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SUMÁRIO

1 SUBJETIVIDADES E PRÁTICAS SOCIAIS EM PSICANÁLISE ..... 2


1.1 A Psicanálise no Âmbito da Assistência Social ........................... 2

1.2 Apresentando o Centro de Referência Especializado de Assistência


Social (CREAS) .............................................................................................. 2

2 CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE ........................................... 5


3 O CONCEITO DE SUJEITO DA PSICANÁLISE EM SUA RELAÇÃO COM
O SOCIAL E AS CONSEQUÊNCIAS DESSA CONCEPÇÃO PARA PRÁTICA (E A
ÉTICA) DA PSICANÁLISE ................................................................................. 8
4 A SUBJETIVIDADE COMO OBJETO DA (S) PSICOLOGIA (S) .. 10
5 AGRESSIVIDADE EM PSICANÁLISE.......................................... 21
6 PSICANÁLISE E MEDIAÇÃO: PULSÃO DE VIDA COMO ELEMENTO
TRANSFORMADOR DO CONFLITO ............................................................... 27
6.1 A psicanálise e as instituições: um enlace ético-político ........... 30

7 A SUBJETIVIDADE E OS SINTOMAS NA PSICANÁLISE ........... 40


8 HIPERMODERNIDADE E METAMORFOSES SUBJETIVAS ...... 42
9 A PSICANÁLISE E O SÉCULO: A PERSISTÊNCIA DO MOVIMENTO
PSICANALÍTICO .............................................................................................. 43
10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................. 50

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1 SUBJETIVIDADES E PRÁTICAS SOCIAIS EM PSICANÁLISE

1.1 A Psicanálise no Âmbito da Assistência Social

O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), por ser


um campo de atuação novo pode-se dizer que os psicólogos estão descobrindo os
limites e possibilidades da escuta da subjetividade no âmbito da assistência social. O
Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) é uma unidade
pública estatal, de abrangência municipal ou regional, referência para a oferta de
trabalho social a famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por
violação de direitos, que demandam intervenções especializadas no âmbito do SUAS
(BRASIL, 2011).
A Psicanálise é uma abordagem por procedimento da ética e das concepções
da psicanálise de problemáticas que envolvem uma prática psicanalítica que aponta
o indivíduo envolvido nos fenômenos sociais e políticos, e não focado apenas à
situação do tratamento psicanalítico. Esse tipo de pesquisa da psicanálise foi
estabelecido por Freud e chamado psicanálise aplicada. Investigação envolta de
muitas discussões e empecilhos (ROSA, 2004).
A psicanálise é uma ferramenta não apenas para o que diz respeito à área
clínica, ao trabalho somente no consultório, mas também utilizada de referencial ético
e teórico para muitas outras intervenções que podem ser coordenadas no campo
social. Apresenta-se aí de pensar a psicanálise como atuantes em diversas
instituições como a escola, a empresa, o hospital, mas também como tendo a
possibilidade de travar uma interlocução produtiva com campos como o Direito, a
Medicina, a Arte, e tantos outros (MAURANO, 2010).

1.2 Apresentando o Centro de Referência Especializado de Assistência Social


(CREAS)

O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) é uma


unidade pública estatal, de abrangência municipal ou regional, referência para a oferta
de trabalho social a famílias e indivíduos em situação em risco pessoal e social, por

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violação de direitos, que demandam intervenções especializadas no âmbito do SUAS
(BRASIL, 2011).

Fonte:
www.sedes.org.br

Sua gestão e funcionamento compreendem um conjunto de aspectos, tais


como: infraestrutura e recursos humanos compatíveis com os serviços ofertados,
trabalho em rede, articulação com as demais unidades e serviços da rede
socioassistencial, das demais políticas públicas e órgãos de defesa de direitos, além
da organização de registros de informação e o desenvolvimento e processos de
monitoramento e avaliação das ações realizadas (BRASIL, 2011).
O Sistema Único de Assistência Social foi elaborado com base da Política de
Assistência Social, o qual se organiza em dois níveis de proteção: Proteção Social
Básica -PSB e Proteção Social Especial - PSE. Esse trabalho vamos focar no nível
PSE (CREPOP, 2012).
A PSE é destinado a família e indivíduos que se encontra em risco pessoal ou
social, da qual seus direitos tenham sido violados ou ameaçados por circunstâncias
de violência física ou psicológica, abuso ou exploração sexual, abandono, rompimento
ou fragilização de vínculos ou afastamento do convívio familiar devido à aplicação de
medidas (CREPOP, 2012).
As atividades da Proteção Especial são diferenciadas de acordo com níveis de
complexidade (média ou alta) e de acordo com a situação vivenciada pelo indivíduo
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ou família. Os serviços de PSE atuam diretamente ligados com sistema de garantia
de direitos - SGD, exigindo uma gestão mais complexa e compartilhada com o poder
judiciário, o ministério público e com outros órgãos e ações do executivo cabe o ao
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em parceria com governos
estaduais e municipais, a promoção do atendimento às famílias ou indivíduos que
enfrentam adversidades (CREPOP, 2012).
Conforme MDS (2009, p. 20) o CREAS deve atender famílias e indivíduos que
apresentam violações de direitos por circunstâncias de:
 Violência física, psicológica e negligência;
 Violência sexual: abuso e/ou exploração sexual;
 Afastamento do convívio familiar devido à aplicação de medida de proteção;
 Tráfico de pessoas;
 Situação de rua e mendicância;
 Abandono;
 Vivência de trabalho infantil;
 Discriminação em decorrência da orientação sexual e/ou raça/etnia;
 Outras formas de violação de direitos decorrentes de
discriminação/submissões a situações que provocam danos e agravos a sua
condição de vida e os impedem de usufruir autonomia e bem-estar;
 Descumprimento de condicionalidades do PBF e do PETI em decorrência de
violação de direitos.

CREPOP (2012, p. 20) define o CREAS no SUAS tem seu papel que determina
suas competências, que em regra, compreendem:

 Ofertar e referenciar serviços especializados de caráter continuado para


famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de
direitos, conforme dispõe a tipificação nacional de serviços socioassistenciais;
 A gestão dos processos de trabalho na unidade, incluindo a coordenação
técnica e administrativa da equipe, o planejamento, monitoramento e avaliação
das ações, a organização e execução direta do trabalho social no âmbito dos
serviços ofertados, o relacionamento cotidiano com a rede e o registro de

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informações, sem prejuízo das competências do órgão gestor de assistência
social nessa direção, a oferta de serviços especializados pelo CREAS deve
orientar-se pela garantia das seguranças socioassistenciais, conforme previsto
na PNAS e na tipificação nacional de serviços socioassistenciais que inclui os
seguintes serviços nominados a seguir:
 Serviço Especializado em abordagem social;
 Serviço de Proteção a adolescentes em cumprimento de medida
socioeducativa de liberdade assistida (LA), e de prestação de serviço
especializado serviço à comunidade (PSC);
 Serviço de Proteção Social Especial para pessoas com deficiência, idosas e
suas famílias;
 Serviço Especializado para pessoas em situação de rua.
O CREAS deve estimular a articulação de esforços, recursos e meios para
enfrentar a dispersão dos serviços citados acima, e potencializar as ações para as
pessoas que utilizam o serviço. Contudo, os trabalhos fornecidos nessa rede são
muito complexos, por isso, deve-se cercar de profissionais e processos de trabalho
que ofereçam atendimento multiprofissional, psicossocial e jurídico, apoio,
encaminhamento e acompanhamento individualizado e em grupo de forma
especializada (CREPOP, 2009).

2 CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE

A psicanálise tem muito a contribuir para o trabalho na assistência social,


especificamente no CREAS. Freud (1919[1918]) dizia que a psicanálise poderia ter
outros campos de atuação, além da clínica. Ele manifestou a preocupação com
Psicanálise e assistência social, para a psicanálise ter o seu lugar na sociedade.
Tratando as neuroses como problema de saúde pública, o mesmo alerta para a
necessidade que o pobre tem de receber assistência psicológica.
Desta maneira, o mesmo compreende a necessidade de agrupar a psicanálise
aos serviços disponibilizados pelo Estado.
A partir do seu surgimento, a psicanálise permanece em contínua investigação.
Sua atuação de estudo e conhecimento tem se expandido bastante, não focando

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apenas ao contexto da clínica e seus formatos tradicionais (MANONNI, 1981). E um
dos cenários em que a prática da psicanálise está se difundindo é o da política pública
de assistência social.
Constatamos, que nos dias de hoje, das palavras de Freud (1919[1918]), que
a assistência psicológica como direito do indivíduo atravessa os limites dos serviços
de saúde, tornando-se também para a assistência social. A necessidade de explorar
os conceitos teóricos da psicanálise para além dos consultórios também é um símbolo
da atualidade de seu pensamento. Através das políticas públicas os indivíduos têm
garantia de seus direitos. Para o referido autor, os profissionais que praticam a
psicanálise precisam buscar as formas mais simples e mais facilmente acessíveis
para demonstrar os conceitos teóricos para aquelas pessoas menos capacitadas.
Para Freud (1926), o entendimento em psicanálise é atravessado de ponta a
ponta pelo inconsciente, sendo os processos conscientes pouco expressivos em
relação aos processos inconscientes. A psicanálise é como um método terapêutico,
devido ao fato de que pode fazer mais pelos seus pacientes do que qualquer outro
método de tratamento. O principal ponto de sua intervenção são as neuroses mais
brandas como histeria, fobias e estados obsessivos; e nas malformações do caráter e
inibições ou anormalidades sexuais, podendo resultar numa melhoria dos sintomas
ou mesmo recuperação. É um método desenvolvido por meio da escuta e da abertura
para a singularidade do outro, que fala do seu sofrimento e que traz um pedido de
ajuda.
Vale ressaltar que a psicanálise é indicada para tratar todo tipo de doença dado
que o profissional não trata a doença em si, mas o sujeito que nela está envolvido,
isto é, o sujeito que faz da doença um sintoma que chamamos analítico (MAURANO,
2010).
De acordo com o autor citado acima a psicanálise é uma ferramenta não
apenas para o que diz respeito à área clínica, o trabalho somente no consultório, mas
também pode ser utilizada de referencial ético e teórico para muitas outras
intervenções que podem ser coordenadas ao campo social. Apresenta-se aí de pensar
a psicanálise como atuantes em diversas instituições como a escola, a empresa, o
hospital, mas também como tendo a possibilidade de travar uma interlocução
produtiva com campos como o Direito, a Medicina, a Arte, e tantos outros.

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O CREAS dispõe de vários casos sobre a violação de direitos. Dentre as quais
a violência sexual, violência doméstica, trabalho infantil e variadas formas de
negligência. Os atuantes em psicanálise podem atuar nessa instituição através dos
atendimentos individuais e em grupo, oferecendo suporte e orientação para as
famílias refletirem suas formas de educação, trabalho, cuidados com a saúde e com
os filhos, entendendo as fases do desenvolvimento do ser humano e o modo com que
as crianças e adolescente se posiciona no mundo. Dar autonomia a mães, pais e
familiares faz parte da rotina desses profissionais que trabalham nessa unidade
(GUERRA e MOREIRA; SANTOS, 2010).
De acordo com Rosa (2004) é destacada a importância da psicanálise voltada
para o sujeito e sua relação com fenômenos socioculturais e políticos. Mostrando a
importância de uma prática voltada a escuta do sujeito, afirmando que:
O relato em si não basta, dado que pode ser apenas a repetição automática
que se detém em atualizar o traumático. Também não me refiro ao relato que parece
feito para saciar a curiosidade do outro, que passa mais por uma exposição do
sofrimento para o deleite do outro, ou da exibição pelo grotesco, como se vê,
frequentemente, na televisão. A escuta psicanalítica supõe, retomo aqui, a presença
do outro desejante, em tudo o que ela implica de resistência do analista, usada
também como um contorno, uma borda organizadora do gozo sem limites (p. 344).
Nessa perspectiva psicanalítica apontamos a importância da escuta, levando
em consideração a subjetividade e os recursos simbólicos daqueles que buscam
ajuda na assistência social especializada.
Assim, nessa unidade o atuante da psicanálise não terá como objetivo modificar
ou criar uma política para os sujeitos. E sim, escutar o sujeito em sua articulação com
o significante fazendo emergir a verdade do sujeito. Mais do que interrogar
problematizar e discutir as dificuldades e direcionamentos frente à prática, sem que
se pratique a psicoterapia propriamente dita.
A psicologia cada vez mais está contribuindo para novos projetos sociais,
temos que responder a estas exigências seja com a teoria psicanalítica, seja com
outra modalidade, pois assim, estaremos no âmbito das políticas públicas.
A psicanálise não vai resolver todos os problemas que dizem respeito à
violência, mas é uma prática que proporciona uma melhoria na condição de vida de
muitas pessoas, sobretudo aquelas que se encontram com seus direitos violados, uma
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vez que considera o sujeito do inconsciente, responsável pelo seu posicionamento no
laço social, no processo de constituição da cidadania.
Portanto, cabe à psicanálise ser instrumento não apenas para o que se passa
no consultório, mas também servir de referência ética e teórica para inúmeras outras
intervenções que podem ser dirigidas ao campo social.1

3 O CONCEITO DE SUJEITO DA PSICANÁLISE EM SUA RELAÇÃO COM O


SOCIAL E AS CONSEQUÊNCIAS DESSA CONCEPÇÃO PARA PRÁTICA (E A
ÉTICA) DA PSICANÁLISE

O conceito sujeito nasce na filosofia cartesiana, em sua máxima cógito ergo


sum, “penso, logo existo” em defesa de uma existência e de um ser que pensa que
seria uma relação entre o “ser” e o “objeto” de certa forma se manifesta na era da
representação, e este sujeito, manifesta em uma percepção de como os sujeitos
compreendem essas representações e como eles agem diante de uma estrutura da
representação.
O estruturalismo surge como uma interpretação de um modelo de pensar de
uma maneira de objetivar a realidade colocando como uma única possibilidade, assim
o meio social que a estrutura coloca para realidade e para construção de uma
subjetividade, e esta segue de maneira inconsciente essa estrutura. Lacan dialoga
com o estruturalismo de Levis Strauss, ela trabalha a constituição dos sujeitos em que
como ele pode se manifestar seu desejo em relação a estrutura.
A construção do sujeito da psicanálise em Lacan na relação com o outro, ou
seja, o sujeito se dá ao nível do inconsciente em um processo de alienação e a
linguagem expressa os significados representativos que criem significados que está
no outro, a relação do outro que produz o sujeito.
A realidade social se demonstra como a base da constituição do sujeito, dessa
maneira Freud, não se refere ao sujeito, e sim, ao “Eu”, esse eu, se põe como uma
parte consciente e inconsciente, assim, o meu eu consciente é uma representação
simbólica do meu eu inconsciente.

1
Extraído do link: psicologado.com.br
8
Para Freud o inconsciente é manifesto de diversas maneiras: trauma, neuroses,
psicoses, psicopatologias, etc. O sujeito possui um “ego” e um “alter ego”, que ambos
fazem parte do mesmo ser, o sujeito. Nossa relação com o meio enquanto sujeito, nos
define diante da forma como eu significo o mundo que vivo, e o que esse mundo me
determina.
Para Focualt, o sujeito se constitui como dotado de uma vontade limitada da
forma como eu aprisiono os corpos e a mente das pessoas, como somos fadados a
uma normatização, assim somos submetidos novamente a uma estrutura modelo que
se demonstra como poder de dominação e controle em meio a uma sociedade
capitalista.
Ao percebermos de como o sujeito se apresenta como diversas possibilidades
de legitimar uma interpretação ou uma visão objetivo-cientifica do sujeito, nos
deparamos que nossa subjetividade seria um constructo de todas elas, que de certa
maneira o papel de interpretar a psique do indivíduo lhe atribuindo uma subjetividade,
e que está também se define como uma subjetividade coletiva e que essa
subjetividade é manifesta por modelos-representativos e simbólicos-abstratos. A
psicanalise, passa a ser de extra importância, para compreensão das patologias
sociais.
A psicanalise se demonstra como uma ciência, que no comportamento humano
no meio social se demonstra como seu objeto, assim a psicanálise moderna, que foge
aos padrões da tradição, se coloca por uma moral e ética do sujeito.

9
Fonte:psicologiaibes.blogspot.com

Primeiramente pensar a ética na psicanálise devemos analisar as concepções


o sujeito da psicanalise se demonstram a fugir de uma moral e uma ética da tradição.
A ética futuramente após a psicanálise se consolidar com rigor e status
científico se coloca como uma das bases da prática psicológica, que o sujeito deve
ser preservado sua integridade, que sua psique deve ser mantida em sigilo, pois cada
sujeito é diferente e único, mas que muitas de nossas ações psíquicas são frutos do
meio social.2

4 A SUBJETIVIDADE COMO OBJETO DA (S) PSICOLOGIA (S)

Dizer, simplesmente, que o “homem” é objeto da ciência psicológica ou das


várias psicologias não é suficiente, porque esta entidade genérica, em princípio, é
objeto comum a todas as ditas “ciências humanas” dedicadas ao seu estudo. Resta
entender como esta disciplina desenha a partir desta abstração genérica seus sujeitos
concretos, entender como são construídos os objetos neste campo, além de
caracterizar o que singulariza o olhar das psicologias entre as ciências humanas: este
moderno olhar sobreo “psicológico”.

2
Extraído do link: psicologomarcelo.com.br
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Numa primeira aproximação, talvez se possa tributara especificidade das
psicologias a uma suposta “descoberta” do sujeito psicológico; melhor, ao nascimento
deste sujeito nos domínios do discurso ocidental moderno, científico, ou à sua
emergência como figura correlata deste discurso, considerando que esta era uma
figura inexistente na cultura ocidental antes do surgimento da psicologia científica na
passagem do século XIX ao XX.
Mas, tratar do nascimento de um sujeito nos domínios da psicologia implica
falar da sua colocação como objeto para um discurso científico socialmente autorizado
a enunciar verdades a respeito de instâncias psicológicas que compõem este sujeito:
o psiquismo, a cognição, a “mente”, a consciência, a identidade, o self; mas também,
as percepções, as interpretações, e uma certa dimensão “intrapsíquica”, das
emoções, do desejo, do inconsciente– o “reino da subjetividade”. Implica, portanto,
enunciar o “psicológico” objetivando tais instâncias: construindo-as como “realidades
psíquicas”, universalizando-as, substancializando-as e naturalizando-as, ancorando-
as nas objetividades do corpo e da natureza, bem ao estilo do modelo de ciência da
época.
Suspeitando de tais naturalizações deve-se, contemporaneamente, colocar em
questão a sua produção histórica em jogos de verdade, tomando-as como figuras de
um discurso/prática especializado não apenas no conhecimento como também em
intervenções sobre o “psicológico”. Em seu livro “A invenção do psicológico”,
Figueiredo(1994) trata da produção histórica desta dimensão de existência subjetiva
ligada aos jogos do conhecimento moderno, que designa um campo de experiências
do sujeito, apontando que antes do nascimento das psicologias a experiência
psicológica não existia, bem como não existiam a própria materialidade da “substância
psíquica”, a existência psicológica e a percepção de si mesmo como ente subjetivo,
que dão forma ao campo de experiências do sujeito moderno, compondo sensações
de privacidade e intimidade que ele vivencia como “reais” e “naturais” .
Ainda, conforme o mesmo autor, alguns acontecimentos sociais constituem
condições históricas para o nascimento deste sujeito psicológico remetido a uma
instância de subjetividade², correlativamente ao surgimento de um discurso
psicológico na modernidade: a emergência do humanismo renascentista nas artes e
na filosofia dos séculos XIV e XV; a reforma pastoral da Igreja Católica no século XVI;
e o centramento da cultura moderna na figura do “homem” a partir do século XVII com
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o Iluminismo, resultando numa recorrente problematização moderna do sujeito na
filosofia, nas ciências, mas também na vida cotidiana.
Estes acontecimentos são fundamentais para o nascimento de um
conhecimento psicológico de cunho científico justamente porque demonstram uma
primazia de atenção ao sujeito. A reforma protestante, por exemplo, não deve ser
tomada como problema meramente religioso, mas centralmente social, implicando uns
recusados modos de condução pastoral da Igreja Católica e dos modos de
subjetivação e individuação ligados à ética católica, caracterizando aquilo que
Foucault (2002) denomina “revolta das condutas”, ou, um exercício de liberdade do
sujeito no terreno religioso. Por outro lado, a figura nietzschiana da “morte de Deus”
deve ser encarada não como o fim do dogma cristão, mas como o fim da hegemoniado
pensamento mágico religioso e surgimento de um pensamento humano, de uma
filosofia e uma ciência centradas no homem, no sujeito cognoscente. Nesta mesma
direção, o trabalho de Figueiredo e Santi (2002) – “Psicologia: Uma (nova) introdução”
– aponta o surgimento da “subjetividade privatizada” como campo de experiência
histórica, individual e cotidiana na passagem à modernidade.
Tomando o nascimento de um conhecimento psicológico de caráter científico
no final do século XIX pode-se observar certa “dança de objetos” nos
desenvolvimentos deste campo ao longo do século XX, ligada ao surgimento de várias
psicologias concorrentes entre si, denotando não uma unidade, nem linearidade, mas
sim, diversidade e divergência de abordagem dos “fenômenos psicológicos: ”
1- O “objeto primordial”, quase mítico, senão místico, é a “mente”; esta
abstração idealista, subjetivista, com fortes influências da concepção cristã
de alma como sinônimo de existência imaterial e do pensamento dicotômico
cartesiano, que bebe da mesma fonte. Ao longo da primeira metade do
século XX este termo ainda era admitido como objeto científico, mas passa
a ser questionado posteriormente por suas imprecisões e impregnações
metafísicas, perdendo confiabilidade na segunda metade do período.
2- Outro objeto a surgir é o fragmento psíquico – com Wundt – unidade do
psiquismo, do funcionamento psíquico ou do processo psicológico: as
capacidades, a cognição, recusa do animismo cristão, mas confirmação do
idealismo. O fragmento psíquico é tributário da concepção mecanicista de
que é possível compreender o todo desmontando-o, analisando suas partes
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e remontando-o, predominante no modelo clássico de ciência vigente à
época
3- Depois surge o comportamento, inaugurado por Watson em 1910 e depois
recolocado por Skinner com a introdução da noção de “operante”:
exterioridade, mecanicismo, objetivismo e sujeição estrita ao método
científico. No entanto, apesar de reproduzirem o frag- mentarismo e o
mecanicismo da época, o trabalho de Wundt e o behaviorismo apontam
para diferentes direções: enquanto o primeiro busca fazer um mapeamento
da consciência a partir de uma composição dos processos psíquicos e das
capacidades cognitivas, o segundo centra sua atenção na relação
“estímulo-res-posta” e nos aspectos operantes do comportamento,
recusando os conceitos de consciência e de subjetividade
4- Emergem as percepções, o campo perceptivo que configura o campo
psicológico, que por sua vez singulariza o sujeito. Objeto colocado pela
gestalt que, apoiada no método fenomenológico, busca superar o
fragmentarismo e o mecanicismo vigentes, propondo uma psicologia e um
sujeito mais integrados
5- O próprio corpo surge como objeto para a ciência psicológica com Reich,
também na primeira metade do século XX, numa tentativa de superar o
mentalismo. Esta perspectiva é retomada e renovada no final do século,
atualizando este esforço no sentido de quebrara força da dicotomia
cartesiana corpo x mente nos domínios do discurso psicológico
6- Os discursos são um tradicional alvo de atenção de várias psicologias,
analisados e interpretados de múltiplas perspectivas, buscando captar
significados atribuídos a objetos e experiências, além de sentidos
psicológicos subjacentes às falas dos sujeitos.
7- As relações também emergem como objeto para algumas psicologias, num
esforço de superar o individualismo, o mentalismo e as naturalizações
ancoradas na neurofisiologia e atualizadas pela neurociência dos anos
1990, buscando fundar tanto o conhecimento quanto o sujeito psicológico
em concepções materialistas, sociais e históricas
Mostra-se aqui toda uma diversidade de jogos operando no discurso
psicológico: fragmentarismo e mecanicismo x perspectivas mais amplas e integradas;
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subjetivismo x objetivismo; mentalismo x materialismo; individualismo x coletivismo;
naturalismo biologicista x perspectivas sociais e históricas.
Nesta dança de objetos observável ao longo de todo o século XX pode-se notar
ainda um movimento de deslocamento do biológico para o cultural, do natural para o
histórico, do individual para o coletivo; o olhar torna-se sempre mais social, histórico
e político, desenhando objetos sociais, centrando foco nas relações, mas também no
material, buscando superar as concepções idealistas, subjetivistas e individualizantes.
Algumas instâncias mais “integradas” ganham visibilidade a partir de 1940: a
consciência, o comportamento; mas também a personalidade (como decorrência da
emergência das teorias do desenvolvimento), a individualidade, a identidade – objeto
por excelência da psicologia social dos anos 1980 – bem como a subjetividade e a
singularidade, problematizadas de uma perspectiva social, histórica e política a partir
desta mesma década de 1980.
Em verdade o conceito de subjetividade passa do campo da psicanálise para
os domínios das psicologias na primeira metade do século passado, mas é somente
no seu final que ele se despe de um sentido naturalizado e substancializado de
interioridade, passando a ser pensado em termos históricos, sociais e políticos – como
produção de subjetividade – apresentando-se contemporaneamente como objeto
possível para muitas psicologias de cunho crítico, como alternativa a uma
problematização da “identidade”, exatamente por buscar dar conta das diferenças.
Esta perspectiva histórico-política da subjetividade ganha destaque neste momento
em decorrência do declínio do conceito de identidade, que se esgota numa exaltação
ao “idêntico”: este movimento de se repetir, de se fazer idêntico a si mesmo para
facilitar a visibilidade social e permitir a localização e captura pelos poderes.
Visibilidade de duas vias: do sujeito que se repete e se reconhece idêntico a si mesmo,
e que neste movimento se expõe à vista dos outros, tornando-se identificável e
capturável pela lei, pela norma, pela moral. Questão política esta, portanto, ligada a
práticas de individualização e identificação social de sujeitos, envolvendo jogos de
normalização, formas de reconhecimento de si e dos outros, além de modos de
subjetivação, que exigem posicionamento crítico e resistência a uma certa “política
das identidades” exercida pelo Estado contemporâneo.
Uma análise arqueológica do conceito mostra que uma primeira
problematização da subjetividade surge na filosofia moderna com Kant, que se
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pergunta sobre as condições de possibilidade para a produção de verdades sólidas,
objetivas e universais, válidas para todos, se quem produz conhecimento é sempre
um sujeito singular, histórico e, portanto, falível. A questão da subjetividade surge,
portanto, no contexto filosófico das preocupações epistemológicas quanto à produção
do conhecimento, de forma negativa: como aquilo que precisa ser neutralizado e
superado para se ter acesso a uma verdade objetiva. Esta conotação negativa
persistiu ao longo de todo o século XX, enfatizando a contaminação do conhecimento
por ela, mas as epistemologias contemporâneas argumentam que a subjetividade faz
parte do jogo e precisa ser contemplada na produção do conhecimento, por não se
opor necessariamente ao critério de objetividade. Além da subjetividade, o poder
também tem sido tradicionalmente apontado como contaminador da neutralidade
científica, porém Foucault, já na década de 1960, critica esta separação quando liga
indissociavelmente em suas análises saber, poder e subjetividade.
Nasce, também com Kant, a figura do sujeito cognoscente: aquele que
conhece, desvenda e enuncia verdades; “duplo” da filosofia e da ciência modernas:
ao mesmo tempo sujeito e objeto do conhecimento, núcleo da epistemologia clássica,
que permanece ainda no centro das epistemologias contemporâneas, de forma
revisitada. Apesar da tradição crítica que liga Nietzsche e Foucault levantar esta
questão ao longo do século XX, ainda não foi superado esse lugar central do sujeito
nos jogos de produção do conhecimento, onde toda a verdade ainda remete e retorna
a ele. Sujeito cognoscente, transcendental e universal, porque não é nenhum sujeito
concreto em especial e sim, uma abstração genérica que se refere a uma posição e
não de um indivíduo, um “descobridor genial”.
Após mais de um século o termo migra para o campo dos conhecimentos “psi”
pelas mãos de Freud passando a designar uma instância de interioridade, constituindo
objeto de estudo científico e campo de experiências do sujeito. De certa forma, a
psicanálise freudiana naturaliza e essencializa a subjetividade ao considerá-la
inerente ao sujeito, reproduzindo a matriz cristã da interioridade e fazendo dela um
enunciado. Nasce agora, correlativamente ao discurso psicanalítico, o sujeito –
também universal –do inconsciente e do desejo, remetido à sexualidade posta como
invariante: este é o contexto do debate de Michel Foucault (1988, 1989, 1990) com a
psicanálise na sua “História da sexualidade”. Mas não é da perspectiva psicanalítica
que está sendo abordada a questão, até porque uma problematização da
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subjetividade não é monopólio nem privilégio da psicanálise, e sua importância
arqueológica aqui apontada refere-se justamente a este ato de importação do conceito
da filosofia para os domínios psi– pelas mãos de Freud – e não exatamente ao novo
significado a ele atribuído nos domínios da psicanálise.

Fonte:
www.youtube.com

Conforme afirmado anteriormente, numa perspectiva mais contemporânea, a


subjetividade tomada como objeto construído pelo conhecimento e também como
campo de experiências do sujeito não implica naturalmente nem necessariamente
interioridade, substância ou permanência. Tradicionalmente as concepções
psicológicas apontam para um núcleo, um centro da “consciência”, da
“personalidade”, da “identidade”, que pressupõe certa regularidade, previsibilidade e
permanência – quando não, “essência” e interioridade – o que permite distinguir os
indivíduos uns dos outros. Descentrar a análise da subjetividade deste eixo habitual
do desenvolvimento da personalidade e da identidade, tomando-a como resultado da
dispersão de forças sociais, implica tratá-la como figura histórica que não tem centro,
permanência, inerência ou substância, nem qualquer sentido, naturalizante, biológico,
genético ou determinista, e pensá-la em movimento, como virtualidade, efeito
holográfico que existe concretamente ali onde não há nada de palpável. Vista desta

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perspectiva tem menos a ver com uma suposta natureza humana do que com o
instável jogo de forças dos enunciados e dispositivos.
Subjetividade parece sugerir imediatamente interioridade, mas não há nada de
natural nessa relação: percebe-se, arqueologicamente, que subjetividade e
interioridade nem dizem respeito a instâncias psicológicas inerentes aos seres
humanos, nem se referem a campos equivalentes de experiência ou a termos
sinônimos. São enunciados de proveniências diversas que são posteriormente
superpostos pelos discursos psicológicos, não necessariamente implicando uma
relação de reciprocidade, ao contrário, a subjetividade, além de ser da ordem dos
efeitos, é também da ordem da exterioridade – figura da “dobra” em Deleuze (1988) –
produzida em relações saber/poder e também dos sujeitos consigo mesmos, quando
estes se colocam como objetos para um trabalho sobre si.
Então, tanto subjetividade quanto interioridade são produções históricas. Pode-
se afirmar com Michel Foucault que, assim como o cristianismo inventou a
interioridade, a modernidade inventou a subjetividade – essa é a relação entre estas
duas figuras do discurso: a noção de interioridade é anterior a de subjetividade,
indicando que o moderno conceito de subjetividade se apoia arqueologicamente na
ideia cristã de interioridade encontrando-se, por isso mesmo, totalmente contaminado
por esta concepção, este enunciado. Se os ocidentais cristãos se percebem como
seres subjetivos e interiorizados é porque se encontram presos a estes dois
enunciados que nascem nessa cultura em diferentes momentos e contextos, mas que
são colados posteriormente, universalizando-se como natureza humana. Esse é, de
certa forma, o trajeto da formação de uma tecnologia confessional no Ocidente, por
ele percorrido da hermenêutica de si à hermenêutica do desejo, que é constitutivo do
sujeito moderno: meio racional, meio cristão; meio sujeito da razão, meio sujeito da
culpa.
Isso levanta ainda uma outra questão, referente à relação entre sujeito e
subjetividade – não estariam “colados” um no outro? Cada um (sujeito) com a sua
(subjetividade)? Não seriam instâncias simétricas? A resposta é: não! Assim como
subjetividade não é sinônimo de interioridade, também não designa necessariamente
um conjunto de capacidades, qualidades, sensibilidades, atitudes, reações inerentes
a um sujeito tomado como unidade autocentrada, autônoma e consciente. Traçando
uma genealogia do sujeito paralelamente a esta arqueologia da subjetividade
17
percebe-se que é apenas na passagem do século XVII ao XVIII que o sujeito se torna
“indivíduo”, e é apenas no final do XIX que este indivíduo ganha uma subjetividade.
Não há, portanto, simetria entre sujeito e subjetividade, não existe naturalmente esta
unidade e esta fidelidade a si mesmo – esta relação, esta colagem das características
subjetivas em um sujeito, esta individualização da subjetividade, é resultado dos jogos
de normalização e demarcação da identidade, característicos das sociedades
Ocidentais modernas.
Vista desta perspectiva a subjetividade é resultado e efeito das relações de
saber/poder e remete a sujeitos diversos que não o sujeito universal da razão, da
cognição, ou da consciência, nem sujeito autônomo, livre, ator ou agente. Na
arqueologia do saber refere-se à categoria filosófica/epistemológica do sujeito
cognoscente e ainda ao sujeito do discurso e da linguagem; na genealogia do poder,
remete à figura do “indivíduo”, sujeito separa do, individualizado, marcado pelo poder,
identificado e normalizado, sujeito do/para o capital, sujeito da/para a ordem social
burguesa; na genealogia da ética refere-se ao sujeito moral: colocado como objeto
para si mesmo, objeto de práticas de si, de modos de subjetivação, de estetização.
Não há, portanto, em Michel Foucault, um sujeito universal, transcendental e genérico
– mas sempre sujeitos históricos e localizados. Se existe em Kant o sujeito universal
do conhecimento, em Foucault existe toda uma multiplicidade de sujeitos: de direito,
das disciplinas, da norma, da moral, da sexualidade, sujeito produzido pelo
conhecimento, porque sua problematização não aponta para uma categoria genérica,
mas para sujeitos concretos, regionalizados e historicamente construídos. A
subjetividade se produz na relação das forças que atravessam o sujeito, no
movimento, no ponto de encontro das práticas de objetivação pelo saber/poder com
os modos de subjetivação: formas de reconhecimento de si mesmo como sujeito da
norma, de um preceito, de uma estética de si. Equivale dizer que não é suficiente a
objetivação pelo discurso psiquiátrico e pelo jogo da norma para produzir, por
exemplo, um louco, mas é necessário ainda que este vá ao encontro da marcação,
que ele ser e conheça no diagnóstico como sujeito da loucura e o reproduza em si
mesmo, subjetivando-se como louco. A resistência aos modos de objetivação e de
subjetivação acaba desempenhando importante papel nestes jogos de identificação e
reconhecimento de si.

18
Essa diversidade dos sujeitos implica uma multiplicidade de formas de
existência, modos históricos de ser: formas de subjetividade; e para além dessas de
ocorrências em termos de saber/poder deve-se lembrar que numa sociedade
capitalista estéticas de subjetividade, fetichizadas, investidas de valor, transformam-
se em mercadorias a serem consumidas pelos “indivíduos”. Isso reforça a questão das
“etiquetas” a serem coladas – a bricolagem no sentido original, francês, de etiquetas
a partir das quais construímos uma subjetividade-mosaico num arranjo desconexo.
Elas ganham lógica no nosso corpo e, por vezes, de maneira bastante incoerente,
resultando numa imprevisibilidade do sujeito. Esse é um dos principais problemas do
controle social moderno: como lidar com pessoas que não são regulares e previsíveis,
sem uma lógica a ser capturada pelo poder? O poder vive dessa falsa unidade que o
jogo das identidades constrói, o que remete à moderna política das identidades que
mantém os indivíduos presos ao poder. A questão política do Estado contemporâneo
não é apenas manter a ordem social do todo, mas também governar cada um, visto
que não há ordem social na sociedade como um todo se cada um dos indivíduos não
se submeter ao poder. As técnicas macro políticas do Estado são conhecidas: a lei, a
moral e os grandes conjuntos reguladores. No entanto, quais são as estratégias
políticas do Estado em relação aos indivíduos? Elas compõem a moderna política das
identidades através da qual o Estado governa cada um de nós, que é debitária da
matriz do poder pastoral, a partir do qual um pastor conduz cada ovelha do rebanho
de forma individualizada.
No que diz respeito a nós, sujeitos modernos contemporâneos (se é que ainda
somos modernos), estamos submetidos a formas históricas de subjetividade: a
individualidade, correlativa do discurso liberal, do estatuto do indivíduo e do próprio
capitalismo; a identidade, social mente marcada e normalizada, remetida à
sexualidade; a cidadania, resultante da moderna democracia com sua carta de
direitos. Nos reconhecemos como sujeitos da razão, conscientes, livres e autônomos
(mesmo sabendo que não o somos) – sujeitos ético-morais – além de estarmos
“intimamente” ligados a valores morais cristãos (porque estes nos constituem naquilo
que nos é mais íntimo). Pensamos racionalmente, agimos capitalisticamente, e
sentimos como cristãos, movidos por uma moral de compaixão –somos esta
bricolagem: simultaneamente competitivos, egoístas, e condescendentes com
aqueles que derrotamos no jogo da ambição capitalista – e o efeito de subjetividade
19
que isto gera em nós é a sensação de desconforto e conflito psicológico, que pode ser
tomado na verdade como conflito ético: exposição do sujeito a éticas contraditórias,
ambíguas, gerando ambivalência. Isso é ser não genérica, mas, concretamente,
sujeito ocidental-cristão-moderno – estar inscrito nessa tradição cultural e histórica.
Estamos sujeitos a formas históricas de problematização que se apresentam
como polaridades discursivas entre: material x espiritual (dilema cristão); corpo x
mente (dilema cartesiano); exterioridade x interioridade (dilema cristão, mas também
freudiano); objetividade x subjetividade (dilema epistemológico e também
freudiano);animal x racional (dilema filosófico); biológico x cultural(dilema
antropológico); individual x social, coletivo (dilema sociológico); eu x os outros (dilema
ético-político).Não são poucas as injunções, tampouco o são as lutas da subjetividade.
Mas estes não são dilemas do sujeito, mas sim de uma cultura e de uma sociedade
que polariza qualidades que se ancoram nos corpos dos sujeitos.
Não se trata aqui exatamente de “verdades” estáveis sobre um objeto palpável
“subjetividade”, mas de uma perspectiva a partir da qual pode-se visualizar e construir
um objeto de saberes e práticas, mas também um campo de experiências
psicológicas. E por que todo este exercício de pensamento? Por mera sofisticação?
O que isso tem a ver com as psicologias?
Tem tudo a ver: não apenas porque a problematização da subjetividade em
Michel Foucault contempla uma concepção de sujeito e uma concepção crítica de
subjetividade, mas pelo próprio exercício de um penser autrement –“pensar de outra
forma” – que não é mero pedantismo considerando que saber e poder encontram-se
imbricados, portanto, duvidar dos enunciados que sustentam nossas regularidades
subjetivas e sociais, pensar diferente, é ação política: transgressão do discurso,
resistência ao poder e prática concreta de liberdade – as três “linhas de fuga” 4de
Michel Foucault. Esta citação aponta para uma certa política contemporânea da
subjetividade, ou, para a colocação das formas de subjetividade como objetos de luta:
Talvez, o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas recusar o que
somos. Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos
deste ‘duplo constrangimento’ político, que é a simultânea individualização e
totalização própria às estruturas do poder moderno. A conclusão seria que o problema
político, ético, social e filosófico de nossos dias não consiste em tentar liberar o
indivíduo do Estado nem das instituições do Estado, porém nos liberarmos tanto do
20
Estado quanto do tipo de individualização que a ele se liga. Temos que promover
novas formas de subjetividade através da recusa deste tipo de individualidade que
nos foi imposta há vários séculos. (Dreyfus & Rabinow, 1995, p. 239). Esta reflexão é,
em verdade, um exercício de transgressão do discurso visando a desmontagem de
algumas naturalizações do psicológico, bem como a desconstrução de algumas
verdades aceitas de forma acrítica nos domínios das psicologias. Torna-se importante
destacar nesta finalização que o saber psicológico é bastante político, presta-se a uma
aplicação política e implica fortes decorrências políticas, até porque
contemporaneamente os poderes encontram-se bastante sutilizados, aplicando uma
instrumentalização psicológica. Então – o que não é novidade– um posicionamento
teórico no campo das psicologias implica posição política, as práticas psicológicas são
imediatamente políticas, e é necessário caminhar no sentido de uma psicologia
descentrada do sujeito e para além de uma problematização da subjetividade (pelo
menos no sentido mais tradicional do termo), que busque dar contada singularização,
porque, se os modos de subjetivação as sujeitam, a singularização apresenta-se como
estetização de si visando resistir a esta maquinaria moderna de produção da
subjetividade e da identidade individuais, construindo novas formas de vida e de ser.
Se ao longo do século XX as psicologias têm se caracterizado como “disciplinas
científicas de aplicação da norma”, é também necessário que elas superem estas
práticas passando a se dedicar à promoção de novas estéticas da existência.3

5 AGRESSIVIDADE EM PSICANÁLISE

É no contexto dos Escritos de Lacan que se encontra o texto que dá título a


esse estudo. A partir de alguns fatos individuais e sociais, denominados pela mídia
como manifestações, que, são protestos marcados por uma organização e alcance
através das redes sociais jamais vistos em nosso país, é que me interessei a estudar
determinados componentes para o desenvolvimento de tais fenômenos que, de modo
geral, possuem em sua gênese, a busca de solução de conflitos.

3
Extraído do link: www.researchgate.net
21
Fonte:
www.cvv.org.br

Poderíamos enumerar muitos episódios com componentes de agressividade


que tem ocorrido com uma frequência além do suportável no Brasil, mas quero
destacar, para efeito deste debate, um em especial: o ataque e a consequente morte
de Santiago Andrade, cinegrafista da Band quando fazia seu trabalho durante uma
manifestação/protesto no Rio de Janeiro em fevereiro deste ano (2014). Muitos outros
fatos desta natureza continuaram e continuam acontecendo desde então.
Não pretendo incluir a história social entre os fatores de organização e de
permanência na vida psíquica dos indivíduos. A psicanálise, da qual nos tornamos
fiéis seguidores, constitui um sistema que permanece aberto desde que foi
inicialmente elaborada por aquele que abriu os caminhos para neles trilharmos nossa
prática em seus vários pontos de articulação.
Lacan aponta para existência de “uma espécie de encruzilhada estrutural” onde
se torna necessário acomodar nossa opinião “para compreender a natureza da
agressividade no homem e sua relação com o formalismo de seu eu e de seus objetos.
” A agressividade, no entanto, tende a recobrir várias realidades clínicas e por que não
dizer, sociais.
É através da comunicação verbal que a ação psicanalítica se desenvolve. “Na
análise um sujeito se dá como podendo ser compreendido. ” A partir das diferentes
posições do ego frente às diferentes modalidades de objeto é que a estrutura do
22
sujeito vai se construindo. Segundo Lacan, “a agressividade se manifesta numa
experiência que é subjetiva por sua própria constituição. ”
As estruturas subjetivas estão constantemente carregadas pelo destino das
pulsões e de sua dupla natureza (o afeto derivado das pulsões e a representação do
objeto, não o objeto em si). O destino pulsional lança suas raízes desde muito cedo na
vida do sujeito, vai se desenvolvendo durante sua história e, não raro, determina seu
destino simbólico que modula a atividade de pensar e de agir.
A intenção de agressão demonstra ser uma das modalidades eficientes de
agressividade. “A eficácia própria dessa intenção agressiva é manifesta: nós a
constatamos frequentemente na ação formadora de um indivíduo sobre as pessoas
de sua dependência: a agressividade intencional corrói, mina, desagrega; ela castra;
ela conduz à morte. ”
A simples ameaça da intenção de agressão representa por si só um fenômeno
mental denominado de imagens. A prática da psicanálise tem se revelado à altura da
realidade representada por essas imagens: de castração, de mutilação, de
desagregação, de explosão do corpo, enfim imagem que de fato parece estrutural e
que Lacan denomina em seu texto de “imagos do corpo despedaçado”.
Imagens agressivas atormentam os indivíduos desde as chamadas
brincadeiras de criança como desmontar um carrinho, arrancar os braços e furar o
olho da boneca. Existe nesta prática lúdica infantil, uma relação com o próprio corpo
que vai se manifestando de diferentes formas ao longo da vida da pessoa “na
generalidade de uma série de práticas sociais, desde os ritos da tatuagem, da incisão
e da circuncisão nas sociedades primitivas” que, em algumas culturas, perduram até
os dias atuais.
Muitas vezes é suficiente um pretexto eventual ou inesperado para
desencadear “a intenção agressiva que reatualiza a imago, instalada
permanentemente no plano de sobre terminação simbólica a que chamamos o
inconsciente do sujeito, com sua correlação intencional. ” Em diferentes escalas de
grandeza a agressividade representa uma porção estrutural da constituição do sujeito
e “da unificação da vida psíquica que avança sem parar. ”
A tendência agressiva é correlata a um modo de identificação narcísico cuja
organização original das formas do eu e do objeto podem ser afetados por ela em sua
estrutura. O comportamento ambivalente que uma criança apresenta diante de suas
23
emoções quando bate em outra criança e chora também, denota uma espécie de
tensão conflitiva interna do sujeito desde muito pequeno.
Freud em seu texto O mal-estar na civilização (1929-1930), afirma:
“[…] na vida mental, nada do que uma vez se formou pode perecer, tudo é de alguma
maneira preservado e, em circunstâncias
apropriadas, pode ser trazido de novo à luz. […] O sentimento de
felicidade derivado da satisfação de um impulso selvagem não
domado pelo ego é incomparavelmente mais intenso do que o
derivado da satisfação de uma pulsão que já foi domada. ”
Ainda que se empilhem todos os conhecimentos, de todos os tempos, penso
que serão insuficientes para produzir uma resposta acerca da complexidade do sujeito
que se reconhece incapaz frente ao real. Em todo o caso, mesmo diante dessa
limitação que também é minha, me interessei em buscar um entendimento, para o fato
das “relações inter-humanas” padecerem de uma recusa frente ao obstáculo ao gozo
pleno.
As modalidades de agressividade produzidas há milênios, diferenciam umas
das outras na forma, mas não no conteúdo. Para a psicanálise, pelo menos para a
psicanálise que nós praticamos, a lei primeira com que a criança se depara é a lei
paterna.
A história recente deixa pouca dúvida quanto ao declínio gradativo da função
do nome-do-pai, ou melhor, dos nomes-do-pai. Essa é então a representação inicial
da inserção da lei na vida de um indivíduo: entra o pai para pôr obstáculo ao desejo
da mãe de tragar o filho. Cabe ao pai a responsabilidade de se presentificar para o
filho como indivíduo o que nas palavras de Lebrun encontramos da seguinte forma:
“ser pai tem diretamente a ver com a instalação da realidade psíquica do sujeito e é
ele o responsável pela inscrição da castração primária. ”
A problemática da agressividade é apresentada por Freud em muitos
momentos de sua vasta obra, como na citação acima que ele se refere a “um impulso
selvagem não domado pelo ego”, mas é precisamente em seu trabalho intitulado:
Psicologia de grupo e a análise do ego (1921), que ele trata da atuação do sujeito na
busca de encontrar satisfação para seus impulsos individualmente e, em
determinadas circunstâncias, em grupo.

24
Neste momento da sua produção Freud afirma que a psicologia de grupo se
encontrava “em sua infância” e que “a descrição dos fenômenos mentais por ela
produzidos exigiam grande observação”, mas indaga como é que um grupo adquire a
capacidade de exercer influência sobre a vida mental de um indivíduo? Encontra,
então, respaldo na obra de Le Bon de 1855, que afirma que os indivíduos agrupados,
independente de ser quem forem, “coloca-os na posse de uma espécie de mente
coletiva e que num grupo, o indivíduo é colocado sob condições que lhe permitem
arrojar de si as repressões de seus impulsos instintuais inconscientes. ”
Em uma linguagem psicanalítica, Freud foi delineando o processo civilizatório
pelo qual passa um sujeito e seus impasses. As relações do sujeito pelo polo da
liberdade foram se transformando com a modernidade dentro das categorias de
natureza e de socialização. Quando atua em grupo, um indivíduo “perde o senso do
limite de sua individualidade” o que produz em cada membro dele “uma exaltação ou
intensificação de emoção” que de certo modo confere a esse indivíduo um poder
ilimitado e que pode resultar em um dano insuperável.
Se por um lado o sujeito nessa circunstância se sente em posição de “super-
homem”, por outro ele se depara com o desamparo original que o real lhe impõe e
que, de alguma maneira, ele tem que dar conta a fim de sustentar sua existência.
Lacan afirma que é numa identificação com o outro que o sujeito vive toda a gama de
“ambivalência estrutural” cujas condutas revelam impotência e ostentação e que “a
experiência subjetiva deve ser habilitada de pleno direito a reconhecer o nó central da
agressividade ambivalente. ”
Kristeva em seu livro: “As novas doenças da alma”, afirma que “a noção
freudiana de pulsão é sempre portadora de sentido e de relação com algum outro
ainda que este seja o próprio eu” e, ressalta que, “para além das nosografias clássicas
de estrutura e de sua necessária reformulação, as novas doenças da alma são
dificuldades ou incapacidades de representação psíquica que chegam até a matar o
espaço psíquico. ”
Lacan reconhece não ser possível “isolar a noção de uma agressividade ligada
à relação narcísica e às estruturas de desconhecimento e objetivação sistemáticos
que caracterizam a formação do eu” e atesta “a noção de uma agressividade como
tensão correlata à estrutura narcísica no devir do sujeito, que permite compreender
toda sorte de acidentes e atipias desse devir. ”
25
A seguinte tese de Lacan corrobora a ideia descrita: “A agressividade é a
tendência correlativa a um modo de identificação a que chamamos narcísico, e que
determina a estrutura formal do eu do homem e do registro de entidades característico
de seu mundo” (p. 112).
A noção da agressividade como uma das coordenadas intencionais do eu
humano, nos leva a considerar as recusas diante do desenvolvimento típico do sujeito
e de seus desdobramentos no que Lacan chama de “neurose moderna. ” Estariam
estas recusas ligadas aos remanescentes do que foi um dia “sua majestade o bebê”
com o sentimento de onipotência que ele confirma por meio de suas atuações?
A psicanálise não pode ser responsabilizada pelo quadro social da atualidade,
tampouco de outros tempos, mas deve trazer para si o que lhe concerne uma vez que
o sujeito é desamparado por uma propensão natural. Dentro da visão do conjunto das
psicopatologias: sujeito e estrutura, não há como descartar a agressividade como um
recurso amplamente utilizado pelo “sujeito neurótico moderno” para aniquilar ou até
mesmo, eliminar o outro se este faz obstáculo ao seu gozo.
Como dar conta do “imaginário social” que se manifesta de várias maneiras e
que entre elas se destacam de modo espetacular a mídia e as redes sociais onde as
individualidades se transformam em objetos descartáveis?
No caso mencionado no início e que deu origem a este estudo, o ato agressivo
praticado por dois jovens que participavam de uma manifestação em grupo, encontrou
a via de descarga da intenção agressiva no momento em que um deles passou para
a mão do outro elemento um rojão explosivo, que foi arremessado tendo como destino
um alvo aleatório e que acabou explodindo ao atingir o rosto do cinegrafista Santiago
Andrade.
O artefato explosivo utilizado pode ser considerado neste contexto, como a
representação do quantum de energia agressiva foi mobilizada por um ou pelos dois
sujeitos na direção de: “[…] se sentirem como cidadãos de direito da sociedade do
espetáculo, nem que seja por uma fração de segundo e tempo limitado. ”
Na impossibilidade de considerar minha inquietação um assunto esgotado,
peço que vocês me auxiliem na tarefa de demarcar onde se separa ou se confunde a
fragilidade e a solidez da atuação dos chamados humanos quando carregados de
agressividade.

26
Seriam estes dois sujeitos uma produção dos tempos modernos? Não os de
Chaplin, naturalmente, mas talvez de um tempo em que as novas formas de adoecer,
representariam as variantes contemporâneas de carências narcísicas próprias de
todos os tempos.4

6 PSICANÁLISE E MEDIAÇÃO: PULSÃO DE VIDA COMO ELEMENTO


TRANSFORMADOR DO CONFLITO

A respeito da processualística jurídica atualmente instaurada, mormente com o


Novo Código de Processo Civil efetivado em 2015, o cenário legalista da tradicional
rota litigiosa tem causado severos danos à pretensão cidadã, apesar de o novo
dispositivo estar em pleno funcionamento na prática forense e cultuar a postura do
consenso.
Isto porque os cidadãos, ao ingressarem com uma ação ante ao Poder
Judiciário, transformando-se em jurisdicionados e dependendo do sistema a partir de
então, deparam-se com uma caótica conjuntura de morosidade, na maior parte das
vezes sendo de alto custo ao cidadão e ainda assim podendo promover
imprevisibilidade prestacional, em que pese a credibilidade advinda da via judiciária.
Neste sentido, não obstante às dificuldades encontradas pelos jurisdicionados
que os desmotivam a procurar seus direitos de modo efetivo, o Poder Judiciário
emergiu em seu novo Códex novos enfoques de resolução de demandas, os quais
conhecemos por Mediação, Conciliação e Arbitragem - estes enaltecidos, com a
ressalva de muito anteriormente, no cenário jurídico nacional e internacional, já darem
sinais de sua existência.
Conquanto a nova categoria de resolução de disputas ser uma tenra
metodologia de pacificação para além do Poder do Estado, encontram-se estes
métodos ancorados em, necessariamente, certa multidisciplinariedade, em especial a
Mediação de Conflitos.
A Mediação caracteriza-se pelo seu procedimento sem protagonismos, isto é,
sem um Estado-Juiz a decidir pelas partes demandantes. É imbuída de peculiaridades

4
Extraído do link: www.associacaolivrepsicanalise.com.br
27
que transcendem a dogmática jurídica, deste modo alcançando direta relação com
campos que tratem não apenas da problemática – como o faz o Direito – mas
buscando amparo em ciências afins que se distinguem por estudar o Ser Humano em
suas complexidades, tal como a Psicologia, e considerar as singularidades individuais
e suas cargas psicossociais em detrimento de um sistema gregário, conjuntura em
que ocorrem os conflitos.

Fonte:
www.defensoria.df.gov.br

Parte-se do pressuposto que a confluência da dinâmica mediativa em face de


outras competências muito se relaciona com outras epistemologias cuja performance
recaia sobre a Sociedade. A Mediação de Conflitos não é unívoca e pode entrelaçar-
se com toda o campo de conhecimento que trate da coletividade, sem prejuízo ao seu
objeto da demanda. Em permanente evolução, a própria vivência humana já necessita
uma mediação, mesmo que individualmente, com nossa autoconsciência. Mediar
entre nós e nosso inconsciente desejos, angústias, medos e dificuldades exige certo
balizamento, para que não sejamos reféns das armadilhas do nosso ego.
Neste sentido, a Psicanálise como ciência, desenvolvida por Sigmund Freud e
aportada pela Psicologia, fornece ao Mediador ferramenta interessante de
desenvolvimento oportunizando certa eficácia a partir de sua metodologia. Este

28
campo do conhecimento traz a característica de “apuração de antigas condutas”, bem
como a “livre associação de ideias” como pontos principais estruturantes.
É sabido que, dentro da sessão de Mediação, são expostas pelas partes
litigantes as suas posições. É no momento inicial, quando surge a oportunidade de
ser demonstrado o conflito como se é, que os mediandos expõem o sobressalente
que os desconforta.
A partir daí, pelas partes é possível identificar os posicionamentos, conquanto
o mediador já tem consciência que abaixo disto encontram-se, na verdade, os reais
interesses que motivam aquela determinada lide. O mediador, nesta conjuntura, faz
as vezes do Psicanalista, vez que se ocupa em não propriamente analisar – no sentido
etimológico da palavra – as pessoas, mas em ocupar-se com percepção aguçada
tanto daquilo que é dito, quanto daquilo que não está aparente.
À título de ilustração, na sessão psicanalítica onde há o paciente e o
psicanalista, o primeiro faz uma espécie de braimstorming histórico-existencial, onde
relata sem cronologia necessária toda e qualquer informação advinda da sua infância
e seu período em desenvolvimento até àquele instante.
Desta maneira pode-se relacionar com sucesso as experiências psicanalíticas
com a prática da Mediação. Se, por um lado, o cliente vai até o psicanalista para
descobrir causas de determinados efeitos, os mediandos se valem da Mediação para
dirimir pontos nevrálgicos dos seus conflitos de ordem vivencial ou social.
O psicanalista não se coloca no lugar do seu cliente, assim como o mediador
não o faz com seus mediados. Pelo mecanismo psicanalítico da “transferência” –
repasse inconsciente de informações antepassadas (antigas) ao interlocutor do
momento presente – há por parte do psicanalista ou do mediador o deslocamento de
responsabilidade aos clientes ou mediados de modo a estimular não somente a
resolução da questão proposta como uma maior experiência Consigo e com o Outro,
dentro da perspectiva da Alteridade e da Sociabilização.
Tanto o mediador quanto o psicanalista atuam de modo a conduzirem tais
prospecções – ditas e não-ditas – ao terreno das pulsões de vida, retirando-as do
nebuloso cenário das pulsões destrutivas – ou pulsões de morte. Pulsão de vida, em
suma, significa uma energia vital interna construtiva, positiva; pulsão de morte, por
sua vez, caracteriza-se como energia interna vital destrutiva. A primeira, apresenta-se

29
como perspectiva ideal do gestor de conflito e do psicanalista, posto que ambos atuam
de modo a transformar – converter positivamente – a demanda.
Do mesmo modo que um psicanalista, o Mediador de Conflitos tem a
consciência intrínseca de que é necessário um conjunto de saberes para atuar
naquela questão. Os envolvidos na lide carecem, em cada caso, de um cuidado
especial e um contexto compreensivo sem julgamentos neste sentido, daí a postura
“analítica”, tendo o gestor do conflito a responsabilidade de adequar-se conforme as
reais necessidades do caso.
Tanto com pacientes na Psicanálise quanto dos sujeitos em Mediação, as
palavras por muitas vezes contidas no inconsciente, quando expostas, provocam uma
instantânea atenuação de cargas psíquicas advindas de conflitos anteriores, daí a
relevância de transportar o conflito às pulsões de vida.
Assim emergem o mediador e o psicanalista como fios condutores – mas não
protagonistas – de possíveis mudanças de comportamento e/ou humanização das
interrelações sociais, através da adoção da escuta ativa, bem como de posturas e
práticas compassivas a conduzir os próprios sujeitos a melhores relações sociais e
individuais, contribuindo não somente à experiência jurídica e real alcance de suas
utopias, tal como possibilitando experiências mais humanas.5

6.1 A psicanálise e as instituições: um enlace ético-político

O tema desta - Psicanálise, Saúde Mental e Instituição - é provocativo, pois


convida enlaçar três termos que usualmente se apresentam como campos distintos e
inconciliáveis, principalmente no que diz respeito à relação da psicanálise com a
instituição. Pode-se situar a questão destacando a psicanálise como o excluído
necessário para pensar deste ponto de vista a instituição e a saúde mental. É um
modo problemático pois recalca a problemática das instituições psicanalíticas.
Volnovich (2002) apresenta duas perguntas como desafio: A psicanálise pode viver
fora das instituições? A psicanálise pode viver (se por "viver" se entender produzir
conhecimentos) dentro das instituições? Iniciamos, portanto, esta reflexão

5
Extraído do link: emporiododireito.com.br
30
demarcando que este tema se inscreve numa esfera incômoda na medida em que vai
se entrelaçar aos fios da teia conceitual da psicanálise e incita a enunciar sobre o que
constitui o seu campo e a sua prática. Nesta visada, entram em jogo questões de
ordem ética e política e... institucionais.
Uma vez que não se trata de esgotar, ou mesmo desenvolver, todos esses
aspectos do tema, comecemos por nos interrogar sobre o que convoca de imediato a
psicanálise para a tarefa de debater problemas relativos à instituição. Dentre os vários
níveis de incitação a esta reflexão – muito diferentes, mas entrelaçados – destaca-se
a constatação de que os psicanalistas estão migrando para as instituições, buscando
levar com eles sua posição e suas concepções. No entanto, algumas vezes apenas
transportam as práticas sem levar em conta o contexto institucional. Esse contexto é
diferenciado quando se refere às propostas psicanalíticas de instituições de
tratamento, às instituições sociais de intervenção em saúde mental, em educação,
jurídica, entre outras. Em cada uma das situações há necessidade de fundamentar e
debater os processos, concepções e políticas que regem tais instituições, assim como
o modo peculiar de intervenção psicanalítica. Outra faceta dessa convocação diz
respeito aos impasses trazidos para a prática psicanalítica pelo sujeito da
contemporaneidade (Rosa, 2002). O sujeito contemporâneo incita uma crise produtiva
para a psicanálise e nos convoca a refletir sobre a instituição, tanto como cenário da
produção discursiva e de sintomas, como de seu tratamento. Ambos os eixos remetem
à interface política da psicanálise, seja quando trata de modalidades de laço social,
seja quando se trata da dimensão política do gozo e do sintoma.
O pano de fundo dessa convocação esbarra na impropriedade da mera
transposição de um modelo de tratamento para outros contextos ou para as
problemáticas do sujeito contemporâneo. Ou seja, tais situações explicitam os limites
do tratamento psicanalítico e nos incitam a propor novas formas intervenção. E aqui
quero diferenciar os limites do modelo de tratamento, tal como conduzido nos
consultórios, dos limites da Psicanálise como teoria, método, prática e ética para a
condução destas questões. O que está em debate são as estratégias de intervenção
frente às atuais manifestações sintomáticas, assim como as modalidades de sua
extensão na prática psicanalítica extramuros.
A interrelação desses problemas pode ser ilustrada a partir dos limites da
prática psicanalítica frente ao sujeito contemporâneo e das modalidades de expressão
31
do sofrimento que nem sempre se apresenta sob a forma de sintomas ou são
acompanhadas de uma demanda de tratamento – como acontece com as patologias
dos atos, entre outras manifestações. É a toxicomania, por exemplo, que interroga a
psicanálise e as possibilidades e limites de sua prática em contexto caracterizado pelo
esgarçamento do laço social fundado na dimensão simbólica. (Rosa, 1999 e Rosa,
2004a).
A complexidade destas manifestações permite uma constatação: é o campo
em que a psicanálise fracassa constantemente. Pode-se usar o artifício de
responsabilizar certa estrutura do sujeito por esse fracasso: a estrutura perversa. No
entanto, a instauração do dispositivo analítico nos indica, em vários casos, que não
há uma estrutura prévia ou única que balize esses sintomas, visto que podem se
instalar em qualquer estrutura. A despeito das elucidações que permitem um avanço
quanto a esse ponto de impasse, constata-se que, mesmo quando o trabalho analítico
se efetiva, os seus efeitos não se mantêm. As intervenções consideradas eficazes no
caso, por exemplo, das toxicomanias, privilegiam as instituições que promovem o
anonimato, como é o caso dos alcoólatras anônimos e suas extensões - narcóticos
anônimos, neuróticos anônimos, etc. Aqui está o ponto de fracasso que sugere a
hipótese de que a sustentação do sintoma esteja no discurso social e institucional.
Na esteira desses sujeitos, inserem-se várias instituições e seus discursos, que
perpassam o sujeito e apontam outro risco e outro limite. A problemática do sujeito
passa a ser nomeada como entidade: evasão escolar, delinquência, toxicomania. É
transformada em fenômeno universalizado e/ou definido por circunstâncias históricas
e ideológicas que excluem sua participação – em curiosa inversão, faz-se um sintoma
sem sujeito.
Destacado de seu sintoma, o sujeito é ainda segmentado entre várias
instituições, com perspectivas muito diferentes e independentes entre si, perpassadas
por vários discursos como o da ciência, o da medicina, o do direito e, mais sutilmente,
o da religião. As instituições tomam forma de escola, creche, centros de saúde,
hospitais, atendimento em saúde mental, medidas judiciais. O psicanalista é chamado,
então, como um especialista da instituição dedicado aos aspectos emocionais,
intelectuais ou comportamentais do problema, em geral instado a se adaptar ao
sistema que comanda a forma de encaminhamento das questões. O quadro aqui
apresentado, todavia, exige uma posição sobre em que perspectivas tais
32
manifestações interessam à psicanálise, para que esta não se torne uma
especialidade a caminhar na direção de uma ética da moderação e do bem, buscando
refrear o gozo em nome da convivência, do prazer ou da realidade. Distinguimos
as especialidades (parte de um todo) das especificidades (da ordem do singular).
As instituições têm buscado avançar em suas propostas, mas continuam
caracterizadas por trazerem um enunciado de seus princípios discordante da história
da formação das instituições e das práticas efetivamente adotadas. Doris Rinaldi
(2002) demonstra (em trabalho sobre o Instituto de Psiquiatria do Rio de Janeiro)
como, apesar dos novos dispositivos propostos pela reforma – tais como Capes,
Hospital-dia, Centros de Recepção – que rompem com o paradigma médico
dominante para a "doença mental", essa hegemonia não se abalou (veja-se que a lei
do Ato Médico é apoiada maciçamente pela Psiquiatria), gerando uma organização
marcada pela hierarquia e divisão de territórios: enquanto o discurso médico atravessa
toda a instituição e, especialmente, a enfermaria, o discurso da Reforma limita-se ao
Centro de Atenção Diário, e o discurso da psicanálise centra-se no ambulatório. Mais
uma vez, observa-se o poder de regeneração da cultura e prática manicomiais,
mesmo em ambientes que têm o objetivo explícito de superá-las, mostrando como as
inovações criativas facilmente se degeneram em técnicas a serem aplicadas de modo
padronizado: à medida que as práticas se burocratizam, os papéis se cristalizam e as
teorias se tornam abstrações e modos de perpetuação ideológicos. Essa experiência
também ocorre nos locais onde é o discurso jurídico que impera.
Como não recuar diante dessas questões? Penso que a dimensão política do
gozo não pode ser deixada de lado, na medida em que é um fenômeno que captura o
sujeito em um determinado laço social. Este é um ponto de partida para pensar a
questão: tecer uma articulação entre o sujeito e o discurso social estabelecendo um
paralelo com a articulação tecida por entre Sade e Kant (Lacan, 1963), e indicar o
modo como o sujeito comparece articulado a outra cena, desta feita, além da cena
familiar: a cena social. Essa perspectiva leva-nos a incluir, na escuta e prática
psicanalítica, as cenas institucionais – família, escola, empresas, mídia – que contêm
em sua organização mecanismos de proteção, mas, principalmente, de submissão do
sujeito aos seus domínios, com discursos que o alienam em seu gozo. Afirmar a
articulação à Outra cena corre na contramão da proletarização crescente, no sentido
lacaniano, referente a sujeitos individualizados, fora do laço social. O discurso
33
capitalista que impõe a recusa à castração e implica na presentificação de gozo
superegoico, deixa excluída a dimensão da Outra cena. O imperativo de gozo da lei
do mercado se presenta como correlativo da inexistência do Outro. Inclui-se na prática
psicanalítica tomar posições quanto a vários aspectos: as políticas de tratamento; os
efeitos das clínicas especializadas; a produção e os efeitos da institucionalização; a
prevenção e, principalmente, a construção de estratégias alternativas.
Frente a este quadro, o desafio é construir uma prática clínica que considere
os laços sociais, expressos como laços discursivos na instituição: uma prática
psicanalítica movida não pela concepção de indivíduo, mas pela de sujeito, na
dimensão dos discursos. A prática psicanalítica desloca-se, então, entre dois âmbitos:
elucidar o discurso e as práticas sociais – a fim de problematizar os modos como
esses discursos afetam a subjetividade – e escutar o sujeito, elucidando os modos
pelos quais é afetado. A psicanálise dispõe de elementos para essa prática (Rosa,
2004b); podemos, a título de ilustração, destacar alguns destes elementos no trabalho
de diversos psicanalistas, a começar por Freud e Lacan.

Fonte:
rodrigomerjam.com.br

Analisando duas grandes instituições: o exército e a igreja, Freud (1921) nos


indica os modos de formação de grupos, expõe as modificações psíquicas que as
instituições impõem ao indivíduo e considera que a entrada na vida social determina

34
modificações ao sujeito. Na análise freudiana estão em jogo a construções de ideais,
que articulam narcisismo e sociedade, e referências que articulam o sujeito no laço
social, inserindo-o em todos os âmbitos da cena social. No bojo dos enunciados
sociais, novas operações se processam, operações de construção de lugares que
indicam a qualidade de pertencimento e reconhecimento do sujeito como membro da
sociedade, e que dependem das formas, condições e estratégias oferecidas por esse
grupo - trata-se de análise política de atribuição de lugares sociais. Em Mal-Estar na
Civilização (1929), Freud retoma questões narcísicas e institucionais, visando a
relacionar a constituição psíquica e formas de enlaçamentos sociais.
Roudinesco (1994, p. 478) destaca três dispositivos apontados por Lacan para
sua crítica da sociedade, distribuídos nos registros do simbólico, imaginário e real: o
mito edipiano, como o fundador das sociedades modernas; a função da identificação,
presente na Psicologia das Massas e problema para a formação das sociedades de
psicanálise; e, por fim, neste século, o advento do sujeito da ciência, fenômeno
fundamental, segundo Lacan, cuja irrupção foi mostrada no nazismo. Em Kant com
Sade, Lacan (1963), como já foi dito, indica outro dispositivo, uma vez que demonstra
que a verdade de Kant só se faz ver em outra cena, em Sade.
Birman (1994) afirma que algumas temáticas de outras disciplinas como o
poder, a crença, o valor, a ética, a violência, a cientificidade, assumem certa
singularidade quando se lhes imprime um recorte psicanalítico "que retoma estes
temas a partir do lugar da função sujeito em psicanálise". O autor exemplifica vários
pontos, dos quais destacamos a leitura pulsional do poder, "recorte que remete para
a oposição guerra e política, entre força e retórica, de maneira a buscar com estas
equivalências um diálogo possível da psicanálise com a filosofia política" (p.10).
Trazemos ainda para ilustrar o ponto de vista, Plon (1999), para quem a psicanálise
extramuros ou aplicada (como prefere) pode isolar os elementos da subjetividade
empregados nas práticas sociais e esclarecer o que dessas práticas enriquece o
conhecimento das engrenagens da subjetividade (caso, por exemplo, dos alemães no
nazismo). No campo dos processos políticos, sugere a investigação dos modos de
relação transferencial e organização pulsional utilizados para governar e os modos de
evitação da castração a serviço da boa gestão empresarial.
Retomando os fios de que nos valemos para entretecer os dois âmbitos em que
se produz a prática psicanalítica, podemos destacar que a articulação entre o sujeito,
35
as instituições e o campo sociopolítico ocorreu tanto em Freud como em Lacan, pondo
a nosso alcance dispositivos e metodologia para uma prática psicanalítica que vá além
do tratamento estrito senso. Os motivos de Lacan para não se dedicar à questão das
instituições, tema tratado por seus contemporâneos, é algo a ser pensado.
Roudinesco mostra que Lacan propõe a psicanálise em extensão na dependência da
psicanálise em intensão para diferenciá-la de uma sociologia quantitativa e contribuir
com algo mais próximo à crítica social: ele "repensa a ordem institucional em função
de uma primazia atribuída à ordem teórica. E esta ordem teórica ele a deduz da
experiência do tratamento enquanto passagem pela castração e pelo mito edipiano"
(1994, p.476). Essas formulações indicam que a direção para lidar com os eventos
sociopolíticos envolve o modo de intricação teoria-prática próprio da psicanálise.
Teórica ou clinicamente, a psicanálise está necessariamente atravessada por pelo
menos duas instituições: a família e as instituições de transmissão da psicanálise.
Como nos faz notar Lorau (Altoé, 2004), é na articulação extensão-intensão
que se localiza o ponto cego da clínica psicanalítica. Althusser (1991/1964) nota essa
ausência afirmando, no artigo "Freud e Lacan", considerar que cabe à psicanálise
elucidar alguns problemas na articulação sujeito e sociedade. Pergunta-se também
sobre as relações da psicanálise com sua condição de aparecimento histórico e sobre
suas condições sociais de aplicação: "como entender, ao mesmo tempo, a aceitação
da teoria freudiana, da tradição didática e do corporativismo das sociedades de
psicanálise? Em que medida o silêncio – recalcamento teórico – com relação a esses
problemas não afeta a teoria e prática da psicanálise?" (p.71).
Nesta direção Delgado (2002) é muito esclarecedor quando afirma que há um
enodamento entre o trabalho em intensão e o trabalho em extensão, entre a formação
dos analistas e o efeito analítico, e o que ele vai chamar de projeto terapêutico. "Ese
nudo es importante sostenerlo. Desanudarlo, implica la desaparición del psicoanálisis
mismo ya que se eliminaría la dimensión de extimidad. Un mundo sin psicoanálisis,
sería un mundo sin el valor subversivo que éste porta. Un psicoanálisis sin mundo
portando el goce de la auto segregación, haría de sí mismo un todo, lo que Freud
llamó cosmovisión."(p.4).
A dimensão discursiva, tal como proposta por J. Lacan (1969), pode nos
propiciar elementos de superação entre a clínica e a teoria da psicanálise, entre clínica
intra e extramuros, e ser um dos dispositivos principais para a inclusão das instituições
36
na prática psicanalítica. Segundo Alberti (2002), essa dimensão foi introduzida por
Lacan como uma tentativa de responder às perguntas de Foucault por ocasião da
apresentação de uma conferência sobre a questão da autoria: "Foucault sugeriu que
talvez fosse possível construir uma tipologia dos discursos que se justificaria, segundo
ele, dado que existem propriedade ou relações discursivas as quais é preciso se
endereçar para distinguir as grandes categorias de discursos" (p.45). Ele ainda se
pergunta sobre as condições e as formas em que algo como um sujeito pode aparecer
na ordem dos discursos.
Quando destaca a dimensão discursiva dos laços sociais, Lacan procura
elucidar justamente os modos como as relações de linguagem entre as pessoas
definem as maneiras diferentes de distribuição de gozo. O discurso, um discurso sem
palavras, mas não sem linguagem, dá conta dos laços sociais. Estes se constituem a
partir da circulação de certos elementos que, ao transitarem por diferentes lugares,
produzem laços sociais específicos e promovem diferentes efeitos ou sintomas. A
dimensão política do gozo toma relevância na medida em que é um fenômeno que
abrange o sujeito em um determinado laço social.
Jorge (2002) aponta que, nos discursos introduzidos por Lacan, estão as
estruturas mínimas de todo e qualquer liame social, sempre concebido como fundado
na linguagem. E acrescenta que "Todo discurso é, por um lado uma tentativa de
estabelecer uma ligação entre o campo do sujeito e o campo do Outro e, por outro
lado, a confirmação de que um impossível radical vigora entre o sujeito e o Outro"
(p.27). Cada discurso inclui nele mesmo um único sujeito, o que elimina a
intersubjetividade – são dois campos, o do sujeito e o do Outro, mas em cada um está
implicada necessariamente a referência ao outro campo, condição para formular a
referência à Outra cena que abre o sujeito para o enigma de seu ser.
Além da dimensão dos discursos, outras explicitações conceituais e
metodológicas permitem articular teoria e clínica nas instituições. A concepção
de dispositivos clínico-institucionais apresenta-nos uma outra faceta metodológica
decorrente da teoria dos discursos, presente e fartamente utilizada, mas não
suficientemente explicitada. Quando solicitado a falar do sentido e da função
metodológica dessa expressão, Foucault (1979) responde: "Através desse termo,
tento demarcar, em primeiro lugar um conjunto heterogêneo que engloba discursos,
instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas
37
administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas.
Em suma, o dito e o não-dito são os elementos do dispositivo, O dispositivo é a rede
que se pode estabelecer entre estes elementos" (p. 244).
Outro conceito que posiciona a prática psicanalítica na instituição é o
de implicação (Altoé, 2004). Ao trabalhar a questão da transferência, apoiado
no Banquete de Platão, Lacan (1960/61) afirma a simetria entre analista e analisando
quanto à questão do desejo. Declara ser a contratransferência um efeito legítimo da
transferência; nem um tema a parte nem uma falha, mas a implicação necessária do
analista na situação de transferência e é precisamente isso que faz com que devamos
desconfiar da impropriedade desse termo. A implicação vem caracterizar a posição do
psicanalista nos discursos, incluindo nela a análise da instituição. Com o analista
implicado na dimensão discursiva, consideramos a possibilidade de se exercer uma
prática psicanalítica junto ao sujeito contemporâneo e às instituições que o
atravessam.
A prática psicanalítica, balizada por princípios teóricos, metodológicos, éticos e
políticos, pode contribuir de pelo menos três formas na instituição: com a escuta
psicanalítica dos pacientes, levando em conta a especificidade da situação; como um
analisador externo à instituição no modelo do mais um (oferecido pelo cartel) e como
um dos membros da equipe formuladora e instauradora do processo institucional.
A condição desse trabalho, do lado do psicanalista, está na sustentação de
uma posição que supõe sustentar o desejo do analista e sua própria resistência em
romper com o pacto com o discurso dominante, com o discurso de classe e com o da
ciência; tal rompimento com o discurso do Mestre diz respeito tanto a submissão a
este discurso, como ao risco de somente inverter a posição (Rosa, 2002). Este risco
pode ser notado nas situações de utilização do discurso da psicanálise como aquele
que deve ser o hegemônico, desprezando os outros discursos. Tal modo de inserção
tem dois efeitos anti-analíticos: reafirmar que há discurso sem furo – e é uma questão
de força que está em jogo – e ser submetido a um jogo em que as cartas estão
marcadas. Nesta vertente o psicanalista torna-se portador de uma identidade que
rivaliza com outras (médico, juiz). Recordamos com Jorge (2002), "que o próprio
Lacan chama atenção para o fato de que seus quatro discursos recobrem as (três)
atividades mencionadas por Freud como sendo, na verdade, profissões impossíveis,

38
ou seja, lembra que estes discursos se referem fundamentalmente a
impossibilidades". (p.17).
Concordo com Volnovich (2002) quando ressalta: "Não somos psicanalistas,
estamos – isso sim – instituindo a psicanálise. Instituímos a psicanálise quando
construímos e reconstruímos o saber. Instituímos a psicanálise quando retomamos o
poder que tínhamos delegado a outros. Quando nos perguntamos onde está o poder;
quem toma as decisões que nos afetam a todos; em função de que interesses e de
resposta a quais imperativos. Quando nos interrogamos sobre qual é a nossa relação
com o poder, de que poder fomos despojados, que poder exercemos, como o
exercemos, contra quem, então estamos instituindo a psicanálise. Também estamos
instituindo a psicanálise quando refletimos acerca da nossa posição face dessa lógica
anônima e difusa do Dinheiro Geral Equivalente. Quando nos questionamos de que
modo jogamos com o interesse, a renda, o lucro e a ganância e quando esclarecemos
a nossa posição face às diferenças das classes sociais e à ordem patriarcal, estamos
instituindo a psicanálise". A psicanálise se institui (ou não) em sua práxis, quando
indica modos de romper a trama do instituído.
Considero prática psicanalítica a elucidação dos modos de captura do sujeito
nas malhas institucionais, elucidação que por si mesma abala essa condição, dada a
função do desconhecimento na formação e manutenção do sintoma e de seu gozo.
Como afirma Zizek (1996): "ideológica é uma realidade social cuja existência implica
o não conhecimento de sua essência por parte de seus participantes, ou seja, a sua
efetividade implica que os indivíduos não sabem o que fazem" (p.306). Ou seja, a
consistência do sintoma implica o não-conhecimento do que está em jogo da parte do
sujeito, e que esse desvelamento pode ter efeito de dissolução, o que significa que,
muitas vezes, a própria revelação das ilusões que sustentam os sintomas pode ter
efeitos nos mesmos. Ou pode, ao menos, funcionar – como o discurso da histérica -
como denúncia da inconsistência desse Grande Outro-organização social. O discurso
histérico faz o mestre trabalhar e revela a sua verdade: sua castração. O discurso
histérico faz o mestre trabalhar e revela a sua verdade: sua castração. Denunciar é
diferente de enunciar, mas pode proporcionar esse efeito, não para erigir novo mestre,
mas como produtor de um impasse que possibilite recriações. Recriações de espaços
institucionais que permitam colher o desamparo do sujeito, promovam o seu
engajamento, que tenham especificidades, que diferencio de especializações. Trata-
39
se, enfim, de uma recriação nas instituições que, se por um lado mascaram esse
impossível ao redor do qual se estrutura o campo social (Zizek, 1996, p.151), por
outro, não faz delas espaços totalitários cujo fim último seja a preservação da
instituição e de seus agentes.
Os lugares apontados para o psicanalista são diferenciados entre si, mas têm
em comum uma condição política e metodológica de um trabalho psicanalítico: seja
em que âmbito for, sustenta-se na possibilidade de tomar o discurso do mestre pelo
avesso, ou seja, em uma vertente não totalitária ou fundamentalista, que torna
homogêneos os modos de gozo. E uma posição: permitir uma transferência de
trabalho que focalize os projetos, e que o pulsar dos sujeitos envolvidos não seja
ameaça de destruição, mas a sinalização de uma nova direção. Nesse sentido, ocupar
esses lugares será entendido como modo de sustentação do desejo e promoção de
um atravessamento que rompa algo do simbólico e do imaginário e toque o real do
sujeito e do Outro, promovendo separações que possibilitam construir uma história
institucional com seus avanços e fracassos. É este o incerto (composto de inserção e
não-certo, não total) lugar do psicanalista na instituição: estar atento ao ato analítico
em seu caráter ético e político.6

7 A SUBJETIVIDADE E OS SINTOMAS NA PSICANÁLISE

Nossa contemporaneidade vem recheada de novos sintomas, crises de pânico,


o famoso Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), depressão. Todos esses
sintomas para a psicanálise dizem de um sujeito que tem sua subjetividade, sua
maneira de existir dentro do corpo que habita. Muitas psicopatologias vêm nomeadas
pela psiquiatria, e acabam generalizando os sintomas das pessoas como sendo
sempre os mesmos, tirando a responsabilidade de cada sujeito.

6
Extraído do link: www.proceedings.scielo.br
40
Fonte:
ednoticias.com

Estamos na era da destituição da narrativa, ou seja, a fala vem perdendo


espaço para o silêncio, a solidão de um mundo cheio de amigos virtuais, as relações
são abstratas, pois não há contato físico e nem sentimentos sinceros, tudo acaba
sendo muito superficial.
Com isso estamos constituindo seres humanos cada vez mais desamparados
e sem construções de laços firmes nas relações. Essa fluidez nos relacionamentos,
estão dando espaços para tanto sintomas que acometem o sujeito fazendo com que
fiquem ainda mais sozinhos, por meio de uma angustia inominável que os transpassa.
O suporte que antes tínhamos de relações e de uma sociedade mais firme,
acaba fazendo com que o sujeito frente a situações que precisa desse suporte interno,
por exemplo, de situações de grandes perdas, ou de grandes frustrações acabam não
dando conta psiquicamente, ficando então adoecidos e angustiados frente a esse
vazio, que socialmente é tentado tapar a todo o momento com bens matérias, e
discursos ilusórios.
A psicanálise então, implica o sujeito nesse sofrimento e dá o suporte para
enfrentar o vazio de uma maneira suportável, é através da fala que o sujeito pode
contar sua história, e através dela se haver com ela, do sentido para aquilo que parece

41
não ter sentido, o discurso cria condições para que ele possa subjetivar essa situação
de vazio e desamparo.7

8 HIPERMODERNIDADE E METAMORFOSES SUBJETIVAS

Temos afirmado que encontrar caminhos para se pensar a subjetividade neste


início de século requer o enfrentamento de múltiplos desafios. De que sujeitos
falamos? De que identidades partimos? Os processos sociais têm suportado inúmeros
abalos que expressam as mudanças, em diferentes níveis, dos campos geopolítico e
sócio histórico, o que, por sua vez, tem determinado metamorfoses subjetivas. As
diferenças entre as cidades do início do século XX e as metrópoles do século XXI
exibem com grandeza essas transformações, e mostram o trânsito aflito da pós-
modernidade em direção à hipermodernidade.
Uma das características da hipermodernidade é a grande inquietude que se
apodera das pessoas diante da vastidão e rapidez das mudanças ocorridas no curso
das últimas décadas em que um conjunto de fatores concorrem na construção desse
desassossego. Conjugam-se “as biociências e as tecnociências, a mundialização, as
grandes migrações, as revoluções da informática, as transformações do ambiente nas
dimensões atmosféricas, agrícolas, geográficas e biológicas. Ao ponto de se falar de
uma nova era geológica”.
No início dos anos 2000, alguns pensadores propunham nomear essa nova
conjuntura que atualmente se maximiza como expressão de um cenário diaspórico,
de múltiplos fluxos, numa hibridez de culturas, consumos, tecnologias e comunicação.
Nessa conjunção discute-se a emergência de novas subjetividades. Estas não mais
se ligam a qualquer matriz; ao contrário, são subjetividades desconexas que “optam
por atravessar os fluxos metropolitanos e comunicacionais, pondo em discussão toda
e qualquer sólida configuração daquilo que foi racializado, etnicizado, sexualizado por
parte da lógica classificatória do Ocidente”.
Numa clara discussão sobre os macroprocessos migratórios próprios do mundo
contemporâneo, tal questionamento coloca em discussão a relação entre o

7
Extraído do link: ednoticias.com
42
nomadismo, característico de alguns povos, e a diáspora, geralmente identificada a
um processo migratório forçado e violento. As diásporas, historicamente
compreendidas como dimensão coletiva do desarraigamento, remetem ao exílio e,
neste, as incidências subjetivas ressaltam o desterro, isto é, a perda do território de
origem e os sentimentos de não pertencimento na nova morada. Não se trata disso,
nessas novas subjetividades aqui examinadas: o sujeito diaspórico exporia as novas
identidades em curso que exprimiriam “os desafios e irregularidades perante a ordem
administrativa estatal hospedeira, ou perante o controle das culturas de origem
transplantadas para o mesmo território”.
Enfrentar o dilema da compreensão dessas novas manifestações que emergem
como verdadeiras mutações sociais e subjetivas, e nos mais diversos lugares, traz à
tona o entendimento do individualismo exacerbado e, com ele, uma nova percepção
dos valores da intimidade, do privado e da afirmação das singularidades. Diante do
avanço da economia hiperliberal, da progressão de uma sociedade de indivíduos e
das transformações da política, seria o sujeito diaspórico uma alternativa para se
liberar o sentido de diferenciação e multiplicidade e para a experimentação das
pluralidades? Como cultura e como episteme, a psicanálise tem à sua frente a
indagação sobre essas novas subjetividades sincréticas.8

9 A PSICANÁLISE E O SÉCULO: A PERSISTÊNCIA DO MOVIMENTO


PSICANALÍTICO

Transcorria apenas meio século de psicanálise, e Lacan já salientava a “[...]


persistência do movimento psicanalítico” em comparação com outras empresas
psicoterapêuticas que, por mais científicas que se considerassem, não teriam atingido
– com vigor – cinquenta anos de existência. Na interpretação de Lacan, a razão para
essa persistência, que já leva mais de um século, radica na distância que mantém
com o discurso médico. Há na psicanálise algo além da sua utilização médica algo
que concerne ao homem de maneira a um só tempo nova, séria e autêntica (Lacan,
[1957-1958] 2016, p. 383-384).

8
Extraído do link: www.culturanodiva.com
43
A “coisa freudiana” situa-se além da prática médica, além do princípio de
realidade, do bem e do hedonismo. O radicalmente novo, sério e autêntico, que
explora a experiência psicanalítica, é o transtorno que o desejo provoca na vida do
homem. O desejo se apresenta na vida do homem como perturbação: Ele perturba a
percepção do objeto [...] esse objeto, ele o degrada, desorganiza, avilta, em todo caso
abala, chegando às vezes a dissolver aquele que o percebe, ou seja, o sujeito (Lacan,
[1957-1958] 2016, p. 385). Tragédia do desejo – amarradura entre desejo e
inconsciente – que Freud articulou a partir do mito de Édipo e que Lacan rearticulou
por meio de Hamlet, indicando que o centro do homem já não está no mesmo lugar.
O descobrimento freudiano alcança a verdade ali onde a razão a deprecia, a
enfatuação do poder a desconhece, e a evidência a aniquila. A verdade fala onde
menos se pensa: no sofrimento. “Isso fala”, é o levantado pela prática analítica, o efeito
de verdade sobre nossa vida, sobre nossa carne, enfim, “[...] a incidência da verdade
como causa” (Lacan, [1956] 1998, p. 417). Mas como essa verdade transitou o século
XX? Como tem ingressado no século XXI? A partir de que transformações, de que
continuidades ou descontinuidades? Com que máscaras se oculta? Mediante que
sombras aparece? A partir de que sofrimentos – de que impensáveis – fala?
No contexto das ciências sociais – reorganizadas em torno da historicidade –
se discute se estamos vivendo sob os efeitos de uma pós-modernidade (Lyotard,
1979) ou, pelo contrário, os modos de vida atual não fazem mais que refletir o clímax
do projeto moderno: hipermodernidade (Lipovetsky; Charles, 2006). Badiou (2005), a
partir de outra perspectiva – que não deixa de apontar para o mesmo horizonte –
pergunta: que é um século? Quantos anos tem um século? Sem desprezar os fatos
históricos, pelo contrário, Badiou se propõe através deles, percorrer os pensamentos
dos homens deste século. O que se pensou que antes era impensável? A pergunta é
pela subjetividade do século. Nessa análise, o descobrimento psicanalítico é
colocado, junto com outras invenções cruciais da humanidade tais como a teoria da
relatividade ou as elaborações de Cantor, na antessala do século XX, cujo umbral foi
desenhado pelos efeitos devastadores da Primeira Guerra Mundial. Antessala da
Europa capitalista e democrática, saturada pelo brilho da potência criativa – canto à
humanidade – que tem no seu avesso sua alteridade negada: a dominação colonial e
a escravidão dos corpos africanos (Badiou, 2005). No começo do século XX, os
critérios de humanidade e sub-humanidade se expandem além do território colonial.
44
O pensamento moderno ocidental é um pensamento abissal, que a partir de divisões
– visíveis e invisíveis – produz uma eliminação radical do Outro. A humanidade
moderna, desde as colônias até os dias atuais, não se concebe sem uma sub-
humanidade moderna (Santos, 2007). Esse pensamento, apesar de impedir Freud de
ser professor e tê-lo desiludido e amargurado nos primeiros estrondos da guerra, não
o impediu de escutar a mensagem que se articulava: os Estados que dominam o
mundo e se proclamam naturalmente superiores – “guardiões das normas éticas” –
compartilham a falta de eticidade e brutalidade que imputam aos povos dominados
(Freud, [1915] 1996).
A insistência em utilizar a renúncia pulsional como marco analítico não apaga
das entrelinhas o esboço de um pensamento que capta a nova relação – sofrente –
entre indivíduo e “Estado beligerante”. Condensada na significante desilusão, a
relação moderna entre sujeito e Outro (estatal), se caracteriza pela posição desse
Outro que vê o estrangeiro – que pode ser qualquer um dependendo dos momentos
históricos – como inimigo e que, para combatê-lo, se entrega a todas as injustiças e
violências, como a uma diversidade de fraudes e mentiras. Transtornos dos valores,
que compromete a imparcialidade e a verdade da ciência: O antropólogo tem que
declarar inferior e degenerado ao oponente, e o psiquiatra, proclamar o diagnóstico
da sua doença mental ou anímica (Freud, [1915] 1996, p. 277).
Os ecos da mensagem freudiana se expandiram pelo mundo através das
disputas e desvios dos integrantes do pequeno círculo de Viena; atravessaram os
campos minados da Europa, as águas agitadas do Atlântico, para serem acolhidos
pela diversidade de saberes – desde a psiquiatria até a literatura – que compõem as
ciências humanas (Freud, [1914] 1996). Assim, a psicanálise, tem articulado seus
princípios no bojo onde se gestava a “obsessão do século”: criar um homem novo.
Obsessão tanto comunista como fascista, que alcançava seu ápice de pureza e horror
no racismo da empresa Nazi (Badiou, 2005). A intervenção norte-americana, menos
motivada por princípios humanitários contra o racismo e mais preocupada com o
expansionismo alemão, iniciou a libertação do homem da política, separou o homem
– velho e novo – do projeto (Badiou, 2005) e lhe ofereceu sua segunda natureza, sua
segunda morte: o mercado. Nele, o indivíduo encontraria a paz que a história ameaça
tirar e o projeto político roubar; nele, o ser humano poderia tomar distância do papel

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social que o oprimia e, assim, viver sua liberdade individual sem medo de reeditar a
luta de todos contra todos, própria do estado de natureza de Hobbes.
Depois de um período em que o pensamento abissal moderno se expandia pela
totalidade da superfície terrestre, nada como a mão invisível para “reorganizar” os
egoísmos, e renovar o imperativo liberal: Laissez faire et laissez passer, le monde va
de lui même. Não é apenas o mundo que anda só, também o faz o indivíduo. O
individualismo moderno diagnosticado prematuramente por Hegel (1807) como uma
ameaça para o laço social e pesquisado por Dumont (1999) a partir da oposição com
o holismo das sociedades “tradicionais”, projeta atualmente a sombra do homem a
partir de uma pequena ilha de liberdade – localizada em Manhattan – que ilumina o
mundo (Liberty Enlightening the World) ao mesmo tempo que petrifica o sujeito.
O isolamento na liberdade e a “[...] privatização ou exclusão de certas esferas
da vida, da interação social” sustentam um pensamento que apenas reflete a estrutura
espacial das consciências: o indivíduo se identifica com algo autêntico e puro dentro
de si, para somente num segundo momento se relacionar com os “Outros” que estão
do lado de fora (Elias, 1994). “Lógica de condomínio”, que produz uma nomeação
binária do mal-estar e uma cisão – social – que favorece os processos de
hiperindividualização e os sofrimentos decorrentes dessa posição subjetiva (Dunker,
2015). A partir daqui o impensável é a relação. “Não se concebe que as relações
possam ter estrutura e regularidades” (Elias, 1994), nem verdade.
É no seio dessa singular conformação histórica, na teia da cultura anti-histórica
dos EEUU, onde apenas se acolheu o sonho diurno do pai da psicanálise (Freud,
1925) para vedar a seus filhos todo acesso à experiência do inconsciente. A
descendência somente poderá se defender do inconsciente, poderá se valer de todos
os mecanismos de defesa necessários.
A psicanálise se integra à medicina e, de mãos dadas com a prática
normalizadora da psiquiatria – o DSM III é prova disso –, colabora na construção da
ética do indivíduo “de sucesso e felicidade” (Lacan, [1956] 1998). Detrimento da lei
em função da norma; o desejo cede à demanda. Estamos no campo do biopoder.
O poder se desloca e invade a vida. Passa a administrá-la com a finalidade de
aumentá-la, multiplicá-la, controlá-la e regulá-la, não sem ameaçá-la. E o faz a partir
de duas formas que se articulam no dispositivo da sexualidade. Por um lado, o poder
disciplinar – micro poder – extremamente individualizante, que capta ao corpo tanto
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na docilidade quanto na utilidade; por outro, o poder que atua na justaposição entre o
corpo da espécie e a economia: biopolítica (Foucault, 2003). Foucault (2003) percorre
a “hipótese repressiva” a partir da pergunta: o discurso crítico que se dirige à
repressão vem se contrapor aos mecanismos de poder que a sustentam ou é parte
do mesmo estofo que denuncia? O achado não evidencia um silenciamento da
sexualidade; pelo contrário, há uma exigência de fala. As técnicas de poder implantam
as sexualidades polimorfas; a multiplicação dos discursos está destinada a registrar,
transcrever e redistribuir o que se disse do sexo.
É aqui onde se faz a crítica à psicanálise no que ela pode ter de continuidade
com a confissão cristã e com os efeitos de poder da ciência. Embora a psicanálise
aponte a liberação da sexualidade, “o conformismo de Freud”, o “excesso de cautela
e prudência” prendem a psicanálise “a uma prática médica” que pretende a
“integração na ciência” (Foucault, 2003, p. 11).

Fonte:
www.gazetadopovo.com.br

Mas, assim como se faz essa crítica, que indica uma posição possível da
psicanálise ou do psicanalista, o próprio Foucault também destaca outro lugar possível
em relação à biopolítica. Esse lugar – sumamente destacado para não o considerar –
é de ter restituído à lei do sistema de alianças, da consanguinidade proibida e a ordem
simbólica da sexualidade, no seio da normatividade imposta pela neuropsiquiatria e

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no preciso momento em que o racismo, através dos dispositivos de sexualidade, fazia
da pureza do sangue o exercício do poder político.
Honra política da psicanálise de ter suspeitado – desde o início e sua ruptura
com a neuropsiquiatria da degeneração – dos mecanismos de controle e
administração da sexualidade. Colocar a lei como princípio da sexualidade [...] a isso
deve a psicanálise ter estado em oposição teórica e prática com o fascismo (Foucault,
2003, p. 182).
Duas posições possíveis da psicanálise também salientadas por Paul Ricouer
(1997): de um lado, a hermenêutica, a interpretação do desejo inconsciente, como a
face que se opõe à biopolítica moderna e ao racismo im- pregnado nela; de outro lado,
a teoria da pulsão – hoje poderíamos acrescentar a noção de gozo e real – na medida
em que, articulada ao corpo como modalidade primeira de entender o humano, acaba
por ceder à biopolítica que comanda a modernidade ocidental. O grito de liberdade de
gênero e direito à identidade – articula uma liberação ou uma opressão? Qual é a
relação com a biopolítica? Que verdade se articula ou se deixa de articular na vontade
de saber? E na vontade de poder? [...] nos faz pensar que afirmamos os direitos de
nosso sexo [real] contra todo poder, quando em realidade nos prende ao dispositivo
de sexualidade que tem criado a miragem, o brilho negro do sexo [...] Ironia do destino:
nos faz acreditar que nisso reside nossa liberação (Foucault, 2003, p 194).
Promessa pós-moderna de liberdade e identidade1 que, contaminada de
niilismo – e iludida de real –, acaba por se liquidificar no discurso capitalista –
neoliberal – produtor de novas modalidades de infinitização do gozo. No vácuo
causado pela morte de Deus, onde se articulam a absolutização antropológica do
projeto do homem própria do humanismo radical (Sartre) – e a morte do homem
proclamada desde o anti-humanismo (Foucault); vemos surgir a “paixão do real” que,
mediante a técnica – a Gestell, de Heidegger – e seu imperialismo tecnológico,
ameaça realizar a mudança do homem sem projeto e sem responsáveis (Badiou,
2005).
A psicanálise articulou seu pensamento e sua ética sobre a tragédia do desejo,
no espaço entre duas mortes. A tragédia de Antígona, mas também de Sygne de
Coûfontaine; a morte de Deus, mas também a morte do homem. Ali, entre os impasses
do existencialismo “[...] uma liberdade que nunca se afirma tão autêntica quanto dentro
dos muros de uma prisão [...] uma personalidade que só se realiza no suicídio” (Lacan,
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[1949] 1998, p. 102), e os excessos do anti-humanismo que levam a “diarreia
estruturalista” (Lacan, 1968-1969, p. 17), assim como nos giros entre o discurso do
mestre e do capitalismo. Discurso capitalista que, sob a racionalidade do
neoliberalismo do século XXI, impõe um sujeito neoliberal exigido e culpabilizado pelo
exercício da autossuperação constante e pela invenção e reinvenção permanente de
si mesmo: “empresário de si mesmo” (Alemán, 2013).
Desse modo, o sujeito submetido à exigência de “maximização do seu
rendimento” (Alemán, 2013) e à vontade de poder – “sim se pode”; “tudo é possível”;
“viver o presente” transfigurado em “falta de tempo” e “pânico” – suportadas na
hegemonia de uma culpabilização irresponsável, recorre à reivindicação dos direitos
naturais do vivente articulados pelo discurso ecológico e os comitês de bioética. Luta-
se pela sobrevivência, pela harmonia com a natureza, pela satisfação das
necessidades básicas, ao tempo que se desenvolve a espetacularização do
sofrimento humano, para reduzi-lo num “animal lastimoso” (Badiou, 2005). Diante
desse cenário, cabe lembrar que é na articulação do poder e da verdade que Freud
sustenta a impossibilidade de educar, governar e psicanalisar.
É o álibi das ideias de poder, sempre prontas a produzir sua rejeição numa ação
que só se sustenta por sua articulação com a verdade. É a essa articulação da
verdade que Freud se refere ao declarar insustentáveis estas três apostas: educar,
governar e psicanalisar. E por que o seriam, com efeito, a não ser pelo fato de que
neles o sujeito só pode ser falho, por correr pelas bordas que reserva à verdade?
(Lacan, [1956] 1998, p. 437).9

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Extraído do link: www.cbp.org.br
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