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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 976.531 - SP (2007/0188741-5)

RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI


RECORRENTE : MITSUI MARINE E KYOEI FIRE SEGUROS S/A
ADVOGADO : MARCIA APARECIDA DA SILVA ANNUNCIATO E
OUTRO(S)
RECORRIDO : REAL SEGUROS S/A
ADVOGADOS : EDIMILSON DOS SANTOS
KAREN APARECIDA DE ASSIS
INTERES. : ANTÔNIO JOSÉ SOARES SIQUEIRA ALMEIDA
EMENTA

DIREITO CIVIL. SEGURO. FURTO OU ROUBO DE VEÍCULO EM


ESTACIONAMENTO. CASO FORTUITO. NÃO CONFIGURAÇÃO. EVENTO
PREVISÍVEL. DIREITO DE REGRESSO DA SEGURADORA DO
PROPRIETÁRIO DO VEÍCULO. SÚMULA 288/STF. INCIDÊNCIA.
- Não há como considerar o furto ou roubo de veículo causa excludente da
responsabilidade das empresas que exploram o estacionamento de automóveis,
na medida em que a obrigação de garantir a integridade do bem é inerente à
própria atividade por elas desenvolvida. Hodiernamente, o furto e o roubo de
veículos constituem episódios corriqueiros, sendo este, inclusive, um dos
principais fatores a motivar a utilização dos estacionamentos, tornando
inconcebível que uma empresa que se proponha a depositar automóveis em
segurança enquadre tais modalidades criminosas como caso fortuito.
- Fixada a premissa de que o furto e o roubo de veículos são eventos
absolutamente previsíveis no exercício da atividade garagista, conclui-se que, na
linha de desdobramento dos fatos que redundam na subtração do carro,
encontra-se a prestação deficiente do serviço pelo estacionamento, que, no
mínimo, não agiu com a diligência necessária para impedir a atuação criminosa.
Nesse contexto, na perspectiva da seguradora sub-rogada nos direitos do
segurado nos termos do art. 988 do CC/16 – cuja redação foi integralmente
mantida pelo art. 349 do CC/02 – o estacionamento deve ser visto como
causador, ainda que indireto, do dano, inclusive para efeitos de interpretação da
Súmula 288/STF.
- Os arts. 988 do CC/16 e 349 do CC/02 não agasalham restrição alguma ao
direito da seguradora, sub-rogada, a ingressar com ação de regresso contra o
estabelecimento garagista.
Recurso especial provido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da


TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das
notas taquigráficas constantes dos autos, por unanimidade, dar provimento ao recurso
especial, nos termos do voto da Sra. Ministr Relatora.Os Srs. Ministros Massami Uyeda,
Sidnei Beneti, Vasco Della Giustina e Paulo Furtado votaram com a Sra. Ministra
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Relatora.
Brasília (DF), 23 de fevereiro de 2010(data do julgamento)

MINISTRA NANCY ANDRIGHI


Relatora

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RECURSO ESPECIAL Nº 976.531 - SP (2007/0188741-5)

RECORRENTE : MITSUI MARINE E KYOEI FIRE SEGUROS S/A


ADVOGADO : MARCIA APARECIDA DA SILVA ANNUNCIATO E
OUTRO(S)
RECORRIDO : REAL SEGUROS S/A
ADVOGADOS : EDIMILSON DOS SANTOS
KAREN APARECIDA DE ASSIS
INTERES. : ANTÔNIO JOSÉ SOARES SIQUEIRA ALMEIDA

RELATÓRIO

A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):

Cuida-se de recurso especial interposto por MITSUI MARINE E KYOEI


FIRE SEGUROS S.A., com fundamento no art. 105, III, “a” e “c”, da CF, contra acórdão
proferido pelo TJ/SP.
Ação: de indenização por danos materiais, ajuizada pela recorrente em
desfavor de ANTÔNIO JOSÉ SOARES SIQUEIRA ALMEIDA, alegando estar no
exercício de direito de regresso. Afirma ter celebrado contrato de seguro de automóvel
com Marsha Lisa Schlittler Ventura, tendo o bem segurado sido roubado em
estacionamento de propriedade do recorrido. Diante disso, uma vez paga a indenização
securitária, a recorrente aduz ter direito de ser ressarcida pelo recorrido, por ser ele o
causador do dano.
Em sede de contestação, o recorrente denunciou à lide a REAL
PREVIDÊNCIA E SEGUROS S.A., com quem celebrou contrato de seguro com
cobertura de responsabilidade civil garagista (fls. 50).
Sentença: julgou procedente o pedido contido na petição inicial, para
condenar o recorrido “a pagar ao autor o valor de R$42.570,00, corrigido o montante –
juros legais e correção monetária – a partir do desembolso e até quando do efetivo
pagamento ” e julgou improcedente a denunciação da lide, tendo em vista a existência de
“condições não vinculadas no ajuste ” e “o agravamento do risco pelo réu” (fls.
177/178).
Acórdão: o TJ/SP deu provimento ao apelo do recorrido, nos termos do
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acórdão (fls. 211/214) assim ementado:

“SEGURADORA. ROUBO DE VEÍCULO NO INTERIOR DE


ESTACIONAMENTO. AÇÃO REGRESSIVA. IMPROCEDÊNCIA FACE AO
RECONHECIMENTO DE CASO FORTUITO – Há diversidade de relações
jurídicas entre o consumidor do serviço de estacionamento de veículo e a
fornecedora, e a existente entre a seguradora do consumidor e o estacionamento
de forma que o roubo do veículo no interior do estacionamento encerra caso
fortuito que determina a não incidência da responsabilidade civil – Recurso
provido ”.

Embargos de declaração: interpostos pela recorrente (fls. 220/226), foram


rejeitados pelo TJ/SP (fls. 230/231).
Recurso especial: aponta ofensa aos arts. 458, III e 535, II, do CPC e 159 e
988 do CC/16, bem como dissídio jurisprudencial (fls. 234/255).
Prévio juízo de admissibilidade: o TJ/SP admitiu o recurso especial (fls.
311/312).
É o relato do necessário.

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INTERES. : ANTÔNIO JOSÉ SOARES SIQUEIRA ALMEIDA

VOTO

A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):

Cinge-se a lide a determinar a existência de direito de regresso de


seguradora frente a estacionamento, nas hipóteses em que aquela indeniza o segurado por
conta de roubo de veículo ocorrido dentro do estabelecimento garagista.

I. Da negativa de prestação jurisdicional (violação aos arts. 458, III e


535, II, do CPC)

Da leitura do acórdão recorrido, constata-se que a prestação jurisdicional


dada corresponde àquela efetivamente objetivada pelas partes. O TJ/SP pronunciou-se de
maneira a abordar a discussão de todos os aspectos fundamentais do julgado, dentro dos
limites que lhe são impostos por lei, tanto que integram o objeto do próprio recurso
especial e serão enfrentados adiante.
O não acolhimento das teses contidas no recurso não implica obscuridade,
contradição ou omissão, pois ao julgador cabe apreciar a questão conforme o que ele
entender relevante à lide. Não está o Tribunal obrigado a julgar a questão posta a seu
exame nos termos pleiteados pelas partes, mas sim com o seu livre convencimento,
consoante dispõe o art. 131 do CPC.
Ademais, no que tange especificamente às leis municipais que obrigavam
estacionamentos de São Paulo a contratar seguro contra furto e roubo, vale acrescentar

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que o STF, no julgamento do RE 313.060/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Ellen Gracie, DJ de
24.02.2006, considerou tais normas inconstitucionais, consignando ter havido usurpação
da “competência para legislar sobre seguros, que é privativa União, como dispõe o art.
22, VII, da Constituição Federal ”.
Outrossim, é pacífico o entendimento no STJ de que os embargos
declaratórios, mesmo quando manejados com o propósito de prequestionamento, são
inadmissíveis se a decisão embargada não ostentar qualquer dos vícios que autorizariam a
sua interposição. Confira-se, nesse sentido, os seguintes precedentes: AgRg no Ag
680.045/MG, 5ª Turma, Rel. Min. Félix Fischer, DJ de 03.10.2005; EDcl no AgRg no
REsp 647.747/RS, 4ª Turma, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, DJ de 09.05.2005; EDcl
no MS 11.038/DF, 1ª Seção, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJ de 12.02.2007.
Constata-se, em verdade, a irresignação da recorrente e a tentativa de
emprestar efeitos infringentes aos embargos, o que se mostra inviável no contexto deste
recurso, afigurando-se correta a sua rejeição, posto inexistir vício a ser sanado e, por
conseguinte, ausência de ofensa ao art. 535 do CPC.

II. Da sub-rogação da seguradora nos direitos do segurado frente ao


estacionamento (violação aos arts. 159 e 988 do CC/16)

De acordo com o acórdão recorrido, “na relação entre a seguradora (da


consumidora) e o fornecedor (administrador do estacionamento) temos que o risco deve
ser suportado pela seguradora por ser ínsito a seu programa contratual a assunção
específica do risco de roubo ”, acrescentando que “nessa linha, o roubo configura-se
como caso fortuito e exclui a responsabilidade do estacionamento perante a seguradora ”
(fls. 213/214).
O entendimento do TJ/SP teve por base o julgamento do REsp 327.493/SP,
4ª Turma, Rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJ de 24.02.2003, que, interpretando a
Súmula 188/STF, decidiu que, “no roubo de veículo estacionado, a empresa que explora
o estacionamento não é a causadora do roubo praticado por meliantes, e contra ela a
seguradora não tem ação regressiva ”.
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Ao lado desse julgado, porém, encontramos diversos outros, da própria 4ª
Turma, admitindo a ação regressiva da seguradora, consignando ser o estacionamento de
veículos “responsável pela eficiente guarda e conservação dos mesmos, devendo, por
isso, empreender todos os esforços necessários a tanto, dotando o local de sistema de
vigilância adequado ao mister que se propõe a realizar, desservindo, como excludente, a
título de força maior, haver sofrido roubo, fato absolutamente previsível em atividade
dessa natureza, mormente dado o elevado valor dos bens que lhe são confiados,
altamente visados por marginais, por servirem, inclusive, como instrumento à prática de
outros crimes ” (REsp 303.776/SP, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, DJ de 25.06.2001.
No mesmo sentido: REsp 131.662/SP, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, DJ de
16.10.2000; e REsp 31.154/SP, Rel. Min. Fontes de Alencar, DJ de 31.05.1993).
Com efeito, não há como considerar o furto ou roubo de veículo causa
excludente da responsabilidade das empresas que exploram o estacionamento de
automóveis, na medida em que a obrigação de garantir a integridade do bem é inerente à
própria atividade por elas desenvolvida.
Acrescente-se que, hodiernamente, o furto e o roubo de veículos constituem
episódios corriqueiros, sendo este, inclusive, um dos principais fatores a motivar a
utilização dos estacionamentos, tornando inconcebível que uma empresa que se proponha
a depositar automóveis em segurança enquadre tais modalidades criminosas como caso
fortuito.
Fixada a premissa de que o furto e o roubo de veículos são eventos
absolutamente previsíveis no exercício da atividade garagista, concluiu-se que, na linha
de desdobramento dos fatos que redundam na subtração do carro, encontra-se a prestação
deficiente do serviço pelo estacionamento, que, no mínimo, não agiu com a diligência
necessária para impedir a atuação criminosa.
Nesse contexto, na perspectiva da seguradora sub-rogada nos direitos do
segurado nos termos do art. 988 do CC/16 – cuja redação foi integralmente mantida pelo
art. 349 do CC/02 – o estacionamento deve ser visto como causador, ainda que indireto,
do dano, inclusive para efeitos de interpretação da Súmula 288/STF, segundo a qual “o
segurador tem ação regressiva contra o causador do dano, pelo que efetivamente pagou,
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até o limite previsto no contrato de seguro ”. Afinal de contas, não fosse a falha do
estacionamento na adoção de medidas capazes de impedir a ocorrência do furto ou do
roubo – eventos totalmente previsíveis e ínsitos à atividade garagista – o proprietário do
veículo não teria sido desapossado de seu bem e, por conseguinte, a seguradora não se
veria obrigada a pagar a indenização.
Ao que parece, o TJ/SP confunde os limites do seguro firmado por
proprietários de veículos com o seguro contratado pelo próprio estabelecimento
garagista, em que, havendo cobertura para furto e roubo, é possível se falar no dever da
seguradora de suportar o ônus de tais infortúnios, visto que estaremos diante de risco
específico previsto no contrato. Nos seguros automotivos, no entanto, é óbvio que o
cálculo do prêmio não leva em consideração o risco decorrente da ineficiência do serviço
prestado pelos estacionamentos, de sorte que a seguradora não pode ser impedida de agir
regressivamente contra estes.
Aliás, a 3ª Turma também já teve a oportunidade de se debruçar sobre o
tema, afirmando que “o art. 988 do Código Civil não agasalha restrição alguma ao
direito da seguradora, sub-rogada, a ingressar com ação de regresso contra a empresa
que responde pelo estacionamento ” (REsp 177.975/SP, Rel. Min. Carlos Alberto
Menezes Direito, DJ de 13.12.1999. No mesmo sentido: REsp 68.609/SP, Rel. Min.
Cláudio Santos, DJ de 23.10.1995).

Finalmente, apesar do presente recurso especial não dar margem à


discussão da denunciação da lide apresentada pelo recorrido, impende destacar que a
sentença concluiu ter a perda do bem se dado “em condições não vinculadas no ajuste ”,
acrescentando, ainda, que “os documentos juntados pela seguradora denunciada
informam o agravamento do risco pelo réu” (fls. 178). Tais constatações não foram
elididas pelo TJ/SP.
Dessa forma, ainda que fosse possível adentrar na análise da denunciação
da lide, a reforma da decisão proferida pelas instâncias ordinárias quanto a esse ponto
exigiria o revolvimento do substrato fático-probatório dos autos, procedimento que
encontra óbice na Súmula 07/STJ.
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Forte em tais razões, DOU PROVIMENTO ao recurso especial, para


restabelecer a sentença de fls. 177/178.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
TERCEIRA TURMA

Número Registro: 2007/0188741-5 REsp 976531 / SP

Números Origem: 12611406 196982002 95442216


PAUTA: 18/02/2010 JULGADO: 23/02/2010

Relatora
Exma. Sra. Ministra NANCY ANDRIGHI
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro MASSAMI UYEDA
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. JUAREZ ESTEVAM XAVIER TAVARES
Secretária
Bela. MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : MITSUI MARINE E KYOEI FIRE SEGUROS S/A
ADVOGADO : MARCIA APARECIDA DA SILVA ANNUNCIATO E OUTRO(S)
RECORRIDO : REAL SEGUROS S/A
ADVOGADOS : EDIMILSON DOS SANTOS
KAREN APARECIDA DE ASSIS
INTERES. : ANTÔNIO JOSÉ SOARES SIQUEIRA ALMEIDA
ASSUNTO: DIREITO CIVIL - Obrigações - Espécies de Contratos - Seguro

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia TERCEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Turma, por unanimidade, deu provimento ao recurso especial, nos termos do voto da
Sra. Ministr Relatora.
Os Srs. Ministros Massami Uyeda, Sidnei Beneti, Vasco Della Giustina (Desembargador
convocado do TJ/RS) e Paulo Furtado (Desembargador convocado do TJ/BA) votaram com a Sra.
Ministra Relatora.

Brasília, 23 de fevereiro de 2010

MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA


Secretária

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