelectual, acomodação,
despreocupação com resultados, garantia do emprego, acumulação de funções e
gratificações, imagem de ineficiência, de desperdício, falta de coordenação e de
controle, tudo isto sujeito ao clientelismo, à corrupção, à imoralidade.

O funcionário sente assim, tanto pela linguagem objetiva do


salário, como pela linguagem subjetiva dos estereótipos negativos, o quanto o seu
trabalho é desvalorizado e desacreditado; com isto, muitas vezes, o servidor se
acomoda e gera um ciclo vicioso em que ele próprio alimenta os estereótipos e se
desvaloriza e desacredita em seu trabalho.

Se o enfoque, seja na organização policial ou em quaisquer outra,


fosse em parcerias a conseqüência poderia ser o foco recair sobre a resolução criativa
do problema, promovendo o desenvolvimento da confiança mútua, estabelecendo um
raio de ação mais abrangente, enfatizando a participação e o envolvimento; ou seja, o
grupo antecipando as mudanças e não sendo apenas meramente reativo.

As organizações permanentes, como as polícias, não podem ficar


focadas em apenas uma pessoa por mais competente que esta seja, pois não é uma
29

pessoa que faz uma organização, mas as crenças, valores e normas dos grupos que a
formam. Liderar não é impor, mas despertar nas pessoas a vontade de fazer.

No trabalho em equipe ou em grupo há a possibilidade de partilhar


pontos de vista, crenças, informações, desenvolvendo habilidades e compatibilizando o
“novo” com o “velho”; o grupo se torna o próprio instrumento de produção e acaba
levando a uma grande economia de energia.

Ainda que todo processo grupal possa levar a uma revisão da


identidade, o que normalmente provoca resistência à mudança e pode incentivar a
produção de estereótipos, pois mobiliza ansiedades face ao novo/desconhecido, pode-
se afirmar que o processo de tomada de decisão organizacional em grupo apresenta
vantagens e leva a um comportamento mais eficaz.

Ou seja, todos os membros têm a possibilidade de participar da


discussão, a discordância pode ser vista como estimulante e há um incentivo a
interação visando chegar a um acordo; isto pode gerar maior conhecimento, trocas de
mais informações, o surgimento de mais maneiras de se encarar um problema, com
uma maior aceitação no final das soluções e uma maior compreensão da decisão,
levando o indivíduo a ouvir e compreender, e com isto possibilitando a mudança de
opinião.

Mas, como todo processo tem a outra face da moeda, aqui


também pode haver desvantagens e levar a comportamentos ineficazes, dependendo
de quem compõe o grupo e a que interesses pretende atingir na tomada de decisão
organizacional. As desvantagens podem ser: a possibilidade de decisões prematuras, o
domínio de um indivíduo por ser este líder ou por verbalizar melhor e um compromisso
agendado previamente com indivíduos ou grupos antes da solução final. E o
comportamento ineficaz gerado pode ser o de: “vender” opiniões preconcebidas, ouvir
30

só para refutar ou até não ouvir, defender a própria posição até o fim, poucos membros
dominando a discussão, reagir desfavoravelmente à discordância e busca mudar a
opinião dos outros com uma conversa particular.

Ainda sobre as organizações formais, citadas anteriormente,


podemos apontar alguns pontos negativos, como: a possibilidade de causar dano moral
ou psicológico através da força ou da coação, exercendo opressão e tirania contra a
vontade e a liberdade do outro; violência implícita, invisível (impunidade, pressões) que
surge para justificar ideologias ou meios; o desenvolvimento de seres humanos com
poucas alternativas psicológicas de reação, que tendem a repetir o que receberam; o
uso da vingança, da onipotência para reassegurar um ponto de vista ou uma posição; o
conflito entre os objetivos formais e informais e o atendimento dos objetivos ou
interesses daqueles que detém o poder; as oportunidades limitadas a uma parcela
privilegiada; o rótulo de “vadios” e “desordeiros” para homens e mulheres sem
expectativas e com problemas de toda ordem; práticas discursivas e ação
desenvolvimentista à custa de valores éticos e morais; e por último, a acomodação do
funcionário e colocação no dirigente de toda e qualquer responsabilidade de sucesso
ou de fracasso do resultado das ações do primeiro.

A conseqüência disto tudo pode ser um homem doente, física e


emocionalmente, na instituição por se encontrar num meio instável querendo chegar a
uma estabilidade.

A doença acontece devido a falta de regras claras e válidas para


todos independentemente de cargo, ao medo e incerteza, a indisponibilidade de
informação, a aprendizagem limitada e ao fato do grupo de trabalho não compartilhar
experiências; isto tudo gerando que não haja ações futuras mais efetivas.
31

Os riscos de emitir opiniões pessoais, contrariando o


pensamento dos dirigentes, são vividos como ameaças significativas sobre os cargos e
sobre a carreira. Observa-se, por exemplo, como sintoma desse sentimento de ameaça,
o emperramento dos sistemas de comunicação nas organizações públicas, onde nem
mesmo os gerentes se arriscam a repassar informações pelos circuitos oficiais,
preferindo os circuitos informais.

Seguir o código restritamente sem analisá-lo ou questioná-lo é


agir alienadamente, não se levando em consideração o meio que está à volta e a
mudança constante do ser humano.

Retornando as organizações formais, no Brasil a Polícia Civil


nasceu em 1808 com a criação da Intendência Geral de Polícia; já a Polícia Civil de
Santa Catarina foi criada em 1812.

O termo polícia tanto pode significar a corporação encarregada


de manter a ordem, como o próprio elemento que a integra.

A polícia pode ser definida como o “freio” da sociedade, o


“braço” forte do Estado, a censora, investigadora, protetora da sociedade, como o grupo
de pessoas autorizadas por outro grupo, a qual ela pertence, a usar a força física ou
coação (polícia privada ou institucional).

O poder de polícia, segundo Caio Tácito, é o “conjunto de


atribuições concedidas à Administração para disciplinar e restringir, em favor de
interesse público adequado, direito e liberdades individuais”.
32

O poder de polícia deve ter, primordialmente, capacidade


preventiva, isto é, prevenir, evitar, que o ato anti-social e todos os seus conseqüentes
ocorram.

Com os referenciais até aqui explanados, entrando,


especificamente, na organização Polícia Civil, definir-se-á a Gerência de Fiscalização
de Armas e Munições/GEFAM, com sede em Florianópolis, como um sistema, formado
por sub-sistemas, que são os seus funcionários e demais Delegacias Regionais de
Polícia de todo o Estado de Santa Catarina, fazendo parte de um supra-sistema, que é
a Delegacia Geral da Polícia Civil e por conseguinte a Secretaria de Estado da
Segurança Pública, e com uma estrutura hierarquicamente organizada, a saber:

1) Secretaria de Estado da Segurança Pública:

1.1) Delegacia Geral da Polícia Civil:

1.1.1) GERÊNCIA DE FISCALIZAÇÃO DE ARMAS E MUNIÇÕES:

1.1.1.1) Gerência propriamente dita, desenvolvida por um


Delegado de Polícia;
1.1.1.2) Setor Administrativo-Burocrático, desenvolvido por um
Investigador de Polícia, um Escrivão de Polícia e um
Estagiário;
1.1.1.3) Setor Administrativo-Operacional, desenvolvido por um
Comissário de Polícia e, também, pelo Delegado de Polícia
(o Gerente);
1.1.1.4) Setor de Avaliação Psicológica para o Porte de Arma,
(avaliação criada pelo Decreto n.º 2.222 de 08 de Maio de
1997 e Setor criado pela Resolução n° 007/GAB/DGPC/SSP
33

de 28 de Dezembro de 2000) desenvolvido por dois


Psicólogos Policiais lotados na referida Gerência e um
Psicólogo Policial à disposição; sendo que dois dos três
Psicólogos atuam, ainda, como Coordenadores Estaduais da
Avaliação Psicológica para o Porte de Arma, além de serem
responsáveis pela referida avaliação em Florianópolis; nas
demais Delegacias Regionais de Polícia, em todo o Estado, a
Avaliação Psicológica para o Porte de Arma é realizada por
outros Psicólogos Policiais, lotados nestas regionais; e,
1.1.1.5) Delegacias Regionais de Polícia do Estado de Santa
Catarina, em número de 29 (vinte e nove).

A Gerência de Fiscalização de Armas e Munições/GEFAM, tem


sua jurisdição no território estadual (Estado de Santa Catarina) e como objetivos
(Decreto n.º 3.008, em seu artigo 4º, de 30 de Novembro de 1992 - Normas para
Fiscalização de Produtos Controlados no Âmbito do Estado) os que seguem:

I) funcionar como órgão intermediário entre a Diretoria de Polícia do Interior e as


Delegacias Regionais de Polícia, centralizando, no âmbito do Estado, dados e
informações relacionados a produtos controlados;

II) exercer o controle e sugerir normas e instruções, objetivando a eficiência dos


serviços de fiscalização;

III)aprovar, ouvido a Diretoria de Polícia do Interior, formulários e outros


documentos relativos a produtos controlados, dentro dos limites de sua
competência;

IV)zelar pelo fiel cumprimento das disposições contidas no artigo 3º do referido


34

Decreto, que será após discriminado;

V)exercer, privativamente, as atribuições contidas nos incisos I a XXI do artigo 3º


do referido Decreto, dentro dos limites territoriais da Capital do Estado; e

VI)aplicar penalidades de conformidade com o referido Decreto.

O artigo 3º do Decreto n.º 3.008 diz respeito ao que compete a


Diretoria de Polícia do Interior, por intermédio da Gerência de Fiscalização de Armas e
Munições e das Delegacias Regionais de Polícia:

I)autorizar o trânsito de armas registradas, de propriedade de civis, dentro do


País;

II)coordenar a fiscalização de produtos controlados, dentro do território estadual;

III)colaborar com o Ministério do Exército, fiscalizando e identificando empresas


que não estejam devidamente registradas nos órgãos de fiscalização,
procedendo ao embargo das mesmas quando for o caso, comunicando, logo
após, a medida administrativa ao órgão competente daquela instituição;

IV)proceder ao imediato conhecimento ao órgão de fiscalização do Ministério do


Exército, com atuação no Estado, qualquer irregularidade constatada nas
empresas registradas;

V)determinar, por meio da autoridade policial competente, a instauração de


inquérito policial, em casos de acidentes, explosões ou outros sinistros,
provocados por material que seja considerado controlado, fornecendo ao órgão
de fiscalização do Ministério do Exército, cópia dos autos para as providências
35

que entenderem necessárias;

VI)requisitar perícias ou atos análogos em se tratando de acidentes, explosões e


incêndios, provocados por produtos controlados;

VII)cooperar com o Ministério do Exército no controle da fabricação de fogos de


artifícios pirotécnicos e fiscalizar o uso e o comércio desses produtos;

VIII)colaborar com o Ministério do Exército no desembaraço alfandegário de armas


e munições importadas pelas empresas registradas, ou trazidas como
bagagem;

IX)registrar todas as armas de uso permitido, através de formulário específico,


dentro do território estadual;

X)determinar a apreensão de armas que tenham entrado sem autorização no


País, ou cuja origem não seja provada;

XI)determinar a apreensão de armas e munições de uso proibido encontradas em


poder de civis;

XII)determinar a apreensão de armas adquiridas em empresas não registradas no


Ministério do Exército;

XIII)apreender as armas encontradas em poder de civis que não possuam licença


para porte de arma, ou que não estejam devidamente registradas no órgão
competente da Secretaria de Estado da Segurança Pública;
36

XIV)autorizar o porte de arma, de uso permitido, dentro do território estadual, a civis


idôneos;

XV)registrar e fiscalizar os colecionadores de armas, mantendo em dia a relação


do armamento que possuírem;

XVI)fiscalizar os depósitos das firmas registradas no Ministério do Exército para o


comércio e emprego de produtos controlados;

XVII)autorizar transferências ou doações de armas e munições;

XVIII)autorizar e controlar a aquisição de munição de uso permitido;

XIX)fornecer, depois de comprovada habilitação, registro e atestado blaster;

XX)autorizar o comércio e a queima de fogos de artifício; e


XXI)controlar e fiscalizar o transporte e o comércio de combustíveis e inflamáveis.

È importante aqui salientar que, conforme explanado


anteriormente, é através dos objetivos a serem cumpridos pela Gerência de
Fiscalização de Armas e Munições/GEFAM que se dá também, na prática, sua
estrutura decisória formal, que tanto tem:

1) um poder autônomo de tomada de decisão; um exemplo é um Show Pirotécnico,


onde para que haja queima de fogos de artifício e para que o show aconteça é
necessária uma vistoria da GEFAM, que expede ou não a licença, licença esta pré-
requisito para que o Corpo de Bombeiros expeça a sua própria licença; quanto,
dependendo do caso,
37

2) um poder limitado de tomada de decisão; um exemplo é o fornecimento de


alvará de funcionamento de Clubes ou Escolas de Tiro, que para ser expedido
pela GEFAM necessita, primeiramente, do registro dos mesmos no Ministério
do Exército.

Para o cumprimento dos objetivos, anteriormente citados, pela


Gerência de Fiscalização de Armas e Munições há a necessidade de alguns pré-
requisitos, como:

1) Funcionários em número suficiente para a fiscalização, que atualmente acontece


parcialmente devido ao número restrito de pessoal;

2) Prestação de serviço tanto administrativo-burocrático quanto administrativo-


operacional, que atualmente, por falta de funcionários, é mais burocrático;

3) Realização de cursos técnicos para os funcionários, como por exemplo, de


conhecimento e atualização da legislação na área, manuseio e utilização de
arma/explosivos/combustível/fogos de artifício/gasolina, etc., visando qualificá-los
para a fiscalização, o que atualmente não acontece (os cursos); e,

4) Adequação do nome oficial da Gerência ao tipo de serviço que presta; ou seja,


atualmente é Gerência de Fiscalização de Armas e Munições/GEFAM, mas o
serviço que presta não diz respeito só a armas e munições, mas sim a produtos
controlados de modo geral, conforme decretos já citados anteriormente. O nome
correto deveria ser Gerência de Fiscalização de Produtos Controlados ou até
mesmo, deveria haver uma Delegacia de Fiscalização de Produtos Controlados,
conforme já há em outros estados do país, como São Paulo.
38

Em função da deficiência na concretização dos referidos


pré-requisitos, a Gerência de Fiscalização de Armas e Munições acaba por depender,
na grande maioria das vezes, de outros setores e/ou organizações para conseguir
realizar seus objetivos, o que com certeza gera conflitos, mesmo que focarmos apenas
no cumprimento parcial dos decretos e deixarmos de lado as relações interpessoais
entre os vários setores, com suas hierarquias, relações de poder, etc. Sem falar, é
claro, de um conflito básico em todas as instituições brasileiras que é o que a lei
determina que se cumpra e o que o partido político no poder, naquele momento, quer
que se faça: é o “jeitinho brasileiro”. Especificamente quanto a este aspecto, a atual
Gerência, com apoio de seus funcionários, tem feito frente a estas pressões e cumprido
a lei, embora, algumas vezes, com desgastes profissionais e pessoais.

Para a GEFAM, atualmente, os principais conflitos são:

1) o nome oficial que recebeu, pois quando seu funcionário vai, por exemplo,
fiscalizar um Posto de Gasolina e se apresenta com a nomenclatura
“Fiscalização de Armas e Munições”, o órgão há ser fiscalizado quer saber com
que autoridade este funcionário ali está; aí, há sempre que se fazer toda uma
preleção antes da fiscalização; e

2) os funcionários da GEFAM que trabalham com desvio de função, por exemplo:


um Investigador de Polícia, que ao invés de atuar em investigação policial em
Delegacia de Polícia, está na referida gerência fazendo trabalho burocrático, ou
seja, falta pessoal com qualificação para as funções que a GEFAM necessita.

Independentemente destes conflitos, que com certeza podem


acabar por tornar o processo moroso e muitas vezes não tão qualificado quanto se
gostaria e poderia fazer, de maneira geral, todos os funcionários comungam da mesma
39

idéia em relação ao serviço que prestam, ou seja, realizá-lo da melhor maneira


possível, ainda que cercados de limitações.

A Gerência de Fiscalização de Armas e Munições, bem como


seus funcionários, no tocante ao Registro e Porte de Arma, acredita que o ideal seria
não se precisar e não ter uma arma, mas já que, infelizmente, nos dias de hoje este
objeto pode vir a ser um fator de proteção e segurança, que haja um controle estatal
sobre a arma adquirida pelo cidadão comum, bem como um incremento da fiscalização
sobre estas armas.

E este é, hoje, ainda, um dilema diário para muitos dos


profissionais da Gerência de Fiscalização de Armas e Munições, ou seja, sem perder
esta visão de todo, poder fazer frente aos “pedidos” do social, agindo dentro da lei mas
não rigidamente (fechado para novas aprendizagens e novas interações).

Ou seja, finalizando, é possível, sim, fazendo ética e tendo e


sendo moral, sobreviver dentro da Gerência de Fiscalização de Armas e
Munições/GEFAM da Delegacia Geral da Polícia Civil.
40

CONCLUSÃO

As transformações sociais advindas da era tecnológica


ativaram oportunidades mas também instabilidade e incertezas.

Neste processo surge um ambiente funcional caracterizado


pela falta de equilíbrio e a garantia do emprego vitalício cede espaço para um emprego
que depende do contexto econômico global.

A conseqüência disto é que um empregado, assustado em


perder sua posição, pode adotar atitudes como não fornecer informações corretas e
precisas, ou não compartilhar experiências com os colegas, ou concordar com tudo que
lhe é exigido pelo gerente, ou se comprometer superficialmente com o trabalho, ou
cuidar de seus próprios interesses; tudo isto gera planejamentos e decisões
truncadas, que acabam levando à desconfiança, ao medo, a ineficácia da organização.

Para quebrar esta conseqüência só através da promoção,


por parte dos líderes, de um ambiente encorajador, que estimule a confiança, o respeito
e a reciprocidade com incentivo à autonomia com responsabilidade. E para que haja
comprometimento compartilhado por todos é necessária à compreensão, por parte dos
funcionários, do que está sendo solicitado como tarefa e o que podem fazer a respeito
da solicitação.

O envolvimento das pessoas no produto final do seu trabalho


implica, ainda, em revisão de paradigmas (valores e crenças), gerando mudanças de
comportamento, incentivando o papel de cidadão do funcionário.
41

Cada vez mais as pessoas estão se voltando para a


aquisição de atitudes de cidadania, na busca de propiciar maior entendimento e
harmonia entre si.

As leis não são feitas para definir os direitos das pessoas,


mas para proporcionar estes direitos.

Uma coisa é obedecer a lei por obrigação, ou seja, pela


necessidade e pela força, outra é pelo dever, pela vontade. Obedece-se por
necessidade a lei, porque o contrato social é unilateral; obedece-se por vontade,
porque o contrato social é bilateral: “recebo isto e dou aquilo”. Ser disciplinado significa
domar suas inclinações e isto se faz na infância: a família é a primeira célula social,
onde até crescer a criança não tem contrato social, pois isto vai acontecer com o uso da
razão.

A sociedade tem e sempre teve um potencial de conflito, ou


seja, é o conflito no momento ou na iminência de acontecer. O importante é a
consciência do homem de que necessita conquistar e manter seu espaço dentro da
instituição, de que ações bem pensadas e estruturadas levam a soluções politicamente
viáveis, atendendo a coletividade, e de que é necessária a conquista do conhecimento
e o repensar as crenças.

Finalizando, o homem na sua organização pode tornar-se


um funcionário equilibrado e solidário, contribuindo para o seu desenvolvimento
profissional e da sua empresa, se:

1) Conhecer o seu trabalho e as suas tarefas;

2) Tiver clareza das suas responsabilidades;


42

3) Agir com profissionalismo no exercício da sua função;

4) Tiver uma atitude de bom senso;

5) Aprender as lições no dia-a-dia, observando as suas falhas e as dos outros, para


não repeti-las;

6) Não usar as falhas dos outros como motivo para discussões;

7) Avisar quando perceber algum problema;

8) Fizer uma avaliação sincera do seu comportamento;

9) Reconhecer e superar os seus erros e limites; e

10) Aprender a aceitar as deficiências dos outros.


43

BIBLIOGRAFIA

Aulas ministradas no Curso de Pós-Graduação à nível de Especialização em


Segurança do Cidadão da UNISUL:
Professora Angelise Valladares Monteiro – Processo de tomada de decisão aplicado;
Professor Francisco Bissoli Filho – Sistema de segurança pública no Brasil;
Professor Gilberto Callado – Sociologia do crime e da pena;
Professora Ilma Borges – Relações interpessoais;
Professor José Dimas Maciel Monteiro – Ètica e cidadania;
Professora Mara Taisa Carvalho Orssatto – Qualidade em serviços;
Professor P.M. Nazareno Marcineiro – Fundamentos da polícia comunitária;
Professor Paulo Roberto Sandrini – Abordagem sócio-psicológica da violência; e
Professor Paulo Roney Ávila Fagúndez – Fundamentos políticos da atividade do
profissional de segurança do cidadão.
BARBOSA, Manoel Messias. Polícia. In: Inquérito policial. São Paulo, 1989;
BATESON, Gregory. Passos para uma ecologia da mente. Ed. Vozes;
BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação;
BOBBIO, Norberto. Três textos sobre a violência. São Paulo: Revista USP;
CAPERS, KAHLER, O miniargumento. In: Prêmios Eric Berne. São Paulo: Revista da
União Nacional de Analistas Transacionais (UNAT-BR), 1982;
CHÂTELET, François e KOUCHNER, Évelyne Pisier. Freud contra a moral. In.:
Preliminares - as concepções políticas do século XX – história do pensamento político.
Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983. p. 47;
DAMATTA, R. A casa e a rua. São Paulo: Brasiliense,1985;
DELLASOPPA, Emílio E. Reflexões sobre a violência, autoridade e autoritarismo. São
Paulo;
44

FAGÚNDEZ, Paulo Roney Ávila. O holismo e a garantia dos direitos fundamentais. p. 8


(texto do Curso de Especialização Segurança do Cidadão);
_________________________. Processo e holismo. p. 3-4 (texto do Curso de
Especialização Segurança do Cidadão);
FERREIRA, A. Mini dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1993;
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 1999;
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70,
1995;
______________. Transição do conhecimento moral da razão vulgar para o
conhecimento filosófico. In.: Fundamentação da metafísica dos costumes. Edições 70,
1995. p. 31;
KELLY & ALISSON. Sobrevivendo no medo e desenvolvendo-se na confiança. In.: The
complexity advantage. cap. 5 e 6;
MATOS, Aécio Gomes de. Alienação no serviço público (texto do Curso de
Especialização Segurança do Cidadão);
MORIN, Edgar. Introdução. In: Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 1986. p. 15 –16;
____________. Racionalidade e racionalização. In: Para sair do século XX. Rio de
Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986. cap. 3, p. 135;
____________. Por uma nova relação com os mitos. In: Para sair do século XX. Rio de
Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986. cap. 3, p.273;
NASCIMENTO, Zélia. Pensamento sistêmico (texto do Curso de Terapia Familiar
Sistêmica);
NASCIMENTO, Zélia. Teoria geral dos sistemas (texto do Curso de Terapia Familiar
Sistêmica);
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral – uma polêmica. In: Além do bem e do
mal. Companhia das Letras;
NOVAES, A (org.). Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992;
45

ROUSSEAU. Da escravidão. In: Do contrato social. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
cap. IV, p. 61;
SENGE, Peter M. A quinta disciplina: arte, teoria e prática da organização de
aprendizagem. São Paulo: Editora Best Seller, 1990;
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 21.ed. São Paulo:
Cortez, 2000. p. 279;
SINGER, Peter. Ética prática. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998;
VÁSQUEZ, Adolfo Sánchez. Ètica. 21. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001;
46

ANEXOS

ANEXO I :
ESTATUTO DA POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DE SANTA CATARINA;

ANEXO II:
DECRETO N°3.008, DE 30 DE NOVEMBRO DE 1992 – INSTITUI NORMAS PARA
FISCALIZAÇÃO DE PRODUTOS CONTROLADOS NO ÂMBITO DO ESTADO DE
SANTA CATARINA E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS;

ANEXO III:
LEI N°9.437, DE 20 DE FEVEREIRO DE 1997 – INSTITUI O SISTEMA NACIONAL DE
ARMAS – SINARM, ESTABELECE CONDIÇÕES PARA O REGISTRO E PARA O
PORTE DE ARMA DE FOGO, DEFINE CRIMES E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS;

ANEXO IV:
DECRETO N°2.222, DE 08 DE MAIO DE 1997 – REGULAMENTA A LEI N°9.437, DE
20 DE FEVEREIRO DE 1997;
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ANEXO V:
LEI N°11.617, DE 05 DE DEZEMBRO DE 2000 – ESTABELECE NOVA REDAÇÃO A
DISPOSITIVOS PREVISTOS NA LEI N°7.541, DE 30 DE DEZEMBRO DE 1988,
ALTERADOS PELA LEI N°10.298, DE 26 DE DEZEMBRO DE 1996, QUE DISPÕE
SOBRE TAXAS ESTADUAIS;

ANEXO VI:
RESOLUÇÃO N°007/GAB/DGPC/SSP/00 – DISPÕE SOBRE NORMAS PARA A
APLICAÇÃO DA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA E COMPROVAÇÃO DE CAPACIDADE
TÉCNICA PARA MANUSEIO DE ARMA DE FOGO, BEM COMO DÁ OUTRAS
PROVIDÊNCIAS.