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Escola de Ciências

Eugénia Leandro da Silva Araújo

Geoturismo: Conceptualização,
Implementação e Exemplo de Aplicação ao
Vale do Rio Douro no Sector Porto-Pinhão

Outiubro de 2005
Escola de Ciências

Eugénia Leandro da Silva Araújo

Geoturismo: Conceptualização,
Implementação e Exemplo de Aplicação ao
Vale do Rio Douro no Sector Porto-Pinhão

Tese de Mestrado em Ciências do Ambiente

Trabalho efectuado sob a orientação do


Professor Doutor Diamantino Pereira

Outubro de 2005
Agradecimentos

Este trabalho foi realizado com o apoio e a ajuda de várias pessoas, algumas das quais
merecem especial destaque e a quem quero expressar a minha gratidão.

Ao Professor Diamantino Ínsua Pereira quero deixar aqui expresso o meu muito obrigado, pelo
acompanhamento prestado desde o início, pela disponibilidade demonstrada, pela sua
paciência, pelos seus ensinamentos, pela sua leitura crítica, pelas correcções, pelas suas
sugestões, concedendo-me sempre a liberdade necessária para eu expôr as minhas ideias e
opiniões, pela simpatia e boa disposição. Quero também agradecer o encorajamento dado ao
longo destes dois anos.

Ao Professor José Brilha quero agradecer o facto de me ter facultado material de apoio,
nomeadamente sobre a temática do património geológico e do geoturismo, sempre que o
solicitei para tal.
Ao Professor Espinha Marques o meu agradecimento por ter-me enviado artigos sobre o seu
trabalho em Caldas do Moledo, bem como pela disponibilidade demonstrada para esclarecer as
minhas dúvidas.
À Professora Graciete Dias agradeço os artigos que me facultou sobre os granitóides.
Ao Paulo pelo seu incentivo e pelos seus ensinamentos sobre o Photoshop.

Aos operadores turísticos Douro Acima e Via D`Ouro que me ofereceram cruzeiros no rio
Douro para que fosse possível realizar o guia geoturístico que apresento.

Aos meus pais e à minha irmã, o meu especial agradecimento, não só pelo incentivo, mas
também pela sua compreensão e apoio nos momentos mais difíceis.

Para o Rui Silva o meu profundo agradecimento por todos os momentos em que disponibilizou
o seu tempo para me ajudar nas mais variadas tarefas, por me ter substituído em actividades da
minha responsabilidade e pelo seu incentivo incondicional.

Para os meus amigos, o meu obrigado pelo incentivo, apoio e compreensão em todos os
momentos.

A todos aqueles, que apesar de aqui não serem citados, contribuíram de alguma forma para
a realização deste trabalho, o meu sentido agradecimento.

iii
Geoturismo: conceptualização, implementação e exemplo de
aplicação ao vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Resumo

Palavras-chave: rio Douro, desenvolvimento sustentável, turismo sustentável, turismo da


natureza, ecoturismo, património geológico, geoturismo, cruzeiros fluviais, geologia, guia
geoturístico.

A área abrangida pela presente dissertação está enquadrada na região do vale do rio Douro,
no sector Porto-Pinhão. Pretende-se com a abordagem da geologia deste sector e da
temática do geoturismo a valorização geoturística da sua geodiversidade e do seu Património
Geológico. Com a crescente preocupação da preservação da natureza surgiu o conceito de
desenvolvimento sustentável, que deve ser considerado em todas as actividades humanas,
incluindo o turismo. O sector do turismo, muitas vezes apontado como prejudicial para a
natureza de diversas regiões, deve operacionalizar o conceito de sustentabilidade em todas as
suas actividades, contribuindo assim para um desenvolvimento sustentável global. O interesse
crescente dos turistas pela realização de actividades ao ar livre ou pela mera contemplação
da natureza contribuiu para o aparecimento do turismo baseado na natureza. O ecoturismo,
uma das modalidades do turismo da natureza, integra o geoturismo, que surge assim como
uma actividade importante na conservação, valorização e divulgação do Património
Geológico, parte integrante do Património Natural. O geoturismo é uma forma de turismo
sustentável que pode contribuir para o desenvolvimento económico de muitas regiões,
respeitando os critérios de sustentabilidade. O vale do rio Douro proporciona uma paisagem
única e grandiosa que milhares de turistas contemplam anualmente através da realização de
cruzeiros fluviais com duração variável, dependendo do percurso que é efectuado, bem como
das múltiplas actividades complementares que são propostas aos turistas, para além da mera
viagem de barco. Ao longo do seu vale, muitos são os aspectos geológicos que contribuem
para a singularidade da paisagem. No seguimento deste pressuposto caracteriza-se a geologia
do vale do rio Douro, no sector Porto-Pinhão. É apresentada uma descrição da estratigrafia e
das litologias que afloram no sector referido, cuja idade vai desde o Précâmbrico/Câmbrico
até ao Carbonífero e do Pliocénico ao Holocénico. Os recursos minerais, como as minas de
ouro e as águas termais, e energéticos, como as minas de carvão e as barragens, são também
aspectos geológicos de destaque nesta região. É feita a aplicação do conhecimento
geológico da região através da apresentação de uma proposta de guia geoturístico do
percurso fluvial Porto-Pinhão. Neste guia faz-se referência aos aspectos geológicos mais
relevantes, bem como à cultura e história da região duriense, através de um conjunto de
pontos de interesse desde a cidade do Porto à vila ribeirinha do Pinhão.

v
Geotourism: concept, implementation and application example
to Douro river valley in the Porto-Pinhão sector

Abstract

keywords: Douro river, sustainable development, sustainable tourism, tourism of the nature,
ecotourism, geological heritage, geotourism, fluvial cruises, geology, geotouristic guide.

The area included by the present work is integrated in the area of the valley of the Douro river, in
the sector Porto-Pinhão. With the approach of the geology of this sector and of the theme of the
geotourism this work aims to contribute for the geotouristic valorization of his geodiversity and
Geological Heritage. With to growing concern of the preservation of the nature the concept of
sustainable development appeared that it should be considered in all of the human activities,
including the tourism. The sector of the tourism, a lot of times appeared as responsible by the
destruction of the nature in several areas, should put in action the sustainability concept in all
their actividades, contributing like this to a global sustainable development. The tourists growing
interest for the outdoor activities or for the pure contemplation of the nature contributed to the
appearance of the tourism based on the nature. The ecotourism, one of the modalities of the
tourism of the nature, integrates the geotourism, that appears as an important tool in the
conservation, valorization and popularization of the Geological Heritage, integral part of the
Natural Heritage. The geotourism is a form of sustainable tourism that can contribute to the
economic development of a lot of areas, respecting the sustainability criteria. The Douro valley
provides an only and magnificent landscape that thousands of tourists annually contemplate
through the fluvial cruises, whose duration is variable, depending on the boat that realize them,
as well as of the multiple complemental activities that are proposed to the tourists, for besides
the mere boat trip. Along Douro valley, there are many geological aspects that contribute to
the singularity of the landscape. Continuing this presupposition the geology of the valley of the
Douro river is characterized, in the sector Porto-Pinhão, referring the stratigraphy of this sector. It is
presented a description of the litologies that exist in the referred sector, whose age is going from
Precambrian/Cambrian to the Carboniferous and of Pliocene to Holocece. For besides the
litologies, the mineral resources, as the gold mines and the thermal waters, and energy, as the
coal mines and the dams, are relevant geological aspects in this area. It is made the application
of the geological knowledge of the area through the presentation of a proposal of geotouristic
guide of the fluvial course Porto-Pinhão. In this guide, is made reference to the more relevant
geological aspects, as well as to the culture and history of the Douro region, through a group of
points of interest from the city of Porto to the riverine town of Pinhão.

vi
Índice Geral

Cap. I – Introdução .............................................................................................................


1

1.1 Plano geral da dissertação ........................................................................................................................


2
1.2 Contextualização do trabalho ..................................................................................................................
3
1.3 Objectivos e Metodologia .........................................................................................................................
4
1.4 Caracterização da Bacia Hidrográfica do rio Douro ............................................................................
6

Cap. II – Conceptualização e implementação do Geoturismo ....................................


17

2.1 Desenvolvimento sustentável e ecoturismo ............................................................................................


18
2.2 Geodiversidade, Património Geológico e Geoconservação ...............................................................
24
2.3 Geodiversidade e Biodiversidade: comparação e integração ..........................................................
29
2.4 Iniciativas internacionais e nacionais de geoconservação ..................................................................
31
2.5 Geoturismo ..................................................................................................................................................
39
2.6 Implementação do ecoturismo ................................................................................................................
42
2.6.1 Os intervenientes ..............................................................................................................................
42
2.6.2 A interpretação da natureza ..........................................................................................................
45
2.6.3 O ecoturismo em Áreas Protegidas ...............................................................................................
48
2.7 O ecoturismo e o geoturismo em Portugal ..............................................................................................
49
2.7.1 Exemplos nacionais de iniciativas geoturísticas ...........................................................................
52
2.8 Os cruzeiros fluviais e o turismo na região do Vale do rio Douro ..........................................................
58

Cap. III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão ..................................


65

3.1 Introdução ....................................................................................................................................................


66
3.2 Estratigrafia ...................................................................................................................................................
66
3.2.1 Précâmbrico superior – Câmbrico .................................................................................................
66
3.2.1.1 Grupo do Douro ...................................................................................................................
69
3.2.2 Outras ocorrências ...........................................................................................................................
75
3.2.3 Ordovícico .........................................................................................................................................
77
3.2.4 Silúrico ................................................................................................................................................
79
3.2.5 Devónico ...........................................................................................................................................
80
3.2.6 Carbonífero .......................................................................................................................................
80
3.2.7 Cenozóico .........................................................................................................................................
83
3.2.7.1 Pliocénico .............................................................................................................................
83
3.2.7.2 Pleistocénico ........................................................................................................................
87
3.2.7.3 Holocénico ...........................................................................................................................
87
3.3 Granitóides ..................................................................................................................................................
88

vii
3.4 Modelo evolutivo no contexto dos Ciclos Varisco e Alpino ..................................................................
90
3.4.1 Deposição e evolução do Grupo do Douro ................................................................................
90
3.4.2 A bacia no Paleozóico inferior ........................................................................................................
91
3.4.3 A tectónica varisca ..........................................................................................................................
92
3.4.4 A génese e evolução da Bacia Carbonífera do Douro (BCD) e
a instalação de granitóides sin D3 ..................................................................................................
93
3.4.5 A evolução Meso-Cenozóica .........................................................................................................
94

Cap. IV – Recursos Minerais e Energéticos do vale do rio Douro


no sector Porto-Pinhão ......................................................................................
97

98
4.1 Introdução ....................................................................................................................................................
4.2 Recursos minerais .......................................................................................................................................
98
4.2.1 Ouro ...................................................................................................................................................
98
4.2.2 Termas ................................................................................................................................................
100
4.3 Recursos energéticos ..................................................................................................................................
103
4.3.1 Carvão ...............................................................................................................................................
103
4.3.2 Aproveitamentos hidroeléctricos ...................................................................................................
104

Cap. V – Cheias do rio Douro ............................................................................................


107

Cap. VI – Aplicação do conhecimento geológico ao turismo da região –


proposta de guia geoturístico ...........................................................................................
115

Cap. VII – Considerações finais .........................................................................................


197

Bibliografia ............................................................................................................................
201

viii
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

1.1 Plano geral da dissertação

Este trabalho encontra-se estruturado em sete capítulos. No primeiro capítulo é


feita uma descrição sintética sobre a estrutura da dissertação, a sua contextualização
e ainda uma abordagem aos objectivos que se pretendem atingir com a realização
deste trabalho. No fim do capítulo, surge a caracterização da bacia hidrográfica do
rio Douro.
O segundo capítulo é dedicado à valorização turística do Património Geológico,
enquadrando-se o conceito de geoturismo no panorama do desenvolvimento
sustentável e do ecoturismo. Procede-se à definição dos conceitos de Património
Geológico, Geodiversidade e Geoconservação, dado a sua estreita relação com o
geoturismo. O conceito de geoturismo é depois discutido, apresentando-se definições
de vários autores que vão sendo confrontadas. Enfatizam-se de seguida as
interacções existentes entre a geodiversidade e a biodiversidade e as comparações
efectuadas entre os dois conceitos. Depois, destacam-se algumas iniciativas nacionais
e internacionais que visam a conservação do Património Geológico. A integração do
conceito de geoturismo no conceito de ecoturismo pressupõe a existência de
estratégias e metodologias comuns, daí que, de uma forma sintética, é referida a
implementação do ecoturismo, destacando-se os vários protagonistas envolvidos, os
diversos aspectos do processo de interpretação da natureza e a forma como o
ecoturismo é desenvolvido nas áreas protegidas. Posteriormente, o geoturismo é
referido na sua vertente pragmática, sendo dados alguns exemplos nacionais e
internacionais de geoturismo. Por último, faz-se uma abordagem aos cruzeiros turísticos
no rio Douro, nomeadamente à evolução desta actividade turística nos últimos anos e
ao seu modo de funcionamento. É feita também uma referência ao que tem sido
feito e ao que ainda está previsto fazer com o objectivo de desenvolver o turismo na
região do Vale do rio Douro.
No terceiro capítulo dedicado à caracterização da geologia do vale do rio Douro,
no sector Porto-Pinhão, faz-se a descrição da estratigrafia desde o Pré-
Câmbrico/Câmbrico ao Carbonífero e do Pliocénico ao Holocénico. De seguida,
caracterizam-se os granitóides existentes no referido sector. Este capítulo termina com
um modelo evolutivo, onde se integram as litologias anteriormente descritas com os
processos geológicos e tectónicos que ao longo do tempo geológico condicionaram
a sua génese.
No quarto capítulo, dedicado aos recursos minerais e energéticos existentes no
vale do rio Douro até ao Pinhão, faz-se uma abordagem à exploração mineira de ouro
e de carvão, aos aproveitamentos hidroeléctricos e às termas.

2
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

No quinto capítulo é feita uma breve referência às cheias do rio Douro, fenómeno
que afecta frequentemente a população ribeirinha.
No sexto capítulo é apresentada uma proposta de guia geoturístico, onde são
apresentados vários pontos de interesse não só geológicos, mas também culturais e
históricos, no percurso fluvial Porto-Pinhão.
No sétimo e último capítulo são feitas algumas considerações finais, sendo
apresentadas conclusões e sugestões para futuros trabalhos.

1.2 Contextualização do trabalho

A região do vale do rio Douro caracteriza-se por ser uma região com um baixo
nível de desenvolvimento, apesar da constante referência ao seu forte potencial
económico. O reduzido investimento público dificulta a valorização e divulgação da
riqueza do património natural, cultural e histórico que possui. Reconhecidas as suas
potencialidades turísticas, o turismo surge como a actividade económica capaz de
impulsionar o desenvolvimento económico, social e cultural da região do Douro. Uma
das actividades turísticas que mais tem crescido nos últimos anos são os cruzeiros
fluviais. Estes cruzeiros, apresentando várias modalidades e sendo realizados em vários
tipos de embarcações, trazem para a região muitos turistas. No entanto, os cruzeiros
potenciam outras actividades, a sua maioria relacionadas com a viticultura, como as
visitas às quintas e a prova de vinhos. De uma forma geral, o turismo que se
desenvolve na região está direccionado para a história secular da cultura da vinha e
para os vinhos de grande qualidade que aí são produzidos.
No entanto, a geologia e a geomorfologia são igualmente aspectos de grande
relevância nesta região, tendo um papel essencial na beleza e atractividade turística
da paisagem duriense. Na ausência de documentação de suporte no âmbito da
Geologia constatada na realização dos cruzeiros fluviais, elaborou-se um guia do
percurso fluvial Porto-Pinhão em que são abordados os aspectos geológicos mais
importantes, integrando-os sempre que possível com a história e cultura dos locais. A
abordagem da geologia nos cruzeiros no rio Douro contribuirá para aumentar a
qualidade e o interesse deste produto turístico bem como para uma maior satisfação
dos turistas, na medida em que lhes é proporcionada uma experiência mais
enriquecedora. A região do Douro apresenta potencialidades para que o geoturismo
possa constituir uma nova vertente turística, constituindo uma opção alternativa viável
ou explorando a sua associação com o turismo direccionado sobretudo ao produto
Vinho do Porto.

3
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

1.3 Objectivos e Metodologia

Neste trabalho pretende-se, numa primeira fase, que sejam atingidos os seguintes
objectivos:

• aquisição de conhecimentos sobre a temática do geoturismo, reforçando a sua


importância no desenvolvimento económico e social de uma região;
• aquisição de conhecimentos sobre a geologia da região do Douro, nomeadamente
do sector Porto-Pinhão.

Depois de concretizados os objectivos anteriores, o objectivo seguinte é a


aplicação dos conhecimentos adquiridos na elaboração de um guia geoturístico do
percurso fluvial Porto-Pinhão. Por sua vez, com a apresentação de uma proposta de
um guia geoturístico para a região do vale do Douro visa-se:

• sensibilizar para a geodiversidade existente na região do Vale do Douro;


• promover a valorização geoturística da região do Vale do Douro;
• aplicar o conhecimento geológico ao turismo da região do Vale do Douro;
• suscitar a introdução de aspectos da geodiversidade nos cruzeiros fluviais,
permitindo aos turistas um conhecimento mais amplo sobre a região do vale do rio
Douro;
• integrar a geodiversidade com a biodiversidade, a história e cultura da região;
• alertar para as pontencialidades da região do Douro no desenvolvimento do
geoturismo.

Para a elaboração do guia foram previamente realizados cruzeiros no rio Douro. A


realização dos cruzeiros visava, numa primeira fase, definir, no sector Porto-Pinhão, os
motivos de interesse geológico, cultural e histórico, que poderiam ser focados ao
longo do percurso fluvial. Desta forma, ficámos com uma ideia acerca dos motivos de
interesse turístico entre o Porto e o Pinhão para puder determinar os temas que seriam
pertinentes abordar. A realização dos cruzeiros permitiu ainda efectuar a contagem
do tempo que pretendia colocar no guia, ter conhecimento do nível e tipo de
informação que era veiculada aos turistas e o contacto directo não só com os turistas,
mas também com as pessoas que trabalham nas embarcações e que contactam
anualmente com milhares de turistas. Este contacto revelou-se bastante enriquecedor,
na medida em que possibilitou a aquisição de informações acerca da satisfação,

4
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

necessidades e desejos dos turistas, assim como dos que trabalham nesta actividade
turística.
A informação a disponibilizar ao público foi dividida em três níveis: o primeiro nível
que ocupa a página frontal em cada ponto de interesse; o segundo nível que se
encontra no verso da folha nos pontos de interesse em que tal foi considerado
necessário; o terceiro nível de informação, mais detalhado, pode ser encontrado nos
restantes capítulos do presente trabalho, nomeadamente nos terceiro, quarto e quinto
capítulos.
Na elaboração do guia procuramos utilizar uma linguagem acessível, passível de
ser compreendida por quem tem uma reduzida cultura geológica e em introduzir,
sempre que possível, imagens, gráficos ou esquemas ilustrativos que auxiliassem na
compreensão da informação transmitida.
Numa segunda fase, com o guia quase terminado, a realização de mais um
cruzeiro serviu para testar na prática a sua aplicação, para posteriormente fazer os
ajustamentos necessários, nomeadamente no que diz respeito ao volume de
informação fornecida, verificando se era ajustado ao tempo que separa pontos de
interesse consecutivos.
Adicionalmente aos cruzeiros fluviais, realizaram-se saídas de campo pelas
margens do rio Douro, com o objectivo de conhecer e observar com o pormenor que
não é possível a quem viaja de barco, as litologias que afloram nas duas margens.

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Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

1.4 Caracterização da Bacia Hidrográfica do rio Douro

Introdução

A bacia hidrográfica do Rio Douro (BHD) encontra-se localizada entre os paralelos


40º 20` e 43º 10` de latitude Norte, e os meridianos 1º 43` e 8º 40` de longitude Oeste,
cortando longitudinalmente a Península Ibérica com uma orientação dominante Este-
Oeste (Figura 1). A sua área é de 97603 Km2, sendo 78960 Km2 em Espanha (80,9%) e os
restantes 18643 Km2 (19,1%) em Portugal (Plano da Bacia Hidrográfica do rio Douro –
PBHD, 1999).
A BHD é a maior bacia hidrográfica da Península Ibérica e o rio Douro um dos rios
mais extensos (o terceiro maior, depois do Tejo e do Ebro). Do seu percurso total, 927
Km, 208 Km situam-se em Portugal, 122 Km servem de fronteira (Douro Internacional) e
597 Km, situam-se em Espanha (PBHD, 1999).

Figura 1 – Bacia hidrográfica do rio Douro e de outros rios peninsulares.


(Fonte: Plano da Bacia Hidrográfica Portuguesa do Rio Douro)

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Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

Ém território português a BHD é delimitada a norte pelas bacias do rio Leça, Ave, e
Cávado e a Sul pelas bacias dos rios Tejo, Mondego e Vouga (Figura 2).

Figura 2 – Bacias hidrográficas que limitam a norte e a sul


a Bacia Hidrográfica Portuguesa do rio Douro (Fonte: www.snirh.inag.pt).

Os principais afluentes do rio Douro em Espanha são o Esla, o Valderaduey e o


Pisuerga na margem direita, o Huebra e o Tormes que desaguam no troço
internacional, o Águeda que serve de fronteira, o Guarena, o Adaja e o Riaza na
margem esquerda.
Em Portugal, destacam-se na margem direita temos os rios Sabor, Tua, Corgo,
Tâmega e Sousa e na margem esquerda os rios Côa, Távora e Paiva (Figura 3).

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Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

Figura 3 – As principais sub-bacias da bacia hidrográfica portuguesa do rio Douro.


(Fonte: Plano da Bacia Hidrográfica Portuguesa do Rio Douro)

As suas condições geológicas, morfológicas e climáticas, contribuem para uma


assinalável geodiversidade e biodiversidade e para os constrastes existentes no que diz
respeito à ocupação humana.

Geologia

Em Portugal, a BHD está integrada numa unidade morfoestrutural bem


diferenciada na Península Ibérica, o denominado Maciço Hespérico, que é constituído
por um substrato rochoso de idade paleozóica e precâmbrica relacionado com o
orógeno Varisco (Pereira et al., 1996). A Bacia Hidrográfica Portuguesa do Douro
(BHPD) integra-se na Zona Centro-Ibérica (ZCI) e apenas, junto à foz do rio Douro, está
instalada em terrenos do Precâmbrico incluídos na Zona de Ossa Morena (ZOM). A
sua evolução tectónica posterior é imposta pela orogenia Alpina, por reactivação das
falhas tardi-variscas e levantamento orogénico, factos que estão na origem dos seus
actuais traços estruturais. Na BHPD podem ser definidas unidades autóctones,
parautóctones e alóctones hercínicas, bem como rochas granitóides e depósitos de
cobertura cenozóicos(Pereira et al., 1996).
Nas unidades autóctones distingue-se uma pequena porção de terrenos do
Precâmbrico, situada a sul da foz do rio Douro, integrada na ZOM, que inclui rochas de

8
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

alto grau metamórfico como ortognaisses biotíticos, paragnaisses, migmatitos e


anfibolitos. As unidades autóctones integradas na ZCI, ocupam o sector a leste de
Bragança, Douro Internacional, Serra da Marofa e vale do Douro até ao Porto,
interrompidas por granitóides na região entre Lamego e Castelo de Paiva (Pereira et
al., 1996). Quanto às litologias predominantes nas unidades autóctones destacam-se:
- xistos e grauvaques com intercalações de quartzitos e conglomerados (Complexo
Xisto-Grauváquico do Vale do Douro – Grupo do Douro);
- quartzito “Armoricano”;
- xistos ardosíferos;
- xistos negros, xistos carbonosos, filitos esverdeados e quatzofilitos;
- xistos argilosos negros.
As unidades parautóctones e alóctones ocupam grande parte da área de Trás-os-
Montes e correspondem a um empilhamento de unidades separadas por
carreamentos de base e separadas das unidades autóctones pelo carreamento de
base do Parautóctone. Destacam-se das unidades parautóctones as Unidades
Peritransmontanas, onde predominam xistos, quartzitos e grauvaques. Os Maciços de
Bragança e Morais constituem o empilhamento das unidades alóctones média e
superior, onde estão representadas sequências da crusta oceânica e continental.
Os depósitos superficiais são reduzidos e de um modo geral correspondem a
depósitos situados na base das cristas quartzíticas, constituídos por clastos de quartzito
e quartzo mal rolados (Ferreira, 1981), bem como depósitos de natureza fluvial e aluvial
que restam de uma paleodrenagem anterior à actual (Pereira, 1997). Os depósitos de
terraços fluviais são também escassos, devido ao forte encaixe da rede fluvial,
destacando-se no entanto os terraços fluviais associadas à bacia de Chaves (Pereira
et al., 1996).
Os granitóides enquadrados na BHPD, integram os granitos hercínicos
característicos da ZCI, cuja instalação foi sobretudo controlada pela 3ª fase de
deformação hercínica(D3) (Ferreira et al., 1987). Relativamente a esta fase de
deformação, são divididos em três grupos:
- granitóides ante D3;
- granitóides sin D3;
- granitóides tardi a pós D3.
Os granitóides ante D3 correspondem a granitos de duas micas, apresentando
geralmente grão médio a grosseiro, por vezes com tendência porfiróide e um carácter
peraluminoso, sendo a plagioclase pouco cálcica. Os granitóides sin e tardi a pós D3
correspondem a granitos biotíticos com plagioclase cálcica, associados a
cisalhamentos dúcteis, e a granitos de duas micas com restitos (Pereira et al., 1996). Os
granitóides tardi a pós-orogénicos, instalaram-se depois das fases de deformação

9
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

anteriormente referidas, sobre o controlo da fracturação frágil tardia. Correspondem a


granitos biotíticos, apresentando geralmente grão médio a médio-grosseiro, por vezes
porfiróides (Pereira et al., 1996).

Dos elementos tectónicos, destacam-se a falha de Verim-Régua e a falha de


Bragança-Vilariça (Cabral & Ribeiro, 1988). Estes acidentes têm rejogado até à
actualidade e registam actividade sísmica (Cabral, 1995). Encontram-se orientadas
NNE-SSW, segmentando a BHPD em três sectores com a mesma orientação (Ferreira,
1981).

Geomorfologia

A BHPD está instalada sobre a parte norte de uma unidade geomorfológica da


Península Ibérica designada Meseta Ibérica. Esta, corresponde a uma peneplanície,
designada por “Superfície Fundamental da Meseta”, cuja altitude média, na parte
norte da Meseta, é de cerca de 700 m , sendo limitada por grandes alinhamentos
montanhosos (Pereira et al., 1996). É limitada a norte pela Cordilheira Cantábrica
(Picos da Europa – Torre de Cerrado – 2648m), a este pela Cordilheira Ibérica (Serra de
Moncayo – 2313m) e a sul pela Cordilheira Central (Serra de Gredos – Plaza del Moro
Almanzor – 2592m). A expressão mais contínua da Meseta Norte na BHPD situa-se no
Planalto Mirandês, situado a norte do rio Douro entre os 700 e os 800 metros de altitude
e nos planaltos da Beira Alta, terras conhecidas por Beira transmontana, a sul do rio
Douro. Contrastando com esta continuidade, no sector mais ocidental existem apenas
vários retalhos aplanados da superfície fundamental da Meseta, resultado da
dissecação provocada pelo encaixe profundo da rede fluvial atlântica. A oeste, a
Meseta estende-se, na sua maior parte, sobre afloramentos de formações
precâmbricas e paleozóicas do soco varisco, pertencentes ao Maciço Hespérico, mas
a leste também se prolonga pelos depósitos terciários continentais da Bacia do Douro
(Cabral, 1995). Destacam-se acima da Superfície Fundamental da Meseta relevos
residuais, coincidentes com cristas quartzíticas. Alguns relevos quartzíticos apresentam
topos aplanados, sugerindo uma correspondência com a superfície inicial fini-
mesozóica. Nas montanhas, relevos salientes da superfície planáltica, existem por
vezes superfícies aplanadas, relacionadas provavelmente com fases precoces do
desenvolvimento da Meseta, posteriormente levantadas por acção da tectónica
alpina durante o Cenozóico (Cabral, 1995). No sector mais ocidental da BHPD, assiste-
se a uma descida do relevo em patamares, com desníveis da ordem dos 100 m, até à
plataforma pliocénica do Douro, a menos de 100 m de altitude, nas proximidades da
desembocadura do rio (Pereira et al., 1996). Esta forma um patamar com restos de

10
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

depósitos pliocénicos, ligeiramente inclinada para oeste, onde se encaixam os


depósitos quaternários deixados pelo rio Douro (Pereira et al., 1996). A génese desta
superfície iniciou-se no Mesozóico, em que as condições climáticas favoreceram a
meteorização das rochas, com formação de mantos de alteração. Com uma
reduzida acção tectónica, os relevos foram atenuados e os materiais erodidos
depositados em bacias sedimentares, formando-se uma vasta superfície aplanada
(Pereira et al., 1996). Durante o Cenozóico, sofreu a conjugação dos levantamentos
tectónicos, da erosão e da incisão remontante da rede fluvial, que ocorreu nos últimos
2 Ma (Cabral, 1995; Pereira et al., 1996). O processo de incisão dos vales fluviais nos
sectores do Alto Douro e do Douro Superior deve ter ocorrido essencialmente durante
o Plistocénico, depois de os rios que drenavam para o Atlântico capturarem outros
cursos de água, que conduziam os sedimentos resultantes da erosão do Maciço
Ibérico para o interior, em direcção à Bacia Terciária do Douro em Espanha (Pereira et
al., 2000). A erosão regressiva dos rios que desaguavam no Atlântico, dos quais fazia
parte um pré-Douro, com posterior captura da drenagem mais interior (endorreica) foi
impulsionada pela acção simultânea dos movimentos tectónicos de soerguimento,
durante o Neogénico, com o abaixamento do nível médio do mar durante as
primeiras glaciações. A relativa juventude da actual rede fluvial nestes sectores é
apoiada pelo forte encaixe fluvial, sobretudo no troço internacional do rio Douro,
onde ocorre um profundo encaixe do vale, com vertentes de declive acentuado, as
Arribas (Figura 4), numa morfologia do tipo canhão fluvial.

Figura 4 – Arribas do Douro em Miranda do Douro.

11
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

O carácter encaixado do rio Douro nesta região justifica o reduzido registo sedimentar
quaternário, evacuado em sucessivos ciclos de encaixe, ocorrendo associado às
apertadas curvaturas, controladas por alinhamentos tectónicos (Pereira et al., 2000). O
perfil tranversal do rio e das vertentes sofre algumas alterações devido à natureza e
resistência diferencial das litologias. O profundo encaixe no Douro Internacional, onde
dominam os granitos, contrastam com o vale mais aberto e vertentes menos
inclinadas nas zonas onde predominam as unidades metasedimentares do Grupo do
Douro (Figura 5).

Figura 5 – Rio Douro, com a cidade de Peso da Régua na margem norte.

A maioria da área da BHPD, 63239 Km2 , o que equivale a 65% da área total,
encontra-se compreendida entre as cotas de 600 e 1000m, correspondendo à parte
central da bacia. Cerca de 22252 Km2 (23%), encontra-se entre os 1000 e os 1600m,
correspondente aos limites Norte, Sul e Oeste da bacia (Figura 6). A altitude média é
de 891m (PBHD, 1999).

12
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

Figura 6 – Hipsometria da bacia hidrográfica portuguesa do rio Douro.


(Fonte: Atlas do Ambiente)

O rio Douro corre a cerca de 115 m de altitude em Barca de Alva, a 200 Km da foz,
e o desnível entre a peneplanície e o fundo de alguns vales chega a atingir, em alguns
casos, 300 a 400 m (Ferreira, 1981). A sul e a norte do rio Douro existem elevações com
mais de 1000 m de altitude, como as Serras do Marão, do Alvão, do Barroso-Cabreira,
da Nogueira, de Bornes, do Larouco e do Montesinho, a norte, e as Serras de
Montemuro e de Arada, a sul.

Clima

A BHD apresenta uma grande variedade de condições climáticas, reflexo da sua


grande extensão e elevada diversidade em termos morfológicos. Podem ser
considerados na BHPD dois conjuntos climáticos com características bem distintas
(PBHD, 1999): o sector oeste, formado aproximadamente pelas sub-bacias do Sousa,
Tâmega e Paiva, que se pode estender até à sub-bacia do Távora, incluindo ainda
toda a faixa litoral da bacia, reflecte as condições associadas aos climas marítimos;
toda a restante área, situada para leste, na qual se destacam as sub-bacias do Tua,
do Sabor e do Côa, aproximam-se mais das condições associadas aos climas
continentais. Os alinhamentos das serras do Marão, Alvão e Padrela, na margem
norte, e das serras da Arada e de Montemuro, na margem sul, fazem a divisão entre
estes dois conjuntos climáticos, constituindo um limite onde ocorre uma variação muito

13
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

significativa dos elementos climáticos. Estes alinhamentos constituem uma barreira às


massas de ar húmido, que ao embater com estes relevos, ascendem, provocando a
condensação do vapor de água com consequente precipitação. Daí, as
precipitações baixarem significativamente para leste desta barreira, onde as
amplitudes térmicas anuais são particularmente bruscas devido aos máximos atingidos
no verão.
A precipitação, distribuída assimetricamente, varia com regularidade ao longo do
ano, com valores maiores em Dezembro e Janeiro (nalguns locais em Março), e com
valores menores em Julho ou Agosto (PBHD, 1999). A precipitação anual média, varia
entre um valor máximo de cerca de 2400 mm e um valor mínimo de 400 mm (Figura 7).
O valor da precipitação anual média é de cerca de 1030 mm. A distribuição sazonal
da precipitação é também muito marcada, ocorrendo entre Outubro/Março cerca
de 72% da precipitação anual. Em ano muito seco, a precipitação anual média
atinge, cerca de 560 mm.
A exposição ao sol, factor fisiográfico de grande importância na caracterização
climática de qualquer região, reveste-se no Douro de redobrado interesse já que
permite uma melhor compreensão do comportamento da vinha nas diferentes
situações. A margem norte do rio está sob a influência de ventos secos do sul, estando
a margem sul exposta aos ventos do norte, mais frios e húmidos, e a uma menor
insolação, daí a temperatura do ar ser mais alta nos locais expostos a sul do que nos
locais expostos a norte (PBHD, 1999). As temperaturas médias anuais variam entre 7,5 e
16 ºC (Figura 8). Os valores máximos das temperaturas médias anuais distribuem-se ao
longo do rio Douro e dos vales dos seus afluentes, em especial os da margem direita
(nomeadamente rio Tua e ribeira da Vilariça). Relativamente às amplitudes térmicas
diurnas e anuais, verifica-se que têm maior valor em Barca d'Alva e menor valor em
Fontelo, facto que é explicado pela distância ao mar.

14
Eugénia Araújo Cap. I - Introdução

Figura 7 – Distribuição da precipitação na bacia hidrográfica portuguesa do rio Douro.


(Fonte: Atlas do Ambiente)

Figura 8 – Distribuição da temperatura na bacia hidrográfica portuguesa do rio Douro.


(Fonte: Atlas do Ambiente)

15
Capítulo II

Conceptualização e implementação do
Geoturismo
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

2.1 Desenvolvimento sustentável e ecoturismo

O crescimento económico e industrial decorreu durante muito tempo sem


qualquer preocupação pela degradação e poluição ambiental. Quando as
consequências desta despreocupação foram constatadas, tornando-se evidentes os
danos causados no ambiente, surgiu a ideia de equilibrar o crescimento económico
das nações com a preservação da natureza, que veio a ser conhecida por
desenvolvimento sustentável. Em 1987, a Comissão Mundial das Nações Unidas para o
Ambiente e Desenvolvimento (UNWCED) apresentou o documento “O nosso futuro
comum”, no qual o desenvolvimento sustentável é definido como um
desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a
habilidade das gerações futuras para satisfazer as suas próprias necessidades.
Em conformidade com estes princípios a Organização Mundial de Turismo (WTO –
World Tourism Organisation) declarou, em 1988, que o turismo sustentável deve ser
encaradoeee como uma forma de gestão de todos os recursos, de tal modo que as
necessidades económicas, sociais e estéticas possam ser cumpridas, ao mesmo tempo
que se mantém a integridade cultural, os processos ecológicos essenciais, a
diversidade biológica e os sistemas que suportam a vida.
Posteriormente, na Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e
Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, foi adoptada a Agenda 21,
que constitui um programa de acção que visa promover a implementação do
desenvolvimento sustentável em todos os países, conciliando métodos de protecção
ambiental, justiça social e eficiência económica. O desenvolvimento social e cultural,
económico e ambiental devem reger-se pelos princípios da sustentabilidade.
Embora o turismo não seja mencionado directamente neste documento, os
princípios da sustentabilidade podem ser aplicados a todos os tipos de turismo e a
todos os sectores do turismo (Bien, 2003). Segundo Klaus Topfer, Director Executivo do
Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP - United Nations Environment
Programme), “colocar o turismo no caminho da sustentabilidade é um grande desafio,
mas também representa uma significativa oportunidade”. Na Carta Europeia do
Turismo Sustentável para as Áreas Protegidas, o turismo sustentável é definido como
qualquer forma de desenvolvimento, equipamento ou actividade turística que
respeite e preserve a longo prazo os recursos naturais, culturais e sociais e que
contribua de maneira positiva e equitativa para o desenvolvimento económico e
bem-estar das pessoas que vivem, trabalham ou se encontram temporariamente nos
espaços protegidos. Na Conferência Mundial do Turismo Sustentável, realizada em

18
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Abril de 1995 na ilha de Lanzarote, em Espanha, tendo por base a Declaração


Universal dos Direitos Humanos, a Declaração do Rio para o Ambiente e
Desenvolvimento, bem como as recomendações da Agenda 21, reconhecendo-se a
ambivalência do turismo e a fragilidade dos seus recursos, foi elaborada a Carta do
Turismo Sustentável. Neste documento é enfatizada a ideia de que o turismo deverá
seguir critérios de sustentabilidade, participando activamente na estratégia para um
desenvolvimento sustentável.

O ecoturismo refere-se a um segmento de mercado no sector do turismo,


caracterizado por pôr em prática os princípios da sustentabilidade, definidos pela WTO
em 1988 (www.world-tourism.org, 2004). Esta forma de turismo expandiu-se
rapidamente nas últimas duas décadas e por ser ainda esperado um maior
crescimento no futuro e ser reconhecida a sua importância, as Nações Unidas
designaram o ano de 2002 como o Ano Internacional do Ecoturismo, em que foram
feitos esforços, nomeadamente pela WTO e UNEP, para que ao longo desse ano
fossem realizadas actividades que possibilitassem uma troca de experiências e
sensibilizassem todos os que estão envolvidos no ecoturismo para os seus benefícios,
promovendo dessa forma o seu desenvolvimento sustentável no futuro (www.world-
tourism.org, 2004; www.uneptie.org, 2004; www.un.org, 2004).
Os princípios que constituem a base do ecoturismo provêm, pelo menos em parte,
do movimento ambientalista da década de sessenta, do movimento de
ecodesenvolvimento que emergiu durante a década de setenta e do
desenvolvimento sustentável, que se desenvolveu durante a década de oitenta
(Fennell, 2002). O ecoturismo é um nicho de mercado em amplo crescimento no
sector da indústria turística, e tal como as outras formas de turismo sustentável, é um
campo dinâmico com surgimento de novas técnicas e abordagens todos os anos,
com potencial de vir a tornar-se uma ferramenta importante no desenvolvimento
sustentável (Wood, 2002). O grande desenvolvimento que o ecoturismo tem vindo a
experimentar deve-se à crescente procura dos turistas pelo contacto directo com a
natureza, por locais ricos em fauna e flora, onde a tradição, os usos e costumes
continuam preservados. É realizado sobretudo em Áreas Protegidas, onde não só as
actividades são praticadas em ambiente totalmente natural como também são
associadas à história, cultura e paisagem das zonas visitadas, em que o alerta para a
conservação da natureza e de todo o ambiente envolvente é uma realidade sempre
presente (http://www.portugalinsite.pt, 2004).
O turismo baseado na natureza é em muitos países uma componente chave da
indústria turística (Eagles, 2001). Segundo o mesmo autor, este sector do turismo
depende fundamentalmente de duas componentes: níveis de qualidade ambiental e

19
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

níveis de satisfação do consumidor, tendo já crescido suficientemente para que possa


ser subdividido em vários segmentos de mercado diferentes. Neste âmbito, Eagles
(1995, 2001) utilizando uma metodologia baseada nas motivações, reconhece pelo
menos quatro nichos de mercado no turismo baseado na natureza: ecoturismo,
turismo de aventura, vida selvagem e campismo (Figura 9).

Turismo baseado na natureza

Turismo
Ecoturismo Vida selvagem Campismo
aventura

Figura 9 – Nichos de mercado do turismo baseado na natureza


(Eagles, 1995, 2001).

Estes nichos de mercado encontram-se em diferentes estádios no ciclo empresarial,


encontrando-se o ecoturismo e o turismo de aventura num estádio ainda com um
grande potencial de crescimento, o turismo relacionado com a vida selvagem num
estádio em que já atingiu o máximo potencial de crescimento e o campismo num
estádio em que já se encontra em declínio (Eagles, 2001) (Figura 10).

Figura 10 – Estádios dos diferentes nichos de mercado do turismo


baseado na natureza no ciclo empresarial (Eagles, 2001).

Para além dos quatro nichos de mercado identificados no turismo da natureza por
Eagles (1995a), outras sugestões são apresentadas, como a subdivisão deste tipo de
turismo em apenas dois nichos de mercado, sendo eles o ecoturismo e o turismo de
aventura (Figura 11). Nesta perspectiva, o ecoturismo, bem como o turismo de
aventura, são submercados do turismo da natureza, embora só o ecoturismo

20
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

estabeleça ligações com o turismo rural e cultural, o que não sucede com o turismo
de aventura (Wood, 2002). Utilizando, tal como Eagles (1995a), o critério da motivação
na distinção dos nichos de mercado enquadrados no turismo da natureza, Wood
(2002) refere que enquanto no ecoturismo a principal motivação é a observação e
apreciação dos elementos naturais e culturais, no turismo de aventura é o exercício
físico e as situações de desafio em ambientes naturais.

Turismo

Turismo Turismo Turismo Turismo Viagens Turismo


cultural rural natureza praia negócios saúde e
bem-estar

Turismo
Ecoturismo aventura

Figura 11 – Posicionamento do ecoturismo no amplo mercado turístico


(WTO, modificado por Strasdas, 2001).
(Fonte: www.unep.org)

Apesar do ecoturismo constituir a versão mais sustentável do turismo da natureza é


certo que todas as actividades turísticas, sejam elas em férias, negócios, conferências,
congressos, feiras, de promoção da saúde e do bem-estar ou de aventura devem ter
como meta a sustentabilidade (Wood, 2002) (Figura 12).

Viagens de negócios
Turismo
sustentável
Formas de turismo não

Turismo Praia
sustentável

Turismo Rural

Turismo da Natureza

Ecoturismo

Turismo Cultural

Figura 12 – Strasdas, 2001 (Fonte: www.unep.org).

21
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Muito tem sido escrito sobre o ecoturismo, mas não existe consenso sobre o seu
significado, em parte devido às variadas formas em que são oferecidas as actividades
por um largo número de operadores e pelo facto de ser praticado por um número
ainda maior de turistas (www.world-tourism.org, 2004). Em 1991, a Sociedade
Internacional de Ecoturismo (TIES – The International Ecotourism Society) definiu
ecoturismo como a visita responsável a áreas naturais, que conserva o ambiente e
promove o bem-estar da população local. Esta definição enfatiza o facto de que
deverá haver um impacto positivo quer na conservação quer na comunidade local.
A IUCN, actualmente designada por Organização Mundial para a Conservação,
realçando tal como na definição anterior a importância da conservação da natureza
e da melhoria da qualidade de vida da comunidade local, definiu em 1996, o
conceito de ecoturismo como viagem responsável e visita a áreas naturais
relativamente imperturbáveis, para desfrutar e apreciar a natureza (e algumas
particularidades culturais), promovendo a sua conservação, proporcionando um
benefício sócio-económico para as populações locais e evitar os impactos negativos
dos turistas. Também a WTO partilha da ideia patente na definição de ecoturismo da
IUCN, de que os turistas para além de apreciarem a natureza também contactam
com aspectos culturais das áreas naturais e de que o ecoturismo deve acarretar
benefícios para as comunidades locais. Segundo esta, o ecoturismo é um turismo
baseado na natureza, em que a motivação principal dos turistas é a observação e
apreciação da natureza, bem como os aspectos culturais das áreas naturais,
minimizando os impactos negativos no ambiente natural e sócio-cultural, gerando
benefícios económicos, sociais e ambientais para as comunidades locais, gerando
postos de trabalho e promovendo a consciencialização da população local e dos
turistas para a importância da conservação dos recursos naturais e culturais
(www.world-tourism.org, 2004). Para Weaver (2001), a sustentabilidade do ecoturismo
não deverá verificar-se apenas a nível ambiental mas também a outros níveis,
alegando que o ecoturismo é uma forma de turismo baseado na natureza, que se
esforça para ser ecológica, sócio-cultural e economicamente sustentável, ao mesmo
tempo que cria oportunidades para apreciar e aprender acerca da natureza ou de
alguns dos seus elementos específicos como um animal ou uma planta. De acordo
com Reimold (2001), o ecoturismo é o turismo focado na capitalização do ambiente,
que satisfaz o turista ao mesmo tempo que sustenta o ambiente. Para este autor estas
duas funções têm de andar unidas, caso contrário o recurso colapsará, talvez depois
de ter provido ganhos económicos a curto prazo. Salienta-se nesta definição, para
além do papel do ecoturismo no desenvolvimento sustentável, a satisfação do turista,
que nas definições anteriores não foi referida. Embora seja dado muito enfoque à
preservação da natureza, não podemos esquecer que o ecoturismo, como sector do

22
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

turismo que é, tem de cativar os seus clientes e não há melhor forma do que fazer com
que fiquem satisfeitos e contentes com o que lhes é proporcionado. Este conceito
alberga uma grande diversidade de actividades, tendo sido proposto um espectro de
actividades, onde nos extremos se encontram o ecoturismo activo e o ecoturismo
passivo (Weaver, 2001). No ecoturismo passivo (variante do turismo de massas) são
reconhecidas algumas das características do turismo de massas, nomeadamente no
que diz respeito ao volume e objectivo da viagem (Weaver, 2001). Este mesmo autor
estabelece relações de benefício mútuo entre o ecoturismo e o turismo de massas. O
ecoturismo beneficia o turismo de massas na medida em que contribui para a
diversificação do produto turístico, oferecendo ao turista a oportunidade para
aprender acerca das atracções naturais. O ecoturismo é atractivo para o aumento do
mercado “verde” do turismo de massas e permite uma maior adequação aos
princípios e práticas da sustentabilidade. O turismo de massas também beneficia o
ecoturismo, trazendo mais clientela, nomeadamente ecoturistas passivos. Segundo
Shores (2001), o conceito de ecoturismo deve ser o mais rigoroso possível para que se
estabeleçam as metas e os desafios dos operadores turísticos, dos parques e dos
turistas. Salienta ainda que as definições precisas permitirão comunicar com precisão
entre todos os que estão envolvidos no ecoturismo, podendo as definições latas
transmitir a falsa ideia de que uma viagem é, em termos ambientais, ecológica,
quando na verdade é destrutiva para o ambiente local, regional e global. O termo
tem sido usado com tamanha liberdade que quase todas as viagens se podem
encontrar ao abrigo deste conceito. Na indústria turística, muitos são aqueles que
utilizam o termo ecoturismo para promover os seus destinos sem, no entanto, tentarem
implementar os mais básicos princípios do ecoturismo (Wood, 2002). Bien (2003) vai
ainda mais longe, quando refere que para além da utilização frequente do termo
ecoturismo por parte da indústria turística para parecer ser ecológica sem na
realidade ser sustentável, prática conhecida por “greenwashing”, muitas vezes actua
mesmo em contradição com estes conceitos. Para Wood (2002) trata-se de um grave
problema que deita por terra a legitimidade do termo ecoturismo, mas que é o
resultado de uma lacuna na compreensão dos princípios mais básicos do ecoturismo,
apesar das conferências internacionais, dos Workshops e das publicações
promoverem avanços significativos na educação sobre o ecoturismo. Os negócios
que falsamente utilizam o termo ecoturismo representam uma competição injusta,
danificando a credibilidade de toda a indústria turística. Existem muitos tipos de turismo
sustentável que não são baseados na natureza e também existe turismo da natureza
que não é sustentável, no entanto, nenhum destes deve ser considerado ecoturismo
(Bien, 2003). Uma das soluções apontadas para este problema passa pela
certificação, assegurando a verdadeira prática do ecoturismo, com o cumprimento

23
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

dos seus parâmetros específicos pelas empresas certificadas. Colocar o ecoturismo no


caminho da sustentabilidade é um grande desafio que requer diálogo e cooperação
entre a indústria turística, os governos, a população local e os próprios turistas
(Larderel, 2002). O desafio é difícil pois envolve muitos actores e deve ser encarado
como tal, mas não é uma tarefa impossível. A comprová-lo estão os inúmeros
exemplos de sucesso, onde é praticado o ecoturismo com toda a legitimidade, que
tem provado ser uma importante ferramenta para a conservação, tendo mesmo em
certos casos conduzido ao aumento da qualidade de vida da comunidade local
(Wood, 2002). Todavia, Larderel (2002) alerta que o ecoturismo, apesar de promover a
preservação do ambiente e impactos sociais positivos, pode, infelizmente, ser tão
danificador como o turismo de massas se não for promovido correctamente. As
actividades turísticas não devem destruir a razão pela qual os turistas visitam
determinado lugar, caso contrário põem em causa a continuidade dessas mesmas
actividades (Bien, 2003). De acordo com Shores (2001) é o turista que pode alterar a
forma como a indústria turística trata o património natural, indicando que para isso é
preciso que o turista dê o primeiro passo – manter-se correctamente informado.

2.2 Geodiversidade, Património Geológico e Geoconservação

As paisagens contempladas pelos turistas têm particularidades geológicas que


frequentemente passam despercebidas. Para a satisfação de uma parte dos turistas
basta a simples contemplação da paisagem, mas a oferta de conhecimentos
históricos e científicos relativos ao que observa, é necessária para satisfazer os
interesses de muitos turistas da natureza (Pereira, 2004). Este autor salienta que a base
geológica é o factor mais importante na modelação da paisagem, que evolui em
face da natureza das rochas, da sua deformação tectónica e da forma como se
alteram e evoluem sob determinadas condições climáticas. Evidencia ainda que a
forma das serras, das planícies, dos vales e muitas outras formas de escala variada,
estão fundamentalmente relacionadas com as características geológicas do meio.
Uma vez que o geoturismo é uma modalidade turística que promove a
geodiversidade e sítios com interesse geológico devidamente protegidos e
conservados, é essencial saber previamente o que se entende por Geodiversidade,
Património Geológico e Geoconservação.
O termo geodiversidade é recente, começando a ser utilizado por geólogos e
geomorfólogos na década de noventa para descrever a variedade do meio abiótico
(Gray, 2004). No entanto, de acordo com o memo autor, é difícil saber quando é que
o termo geodiversidade foi referido pela primeira vez. Algumas das primeiras

24
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

utilizações parecem ter sido na Tansmânia (Austrália), em estudos que alguns autores
realizaram sobre geoconservação. Gray (2004) também faz referência a uma
conferência sobre geoconservação, realizada em 1993, em Malvern, no Reino Unido.
Relativamente à definição de geodiversidade, são vários os autores que têm dado
a sua contribuição. Nieto (2001) definiu geodiversidade como sendo o número e
variedade de estruturas e materiais geológicos que constituem o substrato físico
natural de uma região, sobre qual assenta a actividade orgânica, incluindo a
antrópica. A Sociedade Real para a Conservação da Natureza do Reino Unido in
Morris & Parkes (2004) refere que a geodiversidade consiste na variedade de
ambientes geológicos, fenómenos e processos activos que originam as paisagens, as
rochas, os minerais, os fósseis e outros depósitos superficiais que possibilitam a vida na
Terra. Esta definição é mais abrangente do que a anterior, na medida em que inclui,
para além das estruturas e materiais geológicos, os fenómenos e processos que estão
na sua origem. De acordo com Gray (2004), a geodiversidade é a variedade natural
de aspectos geológicos (rochas, minerais e fósseis), geomorfológicos (formas de
relevo, processos) e do solo. Inclui as suas colecções, relações, propriedades,
interpretações e sistemas. Conclui-se que para alguns autores o conceito de
geodiversidade é mais restrito, incluindo quase apenas rochas, minerais e fósseis, e
para outros o conceito é mais alargado, integrando para além dos aspectos
anteriores os processos que estão na base da sua génese e que actualmente
continuam a actuar. Apesar das diferenças na abrangência do conceito, salienta-se o
facto de todas as definições apresentadas integrarem no conceito de geodiversidade
os seres vivos. Assim, a geodiversidade não inclui apenas a componente abiótica do
nosso planeta mas também a biótica.
À geodiversidade são atribuídos vários valores (Gray, 2004):
• valor intrínseco ou existencial, valor associado à simples existência das coisas (neste
caso da geodiversidade) e não à utilidade que podem ter para o Homem;
• valor cultural, valor colocado pela sociedade em algum aspecto do ambiente físico
devido ao seu significado cultural e comunitário;
• valor estético, valor associado à atractividade visual do ambiente físico;
• valor económico, relacionado com a dependência da sociedade na utilização de
materiais geológicos;
• valor funcional, relacionado com o valor utilitário que a geodiverisdade pode ter no
seu contexto natural e com o seu valor no suporte dos sistemas físicos e ecológicos;
• valor científico e educativo, na medida em que a geodiversidade é imprescindível
para a investigação científica e para a educação em Ciências da Terra.
Os valores atribuídos à geodiversidade são diversificados, mas as ameaças à sua
integridade são mais ainda. As ameças podem estar relacionadas com a ocorrência

25
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

de processos naturais, como a erosão fluvial e costeira, ou com acções humanas.


Gray (2004) salienta as ameças humanas como a exploração de recursos geológicos,
a expansão urbana, a gestão das bacias hidrográficas, a florestação, desflorestação e
agricultura, a colheita de amostras geológicas para fins não científicos, as actividades
recreativas e turísticas, os fogos, entre outras.

Relativamente ao conceito de Património Geológico, segundo Munõz (1988) o


Património Geológico é constituído por georrecursos culturais, ou seja, recursos não
renováveis de índole cultural, que contribuem para o reconhecimento e interpretação
dos processos geológicos que modelaram o nosso planeta, que podem ser
caracterizados de acordo com o seu valor (científico, didáctico), pela sua utilidade
(científica, pedagógica, museológica, turística) e pela sua relevância (local, regional,
nacional e internacional). Valcarce e Cortés (1996) definem o Património Geológico
como um conjunto de recursos naturais não renováveis, de valor científico, cultural ou
educativo, que permitem conhecer, estudar e interpretar a evolução da história
geológica da Terra e os processos que a modelaram. Uceda (1996) refere que o
conceito de Património Geológico pode incluir todas as formações rochosas,
estruturas, acumulações sedimentares, formas, paisagens, depósitos minerais ou
paleontológicos, colecções de objectos geológicos de valor científico, cultural ou
educativo e/ou de interesse paisagístico ou recreativo, podendo também incluir-se
elementos de arqueologia industrial relacionados com instalações para a exploração
de recursos do meio geológico. De acordo com Carvalho (1999) o conceito de
Património Geológico é definido como qualquer ocorrência de natureza geológica,
tal como um afloramento rochoso, uma pedreira, uma mina abandonada, uma jazida
com fósseis, etc., desde que assuma valor documental e/ou monumental que
justifique a sua preservação como herança às gerações vindouras. Tal como Munõz
(1988), Carvalho (1999) também utiliza o termo georrecurso no contexto do Património
Geológico. Segundo o autor um georrecurso é um recurso de natureza geológica, que
pode ser económico, como por exemplo o petróleo, o gás natural, um minério, uma
rocha ornamental, etc., e cultural, como por exemplo uma rocha, uma jazida
fossilífera, etc., de valor documental com interesse no estudo e demonstração de
certos acontecimentos ocorridos no passado geológico da Terra. Nieto (2002) refere
que o Património Geológico é constituído por todos os recursos naturais, não
renováveis, quer sejam formações rochosas, estruturas, acumulações sedimentares,
formas, paisagens, minerais, fósseis, colecções de objectos geológicos de valor
científico, cultural ou recreativo, que representam a memória da Terra, sobre a qual os
seres vivos desenvolvem a sua actividade. Para além das diferenças no que diz
respeito aos aspectos da geodiversidade que os autores incluem nas suas definições

26
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

de Património Geológico, salienta-se o facto de se encontrar referência unânime ao


valor singular desses aspectos no âmbito científico, educativo, turístico ou cultural. Aos
elementos da geodiversidade a que foram atribuídos valores singulares designam-se
por geossítios. Sendo assim, o Património Geológico corresponde ao conjunto de
geossítios existentes numa região (Figura 30).
O Património Geológico engloba o Património Paleontológico, o Património
Mineralógico, o Património Geomorfológico, entre outros. No entanto, é de salientar a
não inclusão do Património Mineiro. Esta separação deve ser mantida dado as
diferenças de conceitos e metedologias (Brilha, 2005), apesar do Património
Geológico puder incluir geossítios correspondentes a antigas explorações mineiras, tal
como defende Uceda (1996) e Carvalho (1999). As colecções de rochas, fósseis e
minerais que se encontram em museus, por já não se encontrarem em contexto
natural e estarem já protegidas, não integram normalmente o conceito de Património
Geológico, apesar de muitas vezes apresentarem inegável valor patrimonial (Brilha,
2005). Este autor sugere a criação de um termo específico para este tipo de
património, o de Património Geomuseológico.

Dado o valor inegável de alguns geossítios, as ameaças que podem pôr em causa
a continuidade da sua existência e a impossibilidade de conservar toda a
geodiversidade, surgiu a necessidade de conservar esses locais. Daí, adveio a
utilização do termo Geoconservação. Como sinónimo deste termo é também utilizada
a expressão Conservação do Património Geológico. A implementação de um
programa de conservação dos geossítios justifica-se na medida em que esses locais
(Uceda, 1996):
• constituem uma base imprescindível para formar geólogos e outros profissionais das
Ciências da Terra;
• possibilitam às gerações futuras aprender acerca da história geológica da Terra;
• são um instrumento de ensino essencial para os ensinos básico e secundário;
• servem para estabelecer a ligação entre a história da Terra, a história do Homem e a
evolução biológica, na medida em que constitui o substrato sobre o qual evoluiu a
actividade biológica e humana, sendo impossível a história do Homem ser
reconstruída sem a base geológica;
• podem ajudar a reconduzir o coleccionismo destrutivo, etc.

De acordo com o mesmo autor, estas razões devem ser amplamente divulgadas,
a fim de que seja reconhecida, considerada útil, necessária e apoiada. De acordo
com Sharples (2002) o objectivo da geoconservação é a “preservação da diversidade
natural (ou geodiversidade) de significativos aspectos e processos geológicos

27
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

(substrato), geomorfológicos (formas da paisagem) e de solo, mantendo a evolução


natural (velocidade e intensidade) desses aspectos e processos”. Citando Sharples
(1995), este autor salienta que a Geoconservação é a conservação da
geodiversidade com valor intrínseco, ecológico e patrimonial.

Para que a Geoconservação seja concretizada é necessária a implementação de


estratégias que assegurem a efectiva conservação e gestão do Património Geológico.
Estas estratégias assentam numa metodologia de trabalho que integra as seguintes
etapas sequenciais: inventariação, quantificação, classificação, conservação,
valorização e divulgação e, por último, monitorização (Brilha, 2005). No âmbito de
uma estratégia de Geoconservação discute-se se é conveniente ou não divulgar
geossítios com valor fundamentalmente científico, com o objectivo de impedir que
sofram acções de roubo ou vandalização que podem ocorrer ainda que tenham sido
previamente asseguradas as condições necessárias de protecção nos locais de maior
vulnerabilidade. Salienta-se que a opção pela não divulgação nega ao público a
possibilidade de tomar conhecimento da existência de algo valioso que também é
seu, pois o Património Geológico é um bem comum da Humanidade. Será isso
legítimo? Embora esta opção constitua uma medida que previna a possível
degradação e destruição dos geossítios, pode ter o resultado oposto, na medida em
que ao não se divulgar o Património Geológico, o público não toma conhecimento
da sua existência, não compreende o seu valor e consequentemente não se encontra
sensibilizado para a sua conservação. A divulgação tem um papel fundamental na
preservação do Património Geológico. O facto de não se divulgar todo o Património
Geológico conduz-nos a outras questões: quem vai proteger esse património? Um
grupo restrito de investigadores, para quem esses geossítios são importantes na sua
formação? como o farão?. São questões particulares que surgem no contexto da
Geoconservação mas que de alguma forma põem em causa a sua importância.
Apesar das razões anteriormente apontadas justificarem plenamente a
necessidade da conservação do Património Geológico, esta não tem constituído uma
prioridade a nível nacional, verificando-se uma tendência para privilegiar a
conservação do Património Biológico. Tal facto, poderá estar relacionado com a
reduzida cultura geológica de grande maioria dos cidadãos do nosso país, incluindo
os responsáveis por deliberar em matéria de conservação da natureza. De acordo
com Uceda (1996), a sensibilidade demonstrada para a conservação da flora e da
fauna poderá estar relacionada com o facto de as pessoas se interessarem mais pelos
seres vivos, na medida em que é algo mais concreto e fácil de apreciar por pessoas
não entendidas, do que os elementos geológicos. Daí, ser imprescindível a
sensibilização, educação e formação geológica do público em geral. Partilhando

28
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

desta ideia está Gordon et al. (2004), onde se salienta que promover a sensibilidade e
apreciação para o Património Geológico e o envolvimento na sua conservação é a
chave para a protecção de todo o Património Natural e para a gestão das nossas
paisagens de uma forma sustentável. Assim, consciencializar e educar o público em
geral é a principal prioridade para o sucesso da Geoconservação, o que é um grande
desafio por várias razões: o conhecimento do público sobre Património Geológico,
geodiversidade e Geoconservação é reduzido; tem de haver um profundo
conhecimento da audiência e a mensagem tem de ser efectivamente comunicada
(Dias & Brilha, 2004).

Aquando da apresentação de definições do conceito de Património Geológico


propostas por alguns autores, surgiu como sinónimo de Património Geológico o termo
georrecurso. No entanto, deve ser enfatizado o carácter particular do Património
Geológico como recurso geológico, na medida em que ao contrário do seu
significado habitual, associado à exploração e aproveitamento económico, e
portanto ao seu gasto e consequente perda, o Património Geológico exige rigorosos
princípios de Geoconservação (Figura 30).

2.3 Geodiversidade e Biodiversidade: comparação e integração

O aparecimento do termo e do conceito de geodiversidade conduziu


inevitavelmente a comparações com o de biodiversidade, apesar dos aspectos da
natureza a que se referem não serem os mesmos. Assim, foram encontrados alguns
pontos em comum (Gray, 2004):
• a utilização de alguns termos como “espécies” e “variedades”, que são há muito
tempo utilizados nos minerais e na paleontologia;
• os factores que ameaçam a integridade da biodiversidade e que podem conduzir à
extinção de espécies animais e vegetais são muitas vezes os que também
ameaçam a geodiversidade e conduzem ao desaparecimento de aspectos
singulares da geodiversidade (Extinção geológica);
• o pressuposto da existência de milhões de espécies ainda por descobrir, descrever e
classificar aplica-se quer a animais e vegetais, quer a minerais, cujo número pode
aumentar através do trabalho de campo, da cartografia geológica ou da
actividade extractiva;
• a necessidade de protecção e conservação.

29
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

No entanto, e apesar de terem em comum o facto de ser necessário proteger e


conservar os aspectos que integram quer a biodiversidade quer a geodiversidade, o
apoio dado ao trabalho no âmbito da biodiversidade é muito superior ao fornecido
para o conhecimento e conservação da geodiversidade. O interesse pela
conservação da biodiversidade e a operacionalização de estratégias de
bioconservação tem globalmente mais adeptos. Face a este distinto tratamento no
que respeita à implementação de estratégias de conservação da biodiversidade e da
geodiversidade, a Geoconservação pode ser considerada a “Cinderela” das políticas
de conservação da natureza (Larwood & Murphy, 2004). Em Portugal, a situação não
é muito diferente dos outros países, e as áreas protegidas são definidas essencialmente
tendo em atenção os seus aspectos biológicos (Dias & Brilha, 2004; Pereira et al., 2004).
Esta desconsideração pelos aspectos geológicos conduz à falta de informação
geológica que ocorre nos parques portugueses, o que é muito negativo no esforço
para alcançar a sensibilidade do público para a geologia (Pereira et al., 2004).
O papel da geologia e da geomorfologia na moldagem da paisagem,
influenciando a biodiversidade e determinando o uso que o homem faz do solo, é
importante, pois existem fortes ligações e interdependências entre o património
cultural e natural e dentro deste entre o biológico e o geológico (Weighell, 2004). A
geologia e a geomorfologia têm um papel importante na distribuição dos habitats e
das espécies, mas esta associação está longe de ser simples, tornando-se ainda mais
complexa pela influência do homem (Larwood & Murphy, 2004). De acordo com
Stanley (2004), a geodiversidade é o resultado de processos dinâmicos interactivos
entre a paisagem, a fauna, a flora e a nossa cultura, que ditaram o local onde as
pessoas criaram as cidades, as indústrias, as estradas e a forma como os recursos
foram utilizados.

As interacções que se estabelecem entre a geodiversidade e a biodiversidade


fundamentam a sua integração nas políticas de conservação da natureza. A
Geoconservação não deve apenas afirmar-se como um domínio independente na
conservação da natureza mas também é necessário estar integrada com a
Bioconservação e ambas estarem incluídas nas estratégias de gestão do território
(Gray, 2004). Partilhando desta perspectiva integradora Dias & Brilha (2004) defendem
que qualquer política de conservação da natureza deve integrar todos os aspectos
da natureza, os biológicos, os geológicos e os sociais, salientando que a
Geoconservação é ainda uma palavra indiferente para políticos e gestores dos
parques, quando a geologia é importante na definição de muitas áreas protegidas. A
adopção de uma gestão integrada de conservação acarreta benefícios mútuos, no
entanto ela é raramente considerada (Larwood & Murphy, 2004). Apesar dos

30
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

benefícios que pode trazer a integração da geodiversidade com a biodiversidade nas


estratégias de conservação é necessária uma melhor compreensão das complexas
interacções entre a geodiversidade e a biodiversidade (Larwood & Murphy, 2004).
Segundo estes autores, essa compreensão conduzirá a uma mais bem sucedida
gestão sustentável do nosso ambiente natural. Para além dos benefícios, a integração
da geodiversidade e da biodiversidade numa estratégia de conservação pode gerar
conflitos, na medida em que em algumas situações os interesses de cada uma
colidem (Gray, 2004). Segundo o mesmo autor, nestas situações tem de se proceder
separadamente à análise dos valores relativos associados à geodiversidade e à
biodiversidade e existirão inevitavelmente situações onde é mais importante conservar
o elemento da Património Geológico.
Nesta perspectiva integradora da geodiversidade com a biodiversidade é
proposta a inclusão na Rede Natura 2000 (iniciativa europeia que visa proteger os
habitats naturais e semi-naturais, principalmente as espécies de animais e plantas que
lá vivem) de uma directiva própria que considere o Património Geológico (Brancucci
et al., 2004). Para os mesmos autores e porque muitos habitats são exclusivos não só
pelos aos animais e plantas que lá vivem, mas também graças às características
geológicas e geomorfológicas do local, a Directiva Habitats da União Europeia,
aplicada em 1992, na medida em que esta desempenha um papel fundamental
quando se discutem as medidas necessárias para a preservação e gestão das áreas
naturais.

2.4 Iniciativas internacionais e nacionais de Geoconservação

Nos últimos anos tem-se assistido a um esforço por parte da comunidade


geológica no sentido de promover a conservação e divulgação do Património
Geológico. Neste âmbito, algumas iniciativas a nível internacional e nacional têm
vindo a ser realizadas.
O Projecto Global Geosites, iniciativa levado a cabo pela International Union of
Geological Sciences (IUGS) em cooperação com a Unesco, teve início em 1996 e
pretende efectuar, numa escala global, a inventariação do Património Geológico. O
inventário poderá vir a servir de base para o apoio à protecção e conservação do
Património Geológico e da geodiversidade (Wimbledon et al.,1998; Theodossiou-
Drandaki et al., 2004). Desta forma, será criada uma Base de dados Global de Sítios
Geológicos, que pretende constituir um instrumento que reúne informações, a nível
internacional, sobre o maior número possível de sítios de interesse geológico
(Wimbledon et al., 1998; Theodossiou-Drandaki et al., 2004). Para a realização deste
trabalho a IUGS criou o Global Geosites Working Group mas na Europa este projecto

31
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

está a ser desenvolvido pelo grupo ProGeo, Associação Europeia para a Conservação
do Património Geológico, nomeadamente pelos grupos de trabalho de cada país
(Wimbledon et al.,1998; Fredén et al., 2004; Theodossiou-Drandaki et al., 2004). Para os
geossítios, Wimbledon et al. (2004) referem a importância da prévia existência de um
plano que permita aplicar uma metodologia de gestão e conservação coerente
destes locais. O plano de gestão constitui uma ferramenta interna essencial na gestão
diária destes locais e deve incluir a monitorização, de forma a manter os geosítios em
boas condições, possibilitando o seu uso científico e educativo (Wimbledon et al.,
2004).
O grupo português da ProGeo, criado em finais de 2000, tem vindo a promover a
inventariação, classificação e conservação de locais com interesse geológico
(www.geopor.pt, 2004). Em Janeiro de 2002, decidiu estabelecer categorias temáticas
para o Património Geológico em Portugal, sendo propostos três locais de relevância
internacional que melhor representassem cada categoria, com vista à integração no
Projecto Geosites da IUGS referido anteriormente (www.geopor.pt, 2004). Como prova
da vitalidade destas actividades, a ProGeo-Portugal juntamente com o Centro de
Ciências da Terra da Universidade do Minho organizou o IV Congresso Internacional da
ProGeo, que se realizou na cidade de Braga, em Setembro de 2005
(www.dct.uminho.pt, 2004). Para captar a atenção dos media para o Património
Geológico, o grupo português da ProGeo, decidiu em Fevereiro de 2004, que no dia
22 de Abril, consagrado internacionalmente como o Dia da Terra, se comemorasse
também o Dia Nacional do Património Geológico (www.geopor.pt, 2004;
www.geopor.pt, 2004). Neste dia é atribuído anualmente o Prémio Geoconservação à
autarquia que se tenha distinguido na salvaguarda e promoção do Património
Geológico do seu concelho (www.geopor.pt, 2004). O Prémio Geoconservação, ao
qual se associou a National Geographic Portugal, foi entregue, em 2004, à Câmara
Municipal de Idanha-a-Nova pelo trabalho desenvolvido na conservação dos fósseis
de Penha Garcia, e em 2005, à Câmara Municipal de Valongo, pela sua dedicação
na criação e desenvolvimento do Parque Paleozóico de Valongo (www.geopor.pt,
2005). Com esta iniciativa, a ProGEO-Portugal e a National Geographic Portugal
pretendem sensibilizar o público e os responsáveis políticos para a necessidade de
desenvolver estratégias para a conservação do Património Geológico
(www.geopor.pt, 2004).
O Programa Geoparques da Unesco, adoptado em Novembro de 1997, visa
salvaguardar em todo o mundo áreas caracterizadas por possuírem um Património
Geológico extraordinário, mas também arqueológico, ecológico, histórico e cultural,
integrando a sua preservação na estratégia de desenvolvimento económico regional
(Patzak, 2001). Um Geoparque é um território que compreende um determinado

32
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

número de geosítios com um significado geológico especial, raridade e beleza, que


são protegidos e cuja gestão é da responsabilidade do governo do país onde este se
localiza (Patzak & Eder, 1998). Os objectivos principais deste programa consistem na
utilização do Património Geológico na educação do público em geral, na pesquisa
científica, no desenvolvimento económico sustentável da população local
(geoturismo) e na conservação do Património Geológico para as gerações futuras
(Patzak & Eder, 1998). Estes territórios assegurarão a protecção e a gestão adequada
do Património Geológico, constituindo uma ferramenta para o melhor compreender e
consciencializar o público em geral para uma relação estável com a Terra (Patzak,
2001).
A rede de Geoparques era inicialmente apenas europeia (Rede Europeia de
Geoparques – REG), mas actualmente, desde Fevereiro de 2004 e sob a orientação da
Unesco, está integrada numa rede mundial (Rede Global de Geoparques - RGG), da
qual faziam inicialmente parte 25 geoparques, dos quais dezassete eram europeus e
oito eram chineses (www.worldgeopark.org, 2004; http://portal.unesco.org, 2004).
Actualmente, a RGG é contituída por trinta e cinco geoparques, dos quais 23 são
membros europeus e 12 são chineses.
Dos geoparques europeus, dois encontram-se no nosso país vizinho. Um deles é o
Parque Cultural de Maestrazgo, situado na província de Aragão, no norte de Espanha,
que ocupa um vasto território, cerca de 270000 ha, entre Saragoça e Teruel, no vale
do rio Guadalope (Veen, 2001; www.europeangeoparks.maestrazgo.org, 2004). A sua
riqueza patrimonial inclui vários monumentos, áreas etnológicas, depósitos
arqueológicos e paleontológicos, espaços naturais e uma riqueza paisagística
(www.europeangeoparks.maestrazgo.org, 2004).
No interior do Parque Cultural de Maestrazgo existem seis centros de interesse, entre os
quais se encontra o Parque Geológico de Aliaga (Figura 22), inventariado como Ponto
de Interesse Geológico. Neste, é possível contemplar a História da Terra durante os
últimos 200 milhões de anos através de dois itinerários distintos. Um dos intinerários tem
carácter mais científico com um conjunto de onze pontos de interesse e o outro, de
carácter mais turístico, possui nove pontos de interesse, alguns coincidentes com os do
itinerário científico, onde se encontram quadros e painéis interpretativos, para além da
existência de panfletos e guias que auxiliam a visita a crianças, estudantes ou
cientistas (Veen, 2001; www.europeangeoparks.maestrazgo.org, 2004;
www.turismomaestrazgo.com, 2004; www.parquegeologicoaliaga.com, 2004).

33
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Figura 22 – Parque Geológico de Aliaga.


(Fonte: www.parquegeologicoaliaga.com/galeria, 2004)

Existem quatro aspectos nucleares de interesse no interior do parque: os estratos do


período do Cretácico, com alternância de formações calcárias marinhas (Figura 23) e
formações arenosas e argilosas depositadas em rios e lagos; formações continentais
da Era Terciária; deformações tectónicas ocorridas durante a Orogenia Alpina e
formas de relevo singulares, resultantes dos processos erosivos que modelaram a
paisagem (Simon, 1995; www.europeangeoparks.maestrazgo.org, 2004;
www.turismomaestrazgo.com, 2004).

Figura 23 – Camadas de calcário.


(Fonte: Robert van der Veen, in European Geoparks Magazine,
issue 1, November, 2001)

34
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Um outro geoparque europeu é o Parque Natural Psiloritis, situado na zona central


da ilha de Creta, na Grécia, que inclui a cadeia montanhosa Psiloritis e as colinas do
norte (Koziol e Koziol, 2001; www.psiloritis.net.gr, 2004). É uma área com uma excelente
beleza natural, um lugar histórico de grande valor cultural, um símbolo de Creta, com
características geomorfológicas, ecológicas e culturais (www.psiloritis.net.gr, 2004).
Milhares de pessoas vivem e trabalham neste lugar de cultura e entretenimento, onde
um modo de vida pastoral que permaneceu inalterável até à actualidade atrai
milhares de visitantes todos os anos (www.psiloritis.net.gr, 2004). No interior do parque
existem excelentes afloramentos, onde é possível observar em bom estado de
conservação a maioria dos diferentes tipos de rochas presentes na ilha e encontrar
conchas fossilizadas (Koziol e Koziol, 2001; www.psiloritis.net.gr, 2004 . Para além disso,
caracterizam a paisagem todo o tipo de estruturas geológicas, numerosas cavernas,
desfiladeiros impressionantes e estruturas geomorfológicas (Figura 24)
(Koziol e Koziol, 2001; Charalampos, 2003; www.psiloritis.net.gr, 2004).

1 2

3 4
Figura 24 – Parque Natural Psiloritis: 1 - Falhas de Kroussonas; 2 - Dobras de Vossakos;
3 - Kamariotis Karst ; 4 - Caverna de Sfentoni.
(Fonte 1 e 4: Barbara Koziol e Martin Koziol in European Geoparks Magazine, issue 1, November,
2001; Fonte 2 e 3: C. Fassoulas)

De grande valor científico é o Planalto de Nida (Figura 25) e as secções de Damasta,


para o aparecimento sem igual da falha que trouxe até à superfície as rochas das
montanhas de Psiloritis (Koziol e Koziol, 2001). Para além dos aspectos geológicos,
existem muitos locais de valor arqueológico, como a caverna de Ideon Andron (Figura

35
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

26), onde se acredita que Zeus, o rei dos deuses gregos, terá crescido e que a este
local chegariam muitas pessoas para oferecer sacrifícios e adorar Zeus (Koziol e Koziol,
2001; Kaloust, 2003; www.psiloritis.net.gr, 2004).

Figura 25 – Planalto de Nida. Figura 26 - Caverna de Ideon Andron.


(Fonte: C. Fassoulas) (Fonte: Barbara Koziol e Martin Koziol in
European Geoparks Magazine, issue 1,
November, 2001)

Para além dos aspectos geológicos, culturais e históricos salientam-se ainda os


aspectos ecológicos, na medida em que a cadeia montanhosa Psiloritis abriga um
grande número de espécies endémicas de fauna e flora, sendo também amplamente
conhecida pela sua riqueza de ervas aromáticas com qualidades terapêuticas (Koziol
e Koziol, 2001; Kaloust, 2003; www.psiloritis.net.gr, 2004).

Para desenvolver o geoturismo na Europa, relacionando o Património Geológico


existente nos diferentes países europeus, surgiu a ideia, conhecida por “Geopark Trip”,
de disponibilizar viagens através da Europa que ligassem todos os geoparques,
possibilitando aos turistas desfrutar do Património Geológico europeu (Frey, 2001). No
entanto, dado o pragmatismo económico do sector do turismo, esta ideia não parece
ter aplicabilidade por motivos de viabilidade económica (Frey, 2001).

Nos EUA existem muitos parques nacionais, que embora não pertencendo à rede
mundial de geoparques, possuem uma forte componente geológica. Talvez um dos
mais conhecidos internacionalmente seja o Parque Natural de Yellowstone. Criado em
1872, foi o primeiro Parque Nacional dos EUA. Possuidor de uma grande diversidade e
riqueza natural, é o parque dos EUA que recebe mais visitantes. Ocupa uma área de
28 000 metros quadrados, onde é preservada uma grande variedade de espécies de
vida selvagem e os processos naturais que os sustentam (www.nps.gov/yell, 2004).
Existindo na área do parque evidências da ocorrência de extensas erupções
vulcânicas (Figura 27) e da presença de glaciares, os aspectos que mais se destacam

36
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

neste parque são os géiseres, a vida selvagem, os lagos, o canhão do rio Yellowstone
e as árvores petrificadas (www.nps.gov/yell, Setembro, 2004).

Figura 27 – Colunas basálticas.


(Fonte: http://volcanoes.usgs.gov/yvo/gallery, 2004)

O Parque Natural de Yellowstone fica situado no canto noroeste da fronteira de


Wyoming e é aqui que existem mais géiseres que em qualquer outro lugar do globo
(Figura 28), incluindo o mundialmente conhecido Géiser do Velho Fiel, para além de
milhares de outras manifestações vulcânicas como fontes termais e fumarolas
(www.nps.gov/yell, 2004).

1 2
Figura 28 – Géiseres do Parque Natural de Wellowstone: géiser Steamboat (1)
e géiser Fountain (2).
(Fonte: http://volcanoes.usgs.gov/yvo/gallery, 2004 e www.geyserstudy.org, 2004)

37
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

É também muito conhecido pela existência do espectacular Canhão do rio


Yellowstone, com 1200 pés de profundidade, realçada pelas magníficas quedas de
água (www.nps.gov/yell, 2004) (Figura 29).

.
Figura 29 – Canhão do rio Yellowstone.
(Fonte: http://volcanoes.usgs.gov/yvo/gallery, 2004)

A nível nacional salienta-se a iniciativa Geologia no Verão da responsabilidade da


Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica e
patrocinada pelo Ministério da Ciência e do Ensino Superior, que tem contribuído para
a valorização e divulgação da Geologia e do Património Geológico. Esta iniciativa
tem fomentado junto do grande público, o interesse e conhecimento da Geologia e
do Património Geológico. Tem igualmente captado a atenção do público para o
significado dos objectos geológicos, para a sua utilidade e importância e em alguns
casos tem sensibilizado para a geoconservação.
Merecem também destaque alguns projectos que foram desenvolvidos nos últimos
anos, nomeadamente o que se desenvolveu na Universidade do Minho, ao abrigo de
um projecto conjunto da Fundação Ciência e Tecnologia e do Instituto da
Conservação da Natureza. Este projecto consistiu na realização de um estudo da
geologia e do Património Geológico em dois parques naturais do NE do país, o Parque
Natural do Douro Internacional e o Parque Natural do Montesinho, procedendo-se à
sua inventariação, caracterização e divulgação ao público. O trabalho desenvolvido

38
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

nestes parques poderá desempenhar um papel importante, pelo exemplo que poderá
constituir quanto à importância do Património Geológico nas políticas de conservação
da natureza destes parques, na medida em que é a geodiversidade que suporta a
biodiversidade que os caracteriza (Dias & Brilha, 2004; Alves et al., 2004; Pereira et al.,
2004). Este trabalho tem vindo a promover a defesa da geoconservação e sua
integração na conservação da natureza. O Departamento de Ciências da Terra da
Universidade do Minho destaca-se ainda por ser pioneiro na estruturação de uma pós-
graduação em Património Geológico e Geoconservação, que teve início em Outubro
de 2005. Segundo a brochura promocional, este visa o desenvolvimento de
capacidades em geoconservação, aumentar a consciência dos professores na
educação para temas de sustentabilidade, permitir trocas de experiências,
desenvolver pesquisa nesta área, etc.
O Museu Nacional de História Natural tem desempenhado também um papel
importante na defesa do Património Geológico português. A título de exemplo cita-se
o projecto de criação de um Exomuseu da Natureza, que inclui um Exomuseu
Geológico (Carvalho,1999). Este corresponde a um conjunto de geossítios localizados
em várias regiões do território português, que constituem pólos do Exomuseu com
elevado valor científico, pedagógico e cultural. Sendo assim, as peças geológicas do
museu serão observadas em contexto natural, integradas na paisagem de que fazem
parte.
A Associação Portuguesa de Geólogos (APG) e o IGM (actualmente integrado no
INETI) são entidades que se têm destacado, nomeadamente pela promoção de
congressos e seminários. Salienta-se o I Seminário sobre Património Geológico,
realizado em Junho de 1999, em Alfragide, e o Congresso Internacional sobre
Património Geológico e Mineiro, realizado em Outubro de 2001, em Beja, para além
dos congressos nacionais de Geologia, onde tem sido feita uma abordagem à
conservação e valorização do Património Geológico.

2.5 Geoturismo

A protecção do Património Geológico para além da sua conservação, deve


igualmente promover o desenvolvimento sustentável e sua possível utilidade para a
sociedade (Nieto, 2002). De acordo com o mesmo autor, o Património Geológico
pode ter uma utilidade científica, educativa e turística/geoturística, sendo a sua
utilização com fins turísticos a que proporciona maior valor económico ao Património
Geológico, pressupondo no entanto, a construção de infra-estruturas e criação de
postos de trabalho, quer relacionados directamente com a divulgação do Património
Geológico exposto, quer com a hotelaria e restauração, potenciando desta forma a

39
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

economia local. Quando o turismo e a ciência se associam novas oportunidades


emergem, quer para a ciência porque alcança nova audiência, quer para o turismo
porque proporciona novas oportunidades para melhorar a experiência dos turistas ao
oferecer uma visão diferente da paisagem e ao dar novas razões para explorá-la,
fazendo com que permaneçam mais tempo numa região e gastem
consequentemente mais dinheiro, o que estimula a economia local (Monro, 2004).

O geoturismo é considerado uma vertente do ecoturismo, pelo que deve assentar


nos princípios do turismo sustentável. O seu desenvolvimento tem por base a
geodiversidade e/ou o Património Geológico de uma região (Figura 13). A primeira
definição de geoturismo a ser amplamente publicada foi a de Hose (1995), segundo a
qual o geoturismo permite aos turistas a aquisição de conhecimento e compreensão
da geologia e da geomorfologia de um local, para além do nível de mera avaliação
estética. O geoturismo constitui um meio para promover o valor e benefícios sociais
dos locais de interesse geológico e geomorfológico, os seus materiais e para assegurar
a sua conservação, para o uso de estudantes, turistas, etc. Na Malásia, foi sugerido
que este termo, seja um novo ramo da geologia, que deverá suportar mundialmente o
crescimento do ecoturismo (Patzak, 2001). Para a TIA (Travel Industry Association of
America), o geoturismo combina os aspectos culturais e ambientais, que fazem com
que um lugar seja diferente de outro, tendo a preocupação do impacto local do
turismo nas comunidades, na sua economia e estilo de vida. Segundo esta
associação, o geoturismo também deverá integrar aspectos culturais e não somente
os aspectos geológicos de um local. Esta ideia da integração de outros aspectos que
não apenas os geológicos no geoturismo é partilhada por Matthias & Andreas (2003),
que referem que o geoturismo é uma forma de turismo baseada no Património Natural
de uma região, incluindo os aspectos geológicos, botânicos ou arqueológicos, onde o
conceito de desenvolvimento sustentável tem um papel essencial. Desta forma, é
essencial que a geologia, em vez de ser considerada isoladamente, seja abordada no
geoturismo num contexto mais amplo, devendo ser desenvolvida uma abordagem
integrada das paisagens, como fazendo parte de um único mosaico onde se
encontram as características culturais, biológicas e geológicas (Larwood & Prosser,
1998).
O geoturismo oferece uma oportunidade para que a conservação do Património
Geológico aconteça quando o impacto do seu uso é cuidadosamente gerido, mas
também é, em parte, uma consequência de uma bem sucedida conservação do
Património Geológico, assegurando a sua preservação para que seja possível aos
turistas desfrutar e aprender acerca dele (Larwood & Prosser, 1998). Desta forma, o
geoturismo e a Geoconservação têm uma relação ambivalente, uma vez que o

40
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

geoturismo pode promover a Geoconservação e a Geoconservação pode por sua


vez promover o geoturismo(Figura 30).

Indústria
Exploração
de recursos para serem utilizados na
minerais e
Turismo
energéticos Produção sustentável
de energia
o seu valor económico pode conduzir à

Ecoturismo

Património Geoturismo
deve ser Geoconservação
Geológico conservado

o seu conjunto constitui o


pode promover

Geossítios
pode promover
pode ameaçar a

educativo
constituem os

locais com turístico


significativo valor

científico ou outro

Geodiversidade

Figura 30 – Esquema representativo das interrelações que estabelecem os conceitos de


Geodiversidade, Geossítios, Património geológico, Geoconservação e Geoturismo.

O geoturismo é assim a melhor oportunidade que existe para promover o Património


Geológico e sensibilizar o público em geral e as comunidades locais para a
importância da sua conservação (Larwood & Prosser, 1998; Patzak, 2001). Para além
do papel importante que o geoturismo desempenha na Geoconservação, este
constitui uma actividade económica interessante, que, sem dúvida, pode ajudar ou
potenciar a economia de áreas rurais economicamente desfavorecidas (Nieto, 2002).
Pode trazer vantagens como a venda dos produtos locais, a promoção de novos
produtos com conotação geológica, crescimento dos negócios de hotelaria e
restauração, criação de empregos, apoio ao transporte local, etc (Patzak, 2001). No
entanto, as actividades turísticas podem também acarretar impactes negativos sobre
a geodiversidade e sobre o Património Geológico, que devem ser evitados a fim de
impedir a destruição dos objectos geológicos, que constituem a razão pela qual
muitos turistas visitam determinadas regiões. Os impactes negativos também se podem
verificar em sentido contrário - o Património Geológico sobre o turismo. Um exemplo

41
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

disso foi a diminuição da frequência turística em algumas regiões dos Alpes, depois
das avalanches ocorridas em Fevereiro de 1999 (Reynard et al., 2003).
Apesar de ser mais comum o desenvolvimento do geoturismo em áreas afastadas
das cidades, destaca-se a sua aplicação em centros urbanos, através da criação de
itinerários geoturísticos. Estes itinerários integram os locais mais importantes,
proporcionando a compreensão da sua história geológica e a forma como ela
condicionou o desenvolvimento urbano (Auteri, 2004). O mesmo autor refere que a
promoção do geoturismo em centros urbanos é uma forma de sensibilizar o público
para a evolução natural e antrópica das cidades e que pode servir de catalizador
para o desenvolvimento do turismo sustentável.
São muitas as regiões que têm a possibilidade de promover o geoturismo. Estas
regiões, devidamente geridas, podem gerar emprego e novas actividades
económicas, especialmente nas regiões onde são importantes as fontes de
rendimento adicionais (Patzak, 2001). O programa Leader é um programa da União
Europeia que teve início em 1991 com o programa Leader I, ao qual se seguiu o
Leader II, encontrando-se agora em vigor o Learder +. Este visa promover o
desenvolvimento económico das zonas rurais do território europeu e onde o turismo,
nomeadamente o geoturismo, pode surgir como um instrumento importante para o
desenvolvimento económico sustentável dessas zonas.

2.6 Implementação do ecoturismo

2.6.1 Os intervenientes

A implementação do ecoturismo não é uma tarefa fácil, mas para que seja
facilitada deverá existir a cooperação entre os vários intervenientes, nomeadamente
entre as entidades governamentais, a indústria turística, os operadores turísticos, as
agências de viagens, as organizações não governamentais e as comunidades locais
(Wood, 2002). Para além da cooperação entre os muitos intervenientes neste
processo, que é essencial, a forma como é efectuada a planificação e a gestão de
um local que se pretende que seja um destino ecoturístico, determinará a forma como
o ecoturismo poderá aí prosperar.
Os gestores do ecoturismo nos diversos países estão dependentes dos governos,
nomeadamente dos Ministérios do Turismo e do Ambiente, para desenvolver políticas
que protegerão e administrarão as áreas naturais, e da indústria turística, para
transportar e acomodar os ecoturistas (Wood, 2002). Por isso, os governos e os
ministérios são actores cruciais para estabelecer o reconhecimento do seu país como

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

um ecodestino, devendo as suas políticas de turismo promover uma experiência de


qualidade ao turista e não apenas divulgação a um número elevado de turistas
(Wood, 2002).
A indústria turística promove o turismo da natureza com uma variedade de nomes,
mas é geralmente referido como a oportunidade para observar e experimentar
ambientes naturais e os seus habitantes locais de formas que não são viáveis no
turismo de massas (Shores, 2001). Em 1993 foram publicadas pela TIES (The International
Ecotourism Society) as directrizes que os operadores turísticos da natureza devem
seguir. De uma forma resumida, estas directrizes passam pela preparação dos turistas,
pela minimização do impacte provocado por estes, bem como dos operadores
turísticos, por providenciar formação adequada, contribuir para a conservação,
promover a empregabilidade local, oferecer alojamento local que não seja destrutivo
para o ambiente, não desperdiçar os recursos locais, etc. No entanto, nem todos os
operadores ecoturísticos são responsáveis, não seguindo na totalidade as directrizes
referidas. Wood (2002) também faz referência aos requisitos que um bom operador
ecoturístico deve cumprir e especificando a preparação dos turistas que a TIES
destacou, salienta que um operador ecoturístico deverá providenciar informação
acerca da região e da cultura local antes da visita, acerca do vestuário e
comportamento apropriado antes da partida e também ao longo da visita, para além
de fornecer informação detalhada ao longo da visita transmitida por guias locais bem
treinados, de promover a interacção dos turistas com a comunidade local, de
assegurar a liquidação das taxas de entrada, etc.
As agências de viagens têm um papel importante no marketing dos produtos da
indústria turística, embora não tenham desempenhado ainda um papel de relevo na
divulgação e vendas para o mercado do ecoturismo (Wood, 2002).
As organizações não governamentais desempenham também um papel
importante no desenvolvimento do ecoturismo, estando geralmente envolvidas por
duas razões: protecção da biodiversidade e do ambiente e pelo desenvolvimento
sustentável da população local (Wood, 2002). Este tipo de organizações têm
trabalhado activamente, quer a nível nacional quer a nível internacional, para
assegurar o desenvolvimento do ecoturismo de acordo com as directrizes do
desenvolvimento sustentável, daí realizarem os seus próprios programas ecoturísticos
dado o seu grande desejo de utilizar o ecoturismo como uma ferramenta na
conservação e desenvolvimento sustentável (Wood, 2002).
As comunidades locais têm um papel vital no desenvolvimento do ecoturismo na
sua região, pois a sua participação e envolvimento são críticos neste processo e daí a
importância das entidades governamentais, quer regionais quer nacionais, facilitarem
a integração das comunidades locais (Wood, 2002). A comunidade local pode não

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

compreender o valor do património que tem, que para ela é trivial, mas pode ser
receptiva e encorajada a valorizá-lo. Assim, as entidades públicas e privadas devem
considerar a colaboração com a comunidade local e compreendê-la, pois é o seu
ambiente, é ela que trabalha com e na paisagem, é preciso dar-lhe a capacidade
para gerir o seu ambiente e os meios para o fazer, senão de outra forma não o farão
(Faulkner, 2004). Deverá por isso, nos procedimentos para a implementação do
ecoturismo, estar incluída uma avaliação realizada com as comunidades locais
acerca dos benefícios e dos potenciais impactes negativos que o projecto pode
acarretar (Wood, 2002). As comunidades locais devem ter o poder de escolher o seu
próprio destino e para isso, devem possuir toda a informação necessária para decidir
se os impactes negativos do projecto não excedem as vantagens, antes de se realizar
um novo projecto (Wood, 2002). Neste processo com as comunidades locais é
aconselhável utilizar intermediários qualificados com o intuito de facilitar a
comunicação entre ambas as partes (Wood, 2002). Se o projecto for aceite pela
comunidade, os seus representantes deverão então ser integrados nos processos de
tomada de decisão em todas as fases do projecto (Wood, 2002). A realização de um
acordo escrito entre a comunidade e o projecto ecoturístico pode ajudar ambos ao
lados a sentir-se mais seguro, uma vez que todas as regras e responsabilidades ficam
claramente definidas desde o início (Wood, 2002). Para que o projecto se torne um
sucesso, a comunidade local tem de investir nele, utilizando os recursos que têm
disponíveis como o seu trabalho, os recursos renováveis locais e a terra (Wood, 2002).
Podem ainda estabelecer parcerias, convidando grupos ambientalistas para
trabalharem em conjunto e encontrarem as soluções e o capital necessário para as
concretizar (Shores, 2001).
Para além dos actores atrás referidos, cujo papel desempenhado no ecoturismo já
foi salientado, não se pode esquecer de maneira alguma quem procura ou poderá
procurar este sector do turismo, os turistas. O desafio do ecoturismo depende muito
dos turistas, pois estes podem mudar a forma como a indústria turística trata as áreas
naturais (Shores, 2001). O mesmo autor defende que os turistas antes de viajar devem
ser encorajados a informar-se acerca do local que pretendem visitar, bem como
acerca dos operadores turísticos, para que ao serem confrontados com uma oferta
variada de turismo da natureza, a tarefa de seleccionar uma viagem e um operador
turístico esteja facilitada. A progressiva adesão dos turistas a operadores que seguem
os parâmetros do ecoturismo, promoverá a adesão dos restantes às boas práticas
(Shores, 2001).
A identificação dos turistas é fundamental para a planificação e gestão do
turismo. Alguns estudos foram feitos no âmbito da tipologia dos turistas, que incluem a
identificação dos ecoturistas, fazendo a distinção entre estes e outros tipos de turistas.

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Nestes estudos, os critérios utilizados para identificar os ecoturistas relacionam-se com


o local visitado, as actividades desenvolvidas, ou ainda as motivações que este tipo
de turistas possui quando planificam uma viagem.

As regras são diferentes para cada um dos intervenientes referidos, mas em


conjunto podem encontrar os métodos e as práticas ambientais economicamente
viáveis, de forma a assegurar a manutenção das atracções naturais e culturais sem
prejudicar os seus recursos (Shores, 2001). Destaca-se a insistência dos vários autores na
importância da cooperação e comunicação entre todos aqueles que intervêm
directa e indirectamente para o sucesso do ecoturismo, uma vez que existem relações
de dependência entre eles. Baseada na cooperação de todos os intervenientes, a
planificação e gestão que é realizada nos ecodestinos deve ocorrer de tal forma que
a longo prazo evite a sua massificação, os impactes ambientais e a perda de
integridade biológica e cultural Wood (2002). A massificação do ecoturismo deve ser
evitada a todo custo devido às consequências negativas que acarreta.
Os roteiros construídos para o turismo de massas estão geralmente dirigidos para os
interesses daqueles, nomeadamente para os serviços que os turistas vão desfrutar
como restaurantes, piscinas, praias, ginásios, desportos aquáticos, etc. Esses roteiros
são bem diferentes dos roteiros ecoturísticos que obedecem já a regras básicas
estabelecidas e que devem se cumpridas: as cores utilizadas, a segurança, os
materiais utilizados, o número de infra estruturas, a sinalização, a largura dos caminhos,
e a originalidade (Chávez, 2004).

2.6.2 A interpretação da natureza

Como a grande maioria das pessoas vive nos grandes centros urbanos, não tendo
muitas oportunidades para estar em contacto com a natureza, a interpretação
ambiental tem um papel muito importante num roteiro ecoturístico (Chávez, 2004). A
importância atribuída à interpretação ambiental advém do facto, e de acordo com
Wood (2002), do ecoturismo permitir aos turistas em primeiro lugar compreender
melhor os ambientes naturais e culturais únicos que existem no nosso planeta. Netto
(2000) distingue a interpretação ambiental de educação ambiental, salientando que
a educação ambiental promove o desenvolvimento do conhecimento e um
comportamento positivo perante o ambiente, perseguindo objectivos educativos
muito específicos, ao passo que a interpretação ambiental é provocação, revelação,
enriquecimento da experiência do visitante, com respeito pelo lugar ou objecto que é
interpretado, desenvolvendo também atitudes positivas para a conservação do
património. Desta forma, os principais objectivos da interpretação ambiental são

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

diferentes dos da educação ambiental, mais amplos, dirigidos a um destinatário mais


heterogéneo, que se pretendem atingir num contexto não escolar, muito embora
possam estar na interpretação alguns dos objectivos da educação ambiental, estes
nunca são os seus principais objectivos (Netto, 2000). Apesar dos seus principais
objectivos serem diferentes, para o mesmo autor a interpretação ambiental relaciona-
se com a educação ambiental, quando se consideram os aspectos da influência
sobre o conhecimento e o comportamento das pessoas e daí a interpretação pode
ser o ponto de partida para a educação ambiental. Hose (2000) in Dias & Brilha (2004)
define a interpretação ambiental como a “revelação do significado e valor de um
local, traduzindo a linguagem geológica e científica, dados e conceitos em factos
comuns, termos e ideias, baseadas nas experiências, conhecimento e compreensão
de pessoas que não são especialistas”. Em Nykanen (2001), está também patente a
ideia da descoberta da natureza, em que esta se é dada a conhecer no processo de
interpretação. O autor salienta que o papel da interpretação da natureza é expor as
pessoas à natureza, mostrar os significados e a interdependência entre elas e a
natureza. Neste processo, os visitantes constroem o significado das experiências que
tiveram no lugar que visitaram, dos pensamentos, das recordações e dos sentimentos
que trazem consigo; as palavras e as imagens que lhes são oferecidas são apenas
uma parte dessa experiência (Carter, 2004). Este autor refere ainda, e relacionando
com a ideia de Netto (2000) de que a interpretação ambiental é provocação, que os
visitantes devem ser estimulados e que a sua resposta emocional é a verdadeira razão
da interpretação, pois este é um processo essencialmente criativo, em que se deve
“semear nas cabeças da nossa audiência”. De acordo com Bini & Poli (2004) o
processo de interpretação e comunicação deve habilitar cada um de nós a observar
conscientemente o mundo físico e os seus fenómenos, observando de diferentes
perspectivas o mundo que nos rodeia e que normalmente não estamos habilitados a
compreender e assimilar.
A existência de um processo de interpretação da paisagem é justificada por Bini &
Poli (2004), que referem a sua necessidade para que os turistas desenvolvam uma
percepção consciente da paisagem, para que não fiquem apenas com uma
memória daquilo que observaram, que descodifique os seus significados e revele as
suas complexidades particulares, capaz de dar uma identidade precisa e uma
unicidade aos diferentes lugares. Enfatizam ainda que apenas um processo de
interpretação e de transmissão do conhecimento eficiente pode tornar a maioria dos
locais únicos, transformando-os numa mais valia para o desenvolvimento social e
económico do local. Um puzzle pode representar o que deve ser reproduzido no
processo de interpretação, uma vez que ao recompor certas peças numa imagem, o
verdadeiro significado do que estamos a observar é revelado (Bini & Poli, 2004). A

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

interpretação assistiu a um desenvolvimento, sendo considerada uma disciplina, que


possui já um plano metodológico, um conjunto de procedimentos e técnicas,
transformando numa verdadeira profissão a tarefa de quem comunica com os
visitantes, muitas vezes de uma forma instintiva e desorganizada (Netto, 2000). A
justificação para a ascensão da tarefa de quem comunica com os turistas a um
estatuto de verdadeira profissão poderá encontrar-se em Loikkanen (2001), quando
este refere que os intérpretes são aqueles que agem para estabelecer a ligação entre
a população local, os turistas e os locais que estes visitam. No processo de
interpretação, a escolha das técnicas mais adequadas dependem do público que
integra a audiência, com quem se vai estabelecer uma relação e obter um feedback,
dos objectivos previamente estabelecidos e obviamente daquilo que os locais nos
oferecem (Bini & Poli, 2004) (Figura 31).
Objectivos

Figura 31 – Modelo de interpretação de Cherem (1977) in Bini & Poli (2004).

A interpretação é um processo de comunicação específico, onde é importante


“vestir” os conceitos, tendo em atenção os meios de comunicação a utilizar, que são
variados e que podem ser combinados, para que melhor se possam satisfazer os
objectivos estipulados (Bini & Poli, 2004).

A interpretação do Património Geológico é geralmente baseada em quadros e


panfletos, escritos frequentemente por cientistas, que assumindo um bom
conhecimento técnico da sua audiência têm tendência para veicular muita
informação em vez de interpretação (Gordon et al., 2004). No entanto, segundo os

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

mesmos autores, assiste-se hoje a uma tentativa de largar esta abordagem muito
científica para a interpretação e veiculação de informação aos turistas utilizando
vários tipos de abordagem, com meios específicos, dependendo da audiência,
baseadas em princípios de interpretação. Uma das maiores dificuldades com que se
deparam é a transformação da linguagem científica numa linguagem acessível e
compreensível para o público em geral, embora compreender a informação seja
apenas o primeiro passo no processo de interpretação (Bini & Poli, 2004). No entanto, a
transformação do complexo, a linguagem científica, em simples, a linguagem clara
para toda a gente, é segundo Summermatter (2003) um processo com uma
metodologia, que implica a observação das técnicas utilizadas e uma profunda
reflexão sobre os processos usados ou a ser adoptados, para que se possa descobrir
um caminho através da nébula que é a vulgarização científica. Os geólogos têm a
fama de serem uma classe que não comunica muito bem entre si e muito menos com
o público, mas esta situação tem-se alterado e há um desejo crescente dos geólogos
partilharem com as pessoas o conhecimento que possuem acerca da evolução das
paisagens (Monro, 2004).É importante que os geólogos continuem a trabalhar de perto
com os profissionais da interpretação, de forma a assegurar que a mensagem
transmitida seja clara e compreensível para a audiência e que é transmitida de uma
forma atractiva (Gordon et al., 2004).

2.6.3 O ecoturismo em Áreas Protegidas

O ecoturismo necessita de áreas naturais acessíveis, encontrando-se muitas delas


nos parques naturais ou em outras áreas protegidas, locais que servem para a
conservação e recreação e não para o turismo (Buckley, 2002). No entanto, segundo
o mesmo autor, o turismo em áreas naturais protegidas está a crescer, uma vez que
possuem muitos atractivos como a paisagem, a fauna e flora selvagem e actividades
ao ar livre. Apesar de se encontrarem também em outros locais públicos e privados, os
mais conhecidos e acessíveis pontos de atracção estão nos parques nacionais. Para
além da acessibilidade constituir um factor importante para o desenvolvimento do
turismo nestes locais, também o turismo da natureza é apontado por muitos como a
solução para o subfinanciamento dos parques naturais e áreas protegidas (Shores,
2001). A maioria dos parques têm financiamentos públicos muito baixos, que não
chegam para colmatar as despesas de gestão e o aumento do número de visitantes,
o que os leva a recorrer aos operadores turísticos para obterem ganhos extra, que lhes
permita fazer frente às despesas (Buckley, 2002). Desta forma, o ecoturismo é vital para
muitas áreas protegidas, gerando lucro e benefícios para a população local. As
WCPA`s Task Force on Tourism (uma das seis comissões da IUCN) auxiliam as áreas

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

protegidas a fazer o melhor uso do turismo, sem provocar danos (World Comission on
Protected Areas (WCPA), 2000). O modelo de gestão dos parques, em que a
administração está a cargo dos governos de cada país, não é normalmente
problemático quando o governo central providencia anualmente um orçamento
suficiente (Eagles, 2001). De acordo com o mesmo autor, quando tal não acontece, e
existe um poderoso sector privado que pressiona para atingir os seus objectivos
individuais, ocorre geralmente a degradação ambiental, na medida em que a falta
de orçamento conduz à incapacidade da administração em controlar as pressões de
turismo. No entanto, os governos de muitos países apesar de não financiarem os
parques com verbas adequadas também não vêem com bons olhos o turismo em
parques públicos, na medida em que se geram lucros privados com base em
financiamentos públicos (Buckley, 2002). Os parques e as empresas de turismo têm
objectivos diferentes. Para as empresas o principal objectivo é o lucro, enquanto que
para os responsáveis pelos parques um dos principais objectivos é a conservação. Sem
os princípios adequados podem ocorrer alguns conflitos entre os gestores dos parques
naturais públicos e os interesses comerciais privados. Por isso, foram criados alguns
princípios adequados para a categoria II (Área Protegida para conservação de
ecossistemas e recreação) das Áreas Protegidas da IUCN (Buckley, 2002). Alguns
destes princípios referem que:
• o objectivo primordial dos parques é a conservação e o objectivo secundário a
recreação;
• o turismo não tem um direito especial nos parques;
• o impacte provocado pelo turismo tem de ser mínimo;
• os operadores turísticos devem pagar uma taxa pelo usufruto dos parques nas suas
actividades, entre outros.

2.7 O ecoturismo e o geoturismo em Portugal

Apesar de termos assistido a um crescimento considerável nos últimos anos e ainda


ser esperado um maior crescimento no futuro, o ecoturismo não teve em Portugal o
desenvolvimento que seria desejado. Embora sejam conhecidas as vantagens da sua
implementação e existir no nosso país áreas menos desenvolvidas, muitas delas
afectadas pela desertificação, que poderiam impulsionar a sua economia através do
ecoturismo, este tem tardado em desenvolver-se. Existem em Portugal muitos locais em
que o ambiente, a população e a sua cultura são únicos e que atrairiam muitos
turistas, que anseiam cada vez mais por terem novas experiências e visitarem locais
singulares. O nosso país, pela existência de paisagens atraentes e diversificadas, pela
extensa costa litoral, pela variedade da fauna e flora que se pode encontrar de norte

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

a sul do continente e ilhas, pela existência de espécies protegidas, pelos usos e


costumes de populações ainda preservados, pela gastronomia e produtos artesanais,
pela realização de eventos de raiz ancestral, é um destino de eleição para a prática
do ecoturismo (http://www.portugalinsite.pt, 2004). No entanto, em Portugal, têm sido
desenvolvidos poucos projectos capazes de fomentar efectivamente o ecoturismo e
os que vão sendo realizados, ficam na maioria das vezes no papel. Seria desejável que
o país se preparasse para receber um número crescente de turistas que procuram este
sector do turismo, pois de outra forma poderá estar arredado do circuito dos destinos
ecoturísticos. A Resolução do Conselho de Ministros (RCM) de 25 de Agosto de 1998,
tendo por base um protocolo de cooperação entre o Ministério da Economia e o
Ministério do Ambiente, produziu o Programa Nacional de Turismo de Natureza (PNTN),
onde são definidas algumas directrizes para o desenvolvimento de uma actividade
turística, que denominaram “Turismo de Natureza”, em áreas nacionais protegidas, na
medida em que consideram que estas áreas apresentam muitas potencialidades para
desenvolver esta actividade. Segundo o mesmo documento, o PNTN deve
desenvolver-se no sentido de integrar a conservação da natureza, o desenvolvimento
local e a qualificação e diversificação da oferta turística. Posteriormente e baseando-
se nesta RCM, foram elaborados alguns decretos, que versam sobre o regime jurídico
do Turismo de Natureza, a definição e regulamentação das modalidades de
alojamento e das actividades de animação ambiental.
Naqueles documentos, infelizmente, a referência ao Património Geológico é quase
inexistente. Salienta-se o facto de o próprio termo “ecoturismo” não ser utilizado nos
projectos políticos, em vez deste utilizam “turismo de natureza”, onde apesar do
ecoturismo estar incluído, alberga outro tipo de actividades distintas do ecoturismo.
Em 2003 foi aprovado o Plano de Desenvolvimento para o Sector do Turismo, onde
não é feita qualquer referência ao Turismo de Natureza. Alguns passos já foram dados,
criando nomeadamente alguma legislação, mas seria importante efectuar estudos
sobre os turistas para poder dar uma resposta que vá ao encontro das suas pretensões
e necessidades e para auxiliar na formulação de estratégias que permitam a Portugal
adquirir confirmação, qualidade e competitividade neste sector do turismo nacional.
No Plano de Desenvolvimento para o Sector do Turismo uma das medidas diz
respeito ao reforço da informação e do conhecimento do sector, que de acordo com
o mesmo plano será operacionalizada através da reformulação do sistema de recolha
e tratamento de informação estatística e apoio ao desenvolvimento de estudos
turísticos e investigação aplicada ao turismo e lazer. O governo reconhece a
importância desta medida, que considera um requisito essencial para a formulação
de políticas para o sector. Contudo, segundo a Associação Portuguesa de Turismo
Sustentável e Ecoturismo (ATECO) e a Liga Portuguesa para a Conservação da

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Natureza (LPN) assiste-se em Portugal a um retrocesso no que respeita à


implementação do ecoturismo, verificando-se a ausência de uma estratégia nacional,
o que acaba por condicionar também as iniciativas privadas que pretendem
promover este sector do turismo. O sector privado, ao contrário das entidades
governamentais, tem revelado um maior interesse e dinamismo. No entanto, sem a
cooperação e diálogo com os órgãos do governo é difícil desenvolver projectos. Seria
aconselhável que o desenvolvimento do ecoturismo no nosso país não se limitasse às
áreas protegidas e que se desenvolve-se também fora destas, pois existem locais
igualmente interessantes, que apresentam as características que possibilitam o
desenvolvimento deste tipo de turismo. No entanto, se o ecoturismo for bem
implementado nas áreas protegidas é um bom começo, pois poderá incrementar a
sua expansão generalizada.

Em Portugal, tal como em outros países, a implementação de estratégias


geoturísticas não é fácill. Sendo o geoturismo uma modalidade turística que se baseia
na geodiversidade, este tipo de turismo poderia apresentar um amplo crescimento no
nosso país se dependesse apenas deste factor, visto Portugal apresentar uma vasta
geodiversidade. No entanto, assim não acontece porque a geodiversidade tem ainda
na nossa sociedade um reduzido reconhecimento. Daí que, num país como o nosso,
onde a consideração da geodiversidade e da sua conservação é reduzida, embora
com alguns avanços nos últimos anos, acarreta consequentemente muitas
dificuldades no desenvolvimento do geoturismo. Face a esta situação, poucos são os
locais que tendo por base uma adequada estratégia de Geoconservação e
condições de acessibilidade ao público são valorizados e divulgados. O geoturismo
não se desenvolverá se o público em geral e o governo desconhecerem a existência
da geodiversidade e do seu valor, nomeadamente turístico e económico. É o
desenvolvimento desta cultura científica no domínio das Ciências da Terra que poderá
potenciar a protecção e conservação da geodiversidade e por sua vez promover o
geoturismo no nosso país.

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

2.7.1 Exemplos nacionais de iniciativas geoturísticas

Em Portugal, o Património Paleontológico e o Património Geomorfológico, partes


integrantes do Património Geológico, são aqueles que têm tido uma mais ampla
divulgação turística, talvez por serem aqueles que mais atraem o público em geral. No
entanto, deverão ser feitos esforços para que outros aspectos do Património
Geológico português possam ser valorizados no âmbito do geoturismo.
Referem-se em seguida alguns exemplos de locais onde se assiste a um
aproveitamento pedagógico e turístico do Património Geológico em que a sua
valorização e divulgação é suportada por uma estratégia de conservação.

No Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, no extremo oriental da Serra


de Aire encontra-se o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de
Aire, situado a cerca de 10 Km de Fátima, na localidade de Bairro, entre Ourém e
Torres Novas. A jazida paleontológica da Pedreira do Galinha (Figura 32), descoberta
em Julho de 1994 e classificada como Monumento Natural em 1996, contém um
importante registo fóssil do período do Jurássico médio, Bajociano-Batoniano, de
pegadas de dinossáurios saurópodes, animais herbívoros, quadrúpedes e muito
corpulentos, que constituem um dos registos mais antigos de saurópodes. No calcário,
onde ficaram registadas as pegadas podem ser observados cerca de 20 trilhos ou
pistas, uma delas com 147 m e outra com 142 m de comprimento
(www.pegadasdedinossaurios.org, 2004). Os turistas efectuam um percurso pedestre
com cerca de 1500 metros com acesso à laje onde se encontram as pegadas dos
dinossáurios. A cada visitante é disponibilizada um folheto informativo de apoio à visita
e ao longo do percurso existem painéis informativos e leitores de paisagem que
complementam a informação, adicionando aspectos da História da Terra, dos
dinossáurios, da formação das pegadas, da interpretação da paisagem passada e
actual, entre outras. Podem ser efectuadas visitas de grupo, que se forem marcadas
previamente, terão o acompanhamento de um guia
(www.pegadasdedinossaurios.org, 2004). O visitante também pode conhecer o Jardim
Jurássico (Figura 33), onde se pretende fazer a reconstituição da flora existente do
período Jurássico com fetos arbóreos e não arbóreos, cicas, araucárias, ginkgos,
zimbros, teixos e cavalinhas e onde também existe um painel de grandes dimensões
que apresenta, de uma forma simples, a evolução da vida na Terra ao longo de
milhões de anos (www.pegadasdedinossaurios.org, 2004).

52
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Figura 32 – Pegadas de dinossáurios da Pedreira do Galinha, Serra de Aire.


(Fonte: www.pegadasdedinossaurios.org )

Figura 33 – Flora do jardim Jurássico.


(Fonte: www.pegadasdedinossaurios.org/html/home.htm)

O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros disponibilizam ainda outros percursos
pedestres, onde são integrados aspectos biológicos, culturais e geológicos,
destacando-se para além das pegadas de dinossáurios do Pedreira do Galinha,
aspectos variados da morfologia cársica (www.icn.pt/areas_protegidas, 2004).
Segundo uma brochura deste parque, o calcário é a litologia dominante que devido à
acção erosiva da água foi moldado tendo originado diversas formas cársicas como
dolinas, uvulas, polje, lapas, grutas, lapiaz, etc.
O Património Mineiro pode também ter valor turístico, e um exemplo disso é o caso
do Parque Mineiro Cova dos Mouros, localizado na Serra do Caldeirão, próximo de
Vaqueiros, no concelho de Alcoutim, no Algarve, encontra-se aberto ao público
desde 1998 (http://minacovamouros.sitepac.pt, 2004; Guia Didáctico Parque Mineiro
Cova dos Mouros). De acordo com Martins et al. (2001) e com a página web do
Parque Mineiro Cova de Mouros este é o primeiro e único parque mineiro temático
deste género em Portugal, onde os visitantes podem efectuar um percurso de 750 m a
céu aberto e conhecer a evolução da história da mineração e da metalurgia. Neste

53
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

parque existem reconstituições de habitações pré-históricas e utensílios primitivos,


incluindo representações de figuras humanas (Figura 34 e 35), que dão ao visitante a
sensação de viajar até épocas remotas desde o Calcolítico (2500 a.C.) até à
actualidade. O percurso dispõe de um sistema de guia-áudio, disponível em cinco
línguas (Português, Espanhol, Inglês, Alemão e Holandês) (roteiro mineiro Algarve-
Andaluzia).

Figura 34 – Representação de figuras humanas e


de habitações do Calcolítico.

Figura 35 – Trincheira a céu aberto onde se podem observar escravos e a reprodução de uma
grua que representam a época romana.
(http://minacovamouros.sitepac.pt, 2004)

Neste projecto, é feita a integração de uma forte vertente arqueológica, em que um


dos aspectos mais importantes é o estudo da evolução do conhecimento metalúrgico
do Homem primitivo, baseado no estudo dos fornos primitivos onde se fazia a fundição
dos minérios dos quais existem no parque réplicas (Figura 36), com vários domínios das
Ciências da Terra como a Estratigrafia, a Mineralogia, a Paleontologia, a Geologia

54
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Estrutural e a GeomorfologiA (Martins et al., 2001). No Parque são evidentes diversos


vestígios dos trabalhos mineiros mais recentes (século XIX), destacando-se pequenas
escombreiras, blocos de grauvaque com malaquite e óxidos de ferro, galerias e os
poços mineiros (Figura 37).

Figura 36 – Réplica dos “fornos tipo túnel” da Idade do Ferro.


(Fonte: http://minacovamouros.sitepac.pt, 2004)

Figura 37 – Poços do núcleo mineiro Cova de Mouros.


(Fonte: http://minacovamouros.sitepac.pT, 2004)

Para além dos aspectos intimamente relacionados com a exploração mineira, os


visitantes podem também apreciar a paisagem , a fauna e flora e as piscinas naturais
da ribeira da Foupana (brochura; roteiro mineiro Algarve-Andaluzia). O parque
possibilita aos visitantes um passeio à volta do parque em burros ibéricos, cuja espécie
que se encontra em declínio o parque tem ajudado a perpetuar (Martins et al., 2001;
brochura; roteiro mineiro Algarve-Andaluzia).

55
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

O Parque Paleozóico de Valongo, criado em 1998, foi um projecto onde a Câmara


Municipal de Valongo e a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto
trabalharam em parceria, tendo tido a colaboração e assessoria científica e técnica
dos Departamentos de Geologia, Zoologia e Botânica da UP (Couto et al., 2000;
Couto, 2001; www.paelozoicovalongo.com, 2004). Actualmente o Centro e o
Departamento de Geologia da UP prestam assessoria e apoio científico para
dinamização, conservação e divulgação do Património Geológico do parque (Couto,
2001; www.paelozoicovalongo.com, 2004). O Parque localiza-se numa área a norte do
concelho de Valongo, que abrange a Serra de Sta. Justa, parte da Serra de Pias e do
vale do rio Ferreira (www.paelozoicovalongo.com, 2004). Possui três percursos
interpretativos distintos, devidamente sinalizados, que permitem aos visitantes
contactar com os diferentes aspectos do Património Natural do parque (Couto & Dias,
1998; Couto et al., 2000; www.paelozoicovalongo.com, 2004; brochura). No vasto
Património Geológico incluem-se aspectos de grande interesse relacionados com a
Estratigrafia, Paleontologia, Tectónica, Geomorfologia e Recursos Minerais (Couto &
Dias, 1998; Couto et al., 2000; Couto, 2001; www.paelozoicovalongo.com, 2004;
brochura). Dos vários motivos de interesse que caracterizam cada um dos percursos
destaca-se:
• o registo da Era Paleozóica, do Precâmbrico e/ou Câmbrico e Ordovícico;
• fósseis;
• estruturas geológicas como dobras e falhas;
• trabalhos mineiros, onde se destacam os vários “fojos” resultantes do desmonte dos
filões auríferos que remonta ao tempo da ocupação romana, minas de ouro do séc.
XX abandonadas e poços de antigas explorações mineiras;
• o vale do rio Ferreira e alguns dos seus aluviões e terraços do Quaternário (Couto &
Dias, 1998; Couto, 2001; www.paelozoicovalongo.com, 2004; brochura) (Figura 38).

Para além dos aspectos de carácter geológico, é também possível visitar moinhos
hidráulicos em funcionamento, a aldeia rústica de Couce, observar exemplares
representantes da fauna e flora endémicas e ainda praticar desportos radicais, como
alpinismo e escalada (brochura; www.paelozoicovalongo.com, 2004). Existe ainda um
Centro Interpretativo, onde é possível observar uma maqueta representativa da
evolução geológica e geomorfológica da área do Parque, consultar publicações
científicas numa biblioteca temática, visitar uma exposição de exemplares fósseis,
outra exposição sobre os recursos minerais da região, consultar mapas geológicos e
topográficos, etc (Couto et al., 2000; brochura; www.paelozoicovalongo.com, 2004).

56
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

1 2

3 4

5 6

Figura 38 - Alguns aspectos geológicos do Parque Paleozóico de Valongo


(Couto & Dias, 1998; Couto & Dias s/d).

1 - Pistas de locomoção de trilobites em quartzito da base do Ordovícico;


2 - Camada de quartzito dobrada;
3 - Entrada do Fojo das Pombas, exploração aurífera romana;
4 - Galeria de mina de antimónio e ouro;
5 - Fragas do Castelo - encaixe do rio Ferreira nas cristas quartzíticas do Arenigiano
do flanco normal do Anticlinal de Valongo;
6 - Aluviões do rio Ferreira utilizados para a agricultura.

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Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

2.8 Os cruzeiros fluviais e o turismo na região do Vale do rio Douro

Na área em estudo, o vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão, cerca de 125,8 Km,
vários operadores turísticos privados sedeados na sua maioria nas cidade do Porto e
Gaia, realizam cruzeiros turísticos de subida e descida do rio Douro. No entanto, estes
cruzeiros são realizados para além do sector referido, nomeadamente até Barca
d`Alva, a cerca de 209 Km da cidade do Porto. Os cruzeiros apresentam várias
modalidades, associando por vezes à viagem de barco uma viagem de comboio na
Linha Ferroviária do Douro, uma viagem no Comboio Histórico do Douro, uma
passagem por caves do vinho do Porto de algumas quintas com prova de vinhos,
excursões a outras localidades fora do âmbito ribeirinho, alojamento e realização de
passeios e de algumas refeições. A duração dos cruzeiros também é variável,
podendo durar um ou mais dias, estando condicionada pelo tipo de embarcações
que realizam os cruzeiros. Estas, podem ter a forma de barcos rabelos, inspirados nos
tradicionais barcos que faziam o transporte do vinho ou embarcações mais modernas,
de maiores dimensões e mais luxuosas que oferecem aos turistas maior conforto. Estas
proporcionam dormidas a bordo e funcionam como verdadeiros hóteis flutuantes
(Figura 39).

1 2

Figura 39 – Embarcações que realizam cruzeiros no rio Douro: rabelo (1) e barco-hotel (2).
(Fonte: www.douroazul.com/Main/MainFS.asp, 2004)

A oferta é feita sob a forma de pacotes mais ou menos rígidos, que incluem todo o
apoio logístico necessário, nomeadamente para as refeições que são realizadas a
bordo dos barcos. A realização dos cruzeiros fluviais desde 1986 tornou-se possível
graças à prévia construção das barragens, quer porque regularizaram o leito do rio e
melhoraram a navegabilidade, quer devido ao facto com segurança e ao facto de
todas elas possuirem eclusas de navegação, que funcionam como um elevador de

58
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

água, possibilitando às embarcações a transposição das mesmas (Figura 40).

Figura 40 – Barragem de Crestuma-Lever.

O número de passageiros dos cruzeiros fluviais no rio Douro, tem vindo a registar um
aumento significativo nos últimos anos (Gráfico 1).

Gráfico 1 – Evolução do nº de passageiros dos passeios fluviais no rio Douro, 1997-2003 (Fonte:
RTDS/GAI em PDTVD)

Segundo dados fornecidos, entre Janeiro e Setembro de 2004 realizaram cruzeiros no


rio Douro 145.846 turistas, mais 7% do que em igual período do ano de 2003, entre os
quais 124.979 turistas são de nacionalidade portuguesa. Até 15 de Novembro, altura
prevista para o fecho da navegação no canal, as estimativas totais apontam para os
185 mil turistas, o maior valor de sempre. Comparando com os valores do gráfico, e
tendo em conta que esta estimativa para 2004 se irá verificar, irá registar-se um
aumento de cerca de 10% relativamente ao ano de 2003 e de cerca de 60%

59
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

comparando com ano de 2002. Em 2005, até 14 de Outubro tinham realizado cruzeiros
no rio Douro 156000 turistas, estimando-se que até ao fim da época este número
aumente até aos 190000. De acordo com Francisco Lopes, responsável pela
delegação do Douro do Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos (IPTM), esta
actividade turística irá continuar a crescer, como resultado de investimentos que os
operadores turísticos estão a fazer, sendo os cais mais visitados os da Ribeira, Gaia,
Régua e Pinhão.
O apoio e a informação que é fornecida ao longo dos cruzeiros varia com o
operador turístico em que se viaja. Existem cruzeiros onde não é dada qualquer
informação, outros em que é veiculada alguma informação, nomeadamente sobre as
pontes construídas sobre o rio, as barragens e algumas das localidades localizadas nas
margens do rio Douro. Esta informação é essencialmente sobre dados históricos, como
por exemplo as datas de construção das barragens e das pontes. Nas subidas que
realizámos não foi feita qualquer referência à paisagem magnífica do vale do rio
Douro, respeitante quer a aspectos de natureza cultural, biológica ou geológica
(Figura 41).

1 2

Figura 41 - Alguns aspectos


geológicos observáveis no
percurso fluvial Porto-Pinhão.
1 - Quartzitos do Ordovícico;
2 - Poço mineiro de Germunde;
3 – Granitos.

60
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Numa destas subidas até ao Pinhão, um turista estrangeiro questionava-nos


apontando numa Carta Geológica à escala 1/500000 de Lamego que observavamos,
se o local onde nos encontravamos já era Espanha, pois esperava que o cruzeiro iria
também efectuar-se em território espanhol. Esta situação revelou que estes turistas não
estavam sequer informados sobre a contextualização geográfica do cruzeiro, não se
conseguindo por isso situar no território nacional e ibérico. Salienta-se que neste
cruzeiro não foi distribuído nenhum suporte informativo. Contudo, diversas abordagens
revelaram o interesse dos turistas em possuir mais informação. Em conversa com alguns
turistas estrangeiros num dos cruzeiros, observámos a admiração pela total ou quase
ausência de informação e o seu interesse relativo aos aspectos geológicos e
paisagísticos. Julgo mesmo que os turistas ficaram um pouco desiludidos, pois as suas
expectativas em relação ao cruzeiro não foram suplantadas.

Ao longo dos últimos anos, foram várias as acções e os documentos elaborados


com o objectivo de desenvolver a região do Vale do Douro, nomeadamente no que
diz respeito ao sector do turismo. Destacam-se os estudos “Contribuição para o
inventário das potencialidades turísticas da área do Douro” e o “Estudo de
desenvolvimento da Região Douro”, o programa PRODOURO – Programa de
Desenvolvimento do Douro e o plano PROZED – Plano Regional de Ordenamento da
zona envolvente do Douro. No entanto, e apesar dos estudos e programas realizados
a oferta turística desta região continua a ser muito inferior às suas reais
potencialidades.

Para valorizar toda a riqueza da região diriense, foi criada em 1996 a Rota do
Vinho do Porto. Esta organização é constituída por 49 locais, ligados em rede e directa
ou indirectamente relacionados com a produção do Vinho do Porto e Douro
(www.rvp.pt, 2004). Para atingir o seu principal objectivo, que visa o desenvolvimento
regional, é proposto aos turistas a realização de um conjunto de itinerários pela região,
possibilitando-lhes o contacto com a cultura da vinha e produção dos Vinhos do Porto
e Douro, bem como com as suas gentes e costumes (www.rvp.pt, 2004). Os visitantes
podem realizar provas de vinhos nas quintas produtoras, saborear a gastronomia
tradicional tendo a possibilidade de ficarem alojados nas belas quintas existentes na
região do Douro (www.rvp.pt, 2004).

Mais recentemente, a RCM n. 139/2003, de 29 de Agosto determinou a elaboração


e execução do Plano de Desenvolvimento Turístico do Vale do Douro (PDTVD), que de
acordo com Arlindo Marques, encarregado de Missão do PDTVD, apresenta uma
estratégia integrada de desenvolvimento turístico para o Vale do Douro, que define os

61
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

grandes objectivos a atingir, os tipos de investimento privado a apoiar e apresenta um


quadro de programação dos investimentos públicos mais urgentes. Este plano visa
genericamente estimular e desenvolver o aproveitamento das potencialidades
turísticas, através do reforço das suas estruturas, dos recursos humanos e da sua
capacidade de promoção. Grande parte do conjunto de projectos preconizados no
PDTVD e considerados fundamentais para o desenvolvimento turístico do vale do rio
Douro deverão ser operacionalizados no período 2004-2007. Estes projectos,
considerados prioritários, estão enquadrados em grandes temas que incluem:
acessibilidades rodoviárias; acessibilidades e projectos ferroviários; navegação fluvial;
infra-estruturas aeroportuárias; património natural e ambiental; património histórico-
cultural; ruralidade e desenvolvimento local; alojamento turístico tradicional e
termalismo; formação em turismo; marketing, promoção e animação; itinerários
turístico culturais e informação e sinalização turística. Pretende-se com a
concretização deste conjunto de medidas que o Vale do Douro se venha a tornar um
grande destino turístico de qualidade, quer no mercado nacional, quer internacional.
Espera-se que todas estas boas intenções sejam efectivamente operacionalizadas e
que não fiquem uma vez mais apenas no papel. De acordo com o PDTVD, são
destacados como pontos fortes para o desenvolvimento turístico da região quer o rio
Douro e o seu canal navegável, quer o Património Natural, Paisagístico, Histórico e
Cultural. Como oportunidades salientam-se as novas motivações dos turistas, que
privilegiam destinos com elevado grau de autenticidade e qualidade ambiental e os
novos produtos turísticos como os cruzeiros fluviais. Estes surgem como um dos
principais produtos turísticos do vale do Douro com maior interesse para o destino em
termos de potencial de crescimento (nível de despesa e atractividade local). Os
principais mercados emissores de turistas com motivações que vão ao encontro das
características do vale do Douro, são a Alemanha, Reino Unido, EUA, Holanda e
Espanha (Gráfico 2).

Gráfico 2 - % de turistas com motivações Vale do Douro, por principais origens


(Fonte: Deloitte Consulting/Neoturis, 2003 em PDTVD).

62
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

Sem dúvida que o conhecimento destes dados são essenciais na definição das
estratégias de desenvolvimento turístico a implementar, na medida em que ao
conhecer os potenciais turistas podemos desenvolver um produto que melhor
responda às suas expectativas. Salienta-se o facto de Portugal ser o país que
apresenta menor percentagem de turistas com motivações Vale do Douro, apesar da
região apresentar características de eleição do mercado português, em que a
paisagem é apontada como a principal preferência de 30% dos turistas. No entanto,
assiste-se desde 1994 a uma procura crescente por parte dos turistas portugueses pelo
turismo fluvial no rio Douro, tendo sido entre Janeiro e Setembro de 2004 os que mais
procuraram esta actividade (cerca de 125 mil). Do conjunto de medidas incluídas no
PDTVD, destaca-se a medida relacionada com o Património Natural e Ambiental, que
inclui um conjunto de projectos que visam requalificar, preservar e valorizar o
Património Natural e Ambiental. Enquadrados nesta medida, são considerados
prioritários projectos relacionados com a sensibilização dos agentes regionais e locais,
das populações residentes e dos turistas para a preservação do Património Natural
bem como com estudos e inventários do Património Natural. São referidos ainda nesta
medida, embora considerados não prioritários, os projectos da construção do Centro
de Interpretação e Animação das Arribas do Douro e o Centro de Interpretação e
animação do Parque do Alvão, promovidos pelo Parque Natural do Douro
Internacional e Parque Natural do Alvão, respectivamente. Para além da medida
anterior, existe uma outra, intitulada “Itinerários turístico-culturais e
informação/sinalização turística” que deverá promover percursos temáticos (rotas e
itinerários) que deverão assentar num conjunto de valores histórico-patrimoniais,
culturais, naturais e vitinícolas, representativos do potencial endógeno do Vale do
Douro. Os projectos enquadrados nesta medida estão relacionados na sua maioria
com o vinho e as vinhas, mas incluem também a execução de uma rede de
miradouros. Do PDTVD, destaca-se o elevado número de projectos relacionados com
as acessibilidades, nomeadamente rodoviárias, ferroviárias, fluviais e aéreas, quando
comparados por exemplo com o número de projectos no âmbito do Património
Natural. No entanto, nem sempre um vasto leque de infra-estruturas de comunicação
é sinónimo de desenvolvimento turístico. A sustentabilidade surge neste plano como
condição essencial no desenvolvimento turístico no vale do rio Douro, assegurando a
preservação do Património Natural, Cultural e Ambiental, contribuindo assim para um
desenvolvimento turístico ambientalmente sustentado. Com todas as alterações
previstas para a região, nomeadamente em termos de infra-estruturas, a tarefa de
fazer cumprir os critérios de sustentabilidade não vai ser fácil e os possíveis impactos
negativos destas alterações na qualidade da paisagem podem pôr em causa a razão
pela qual os turistas visitam o Vale do Douro. Esperemos então que para se valorizar

63
Eugénia Araújo Cap. II - Conceptualização e implementação do Geoturismo

não se danifique. É ainda de destaque a preocupação presente no PDTVD na


participação das populações locais, bem como pela melhoria do seu bem-estar.

Neste plano, destaca-se a ausência de uma referência directa à geodiversidade e


ao Património Geológico da região e a inexistência de medidas que visem a sua
preservação, valorização e divulgação, com excepção da medida não prioritária da
construção do Centro de Interpretação Ambiental das Arribas do Douro. No entanto,
poderão estar implícitas em alguns projectos enquadrados na abrangente medida
Património Natural e Ambiental. Salienta-se a alusão ao ecoturismo, quando se refere
que o Património Natural, Cultural e Histórico da região, constitui um conjunto único
para a implementação de intervenções na área do ecoturismo.

64
Capítulo III

Geologia do vale do rio Douro no


sector Porto-Pinhão
Eugénia Araújo Cap. III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

3.1 Introdução

A geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão abrange aspectos


diversificados como a estratigrafia, as rochas ígneas, os recursos minerais e energéticos
e outros como os impactes dos processos geológicos, nomeadamente as cheias.
Neste capítulo faz-se a caracterização e descrição sintética da estratigrafia desta
região, que abrange terrenos desde o Pré-Câmbrico até ao Carbonífero e do
Pliocénico ao Holocénico, bem como das rochas ígneas (Figura 42). Por último, é
apresentado um modelo evolutivo no contexto dos Ciclos Varisco e Alpino, com
referência aos ambientes deposicionais, bacias sedimentares, registos estratigráficos e
sedimentológicos, bem como à actuação de processos tectónicos. Desta forma,
pretende-se fazer uma abordagem dinâmica dos processos geológicos que ao longo
do tempo se conjugaram, condicionando a formação e evolução das litologias e das
estruturas geológicas que caracterizam a região do vale do rio Douro.
Em capítulos posteriores serão abordados os temas referentes aos recursos e às
cheias.

3.2 Estratigrafia

3.2.1 Précâmbrico superior – Câmbrico

As formações geológicas regionais com esta idade pertencem na sua maioria ao


tradicionalmente denominado Complexo Xisto-Grauváquico (CXG), designação da
autoria de Carríngton da Costa (1950). Surgiram outras designações como “Formação
xistosa das Beiras” e “Formação argilo-gresosa das Beiras” (Teixeira, 1981).
Posteriormente, Sousa (1982) na sequência do estudo do CXG na região do Vale do
Douro atribui-lhe a designação de “Grupo do Douro”. O mesmo autor propõe a
subdivisão do CXG em dois grandes grupos que incluem a maioria dos afloramentos
do CXG: o Grupo do Douro e o Grupo das Beiras. Estes dois Grupos estão incluídos no
Super-Grupo Dúrico-Beirão (Sequeira & Pereira, 2000).
Na região do Vale do Douro tem grande desenvolvimento o Grupo do Douro, do
qual se faz em seguida uma síntese.

66
Figura 33 – Extracto da carta geológica de Portugal à escala 1:500 000 (Oliveira et al., 1992b).
Legenda:

GRANITÓIDES GRANITÓIDES RELACIONADOS COM GRANITÓIDES DE DUAS


RELACIONADOS COM CISALHAMENTOS DÚCTEIS MICAS COM RESTITOS
FRACTURAS FRÁGEIS
Holocénico Devónico Ordovícico Câmbrico Granitos Granitos Granitos e Granitos
Inferior inferior (Grupo do biotíticos em moscovítico- granodioritos geralmente
Douro e geral porfiróides biotíticos porfiróides porfiróides
Grupo das
Beiras)

Plistocénico Silúrico Ordovícico Granitos Granodioritos Granito de duas


médio monzoníticos biotíticos micas
indiferenciado

Pliocénico Ordovícico Granitos Granitos


superior monzoníticos gnáissicos
porfiróides

Carbonífero Quartzodioritos
e granodioritos
biotíticos
Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

3.2.1.1 Grupo do Douro

O Grupo do Douro localiza-se geograficamente no vale do rio Douro (Figura 33) e


a norte da província da Beira Alta, estendendo-se para a província de Salamanca e
Las Hurdes, em Espanha. Apresenta uma individualidade própria e constitui uma
sequência de metassedimentos com uma homogeneidade geográfica, que traduz
uma génese comum (Coke et al., 2000). Está representado por um conjunto de seis
unidades litoestratigráficas, constituídas por alternâncias de grauvaques e pelitos com
características turbidíticas e para o topo por grauvaques e conglomerados, que no
conjunto apresenta uma espessura da ordem dos 2000 m (Sousa, 1982, 1985; Oliveira et
al., 1992a).
A sequência litoestratigráfica do Grupo do Douro, foi inicialmente definida na
região de Pinhão-S. João da Pesqueira por Sousa (1982). No entanto, trabalhos de
cartografia geológica posteriores, permitiram cartografar o Grupo do Douro noutras
regiões, nomeadamente no núcleo do anticlinal de Valongo e na região a oeste do
Sulco Carbonífero Dúrico Beirão (SCDB) (Pereira & Ribeiro, 1992) (Figura 43).

Figura 43 – Afloramento do CXG nas proximidades de Melres.

69
Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Foram cartografadas e definidas


seis Formações, da base para o topo
(Sousa, 1982, 1985) (Figura 44):

- Formação de Bateiras
- Formação de Ervedosa
- Formação Rio Pinhão
- Formação Pinhão
- Formação da Desejosa
- Formação de S. Domingos

Figura 44 – Coluna estratigráfica do

Grupo do Douro

(Sousa & Sequeira, 1989).

Faz-se em seguida uma descrição sucinta das seis Formações com base em Sousa
(1982, 1985) e Sousa & Sequeira (1989).

Formação de Bateiras

Esta Formação pode ser dividida em dois membros: um Membro Inferior,


caracterizado pela presença de xistos negros com intercalações de leitos muito finos
esbranquiçados de metagrauvaques e de quartzo-filitos; um Membro Superior com
níveis calcários a que se sobrepõem espessos metagrauvaques com intercalações
filitosas cinzento e cinzento-escuras, listrados. O Membro Inferior, apresenta localmente
metaconglomerados para a base. Os xistos negros são constituídos principalmente por
quartzo, grafite, clorite, moscovite e albite, contendo por vezes pirite visível. Os leitos
esbranquiçados intercalados são essencialmente quartzosos. Os calcários são

70
Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

constituídos por cristais de calcite e dolomite, encontrando-se por entre estes cristais
grãos de quartzo, moscovite e plagioclase. Os metagrauvaques são feldspáticos, com
clastos de quartzo, plagioclase e mais raramente moscovite. Os clastos apresentam
dimensões mais pequenas no Membro Inferior. Nos conglomerados, os clastos são
essencialmente de quartzo e a matriz é quartzítica, por vezes carbonatada. A
espessura desta Formação é de cerca de 900m. O limite desta Formação é marcado
quando os filitos escuros, listrados, do topo da Formação, passam a uma sucessão
finamente estratificada de cor verde.

Formação de Ervedosa do Douro

É caracterizada pela presença de bancadas finas de metaquartzovaques verdes


e xistos cloríticos, apresentando um nível com cristais de magnetite bem desenvolvido
de 20-25 cm de espessura, que foi utilizado como camada guia na cartografia
regional. Localmente, apresenta intercalações de metaconglomerados e
metagrauvaques. A espessura desta Formação é de 250±50m. A passagem à
Formação de Rio Pinhão identifica-se pelo aumento dos termos metagrauváquicos,
que passam de um modo rápido a bancadas espessas.

Formação de Rio Pinhão

A base desta Formação consta de uma sucessão de bancadas centimétricas (10-


20 cm) de metagrauvaques e/ou metaquartzovaques, alternando com intercalações
filitosas finas. Cerca de 70 a 80 m a partir da base as bancadas tornam-se mais
espessas, atingindo espessuras de 70 cm a 1 m. Geralmente, entre as bancadas de
metagrauvaques há intercalações de xistos listrados, com espessuras muito menores
(10 a 30 cm). No interior da Formação, em posição variável, ocorrem níveis de
microconglomerados e conglomerados. As bancadas metagrauváquicas mostram
com frequência diversas estruturas sedimentares: figuras de carga, estratificação
gradativa, laminação oblíqua. Os metagrauvaques desta Formação são rochas
geralmente de cor cinzenta-escura, de granulometria relativamente fina quartzo-
feldspáticos. Os clastos dos microconglomerados e dos conglomerados são
principalmente de quartzo, apresentando-se muito arredondados. A matriz é
constituída por microclastos de quartzo e plagioclase e mais raramente de moscovite.
No Sector do Pinhão apresenta uma espessura de cerca de 250±50 m. A passagem à
unidade seguinte considera-se quando se perde o carácter metagrauváquico,
geralmente com uma tonalidade cinzenta escura e se passa a uma sucessão de cor
verde, finamente estratificada.

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Formação de Pinhão

Esta Formação apresenta uma sequência finamente estratificada de cor verde,


onde alternam metaquartzovaques com xistos. Salienta-se a ocorrência de dois níveis
de cristais bem desenvolvidos de magnetite. A acompanhar a magnetite, aparecem
esporadicamente cristais de pirite bem desenvolvidos. Os metaquartzovaques são
constituídos por quartzo, plagioclase, clorite e moscovite. São frequentes zonas
carbonatadas com calcite. Os xistos, em análise microscópica correspondem a filitos
cloríticos e quartzosos. A espessura desta Formação, na região do Pinhão é de 350±50
m. A passagem à Formação de Desejosa ocorre de uma forma gradual mas rápida,
transitando-se para uma sequência de xistos de cor escura, onde intercalam
metassiltitos claros, que lhe confere um aspecto listrado.

Formação da Desejosa

Nesta Formação ocorrem alternâncias milimétricas a centimétricas de xistos


cinzento escuros e finos leitos de metassiltitos claros. Localmente, observam-se
bancadas de metagrauvaques e metaconglomerados. As estruturas sedimentares
mais frequentes são as figuras de carga e a estratificação entrecruzada. Os
metagrauvaques são feldspáticos, sendo os clastos essencialmente de quartzo e
plagioclase e a matriz constituída principalmente por quartzo, clorite, mocovite e
calcite. Os xistos são sericítico-cloríticos e quartzo-sericítico-cloríticos. Apesar desta
Formação constituir uma unidade homogénea e monótona, é possível em algumas
localidades observar por exemplo a ocorrência quer de leitos quartzosos com
contribuição carbonatada, assemelhando-se por vezes a calcários cristalinos, quer de
bancadas de metagrauvaques com mais frequência e mais espessas, desaparecendo
o carácter listrado. A espessura desta Formação é de cerca de 300m. A passagem à
Formação de S. Domingos é assinalada pela passagem rápida e progressiva a finas
bancadas de metaquartzarenitos pelito-psamíticas, que se tornam cada vez mais
espessas para o topo, com desaparecimento dos xistos.

Formação de S. Domingos

Nas finas bancadas de metaquartzarenitos, que para o topo passam a bancadas


métricas, ocorrem intercalações de níveis conglomeráticos espessos, com variações
laterais de espessura. Os conglomerados possuem clastos principalmente de quartzo e
mais raramente de calcário cinzento, filito, metagrauvaques e metaquartzovaques. A
matriz é constituída essencialmente por quartzo, plagioclase, calcite, clorite, moscovite

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

e biotite. Observam-se nos conglomerados figuras de erosão nas base das bancadas
e estratificação positiva, com diminuição do tamanho dos clastos. Os
metaquartzarenitos apresentam uma cor clara e granulometria grosseira, sendo os
minerais principais o quartzo, plagioclase, moscovite, clorite e biotite. A espessura
desta Formação é de 50 m.

Na região de Moncorvo, foi definida a Formação Quinta da Ventosa, que assenta


sobre a Formação de Desejosa e que passa em concordância cartográfica ao
Ordovícico (Silva et al., 1989). De acordo com Sousa (1985) a Formação Quinta da
Ventosa poderá ser um equivalente lateral da Formação de S. Domingos. Na zona de
Castelo Melhor foi ainda definida uma outra Formação, a Formação de São Gabriel
(Silva & Ribeiro, 1991), que assenta na Formação de Desejosa e que faz a transição
gradual para o Ordovícico sem discordância angular aparente. A estratigrafia relativa
destas unidades -Formações de S. Domingos, de Quinta da Ventosa e de São Gabriel,
é considerada discutível, sendo ainda expressa a convicção de que possam
corresponder a passagens laterais de fácies de idade semelhante (Silva & Ribeiro,
1991, 1994).
Esta sequência estratigráfica proposta para o Grupo do Douro foi posta em causa,
quando foi inferida a presença de um acidente cavalgante na região da Sra. do Viso
(Silva & Ribeiro, 1985) – o carreamento sinsedimentar da Sra. do Viso – cuja
responsabilidade é atribuída aos movimentos da fase Sarda. A identificação deste
acidente sugere a existência para W de uma duplicação tectónica no Grupo do
Douro, existindo uma equivalência lateral entre a Formação de Ervedosa e Formação
de Pinhão e entre a Formação de Bateiras e a Formação do Rio Pinhão (Figura 45).

Figura 45 – Esquema de duplicação tectónica no Grupo do Douro (Sousa, 1985).

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Estes movimentos teriam favorecido deslizamentos E-W, de materiais mais proximais


sobre materiais distais, situados a oeste (Silva & Ribeiro, 1994). A duplicação tectónica
terá ocorrido devido a um deslizamento por gravidade sinsedimentar, de idade sarda,
gerado durante a deposição da Formação de São Domingos (Sousa, 1985). Desta
forma, teríamos a sequência estratigráfica do Grupo do Douro constituída por uma
sequência autóctone envolvendo as F. de Bateiras e F. de Ervedosa do Douro e uma
sequência alóctone incluindo as F. Rio Pinhão, F. Pinhão, F. Desejosa e F. S. Domingos
(Sousa & Sequeira, 1989). Opinião em favor do carácter alóctone das Formações de
Desejosa e de S. Domingos foram ainda emitidas mais recentemente por Sequeira &
Pereira (2000). No entanto, outros investigadores indicam a ocorrência dos
carreamentos durante a sedimentação da Formação de Desejosa (Silva & Ribeiro,
1985), pelo que as Formações de Desejosa e de S. Domingos seriam assim, no todo, ou
pelo menos em parte, autóctones (Silva & Ribeiro, 1994). Esta opinião é também
partilhada por Coke et al. (2000) que atribui um carácter sinsedimentar aos
cavagalmentos. A sua causa não é atribuída à fase Sarda, que só terá actuado
depois da sedimentação da Formação de Desejosa e que conduziu em muitos locais
à sedimentação de uma sequência conglomerática que se sobrepõe à Formação de
Desejosa. Por fim, deve salientar-se que aquando da definição do Grupo do Douro
(Sousa, 1982) o autor tinha já indicado semelhança de fácies entre a F. Ervedosa e a F.
Pinhão, que encontrou explicação através deste modelo de duplicação tectónica.
Todavia, a passagem gradual da Formação de Ervedosa à Formação do Rio Pinhão e
a ausência de indícios de acidente entre as duas unidades não conduziram o autor à
suposição da existência de uma duplicação tectónica (Sousa, 1985; Sousa & Sequeira,
1989). Desta forma, na região do Pinhão o acidente é inferido, na medida em que os
trabalhos de campo não permitiram detectar evidências da ocorrência da
duplicação litostratigráfica (Sequeira & Pereira, 2000). Os carreamentos sin-
sedimentares também não foram identificados no levantamento geológico da área
correspondente (Silva & Ribeiro, 1994).

É problemática uma atribuição cronostratigráfica para o Grupo do Douro, dado a


escassez de fósseis, no entanto correlações litoestratigráficas com outras áreas
apontam uma idade câmbrica inferior (Sousa, 1982; Schermerhorn, 1956; Martinez
Garcia, 1973; Iglésias & Ribeiro, 1981 in Sousa, 1985). A atribuição desta idade para o
Grupo do Douro foi apoiada por fósseis de trilobites encontrados no topo da F.
Desejosa, na região de Moncorvo (Rebelo, 1985), que não permitindo uma datação
exacta, devido ao seu mau estado de conservação, apontam para uma idade
câmbrica.

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Para Teixeira (1981), o CXG na região do Porto tem uma idade précâmbrica
superior. Uma outra indicação advém da presença de rochas granitóides caledónicas
próximo da fronteira da ZCI com a ZOM (granitos de Figueiró dos Vinhos, Pedrógão,
Vila Nova, Coentral, etc.) de idades compreendidas entre os 500 Ma e os 530 Ma, que
metamorfizaram o CXG, factos que sugerem uma idade precâmbrica superior para
uma parte do CXG (Pereira & Macedo, 1983 in Sousa, 1985). Na Carta Geológica de
Portugal à escala 1:500 000 (Oliveira et al., 1992b) e na Folha 1 da Carta Geológica de
Portugal na escala 1:200 000 (Pereira & Ribeiro, 1992) é atribuída ao CXG/Grupo do
Douro uma idade câmbrica inferior. Após uma indicação para limite Precâmbrico-
Câmbrico que se poderia situar intra F. Bateiras (Sousa, 1985), foi posteriormente
indicado que a passagem ao Câmbrico poderá estar localizada entre a deposição
das Formações de Ervedosa e de Pinhão (Sousa & Sequeira, 1993 in Sequeira & Pereira,
2000).

3.2.2 Outras ocorrências

Existem unidades localizadas a oeste do Sulco Carbonífero do Douro, nas


proximidades do Porto, para os quais não se encontrou paralelo com as unidades do
Grupo do Douro definidas por Sousa (1982), mas cuja constituição litológica permitiu
que surgissem na cartografia sob a designação do CXG e incluem os xistos de
Fânzeres, migmatitos, gneisses, micaxistos, xistos luzentes, etc. (Costa & Teixeira, 1957;
Medeiros, 1964; Teixeira & Perdigão, 1962). Estas ocorrências surgem mais
recentemente sob a designação de CXG indiferenciado pelo facto das condições de
metamorfismo não permitirem distinguir formações. (Pereira & Ribeiro, 1992).

Migmatitos, gneisses, micaxistos e outras litologias (Complexo Xisto-grauváquico


indiferenciado)

Entre estas litologias aparecem manchas isoladas de granitos, responsáveis pela


sua intensa metamorfização. Nas zonas de contacto com as rochas graníticas
observam-se quase sempre estruturas migmatíticas (Costa & Teixeira, 1957; Medeiros,
1964). A passagem gradual de umas rochas às outras e o seu estado de alteração
dificultam a sua cartografia (Costa & Teixeira, 1957; Teixeira & Perdigão, 1962).
Os migmatitos são ricos em quartzo e feldspatos, contendo também biotite,
moscovite e ainda raros cristais de zircão, apatite e magnetite. Os gneisses são pobres
em quartzo e feldspatos, com moscovite, biotite, silimanite e cordierite (Costa &
Teixeira, 1957) (Figura 46).

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Figura 46 – Gneisses e micaxistos na zona de Atães - Jovim.

Xistos de Fânzeres

Os xistos de Fânzeres dispõem-se numa faixa localizada a oeste do Anticlinal de


Valongo, que se estende desde as proximidades de Ermesinde e atravessa o rio Douro
na zona da foz do Sousa e de Zebreiros (Costa & Teixeira, 1957; Teixeira & Perdigão,
1962; Medeiros, 1964; Fernandes et al., 1998) (Figura 47).

Figura 47 – Xistos de Fânzeres, nas proximidades da Foz do rio Sousa.

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Trata-se de uma unidade constituída por xistos micáceos porfiroblásticos, com


quartzo, biotite, moscovite e andaluzite, atingindo os porfiroblastos de estaurolite
dimensões na ordem dos 5 cm (Fernandes et al., 1998). Estes xistos estaurolíticos
apresentam-se moderadamente alterados nos afloramentos, sendo frequente os
cristais de estaurolite, por vezes maclados, se encontrarem soltos e espalhados pelo
chão (Medeiros, 1964; Fernandes et al., 1998). São frequentes os filonetes de quartzo
intercalados nos xistos (Teixeira & Perdigão, 1962).

3.2.3 Ordovícico

A transição do CXG para o Ordovícico é


marcada pela existência de uma
importante discordância angular, bem
evidenciada no bordo sul do Domínio
Dúrico-Beirão, que aparentemente se vai
atenuando para nordeste, podendo ocorrer
localmente no Vale do Douro passagem
gradual entre os sedimentos do CXG e os do
Ordovícico (Oliveira et al., 1992a).
Segundo Romano & Diggens (1974) in
Couto et al. (2000), o Ordovícico
compreende, da base para o topo, as
seguintes formações (Figura 48):

Formação de Santa Justa

Esta formação é equivalente da


Formação do Quartzito Armoricano que
ocorre em toda a Península Ibérica (Pereira
& Ribeiro, 1992). Em Valongo é usada a
designação de Formação de Santa Justa e
em Trás-os-Montes a designação de
Formação Quartzítica. Foi também
anteriormente designada por Quartzitos
com «Bilobites» e xistos intercalados
(Medeiros, 1964). Figura 48 - Coluna estratigráfica da
Carta Geológica à escala 1:50 000
de Penafiel, com representação de
unidades litostratigráficas do
Ordovícico (Medeiros et al., 1980).

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Na base desta formação predominam conglomerados do Tremadociano, constituídos


por calhaus rolados de quartzo, de dimensões variáveis, que estão relacionados com
o movimento transgressivo do Ordovícico (Medeiros, 1964). Os quartzitos sucedem aos
conglomerados e aqueles sebrepõe-se uma sequência finamente bandada
constituída por alternâncias de sedimentos gresosos claros e sedimentos pelíticos
escuros do Arenigiano, em que foram identificados níveis vulcano-sedimentares
(Couto 1993, 1995). No contacto das alternâncias gresosas-pelíticas com as litologias
da Formação que lhe segue(Formação de Valongo), ocorrem níveis fosfatados (Couto
1993, 1995). As bancadas de quartzitos têm uma orientação NW-SE. As rochas
quartzíticas atravessam o rio Douro nas proximidades da Quinta da Varziela e
continuam em direcção ao rio, através da região da Lomba, onde desaparecem,
reaparecendo na margem direita do rio parcialmente cobertas por areias fluviais
(Medeiros, 1964). As assentadas quartzíticas voltam a cortar o vale do rio Douro a
montante, no sítio da Abitureira (Figura 49), inflectindo na margem esquerda do rio
para este. Devido a uma falha nas proximidades de Barqueiros, situado a montante da
Abitureira, a faixa de quartzitos é desviada cerca de 1 Km para NE (Teixeira et al.,
1967).

Figura 49 – Cristas quartzíticas na região da Abitureira, margem direita do rio Douro.

Formação de Valongo

Esta formação, datada do Lanvirniano e Landeiliano, é referida nas cartas


geológicas à escala 1/50000 do Porto, Castelo de Paiva e de Peso da Régua como
xistos argilosos finos, escuros, ardosíferos, com fósseis (Xistos de Valongo). No Douro

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

inferior esta sequência é conhecida por Formação Xistenta e no Marão por Formação
de Pardelhas (Oliveira et al., 1992a). Em termos litológicos esta formação é constituída
por siltitos de cor rosada, seguidos por siltitos cinzentos e xistos. Os fósseis abundantes
existentes nestas rochas indicam uma idade de Lanvirniano a Landeiliano (Couto et
al.,2000). Esta formação encontra-se metamorfizada dando origem a corneanas
pelíticas e quartzo-pelíticas e xistos quiastolíticos, mosqueados, granatíferos,
cordieríticos (Medeiros, 1964).

Formação de Sobrido

Esta unidade foi designada por Nery Delgado (1908) por “Grauvaques de Sobrido”,
sendo mais tarde redefinida por Romano & Diggens (1974) (Pereira & Ribeiro, 1992). Na
carta geológica à escala 1/50000 do Porto e de Castelo de Paiva, esta unidade não
tinha esta designação, sendo referida como xistos e grauvaques com quartzitos. A
Formação de Sobrido é composta por dois membros: no inferior ocorre uma bancada
de quartzitos do Caradociano, que forma relevos ou pequenas cristas; o membro
superior é formado essencialmente por grés argilosos ou grauvaques de tons claros,
micáceos e com níveis de diversos materiais detríticos de variadas dimensões e
também concreções carbonatadas ricas em matéria orgânica (Pereira & Ribeiro,
1992). No Anticlinal de Valongo, o membro superior é constituído por arenitos e siltitos,
sendo-lhe atribuída a idade provável de Ashgiliano superior ou Silúrico inferior (Oliveira
et al., 1992a). De acordo com Couto (1993,1995), na base da Formação de Sobrido
ocorre um horizonte ferruginoso, que coincide com uma descontinuidade
estratigráfica, pondo em contacto materiais do Ashgiliano com materiais do
Landeiliano.

3.2.4 Silúrico

Apesar do Silúrico não cortar o vale do rio Douro no sector em estudo, encontram-
se sedimentos datados desta idade na região do anticlinal de Valongo e do Marão.
No anticlinal de Valongo, o Silúrico, que se encontra em duas faixas extensas, uma de
cada lado da dobra, é constituído por três unidades: Unidade dos Xistos Carbonosos
Inferiores, Unidade dos Xistos Carbonosos Superiores e Formação de Sobrado (Pereira
& Ribeiro, 1992). Na região do Marão encontra-se a Formação de Campanhó, onde
predominam xistos grafitosos e liditos, ocorrendo na parte superior calcários e um nível
quartzítico de espessura métrica no topo. Nesta Formação foram encontrados
graptólitos de Venloquiano Superior (Oliveira et al., 1992a).

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

3.2.5 Devónico

Tal como no caso das unidades do Silúrico, as unidades do Devónico não


intersectam o vale do rio Douro, no sector em estudo. No entanto, o Devónico inferior
(Gediniano e Coblenciano) encontra-se associado ao flanco ocidental do Anticlinal
de Valongo, estendendo-se ao longo de uma faixa de largura variável, com algumas
interrupções e orientação geral NW-SE, acompanhando a oeste o Carbonífero
(Medeiros, 1964; Medeiros et al., 1980). As litologias predominantes de Ervedosa a St.ª
Justa, são os xistos cinzentos, intercalados com leitos de arenito fino que passam a
quartzitos (Medeiros et al., 1980). Na região de Midões, a faixa devónica, é constituída
por xistos finos, de cor amarela, amarelo-avermelhada, e por vezes, cinzento-azulada
(Medeiros et al., 1980).
Encontra-se definida a Formação de Telheiras, onde é possível distinguir dois membros:
o membro inferior, constituído essencialmente por quartzitos e o nível superior
constituído por xistos argilosos, avermelhados, amarelados ou arroxeados (Pereira &
Ribeiro, 1992).

3.2.6 Carbonífero

Existem em Portugal três afloramentos


principais de carbonífero de fácies
continental (Wagner & Sousa, 1983) (Figura
50):
• Estreita faixa muito alongada, com
orientação geral NW-SE, que se estende
por cerca de 130 Km entre Criaz
(Conselho da Póvoa do Varzim) e Mioma
(Nordeste de Viseu). Esta faixa é por sua
vez constituída por retalhos, de diferentes
idades, fortemente laminados entre
afloramentos de rochas do Paleozóico
Inferior:
Criaz – Serra de Rates (Vestefaliano
?);

Casais – Alvarelhos ( Vestefaliano


C ?) – Unidade do Bougado Figura 50 – Ocorrências do Carbonífero
terrestre em Portugal: 1- Criaz-Serra de Rates;
2 – Casais-Alvarelhos; 3 – Ervedosa; 4- Bacia
do Douro; 5 – Bacia do Buçaco; 6 – Bacia de
Santa Susana (Wagner & Sousa, 1983).

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Faixa Carbonífera Dúrico-Beirã ou Bacia Carbonífera do Douro (BCD). Dispõe-se

ao longo de cerca de 90 Km entre São Pedro Fins (Conselho da Maia) e Mioma.


Está datada do Estefaniano C inferior – Unidade de S. Pedro Fins-Midões;
Ervedosa (Vestefaliano D superior) - Unidade de Ervedosa;

• Bacia do Buçaco a norte de Coimbra (Estefaniano C mais superior);


• Bacia de Santa Susana no Alto Alentejo (Vestefaliano D superior).

O Carbonífero que corta o vale do rio Douro próximo de Medas enquadra-se na


BCD (Figura 51) e corresponde a terrenos muito fossilíferos, quer em fósseis animais quer
vegetais. Foi inicialmente atribuída à Bacia Carbonífera do Douro, uma idade do
Estefaniano B-C (Medeiros, 1964). No entanto, estudos mais recentes, paleobotânicos
(Wagner & Sousa, 1983), paleozoológicos (Eagar, 1983) e palinológicos (Fernandes et
al., 1997 in Jesus, 2003), limitam a idade ao Estefaniano C inferior (Jesus, 2003).

Figura 51 – Enquadramento regional da Bacia Carbonífera do Douro


(Jesus, 2001).

A BCD estende-se ao longo de 53 Km, desde a localidade de S. Pedro Fins, a noroeste,


até Janarde, a sudeste, como uma faixa que raramente ultrapassa os 500m de largura

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

(Jesus, 2001). O muro da BCD corresponde a uma descontinuidade por


inconformidade com discordância angular, encontrando-se delimitado a SW pelas
formações do CXG em quase toda a extensão da BCD à excepção do extremo SE,
em que o contacto é feito com sedimentos do Silúrico. O tecto da BCD encontra-se
cortado por importante falha inversa que coloca as formações do Paleozóico inferior,
no flanco inverso do Anticlinal de Valongo, sobre os terrenos da BCD (Domingos et al.,
1983; Sousa, 1984b; Jesus, 2001, 2003). Na sua sequência apresenta camadas de
carvão do tipo metantracite, que foram exploradas principalmente em duas áreas, os
Coutos Mineiros de S. Pedro da Cova e do Pejão. A BCD, à qual se atribui a
designação de Unidade de S.Pedro Fins-Midões, compreende da base para o topo
(Costa & Teixeira, 1957; Medeiros, 1964; Medeiros et al., 1980; Pereira & Ribeiro, 1992)
(Figura 52):
! conglomerado-brecha, com elementos sub-angulosos e sub-rolados de granito,

quartzito e micaxistos, provenientes de rochas vizinhas mais antigas, sobretudo do


CXG;

Figura 52 – Registo estratigráfico simplificado da BCD (Jesus, 2003).

! intercalações de xistos argilosos negros e finos com bancadas de metantracite.

Existem também níveis conglomeráticos e várias camadas de grés e arcoses

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

associados aos xistos negros. Os conglomerados são constituídos


predominantemente por calhaus de quartzito, quartzo e lidito. Os calhaus são bem
rolados e apresentam dimensões que variam entre 1 e 5 cm. O cimento que os liga é
sílico-argiloso, de cor cinzenta, e em certos pontos, de cor avermelhada devido a
impregnações de óxidos de ferro.

3.2.7 Cenozóico

3.2.7.1 Pliocénico

Estes depósitos que foram genericamente considerados por Oliveira et al. (1992b),
na Carta Geológica de Portugal à escala 1/500 000, e nas cartas geológicas à escala
1/50 000 por “plio-plistocénicos” (PQ) ocupam a plataforma litoral e as áreas
aplanadas na proximidade do vale do rio Douro (Araújo et al., 2003). A plataforma
litoral corresponde a uma faixa aplanada existente ao longo do litoral português,
limitada para o interior por um relevo alinhado, o “Relevo Marginal”, com orientação
NNW-SSE, que contrasta com a área aplanada. Outra interpretação feita acerca da
plataforma litoral considerava que os depósitos que ela suporta correspondem a níveis
de praias antigas que se encontravam organizados em patamares e que eram
testemunho das variações eustáticas, sendo limitados para o interior por uma arriba
fóssil. A definição destes depósitos tinha por base exclusivamente critérios altimétricos
não considerando possíveis desnivelamentos por acção da tectónica devido ao
desconhecimento de acidentes tectónicos recentes (Teixeira, 1979). Em estudos
posteriores onde se efectuou uma comparação destes depósitos no que respeita à
altitude, cor, alteração do substrato, calibragem e onde se considera a influência da
tectónica, veio-se comprovar que alguns depósitos da plataforma litoral são de
origem continental e não marinha, ou seja, praias levantadas, como foram
considerados por Ribeiro et al. (1943) e por Teixeira (1979) (Araújo, 1997, 2000; Araújo et
al., 2003). No seguimento dos estudos referidos, estes depósitos foram agrupados
(Araújo, 1991) em (Figura 53):

- depósitos fluviais da fase I;


- depósitos fluviais da fase II;
- depósitos quaternários, essencialmente marinhos.

Como poderá ser constatado, parte destes depósitos relacionam-se com a


organização da rede fluvial regional, possivelmente numa fase anterior à instalação di
rio Douro.

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Figura 53 – Localização dos depósitos plio-plistocénicos (Araújo, 1997).

A atribuição de fase I e fase II a estes depósitos deve-se ao facto de se admitir a


existência de duas fases de deposição em condições muito diferentes (Araújo et al.,
2003). Correspondem a fases diferentes da evolução do relevo, separadas entre si por
um longo período de tempo, ou por um acontecimento relevante, de origem
tectónica ou estática (Araújo, 1997).
Os depósitos da fase I, designados como aluviões antigos por Cabral (1881), um
dos primeiros investigadores a estudar os depósitos na região do Porto, foram
considerados plio-plistocénicos e identificados nas cartas geológicas do Porto (Costa
& Teixera, 1957) e de Castelo de Paiva (Medeiros, 1964) à escala 1:50000, como
depósitos de praia e de terraço do rio Douro. Na folha 1 da carta geológica de
Portugal à escala 1:200 000 (Pereira & Ribeiro, 1992) estes depósitos são identificados
pela sigla PQ, sendo considerados depósitos fluviais. Nestes depósitos, foi possível
identificar diversas unidades que aparecem associadas na maioria dos afloramentos.
No entanto, a sequência completa não está presente em todos os afloramentos, o
que implica que nem todas as unidades se depositaram em todos os locais ou que
algumas foram destruídas pela erosão (Araújo et al., 2003). Os afloramentos onde se
encontram depósitos desta fase localizam-se em Rasa de Baixo ou Telheira, Aldeia
Nova de Avintes, Esposade, Gandra e Medas. O afloramento da Rasa de Baixo situa-se
a oeste do relevo marginal e os restantes a este (Figura 44). Este afloramento, local

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

onde funcionou uma exploração de caulino, constituía o local onde era possível
observar a sequência das unidades da fase I, que apresentava de baixo para o topo:
- base de blocos que podem ser de granito alterado ou de quartzo filoniano;
- camada rica em elementos micáceos, com cor cinzenta esverdeada;
- camada mais grosseira (areão e seixos) com estratificação entrecruzada. No topo do
depósito surge frequentemente um forte encouraçamento, com uma cor
avermelhada/acastanhada, que contrasta com a cor branca das unidades inferiores
do depósito. O substrato apresenta-se intensamente caulinizado e daí as exploração
de caulino. A base deste depósito encontra-se basculado para este (Ribeiro et al.,
1943), cuja génese poderá estar relacionada com actividade tectónica pós-
deposicional. O afloramento de Aldeia Nova de Avintes encontra-se na margem
esquerda do rio Douro, desenvolvendo-se ao longo de uma faixa, com cerca de 4Km,
embora com algumas interrupções, desde Cabanões, em Avintes, até Arnelas,
reaparecendo em Lever (Figura 44). Estes depósitos, quando comparados com o
anterior, apresentam algumas diferenças, nomeadamente um maior calibre dos
blocos da base, uma composição litológica com quartzo e quartzitos, um
encouraçamento mais intenso e a existência de níveis finos cinza-esverdeados menos
espessos, que se encontram inclinados para oeste, o que sugere também actividade
tectónica pós-deposicional (Araújo, 1997, 2000, 2003). O depósito da Gandra,
localizado na margem direita do rio Douro (Figura 44), apresenta elementos muito
grosseiros e fenómenos de intenso encouraçamento, que conduzem à existência de
arenitos e conglomerados ferruginosos, com uma espessura superior a 1,5 m. Em
Medas, encontram-se dois depósitos escalonados, em que o mais alto encontra-se a
162 m (Figura 44). Da observação que efectuámos destes depósitos sobressai o
carácter grosseiro, com blocos de cerca de 30 cm e o carácter subanguloso da
maioria dos clastos, grande parte de quartzitos e quartzo (Figura 54).

Figura 54 – Depósitos de Medas.

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Os depósitos da fase II são, tal como os depósitos da fase I, referidos na folha 1 da


Carta Geológica de Portugal à escala 1:200 000 (Pereira & Ribeiro, 1992) pela sigla PQ.
Na Carta Geológica à escala 1:50 000 do Porto (Costa & Teixera, 1957) estes depósitos
foram considerados como depósitos de praia e de terraço e também sob a
designação de formação areno-pelítica de cobertura, ao passo que na de Castelo de
Paiva (Medeiros, 1964) foram cartografados como depósitos de terraço. Os depósitos
da fase II são muito mal calibrados e apresentam blocos muito grosseiros na base,
podendo ocorrer cristas ferruginosas com espessuras que não ultrapassam 1 cm,
nunca tendo sido encontradas as couraças que existem nos depósitos da fase I. Estes
depósitos não se sobrepõem aos da fase I, situando-se geralmente mais para oeste, a
altitudes compreendidas entre 50 e 100 m (Araújo, 1997, 2000; Araújo et al., 2003).
Encontram-se em duas zonas principais, próximo do vale do rio Douro e numa faixa
paralela a oeste do relevo marginal. Na proximidade do vale do rio Douro encontram-
se os afloramentos da Pedrinha, Valbom e na proximidade de Medas. A oeste do
relevo marginal existem os afloramentos de Coimbrões, Ponte da Arrábida (Candal),
Boavista e da Avenida Marechal Gomes da Costa. Apresentam sequências
granodecrescentes com elementos mais grosseiros na base e mais finos no topo, o que
sugere tratar-se de leques aluviais. Na Pedrinha podem observar-se blocos com cerca
de 0,5 m de diâmetro. Em Coimbrões a granulometria é menos grosseira. Em alguns
locais, observam-se no topo das formações melhor calibração dos materiais. Devido à
ausência de fósseis nestes depósitos, foram efectuadas correlações através de
semelhanças de litofácies. Desde sempre que se considerou a inexistência de
depósitos paleogénicos e miocénicos na região do Porto, não podendo correlacioná-
los com os depósitos desta idade existentes em Trás-os-Montes (Araújo, 2000; Araújo et
al., 2003).
Nas cartas geológicas à escala 1/50 000 e em Teixeira (1949, 1979) os depósitos
mais antigos eram datados do Pliocénico. Excluída a hipótese destes depósitos serem
atribuídos ao Paleogénico e ao Miocénico, surge a hipótese de considerar os
depósitos da fase I pliocénicos, que podem ser correlacionados com as “fases ocres”
do interior da Península, atribuídas ao Pliocénico (Araújo, 2000; Araújo et al., 2003). É
feita ainda uma correlação dos depósitos da fase I com os depósitos da Formação de
Mirandela que se enquadra no episódio 3 da sedimentação cenozóica em Trás-os-
Montes, que é atribuída à unidade alostratigráfica SLD13 (Pereira et al., 2000; Araújo,
2000; Araújo et al., 2003). Esta correlação, efectuada com base nas semelhanças
existentes entre os dois depósitos, nomeadamente o carácter conglomerático, com
clastos quartzosos e quatzíticos numa matriz arenosa quartzo-feldspática e com
caulinite abundante, implicaria considerar os depósitos da fase I do Pliocénico superior
(Placenciano?) e é (Araújo, 2000; Araújo et al., 2003). Os depósitos da fase II são

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

correlacionados com os depósitos, possivelmente de leques aluviais, do episódio 4 do


Terciário de Trás-os-Montes cuja idade pode estar próxima da transição Gelasiano-
Pleistocénico (Pereira et al., 2000).

3.2.7.2 Pleistocénico

O início do Quaternário foi, no passado, considerado coincidente com o início da


regressão pós-pliocénica e dividido em Quaternário antigo (Qa), correspondente ao
Pleistocénico inferior, e em Quaternário moderno (Qm), que abrangeria o
Pleistocénico médio e superior (Teixeira, 1979). A última actualização da Tabela
Estratigráfica da responsabilidade da International Comission on Stratigraphy, indica o
Quaternário como o conjunto do Gelasiano, Pleistocénico e Holocénico, com base a
2.588 Ma.
A representação cartográfica do Quaternário era, no passadso, baseada na
altitude dos terraços, tendo-se definido quatro níveis de terraços, em função da “sua
altura acima do nível do rio na estiagem”: Q4 (8-15m), Q3 (25-40m), Q2 (50-65m) e Q1
(75-95m). Aos depósitos de praias antigas aplicou-se um sistema análogo (Daveau,
1993). Nestes, a altitude do topo dos depósitos relacionava-se com um determinado
nível do mar, aquando das variações eustáticas no decorrer das oscilações climáticas
durante o Pleistocénico. Em algumas cartas geológicas à escala 1:50 000 modificaram-
se as altitudes de referência e subdividem-se certos terraços, sem nunca explicar o
significado científico das alterações introduzidas (Daveau, 1993).
Actualmente, os depósitos de terraço que foram sendo abandonados a diferentes
altitudes à medida que ocorreu o encaixe do rio Douro, encontram-se fora do alcance
da sua acção e existem em vários locais na forma de pequenos afloramentos, quer na
margem esquerda quer na margem direita.

3.2.7.3 Holocénico

Os depósitos fluviais atribuídos ao Holocénico correspondem a aluviões, depósitos


de vertente, a areias e cascalheiras fluviais, bem como depósitos areno-argilosos de
inundação. Deste conjunto, destacam-se os depósitos de vertente gerados nos relevos
residuais e cristas quartzíticas. Os depósitos de inundação, raros mas de grande
significado, ainda se encontram em pequenos afloramentos em Vila Nova de Gaia,
muito antropizados, em Peso da Régua e Pocinho, aqui menos afectados pela
ocupação humana (Aires et al., 2000a). As areias e cascalheiras preenchem em
alguns locais o leito do rio e são por vezes dragados e explorados comercialmente.

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

3.3 Granitóides

Nas cartas geológicas à escala 1/50 000 mais antigas fazia-se uma descrição
exaustiva das características petrográficas e mineralógicas dos granitos (Medeiros,
1964; Teixeira et al., 1967; Teixeira et al., 1969). No entanto, com o aparecimento de
novos métodos de estudo, nomeadamente geoquímicos e isotópicos é possível ir para
além dessa descrição e propor modelos explicativos detalhados para a sua génese.
A instalação dos granitóides que afloram no vale do rio Douro está
maioritariamente associada à orogenia varisca, nomeadamente à terceira fase de
deformação dúctil, tendo ocorrido grande parte do plutonismo durante e após a 3ª
fase de deformação (D3). O facto mais marcante na distribuição geográfica das
principais fácies graníticas da Península Ibérica é a sua concentração segundo zonas
de cisalhamento dúctil, como é o caso do cisalhamento do Sulco Carbonífero Dúrico-
Beirão (SCDB) e do cisalhamento Vigo-Régua e de zonas de falha, como a falha
Régua-Verin (Ferreira et al., 1987) (Figura 55). Trata-se de plutonismo granítico, por
vezes associado a rochas de composição básica e intermédia, definindo alinhamentos
em estreita relação com zonas de cisalhamento (Ferreira et al., 1987).
Os granitóides existentes ao longo do vale do rio Douro, enquadram-se na Zona
Centro Ibérica, onde ocorre um importante volume de granitóides, instalados na
etapa pós-colisional da orogenia Hercínica (sin a pós-D3, a última fase de deformação
dúctil) e caracterizam-se por uma forte variabilidade composicional e tipológica (Dias,
2001). A caracterização dos reservatórios envolvidos na génese destes granitóides é de
significativo interesse na reconstrução geodinâmica da Cadeia Hercínica Ibérica,
fornecendo o estudo isotópico destes granitóides importantes indicações
relativamente ao papel da reciclagem crustal e dos processos de acreção (Dias,
2001). Instalaram-se granitóides que se enquadram no grupo dos granitóides sin-D3
(320-310 Ma), tardi- D3 (310-305 Ma) e dos granitóides tardi a pós-D3 (300 Ma). Nos
primeiros predominam leucogranitos de duas micas fortemente peraluminosos e
monzogranitos/granodioritos biotíticos fraca a moderadamente peraluminosos, nos
segundos monzogranitos/granodioritos essencialmente biotíticos, fraca a
moderadamente peraluminosos, por vezes associados a rochas de decomposição
básica a intermédia e nos terceiros leucogranitos de duas micas fortemente
peraluminosos (Ferreira et al., 1987; Dias et al., 1998). Os granodioritos e os
monzogranitos biotíticos são as rochas graníticas mais abundantes na ZCI, por vezes
associados a encraves microgranulares máficos e a rochas de composição básica a

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

intermédia (Dias, 2001; Dias et al., 2002). Os granitos biotíticos tardi-F3, são porfiróides
de grão muito grosseiro e distribuem-se em largas faixas lateralmente aos
cisalhamentos correspondentes aos sulcos Carbonífero Dúrico-Beirão e Vigo-Régua
(Ferreira et al., 1987). Os granitóides biotíticos tardi a pós-F3 constituem uma série
intrusiva na anterior, ocupando a parte mais interna entre as zonas de cisalhamento
mais importantes como as do SCDB e de Vigo-Régua (Ferreira et al., 1987).

Figura 55 - Distribuição dos granitóides Hercínicos sin a pós-tectónicos da Zona Centro Ibérica,
Norte de Portugal (Ferreira et al., 1987 modificado). A- Cisalhamento do SCDB; B- Cisalhamento
Vigo-Régua; C-Cisalhamento Moncorvo-Bemposta; D- Cisalhamento Traguntia-Penalva do
Castelo; I- Falha Gerês-Lovios; II- Falha Régua-Verin; III- Falha da Vilariça; D3- Última fase de
deformação dúctil.

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

3.4 Modelo evolutivo no contexto dos Ciclos Varisco e Alpino

3.4.1 Deposição e evolução do Grupo do Douro

Os trabalhos que na década de oitenta se realizaram sobre o Grupo do Douro


sugerem um ambiente deposicional de fácies turbidítica (Sousa, 1982, 1985; Sousa &
Sequeira, 1989). As sequências encontradas e as associações de fácies existentes,
conduzem à atribuição de ambientes deposicionais equivalentes a um “fan”
submarino (Sousa, 1985, Sousa & Sequeira, 1989). Os afloramentos de idade câmbrica,
com características de plataforma continental, do norte e centro da Península Ibérica
definem uma região onde se poderia localizar a plataforma e o talude que limitariam
o “fan” submarino e cujos sedimentos constituiriam os equivalentes laterais do CXG
(Sousa, 1985). Posteriormente, surgiu a possibilidade do Grupo do Douro ter-se
depositado segundo um modelo de bacia sedimentar do tipo aulacógeno (Ribeiro et
al., 1991) estruturada num fosso marinho intracontinental correspondente à Zona
Centro-Ibérica, enquadrado por duas plataformas carbonatadas equivalentes à Zona
Cantábrica e à Zona de Ossa-Morena. O fosso maior englobaria vários fossos
circunscritos onde se terão depositado diferentes conjuntos de unidades
litostratigráficas, um deles conferindo individualidade ao Grupo do Douro (Sequeira &
Pereira, 2000). Esta unidade também foi relacionada com o preenchimento de uma
bacia tipo “foreland” (Oliveira et al., 1992a). Mais tarde, com base em propriedades
geofísicas, dado a impossibilidade de identificar grandes acidentes a nível do soco
precâmbrico apenas com critérios geológicos, devido à quase ausência de
afloramento câmbricos na Zona Centro-Ibérica, foram definidos dois planos de
anisotropia principais (falha Porto-Viseu-Guarda e Mondim-Murça-Moncorvo) que
separam três tipos diferentes de soco (Coke et al., 2000). Segundo este modelo, a
bacia em que se depositou o Grupo do Douro terá sido o resultado de um half-graben
associado ao abatimento do bloco situado a nordeste da falha Porto-Viseu-Guarda, o
qual integraria o rift intracontinental. Assim, no bordo mais a SW, existiria uma
discordância de alto ângulo entre os metassedimentos e o soco, enquanto que a NE,
a discordância seria de baixo ângulo, com ligeiro declive para SW. Esta situação
poderia ter despoletado instabilidades gravíticas que originaram cavalgamentos
(cavalgamento da Senhora do Viso), cujo carácter sinsedimentar é apoiado pela
ocorrência de frequentes slumps na Formação da Desejosa (Coke et al., 2000). Outros
autores (Sousa, 1985; Silva & Ribeiro, 1985; Sousa & Sequeira, 1989) atribuem a
ocorrência do carreamento sinsedimentar da Senhora do Viso à fase de deformação

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

sarda, que terá provocado instabilidade na bacia. Este carreamento conduziu à


duplicação do Grupo do Douro, existindo uma equivalência lateral entre a Formação
de Ervedosa e Formação do Pinhão e entre a Formação de Bateiras e a Formação do
Rio Pinhão. A fase Sarda, curto episódio compressivo anteordovícico da orogenia
Caledónica, teve início no final da sedimentação da Formação de Desejosa.
Esta inversão tectónica estará provavelmente relacionada com fenómenos de
reajuste isostático e terá provocado o rejogo dos acidentes que afectavam o soco,
induzindo a formação de dobras. A deformação foi heterogénea, existindo regiões
com discordâncias angulares de alto ângulo e outras regiões com desconformidades.
A existência de discordâncias implica a ocorrência de um período erosivo, que terá
originado a sequência conglomerática (F. S. Domingos e F. Quinta da Ventosa), que
em muitos locais se sobrepõe à Formação de Desejosa (Coke et al., 2000). Na base
deste nível de conglomerados foram descobertos calhaus da Formação de Desejosa,
o que indica que este processo de inversão tectónica estaria já a afectar uma
sequência litificada (Coke et al., 2000). Terminada a fase sarda, ocorre um episódio de
vulcanismo ácido, que originou uma espessa cobertura de material tufítico, cujos
canais alimentadores se encontrariam nas proximidades das falhas que limitavam o rift
intracontinental (Coke et al., 2000).

3.4.2 A bacia no Paleozóico inferior

O espaço temporal correspondente ao Paleozóico inferior é caracterizado por um


regime transgressivo da sedimentação, com ambientes deposicionais de baixa
energia no Ordovícico médio a superior que conduziu à sedimentação de materiais
finos pelágicos (xistos ardosíferos) (Pereira & Ribeiro, 1992). Como consequência do
paleorelevo herdado da fase sarda associado ao jogo de falhas activas, a
sedimentação inicial, no Tremadociano, teve variações locais importantes, desde a
passagem gradual dos sedimentos do CXG, subjacente, até ao desenvolvimento de
leques aluviais, fluvio-marinhos ou submarinos, e mesmo mistura de materiais
vulcânicos provenientes do vulcanismo associado às falhas activas que bordejavam a
bacia sedimentar (Oliveira et al., 1992a). A partir do Arenigiano deu-se a colmatação
da bacia, tendo a deposição ocorrido em ambiente litoral marinho, passando esta a
estar principalmente dependente das variações eustáticas do nível do mar. A
sedimentação ocorreu portanto em águas pouco profundas (Meireles, 2000). Supõe-se
a existência desde o Arenigiano de uma área emersa no bordo sul da bacia e o
aparecimento durante o Landeiliano de uma outra área emersa a nordeste, sugerida
pela ocorrência de abundantes depósitos de óxidos de ferro na Formação Xistenta em
Trás-os-Montes (Meireles, 2000). Durante o Landeiliano o ambiente deposicional é de

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

baixa energia (Meireles, 2000). No Caradociano, parte do bordo norte da bacia


estava emersa enquanto no bordo sul continuava a sedimentação na plataforma
litoral. No final do Caradociano e início do Ashgiliano ocorreu vulcanismo
predominantemente básico em ambos os bordos da bacia. No Ashgiliano ocorreu
importante alteração nas condições de sedimentação, em parte devido à glaciação
ocorrida no final do Ordovícico (Oliveira et al., 1992a). Esta glaciação conduziu à
deposição de materiais glaciogénicos e correspondem a uma brusca regressão que
assinala o final do Ordovícico ou a transição Ordovícico-Silúrico (Pereira & Ribeiro,
1992).

No Silúrico tudo aponta para a existência de uma bacia confinada entre os


terrenos da ZOM, a oeste do Porto e os terrenos a NE de Trás-os-Montes (Pereira &
Ribeiro, 1992). No Silúrico inferior (Landoveriano, Venloquiano inferior), as condições de
sedimentação eram predominantemente euxínicas, tendo ocorrido no bordo norte
episódios distensivos que provocaram vulcanismo predominantemente ácido e alguns
carbonatos locais. A partir do Venloquiano médio passou-se novamente para
condições de deposição em mar aberto, com desenvolvimento gradual de
sedimentação terrígena, sucessivamente mais clástica (arenitos), mas sempre em
condições litorais, em ambientes pouco profundos (Oliveira et al., 1992a). Segundo os
mesmos autores, a partir do Silúrico superior, passaram a vigorar condições de
sedimentação de mar aberto, provavelmente induzidas pela aceleração da distensão
crustal. A génese do oceano silúrico (Paleo- Tethys) tem início com a formação de um
rift oceânico, por adelgaçamento da crusta continental devido aos episódios
distensivos que ocorreram neste período.

3.4.3 A tectónica varisca

No início do Devónico, estaria já consumada a abertura do oceano varisco


(Paleo-Tethys), que teria atingido expansão máxima no Devónico inferior. A partir do
Devónico médio, inicia-se um regime compressivo induzido pela actuação da fase D1
da orogenia varisca, que provocou o fecho do oceano varisco por colisão das placas
Laurentia-Báltica, Armórica e Gondwana. Este processo inicia-se com a delaminação
da crusta oceânica, verificando-se simultaneamente subducção e obducção da
placa oceânica no sentido E-W, seguida de colisão entre os dois continentes limítrofes
do oceano. O resultado é um empilhamento de mantos do topo para a base:
unidade proveniente do bordo adelgaçado do continente situado a oeste; unidade
correspondente ao complexo ofiolítico; unidade correspondente ao complexo
sedimentar e vulcânico que constitui o bordo do continente situado a leste (Pereira,

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

1988). No Devónico superior o fecho do ramo norte do oceano varisco já estaria


consumado e os blocos continentais envolvidos soldados. No contexto geodinâmico
do fecho do oceano varisco ocorreu a instalação de granitóides. O ramo subductado
originou granitóides que se hibridizam ao atravessar a crusta no período distensivo
ocorrido entre as fases D2 e D3 variscas. O calor desenvolvido induziu a fusão de
granitóides pré-existentes e de materiais crustais (Pereira, 1988).

3.4.4 A génese e evolução da Bacia Carbonífera do Douro (BCD) e a


instalação de granitóides sin D3

Durante o ciclo varisco, a actividade do Sulco Carbonífero Dúrico-Beirão (SCDB),


que delimita a SW o flanco inverso do Anticlinal de Valongo, foi particularmente
importante, controlando a abertura e sedimentação de várias bacias sedimentares
continentais intramontanhosas durante o Carbonífero, tendo a BCD sido a última a
formar-se, já durante o Estefaniano C inferior (Wagner & Sousa, 1983; Jesus, 2003). Em
Jesus (2003) encontra-se descrita de uma forma sintética um modelo bastante
complexo da evolução sedimentar e tectónica da BCD que de seguida se faz
referência. De acordo com este autor, a BCD encontrava-se controlada por falhas
inversas cuja actividade tectónica era superior na margem NE relativamente à
margem SW. O tipo de bacia formada corresponde a uma bacia do tipo foreland,
cuja subsidência teve início em D1 e terá continuado em D3 varisca. O substrato da
BCD adquire uma configuração transversal assimétrica devido à maior velocidade de
subsidência no sector a NE que a SW, encontrando-se este último em levantamento. O
produto sedimentar resultante deste período tectónico activo nas duas margens são
as brechas de base que forram o substrato da BCD e para as quais é proposto um
modelo deposicional de leques aluviais constituídos por sedimentos do tipo debris flow,
estruturados nas margens da bacia. Segue-se uma acalmia tectónica que conduziu a
uma diminuição da energia nos meios sedimentares que passam a meios palustres e
lacustres. Posteriormente, inicia-se a implantação dos granitóides tardi a pós-D3, que
conjugada com o basculamento e incremento da subsidência da BCD, conduz
incarbonização dos depósitos orgânicos. O aumento da energia nos meios
sedimentares, relacionada com a reactivação tectónica inerente à granitização,
provocou a instalação de sistemas fluviais entraçados que passam lateral e
verticalmente para sistemas palustres. Com a diminuição da energia nos meios
sedimentares, relacionada provavelmente com uma nova acalmia tectónica, o meio
passa a ser dominado por ambientes lacustres. Com a continuação da instalação dos
granitóides variscos pós-fase D3, aumenta o grau de incarbonização dos carvões da
BCD e o basculamento da bacia, com mergulho da inclinação de SW para NE. Depois

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

da instalação dos granitóides pós-fase D3 e consequente conclusão da


incarbonização da BCD, ocorre a sua escamização. A fase D4 varisca, que actuou
após a formação e a consolidação das rochas sedimentares da BCD, simultânea com
o processo de escamização, provocou nas litologias mais frágeis, principalmente no
carvão, microdobramentos.

Durante a fase de deformação D3 da orogenia varisca instalou-se um importante


volume de granitóides na ZCI. Instalaram-se leucogranitos de duas micas (320-300 Ma),
aluminopotássicos, fortemente peraluminosos e monzogranitos/granodioritos
essencialmente biotíticos (320-305 Ma), moderadamente peraluminosos,
aluminopotássicos, para os quais se admite uma origem puramente crustal ou
essencialmente crustal (Dias, 2001). Assim, para os leucogranitos de duas micas
admite-se uma origem por fusão parcial de rochas predominantemente metapelíticas
a diferentes níveis crustais (crusta média e inferior) e para os
monzogranitos/granodioritos biotíticos é proposta uma origem por fusão parcial de
materiais metassedimentares (metagrauvaques) e/ou metaígneos félsicos da crusta
inferior (Dias, 2001). No período compreendido entre 320-305 Ma, para além da
formação de monzogranitos/granodioritos biotíticos formaram-se também granitóides
híbridos, resultantes de um processo petrogenético complexo, envolvendo
cristalização fraccionada e hibridação entre magmas crustais e mantélicos
(equivalentes às rochas gabróicas aflorantes) (Dias, 2001; Dias et al., 2002). A
ocorrência significativa destes granitóides híbridos do tipo monzogranitos/granodioritos
biotíticos calcoalcalinos e monzoníticos, que têm grande quantidade de encraves
microgranulares máficos e que se encontram associados a corpos de composição
básica a intermédia, indicam que os processos de reciclagem crustal foram
acompanhados por importante episódio de acreção crustal (Dias, 2001; Dias et al.,
2002).

3.4.5 A evolução Meso-Cenozóica

Ao longo do Mesozóico o Maciço Hespérico foi sujeito a uma forte erosão,


predominando um clima quente e seco durante o Triássico e quente e húmido durante
o Jurássico e o Cretácico. Durante o Cenozóico, o norte de Portugal continuou a ser
sujeito a processos predominantemente erosivos, relacionados com uma tendência
dominante de soerguimento (Pereira et al., 2000). Os episódios sedimentares
cenozóicos do norte de Portugal foram principalmente controlados pela tectónica,
mas nos últimos tempos (Placenciano-Quaternário) também pelo eustatismo (Pereira
et al., 2000). Na região do Porto, os depósitos cenozóicos pré-quaternários

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

depositaram-se em duas fases, provavelmente separadas por um importante evento


tectónico e climático (Araújo, 2000; Araújo et al., 2003). Os depósitos da fase I ter-se-
iam depositado num contexto de planície litoral, por cursos de água de baixa energia
(Araújo, 1997, 2000; Araújo et al., 2003). Os afloramentos situados a leste do relevo
marginal parecem ligados a uma drenagem fluvial com um traçado semelhante ao
do Douro actual (Pereira et al., 2000). Próximo do limite Plio-Plistocénico, as condições
climáticas e principalmente morfotectónicas favoreceram a génese de corpos do tipo
leque aluvial a partir quer de relevos residuais quer no contexto de depressões
tectónicas (Pereira, 1997, 1999a, 1999b). A modificação das condições climáticas no
fim do Pliocénico (Gelasiano), no sentido de maior aridez e frio, bem como a
ocorrência de uma nova fase tectónica intensamente compressiva segundo WNW-
ESSE, devem ter conduzido ao desenvolvimento de leques aluviais na periferia de
alguns relevos em soerguimento ou já salientes (Pereira, 1999a, 1999b; Pereira et al.,
2000). Nesta fase de deposição devido às características torrenciais, originaram-se os
depósitos da fase II na plataforma litoral do Porto, com elementos de grande calibre
(Araújo, 2000; Araújo et al., 2003). A actividade tectónica poderá ter condicionado o
levantamento do relevo marginal, que constituiria a origem dos depósitos da fase II
que posteriormente formaram depósitos do tipo leques aluviais, na proximidade do
relevo marginal a leste do Porto (Araújo, 2000; Araújo et al., 2003). A melhor calibração
dos materiais no topo dos depósitos do tipo leque aluvial da fase II poderão
corresponder ao início de uma drenagem regularizada (Araújo, 1997, 2000; Araújo et
al., 2003). Estes depósitos têm sido relacionados quer com uma ruptura tectónica
conhecida por Ibero-Manchega II, com aproximadamente 2 Ma, quer com condições
de clima mais frias e secas que contrastam com as condições quentes e húmidas
precedentes (Pereira, 1997). No sector de Trás-os-Montes e do Alto Douro, dominaram
os processos erosivos durante este período de tempo e a evacuação de grande parte
dos sedimentos resultantes para leste, em direcção à Bacia Terciária do Douro (BTD)
(Pereira, 1997). No entanto, em algumas etapas foram criadas condições
morfológicas, fundamentalmente devido à actividade tectónica, que permitiram a
deposição de sedimentos nesta região. Com os primeiros episódios de arrefecimento
(2.5 Ma), terá ocorrido uma erosão remontante, a partir de uma drenagem limitada à
franja atlântica (Pereira, 1997, 1999b). Até ao Plistocénico ter-se-á chegado à captura
progressiva pelo Douro dos sectores mais interiores do norte de Portugal e
posteriormente do sector correspondente à Bacia Terciária do Douro, no interior da
Península (Pereira et al., 2000). Assim, é admissível que no Pliocénico um pré-Douro terá
capturarado sucessivamente, anteriores drenagens endorreicas (Pereira et al., 2000).
Com o início do Pleistocénico, há cerca de 1.8 Ma, registou-se um novo arrefecimento
acentuado do clima, ocorrendo a partir daí uma alternância de períodos glaciares

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Eugénia Araújo Cap.III - Geologia do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

com períodos interglaciares menos frios. Durante os períodos glaciares as massas de


gelo continentais expandiram-se e nas zonas montanhosas acumularam-se massas de
gelo. As regiões que se encontravam no limite dos glaciares, designadas de
periglaciares, apresentavam condições de frio e aridez acentuada. Estas oscilações
parecem estar marcadas nos vales minhotos, onde estão registados quatro ciclos
principais de gliptogénese/sedimentogénese quaternária que sucedem aos vestígios
da sedimentação pliocénica e que conduziram ao seu encaixe sucessivo (Alves &
Pereira, 2000; Pereira et al., 2000). Estes aspectos não são observáveis no Douro em
território nacional, devido ao forte encaixe fluvial. O rio Douro, nos sucessivos
embutimentos da sua rede hidrográfica, evacuou as aluviões, entretanto acumulados,
pelo que se observa um limitado registo sedimentar associado ao seu encaixe,
restando somente pequenos retalhos, em geral situados em apertadas curvaturas,
controladas por alinhamentos tectónicos (Pereira et al., 2000). A partir do máximo de
frio da última glaciação (!20 000 anos), verifica-se um lento e progressivo
aquecimento, que possibilitou o desenvolvimento de florestas e que atinge condições
de clima semelhantes ao actual à cerca de 10 000 anos (Holocénico). No Holocénico
inferior o clima e a vegetação não favoreciam a erosão, no entanto a partir do
Neolítico médio (Holocénico superior), com a introdução do factor antrópico, os
processos erosivos vão conhecer uma nova dinâmica, em que o Homem tem uma
influência crescente e decisiva no desencadeamento e intensificação da erosão
(Cordeiro, 1990). A acção antrópica pode ser dividida em dois momentos distintos: o
primeiro é caracterizado pela conquista de espaços para a prática da pastorícia; o
segundo momento e no segundo momento, que se desenrola provavelmente desde a
instalação romana, é caracterizado por uma acção antrópica mais evidente,
causando a modificação quase completa da paisagem natural holocénica (Cordeiro,
1990).
Os depósitos holocénicos conservam indicadores sobre a recente transformação
global, como as variações climáticas, as variações do nível do mar, dos limites dos
ecossistemas não marinhos e dos processos antrópicos (Granja, 1993). O Homem, na
sua evolução, induziu impactes negativos nos seu próprio ambiente ao dispor de maior
capacidade de exploração dos recursos naturais do planeta (Granja, 1993). Existe
uma relação dialéctica entre homem e meio, na medida em que o homem é um
agente que directa ou indirectamente transforma o espaço, no contexto das
actividades que realiza quotidianamente, por outro lado o homem também é
profundamente influenciado pelo meio (Bettencourt et al., 2003).

96
Capítulo IV

Recursos Minerais e Energéticos


do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão
Eugénia Araújo Cap.IV - Recursos Minerais e Energéticos do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

4.1 Introdução

O abandono quase generalizado da exploração mineira em Portugal e em


especial na região do Vale do Douro, conduz à perda gradual de um património
colectivo importante que urge manter. Contudo, no caso dos recursos energéticos e
termais, o seu interesse sócio-económico é actual. No sector em estudo assume
grande importância o distrito mineiro Dúrico-Beirão, onde foram importantes as
explorações mineiras com as associações paragenéticas de Sb-Au, Au-As, Pb-Zn (Ag)
e Sn-W (Couto, 1993, 1995, 1997; Couto et al., 2000). O distrito mineiro Dúrico-Beirão
localiza-se nas proximidades do Porto, estendendo-se por uma faixa de cerca de 90
Km, com orinetação NW-SE, desde Esposende até próximo de Castro Daire (Couto,
1995; Couto & Dias, 1998). Para além da exploração mineira de metais foi ainda
importante a exploração de carvão. Na actualidade, a actividade mineira é
inexistente, mas ocorre o aproveitamento dos recursos hídricos na produção de
electricidade, através das barragens construídas ao longo do troço do rio e dos
recursos hidrotermais, tendo sido construídas estâncias balneares a que a população
recorre para tratamentos variados que são aconselhados para alguns problemas de
saúde.

4.2 Recursos minerais

4.2.1 Ouro

Nas proximidades do Porto, o distrito auri-antimonífero é constituído por mais de


uma dezena de jazigos, explorados desde a época da ocupação romana até ao
início do nosso século (Couto, 1995, 1997). As mineralizações exploradas pelos romanos
foram essencialmente as do tipo Au-As. Dos trabalhos mais antigos, que geralmente
não ultrapassam os 100 m de profundidade, destacam-se os fojos, que correspondem
a cavidades estreitas e profundas para efectuar o desmonte dos filões auríferos na
época da ocupação romana, os poços e as galerias (Couto & Dias, 1998; Couto et al.,
2000). As mineralizações auri-antimoníferas (Sb-Au) ocorrem preferencialmente no
flanco oeste do Anticlinal de Valongo em formações do Precâmbrico e/ou Câmbrico
(?) e em formações do Carbonífero (Couto, 1995, 1997). A maior parte dos jazigos
auríferos (Au-As) localizam-se no flanco normal do Anticlinal de Valongo e ocorrem em
formações do Arenigiano, mais precisamente na zona das alternâncias de pelitos e
arenitos(Couto et al., 2003), onde foram identificadas camadas negras (Combes et al.,

98
Eugénia Araújo Cap.IV - Recursos Minerais e Energéticos do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

1992) e níveis de origem vulcano-sedimentar (Couto, 1993) (Figura 56).

Figura 56 – Localização das minas


(modificado depois de Couto et al., 1990 in Combes et al., 1992).

Das minas localizadas a oeste do Anticlinal de Valongo, de onde se procedeu à


extracção de antimónio e ouro, salientam-se as mais importantes: Montalto, Corgo,
Ribeira, Tapada, dos Pinheirinhos, Alto do Sobrido, etc. A exploração destes jazigos
atingiu o seu auge entre 1870 e 1890, tendo cessado por completo a sua actividade
em 1971 (Couto & Dias, 1998; Couto et al., 2000). A produção global foi
aproximadamente 12 000 t de antimónio com cerca de 2t de ouro (Couto, 1995, 1997).
Tendo sido definidas duas fases principais de deformação, uma anterior e outra
posterior ao Estefaniano C inferior, as mineralizações são posteriores à última
deformação, tendo-se os filões instalado em fracturas de tracção ou de corte geradas
durante esta fase ou em fracturas mais antigas geradas durante a deformação ante-
Estefaniana, que rejogaram durante a deformação pós-Estefaniana (Couto, 1995,
1997; Couto et al., 2000).
Das minas situadas em formações do Ordovícico é de referir a mina das Banjas.
Nesta mina, as mineralizações estão principalmente associadas às camadas negras
com veios de quartzo interestratificados, que ocorrem em anticlinais relacionados com
a 1ª fase da orogenia hercínica (Combes et al., 1992; Couto, 1993). Nestas, o ouro está

99
Eugénia Araújo Cap.IV - Recursos Minerais e Energéticos do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

concentrado em veios de quartzo associado a arsenopirite de baixa temperatura, não


relacionada com os processos hidrotermais que geraram os filões, tendo possivelmente
uma origem vulcânica e/ou metamórfica(Couto et al., 2003a, 2003b). A relação entre
as mineralizações e as alternâncias do Arenigiano poderá ter sido condicionada por
alguns factores, nomeadamente (Couto et al., 2003b): a sequência das alternâncias
do Arenigiano apresenta uma heterogeneidade litológica que pode facilitar a
fracturação frágil, dado que os contactos entre camadas mais e menos competentes
constituem planos de fraqueza, possibilitando a drenagem de fluidos para zonas mais
fracturadas e mais permeáveis; reacção topoquímica entre os fluidos mineralizantes e
a sequência de alternâncias do Arenigiano, nomeadamente as camadas negras e
sulfuretos disseminados (pirite e arsenopirite); existência de pré-concentrações em Au,
Sb e As nas alternâncias do Arenigiano do Anticlinal de Valongo. As camadas negras
com intercalações de veios de quartzo aurífero, apresentam evidências de uma
origem detrítica (Couto, 1993; Couto et al., 2003a). No entanto, admite-se que uma
pequena quantidade de ouro tenha sido depositado por processos químicos ou
bioquímicos (Couto et al., 2003b).

4.2.2 Termas

As nascentes termominerais estão, frequentemente, relacionadas com sistemas


hidrogeológicos condicionados pelas condições tectónicas e morfoestruturais
(Marques et al., 2003). No sector em estudo existem alguns locais com ocorrências
termoninerais, cujo aproveitamento e exploração contribuem para o desenvolvimento
sócio-económico da região. São de referir as estâncias termais da Quinta da Torre, em
Entre-os Rios (www.inatel.pt, 2004), Caldas de Aregos e Caldas de Moledo (Figura 57).
De acordo com a sua composição iónica, tratam-se de águas sulfúreas
(www.igm.ineti.pt, 2004).
A estância termal de Quinta da Torre localiza-se a norte de Entre-os-Rios, próximo
da confluência do rio Tâmega com o rio Douro, junto da estrada de Penafiel. Em
termos litológicos enquadra-se numa região dominada por granito porfiróide de grão
fino. As suas águas são bicarbonatadas sódicas sulfúreas e são indicadas para o
tratamento de doenças do sistema respiratório, reumáticas e músculo-esqueléticas
(www.igm.ineti.pt, 2004; www.inatel.pt, 2004).
As termas de Caldas de Aregos localizam-se no concelho de Resende, junto da
povoação de Aregos, na margem sul do rio Douro. O fluxo hidrotermal superficial
ocorre ao longo de fracturas e diaclases do granito porfiróide de grão fino que aflora
na região. A temperatura da água é de 61ºC.

100
Eugénia Araújo Cap.IV - Recursos Minerais e Energéticos do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

Figura 57 - Localização das termas de Entre-os-Rios, Caldas de Aregos


e Caldas de Moledo (modificado de www.igm.ineti.pt, 2004).

A primeira referência às águas termais de Aregos surgiu na Idade Média.


Posteriormente, no século XII, a rainha D. Mafalda mandou construir no local uma
albergaria que terá constituído a primeira estância termal de Aregos
(www.termasdeportugal.pt, 2004; www.geocities.com/caldas_de_aregos, 2004). O seu
funcionamento foi interrompido devido a falta de condições resultantes da inundação
dos balneários aquando das cheias do Douro de 1962 e 1966 e da construção da
barragem do Carrapatelo. No início da década de 90, foi construído um novo
balneário que deu continuidade à exploração do recurso hidrotermal em Aregos. As
suas águas são, tal como as anteriores, bicarbonatadas sódicas sulfúreas e indicadas
para o tratamento de doenças do aparelho respiratório, reumáticas e músculo-
esqueléticas (www.igm.ineti.pt, 2004).
As termas de Caldas de Moledo, ficam situadas na freguesia de Fontelas, a 4 Km
da cidade de Peso da Régua, na estrada para o Porto, na margem norte do rio Douro
(www.cm-pesoregua.pt, 2004). As suas águas sulfúreas bicarbonatadas sódicas,
emergindo a temperaturas entre 46ºC e 35ºC, estão indicadas para o tratamento de
doenças do aparelho respiratório, da pele, reumáticas e músculo-esqueléticas
(www.igm.ineti.pt, 2004; Marques et al., 2001). A localização das emergências minerais
está fortemente relacionada com as características geológicas da área de descarga
do sistema hidromineral (Marques et al. 2001). A geomorfologia da região é dominada
pelo forte encaixe do vale do rio Douro, que em Peso da Régua se torna mais amplo,

101
Eugénia Araújo Cap.IV - Recursos Minerais e Energéticos do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

enquadrado a norte pela serra do Marão e a sul pela serra das Meadas (Marques et
al., 2003). Em termos litológicos, ocorrem fundamentalmente rochas
metassedimentares, de idade câmbrica inferior, pertencentes ao Grupo do Douro. Foi
também identificado um afloramento granítico, junto da localidade de Cidadelhe,
que não se encontra assinalado na cartografia geológica publicada. Ocorrem ainda
numerosos filões e massas aplitopegmatíticas instaladas em zonas de fractura dos
terrenos pertencentes ao Grupo do Douro. As principais estruturas tectónicas da região
são a falha Penacova-Régua-Verin, com a direcção NNE-SSW e a zona de
cisalhamento de Vigo-Régua. orientada segundo WNW-ESE. Salientam-se ainda as
fracturas com orientação NNE-SSW a NE-SW e as descontinuidades de orientação E-W,
paralelas à falha do Douro. O fluxo de água mineral é fortemente controlado pela
geomorfologia, pela tectónica e pelas litologias presentes, entre a zona de recarga e
a zona de descarga. No modelo de circulação proposto por Marques et al. (2003)
(Figura 58), o cisalhamento Vigo-Régua, tem um papel fundamental, sendo através
dele que deverá ocorrer a maior parte da recarga e fase inicial do fluxo hidromineral.

Figura 58 – Tentativa de conceptualização do modelo de fluxo do sistema hidromineral


de Caldas do Moledo (Marques et al., 2003).

102
Eugénia Araújo Cap.IV - Recursos Minerais e Energéticos do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

A recarga menos significativa deverá ocorrer junto do vértice geodésico do Rojão. O


armazenamento profundo estará associado ao cisalhamento Vigo-Régua, à rocha
fracturada e ao ramo da falha Régua-Verin que intersecta o alinhamento estrutural
Vigo-Régua. A circulação hidromineral mais superficial nas zonas de recarga e
descarga ocorre, principalmente, através de rochas metassedimentares. No entanto,
estudos efectuados conduziram à hipótese de que a circulação profunda se possa
efectuar através das rochas graníticas subjacentes aos metassedimentos. Na zona de
descarga, o fluxo hidromineral depende fundamentalmente de estruturas paralelas à
falha de Régua-Verin e de forma menos significativa, de estruturas relacionadas com a
falha do Douro. Desta forma, a tectónica, desempenha um papel fundamental na
infiltração, na recarga, na circulação profunda e na ascensão da água mineral.

4.3 Recursos energéticos

4.3.1 Carvão

A extracção de carvão, que se enquadra no agrupamento das metantracites


(Sousa, 1973, 1978), ocorreu ao longo do Sulco Carbonífero Dúrico-Beirão, nos
afloramentos correspondentes à Bacia Carbonífera do Douro, destacando-se o Couto
Mineiro de S. Pedro da Cova e o Couto Mineiro do Pejão. Ao primeiro pertencem as
minas de S. Pedro da Cova, Midões, Gens, Covelo, etc. O couto mineiro do Pejão
estende-se desde Germunde, na margem esquerda do rio Douro, até Paraduça,
numa distância de cerca de 9 Km. Há notícias da descoberta do carvão em Ervedosa,
nos finais do séc.XVIII, tendo início a sua exploração regular em 1804, na região de S.
Pedro da Cova. A partir de 1957 as minas mais pequenas foram abandonadas e em
1972 o Couto Mineiro de S. Pedro da Cova suspendeu a lavra (Sousa, 1984a). No
Couto Mineiro do Pejão, a mina de Germunde, a última onde se procedeu à
exploração por lavra subterrânea, suspendeu a sua actividade em 1994, tendo-se
extraído anualmente cerca de 287 000 toneladas brutas de carvão, das quais
aproximadamente 215 000 toneladas comerciais (Jesus & Gaspar, 1997). As
escombreiras da mina do Pejão foram incluídas num projecto nacional de
recuperação de minas abandonadas que visa diminuir o seu impacte ambiental. A
suspensão da exploração do carvão conduziu a um agravamento da taxa de
desemprego da população, que na sua maioria dependia quase exclusivamente da
actividade mineira devido à ausência de actividades económicas alternativas na
região. Os carvões da BCD foram utilizados como combustível, em usos domésticos e

103
Eugénia Araújo Cap.IV - Recursos Minerais e Energéticos do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

industriais, sobretudo durante as guerras mundiais (Sousa, 1984a). Desde 1960, a


principal utilização foi o abastecimento da Central Termoeléctrica da Tapada do
Outeiro, sendo alguma quantidade destinada às cimenteiras, para o fabrico de cal
hidráulica e de cimento, tendo sido também utilizado com sucesso como agente
redutor na indústria metalúrgica (Sousa, 1984a; Jesus & Gaspar, 1997).

4.3.2 Aproveitamentos hidroeléctricos

As características morfológicas do rio Douro, associadas ao regime do rio,


conferem-lhe uma feição excepcionalmente adequada ao aproveitamento
hidroeléctrico (Centro de Produção Douro, 1992). Ao longo do troço nacional e
internacional do rio Douro estão instalados oito aproveitamentos hidroeléctricos:
Miranda, Picote, Bemposta, Pocinho, Valeira, Régua, Carrapatelo e Crestuma-Lever.
No sector em estudo existem quatro barragens, nomeadamente a de Crestuma-Lever,
Carrapatelo e da Régua, localizadas no rio Douro, e a do Torrão localizada no rio
Tâmega, um dos seus principais afluentes (Figura 59).

Figura 59 – Localização das barragens de Crestuma, do Torrão,


do Carrapatelo e da Régua (EDP, 1992).

A barragem de Crestuma-Lever, a última a ser construída no troço nacional do rio


Douro, entrou em funcionamento em 1986, a potência instalada é de 105 MW e
produção média anual de 399 GWh. É o aproveitamento hidroeléctrico situado mais a
jusante no troço nacional do rio Douro, a cerca de 13 Km da cidade do Porto. A água
da sua albufeira é utilizada para o abastecimento de água às cidades do Porto e de
Gaia. A sua capacidade total é de 110 milhões de metros cúbicos, sendo apenas de
16 milhões o volume utilizável em exploração normal. A barragem é do tipo móvel, o

104
Eugénia Araújo Cap.IV - Recursos Minerais e Energéticos do vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão

que significa que em situação de grandes cheias as comportas são elevadas acima
do nível das águas, ficando apenas os pilares a obstruir a corrente.
O aproveitamento hidroeléctrico de Carrapatelo foi o primeiro a ser construído no
troço nacional do rio Douro e localiza-se junto do lugar de Mourilhe, no concelho de
Cinfães, a cerca de 8 Km desta vila. Entrou em funcionamento em 1971, com a
potência instalada de 180 MW e uma produção média anual de 949 GWh. Dos
aproveitamentos hidroeléctricos do troço nacional é o que tem maior desnível, cerca
de 36 m. A sua albufeira tem uma extensão de 40 Km e uma capacidade total de 148
milhões de metros cúbicos, no entanto a sua capacidade útil é de apenas 16 milhões
de metros cúbicos.
O aproveitamento hidroeléctrico da Régua (Bagaúste) entrou em exploração no
ano 1973. A potência instalada é de 156 MW e a produção média anual de 738 GWh.
Localiza-se a montante da cidade de Peso da Régua, próximo da povoação de
Bagaúste. A albufeira estende-se por cerca de 43,5 Km e a sua capacidade total é de
95 milhões de metros cúbicos, sendo no entanto utilizados apenas 13 milhões em
exploração normal.
Os três aproveitamentos hidroeléctricos referidos estão equipados com eclusas de
navegação (Figura 60), não impedindo que o rio Douro deixasse de ser uma via de
comunicação e de transporte, e com eclusas de peixes do tipo “Borland”.

Figura 60 - Eclusa de navegação da barragem da Régua (Bagaúste).

A construção das barragens contribuiu para a melhoria das condições de


navegabilidade do rio Douro, tendo promovido o desenvolvimento das actividades
turísticas e de lazer, nomeadamente a prática de desportos náuticos, as regatas e os
cruzeiros e a criação de emprego, potenciando o desenvolvimento económico e
social das regiões onde se encontram.

105
Capítulo V

Cheias do rio Douro


Eugénia Araújo Cap.V - Cheias do rio Douro

As cheias do rio Douro, pela sua dimensão, efeitos e espectacularidade,


constituem um tema cuja abordagem se mostra pertinente. A sua ocorrência está
fortemente relacionada com a geomorfologia da Bacia e em particular com a forma
estreita e encaixada do vale. A referência às cheias é feita de uma forma sintética,
destacando-se as principais cheias, o seu período de retorno e a influência da
construção das barragens no controlo das cheias.
Na bacia hidrográfica do rio Douro, alguns locais sofrem frequentemente os efeitos
das cheias. As localidades mais afectadas são as que se localizam em zonas mais
baixas da bacia e que apresentam ocupação urbana. Destacam-se as cidades do
Porto, Vila Nova de Gaia e Peso da Régua. A cheia mais antiga de que há
conhecimento é a de 1526, mas em Espanha existem referências desde o ano de 1256
(Aires et al., 2000b). No Douro Internacional, o limnígrafo mais antigo é o de Bemposta,
que entrou em funcionamento em 1945, e no Douro Nacional é o da Régua, que
remonta a 1944 (Aires et al., 2000b). A maior cheia de que há registo foi a de 1727,
tendo atingido em Peso da Régua um caudal de 14000m3/s (Figura 61) e uma altura
de cerca de 20 m acima do nível de estiagem e no Porto uma altura de cerca de 4 m
acima do cais da Ribeira.

Figura 61 – Cheias históricas na Régua acima do limiar 10000m3/s com sobreposição das cheias
no último decénio (Rodrigues et al., 2003).

Pode-se concluir que houveram anos sucessivos em que ocorreram cheias de grande
magnitude (1909 e 1910) (Figura 62) e longos períodos sem a ocorrência de cheias
dessa magnitude (por exemplo, de 1910 a 1962). Salienta-se também o facto que
desde 1989 não ocorrem cheias de magnitude igual ou superior a 10000 m3/s. Os
valores de ponta de cheia registados em Janeiro de 2003 (com cerca de 7400 m 3/s)
foram inferiores quer aos da cheia de Janeiro de 2001 (com 8550 m3/s) (Figura 63), ou

108
Eugénia Araújo Cap.V - Cheias do rio Douro

mesmo Março de 2001 (com cerca de 7600 m3/s), que coincidiu com a queda da
Ponte Hintze Ribeiro, quer aos da cheia de 1996 (com cerca de 8900 m3/s).

Figura 62 - A cheia de 1909 no cais da Ribeira e em Miragaia, no Porto (Fotos de Alvão).

Figura 63 – Cheia de Janeiro de 2001 na Ribeira e em Gaia respectivamente


(Fotos de D. Pereira).

O carácter encaixado do rio Douro não promove a acumulação de sedimentos


em períodos de cheia, ocorrendo uma grande subida dos níveis da água e limitada
expressão lateral (Aires et al., 2000a). No entanto, em locais onde existem curvaturas

109
Eugénia Araújo Cap.V - Cheias do rio Douro

controladas por zonas de falha, a probabilidade de encontrar estes sedimentos é


maior (Aires et al., 2000a). O estudo destes depósitos revela-se importante na medida
em que é possível obter dados sobre cheias com largos períodos de retorno, das quais
não existe registo histórico (Pereira, 1999). Com base na totalidade dos registos
históricos das cheias obtidos entre 1727 e a actualidade foi possível calcular o período
de retorno das cheias, relacionando-o com a altura atingida pelas águas e com o
caudal escoado (Figura 64 e Tabela I).

Figura 64 – Altura das cheias do Douro no cais da Ribeira, a apartir de 1727; estimativa da altura
atingida para cheias com período de retorno de 20 anos (Rt20), 50 anos (Rt50) e 100 anos
(Rt100) (Pereira, 1999).

Tabela I – Períodos de retorno associados a diferentes caudais de ponta de cheia na cidade de


Peso da Régua (Rodrigues et al., 2003).

Caudal (m3/s) Período de retorno


(anos)
10500 10
12000 13
12625 14
13500 18
14125 22
15000 32
15625 45
16500 80
17125 125
18000 245
18625 390

110
Eugénia Araújo Cap.V - Cheias do rio Douro

O elevado valor das pontas de cheia atingidas no rio Douro em território português
deve-se à combinação de vários factores: intensidade de precipitação, forma da
bacia hidrográfica (pouco alongada em relação aos seus afluentes), inclinação do
leito do rio e dos seus afluentes e a constituição geológica da bacia (Aires et al.,
2000a, 2000b). De acordo com a classificação das cheias em função dos seus efeitos,
no Douro designam-se por extraordinárias as cheias que ultrapassam a cota dos + 6,00
m, medidos junto à ponte de D. Luis, na margem direita, por serem aquelas que
galgam o cais da ribeira (Aires et al., 2000b). Na cidade de Peso da Régua, são
consideradas cheias extraordinárias aquelas que inundam a Avenida João Franco, o
que implica uma subida do nível do rio de 13 m (caudal ! 6000 m3/s). As cheias
extraordinárias caracterizam-se por apresentarem um grande volume, rápida
propagação, grande elevação do nível das águas, curta duração de 2 a 3 dias, uma
vez que a descida do nível das águas é relativamente rápida (Aires et al., 2000b).
Segundo os mesmos autores, o regime hidrológico do rio Douro em território nacional é
do tipo pluvial oceânico, ocorrendo as cheias essencialmente no Inverno e as
estiagens no Verão(Figura 65).

Figura 65 – Distribuição mensal da ocorrência de cheias registadas entre 1526 e 1996


(Aires et al., 2000b).

As cheias no rio Douro são agora menos frequentes, tendo-se registado um aumento
do período de retorno para caudais entre os 4000 e os 8000 m3/s (Rodrigues et al.,
2003) (Figura 66). Assim, para caudais de 6000 m3/s ou superiores, que ocorriam em
média três vezes em cada dez anos, ocorrem agora duas vezes em cada dez anos.
Este aumento da recorrência deve-se ao incremento da capacidade de
armazenamento em Espanha, que deixa de ter influência a partir de períodos de
retorno entre os 10 e os 20 anos. As cheias com caudais superiores a 10000 m3/s
continuarão a decorrer com a recorrência anteriormente sentida.

111
Eugénia Araújo Cap.V - Cheias do rio Douro

Figura 66 – Aumento do período de retorno das cheias na Régua nos últimos 30 anos
(Rodrigues et al., 2003).

Aquelas condições reflectem o facto de as condições de escoamento do rio


Douro já não serem naturais, devido a intervenções humanas, como a construção de
barragens, que alteraram o seu perfil e consequentemente o regime fluvial (Figura 67,
Tabela II).

Figura 67 – Perfil do rio Douro.


(Fonte: Centro de Produção Douro, 1992)

112
Eugénia Araújo Cap.V - Cheias do rio Douro

Tabela II – Armazenamento teórico disponível nas albufeiras do troço português e internacional


do rio Douro (Rodrigues et al., 2003).

Albufeira Capacidade (hm3)


Miranda 28
Picote 63
Bemposta 130
Aldeadavila 115
Saucelle 169
Pocinho 83
Valeira 97
Régua 95
Carrapatelo 148
Crestuma 110
Total 1038

As últimas cheias de 27 de Dezembro de 2002 e de 3 de Janeiro de 2003 mobilizaram


volumes de escoamento de 2125 e 1767 hm3, respectivamente, o que significa que
para reter estes caudais teria de se proceder por duas vezes ao armazenamento, sem
tempo para recuperação, do dobro do que a capacidade teórica das albufeiras
anteriores permitem (Rodrigues et al., 2003). Assim, os dados vêm demonstrar que os
aproveitamentos a fio de água não são albufeiras de armazenamento e daí a sua
reduzida influência no controlo e na minimização das consequências das cheias no rio
Douro. O facto de existir um desnível muito reduzido entre montante e jusante durante
as cheias impede a produção de electricidade, por não haver praticamente altura de
queda para turbinamento (Figura 68).

Figura 68 – Cheia de 1978 na Barragem do Carrapatelo (caudal de ponta – 10170 m3/s).


( Foto extraída de “Aproveitamento Hidráulico do Douro”, EDP, 1986 in Rodrigues et al., 2003)

113
Eugénia Araújo Cap.V - Cheias do rio Douro

No território espanhol apenas as albufeiras de Almendra, no rio Tormes (afluente da


margem esquerda do troço internacional do rio Douro) e de Ricobayo, no rio Esla
(afluente da margem direita do rio Douro, próxima à fronteira de Miranda), possuem
albufeiras com capacidade para reter volumes significativos, com capacidades de
armazenamento de 2586 hm3 e de 1178 hm3 respectivamente. A capacidade de
armazenamento nos dois afluentes espanhóis é cerca de quatro vezes superior à
capacidade de armazenamento nos dez aproveitamentos a fio de água referidos
anteriormente (Tabela II).

114
Capítulo VI

Aplicação do conhecimento geológico


ao turismo da região – proposta de guia geoturístico
Guia Geoturístico
do percurso fluvial Porto-Pinhão
Introdução

O vale do rio Douro proporciona aos seus visitantes paisagens magníficas onde se fundem os
aspectos culturais, históricos e geológicos. O que hoje observamos no vale do rio Douro resultou da
acção conjunta das suas gentes ao longo de gerações, da forma como povoaram e fizeram o
aproveitamento do solo, bem como das caracteríticas geológicas desta região, que influenciaram a
forma como a acção humana decorreu. É nesta região que é produzido o Vinho do Porto, onde a
geologia, entre outros factores naturais, contribui para a excelência deste vinho.
A geologia é a ciência que estuda a Terra e tem grande relevância nesta região, tendo um
papel essencial na beleza e atractividade turística da paisagem duriense. Do conjunto de temas ou
disciplinas que são tratadas no âmbito da Geologia, a Geomorfologia merece destaque nesta região,
pois estuda as formas de relevo e a sua interpretação.
Neste guia, ao longo do percurso fluvial Porto-Pinhão, são abordados os aspectos geológicos
mais importantes, relacionando-os sempre que possível com a história e cultura dos locais. Para uma
melhor compreensão e enquadramento desta região única e particular do Douro, a Geologia será
abordada num contexto mais amplo, em especial do Norte de Portugal. Faz-se referência à formação
das rochas que existem no vale do rio Douro e à sua evolução ao longo do tempo geológico.
Pretende-se que todos os visitantes compreendam o que estão a observar e ir além da mera
contemplação, suscitando-lhes um papel mais activo na interpretação da paisagem duriense, pois um
conhecimento mais profundo desta região, nomeadamente no âmbito da geologia, resultará
certamente numa maior satisfação. Conhecer a história geológica do vale do rio Douro é um desafio
mas de certeza que o vai surpreender!
Este guia está integrado num trabalho de tese de mestrado em Ciências do Ambiente,
efectuado no Departamento de Ciências da Terra da Universidade do Minho e constitui o capítulo VI
desse trabalho. Assim, se pretender obter informação mais detalhada sobre os aspectos geológicos da
região, bem como sobre a temática do Património Geológico e do geoturismo, poderá consultar o
referido trabalho intitulado “Geoturismo: conceptualização, implementação e exemplo de aplicação
ao vale do rio Douro no sector Porto-Pinhão”.
Considerações iniciais - formato do guia (layout)

Percurso Porto-Pinhão, com


sinalização do local onde nos
encontramos.

Tempo aproximado de duração


do percurso, a localidade e o
tema aí abordado.

Numeração dos pontos de


interesse.

Áreas temáticas em que se


enquadra a informação que
será abordada em cada ponto
de interesse.

Espaço destinado para a


informação que será fornecida
em cada ponto de interesse.

Nos casos em que se justifica,


em alguns pontos de interesse
existirá no verso da página
informação adicional, que é
complementar da informação já
fornecida, onde se aprofundam,
alguns aspectos geológicos.

Os textos e informações que integram este guia resultam de um trabalho de pesquisa de campo
efectuado pelo autor e de um trabalho de pesquisa bibliográfica. Por uma questão de simplicidade e
facildade de leitura são em geral evitadas essas referências ao longo dotexto. No fim do guia existe
um glossário de alguns termos geológicos.

121
Tempo: 00h:00 min

Local: Ribeira

Tema: Enquadramento
geográfico do percurso

Partida

O percurso fluvial que se irá efectuar é realizado no rio Douro, cuja bacia hidrográfica se
localiza na Península Ibérica, abrangendo por isso quer território português, quer território
espanhol (Figura 69). O trajecto será efectuado apenas em território português,
especificamente entre a cidade do Porto e a vila do Pinhão, numa extensão de cerca de
125,8 Km (Figura 70).

A bacia hidrográfica do rio Douro corta longitudinalmente a Península Ibérica com uma
orientação dominante Este-Oeste. A sua área é de 97603 Km2, sendo 78960 Km2 em
Espanha (80,9%) e os restantes 18643 Km2 (19,1%) em Portugal. A bacia hidrográfica do rio
Douro é a que possui maior área, quando comparada com as restantes bacias
peninsulares. O rio Douro é um dos rios mais extensos da Península Ibérica (o terceiro maior,
depois do Tejo e do Ebro) e do seu percurso total, 927 Km, 208 Km (22%) situam-se em
Portugal, 122 Km (13%) servem de fronteira (Douro Internacional) e 597 Km, situam-se em Hidrologia
Espanha. O rio Douro nasce a cerca de 1700 m de altitude, na Serra de Urbion em Espanha
e desagua no Oceano Atlântico, junto à cidade do Porto.

Figura 69 – Bacia hidrográfica do rio Douro.

123
A

Figura 70 – Enquadramento geográfico do


percurso fluvial Porto-Pinhão.
A – Enquadramento da bacia hidrográfica
do rio Douro na Europa.
B – Bacia hidrográfica do rio Douro com
indicação da percentagem que se encontra
em território português e em território espanhol.
C – Enquadramento do percurso fluvial Porto-
Pinhão na bacia hidrográfica do rio Douro em
território português.

124
Tempo: 00:05 min

Local: Ribeira

Tema: Vale do Douro na foz

1
Nas margens do rio Douro, junto à sua foz, estão implantadas duas importantes cidades, a
cidade do Porto, na margem norte, e a cidade de Vila Nova de Gaia, na margem sul. Daí,
existir nesta zona um denso povoamento que assenta em rochas designadas por granitos. Tectónica
Ao contrário da maioria dos rios e apesar da proximidade da foz, o leito do rio Douro
encontra-se bastante encaixado o que origina margens muito inclinadas, como nos
revelam as escarpas dos Guindais, a norte, e da Serra do Pilar, a sul.
A escarpa granítica dos Guindais tem revelado alguma instabilidade, tendo ocorrido num
passado recente queda de blocos e escorregamentos de terrenos. Este comportamento
relaciona-se com a intensa fracturação do granito. As fracturas são o resultado de esforços
tectónicos que afectaram a rocha. Estes incidentes conduziram à tomada de medidas
para a sua estabilização que culminou com a construção de muros de protecção (Figura
71). Esta medida correctiva promove a segurança dos que utilizam e passam neste local,
prevenindo acidentes que podem causar danos humanos e materiais.

Figura 71 – Escarpa dos Guindais com muros de estabilização.

125
Tempo: 00h:10 min

Local: Ponte da Arrábida

Tema: As pontes

O leito encaixado do rio Douro desde sempre dificultou a comunicação entre as duas 2
margens, cuja ligação se foi tornando ao longo do tempo essencial. Por isso, foram sendo
construídas várias pontes (Quadro I). Actualmente, existem seis pontes a ligar a cidade do
Porto e de Vila Nova de Gaia: ponte da Arrábida, ponte de D. Luís I, ponte do Infante D.
Henrique, ponte D. Maria Pia, ponte de S. João e ponte do Freixo. Daqui adveio a
designação de “Cidade das Pontes” para a cidade do Porto. Embora estas sejam as
pontes que actualmente podemos observar na cidade do Porto, outras existiram em
tempos mais remotos, como é o caso da Ponte das Barcas (Figura 72) e da Ponte Pênsil
(Figura 73). História

Quadro I – Pontes sobre o rio Douro que ligam e ligaram a cidade do Porto à cidade
de Vila Nova de Gaia.

Nome Data de Tipo de circulação


inauguração
Barcas 1806 Pedonal
Pênsil 1843 Pedonal
D. Maria Pia 1877 Ferroviária
D. Luís 1886 Rodoviária
Arrábida 1963 Rodoviária
S. João 1991 Ferroviária
Freixo 1995 Rodoviária
Infante D. Henrique 2002 Rodoviária

A montante existem ainda outras pontes que permitem a ligação entre as duas margens
do rio Douro.

Figura 72 – Pintura antiga onde é retratada a Figura 73 – Pintura antiga onde é retratada a
Ponte das Barcas. Ponte Pênsil.

127
Quadro II – Algumas particularidades das pontes que ligam e ligaram a
cidade do Porto à cidade de Vila Nova de Gaia.

Nome Particularidades

Foi a primeira ponte sobre o rio Douro e o seu nome deve-se ao


facto desta ponte ter sido construída com barcas, ligadas com
amarras de ferro e nas quais assentava madeira. Devido à forma
como foi construída e à matéria prima utilizada, esta ponte subia
e descia consoante a variação do nível da água e abria e
Barcas fechava para permitir a passagem dos barcos que navegavam
no rio Douro. A esta ponte está associado um acontecimento
trágico, aquando da 2ª invasão francesa. A 26 de Março de 1809,
as tropas francesas comandadas pelo General Soult realizaram
um cerco à cidade do Porto, que pouco tempo resistiu à
investida. No dia 29 de Março, os franceses conseguem romper a
defensiva portuense e um grande número de populares
desesperados, homens, crianças e mulheres, querendo fugir,
tentam alcançar a outra margem, atravessando a então
existente Ponte das Barcas. Esta, devido ao peso e ao balanço
cedeu num dos troços e uma larga abertura na estrutura da
ponte fez com que morressem afogadas cerca de quatro mil
pessoas. A esta tragédia foi feita uma homenagem através de
um painel conhecido por “Painel das Almas”, realizado em 1897 e
colocado no cais da Ribeira, no local onde existia a ponte. A
Ponte das Barcas foi posteriormente reconstruída e só deixou de
existir em 1843, quando a Ponte Pênsil foi inaugurada.
Apesar de ser conhecida como Ponte Pênsil, esta foi oficialmente
Pênsil designada por Ponte D. Maria II, uma vez que as obras de
construção tiveram início em maio de 1841, no dia de aniversário
de coroação de D. Maria II. Foi desactivada em 1887 e
actualmente os vestígios desta ponte reduzem-se a dois
obeliscos(pilares de cantaria) existentes na margem direita do rio,
junto à ponte D. Luís I.
É a mais antiga das pontes actualmente existentes a ligar a
D. Maria Pia cidade do Porto à cidade de Vila Nova de Gaia. Esta ponte é
uma obra da autoria de Gustave Eiffel e esteve em
funcionamento durante 114 anos até à abertura da Ponte S.
João. Foi encerrada em 1992, mas continua a ser possível admirar
a sua beleza, tendo sido classificada como Monumento Nacional
em 1982.
A ponte foi construída por um discípulo de Eiffel, o engenheiro
D. Luís Teófilo Seyrig. Tem dois tabuleiros metálicos sustentados por um
grande arco de ferro e cinco pilares. O tabuleiro superior mede
392 metros de comprimento e 5 metros de largura enquanto o
inferior tem 174 metros de comprimento e 5 de largura. Foi
classificada como Imóvel de Interesse Público em 1982.
A Ponte da Arrábida, a segunda a ser construída para circulação
Arrábida rodoviária manteve durante algum tempo o recorde mundial
para pontes em arco de betão armado. Constituíu uma das
obras de maior importância para o desenvolvimento do país,
tendo sido a primeira ponte sobre o rio Douro a ser inteiramente
realizada pela engenharia portuguesa.
A Ponte de S. João foi construída com o intuito de substituir a
S. João velha Ponte D. Maria Pia, uma vez que esta não oferecia
condições de segurança, para além de limitar a velocidade e a
carga dos comboios mais modernos, foi inaugurada a 24 de
Junho de 1991, dia em que é celebrado o S. João na cidade do
Porto.
A Ponte do Freixo, localizada já no extemo da cidade, possui 8
Freixo faixas de circulação rodoviária. Distingue-se estruturalmente das
outras pontes, possuindo duas vigas gémeas afastadas 0,10 m ao
longo da sua extensão, daí muitas vezes se referir esta ponte
como se tratando de ponte dupla.
A Ponte Infante D. Henrique possui duas faixas de rodagem em
Infante D. Henrique cada sentido. Apresenta um vão de arco com 280 metros, que
constitui um recorde mundial. Um enorme arco de betão une a
margem norte à margem sul e foi construída com o objectivo de
substituir o tráfego rodoviário que se efectuava no tabuleiro
superior da Ponte D. Luís, que vai ser usado para a passagem do
Metropolitano de Superfície do Porto.

128
Tempo: 00h:22 min

Local: Campanhã

Tema: Palácio do Freixo

O Palácio do Freixo, localizado na margem norte, é um edifício do século XVIII, da 3


autoria do arquitecto italiano Nicolau Nazoni (Figura 74 e Figura 75). Constitui um
excelente exemplo do barroco português. O edifício foi mandado construir pelo Cónego
Jerónimo de Távora e Noronha, que queria um palácio de Verão na sua Quinta do Freixo.
Por volta de 1850 foi vendido a António Afonso Velado, um comerciante que recebeu o
título de Barão e mais tarde o de Visconde do Freixo. Este, realizou obras de remodelação
que vieram a alterar significativamente a arquitectura de origem do edifício. Está
classificado como Património Nacional desde 1910. Em 1984, foi adquirido pelo Ministério
do Trabalho e passado dois anos sofreu um grande incêndio, o que levou à realização de
História
obras de recuperação que foram encomendadas a Fernando Távora, descendente do
primeiro proprietário do palácio.

Figura 74 – Palácio do Freixo voltado para o rio Douro.

! Figura 75 – Sala dos espelhos do


Palácio do Freixo (Fotografia de António Amen).

129
Museu da Ciência

O Museu da Ciência e da Indústria, contíguo ao Palácio do Freixo, localiza-se no antigo


edifício das Moagens Harmonia (Figura 76). Foi construído em 1891-92 e a Companhia de
Moagens Harmonia SA fundada em 1918. Utilizava um processo de fabrico importado da
Alemanha, caracterizado pela utilização de moinhos que moíam o cereal através de dois
cilindros em ferro fundido horizontais, um liso e outro estriado. A arquitectura do edifício
obedece às características necessárias numa fábrica com este tipo de produção, como a
existência de amplos salões e muitos pisos, onde se localizavam de forma combinada as
várias máquinas, por forma a produzir uma variedade de farinhas. No exterior é possível
observar a verticalidade das fachadas, onde se encontram um conjunto de janelas e portas
e uma grande chaminé. Desde 1998 que neste edifício funciona o Museu da Ciência e da
Indústria onde só posteriormente foram realizadas as obras necessárias para recuperar e
adaptar o edifício ao funcionamento do museu. Este possibilita um percurso interpretativo e
observação da antiga fábrica, onde os visitantes revivem o circuito de laboração. Existem
ainda espaços destinados a exposições temporárias ou permanentes no âmbito da Ciência e
da Indústria, espaços de animação cultural, centro de documentação e arquivo, loja, livraria
e restaurante. No exterior, existem os terraços que constituem um lugar privilegiado para
disfrutar o rio Douro. Desta forma, este espaço é dedicado à história da indústria na cidade
do Porto, salientando o impacto que teve a nível social e económico nos séculos XIX e XX.

Figura 76 – Museu da Ciência e da Indústria na margem direita do rio Douro, junto ao Palácio do Freixo.

130
Tempo: 00h:32 min

Local: Avintes

Tema: Praias fluviais

A praia fluvial de Avintes na margem sul (Figura 77) resulta da acumulação de areia que 4
ocorre neste local. São várias as praias fluviais existentes no percurso que será efectuado e
ocorrem normalmente associadas à face interna da curvatura do rio, ou seja, à parte
convexa dessa curvatura. Nas zonas do rio onde o trajecto é curvo, a erosão ocorre
preferencialmente na parte côncava e a acumulação dos materias erodidos na zona
convexa, onde podem formar-se as praias fluviais, se a quantidade de sedimentos
acumulados for considerável (Figura 78). O canal navegável está assim deslocado no
sentido da margem côncava como podem constatar ao longo do percurso.

Hidrologia

Figura 77 – Praia fluvial de Avintes.

Figura 78 – Nas curvaturas de um rio ocorre erosão (E) na parte côncava e acumulação
de sedimentos (S) na parte convexa, onde podem surgir as praias fluviais
(Carvalho, 2003).

131
Tempo: 00h:57 min

Local: Arnelas

Tema: Afluentes do Douro


Vilas ribeirinhas

5
Na margem norte encontra-se a foz do rio Sousa, um dos afluentes importantes do rio
Douro. O rio Douro recebe ao longo do seu percurso os caudais de vários rios. Na margem
norte, para além do rio Sousa destacam-se o rio Tâmega, o rio Corgo e o rio Pinhão. Na
margem sul destacam-se o rio Arda, o rio Paiva, o rio Varosa e o rio Távora (Figura 79).
Na margem sul encontra-se a povoação de Arnelas, uma das mais características vilas
ribeirinhas do rio Douro, que tal como outras vilas ribeirinhas, teve uma forte tradição de
pesca fluvial. Esta, foi em tempos, uma actividade importante das povoações ribeirinhas.
Bogas, barbos, escalos, muges e enguias eram as espécies mais comuns, para além da
História
lampreia e do sável que subiam o rio Douro para desovar. No entanto, esta actividade
entrou em declínio aquando da construção das barragens, que impossibilitaram, por
exemplo, a subida do rio Douro pela lampreia e pelo sável.
As pessoas eram atraídas pela proximidade da água e pelo facto do rio poder constituir
uma via de comunicação. Não foram muitas as populações que se fixaram mesmo junto
ao rio, pois quer as cheias quer as condições extremamente secas que se fazem sentir no Hidrologia

Verão ou ainda o relevo acidentado (Figura 80) funcionaram como factores de repulsão
das populações para fora das margens do rio Douro. Desta forma, os núcleos
populacionais mais antigos da região surgiram no alto das encostas, onde o clima era
mais húmido e onde a terra era mais fácil de cultivar. Só mais tarde, o cultivo da vinha
atraíu a população, originando núcleos populacionais, ainda que raros, nas margens e
uma crescente humanização do vale. As povoações ribeirinhas caracterizam-se por serem
geralmente pequenas e com as habitações concentradas.

Escala
0 10Km

Figura 79 – Afluentes do rio Douro no sector Porto-Pinhão.

133
Figura 80 – Mapa hipsométrico do norte de Portugal
(Fonte: Atlas do Ambiente).

134
Tempo: 1h:02 min

Local: Montante de Arnelas

Tema: Rochas Metamórficas


Tempo Geológico

A montante da vila ribeirinha de Arnelas, começam a surgir na margem sul alguns 6


afloramentos de rochas genericamente designadas por xistos.. Os xistos são rochas
metamórficas que quando observadas à vista desarmada apresentam grão muito fino e
um empilhamento de finas lâminas, característica conhecida por xistosidade, que
promove a fácil desagregação desta rocha.
Rochas
Metamórficas
Existe uma relação entre a largura do vale e as rochas atravessadas pelo rio.
Normalmente as margens são mais abertas quando são atravessadas por xistos, que
decorre do facto de ser mais fácil desagregar esta rocha quando comparada com outras
rochas que nos vão surgir ao longo do percurso e às quais vai corresponder um vale mais
estreito.

Os xistos que observamos têm origem em sedimentos depositados num mar primitivo
durante o Câmbrico, o primeiro período da Era Paleozóica (Figura 81). Salienta-se assim
que estas rochas tiveram origem há cerca de 500 Milhões de anos (Ma) (Para a idade das
rochas é utilizada uma escala do tempo específica, a Escala do Tempo Geológico (Figura
72). Nesta escala o tempo encontra-se dividido em períodos, que por sua vez se agrupam
em eras).
Idade
Era Período (Milhões de
anos – Ma)

Neogénico 23.03
Cenozóico
Paleogénico 65.5

Cretácico 145.5

Mesozóico Jurássico 199.6

Triássico 251.0

Pérmico 299.0

Carbonífero 359.2
Paleozóico Devónico 416.0
Silúrico
443.7
Ordovícico
488.3
Câmbrico
542.0
Pré-Câmbrico
4600

Figura 81 – Escala do Tempo geológico.

135
Nota: O termo xisto será genericamente utilizado para rochas com as características referidas,
apesar de em algumas situações e numa análise mais detalhada não ser o mais correcto.

Tempo geológico

Os processos geológicos não ocorrem à escala do tempo humano e têm estado activos
desde a formação do planeta Terra, à cerca de 4600 Ma. Por isso, como na Geologia não se
pensa no tempo em horas ou semanas mas antes em muitos milhões de anos, os geólogos
criaram a escala do tempo geológico. A definição dos períodos geológicos é baseada na
ocorrência de particulares eventos geológicos, no predomínio de animais e plantas
característicos ou, mais frequentemente, pela combinação de ambos. O Paleozóico inferior,
do qual faz parte o Câmbrico é caracterizado pela abundante ocorrência de trilobites, fóssil
encontrado frequentemente em rochas desta idade e em particular nesta região (Figura 82).

Figura 82 – Trilobite (7cm) do Ordovícico de Valongo.

Classificação das rochas

As rochas são classificadas em ígneas, sedimentares e metamórficas de acordo com o


processo que lhes deu origem. Ao longo do nosso percurso surgem rochas dos três tipos (Figura
83):
- os granitos, que são rochas ígneas, foram consolidados a grandes profundidades a
partir de magmas que se encontravam inicialmente a temperaturas muito elevadas;
- os xistos e os quartzitos, que são rochas metamórficas formadas a partir da
transformação de outras rochas;
- as areias, que são rochas sedimentares resultantes do transporte e acumulação de
materiais resultantes da alteração e desagregação de rochas pré-existentes.

Legenda: Xistos, conglomerados e grauvaques Quartzitos, conglomerados e xistos


(Pré-Câmbrico/Câmbrico) (Ordovícico inferior)

Xistos, arenitos e quartzitos Xistos (Silúrico)


(Ordovícico médio e superior)

Xistos e quartzitos (Devónico) Xistos, arenitos e conglomerados


(Carbonífero)
Granitos

Figura 83 – Carta litológica simplificada que enquadra o percurso fluvial Porto-Pinhão.

Ciclo das rochas: ver página 138 136


Tempo: 1h:15 min

Local: Crestuma

Tema: Barragens

7
Entre a cidade do Porto e a vila do Pinhão existem três barragens (Figura 84). A primeira
a surgir neste percurso é a barragem de Crestuma-Lever.
Esta barragem foi a última a ser construída no troço nacional do rio Douro, tendo
entrado em funcionamento em 1986. Apresenta um desnível de 13.20 m e tem uma
potência instalada de 105 MW. Na sua albufeira, com uma capacidade total de 110
metros cúbicos, encontram-se as captações para abastecimento de água potável às
cidades do Porto e de V. N. De Gaia.

As barragens estão equipadas com eclusas de navegação, que permitem o tráfego


fluvial no rio Douro, que continua a ser uma via de comunicação e transporte importante. Recursos
Energéticos
Para além das eclusas de navegação estas barragens possuem eclusas de peixes do tipo
“Borland”. A construção das barragens regularizou o leito do rio outrora com águas
violentas, responsável por muitos dos naúfragos que ocorreram. Hoje em dia e graças à
construção das barragens ocorreu uma melhoria das condições de navegabilidade do
rio Douro, sendo possível navegar com segurança pelas suas águas. Tal facto, promoveu
o desenvolvimento de algumas actividades turísticas como os cruzeiros fluviais ou os
desportos náuticos, para além de ter criado postos de trabalho, potenciando o
desenvolvimento económico e social das regiões onde se encontram. Contudo, as
barragens, como a maior parte das obras de engenharia, descaracteriza o vale do
Douro, retirando-lhe a beleza selvagem que o caracterizava, como o leito rochoso,
cascatas e vales mais profundos do que hoje é possível observar.

Escala
0 10Km

Figura 84 – Localização das barragens no percurso Porto-Pinhão. A barragem do Torrão está localizada no
rio Tâmega, um dos afluentes do rio Douro.

137
Os três tipos de rochas referidos anteriormente relacionam-se entre si através de um ciclo,
denominado ciclo das rochas ou ciclo litológico (Figura 85). Este ciclo sintetiza o conjunto de
processos sofridos pelas rochas ao longo do tempo que ocorrem no interior e à superfície da
Terra.

1. Meteorização
e Rochas
Erosão sedimentares 3

2
2. Transporte
Sedimentação
Diagénese
Rochas
metamórficas
Sedimentos 1
3. Metamorfismo

3
1
4. Fusão 4

5. Arrefecimento
Rochas Magma
magmáticas 5
e
solidificação

Figura 85 – Esquema representativo do ciclo litológico (as setas representam os processos


geológicos referidos pelos números de 1 a 5).

1. Uma vez expostas à superfície, as rochas sofrem meteorização e erosão originando


sedimentos.

2. Estes depois de transportados pela água e pelo vento, depositam-se - sedimentação. São
exemplos as areias das praias fluviais já observadas. Os sedimentos podem ser depois
compactados e ligados entre si – diagénese – originando as rochas sedimentares.

3. Com o afundamento das rochas sedimentares, aumenta a pressão e a temperatura que


conduzem à sua transformação em rochas metamórficas - metamorfismo.

4. Se a temperatura continuar a aumentar pode provocar a fusão das rochas, originando o


magma, que após arrefecimento, solidifica originando rochas magmáticas. Estas podem-se
formar à superfície devido a processos vulcânicos, ou no interior da Terra. No entanto, pode
acontecer, por exemplo, que as rochas sedimentares em vez de originarem rochas
metamórficas originem rochas magmáticas, ou as rochas metamórficas em vez de originarem
rochas magmáticas originem outras rochas metamórficas ou até rochas sedimentares.

138
Tempo: 1h:43 min

Local: Broalhos

Tema: Central
Termoeléctrica

8
Na margem norte encontra-se o edifício da Central Eléctrica da Tapada do Outeiro. Foi

construída em 1959 para produzir energia eléctrica em períodos estivais, quando a

produção hidroeléctrica era reduzida, mas actualmente já não está em funcionamento.

Utilizava como combustível o carvão extraído das minas de S. Pedro da Cova e do Pejão.

O transporte do carvão explorado nas minas de S. Pedro da Cova para a central era

assegurado por um cabo aéreo com cestos metálicos, que estabelecia a ligação entre as

minas e esta central. Muito perto do antigo edifício foi construída uma nova central História

eléctrica (Figura 86). Esta central, que entrou em funcionamento em 1998, produz energia Recursos
Energéticos
eléctrica a partir de gás natural e tem uma capacidade instalada de 990 MW.

Figura 86 – Central eléctrica de ciclo combinado a gás da Tapada do Outeiro.

139
Tempo: 1h:57 min

Local: Medas

Tema: Xistos

9
Na margem sul é possível observar afloramentos de xistos (Figura 87), pertencentes ao

Complexo Xisto-Grauváquico (CXG), uma unidade geológica mais recentemente

designada por Grupo do Douro, à qual é atribuída uma idade entre o Pré-Câmbrico

superior e o Câmbrico inferior. O Grupo do Douro é constituído por uma sequência de Rochas
Metamórficas
rochas metamórficas derivadas de rochas sedimentares. Os sedimentos resultantes da

erosão das rochas superficiais acumularam-se num mar primitivo, há cerca de 550 milhões

de anos, vindo a formar as rochas sedimentares. Posteriormente, estas rochas foram

submetidas a condições de pressão e/ou temperatura elevadas que conduziram à sua

transformação em rochas metamórficas. Seguiu-se uma evolução complexa e lenta que

permitiu que estas rochas formadas em profundidade estejam hoje à superfície.

Figura 87 – Xistos pertencentes ao Grupo do Douro, nas proximidades


da barragem de Crestuma.

141
Formação dos xistos

A formação das rochas metamórficas ocorre quando qualquer tipo de rocha é


transformado em outro tipo através da actuação em profundidade dos factores de
metamorfismo como a pressão e a temperatura. O metamorfismo pode ocorrer devido a um
aumento da temperatura provocado pela ascensão de massas magmáticas ou estar
associado ao afundamento de grandes extensões de massas rochosas, que ficam submetidas
a condições elevadas de temperatura e/ou pressão. Neste último caso, as elevadas pressões
conduzem a uma reorganização de certos minerais segundo um plano principal, o plano de
xistosidade, o que origina a estrutura laminar em planos paralelos (xistosidade) que caracteriza
os xistos.

Modelo evolutivo

Há cerca de 550 Ma, o adelgaçamento da crusta continental então existente permitiu a


formação de uma depressão marinha. Aí, começaram a depositar-se os sedimentos
resultantes da erosão dos continentes que limitavam essa depressão (Figura 88).

Legenda: Sedimentos Falha

Figura 88 – Formação de uma depressão marinha onde ocorre deposição de sedimentos.


(modificado de Pereira et al., 2004)

142
Tempo: 2h:12 min

Local: Lavercos

Tema: Quartzitos

10

Os relevos pronunciados que se destacam no horizonte correspondem ao afloramento


de rochas metamórficas muito duras, conhecidas por quartzitos (Figura 89). Os sedimentos
que deram origem a estas rochas depositaram-se no Ordovícico, em ambienta litoral, à Rochas
cerca de 495 milhões de anos. Metamórficas

Estes relevos destacam-se na paisagem porque perduram no tempo à medida que as


outras rochas vão sendo erodidas. O quartzito é uma rocha muito difícil de erodir pois é
constituída essencialmente por grãos de quartzo aglutinados por metamorfismo. Assim, à
medida que as outras rochas vão desaparecendo, os quartzitos permanecem como
relevos residuais.

Figura 89 – Quartzito, rocha dura e compacta, na estrada nacional 108,


depois de Melres (ao Km 32).

143
Modelo evolutivo

Tal como hoje acontece, também no passado os grãos de areia depositaram-se em


ambiente costeiro, nas margens da depressão marinha referida anteriormente (Figura 90).

Legenda: Sedimentos do Câmbrico Sedimentos do Ordovícico Falha

Figura 90 – Mar primitivo onde se depositaram os sedimentos no Ordovícico por cima dos sedimentos do
Câmbrico depositados anteriormente (modificado de Pereira et al., 2004).

Esta depressão marinha foi evoluindo por alargamento, até se formar no Silúrico um
oceano, caracterizado pela formação de uma nova crusta mais densa – crusta oceânica
(Figura 91). No Devónico, a bacia oceânica começou a fechar o que provocou a colisão dos
continentes que a limitavam (Figura 92). As rochas aí formadas foram então dobradas e
fracturadas devido ao efeito da compressão.

Legenda:

Expansão do fundo
oceânico

Ascensão de magma

Falha

Figura 91 – Ruptura da crusta continental e formação de


crusta oceânica. (modificado de Pereira et al., 2004).

Legenda:

Obducção

Falha

Colisão

Subducção

Figura 92– A partir do Devónico, ocorre a deformação das rochas


devido a um movimento compressivo que conduz ao fecho do oceano
primitivo (modificado de Pereira et al., 2004).
144
Tempo: 2h:17 min

Local: Melres

Tema: Praia fluvial –


níveis de terraço

11
Em Melres observa-se uma praia fluvial, onde são visíveis níveis de terraço acima do nível
das areias da praia. Estes níveis de teraço resultam da sedimentação correspondente a
momentos intermédios durante o encaixe do rio Douro, que decorreu desde à cerca de 2
Ma (Figura 93). À medida que o rio se foi encaixando foi deixando acumulados alguns
sedimentos, correspondentes a praias antigas e que hoje se encontram suspensos a cotas
mais elevadas, devido a um actual maior encaixe do rio.
Salienta-se neste local o contraste entre os depósitos de areia da praia fluvial e os relevos
que se observam por detrás, correspondentes aos quartzitos.

Hidrologia

1- Preenchimento do vale por aluviões.

2- Fase de encaixe do leito do rio nos aluviões, por efeito, por


exemplo, do abaixamento do nível do mar e/ou levantamento
tectónico do continente, com a formação do 1º nível de terraço.

3- Fase de novo aluviamento.

4- Fase de novo encaixe, com formação de um 2º nível de


terraço.

Figura 93 – Esquema representativo da formação dos níveis de


terraço(Carvalho, 2003).

145
Tempo: 2h:25 min

Local: Germunde

Tema: Minas de Carvão


do Pejão

O Couto Mineiro do Pejão estende-se desde Germunde, na margem sul do rio Douro, até
Paraduça, numa distância de cerca de 9 Km. Ao longo desta extensão ocorreu a 12
extracção de carvão nos xistos datados do Carbonífero, formados há cerca de 300 Ma
(Figura 94). O carvão é uma rocha sedimentar, sendo também designado por combustível
fóssil por ser utilizado para a obtenção de energia e por resultar da transformação, ao
longo de milhões de anos, de restos de plantas.
No Couto Mineiro do Pejão, a mina de Germunde suspendeu a lavra em 1994. A mina do
Pejão foi posteriormente integrada num projecto de recuperação de minas abandonadas,
de modo a evitar o impacte ambiental negativo das suas escombreiras. O carvão
explorado foi utilizado como combustível na Central Termoeléctrica da Tapada do Outeiro,
sendo para aí transportado através de teleférico a partir de Germunde, e nas cimenteiras,
Recursos
para o fabrico de cal hidráulica e de cimento. Energéticos
A extracção de carvão ocorreu em afloramentos do Carbonífero superior na designada
Bacia Carbonífera do Douro (BCD), que se prolonga por cerca de 90 Km, cortando o vale
do rio Douro próximo de Medas. O carvão surge em leitos intercalados nos xistos e é do tipo
antracite. Existem outros tipos de carvão como a turfa, a lenhite e a hulha. A antracite é de
todos os carvões o que possui um maior poder calorífico e é geralmente o que demora
mais tempo a formar-se.

Escala
0 10Km

Legenda: Pré-Câmbrico/Câmbrico Carbonífero Granitos Falha

Ordovícico a Devónico Neogénico Falha provável

Figura 94 – Localização das rochas do Carbonífero onde ocorreu a extracção de carvão.

147
Génese do carvão

No Carbonífero, o clima quente e húmido permitiu o desenvolvimento de florestas


luxuriantes constituídas por fetos arbóreos e outras espécies arborescentes localizadas em
áreas pantanosas ou lagunares. Em determinadas condições os restos vegetais, como folhas,
troncos e raízes, eram arrastados e depositados na água, originando camadas ricas em
carbono orgânico. Por cima destes detritos depositaram-se rapidamente sedimentos
resultantes da erosão das rochas que se encontravam à superfície, fazendo com que ficassem
ao abrigo do ar. Nestas condições, pela acção conjunta de microrganismos (bactérias), do
calor e da pressão, num processo complexo e lento, os detritos vegetais foram transformados
em carvão – incarbonização (Figura 95). Na medida em que são as plantas que estão na
origem do carvão, esta rocha é designada por rocha sedimentar biogenética.

Figura 95 – Esquema representativo da formação do carvão (Jacob, 1973 in Anadón, 1989).


1- Existência de uma planície de inundação fluvial; 2- Início da formação de uma zona pantanosa;
3 – Desenvolvimento de uma floresta e formação de depósitos de carvão;
4- Isolamento dos depósitos de carvão.

Modelo evolutivo

Os restos vegetais que originaram os carvões foram depositados, juntamente com outros
sedimentos, em depressões intramontanhosas formadas na sequência de movimentos
tectónicos (Figura 96). O aumento da temperatura que promoveu a formação dos carvões,
deveu-se para além do afundamento dos sedimentos à ascensão de magmas que ocorreu
nesta altura.

Legenda:

Ascensão de magma

Obducção

Falha

Falha provável

Dobras

Figura 96 – Deformação das rochas devido à compressão tectónica com consequente formação de
uma cadeia montanhosa no Paleozóico superior. Deposição de sedimentos em depressões
intramontanhosas em simultâneo com a ascensão de magmas .

Acções tectónicas posteriores afundaram as rochas da BCD, que assim ficaram


preservadas em profundidade. Após longo tempo, a erosão permitiu que os níveis de carvão
atingissem a superfície, tornando possível a sua exploração.

148
Tempo: 2h:27 min

Local: Pedorido

Tema: Minas de Ouro e


Antimónio

As unidades geológicas pertencentes ao Anticlinal de Valongo, suportam um número 13


elevado de antigas explorações mineiras. Destacam-se as minas onde ocorreu a
exploração de ouro (Au) e de antimónio(Sb) (Figura 97). Existem minas onde foi explorado
simultaneamente o ouro e o antimónio, outras onde foi apenas explorado o ouro e ainda
outras onde apenas se explorou o antimónio. Estas minas foram exploradas desde a altura
da ocupação romana mas na actualidade nenhuma delas está em funcionamento.
Salientam-se as minas de Montalto, da Tapada, Alto do Sobrido e das Banjas. Estes metais
foram explorados a partir de rochas datadas do Précâmbrico/Câmbrico, Ordovícico e
Carbonífero.

Recursos
Minerais

Legenda: Pré-Câmbrico/Câmbrico Carbonífero Neogénico

Ordovícico a Devónico Granitos Minas de Au,Sb

Falha Falha provável

Figura 97 - Localização das minas de ouro e antimónio(modificado de Combes et al., 1992).

149
Origem dos jazigos minerais

A origem dos minérios está intimamente associada ao movimento de fluidos, os fluidos


mineralizantes, que podem estar associados a processos magmáticos, metamórficos ou
sedimentares. Assim, os fluidos mineralizantes podem ser líquidos magmáticos, hidrotermais,
água das chuvas, água do mar, água existente entre os sedimentos ou ainda fluidos
metamórficos. Nos processos magmáticos, a constituição do magma é constantemente
alterada e à medida que vai arrefecendo, os minerais que se vão formando através de um
processo designado por cristalização fraccionada vão sendo depositados no fundo da
câmara magmática, processo designado por diferenciação gravítica, o que possibilita a
concentração de elementos metálicos nas rochas magmáticas resultantes. À medida que os
processos anteriores ocorrem, porções de magma ricas em alguns metais podem intruir nas
rochas que estão à sua volta e originar um depósito mineral. No decorrer da cristalização
magmática a concentração de voláteis aumenta. Esta componente rica em voláteis, cujo
principal constituinte é a água, tem a designação de fluido hidrotermal e pode separar-se do
magma e deslocar-se através de fissuras, fracturas ou poros existentes nas rochas. À medida
que migram através das rochas, os fluidos hidrotermais vão dissolvendo metais existentes na
crusta, que podem ser concentrados e precipitados quando ocorrem variações de pressão e
temperatura. Quando a precipitação ocorre em fracturas formam-se veios hidrotermais que
podem ter desde alguns milímetros a metros de largura. Alguns depósitos minerais podem
formar-se por metamorfismo que ocorre ao longo do contacto da intrusão magmática com as
rochas encaixantes (auréola de contacto). Também pode acontecer que as águas das
chuvas que penetram em profundidade possam ser postas em movimento e assim reagir com
as rochas devido ao aumento da temperatura que acompanha as intrusões magmáticas.
Estes fluidos arrastam consigo, ao longo de zonas permeáveis, componentes químicos que
posteriormente podem precipitar e originar um depósito mineral (Figura 98).

Figura 98 – Alguns processos de formação de depósitos minerais


(modificado depois Woodcock, 1994 in Gray, 2004).

150
Tempo: 2h:42 min

Local: Abitureira

Tema: Quartzitos do
Anticlinal de Valongo

14
Nas proximidades da povoação de Abitureira observam-se, agora mais de perto, os
relevos pronunciados correspondentes às cristas quartzíticas do Ordovícico e que já há
algum tempo se vinham a destacar no horizonte. A alternância de camadas de quartzo
com alguns níveis de xistos destaca estruturas do tipo dobras, formadas por acção de
compressão tectónica. Estas dobras encontram-se por sua vez integradas numa grande
Rochas
dobra conhecida por Anticlinal de Valongo (Figura 99). Metamórficas
Salienta-se a quase inexistência de vegetação nos quartzitos, explicada pelo facto desta
rocha ser muito resistente à erosão, o que dificulta a formação de um solo.
Estes quartzitos são os responsáveis pela existência para noroeste de algumas elevações
com cristas quartzíticas orientadas NW-SE, das quais se destacam a Serra de Santa Justa
(367m), a Serra das Flores (mais alta, 519 m) e a Serra de Santa Iria (416 m).
A grande resistência que os quartzitos oferecem à erosão traduz-se no estrangulamento
ou estreitamento do leito e do vale neste local.

W E

1 Km

Legenda: Xistos (Pré-Câmbrico- Câmbrico) Quartzitos, conglomerados e xistos


(Ordovícico inferior)

Xistos (Ordovícico médio) xistos, arenitos e quartzitos (Ordovícico superior)

Xistos (Silúrico inferior) Xistos (Silúrico superior)

Xistos, arenitos e quartzitos (Devónico inferior)

Xistos, arenitos e conglomerados (Carbonífero) Falha

Figura 99 – Perfil geológico Este-Oeste do Anticlinal de Valongo


(modificado de Carta Geológica de Portugal à escala 1:200 000, Folha 1).

151
Dobras e Falhas

As dobras são estruturas geológicas formadas quando as rochas sofrem a acção de


compressões tectónicas que as forçam a dobrar (Figura 100). Quando possuem flancos
simétricos podem ser de dois tipos: anticlinal, como acontece em Valongo, ou sinclinal.

Forças compressivas

Figura 100 – Formação de um anticlinal e de um sinclinal.

No entanto, nos casos em que o limite de elasticidade das rochas é ultrapassado ou nos
casos em que as rochas não dobram, estas fracturam e forma-se uma falha, ocorrendo
movimento das partes que se separam.

Algumas das curvaturas acentuadas que o rio Douro apresenta em determinados locais
podem estar relacionadas com o facto de aí existirem falhas geológicas, que o rio Douro terá
“aproveitado” na definição do seu trajecto. Destacam-se as curvaturas que o rio Douro
descreve próximo da cidade de Peso da Régua e na região do Pocinho, fora do âmbito do
sector abrangido por este guia.

152
Tempo: 3h:02 min

Local: Entre-os-Rios

Tema: Ponte de Hintze


Ribeiro

15
A nova Ponte de Hintze Ribeiro inaugurada a 4 de Maio de 2002 liga Entre-os-Rios,
localizado na margem norte, a Castelo de Paiva, localizado na margem sul. Foi construída
para substituir a antiga e centenária Ponte de Hintze Ribeiro (Figura 101) que caiu numa
noite de temporal. A sua queda, devido á cedência de um pilar, provocou uma tragédia
com a morte de 59 pessoas, ocupantes de um autocarro de passageiros e de três
automóveis ligeiros que atravessavam a ponte na altura. Foi considerado um dos maiores
acidentes rodoviários de sempre em Portugal. A nova ponte começou a ser contruída no
Verão de 2001 à imagem da ponte anterior. Tem uma largura de 11 metros, duas faixas de
História
circulação rodoviária e uma extensão de 562 metros assentes em sete pilares, dois dos quais
estão no leito do rio. As causas apontadas para a queda da ponte foram os elevados
caudais do rio Douro nessa altura, devido à ocorrência de intensa precipitação nesse
Inverno, e a extracção de areias no leito do rio. O Tribunal de Castelo de Paiva declarou
posteriormente que a queda da ponte deveu-se apenas a causas naturais, não ficando
provada uma relação directa com a actividade dos areeiros, apesar de existir uma forte
convicção pública e ambiental de que esta actividade teve implicações no acidente. Os
areeiros, juntamente com alguns responsáveis de entidades públicas ligadas ao ambiente e
às estradas, que foram constituídos arguidos do processo, não foram incriminados, não
havendo dessa forma julgamento.
O monumento que se localiza na margem sul junto à nova ponte, “O Anjo de Portugal”,
presta homenagem às vítimas desta tragédia.
A montante da Ponte Hintze Ribeiro, a cerca de 15 metros, encontra-se a Ponte do IC35.

Figura 101 – Ponte de Hintze Ribeiro que caiu em Março de 2001 (Alvão, 1935).

153
Tempo: 3h:07 min

Local: Entre-os-Rios

Tema: Foz do Rio Tâmega


e barragens

16
Na margem norte, junto da povoação de Entre-os-Rios, encontra-se um dos principais
afluentes do rio Douro, o rio Tâmega. O rio Tâmega nasce em Espanha, na Serra de S.
Mamede, próximo da povoação de Albergaria. Apresenta um comprimento de 183,5 Km,
dos quais 46 Km são em território espanhol, 3,5 Km constituem fronteira entre os dois países,
sendo os restantes em território português. A bacia hidrográfica do rio Tâmega possui uma
área de 3252 Km2 e uma forma aproximadamente rectangular, bastante alongada, de
orientação NE-SW.
A cerca de 3,5 Km da confluência com o rio Douro localiza-se a barragem do Torrão
(Figura 102). Foi o primeiro aproveitamento hidroeléctrico construído na bacia hidrográfica
do rio Tâmega. Entrou em funcionamento em 1988 e tem uma potência instalada de 146 Recursos
Energéticos
MW, podendo produzir em média 228GWh/ano. A cota máxima prevista para a sua
exploração é de 65 m, o volume bruto armazenado de 124 milhões de metros cúbicos e o
volume utilizável em exploração normal de 77 milhões de metros cúbicos. A albufeira tem
um comprimento de cerca de 31 Km, abrangendo os concelhos de Marco de Canaveses,
Hidrologia
Penafiel e Amarante.

Figura 102 – Albufeira do Torrão na zona de Canaveses


(Fonte: Centro de Produção Douro).

155
Tempo: 3h:30 min

Local: Alpendurada

Tema: Convento de
Alpendurada

Na margem norte pode observar-se o imponente edifício do Convento de Alpendurada 17


(Figura 103). Este convento foi fundado em 1024, no século XI por um sacerdote, tendo sido
um local de acolhimento de peregrinos, mercadores e cruzados. O edifício original foi
depois ao longo dos séculos aumentado. Os monges estiveram em Alpendurada até 1834,
no entanto em finais do século XVI foi esvaziado de quase tudo em favor do Convento de
São Bento da Victória no Porto. Os abades deste convento eram conselheiros influentes do
rei, tendo o abade Afonso Martins participado nas Cortes de Coimbra quando foi
proclamado rei D. João I. O mosteiro foi posteriormente recuperado por D. Frei Jerónimo
Freire, em 1611. Exceptuando a bela igreja e o velho claustro, já pouco resta da
História
arquitectura original. Este Convento possuía uma das bibliotecas mais importantes do Reino,
pois era aqui que se guardavam, catalogavam e protegiam os documentos mais
importantes. Após o incêndio provocado pelo soldados franceses, a sua documentação foi
distribuída pelos arquivos distritais de Braga, Porto e Tombo. A igreja foi posteriormente
doada aos monges da Ordem Beneditina.
Actualmente o edifício é propriedade privada e encontra-se adaptado a hotel, estando
lá a funcionar o Hotel Convento de Alpendurada, após duas décadas de restauros. Nas
suas paredes encontram-se azulejos originais do século XVII e XVIII, sendo também utilizado
o granito, material abundante na região, e a madeira para forrar os tectos. A cozinha do
convento tem sido o local ideal para a realização de banquetes medievais, com animação
e trajes característicos da época medieval.
O Convento de Alpendurada constitui um local privilegiado para contemplar a paisagem
magnífica que o rio Douro nos proporciona.

Figura 103 – Convento de Alpendurada.


(Fonte: www.conventoalpendurada.com)

157
Tempo: 3h:35 min

Local: Alpendurada

Tema: Granitros

18
O Convento de Alpendurada encontra-se instalado em terrenos onde predomina o
granito, rocha ígnea plutónica, que já se têm vindo a observar desde que passámos os
quartzitos do Anticlinal de Valongo.
Os granitos caracterizam-se por apresentarem grãos de diferentes minerais visíveis a olho
nú. Os granitos têm geralmente cor clara, mas algumas variedades aparentadas com
granitos podem ter cores relativamente escuras. Os principais minerais constituintes do
granito são o quartzo, os feldspatos e as micas. A idade dos granitos que existem no vale do Rochas
Magmáticas
rio Douro varia entre os 320 e 300 Milhões de anos.
O granito que aqui se observa apresenta uma textura porfiróide, com grão grosseiro a
médio.
O granito forma-se quando um magma, material rochoso no estado líquido proveniente
do interior da Terra e que se encontra a elevadas temperaturas solidifica lentamente em
profundidade (em média entre 3 e 7 kms) (Figura 104).

Rochas ígneas
plutónicas

Figura 104 – Génese das rochas ígneas plutónicas: o magma ao solidificar em profundidade,
origina rochas magmáticas plutónicas como o granito.

Por ser muito abundante, o granito é explorado no vale do rio Douro para ser utilizado nas
mais diversas aplicações da construção civil. Nas margens é possível observar a sua
utilização na construção das casas e dos muros.
Neste sector do rio Douro o canal é particularmente estreito, estando tal facto associado
à dureza e resistência do granito.
Os granitos ainda nos vão acompanhar nesta viagem até às proximidades de Barqueiros
e por isso falaremos novamente deles mais adiante.

159
Génese dos granitos

A ascensão dos magmas que originaram estes granitos está relacionada com o processo
entre o Devónico e o Carbónico de fecho de um oceano primitivo com, colisão dos
continentes que o limitavam. O mergulho da crusta oceânica por baixo da crusta continental,
processo designado por subducção, conduziu à formação de magmas devido à fusão dos
materiais rochosos mergulhantes, que ao arrefecer em profundidade originam os granitos (ver
Figura 92 e 96). O aumento da temperatura aquando da ascensão destes magmas na crusta
conduziu também à fusão de material rochoso encaixante.

Afloramento dos granitos

Após a instalação destes granitos há cerca de 300 milhões de anos, a paisagem era
dominada por relevos muito vigorosos. O longo processo que permite que estas rochas
estejam hoje à superfície está esquematizado na figura seguinte.

3. O maciço granítico
aflora à superfície, uma
2. A espessura das rochas
vez que as rochas
1. Maciço granítico em que se encontram por cima
suprajacentes foram
profundidade, formado do maciço granítico diminui.
totalmente erodidas. O
a partir da solidificação Este facto deve-se ao
maciço granítico uma
do magma no interior da levantamento geralmente
vez à superfície vai estar
Terra. lento dos continentes e à
também sujeito à acção
acção dos agentes de
dos agentes de
meteorização e erosão que
meteorização e erosão.
ao longo de milhões de anos
desagregaram e
desgastaram essas rochas,
sendo os materiais
resultantes transportados
para outros locais.

Figura 105 – Esquema representativo do afloramento do granito.

A paisagem granítica é variável devido a factores como a composição mineralógica dos


granitos, estado de fracturação e tipo de meteorização que sobre eles actua. Assim,
observamos em algumas situações uma paisagem granítica com relevos suaves e
arredondados e noutras, relevos abruptos, de picos elevados.

160
Tempo: 4h:12 min

Local: Carrapetelo

Tema: Barragens

19

O aproveitamento hidroeléctrico de Carrapatelo foi o primeiro a ser construído no troço


Tectónica
nacional do rio Douro e localiza-se junto do lugar de Mourilhe, no concelho de Cinfães.

Entrou em funcionamento em 1971, com a potência instalada de 180 MW. Dos

aproveitamentos hidroeléctricos do troço nacional é o que tem maior desnível, 36m. A sua

albufeira tem uma extensão de 40 Km e uma capacidade total de 148 milhões de metros

cúbicos, estendendo-se pelos concelhos de Cinfães, Resende e Lamego, na margem

esquerda, e Marco de Canaveses, Baião, Mesão Frio e Régua, na margem direita. Recursos
Energéticos
Encontra-se equipada com eclusa de navegação e de peixes.

A barragem está situada nas proximidades de uma falha geológica, a falha do

Carrapatelo (Figura 106). É por essa razão que a margem norte, à entrada da eclusa, se

encontra toda cimentada, uma medida que tem como objectivo estabilizar a estrutura da

barragem e diminuir a probabilidade desta apresentar algum tipo de movimento causado

pela falha.

N Falha do Carrapatelo

Legenda: Granitos

Figura 106 – Localização da falha do Carrapatelo.

161
Tempo: 5h:17 min

Local: Caldas de Aregos

Tema: Termas

20
Ao longo do percurso existem alguns locais com ocorrência de águas termais com
características sulfúreas alcalinas (Figura 107), que têm vindo a ser exploradas para o
tratamento de várias doenças. Neste âmbito, destacam-se as Termas de Caldas de Aregos,
localizadas junto da povoação de Aregos, na margem sul do rio Douro. A temperatura da
água é de 61ºC, sendo indicada para o tratamento de doenças do aparelho respiratório,
reumáticas e músculo-esqueléticas. A primeira referência a estas termas remonta à Idade
Média, tendo a rainha D. Mafalda mandado construir no século XII uma albergaria, que
terá sido a primeira estância termal de Aregos. Posteriormente, devido às cheias do rio
História
Douro e à construção da barragem do Carrapatelo, os balneários foram inundados e não
ficaram em condições de funcionamento, levando ao encerramento das termas. No início
da década de noventa, foi construído um novo balneário que permitiu voltar a usufruir
deste recurso.

A origem das águas termais está relacionada com as características geológicas do


terreno, nomeadamente com a litologia e as condições tectónicas existentes no local, que
Termalismo
são determinantes na criação de zonas de maior permeabilidade por onde a água pode
circular. O fluxo hidrotermal superficial em Caldas de Aregos ocorre ao longo de fracturas
do granito.

Legenda:

Xistos, conglomerados e grauvaques Quartzitos, conglomerados e xistos Xistos, arenitos e quartzitos


(Pré-Câmbrico/Câmbrico) (Ordovícico inferior) (Ordovícico médio e superior)

Xistos (Silúrico) Xistos e quartzitos (Devónico) Xistos, arenitos e conglomerados


(Carbonífero)

Granitos Termas

Figura 107– Carta litológica simplificada do sector Porto-Pinhão, com localização das termas de Caldas de Aregos
e de Caldas do Moledo.

163
Tempo: 5h:39 min

Local: Ermida

Tema: Linha do Douro e


Ponte de Ermida

21
Viajar de comboio pela Linha do Douro constitui uma opção ou um complemento para
quem pretende disfrutar da paisagem do Vale do Douro (Figura 108). Demorou 12 anos,
desde 1875 a 1887, a construir a linha ferroviária do Douro desde a cidade do Porto até
Barca de Alva, com 60 pontes e 50 túneis. Este sonho surgiu de um grupo de banqueiros do
Porto, que tinham como objectivo ligar, através de Salamanca, o Norte de Portugal ao
resto da Europa, mas o sonho ficou apenas por Barca d`Alva. Actualmente, o comboio já
não chega a Barca d`Alva, vai apenas até ao Pocinho. A viagem do Porto ao Pocinho,
numa distância de 175 Km, demora cerca de quatro horas. Após os primeiros 75 Km, até
História
Mosteirô, a viagem passa a ser à beira rio, apreciando paisagens com uma beleza
grandiosa numa perspectiva um pouco diferente daquela que é oferecida pelas
embarcações. Ao longo da viagem de comboio passa-se obrigatoriamente pelas estações
ferroviárias, algumas delas particularmente interessantes, com painéis de azulejos que
reproduzem cenas do quotidiano regional. As estações ferroviárias caracterizam-se por
apresentarem as suas paredes caiadas de branco e por ainda hoje manterem o seu antigo
mobiliário de madeira. Neste troço do rio surge-nos primeiro a Estação Ferroviária de Caldas
de Aregos na margem norte e cerca de 6 Km adiante a Estação Ferroviária de Ermida.
A Ponte de Ermida revela-se em seguida na margem norte. É mais uma ponte a
estabelecer a ligação entre a duas margens do rio Douro, neste caso a ligar Resende ao
concelho de Baião. As obras para a construção da ponte de Ermida iniciaram-se em 1996 e
terminaram a 2 de Março de 1998. Apesar da sua construção ser recente, o sonho de a
construir surgiu há mais de um século, embora com características diferentes da ponte que
existe na actualidade. O tabuleiro tem 430 metros de extensão e encontra-se a 73 metros
acima do nível da água, assente em quatro pegões e com uma faixa de rodagem em
cada sentido. No tempo em que Portugal ainda não era um reino independente de
Castela, não existia nenhuma ponte para transpôr o rio Douro, sendo apenas possível
atravessar o rio nas barcas de passagem, que neste local tinha o nome de Barca De Por
Deus.

! Figura 108 – Troço da


Linha do Douro.

165
Tempo: 5h:47 min

Local: Ermida

Tema: Granitos

22
Pode-se constatar que o relevo das áreas graníticas é, tal como naquelas onde existem
os quartzitos, mais acidentado, para além de se verificar também um estreitamento do
vale.

Em alguns locais é possível observar sinais visíveis da alteração do granito, resultantes da


sua exposição aos agentes de meteorização como a água, o ar e os seres vivos (Figura
109). Os maciços graníticos apresentam fracturas, também chamadas diaclases, que Rochas
Magmáticas
surgem por várias razões: pressões orientadas a que estas rochas estiveram sujeitas;
contracção aquando do arrefecimento do magma e descompressão quando surgem à
superfície. Quando o granito, formado em profundidade, passa a estar à superfície, estas
fracturas constituem locais de fragilidade da rocha, por onde a água pode circular e
infiltrar-se no maciço granítico, conduzindo à sua alteração e desagregação . Nas margens
do rio Douro surge uma paisagem tipicamente granítica caracterizada pela presença de
blocos arredondados dispostos de forma caótica, isolados ou empilhados, morfologia
conhecida por caos de blocos.

Fenocristal de
feldspato

Figura 109 – Pormenor da alteração do granito caracterizada pela perda


de coesão do granito e formação de areia granítica, resultante da
transformação dos feldspatos e das micas, minerais constituintes do granito.
Notar a presença de um cristal de maior dimensão de feldspato,
designado por fenocristal, que confere ao granito uma textura dita
porfiróide.

167
Formação de caos de blocos

O aparecimento de caos de blocos, tal como acontece nas margens do rio Douro (Figura
111), pode ser explicado de uma forma simplificada através dos seguintes esquemas (Alan
McKirdy & Roger Crofts, 1999).

1. Afloramento de um maciço granítico, caracterizado


pela existência de uma rede de diaclases. Estas expõem
uma maior área dos maciços graníticos à alteração.

2. A água pode infiltrar-se através das diaclases e reagir 3. A areia grosseira é removida pelas águas das
com os minerais que constituem o granito, transformando- chuvas ou pelo vento. Os blocos podem
os noutros. A água também pode solidificar com o encontrar-se amontoados ou dispersos ao
abaixamento da temperatura. Quando a água solidifica, acaso.
aumenta de volume, o que promove o alargamento das
diaclases e por sua vez a desagregação do maciço
granítico em blocos. À medida que se verifica a alteração
do granito, com formação de uma areia grosseira, os
vértices desaparecem, as arestas suavizam-se e pouco a
pouco os blocos tornam-se arredondados, formando
bolas.

Figura 110 – Esquema representativo da formação de caos de blocos.

Figura 111 - Caos de blocos na margem sul do rio Douro.

168
Tempo: 6h:07 min

Local: Barqueiros

Tema: Região Demarcada


do Vinho do Porto
(RDVP)

Em Barqueiros podemos localizar o contacto entre os granitos, que desde há muito tempo
nos acompanham, e os xistos e quartzitos do Ordovícico, aos quais se seguirão em breve as
23
rochas xistentas do Grupo do Douro (Câmbrico) (Figura 112). No entanto, salienta-se o facto
da transição dos quartzitos do Ordovícico aos terrenos do Câmbrico não ser evidente.
Devido à presença de uma falha neste local, que mais uma vez o rio aproveitou para
encaixar o seu leito, as unidades geológicas do Ordovícico encontram-se deslocadas para
norte na margem sul.
É a partir de Barqueiros, onde os xistos, em especial os do Grupo do Douro passam a
dominar, que começa a surgir a edificação de socalcos onde se faz o cultivo do famoso
Vinho do Porto e onde se inicia a Região Demarcada do Douro. História
A 10 de Setembro de 1756, foi instituída por Marquês de Pombal a Companhia Geral da
Agricultura das Vinhas do Alto Douro, que demarcou as zonas para a produção vinícola. A
Região Demarcada do Douro foi uma ideia pioneira, sendo a mais antiga a nível mundial. A
área de produção da vinha demarcada não foi sempre a mesma, tendo aumentado ao
longo dos século XVIII e XX para montante, abrangendo actualmente uma área de 250 000
hectares (Tabela III). Encontra-se subdividida em três sub-regiões: Baixo Corgo, Cima Corgo
e Douro Superior (Figura 113). O Vinho do Porto produzido nesta região é o produto
nacional mais conhecido internacionalmente.

Legenda:

Figura 112 – Extracto da Carta Geológica de Portugal à escala 1:500 000 (Oliveira et al., 1992b).

169
Escala
0 15Km

Figura 113 – Região Demarcada do Douro (fonte: www.ivdp.pt).

Tabela III – Caracterização das sub-regiões da Região Demarcada do Douro (fonte: www.ivdp.pt).

Área com vinha


Sub-Região Área Total (ha) % % da Área total
(ha)
Baixo Corgo 45.000 18 13.492 29,9
Cima Corgo 95.000 38 17.036 17,9
Douro Superior 110.000 44 8.060 7,3
250.000 38.588 15,4

170
Tempo: 6:17 min

Local: Rede

Tema: Xistos

24

Os xistos, uma vez à superfície, são alterados e desagregados por acção dos agentes de

meteorização e erosão (Figura 114).

A facildade com que os xistos são alterados e desagregados relaciona-se com o facto

de apresentarem xistosidade, o que se traduz numa erosão mais rápida comparativamente Rochas
Metamórficas
aos quartzitos e granitos.

Por isso, as margens são mais abertas nos xistos e mais fechadas nos quartzitos e granitos.

Figura 114 – Alteração dos xistos pertencentes ao Grupo do Douro,


próximo da barragem de Crestuma. Os minerais primários transformam-se
em minerais secundários – argilas.

A alteração dos xistos resulta da reacção entre os minerais primários e a água, com produção de
minerais secundários e aumento de volume com consequente desagregação dos xistos.

171
Modelo evolutivo

As rochas que temos vindo a observar - xistos, quartzitos e grauvaques- formaram-se no


Paleozóico.
No Mesozóico predominou a alteração das rochas, sob condições de clima quente e
húmido. A alteração dos xistos foi mais profunda, atingindo centenas de metros de espessura
(Figura 115).

Legenda:

Dobras

Falha

Falha
provável

Figura 115 – As condições climáticas favoreceram a alteração profunda das rochas, originando-se
uma superfície de aplanamento(modificado de Pereira et al., 2004).

Na era Cenozóica, e antes da instalação do sistema fluvial do Douro, uma grande


quantidade de rocha alterada foi removida e acumulada em depressões associadas aos
sistemas fluviais mais antigos (Figura 116) ou atingiram depressões marinhas como o Atlântico.

Legenda:

Dobras

Falha

Falha
provável

Antiga
superfície
de aplanamento

Levantamento tectónico

Figura 116 – Uma grande quantidade de rocha alterada foi removida por acção dos agentes erosivos
e em resposta ao levantamento tectónico. Forma-se uma paisagem em que se destacam as rochas
menos alteradas como os quartzitos. Os agentes de meteorização continuaram a actuar até à
actualidade (modificado de Pereira et al., 2004).

172
Tempo: 6h:27 min

Local: Moledo

Tema: Termas

25
Na margem norte do rio Douro encontram-se as Termas de Caldas do Moledo, integradas
num parque com plátanos seculares e tílias que dá aos seus utentes a tranquilidade e
sossego necessários para o seu repouso (Figura 117).
As águas das termas nascem a 41ºC e são conhecidas por serem indicadas para o
tratamento de doenças do aparelho respiratório, da pele, reumáticas e músculo-
esqueléticas. O tratamento é efectuado por banhos de imersão, duches (sub-aquático,
agulheta, escocês) pulverizações, inalações, irrigações e gargarejos. Possui uma piscina
termal com sauna, hidroterapia e hidro-massagem.
Os actuais balneários foram mandados construir por D. Antónia Adelaide Ferreira no final
do séc. XIX, junto à estrada nacional.
A povoação de Caldas do Moledo, situada logo a seguir às termas, nasceu com o
aproveitamento das águas medicinais, no tempo do rei D. Afonso Henriques.

Termalismo

Figura 117 – Termas de Caldas do Moledo.

173
Circulação hidromineral em Caldas do Moledo

A nascente de águas minerais das Termas de Caldas do Moledo ocorre em rochas do


Grupo do Douro (Figura 118). A circulação da água mineral em profundidade ocorre mais
superficialmente em xistos e mais profundamente em granitos subjacentes aos xistos. O fluxo
hidromineral ocorre em profundidade através de falhas existentes nas rochas, sendo através
destas que se dá a ascensão da água mineral até à superfície, onde depois é captada para
ser utilizada em diversos tratamentos nas Termas de Caldas do Moledo. Desta forma, a
tectónica desempenha em Caldas do Moledo um papel importante na circulação das águas
minerais.

Legenda: Rochas do Grupo do Douro Granitos Falha

Circulação de águas Circulação de águas Captação de água


minerais normais mineral

Figura 118 – Esquema representativo do modelo da circulação mineral em Caldas do Moledo


(modificado de Marques et al., 2003).

174
Tempo: 6h:42 min

Local: Peso da Régua

Tema: Sedimentos fluviais

26

Nas proximidades da cidade de Peso da Régua encontram-se, na margem sul, uma

ampla plataforma com sedimentos depositados pelo rio Douro (Figura 119). A formação

destes depósitos ocorreu nos últimos 2 Ma, durante o processo de encaixe do rio. Mais uma

vez os sedimentos depositaram-se na zona convexa da curvatura do rio, num troço em que

o rio se encaixou numa falha geológica aí existente.

Hidrologia

Figura 119 – Depósitos fluviais na margem sul do rio Douro, antes de chegar
a Peso da Régua.

175
Modelo evolutivo

Nos últimos 2Ma (Plistocénico e Holocénico), instalou-se um novo sistema fluvial, que
actualmente se reconhece na paisagem (Figura 120). Estes rios escavaram, a partir do
Atlântico, vales profundos na superfície da Meseta, que dominava a paisagem durante o
Cenozóico. Este encaixe do sistema fluvial deveu-se à continuação do levantamento do
continente por acção tectónica e ao abaixamento do nível do mar nos períodos glaciares
que caracterizaram o Quaternário.

Legenda:

Dobras

Falha

Falha
provável

Levantamento tectónico

Figura 120 – Nos últimos 2 Ma instalaram-se os rios, incluindo o rio Douro. Foram-se encaixando
e originaram os vales fluviais que constituem elementos da
paisagem actual (modificado de Pereira et al., 2004).

176
Tempo: 6h:47 min

Local: Peso da Régua

Tema: Depósitos de
inundação e cheias

27

Na margem norte, um talude da estrada nacional na Régua mostra sedimentos


depositados durante inundações provocadas pelas cheias do rio Douro. As cheias são
fenómenos naturais que são frequentes no rio Douro, sendo as localidades mais afectadas
aquelas que se localizam mais próximas do leito do rio como é o caso de Peso da Régua
(Figura 121). No Porto e em Vila Nova de Gaia, o rio Douro provoca cheias que são
consideradas das maiores da Europa, devido aos elevados caudais escoados. Estes valores
elevados devem-se a vários factores como a intensidade de precipitação, a forma da
bacia hidrográfica, a inclinação do leito do rio Douro e dos seus afluentes e a constituição
geológica da bacia. Verifica-se durante os períodos de cheia uma subida acentuada do
nível da água, pelo facto de o vale ser estreito e encaixado, o que não possibilita o seu
espraiamento. Na cidade de Peso da Régua, tal como em outras cidades afectadas pelas
cheias do rio Douro, existem placas gravadas com a data da cheia e que são colocadas à
altura que a água atingiu (Figura 122). No passado a ocupção destas áreas tomava em Hidrologia

consideração as cheias, como se pode observar por exemplo na Ribeira e em Miragaia, no


Porto. Aí, o piso inferior é aberto e os arcos suportam as habitações elevadas. Neste piso
inferior eram guardados barcos e bens fáceis de remover durante as cheias. Actualmente,
observa-se uma ocupação diferente destes espaços, valorizados pelo turismo, mas em que
períodos de cheias são fortemente penalizados.

! Figura 122 – Placas gravadas com a


data de ocorrência da cheia, colocadas à altura
atingida pela água em Peso da Régua.

" Figura 121 – Cheia de 1989 na cidade da Régua.

177
Tempo: 6h:50 min

Local: Peso da Régua

Tema: Cheias

28
As cheias são fenómenos naturais dos quais nem sempre existiram registos sistemáticos,
apesar de se ter conhecimento da sua ocorrência. Os caudais escoados pelos rios são
registados pelos limnígrafos. O mais antigo limnígrafo no troço português do rio Douro, situa-
se na Régua e entrou em funcionamento em 1944.

No quadro seguinte (Quadro III) encontram-se as 20 maiores cheias do rio Douro com os
caudais escoados e as alturas atingidas pela água, na cidade de Peso da Régua e do
Porto.

Quadro III – As vinte maiores cheias do rio Douro em Peso da Régua e no Porto.

Peso da Régua Porto (Cais da Ribeira)


Ano Caudal (m3/s) Altura (m) Altura (m)
1739 18000 25.0 6.0
1909 16700 23.7 5.2
1779 16100 23.1 4.9 Hidrologia
1962 15700 22.7 4.5
1823 15600 22.6 3.7
1788 15500 22.5 4.2
1860 15100 22.0 3.3
1727 14000 20.8 3.6
1850 13900 20.7 3.7
1910 13700 20.5 2.2
1887 13500 20.3 3.6
1843 13000 19.7 3.3
1966 12500 19.1 3.8
1855 12500 19.1 2.1
1989 12000 18.6 2.8
1888 11800 18.5 3.0
1978 11600 18.1 3.2
1979 11000 17.4 3.0
1948 9620 15.7 1.4
1996 8900 15.5 1.6

Nota: A altura na cidade de Peso da Régua corresponde à altura acima do nível de


estiagem. Na cidade do Porto a altura corresponde à altura acima do cais
da Ribeira.

Como se pode constatar pelos valores do quadro, a água na cidade de Peso da


Régua atingiu em alguns anos, nomeadamente em 1739 e 1909, alturas
impressionantes. Em Peso da Régua a partir da altura de 11,50 m alaga o cais turístico
e a partir dos 12,00 m o rio Douro começa a inundar a marginal. Das cheias mais
recentes destacam-se as de 2001 e 2003. Em 2001 registou-se na Régua um caudal
de 8548 m3/s e em 2003 de 7387 m3/s.

179
Cheias no Douro

Conhecidos os caudais de cheia num intervalo longo de tempo (Quadro III) é possível
determinar o período de retorno, ou seja, estimar qual o intervalo de tempo esperado para a
ocorrência de uma cheia com determinada dimensão (Gráfico 3).

Gráfico 3 – Relação caudal/ período de retorno para a cidade de Peso da Régua


(Aires et al., 2000b).

Através do gráfico pode-se concluir que, em média, existem cheias como as de 1739 e
1909, num intervalo de mais de cem anos.
Sucessivas cheias deixaram um registo sedimentar em raros locais das margens do rio
Douro. Num desses locais, situados na Régua, datações e estudos efectuados num talude
com uma altura de 10 metros de sedimentos, evidenciaram uma sucessão mais ou menos
regular de cheias desde há cerca de 10 000 anos (Figura 123).

Figura 123 - Depósitos de inundação na margem norte do rio Douro em Peso da Régua.

180
Tempo: 6h:52 min

Local: Peso da Régua

Tema: Cidade de Peso da


Régua

29
A cidade de Peso da Régua, conhecida como a capital do Douro, fica situada na
margem norte do rio Douro, pertence ao distrito de Vila Real e dista 110 Km da foz do rio
Douro, no Porto.
Pensa-se que o seu nome terá tido origem numa casa romana que aqui existiu "Vila
Regula", outros acreditam que a origem do nome está em “récua”, em virtude dos
conjuntos de récuas ou cavalgaduras que passavam o rio Douro e outros ainda pensam
que o nome pode derivar de “reguengo”, nome dado às terras dos reis. No que diz respeito
ao nome Peso, pensa-se que poderá derivar do lugar onde eram pesadas as mercadorias e
cobrados os impostos ou ter evoluído a partir de um lugar onde os animais de transporte História
eram alimentados ou pensados, o “Penso”.
Depois de Marquês de Pombal instituir a Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro em
1756 na Régua, com o objectivo de defender a qualidade dos vinhos da região e
regulamentar a sua produção, esta cidade passou a ser a Capital da Região Demarcada
do Douro e cresceu para junto da margem do rio Douro, tendo-se desenvolvido
economicamente. Este crescimento, foi uma consequência do comércio do vinho da
região, desempenhando esta cidade a função de entreposto vinícola da Companhia,
controlando o transporte fluvial do vinho do Porto. Era a partir de Peso da Régua que as
pipas de vinho eram transportadas em barcos rabelos até Gaia, onde o vinho envelhecia
nas caves, para posterior comercialização.
A vinha cultivada em socalcos domina a paisagem em redor da cidade, sendo possível
em muitas das quintas que aqui existem, onde foram recuperadas as antigas casas
senhoriais, fazer provas de vinhos e visitas guiadas aos locais onde são produzidos. A
belíssima paisagem que cerca a cidade pode ser contemplada em alguns miradouros
existentes nos arredores dos quais se destacam os de São Leonardo, em Galafura, e do Alto
de Santo António, em Loureiro.
Actualmente, a cidade da Régua tem o estatuto de Cidade Internacional da Vinha e do
Vinho. Encontram-se aqui instaladas importantes instituções associadas à produção,
certificação, fiscalização, comercialização e divulgação do vinho e da região como a
Casa do Douro, que possui no seu interior vitrais magníficos alusivos à cultura da vinha
(Figura 124), o Instituto dos Vinhos Douro e Porto (criado em Novembro de 2003, através da
fusão do Instituto do Vinho do Porto com a Comissão Interprofissional da Região
Demarcada do Douro), a Rota do Vinho do Porto e o Museu do Douro. Existem três pontes a
atravessar o rio Douro na cidade de Peso da Régua, uma ferroviária desactivada, datada
de 1872, outra rodoviária, datada de 1932, e uma de recente construção, parte integrante
da A24.

181
Figura 124 – Vitrais da Casa do Douro na cidade de Peso da Régua.

A “Ferreirinha da Régua”

Foi na cidade da Régua que nasceu em 1811 Dona Antónia Adelaide Ferreira, conhecida
na região como “Ferreirinha” (Figura 125). Foi uma das mais importantes personalidades da
região do Douro e possuidora de uma das maiores fortunas da época. Defendeu a qualidade
e a credibilidade do Vinho do Porto, tendo superado graves crises económicas do sector.
Para além disso, defendeu os direitos dos vitivinicultores durienses e contribuiu para o
desenvolvimento e prosperidade da região do Douro.

Figura 125 – Pintura de D. Antónia Adelaide Ferreira, conhecida por “Ferreirinha”.

182
Tempo: 7h:10 min

Local: Montante P.Régua

Tema: Barragens

A barragem da Régua localiza-se a cerca de 4 Km a montante da cidade de Peso da


Régua, próximo da povoação de Bagaúste. A sua construção iniciou-se em 1967 e entrou 30
em funcionamento em Junho de 1973. A sua albufeira tem uma capacidade para reter 95
milhões de metros cúbicos e a potência instalada é de 156 MW. Encontra-se equipada com
eclusa de peixes, tipo “Borland”, e por uma eclusa de navegação. Esta barragem é a última
de três barragens que existem no percurso Porto-Pinhão.

Tabela IV – Características gerais dos aproveitamentos hidroeléctricos de


Crestuma-Lever, Carrapatelo e Régua (Fonte: Centro de Produção Douro, 1992).

CRESTUMA-LEVER CARRAPATELO RÉGUA


Barragem
Gravidade Gravidade

Tipo Fundo móvel aligeirada aligeirada

Altura máxima (m) 25.5 57 41


Capac. Max. de
descarga (m3/s) 26 000 22 000 21 500
Potência instalada
(MW) 105 180 156
Queda bruta
máxima (m) 12.60 34.50 28.50
Queda bruta
mínima (m) 5.50 20.00 15.00
Produtividade
média anual (GWh) 399 949 738
Albufeira

Nível máx. Normal 13.20 46.50 73.50

Comprimento (Km) 44.00 40.00 43.50


Superfície inundada
(Km2) 12.98 9.52 8.50
Capacidade total
(hm3) 110.0 148.0 95.0
Capacidade útil
(hm3) 16.0 16.0 10.0

183
Tempo: 7h:40 min

Local: Montante P.Régua

Tema: A vinha

31

A montante da cidade de Peso da Régua a paisagem é dominada pelas famosas e


belas quintas, onde é cultivada a vinha que produz o Vinho do Porto. A designação "do
Porto" advém do facto da armazenagem e comercialização ter lugar no porto existente no
estuário do rio Douro, entre a cidade do Porto e Vila Nova de Gaia. Esta designação surgiu
apenas com o início da sua exportação, principalmente para Inglaterra.
O local em que nos encontramos pertence à Região Demarcada do Vinho do Porto
(RDVP) e está integrado na sub-região do Cima Corgo, onde é produzido um Vinho do
Porto de excelente qualidade. A paisagem vitícola singular resultou do esforço humano
História
levado a cabo ao longo de centenas de anos de trabalho (Figura 126), para transformar
uma região dominada pelos xistos do Grupo do Douro e declives acentuados, pouco
favorável para outras culturas, numa extensa rede de socalcos
.

Figura 126 – Surribas do Douro (Alvão, 1935).

“É o mais belo e doloroso monumento ao trabalho do povo português.”

(Jaime Cortesão)

“...uma das mais extraordinárias paisagens rurais construídas que se conhecem no mundo.”

(Orlando Ribeiro)

“Da pedra se fez terra, do sol bravo o licor generoso, que tem um ressaibo de brasa e de framboesa.”

(Aquilino Ribeiro)

“Socalcos que são passadas de homens titânicos, as encostas, volumes, cores e modulações que
nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir (...). Um poema geológico. A beleza absoluta.”

(Miguel Torga)
Os barcos rabelos

O transporte dos vinhos foi inicialmente efectuado através do rio Douro em barcos
rabelos (Figura 127) e, mais tarde, em comboios ou camiões. Os barcos rabelos possuíam
características que lhe permitiam navegar nas fortes correntes que rio Douro tinha no
passado. Não têm quilha, possuem um fundo chato feito com madeiras resistentes, uma vela
quadrada e o leme, que tem o nome de espadela, é uma peça comprida, quase do seu
tamanho, para permitir rápidas manobras. A espadela prolongava o corpo do barco, dando
a impressão que tinha um rabo, daí a designação de rabelo. Muitos foram os náufragos de
barcos rabelos carregados de pipas de vinho devido à difícil navegabilidade do rio Douro.
Estes barcos, que constituem um símbolo da região duriense, transportaram o Vinho do Porto
pelo rio Douro até 1965, sendo actualmente utilizados em regatas e adaptados aos cruzeiros
turísticos de curta duração. Para recordar a sua actividade inicial, muitas empresas do sector
do Vinho do Porto têm junto ao cais de Gaia e Régua, barcos rabelos carregados com pipas
que fazem lembrar tempos passados.

Figura 127 – Barco rabelo a transportar pipas de vinho no rio Douro (Serén, 2002).

186
Tempo: 7h:55 min

Local: Montante P.Régua

Tema: Vinho do Porto

O Vinho do Porto é o resultado de um conjunto de factores naturais como o clima, a 32


exposição ao sol, o xisto que acumula calor e permite a infiltração da água, os declives
acentuados, mas também do trabalho árduo do agricultor duriense levado a cabo durante
várias gerações e do aperfeiçoamento das técnicas de produção ao longo dos tempos.
Depois de um ano de trabalho, pois a vinha requer muitos cuidados, as vindimas decorrem
de Setembro a Outubro, a grande festa do ano na região do Douro (Figura 128 e 129).
Depois de produzido, era transportado para os armazéns do Porto e de Gaia, para
envelhecer e para posterior exportação.
O Alto Douro Vinhateiro foi consagrado Património Mundial pela UNESCO, na categoria
de paisagem cultural em Dezembro de 2001, reconhecendo-se internacionalmente a História
singularidade da paisagem vitícola duriense, onde está bem patente a interrelação entre os
factores humanos e os factores naturais.

Figura 128 – Vindima (Fonte: Rota do Vinho do Porto).

Figura 129 – Transporte das uvas em cestos (Fonte: Rota do Vinho do Porto).

187
Os vinhos e outras culturas do Douro

O Vinho do Porto é um vinho licoroso de sabor único e características peculiares. Apesar


de ser o que goza de mais prestígio no mercado mundial, outros vinhos de excelente
qualidade são produzidos na região do Douro. Destacam-se os vinhos de mesa do Douro e
outros tipos de vinho como os moscatéis e os espumantes. Desta forma, os vinhos durienses
não se reduzem ao Vinho do Porto, existindo uma grande variedade de vinhos produzidos na
região do Douro sem a designação “Porto”, mas igualmente de elevada qualidade.
Na bordadura das vinhas existem oliveiras e amendoeiras que descrevem verdadeiras
linhas na separação das parcelas com vinha, fazendo lembrar peças de um puzzle que
encaixam na perfeição. Na época em que as amendoeiras estão em flor, os socalcos ficam
enfeitados e ganham outra cor, numa ilusão de salpicos por algodão.
Na região do Douro são também abundantes laranjeiras, macieiras, castanheiros, e
cerejeiras. Existem ainda terrenos incultos com vegetação natural, nomeadamente em locais
de declive acentuado e difícil acesso.

A vinha

As vinhas do Douro foram parasitadas por várias pragas, salientando-se a partir da


década de sessenta do século XIX, a filoxera, um insecto proveniente da América do Norte
que ataca a raíz das videiras. A morte das videiras conduziu ao abandono de grande parte
dos terraços com apenas uma fila de videiras(Figura 130-A), que vieram a ser designados por
mortórios. Posteriormente, devido à dimensão da destruição e a obras efectuadas no rio que
permitiram a sua navegabilidade para montante, a região demarcada expandiu-se,
passando a incluir o Douro Superior. A vinha começou a ser plantada em terraços mais largos,
onde são plantadas duas ou mais filas de videiras(Figura 130-B). No entanto, este novo
sistema de plantação da vinha não permitia a mecanização. Por isso, no fim dos anos 60 e
início dos anos 70 do século XX, surgiu um novo sistema de plantação, os patamares e mais
tarde a vinha plantada ao alto (Figura 130-C). Com as mudanças na forma de plantar a
vinha, a paisagem vitícola duriense sofreu várias transformações ao longo do tempo.

A B C

Figura 130 – Diferentes técnicas de plantação da vinha. A – Terraços pré-filoxera; B – Terraços pós-
filoxera; C – Vinha ao alto.

188
Tempo: 8h:10 min

Local: Pinhão

Tema: Vila ribeirinha do


Pinhão

O Pinhão é uma vila ribeirinha situada na margem norte do rio Douro (Figura 131), 33
pertencente ao concelho de Alijó.
O nome desta vila deriva do facto de se encontrar aqui a foz do rio Pinhão, um dos
afluentes do rio Douro.
Em tempos remotos, a população dedicava-se à pesca ou à passagem de pessoas e
mercadorias entre as margens, quer do rio Douro, quer do rio Pinhão. No entanto, com o
cultivo da vinha e o incremento do comércio do Vinho do Porto, o Pinhão, devido à sua
localização privilegiada, tornou-se num entreposto importante dos vinhos produzidos na
região circundante. Actualmente, o Pinhão vive sobretudo do comércio e do turismo.
Sobre o rio Douro existe uma ponte rodoviária que permite a ligação entre o Pinhão e o História
concelho de São João da Pesqueira. Sobre o rio Pinhão, e a estabelecer a ligação entre o
Pinhão e o concelho de Sabrosa, existe uma ponte metálica ferroviária e uma outra
rodoviária. Foi a partir de Junho de 1880 que o Pinhão passou a ter disponível o transporte
ferroviário.

Figura 131 – Vila ribeirinha do Pinhão (1928).


(Fonte: Serén, 2002)

189
A estação ferroviária do Pinhão

Quem visita o Pinhão não pode deixar de visitar a sua estação ferroviária (Figura 132)
para apreciar os seus azulejos que constituem autênticos quadros com panorâmicas do
Pinhão (Figura 133), do rio Douro, de algumas quintas, bem como imagens relacionadas com
a cultura da vinha como a vindima, o transporte dos cestos, a carregação de vinho para os
barcos rabelos, etc.

Figura 132 – Estação ferroviária do Pinhão. Figura 133 – Painel de azulejos com panorâmica
do Pinhão.

O miradouro de Casal de Loivos

Sobre o Pinhão, o miradouro localizado na aldeia de Casal de Loivos (Figura 134),


proporciona um cenário magnífico em que o rio Douro, descrevendo um “s”, corre encaixado
no seu vale com as encostas forradas a vinha plantada em socalcos. Neste local podemos
sentir a calma característica desta região e contemplar uma das mais belas paisagens da
região vinhateira, com panorâmicas de importantes quintas, como a das Carvalhas, a da
Roêda e da Foz. Os socalcos, suportados por muros de xistos para evitar o desabamento dos
terrenos aquando da queda de precipitação, fazem lembrar uma imponente escadaria que
vai desde as margens do rio até ao alto das encostas.

Figura 134 – Panorâmica do miradouro de Casal de Loivos, nas proximidades do Pinhão.

190
Glossário de termos geológicos

afloramento - toda e qualquer exposição directa, observável, de rochas na superfície da


Terra, que pode ser natural (em escarpas) ou artificial (em escavações).

afluente - curso de água que desagua num curso maior ou num lago. O mesmo que
tributário.

água mineral - água proveniente de fontes naturais ou de fontes artificialmente captadas,


com composição química ou propriedades físicas ou físico-químicas distintas das águas
comuns. Caracteriza-se por possuir uma elevada quantidade de elementos dissolvidos,
acreditando-se vulgarmente, ter efeitos benéficos para a saúde. As águas minerais estão
geralmente relacionadas com a circulação profunda e/ou fenómenos vulcânicos ou
tectónicos.

água termal – água mineral natural cuja temperatura de emergência é 4ºC mais elevada
que a temperatura média anual do local onde emerge. De acordo com a classificação
adoptada pelo Instituto Português de Hidrologia, da autoria de Fraústo da Silva e Maria
Cândida, uma água termal é uma água com temperatura de emergência entre 35 e
45ºC.

aluviões – sedimentos deixados pelos cursos de água no seu leito, mas também fora deste
depois das inundações.

bacia hidrográfica - área topograficamente definida, drenada por um curso de água


perene ou temporário e seus eventuais afluentes, de tal modo que todos os caudais
efluentes sejam descarregados através de uma única saída. O contorno de uma bacia
hidrográfica coincide com a linha de separação de águas ou linha de cumeada, que
divide as precipitações que caiem na bacia das que caiem nas bacias contíguas.

bacia de sedimentação – largas depressões na crusta terrestre, onde os sedimentos são


depositados (Ex: mares, oceanos, lagos).

câmara magmática – reservatório de magma que existe no interior da crusta.

canal de estiagem - leito de um curso de água ocupado durante os períodos de


estiagem.

191
carbono 14 - isótopo radioactivo do carbono com peso atómico 14 que é utilizado na
determinação da idade de rochas que contêm carbono. A datação por radiocarbono
baseia-se na desintegração radioactiva do 14C, originando 12C que tem comumente um
alcance máximo de cerca de 30000 anos.

caudal - volume de um fluido escoado por unidade do tempo.

cheia - acentuada subida do nível da água num curso de água, lago, reservatório ou
região costeira.

cimentação – a água existente nos sedimentos pode precipitar substâncias que nela
estão dissolvidas, formando um cimento natural que une as partículas.

cristalização fraccionada – processo responsável pela diferenciação de um magma


numa câmara magmática devido às diferentes temperaturas de cristalização dos diversos
minerais presentes na mistura.

compactação – à medida que os sedimentos se afundam, na bacia de sedimentação, a


pressão a que estão sujeitos vai expulsar parte da água existente entre eles, ocorrendo
uma redução do espaço existente entre eles.

deformação - por influência das forças terrestres (frequentemente relacionadas com


eventos orogénicos) as rochas podem deformar-se de dois modos distintos:
1. Deformação dúctil: quando as rochas se encontram num estado relativamente plástico
(a grandes profundidades), dá origem ao aparecimento de estruturas como dobras,
foliações, etc.
2. Deformação frágil: quando as rochas se encontram à superfície, ou muito perto dela, a
acção de forças tectónicas pode provocar a ruptura das rochas, dando origem ao
aparecimento de fracturas e falhas.

diagénese – conjunto de modificações que os sedimentos sofrem, desde que são


depositados até se transformarem numa rocha sedimentar compacta.

diferenciação gravítica – transformação progressiva de um magma durante um processo


de cristalização fraccionada por subtracção dos elementos que constituem os primeiros
minerais a cristalizar e que se depositam na base da câmara magmática por serem mais
densos, o que altera a composição mineralógica do magma residual.

192
e

erosão - remoção dos materiais da crusta terrestre quando sujeitos à acção dos agentes
atmosféricos.

escombreira - material solto e estéril proveniente dos desmontes de uma mina.

estrato - formação geológica que se apresenta sob a forma de uma camada e que pode
ser individualizada das que lhe são contíguas.

fluido - composto no estado fluido (líquido e/ou gasoso) que pode conter elementos em
solução e que circula nas rochas.

foz - é o local onde o rio desemboca. Pode ser no mar, num lago o ou em outro rio.
Também pode ser chamada de desembocadura.

geologia - ramo das ciências naturais que trata do estudo do planeta Terra,
nomeadamente a sua origem, evolução, composição e estrutura, matérias constituintes e
evolução da vida.

hidrologia - ciência multidisciplinar que estuda as águas superficiais e subterrâneas da


Terra, a sua formação, circulação e distribuição, tanto no tempo como no espaço, as
propriedades biológicas, químicas e físicas e as interacções com o seu ambiente,
incluindo a sua relação com os seres vivos.

inundação – associada à acção de cobrir de água uma determinada superfície por


águas provenientes de cheias.

jazigo mineral - acumulação natural de matérias minerais ou orgânicas (sólidas, líquidas


ou gasosas) susceptível de ser explorada.

193
l

litologia - o termo litologia refere-se ao tipo de rocha. Consiste na descrição de rochas em


afloramento ou amostra de mão, com base em várias características tais como a cor,
textura, estrutura, composição mineralógica ou granulometria.

magma - material existente no interior da Terra a temperatura elevada (superior a 700°C),


possuindo mobilidade e podendo englobar fases sólida (minerais formados pela
cristalização magmática), líquida e gasosa (essencialmente vapor de água). O magma
poderá migrar e, em alguns casos, ascender até à superfície dando origem a um episódio
vulcânico. Quando o magma atinge a superfície designa-se por lava e solidifica formando
rochas vulcânicas (por exemplo, o basalto). Se o magma arrefece e cristaliza em
profundidade dá origem a rochas plutónicas como o granito.

metamorfismo - reajustamento químico, mineralógico, textural e estrutural, no estado


sólido, de qualquer tipo de rochas quando sujeitas a condições físico-químicas distintas
das condições de formação. O processo metamórfico ocorre, normalmente, em
ambientes endógenos (no interior da Terra) induzido por factores como a temperatura,
pressão, fluidos e tempo.
As novas rochas assim formadas designam-se por rochas metamórficas (por exemplo,
mármores, xistos, quartzitos, gnaisses, corneanas, etc.).

meteorização - conjunto de processos físicos e químicos que afectam as rochas quando


sujeitas à acção dos agentes atmosféricos (água, ar, variações de temperatura, etc.),
conduzindo a modificações a nível mineralógico, estrutural e textural. Assim, podem
formar-se novos minerais à custa de minerais pré-existentes, com destruição da estrutura e
textura iniciais da rocha. Esta perde coerência e ocorrem, frequentemente, mudanças de
coloração.

mineralização - acção de deposição de elementos minerais numa rocha, de forma


natural.

mineral - elemento ou composto químico sólido, inorgânico, de ocorrência natural, com


um arranjo atómico ordenado (estrutura cristalina), composição química definida e
propriedades físicas características (por exemplo, cor, dureza, brilho, hábito, clivagem).

montante - relativo à região compreendida entre um ponto considerado e a nascente de


um curso de água.

194
n

nascente - local da superfície topográfica onde emerge, naturalmente, uma quantidade


apreciável de água subterrânea. Estes locais representam descargas naturais dos
aquíferos que alimentam normalmente os cursos de água, podendo eventualmente ser
utilizadas para consumo humano, rega, etc, através de obras de captação.

planície de inundação – planície que se forma quando um curso de água transborda e


inunda as zonas adjacentes.

recurso energético – substância natural que pode ser utlizada pelo Homem para a
obtenção de energia.

rocha - matéria natural consolidada ou não, formada por um ou mais minerais, cuja
origem pode ser sedimentar, ígnea ou metamórfica.

sedimento - material de natureza mineral ou orgânica que constitui o solo. Os sedimentos


são originados pelo intemperismo e erosão, podendo ser transportados do seu local de
origem por agentes geológicos (ventos, rios, correntes, etc.) e acumular-se em depressões
onde tendem a formar camadas sedimentares.

sedimentação – processo pelo qual os sedimentos deixam de ser transportados,


depositando-se.

tectónica - termo relacionado com estruturas produzidas por deformação dos materiais.
Ramo da Geologia que estuda a origem e evolução das estruturas produzidas pela
deformação da crusta terrestre, principalmente os dobramentos e os falhamentos.

textura - refere-se ao tamanho, forma e arranjo dos constituintes de uma rocha. As


designações texturais variam consoante o tipo de rocha.

textura porfiróide – Textura caracterizada por existirem megacristais numa matriz granular,
ou seja, os grãos apresentam sensivelmente as mesmas dimensões.

195
Capítulo VII

Considerações finais
Eugénia Araújo Cap.VII – Considerações finais

Considerações finais

O conceito de geoturismo, enquadrado neste trabalho no conceito de turismo


sustentável e de ecoturismo, é uma actividade que está relacionada com a
geodiversidade e com a Geoconservação.
Em Portugal, o desenvolvimento do geoturismo não tem sido o desejado devido à
falta de sensibilização do público e dos políticos para a geodiversidade e para o
Património Geológico, a razão de ser do geoturismo, dificultando o desenvolvimento
de estratégias de Geoconservação e a integração dos geossítios em iniciativas
geoturísticas. Daí que, seja essencial desenvolver esforços conjuntos para suscitar o
interesse do público para a geodiversidade, para o Património Geológico e para a
importância da Geoconservação para que cada vez mais geossítios no nosso país
possam ser integrados em estratégias geoturísticas.
A caracterização geológica do sector Porto-Pinhão realizada neste trabalho,
apesar de sintética, atesta a diversidade de aspectos geológicos existentes neste
sector. Salienta-se o facto dos aspectos geológicos referidos serem aqueles que no
percurso fluvial Porto-Pinhão se destacam nas margens, para quem realiza a subida do
rio Douro. Este percurso enquadra-se na região do Vale do Douro, visitada anulamente
por milhares de turistas que viajam pela região através dos cruzeiros fluviais. Dado o
aumento significativo nos últimos anos do número de turistas que recorrem a esta
actividade e a ausência de informação de índole geológica constatada ao longo da
realização destes cruzeiros, a sua introdução seria pertinente. As margens do rio Douro
“respiram” geologia e embora seja suspeita, considero que a abordagem da geologia
no vale do rio Douro, integrada claramente com outros aspectos culturais e históricos,
impõe-se e é imperativa. Para Miguel Torga, o Douro é um “poema geológico”. Seria
importante que este “poema” fosse lido em voz alta a todos que lá se deslocam para
observar uma paisagem singular. A veiculação desta informação acarretaria uma
maior qualidade e atractividade aos cruzeiros fluviais e certamente contribuiria para
uma maior satisfação dos turistas, cada vez mais exigentes, na medida em que lhes é
proporcionada uma experiência mais enriquecedora, fazendo-os sentir num lugar
único, diferente de qualquer outro do mundo que já tenham visitado. Os cruzeiros
proporcionam uma paisagem grandiosa, de beleza única, em que os turistas têm
geralmente um papel de meros contempladores dessa paisagem. Julgo que outro
dinamismo seria dado aos cruzeiros se os turistas passassem a ser mais activos, ou seja,
se para além da mera contemplação, se empenhassem em compreender aquilo que
observam. Para que o Vale do Douro seja um destino turístico de referência, impõe-se
que todos os produtos turísticos da região, como os cruzeiros fluviais, se pautem por um

198
Eugénia Araújo Cap.VII – Considerações finais

elevado nível de qualidade. No trabalho apresentado, visou-se sensibilizar para as


potencialidades que a região do vale do rio Douro possui em termos geoturísticos, que
podem constituir uma ferramenta importante no desenvolvimento do turismo da
região. Reconhecendo essas potencialidades e constatada a ausência de
informação, apresenta-se neste trabalho uma proposta de um guia geoturístico. A sua
aplicação em contexto real constituiria uma oportunidade para alertar os turistas da
geodiversidade que os rodeia quando realizam os cruzeiros e para compreender a sua
história, ao mesmo tempo que observam uma paisagem única. Neste guia,
contemplou-se, sempre que foi possível e considerado adequado, aspectos da cultura
e história regional. Saliento o facto da referência aos aspectos geológicos focados no
guia não se limitar à sua descrição, tendo havido a preocupação de fazer uma
abordagem mais dinâmica do que se observa, contextualizando no tempo e no
espaço a sua génese e evolução. Salienta-se que o guia apresentado neste trabalho
é uma primeira proposta, na medida em que outros aspectos podem ser integrados
em trabalhos futuros.

Trabalhos futuros

Verificou-se que a formatação do guia geoturístico que integra este trabalho não
foi a mais adequada, mas por ter de se dispender muito tempo a formatar novamente
o que já estava feito, que era muito, não foi alterada. No entanto, será importante
rever a formatação do guia, adoptando aquela que mais se adeque a futuras
utilizações do guia, nomeadamente a uma possível edição. Para que tal seja
concretizado será necessário procurar as entidades e/ou os meios que promovam a
sua edição.
O presente trabalho abrange o sector Porto-Pinhão mas seria interessante em
trabalhos futuros realizar um guia geoturístico do sector fluvial a montante do Pinhão
até Barca d`Alva que daria continuidade ao guia apresentado neste trabalho. Desta
forma, o percurso que o rio Douro efectua em território português e que milhares de
turistas realizam todos os anos através da realização dos cruzeiros fluviais ficaria
suportado por informação, onde constariam os aspectos mais relevantes da
geodiversidade e do Património Geológico da região do Vale do Douro integrados,
sempre que considerado adequado, com aspectos históricos, culturais e da
biodiversidade. Seria importante fazer um estudo da Geomorfologia da região do Vale
do rio Douro e incluir os aspectos geomorfológicos mais relevantes que por razões de
tempo e complexidade deste trabalho não foi realizado.

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