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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

INTERCOM SUDESTE 2006 – XI Simpósio de Ciências da Comunicação na Região Sudeste.


Ribeirão Preto, SP - 22 a 24 de maio de 2006.

AUTOCONHECIMENTO E A TEORIA DOS ARQUÉTIPOS


NAS HABILIDADES DE COMUNICAÇÃO DE JORNALISTAS 1

José Edmundo Heráclito Silva 2


Faculdade de Ciências Aplicadas de Minas, Uniminas
(União Educacional de Minas Gerais), Uberlândia, MG, Brasil

Resumo
Este estudo aborda a relação de algumas habilidades profissionais e pessoais
no campo do jornalismo, com a Teoria dos Arquétipos de Carl Gustav Jung. Para isso,
utilizamos o Teste de Carol Pearson que permite conhecer influências de seis
arquétipos principais (inocente, órfão, nômade, mártir, guerreiro e mago) em nossas
vidas, bem como adaptamos um novo teste focado aos aspectos profissionais dos
jornalistas.
Profissionais recebem influências arquetípicas diferentes, nos seus modos de
pensar e agir, tanto na profissão quanto na vida pessoal. Isso foi possível confirmar
com os trinta e dois jornalistas pesquisados, sendo que os mesmos valorizam
diferentemente habilidades profissionais, conforme os arquétipos que os influenciam.
Seria um avanço se os cursos de Jornalismo incluíssem em seus conteúdos abordagens
sobre Psicologia Analítica, com destaque para a Teoria dos Arquétipos.

Palavras-chave: Jornalismo, Habilidades, Autoconhecimento, Arquétipos, Jung.

Autoconhecimento e a Teoria dos Arquétipos nas habilidades de comunicação de


jornalistas

A comunicação na sociedade moderna, por inúmeras vezes, é tomada como

sinônimo de uma “tábua de salvação” para organizações e grupos sociais. À medida que

1
- Esse artigo tem sua origem na tese de Doutorado As habilidades de comunicação no trabalho
jornalístico: uma proposta de compreensão e desenvolvimento com base na Teoria dos Arquétipos de
Carl Gustav Jung, defendida na ECA-USP, 2005, sob a orientação do Prof. Dr. Edvaldo Pereira Lima.
2
- Jornalista formado pela PUCCAMP, mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP e
professor de comunicação da Uniminas em Uberlândia, MG.
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se consegue melhorar a comunicação muitos dos problemas relativos à ordem, ao

funcionamento de empresas e desempenho profissionais estarão resolvidos, acredita-se.

Nessa perspectiva, insere-se a habilidade, o “saber fazer”, o “compreender” para

planejar e executar a comunicação. Não se trata de pensar e discutir a habilidade, como

algo mecânico, simplesmente como execução de tarefas. É preciso aliá-la a algo mais

permanente, mais aprofundado em termos de compreensão humana, como a capacidade

que podemos ter de conhecer a nós mesmos, termos autoconhecimento.

A Psicologia Analítica representa um manancial de reflexões e pressupostos

teóricos que podem ser aplicados à área da comunicação, com objetivo de desenvolver

habilidades. Pois há uma relação histórica no surgimento dessa psicologia com a

comunicação, através da palavra. Carl Gustav Jung, médico suíço, pai da Psicologia

Analítica, não produziu – em seus ensaios, livros e pesquisas – nada especificamente

sobre jornalismo ou comunicação. Seus primeiros passos, rumo à trajetória científica

que empreendeu, deram-se ao adaptar e aplicar em seus pacientes um teste de

associação de palavras, no qual ele pôde perceber estados mentais inconscientes.

Jung passou a utilizar os testes de associação de palavras no Hospital

Psiquiátrico Burghölzli em Zurique, onde começou a trabalhar em 1900. Os testes

consistiam nas seguintes ações: organizava-se uma lista de palavras isoladas, sem

nenhuma relação entre si; a essas palavras, denominadas indutoras, a pessoa examinada

era solicitada a reagir pronunciando uma outra palavra, a primeira que lhe viesse à

cabeça. Essa palavra passou a ser denominada induzida. Jung media o tempo com um

cronômetro, com indicação de quintos de segundo, entre o pronunciamento dessas duas

palavras, começando pela última sílaba da indutora até a primeira da induzida.

Entre uma palavra e outra havia um tempo de reação, procurava-se não

ultrapassar cinqüenta reações solicitadas aos pacientes, evitando com isso que houvesse

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cansaço. Jung permanecia atento ao que ocorria no curso da experiência. Os tempos de

reação variavam muito, ora breves, ora longos. Os pacientes ao invés de responder por

uma só palavra, respondiam com uma frase, ou repetiam a palavra indutora, hesitavam,

riam, reagiam com uma mesma palavra a diferentes palavras indutoras, enrubesciam,

transpiravam, ficavam nervosos. Enfim, tinham reações bastante variadas.

Nise da Silveira, uma pioneira na psicologia analítica no Brasil, que estudou no

Instituto C. G. Jung de Zurique, nos anos de 1957 e 58, e fundou o Museu de Imagens

do Inconsciente no Rio de Janeiro, afirma que as reações dos pacientes nos testes não

eram valorizadas pelos psiquiatras.

Essas diversas perturbações que eram desprezadas pelos


experimentadores da psicologia clássica como ocorrências incômodas, sem
maior importância, atraíram particularmente a atenção de Jung. Seu espírito
estava alerta. Ele descobriu o que acontecia: todas essas perturbações
indicariam que a palavra indutora havia atingindo um conteúdo emocional,
oculto no íntimo examinado, no inconsciente. 3

Com suas experiências, Jung publicou o livro “Estudos sobre Associações” em

1906, mas deixou de utilizar o teste das associações de palavras quando saiu do Hospital

Burghölzli em 1909. Acredita-se que Jung não precisava mais dele, pois passou a

conhecer mais sobre a psique e sobre sonhos. Mesmo assim, Jung voltou ao teste,

explicando-o em detalhes a duzentos médicos em Londres, durante um curso que

ministrou em 1935.

Foram as palavras produzidas durante o teste que levaram Jung à percepção dos

estados mentais, perturbações, sentimentos, formas de ver o mundo. Enfim

representações carregadas de alguma emoção que ele denominou complexos. Um

complexo pode ser representado por um núcleo, um centro e por um entorno, um campo

3
3 – SILVEIRA, Nise da Jung vida e obra. Rio de Janeiro: José Álvaro/Paz e Terra, 1976, p. 31.
4 – HANNAH, Bárbara. Jung: vida e obra - uma memória biográfica. Tradução de Alceu Fillmann.
Porto Alegre: Artmed Editora, 2003, p. 85

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de associações que o rodeia. Normalmente, um complexo é gerado pelas experiências

pessoais, por tudo aquilo que passamos na vida, mas pode ter em seu núcleo um

conteúdo arquetípico, com padrões universais herdados socialmente. Não há complexo

que não tenha emoção. “Quando a emoção envolvida é aguda, o complexo pode

provocar todo tipo de perturbação neurótica ou mesmo patológica.” 4

Por isso a relação do jornalismo com a palavra, a produção de texto


independente da mídia, permanece fortemente estabelecida ao longo dos anos. Quem dá
seus primeiros passos na profissão de noticiar, ser jornalista, produzir conteúdos de
informação que tenham interesse público, deve travar de forma acentuada uma relação
com o ato de escrever. Quem se aventura nesta empreitada precisa ter gosto bem
apurado pelas lidas com a palavra, deve gostar de trocar termos, cortar uns, buscar
outros, procurar conhecer sinônimos, incorporar novas unidades de língua escrita ao seu
vocabulário e cortar as expressões esvaziadas, exauridas pelos modismos.
A escolha de cada palavra que vai compor o texto jornalístico deve ser alvo de

preocupação e ação dos jornalistas, como aponta o veterano jornalista Zuenir Ventura,

cronista e autor de livros-reportagem:

Estamos vivendo a crise da palavra escrita no Jornalismo. A minha


preocupação primeiro é realmente com o texto. Quer dizer cada palavra que
eu ponho numa frase, eu ponho com o maior cuidado, nunca é uma escolha
aleatória, e eu tenho sempre a preocupação de evitar o lugar comum, de
evitar o clichê, evitar o dejá vu. Então eu tenho e digo isso sem nenhuma
vaidade, não é nada, é quase que uma obrigação. Acho que o escritor, ou
aquele..., o operário da palavra, seja o jornalista, seja o escritor, ele tem essa
obrigação, estabelecer a ferramenta dele. É como o carpinteiro que não sabe
lidar com madeira, não sabe lidar com o formão. Essa é a primeira
obrigação. 5

É possível pensarmos na performance profissional, nas habilidades, de um


jornalista que lida pouco com as palavras, seja na leitura ou na escrita. Por mais que ele
vá se especializar na produção dos conteúdos transmitidos pelas imagens
(fotojornalismo, edição em vídeo, webcan etc), as palavras lá estarão para serem
associadas, vinculadas, colocadas conjuntamente na tentativa de explicar, explicitar,
aquilo que a pura percepção imagética não pode decifrar. E aí é hora de escolhê-las para
4
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5 – VENTURA, Zuenir. Entrevista a José Edmundo Heráclito Silva. Uberlândia, MG: 27/09/2002.

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compor as legendas, os caracteres e os áudios em offs. Esteja onde estiver atuando, lá


está o jornalista a trabalhar com a produção de texto, a carpintaria das palavras.
Jung foi, na verdade, um importante agente na missão de desvendar mistérios da

mente humana. Não só da mente, mas da nossa maneira de pensar e agir impulsionados

pelo intelecto. Jung trabalhou e produziu muito. Suas teorias são fundamentadas nos

aspectos da alma, ampliando o conceito de mente. Suas obras completas estão

organizadas em 19 volumes, cuja produção vai de 1900 a 1961.

É preciso evidenciar que a própria trajetória de trabalho de Jung pode ser tomada
como fonte de inspiração para jornalistas, professores e todas as profissões que lidam
com a busca de conhecimentos. Jung transitou por diferentes áreas do saber, da alquimia
às religiões, na busca de desvendamentos da alma humana, partindo de suas
experiências pessoais e profissionais, consigo mesmo e com seus pacientes. Com isso,
ele construiu uma obra “original e essencialmente, um sistema voltado para promover
profundas experiências de transformação.” 6
O trabalho jornalístico tem como um de seus fortes componentes a
transformação. O fato que está para ser relatado como notícia, conteúdo, está se
transformando mesmo antes de ser captado. A princípio transforma-se de fato real
ocorrido em fato de realidade captada para, em seguida, transformar-se em fato de
realidade dada. Sem dizer que numa edição jornalística seguinte muitos aspectos terão
se modificado. Mudam-se as marchas e contramarchas das relações sociopolíticas, os
discursos das fontes e os planos sobre o que dizem que vão realizar em breve.
As mudanças ocorridas dia-a-dia na sociedade fazem do jornalismo uma
atividade de registro cotidiano, porém de caráter histórico. A leitura de conteúdos de
jornais e revistas, sobre um mesmo tema, pode nos dar uma seqüência “quadro a
quadro” com os movimentos de um fato. Assim, o jornalismo é também agente de
transformação e não apenas área de ressonância das mudanças vividas pela sociedade. A
constante transformação dos fatos noticiados constitui-se em um dos mais fortes
componentes das exigências profissionais do jornalismo. Daí a possibilidade de lançar
mão de recursos de autoconhecimento, como forma de perceber e vivenciar nossas
mudanças internas, que também passamos a externar, e a manutenção de níveis de
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6 – RAFF, Jeffrey. Jung e a imaginação alquímica. São Paulo: Mandarim, 2002, p. 31.

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percepção para captar e retratar a realidade que muda, pois, de acordo com o
psicoterapeuta de orientação junguiana, que desenvolveu pesquisa de doutorado na
PUC-SP, Paulo Ruby:
O mundo exterior e o interior se contrapõem de forma
complementar, um existindo em relação ao outro e o ritmo é a própria
expressão de sua alternância. A vida caracteriza-se pelo movimento, tudo
flui e transforma-se a cada instante numa eterna mobilidade. 7

A Teoria dos Arquétipos, bem como os conceitos desenvolvidos por Jung, sobre
Si-Mesmo, Persona, Sombra, Anima e Animus permitem que tenhamos a possibilidade
de dar início a um processo de autoconhecimento, considerado fundamental na vida
contemporânea. O entendimento sobre o funcionamento desses conceitos e a aplicação
dos conhecimentos transmitidos por Jung mostram resultados concretos no campo
profissional, principalmente se levarmos em conta que um dos desafios, nas mais
diversas profissões, mas de modo específico na comunicação, é o de trabalhar com
criatividade.
Torna-se relevante, aqui, como podemos entender criatividade no trabalho
jornalístico. De modo geral, o termo pode ser definido como a “capacidade para
produzir novas formas na arte ou na mecânica ou para resolver problemas por métodos
novos”.8 Para o neurocientista português, radicado nos Estados Unidos, António
Damásio, a criatividade tem como fonte “a capacidade de transformar e combinar
imagens de ações e cenários.”9 Ele a define como a “habilidade para gerar novas idéias
e artefatos que requer uma memória fecunda para fatos e habilidades, uma sofisticada
memória operacional, excelente capacidade de raciocínio e linguagem.” 10
De uma forma, até certo ponto equivocada, defende-se no jornalismo a obtenção

de uma abordagem eminentemente técnica no tratamento dos fatos e notícias, no qual

precisariam ficar bem caracterizados os limites entre o profissional e o pessoal. Só que

por mais que se queira e se faça a defesa de que os jornalistas precisam ser bastante

profissionais o tempo todo, aspectos de nossa psique – muito bem definidos e estudados

7
7 - RUBY, Paulo. As faces do humano: estudos de tipologia junguiana e psicossomática. São Paulo:
Oficina de Textos, 1998, p. 29.
8
8 - CHAPLIN, James P. Dicionário de Psicologia. Lisboa: Dom Quixote, 1981, p. 123.
9
9 - DAMASIO, António. O mistério da consciência. São Paulo: Cia das Letras, 2000, p. 43.
10
10 - IDEM, p. 398.

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por Jung – estão presentes a todo o momento naquilo que produzimos, enquanto

profissionais de imprensa. Não há como deixar o Eu fora deste processo. Quando

escrevemos uma notícia, mesmo que seja estrita – e restringindo-nos a obedecer ao

modelo do lide (informações principais e dados primários da notícia), resultando em

textos aparentemente despersonalizados e excessivamente padronizados, estamos

colocando ali um pouco do nosso Eu.

Assim, devemos entender por Eu uma essência pessoal muito forte em valores e
experiências registradas. Crenças e modos de pensar e ver o mundo, a realidade. Como
também um modo muito próprio de usar a imaginação. Jung acentua duas características
na compreensão do Eu, como algo diferente do não-eu, o alter ego, a sombra; e ainda o
Eu como mediador entre a consciência e o inconsciente, e o individual e coletivo.
Para a compreensão das relações entre consciência e inconsciente recorremos a

um depoimento do médico e psicoterapeuta junguiano Luiz Paulo Grinberg:

Você pode ver a consciência e o inconsciente como partes de


um sistema que funciona integrado. Nós, quer dizer, a nossa
consciência é que separa, mas essas “duas partes” estão funcionando o
tempo todo juntas. A gente é que precisa até separar mesmo. Mas o
inconsciente, teoricamente, é muito maior do que a consciência. Você
pode imaginar o mar e uma ilha, um continente. 11

Nesse caso, a parte mais perceptível do Eu acaba sendo a “ilha”. No “mar”

existem muitos aspectos escondidos. Alguns, às vezes, bóiam ou são jogados nas praias

pelas ondas. Nesse Eu, que é mar e ilha, está tudo aquilo que o sujeito sabe de si

próprio, como características do modo de ser, aceitas de acordo com princípios, ideais e

valores, oriundos do contexto social que ele próprio (o sujeito) reconhece. Trata-se do

“complexo funcional de representações que constituem o centro de consciência e que o

sujeito experimenta idêntico e contínuo consigo mesmo.” 12


11
11 - GRINBERG, Luiz Paulo. Entrevista a José Edmundo Heráclito Silva. São Paulo: 11/06/2001.
12 - PIERI, Paolo Francesco. Dicionário junguiano. São Paulo: Paulus, 2002, p. 187.
13 - Nas redações, quando uma matéria, entrevista ou reportagem deixa de ser realizada por qualquer
motivo, costuma-se dizer que a pauta foi derrubada.
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O autoconhecimento é capaz de levar a um maior equilíbrio emocional,


ampliando a capacidade de percepção e contribuindo para melhorar o enfrentamento de
dificuldades. No caso específico dos jornalistas, as contribuições de Jung, possibilitam
que fatores influenciadores para a vivência de estresse profissional sejam reduzidos ou
processados de uma melhor forma. Nesse campo, a contribuição é significativa, já que
as redações sempre foram um território que exige muito das pessoas em termos de
sobrevivência profissional. Nelas, grande parte do trabalho ainda é feita sob a pressão
dos fechamentos, da busca pela audiência, das “caídas de pautas” 13 e de outros fatores
que fazem do jornalismo uma profissão muito estressante.
A palavra arquétipo deriva do grego arché, primitivo, primeiro, com as
características do primeiro; e de typon, tipo, marca, modelo. Seu significado é modelo
primeiro dos seres criados, padrão. Na Literatura, tem o sentido de texto original ou
mais antigo, do qual derivam outros textos. Na Filosofia, tem o sentido de modelo ideal,
protótipo ideal, idéia primeira. Na Psicologia, de modo mais estudado na linha de
orientação junguiana, os arquétipos correspondem às imagens ancestrais e simbólicas
materializadas nas lendas e mitos da humanidade e constituem o inconsciente coletivo.
Refletir acerca dos arquétipos que mais se fazem representar no dia-a-dia no
trabalho dos jornalistas e das fontes de informação, representa uma importante
contribuição aos estudos e ao desenvolvimento desta área de conhecimento. Um dos
pontos relevantes é buscar conhecer quais arquétipos se refletem ou se escondem no
trabalho jornalístico, tomando por base os grupos pesquisados. E ainda de que maneira a
representação dos arquétipos influencia na valorização e na busca de habilidades
profissionais.
É preciso considerar ainda que nossas relações com os arquétipos e suas
representações não são fixas, possuem amplo grau de mobilidade e raramente somos
influenciados por uma única projeção arquetípica. Principalmente ao entendermos que
inúmeras são essas representações, mas todas com componentes universais. Elas podem se
verificar em número igual às nossas vivências e traumas. Para cada experiência podem ser
configurados arquétipos bastante diferentes.
As representações arquetípicas e as influências dos arquétipos em nossas vidas

também podem ser percebidas de diferentes formas. Identificar alguns dos arquétipos

que se manifestam, seja na forma de pensar, no comportamento cotidiano e mesmo na


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forma da produção intelectual, é de grande importância pela possibilidade de

impulsionar e adequar a busca de conhecimentos que atendam às necessidades

individuais. Todos nós lidamos com as representações arquetípicas e suas influências

sobre nós. Nem percebemos que estamos “nos fazendo” de vítimas, inocentes ou algum

outro padrão arquetípico que se possa constelar em nosso modo de pensar e agir.

Tanto na vida pessoal, íntima, como no campo profissional os arquétipos estão


sempre presentes. Todas as profissões acabam por se deparar mais com uns do que com
outros arquétipos. O jornalista presencia grandes eventos, assiste a bons espetáculos de
arte, encontra e se relaciona com pessoas que têm fama e poder. Quando se afasta delas
fatalmente pode sentir-se desvalorizado e triste. Carol Pearson afirma que seis são os
principais arquétipos que orientam a nossa vida (inocente, órfão, nômade, mártir,
guerreiro e mago). Pearson elaborou um teste capaz de identificar as influências desses
arquétipos. E a própria autora justifica a opção pelos seis arquétipos, conforme:
Não obstante a existência de ampla variedade de tramas arquetípicas,
a maioria delas não exerce a influência desses seis arquétipos sobre o nosso
desenvolvimento. Para que um arquétipo exerça uma influência
preponderante em nossa vida, deve haver uma duplicação ou reforço externo
do padrão: um acontecimento na vida da pessoa ou histórias recontadas na
cultura, capazes de ativar o padrão. Por conseguinte, tanto nossas histórias
pessoais como nossa cultura determinam os arquétipos que serão dominantes
em nossa vida. 14

As razões de uma determinada projeção arquetípica em um certo profissional só

pode ser compreendida sendo esse mesmo profissional o sujeito do processo, mesmo

que ele busque apoio de psicólogos ou tenha conselheiros. Enfim, cabe a cada um de

nós sabermos quais os arquétipos estão nos influenciando na profissão e na vida, em

nosso modo de ser, nos diferentes papéis e situações pelas quais passamos. Daí a

proposta Carol Pearson para que, além do teste, seja feita a redação de um diário, em

que situações, modos de ver o mundo, sensações, sentimentos possam ser registrados e

depois revisitados. Voltar a esses textos possibilita uma análise mais cuidadosa, talvez

14
- PEARSON , Carol. O herói interior – seis arquétipos que orientam nossa vida. São Paulo, Cultrix,
1992, p. 22.

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sem o calor da emoção do momento vivido, para buscar uma ação mental mais reflexiva

e ponderada.

A projeção de arquétipos diferenciada reforça, nessa tese, a idéia - já descrita por

Jung e pelos estudiosos junguianos - de que as situações, os modos de pensar,

determinam e também modificam as influências dos arquétipos. Essas modificações se

verificam à medida que novas experiências são vividas. E todos nós vivemos de modos

diferentes, a profissão e a vida íntima. Muitas pessoas conseguem estabelecer sinergias,

trocas de energias psíquicas constantes entre os dois âmbitos de modo positivo. A

convivência desses diferentes mundos de personas e suas trocas de energia ocorrem em

diversos níveis de intensidade. Se misturarmos demais os campos, corremos o risco de

“levarmos trabalho para casa”, de nos estressarmos facilmente e sermos criticados, às

vezes, por atos paternalistas no trabalho ou por parecermos generais em casa.

A aplicação do teste elaborado por Pearson e de um outro teste adaptado ao dia-

a-dia da imprensa comprovou a mobilidade das projeções arquetípicas. Tanto a

mobilidade que se evidencia na influência de dois ou mais arquétipos na mesma

medida, quanto a mobilidade das influências na profissão e na vida íntima, se

confirmaram na aplicação dos testes. 15

O importante é vermos que há uma relação entre as projeções arquetípicas e as

habilidades apontadas pelos jornalistas. Perceber essas projeções, seja através dos testes

ou de outros meios, administrando suas influências, é condição para o

autoconhecimento e a busca de mudanças de atitudes, tanto profissionais quanto

pessoais.

15
15 - A pesquisa teve a participação de trinta e dois jornalistas em Uberlândia, MG, nos meses de agosto
e setembro de 2004. Além dos testes, a pesquisa verificou o grau de importância de cinqüenta habilidades
profissionais e pessoais de jornalistas.

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Ao olharmos os números das projeções arquetípicas do grupo, no campo

pessoal, vemos que os doze jornalistas influenciados pelo mago representam 37,5% da

mostra. Os dois sub-grupos de seis integrantes cada, que se mostram influenciados pelo

guerreiro e mártir, representam 18,75% da mostra cada um . O único jornalista que se

mostrou influenciado pelo inocente representa 3,12%.

Considerando-se a projeção do mago, quando sobreposta à do mártir, na resposta

de dois jornalistas, o resultado do primeiro arquétipo (mago) eleva-se para 43,75%.

Como o principal arquétipo representado em todo o grupo, relacionamos aqui as frases

mais pontuadas na seguinte ordem:

1ª.) Sinto-me eu mesmo quando estou criando algo novo. (106 pontos)
2ª.) Sinto-me feliz comigo mesmo e agradecido por minha vida. (103 pontos)
3ª.) Acho que, quando modifico minhas atitudes, meu ambiente muda. (85 pontos)
4ª.) Quando estou calmo e concentrado, os outros também parecem pacificados. (83 pontos)
5ª.) Descubro meu lado negativo daquilo que detesto nos outros. (72 pontos)
6ª.) Desde que mudei, meu mundo mudou radicalmente. Anos atrás eu não teria imaginado que
as coisas dariam tão certo. (63 pontos)
A abordagem sobre as projeções arquetípicas, no âmbito pessoal, mostra a

valorização de vários aspectos presentes na sociedade. A primeira frase em pontuação

(Sinto-me eu mesmo quando estou criando algo novo), com 106 pontos, evidencia o

quanto o ser humano necessita da criação e do novo para sentir-se como pessoa, como

“eu”. São inúmeras as abordagens da ciência e da arte que valorizam o ato de criar algo

novo, mesmo que seja um desenho, uma pintura, como mostram resultados efetivos na

arteterapia, nos jogos e dinâmicas nos treinamentos empresariais, e como sugerem

palestrantes que abordam motivação: “Faça algo novo, diferente. Mude o itinerário de

casa para o trabalho.”

É preciso considerar a geração da energia psíquica, da realização profissional, da

satisfação pessoal, quando se consegue criar o novo, percebendo o quanto o si-mesmo,

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como elemento da nossa psique, pode potencializar-se na compreensão do todo. Daí

torna-se mais fácil obter autonomia, saber o que se quer e caminhar em direção ao

autoconhecimento, saber quem se é, por conhecer algumas ações que se é capaz de

fazer.

Por isso, de modo específico, os jornalistas precisam manter os componentes do


novo não só nos conceitos de noticiabilidade, angulação, relatos diferenciados etc. A
energia do novo deve ser vista como matéria prima para o desenvolvimento cognitivo,
com habilidades diferenciadas que possibilitem a manutenção das perspectivas que
clareiam, revelam, tiram da sombra, que o jornalismo tem e deve manter. Para isso,
basta uma remissão etimológica. Jornalismo vem de jornal, do latim diurnale, que tem a
mesma raiz de diurno, relativo ao dia. Diurno vem, também do latim, diurnu,
significando que se faz num dia ou de dia, que aparece só de dia. O que sempre aparece
de dia, relativo ao período diurno, é diurnal. Dia vem de dies, claridade que o sol envia
à terra; espaço de tempo que decorre entre o nascer e o pôr do sol, dia natural. Enfim,
não dá para pensar em jornalismo sem pensar numa ação esclarecedora, clarificadora.
A segunda frase mais escolhida (Sinto-me feliz comigo mesmo e agradecido por
minha vida), com 103 pontos, revela um grau de felicidade consigo mesmo em função
das conquistas obtidas pelo mago, que já superou algum obstáculo interior e consegue
transmitir paz às pessoas. Carol Pearson lembra que:
O mago nos proporciona uma ligação com numinoso – especialmente com o
poder divino de conferir sabedoria, de redimir e de perdoar. Talvez o poder mais
transformativo do mago seja o poder de transformar através da capacidade de perdoar
a si mesmo e aos outros. Ao agir assim, ele transforma situações negativas em
possibilidades de maior crescimento e intimidade. 16

Na mesma frase, vemos que os jornalistas manifestam a gratidão pela vida,


principalmente em função dos níveis de insegurança experimentados pela sociedade nos
últimos anos. Nesse cenário onde, às vezes, predomina o medo, manter-se vivo pode ser
considerado privilégio e motivo de gratidão.
A terceira frase mais apontada em relação ao arquétipo do mago (Acho que,
quando modifico minhas atitudes, meu ambiente muda), com 85 pontos, mostra que os
respondentes já tiveram experiências sobre os resultados que alcançamos de acordo com

16
16 – PEARSON, Carol S. O despertar do Herói Interior – a presença dos… São Paulo, Pensamento,
1995, p. 239.

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nossas atitudes. Quem faz o ambiente são as pessoas que nele estão. É possível ter
atitudes que possibilitem mais sinergia pessoa-ambiente, possibilitando mais
autoconfiança e interação entre equipes de trabalho.
Em função disso é que se exige, não só do jornalista, mas de várias outras
profissões, a capacidade de ser pró-ativo, manter uma atitude que não espere as coisas
acontecerem para que depois sejam tomadas previdências. Mas, no dia-a-dia das
coberturas, ser pró-ativo é exigência determinante aos assessores de comunicação, como
forma de informar e preparar a organização assessorada para discussões emergentes e,
em determinados casos, evitar até crises de imagem.
Ao formular 50 assertivas, todas sobre habilidades de jornalistas em cinco áreas
diferentes, procuramos refletir, com as mesmas, uma série de preocupações espelhadas
nos conhecimentos sobre jornalismo no Brasil, nos últimos anos. No primeiro grupo
com 10 frases, procuramos detectar o nível de informação e conhecimento ideais,
considerados importantes pelos pesquisados para a consolidação da carreira profissional
de jornalista, entendendo como consolidação de carreira, ter condições de
empregabilidade, reconhecimento social, qualidade de trabalho e de vida.
No segundo grupo de afirmações, o foco se estabeleceu nas questões sobre
desempenho profissional, ou seja como ter capacidade para produzir bons textos, captar
informações etc. O grupo das demais frases foram organizados segundo as relações
com fontes de informações pessoais, as relações na organização de trabalho e as
relações internas entre o pessoal e profissional. Cada grupo teve suas frases analisadas,
conforme os resultados da pesquisa. Se os 32 jornalistas tivessem atribuído nota 10
como o nível de exigência máxima das habilidades, descritas nas 50 frases, teríamos,
para cada uma delas, o valor de 320 pontos como resultado. Mas o que vemos foi uma
ordem de prioridades e, em alguns casos, habilidades valorizadas igualmente pelos
pesquisados.
Notamos que foram seis as habilidades mais pontuadas do primeiro ao quinto
lugar. A considerada mais importante por todos os jornalistas pesquisados foi ser
cuidadoso em relação a aspectos técnicos na produção de conteúdos, como a
apuração, checagem, fidelidade dos relatos e citação das fontes. A frase integra o
grupo sobre desempenho profissional e sua escolha gerou 313 pontos, fazendo a média
resultar na nota 9,78 revelando que os jornalistas estão sintonizados com as discussões

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teóricas e práticas da profissão pertinentes ao rigor e à vigilância que devem observar e


praticar durante o processo de produção jornalística.
A segunda habilidade mais pontuada foi manter-se informado sobre
acontecimentos recentes nas áreas de política, economia e questões sociais da sua
região, do país e do mundo. Essa habilidade está no grupo do nível de informação e
conhecimento e obteve média de 9,75. Com a mesma pontuação, os jornalistas
defendem, no campo do desempenho profissional, a necessidade de se ter boa redação
e capacidade de produzir textos envolventes, independente da extensão dos mesmos.
O acesso às mídias informativas e analíticas, aos meios de comunicação
jornalística e de pesquisa, foi apontado pelos 32 jornalistas como uma necessidade para
o bom nível de informação e conhecimento. Por isso, eles atribuíram nota 9,71 à
habilidade de procurar e obter, de forma constante, informações e conteúdos através de
livros, jornais, revistas, Internet, rádio, tv etc. A necessidade de saber separar relações
pessoais e profissionais quando em contato de trabalho com as fontes, foi apontada
como a quarta habilidade mais valorizada pelos jornalistas, obtendo nota 9,68. Outra
necessidade bastante valorizada foi procurar manter níveis de autocrítica em relação à
qualidade do próprio trabalho, com nota 9,62.

Profissionais influenciados pelo mago valorizam mais as habilidades, mesmo


com a evidente variância dos arquétipos e suas projeções de pessoa para pessoa.
Também variam individualmente, a proximidade e as sobreposições das projeções
arquetípicas. Esses mesmos aspectos determinaram diferenças e variações, mudanças,
mobilidade na valorização das habilidades. Com isso, denota-se a relação indivíduo, ser
único, indivisível, com o inconsciente e o consciente coletivo. Arquétipos mostraram
relações diferentes com as habilidades. Os três jornalistas influenciados pelo mago, na
profissão, formaram o grupo que mais valorizou todas as habilidades. Eles atribuíram
conceitos maiores às habilidades expressas nas frases do questionário. Assim, vinte e
uma delas obtiveram nota dez. Outras 10 conseguiram nota 9,67, e mais oito foram
pontuadas com 9,34. Resumindo das 50 habilidades apresentadas, 39 foram
consideradas como essenciais para o bom desempenho profissional do jornalista.

Assim é possível inferir que a projeção arquetípica do mago reflete uma busca
maior do desenvolvimento intelectual, na crença e confiança de que o mesmo é
importante para a realização profissional e precisa ser alcançado, buscado. Com isso,

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uma das possibilidades de alcançar mais autoconhecimento, relacionando-o ao


desenvolvimento de habilidades no jornalismo, é perceber as possibilidades de
manutenção das influências do mago e do guerreiro. Estudar suas projeções em nosso
dia-a-dia, encontrar eventos e atitudes que possibilitem conexões com esses arquétipos,
como meditação, análise de sonhos, registro de diário etc., passa a ser uma necessidade.

Comparativamente o grupo de treze jornalistas influenciados no campo


profissional pelo guerreiro atribuiu nota dez a apenas duas habilidades (Ter boa
redação e capacidade de produzir textos envolventes, independente da extensão dos
mesmos e Manter-se informado sobre acontecimentos recentes nas áreas de política,
economia e questões sociais da sua região, do país e do mundo). Uma outra habilidade
obteve nota 9,93, duas outras, 9,85 e assim a pontuação foi decrescendo, apontando boa
valorização para as habilidades, mas sem um nível de exigência máximo.
Já o grupo de dez jornalistas que se mostrou sob as influências do arquétipo do
mártir na profissão escolheu somente uma habilidade (Procurar e obter, de forma
constante, informações e conteúdos através de livros, jornais, revistas, Internet, rádio e
TV etc) para atribuir nota dez e, no geral, foi atribuindo notas menores que os
guerreiros. Três habilidades com nota 9,80, quatro com 9,70, e assim por diante até
chegar a duas habilidades com nota 7,20. Com isso ficou demonstrado que, no caso dos
jornalistas pesquisados, a valorização e o entendimento sobre a necessidade das
habilidades profissionais e pessoais, crescem à medida que as influências e projeções
arquetípicas se modificam. Os magos foram os que mais valorizaram as habilidades, os
guerreiros as valorizaram um pouco menos, e os mártires as valorizaram sem atribuir
grau de excelência a várias delas.
Os pressupostos teóricos sobre a Teoria dos Arquétipos, da Psicologia
Junguiana, podem no caso dessa pesquisa colaborar para que inúmeros as aspectos do
comportamento profissional de jornalistas, fossem melhores identificados e
compreendidos. Esses mesmos pressupostos incentivam processos de autoconhecimento
que ampliam o exercício de habilidades aplicáveis ao jornalismo.
Evidencia-se que as idéias de Jung e de alguns de seis seguidores podem
contribuir para o desenvolvimento profissional de jornalistas em, pelo menos, três
ciclos: experiências de autoconhecimento, obtenção de recursos técnicos criativos e na
capacidade de observação de mundo e produção de relatos.

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O comportamento profissional de jornalistas pode ser melhor percebido e


analisado, naquilo que diz respeito às suas conexões com projeções arquetípicas, suas
influências sobre o modo de pensar, as relações de confiança e credibilidade que
estabelecem com valores da vida humana, da convivência em sociedade e tradições
filosóficas e religiosas. Nesse âmbito das relações de credibilidade e confiança é que
pudemos pesquisar, discutir, enfim, confirmar que a valorização de habilidades
profissionais e sociais tem uma relação bastante íntima com os padrões dos arquétipos.
Os jornalistas pesquisados, conforme se pode verificar, não possuem um
conhecimento sobre arquétipos, com abordagem científica, como está organizado na
literatura junguiana, mas possuem uma certa vivência sobre seus estados emocionais,
suas relações e modelos, sejam eles míticos, históricos, reais, familiares, sempre
transmitidos e compartilhados ao longo do tempo.
A experiência arquetípica está presente na vida de muitas pessoas. Os arquétipos
não precisam ter os mesmos nomes, sejam os seis principais definidos por Pearson
(inocente, órfão, nômade, mártir, guerreiro e mago), sejam outros (amante, vítima etc.)
Com esse trabalho foi possível sentir que não há um conhecimento sobre arquétipo,
como tal, de acordo com as definições, mas que os jornalistas possuem, pela vivência,
um saber a respeito das situações em que se sentem vítimas, mártires, batalhadores,
vencedores etc.
Um ponto fundamental é que, mesmo conhecendo as energias arquetípicas e
seus padrões, faltam aos jornalistas, nesse caso, meios para conseguirem modificar as
influências dos arquétipos. Obtendo essa modificação, os jornalistas poderiam fazer
conexões com arquétipos cujas projeções fossem incentivadoras para a melhoria dos
estados íntimos, como paz interior, percepção de alteridade, contemplação da natureza,
maior auto-estima, motivação para o trabalho e manutenção da criatividade.
Para chegar-se à melhoria dos estados íntimos, por intermédio das influências
das projeções dos arquétipos, é preciso conhecer um pouco mais os padrões arquétipos,
como também não perder de vista informações sobre nossos “prontuários” de estados
psicológicos. A reavaliação de como temos nos saído em diferentes estados de nossas
jornadas, pode ser uma ação potencializadora para o enfrentamento de novos desafios,
para o ponta-pé inicial nas mudanças que queremos fazer; e enfim para uma reconexão
com algum arquétipo que esteja adormecido, escondido, dentro de nós mesmos.

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Esse estudo sintetiza um intenso diálogo científico entre as experiências de Jung


e o jornalismo. Além disso, é ainda uma porta de entrada aos que desejam dar passos no
caminho do autoconhecimento. Caminho esse que, temos plena convicção, é longo;
mas, ao mesmo tempo, é sempre e muito gratificante. Ninguém pode conhecer o outro,
se não conhecer a si mesmo. Conhecer a si mesmo é transformar-se. Nenhuma
transformação pode ocorrer sem emoção; e a maior delas é amar e sentir-se amado. Que
todas as nossas transformações sejam para nos aproximar da energia que nos criou, a
quem chamamos Deus.

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