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FORÇA AÉREA BRASILEIRA

ESCOLA DE ESPECIALISTAS DE AERONÁUTICA

METEOROLOGIA GERAL
(MÓDULO ÚNICO)

BMT
CFS
MINISTÉRIO DA DEFESA
COMANDO DA AERONÁUTICA
ESCOLA DE ESPECIALISTAS DE AERONÁUTICA

METEOROLOGIA GERAL

Apostila da disciplina Meteorologia Geral, da Especialidade


BMT, do Curso de Formação de Sargentos.

Elaborador: Grupo de Trabalho DECEA / EEAR com a participa-


ção do 2S BMT Alexandre de Oliveira Lourenço e do
2S BMT Daniel dos Santos Rodrigues, ambos do efetivo da
EEAR.

GUARATINGUETÁ, SP
2014
DOCUMENTO DE PROPRIEDADE DA EEAR
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deste documento, utilizando-se qualquer forma ou meio eletrônico ou mecânico, inclusive proces-
sos xerográficos de fotocópias e de gravação sem a permissão, expressa e por escrito, da Escola de
Especialistas de Aeronáutica- Guaratinguetá- SP.
SUMÁRIO

Introdução....................................................................................................................................07

Roteiro de Atividade....................................................................................................................09

Unidade 1:Introdução à Termodinâmica da Atmosfera...............................................................11

Subunidade 1.1: Estrutura Vertical da Atmosfera..................................................................11

Subunidade 1.2: Calor e Temperatura....................................................................................20

Subunidade 1.3: Umidade Atmosférica..................................................................................28

Subunidade 1.4: Pressão Atmosférica....................................................................................35

Unidade 2: Radiação Eletromagnética.........................................................................................46

Subunidade 2.1: O Sol e a Terra.............................................................................................46

Subunidade 2.2: Radiação Solar, Terrestre e Atmosférica.....................................................55

Unidade 3: Dinâmica da Atmosfera............................................................................................61

Subunidade 3.1: Forças Reais e Aparentes............................................................................62

Subunidade 3.2: Fluxos Atmosféricos...................................................................................66

Bibliografia.................................................................................................................................84

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INTRODUÇÃO

O presente módulo, destinado aos alunos da 1ª Série do Curso de Formação de Sar-

gentos, da especialidade de Meteorologia, tem por finalidade apresentar os conhecimentos básicos

essenciais para o aprendizado desta ciência.

Nosso principal objetivo é expor, aos que nela se iniciam, os fenômenos relativos à

atmosfera terrestre, de maneira simples e objetiva, de forma a proporcionar-lhes subsídios para me-

lhor compreensão do dia-a-dia.

Assim, não é nosso intento, aqui, ensinar os princípios correlatos à previsão do

tempo, mas sim apresentar o necessário para um bom desempenho profissional das atividades fun-

damentais àqueles que serão futuros integrantes do Serviço de Controle do Espaço Aéreo.

Os responsáveis pelo texto, cientes de que ainda não elaboraram um trabalho com-

pleto, sobretudo pela atual inconstância do tempo, agradecem antecipadamente quaisquer sugestões

que tenham como objetivo o aprimoramento das próximas edições.

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ROTEIRO DE ATIVIDADES

I- Assunto: METEOROLOGIA GERAL

II- Objetivo: ao término do estudo deste módulo, você estará apto a identificar os fenômenos at-
mosféricos, suas causas e consequências.

III- Atividade de ensino: este módulo é composto de três unidades:

Unidade 1 – Introdução à Termodinâmica da Atmosfera;


Unidade 2 – Radiação Eletromagnética; e
Unidade 3 – Dinâmica da Atmosfera.

Para dominar os conteúdos abordados neste módulo e alcançar o desempenho exi-


gido, você deverá ler com bastante atenção. Não passe adiante enquanto houver dúvidas.

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Unidade 1 – Introdução à Termodinâmica da Atmosfera

A Meteorologia

Ao longo dos séculos, observadores do céu e dos fenômenos meteorológicos, tais como:
agricultores, navegantes e pastores, acumularam certos conhecimentos práticos capazes de possibi-
litar prognósticos com relativa precisão sobre mudanças do tempo. Atualmente, a Meteorologia e
seus observadores contam com recursos tecnológicos e meios avançados para indicarem as condi-
ções do tempo presente e futuro com a melhor precisão possível. Baseada na Física e na Matemática,
entre outras ciências, a Meteorologia deixou de ser fruto apenas do empirismo e da subjetividade,
passando a ser uma ciência exata e precisa, através de modelos matemáticos e métodos de previsão
desenvolvidos e com auxílio de supercomputadores no processamento de dados meteorológicos.

Definição

O vocábulo Meteorologia, de origem grega, apresenta a seguinte etimologia:


• Meteoro: significando fenômenos (atmosféricos);
• Logus: significando estudo (tratado).
Assim, a Meteorologia é a ciência que se destina ao estudo dos fenômenos que ocorrem na
atmosfera terrestre.

Histórico

A Meteorologia, assim como as demais ciências, evoluiu de acordo com o avanço tecnoló-
gico proporcionado pelas civilizações ao longo do tempo. Alguns historiadores atribuem a Aristó-
teles a primeira citação dada à Meteorologia em sua obra “Meteorology”. Daí em diante outros
povos (palestinos, indianos, gregos, etc.) passaram a observar fenômenos naturais como a precipi-
tação, o vento, a umidade do ar entre outros.
A partir do século XVI, aproximadamente, começaram a surgir instrumentos capazes de me-
dir e/ou registrar alguns desses parâmetros meteorológicos, como em 1.580, quando Galileu Galilei
inventou o termômetro. Barômetros, higrômetros, anemômetros e psicrômetros são exemplos de
alguns instrumentos inventados. Além disso, conceitos e teorias também foram desenvolvidos,
como por exemplo a circulação atmosférica nos trópicos descrita por G. Hadlen, em 1.735, e méto-
dos de se intercambiar e padronizar o serviço meteorológico (plotagem, rede meteorológica, horas
padrões, etc.) foram aperfeiçoados através de congressos mundiais.
Já no século XX, valiosos aliados como a radiossonda, satélites, radares e computadores
vieram a impulsionar a meteorologia no campo tecnológico, tornando as observações e consequen-
tes previsões mais exatas e seguras.

Subunidade 1.1 – Estrutura Vertical da Atmosfera

1.1.1 - Composição do ar

A atmosfera é o conjunto de gases, vapor d’água e partículas, que envolve a superfície da


Terra, não tendo um limite definido, verificando-se apenas a rarefação do ar com a altitude. No
âmbito da Meteorologia, a porção mais importante é de no máximo 20 km de altitude.
Para fins de estudo, a composição padrão é aquela que considera o ar seco sem impurezas e
vapor d’água, devido à grande variação no tempo e no espaço que estes apresentam. Essa composi-
ção padrão é a seguinte:

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Nitrogênio 78%
Oxigênio 21%
Argônio 0,93%
CO2 0,4%

Outros gases como o hélio, neônio, xenônio, etc., em pequenas porções compõem a atmos-
fera. Esta composição é praticamente constante até 25 km.

1.1.2 - Funções dos principais componentes:

1.1.2.1 - Nitrogênio

Embora seja o constituinte mais abundante, não exerce relevante papel em termos energéti-
cos, absorvendo apenas um pouco de radiação ultravioleta nas camadas mais altas da atmosfera.

1.1.2.2 - Oxigênio e Ozônio

Além de essencial para a existência da vida no planeta, o oxigênio possibilita a formação do


ozônio na atmosfera. Ao absorver ultravioleta, as moléculas de oxigênio se dissociam (rompem) e
se reagrupam, formando ozônio (O3). Essa reação ocasiona concentração de O3 a aproximadamente
35 km de altitude, dita ozonosfera, que varia com a latitude e com a época do ano. O ozônio, por
sua vez, ao absorver o raio ultravioleta de energia menor que o raio ultravioleta absorvido pelo
oxigênio, se dissocia, dando origem ao retorno do oxigênio. Esse ciclo, além de permitir a absorção
de UV (nocivo à maioria dos seres vivos por ter muita energia), renova o oxigênio presente nos
níveis mais baixos da atmosfera, ou seja, na Biosfera.

1.1.2.3 - Vapor d’água

A concentração de vapor d’água na atmosfera, embora pequena (máximo de 4% em volume)


é variável com a altitude e latitude, é de suma importância na distribuição de temperatura e energia
na atmosfera, pois participa dos processos de formação de nuvens, liberando calor ao condensar-se
e absorvendo calor ao evaporar-se. Além disso determina o nível de conforto ambiental. A conden-
sação de vapor d’água está condicionada a presença de partículas sólidas em suspensão no ar (sal
do mar e poeira), que servem de aglutinadores de vapor d’água, chamadas de núcleos higroscópicos
ou partículas hídricas.

1.1.2.4 - Gás carbônico (CO2)

Do total de dióxido de carbono existente no planeta, 98% está na água dos oceanos e o res-
tante está na atmosfera. Esta concentração na atmosfera pode aumentar em regiões industriais, in-
terferindo na energética do sistema globo-atmosfera, ao absorver energia solar e terrestre, dando
origem ao chamado Efeito Estufa.
Por outro lado, o dióxido de carbono é essencial para a vida no planeta. Visto que é um dos
compostos essenciais para a realização da Fotossíntese. Sendo este processo, uma das fases do ciclo
do carbono e é vital para a manutenção dos seres vivos.

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1.1.3 - Variação vertical das propriedades da atmosfera

A progressiva rarefação do ar no sentido vertical dificulta o estabelecimento de um limite


físico externo para a atmosfera. Para isso, foram feitas diversas tentativas no sentido de dividir a
atmosfera em camadas aproximadamente homogêneas fisicamente. Entretanto, o critério mais
aceito atualmente se fundamenta na variação vertical de temperatura, ou seja, no gradiente vertical
de temperatura. Baseada nesse critério, a atmosfera divide-se em 4 camadas (troposfera, estratos-
fera, mesosfera, termosfera), separadas por 3 zonas de transição (tropopausa, estratopausa e meso-
pausa).

1.1.3.1 - Troposfera e Tropopausa

Troposfera é a camada justaposta à superfície terrestre e a mais importante do ponto de vista


da meteorologia. Nela se concentram 75% da massa total da atmosfera e quase todo seu vapor
d’água, circunstância que lhe torna o ambiente de praticamente todas as nuvens e fenômenos atmos-
féricos. Graças ao aquecimento por contato com a superfície, a temperatura do ar diminui vertical-
mente nessa camada a uma razão média de 6,5 °C/km (0,65 ºC/100 m). Podem acontecer ainda nessa
região camadas isotérmicas (variação nula de temperatura na vertical) e camadas de inversão (tem-
peratura aumenta com a altitude) devido a fatores locais e de circulação do ar. A espessura dessa
camada varia com a latitude e com a época do ano, oscilando entre 6 e 10 km nos polos e entre 15
e 18 km nos trópicos. A tropopausa, região de transição entre a troposfera e a estratosfera, apresenta
tendência de isotermia. Nas latitudes de 30° e 60° pode se apresentar difusa devido a circulação
local, o que a torna de difícil detecção em observações aerológicas.

1.1.3.2 - Estratosfera e Estratopausa

Estratosfera estende-se até cerca de 50 km de altitude, apresentando nos primeiros quilôme-


tros de sua extensão (até 30 km) um suave acréscimo de temperatura com a altitude. O progressivo
aquecimento de ar observado na porção superior dessa camada é devido à geração de energia na
formação do ozônio. A estratopausa justapõe-se ao topo da estratosfera, apresentando gradiente tér-
mico vertical quase nulo. A média de temperatura do ar na região da estratopausa é de 0 °C.

1.1.3.3 - Mesosfera e Mesopausa

A mesosfera, de cuja camada se dispõe poucos dados para estudo, se estende até 80 km de
altitude, logo acima da estratopausa, apresentando diminuição de temperatura com a altitude, sendo
que no seu limite superior a temperatura é de -95 °C. É praticamente isenta de vapor d’água e apre-
senta acentuada rarefação do ar. Os meteoritos que nela penetram em alta velocidade incandescem
devido ao atrito, originando estrelas cadentes.
Acima da mesosfera, com 10 km de espessura está a mesopausa, também caracterizada por
tendência isotérmica.

1.1.3.4 - Termosfera

A termosfera se situa para além de 90 km de altitude e se caracteriza por um contínuo au-


mento de temperatura com altitude. A amplitude de temperatura, durante o dia, nessa camada, é
muito grande graças a enorme rarefação do ar reinante. Outra consequência dessa rarefação é que
as temperaturas dessa região só podem ser estimadas a partir da pressão e densidade atmosférica no
local.

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1.1.3.5 - Ionosfera

É uma região da atmosfera que se estende a partir de 60 km de altitude, onde há uma con-
centração de íons (elétrons carregados eletricamente) em decorrência da absorção de radiação por
partículas suspensas.
A ionosfera pode absorver ou refletir ondas de rádio, dependendo da frequência da onda e
da quantidade de elétrons livres na camada. Mudanças na atividade solar provocam alteração na
quantidade de elétrons desta camada e podem causar um colapso nas comunicações de rádio; tais
mudanças são distúrbios chamados tempestades magnéticas.

1.1.3.6 - Cinturões de Van Hallen

São duas camadas exteriores a cerca de 3.600 km de altitude sobre o Equador magnético,
compostos de elétrons principalmente de alta energia, protegendo a Terra dos raios cósmicos vindos
do espaço nocivos aos seres vivos. As descargas solares de partículas eletricamente carregadas,
atingem os cinturões de Van Hallen, sendo capturadas e atraídas na direção dos polos magnéticos
(em torno de 20° de latitude em cada hemisfério), onde interagem com o oxigênio e o nitrogênio na
alta atmosfera, provocando emissão de energia visível (luminescência) - as auroras polares - sob
forma de colunas, manchas e cortinas coloridas.

Figura 1- Variação vertical das propriedades da atmosfera

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1.1.4 - Processo Adiabático na Atmosfera

É o processo segundo o qual a variação da energia interna de uma parcela de ar depende de


um trabalho de compressão e expansão da mesma, sem que haja significante troca de calor com a
atmosfera adjacente.
Um exemplo clássico adiabático na atmosfera é o lento movimento vertical (ascendente ou
subsidente) de uma parcela de ar grande o suficiente para que se tornem desprezíveis as trocas de
calor em sua periferia. Em função disso, a energia necessária à realização do trabalho de expansão
na subida é obtida às custas da redução de sua própria energia interna (como estabelece o 1° Princí-
pio da Termodinâmica “a variação da energia interna de um sistema depende da troca de calor com
o meio e da realização do trabalho, ∆Q = ∆u+∆w”) resultando num resfriamento da parcela. Na
descida a parcela se aquecerá, pois a atmosfera realiza trabalho sobre ela (compressão), aumentando
sua energia interna.
Nesse nosso estudo serão assumidas as seguintes condições:
a) atmosfera em equilíbrio hidrostático (sem perturbação);
b) não haverá troca de calor entre a parcela e a atmosfera; e
c) nenhum produto de condensação abandonará a parcela na ascensão ou subsidência.
Como bem vimos, as variações de altura por que passa uma parcela de ar na atmosfera trans-
mitem-lhe consequentes variações de temperatura (resfriamento na subida por expansão e aqueci-
mento na descida por compressão). Estas variações foram bastante pesquisadas e hoje, lhe são atri-
buídos valores diferentes, conforme o ar esteja ou não saturado.

1.1.4.1 - Características do processo adiabático:

1.1.4.1.1 - Razão Adiabática Seca (RAS)

É o nome do gradiente térmico de uma parcela de ar não saturado, que apresenta o valor
particular de 1 ºC/100 m. Ele é na verdade, a variação vertical da temperatura de uma parcela de ar
“seco” que, ao elevar-se adiabaticamente, resfria-se e, ao descer adiabaticamente, se aquece na
mesma proporção. Não se deve, a partir de agora, confundir o gradiente térmico de uma parcela de
ar que se movimenta adiabaticamente, com o gradiente térmico do ar ambiente, onde a parcela se
movimenta. Aquele é sempre constante, fazendo-se na razão de 1 ºC/100 m e este poderá apresentar
valores bem diferentes, que dependerão de uma pesquisa atmosférica, normalmente, via sondagem.

1.1.4.1.2 - Gradiente Superadiabático

É o nome dado a todo gradiente térmico que apresenta um valor superior ao atribuído à
Razão Adiabática Seca, ou seja, maior do que 1 ºC/100 m. O máximo permissível na atmosfera é de
3,42 ºC/100 m e recebe a designação particular de gradiente autoconvectivo, pois ele acarreta o
afundamento mecânico do ar mais frio dos níveis superiores e uma subida violenta de um volume
equivalente de ar superaquecido dos níveis inferiores; o resultado disso é uma instabilidade extrema,
como veremos adiante.

1.1.4.1.3 - Razão Adiabática Úmida (RAU)

É o nome do gradiente térmico de uma parcela de ar saturado, que apresenta o valor parti-
cular de 0,6 ºC/100 m. Ele é na verdade, a variação vertical da temperatura de uma parcela de ar
“úmido”, que, elevando-se adiabaticamente, já ultrapassou o NCC. É de menor valor porque o calor
latente de condensação, liberado no processo respectivo, reaquece a parcela, reduzindo assim o valor
do gradiente térmico. Na verdade, a razão adiabática úmida não apresenta um valor tão constante
quanto à razão adiabática seca, pois ele varia na razão inversa da temperatura e depende da quanti-
dade de vapor d’água envolvida no processo. Em virtude disso, varia de 0,4 ºC até quase 1 ºC/100
m, adotando-se, porém, como já vimos, um valor médio de 0,6 ºC/100 m.

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1.1.4.1.4 - Nível de condensação convectiva (NCC)

À medida que uma parcela de ar se eleva convectivamente, ela vai se resfriando adiabatica-
mente e a diferença entre a sua temperatura e a temperatura do ponto de orvalho variará gradativa-
mente. Da mesma forma que a temperatura do ar decresce de 1 ºC/100 m (valor da Razão Adiabática
Seca), a temperatura do ponto de orvalho o faz na razão média de 0,2 ºC/100 m.
Quando a diferença entre os dois valores se torna nula, eles se igualam e ocorre a saturação
da parcela considerada. A partir daí, inicia-se a condensação do vapor d’água e uma possível for-
mação de nebulosidade. O nível no qual isto ocorre recebe o nome de Nível de Condensação Con-
vectiva (NCC) ou Nível de Condensação por Elevação (NCE) e a sua altura é a mesma da base da
nebulosidade aí formada. Toda atividade convectiva se inicia à superfície e a temperatura do ar que
lhe dá origem denomina-se temperatura convectiva.
Para se calcular a altura da nuvem formada num processo adiabático, usa-se uma regra de
três simples, lembrando que, para cada 100 metros de altura, a diferença de temperatura e do ponto
de orvalho decresce numa razão de 0,8 ºC.

0,8 ºC --------100 metros


(T – td) -----h
h = (T –td) x 125

Onde: T = temperatura do ar à superfície em ºC


Td = temperatura do ponto do orvalho em ºC
125 = constante (resultado de 100 : 0,8)
h = altura do NCC/NCE em metros.

1.1.4.1.5 - Exercícios de Aplicação:

1- A temperatura do ar na base de uma nuvem cumulus situada a 1.500 metros de altura é de 16 ºC.
Qual a temperatura do ponto de orvalho à superfície?

2- Nuvem cumulus formam-se a 1.600 metros. Sabendo-se que a temperatura do ponto de orvalho
à superfície é de 20 °C, a temperatura convectiva será de

3- Uma nuvem tem base a 1.000 metros e topo a 5.000 metros. Qual a temperatura do ar a 3.000
metros de altura, se a temperatura do ponto de orvalho a 600 metros é de 9 ºC?

4- Nuvens cumulus formam-se a 800 metros, tendo na base o ponto de orvalho de 6 ºC. Qual a
temperatura convectiva em graus Celsius?

5- Uma parcela de ar à superfície é forçada a se elevar a 1.400 metros de altura, onde atinge o NCC
com ponto de orvalho de 08 ºC. A sua temperatura à superfície, em graus Celsius será?

6- Qual a temperatura no topo de uma nuvem cumulus, sabendo-se que tem 700 metros de extensão
vertical, base a 1.000 metros e que apresenta 8 ºC no NCC.

7- Uma parcela de ar é forçada a subir a encosta de uma montanha. Essa parcela forma nuvem a
1.000 metros de altura, atingindo o NCC com temperatura de 8 ºC, produzindo saturação até o
topo da montanha que é de 3.000 metros. Calcule:
a) a temperatura convectiva;
b) a temperatura do ponto de orvalho à superfície;
c) a temperatura no topo da montanha;
d) a temperatura à superfície do lado oposto da montanha após a descida da parcela.
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Respostas:
1- 19 ºC
2- 91 ºF
3- -3,8 ºC
4- 14 ºC
5- 22 ºC
6- 3,8 ºC
7- a) 18 ºC; b) 10 ºC; c) –04 ºC; d) 26 ºC

1.1.4.1.6- Temperaturas potencial e potencial equivalente

O conceito de temperatura potencial é de extrema utilidade em Meteorologia, principalmente


quando se necessita comparar as temperaturas do ar a diferentes alturas, para efeito de cálculo de
fluxos de calor, pois não se pode medir diretamente a temperatura e compará-la sem considerar a
pressão e altura. Neste caso então, compara-se as diferentes temperaturas potenciais.
Se uma parcela de ar eleva-se até um dado ponto, a partir da superfície, e depois retorna ao
ponto de partida, independente das variações de pressão por que passou, tanto na subida como na
descida, voltará sempre com a mesma temperatura inicial, desde que a pressão inicial permaneça
constante. A superfície de pressão escolhida para tal é a de 1.000 hPa e a temperatura que uma
parcela adquire quando é trazida até a mesma, é chamada de Temperatura Potencial. Variações de
altura fazem variar a temperatura da parcela, mas a sua temperatura potencial será sempre constante.
Entretanto, se a parcela ultrapassar o NCC e saturar todo o vapor d’água, ao retornar à superfície de
1.000 hPa, chegará com uma temperatura maior que a inicial. É a chamada temperatura potencial
equivalente, muito usada na identificação de massas de ar. O processo que deu origem a temperatura
potencial equivalente é denominado de processo pseudoadiabático e que difere do processo adiabá-
tico, porque vai além do NCC.

1.1.4.2 - Condições de equilíbrio na Atmosfera

Para o estudo das condições de equilíbrio na atmosfera será adotado o chamado “método da
parcela”, que analisa o comportamento de uma parcela de ar em relação à atmosfera que a circunda
(ar adjacente). Admite-se que, em um certo instante, uma dada camada da atmosfera se encontre em
equilíbrio hidrostático. Em seguida, sofra um impulso qualquer (orografia, por exemplo) que a obri-
gue a um pequeno deslocamento vertical. Ao deslocar-se verticalmente, a parcela experimenta uma
mudança de temperatura que se processa segundo a razão adiabática seca ou úmida. Uma vez ces-
sada a causa que obrigou a parcela a se deslocar, sua densidade poderá ser maior, igual ou menor
que a da atmosfera adjacente, no nível de pressão atingido, daí resultando sua tendência a descer,
estacionar ou subir, respectivamente. Dependendo de sua densidade final em relação ao ar circun-
dante, a parcela poderá:
a) descer, voltando ao nível de pressão original; neste caso, o equilíbrio do ar é dito estável;
b) estacionar, permanecendo em repouso na nova posição, denominado neutro;
c) subir, tendendo a se afastar da posição original, chamado instável.

1.1.4.2.1 - Tipos de equilíbrio do ar:

Para determiná-los deve-se comparar o gradiente térmico do ar ambiente (valor a ser pesqui-
sado) com o gradiente térmico da parcela de ar, RAS ou RAU, conforme tenha ou não ultrapassado
o NCC. Os exemplos citados a seguir referem-se apenas à RAS, tendo em vista que o procedimento
para RAU é o mesmo, somente atentando-se para os valores diferentes das razões adiabáticas seca
e úmida.

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1.1.4.2.1.1 - Ar indiferente ou neutro

Ocorre quando o gradiente térmico do ar ambiente for igual ao gradiente térmico da parcela
considerada ou ambos apresentarem mesma densidade.

GTA = 1 ºC/100 m ==> AR NEUTRO (GTA = RAS)

Exemplo: feita uma sondagem num ambiente cuja temperatura convectiva é de 30 ºC, verificou-se
que a 2.000 m de altura a temperatura é de 10 ºC. Uma parcela embebida nesse meio chegará a esse
nível também com 10 ºC, apresentando, consequentemente, a mesma densidade do ar ambiente e
tendendo a permanecer em repouso, caracterizando desse modo, ar indiferente ou neutro.

1.1.4.2.1.2 - Ar estável

Ocorre quando o gradiente térmico do ar ambiente for menor do que o gradiente térmico da
parcela considerada ou a densidade ambiente for menor que a densidade da parcela.

GTA < 1 ºC/100 m ==> AR ESTÁVEL (GTA < RAS)

Exemplo: feita uma sondagem num ambiente cuja temperatura convectiva é de 30 ºC, verificou-se
que a 2.000 m de altura a temperatura é de 20 ºC. Uma parcela embebida nesse meio chegará a esse
nível com 10 ºC, apresentando, consequentemente, uma densidade maior que a do ar ambiente e
tendendo a afundar, com retorno à posição original, caracterizando, desse modo, ar estável.

1.1.4.2.1.3 - Ar instável

Ocorre, quando o gradiente térmico do ar ambiente for maior do que o gradiente térmico da
parcela considerada ou densidade ambiente maior que a densidade da parcela.

GTA > 1 ºC/100 m ==> AR INSTÁVEL (GTA > RAS)

Exemplo: feita uma sondagem num ambiente cuja temperatura convectiva é de 30 ºC, verificou-se
que a 2.000 m de altura a temperatura é de 0 ºC. Uma parcela embebida nesse meio chegará a esse
nível com 10 ºC, apresentando, consequentemente, uma densidade menor que a do ar ambiente e
tendendo a continuar subindo, afastando-se da posição original, caracterizando, desse modo, ar ins-
tável.

Observa-se perfeitamente que os valores de gradiente térmico ambiente dos exemplos ante-
riormente apresentados, são os seguintes:
• exemplo do caso (a): 1 ºC/100 m;
• exemplo do caso (b): 0,5 ºC/100 m;
• exemplo do caso (c): 1,5 ºC/100 m.
Em ar estável, não há condições para a movimentação vertical do ar, apresentando-se o
mesmo calmo ou sem turbulência. Em ar instável, há condições para a movimentação vertical do ar,
apresentando-se agitado ou turbulento.

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1.1.4.2.2 - Estabilidade Condicional do Ar

Como já vimos anteriormente, se uma parcela de ar eleva-se adiabaticamente num ar ambi-


ente cujo gradiente térmico seja menor que o seu, o resultado é a presença de ar estável. Admitamos
por exemplo, o valor de 0,8 ºC/100 m para o referido gradiente. Ao atingir o NCC, a parcela em
apreço passa a apresentar um gradiente térmico menor, como já sabemos (0,6 ºC/100 m), muito
embora o gradiente térmico do ar ambiente continue com o valor de 0,8 ºC/100 m. Isto evidenciará,
como também já vimos anteriormente, a presença de ar instável, uma vez que o gradiente térmico
do ar ambiente passou a ser maior que o gradiente térmico da parcela considerada. Este tipo de
estabilidade do ar, no qual ele permanece estável enquanto não saturado, passando gradativamente
a instável depois de saturado, denomina-se estabilidade condicional, e o nível onde ela ocorre
chama-se nível de convecção livre (NCL), que pode acontecer coincidente ou abaixo do NCC.

1.1.4.2.3 - Instabilidade Mecânica ou Absoluta do ar

Normalmente, a densidade do ar diminui com a altura, mesmo que haja um gradiente su-
peradiabático. Entretanto, em níveis próximos a superfícies superaquecidas, têm havido evidências
de ar com densidade quase constante, o que caracteriza a chamada atmosfera homogênea, cujo gra-
diente térmico responsável é o gradiente autoconvectivo (3,42 ºC/100 m). Como bem já vimos, é
uma situação que produz uma instabilidade extrema e automática, isto é, sem a necessidade de atu-
ação de forças externas, tais como convergência, efeito orográfico, efeito dinâmico, etc., e que se
denomina instabilidade mecânica ou absoluta. A grande importância disso é que ela é responsável
pela ocorrência de fenômenos violentos, principalmente do tornado e da tromba d’água. O afunda-
mento de ar numa área da superfície acarreta concentração de ar nesse nível (alta pressão), gerando
estabilidade e formação de névoa e nevoeiros. Esse acúmulo de ar tende a divergir (sair) do centro
de alta e convergir (entrar) para um centro de baixa (graças ao equilíbrio hidrostático), gerando
elevação de ar e convecção nesses ciclones. Portanto, afundamento e divergência associam-se a
áreas de alta pressão enquanto convergência e elevação caracterizam áreas de baixa pressão.

1.1.4.2.4 - Outros aspectos de identificação do equilíbrio do ar

A nebulosidade, quando bem interpretada, permite identificar a condição de equilíbrio rei-


nante no momento sobre uma área. Assim, toda nuvem que apresente o termo cumulus em seu nome,
caracteriza ar instável (cumulus, cumulonimbus, altocumulus e cirrocumulus). Por outro lado, toda
nuvem que apresente o termo stratus em seu nome, caracteriza ar estável (stratus, nimbostratus,
altostratus e cirrostratus). Já a nuvem stratocumulus caracteriza o ar neutro.
Além das nuvens, outros aspectos mais comuns servem como formas de identificação do
equilíbrio do ar. Dentre eles, podemos citar os seguintes:

1.1.4.2.4.1 - Estabilidade Geral

Visibilidade restrita, névoa úmida, céu claro ou com nebulosidade estratiforme, sem ou com
precipitação leve e contínua.

1.1.4.2.4.2 - Instabilidade Geral

Visibilidade boa, salvo quando ocorrer precipitação proveniente da nebulosidade cumuli-


forme que está sempre presente (cumulus congestus e cumulonimbus).

1.1.4.2.4.3 - Instabilidade Orográfica

Nuvens lenticulares (forma de lentes) e cumulus nas proximidades de montanhas, associadas


com ventos fortes ao nível dos respectivos topos.

19
1.1.4.2.4.4 - Instabilidade nos níveis médios e superiores da Atmosfera

Nuvens altocumulus do tipo castellanus. Nuvens cirrus uncinus indicando ventos fortes, nu-
vens cirrocumulus e cirrus spissatus (topo de cumulonimbus).

Subunidade 1.2 – Calor e Temperatura na Atmosfera

1.2.1 - Generalidades

Um elemento meteorológico de importância fundamental é a temperatura do ar, em muitas


partes do mundo, sujeita a grandes extremos e mudanças súbitas. Constitui ela um importante fator
na determinação das condições de vida e na produtividade do solo nas diferentes regiões do planeta,
além de ser a responsável por muitas mudanças de tempo.

1.2.2 - Conceitos de Calor e Temperatura

A energia que se origina do movimento molecular de um corpo é chamada calor. O calor é,


portanto, uma modalidade de energia que é transmitida de um corpo para outro, quando entre eles
existe uma diferença de temperatura. São as sensações táteis de “quente” e de “frio” que nos trans-
mitem a primeira noção de temperatura. Dizemos que ela é a medida da velocidade média de agita-
ção das moléculas de um corpo ou substância e que expressa o seu grau médio de calor.
Ao colocarmos em contato direto dois corpos, o mais aquecido comunica suas agitações aos
átomos e moléculas menos velozes do corpo menos aquecido. Após algum tempo de contato, os
dois corpos entram em equilíbrio termal, isto é, os átomos e moléculas de ambos passam a apresentar
um valor médio de energia.

1.2.3 - Instrumentos Avaliadores de Temperatura

Quando um corpo é aquecido, suas propriedades físicas variam, e muito particularmente o


seu volume aumenta. Ao ser resfriado, ocorre o contrário, ou seja, o volume diminui. Daí a facili-
dade de se poder avaliar as temperaturas do referido corpo, representando-as por valores que per-
mitem medir as suas variações de volume.
Certas substâncias são usadas na avaliação das temperaturas pelos valores assumidos por
seus diferentes volumes. Tais substâncias são empregadas na fabricação de instrumentos que servem
para avaliar as temperaturas dos corpos quando em contato direto com eles: os chamados “termô-
metros”.
Um termômetro, portanto, avalia ou indica, apenas por comparação, a temperatura de um
corpo ou meio. Quando ele é fabricado de modo a poder também registrar a temperatura sobre um
diagrama próprio, recebe o nome de “termógrafo".
As substâncias usadas na fabricação dos termômetros podem ser líquidas (álcool, mercúrio),
gasosas (hidrogênio, hélio, nitrogênio), ou sólidas (platina, irídio). A técnica de uso dos termômetros
na verificação das temperaturas recebe o nome de “termometria”.

1.2.3.1 - Tipos de Termômetros:

O tipo de termômetro é determinado pela natureza da substância utilizada na sua fabricação.


De modo geral, há quatro tipos básicos de termômetros:

1.2.3.1.1 - Termômetros a gás

São os termômetros que empregam as substâncias gasosas como elemento ativo. São nor-
malmente usados como termos comparativos, por causa da sua exatidão, servindo para determinar

20
de maneira precisa, em laboratórios de aferição, as temperaturas de fusão e ebulição das substâncias
puras. São, de modo geral, usados para temperaturas muito baixas.

1.2.3.1.2 - Termômetros de vidro

São os termômetros que empregam substâncias líquidas. São assim chamados porque se
compõem de um tubo de vidro com seu interior capilarizado, ligado diretamente a um reservatório
ou “bulbo” que contém a substância líquida usada. Com o aumento da temperatura, a substância se
dilata e sobe ao longo do capilar e, com o decréscimo da temperatura, ela se contrai e volta para o
interior do bulbo. Os termômetros de vidro são de boa precisão e apresentam as seguintes varieda-
des:

1.2.3.1.3 - Termômetros de mercúrio

É o termômetro que utiliza o mercúrio como substância termométrica. É utilizado para va-
lores que variam de -36 ºC a + 300 ºC aproximadamente.

1.2.3.1.4 - Termômetros de álcool

Termômetro que utiliza o álcool como substância termométrica. É utilizado para avaliar tem-
peraturas inferiores a -36 ºC.

1.2.3.1.5 - Termômetros metálicos

Termômetros que empregam substâncias sólidas. Não são tão precisos como os de vidro e
apresentam dois tipos principais:

1.2.3.1.5.1 - Termômetros de Bourdon

Termômetro que utiliza um tubo metálico, curvo e elíptico, contendo álcool etílico. Varia-
ções de temperatura fazem com que o referido tubo se contraia ou se expanda, indicando um resfri-
amento ou um aquecimento, respectivamente. É o sistema utilizado como elemento ativo dos cha-
mados termógrafos.

1.2.3.1.5.2 - Termômetros bimetálicos

Utiliza duas lâminas metálicas de coeficientes de dilatação diferentes entre si, formando um
só conjunto. Variações de temperatura fazem as respectivas lâminas reagirem diferentemente, per-
mitindo assim calibrar as distorções. É um sistema utilizado a bordo de aeronaves.

1.2.3.1.6 - Termômetros elétricos

Empregam as propriedades condutoras de certas substâncias. Apresentam dois grupos prin-


cipais:

1.2.3.1.7 - Termômetros de resistência

Baseiam-se no fato de que a resistência elétrica de um condutor varia com a sua temperatura.
Vêm sendo utilizados a bordo de aeronaves e nos equipamentos de radiossondagem. O tipo mais
conhecido é o chamado termistor, que permite verificar temperaturas baixas através da radiossonda.

21
1.2.3.1.8 - Termômetros termoelétricos

Baseiam-se no princípio de que uma corrente elétrica circula entre duas junções metálicas,
sempre que houver uma diferença de temperatura entre ambas. O tipo mais conhecido é o chamado
termocouple, que permite verificar temperaturas elevadas.

1.2.3.2 - Tempo de reposta dos termômetros

Para que um termômetro possa funcionar adequadamente é necessário que esteja em equilí-
brio térmico com o ambiente, cuja temperatura se deseja conhecer. Uma vez submetido a uma tem-
peratura diferente, suas leituras vão se aproximando, gradualmente, do valor real. O intervalo de
tempo necessário para adaptar-se às novas condições é chamado tempo de resposta do instrumento.
Em Meteorologia, porém, o emprego de termômetros com resposta muito rápida não é acon-
selhável (O.M.M., 1969). No caso da temperatura do ar, por exemplo, que pode variar 1 ou 2 °C em
poucos minutos, o uso de termômetros com pequeno tempo de resposta exigiria uma série de leitu-
ras, de cujos valores seria extraída uma média. Reciprocamente, se fossem empregados termômetros
de resposta muito lenta, o retardamento em adaptar-se termicamente ao ambiente provocaria erros
apreciáveis.

1.2.3.3 - Escalas Termométricas

A indicação de uma temperatura deve ser tal que, quando submetida num mesmo instante a
diversos termômetros, estes representem um só valor. Para que isso se tornasse possível, foram
criadas as chamadas escalas termométricas, pelas quais os termômetros são “graduados”, para que
forneçam leituras de temperaturas em “graus”. As escalas termométricas são diferentes entre si, mas
todas elas são fixadas entre dois limites bem definidos: o do gelo em fusão e o da água em ebulição.
As principais escalas em uso são a Celsius ou Centígrada, a Fahrenheit e a Kelvin ou Absoluta.

1.2.3.3.1 - Escala Celsius (1736)

Escala atribuída a Anders Celsius (1701-1744), astrônomo sueco que submeteu uma coluna
de vidro, contendo mercúrio, aos limites acima citados. A altura atingida pelo mercúrio, na primeira
imersão, chamou de 0 (zero) e, na segunda imersão, chamou de 100 (cem). A seguir, dividiu o
espaço entre os referidos limites em cem partes iguais e os cognominou de graus Celsius, centesi-
mais ou centígrados (ºC).

1.2.3.3.2 - Escala Fahrenheit (1710)

Escala termométrica atribuída a Daniel Fahrenheit (1686-1736), físico polonês que subme-
teu uma coluna de vidro, contendo mercúrio, a uma mistura de neve, sal e amônia e chamou de 0
(zero) à altura atingida pelo mercúrio nesta imersão. A seguir, submeteu a mesma coluna à tempe-
ratura média de seu corpo e dividiu o intervalo entre esses dois pontos de referência. Depois extra-
polou o mesmo intervalo para os limites definidos (fusão do gelo e ebulição da água), determinando
com isso os valores de 32 e 212 para os referidos limites. Dessa maneira, o intervalo em apreço foi
dividido em cento e oitenta partes iguais, cognominados de graus Fahrenheit (ºF).

1.2.3.3.3 - Escala Kelvin

Definida pelo cientista inglês Willian Thompson (Lord Kelvin), tem como principal carac-
terística, o fato de que o seu limite inferior, denominado Zero Absoluto, é um valor inatingível, uma
vez que aí a energia termal desaparece por completo, e os átomos e moléculas de um corpo passam
a um estado de repouso absoluto. Nessa escala, a temperatura do gelo em fusão corresponde a 273
graus absolutos e a temperatura da água em ebulição, a 373 graus absolutos, O zero absoluto equi-
vale, na escala Celsius, a -273 ºC.
22
1.2.3.4 - Conversão de escalas

Em nossos trabalhos práticos, muitas vezes somos obrigados a passar de uma escala termo-
métrica para outra. Isso é muito fácil, desde que saibamos fazer a referida conversão. Para tanto,
podemos contar com dois recursos:
 através de tabelas: normalmente encontradas na estação e feitas para facilitar o trabalho;
 através de fórmulas de conversão: quando não se dispõe das tabelas acima referidas.

Elas devem ser bem compreendidas para se evitar atropelos de última hora. Vejamos as prin-
cipais.

As escalas citadas tornam-se equivalentes através das seguintes relações:

Exemplos de aplicação:

1º) Converter 72 ºF em K.

2º) Converter 20 ºC em ºF

1.2.4 - Distribuição global da temperatura

A temperatura na atmosfera varia tanto no sentido horizontal como no sentido vertical.

1.2.4.1 - Variação Horizontal

Também denominada de latitudinal, é a mais conhecida do homem e apresenta-se com


grande inconstância. Uma prova disso, é que ela determina grandes diferenças nas médias termais
verificadas de local para local da Terra, nas diversas épocas do ano. Os diversos valores de tempe-
ratura, em qualquer ponto do globo terrestre, dependem de um modo geral, das seguintes condições
básicas: intensidade e duração da radiação solar, da insolação, do albedo da superfície e dos aspectos
físicos da superfície. A distribuição horizontal de temperatura constitui-se num dos mais importan-
tes fatores para as análises meteorológicas, no que tange ao estudo do comportamento da Atmosfera.

23
O chamado campo termal da Atmosfera é obtido a partir do traçado de linhas nas cartas de
superfície que unem pontos que apresentam os mesmos valores de temperatura. São as chamadas
isotermas, que normalmente são traçadas a intervalos de 5 ºC. Para melhor se representar o campo
termal da Atmosfera, deve-se traçar isotermas em diferentes níveis.

1.2.4.2 - Variação Vertical

Também denominada de gradiente térmico vertical, é mais definida e de relativa constância.


Ocorre na Troposfera numa razão média de 0,65 ºC/100 m ou 2 ºC/1000 pés, denominada de gradi-
ente térmico normal ou positivo. Entretanto, costuma ocorrer na Troposfera, principalmente sobre
os continentes, no inverno, e sobre os oceanos, no verão, um gradiente térmico negativo, segundo o
qual a temperatura aumenta com a altitude. O resultado disso é um fenômeno chamado de inversão
de temperatura ou simplesmente inversão e a camada atmosférica que a contém, chama-se camada
de inversão. Por outro lado, na Tropopausa e nos primeiros níveis estratosféricos, o gradiente tér-
mico apresenta-se nulo ou quase constante, caracterizando o fenômeno chamado isotermia.

1.2.5 - Oscilações da temperatura do ar

1.2.5.1 - Oscilações quase instantâneas

As variações quase instantâneas na temperatura do ar à superfície são atribuídas à passagem


de turbilhões ou remoinhos de ar convectivos. Sobre a superfície terrestre, tais vórtices, decorrem
do atrito oferecido ao movimento do ar e da convecção. Essas variações não se aplicam à climato-
logia e à previsão devido à pequena duração do fenômeno.

1.2.5.2 - Oscilações diárias

A temperatura do ar à superfície apresenta um ciclo diário de variação, apresentando um


máximo (geralmente duas horas após a culminação do Sol) e um mínimo (um pouco antes do nascer
do Sol), podendo, entretanto, serem alterados pela presença de fenômenos atmosféricos (frentes). A
variação diária de temperatura é maior nos trópicos e decresce em direção aos polos.

1.2.5.3 - Oscilação anual

A variação de temperatura numa região durante um ano depende da energia recebida do Sol.
Verifica-se que as máximas anuais ocorrem após dois meses depois do término do verão e as míni-
mas após dois meses transcorridos o fim do inverno. A variação de temperatura anula é maior quanto
mais próxima dos polos for o local. Vale salientar que o mar atua como regulador da temperatura
do ar, suavizando as flutuações da temperatura do ar, ao mesmo tempo em que regiões afastadas do
mar tendem a aumentar essa variação de temperatura. Este efeito é chamado de continentalidade.

1.2.6 - Determinação da temperatura

Em meteorologia, podemos obter a temperatura do ar, do solo e da água, a saber:


- temperatura do ar - de grande importância em meteorologia aeronáutica, será vista com
mais detalhes adiante;
- temperatura do solo - de grande importância em meteorologia agrícola, é obtida através dos
chamados geotermômetros ou termômetros de solo, que nada mais são do que termômetros
de mercúrio enterrados no solo a profundidades diversas;
- temperatura da água - de grande importância em meteorologia marítima e meteorologia
hidrológica, é obtida através de termômetros de água, que nada mais são do que termôme-
tros de mercúrio mergulhados na água.

24
1.2.7 - Temperatura do ar

É um dos elementos mais importantes para o estudo da meteorologia em geral, pois constitui-
se num dos parâmetros fundamentais da atmosfera, ao lado da pressão e da umidade. Pode ser obtida
à superfície ou em altitude.

1.2.7.1 - Temperatura do ar à superfície

Elemento de grande importância para as operações de pouso e decolagem, o qual pode ser
obtido através de psicrômetros e de teletermômetros nos aeródromos.

1.2.7.2 - Temperatura do ar em altitude

Elemento de grande importância para a análise dos campos termais nos diferentes níveis
atmosféricos e para a navegação aérea, pode ser obtida por meio de equipamentos eletrônicos de
sondagem (a radiossonda). Ela se eleva na atmosfera por meio de um grande balão de neoprene,
inflado com gás hélio ou gás hidrogênio. O sistema contém, dentre vários elementos, um elemento
sensível à temperatura- o termistor. Também pode ser obtida em voo, por meio de termômetros
(elétricos ou metálicos), instalados a bordo de aeronaves ou por meio de equipamentos de radios-
sondagem usados a bordo de aeronaves de reconhecimento meteorológico - as dropsondas - que
permitem, dentre outras atividades, a verificação da temperatura desde o nível de voo até a superfí-
cie.

1.2.8 - O Calor

Como bem vimos anteriormente, a absorção de energia radiante por uma substância é que
provoca seu aquecimento. Em outras palavras, a energia absorvida pela substância converte-se em
calor sensível. Entretanto, o aquecimento subsequente depende em muito da natureza da substância.
Assim, chamamos de calor específico, a quantidade de calor necessária, para aumentar em 1ºC a
temperatura de 1 g de uma substância qualquer. No caso particular da água, este recebe o nome de
caloria e corresponde à quantidade de calor necessária, para elevar a temperatura de 1 g de água
pura, sob pressão padrão ao nível do mar, de 14,5 ºC para 15,5 ºC. Desse modo, a caloria expressa
o calor específico da água e atribui ao mesmo o valor máximo e igual a 1. Aliás, o calor específico
de uma substância é, de um modo geral, maior no estado líquido do que no estado sólido. Outrossim,
o conceito de calor específico não satisfaz em muito o caso dos gases em geral, devida sua grande
compressibilidade. E o calor latente, ao contrário do calor específico, é definido como a energia que
o corpo absorve para mudar de estado, fazendo com que a temperatura permaneça constante.
Um outro fato que já denotamos anteriormente é que o calor utilizado por uma substância
para seu aquecimento é seletivo, ou seja, ela usa apenas uma parte e o restante vai servir para o uso
de outra. E isso mais uma vez, vai depender da natureza da substância. Algumas substâncias, sobre-
tudo os metais, permitem uma transferência mais rápida de calor do que outras e são por isso deno-
minadas de bons condutores. Outras, no entanto, tais como o papel, o barro, o amianto, a lã, já não
permitem uma transferência do calor com muita facilidade e são por isso, denominadas de maus
condutores. Como vemos, cada substância conduz o calor com um certo grau de facilidade ou difi-
culdade, que se traduz como seu coeficiente de condutibilidade. Dadas duas substâncias, é conside-
rada melhor condutora, a de maior coeficiente de condutibilidade. São considerados péssimos con-
dutores entre outros o ar, a cortiça, o cimento, a água e o vidro.

1.2.8.1 - Propagação do calor

Na natureza ocorrem quatro processos fundamentais de propagação do calor: a condução, a


radiação, a convecção e a advecção.

25
1.2.8.1.1 - Condução

Transferência do calor, molécula a molécula, sem a mudança da posição relativa das mesmas
e sim por agitação. É o processo comum aos sólidos, sendo que destes os metais são os melhores
condutores, como já vimos. Já os líquidos e os gases são péssimos condutores. Não há condução em
ar rarefeito e na Atmosfera, só ocorre condução próximo à superfície terrestre.

Figura 2 - Condução

1.2.8.1.2 - Radiação

Transferência do calor através da conversão da energia térmica em radiação eletromagnética


e a reconversão dessa radiação em calor pelo corpo sobre o qual tenha incidido a referida radiação.
O exemplo mais notório disso é o aquecimento da Terra pelo calor solar, onde o processo se passa
da seguinte maneira: a radiação infravermelha ao atingir a superfície terrestre, faz vibrar as molé-
culas desta, originando o calor. Isto porque a Atmosfera é um corpo diatérmico, ou seja, pratica-
mente não se aquece pela radiação.

Figura 3 - Radiação

26
1.2.8.1.3 - Convecção

Transferência do calor através do movimento de massa dos fluídos. É o mesmo processo


segundo o qual a água de uma vasilha exposta ao fogo aquece-se em todos os níveis, como resultante
da distribuição de calor de um ponto para outro do fluído e pelo deslocamento da matéria, formando
as “correntes convectivas”. Trata-se do processo mais comum da atmosfera e se traduz pela movi-
mentação vertical do ar por meio de correntes ascendentes (que conduzem o ar quente para níveis
mais elevados, a partir da superfície) e de correntes descendentes (que trazem volumes correspon-
dentes de ar frio, dos níveis mais elevados para a superfície).

Figura 4 - Convecção

1.2.8.1.4 - Advecção

Transferência do calor através do movimento de massa dos fluídos, só que executado no


sentido horizontal ou paralelo à superfície. Há dois tipos fundamentais de advecção: de ar frio sobre
superfície quente e de ar quente sobre superfície fria.

Figura 5 – Advecção

27
Subunidade 1.3 – Umidade Atmosférica

1.3.1 - Generalidades

O estudo dos hidrometeoros não poderia deixar de se iniciar pela forma gasosa. O vapor
d’água vive em constante transição por diferentes regiões do globo terrestre.
Assim, um volume de ar é considerado seco quando possui uma quantidade insignificante
de vapor d’água. Quando essa quantidade se torna apreciável, o ar é considerado úmido, que é uma
mistura de ar seco com vapor d’água. À medida que o vapor d’água aumenta, atingindo a quantidade
máxima que o volume de ar pode conter, o ar é denominado saturado.
A quantidade de vapor d’água que o ar pode conter varia constantemente. Essa variação se
faz em detrimento de outros elementos do ar, principalmente do oxigênio e do nitrogênio. Se con-
siderarmos um volume de ar úmido, vamos verificar que há nele uma grande quantidade de molé-
culas de vapor d’água, cujo peso molecular é 18 (H2O). Por outro lado, em um volume de ar seco
(N2 + O2) predominam o nitrogênio (peso molecular = 14) e o oxigênio (peso molecular = 16).
Comprova-se, dessa forma, ser o ar úmido mais leve do que o ar seco.
O vapor d’água provém principalmente da contínua evaporação que se processa sobre as
superfícies líquidas (oceanos, mares, rios, lagos) e, em menor proporção, do solo úmido e da trans-
piração dos seres em geral (evapotranspiração). A quantidade de vapor d’água na Atmosfera diminui
com a altitude e com a latitude, e o seu estudo é denominado higrometria.
Denominamos “evaporação” ao fenômeno segundo o qual uma substância líquida passa na-
turalmente para o estado gasoso. Esse fenômeno ocorre com a água em condições normais. A pre-
sença de uma superfície líquida, que ocupa três quartas partes do globo terrestre, assegura uma
contínua fonte de provisão de vapor d’água para a atmosfera.

1.3.2 - Pressão atmosférica e vapor d’água

1.3.2.1 - Pressão do vapor d’água

Quando o vapor d’água escapa para o ar e se mistura com outros gases da atmosfera, ele da
mesma forma que estes, exerce pressão em todas as direções. Esta pressão se denomina pressão do
vapor e contribui para a pressão atmosférica total do ar.

1.3.2.2 - Pressão de saturação do vapor d’água

Considerando uma superfície livre de água, vamos encontrar aí não apenas uma fuga de
moléculas do líquido para o ar, mas também um retorno de moléculas do ar para o líquido. Em
princípio, a fuga é maior do que o retorno e dizemos que está havendo evaporação. Quando o nú-
mero de moléculas que escapa é equilibrado pelo número das que retornam, não haverá mais eva-
poração e se diz que o ar está saturado, isto é, sob as condições reinantes, o ar não poderá mais
conter vapor d’água. A pressão do vapor passa a denominar-se, nesse caso, “pressão de saturação
do vapor”.
Por outro lado, se houver aquecimento do ar, este se dilatará proporcionalmente, permitindo
mais evaporação de água da superfície, uma vez que, para manter o ar saturado, devemos adicionar-
lhe mais vapor d’água, o que permite concluir que a pressão de saturação do vapor d’água é direta-
mente proporcional à temperatura do ar.

28
1.3.2.3 - Tensão do vapor d’água

Como já foi citado anteriormente, dizemos que está havendo evaporação enquanto o número
de moléculas que escapam da superfície líquida for maior do que o número de moléculas que retor-
nam à mesma superfície. O excesso de moléculas que passa para o ar é medido como pressão da
superfície. Esta pressão da superfície que evapora é chamada “tensão do vapor”. Da mesma forma
que a pressão de saturação do vapor, a tensão do vapor também é diretamente proporcional à tem-
peratura da superfície.
À medida que o vapor d’água vai se concentrando no ar, a pressão do vapor vai aumentando,
até atingir um ponto em que será igual à tensão do vapor. Nesse ponto, cessa o fenômeno da evapo-
ração, pois o ar atingiu a saturação.
O índice de evaporação da água da superfície para o ar pode ser medido por meio de instru-
mentos denominados “Evaporímetros” e “Evaporígrafos”.

1.3.2.4 - Temperatura virtual

Em função de presença do vapor d’água, é possível verificar a variação da densidade ou


massa específica do ar. Para tanto, dá-se ao ar um valor fictício de temperatura, capaz de fazer variar
a sua densidade ou massa específica. Essa temperatura é denominada “temperatura virtual” e pode
ser definida como sendo aquela a que deve ser submetido um volume de ar seco para ficar com a
mesma densidade de um volume equivalente de ar úmido, submetido à mesma pressão.

1.3.2.5 - Água precipitável

Chama-se água precipitável à massa total de vapor d’água existente em uma coluna atmos-
férica, que se estenda da superfície até o nível onde não exista mais umidade. Deve-se salientar,
porém, que essa expressão não significa que todo vapor d’água existente na camada irá se condensar
e precipitar. Trata-se de um parâmetro útil em determinados estudos, como o da absorção da energia
solar pela atmosfera terrestre.

1.3.3 - Elementos representativos da umidade do ar

O teor de vapor d’água presente no ar constitui o que se chama de umidade atmosférica. A


presença do vapor d’água pode ser verificada através de diversos elementos, tais como umidade
absoluta, umidade relativa, umidade específica, razão de mistura, temperatura do bulbo úmido e
temperatura do ponto de orvalho.

1.3.3.1 - Umidade Absoluta

A umidade absoluta é definida como a densidade ou massa específica do vapor d’água con-
tido num dado volume de ar. Ela é, geralmente, expressa em gramas de vapor d'água por metro
cúbico de ar (m³).

1.3.3.2 - Umidade Relativa

A umidade relativa é uma relação entre a quantidade de vapor d’água presente num dado
volume de ar e a quantidade máxima que este volume de ar pode conter, expressa em porcentagem.
Desta definição, podemos concluir que, se o ar estiver saturado, ele contém todo o vapor d’água
possível e a umidade relativa será 100%. Quando ele possuir a metade da quantidade máxima de
vapor d’água, a umidade relativa é de 50%. Quando não há vapor d’água presente (apenas em teo-
ria), a umidade relativa é de 0%.

29
Quando, num volume de ar, a quantidade de vapor d’água for constante, um aumento na
temperatura desse volume de ar fará diminuir o valor da umidade relativa e vice-versa.
Para a obtenção do valor da umidade relativa usam-se instrumentos especiais denominados
“higrômetros” e “higrógrafos” ou ainda o higrotermógrafo, que consiste numa associação de um
higrógrafo com um termógrafo.

1.3.3.3 - Umidade Específica

É a relação entre a massa de vapor d’água e a massa de ar úmido. É expressa em gramas de


vapor d’água por quilograma de ar úmido. Ela varia, portanto, com a variação do vapor d’água.

1.3.3.4 - Razão de Mistura

É a relação entre a massa de vapor d’água e a massa de ar seco. É expressa em gramas de


vapor d’água por quilograma de ar seco.

1.3.3.5 - Temperatura do Bulbo Úmido

É a menor temperatura que se pode obter, através da evaporação da água, provocada em um


termômetro de bulbo úmido, componente como já vimos, do psicrômetro. A água evaporada para o
ar circundante faz com que ele vá tendendo à saturação e a temperatura correspondente que ele
adquire é a “temperatura do bulbo úmido”, que vai servir como referência da umidade.

1.3.3.6 - Temperatura do Ponto de Orvalho

É a temperatura que um volume de ar atinge para se tornar saturado, com o vapor d’água
nele existente e a uma dada pressão constante. Ela é obtida a partir do psicrômetro, valendo-se para
tanto das temperaturas ali reinantes e de uma tabela adequada para tal. É sempre comparada com a
temperatura do ar, a fim de permitir a determinação do teor de umidade atmosférica. O ar estará
saturado quando essas duas temperaturas se igualarem. O campo de distribuição da temperatura do
ponto de orvalho é representado, nos mapas de análise meteorológica, por uma linha que une pontos
que apresentem o mesmo valor de ponto de orvalho e que se chama isodrosoterma.

1.3.4 - Comportamento Termodinâmico da água na atmosfera

Na Atmosfera, a água está continuamente mudando de estado e, para que isso ocorra, há
sempre uma quantidade de energia calorífica sendo liberada ou absorvida e que recebe o nome de
calor latente.

1.3.4.1 - Calor latente de vaporização

Quando a água passa do estado líquido para o de vapor d’água, absorve uma quantidade de
calor denominada calor latente de vaporização, que se define como a quantidade de calor necessária
para evaporar um grama de água. Para a água em ebulição, ele é de aproximadamente 540 calorias
e para a água entre 15 ºC e 30 ºC, de 580 calorias. Em virtude desse tipo de calor acompanhar o
vapor d’água na evaporação, esta sempre produz efeito de resfriamento sobre a superfície que eva-
pora e no ar em torno dela.

1.3.4.2 - Calor latente de condensação

Quando o vapor d’água retorna ao estado líquido através da condensação, a mesma quanti-
dade de calor absorvida na evaporação, é agora liberada e recebe o nome de calor latente de con-
densação.

30
1.3.4.3 - Calor latente de solidificação

Quando a água passa do estado líquido para o sólido, através da congelação, libera uma
quantidade de calor, denominada de calor latente de solidificação. A uma temperatura de 0 ºC, cada
grama de água que se congela libera cerca de 80 calorias.

1.3.4.4 - Calor latente de fusão

Quando a água retorna do estado sólido para o líquido, através da fusão, a mesma quantidade
de calor liberada na solidificação, é agora absorvida e recebe o nome de calor latente de fusão.

1.3.4.5 - Calor latente de sublimação

Quando o vapor d’água passa diretamente para o estado sólido, libera uma quantidade de
calor, denominada de calor latente de sublimação e que corresponde à soma do calor latente de
condensação com o calor latente de solidificação. No processo inverso, quando cristais de gelo re-
tornam diretamente para o estado de vapor d’água, a mesma quantidade de calor liberada na subli-
mação é agora absorvida e também recebe o nome de calor latente de sublimação e que corresponde
à soma do calor latente de fusão com o calor latente de vaporização.

Figura 6 - Estados Físicos da Matéria

1.3.5 - Processos físicos de saturação

Para que ocorram a condensação e a sublimação do vapor d’água na atmosfera, é preciso


que haja antes a saturação do ar. Outrossim, este mesmo ar deve conter uma quantidade apreciável
de partículas sólidas, em torno das quais o vapor d’água se fixará pela condensação ou sublimação.
Tais partículas são denominadas núcleos higroscópicos. A sublimação nem sempre depende desses
núcleos, uma vez que experiências demonstraram que sob temperaturas de -39 ºC a -40 ºC ela ocorre,
mesmo sem a presença de partículas higroscópicas. A temperatura que isto ocorre é denominada de
temperatura espontânea ou Ponto de Schäefer.
O ar pode atingir a saturação por dois meios: por acréscimo de vapor d’água ou por resfria-
mento.

31
1.3.5.1 - Por acréscimo de vapor d’água

Ocorre como resultado da evaporação, que permite um aumento na temperatura do ponto de


orvalho. Para tanto, a temperatura do ar e a pressão devem permanecer constantes. Quando a satu-
ração resultante ocorre com umidade relativa superior a 100%, temos a chamada supersaturação, e,
neste caso, o excesso de umidade é condensado ou sublimado de forma instantânea, constituindo-
se no princípio de formação da nebulosidade (nuvens e nevoeiros).

1.3.5.2 - Por resfriamento

Ocorre como resultado de um resfriamento provocado por meios naturais, que permitem uma
diminuição na temperatura do ar. Os principais processos são os seguintes:

1.3.5.2.1 - Radiação

Quando o ar úmido entra em contato com superfície resfriada por radiação terrestre, poderá
também se resfriar e saturar. Normalmente, esta situação resulta numa inversão de temperatura que
pode redundar numa formação de nevoeiro de superfície. Ocasionalmente, pode também haver a
formação do orvalho (sob temperaturas acima de 0 ºC) ou da geada (sob temperaturas de 0 ºC ou
menos).

1.3.5.2.2 - Advecção

Trata-se do processo que ocorre como resultado do transporte horizontal do calor, por meio
da respectiva movimentação do ar. A advecção pode contribuir para a saturação do ar, de duas for-
mas:

1.3.5.2.2.1 - Advecção de ar frio sobre superfície quente

Neste caso, a parte inferior do ar frio torna-se aquecida e menos densa e se eleva, para em
seguida resfriar-se e saturar. O resultado poderá ser camadas descontínuas de nuvens, denominadas
de cumuliformes.

Figura 7 - Advecção de ar frio

32
1.3.5.2.2.2 - Advecção de ar quente sobre superfície fria

Neste caso, a parte inferior do ar quente resfria-se e satura. O resultado poderá ser camadas
contínuas de nuvens, denominadas de estratiformes.

Figura 8 - Advecção de ar quente

1.3.5.3 - Efeito orográfico

Quando uma camada de ar quente e úmido incide sobre uma elevação qualquer, ela é forçada
a elevar-se mecanicamente ao longo da respectiva encosta. À medida que sobe, vai se resfriando,
podendo saturar-se e condensar, originando as chamadas nuvens orográficas a barlavento (lado de
onde flui o vento). A sotavento (lado para onde flui o vento), o ar desce a elevação também sob a
forma quente, porém seco.

Figura 9 - Efeito Orográfico

33
1.3.5.4 - Efeito dinâmico

Quando ventos de características diferentes (em pressão, temperatura e umidade), conver-


gem sobre uma determinada área provocam a elevação do ar e um consequente resfriamento e satu-
ração do mesmo. O resultado é a formação de nuvens cumuliformes ou lenticulares.

Figura 10 – Efeito Dinâmico

1.3.6 - Ciclo Hidrológico

É o processo segundo o qual a água circula da superfície para a atmosfera (via evaporação)
e da atmosfera para a superfície (via precipitação). Trata-se de um sistema cíclico alimentador, que
permite a circulação da água entre a hidrosfera e a atmosfera e vice-versa, sem o qual a vida não
seria possível na face da Terra. O processo passa pela seguinte sequência:
- a radiação solar chega à superfície e é convertida em calor;
- o calor solar provoca a evaporação dos diversos tipos de superfície, principalmente das fontes
de água;
- o vapor d’água é levado para a Atmosfera, onde poderá condensar-se ou sublimar-se, for-
mando as nuvens;
- algumas nuvens, não suportando a umidade condensada ou sublimada, fazem com que a mesma
caia por gravidade até a superfície, caracterizando a chamada precipitação;
- a precipitação, uma vez atingindo o solo, chega aos mares, rios, lagos, etc., onde novamente irá
evaporar-se.

34
Figura 11 - Ciclo Hidrológico

1.3.7 - Formação de gotas d’água na atmosfera

Se o ar fosse completamente isento de impurezas, a formação de um simples aglomerado de


moléculas de água (gota) deveria acontecer por colisão seguida de aglutinação, processo este cha-
mado de nucleação homogênea. Porém, esse processo é pouco provável devido a baixa concentração
de vapor d’água na atmosfera (máximo de 4% em volume).
Quando a condensação ou sublimação de vapor d’água se processa na superfície de partícu-
las sólidas suspensas na atmosfera (núcleos higroscópicos), dizemos que ocorre nucleação hetero-
gênea. Esse meio de formação de gotas é o mais comum no interior de nuvens na atmosfera.

Subunidade 1.4 – Pressão Atmosférica

1.4.1 - Generalidades

Denomina-se pressão atmosférica ao peso exercido por uma coluna de ar sobre uma super-
fície em um dado instante e local. O estudo da pressão atmosférica é muito importante bastando
lembrar que, sendo o ar um fluido, sua tendência é movimentar-se para áreas de menor pressão. O
outro aspecto importante é o fato de o movimento da atmosfera estar relacionado com a distribuição
da pressão atmosférica.
Conforme já vimos anteriormente, a nossa atmosfera acha-se sob o efeito da ação gravitaci-
onal terrestre. Isto faz com que ela permaneça sempre solidária à Terra e que exerça sobre a sua
superfície uma força à qual denominamos de pressão atmosférica.
Por outro lado, também vimos que por ser compressível e obedecer à lei dos gases, o ar
atmosférico apresenta uma densidade variável com a altitude (maior nos níveis inferiores e menor
nos níveis superiores), o que provoca consequentes variações de pressão na vertical. Diferenças de
temperatura verificadas à superfície terrestre, associadas com outras causas de natureza dinâmica,
são também responsáveis por contrastes na densidade do ar, originando assim, variações de pressão
na horizontal.
É importante aqui lembrar que, ao mesmo nível, a densidade do ar é função não ape-
nas da temperatura, mas também da sua composição e da gravidade.
35
1.4.2 - Histórico

Coube a Evangelista Torricelli, em 1.643, demonstrar pela primeira vez, a existência da pres-
são atmosférica. Para tanto, pegou um tubo de vidro medindo 1 m de comprimento e 1 cm2 de seção,
encheu-o com mercúrio (Hg) e mergulhou a extremidade aberta do mesmo numa vasilha (cuba) que
também continha mercúrio. Isto foi feito ao nível do mar e o resultado era que o mercúrio descia
pelo interior do tubo e parava quando atingia 76 cm de altura. Repetidas várias vezes essa experi-
ência, o resultado era sempre o mesmo, e Torricelli pode concluir que, se o mercúrio não descia
todo, era porque a pressão atmosférica exercida sobre a cuba equilibrava a coluna de mercúrio con-
tido no tubo.

Figura 12 - Experiência de Torricelli

Mais tarde, Pascal repetiu a mesma experiência, só que usando água no lugar do mercúrio.
O resultado foi que a coluna equilibrante da pressão atmosférica teve que ser 13,60 vezes maior,
posto que a densidade da água é 1 g/cm3 e a do mercúrio, de 13,6 g/cm3.
Por sugestão de Pascal, Descartes e outros cientistas da época, J. Periers em 1.648, levou o
instrumento de Torricelli, então chamado de barômetro, até o cume de uma montanha francesa (Puys
de Dome) e pode verificar que a pressão atmosférica variava com a altitude (diminuía quando ele
subia a montanha, e aumentava, quando ele de lá descia).

1.4.3 - Instrumentos Avaliadores

A pressão atmosférica é um elemento meteorológico muito importante. Por isso não pode
ser estimada, mas sim somente medida por meio de instrumentos especiais, denominados de barô-
metros, que se apresentam em duas categorias.

1.4.3.1 - Barômetro de mercúrio

Também conhecido como hidrostático, é aquele que se fundamenta na experiência de Torri-


celli. Baseia-se na expansão ou contração de uma coluna de mercúrio, como resultantes das varia-
ções de pressão atmosférica. Quando a pressão aumenta, a coluna se expande e, quando a pressão
diminui, a coluna se contrai. Para permitir a leitura da altura da coluna de mercúrio, o barômetro
dispõe de escalas graduadas em unidades de pressão e de um “vernier” ajustável ao topo da respec-
tiva coluna.

36
Figura 13 - Barômetro de Mercúrio

1.4.3.2 - Barômetro Aneroide

Também conhecido como elástico, é aquele cujo princípio de funcionamento baseia-se na


expansão ou contração de cápsulas metálicas contendo vácuo, como resultado das variações de pres-
são atmosférica. Quando a pressão aumenta, o conjunto de cápsulas se comprime e, quando a pres-
são diminui, o conjunto de cápsulas se expande. Esses movimentos são transmitidos ou a um pon-
teiro que desliza sobre um mostrador graduado em unidades de pressão/altitude em função de pres-
são ou a um braço de penas que desliza sobre um gráfico graduado em unidades de pressão. No
primeiro caso, temos um barômetro aneroide propriamente dito ou um altímetro e, no segundo caso,
um barógrafo, o equivalente registrador do barômetro. Ainda, como modelo de barômetro aneroide,
temos que destacar o chamado indicador do ajuste do altímetro, muito usado nos órgãos de tráfego
aéreo. Cumpre acrescentar que o altímetro é usado a bordo de aeronaves.

37
Figura 14 - Barômetro Aneroide

1.4.4 - Unidades de Pressão Atmosférica

Com base na experiência de Torricelli, por muito tempo, utilizaram-se unidades de compri-
mento (mm de Hg ou pol de Hg), para expressar medidas de pressão atmosférica, uma vez que para
tal basta medir a altura da coluna de mercúrio.

No sistema CGS, a unidade básica de pressão é a Bária, que corresponde a 1 dyn/cm2. Mas
como esta unidade é muito pequena para fins meteorológicos, adotou-se de início o bar, equivalente
a 1.000.000 de bárias ou de dyn/cm2, chamado respectivamente, de Megabária e Megadina. Mais
tarde, por ser o bar uma unidade muito extravagante, foi adotada a unidade chamada Milibar (mb)
e que equivale a 1/1.000 do bar, isto é, o equivalente a 1.000 bárias ou dyn/cm2. Atualmente, com
base no sistema internacional (SI), esta unidade passou a chamar-se hectopascal (hPa), uma vez que
a unidade de pressão deste sistema é o pascal (equivalente a 10 bárias ou dyn/cm2, ou ainda a 1
N/m2. Há ainda a unidade atmosfera (atm) que equivale a 1013,25 hPa.

Os dados da experiência de Torricelli nos levam a concluir que a coluna de mercúrio de seu
barômetro exerce sobre 1 m2, a pressão equivalente ao demonstrado, consoante a seguinte fórmula
fundamental da Hidrostática:

onde:
como:
H = 76. 10-2 m F
d = 13,6. 103 Kg/m3 P = A onde:
g = 9,8 m/s2
F = força
A = área (1m2)
P = H. d. g
então resulta uma força de aproximadamente
P = 101300 N/m2 ou
100.000 N.
P 1013 hPa

38
Portanto, podemos afirmar que cada ser humano adulto (possuidor de cerca de 1 m2 de área
projetada sobre a superfície) suporta, ao nível do mar, uma pressão aproximada de 100.000 Pa pro-
veniente de uma massa de ar de 10 toneladas.

1.4.5 - Variações da Pressão

A pressão atmosférica, da mesma forma que a temperatura do ar, nunca se estabiliza por um
longo período de tempo. Como resultado dos movimentos complexos e constantes do ar, das varia-
ções de sua temperatura e do teor de vapor d’água, o peso do ar sobre um dado ponto varia constan-
temente. Ao contrário, entretanto, das mudanças de temperatura, as variações de pressão, não são,
de imediato e de ordinário, perceptíveis ao homem. No entanto, constituem por si mesmas um im-
portante aspecto do tempo, tendo em vista as relações que apresentam com as mudanças das condi-
ções meteorológicas. Dentre essas variações, destacamos as seguintes:

1.4.5.1 - Variação da pressão com a altitude

À medida que nos elevamos na atmosfera, a partir do nível do mar, diminui o peso do ar
acima de nós e a pressão cai, em princípio, rapidamente nos níveis inferiores e, a seguir, lentamente
nos níveis superiores. Considera-se que cerca de 50% do peso da Atmosfera, acha-se concentrada
abaixo dos primeiros 5.500 metros, isto é, como veremos mais adiante, até o nível de 500 hPa e o
restante, espalha-se até os limites superiores da mesma de uma forma não linear.

De uma forma geral, são considerados como valores médios de variação vertical da pressão,
os seguintes:

∆1 hPa = 30 pés = 9 metros


∆1 pol Hg = 1.000 pés = 300 metros
∆1 mm Hg = 40 pés = 12 metros

Esses valores devem ser usados para cálculos sem muita precisão e para altitudes, desde o
nível do mar até 4.000 pés, uma vez que, a partir daí, qualquer variação exigirá uma coluna de ar
cada vez maior.
Como a densidade e o peso do ar dependem da temperatura, do teor de vapor d’água e da
força de gravidade, nenhuma correção perfeita de pressão com a altitude poderá ser feita, se não
forem levados em conta todos esses fatores, principalmente a temperatura.

1.4.5.2 - Variação diuturna

Faz com que a atmosfera oscile para cima e para baixo, como se fosse uma mola. Oscila para
cima por efeito direto do Sol, em ressonância com a própria pressão atmosférica e para baixo, pelo
seu próprio peso. Esse movimento oscilatório apresenta dois máximos e dois mínimos durante o dia.
Normalmente as pressões máximas ocorrem às 10 h e 22 h (hora local) e as pressões mínimas às 04
h e 16 h (hora local). A variação diuturna da pressão, chamada “maré barométrica”, é mais acentuada
nas regiões extratropicais.

39
1.4.5.3 - Variação dinâmica

Causada pelos deslocamentos horizontais dos grandes sistemas de pressão e de massas de


ar. É muito mais definida nas latitudes temperadas, onde ocorrem os maiores contrastes entre as
massas de ar.

1.4.6 - Ajustes da pressão atmosférica

1.4.6.1 - Pressão da Estação

O valor de pressão obtido a partir da leitura do barômetro num dado ponto da superfície
terrestre representa a pressão que a atmosfera está exercendo sobre o referido ponto. A este valor,
dá-se o nome de Pressão da Estação ou “QFE”, que se calcula aplicando três correções à leitura
barométrica:
1) de temperatura;
2) de gravidade;
3) instrumental.

1.4.6.2 - Pressão ao Nível Médio do Mar

Sabendo-se que a pressão decresce na vertical, estações situadas em altitudes diferentes, te-
rão logicamente, pressões diferentes, não sendo possível, dessa forma, uma comparação entre elas
num trabalho de análise meteorológica.
Para que se possa fazer uma análise das pressões incidentes em diversos locais à mesma
hora, torna-se necessário ajustá-las a um nível comum de referência, que é o nível do mar. O valor
de pressão assim reduzido é denominado de pressão ao nível do mar ou simplesmente QFF e ele é
obtido a partir do QFE e da média de treze temperaturas (a do momento e as de doze horas passadas).
Ajustar a pressão de uma estação ao nível médio do mar consiste em adicionar ou subtrair
àquele valor, o peso de uma coluna hipotética de ar que se estenda do ponto de observação ao nível
do mar. Para estação localizada acima do nível do mar, deve-se adicionar e para estação localizada
abaixo do nível do mar, deve-se subtrair. Esta coluna hipotética de ar representa a distância vertical
que separa a estação do nível do mar, ou seja, a sua altitude ou elevação. Desse modo, a diferença
entre o QFF e o QFE de uma estação num dado instante corresponde a sua altitude, desde que se
aplique àquela o respectivo fator de conversão. Vejamos o seguinte exemplo: se num determinado
aeródromo, a um dado instante, o QFF é 1.012,8 hPa e o QFE 958,4 hPa, qual a sua altitude em
metros? Uma vez que a diferença entre os dois valores é 54,4 hPa e como cada hPa corresponde em
termos de conversão, praticamente a 9 metros, temos como altitude aproximada desse aeródromo o
equivalente a 54,4 x 9 = 489,6 m.

1.4.6.3 - Pressão atmosférica padrão ao nível do mar

A pressão atmosférica ao nível do mar é definida como aquela exercida pela atmosfera num
ponto qualquer situado naquele nível. Uma vez que a aceleração da gravidade varia latitudinalmente,
os diversos valores de pressão atmosférica ao nível do mar vão também apresentar-se variáveis de
local para local. Assim, a fim de se evitar um valor de pressão atmosférica ao nível do mar diferente
para cada latitude, convencionou-se estabelecer um valor médio, oriundo de diversas observações,
as quais se denominaram de pressão atmosférica padrão ou simplesmente, pressão-padrão. O valor
em apreço se corresponde, em termos das diversas unidades de pressão, da seguinte forma:

Pressão-padrão = 1.013,2 hPa = 29,92 pol Hg = 760 mm Hg

Daí, a possibilidade de se passar de uma unidade para outra, mediante o uso de uma simples
regra de três, como por exemplo, converter 1000 hPa em mm Hg.
40
1.4.7 - Sistemas de pressão

1.4.7.1 - Sistema de alta pressão

Também conhecido como Centro de Alta ou simplesmente Alta, é aquele que apresenta va-
lores de pressão mais elevados no interior e valores mais baixos no exterior, posto que nele a pressão
aumenta da periferia para o centro e diminui do centro para a periferia. É identificado numa carta
de superfície pelas letras “A” ou “H”, esta última do inglês High, ambas em azul;

1.4.7.2 - Sistema de baixa pressão

Também conhecido como Centro de Baixa ou simplesmente Baixa, é aquele que apresenta
valores de pressão mais baixo no interior e valores mais elevados no exterior, posto que nele a
pressão diminui da periferia para o centro e aumenta do centro para a periferia. É identificado numa
carta de superfície pelas letras “B” ou “L”, esta última do inglês Low, ambas em vermelho.
Esses sistemas de pressão podem surgir numa análise dos campos báricos, ora estacionários
sobre uma região, quando então são chamados de semipermanentes, ora em deslocamento latitudi-
nal, quando então são chamados de dinâmicos. Por outro lado, um sistema de Alta pode ser deno-
minado de Anticiclone e um sistema de Baixa, de Ciclone.

Figura 15 - Sistemas de pressão

1.4.8 - Superfícies Isobáricas

A exemplo do que acontece ao nível médio do mar, que apresenta um valor convencionado
de pressão (1.013,2 hPa), foram atribuídos valores também convencionados de pressão às superfí-
cies encontradas acima daquele nível, as quais constituem as chamadas superfícies isobáricas, tam-
bém conhecidas por superfícies de pressão constante, por apresentarem o mesmo valor de pressão
em todos os seus pontos. A superfície de 1.013,2 hPa é que serve de ponto de partida para a distri-
buição dessas superfícies, as quais se apresentam paralelas entre si e àquela superfície, também
conhecida como nível-padrão. As superfícies isobáricas afastam-se gradativamente do nível do mar,
mantendo cada uma delas uma distância vertical sempre constante da superfície de pressão padrão
de 1.013 hPa, à qual se dá o nome de altitude de pressão (AP). Dentre as superfícies de pressão
constante, algumas foram selecionadas para fins de análise e pesquisa atmosférica, recebendo, então
a designação de superfícies isobáricas padrões – 1.000, 850, 700, 500, 400, 300 hpa são alguns
exemplos.

41
Figura 16 - Superfícies Isobáricas

1.4.8.1 - Isóbaras

Para se ter uma ideia global da distribuição da pressão numa região, deve se lançar ou plotar
sobre um mapa meteorológico, denominado de “carta sinótica de superfície”, os diversos valores de
pressões reduzidas ao nível do mar (QFF), calculados para cada uma das estações meteorológicas.
Feito isto, o previsor meteorologista unirá todos os pontos que apresentem os mesmos valores de
pressão, mediante uma linha denominada ISÓBARA. As isóbaras devem ser traçadas apenas ao
nível do mar e geralmente, a intervalos de 2 em 2 hPa. Uma vez feito o traçado isobárico, é possível
se fazer uma análise do campo bárico ao nível do mar, a qual permite a exata visualização do com-
portamento físico da Atmosfera, através das flutuações e deslocamentos dos chamados sistemas de
pressão ou centros de pressão. Carta de Superfície é a expressão usada em meteorologia para desig-
nar a representação gráfica de todas as observações sinóticas (temperatura, umidade, nuvens, vento,
etc.) realizadas à superfície, em determinados locais, usada para análise da evolução das condições
do tempo. A única exceção é a pressão atmosférica, cujos valores referem-se ao nível médio do mar.

1.4.8.2 - Isoípsas ou Linhas de Contorno

Os sistemas de altas e baixas são perfeitamente definidos ao nível do mar, através do traçado
das isóbaras. Entretanto, a identificação desses mesmos centros acima do nível do mar, deve obe-
decer a outro procedimento, uma vez que é impossível o traçado de isóbaras em altitude. Para tanto,
plotam-se “cartas de altitude”, também denominadas de “carta de pressão constante”, que são pre-
paradas, tomando por base, as superfícies isobáricas padrões ou superfícies de pressão constante
padronizadas. Estas apresentam, como qualquer superfície isobárica, valores constantes de altitude
de pressão, as quais são lançadas nas referidas cartas. A seguir, o previsor une todos os pontos que
apresentem o mesmo valor de altitude de pressão, originando disso, uma linha denominada de iso-
ípsa ou linha de contorno, que corresponde em altitude, à isóbara ao nível do mar e que permite a
identificação dos sistemas de pressão em altitude (denominados de ciclones e anticiclones). Isoter-
mas também são traçadas acompanhadas das isoípsas, a fim de melhor complementarem a análise
das superfícies isobáricas padrões. As altitudes de pressão das superfícies isobáricas podem ser ob-
tidas por diversos métodos, dentre eles: radiossondagem, dropsondagem e computador de voo.

42
1.4.8.3 - Estrutura Vertical dos Sistemas de Pressão

Como bem já vimos, através do traçado das isóbaras pode-se fazer uma análise do campo
bárico da atmosfera e esta permite identificar os sistemas ou centros de pressão localizados ao nível
do mar. Tais sistemas ou centros são, entretanto, verdadeiros empilhamentos de superfícies isobári-
cas, em número infinito que apresentam estruturas verticais bem definidas, como veremos:
Sistemas de Altas Pressões: expandem-se na vertical como se fossem relevos de montanhas. Com
isto, as superfícies isobáricas tendem a se afastar do nível do mar nas altas;
Sistemas de Baixas Pressões: expandem-se na vertical como se fossem relevos de vales. Com isto,
as superfícies isobáricas tendem a se aproximar do nível do mar nas baixas.
Os sistemas de pressões, dentro de suas estruturas verticais, são caracterizados de acordo
com a seguinte classificação:
Sistema de Alta Fria: apresenta ar mais frio e mais denso no centro e ar mais quente e menos
denso em torno. É mais intenso à superfície.

Figura 17 - Sistema de Alta Fria

43
Sistema de Baixa Quente: apresenta ar mais quente e menos denso no centro e ar mais frio e mais
denso em torno. É mais intenso à superfície.

Figura 18 - Sistema de Baixa Quente

Sistema de Alta Quente: apresenta ar mais quente e menos denso próximo ao centro e ar mais frio
e mais denso em torno. É mais intenso em altitude.

Figura 19 - Sistema de Alta Quente

44
Sistema de Baixa Fria: ar mais frio e mais denso próximo ao centro e ar mais quente e menos
denso em torno. É mais intenso em altitude.

Os sistemas de pressões, dependendo da maneira com que se dispõem nas cartas de superfí-
cie, podem ainda formar as seguintes configurações isobáricas:

Colo: quando os sistemas de pressão dispõem-se simetricamente, dois a dois, formando entre eles
uma região apertada entre duas Altas e duas Baixas em oposição. O tempo aí consiste de ventos
fracos, mas muito variáveis.

Cavado (Vale): quando um centro de Baixa dispõe-se de forma alongada, apertado entre dois cen-
tros de Alta. Tal aspecto físico lembra em muito um vale. O tempo aí consiste de condições sempre
adversas.

Crista: quando um centro de Alta dispõe-se de forma alongada, apertado entre dois centros de
Baixa. Tal aspecto físico lembra em muito uma montanha. O tempo aí geralmente é bom.

Figura 20 – Colo, Crista e Vale

Figura 21 – Crista e Vale

45
1.4.9 - Tempo associado aos ciclones e anticiclones

O ciclone, também chamado de depressão, é um fenômeno atmosférico caracterizado por


uma pronunciada queda de pressão em seu centro e por uma forte convergência de ar que flui de
áreas de Alta. Ocupa sempre grande extensão, alcançando comumente o diâmetro de mil quilôme-
tros. Quanto mais baixa for a depressão maior será a violência dos fenômenos atmosféricos associ-
ados, porque é mais notável o estado de desequilíbrio reinante. A energia de um ciclone reside
fundamentalmente na quantidade de vapor d’água que ele armazena.
O conhecimento das condições físicas da alta atmosfera pode dar excelentes indicações para
uma perspectiva do tempo associado a uma depressão. Assim, se houver camadas de ar com tempe-
raturas e direções diferentes e carregadas de muita umidade, pode-se aguardar um tempo chuvoso.
Por outro lado, se estas mesmas camadas estiverem carregadas de ar seco, o resultado será uma
estiagem.
O anticiclone é um fenômeno atmosférico de extensão muito variável, que geralmente su-
cede a um ciclone e cujas condições de tempo associadas normalmente são boas. Apresenta, quase
sempre, uma delgada, porém às vezes espessa, camada de nuvens, acompanhada de uma inversão
de temperatura.

Figura 22 – Tempo associado aos ciclones e anticiclones

Unidade 2 – Radiação Eletromagnética

Subunidade 2.1 – O Sol e a Terra

2.1.1 - O Globo Terrestre

Sabemos que a Terra tem, em dimensões amplas, a forma de uma esfera achatada nos polos
(com raio médio de 6.371 km) e uma superfície marcada por particularidades. No entanto, os erros
decorrentes em função disso são desprezíveis para o estudo dos fenômenos meteorológicos, admi-
tindo-se que, para isso, a direção da força da gravidade seja radial e que a água esteja em equilíbrio
dinâmico (sem perturbações capazes de desequilibrar a superfície hídrica).

46
2.1.1.1 - Planos de referência e coordenadas geográficas

Plano equatorial ou Equador é o plano perpendicular aos polos geográficos, que passa pelo
raio maior da Terra e a divide em duas partes: os hemisférios. Planos paralelos ao Equador determi-
nam sobre a Terra circunferências de raio menor: os paralelos.
Planos meridianos são semiplanos que contêm a superfície da Terra delimitados pelos polos,
ou seja, cada meridiano começa num polo e termina em outro.

Figura 23 - Meridianos Figura 24 – Paralelo e Equador

Esfera celeste é a esfera imaginável em torno da Terra em cuja superfície estariam projetados
os astros, onde o centro da Terra coincide com o centro da esfera.
Zênite é o ponto da abóbada celeste cujo prolongamento até o centro da Terra contenha o
observador (é como se o observador olhasse exatamente para o céu sobre a sua cabeça). Muda de
posição com o tempo em função do movimento da Terra.
A localização de pontos situados à superfície terrestre ou em suas vizinhanças é feita utili-
zando-se um sistema de coordenadas composto de latitude, longitude e altitude.
Latitude de um ponto “A” da superfície da Terra é o ângulo formado pelo plano equatorial
terrestre e o segmento de reta que liga o centro da Terra ao ponto “A”. A latitude varia de 0º a ± 90º
e, por convenção, o sinal positivo é atribuído às latitudes Norte e o negativo, às latitudes Sul. O
Equador é de latitude 0º.
Para conceituar longitude faz-se necessário fixar um meridiano de referência. Por acordo
internacional, o meridiano que passa em Greenwich (próximo à Londres), foi escolhido como refe-
rência e sua longitude é 0º. Denominamos longitude de um ponto o ângulo formado entre o meridi-
ano de referência e o meridiano de um ponto, medido sobre o Equador. Vai de 0º a 180º para oeste
e de 0º a 180º para leste. Todos os locais situados sob o mesmo meridiano possuem a mesma longi-
tude. A cada 15º de longitude tem-se um fuso horário, totalizando 24 fusos de mesma hora cada um,
que representam o Sistema de Horas Legais.
Altitude (z) de um ponto é a distância vertical desse ponto ao nível médio do mar. É positiva
para pontos acima do nível do mar e negativa para pontos abaixo. Não se deve confundir altitude
com altura. Esta é a distância vertical de um ponto a um plano arbitrário de referência (solo, mesa,
teto etc.).

47
Culminação ou passagem meridiana é o exato momento em que o Sol, por exemplo, passa
sobre o meridiano do observador. Quando essa passagem é feita sobre o zênite, ela é dita culminação
zenital, ou seja, o centro do astro coincide com o zênite local.

Figura 25 - Zênite Figura 26 - Culminação Zenital

2.1.1.2 - Movimentos da Terra

A Terra possui vários movimentos, sendo os de rotação e translação os mais significativos


em Meteorologia. Acrescenta-se ainda o movimento de precessão, deslocamento que a Terra faz
semelhante a um pião, dando uma volta completa a cada 25.800 anos. Como a distância Terra-Sol
é grande e a trajetória da órbita terrestre é quase circular, os efeitos meteorológicos decorrentes
desse movimento são desprezados.

2.1.1.2.1 - Movimento de rotação

É aquele feito, diuturnamente e com velocidade constante, em torno de um eixo imaginário.


Os pontos onde esse eixo corta a esfera terrestre são denominados de polos (Norte e Sul).
O movimento de rotação da Terra faz-se de oeste para leste e num período de tempo igual a
vinte e quatro horas, comumente chamado de dia.
Por ser de forma esférica, a Terra, no movimento de rotação, oferece alternadamente metade
de sua superfície ao Sol, ou seja, metade acha-se ora iluminada (dia), ora não iluminada (noite)
assim, por ser a causa dos dias e das noites, o movimento de rotação é também responsável pelas
variações das condições atmosféricas locais, como resultantes do aquecimento diurno e do resfria-
mento noturno.
Também do movimento de rotação resulta para um observador solidário à Terra uma apa-
rente trajetória do Sol, no sentido leste para oeste, surgindo em média às 6 h, no horizonte, ganhando
altura gradativamente, até alcançar a vertical às 12 h e depois declinando, até desaparecer novamente
no horizonte, por volta das 18 h. Daí o conceito importante de “nascer” e “pôr” do sol.

48
Figura 27 - Movimento de Rotação

2.1.1.2.2 - Movimento de translação

Também denominado de revolução, é aquele segundo o qual a Terra percorre uma trajetória
elíptica em torno do Sol, no sentido de oeste para leste e num período de tempo igual a 365 dias e 6
horas, chamado ano. Para se evitar erros de acumulação, introduziu-se, a cada 4 anos, um dia a mais
no ano correspondente, que passou a ser conhecido como ano bissexto.
O movimento de translação da Terra, ao longo de uma órbita elíptica, faz com que ela se
situe periodicamente mais perto do Sol num extremo (periélio) e mais afastado no extremo oposto
(afélio). Estes dois pontos se acham na interseção da órbita com o eixo maior da elipse, no mesmo
alinhamento com o Sol, e denominam-se genericamente, de solstícios. Ocorrem eles, aproximada-
mente, a 22 de dezembro o periélio (solstício de inverno) e, a 21 de junho o afélio (solstício de
verão). No periélio, a Terra acha-se a 146.080.000 km do Sol e no afélio, a 151.200.000 km, resul-
tando numa distância média de 148.640.000 km.
Os outros dois pontos extremos, localizados ao longo da órbita terrestre, na interseção com
o eixo menor da elipse, denominam-se equinócios, que são equidistantes do Sol. Situam-se quase a
meio caminho entre os solstícios e ocorrem, aproximadamente, a 21 de março (equinócio vernal ou
de primavera) e a 23 de setembro (equinócio outonal ou de outono).

49
Figura 28 – Movimento de Translação

2.1.1.3 - Inclinação da Terra

Ao descrever sua órbita, a Terra apresenta uma inclinação variável entre o plano do equador
e o plano da órbita (de 0º a 23º 27’). Em função disso, verifica-se um máximo afastamento do plano
da eclíptica com relação ao plano do equador nos solstícios e afastamento nulo nos equinócios.
Eclíptica é a linha imaginária descrita pelo Sol em seu movimento aparente em torno da Terra.
Quando a terra se acha no periélio ou no afélio, expõe, diretamente, ou o hemisfério sul ou o hemis-
fério norte à incidência solar.
O fato de o movimento de revolução do eixo terrestre em torno do Sol apresentar-se com
uma inclinação faz com que os dias e as noites não tenham exatamente doze horas em todas as partes
do mundo. Ao invés disso, eles variam muito na duração. No equador, por exemplo, o período di-
urno é igual ao período noturno durante todo o ano. Já nos polos, a diferença entre a duração de
ambos é bastante grande.
Uma outra consequência da inclinação e da curvatura da Terra é o ângulo segundo o qual os
raios solares atingem a superfície da Terra e que faz com que eles sejam considerados “diretos” ou
“oblíquos”. Na zona equatorial eles são quase sempre diretos, e com isso as regiões tropicais são as
mais quentes da Terra. Porém, à medida que se dirigem para latitudes mais elevadas, vão incidindo
de forma inclinada devido à curvatura terrestre, chegando nos polos os mais oblíquos, fazendo com
que as regiões polares sejam as mais frias da Terra.
Com vimos, o ângulo dos raios solares varia de lugar para lugar, por causa da curvatura da
Terra, e de época para época, por causa da inclinação da Terra.

50
Figura 29 – Inclinação da Terra

2.1.1.4 - Estações do ano

Uma vez que o eixo imaginário em torno do qual a Terra gira, está inclinado em relação ao
plano de sua órbita, isso determina uma considerável variação de energia solar à superfície e carac-
teriza épocas distintas conhecidas como estações do ano, que apresentam durações diferentes entre
si, como veremos a seguir.
Quando a terra se encontra no periélio (22 de dezembro), expõe o hemisfério sul à incidência
solar direta, resultando com isso em uma maior concentração de insolação por unidade de área e,
consequentemente, um maior aquecimento (é o verão do hemisfério sul). Enquanto isso, no hemis-
fério norte, a incidência solar se faz indiretamente, acarretando uma menor concentração de insola-
ção por unidade de área e, consequentemente, um menor aquecimento (é o inverno do hemisfério
norte). Por essa razão, temos aí a ocorrência do chamado solstício de inverno.
Quando a terra se encontra no afélio (21 de junho), expõe o hemisfério norte à incidência
solar direta, resultando com isto uma maior concentração de insolação por unidade de área, e con-
sequentemente, um maior aquecimento (é o verão do hemisfério norte). Por ser verão no hemisfério
norte, temos aí a ocorrência do chamado solstício de verão.
No verão de qualquer hemisfério, o Sol, quando observado da superfície terrestre, permanece
sempre do mesmo lado do observador (mesmo hemisfério), o que o faz se elevar mais no horizonte
e permanecer mais horas brilhando no céu (dias mais longos e noites mais curtas). Já no inverno de
qualquer hemisfério, o Sol, quando observado da superfície terrestre, permanece sempre do lado
oposto do observador (hemisfério oposto), o que o faz se elevar menos no horizonte e permanecer
menos horas brilhando no céu (dias mais curtos e noites mais longas).
Nos pontos equinociais, os dois hemisférios recebem, praticamente, a mesma quantidade de
incidência solar, posto que aí apresentam a mesma posição em relação ao Sol. A 21 de março, temos
o chamado equinócio vernal ou de primavera, porque coincide com o início da Primavera no hemis-
fério norte e, a 23 de setembro, temos o chamado equinócio outonal ou de outono, porque coincide
com o início do outono no mesmo hemisfério.

51
Como bem vimos, as estações do ano são antagônicas e diametralmente opostas, isto é, num
mesmo período ocorrem sobre a Terra ou duas estações solsticiais (verão e inverno), ou duas esta-
ções equinociais (primavera e outono). Em outras palavras, quando é verão num hemisfério é in-
verno no outro e, quando é primavera num hemisfério, é outono no outro.

Figura 30 - Estações do Ano

2.1.1.5 - Latitudes Terrestres

Em Meteorologia, é bastante importante o conhecimento de determinadas latitudes terres-


tres, porque é através delas que se processam os diversos deslocamentos de massas de ar entre o
equador e os polos e vice-versa. Vejamos, portanto, como essas latitudes são determinadas no con-
texto em apreço.
Em função da eclíptica, nos solstícios, o hemisfério que se acha em verão tem o Sol incidindo
a pino sobre a latitude de 23º e 27` estendendo sua iluminação até o polo respectivo. A porção
compreendida entre a latitude de 66º e 33` desse hemisfério e o polo respectivo estará constante-
mente iluminada (dia polar). Por outro lado, a mesma porção correspondente do outro hemisfério
estará constantemente sem iluminação (noite polar), pois lá é inverno. No hemisfério sul, o dia polar
ocorre de 20/10 a 24/02 e a noite polar de 16/04 a 28/08. Nos polos, a 90º de latitude, os dias polares
e as noites polares apresentam-se com ciclos de duração aproximada de seis meses cada um. O
paralelo de 23º e 27` S é denominado de Trópico de Capricórnio, e o de 23º e 27’ N de Trópico de
Câncer, e ambos correspondem exatamente à inclinação do eixo terrestre. Já o paralelo de 66º e 33`
S denomina-se Círculo Polar Antártico, e o de 66º e 33` N Círculo Polar Ártico, e ambos correspon-
dem à diferença entre o valor do ângulo polar (90º) e o valor da inclinação do eixo terrestre (23º e
27`).

52
Os paralelos anteriormente descritos determinam, por conseguinte, as seguintes latitudes ter-
restres:

- Latitudes equatoriais: são aquelas compreendidas imediatamente em torno do equador geo-


gráfico;

Figura 31 – Latitudes Equatoriais

- Latitudes tropicais: são aquelas compreendidas entre os trópicos;

Figura 32 – Latitudes Tropicais

53
- Latitudes subtropicais: são aquelas compreendidas entre 23º 27' e 30º 00` de cada hemisfé-
rio;

Figura 33 – Latitudes Subtropicais

- Latitudes temperadas: são aquelas compreendidas entre os trópicos e círculos polares, ou


seja, entre 23º 27’ e 66º 33’ de cada hemisfério;

Figura 34 – Latitudes Temperadas

54
- Latitudes polares: são aquelas compreendidas entre os círculos polares e os polos respecti-
vos, ou seja, entre 66º 33’ e 90º de cada hemisfério.

Figura 35 – Latitudes Polares

Subunidade 2.2 – Radiação Solar, Terrestre e Atmosférica

2.2.1 - O Sol

2.2.1.1 - Características Gerais

O Sol é uma estrela cuja temperatura situa-se na média entre as mais altas e as mais baixas
dessa Galáxia (Via Láctea), algo em torno de 20.106 K no núcleo e de 6000 K na superfície. Este
astro, assim como a Terra, faz um movimento orbital em torno do centro da galáxia com velocidade
de aproximadamente 290 km/s.
É a estrela mais próxima da Terra, a uma distância aproximada de 150.106 km. Tem diâmetro
de 1.400.000 km e, por ter uma massa muito grande (cerca de 333.000 vezes a da Terra), possui um
intenso campo gravitacional ao seu redor. De uma forma simplificada, sua matéria, que é composta
de gases Hélio (23%) e Hidrogênio (75%) a altas temperaturas, apresenta peculiaridades do estado
da matéria chamada plasma (gases ionizados a altas temperaturas).
Fotosfera é o nome que se dá a superfície do Sol, cuja pressão é da ordem de 0,01atm. Não
possui luminosidade uniforme; apresenta áreas brilhantes (mais quentes) chamadas grânulos e fá-
culas, e zonas mais escuras (mais frias) ditas manchas solares. Os aspectos das manchas solares
variam com o tempo; quando o número de manchas aumenta, o Sol é dito ativo, já que o fluxo de
partículas liberadas pelo Sol para o espaço é grande; no caso contrário, o Sol está calmo. Esse ciclo
de atividade solar é de aproximadamente 11 anos.
A atmosfera solar acima da fotosfera é dividida em camada de inversão (mais fria, a 5.300
K) e por fora a cromosfera ou coroa solar, formada por hélio e hidrogênio a altas temperaturas. Na
cromosfera ocorrem flares - explosões solares muito intensas que emitem fabulosas quantidades de
energia (radiação) para o espaço.

55
Figura 36 - O Sol

2.2.2 - A radiação

2.2.2.1 - Espectro Eletromagnético

Denomina-se radiação a energia que se propaga sem necessidade de matéria. O termo aplica-
se também ao processo de propagação dessa mesma energia.
No estudo da Física Moderna, dependendo da finalidade, a energia radiante ora se comporta
como uma onda eletromagnética, ora como um fóton (partícula ou pacote de energia). À meteoro-
logia interessa o aspecto ondulatório, caracterizado pelo comprimento de onda (λ) e pela frequência
de oscilação (ν). Comprimento de onda é definido como a distância que separa duas cristas conse-
cutivas expresso em cm ou em micra (10 cm); frequência é o número de cristas que passam por um
ponto de referência no tempo, expressa em Hertz.
O produto de λ pela ν é igual a velocidade de propagação da luz no vácuo (c): C=λ.ν, sendo
c de aproximadamente 300.000 km/s. Espectro eletromagnético é o conjunto de todas as radiações
conhecidas, desde os raios gama até ondas longas de rádio. A quantidade de energia emitida por
uma partícula ou onda é proporcional à frequência (γ) da radiação produzida, isto é, quanto maior a
frequência, ou menor o λ, maior será a energia associada. Portanto, radiações na faixa do raio ultra-
violeta possuem mais energia que radiações da faixa do visível e infravermelho. Costuma-se medir
radiação ou fluxo de radiação em W (J/s).

56
Figura 37- Espectro Eletromagnético

2.2.2.2 - Transmissividade da Atmosfera

Vários tipos de radiações eletromagnéticas passam facilmente pela atmosfera, enquanto ou-
tras são impedidas de atravessá-la. A habilidade com que a atmosfera permite que a radiação a
atravesse é conhecida como transmissividade. Ela depende dos componentes da atmosfera e varia
de acordo com o comprimento de onda.

2.2.2.3 - Janela Atmosférica e Banda de Absorção

As faixas do espectro eletromagnético que são absorvidas pelos gases atmosféricos são coletiva-
mente chamadas de bandas de absorção. Na figura 38, as bandas de absorção são apresentadas por
um baixo valor de transmissão, pois estão associadas com uma gama específica de comprimento de
onda.
Junto as bandas de absorção, existem faixas no espectro eletromagnético onde a atmosfera é
transparente para um determinado comprimento de onda, essa faixa é denominada janela atmosfé-
rica.
Essas janelas permitem facilmente que toda radiação passe pela atmosfera. Elas são mostra-
das na figura 38, na qual os valores de transmissividade são maiores. Uma das janelas atmosféricas
está dentro da porção de luz visível, no pico da produção de energia solar. Em um dia claro, a
maioria da energia da luz visível que vem do Sol pode passar pela atmosfera sem ser absorvida pelos
gases contido nela.

57
Figura 38 - Janela Atmosférica e Banda de Absorção

2.2.2.4 - Radiação solar

Em primeira aproximação, aceita-se que o Sol irradia aproximadamente como um corpo ne-
gro à temperatura de 6000 K. Corpo negro seria aquele (teórico) que absorve totalmente a radiação
eletromagnética de todos os λ que incidem sobre ele. O espectro de radiação solar é composto de
99% de radiação de ondas curtas (λ pequeno), divididas em 3 faixas: infravermelho (λ > 0,74),
ultravioleta (λ < 0,36) e visível (0,36 <λ< 0,74). Atualmente, acredita-se que a energia solar é ori-
ginada de reações termonucleares, ou seja, conversão de massa solar em energia.

2.2.2.5 - Constante solar

A Constante Solar é denominada como o fluxo de radiação do Sol, que é o total de energia
que atinge o limite da atmosfera na superfície de 1cm², perpendicularmente aos raios solares durante
um minuto, sendo atualmente o valor mais aceito de 1,98 cal/cm²/min.

58
2.2.3 - Radiação solar na atmosfera

2.2.3.1 - Insolação e Fotoperíodo

Após atingir o topo da atmosfera terrestre, a energia solar segue através da mesma até atingir
a superfície da Terra. Entretanto, à medida que vai cruzando a atmosfera, vai tendo suas radiações
perigosas filtradas, para que só cheguem até a superfície comprimentos de ondas benéficos à manu-
tenção da vida, dentro de limites razoáveis. A quantidade de energia que consegue atingir a super-
fície, após sofrer os efeitos de filtragem seletiva da atmosfera, constitui a chamada insolação, que é
o fator primordial do equilíbrio calorífico na atmosfera terrestre. Ela é, em consequência da eclíp-
tica, máxima no verão, mínima no inverno e média nos equinócios
A radiação solar ao atravessar a atmosfera é atenuada por 3 processos: espalhamento ou
difusão, reflexão e absorção. A atmosfera terrestre, através desses processos, equilibra o sistema
energético do planeta impedindo que se aqueça ou resfrie em excesso. A absorção é feita por certos
constituintes atmosféricos para determinadas radiações, sendo ozônio, oxigênio, o gás carbônico e
vapor d’água os principais absorvedores.
Através da reflexão, que é dependente do tipo de superfície sobre a qual incide a radiação,
uma boa porção de raios solares volta para o espaço. Chamamos de albedo a relação entre a radiação
refletida e a incidente, sendo que a Terra tem albedo médio de 0,35 ou 35%.
Espalhamento ou difusão é o processo físico segundo o qual uma parte da luz, ao passar por
um meio cujas partículas apresentem diâmetro menor que o comprimento de onda da própria luz,
espalha-se em várias direções, difundindo-se. A difusão é efetiva na atmosfera para as ondas de
menor comprimento da luz, e a cor de mais fácil difusão é a azul, razão por que o céu apresenta em
dia claro, uma coloração azulada. A difusão apresenta em Meteorologia duas grandes importâncias:
primeiro, é responsável pela luminosidade diurna ou pela presença física do fenômeno "dia "e se-
gundo, é responsável pela redução da visibilidade atmosférica. Como o processo em si depende da
presença de partículas em suspensão na atmosfera, à medida que nos afastamos da superfície terres-
tre, vai acontecendo uma redução da difusão, o que faz com que o céu passe a um azul profundo,
em seguida à violeta e, finalmente, negro nos níveis mais elevados, isto é, ausência total de difusão
acima de 80 a 100 km, em média.
Há também o conceito de fotoperíodo, que é a duração efetiva do dia, ou seja, como o inter-
valo de tempo transcorrido entre o nascimento e o pôr do Sol, em determinado local e data. Sob o
ponto de vista geométrico, o nascimento e o ocaso solar ocorrem quando o centro do disco solar
coincide com o plano do horizonte. Não se deve confundir insolação com fotoperíodo. A insolação
é o número de horas nas quais, durante um dia, o Sol esteve visível para um observador situado à
superfície da Terra. Portanto, a insolação é menor ou no máximo igual ao fotoperíodo.

2.2.3.2 - Equilíbrio térmico na atmosfera

Do total de radiação solar que atinge o topo da atmosfera, 15% é difundido pelas partículas
atmosféricas, 18% é absorvido pelos componentes atmosféricos, 25% é refletido pelos topos de
nuvens e pelos diversos tipos de superfícies da Terra, e os 42% restantes conseguem atingir a su-
perfície, sob as formas de luz visível, de infravermelho e ultravioleta. A reflexão total de 25% mais
10% do total de 15% difundido compõem o albedo médio da Terra que, como já vimos, é de 35%.
A quantidade de radiação que atinge a superfície terrestre é convertida em calor e poderia, no final
de algum tempo, tornar a Terra extremamente quente para permitir a manutenção da vida. Entre-
tanto, um possível acúmulo é neutralizado por meio de um retorno ao espaço do excesso de energia
recebido. Esse retorno é denominado de radiação terrestre e se processa por meio de ondas longas
(pouca energia). Ela ocorre mais intensamente com céu isento de nuvens (céu claro). Por outro lado,
o oxigênio molecular, as impurezas, o vapor d’água e as nuvens absorvem uma parte da radiação
terrestre, a fim de conservar uma certa quantidade de energia calorífica para a Terra.

59
O fenômeno denominado de efeito estufa, tem como sua principal finalidade evitar que toda
a energia radiante terrestre escape para o espaço, o que também seria um desastre. O perfeito equi-
líbrio entre a radiação solar (recebida durante o dia) e a radiação terrestre (devolvida à noite) permite
manter as temperaturas do globo terrestre dentro de limites perfeitamente suportáveis pelos seres
vivos e constitui parte do equilíbrio térmico da atmosfera.
Devido à sua posição no espaço, como já vimos, a Terra recebe maior incidência solar sobre
as latitudes tropicais e menor incidência sobre as latitudes polares, o que acarreta um grande aque-
cimento sobre os trópicos e um grande resfriamento sobre os polos. Esse aquecimento diferencial,
corroborado pelo movimento de rotação da Terra, obriga o ar atmosférico a deslocar-se entre os
extremos de cada hemisfério (do polo para o equador e vice-versa), permitindo com isto, uma me-
lhor distribuição das temperaturas sobre a superfície da Terra ocasionando, desse modo, o equilíbrio
térmico da atmosfera.
Dos 42% que atingiram a superfície da Terra durante o dia, com a ocorrência da radiação
terrestre à noite, 18% é absorvido pelo oxigênio molecular, pelas impurezas, pelo vapor d'água e
pelas nuvens; 14% é emitido para a atmosfera; 8% retorna diretamente ao espaço e os 2% restantes
ficam retidos na superfície terrestre. Embora possa parecer pequeno, esse percentual de retenção
terrestre é, na verdade, o suficiente para permitir a agitação da Atmosfera e provocar aquilo que
conhecemos por tempo “bom” ou “ruim”.

2.2.3.3 - O Efeito Estufa

O efeito estufa ocorre quando há absorção da radiação terrestre pela nebulosidade e outras
partículas em suspensão, havendo um armazenamento de calor, evitando que a energia calorífica da
Terra escape para o espaço. Isso ocorre porque uma série de gases que existem naturalmente na
atmosfera em pequenas quantidades (além do nitrogênio e do oxigênio que em conjunto constituem
99% de sua composição), conhecidos como "gases de efeito estufa" - como o vapor d’água, o dió-
xido de carbono, o ozônio, o metano e o óxido nitroso possuem a propriedade de reter parte dessa
radiação em forma de calor e a reflete de volta para a Terra, da mesma forma que os vidros de um
carro fechado ou uma estufa.
A esse processo natural, vêm se somando as atividades humanas, denominadas antrópicas,
que contribuem com o acréscimo da emissão desses gases, aumentando assim a concentração dos
mesmos na atmosfera e ampliando sua capacidade natural de absorção de energia que estes possuem
naturalmente.

Figura 39 – Efeito Estufa

60
Unidade 3 – Dinâmica da Atmosfera

Generalidades

Como bem já vimos em unidade anterior, a variação do ângulo de incidência dos raios sola-
res de região para região da Terra traz, como consequência, um aquecimento diferencial do equador
aos polos. Outrossim, o fato de que os vários tipos de superfícies absorvem a radiação solar de forma
diferente, faz com que também haja um aquecimento diferencial na mesma região. O resultado ló-
gico desses fatos é que ocorrem diferenças de temperatura. Estas, por sua vez, implicam em dife-
renças de pressão que obrigam o ar a deslocar-se no sentido horizontal, a fim de contrabalançar as
diferenças de densidade. Esses deslocamentos horizontais do ar que, quer a nível regional, quer a
nível local, constituem os ventos e compõem no conjunto a chamada circulação do ar, responsável
maior pelo equilíbrio térmico na atmosfera.

Relação entre a Pressão e o Vento

Suponhamos dois pontos (X e Y) à superfície, ambos apresentando, num dado instante, uma
pressão igual a 1.015 hPa e igual densidade. Logo, o ar no ponto X estará em repouso em relação
ao ar no ponto Y e vice-versa. Se, porém, a pressão no ponto Y cair para 1.010 hPa, mantido o
mesmo valor de 1.015 hPa no ponto X, ocorrerá uma diferença de densidade entre os dois pontos,
e, neste caso, o ar para equilibrá-la, fluirá da área de maior pressão (ponto X) para a área de menor
pressão (ponto Y). Esse fluxo do ar tendendo a manter um certo equilíbrio de pressão é chamado de
vento, definido então, como o ar em movimento aproximadamente horizontal e de forma laminar,
que ocorre quando há diferença de pressão entre duas regiões, ocasionadas, principalmente, por
variações de temperatura. Quanto maior for a diferença de pressão, mais intenso será o vento resul-
tante.

Figura 40 – Relação entre Pressão e Vento

61
Subunidade 3.1 – Forças Reais e Aparentes

3.1.1 - Força do Gradiente de Pressão

A variação da pressão no sentido horizontal considerada sobre uma determinada distância, é


chamada gradiente de pressão, e a força que desloca o ar no sentido das pressões mais baixas, de
força do gradiente de pressão. Esta atua em função direta do gradiente de pressão, pois quanto maior
este mais intensa será a força e vice-versa.
Como o gradiente de pressão depende de uma diferença de pressão que ocorre em função de
uma distância, ele pode ser expresso matematicamente através da seguinte fórmula:

p1 − p2
G= onde: p1 = pressão no ponto x
d
p2 = pressão no ponto y
d = distância entre os pontos

Uma vez que o gradiente de pressão é considerado como uma queda de pressão, medida na
direção da diminuição, ele possui uma magnitude e uma direção. A magnitude deve ser expressa em
unidade de pressão por unidade de distância, tal como hPa/km e a direção, pelo sentido da diminui-
ção da pressão.
A magnitude do gradiente de pressão pode ser determinada numa carta de superfície através
do espaçamento existente entre as isóbaras. Quando elas estão próximas umas das outras, é porque
a pressão está variando rapidamente com a distância, e, neste caso, tem-se um gradiente forte e
ventos muito intensos. Por outro lado, quando elas estão distanciadas umas das outras, é porque a
pressão está variando lentamente com a distância, e, neste caso, tem-se um gradiente fraco e ventos
fracos. Exemplificando o exposto, observemos as seguintes configurações isobáricas:

Figura 41 - Gradiente de Pressão Simulado

Comparando-se os dois gradientes apresentados, podemos observar uma diferença comum


de 2 hPa entre as isóbaras respectivas, muito embora as distâncias entre elas sejam diferentes (40 e
60 km). Aplicando a fórmula do gradiente de pressão aos dois casos, teremos:

2hPa 1hPa 2hPa 1hPa


1º = 2º =
40km 20km 60km 30km

Dentre os dois gradientes, o que apresenta o resultado 1/20 é naturalmente o maior e, por
conseguinte, o de ventos mais intensos.
O vento que flui regido exclusivamente pela força do gradiente de pressão é denominado de
vento Barostrófico.

62
Várias outras forças atuam na mecânica dos ventos, como veremos mais adiante, mas dentre
elas todas, a força do gradiente de pressão é a que inicia o movimento eólico, como bem vimos. Por
esse motivo, ela é denominada de força motriz dos ventos.
Se somente a força do gradiente de pressão atuasse sobre o ar em movimento, o vento so-
praria sempre, diretamente da alta pressão para a baixa pressão. Todavia, como já foi dito anterior-
mente, outras forças se fazem presentes nos diversos tipos de ventos, tais como: força centrífuga,
força de coriolis e força de atrito, e, com isto, o vento nem sempre sopra diretamente da alta para a
baixa.

Figura 42 - Gradiente de Pressão

63
3.1.2 - Força Centrífuga

Como a Terra gira em torno de seu eixo, todos os objetos em movimento sobre sua superfície
estão sujeitos a uma força que atua perpendicularmente ao mesmo eixo - é a força centrífuga. Essa
força aparente é aplicada quando consideramos um objeto (parcela de ar) em repouso com relação
a um sistema de coordenadas em rotação (Terra). Esse é o caso de uma parcela de ar que está em
sincronia de rotação com a Terra. Se, porém, essa massa de ar desloca-se em relação a Terra, que
está em rotação, então outra força aparente deverá ser considerada neste movimento. Essa última é
chamada de força de Coriolis.

3.1.3 - Força de Coriolis

Se a Terra não fosse animada do movimento de rotação, o vento sopraria sempre da alta para
a baixa, de forma direta. A rotação, entretanto, obriga esse movimento do ar que, teoricamente, é
perpendicular às isóbaras, a um desvio. Este fenômeno é fruto de uma força resultante entre a força
centrífuga e a força de gravidade, a força de Coriolis, também chamada de força defletora, cuja
existência atribui-se ao físico e matemático francês Gaspard Gustave de Coriolis. Esta força não é
real, mas sim aparente, pois determinamos a direção de um movimento em relação à superfície da
Terra que, por sua vez, também se acha em movimento. Com isto, o seu efeito defletor faz-se pre-
sente em todos os movimentos com relação à superfície, porém não deve ser levado em conta nos
de escala comparativamente pequena. A deflexão, independentemente da direção do movimento,
sempre se faz para a direita no hemisfério norte e para a esquerda no hemisfério sul. Isto significa,
que um objeto qualquer, movendo-se sobre a superfície da Terra, tende continuamente, a se desviar
para a direita no hemisfério Norte e para a esquerda no hemisfério Sul, como resultado do efeito da
rotação da Terra, combinada com o movimento do corpo relativamente à superfície. Pode ser ex-
pressa, na forma escalar, pela seguinte fórmula:

Como qualquer outra força, a força de Coriolis também possui magnitude e direção. A mag-
nitude depende, como podemos observar na fórmula acima, de dois fatores: velocidade do vento e
latitude onde ele ocorre e é diretamente proporcional a ambas. Com isto, concluímos que a força de
Coriolis é mais intensa nos polos e nula no equador. A direção, como já vimos, é aquela da deflexão,
ou seja, para a direita no hemisfério Norte e para a esquerda no hemisfério Sul. Deve-se ressaltar
que a Força de Coriolis atua perpendicularmente à direção da velocidade do objeto que se desloca,
podendo apenas mudar a sua trajetória, mas jamais influir no módulo da velocidade.

64
Figura 43 - Efeito Defletor da Força de Coriolis

3.1.4 - Força de atrito

O terceiro efeito exercido sobre os ventos é aquele provocado pela fricção do ar com o solo
e que se denomina força de atrito. Ocorre próximo à superfície e produz um efeito de turbilhona-
mento que se traduz em alterações na direção e velocidade do vento. À medida que vão sendo con-
siderados níveis mais elevados, o efeito de fricção vai diminuindo gradativamente, até desaparecer.
O nível atmosférico onde isto ocorre se denomina nível gradiente ou nível do vento Geostrófico,
pois, como veremos mais adiante, este tipo de vento só ocorre livre de atrito. O nível gradiente
localiza-se, em média, a 600 metros acima da superfície, muito embora oscile entre 400 e 1.000 m,
dependendo do aspecto orográfico. A camada atmosférica compreendida entre a superfície e o nível
gradiente é chamada de camada de fricção ou camada planetária e acima desta, atmosfera livre.

3.1.4.1 - Camada limite superficial

Que vai da superfície até 100 metros aproximadamente. Os ventos que nela fluem são deno-
minados ventos de superfície, que acontecem como um resultado do equilíbrio entre as forças: do
gradiente de pressão, de Coriolis, centrífuga e de atrito.

3.1.4.2 - Camada de transição ou de Ekman

Camada que se inicia acima da camada limite e se estende até o nível gradiente. Os ventos
que nela e acima dela fluem são denominados de ventos superiores ou ventos de altitude.

65
Subunidade 3.2 – Fluxos Atmosféricos

3.2.1 – Tipos de Ventos

3.2.1.1 - Vento Barostrófico

Como já vimos, é aquele tipo de vento que flui regido exclusivamente pela força do gradiente
de pressão. Ele se caracteriza, portanto, pelo movimento do ar que sopra diretamente de uma área
de alta pressão para uma outra área de baixa pressão. É muito mais teórico do que prático, pois sua
existência real só se justifica para explicar a mecânica dos ventos, como ponto de partida para os
demais tipos. Outrossim, só ocorre próximo ao equador e em movimentos de pequeno desloca-
mento, onde a força de Coriolis é nula e a força de inércia é a única a opor-se à força do gradiente
de pressão.

3.2.1.2 – Vento Geostrófico

Logo que o ar começa a se mover de uma área de alta para uma área de baixa, sob a influência
da força do gradiente de pressão, passa a sofrer o efeito defletor da força de Coriolis e é desviado,
para a direita no hemisfério norte e para a esquerda no hemisfério Sul. À medida que aumenta de
intensidade, o desvio é máximo ao ponto da força de Coriolis tornar-se precisamente igual e oposta
à força do gradiente de pressão. O vento resultante, então, sopra numa direção em que nenhuma das
duas forças componentes está atuando, ou seja, perpendicularmente a ambas.

Figura 44 - Vento Geostrófico

O vento que sopraria, no caso da força do gradiente de pressão e da força de Coriolis, as


únicas atuantes na mecânica dos ventos, tal vento seria chamado de vento Geostrófico. E como estas
são, geralmente, as principais forças atuantes mesmo, este tipo de vento é a melhor aproximação do
vento real. Porém, para que isto possa ocorrer, é preciso que se satisfaçam duas exigências:

• isoípsas retas e paralelas: para que o vento possa soprar paralelamente às mesmas;

• ausência de atrito: o que só é possível acima da camada de fricção.

66
Como a força de Coriolis decresce na direção do Equador, independentemente da velocidade
do vento, considera-se nulo o efeito Geostrófico, entre as latitudes de 20º N e 20º S. Por outro lado,
como a força de Coriolis depende da velocidade do vento e da latitude onde o mesmo acontece,
podemos dizer que o vento é controlado pela força de Coriolis. Contudo é realmente a força motriz
que determina a velocidade do vento.
O vento Geostrófico sopra sempre na direção em que a pressão maior (alta) fica à direita no
hemisfério norte ou à esquerda, no hemisfério sul e a pressão menor (baixa) fica à esquerda, no
hemisfério norte ou à direita, no hemisfério sul, conforme demonstrado nos esquemas da figura
abaixo.

Figura 45 – Vetores do Vento Geostrófico nos Hemisférios

Figura 46 - Vento Geostrófico nos Hemisférios

3.2.1.2.1 - Lei de Buys Ballot

Do apresentado anteriormente, podemos inferir uma relação entre a distribuição da pressão


e a direção do vento, fato este descrito, pela primeira vez, no Séc. XVII, pelo meteorologista holan-
dês Buys Ballot, através da seguinte lei:

67
“Se uma pessoa ficar de costas para o vento, no hemisfério norte, terá a área de
alta à sua direita e a área de baixa à sua esquerda e no hemisfério sul, terá a área
de alta à sua esquerda e a área de baixa à sua direita”.

Figura 47 – Lei de Buys Ballot

68
3.2.1.3 - Vento Gradiente

Ao vermos o vento Geostrófico, consideramos apenas os efeitos de duas forças (a do Gradi-


ente de Pressão e a de Coriolis). Isto significa dizer que ou desprezamos as demais forças ou criamos
condições em que elas não existam: por exemplo, não consideramos a atuação da força centrífuga.
O resultado é que as isóbaras se apresentavam retas. Permitindo agora que a referida força atue, as
isóbaras passam a apresentar-se de forma curva, como realmente o são. O movimento do ar, que
considera o equilíbrio entre as forças do Gradiente de Pressão, de Coriolis e Centrífuga, caracteriza
o chamado vento gradiente. Na verdade, ele resulta diretamente do gradiente de pressão, uma vez
que as outras forças só começam a existir depois que o gradiente dá início ao movimento do ar.
O vento gradiente sopra perpendicularmente ao gradiente de pressão e paralelamente às
isóbaras, orientado para a direita da força do gradiente de pressão no hemisfério norte e para a
esquerda no hemisfério Sul. Ele flui a uma velocidade tal que a força devida ao gradiente de pressão
seja equilibrada pelos efeitos centrífugo e de deflexão. Aliás, o movimento real do ar é a resultante
das influências simultâneas dessas três forças, sobretudo acima da camada de fricção.

3.2.1.4 - Vento de Superfície

Ao apreciarmos os aspectos da camada de fricção, tivemos oportunidade de ver que o fluxo


de ar que sopra na camada limite, ou seja, da superfície até 100 metros, como fruto do equilíbrio
entre as forças: do gradiente de pressão, de Coriolis, Centrífuga e de Atrito, recebe o nome de vento
de superfície. Ele é muito sujeito a alterações em direção e velocidade, sobretudo devido ao efeito
de atrito do ar com a superfície terrestre. Por outro lado, apresenta vital importância para as ativida-
des humanas de modo geral, sobretudo para as aeronáuticas.

3.2.1.5 - Vento Ciclostrófico

Uma vez que o efeito de Coriolis decresce na direção do Equador, o vento, nas latitudes
tropicais e equatoriais, sopra velozmente em função do efeito centrífugo que aumenta para compen-
sar a ausência da força de Coriolis e assim equilibrar a força do gradiente de pressão. Desse modo,
temos um vento de grande intensidade, que flui como resultado do equilíbrio entre a força do gra-
diente de pressão e a força centrífuga. É o chamado vento Ciclostrófico, muito comum aos ciclones
tropicais, como veremos adiante.

3.2.1.6 - Vento Subgeostrófico

É aquele que sopra na faixa latitudinal de 20º a 15º, onde o efeito de Coriolis começa a
tornar-se insignificante e faz, assim, desprezível o efeito Geostrófico.

3.2.1.7 - Vento Térmico

Traduz a variação do vento Geostrófico com a altitude, possibilitando o estudo da advecção


de calor sobre o movimento do ar.

3.2.2 - A circulação dos ventos nos sistemas de pressão

Como já sabemos, no movimento do ar, a força do gradiente de pressão obriga o vento a


fluir para fora do centro de alta pressão em ambos os hemisférios, sofrendo a partir daí, em função
da força de Coriolis, um desvio para a direita no hemisfério norte e para a esquerda no hemisfério
sul. Isto define a divergência do vento e constitui a chamada circulação anticiclônica. Por este mo-
tivo, os centros de altas pressões são também denominados de anticiclones. Neles, os ventos circu-
lam no sentido horário no hemisfério norte e no sentido anti-horário no hemisfério Sul.

69
Figura 48 - Resultante do Vento

Por outro lado, à superfície e dentro da camada de fricção, o vento sofre o efeito de atrito e
o efeito de Coriolis quase desaparece, devido às variações de direção. O gradiente de pressão, no
entanto, não se altera, uma vez que o vento é função da pressão e esta não se modifica pelo simples
atrito do ar com a superfície. Desse modo, se no equilíbrio das duas forças, uma quase desaparece
e a outra se mantém imutável, o vento tenderá a obedecer à última, ou seja, a força do Gradiente de
pressão, fluindo no sentido do centro de baixa pressão, em ambos os hemisférios, sendo que sua
direção sofrerá um desvio menor em função do enfraquecimento da força de Coriolis causado pelo
atrito. Isto define a convergência do vento e constitui a chamada circulação ciclônica. Por este mo-
tivo, os centros de baixas pressões são também denominados de ciclones. Neles, os ventos circulam
no sentido anti-horário no hemisfério norte e no sentido horário, no hemisfério sul.

3.2.3 - Os elementos na observação dos ventos

O fluxo geral dos ventos, num dado nível, deve ser expresso pelos seguintes elementos:

3.2.3.1 - Direção

É o sentido de onde o vento vem, dado em graus, com relação ao norte magnético, para fins
de navegação e com relação ao norte verdadeiro ou geográfico para fins meteorológicos.

3.2.3.2 - Velocidade

Também conhecida como força, é a intensidade com que se manifesta o vento, dada em
Km/h, m/s ou principalmente, para fins meteorológicos, em KT (nó = 1,852 km/h).

3.2.3.3 - Caráter

É o aspecto de continuidade com que se manifesta o vento, dentro de um certo período de


tempo. Quando varia em direção, é dito ser variável, e quando varia em velocidade num pequeno
intervalo de tempo, é chamado de rajada.
Os dados do vento em superfície são obtidos por um instrumento denominado anemômetro
e na sua ausência, por meio de métodos estimativos, tais como: escala Beaufort, biruta, etc. Os dados
do vento de altitude são obtidos através de observações aerológicas (radiossondagem, dropsonda-
gem, código AIREP) etc.

70
Figura 49 – Anemômetros

Quando, num mapa meteorológico, se traça uma linha ligando pontos que apresentam o
mesmo valor de direção do vento, temos o que se chama de isógona. Da mesma forma, quando se
traça uma linha ligando pontos que apresentem o mesmo valor de velocidade do vento, temos o que
se chama de isotaca. O campo horizontal dos ventos é sempre representado pelo estudo de isógonas
e isotacas com os valores isolados de temperaturas dispostos nas suas respectivas posições geográ-
ficas, como um complemento à informação eólica.
O fluxo do vento deve ser considerado como uma partícula de ar em deslocamento. Destarte,
ela irá ocupando posições sucessivas no espaço, e a linha imaginária descrita por estas vem a ser a
trajetória da referida partícula. Quando se considera, num dado instante, um vetor representativo do
vento, a linha que tangencia esse vetor se chama linha de fluxo ou linha de corrente. Na análise
horizontal dos ventos, a direção dos mesmos é normalmente representada por linhas de fluxo, em
vez de isógonas, sobretudo os dados dos ventos superiores. Paralelamente ao traçado das linhas de
fluxo, é executada também a análise das velocidades por meio das isotacas.

3.2.4 - A circulação geral da atmosfera

Uma vez que existe um aquecimento diferencial latitudinal na superfície terrestre, provocado
por um suprimento de energia solar desigual, que varia de extremo para extremo em cada hemisfé-
rio, urge que também exista um sistema que equilibre a defasagem calorífica, senão as latitudes em
apreço atingiriam limites insuportáveis à vida. Assim, há um complexo sistema circulatório de ar
por meio do qual o excesso de calor dos trópicos é transportado para os polos, e o excesso de frio
dos polos é transportado para os trópicos, num processo contínuo, que tende a manter um equilíbrio
térmico na Atmosfera. A esse benéfico sistema natural chamamos de circulação geral e ele assim se
processa:
• no equador, o aquecimento torna o ar menos denso e mais leve fazendo com que
se expanda verticalmente, acarretando um acúmulo por unidade de volume. O resultado
disso é uma diminuição da pressão à superfície e um aumento da pressão em altitude;
• nos polos, o resfriamento torna o ar mais denso e mais pesado fazendo com que
o mesmo afunde verticalmente, acarretando uma redução por unidade de volume em alti-
tude. O resultado disso é uma diminuição da pressão em altitude e um aumento da pressão
à superfície;
• em função do gradiente de pressão, o ar passa então a fluir do equador para os
polos, em níveis superiores e dos polos para o equador, em níveis inferiores.

71
Figura 50 - Circulação Geral da Atmosfera

Como bem vimos, existe um mecanismo genérico segundo o qual se processa a circulação
geral do ar. Na verdade, este mecanismo se faz através de etapas ou aspectos distintos, em número
de três e que são os seguintes.

3.2.4.1 - Aspectos da circulação geral

 Uma zona equatorial de transição

Separa as circulações gerais dos dois hemisférios e define a região, ao longo da qual, ambos
os fluxos de ar se elevam para o retorno em altitude, na direção dos polos. É a chamada Confluência
Intertropical (ITCZ) ou Equador Meteorológico.

 Distribuição global de ventos nos níveis inferiores

Feita latitudinalmente em faixas ou células, em ambos os hemisférios, da superfície até


20000 pés.

 Uma circulação superior predominante de oeste

Desenvolvida em forma de espiral, em torno de cada hemisfério, acima de 20000 pés e ace-
lerando-se gradativamente até atingir latitudes polares.

72
3.2.4.1.1 - A Confluência Intertropical (ITCZ)

Trata-se de uma zona de transição que se desenvolve ao longo das latitudes equatoriais, re-
sultante, como veremos adiante, da convergência dos chamados ventos alísios de ambos os hemis-
férios. Ela oscila latitudinalmente entre 15ºN e 12ºS, apresentando uma posição média anual de 6ºN.
Avança sempre na direção do hemisfério que se encontra em Verão, empurrada pelas pressões mais
elevadas do hemisfério que se encontra em Inverno. Permanece mais tempo sobre o hemisfério
Norte, porque este apresenta um verão mais intenso. Sua largura é muito variável, mas pode chegar
às vezes a atingir 500 km. Não apresenta uma continuidade ao redor do Globo Terrestre, sofrendo
interrupções ou quebras. É sempre mais definida e mais intensa sobre os oceanos e consiste numa
faixa de baixas pressões sempre acompanhada de mau tempo. O fato de oscilar, latitudinalmente,
faz com que seja considerada como o equador meteorológico.

3.2.4.1.2 - Distribuição global dos ventos nos níveis inferiores

Esta se faz da superfície até 20000 pés e latitudinalmente em faixas ou células em ambos os
hemisférios, sendo estas em número de três:

3.2.4.1.2.1 - A primeira faixa

É caracterizada pelos ventos que fluem na direção da confluência intertropical, com inicio
nas latitudes de 20º. São os chamados ventos alísios, que se apresentam bem definidos sobre o mar
e com direções predominantes de sudeste no hemisfério sul, e de nordeste no hemisfério norte. A
convergência desses ventos de ambos os hemisférios é que forma a CIT e nela, onde começa a
ascensão do ar tropical, costumam surgir áreas de calmarias, denominadas de Doldruns, onde os
ventos são normalmente calmos ou muito fracos e com predominância de leste, o que, aliás, é a
característica dos ventos inferiores das latitudes equatoriais.

3.2.4.1.2.2 - A segunda faixa

É caracterizada pelos ventos que sopram nas latitudes temperadas, ou seja, entre 30º e 60º
de cada hemisfério. Predominam de oeste e são cada vez mais intensos à medida que se consideram
latitudes mais elevadas.

3.2.4.1.2.3 - A terceira faixa

Caracterizada pelos ventos que fluem dos polos de ambos os hemisférios eles sofrem o efeito
intensivo de Coriolis e por isso se desviam para a esquerda no hemisfério sul e para a direita no
hemisfério norte, apresentando componentes de leste nos dois hemisférios. São os chamados ventos
polares.
Da análise feita anteriormente sobre a circulação geral da atmosfera, inferimos que esta com-
põe-se, nos níveis inferiores, de três faixas 3ou células, a seguir:
• célula tropical ou de Halley: é a que compreende os ventos Alíseos, predominantes
sobre as latitudes tropicais. Caracteriza-se pela subida do ar nas latitudes equatoriais e pela
descida do ar nas latitudes subtropicais;
• célula temperada ou de Ferrel: é a que compreende os ventos predominantes de W,
reinantes sobre as latitudes temperadas. Caracteriza-se pela descida do ar nas latitudes sub-
tropicais (sobre os chamados anticiclones subtropicais) e pela subida do ar nos chamados
ciclones polares;
• célula polar: é a que compreende os ventos polares de E, predominantes sobre as
latitudes polares. Caracteriza-se pela subida do ar nos ciclones polares e pela descida do ar
nos polos (sobre os chamados anticiclones polares).

73
Figura 51 – Células de Circulação Atmosférica

3.2.4.1.2.4 - Outros componentes da circulação dos ventos até 20000ft

 Os anticiclones subtropicais

São grandes anticiclones marítimos, quentes e semipermanentes que ocorrem nas latitudes
compreendidas entre 20º e 40º de cada hemisfério, com seus centros numa posição média anual de
30º. Devido às gigantescas proporções que atingem, eles são considerados integrantes diretos da
circulação geral. Permanecem durante todo o tempo sobre os grandes oceanos, inclusive deles rece-
bendo os nomes. Exemplo típico disso, é o Anticiclone Subtropical Semipermanente do Atlântico
Sul, que determina os ventos alísios predominantes do nosso litoral nordestino. Aliás, como já vi-
mos, são os lados equatoriais desses anticiclones que determinam os ventos Alíseos e como eles são
de natureza marítima, explica-se também a natureza marítima dos alísios.
Os anticiclones subtropicais, normalmente, apresentam-se estáveis em seus centros, só se
instabilizando ao aproximarem-se das áreas mais afastadas do núcleo do sistema. Por consequência,
os ventos que os acompanham são muito fracos ou calmos. As calmarias neles frequentes deram às
latitudes, em torno de 30º N, a designação de Latitudes de Cavalos, porque eram comumente en-
contrados, nas águas locais, cadáveres de cavalos boiando, que eram atirados ao mar, provenientes
de veleiros do Séc. XVII que, apanhados pelas calmarias, encontravam dificuldades em alimentá-
los por muitos dias. Os anticiclones subtropicais compõem, ao redor das latitudes subtropicais, os
chamados cinturões de anticiclones subtropicais (um em cada hemisfério).

 Os ciclones polares

Da convergência dos ventos predominantes de W das latitudes temperadas com os ventos


predominantes de E das latitudes polares, surge, em ambos os hemisférios, ao longo da latitude de
60º, uma estreita zona de transição chamada de frente polar (ártica, no hemisfério norte e antártica,
no hemisfério sul). Trata-se de um fenômeno assaz importante, como veremos mais adiante, e que
se caracteriza por ondas bastante pronunciadas que se desenvolvem em intensos centros de baixas
pressões, determinando com isto centros ciclônicos dinâmicos e frios, entre as latitudes de 45º e 60º,

74
denominados de ciclones polares. Eles apresentam pressões e temperaturas muito baixas, sobretudo,
no outono e no inverno, quando então acarretam condições quase sempre tempestuosas para os oce-
anos de ocorrência. É a razão de ser dos ventos fortes e do mar agitado, predominantes, principal-
mente, sobre os extremos sul da América do Sul e da África.

 Os anticiclones polares

São grandes anticiclones semipermanentes e frios, reinantes o tempo todo sobre os polos,
dos quais fluem os ventos polares de E. Adquirem suas grandes pressões devido ao acúmulo de ar
sobre as calotas polares e das baixas temperaturas ali reinantes. Sua grande importância reside no
fato de contribuir para a formação da chamada frente polar.

Figura 52 – Circulação Geral e detalhes até 20000ft

3.2.4.1.3 - Circulação Superior Predominante de Oeste

Esta ocorre acima de 20.000 pés sobre os dois hemisférios, tendo sua origem nas latitudes
baixas, no retorno do ar equatorial para os polos. Ela se desenvolve em espiral em torno de cada
hemisfério, acelerando-se gradativamente, à medida que vai se aproximando das latitudes polares.
Inicia com os chamados ventos contra-alísios e termina com os chamados vórtices polares, passando
pelos Jatos de Este, pela Corrente de Berson, pelos Ventos Krakatoa e pelas Correntes de Jato.
Vejamos, portanto, as características de tais fenômenos.

3.2.4.1.3.1 - Ventos Contra-alísios

São aqueles originários do retorno em altitude dos Alíseos que se recurvam para os polos,
iniciando as espirais em torno dos hemisférios. Eles ocorrem de 5º a 15º de latitude, atingindo o
máximo de 20º no inverno e fluem de oeste.

75
3.2.4.1.3.2 - Jatos de Este

São aqueles que ocorrem nas grandes altitudes das latitudes equatoriais de cada hemisfério,
propagando-se até 20º de latitude, em média. Normalmente, surgem acima de 40.000 pés e são mais
desenvolvidos no verão, atingindo velocidade de 50 a 60 nós em certas regiões do globo terrestre,
como por exemplo, no Pacífico Central.

3.2.4.1.3.3 - Corrente de Berson

É aquele fluxo de ar que circunda o globo terrestre, como se fosse um anel ao longo do
equador, oscilando de 4ºS a 6ºN, com posição média anual de 2ºN. Flui velozmente de W para E,
acima de 60.000 pés, com velocidade superior a 100 kt, às vezes. Foi observada pela primeira vez
na África Central e ela desempenha, em altitude, o mesmo papel da CIT à superfície.

3.2.4.1.3.4 - Ventos Krakatoa

São aqueles que ocorrem acima da tropopausa, fluindo de leste para oeste. Apresentam ve-
locidades superiores a 100 nós em certas ocasiões e são mais definidos e mais velozes no verão.
Cobrem as latitudes tropicais, de 15ºN a 15ºS e chegam, às vezes, a atingir cerca de 130.000 pés.

3.2.4.1.3.5 - Correntes de Jato

É um dos fenômenos mais importantes da circulação geral da atmosfera. Foi descoberta pelo
finlandês Erik Palmem, sendo o nome Jet Stream dado pelo sueco Rossby. As primeiras observações
do fenômeno foram feitas sobre o Oceano Pacífico, durante a 2º Guerra Mundial, pelos americanos.
A OMM define o fenômeno como sendo uma forte e estreita corrente concentrada ao longo de um
eixo quase horizontal na alta troposfera, caracterizada por turbulências nas bordas do jato.
Surgem como ventos fortes geralmente de oeste, em altitudes elevadas (7 a15 km acima da
superfície) em médias latitudes, devido à grande diferença de temperatura entre os trópicos e os
polos, principalmente no inverno. Na verdade, existem várias teorias que tentam explicar o seu apa-
recimento. A mais conhecida delas atribui o surgimento das correntes de jato ao gradiente de tem-
peratura entre massas de ar. Aceita-se a existência de quatro cilindros de correntes de jato em torno
da Terra: a corrente de jato polar, associada às frentes polares à superfície; a corrente de jato sub-
tropical, que surge associada à quebra da tropopausa nas latitudes temperadas, próxima ao nível de
200hpa; o jato equatorial, que flui de leste entre 20ºN e 15ºS, próximo ao nível de 100hPa e o jato
ártico, localizado na estratosfera nas latitudes de 70º.

3.2.4.1.3.6 - Vórtices Polares

A partir das latitudes tropicais, as circulações superiores de ambos os hemisférios começam


a se definir em espirais de W para E que se deslocam até os polos respectivos, aumentando gradati-
vamente a velocidade e constituindo a verdadeira circulação superior predominante de W. São os
chamados vórtices polares (ártico no hemisfério norte e antártico no hemisfério sul). O vórtice polar
antártico é sempre mais estável e mais persistente que o vórtice polar ártico, devido a maior massa
gelada do Continente Antártico. O núcleo de um vórtice polar é sempre um fluxo intenso de ventos
que atinge seu máximo principalmente no inverno, com velocidade ultrapassando às vezes 220 nós,
na Estratosfera Polar. A grande importância desses vórtices polares reside no fato de serem eles os
responsáveis pela renovação do oxigênio da Troposfera, uma vez que o oxigênio é arrastado para
os níveis inferiores polares através deles, de forma natural.

76
3.2.4.1.3.7 - As Ondas Planetárias

A circulação geral do ar desenvolve-se sobre as latitudes temperadas de ambos os hemisfé-


rios, de forma sinuosa, devido à irregularidade reinante nos cinturões de anticiclones subtropicais.
Tais sinuosidades compreendem movimentos ondulatórios que se desenvolvem dentro da própria
circulação geral, acompanhando o deslocamento predominante, ou seja de W para E, porém apre-
sentando menores velocidades. Trata-se das chamadas ondas de oeste ou ondas planetárias, que
podem se apresentar também no sentido de leste para oeste (ondas de leste).

Figura 53 - Circulação acima de 20.000 ft

3.2.4.1.4 - A circulação secundária e os ventos periódicos

A circulação geral constitui um quadro global do comportamento da atmosfera, no que diz


respeito à movimentação contínua do ar, sob o efeito direto do aquecimento solar. Entretanto, ela
não se apresenta com uma estrutura única, ocorrendo em seu interior perturbações de menor ampli-
tude, que se superpõem ao fluxo em determinadas regiões do Globo Terrestre, criando irregularida-
des estruturais, como se fora o fluxo de um imenso rio, apresentando, aqui e ali, correntes e remoi-
nhos que constituem, com seus fluxos peculiares, a chamada circulação secundária e elas tanto po-
dem ser perturbações que se deslocam, tais como os ciclones e anticiclones dinâmicos, como tam-
bém, perturbações de ocorrência local, causadas por efeitos puramente geográficos, tais como as
brisas, as monções, etc., chamados de ventos periódicos.

3.2.4.1.4.1 - Ciclone

Como já visto anteriormente, trata-se de uma área de baixas pressões, cuja circulação do ar
é convergente, apresentando um fluxo de ventos no sentido anti-horário no hemisfério norte e horá-
rio no hemisfério sul. Sua presença local é, quase sempre, indício de mau tempo.

77
3.2.4.1.4.2 - Anticiclone

Como já visto anteriormente, trata-se de uma área de altas pressões, cuja circulação do ar é
divergente, apresentando um fluxo de ventos no sentido horário no hemisfério norte e anti-horário
no hemisfério sul. Sua presença local é, quase sempre, indício de tempo bom.

3.2.4.1.4.3 - Brisas

São circulações locais que ocorrem sobre regiões litorâneas, tendo por causa fundamental a
diferença de pressão atmosférica entre o litoral e o mar e vice-versa, resultante do diferente aqueci-
mento solar. Pode ser marítima ou terrestre.

 Brisa marítima
Durante o dia, o ar em contato com o litoral torna-se mais aquecido e menos denso e conse-
quentemente com pressão menor; já o ar em contato com a água torna-se mais frio e mais denso e
consequentemente com pressão maior. Em função do gradiente de pressão, o ar passa a circular do
mar para a terra, caracterizando a chamada Brisa Marítima. Ela tem origem em torno de 20 a 40 Km
mar a dentro e penetra na terra em torno de 20 a 60 km. Sua velocidade raramente excede a 10 KT,
mas às vezes pode chegar a 20 nós. É mais intensa na primavera e no verão, no período da tarde,
entre 1400 e 1600 horas (horário local). Acarreta um aumento da umidade relativa e uma redução
na temperatura do ar, de 5º a 6ºC, principalmente à beira-mar. Devido à pequena extensão percor-
rida, ela atua quase que exclusivamente em função da força do Gradiente de Pressão, não havendo
um efeito apreciável da força de Coriolis e desse modo é considerada como um vento de natureza
barostrófica. Às margens dos grandes lagos, costuma ocorrer fenômeno semelhante denominado de
Brisa Lacustre, que penetra em torno de 6 a 8 km terra a dentro.

Figura 54 – Brisa Marítima

78
 Brisa terrestre

Durante a noite, o ar em contato com a água torna-se mais aquecido e menos denso e conse-
quentemente com pressão menor; já o ar em contato com o litoral torna-se mais frio e mais denso e
consequentemente com pressão maior. Em função do gradiente de pressão, o ar passa a circular da
terra para o mar, caracterizando a chamada brisa terrestre. Ela tem origem em torno de 10 a 20Km
terra adentro e penetra mar adentro, numa profundidade equivalente. É sempre mais fraca do que a
brisa marítima, sendo sua velocidade pequena. Apresenta maior intensidade no outono e no inverno.
Devido à pequena extensão percorrida é também um vento de natureza barostrófica.

Figura 55 – Brisa Terrestre

3.2.4.1.4.4 - Vento de vale e de montanha

As regiões montanhosas, com suas elevações e seus vales profundos, costumam apresentar
circulações típicas do ar, denominadas, respectivamente, de vento de vale e vento de montanha,
como veremos a seguir.

 Vento de vale

Durante o dia, o aquecimento do fundo do vale e de suas encostas provoca também o aque-
cimento do ar em contato com os mesmos. Este, então, torna-se menos denso e começa a fluir ao
longo das encostas, através de fluxos ascendentes. No centro do vale, uma mesma proporção de ar
afunda, formando fluxos descendentes. O conjunto de ascendentes e descendentes passa compor
uma circulação local, denominada de vento de vale. Em regiões montanhosas muito elevadas, este
tipo de vento, no verão, costuma formar nuvens cumuliformes, com possíveis pancadas de chuva.

 Vento de montanha
Durante a noite, o resfriamento da montanha e de suas encostas provoca também o resfria-
mento do ar em contato com as mesmas. Este, então, torna-se mais denso e começa a fluir ao longo
das encostas, através de fluxos descendentes. No centro do vale, uma mesma proporção de ar eleva-
se por convergência dinâmica, formando fluxos ascendentes. O conjunto de descendentes e ascen-
dentes passa a compor uma circulação local, denominada de vento de montanha.

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Figura 56 – Vento de Vale e de Montanha

3.2.4.1.4.5 - Ventos Anabático e Catabático

Regiões com encostas avantajadas costumam apresentar circulações típicas do ar denomina-


das, respectivamente, de vento Anabático e vento Catabático, como veremos a seguir.

 Vento Anabático
Quando uma encosta alongada é aquecida durante o dia pela radiação solar, o ar em contato
com ela também se aquece, tornando-se menos denso e passa a elevar-se ao longo da mesma, ca-
racterizando o chamado vento Anabático.

Figura 57 – Ventos Anabáticos

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 Vento Catabático
Quando uma encosta alongada é resfriada durante a noite pela radiação terrestre, o ar em
contato com ela também se resfria, tornando-se mais denso e passa a descer ao longo da mesma,
caracterizando o chamado vento Catabático, também denominado de vento de gravidade. Em regi-
ões cobertas de neve pode ocorrer vento Catabático durante o dia, mas ele será de maior intensidade
e mais frequente à noite.

Figura 58 – Ventos Catabáticos

3.2.4.1.4.6 - Vento Fohen

Quando o ar quente e úmido que participa de um processo orográfico desce a sotavento


quente e seco, devido à inversão de temperatura, ele recebe o nome de vento Fohen, porque o efeito
que lhe dá origem tem esse nome, ou seja, efeito Fohen. Ele é de natureza barostrófica, ocorrendo
em rajadas. Sua maior intensidade acontece no inverno, quando eleva a temperatura bruscamente.

Figura 59 – Vento Fohen

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Figura 60 – Vento Fohen e nuvens associadas

3.2.4.1.4.7 – Monções

As monções são um fenômeno típico da região sul e sudeste da Ásia, onde o clima é condi-
cionado por massas de ar que ora viajam do interior do continente para a costa, monção continental,
ora da costa para o continente, monção marítima.
Devido às diferenças de temperatura e pressão das massas de ar sobre o continente e o mar
o clima de países como a Índia e o Paquistão é inteiramente afetado pelo regime das monções.
Durante o verão, que vai de junho a agosto, o calor aquece rapidamente o continente que
absorve calor bem mais rápido do que o oceano (a terra pode chegar a 45ºC). Com o aquecimento,
as massas de ar sobre o continente também ficam mais quentes e sobem dando lugar a uma rajada
de ventos vindos do oceano Índico, que, como toda massa de ar que se forma sobre os oceanos, vem
carregada de umidade. Essa umidade é despejada (praticamente toda a taxa de precipitação anual)
sobre o continente em chuvas torrenciais que podem durar dias. Esse é o período das monções ma-
rítimas que todo ano causam enchentes nessas regiões.
Após essa fase úmida, no inverno, ocorre o inverso, as massas de ar do continente esfriam
mais que as massas oceânicas e é a vez dos ventos vindos das cordilheiras do Himalaia, descerem
rapidamente em direção ao Índico, empurrando as massas úmidas do oceano para longe e ocasio-
nando um longo período de estiagem que chega a ceifar centenas de vidas. Essas são as monções
continentais que acabam influenciando também o clima do oceano.

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Figura 61 – Monções

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BIBLIOGRAFIA

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