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Semblante do mar

O homem observa o mar.


Lá, bem distante, dentro da nau quase perdida de tanto horizonte,
decerto que há alguém. Pois os navios assombrados só existem nos sonhos,
nas odes e estórias de quimera e fantasia. O homem, em silêncio vaga...
Torna-se tudo absolutamente improvável, mas ele está vivo e já não pensa
nestas impossibilidades.
O olhar desatento paira sobre o verde-azul das águas caladas de uma
tarde úmida de março. É tudo muito frio: a baía, o vento, a canção adormecida
no ar. Ele respira o sal daquela brisa. Abre as narinas num esforço de quem
parece querer nascer, tocando o chão de areia, já de joelhos fincados, com as
palmas das mãos no áspero e movediço terreno. Então levanta a cabeça,
contrai a nuca nas costas, respira outra vez, agora mais profundamente, como
se o oxigênio de todo do planeta estivesse para ser sugado por seus pulmões.
Pára. Deixa o queixo quase tocar-lhe o peito e inspira. Inspira com os olhos
cerrados, o gelo por dentro queimando. Vertigem...
Mas não adianta, as respostas parecem não estar mesmo ali, e o oceano
é profundo demais para que ele talvez pudesse ir buscá-las, nadando com
peixes enormes, deslizando entre delfins, arraias, cardumes de ouro e prata; as
plantas lisas, num balé lento e sinuoso, a mesma escuridão abissal. Não! De
fato as respostas que ele queria encontrar não estavam submersas sob o
enigma da água marinha.
Agora, os cotovelos é que deixarão as marcas na areia, e o homem,
como um feto, encolhido grita para dentro de si mesmo com as mãos apertadas
contra os ouvidos, o coração pulsando dentro da cabeça latejante. Ninguém o
escuta pois não há quem suponha o que ali se passa. Ainda sepultado em
silêncio, a voz já completamente atrofiada, mais uma vez ele tenta relembrar-
se. Inútil e cansado. Um homem equívoco, entre o sentimento de consolo por
estar a salvo – em terra firme – e um desespero interior que lhe invade a alma,
na medida em que constata, retomando as forças restantes, que pessoa
nenhuma habita ou encontra-se naquele lugar.
Uma solidão terrível virou sentimento e para ele aquela enseada passou
a não fazer mais sentido algum.
Seu corpo, impresso na areia, desfazia-se aos poucos com o banhar das
ondas inofensivas. A maré chiava, sangrando o tempo que também já não mais
importava, pois o homem sabia, bem de dentro de sua mais íntima apreensão,
que talvez passasse meses, anos, talvez muitos anos perdido, completamente
esquecido naquele pedaço de mundo que não era o seu. Pensou que pudesse
estar mesmo condenado a ficar preso ali para sempre. Assustava-se cada vez
mais com o tamanho deste tempo desconhecido. Enquanto andava pela orla,

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ele tentou por horas e horas encontrar algum vestígio do naufrágio que o
repudiara ali. Suas pernas formigavam, os braços pareciam de ferro – duas
âncoras absurdas – e seus olhos estavam ardendo, de tanto que o sal das
lágrimas juntava-se ao suor e toda aquela maresia. Ele pensava, porque só
mesmo pensar lhe restara: “Não pode haver solidão assim no mundo. Que
mundo será este? Onde fica esta praia, quem saberá? De que adiantaria se eu,
somente eu soubesse, com as perfeitas coordenadas de latitude e longitude?
Para quem entregaria esta carta náutica?” Não admitia conformar-se.
Foi quando então um delírio lacônico o trouxe de volta àquela estranha
realidade solitária e hostil. E ele agarrou-se a isto como a uma tábua à deriva
de suas incertas correntezas – acordara de si mesmo – pois de uma só coisa
parecia ter suspeita: não podia perder o fiasco de lucidez, gradativamente
roubada por todos aqueles meses ali, naquele paraíso inóspito, sozinho sem
ter sido largado, esquecido tendo sido certamente tão esperado. “Mas,
esperado exatamente por quem?” perguntava-se comumente, até entregar-se
ao cansaço febril e adormecer um sono sem sonhos. A amnésia
incompreensível era sua companheira cruel. Vivia naquele lugar, obcecado por
este vazio enorme. Tudo doía dentro daquele ser tão fragilizado de dúvidas,
perguntas e mais perguntas se repetindo, sempre nenhuma resposta sequer.
Além do fato de não saber onde estar, o homem era, dia após dia,
vencido dramaticamente pela angústia de não ter idéia alguma, nenhum sinal
concreto de onde pudesse ter vindo. Em sua mente, apenas o rosto de uma
mulher – embora não soubesse de quem se tratava. Esta presença feminina
era o único fragmento de uma possível memória que foi ali mesmo se tecendo
pouco a pouco, aquela mulher cada vez menos estranha que lhe visitava
constantemente, e com quem conversava por longas e longas horas.
Ele decidiu que a amava muito. Porém não sabia desde quando nem de
que forma aquele sentimento, que já tanto acalentava seu desespero quieto e
perdido, havia se radicado dentro de seu peito de náufrago.

A mulher trazia – independentemente de qualquer outra expressão que


manifestasse – um determinado olhar, uma feição demasiadamente intrigante e
melancólica, que deixava sempre uma impressão da certeza magoada de que
um dia, talvez muito em breve, fosse perdê-lo. Por causa desta expressão, este
tal olhar remoto e atenuado, o homem passou, com o tempo, a chamá-la de
“Semblante do Mar”.
Na verdade o homem não via sentido na inquietação da mulher, porque
ele, em seu pensamento, depois de equacionar todos os elementos de
tamanha loucura, finalmente concluía não ter para onde ir nem muito menos
para onde fugir, além de já não mais saber se poderia se adaptar a qualquer
outra realidade; a própria adaptação em si é que realmente lhe era
dolorosamente traumática e ele tinha muitas dúvidas quando pensava na
possibilidade de voltar para o lugar desconhecido de onde viera.

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Mas mesmo assim Semblante do Mar tinha este medo, como se não
fosse suportar a perda daquele ente, aquele que era o responsável por sua
existência, o ser de carne e osso que precisou ser cuspido naquele litoral pra
poder lhe trazer à vida. Seus olhos de filha-mãe, de irmã-amiga eram os olhos
de todas as mulheres: sofriam por antecipação. Mas nem por isto deixava de
confortar o espírito daquele estrangeiro com suas cantigas de sereia. Afinal ele
era agora o seu homem, seu companheiro; de fato ele a resgatara de uma
dimensão inexistente, de seu mundo imaterial para dentro daquele universo
compassivo de vibrações, pensamentos, sensações, imagens e vida. Na
verdade, para ela, mais do que simplesmente representar, ele “era” a sua
própria vida.

Não poderia levá-la se partisse dali, e disto, embora sem saber como, ela
sabia. E Semblante do Mar concentrava-se nas certezas que tinha: a de que
também o amava – com a força inexplicável dos que não sabem de onde isto
vem – e a de que se houvesse mais alguém, qualquer outro ser que fosse, ele
a esqueceria, como quando se esquece dos que estão para além dos arrecifes,
de tão intransponíveis. Mas aquele homem nunca iria esquecê-la.

Um dia então, ela acordou com os gritos do homem. Eram gritos


misturados a um choro grave e rouco. Ela o viu correndo pela beira da praia,
desatinado, uma criança traída pela rejeição. E aquela mulher ficou ali, apenas
triste, de tão triste, observando com a impotência de seu pesar, como se
soubesse que aquele ritual de exorcismo fosse algo necessário para abrandar
a dor de seu amado. Ela não sabia chorar, não aprendera ainda, seus olhos
pareciam de pedra, duas pepitas de coral, absortos e inanimados.
Quando ele por fim quedou-se na areia – ainda trêmulo, epilético,
soluçando a cabeça adernada, o olhar de terror já vencido de uma quase
apatia – ela aproximou-se com muito cuidado, servil e lentamente. A presença
da mulher transmitiu-lhe uma calma densa e o homem foi acolhido de um amor
sobre-humano, cheio de aceitação e virtude.
Longe, o céu na risca de horizonte dissipava a fumaça azulada e
silenciosa de uma embarcação completamente alheia. A manhã soprava um
vento de velas fantasmas, enquanto o coração naufragado terminava de
repousar, como a armadura de um imenso galeão, vencido da cansada
odisséia, tocando o chão tenro e negro do oceano profundo.
Semblante do Mar ficou ali, ainda por muitas e muitas horas, velando e
ouvindo, sussurrando adágios, a praia toda a marejar sua consternação, até
também desfalecer, até sumir a ilha deserta.




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Criado mudo


Estou dialogando há horas comigo mesma. Sinto o estrondo deste
silêncio, escuto meus pensamentos inclementes, argumentando, subjugando
esta minha falta de estímulo para vencer-me a mim mesma, e ao passo que
não consigo render-me, ao mesmo tempo encontro-me já quase sem forças.
Estou há dias nesta conversa que não quer nunca acabar. Tenho medo de ficar
sozinha, e para mim, no entanto, não passa de apenas mais uma palavra, esta
palavra solidão. E tenho andado então triste, sem respostas, desde que para
mim ficou decidido que não mais iria procurar-te. E tem sido péssimo, tenho
chorado muito, e somente o criado mudo sabe disto, pois fico horas pensando,
olhando para ele, cada vez menos consciente do quanto o perigo tem rondado
esta minha angústia. Mas não tenho coragem de procurar-te, já tomei a
decisão de não querer mais entender este sentimento que me abateu como se
fosse uma sentença.
Mas é que esteve doendo mais contigo, ao teu lado, do que longe de ti
tudo em mim agora dói. É que eu não sabia mais quem tu eras, e há muito já
vinha, sobre isto, comigo mesma dialogando. Continuo neste debate que tem
me assolado, esta inútil conversação que tem me consumido. Sinto-me exausta
como uma serviçal antiga numa grande casa de fazenda.
Pego então as tuas fotografias, e eles – estes pensamentos – eles não
me deixam queimá-las; advogam-te com veemência, entretanto sem sentido
algum, como se ainda algum dia, quem sabe algum dia...
Rasgo um bilhete sem importância alguma, mas as tuas cartas principais
continuam intactas, debaixo daquele estranho peso de metal dentro da gaveta.
As lembranças execradas, sempre voltando, este pesadelo que me afronta e
perturba mesmo acordada. Estou há dias trancada neste quarto sem janelas, o
cômodo desta terrível habitação sem portas, cujo endereço também já se
perdeu. A dúvida me corrói como uma ferrugem vagarosa; tenho receio de que
o tempo me abandone, e de que não mais estejas aí quando enfim possa este
meu peito sucumbir ao tormento que foi por mim mesma forjado. Sinto muito
medo, muita dor, mas optei por não mais sofrer, por não mais deixar que
fizesses de mim apenas um instrumento das tuas próprias covardias.
Pois tudo foi ficando tão obscuro, teu semblante transfigurado; já não
eras o espelho de minhas expectativas, já não vinhas como de costume,
sorridente, os passos reconhecidos nos degraus da escadaria, os olhos de
pura entrega infantil; teus braços tensos já não mais me pegavam contra teu
peito ávido; ao contrário, eles encobriam agora teu próprio peito, cruzados
numa indigna posição de defesa, teu semblante penalizado, patético, teus
poros exalando mentiras.

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As noites esfriaram muito e agora estou morrendo. Sinto que estou
morrendo, aos poucos, como se soubesse que irei ficar assim para o resto de
minha vida. E meus pensamentos não desistem de mandar-me ir, de compelir-
me ao teu encontro incerto, esta divisa entre o possível e o improvável, este
limite que desconheço, sempre.
Sinto-me muito envergonhada para poder cometer qualquer ato de falsa
bravura, somente contra mim mesma. Sequer isto também me sobrou, embora
minha vida esteja impregnada com as tuas recordações e isto já seja mais do
que suficiente. É por causa disto, deste desespero, que não posso mais
continuar esta batalha estúpida contra mim mesma, esta masturbação sem
orgasmo, este sobejo de desilusão. Estou dialogando há dias comigo mesma e
agora não quero ouvir mais nada. Basta! Estou olhando para o armário e vejo
aquele meu vestido azul marinho, o que deixa minhas costas nuas para as tuas
mãos – o mesmo que usava quando nos conhecemos. Uma langerri preta
saltou para fora da gaveta, e só por este motivo então, não porque queira
meramente provocar-te. Sei qual o perfume da tua preferência. Sinto teu
queixo a roçar minha nuca e a tua voz gelando a minha alma confusa. Meus
olhos estão fechados e minhas pernas, trêmulas. Meus cabelos estão um
pouco mais longos: irás sentir que o tempo esteve o tempo todo perto de mim
também. As chaves do carro estão brilhando sobre a mesa da sala de estar. Só
é preciso escolher bem os sapatos, optar pela exata estatura desta minha ida
sem volta. Não reli tuas cartas antes de queimá-las. Está vazio agora, o criado
mudo. Meu batom vermelho-escuro já está dentro da pequena bolsa de verniz.
E o pente... Está carregado, o pente da pequena pistola automática, a estúpida
arma prateada, calibre vinte e dois.















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A santa que virou mulher



E então as coisas que na verdade fui sentindo, a partir deste ponto,
foram se tornando chaves para meu perplexo entendimento das muitas
passagens de minha vida. Eu sou o meu passado, com seus fantasmas de
algodão e sua face turba de tantos esquecimentos forçados pela dor. Uma dor
que eu não podia reconhecer, não podia encarar, pois não eram apenas dores
que doíam no corpo, e sim, ferroadas quentes na pele de minha alma. Por isso
foi que tanto me manipulei para esquecer. Por isso esquecer era exausto e
quase impossível, sempre. Como compreender tantas coisas se estas mesmas
coisas me paralisariam tanto? Como exumar meus descaminhos todos, todas
as desilusões, já que ilusões era o que de fato eram? Não. Tenho que me
perdoar, agora sei. Tenho que encarar minha total e rude imperícia. Só assim,
desta forma, poderia, posso e poderei me sentir menos desnecessária, menos
tola, eu que nunca passei desta coisa ínfima.
Realmente: não preciso de mais ninguém para poder me atrapalhar.
Basto-me, eu e o meu inútil talento para esquivar-me dos meus propósitos mais
elementares.
Quando servia café para meu pai – as mãos trêmulas, os olhos
arregalados de nunca poder errar – ou sempre estava muito doce quando a
xícara estava cheia demais, ou sempre estava muito frio para o frio que então
fazia. E eu continuo ainda nunca sabendo, a despeito de que talvez toda
mulher saiba, nem que seja por obrigação, qual o ponto certo de uma gema de
ovo para se poder agradar um marido insatisfeito. Continuo a ter medo de
encarar as receitas, as mesmas que parecem tão simples nos livros e nos
programas de televisão. Sinto-me inútil como uma rolha velha guardada dentro
da gaveta das facas. Estou mera. Mera como se o mundo não precisasse de
mim, e, o que é pior, como se ninguém realmente pudesse me convencer do
contrário.
Como estas coisas tomaram conta de minhas reflexões balzaquianas?
Não sei. Nem me perguntem. Só sei que precisei me sentir como um verme,
para que viessem à tona todas estas súmulas impressões a respeito de quem
tenho sido nos últimos vinte, vinte e cinco anos de minha vida tão
desinteressante e maquiada.
A vizinhança toda sabe: eu nunca fui feliz.
Quis esconder o evidente durante quanto tempo? E, durante quanto
tempo me acostumei tanto com isso que parei de notar que estive o tempo todo
tentando fazê-lo. É por isso que meus ossos doem, por dentro deste corpo
obsoleto. Claro! Como poderia uma estrutura que foi feita para ser rogada de
tantos predicados sublimes, tantas evidentes qualidades humanas, tanta
divindade, como poderia suportar, anos e anos a fio sendo tratada – e falo de

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mim mesma – como uma santa. Espere, eu explico! Nunca quis, nunca fui, nem
poderia ser, nem mesmo querer ser santa. O que eu achava era que teria de
passar por isso, por este incômodo estágio de evolução da natureza feminina,
para poder me transformar em mulher. Santa, de jeito nenhum. Quanto mais
fazia os gostos, quanto mais me denunciava em jogos de falsas renúncias –
renúncias das quais eu nunca fora sequer capaz ou até mesmo digna – mais
me afastava e isto sim, da mulher que almejava em mim, para mim. Quanto
mais lambia os colarinhos e as mangas de camisa, quanto mais fervia, cozia e
cozinhava, quanto mais e, a cada queimadura em meu pulso, a cada pingada
de óleo vivo em meu busto, mais me afastava da mulher que nunca seria. Hoje
sei disso perfeitamente.
E ainda tinha que ser a mais bonita das festas, mesmo sendo sempre,
rumorosa e estupidamente, a mais desprezível, a mais protagonista de todas
as chacotas e entrelinhas, por pura falta de assunto e consentimento meu.
Tudo isto, se não fosse sorrindo, não servia ao propósito inicial: ser santa para
depois poder ser mulher. Só que eu nunca iria – pelo menos por intermédio
destas coisas infames – chegar a saber o que poderia significar ser
exatamente mulher. Sempre havia o sono, o enfado, o desgaste, não de minha
parte, lógico. Então eu me perguntava, antes de ter muito problema para poder
conseguir dormir, me perguntava muitas e muitas vezes: “onde foi que eu
errei?”
A partir deste ponto, descobri que meu descalabro não tinha mais volta.
Minha obrigação, como se fosse um caso ligado a uma questão de cidadania,
de auto-sobrevivência, de auto-preservação, era assumir a responsabilidade
por certas atitudes. Nada do que havia feito até então funcionara, não para
mim mesma, não para que pudesse haver me poupado de estar nesta
bancarrota existencial na qual me encontrava.
Teria que fazer coisas que nenhuma de minhas vizinhas, nenhuma de
minhas tias, minha mãe, nenhuma de minhas amigas – todas talvez tão
infelizes quanto eu, ou mais – fariam. Coisas hediondas, porem hedonistas.
Atitudes escandalosas, mas refutáveis, pelo seu próprio caráter evidentemente
moral, humano.
E eu tinha toda esta razão.
De uma coisa servira toda a minha condescendência, toda a minha
aleijada santidade durante todo este tempo em que estive sumariamente
anulada: eu acumulara razões. Tinha uma bíblia de motivos plausíveis, de
justificativas comoventes, mesmo já tendo aberto mão completamente do papel
de vítima da situação. Minha memória, esta mesma da qual eu passei toda a
vida fugindo, ela é que representava agora o meu inventário de alforria.
Passei então a me lembrar. Tudo de que eu me ocupava tinha a reza da
lembrança. Ficava passando em minha mente os filmes proibidos de meu
passado. Rir de muitas coisas foi me acostumando a ter mais força; força para
lembrar, mais e mais. Chorar também me trazia a mesma desconhecida seiva.

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Então eu ia rindo, chorando, me assombrando, me comprazendo, eu ia, pouco
a pouco, me tornando mestra na arte de lembrar, lembrar e lembrar. Tanto é
que se me perguntavam: “Dolores, em que você está pensando” – esta
pergunta que todos costumam fazer quando percebem que se está correndo o
risco de acordar para o quanto que se é infeliz – eu respondia, calma, com uma
ironia que me transformava lentamente: “Nada. Não estou pensando em nada.
Estou só me lembrando”. Curioso era notar que ninguém ousava me perguntar
“do quê” eu estava me lembrando. Era desconfortável demais receber a
simples verdade como resposta a uma pergunta para a qual só se poderia
esperar o silêncio de um olhar vazio.
Acontece que meu olhar estava repleto. Repleto de recordações que me
davam a prerrogativa de ser a criatura mais merecedora de felicidade nesta
vida. Meu olhar comprava com suas lembranças o futuro que me restava,
tivesse isto o tempo que fosse. Meu semblante se transformara em tirânico e
minhas manhãs começaram a ganhar um propósito. Um propósito tal
começaram a ter os meus dias, que eu poderia continuar vivendo a mesma
vida medíocre, assim, com esta nova e excitante maneira de olhar para mim
mesma. Mas não bastava porque nada daquilo era o bastante. Afinal, era
somente por isto que eu me encontrava naquele estado de espírito, naquele
enleio, como alguém que sabe que está para sair da prisão. Aquilo é o oxigênio
que faz com que não se morra. Não se pode dizer a alguém: “fulano, você sai
daqui a três meses” e depois tirar isto desta pessoa. Só a pretensa liberdade
pode transformar a rotina dos mortos em vida. E era isto o que eu era: uma
santa, uma morta cheia de vida para poder dar e dar, sempre aos outros. É
bem verdade que ia fazendo meus milagres, no dia a dia, para poder me
suportar a mim mesma.
A raiva também teve uma contribuição valiosa em meu processo de
assustar-me comigo mesma. Não sabia que era capaz de sentir tanta raiva.
Percebi que o orgulho que sentia de ser a mais forte, a mais compreensiva, a
mais calada, a mais submissa, percebi que tudo aquilo não passava de uma
raiva imensa que eu nunca tivera coragem de expressar. Sempre achei que as
santas tinham virado santas porque nunca se renderam à raiva. Depois, agora,
muito depois, descobri que a mulher não nasceu de uma costela, mas sim, de
uma coisa também dura e óssea que se chama raiva.
Eu continuava serena – até muito mais serena – porém, sabia que era
detentora de um poder o qual nunca havia antes experimentado, ou seja, o
poder de saber que minha insatisfação era motriz de minha condição individual
neste mundo em que a mulher representava, isto se assim o permitisse, não
mais que um detalhe. E eu havia me transformado em algo muito mais
relevante do que um detalhe sem importância: eu me transformara em uma
mulher, ainda que não soubesse ao certo que tamanho tinha isto, se cabia ou
não cabia dentro de minha existência, dentro desta nova espécie de redoma,

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uma redoma da qual eu mesma podia tirar o vidro empoeirado para poder
limpá-lo por dentro.

Quando então, Dolores e Vicente pararam na portaria obscura do motel,


esperando pela recepcionista com o número da suíte, ele aproveitou para
perguntá-la, ainda que transparecendo não estar nem um pouco preocupado
com qualquer tipo de sentimento que a mulher pudesse estar experimentando,
só para passar o tempo daquela indiferença sem nenhuma intimidade:
– E o seu marido, Dolores? Você não está preocupada? Acha que ele
poderia desconfiar de nós dois?
– Número nove... Gosto de nove. – disse a mulher, completa e tranqüila,
sorrindo delituosa, antes de responder a Vicente. O carro já entrando,
suspeitíssimo e lento pela alameda escura do motel, ela rodopiando a chave
presa na pesada plaqueta de bronze... – Não. Não estou preocupada, não.
Expedito sabe. Ele já teve mais de vinte anos para saber que eu sou uma
santa.























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Natureza feminina



Rosa acordou sorrindo para o jardim de Manuela. Respirava a manhã
pela seda das pétalas que o vento acariciava, na amena temperatura. Rosa
aparecia entre as ramagens, depois sumia e tornava novamente a aparecer,
como se estivesse a brincar de esconde-esconde, bem marota, enquanto o sol,
no éter do orvalho, fazia tudo vicejar. O corpo de Rosa parecia de veludo, o
contorno de sua figura na delicadeza da luz que pouco a pouco mais e mais
incidia.
Manuela, tomada de encanto, somente observava a dança no jardim;
estava ali, a imaginar em como seria ser como Rosa: aquela presença
esgalgada, o botão dos olhos explodindo em exultação, contentamento e
jovialidade. Até sua fragilidade era perfeita, que a formosura, por si só, já tudo
dizia.
Rosa sabia de Manuela parada acolá entre as cestas de samambaias
dependuradas na varanda, um tanto ausente, respirando o ar puro daquele dia
que, quanto mais se pronunciava, em mais colorido e bucólico ia se tornando.
Talvez uma quisesse ser exatamente como a outra, mesmo que fosse
assim, sem mutuamente perceberem que sentido isto poderia ter, se era
realmente isto o que de fato acontecia por dentro delas, ou até mesmo dentro
de cada natureza feminina. Manuela ocupava os sentidos em não se deixar
levar por aquele lamento calmo – mas, profundamente incômodo, perene –
sem que houvesse razão que ela pudesse admitir, pelo fato de se reconhecer
como uma pessoa simples, realizada e feliz. Rosa, Rosa simplesmente sorria,
inundando o cenário azulado daquela manhã manchada em tons pastéis, sua
face iluminada e enrubescida, como se soubesse o quanto é ingênuo amar.

Manuela caminhou lentamente em direção à Rosa e o silêncio que havia
não se desfez. As duas entreolharam-se, acabrunhadas, mas convictas,
impostas de um reconhecimento tão ilusório que lhes pareceu ancestral. Um
estranho, porém sutil mimetismo começou a se dar. O jardim inteiro foi-se
paralisando, o canto das aves matutinas ficando cada vez mais longínquo, os
aromas interrompendo a mágica de seu exalar constante... Uma pequena
nuvem muito alta parou também sob o sol, pictórica, trêmula, como se
estivesse sustentando ali todos os mistérios daquele tempo parado, imaginário,
irreal.
Uma lágrima antiga então se precipitou pelas curvas do rosto desenhado
de Manuela. Aquilo era tudo o que naquele momento de ficção se movia. A

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pequena e cristalina gota tocou a superfície do que agora já era pálpebra, e
não mais pétala. Rosa abriu seus olhos, num susto sem espanto, quando
subitamente, de dentro da própria fábula, o movimento e os sons de tudo o
quanto mais havia ao redor começou a regressar. Naquele instante, em que
toda a vida parecia vibrar em uma dimensão intrigante, desconhecida, no
momento em que a seiva e o sangue misturavam-se, sintetizados no pacto
daquela espécie de metamorfose, enquanto braços já eram ramos de folhas e
o caule tenso começou a transformar-se, dolorosamente vertebral, Manuela
acordou, na inércia de uma aflição que ainda rodopiou sua mente por alguns
segundos, o peito comprimido, o coração disparado e estranhamente humano.
Pôde perceber que uma fresta de aurora, vencendo a janela fechada, já
riscava de luz o assoalho de seu quarto de dormir, de acordar... Caminhou
ainda sonolenta, equilibrada sobre este fio dourado que se estendia em direção
à porta entreaberta; quando, sem que ainda pudesse dar conta de si própria,
flagrou-se de pé, imóvel e tranqüila contemplando a paz do jardim com o qual
não tinha certeza se de fato sonhara, se fora apenas uma lembrança ou quem
sabe um pensamento entorpecido, mera divagação. Embora tudo lhe tenha
soado muito impalpável, e apesar de que naquele momento o ambiente a sua
volta exprimisse uma assustadora atmosfera de normalidade, Manuela sentiu a
alma violada: Alguma persuasão muito íntima lhe afirmava que realmente
estivera ligada, ainda que durante aquele tempo inexato, ao que se passara ali,
em torno da existência daquele outro ser.

Pois o que acontecera, enquanto Manuela dormia, foi que Rosa no
jardim se abria, e ela, Manuela, ainda era unicamente mulher, ao passo que
Rosa, Rosa já era o que o seu próprio nome dizia, nada mais sequer. Manuela
já tinha certeza, ela agora sabia: Rosa era tão somente uma flor, só mais uma
flor que a beleza daquela manhã lhe trazia.













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Hora do recreio



Andressa tem nome de menina rica. E não é só isso: rói também as
unhas quando está confusa, sempre sem saber direito o que está acontecendo.
Criança nunca sabe mesmo muito das coisas, nunca o suficiente para que
possa abrir mão da constante necessidade de perguntar, perguntar e recorrer.
Mas, recorrer a quem, oras? À mãe, ao pai, claro.
Andressa não podia. Não sabia onde estes dois, naquele momento se
encontravam. Será que sabia dizer qual o seu endereço? O bairro, talvez – no
máximo: “lá no Por do Sol, moro lá no Por do Sol”. Como assim, Por do sol é lá
nome de bairro? Pensei que fosse favela. E é. Favela do Por do Sol. Pelo
menos é bonito, ingênuo, pelo menos o nome.
Deve ter uns dez, onze, doze anos quem sabe. Tudo isso? Que importa!
O tamanho é de oito ou nove.
Ela tem carinha de menina triste. Não só triste: tem um rostinho já até
envelhecido, a pobrezinha; as expressões de surpresa e descoberta, a
empolgação pelo desabrochar dos mistérios curiosos da vida há muito que lhe
sumiram da face. A face só guarda o desenho do susto. Andressa trouxe um
susto esquisito e constante que se esqueceu de deixar lá pelo mundo de onde
veio. Mas ainda não tem idade pra ser infeliz, então acaba que vive sorrindo.
Ela tem nome de menina rica, tem carinha de menina triste, e também
tem olhos de doçura, a pequena Andressa. E como todas as outras meninas,
ela também tem medo, muito medo. Só tem uma diferença: já sabe que não
adianta. Não sei quem foi que lhe disse isso. Tudo o que sabe, só sabe que
aprendeu por si só, coisas que não se lembrou de esquecer. Assim, como ficou
sabendo que é perigoso atravessar a avenida, que precisa olhar para os dois
lados; que tem que dormir antes das dez; que não pode meter o dedo no
buraco da tomada – e na casa onde mora nem tem energia, vê se pode!
Aprendeu também que faz mal, comer manga com leite, embora nunca tenha
tido as duas coisas ao mesmo tempo, para poder tirar a prova. Criança só
acredita vendo, tirando a prova, e é por isso que tem que ter cuidado. Uma das
únicas coisas que Andressa aprendeu com a mãe, foi que nunca devia esperar
por ela porque podia ser que não voltasse hoje. E com o pai... Com o pai ela
nunca aprendeu nada. Mas ela só sabe que tem que ter um pai, “senão criança
não nasce de jeito nenhum”.
Toda noite ela vai para a esquina onde tem o sinal. As outras meninas,
dentro dos carros, ficam pensando, roendo as unhas, com os dedinhos miúdos
na boca, como é que deve ser ter tanta liberdade. Seus pais não lhes deixam

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nem sair na calçada sozinhas! Mas Andressa não liga, nem tem pena delas,
enquanto coloca o rostinho colado na janela, com o semblante tristonho que
realmente tem, sem precisar fingir, pedindo trocados. Ela sabe que aquelas
meninas têm outro tipo de felicidade, a mesma que ela acredita que um dia vá
ter, porque nunca tiveram coragem nem certeza para poder dizer-lhe que ela
talvez nunca tenha.
Andressa já nasceu com nome de guerra. Também não sabe ler nem
escrever, tal e qual aquelas outras meninas que ainda estão aprendendo. Este
ano ela não tem escola. Nem no ano passado, nem no ano que vem. Está de
férias: as maiores que já se viu! Em compensação já nasceu trabalhando.
Quando bebê, precisava do colo da mãe para ganhar seus trocados. Agora –
agora faz tudo sozinha. Ela parece que sabe que vai ter que fazer tudo
sozinha, assim como também sabe que a única coisa que sozinha não pode
fazer, é criança.
Às vezes pára nas janelas dos carros e se esquece de pedir suas
moedas: fica olhando, abismada, as mulheres com aqueles peitões, sem saber
se aquilo dói, e nem muito menos se serve pra quê. Andressa é bem magrinha,
as perninhas só não são mais finas que os braços compridos. Tão frágil que é
bom nem saber.
Ela tem nome de menina rica, tem carinha de menina triste, olhos de
doçura e nem parece que não tem infância, de tantos amigos que tem: o
Vilamar, a Maria, o Cacau, o Dedim, na verdade Matheus – o que perdeu o
indicador da mão direita sem saber dizer como; tem o Candinho, irmão mais
velho da Ritinha, e irmão mais novo do Biluca; tem o Bodeco, a Naiara, a
Diana, o Vavá, o Guilherme – que só aparece quando o pai não leva ele para
catar lata e papelão. Tinha o Felipe, mas este o carro pegou, no ano passado,
o Lilipe...

Enfim, a turma de Andressa é igual a qualquer outra, fazem sempre a
maior algazarra, como se estivessem na hora do recreio o tempo todo. Como
todas as outras crianças, querem exatamente as mesmas coisas: boneca,
carrinho, lápis de cor, televisão, vídeo-game, bola, pipa, bala, biscoito,
sanduíche, refrigerante, colo... Não. Colo Andressa até já parou de querer, faz
tempo. Bastava as outras coisas mesmo, que, para ela – dentro da cabecinha
dela – tudo já estava mais do que bom.







!13


Se o tempo não parar



Ela estava mesmo em um daqueles dias em que só se consegue
simplesmente fingir que tudo está bem. Nada além disso, apenas fingir, mesmo
sendo um fingimento incorporado, admitidamente autêntico, fingir que se está
calado, em silêncio, e de fato estar. “Como vai? Tudo bem? – Tudo!” Mentira.
“Se soubesse como estou por dentro, parece até que nem estou. Mas, não
importa...”.
Não custava nada uma mentirinha. E fingir já está dizendo: nunca é a
coisa em si, embora se pareça perfeitamente com ela. Por isso que fingir é
demasiado cansativo. Deve ser por este motivo que ganham tão bem os
atores. Principalmente os de televisão e cinema por que conseguem fingir para
um numero muito grande de pessoas que são enganadas ao mesmo tempo,
com magnetismo, estilo, com propriedade.
Mas ela estava meio triste, estava insípida, tinha acordado e não sabia
muito bem para quê. Sorria somente com a boca: os olhos fundos de nada ter
graça. E isto não é sorriso, nem de longe se parece com quando se está pelo
menos alegre de comprar uma coisa supérflua que se quer muito, sem se
saber que se queria; encontrar alguém realmente estimado... Mas ninguém era
muito querido dentre as pessoas que insistiam em povoar aquele dia indolente
de Luana: Seu Adonias, o porteiro imigrado do interior; Dona Matilde e as duas
filhas, Samira e Silmara, a magra e a mais magra ainda, filhas também de Seu
Hilário, o pai separado que nunca aparecia ou que pelo menos nunca se
deixava ver por ali.
Aliás, na vida – e ela chegou a essa conclusão estarrecedora justamente
naquele dia – ninguém lhe era demasiadamente prezado. Pela mãe, Domitila,
divorciada de Antunes Salgueiro, o pai, Luana sentia apenas uma espécie de
sentimento técnico, uma ligação parental obrigatória, um amor somente lógico
que lhe imputava uma visita ou outra, sempre aos sábados ou domingos, um
almoço, um passeio breve, junto com a irmã, Letícia, que também ocupava
quase o mesmo status de afinidade que a genitora, não fosse por certas
confissões mútuas que trocavam raramente, quando uma delas arranjava um
namorado novo, um flerte ou coisa parecida.
Por que era um daqueles dias em que nada parece que serve, de fato.
Nada que pudesse trazer Luana de volta daquele começo de depressão
do qual teria que fugir, com todas as forças, por não ter tempo para isso e por
não ser tão abastada para tanto desfrute. Mesmo que tivesse dinheiro
sobrando para pagar uma consulta no psicanalista, não teria, com toda certeza,

!14
o dinheiro para as receitas e para o uso continuado dos ansiolíticos,
antidepressivos, antidistônicos, antitristeza, antivizinhos, antisimesma...
Luana passeava de um lado para outro dentro do apartamento que,
mesmo com ela dentro, parecia desoladamente vazio. Passeava com a xícara
de café na mão. Ia até a janela, olhava as plantas nos vasinhos, quedadas no
parapeito. Passava pela frente do espelho, sem se olhar. Pensava, pensava e
nada de chegar a qualquer arremate. Talvez mesmo porque não quisesse. De
vez em quando parava em frente à mesa da cozinha e pegava uma bolacha
que mastigava com abnegação, isto porque não sabia o que querer. Se ao
menos tivesse algum projeto, algo que demandasse expectativa, algum plano
de economia para dar entrada em alguma coisa maior, um carro novo, quem
sabe uma casa própria. Mas não! Era difícil constatar que nada, absolutamente
nada, a despeito do grande vácuo que sentia, lhe fazia falta, material e
meramente falando.
Mas eram dez e quinze da manhã e aquele dia só estava apenas
começando.
Ela fazia parte da confusa parcela de mulheres que foram tragadas pela
onda de independência, feminismo e emancipação, sem que soubessem de
fato o que fazer com isto. Trazia dentro de si constantemente – mas nunca de
forma espontânea – os instintos domésticos e primordiais inerentes ao gênero.
Tratava-se de uma questão ancestral, talvez genética, um combate do corpo
contra a mente, tendo a alma como juiz.
E a procriação, a maternidade, a perpetuação da espécie? E a
delicadeza, para quê, para quem. Antigamente até os cafajestes de carteirinha
eram tidos com os melhores partidos do mundo. E hoje em dia... Hoje em dia
até mesmo os homens mais voltados ao cavalheirismo são rejeitados
sumariamente, representando mais um ícone de aprisionamento do que uma
chave mestra para a libertação dos grilhões da família de origem. Família? Era
evidente que Luana sentia, mesmo sem o saber, uma tremenda necessidade
de constituir uma família, com marido, crianças, com gato, cachorro, papagaio
e tudo o mais.
E este anseio obscuro se escondia nas entrelinhas de cada
pronunciamento que fazia na frente das poucas amigas que cultivava com
parcimônia em seu pequeno universo social, quando da ocasião de uma saída
para uma conversa, um drinque ou um chá no final de tarde. Perfeito: uma
mesa com quatro ou cinco mulheres fazendo aquele discreto alarido, falando
sobre homem, moda, roupa íntima, sexo, sexo, sexo, dieta, dieta e dieta...
O interesse eventual pelas coisas da culinária devia-se apenas ao fato
de estar em voga homem ir para a cozinha, embora os programas de televisão
que mostram este tipo de coisa sejam ainda muito parecidos com conversa de
comadres também.
Não havia como escapar: “O isolamento é a doença e o remédio desta
época confusa em que vivemos”, pensava, conformada dentro do seu invólucro

!15
de angústia e filosofia. Não que a filosofia tenha sido inventada para descrever
tão somente os pormenores da natureza feminina, mas, que parece isto,
parece.
Fazia uns seis meses que Luana não namorava ninguém. E aquilo foi
desembocar justo naquele dia em que sorrir estava difícil. A última experiência
tinha sido desastrosa: um músico intermediário, de certo talento, mas sem
carisma algum, um tanto quanto acomodado. Ela se cansara de acompanhá-lo
pelos barzinhos da cidade. No começo era interessante, trazia-lhe um ar de
poder e exclusividade, o domínio daquele temperamento leviano e inconstante
– o do músico. Depois a rotina falou mais alto, ela nem queria mais
acompanhá-lo e nem acreditava que ele pudesse continuar sendo fiel ao
suposto compromisso, já que o rapaz – pelo menos a princípio – sempre tinha
à mão qualquer mulher que quisesse conquistar com seus dotes de menestrel,
galanteador de segunda categoria. Mas o que mais pesou foi o fato de que a
relação estava mesmo saindo dispendiosa para ela. Luana sempre se ajeitava
para emprestar algum dinheiro – nunca o via de volta – para pagar alguma
conta atrasada do artista, que, sempre em altos e baixos, não conseguia se
estabilizar nem tampouco lhe transmitir o mínimo de segurança. Não passaram
mais que seis meses juntos e o envolvimento, apesar do tempo que durou, não
fora sequer sério o bastante para que ela sofresse. Ao contrário, ficou muito
aliviada com o fim da relação que morreu mesmo de morte natural, morte
morrida.
Antes do namoro com Flávio Reis – o cantor – Luana havia se ligado a
um médico, ginecologista, Amâncio Siqueira, Dr. Amâncio, um que faltava
somente uns sete ou oito anos para ter idade de poder ser seu pai.
Obviamente quem também não vingou. A profissão do homem explica
rapidamente os motivos pelos quais... Sim, porque “essa estória de idade não
tem nada a ver”, ela sempre repetia o bordão que, talvez por não convencê-la,
também não convencia a ninguém.
A desilusão amorosa às vezes se parece com uma conta a pagar, uma
prestação que faz sofrer e dá dor de cabeça, rouba o sono mas da qual se
sente uma ponta de saudade do carnê quando este é quitado. Mas como tudo
na vida passa se o tempo não parar, Luana estava novamente sozinha, sem
estar nem alegre nem triste. Estava cheia de um vazio que só aprendeu a
preencher através dos livros, filmes ou de uma boa musica, quando refestelada
com fones de ouvido no tapete felpudo da sua sala de estar.
Admitia ser portadora de uma extrema inabilidade para os
relacionamentos. A imperícia era nítida, sempre que tentava se aproximar de
algum homem pelo qual se interessava. No entanto, sempre teve exatamente
quem quis – e foram poucos – ainda que por pouco tempo, embora que só
para fazer sexo, mesmo quando querendo algo mais. Isto era um sinal precioso
de sua grande obstinação e empenho para com os objetos de seu querer. Mas,
como foi dito antes, Luana estava com um problema atualmente: não sabia o

!16
quê querer. Deixou os dias e meses irem se passando até chegar à beira deste
abismo em que nesta manhã se encontrava.
Queria, por exemplo, ter estudado veterinária e como acabou não
fazendo isto, também não criava nenhum bicho, nenhum animal de estimação,
só de raiva. Queria ter conhecido a Amazônia, o Rio Grande do Sul. Imaginava
o quanto Fortaleza deveria ser linda. Salvador, o Nordeste todo, enfim... Queria
ter ido ao Pantanal, ter conhecido alguns lugares no exterior também: Lisboa,
África, Paris. O Egito? Talvez, porque não? Essas coisas absurdas que todo
mundo que não pode ter quer.
Luana estava fazendo trinta anos de idade. Isto era o que lhe
incomodava. Sabia que daqui a pouco o telefone começaria a tocar com
aqueles mesmos votos de parabéns. Mas quem lhe daria o que realmente lhe
faria feliz? Nem ela mesma sabia o quê... E por isto estava dispersa, mínima e
sem gosto. Como é que ela, que não sabia o que queria, poderia esperar que
alguém soubesse? O que ela queria era saber o que querer, mas, querer com
afinidade, vínculo. Querer como se algo existisse para ela, só para ela,
particularmente, de uma forma distinta, única, a preencher-lhe aquele oco. Nem
mesmo um presente dos céus, se não fosse o que ela – que não sabia o que
queria – quisesse, serviria. “Porque não é só porque tal coisa vem de Deus,
diretamente do Criador, carregada pelos anjinhos mensageiros, que vai ser o
que se quer” pensava. Por exemplo: da última vez em que pediu um namorado
– olha a complicação que foi – Deus mandou-lhe foi o Flávio Reis, aquilo fora
um transtorno, isto sim. Porque o Amâncio, o Dr. Amâncio Siqueira ela nem
sequer pediu, ele apareceu de lambuja mesmo. Por isso resolveu que não
queria mais pedir nada ao Todo Poderoso, já que Ele, dentro da Sua imensa
generosidade, sempre a atendia, só para que depois ela descobrisse que não
formulara o pedido direito. Como querer algo sem a devida consciência de que
depois, com o passar do tempo, não se quereria mais. Pois não é que é
mesmo assim o ser humano: hoje, chorando porque não tem; amanhã, porque
também... É sempre assim.
E foi com este pensamento desencadeado em espiral que Luana
começou a refletir sobre o que tinha – e conseqüentemente sobre o que não
tinha.
Começou a tentar se lembrar da quantidade de querer que envolvera
cada pequena ou grande coisa ao seu redor. Chegou à conclusão de que tudo
o que havia em sua casa era fruto de seu próprio querer, coisas compradas ou
arranjadas por ela mesma. E lembrou-se do êxtase que sentiu quando viu a
mesinha em pátina, montada e aparafusada em sua parede. Os móbiles da
varanda – ela sonhara semanas inteiras com aquele barulhinho que fazem até
hoje, quando sopra o vento. Pensou neles tanto, que um dia não resistiu e foi
lá, buscá-los com as próprias mãos, até poder sentir o gozo final. O tapete
felpudo também: passava em frente à loja e ficava se imaginando deitada nele,
primeiro sozinha, para inaugurá-lo, é óbvio, depois acompanhada de um

!17
namorado, as pernas entrelaçadas, tudo pensado antes, com detalhes, em
forma de querer primordial.
Luana pensou e, ao dar-se por si, estava valorizando cada livro em sua
estante, cada roupa em seu armário, cada utensílio, cada bobagenzinha à sua
volta. Chegou mesmo a pensar que estaria sendo terrivelmente injusta e mal
agradecida com a vida que, até então, havia já tanto lhe proporcionado.
O que queria e não tinha, talvez fosse somente uma antecipação
inteligente do seu destino, em função do que passaria depois a não querer
mais, só que sem ter que ter o trabalho de se desfazer. Tudo perfeitamente
engendrado, calculado e manipulado por uma Mente Superior, que talvez
sempre fizesse o possível para que ela, a própria Luana não atrapalhasse.
Assim, foi começando a sentir um conforto dentro de sua alma
banalizada por tantas faltas. Foi ganhando um novo ânimo, que vinha desta
desmantelada linha de raciocínio. Sentiu-se plena: nunca estaria satisfeita,
tivesse o que tivesse, fosse o que fosse! Nunca seria exatamente o que
projetava para si própria. Aquilo era a própria Paz!
E começou a sentir o quanto era bom não ter feito veterinária, não ter
viajado – ainda – para todos aqueles lugares. Pensou no quanto era bom e
gratificante estar sozinha, sem ninguém para ocupar esta lacuna, este espaço
tão valioso em seu querer de reserva. Sentiu vontade de dar um abraço em
Seu Adonias, de convidar Samira e Silmara para um pudim, um pedaço de
bolo... Ligou para sua mãe perguntando-lhe a que horas elas, Domitila e Letícia
iriam visitá-la, para lhe desejarem feliz aniversário. Afinal, Luana estava mesmo
em um daqueles dias em que só se consegue simplesmente fingir que tudo
está bem. Tanto que de repente tudo realmente fica, porque tudo,
absolutamente tudo passa, se o tempo não parar...














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Supostamente



E nos encontrávamos, mutuamente estranhos, desconfiados e recentes,
cheios de uma prudência que vinha não de não nos conhecermos, mas sim, de
termos a perfeita noção do que seria o outro, caso viéssemos a nos entregar.
E, o que viria do outro, talvez não mais chegasse a nos pertencer. Tudo o que
era dolorosamente identificável, era disto que íamos fugindo, fugindo e
fugindo...
Mas é este medo que tem nos aproximado vida a fora, esta marca que
nos deixa – e agora até mais profunda, por sabermos, hoje, o que significa o
termo amizade, mais do que antes – esta marca que nos deixa feridos de
conhecimento e de passado.
E eu a deixava em casa, depois de um beijo em seu rosto branco e frio,
esperando, enquanto ela abria o portão bem devagar, pensativa e mesma. E
em meu pensamento eu a agradecia de alguma forma por não termos ainda...
Velava sua partida, com o carro ainda impregnado de sua presença, já que eu
sempre fora tão absolutamente sozinho: sua presença, incrustada naquele
momento, que parecia uma inscrição em pedra antiga, dentro do meu peito
inacabado tal e qual um poema cujo último verso fora rejeitado.
Não sei por que não éramos ainda amantes, se sei por que sempre
fomos amigos.
E Deus experimentava-se, relativo e incapaz, descabido e inútil, depois
de rir-se de si próprio, justamente por haver me deixado escolha. E minha alma
cansada de esperar por nós... Deus, voltando para a sua monótona condição
do absoluto, depois que eu sempre dobrava a esquina como se tivesse
acabado de encher mais uma página do meu álbum de figurinhas, ainda
incompleto... Isto porque durante o dia eu pensava nela, mas sem, no entanto,
lhe telefonar, sendo isto o bastante só enquanto outra noite nossa não vinha.
Na medida em que eu analisava a forma de suas nádegas de mulher
madura, a inteligência inscrita no vai e vem das ancas, ela ia afastando-se em
direção à porta da casa para onde não estava nunca bem certa de que
quereria de fato voltar. Quase nunca deixava de ser madrugada para nos dois.
E nos pesquisávamos pacientemente sôfregos de nunca mais ter havido
certezas. Bebíamo-nos, como um sobejo de antídoto, suficientes para nos
acordar. E o tempo ia passando com as coisas do mundo e da vida em seu
dorso – uma montaria lenta de saber a distância. O mesmo tempo do qual
sempre fomos a substância da própria espera, o mesmo que sempre precisou
de nós dois para poder dizer que sabia existir.

!19
E Deus continuava, querendo aprender a ser pequeno através de nós.
Deus, que era e poderia ser tudo, que por essência de simples denominação
dependia constrangedoramente daquela escolha que talvez nem nunca
fizéssemos. Deus, que pela sua própria natureza – mais etimológica do que
meramente real – preferia o incerto e o acaso de tudo aquilo que na verdade
nos concedera.
Algo havia entre nós? Algo que senão nosso diâmetro de incapacidade?
Nosso campo de força invisível, sem força alguma...
Sua família sabia que não havia nada, mas, não podia ser! Deixávamos
àquelas pessoas, quando saíamos inocentes pela noite da cidade alheia, a
prerrogativa de poder supor. E poder supor sempre valia muito mais, para eles,
e por mais que fosse incômodo, do que poder saber. Não era com aquelas
pessoas que se comunicava a minha dramática afinidade, embora preparado
sempre para dizer não a um provável convite: – Entre. Vamos tomar um café,
pensavam, sem ter a mesma coragem que eu também não tinha: – Não,
obrigado mesmo. Fica para uma próxima vez, como coisa que este futuro me
pertencesse.
Mas um dia eu entrei em sua casa. Um dia eu entrei, despido de medo,
eu entrei para conhecer seus passarinhos; os passarinhos que conviviam com
os gatos, provando que, talvez, quem sabe algum dia, nós dois também
pudéssemos até ser... E eu me lembro que fiquei espantado. Eu, que bem
antes tivera tantos motivos para conhecer aquela casa e não o fiz. Percebi que
o tempo também havia passado para aquelas pessoas. Só que agora eu já não
tinha mais medo de não ser o que eles talvez tivessem tanto querido que eu
fosse. Eu nem me bastava agora, de tanto pensar me conhecer, então que
diferença faria? Seria ridiculamente paralisante o medo que eu voltaria a sentir,
se quisesse me casar com ela. No entanto, como só queríamos um do outro a
amizade, talvez isto fosse muito mais íntimo, perigoso, grande e fatal – não
mais para nós.
Gastávamos nossas delicadezas um com o outro: tudo o que nos
restara. Esperávamos, sem ansiedade, pelo corpo esquecido e calmo do outro.
Ousávamos carícias de quando fomos, um dia, adolescentes e ingênuos. Fazia
muitos anos e aquele tempo todo parece que não era nada. Não era nada
porque não podíamos voltar atrás, não queríamos estragar nossa brincadeira
de suportar os desejos. Não vivíamos mais somente de simples desejos,
éramos completamente diferentes de nós mesmos, quando tínhamos toda a
juventude para errar e errar outra vez. Sumíamos e aquilo sequer fazia falta,
pois, a falta – descobriríamos mais tarde, já distantes – era apenas mais uma
de nossas tolas invenções. E inventávamos outras coisas, tolas também, não
menos inverídicas, mas que por sua vez nos serviam de alento para o que
éramos agora; coisas que combinavam muito mais com o que este passar dos
anos nos havia enfim transformado, o que também não queria dizer que fosse
isto o que nos uniria ou deixaria de unir...

!20
E não adiantava Deus querer ou não querer. Agora, parece que
finalmente éramos só nos dois. Estávamos a sós, nos livrando das nossas
relíquias, assim como foi preciso abrir mão de tudo o que foi perdido naquela
espécie de incêndio sem rescaldo que fomos, já no fim de termos estado tão
perto, o fogo que nos consumiu um ao outro.

Mas estávamos agora nos reencontrando, livres de nós mesmos, sem
expectativas nem ressentimentos, sem alívio. Então íamos, supostamente.
E, por alguma incompreensível razão, continuávamos indo.






























!21

Sala de professores


Faz duas horas e meia que Eunice chegou em casa. Cansada de ter que
voltar sempre para o mesmo apartamento, de subir dentro do mesmo elevador
arranhado pelo vandalismo das crianças do prédio, com cheiro de óleo de
máquina, lendo os recados inúteis do condomínio afixados displicentemente: a
folha de papel torta, como se o resto do mundo estivesse fora de esquadro...
Ela respira fundo, soltando o ar esgotado no tédio de uma terça-feira banal.
Agora, já está sentada na pequena mesa da cozinha. Silêncio absoluto, a
não ser pelo clique intermitente e ensurdecedor do ponteiro de segundos do
relógio de pilhas na parede, em cima do forno de micro ondas. Onze horas e
quarenta e dois minutos. Quarenta e dois...
Eunice pensa no que tem pensado. O café já morno na caneca de louça
branca, os dizeres “Feliz aniversário”. Quem daria uma caneca ridícula dessas
a uma mulher que está fazendo quarenta anos de idade? Pergunta-se, sem
precisar deixar de expressar o profundo ressentimento. Está só e não teria
porque fingir.
Acaba de perceber que há dois anos, exatamente naquela cozinha,
sentada na mesma cadeira, sua vida não era diferente. Baixa a cabeça,
apoiando a testa entre os dedos polegar e indicador. A mão esquerda
encaixada nas axilas, sustentando os seios já não mais tão joviais. A alça da
camisola azul de cetim escorre lentamente pelo ombro direito. É tomada por
um arrepio, um sopro fantasmagórico, como se já estivesse ali por longos anos.
O isolamento e a solidão de Eunice a fazem sentir-se como se estivesse
estado encarcerada por muito e muito tempo. Mas ela é livre: livre de uma
liberdade apenas condicional. Uma liberdade desperdiçada sistematicamente
entre a porta daquele apartamento no oitavo andar e o portão descascado de
ferrugem da Escola de Ensino Público Dom Pedro Segundo.
Passa dias inteiros tangendo crianças, sufocando gritos de repreensão.
O pó de giz, o detestável café fraco na sala dos professores. De fato nem pode
saber de onde tira tantas forças para suportar a presença imbecil de certos
colegas que insistem em fazer considerações sobre suas vidas domésticas,
conjugais.
Não está nunca nem um pouco interessada nas fábulas de traição, que o
professor de matemática sempre exulta, num tom de deflagrada e cínica
insinuação. É tudo muito pernóstico, falso: uma deplorável caricatura de
realidade... Abomina ter que ficar bancando a psicóloga da supervisora que,
pelo menos de quinze em quinze dias, lhe procura para chorar o desdém do
marido, contando-lhe todos os detalhes do desenrolar de um caso que o
homem mantém, há muito, com uma vendedora de cosméticos – antes de tudo

!22
ser descoberto a mulher vivia em sua casa. Sente-se impregnada por aquele
perfume doce que emana do corpo de Martha, o olor sintetizado num suor de
menopausa. Esta mulher é a própria disfunção hormonal ambulante, pensa.
Eunice sabe que acaba, de uma forma ou de outra, levando todo aquele
enredo dramático e patético para dentro de sua casa. Toda aquela miscelânea
de sentimentos mal canalizados, o peso do ódio que evidentemente todos,
cada um a seu modo, também sentem, aprisionados ali, no perímetro dos
muros de uma escola pública, reféns de um bando de meninos e meninas que
mais parece uma matilha de terroristas mirins. Eu deveria receber algum tipo
de seguro-insalubridade, reflete exausta, perplexa e odiosa.

Fica sempre por muitos minutos no chuveiro, parada, às vezes sentada


no banquinho de plástico, em posição fetal, como se a água, insistindo sobre
seu corpo, lhe penetrasse a alma. Num desses demorados banhos, Eunice
imaginou-se, num transe mórbido, desacordada sob o chiado da ducha fria, o
ladrilho gasto, totalmente retinto de água e sangue, numa borra que ficava
cada vez mais densa na medida em que os pulsos gelados esguichavam sua
vida para fora daquele corpo imóvel e quase transparente...
Sim! O seu desespero já havia chegado aos limites de uma loucura
praticamente justificável. Entretanto, talvez fosse a própria covardia (a mesma
que não lhe permitia admitir o suicídio) que a tinha jogado no epicentro de uma
vida tremendamente sem propósito. Mesmo sabendo o quanto os
acontecimentos extremos costumam causar bastante comoção, mesmo tendo
noção do quanto poderia ser notada, comentada e lembrada – ainda que
somente nas redondezas – pelo fato de dar cabo da própria vida, Eunice já
havia vivido o suficiente para ter certeza de que o esquecimento é uma defesa
do ser humano. Sabia que toda a panacéia não duraria mais que seis ou sete
dias, com as pessoas voltando às suas vidas medíocres e normais, logo que a
televisão pronunciasse uma tragédia verdadeiramente tocante, em âmbito
nacional.
Não. Suicidar-se estava definitivamente fora de questão! Esta é,
portanto, a história de uma mulher simples, cuja beleza, escondida dentro dos
sorrisos que já não mais sorria, se revelava muito pouco ultimamente. A história
de uma mulher que permanecerá viva, a despeito de sua rudeza imputada, de
seu apuro cotidiano, apesar de sua constante sensação de vazio.
Eunice levanta-se. Os chinelos pesados, raspando passos pelo vão da
cozinha. Tem um súbito impulso de arremessar a caneca fatídica pela janela da
área de serviço. Ao invés, sorri, cínica consigo mesma, caminha até a pia e
repousa cuidadosamente a caneca branca junto das outras louças por lavar. O
delírio está consumado numa calma de mentira, mas que lhe serve ao
propósito de não desencadear algo mais drástico. Ao apagar a luz, todo o
apartamento se vê iluminado apenas pelo monitor do micro computador que a
espera no quarto.

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Faz muito tempo que ela não assiste televisão. Não tem tempo nem o
menor interesse pela futilidade dos programas, novelas e telejornais, como se
assim permanecesse mais afastada ainda do mundo lá fora. Tanto por não
deixar todas aquelas “pessoas estranhas” entrarem na sua casa, quanto pelo
fato de não querer ter o que comentar nos intervalos de uma aula para outra
Eunice não assiste mais televisão. De fato aquilo não lhe faz falta alguma.
Ao chegar no quarto, senta-se em frente ao teclado, acomoda-se na
cadeira giratória colocando o calcanhar esquerdo sobre a borda do assento,
conseqüentemente posicionando o joelho quase junto ao rosto pálido. Ela
agora está à vontade. Estica a perna direita para debaixo da mesa e, com o
dedão do pé, liga o botão vermelho do módulo isolador que liga o P. C.
Empunha o mouse e percebe que já não esta tão aflita como quando acabara
de sair do banheiro. Os fantasmas teriam ficado na cozinha escura? Não
importa. Ela não ira mais por lá esta noite…
Nicinha Vinte e Um. Pronto, está decido. Este é o codinome que usará
hoje. Exatamente a metade da idade que tem. Não tão distante de seu nome
verdadeiro. Usá-lo, nem pensar... E nem só por questão de privacidade:
ninguém que tenha nascido depois de mil novecentos e oitenta tem este nome.
Aliás, nomes têm época, delatam a idade. E, diga-se de passagem, “Eunice”
soava antiquado até mesmo para uma mulher que nascera em sessenta e
quatro, no auge das Carlas, Shirleys, Sheilas e Verônicas. Entretanto, ela
tampouco gostava de nomes que podiam ser usados pelo gênero masculino,
tais como Paula, Roberta, Renata, etc.
Nice. Nicinha. Estava ótimo para a aventura daquela noite. Nicinha Vinte
e Um. Perfeito. Atrativo. Insinuantemente vulgar.
Bate-papo virtual: tema livre, ocasional. Sala onze, três pessoas on-line:
Viúva Só, Gato e H. Dezoito Centímetros.
Nicinha Vinte e Um espia. Entra.
Eunice está inquieta. Sente uma impossível inclinação de falar com a tal
viúva. Tem curiosidade de saber sobre seu marido: quais circunstâncias o
teriam levado desta vida; se era uma mulher nova ou se já teria meia idade; há
quanto tempo se encontrava no atual estado civil; e o principal, claro: se aquilo
tudo era só um fetiche barato com o propósito de atrair os homens que,
automaticamente, percebiam ali, na leitura da palavra “viúva”, a imagem de
uma mulher que há muito não tinha contato com qualquer tipo de modalidade
sexual.
Subitamente, em letras azul-marinho, Gato fala (reservadamente) para
Nicinha Vinte e Um: “E aí, princesa, vamos ‘tc’?” Silêncio dentro da alma
contrita de Eunice.
H. Dezoito Centímetros sai da sala... Um alívio entra, com a brisa da
madrugada, pela janela do oitavo andar.
Viúva Só – letras vermelhas – fala para todos: “Boa noite”. Eunice
respira.

!24
Gato sai da sala.
Nicinha Vinte e Um fala (reservadamente) para Viúva Só: “Boa noite”.
Aproximadamente quinze segundos se passaram, até que...
Viúva Só fala (reservadamente) para Nicinha Vinte e Um: “Casei quando
tinha a sua idade”. Sem se dar conta ainda de seu embuste, Eunice se
pergunta, surpresa “quarenta e dois?!” Volta à cena, mas não sem antes
perceber a nítida inabilidade em lidar com a falsidade ideológica que criara.
Responde num tom do que já havia se transformado mesmo em conversa:
– Oi. O que você faz esta hora por aqui?
– Nunca tinha entrado antes – responde à viúva muito rapidamente,
como se já estivesse digitando uma resposta que serviria a qualquer pergunta.
– Ah! Não?
– Não.
– Eu não entro muito – sem dar tempo para que Nicinha se disperse
pelas suas evasivas, a interlocutora profere a queima-roupa:
– Matei meu marido agora...
Eunice estremece. Ao mesmo tempo, o copo com água precipita-se de
cima da bancada do computador, molhando o carpete, sem se quebrar...
– KKKKKKKKKKKKKKKK – diz Eunice, afundando sumariamente o dedo
indicador no teclado por exatos dois segundos. Nunca usava estes recursos de
linguagem. Ao contrário, sentia repulsa por todos estes tipos de onomatopéias
imbecis casualmente usadas pelas pessoas que conversavam pela internet.
Então continuou, percebendo o hiato da pretensa assassina de maridos:
– Que brincadeira de mau gosto...
– Com assim? – a mulher, do outro lado, parece bem tranqüila...
– Matou o marido. Sei! – Eunice tenta imprimir um tom irônico para poder
dissimular o pânico que lhe arrebatava.
– Matei sim! Mataria quantas vezes fosse preciso, até esse desgraçado
morrer – sem obter resposta, a mulher continua – Não fique preocupada.
– Como? – Nicinha não imagina naquele momento onde tal expressão
poderia encaixar-se.
– Está tudo certo – mais evasivas...
Eunice sentia-se invadida, impotente. Estava tendo uma extrema
dificuldade de lidar com o fato de que aquela mulher – caso fosse mesmo uma
mulher – a estava ludibriando com extrema habilidade. Mas, e se fosse mesmo
verdade, toda essa maluquice? Decidiu retomar a conversa, agora num tom
bem mais investigativo, uma vez que a sua interlocutora virtual deveria ter a
noção de que as duas jamais saberiam quem eram, mutuamente, o que
deveria estabelecer entre elas o aspecto imune de uma sinistra cumplicidade
anônima e descompromissada.
Indagou então Eunice, firme, sem hesitar:
– E como foi que você o matou?
– Bala. Dei-lhe um tiro no meio dos cornos. O revolver era dele.

!25
– Faz tempo?
– Agora!
Eunice sentiu o jantar subir peristáltico pelo esôfago. Respirou fundo e
continuou a especulação:
– Agora? Como assim, agora?! – a resposta vem apenas após longos
trinta e cinco segundos:
– Está aqui, na minha frente, esticado. Já chorei o que tinha eu chorar.
Aliás, foi só o que fiz desde que conheci este cretino, há trinta e oito anos.
Chorar e chorar. Só no início, porque eu ainda não conhecia o tipo de canalha
que ele era é que eu achei que tudo seria maravilhoso, um sonho, um conto de
fadas. Agora acabou.
Eunice fez as contas: casou-se com vinte e um, trinta e oito de casada,
igual a... Cinqüenta e nove anos!
– Tenha calma minha senhora!
– Eu estou calmíssima. Nunca estive tão calma. Aquela calma que só a
total ausência de duvidas na vida de uma pessoa pode trazer – digitou a viúva,
agora incomodamente filosófica...
– Eu tenho quarenta e dois anos, na verdade – Eunice revela.
– Que importa... Mulher nunca diz a idade certa. Não tenho dúvidas.
Mais nenhuma sequer.
– A senhora não quer me ligar?
– Eu já liguei... – Eunice vira-se, arregalando os olhos para o criado
mudo onde está o telefone sempre com a campanhinha desligada para não ter
que falar com ninguém e, mais confusa ainda, pergunta:
– Como assim?
– Foi. Já liguei. Chamei a polícia. Já devem estar a caminho. Por isso
mesmo eu tenho que ir.
– Senhora??????????
– O que? Olhe, eu prefiro pensar em você como sendo essa Nicinha,
com vinte e um anos. Mas mesmo aos quarenta e dois... Ah! Meus quarenta e
dois... Aproveite querida. Mesmo que seja para ser prostituta de marido alheio
– assevera finalmente a mulher, numa derradeira incisão.

De repente, Eunice não estava mais sozinha apenas em seu


apartamento.
Viúva Só sai da sala.
Nicinha Vinte e Um, Eunice, quem sabe... Uma delas desconectou-se
Imediatamente, com um duplo clique no ícone do pequeno planeta azul que
girava lúdico no canto superior da tela. Acendeu o abajur de luz amarelada,
desligou o computador com extrema desconfiança, como se estivesse sendo
observada. Tudo lhe pareceu incrivelmente improvável, inocente até. Sentiu
contentamento, pois, no fundo, não se identificava com o sexo virtual. Sempre
lhe dava a sensação de haver deitado com homens desconhecidos, de fato.

!26
Naquela noite não. Tudo fora diferente. Aquela conversa, o casamento
daquela mulher... Mesmo que não tivesse realmente cometido assassinato,
certamente tratava-se de alguém profundamente infeliz. Deve ter inventado
aquilo tudo só para desabafar, pensou Eunice, até adormecer sem sonhar com
nada que se passara. Antes de mergulhar num sono pesado, refletiu apenas
que, afinal, não era assim uma completa catástrofe em sua vida o fato de
nunca haver se casado. Talvez até, muito pelo contrario. O apartamento
escureceu em silêncio.

Na manhã seguinte, Eunice só pensou na estranha conversa até sentir


as primeiras chicotadas frias do chuveiro. O sangue manchou o chão
encharcado sob seus pés: sua menstruação acabara de descer. Seus olhos
sorriam um brilho diferente, de quem havia passado por algum tipo de
despertar, como se parecesse ter conseguido voltar de uma abdução. Era o fim
daqueles longos dias de TPM Sentia-se mais inteira. Estava feliz.
Aprontou-se depressa. Saiu do apartamento mastigando uma maçã bem
verde que estalava entre seus dentes. Ainda um pouco sonolenta, sacolejando
dentro do elevador com aroma de loção após barba, preferiu não olhar-se no
espelho. Viajou brevemente dentro da pequena cabine, de costas para si
mesma. Saiu do prédio, andou as três quadras de sempre, até chegar à
calçada oposta a da Escola Dom Pedro Segundo.
Logo ali, do outro lado da rua, havia um murmúrio, uma aglomeração de
alunos, funcionários e professores. Os portões de ferro estavam parcialmente
fechados. Os meninos não portavam o costumeiro ar de dominação e deboche.
Parece que cederam à angústia real de não estarem nunca entendendo coisa
alguma a sua volta. Todos estavam oprimidos por uma circunstância
surpreendente e triste.
Foi quando então, a única pessoa que sabia, de fato e com propriedade
o que acontecera, aproximou-se da pequena multidão e perguntou, após tocar
serenamente o ombro do zelador do colégio:
– Bom dia, Seu Arcanjo! Será que o senhor pode me dizer o que foi que
aconteceu? A escola não abriu ainda...
– Oh! Professora, bom dia! Pois é... Não abriu e nem vai abrir. Pelo
menos hoje não.
– Mas então me diga o que foi que houve?
– Pelo amor de Deus Dona Eunice... A senhora não soube ainda, não?!
– Soube o quê, Seu Arcanjo, fala logo!
– Foi a Dona Martha, coitada, a supervisora do primeiro grau...
– Sim, mas o que é que tem a Dona Martha?
– Uma tragédia! A polícia recebeu um telefonema... Quando chegaram
lá, a porta tava destrancada, sabe, professora?! Aí encontram os dois, mortos;
a pobrezinha da Dona Martha e o marido, no meio da sala. Uma coisa
horrível... Tão dizendo que ela matou o homem e depois se matou... Mas a

!27
polícia ainda vai investigar tudo direitinho. Eu não sei, não! Pra mim essa
historia tá muito mal contada...
A voz do homem foi sumindo, na medida em que Eunice ausentava-se,
numa espécie de levitação absurda, embalada de uma tontura mórbida. Sentiu
um estranho gosto de chumbo impregnando-lhe as papilas.
O caso repercutiu ainda por alguns dias. Depois tudo voltou ao normal.
Eunice nunca mais lecionou na Escola de Ensino Público Dom Pedro Segundo.
Dizem que ela deixou até a cidade. No apartamento onde morava, vive agora
um casal de idosos. Eles não têm filhos. Mas parece que criam um gato –
siamês. De quando em quando os dois velhinhos aparecem lá na varanda do
oitavo andar, sempre abraçados, observando nos finais de tarde o movimento
das pessoas, dos carros; a balbúrdia das crianças na escola ali bem perto,
enfim...
Ficam lá em cima, cúmplices e felizes, dando conta de tudo que
acontece na cidade.

























!28



Simplesmente Suyane


Suyane... Que figura feminina! Que espectro de delicadeza robusta, a
silhueta à sombra vermelho-lilaz dos néons da rua. Que Mulher! Diria eu, se
isto não fosse rogar contra as minhas próprias convicções. Digo isto pois
compreendo que tenho certo auto-padrão preestabelecido de merecimentos
também. Contento-me em observá-la de longe.
Suyane deslizava indiscutível e parava o tráfego das dez horas da noite,
era um frenesi. Além do mais, ela se vestia com uma harmonia só detectada
em pouquíssimas mulheres, as mais finas e elegantes, sempre com o frescor
da própria simplicidade, claro. Os cílios projetados na linha de sua fronte, as
sobrancelhas desenhadas, os pômulos firmes, muito luminosos, o nariz
helênico, perfeitamente afilado, simétrico, como se fosse uma obra prima de
Pitanguy. A boca... Bem, a boca de Suyane era quase um desaforo. Já o seu
pescoço era ligeiramente intrigante, a anatomia lhe favorecia plenamente.
Nunca ouvi sua voz.
Cheguei a sentir-me lisonjeado, certa ocasião, quando de dentro do café
– eu completamente distraído, olhando o movimento das pessoas na calçada,
sentado à mesa, sozinho – Suyane passou em câmera lenta e lançou-me uma
fulminante piscadela. O gelo tomou imediatamente minha espinha dorsal e
confesso que entrei em pânico, por um breve momento, só de pensar na
possibilidade dela entrar no recinto para ir ter comigo. Imagine as pessoas, os
outros homens todos nos olhando, aquele misto de inveja, despeito e
interrogação. Mas, obviamente ela seguiu seu caminho, perdendo-se no viés
da próxima esquina. Ninguém percebeu o flerte e então continuei normalmente
meu café com folheado, depois o cigarro lento, algumas divagações junto com
a fumaça tranqüila e azulada.
Sua graciosidade geralmente confundia os rapazes. Alguns investiam até
uma ou outra cantada, no que, imediatamente, bastando uma só encarada,
desistiam, cheios de desapontamento. Suyane conhecia a arte sutil de chamar
a atenção e ao mesmo tempo dar-se ao respeito.
Os seios chegavam a comover, de tão absolutamente irreais. De vez em
quando ela aparecia vestida de saia rodada, mas com uma daquelas blusinhas
“tomara que caia” que, para completa decepção de todos os olhos
esbugalhados, de fato não caía nunca. Às vezes vinha cuidadosamente
empacotada num vestido modelo “tubinho”. Era incrível como aquela
indumentária valorizava-lhe ainda mais as irretocáveis adjacências. Sempre
estava de salto alto, o que lhe conferia uma estatura que intimidava,

!29
caminhando em cima de uma risca, as passadas firmes e ritmadas: toc, toc,
toc...
Que figura esta Suyane! Que pernas! Quando deliberava vestir mini-saia,
aquilo era uma verdadeira atração. E os seus joelhos, então?! Eram tão
abaulados que parecia que nem possuíam articulação, assim como também os
cotovelos, sempre brilhantes e bem hidratados.
Por aqui nunca se ouviu falar de sua família, de onde viera, seu passado,
enfim. Aliás, falava-se pouco sobre ela, sendo geralmente a maioria dos
comentários meramente restritos a elogios, fantasias e elucubrações a respeito
de seus dotes perturbadores.
Suyane aparecera da mesma forma como partiu, ou seja, subitamente.
Só se sabe que morava numa hospedaria, localizada lá para as bandas do
porto da draga. Seu ponto era geralmente na esquina das ruas Padre Aurélio
Duarte com Dona Zumira Portela, depois que terminava a Avenida Verdes
Mares – que mais para baixo continuava com o nome de Noêmia de Farias.
Não falhava nunca. De quarta a sábado estava lá, imponente, provocante,
absolutamente composta e produzida. Por ali havia um intenso movimento de
veículos e Suyane devia sim, faturar um dinheiro considerável, ainda mais
porque indicava ser extremamente profissional.
Mas parece que havia um homem, do qual não se tinha muito alvitre, um
tal de Belarmindo Belmonte, um senhor já de meia idade que era quem lhe
bancava de verdade. Dizem que foi ele que “patrocinou” todas as despesas de
sua vigem para a Alemanha. Quem conhece a história mais a fundo afirma que
ele mesmo foi para lá, como se fosse uma espécie de agente, um gigolô de
luxo, visto que o homem era realmente abastado. Suyane fez até curso de
idiomas e tudo o mais. Passou uns seis meses se preparando para a pretensa
“turnê”.
Mas o fato é que todos ficaram com um pouco de saudade dela. Era
muito divertido vê-la serpentear pela noite. Sempre bem humorada,
escondendo muito bem a angústia que carregava junto com as centelhas da
profunda lassidão que aquela vida de programa lhe causava. Evidente que
havia os mais rixosos, os que se pegavam com o aspecto insidioso e
questionável do exercício daquela atividade, bem ali, perto de suas famílias,
afrontando praticamente todas as regras e bons costumes. Mas estes eram os
mais antigos, alguns idosos, e não adiantava mesmo: nunca iriam se
acostumar com tamanha intervenção da modernidade em suas vidas tão
pacatas e cristalizadas. Porque Suyane representava um sinal dos tempos, um
produto híbrido da própria permissividade social. Sem falar nos hipócritas que a
desejavam enrustidamente, ao mesmo tempo em que empanavam este
sentimento repreensível com chacotas, palavreados, reprimendas e desdém.
Mas a verdade é que Suyane tinha mesmo que ter ido. Não podia
continuar por aqui, estava se perdendo. E se foi. Se ainda volta por estas
bandas? Nunca se sabe... Duvido muito. Suyane...

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A bela e misteriosa Suyane, ou: Dermeval Cristiano da Silva – registro
geral de número oito, zero, zero; dois, sete, nove; quatro, quatro, um; cinco,
três; secretaria de segurança pública de... Não! Não sei quem é este homem.
Só conheci Suyane. Simplesmente Suyane.
Nem doeu!


Era impressionante o quanto elas me fascinavam desde cedo. Incluindo
as mulheres com as quais já convivia, ouvindo suas vozes, clara e certamente
percebidas em meu habitat primordial, lá de dentro do meu submerso conforto
intra-uterino. Depois, o lar propriamente dito: mãe, irmã, primas, tias. Era
realmente incrível, fascinante. Então se fez meu nascimento social e, com ele,
a ignição das aventuras que vieram a pontuar a confusa saga envolvendo as
mulheres que passaram pela minha vida...
Primeiro, Dona Ceumar. Acho que esta história é sobre ela. Dona
Ceumar, a minha primeira professora, no jardim de infância. Ela e todo o seu
enigmático e agitador poderio, a proprietária da modesta escolinha de bairro na
qual ingressei, lá pelos meus seis ou sete anos de idade. Dona Ceumar e sua
palmatória mágica. Digo “mágica” porque era assim que eu a via, aquele
pedaço de pau polido no suor de tantas mãozinhas, o antiquado e decisivo
instrumento de tortura.
A despeito de todas as varinhas de condão das fábulas que minha mãe
nos contava, a mim e à minha irmã, sempre que nos reunia na calçada, quando
faltava energia em nossa rua, esperando que a luz voltasse, era somente nela
– na palmatória de Dona Ceumar – em que eu conseguia pensar com o meu
aparvalhado conhecimento de causa das coisas da vida.
Há quem diga que esta narrativa poderia escandalizar ou provocar
alguma comoção e revolta. Mas não! Absolutamente, não se trata disso: a
coisa toda se passa bem no final da década de sessenta e o expediente
educativo ainda era considerado normal – sobretudo por nós, alunos-vítimas do
rústico equipamento de assimilação didática...
É evidente que havia medo. Mas aí era que estava! Era um medo que
estabelecia limites bastante definidos de nossa condição hierárquica, nossa
limitação humana de não saber refrear constantemente os mais animalescos
impulsos de insubordinação. E de mais a mais, na maioria das vezes o punitivo
era aplicado por mulheres – deusas vivas do magistério – ocupação que
praticamente representava a única e última escolha que lhes restava, sendo
inclusive uma profissão que lhes dava também a oportunidade de exorcizar os
tantos e tamanhos abusos aos quais, por sua vez, eram submetidas.
Eu confesso que em minha mente fértil e fantasiosa de homenzinho
infante, podia até arriscar que aquele pânico que eu sentia da palmatória de
Dona Ceumar iria se traduzir na verdadeira “aurora” de minha confusa

!31
compreensão do inexplicável universo da natureza feminina, mesmo que não
saiba até hoje se isto me ajudou ou atrapalhou neste sentido. Mas não tem
importância... De qualquer modo teria sido muito difícil entender as mulheres,
tendo eu ou não, sido um dos personagens daqueles episódios.
O fato é que eu sentia uma incompreensível excitação diante da
possibilidade de ser um dos “premiados” com os bolos da professorinha.
Naquela época eu talvez já percebesse que a coisa era assim: o importante era
conseguir encontrar uma forma de chamar a atenção das mulheres, o que,
para mim, sempre significou uma espécie de compromisso messiânico. Mas eu
era quieto, restrito e calado. Não que eu não possuísse todos os circuitos
nervosos, todos os componentes que me levassem a pensar nas mais
mirabolantes travessuras e peripécias. Meu problema era uma clássica
deficiência de concretização e execução. Parece que eu não possuía, no
sistema central de minha índole, os mecanismos acionadores das danações.
Eu ficava sempre ali, frustrado, sentadinho em um canto com a minha covardia
por perto, rindo-se de mim.
Lembro-me então de certa vez, em que senti uma grande inveja – a
primeira de que tenho registro – de um coleguinha, um tal de Queginaldo. O
moleque vivia sendo levado por Dona Ceumar, lá para o quintal, que era o local
da escola escolhido por ela para a execução sumária de suas sentenças
disciplinares: cinco ou seis bolos, no mínimo. Mais do que com os “plac-placs”
da palmatória, eu ficava muito assustado era com o olhar das meninas da
classe. Elas ficavam me encarando com aquelas expressões de “tá vendo, ele
nem tem medo!”. Ah, como aquilo era constrangedor! Era um pensamento
desconfortável de extrema inadequação que sempre me diminuía, de uma
forma ou de outra.
O pior era que o menino sempre voltava do quintal com um soslaio
malicioso, parecendo até sorrir, o infame, enquanto que Dona Ceumar –
realizada – só não voltava fumando um cigarro porque isto iria representar
muita falta de decoro para com os princípios de sua atividade, que naquele
momento deixava-lhe com um ar evidente de não ser afinal de contas uma das
mais ingratas assim. E as meninas lá, naquela taquicardia, já tremendamente
admiradas e cheias de um desassossego prontamente constituído, em face a
um dos aspectos que mais tarde descobririam vir a ser um dos atributos mais
excitantes e perturbadores na personalidade dos homens: a delinqüência.
Depois, como se já não bastasse, a professora me chamava à lousa e me
mandava realizar alguma soma idiota e sem nenhuma graça, um “dois-e-dois-
são-quatro” ou um “complete” qualquer da cartilha “O Sonho de Talita”, enfim,
algo que só me fazia sentir mais mal ainda, visto que era lógico que o garoto
condenado também sabia aquelas respostas, muito embora sendo ele um
paladino das transgressões.
Era uma época em que se diziam umas palavras estranhas, como
“pinóia”, “pindaíba”, “tonga-da-milonga-do-cabuletê”, e aquilo tudo era só mais

!32
uma das coisas que eu não sabia se iria vir a decifrar, como de fato ainda não
sei...

Curiosa, entretanto, foi a forma com a qual eu definitivamente abri mão


de querer me comparar.
Um belo dia, depois de faltar a uma semana de aulas, Queginaldo
chegou na escola todo estropiado, uma verdadeira atração circense, com uma
estranha composição metálica na boca. Tudo cuidadosamente preso a um fio
de aço que passava e vinha, não sei eu como, da parte de trás de seu
pescoço, a engenhoca que segurava seu maxilar. Aquilo brilhava muito quando
o sol entrava na sala de aula pela telha de vidro. O menino fora atingido, bem
no queixo, pelo coice de uma montaria.
Pois foi só ele chegar que as meninas logo o rodearam, cheias de
curiosidade – e elas é que sim, boquiabertas, precisariam do bizarro aparelho.
Mais uma vez, o minúsculo e importante Queginaldo, causando o maior frisson
pois teria que passar uns dez dias só ingerindo alimentos líquidos, por
intermédio de canudinhos. “Só de canudinho, é?!”, perguntavam elas,
suspirando com um ensaio de olharzinho apaixonado, já naqueles primórdios.
Eu percebi então, resignado, que nem de longe era páreo para o meu
companheirinho de jardim de infância. Por mais que eu já demonstrasse uma
sincera e obsessiva inclinação pela necessidade de ser notado pelas mulheres,
apesar deste proeminente e acentuado defeito de caráter, eu, felizmente,
possuía também certas qualidades que já tão precocemente operava – ainda
que de forma despercebida, por mera intuição. Era o caso de meu modesto
porém eficaz instinto de preservação, a ponto de ter uma vaga noção do que
aconteceria comigo, por exemplo, se fosse cutucar o traseiro de um jumento
com vara curta...
E eu fiquei ainda mais estarrecido porque descobri que o que Dona
Ceumar precisava era de um bode expiatório, um mártir de plantão para suas
exemplares reprimendas: durante os não dez, mas sim, quinze dias pelos quais
Queginaldo foi poupado – por motivos evidentes relacionados à sua
convalescença – eu, sem motivo algum, de repente virei a sensação das
garotas da turma. Se bem me recordo, fui levado nada menos do que seis
vezes para o quintal onde, finalmente, fiquei sendo conhecedor graduado do
peso da mão – e da palmatória – da professora.
Para mim, garoto de certos e até então “inúteis” princípios, a dor
daqueles bolos doía fina, dentro da alma, era uma humilhação.
Mas o que eu realmente não esperava era fazer mais sucesso com as
meninas do que meu amiguinho peralta. Isto foi mesmo uma surpresa que veio,
coincidentemente, justo quando passei a não me preocupar mais com este
detalhe, esta coisa de querer chamar a atenção do sexo oposto. A partir daí,
junto com o valioso “bê-á-bá” de minha primeira escolinha, aprendi uma coisa
também muito preciosa e da qual talvez por trauma nunca mais tenha

!33
esquecido: descobri que mulher gosta de homem valente, sim, mas também
gosta de homem que chora, e que sente dor de verdade.


As bodas de Angélica


Angélica estava aflita, mas o rosto bem dormido até que não deixava
transparecer. O dia anterior tinha sido difícil, os afazeres finais, a tarde hercúlea
toda dedicada exaustivamente aos desfrutes do mestre de cerimônias que não
se poupava de mostrar serviço, chegando ao limiar da histeria como se ela
estivesse competindo com a Princesa de Gales; os últimos detalhes,
preparativos, aquela gente toda com ar um tanto fútil, ciscando pela casa
inteira como uma legião de bajuladores intrusos.
Ela resolveu então lançar mão de um dos comprimidos que a mãe
costumeiramente tomava para se entorpecer e deitou-se logo. Não queria mais
pensar em nada, pois a conversa com Damiana fora por demais extenuante,
não porque tenha durado muito tempo, mas sim pelo próprio conteúdo, as
severas implicações, enfim.
De maneira que acordou cedo, por volta das sete e meia quando então
sua mãe já havia providenciado a mesa para o café. Na verdade Dona Isabel
quase não dormira. Ansiosa e hiper-ativa, a mulher vinha potencializando estes
traços de sua personalidade obsessiva gradativamente, nas últimas semanas,
tanto e quanto mais se aproximava o dia do grande dia. Talvez permanecesse
até mais calma se a filha estivesse em vias de subir ao cadafalso ao invés do
altar. Já o pai de Angélica, Dr. Pontes, sempre tranqüilo e meio, como se fosse
um gato lento e senil, uma peça descartável da família – embora dela arrimo e
dileto provedor – sem nunca emitir muitos juízos de valor, tivera, como sempre,
um sono inabalável, dormindo como uma bigorna sem nem mesmo gastar que
tivesse sido uma única fala sequer de sonho com o burburinho das bodas.
A luminosidade da manhã invadia a casa através de suas várias janelas.
Cortinas esvoaçavam silenciosas e aristocráticas. O gramado estava bem
aparado e viscoso, atapetando o grande jardim onde a piscina – toda a água
não só tratada como também trocada previamente – ladeada de plantas
tropicais em vasos alugados, parecia um espelho azul, mais azul ainda por
causa do azul do céu. Num aclive que favorecia de uma perspectiva
hierárquica a estética do terreno, perto da escada que dava para a imponente
porta fundamental da residência, por onde a noiva, em atuação solo, deveria
descer deslumbrante, deslumbrada e principal, já se encontrava armado o arco
de ferro que, prestes a ser completamente envolvido e enfeitado com rosas
brancas de verdade, representaria ali o pórtico de felicidade dos noivos.

!34
A recepção dispendiosa – teria custado ao Dr. Pontes uma soma
equivalente ao preço de um carro popular! – seria por ali mesmo. E também,
Dona Isabel Queria inaugurar o novo lavabo, o deck de madeira de lei, as
novas telas de arte, o sofá de três lugares da loja Magnânima, os arranjos
gigantes com plantas de ferro, enfim, todas as coisas que as rendas do
resignado esposo podia proporcionar, cedendo aos caprichos de sua nova fase
extreme makeover.
A casa dos Pontes já se parecia normalmente, sem que houvesse
precisão de haver festa, com um Bufett. Talvez por causa de sua arquitetura
rococózada misturada à pseudo modernista, bem a estilo “todos os gostos” e o
tom de verde com bege que predominava.
O corre-corre ainda não havia começado de todo, porém Damiana já se
fazia perceber, apreensiva e mais barulhenta do que de costume. Desde as
cinco e meia até àquela hora, já havia coberto alguns poucos quilômetros entre
a cozinha, a copa e a área de serviço, sempre com o cabelo grisalho
impecavelmente preso, repuxando-lhe as feições do rosto cansado e
respeitosamente sábio. Ela era a empregada mais antiga da casa, com vinte e
dois anos de serviços devotamente prestados. Ingressara ao clã dos Pontes
com a função de babá da recém nascida Angélica, que, por sua vez, até hoje
via na mulher a sua segunda, primeira ou até única mãe.
Angélica estava agoniada. Observava com muita atenção e com um ar
extraordinariamente preocupado todos os movimentos da ama. Damiana
também a encarava com uma expressão emburrada, que trazia nas entrelinhas
um misto de desapontamento, pesar e repreensão. Disparava um olhar
fulminante e julgativo embalado por um discreto e arrasador movimento
negativo de cabeça, os lábios herméticos, um clamor beato à misericórdia
divina. Percebendo que era observada de tal forma por Damiana, a moça
realmente estremecia por dentro. Aquele era o dia do seu casamento e as duas
guardavam um segredo recíproco, muito embora alguma questão ética
preponderante que insistia em pairar confrontasse os fundamentos do que
deveria ser um caso de extrema cumplicidade.
Aquele movimento suspeito de olhares não podia ser percebido de jeito
nenhum por ninguém: nem pelos pais, nem por Mara Lícia – a irmã quatro anos
mais velha – nem muito menos por Vitinha, uma espécie de ajudante
multifuncional adolescente que zanzava sempre com o olho arregalado, curiosa
e espigada por cima dos acontecimentos.
Angélica não conseguia parar de pensar: “E se ela já tiver conversado
com mamãe e lhe contado sobre a nossa conversa de ontem... Não. Se fosse
assim não estaria tudo tão calmo. Mas, e se Damiana não conseguir se
segurar... Para o papai eu tenho certeza de que ela não ousaria contar nunca.
Ai, meu Deus! Eu sempre confiei em Damiana, mas eu sei que a situação
agora é diferente. Pra quê que eu fui envolvê-la nesta confusão, nesta coisa
tão séria?” E rogava ainda: “Oh! Deus! Faça com que ela consiga guardar

!35
nosso segredo pelo menos até a noite.” E tudo isto se passava em sua cabeça
enquanto respondia de forma automática – na maioria das vezes sem palavras,
só com gestos de ombros, boca, e sobrancelhas – às perguntas triviais que lhe
faziam. Queriam saber como havia dormido, como se sentia, prestes a realizar
“o sonho de sua vida”, coisas assim. E ela ali, com aquele sorriso de boneca de
plástico, sem a menor autenticidade, enquanto a louça e os talheres do café da
manhã tilintavam no pra lá e pra cá dos braços e mãos. A família estava
entusiasmada com a expectativa das núpcias de logo mais.
Todos praticamente eufóricos. Aliás, todos, menos Mara Lícia. Ela
conhecia Angélica muito bem. Eram particularmente íntimas, confidentes, e
afinal de contas a delatora expressão de susto nos olhos da noiva já havia
começado a lhe chamar a atenção. Estava assaz intrigada e impaciente, a irmã
mais velha. E Mara foi ficando ainda mais curiosa quando começou a observar
no semblante de Damiana uma espécie de significado indefinido que também
era bastante característico. “Alguma coisa está errada!”. Com toda certeza ela
iria empenhar-se em descobrir.
As duas irmãs estavam sentadas frente a frente. Quando se olharam,
num relance de desatenção dos demais, Angélica petrificou-se, sentindo um
suave e ameaçador pontapé em sua canela, por debaixo da mesa.
Imediatamente interpretou nos olhos de Mara o que de fato ela estava
querendo lhe dizer, ou seja, que iria conversar seriamente com Damiana. Neste
exato momento a xícara quase vazia precipitou-se dos dedos moles de
Angélica. Parecia que ia desmaiar. O corpo sem tônus, o sangue esvaindo-se
de seu rosto atoleimado. Aquilo impôs um silêncio absoluto por dois ou três
segundos. Todos se olharam rapidamente. Mas Dona Isabel, sempre
apaziguadora, intermediou o caso com um sorriso diplomático acionado pela
face nervosa:
– Minha criança! Não precisa ficar nervosa, vai dar tudo certo.
Mara Lícia sentiu enjôo e fez questão de não esconder. Dr. Pontes,
pigarreando de leve, continuou inerte e impassível a lambuzar geléia de
damasco na torrada sem glúten – afinal tudo estava devidamente acertado,
contratado, combinado e pago.
Vitinha aproximou-se muito capciosa, num pulo, dizendo:
– Pode deixar que eu pego outra xícara pra a senhora Dona Anja...
Quando, na bucha:
– Precisa não Vitinha! Pode voltar pra cozinha que Angélica já terminou,
não é Angélica? – proferiu irritadíssima, Damiana, que demonstrava um
profundo desagrado com o desenrolar daquele patético espetáculo teatral.
Com isto a mãe despertou Instantaneamente o seu real e íntimo despotismo,
assumindo providência ao advertir a empregada com austeridade:
– O que é isso, Damiana? Você enlouqueceu de vez? Vá lá pra dentro!
Você também, Vitinha! – Antes que a senhora se desculpasse, Angélica

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advogou nitidamente preocupada com o possível desfecho revelador, num tom
de resignada consternação:
– Não, mamãe. Eu já terminei mesmo. Desculpem-me, estou realmente
muito nervosa. É o casamento. Vocês me dão licença?
Mara aproveitou e foi também se levantando, afinal não estava disposta
a desistir de elucidar os verdadeiros motivos daquele inapropriado mal-estar
que havia se instaurado.
Assim, sobraram na mesa Dona Isabel e Dr. Pontes. Ele, apesar de
nervoso, fazendo questão de omitir-se como de costume, já com as páginas
policiais em punho, sem nada ler, passando freneticamente as folhas do jornal,
expelindo pelo nariz o seu desconforto e sua reprovação. Ao mesmo tempo a
esposa deu um sopapo, empurrando para trás a cadeira, levantando-se em
desacordo:
– Pode deixar Pontes. Pode deixar que eu converso com ela e resolvo
tudo. Eu me lembro muito bem de como fiquei no dia do nosso casamento.
Este nervosismo é mais do que normal.

Mas a questão é que não havia nada de normal acontecendo naquela


manhã. Essa é que era a verdade. Todos sabiam, conheciam-se muito bem.
O vestido de noiva no quarto de hóspedes, esquecido, transformara-se
numa vergonhosa alegoria que representava o enredo de angústias da pobre e
desamparada Angélica. Tanto era uma farsa aquele casamento, que ela
mantinha vivo dentro de si um sincero sentimento, um enorme bem-querer por
um rapaz que conhecera, logo quando deu início ao mestrado na faculdade de
sociologia. Aquele romance – e para a maioria das mulheres um único beijo
pode, sim, representar um romance – já havia “terminado” há quase um ano.
Mas Angélica não conseguia se desligar afetivamente de Nino. Ao contrario de
Ricardo Otávio, o noivo, Nino era arguto, sensível, rápido e atencioso. E
também era delicado: comprava-lhe de surpresa bombons baratos. Ele a fazia
sorrir, era engraçado e leve. É bem verdade que o moço carregava um ar um
tanto quanto “sonhador” demais em seu olhar. Mas era um apaixonado pelas
causas das pessoas prejudicadas, possuía uma espécie de assistencialismo
fanático que até provocava controvérsias entre certos colegas e até
professores.
Mas Angélica se identificava com aquilo tudo, o que fazer? Era uma
moça dinâmica e muito idealista também. Ela, que tinha como intento
acadêmico defender uma tese que tratava seriamente da questão manicomial e
todas as suas implicações – e foi isso que a aproximou magneticamente de
Nino – via-se agora envolvida num dilema que nem dilema era: o trágico e
burlesco compromisso de ter que honrar as pirraças e investimentos
particulares de seus pais que só pensavam – e no fundo Dr. Pontes também
pensava, ainda que não com o desespero de sua mulher – em continuar
galgando, galgando e galgando.

!37
Ironicamente, a casa de Angélica havia se transformado num verdadeiro
hospício.
Resolvera se abrir com Damiana bem na véspera do suposto
matrimônio. Disse-lhe que não iria concretizar o consórcio, a negociata,
custasse o que custar. “E já não tem mais nada a ver com Nino”, repetia
chorando aos soluços no colo de sua ama, afim de que pudesse, ela própria, a
noiva infeliz e acuada, acreditar. Damiana preferia que ela se casasse com
Ricardo Otávio, claro. Por mais amorosa e compreensiva que fosse, era uma
mulher que só conhecia a rudeza da vida, com suas máximas e imposições
verticalizadas: sim era sim, e não... Não também era sim. Para ela, “estas
coisas de novela” só faziam sentido da televisão para dentro.
Era evidente que Damiana se sentia honrada e cheia de orgulho.
Aquelas confidências representavam uma recompensa. Eram mais um
presente que toda a dedicação de uma vida inteira declinada àquela a quem
nunca viu senão como uma verdadeira filha estava lhe concedendo. Sabia do
sofrimento de Angélica e sentia-o por dentro, mesmo sem entender de forma
alguma como “sua menina” – na cabeça e no coração de Damiana era isto que
a moça ainda era – poderia preferir um rapaz de classe média, “aquele talzinho
sem futuro”, em detrimento de seu noivo, o abastado, próspero, sempre bem
barbeado e cheiroso Ricardo Otávio.
Assim sendo, por mais carinhosa que fosse sua atitude em relação à
Angélica, Damiana compartilhava da mesma opinião irredutível que certamente
teriam seus pais diante daquela bombástica revelação no mínimo dos mínimos
embaraçosa. E sem contar com os agravantes de ordem operacional: todos já
haviam até alugado seus trajes desde ontem ou anteontem para poderem
figurar no casamento da filha e do filho de dois dos casais mais emergentes da
cidade. Os convidados já estavam convidados; os presentes já estavam
presenteados; a igreja já estava decorada; o vestido já estava ajustado; os
cerimonialistas, o serviço de Buffet, o padre, a limusine, a orquestra big-band, a
produtora de vídeo, as reservas no hotel cinco estrelas, as passagens aéreas,
o novíssimo apartamento – comprado na planta – decorado e equipado, do
espremedor de laranja ao triturador de alho, da cama Box à televisão de
plasma, com os dois automóveis na garagem, enfim... Tudo, todo aquele fausto
aparato que mais parecia com uma premiação de programa de auditório ganha
à base de juntar cupons e códigos de barra de sabão em pó, tudinho já estava
quitado. E sem sorteio! Aquilo realmente tinha que fazer alguma diferença para
Damiana. E fazia muita. E com a mais absoluta certeza faria mais diferença
ainda para os pais desavisados de Angélica. Principalmente, é claro, para o Dr.
Pontes, dadivoso patrocinador do enlace, junto com o Dr. Campello, pai de
Ricardo Otávio.
Quando Damiana terminou de consolar Angélica e de dar-lhe conta de
seu repúdio em relação às suas idéias de abortar o casamento, foi saindo do
quarto ao que quase esbarra com Mara Lícia. Passando pela empregada Mara

!38
sorriu cínica e ameaçadora, insinuando, só como forma de jogar verde, que já
sabia daquele algo que estava se passando. Damiana não ligou, porém não
perdeu a oportunidade de fitá-la dos pés à cabeça só para deixar claro que
também já a conhecia bem, desde pequena e aos seus predicados terroristas.
Angélica, deposta em diagonal em cima da cama, continuava a babar o
travesseiro. Então Mara Lícia sem nenhuma comoção ironizou:
– Pra quem vai se casar hoje até que você não está tão alegre...
– Olha Mara, você não venha encher minha paciência, não, está certo?
– Que é isso maninha! Eu só estou preocupada com você – disse ela
mais irônica ainda.
– Eu sei. Conheço essa sua preocupação...
– O que foi, está arrependida? Devia ter pensado antes, minha filha.
Agora não tem jeito, não, quer dizer, até tem: você casa, passa uns seis
meses, depois pede o divórcio. Sei lá... Vivendo com aquele toupeira do
Ricardo Otávio – fez cara de fidalga, piscando rapidamente os olhos – por tanto
tempo, não vai ser difícil de você encontrar um motivo que justifique uma
separação.
– Pode parar de brincar que a coisa é séria, Mara. Eu não vou me casar
– disse Angélica com ênfase, retomando as forças e se ajoelhando na cama.
Nem bem terminou de falar Mara continuou sua teoria:
– Olha Angélica, quem parece que está brincando é você. Já pensou no
que vai ser uma bomba dessas nas mãos do papai e da mamãe? Você pode
ser mimada, mas...
– Mimada, não senhora...
– Mimada, sim! Mimada e irresponsável.
O tom de voz das duas já queria começar a ecoar pelo corredor. Mara vai
começando a falar quando então o telefone toca na cabeceira. Posicionada
bem ao lado do pequeno móvel, ela apenas estica o braço para baixo e atende:
– Oooooi, Ricardo – diz toda solicita – claro... Hum, hum. Sim claro, ela
está aqui, do meu lado.
Angélica se ergue negativando com o indicador teso, quase avançando
na irmã. Inútil, porém. Mara lhe entrega o telefone com um descaramento
desafiador.
– Oi Ricardo. Tudo, tudo bem, quer dizer... Nada... Nada, não. Já disse
não é nada, eu só não dormi direito... Não! – de repente Angélica arregala os
olhos já com expressão de súplica no rosto olhando para a irmã – Claro que
não, Ricardo. Dá azar ver a noiva antes do casamento, você não sabe disso?
Não, não é só de vestido de noiva, não. O que? Não venha, estou lhe dizendo!
Eu não quero que você venha aqui... Ricardo... Ricardo Otávio? – Angélica
desliga letárgica o telefone batido em sua cara, e começa a verter novamente,
tremulando os lábios sob o nariz vermelho. Então Mara lhe pergunta:
– Que foi Angélica, ele vem aqui mesmo, é?

!39
– Ééeéééé! – desaba a moça num choro condoído como um lamento
caprino, enquanto que se deita de novo, desta vez em posição fetal, e sempre
o travesseiro. E Mara Lícia não alivia nem um pouco:
– Se ele lhe vir assim, vai pensar que você está querendo desistir...
– E eu estou! – responde Angélica, desenfiando a cabeça de dentro do
travesseiro molhado, arremessando-o contra a irmã que se esquiva e diz numa
amarga inflexão de sadismo:
– Agora é tarde princesinha... Ajoelhou... – antes que Mara Lícia
terminasse de pronunciar o fatídico ditado popular, Angélica a interrompe
dizendo aos berros:
– Sai! Sai já daqui, sua... Sai, sai. Saaaaaaaaiiiiiiii!
Satisfeita em ter conseguido levar a irmã àquele extremo emocional,
Mara Lícia desce as escadas pensando em ir ter com a mãe. Esta, entretanto,
absorvida pelas derradeiras inspeções na cozinha junto com Damiana e Vitinha
não dá ouvidos ao seu apelo. Principalmente por que no mesmo instante em
que Mara chega por ali a campainha soa no alto da parede da copa. Então
Dona Isabel respira e sorri seu sorriso de quinze mil reais, os dentes
implantados brilhando junto com a prataria e a porcelana da festa:
– O bolo! Deve ser o bolo que chegou.
– Pode deixar que eu vou lá abrir, Dona Isabel – disse Vitinha,
voluntariosa, querendo ser a primeira a ver. Porém, quando a doméstica abriu
a porta deu de cara com uma cena inusitada demais para seu estágio de
compreensão das coisas: era Nino vestido em uma camisa de força,
acompanhado de dois outros rapazes, os três com uma expressão infantil e
grotesca nas faces, como se estivessem alcoolizados desde a noite passada. E
estavam. Antes que Vitinha pudesse sair de seu breve estado de choque, Dona
Isabel já vinha chegando, certa de que iria dar com o bolo encomendado.
Damiana a acompanhava, como se tivesse percebido intuitivamente que a
patroa precisaria de ajuda.
– Mas, o que significa isto? – perguntou perplexa a dona da casa – Que
brincadeira de mau gosto é essa? Vitinha, Damiana... Pontes, Pontes!
– Bom dia Dona Isabel – balbuciou Nino, equilibrando-se todo enviesado
na inútil tentativa de manter alguma compostura – deixe que eu lhe apresente
meus amigos...
Isabel interfere, cheia de nojo e desdém:
– Pouco me importa quem são estes outros dois marginais! Eu quero que
vocês saiam da minha porta, imediatamente! Pontes, Pontes! A polícia,
Damiana, chame a polícia! – ela estava transtornada. E o marido que não
aparecia!
Ao mesmo tempo em que a aglomeração aglutinava-se na porta da
frente, chegaram, descendo de dois carros diferentes, Manoelito, o
cerimonialista e Ricardo Otávio, o noivo. Este então indaga, dirigindo-se à
quase futura ex-sogra, sem entender:

!40
– Que confusão é esta aqui, Dona Isabel?
– Oh! Se não é o noivo, Ricardo Otávio! – Nino o interpela com escárnio,
livrando-se estabanadamente da frouxa camisa de força, já chegando perto do
rival com os dois comparsas logo atrás.
– O que é rapaz? O que é que você quer aqui? – pergunta Ricardo, já na
defensiva.
Nino não pensa duas vezes e desfere um soco bem no nariz do noivo.
Sem equilíbrio, contudo, cai também, os dois bolando pelo declive do gramado.
– Gente do céu! – exclama Manoelito.
– Virgem Santíssima! Parem já com isto! Pontes, Pontes! – grita Dona
Isabel. E nada do dono da casa aparecer.
– Doutor, doutor! – Vitinha clama, esgoelando-se pela presença do
patrão.
– Calma Nino, calma! – interferem os amigos, percebendo que a situação
estava fora de controle e que passara totalmente dos limites.

Enfim, a confusão estava armada, e bem armada. Quando entre


empurrões, solavancos, gritos e muito corre-corre, segura daqui, se solta dali,
aparece Dr. Pontes com a filha à tira-colo:
– Chega! – ele grita com um tom de voz nunca antes ouvido. E continua:
– Vocês estão pensando que a minha casa é o quê? Chega! Quero
todo mundo calado, agorinha mesmo. Acabou-se a confusão! Acabou!
Cambada de desordeiros malucos!
Talvez a atitude inesperada de Pontes tenha sido recebida com o
mesmo espanto de quem vê um mudo que de repente fala, um morto que se
levanta do caixão. Talvez só por isto, pensando nisto é que todos – até mesmo
Dona Isabel – silenciaram em apatia, desligados por aquele humano controle
remoto inesperado. Afinal era o chefe da família! Se ele não pudesse resolver,
quem mais resolveria?
Damiana ajudava Ricardo Otávio com cubos de gelo envolvidos num
pano de prato, colocando o improvisado arranjo de primeiros socorros em seu
nariz. Mara Lícia – mais assustada que arrependida – tentava isolar Nino com a
ajuda dos dois outros rapazes e de Vitinha que como sempre mais atrapalhava
do que ajudava, excitada pelo bafafá. Manoelito, de braços dados com Dona
Isabel, fazia cara de palmeira imperial: os olhos chorosos, mas sem deixar de
demonstrar nas entrelinhas um discreto interesse por Nino.
Angélica... Bem, Angélica era a noiva, tinha lá suas isenções, razões e
concessões. Esperou todos se calarem por definitivo e disse, soltando a mão
do pai e avançando magnífica um passo à frente, como se estivesse cumprindo
uma marcação cênica, os olhos inchados, a voz combalida:
– Será que alguém poderia somente uma única vez, pelo menos por um
instante, se colocar em meu lugar?
Alguns olharam para o céu. Outros olharam para o chão...

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As reflexões em torno daquela crucial pergunta emitida pela protagonista
de toda aquela demanda foram ilustradas ainda pela chegada tranqüila de um
pequeno veículo utilitário. De dentro dele saltaram duas moças uniformizadas
carregando, solenes, um andor prateado com um enorme bolo confeitado. No
topo da imponente e espalhafatosa escultura culinária, fincados sobre a última
camada de glacê, dois bonequinhos de cera sorriam bestificados, como se
soubessem que eles – talvez por não serem gente – realmente seriam felizes
para sempre.

A próxima



– Mas, onde é que eu estava? O que eu estava falando mesmo? Ah!
Sim. De ontem, me lembrei... Pois é como eu estava dizendo: o que eu não
suporto realmente é assedio! Conheço mulheres, amigas minhas que vivem
reclamando também. Essa noite passada, nossa! Como foi cansativo... Aquele
tal de Rodrigo. Não sei, acho que o cara toma umas doses a mais, aí fica se
achando o máximo. Até que de longe eu achei que ele era interessante,
bonitinho – antes das onze horas, claro – depois ficou num grude... Um porre!
Não sei por que eu fui querer dar trela. Acho que homem tinha que ter um
dispositivo que desligasse seu ego depois da terceira dose. Depois da sexta
então, deveria desligar ele todinho. Assim: ficar inoperante, mudo, inerte. E,
além do mais, quem foi que disse para aquele retardado que eu me interesso
por aeromodelismo, aviõezinhos, estas brincadeiras bobas de marmanjo que
não teve infância? O pior é que antes dele chegar com aquela halitose
misturada com bafo de uísque barato, eu tava fazendo tudo pra ele perceber
que eu até queria bater um papo. Só que não sobre essa baboseira. Se pelo
menos fosse avião de verdade, um jatinho, pelo menos um monomotor, pra
poder me levar pra algum paraíso, numa praia... Só em filme, mesmo! Ainda
bem que a Renatinha chegou. Ela também já tava meio de pilequinho, mais pra
lá do que pra cá... Deram certo! Acho que aquele idiota acabou foi nem
fazendo nada, no final das contas. Será que o “negócio” dele é de miniatura
também, que nem os aviõezinhos de brinquedo?! Ai, ai... Olha: a pessoa não
fazer nada na vida – sim, porque ele tem cara de já ter uns quarenta ou mais –
e ficar gastando dinheiro com estas besteiras... Eu não sei como a família
agüenta ficar bancando um irresponsável daqueles... Ai, eu realmente detesto
assédio, odeio homem inconveniente! Eu quero é ver, se o cara for mesmo
interessante – não precisa nem ser cavalheiro, não; basta ser só um pouco
astuto, se colocar um pouquinho no lugar da gente – ora se ele vai chegar com
papo furado de ficar chamando pra conhecer tal coisa que ele tem, que

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comprou, ou que ele fez. “Vem aqui que eu quero te mostrar as rodas de liga
leve que eu botei no meu carro”. Vai nada, de jeito nenhum. Com certeza ele
vai é convidar pra ver um filme, uma comédia romântica, um drama ou coisa do
gênero. Mesmo que seja pra chegar ao cinema e depois de quinze minutos não
querer nem saber de ver droga de filme nenhum. Aí, sim! Pode até deixar, que
no fim das contas a gente também tá querendo é se agarrar mesmo. Só que
assim, na lata, logo de cara, o sujeito já querer vir tomando conta da situação,
sem um sinal de que pelo menos finge que tem respeito... Não! Esse negócio
de respeito hoje em dia é até um pouco complicado. É difícil saber. Se o cara
respeita demais, se é cheio de melindre, fica sempre aquela pontinha de
desconfiança na cabeça da gente: será que esse aí é boiola? E mesmo que
seja evidente que esta opção sexual, que não nos diz respeito, esteja fora de
questão, ainda tem o que é pior: Hum! Delicado desse jeito, não deve ter
nenhuma pegada... Agora, depois que a gente testou o produto, depois que a
gente constata que valeu a pena, que é mesmo um caso de satisfação
garantida, aí sim, o homem não só pode, como deve abrir porta de carro pra
gente entrar, afastar a cadeira no restaurante pra gente se sentar, pentear
nosso cabelo, bem de leve, aí é bom demais. O mundo até gira todinho a
nossa volta, a cabeça pende, os braços ficam moles, ai, ai... Porque aí eu já
tenho aquela tranqüilidade de saber que não encostei meu verniz num homem
que não correspondeu às minhas expectativas – pelo menos aquelas mais
básicas... Definitivamente: ficar gastando neurônio pra saber se eu vou me
deitar com um cara que não me satisfaça ou que não vai se preocupar com o
fato de me fazer sentir prazer, isso é terrível. Porque eu acho que, para o
homem, se não deu, tudo certo. É só partir pra outra, ou nem isso, é só
esquecer mesmo. Mas com a mulher, não. Geralmente a gente fica num
tremendo vazio, uma baita de uma ressaca moral, quando sai com um cara que
não demonstra a mínima sensibilidade, nem um pouquinho de destreza. E os
elogios?! Minha Nossa Senhora! Onde é que o homem pode estar com a
cabeça pra pensar que me chamando de “lindona”, “gatona”, essas coisas no
aumentativo – como foi o caso daquele tal de Oswaldo, semana passada,
dentro do elevador – vai estar me causando algum tipo de impacto, alguma
impressão. Eu tive mesmo foi medo, sei lá. Depois aquele tarado resolvia
passar dos limites ali, e eu sem ter pra onde correr. Impressão, até causa, sim,
este tipo de abordagem: de que ele é um quadrúpede, uma anta, pra ser mais
exata. Tem mulher que gosta, eu sei. Mas eu, não! Passe longe de mim! Têm
coisas que o homem não pode falar, quando uma mulher vai ouvir sua voz pela
primeira vez. É preciso ter pelo menos um certo cuidado, pois é bem capaz de
ser a primeira e a última palavra que o imbecil pode ter a oportunidade de
dizer. Um dia aquele tal de Estélio, por exemplo, aquele lá do departamento de
marketing subliminar, tomou um banho de cerveja – eu vi, lá no Café da Roda...
Foi dizer pra uma moça que tava lá, feliz da vida, rindo com umas amigas,
conversando, brincando, foi dizer que “ela se parecia com a Sulamytta”. Justo a

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Sulamytta, aquela depravada, atriz de cinema pornô; aquela, famosa, que fez
um monte de filmes com aquele degenerado do Tony Garanhão. Não deu
outra. Nunca vi uma resposta tão imediata e contundente. Aliás, nunca vi
resposta mais ensopada. A moça devia ter no máximo seus vinte anos... Nem
isso, tenho certeza. Aí vem aquele caquético, aquele mofado do Estélio,
achando que podia chegar junto com a mocinha. Bem feito! Se fosse comigo
tinha levado um bofetão. Saiu de lá que nem um pato, todo encharcado.
Precisa ver a chacota que foi no outro dia, quando ele chegou com aquela cara
de orangotango albino, se escondendo atrás do monitor, pra não ter que falar
do assunto. Que tristeza, meu Deus! Eu tenho pena é da mulher daquele
pamonha, a Valentina. Eu vi, na ultima confraternização da empresa o jeitinho
dela, toda meiga, toda quietinha, calada que só, sentadinha, tomando o seu
guaraná, quase nem falou com ninguém de tanta timidez. Enquanto o Estélio,
aquele boçal, ficava de um lado para o outro, cacarejando e mexendo com a
Larissa, a estagiaria do Dr. Campelo, que tava lá na empresa, não fazia nem
dois meses. Eu mesma, que não tenho nada a ver com isso, fiquei morta de
vergonha. Mas também, quem manda ser tão lesada? Eu se fosse a Valentina,
já tinha era dado um senhor pé na bunda daquele idiota. Parece que tem
mulher que gosta de ficar bancando a vítima. Tem sim. Tem mulher que
assume esse papel de vítima efetiva, cadastrada, só pra não ter que tomar uma
atitude. Sim, porque, não venham me dizer que nos dias de hoje, em pleno
século vinte e um, com tanta informação, a mulher precisa ficar se
submetendo... Mas, sabe, eu até que entendo. Tudo passa pelo problema da
baixa auto-estima. A pessoa vai se anulando, a ponto de começar a pensar –
porque primeiro é só um pensamento, uma suposição – começa a se achar
menor, diminuída, um lixo. E como é claro que o ser humano não foi feito pra
conviver bem com o fato de se achar um lixo, começa a se esconder debaixo
da situação, seja ela a mais infame, só pra não ter que assumir que aquilo não
deu certo, que foi um erro... Depois se acostuma com aquela condição de
pobre coitada, certa de que destino é coisa que vem de fora pra dentro. Sem
falar no terrorismo que geralmente o outro fica fazendo quando percebe a
fraqueza da gente. Só que ao invés de se acostumar, a mulher deveria, isto
sim, perceber que o tempo todo, sempre, nunca deixou de ser dona do seu
próprio nariz. Comigo é assim: fez uma vez, tá advertido; fez duas...
Despedido. Como é que se sofre por quem faz a gente sofrer? Eu não. Comigo
não tem isso. Por isso que eu nunca quis me casar. Eu sei como é que são
estas coisas. Tenho trinta e sete anos. Desde os quinze que eu sei que homem
é tudo igual. E olha que não precisou minha mãe ficar me vigiando, não.
Parece que eu sempre tive um sexto sentido pra lidar com isso. Ela mesma
passou horrores na mão do papai. Pra que exemplo melhor? Dentro da minha
própria casa, eu via! Os dois se separaram, mas até hoje minha mãe ainda tem
lá sua quedinha por ele. Vai me dizer que o nome disso é amor? Que nada!
Agora, justiça seja feita: Não tinha quem agüentasse os surtos da Dona

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Lurdes. Eu mesma, se fosse o meu pai, teria pulado fora muito antes. Não sei...
Pra nós, mulheres, parece que é sempre oito ou oitenta, uma lástima. Ou é
aquela submissão, aquele voto de martírio, ou é o escândalo, o vexame,
querendo resolver tudo na base do porrete, do palavreado, na base do rolo de
macarrão, querendo fazer a coisa dar certo à força. Não! Não é assim que
funciona. Quando o barco começa a fazer água... Pode estrebuchar, pode
rezar, pode tentar o que for. Se o tempo não resolver – com uma ajudinha do
nosso desprezo, claro – outra maneira é que não há. Ficar em cima, grudada, é
pior. Ainda bem que eu nunca fui obcecada, Deus me livre! Homem é assim:
Precisa de uma figura que represente bem o papel de mãe; que cuide de suas
coisas, que fique catando as meias e as cuecas pelo chão do corredor. Que
faça almoço, jantarzinho, que dê remedinho; Homem precisa de uma figura que
fique esperando acordada, pra ver que hora ele chega da farra – com os
amigos, óbvio! Mesmo que eles morram dizendo que detestam essa marcação
colada, é tudo mentira: eles não só gostam disto como também necessitam.
Como eu disse, a representação da mamãe. Só que tem outra coisa: Ao
mesmo tempo em que eles precisam desta babá, sempre de plantão, esta
santa contratada, existe também o tal do extinto de perpetuação, de
preservação da espécie. Como se fosse nos tempos das cavernas – pensando
bem, homem é uma coisa mesmo meio pré-histórica, paleolítica mesmo – o
homem também precisa, intuitivamente, embora sempre achando que é por
outro motivo, disseminar. É isso mesmo. Disseminar, propagar o néctar, a
semente de sua estirpe, no maior numero de fêmeas possível. Odeio ser
chamada de fêmea. Acho tão pejorativo; fico me sentindo uma vaca, uma égua,
sei lá... Porque o homem acha que já evoluiu muito, só porque não arrasta
mais a mulher pelos cabelos, batendo em sua cabeça com uma clava. Já acha
que está fazendo muito só em não espancar; tudo bem se o abuso render
apenas alguns safanões e hematomas nos braços, um dedinho quebrado,
coisa boba, umas luxações, aqui e ali. Só que há um pequeno detalhe: A
esposa geralmente não faz parte deste numeroso grupo de pseudo-
reprodutoras. Mas é claro! Ela já assumiu o status de mãezona. Pra quê, oras?
Se o elemento já fez até filhos na miserável... Claro que eu estou sendo radical
– será? – mas é que fico muito revoltada quando vejo que a mulher se tornou
meio refém de toda esta situação. Eu particularmente não quero fazer parte
nem de um lado nem do outro, dentre estes tipos de mulher. Nem quero ser a
mãe, nem muito menos a outra. E quando eu digo que detesto assédio, quero
dizer que detesto! Agora, assédio de homem casado... Aí eu realmente
abomino, tenho horror! Dá até vontade de deixar o cara se aproximar, só pra
saber onde ele mora, e depois ir lá, contar tudo pra mulher dele, de tanto que
eu sou revoltada que esse tipo de sujeito. Ai que ódio!

– Susana...
– Ah! E tem mais uma coisa...

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– Susana!
– Oi, doutora... Desculpe.
– Susana, nosso tempo acabou.
– Já, doutora? Eu nem senti o tempo passar...
– Já, sim. Acabou. Nós até já nos excedemos em dez minutos.
– Mas, eu nem falei sobre o Hugo... Aquele lá do...
– Fazemos assim: na semana que vem você me fala a respeito, certo?
– Que pena... Está certo, então. Eu vou indo. Preciso mesmo ligar pra
Renatinha: quero muito saber como foi ontem com o tal de Rodrigo. Muito
obrigada, doutora. Boa tarde. Até semana que vem. A senhora não vai mexer
na medicação? Tenho tido tanta dificuldade para dormir...
– Susana... Boa tarde. Vemo-nos quarta-feira, no mesmo horário, certo?
Até lá.
– Tudo bem. Até lá, doutora.


– Lucília?
– Pois não, doutora Jadete...
– Por favor, Lucília, pode mandar entrar a próxima?





















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Auto-retrato


Na paleta as cores estavam dispostas para mais um quadro.
Nada havia na mente de Carmen, como se somente seu coração
estivesse vivo dentro do corpo. A predominância dos tons fechados: azuis e
púrpuras densos, o marrom profundo, um preto separado para os contornos
eventuais. Havia o branco de sempre com sua tola emanação.
Os olhos vagos no quadrado da janela que dava para a rua com suas
imagens reais; o dia acinzentado, triste, uma pintura dorida, esquecida de si
mesma.
Na armação a tela aguardava calada, sem manchas nem rascunhos.
Limpidamente imaculada a superfície que mais se parecia com uma alma em
silêncio, os pensamentos fundindo passado e futuro naquele pedaço de pano
esticado sem presente algum. A tinta acrílica em seu olfato, como uma droga
de preferência, a textura brilhante e profunda de cada tonalidade, o pelo macio
e morto dos pincéis, o avental borrado, o cigarro antigo, tudo... Tudo fazia parte
do instante que tentava capturar qualquer pretexto, o impulso daquele primeiro
traço, a sua primeira pincelada.
Lenta? Seria um gesto comedido, uma reflexão? Ou seria como se fosse
um espasmo, um corte? Seria vermelho, o calor vibrando aos olhos? Talvez um
matiz frio e grave, um azul pressuposto, de chumbo, pesado, lívido como o
próprio espírito da solidão que a vitimava.
Carmen refletia, enquanto a tarde alaranjava o ocaso: o sol vencendo a
barra de nuvens, embrenhando-se no vão do atelier já obscuro. Ela tinha que
traduzir o sentimento de abandono que era cada vez mais intenso à medida
que sua impotência de esquecer aquela última vez crescia. Tinha que pintar
aquela rapsódia de Rachmaninoff, cristalizar no tempo parado o piano que

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dilatava seu peito magoado. Estava só, por dentro e por fora esquecida e
breve.
As lágrimas químicas, o ar invisível penetrando junto com o som as
frestas entre as gavetas, por debaixo da porta, as dobras do algodão
grampeado no saibro de pinho, as cerdas entrelaçadas presas à cinta de
latão...
Decidiu pelo auto-retrato.
Com uma estilha de carvão traçou um círculo oval, duas tangentes, uma
de cada lado, convexas em direção aos ombros desnecessários, o pescoço
esguio e teso. Conspurcava sombras com os dedos, pressentindo relevos e
imperfeições, espalhando a negra fuligem num transe cego e intuitivo,
enquanto a estranha e desconhecida obra se compunha juntamente com o
escuro que a noite sempre traz.
Outro cigarro. O fumo debulhado de propósito sobre a paleta, uma trama
menos vegetal do que sintética. O tabaco granulado na cor com a qual fora
preenchido o primeiro, porém último plano da figura. O fundo preto secava ao
redor de seu rosto vazio. Carmen ainda baforava sobre a tinta: A vaga
esperança de levar o olor daquele momento para dentro de sua eternidade
consumada.
Quatro mãos – uma de cada cor – respectivamente: branco, amarelo,
roxo e marrom; cada uma em cada um dos cantos do quadro. Duas eram dela,
as outras, não sabia...
De repente uma fisionomia reconhecida foi aparecendo dentro do rosto
daquela mulher já não tão estranha, já nem tão infeliz, já não mais
completamente solitária. O olhar assustado sorria. O nariz encimando a boca
disforme, grotesca. O cabelo voava um vento que não fazia. Rugas. Cílios. Um
colar de pedras absurdas e opacas enforcava-lhe umbilical. Medo. Havia muito
medo na expressão facial dos três arcanjos de asas quebradas que Carmen
pintou, como se fossem demônios inocentes, abortados, pairando sobre a sua
inadequada cabeça.
O piano continuava a incidir na ramagem dourada que ia surgindo em
espiral, ao redor de uma proeminência geométrica sem nenhum sentido que
aparecia aos poucos, dando uma idéia de escadaria que levava a lugar
nenhum.
Ela ficou durante algum tempo hipnotizada, imóvel diante daquela
grosseira personificação de si, antes de pintar o pequeno vulto de um homem
nu de costas – como se estivesse caminhando para dentro do escuro daquele
ressentimento surrealista. A garrafa de vinho vazia testemunhando os seus
aforismos de angústia e fervor; a paleta esquecida, com o dedo polegar quase
ferido, estrangulado sem irrigação sanguínea. Os pincéis endurecidos daquele
colorido rigor mortis, como se não fossem ser aproveitados nunca mais.

As pílulas faziam efeito muito lentamente...

!48
Carmen começou a lembrar-se: em seu transe via as cores do atelier
girando numa inevitável letargia. Só conseguia pensar na última noite em que
ela e Diego estiveram juntos. O seu corpo sob o dele, as unhas fincadas na
pele das costas do homem que era o pai do filho que não iria ter.
No olor que fazia enquanto o silêncio exalava, a cidade, paralisada na
perplexa intimidade, calou suas ruas fantasmas. O suor brilhando a pele, o
desejo gelando as paredes e as superfícies das telas; as mãos ávidas,
entrelaçadas num único vulto indefinido que vinha dos dois corpos pulsando
cada veia daquele êxtase absurdo. Foram tomados de certa comoção e um
sussurro breve roubou o ar, quase parando os corações siameses. O atelier
tremia um frêmito de almas inteiras, e a paixão brilhava no quilate dos olhos.
Carmen podia se mirar no relance que o espelho captava: os negros e longos
cabelos de metal, refletindo a pouca luz que da fresta de porta entreaberta
insistia. E os livros fizeram sentido, petrificados sobre as prateleiras da velha
estante colonial. Os objetos nada mais eram. A métrica dos quadros
inacabados e inúteis, envelhecendo nos cavaletes. Lençóis alçavam sinuosos,
num enleio, levados por uma brisa cantilena para bem longe daquela nudez de
cromatismos. As roupas esquecidas no assoalho frio.
No epicentro avassalador de um gozo, ela e Diego, envoltos em torpor,
deleite e calma, sintetizaram outra espécie de existência impossível – criara-se
um tempo a que chamariam de futuro.
E a sísmica noite estalou em cada grito, cedendo àquela ancestral
monogenia. Então, súbito, o universo quis mover-se outra vez, Mas o destino,
irremediavelmente alterado para sempre na própria sentença factual, percebeu,
ao saltar de dentro do inepto passado: O Amor já era tarde demais.
Foi ali, naquele momento, que para Carmen tudo perdeu a razão. Antes
de adormecer, porém, ela ainda escreveu um bilhete no verso da folha de
papel que trazia o resultado de seu exame de gravidez – reagente positivo. A
letra quase indecifrável transcorria mórbida as poucas palavras daquela débil
sentença.

Quando Carmen foi encontrada já sem vida, na manhã seguinte, uma
réstia de sol iluminava e aquecia o seu rosto pálido e defunto. Seus lábios
sorriam uma paz suave e definitiva. Madalena, a vizinha do apartamento
contíguo, estranhou o som daquele piano que soara por toda a noite e ainda
continuava até então, esquecido, como que programado para tocar para
sempre. Notando a porta destrancada a mulher adentrou cuidadosamente o
atelier, depois de bater algumas vezes sem obter resposta, já pressentindo
tudo...
Por um momento sentiu-se incomodada pelo fato de estar viva, ali
sozinha, olhando perplexa para o corpo daquela mulher irremediavelmente
falecida. Caminhou até bem perto de Carmen com um medo inútil e pegou o

!49
bilhete, arrancando-o da mão fria e tesa. No papel estava escrito: “Este quadro
eu deixo para Diego”. Apenas estas palavras estavam escritas, pois na verdade
o verdadeiro conteúdo da mensagem encontrava-se na parte da frente da
folha. Madalena demorou um pouco até perceber de fato o que havia
acontecido, depois de virar o papel e ler o resultado do exame. O forte cheiro
de tinta a atordoava: eram duas pessoas que haviam morrido, e não apenas
uma.
Inexplicavelmente, tomada de uma curiosa presença de espírito,
Madalena decidiu então que iria guardar aquele segredo. Antes de entrar em
contato com os familiares de Carmen, antes de tomar qualquer outra
providência, ela pegou uma bisnaga de cor preta que estava sobre a bancada
e, num impulso de artista ou de anjo, espremeu todo o seu conteúdo na parte
da frente do bilhete, espalhando com uma espátula a grossa camada de tinta
sobre toda a área do papel. De repente ali, onde estava escrito o resultado
positivo do exame de gravidez, não havia mais nada. Seria, muito
provavelmente, o cruel axioma que iria condenar Diego a uma vida de remorso
e amargura. Mais do que com o assassinato da criança que Carmen carregava
em seu ventre morto, Madalena, comovida, indignara-se com o sádico
propósito que havia por detrás daquela vingança, proferida contra Diego.
Então, usando a tinta ainda fresca como um betume, Madalena colou a
tétrica missiva na parte de trás da tela com o auto-retrato. Decerto que a última
pintura de Carmen iria ser entregue a Diego, como se nada houvesse
acontecido, de acordo com o breve e implacável testamento.

Madalena saiu do atelier soluçando uma profunda consternação. A
música que tocava, ela a deixou tocando: Não queria interferir em mais nada
que dissesse respeito ao cenário daquele drama. “Os que vêm que desliguem”,
pensou ela, frágil e esgotada.
A rapsódia transformara-se num réquiem, sem mais nenhuma cor. O
piano se ouvia de longe, como se resto do mundo estivesse em silêncio.











!50











Arinna


Todos dizem que morrer se parece com estar sendo sugado por uma luz,
como numa imagem de um túnel, cujo clarão em seu final ofusca a ponto de
inundar todo o campo de visão. Há também as versões de natureza mais
metafísica, onde a pessoa se vê atônita, geralmente se distanciando do leito de
morte, em direção ao alto. Dizem ainda outros que é um momento de extrema
solidão, quando, num descuido da vigília de algum ente, uma saída do cômodo
onde se está, para um copo com água, uma xícara de café, uma ida rápida ao
banheiro ou até mesmo um breve cochilo, acontece o desligamento, a
passagem. Morte. Ninguém morreu o suficiente para que neste pudéssemos
confiar, sem por em dúvida a veracidade de qualquer variante a respeito do
grande mistério indecifrável, o enigma dos enigmas...
O fato é que Arinna esteve lá, durante todo o tempo. Entretanto sua
morte foi diagnosticada. Toda a sintomática: o diâmetro fixo das pupilas,
nenhuma reação à luz, a ausência completa de movimentação nos órgãos
inferiores, pane cefálica, o silencio orgânico. Quase quarenta segundos até a
reanimação induzida, artefatos, injeções, desfibrilador...
Ela morreu para dentro de si, de fora para dentro. Sua memória tornou-
se uma “folha de baixo”, marcada com escritos invisíveis e confusos. A página
de cima foi arrancada do caderno de sua historia individual, perdeu-se no vazio
dos nove dias em coma.

Na tarde em que abriu os olhos, após sua jornada de ausência, Arinna
estava só, no apartamento seiscentos e quatorze do Hospital de Referência.
Tudo lhe pareceu muito estranho por ser de tal modo e assustadoramente
familiar. Hipnotizada pelo som repetido do aparelho de eletrocardiograma, ali,

!51
vivo, bem junto à sua cama, do lado esquerdo, ela fechou os olhos novamente.
Agora adormecera num impulso voluntário. Passaram-se alguns minutos antes
que acordasse, compelida organicamente por uma sede muito antiga. Arinna
não lembrou do sabor que a água não possuía; de nada se recordava a não
ser do fato de que havia despertado a pouco, os pensamentos obscuros, soltos
no vácuo de sua mente vazia.
Três semanas após sua volta, que contrariou todos os prognósticos
acerca de que não resistiria ao dramático impacto das duas complicadas
intervenções cirúrgicas na cabeça, para a remoção dos coágulos provocados
pelas fortes pancadas que sofrera em virtude do violento acidente, ela já tinha
condições de sentar-se, porém ainda ligada a alguns aparelhos e sondas que
constantemente monitoravam seu quadro clínico. Suas condições físicas eram
promissoras. Tratava-se de uma moça forte. Reagira excepcionalmente a todo
o processo pós-operatório, tendo deixado a unidade de terapia intensiva
apenas oito dias após emergir “milagrosamente” daquele estado de coma
profundo.

Os pais de Arinna acompanharam sua reabilitação com um entusiasmo


indizível, e, muito embora falasse pouco, ela nunca mais estava só no
apartamento com o qual realmente já se acostumava. Às vezes, sorria com
uma tristeza distante dentro dos olhos. Percebia que sua mãe comovia-se
freqüentemente com toda aquela situação, apesar de terem adquirido – as
duas – uma expressão que antes não havia em seus rostos, as mútuas marcas
daquela espécie de renascimento. Suas semelhanças ficavam mais
ressaltadas a cada dia, na medida em que iam, ali, se reconhecendo,
descobrindo seus novos códigos de acesso interpessoais.
O cabelo de Arinna crescera, desde que fora completamente raspado
para a realização das cirurgias. Espetado, muito fino e sedoso, bem curto e
negro, já começava a encobrir suas orelhas pequenas e bem afiladas. Havia
ainda uma falha na sobrancelha esquerda, a cicatriz de um corte que também
se regenerava depressa. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros agora,
como se tivessem se voltado mais para dentro de sua alma – um lago de águas
densas e de uma mansidão e profundidade cada vez mais estarrecedoras.
A paciente também recebia outras visitas ocasionais, sempre nas
terças-feiras, quintas e domingos. A expectativa de tais aparições causava-lhe
um incômodo que ia sendo absorvido psicologicamente com uma nociva
passividade resignada, já que se sentia refém de sua condição, ainda sem a
devida lucidez para manifestar seus verdadeiros sentimentos e aflições.
Observava aquelas pessoas que seus pais inutilmente afirmavam que
conhecia, sem que na realidade soubesse ao certo de quem se tratava. Não
podia deixar de esconder uma tensão constrangida e sutil quando alguns
vinham tocá-la, fosse num abraço ou até mesmo quando beijavam a pele bem
alva de seu rosto. Não havia nenhum traço de algum tipo de intimidade que lhe

!52
fosse natural ou peculiar. Tudo fazia parte de um passado sem registros, não
havia nenhuma conexão entre aqueles rostos e qualquer coisa que pudesse ter
sido vivida ao lado daquelas estranhas pessoas. O horário de visitas alternava-
se entre as tardes e as manhãs dos dias pré-estabelecidos. Arinna foi aos
poucos aprendendo a assumir uma personagem evasiva para lidar com
aquelas três horas que para ela representavam um verdadeiro tormento.
Esperava, em vão, receber a visita de alguém que tivesse para ela um
significado maior, mais intenso. Filha única, ela sentia muita falta de ver em
algum daqueles rostos o calor e o alento de uma proximidade ancestral, talvez
uma irmã, um irmão... Mas ela não deixava que este sentimento
transparecesse em relação a seus pais, não obstante aquela relação – que era
embasada em carinho e zelo constantes, que lhe trazia conforto e segurança –
só houvesse começado há pouquíssimo tempo. De sua chegada praticamente
sem vida até então, já haviam se passado quase dois meses. Sentia-se como
se só tivesse esta idade. Pediu delicadamente a seus pais para não mais
receber visitas. Explicou-lhes sobre o quanto se sentia diminuída e atordoada
por não ter a defesa de lembrar-se daquelas pessoas que demonstravam,
apesar de total falta de intimidade, o quão bem a conheciam. E assim foi, nos
doze dias que se seguiram, até estar “pronta” para deixar o hospital.

O sol brilhava intensamente na manhã daquele sábado que marcou a
volta de Arinna para casa. Ela observava a movimentação de seus pais,
passando pela porta de seu quarto, de um lado para outro, agitados no
corredor. Os dois já haviam sido devidamente instruídos sobre todos os
procedimentos em relação à filha que naquele dia recebia alta. Assinaram
papéis, guardaram exames, radiografias e receitas. Logo cedo tiveram uma
longa e franca conversa com o médico que fora responsável por Arinna, desde
a sua entrada na emergência até aquele dia. Era um experiente e renomado
neurocirurgião. Contava com uma equipe notavelmente qualificada, toda a
junta médica que não podia deixar de expressar uma grata satisfação pelos
resultados obtidos no caso daquela moça que, apesar de haver chegado ao
hospital com poucas chances de sobreviver, saía dali com a saúde quase que
completamente restabelecida, não fosse pela amnésia retrógrada que ainda
insistia. Mas não havia mais nada que efetivamente se pudesse fazer por ela,
ali no Hospital de Referência. O mais indicado inclusive era levá-la o quanto
antes para o seu lugar de origem, sua residência, seus próprios aposentos,
para bem perto de seus objetos pessoais, roupas, fotos, utensílios, enfim, na
esperança de que tais estímulos exteriores pudessem auxiliá-la no processo de
reconstituição dos dados de sua memória. A despeito de toda a alegria em
torno da saída de Arinna daquele hospital, ela sentiu-se intimamente
desamparada, pois sabia que ao cruzar os limites das grandes portas de vidro
do hall da recepção, estaria deixando para trás o que lhe parecia ser o único
lugar cujas afinidades estabeleciam algum grau de familiaridade. Sua vida

!53
havia sido reduzida ao espaço daquele prédio e às pessoas que
cotidianamente por ele transitavam.
Já fazia quase dois meses que convivia com seus pais, no sobrado onde
crescera, a casa de suas mais longínquas, porém perdidas reminiscências.
Mas ainda estava tudo um tanto obscuro e insólito dentro de seu peito, de sua
mente, dentro do seu espírito cheio de duvidas e de lacunas. Reconhecia uma
coisa aqui, outra ali. No começo daquele período em que havia retornado ao lar
era pior ainda: levava às vezes muitos dias para recordar de algo, fosse um
objeto qualquer, ou a lembrança de algum fato a que este mesmo lhe
conduzisse. Ultimamente sentia-se mais aliviada, pois foi descobrindo, desde
cedo, que aquilo de que ia conseguindo se lembrar novamente assumia um
registro definitivo no seu parco banco de dados. Para ela o tempo também
passava em uma velocidade diferente. Na verdade Arinna não entendia muito
bem como as coisas aconteciam, cronologicamente. Havia perdido vários
referenciais, inclusive os que estavam relacionados a coisas a princípio muito
simples, para pessoas sem aquela disfunção, como por exemplo: o tempo que
levava uma fruta para amadurecer, o espaço entre os dias da semana – já que
no hospital tudo se dava com uma regularidade bastante sistemática, ao
contrario dali, no dia-a-dia mais natural de sua nova vida. Entretanto o que
chamava bastante a atenção da moça eram as reflexões em torno da saudade.
Arinna não conhecia mais o significado deste sentimento, esta palavra cujo
sentido tanto etimológico quanto humano, por mais que tentassem lhe explicar,
por mais que ela se esforçasse em compreender, custava a fazer-lhe algum
sentido. Sentia sim uma falta, uma espécie de vazio quando pensava nos
meses em que havia estado internada. Mas era muito vago este pensamento
pois sua ligação com as pessoas, fatos e coisas daquele período eram de certa
forma – se não completamente – postiços. Outra coisa que lhe intrigava muito
eram os sonhos que tinha. Com freqüência acordava no meio da noite e ficava,
em silencio, no escuro, aflita, tentando entender o confuso conteúdo e a
representação daquelas imagens que mais pareciam uma fábula absurda.
Sonhava com seus amigos, com o rosto de alguns parentes, seus tios, seus
avós; também sonhava costumeiramente com uma criança, muitas vezes
chorando um choro mudo em meio aquele elenco de fantasmas que nada mais
eram do que reproduções grotescas das figuras que povoavam os álbuns de
fotografia da família. Logo pôde perceber que a criança era ela própria, a
menina da qual também havia esquecido. Pela manhã, cansada e melancólica
Arinna contava estes sonhos, principalmente para a mãe, que com um sorriso
cheio de angústia logo tratava de estabelecer conexões, citar passagens,
lugares, enfim. De que adiantava saber que as pessoas que a visitavam de vez
em quando eram as mesmas dos retratos, as mesmas que figuravam em seus
sonhos? De nada adiantava. Arinna estava só. Uma solidão repleta de criaturas
que não conseguiam ser nunca suficientes, mesmo com toda a afeição, todo
cuidado, paciência e carinho. Todos faziam parte apenas de um hoje sem

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ontem, este presente sem passado, e o passado – para ela como uma morte
que vinha de antes, como se estivesse pelo avesso – do passado Arinna nada
havia trazido.











A caixa de correio


Vitório,

Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer-lhe que esta temporada aqui,


no Balneário da Instância, me fez repensar muito sobre todas as minhas
atitudes, principalmente sobre o fato de ter largado tudo para ir morar com
você. Embora saiba que todo o dano ao qual mutuamente nos submetemos
tenha sido necessário, afinal foi saindo de perto de você, e também vindo para
cá que tudo começou a mudar dentro de mim, realmente – e hoje é que tenho
esta noção – não há porquê de continuarmos. Não que eu ainda não tenha por
você algum resíduo de afeto, uma raspa de engano; as coisas são o que são.
Na verdade, nem de longe eu poderia dizer que se trata disto, afinal vivemos
um com o outro durante muito tempo; quatro anos não são quatro meses nem
quatro dias. Talvez eu só tenha mesmo parado de nutrir este sentimento com
tanta atenção e avidez.
Adoeci desta nossa peleja. Mas este período de solidão, este meu exílio
forçado desanuviou muitas questões que dizem respeito a nós dois, coisas que
eu já sabia, mas não conseguia admitir. Entretanto, no fim das contas eu
percebo que o que mais teve relevância para mim, durante estes dias por aqui,
foram as reflexões sobre minha felicidade, minha realização.
Sei que neste momento você deve estar se perguntando se esta não
seria mais uma de minhas estratégias para fazer você prestar atenção a mim.
Sei que já fiz muitas coisas questionáveis; o uso da violência é realmente

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imperdoável. Não quero retomar velhas lembranças. Nossas brigas sempre
foram terríveis e uma das condições para que eu continue me sentindo bem,
assim como estou agora, seria realmente varrer de minha vida estas
passagens tão traumáticas, estes surtos de descontrole, toda esta insanidade
pela qual fomos tragados, sobretudo no decorrer do último ano em que
passamos juntos.
Eu mesma reconheço no tom de minhas palavras uma dose de auto-
piedade, um discurso num tom de quem está – ou pelo menos poderia estar,
mesmo sem o perceber – querendo se redimir, com o pretexto de deixar no ar a
impressão de que tudo a partir de agora seria diferente. De fato devo lhe
afirmar que será diferente sim, muito embora – sinto muito – não pelos motivos
que você, lendo esta carta, talvez pressuponha.
E é justamente para que não haja dúvidas que lhe escrevo. Gostaria que
você soubesse que, há uma semana já, a medicação que me foi prescrita está
suspensa. Fiz questão de dar a mim este tempo para que não corresse o risco
de não ter a devida consciência do conteúdo destas linhas.
De maneira alguma eu quero que você pense que está sendo fácil. Na
verdade fazia muito tempo que não tinha a oportunidade de estar tão perto de
mim quanto agora. Talvez nunca tenha estado; talvez nunca tenha tido tanto
contato comigo mesma. Você conhece a minha história e sabe o quanto
sempre tentei mascarar minhas limitações com uma constante postura
defensiva. Alias, eu não poderia deixar de lhe dar razão em relação a vários
pontos de sua avaliação. Acontece que reconhecer isto agora não transforma o
quadro de nossa impossibilidade. Poderíamos ter passado muito tempo ainda
neste relacionamento que se transformou num verdadeiro embate, um jogo
impiedoso, esta disputa desgastada e de onde só restaram perdedores.
Posso estar parecendo um pouco confusa para você. Mas a verdade é
que eu tenho a impressão de que nunca conseguimos realmente nos
comunicar com êxito. E foi por esta razão que, ao invés de lhe encontrar
pessoalmente, eu preferi parar e colocar isto tudo no papel. E eu não poderia,
de forma alguma, cometer a inadvertência de permitir que você não quisesse
parar para me ouvir com a atenção que este assunto delicado merece. Mas
não é só isso. Senti um medo – o mesmo medo de sempre – de não conseguir
lhe falar estas coisas olhando nos seus olhos, lutando contra a atração que
nunca neguei sentir por você.
Só que é mais do que evidente que isto parou de servir como solução
para os nossos problemas.
Ouvi de uma senhora que está aqui, uma mulher muito silenciosa, que
na verdade se comunica muito através de um sorriso sempre muito calmo,
como se estivesse sempre concordando com tudo – talvez entendendo tudo –
que se passa a sua volta, ouvi desta pessoa a seguinte frase: “É preciso mais
amor para se terminar um relacionamento do que para começá-lo, minha filha”.

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Acredite Vitório! Foi este fato, esta frase, que me impulsionou a parar tudo o
que estava pensando ou fazendo para lhe escrever esta carta.
Quero lhe dizer que vim para cá três dias após sair de casa. Não vou lhe
pedir perdão pelo fato de só agora lhe revelar isto, mas imagino o quanto você
deve ter ficado apreensivo com o meu sumiço. Da última vez que deixei o
apartamento, em janeiro, foi bem diferente, pois na verdade o que eu estava
querendo era exatamente que você fosse correndo atrás de mim. Tanto é que
acabei me comunicando, avisando à pessoas as quais eu tinha certeza – ainda
que uma certeza velada, inconsciente – que iriam direto falar para você: “o
quanto eu não queria que você me procurasse; que se o fizesse seria ‘inútil’;
que eu não queria mais olhar na sua cara, etc., etc.”.
Como você pode perceber, Vitório, desta vez está sendo bem diferente.
Já se passaram mais de trinta dias e a única pessoa que ficou sabendo do meu
paradeiro foi Camila. Não disse absolutamente nada a mais ninguém; qualquer
pessoa que pudesse fazer chegar até você alguma informação a respeito de
onde eu poderia estar. Nem mesmo contei para minha mãe. Disse-lhe apenas
que iria fazer uma viagem. Cheguei até a mencionar sobre a possibilidade de
minha ida para o interior, na intenção de despistar a vocês dois. Tive receio
dela lhe contar, como um meio de poder chegar até mim. Ao contar-lhe,
imagino que minha mãe poderia supor que você imediatamente tentaria ir ao
meu encontro. Na cabeça dela, você então me traria de volta. Fatalmente isto
aconteceria por seu intermédio, já que minha mãe sempre – ou pelo menos
desde muito cedo – decidiu não intrometer-se em nossa relação.
Quanto à Camila, ela me deu todo o apoio de que precisei e ainda
continua. Digo-lhe que será inútil procurá-la, pois quando esta carta chegar às
suas mãos decerto que não estarei mais aqui. Realmente não valerá a pena
importuná-la; tudo o que ela poderia lhe dizer está sendo e será dito, por mim,
agora, esteja certo disto.
Sem maiores divagações, eu quero que você saiba de alguns fatos que
são muito importantes para que não me interprete mal, correndo o risco de criar
falsas expectativas em torno de qualquer coisa que ainda diga respeito a nós
dois. Não pensei muito sobre a ordem que daria ao lhe dizer o que vou dizer.
Não estabeleci nenhuma escala de prioridades. Sinto que tudo tem o mesmo
teor, o mesmo impacto, seja para mim, falando, relembrando de coisas que me
causaram tanto desgaste, ou para você, ouvindo o que jamais seria imaginável,
principalmente vindo desta mulher que você sempre considerou ser tão calada
e obscura.
Aliás, o que sempre aconteceu foi que tudo o quanto você me fez passar
nunca teve a mínima ressonância dentro do seu coração. Você mostrou-se
constantemente incapaz de sair de dentro do seu mundo particular para poder,
de fato, sentir a minha dor. Entretanto, eu não poderia cometer o mesmo erro.
Lembra-se do que eu lhe falei anteriormente, sobre D. Ruth, a senhora aqui da
chácara, hospedada comigo? “Mais amor para terminar...” Pois é a isto que me

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proponho. Por este motivo lhe escrevo. Nem quero mais pensar se você
merece ou não. Apenas quero que saiba: eu sinto a sua dor. Sim, eu a sinto
com propriedade, com a força de quem foi sistematicamente maltratada sem
que para isto houvesse uma explicação, presumível, pelo menos.
Conheço a sua dor porque sei que ela é e será semelhante à dor que eu
senti na recepção da clínica para onde você foi levado quando caiu da moto,
por exemplo. Pois vou lhe revelar que naquela noite do acidente, enquanto
estava esperando para lhe ver – e ali eu já sentia suas dores – chorei muito,
pensando no quanto você estaria sofrendo, prestes a ser submetido àquela
cirurgia para lhe colocarem os pinos de platina no tornozelo. Pensava muito em
seu desapontamento, pelo tempo que precisaria ficar convalescendo, e,
principalmente, por não poder pilotar durante pelo menos seis meses...
Mas isso quem sabe não conte, pois, talvez, e somente talvez, sentir as
coisas desta forma deva mesmo fazer parte somente da natureza feminina.
Mas a verdade é que, enquanto vivia aquela angústia, e como se já não
bastasse, vi Soraya – ela mesma, Vitório – entrando, bastante aflita também,
no setor de traumatismos, onde estava eu. Ela, perguntando por você no
balcão de atendimento, sobressaltada como eu costumava ser no início: “Por
favor, foi aqui que deu entrada Vitório Mendes de Albuquerque?”. Ao perceber
que aquela mulher não me conhecia, aproximei-me pouco tempo depois, lhe
ofereci um copo com água com o ensejo de poder sentar-me ao seu lado para
depois ouvi-la falar, em resposta inocente às minhas especulações, sobre os
planos de vocês dois: a separação da “mulher pela qual não sentia mais nada”,
a mudança de cidade, filhos quiçá...
Admito que a opção de não querer filhos foi uma escolha que fizemos em
comum acordo. Não poderia condená-lo, não por isso. Não sei até hoje se senti
mais pena dela, a “pobre Soraya”, ou de mim. Só sei que não precisei fazer
muito esforço para confortá-la – verdadeiramente – antes de tomar coragem e
sumir dali, deixando-lhe aos cuidados de sua “amiga”. Agora você sabe o real
motivo pelo qual eu “preferi” esperá-lo em casa, no dia seguinte.
O mais estranho para mim foi o fato de que, ao contrário das outras
vezes, como foi o caso quando do seu envolvimento com Eneida, Léa,
Marlene, Josie ou até mesmo com Luiza de Marilack – aquilo eu sei, foi um
flerte tolo, mas ainda assim – em todas estas ocasiões, em que você esteve ali,
bem na minha frente, exercendo aquela espécie de poder infame sobre mim,
tentando ludibriar-me com arrogância e desprezo ou sendo miseravelmente
sincero, eu, de forma invariável, senti-me tomada por um verdadeiro instinto
animal. Posso até mesmo confessar que era um instinto assassino. Eu não
tinha nenhum controle sobre as minhas emoções. Estava desesperada
também e, sobretudo, por não reconhecer-me mais. Mas no caso de Soraya –
não sei se devido a eu estar numa posição tão privilegiada, oculta sob a capa
daquele perverso anonimato – aquelas conhecidas, costumeiras e previsíveis
reações animalizadas não tomaram conta de mim.

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Hoje percebo que, ali, àquela altura, eu já havia perdido a admiração
pelo que já nem mais nos pertencia.
Agora entendo a raiva que há tanto tempo eu sentia dentro do meu peito:
raiva de você, de mim, da vida, de tudo e de todos. Raiva de Deus... Eu estava
sendo consumida pelo ácido de meu próprio ressentimento. Raiva, raiva, raiva!
Em minha débil maneira de entender, você “não tinha o direito” de me privar, de
boicotar ou cercear todo o amor que eu depositava dentro da boca do funil
daquele furacão em que se transformara nosso relacionamento nos últimos
tempos.
Eu sabia o que admirava em você, Vitório. Só que hoje tenho uma
serena convicção: admito que não saiba “o que é” o amor. No entanto, sei
precisamente “o que não é”. Agarro-me simplesmente a isto como ponto de
referência para não quebrar a cara outra vez.
Quem sabe o amor seja mesmo algo que só possa ser avaliado depois
do atropelo, depois que tudo passa, seja por um motivo ou por outro, nem sei.
Sinto-me exausta, confusa e comovida. Mas insisto em continuar, pois é
preciso que você saiba de tudo...
Em primeiro lugar, quero lhe dizer que não irei voltar. Isto agora está
completamente fora de questão. O que você julgar como sendo meu e que
tenha ficado no apartamento, você pode fazer o favor de deixar na casa de
minha mãe. Se nem ela, nem Josenira, nem Eliene estiverem em casa deixe
com Laurides mesmo. Com toda certeza, quando você for devolver as coisas
lá, eu já terei falado com Pedrinho. Meu irmão me compreende muito bem e é a
ele que comunicarei sobre esta minha decisão, para que ele passe para minha
mãe e para as meninas. Quanto ao pagamento das mensalidades da moto,
não posso mais me comprometer em arcar com isso. Tenho certeza de que
você irá encontrar uma forma de resolver este problema. Em todo caso,
depositarei a parcela deste mês ainda. Sugiro também que você converse com
o Fernando Antônio, para saber se ele ainda pode ou quer continuar como
fiador do imóvel. Acredito que ele não criará nenhum empecilho, muito embora
seja amigo meu. Posso lhe garantir que não entrarei em detalhes com ele a
nosso respeito, se por ventura o encontrar – o que acredito seja pouco
provável.

Estive aqui protelando, mas vou lhe dizer agora o que julgo ser o mais
importante. Quero que você acredite que, além de leal, também fui fiel ao
nosso compromisso durante estes quatro anos e sete meses em que estivemos
juntos, mesmo aos trancos e barrancos. Nunca permiti que minha profunda
indignação e minha amargura – pelos motivos que você conhece bem melhor
do que eu – me fizessem chegar ao extremo de entregar-me a outro homem
somente por mero instinto de vingança. Tenho a sensação de que nem teria a
necessidade de lhe falar isto, mas falo assim mesmo.

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A verdade é que, na noite em que fui embora, debaixo daquela chuva,
quando cheguei perto do Colégio D. Pedro Segundo, ao caminhar em direção
ao ponto de táxi – eu estava realmente pensando em ir para a casa de Camila
– encontrei Fabiano. Ele estava indo falar com você sobre as apostilas do
concurso, não sei ao certo, que diferença faz... Quando ele me viu, parou o
carro e perguntou-me o que eu fazia ali, no meio daquele temporal. Eu não
conseguia parar de chorar. Ele achou que eu estava indo para casa. Foi
quando então abriu a porta, oferecendo-me uma carona. Num impulso – não
sei, estava tudo muito difícil, eu estava ensopada, estava muito aturdida –,
então entrei. Eu lhe pedi que me lavasse para qualquer lugar, menos para o
apartamento, e fomos parar no Largo do Chope.
Eu juro para você, Vitório: nunca havia sequer percebido a presença de
Fabiano na balbúrdia de nossa vida. Nunca tampouco manifestei qualquer
gesto, palavra ou até mesmo pensamento que pudesse ter servido de alicerce,
ou que desse a mim ou a ele qualquer prerrogativa para o que aconteceu entre
nós naquela noite.
Só quero que saiba que desde então estamos juntos. Passei dois dias
em sua casa.
Depois, realmente procurei Camila, com quem dormi uma noite – não no
atelier, mas sim no conjugado da Rua Zumira Portela – antes de vir para cá,
para o Balneário da Instancia. Amanhã eu saio, precisamente uma semana
antes desta carta chegar à sua caixa de correio.
Eu e Fabiano decidimos deixar a cidade. Nada mais temos que fazer
aqui. Um dia você talvez entenda. Talvez não entenda nunca. Não quero mais
pensar nisto, não importa. Por enquanto estou bem. Sinto uma enorme vontade
de desejar que você se encontre. Mas acontece que para mim ainda é muito
cedo para poder desejar-lhe qualquer coisa. Para nós, entretanto, Vitório, já é
tarde. Tarde demais.

Boa sorte com Soraya ou com quem quer que seja.
Não! Perdoe-me...
Apenas, boa sorte.









!60

















O troco



Murilo chegou mais cedo ao local marcado para a reunião e desceu do
carro sem pressa alguma. Estava deprimido pelo fato de ter que lançar mão
daquele grupo de ajuda mútua, mas aquilo não era o fim. O pior veio depois.
Havia perto dali, logo em frente ao local para onde iria, uma lanchonete e ele
resolveu esperar por lá, sentado numa mesa localizada estrategicamente de
frente para os que ainda iram chegar. Sabia que não seria notado por ninguém,
já que o estabelecimento ficava do outro lado da avenida, com os carros
passando, aquela correria, muita informação. Era sábado à noite. Não estava
bem certo se realmente preferia uma programação menos monótona do que a
que lhe esperava, sete horas em ponto. Antes de sentar-se, foi até a beirada do
balcão, um tanto mal-humorado e perguntou, sem ao menos dar boa noite à
moça encostada na geladeira horizontal:
– Aqui tem café? – olhando em direção à garrafa térmica.
– Café? – respondeu a moça, com outra pergunta. Irritadiço, Murilo fez
uma cara de quem achou absurda a indagação, e, num tom de voz insolente
disse:

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– Sim. Café!
– Não. Café não tem, não senhor. – a moça percebeu a arrogância do
impaciente freguês que, do lado de fora do balcão, já envergonhado ao tomar
consciência disto, disse com a voz um pouco mais mansa, querendo remendar
mas sem dar o braço a torcer:
– Mas, e aquela garrafa ali? – apontou ele para a prateleira mais ao
fundo, como se isto justificasse sua rispidez. Outra moça que limpava a chapa
de sanduíches virou-se então, muito educada e sorridente, dizendo, antes que
a primeira se indispusesse, como que conhecendo seu temperamento
explosivo:
– Desculpe senhor. A garrafa está vazia, só servimos café pela manhã.
Mas, já vou tirar daqui. – A solicitude da funcionária o fez sentir-se mais mal
ainda.
Existem dias em que todos estabelecem a comunicação através de uma
certa rudeza coletiva, como se fosse uma reação em cadeia. Acorda-se com o
pé esquerdo, toma-se uma atitude de intolerância com alguém que tão logo se
sente injuriado; este outro então responde com mais agressividade ainda,
então se percebe que houve ressonância; diz-se mais um desaforo, sempre
com a cara amarrada, o ambiente fica pesado, cada um toma seu rumo, e
pronto: o mais importante é que houve, sim, algum tipo de comunicação, ainda
que desagradavelmente distorcida. Já em outros dias, não. Parece que só a
própria pessoa é que está afetada e os outros estão maravilhosamente bem,
causando a incomoda sensação de desajuste e solidão. E Murilo estava
mesmo invisível, falando um idioma que o resto da humanidade não decifrava.
Nada havia funcionado muito bem naquele dia, nem mesmo a sua auto-
piedade disfarçada de sanha. Percebendo isto, ele pediu um refrigerante, uma
fatia de bolo fofo, contentando-se sem o café. A moça simpática ainda lhe
disse, percebendo seu intento de lanchar de pé, feito um coitadinho, ali mesmo
no balcão:
– Pode sentar-se lá fora. Fique à vontade. – foi então o que ele fez,
agradecendo todo cabisbaixo, caminhando em direção ao alpendre da
lanchonete que devia esperar um grande movimento para mais tarde, já que lá
fora havia mais, muito mais garçonetes do que clientes. Na verdade, fora o
casal que comia e namorava em uma das mesas, lá só havia Murilo. Assim que
ele se sentou, veio logo uma moça e colocou em sua mesa o porta-
guardanapo. Murilo ainda pensou, tomado pela inútil intransigência: “queria só
ver, se a casa estivesse lotada, se ela me daria o mínimo de atenção”.
Entretanto, começou a comer o bolo desinteressadamente – só a casca –
quando olhou com rabo olho, percebendo que estava sendo observado por
aquele batalhão de mulheres. Elas não tinham mais nada o que fazer e
realmente, apesar da forma displicente com a qual, olhavam para o homem,
enfileiradas em posição de descansar, vestidas num uniforme amarelo-ovo,
todas com coque de aeromoça nos cabelos, uma situação constrangedora.

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Sorriam, quando Murilo, severo, ousava dar uma olhadela mais direta para
elas, e isto foi lhe deixando ainda mais desconsertado.
Ele, que só queria mesmo ter tomado um simples café para depois
fumar, resolveu dar fim à encenação, largando o garfo dentro do pratinho com
o bolo praticamente inteiro dentro. Pegou o maço de cigarros e acendeu então
um. Sentiu-se um pouco mais aliviado, baforando em direção à avenida, idílico,
preparando o espírito para a tal reunião anônima.
Chamou uma das meninas, sem escolher, e pediu a conta. Passaram-se
dois ou três minutos. Simultaneamente, ao aproximar-se dele a garçonete com
a papeleta, dela aproximou-se uma jovem – uma pedinte – que lhe balbuciou
algo perto do ouvido, referindo-se provavelmente a algum auxílio. A atendente,
interrompendo com o freguês, apontou para dentro, querendo dizer que a moça
deveria falar com outra pessoa, mais hierarquicamente qualificada para lhe
fazer a suposta caridade. Murilo indignou-se por dentro, mas, sabendo que fora
infeliz ao expressar anteriormente seu ímpeto, continuou calado, com sua cara
de poucos amigos.
Enquanto as duas mantinham a rápida negociação, ele tirava do bolso
esquerdo da calça, não sem dificuldade, o dinheiro para pagar a despesa.
Entregou-o à garçonete que se afastou em direção ao caixa. A moça que pedia
ficou então ali, parada bem ao seu lado, escorando-se numa das colunas que
sustentava a marquise. Só por isto que ficou ali: havia uma coluna e ela não
podia ficar no meio do tempo. Era uma mulher de seus vinte anos de idade.
Magra mas não esquálida, o cabelo crespo bem preso (todas as mulheres
desta história estão de coque, até a namorada, a do casal que comia!),
chinelas de dedo um pouco menores que seus pés, duas sacolas plásticas de
supermercado, uma segura pela mão e outra enfiada no braço, pendurada com
certa elegância na curva do cotovelo. O fato é que os dois – Murilo e ela – se
olharam. Ele poderia ter evitado o olhar da moça, mas, querendo demonstrar
que não tinha porque se intimidar continuou a encará-la por um breve
momento.
Então, contrariando toda a lógica de sua condição social, pervertendo
todos os paradigmas em torno da vitimização dos que esmolam, a moça
pendeu a cabeça suavemente e, com os lábios semi-serrados, sem mostrar
nenhum dente sequer, porém com os olhos intensamente vivos, sorriu. Murilo
ficou petrificado: “Aquilo também já era demais!” Em sua cabeça, poluída pela
própria intolerância, na fração de segundo em que aquela significativa
comunicação não verbal acontecia, ele ficou procurando algum motivo mais
subjacente para a gratuita simpatia da moça. E achou: “É lógico! Ela só pode
estar querendo se aproximar para me pedir algo, um trocado. Claro, o troco!” –
deveriam ser apenas algumas moedas. Ele não se corrompeu e encarou a
moça com mais austeridade ainda, circunspecto, duro, implacável. Ela
realmente intimidou-se, saindo de perto dele, nitidamente decepcionada e

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constrangida, como se tivesse sentido medo, um medo de se contaminar por
tamanha insensibilidade.
E foi aí que ocorreu o despertar espiritual daquele homem. Murilo
percebeu que não havia motivo nenhum para execrar aquela criatura que, com
uma dignidade que ele talvez desconhecesse, simplesmente, ao invés de lhe
pedir algo, na verdade lhe oferecera. “Um sorriso, meu Deus! A moça sorriu, e
eu nem retribuí. Nem sei há quanto tempo alguém não sorri pra mim. Também
pudera! O que me custava?” Estava começando a ser corroído pelo remorso,
precisava reparar aquele lamentável fato, que para ele foi cada vez mais
tomando proporções de um incidente diplomático. Olhou então para dentro da
lanchonete e viu a moça, de costas para ele, argumentando com a copeira.
Tudo muito bem, se não fossem os dizeres na parte de trás da camiseta
que ela vestia. Estava escrito, grande, em letras brancas estampadas sobre a
malha preta, em contraste: “Sorria!”. Não podia ser verdade, mas era. A moça
estava vestida – “tinha que ser coincidência!” – com uma camiseta promocional
de um plano odontológico qualquer. Provavelmente havia recebido a roupa
como donativo, enfim. “Mas por que não: ‘vote em fulano de tal’ ou ‘autopeças
não sei o quê mais lá’? Porque não simplesmente uma blusinha sem nada
escrito?”, eram os absurdos que se passavam na mente atordoada de Murilo,
naquele momento. A garçonete então lhe trouxe os oitenta centavos de troco.
Aquelas moedas ele ficou segurando, como se estivesse esperando para
comprar sua remissão. Olhou novamente para a pedinte – na verdade ele nem
sabia mais se era isto que a moça era, muito embora fosse aquilo que ela
estivesse fazendo – e sorriu. A moça, aproveitando-se da deixa, falou com
extrema simplicidade:
– Paga uma fatia de bolo pra mim? – ele teve vontade de comprar um
bolo inteiro, mas conteve-se:
– Eu acho que o que eu tenho não dá. Só tenho oitenta centavos. – e
isto era verdade. Então ainda num reflexo desprezível, vicioso, mais infeliz do
que bem intencionado, ele disse:
– Você não quer este pedaço aqui, – apontou o bolo sem casca ainda
dentro do pratinho – eu não pus a boca nele, não. Comi com o garfo. – Era
óbvio que ela já demonstrara não só dignidade, como também inteligência,
pois, se a boca não fora ao bolo, o garfo fatalmente fora à boca. A esta
proposta a moça nem sequer respondeu com palavra, somente balançando
negativamente a cabeça, altiva e nobre. Então Murilo arrematou, rendendo-se
à sua própria falta de compostura:
– Você acha que oitenta centavos dão pra comprar um pedaço de bolo?
– Perguntou.
– Dá sim. – Respondeu a moça, sem titubear.
Então ele entregou-lhe finalmente as moedas, lembrando-se de Judas
Iscariotes, sem saber muito bem o porquê. Ele ficou observando e viu quando
a funcionária da lanchonete colocou uma grande fatia de bolo dentro do

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saquinho, entregando em seguida o pequeno embrulho à moça. Esta por sua
vez pagou, agradeceu e foi saindo devagar, como se não estivesse com tanta
fome assim. Ao passar pela mesa onde estava Murilo, ela sorriu novamente
para ele, dizendo com uma voz cuja estabilidade e brandura dava a entender
que seria a mesma, caso a doação não fosse consumada:
– Muito obrigada, senhor!
– Não há de quê, minha filha. – ele respondeu, já formulando, logo em
seguida:
– Moça, como é mesmo o seu nome?
– Ana. Meu nome é Ana Maria.
– O meu é Murilo. Até logo.
– Até logo, Seu Murilo. Obrigada mesmo. – ela então foi embora.

Antes de dobrar a esquina, Ana olhou para trás e ainda sorriu mais uma
vez para aquele homem que continuava sentado e pensativo, como se
estivesse experimentando os efeitos de uma paz narcotizante. Depois disso,
Murilo desistiu de ir para a reunião – no grupo anônimo de ajuda mútua para
pessoas com dificuldades em estabelecer relacionamentos saudáveis. Preferiu
ir para casa. Não queria mais ver nem falar com ninguém. Bastava por aquele
dia.





A proposta


Nada mais restava a fazer a não ser lamentar-se. Andréa fora mais do
que simplesmente infeliz em seu plano. Tinha passado dos próprios limites
culturais, desafiando os pilares de sua educação, para poder ver se conseguia
pegar Juca na virada. Jamais proporia uma coisa dessas se não estivesse tão
desesperada pelo fato de encontrar um sentido para as suas desconfortáveis
indagações.
Os dois estavam namorando havia quase sete meses. Fariam
aniversário de relacionamento na semana seguinte, e algo, qualquer coisa
indistinta pairava sobre o céu daquela felicidade compactada numa rotina que
apenas ia bem, nada mais do que isso. Era como se uma tensão pré-cirúrgica
estivesse rondando o casal, uma necessidade de que algo diferente
acontecesse, alguma experiência arriscada, um engendramento externo.

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Andréa pensara muito antes de fazer a tal proposta. Tanto é que naquela
noite havia preparado todo um cenário de mistério, uma atmosfera de
suspense, com olhares e gestos ensaiados, tudo vagando no desconhecido.
Juca chegou ao apartamento no horário de costume das sextas feiras.
Só que havia levado uma pequena sacola com algumas roupas a mais,
deixando implícito que ficaria para o fim de semana. Ela o recebeu como
sempre: o sorriso marcado, os olhinhos miúdos, a alegria de estimação. Andréa
destrancou o cadeado do portão bem discretamente, fazendo isto de forma
automática, sem tirar os olhos insinuantes do eixo dos olhos do namorado. Ele
foi logo percebendo que havia mais alguma coisa, algo incompreensível no
semblante da moça que, vestida num babydool de seda cor de gelo, se movia
com gestos de gato.

O homem estava cansado. Sua timidez diante do comportamento
inusitado da namorada era nítida, mas, apesar disso, ele dava indícios de não
estar disposto a decepcioná-la de jeito nenhum. Só queria mesmo que ela lhe
desse um pequeno tempo para que ele pudesse lavar as mãos e o rosto.
Acontece que, quando uma relação anda meio estranha, qualquer coisa
pode ser motivo para um desentendimento, que gera outra dúvida, gerando
então outra explicação que só acaba complicando mais o negócio, e daí então
outro desentendimento se instaura – um maior ainda – e assim por diante.
Quando Juca voltou do lavabo encontrou Andréa já vestida num pijama
de flanela, empacotada até o pescoço, chorando, com semblante de revolta
misturado ao de decepção. Na verdade era mais este sentimento do que
aquele. Embora percebendo tratar-se de um incidente mais sério, o namorado
não pôde deixar de se perguntar, ainda que por alguns breves segundos,
durante os quais se manteve de boca aberta, como ela conseguira, num
espaço de menos de três minutos, trocar de roupa, de cara, de estado de
espírito, e até de iluminação – o apartamento agora estava às escuras, com
uma única luz acesa, a que vinha da varanda – ou seja, como Andréa poderia
ter feito aquela mágica, aquele curioso número de transmutação, digno de
profissionais renomados do ilusionismo.
Juca quis sorrir, mas, deteve-se, percebendo que a hora não era para
deboches. Aliás, o seu sorriso, sinceramente, não teria representado isto, caso
tivesse se manifestado. Então, ele se lembrou de um antigo aforismo do qual
lançou mão, imaginando que naquela circunstância adversa pudesse vir a ser-
lhe útil: As mulheres, quando choram, é porque estão querendo conversar;
quando conversam, é porque acabarão chorando... De qualquer forma Juca
não tinha mais nada a fazer, senão tentar aproximar-se de Andréa a fim de que
pudesse pelo menos começar a entender o que se passava dentro de sua
cabeça, de seu coração, ou dos dois.
Ele foi-se chegando, sem querer alarmar, sem fazer movimentos
bruscos, de leve.

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Andréa nunca fora de arrebatamentos. Sua expressão deixava sempre
bem claro que, o que nunca acontecia, se acontecesse, seria terrivelmente
desgastante. Quando se sentia muito chateada, fechava os olhos por um
tempo mais prolongado, como se estivesse mais insuportável do que o que
realmente estava, a situação. Tinha também uma embocadura grave quando
ficava nervosa. Parece que queria deixar bem claro que não poderia haver
qualquer argumentação que lhe tirasse daquele movimento irredutível de pleno
distanciamento severo. E como podia, ao mesmo tempo, ser tão meiga, uma
criatura assim, tão devastadoramente geniosa? Pensava Juca.

E foi dito e feito. Andréa olhou muito aborrecida em direção ao lado
oposto de onde estava o namorado, e, enxugando lágrimas, assuando o nariz
já rubro, disse com tédio em seu tom de voz:

– Nós precisamos conversar.
– Claro, meu anjo. Puxa vida! O que foi que aconteceu?
– Na verdade, eu quero lhe fazer uma proposta, Juca – disse ela,
extremamente seca.
– Proposta? Que proposta? Pode dizer, quer dizer, eu sei. Eu vi como
você estava linda quando cheguei.
– Juca...
– Olha amor... Eu quero lhe pedir desculpas. Mas, é que vinha daquela
reunião; apertei a mão de muita gente. Eu só queria lavar...
Andréa o interrompe, levantando mais ainda o tom, irritadíssima:
– Pára Juca! Pára. Não é nada disso. Aquilo já passou. Eu sou uma idiota
mesmo. Só quero que você me ouça...
De repente, Juca percebeu o quanto a reivindicação da namorada era
um pré-requisito mais do que básico para a diminuição dos impactos causados
pelas maluquices da natureza feminina. Ouvir! Este era o verbo preponderante
para entender as mulheres: mesmo quando o homem tem que se retratar de
algo, quando tem que prestar algum esclarecimento – é incrível – basta que
fique calado, só ouvindo, que a explicação já está dada, a coisa por si só já se
dá por resolvida. É um paradoxo, mas, comprovadamente, funciona bem
demais.
Então ele prontificou-se, acomodou-se e, o principal: calou-se para ouvir
o que Andréa tinha a lhe dizer. Ainda teve, é bem verdade, um impulso de ir até
a cozinha para reservar alguns suprimentos (água, biscoitos, enfim...) visto que
provavelmente o monólogo seria extenso. Obviamente que refreou também
este pensamento, dizendo apenas:
– Tudo bem, meu amor. Eu juro que não lhe interrompo – Juca não sabia
de fato até que ponto poderia arcar com esta cláusula, mas, prosseguiu – pode
falar tudo, tudinho, que estou aqui. Fale que eu quero muito lhe ouvir...
– Eu quero começar lhe fazendo uma pergunta.

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– Pensei que eu iria só lhe escutar...
– Não. De verdade. Isso é muito sério. Juca, pense bem no que vai me
responder...
– Pode perguntar meu anjo...
– Juca, me responde logo: você já me traiu? – os olhos de Andréa se
encheram de água novamente – Sim, porque, se não me traiu, ainda vai trair.
Eu conheço você. Sei como você é. Nosso relacionamento está assim, do jeito
que está, morno, sem sal...
– Eu nunca disse que nosso relacionamento estava morno...
– E nem precisa dizer, ora! Pensa que eu sou maluca? Pensa que eu
não vi, por exemplo, a sua maneira esquisita de me olhar, hoje quando eu fui
lhe receber de babydool? Eu fiz isso, me vesti assim, só pra ver como você
reagiria ... E você nem olhou direito pra mim, Juca. Fala logo. Eu sei...
Era impressionante o quanto a verdade daquelas palavras não
correspondia à realidade dos fatos. Deve ser por isso que se diz: Palavras são
palavras, nada mais que... Juca sabia que talvez não tivesse dado realmente a
devida atenção à Andréa. Mas iria dar. Talvez desse muito mais atenção até do
que ela própria estaria esperando. Acontece que foi lavar as mãos, o pobre
infeliz. Queria tocar sua namorada com as mãos limpas. Seria uma espécie de
transtorno obsessivo compulsivo ou seria simplesmente zelo? Ele estava
confuso. Principalmente porque sabia que não adiantava se explicar. O que
era, era: ele a deixara plantada na sala de estar, vestida de mulher fatal. E
como já devia ser constrangedor para ela, aquilo tudo, mesmo se ele tivesse
imediatamente caído em seus braços. Aliás, Juca cair em seus braços seria a
única coisa que poderia redimi-la daquele rompante exacerbado de volúpia.
Andréa era uma moça recatada, apesar de muito sensual. Entretanto, nunca
antes agira de tal forma, enfim...
Até aí, tudo certo, quer dizer: não muito, nem tanto. Só que Andréa
ainda não havia concluído seu raciocínio: faltava a tal proposta. Então:
– Juca, eu quero lhe propor uma coisa. Quero que você me escute. Não
diga nada. Espere eu terminar, por favor.
Havia um quê marcial naquelas palavras. Andréa poderia dizer qualquer
coisa, propor qualquer coisa. Mas, já com um perigoso tom de púrpura
aveludado em sua voz, ela conseguiu se superar:
– Vamos ter um relacionamento aberto... Calma. Eu explico...
Juca estava verdadeiramente calmo: afinal, como poderia ele estar
nervoso se as palavras da namorada não faziam sentido algum. Ele estava
bloqueado, hipnotizado, apático. Uma pane momentânea em seu sistema
nervoso central fez com que ele desconectasse completamente o som
daqueles fonemas ao que, de fato, queriam dizer. Ficou imóvel, por vários
segundos, repetindo em sua mente: relacionamento aberto, relacionamento
aberto, relacionamento aberto, relacionamento aberto... Inútil. Para Juca, aquilo
era tudo, menos o que realmente era.

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Andréa, percebendo a ausência momentânea e o breve autismo do
namorado tratou então de acordá-lo:
– Juca? Juca, você está me ouvindo?! – definitivamente, o problema com
Juca não estava mesmo relacionado à audição.
– Juca!
– Fala, Andréa. Vê se me faz o favor de explicar como é este negócio de
relacionamento aberto – ele não conteve a ironia, mas deixou que ela
continuasse:
– Não é justo.
– Não é justo, o quê, Andréa – ele quis afobar-se...
– Não é justo que só você possa ter envolvimentos com outras pessoas.
– Como é que é?! – perguntou ele, fazendo uma careta de espanto.
Ensurdecida por sua idéia fixa, ela parecia nem ouvir as retrucas do
namorado:
– Se você pode ter, porque não eu? Claro que eu não estou dizendo que
isso vá acontecer, nem muito menos que esteja acontecendo, ou que eu queira
que aconteça. Aliás, pode ser que nunca aconteça. Pode ser que não... Mas
pode ser que sim, entende Juca? Agora, eu acho que nós temos que estar
abertos...
– Que conversa é essa, pelo amor de Deus? – parece que Deus não
estava disposto a meter a colher. E ela continuou:
– Abertos pra isso, Juca. Abertos para um relacionamento aberto. Por
exemplo: se você se envolver com outra mulher, nós não precisamos terminar,
só por causa disso... – Juca enterrava-se cada vez mais no estofamento do
sofá, como se estivesse sendo tragado por uma poça de areia movediça. Além
disso, a cada vez que Andréa pronunciava a palavra “aberto”, mais as paredes
pareciam se fechar, sufocantes, ameaçadoras na direção dele. E ela nem
terminara ainda:
– Nós só precisamos combinar como é que vai ser...
O pior, naquele momento de breve silêncio absoluto, foi Andréa pensar
que Juca estaria pensando sobre o que ela acabara de falar. Na verdade ele
estava mesmo era catatônico, sem voz, assistindo em sua mente a batalha
aterrorizante de sua profunda indignação, contra sua desmedida curiosidade...
E venceu então a curiosidade. Juca retomou, conduzido por uma calma
sinistra:
– É, Andréa. Precisamos mesmo combinar...
– Eu já falei que não quer dizer que tenha que acontecer. Mas, digamos
que você se envolva, sabe-se lá, uma viagem, uma atração um...
– Fale por você, Andréa...
– Certo. Digamos que eu conheça alguém – os pés de Juca
adormeceram e o sangue gelou suas veias – alguém, assim, de passagem...
Eu não estou falando de me apaixonar, não... Estou falando de algum

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romance, uma coisa eventual, um flerte. Se por acaso chegar a acontecer
algum envolvimento, ou até mesmo sexo, Juca...
“Sexo?!” Ele ouviu aquela palavra e chegou à conclusão definitiva de que
na vida há muito mais perguntas do que respostas. Sentia a própria respiração
sufocar-lhe: o ar parecia estar envenenado, uma câmara de gás. Estes
pensamentos, e para seu grande dissabor, não interromperam o decurso da
bizarra oratória de Andréa, que, completamente desavisada, parecia não estar
disposta a parar de alvejá-lo:
– Nós precisamos saber como vamos fazer para lidar com isso. Por
exemplo: estes encontros viriam a fazer parte de uma das nossas fantasias?
Nós falaríamos os nomes das pessoas?
Juca começou então a relacionar numa lista absurda os mais variados
elementos: seus melhores amigos; os não tão amigos assim; os colegas de
trabalho de Andréa; os seus colegas; profissionais liberais dos diversos
estabelecimentos e biroscas do bairro; parentes próximos e distantes, enfim.
Depois se agravou, selecionando os indivíduos pela faixa etária: ”Fulano de
tal... não. O fulano é grandão, mas é só um garoto. Cicrano... Como é que
pode?! Não, não. O cicrano tem idade de ser pai dela. E o beltrano? Não. Nem
pensar. O beltrano é gay... Gay?! Com as amigas também?! Será? Não!!!”
Enquanto Juca conjeturava, Andréa ainda prosseguia com elucubrações:
– E o momento? Qual seria o melhor momento para falarmos sobre isso?
Juca imaginou-se moribundo, em seu leito de morte e nem assim era
capaz de conceber tais revelações. E Andréa continuava, solene, técnica:
– Porque nós teríamos que decidir se falaríamos a esse respeito, dessas
pessoas, quando estivéssemos na cama, ou, normalmente, na hora do almoço,
ou quando estivéssemos só conversando, aqui mesmo, no sofá... Eu não digo
que isto tudo tenha que acontecer, Juca. Mas, se... Somente se acontecer, nós
temos que estar preparados. Eu não quero que nossa relação seja baseada
em traições...

É certo que Juca não podia, de todo, considerar-se um homem sem
sorte: e se a namorada não lhe fizesse a proposta que acabara de fazer?
Aquilo tudo iria acontecer à sua revelia? Mas, para ele, este argumento não era
o bastante.
Os dois tinham lá as suas fantasias. Que mal há nisto, oras? Acontece
que se não chegaram às vias de fato, realizando-as, era um sinal de que não
tinham estrutura suficiente, a relação não se seguraria... E, além do mais, estas
fantasias nunca excluíram nenhum dos dois. Era mais do que evidente, por
tudo o que já haviam conversado – até então –, que uma terceira pessoa entre
eles, só se fosse com a devida fiscalização e presença de ambos. Agora, um,
sem o outro? Não. Pelo menos na cabeça de Juca, aquilo seria mesmo o fim. E
foi.

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– Então, Juca, o que é que você me diz? – Perguntou Andréa, certa de
que estariam só começando uma conversa que duraria no mínimo até alta
madrugada.
– O que eu digo, Andréa? Eu não digo nada, aliás, digo sim: eu estou indo
embora.
Quando Juca falou isto, Andréa demorou uns dez segundos para
perceber que o namorado estava realmente falando sério. Ele levantou-se
vencido, porém digno, como se o seu silêncio fosse a única atitude que poderia
representá-lo, a mais contundente expressão de sua tese de defesa. Foi
pegando a sacola com as suas coisas e, ao tentar passar pelo espaço entre
Andréa e a mesa de centro, teve um cuidado exagerado para não esbarrar em
nada, sobretudo nela, caminhando vagarosamente em direção à porta com os
passos meticulosos de quem transita pela seção das louças e cristais, numa
loja de departamentos. Foi neste momento que Andréa o interceptou.
Agarrando-se ao antebraço direito de Juca, ela falou com a voz de um filhote
de cordeiro, com os olhos suplicantes e úmidos:
– Não, Juca! Por favor, não faça isso. Pra onde você vai? Você não disse
que ia dormir aqui hoje?
Juca a olhou para ela e depois para a porta, com um falso desprezo. Seu
rosto parecia o rosto de outro homem, um homem que talvez nem mesmo ele
próprio conhecesse. Tudo começou a ficar muito parecido com uma película
ordinária: cada gesto era forjado; cada olhar desviava-se do real propósito de
comunicar-se; o corpo não respondia aos estímulos do espírito; o vazio
amargurava toneladas, o ambiente estava insuportável, um hiato.
Ele queria deixar Andréa sem mais uma palavra que fosse. Porém,
nitidamente combalido pela sensação de não ter a mínima idéia a respeito de
quem se tratava aquela mulher ao lado da qual passara praticamente um ano
inteiro de sua vida, sentou-se numa cadeira mais distante, tudo agora
completamente sério, crucial. Da copa, sob a luz direcionada e amarela do
lustre, começou sua contra-argumentação cheia de sombras:
– Andréa... Eu não vou negar que nunca senti desejos por outras
mulheres, durante este tempo em que estivemos juntos. Isso eu realmente não
poderia dizer; não estaria sendo sincero. Você disse que me conhece... – ela
fez um sinal negativo com a cabeça, os lábios cerrados, os olhos fundos já de
arrependimento. Juca continuou – Em muitas coisas você até está certa. O
negócio da minha compulsão por sexo, as brincadeiras... Você sabe, as nossas
fantasias... Quanto a isso você está certa, sim... Agora, o que você não sabe é
o quanto eu, mesmo sendo assim como sou, apesar desse meu temperamento
meio aventureiro, quer saber... Melhor deixar para lá...
Aquelas reticências foram uma tortura a qual ela reagiu, implorando:
– Por favor, Juca... Não faça isso. Fale o que você tem para falar.
– Não, tudo bem. Eu não preciso falar nada disso, não.
– Nada disso o quê, Juca? Pelo amor de Deus!

!71
– Eu sempre tive noção do quanto gostava de você...
– Gostava?!
– É, Andréa. Eu sempre soube o quanto você era especial para mim,
desde que comecei a perceber que não estava simplesmente cedendo aos
meus impulsos...
– Juca...
– Não! Agora eu quero falar... – Juca parou um pouco, amainado pela
própria conclusão a qual acabara de chegar – Andréa... Me responde: de que
adiantaria se eu estivesse com você e isso não fosse fruto de algum tipo de
sacrifício, alguma renúncia muito grande... Entenda: Se eu não fosse esse
homem que eu sou, se não fosse tão difícil para mim, estar com você ou com
qualquer outra mulher, sem trair, que valor teria não ter nunca lhe traído? Pois
fique você sabendo que eu nunca lhe traí, Andréa. De que valeria então se eu
nunca tivesse sentido esta vontade? Seria somente um estado absoluto de
fidelidade. Só, Andréa, que eu não estou falando simplesmente de fidelidade.
Mais do que isso: eu estou falando de lealdade... A lealdade que vem do
estado relativo, o estado das inúmeras possibilidades desconsideradas, o
estado da escolha. A lealdade que vem de perceber que alguém é especial
demais, porque os outros talvez não sejam tão especiais assim... Lealdade a si
próprio, Andréa... Às próprias escolhas. É arriscado, eu sei. E é o nosso próprio
dia a dia que vai fazendo com que a gente perceba se realmente vale a pena
ou não... Até esquecermos, um belo dia, de ter que ficar pensando nisto, como
se a coisa toda – e aí sim, a partir desta segurança, ainda que uma falsa
segurança – pudesse ser chamada de amor... É por isso que eu não fico
falando: “eu te amo” pra cá, “eu te amo” pra lá... Todo mundo deseja todo
mundo. Todo mundo olha para todo mundo. Todo mundo quer todo mundo,
Andréa... Aí é que está, sabe? É justamente por isso, por essa diversidade
humana que nos rodeia todo o tempo, este apelo constante... É exatamente
por isso que a gente sabe... A gente sente. Se eu quisesse lhe trair, já o teria
feito, às escondidas. Se eu quisesse perder o que nós temos, ou tínhamos,
nem sei mais, seria muito fácil. Agora você vem com esta proposta absurda,
este tal de relacionamento aberto... Quando encontrei você eu vivia assim:
aberto. A guarda aberta, quero dizer. Aberto para machucar, para ser
machucado; aberto para vagar, à deriva dos meus próprios desencontros;
aberto para qualquer mulher que estivesse tão perdida quanto eu sempre
estive. Aberto... Pensando bem, me abrir mesmo, eu me abri foi para você...
Sempre estive fechado para balanço, isto sim. Um balanço interminável, onde
eu sempre acabava no vermelho. Aliás, no vermelho como Agora, não é
mesmo Andréa? Mas uma coisa eu lhe digo: desta vez foi diferente. Diferente
porque eu sei que sou capaz de dar a alguém aquilo que para mim é mais
dispendioso. Pode ser que, depois, muito depois, a moeda corrente desta
minha entrega não seja mais a traição. Pode ser que nunca deixe de ser. De
qualquer forma, sempre há de haver um preço estabelecido... Um valor imposto

!72
pela nossa necessidade de escolher o que realmente nos faz sentir inteiros, e
não meramente um caco perdido, procurando outro pedaço quebrado que se
encaixe, como se a vida fosse um caminhão de entulho, carregando uma casa
destruída dentro... Eu estou muito cansado. Vou indo...
A alma de Andréa foi tomada de assalto pelo monólogo de Juca.
Inanimada, ela o ouviu sumir, degrau por degrau... O peso daquelas palavras
teve como unidade de medida a vergonha profunda e desconfortável que ela
sentiu. A teoria que o namorado acabara de esmiuçar – se é que ainda era isto
o que ele era – ia tomando forma em sua mente cognitiva, como se fosse um
tratado ao remorso, uma lei estranha, porém plausível, indelével.
O dia estava prestes a amanhecer. Andréa ainda pensava muito.
Sobretudo, pensava no engano crasso que cometera ao fazer a proposta que
fizera. Na verdade ela só queria satisfazê-lo, proporcionar-lhe um pouco mais
de intensidade. Pretendia que fosse um presente de lascívia, só mais um jogo,
uma descarga de volúpia no relacionamento acostumado.

Fazia frio e Juca já estava a muitas horas de distância.














Triângulo


Inquieta e angustiada. Era assim que Sandra estava se sentindo naquele
momento. Ela pensava no estrondo de sua queda ao fundo do poço; refletia
sobre seu medo da escuridão, sua infância perdida, seu presente sem futuro. A
avenida por onde dirigia, na volta automática para casa, estava tranqüila e
desconfortavelmente deserta: deserta como seu coração de mulher preterida.
Um ódio que ela não sabia como sentir – e por isso sentia mais raiva ainda quis
tomar conta de seu organismo inteiro.

!73
Na margem da via expressa há um grande prédio abandonado, uma
construção em ruínas que se impõe fantasmagórica em direção ao negro céu
da noite vazia. Isto, este prédio ela nunca notara. Diminuiu a marcha e ficou
olhando para dentro daquelas janelas e varandas ocas de qualquer luz,
imaginando-se também observada por uma legião de mendigos sem-teto, os
prováveis habitantes clandestinos daquela enorme e desagradável composição
arquitetônica com os tijolos à mostra, fincada bem no coração de sua zona sul.
Ela Identificou-se intimamente com aquele cenário inacabado, aquele
esqueleto de edifício fadado a se tornar um monte de destroços e escombros
depois da inevitável implosão. Aquilo era ela, sem tirar nem por.
Sandra é uma mulher completamente normal, quer dizer... Era. Normal
até conhecer – ou desconhecer – Glauco. Tudo fora perfeito, perfeito até
demais para que ela pudesse perceber que perfeição assim não existe neste
mundo de desencontros. Tudo é difícil, principalmente quando existe a
longínqua possibilidade das coisas darem certo entre duas pessoas. É como
um árduo trabalho constante, que só vai se atenuando na medida em que o
exercício se interioriza depois que vão mesmo aparecendo os calos. Uma
técnica: técnica de carregar pedras ou de quebrá-las; ou as duas coisas, não
necessariamente esta antes daquela, enfim... Os momentos em que se pára
em descanso são bem parecidos com a essência do amor – que é uma grande
coisa feita de pequenos pedaços de possíveis vitórias, mas não na assepsia da
palavra amor na forma como geralmente se idealiza.
Ela só estava certa de que não iria fazer roleta-russa no sinal vermelho –
não agora, não ainda. Mas que pensou nisto, realmente pensou. Assim como
também pensou em chamar Ester – a esposa de Glauco – para conversar,
coisa que também considerou estar fora de questão.
Amofinada e perplexa. Sandra sentia-se incapaz de entender como não
conseguia explicar, para si própria, de que forma havia se deixado cair
“naquela cilada”. Nem tampouco os três psiquiatras aos quais recorrera, num
espaço de menos de dez dias, conseguiram. Na ânsia de ouvir deles a
resposta que queria, a mulher desesperava-se cada vez mais; suas mãos
trêmulas espocavam cartelas e mais cartelas de pílulas: sentia não haver
tempo. O imediatismo instaurado por sua condição emocional era o próprio
cerne da patologia na qual aquela obsessão se tornava.
Então, enquanto o veículo deslizava naturalmente, como se sua
condutora estivesse em paz dentro dele, o telefone celular começou a tocar.
Era Glauco mais uma vez. Ela sentiu, por um momento, que não iria resistir,
que iria atender para dizer-lhe nem que fosse os mesmos desaforos ensaiados.
Mas não foi isto o que Sandra fez, muito embora a cada toque que o aparelho
emitia, a cada chamada, sua cabeça fosse ficando mais pesada e ambígua: Se
atendesse estaria jogando na lama todo o esforço de três dias sem manter
contato. Se não atendesse, entretanto, poderia ser que ele realmente
desistisse daquela vez e não voltasse mais a chamar. Mas, se não voltasse a

!74
chamar, se desistisse então de falar com ela? Sandra não estava certa de que
não havia esgotado todas as possibilidades. Talvez ficasse criando
possibilidades para o resto da vida, como um engano perpétuo, girando, um
morcego velho, debatendo-se nas paredes frias e ásperas da masmorra viciosa
e prisioneira de sua mente.
Não saber o conteúdo dos pensamentos de Glauco é que a adoecia
implacavelmente. E se ele estivesse ligando para lhe dizer que, finalmente,
havia se decidido pelo divórcio? “Se fosse o contrário” também a ajudaria
muito, pensava ela, já um tanto infantilizada e psicologicamente paralítica.
Glauco... Ele vivera amasiado por mais de cinco anos ao lado de Ester.
Era ao mesmo tempo lógico e inexplicável o fato dele haver decidido – se é
que fora uma decisão – casar-se com ela, no papel. Inexplicável, porque ele
passara uns três meses saindo e até mesmo viajando de um lado para outro
com Sandra, no maior amor do mundo. Por outro lado, era lógico pelas
mesmas razões. Acontece que Glauco não passava de um culpado
profissional, e, exatamente por este motivo, a sua relação com Ester
ressuscitara, das cinzas, uma fênix estabanada; da lama, uma flor de lótus
absurda. “Mas, justo agora que estávamos tão bem… E porque então ele
continua me ligando?”, pensava e repensava Sandra, que já não mais tinha
forças para a execução de tarefas simples e cotidianas como, por exemplo,
comer ou pentear direito os cabelos.
A fixação obsessiva por Glauco a isolara completamente do convívio com
as pessoas que faziam parte de seu universo individual. Primeiro foram os
meses de encanto: nunca mais se encontrava disponível, pois estava sempre
absorvida pela repleta agenda elaborada por seu novo namorado, o que, de
início e até certo ponto, foi compreendido sem reservas, principalmente pelo
seu grupo de amigas mais íntimas. Não havia mal algum em vê-la feliz,
repetiam as mais desavisadas... Depois, conforme o tempo foi passando,
Sandra já nem atendia mais as ligações de Tarsila – sua mais antiga e fiel
companheira – que ainda relutou em sumir, desistindo por definitivo de procurá-
la e também de emitir qualquer juízo de valor a respeito de Glauco, logo após a
uma constrangedora discussão em que Sandra a acusara de estar interessada
em seu namorado, mencionando achar “muito estranho” o fato dela
“incomodar-se tanto” com sua recém conquistada felicidade.
O fato era que Sandra estava só. Não havia mais a quem recorrer.
Pensar até mesmo em Tarsila a fazia sentir-se ainda mais diminuta: a amiga
acertara em praticamente tudo, quando das inúmeras oportunidades em que
esta tentou abrir-lhe os olhos em relação ao desastre que seria mergulhar de
cabeça, se envolver com um homem tão comprometido com os engodos de um
passado tão recente quanto mal resolvido. Tanto é que ele a usou como
trampolim para se casar com a própria mulher, desta vez unindo-se novamente
com Ester não só de fato como também de direito.

!75
Era assim: Glauco passava quinze dias com uma, uma semana com
outra. Um Almoço de reconciliação com a esposa, uma briga inflamada com a
amante, tendo sido esta a condição à qual Sandra fora rebaixada, depois do
casamento. Em qualquer um dos casos o negócio sempre acabava na cama.
Parecia estar perfeito para ele, por mais tocantes que fossem suas alegações a
respeito do quanto estaria também sofrendo com a dualidade da conjuntura
toda. Glauco manipulava, ao fingir deixar-se manipular. Sandra, não
suportando mais participar do jogo doentio, auto sentenciou-se a pular fora:
decidiu abandonar o sofrimento para ficar só com a dor. Entretanto, ao
sofrimento ela estava perfeitamente acostumada; era-lhe muito familiar tudo o
que sentia enquanto fazia parte daquele dramalhão. Ela só não sabia como se
comportar diante das pontadas agudas que sentia, do vazio que a falta daquele
homem lhe impunha. Tudo estava mesmo muito complicado para ela.

E o carro seguia taciturno, no piloto automático, teleguiado em direção à


própria garagem... Sandra chegara a sua casa apenas por mero instinto.

Antes de saltar, ela ficou ainda alguns minutos dentro do automóvel, com
o portão aberto e os faróis acesos. Então o telefone começou a tocar
novamente, agora de dentro de sua bolsa, ensurdecedor. Quando ela pegou o
aparelho, antes que pudesse supor qualquer decisão, foi surpreendida por uma
voz sussurrada que a arrebatou de susto:
– Não atenda. Por favor, não atenda.
Era Ester. A mulher falou isso e logo foi entrando no carro de Sandra,
que, sem defesa alguma se viu refém, sem ter como reagir, petrificada diante
do tamanho espanto que aquela súbita aparição lhe causara. O telefone parou
de chamar e o silêncio ficou ainda mais escuro. Então a intrusa adiantou-se em
dizer:
– Me desculpe, eu não queria ter assustado você, Sandra. Eu ia esperar
você entrar para bater a sua porta, mas, como vi que você havia deixado o
portão aberto, e também comecei a ouvir o telefone, enfim... Eu fui entrando...
– Faz três dias que não falo com Glauco, Ester – disse Sandra,
pressupondo uma possível reação violenta por parte da mulher.
– Eu sei disso – Ester disse com uma calma tensa, enquanto colocava a
mão dentro da bolsa. Sandra sentiu um arrepio de morte e foi querer abrir a
porta para descer. Ester segurou em seu braço, já dizendo:
– Calma. Desculpe, eu só ia pegar meu cigarro...
– O que é que você quer comigo, Ester?
– Eu só quero conversar um pouco com você. Tenho que lhe dizer uma
coisa.
Sandra, já mais refeita do sobressalto, porém ainda muito desconfiada
de toda aquela situação, não se conteve de curiosidade. Apesar do extremo
desconforto que sentia por estar na presença daquela mulher, permitiu-se a

!76
ouvir. Ester também parecia muito abalada. Acendeu um cigarro com as mãos
trêmulas e começou:
– Casar-me com Glauco foi o maior erro que cometi. Nossa relação já
estava acabada. Aliás, foi por isso que vocês tiveram o que tiveram... Nós
tivemos uma briga feia. Eu pedi o divórcio, hoje à noite – Ester falou isto
envolta numa cortina de fumaça cinzenta, sem ter olhado nenhuma vez sequer
para Sandra. Percebendo que esta nada lhe respondera, ela continuou – Ele
está ligando para você... Quando ele começou a ligar eu ainda estava ao seu
lado, havíamos acabado de conversar... Ele pensa que foi alguma coisa que
você me disse, algum encontro que nós duas tivemos, não sei... Ele me disse
em tom de ameaça que iria lhe procurar, para tirar a história a limpo. Eu acho
que nós deveríamos até sair daqui. Eu acredito que ele está vindo para cá,
principalmente porque você acabou de me dizer que não falou com ele...
– Não falei mesmo.
– Vamos dar uma volta, conversar longe daqui. Glauco está muito
nervoso. Não seria bom que ele nos encontrasse...
– Eu não tenho porque fugir de nada, Ester.
Quando Sandra disse isso, sentiu que talvez a solução que ela tanto
procurava estivesse muito perto. De algum modo foi movida por uma intuição
que insistia em fazê-la querer ouvir mais, saber o que aquela mulher teria para
lhe dizer. Então reconsiderou:
– Está bem. Vamos dar uma volta e conversar...
Sandra engatou a marcha ré enquanto Ester ia tentando, repetidamente
e de uma forma muito nervosa, acionar o isqueiro para acender outro cigarro.
Aquelas faíscas pareciam sair de dentro dos seus olhos, até que conseguiu
fumar e se acalmou um pouco, observando o nada das ruas desertas por onde
o carro ia passando. As duas estavam ensimesmadas e distantes, cada qual
carregando consigo uma espécie de razão intrínseca que a existência e a
presença da outra concedia. De repente não havia mais Glauco. Somente
aquelas duas mulheres, reconhecidas mutuamente em suas diferentes
maneiras de expressar a incapacidade de lidar com o sentimento que as
aprisionavam a ele. Eram muito parecidas e isto também se tornara
visivelmente desconfortável. O silêncio do qual suas almas compartilhavam
tinha a violenta e arrebatadora feição do que já era mais do que óbvio: tudo
estava errado.
Após dirigir até a avenida da praia, Sandra estacionou perto de uma
cabine policial, abrindo a janela do carro e deixando entrar a brisa marinha da
madrugada. Um espasmo de sincronia fez então com que, ao mesmo tempo,
ela pronunciasse o nome de Ester, e esta pronunciasse o seu. Parecia que as
duas iriam falar a mesma coisa. Ester tentou ceder-lhe a vez:
– Pode falar...
– Não, Ester, fale você...

!77
Ao perceber que Ester continuara calada, Sandra foi começando
novamente, porém, no mesmo instante Ester foi falando, outra vez ao tempo de
Sandra que, categórica, tomou para si a palavra:
– Ester... Você veio ao meu encontro, praticamente invadiu minha casa,
quase me matou de susto... Eu quero saber o que fez com que você viesse me
procurar, quer dizer, eu quero lhe ouvir primeiro antes de falar qualquer coisa.
Acho que é um direito que eu tenho, até mesmo porque eu já havia decidido
que não procuraria mais o seu marido.
– Eu vim lhe dizer que você pode ficar com Glauco, Sandra. Eu não me
importo mais...
– Espere um pouco, Ester – Sandra ergueu-se, visivelmente ofendida –
esta decisão não é sua; eu já havia me resolvido. O fato de estar sofrendo não
muda nada...
– Sandra, você está se enganando...
– Todas as vezes que Glauco voltou para você foi por medo de que fosse
tarde demais para que você o aceitasse mais uma vez...
– E já é tarde demais mesmo, Sandra...
– E você então não percebe o quanto isto só iria alimentar o desejo dele
em conseguir lhe reconquistar?
– Eu sei. Você está certíssima. Mas eu não quero mais ser este objeto de
conquista de Glauco. Para mim chega! Acabou, de verdade... Eu quero que
vocês...
– Não, Ester. Não existe mais “nós”. Preste bem atenção: você se casou
com um homem que já era seu marido, há muito tempo. Eu é que fui sempre a
intrusa, o cisco no olho da relação de vocês, a pedra no sapato. Agora sou eu
quem diz: Estou fora... É verdade que eu fiz um tremendo esforço para não
procurá-lo, para não atender suas ligações, as dezenas de telefonemas por
dia... O que não quer dizer que isso também não vá passar. Tudo passa, é só
uma questão de tempo... Agora vocês dois...
– Não existe mais isso, Sandra. Eu estou cansada, desgastada... Estou
exausta... – Ester pára, olha para o outro lado, e, com uma vergonha que a
tornou de certo modo mais envelhecida, continua – Confesso que já tive
vontade de lhe matar...
– Eu também, Ester... Eu também já tive essa vontade. Aliás, eu não só já
tive vontade de lhe matar, como também de matar Glauco... Já tive até vontade
de acabar com a minha própria vida...
– Então... Você está percebendo?
– Percebendo? Percebendo o quê? Como assim, Ester?
– Como, na verdade, nós somos apenas duas marionetes na mão de
Glauco?!
Neste momento, a partir desta pergunta – que de fato não passava de uma
afirmação –, Sandra pôde se dar conta do quanto estivera focada nesta
mesquinha competição, neste triângulo amoroso, apenas por instinto de

!78
comparação. Talvez quisesse ser exatamente como Ester, nem feia nem
bonita, só outra que não ela mesma.
Após aquela conversa, ela começou a não mais conseguir reconhecer o
seu real sentimento por Glauco. Mais do que sentir-se heroicamente disposta a
entregá-lo, a deixá-lo em paz para viver com a esposa ou com quem quer que
fosse, Sandra começou a ser tomada por um repúdio, uma náusea provocada
por toda aquela situação, principalmente por não ter tido a iniciativa da outra
que, sublime, admitira haver se cansado daquela espécie de brinquedo. Mais
uma vez Sandra sentia-se subjugada, inferior. Não tivera a mesma dignidade.
Agora, ela estava ali: miúda, oca, identificando em Ester a sua própria imagem
disforme refletida no espelho sujo de toda aquela insanidade. Entretanto,
gozava de uma estranha liberdade; estava mais do que claro para ela: de
Glauco não queria ouvir mais nem falar.
Pensou em ligar para Tarsila. Já era muito tarde. Ofereceu uma carona a
Ester que aceitou, contanto que não fosse para sua casa. Depois de tudo, ali
estava Sandra, mais uma vez, naquela mesma noite, dirigindo ao longo da
mesma via expressa. Pelo menos era agora outra pessoa: ela própria.

Nunca mais voltou a perceber o quanto estava em ruínas e escuro, o
edifício abandonado.












O retrato de Zuleika



Zuleika era apenas um retrato. Não que não tenha sido uma pessoa de
verdade. Ela existiu, de fato. Entretanto, só se tinha notícia de uma única
fotografia sua, na vida. Aquela mesma, onde posava tão triste, a pobre Zuleika!
Parece até que os seus olhos sabiam que iria falecer tão prematuramente; mas
não. Tão triste e resignada... Zuleika...

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No retrato, ela devia ter aquela expressão porque era mulher – e o
registro fora feito na década de trinta –, mulher era quase nada. Se quisesse
ser, se quisesse botar as mangas de fora, melhor seria mesmo que acabasse
morrendo que era pra não ter que dar trabalho. Naquela época, mulher nem
morria, aliás; tinha era passamento, como se fosse uma coisa substituível,
apenas um corpo cujo espírito saía de dentro de uma para assumir vida noutra
pessoa, outra mulher que deveria ser igualzinha a que partira, ou até melhor:
mais submissa ainda...
Mas acontece que Zuleika aprontou-se toda. O cabelinho Chanel, os
brinquinhos de pérola, a gola bordada, o pingente delicado – uma dama de
olhos abatidos; casta, moçoila prendada: um camafeu.
Deixou duas filhas: Zaíra e Zumira, esta com dois meses, aquela com
dois anos. Deixou também Alcides, o marido viúvo, além de uma fotografia, a
única de si própria.
Zuleika virou de papel. Virou imagem, virou figura em preto e branco,
depois... Sépia.
Se soubesse teria sorrido. Se soubesse, deixaria para ter morrido depois
de sorrir.
Zumira, a filha mais nova, alegava ter visto a mãe, olhando para ela pela
metade de cima da porta do quintal, um fantasma no oitão, de tardezinha, já
escurecendo. Mas o que Zumira viu na verdade foi a fotografia – o busto –
porque isto foi a única parte da mãe que realmente conhecera. Zuleika era
apenas uma lembrança, a recordação de uma fotografia. O tronco, o rosto...
Um semblante fotografado que o tempo amarelou.
Alcides se casou outra vez, logo depois que Zuleika se foi. Juntou-se
com Carmelita, que tirou muitas fotografias, mas nem precisava porque morreu
bem velhinha. Carmelita tinha raiva de Zuleika que tinha deixado seu retrato de
herança, única herança que deixara. Também tinha raiva de Zumira que vivia
lembrando ao pai o quanto ela lembrava a mãe: o mesmo rostinho meigo, a
mesma expressão resignada, o mesmo tristonho camafeu. Alcides não sabia se
era por isto que bebia, ou se era porque Carmelita era perversa e o
atormentava. Podia ser pelas duas coisas. Mas como era década de trinta,
homem só podia beber, não podia chorar. Chorava então para o lado de dentro,
entornando, o bondoso e miserável Alcides.
Carmelita exigiu que ele escolhesse uma das filhas – Zaíra, a mais velha
– para morar com eles dois. E assim, foi-se a pequena Zumira para a casa da
tia, para longe do pai e da irmã, levando consigo a única fotografia da mãe.
Com o retrato de Zuleika ela constantemente conversava, em silêncio, quando
ninguém estava olhando. Já queriam dizer que ela era um pouco louca por ter
insistido a respeito da aparição no quintal; conversar com o retrato da mãe,
então... A menina foi ficando cheia de segredos, cheia de reservas, embora
sempre alegre, ingenuamente livre.

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Quanto mais o tempo passava, quanto mais crescia, mais Zumira, a
menina preterida, se parecia com a mãe. Alcides ia visitá-la a contragosto de
Carmelita. Isto porque ela tinha certeza de que ele também queria olhar para o
retrato da falecida: Alcides ficava comparando, repetitivo e saudoso, admirado
com a semelhança entre Zumira e Zuleika.
Enquanto isso, Zaíra já era mocinha e trabalhava muito na casa da
madrasta. Fazia de tudo: limpava o chão, lavava pilhas de pratos, trouxas de
roupas, esfregava as ferragens do sanitário “até ficarem brilhando”. Dormia em
um quarto abafado, sobre um colchão de palha e molas estendido numa
armação de madeira barata; tinha que acordar muito cedo, para terminar logo
os afazeres e poder brincar com os irmãos que com o tempo vieram.
Alcides e Carmelita tiveram três filhos – Lara, Antônio e Jacinto. Nenhum
deles entendia porque Zaíra trabalhava tanto, nem tampouco o porquê de
Zumira não morar com eles.
Na casa da irmã, Zuleika continuava dependurada na parede, isolada do
mundo pela própria morte e pelo vidro espesso do porta-retratos, sem poder
fazer nada pelas filhas que, por sua vez, ainda não tinham idade para perceber
o quanto precisavam de ajuda, o quanto uma mãe de verdade lhes fazia falta.
Aquela fotografia tinha vida e movimento, de tão única que era, num
mundo de tantas imagens, num mundo onde tudo que se move existe com uma
falsa plenitude. Seu rosto havia se transformado numa espécie de Gioconda,
uma Mona Liza que sorria vários sorrisos diferentes. À noite, parece até que
seu cabelo mudava de cor, assim como também, no escuro, se enterneciam
mais os seus olhos fundos de tempo e de passado. Mas talvez isto só
acontecesse porque nunca se olha para as coisas com o mesmo olhar de
sempre, assim como os ventos só parecem serem os mesmos, porque as
pessoas é que ficam paradas nos lugares que lhes são designados para existir,
na vida – Zuleika só era quem realmente era quando ninguém a olhava. Quem
sabe se, enquanto ninguém a observava, Zuleika ia até a cama da filha mais
nova, para niná-la, ou então até à casa da filha mais velha, a fim de dar-lhe
algum consolo de mãe: Zuleika vagando, a moldura oval, enfeitada e vazia...
Para todos os efeitos, porém, o retrato era só um retrato, estático e
mudo: não acontecia nada disso. Ninguém – nem mesmo Carmelita – ousava
arriscar que Zuleika seria um fantasma. Os fantasmas ficam aparecendo, e as
fotografias, as fotografias ficam paradas, exatamente nos lugares escolhidos
para serem esquecidas; não incomodam a ninguém. Mas Zuleika não se
deixava esquecer – era linda e não envelhecia nunca –, o seu retrato era uma
sentença de existência frugal e absoluta. Tanto é que as filhas ainda tinham
uma mãe e o marido era menos viúvo do que o quanto se sentia traída, a atual
esposa.
Carmelita tentava imitar a pose e a expressão de Zuleika quando iam lhe
fotografar. De nada adiantava: ela ainda iria continuar viva por muito tempo.
Sua imagem real e futura subjugava qualquer instante cristalizado que

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quisesse mentir sobre quem ela realmente era e continuaria a ser. A isto
também o olhar de Zuleika parecia amar, penalizado...
E foi este amor, esta expressão piedosa e límpida – que a vida vai aos
poucos nos roubando com o passar dos anos – que Zuleika deixou como único
e precioso legado. Talvez, quem sabe se tivesse vivido para criar as duas
filhas, se tivesse resistido ao aneurisma que a levou tão cedo, ela não pudesse
ter sido tão significativa para as meninas. É como se estivesse sempre
dizendo, aconselhando: “tenham paciência, minhas crianças; tudo irá se
resolver; não deixem de amar seu pai; não deixem que o ódio e a angústia
desta vida difícil as afastem do propósito que têm suas almas; confiem em si;
acreditem em mim...”. O que mais poderia sempre estar querendo dizer tão
amantíssima feição?

E assim, o tempo foi passando, lento e constante.


Alcides morreu poucos anos depois do casamento com Carmelita, que
continuou vivendo por muito tempo, sempre embalada por sua tranqüila
infelicidade. Zumira e Zaíra, logo após a morte do pai, foram desposadas,
deixando para trás o convívio mais constante com os irmãos. Cada vez mais as
duas foram apagando de suas memórias as imagens duras daquela vida que
parecia nunca haver sido delas de verdade.

O retrato da jovem matriarca – a fotografia original – hoje se encontra na


casa da neta que ela também não chegou a conhecer. Maria, filha de Zumira,
cuida dele como quem cultiva uma lembrança de algo que realmente foi vivido.
Outras cópias existem, uma na casa de cada uma dos filhos de Zaíra, todos já
casados e feitos.
E Zuleika, delimitando a existência guardada entre a parede e a vida
real, num ponto incerto entre o passado e o presente, continua viva, quase
sorrindo, sempre ali, o olhar intenso de ternura: pronta para quando alguém
precisar de alento; pronta para lembrar – quando por acaso alguém esquecer –
como é o olhar de quem se alheia a tudo, de quem esquece qualquer vaidade,
para tão somente transmitir amor.




Ana


Ana veio de longe, voltou para o lugar de onde veio.
Nós nos encontramos como num sonho à tarde, que tem logo que
acordar. E a lembrança de seu rosto límpido e maduro, sua jovial delicadeza,

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seu olhar de pássaro, tudo isto se desfez, mas sem ter ido embora de perto de
mim, sem deixar os arredores de minha vida comum. Eu poderia visitá-la, mas
fico lendo sua alma nua e esgarçada no livro de papel – a letra miúda e rápida
da dedicatória breve – pensando que estou ao seu lado... Amizade é o que
mais se parece com aquilo que o afeto representa. Então, noites e noites eu
fico em silêncio, intermediado e difuso, entre esta realidade recôndita e o calor
de sua bondade, mais parecida com uma literatura que insiste em mostrar-me
o quanto eu nunca soube o que era ser o bastante: meramente humano.
Não sei. Se soubesse, quem sabe se Ana não estaria aqui, agora,
sorrindo uma de suas histórias de quando se está olhando a praia, lá de cima
da colina. Posso sentir seu entusiasmo, enquanto meu peito ingênuo se
arrebata de estar terminando de ler mais uma frase sua... Claro que é Ana, nos
lábios deste sorriso mordido, esta expressão de conseguir encantar, de tanto
medo, tanta admiração...
Temer mulheres é amá-las, mais do que o que cabe dentro de um verso
de poema.
Ana...
Nunca mais pude abraçá-la: a vista enseada, o vento litorâneo nos
ramos do seu jardim – as plantas das quais ela cuida, só com a água fresca do
olhar, como uma mãe. Nunca mais tomei o seu café quente e forte. Qual
sentença poderia ser mais simples, mais banal, e, ao mesmo tempo, mais
perversa?
Perto do meu coração aprisionado Ana cantava, quase selvagem de
tanta doçura e sinceridade, sem perceber que os seus sonhos de
esquecimento me embalavam como um murmúrio de onda pequena. Era eu
quem estava sempre prestes a lhe perguntar as coisas que não tiveram tempo
para poder existir.
Quanta solidão há dentro de uma saudade… Não a minha solidão, mas
a solidão de não poder deixar de haver sentimento assim.
Como sei o quanto Ana gostaria que eu a visitasse. Posso dizer qualquer
coisa! Como sei que ela sorriria, a me ver por entre as frestas de seu portão
antigo de madeira seca e mareada, bem ali, parado, sem ter lhe avisado de
que chegaria, vibrando todo por dentro a satisfação que nos delegou tanta
afinidade. Mas ela nem se lembra de mim: Ana sabe como amar, como deixar
que o amor exista, pleno e leve. Leve dos compromissos que fazem a distância
conseguir distanciar, e tempo, o tempo esquecer.
Ela não sabe do meu sentimento de gratidão pelas poucas vezes em
que eu pude subir os degraus de seu terraço; pelas vezes em que o mar vinha
encher a restinga só porque eu estava inteiro e feliz. Quando Ana aproximava-
se, um tanto solene, percebendo e respeitando o quanto eu me sentia diminuto
por todo aquele idílio, seus passos na tábua corrida rangiam em minha espinha
dorsal um calafrio de profunda estima e contentamento. Ela, sempre com suas
blusinhas de algodão cru, que era para eu poder ver o vento.

!83
O pão fresco em cima da mesa de fazenda, os biscoitos de carinho, as
frutas da época, o chá de ervas novas, a rede com varandas de crochê, os
bolinhos de brevidade, as geléias de anjo, os livros empilhados e limpos pela
sala clara, a música bem baixinho… Tudo se parece muito com Ana nos
recebendo e acolhendo sob as asas de pluma. O semblante de águia, a
envergadura nobre, sempre a expressão de quem já viu tudo o que há e sabe
verdadeiro tamanho das coisas porque pode observá-las de cima do mais alto
céu. A sua voz, cantarolando tímida de perfeição e certeza. O movimento de
sua boca de carne ainda lira no éter desta minha memória distante e
absolutamente viva.
Não sei escrever sem pontos finais. Entretanto, pode ser que meu
espírito seja também um veio interminável e perene de orações intercaladas.
Fico às vezes, por horas e horas, pensando, à deriva de uma essência tola que
parece nem mesmo haver. Mas, é bom. Sinal de que há muito mais, além do
que somente tudo isto, que, por ser grande e supostamente demasiado, nos
faz imaginar que seja o suficiente.
Eu e Ana não nos conhecemos de fato. Só sabemos exatamente e
desde antes – muito antes –, o que há dentro deste outro que cada um de nós
é. E é por isso que talvez eu não saiba como dizer-lhe o quanto sinto falta de
sua presença fértil, o quanto esta lacuna teima em não fazer sentido algum: na
verdade, Ana nunca estivera ausente.

.










Se for o caso



Abigail demorou cerca de um minuto e quinze segundos para
desembarcar do carro da irmã. Na frente do veículo outro automóvel expelia
fumaça pelos dez centímetros de vidro aberto. Era Danilo, que num gesto

!84
comprometido e rápido logo arremessou o cigarro que fumava – o segundo já –
quase inteiro ainda, como um projétil pela janela do motorista. Ele ajeitou
estrategicamente o espelho retrovisor interno, na intenção de observar mais
precisamente, com detalhes, o que se passava no carro que acabara de
estacionar quase colado à sua traseira: os faróis acesos, parecendo uma
viatura policial depois de dar-lhe voz...
A situação era delicada, exigia extrema perícia e astúcia. Sobretudo
exigia calma, a situação. Danilo sentia-se muito incomodado a cada segundo
que se passava sem que Abigail finalmente viesse até ele. Pôde perceber os
vultos de mais duas pessoas além da mulher que esperava, e aquilo lhe
parecia tão abusivo quanto desnecessário. Foi então que ele desprendeu-se da
desconfortável campana e começou a ensaiar em sua mente uma forma de
repreendê-la, ainda que com toda delicadeza possível, pelo envolvimento
perigoso e suspeito de outras pessoas naquele encontro que tinha – pelo
menos em sua opinião – todas as prerrogativas para o mais absoluto sigilo.
Entretanto, a efígie daquela mulher, vestido escarlate de um tom bem
fechado, cintura baixa e joelhos à mostra, aquela imagem serpenteando no vai-
e-vem de quadris, lentamente e com a expressão facial inabalável, os passos
firmes, de uma elegância praticamente eqüina... Danilo foi prontamente
acometido por um tipo de coragem irracional, que dentre os seus registros de
reações psíquicas até então desconhecia.
O ruído das portas se destravando simultâneas – clá-claque! – lembrou
inevitável o engatilhar de uma escopeta, algo beligerante, decisivo, mortal.
Quando a mulher abriu a porta, a lâmpada no interior do carro acendeu-
se automaticamente, e Danilo, sentindo-se flagrado como quem é descoberto
em fuga por um daqueles enormes holofotes de campo de concentração, de
súbito investiu enérgico com o polegar contra o comando no teto, deixando
tudo mais que imediatamente outra vez às escuras. Abigail deu de ombros e
levantou as sobrancelhas, sorrindo com os dentes prendendo o lábio inferior,
um tanto espantada, mas com um ar de quem ludicamente compreendera tudo
perfeitamente. Ele também sorriu com o canto da boca: estava constrangido e
deslocado. Mas, sem se deixar abater, engatou a primeira marcha e deixou o
acostamento, precipitando-se pela avenida, sentindo-se bem mais aliviado, a
cada metro que se afastava do carro que trouxera sua passageira.
Abigail estava linda! Era o tipo de mulher em que se via no olhar o
enigma denso da infelicidade conjugal e, ao mesmo tempo, o brilho esfuziante
e perigoso da aventura. Seu rosto traduzia-se a cada expressão de praticidade
e lascívia, além de ter a boca sempre um pouco entreaberta, como se
estivesse a sorver o ar dos ambientes por onde passava. Seus trinta e poucos
anos disfarçavam um corpo de vinte e cinco, no máximo, e seu silêncio, sua
constante compostura reticente intrigava.
Percebendo que ela continuava calada, sem nada querer assuntar,
como se de fato carregasse uma certeza tranqüila do que estava prestes a

!85
acontecer, Danilo foi quem deu inicio à conversação. O automóvel sempre em
movimento, o rosto da mulher fixado no vértice de luz dos faróis, lá na frente,
no asfalto, como se fosse ela própria, e não ele, quem conduzia o veículo.
Aliás, Danilo olhava apenas o suficiente para o caminho adiante, o resto de sua
atenção concentrada no perfil indecifrado de Abigail. E foi enredado por esta
atmosfera de dúvida e consternação – uma avassaladora consciência das reais
implicações éticas daquele encontro – que Danilo arriscou sua abordagem:
– Mas, enfim, Abigail, quando você me falou, por alto, de sua condição
atual, esse seu relacionamento, seu envolvimento, não sei... Na verdade eu
senti que você fez questão de deixar no ar algumas questões que são bem
fundamentais...
– Como assim, Danilo? – na verdade ela sabia exatamente do que se
tratava e sobre o que deveria ser a tal conversa.
– Bem, afinal quando você me disse que era “casada” – ele deu uma
ênfase capciosa – que não havia mais nada entre vocês, entre você e essa
pessoa...
– E não há mesmo, não! – retrucou ela, interpelante.
– É... Eu talvez já esteja começando a entender o “que não há”, agora,
em relação ao “que há”, me perdoe... Você pode me explicar? Não que eu
queira lhe pressionar. Não, de jeito nenhum. É só que eu fiquei pensando muito
nisso, mas...
– Não, Danilo. Realmente não há mais nada mesmo, não...
– Mas, e hoje? – ele insistiu, enquanto reduzia a velocidade do carro,
parando no sinal vermelho.
– Hoje o que?
– Qual a situação de vocês, hoje?
– Não há situação nenhuma. Na verdade, não há mais nada, já faz um
tempo. – o olhar de Abigail tornou-se uma tela, como se um filme tivesse
começado a passar, os pensamentos e lembranças estampados em sua íris
marrom.
Danilo então percebeu que ela começava a ficar incomodada. Era nítido
que havia muito mais, por detrás do que as palavras escassas da mulher
tentavam esconder. Ele então continuou:
– Eu já lhe disse mais ou menos o que se passa comigo – Danilo referia-
se ao conteúdo da conversa que tiveram, dias atrás, quando da ocasião do
primeiro encontro que se deu entre eles – já lhe falei que não estou preparado
para ter nada mais sério com ninguém...
– Eu sei, eu sei...
– Pois é isso. Eu tentei ser o mais honesto possível com você...
– Eu sei. E eu lhe agradeço.
– Mas a verdade é que, mesmo este nosso encontro sendo algo...
– Olha, Danilo! – Abigail virou-se, interrompendo drasticamente. Parecia
que estava pronta para revelar algum segredo, algum dado muito relevante

!86
que, se então exposto, poderia vir a comprometer a frivolidade e os deleites do
que ela mesma esperava do seu encontro com aquele homem por quem havia
sentido uma atração daquelas as quais não estava mais estava acostumada.
Ela continuou:
– Eu estava pensando realmente em me permitir a ter um envolvimento
com você. Eu gostei de você. Eu até me empolguei, enfim... Mas aí, Danilo,
você começou a me fazer estas perguntas... Não é que eu não tenha resposta
para todas elas. Não, não é isso. Eu só não queria era ter tocado neste
assunto, você sabe... Eu acho mesmo é que tudo está muito errado. Aliás, eu
sei... O que devo fazer é outra coisa. Isso não está certo, não. – seu tom de
voz mudara, seu semblante também havia se modificado, e, por sua vez,
Danilo foi ficando cada vez mais afundado, porém não menos curioso.
– Continue, Abigail. – disse ele, sintético, com medo de poder estar
interrompendo o valioso raciocínio da mulher que deu prosseguimento, já
visivelmente transtornada:
– É melhor nós voltarmos. Você, por favor, me deixaria no
estacionamento do supermercado? Lá eu pego um táxi.
– Claro, claro que sim, mas... – Danilo não quis retrucar para manter a
pose cavalheiresca. Entretanto, estava zonzo, cheio de questionamentos e não
conseguia conter-se. O carro em constante movimento parecia desgovernado,
uma estranha máquina do tempo, uma espécie de carruagem fantasmagórica,
errando pelas ruas e avenidas. Mas Abigail não deixou que ele se manifestasse
e disse ainda:
– É melhor. Não é assim que as coisas são. Não é assim que devo agir.
Sabe, Danilo, eu realmente estava louca para sair com você. Coloquei até este
vestido, especialmente...
– Você está linda...
– Não! Espere, por favor. Eu estou falando sério – ela fez questão de não
se permitir a ouvir sequer nem mais um elogio ou lisonjeio, afim de não
dificultar o que já parecia tão difícil – eu tenho que voltar para casa. Tenho que
ficar lá. Mas não com raiva. Estou cansada desta raiva que já carrego comigo
há tanto tempo, por causa da apatia e da desatenção do Augusto. Ele vai ter
que ver o quanto eu estou infeliz, vivendo aquela situação. E sabe do que
mais? Não vou dar a ele nenhum motivo para que fique com inquisições. Vou
ficar lá, plantada, como uma árvore infeliz no meio da vida dele. Mas também
não vou fingir nada. E ele há de me perguntar... Pronto, está decidido! Nem vou
trabalhar amanhã. Ele acaba me perguntando por que não fui. Aí eu começo a
falar. Digo que não fui porque não estava com cabeça. E não é mentira, ora! Eu
tenho que terminar com tudo isso direito, de uma forma definitiva. Fazer o que
estou fazendo só vai me deixar mais confusa, eu sei. Se estando perto dele,
dentro da relação, eu puder me permitir a ter esta vida paralela, não vou ter
coragem nem mesmo necessidade de acabar nunca. Para quê? Se eu posso
ter as duas coisas... Porque se depender dele... Nós vamos vivendo, do jeito

!87
que for. Não quero mais isto, não. Chega! E quero estar inteira para fazer isso,
da maneira que tem que ser. Me leve embora, por favor, Danilo?!
A dignidade de Abigail começava realmente a fazer com que o ar dentro
do veículo fosse tornando-se rarefeito. Danilo, boquiaberto, nada conseguia
dizer. Fora tudo muito rápido, ele percebia o que poderia vir a ser uma noite
maravilhosa escapar por entre seus dedos. Além de tudo a eloqüência de
Abigail trazia um conteúdo desconfortavelmente assimilável e o que era pior –
pensava ele – ela estava coberta de razão. Ele, atordoado com o peso ético
daquela fatídica oratória, sentia o começo de uma cefaléia terrível, devido ao
fato de seus pensamentos estarem se processando como num idioma
desconhecido. A dor de cabeça porém não foi o bastante para que ele deixasse
de tentar aplicar-se em uma derradeira tentativa de confundi-la:
– Você está com remorso? – perguntou astuto.
– Claro que não! Não houve nada entre nós... E nem vai haver.
– Mas, nós dois estamos aqui, juntos...
– E daí? Eu saindo agora de dentro deste carro, Augusto ainda fica
lucrando, e muito. E eu não estou tomando esta decisão por causa dele, não,
Danilo. É por minha causa. – Abigail disse estas palavras enquanto foi tirando
de dentro da bolsa o telefone celular. Olhou para Danilo, penalizada, dizendo:
– eu vou ligar para ele. Você se incomoda?
Quando fez tal pergunta, meramente protocolar, já estava com o aparelho
no ouvido, ansiosa. Sem obter resposta por parte de seu marido, do outro lado
da linha, repousou suavemente o telefone no colo, ao mesmo tempo em que
falou com a voz já quase sem firmeza alguma:
– Está desligado.
– O que? – Danilo estava muito distante dali...
– Desligado. Está fora de área, desligado...
O fato de Augusto não ter atendido à sua chamada, fez com que Abigail
divagasse sobre o quanto valeria ou não a pena deixar de viver aquela
aventura com Danilo. Aliás, se ele próprio não tivesse interrompido o decurso
das reflexões da mulher que, bem ali, ao seu lado, já quase mudava de idéia:
– Abigail, ele pode estar com alguém, com outra mulher, já pensou nisto?
– a pergunta, cheia de malícia não a corrompeu, no entanto:
– Não sei, não... Seria até melhor. Será? Mas eu só sei que tenho que
fazer a minha parte.
Então, como se mudasse de assunto, muito embora ainda falando sobre
o marido ela disse:
– Tenho medo dele...
– E você acha que eu deveria ter medo também? – Danilo espantou-se,
sentiu-se novamente coibido.
– Ele é covarde – Respondeu ela, paradoxal, com o olhar longe e perdido
de um andróide...

!88
O carro parou no mesmo local onde Abigail embarcara, mas não sem
antes terem os dois trafegado por muitas ruas e avenidas, percorrendo quase
toda a cidade, meridionalmente, indo e voltando ao ponto de partida.
Ela saltou do veículo em silêncio. Nem agradeceu nem se desculpou.
Pareciam exatamente aquilo o que de fato eram: dois estranhos. Danilo fez um
esforço imperceptível para esconder seu desapontamento. No fundo, sentia um
curioso alívio, isto sim. Abigail deu dois passos afastando-se do carro, mas,
poucos segundos depois, parou, virou-se e caminhou de volta até a janela,
como se tivesse esquecido algo. Com uma expressão involuntária de enfado,
falou, grave e já completamente disfórica:
– Danilo, eu quero lhe pedir mais um favor: – olhou para os lados
parecendo sentir que estava sendo seguida – Não me procure, esta bem?
Pode deixar, se for o caso, eu ligo.

Os dois nunca mais voltaram a se ver. A decisão pareceu intuitiva,


consoante e mútua, embora não necessariamente acertada.






















Ligação interurbana



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Uma ligação interurbana que era só para lhe dizer boa noite. Há tanto
tempo eu não me deitava, apagava a luz e simplesmente sentia que iria dormir.
Então, aquela breve ligação interurbana que acordou meu passado inteiro,
desde muito antes até mesmo de nós dois.
E eu logo disse, tão implacável quanto impostor, com um sorriso que não
se podia ver, com uma inflexão de alforria, um sorriso contrafeito e assustado
de um fugitivo que não tem a menor noção do que irá fazer com a liberdade;
com um estranho poder que eu agora talvez tivesse de tanto que a vida nos
sacudiu para longe um do outro, o poder de haver sobrevivido à nossa mútua
ausência... Assim, eu disse: “Preciso, quero desligar”. Então você começou a
querer me ensinar, interpelante e fingindo-se de séria, uma receita qualquer de
forno de micro ondas, como se fosse aquilo o que fosse me segurar, ali
ouvindo, você rindo já também, de tanto me reconhecer, de tanto ter certeza do
que eu sempre mais quis, mesmo sem saber ao certo se ainda era assim que
eu ainda era.
Uma receita, íntima como estar juntos na cozinha com as roupas
salpicadas de farinha de trigo e clara de ovo. Muito mais íntima do que
qualquer coisa que se pudesse fazer no quarto ou em qualquer outra parte de
uma casa. Ardilosa e terna, você quis me levar para a cozinha, como se isto
fosse menos complicado para mim do que tentar entender, através de todos
estes longos e calmos anos, esta nossa cognição absurdamente provável – e
nada mais do que isso, somente sempre, porque apenas sempre provável –,
varando o gelo das eras.
Parece que o Brasil é imenso por causa de nós. Quem sabe o mundo
gire para que nós dois saibamos que é a isto que se chama futuro, é a isto que
chamamos de depois, aquela data não marcada que sempre chega, contanto
que estejamos exclusivamente, pelo menos vivos.
Sei que você nunca gostou de mim como eu gostei de você (o que não
quer dizer que algum dia eu tenha sabido o quanto e “se” realmente lhe amei).
Mas eu sei que sua intensidade de compaixão pelas coisas da vida pouco me
incluía. E você riu muito ao descobrir que eu, dizendo estas palavras,
finalmente percebera isto de uma forma enfática, porém simples. Simples como
o sono de um longo cansaço. Que irônico... Hoje, muito tempo depois, você
parece necessitar deste telefonema, mesmo sem nunca saber quando eu irei
dizer: “Alô! Aqui quem fala sou eu”. Hoje você parece se interessar menos pelo
impalpável: viveu muito, já; houve perdas, ganhos; passou e viu-se passar pela
vida de tanta gente, mesmo estes todos tendo sido ainda que tão poucos.
Sua voz não tem mais aquela impaciência que me dava a certeza de
sempre estar a um passo de lhe perder. Deve ser porque foi isto mesmo o que
acabou acontecendo...
Hoje, hoje isto não importa mais.
Talvez só agora possa dizer que lhe amo: nunca saberei mesmo o quê
exatamente representa esta palavra, este termo inventado por quem não tinha

!90
como decifrar um sentimento tão contingente, este impulso de vida toda que,
com a idade, vai assumindo uma velocidade mais branda, e que nos permite
ver as coisas direito, as pessoas como são, lá do lado de fora da janela. Isto
mesmo. Antes eram somente vultos. Ponderações vistas de dentro de uma
carruagem trôpega e desgovernada – a “coisa” – da qual tínhamos, por
excelência de uma ingênua imaturidade, sempre a impressão falsa de
estarmos controlando. O amor viaja dentro de um barco à deriva, lento, rio
largo, verde e muito profundo, correnteza quase imperceptível, porém,
constante e assustadora. Ninguém controla nada no final das contas.
Pelo telefone percebo o quanto tudo isto aconteceu sem que sua voz
tivesse mudado. O timbre de sua voz, grave, extremamente individual e
aristocrático, a despeito de seu riso súbito sempre, o susto pelas coisas
inteligentes, incomuns, um riso de camponesa livre e feliz, moça criada nas
pradarias onde os gritos ecoam sem reprimendas nem pecado. Esta é você.

Mas há, sim, uma tristeza que seus olhos antigos guardam. Uma tristeza
de quem olha um dia frio pelo vidro nublado, no inverno de uma remota
saudade. Há uma maturidade de ombros e de olhar, mais um porte do que uma
estatura, que lhe transporta pelas calçadas e passeios por onde você pisa. E
uma sombra, não tão escura esta sombra, que é sob a qual sua alma um tanto
cansada repousa de sempre ter que ser, ser e ser... Se ao menos você
fingisse, mas não: seu ofício humano para com todos é, ainda que após nobres
tentativas de comungar as mediocridades, seu ofício é mostrar-se: flor
vermelha e insolente no jardim de uma espécie de Espanha medieval que você
vive inventando para humilhar delicadamente os que vivem querendo que você
seja outra – desde menina.
E se eu dissesse que não mais lhe amo? Se tentasse rogar que nunca
fora tão devoto admirador de sua capacidade de ser extraordinária? Se eu
esquecesse tudo aquilo que – pensando ser dor – fora nada mais que
meramente sofrimento? Se eu insistisse em lhe renegar? Digo renegá-la de
tanto tempo, distância, afinidades, de sinastrias, impossibilidades, casamentos,
divórcios, renegá-la de destinos e de acomodação? Mudaria? Por acaso
mudaria o sentido giratório de minhas moléculas todas asseverando: “Sorria
homem de Deus! É ela. É ela quem está viva, respirando do outro lado da
linha; viva dentro de seu peito cheio de uma amizade guardada só para ela,
depois de ter virado paciência para poder ter se transformado em...” Não. Eu
não arriscaria dar nome a algo cujo único nome que possui é o seu. Eu lhe
“você”, entende? Eu não lhe “isto”, ou tampouco lhe “aquilo”, ou ainda eu lhe
“aquilo outro”. Eu simplesmente lhe “você”, muito! Você é o que sinto por você.
E, acredite, é menos explicável do que intenso. É mais absoluto do que
presente. É como um “quando” que só precisa de mim e de você para existir e
ser o que sempre foi sem ter que ter sempre que ter sido... Confusão assim
poderia ser resumida numa única palavra de quatro letras: Amizade. Realmente

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nunca fui bom em aritmética... Mas criei uma fórmula para não esquecer seu
número de telefone, quer dizer, até perdê-lo outra vez e a vida nos resolver
distanciar para novamente reencontrar, como tem sido ao longo deste tempo
com o qual parecemos brincar de poder dominar.
A espera é menos incerta do que o próprio encontro, para nós dois, já
pôde você perceber isto?

Ouvindo você falar, brevemente ao telefone, de tão distante, depois de
tanto tempo, eu fico pensando... Penso se isto, este pacto sem sangue que nós
dois fizemos – sem jamais o termos feito – penso que há coisas muito simples
que poderiam servir como representação perfeita. Uma delas seria, por
exemplo: como quando se está procurando pela casa inteira pelo par de
óculos, ridiculamente encaixados na própria cabeça. Ou, ainda, ficar – achar
que se está – apaixonado; se relacionar, se envolver; comprometer-se,
enfadar-se, brigar ou não brigar até acabar com tudo, e, depois, patéticos, nos
perguntarmos a nós mesmos: “como ou com quem será que está, por onde
andará tal pessoa?”.
Na verdade eu liguei para dizer que não lhe amo, mas nunca consegui,
nunca quis, lhe esquecer. Eu liguei para lhe dizer que nunca soube o que era
amar. Eu somente sabia o que era amor. Amar... Amar, não. Espero um dia
poder conjugar este verbo, sem precisar interferir no conceito primordial e
sublime de sua forma substantiva.
Eu liguei porque não pensei nem dois segundos antes de poder tomar
fôlego e cometer isto. Eu telefonei porque sei que estamos distantes demais
para corrermos qualquer risco de nos enganarmos outra vez, na vida. E de
madrugada a tarifa é reduzida, todas estas estranhas coisas saem muito mais
barato. Liguei para poder lhe falar bem baixinho o quanto eu gostaria de ter
gritado no meio da praça abarrotada de transeuntes: “Sim! Você me faz feliz”,
somente pelo fato de existir, de permanecer.
Imaginei seus passos, enquanto a chamada chamava e você não
atendia. Imaginei, num átimo de poder sobre o incerto de certas coisas, o que
você estaria pensando, já que sempre se pensa quando a campainha de um
aparelho telefônico toca: “Mas, a estas horas, quem poderia ser?” Imaginei que
realmente você não teria como reconhecer minha voz – sonolenta, reservada –
como se estivéssemos lado a lado e eu lhe pedisse para coçar minhas costas...
Acredito que fiz de propósito. Se eu tivesse sido eu mesmo, você logo saberia
de quem se tratava. Eu quis muito lhe fazer surpresa. Queria talvez também
sentir-me surpreendido mais uma vez com sua fúria humana, sua força vital.
Quem sabe eu tenha querido saber como você é quando não sabe exatamente
com quem está falando, quando não faz idéia de quem está do outro lado.
Talvez tenha querido esta timidez sua. É lindo. Era a única forma de lhe despir
deste enigma do qual você também compartilha, digo, nós mesmos.

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Não somos donos do tempo. De fato nada nos pertence. Somente este
agora dentro do qual estamos relativamente, apenas relativamente aptos a
decidir. Então eu decidi discar seu número de telefone, correndo o risco de
você nem poder, nem querer me atender. Decidi correr mais este risco que
também nada me custava, em termos de prejuízo existencial. Se você não me
atendesse, bem... Um dia talvez. Talvez estivesse tão perto que eu só
precisaria falar seu nome. Mas, daqui, de onde estou, de tão longe, só mesmo
esta ligação interurbana para nos tornar tão possíveis, tão absolutamente reais.


























A mãe de Pedro


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A única coisa que importa é que ela estava ali: vazia; as pernas secas;
aqueles ossos, a arcada que primeiro me chamou a atenção. O resto, são
apenas contingências de sua condição, e, fatalidades da minha.
Ela segurava algo. Algo, o qual pude perceber ao aproximar-me,
lentamente, com o automóvel carregado de medo, tratar-se de uma criança.
Mas havia as pernas magras e brancas que paralisaram por completo minhas
reflexões com um magnetismo daqueles que só existem nas coisas extremas e
humanas. Tudo o quanto eu possuía, mesmo constantemente me parecendo
tão pouco, tão insuficiente quanto inapropriado, todo o meu arsenal de
inutilidades, tudo isto é que parecia faltar, faltando como substância para que
aquele corpo de pessoa pudesse mesmo se parecer com um...
Mas ela estava lá, no cruzamento supostamente perigoso e violento,
fincada como se fosse uma sentinela, portando a criança, digna, com sua
calma que emanava tanto desespero. Era forte por isso e apesar de si mesma.
Era mãe.
Percebi que ela nada pedia, pois sua presença – sua constrangedora
presença – implacável, já em si representava a própria etimologia da súplica.
Então a observei com mais atenção ainda, quando a vi aproximar-se do veículo
parado à minha frente, o carro de onde percebi sair pela janela quase que
completamente fechada uma mão. Ela recebeu o que haviam lhe dado –
moedas, pelo movimento de sua palma em concha – e voltou para seu posto.
Pensei que a criança, imóvel em seus braços, poderia estar morta.
Pensei que ela própria, a mãe, poderia não estar tão viva assim. Fora apenas
mais um dos absurdos produzidos por minha mente tão adoecida de egoísmo e
desengano... E quanto desvario pode assolar os pensamentos de alguém
consumido, sistematicamente, anos a fio, pela ausência! A criança estava viva,
e eu, eu simplesmente tentei sem êxito conectar-me ao gigantesco anúncio de
papel que ostentava uma moça graficamente trabalhada, sorrindo seus dentes
perfeitos por causa de algum motivo qualquer que não conseguiu me prender.
Isto foi uma fração ínfima de tempo. Voltei de imediato o meu olhar e a mãe
estava lá, na esquina, com seu bebê, como se o tempo não houvesse passado.
Vi em seus olhos que nada tinha mais importância do que o fato de conseguir
manter aquela criança viva. Chamei-a.
Ao acionar o interruptor do vidro da janela oposta, a defensiva película
setenta por cento desvendou-lhe apenas os olhos, primeiro, como uma burca.
Desci mais ainda o vidro e seu semblante iluminou-me de uma estranha, porém
reconhecida necessidade de comunhão. Abri a carteira com cuidado, de onde
saquei uma nota, um pedaço de papel que valia dois dinheiros. O azul fosco da
cédula confundiu-se com o azul quarado da roupinha que vestia a criança, esta
sempre com o rostinho escondido no conforto alheio do colo esquálido de sua
mãe. Antes que eu pudesse lhe entregar o dinheiro ela balbuciou com uma
emoção que realmente inundou sua face:

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– Nem sei como posso lhe agradecer!
Percebendo que a criança era um menino, os cabelos pretos e fartos,
bem penteados e brilhantes, perguntei-lhe, na intenção de fazê-la sentir-se
talvez um pouco menos subjugada ou menos devedora:
– Como é o nome dele?
– Pedro – disse-me breve, com firmeza.
Estremecido, eu disse:
– É o meu nome.
Na verdade, senti uma inexplicável sensação de ter que lhe dizer que
era como se pudesse ser eu, ali, indefeso e, ao mesmo tempo, tão seguro em
seus braços de mãe. Ela, que pareceu não haver escutado o que eu acabara
de falar, voltou-se mais para dentro do meu carro e com uma expressão de
ousadia fundamental no rosto disse-me:
– Você é um anjo...
– Ele tem o meu nome – lhe falei novamente, agora ainda mais
estarrecido.
Quando o semáforo ficou verde ela afastou-se, levando-me em seus
braços. Quanta dureza há neste mundo para que aquela menina-mulher
pudesse ver em mim, justo em mim, a figura de um anjo! Ela, que um anjo de
verdade abraçava embaixo daquele relento, envolta naquela luz falsa que
amarelava a noite alta da cidade indiferente. Ela, que nunca mais teve nome.
Só um nome então havia. Éramos nós – eu e aquele menino em seus braços –
quem sabe a mesma pessoa: Pedro.













Aprender mulheres


!95
Escrever mulheres: difícil tanto quanto entendê-las. Reduto, abstrato
demais... E lê-las? Lê-las é como conhecê-las: demora! Uma moderação de
laudas, lenta; capítulos inteiros, meses e meses... Só para moderar, mais no
convívio do que na compreensão, só para que as páginas não nos deixem,
sempre e ainda incógnitas.
Viver mulheres é simplesmente pensá-las. Pensá-las e dispor de todo o
tempo para o desfrute de tantas dúvidas. Compor uma calma de palavras e
gestos. Os gestos servem mais, porque são mudos e por si só já existem
somente para ouvir.
Ouvir, ouvir, ouvir...
Desenhar mulheres é ouvi-las, sem os delineamentos das falsas
elucidações ancestrais – que mulheres estão sempre mudando, com o passar
dos tempos, para poderem continuar sendo as mesmas.
Cantá-las é por demasiado breve. Canções são bilhetes, e, as cartas, as
cartas também não dizem nada. Porque as próprias palavras não são nunca o
que na verdade querem dizer. Pronunciar mulheres é um idioma clássico, uma
cifra mística – de onde podem ter vindo os hieróglifos, os ideogramas. Enigma
poderia ser no feminino...
Isto porque são detentoras de toda a razão, na angústia de serem tudo o
que há, em arremate de potencial fecundo, numa só criatura, um só universo
de infinitas possibilidades não catalogadas, ainda. Mulheres são o gênero da
própria transformação do algo em Ser. Tão simples quanto demasiado, estar
perto delas, com suas muitas maneiras de refletir as mutações da raça inteira.
Quando choram, chora a espécie, num pranto óbvio, lágrimas da condição de
uma injustiça imputada a quem faz tudo pela mera inclinação de como se fosse
sempre para salvar o planeta da devastação. Heroínas, tão somente pelo fato
de haver, na vida, homens. Quando sorriem, é então que a natureza das coisas
está no lugar.
Mulheres são o âmago daquilo que em nós todos mais se parece com o
termo Coragem. Casulos da existência frágil pelo trajeto das civilizações.
Mesmo quando não o sabem, sempre são fortes. Até quando tristes são lindas,
são elas, tão somente bastantes, belas.
Aprender mulheres... Talvez seja amá-las, sem ter que nunca partir.





Sumário
Semblante do mar..............................................................................................01
Criado mudo......................................................................................................04
A santa que virou mulher...................................................................................06

!96
Natureza feminina.............................................................................................10
Hora do recreio..................................................................................................12
Se o tempo não parar........................................................................................14
Supostamente....................................................................................................19
Sala de professores...........................................................................................22
Simplesmente Suyane.......................................................................................29
Nem doeu!.........................................................................................................31
As bodas de Angélica........................................................................................34
A próxima...........................................................................................................42
Auto-retrato........................................................................................................47
Arinna.................................................................................................................51
Caixa de correio.................................................................................................55
O troco...............................................................................................................61
A Proposta.........................................................................................................65
Triângulo............................................................................................................73
O retrato de Zuleika...........................................................................................79
Ana.....................................................................................................................82
Se for o caso......................................................................................................84
Ligação interurbana...........................................................................................89
A mãe de Pedro.................................................................................................93
Aprender mulheres............................................................................................95

!97

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