Você está na página 1de 46

MTC LATINO AMERICANO

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA E ESTUDOS TRANSCULTURAIS

EDSON OLIVEIRA LAPA JUNIOR

A RELEVÂNCIA DOS CREDOS E DAS CONFISSÕES REFORMADAS PARA A


IGREJA CONTEMPORÂNEA

MONTES CLAROS - MG
2018
EDSON OLIVEIRA LAPA JUNIOR

A RELEVÂNCIA DOS CREDOS E DAS CONFISSÕES REFORMADAS PARA A


IGREJA CONTEMPORÂNEA

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao


MTC Latino Americano como requisito parcial para
a obtenção do grau de Bacharel em Teologia com
Ênfase em Missões.

Orientador: Prof. MTh. José Rosifran Cruz Macedo.

MONTES CLAROS - MG
2018
EDSON OLIVEIRA LAPA JUNIOR

A RELEVÂNCIA DOS CREDOS E DAS CONFISSÕES REFORMADAS PARA A


IGREJA CONTEMPORÂNEA

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao


MTC Latino Americano em Montes Claros/MG,
como requisito parcial para a obtenção do grau de
Bacharel em Teologia com Ênfase em Missões.

Data de aprovação: Montes Claros - MG, _______ de __________________ de ________.

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________
Prof. MTh. José Rosifran Cruz Macedo
Orientador

__________________________________________
Prof. Luis Rafael Araujo Aguilar
Diretor Geral

__________________________________________
Prof.ª Maria Cristina Oliveira Araujo
Diretora acadêmica
Dedico este trabalho à minha amada esposa
Geisiane, por sempre me encorajar, apoiar e
suportar com paciência minha ausência enquanto me
dedicava na elaboração deste trabalho.
E aos meus pais Edson e Zilmar, que são a base de
quem eu sou e que sempre batalharam por minha
educação.
Primeiramente, agradeço a Deus que, por sua infinita
bondade, me permitiu chegar até aqui, dando-me
força e sabedoria.
Ao pastor José Milton, que durante esses quatro anos
de curso foi nosso conselheiro, amigo e companheiro
de oração.
Ao meu orientador Pr. Rosifran Macedo, por todo o
tempo que dedicou a me ajudar na realização deste
trabalho.
À professa Maria Cristina, por acreditar em nossa
vocação e capacidade para concluirmos o curso
ainda neste ano de 2018.
Ao pastor Zong Soun Rhie, pelo constante incentivo
nos estudos teológicos.
À irmã Ângela Marta, pela diligência com que
sempre agiu para apoiar a continuidade de nossos
estudos aqui no MTC.
E à Igreja Evangélica Congregacional de Iramaia,
nossa igreja mãe.
RESUMO

Este trabalho apresenta uma análise crítica acerca da relevância dos credos e das confissões
reformadas para a igreja evangélica na atualidade. A partir de uma revisão bibliográfica e
qualitativa da história do pensamento cristão, possibilitou-se uma visão geral das principais
controvérsias teológicas que resultaram na produção dos documentos confessionais elencados
no decorrer dessa pesquisa. O que faz com que se perceba a importância que o posicionamento
confessional da igreja cristã teve, ao longo dos séculos, como correspondente fiel do ideal
bíblico do “padrão das sãs palavras” de 2 Timóteo 1:13 e como instrumento útil para a educação
e correção dos fiéis, para a repreensão e refutação dos desvios doutrinários e, principalmente,
para a devoção e adoração a Deus. Visto isso, constatou-se a grande necessidade que igreja
contemporânea tem de resgatar o valor do exercício confessional que lhe é inerente, para que
esta possa fazer o seu devido enfrentamento às influências externas impostas pelo pensamento
pós-moderno.

Palavras chaves: Credos; Confissões; Confessionalidade; Reforma; Pós-modernidade.


ABSTRACT

This paper presents a critical analysis on the relevance of creeds and reformed confessions to
Christian church nowadays. Based on a qualitative review of literature and history of Christian
thought, it was possible to have a general view of the main theological controversies that
resulted in the production of confessional documents chosen during the research. This makes
us perceive the importance of the confessional positioning of the Christian church during the
centuries as a faithful correspondence to the bible ideal of the “pattern of sound teaching” of 2
Timothy 1.13 and as a useful tool for teaching and correction of the faithful, for the reprimand
and refutation of doctrinaire diversion and, mainly, for devotion and worship of God. With this
in mind, a great need of retrieving the worth of confessional practice in the modern church is
seen, so that this can do its confrontation against the external influences imposed by the post
modern thought.

Key words: Creeds; Confessions; Confessing; Reform; Post-modern.


“Ninguém é uma ilha interpretativa existindo de
forma independente como uma entidade
hermenêutica puramente racional”
David Naugle
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 10

1 CREDOS E CONFISSÕES ............................................................................................ 12

1.1 Definição................................................................................................................ 12

1.2 Base bíblica............................................................................................................ 13

1.3 Autoridade ............................................................................................................. 17

1.4 Possibilidade de revisão ......................................................................................... 18

2 OS CREDOS E A IGREJA PRIMITIVA ....................................................................... 20

2.1 O Credo apostólico ................................................................................................ 23

2.2 O Credo Niceno ..................................................................................................... 25

2.3 O Credo Atanasiano ............................................................................................... 28

3 AS CONFISSÕES E A REFORMA PROTESTANTE .................................................. 30

3.1 Os Artigos de religião da Igreja Anglicana ........................................................... 31

3.2 O Livro de concórdia da Igreja Luterana ............................................................... 33

3.3 As três formas de unidade das Igrejas Reformadas ............................................... 34

3.3.1 A Confissão Belga ..................................................................................... 34

3.3.2 O Catecismo de Heidelberg ....................................................................... 35

3.3.3 Os Cânones de Dort ................................................................................... 36

3.4 Os Padrões de Westminster ................................................................................... 36

4 O VALOR DA CONFESSIONALIDADE PARA A IGREJA CONTEMPORÂNEA .. 39

4.1 O problema da pós-modernidade ........................................................................... 39

4.2 Valor teológico e doutrinário ................................................................................. 40

4.3 Valor devocional .................................................................................................... 43

CONCLUSÃO .......................................................................................................................... 45

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA .......................................................................................... 46


10

INTRODUÇÃO

Os Credos e as Confissões de fé são declarações doutrinárias formais e públicas da igreja


cristã que foram produzidas e desenvolvidas no decorrer da história do cristianismo. Como
símbolos de fé, ambas, constituem-se marcas identitárias para igrejas e denominações cristãs
que as professam.
Dessa forma, exercem funções normatizadoras de como crer, pensar e fazer teologia a
partir das Sagradas Escrituras. De modo que fique claramente estabelecido o contraste existente
entre o que é ortodoxo do que é heterodoxo.
Devido a abrangência do conteúdo confessional produzido nestes quase dois milênios
de cristianismo, destacou-se como foco da pesquisa somente aqueles documentos confessionais
considerados mais proeminentes na história da Igreja cristã e que seguem fazendo parte da
doutrina das principais denominações do protestantismo clássico de linha luterana e calvinista.
Os quais são: os Credos Apostólico, Niceno e Atanasiano; bem como, os Artigos de Religião
da Igreja Anglicana, o Livro de Concórdia da Igreja Luterana, As três Formas de Unidade das
Igrejas Reformadas e os Padrões de Westminster da Igreja Presbiteriana.
As confissões arminianas e anabatistas não foram incluídas nesta pesquisa, não por
desconsiderar seu valor histórico, mas por entender que, mesmo com algumas particularidades
excludentes, as tradições luteranas e calvinistas mantêm entre si um consenso teológico maior,
principalmente nas questões soteriológicas.
Assim, como foi no passado, mesmo nos dias atuais, os credos e as confissões
reformadas podem ser extremamente úteis para o propósito pedagógico, apologético, e litúrgico
da igreja. Assim também, como podem servir à vida cristã individual como guias devocionais
repletos de espiritualidade e sólida doutrina.
Este trabalho pretende incentivar o debate acerca da relevância de adotar o
confessionalismo como forma de preservar a sã doutrina, a unidade e a identidade da igreja
cristã. Também, visa desafiar a igreja para repensar a postura atual de rejeição aos credos e
confissões, partindo de uma análise reflexiva acerca dos pressupostos bíblicos e históricos que
sustentam a existência de um imperativo confessional para fé cristã.
A forma como o pluralismo religioso, o relativismo moral e o pragmatismo dessa
sociedade pós-moderna têm influenciado o pensamento dos cristãos faz com que trabalhos de
pesquisa como esse, que resgatem o tema da confessionalidade histórica da igreja cristã,
ganhem cada vez mais espaço entre aqueles que se preocupam com a sã doutrina e que
11

acreditam que a verdadeira igreja de Cristo precisa se posicionar frente aos desafios de seu
tempo. Até mesmo dentro do movimento pentecostal, percebe-se que muitos têm atendido ao
apelo para se retornar às raízes confessionais da igreja primitiva e da reforma protestante.
Este trabalho conta com uma pesquisa de revisão bibliográfica a partir de livros,
enciclopédias e artigos científicos que retratam a história do pensamento cristão, oferecendo
uma análise crítica do contexto histórico, social e político que promoveram o desenvolvimento
dos credos e das confissões reformadas ao longo do tempo.
No primeiro capítulo, tratou-se das definições conceituais de credos, confissões e
principalmente da fonte de autoridade de tais documentos para a vida cristã. No segundo e
terceiro capítulos, analisa-se o papel desempenhado pelas declarações públicas de fé que foram
escritas na era da igreja primitiva e da reforma protestante. E por fim, no capítulo quarto, trata-
se especificamente de como a elaboração escrita de documentos confessionais podem continuar
sendo relevantes para a igreja cristã da atualidade tanto para a sua ortodoxia quanto para a sua
ortopraxia.
12

1 CREDOS E CONFISSÕES

1.1 Definição

A palavra credo procede do termo latim “credo” que significa “eu creio” e demonstra
uma postura ativa de confiança em algo ou alguém1. Os Credos, oriundos do período dos pais
apostólicos, não tinham a pretensão de serem uma exposição exaustiva da fé, antes consistem
de afirmações concisas acerca de elementos considerados, por unanimidade, essenciais para a
existência da igreja cristã (COSTA, 2002. p.26). Conforme Paulo Anglada, os credos são
declarações públicas de fé nas verdades fundamentais do cristianismo, autorizadas e escritas na
forma de resumos sistemáticos (2013, p.21). Dentre os credos produzidos na história da igreja,
destacam-se os chamados três credos ecumênicos como os mais importantes, a saber: o Credo
Apostólico, o Credo Niceno e o Credo Atanasiano.2
Quanto às Confissões de fé, essa expressão tem sido usada de modo comum para
designar as declarações de fé, escritas pelos protestantes, a partir da reforma no século XVI.3 O
termo “confessio”, que corresponde à palavra confissão em latim, era usada no período da igreja
primitiva para se referir à profissão de fé dos mártires, que sofreram perseguição por causa de
sua fé, mas não cederam, resultando em uma firme convicção, publicamente professada
(CHAMPLIN, 2002. p.843).4
As confissões distinguem-se dos credos no que diz respeito a forma, a extensão de seu
conteúdo e o período de sua composição. Elas possuem uma abordagem teológica bem mais
ampla, detalhista e sistemática. Diferente do caráter universal que os credos possuíram na era
patrística da igreja, as confissões de fé estão relacionadas com denominações cristãs distintas,
como, por exemplo, é o caso dos Artigos de religião da Igreja Anglicana, do Livro de concórdia
da Igreja Luterana, das Três Formas de Unidade das Igrejas Reformadas, dos Padrões de
Westminster da Igreja Presbiteriana e da Confissão de fé batista de 1689, entre outras tantas.
Sobre essa distinção, McGrath afirma que:

‘Uma “confissão” diz respeito a uma denominação e inclui crenças e ênfases


específicas relacionadas a essa denominação; um “credo” diz respeito a toda a igreja
cristã e inclui nada mais nada menos do que uma declaração de convicções que todo

1
FERGUSON, Sinclair B. Novo dicionário de teologia. São Paulo – SP: Hagnos, 2009. p.244.
2
BROMILEY, G. W. Credo, Credos. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã.
São Paulo: Vida Nova, 2009. p.366.
3
NOLL, Mark A. Confissões de fé. In: Ibid. p.336.
4
Essa palavra latina tem sido encontrada no túmulo de vários mártires cristãos (CHAMPLIN, 2002. loc. cit.).
13

cristão deve ser capaz de aceitar e se comprometer. Um “credo” é reconhecido como


uma declaração concisa, formal, universalmente aceita e autorizada acerca dos pontos
principais da fé cristã.’ (2007, p.44).

De maneira geral, esses documentos confessionais são classificados, tecnicamente, pelo


termo genérico “símbolos de fé”5, que além dos credos e das confissões de fé também incluem
os catecismos e os cânones.
Os catecismos6 também funcionam como resumos da fé cristã. Porém, diferem dos
credos e das confissões quanto a sua estrutura, pois são elaborados em forma de perguntas e
respostas. No que se refere ao tamanho, eles podem ser extensos ou breves, como foram escritos
os Catecismos de Lutero7, o Catecismo de Heidelberg e os Catecismos de Westminster.
Já os Cânones8 são decisões oficiais de concílios que firmam a posição de uma
instituição ou organização eclesiástica quanto a questões doutrinárias específicas. Os mais
importantes no meio protestante reformado são os Cânones provenientes do Sínodo de Dort
(ANGLADA, 2013. p.22).

1.2 Base bíblica

Os teólogos protestantes e reformados apresentam dois argumentos que consideram


fundamentais para a defesa do valor e relevância dos credos e das confissões para a igreja: o
primeiro tem a ver com a função prática que eles desempenham. O desenvolvimento da teologia
cristã de maneira didática, apologética e ortodoxa é um dever da igreja.
Kevin Reed (2002) defende que a elaboração de credos e confissões são um resultado
do crescimento do ministério de ensino da igreja. E que, como muitas seitas heréticas alegam
ser as detentoras da autoridade da Bíblia, os documentos confessionais, devido seu caráter
público, são de suma importância para revelar como uma determinada igreja entende as
Escrituras. Na presente era, de tanto declínio espiritual, credos são especialmente valiosos para
o testemunho de qualquer igreja ou denominação. Pela análise desses documentos oficiais,

5
A palavra símbolo era de uso comum no ambiente militar, empregada para proteger uma mensagem contra
interceptações de inimigos (FERREIRA, 2015. p.28), e foi usada teologicamente pela primeira vez por Cipriano
nas suas Epístolas em 250 D.C. para se referir ao cismático Novaciano. Em 390 D.C, no Sínodo de Milão, é que
o termo símbolo vai ser usado para designar o Credo Apostólico. E no século XVI são Lutero e Melanchton que
vão usar a palavra símbolo para os credos protestantes, e desde então passaram a designar os Catecismos e
Confissões adotadas pelas Igrejas Luteranas e Reformadas como elementos distintivos de sua fé (COSTA, 2002.
p.24).
6
Originalmente o termo catecismo referia-se exclusivamente à instrução oral. Só depois é que passou a classificar
os livros que continham tal instrução (CHAMPLIN, 2002. p.672).
7
Cf. FERGUSON, Sinclair B. Novo dicionário de teologia. São Paulo – SP: Hagnos, 2009. p.183.
8
A palavra “Cânone” deriva do latim “cânon” que significa linha de medir, regra ou modelo. Que por sua vez
também tem origem no grego “” que traduz o sentido de vara ou regra (CHAMPLIN, op. cit., p.624).
14

todos podem entender a natureza de suas doutrinas e quais princípios governam os seus
membros (p. 49).9
Em face disso, o fundamentalismo dos que afirmam “nenhum credo, senão a bíblia”10
se revela como um “zelo sem entendimento”11 que, apesar de exprimir sinceridade, no final das
contas, se revela irresponsável e antibíblico. Logo, uma igreja não confessional é uma
comunidade vulnerável e suscetível à manipulação de líderes déspotas e às incertezas de
interpretações livres e seletivas de falsos mestres.12
O segundo argumento é bíblico. Embora esses símbolos de fé sejam inevitáveis e
necessários do ponto de vista prático, Paulo Anglada defende que o pragmatismo não pode ser
determinante para a praxe religiosa da igreja cristã, mas faz-se necessário que o uso deles se
justifiquem biblicamente (2012. p. 27). No intuito de fazer essa justificativa, argumenta-se que
as chamadas afirmações proto-credais, presentes no Novo Testamento, são evidências claras do
começo das formulações confessionais da igreja já no tempo dos apóstolos.
Um texto base digno de análise é 2 Timóteo 1:13 “Mantém o padrão das sãs palavras
que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus” (ARA). A palavra grega
(hupotupósis), traduzida por padrão, significa literalmente: esboço, plano, exposição breve e
sumária.13 A expressão “padrão das sãs palavras”, usada pelo apóstolo Paulo, descreve o
objetivo de funcionar como guia confiável e fidedigno daqueles que deveriam futuramente crer
no evangelho. Desse modo, seguindo a orientação de Paulo, Timóteo deveria certificar-se de
que seu ensino era sadio ao usar como regra básica o padrão de instrução que ele havia visto e
recebido do ministério do apóstolo Paulo (TRUEMAN, 2012, p. 102).
Wiersbe traz uma figura bastante clara ao traduzir a palavra padrão por uma espécie de
projeto arquitetônico por meio do qual a igreja deveria desenvolver a sua teologia:

“A palavra "padrão" (2 Tm 1:13) refere-se a "modelo, a projeto de um arquiteto". A


Igreja primitiva possuía um conjunto de doutrinas claras, um padrão usado para
avaliar todos os ensinamentos. Se Timóteo mudasse esses parâmetros ou se os
colocasse de lado, não teria com que testar outros mestres e pregadores. É por essa
razão que, hoje, também é preciso apegar-se ao que Paulo ensinou.” (2006, p. 316).

9
KEED, Kevin. Governo Bíblico de Igreja. São Paulo – SP: Os Puritanos, 2002.
10
Máxima que se tornou comum a partir do movimento fundamentalista que surgiu em meio à controvérsia
doutrinária entre cristianismo conservador e o liberalismo nos Estados Unidos no final do séc. XIX e início do
séc. XX (Cf. NOLL, Mark A. Confissões de fé. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da
Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2009. p.340).
11
Expressão usada pelo apóstolo Paulo na carta aos Romanos 10:2.
12
Ibid.
13
Cf. Dicionário Bíblico Strong, 2002. p.1735; Concordância de Strong. Disponível em:
<http://bibliaportugues.com/greek/5296.htm> acesso em 03 de julho de 18.
15

É consenso entre os intérpretes que o contexto em que o apóstolo Paulo se encontrava


ao escrever 2 Timóteo era o de pré-martírio. Ele era prisioneiro em Roma e encarava a morte
como certa (2 Tm 4.6). Porém, a sua maior preocupação não era com sua própria vida, e sim
com o progresso do ministério do evangelho após a sua morte (WIERSBE, 2006, p. 312). Isso
se confirma pela ênfase de Paulo em expressões do tipo “sã doutrina” (1Tm 1.10; 2Tm 4.3),
“boa doutrina” (1Tm 4.6), “boa confissão” (1Tm 6.13-14), “bom depósito” (1Tm 6.20; 2Tm
1.14). Paulo precisava certificar-se de que, mesmo depois de sua morte e do fim do ministério
apostólico, a mensagem do evangelho seguiria avançando e alcançando as futuras gerações.
Nessa direção, Paulo entendia que o padrão confiado a Timóteo era um meio eficaz de
transmissão da mensagem do evangelho, de maneira que se preservasse pura e fiel contra os
ataques dos falsos mestres. Assim, como um pai se preocupa em deixar a sua riqueza em
herança para o seu primogênito, Paulo se preocupou em deixar para o seu filho na fé, Timóteo,
um tesouro inestimável, o bom depósito, o qual deveria ser guardado e protegido.
Carl Trueman (2012) defende que, assim como qualquer área do conhecimento,
financeiro, médico ou físico, conta com um padrão de linguagem próprio, na teologia também
é usado um vocabulário específico para transmitir o ensino de maneira precisa. No decorrer dos
anos a igreja desenvolveu um vocabulário, testado e aprovado, para expressar os conceitos que
ela deseja articular. O termo “trindade”14, por exemplo, não se encontra na Bíblia, mas expressa
de forma sistemática que Deus é um em essência e três em pessoas. Pai, Filho e Espírito Santo
são todos eternos e igualmente Deus. Há um só Deus, mas o Pai não é o Filho, e o Pai e o Filho
não são o Espírito Santo. Desse modo, o uso da palavra trindade tem uma função teológica
clara: ela transmite o conceito ortodoxo e indica a ortodoxia de quem o usa. Se alguém começa
a falar de Deus de uma maneira unitária ou de três deuses separados, qualquer um que conheça
a doutrina ortodoxa da igreja cristã saberá identificar que tal ensino não corresponde com o
“modelo das sãs palavras” legado pelos apóstolos e preservado pelos pais da igreja (p.103).
O mesmo princípio se aplica a termos teológicos como: depravação total, expiação,
encarnação, perseverança dos santos, eleição incondicional. Um vocabulário instituído e
convencional para o ensino ortodoxo se torna de grande auxílio para a igreja na tarefa de educar
seus membros e de estabelecer sinais úteis e normativos de ortodoxia. Mesmo que o sentido das
palavras tende a esvaziar-se ou distorcer-se com o passar do tempo, isso não significa que não
se deva batalhar para manter o seu sentido original. Por exemplo, mesmo que nos dias atuais a
palavra “amor” esteja sendo usada excessivamente para expressar um mero sentimento de

14
O termo fora usado pela primeira vez por Tertuliano (160 – 220 d.C), um dos pais da igreja.
16

autossatisfação pessoal, a igreja cristã precisa se apropriar dessa palavra e insistir no seu sentido
prático e sacrifical pretendido pelos autores bíblicos para transmitir a mensagem do
evangelho.15
Trueman chama a atenção para o fato de que Paulo não instrui Timóteo a somente
memorizar de forma literal os textos do Velho ou do Novo Testamento ou, até mesmo, os de
suas Cartas. Segundo Trueman, o modelo das sãs palavras é algo mais. Assim, a máxima
“nenhum credo além da bíblia” não faz justiça à orientação apostólica, pois a própria bíblia
parece exigir que tenhamos modelos de ortodoxia, e essa é a natureza dos credos e das
confissões (2012, p.104).
Outras referências bíblicas como “doutrina dos apóstolos” (At 2.42), “forma de
doutrina” (Rm 6.17), “fé evangélica” (Fp 1.27), “fé que uma vez por todas foi entregue aos
santos” (Jd 3), “fé santíssima” (Jd 20), “tradição” (1Co 11.2, 23; 15.3), “a palavra que vos foi
evangelizada” (1Pe 1.25) e "princípios elementares da doutrina de Cristo" (Hb 6.1-3), parecem
indicar a existência de algum conjunto de verdades da palavra de Deus, que foram agrupadas,
aceitas e confessadas pelos crentes da época. Do mesmo modo, o Antigo Testamento, também
apresenta fundamentos para a confessionalidade da igreja: o Shemá, termo hebraico que
significa ouvir com afeição, indica o que seria o credo judeu: “Ouve, Israel, o Senhor nosso
Deus é o único Senhor” (Dt 6.4).16 Essa profissão de fé era uma exigência para Israel que serviu
para distingui-los de todos os povos idólatras ao seu redor, como os Cananeus, Jebuseus,
Filisteus e Midianitas.17 Gerhard Von Rad entende que textos como os de Dt 26.5-9, Êx 15.1-
19 e Js 24.2-13 são respostas confessionais do povo aos atos salvíficos de Deus na história de
Israel (2006, p. 122).18
Logo, ainda que não se possa afirmar, categoricamente, que haviam credos e confissões
formais na igreja do primeiro século, os textos bíblicos, supracitados, são indicativos claros de
que elementos pró-credais já estavam presentes no cerne da fé do povo de Deus. Tanto o Antigo
quanto o Novo Testamento exige que os crentes professem a sua fé no Deus vivo e verdadeiro.
Com base nisso, Philip Schaff (1919) conclui que "num certo sentido, a igreja cristã nunca
existiu sem um credo".19 Dado esses inúmeros indicativos bíblicos da natureza confessional da
Igreja, Carl Trueman (2012) reitera que a melhor forma de honrar o princípio ortodoxo de

15
LOPES, Hernandes D. 1 Coríntios: como resolver conflitos na igreja. São Paulo – SP: Hagnos, 2008. p. 240.
16
Cf. Credos. In. FERGUSON, Sinclair B. Novo dicionário de teologia. São Paulo - SP: Hagnos, 2009. p.244.
17
Cf. FERREIRA, 2015. p. 43.
18
Cf. RAD, Gerhard von, 1901 – 1971. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo – SP: ASTE/TARGUMIM,
2006. p. 122.
19
apud CAMPOS, 1997, p. 107.
17

“preservar o modelo das sãs palavras”, ensinado pela Bíblia, é pelo uso dos credos e confissões
(p. 111).

1.3 Autoridade

É importante ressaltar que a autoridade dos credos e das confissões de fé não é inerente,
mas derivada da Palavra inspirada de Deus. A Escritura é a única fonte detentora de autoridade
sobre o conhecimento dos atos de Deus. Ela é a regra reguladora20 que avalia todas outras
declarações teológicas quanto à fidelidade do conteúdo e coerência. A Confissão de fé de
Westminster expressa isso de modo bem claro em 1:10:

“O Juiz supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas
e por quem serão examinados os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos
escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em
cuja sentença nos (sic) devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo
falando na Escritura.”

Como se pode observar, mesmo que a Confissão de Fé de Westminster seja considerada


normativa para as igrejas presbiterianas tradicionais, ela apresenta com clareza que as suas
formulações confessionais estão subordinadas à Escritura e devem ser reguladas por ela. Para
eles, os credos e as confissões são regras reguladas e não reguladoras (TRUEMAN, 2012, p.
110).
Esse é o sentido do Sola Scriptura (Somente a Escritura) defendido pela Reforma
Protestante. Os reformadores não negavam o valor da tradição da igreja, mas sim que esta
tradição tivesse o mesmo peso de autoridade que a Escritura, como defendido pela Igreja
Católica Romana. Os reformadores defenderam que as doutrinas da igreja deveriam partir
unicamente das Escrituras e delas extrair sua autoridade dogmática. Logo, declarar Sola
Scriptura não quer dizer negar as formulações credais ou confessionais da igreja, mas que elas
devem expressar um correto entendimento da Bíblia. Os credos e as confissões não têm a
pretensão de serem a Palavra absoluta e infalível de Deus para a igreja, antes são uma resposta
humana à revelação divina encontrada nas Sagradas Escrituras (CAMPOS, 1997, p.107). É por
esse conceito de autoridade subordinada que Philip Schaff (1990) defende o uso de padrões
confessionais para a igreja:

“... as confissões, devidamente subordinadas à Bíblia, são de grande valor e uso. São
sumários das doutrinas da Bíblia, auxílio para a sua sã compreensão, vínculo de união

20
Deriva da expressão latina norma normans que significa uma regra que regula.
18

entre os seus mestres e padrões e salvaguardas públicos contra a falsa doutrina e a


prática errônea.”21

Quanto à questão da autoridade dos credos e das confissões, conforme Heber C. de


Campos (1997), há dois extremos que precisam ser evitados, isto é: a divinização e a rejeição.
A primeira diz respeito à posição católica romana expressa pela frase latina norma normans,
que quer dizer “uma regra que regula”. Traz a ideia de que a autoridade dos credos da igreja é
absoluta e inerrante igual às escrituras. Em contraste a isso, tem-se a expressão norma normata,
que significa “uma regra que é regulada” e reflete a posição protestante. Visto que os credos
são produtos humanos, eles estão submissos (regulados) à Escritura, a única regra infalível e
suprema de fé e prática. Nesse sentido, os credos possuem uma autoridade secundária e
derivada. Em último caso, devem sempre ser testados e regulados pela Palavra de Deus. Sobre
isso Phillip Schaff (1977) conclui que:

“A Bíblia é a Palavra de Deus ao homem; o Credo é a resposta do homem a Deus. A


Bíblia revela a verdade em forma popular de vida e fato; o Credo declara a verdade
em forma lógica de doutrina. A Bíblia é para ser crida e obedecida; o Credo é para ser
professado e ensinado.”.22

1.4 Possibilidade de revisão

Seguindo o princípio reformado da norma normata a possibilidade de revisão dos credos


e das confissões deve ser algo naturalmente esperado e legítimo. Campos (1997) argumenta que
dentro da teologia reformada um credo ou confissão não é um sistema absoluto e fechado que
não possa ser alterado em face de algum estudo sério e acurado acerca de algum ponto (p. 107).
Essa revisão é importante para o desenvolvimento da teologia e melhoria das formulações
doutrinárias da igreja. A verdade de Deus, como expressa na Escritura, é imutável, mas o
entendimento dela pode e deve ser, sempre que possível, melhorado. Contudo, Campos (1997)
ressalta que a ideia de revisar os credos e confissões não é uma questão simples. Qualquer
alteração tem que considerar todas as implicações e possuir sólidas justificativas bíblicas (p.
108).
Um aforismo muito conhecido no meio reformado que corrobora com essa proposta de
revisão é o “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” atribuído a Gisbertus Voetius23
(1589-1676), que significa: Igreja Reformada está sempre se reformando. Considerando que

21
apud SANTOS, João A. dos. A igreja e sua confessionalidade. Fides reformata. São Paulo, 2014. p. 105.
22
apud COSTA, 2002, p. 12.
23
Gisbertus Voetius fora um teólogo calvinista holandês que participou do Sínodo de Dort (1618 – 1619) na
disputa contra os proponentes do arminianismo.
19

muitas instituições e movimentos heterodoxos24 têm se apropriado levianamente do lema de


Voetius para forçar a abertura da igreja para mudanças e inovações contrárias ao evangelho, o
Rev. Augustus Nicodemus (2006), no intento é preservar a essência da reforma protestante de
que a igreja precisa sempre voltar-se para as Sagradas Escrituras para manter-se reformada,
propõe uma tradução para esta frase como “A Igreja é reformada e está sempre se
reformando”25. Por exemplo, a Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, usou a parte
“Reformanda Est” para justificar as mudanças introduzidas no catolicismo tradicional. A igreja
Adventista, fundada por Helen White, usa o lema de Voetius para se justificar como uma
reforma da Reforma. Outro exemplo claro, de distorção das palavras de Voetius, foi o uso do
nome “Semper Reformanda” para designar uma organização religiosa nos Estados Unidos que
defende a inclusão de gays e lésbicas no ministério pastoral e o casamento homossexual. Eles
entenderam que essa designação expressa o princípio da Reforma, de que a igreja deve mudar
a cada geração, para se contextualizar às mudanças culturais da sociedade. Todavia, o princípio
da reforma constante proposto por Voetius tem a ver com o ideal de sempre retornar às
Escrituras, e não ir contra elas. Sobre isso, Augustus Nicodemus (2006) adverte que:

“Na verdade, reformados não podem ser contra a continuidade da Reforma, pois
sabem que a Igreja é composta de pecadores. Sabem também que a cada geração
novos desafios se erguem contra ela. Todavia, só podem aceitar reformas e mudanças
que nos tragam mais para perto da Palavra de Deus. Acho que o ponto central aqui é
que os reformados creem que a verdade não muda e que as reformas que a Igreja deve
buscar almejam sempre um melhor entendimento da verdade e uma aplicação
relevante dela para seus dias.”26

De modo que, ao mesmo passo em que a teologia reformada defende o uso de credos e
confissões para regular a prática da igreja, ela também dispõe na sua história de dispositivos
teológicos e eclesiásticos que preveem a sua revisão. Costa (2002, p. 71), quando escreve sobre
os limites do uso de catecismos e confissões reformados para a reflexão teológica ele conclui
que “a Palavra de Deus sempre será mais rica do que qualquer pronunciamento eclesiástico, por
melhor que seja elaborado e por mais fiel que seja às Escrituras”.

24
O termo heterodoxo diz respeito a tudo que vai contra os padrões doutrinários da igreja cristã.
25
LOPES, Augustus N. Sempre Reformando ou Sempre mudando. Tempora-Mores, 2006. Disponível em:
<http://tempora-mores.blogspot.com/2006/04/sempre-reformando-ou-sempr_114616276237762560.html>.
Acesso em 05 de julho de 18.
26
LOPES, Augustus N. 2006, loc. cit.
20

2 OS CREDOS E A IGREJA PRIMITIVA

O período pós-apostólico apresentou à igreja cristã alguns desafios. Com a morte dos
apóstolos, a liderança sofreu mudanças significativas e precisou se reorganizar. No livro de
Atos dos Apóstolos, Lucas explicita a preocupação de Paulo com as terríveis dificuldades que
o fim do período apostólico traria para a liderança da igreja:

“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os


designou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu
próprio sangue. Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio
de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que
torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos. Por isso, vigiem! Lembrem-se de que
durante três anos jamais cessei de advertir cada um de vocês disso, noite e dia, com
lágrimas.” (NVI, Atos 20. 28-31).27

Com esses desafios em mente, viu-se a necessidade de composição de uma liderança


ordinária nas igrejas locais, que fosse capaz de zelar por sua pureza moral e doutrinária. É por
isso que o apóstolo Paulo estabelece pré-requisitos para a eleição de novos presbíteros e
diáconos, conforme se vê em suas cartas pastorais: 1 Tm 3. 1-8 (ARA) “Fiel é a palavra: se
alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja. É necessário, portanto, que o bispo seja
irrepreensível, [...], apto para ensinar; [...] semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário
que sejam respeitáveis, [...]” e Tito 1. 7-9 (ARA) “Porque é indispensável que o bispo seja
irrepreensível como despenseiro de Deus, [...], apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina,
de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o
contradizem”.
A história indica que a igreja, a partir do segundo século, passou a expressar-se
externamente por uma estrutura de governo análoga a um tipo de sistema episcopal, no qual a
liderança de cada igreja local se fazia representar na pessoa do bispo (GONZALEZ, 2004, p.
76). Inácio de Antioquia28, um dos pais da igreja, enfatizou a autoridade dos bispos e dos
presbíteros como representantes de Cristo e dos apóstolos como um meio de combater os falsos
mestres e seus ensinos (GONZALEZ, 2004, p. 144). Embora, segundo alguns historiadores, a

27
Bíblia Sagrada. Disponível em: < https://www.bible.com/bible/129/ACT.20.nvi>. Acesso em 12 de jul. de 18.
28
Inácio de Antioquia, também conhecido como Teodóforo, foi provavelmente amigo pessoal de Policarpo e
discípulo pessoal de João, o discípulo amado. Segundo Eusébio de Cesaréia, ele foi o terceiro bispo em Antioquia
da Síria depois de Pedro e o sucessor imediato de Evódio (EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. São
Paulo – SP: Novo Século, 2002. p. 63). A data de sua morte é incerta, mas sabe-se que foi condenado à morte ao
ser lançado aos leões no Coliseu no período do Imperador Trajano (98-117d.C); Cf. SGARBOSSA, Mario;
GIOVANNINI, Luigi. Santo Inácio de Antioquia – bispo e mártir. Paulus, 2018. Disponível em:
<https://www.paulus.com.br/portal/santo/santo-inacio-de-antioquia-bispo-e-martir#.Wz9lA9JKjIU>. Acesso
em 06 de julho de 18.
21

Didaquê29 pareça sugerir um sistema de governo mais congregacional. L. Morris30 salienta que
é impossível remontar totalmente à era apostólica qualquer um de nossos sistemas modernos,
pois há no Novo Testamento elementos eclesiásticos que são passíveis de serem desenvolvidos
tanto no sistema episcopal, como presbiteriano e ou congregacional.
O segundo desafio fora a questão do conteúdo doutrinário legado pelos apóstolos e
terrivelmente ameaçado pela incidência dos falsos mestres no seio da igreja. Dentre essas
ameaças destaca-se o docetismo (gr. dokein, “aparentar”), ensino herético que afirmava que
Cristo apenas parecia um ser humano real, pois um ser divino não poderia se unir a algo inferior
ou mal como a matéria. Os docetistas afirmam que se Cristo é Deus, logo não pode ser, ao
mesmo tempo, homem. Esse ensino partiu de influências do movimento chamado de
gnosticismo31 (TRUEMAN, 2012, p. 113).
É nesse contexto de batalha pela tradição do ensino apostólico, segundo Trueman
(2012), que vai se desenvolver o que ficou conhecido como regula fidei (regra de fé), um
resumo dos pontos fundamentais do cristianismo (p. 114). Essa regra não era, ainda, um credo
formal, pois embora seu conteúdo fosse estável, sua forma escrita encontra-se de forma variada
nos escritos dos pais da igreja primitiva. Mas, em todo caso, já era uma tentativa de firmar
conceitos normativos comuns. Na carta aos Tralianos, capítulo 9, Inácio de Antioquia32
apresenta um resumo de sua cristologia, possivelmente uma reação às ameaças docetistas,
devido a ênfase nas características físicas de Cristo (TRUEMAN, 2012, p. 115):

“Mantende-vos surdos na hora em que alguém vos falar de outra coisa que de Jesus,
da descendência de Davi, filho de Maria, o qual nasceu de fato, comeu e bebeu, foi de
fato perseguido sob Pôncio Pilatos, de fato foi crucificado e [de fato] morreu à vista
dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra. O qual de fato também ressurgiu
dos mortos, ressuscitado-o o próprio Pai. É o mesmo Pai dele que, à sua semelhança,
ressuscitará em Cristo Jesus aos que cremos nele; fora dele, não temos vida
verdadeira.”. 33

A caminho do martírio em Roma, onde, provavelmente, fora lançado para ser devorado
por feras no famoso Coliseu romano (GONZALEZ, 2004, p. 71), Inácio escreveu sete cartas

29
A Didaquê ou Doutrina dos Doze Apóstolos, foi descoberta em Istambul em 1875. Provavelmente tenha sido
escrita no final do primeiro século d.C. (GONZALEZ, 2004, p. 68).
30
Cf. MORRIS, L. Governo eclesiástico. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja
Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2009. p. 213.
31
O Gnosticismo fora um movimento religioso de caráter sincrético, que surgiu nos primeiros séculos da era cristã,
combinando elementos da filosofia grega, das religiões de mistério, do judaísmo e do cristianismo. Os gnósticos
buscavam um conhecimento genuíno superior, por meio do qual, segundo seus adeptos criam, poderia ser obtida
a salvação (CHAMPLIN, Russell N. Enciclopédia de bíblia teologia e filosofia. vol. 2. São Paulo – SP: Hagnos,
2002. p. 918).
32
apud TRUEMAN, 2012, p. 115.
33
Epístola aos Tralianos. Disponível em: <https://www.veritatis.com.br/carta-de-santo-inacio-de-antioquia-aos-
tralianos/>. Acesso em 05 de jul. de 18.
22

endereçadas às igrejas de Magnésia, Trales, Éfeso, Roma, Esmirna, Filadélfia e ao bispo


Policarpo (GONZALEZ, 2004, p. 72). Essas cartas refletem a sua preocupação com os desafios
que a igreja cristã enfrentava com as falsas doutrinas e as divisões que elas causavam na igreja.
Seu principal objetivo era refutar tais doutrinas e fortalecer a liderança da igreja (GONZALEZ,
2004, p. 73).
Também nos escritos de Tertuliano (160 d.C. – 220 d.C.), o teólogo do norte da África,
encontra-se referências explícitas à regula fidei, reunindo os pontos básicos da fé cristã, os quais
defende serem fiéis aos ensinos de Cristo e uma súmula anti-heresias:

“A respeito desta regra de fé - que, a partir deste ponto, reconhecemos como o que
defendemos – é, como devem saber, a que prescreve a crença de que há um só Deus,
e que somente ele é o criador do mundo, que produziu todas as coisas a partir do nada
por meio de sua palavra, enviada antes de tudo; essa palavra seu Filho e, sob o nome
de Deus, foi visto “de diversas maneiras” pelos patriarcas, ouvindo em todos os
tempos nos profetas e, por fim, trazido pelo Espírito e poder do Pai à virgem Maria;
foi feito carne em seu ventre e, nascido dela, manifestou-se como Jesus Cristo; daí em
diante, ele pregou a nova lei e a nova promessa do reino dos céus, operou milagres;
tendo sido crucificado, ressurgiu ao terceiro dia; então, ascendeu aos céus, assentou à
destra do Pai; enviando em seu lugar o poder do Espírito Santo para conduzir à fé;
virá em glória para ressuscitar os santos para o gozo da vida eterna e das promessas
celestiais, e para condenar os ímpios ao fogo perpétuo, após acontecer a ressurreição
de ambas as classes, junto com a restauração de sua carne. Essa regra, como se
comprovará, foi ensinada por Cristo, e não provoca entre nós nenhum questionamento
além dos introduzidos pelas heresias, e que tornam os homens heréticos. 34

Essa mesma fórmula doutrinária de Tertuliano se observa nos escritos de Irineu de Lião
(135 d.C. – 202 d.C.) em Contra as heresias, I, 10, 1-2.35 Desse modo a patrística nos mostra
como os pais da igreja se utilizaram de resumos doutrinários claros para preservar o ensino
apostólico nas igrejas locais sob sua regência. É interessante que o uso dessas regras de fé e,
posteriormente, dos credos, na igreja primitiva, não se limitou à apologética, mas também se
aplicou à sua prática pedagógica e litúrgica (MCGRATH, 2007, p. 54). Na ocasião do batismo,
era exigido dos novos cristãos a declaração pública de sua fé. Essas declarações batismais
aparecem no relato de Hipólito de Roma36 (170 d.C. – 236 d.C.) em sua Tradição apostólica:

“Ao chegar à água aquele que será batizado, aquele que batiza lhe dirá, impondo-lhe
as mãos sobre ele: "Crês em Deus Pai todo-poderoso?". E aquele que é batizado
responda: "Creio". Imediatamente, com a mão pousada sobre a sua cabeça, batize-o
uma vez, dizendo a seguir: "Crês em Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Espírito
Santo e da Virgem Maria, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, morrendo e sendo
sepultado e, vivo, ressurgiu dos mortos no terceiro dia, subindo aos céus e sentando-
se à direita do Pai, donde julgará os vivos e os mortos?". Quando responder: "Creio",
será batizado pela segunda vez. E dirá mais uma vez: "Crês no Espírito Santo, na Santa

34
TERTULIANO. Sobre a prescrição contra os heréticos. In. TRUEMAN, 2012, p. 116, grifo nosso.
35
IRINEU DE LION. Contras heresias, I, 10, 1-2. Disponível em:
<https://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/s_ireneu_antologia.html>. Acesso em 09 de julho de
18.
36
apud TRUEMAN, 2012, p. 118.
23

Igreja e na ressurreição da carne?". Responderá o que está sendo batizado: "Creio", e


será batizado pela terceira vez.”37

Por esses textos históricos do período primitivo da igreja ver-se como a Regra de fé,
conectada ao batismo, veio a se tornar o modelo das sãs palavras por meio do qual o novo
convertido declarava de forma pública sua fé e compromisso cristão.

2.1 O Credo apostólico

A partir do IV século, diferente das Regras de caráter eclesiástico local, começaram a


surgir os credos universalmente aceitos e circulantes na igreja primitiva. O mais famoso deles
na história da igreja cristã, que recebeu grande aceitação e até hoje faz parte da vida litúrgica
de muitas igrejas, é o Credo Apostólico (TRUEMAN, 2012, p. 121):

Creio em Deus Pai. Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra. Creio em Jesus Cristo,
seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu
da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e
sepultado; Desceu ao Hades; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está
sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso. donde há de vir para julgar os vivos e
os mortos. Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos
santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.

O Credo apostólico encontra-se ratificado nos Catecismos de Heidelberg (7.23)38,


Luterano39 e de Westminster40. Segundo Hodge (1999), essa assimilação dos credos, feita pelos
documentos confessionais, produzidos a partir da reforma protestante, se justifica pelo consenso
de que, desde o início, eles sempre foram aceitos pela igreja primitiva como uma expressão
concisa da fé cristã que estava perfeitamente de acordo com a palavra de Deus.41
Um fato da história da Igreja bastante instigante para os pesquisadores é que não se pode
indicar com precisão a data de composição e autoria do Credo dos Apóstolos. O processo de
formação desse credo se confunde com o desenvolvimento da igreja primitiva (FERREIRA,
2015, p.26).
As semelhanças do Credo apostólico com a Regula fidei, reconhecida nos Pais da Igreja,
são evidentes, mas não há acordo entre os eruditos se esse credo surgiu realmente como uma
progressão direta dessas regras ou profissões batismais. Ressalta-se que, embora por muito

37
Tradição Apostólica de Hipólito de Roma. Disponível em:
<https://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/tradicao_apostolica_hipolito_roma.html#3.5%20-
%20O%20Batismo>. Acesso em 09 de julho de 18.
38
As Três Formas de Unidade das Igrejas Reformadas. Recife – PE: Os Puritanos, 2009. p.57.
39
Catecismo Menor de Martinho Lutero. Disponível em: <
http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismo_lutero.htm>. Acesso em 10 de julho de 2018.
40
O Breve Catecismo de Westminster. São Paulo – SP: Cultura Cristã, 2001. p. 88.
41
HODGE, A. A. Confissão de fé de Westminster. São Paulo – SP: Os Puritanos, 1999. p. 25.
24

tempo alguns cristãos creram na lendária autoria do credo por parte dos doze apóstolos, o
designativo apostólico não pretende indicar tal relação, mas sim, que seus ensinos se constituem
numa herança teológica do ministério dos apóstolos. Segundo Oliver Jr42, o antecedente mais
importante do Credo dos Apóstolos foi o Credo Romano Antigo, que possivelmente tenha se
desenvolvido no decorrer da segunda metade do século II. Mesmo que a primeira referência ao
título “Credo apostólico”, conforme informa Trueman (2012), só vai aparecer no ano 389 em
uma carta de Ambrósio de Milão a Roma, segundo ele, é provável que o credo teve início no
século III e foi-se desenvolvendo até alcançar a forma final, como o conhecemos hoje, através
da formalização pelas igrejas ocidentais sob o regime do imperador Carlos Magno até o século
VIII.
O Credo dos Apóstolos exerceu um papel vital para a igreja. Além de servir como
modelo de profissão de fé para os neófitos, candidatos ao batismo, as principais doutrinas do
credo foram usadas como base da instrução catequética dos crentes. De maneira apologética, a
natureza trinitária do credo ajudou os cristãos a discernir a fé verdadeira em meio aos desvios
heréticos promovidos pelos marcionistas e docéticos. Respondendo à uma objeção acerca do
uso do Credo apostólico no ministério catequético do pastor, Richard Baxter43 defende que “um
credo é uma realidade viva, e não uma ortodoxia morta, constituída de palavras estáticas.”
(1989, p.185). De acordo com as palavras de Oliver Jr44, o Credo dos Apóstolos continua tendo
a mesma relevância para a igreja cristã que obteve “no passado: como confissão batismal; como
esboço para o ensino; como guarda e guia contra a heresia; como resumo da fé; como afirmação
no culto”. Ironicamente, até mesmo entre os teólogos liberais encontra-se o reconhecimento do
valor contemporâneo do Credo. Paul Tillich (2000), em seu comentário ao Credo apostólico,
diz que:

“deveríamos pronunciar com grande referência, porque, por meio dessa confissão, o
cristianismo se separou da interpretação dualista da realidade presente no paganismo
[...]. O primeiro artigo do Credo é a grande muralha que o cristianismo ergueu contra
o paganismo. Sem essa separação a cristologia teria inevitavelmente se deteriorado
num tipo de gnosticismo no qual o Cristo não teria mais do que um dos poderes
cósmicos entre outros, embora, talvez, o maior deles.” (TILLICH p. 41).45

42
OLIVER JR, O. G. Credo dos Apóstolos. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja
Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2009. p. 362; ver também COSTA, 2002, p. 29.
43
BAXTER, Richard. O pastor aprovado. São Paulo – SP: PES, 1989.
44
OLIVER JR, O. G. Ibid. p. 363.
45
TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. 2. ed. São Paulo – SP: ASTE, 2000. p. 34.
25

2.2 O Credo Niceno

O Credo Niceno é uma declaração de fé que surgiu como culminância do Concílio de


Nicéia, realizado no ano 325 d.C. E significou uma resposta oficial da Igreja às controvérsias
arianas relacionadas à doutrina de Cristo, a cristologia. Esse credo pretendia afirmar a plena
divindade de Cristo, em oposição ao entendimento dos seguidores de Ário, um presbítero
popular da igreja em Alexandria (Egito) que entendia a pessoa de Jesus como uma criatura de
Deus e não um ser divino coigual com a pessoa do Pai (MCGRATH, 2007, p. 55).
Roger Olson (2001) defende que é necessário voltar ao contexto da igreja primitiva
imediatamente anterior ao ano 325 d.C. para que se possa entender a relevância do Concílio de
Nicéia, o primeiro concílio ecumênico da igreja cristã. Pouco antes desse período, os líderes
cristãos foram duramente perseguidos e alguns executados pelo império romano, os crentes
tiveram suas posses confiscadas e a igreja cristã considerada uma seita religiosa contrária e
subversiva ao Império por se negar a adorar ao venerado Imperador. Entretanto, essa situação
mudou radicalmente. O século IV surgiu como se fosse uma aurora na história da igreja. O
imperador Constantino no ano 313 d.C., visando manter a unidade do império em face do
crescimento vertiginoso da religião cristã, por meio do Édito de Milão, assegurou a tolerância
e liberdade de culto para os cristãos em todo o território do Império Romano. A igreja
perseguida tornou-se tolerada e mais tarde na igreja protegida (GONZALEZ, 2004, p. 255). No
entanto, logo percebeu-se que essa união do Estado com a Igreja teria consequências nocivas
para a saúde da fé. A primeira delas foi a ingerência do Imperador nas questões eclesiásticas.
A segunda, facilitou-se a entrada, em massa, de imorais na igreja, somente com fim de
conseguirem o favor do Estado. O ofício de bispo passou a ser extremamente cobiçado por
interesses políticos. A partir de então, devido ao reconhecimento oficial que o cristianismo
recebeu do Império, as questões teológicas também deixaram de ser uma questão somente do
âmbito religioso e passaram a ter importância política. Foi nesse contexto que se desenvolveu
a controvérsia ariana (GONZALEZ, 2004, p. 256).
Apesar dos extensos esforços de Alexandre, o Bispo de Alexandria, para rebater os
ensinos de Ário, grande parte do povo de Alexandria aderiu ao arianismo. Ário também
conseguiu o apoio do Bispo Eusébio de Nicomédia, que lhe garantiu proteção. Assim, essa
disputa se tornou um risco para a unidade da igreja. Cônscio desses acontecimentos,
Constantino delegou ao seu conselheiro religioso, o Bispo Ósio de Córdoba, a missão de unir
as partes em conflito e resolver a disputa pacificamente. Como essa tentativa de pacificação por
meio de Ósio fracassou, Constantino decidiu convocar um concílio de bispos, o qual deveria
26

resolver a controvérsia ariana e outros problemas de ordem comum da igreja (GONZALEZ,


2004, p. 259).
O Concílio ocorreu na cidade de Nicéia, na Bitínia (atual, Isnik, na Turquia) contando
com a presença de mais de 300 bispos das igrejas orientais e ocidentais. Segundo Olson (2001)
apenas 28 destes bispos eram declaradamente arianos. Como Ário não era bispo, não tinha
licença para participar do concílio, mas fora representado por Eusébio de Nicomédia e Teogno
de Nicéia. A assembleia teve início sob a presidência do Bispo Ósio e a presença do imperador
Constantino. E o Bispo Alexandre de Alexandria foi quem conduziu o processo jurídico contra
Ário. Gonzalez ressalta que:

“A ampla maioria parece não ter entendido a importância do assunto em mãos, e seu
medo do sabelianismo os tornou relutantes em condenar o subordinacionismo com
termos muito fortes. Além disso, o imperador, cujo interesse estava mais na unidade
do império do que na unidade de Deus, estava inclinado a encontrar uma fórmula que
fosse aceitável ao maior número de bispos possível.” (2004, p. 260). 46

A princípio, os arianos acreditavam que seriam capazes de conquistar facilmente o apoio


de grande parte dos bispos para a sua causa. Todavia, conforme relata os historiadores, logo
depois de um discurso de abertura proferido pelo imperador, no qual enfatizava a necessidade
de união, quando Eusébio de Nicomédia leu uma declaração de fé que negava a divindade do
Filho de Deus, afirmava que ele era uma criatura e de nenhum modo igual ao Pai, o arianismo
ficou tão claro como um desvio do verdadeiro ensino apostólico que, antes mesmo dele terminar
a leitura, os bispos já gritavam “blasfêmia!”, tendo o manuscrito arrancado de suas mãos,
lançado ao chão e pisoteado. Houve tamanha balbúrdia entre os bispos que só pôde ser acalmada
com a intervenção do imperador (OLSON, 2001, p. 157). Craig A. Blaising relata que a rejeição
foi tão intensa que boa parte dos arianos abandonou seu apoio ao documento lido por Eusébio.
Depois da ordem restaurada, o concílio reiniciou suas atividades em busca de uma solução para
a questão.47
Aos poucos, a ideia de formular um credo unificante, que resumisse a fé ortodoxa da
igreja e que pudesse ser aceito por todos, foi surgindo e ganhando força. A proposta fora
favorável ao Imperador Constantino, que logo recomendou a Ósio que conduzisse o processo
de elaboração do credo com os bispos. Alguns arianos tentaram viciar o documento

46
O sabelianismo é uma heresia unicista (também conhecida como modalismo) divulgada por Sabélio (215 d.C.)
que entende que Deus apenas se manifestou de três formas diferentes e não em três pessoas distintas (Wikipédia,
2011. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Sabelianismo>. Acesso em 17 de julho de 2018).
47
Cf. BRAISING, Craig A. Concílio de Nicéia. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da
Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2009. p. 310.
27

argumentando em favor do uso de terminologias bíblicas, mas foram impedidos por Alexandre
e Atanásio. Os Bispos perceberam que:

“Os arianos haviam se tornado hábeis em “torcer as Escrituras” de modo que qualquer
terminologia bíblica pudesse ser interpretada em favor deles. A única maneira de
encerrar o debate e esclarecer de uma vez por todas que o subordinacionismo ariano
era herético era empregar uma terminologia extra-bíblica (sic) que definisse
claramente a unidade de Pai e Filho como iguais dentro da Deidade.” (OLSON, 2001,
p. 158).

Enfim, foi nomeada uma comissão de bispos para redigir o texto do credo que deveria
ser assinado por todos. Embora com ressalvas contra as heresias arianas, o texto do Credo de
Nicéia fora elaborado nos moldes do Credo dos apóstolos:

“Cremos em um Deus, o Pai Todo-Poderoso, criador de todas as coisas visíveis e


invisíveis. E em um Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado do Pai, Unigênito,
isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz de luz. Deus verdadeiro de Deus
verdadeiro, gerado, não-feito, de uma substância com o Pai, mediante o qual todas as
coisas vieram a existir, tanto as que estão no céu como as que estão na terra, que por
causa de nós, humanos, e por causa da nossa salvação, desceu e se encarnou, tornando-
se humano, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, ascendeu aos céus, e virá julgar os
vivos e os mortos. E no Espírito Santo. Mas quanto àqueles que dizem que houve
quando ele não era, e que antes de ser nascido ele não era, e que ele veio a existir do
nada, ou quem declara que o Filho de Deus é de uma hipóstase ou substância diferente,
ou é criado, ou está sujeito a alteração ou mudança - estes a Igreja Católica
anatematiza.”48

Conforme observa Blaising, a teologia expressa no credo de Nicéia foi categoricamente


anti-ariana. Ainda que se confesse que o Filho foi gerado, o credo acrescenta as palavras "não
feito".49 Olson argumenta que esses acréscimos foram necessários para excluir o arianismo:

‘Gerado é uma palavra bíblica a respeito do Filho de Deus. O Evangelho segundo João
emprega-a frequentemente. Mas “não feito” nunca apareceu nas Escrituras como
atributo do Filho de Deus. A distinção, no entanto, é da máxima importância. Se o
Filho de Deus é “feito” ou “criado”, não é verdadeiramente Deus. As Escrituras
afirmam que ele é divino e que, para a salvação, é necessário que ele seja divino’
(2001, p. 159).

Sobre o uso dessas inovações terminológicas extra bíblicas, Trueman (2012) defende
que esse concílio de Nicéia deu uma importante contribuição para o debate teológico quando
estabeleceu a palavra grega homoousion, traduzida por “da mesma substância”, e a introduziu
no texto do credo. O termo “substância” deu à igreja uma direção mais clara para as futuras
discussões na área da Teontologia (p. 125, 126). Nesse sentido, para Trueman o processo de
discussão e redação do credo do concílio de Nicéia:

48
Versão do Credo Niceno retirado de: GONZALEZ, Justo L. Uma história do pensamento cristão. vol. 1. São
Paulo - SP: Cultura Cristã, 2004. p. 261.
49
BRAISING, C. A. Op. cit. p. 311.
28

“tornou-se muitíssimo importante por instigar a igreja a refletir sobre o conteúdo


doutrinário do Evangelho, sobre a necessidade de formar um vocabulário extrabíblico
(sic) para expressá-lo, e sobre a necessidade de esse vocabulário ser estabelecido
como normativo para toda a igreja” (2012, p. 127).

Depois de dois meses de concílio, Ário foi deposto e condenado como herege. A
ortodoxia da igreja saiu vitoriosa. Embora, do ponto de vista político, o Credo Niceno não tenha
significado um resultado positivo para o Imperador, devido a controvérsia ariana não ter sido
totalmente eliminada no concílio de Nicéia. Mesmo sob pena de exclusão e exílio, Eusébio de
Nicomédia e Teogno de Nicéia, os principais e mais influentes bispos do Oriente não
subscreveram ao Credo, deixando o império ainda num clima de instabilidade religiosa
(OLSON, 2001, p. 160).
Conforme indica Olson (2001, p. 161), até chegar a sua forma atual, o Credo Niceno
continuou a ser debatido e desenvolvido nos três concílios ecumênicos subsequentes da igreja
primitiva – Constantinopla I (381), Éfeso I (431) e Calcedônia (451):50

Cremos em um só Deus, Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as


coisas visíveis e invisíveis. Cremos em um só Senhor Jesus Cristo, o único Filho de
Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, luz de luz, verdadeiro
Deus de verdadeiro Deus; gerado, não criado, de igual substância do Pai; por Ele todas
as coisas foram feitas. Por nós, homens, e por nossa salvação, Ele desceu do céu e se
fez carne, pelo Espírito Santo, da virgem Maria, e se tornou homem. Também por nós,
foi crucificado sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado. Ressurgiu no terceiro dia,
conforme as Escrituras. Subiu ao céu, está sentado à direita do Pai e de novo há de
vir, com glória, para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim. Cremos no
Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho, e com o Pai e o
Filho é adorado e glorificado; que falou através dos profetas. E numa só igreja, santa,
universal e apostólica. Confessamos um só batismo para remissão dos
pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém. 51

2.3 O Credo Atanasiano

O chamado Credo Atanasiano deriva o seu nome de Atanásio (296-373 d.C.), um


importante bispo de Alexandria no século IV e defensor ortodoxo da doutrina da Trindade.
Todavia, não se pode comprovar que de fato tenha sido ele quem orientou a composição desse
credo. Há indícios de que tenha procedência ocidental, escrito originalmente em latim numa
data posterior ao ano 381 d.C. Mesmo não tendo sido produto de um famoso concílio ecumênico
da igreja primitiva, o Credo Atanasiano exerceu um papel importante na vida da igreja oriental
e ocidental. Este credo foi contado como um dos três credos clássicos do cristianismo já nos

50
Somente os quatro primeiros concílios ecumênicos são considerados pelos protestantes como dotados de
autoridade confessional para a doutrina da igreja cristã (TRUEMAN, 2012, p. 124).
51
Versão do Credo Niceno disponível em: <http://igrejasreformadasdobrasil.org/doutrina/credos/credo-niceno>.
Acesso em 18 de julho de 2018.
29

tempos da Reforma. E integrou parte do Livro de Oração Comum, da Igreja Anglicana, e dos
manuais litúrgicos da Igreja Ortodoxa Russa (TRUEMAN, 2012, p. 139).
O Credo Atanasiano foi composto com quarenta proposições doutrinárias visando
eliminar todos os pontos de vistas não ortodoxos existentes na época. O credo rejeita
veementemente, com anátemas, os ensinos de que Cristo tinha uma só natureza (o
sabelianismo), ou que a natureza humana era incompleta (o apolinarismo), ou que a natureza
divina era inferior à do Pai (o arianismo), ou que na união das duas naturezas uma delas foi
perdida, de modo que o resultado foi simplesmente uma só natureza (o eutiquianismo):

“[...] A fé universal é esta: que adoremos o único Deus na Trindade e a Trindade na


Unidade, não confundindo as Pessoas, nem separando o Ser. Pois, uma é a Pessoa do
Pai, outra a do Filho e outra a do Espírito Santo; mas o Pai e o Filho e o Espírito Santo
possuem uma só divindade, igual glória e igual majestade eterna. [...] Assim o Pai é
Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus; contudo eles não são três deuses, mas
um só Deus. [...] a verdadeira fé é que cremos e confessamos que nosso Senhor Jesus
Cristo, Filho de Deus, é igualmente Deus e homem. Ele é Deus da substância do Pai,
gerado antes de todos os tempos, e Ele é homem da substância da mãe, nascido no
tempo; perfeito Deus, perfeito homem, subsistindo de alma racional e carne humana;
[...] Esta é a fé universal: quem não crer nela fielmente e firmemente, não poderá ser
salvo.”52

Segundo Anglada, esse credo apresenta de maneira majestosa a fé firme da igreja cristã
quanto aos grandes mistérios da divindade, da Trindade de pessoas em um só Deus e da
dualidade de naturezas do único Cristo (2013, p. 207). Desse modo, J. F. Johnson defende a
relevância contemporânea do Credo Atanasiano como um sublime substrato da teologia
trinitariana e cristológica, que serve muito bem ao propósito pedagógico da igreja.53
É interessante, como na Reforma Protestante, declaradamente um movimento de retorno
às Sagradas Escrituras, os reformadores se apropriaram dos credos da igreja primitiva como
uma herança valiosa que lhes serviram de base na luta contra as superstições medievais e
acréscimos que deturparam o cristianismo apostólico. Eles os consideraram necessários para a
profissão cristã genuína. De modo que, as principais confissões protestantes e catecismos
seguem o esboço dos credos (HORTON, 2000, p. 17).

52
Trechos da versão do Credo de Atanásio disponível em: <
http://igrejasreformadasdobrasil.org/doutrina/credos/credo-atanasiano>. Acesso em 18 de julho de 2018.
53
JOHNSON, J. F. Credo Atanasiano. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã.
São Paulo: Vida Nova, 2009. p. 365.
30

3 AS CONFISSÕES E A REFORMA PROTESTANTE

Diferente da experiência ecumênica que a confessionalidade da igreja cristã viveu com


a produção dos credos no período patrístico (100 – 451 d.C.), a partir da Reforma Protestante
(séc. XVI), a igreja ocidental começou a viver um tempo de fragmentação institucional que,
consequentemente, também envolveu a confessionalização teológica (TRUEMAN, 2012, p.
147). Devido à natureza politicamente diversificada do protestantismo, a formulação de uma
confissão de fé única não era suficiente para atender à todas as demandas especificas de cada
comunidade protestante que emergia no século XVI.54
Logo cedo, no início da reforma protestante, os reformadores viram a necessidade de
fazer publicações escritas de sua visão teológica. Mark Noll registra que em pouco mais de uma
década de Reforma na Suíça, Ulrich Zuínglio orientou a publicação de quatro documentos
confessionais: os Sessenta e Sete Artigos de Zurique, em 1523 (propondo o rompimento com
Roma); as Dez Teses de Berna, em 1528 (com o fim de consolidar a Reforma naquela cidade);
a Confissão de Fé diante de Carlos V, em 1530 (para levar o entendimento reformado ao
imperador); e a Exposição da Fé diante do Rei Francisco I, em 1531 (buscando o favor do
soberano francês para com os protestantes). Enquanto que, na Alemanha, Lutero havia
publicado seu Catecismo Menor, em 1529, (para sanar as deficiências que o povo tinha em
relação às disciplinas bíblicas basilares); em 1530, Philip Melanchthon escreve a Confissão de
Augsburgo (por meio do qual os príncipes protestantes da Alemanha confessaram a sua fé
diante do Imperador).55 Noll reitera que sempre que os magistrados ou uma comunidade inteira
aceitavam os ensinos da Reforma, um indivíduo ou um pequeno grupo era convocado para
escrever uma declaração definitiva da fé.56
As publicações dos reformadores Lutero, Calvino, Zuínglio e outros líderes da Reforma
trouxeram à tona questões teológicas oportunas para produção confessional da igreja cristã.
Entretanto, não foi simplesmente um despertamento na esfera religiosa que se abriu caminho
para confissões de fé mais novas. Toda a Europa estava passando por um período de transição
e transformação em todas as áreas do conhecimento, o que abalou fortemente a hegemonia da
Igreja Romana. Assim, como os reformadores desafiavam a interferência católica no estado e
na economia, do mesmo modo, os monarcas das novas nações-estados e a classe dos

54
Cf. NOLL, Mark A. Confissões de Fé. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja
Cristã. São Paulo - SP: Vida Nova, 2009. p. 337.
55
Ibidem, p. 337.
56
Ibid. p. 336.
31

comerciantes questionavam o papel político da igreja; do mesmo modo como Lutero e Calvino
conclamava Roma para repensar sua interpretação das Escrituras, o movimento renascentista
desafiava outras tradições nas artes, na filosofia e na literatura. Logo, as novas confissões de fé
se fizeram necessárias não somente para reorientar a fé cristã, mas também para recolocar o
cristianismo de modo relevante nos tempos pós obscurantistas da era moderna que surgia.57
Conforme Carl Trueman (2012), a produção de documentos teológicos confessionais,
nos séculos XVI e XVII, teve basicamente dois impulsos: um teológico e outro político. Do
lado político, a religião estava intimamente ligada às questões territoriais das novas nações-
estados. Dependendo da posição teológica que um governante tomasse, fosse em direção a
alguma ala do protestantismo ou do catolicismo, isso tinha implicações diretas nas alianças
militares e políticas. Já do lado teológico, as novas igrejas precisavam identificar-se e se
posicionarem contra ao catolicismo e aos outros grupos emergentes. Sobre isso, João A. dos
Santos (2014) pontua que as confissões reformadas serviram não só para afirmar a ortodoxia
frente à Igreja Romana, mas também para dar voz e reunir, em diferentes denominações,
posições teológicas secundárias sobre as quais a Escritura não é totalmente clara. (p. 106).58
Entretanto, desses dois impulsos citados, Trueman destaca que somente o impulso político não
tem mais relevância efetiva para a igreja contemporânea (2012, p. 148).
Dentre as várias confissões produzidas no período da reforma protestante as que
continuam a desempenhar um papel significativo nas principais denominações do
protestantismo são: O Livro de concórdia (da Igreja Luterana), Os Artigos de religião (da Igreja
Anglicana), As Três Formas de Unidade (das Igrejas Reformadas), Os Padrões de Westminster
(da Igreja Presbiteriana), e a Confissão de Fé Batista de 1689. Logicamente essa lista não
representa todos ramos confessionais oriundos do protestantismo, mas pretende focar as
tradições centrais da reforma.

3.1 Os Artigos de religião da Igreja Anglicana

Diferente das demais reformas protestantes na Europa, as quais tiveram proeminentes


teólogos como pivôs, a reforma na Inglaterra começou bem diferente. O agente principal da
reforma anglicana foi o rompimento do rei Henrique VIII com o Papa, que havia indeferido o
pedido de anulação do casamento do rei com Catarina de Aragão (GONZALEZ, 2004. p. 182).
É verdade que o terreno da reforma da Igreja anglicana já havia sido preparado pelo trabalho

57
Cf. NOLL, Mark A. Confissões de Fé. Ibid. p. 336.
58
DOS SANTOS, João A. A igreja e sua confessionalidade. Fides reformata XIX. São Paulo, 2014.
32

de homens como João Wycliffe59 (1330 – 1384), de William Tyndale (1494-1536), tradutor do
Novo Testamento para o inglês, e do próprio Lutero que teve seus escritos amplamente lidos na
Inglaterra antes de 1521. Todavia, Gonzalez (2004) pontua que esses trabalhos de reforma não
teriam atingido a proporção que alcançaram sem o favorecimento político, ainda que indireto,
de Henrique VIII (p. 181).
Por consequência desse rompimento com Roma, em 1533, Henrique VIII nomeou
Tomás Cranmer, um teólogo inglês, como arcebispo de Cantuária, ou seja, o líder da Igreja
Anglicana. Mesmo subordinado ao rei, que em 1534, autodeclarou-se chefe supremo da igreja,
Cranmer iniciou timidamente alguns passos em direção a reforma. Roger Olson (2001) destaca
que, mesmo independente de Roma, a teologia da Igreja da Inglaterra continuou católica
durante o reinado de Henrique VIII. De modo que, o protestantismo só veio a florescer depois
de 1547, com a morte de Henrique e a sucessão do trono por seus filhos Eduardo VI e Elisabete
I. Com o total apoio do rei Eduardo e a ajuda de vários teólogos luteranos e reformados,
incluindo Martin Bucer de Estrasburgo, o arcebispo Cranmer conseguiu conduzir um poderoso
movimento de reforma na Inglaterra. No intuito de uniformizar o culto da igreja, em 1549,
Cranmer criou um manual litúrgico que, depois algumas revisões, veio a se chamar de “Livro
de Oração Comum” (OLSON, 2001, p. 442).60 Para Trueman (2012) o Livro de Oração Comum
da Igreja Anglicana constitui-se na maior obra litúrgica em língua inglesa. O trabalho de
Cranmer não se reduz a um confessionalismo estéril de um documento institucional, antes ele
procura alcançar a vida comum do povo anglicano mesclando o zelo doutrinário da reforma
com didática e adoração.
Uma das últimas contribuições do arcebispo Cranmer para a reforma inglesa foi a
composição de uma breve declaração doutrinária contendo quarenta e dois artigos, os quais
mais tarde serviu de base para os Trinta e Nove Artigos que a rainha Elizabeth e seu Parlamento
estabeleceram como a posição doutrinária da Igreja Anglicana.61
Visto que o parlamento inglês não era composto por protestantes totalmente
comprometidos com a reforma religiosa, a rainha conduziu o processo de revisão dos Artigos
de Religião da Igreja Anglicana de maneira a serem usados como um instrumento político que
pudesse assegurar a estabilidade política e religiosa do reino, abrangendo a maior parte possível

59
João Wycliffe foi um professor e teólogo inglês, considerado, junto com outros, precursor da reforma protestante
do séc. XVI.
60
Entre os reinados de Eduardo VI e Elizabete I, houve um período de cinco anos de volta ao catolicismo sob
Maria Tudor, a “sanguinária”. Nesse curto espaço de tempo, sob as ordens de Maria, Cranmer e mais de trezentos
clérigos e teólogos protestantes foram queimados na fogueira ou decapitados. Cranmer foi queimado
publicamente em 21 de março de 1556 (OLSON, 2001, p. 443).
61
NOLL, Mark A. Os Trinta e Nove Artigos. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja
Cristã. São Paulo - SP: Vida Nova, 2009. p. 577.
33

dos cristãos ingleses naquele período. Desse modo a reforma só avançava num ritmo
politicamente tolerável. O que deixou o tom confessional dos artigos de fé anglicanos menos
precisos e enfáticos do que em outras confissões da Reforma (TRUEMAN, 2012, p. 152).
Mesmo assim, Mark A. Noll defende o valor dos documentos confessionais da Igreja
Anglicana como sendo “moderados, agradáveis, bíblicos e completos como uma declaração de
teologia Reformada”. Porque rejeitam os mesmos ensinos e práticas que os reformadores
protestantes em geral condenaram na Igreja Católica. Os Artigos anglicanos, por exemplo,
negam as doutrinas católicas da transubstanciação, o sacrifício da Missa e a impecabilidade de
Maria.62 Os Trinta e Nove Artigos da Igreja Anglicana estão em harmonia com as posições
reformas a respeito da justificação pela graça, como se pode ver no Artigo 11:

“Somos reputados justos perante Deus, somente pelo mérito de nosso Senhor e
Salvador Jesus Cristo pela Fé, e não por nossos próprios merecidos e obras. Portanto,
é doutrina mui saudável e cheia de consolação que somos justificados somente pela
Fé, como se expõe mais amplamente na Homilia da Justificação.”63

Por fim, se faz necessário destacar como a confessionalidade da Igreja Anglicana, a


despeito de suas questões políticas, está conscientemente conectada a teologia credal da igreja
primitiva, considerando-se herdeira do legado confessional da igreja patrística e perpetuadora
do “modelo das sãs palavras” (TRUEMAN, 2012, p. 154). No Artigo 8 se diz que: “Os três
credos a saber: os Credos Niceno, Atanasiano e o que normalmente se chama Credo ou
“Símbolo dos Apóstolos” devem ser inteiramente recebidos e cridos; porque se podem provar
com autoridades inegáveis das Sagradas Escrituras”.64

3.2 O Livro de concórdia da Igreja Luterana

Os luteranos produziram bastantes documentos confessionais durante todo o século


XVI, mas em 1580 conferiram autoridade ao Livro de Concórdia como o escopo de todos os
símbolos fundamentais dos ensinos da igreja luterana. Esse documento surgiu do esforço de um
grupo de teólogos luteranos, príncipes, nobres e conselhos municipais que pretendiam
estabelecer uma unidade confessional entre eles, na Alemanha, Suécia, Hungria, Dinamarca e
Noruega. O livro compreende os escritos dos Credos dos Apóstolos, de Nicéia e de Atanásio, a
Confissão de Augsburgo (1530), a Apologia da Confissão de Augsburgo (1531), os Artigos de

62
Ibidem. p. 578.
63
Versão do artigo disponível em: < http://igrejaanglicana.com.br/os-39-artigos/>. Acesso em 26 de julho de 2018;
Cf. TRUEMAN, 2012, p. 153.
64
Os Trinta e Nove Artigos da Religião. Igreja anglicana, 2018. Disponível em: < http://igrejaanglicana.com.br/os-
39-artigos/>. Acesso em 26 de julho de 2018.
34

Esmalcalde (1537), o Tratado sobre o poder e o primado do Papa, os Catecismos Menor e Maior
de Lutero (1529) e a Fórmula da Concórdia (1577).65
É fato que as questões geopolíticas que motivaram a produção do Livro de Concórdia
não tenham mais aplicabilidade para hoje, mas certamente esse combo confessional permanece
como padrão de identidade dos luteranos, mesmo que, de uma denominação para outra, existam
variações de aplicação do seu conteúdo doutrinário (TRUEMAN, 2012, p. 156).
Embora o luteranismo seja uma vertente protestante distinta, contrastando de modo
radical com calvinistas e zuinglianos na questão da presença de Cristo na eucaristia, é
interessante como os luteranos tem consciência de sua conexão com a tradição da igreja
primitiva ao incluir em seus padrões de fé os três credos ecumênicos. Os luteranos nos provam
por meio do Livro de Concórdia que é possível conciliar desenvolvimento teológico com
tradição; de modo que se possa corresponder às demandas culturais vigentes, sem negociar o
Evangelho, negar as suas raízes históricas e perder a sua identidade. Torna-se injustificável que
em nome de uma pretensa relevância e contextualização se abra mão de tesouros tão
inestimáveis, legados pela tradição cristã como os credos e as confissões (TRUEMAN, 2012,
p. 158).

3.3 As três formas de unidade das Igrejas Reformadas

As chamadas Três Formas de Unidade são um conjunto de documentos composto pela


Confissão Belga (1561), o Catecismo de Heidelberg (1563) e os Cânones de Dort (1619) que
formaram o padrão confessional dos cristãos reformados dos Países Baixos (atualmente
Holanda e Bélgica). E que ainda hoje é norteadora de identidade doutrinária para os membros
da Igreja Reformada na América do Norte. Como é o caso das seguintes denominações: a Igreja
Reformada na América – RCA, a Igreja Cristã Reformada – CRC e a Igreja Reformada Unida
– URCNA.66

3.3.1 A Confissão Belga

A Confissão Belga foi composta em 1561, pelo protestante francês Guido de Brès (1522
– 1567), martirizado em 1567 por causa de sua fé. Seu trabalho tinha a pretensão de conseguir

65
PREUS, R. D. Livro da Concórdia. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã.
São Paulo - SP: Vida Nova, 2009. p. 321-322.
66
ENGEN, J. Van. In: Ibidem, p. 330.
35

a tolerância do rei Felipe II da Espanha para os cristãos reformados nos Países Baixos, provando
que eles não eram rebeldes, mas cidadãos obedientes às leis do governo e fieis às doutrinas
bíblicas. Desse modo, também procurou distinguir sua comunidade da reforma radical
sustentada pelo movimento anabatista que defendia uma completa separação de Estado e Igreja.
Embora Guido de Brès não tenha alcançado êxito no seu pedido de tolerância para as
autoridades da Espanha, a Confissão Belga foi largamente recebida pelos cristãos holandeses
como um padrão doutrinário ao qual todas as igrejas reformadas deveriam subscrever (BEEKE,
2006, p. 7).67

3.3.2 O Catecismo de Heidelberg

O catecismo de Heidelberg foi escrito em 1563 na cidade de Heidelberg (Alemanha) por


Zacarias Ursino (1534-1583), teólogo da Universidade de Heidelberg, e por Gaspar Oleviano
(1536 – 1587), um pregador da corte, ambos designados pelo príncipe Frederico III, adepto da
teologia reformada.68 Esse catecismo surgiu do esforço de Frederico III para harmonizar
reformados e luteranos69 e ao mesmo tempo reformar o culto nas igrejas da região do
Palatinado. De maneira que esse documento confessional pudesse ser usado como manual
pedagógico tanto pelas escolas, para instrução dos jovens e crianças, quanto pelos pastores na
suas pregações e liturgia das igrejas.
Robert Schnucker70 faz uma ressalva acerca do Catecismo de Heidelberg que é de suma
importância para o debate sobre a relevância do uso de credos e confissões para a unidade da
igreja na atualidade, quando destaca que esse documento “embora tenha nascido em meio à
controvérsia teológica, é pacífico no seu espirito, moderado no seu tom, devocional e prático
na sua atitude. Esboça teologia reformada segundo as ordens de Frederico III, mas ideias
luteranas não foram ofendidas” (2009, p. 247). O Catecismo de Heidelberg mostra que é
possível ser profundamente confessional e ao mesmo tempo preservar a unidade da igreja. É
uma prova histórica de que credos e confissões devem ser usados, sobretudo, como
instrumentos da graça de Deus que possam manter os cristãos unidos em torno da verdade
(TRUEMAN, 2012, p. 164). Outra prova do intuito unificador desse catecismo, percebe-se na

67
BEEKE, Joel R. Harmonia das confissões de Fé Reformadas. São Paulo – SP: Cultura Cristã, 2006.
68
SCHNUCKER, Robert V. Catecismo de Heidelberg. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica
da Igreja Cristã. São Paulo - SP: Vida Nova, 2009. p. 247.
69
Ver a respeito da disputa teológica entre os reformados (calvinistas) e luteranos em: ALEXANDRINO, Alan R.
A doutrina Cristologica do Extra Calvinisticum. Teologia brasileira, 2014. Disponível em: <
http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=370>. Acesso em: 16 de agosto de 2018.
70
Ibidem. p. 247.
36

exposição do Credo dos Apóstolos nas respostas às perguntas 22 e 23, fornecendo para os
cristãos reformados um senso de pertencimento legítimo para com à fé dos Pais apostólicos.71

3.3.3 Os Cânones de Dort

Os Cânones de Dort são declarações doutrinárias resultantes do julgamento de um


sínodo das igrejas reformadas da Holanda, realizado na cidade de Dordrecht entre 1618 a 1619.
Esse sínodo propôs responder as questões teológicas da declaração de fé conhecida como The
Remonstrance (A Representação), levantadas pelos seguidores de Jacob Armínio (1560 –
1609), teólogo da Universidade de Leiden (ANGLADA, 2000, p. 4).72 O arminianismo
discutido pelo Sínodo de Dort, resume-se em cinco proposições teológicas: eleição condicional,
expiação universal, livre-arbítrio, graça resistível e possibilidade de cair da graça. Depois de
dois anos de discussões, o sínodo rejeitou as doutrinas arminianas e reafirmou o que consideram
ser a verdadeira doutrina reformada. O resumo do contraposto teológico do Sínodo de Dort ao
arminianismo ficou conhecido como os Cinco Pontos do Calvinismo: A eleição incondicional,
expiação limitada, depravação total, graça irresistível e perseverança dos santos (ANGLADA,
2000, p. 8). Os cânones de Dort constitui-se de 59 artigos e 34 rejeições de erros. Eles se limitam
à doutrina da soteriologia, foco da discussão, mas junto com a Confissão Belga e o Catecismo
de Heidelberg formam um conjunto confessional harmônico, que foram aceitos e assinados por
uma assembleia eclesiástica de caráter internacional, composta por 62 delegados holandeses e
27 estrangeiros representado 8 países (BEEKE, 2006, p. 9-10).73

3.4 Os Padrões de Westminster

Os Padrões de Westminster compõem-se de três símbolos de fé, a saber: os Catecismos


Breve e Maior e a Confissão de Fé de Westminster. Juntos eles formam o padrão confessional
das Igrejas presbiterianas no mundo (TRUEMAN, 2012, p. 169).
Esses padrões foram preparados por uma assembleia de cento e vinte e um teólogos
reunidos na Abadia de Westminster junto com outros trinta representantes do Parlamento e oito
representantes da Escócia. Esta assembleia foi convocada pelo Parlamento Inglês, em 12 de
junho de 1643, com o propósito de revisar o anglicanismo em sua confissão de fé e liturgia.

71
Versão do Catecismo de Heidelberg disponível em: As Três Formas de Unidade das Igrejas Reformadas. Recife
– PE: CLIRE, 2009. p. 57.
72
ANGLADA, Paulo. Calvinismo: As antigas doutrinas da graça. 2. ed. Recife – PE: Os Puritanos, 2000.
73
BEEKE, Joel R. Harmonia das confissões de Fé Reformadas. São Paulo – SP: Cultura Cristã, 2006. p. 9-10.
37

Haviam práticas no culto da Igreja Anglicana que ainda eram tidas como ranços do catolicismo
romano, como por exemplo, ajoelhar-se no momento da eucaristia (TRUEMAN, 2012, p. 170).
No entanto, o que se produziu, depois de quase seis anos de reunião, foram outros documentos
confessionais, a Confissão de Fé e os Catecismo Breve e Maior de Westminster. Dentre as
posições eclesiológicas representadas pelos delegados, como a erastiana, episcopal e
congregacional, a que ficou definida foi a forma de governo presbiteriana (ANGLADA, 2013,
p. 215). Quanto à doutrina, os padrões de fé adotados pela Assembleia de Westminster
rejeitaram claramente as posições arminianas, sectaristas e católico-romanas. Devido às
questões políticas envolvidas, não houve uma adesão permanente da Igreja Anglicana às
definições teológicas desta assembleia, mas as igrejas presbiterianas, bem como, as
congregacionais e batistas calvinistas em vários países seguiram adotando e orientando seus
ensinos pela Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster (TRUEMAN, 2012, p. 171). A
exemplo disso, em 1658, a Convenção Congregacional, reunida em Savoy, baseou a sua própria
confissão, a Declaração de Savoy,74 nos padrões definidos pela Assembleia de Westminster,
distinguindo-se somente quanto a forma de governo congregacional da igreja (HODGE, 2001,
p. 167).75 Outro ramo do protestantismo reformado que também assimilou o entendimento
doutrinário da Assembleia de Westminster foram as igrejas batistas particulares76 da Inglaterra
e do País de Gales, através da Confissão Batista de 1689 77. Esta confissão batista, de fato,
constitui-se numa ligeira adaptação da Confissão de Westminster adaptada às questões batistas,
principalmente as relacionadas ao batismo e à forma de governo eclesiástico (ANGLADA,
2013, p. 217).
Conforme Trueman (2012) ressalta, é notável como os Padrões de Westminster não se
resume ao mero intelectualismo dos teólogos, mas pretendem ir além do ambiente acadêmico e
alcançar o cotidiano da vida cristã com incrível zelo pastoral. Ao ler-se o capítulo 15.5-6 da

74
A Declaração de Savoy foi um padrão doutrinário elaborado em 1658 por uma assembleia de cerca de duzentos
delegados de cento e vinte diferentes congregações, reunidos no palácio de Savoy, Londres, Inglaterra. Tal
evento foi uma iniciativa do Lorde Oliver Cromwell e especialmente desejado pelos adeptos do
Congregacionalismo, os quais desejavam uma oportunidade pública de defenderem-se das acusações de cisma e
novidade teológica. Foram eleitos seis teólogos como representantes para compor a comissão de redação da obra:
Thomas Goodwin, John Owen, Philip Nye, William Bridge, Joseph Caryk e William Greenhil. Com exceção de
Owen, todos os outros também haviam sido membros da Assembleia de Westminster (MOREIRA, Ademir. O
que é a Declaração de Savoy. Iprbsp. Disponível em: < https://iprbsp.com/confessionalidade/declaracao-de-
savoy/.> acesso em: 22 de agosto de 2018).
75
Cf. HODGE, A. A. Esboços de Teologia. São Paulo – SP: PES, 2001. p. 167.
76
O designativo “batista particular” foi usado para distinguir os batistas de linha calvinista dos batistas gerais, de
orientação arminiana e também dos anabatistas (Confissão de fé batista de Londres de 1677/1689. The
Reformedreader. Disponível em: < http://www.reformedreader.org/ccc/1689lbc/portuguese/1689LBC.htm>.
Acesso em 22 de agosto de 2018.
77
A Confissão Batista de 1689 na verdade foi escrita em 1677, mas só foi endossada em 1689, devido à perseguição
que sofreram (ANGLADA, 2013, p. 216).
38

Confissão de Fé de Westminster é impossível negar que não se tem ali nenhuma relevância
prática para a vida do crente comum de fé simples que, como qualquer cristão, precisa deixar
aquela generalização preguiçosa e ser mais precisos na busca pela santificação (p. 174):

V. Os homens não devem se contentar com um arrependimento geral, mas é dever de


todos procurar arrepender-se particularmente de cada um dos seus pecados. VI. Como
todo o homem é obrigado a fazer a Deus confissão particular das suas faltas, pedindo-
lhe o perdão delas, fazendo o que, achará misericórdia, se deixar os seus pecados,
assim também aquele que escandaliza a seu irmão ou a Igreja de Cristo, deve estar
pronto, por uma confissão particular ou pública do seu pecado e do pesar que por ele
sente, a declarar o seu arrependimento aos que estão ofendidos; isto feito, estes devem
reconciliar-se com ele e recebê-lo em amor.78

Desse modo, a confessionalidade não se relaciona apenas com um sistema de crenças e


formulações teológicas abstratas. Os credos e as confissões também têm a ver com a vida prática
das pessoas, justamente porque procuram conduzi-las a um estilo de vida que se conforme com
o ideal de Deus, revelado nas Sagradas Escrituras. Logo, a relevância contemporânea dos
Símbolos de Fé de Westminster, adotados principalmente pelas igrejas presbiterianas, é
perfeitamente justificável, sobretudo, porque relacionam doutrina e vida, crer e pertencer
(TRUEMAN, 2012, p. 175).

78
A Confissão de Fé de Westminster. In: BÍBLIA, Português. Bíblia de Estudo de Genebra. 2ª edição, revisada e
ampliada. São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2009. p. 1794.
39

4 O VALOR DA CONFESSIONALIDADE PARA A IGREJA


CONTEMPORÂNEA

A defesa da relevância dos credos e das confissões reformadas para a igreja


contemporânea não é mero saudosismo de teólogo conservador, que objetiva congelar o
passado e impedir o progresso da reflexão teológica.
A confessionalidade, que foi legada pelos pais apostólicos e pelos reformadores
protestantes, constitui-se em um grande desafio e estímulo para a igreja hodierna, pois assim
como eles lutaram zelosamente contra os erros de seu tempo, os cristãos de hoje também são
responsáveis por pensar, refletir e oferecer respostas bíblicas para as questões urgentes que a
sociedade atual tem enfrentado. Por exemplo, como a igreja confessional, herdeira da reforma
protestante e da patrística, deve se posicionar diante das demandas do mundo pós-moderno?

4.1 O problema da pós-modernidade

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925–2017), estamos experimentando


no século XXI, um fenômeno extremamente confuso e individualista, classificado por ele, como
“modernidade líquida”, onde os indivíduos não possuem mais referenciais, nem códigos sociais
e culturais que lhes possibilitem construir suas vidas dentro de certos padrões (2000, apud
MELCHIOR, 2009, p. 1).79
Sobre os reflexos desse novo fenômeno social na experiencia religiosa, Melchior (2009,
p. 5) analisa que para essa sociedade atual “o importante é não ter amarras, não se aprisionar a
nada. Se, no passado, o estabelecimento de Deus e seu senhorio no universo resultavam no
estabelecimento de verdades absolutas e um papel periférico ao homem, agora não existem
absolutos. Tudo é muito provisório, relativo”.80 Como consequência desse relativismo, as
pessoas desse tempo “líquido” não seguem um padrão fixo, valorizam a diversidade; são ávidas
pelo novo, estão abertas, dispostas a quebrar paradigmas; não negam a Deus, desde que este
lhes sirvam de resposta imediata às suas necessidade e desejos; adotaram uma racionalidade
pragmática que busca experimentar todas as possibilidades (MELCHIOR, 2009, p. 2).81

79
MELCHIOR, Marcelo do Nascimento. A religião pós-moderna em Zygmunt Bauman. XI Simpósio Nacional
da Associação Brasileira de História das Religiões, UFG – Campus II: Goiânia-GO, 2009.
80
Ibidem, p. 5.
81
Ibid. p.2.
40

A proposta de Brian McLaren (2004)82, adotada pelo movimento da “Igreja


Emergente”83, é que para poder alcançar a nova geração, a igreja precisa adquirir uma
linguagem nova, que se adapte ao modo pós-moderno de pensar. Ela precisa abrir mão de
qualquer tipo de forma pré-estabelecida que sugira um dogma comum (apud MEISTER, 2006,
p.99).84 Assim, a estratégia principal de atração usada pelos emergentes para atrair a sociedade
atual é promover um ambiente profundamente religioso, mas que, ao mesmo tempo, aceite as
diferenças e não exija afirmação de absolutos (MEISTER, 2006, p. 104).
Todavia, essa sugestão pragmática de lidar com a pluralismo religioso e com o
relativismo moral do pós-modernismo não corresponde com o “modelo das sãs palavras” (2Tm
1:13) entregue pelo apóstolo Paulo. Certamente, tomar a forma da era presente não é a melhor
maneira de posicionar a igreja cristã nessa pós-modernidade (Rm 12:2). Conforme Ronaldo
Lidório, o desafio da contextualização bíblica é trabalhar com a cultura, mas sem negociar a
verdade absoluta do Evangelho de Deus (Rm 1:1).

O Evangelho é supracultural, pois define e explica a cultura, não o contrário; cultural,


por ter sido revelado à humanidade em seu próprio contexto e história; intercultural,
por juntar ao redor de Jesus pessoas de todos os povos; multicultural, ao ser destinado
a todos os povos e línguas; transcultural, quando transmitido de uma cultura a outra;
e contracultural, pois sempre confronta o homem em sua própria cultura. (LIDÓRIO,
2007, p. 33).85

4.2 Valor teológico e doutrinário

Conforme Paulo Anglada, inevitavelmente todos cristãos possuem um credo. A questão


real é qual o tipo e a coerência teológica de tal credo. Ele entende que:

“o processo de interpretação e compreensão das Escrituras como um todo


naturalmente conduz à sistematização da revelação bíblica. Consciente ou
inconscientemente, a mente humana sistematiza essas verdades tematicamente
procurando formar um todo consistente. Assim, inevitavelmente, cada pessoa tem um

82
Cf. Edição em português do livro “A Generous Orthodoxy” em: MCLAREN, Brian. Uma Ortodoxia Generosa.
Brasília – DF: Palavra, 2007.
83
Segundo Marcos Granconato: “É muito difícil encerrar esse movimento numa definição, pois as diversas igrejas
associadas a ele têm diferentes ênfases e variadas maneiras de expressão, todas se apresentando como
comunidades cristãs emergentes. Porém, um conceito genérico talvez seja possível nos seguintes termos: igrejas
emergentes são igrejas pós-modernas engajadas na busca de formas práticas de funcionamento que sejam
aceitáveis e atraentes para os homens de hoje” (GRANCONATO, Marcos. Igrejas Emergentes. Igreja Redenção.
Disponível em: < http://igrejaredencao.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=421:igrejas-
emergentes-parte-1&catid=25:artigos&Itemid=123#.W4fmbuhKjIU>. Acesso em 30 de agosto de 2018).
84
MEISTER, Mauro. Igreja Emergente, A Igreja do Pós-Modernismo? Uma Avaliação Provisória. Fides
Reformata XI, São Paulo, 2006. p. 95-112.
85
LIDORIO, Ronaldo. Plantando Igrejas. São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2007.
41

credo e revela-o ao orar, ao anunciar o evangelho e na sua própria vida diária.”


(ANGLADA, 2013. p.22-23).

Outra questão a ser levantada é que não existe imparcialidade total nesse processo.
Alguns alegam que abrir mão de credos e confissões de fé é “pensar fora da caixa”, todavia a
neutralidade do pensamento é um mito86. Segundo David Naugle (2017), “ninguém é uma ilha
interpretativa existindo de forma independente como uma entidade hermenêutica puramente
racional”. Todos possuem pressupostos ocultos, assimilados da cultura ao longo da vida, por
meio dos quais leem a realidade a sua volta, incluindo até mesmo a simples leitura que se faz
da bíblia. É preciso estar consciente dos vícios e influências externas que acompanham o leitor
da Palavra de Deus. Sobre isso, Gordon Fee alerta que:

“...levamos para o texto tudo quanto somos, com todas as nossas experiências, cultura
e entendimento prévio de palavras e ideias. Às vezes, aquilo que levamos para o texto
nos desencaminha ou nos leva a atribuir ao texto ideias que lhe são estranhas, mesmo
quando isso não é a nossa intenção.” (2011, p. 25).87

Portanto, considerando a guerra ideológica que o cristianismo enfrenta na sociedade


pós-moderna, se recusarem a ortodoxia, dos credos e das confissões, elaborada e definida
paulatinamente na história da igreja cristã, cada um estará sujeito a ter que produzir as suas
próprias definições de fé, sem ajuda, apelando somente para a sabedoria de si mesmo (HODGE,
2001, p. 147).88 O ato de depreciar os credos significa deixar de usufruir as contribuições dos
servos de Deus do passado referentes à compreensão bíblica. “É uma negação prática da direção
que no passado deu o Espírito Santo à Igreja.” (COSTA, 2002, p.70). De modo que, negar a
relevância dos credos e das confissões para a igreja contemporânea é o mesmo que abandonar
um navio sem âncora em um mar tempestuoso. Segundo James Orr (1988): “Esses credos não
são produtos ressecados como o pó, senão que surgiram de uma fé viva e encerram verdades
que nenhuma igreja pode abandonar sem certo detrimento de sua própria vida” (apud COSTA,
2002, p. 75)89
Logo, é preciso crer na providência de Deus, que nos proveu uma igreja histórica, cuja
tradição nos serve de parâmetro para compreender os ensinamentos de sua Palavra.
(TRUEMAN, 2012, 176). Assim como os reformadores reconheceram o valor da herança
teológica da igreja primitiva, lançando mão dos credos na luta contra os desvios de sua época,

86
Cf. PIMENTEL, Vinicius S. Herman Dooyeweerd e o mito da neutralidade científica. Fórum Nordestino de
Cosmovisão Cristã. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=BDFCuNwg3CY>. Acesso em 8 de
setembro de 2018.
87
FEE, Gordon D. Entendes o que lês? Um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica.
3. ed. São Paulo – SP: Vida Nova, 2011. p. 25.
88
Cf. HODGE, A. A. Esboços de Teologia. São Paulo – SP: PES, 2001. p. 147.
89
ORR, James. El Progreso del Dogma. Barcelona: CLIE, 1988. p. 226-227.
42

a igreja contemporânea também precisa recorrer ao conteúdo dos credos e das confissões
reformadas para fazer frente aos ataques da era presente. Conforme Alister McGrath (2007, p.
109) entende:

“Esses documentos, como, por exemplo, os credos Apostólico e Niceno, eram


considerados pelos reformadores magistrais como representativos do consenso da
igreja primitiva, bem como interpretações precisas e autorizadas das Escrituras.
Embora devessem ser tidos como derivados ou secundários em termos de autoridade,
eram vistos como um importante dispositivo de controle no combate ao
individualismo da reforma radical”.

Desse modo, o pós-modernismo não torna os credos e confissões reformadas


irrelevantes, mas necessários. Porque, é justamente num tempo de tanta confusão e indefinição
teológica que os cristãos precisam afirmar de forma objetiva o conteúdo de sua fé. A igreja
contemporânea precisa voltar a fazer uso de sua confessionalidade histórica para enfrentar o
subjetivismo extremo desta geração pós-moderna, pois a verdade bíblica confessada no passado
não deixou de ser verdade hoje, ela é supracultural (CAMPOS, 1997, p. 103).
Um exemplo de defesa e reconhecimento da relevância da confessionalidade histórica
para a igreja na atualidade é o caso da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do
Brasil (AIECB)90, que em seu 57º Concílio Nacional, reunido entre 24 a 28 de março de 2014,
na cidade de Garanhuns – PE, aprovou, por unanimidade, a confissão de fé dos congregacionais
da Aliança, baseada no texto da Declaração de Savoy (1658).91 O pastor Aurivan Marinho,
então presidente da AIECB na época, justificou que um dos principais motivos que os
conduziram a adotar uma confissão de fé fora o interesse pela solidez da identidade doutrinária
de suas igrejas e pastores.

Percebíamos claramente o quanto denominações como a nossa encontravam-se


expostas aos cismas, ao pluralismo e ao pragmatismo religioso da cultura vigente.
Dentre as muitas ações que empreendíamos com esse fim, uma delas defendia o
retorno às origens históricas do Congregacionalismo, considerando o legado da
Reforma Protestante e dos puritanos ingleses (2015, p. 13).92

Para Aurivan Marinho (2015), os credos e as confissões são o caminho mais apropriado
para um grupo de igrejas expressarem sua unidade. Ele postula que é um grande engano pensar
que pode existir unidade em meio a uma “babel doutrinária”. Ele argumenta que: primeiro, ser
confessional corrobora com o ideal bíblico que a igreja tem de ser coluna e baluarte da verdade

90
A Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB) é uma ala expressiva do
congregacionalismo brasileiro que conta com 91 igrejas, localizadas na sua maioria nos estados nordestinos do
país (ver sítio disponível em: < http://www.aliancacongregacional.org.br/historico/>. Acesso em 27 de agosto de
2018).
91
Confissão de Fé Congregacional: Declaração de Fé das Igrejas Evangélicas Congregacionais. Recife – PE:
Aliança Editora, 2015. p. 11.
92
Ibidem, p. 13.
43

(1Tm 3:15); segundo, com a responsabilidade que os crentes têm de dar a razão de sua fé e de
lutarem contra os padrões de uma cultura marcada pela apostasia (1Tm 4:1); e terceiro, entende-
se que a sistematização da fé pode gerar um interesse maior, por parte dos membros de suas
igrejas, pelo estudo das Escrituras, livrando-os, dessa maneira, daquela corriqueira
interpretação subjetivista e superficial, alienada pela experiencia pessoal de cada um (p. 15).93

4.3 Valor devocional

Está claro que uma identidade doutrinária bem definida, por meio dos credos e das
confissões, continua servindo de base para a apologética e a pedagogia da igreja, mantendo-a
unida e firme contra os perigos das falsas doutrinas. No entanto, há algo mais que se pode
experimentar da instrumentalidade dos credos e das confissões na atualidade. No primeiro
momento, a ideia de credos e confissões pode soar como um intelectualismo exagerado para o
cristão comum, de fé simples. Entretanto, o uso doxológico deles será extremamente importante
para que, qualquer cristão, douto ou indouto, possa viver uma espiritualidade rica, que vá além
da dimensão intelectual, que equilibre busca e zelo pela verdade com devoção cristã
(TRUEMAN, 2012, p. 181-182). Tim Keller corrobora esse entendimento quando afirma que
o uso de catecismos no processo de discipulado moderno pode conduzir a “um perfeito
equilíbrio entre teologia bíblica, ética prática e experiência espiritual”; segundo afirma, esse
método continua sendo útil para o culto doméstico e a instrução dos neófitos, pois a didática de
fazer perguntas e respostas guia mestres e aprendizes num processo naturalmente interativo e
dialógico de assimilação do conteúdo; e mais, Keller defende ainda que: “devido à riqueza do
material, as perguntas e respostas catequéticas podem ser integradas ao próprio culto público,
em que a Igreja, como corpo, confessa sua fé e responde a Deus com louvor.” (2017, p. 8).94
O texto de Filipenses 2:10-11 é uma referência precisa que aponta para a ideia de que
confessionalidade e adoração são elementos inseparáveis do culto a Deus: “... para que ao nome
de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que
Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai.”.95
Percebe-se que a crítica de formalismo estéril inerente aos credos e às confissões não é
justa com a doxologia que está latente no propósito principal desses documentos confessionais.

93
Ibid. p. 15.
94
KELLER, Tim. In: HANSEN, Collin (Org.). Devocional do catecismo nova cidade: a verdade de Deus para
nossos corações e mentes. São José dos Campos – SP: Fiel, 2017. p. 8.
95
Bíblia Sagrada. Traduzida por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. Barueri – SP:
SBB, 2011.
44

É interessante como a primeira pergunta dos Catecismos Breve e Maior de Westminster é


emblemática no sentido de constitui-se como uma moldura que pretende segurar todo o corpo
do documento dentro de uma proposta de louvor e adoração. Ao mesmo tempo em que indica
que “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.”, o catecismo se
apresenta como uma ferramenta teológica útil que pode conduzi-lo para esse fim, a partir da
Palavra de Deus.96
A partir da análise do Didaquê, Carl Trueman (2012, p. 187) conclui que “o aspecto
litúrgico dos credos e das confissões é evidente na igreja primitiva”, de modo que suas
declarações doutrinárias não devem ser tratadas em detrimento de sua doxologia.

Nós te agradecemos, Pai santo, por teu santo nome que fizeste habitar em nossos
corações e pelo conhecimento, pela fé e imortalidade que nos revelaste através do teu
servo Jesus. A ti, glória para sempre. Tu, Senhor onipotente, criaste todas as coisas
por causa do teu nome e deste aos homens o prazer do alimento e da bebida, para que
te agradeçam. A nós, porém, deste uma comida e uma bebida espirituais e uma vida
eterna através do teu servo. Antes de tudo, te agradecemos porque és poderoso. A ti,
glória para sempre. Lembra-te, Senhor, da tua Igreja, livrando-a de todo o mal e
aperfeiçoando-a no teu amor. Reúne dos quatro ventos esta Igreja santificada para o
teu Reino que lhe preparaste, porque teu é o poder e a glória para sempre. Que a tua
graça venha e este mundo passe. Hosana ao Deus de Davi. Venha quem é fiel,
converta-se quem é infiel. Maranatha. Amém.97

Essa declaração litúrgica, no capítulo dez do Didaquê, propõe uma oração de ação de
graças para Deus repleta de fundamentos teológicos da história da redenção. Nela Deus é
exaltado como o criador, o sustentador, o salvador, o protetor, o todo-poderoso. Ou seja,
confissão de fé e louvor acontecem simultaneamente no Didaquê. O que se configura em mais
uma prova contundente da história da igreja que mostra o quanto essa característica devocional
dos credos e das confissões pode ser relevante para a igreja contemporânea, no sentido de
promover uma experiencia de fé mais integral, sem dualismo, que conduza a mente para a
verdade e entregue o coração para Deus (TRUEMAN, 2012, p. 188).

96
O Breve Catecismo de Westminster. 6. ed. Cambuci – SP: Cultura Cristã, 2001; Confissão de Fé e Catecismo
Maior da Igreja Presbiteriana. 10. ed. Cambuci – SP: Cultura Cristã, 1987. p. 63.
97
Didaquê: A Instrução dos Doze Apóstolos. Capítulo X. Disponível em:
<http://www.monergismo.com/textos/credos/didaque.htm>. acesso em 6 de setembro de 2018.
45

CONCLUSÃO

A problematização do tema do presente trabalho estabeleceu, ao longo da pesquisa, uma


proposta de despertamento da igreja contemporânea para o resgate do valor de sua
confessionalidade histórica.
Esta pesquisa possibilitou uma análise panorâmica do desenvolvimento dos credos
ecumênicos e das confissões reformadas na história do pensamento cristão, identificando
fatores geradores que os impulsionaram e justificam sua importância dentro do contexto
histórico da igreja na era da patrística (do séc. I ao IV séc.), na reforma protestante do século
XVI e depois seus desdobramentos nas igrejas reformadas do século XVII até os dias atuais.
Com isso, através dos dados obtidos pela revisão bibliográfica, pôde-se perceber quais
os fundamentos históricos, bíblicos e teológicos que sustentam a confessionalidade da igreja
cristã por meio da elaboração de credos e confissões.
Viu-se o quanto esses documentos confessionais, como reflexos fiéis do “modelo das
sãs palavras”, podem ser úteis para conservação da ortodoxia, da unidade e da identidade cristã
diante de tanta confusão e superficialidade doutrinária por que passa o evangelicalismo na pós-
modernidade.
Por fim, além do aspecto de rigor acadêmico e intelectual, demonstrou-se o quão
espiritual e devocional os Credos e as Confissões reformadas podem ser. Ao oferecer um
modelo de adoração robusta, madura e, sobretudo, bíblica, esses antigos Símbolos de fé
continuam com o potencial de encorajar e desafiar a igreja para desenvolver uma vida cristã
que verdadeiramente glorifique a Deus, tanto no contexto do culto público quanto no ambiente
da devoção individual e familiar de cada cristão.
Devido a amplitude dos eventos históricos, que circundam o desenvolvimento dos
credos, das confissões reformadas e do próprio conteúdo de cada um deles, em especial, não é
possível esgotar o tema em uma única pesquisa. De modo que este trabalho foi apenas uma base
introdutória que serviu de motivação para que outras pesquisas de aprofundamento e
especialização na área da teologia histórica sejam iniciadas.
46

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ANGLADA, Paulo Roberto B. Sola Scriptura – A doutrina reformada das Escrituras. 2.


ed. Ananindeua: Knox Publicações, 2013.
BEEKE, Joel R; FERGUSON, Sinclair B. Harmonia das confissões de fé reformadas. São
Paulo – SP: Cultura Cristã, 2006.
CAMPOS, H. C. A relevância dos credos e confissões. Fides Reformata, São Paulo, v. 2, n.
2, 1997, p. 97-128.
CHAMPLIN, Russell N. Enciclopédia de bíblia teologia e filosofia. Vol. 1. São Paulo – SP:
Hagnos, 2002.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Eu creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo. São Paulo
– SP: Edições Parakletos, 2002.
ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo – SP:
Vida Nova, 2009.
FERREIRA, Franklin. O credo dos apóstolos: as doutrinas centrais da fé cristã. São José
dos Campos – SP: Fiel, 2015.
GONZALEZ, Justo L. Uma história do pensamento cristão. vol. 1. São Paulo - SP: Cultura
Cristã, 2004.
HODGE, A. A. Confissão de Fé de Westminster Comentada. 2. ed. Recife – PE: Editora Os
Puritanos, 1999.
HORTON, Michael. Creio: redescobrindo o alicerce espiritual. São Paulo – SP: Editora
Cultura Cristã, 2000.
MCGRATH, Alister E. Teologia Histórica. 1. ed. São Paulo – SP: Casa Editora Presbiteriana,
2007.
SILVA, Hélio O. As confissões reformadas. Disponível em:
<http://www.monergismo.com/textos/credos/confissoes-reformadas_helio.pdf>. Acesso em:
21 fev. 18.
TRUEMAN, Carl R. O imperativo confessional. Brasília – DF: Editora Monergismo, 2012.