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Correção Fraterna,

em Santo Tomás de Aquino.


Apresentação

Este artigo foi elaborado baseado em alguns capítulos da Suma


Teológica citados na referência¹ no final deste, desenvolvido através de
um livro que reúne 3 temáticas² diferentes baseado na Suma e conta
com inúmeras indagações objeções levantadas pelo próprio Santo
Tomás e respondidas pelo próprio também, aqui englobaremos
algumas destas perguntas em uma linguagem de fácil compreensão e a
respectiva resposta de Santo Tomás sobre, assim como algumas
explicações importantes relativas ao tema.

A metodologia que Santo Tomás utilizava para elaborar tais artigos era
muito comum nas Universidades Medievais da época, basicamente
neste método, Tomás inicia com pergunta [questão] e a desenvolve em
artigos. Cada questão disputada pode conter diversos artigos. Cada
artigo considera uma parte da questão, mediante a uma pergunta e
está composto por argumentos prós e contras e uma conclusão, onde
aparece a resposta do autor à pergunta elaborada na forma de artigo
que, por sua vez, compõe a questão. Em cada artigo Tomás procede da
seguinte maneira: ante à pergunta proposta num artigo da questão, ele
a afirma ou nega, expondo em contrário a diversos argumentos. Em
seguida, toma um ou mais argumentos fortes contrários a estes
diversos raciocínios que se seguiram na pergunta inicial. E então, logo
depois destes argumentos que contradizem os anteriores, ele inicia em
conformidade com o que pretende demostrar, uma resposta, onde
escreve no corpo do artigo, uma conclusão-resposta à pergunta feita
inicialmente e termina esclarecendo as dificuldades ou contradições
dos primeiros argumentos expostos.

Para Santo Tomás, existem 2 tipos de correções que são de ofício aos
seus respectivos encarregados de aplica-las, uma é a correção coativa
e a outra a correção caritativa. A diferença entre as 2, além do seu
contexto, é do ofício de quem está encarregado de aplica-las, a primeira
é de ofício(dever) dos superiores aplica-las, pois é uma imposição,
portanto somente os clérigos e prelados podem assim impor para
alguém que faça parte do Corpo Místico de Cristo(Igreja), são as
correções exemplo que implicam numa pena, que chamamos de penas
canônicas ou eclesiásticas, segundo o Prof. Dr. Liyoiti Matsunaga e
Conforme o cânone 1312,8 § 1º e § 2º do CIC/1983, as penas podem
ser medicinais (ou censuras) e penas expiatórias. A excomunhão, o
interdito e a suspensão (cânones 1331 a 1333 do CIC/1983) são
considerados as mais graves censuras e têm como objetivo medicinal
fazer o indivíduo retroceder de sua conduta delituosa. Já o segundo
tipo de correção, a caritativa, como afirma Santo Tomás é ofício de
todos independentes do encargo na Igreja, cumpri-la.

Este artigo encontrará as justas aplicações da correção fraterna, como


também as injustas. Pois, como afirma o Doutor Angélico, que “a ordem
da correção fraterna cai sobre o preceito, como também a própria
correção fraterna, todavia respeitada a discrição em ambos os casos, de
modo que o devido lugar, o tempo e outras devidas circunstâncias e
condições sejam observados como pessoas, locais, causas e ocasiões.
Tudo se faça conforme que seja útil à emenda do irmão, que é o
fim e a regra da correção fraterna.”.

Ou seja, aqui já temos um objetivo, a regra e finalidade sob


determinadas circunstâncias de tempo, lugar que devem antes de tudo
serem respeitadas antes de querer ousar corrigir um irmão que pecou
ou caiu sobre o erro. Neste artigo, você encontra diversas destas
mesmas circunstâncias baseadas nas perguntas e respostas do grande
doutor angélico. Porém vale ressaltar que não é possível determinar,
segundo Santo Tomás essas circunstâncias simplesmente por palavras
e, por isso seu julgamento consiste em particularidades; e isso diz
respeito à PRUDÊNCIA, aquela virtude adquirida com a experiência
e com o tempo, aquela que se derrama sobre nós, como diz em 1Jo
2,27: “A unção que recebeste dele permanece em nós”.
Ações virtuosas x ações viciosas

A dois tipos de ações que devem ser observadas antes de corrigir o


próximo, as ações virtuosas que são prescritas pelos preceitos
afirmativos e as ações viciosas, contudo, proibidas pelos preceitos
negativos. Santo Tomás explica cada uma delas em sua resposta mais
longa, segue que: “Aquilo que é, pois, segundo sua natureza, vicioso e
pecaminoso, é de qualquer modo mau, porque se aproxima de defeitos
singulares como diz Dionísio, no capítulo IV Sobre os nomes divinos.
Por isso, aquilo que é proibido pelo preceito negativo NÃO DEVE SER
FEITO de modo algum por ninguém. Mas, pelo preceito afirmativo,
prescreve-se a ação de virtude, para cuja retidão muitas circunstâncias
concorrem, porque o bem surge de uma única e completa causa, como
diz Dionísio, no capítulo IV Sobre os nomes divinos. Donde aquilo que
se subordina ao preceito afirmativo não deve ser observado todo o
tempo e de qualquer modo, mas desde que conservadas determinadas
condições de pessoas, locais, causas e ocasiões, assim como a honra aos
pais não deve ser exibida em qualquer tempo ou lugar, ou de qualquer
modo, mas desde que seja observada determinadas condições”.

Em Suma, afirma o Doutor Angélico que a correção fraterna


subordinam-se ao preceito segundo determinadas condições,
segundo a natureza virtuosa. Primeiramente, gostaria de ressaltar
quando uma correção deve ser aplicada e quando não deve,
elaborando os pontos e logo mais explanando as causas.

Começando por, quando é que a correção fraterna deve ser evitada,


pois como afirma o doutor angélico: “Mas as coisas boas não devem ser
feitas de todos os modos; e, por isso, algumas vezes, algumas coisas
boas devem ser suspensas, para que evitem alguns grandes
males....algum bem moral deve, algumas vezes, ser omitido para evitar
um mal moral mais grave.”

 Quando conduz o escarnecedor ao ódio. (pr2)


 Quando for causa de escândalo para o próximo em virtude da
manifestação de seu pecado, quando aplicada como corretora de
um irmão. (pr 3.16)
 Quando parecer impossível. (pr 8)
 Quando formos corrigir, apenas para explorar a vida alheia (pr
9)
 Quando aplicada aos que são duros e servis de espírito. (pr 13)
 Quando o corretor não corrige a si mesmo, antes de corrigir o
próximo implicando condenação sobre si, quando arguido
(julgado) com soberba. (pr 15-16)
 Quando esta for uma correção de pena, sob ofício de um clero
magistrado. (pr 17)
 Quando formos corrigir superiores próximos com irreverência e
atrevimento, os irritando. (pr 18)
 Quando for causa de discórdia, gerando ódio e perturbando a
caridade. (pr 19)
 Quando não aplicada com caridade, como que pecando por
malícia. (pr 11)
 Quando o pecado for oculto e partimos para revelação do mesmo
o tornando público. (pr 2, 2-4)

Agora, quando a correção fraterna deve ser praticada:

 Quando for uma ação licitamente virtuosa, isto é, produzir frutos


para Deus. (pr 1)
 Quando gera desprezo aos leigos e clérigos que a aplicam,
libertando o próximo do perigo do pecado. (pr 2)
 Mesmo quando for causa escândalo ao próximo, quando não
aplicada como corretora de um irmão. (pr 3)
 Quando aplicada aos pais ou superiores sem o uso da razão pela
qual se subordina qualquer coisa. Desprezando o 4°
mandamento do Decálogo. (pr 12)
 Quando mesmo sendo parecendo impossível pelo número de
tolos (Ecl 1,15), queremos dar aos outros a oportunidade da
correção. Mesmo não sendo obrigado de assim fazer. (pr 8)
 Quando arguidos (julgarmos) os pecados contra Deus, mas nunca
admiti-los para si. (pr 14)
 Quando os superiores formam-nos próximo e os corrigirmos
com humildade e reverência, respeitando a hierarquia e os
estatutos da caridade. (pr 18)
 Se for para um estabelecimento mais poderoso da paz, uma vez
removidas às causas de discórdia. (pr 19)

Para clérigos e prelados:


 Para que se cumpra com o preceito do Senhor, como atalaias
vigilantes, punindo e castigando quando preciso. (pr 6)
 Quando esgotadas as chances pela correção caritativa, for para
conter o individuo aplicando a correção coativa sem o uso de
advertências e sim punições com o auxilio divino. (pr 13)

Pecados públicos e pecados ocultos

Há dois tipos de pecados que devem ser entendidos antes de aplicar


uma correção fraterna, são os chamados pecados públicos e os
pecados ocultos. Baseado no livro Sobre a palavra do Senhor, de Santo
Agostinho, Santo Tomás explica que as palavras do Apóstolo em (I Tm
6,20): “Evita o palavreado vão e ímpio”, deve ser entendida nos
pecados públicos; mas as palavras do Senhor: “Vai corrigi-lo a sós...”
(Mt 18,15) deve ser entendida nos pecados ocultos, como é evidente na
mesma expressão. Com efeito, diz o Senhor: “Se teu irmão pecar contra
ti” (Mt 18,15). Pois, se peca publicamente, não peca contra ti quando
causa uma difamação ou injustiça. Ora, também contra todos que
presenciaram, assim como é revelado na parábola que o senhor pune o
servo, que afligiu os outros companheiros como coloca Mt 18,31:
“Vendo os seus companheiros de servidão o que aconteceu, ficaram
muito penalizados e, procurando o senhor, contaram-lhe todo o
acontecido.” E em II Pd 2,8 diz-se que “afligia diariamente a sua alma
justa as obras iníquas que via e ouvia.” (pr 1)

Compreendendo os dois tipos de pecados citados anteriormente e as


devidas circunstâncias básicas para aplicação de uma correção, agora
poderemos explanar mais o capítulo 18 do Evangelho de São Mateus
que fala sobre os “pecados ocultos”, dos versículos 15-18. São meio que
passos que Nosso Senhor impõe para uma boa correção fraterna,
porém antes de segui-los deve ser compreendido a medida pela qual o
efeito da ação se torna realmente virtuoso para ti e para o próximo,
isto é, as chances da conversão do irmão.

Os passos, segundo cita o próprio Santo Tomás dos versículos 15-17


são sequenciais aos seguintes pontos:
“Se o teu irmão pecar...”.
1°) vai corrigi-lo a sós. Se ele te ouvir, ganhaste um irmão.
2°)Se ele não te ouvir, porém, toma contigo mais uma ou duas pessoas,
para que toda questão seja decidida pela palavra de duas ou três
testemunhas.
3°)Caso não lhes der ouvido, dizei-o à Igreja.
4°)Se nem mesmo a Igreja der ouvido, trata-o como o gentio ou o
publicano. (este último não é citado, mas fica-se subentendido).

Mas ai fica a questão: até que ponto devemos chegar para salvação do
irmão? Devemos seguir à risca os 4 passos nós importando apenas com
o seguimento ordenado dos passos, ou devemos distinguir até que
ponto devemos chegar para a correção do próximo

A resposta desta pergunta vem do próprio S. Tomás, quando diz:


“Com efeito, se pode estimar que, ao continuar o processo,
provavelmente obteremos a emenda, devemos continua-lo, chamando
as testemunhas para a denúncia. Se, realmente, estimamos como
provável que por tal publicação [exposição] se torne pior, não se deve
proceder além, mas, por isso, deve-se desistir de toda correção
fraterna, como se disse acima.”

Ou seja, tudo tem seu certo limite, e com a correção fraterna não
poderia ser diferente já que estamos tratando do próximo que possui
também certas limitações adversas, espírito fraco, coração perturbado,
razão desprovida do intelecto e diversas outras circunstâncias pela
qual limita as chances de conversão de um irmão.

Poucos sabem, mas os pecados de heresia, tem um certo limite na


admoestação estabelecido pelo próprio Apóstolo São Paulo como um
conselho, segundo oque se segue em Tt 3,10: “Depois de uma primeira
e de uma segunda admoestação, nada mais tens a fazer com um
homem faccioso”. Porém, não deve ser entendido que as palavras do
apóstolo contradizem a de Cristo, por presumir que as de Cristo
estabelece que o delinquente (pecador) seja corrigido apenas uma vez
como diz em Mt 18, 15 : “corrigi-lo a sós”. Diz em resposta o Doutor
Angélico que, não dever se entendido que seja corrigida uma só vez,
mas duas, três ou mais vezes, quantas que permaneça a esperança
de ser possível corrigi-lo em segredo. “Quando, de fato provavelmente
se presume que, assim, não é possível corrigir, então se entenda que
ele está disposto a escutar”. Ou seja, tudo é uma questão de prudência
e temperança, analisando sempre o tempo, a ocasião e principalmente
as pessoas a qual a correção é aplicada, pois cada um possui um tempo
e processo diferente para conversão.

Continuando no preceito do Senhor, na ordem da correção fraterna.


Em Mt 18,16 diz: “..tome com você mais uma ou duas pessoas, para que
toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três
testemunhas...”. Ora, diz a objeção, se o preceito do Senhor é relativo
aos pecados ocultos como diz S. Agostinho no livro Sobre a palavra do
Senhor. Parece que ninguém possa provar por testemunhas. Logo,
seria inconveniente que a ordem da correção fraterna exija
testemunhas. Porém, responde S. Tomás que, as testemunhas são
chamadas em 3 situações:

 ...ou para revelar que é um pecado cometido por alguém, como diz S.
Jerônimo;
 ...ou para convencer do seu ato, se o ato se repetir, como diz St.
Agostinho;
 ...ou para o testemunho de que o irmão que admoesta faz o que lhe
compete, como diz Crisóstomo.

Há ainda quem faça a comparação, que só porque a pessoa não é


obrigada a chamar testemunhas do seu pecado cometido em público,
logo à mesma razão valerá também para a manifestação do pecado do
irmão. Porém, responde St . Tomás que, “o homem não precisa de
testemunhas para a emenda do seu pecado, porém pode precisar de
testemunhas para outra emenda, conforme os três modos
apresentados. E por isso, não é semelhante a razão do pecado próprio e
do pecado do irmão”. Portanto, fica claro que o processo da correção
fraterna colocado por Cristo não se refere aos próprios pecados de
pessoa. Pois dificilmente alguém corrige a si próprio, sem um
estimulante (corretor e testemunhas) para isso.

Diz à objeção que, como diz St Agostinho na Regra que se deve antes
mostrar ao superior do que às testemunhas. E, no entanto, mostrar ao
superior ou prelado seria o mesmo que mostrar a Igreja e, portanto
denuncia-lo. Sendo assim que a ordem do Senhor não está no preceito.
Porém, diz o St Tomás que, “St. Agostinho entende que se diga antes ao
prelado do que as testemunhas, segundo que o prelado é certa pessoa
privada que pode ser mais útil do que as demais. Contudo, dizer, desta
forma, ao prelado não é dizer a Igreja, mas quando se diz em público,
como no lugar do juiz competente“.

Diferença entre denúncia e acusação

Poderia alguém ainda pensar: É possível denunciar alguém


publicamente, sem que haja qualquer admoestação secreta anterior?

A resposta, segundo S. Tomás, é simples. Primeiro deve-se


compreender que denúncia e acusação são termos, que apesar de
públicos, são diferentes. “A denúncia se tenta a correção fraterna e,
por isso, tal ordem deve ser realizada de forma conveniente a emenda
do irmão. Ora, na acusação se tenta o bem da Igreja, a caber para que
se preserve a comunidade contágio do pecado e, por isso, não é
necessário que preceda a denúncia na acusação”.

Sobre a acusação, você pode compreender melhor lendo os Decretais


de Gregório IX contido numa foto em latim nos arquivos junto com este
artigo da pasta que ensina como acusar alguém formalmente à Igreja
para que ela aplique as penas devidas se for o caso. Já sobre a denúncia
pública, pode-se compreender mais com as sábias palavras do suave
São Francisco de Sales, na Filotea, cap. XX da parte II: “Os inimigos
declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se
possa (desde que não se falte à verdade), sendo obra de caridade
gritar: Eis o lobo!, quando está entre o rebanho, ou em qualquer lugar
onde seja encontrado.”

Certamente então, Santo Tomás se referia aos pecados cometidos


publicamente. No entanto, nem todo pecado do homem deve preceder
à acusação. Ora, somente naqueles pecados pelos quais há o alcance de
oferecer grave perigo, tanto espiritual como corporal, à sociedade.
Então, para Santo Tomás, “é possível sim proceder à acusação sem que
se anteceda à advertência, se isto exige a utilidade comum, pois o bem
público deve ser preferido ao bem privado”.

Para os religiosos, que possuem uma regra mais branda e rígida


internamente, não se segue sempre que as correções sejam como
denúncias ou acusações e sim exortações. S Tomás recorda que:
“reduz-se a recordar ao irmão a culpa a qual deve purgar, para que a
sua fama não sofra prejuízo, pois, deste modo, as proclamações são
feitas das culpas leves”. Aqui fica um alerta, não só para os religiosos,
mas para todos que praticam o ato piedoso da correção fraterna. Deve
sempre tomar cuidado, ao corrigir alguém de forma pública sem a
devida advertência precedente, para não revelar seus pecados graves.
Pois, você estaria em pecado grave de infâmia, se proclamado alguma
falta grave do irmão sem a devida advertência anterior antes. Segundo
o Doutor Angélico isto seria ilícito e contrário aos preceitos de Cristo.
(pr 8)

Atenção: Para os pecados leves não se segue infâmia, como se segue os


graves! (pr 9)

Perigos que devem ser evitados

Segundo S. Tomás, citando o livro de Hebreus: “porque tudo está nu e


descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contar, como se
diz em Hb 4,13. E, por isso, não se requer quanto ao juízo divino que
seja anterior à admoestação secreta.” Isto é, não precisa que Deus
estabeleça o seu juízo, para logo depois nós estabelecemos o nosso
porque segundo o julgamento humano são pecados ocultos os que NÃO
PODEM proceder imediatamente para o público, como vimos nos
passos da correção fraterna citados anteriormente. Poucos sabem,
mesmo sentindo os efeitos, que: “grande parte dos pecadores são
advertidos quase em segredo por Deus, pelo remorso oculto da
consciência e pela oculta inspiração, ou despertando, ou
repousando”. Tenho certeza, que mesmo sem saber disso, um dia
você já sentiu aquela sua consciência pesada depois de ter cometido
um pecado grave ou pelo fechamento do coração, não sentindo nada e
não tendo mais inspiração para nada, apenas um vazio dentro de si
ocultado pelas coisas mundanas. Pois é, tamanha aridez espiritual é
Deus nos alertando para mudarmos, nós convertemos do pecado. (Cf.
Jó 33,15-17)

O fim da correção fraterna é a emenda do irmão, a quem queremos


livrar do pecado como bem ressalta o Doutor Angélico. Porém, há 2
perigos que ameaça o homem pelo pecado, o perigo da consciência e
da fama. Entre estes dois perigos, temos um que é preferível que um
ao outro, este é o testemunho da consciência, pois ela está sob a visão
de Deus como vimos citado anteriormente, mas o testemunho da fama
pertence às obrigações humanas. Também diferem em outro requisito,
a consciência é preferível ao homem por si mesma, já a fama é por si e
pelo próximo. Portanto, o Senhor desejou que a correção fraterna
tivesse acontecido numa ordem, se possível, primeiro, de tal modo que
seja previsto na consciência que nenhuma fama seja ferida, e isso pela
admoestação secreta. Depois, que a consciência é preferida à fama, de
outro modo se o irmão não consegue corrigir com a perda da fama,
finalmente o Senhor ordenou que se denuncie publicamente para que a
reprovação feita por muitos sirva como um remédio salutar. Por
outro lado, deve-se tomar cuidado, pois se imediatamente é procedida
à admoestação pública, o irmão perde sua fama, que, de fato se deve
evitar por causa do mesmo e por causa dos outros, é, de fato,
necessária em si mesma. Em razão do mesmo, é, de fato, necessário por
uma dupla razão. A primeira, de fato, porque a boa fama é o principal
entre os bens exteriores, conforme se lê em Pr 22,1: “É preferível um
bom nome a muitas riquezas”. Portanto, assim como pecaria quem,
sem necessidade, causasse a alguém a perda das suas riquezas; assim,
pecaria muito mais se, sem necessidade, alguém causasse ao próximo à
perda de sua fama, denunciando o seu pecado. Segundo, porque para
conservar a sua fama, o homem se abstém frequentemente dos
pecados. E, por isso, quando alguém vê que já perdeu a fama, nada freia
o pecado como diz em Jr 3,3: “Tu mostrarás uma face de prostituta,
recusavas envergonhar-te”; de onde também diz S. Jerônimo sobre
Mateus: “Tem de corrigir o irmão a sós, para que não perca o pudor e
vergonha, e não permaneça em pecado”.

Diz o Doutor Angélico que, por causa dos pecados evidentemente


públicos, muitos são tentados a pecar, segundo está em 1Cor 5, 6:”Não
sabeis que um pouco de fermento leveda(corrompe) toda a massa?” E,
por isso cai sob o preceito que não proceda à denúncia pública, antes
da correção em segredo. Mas, conforme podemos analisar na figura I,
com o passar de um extremo (admoestação secreta) para outro
(denúncia pública) se alcança por um intermédio, o Senhor propôs um
grau intermediário, de tal modo que depois da admoestação secreta
não se denuncie publicamente sem mostrar para uma ou duas
testemunhas, para que a correção secreta não seja conhecida por
outros, como diz St. Agostinho na Regra.
Poderia ainda alguém contra argumentar que, se devemos seguir o
exemplo dos Santos, de tal forma e maneira como fez São Pedro ao
fazer uma denúncia pública dos pecados ocultos, sem uma
admoestação secreta antes, como se lê em At 5, em que Pedro
denunciou publicamente Ananias e Safira por defraudar ocultamente o
preço do campo, sem ter advertido secretamente. Mas poucos sabem é
que, segundo S. Tomás: “o pecado de Ananias e Safira não foi conhecido
por Pedro de maneira humana, mas por revelação divina e, por isso, ele
não procedeu no modo de um juízo humano, mas segundo o modo de
um juízo divino, tal como se fosse um executor do juízo de Deus.” Ou
seja, às vezes Deus inspira os seus para realizar as suas admoestações,
de tal forma que se revele ou não o nome dos infratores da Lei Divina.
Assim do contrário, poderemos encontrar um exemplo famoso das
Escrituras quando Cristo por excelência divina, soberana e pela
prudência soube distinguir se era hora de revelar o pecado de Judas ou
não, enquanto “ele era conhecedor dos pecados ocultos e, por isso,
enquanto Deus pode agir imediatamente não tornou público, mas o
advertiu com palavras obscuras os seus pecados”. (pr 4-5)

Por último, cito um grave e condenável pecado que é corrigir o


próximo em estado de pecado grave. Como vimos anteriormente nas
circunstâncias em que não devemos corrigir um irmão, eu citei o
parágrafo 15 atrelado ao 16 em que diz: “Quando o corretor não
corrige a si mesmo, antes de corrigir o próximo implicando
condenação sobre si, quando arguido (julgado) com soberba”. Porém,
deve se compreender quando é que, segundo St. Tomás nem sempre
aumenta a condenação ao corrigir o irmão em estado de pecado grave
em 3 situações:

1°) quando o pecado é óculo e argui em público;

2°) quando está em pecado menor e argui sobre um maior;

3°)quando argui simultaneamente a si e a outro, não ignorando a si


mesmo, mas, ao mesmo tempo, repreendendo-se, pois diz Gregório, no
livro V da Moral: “Assim como o homem deve amar o próximo como a
sai mesmo, do mesmo modo está obrigado a corrigir os pecados
alheios e a encolerizar-se contra eles, assim como contra os seus”.
Diferença entre admoestação secreta e denúncia pública

Há casos, diz a objeção, que algumas vezes os prelados ordenam que os


seus subordinados digam aquilo que sabem dos pecados dos outros os
revelando. Primeiramente, em resposta a esta objeção que se refere ao
pulo da advertência secreta para a denúncia pública, S. Tomás
responde que: não se deve obedecer a um prelado contra o preceito de
Cristo, segundo se diz em At 5, 29: “É preciso obedecer antes a Deus do
que aos homens”. Ora, o pecado que ordena contra o mandamento de
Cristo não pode ter o pecado escusado. Por outro lado, se o prelado
ordenasse que alguém dissesse o que deve ser corrigido, ou o que
conhece do pecado alheio, o preceito deve ser entendido corretamente,
somente nos casos em que ele mesmo pode preceituar conforme uma
ordem instituída por Cristo. Mas, por outro lado como vimos
anteriormente, se o prelado se expressa contra a ordem do preceito,
ele não deve ser obedecido. Citando um destes casos, por exemplo,
quando um juiz exige o juramente dos seculares (religiosos) ou
eclesiásticos, seja por vida de denúncia, investigação ou acusação.
Portanto, nesses casos, o prelado pode, nos assuntos religiosos, obrigar
o seus súditos à obediência do preceito.

Entre a admoestação secreta e a denúncia pública há um certo tempo


que deve ser observado. Ora, diz à objeção que, algumas vezes, este
intervalo é tão perigoso, que depois não é possível aplicar um remédio
satisfatório; por exemplo, se alguém trama entregar uma cidade aos
inimigos, ou se há, na comunidade um herege que afaste os homens da
fé. Logo, não parece que deva preceder à admoestação secreta. Para S.
Tomás, estas ocasiões, pela qual tais pecados, nos quais a demora da
denúncia é perigosa, não é necessário esperar a admoestação, mas
proceder à denúncia de modo imediato. Ressalta ainda, que este
procedimento, em que pula de imediato a admoestação secreta para a
denúncia pública do pecador, “não é contrário ao preceito de Cristo,
por duas razões. Primeira, porque, realmente, este pecado, que tende
ao perigo de muitos, não é só em ti, mas em muitos, e assim diz o
Senhor: “Se o teu irmão pecar” (Mt 18,15). Segunda, porque o Senhor
não fala de prever uma culpa futura, mas da culpa antes já cometida”.
Há dentro da Igreja muitas pessoas ainda que querem corrigir o irmão
de forma errônea e precipitada, por achar que está corrigindo na
caridade. Porém, não devemos agir precipitadamente em nada que
fazemos, para isso serve a virtude da Prudência, para saber distinguir o
tempo certo do errado. Assim, não se deve pular a advertência secreta
para a denúncia pública com a desculpa que isso seja mais vantajoso à
sociedade, pois o bem de muitos é o melhor do bem de um só, salvo
exceções citadas anteriormente. Pois a forma da procedência da
correção caritativa, deve se for possível que em segredo seja corrigido.
Para exemplificar e contra argumentando a objeção, S. Tomás diz: “que
se um médico procedesse de modo imediato a extirpar um membro
podre [aqui entenda a referência a nós como membros do Corpo de
Cristo=Igreja], agiria impudentemente, pois, muitas vezes, extirparia
membros que poderiam ser curados. Mas se for sábio, começará com
remédios leves. Então, finamente extirpa o membro, quando comprova
que este não é curável. E, assim, de fato, deve ser feito a correção
fraterna”. Pois assim então, conclui S. Tomás, que todos que corrigem
segundo a caridade que se corrija antes de tudo em segredo, pois assim
será melhor tanto para o corrigido, tanto para a sociedade. (pr 11)

Aos que dizem a correção ser um ato de justiça, e, portanto, deve se


revelar todo tipo de pecado do irmão sem uma advertência secreta
antes. Enganam-se, pois, como diz S. Tomás, “a justiça é dita uma
virtude muito clara, por causa de sua beleza da sua ordem; e, também,
porque lhe pertence ocultar o que se deve ocultar”. Portanto, aqueles
que a possuem, sabe a hora de corrigir secretamente e a hora de
corrigir publicamente.

Não podemos querer ser o “todo poderoso” saindo por ai, agindo
soberbamente e ousando revelar todos os pecados ocultos dos irmãos,
com a intenção que eles perdam sua fama, em outras palavras, sua
dignidade. Pois, este encargo só pertence aquele que é o juiz do oculto,
a saber, Deus, do qual se diz em 1Cor 4, 5 “Ele porá às claras o que está
oculto nas trevas e manifestará os desígnios dos corações”. Só Ele, que
sonda os corações e sabe as intenções do Espírito, pode aplicar desta
pena. Portanto, pode se concluir segundo S. Tomás, que “aquele que
viola o modo e a ordem devidos, corrigindo em público os pecados
ocultos, não faz um bem, mas um mal”. (pr 15.17)
Diz à objeção que é raro que alguém se torne pior, sendo removida sua
boa fama através de outrem e como eles seriam censurados pela
revelação de seus pecados, não seria preceito da lei divina que alguém
seja corrigido em segredo antes de sê-lo me público. Porém, responde
S. Tomás que, como “é raro quando ocorre que os pecados ocultos
sejam publicados; e, por isso, é raro o perigo que aconteça. Se, de fato,
os pecados ocultos são frequentemente publicados, a experiência
avaliaria os perigos disso que se sucederia”. (pr 18)

Portanto, tendo compreendidos as causas e efeitos dos pecados ocultos


e dos pecados públicos. Deve-se sempre lembrar e seguir, segundo o
Doutor Angélico, que para aquele pecado que deve ser oculto, que não
apresenta motivo para ser publicado, e aquele que pecou promete
se emendar, age contra o preceito de Deus quem denuncia o pecador,
ou ao prelado ou a um outro.

Pode alguém dizer que a ordem da correção fraterna não se estende


aos pecados graves, pois muitas coisas são requeridas para que nisto
alcance a salvação, que é ganhar o irmão. E, portanto, não basta
somente que o seu irmão lhe escute, como diz Cristo em Mt 18,15: “Se
ele te ouvir, ganhaste o teu irmão”. Porém, deve ser compreendido
segundo o Doutor Angélico que, “aquele que peca deve escutar quem o
corrige, quando também cessa de agir e faz coisas que devem ser feitas
para sua salvação, confissão e satisfação. E, então, por mais grave que
seja o pecado, sempre haverá um certo ganho para o irmão que assim o
escuta”.

Portanto, conclui o Doutor Angélico que, a ordem da correção fraterna


CAI SOB O PRECEITO, como também a própria correção fraterna,
todavia respeitada a discrição em ambos os casos, de modo que o
devido lugar, o tempo e outras devidas circunstâncias sejam
observados. Tudo se faça conforme seja útil à emenda do irmão, que é
o fim e regra da correção fraterna.
A omissão e suas formas

Algumas pessoas, para omitirem a correção fraterna, podem assim


dizer que mesmo conhecendo o pecado do irmão, é melhor ficar em
silêncio, como diz em Eclo 9,10 : “Ouviste alguma coisa? Sê um tumulo.
Coragem, não te arrebentarás”. Porém, não é bem assim, pois, segundo
o S. Tomás: “a palavra que ouvimos contra o irmão deve, assim,
permanecer conosco, de tal modo que não proceda uma infâmia nossa
contra o irmão; mas não está proibido para que depois proceda à
emenda do irmão”. Portanto, fica claro e evidente que somente em
casos em que casos em que ao ver que ao anunciamos os pecados para
a emenda do irmão ferirá sua dignidade, honra e fama, não devemos
assim fazer permanecendo em nosso consciente o seu pecado para se
assim for possível, numa futura ocasião próxima e no tempo devido
aplicar a correção fraterna.

Como uma pessoa poderia então omitir uma correção fraterna?

Respondendo a décima objeção, St. Tomás diz que de 3 maneiras:

 Um modo, pois, sem todo o pecado, porque, como diz St.


Agostinho, no livro I da Cidade de Deus: “Se, por causa disso,
alguém poupa a censura e da correção àqueles que agem mal,
porque procura um tempo oportuno para fazê-lo, ou porque
receia que se tornem piores por eles próprios a partir disso, ou
que, instruindo outros fracos, desviem-nos para a boa vida e para
o sofrimento, não só oprimindo-os, como também afastando-os
da fé; isso não parece ser ocasião de cupidez, mas conselho da
caridade”.
 Outro modo, pois, quando, por exemplo, agrada a palavra
lisonjeira e o tempo humano, e teme-se não só o julgamento do
vulgo como também a tortura ou o assassinato da carne, se, de
fato, essas coisas são consideradas no espírito, de modo a se
colocarem à frente da cidade do irmão, isso constitui pecado
mortal.
 Um terceiro modo, pois, quando a omissão pode existir com o
pecado venial, por exemplo, visto que essas coisas movessem o
espírito, não, de fato, para colocarem à frente da caridade do
próximo, mas para que os negligentes sejam devolvidos à
consideração das circunstâncias e das oportunidades em que são
obrigados a corrigir.

Portanto, conclui-se que assim como disse St. Agostinho, no livro Sobre
a palavra do Senhor³: “Se negligencias na correção, tornaste-te pior do
que aquele que pecou”. Ora, aquele que pecou o faz contra o preceito.
Logo, parece que não cuida de corrigir o faz contra o preceito e, desse
modo, a correção fraterna se subordina ao preceito.

Além do mais, em Mt 18, 15 lê-se: “Se teu irmão pecar, vai corrigi-lo a
sós; e a Glosa ⁴ diz: “Peca do mesmo modo quem vê que seu irmão
pecar e se cala, como favorecendo o pecado”. Ora, aquele que tendo
pecado não for corrigido, age contra o preceito. Logo, aquele que não
corrige age contra o preceito.

__

Considerações finais:

“Além do mais, no cumprimento do preceito caridade nós devemos nos


conformar a Deus, segundo o que se diz em Ef 5,1: “Tornai-vos, pois,
imitadores de Deus, como filhos amados”. Ora, se diz em Pr 3, 12:
“Porque o Senhor repreende os que ele ama”. Logo, do mesmo modo
como devemos observar com diligência o preceito do Senhor, parece,
também, que devemos corrigir o irmão a partir do preceito.

“Corrige-o apenas entre ti e ele. Desejando a correção, abstendo-se da


vergonha, talvez, comece fortemente defender o seu pecado, por causa
da vergonha; quem deseja fazer o melhor, acaba fazendo o pior.” ⁵
Portanto, esta é a razão da ordem de observar a correção fraterna, para
que seja respeitada a vergonha do irmão, para que não se realize o
pior. Ora, nós somos obrigados pelo preceito da caridade a isto. Logo, a
ordem da correção fraterna cai sob o preceito.

Além do mais, em Mt 18, 15 lê-se. Se teu irmão pecar contra ti, etc,
porém diz a Glosa: Por esta ordem, devemos evitar os escândalos. Ora,
evitar os escândalos cai sob o preceito, como é claro em Rm 14. Logo a
ordem da correção fraterna cai sob o preceito.
Além do mais, diz-se em Eclo 17,12: “Deu a cada um mandamentos com
o próximo”, para que tenham cuidado. “Logo, o homem cai sob o
preceito quando põe o devido cuidado para a salvação do próximo,
corrigindo-o.”

Notas e Créditos Finais:

1- Summa, 2-2, q.33, a .2; IV Sent., dist. 19, q.2, a. 1, ad. 6; a.2, q.a 1.
Summa, 2-2, q.33, a .7; IV Sent., dist. 19, q.2, a. 2-3, ad. 6; a.2, q.a 1;
Quodl., I, q. 10, a.1,2; In Match, c.10.
2- Livro A Caridade, a Correção Fraterna e a Esperança; Editora:
Ecclesiae; Tradução: Instituto Aquinate.
3- AGOSTINHO, De Verbis Domini, Sermo 82, C. 4, n.7: PL 38, 508.
4- GLOSSA ORDINARIA, Evangelium secundum Matthaeum, 18, 15:
PL 114, 146-147.
5- AGOSTINHO, De Verbis Domini, Sermo 82, C. 4, n.7: PL 38, 510.