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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE SERVIÇO SOCIAL

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL

CURSO DE DOUTORADO EM SERVIÇO SOCIAL

VVIIOOLLÊÊNNCCIIAA && PPRRIISSÃÃOO UUMMAA VVIIAAGGEEMM NNAA BBUUSSCCAA DDEE UUMM OOLLHHAARR CCOOMMPPLLEEXXOO

MIRIAM KRENZINGER A. GUINDANI

Porto Alegre, janeiro de 2002.

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE SERVIÇO SOCIAL

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL

CURSO DE DOUTORADO EM SERVIÇO SOCIAL

VVIIOOLLÊÊNNCCIIAA && PPRRIISSÃÃOO UUMMAA VVIIAAGGEEMM NNAA BBUUSSCCAA DDEE UUMM OOLLHHAARR CCOOMMPPLLEEXXOO

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutor em Serviço Social.

Miriam Krenzinger A. Guindani

Orientadora:

Profa. Dra. Julieta Beatriz Ramos Desaulniers

Porto Alegre, janeiro de 2002.

Tese defendida em 16 de janeiro de 2002 perante a Banca Examinadora constituída pelos professores:

Profa. Dra. Julieta Beatriz Ramos Desaulniers

Profa. Dra. Carmem Oliveira

Prof. Dr. Juremir Machado da Silva

Profa. Dra. Luiza Dalpiaz

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” (livro dos conselhos)

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” (livro dos conselhos)

DEDICATÓRIA:

À Natália, Régis e Vicente.

Anjos que me ajudaram a buscar, por um caminho singular, a própria síntese, em todos os momentos e contratempos desta viagem.

AGRADECIMENTOS

A trajetória empreendida nessa tese levou quatro anos para amadurecer.

Durante essa caminhada tive a sorte de interagir com diferentes pessoas e sou grata a todos aqueles que colaboraram para esse feito

De modo especial:

À PUCRS, que me possibilitou condições para viabilizar este trabalho, principalmente o Diretor Prof. Jairo Melo Araújo, por me lançar nesse desafio;

Ao Professor e amigo Salo de Carvalho, em que tive o privilégio de contar com sua parceria intelectual e orientação que muito contribuíram para a construção das idéias aqui apresentadas;

A todos os colegas da linha de pesquisa Formação, Trabalho e Organização, em especial a Dra. Julieta B. R. Desaulniers pela orientação desta tese;

A todos os sujeitos que participaram da pesquisa no Presídio Central de

Porto Alegre em especial aos nove lideres das galerias, ao assistente social Jarbas Pitaguary e ao Capitão Alberto, pois facilitaram o acesso as diferentes informações do local;

Às auxiliares de pesquisa Cristiane Catharino, Maira Pinto, Marílucia Mietlikc e Cristina Guindani pelo apoio na coleta e organização dos dados da Pesquisa no PCPA;

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Aos professores Juremir Machado da Silva e Luiza Dalpiaz pelas

contribuições

para

o

aprimoramento

desta

tese,

sugeridas

na

fase

de

qualificação;

Aos Professores Máximo Pavarini e Rafaelle De Giorge pelas sugestões quanto ao tema desta tese e pelas oportunidades, na minha passagem pela Itália, de aprender um pouco mais sobre violência e sistema penal.

À Ivelise Flach, Eraldo Türck, Helena Totta pelo empenho e paciência quem tiveram na revisão deste trabalho;

Aos órgãos Secretaria da Justiça e Segurança, Superintendência dos Serviços Penitenciários, Conselho Penitenciário e Centro de Observação Criminológica, pelo reconhecimento e por aquilo que me acessaram de experiências e possibilidades de intervenção. Em especial aos companheiros do COC, Pedro Pacheco, Magali Andriotti, Moema Cabral, Eliana Ruas, Isabel Ferreira, Julio Hoanisch, Sonia Almeida, Homero, Carmem, Silvana Porciuncula, Rafaela e, as equipes dos setores de perícia, administrativo e demais técnicos do sistema penitenciário gaúcho;

Ao Deputado Federal Marcos Rolim e advogada Cristina Villanova da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, por serem gaúchos de referência compromissada ética-politicamente com a questão dos Direitos Humanos;

Aos colegas do ITEC-Instituto Transdisciplinar de Ciências Criminais, em especial Felipe Oliveira, Jader Marques, Alexandre Wunderlich, Rodrigo Oliveira, Daniel Guerber, Andrei Schimit e Simone Shoroeder, pelos sonhos e projetos a serem realizados;

Aos professores, funcionários e alunos dos cursos de Serviço Social da PUCRS e ULBRA, em especial Mônica Bragaglia, Inês Amaro, Bia Aguinski, Maria Isabel Bellini, Flavia Felipe, Norma Prates, Ana Ferlauto, Bia Marazita, Maria L. Scavone, Márcia Faustini, Berenice Couto, Jane Prates, Maria da Graça Türck, Cláudia Giongo, Suzete Lopes, Milene Bordignon, Esalba Silveira,

8

Simone Bier, Leônia Bulla, Gleni Guimarães, Patrícia Grossi, Idilia Fernandes e, Rosi, Zoraida, Nazira, Giorgina e Caroline;

Aos colegas e queridos amigos Alzira Lewgoy, Ana Lúcia Maciel, Chico Kern, Jussara Mendes, Ivone Rheinheimer e Maria Palma Wolff, pelo apoio nas horas mais difíceis dessa experiência;

Aos professores Hans Fiklinger, Helio Silva e em especial a Ruth Gauer, pelas possibilidades de rupturas, novos olhares e experiências múltiplas;

À Alba Henkin, “Pacha Mama” Vera, Mauro Pozzati, meus gurus, que deram a força emocional e espiritual para seguir em frente;

À Irene Krenzinger, Helene Otton, Liane Silva, Flávio Azambuja, Luiz Carlos Azambuja e Francisco Krenzinger (in memória), meus familiares, que mesmo distante, deixaram marcas no meu ser e nessa tese;

Por fim, quero expressar o meu carinho e gratidão ao Luiz Eduardo Soares, por reencontrá-lo no final dessa pesquisafazendo com que eu aprendesse um pouco mais de mim e um tanto da vida.

SUMÁRIO

RESUMO

011

ABSTRACT

013

TRILHA INICIAL

016

1 O CAMINHO DA PESQUISA

027

1.1

O Ponto de Partida: Organizando a Bagagem

027

1.1.1 A Bagagem I

033

1.1.2 A Bagagem II

040

1.2

O Mapa da pesquisa: a Problemática Construída

048

1.2.1

As Estratégias de Verificação

056

1.3

O Mapa das Trilhas

061

2 O CENÁRIO DA PESQUISA

064

2.1 Contextualizando o Lugar

064

2.2 Chegando no Lugar

073

2.3 A Organização do Lugar: sua Estrutura e Funcionamen- to

080

2.4 Caracterização dos Sujeitos que Compõem os Diferentes Grupos

100

2.5 A Dinâmica de Interação dos Grupos

106

2.6 Indicadores da Violência do Ponto de Vista dos Sujeitos Pesquisados

120

3 OS OLHARES QUE IMOBILIZAM

3.1 Dialogando com os Teóricos: as Possibilidades do Lugar

133

133

10

3.2 As Diversas Referencias do Lugar

4 OS OLHARES QUE CONGELAM

4.1 Dialogando

com

os

Teóricos

sobre

144

163

Violência

Contemporânea

4.2 Conversando com os Sujeitos da Pesquisa sobre o Poder Simbólico do Lugar

163

179

5 A AUTO-ORGANIZAÇÃO DO LUGAR

188

5.1 O Controle e os Jogos do Poder

190

5.2 O Tempo da Prisão: a Grande Ferramenta do Controle

197

5.3 A Socialidade e a Potência da Massa

205

6 O OLHAR RECURSIVO

215

6.1 Uma

Abordagem

Complexa

sobre

o

Lugar

e

suas

Expressões

216

6.2 Trilha Especial: Uma Experiência no Lugar

 

235

TRILHA FINAL

248

REFERÊNCIAS

258

ANEXOS

269

Anexo 1 Modelo

de

instrumentos

e

exemplos

das

informações coletadas

270

Anexo 2 Organização dos dados

312

Anexo 3 Documentos estatísticos

345

Anexo 4 Exemplo Jornal Arpão

364

Anexo 5 Material extraído da mídia

369

RESUMO

Esta tese sustenta que a violência da sociedade contemporânea tem nas grandes prisões, o lugar privilegiado para se condensar expressando-se através de múltiplas formas. Ao analisar tal fenômeno, propõe-se um tipo de abordagem que supõe a constituição de um olhar complexo, que possibilita captar a prisão não somente como um espaço que manifesta o excesso da força e do poder de punir - através do controle, vigilância e disciplina -, mas também, como um espaço de auto-organização que produz vida social, instaurando rupturas com o projeto idealizador da pena, assim como a existência de estratégias de não violência capazes de combater a própria violência institucional. Cinco premissas foram construídas para demonstrar a tese aqui sustentada: 1) a questão da ambigüidade do discurso que, em determinados momentos, é favorável à prisão e, em outros, prega a falência da mesma; 2) a redefinição do poder simbólico da prisão de espaço de normalização para eliminação de uma massa descartável; 3) a existência de jogos do poder dentro da prisão; 4) o processo de auto-organização e as múltiplas formas de violência da prisão. 5) e, por fim, a prisão como espaço gerador de relações instituintes e sensibilidades, ou seja, de práticas sociais - dentre elas o Serviço Social - que podem contribuir para a produção de uma nova cultura sobre a natureza e o significado de sua própria violência, auxiliando assim na sua transformação. A maior casa prisional do Estado do Rio Grande do Sul constitui a unidade privilegiada na pesquisa e, através da análise desse caso exemplar delimitou-se o problema a ser investigado: como se expressam as múltiplas formas da violência na organização do Presídio Central de Porto Alegre? Para a coleta das informações, aplicou-se

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questionários na totalidade da população carcerária incluindo os funcionários do Presídio Central de Porto Alegre - PCPA. Utilizou-se também outros tipos de fontes, como documentos escritos e orais, em especial, entrevistas e grupos de discussão.

Partindo-se do pressuposto de que forma é conteúdo, optou-se por recursos metafóricos ao montar a estrutura desta tese, principalmente o da viagem-tese, imagens, trechos de poesias, letras de músicas, bem como reflexões de diferentes atores sociais. A construção e a operacionalização da problemática investigada (problema, hipótese, indicadores, fontes e procedimentos) foram desenvolvidas a partir dos pressupostos teóricos da complexidade, tendo Edgar Morin e David Garland, como os principais autores de referência. Nessa ótica, foi possível: - entrelaçar violência e prisão numa espécie de jogo de espelhos com indicadores significativos da sociedade; - captar a prisão como organização complexa que se configura a partir das múltiplas dimensões e referências da pena, além de interagir com outros sistemas (penal, político, midiático). Ao final, apontam-se as principais descobertas obtidas nesse processo de pesquisa, bem como algumas proposições relacionadas à política de segurança / penal e às práticas que constituem o campo jurídico penal, incluindo a intervenção do profissional em Serviço Social.

ABSTRACT

The main objective of this thesis is to support that contemporaneous society‟s violence has a place to condense and express itself through different meanings in large prisons. The phenomenon‟ analysis has the intention to constitute a prison‟ complex vision which allows to concept it not just as a place to show the punishment power but also an auto-organized place that produces social life and shows non-violence strategies to combat institutional violence. Five premises had been constructed to confirm the thesis: 1) a doubtful speech that sometimes is favorable to arrest and in other moments says that arrest is an institute that had failed; 2) redefinition of prison‟ symbolic power as a space for normalization to eliminate dismissable mass; 3) existence of power games in prison; 4) auto-organization process and the different violence meanings in prison; 5) arrest considered as a space for institutional relations and sensibilities as social practices including Social Service that may contribute to produce a new culture about violence meaning and helping on his transformation. The research main unit chosen was Porto Alegre Central Penitentiary (PACP), the larger penitentiary in the state of Rio Grande do Sul Brazil, where it had been specified the problem: how the different meanings of violence are expressed in Porto Alegre Central Penitentiary organization? Questionnaires were applied to carcerary community as well interviews and discussion groups had been taken place between them to collect data to this research.

Considering that the shape of the text means its contents, metaphoric resources had been used to construct this work, for example, „thesis-travel‟ figure, images, poetry‟s, songs and many other reflections made by different

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social artists. The problematic study (problem, hypothesis, sources and procedures) had been developed using the complexity theory and referring his authors like Edgar Morin, and David Garland. In this study it was possible to mix violence with prison showing contemporaneous society‟ significance; to understand prison as a complex organization through different dimensions and punishment‟ references, besides including penal and political systems. Finally the research process points the main discoveries related to the hypothesis and gives suggestions to developed security /penal policies that constitute penal and juridical area including Social Service‟ Professional interventions.

“Há viagens de todo o tipo. A do “turista acidental” é aquela em que o desconhecido - que caracteriza o outro, o estrangeiro e seu território - é domesticado, reduzido à rotina conhecida e liberado de todo o medo e de todo o risco, mas também de qualquer possibilidade de descoberta, amadurecimento, crescimento pessoal e intelectual, de enriquecimento e transformação. Outra viagem bem diferente é aquela consagrada na cultura ocidental pelo modelo da Epopéia, que Homero eternizou. Na Epopéia, a viagem se faz como um longo e arriscado distanciar-se da origem, da cidade natal, das relações matriciais e de si mesmo. O outro, o desconhecido, surge transfigurado em monstros míticos e nos perigos extremos, que conduzem a experiência do protagonista a seus extremos. Quando, finalmente, a viagem parece ter mergulhado o viajante na sombra sem norte, irreversível, aproximando-o de seus limites e da morte, o destino o devolve à sua cidade natal e a si mesmo, não para condená-lo à repetição, ao eterno retorno do mesmo, mas para libertá-lo de vez de sua origem, permitindo-lhe redefinir suas relações consigo mesmo, para lançar-se, enfim, na aventura mais audaciosa que um ser humano pode ousar: a metamorfose, a autotransformação, o exercício radical da estética reflexiva da autoconstituição”. (Luiz Eduardo Soares).

a autotransformação, o exercício radical da estética reflexiva da autoconstituição” . (Luiz Eduardo Soares).

A TRILHA INICIAL

Tecer uma teia das múltiplas expressões da violência contemporânea sob o espaço da prisão. Eis o desafio desta tese. Abordo a prisão como sendo um recurso analítico de um fenômeno complexo e poliforme, através do qual se organiza um sistema que condensa e potencializa a violência estrutural da sociedade brasileira.

Tal perspectiva constituiu-se em um fio condutor para esse trabalho, em que busquei a construção de um olhar complexo capaz de estabelecer a conexão entre violência e prisão. Dessa forma, procurei captar alguns dos muitos processos que agem nessa esfera obscura, fazendo do entrelaçamento violência-prisão uma espécie de jogo de espelhos e indicadores significativos da sociedade. Ou seja, tentei produzir um olhar que pudesse sinalizar, através da prisão, antigas e novas formas de violência que atravessam as culturas que se fundem, não só no interior das instituições do sistema punitivo (sujeitos aprisionados, magistratura, administração penitenciária), mas também, e de forma mais ampla, na opinião pública.

Eleger a violência na/da prisão como objeto desta investigação significou inscrever-me na relação do visível e do invisível. Isto, claro, fez com que eu corresse vários riscos relativos à suas conseqüências, sendo que a maior delas, certamente, foi o de não saber caminhar entre o “olhar” e o “não olhar”. Por isso, ao aproximar-me desse objeto “estranho” 1 o desafio de aprender a delimitá-lo, procurando uma melhor captação e demonstração do mesmo,

1 Para FLIKINGER (1999, p.2), uma cultura estranha só se compreenderá se a tomarmos a sério como estranha, isto é, se reconhecermos sua estranheza para nós. Querer compreender culturas estranhas exige a coragem de colocar em cheque os próprios „pré-conceitos‟. Conseqüentemente, o compreender é um processo de gerar insegurança: processo este que precisamos aprender a suportar.

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tornou-se uma viagem. Uma pesquisa da (re)descoberta, assim posso dizer, em todos os sentidos desta palavra.

Penso que tenho vivido uma pesquisa empreendida no inquieto crepúsculo da modernidade. Pesquisa sobre os limites da violência. Uma

pesquisa através das sombras. Em primeiro lugar, através de minha própria sombra. Uma pesquisa em busca de uma verdade netuniana. Uma pesquisa para além da especialização de um saber. Pesquisa a um lugar (prisão) que abre os seus mecanismos internos através de sucessivas aproximações. Uma pesquisa que exige paixão do pesquisador e uma linguagem motivada (MATURANA, 2001), mais do que uma linguagem que pretenda apresentar

sair do caminho da escravidão das pretensões

totalizantes do conhecimento torna-se somente possível por meio de uma

paixão desmedida pelo conhecimento.” (MALDONATO, 2001, p.14) .

uma nova verdade. Porque “(

)

Então, que motivo me impulsionou a fazer tal viagem? Certamente não foi o de demonstrar que a pena de prisão nasceu falida, pois jamais cumpriu seus objetivos de recuperar o infrator e inibir a criminalidade, pois isso já se tornou unanimidade mundial. O que haveria, então, de original em pesquisar um lugar fadado ao insucesso desde sua gênese? Por diversas vezes, fui questionada e questionei-me se todo o estudo empreendido não seria resumido apenas a remexer o óbvio. Foram essas mesmas dúvidas, contudo, que me ajudaram a definir o norte deste trabalho de Doutorado. Foram, exatamente, a obviedade e o discurso sobre a falência da prisão os fatores que me instigaram a desenvolver esta tese.

Inquieta-me o fato de que a sociedade contemporânea, principalmente a brasileira, está presa à satisfação de necessidades imediatas, básicas ou midiaticamente geradas em imaginários coletivos superficiais. Sendo assim, esta sociedade mostra-se apática frente aos problemas da violência social e desinteressada na discussão de novas alternativas ao cárcere, a não ser em momentos em que os ânimos se alteram, por ocasião de fugas e mega

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rebeliões 2 . O debate fica, portanto, restrito ao campo dos cientistas jurídicos e sociais. E, mesmo no meio acadêmico, principalmente junto ao Serviço Social, as discussões sobre o sistema prisional são incipientes.

Há uma carência de pesquisas científicas no Brasil que demonstrem o processo de organização do sistema punitivo dominante - a prisão - e quais as expectativas dos agentes sociais envolvidos nos mecanismos de punição e recuperação oferecidos pela sociedade. Freqüentemente, o debate tende para soluções idealizantes e abolição da prisão. Na prática, são desprezados os sujeitos que permanecem (con)vivendo nesse contexto, e que estão experimentando novas formas de exclusão e até eliminação social.

Muitas produções sobre a falência da prisão e suas alternativas são feitas por teóricos que pouco conhecem o cotidiano dessas instituições punitivas. Ou seja, partem do reconhecimento de que as instituições totais estão falidas no seu propósito de recuperação, dando a idéia de que se trata de uma instituição alienígena. Isto vem servindo para a construção de uma imagem que associa os efeitos perversos „daquele mundo intramuros‟ aos estereótipos do sujeito vítima ou perigoso. Nesse contexto institucional em crise, por mais fechado que seja, produz-se e reproduz-se a vida social. Os processos de exclusão e inclusão social são constantemente potencializados pela dinâmica da sociedade em geral (GARLAND, 1999). A negação desses processos vem sendo uma das formas de violência simbólica, mostrando como a sociedade trata os excluídos sociais.

Diante dessas percepções, quais seriam as expectativas em relação ao que eu poderia encontrar no transcorrer da viagem? Pretendia, assim, constituir uma cartografia dos múltiplos elementos que configuram as forças corporais que resistem e agridem, dos atos de violência que co-existem, para identificar a emergência de novas formas de poder e controle social, que vêm caracterizando a nossa sociedade contemporânea.

2 Para CARVALHO(2001, p.02) “O momento da discussão sobre a realidade carcerária é freqüentemente precedido de

situações de enorme violência institucional.(

estes fatos são produto de construções políticas extremamente autoritárias, estruturadas em pressupostos

maniqueístas e segregadores, quando não belicistas e de (nova ) „defesa social‟.”

E, não obstante, o modo, o local e os portadores dos discursos sobre

)

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Depara-se não só com a ilusão de um tipo de pena refletida em si mesma, num espelho que está declinando. A máscara cai também no que tange à crítica retórica à falência da pena de prisão. Entende-se que os discursos a respeito foram enredados em um conjunto de teorias modernas que fizeram da penalogia um campo da „Verdade‟. Ao mesmo tempo, não são vislumbrados outros discursos que tenham conseguido tirar da neblina as ilusões construtivistas da sociedade normalizada.

A prisão deteve, por muito tempo, o poder simbólico de representar o

processo de normalização da vida social. Isto é, para transformar a conduta dos indivíduos, as instituições eram organizadas de modo a intervir sobre o corpo humano, treiná-lo, torná-lo obediente, submisso, dócil e útil

(FOUCAULT,1997).

Atualmente, permanecem as máscaras do poder institucional; todavia, o preso nem sempre estabelece uma relação de submissão direta aos

agentes sociais de controle e à vigilância formal. Para aqueles que ficam no „fundo da cadeia‟ surgem outras formas de controle, que se tornam mais sutis

e camufladas, através dos diferentes grupos, que se expandem numa rede de

micro-poderes que conquistam a condição de controlar, adormecer e acalmar

a massa carcerária.

A prisão, considerada pela sociedade como um resíduo marginal anônimo, é, ao mesmo tempo, o espelho mais fiel e significativo desse complexo social. Se, por um lado, a sociedade se esconde e é ignorada, de outro, redescobre-se, fazendo emergir um enorme e variado potencial de produção simbólica. A isso referem-se, de fato, as imagens do perigo, da segurança, do castigo, do inimigo, da autoridade do Direito e do Estado, da honestidade, da Justiça e do “Outro”. Trata-se de uma espécie de remorso coletivo por aquilo que está oculto e esquecido, e que pode emergir do improviso, despertando sonhos e emoções mais díspares e incontroláveis.

A prisão concretiza, ainda, um dos feitos mais significativos da relação

entre direito e sociedade. Representa, sob um aspecto, um impacto físico da

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norma escrita sobre as relações sociais, uma materialização do direito penal e penitenciário em estruturas, organizações, relações hierárquicas, onde um mundo formal reina de forma arbitrária e inerte. Sob outro aspecto, explicita a razão férrea do controle operado em nome da segurança, a não justiça da norma e dos direitos, mesmo afirmados em linhas de princípios. Além disso, as contradições e ambivalências que caracterizam a esfera prisional estão relacionadas com a gravidade da crise da modernidade. Essa crise está expressa, inclusive, na evidente dificuldade em reorganizar a linguagem, os signos que representam as políticas do sistema penal e de segurança. Pode-se destacar ainda que, no estágio atual de crise, mais do que nunca a prisão representa um recurso comunicativo utilizável para a gestão do consenso do imobilismo social. No entanto, a prisão tem sido deixada de lado pela opinião pública, que tem priorizado outros enfoques da esfera punitiva - como a suposta necessidade de maior repressão policial- quando se trata de aspectos da segurança.

Esperando contribuir através da lente do Assistente Social para a reflexão sobre essa realidade, elegi, como unidade principal de análise 3 , a maior casa prisional do Estado, que representava, na ocasião, 15% da população carcerária do Rio Grande do Sul um total de 15 mil presos. Baseada na perspectiva da complexidade, procurei tencionar o fenômeno da violência na prisão, utilizando como objeto de análise: “Como se expressam as múltiplas formas da violência na organização do Presídio Central de Porto Alegre?”

Um dos caminhos trilhados para a consecução dessa análise foi o desenvolvimento de um estudo de caso de uma grande prisão, considerada exemplar e também representativa desses espaços. No Presídio Central de Porto Alegre aconteceram, na última década: superpopulação, motins, mortes,

3 A pesquisa de campo junto ao Presídio Central (1999-2001) tornou-se o lugar privilegiado de investigação, dentre os diferentes espaços de atuação (acadêmico e profissional) em que discuto a categoria „violência‟. Destaco também aqui:

a experiência com Supervisora de Serviço Social no Núcleo de Apoio às Vitimas de Violência/ULBRA (1999-00). Como Professora da Disciplina: Desenvolvimento de Comunidade- Estudo exploratório sobre a Violência da Vila Fátima/FSS/PUCRS(2000). Como membro do Conselho Penitenciário Estadual do Rio Grande do Sul. (em exercício desde 2000). Como Diretora do Centro de Observação Criminológica da SUSEPE-SJS desde janeiro de 2001.

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rebeliões, militarização do controle formal, organização de lideranças a partir de facções, processos de comunicação complexos, participação da comunidade em diferentes organizações da sociedade civil.

Na referida pesquisa de campo, não me propus tão somente a discutir com os agentes envolvidos os „efeitos‟ perniciosos e criminógenos da prisão, nem positivos, como estratégia política de reprodução de um sistema excludente que está colocado na rede de relações sociais. Pretendi, também, problematizar as estratégias e representações da violência que revestem o espaço prisional. A tentativa consistiu em analisar a prisão não somente no campo teórico, mas no seu cotidiano, o que contribuiu para descaracterizá-la e fazer emergir suas manifestações a partir de diferentes atores que interagiram nesse espaço organizacional.

Nesse sentido, a perspectiva da complexidade possibilitou captar a prisão como unidade complexa 4 , ou seja, um sistema que se configura a partir da multiplicidade de dimensões (política, sócio-cultural, simbólica e organizacional). A prisão considerada como espaço multidimensional, de manifestação de controle, disciplina, produção de saber e subjetividade; um campo de co-relações de forças que passa pelos diferentes movimentos de ordem-desordem e organização complexa. A complexidade possibilitou, ainda, constituir a trama de interações e imbricações do sistema prisional com os outros sistemas (jurídico penal, político e informacional).

Portanto, para abordar essa problemática, elaborei a seguinte hipótese:

A violência da sociedade contemporânea tem, nas grandes prisões, o lugar privilegiado para se condensar e se expressar através de múltiplas formas. Para analisá-la, faz-se necessária a abordagem complexa sobre o

4 Para Morin (1977, 1991,1999) unidade complexa caracteriza-se como unidade global e não elementar, visto que é constituído por partes diversas inter-relacionadas; unidade original, não originária, pois dispõe de qualidades próprias e irredutíveis, mas tem de ser produzido, construído e organizado; unidade individual, não indivisível. Não podemos reduzir nem o todo às partes, nem as partes ao todo. O sistema possui algo mais do que seus componente considerados de modo isolados ou justapostos: a sua organização; a própria unidade global e as propriedades novas e emergentes da organização e da unidade global (1977,p.103). Para isso estabelece alguns princípios como guias para pensar a complexidade de um sistema: o organizacional, hologramático, anel retroativo, anel recursivo, auto- organização; dialógica (1977, 1999).

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fenômeno, o que possibilita captar a prisão, não somente como um espaço que manifesta o excesso da força e do poder de punir - através do controle, vigilância e disciplina - mas também, como espaço de auto-organização que produz vida social, rupturas com o projeto idealizador da pena e outras estratégias para combater a violência institucional. A potência da socialidade dos sujeitos apenados, dos defensores dos direitos humanos e dos abolicionistas seriam estratégias de não-violência à violência da própria pena privativa da liberdade.

Para sustentar essa hipótese, delimitei cinco premissas que tornassem possíveis demonstrar a violência da/na prisão. Contudo, o ponto de partida da presente análise é o lugar onde me situo como pessoa e profissional do Serviço Social. Sendo assim, é a partir deste capítulo que procuro descrever e demonstrar o processo de delimitação da problemática que foi sendo construída. Essa construção pode ser explicitada em um „movimento‟ que resolvi definir como “Organizando a Pesquisa”. Trata-se do lugar onde apresento os substratos da tese.

No Capítulo 2 trago o relato da experiência junto à Unidade da pesquisa - sob o título “O Cenário da Pesquisa”. Nessa parte falo do Presídio Central de Porto Alegre e sua estrutura e funcionamento, bem como apresento os dados referentes ao perfil dos funcionários e presos que habitam esse universo, a opinião que os mesmos possuem quanto às condições materiais e assistenciais oferecidas na cadeia, bem como a dinâmica dos diferentes grupos direção, guarda, técnicos, presos- destacando o processo de organização existente entre os presos trabalhadores e a massa carcerária.

No Capítulo 3, sob o título “Os olhares que imobilizam”, demonstra-se a premissa I. Primeiramente faz-se uma análise teórica sobre os diferentes fins da pena na modernidade, uma breve contextualização da pena privativa de liberdade no Brasil, para posteriormente analisar as racionalizações sobre a pena junto aos sujeitos pesquisados. Identificou-se um discurso ambíguo que ora legitima a manutenção da prisão, ora aniquila qualquer possibilidade de

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investimento nessa área devido à falência da mesma. Esses diferentes discursos transformam a prisão numa instituição alienígena, estando desvinculados da efetivação concreta da pena.

No Capítulo 4, denominado “Os Olhares que Congelam”, demonstra-se a premissa II. Inicialmente faz-se uma breve contextualização da violência na sociedade contemporânea em específico no Brasil. Verifica-se que a ambivalência dos diferentes fins da pena vem contribuindo para que a prisão redefina o seu poder simbólico de normalização. Revela-se uma violência simbólica da sociedade ao tratar os diferentes espaços e modalidades da pena e das formas de punir e aprisionar e, ao mesmo tempo, eliminar a massa de sujeitos descartáveis;

No Capítulo 5 analiso o processo da “Auto-organização do Lugar” em que busco demonstrar a premissa III. Identifica-se que na dinâmica complexa entre os diferentes grupos da prisão emerge um processo de auto-organização, semelhante ao que acontece nos bairros da periferia, já que os indivíduos presos não vivenciam o tempo e o espaço da sociedade normalizada. Dessa forma, produzem-se e reproduzem-se espaços de rupturas simbólicas e de socialidade, indicando a potência da massa em ser violenta e resistente a um sistema excludente da sociedade contemporânea; nesses diferentes espaços revelam-se múltiplas prisões dentro da prisão e o interjogo dos diferentes micropoderes, fazendo com que a máscara do poder instituído vigilância e disciplina esteja imbricada na emergência de novas estratégias de um poder hiperespecializado exercido pelos diferentes grupos que compõem a prisão;

No Capítulo 6 designo “O Olhar Recursivo” onde é apresentado uma articulação dos resultados das premissas anteriores, para poder inferir que a prisão não é somente expressão passiva da violência e dos modelos culturais instituídos, mas uma geradora ativa de relações instituintes e sensibilidades. São abordadas possibilidades, tanto em nível de ruptura e contribuição para o conhecimento e a renovação de práticas, no sistema penal, quanto em nível de sugestões para as áreas técnicas em que atua, principalmente, o Serviço Social, no sistema penitenciário. Como forma de ilustração dessa busca

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apresenta-se o relato da experiência que se teve na gestão de um órgão de referência técnica no Sistema Penitenciário do Rio Grande do Sul.

Portanto, na última premissa, ouso vislumbrar que as práticas sociais na prisão, entre elas o Serviço Social, podem contribuir para a produção de uma cultura sobre a natureza e o significado de sua própria violência, auxiliando na sua transformação.

Por fim, faço as considerações finais da experiência da Viagem-Tese e aponto algumas proposições tanto em nível de política de segurança penitenciária como para instância da prática profissional do Serviço Social no campo jurídico penal.

Espera-se demonstrar, seguindo a ótica da complexidade, que a prisão não se expressa apenas através da construção física das normas punitivas, mas através de signos, símbolos, declarações e formas retóricas. As práticas, os discursos, as instituições do sistema penal desempenham uma relação ativa no processo gerador no qual significados, valores e, em última análise, cultura, são produzidos e reproduzidos na sociedade. A prisão pode ser vista como uma organização comunicativa e didática que, através de suas práticas e de suas declarações, confere concretude a uma sensibilidade e uma cultura específicas, considerando os valores, as opiniões, a sensibilidade e os significados sociais do ser humano. A prisão, considerada como prática social, comunica significados não só a respeito de presos, crime e punição, mas também sobre violência e muitos outros fenômenos sociais conexos.

Dessa forma acredita-se que, a par de outras práticas sociais, também a prática prisional pode ser considerada sob o ponto de vista da ação social e do significado cultural. Ao trabalhar-se numa perspectiva de conexão, a prisão é vista como uma organização que “faz coisas” e, sendo considerada como geradora de significado, passa a ser, também, uma organização que “diz coisas”.

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A trajetória dessa tese foi vivida como uma viagem, desde seu primeiro desenho, ainda como projeto, até sua redação final, passando pela elaboração das hipóteses e pelo processo tormentoso e hesitante das interpretações, com as surpresas do aprendizado renovado, com a perplexidade sempre reiterada de uma pesquisa sobre relações tão complexas e dolorosas, e com a angústia asfixiante através da qual o universo do confinamento se oferece a seus observadores cotidianos.

Na elaboração desse trabalho, utilizou-se também de recursos metáfóricos, de poesias, músicas e imagens para descrever o mais próximo possível o processo da pesquisa-tese. Esses recursos transformaram e criaram condições para a reinvenção da minha visão do mundo e da relação com o objeto pesquisado. E justamente nessa jornada arriscada, rumo ao desconhecido, rumo à alteridade, os diferentes olhares foram se descongelando e deixaram de ser apenas objetos, relativizando também, o meu lugar-sujeito.

Ao fim da jornada, portanto, a vida reconquistada dos objetos - sujeitos nos impõe o reconhecimento da humildade a que deve se cingir todo sujeito de conhecimento. Essa é a caminhada da minha pesquisa- tese: a possibilidade, a oportunidade, o reconhecimento da necessidade de recomeçar e sempre iniciar.

“Escrever é um longo período de introspecção, é uma viagem até as cavernas escuras da consciência. Uma lenta meditação. Escrevo apalpando o silêncio e pelo caminho descubro partículas de verdade, pequenos cristais que caem na palma da minha mão e justificam minha passagem pelo mundo” (Isabel Allende)

de verdade, pequenos cristais que caem na palma da minha mão e justificam minha passagem pelo

1 O CAMINHO DA PESQUISA

1.1

O Ponto de Partida: Organizando a Bagagem

A pprroobblleemmááttiiccaa sentida

 

A pesquisa- tese possibilita, entre tantos aspectos dessa experiência,

um voltar para si. E, nesse retorno reflexivo, inevitavelmente, necessita-se fazer uma seleção sobre o que se deve carregar no bagageiro da memória. Por

diversas vezes, encontrei-me refletindo sobre os motivos que me levaram a optar pelo Serviço Social e, dentro desta área, por que fui escolher o campo prisional como objeto das minhas indagações. Os anos de terapia e os caminhos do auto-conhecimento trilhado - quanto aos traumas de uma infância conturbada, das perdas e dos medos das perdas, das culpas pela raiva e mágoa sentidas possibilitaram-me explicar, de forma racional, a escolha do tema da tese: violência na prisão. Mesmo assim, dois fatos marcantes ainda borbulhavam em minha memória. Fatos que me colocaram em contato com o outro”.

O primeiro aconteceu em 1981, ano em que estava no auge da minha

adolescência, no Hospital de Pronto-Socorro de Porto Alegre. Deparei-me com uma mãe aparentemente “estranha” 5 que carregava uma criança recém- nascida no colo. Observei que ela não conseguia responder às perguntas básicas para preencher a guia de atendimento do Hospital. Com curiosidade, aproximei-me e, é claro, vinculei-me ao drama daquela mãe “limitada” e de sua

5 “Compreender o estranho significa compreender melhor a si mesmo. Pois toda a compreensão é marcada por um processo reflexivo; o estranho faz-nos experimentar o outro de nós mesmos”. (FLIKINGER, 1999, p. 2).

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filha Lúcia 6 . Depois, por três semanas, acompanhei o caso, enquanto a menina esteve internada no Hospital Santo Antônio. Devido a uma gangrena, Lúcia acabou perdendo o pé esquerdo porque, num ato de raiva, seu pai, que não suportava escutar o seu choro, resolveu apertar ao máximo um dos sapatos que protegiam seu pé. Lúcia foi retirada de seus pais e encaminhada à FEBEM, para possível adoção.

Por noites, perguntava-me sobre quem iria adotar uma criança sem um pé. Como estaria aquela mãe com a perda de sua filha? Que motivos levaram aquele pai a cometer tal atrocidade com uma criança indefesa? Como estaria Lúcia naquele lugar impessoal e frio ?

Na mesma época, para reforçar meu drama ético-existencial, assisti ao filme Pixote e descobri que havia um mundo intramuros que se organizava a partir da violência e para a violência que eu desconhecia. Naquele momento, se agudizavam, pessoalmente, os meus dramas e minhas experiências de violência e entendi que não mais conseguiria ficar alheia a tudo aquilo. Resolvi, então, fazer o Curso de Graduação em Serviço Social, pois considerava esta uma profissão que sintetizava o ideal de uma sociedade mais justa e igualitária (compromisso ético-político), as possibilidades de uma intervenção direta na realidade problematizada (competência técnico-operacional) e pesquisa (competência teórica). Desde esta decisão, passaram-se 19 anos e “minha mente não se apaziguou”. Mesmo considerando tantos processos de racionalização que a formação profissional possibilitou, a dor do “outro” não se naturalizou, pelo contrário, tornou-se a força propulsora do meu projeto profissional como Assistente Social e pesquisadora do social.

Na Faculdade, não foi por acaso que carreguei, por um tempo, o ideal de trabalhar com as crianças vítimas do abandono social. Mas, por uma opção dentre os diferentes campos de estágio oferecidos na época 1984 -, acabei escolhendo a Penitenciária Feminina Madre Pelletier para aprender a fazer o Serviço Social. Foi uma experiência de dois anos, de possibilidades e limites,

6 O nome aqui utilizado é fictício, por questão ética.

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de acreditar e desacreditar no contexto sócioinstitucional, na proposta de trabalho e nas mulheres apenadas. Adotando uma postura messiânica, tive o desafio e a pretensão de trabalhar numa perspectiva fenomenológica, de talvez seguir contra a corrente de controle e do poder de punir que me era conferido. Sem muita crítica, naquele momento, descobri a obra “Vigiar e Punir” de Michel Foucault (1997) e experimentei um dos grandes paradoxos da profissão, ao me identificar como um dos mecanismos da tecnologia do biopoder da sociedade disciplinar.

Nos anos de 1987 e 1994, trabalhei por curtos períodos como Assistente Social no sistema penitenciário, em diferentes esferas de atuação e experiência. Mesmo que breves, foram duas experiências que me possibilitaram, em primeiro lugar, uma intervenção direta com os apenados da Penitenciária do Alto do Jacuí; em segundo, uma intervenção em nível de planejamento nos setores da educação e trabalho prisional, no Departamento de Execução Penal da Superintendência dos Serviços Penitenciários.

Começou então, desde cedo, uma caminhada marginal, tanto no campo profissional 7 quanto nas idéias da própria profissão. Durante boa parte da minha trajetória acadêmica, senti-me vazia, fechada, endurecida por meias verdades. Mais tarde, o sentimento passou a ser o de insegurança, pela descoberta da minha fragilidade na formação de um espírito científico, na adoção de uma atitude como pesquisadora. 8

Assim, para enfrentar a crise do praticante 9 , fiz uma opção pela fuga, direcionando-me exclusivamente para as temáticas que emergiam nos

7 A área penitenciária que teve seu auge dentre os campos da prática profissional do Serviço Social nas décadas de 60-70, passava, nessa época , por um processo de retração. Outras áreas, como a Assistência Social e Saúde,

figuravam como centrais junto à categoria, pois acompanhavam o fluxo das políticas sociais públicas na lógica dos

direitos sociais. Portanto , os campos que representavam a face controladora e higienista da profissão passavam por

um processo de superação , ou talvez negação, por parte daqueles que continuavam trabalhando nas instituições totais

punitivas- prisões e FEBEM. 8 Para DESAULNIERS (1999) desenvolver uma atitude como pesquisador “implica a instalação de rupturas através do processo baseado nas disposições gerais que constituem o hábitus científico, para que o pesquisador seja capaz de se arriscar constantemente desafiando o real, sem desconsiderar as relações de incongruência que estão na gênese da construção do conhecimento

científico”(p.04)

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trabalhos de campo. Em cada área profissional que trabalhava, tornei-me „expert‟ nas temáticas (Recursos Humanos, Criminologia, Saúde Escolar, Adolescência, Sexualidade etc.) que correspondiam aos espaços institucionais e, cada vez mais, afastei-me da preocupação sobre a produção do conhecimento científico no Serviço Social, distanciando-me de minha identidade profissional plena .

Somente quando ingressei no Mestrado 1992 – é que os „dilemas‟ reacenderam-se. Havia construído um tipo de conhecimento mais heterogêneo e multidisciplinar. Mas o paradigma dominante na profissão, o materialismo histórico ou melhor, a leitura que se fazia dele, ainda incomodava, uma vez que havia muita ênfase nas questões estruturais e econômicas. Sentia falta de uma abordagem mais complexa, mais profunda, que envolvesse aspectos para além do concreto, da estrutura. Queria trabalhar dimensões como a da alma, do mito e do simbólico.

Não era por acaso esse „desvio de rota‟ em relação ao paradigma dominante. No plano pessoal, estava fascinada pelo Paradigma Holístico (CAPRA,1990 e CREMA, 1990). Esta visão de mundo, contudo, não tinha reconhecimento científico no Serviço Social e eu não tinha segurança quanto à sua dimensão epistemológica, o que me fragilizava na disputa do poder no campo do meu saber. Mais uma vez acabei recuando.

Após algum tempo, comecei a estudar alguns autores contemporâneos, como Michel Focault, Edgar Morin, Paul Virilio, Jean Boudrilard e outros tantos que representaram, não a adoção de um referencial, mas a abertura de uma cosmovisão, de uma forma de pensar e conhecer a realidade que finalmente possibilitaria uma ponte com a perspectiva holística.

A „marginalidade‟ em que permaneci por um longo tempo deu-me um novo fôlego, pois passei a ter certeza da eterna incerteza de meu saber. Compreendi que não estava „louca‟, pois aquela sensação de „turbilhão‟, de „caos‟ que emergia, era o que favorecia a complexificação, no sentido da formação de um “novo olhar” para o Serviço Social.

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Nesse contexto, a busca do ser e do saber uno e múltiplo vem revelando um conhecimento no Serviço Social que, mais do que ser detentor de um objeto específico que possui um arcabouço de verdades absolutas, aponta para um caminho de novas descobertas e novas verdades. Trata-se de uma „estrada‟ que aceita a complexidade como uma realidade reveladora e demonstra que ser pesquisadora no Serviço Social é, ao mesmo tempo, ser sujeito e objeto da própria construção do (auto) conhecimento profissional (DALPIAZ, 2000) e do mundo.

No campo do Serviço Social, é interessante resgatar uma espécie de “complexo de inferioridade" frente a outros saberes. Segundo uma concepção de ciência, em moldes tradicionais, onde existe a divisão entre o técnico e o intelectual, dos que pensam e dos que agem, o Serviço Social sempre encontrou dificuldades na definição de seu objeto específico. Entendo que seu status científico foi construído a partir da produção do conhecimento sobre a realidade sócio-institucional com que se depara o Assistente Social no cotidiano da prática profissional. Isso acontece por tratar-se de uma profissão que não se originou como um ramo do saber (com o propósito de produzir conhecimentos/teorias) das Ciências Humanas, mas como área que busca não só intervir no real/social, mas também compreendê-lo, interpretá-lo e explicá-lo através de uma base teórica oriunda de várias ciências (Sociologia, Psicologia, Filosofia, Economia, Direito etc.),

Percebo, entretanto, que descortinar o social, ver o ser humano e sua rede de relações significa vê-lo como parte e como todo, gerando uma `obscuridade‟ no olhar de quem busca captar as múltiplas expressões da Questão Social 10 a serem enfrentadas e analisadas.

Enfim, essa multidimensionalidade da abordagem do Assistente Social leva a uma crise, a uma sensação de caos (saudável na ótica da complexidade), pois dificulta a identidade da área do Serviço Social na

10 A Questão Social é uma inflexão do processo de produção e reprodução das relações sociais inscritas num momento histórico, trata-se da produção de condições de vida, de cultura e de riqueza. (ABESS, 1996, p. 12) Nesta perspectiva a Questão Social traduz- se enquanto expressão: das desigualdades sociais, mas também, formas de pressão social e re-invenção do cotidiano dos sujeitos excluídos socialmente. (IAMAMOTO, 1998, p.28)

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apropriação de um objeto específico. Apesar dos custos, riscos e angústias, a crise traz consigo uma riqueza reflexiva e possibilita o estabelecimento de imbricações e elos de ligação com as outras áreas do saber que também estão relacionadas ao ser humano enquanto ator social.

Hoje acredito que a singularidade do Serviço Social contém um potencial (latente) valioso de inserção nos quadros complexos da realidade social. Através de sua prática, constrói-se um estatuto profissional que descortina a globalidade dos processos sociais. Quer dizer, o importante não é saber qual é o „pedaço‟ do Serviço Social, mas quais são as suas „relações‟ (FALEIROS,

1997).

Portanto, venho buscando construir uma competência como Assistente Social que não esteja aprisionada ao discurso articulado pelas regras de um paradigma dominante, mas que possa ser (re)vista de forma complexa, através da desconstrução reflexiva de uma formação rígida, fragmentada e tecnocrática.

Essa auto-vigilância crítica sobre o meu processo de construção do conhecimento do Serviço Social e, especificamente, sobre a questão da violência na prisão surge na trajetória dos profissionais do sistema prisional para contribuir para a superação de concepções missionárias e tecnicistas. Hoje, luta-se pela condição de pesquisadores, gestores e/ou executores das políticas de segurança e criminal com competência teórico-prática, técnico- operacional e ético-política.

Por isso faço um recorte, assumindo o risco de proceder a uma simplificação, para destacar alguns elementos que considero importantes sobre o Serviço Social no sistema penitenciário do Estado do Rio Grande do Sul, e que serviram de bagagem na identificação da problemática desta tese.

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1.1.1 A Bagagem I

Alguns elementos do Serviço Social no Sistema Penitenciário

do Rio Grande do Sul

As reflexões expressas neste item contêm alguns aspectos relevantes de minha experiência profissional junto ao Serviço Social do sistema penitenciário do Rio Grande do Sul. Foram três anos trabalhando no atendimento direto aos apenados. Além da presente tese, realizei duas pesquisas: a) a influência dos contrastes sócio-culturais no processo de criminalização e penalização; b) Serviço Social na Coordenação da Prestação de Serviços à comunidade PSC - Pena Alternativa. Na docência, ministrei Disciplinas no Curso de Especialização em Criminologia da UFRGS, na Escola dos Serviços Penitenciários e na Especialização em Saúde Mental do Hospital Psiquiátrico São Pedro; coordenei cursos de extensão; assim como supervisionei e orientei monografias sobre o tema, na Faculdade de Serviço Social da PUCRS. Mais recentemente, fui Diretora do Centro de Observação Criminológica. Atualmente sou membro do Conselho Penitenciário do Estado do Rio Grande do Sul.

Enfim, foram diferentes experiências em diferentes momentos, contextos e papéis, que me possibilitaram uma leitura crítica sobre a atividade do profissional nesse campo de atividades. Contudo, não pretendo aqui fazer um resgate histórico da profissão nesse contexto, mas somente pinçar elementos da sua trajetórias que contribuíram para a construção da problemática desta tese.

O Serviço Social Penitenciário iniciou suas atividades no Rio Grande do Sul em 1944, em caráter não oficial, junto à extinta Casa de Correção de Porto Alegre (FERREIRA, 1990). Somente em 1951 o exercício dessa profissão foi regulamentado nas casas prisionais do Rio Grande do Sul, através da Lei Estadual nº 1651. No início, a atividade tinha um forte cunho assistencial e, assumindo funções de outras categorias profissionais, acabou conquistando

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posição preponderante frente a toda a problemática da ressocialização 11 do sujeito apenado. Incorporado às práticas assistencialistas estava o caráter repressor e adaptador da instituição total, sem que fosse questionada a contraditoriedade existente no trinômio segurança/disciplina/recuperação.

O Movimento de Reconceituação 12 da profissão, que tomou forma nas décadas de 60 e 70, era contrário à prática e ao discurso funcionalista da matriz positivista preponderante na categoria, e não teve grandes repercussões no Serviço Social do sistema penitenciário do Estado, que continuou a expandir-se e legitimar-se como área de controle e reeducação social.

Em meados dos anos 80, as sucessivas crises no sistema prisional contribuíram para a emergência de uma posição crítica frente às ações do Serviço Social, quanto ao espaço institucional e estimulando a formulação de novas estratégias de intervenção. O grupo de assistentes sociais do sistema penitenciário gaúcho fazia reuniões todo o mês, e também cursos de capacitação profissional organizados pela UAES Unidade de Atendimento Educacional e Social. Surgiram novas formulações teóricas, impulsionadas pelo desafio de encontrar práticas alternativas às ações de ajustamento social lógica da ressocialização. A idéia era a de avançar-se com uma perspectiva crítica de transformação social numa instituição total de caráter punitivo e coercitivo. Nesse momento histórico-teórico, no final dos anos 80 e início dos 90, passou-se a explicar a problemática do sujeito que está preso, definindo-o como representante de uma classe explorada que ocupava, em algumas análises, posição de “vítima” do sistema social.

Lei de Execuções Penais 7210/84,

principalmente a partir de 1988, o Serviço Social desarticulou-se teórica e

Com

o

advento

da

LEP

11 O ideal ressocializador tem sido objeto de várias criticas nos debates sobre o sistema penal. Dentre as v á rias

destaca-se:a) a impossibilidade de coloc á-lo em prática pela falta de legitimidade (quem é o Estado para querer alterar

o comportamento de um sujeito)?) e de estrutura , , que o índice de resultados não diminui reincidência criminal; b)

questiona-se o conotação pol í tico-ideol ó gica da palavra ressocialização, que tem como premissa que o homem que

está preso é um ser desviante e que a sociedade sofre com isso, devendo , portanto , criar condições de controle e

tratamento para mudá - lo. Sobre esse tema ver: CARVALHO (2001), (BARATTA, 1997), (ANDRADE,1997),

(SANTORO, 1999) (CERVINI,1995).

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politicamente devido às novas prioridades definidas pela Política Penitenciária do Estado. Através da limitação das ações a propósitos institucionais estreitos e conservadores, sob a tutela do Poder Judiciário, essa Política esvaziou os debates sobre os problemas das penitenciárias e os processos de reintegração social dos apenados. Ou seja, os profissionais do Serviço Social foram relegados à condição de tarefeiros para simplesmente atender às demandas de avaliação/perícia para fins de individualização, progressão de regime ou livramento condicional.

Conforme indica a LEP, em seu artigo 6 o , a C.T.C - Comissão Técnica de Classificação - composta por profissionais do Serviço Social, Psicologia e Psiquiatria, deve acompanhar os sujeitos presos através de um programa individualizado (Tratamento Penal) e propor às autoridades competentes (Juizado de Execução Penal), através da emissão de laudos e pareceres, a situação dos sujeitos presos quanto às progressões e conversões de regime. Contraditoriamente, ao mesmo tempo em que a LEP passou a garantir, nos termos da legislação, o “Tratamento Penal individualizado” e o acesso aos direitos humanos e sociais dos apenados, houve uma retirada do Estado, no que tange às condições materiais e humanas para efetivá-lo. Os recursos humanos do Sistema Penitenciário, em geral, foram reduzidos através de um plano de demissões voluntárias, além de aposentadorias. Em contrapartida, houve um aumento da população carcerária 13 .

Na década de 90, o Serviço Social perdeu sua identidade como categoria, ficando relegado, muitas vezes, a um papel de „executor de laudos‟. As ações passaram a ocorrer através das equipes de CTC, enquanto o tratamento penal previsto em lei tornou-se, com algumas exceções, secundário.

É importante lembrar que, historicamente, o Estado Brasileiro submeteu as políticas públicas a um paradigma compensatório (SPOSATI, 1995).

13 Em levantamento realizado em março de 2001, verificou-se o desmonte das equipes técnicas, principalmente, no Governo Antônio Britto (1995-1998). Das 49 Assistentes Sociais distribuídas em todo Estado, apenas 11 profissionais ocuparam cargos de técnicos da SUSEPE ou do Quadro Geral do Estado. Os demais cargos técnicos eram ocupados por profissionais em desvio de função (agentes penitenciários), Cargos de Comissão-6, cedidos de outras Secretarias

ou incorporados pelo Contrato Emergencial de 1994.

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Entretanto, no caso específico da política de segurança penitenciária, nem isso ocorreu, pois, além de ter sido relegada a um plano secundário, acabou restringindo-se a manter um caráter de simples contenção dos excluídos sociais. As justificativas para essa redução da política em pauta incluem, desde a falta de recursos, até o fato de que a pobreza, ao invés de ser objeto de intervenção, pelo menos compensatória, foi negligenciada e „amenizada‟ em seus efeitos, através da repressão policial. Em outras palavras, a Questão Social passou a ser tratada como um „caso‟ de polícia. As cifras que a desenham pobreza, grau de subnutrição, criminalidade, violência, analfabetismo, entre outrasacabam por fragmentar o fenômeno, mais do que esclarecê-lo. Acaba-se mesmo esquecendo que a pobreza é decorrência do sistema de organização que retroalimenta a exclusão e a desigualdade social.

Conforme o que já foi citado, segundo a Lei de Execuções Penais - LEP, esperava-se que a equipe técnica (representada por profissionais das áreas de Serviço Social, Psicologia e Psiquiatria) exercesse a função de classificação, triagem, assistência e amparo ao sujeito preso, ao egresso e seus familiares, bem como a fiscalização do „mau‟ cumprimento de recursos jurídicos. Foi observado, no entanto, que a partir de meados dos anos 90, as equipes foram induzidas a atender basicamente às demandas do Poder Judiciário, atuando na elaboração de pareceres referentes às mudanças de regime (fechado, semi- aberto, aberto e livramento condicional).

Na maioria dos casos, não existia um acompanhamento anterior, e os pareceres eram elaborados a partir do levantamento de dados na documentação do apenado (anotações em prontuários, aspectos administrativos, disciplinares e o processo judicial) e contatos com familiares, quando possível. Em relação à elaboração dos Laudos de Perícia, especificamente, os profissionais do Serviço Social ocupavam posição secundária, não sendo considerados como peritos, mas apenas meros informantes a respeito das condições sóciofamiliares do sujeito periciado. Considerando-se que existiam informações superficiais a respeito da vida

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sóciofamiliar do sujeito apenado, identificou-se que os pareceres eram elaborados sem muita clareza e com pouca sustentação teórica-prática.

Nas avaliações do Serviço Social era visível a carência de conceitos mais específicos. Foi sendo incorporada, na base argumentativa, a linguagem institucional, com forte influência positivista, disciplinadora e, por vezes, preconceituosa. As análises eram centradas na conduta do sujeito preso e ocorriam num padrão ordenado, seguindo uma lógica fundada na bipolaridade “normal x patológica”. Não era feita uma contextualização que considerasse o meio social, econômico, político e cultural em que as condutas eram construídas ou que contemplasse a vida carcerária que estava sendo observada e „tratada‟.

A desarticulação dos profissionais da área penitenciária acabou gerando uma carência de sistematização metodológica capaz de proporcionar um serviço mais eficaz à população carcerária. Acredita-se que a maioria dos profissionais contratados em CCs cargos de confiança- nos quais o vínculo empregatício se estabelece através de um nível mais político do que técnico e com baixíssima remuneração (salário mensal de R$600,00 14 )- encontravam-se em condições particulares vulneráveis às pressões institucionais no cumprimento das atividades ditas „emergenciais‟, contribuindo para uma postura fatalista frente às perspectivas de um efetivo Tratamento Penal.

Portanto, o Serviço Social, atuando junto às equipes de CTC, construiu, no decorrer de sua história (após implantação da LEP-1985), uma identidade institucionalizante, vinculada aos mecanismos de controle social, com caráter tarefeiro, subalterno, sem base teórica e intencionalidade ético-política.

Os serviços concretos prestados pelo Serviço Social correspondiam à demanda oficial, à medida que contribuíam como alívio das tensões intramuros (ANAIS V CBAS, 1989). Na realidade, esses serviços acabavam, com freqüência, convertendo-se em uma extensão do poder de decisão do juiz (CARVALHO, 2001).

14 Dados salariais referentes ao período 2000-2001.

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Considerando essa experiência acumulada nos últimos 15 anos, algumas questões passaram a me mobilizar, tais como: qual o papel do Assistente Social dentro do sistema penitenciário, centrado no laudo (modelo avaliador): a) não estaria sendo um instrumento simbólico para justificar o discurso falido da ressocialização, que não vem se efetivando? b) o que fazer com a defasagem existente entre a proposta legal e a realidade intramuros?

As diferentes experiências desenvolvidas confirmavam que a tão propalada humanização prevista na Lei estava apenas nos discursos daqueles que pretendiam justificar, de alguma forma, o poder de punir que o Estado lhes transferia.

Creio que essa perspectiva histórica de Execução Penal apresenta uma punição acessória à privação da liberdade. Além de não serem oferecidas (com exceções pontuais) condições mínimas de atendimento, em nível assistencial, educativo e terapêutico (previsto na LEP), “é garantida” apenas uma avaliação fundamentada em dados formais os quais não são condizentes com a realidade sócio-institucional do apenado. Sendo assim, passei a questionar-me se a atuação do Serviço Social ficaria bitolada às engrenagens de reprodução do sistema penal.

Comecei, então, a problematizar em diferentes esferas de atuação do Serviço Social, nas suas intervenções que poderiam constituir-se em um espaço reflexivo, ao voltar-se não só às questões do delito e da pena, mas para as questões cotidianas, a fim de desvendá-las, trabalhando-as ao apresentar propostas viáveis, frente às situações trazidas pelos sujeitos apenados ou pelo estabelecimento prisional. E que, na base da compreensão do processo de criminalização 15 , encontrar-se-ia um contexto histórico-sócio- cultural perverso: as formas de “enfrentamento” da Questão Social.

15 O processo de criminalização dá-se através da interação de mecanismos seletivos que agem no momento da formação da lei penal (criminalização primária) e da aplicação da lei penal (criminalização secundária). Sobre esse tema ver DIAS e ANDRADE(1984); BARATTA, A.(1997) ANDRADE (1997)

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Acredito que é dentro desse contexto em que se insere o Serviço Social como profissão e que acaba intervindo nas contradições que emergem dessa realidade junto às diferentes expressões da questão social que aparecem nas relações entre sujeitos apenados e sociedade. Portanto, é uma área que visa a favorecer a compreensão crítica da vulnerabilidade penal que existe dentro e fora da prisão, através de uma prática social cotidiana.

A ação junto aos sujeitos apenados poderia ser uma ação político- cultural e sócio-educativa, visando à liberdade e, por isso mesmo, uma ação dialógica, interativa e participante, isto é, compartilhada. A vulnerabilidade emocional e social, fruto da situação concreta da dominação e exclusão em que os apenados se encontram, gera uma visão ingênua e violenta que serve para realimentar a dependência e a rejeição por parte de um mundo opressor, identificando-se, nesse caso, o próprio contexto que exclui e estigmatiza o apenado.

Nesse sentido, defendia-se que a reflexão crítica sobre a vulnerabilidade sócio-cultural dos sujeitos apenados e uma efetiva inserção do Serviço Social nesse contexto seriam aspectos que poderiam conduzir a uma nova forma de intervenção no sistema prisional. Seria uma ação político-cultural e sócioeducativa, que procuraria contribuir para a construção de uma nova identidade social desses sujeitos criminalizados (GUINDANI, 2001).

Portanto, essa trajetória e questões ajudaram-me a sistematização da problemática da tese que se buscou constituir. Espera-se, com isso, contribuir para criar novas atribuições ao Serviço Social e, também, aos demais técnicos do Sistema Penitenciário do Rio Grande do Sul, o que significa que, além de debater sobre as novas diretrizes da Política de Execução Penal do Estado, busca-se reconhecer e demonstrar que o Assistente Social almeja criticamente abordar e dar respostas aos problemas sociais, vinculando-os simultaneamente a objetivos redutores da violência institucional, constituindo-se, assim, em uma das contribuições à cidadania e justiça social a todos aqueles que são vulneráveis à criminalização.

40

Por isso considera-se fundamental, entre as múltiplas vivências, destacar a bagagem acumulada na Direção do Centro de Observação Criminológica, no período de construção dessa tese, ou seja, de janeiro a setembro de 2001.

1.1.2. A Bagagem II

Situando

a

experiência

junto

ao

Centro

de

Observação

Criminológica

 

Durante o período citado, de janeiro a setembro de 2001, pode-se considerar que, efetivamente, “fiz parte do cenário da viagem” do sistema prisional, através da Direção do Centro de Observação Criminológica. Tal experiência não estava no projeto da tese, porém representaria a possibilidade de desenvolver minha pesquisa em nível de observação participante 16 , ou seja, “por dentro”. Mesmo sabendo dos perigos científicos de poder acontecer uma `contaminação´, era algo imperdível.

Em novembro de 2000, quatro dias após a realização de meu exame de qualificação do Doutorado, resolvi assumir o cargo de Assistente Social na área da Secretaria de Saúde, cargo este conquistado através da aprovação em um concurso feito em 1994. Fui lotada, por opção, no Hospital Colônia Itapuã, instituição total que abrigava portadores de sofrimento psíquico crônico e hansenianos.

Um mês após a entrada no Hospital, fui convidada pelo Superintendente dos Serviços Penitenciários para assumir a Direção do Centro de Observação Criminológica, órgão de referência do trabalho técnico desenvolvido (jurídico, psicológico e do Serviço Social) em todo Estado, e também responsável pela perícia criminológica realizada junto aos condenados pela Vara de Execução

16 Para LAVILLE&DIONNE (1999,P.178) a “observação participante é uma técnica pelo qual o pesquisador integra-se e participa na vida de um grupo para compreender-lhe o sentido de dentro”.

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Criminal de Porto Alegre (Região Metropolitana que conta, em média, com seis mil apenados).

Em um primeiro encontro, o Superintendente disse-me que o objetivo central da mudança da Direção do COC era o de rever a forma como as perícias deslocadas da realidade social dos sujeitos apenados estavam sendo feitas e avaliar os padrões idealizados de condutas que estavam influenciando de forma negativa os resultados das perícias. Além disso, uma turma de novos profissionais do Serviço Social, Psicologia e Direito estava ingressando na instituição e, segundo ele, tal fato tornaria possível colocar em dia os atrasos que vinham sendo verificados nas avaliações e, talvez, construir novas atividades.

A decisão de aceitar o convite não foi tranqüila. Nesse momento, potencializou-se minha natureza ambivalente quanto ao que fazer. Por um lado, representava o compromisso ético com o ideal humanista, uma chance de estar dentro do sistema, no outro lado do poder- formal - lutando por uma causa que, por tantos anos, eu vinha discutindo em outros fóruns. Estar „dentro‟ facilitaria a captação de dados ocultos do sistema, colocando-me em uma posição privilegiada de observadora. Mas as dúvidas eram muitas: assumir um cargo de chefia, no meio da gestão do Governo, sob um comando cujas regras desconhecia; desconhecendo seus limites, o apoio que teria e qual autonomia das ações que poderia empreender; além de não saber quais eram as regras do jogo dos poderes e os jogos do poder (POGGI, 1998) constituídos por aqueles que iriam me comandar. Corria o risco de desgastar-me profissionalmente, após trilhar uma trajetória da qual me orgulhava - através da Universidade, como promotora de eventos científicos, pesquisadora e supervisora de estagiários. Desgastar-me-ia - depois de aprimorar-me como uma agente preocupada com a mudança na esfera de atuação e do poder simbólico desempenhado pelos técnicos da SUSEPE. Por outro lado, o fato de estar na Academia como intelectual crítica e propositiva (que me propunha ser) permitiria que eu realimentasse a discussão que empreendia, a partir da experiência, e isso compensaria, ao menos em parte, os riscos aos quais me

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sujeitava. Além disso, a oportunidade caracterizava-se como pioneira pois, no Brasil, seria a primeira vez em que uma Assistente Social assumiria um órgão ocupado tradicionalmente por Psiquiatras ou Psicólogos. A questão não se reduzia a uma preocupação corporativista de ocupação de um lugar historicamente destinado a outras áreas, mas correspondia à possibilidade de uma ruptura com o poder/saber da criminologia etiológica que se tornara o imprint” (MORIN, 1991, 2000) na construção do conhecimento dos técnicos do sistema penitenciário.

Enfim, havia mais motivos para aceitar o risco do que o medo de fracassar. Foram 250 dias para testar meus limites e possibilidades. Dias onde ocorreram gafes e amadorismos. Descobertas da própria imaturidade em lidar com os jogos do poder político e a lição conclusiva: somente entrando nesse jogo é possível desconstruir a linguagem 17 que naturaliza a violência construída e reproduzida em um circulo vicioso (SOARES, 1996, 2000). Nesse período, descobri que é possível gestar uma outra linguagem, havendo um ponto de visto ético (MORIN, 1996, 1999, 2000) que relativize os antagonismos do discurso sobre o falido poder de punir. Descobri que o círculo vicioso gira em torno de quem potencializa mais a desgraça, a violência institucional. Pude descobrir que existem muitas pessoas competentes que querem um sistema prisional mais humano e essas mesmas pessoas, quando imbuídas no comando de um cargo, não estão interessadas somente nos poderes que ele possibilita. Descobri minha fraqueza e sujeição às injustiças com as quais acabava me encontrando. Vivi o constrangimento e a impotência ante situações críticas, quanto às condições de trabalho dos técnicos. Às vezes foi preciso transigir, como forma de permanecer no cargo, porque uma luta maior me animava, ou seja, dar-me conta de que fazia parte do jogo, jogando constantemente com os outros (STEINER, 1984). Por outro lado, aprendi que, para mudar as regras do jogo, deve-se aprender como ele

17 Todo sujeito ao se “defrontar com a linguagem, vê nela uma realidade de abrangência universal.” Assim as experiências que naturalizamos como normais, que tratamos como reais “estruturam-se sobre a realidade subjacente- são filtradas através dela, organizadas por ela, entram em expansão através dela ou, ao contrário, por ela são relegadas ao esquecimento- pois uma coisa sobre a qual não podemos falar deixa uma impressão muito vaga na memória.”(BERGER&BERGER, s.d,p.195)

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funciona, para produzir rupturas, mesmo que simbólicas, e para isso impõe-se uma atitude de aceitação (MATURANA, 2001) e tolerância (MORIN,1997 e SOARES, 1996) como pré-condição para enfrentamento do círculo da vingança, da punição .

Essa experiência contribuiu a toda à sistematização final desta tese. Por isso, alguns fragmentos dessa „trilha‟ serão melhores explicados no Capítulo 6, quando aprofundarei o princípio da recursividade e das possibilidades de trabalho dentro do sistema prisional. A experiência também colaborou para a construção do “olhar complexo” sobre a prisão, capaz de captar sua organização e articulá-lo à teia de relações de violência que acontece na sociedade contemporânea. Para promover esse olhar torna-se necessário trazer, aqui, a sistematização do pressuposto teórico da complexidade.

A busca de uma abordagem complexa

A trajetória que vem sendo percorrida no Doutorado em Serviço Social

é permeada pela busca do pressuposto teórico da complexidade, necessário

a uma reordenação intelectual, que me oriente a pensar o objeto da pesquisa

de modo mais profundo. Assim, é possível assumir a ambigüidade existente no processo científico e técnico construído e a incerteza do próprio fenômeno.

Em linhas gerais, é possível afirmar que a „desordem‟ do meu saber inicial, provocada pela crise de minha prática (DALPIAZ, 2000), não interfere no processo de auto-organização intelectual; pelo contrário, o estimula.

A complexidade vem apontando a dissolução dos discursos homogeneizantes e totalizantes nas Ciências Humanas e no Serviço Social. As perspectivas teóricas já não são capazes de dar uma única direção à análise da experiência do social, da vida, da cultura e da própria ciência.

O eixo teórico da complexidade, como provocador de críticas e reflexões sobre o meu saber, possibilitou-me, ainda, uma auto-vigilância epistemológica,

44

pois exigiu uma consciência teórica e uma interlocução com o conhecimento científico acumulado.

Vale lembrar que esse pressuposto teórico que questiona os conceitos de verdade, objetividade e realidade social apresentou-me uma posição ética 18 fundamentada na responsabilidade por minhas construções do mundo social e pelas ações que desenvolvo, as quais me fizeram resistir à possibilidade de fundamentar exclusivamente minha investigação na realidade social objetiva, refletida numa “verdade” evidente e dominante, à qual simplesmente devesse me enquadrar (MORIN, 1977).

A epistemologia da complexidade, que tem a tarefa de ligar tudo o que está disjunto e compor uma unidade multidimensional, orienta a idéia de vida social e, portanto, da violência. E quando se pensa complexamente a vida, procura-se pensar o ser humano/mundo sobre uma base de movimento dialógico desenvolvido por um anel de co-produção mútua, em que, “uma vez constituídas, as organizações e a sua ordem própria, são capazes de ganhar terreno à desordem: ordem - desordem - interações - organização” (MORIN,

1977).

Esta ótica considera as interações inconcebíveis sem a ocorrência das desigualdades, turbulências, agitação e desordem, provocadas por encontros. Quanto mais a ordem e a organização se desenvolvem, mais se tornam complexas, mais toleram, utilizam e até necessitam da desordem.

A desordem contrapõe-se à idéia de ordem que tem marcado a sociedade moderna (BAUMAN, 1999), onde a verdadeira realidade é a ordem física (onde todas as coisas obedecem às leis da natureza), a ordem biológica (lei da espécie) e a ordem social (onde os homens devem seguir a lei da sociedade) (MORIN, 1977).

sendo

necessário desintegrar as falsas certezas e as pseudo-respostas quando se quer encontrar as respostas adequadas”.

18 Para Morin, “

a ética do conhecer tende a ganhar prioridade e a opor-se a qualquer outro valor (

)

45

O objetivo do conhecimento visto sob uma perspectiva complexa, já não é simplesmente o de focalizar um objeto isolado: ao observá-lo e estudá-lo, é necessário concebê-lo em função da sua organização, do seu meio e do seu observador (MATURANA, 2000). Há necessidade de uma dialógica entre ordem-desordem, entre unidade-diversidade, pois as mesmas condições de existência do mundo são também as condições do conhecimento (MORIN, 2000). Sendo assim, na apreensão do fenômeno violência na prisão, deve-se reconhecer que existem fatores subjetivos que dependem e influenciam os critérios utilizados, que desencadeiam processos de análises distintos, bem como a seleção que se faz desses múltiplos fenômenos.

de

reorganização conceitual. Implica pensar em conjunto, sem preconceitos

quanto à incoerência na associação de idéias consideradas antagônicas. Segundo MORIN (1986), nesse processo de associações encontram-se:

O

pensamento

complexo

desenvolve-se

no

próprio

movimento

a) um metaponto de vista que relativiza a contradição;

b) a inscrição em um anel que torna produtiva a associação das noções antagônicas tornadas complementares”. (MORIN, 1986, p. 345)

Dessa idéia de anel, emerge o princípio de um conhecimento nem atomístico nem holístico (totalidade simplificadora). É preciso refletir através de uma práxis cognitiva (anel ativo) que faz interagir as noções estéreis, quando estão disjuntas ou antagônicas (MORIN, 1977). A mudança do olhar ocorre quando já não há um aspecto determinante para a violência na/da prisão (econômico, político, simbólico), quando o diálogo com as várias formas da violência é a via alternativa para situar-se entre a complexidade e a simplificação desse fenômeno.

complexidade

serviriam como procedimentos cognitivos para a constituição do olhar complexo sobre a violência na prisão:

Segundo

MORIN

(1999,

p. 32-35),

os

princípios

da

46

- Princípio hologramático: o todo está na parte, assim como a parte está no todo. O todo é menos do que a soma das partes, cujas qualidades são inibidas pela organização de conjunto. A violência da sociedade está na prisão, assim como a violência da prisão está na sociedade. A prisão não é somente a soma de todos os setores de uma cadeia, pois suas qualidades seriam inibidas pela organização do conjunto. Esse princípio inspira-se na virtude cognitiva de Pascal (apud MORIN, 1999, p.37) que assim se expressa:

“sendo todas as coisas causadas e causadoras, ajudadas ou ajudantes, mediatas e imediatas, e sustentando-se todas por um elo natural e insensível que une as mais distantes e as mais diferentes, considero ser impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”.

Para tanto é necessária a constituição de um tipo de conhecimento que capte o real através de um pensamento que valorize o contextual e o global. Um conhecimento que olhe o real como uma

teia de eventos inter-relacionados, pois nenhuma das propriedades de qualquer parte dessa teia é fundamental; todas elas resultam das propriedades de outras partes, e a consistência global de suas inter-relações determina a estrutura de toda a teia(CAPRA, 1996, p.48)

- Princípio da auto-organização: Os sujeitos desenvolvem sua autonomia na dependência da cultura, e as sociedades dependem do meio social e geo- ecológico. Portanto, os sujeitos apenados se auto-organizam em grupos (facções), estruturando a cultura prisional que é fechada, mas que depende da organização social mais ampla.

47

- Princípio dialógico: assumir, dialogicamente, dois pontos de vista que tendem a se excluir. Por exemplo: assumir a dialógica ordem-desordem, divergência e controle social, inclusão e exclusão; autonomia e dependência; possibilidades e limites da pena de prisão ; falência e humanização da prisão.

- Princípio retroativo: permite observar os processos auto-reguladores fundados sobre as múltiplas retroações (negativas e positivas) que surgem para reduzir o desvio e, assim, estabilizar o sistema, ou amplificá-lo. Exemplo:

uma violência institucional desencadeia outras violências produzidas pela massa carcerária, que por sua vez desencadeiam novas medidas de controle para manter o equilíbrio organizacional.

- Princípio recursivo: supera a noção de regulação. É um conceito referente a um mecanismo gerador de propriedades emergentes. Considera que o sujeito é produto de um sistema de reprodução oriundo de uma longa história, mas ele poderá se reproduzir somente se outros sujeitos o tornarem produtores pelo acasalamento. Pelas interações a prisão produz violência, mas também uma potência criadora através da socialidade dos sujeitos apenados como agentes da linguagem e cultura da cadeia.

A idéia recursiva é portanto uma ruptura com a idéia linear de causa/efeito, de produto/produtor, de estrutura e superestrutura, uma vez que tudo o que é produzido volta sobre o que produziu num ciclo ele mesmo autoconstrutivo, auto-organizador, auto- produtor” (MORIN, 1991, p. 90).

Estar aberta e preparada para viajar, portanto, pressupõe considerar que a construção de um “conhecimento pertinente” (MORIN,2000, p.36) ocorre num processo descontínuo, que inclui “a complicação, a desordem, a contradição, a dificuldade lógica, os problemas da organização” (MORIN, 1986, p.175) das diferentes referências do local. Ou seja, o fato de que o caminho percorrido para constituição desse olhar seja permeado pelo pressuposto teórico da complexidade, possibilita articular as diferentes dimensões da violência na

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prisão. Assim, procurou-se conquistar a pluralidade e a coerência de conhecimentos sobre o processo de organização de uma grande prisão na sociedade atual, para assim poder captar as múltiplas expressões da violência, nesse lugar.

Portanto, a construção do conhecimento na ótica da complexidade ocorre na apreensão da dinâmica em que o real se movimenta à medida que se constrói (DESAULNIERS, 2000). Isto pressupõe, também, encarar esse real e o conhecido de forma interativa, relacional, multidimensional.

Nessa ótica, compreender e apreender a violência, especificamente a da prisão, depende das estratégias metodológicas que o pesquisador utiliza para „captar esse real‟ e dos instrumentos epistemológicos teóricos utilizados para decifrá-lo 19 .

1.2 O Mapa da Viagem: a Problemática Construída

No processo de preparação da viagem, foi preciso admitir que não se chega a lugar algum totalmente desprovido de expectativas, aberto para o que der e vier. Há sempre um foco no caminho que se quer percorrer, há uma busca que leva a delimitar, selecionar, demarcar o terreno que se atravessa. A questão, para mim, era: como fazer isso sem mutilações, pré-concepções ou simplificações?

Não podia querer captar o todo do sistema prisional, sem saber das partes que o compõem- Princípio Hologramático. Também não seria possível, nessa viagem, querer ver tudo, como naquelas excursões de 13 dias que prometem a visita a quatro países e onde se vê tudo e não se vê nada. Por outro lado, não podia me vincular somente a uma “esquina” que me

19 Para Bachelard, a investigação do real decorre da elaboração de hipóteses que articulam dialeticamente a relação entre o racional (pesquisador) e o real (fenômeno). Há um filtro que é oferecido pelas teorias que instrumentalizam o olhar sobre o fenômeno, num movimento contínuo entre razão e experiência. (BACHELARD, 1996).

49

possibilitasse a obtenção de dados, informações sobre o lugar, mas que não seria representativo a ponto de mostrar todo o contexto social em que se insere. Como exemplo, estudar a prisão apenas a partir da prática desenvolvida pelo Serviço Social no sistema. Fazia-se necessário captar a organização 20 do lugar, por isso a escolha do Presídio Central de Porto Alegre - como um caso exemplar e representativo das grandes prisões da sociedade contemporânea.

Teve-se como orientação na definição do objeto de investigação sobre esse lugar o conjunto de princípios da complexidade - explicitados anteriormente - além de esquemas e categorias (MORIN, 1986), alguns advindos da bagagem teórica, outros (re)elaborados no decorrer da experiência profissional vivida. Ao constituírem-se, esses elementos agruparam-se, articularam-se e sobrepuseram-se uns aos outros, de maneira não só complementar, mas, em algumas vezes, de forma concorrente e antagônica.

Tratou-se de uma tarefa desafiadora, pois, como afirma BACHELARD (1996, p. 10), mesmo na

“ mente lúcida, há zonas obscuras, cavernas onde

vivem as sombras. Mesmo num “novo espírito científico” permanecem as marcas do velho. Por isso, devemos buscar um norte que nos possibilite reconstruir incessantemente o próprio conhecimento”.

Valorizou-se, assim, o pensamento inquieto, desconfiando de identidades mais ou menos aparentes, pois o pesquisador engajado no “novo espírito cientifico” deseja saber, mas para imediatamente poder questionar, duvidar e criticar.

20 Para leitura dessa Organização que será tratada no capítulo 3, utilizei a perspectiva de MORGAN (1996) que

interpreta as organizações a partir de metáforas, comparando-as a imagens que permitem vê-las como máquinas,

cérebros, culturas sistema político, prisões psíquicas e instrumentos de dominação. O verdadeiro desafio foi aprender a lidar com essa multidimensionalidade, o que possibilitou encontrar brechas , não só para novas formas de organização ,

mas para enfrentar questões em nível estrutural.

50

Esses substratos do meu conhecimento possibilitaram a construção objetiva de comunicações intersubjetivas, confrontações e discussões sobre o local a ser pesquisado. É uma perspectiva de inteligibilidade, que me orientou na construção de uma razão aberta a dialogar com o racional e o irracional. A racionalidade surgiu como crítica e controle lógico, mas também como autocrítica, reconhecendo seus limites.

Considerou-se, portanto, o potencial ético do pensamento complexo, que suscita um novo olhar sobre o real e uma tomada de posição do pesquisador na recusa à simplificação e às mutilações veiculadas historicamente por racionalidades legitimadas e que se sustentam em conhecimentos especializados e abstratos (MORIN, 1999). Está se vivendo um momento oportuno para soterrar anteriores certezas, conviver com indagações, romper com condutas rígidas (MAFFESOLI, 1999), em que pensar desinteressadamente, com aceitação (MATURANA, 2001), é uma das estratégias contra o dogmatismo.

Nesse sentido, SOUZA SANTOS (1989) sugere uma dupla “ruptura epistemológica”, através de um trabalho de transformação, tanto do senso comum como da Ciência. Seguindo a mesma ótica de BACHELARD(1996), em que os obstáculos epistemológicos se apresentam sempre aos pares “polaridade dos erros”- indica-se que a primeira ruptura é imprescindível para constituir Ciência, mas não despreza o senso comum, deixando-o como estava, antes dela. A segunda ruptura transforma o senso comum com base na Ciência.

Desta forma, é importante explicitar a preocupação em manter uma dúvida radical” (BACHELARD,1996) em torno das sinalizações que eram empreendidas na pesquisa(para que não fossem simples opiniões 21 ). Sabe-se que a pressão social sobre a temática da prisão clama por „soluções‟, e a tendência imediata do pesquisador é a de servir de porta-voz dos apenados, usando a denúncia como instrumento de uma análise maniqueísta.

21 Para Bachelard, a ciência opõe-se absolutamente à opinião. “A opinião pensa mal; não pensa: traduz necessidades em conhecimentos. Ao designar objetos pela utilidade, ela se impede de conhecê-los”. (BACHELARD, 1996, p. 18).

51

A construção da tese não ocorreu somente a partir do registro de

transformações conceituais, como se fossem atos epistemológicos que acompanhavam o percurso. Na prática, o compromisso com a ruptura, com a descontinuidade, não se resumia somente em registrar os conceitos. Implicou aprofundar os diferentes tipos de modalidades dessas rupturas para fazer do passado, já vivido por mim e praticado por outros cientistas jurídicos e sociais, a possibilidade de um presente criativo que se incorporava dialogicamente ao meu modo de pensar. Por isso, conforme já falado no início deste trabalho, a escolha do tema da tese ocorreu através da tentativa de ruptura com o senso comum, principalmente sobre a propalada “falência das prisões”. Essa ruptura está justamente no fato de que, ao desenvolver o processo de reflexão qualitativa sobre o tema, surgiu a necessidade de distanciamento e observação sobre como a opinião pública e a academia tratavam a questão.

A construção do objeto dessa tese, portanto, foi proveniente de um duplo movimento: a) um ascendente, que foi o da escolha do tema empírico para a sua construção a partir de uma hipótese (provisória) e de suas premissas; b) um movimento descendente, que foi o da operacionalização das premissas e que será demonstrada nos capítulos subseqüentes (MARRE, 1990).

O movimento ascendente desencadeou-se a partir da experiência já

referenciada no item 1.1. A escolha do tema violência na prisão ocorreu como uma tentativa de rompimento com o senso comum, bem como pela realidade percebida através da observação direta que começava a desenvolver, graças à aproximação com a Unidade de Pesquisa, o Presídio Central. Por fim, é importante ressaltar que a prática acumulada no Serviço Social começava a ser relativizada por um ponto de vista que modificava a percepção, o olhar do conteúdo empírico sobre o objeto que foi se delineando.

A partir dos pressupostos teóricos da complexidade apresentados no

item anterior e das premissas sugeridas por essa matriz de observação do real,

pode-se construir um sistema de relações teóricas que, de um lado, decorrem dos pressupostos (da complexidade) e, de outro, envolvem as propriedades do objeto (violência da prisão) empírico que vêm sendo analisadas. Ou seja, a

52

partir desse sistema de relação é que se chega à elaboração da hipótese central da tese:

 

“A violência da sociedade contemporânea tem, nas grandes prisões, o

lugar privilegiado para se condensar e se expressar através de uma teia de

significados. Para captá-la, é necessária a constituição de um olhar complexo

sobre o fenômeno, o que possibilita analisar a prisão não somente como um

espaço institucional de manifestação do excesso de força e do poder de punir -

através do controle, vigilância e disciplina, mas também, como organização que

vem produzindo vida social, rupturas com o projeto de normalização e outras

estratégias para combater a violência institucional, como o silêncio e a

socialidade dos apenados, a luta pelos direitos humanos e sociais via área

técnica e sociedade civil. Seriam essas, estratégias recursivas que vêm abrindo

brechas para que se proponham novas alternativas à violência da pena

privativa da liberdade.

Como se pode notar, com essa hipótese busca-se demonstrar a articulação direta entre violência da prisão e a violência contemporânea. Para tanto, é necessário poder explicitar essa articulação „genérica‟, numa espécie de jogo de espelhos em que o microcosmo condensa, representativamente, a complexidade sistêmica do macrocosmo.

Assim, essa hipótese foi desmembrada em cinco premissas para sua melhor demonstração:

1) a violência social se expressa de múltiplas formas no sistema penal brasileiro: o sistema penal produz e reproduz a violência contemporânea . Como forma de expressão aparece o conjunto de significados que referenciam a pena privativa de liberdade. A ambigüidade desses significados ora legitima a manutenção da prisão, ora aniquila qualquer possibilidade de investimento nessa área devido à falência da mesma. Esses diferentes significados transformam a prisão numa instituição alienígena, pois na sua maioria estão desvinculados da efetivação concreta da pena - princípio hologramático;

53

2) essa ambivalência vem contribuindo para que a prisão redefina o seu poder simbólico de normalização. Ou seja, por seu intermédio, revelam-se diferentes espaços e modalidades da pena e das formas da sociedade punir , aprisionar e, ao mesmo tempo, eliminar a massa de sujeitos considerados descartáveis - princípio hologramático;

3) é dentro desses diferentes espaços que se revelam múltiplas prisões dentro da prisão e o interjogo dos diferentes micropoderes, fazendo com que a máscara do poder instituído - vigilância e disciplina esteja imbricada na emergência de novas estratégias de um poder hiperespecializado exercidos pelos diferentes grupos que compõem a prisão - princípio retroativo;

4) na dinâmica complexa entre os diferentes grupos da prisão, emerge o processo de auto-organização que se aproxima do mundo da vila, já que os sujeitos presos não vivenciam o tempo e o espaço da sociedade global. Dessa forma, produzem-se e reproduzem-se espaços de rupturas simbólicas e de socialidade. Isto indica a potência da massa em ser violenta e resistente a um sistema excludente da sociedade contemporânea - princípio da auto- organização;

5) a prisão não é somente uma expressão passiva da violência e dos modelos culturais instituídos, mas uma geradora ativa de relações e sensibilidades. Portanto, as práticas sociais na prisão podem contribuir para a produção de uma cultura sobre a natureza e o significado de sua própria violência contribuindo para sua transformação - princípio recursivo.

O movimento ascendente que ocorreu na construção do objeto da tese, resultou, então, na hipótese central e nas cinco premissas construídas. Estas seriam o que BACHELAR (apud MARRE, 1991) chamaria de “uma totalidade sintética a priori”. Não são suposições extraídas diretamente de teorias, mas suposições elaboradas a partir dos pressupostos teóricos da complexidade.

Dito de outro modo, a formulação da hipótese e premissas possibilitou um esquema para captar e analisar a realidade empírica que não foi

54

imediatamente dada, já que “a observação se faz através de rupturas e ao mesmo tempo na adoção de um ponto de vista teórico fundamentado” (MARRE, 1991, p. 43-44).

O quadro a seguir demonstra como o movimento ascendente pode ser explicado:

55

HIPOTESE: A violência da sociedade contemporânea tem, nas grandes prisões, o lugar privilegiado para se condensar e se expressar através de múltiplas formas. Para analisá-la, faz-se necessária a abordagem complexa sobre o fenômeno, o que possibilita captar a prisão não somente como um espaço que manifesta o excesso da força e do poder de punir - através do controle, vigilância e disciplina-, mas também, espaço de auto-organização que produz vida social, rupturas com o projeto idealizador da pena e outras estratégias para combater a violência institucional. A potência da socialidade dos sujeitos apenados, dos defensores dos direitos humanos e dos abolicionistas seriam estratégias de não-violência à violência da própria pena privativa da liberdade.

à violência da própria pena privativa da liberdade. Premissa 1- nas racionalizações sobre a pena,
à violência da própria pena privativa da liberdade. Premissa 1- nas racionalizações sobre a pena,

Premissa 1- nas

racionalizações sobre a pena, identifica-se um discurso ambíguo que ora legitima a manutenção da prisão, ora aniquila qualquer possibilidade de investimento nessa área devido à falência da mesma. Esses diferentes discursos transformam a prisão numa instituição alienígena, estando desvinculados da efetivação concreta da

4)

1)

a prisão não é somente expressão passiva da violência e dos modelos culturais instituídos, mas uma geradora ativa de relações instituintes e sensibilidades.

Premissa 5-

de relações instituintes e sensibilidades. Premissa 5- Premissa 4- na dinâmica complexa entre os diferentes
de relações instituintes e sensibilidades. Premissa 5- Premissa 4- na dinâmica complexa entre os diferentes
de relações instituintes e sensibilidades. Premissa 5- Premissa 4- na dinâmica complexa entre os diferentes

Premissa 4- na dinâmica complexa entre os diferentes grupos da prisão, emerge um processo de auto- organização, semelhante ao que acontece nos bairros da periferia, já que os presos não vivenciam o tempo

e o espaço da sociedade normalizada. Dessa forma, produzem-se e reproduzem-se espaços de rupturas

simbólicas e de socialidade, indicando

a potência da massa em ser violenta e

resistente a um sistema excludente da

sociedade contemporânea.

a um sistema excludente da sociedade contemporânea. Premissa 2- 3) ambivalência vem contribuindo para que a

Premissa 2-

3)

ambivalência vem contribuindo para que a prisão redefina o

seu poder simbólico

normalização. Revelam-se diferentes espaços e modalidades da pena e das formas de a sociedade punir e aprisionar e, ao mesmo tempo, eliminar a massa de sujeitos

de

3)

essa

mesmo tempo, eliminar a massa de sujeitos de 3) essa 2) Premissa 3- nesses diferentes espaços

2) Premissa 3- nesses diferentes espaços revelam-se múltiplas prisões dentro da prisão e o interjogo dos diferentes micro-poderes, fazendo com que a máscara do poder instituído - vigilância e disciplina esteja imbricada na emergência de novas estratégias de um poder hiper-especializado exercido pelos diferentes grupos que compõem a

56

1.2.1 As Estratégias de Verificação

O movimento descendente seria, então, a transformação do problema anteriormente delimitado no quadro demonstrativo hipótese - premissas - pressuposto teórico - em problemas operacionalizáveis do processo ascendente anteriormente descrito.

Essa teoria materializa-se (metodologia) numa sucessão de estratégias possíveis, no sentido de apreender a realidade empírica que o quadro da problemática da tese sugere: a) dimensão operacional e indicadores; b) delimitação da amostra das fontes e dos procedimentos.

a) dimensões operacionais e indicadores seria a operacionalização

de conceitos teóricos. Por exemplo, a análise sobre o discurso da normalização, de M. FOUCAULT, Z. BAUMAN, M. MAFFESOLI materializa-se como possibilidade de interpretação dos indicadores do Presídio Central através da leitura das propostas de ressocialização dos sujeitos presos, dos projetos profissionais, da política penitenciária do Estado do Rio Grande do Sul. Outro exemplo: a potência da massa e a socialidade, em MAFFESOLI, também

aparece como indicador no Presídio Central o silêncio da cadeia, a massa chapada, os códigos de comunicação à solidariedade. Assim, operacionalizar conceitos teóricos na dialética descendente permite evidenciar que há uma relação entre dimensões operacionais de um conceito teórico e as de um outro conceito teórico .

Por isso, o objeto violência na/da prisão tem como categoria de análise a violência que, por ser um fenômeno complexo, poliforme e multirreferencial, configura-se teoricamente em diferentes dimensões de representação do social. Pode se expressar: na perspectiva de força, num ato de excesso, presente nas relações de poder e controle, permeada por uma violência física e/ou simbólica, que se exerce mediante a subjetivação dos agentes sociais envolvidos na relação (FOUCAULT, 1979), na perspectiva discursiva que revela a ambigüidade da critica sobre a falência da pena e inviabiliza e aniquila qualquer possibilidade de intervenção pela falta de outras referências

57

(SOARES, 1996 a); na perspectiva de fratura, que possibilita a passagem a outros dispositivos de poder (potência), a outras formas de relação social (socialidade) como expressão de violência ao controle formal. Ex: O silêncio da massa e a socialidade (MAFFESOLI, 1987) dos sujeitos apenados contra a violência legítima do Estado poderiam representar uma dessas linhas de fratura nos dispositivos da violência institucional;

b) delimitação da amostra, das fontes e dos procedimentos a magnitude e diversificação da amostra está relacionada com a realidade empírica que se deseja investigar (MARRE,1991). Portanto, optou-se por uma amostra diversificada, utilizando-se diferentes fontes para reconstruir o universo das relações singulares e estruturais, assim como determinados fatos que marcam o PCPA no período de 1999-2001. A seguir, são relacionadas a natureza e o tipo das fontes utilizadas para compor a amostragem.

58

Das Fontes 22

NATUREZA

TIPO

CARACTERIZAÇAO

Escrita

-

Fonte 1-

-Dados qualitativos e quantitativos do questionário (ver modelo anexo 1) aplicados a todos os presos e funcionários. Os respondidos geraram uma amostra simples (52% dos presos e 45% dos funcionários)- (organização dos dados anexo 2) -Observação direta dos pesquisadores -Documentos com dados estatísticos da BM referentes ao PCPA, período 1999-2000.(ver

anexo3)

 

*QUESTIONÁRIO *DIÁRIO DE CAMPO

-

Fonte2 -

-Jornal Arpão 5 edições de 1996 a 1998 (ver modelo anexo 4). -Relatórios Azul 1995 a 2000. -Relatórios da Anistia Internacional -Relatório do Censo Penitenciário do Ministério da Justiça2000. - Reportagem de Jornais amostra aleatória, selecionada no período de 1999 a 2000 (Ver Anexo

5)

*DOCUMENTAL

ORAL

-

Fonte 3 -

-Entrevistas com representantes dos diferentes grupos de agentes que compõem a organização da prisão: presos, funcionários da segurança, da administração, chefias, técnicos, conselheiro, políticos, voluntariado (Anexo 5 - instrumento exemplo de depoimento).

- Grupo de discussão com os funcionários da BM, sobre os dados coletados nos questionários.

 

Entrevistas

Grupo de

discussão

22 Esse quadro foi baseado em BARDIN (1979).

59

Dos Procedimentos metodológicos

A partir do entendimento de metodologia como teoria materializada

(DESAULNIERS, 2000), torna-se um desafio a demonstração do problema:

“Como

se

expressam

as

múltiplas

formas

de

violência

na

organização do Presídio Central de Porto Alegre?”

Foi necessário saber transformá-lo em um conjunto de estratégias que permitissem a sua concretização e viabilidade empírica; partir da dialética ascendente - ver o quadro teórico de hipóteses para descendente operacionalização e demonstração empírica (MARRE, 1991).

O desenvolvimento da pesquisa compreendeu, então, os seguintes

movimentos:

a) posicionamento

das

idéias,

indicando

a

direção

da

pesquisa,

incluindo consideração da curiosidade, dogmas, abertura, revisão com o saber e experiência profissional acumulada, itens todos que foram descritos e explicitados no item 1.1;

b) resgate crítico da produção teórica sobre o tema violência e a penalogia - que será explicitada no Capítulo 2, identificando-se as perspectivas de análises, as conclusões chegadas a partir do conhecimento anterior e a indicação das premissas a partir do pressuposto teórico da complexidade;

c) recorte da totalidade mais ampla (não simplificadora e totalizante),

explicada na problemática, a partir de condições materiais já existentes (unidades de pesquisa - Presídio Central) e organização dos dados coletados - que será apresentado no Capítulo 3. Constituiu-se também através do contato com uma rede de agentes sociais, que envolveu a unidade de pesquisa: sujeito preso, técnico, guarda, direção, entidades representativas da sociedade civil Comissão de Direitos Humanos, Pastoral Carcerária, Grupo de Voluntárias e mídia.

60

Essa coleta foi dividida em duas fases:

1ª Fase: coleta e organização dos dados de julho de 1999 até outubro de

2000.

Os dados não foram coletados de forma linear, ou seja, por etapas. Por exemplo, enquanto se coletavam informações através dos questionários dos funcionários, já estavam sendo tabulados e cruzados os dados dos sujeitos presos, realizou-se entrevistas com os sujeitos “externos” vinculados ao PCPA, enquanto outras já estavam sendo transcritas e pré-analisadas. As informações foram coletadas nos diferentes contatos e observações e constantemente registrados no diário de campo.

Os dados quantitativos foram extraídos dos questionários, entrevistas e

a partir do Jornal Arpão; considerando-se como fonte principal os

questionários, mas usando-se, também, outras fontes documentais a fim de confrontar os aspectos antagônicos e poder complementá-los.

2 a Fase: devolução e discussão dos dados de novembro de 2000 até 2001.

Foi promovida a discussão dos dados com os sujeitos que organizaram a vida interna da prisão (sujeitos presos, guarda e técnicos);

d) ajuste das questões norteadoras dos instrumentos utilizados

(observação participante, entrevistas, questionários, documentos etc.): ocorreu

de acordo com os indicadores que se pretendeu analisar a partir da hipótese

provisória que conseqüentemente era sempre revisada;

e) a análise dos resultados qualitativos e quantitativos, segundo categorias fornecidas pelo referencial teórico, visando a organizar os tópicos, a compreensão, a interpretação e a explicação da violência na prisão. Nesta fase, houve o encontro entre os dados do conhecimento anterior e os pressupostos de organização desse conhecimento. Para o tratamento das múltiplas informações, utilizou-se como recurso a análise documental do discurso e estatística do tipo fatorial.

61

1.3 O Mapa das Trilhas

A organização da pesquisa já está desencadeada, pois a viagem-tese delineou-se, quando se demarcou desde a introdução desse estudo: o problema (contexto espaço/tempo), a hipótese premissas (o que demonstrar, descobrir, verificar) e a bagagem profissional que está se levando a bordo.

Apesar de toda essa „pretensa elucidação‟ dos elementos que orientaram os caminhos trilhados, acredito ser necessário também destacar os elementos que compõem o mapa da viagem, apresentados até aqui. Acredito que seja importante fazê-lo, mesmo assumindo o princípio da incerteza e a incompletude do saber que me acompanhou em toda a trajetória da elaboração desta tese.

No quadro a seguir, busco relembrar o caminho percorrido até aqui: o processo da problemática construída, que se inicia pela problemática sentida (ascendente), até sua operacionalização (descendente). O quadro representa também uma síntese da viagem-tese que está sendo apresentada.

62

Pressuposto teórico da complexidade Bagagem profissional e teórica sobre o sistema prisional e violência
Pressuposto teórico
da complexidade
Bagagem
profissional e teórica sobre o
sistema prisional e violência
e teórica sobre o sistema prisional e violência Indicadores da violência no PCPA Hipótese Premissa 1

Indicadores da violência no PCPA

Hipótese

Premissa 1

Premissa 2

Premissa 3

Premissa 4

Premissa 5

no PCPA Hipótese Premissa 1 Premissa 2 Premissa 3 Premissa 4 Premissa 5 Fontes: Documental Oral

Fontes:

Documental

Oral

Escrita

no PCPA Hipótese Premissa 1 Premissa 2 Premissa 3 Premissa 4 Premissa 5 Fontes: Documental Oral

À maneira de um volume de água que avança, corrói, se insinua, contorna obstáculos, passa por cima desse mesmo obstáculo, em suma, por uma estratégia de lentidão, pretendemos menos indicar um lugar, demonstrar um lugar, do que abrir as

pistas num debate social poliformo(

pintar um quadro, ou uma série de quadros, que a maneira das águas fortes progridem por

aprofundamentos sucessivos, ou então, como iluminuras, recomeçam em minúsculos pormenores do conjunto do quadro. Propomos peças de um enigma que se imbricam, se completam e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossas vidas(Michel Maffesoli)

de

).Trata-se

e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossas vidas ” (Michel Maffesoli)

2 O CENÁRIO DA PESQUISA

2.1 Contextualizando o Lugar

Nesse item, sem a pretensão de fazer um exame aprofundado da situação da política penitenciária brasileira, foram destacadas informações sobre essa realidade para poder situar o contexto nacional no qual o Presídio Central de Porto Alegre se insere.

O Brasil possui a maior população carcerária da América Latina, com 223.200 presos em 512 prisões dados do Censo Penitenciário de 2000. A população nas prisões cresceu regularmente desde a década passada; apesar disso, o número de prisioneiros por 100.000 habitantes é o mesmo da maioria da América Latina e países desenvolvidos da Europa, como Itália e Inglaterra. As estatísticas de 1997, relativas ao número de encarcerados por 100.000 habitantes, mostram o seguinte: Chile 173; Colômbia 110; México 108; Venezuela 113; Estados Unidos 645; Brasil 142 (HUMAN RIGHTS WATCH, 1998 e MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2001) .

O sistema prisional brasileiro está estruturado com variações diferentes nos estados da Federação, estando sob a jurisdição do Ministério da Justiça, que conta com um órgão específico para o tratamento da questão, o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária - CNPCP. Esse órgão atua na proposição de políticas e fiscalização nesta área, sendo que a administração propriamente dita dos presídios está a cargo dos Poderes Executivos Estaduais. Nos estabelecimentos penais - presídios, penitenciárias e cadeias - estão os presos provisórios ou condenados sob a jurisdição das Secretarias de Justiça ou de Administração Penitenciária dos Estados. O Poder Judiciário atua

65

como instância de decisão (das progressões e conversões) e fiscalização (dos incidentes) da execução das penas.

Apesar de os direitos estarem garantidos nas leis, principalmente na Constituição Federal 23 , os grupos de defesa dos direitos humanos nacional e internacionais 24 , há vários anos, preocupam-se com a política penitenciária no Brasil e as constantes violações dos direitos dos sujeitos apenados.

Ao se fazer um resgate da produção acadêmica brasileira sobre as condições carcerárias no País, identificam-se dois marcos teóricos nos últimos 25 anos. A Questão Penitenciária, de Augusto Thompson (1976) e Os Direitos do Preso, de Heleno Cláudio Fragoso, Yolanda Catão e Elisabeth Sussekind (1980), ambos anteriores à LEP (1984). Passaram-se mais de 20 anos, e pode- se observar que as condições não se distanciaram dos seus projetos idealizados, tendo como fim penas mais humanas e justas. Nessas obras verificam-se vários indicadores de violência institucional que se perpetuam, como por exemplo, o hiato existente entre os direitos legalmente reconhecidos e aqueles garantidos, na prática, aos prisioneiros; o uso de prisões locais (celas em delegacias) como centros de detenções por longo tempo; a falta de assistência à saúde; falta de assistência legal; falta de educação e trabalho para os prisioneiros.

As rebeliões representam um dos indicadores da violência da prisão mais exploradas pelos meios de comunicação e tendencialmente selecionadas

23 A Constituição Federal de 1988 posterior a LEP, deveria ser instrumento maior do ordenamento jurídico, que

dedicou parte expressiva de seu texto aos direitos, garantias individuais e coletivas dos cidadãos brasileiros . Define os direitos da pessoa humana e do cidadão em seu artigo 5º e seus 37 incisos, que orientam a legislação infra- constitucional. Dos comandos constitucionais, todos importantes, alguns serão citados porque são adequados ao tema

da

tese:

III

Ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;XLVIII A pena será cumprida em

estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, idade e o sexo do apenado; XLIX É assegurado aos presos o respeito a integridade física e moral;LVII Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória; LXII A prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontra serão comunicados imediatamente ao juiz competente e à família do preso ou à pessoa por ele indicada;

24 Nas décadas de 80 e 90, importantes instrumentos de proteção aos direitos humanos foram ratificados pelo País: a Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1989); a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1989); a Convenção sobre os Direitos da Criança (1990); o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1992); o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1992); a Convenção Americana dos Direitos Humanos (1992) e a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1995). Em 1995 foram ratificadas pelo Brasil as Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos, da Organização das Nações Unidas (ONU), através do Ministério da Justiça, sendo incorporadas como "Regras Mínimas para o Tratamento do Preso no Brasil”.

66

ou amplificadas as descrições do uso das brutalidades e forças excessivas. Observa-se, ainda, que após alguns dias de comentários insistentes, a mídia não possibilita à sociedade a reflexão dos muitos motivos que as provocaram, pois essas são apresentadas apenas como brigas entre os próprios detentos ou com as direções dos estabelecimentos prisionais. Também as mortes ocorridas caem no esquecimento, até por que muitas acabam não sendo investigadas, havendo casos de execuções extrajudiciais que são “justificadas” como incidentes nas rebeliões. Os Departamentos dos Estados, que examinam as autópsias dos mortos, torturados ou espancados, são administrado pela polícia, não sendo, portanto, independentes nas investigações e elaboração dos laudos (TORRES, 2001).

O grau de violações dos direitos humanos da população carcerária que

está no sistema de segurança pública (nas cadeias) é significativamente maior. Esse quadro é inexistente aqui no Estado, o que contribui para que o Rio Grande do Sul seja considerado o melhor sistema prisional do País.

Assim como no Rio Grande do Sul, em muitas penitenciárias do País a militarização dos serviços penitenciários foi a opção para conter os problemas criados pela falta de profissionais e os riscos de segurança. Contrariando, dessa forma, as Regras Mínimas da Organização das Nações Unidas e outros tratados que o País ratificou para o tratamento dos presos 25 .

A falta de inspeções nos presídios, que deveriam ser executadas pelos

Juízes da Execução Penal e Ministério Público, pouco ocorre pela sobrecarga do poder judiciário. Acrescente-se a isso o descaso das autoridades, a impunidade dos agentes do Estado e a descrença, por parte da população carcerária, de que o sistema prisional possa ser justo, já que os mecanismos que protegem o sujeito preso são incipientes, caso este faça uma denúncia de violação dos seus direitos.

25Segundo TORRES (2001) no relatório enviado pela Pastoral Carcerária Nacional para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e para várias entidades internacionais em 1999, eram relatados incidentes prisionais nos estados do Rio Grande do Sul, Goiás, Espírito Santo, Ceará, Paraíba, e Rio Grande do Norte, por conta de haver nestes estados, estabelecimentos penitenciários comandados pela Polícia Militar.

67

Como conseqüência, a corrupção (desvio de alimentação, tráfico ou porte de drogas e armas, facilitação de fugas) torna-se rotina, demonstrando a existência de inúmeras falhas administrativas, o despreparo dos agentes e as relações violentas entre presos, funcionários e autoridades. 16

A Lei de Execução Penal assegura o direito ao trabalho, incentivando-o através da remissão da pena (3 dias de trabalho abatem 1 dia de pena), porém as condições da vida carcerária restringem esse direito a apenas uma minoria, sendo objeto de controvérsia a sua exploração, e os sujeitos presos não contam com qualquer benefício previdenciário.

A área da saúde apresenta-se dramática, pois não há uma política de Saúde Pública voltada aos sujeitos presos que contraem doenças infecto- contagiosas, entre elas a AIDS e tuberculose, além de problemas relacionados à dependência química 18 . No Rio Grande do Sul, conforme o RELATÓRIO AZUL (2001), a realidade é semelhante ao resto do País: a assistência médica aos sujeitos presos é negligenciada, desde atendimentos mais simples como moléstias de pele, ocorrências dentárias, pequenos curativos, até problemas complexos, como acidente vascular cerebral, acidente cardiovascular e câncer, não tendo atendimento adequado ou até mesmo nenhum atendimento. Os dependentes químicos e aqueles que chegam a desenvolver doenças mentais após o encarceramento e não recebem assistência adequada na maioria dos estabelecimentos, permanecendo nas mesmas condições do restante da massa carcerária.

26 Conforme TORRES (2001) o requerimento de informação 428/99 solicitado pela Pastoral Carcerária e Comissão de

Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo junto à Secretaria de Administração Penitenciária informou que, em dezembro de 1999, 57 funcionários da Casa de Detenção respondiam a processos criminais e continuavam trabalhando na própria Casa de Detenção e em outras unidades. Respondiam a processos por roubo, furto, homicídio, tráfico de drogas, porte de drogas, estelionato, lesão corporal, abuso de autoridade, concussão (suborno), receptação de objeto roubado; e ainda, outros 42 funcionários sofriam sindicância por negócios com presos, jogos ilícitos, suborno, apropriação de dinheiro de detento, facilitação de introdução de entorpecentes e de bebidas

alcoólicas, introdução de aparelhos telefônicos celulares, porte ilegal de arma de fogo, desvio de dinheiro de presos, posse de maconha, crack e cocaína, facilitação de fugas, maus-tratos contra presos, destruição de propriedades de presos e licença médica fraudulenta.

27 Segundo TORRES(2001), através de dados da Organização Mundial de Saúde, 70% dos presos brasileiros são

portadores do bacilo da tuberculose. O Censo Penitenciário nacional de 1995 contava com 12% da população

carcerária como portadora do vírus HIV, com ou sem manifestação da doença.

68

Porém, a necessidade mais importante para os sujeitos presos e que acaba sendo, inclusive, motivo de muitas das rebeliões, é a da assistência judiciária, que se tem revelado muito lenta e incipiente. Sucessivamente, os Censos Penitenciários têm apontado o percentual de 90% de apenados que necessitam de assistência judiciária fornecida pelo Estado. Apesar desse percentual elevado, não há um levantamento atual do Ministério da Justiça sobre o número de advogados disponíveis para este serviço nas Varas de Execução e nas unidades prisionais (TORRES, 2001).

Em todos os Estados do País existem unidades prisionais interditadas 28 pelas autoridades responsáveis pela fiscalização das prisões (Vigilância Sanitária, Ministério Público, Juizes de execuções); no entanto, os Órgãos Executores não cumprem as ordens de desativação destas unidades, devido à superlotação. Os presos não são separados por tipo e gravidade do delito ou idade conforme prevê a lei e o sistema é chamado comumente de “escola do crime” (TORRES, 2001).

A Lei de Execução Penal prevê a criação de “Conselhos da Comunidade” nas comarcas onde existem estabelecimentos prisionais. Esses Conselhos teriam como função a fiscalização e elaboração de propostas para mudanças necessárias. Sua instalação depende de iniciativa do Poder Judiciário, embora seja obrigatória por lei. Os Conselhos são compostos por um Advogado, um Assistente Social e um representante da Associação Comercial, além de outras organizações da sociedade civil. Esses Conselhos poderiam ser um canal de resolução de muitos dos problemas penitenciários através da participação da sociedade, mas devido a suas características democráticas e aos poderes conferidos pela lei, acabam por sofrer diversos obstáculos para o seu funcionamento. Na capital do Estado do Rio Grande do Sul, esse Conselho está desarticulado desde 1997.

A estrutura do Poder Judiciário em todo País tem sido uma constante na prática de uma política conservadora na interpretação e aplicação da lei. O que

28 Aqui no Rio Grande do Sul, desde 1996 o Presídio Central de Porto Alegre está parcialmente interditado e impossibilitado de receber novos condenados. O Instituto Psiquiátrico Forense foi interditado no primeiro semestre de 2001 por não apresentar as mínimas condições de um Hospital Psiquiátrico.

69

se nota é uma prática encarceratória, mesmo quando a lei prevê alternativas à prisão. O Poder Judiciário, o Ministério Público, parlamentares e setores conservadores da sociedade constantemente reclamam um maior endurecimento da legislação, mesmo quando este endurecimento vai contra a tradição do Direito brasileiro que não prevê a pena de prisão perpétua, pena de morte, castigos físicos, confinamento solitário ou trabalho forçado.

Uma das questões centrais que preocupam juristas progressistas e defensores dos direitos humanos é o movimento de “lei e ordem” que vem provocando muitas vezes a elaboração precipitada de leis que respondam com imediatismo sensacionalista a problemas de ordem social profundos. Segmentos da sociedade brasileira apóiam o tratamento desumano e as más condições de reclusão dos sujeitos presos, como uma retribuição justa aos crimes cometidos.

Isto, no meu ponto de vista, parece contribuir para legitimar as ações violentas, maus tratos, humilhações e espancamentos cometidos por policiais no interior dos presídios e sua conseqüente impunidade 29 .

Enfim, o sistema penitenciário brasileiro é, em sua essência, violador dos direitos humanos dos presos e presas (NEDER, 1994), com conseqüências prejudiciais a toda sociedade. Inúmeros relatórios de organismos nacionais e internacionais de defesa dos direitos humanos reportam-se à situação caótica do sistema penitenciário brasileiro, onde a violação dos direitos humanos dos sujeitos presos é uma rotina diária.

Em 1999 30 , ao publicar “Brasil: Aqui ninguém dorme sossegado - Violações dos direitos humanos contra detentos", a Anistia Internacional volta a apresentar denúncias de violação dos direitos humanos cometida em prisões

29 Em 02 de outubro de 1992, no trágico Massacre do Carandiru, 111 presos foram mortos pela Polícia Militar na Casa de Detenção de São Paulo. Em 11/10/1992, pesquisa de opinião publicada pelo jornal “O Estado de São Paulo” relata que “Massacre de presos divide população”.

30 Para a elaboração deste relatório, a Anistia visitou 33 presídios no Brasil, em 10 Estados: São Paulo, Rio de

Janeiro, Espírito Santo, Pernambuco, Pará, Ceará, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

70

brasileiras. Na análise de ambos os relatórios, nota-se um agravamento da situação, sem mudanças significativas no trato à população carcerária.

As falhas no sistema penitenciário são sempre “justificadas” pelas ausências de maiores recursos materiais e humanos: faltam remédios, mais profissionais técnicos e funcionários mais capacitados. Entende-se que esses fatores são indicadores que revelam a falta de uma política institucional definida e estruturada em nível nacional, que construa novos parâmetros e objetivos para o sistema penitenciário, além das questões da segurança e do encarceramento.

Nota-se que, mesmo o Estado e sociedade brasileira procurando, através de algumas ações muito pontuais, implementar políticas alternativas de combate à situação da maioria dos presídios no Brasil, a retórica fatalista gera um imobilismo social por parte dos gestores das políticas penitenciárias, reforçando-se para que as ações não atinjam os principais fatores desencadeadores da violência no sistema prisional.

Enfim,

relacionando com a análise de Torres(2001), o PCPA se insere

em um contexto mais amplo que revela:

a) uma política de execução penal que no País prioriza o modelo encarceratório, em detrimento de outras alternativas penais, mesmo com dispositivos legais para serem utilizados; b) as péssimas condições de vida na grande maioria dos presídios e as constantes alegações governamentais da falta de verbas e recursos para uma assistência mínima aos sujeitos presos, como o atendimento à saúde, o acompanhamento jurídico nos prazos legais a que o preso tem direito, a assistência às necessidades materiais e sociais do mesmo; c) a impunidade do sistema, que colabora na manutenção da ideologia do castigo e da vingança social através do controle paralelo e da perversidade do Estado e de seu aparato policial; d) as situações de violência a que está submetida a população carcerária, praticadas muitas vezes pelos próprios agentes do Estado (funcionários e policiais), como maus tratos, humilhações, espancamentos,

71

torturas, corrupção, tráfico de drogas; e) a estigmatização do indivíduo que cumpre ou cumpriu pena, com a inexistência de uma política pública voltada para o atendimento aos egressos prisionais; violência simbólica que se tem assistido, na mídia, através do tratamento dado às rebeliões e fugas em massa) (TORRES, 2001)

No Brasil, há uma relativa abundância de estudos legais que se centralizam na necessidade de reformas judiciais (como a redução de superpopulação através de uso muito amplo das penas alternativas). Destaca- se aqui no Estado a militância da Juíza Vera Muller que implantou, em 1987, de forma pioneira no País a pena de Prestação de Serviços à Comunidade- PSC, bem como, em nível nacional, a contribuição, entre outras, de Julita Lemgruber da “Penal Reform International”. Estas são algumas referências no uso de alternativas para as penas carcerárias. Recentemente estão sendo implantadas as Centrais de Medidas e Penas alternativas em todo o Brasil, e as Varas de Execuções Criminais VECs - foram desmembradas em duas: a) a VEC- voltada para a execução da pena privativa de liberdade ; b) a VEPMA- voltada para a execução de penas e medidas alternativas.

Poucas pesquisas, porém, têm sido realizadas sobre as condições carcerárias a partir de uma perspectiva acadêmica que considere os atores sociais envolvidos neste contexto. De fato, além dos trabalhos de Thompson (1976) e Fragoso (1980) anteriormente referidos, e de João Batista Herkenhoff (“Crime: tratamento sem prisão”, 1987) e Odete Maria de Oliveira (“Prisão: um paradoxo social”, 1984), a maioria das pesquisas feitas sobre as condições carcerárias têm sido realizadas por ONGs. As organizações “Human Rights Watch” (1992) e Anistia Internacional (1993), por exemplo, lançaram relatórios específicos sobre o massacre no Carandiru, bem como foi instaurada Comissão Especial pela “Bar Association”(CARVALHO, 1999). No Rio Grande do Sul, existe o Relatório Azul, desde 1994, publicação anual da Comissão sobre Cidadania e Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado, que sistematiza e relata as violações dos direitos da população carcerária.

72

Por outras vias, VARELLA (1999) em Estação Carandiru, através de crônicas do seu cotidiano profissional como médico, desvela de forma criativa como é a vida na maior prisão brasileira. Procura mostrar

“que a perda da liberdade e a restrição do espaço físico não conduzem à barbárie ao contrário do que muitos pensam. Em cativeiro, como os demais grande primatas, criam novas regras de comportamento com objetivo de preservar a identidade do grupo” (VARELLA, 1999, p.10).

Quanto ao Rio Grande do Sul, destacam-se recentes obras: a) de HASSEN (1999), O trabalho e os dias”, que através de uma pesquisa de campo efetuada no Presídio Central de Porto Alegre, no período de 1993 a 1995, demonstra que o trabalho desenvolvido na prisão não tem qualquer relação com a noção de trabalho que caracteriza ação dos seres humanos em liberdade; b) de CARVALHO (2001), “Pena e Garantias: uma leitura do garantismo de Luigi Ferrajoli no Brasil” . Essa obra é resultante da Tese de Doutorado do autor, que trata dos fundamentos da execução da pena privativa de liberdade no Brasil. O autor mostra que é falsa a idéia corrente de que o grande responsável pela violação dos direitos humanos dos sujeitos presos é o Poder Executivo através da sua ineficácia administrativa. Busca demonstrar o nível de (co)responsabilidade dos juristas na manutenção da barbárie do sistema prisional, constituindo assim, mecanismos teórico-práticos que justifiquem as ações de resistência dos sujeitos presos no resgate dos seus direitos. Para construir seus argumentos, CARVALHO parte de três hipóteses:

1) a ideologia do tratamento ressocializador não apresenta conteúdo mínimo que possa ser garantido e afirmado com os valores e princípios constitucionais (por exemplo, não garante o direito de não ser “tratado”, avaliado etc); 2) o processo da execução penal não prevê instrumentos jurídicos que possam garantir os direitos dos apenados; 3) a incapacidade processual do direito de assegurar os direitos exsurge, quando da constatação de violência institucional,

73

o direito de resistência, como manifestação legítima de desagravo pela massa carcerária (CARVALHO, 2001).

2.2 Chegando no Lugar

Conforme foi citado no início deste trabalho, a escolha do Presídio Central de Porto Alegre PCPA - como base da pesquisa deu-se em função de alguns fatores: por estar em Porto Alegre, a grande metrópole do Estado; por ser um espaço construído para abrigar 650 pessoas e que continha uma população carcerária de 2100 pessoas; por ser a porta de entrada do sistema prisional, ou seja, todos que são presos na Grande Porto Alegre devem passar pelo PCPA, já que não existem aqui as delegacias de polícia que recolhem pessoas em prisão preventiva ou provisória.

Portanto, esses foram os critérios “objetivos” da escolha. Além disso, outras questões me mobilizavam: tinha uma relação próxima com um dos Assistentes Sociais da casa, pois havia sido sua professora, supervisora e orientadora de Trabalho de Conclusão, ou seja, ele representava um grande canal; havia no imaginário daqueles que trabalhavam no Sistema - e no qual eu transitava a partir das diferentes relações pessoais/profissionais - de que o Presídio Central, “apesar de tudo” estava sendo um dos melhores lugares para se trabalhar. Que, depois que a Brigada Militar assumiu, as condições do PCPA melhoraram. E ainda, que os próprios sujeitos presos não queriam ser transferidos para outras Casas, como a PEJ (Penitenciária Estadual do Jacuí), ou PEC (Penitenciária Estadual de Charqueadas).

Nesse sentido, tornava-se um lugar fascinante para o desenvolvimento do estudo, pois as rebeliões e motins haviam cessado e, em contrapartida, a população carcerária aumentava. Indagava-me como conseguiam manter a “massa” sob controle, depois de uma trajetória de diversos motins e rebeliões. Paralelamente a isso, na questão acadêmica eu ia me aproximando da

74

discussão teórica sobre o tema e ativando a memória daquilo que já tinha sido vivido e estudado.

Então, em maio de 1999, resolvi marcar um encontro informal com o Diretor da Casa para me apresentar e ver a possibilidade de iniciar uma pesquisa, em julho daquele ano. O mesmo foi extremamente acessível e apenas solicitou a formalização perante a Superintendência dos Serviços Penitenciários - SUSEPE. Cumpri a formalização de praxe e, no final de julho, comecei os primeiros contatos através dos técnicos do Serviço Social. Passei a contar com o trabalho voluntário de uma acadêmica de Psicologia, que me auxiliou na coleta dos dados.

Inicialmente, procedemos a um reconhecimento geral da cadeia, observando os diferentes locais da vida prisional. Depois, foram realizadas entrevistas com os diferentes sujeitos que participavam do cotidiano prisional.

Até o final daquele ano estivemos, semanalmente, presentes no Presídio. Tínhamos um trânsito livre e não ficávamos vinculadas a um setor específico. Qualquer movimento de nossa parte era formalizado perante o Chefe da Segurança. Foi interessante, pois a pessoa que ocupava esse cargo no início da pesquisa 31 era um acadêmico de Direito que gostava de refletir sobre a prisão. Fazia imensa questão de levar estudantes para dentro do presídio, a fim de que pudessem desmistificar um pouco a imagem que tinham do lugar. Dizia “que aquilo era um laboratório para a academia estudar”.

Em novembro, resolvi aplicar um questionário (ver anexo 01) em toda a massa carcerária, pois havia questões sobre o processo de organização da vida cotidiana sobre as quais tinha receio de não conseguir coletar impressões através de entrevistas com os sujeitos presos. Sabia que as entrevistas deveriam ser gravadas e isso poderia constituir fator impeditivo para um clima de confiança.

31 Durante o período de maio / 1999 até janeiro/2001 houve uma mudança na Chefia da Segurança e duas na Direção Geral.

75

Além de fazer um pré-teste com 7 sujeitos presos que deram sugestões sobre as questões do instrumento, realizei o face valid, isto é, o instrumento foi corrigido e alterado a partir da leitura do Diretor e Vice-Diretor, do Chefe da Segurança, de um Assistente Social e de um Professor da Casa. Mesmo assim, o instrumento apresentou-se falho quanto à elaboração das questões e

o esquecimento em solicitar informações como o número de filhos.

Para distribuir o questionário, fiz questão de não utilizar os técnicos ou a segurança da casa. Estabeleci canais de comunicação direta com nove líderes

das galerias (ou prefeituras) e com diferentes setores da casa. Foram feitas reuniões com subgrupos, tendo o cuidado de não juntar pessoas de diferentes facções. Nessas reuniões, procurei sensibilizá-los para participação no estudo

e foram dadas as explicações básicas para o preenchimento do questionário.

No caso dos presos analfabetos, solicitei a colaboração de um parceiro de cela para a produção das respostas. Na ocasião, foi explicado que eles não eram obrigados a responder e tampouco a se identificar. O que mais perguntavam é se iria sair o estudo na imprensa, pois estavam cansados dessas pesquisas das quais não recebiam retorno. Nada lhes foi prometido em relação à imprensa, mas sim que os dados seriam devolvidos a eles, e foi assumido o compromisso de socializá-los de diferentes formas no meu espaço profissional. No Relatório Azul (2000-01, p.446-9) parte dos resultados foram apresentados

à comunidade dos internos.

Foram distribuídos 2110 questionários para os sujeitos presos, nos diversos setores e galerias, sendo devolvidos 1167, ou seja, mais de 50% dos presos responderam.

76

Setor

Distribuídos

Devolvidos

1 a B-galeria

212

73

2 a B-galeria

236

102

3 A B-galeria

217

33

1 A E-galeria

74

25

2 A E-galeria

45

22

COZINHA

42

17

CONSERVAÇÃO/OBRAS

45

29

REFEITÓRIO FUNCIONÁRIOS

15

10

FAXINA GERAL

27

04

LAVANDERIA

08

06

1 A D-galeria

189

181

2 A D-galeria

161

152

3 A D-galeria

209

66

1 A C-galeria

250

121

2 A C-galeria

171

162

3 A C-galeria

209

164

TOTAL

2110

1167

Observa-se que não foi homogêneo o número de devoluções dos questionários por setores. Destaca-se que a adesão ficou concentrada no Pavilhão C. Ao contrário, o Pavilhão B, principalmente a 3 a galeria, apresentou o menor número de preenchimentos. Isso corresponde ao processo de interação e relação entre os diferentes grupos dos sujeitos presos e os grupo da administração. A 3 a galeria tem, como política de funcionamento, a não

77

participação e negociação com qualquer atividade ou situação advinda da administração. Por mais que os questionários tivessem sido entregues diretamente aos líderes, e que os mesmos não precisassem de identificação, a maioria se identificou através do nome e número de matrícula e, sendo assim, sabiam que eu teria o controle sobre a que galeria fazia parte aquele determinado questionário. Mesmo assim, pode-se considerar esses números obtidos como sendo um indicador da heterogeneidade e funcionamento dos diferentes grupos.

Apesar de toda a estratégia desenvolvida, não era esperado um número tão significativo de devolução dos instrumentos. Além da assessoria estatística, tive que contar com ajuda de duas pessoas para tabular os dados quantitativos e qualitativos. Foi preciso desconsiderar algumas questões pela dificuldade de categorização dos dados e também pelo tamanho com que ficou a amostra.

Enquanto isso, de dezembro de 1999 até abril de 2000 afastei-me do Presídio pois fui para a Itália estudar, conhecer experiências - Serviço Social de Bologna com Medidas Alternativas e o Proggeto Citta Sicure - e também fazer contatos com alguns teóricos sobre criminologia crítica .

Retornei em maio de 2000, não só para os contatos internos no Presídio mas também atendendo ao convite para fazer parte no novo Conselho Penitenciário Estadual, que estava sendo composto. Também assumi uma Disciplina na Faculdade de Serviço Social da PUCRS, que estava trabalhando a “questão da violência”. Um grupo de alunas passou a fazer parte do meu Projeto de Pesquisa e, assim, foram retomados os contatos com o Presídio. Foram feitas entrevistas com questões norteadoras (ver anexo 01) mais voltadas para a violência dentro do PCPA, que foram gravadas, transcritas e tabuladas a partir das categorias teóricas que me orientaram nesse estudo.

Nesse processo foram entrevistadas 15 pessoas: 02 sujeitos presos trabalhadores, 03 sujeitos presos não trabalhadores e 1 sujeito preso líder de galeria; 01 Assistente Social, 01 Advogado e 01 Psicólogo; 01 Chefe da Segurança, 01 Sargento, 01 Cabo e 03 soldados.

78

Em junho de 2000, a Casa passou por uma série de modificações devido à mudança geral que aconteceu na Força Tarefa (grupo de brigadianos responsáveis pelo comando das principais Casas prisionais do Estado 32 ). O Chefe da Segurança que era o canal formal de inserção foi afastado e acusado (através da imprensa) de ter cometido diversas irregularidades. Mesmo assim, nos últimos dias de sua gestão, ele foi o principal canal de distribuição dos questionários aos funcionários. Foram distribuídos 120 questionários (ver anexo) e retornaram 83, ou seja, uma amostra representativa correspondente a 70% dos funcionários.

O trabalho de pesquisa teve momentos de dificuldades pois, a cada tentativa de aproximação da Casa, percebia-se que o ambiente não estava favorável. O novo comando tinha posições totalmente contrárias ao antigo, o que gerava novos desafios e estratégias. Os contatos foram refeitos em janeiro de 2001, para a devolução dos resultados junto aos líderes representativos da massa carcerária e aos funcionários. Com os apenados a apresentação e discussão aconteceram em duas reuniões, uma com o grupo de sujeitos presos trabalhadores e outra com o grupo dos não trabalhadores. Com os funcionários foi feito um encontro. Nesses três momentos, foi possível apresentar os dados da pesquisa aos sujeitos representantes do universo da prisional e discutir os principais aspectos sinalizados por eles.

Os dados, em sua maioria, foram legitimados. É interessante ressaltar que, no grupo dos sujeitos apenados, os nove representantes das galerias estavam juntos, diferentemente do que tinha ocorrido na fase inicial da pesquisa, quando houve a preocupação de não juntá-los. Essa questão foi trazida por um dos líderes, que justificou essa nova fase pois se estava “no novo milênio” e havia a necessidade de superar as rixas e dificuldades de estarem juntos quando os assuntos diziam respeito a todos. Acredita-se que esses espaços serviram muito para proporcionar a discussão das condições

32 Em 1995, devido aos problemas de rebeliões e de insegurança nas principais prisões da região metropolitana, a Brigada Militar-BM assumiu o comando de cinco casas: Presídio Central de Porto A legre, Hospital Penitenciário,

Penitenciária Estadual de Charqueadas, Penitenciária Estadual do Alto do Jacuí e Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas.

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estruturais e execução da pena que, de certa forma, todos os sujeitos que compõem esse sistema vivenciam.

Nesse período, também foram realizadas entrevistas com pessoas da sociedade civil e de entidades que possuíam uma relação direta com o Presídio. Faziam parte desse tipo de fonte um grupo de cinco pessoas formados por um político, um membro do Conselho Penitenciário e três voluntários que representavam grupos de auto-ajuda e apoio espiritual.

Também nesse período passei a fazer parte do sistema prisional através da Direção do Centro de Observação Criminológica, conforme já foi exposto no Capítulo 1 deste trabalho.

Não foi tarefa fácil ler os diversos espaços particulares de relações e ações que têm organizado o espaço do PCPA. Não se trata somente de estratégias de leituras, mas de ter a consciência de que a captura de um espaço representa a adoção de uma perspectiva sempre relativa e limitada, capaz de selecionar e transformar a realidade. Procurei então, exorcizar a “instituição total” 33 através da descrição específica daquilo que pude observar nos diversos contatos (mesmo que superficiais) no Presídio Central.

Procurei mergulhar em algumas imagens, documentos e depoimentos que eram acessíveis, deixando-me impressionar pelas coisas simples da cadeia, resistindo à dor e à culpa que o ambiente provoca e tudo que, por qualquer motivo, fosse destacado no discurso dominante. Não sei se esta atenção serviu para remover ao menos em parte a inibição que surge quando se resolve compreender o tema da violência no espaço de concretude da pena. Essa foi, no entanto, a minha intenção.

33 Segundo GOFFMAN (1987, p.11): uma instituição total pode ser definida como um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada.Essas instituições totais não permitem qualquer contato entre o internado e o mundo exterior, até porque o objetivo é excluí-lo completamente do mundo originário, a fim de que o internado absorva totalmente as regras internas, evitando-se comparações, prejudiciais ao seu processo de “aprendizagem”

80

Ao descrever o espaço do Presídio Central de Porto Alegre - como ele se isola, se manifesta e se organiza e as imagens que produz - preferi, inicialmente, selecionar alguns elementos do diário de campo onde registrei um pouco da sua história, de sua estrutura física e de seu funcionamento.

2.3 A Organização do Lugar: Estrutura e Funcionamento

da sua história, de sua estrutura física e de seu funcionamento. 2.3 A Organização do Lugar:

81

O Presídio Central foi inaugurado em 1959 com o propósito de substituir o antigo Cadeião localizado próximo ao centro da cidade e que se encontrava superlotado e em péssimas condições físicas (HASSEN, 1999). Hoje a história se repete. O PCPA é a maior casa do sistema penitenciário gaúcho 34 . Possuindo capacidade de 650 vagas, abriga em torno de 2000 pessoas.

Desde 1995 está sob um comando militarizado, infringindo um preceito constitucional e parcialmente interditado pelo Ministério Público para receber novos presos condenados, conforme promessa política do Governo Antônio Britto (1994-1997). Em 1997 iniciou-se uma megaoperação para desativá-lo definitivamente até 1998. Conforme referências, a operação teve pleno êxito, mobilizou mais de 530 homens, inclusive o Grupo de Ações Táticas especiais (GATE). Naquele período o PCPA Passou a contar com 1614 presos.

Desde que o Governo Olívio Dutra assumiu, em 1998, a promessa de retirada da BM tornou-se uma constante, principalmente como forma de atender a pressões dos sindicatos dos agentes penitenciários, que se sentiram desvalorizados, pois os gastos com as diárias dos oficiais e demais brigadianos poderiam ser investidos em melhores condições salariais e formação dos mesmos. Além disso, mais de 400 novos agentes foram preparados para reassumirem as casas prisionais comandadas pela Brigada. A partir de 2000, a SUSEPE reassumiu a Penitenciária Estadual de Charqueadas - PEC e a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas - PASC. Conforme a promessa, os próximos seriam a PEJ e PCPA. A incerteza da definição gerava intranqüilidade, receios de boicotes de quem estava saindo, falta de

34 O sistema Penitenciário Gaúcho está sob o comando da Superintendência dos Serviços Penitenciários - SUSEPE - subordinada à Secretaria da Justiça e Segurança, que atua como órgão público responsável pelo planejamento e execução da política penitenciária do Estado do Rio Grande do Sul Os 89 estabelecimentos prisionais do Estado do Rio Grande do Sul atendem homens e mulheres em cumprimento de pena privativa de liberdade, em regimes variados, bem como em cumprimento de penas alternativas (limitação de final de semana), prisões civis e medidas de segurança. A SUSEPE abrange 14 estabelecimentos penais chamados de Casas Especiais que estão localizadas em Porto Alegre, município de Charqueadas e Venâncio Aires, todos sob a jurisdição da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre e abrigam 6.541 presos. Além destes estabelecimentos, no interior do Estado, existem 75 presídios de pequeno e médio porte que compõem as oito Delegacias Penitenciárias Regionais (DPR) que ao total abrigam 7.824 presos. Para atender homens e mulheres portadores de doença mental que estão em cumprimento de medida de segurança, há o Instituto Psiquiátrico Forense Maurício Cardoso que abriga 605 pacientes. (segundo dados do efetivo carcerário semanal de

82

informações necessárias. Pude assistir a todo esse processo dentro do sistema, enquanto estava na Direção do COC.

Era voz corrente o desejo de permanência da Brigada Militar BM - no PCPA, tanto da massa carcerária quanto da sociedade civil em geral. Com a entrada da Brigada Militar no Presídio Central, segundo a pesquisa realizada com os apenados (conforme citei anteriormente) 35 , 74% deles consideraram que a segurança na prisão melhorou, e que piorou para 11%. Houve 15% de não respostas.

O poder dos brigadianos tornou a vida na cadeia mais segura para 63% dos apenados; mais difícil para fazer o que se quer fazer foi a resposta de 13% e mais violenta para 6%. 17% não responderam.

Os funcionários também compartilhavam da mesma idéia quanto à presença da BM no Presídio, pois 100% afirmaram que a segurança melhorou e 96,1% acreditam que as estratégias de poder e controle que a BM utiliza tornam a cadeia mais segura. O depoimento abaixo ilustra a visão que um brigadiano tem em trabalhar no PCPA e o diferencial da corporação na gestão dessa organização :

com “

certeza, eu tenho consciência que nós

nesta função, eu por exemplo nesta função que eu exerço, no Presídio é muito importante. Mas é uma gotinha d'água no mar, no oceano que nós temos. Nesta parte acho que não adianta exercer uma função se tu não achares que tenha uma finalidade. Não adianta eu vir para cá se eu não tiver interiorizado que eu posso melhorar alguma coisa

- O que acha que tu podes melhorar?

- Primeiro um tratamento mais humano ao apenado, começa por aí. Porque quando o policial

83

militar chega novo na força-tarefa este é o primeiro enfoque a ser tratado. A gente faz reuniões, a gente conversa com os grupos novos que estão chegando, nós fazemos formaturas informais. Nós temos uma forma: uma vez por mês, que nós reunimos todo o efetivo e daí nós trabalhamos sobre assuntos específicos. Na verdade é o seguinte, a Brigada quando ela entrou, entrou só com uma finalidade, impedir fugas. Na verdade terminar com os motins, as fugas e as rebeliões. Nada mais, o resto ficaria com órgãos competentes. Só que e gente começou a ver que os órgãos competentes não eram tão competentes assim, e aí nós começamos a botar nossa mãozinha, aqui, ali, no setor de segurança, setor de transporte, setor técnico e setor de compras. - O que tu achas que diferencia a Brigada da outra gestão ?

- A Brigada é muito condenada, muito

criticada pelo aspecto que nós passamos de rigidez,

hierarquia, disciplina, as pessoas costumam dizer que nós somos muito „a ponta de faca‟, muito exigente.” (entrevista com o sujeito 02)

Na próxima entrevista, identifica-se também, uma aprovação da permanência da Brigada no PCPA:

“Desde quando a Brigada Militar assumiu a

direção dos principais presídios (

poucas pessoas que publicamente reconheceu que a presença da Brigada dentro dos presídios trouxe algumas melhoras sensíveis na execução penal. Por mais contraditório que isso possa parecer, porque

),

eu fui uma das

84

são pessoas que não estão habilitadas prá isso, não têm curso prá tratar, nem formação específica prá isso. Mas ao longo dos últimos anos, pelo menos,

o número de casos de violação dos direitos

) (

humanos dos próprios presos, especialmente casos de violência, espancamento, tortura, caiu muito no sistema penitenciário do Rio Grande do Sul, e a Brigada Militar tem muito a ver com isso. Não por que ela em si seja melhor que qualquer outra instituição; o problema é que dentro da Brigada Militar existe uma relação de maior controle sobre a atividade dos seus integrantes. Eles prestam conta do que fazem, há punições mais freqüentes, havendo portanto uma disciplina maior na relação que se estabelece ali dentro, do que havia, por exemplo, entre os agentes penitenciários. A questão da hierarquia ela é muito presente, o que facilita muito esse controle. Então nós tínhamos antes da presença da Brigada Militar uma situação de absoluto descontrole nos presídios maiores do Estado. Casos muito freqüentes de corrupção, de violência, de espancamento, de tortura. A presença da Brigada diminuiu bastante isso, o que não significa que a presença da Brigada hoje não tenha também trazido novos problemas. Eu acho que há problemas novos que foram trazidos pela presença dos policiais militares na administração dos presídios. Então eu acho por exemplo hoje, especialmente, nós estamos vivendo uma situação muito grave de abusos quando da realização das revistas sobre os familiares, a revista íntima tem sido uma prática reiterada nos presídios gaúchos há

85

muito tempo, faz seis anos pelo menos que a gente vem lutando contra isso. Hoje eu tenho, assim, muita esperança de que em breve o Governo do Estado

possa finalmente resolver o problema (

íntima vem sendo especialmente aplicada nos presídios onde a Brigada Militar vem atuando hoje, por conta de uma visão de segurança prisional e que vem sendo aplicada com tanto rigor que isso implica

numa humilhação extraordinária sobre os familiares. Eles são obrigados a se desnudar, a mostrar a vagina, o ânus, enfim, são humilhados mesmo. Então esse é um problema que se agravou mais recentemente com a própria concepção de disciplina militar com a qual é administrado os presídios. De outra parte eu acho que é um problema gravíssimo que eu tenho já há muito tempo levantado a preocupação sobre isso e acho que até agora eles têm muita sorte de não ter acontecido um problema

maior. A presença da Brigada Militar nos presídios faz com que os policiais militares transitem dentro das áreas de contato com os presos, corredores,

galerias, enfim fortemente armados (

com arma

). A revista

),

de grosso calibre, inclusive metralhadoras. Isso é uma postura que contraria frontalmente qualquer norma de segurança prisional do mundo. Quer dizer, se há uma regra que é consensual no mundo inteiro de segurança prisional é que armas devem se situar fora do presídio, nunca dentro do presídio. Elas não têm nenhuma serventia dentro de um presídio, a não ser despertar a cobiça de algum preso que resolva tomar essa arma e começar um motim, tomar reféns, enfim. E os presídios hoje sob a responsabilidade da

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Brigada Militar eles estão fortemente armados, quer dizer, os policiais militares trabalham fortemente armados. Então há um risco muito grande de que uma dessas armas seja capturada pelos presos ( ),

). Já houve

há dois, três anos atrás

que os presos do Central, por exemplo, chegaram a organizar uma greve de fome para que a Brigada Militar não saísse do presídio, porque eles tinham receio de que se a Brigada saísse, os agentes penitenciários voltassem, aqueles que estavam lá há mais tempo tinham memória da situação anterior dos

agentes, não queriam voltar à situação anterior. Mas nesta última visita que nós fizemos no Central agora, faz um mês, enfim, eu conversando com os presos eu percebi o seguinte: eles não têm mais essa

Ou seja, se eles pudessem hoje

definiriam que a Brigada não ficasse mais lá. Então se alterou de alguma forma a relação dos policiais militares com eles. Eu acho que o que houve na verdade foi o seguinte: recentemente o Governo Estadual acabou mudando todo o corpo de oficiais da Força Tarefa. Então há um novo comandante, há novos oficiais que estão dirigindo os presídios. Então

relação

um tempo no passado, (

isso pode implicar num problema sério (

)

(

).

é um pessoal novo que entrou. A turma que tava antes ela tinha ficado praticamente quatro anos administrando as casas, eles começaram também sem nenhuma experiência, mas ao longo de quatro

anos adquiriram muita experiência, foram descobrindo coisas, construindo uma relação com os

presos (

que acabou estabilizando um pouco a

situação dentro dos presídios. Como essa turma

)

87

mais antiga vinha adquirindo experiência saiu e veio uma turma nova, a impressão que eu tenho é que a turma nova que entrou tá recomeçando o trabalho do zero. Talvez reproduzindo os mesmos erros do começo, logo da entrada da Brigada, que é basicamente isso: uma noção muito desproporcional de exigência, de disciplina, de militarização das posturas internas, e acho que essa relação, aos poucos com os presos, ela se deteriorou muito. Enfim, há muita reclamação, muita angústia dos

presos com relação a isso (

Hoje o que sobra

para eles com essa experiência com a Brigada é a exigência disciplinar. Ponto. Mais nada. Eu acho que eles não suportam isso. Eu tenho medo. Acho que se a situação não for enfrentada logo ela pode implicar em problemas no Central, meio logo. (entrevista com sujeito 04)

).

Por outro lado, alguns discordam não só pela inconstitucionalidade mas pelo caráter do tratamento que é oferecido, conforme é dito o que segue:

“Sou totalmente contra a militarização. Acho que não dá para trabalhar a segurança pública em termos militares, a formação militar é uma formação para guerra, uma formação para a eliminação do inimigo, eliminação do outro, não dá para se trabalhar, isso eu tenho bem claro, não dá para se trabalhar uma perspectiva de uma segurança cidadã, uma segurança pública democrática com um paradigma militarizado. Essa é assim uma máxima que eu levo, claro alguns problemas surgem de ordem prática que até abalam um pouco esta minha afirmação. O Y. tem um trabalho bem interessante,

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que ele diz que a militarização é um problema sério, a que a questão da violação dos direitos do preso dentro deste modelo é menor que dentro do modelo dos agentes da SUSEPE. Não sei, não sei se existem dados corretos que possam levar a isso.

Enquanto paradigma, sou radicalmente contra

eu acho que esta lógica é bélica militar, este paradigma bélico, ele reforça este modelo de intolerância e reforça ainda mais uma situação de violência que já é específico da instituição. Acho que explicita mais porque se tem uma vantagem, a militarização é que deixa claro as relações de poder que tem a instituição. E outra coisa também não sei se diminuíram as violências, talvez não, talvez não tenham a publicidade que tinham antes é diferente, não sei se esta violência não esta encoberta ( ), talvez o modelo anterior era um modelo que aparecia mais a violência. O fato de aparecer mais a violência não sei se não é um bom indicativo, ao menos ela aparece. Parece que todo mundo está relativamente tranqüilo porque parece que não há mais violência. Ela existe mas acontece que ela não vem à tona.” (entrevista com o sujeito 05)

É,

A retirada da Brigada Militar da gestão do PCPA está prevista para o final de 2001 ou primeiro semestre de 2002.

Voltando aos aspectos de estrutura e funcionamento do presídio, como não existem cadeias públicas no Estado, o PCPA é a porta de entrada para presos da Região Metropolitana. Por exemplo, no ano de 1999 36 entraram, por motivos de transferência, mandatos de prisão e flagrante 5956 pessoas e

36 Os dados aqui apresentados são da fonte 01 documental- Relatório Anual da Chefia Operacional- Adminsitração Brigada Militar - SUSEPE/SL, 1999.

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saíram, por motivos de transferência ou liberdade, 6528. Aproximadamente 75% da população carcerária está presa provisória ou preventivamente. Os restantes 25% que por muito tempo permaneceram irregularmente condenados, desde abril de 2001, estão aos poucos sendo transferidos para outras Penitenciárias devido às reformas estruturais e radicais pelas quais passa o PCPA. Com essa reforma, as perspectivas giram em torno de que o presídio passe a comportar somente 1500 presos provisórios; que seja uma casa de passagem; que aconteça o fim das revistas íntimas e das galerias; que sejam criados lugares especiais para as visitas íntimas. A questão é que a história nos mostra que uma superpopulação vai remodelando a geografia da prisão e os espaços passam a ser vistos como mais uma vaga que estava faltando, e todos os outros projetos ficam num segundo plano.

O PCPA situa-se em um terreno de 9 hectares no Bairro Partenon, zona urbana de Porto Alegre. Sua arquitetura é simples e considerada de segurança média, conforme foto apresentada na próxima página. No período da pesquisa, quem transitava pela Rua Roccio não deixava de notar a imagem acinzentada 37 e as paredes laterais descascadas com as grades abarrotadas de roupas dos presos. Visto de frente, o Presídio apresentava um local em aparente ordem e sob controle. Já na Portaria Principal existia uma entrada à esquerda para os visitantes onde se encontrava em anexo a famosa sala de revista íntima. É importante ressaltar que, desde 1999, com a mudança de governo, a abolição da revista íntima se tornou compromisso político da SUSEPE. Contudo, as casas administradas pela BM enfrentaram resistências por não adotarem tais medidas por motivos de segurança. No ano da pesquisa (1999), o setor de revista apresentou um total de 11 ocorrências de apreensão durante as revistas, sendo quatro por porte de arma e as demais por porte de drogas. Tais dados revelam a insignificância do risco em relação ao processo de vitimização da violência pelo qual passam os familiares dos sujeitos presos.

37 É importante assinalar que, com a nova reforma, a fachada do Presídio está se modificando, bem como sua estrutura interna. Contudo a descrição feita é baseada no período da pesquisa de 1999 a 2000.

90

Quantos aos procedimentos da revista, foram selecionados trechos de uma entrevista com uma brigadiana, que descreve como ocorre tal experiência:

“Na masculina são os mesmos procedimentos, porém, feminina, canal vaginal, masculina não, né. O órgão é externo, a não ser o canal anal. Então como é que se faz, é o mesmo fato. Tira-se toda a roupa, faz-se os agachamentos e simplesmente faz aquela propulsão anal, se agacha pra fazer aquela força e depois se veste novamente, lógico depois de ter analisado o cabelo, dente, roupa, a língua e depois ele se veste e vai para a galeria para a visitação.Isso faz com que a droga e munição sejam temidas, mas não que seja sanada completamente, sempre vai existir. Tu pode observar em todos os presídios, foi encontrado tanto de droga e de cocaína, de maconha ou tantas munições. Isto existe e sempre vai existir, porém, a gente tenta prevenir o máximo que a gente pode, até mesmo porque nós não temos exame de toque, a gente não toca, a gente apenas visualiza. E tu sabes que canal vaginal é diferente de mulher para mulher, uns abrem bem, outros não abrem e então a gente não tem esse poder, a gente faz o máximo que a gente pode. E é certo que esse sistema não é um sistema 100%, mas a gente tenta o máximo pra prevenir.” (entrevista com sujeito 12)

Conforme informações obtidas recentemente em novembro de 2001, o PCPA finalmente colocou fim às revistas intimas, fato inédito na sua história.

Voltando à descrição do prédio, na sua direita há a entrada para trabalhadores do sistema penitenciário ou visitantes como advogados, voluntários, pesquisadores e outros. A recepção é uma incógnita. A cada

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semana que eu freqüentava o Presídio, era recebida com tratamento diferenciado, dependendo do humor e do rigor do soldado que estava na portaria. Caracterizava-se por um processo burocratizado de controle do documento, revista na bolsa e deixar alguns pertences como telefone celular. Somente para os funcionários do sistema e advogados o controle é menos detalhado.

Entre a portaria e o prédio existe um pátio de uns 100 m 2 com jardim bem cuidado e estacionamento para os carros oficiais. Todo terreno do Presídio é cercado por um muro de 3 metros de altura com brigadianos nas guaritas e cachorros da raça Rotweiller.

No alto da fachada do prédio principal está registrado em letras azuis:

“Presídio Central de Porto Alegre”. Na entrada, há um saguão que serve de nova recepção aos visitantes, em que se expõem os trabalhos dos sujeitos presos e que possibilita o fluxo do material (alimentação, higiene) de quem está no Presídio. Nesse saguão há uma grade de ferro que impede o acesso para dentro da cadeia. Um funcionário da segunda portaria de controle de entrada certifica-se qual é o destino da pessoa. Subindo as escadas, à direita, encontram-se dois andares com setores administrativos, equipe técnica, direção, subdireção, chefias etc. O primeiro andar dá acesso ao Hospital Penitenciário que possui Administração independente do PCPA e atende a toda a população doente do sistema penitenciário do Rio Grande do Sul.

Voltando à portaria central do prédio, no térreo, seguindo à esquerda encontra-se o setor de identificação- INFOPEN. É o primeiro local por onde o sujeito preso passa no Presídio. Ali são tiradas fotos, impressões digitais e é feita a verificação da ficha criminal - se tem outras ocorrências e o tipo de delito cometido. Próximo a esse setor está a cela provisória de triagem, sempre lotada, com capacidade para 25 pessoas, onde os presos permanecem em média 2 dias. Antes de serem encaminhados para alguma galeria, eles deveriam passar por uma avaliação psicossocial e jurídica. Isso, contudo, não acontece por falta de técnicos. Nessa avaliação, que vai ocorrer muitas vezes, uma semana após a entrada, são identificadas as necessidades do sujeito

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preso, como as de contato com a família, atendimento médico ou psiquiatra, material de higiene. Passando então por uma breve triagem da segurança, o sujeito preso é consultado se há alguma galeria em que não poderia permanecer por problemas de incompatibilidade de facções. Para aquela pessoa que é presa pela primeira vez não existe local diferenciado para ela permanecer.

A fala abaixo ilustra diferentes experiências de triagem:

“não acredito que as entrevistas de triagem que são

feitas podem ajudar muito o presos. Não vejo poder de

solução para os entrevistadores

sugerir uma ou outra galeria, evitar algum mal maior, de rejeição dos próprios internos (art.213 por exemplo) mas as coisas acontecem por osmose e não por interferência da triagem. Repito, acredito que não tem poder de solução. Se você tem algo para oferecer, dinheiro, influência, Q.I., você é bem recebido. Do contrário, pode servir de burro de carga, bode expiatório, até virar mulher. Tudo depende de como você chegar e se impor diante da nova vizinhança que vai viver contigo nos próximos

que pode ocorrer é

o

meses, anos

(questionário 315)

“a minha entrada foi péssima no atendimento pela guarda. Fui bem apoiado pelos presos” (questionário 071)

“a triagem ainda é obsoleta pois passa-se duas noites dormindo na laje sem comida sem apoio, de um modo primitivo” (questionário 898)

“triagem é péssima, suja sem condições. não é triagem é uma jaula fria. Não me lembro com que falei mas na certa com os brigadianos. Na galeria C1 foi péssimo, depois fui para a D3 excelente. Fui recebido

93

pelo plantão com dignidade e respeito é a melhor galeria de todo o presídio.” (questionário 534)

Retornando ao saguão do prédio principal, encontra-se uma nova grade que dá acesso a outras dependências do presídio. Na parte térrea caminha-se num longo corredor que tem, além de uma faixa amarela que delimita o caminhar dos sujeitos presos, uma tela que favorece a separação entre “eles” e os demais funcionários ou visitantes. Nessa trajetória pelo corredor observei, por diversas vezes, o processo de submissão a que é submetido o sujeito preso ao vê-lo obrigado a caminhar com os braços para trás e cabeça baixa como forma de respeito. Através desse mesmo corredor chega-se à escola 38 , cantina 39 , sala piloto 40 , ambulatório médico, refeitório dos funcionários, capela, sala da segurança, setores de trabalho, como a gráfica e Valorização Humana 41 .

Ao término desse corredor, ainda no térreo, à esquerda tem-se o acesso à cozinha, lavanderia, marcenaria e serralharia. Junto a esses setores de trabalho está o alojamento dos sujeitos presos trabalhadores.

Seguindo na direção contrária, nesse mesmo corredor secundário, tem- se acesso aos principais pavilhões que concentram a massa carcerária 1850

presos. O Presídio é formado por cinco pavilhões A, B, C, D, E, sendo que o primeiro está desativado desde 1995, período da interdição do Ministério Público. Nos pavilhões B,C e D existem 3 galerias em cada um, que abrigam entre 160 a 250 pessoas. Cada galeria corresponde ao andar inteiro com celas

38 No Núcleo de Orientação Educacional e Social NOES- é oferecido curso de alfabetização e preparação para os

supletivos de 1o e 2o graus. Os professores, em numero de 06, são oriundos da Secretaria da Educação e Cultura -

SEC. Também a escola oferece uma média de dez vagas no curso de computação.

39 Desde abril de 2001 a cantina passou a ser terceirizada, pois anteriormente apresentava várias irregularidades

fiscais na comercialização dos mantimentos por ser de responsabilidade da administração interna.

40 A sala piloto é um lugar especial com oito cabines para receber , em 15 minutos , familiares com problemas de saúde

ou que estão chegando ao presídio pela primeira vez. Nesses casos, é o preso que passa pela revista íntima depois da visita.

41 A valorização humana é um setor de trabalho que congrega: serigrafia, artesanato, escultura em pedra sabão e

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abertas (pois as portas foram destruídas) sendo isolada por uma grade grande na porta de entrada.

Na galeria D3 estão separados os presos que cometeram delitos que a “massa não perdoa” como crimes sexuais (art.213 e 214),travestis e delatores etc. Àqueles que não se adaptam em nenhuma galeria, na parte térrea existe uma cela provisória chamada “buraco”, antiga sala de costura de bolas.

O depoimento abaixo confirma a discriminação dos travestis:

“não deveriam ser presos homossexuais, travestis, se caso fossem condenados deveriam ser a penas alternativas, pois são poucos que não discriminam e aceitam essas pessoas como ser humano e os tratam com respeito” (questionário 685)

Os pavilhões, ainda que iguais na sua fachada e no cheiro forte de creolina, possuem estéticas diferenciadas entre as próprias galerias. Algumas são extremamente organizadas e limpas; as paredes são ocupadas com fotos de mulheres, mensagens de esperança sobre liberdade, fé e paz. Outras são escuras, sinalizando um ambiente frio e pesado.

Entre os pavilhões estão os pátios com campos de futebol de areia, que são freqüentados uma hora por dia por cada galeria, em torneios de futebol e dias de revista geral 42 .

No E1 e E2 próximo ao início do corredor e longe dos outros pavilhões estão localizados os presos trabalhadores e ex-policiais, que representam a minoria (270) e possuem maior acesso ao poder formal da administração. O sujeito preso trabalhador é considerado pelos outros como traidor. Por isso, caso seja desligado do seu setor de trabalho, lhe restam duas opções: tentar uma vaga em outro setor ou ser transferido de Presídio.

42 Durante o ano de 1999 foram feitas pela BM 205 revistas nos pavilhões em nível estrutural , onde se quebram paredes, vasos sanitários e, 311 em nível geral onde são revistados todos os pertences dos sujeitos apenados.

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O quadro a seguir ilustra a estrutura e a distribuição dos pavilhões:

ilustra a estrutura e a distribuição dos pavilhões: Fonte: Zero Hora, 15 de agosto de 2000.

Fonte: Zero Hora, 15 de agosto de 2000.

Não existe atividade fixa de cunho cultural e de lazer (além dos jogos de futebol). Ocorrem eventos que promovem aproximação com a família e comunidade, bem como a visita de alguns conjuntos musicais em dias de Natal e outras festividades. Há um auditório recém reformado mas que é pouco utilizado por questões de segurança.

Existia o Jornal Arpão (ver anexo 4), elaborado pelos internos trabalhadores do Presídio Central de Porto Alegre sob a Coordenação e Financiamento de Órgãos Governamentais (Ministério da Saúde e Secretaria Municipal de Saúde), no período de 1996 a 1998 e 2000-01. Com uma tiragem de 2000 exemplares, tornou-se um veículo de informação à massa carcerária na orientação e prevenção da AIDS e no uso de drogas.

Desde 1995 não há registros de motins e fugas. Aconteceram rebeliões isoladas e reprimidas, em alguns pavilhões, principalmente o B que está sob o

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comando do “manos”, que tradicionalmente não aceitam negociar ou pactuar com a Direção da Casa.

Segundo Relatório da Chefia Operacional da BM no PCPA, durante todo o ano de 1999, (ver anexo 3) ocorreram 08 tentativas de fugas frustradas. Em todas, os apenados serraram as grades e desceram as galerias com “jibóias” (cordas de pano), alcançando o pátio interno e sendo logo capturados. Durante o ano foi apreendida apenas uma arma de fogo na 3 a do B. Contudo, foram apreendidas 109 munições, sendo que 107 do Pavilhão B e apenas 02 do C. Houve um total de 245 apreensões de drogas, principalmente maconha. É um dado interessante registrar que, no pavilhão C e junto aos trabalhadores, não foi apreendido nenhum tipo de droga, enquanto no B foram 191 ocorrências e no D, apenas 54. Na apreensão do uso de materiais como forma de armas (trabuco, estoque, ferros, jibóias) o quadro se repete: 530 materiais no pavilhão B, no C, 173 e 117 no D. Nos outros setores não há registros.

A equipe administrativa - responsável pela parte burocrática da administração - como controle de pessoal, controle legal, controle de material é formada por profissionais da SUSEPE e da BM. A equipe técnica vinculada à SUSEPE é composta por técnicos: quatro advogados que fazem orientações jurídicas, três psicólogas e três profissionais do Serviço Social. No total, estão em média 15 funcionários da SUSEPE trabalhando dentro do PCPA. As atividades da equipe técnica giram em torno das demandas advindas da Triagem (contatos familiares encaminhamentos), pronto- atendimento - atendimento e acompanhamento psicossocial- apenas por determinação do Juiz da Execução Penal quando o parecer é desfavorável à progressão - avaliação das condições subjetivas para fins de Comissão Técnica de Classificação.

O acesso à assistência médica, jurídica, psicológica e social, ocorre da seguinte forma: a) para aqueles que são sujeitos presos trabalhadores, o acesso à equipe técnica e à guarda e mais facilitado. Já presenciei solicitação de consulta de um sujeito preso a um técnico no horário da refeição. B) para os que estão no fundo da cadeia, a comunicação se dá pelos bilhetes ou pela lista

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entregue através dos plantões de cada galeria à segurança. Na época da pesquisa, a demora para o atendimento levava, em média, 40 dias e, muitas vezes, o motivo para solicitarem o atendimento do Assistente Social ou psicológico era querer informações sobre a situação jurídica ou estabelecer contato com familiares. Na sala dos técnicos há um telefone com linha direta onde o sujeito apenado tem o direito de fazer contato com algum familiar em

situação de urgência. Há um telefone público dentro do presídio, mas o acesso

a este passa pelo mesmo esquema dos bilhetes para a segurança autorizar a retirada do sujeito de dentro da galeria.

Não existe refeitório dos apenados, como ocorre em muitos outros estabelecimentos prisionais. Os sujeitos que trabalham na cozinha levam três panelões até à porta de cada galeria e entregam, sem entrar no ambiente da galeria, para três apenados (chamados de “paneleiros”) distribuírem a comida. Os líderes (os prefeitos) das galerias geralmente têm seus próprios cozinheiros que produzem suas comidas separadamente. Segundo dados da pesquisa, a realidade referente à alimentação é a seguinte: 45,1% disseram que não consomem a comida da prisão, 39,5% disseram que fazem uma mistura com a sua própria alimentação e apenas15,4% disseram que consomem somente a comida oferecida.

Em relação ao que acham da alimentação da prisão, 57% dos apenados consideram a comida do presídio ruim; 28% razoável e 10% disseram que é melhor do que passar fome na rua. Somente 3% consideraram a comida ótima

e 2% boa. Entre os respondentes verificamos que 42% disseram que não,

somente 37% consomem alimentação da prisão, 6% fazem uma mistura com sua alimentação e 15% não responderam. Se forem agrupados aqueles que nunca consomem com os que fazem uma mistura, nota-se que 84,6% dos presos consomem alimento externo. Isso faz com que o comércio de alimentos movimente as galerias. Cada sujeito preso pode circular com R$40,00 43 semanais Nem todos conseguem ter acesso com facilidade à Cantina e possuem capital para armazenar alimento. Quem tem esse poder econômico

43 Dado atualizado em dezembro de 2001.

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favorece seu status e o poder de controle na galeria, pois acaba comprando na cantina ou recebendo produtos diferenciados dos visitantes e vendendo fiado por um preço muito superior ao equivalente do produto, o que se torna um mercado paralelo de circulação de bens alimentícios e de higiene.

O sujeito, ao entrar, deixa seus pertences (relógio, documentos etc) na administração e vai para a triagem com a roupa que tem no corpo. Lá dentro “tem que se virar” para conseguir produtos de higiene, pratos, talheres e roupa de cama. O setor de Serviço Social, quando recebe algumas roupas e produtos de higiene, distribui na triagem para o recém chegado. Há um costume de que, quando um sujeito sai em “viagem”- audiências com o juiz- ou em liberdade total, os outros podem usar os seus pertences na galeria, até mesmo aparelho de televisão. Isso faz com que o novato, quando chega sem nada, receba alguma ajuda material dos companheiros de galeria. O relato abaixo ilustra isso:

“chegou um moço sujo e sem sapatos com a roupa suja de sangue. Todos deram uma força para ele” (questionário 814)

Quanto à relação dos sujeitos apenados com o contexto externo, só é permitida a visita de parentes e “companheira(o)s” (mulheres que são casadas ou homens e mulheres que viviam junto com algum detento) dos presos. A entrada no presídio só é possível se a pessoa estiver no cadastro de visitas, tiver sua carteirinha e com sua situação em dia. Nesse cadastro constam os dados da pessoa, qual é o preso que ela vai visitar e se está permitida a sua entrada. Existem duas possibilidades para a visita não ser liberada: se o sujeito preso ou a segurança requisitarem.

O horário de visitas é organizado em duas vezes por semana, no sábado e domingo. Durante a semana, é permitido o recebimento de uma sacola por sujeito preso. Há uma lista de itens que são permitidos e as sacolas são todas minuciosamente revistadas, as embalagens são todas abertas e os conteúdos revistados. Enquanto a sacola é revistada, a visita passa pela revista íntima

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onde tem que se despir e fazer três agachamentos com as pernas abertas de frente e depois três de costas na frente de uma policial. Depois, a visita tinha que virar-se de costas para uma lâmpada e fazer o afastamento de suas nádegas para que a policial pudesse verificar se existiria a presença de objetos em seu canal vaginal. A visitante também tinha que sacudir seus cabelos, mostrar o interior de sua boca e ter suas roupas revistadas, não havendo contato físico com as policiais.

Outra regra a ser respeitada, por questões de segurança, é que as visitas não podem usar roupas com cores semelhantes aos uniformes da brigada, militares e dos presos trabalhadores. Depois de passar por todos esses processos, a visita é liberada para ir para a galeria do sujeito preso que visita, onde pode ficar até o fim da tarde, sem a supervisão de ninguém da segurança.

A visita de crianças só é permitida em quatro dias determinados, por mês. As crianças são despidas e revistadas pelas mães ou responsáveis sob a inspeção de alguém da segurança e depois são liberadas para acompanharem suas mães à galeria.

O setor de visita é muito burocratizado, tudo é registrado em livros específicos e no computador. Há um rodízio diário dos funcionários deste setor nos postos de revista de sacolas, de pessoas, conferência e confecções de carteirinhas. O único cargo que é fixo é o de coordenação e supervisão que é exercido por uma sargento. Os outros cargos são ocupados por cabos, soldadas e agentes penitenciárias.

Na pesquisa realizada entre os apenados, 58%, recebiam visita semanalmente; 12%, quinzenalmente; 8% raramente, 6%, mensalmente e 10% não recebiam visitas. Houve um índice de 6% que não responderam. Especificamente em relação a visitas íntimas, 49% dos respondentes disseram que recebiam, 37% não, 7% raramente e 7% não responderam. Como informações de pesquisa adicionais, para 69% dos apenados, a parceira sexual era sempre a mesma e para 12%, não. Houve 19% de não respostas.

100

Das pessoas que mais fazem visita aos sujeitos apenados, 50% são as companheiras e, em segundo lugar, 22% os parentes, seguidos das mães com 21%. Apenas 4% das visitas são do pai. Considerando a freqüência das visitas, a companheira apresentou 88,9% de freqüência, posteriormente apareceram os parentes e amigos (45%), seguidos da mãe com 37, 5% e, por último, o pai, com somente 7,9% de freqüência.

A média diária de visitas a apenados do PCPA, em 1999, foi de 900 pessoas, mensalmente, 10139 pessoas e anualmente circularam como visitas nesse estabelecimento 121.667 pessoas 44 . Segundo o mesmo relatório, o número de presos que em 31/12/99 recebia visitas era de 1097. Imagina-se o processo de organização interna dos sujeitos presos nas galerias e dos funcionários para receber esse número significativo de pessoas mensalmente. No que tange às correspondências, foram encaminhadas, pelos sujeitos apenados, 8730 cartas e recebidas 18620 durante 1999. Observa-se, com esses dados, que a relação com o mudo exterior é dinâmica e constante e atinge grande parte da população, descaracterizando a idéia totalizante de que as pessoas, ao serem presas, são abandonadas socialmente e que a instituição prisional, por ser total, caracteriza-se pelo seu isolamento com o mundo exterior conforme nos indicou GOFFMAN (1987).

2.4 Caracterização dos Sujeitos que Compõem os Diferentes Grupos

Os dados aqui apresentados foram coletados através dos questionários aplicados, conforme falado anteriormente 45 . Ao caracterizá-los, não se tem a intenção de criar um perfil ou padrão criminológico dos sujeitos que habitam a prisão. Mostra-se como estudo exploratório das variáveis que configuram os sujeitos desse lugar. Sabe-se que muitos dados merecem aprofundamento em estudos posteriores e podem servir de novos objetos de investigação.

44 Dados fornecidos pelo Relatório Anual da segurança do PCPA- Brigada Militar. Anexo 03.

101

O depoimento abaixo demonstra a preocupação de definir, com o que concordo plenamente, que não há uma identidade grupal, mostrando o risco de qualquer homogeneização, bem como o uso das informações que podem ser passíveis de generalizações .

“É difícil falar assim, genericamente, em

relação aos presos, (

erros que eu acho que em geral se comete é quando nós imaginamos que entre os encarcerados exista uma identidade. As pessoas que estão de fora, elas tratam dos presos como se eles tivessem alguma coisa em comum, quando na verdade além do fato de serem normalmente pobres, jovens analfabetos ou semi-alfabetizados, quer dizer, os presos brasileiros têm pouco a ver entre si, têm pouco em comum entre si. Tu pegas um sujeito condenado por estelionato, art. 171 do Código Penal, um sujeito condenado por não pagar pensão alimentícia para esposa ou para o filho, um sujeito condenado por consumo de drogas, art.16 do Código Penal, um sujeito condenado por tráfico, art.12, um sujeito que cumpre pena por homicídio, art. 121, um sujeito que tá na cadeia por estupro, art. 213, quer dizer, tu pega cada um desses tipos penais, o que salta aos olhos é o seguinte: não há nada em comum entre eles, e as pessoas que estão lá são pessoas muito distintas entre si. E também como há uma grande rotatividade nos presídios, quer dizer, há uma entrada freqüente e uma saída de presos ou em liberdade condicional ou por finalizar sua sentença ou por progressão de regime” (entrevista com sujeito

4)

)

porque um dos grandes

102

OS FUNCIONÁRIOS

Dos funcionários pesquisados, 92,6% trabalhavam na área da segurança e 41,5% estavam trabalhando entre 2 a 6 meses. O pouco tempo de permanência é decorrente da política funcional da força tarefa. É de praxe a rotatividade, pois trabalhar no PCPA, além de não ser atribuição dos mesmos, representa um ganho de 100% sobre a salário advindo das diárias. Ou seja, representa uma oportunidade pela qual vários brigadianos querem passar. A breve passagem pelo sistema penitenciário é um ponto favorável contra a corrupção e o estreitamento de vínculo entre guardas e presos. Não existe critério explícito para escolher quem vai trabalhar no PCPA, é por indicação ou solicitação. A maioria é proveniente do interior e 48% tinham idade entre 26 a 35 anos e 83,3% eram casados. Quanto à escolaridade 45,8% possuíam o 2 o grau completo, entretanto 93,9% não estavam estudando na época. Isso revela a falta de formação específica para o trabalho no ambiente carcerário. Mesmo assim, somente 13,3% disseram que se sentiram estigmatizados depois que passaram a trabalhar na prisão e apenas 26,8% tinham outros projetos profissionais para não trabalhar mais naquele local. Quanto ao entendimento de pena, identificou-se uma perspectiva “dura” de execução, já que 51,4% manifestaram-se a favor da pena de morte, indicando-se 29,6% para estupro, 25,9% para crimes hediondos e 27,8% nos casos de latrocínio.

Quanto às condições de trabalho, 41,1% dos funcionários opinaram que precisam de atendimento psicológico e dentre os motivos estão: 17,2% consideram importante para atividade e 13,7% passam por momentos difíceis - “não enlouquecer”. Apenas 2,4% afirmam que ficaram dependentes depois que passaram a trabalhar na prisão e 9,9% já fizeram algum tratamento de saúde após a entrada na prisão.

OS SUJEITOS APENADOS

Dos apenados, 48,6% eram jovens com menos de 25 anos e 77% tinham procedência da zona urbana. Quanto ao estado civil, 62% possuíam

103

algum tipo de cônjuge, 29,1% eram solteiros e 7,9% divorciados, separados ou viúvos. Quanto ao número de filhos, destaca-se que 66,3% já possuíam dois filhos. Em relação ao nível da escolaridade, 77,8% tinham o 1 o grau incompleto, sendo importante considerar que esse dado é aparentemente alto em relação aos dados gerais da população brasileira. Por outro lado, o fato de o 1 o grau significar da 1 a à 8 a serie (níveis muito diferenciados de aprendizagem), o dado não permite fazer uma inferência real de qual a escolaridade. Entretanto, comparando-se com outros relatórios gerais do sistema penitenciário do Rio Grande do Sul, identifica-se simetria no índice.

Os sujeitos respondentes indicaram que 70,4% estavam presos entre um mês e um ano. A alta incidência de pouco tempo de permanência diz respeito à natureza do estabelecimento e 52,3% já foram presos mais de uma vez. Nesse dado, confirma-se o alto índice de retorno ao sistema prisional, não necessariamente representando reincidência do delito praticado.

Dos delitos praticados apareceu uma freqüência 9% estelionato, 10% lesões corporais, 18% furto, 11% crimes sexuais, 18% roubo, 14% homicídio e 20% tráfico de drogas. 46

É significativa a informação de que 83,1% estavam morando com a família antes de serem presos, 10,5% estavam sozinhos, 6,4% moravam com outros (na rua, casa de amigos). Isso desmistifica a idéia totalizante de que os sujeitos que estão presos têm uma trajetória de abandono social, pois 66,4% disseram que foram criados pelos pais, 30,2% somente por um dos pais ou parentes e apenas 3,4% disseram que tiveram passagem pela Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem). Por outro lado, verificou-se um índice de experiência no trabalho infantil, pois 48,8% começaram a buscar o próprio sustento antes dos 14 anos, 41,7% entre os 15 e 17 anos, 9,3% depois dos 18 anos e 0,3% disseram que nunca trabalharam. Além disso 61,7% indicaram que o sustento vinha do trabalho como autônomo ou fazendo biscates, 35,2% com carteira assinada e 10,2% através de atividade ilícita.

46 Essa informação foi atualizada em dezembro de 2001 conforme relatório mensal da BM

104

Ainda na questão profissional, é interessante destacar que, dos que foram presos pela primeira vez, 63% indicaram que estavam trabalhando sem carteira assinada, revelando-se um alto índice de vinculação ao trabalho informal. Entre os que já foram presos mais de uma vez, aumentou para 71% o número de sujeitos presos trabalhando sem carteira assinada. É interessante notar que os sujeitos apenados não se enxergam como um grupo de desamparados sem função profissional, pois 83,7% disseram possuir algum tipo de profissão, concentrando-se mais na área da construção civil (pedreiro e servente), e por conseguinte, na área do comércio informal 68,1% assinalaram que estavam trabalhando, principalmente no mercado informal, quando foram presos. Quanto ao envolvimento de algum membro da família com delitos, 23% disseram que possuem algum tipo de familiar envolvido com a justiça.

É semelhante aos dados nacionais o índice de pessoas com problemas de alcoolismo, pois 15,5% disseram que eram dependentes de álcool antes da prisão e 11,2% eram dependentes de outro tipo de droga (prevalecendo maconha e cocaína). É significativo o índice de retorno ao sistema àqueles que se disseram dependentes, pois 52,9% já foram presos mais de uma vez.

Quanto à assistência a que os sujeitos presos em geral tiveram acesso, os setores jurídicos - 79,5% - e social - 89,9% - foram os que com mais freqüências apareceram.

Em relação à assistência à saúde, 80,7% indicaram que nunca fizeram tratamento e/ou tiveram acesso ao setor de saúde na prisão. Quanto ao fato de adoecer na prisão, 17,4% disseram que contraíram algum tipo de doença dentro do PCPA; dentre essas, destaca-se a incidência de doenças respiratórias como tuberculose, pneumonia, as doenças de pele, doenças sexualmente transmissíveis e doenças emocionais. Em relação aos dados nacionais identifica-se um número baixo de doenças adquiridas, contudo se for considerar-se o pouco tempo de permanência e a grande circulação das pessoas, tal índice torna-se significativo. Em relação à AIDS, 86,5% disseram que não estão com HIV, 8,5% disseram que talvez sim, mas não têm coragem de fazer o teste e 5,0% afirmaram que estão com o vírus. Se unirmos os que

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afirmam com os que estão em dúvida o índice passa para 13,5%, o que representaria, em cada galeria, contendo uma média de 250 presos, existirem de 25 a 30 pessoas com HIV. Para o grupo de funcionários pesquisados, quanto a essa questão, entre as doenças que mais assinalaram junto aos presos destacam-se 39,2% AIDS, 24,6% tuberculose, 16,4% dependência química e 19,9% outras.

Nos grupos de discussão junto aos líderes das galerias e funcionários esse índice foi referendado. Importante destacar que 5,1% dos que disseram que ficou dependente de drogas depois que entraram para a prisão, 18,9% já eram dependentes de álcool e 66% já foram presos mais de uma vez. Nessas informações pode-se inferir a correlação existente entre dependência química e vulnerabilidade aos processos de criminalização e punição.

Quanto à assistência educacional, trabalho e religião, ou seja, atividades ocupacionais, verificou-se que 87,9% não estavam estudando dentro do PCPA, 70% não praticavam nenhum tipo de religião e 63,1% disseram que não estavam trabalhando.

Os sujeitos presos indicaram como principais responsáveis pela falência do sistema e falta de assistência: 59,9% a SUSEPE; 28,4% o Poder Judiciário; 16,2% o Ministério Público; 9,7% a Administração dos Presídios e 6,0% os próprios sujeitos presos.

Já para o funcionários, o principal responsável apontado pela crise no sistema penitenciário do Rio Grande do Sul foi, com 49,4% de indicações, a SUSEPE. 27,3%, os próprios presos; 10,4% o Poder Judiciário e 7,8% o Ministério Público. Para 79,5% dos funcionários, o PCPA deveria continuar do mesmo jeito, sem solução e 19,2% dos pesquisados indicaram que deveria ser desativado.

106

2.5 A Dinâmica de Interação dos Grupos

Todo e qualquer grupo organizacional tem características singulares na sua dinâmica de funcionamento. O que se torna peculiar dentre os grupos do PCPA é que estão inseridos dentro de uma organização que, por sua vez, assume uma dinâmica de regulação interna rígida em função da interação das forças existentes dentro dos próprios grupos nele inseridos. Ou seja, as forças existentes dentro da organização do PCPA influenciam a dinâmica de seus diferentes grupos e, por outro lado, os pequenos grupos com suas diferentes forças também afetam a dinâmica organizacional.

Geralmente a composição dos grupos que configuram o universos prisional é dividida em quatro setores (THOMPSON, 1976): direção e chefias, guarda, terapeutas e os presos. Contudo, no PCPA, dentro dessas quatro categorias, se multiplicam vários tipos de grupos que são muitas vezes antagônicos em seus funcionamentos. Além disso, pelo fato de a organização não estar fechada em si mesma, novos sujeitos, além dos presos, inserem-se cotidianamente no PCPA, advindos de outras esferas do sistema punitivo ou sociedade civil: Ministério Público, pessoal da SUSEPE (Segurança, engenharia prisional), Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, grupos de voluntários de vários tipos (religiosos, terapêuticos, assistenciais).

Quanto à direção e seu estafe é formada somente por militares, desde a intervenção da força tarefa de 1995. Nesse período de seis anos passaram 7 diretores e várias chefias de segurança e operacionais. Observando a trajetória das direções, notam-se diferentes estilos da gestão militarizada, que definiu-se em três fases:

a) linha “dura” 1995-97: quando a direção fez uso de muita violência física e muita repressão. A fala de um ex- apenado ilustra muito bem como foi esse período:

107

“quando a BM chegou para assumir os presídios, veio com todo o gás, pois chegou de

madrugada e como uma operação de guerrilha dois dias antes do prazo, com forte aparato policial e bem

armados, fizeram uma tomada de assalto(

deram a mínima chance aos agentes penitenciários saírem de cabeça erguida, pois a grande maioria foi botada a correr com o rabo entre as pernas, e

aqueles que pediram para ficar estão assim até hoje. Apesar de desconhecerem o serviço a Brigada começou bem, pois comanda em estilo militar e com

fizeram da cadeia um quartel e os

o pulso forte(

pontos conquistados por eles não se pode negar pois a corrupção diminuiu muito”. (fonte 02-

depoimento de ex-apenado)

)

Não

)

b) linha estratégica e de negociação 1997-2000 nesse período foi quando se instalou institucionalmente a facção como elemento na política de funcionamento. Reuniões com as lideranças, acordos, privilégios. Surge a figura do “Brasa”. Fortalece-se o poder de oposição dos “manos” nas outras casas prisionais. É estratégico manter o dissenso entre os sujeitos presos, porém fortalecer os grupos que se vinculam aos valores e hábitos da brigada, como disciplina, ordem, limpeza. Essas eram características das galerias do pavilhão C. O que eles ganhavam em troca? A família era bem tratada, havia diferenciação na revista íntima, respeito ao tempo legal e possibilidade de parecer favorável da segurança na progressão de regime ou livramento condicional. A entrevista abaixo ilustra as diferentes formas de tratamento com os diferentes grupos de presos e essa fase de negociação:

“Porque no C o pessoal é bem vinculado, ( ) porque no B é um problema. No B é justamente o

108

tipo de delinqüente que comanda a galeria (

)

e a

política deles é não aceitar nada da Brigada. Eles

não querem se vincular. Quer ver, eu chamo um pessoal da primeira, da Segunda do B e qualquer uma das três do D. Eu chamo aqui para conversar com eles. Eles chegam aí apertam a mão, tomam cafezinho(grifo meu). Se eu chamar aqui a prefeitura da terceira do B eles já vêm, mas já vêm se encolhendo. Chamou eles respondem o que tu perguntar, eu ofereço um café eles não querem. Não

aceitam nada, faço um jogo agora, eu chamo (

eu não estender a mão para apertar a mão deles,

eles não estendem a mão.Para não criar este

) se

vínculo (

).(

)

para saber como é que funciona, só

observando (

)

Só na prática para aprender, se eu

começar a escrever ninguém vai entender.”

(entrevista com sujeito 02)

c) linha austera e burocratizada 2000-2001 caracteriza-se por uma das dificuldades em lidar com os órgãos externos, burocratização e controle de todos os movimentos e ações de cada pessoa que entra e de quem trabalha. Por exemplo, o setor técnico - Assistente Social ou Psicólogo - não tem trânsito livre para se aproximar do ambulatório, como acontecia antigamente. Num ato de ousadia, a direção dessa gestão tentou colocar fim nas facções. Inicialmente, deixou o PCPA sob o comando dos “brasas”, posteriormente retirou essa a liderança “Brasa” e enfraqueceu todas as outras. Houve uma pressão externa para que a gestão concedesse espaços para os diferentes tipos de facção. É incrível constatar-se que o abaixo-assinado dos representantes do “manos”, querendo reconquistar os seus espaços até então legitimados, foi mediado pelo representante do Ministério Público e Direitos Humanos.

109

Em meados de 2001, o PCPA começou uma reforma geral na sua estrutura física, fazendo com que grande parte dos condenados fossem transferidos. Isso fez com que o número de pessoas condenadas diminuísse a ponto de dificultar a organização das facções, pois a rotatividade dos apenados era alta.

Quanto ao grupo dos terapeutas, é um grupo em minoria, quase em extinção. Desde o Governo anterior, que implementou o plano de demissões voluntárias, o número de técnicos foi reduzido pela metade. Há também uma alta rotatividade dos profissionais. Nesse grupo encontram-se as equipes de Assistentes Sociais, Advogados, Psicólogos, Professores, Médicos e Enfermeiros que se dividem em setores isolados chefiados pela brigada e que muito pouco se comunicam entre si. Além disso, há muita discrepância dos diferentes cargos que assumem em relação às funções. Como exemplo, pode- se citar que, dentro da equipe de Assistentes Sociais, há profissionais com as mesmas atribuições percebendo salários entre R$600,00 e R$2000,00. Nos demais setores técnicos, a situação se repete. Os setores jurídicos, educacional e o ambulatório são os mais procurados e que mais são alvo de reclamações. Apesar de pouco freqüentado, por problemas de espaço e segurança, o setor educacional é o setor em que os apenados mais têm proximidade devido a sua autonomia (está mais isolado da administração e próximo dos presos trabalhadores, perante o poder formal do Presídio). O setor jurídico e o da saúde são os mais solicitados pela massa e a grande queixa recai sobre a área médica pela falta de médicos e medicamentos. Atualmente, o PCPA está sem infectologista. A falta de profissionais, juntamente com a demanda reprimida, faz com que paire no clima organizacional das equipes uma postura fatalista. A vulnerabilidade a que estão expostos, ao estilo do comando da BM versus as orientações técnicas da SUSEPE, fez com que os técnicos passassem por diferentes fases no trabalho desenvolvido, além da dificuldade de atender a dois poderes distintos que muitas vezes não se comunicam.

110

As incertezas do comando da Brigada reproduzem-se no processo de trabalho das equipes. Por exemplo, na segunda fase da gestão da BM os técnicos da CTC eram tratados hierarquicamente no nível de assessoria e suas idéias e opiniões eram respeitadas e muitas ações eram planejadas em conjunto. Atualmente a relação ocorre nas reuniões de CTC onde cada técnico juntamente com o responsável pela segurança deve opinar quanto à progressão de regime ou livramento condicional. As equipes por áreas raramente planejam e avaliam o trabalho desenvolvido como um todo, o argumento é a falta de tempo. Em cada área há um técnico responsável, escolhido pela BM, que faz a comunicação e medição com o comando e demais setores.

O grupo dos sujeitos presos pode ser dividido em trabalhadores e não trabalhadores. Os que trabalham na cozinha possuem dormitórios anexos. Os demais ficam no pavilhão E. Para a “massa”, independente de facção, ser trabalhador é se vender ao poder formal, é aceitar as regras dos que dominam formalmente o sistema. Os sujeitos presos trabalhadores passam a ter maior acesso à vida administrativa da cadeia e, em contrapartida, são mais controlados. Por outro lado, possuem possibilidades de ter seus direitos à progressão e remissão atendidos. Quando são transferidos para o regime semi-aberto passam a ter problemas de segurança. Nos regimes semi-abertos não existe dentro de um estabelecimento a mesma divisão de um regime fechado. Eles estão mais sob o comando das facções. Por exemplo a CPA- Colônia Penal Agrícola está sob o comando do “manos”, o Instituto de Mariante e Casa Miguel Dario estão sob o comando dos “brasas”. Porém, o regime semi- aberto não está estruturado para atender a essa pesudo-individualização, o que se tornou um fator motivador dos altos índices de fuga que vêm acontecendo nesse regime.

Para ilustrar o assunto, segue um trecho de um depoimento de um ex- preso trabalhador, para demonstrar como é explicitada a diferença entre eles. Na fala abaixo, pode-se ver o quanto eles se diferenciam:

111

“neste lugar, do portão para dentro, vale mais aquele que tiver assaltando mais, roubado mais, ferido ou matado mais gente. Aqui todo aquele que chega se diz ser inocente, tudo o que é dele é de todos, pois não importa se na rua foi bom chefe de família, trabalhador, aqui isso conta como ponto negativo, o homem assim na massa ninguém considera. E são excluídos da massa carcerária, ainda mais se não usar drogas, aí então é que vão pegar no seu pé chamando de otário e de careta( ) alguns costumam me chamar de tabacudo, o mesmo que grosso” (depoimento fonte 02 ex-apenado)

Por outro lado, a auto-imagem que alguns sujeitos presos não trabalhadores têm da “massa” reforçam a imagem que os sujeitos presos trabalhadores têm “deles”, conforme os dados abaixo:

“ infelizmente o que eu vou comentar não é nada favorável aos presos. Porque o preconceito vem dos próprios presos, da parte dos nossos colegas como inveja e ciúmes. porque o índice de pessoas sem princípio e educação dada pelos pais é grande. Resumindo, a maioria dos que são responsáveis por galerias são analfabetos e ignorantes e se julgam superiores aos outros. Por não terem ninguém, nem família, nem mulher, se tornam amargos e estúpidos. infelizmente esses são os que mandam nesse lugar.” (questionário 256)

Porém, verificou-se através da pesquisa que, na opinião dos sujeitos presos pesquisados, para a maioria dos que estavam na cadeia, ou seja, 53,1% achavam que foram vítimas da sociedade, 30,9% eram viciados e apenas 15,7% eram bandidos. Em outra questão, quando se perguntou o porquê de eles estarem presos, 40,2% disseram que estavam na prisão por

112

uma fatalidade, 27,5% porque foram vítimas da sociedade, 25,5% por um erro da justiça, 2,4% porque se consideravam uns marginais e 2,4% porque se consideravam malandros.

Os dados evidenciaram discriminação junto aos homossexuais e aos presos que cometeram delitos referentes aos artigos 214 (abuso sexual) e 213 (estupro), e uma valorização daqueles que infringiram os artigos 157 (assalto) e 12 (tráfico de drogas).

A LEP estabelece que os sujeitos presos deveriam ser separados, na execução da pena, levando em conta o tipo de infração praticada, o tipo de crime praticado. Pelos critérios legais não se poderia ter, no mesmo espaço, presos que praticaram, por exemplo, latrocínio e presos que furtaram. Quer dizer, crime contra a vida e crime contra o patrimônio não poderiam estar num mesmo local de convivência. Nos grandes presídios brasileiros, como foi visto no Capítulo 2, entretanto, a regra para separação de presos nunca foi essa, por conta da superlotação. Quer dizer, estabeleceu-se uma prática naturalizada pela própria organização do sistema, de se separar os sujeitos presos por conta de pertencimento a grupos rivais. Deve-se evitar, tanto quanto possível, e no Presídio Central tem sido assim ao longo dos anos, no alojamento dos presos, que estejam no mesmo local presos que têm rixas entre si ou que pertençam a grupos diferenciados. Então, no Presídio Central, em cada galeria, existem sujeitos presos que têm uma convivência firmada por laços anteriores, de participação no próprio crime. A própria distribuição dos sujeitos presos emerge da tentativa de evitar que haja confronto e morte entre eles, e acaba também produzindo uma organização criminosa dentro da cadeia.

Assim, cada galeria, cada pavilhão, reproduzia essa diferenciação. Existiam no PCPA, na época da pesquisa, três diferentes facções. Uma vinculada ao sujeito preso chamado Brasa, sendo então, „a turma do Brasa‟; a turma dos “manos”, que eram os sujeitos presos contrários às negociações ou pactos com os sistema (guarda/direção) e, por fim, “os abertos”, que não pertenciam a qualquer comando.

113

A dinâmica dos grupos, independente das facções, formada pelos sujeitos presos pertencentes à massa, apresenta as seguintes variáveis:

papéis, rede de comunicação, regras de convivências e punições e lideranças.

Os papéis formais:

a) os plantonistas- em média são 3 sujeitos presos. Revezam-se nas 24h para o controle da galeria. Quando há qualquer necessidade de comunicação, chama-se o preso de plantão. b) jurídico- prestam atendimento, fazem petições, dão informações e servem de mediadores com o Setor jurídico da casa. c) paneleirossão em média 3 e servem as refeições dentro das galerias. d) faxineiros- são os responsáveis pela limpeza geral da galeria- corredor, banheiro das vistas etc. Trabalham principalmente no dia anterior aos dias de visita.

Os papéis informais:

a) o prefeito - que é o líder e em algumas galerias não se identifica. É o sujeito preso que mantém o controle de quem entra e de quem sai, que media os conflitos e impõe as regras. Quase sempre esse líder está vinculado ao crime organizado das periferias da região metropolitana. b) os robôs - são os presos que se deixam influenciar por aqueles que detém o poder de liderança e persuasão. Aparentam estar no comando, mas quase sempre são controlados por um sujeito discreto e misterioso. Fazem o que lhes for mandado, por exemplo, esfaqueiam, brigam, vingam-se etc. c) os laranjas - são aqueles que assumem os atos pelos outros. Quase sempre possuem uma dívida com as lideranças e, como forma de pagamento, acabam assumindo assassinatos, brigas, agitações perante a BM. d) as mulas e aviões - são tanto visitantes como presos que têm facilidade de circulação na cadeia e acabam fazendo o movimento das drogas e da comunicação entre as lideranças.

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A entrevista descrita, a seguir, caracteriza a dinâmica desses papéis:

“Esse grau de associação ou de afinidade era o que dividia as pessoas dentro do Central. No passado houveram outras facções, que eram rivais. Em cada galeria, eles têm o plantão de galeria ( As prefeituras que eles chamam, que é uma pessoa

indicada prá representar os demais. Mas essa representação de galeria, dificilmente o plantão de galeria é na verdade a liderança da galeria. O mais provável é que o plantão seja alguém que tenha um mandato conferido pela liderança prá fazer o meio de campo, mas a liderança ela se protege, não aparece na condição de plantão. Eu vejo isso muito facilmente quando a gente reúne, por exemplo, os plantões no Central, várias vezes eu fiz reuniões com eles lá; então eles trazem as demandas e levam as demandas, mas eles nunca decidem, nunca tomam decisão pelos outros, porque eles não têm essa possibilidade, não são líderes efetivamente, eles são prepostos das lideranças. É uma forma que eles encontraram também de se proteger, porque normalmente nos presídios quando aparece alguém que assume a condição de líder, essa pessoa é embalada, como eles chamam; quer dizer, é transferida para outra casa, enfrenta uma série de represálias por parte da administração, então as lideranças de fato, efetivas, elas atuam, digamos

das galerias, e ali dentro

assim, nos bastidores (

rola tudo. Quer dizer, nem se sabe plenamente o que acontece, porque a administração prisional pára na grade de acesso à galeria. O que ocorre ali

)

115

ninguém efetivamente sabe, eles é que sabem ( ).” (entrevista com sujeito 04)

A rede de comunicação:

A rede de comunicação reflete como os grupos no PCPA se estruturam, como os papéis são assumidos pelos presos e como os mesmos atuam para

reprodução dos padrões que potencializam a violência da prisão ou favorecem

a mudanças deste. O padrão verbal, dominante nas relações em geral dentro

do PCPA, concorre com outros níveis de comunicação, por exemplo, o corporal, o gestual e o verbal informal, através do uso de uma linguagem própria. Pode-se citar o silêncio como uma metacomunicação que não é falada mas que sua carga pode ser sentida quando condensa o clima de violência nos diferentes grupos dos apenados.

Como esses não apresentam espaço interno para que os sujeitos possam participar, contra-argumentar, enfim, serem autônomos e se comunicarem em todos o níveis, torna-se inevitável a alta incidência de redes informais e paralelas aos diferentes processo grupais, esvaziando com isso suas forças internas de coesão dentro da organização do PCPA como um todo

e a predisposição dos sujeitos e grupos diferentes interagirem sem fazer uso da coerção.

As regras de convivência e liderança:

Os critérios de divisões entre os grupos e as regras de convivência são rígidos e severos quanto ao seu cumprimento. Segundo os funcionários pesquisados, 60% confirmaram que os presos são solidários entre si e 83,3,2% achavam que os presos são unidos por um “código de silêncio” com regras bem definidas; e 90,5% indicaram que existe um “código penal” entre os mesmos.

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O mesmo foi indicado pelos presos, em que 72% afirmaram que os presos são unidos por um “código de silêncio” e 55% disseram que existe um “código penal” entre os mesmos.

Por isso, torna-se importante destacar algumas regras de convivência e punições mais assumidas dentro do PCPA:

a) não cobiçar a família, pois é sagrada, algo intocável. Mesmo um preso

que não seja respeitado ou considerado pelos demais, tem sua família respeitada. Ninguém pode dirigir a palavra, olhar ou perturbar a visita se não for autorizado. Quando um familiar passa por um preso desconhecido, esse último deve baixar a cabeça em sinal de respeito;

b) não mentir, pois o valor de uma palavra tem alto preço e muitas vezes é

selada com a própria vida ;

c) não “vassourar”, pois apropriar-se de um objeto de outro preso não é considerado roubo, pois quem rouba de ladrão é considerado “vassourão”. Se alguém “vassourar”, corre o risco de sofrer sérias punições, que vão desde agressão verbal, física até a morte dissimulada como suicídio (enforcamento ou picadas de seringa);

d) não intrigar através de fofocas, pois é o que mais desarticula a união do

grupo. São chamados de “chavequeiros” ou “dedo-duros” aqueles que semeiam brigas e discórdias entre os presos. Quando são desmascarados,

ficam marcados por esse rótulo.

No depoimento abaixo, pode-se evidenciar as regras de convivência e a forma de responsabilização e enfrentamento dos “desvios”:

“Esta questão aí é natural numa galeria de 300 presos, que vivem lá dentro, eles têm que se organizar. Eles se organizam, têm as lideranças, têm as suas normas, têm as suas regras, é natural para o ser humano, e acontece aqui no Presídio Central,

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têm seu código penal, têm suas normas, cada grupo se organiza, uns se organizam melhor de acordo com o perfil da liderança e outros são mais desorganizados, até pela própria higiene a gente verifica quais são os mais organizados, mas isto aí é uma coisa assim que é natural, é do próprio grupamento humano. E lá no fundo também as próprias galerias embora elas sejam localizadas lá no fundo, elas têm características próprias. E estas características elas variam de grupo para grupo, e veja assim, reflete um pouco lá de fora, como é dentro da sociedade com determinados bairros têm determinadas características, isto vem junto para cá.” (grupo de discussão BM)

Foi possível, portanto, constatar na pesquisa que os diferentes grupos (presos e funcionários) no PCPA, assim como microorganizações, contêm particularidades que tornam singulares e autônomos seus funcionamentos, mas também dependem e influenciam a Organização através das forças existentes no interior desse grupo. Contudo, a dinamicidade das forças grupais do PCPA se espelha num paradigma de relações orientadas pela e na violência, pois se desenvolve numa arena onde as experiências dos grupos se movimentam através do e para o conflito. Os grupos acabam não tendo recursos suficientes para atender a todas as necessidades internas e a todas exigências externas. Sempre haverá limitações de tempo, de recursos e principalmente de liberdade de ação e expressão. Embora os conflitos possam ser diminuídos através de diferentes estratégias (repressão, ameaça, prêmio), as soluções quase sempre são acompanhadas por novas tensões.

Foi identificado que a capacidade de adaptação e reprodução da violência é o que torna os diferentes grupos da prisão passíveis de sobrevivência, isto é, quando os recursos são eliminados pela escassez ou falta de recursos humanos e materiais como higiene, medicamento,

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alimentação, surge uma capacidade de auto-organização que expressa, nesse sentido, diferentes modulações da violência.

Seguindo a ótica de MORGAN (1996), ao analisar-se a organização do PCPA a partir de imagens metafóricas, foi possível identificar-se vários tipos de metáforas que se entrecruzam. Inicialmente o PCPA, em sua trajetória, tem como forma marcante de organização, principalmente a partir da gestão da BM em 1995, um processo mecânico de funcionamento, ou seja, organizava-se através do autoritarismo, da mecanização do tempo, do controle das atividades e dos movimentos das ações, através do uso da burocracia, da vigilância e da força. Os movimentos eram reprimidos de todas as formas- verbal e física- e ocorriam principalmente através de ofícios e listas com nomes que passavam por uma estrutura verticalizada.

Identificou-se também a metáfora do cérebro, estrategicamente de forma sábia, ocorrendo mudanças nos mecanismos de controle e poder. Esse se torna mais flexível, articulando-se entre os diferentes tipos de grupos, complexificando mais as relações e tornando-as mais estratégicas- com mais diálogo, reuniões com os diferentes prefeitos, acertos, cumprimento de promessas etc.- para se lidar com as limitações e incertezas que o cotidiano apresentava.

Verificou-se que essas características contribuíram para que o PCPA, por mais interligado e dependente de outras esferas do sistema penal, constituísse um processo de auto-organização que, apesar do fluxo enorme de pessoas que entrassem e saíssem e das limitações e falta de recursos, fazia com que a cadeia tivesse um constante movimento e nunca entrasse em colapso. É importante frisar que esse processo auto-organizativo tornou mais sutil e complexo o jogo de forças e dominação de um grupo sobre o outro. Por exemplo, a dominação da BM através da força que se mostrava explicitamente no uso de armas e era duramente atacada por todos, principalmente os militantes dos direitos humanos, passou a ser legitimada por muitos grupos de presos, pois isso „impôs‟ o respeito que havia sido perdido com os agentes, gerando um clima de proteção. Esse espaço de confiança foi sendo

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conquistado, por exemplo, com a construção das salas-piloto como um lugar esteticamente bonito, com um bom clima para recepção, e esta foi uma conquista perante a massa que tem na visita um bem valorizado nas relações de troca e ao mesmo tempo de sustentação da ordem. A proposta de respeito e um relacionamento amigável com prefeituras e plantonistas que muitas vezes foi possível presenciar, constituíam-se em formas sutis de controlar as rotinas das galerias a fim de descobrir tentativas de fugas e evitar amotinamentos. O acordo implícito era: manter a galeria em ordem e que todos sairiam “limpos” pela porta da frente no tempo legal previsto no processo da execução penal .

Por outro lado, esse processo de vocalização dos sujeitos apenados foi um dos fatores que contribuíram para organização mais complexa das facções e, ao mesmo tempo, fortaleceu as relações de dominação do comando da BM. Dar voz às necessidades de agrupamento e segurança do recém chegado estimulou a distribuição dos sujeitos apenados em diferentes galerias com diferentes comandos. Isso possibilitou o equilíbrio das diferentes forças dos diferentes grupos. Essas forças contrárias eram referendadas pela gestão da BM , garantindo que um grupo de presos que não se entrosasse com o outro jamais ficariam próximos, “protegendo-os” da autodestruição e garantindo o controle da ordem sob o comando da BM.

Pode-se observar que houve uma familiaridade com a necessidade de uma nova ordem militarizada entre grupos de presos e funcionários, pois ocorreu uma identificação na cultura das galerias, através dos seus códigos e regras rígidas de convivência, com o processo de militarização do PCPA.

Constituir, então, um olhar que possa captar a prisão PCPA - na ótica da complexidade significa trazer à tona as diferentes variáveis que interferem na produção e dinâmica dos diferentes grupos dessa organização. Além disso, requer trazer para região luz 47 aspectos das dinâmicas grupais que se

47 Segundo MOSCOVICI(1988) região luz de uma organização representa todos os aspectos concretos, físicos e formais do ambiente e das dinâmicas grupais que podem ser observados e que são institucionalizados. Por exemplo, objetivos do PCPA, Estrutura, funcionamentos, os recursos, a comunicação, as normas etc.

120

encontram na região sombra 48 , ou seja, da violência. Para tanto foi importante captar qual o significado desse fenômeno para os sujeitos pesquisados.

2.6 Indicadores da Violência do Ponto de Vista dos Sujeitos Pesquisados

Considerando o questionário junto aos presos, 83,5% deles disseram que não corriam risco de vida na prisão e ainda 92,4% afirmaram que não sofreram violência dentro da prisão e 7,6% afirmaram que sim. Em outra questão sobre o tratamento oferecido pelos presos, 75,7% acreditavam que os brigadianos eram bem tratados por eles. Quanto à família, 84,5% consideravam que era bem recebida na prisão. Contudo, em outra questão sobre a revista íntima, 55,4% disseram que os familiares eram tratados com violência moral, ao passo que 39% disseram que a família era tratada com respeito e dignidade. Esses números devem ser considerados em relação ao significado da violência para os sujeitos respondentes. Comumente, pensa-se em violência física. As falas abaixo ilustram as diferentes concepções de violência e que a mesma pode se manifestar em diferentes significados:

Na fala de alguns entrevistados, a violência no PCPA manifesta-se a partir da falta de gestão da política penitenciária e da falta de acesso a direitos sociais previstos na LEP.

“A violência pra mim ela é identificada sempre que há a supressão arbitrária de um direito. Sempre que se suprime arbitrariamente um direito nós estamos diante de uma prática violenta. Porque supressão arbitrária: porque há certos direitos que podem ser suprimidos de forma consensual, de

48 Segundo MOSCOVICI (1988) a região sombra concentra todas as minúsculas modulações da violência e os aspectos subjacentes, que não são vistos mas estão presentes de tal maneira que sua ação tem força de impacto no funcionamento dos aspectos mais aparentes. Tornam-se uma espécie de “força oculta” que quando não assumida condensa-se na organização da prisão. Inserem por exemplo: sentimentos de rejeição, a espera, as projeções, os medos, os códigos velados, o silêncio etc.

121

forma democrática. O próprio ato de prisão é

a supressão de um direito básico, no caso a

liberdade; mas que se for feito nos marcos da lei, dentro de um estado democrático de direito não é uma supressão arbitrária, é uma supressão legal, legitimada. Agora, para mim o diferencial para separar uma prática violenta de uma prática não violenta é se nós identificamos ou não a supressão arbitrária de um direito. E por isso eu acho que os presídios são uma realidade especialmente violenta, porque ali dentro inúmeros direitos dos presos são sumariamente subtraídos, sem que haja nenhum procedimento legal que autorize isso. Praticamente toda a conduta prisional, a prática de administração prisional ela está fundamentada em posturas tradicionalmente defendidas dentro dos presídios e que são supressivas de direitos, sem base legal para isso. Então ela é a própria realidade da violência.Desde a entrada do preso dentro de um presídio, quando ele é submetido a uma revista íntima, quando as suas concavidades corporais são examinadas, a forma como eles se dirigem a ele, a forma como as pessoas o abordam dentro do sistema. A exigência de que ao caminhar por dentro

do

presídio ele tenha que às vezes caminhar dentro

de

uma área demarcada por uma linha, ou caminhar

de

braços cruzados, ou virar contra a parede o rosto

quando passa alguém. Quer dizer, nestes

de abordagem do

preso já se denuncia uma relação de violência.

Depois, quando ele é alojado dentro de uma galeria

procedimentos elementares (

)

122

pura violência, porque ali dentro como não há separação individual dos presos, as regras que

governam essa convivência são regras violentas. Impostas pelo predomínio do mais forte, na base da ameaça etc. Então a relação interna entre os próprios presos é também uma relação muito atravessada pela violência. A prisão em si mesma é uma instituição estruturalmente comprometida com a violência. O Presídio Central de Porto Alegre, a realidade do Central ela consegue combinar uma série de perversões do próprio sistema. Então nós temos de um lado superlotação dentro do presídio, as pessoas empilhadas, sem terem condição de serem tratadas individualmente como seres

No Brasil a rigor não há pena

humanos

individualizada, como manda a lei. Os presos são tratados como se fosse uma massa uniforme. Então no Central isso é muito evidente, isso implica a

mistura de presos com potenciais totalmente distintos entre si, com tradições diferenciadas, com

riscos diferenciados, que acabam (

) convivendo no

mesmo espaço; isso é horrível prá realidade de recuperação prisional. Um presídio onde via de regra os presos não trabalham, quando trabalham em

tarefas de manutenção, o que significa que não se profissionalizam. Onde os presos não estudam via

não há oportunidade de estudo, então

de regra (

as pessoas são presas pelo Estado, passam anos dentro de uma cadeia e saem de lá piores do que quando entraram, sem terem aprendido nada, a não ser o que há de pior na relação com os demais, submetidos a toda a sorte de ameaças, de violência,

(

).

),

123

de riscos a sua integridade física e a sua própria saúde. A situação de convivência nessa massa

carcerária onde os presos com tuberculose estão em convívio com os demais, onde presos soropositivos convivem com os demais, quer dizer, há um risco permanente de contaminação; grande parte dos presos do Rio Grande do Sul e do Central especialmente são portadores da maior parte de doenças de pele e bronco-pulmonares que se

do

imagina. Então, toda a

Central é uma situação muito comprometida, enfim.” (entrevista com o sujeito 04)

situação

(

)

interna

“Os governantes e os políticos serem tão despreocupados com o povo e tão preocupados

consigo mesmos, eu acho a pior forma de violência;

). A

violência que os presos cometem para ir para o Presídio é até ridícula perto da violência cometida pelos governantes. A mídia é outra forma de violência, é até virulenta. Faz uma grande inversão

das coisas (

pois é essa violência que gera todas as outras (

).”

(entrevista sujeito 01)

“A violência que mais se expressa é a

É uma forma terrível de

violência. As pessoas que estão cumprindo pena,

que já terminaram de cumprir a sua pena, e estão

). A

maior violência é da Justiça, que está gerando mais revolta entre os internos.” (entrevista sujeito 06)

esquecidas. Essa é a violência maior que tem (

questão da Justiça (

).

“Hoje a violência que existe nos presídios e a má administração é conseqüência de um governo que só pensa em seu próprio benefício e poder, e se

124

esquecem que aqui existem seres humanos que precisam urgente de ajuda.” (questionário 33)

“Não estou de acordo com a metodologia dos exames para progressão de regime, pois os mesmos são tendenciosos e não estão de acordo com a LEP. Não há acompanhamento psicológico e social. Tu só vê a cara da psicóloga no dia do exame que é no máximo de 20 minutos. Tudo não passa de uma farsa para garantir e inchar esse cabide de emprego que é a SUSEPE.” (questionário 316)

Tais referências assemelham-se à realidade apresentada no item 2.1 e denunciada pelos militantes dos direitos humanos e por denúncias feitas em nível nacional quanto à degradação do cárcere brasileiro.

A violência se manifesta também a partir do discurso sobre a pena falida e a imagem que a sociedade tem da prisão:

Nas falas transcritas abaixo, explicita-se um significado de violência vivenciada no PCPA associado à relação deste com o meio externo e expectativas como forma de uma violência simbólica:

“O discurso da ressocialização dentro do sistema carcerário se transforma num discurso de manutenção da segurança e de manutenção da disciplina, ou seja, num pensamento quase militarizado, quer dizer, no caso de Porto Alegre e do Presídio Central, não apenas no simbólico, mas no real, que é tido com esta meta disciplinar de segurança, ou seja, não existem direitos, os direitos são colocados sempre como condicionais à questão da segurança, numa disputa entre segurança e direitos do preso vai prevalecer a segurança, uma

125

disputa entre direito e disciplina, vai permanecer a disciplina. E por ser uma categoria tão ampla fica difícil estabelecer um conceito específico do que é violência. Mas, a mim me parece que a melhor forma de trabalhar com este conceito, é trabalhar com as perspectivas de anulação, aniquilação ou eliminação do diverso, do outro, acho que partindo deste pressuposto, que seria uma sintonia de violência com intolerância daí eu acho que dá, no meu modo de ver, para entender todas as relações de violência, inclusive a violência institucional que é a do Estado contra o indivíduo. Então me parece que o centro da

violência está na tentativa de aniquilar o diferente, daí dá para ver pelo aspecto internacional a tentativa de impor um pensamento único também é uma forma de violência porque exclui a possibilidade de

vai desde a relação

internacional à relação doméstica, bem Foucaltiano,

um pensar diferente

microfísico mesmo, uma estrutura de pensamento que pulveriza e parte do pressuposto de que a

existência do outro, ela tem que ser eliminada, no

sistema carcerário isto é muito forte

este gancho, fica muito clara esta relação, porque todo o trabalho mesmo oficial, inclusive das funções

da pena dentro do sistema carcerário é no sentido de impor um determinado padrão de conduta a uma determinada pessoa diferente, que está ali por inúmeras circunstâncias, daí esta é uma outra questão, mas está ali, que se apresenta como diverso e o discurso é padronizar o seu comportamento é transformar o ser daquela pessoa no ser único. Imposição de uma moral, por isso,

É, fazendo

126

assim que eu tenho uma crítica muito forte com a própria questão da ressocialização, ao fundamento

socializador da pena, é claro assim, todo mundo já disse, eu acho que não tem mais que escrever, que a prisão não ressocializa, bom isso é uma questão, é chover no molhado, não há nada de novo em afirmar isto. A questão que eu estou propondo é a seguinte:

E mesmo se ressociabilizar, seria legitimo impor um determinado padrão de comportamento para outra pessoa, só pelo fato dele ser diferenciado? É legítimo isto, isto não é uma característica do pensamento intolerante também e violento? E daí dá para ver nestas relações com agentes, isso fica muito claro, primeiro que não se tem uma idéia, exatamente do que é a ressociabilização, acho que ninguém tem, eu não tenho. Moralmente, normalmente se faz uma sintonia, uma aproximação do conceito de ressociabilização com a não reincidência, que são coisas absolutamente diversas, penso ao menos. E este esta disciplina é o

pensamento único , é o padrão (

então vai por aí

também a idéia de que, ao menos a minha idéia de que este discurso da ressociabilização deve ser abandonado, causa mais prejuízos do que vantagens pensando no aspecto concreto, aliás bem antropológico daquela pessoa que está presa.”

(entrevista com sujeito 05)

),

“Que tanto a sociedade que só conhece o que vê na TV (rebeliões, fugas e tragédias), como o poder judiciário deveria reconhecer que existe recuperação para a maioria dos presos”. (questionário 178)

127

“Neste item que diz acompanhamento de psicólogos acho que seria importante que a pressão que todos sofrem aqui dentro do presídio não é só uma pressão interna do preso, daquela questão assim de rebelião, de fuga, de risco de vida, mas também existe a pressão externa, e esta pressão é

grande, os vários órgãos da sociedade, da imprensa.