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SAÚDE

VIDA A DOIS
Psicólogo Flávio Gikovate revela como serão as relações amorosas e sexuais no futuro
Publicada em 20/08/2010 às 08h40m

Maria Vianna

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RIO - Para o psicólogo Flávio Gikovate, estamos passando por um momento de grandes mudanças nos
relacionamentos afetivos. Os homens estão tendo que aprender a lidar com uma nova mulher. Já elas estão
percebendo que praticar o sexo casual pode não ser uma boa ideia. Em seu trigésimo livro, "Sexo" (ed.
MG Editores), Gikovate avalia o impacto que os últimos 40 anos tiveram nas relações sexuais e amorosas.
Em entrevista ao site do GLOBO, o psicólogo explica como serão os relacionamentos no futuro.

O GLOBO:Homens e mulheres reclamam que não conseguem achar um par e que estão insatisfeitos
com as relações amorosas. Por que isso acontece?

FLÁVIO GIKOVATE:Temos evoluído pouco no aspecto sentimental. As pessoas continuam buscando


parceiros com os quais não têm afinidades intelectuais, de caráter, projetos e estilo de vida. O erotismo
costuma se dirigir na direção da busca de parceiros mais para egoístas, pouco confiáveis e difíceis de
provocar envolvimentos de qualidade. Assim, a grande maioria dos casais ainda é constituída por uma
criatura mais para generosa e outra mais egoísta. Isso dá um tipo de relação incompleta e que, com os
anos, acaba determinando a separação. Os casais se separam pela mesma razão que se casam: as diferenças
de temperamento e de caráter. O que funciona bem é o encontro de criaturas afins. Isso já é dito, pois as
pessoas falam em "almas gêmeas", mas na prática o medo da felicidade sentimental as leva a buscar
mesmo é a "tampa de sua panela".

O GLOBO:Você costuma dizer que os homens estão perdidos e não conseguem lidar com a nova
mulher. Por quê?
Temos evoluído pouco
GIKOVATE:Porque as mulheres avançaram muito, ao longo dos últimos 40 anos, nos territórios de no aspecto sentimental.
poder tradicionalmente masculinos. Avançaram na sua independência econômica, intelectual (hoje
são 60% dos estudantes universitários em todo o mundo), ocupando cada vez mais as posições de As pessoas continuam
destaque no chamado espaço público. Ao mesmo tempo, não abriram mão de seus poderes
tradicionais. No livro novo escrevo que fizeram tudo isso ao mesmo tempo em que, nas praias, os
buscando parceiros com
biquínis só diminuíram. Ou seja, mantiveram - e até mesmo ampliaram - o tradicional poder sensual os quais não têm
através de uma liberdade erótica que se manifesta também pela via do exibicionismo e também na
forma de expressar a liberdade sexual que só cresceu com o advento da pílula anticoncepcional. afinidades intelectuais,
Os homens, que pouco fizeram, afora ficarem perplexos, ao longo desses mesmos 40 anos, estão
de caráter, projetos e
atônitos e um tanto parados. Estão cada vez mais no computador, preferindo o erotismo que assistem estilo de vida
(ou interagem virtualmente). Estão com medo dessa nova mulher mais forte que eles e que, diga-se de
passagem, também nem sempre se interessam por aqueles que elas não conseguem admirar como
mais competentes que elas. Estamos numa encruzilhada.

O GLOBO:O que impede as mulheres de aproveitarem plenamente a vida sexual?

GIKOVATE:É preciso entender o que significa o pleno exercício da sexualidade. As mulheres têm uma fisiologia sexual diferente da masculina e
elas devem saber que, após o orgasmo, a regra é que sobra uma excitação residual. Isso faz com que o sexo casual não lhes apareça como tão
interessante, assim como a masturbação. Cerca de 50% das mulheres não se interessam pela masturbação justamente porque podem terminar a prática
mais excitadas do que começaram, ao contrário dos homens que se sentem relaxados e sonolentos. Elas preferem mesmo é o sexo com um parceiro
fixo e conhecido, com quem possam negociar aquilo que mais gostam. A maior parte das mulheres aproveita plenamente o sexo quando conhece seu
próprio corpo, tem um parceiro estável (que não obrigatoriamente é objeto de grande envolvimento emocional, mas é alguém conhecido e com quem
ela goste de estar também fora da situação erótica) e que saiba como agradá-la, e que seja uma pessoa que não use o sexo apenas como instrumento de
sedução e poder, mas sim também como fonte de curtição e prazer.

O GLOBO:Como um casal pode preservar a vida sexual e não cair no tédio comum que acontece com o passar dos anos?

GIKOVATE:Não é fácil e depende muito de entenderem que o sexo e o amor não são parte do
mesmo instinto. Têm que compreender que o sexo tem suas peculiaridades, que compete com a
ternura e que tem que ser tratado como parte de um instinto mais vulgar e grosseiro. Assim, na hora
O sexo se abastece mais
do sexo é importante abandonar o contexto mais sentimental e buscar um outro clima, mais voltado facilmente do jogo de
para a "baixaria". Além disso, é preciso entender que o desejo visual masculino tende a se esgotar
diante de uma mesma parceira ao longo dos anos. É função do homem e também da mulher trabalhar sedução e conquista. É
para que a sexualidade se mantenha viva e gratificante num clima que nem sempre lhe é propícia, o da mais difícil desejar
estabilidade e do amor. O sexo se abastece mais facilmente do jogo de sedução e conquista. É mais

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difícil desejar alguém em que confiamos e sabemos dos sentimentos e da lealdade em relação a nós. alguém em que
Mas é possível e existem inúmeros casais que atestam isso. São minoria, mas existem. E se existem é
porque é possível! confiamos
O GLOBO:As mulheres ainda são julgadas quando dizem que gostam ou só querem sexo?

GIKOVATE:Acho que isso é válido para muitos homens, mas não para todos. Agora, se elas
quiserem se relacionar justamente com os mais legais, devem saber que esses não dão a menor bola
para isso. Apenas irão ou não se interessar por elas por força de muitas outras propriedades e não por força de suas habilidades sexuais.

O GLOBO:Como você vê os relacionamentos amorosos no futuro?

GIKOVATE:Ou existirão relacionamentos afetivos de ótima qualidade, onde os casais aprenderão a desenvolver uma vida sexual igualmente rica, ou
então existirão pessoas solteiras, vivendo o sexo como fenômeno pessoal e/ou mantendo relacionamentos afetivos mais superficiais e passageiros.
Não vejo futuro para as relações de qualidade média. É assim: a vida a dois terá que ser melhor do que o viver só. Como viver só está cada vez melhor,
todos os relacionamentos que forem de qualidade inferior a essa vida tenderão a desaparecer.

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