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EMIL FARHAT

EDUCA CÃO, '

a nova ideologia
Segunda edição

COMPANHIA EDITORA NACIONAL


OBRAS DO AUTOR

Cangerão (romance, 1939). Prêmio Lima Barreto,


Prêmio João Cordeiro. 3.ª edição.
Os homens sós (romance, 1945). Esgotado.
O País dos coitadinhos (estudos sociais, 1968). 4.ª edição.

TRADUÇOES:

Os sete mistérios da Europa, Jules Romains.


A vida íntima de Napoleão, Artur Levy.

capa:

JOEL LINCK

revisão:

CORINA LOMBARDI

IVONE DAR!! RABELLO

Direitos reservados

COMPANHIA EDITORA NACIONAL

Rua dos Gusmões, 639


01212 São Paulo, SP

1975
Impreaao no Brasil
sumário

Num laboratório chamado Brasil IX

Educação, a nova ideologia 1

2 Nações ricas & Nações pobres 37

3 Como desmontar a bomba da explosão populacional 79

4 Analfabetismo adulto: o círculo vicioso da miséria 109

S Merenda escolar:
o estratagema brasileiro da contra-evasão escolar 133
6 O segredo japonês: a dupla escolaridade 1 55

7 A nova doença social: analfabetos tecnológicos 1 77

8 Educar para viver - ou ensinar para ilustrar? 191

9 Bolsa Nacional de Talentos -


o regulador do mercado tecnológico 21 1

10 O Banco Nacional dos Estudantes Pobres 227

11 O que já fez - e o que pode fazer - a imprensa


brasileira 241

12 A profissão sagrada 255

13 Onde está o dinheiro 275

Bibliografia 3 1 1
A tinta dos cientistas é mais
sagrada que o sangue dos
mártires.
Maomé (570-632, era cristã)
num laboratório
chamado Brasil

Este livro toma como campo de suas observações um ebuliente


laboratório humano chamado Brasil.
Temos a sorte de este país ser um resumo vivo de tudo que afeta,
para o bem ou para o ·mal, as nações que ainda precisam desen­
cadear um urgentíssimo e substancial esforço para recuperar o
tempo perdido, e rumar para um desenvolvimento integral.
Eliminadas as dimensões decorrentes dos fatores geográficos e
demográficos, quase todos os nossos problemas se repetem através
dos países que vivem no mesmo estágio em que nos achamos, em
qualquer latitude do planeta.
Alguns mais, outros menos, todos esses povos são atingidos pelas
mesmas endemias político-sociais: o analfabetismo secular e suas
variantes de incapacitação, em média ou larga escala; o estatismo
empreguista e o superassistencialismo social.
Em outro livro (0 País dos coitadinhos), já analisamos fundamente
todas as conseqüências que os abusos, os equívocos e as distorções
do estatismo e do superassistencialismo atingiram neste próprio
Brasil.
Num capítulo daquele mesmo livro ("Povo burro é povo pobre"),
demarcamos com algum vigor, mas abreviadamente, o papel da
mecânica educacional na solução e decisão dos problemas cruciais
de nossos países.
Agora, procuramos apresentar à paciência e boa vontade do leitor
uma série de argumentos visando a documentar a definitiva e univer­
sal influência do fator Educação na vida de todos os povos.
Por contigüidade e devoção, nosso ponto de partida e de conclusões
é o Brasil, seu presente e seu destino.
Por falar quase sempre do Brasil, não conseguimos ser rigorosa-
mente científicos. Mas procuramos, invariavelmente, juntar à
emoção o máximo de dados e razões .
Aliás, quem escreve este livro não conta com a bagagem de saber
de que dispõem pedagogos, sociólogos ou economistas - pois,
lamentavelmente, estes não são os nossos títulos.
O direito que nos invocamos de entrar em latifúndio aparentemente
alheio é que, como verão página a página, a Educação participa,
influi e decide tanto, e inapelavelmente, na vida dos indivíduos e
das comunidades, que qualquer um, estudioso e interessado, pode
amealhar observações próprias sobre ela.
Pela universalidade cósmica de suas conseqüências na vida de um
povo, a Educação deixou de ser uma cogitação apenas dos gabine­
tes palacianos ou das herméticas salas das congregações. e um
assunto de praça pública.
Aqui está, portanto, o nosso aparte, de mero cidadão.

E.F.- 1974.
1
educação,
a nova ideologia

•De minha parte, durante anos,


fizera conferencias sobre Educação,
mas não me recordo ter feito,
antes de 1945, uma única referencia
ao /ato de que a metade
do mundo era analfabeta.•

C. E. Beeby - Ex-Diretor da
Educação. da UNESCO, e de Nove
Zellndle: Educação I! desenvolvimento
econômico, Introdução, Zeher
Editores, 2.• ed., 1973, p61. 13.
•Burrice não produz pobreza:
pobreza é que produz burrice . . . •

Prof. Lauro de Oliveira Lima -


O Impasse na Educação, Editora
Vozes, 1968, pág. 237.

•Povo burro é povo pobre.•

E. F. - O País dos coitadinhos, Cla.


Editora Nacional, 4.• ed., 1967, pág. 363.
A explosão de conhecimentos, a maré montante da tecnologia, o
extravasamento total dos limites culturais que o homem do
século XIX supunha já tão amplos - tudo isto deu uma dimensão
nova à palavra Educação.
Essa acelerada alteração, seu súbito enriquecimento de conteúdo,
vêm provocando, por causa da rapidez dessa evolução semântica,
uma certa discrepância no entendimento que cada qual empresta a
essa palavra, cuja nova função verbal é, agora, a nosso ver, enfeixar
o significado total de um elenco de atividades pedagógicas, cada
vez mais importantes e decisivas na vida .de um povo.
Não vamos analisar aqui a outra, ou outras, ainda correntes in­
terpretações da palavra Educação. Porém, para que sejamos bem
entendidos, e assim dialoguemos usando os mesmos símbolos e a
mesma linguagem, descreveremos em seguida o que neste livro
chamaremos de Educação.
Educação é o conjunto integral de ações pedagógicas, abrangendo
todos os escalões e tipos de ensino, e que visam a proporcionar
ao indivíduo não apenas a ilustração humanística, ou conhecimentos
gerais, mas também, e preponderantemente, a instrumentação inte­
lectual-profissional que o capacite para a luta pela vida, dentro da
conjuntura tecnológica de que é contemporâneo.
Muitos analistas ou pedagogos terão obviamente suas restrições a
essa definição. E devem etimologicamente, ou historicamente, estar
certos. Mas, o que visamos com a descrição acima é envolver numa
só expressão, já admitida e largamente usada - mas ainda não tão
marcadamente definida - todo o novo contexto político-econômico­
sociológico da multivária ação de ensinar, ou equipar o homem.
Procuramos, assim, um ponto simbólico bem claro, de encontro com
o entendimento do leitor.
Poderíamos buscar outra definição nas 1 5 páginas com que Michele
Federico Sciacca (0 problema da Educação, Editora Herder, São
Paulo, 1966) define "Pedagogia e Educação" (págs. 26 a 4 1 ) .
O u e m Educação e ordem social, de Bertrand Russell (Cia. Edi­
tora Nacional, trad. de Leônidas Gontijo de Carvalho, 1956), ao
longo de cujas páginas o famoso filósofo inglês procura correlacio­
nar, em diversos capítulos, a Educação com todos os estágios. ou
ações importantes do homem face à sociedade.
Partindo, porém, da definição que preferimos do que seja essa força

3
criadora, iremos analisar ao longo destas páginas os ângulos a nosso
ver mais importantes das suas poderosas influências sobre o indi­
víduo, sobre a sociedade, sobre as nações e sobre a humanidade.

A palavra Educação deixou, pois, de conter apenas a limitada


expressão de conjunto de normas ou regras de viver ou conviver,
traçadas para o indivíduo em suas relações com o meio ou com a
própria cultura. E adquiriu o significado de imprescindível e deci­
siva ação pública, cuja amplitude e eficiência permite-nos medir ou
antecipar, de modo quase matemático, que grau de prosperidade,
ou que escala de dificuldades, cercam este ou aquele povo.
Nos imensos entrechoques dos tempos modernos, as ideologias e
sistemas - socialismo, democracia capitalista, nazi-fascismo, comu­
nismo, e todas suas nuanças - mostraram que são, cada um deles,
acima de tudo, um enquadramento político-econômico-social, afe­
tando, primordialmente, em maior ou menor grau, as liberdades do
indivíduo em todos os seus campos de ação.
Assim como os regilnes que limitam rigidamente, ou simplesmente
eliminam, as iniciativas econômicas do cidadão não lhe deram a
florescente prosperidade que ele adquiriu em certos países, que
vivem sob a livre iniciativa, também se contam por dezenas as
nações do mundo livre cujas maiorias populares jazem sob todas
as escalas da miséria, desde a envergonhada até a ostensivo­
agressiva.
Nem os rigores punitivos de um regime político que diz visar à
chamada "justiça social", nem apenas a liberação total das forças
criadoras do homem lhe conferem o dom de prosperar ou viver
fartamente - embora isto seja a promessa básica de todos os
matizes do socialismo, e também o fim primordial de todas as
garantias do liberal-capitalismo.
Só intelectual e profissionalmente equipado, é que o homem comum
pode sobreviver nas condições diversas, ou adversas, quer seja sob
o capitalismo, quer seja sob o socialismo.
Onde quer que se possam ainda buscar opções para a felicidade do
homem comum, esta independe das expectativas oferecidas pela
conjuntura política, em si mesmas. Pois, ele só pode haurir pessoal­
mente os benefícios totais dos direitos que lhe forem atribuídos se,
de sua parte, tiver capacitação de exercer cabalmente urna função
ou atividade dentro do quadro econômico-tecnológico que o
envolve, onde quer que viva.
O direito de FAZER, síntese político-econômica que engloba as
características de vida dos povos livres, só leva, porém, o cidadão

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comum às bem-aventuranças materiais deste mundo, se também lhe
for assegurada a capacidade de SABER-FAZER.
Livre e sem peias políticas que o impeçam de concretizar seus
projetos de caráter econômico, o homem educado, o homem equi­
pado, independe de quem quer que seja para obter seu bem-estar e
prosperidade.
Mesmo, porém, contido pelas malhas de um sistema político que
lhe elimine as iniciativas econômicas, ainda assim ele tem con­
dições, quando intelectualmente capacitado, e não antagonizado
com o sistema social vigente, de sobreviver.
Sem contestar a validade do requisito ambiental propício, ensejado
pela vigência da liberdade de pensar, de criar e de realizar, a Edu­
cação adquire os contornos de verdadeira ideologia, já que deve
ser o objetivo máximo e prioritário dos governos e dos povos, dos
líderes e dos liderados.
Se o mundo busca uma ideologia desarmada e criadora, que não
imponha sujeições nem enquadramentos, mas realize o milagre da
nivelação para cima e da eliminação dos contrastes desumanos; uma
ideologia que anule, espontaneamente, por suas próprias conseqüên­
cias, as distâncias anti-sociais, causadoras dos extremos da humi­
lhante pobreza e da mal alente riqueza - essa ideologia, despre­
tensiosa, sem postulação política nem calculismos eleitorais, é a
Educação.
Porque a Educação toma o homem apto a sobreviver em qualquer
sistema econômico-social, ainda mesmo que a filosofia política
oponha diques a seu espírito de iniciativa.
Veremos através deste livro que não há praticamente nenhum dos
grandes problemas humanos para cuja solução a Educação não
colabore fundamentalmente, ou de que não participe decisivamente.
Todos os macrodesafios que aí estão intranqüilizando ou até mesmo
desesperando a família das nações - as centenas de milhões de
párias que predominam na região hindu-paquistânica, as outras
centenas de milhões das novas nações africanas sempre prontas
às bestialidades do fratricídio, ou todos os outros grupos nacionais
que subvivem na Ásia ou na América Latina - podem alterar os
trágicos agouros que lhes vaticinam matematicamente os futuró­
logos. E o conseguirão se entre hoje e a data permanente nas
previsões de todas as cassandras - o ano 2000 - puderem desen­
cadear, pela vontade férrea de seus governos e com o auxílio dos
países desenvolvidos, gigantescas campanhas de Educação e prepa­
ração intelectual-profissional de suas massas humanas.
À exceção dos países cujo sistema político é monolítico e agressiva­
mente intocável, não há estrutura social arcaica ou anti-humana

5
por qualquer de seus aspectos, que resista à pressão das massas
populares intelectual ou profissionalmente equipadas. Quando
milhões de homens e mulheres instruídos podem exercer sua crítica
inteligente, corroem-se até o desmoronamento quaisquer fortalezas
ou monumentos do absolutismo.
A fome hereditária, a explosão da natalidade, o fanatismo religioso,
ou a intolerância política, a pobreza das terras, ou a aridez dos
desertos que lhes tenham cabido por berço, e tudo que possa signi­
ficar agressividade ou insalubridade da natureza - tudo isto que
gera os desencontros e os desatinos do mundo, a Educação ajuda
o homem a vencer ou a solucionar.
A Educação não impede, sim, o fanatismo. Mas impede que haja
maioria de fanáticos. Ela não elimina os egoísmos nacionais. Mas
evita que todas as nações sejam egoístas ou narcisistas.
Ela não acaba com a desonestidade na vida pública. Mas aumenta
o número e o poder dos que são capazes de zelar pelo bem coletivo.
Ela não dá terra aos que não têm terra. Mas decuplica a produti­
vidade dos que nela trabalham.
Muito mais eficientemente que qualquer implacável lei igualitária,
muito mais concretamente que a incansável caridade, a Educação,
e só a Educação, .pode extinguir a fome de entre as nações.
e a Educação - e não o esporádico assistencialismo ou paterna­
lismo bem intencionado dos "programas de ajuda" - que deve
ser a ponte, o instrumento e a ação de concórdia, que os chamados
"povos ricos" devem lançar para auxiliar os "povos pobres" a
safarem-se do fosso da ignorância, e dos circunjacentes atoleiros
da miséria.

Tão afogados quanto o homem comum nas perplexidades que o


imobilizavam, os homens de pensamento se sucediam, ao longo das
idades, nos púlpitos, nas cátedras, ou nos átrios, e atribuíam os
sofrimentos e as penúrias das massas a sentimentos ou empederni­
mentos que se localizariam nos corações alheios, dos instáveis
poderosos de cada dia, e não nas mentes secularmente desprovidas
dos próprios penitentes.
Sucediam-se as gerações, com todos os seus conflitantes contrastes
e aleijões sociais, e nem os filósofos políticos, nem os já emergen­
tes filósofos da Educação, conseguiam antecipar que as terríveis
deficiências, que mumificam ou estiolam o homem do povo quando
ignaro, vêm muito mais do que ele não tem em si mesmo, do que
da "mais-valia" com que não o remuneram. Os filósofos políticos
e os filósofos da Educação não entenderam que o furto de que

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foram vítimas o miserável ou o proletário, foi praticado muito
antes de eles terem qualquer coisa de si para alugar ou oferecer.
Esses pensadores não perceberam que, analfabetos ou semi-analfa­
betos, os espoliados passageiros do comboio da miséria já chega­
vam despojados de tudo antes mesmo de entrarem nos vagões dos
andrajosos. Eles não entenderam que o gado humano, admitido
para trabalhar até à exaustão na máquina de sucção de qualquer
dos estágios do capitalismo, nela penetrava já descamado de quali­
dades, desossado de habilitações e pobre de equipamento.
E que, ainda hoje, não tendo nenhuma capacitação de ofício com
que se fazerem valer, pouco poderão receber dos dividendos com
que já se fazem pagar aqueles que trazem para a feira do trabalho
a mercadoria cada dia mais reputada quanto mais se requintam
as criações tecnológicas do capitalismo: o talento equipado, a inteli­
gência fornida e atualizada.
O roubo de que são vítimas os miseráveis, os marginalizados, os
mal pagos, todos os injustiçados, enfim, do sistema capitalista, foi
praticado quando alguém - o Estado, ou a família - deixou de
proporcionar-lhes na hora oportuna da infância e da juventude a
balsa da travessia, com que se vai de uma a outra margem da
vida - da banda da precisão para o lado da abundância.
Foi o que não lhes deram, nessa hora, que provocou a sua conta­
gem regressiva, rumo à vala comum da miséria. Quando na vida
de cada um chega o momento ou a vez de sua participação na
arena, o que contará em seu favor não é a menor ferocidade ou
a maior generosidade do monstro que enfrentará - a sociedade
ou o sistema político-econômico vigente. A vitória ou a derrota do
lutador estreante dependerá exclusivamente do equipamento que
trouxer, das armas intelectuais que possuir, da sua antecipada­
mente exercitada agilidade.

� freqüente, em nossos dias, vermos altos setores do pensamento


e da religião atrelados ao "raciocínio" monocórdio de certos cori­
feus enfurecidos que afirmam que, neste mundo de Deus, o que
falta aos pobres lhes foi, pura e simplesmente, tirado pelos ricos.
Condicionados pela estreiteza blindada da tese, e estimulados pelo
fácil sucesso de acusar os apatacados, esses intelectuais e esses
clérigos entregaram-se aos entorpecentes efeitos desse pretenso pre­
ceito matemático-social. Dissemos matemático porque, segundo os
mais esquemáticos defensores da tese, se alguém não tem é porque
alguém subtraiu .. .
Não ocorre à imaginação dessas inteligências simplificadoras que
também pode acontecer alguém não ter porque não sabe como fazer,

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ou como produzir para ter; e nao tem apenas, e desgraçadamente,
porque não foi preparado para saber fazer, e também para saber ter.
Atribuir todo o adernamento retroativo da nau social exclusiva­
mente ao deslocamento provocado pelo peso das patacas de alguns
ricos, é fingir não conhecer a evidência mais agressiva dos nossos
dias: o superior e vertiginosamente crescente valor da inteligência
equipada, mesmo frente a qualquer tonelagem de ouro amealhado.
"O que falta aos pobres lhes foi tirado pelos ricos." Não é preciso
responder a esse "argumento" com outro que rasteje até sua peque­
nez: se o que falta aqui, no imenso continente dos necessitados, é
o que sobra ali, na ilhota dos privilegiados, que aconteceria se
tirássemos tudo dos poucos que têm, e o déssemos para os bilhões
de seres que não o têm? Obteríamos o pífio e amargo resultado
de apenas aumentar o número dos que não têm, decepcionando
de imediato, e s6 conseguindo aumentar o coro dos despojados.
Graças a Deus, a tortuosidade que ainda aleija este mundo não
depende do fato de ser maior ou menor o número dos ricos egoístas.
Felizmente, o que nos falta para corrigir as distorções desta vida
não está condicionado a nenhum plano que vise a combater evange­
licamente, ou punitivamente, a avareza ou a espoliação.
Não é do azinhavre que se acumula nos dinheiros de Harpagão
que depende a melhoria das condições sociais.
As excessivas vitualhas consumidas na dolce vita dos pobres diabos
ricos que só sobrevivem nos registros das colunas sociais, chega­
riam podres às mesas dos pobres; podres das pragas que a bur­
guesia rogaria, por ter ficado sem elas.
O que vai enriquecer os pobres de nossos países é exatamente o
mesmo fermento que está engordando e estufando o número de
indivíduos na classe média das nações desenvolvidas: a Educação.
Só se dá de fato algo ao homem quando se o educa. Só lhe
abrimos o caminho da fartura ou da prosperidade, quando o equipa­
mos intelectualmente, e profissionalmente. S6 o ajudamos definiti­
vamente, por toda a vida, quando o instruímos. Só lhe damos um
amparo verdadeiro, durável pela longevidade de seus dias, quando
lhe oferecemos a oportunidade de saber, poupando-o da precisão
dos amigalhados favores do Estado, ou da caridade.
Não é o que sobra nas dispensas dos pantagruéis da burguesia,
mas sim o que abundar nas escolas - se estas forem abundantes -
que fará o grande banquete da fartura coletiva. Milhões ou bilhões
de seres neste mundo não viverão melhor por piorarmos, ou infer­
nalizarmos, ou eliminarmos a vida de uns milhares. Só um "racio­
cínio" obsoleto ou hidrófobo consideraria como solução a esteri­
lidade desse absurdo.

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e inacreditável que o homem, com toda sua inteligência, tenha
vindo no seu galope do fundo dos séculos sem haver logo percebido
isto, até mesmo numa de suas tréguas entre um saque e uma
pilhagem.
Dezenas de teorias ou filosofias surgiram para explicar, justificar
ou combater a coexistência forçada do ter e do não ter. De lado
a lado, parecia que o assalto, ou a violência, era a solução. E eles
vinham, em nome de Deus ou do demônio, apregoar soluções que
eram sempre tirar isto de uns, para outros terem aquilo.
Jamais encontraram o denominador comum de uma eqüidade mila­
grosa que fizesse haver pão para todos. Até os escribas da Bíblia
não conseguiram fazer de Cristo senão um quase vingador, empu­
nhando mais freqüentemente o chicote que a tábua de Deus.
A convivência repugnada, ou a tentativa de entender a miséria,
gerava os santos ingênuos ou os furiosos reivindicadores. Um
destes foi o genial Karl Marx que, buscando uma solução econômico­
matemática, encontrou uma fórmula de vingança política. Olhando
de bem perto a dentuça do feudalismo, o que lhe ocorreu para
salvar seu proletariado atrozmente escravizado foi criar uma cober­
tura filosófica, que serviria para justificar as futuras sangueiras
em que se banhou o extremismo.
Todos os antagonismos agressivos oriundos do possuir e do não
possuir, as tragédias todas que o homem armou pelo cinismo aberto
da conquista, ou sob a roupagem dourada do nacionalismo expan­
sionista, vinham da crença de que os galpões vazios de uma nação,
ou de uma classe, só se enchem com os botins arrancados a outrem
pela opressão escravagista, ou pela força das armas.
Neste mundo de tantas histerias, ninguém gritou obsessivamente,
nem os filósofos todos da Grécia, nem os pensadores do Oriente,
nem os senadores de Roma, nem as assembléias da Revolução
Francesa, nem a Igreja, nem Cristo nem o antiCristo, que a sal­
vação, quanto aos males materiais - a miséria e a fome - viria
das escolas, e não dos templos; viria das faculdades e não dos
quartéis; viria dos anfiteatros universitários e não das decisões e
pronunciamentos dos areópagos políticos.

Os grandes impérios da História, cujas façanhas guerreiras ou cuja


ostentação e opulência encheram de lendas ou de terror os séculos
passados, ruíram um a um porque nenhum de seus líderes ou gene­
rais fazia também, simultaneamente, e elementarmente, a guerra
contra a ignorância e o despreparo do homem comum.
Mesmo quando não enquadrados nas angusturas da divisão de
castas, ninguém no topo das nações parecia pensar em equipar

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intelectual e profissionalmente o cidadão - como condição, instru­
mento e fonte de fortuna para o país, e também de vitória para
suas armas. Aqueles raros chefes que pensaram ou agiram intuitiva­
mente na área cfa Educação, fizeram-no sem a exata noção de que
era aí, nesse veio miliardário, que se deveriam buscar todas as
riquezas da prosperidade econômica e até mesmo todo o arsenal da
hegemonia militar para sua pátria.
No seu clássico Investigações sobre a natureza e as causas da
riqueza das nações, o grande economista escocês, Adam Smith,
consagra a mais alta importância ao papel da Educação corno fator
econômico. E acentua o valor econômico-social do indivíduo adequa­
damente preparado.
Outro notável economista inglês, Alfred Marshall, alinha-se dentro
do mesmo raciocínio, nos seus Princípios de Economia Política e
chega a atribuir à Educação um extraordinário valor como "inves­
timento" para a prosperidade de um país.
Entretanto, no seu bem fundarp.entado Educação, mão-de-obra e
crescimento econômico (Editora Fundo de Cultura, Rio, 1 965),
Frederick Harbison e Charles A. Myers ressaltam a pouca sensibili­
dade dos economistas modernos quanto a detectarem a contribuição
da Educação para o desenvolvimento econômico dos povos (págs.
13 a 1 7) . Somente "no transcurso dos últimos cinco anos ( 1 960),
bom número de economistas tem chamado a atenção para a impor­
tância dos recursos humanos e, em particular, para os investimentos
em Educação".
Nenhum educador ou sociólogo conseguiu, porém, exprimir de ma­
neira tão direta e, ao mesmo tempo, tão profunda a importância
da Educação para a Humanidade corno o fez um economista clás­
sico - Theodore W. Schultz - quando afirmou que "( . . . ) tanto
o trabalho, quanto o capital corrente ·tornaram-se essencialmente
sem substância" para "conseguir .explicar o crescimento" econômico
atual.
Este crescimento, sentencia Schultz com sua autoridade, é resul­
tante da "produtividade econômica da Educação". (Theodore
Schultz, Valor econômico da Educação, Zahar Editores, 1 967,
pág. 1 2.)
Já em 1963, quando publicou a l .ª edição desse livro, Schultz regis­
trava "ultrapassar de 30 bilhões de dólares o custo anual da Edu­
cação primária, secundária e superior" nos EUA (pág. 20) .
A intensificação astronômica dos investimentos educacionais fez
com que cada elemento da força de trabalho norte-americana pas­
sasse a representar, por seu equipamento intelectual, um valor per
capita de 7 .555 dólares em 1957 contra 2.236 dól(lres, em 1900.

10
"O total computado para a instrução global da força de trabalho,
por certo, elevou-se muito mais rapidamente, passando de 63 para
535 bilhões de dólares, em 1957." (T. Schultz, Valor econômico da
Educação, pág. 66.)
B essa cifra impressionante, de um capital que.não se corrói com
a inflação nem se volatiliza nas crises, qúe injeta na economia
ianque o dinamismo e a criatividade que lhe garantem a liderança
do mundo.
Aliás, talvez o Japão seja um exemplo ainda mais espetaculoso
dessa tese de Schultz que os próprios EUA. O patrimônio educa­
cional das massas japonesas permitiu construir-se uma das maiores
potências econômicas da História sobre um arquipélago de 1 .000
ilhas e ilhotas desprovidas de tudo - descamadas de quaisquer
minérios, e ressequidas de petróleo, ou de qualquer outra fonte
própria de energia.

Fica, pois, como uma antevisão surpreendente, como um inconce­


bível vaticínio do que seria o poderio dos tempos modernos, aquele
pensamento de Maomé, que abre o pórtico deste livro.
Realmente, se ao longo da vida de cada povo tivesse havido mais
uso de tinta para os alfarrábios, e mais cientistas, os caciques e
pajés de cada tribo ou nação não se teriam preocupado tanto com
o poderio militar, como condição única para conquista da abastança
ou para ampliação de poder político-econômico.
A prioridade tão enfática e tão dramática, intuitivamente atribuída
pelo profeta do Islã à Educação, pareceu que acenderia um sol,
vindo outra vez do Oriente. Mas foi luz que brilhou apenas enquanto
viveu a estrela que a emitia. A galáxia árabe coruscou no firma­
mento, nos minutos de uns poucos séculos, e logo feneceu.
De raro em raro, despontaram aqui e ali, ao longo da geografia e
dos séculos, opiniões de filósofos, ou mesmo líderes político-reli­
giosos, que acendiam a chama, infelizmente uma tênue chama, que
apontava a Educação como a autêntica solução capaz de dar cura
aos grandes males humanos. Mas faltava-lhes logo a seguir o oxigê­
nio da compreensão ambiente e da sua própria convicção ou perse­
verança em lutar persistentemente, para manter iluminada a rota
entrevista no relampejar de gênio, de uma antevisão milagrosa,
porém fugaz.
Assim foi também quando Aristóteles, quatro séculos antes de
Cristo, afirmava com uma visão impressionante daquilo que se
desdobraria passo a passo nos milênios seguintes na vida dos povos:
"Todos que meditaram sobre a arte de governar o gênero humano,

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acabam por se convencer que a sorte dos impérios depende da Edu­
cação da mocidade".
Onze séculos depois, ao afirmar que as despesas com a Instrução
eram um investimento de lata rentabilidade em capital humano,
Adam Smith igualmente avançara um conceito que se ampliado,
explorado e defendido em sua dimensão total, teria provocado, por
sua inegável justeza e autoridade, a mais extensa abertura de rota
para o gado humano.
Quando a Alemanha imperial caiu como outras nações sob o fura­
cão napoleônico, o rei Frederico Guilherme III iniciou o reergui­
mento de seu prostrado país com um gesto dramático: ordenou a
fundação e imediata criação da Universidade de Berlim, mesmo
enquanto as tropas inimigas ainda ocupavam a cidade. Cercando-se
da sabedoria dos conselhos do Barão Stein, reformista liberal;
de Johann Fichte, filósofo do nacionalismo prussiano; e de um
estadista como Wilhelm Humboldt, o monarca germânico pensava
no poder da instrução para usá-la como catapulta para a recupe­
ração política e reerguimento da nação: " ( ...) é mister aumentar
pela instrução a energia de resistência das almas alemãs, na pro­
porção direta da opressão que as aflige."
A ocupação napoleônica era impiedosamente total e absoluta. Todos
os escalões e setores da vida pública germânica ficaram sob o pulso
de ferro e o olho atilado e alerta do vencedor.
Este só deixou livre de sua vigilância o exercício e o comando da
Educação do povo. Os vencedores que visavam a sufocar qualquer
veleidade de ressurreição do inimigo, deixaram-lhe liberto exata­
mente o pulmão com que a nação vencida reoxigenaria o sangue
da revanche ...
Meio século mais tarde, num de seus volumes sobre a Reforma
do Ensino Primário, Ruy Barbosa observaria: "As reformas educa­
tivas de Frederico III da Prússia ( 1 8 15) continham em si as vitórias
marciais de Guilherme I, da Alemanha, em 1870".
Enquanto isto, neste lado do mun�o, quase que um a um, os numes
tutelares da nação americana - George Washington, Thomas
Jefferson, John Adams, James Madison, James Monroe e Abraham
Lincoln - pressentiram e proclamaram a importância capital da
Educação. Faziam-no, porém, vendo na Educação, ou mais propria­
mente na Instrução, um instrumento de aperfeiçoamento e desen­
volvimento político, já que buscavam ampliar ao máximo uma base
cívico-democrática para manter e consolidar, primeiro a nação que
surgia e, depois, os direitos civis que se pretendia institucionalizar
ou defendet.
Os conceitos de George Washington na sua primeira mensagem
anual ao Congresso ("A instrução, em todos os países, é a base

12
mais estável da felicidade pública"), ou, mais tarde, na sua despe­
dida do poder ("Promovei, como objeto de capital apreço, insti­
tuições para a difusão geral da ciência. Quanto mais força a
estrutura do governo dá à opinião pública, mais essencial é ilus­
trá-la."), são idéia-força repetida décadas mais tarde, igualmente
na primeira mensagem presidencial de Madison (" Fomentar o adian­
tamento da ciência e a vulgarização de conhecimentos - eis o
melhor alimento da verdadeira liberdade").
O mesmo esclarecido estribilho, sob outras formas e palavras, con­
tinuaria ecoando nas proclamações dos outros grandes dirigentes
que se lhes seguiram.
Graças a essa unção com que nascera o país, já em meio do século
passado, em 1 850, existiam Estados americanos, Massachusetts por
exemplo, em que praticamente não havia uma só criança que não
freqüentasse escola.
Quando difundiam a instrução, os fundadores e consolidadores da
nação norte-americana atiravam no que viam - a sobrevivência
de suas instituições políticas - e atingiam em cheio um outro alvo,
o grande alvo do futuro: a capacitação para a prosperidade, a habi­
litação para forjar o bem-estar, a instrumentação do cidadão comum
para a luta pela vida.
Não poderia faltar, no rol dos taumaturgos que se aperceberam
profeticamente da importância capital da Educação, aquele brasi­
leiro visionário que explorou todas as áreas e escaninhos do pen­
samento jurídico e da filosofia política: Ruy Barbosa.
Suas palavras, seus profundos estudos e os planos que elaborou
(Plano Nacional de Instrução Primária, que ocupa quatro tomos;
e o Relatório sobre Ensino Secundário e Superior) são uma prova
de como- sua sensibilidade registrara, como um sismógrafo, aquele
impulso e lampejo de cuja ação dinâmica tanto dependeria a vida
dos povos.
Posto que tenha considerado muito mais os proveitos humanísticos
e políticos da Educação - que ele preferia chamar " Ensino" -
ainda assim Ruy entreviu as outras conseqüências do grande remé­
dio coletivo e coletivizante.
No tomo 1 da Reforma do Ensino Primário e várias Instituições
Complementares da Instrução Pública, Ruy afirma com a clareza
e a segurança de mateiro das rotas humanas: "A nosso ver, a chave
misteriosa das desgraças que nos afligem é esta e só esta: a igno­
rância popular, mãe da servilidade e da miséria. Eis a grande
ameaça contra a existência constitucional e livre da nação; eis o
formidável inimigo, o inimigo intestino, que se asila nas entranhas
do país. Para' o vencer, releva instaurarmos o grande serviço da

13
"defesa nacional contra a ignorância", serviço a cuja frente incumbe
ao Parlamento a missão de colocar-se, impondo intransigentemente
à tibieza dos nossos governos o cumprimento do seu supremo dever
para com a Pátria".
Ruy Barbosa ia muito à frente dos próprios guias da nação norte­
americana pois que, além de, como eles, considerar a Educação
como o magno instrumento de aperfeiçoamento político-espiritual,
o mestre baiano anteviu também sua correspondente e decisiva
significação econômica.

Para chegar finalmente à equação - Educação como solução dos


grandes problemas humanos - o analista contemporâneo benefi­
cia-se de sua colocação como espectador quanto ao tempo percor­
rido, podendo contemplar toda a estratificação da História e registrar,
a cada estágio alcançado, novos e importantíssimos dados para com­
posição do diagnóstico das doenças sociais.
Já de há muito se haviam liquidado nos países decisivos os abusões
e as atrocidades do feudalismo; finalmente o homem banira as
imposições do absolutismo de todos os quadrantes da vida política,
espiritual e religiosa; as massas trabalhadoras organizavam-se livre­
mente e conseguiam transformar seus direitos básicos em leis funda­
mentais indiscutíveis, chegando a haver países em que a legislação
trabalhista se revestiu de uma adiposidade paternalista, que sufoca
a própria liberdade de iniciativa econômica; havia e há nações em
que o sindicalismo se apresenta com a disciplina e o poderio de
um exército, e se sobrepõe em organização e vitalidade aos próprios
partidos políticos.
Derrubadas, mundo afora, as últimas casamatas do reacionarismo,
representadas em sua derradeira dispnéia pelo nazi-fascismo, as
únicas fortalezas de sistemas políticos de força que restaram locali­
zavam-se onde se erigira uma ditadura exatamente em nome do
proletariado.
A liberdade que trouxera as liberdades viera como uma preamar,
carregando de roldão, em sua enxurrada diluviana, todas as obso­
lescências das instituições humanas: códigos, leis, sistemas filosó­
ficos, padrões científicos, maquinarias e mecanismos industriais e
agrícolas, sistemas de produção, de transportes, de trocas e de comu­
nicações.
Não houve recanto ou refúgio de pensamento ou atividades do
homem imune à penetração da nova força invasora, conhecida sob
o nome geral de tecnologia.
Libertadas dos grilhões caducos, as massas ganharam os direitos da
praça pública. Estavam de mentes e braços livres, pensando e deli-

14
berando como quisessem, e também assim trabalhando, escolhendo
o patrão e o emprego.
Mas logo surgiram outros dramas apocalípticos, outras formas, talvez
agravadas, dos males que nas décadas e séculos passados atormen­
taram os povos e países. Da terrível força centrífuga das liberdades
de criar, de aperfeiçoar, de produzir e de vender, que estenderam
literalmente ao infinito as conseqüências da Revolução Industrial,
observou-se que surgia uma nova condição de segregação: a decan­
tação social causada pelo atraso intelectual, com milhões e milhões
de seres caindo sob a dependência da inabilitação e a paralisia -da
incapacitação profissional para participar da arrancada para os
novos tempos.
Centenas de milhões de seres humanos encurralados nos becos sem
saída da ignorância, repetiam e repetem em nosso tempo as con­
dições de submissão e subvida em que viveram os servos e escravos
de todos os séculos e de todas as opressões.
Pelas alturas de 1 950, uma comissão de estudiosos, pedagogos e
peritos econômicos da UNESCO decretava que nenhum indivíduo
teria condições de particip"ar da marcha humana para a prosperi­
dade sem um mínimo de 12 anos de escolaridade. A partir daí,
tornou-se fácil ao analista reunir as outras peças do quebra-cabeças
da História humana, juntando todos os grandes tormentos, doenças
sociais e frustrações coletivas, para então verificar que na compo­
sição e origem de todos estava sempre, com presença até cansativa,
um único e mesmo vírus, o das trevas do espírito.
Ao nosso lado, à nossa frente, em torno de nós, fatos e evidências
contemporâneos também surgiam, por sua vez, tão fortes que pare­
ciam agredir para serem registrados.
Poderia haver, por exemplo, tragédia mais eloqüente, e odisséia
mais humilhante que a daqueles 400.000 desempregados que, em
meados de 1 965, foram registrados pelo censo profissional norte­
americano, vagando sem destino e sem esperanças, pelos centros
principais da grande área industrial de Chicago quando, ali mesmo,
se anunciava a existência, naquele momento, de 600.000 vagas em
funções para as quais eles não tinham habilitação?
Fora ali mesmo, naquela própria região, que já em 1 964 uma
moderníssima usina siderúrgica, superautomatizada, convocara pelos
jornais os 500 operários metalúrgicos de que necessitaria para entrar
em produção. Mas uma exigência predominava sobre todas: era
necessário que tivessem curso secundário completo, inclusive o
segundo grau. (0 País dos coitadinhos, capítulo " Povo burro é
povo pobre", 4.ª ed., Editora Nacional.)
Foram tão intensas e rápidas as reações de pasmo face àquele novo
ângulo do choque tecnológico, que a imprensa regional, intrigada,

1.5
acorreu a ouvir da empresa as razões de ir tão longe nos seus
requisitos. "As operações da usina seriam todas de comando ele­
trônico" , o que evidentemente dispensava completamente a força do
bíceps, mas impunha a capacitação para o entendimento e a inter­
pretação das dezenas de painéis de comando a serem manipulados.
Toda a súmula da História, e a eloqüência dos dados e fatos recen­
tíssimos convergiam sua luminosidade sobre os entrecruzados cami­
nhos humanos, fazendo o analista ver que um roteiro espontâneo,
combinando idéias e ações, teorias e experiências, começava a ma­
pear com segurança o destino dos povos - a nova ideologia sem
partido, sem classes e sem fronteiras: a Educação.

Tal como ao longo dos séculos, na alternância do esplendor e deca­


dência dos povos, transparece agressivamente inscrito nos murais
ainda frescos da História contemporânea que nenhuma nação perma­
necerá líder se, em termos da inundação tecnológica dos nossos dias,
a massa total de seus cidadãos comuns não tiver aquele mínimo de
DOZE ANOS de escolaridade, segundo a preceituação da UNESCO .
Quanto aos integrantes das classes dirigentes, duas imposições sàl­
tam à vista: seu número jamais poderá ficar reduzido aos magros
milheiros de um exíguo cenáculo de eleitos; nem eles ajudarão seu
país a conservar-se nas culminâncias da liderança se mantiverem seu
almoxarifado intelectual próprio, abastecido apenas pela limitada
ração de conhecimentos hauridos ainda, e apenas, dos diplomas
·
finais das velhas faculdades.
Para que sejam capazes de se iluminarem sempre com a luz de
seu tempo, e manterem a pátria sintonizada com o futuro, impõe-se
aos que pretendem as lideranças nacionais uma recarga periódica
de atualização nos cursos de pós-graduação, ou na constância incan­
sável de estudos e leituras incessantes.
O exercício da liderança é, agora, incontentável nas suas exigên­
cias tanto aos indivíduos como aos povos: uma nação não perma­
necerá mais, longamente, nas culminâncias do mundo se o Estado­
maior supremo de sua inteligência não for integrado por um vasto
exército de cidadãos que detenham também aqueles conhecimentos
tecnológicos que agora já se localizam nas áreas além-universidade
nos cursos avançados de pós-graduação.
Talvez seja por inteligentemente pressentirem isto que os barbudos
estudantes de Harvard tenham surpreendido a equipe de pesquisa­
dores sociais, os quais não compreenderam porque é que, man­
tendo-se atrás daquelas barbas - " maquillage" de uma rebeldia
exibicionista e de um ensaiado desinteresse - esses mesmos jovens
realizavam aquela proeza que o pesquisador apressado registrou qua-

16
se sem entender: no auge da insurreição estudantil que, em 1 969,
varria a Europa e os Estados Unidos, 70% dos alunos que termi­
naram todos os cursos, de todas as faculdades. da famosa Universi­
dade, obtiveram aprovação "CUM LAUDE " .
E, mais surpreendente ainda: 75 % de todos os diplomados deci­
diram fazer cursos de pós-graduação
Quando se lamenta e não se compreende o atraso em que viveram
países de tão latas perspectivas como o nosso, quando o desespero
dos patriotas ainda sangra pelo imenso tempo perdido e não con­
segue conceber como se tenha esbanjado inoperantemente tantas
décadas de nossa História, bate-nos na face a constatação de ter
havido obtusidade por parte das lideranças do passado remoto,
como também do ainda recente.
Lamentavelmente, nenhum homem público que ascendeu ao poder
no Brasil desde a Independência levou consigo para Palácio uma
compreensão fundamente arraigada, uma convicção apaixonada, do
que a Educação poderia representar para o país. Em contraposição,
também nenhum houve que, por esse ou aquele absurdo motivo,
chegasse a ponto de declarar-se abertamente contrário à elevação
do nível cultural da população ou à democratização do ensino.
A herança de atraso e analfabetismo que a nação herdou veio, sim,
da indi�erença ou da pouca ou nenhuma sensibilidade, ou até da
pequenez, com que a Educação foi tratada pelos nossos maiores. Este
é, por exemplo, o caso de Pedro II que, após 49 anos de reinado,
deixaria 90% de analfabetos entre os 12 milhões de indivíduos,
que eram a população brasileira da época. Ou o daquele presi­
dente, nos primórdios da República, que enviou sua mensagem­
programa ao Congresso, sem nela fazer constar, nem uma vez, a
palavra Educação, ou Ensino.
Assim, o Brasil não foi mais afortunado nesse setor decisivo mesmo
que não tenha existido em sua História, já à altura da Revolução
Industrial - como ocorreu à França - um homem de maus bofes
como Adolphe Thiers, o grande historiador, que chegou à presi­
dência daquele país, em 187 1 , após a devastadora derrota frente
à Alemanha.
Um dos mais furiosos homens públicos de todos os tempos na vida
francesa, Thiers levou sua paranóia reacionária a um combate fron­
tal - quase inédito em todo o mundo - contra a democratização
da Educação, ou mais propriamente contra o acesso das crianças
pobres às escolas primárias.
Custa a crer, em nossos dias, que um intelectual do seu porte, e
um político tão bem sucedido a ponto de alcançar a curul presi­
dencial, tivesse pensado e exprimido de maneira tão agressiva sua

17
espantosa teoria, sintetizada nestas suas frases, reunidas pela educa­
dora Maria José Garcia Werebe:
"O perigo não está n�ta ou naquela maneira de organizar a instru­
ção obrigatória; está na própria expansão da instrução.
" Digo e mantenho que o ensino primário não deve estar forçosa e
necessariamente ao alcance de todos. Direi mesmo que a instrução,
em minha opinião, é um começo de abastança; e a abastança não
é reservada a todos. " (Maria José Garcia Werebe, Grandezas e
misérias do ensino no Brasil, Editora Difusão Européia do Livro,
1 968.)
Apesar de chocante, o pensamento que Thiers exprimia não era
muito absurdo para a Europa do seu tempo. Pois, por séculos e
séculos, a Educação também para o homem do povo nunca fez
parte dos programas de governo dos países europeus. E isto per­
sistiu até quase o fim do século passado. Mesmo quando se tratava
de equipar intelectualmente aqueles que, por sangue ou nobiliarquia,
poderiam herdar o poder, o máximo que se fazia, mesmo nas nações
predominantes (Inglaterra, França e Alemanha), era uma progra­
mação de ensino humanístico, um jardim de amenidades intelectuais,
através de cujas alamedas desfilavam as inteligências dos delfins e
rebentos das elites.
Quanto aos filhos do povo, o consenso dos dirigentes era de que
cumprissem meramente sua destinação de berço: aprendessem o
ofício dos pais - pois era o que lhes bastaria para cumprirem sua
parte na vida comunal.
Foi então que líderes da nova nação norte-americana, ao sentirem
que precisariam de "eleitores " esclarecidos para firmar definitiva­
mente seu sistema político ainda em provação, partiram para a
solução da escola para todos, e para os filhos de todos.
Talvez porque não acreditasse em nada do que fizessem aqueles
bisonhos governantes sem coroa, nem pedigree, o pa.mciado das
nações européias voltava as costas às suas iniciativas, entregue à
convicção da absoluta superioridade do seu entronizado sistema
político-social.
Enquanto no festim democrático de além-Atlântico tudo vinha à
mesa para desfrute da gente do povo - o direito à escola e à
prosperidade - nas cortes européias, racionava-se tudo que era
servido além das suas estrebarias.
De nada adiantavam as pregações de Comenius - já até longín­
quas, na sua madrugadora antecipação, no século XVII - nem as
de Jean-Jacques Rousseau, ou de Emmanuel Kant. O filho do mar­
ceneiro que aprendesse com o pai como lidar bem com os vernizes.
O barãozinho aprenderia línguas, alguma História e uns tantos
filósofos gregos e poetas romanos.

18
Durante quase todo o último século, a sorte da Educação na França
alternou-se pendularmente entre o reacionarismo agressivo, ou re­
gressivo - do qual o mais atrevido protótipo foi Thiers - e a gran­
de visão corajosa de homens como Jules Ferry, ministro da Instrução
Pública num período de cerca de 4 anos ( 1 879 a 1883) . Ferry e
seus seguidores queriam abrir o ensino a todos os filhos do povo,
às idéias liberais ou, pelo menos independentes do sectarismo cleri­
cal, e que as escolas fossem da responsabilidade do Estado, e por
ele obviamente mantidas e dirigidas.
Por incrível que pareça, segundo relembra o prof. Gildásio Amado
em sua plaquete " Ginásio Orientado para o Trabalho" (Edição da
Diretoria do Ensino Secundário, 1 968, pág. 8), foi " só em 1 925
que, na França, o ensino primário foi igualado para todos" .
Assim como n a França, na Alemanha e e m outras nações européias,
os esforços dos que vislumbraram a importância da Educação po­
pular chocavam-se periodicamente com as forças do obscurantismo,
que se reagrupavam continuamente para, em nome de Deus e do
Estado, forçarem coabitação da escola com a sacristia, transfor­
mando as cátedras, mesmo as de instrução primária, em meros
púlpitos, onde o ensino religioso, e só ele, era aplicado em aulas
consecutivas e diárias. Tratava-se de currículo intensivo, que não
preparava os meninos ou os jovens para esta, mas apenas para " a
outra vida".
Lorenzo Luzuriaga documenta extensamente a instabilidade teórica,
os avanços e os recuos que o ensino sofria na Europa, enquanto
no novo lado do mundo, os educadores americanos, milagrosa­
mente protegidos contra a opressiva intromissão religiosa, montavam
em bases tão extensas quanto sólidas a formidável armadura esco­
lar de que se serviram para catapultar o destino dos Estados Unidos
até as culminâncias da suprema liderança. (Lorenzo Luzuriaga,
História da Educação Pública, capítulo "A Educação pública na­
cional ", na França, Alemanha, Inglaterra, Espanha e Estados Uni­
dos da América, tradução de Luiz Damasco Penna e J. B. Damasco
Penna, Companhia Editora Nacional, 1 959, págs. 57 a 98.)
Luzuriaga também informa que, segundo E. P. Cubberley (A History
of Education), já na primeira metade do século XIX, os americanos,
graças a educadores e homens públicos como Horace Mann, tinham
rumos certos e absolutamente nítidos a respeito da batalha pela
Educação: " 1 ) a manutenção das escolas com fundos públicos;
2) a eliminação da idéia da escola pública como escola de pobres;
3) a gratuidade completa da Educação pública; 4) a eliminação do
sectarismo (religioso) ; 5) a inspeção e controle do Estado; 6) a
extensão do sistema escolar e 7) a criação das Universidades do

19
Estado. " ( Lorenzo Luzuriaga, História da Educação Pública, Com­
panhia Editora Nacional, 1 959, pág. 94.)

Várias teorias procuram explicar o porquê do retardamento bra­


sileiro.
Certas áreas da vida intelectual e política nacional, por escapismo
ou comodismo, ainda insistem em atribuir as condições de atraso
do país às deficiências da colonização portuguesa.
Realmente, não eram nada brilhantes as tradições e realidades da
metrópole e da própria Corte, no campo do saber ou do ensino.
"O analfabetismo dominava não somente as massas populares e a
pequena burguesia, mas se estendia até a alta nobreza e a família
real. Saber ler e escrever era privilégio de poucos, na maioria
confinados à classe sacerdotal e à alta administração pública. "
(Luiz Alves d e Mattos, Primórdios da Educação n o Brasil, Editora
Aurora, 1 958, págs. 37 e 38.)
Outros autopsiadores do nosso empacamento econômico-social ape­
lam para a agressividade ou intransponibilidade dos acidentes geo­
gráficos, a terra virgem opondo cordilheiras ao invasor logo que
este pisava nas praias, dificultando-lhe uma desimpedida caminhada
pelos ínvios sertões, continente a dentro.
Outros afastavam reposteiros fesceninos, mostravam o palco de um
generalizado erotismo bandalho, e justificavam, assim, "a baixa
qualidade do amálgama racial " , vindo quase sempre de ligações
envergonhadas, com parceiros frontalmente disparatados em suas
condições sociais.
Em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre, certamente o maior
analista da nossa formação étnico-social, aponta "os casos de anti­
gos senhores de engenho, capitães-mores, fazendeiros, barões e
viscondes do tempo do Império" que, com menos de 50 anos de
idade, já se haviam enviuvado três ou quatro vezes, de "mulheres"
que desposaram, tendo elas de 12 a 15 anos de idade, morrendo
quase todas de parto. (Casa-Grande & Senzala, 3 .ª ed., Schmidt
Editor, 1 938, pág. 268.)
Outro grande sociólogo patrício aponta como razão maior de nosso
atraso a indisposição do catolicismo - religião nacional - para
com o sistema de lucro. (Vianna Moog, Bandeirantes e pioneiros,
1 955.)
Discutindo esse pudor ou puritanismo atribuído ao catolicismo,
afirma .outro notável analista J. O. de Meira Penna: " Entretanto,
mesmo após atentar para essas ambigüidades de nossa postura, se
verifica que não existem no Brasil tradições religiosas tão rígidas
e poderosas, herdadas da Idade Média, que tenham porventura sido

20
suscetíveis de impedir, estimular ou afetar de qualquer forma o
desenvolvimento tout court".
E mais adiante: "Vários outros imperativos morais, ainda mais
sérios do que a proibição da usura, fazem parte essencial do con­
junto dos ensinamentos da Igreja e, no entanto, pouca influência
exercem sobre o comportamento brasileiro. Basta oferecer o exem­
plo da castidade e da monogamia" . (J. O. de Meira Penna, Psico­
logia do subdesenvolvimento, APEC Editora, 1 972, pág. 1 7 1 .)
E desconcertante que, em todas as provas-do-nove, tiradas sobre o
não e o nada de cuja soma se fizeram os zeros do nosso atraso, não se
tenham encontrado nem paredões de granito fechando os caminhos,
nem sangue pobre enfraquecendo a mistura, nem santos excomun­
gando rico nenhum, nem mesmo os apatacados fedorentos.
O que havia e abundava era, sim, a crassa ignorância, o superlativo
analfabetismo - tão vasto e abundante que, ao abrirmos os por­
tões da República para a massa brasileira, ela, pela dedução da
inutilidade cívica dos 90% de iletrados, já nascia aristocrática. Não
há dúvida de que, em alguns países, a fração mais feudal da bur­
guesia - atribuindo-se caolhamente uma intuição premunitória -
opunha-se, senão tão atrevidamente como Thiers e toda a equino­
cracia francesa, pelo menos astuciosamente à democratização da
instrução. Os fios invisíveis que unem os crentes da mesma seita
devem ter funcionado através dos oceanos, pondo em sintonia, com
os senhores de além-mar, os herdeiros das capitanias hereditárias.
Pois estes, no Brasil, por essa mesma época, opunham resistência e
dificuldades à vinda daqueles plebeus europeus que, sabedores de
tantas artes e ofícios, já começavam a emigrar em massa rumo ao
novo mundo da América, assim que o navio a vapor consolidou a
segurança e rapidez da viagem.
Isto explica porque, enquanto a América setentrional, nascida
plebéia e republicana, acolhia em 40 anos do século XIX quase 40
milhões de ansiosos imigrantes, o Brasil imperial e hereditário só
admitiu, lenta e parceladamente, 2 milhões desses parvenus - pois,
suas habilitações diabólicas poderiam esconder astuciosa ameaça à
hegemonia das famílias que aqui reinavam em condomínio, e cuja
paz era tão facilitada pela ignorância dos seus 90% de analfabetos.
Mas se alguém achar que os chefes das Repúblicas Velha e Nova -
sem brasões monárquicos, porém com pruridos de casta política,
trataram melhor a Educação do que os Orléans e Bragança, basta
atentar para este quadro levantado pelo maior dos educadores
brasileiros, que foi Anísi � Teixeira:
"Tínhamos, em 1 900, 9.750.000 habitantes de mais de 15 anos,
dos quais 3.380.000 eram alfabetizados e 6.370.000 analfabetos.
Em 1 950, 1 4.900.000 eram alfabetizados e 1 5.390.000, analfabe-

21
tos. Diminuímos a percentagem de analfabetos de 65 % para 5 1 %
em cinqüenta anos, mas em números absolutos passamos a ter bem
mais do dobro de analfabetos ". (Anísio Teixeira, Educação não é
privilégio, Liv. José Olympio Editora, 1 957, págs. 28 e 29.)
" E quanto ao ensino superior, em 1 929, às vésperas da Revolução
de 1 930, tínhamos apenas 1 3 .239 alunos e 2 . 1 1 6 professores. "
(Anísio Teixeira, Educação não é privilégio, Liv. José Olympio Edi­
tora, 1 957, pág. 43.)
Depois da omissão grave de Pedro 1 1 - pela amena atribuição
que seu aristocratismo emprestava à Educação - sucedeu-se uma
morna monotonia de pronunciamentos ou atenções meramente elei­
torais ou burocráticos, ao longo de mais de meio século de Repú­
blica, e de presidentes.
Infelizmente, viria a caber ao Parlamento brasileiro uma atitude
pouco feliz quanto aos problemas da Educação quando, já em
nossos dias, admitiu que, através de todo tipo de manobras dila­
tórias, se prolongasse por doze anos a discussão e votação da Lei
de Diretrizes e Bases, que então visava a ser o instrumento legal
chave, do qual tudo dependeria, para acelerar, coordenar e orientar
daí por diante os esforços de toda a máquina da Educação no país.
Não há divergência filosófica ou tecnicismo que justifique a insen­
sibilidade de tão dilatada obstrução.
E o mais chocante é que esse pertinaz bloqueio da aprovação da
Lei proveio dos "recursos regimentais" habilmente explorados por
um congressista, ele próprio ex-ministro da Educação. "Com uma
acrobacia depois da outra - como relator do projeto, como líder
da maioria ou simples combatente de plenário - o antigo ministro
conseguiu que o projeto e todos os seus substitutivos fossem engave­
tados. " "O ex-ministro vencera a batalha: os doze anos de trami­
tação haviam deixado seu estigma nas novas diretrizes e bases, que
saíam do Congresso prematuramente envelhecidas e destinadas a
uma implantação apenas formal . " (" Desde 1934, no trapézio da
Educação no Brasil", Revista Veja, 30/6/ 1 97 1 , pág. 53.)
Tão pior quanto isto foi, porém, um parágrafo (único, letra a)
introduzido no artigo (30) que estabelece não uma punição, mas
uma restrição ao pai ou responsável relapso ou desleixado que deixar
de matricular seus filhos, em áreas em que houver escolas.
Diz o artigo, e diz o parágrafo: "Art. 30 - Não poderá exercer
função pública, nem ocupar emprego em sociedade de economia
mista ou empresa concessionária de serviço público, o pai de famí­
lia ou responsável por criança em idade escolar sem fazer prova de
matrícula desta em estabelecimento de ensino, ou de que está sendo
ministrada educação no lar.

22
"Parágrafo único. Constituem casos de isenção, além de outros pre­
vistos em lei:
a) comprovado estado de pobreza do pai ou responsável;
b) insuficiência de escolas;
c) matrícula encerrada;
d) doença ou anomalia, grave, da criança. n

Ao tentar o agrado paternalista para poupar o pai relapso, os con­


gressistas apoiaram, ou aceitaram, um verdadeiro infanticídio espi­
ritual que os pais analfabetos poderão, se o quiserem, continuar
repetindo através dos tempos.
Ou será que os congressistas achavam, ou acham, que a "obrigato­
riedade do ensino primário" é uma imposição constitucional que
visa apenas a forçar os ricos e os remediados a enviarem seus filhos
para a escola - pois, de outro modo, ficam sem o seu emprego
público?
e inconcebível até onde pode chegar a preocupação de ceder à
menor dificuldade e conceder aos borbotões, as facilidades, seja
contra quem for. - ainda mesmo que as conseqüências atinjam
para o resto da vida os filhos inocentes, e ignorantes, do pai analfa­
beto e desleixado.
Será que para salvar uma, ou duas ou dez crianças, do destino
certo da miséria, a nação não poderia ter a opção legal de ser
um pouco mais dura com o pai, forçando-o a buscar a escola pública
para seus descendentes, se quisesse ter o emprego público?
Trezentos deputados votaram a lei, assim como está, com isso encra­
vado nela; e depois de doze anos de meditações . . .
A propósito desse ato de liberalismo do Congresso, a educadora
Maria J9sé Garcia Werebe depois de considerar " um caso o mais
absurdo, a isenção por pobreza cita um lapidar comentário do
n,

prof. Almeida Prado: " ( . . . ) como pode ocorrer ao Brasil dispensar


da obrigação escolar a criança pobre? Teríamos primeiro que
emendar a Constituição e dizer: a Educação é direito de todos,
com exceção dos pobres. " (Maria José Garcia Werebe, Grandezas
e misérias do ensino no Brasil, Difusão Européia do Livro, 1 968,
pág. 236.)
Aliás, não seria para admirar-se muito que um recente Parlamento
Nacional assim tivesse agido, já que vem de longa data sua indife­
rença ou incompatibilidade para com a Educação, assunto muito
árido, sem grandes lances para tiradas políticas.
e pelo menos o que, com melancolia, nos lembra um estudioso dos
problemas educacionais brasileiros, o prof. Paulo A. Lencastre, ao
mostrar, em estudo recentemente publicado que, de uma ponta a
outra de um século, as Constituições Brasileiras, a de 1 824 e a de

23
1 934, faziam " referência ligeira à Educação, quase uma om1ssao,
sendo dedicado ao problema apenas um, ou dois artigos " . (Paulo
A. Lencastre, " Mal recebido o Plano Nacional de Educação ", Folha
de São Paulo, 25/6/ 1 967, pág. 1 7.)
Por sua vez, a l .ª Constituição da República, a de 1 89 1 , em seu
artigo 35, e só nesse artigo, deixava ao sabor das inacabáveis
excogitações do Congresso a responsabilidade de "animar no país
o desenvolvimento das letras, artes e ciências; criar as instituições
de ensino e prover a instrução secundária no Distrito Federal " .
Deve ter sido num malicioso momento d e humor que o constitucio­
.nalista quis atribuir ao Congresso que, em sucessivas legislaturas,
deixasse de lado a sua função mais acariciada - os debates polí­
tico-partidários - para cuidar das coisas áridas da Educação. Por
que não se impuseram tais funções diretamente, imperativamente, aos
executivos federais e estaduais?
A própria Constituição de 1937 (do chamado "Estado Novo"),
elaborada quase integralmente por um ex-ministro da Educação,
era muito lacônica sobre o assunto (" Compete à União traçar as
diretrizes da Educação Nacional " , Artigo 5.º) .
Mesmo, porém, quando outras constituições foram mais explícitas,
eram muito tímidas e, redigidas sem a convicção das idéias impe­
rativas, deixavam afrouxar-se, de antemão, as ações governamentais
que se deveriam seguir.
Em nossas diferentes Constituições, passou-se, às vezes, tão por alto
quanto aos problemas da Educação, que parecia existir um con­
senso entre os legisladores, e os executivos, de que se poderia deixar
à infância e à juventude a opção e a ação de buscarem equipar-se
para a vida, por conta própria . . .
Essa deve ser a herança que ainda preside o espírito daqueles
governadores de Estados brasileiros mencionados em relato publi­
cado em junho de 1972, e no qual se descreviam as dificuldades
encontradas para implantação da reforma do ensino de 1 .º e 2.º
graus, determinada pela lei n.º 5.692. (Rosangela Bittar, " Erros e
incompetência impedem a Reforma" , Estado de São Paulo,
1 8/6/ 1 972, pág. 37.)
Segundo esse relatório, vários secretários de Educação dos Estados
chegaram a pedir ao Ministério da Educação e Cultura que não mais
os convocasse para reuniões ou cursos, mas que "chamasse os gover­
nadores, pois quando eles, secretários, chegavam aos Estados, com
as novas idéias e projetos a serem executados, o dirigente estadual
não acreditava em nada daquilo" .

24
"90% dos cientistas que o mundo já teve estão vivos" , lembrava
em 1 970 o sociólogo norte-americano Alvin Toffler, ao publicar
seu livro Future Shock (0 choque do futuro, Editora Artenova,
1973, pág. 19) .
Isto pode, até certo ponto, justificar as condições hoje consideradas
de relativa lerdeza, com que o mundo veio progredindo até o fim
da II Grande Guerra.
Mas não exime totalmente as lideranças recentes, de nossos países
em desenvolvimento, do pecado de não terem pressentido o signifi­
cado absoluto da Educação como instrumento e fermento indispen­
sáveis à prosperidade do indivíduo e da nação.
A epopéia de, em quinze anos (de 1 946 a 1960), avançar mais
pelos caminhos da ciência que nos quinze séculos anteriores, con­
sagra o homem hodierno e absolve, de algumas culpas, apenas
aqueles que no passado muito remoto traziam nas mãos o cajado
dos.guias, mas ainda avançavam sem a certeza do roteiro.
Ante a explosão de conhecimentos que testemunhamos em nossos
dias, admite-se que seria impossível, na meia-luz em que vivia o
mundo pretéritô, que as classes dominantes de cada nação ante­
vissem que as conquistas realizadas através da escola no campo do
saber seriam definitivas, perenes, e ofereceriam um poder multi­
plicador jamais igualado pelo mais farto botim de guerra.
O clarão acendido nos céus da imaginação humana pelos novos
recursos da ciência e da técnica faz pairar sobre o mundo de hoje
uma luminosidade de tal modo intensa e orientadora, que deixa
parecer como tendo sido passada toda através da semi-obscuridade
de um túnel a vida do homem nos cinqüenta séculos anteriores.
Agora, portanto, há luz demais para que os homens responsáveis
pelos destinos de qualquer país, em qualquer latitude do mundo,
não entendam, não ajam, não orientem o MÁXIMO esforço nacional
na direção do Norte absoluto da vida dos povos, isto é, da Edu­
cação. B para esse ponto cardeal que deve estar voltada a bússola
de todos os governos da Terra - os governos maiores e os meno­
res, os dos países que são continentes geográficos ou dos que são
oceanos humanos; os governos das províncias e dos Estados; e
o das municipalidades e distritos os mais remotos, ou isolados.
A ação pela Educação não é, assim, uma batalha a ser travada em
regiões ou áreas selecionadas ou sofisticadas, nem espetáculo que
se comporte apenas nos palcos maiores das metrópoles ou mega­
lópolis.
B lamentável ser necessário fazer-se uma tal afirmação, quase aca­
ciana. A tanto nos força, porém, a verificação de que a Educação
proporcionada nas zonas rurais de países como o nosso ainda é feita

25
em condições tão precárias, e tão ridículas, que revelam ou mes­
quinhez ou obtusidade.
Mesquinhéz, pela avara parcimônia dos recursos materiais e huma­
nos aí aplicados, fazendo, às vezes, reunir-se nesse setor do ensino
uma coleção de tragédias e comédias, como aquele caso, recente­
mente citado por um ministro da Educação, da professora da ilha
de Marajó que, ao ouvir de um inspetor escolar observações recri­
minativas sobre tudo que ali encontrara, retrucou sem nenhuma
emoção:
- Não tem importância, senhor inspetor, porque eu também não
sei ler, não.
Ou aquela desdita das professoras rurais de certos municípios
piauienses que, no ano de 1 965, segundo levantamento feito na
região, ainda ganhavam dois cruzeiros por mês, quando o salário
mínimo regional já era quase vinte vezes maior. Ou o faquirismo
das professoras de um grande Estado Central, que ficou famoso pelo
atraso crônico, de seis, oito, ou até doze meses com que o erário
público lhes pagava o salário. Ou, ainda no mesmo dramático
Piauí, a documentação emocionante, obtida por um estudioso, que
fotografou grupos de crianças carregando na cabeça as cadeiras que
diariamente levavam e traziam, de casa para a escola, a fim de aí
terem onde sentar durante as aulas.
Fatos como esses chegam a tomar insuportável essa incompreensão
que impede perceber que é exatamente nas áreas menos desen­
volvidas onde mais se necessita cuidar e equipar o homem nativo,
quase sempre um semináufrago, agora paradoxalmente impelido
cada · vez mais para a ruína quanto mais o progress.o se aproxima
do seu tugúrio individual, ou da tapera coletiva onde vegeta.
Por outro lado, é impressionante constatar-se que tantos bondosos
corações citadinos, de todas as paróquias do pensamento, clamem
através de sincronizados slogans contra " as condições sociais rei­
nantes no campo ", em todos os países subdesenvolvidos, mas jamais
se lembrem de gritar, com igual persistência e veemência, contra a
nudez esquelética, ou a existência até hipotética, do aparelhamento
escolar posto a serviço dos descendentes daqueles que se votaram
à solitude dos ermos agrícolas ou das áreas rurais.
No caso do Brasil, por exemplo, onde as solidões começam a poucas
léguas das suas capitais, o heroísmo do professorado rural ainda é
pago a vintém, na moeda da ingratidão, da discriminação salarial,
da desassistência, do desestímulo, senão do próprio desprezo, ou
do mais cínico retardamento de pagamentos.
Exatamente à professora rural, que não tem nada, é que falta tudo.
Falta o olho dos governos, falta sua compreensão, falta sua mão
ajudadora.

26
Pelas alturas de 1962, um sociólogo norte-americano, Jerome B.
Wiesner, exprimia de forma dúbia a correlação entre Educação e
sistema econômico: "Um bom sistema educacional pode ser a flor
do desenvolvimento econômico, mas é também sua semente". (Edu­
cação, mão-de-obra e crescimento econômico, Frederick Harbison e
Charles A. Myers.)
Uma década depois, um dinâmico ministro da Educação do Brasil,
fervoroso e ansioso homem público, foi, porém, mais drástico, ao
pronunciar uma conferência, que era a "Aula de Sapiência" da
abertura dos cursos do Instituto Militar de Engenharia, no Rio de
Janeiro. Num assomo de desespero funcional e patriótico, clamou
essa autoridade:
- O subdesenvolvimento é o responsável direto pela taxa brutal
de analfabetos, pela mortalidade infantil e por todos os males do
Brasil.
Com a mesma ênfase e o mesmo ardor, aqui estamos para, com a
intenção de evitar que esse grave equívoco sobreviva e se propale,
dizer - e provar - que é exatamente , o contrário.
Esse arroubo ministerial, sincero mas perigosamente distorcido,
assemelha-se ao de um piloto zeloso e aflito que praguejasse contra
o mar porque o seu navio, de máquinas apagadas, não consegue
navegar . . .
Essa angulação, sob a qual a fala pública de um ministro de Edu­
cação coloca o problema, tem uma importância capital - pela
gravidade de seu erro de julgamento.
Aliás, ela é a mesma esquina filosófica em que se acolhem e se
solidarizam tantos homens da vida cívica de nossos países, quer
sejam simples políticos, ou intelectuais. Atarantados no redemoinho
de nossos grandes e médios problemas, eles gira-giram numa expli­
cação ao mesmo tempo ingênua, acaciana e burlesca: o subdesen­
volvimento é a causa de todos os nossos males, isto é, do nosso
atraso.
Se é o subdesenvolvimento que causa tudo aquilo, o que é que, por
sua vez, causa o subdesenvolvimento?
Vem então, invariavelmente, o desfile de todos os bodes-expiató­
rios, aboiados ao longo da História, pelos patriotas puros, como
os Inconfidentes de Vila Rica de Ouro Preto, ou pelos "naciona­
listas", dos nossos dias.
Budicamente sentados no banco dos réus, alinham-se cronologica­
mente, cansativos e inamovíveis, os "causadores" da miséria ou da
extrema pobreza do mundo subdesenvolvido: os colonialistas euro­
peus de um modo geral, no século passado, e na primeira metade
deste século; e, recentemente, esse vasto acepipe eleitoral-intelectual,
que é o imperialismo norte-americano.

27
Como prova de que é importante e urgente alertar os povos e suas
elites contra esse errôneo enfoque no modo de discernir ou corrigir
as causas da pobreza, podemos apontar o caso da própria sra. Indira
Gandhi, primeiro-ministro da 1ndia, país cujos dantescos problemas
humanos atraem e comovem a solidariedade do mundo.
Na mensagem básica que enviou para o Congresso em março de
197 1 , contendo seu novo programa de governo, após estrondosa
vitória política, a sra. Gandhi alinhava as seguintes medidas de
sua "guerra contra a miséria e a injustiça social no país " , meta
suprema, afirmava, de seu governo: " Aplicar limites à propriedade
urbana; ampliar a eletrificação rural e os sistemas de irrigação;
elevar a produção agrícola e industrial; iniciar programas imediatos
para reduzir o desemprego; designar áreas de produção para os
trabalhadores sem terra e tentar reduzir de novo as rendas particu­
lares e privilégios de que gozam os 278 marajás da 1ndia."
Nenhuma vez, foi mencionada nesse enfático "plano de combate"
qualquer iniciativa de ordem educacional realmente ambiciosa,
visando a atender os problemas daquele mar humano onde se
debatem mais de 400 milhões de analfabetos, em uma população
de 580 milhões.
Parece que, mesmo com toda a acuidade de que é dotada, e que
a fez elevar-se a tão alta e penosa missão, a sra. Gandhi prefere
supor que o que falta às centenas de milhões de miseráveis e
analfabetos de seu país não é o que eles não têm no cérebro, mas
o que ainda pudesse estar entesourado nas burras dos 278 marajás.
� tanto mais estranhável esse silêncio do ·�programa de ação" de
Indira Gandhi para com o tema Educação quando sabemos que,
segundo o educador indiano, Kasturi Rangan, em um estudo ("Um
sistema (educacional) nacional", Suplemento Anual de Educação
do New York Times, de janeiro de 1 965), apesar dos 60 milhões
de alunos que o organismo de ensino hindu já comportava, isto
representava, no entanto, " apenas 40% da população em idade esco­
lar " . Isto é, 90 milhões de outras crianças e jovens da 1ndia estavam
também proscritos para sofrerem todas as conseqüências da sentença
da ignorância.
Em seu estudo, Rangan registrava, até certo ponto promissoramen­
te, que "as escolas primárias já dispõem de vagas para 76% das
crianças de sua faixa; as escolas secundárias do primeiro ciclo,
entretanto, podem acomodar somente 22 % da juventude, e as do
2.º ciclo ainda menos".
Como se trata dos destinos finais de todo um povo, esse diagnóstico
correto, dos males maiores de uma nação, reveste-se da máxima
importância. Pois, as premissas erradas, ou as distorções, têm per­
mitido por toda parte uma desesperante perpetuação das tristes

28
condições e, freqüentemente, o florescimento da demagogia e suas
falsas promessas.

As pessoas desinformadas que supõem que as consequencias do


analfabetismo se limitam apenas à inaptidão para ler, deveriam
meditar no desdobramento de males que se desenrolam dos trapos
da ignorância. O atraso intelectual não é seu filho único. Ele tem
suas irmãs siamesas que se lhe agregam inseparavelmente: a fome
e a subfome.
Na década de 1 940, as autoridades militares brasileiras tinham
ficado chocadas com o número de jovens convocados para o Exér­
cito, e que tiveram de ser rejeitados, porque seu estado físico, ou
mental, era um reflexo vivo de doenças e carências oriundas da
ignorância.
O quadro que veremos a seguir, referente ao ano de 1 947, é pra­
ticamente uma repetição da situação que já fora encontrada em
1942, por ocasião da convocação de conscritos para formação da
Força Expedicionária Brasileira, que iria bater-se contra os nazi­
fascistas .
Esse diagrama foi apresentado por um médico militar, o dr. Walter
Silva, presidente . da Campanha Nacional de Alimentação, num
longo e fundamentado estudo, " Diagnóstico da situação alimentar
no Brasil ", publicado na Revista Produtos e nutrição (ano IV, mar­
ço/abril de 1 970). Ele detalha a distribuição (por diagnóstico mé­
dico) de um grupo de 1 1 . 1 77 convocados, examinados em 1 947,
para o. serviço militar no Exército (ver gráfico na página seguinte) .
Parece fugir da realidade, ou ser capricho de imaginação doentia:
daquele grupo de 1 1 . 1 77 jovens nascidos na própria " terra de
Canaã" , apenas 77 foram considerados aptos para o serviço mili­
tar, no ano da graça de 1 947 ! Os outros, em sua maioria absoluta,
sofriam de doenças ou deficiências oriundas de desnutrição.
Quase 20 anos depois ( 1 966) , o general Costa e Silva, então na
qualidade de ministro do Exército e candidato à presidência da
República, ainda constatava: " O comandante da Região Militar
(II, São Paulo) informa que o contingente de proscritos do serviço
militar, por incapacidade física, representa mais de 60% do total
de convocados. " (" General fala com estudantes ", Jornal da Tarde,
de São Paulo, 1 4/6/ 1 966, pág. 1 3 .)
Nesta avalancha de indivíduos civicamente estropiados, aparece,
num ângulo até desumano, em todos os seus reflexos, a multiface
da mesma tragédia coletiva, a que a ignorância em massa pode
levar um povo inteiro. Pois é, sem dúvida, da subnutrição mental
que vêm todas as outras. A avitaminose da deseducação é que

29
Inspe­
Diagnóstico Aptos Incapazes cionados
GRUPO III
- Perturbações do desenvolvimento
geral; distrofias; perturbações
das trocas nutritivas; doenças de
carências
- Desenvolvimento físico insuficiente
a) Desnutrição . . . . . . . . . . . . . . 29 5.083 5.1 12
b) Estatura insuficiente . . . . . . . . 1 .382 1 .382
- Fraqueza orgânica de causa inde-
terminada . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 3.504 3.538
- Perturbações orgânicas suspeitas . 1 .062 1 .062
- Doença de Thonsen . . . . . . . . . . 2 2
- Paralisia Pseudo-Hipertrófica . . . 2 2
- Afecções distróficas dos ossos . . 15 15
- Reumatismo crônico . . . . . . . . . . 22 22
- Diabetes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 3
- Obesidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 6
- Doen?�s da nutrição . . . . . . . . . 13 13
- Raqu1ttsmo . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 19
- Doenças de carência (outras) . . . 1
SOMA DO GRUPO III . . . . . . . . . 77 1 1 . 1 00 1 1 . 1 77

causa a paralisia ou a atrofia das nações, as suas elefantíases sociais,


o violento contraste entre a estupidez exibicionista de suas classes
ricas e a insensibilidade imediatista de suas classes pobres.
O que está por trás, por baixo e acima desse gráfico - que é tão
brasileiro quanto hindu, quanto paquistânico, ou boliviano, ou tur­
co, ou haitiano, ou chinês - é a prova mais atroz daquilo que o
desalmoço da Educação pode causar a um povo, em qualquer lati­
tude do mundo.
Os ossos desnudados, e as vísceras de nossas misérias, que se mos­
tram nos algarismos e nas colunas desse gráfico, acusam inapelavel­
mente de inépcia, ou de insensibilidade, os governantes que, sob
mil pretextos, ou por rnero sibaritismo ou escapismo, postergam
ou relegam a prioridade nacional absoluta que tem de ser dada à
Educação dos filhos do povo.
Foi a fome intelectual, foi a descomida da mente sentenciada à
inanição, que criou o cemitério cívico daqueles 1 1 . 1 00 jovens bra­
sileiros, invalidados para a Pátria quase antes de começarem a
batalha da própria vida.
Não há demagogia que consiga escamotear a teratologia desses

30
algarismos para repô-la como máscara diversionista, num monstro
social qualquer, ou num qualquer bode-expiatório, sejam as "estru­
turas" internas ou sejam as " forças ocultas" estrangeiras.
O que existe mesmo, na origem disto, é a incapacidade de gover­
nos e das lideranças em distinguir entre causa profunda e eterna,
e efeitos e circunstâncias removíveis.
Este é o· grande equívoco de todos os tempos e, vemo-lo melanco­
licamente mundo afora, ainda também de nosso tempo.
Líamos há pouco, por exemplo, estudo de uma professora-especia­
lista da Universidade de Nova York, a sra. Persia Campbell, inti­
tulado " Recursos humanos para o Progresso", no qual a autora,
falando sobre os sofrimentos dos povos subdesenvolvidos, afirmava:
" Essa população se tomou cada vez mais frustrada, em face da
incapacidade de os governos elevarem o padrão geral de vida a
um nível significativo."
Eis uma afirmativa de involuntário pilatismo. Pois, essa " incapa­
cidade dos governos" só pode existir como causa da miséria se a
relacionarmos diretamente com aquilo que os dirigentes políticos
deixarem de fazer em favor do equipamento intelectual-profissional,
da Educação, enfim, de seu povo e não da falta, como está insi­
nuado, de medidas de amparo e paternalismo.
Pois não cansaremos de repetir: não é das mãos dos governos tan­
tas vezes sobrecarregadas, ou incapacitadas, que deve depender a
melhoria de vida de cada um dos indivíduos, senão no que lhes
cabe fazer para educá-lo. O bem-estar material do cidadão depende
infinitamente mais do que ele for capaz de produzir, do que daqui­
lo, muito pouco, de ajuda e assistência, que o governo puder asse­
gurar a cada um, em qualquer país da Terra.
Veja-se, por exemplo, o quadro de penúria que há nos bolsões de
pobreza dos Estados Unidos, mesmo com todo o programa de aju­
da e assistência aos desempregados, todos eles analfabetos, serrii­
analfabetos ou, em termos mais contemporâneos, analfabetos-tec­
nológicos.
Como essa ajuda é em sua quase totalidade financeira ou pura­
mente assistencial - e não educacional ou de reeducação - o
número de necessitados aumenta quase aceleradamente, quanto
mais suas restritas habilitações se afogam sob o mar das inovações
tecnológicas, imergindo-os no desemprego e naquela meia miséria
financiada.
Há 35 anos, no governo de Franklin o. Roosevelt, fora dado início
a essa ajuda para atender uma " emergência nacional" , ainda con­
seqüente da catástrofe financeira do crack da Bolsa de Nova York,
em 1929. Desde então, o número dos que recebem o " seguro-de-

31
semprego" aumenta sem cessar, embora o país se tenha recuperado
totalmente e penetraclo numa era de fantástica prosperidade.
Observadores afirmam que grande parte dessas despesas é absorvi­
da por uma combinação de tolerância eleitoreira e vadiagem.
Mesmo que assim seja, o caldo em que se alimentam continua sen­
do a ignorância ou a incapacidade dos ajudados em se ajudarem a
si próprios, nessa guerra-relâmpago com que o progresso técnico
vai banindo da vida ativa os que não lhe conhecem os segredos,
ou não podem participar de seus milagres.
No estudo " Pobreza: um pesadelo norte-americano ", o Boletim
Banas (8/3/ 1 97 1 , pág. 25) combina observações do livro de Mi­
chael Harrigton (The Other America, 1962) e dados atualizados da
vida dos EUA, e informa que as cifras mantenedoras do seguro-so­
cial ( 14,2 bilhões de dólares) e o número cada vez maior de ne­
cessitados ( 1 3,5 milhões em 1 97 1 ) já inquietavam assustadoramen­
te os dirigentes do país.
Se isto acontece com um país da potencialidade dos EUA, com
"apenas " 13 ,5 milhões de "assistidos" (junho de 1 97 1 ), que se­
ria de outras naçõe,:; como a fndia, o Paquistão, o Brasil ou a Indo­
nésia, se tivessem de criar programas semelhantes?
Não é possível a governo nenhum, de nenhuma índia de quatro­
centos milhões de analfabetos, optar pela suntuosa solução de ama­
secar os problemas individuais e tribais, de cada um daqueles seus
quatrocentos milhões de seres incapazes para tudo.
A própria maneira superficial - pois seria injusto dizer leviana -
com que o assunto Educação foi tratado sucessivamente pelos ela­
boradores de nossas Leis Básicas desde há 1 50 anos, mostra a im­
precisão ou a desimportância com que as classes dirigentes deste
país - como as de tantos outros - entreviam, ou mesmo nem
viam, esse problema decisivo, dentro do contexto dos objetivos na­
cionais.
E hoje, porque muitos, de boa-fé, ainda apresentem o subdesen­
volvimento como causa e não conseqüência, origina-se um dos
mais perniciosos mal-entendidos no diagnóstico dos males de que
sofrem as nações retardatárias. Dizer que do subdesenvolvimento
partem as coisas que geram o subdesenvolvimento, seria o mesmo
que admitir de modo absoluto que a pobreza é que gera a pobreza -
conceito que, se verdadeiro, nos colocaria num mundo irremedia­
velmente sem esperanças.
E preciso que se canalize e se dê destino seguro às águas cansadas
desse redemoinho de causas e culpas. E preciso que se desfaça o
dédalo desse suposto enigma. Essa esfinge não existe; o que há é
a confusão mental dos que se embaraçam nas encruzilhadas do

32
pensamento, ou se perdem, atarantados, nas areias movediças da
indefinição ideológica, ou filosófica.
A pobreza não é doença de nascença. Nem aleijão inconsertável.
Ninguém é pobre porque nasceu pobre. Ninguém é pobre por causa
da moldura social circundante, mas sim porque jaz em estado de
despreparo ou de incapacidade para participar efetivamente das
oportunidades econômicas do meio em que vive.
Neste mundo já cibernético-tecnológico, aproximam-se cada vez mais
velozmente as condições econômico-sociais que trazem a sentença
inapelável de eliminação definitiva do analfabeto e do semi-anal­
fabeto, até mesmo das mais primárias tarefas do processo de pro­
dução. Eles não terão lugar nem nas fábricas superautomatizadas
da cidade, nem no campo supermecanizado e racionalmente culti­
vado.
Os românticos que desde a Revolução Francesa sacodem no ar a
parafernália das " injustiças sociais " causam o aturdimento político
que leva ministros e não-ministros, professores e alunos, sacerdotes
e leigos, a engrossarem uma legião da boa vontade que, isenta da
hidrofobia partidária, geme sua generosa cantilena a respeito dos
"egoísmos" que causariam os desajustes, as desigualdades e as ini­
qüidades deste já tão encharcado vale de lágrimas.
Apontar o subdesenvolvimento como a matriz de "todos os nossos
males" é extraviar as nossas esperanças com a demarcação errônea
da origem dos descaminhos humanos . A causa do sofrimento das
massas dos países subdesenvolvidos não brota do meio ambiente,
como se fora um miasma mefítico que desde o começo do mundo
fizesse, de milhões de pobres, milhões de contaminados da doença
maldita - a miséria.
Os herdeiros de Espártaco não vieram pelos séculos afora sendo
espoliados de bens - que não existiam. O que se lhes tirou, o que
se lhes tira, o que se lhes furta é aquilo que agora se lhes deixar
de ensinar. Cada indivíduo mantido fora das escolas é um ser hu­
mano para sempre roÜbado em suas possibilidades, espoliado em
seu futuro, assaltado em seu patrimônio, violentado em seu direito
ao bem-estar e à dignidade.
Atribuir ao subdesenvolvimento a origem " do analfabetismo, da
mortalidade infantil e de todos os males do Brasil" ou de países
como o nosso, é querer, ainda uma vez, erguer uma pirâmide de
raciocínio, assentando-a sobre uma das pontas e não sobre a base.
Os males, "todos os males" nacionais, não nascem do subdesenvol­
vimento. Ele, sim, com o seu cortejo de tragédias e de frustrações
individuais é que nasce de um mal só: da falta de Educação; nasce
da falta do equipamento intelectual que permitiria a milhões de
indivíduos, a milhões de cidadãos de um país, participar adequa-

33
damente das oportunidades e desafios do seu meio e do seu tempo,
e assim viver em condições de dignidade.
Talvez resida aí, nesse tipo de " compreensãon dos problemas so­
ciais, a perturbadora nebulosa que leva tantos idealistas para as
margens tempestuosas e desesperadas do extremismo.
• Como foi colocado na moldura da fala ministerial, o subdesenvol­
vimento passa de conseqüência a agente, de resultado a fator - o
que tomaria muito mais confusa a matemática social, principal­
mente para a percepção dos jovens, ou de todos os recém-chegados
às preocupações da vida pública.
O julgamento implacável que a juventude faz das desigualdades,
dos desequilíbrios, dos desencontros e das injustiças deste mundo
vem exatamente de lhe oferecerem conceitos como esse que, com
sua perigosamente errônea troca de causas com efeitos, não se con­
trapõe, mas até reforça as distorções dos sofistas ideológicos.
� preciso que os moços saibam, para tranqüilidade de seu coração,
que a pobreza, a miséria e tudo que os comove e provoca sua
fúria sagrada, não se origina de uma egoística e incurável ambição
das "classes dominantes ".
Elas têm, sim, a culpa da incapacidade, da insensibilidade, e até
da obtusidade em não terem compreendido há mais décadas, ou há
séculos, ou há milênios, que a fome e a miséria são uma insepará­
vel, uma indesgarrável conseqüência da ignorância.

Todas aquelas materializações e bem-estar que exprimam um esta­


do de satisfação individual e de felicidade coletiva, admitidas pelos
idealistas como só possíveis no reino da Utopia, podem ser concre­
tizados com os requintes da prosperidade, pelas forças criadoras
com que a Educação dota e equipa os indivíduos e os povos.
Pois cada cidadão educado é um ser em condições de liberar-se de
todas as formas de dependência, de necessidades, de assistência, ou
de cuidados, seja de quem for.
Eduque-se, prepare-se um homem para a luta pela vida. E ele irá
soberanamente buscar tudo por si: idéias, meios, instrumentos, pla­
nos - e os porá em ação.
Um homem equipado, capacitado para exercer sua função no mun­
do moderno, no mundo da tecnologia, da pesquisa, do racionalismo
e da renovação permanente, é um criador capaz de transformar o
nada em alguma coisa, o tempo em riqueza, a argila em ouro, o ar
em sólido, o lixo em alimento, o oceano em lavoura, o deserto em
pastagens. E é provável que, no dia em que faltar espaço na terra,
esse homem equipado irá espargir lavouras, certamente, sobre o mar
e, provavelmente, pelo céu.

34
Dotado da necessaria instrumentação para viver em nossos dias,
esse cidadão não precisa ser objeto de parágrafos nem alíneas nas
leis protetoras estabelecidas pelo Estado. Sob nenhuma forma, o
Estado tem que enrodilhar-se em cuidados que o ajudem ou ampa­
rem. Pelo contrário, é de sua capacidade criadora, de sua habilita­
ção realizadora, de sua produtividade, que o Estado vive. B nela
que o Estado se abastece, pelo dinheiro dos impostos ou pela mul­
tiplicidade das iniciativas geradoras de oportunidades sociais.
Dínamo que vive de energia própria, o homem educado, preparado
para a vida moderna, sobrevive até na velhice sem precisar do am­
paro do Estado, ·pois a existência e a preocupação do amanhã é
exatamente a primeira colheita maior que surge, comprovando a
existência do cérebro adubado.
Quando esse cidadão age, toda a mecânica social se movimenta em
ascensão. Seu esforço quebra a inércia, sua criatividade impele à
frente o comboio humano, mesmo com a sobrecarga dos inadaptados
ou dos ainda incapazes.
O homem equipado é sempre um começo de coisas, uma galáxia
auto-suficiente, que engloba forças criadoras, prontas a se desatarem
em miríades de iniciativas.
B fácil imaginar-se a claridade dos caminhos de uma nação quando
ela se compõe só de luzes, de milhões de luzes que brilham por si,
e que a si mesmas se conduzem.

35
2
nações ricas
& nações pobres

·os povos normais aprendem com


a experiência própria; os povos
inteligentes, com a experiência
alheia; e os burros, não aprendem
com a própria nem com a alheia. "

Bismarck, chanceler da Alemanha.

•( . . .) �
importante lembrar que
mais da metade dos Estado3
membros da UNESCO tem de 30 a
90% de analfabetos na sua
população.•

• Education ln Technologlcal Society•,


Relatório dos 21 peritos mundiais
sobre a eficiência da educação
técnica, UNESCO, 1952, pág. 60.

"Nos EUA, há um Departamento de


Estado que nos faz festa, um
Departamento de Comércio que
estabelece proibições e um
Congresso que aprova leis punitivas
para os países latino-americanos. "

Alfonso Lopez Mlchelson, professor e


presidente da Colômbia, 1974 a 1978.
Apud Newton Carlos, •As definições
progressistas do novo presidente
colombiano", Folha de São Paulo,
6/8/74, pág. 8.
•segundo as estatísticas preliminares
do Fundo Monetário Internacional
(FMI), o volume total do comércio
mundial em 197J atingiu os 510,5
bilhões de dólares, o que significa
um aumento de JJ5 bilhões. No
mesmo período, os países
industrializados ficaram ainda mais
ricos, pois obtiveram um aumento
de 100,J2 bilhões de dólares em
suas vendas ao exterior, situando-às
em J75,8 bilhões de dólares.
Os 10 países que formam a Europa
industrial acrescentaram a suas
exportações o dobro do volume
conseguido por 100 países
subdesenvolvidos.•

"'Exportação mundial - América


Latina e Brasil", Jornal do Brasil,
19/7 /74, pág. IS.

•{ . . . ) Não foram as colônias que


geraram nosso poder. Foi nosso
poder que nos impeliu
(abusivamente) à conquista das
colônias, poder esse que resultou de
nossa capacidade técnica.•

Jean Fourastlé e Claude Vlmonl,


Hlstolre de Demain, Presses
Unlversltalres de France, 1959,
pág. 123.

·se não houver um tratamento


eqüitativo nas relações
internacionais, os grandes
desquilíbrios econômicos poderão
tornar-se apocalípticos, dentro de
25 anos.•
Luiz Echeverrla, presidente do México.
Discurso perante governadores do
Banco Mundial e do ·Fundo
Monetário Internacional. (0 Globo,
27/9/1974, pág. 17.)
A frase de Bismarck que abre este capítulo parece uma chicotada
prussiana. Mas carrega em seus conceitos uma atualidade didática
impressionante, e deveria ser mais repetida mundo afora, para que
cada país e cada povo procurassem analisar em qual das três postu­
ras se insere a sua vida nacional ou, dentro da nova terminologia,
o seu "projeto nacional".
Mas a lição principal que hoje podemos extrair da rudeza do pensa­
mento bismarquiano no seu conjunto, é que cada nação vive a
existência a que ela própria se capacita, e faz apenas o que quer,
ou pode saber fazer.
Em outras palavras: as debilidades espirituais ou deficiências mate­
riais que tolhem cada povo vêm do seu próprio deficit de capacita­
ção ou de sabedoria. São os nossos próprios obstáculos que nos
atravancam o caminho, pois a marcha que importa a uma nação é
o que ela avança dentro de si mesma.
O curioso é que o pensamento de Bismarck foi expresso quando, em
seu tetnpo, o mundo praticamente se dividia em nações coloniais
e povos colonizados. Foi, pois, um raciocínio que ele debruçou sobre
o futuro, para um mundo em que viriam a cair todos aqueles impé­
rios que, do centro da Europa, ditavam os destinos dos países
dominados.
Não há dúvida que nenhuma nação colonialista tenha se esmerado
na preocupação catequista de "fazer outras nações". Elas, em geral,
exerciam o domínio ou com desprezo, ou com enfaro ou ceticismo.
Forçavam a ocupação ou a conquista, mas não acreditavam nos po­
vos que submetiam. E por isto os deixaram praticamente no mesmo
estágio de desenvolvimento, com a mesma tanga e a mesma borduna
com que os encontraram décadas ou séculos atrás. Embora sua pre­
sença contivesse os choques entre as tribos ou grupos religiosos dos
países dominados, a ação educativa foi mínima em quase todos os
casos.
Acontece que alguns dos antigos povos colonialistas também mal
souberam acender suas próprias luzes para os novos caminhos, e
capengam por aí, em nossos dias, com o seu lastro de atraso e
obscurantismo.
Por sua vez, antigas nações dominadas ainda se justificam de suas
mazelas, atribuindo-as ao explorador, ou espoliador, cujos rastros
em seu território já se apagaram há muitas décadas e, às vezes, há
mais de um século.

39
Há, por exemplo, ponderáveis setores da inteligência brasileira que
até hoje inculpam os portugueses por todos os males decorrentes
do atraso quase �bsoluto em que o Brasil vivia até o começo da
década de 60.
E quando se fala em subdesenvolvimento, abrem a geografia da
História e mostram lá as equimoses do assalto, os buracos vazios
deixados pelos colonizadores: em 1 50 anos, os lusos levaram daqui
500 toneladas de ouro puro. Está nisto, dizem enfáticos, a justifi­
cação do que ainda não conseguimos ser ou ter.
500 toneladas de ouro em século e meio de exploração, e espoliação.
Menos que a produção de um ano, do Transvaal, em nossos dias . . .

O convite de Bismarck à autocrítica permite-nos concluir: o que


não foi feito no passado não pode justificar o que não se faz em
·
nossos dias.
Como quase todas as antigas nações colonialistas progrediram acele­
radamente - e, por ironia, principalmente após darem ou consen­
tirem na independência dos países dominados - e formam o núcleo
básico das nações do mundo ocidental, estabeleceu-se pouco a pouco,
com engenhosa habilidade, um esquema emocional que visa a re­
viver os ressentimentos do passado, de uns contra outros, isto é,
dos povos colonizados contra os antigos colonizadores.
Nessa tática sutil, faz-se ainda uma simbiose inteligente, estimulando
com fatos do presente os antagonismos já quase sepultados sob as
camadas das décadas passadas.
O " fosso tecnológico ", o distanciamento cada vez maior entre o
que já avançaram as nações equipadas e o que não marcharam as
nações atrasadas, serve, por deturpação de suas conseqüências, para
uma revivescência dos crimes e omissões das nações imperiais con­
tra as nações submetidas.
Certos teóricos partidários descobriram nisto uma maneira muito a
seu contento para catalogar os países: " nações ricas" e "nações
pobres ".
Esse achado, de tão perfeito, já se incorporou há anos à semântica
internacional e poucos são os que hoje nele identificam uma inten­
ção oculta de hábil divisionismo.
Nações ricas, nações pobres.
O slogan encaixou-se tão bem nas circunstâncias reais - o apro­
fundamento do fosso, pelo maior avanço tecnológico das "nações
ricas" - e nos ressentimentos superpostos, que os países que mais
prosperaram são objeto de suspeição, por assalto e espoliação, dos
povos que se retardaram em sua marcha.
Ergueu-se, a partir daí; um outro muro: o Muro da Fome, que agora
divide e atordoa o mundo de nossos dias. E com isto, procura-se

40
fazer crer que a miséria de milhões de seres contemporâneos se
verifica porque ainda subsistiriam, consagrados como ordem social
e jurídica universal, o esquema dos exploradores e as algemas dos
explorados.
Na imprecação contra o fantasma gerador ou mantenedor dessas
condições do despotismo, unem-se todos: os homens de fé, e os
sem fé; os calorosos idealistas e os frios ideólogos; os que se emo­
cionam e se revoltam, e os que simplesmente calculam e atiçam.
O imediatismo intelectual - e a inércia - montaram o seu racio­
cínio sobre um andaime de pernas contestáveis: o conceito de que
há pobres porque existem os ricos. E a conclusão, por extensão: as
nações somente são pobres por sofrerem espoliação das que são ricas.
Na sua angústia cristã de atualização com as idéias vigentes, ou
pelo menos mais rumorosas, setores da maior importância da Igreja
Católica adotaram, com um entusiasmo apressadamente jovem, essa
definição tão clara das bandas em que, segundo pensam, está divi­
dido este mundo de Deus: a dos povos definitivamente " ricos" e
a dos povos irremediavelmente " pobres " .
E , assim, a própria Santa Sé, e m seu documento oficial " Justiça no
Mundo ", lido perante o I I I Sínodo de Bispos, realizado na Cidade
do Vâticano em outubro de 1 97 1 , depois de invocar o direito de
os países pobres se " defenderem com medidas apropriadas contra a
dominação" , afirma que "os maiores atentados aos direitos dos
homens e das nações são causados pela dominação injµsta dos países
pobres e atrasados pelos ricos e poderosos" . ( " Igreja acusa domina­
ção dos países pobres pelos ricos " , Jornal do Brasil, 1 5/ 1 0/7 1 ,
pág. 2.)
Se foram destruídos os esquemas institucionais da exploração, se
em todo o mundo livre o que ocorre é exatamente a maré montante
dos direitos sociais levada, em alguns casos, até a extremos de infan­
tilismo - como e por que, então, se levanta, tão vivo e chocante,
o Muro da Fome, dividindo ainda o mundo na monótona dicotomia
dos que têm e dos que nada têm?
De que outra base - concluir-se-ia - senão o egoísmo voraz de
alguns, vem a fome de milhões de outros?
Paradoxalmente, quando se busca identificar qual a razão absoluta­
mente básica da fome, do não ter,' da incapacidade de ter, nós vara­
mos, com uma só rajada de raciocínio e lógica, as muralhas e os
fossos todos que as idéias preconcebidas levantam para explicar
porque a miséria ainda coexiste com a nossa era de tantas conquis­
tas igualitárias.
Graças a Deus, descobrimos então que a miséria de tantos milhões

41
de seres não se origma de nenhum absurdo fatalismo divino, ou
determinismo histórico; nem é uma conseqüência de pigmentação
racial ou de infeliz alocação geográfica. Ninguém, nem mesmo o
mais miserável dos párias nasceu sob a inelutabilidade de ensardi­
nhar-se em castas irremediavelmente inferiores; nem a pele e o
sangue são os fatores de uma incapacitação congênita que desem­
boque no vácuo da inanição.
Não é por decisão de Deus, por predestinação racial, nem mesmo
por habitar carrascais pedreguentos ou savanas inóspitas, que este ou
aquele homem, ou agrupamento humano, seja miserável e faminto.
" No que se refere à biologia, não existem raças superiores ou infe­
riores ", afirmou o cientista soviético Nikolai Dubinin, em conferên­
cia que encerrava um ciclo promovido pela UNESCO em maio de
1 97 1 , em Paris, sobre a questão racial e o pensamento moderno.
("Teoria das raças na ciência atual", O Estado de S. Paulo, 8/8/7 1 ,
pág. 1 �8.)
" Quando em condições favoráveis - completou Dubinin - qual­
quer indivíduo, qll!llquer povo ou qualquer raça, pode atingir os
mais altos níveis de civilização. "
Não h á , pois, nenhuma razão que torne o Muro d a Fome irremo­
vível. Nem leis, nem liames, nem laços nenhuns, nem circunstân­
cias de lugar ou berço, sentenciam mais o homem à eterna miséria.
Por que então a fome tão presente, tão extensa, e quase mesmo ine­
rente a tão amplas camadas da gente humana?
De onde vem essa conseqüência desesperadora do não ter?
Em nosso mundo de hoje, a fome se origina exclusivamente do não
saber. De não saber fazer. De não saber produzir. De não poder
fazer melhor. De não produzir mais depressa. De não saber colher
mais. Da incapacidade para multiplicar, ou da inabilitação mínima
para participar.
A fome vem de tudo aquilo que o homem não pode ou não sabe.
E tanto melhor, tão infinitamente melhor, que seja apenas disto.
Porque foram necessários milênios para o ser humano livrar-se das
outras razões - as monstruosas -, das crenças e dos códigos abso­
lutistas que estabeleciam castas e impunham a perpetuidade das vidas
sem direitos, de mesas vazias e pés descalços.
E, nas encruzilhadas filosóficas de nossos dias, ainda são milhares
os que, buscando sonhadoramente a Utopia, embaralham circuns­
tâncias com razões e, ou se congelam inertes nas galerias do confor­
mismo, nas desesperanças do fatalismo, ou se desmandam nos deses­
peros do extremismo.
Sabendo que tudo aquilo que se traduz por fome - o não ter o

42
que comer, não ter o que vestir, não ter onde melhor dormir ou
onde curar-se - se assenta primordialmente no fosso tumular da
ignorância, o homem e os povos poderão atingir, no ponto focal, a
doença-mãe, o mal maior que foi e tem sido o seu tormento de
milênios.
O câncer da fome, cuja aterrorizante diátese ainda envolve centenas
de milhões de seres, pode já ter dia e hora marcados para extinção
e desaparecimento sobre a face da Terra.
Como nas grandes cirurgias, precisa-se de habilitação técnica, de
decisão e coragem.
�. pela primeira vez na História do velho animal bípede, uma
extensa cirurgia, que mesmo profunda e dramática, será sem sangue,
sem dores, nem traumas.
Será uma cirurgia que, embora enérgica, não irá esquartejar, nem
decepar. Mas apenas romper os tumores, abrir e arejar os úteros
oclusos e os ventres mortos, onde se aninham todos os fetos e mons­
truosidades que o analfabetismo e o atraso enxertaram na humani­
dade.
Para essa intervenção curativa, admitida em toda a extensão do
organismo nacional, só se aprestam os povos que têm a coragem de
reconhecer que suas debilidades e deficiências se originam de suas
próprias mazelas, e não de drenos apodrecentes, que os prendam,
historicamente, ao esfíncter ou ao baixo intestino de outros povos,
dos povos coloniais ou "imperialistas".

Apesar de todos os sinais já lançados nos céus, do fundo dos séculos


até nossos dias, de que a Educação é a outra tábua sagrada, as lide­
ranças políticas das nações subdesenvolvidas, em sua maioria abso­
luta, ainda ajeitam fórmulas ou exumam mesinhas milagreiras, cal­
cadas e calçadas em mil conveniências partidárias, para extrair pro­
gramas de governos, onde quase sempre o menos enfático ou o
menos sincero é o esforço para equipar intelectualmente o homem
comum.
Geralmente desinformados e desatualizados quanto à rapidez de evo­
lução das condições econômico-sociais, e das respectivas conclusões
que se superpõem a cada novo estágio, não é de estranhar que seja
tardia, ou inexistente, a reação desse tipo de líderes à importância
primordial assumida pela Educação na definição do sim ou do não,
da vida de todos os povos.
Sua reduzida visão, aliás, é também prejudicada pelo enfoque nebu­
loso com que certas e reconhecidas autoridades técnicas ou inte­
lectuais - provavelmente por eles consultadas nos esporádicos mo-

43
mentos de estudos, ou de elaboração de programas - fogem, em
seus pronunciamentos, de apresentar definições, no receio de estas
serem tomadas como opção política.
Que orientação, por exemplo, podem receber as nações atrasadas
deste mundo nevoento, de um "líder" como o holandês Addeke
Boerma que, ao empossar-se pela segunda vez como diretor-geral da
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura
(FAO), emitiu - talvez após um debate com o seu conselheiro
Accacius - este tão didático conceito: " ( . . . ) a miséria é, antes
de mais nada, a causa da fome e da desnutrição no mundo."
(" Diretor da FAO, reeleito, diz que a miséria é a causa da fome",
Folha de São Paulo, 23/ 1 1 / 1 97 1 , pág. 20.)
Outros há, porém, como um de nossos brilhantes economistas, que
assumem um ar catedrático de não comprometimento com as ver­
dades vulgares da vida política. E por isto solenizam do alto da
cátedra: "A rapidez de recuperação da Alemanha e do Japão (após
a II Grande Guerra) parece ter sido devida a seus melhores quadros
humanos. "
Por que parece?
O complemento único que faltaria para ser definitiva a afirmação
de que é a seus melhores quadros humanos - mais bem prepara­
dos, mais bem equipados - que aqueles dois países devem sua
recuperação, seria salientar a efetividade de iniciativa, de que dis­
punham todos os seus cidadãos, no momento da convocação para
a arrancada reabilitadora.
Mais adiante, ainda esse mesmo autor refreia seu entusiasmo por
suas próprias conclusões quanto à contribuição da Educação, afir­
mando que " ( . . . ) para a melhoria da renda per capita, (a Educação)
chega a ser mais importante do que a acumulação de capital físico. "
Por que chega a ser, s e ele próprio mostra, na página seguinte, com
eloqüentes algarismos, que essa contribuição é de fato mais im­
portante?
Por isto, não admira que em meio à confusão das vozes de comando,
e ao turbilhão de destroços de um mundo que ao mesmo tempo
desmorona e se reconstrói, fiquem tontos e apalermados aqueles
que, ansiosos de poder mas desabastecidos de luzes próprias, se
tornarem líderes eventuais desse ou daquele país, por força dos aza­
res e combinações da boca das urnas.
J;; àqueles que se propõem à liderança política que cabe, sem dúvida,
a obrigação de uma atualização pessoal constante, diária, quase horá­
ria, com os fatores contemporâneos que ora se mesclam na alquimia
dos destinos dos povos. Mas o técnico por ser técnico, o cientista
social por ser cientista, não podem alegar a neutralidade do quem­
sabe, ou o eunuquismo do talvez, em face dos fatos decisivos, que

44
podem recriar a sorte de uma nação e firmar a felicidade dos
cidadãos.

Quando se fala em nações pobres, duas assoc1açoes de idéias se


formam de imediato: a) grandes camadas populares em estado de
fome semipermanente; b) provável existência de grandes latifúndios
inaproveitados.
No caso do Brasil, por exemplo, durante um agitado e recentíssimo
passado político, atribuía-se a maior parte das privações das massas
citadinas e camponesas à existência dos grandes latifúndios e à
inexistência da reforma agrária.
Já discutimos largamente esse assunto específico da problemática
brasileira no livro O País dos coitadinhos. Mas sua discussão cabe
também aqui, por suas profundas ligações com o assunto que agora
nos ocupa.
Esse binômio Brasil-Fome leva-nos sempre a uma frase do livro que
tornou o sr. José Américo de Almeida famoso como escritor: " Pior
do que morrer de fome no deserto é não ter o que comer na terra
de Canaã" . (Prefácio de A bagaceira, romance que lhe abriu as
portas da vida pública brasileira.)
Mas -o que é que impede de haver fartura de comida na Terra de
Canaã?
Geralmente, espíritos extremados e os apenas simplistas se afinam
num mesmo estribilho: é a falta da Reforma Agrária. � não ter o
camponês a terra para produzir seu próprio sustento e o excedente
que, vendido, pudesse fazê-lo prosperar.
No entanto, na Rússia, na China Vermelha, no México, no Chile,
na Itália, essa terra foi cedida, coletivamente, aos camponeses (rus­
sos e chineses) ou praticamente doada (aos mexicanos, chilenos e
italianos).
Na Rússia, 50 anos depois da implantação da "ditadura de operá­
rios e camponeses", cada um destes últimos só produzia para susten­
tar de 6 a 8 trabalhadores na cidade. (Apesar de todas as aberturas
para as imensas " terras virgens" da Sibéria, a Rússia estava no mer­
cado em julho de 1 972, comprando trigo, milho e outros cereais,
aos milhões de toneladas, aos americanos e canadenses.)
A China Continental, por sua vez, apresentava uma correlação tra­
balhador do campo-trabalhadores da cidade ainda mais baixa que a
da União Soviética. No Canadá, na Austrália e nos EUA, cada
trabalhador rural já produzia em 1 970 o necessário para o consumo
de uma média superior a 30 habitantes das cidades.
Esqueçamos, porém, os dois casos dos países da órbita marxista,
admitindo que, como é vedada aos seus camponeses a iniciativa

45
para criar, produzir e vender por conta própria, isto desestimula
a capacidade e o interesse humanos, qualquer que seja o seu grau
de equipamento ou desenvolvimento.
Essa liberdade de criar, produzir e vender é, porém, mantida para
os camponeses do Chile, do México e da Itália.
E, mais do que os russos e chineses, os camponeses dessas nações
tiveram o importantíssimo estímulo de se tomarem proprietários
das terras recebidas. Que aconteceu, porém, em cada qual desses
países após seus "caboclos " receberem as terras de que necessitavam
para a oportunidade de se altearem acima da miséria total ou da
pobreza?
A propósito da Reforma Agrária chilena, iniciada no governo
Eduardo Frei, um de seus admiradores, o professor acadêmico Bar­
bosa Lima Sobrinho, ex-governador de um estado nordestino, reco­
nhecia em trabalho publicado em 1 969 na imprensa carioca que,
apesar dos "benefícios da Reforma" , o Chile ainda tinha que im­
portar trigo, enquanto a carne de vaca por sua vez se mantinha
racionada para toda a população. Realmente, havia anos que os
chilenos, apesar da sua Reforma Agrária, eram o único país sul-ame­
ricano a ter carne racionada, mesmo quase três décadas após o tér­
mino da II Grande Guerra.
Quanto ao México, o exemplo toma-se mais edificante. Pois este
talvez tenha sido o país do mundo livre em que a Reforma Agrária
se realizou de forma a mais extensa e profunda. E onde ela não é
um experimento verde nem fresco, sem tempo ainda para as podas
e correções.
A Reforma Agrária mexicana vem dos dias heróico-românticos das
suas tumultuadas e freqüentes correrias revolucionárias. Nascida,
como sempre, de um .sonho generoso, que frutos deu essa semeadura
plantada nas terras das Américas na madrugada deste século, em
1 9 10?
Em dois estudos publicados em 1 970 e 1 972, o ensaísta José Qui­
roga, especialista em assuntos político-econômicos do mundo latino­
americano, informa que nos 60 anos de vigência da Reforma mexi­
cana foram efetivamente distribuídos 75 milhões de hectares a 3
milhões de camponeses. Agora, " só restarão 1 6 milhões de hectares
atingíveis pelas leis que instituíram a Reforma Agrária. Mas essas
terras estão em zonas áridas, semi-áridas ou em selvas tropicais.
Além disso, levando-se em conta a má qualidade das mesmas, se fo­
rem entregues 1 00 hectares a cada pretendente, o total de beneficia­
dos será somente de 1 60 mil, número insignificante em comparação
com os 2 milhões de camponeses que estão esperando suas respecti­
vas parcelas " . (José Quiroga, "A lei agrária dos mexicanos" , O
Estado de S. Paulo, 24/ 1 /70, pág. 9. José Quiroga, " Solução brasi-

46
leira inspira política agrária do México ", O Estado de S. Paulo,
30/4/ 1 972, pág. 1 2.)
Até que ponto a posse efetiva da terra pôde fecundar aquilo que
era o panorama da estéril miséria em que viviam os camponeses
mexicanos?
Que prosperidade arrancaram eles daquele título de propriedade
que também era até um diploma cívico com uma face de direitos,
e um anverso de deveres?
Eis a fria resposta dos fatos:
"O camponês mexicano, ou grande número de homens do campo,
encontra-se no ponto de partida se se analisa a situação do ângulo
econômico, com mais de meio século de vigência da reforma agrá­
ria. Sem recursos, sem a ajuda necessária, muitos deles passaram a
formar os " cinturões da miséria" que rodeiam as grandes cidades
mexicanas, criando com sua presença uma infinita gama de proble­
mas de saúde, de moradia ou de ALIMENTAÇÃO.
"O presidente Diaz Ordaz reconheceu essa realidade há dois anos
( 1 968), numa mensagem anual à nação, pedindo ao mesmo tempo
a colaboração de todo o país. " (José Quiroga, idem, idem.)
Se os camponeses mexicanos, ao contrário dos russos, receberam
o estímulo de tornarem-se donos das terras que lhes são dadas, por
que, então, murchou e falhou o grande sonho generoso?
Falhou, porque apesar de um esforço também generoso, mas super­
ficial, de extinção do analfabetismo, a irrigação intelectual que as
massas camponesas receberam ainda ficou nos chuviscos de noções
rudimentares. Estas não constituem nem uma fração do enorme
cabedal profissional e equipamento tecnológico que também o la­
vrador precisa ter, a fim de tirar proveito total das possibilidades
de suas terras, sejam elas massapês fecundos, terra roxa seivosa,
ou carrasca! pedreguento.
Que adianta doar terras a um homem que não tem nenhuma noção
de como corrigir suas deficiências; que não sabe, ou nem reconhece
a vantagem genética das melhores sementes; para quem a irrigação
é uma trabalheira incômoda e um absurdo, e a proteção química
das lavouras "uma bobagem de brigar com os bichinhos que nem
se vê" ?
A riqueza d a terra distribuída estava toda e m mãos d e camponeses.
Mas, como acentuam os economistas, faltavam-lhes os recursos; os
recursos intelectuais, conhecimentos modernos e experiência, que
são o adubo multiplicador de todas as atividades do homem.
Ainda hoje, com 40% de analfabetos nos campos, e, provavelmente,
com outros 30% de semi-analfabetos, o México espera pelo milagre
absoluto, em que deveria ter se transformado a sua reforma agrária.

47
Milagre que merecem a grandeza de espírito e a bravura física e
moral daqueles seus idealistas que, no despontar deste século, ha­
viam finalmente conseguido fazer brotar da sangueira das suas lutas
fratricidas aquele gesto de generosidade para com os campônios
ignorantes, gesto que tanto comoveu e aqueceu os corações do mun­
do de então.
Por toda a terra, centenas de milhões de camponeses esperam ou
lutam pela reforma agrária. Eis, segundo Fritz Baade, como estão
equipados para tirar partido de seu sonho, caso se concretize:
"Existem atualmente (no globo) 3 50 milhões de famílias que tiram
seu sustento exclusivamente da terra. Dessas, 250 milhões, isto é,
mais de 70 % , não conhecem senão a enxada ou, quando muito, um
primitivo arado de madeira, que pouco difere dos modelos que apa­
recem nas esculturas dos babilônios ou dos egípcios. E o único
implemento agrícola em vastas regiões da Ásia e da América do
Sul . " (Fritz Baade, A corrida para o ano 2000, trad. de Macedo
Neto, Editora Nova Fronteira, 1 966, pág. 24.)
Assim, ainda com seu arado de madeira, a tração animal, e a foice
e a enxada, centenas de milhões de camponeses repetem mundo afo­
ra em nossos dias uma cena bíblica na qual o homem - por seu
estágio mental; e suas ferramentas - por seu primitivismo, são
velhos de quatro mil anos.
Bssa incapacidade mental e material para o manuseio das ferramen­
tas e dos equipamentos, das idéias e das inovações já disponíveis,
fez acumular nos campos uma massa de trabalhadores que sua e
se esfalfa muito mais do que produz e colhe.
Muita gente ainda se perde em meio à controvertida sintomatologia
com que a ciência econômica, ou a paixão política, tem predicado
ao longo dos tempos, para diagnosticar as fontes primaciais da misé­
ria dos países pobres. Mas aí está a baixíssima produtividade agrí­
cola dos povos atrasados para fornecer-nos uma radiografia nítida
do carcinoma que é a razão de tudo: a ignorância. Por várias razões
históricas, é nas zonas rurais de todas as nações do globo onde mais
se acumulam os percentuais de analfabetos e também as evidências
de suas mazelas.
O Brasil que procura, num esforço quase atropelado, e titânico,
emergir do submundo não desenvolvido, carrega ainda até agora um
lastro de produtividade extremamente baixa nas atividades agrícolas
e pecuárias em geral, deficiência esta oriunda das amplas manchas
de atraso intelectual, e tecnológico, que cobrem as nossas áreas do
campo. Existem vastas regiões do hinterland brasileiro onde os índi­
ces de iletrados altemam�se nos picos de 60 a 80% .
Posta e m confronto com a produtividade d e outros países mais qua­
lificados na escala da Educação, e do preparo técnico, a nossa enco-

48
lhe-se em cifras que, ao menos, servem para espicaçar o orgulho
nacional.
"( . . . ) Os dados da FAO, órgão das Nações Unidas, comparados
com os dados do Ministério da Agricultura. comprovam infelizmente
que a produtividade agrícola no Brasil é das mais baixas. Aumen­
tou o volume da produção, mas o rendimento da maioria dos pro­
dutos, crescente nos últimos anos, é muito baixo.
"( . . . ) Podemos citar casos extremos: em 1 97 1 , nos EUA, a pro­
dutividade média da cebola, por hectare plantado, era de 33.400
quilos/ha e no Brasil é de 5.500 quilos/ha; no mesmo ano, quanto
à batata, a produtividade (no Brasil) era de 7 .394 quilos/ha e na
Alemanha Ocidental era de 27 .400 quilos/ha.
" Segundo ainda a FAO, a produtividade média de feijão por hecta­
re no Brasil é de 634 quilos e nos EUA de 1 .360; milho (Brasil),
1 .442 quilos contra 5 .540 quilos/ha nos EUA; cana-de-açúcar,
46.230 quilos/ha (no Brasil) e no Havaí, 22 1 .700 quilos/ha . "
("Crescimento Agrícola", Relatório Reservado, n.º d e 4/ 1 1 / 1 973,
pág. 5.)
Não é preciso explicar ao leitor que a tecnologia da agricultura açu­
careira do Havaí é norte-americana, o que, aliás, reafirma a tese.
A ve�ha paisagem do campo em nossos países, quase sempre mais
cheio de gente do que de trigais ou arrozais, levou muitos observa­
dores ao constante temor do trágico dia em que os camponeses
resolvessem migrar em massa para as cidades. Muito se escreveu,
e ainda se escreve, sobre as danosas, senão " terríveis ", conseqüên­
cias do êxodo rural.
No entanto, em nossos tempos, o êxodo rural é o primeiro e mais
dramático sinal da chegada do progresso às atividades agrícolas.
Num estudo publicado em março de 1 972, o diretor de pesquisas
do Instituto de Pesquisas Econômicas de São Paulo, prof. José
Francisco de Camargo, lembrava que já em 1 947 o prof. Pierre
Fromont (Démographie Economique - les rapports de l'économie et
de la population dans le monde) apresentava o êxodo rural como
"a manifestação de vitalidade de um organismo em progresso; sua
ausência é que, ao contrário, constitui sintoma de saúde precária,
significando para o organismo a sua incapacidade para progredir. "
(José Francisco de Camargo, "Censo revela aumento do índice de
vida" , O Estado de S. Paulo, 1 2/3/72, pág. 66.)
Quase ao mesmo tempo, os sismógrafos econômico-sociais do Brasil
registravam não a estagnação, mas já a própria queda de algarismos
na população rural, numa confirmação da tese do professor francês:
caíra, de quatrocentos mil, o número de habitantes das zonas rurais
paulistas no ano de 1 970, baixando de 3.900.000 em 1 969 para
3.500.000 naquele ano. (Rubens Vaz da Costa, "Desenvolvimentc

49
urbano no Brasil, desafio da década de 70 ", Conferência, novembro,
1 97 1 .)
E nunca a produção agrícola de São Paulo apresentara tamanha
abundância.
Nem é preciso repisar que é exatamente em São Paulo onde se apli­
cam e se desenvolvem os métodos mais atualizados de agricultura
e pecuária do país.
Aliás, não há campos mais "vazios" de gente do que as searas e
lavouras norte-americanas. Apenas de 2 a 3% da população do país
ali mourejam. Mas produzem, com a ajuda de uma parafernália de
equipamentos e técnicas avançadíssimos, cerca de 30% do Produto
Nacional Bruto dos EUA, isto é, um terço da riqueza do país. Para­
doxalmente, a " doença" da agricultura norte-americana é seu excesso
de vitalidade, de produção. Lá, o "grande drama" é reduzir ainda
mais o número dos que teimam em trabalhar o campo.
Os compêndios de sociologia política sempre reservaram suas tintas
mais negras para a descrição das também quase · sempre freqüentes
" negras condições" dos trabalhadores do campo. Não é por acaso
que também por toda parte, mundo afora, os governos, por várias
ou por nenhuma razão, sempre foram avaros na assistência de qual­
quer natureza, principalmente a escolar-educacional, aos moradores
das zonas rurais, ou a seus filhos e descendentes.
Pode-se mesmo afirmar com segurança que a precariedade do meca­
nismo escolar dos países subdesenvolvidos chega às raias do gro­
tesco ou do inconcebível quando se trata do equipamento material
ou humano para o ensino ou o aprendizado nas zonas rurais. A re­
gra, bem o conhecemos, é a escola-tapera, de uma só sala, e a pro­
fessora semi-analfabeta e miseravelmente paga.
Tudo, pois, ao contrário: não se dá quase nada onde e a quem já
falta quase tudo.
Assim, o que fica faltando ao homem do campo desde cedo, desde
as horas da esperança, desde a madrugada da vida, não é a terra
para lavrar, mas a instrumentação intelectual com que saber lavrá-la.
Foi certamente com o espírito voltado para as conseqüências este­
rilizadoras da falta de recursos por parte daqueles que deveriam
tirar partido das riquezas da terra, que o Reitor da Universidade
Federal de Santa Maria da Boca do Monte (RS), prof. Mariano da
Rocha, afirmou em pronunciamento público, em junho de 1 969:
" O agricultor ignorante empobrece em terra própria, enquanto o
agricultor instruído enriquece em terra alheia." ("Campus" em Ro­
raima é inovação universitária " , O Globo, 20/6/69, pág. 2.)
Provavelmente ele tinha, constrangido, diante dos seus olhos, o novo
e freqüente cenário do campo brasileiro: a lavoura do "colono"

50
japonês, fecundada por uma cultura de técnicas modernas, aprendi­
das nas aperturas dos minifúndios nipônicos, e o carrascal do "ca­
boclo", feito na mesma largueza de terra, mas desprovido de tudo,
esturricado pelo fogo morto da ignorânci&. Lado a lado, com as
mesmas possibilidades, e recebendo o mesmo sol e as mesmas chu­
vas, a " nação rica" e a "nação pobre" .
A diferença estava na semeadura que um lavrador recebera, e o
outro não, nas corcovas e vales de uma área diminuta, mas fertilís­
sima: o cérebro humano.

Os . quadros da miséria atingem, às vezes, tais cores na vida de um


povo que explodem ou repontam em ações de desespero, que vão
da crueldade de certas violências até à ingenuidade, quase juvenil,
de gestos dramáticos, porém cheios de unção e pensamento cristão.
Este foi o caso, ocorrido em julho de 1 97 1 , com a surpreendente
decisão do cardeal Primaz da Bolívia e arcebispo de Sucre, D. José
Clemente Maurer, proclamada em extensa carta pastoral, determi­
nando a venda de todos os bens da Igreja em seu país - jóias,
objetos de arte, relíquias, museus - para com os resultados "com­
bater a injustiça social" ali reinante. ( " O futuro da Igreja na Amé­
rica Lntina" , texto de Bruno Paraíso, Correio da Manhã, 1 2/8/ 1 97 1 ,
pág. 4.)
Posteriormente, não chegou até nós nenhuma informação sobre a
concretização integral dessa medida - cuja execução, de resto, colo­
caria a Igreja Católica, em todos os outros países subdesenvolvidos,
numa situação de sério constrangimento, se, em toda parte, não mos­
trasse igual e total desprendimento.
O comovente gesto, provavelmente inacabado, do cardeal Maurer,
coloca sob nossa análise um país paradigma para as teses que ora
discutimos. Pois, a Bolívia é uma das mais típicas nações pobres
do mundo - porque essa pobreza também a tornou uma das mais
sofridas cobaias políticas da espécie humana.
Em século e meio de independência, cerca de 100 governos ascen­
deram e caíram na Bolívia, quase todos alçados pela violência e
por ela sendo derrubados. (Desde 1 825, já houve perto de 200 revo­
luções no país.)
Em outubro de 1 970, porém, a Bolívia bateu todos os seus recordes:
num só dia, teve nada menos que 4 governos: o chefiado pelo gene­
ral Ovando Candia, imediatamente substituído pelo do general Mi­
randa, idem pelo de uma junta de 3 generais, e esta deposta pelo
grupo do general Juan José Torres, o qual chegou a ficar um bom
par de meses no ,governo. (" Demagogia Vermelha", Jornal do Brasil,
9/ 1 0/ 70, pág. 6.)

51
Todas aquelas rebeliões que buscavam ir mais fundo nos problemas
sociais do país procuravam institucionalizar a nova ordem das coi­
sas, daí surgindo as .16 constituições que a Bolívia já teve até 1 972.
Muito antes, portanto, do gesto do cardeal Maurer, outras fórmulas
ambiciosas de "justiça social tinham ido além da simples intenção,
n

e foram impostas pela força, com todas as suas conseqüências. De


uma delas, deveria ter ficado uma lição que, nem mesmo sendo por
igual dramática e grotesca, deixou elementos para maior meditação,
a todos os idealistas que lá sobem e descem, sucessivamente, as
escadarias do poder.
Foi quando, vinte anos antes da pastoral do cardeal Maurer, um
novo chefe de governo, o coronel Bosch, também chegado a palácio
por mais um safanão no status quo político-militar, anunciou e ime­
diatamente pôs em ação uma reforma agrária " extensa e profundan.
Foram logo divididas as terras e, não só as terras; confiscou-se todo
o gado existente no país, entregando-se grupos de 2 e 3 cabeças para
as famílias camponesas, o número de reses sendo maior ou menor
conforme o tamanho, isto é, a suposta força de trabalho da família.
O resultado?
Ao fim de um mês, a Bolívia praticamente não tinha mais, sequer,
uma cabeça de gado viva: tudo que era boi, vaca ou bezerro, tinha
sido churrasqueado pelos seus novos proprietários.
A essa decepção tragicômica, seguir-se-ia uma outra, dramática: acos­
iumados a trabalhar apenas sob ordens e orientação alheias, os ín­
dios - que constituíam a maioria da massa camponesa - também
não semearam, nem colheram porque não sabiam quando tinham
que fazer uma coisa e outra. E a Bolívia caiu sob a maior crise de
alimentos de sua História.
Vê-se, por essa decisão de mais um chefe revolucionário, que a sua
ansiedade em resolver o problema da miséria na Bolívia não era
menor, além de ter sido muito mais concreta, embora frustrada,
do que a do cardeal Maurer.
Aquela demonstração coletiva de irresponsabilidade, a matança ge­
neralizada do gado que devia ser um permanente instrumento de
trabalho, de produção e de sobrevivência para centenas de milhares,
talvez um milhão de camponeses - prova, ainda uma vez mais, o
acerto daquela profética recomendação que o especialista alemão
\Yolf Strache registra em seu livro, A grande colheita:
"'Antes de mais nada, é preciso irrigar e adubar o cérebro daqueles
que trabalham o campo. "
As riquezas da Igreja boliviana não seriam, é certo, transformadas
em bifes. Mas se tivessem sido vendidas, s6 dariam os dividendos
de felicidade buscados por D. Maurer se aplicado seu valor total,

52
não na compra de produtos acabados ou bens que gerassem conforto,
ou bem-estar para os três milhões de índios bolivianos, mas no ensi­
namento e aprendizado das técnicas de gerá-los, permanentemente,
ao longo da vida de cada uma das famílias beneficiadas.

Os tempos, e o avassalador progresso cultural de certas nações -


todas elas do próprio mundo capitalista - vieram provar que foi
exatamente da maior expansão da educação das massas nesses países,
do seu acesso às escolas, que decorreu o fabuloso desenvolvimento
econômico - cujos resultados, em cifras e em bem-estar, tornam,
para os nossos dias, quase em pobretões ridículos os " apatacados "
senhores dos séculos distantes.
Ao contrário do requintado maquiavelismo que se atribui aos bur­
gueses do passado, os seus herdeiros do presente, a "burguesia"
hodierna, " progressista" ou " reacionária " - qualquer que seja sua
ficha nos arquivos dos extremismos - pressente que a manutenção
do " seu" sistema, a permanência das instituições que lhe interes­
sam em seus países dependem, cada vez mais, de conseqüências eco­
nômico-sociais que só podem ser trazidas no bojo de gigantescos
organismos de Educação para os filhos do povo.
Uma evidência de que à exceção de um fenômeno monstruoso como
o de Thiers, as lideranças das nações mais destacadas da Europa
jamais tiveram uma meditada e contínua convicção quanto aos va­
lores e resultados da Educação - e, por isto, alternavam-se do inte­
resse à indiferença - está em que, só depois do fim da II Grande
Guerra, é que muitas delas acordaram mais energicamente para en­
tender a importância global - econômica, militar e social - de
melhor equipar intelectualmente todas as suas camadas populares.
Somente após certificarem-se de que tudo na extraordinária poten­
eialidade dos EUA advinha, em proporção direta, do quanto atingiam
seus formidáveis investimentos em Educação, é que países como a
própria França e a Suécia reforçaram substancialmente suas dota­
ções orçamentárias para todos os ramos do ensino.
Jean Fourastié (La Civilization de 1975, Presses Universitaires de
France, 1 964, pág. 1 9) apresenta-nos um quadro histórico surpreen­
dente, que documenta a um só tempo o relativo desinteresse com
que mesmo um país evoluído como a Suécia via o problema do
ensino, e o salto sísmico que resolveu dar, ao ser sacudido também
pelas constatações tecnológicas que se seguiram ao fim da II Grande
Guerra:

53
Anos N.º de Universitários
1 866- 1 870 1 .663
1 886- 1 890 3 . 1 54
1 9 1 6- 1 920 5.450
1 93 1 - 1 935 8.580
1 939 8.52 1
1 945 9.308
1 960 5 1 .000

Por sua vez, a França, que ainda em 1 96 1 tinha apenas 28 1 .000


estudantes nas universidades, acelerou a marcha de tal modo que
em 1 970 já eram mais de 500.000 os alunos das suas faculdades.
Mas, foi somente em julho de 1 970 que os jornais de Paris pude·
ram apresentar uma " manchete" sublinhada de orgulho: pela pri­
meira vez, o orçamento francês para a Educação era maior que o
das Forças Armadas.
A continuidade do ritmo de prosperidade e progresso ensejado pelo
sistema da livre empresa expandir-se-á tanto mais aceleradamente
quanto mais se proporcionar que adentrem pelos casebres da po­
breza as luzes salvadoras, luzes que, no passado, os estúpidos de
cima, por obtusidade, não proporcionavam aos ignorantes de baixo.
Essa observação diz respeito naturalmente a povos como as nações
líderes da Europa, algumas das quais formaram as grandes potên­
cias colonialistas do passado: Inglaterra, França, Alemanha, Itália,
Holanda, Bélgica, Portugal, Espanha.
Logicamente, estamos muito mais perto da verdade ou nela total­
mente mergulhados quando aí, sim, no relacionamento de país colo­
nialista para país colono, registrarmos as evidências da História,
algumas até agressivas e revoltantes, de descaso e desinteresse pela
Educação dos povos dominados.
E neste ponto que surge o que não parece ser uma exceção capri­
chosa, por seu conteúdo de deliberada medida administrativa: a
preocupação obscurantista da Metrópole portuguesa quanto ao
Brasil-colônia, no tempo da rainha Maria, a Louca, e do Marquês
de Pombal, visando a desmontar aqui, incansavelmente, qualquer
máquina de pensar ou iluminar, por primitiva que fosse, fechando
em massa escolas primárias e tudo o mais de onde brotassem lam­
pejos ameaçadores para a longa noite da servidão.
O mal que os povos colonialistas europeus fizeram não está tanto
nas vitualhas que abocanharam para suas panças, ou no que teriam
carreado para suas burras. (Não era mais tão atrativo assim o saldo
do banquete que os ingleses tinham da fndia, tanto que a deixaram
sem um tiro quando a n�u britânica já não agüentava rijamente as
novas tormentas do mundo. E já citamos a relatividade do que sig-

54
nifica para nossos dias as 500 toneladas de ouro que as cortes por­
tuguesas fizeram carrear do Brasil, em 3 séculos de domínio.)
Para as populações submetidas, o terrível da dominação não foi
tanto o terem que pagar o "terço" , a "quarta" ou o "dízimo" de
ouro. Foi nada haverem recebido, quase nada, de ensinamentos, tiro­
cínio profissional, experiência ou preparo intelectual.
O longo calendário percorrido desde nossa independência - 1 50
anos - fez prescrever o crime lusitano de o Brasil ter ficado uma
nação de analfabetos, pois, meio século depois do 7 de setembro
de 1 822, os nossos iletrados ainda eram 90% (ao fim do império
dos Orléans e Bragança) ; como ainda eram 40 % ao fim dos 35 anos
da era Vargas, iniciada em 1 930 e terminada ontem mesmo, em
1 964.
Pior, e mais cínico - porque contemporâneo, porque extinto ape­
nas há 25 anos - foi o comportamento britânico (o mesmo poderia
dizer-se do francês, ou holandês, no caso de outros povos) com os
hindus e paquistaneses.
Depois de quase um século fartamente sentada sobre o vasto impé­
rio hindu, a refinada Inglaterra não se moveu, não se comoveu, não
se mexeu para remover aquilo que é a tragédia exclusiva e ciclópica
da fndia : seus (hoje) 400 milhões de analfabetos. Um país com esse
tipo de "maioria cívica" foi o lastro civilizador que a Loura Albion
deixou de presente para os dirigentes da lndia livre.
Estados Unidos, Canadá e Austrália não servem de absolvição para
a Inglaterra, porque os aborígines encontrados nesses países quase
nada significavam demograficamente. E, no caso dos EUA, enquanto
foram colônia, permaneceram também uma nação de analfabetos,
até mesmo mais incapacitada do que a colônia portuguesa chamada
Brasil - pois no ano de nossa independência, 1 822, o volume de
nossas exportações era três vezes maior que o norte-americano.
Às vezes, somos tentados a admitir que ou havia um deliberado
obscurantismo ou uma cínica indiferença por parte das nações colo­
nialistas, para com o destino final dos povos atrelados à sua canga
civilizadora. B o caso, por exemplo, do rastro negro que a domina­
ção italiana deixou em pós si, na Líbia.
Além das atrocidades físicas, registradas dramaticamente por Pierre
Van Paassen, em seu fabuloso livro Estes dias tumultuosos (trad. de
Leonel Vallandro, Editora Globo, 1 940), os italianos largaram a
Líbia garroteada aos mais altos índices de analfabetismo de todo o
mundo, a tal ponto que, como registrou recentemente o jornalista
norte-americano David Reed (" Khaddafi da Líbia, a grande incóg­
nita", janeiro de 1 974), "quando a nação alcançou a independência,
e ficou sob a proteção da ONU, em 1 95 1 , tinha apenas 16 indiví-

55
duos diplomados em universidades ", numa população de 2 milhões
de habitantes.
Ao tornar-se país soberano, a Líbia carregava um lastro de 90%
de analfabetos, e somente três anos antes ( 1948) fora ali aberta a
primeira escola secundária.
(Não é, pois, de admirar-se que, segundo ainda David Reed, o coro­
nel Khaddafi, ao assumir o poder, tenha decretado a expulsão de
todos os 18 mil italianos que ainda viviam no país, " sem quaisquer
indenizações por seus patrimônios " .)
O sentido de proxenetismo obscurantista com que os europeus colo­
nizaram as nações que tiveram sob seu domínio fica ainda uma vez
desnudado quando se verifica, também, que um outro país, dos
mais "evoluídos" da África, como o Congo Belga, tinha apenas 26
nativos formados em escola superior - quando obteve sua indepen­
dência em junho de 1960. (B o que nos informa Barbara A. Yates,
em " Structural Problems in Education in the Congo" , citada na In­
trodução de Educação e desenvolvimento econômico, de C.E. Beeby,
Zahar Editores, 2a. ed., 1 973, pág. 1 3 .)
Ingleses, franceses, holandeses, belgas, portugueses, espanhóis, ita­
lianos, alemães - poderiam ter levado todo o ouro de todos os
países que ocuparam ou colonizaram; e, ainda assim, os deixariam
felizes e na rota da prosperidade, se tivessem transmitido à massa
de seus povos a milagrosa alquimia que gera todas as riquezas defi­
nitivas: a Educaçã,p - com a qual os povos dominados reporiam,
em pouco tempo, todo o valor dos saques e da espoliação de que
ainda hoje os acusam.

Pode-se estabelecer uma correlação quase matemática entre a exten­


são do grau de ignorância com a profundidade do grau de miséria.
Essa correlação - mais atraso, maior pobreza - é tão óbvia em
números e em conseqüências que até parece, com perdão da blas­
fêmia, uma iniqüidade divina. Talvez não haja mesmo nenhuma
outra sentença terrena tão drástica e tão irrecorrível, punindo erros
ou deficiências do homem, como a que cai inexoravelmente sobre
os desgraçados alcançados ao longo da vida em permanente pecado
de ignorância.
Parece que Deus decidiu, na sua mais terrível punição contra o
homem, que ao pecado mortal da ignorância atrelaria para sempre
todo o cortejo de andrajos materiais e morais da miséria. Não há
penitência para a persistência nesse pecado. E a repetição da igno­
rância leva o homem, feito um pobre diabo, irremediavelmente às
covas abissais do animalismo.

56
Um estudo publicado em L'Observateur e divulgado no Brasil ("O
ritmo acelerado da Educação", O Globo, 1 9/4/ 1 969, pág. 8 ) ofe­
rece-nos um retrato de ambas as margens do mar humano, a dos
que sabem, e a dos que não sabem. Segundo este estudo, num tra­
balho divulgado em 1 969 pelos professores americanos Lewis e
Anderson, se . verificara, após pesquisa com uma " amostra " repre­
sentativa dos homens de negócio de uma pequena cidade-média dos
EUA (Lexington, de 1 00.000 habitantes), que o "mais importante
fator isolado no sucesso dos homens de negócio é a Educação ".
Onde, porém, as evidências se apresentaram até como uma discri­
minação, foi num campo exatamente oposto: uma "favela" dos
arredores da capital do México.
Buscando a correlação entre o grau de estudos e a pobreza dos mo­
radores locais, o prof. Oscar Lewis constatou: " Os do grupo de
renda superior possuem aproximadamente um ano a mais de instru­
ção que os do grupo médio-superior, e cerca de um ano e meio a
mais que os dos grupos médio-inferior e inferior. "
A evidência d e tantos fatos que jungem a miséria à ignorância im­
põe-nos uma conclusão já agora totalmente axiomática : o grau de
pobreza de uma nação está em relação direta a seu número de anal­
fabetos e semi-analfabetos.
Quase poderíamos estabelecer por símbolos matemáticos quanto ca­
da fração de 1 0 % contada para cima, no índice de analfabetos·,
reflete para baixo, no rumo da miséria. Por isto, não é por simples
coincidência que são tão mais numerosos os miseráveis de um país
quanto mais elevados os algarismos que contam seus analfabetos.
Os 80% de iletra-:los da lndia, do Paquistão e da Bolívia; os 90 %
do Sudão, os 92 % do Haiti, os 94 % do lêmen, os 98% do Iêmen
do Sul e da Tanzânia, correspondem aritmeticamente ao número dos
indivíduos que, nessas nações, vivem na mais extrema senão degra­
dante pobreza.
A nosso ver, o índice da renda per capita é um medidor de signifi­
cação muito relativa para exprimir o real estado de pobreza, ou de
bem-estar, da população de um país. O Japão, por exemplo, era em
1 97 1 , o 2.º país do mundo livre em volume de Produto Nacional
Bruto; mas o 20.º em renda per capita. Os 1 08 milhões de habitantes
do Japão tornavam distorcido o significado desse percentual.
Do mesmo modo, os 580 milhões de habitantes da lndia interferem
de modo superlativamente negativo na justeza da correlação Popu- ·
lação x PNB.
Outra distorção confundidora, esta no sentido inverso, é a dos pe­
quenos países altamente produtores de petróleo, na bacia do Medi­
terrâneo. Dois deles, pelo menos, aparecem com uma renda per
capita vantajosamen�e superior à dos próprios EUA. E. uma conse-

57
quencia do cotejo de seus modestíssimos algarismos populacionais
com os extensos cifrões dos preços que recebem do "ouro negro" .
H á u m país, porém, onde a s duas medidas s e contrapõem sem que
haja um fator "artificialmente" inflacionário de um lado ou de
outro: nem miríficos lençóis de petróleo ou qualquer outra grande
riqueza mineral, nem números demográficos explosivos.
B o caso do Haiti (cerca de cinco milhões de habitantes) onde do
encontro de fatores normais - quanto à produção nacional e quanto
à população - surge uma renda per capita que é uma das mais
baixas do mundo e uma fiel expressão do nível de vida do seu povo:
70 dólares por ano. Esse é o pano de fundo, realístico, de sombras
e trevas, do retrato de uma nação de 92 % de analfabetos. ("Assem­
bléia do Haiti já aprovou o novo Duvalier", Folha de S. Paulo,
1 6/ 1 / 1 97 1 , pág. 2.)
No Brasil mesmo, a área mais pobre - o Nordeste brasileiro - é
a que apresenta o maior índice de analfabetos, 60% (fator que, ali,
foi agravado por uma outra razão poderosa: o isolamento quase
total a que a região foi submetida durante quase 20 anos, a partir de
1 945, com a paulatina destruição dos nossos sistemas básicos de
transportes) .
E n o próprio Nordeste, 2 Estados tinham a dupla liderança da po­
breza (com o mais baixo salário mínimo nacional) e do mais alto
coeficiente de analfabetismo (80 % ) : Piauí e Maranhão.
Aliás, é chocante para todos os brasileiros que o Maranhão, berço
de tantos patrícios ilustres (sua Capital, São Luís, era chamada,
nas primeiras décadas do século, a "Atenas brasileira"), freqüente
com tanto destaque as estatísticas ou os relatórios que analisam o
nosso subdesenvolvimento.
Em 1 966, por exemplo, foi divulgada uma síntese do relatório que
o secretário de Educação do novo governo estadual fizera ao então
ministro da Educação, sr. Pedro Aleixo:
1) havia um único ginásio construído pelo Estado, o Liceu Mara­
nhense, em São Luís, e sua construção datava do Império;
2) 80% das escolas primárias estavam ruindo;
3) o Estado possuía o maior índice de analfabetos de todo o país.
(Para ficar bem cloco, a publicação acrescentava: "Maior ainda que
o do Piauí ou do Amazonas " .)
Na mesma ocasião, revelava-se que, dos 40 mil médicos do país,
havia apenas 1 7 no interior do Maranhão.
Lamentavelmente, 6 anos depois, em junho de 1 972, o Maranhão
ainda era citado em triste destaque, no relatório " Erros e incom­
petência impedem a Reforma (do Ensino) ", elaborado por Rosân­
gela Bittar, e divulgado n' O Estado de São. Paulo de 1 8/6/ 1 972:

58
" ( . . . ) O Plano de Implantação da Reforma de l .º e 2.º graus de­
veria ter sido entregue até 1 1 de março . . . Até agora (junho de
1 972), o Maranhão não tem plano."
E continuando:
" ( . . . ) O Maranhão é um Estado que não considera a Educação
área prioritária. Quando as metas e bases do Governo Federal indi­
cam esta área como prioridade nacional . . . no plano de ação do
governo local, a Educação não aparece como meta prioritária. "
Dentro mesmo do Brasil, têm sido quase monótonas a s tentativas de
aplicação do esquema "Nação rica & Nação pobre " , quando se
compara o maior grau de dificuldades por que passam as populações
do Nordeste face a melhores condições reinantes em certas áreas ·
do Centro-Sul.
E com relativa freqüência surge daí a mesma fraseologia tática que
visa a antagonizar esses dois pólos populacionais : "espoliação" . . .
''colonialismo ".
Ainda uma vez, são também visíveis aí, a olho nu, as razões mate­
máticas que achatam os horizontes e limitam as possibilidades dos
nordestinos: seus pesados índices de analfabetismo.
Além do insulamento a que o Nordeste, por inépcia ou má fé, foi
atirado durante várias décadas (0 País dos coitadinhos, capítulo
"O No�deste brasileiro é uma ilha 2 vezes mais distante que a Aus­
trália "), aquela região, com um terço apenas da população brasilei­
ra, apresentava ainda em 1 970 " metade dos analfabetos do Brasil "
- segundo análise feita pelo economista Rúbens Vaz da Costa (0
crescimento demográfico do Nordeste e o desenvolvimento nacional)
à luz dos dados dos últimos censos.
" Outro efeito importante da explosão demográfica, diz Rúbens Vaz
da Costa, é a persistência do elevado grau de analfabetismo. Em
1 960, o Nordeste tinha mais analfabetos que em 1 920, e em 1 970,
mais do que em 1 960. A metade dos analfabetos do Brasil encon­
tra-se nesta região. As cifras mostram o aumento do contingente de
analfabetos: 4.900.000 em 1 920; 5.900.000 em 1 940 ; 6.900.000
em 1 950; 5.200.000 em 1 960 e 7.020.000 em 1 970, de acordo com
os dados do I PEA. Em meio século, o número de nordestinos anal­
fabetos aumentou de 5 para 7 milhões de pessoas. " (Rúbens Vaz
da Costa, O crescimento demográfico do Nordeste e o desenvolvi­
mento nacional, Edição Comec, 1 970, págs. 14 e 1 5 .)
Atitudes de indiferença pela Educação, como as de certos governos
do Maranhão, provavelmente repetidas por outras administrações
regionais, mantiveram os nordestinos sem condições tecnológicas pa­
ra vencerem sozinhos os problemas da sobrevivência, e para usu­
fruírem das perspectivas de prosperidade do seu próprio meio.

59
Segundo os levantamentos do Instituto de Planejamento Econômico
e Social ( I PEA), terminados em junho de 1 970, a zona rural dos
Estados do Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba,
Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia apresentava a média de 60 %
de analfabetos, e a zona urbana 30,8 % . (" I PEA revela que anal­
fabetismo é cada vez maior" , Jornal do Brasil, 9/8/ 1 970, pág. 25.)
Havia, porém, certas atividades urbanas (ou litorâneas) que polari­
zavam impressionantes cifras de iletrados: em março de 1 970, o
diretor da Divisão de Portos e Canais do Ministério da Marinha,
almirante Hilton Berutti, informava ao senador João Calrnon, idea­
lizador do movimento cívico " Década da Educação ", que o número
de marítimos analfabetos, no Nordeste, ascendia a cerca de 90 % ,
tornando-se isto um grave obstáculo para a modernização da pe�ca,
e da mecanização dos serviços portuários, etc.

Quando, num caso corno o do Haiti, a crítica liberal tende a atribuir


as condições de miséria do seu povo às conseqüências de um siste­
ma político vizinho do feudalismo absolutista, a 1ndia, com os seus
milhões de miseráveis, desmente a importância dessa razão - pois
que, desde a sua independência, tem tido à frente de seus governos
figuras cujo comportamento político e espiritual merece respeito e
admiração do mundo.
Poder-se-ia tentar estabelecer um índice máximo de "tolerância ao
analfabetismo ", índice abaixo do qual o número de iletrados não
prejudicaria o conjunto do progresso nacional, nem econômica nem
espiritualmente.
Digamos que esse índice fosse 1 0 % .
A Argentina seria, então, desde logo u m exemplo a ser analisado.
Com menos de 6% de analfabetos, o país desfrutou até 1 930 de
urna posição econômica que ensejou uma prosperidade decantada
no mundo inteiro.
Repentinamente, porém, baquearam as " velhas lideranças" da gran­
de nação. E o país entrou numa sucessão de dificuldades políticas e
econômicas traduzidas várias vezes por estados de violência e de
exceção.
Alguém dii:á que, nesse caso, não se pode afirmar que tenha havido
a mais remota influência do índice de analfabetismo.
Certamente, não foi este o fator que desencadeou a crise político­
social que lá se prolonga há mais de três décadas. Mas não temos
dúvida que se os poucos analfabetos não foram à fonte, os nume­
rosíssimos semi-analfabetos formaram o caldo da çultura em que se
têm fermentado as condições de desassossego, e até retrocesso econô-

60
mico, daquela que até uns quarenta anos atrás era uma das nações
mais florescentes da face da Terra.
A nosso ver, o que quer que seja a causa, direta e primeira, da ins­
tabilidade que atingiu um país da solidez anterior da Argentina,
essa razão sobrenada na areia movediça qüe são os seus 5% de
analfabetos ( 1 .220.000 cidadãos acima de 14 anos) e os seus ines­
perados 25% de semi-analfabetos (6.332 .000 de pessoas com apenas
até três anos de curso primário), numa população total de 23 .364.000
(censo de 1 970) . Esses algarismos surpreendentes, e até há pouco
totalmente desconhecidos no exterior, foram revelados em 1 97 1 pelo
CONADE (Conselho Nacional de Desenvolvimento, da Argentina) .
("América Latina: O perigo dos semi-alfabetizados ", Boletim Banas,
1 9/4/ 1 97 1 , pág. 1 8 .)
Enquanto o avanço da tecnologia não ameaçava a marginalização
também das massas semi-analfabetas - como já ocorre largamente
nos próprios EUA e na França - a existência desses semicidadãos
não era motivo de preocupação, nem somava contra na vida do país.
Certas fixações carismáticas da massa popular argentina só puderam
ser entendidas a partir de quando se tornou oportuna a revelação
de que um terço da população do país não freqüentara, ou então
mal se assentara nos bancos da escola primária - e sofria, expri­
mindo-o em suas reações político-sociais, todas as conseqüências
dessa grave deficiência.
Por outro lado, crescerão continuamente os bolsões de miséria,
as "nações pobres" insuladas dentro dos próprios países desenvolvi­
dos, se estes não derem socorro intelectual imediato àqueles grupos
profissionais cujas habilitações forem ficando aceleradamente obso-
·
letas.
Há pouco tempo, o óbvio revelava-se de novo na área que ora anali­
samos, quando se publicaram algumas estatísticas sobre o estágio
social da "nação rica" que há dentro do Brasil: São Paulo. Traba­
lhavam nesse Estado, em 1 97 1 , 30% dos brasileiros com mais de
12 anos de estudos, e era em São Paulo que se encontravam 40%
dos cidadãos que ganhavam mais de mil cruzeiros por mês, no
país. (" Paulistas têm a melhor vida", O Estado de S. Paulo 1 2/9/ 7 1 ,
1 .ª página.)
Essa concentração maior de cidadãos quase idealmente escolariza­
dos explica o progresso maior de São Paulo, apesar do número
( 1 .266.000) de analfabetos adultos (de mais de 40 anos) que ainda
há no Estado, e dos 1 .0 1 5 .000 semi-analfabetos (com até três anos
de curso primário) aí existentes. O censo de 1 970 revelara . . . . . .

1 7.775 .000 habitantes no Estado, 3 .997 .000 dos quais acima de 40


anos. (José Pastore e Ana Maria F. Bianchi, do Instituto de Pes-

61
quisas Econômicas de S. P. - " Universidade e democratização do
ensino ", O Estado de S. Paulo, 1 8/6/ 1 972, pág. 38.)
Quando os percentuais de analfabetismo e semi-analfabetismo de
um país vão ao plural das dezenas, significando, em conseqüência,
que são acanhados os algarismos dos que compõem seus grupos diri­
gentes, quase nem adianta que jorre sobre ele a abundância de ri­
quezas como o petróleo, ou o estanho ou o cobre. Parece que nas
mãos de elites incapazes, ou reduzidas, que pontificam sobre mas­
sas de analfabetos, o ouro realiza uma alquimia às avessas e retorna
pelas retortas do desperdício e do esbanjamento, ao desvalor da
argila.
Alguns dos "países do petróleo" no Oriente Médio ainda ostentam
índices de analfabetismo que ultrapassam a casa dos 90 % . Foi noti­
ciado, em princípios de 1 972, que uma dessas nações, onde os ile­
trados absolutos ascendiam naquele ano a 68 % , aplicou 1 bilhão e
duzentos milhões de dólares (recebidos de " royaltiesn do petróleo)
na compra de armamentos para seu exército de vinte mil homens,
quase todos analfabetos.
Durante os 27 anos da ditadura obscurantista de Juan Vicente Go­
mez, nada se incorporou de definitivo ao progresso ou à prosperi­
dade da Venezuela, ou de seu povo, que proviesse do rio de "royal­
ties" que também jorrava de seus poços de petróleo. Nada se plan­
tou de legítimo para a cultura e o desenvolvimento da Bolívia (80%
de analfabetos) , durante as décadas em que, quase sozinha, era o
maior abastecedor mundial de estanho.
Por ter tido 90% de analfabetos até o fim do 2.º Império, e cerca
de 60 % até 1 930, o Brasil nada conseguiu usufruir, seja para am­
pliar, diversificar ou modernizar sua economia, com o fato de ter
sido - num mundo também ainda atrasado - o maior produtor
mundial de madeira, o maior produtor mundial de ouro, de açúcar
e de borracha. Nada, ou quase nada, resultou de todas essas gran­
dezas superlativas, que ampliasse duradouramente o patrimônio de
experiências e de saber-fazer da nação.
Por incapacidade de assimilação, todas essas hegemonias passaram
por nossas mãos - ainda colônia, ou já Império e República -
como se fossem mãos porosas, incapazes de reter a seh a que daria
lugar às definitivas sementeiras do desenvolvimento.
Aliás, o diagnóstico das razões da miséria da América Latina vem
por inteiro, de alto a baixo, com a crueza de uma radiografia, nestes
algarismos, que o prof. Oscar Vera extraiu da publicação da
UNESCO, " World IHiteracy at Mid-Century" (Paris, 1957):
- 49 % , aproximadamente, da população de 1 5 ou mais anos de
idade na América Latina não tinham freqüentado a escola, ou
a tinham abandonado antes de terminar o l .º ano;

62
_ 34% tinham recebido alguma educação primária;
- 8% tinham cumprido a obrigação escolar (primária) ;
- 6% tinham recebido alguma educação secundária ou técnica;
- 2 % , aproximadamente, a tinham completado ou quase comple-
tado;
- 1 % tinha iniciado ou terminado alguma forma de educação su­
perior.
(Oscar Vera, "Estado atual da educação escolar", apud Desenvol­
vimento, trabalho e educação, Zahar Editores, 1 967, pág. 32.)
Trata-se de algarismos de um levantamento feito em 1 950. O pro­
gresso já feito pelos países latino-americanos na área educacional é,
sem dúvida, sensível. Mas a soma de analfabetos e semi-analfabetos
continua a exercer seu peso negativo sobre amplas camadas das po­
pulações rurais e das zonas periféricas das cidades maiores, da Amé­
rica Latina.
Para nós brasileiros, isto é visível a olho nu no nordeste do país,
onde a massa de dinheiro encaminhada pelos incentivos fiscais não
encontrou uma reprodutividade que correspondesse de modo total
ao seu poder fecundante.
E é dali mesmo, do Nordeste brasileiro, que se extrai outra lição
dramática, igualmente aplicável a todas as áreas subdesenvolvidas
de qualquer latitude do mundo: serão mínimos os resultados econô­
mico-sociais que se obtêm, mesmo quando lá se despejem cornucó­
pias de dinheiro. Pois este, não importa sua abundância, não fer­
tiliza nem se reproduz sobre o campo desvitalizado que são as
mentes das massas de analfabetos e semi-analfabetos.
O Nordeste rural - onde vivem 1 7 milhões de pessoas - " ainda se
caracteriza como o maior e mais resistente bolsão de pobreza e de
atraso relativo do país, talvez mesmo de toda a América Latina, em
que pese o grande esforço de investimento que ali se vem realizando,
mais intenso e ordenado, nas últimas duas décadas" . Quatro minis­
tros do Estado - do Planejamento, do Interior, da Fazenda e da
Agricultura; srs. Reis Veloso, Rangel Reis, Maria Simonsen e
Alyson Paulinelli - responsabilizavam-se por estas afirmativas, assi­
nando a exposição de motivos do " Programa de Desenvolvimento
de Áreas Integradas do Nordeste ", dirigida ao Presidente Ernesto
Geisel, e divulgada em 3 1 de outubro de 1 974. (" Geisel pede rigor
na execução do Polonordeste" , Jornal do Brasil, 3 1 / 1 0/ 74, pág. 1 6 .)
Simultaneamente com as gordas patacas da SUDENE, e com as
outras, mais magras, que a elas se anteciparam desde o tempo do
presidente Epitácio Pessoa ( 1 920) , deveriam ter sido lançadas tam­
bém no fértil espírito da população rural do Nordeste as sementes
da instrução intensiva, e da Educação profissionalizante.

6J
e um terrível paradoxo este, o dos povos atrasados : quanto menos
capacidade para saber-fazer e saber-ter, quanto menor sua capaci­
dade de produzir, mais frenética é sua disposição para consumir.
A mais trágica faceta da maratona humana é que, anualmente, em
todo o mundo, cerca de 4,5 milhões de indivíduos que não tiveram
escolas atingem a idade de serem definitivamente catalogados como
analfabetos. Comentando, em estudo divulgado em maio de 1 972,
uma publicação da direção do Banco Mundial, o economista brasi­
leiro Omer Mont'Alegre advertia que estamos num mundo em de­
senvolvimento em que há, porém, 1 00 milhões mais de analfabetos
do que há vinte anos.
Em 1 970, subia já a 800 milhões o número de adultos totalmente
i letrados. Eles se localizavam exatamente naquelas faixas sociais e
nos países e continentes onde a miséria se apresenta como uma espé­
cie de conseqüência biológica e funcional do nada-saber.
Somente na Ásia, havia cerca de 500 milhões de analfabetos, e isto
representava nada menos que um terço da população adulta do
mundo.
Num ensaio sobre Educação (" UNESCO prepara choque do futu­
ro"), o Boletim Cambial do Rio, de 1 /2 outubro de 1 972, pág. 1 6,
analisava um relatório da UNESCO, " Aprender a ser", afirmando
então: "Dois números ajudam a medir o abismo que separa, no do­
mínio da Educação, países ricos e países pobres: nos EUA, 44% dos
jovens com menos de 24 anos freqüentam cursos superiores. Na Áfri­
ca, apenas 40 % de jovens até essa idade passam pelas portas das
escolas primárias. Vinte nações do terceiro mundo não instituíram
ainda o ensino primário obrigatório. "
O mesmo estudo de L'Observateur que já citamos neste capítulo
("O ritmo acelerado da Educação"), e que fora publicado em prin­
cípio de 1 969, calculava que "era da ordem de 1 00 bilhões de dó­
lares o orçamento mundial " diretamente aplicado pelos governos em
Educação. Mas os 95 países em desenvolvimento, com população três
vezes maior (2.700.000.000) do que os países adiantados, só aplica­
vam dez bilhões desses US$ 1 00 bilhões, apesar de isto já represen­
tar um aumento substancial em seus anteriores investimentos em
escolas e equipamentos de ensino.
A Conferência Internacional de Educação convocada pela UNESCO
para setembro de 1 97 1 registrou, com otimismo, que " regiões tidas
como subdesenvolvidas - América Latina, África, Ásia e Oceania
- apresentam taxa muito superior nas suas verbas destinadas à
Educação e Saúde do que a armamentos ". O total mundial na oca­
sião era: 1 73 bilhões de dólares para armamentos, 1 20 bilhões para
Educação e 59 bilhões para Saúde. Em conseqüência desse esforço,
o número total de escolares aumentou de 325 milhões em 1 962 para

64
460 milhões em 1 970. (Janos Lengyel, " Gastos militares se igualam
no mundo aos de Educação e Saúde ", O Globo, 1 7/9/7 1 , pág. 1 2 .)
Mesmo assim, o relatório registrava um outro dado melancólico para
o futuro da humanidade: em 1 970, cerca de um terço das crianças
de toda a Terra ainda estava sem escolas. Somente nos países do
" terceiro mundo", havia 200 milhões de crianças, de 5 a 14 anos,
sem escolas.
O terrível quanto à progressão da diátese ignorância-miséria é que
sua extirpação total exigiria de cada país atrasado, para obter-se a
escolaridade mínima dos 1 2 anos para cada criança ou jovem, ver­
bas próximas do total de seus orçamentos nacionais. A recuperação
do tempo, do bem-estar econômico e da dignidade social perdidos,
teria que representar um quase esforço de guerra para os povos
caudatários, pelo menos nos primeiros dez anos de uma decisão de
tal porte.
Uma concentração de recursos dessa ordem, e sua destinação a um
fim administrativo quase exclusivo, exigiriam dos governos e dos
povos dessas nações um comportamento espartano e uma clarivi­
dência que desgraçadamente lhes faltam, como igualmente lhes fal­
tam os próprios meios.
Nem têm eles também a própria noção da prioridade absoluta da
Educação, noção que, se existisse nesse grau, exigiria a coragem da
opção por uma medida que embora profundamente social e huma­
nitária é muito pouco rentável em prestígio e popularidade - fins
primordiais visados quase sem exceção em todo o mundo por aque­
les indivíduos cuja sobrevivência no cenário nacional depende da
boca das umas.
No caso do Brasil, atingimos algarismos e percentuais relativamente
mais otimistas do que os de muitos outros países que lutam também
por libertar-se das conseqüências e condições do atraso educacional.
Nossos gastos com Educação, segundo dados do Centro Nacional de
Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, passaram de
5,6% das despesas orçamentárias totais em 1 963 para 1 2 ,7% em
1 970. E o governo assegura que esse percentual vem sendo mantido.
O salto, porém, dentro da década em curso já é altamente positivo:
nosso país está passando de um total de 1 1 .500.000 crianças e jo­
vens escolarizados em 1 963 (do primário até à universidade), para
26 milhões em 1 974, nos três estágios do ensino - ou seja, uma
vez e meia o número anterior.
Esses dados animam-nos e enchem-nos de confiança. Mas ainda não
nos podem dar orgulho, pois em fins de 1 973 ainda era de mais de
5 milhões o número de brasileirinhos sem escolas. Em meados de
1 974, o governo anunciava um plano de emergência, a sua senha
para repor essas crianças no comboio do futuro: faria um desvio

65
na rota primitiva do MOBRAL, que se destinara apenas a adultos.
Iremos tratar do assunto MOBRAL no capítulo sobre analfabetos
adultos. Mas não podemos furtar-nos à observação de que o Brasil,
como tantas outras nações do " terceiro mundo", ainda avança com
certa tibieza e debilidade na marcha para a Educação de sua infân­
cia e juventude - marcha que é embaraçada por outras supostas
prioridades.

Para que não fiquem dúvidas em que tipo de esforços deve uma na­
ção em desenvolvimento, ou simplesmente subdesenvolvida, aplicar
suas quase sempre limitadas reservas de energia e de recursos, ana­
lisemos aqui ainda algumas distorções a que nos pode atrair a con­
frontação " Nações ricas & Nações pobres " .
Além d a sugestão d e "espoliação" , facilmente extraída desse binô­
mio pelos estrategistas políticos, as nações ricas são agora acusadas,
a um só tempo, de: (a) não ajudar; (b) ajudar, mas visando a in­
fluenciar ou dominar.
Há nações ricas que ajudaram (embora, neste caso, o plural talvez
seja exagerado), como há as que, tendo elas próprias sido ajudadas,
prefiram poupar-se do boomerang da ingratidão, da mesma ingra­
tidão com que pagaram os seus ajudadores.
Em nenhum momento, porém, da História humana, falou-se tanto
em ajuda internacional quanto nestas quase três décadas seguintes
à II Grande Guerra. O próprio diretor mundial da FAO, sr. Adecke
Boerma, exprimia-se desta maneira, em pronunciamento à imprensa
do México, em agosto de 1 972 : "Há países desenvolvidos na Europa
e no norte da América que falam muito em ajudar os países do ter­
ceiro mundo, mas nada fazem. "
B pena que, devido a seu cargo, o sr. Boerma não tenha podido dizer,
por exemplo, que essas nações da Europa são a França, a Itália,
a Inglaterra, a Bélgica, a Holanda, a histérica Suécia e a Rússia; e
que a nação do norte da América a que ele se referia é aquele país
tão distante da espécie humana, o próspero e farto Canadá.
A queixa do diretor mundial da FAO é tão chocante que não é pre­
ciso que a ela se adicione qualquer argumento. E, embora sejam
poucos os países que hoje prestam ajuda, essa deve ser salientada não
pela quase exceção que representa, mas pela própria intensidade do
que chegou a ser feito, pelo que ainda se faz e pelo erro básico que
nisto se cometeu - apesar de sua indiscutível boa intenção.
Para aqueles religiosos que estão sempre prontos a acusar - mas
nunca a reconhecer - é bom que se lembre que mesmo sendo pou­
cos os países que têm prestado ajuda aos povos subdesenvolvidos,
essa foi realizada em tal proporção que tornou ninharia e tutaméia

66
as espórtulas todas que as sacolas da piedade coletaram em quase
dois mil anos de cristianismo.
Antes de determinados países europeus, arrasados pela guerra, agre­
direm os seus benfeitores para não terem que lhes agradecer o que
haviam recebido - uma boa chuva de auxílios chegou a desaguar
sobre os bolsões da miséria, acantonada ou encolhida em alguns dos
quadrantes do mundo.
Tentava-se irrigar, ao mesmo tempo, tudo que fenecia, que se estur­
ricara ou que não se desenvolvia na estrutura econômica de povos
empobrecidos. Porém, tudo que se lançava na fornalha desaquecida
de economias estagnadas gerava uma energia limitada, que logo se
circunscrevia apenas ao tempo e espaço diretamente atingidos pela
ajuda. Cessada esta, pouco ou naàa ficava, tal como águas que cho­
vessem sobre um terreno poroso.
Envolvidos na confusão de tudo que desmoronava e aturdidos pelas
imprecações de todos os que clamavam, os doadores açodaram-se
em dar imediatamente pão, sempre mais pão, aos que logo poderiam
vir a ter fome. Hoje, após trinta anos de prática da ajuda propor­
cionada, é fácil apontarmos seu erro capital; este vem de uma das
mais primitivas e mais óbvias lições da velha sabedoria chinesa: o
que é definitivo não é dar o peixe, mas ensinar a pescar.
O baixo ventre dos povos necessitados foi durante muitos anos o
alvo mais freqüente, e errado, dos planos de ajuda. Pouco dessa
ajuda se destinou aos cérebros e, portanto, à capacidade criadora
própria, desses povos.
Entre aquelas pessoas de boa fé que, num simplismo bíblico, en­
camparam o binômio " Nações ricas & Nações pobres ", talvez haja
muitas que assim ajam na suposição de que, pondo a nu os elemen­
tos chocantes dessa desigualdade, como um escândalo deste mundo
desumano, estarão constrangendo a agressiva prosperidade das "na­
ções ricas ", principalmente nos cenáculos das grandes reuniões
internacionais.
Vã esperança dos que pensam que a simples pressão moral da ver­
dade da miséria leve os que se conduzem sob as linhas gélidas do
realismo político a qualquer constrangimento ou penitência, e a
conseqüentes ações de generosidade.
No pretendido confronto entre " nações ricas" e "nações pobres ",
há duas posturas tolas e ingênuas: a primeira é esperar que nos
ajudem porque precisamos; a segunda, achar que pagarão por nossas
matérias-primas aquilo que consideramos ser "justo", e não o que
acharem que vale.
Já vimos pelo constrangido, mas claro, depoimento do diretor mun­
dial da FAO, que a contagem astronomicamente crescente dos alga-

67
rismos da pobreza mundial não abala o isolacionismo ou o pilatis­
mo de certos países e povos ricos da Europa.
Por outro lado, culpar as nações ricas quanto ao estado de precisão
em que ainda continuam a viver as nações pobres - e acomodar-se
aos rendimentos intelectuais, partidários ou ideológicos que disso
possam ser extraídos - é desservir os povos necessitados. As amea­
ças dos que têm milhões de bodoques não conseguirão alterar fun­
damentalmente a atitude dos donos de bombas atômicas, ou que­
jandos.
A crueza dos fatos prova a todos os momentos que tolos são os
povos que se acocoram como outros, no " pátio dos milagres ", sen­
tados sob a esperança de que as nações desenvolvidas têm a obriga­
ção - cristã, divina e jurídica - de ajudá-los.
Muitos corifeus, leigos ou religiosos, pensam que, forçando-se mundo
afora um clamor ético contra as nações ricas, estas se comoverão,
ou sentir-se-ão acuadas. abrindo mais o coração, e a bolsa. Por isto,
requintam na dramatização das diferenças, descarnam os ossos dos
necessitados, exibem-lhes a pele e a magreza, chocam os olhos e
ferem os ouvidos do empanzinado mundo rico - na esperança de
sacudir-lhe as banhas e a inércia, e dar-lhe um safanão para mudan­
ça de rumos e objetivos.
Quase tudo o que conseguem é pouco mais do que aprofundar a
vala dos ressentimentos. O que pode ser um resultado político -
porém necrófilo.
Num livro de 389 páginas (Nações ricas e Nações pobres, trad. de
Ruy Jungmann, Editora Forense, 1 967), o prof. e economista norte­
americano, John Pincus, dedica grande parte dessas páginas a des­
fazer a ilusão dos que sonham em termos de " generosidade", e dos
que vociferam em nome dos "direitos " :
"A opinião realística sobre o assunto nos levaria o conclusões algo
paradoxais. Em primeiro lugar, (os países ricos do) Oriente e Oci­
dente têm muito poucos motivos para, movidos por frias consi­
derações de auto-interesse, preocuparem-se com o destino dos países
subdesenvolvidos, porquanto na prática, nada podem esses países
fazer politicamente para ajudá-los ou prejudicá-los " (pág. 1 0) .
E mais adiante, Pincus adverte cruamente: " Não podemos nem de­
vemos fazer a análise econômica sob a forma de uma teoria de jus­
tiça social" (pág. 14).
À página 18, de Nações ricas e Nações pobres, prossegue a adver­
tência do economista ianque:
" Em anos recentes, o fato provocou a redução das verbas da ajuda
americana; o aparecimento do cartierismo na França, baseado na
proposição de que se devia desviar a ajuda para as zonas atrasadas

68
da própria França; e até mesmo o declínio do sempre atrasado pro­
grama alemão de ajuda. "
Exagerado o u não e m seu pessimismo, o certo é que, como frio
cientista econômico, Pincus não descobre nenhum plural de razões
para que os países ricos saiam de bandeja em punho, catando e pre­
senteando povos pobres nas. esquinas do planeta.
Sua crueza nos reaviva uma opção também crua: ao invés de óculos
escuros e bengalas de proteção para ajudá-los permanentemente na
caminhada cambaleante, os povos necessitados devem, a nosso ver,
preferir as vitaminas de luz que lhes restaurem ou lhes propiciem
a vista das coisas e dos valores deste mundo.
Pois, a caridade é uma muleta de exterioridades sociais, obsoleta,
que o cristianismo, há dois mil anos, idealizou e segue receitando
indiscriminadamente, até para aqueles males que não se curam com
esmolas. Mas com escolas.
A cura dos sofrimentos coletivos das massas não pode concentrar-se
apenas em atender as necessidades e as deficiências dos "membros
bestas" do ser humano. Também cruamente: é preciso dar aos po­
vos uma ajuda que não lhes saia pelo reto, no dia seguinte.
Tal corno John Pincus, o seu famoso colega sueco, Gunnar Myrdal,
não tem a menor ilusão a esse respeito. E chega até a dizer que as
nações desenvolvidas movimentam a dedo uma política de sabota­
gem à eficiência das entidades internacionais de ajuda. " Uma aná­
lise das realizações dos organismos internacionais, especialmente no
campo econômico, levar-nos-ia a verificar que têm sido, em geral,
bem sucedidos os esforços para torná-los cada vez mais inócuos; "
(Gunnar Myrdal, Teoria econômica e regiões subdesenvolvidas,
Editora Saga, 1 965, pág. 1 1 4.)
E mesmo quando as nações ricas descem à condescendência das pro­
messas dilatórias, acontece, no final, aquilo que levou J ayme Torres
Bodet, grande intelectual mexicano, ex-ministro da Educação de
seu país, e ex-diretor geral da UNESCO, a renunciar a esse cargo
em 1 95 1 : ( . . . ) a hipocrisia de algumas potências que, ao mesmo
"

tempo em que elogiavam o trabalho desenvolvido pelo organismo


mundial, diminuíam seus recursos financeiros. " (José Quiroga, " Mé­
xico perde Torres Bodet ", O Estado de São Paulo, de 1 5/5/ 1 974,
pág. 9.)
Aliás, as nações latino-americanas - "vizinhas e irmãs ", e neces­
sitadas - tiveram pelas alturas do primeiro semestre de 1 973 uma
prova da desimportância que o Congresso norte-americano dá a esse
tipo de compromisso de seu próspero país.
Num momento de mera confrontação política, mesquinhamente mu­
nicipal, com um presidente (Richard Nixon), a maioria de deputa-

69
dos e senadores negou espetacularmente a continuidade do auxílio
às 24 nações latino-americanas - capando-o a uma tutaméia de
dólares impotentes - para logo em seguida votar, em 24 horas,
uma verba de 3 bilhões de dólares, como auxílio bélico externo.
Porque atrás da nação favorecida estavam 9 milhões de votos no
mercado eleitoral americano.
Aliás, uma outra voz, esta absolutamente insuspeita, adverte os paí­
ses pobres para não contarem muito com a generosidade das nações
ricas.
" Num informe dramático sobre o fracasso da ajuda econômica ao
terceiro mundo " , feito em setembro de 1 972 perante uma assem­
bléia conjunta do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mim­
dial , do qual era presidente, o sr. Robert McNamara afirmou que
"40% da população do mundo em desenvolvimento se encontram
num grau de extrema pobreza " , e que uma das principais causas do
problema "é o fato dos países prósperos não fazerem o suficiente
para ajudar as nações pobres. Não pedimos aos países ricos que re­
duzam sua riqueza para ajudar os mais pobres. Simplesmente, pedi­
mos que dividam com estes uma diminuta parcela de suas riquezas,
em constante aumento. " ("McNamara: maior ajuda para subdesen­
volvidos ", O Globo - Economia, 26/9/ 1972, pág. 20.)
A ótica apressada ou distorcida, que encara as nações pobres como
uma conseqüência pura e simples de pilhagem exercida pelas nações
ricas, encontra uma análise serena nas páginas em que Jean Fou­
rastié e Claude Vimont descrevem o que chamam de "os falsos pro­
blemas " da Humanidade.
"Esses falsos problemas não são mais do que frutos de crenças errô­
neas; essas crenças, que a ciência econômica moderna já está a
ponto de dissipar, podem ser grupadas nos seguintes enunciados:
a) O progresso econômico de um povo exige a submissão de outros
ou pelo menos a absorção pelos outros povos dos excedentes de
sua produção nacional (a verdade, no entanto, é que a coloni­
zação de territórios ou a abertura de mercados exteriores terres­
tres são tão imprescindíveis à prosperidade econômica de uma
Nação como a colonização da Lua ou do mercado do planeta
Marte).
b) O problema social é essencialmente um problema de distribuição
(em verdade, é secundariamente um problema de distribuição;
porém, primordialmente, é um problema de produção, pois é
com o crescimento da produção que se pode obter o decréscimo
da desigualdade social) .
c) Os problemas gerados pela propriedade são os problemas maio­
res da economia (no entanto, produzir conta muito mais do que
possuir; os problemas da prosperidade. desaparecem face aos

70
problemas da eficiência; tem muito mais valor econômico-social
o empreendimento público ou privado que fornece automóveis
ao custo de 1 .000 salários horários ou 1 quilo de pão a um terço
de salário-horário, do que a empresa pública ou privada que
fornece automóveis a 2.000 salários horários ou 1 quilo de pão
a dois terços de um salário-horário). (Jean Fourastié e Claude
Vimont, Histoire de Demain, Presses Universitaires de France,
1 959, págs. 1 25 e 1 26.)
Ignorando, até então, o que poderia resultar de um cataclisma eco­
nômico da extensão mundial da alta dos preços do petróleo ( 1 97 3),
Jean Fourastié vai mais adiante e fundamenta o seu otimismo quanto
à possível elevação do nível de vida das nações pobres ao analisar
a evolução da renda per capita dos povos (págs. 59 a 61 de La Ci­ ·

vilisation de 1975, Presses Universitaires de France, 1 964) :


" No conjunto, esses algarismos acentuam uma lei muito grata ao
equilíbrio mundial: uma alta geral dos níveis de vida com tendência
para a equiparação. Na verdade, as nações pobres progridem até
mais que as ricas . "
E Fourastié apresenta este gráfico d e renda per capita d e várias na­
ções, feito à base do regime de trabalho de 8 horas:

1909- 13 1 921-24 1925-29 1930-34 1 935-38 1960

EUA . . . . . .
. . . . . . . . 484 506 590 438 545 879
Argentina e Uruguai 297 382 446 403 488 754
Nova Zelândia 440 512 550 530 710 72 1
Canadá 402 459 550 435 529 701
Austrália 330 416 476 425 52 1 645
Grã-Bretanha 434 403 502 488 584 599
Suécia 1 65 240 275 301 367 527
Holanda .. . .. ..
. . . . 288 345 357 306 335 48 1
Dinamarca e Islândia 229 242 264 297 347 480
Suíça 285 396 463 410 455 466
Noruega 1 54 208 215 220 279 46 1
França 279 302 3 10 3 16 358 429
Espanha 200 240 245 250 260 390
Portugal 1 15 1 00 1 10 1 20 1 25 390
Japão . . . . . . . .
. . . . . 46 72 1 02 1 13 1 39 350
U.R.S.S. 1 02 57 95 90 1 08 336
l ndia 64 135
China 44 67

71
Comentando o quadro, Fourastié salienta: de 1 909 a 1 9 1 3 , os EUA
tinham uma renda per capita de US$ 484 que, meio século depois,
em 1 960, era de US$ 879; no mesmo período, a matriz do pomposo
Império Britânico, a Inglaterra, tinha um per capita que de US$
434 ascendera em 1 960 para US$ 599. Já com Portugal, Rússia e
Japão - " nações pobres" no começo do século - seus algarismos
que, em 1 909 a 1 9 1 3 , eram respectivamente de US$ 1 1 5 , 1 02 e 46,
saltaram para US$ 390, US$ 336 e US$ 3 50. No caso japonês, a
renda crescera de quase 900% enquanto a americana apenas do­
brara, comenta finalmente Fourastié.
Mais uma prova de que é preciso insistir na temática da prioridade
absoluta da Educação como primeira medida de salvação nacional
para os povos subdesenvolvido& é a lista de prioridades estabelecida
no alentado trabalho (900 páginas) L'élargissement du fossé, que o
jurista iraniano Manoucheurs Ganji elaborou recentemente a pedido
da Comissão dos Direitos do Homem da própria ONU.
Segundo a socióloga Anne Weill Tuckerman ("Um estudo sobre a
pobreza em massa no mundo " , O Estado de São Paulo, 1 2/5/ 1 974,
pág. 2 1 7) , o especialista iraniano recomenda como primeiras prio­
ridades " reformas fundamentais e gerais" nas máquinas políticas
desses povos e, em seguida, dá "grande prioridade à reforma agrária ".
O "ensino para a aceleração do desenvolvimento econômico e social"
vem citado apenas como sétimo passo a ser tomado, depois de outros
mais importantes e urgentes, para o levantamento do nível de vida
dessas nações.
O jurista iraniano reconhece que os 40% da população global dos
países pouco desenvolvidos vivem " em condições de pobreza abso­
luta " - e que entre eles há "mais de 800 milhões de analfabetos,
e este número aumenta constantemente " . Mas pela listagem das prio­
ridades parece que sua preocupação primordial é encher de imediato
os intestinos. e não o cérebro dos povos.
E o alentado trabalho do sr. Ganji, pela importância que lhe foi dada,
é um dos periscópios com que a ONU pretende navegar para salvar
os que jazem no oceano das pobrezas do mundo.

O mesmo terrível desnível que existe entre nações do mundo, dando


fundo de verdade ao divisor social " Nações ricas x Nações pobres "
reproduz-se com enfadonha semelhança praticamente dentro de cada
país. Pois, todos os países têm também as suas " nações pobres " , nos
seus velhos bolsões de pura ignorância, ou nos novos bolsões: o dos
marginalizados pela tecnologia e pelo progresso.
Mas onde o contraste se torna particularmente chocante é nos EUA,
cuja imensa prosperidade, e·xtravasando-se pelos vasos comunicantes

72
de todas as formas e meios de progresso, fazia supor que ali pelo
menos seria geral a inundação de fartura e bem-estar.
Mas também Já existem as áreas ressequidas da miséria, a sua "nação
pobre", encravada dentro de um mundo de completa abundância.
Essa "nação pobre .., refugada pela penúria de meios e pelos precon­
ceitos para os "harlens" e guetos, reúne nada menos que 1 3 ,5
milhões de indivíduos, dados como vivendo "em estado de grande
pobreza ". Eles são 6,2 % dos norte-americanos e representam uma
população maior que a de cada um de dezenas de países da Amé­
rica, África, Ásia e Oceania.
Em que razão básica se assenta a debilidade dessa "nação" , tor­
nando-a incapaz de usufruir ainda que modestamente daquilo, a
prosperidade, que é bem coletivo para os outros 207 milhões de
norte-americanos?
Em março de 1 972, René Maheu, diretor-geral da UNESCO (que,
como todos sabem, é o organismo das Nações Unidas dedicado à
Educação, Ciência e Cultura), apresentava, perante o Comitê Con­
sultivo Internacional para a Alfabetização, um relatório que con­
tinha, entre outras informações, uma revelação para muitos até
estarrecedora: havia, naquele momento, nos Estados Unidos, 7 mi­
lhões de pessoas que não sabiam ler. (" Analfabetos no mundo
aumentam em 83 milhões ", Jornal do Brasil, 28/3/72, pág. 1 4.)
A comunicação acrescentava que a situação do ensino no sul dos
Estados Unidos era responsável por "grande parte" desse surpreen­
dente contingente de iletrados.
Esse fato ocorria, pois, numa área sufocada pelas pressões e pela
intolerância do racismo. E completava, embora em outra latitude
do continente norte-americano, uma igualmente chocante informa­
ção contida em estudo publicado por James Naughton, num dos
suplementos de cultura do New York Times em janeiro de 1 97 1 :
" A necessidade mais imediata para os residentes do Harlem - mais
de 300 mil - é uma escola secundária, já que o bairro não possui
nenhuma. " (" Isolacionismo, a frente da guerra interna" - James
N. Naughton, do New York Times, Jornal do Brasil, 23/ 1 / 1 97 1 ,
pág. 8.)
Em setembro de 1 972, por ocasião de nova Jornada Internacional de
Alfabetização, realizada pela UNESCO em Paris, o sr. René Maheu
apresentou outra revelação sobre os componentes educacionais da
população norte-americana: havia, então, naquele país, " 1 8.5 milhões
de indivíduos, maiores de 16 anos, apenas semi-alfabetizados, incapa­
zes de ler até mesmo um impresso elementar como o das solicitações
de subvenções de desemprego. " ( " América Latina é a que mais luta
contra analfabetismo ", O Gfobo, 1 1 /9/ 1 972, pág. 1 1 .)

73
Em maio de 1 972, um relatório do Departamento do Trabalho dos
EUA, reproduzindo resultados de pesquisas realizadas em área de
pobreza naquele país, confirmava duas coisas já sabidas, ou pres­
sentidas pelos estudiosos: 1) " Porto-riquenhos e negros constituíam
a maioria dos habitantes dos bairros pobres de Nova York" ;
2 ) "Quase todos o s moradores desses bairros têm pouca instrução e
recebem salários ínfimos, quando não sofrem de desemprego
crônico. "
Os 7 milhões d e analfabetos detectados pelo diretor-geral d a
UNESCO formam assim, sem dúvida, o cerne d a " nação pobre"
encravada dentro do país norte-americano.
Isto comprova, uma vez mais, a trágica impermeabilidade da igno­
rância: ela não tem porosidade para absorver coisa nenhuma, mesmo
que esteja envolvida por um dilúvio de informações, conhecimen­
tos e de iniciativas que conduzam aceleradamente à prosperidade.
Naquele mesmo instante, 1 970, dois fatos capitais confirmavam a
extensão desse envolvimento:
1) Segundo as estimativas do prof. Clark Kerr, Reitor da Universi­
dade da Califórnia, os EUA estavam aplicando 29% do seu Produto
Nacional Bruto no " negócio" da Educação em geral - nisto
incluídos o planejamento, instalação, equipamento e manutenção de
cerca de 200 mil escolas, ginásios e faculdades públicas e particu­
lares, as despesas com livros, material escolar, experimentações cien­
tíficas, professores, assistentes, administradores e todos os funcio­
nários e auxiliares de ensino. (" Universidade de 95.000 alunos " ,
O Globo, 27/7 / 1 968, 1 .ª pág.)
2) Impelidos pela energia e capacidade geradora extraídas direta
ou remotamente do seu sistema escolar, o país atingira em seu
Produto Nacional Bruto, nos últimos 20 anos, de 1 950 a 1 969, um
segundo estágio de 500 bilhões de dólares. Os primeiros 500 bilhões
tinham sido alcançados em 1 60 anos, de 1 790 a 1 950.
A ajuda aos desempregados é a sardinha com que a " nação rica"
norte-americana tem mantido a sobrevivência da " nação pobre" nor­
te-americana.
Quando baixarem as ondas do maremoto que sacode aquele país,
é muito -provável que seus líderes descubram porque ali se avolumam
tanto os náufrag<;>s refugados para as ilhas do desespero. E, então,
os socorram. Mas com os instrumentos adequados: as ferramentas
perenes proporcionadas pela Educação.

O que nos levou a focalizar tão detalhadamente neste capítulo tantos


ângulos da dicotomia "Nações ricas & Nações pobres" não são as
conseqüências desagregadoras do antagonismo internacional que esse

74
primoroso slogan vise a criar, mas seu reflexo negativo, ou para­
·

lisador, nas iniciativas internas que os países do grupo dos que


"não têm" deveriam tomar para enfrentar os problemas da sua
pobreza.
O objetivo máximo da luta dessas nações não deve ser distorcido
ou limitado à sua justa reivindicação de melhor remuneração por
esta ou aquelas matérias-primas que produzam e vendam para o
exterior. Este é o murro para ser desfechado na mesa lá de fora.
As energias nacionais, de todos os cidadãos pensantes dos países
subdesenvolvidos, devem ser concentradas na exigência, no planeja­
mento e na imediata concretização de planos de Educação que,
dando-lhes melhor e mais versátil capacitação, liberem para sempre
os seus povos da dependência ou do paternalismo, com que as
nações-clientes porventura cerquem a sua "generosidade" em com­
prar o que produzamos.
A miséria caricata daquele lugarejo pernambucano, por exemplo,
em que só as mulheres trabalham o ano inteiro (fazendo chapéus de
palha para os seus maridos ociosos venderem), não vem de um
suposto e ridículo "colonialismo" dos fregueses sulinos que lhes
imponham preços baixos por seu produto. Mas, sim, da ignorância
e da incapacidade geral que deve lavrar entre os "patriarcas" da­
quele condado de hábitos tão exóticos, e de mulheres tão confor­
madas.
Ainda exemplificando, que seria melhor para um país como o Brasil,
dono das provavelmente mais extensas jazidas de ferro do mundo:
requintar-se na têmpera de blasfêmias contra os que não lhes pagam
melhores preços pelo minério, ou capacitar-se para produzir os me­
lhores aços, e ter firmes condições de competição técnica para obter
uma remuneração muitas vezes maior?
A diferença que há entre a ignorância agressiva, mas humilhada - e
a Educação, comedida mas respeitada - está no desnível que há
entre o preço de 10 dólares, que nos pagam pela tonelada de minério
de ferro, e os 2.000 dólares que nos pagam por uma tonelada de
aços finos.
Estudo publicado pelo Governo Abreu Sodré - "Economia Pau­
lista - Acompanhamento Conjuntural" (Boletim Técnico da Asses­
soria da Secretaria de Planejamento, setembro de 1 970, pág. 9 1 ),
informava que uma tonelada de nosso melhor minério de ferro valia
aproximadamente 10 dólares, enquanto já nos pagavam 1 50 dólares
por tonelada de aço laminado. Porém, produtos chamados de " Enge­
nharia" (automotrizes, máquinas, etc., suas partes e peças) alcan­
çavam valores de 1 .500 até 4.000 dólares, ou mais, por tonelada.
Os proveitos e os dividendos do saber-fazer mostram-se aí sensível-

75
mente superiores aos proveitos que possamos ter com a mera pro­
dução de gritos, ou com a importação de slogans, mesmo impressivos
e inteligentes.
Assim como recusamos admitir a tese de que é o subdesenvolvimento
que gera a pobreza, também não devemos aceitar a que sugere serem
as "nações ricas " que forçam e mantêm o estado de precisão perma­
nente, em que vivem as "nações pobres" .

Ambas a s teses nos levariam a uma distorção d a correta aplicação


das energias nacionais máximas, jogando nossos países no entorpeci­
mento de não fazer aceleradamente, dentro das suas fronteiras, aquele
esforço educacional que colocará nossos povos definitivamente ao
abrigo dos amuos do paternalismo e do assistencialismo internacional,
e das instabilidades da dependência econômica.
Ainda uma vez, não podemos nos deixar envolver pela anestesia
propagandística de que as matrizes dos males nacionais estão lá
fora, na casa ou no coração maligno de outros.
A matriz, não as matrizes, de nossas deficiências, é uma só: está
aqui dentro, e temos que varrê-la de nosso meio a toque de caixa.
E precisamos fazer isto antes que as novas décadas dobrem a fina­
dos por nossa miopia voluntária, de supor que os outros deveriam
podar seus egoísmos fiduciários, ao invés de nós corrigirmos nossas
debilidades tecnológicas. E a nós que cabe lançar, sobre os fossos
do atraso e da ignorância, os pontões pioneiros que desilharão as
massas de nossos países dos bolsões de miséria onde vegetam,
enquanto não vivem.
Se a imputação quanto ao direito de não morrer de fome procurar
causas ou culpados, encontrá-los-á mais depressa dentro de casa,
nos governos ou lideranças incapazes - do que na pança dos povos
que continuam engordando, mesmo depois da ablação das colônias.
Há uma senha que precisa ser passada imediatamente a todos os
povos da Terra. A miséria só é permanente onde as mentes são
vazias. Só a Educação põe mesa e dá banquete, não importa o
tamanho da dispensa, a extensão do país e até a sua abundância
demográfica.
Felizmente, hoje já sabemos que a miséria é muito mais uma conse­
qüência da incapacidade, do que do egoísmo.
E por isto que um dia ela pode vir a ser corrigida.

Agora, um vaticínio para este mundo de "nações ricas" e "nações


pobres ".

76
t'oaemos antever, sem esrorço e sem meao ae erro, o ruturo -
medíocre - das nações de maiorias analfabetas. Pois elas se com­
portam bovinamente como o gado encurralado.
Quanto ao futuro econômico-social dos povos adiantados, nem os
futurólogos mais bem equipados vislumbram qualquer certeza abso­
luta - pois é imprevisível o que podem a tecnologia e o engenho
humano.

77
3
como desmontar a bomba
da explosão populacional

•( . . . ) As duas bombas que podem


destruir o mundo: a de Hidrogênio
e a Populacional."
Bertrand Russell

•o homem corre perigo de se


tornar o câncer do planeta. •
Julian Huxley
•Adaptada à atual crise mundial de
alimentos, a triagem significa a
ajuda direta às nações que se
acredita terem uma chance razoável
de sobrevivência, deixando-se as
outras, como u lndia, entregues ao
seu próprio destino. O principal
defensor da triagem, o Dr. Garrett
Hardin, biologista da Universidade
da Calif6rnia, sustenta essa teoria
com a imagem dos botes salva-vidas.
As nações ricas do mundo, diz o
Dr. Hardin, estão navegando em
salva-vidas. No oceano nadam os
pobres do mundo, que gostariam de
subir nesses barcos. Se os países
ricos aceitarem todos a bordo, o
bote afunda e todos se afogam.
Para Hardin, seria mais avisado
proceder à seleção dos náufragos. •

"lndia aos 25 anos: abandonada à


própria sorte?" - Philip Knightley, do
Sunday Time (/ornai do Brasil, de
16/2/1975, pág. 6 do Caderno
Especial).

•A população do mundo cresce, a


cada ano, o suficiente para formar
um país como a Itália ou a
Inglaterra (57.000.000 de
habitantes). •

Boletim Estatfstlco da ONU, publicado


em 22/5/73. Dados referentes a 197 1 .

" ( . . . ) O terceiro, finalmente, é a

quase incrível incapacidade dos


dirigentes políticos em achar soluções
razoáveis para os problemas mais
simples que se lhes apresentam.•

Fritz Baade. A corrida para o ano


2.000, trad. de Macedo Neto, Editora
Nova Fronteira, 1966, pág. 227.
No seu livro, A pílula (Editora Record, 1 970) , o Dr. Robert Kistner,
professor da Universidade de Harvard, faz a apologia entusiástica
e extensiva (332 páginas) do uso desse anticoncepcional, porque se
não for detida a expansão da população, os 3.800.000.000 de seres
humanos de hoje serão, como já se tem previsto, 6 bilhões no ano
2 .000. E, logo em seguida, apenas 4 décadas depois, 13 bilhões de
indivíduos enxamearão esta colmeia de Deus.
E se essa diátese humana não for contida enquanto não atinge os
números incontroláveis da hecatombe, a quantidade de seres huma­
nos fervilhando sobre a superfície do globo nos levará a situações
impossíveis de conceber.
Quem vem antecipando para o mundo os episódios dos futuros desas­
tres humanos, com a persistência de uma cassandra computarizada,
é Robert McNamara, o mais sereno dos prenunciadores de catás­
trofes, talvez devido à sua própria e intensa convivência com as
grandes tormentas. Ex-secretário da Defesa dos Estados Unidos, num
dos períodos mais críticos de sua história contemporânea, McNamara
adverte na sua qualidade de presidente do Banco Mundial:
" As cifras previstas para depois do ano 2.000 exigem tanto da
imaginação que as estatísticas se tornam quase incompreensíveis.
Uma criança nascida em 1 970, e que viva até os 70 anos, conhecerá
um mundo de 15 bilhões de habitantes. Seu neto compartilhará o
planeta com 60 bilhões. Dentro de seis séculos e meio - o mesmo
lapso de tempo que nos separa de Dante - haverá um ser humano
para cada 900 centímetros quadrados de terra: um quadro de horror
que nem o Inferno do grande poeta poderia igualar. " (Robert
McNamara, " Explosão Demográfica " , discurso na Universidade de
Notre Dame, O Globo, Supl. Econômico, 24/5/ 1 969, pág. 3 .)
Por sua vez, com a mão nos cadeados dos silos, paióis, tulhas e arma­
zéns, os economistas das entidades de assistência internacional previ­
nem: caso se mantenham os atuais coeficientes de crescimento demo­
gráfico, e haja apenas um modesto acréscimo de 1 0 % no consumo de
alimentos per capita, será necessário aumentar em 300 milhões de
toneladas, nos próximos 20 anos, a atual produção de cereais,
estimada em 500 milhões. ("A pílula polêmica " , Boletim Cambial,
março, 1 968.)
E fazem duas advertências sobre o esforço que seria necessário para
obter-se este reforço alimentar: nos últimos 20 anos, as regiões
subdesenvolvidas só puderam aumentar sua produção em 1 34 mi-

81
lhões de toneladas; o volume total necessário, 300 milhões, é o que
os Estados Unidos e toda a Europa ocidental, juntos, produzem
hoje.
Poucos assuntos têm sido tão controvertidos como a explosão da
natalidade, e raros têm recebido proposições tão esdrúxulas para sua
solução, ou controle.
Numa e noutra margem dos debates, encontramos atitudes que vão
à paixão e ao extremismo, e algumas, apesar da seriedade com que
foram proferidas, nos desembarcam nas córcovas inesperadas do
pitoresco, ou do inacreditável.
Em estudo publicado no New York Times Magazine, o prof.
Kingsley Davis, da Universidade da Califórnia, revelou que uma
das maiores expressões intelectuais da Igreja em todos os tempos,
o Papa Pio X I I - que antes fora o sagaz Cardeal Pacelli - ao
defrontar-se com o problema, declarou que simplesmente as viagens
que o homem iria tentar, dentro em pouco, aos outros planetas, bem
poderiam fornecer a solução para os excedentes populacionais da
terra: os espaços totalmente vazios do nosso satélite. (Prof. Kingsley
Davis, "O outro sobressalto: gente demais" , New York Times Ma­
gazine, 1 5/3/ 1 959.)
Podemos ficar surpresos por essa afirmativa ter partido de quem
partiu. Mas as irreverências, ou as inarredáveis premências do pro­
blema demográfico parecem não deixar serenidade e, às vezes, nem
bom senso, àqueles que nele mergulham apaixonadamente, buscando
o fio salvador da meada.
Mais recentemente, o Papa Paulo VI se colocaria numa posição
temerariamente contrária aos processos modernos de prevenção da
natalidade, oferecendo, em compensação, como perspectiva de vida
aos 70 milhões de bebês que nascem anualmente no mundo, o
amparo e o fervor de suas próprias preces, e a esperança de que a
Humanidade se cristianize e agasalhe todos os filhos das mães de
todos os Mateus.
Aliás, em 1 969, já às vésperas do l .º homem fazer a l .ª alunissa­
gem, e depois de 10 anos de Sua Santidade, o Papa Pio X I I , ter
voltado seus pensamentos para a Lua como refúgio dos excedentes
terráqueos, lá se foi pela mesma rota lunar um senador americano,
o sr. George Aiken, que despejou uma série de perguntas incomuns
sobre seus companheiros de Congresso, quando estes propunham a
concessão de uma verba de 1 00 milhões de dólares anuais para
planos de controle demográfico nos países subdesenvolvidos. ("Sena­
dor americano sugere migração interplanetária", /ornai do Brasil,
20/7 / 1 969, pág. 1 2 .)
" Por que não se pensa na Lua para resolver os problemas de

82
superpopulação na Terra?" - interpelou imaginosamente o senador.
Um seu colega, mais compreensivo, explicou que provavelmente não
haveria disponível nenhum planeta habitável, pois "Marte era muito
seco; Mercúrio, quente demais; Vênus, de atmosfera venenosa;
e outros planetas de nosso sistema solar ainda menos toleráveis".
" Mas há outros universos, não?" sugeriu o senador vitoriosamente.
Como lhe respondessem de modo afirmativo, mas logo antecipando
a inviabilidade da idéia devido ao fato de a estrela mais próxima,
Alfa Centauro, achar-se a 4 e meio anos-luz da Terra, o denodado
parlamentar não desanimou e fulminou seus colegas com uma rara
observação: aquilo não era obstáculo, porque no passado " se levava
muito, muito tempo para ir de Washington ao Alaska".
Completando o colorido desse episódio, poderíamos lembrar que,
partindo de um cálculo razoavelmente comedido, de que a colocação
de cada indivíduo terráqueo na Lua custaria cerca de 1 milhão de
dólares, a transposição dos excedentes anuais do momento - 57
milhões de seres humanos - custaria 57 trilhões de dólares. Isto é,
algumas vezes o PNB conjunto, de todos os países deste nosso globo.
Um projeto, portanto, que infelizmente nem o tremendo poderio das
orações do Papa e da sua imensa boa vontade, poderia levar avante.
Usando também dos dons da imaginação, outro eminente americano,
o prof. Richard Morse, da renomada Universidade de Yale, falando
perante a Comissão de Assuntos Interamericanos do Congresso, teve
uma idéia que ele próprio achou revolucionária: propôs que os
Estados Unidos recebessem 2 milhões de latino-americanos por ano,
como imigrantes. Isto, segundo o professor, forçaria, por desfalque
de agentes causais, a baixa do índice de natalidade na América do
Sul, ensejando assim a elevação da renda per capita nesta região.
( " Imigração da América Latina para os EUA ", O Globo, 25/4/ 1 969,
pág. 6.)
� verdade, anteviu o professor Morse, que esse contrapeso popula­
cional subdesenvolvido poderia provocar uma baixa no padrão de
vida norte-americano. Mas ele já estava prevenido com a resposta:
os EUA teriam "um revigoramento cultural com a chegada de
milhões de negros, índios e brancos, falando espanhol, português,
quichua e tupi ".
Transtornado pelos algarismos, ou pelos megatons da bomba popu­
lacional, um outro professor, este da igualmente famosa Universi­
dade de Stanford, nos EUA, declarou na 1 3 .ª reunião da UNESCO,
em novembro de 1 969:
"O governo dos Estados Unidos deve tomar medidas drásticas ime­
diatas que reduzam a natalidade dos povos subdesenvolvidos a quem
fornece ajuda."

83
E citou a possibilidade de se adicionar ingredientes esterilizantes
aos alimentos enviados através dessa ajuda. ("E há um professor
querendo nos esterilizar", Folha da Tarde, de Porto Alegre,
28/ 1 1 / 1 969, pág. 2 1 , e " Overpopulation Unites 2 Groups" , New
York Times, 2 / 1 0/ 1 959, pág. 49.)
Seria difícil aceitar como verdadeira essa declaração se não soubés­
semos que foi proferida pelo professor de Biologia, Dr. Paul R.
Ehrlich, o próprio autor do livro A bomba populacional, um
apóstolo que, coerente com suas convicções e preocupações, se
fez esterilizar logo que se tornou pai de um filho, decepando, assim,
de uma só cajadada, qualquer alegação, primeiro contra sua própria
capacidade, segundo contra sua sinceridade.
Aliás, para mais uma faceta de pitoresco e paradoxo neste grave
tema populacional: foi somente depois de seu frustrado casamento
com um cientista canadense, do qual, conforme depoimento auto­
biográfico, " sua virgindade saíra intacta ", que a corajosa escritora
e feminista inglesa, Marie Stopes - considerada a pioneira da edu­
cação anticoncepcional nos tempos modernos, iniciou sua evangeli­
zação. Primeiro, em 1 9 1 8, a ainda miss Stopes publicou o rumoroso
livro Amor no casamento, e depois, através de uma incessante ação
direta, abriu em seu país cerca de 300 " Clínicas de Controle Cons­
trutivo da Natalidade" , a primeira das quais em 1 92 1 , em Holloway,
bairro pobre de Londres. (Robert Oakley, " Marie Stopes, a pioneira
do controle da natalidade", O Globo, 26/ 1 0/ 1 970, pág. 1 do '2.0
caderno.)
James Reston, um dos melhores analistas político-sociais da imprensa
americana, alarmado com o problema da explosão demográfica, não
conseguiu conter-se nas linhas intelectualizadas de sua coluna jorna­
lística, e desabriu-se ao analisar a abundante fecundidade das famí­
lias latino-americanas. Segundo Reston essa prolificidade nasce " da
obstinada vaidade e estupidez do homem ignorante da América La­
tina ( . . . ) que é pior do que o símio e celebra o culto do machismo,
quando já se esqueceu do culto da cristandade ( . . . ) Simplesmente
amar, não satisfaz ao homem latino. Ele tem que procriar, se pos­
sível todos os anos, a fim de provar que serve para alguma coisa" .
( J . Mayone Stycos, " Fé, Ideologia e Crescimento d e População na
América Latina " , " PRB ", Boletim do " Population Reference
Bureau " .)
Ao rosário nacional e internacional das afirmativas sobre o pro­
blema da explosão da natalidade, devemos acrescentar mais uma,
partida de um grande jurista e líder católico brasileiro, José Thomaz
Nabuco. Em conferência pronunciada na Escola Superior de Guerra,
em setembro de 1 97 1 , ao expor seu ponto de vista, segundo o qual
"a expansão demográfica é fator de riqueza, que deve ser estirou-

84
lado" , o advogado patrício avançou este pensamento: "A população
que existe no mundo é ainda insignificante, em comparação com o
território que existe a ocupar. Se fosse toda ela lançada na Baía da
Guanabara, não daria para enchê-la ". (José Thomaz Nabuco, " Uma
política demográfica para o Brasil - Razões para uma política
expansionista " apud Explosão demográfica e crescimento do
Brasil, de Mário Victor de Assis Pacheco; Edição Paz e Terra, 1 974,
págs. 18 e 1 9.)
Segundo ainda Mário Victor de Assis Pacheco, em apoio dessa sua
inesperada comparação, o conferencista "acrescentou que (o demó­
grafo francês) Alfred Sauvy já dissera que se toda a população
mundial fosse lançada no lago de Constança, o nível das águas
desse lago se elevaria apenas de vinte centímetros " . (Explosão demo­
gráfica e crescimento do Brasil, idem, idem, pág. 1 9.)
Já os economistas William Vogt e Robert Cook - citados também
por Mário Victor de Assis Pacheco, em seu Neocolonialismo e con­
trole de natalidade (Editora Civilização Brasileira, 1 968) - arro­
lam-se na legião dos apavorados com o megatério demográfico, a
ponto de " lamentar que os progressos da medicina e da higiene
tenham permitido o aumento das populações ( . . . ) ". " ( . . . ) Cook
chega a afirmar, diz Mário Victor de Assis Pacheco, que a elimi­
nação de uma série de doenças, junto com excessiva taxa de nasci­
mentos, constitui um desastre para certos povos . " (Mário Victor de
Assis Pacheco, Explosão demográfica e crescimento do Brasil, Edi­
tora Paz e Terra, 1974, págs. 30 e 3 1 .)
Seguindo essa linha reacionária dos receios de William Vogt e Ro­
bert Cook, outros "espíritos cínicos já calcularam que cada criança
salva da fome hoje condenará três outras a morrerem de inanição
no fim do século. " (" Vivre, demain . . . ", L'Express, número espe­
cial, dezembro de 1 974, pág. 34.)
O interessante é que em seu livro La Population Alfred Sauvy retoma,
de certa forma, o ingênuo pensamento de esperança com que o Papa
Pio XI 1 saudara a solução demográfica representada pela exploração
da Lua quando afirma que o contato do homem com esse planeta
" redespertou a febre ultramaltusianista, que já adormecia" .
Diz literalmente Sauvy: " A imensa decepção causada pelo con­
traste entre o custo enorme da navegação espacial e a pequenez
dos resultados trabalhou o inconsciente e fez surgir de repente a
impressão de um isolamento definitivo sobre a terra, do ponto de
vista econômico . " (La Population, Presses Universitaires de France,
1973, pág. 1 1 7.)
Isto é, o homem nada encontrou no deserto lunar que pudesse
aiudar ou enriauecer sua sobrevivência na terra.

85
Aliás, um outro ensaísta francês, Emmanuel Berl, depois de contra­
ditar aqueles que defendem uma França preventivamente super­
populosa para precaver-se contra seus vizinhos (os exércitos gauleses
arrancaram algumas de suas mais memoráveis vitórias face a inimi­
gos sempre numericamente superiores) focaliza igualmente o escudo
bíblico - "Crescei e multiplicai-vos " - com que a Igreja persis­
tentemente defende sua política natalista.
Berl vai buscar também no próprio arsenal da história sagrada a
munição de seus argumentos. Diz Berl: "Devemos desconfiar caute­
losamente dessas doutrinas. Numerosos fatos as contradizem. Deus
abençoa as famílias numerosas: mas não deu muitos filhos nem a
Abraão nem a Isaac, nem a Moisés ou a Elias, nem muito menos
aos apóstolos, entre eles o próprio Paulo. Também não os deu aos
santos nem às santas mais festejadas. O mesmo aconteceu a outras
figuras do mundo antigo: Sócrates parece que não deixou filhos,
nem Péricles ou Alexandre, o Grande. César foi pai apenas de
Cesário, de quem nem se fala. Marco Aurélio igualmente não deixou
descendência. E, no mundo moderno, não se vêem descendentes de
Dante, de Descartes, de Spinoza, Kant, Nietzsche ou Newton. "
(Emmanuel Berl, " La crise d u double progressisme ", L e Nef, n.º de
setembro/novembro de 1 973, pág. 37.)

" Quais as razões da manutenção dessa natalidade elevada nos paísés


subdesenvolvidos? " - pergunta Yves Lacoste, professor-assistente
da Sorbonne, em seu livro Os países subdesenvolvidos (5.ª ed.,
Difusão Européia do Livro) .
E o próprio Lacoste responde, à página 3 3 : " Josué de Castro emite
a hipótese segundo a qual a penúria e a carência de proteínas
estimulariam o instinto sexual e aumentariam as oportunidades de
procriação. "
Realmente, Josué d e Castro tem, como u m dos temas básicos d e sua
clássica Geopolítica da fome a tese de que não é a superpopulação
que gera a fome; mas exatamente o contrário: a fome é que gera
a superpopulação.
" Parece, portanto, um verdadeiro paradoxo esta nossa afirmativa
de que, longe de provocar uma tendência ao despovoamento, o
que a fome promove é uma tendência ao superpovoamento. Mas
não se trata de nenhum paradoxo e sim de constatação baseada em
uma série de fatos inteiramente comprovados. O primeiro destes
fatos, ainda de categoria empírica, fora a observação de que, em
seguida a períodos calamitosos de fomes e de pestes, as populações
aceleravam sempre a marcha do seu crescimento. Outra observação
que faz admitir certa lógica no nosso aparente paradoxo é que

86
os países de maior m1sena alimentar, acossados permanentemente
pela fome que dizima suas populações aos milhões são, também,
paradoxalmente, aqueles em que as populações crescem com mais
violência: a China, a fndia, o Egito e alguns países da América
Central. Por outro lado, os países de melhores condições alimentares
apresentam um verdadeiro declínio populacional incipiente - ape­
nas equilibrando o número de seus nascimentos com o de mortes.
h o caso da Austrália, Nova Zelândia e EUA." (Josué de Castro,
Geopolítica da fome, 2.0 vol., Editora Brasiliense, 1 968, pág. 237 .)
Segundo um destacado seguidor do pensamento de Josué de Castro,
o também médico e escritor Mário Victor de Assis Pacheco, Josué
baseava sua teoria nos experimentos de um cientista norte-ameri­
cano, de nome Slonaker, segundo os quais a falta de proteínas
aumenta a fertilidade animal. As experiências foram feitas em ratos
que, menos alimentados, se mostraram mais prolíficos. (Mário
Victor de Assis Pacheco, Explosão demográfica e crescimento do
Brasil, Editora Paz e Terra, 1 974, pág. 95.)
Pode ser que a natureza - que estabelece para tudo a regra brutal
do mais forte - nos surpreenda com mais este de seus paradoxos:
o de um animal inferior subalimentado ser sexualmente, e repro­
dutivamente, mais vigoroso que os seus semelhantes normalmente
alimentados, ou até superalimentados.
Mas isto poderia ser literalmente transposto para os seres humanos?
Ao que nos consta, até hoje a ciência não estabeleceu como axioma
infalível a tese de que todas as reações ou fenômenos bio-químicos
que acontecem aos ratos são reproduzidos de modo absolutamente
idêntico nos seres humanos.
Ainda citado por Mário Victor de Assis Pacheco, Josué de Castro
apresenta, em comprovação de sua afirmativa, o forte crescimento
da população do Japão, nos anos de 1 945 a 1 950, quando, termi­
nada a II Grande Guerra, "houve fome intensa" no país. (Mário
Victor de Assis Pacheco, Explosão demográfica e crescimento do
Brasil, Editora Paz e Terra, 1 974, pág. 95.)
Entretanto, vale lembrar que a população dos EUA também cresceu
acentuadamente no período de após-guerra mesmo com toda a super­
alimentação com que se empanzinam os prósperos americanos. (Se­
gundo o ensaio "Those missing babies" publicado pela revista Time
em 1 6/9/ 1 974, págs. 28-33, o baby-boom de após-guerra foi o
maior da história americana : 64 milhões de crianças.)
Ou será que Josué, de sensibilidade sempre atenta às penações
humanas, teria se esquecido da outra grande fome - aquela que
atinge duramente os casais jovens, apartados pelas terríveis distân­
cias que existiam entre o front e os leitos conjugais?

87
Além desse fator biológico, de evidentes conseqüências reprodutivas,
havia também naquele momento da vida dos povos - e dos seus
milhões de casais reajuntados - a euforia, o estímulo psicológico
fortíssimo da paz, da sonhada tranqüilidade, e da segurança para
o futuro.
Se, seguindo o pensamento de Josué, tivermos que aceitar a tese
de que é a fome que torna mais prolíficas as famílias pobres do
Nordeste brasileiro, que se diria então quanto às numerosíssimas
famílias remediadas e ricas daquela região - e de todas as outras
áreas do Brasil - que, por crença religiosa ou simples satisfação
patriarcal ou fisiológica, se multiplicam por oito, dez, doze rebentos?
Mais ainda: uma tal tese levaria a uma conclusão que, mesmo a olho
nu, não é verdadeira - a de que não haveria casais estéreis entre
as camadas pobres da população. E a uma outra que também seria
um absurdo biológico: a de que todos os casais formados por bem­
alimentados filhos da burguesia tenderiam após a segunda ou ter­
ceira geração à própria esterilidade.
Se Josué de Castro tivesse partido de outro raciocínio menos poli­
tizado, servindo-se mais da sua opulenta ciência que da sua filosofia,
ele talvez nos tivesse apresentado sob o prisma de suas análises
devassadoras esse outro ciclo - o da ignorância que gera a miséria,
a qual, por sua vez, gera mais miseráveis.
� curioso como se tenha estabelecido mundo afora esse debate -
a fome é a causa da superpopulação; a superpopulação é a causa
da fome - quando ambas são conseqüências, e não uma a causa
da outra.
Se a superpopulosa India passa fome, as superpovoadas Bélgica, Ho­
landa, Dinamarca (de média superior a 300 hab. por km quadrado),
desfrutam de um elevado nível de vida - que melhora continua­
mente, mesmo em face de as duas primeiras não terem mais à sua
disposição os celeiros de suas colônias. Qualquer analista econômi­
co-social explica sem titubear que isto é uma conseqüência lógica
do seu elevado índice educacional.
O que existe, a nosso ver, provocando a superpopulação em certos
países, é a força de um ciclo trágico: quanto mais ignorante um
casal, mais sujeito à pobreza; e quanto mais ignorante e pobre,
mais filhos - exatamente em conseqüência da ignorância, e da
falta de meios oriunda da sua condição.
Estamos, como se vê, diante de um outro ciclo que, pelo ambiente
de miséria em que se desenrola, avizinha-se do lendário "ciclo do
caranguejo", levantado genialmente pelo próprio Josué de Castro,
em seu outro livro também clássico, Geografia da fome, onde ele
gizou indelevelmente outros ângulos da mesma tragédia: a dos fave-

88
lados dos mocambos do Recife, alimentando-se de caranguejos que
eles colhiam nos mangues ao fundo de seus casebres, de cujos
esgotos e dejeções se alimentam esses mesmos caranguejos. (Geografia
da fome, l .ª ed., Editora O Cruzeiro, 1 946, pág. 257; e Josué de
Castro, Homens e caranguejos, Editora Brasiliense, 1 967, págs.
28 e 29.)
A tese de Josué de Castro entusiasmou de tal modo ao já citado
demólogo brasileiro, Mário Victor de Assis Pacheco, que o levou
a buscar novos argumentos, também científicos, em seu apoio.
"A tese que afirma a maior reprodução entre os famintos para per­
petuar a espécie também se confirma nas escalas mais inferiores dos
seres vivos, pois verifica-se que, quanto mais atrasada a sistemática
biológica, mais o ser vivo garante sua perpetuação, através de sua
função reprodutora. Isto se pode confirmar facilmente nos vírus,
protozoários, bactérias, fungos e também em vermes, além de em
animais como camundongos e ratos." (Mário Victor de Assis Pa­
checo, Explosão demográfica e crescimento do Brasil, Editora Paz e
Terra, 1 974, pág. 96.)
Trata-se, sem dúvida, de observações positivadas em laboratórios.
Mas será que as camadas mais pobres da humanidade podem ser
comparadas, em qualquer sentido, a esses seres inferiores acima
citados?
Sem sermos cientistas, podemos nos arriscar a também afirmar que
é muito provável que o organismo de um hindu faminto seja bas­
tante diferente do de um protozoário. Ou mesmo do de um camun­
dongo.
Na verdade, aqueles que, no Brasil, advogam o livre crescimento
da população, têm a seu favor um fundamentado argumento, levan­
tado pelo economista francês Lionel Stoléru. Depois de montar
também um complicado paradoxo - "O que detém o crescimento
econômico é a superpopulação de consumidores; mas o que o provo­
ca é o aumento do número de trabalhadores " - Stoléru lembra que
" Cada trabalhador nutre um número cada vez maior de consumi­
dores: eram 2,5 na França em 1 972 contra 2 em 1 900, e provavel­
mente serão 4,5 em 1 985. Na verdade, esses algarismos terão que ser
corrigidos se levarmos em conta que, em 1 900, o número de horas
de trabalho de cada assalariado era bem superior ao de 1 973 . "
(Lionel Stoléru, "Croissance Zéro e t politique économique" , L e Nef,
n.º setembro/novembro de 1 973, pág. 83.)
Está claro que Stoléru desejou salientar que, sendo muito mais bem
equipado intelectualmente e podendo, portanto, tirar partido da
moderna tecnologia, o trabalhador francês de hoje é três vezes mais
eficiente que seu avô, embora dedique bem menos tempo ao
emprego.

89
Esta é uma ressalva decisiva que tem de ser levada em primems­
sima conta por aqueles que no Brasil defendem, com indiscutível fé
patriótica, a política do preenchimento dos espaços vazios.
A esta altura do mundo, tornou-se óbvio que não adianta preenchê­
los com mentes também vazias.
Muito mais entusiasmado, porém, do que o médico Mário Victor
de Assis Pacheco quanto às convicções natalistas é aquele professor
catedrático da Universidade de Minas Gerais, cujo nome o sociólogo
J. O. de Meira Penna omitiu discretamente, ao registrar, à pág. 1-05
da sua Psicologia do subdesenvolvimento (APEC Editora, 1 972) , as
proposições do mestre mineiro.
Com efeito, analisando o problema da expansão demográfica, Meira
Penna diz em seu livro que encontrou " ( . . . ) desde o apelo român­
tico e doce da afamada escritora para quem 'a criança é a riqueza
dos pobres' (a qual evidentemente se esquece que o número exces­
sivo de filhos é também um dos motivos principais da pobreza do
pobre) até aquela tese retumbante de um professor da Universidade
de Minas Gerais, o qual, desejoso de hidrogenizar nossa explosão,
propõe a legalização da poligamia no Brasil. "
E Meira Penna prossegue: "Acha o ilustre catedrático que cada
brasileiro (varão, já se vê) deve ter quatro mulheres, com um míni­
mo de dez filhos cada - porque assim poderá o país, em pouco
tempo, povoar as grandes áreas desabitadas da Amazônia, Mato
Grosso e Goiás. "
A o fazer ponto final, o antimaltusianista descoberto por Meira Penna
ainda finaliza, inacreditavelmente carrancudo, esbravejando "que os
brasileiros que se recusarem a contribuir com essas grandes famílias,
para a grandeza da Pátria, deveriam ser expulsos ".
Mas o sociólogo, que durante 8 anos foi nosso diplomata no Oriente
(Calcutá, Xangai, Ancara e Nankin), leva-nos desse terreno quase
ameno para uma área de tragédia grega, quando à pág. 1 08, de
sua excelente Psicologia do subdesenvolvimento, nos estarrece com
a revelação que fecha este parágrafo: " ( . . . ) De nada serviria o
argumento social que indica ser a proliferação excessiva conduzente
à penúria, à falta de saúde, à ignorância, às condições gerais de sub­
desenvolvimento e, inclusive, ao uso de outros métodos anticoncep­
cionais absolutamente ilícitos e imorais, como o aborto e o infanti­
cídio. (Na China, ainda hoje, dão de comer aos porcos os recém­
nascidos do sexo feminino.) "
Recordamos aqui que o livro de Meira Penna foi publicado em
outubro de 1 972.
Confundindo efeito com causa, o sr. David Rockefeller, atuante
figura internacional do chamado capitalismo-progressista, entra com
sua futurologia otimista sobre o problema demográfico ao fazer a

90
afirmativa de que "a 1ndia, a África e a América do Sul estarão
industrializadas já em 1985 ", e lança a previsão de que "com isso,
haverá uma estabilização geral da população do mundo. f: o que
eu vinha dizendo através de todos esses anos aos alarmistas da
explosão demográfica. " (" David Rockefeller: róseas perspectivas de
um grande capitalista ", Essências, n.º 44, 22 a 29/6/ 1973.)
Até mesmo a brilhante equipe de cientistas do MIT, responsável
por uma das mais dramáticas advertências que o mundo já conhe­
ceu - o trabalho Limites do crescimento - também atribui a um
efeito, o desenvolvimento econômico, a razão do decréscimo da
taxa de natalidade nos países desenvolvidos. " Onde quer que tenha
ocorrido desenvolvimento econômico, a taxa de natalidade decres­
ceu; onde não houve industrialização, as taxas de natalidade têm-se
mantido altas ". (Limites do crescimento, Editora Perspectiva, trad.
de Inês M. F. Litto, 1 973, pág. 1 13 .)
A nossa ressalva - já feita outras vezes - é que desenvolvimento
econômico é conseqüência, e não causa. E, ainda uma vez, a causa
do desenvolvimento é a Educação das massas populares. O mundo
está cheio de países sob regime capitalista e subdesenvolvidos -
porque atrasados educacionalmente.

Quando a respeito de uma quase psicose coletiva qualquer se


entra na fase da "caça às bruxas ", os paredões se enchem de estra­
nhos inocentes e de inesperados culpados.
Neste assunto da explosão populacional, por exemplo, em que nem
um homem com as luzes do Papa Pio X I I se mostrou infalível,
houve também uma extraordinária figura da inteligência e da vida
pública brasileira cuja opinião também nos desnorteou. Não conse­
guimos entender seu raciocínio, expresso em longo artigo publicado
na imprensa. Na sua opinião, o culpado pela explosão populacional
no mundo seria o imperialismo norte-americano, por causa dos
baixos preços que paga às matérias-primas e produtos que lhe ofere­
cem os países subdesenvolvidos, notadamente os latino-americanos . . .
Também no outro lado da margem, o economista e estudioso Emane
Galveas cita esta resposta rude e franca do presidente Castello
Branco ao então presidente do Banco Mundial, sr. George Woods,
que desprevenidamente indagara do presidente brasileiro se estava
cogitando de adotar o controle da natalidade como um dos meios
de acelerar o desenvolvimento econômico do país.
"Doutor Woods" - respondeu o Marechal Castello Branco - " qual
teria sido a resposta do General Grant, se o presidente do Banco
Mundial lhe dirigisse esta mesma indagação, há um século atrás? "
(Emane Galveas, " Sugestões gerais à formulação d e uma política

91
populacional ", jornal do Brasil, Revista Econômica, 20/3/ 1 970,
pág. 1 9.)
O professor chileno, católico, Jorge Ivan Hubner Gallo, chega em
seu livro O mito da explosão demográfica à ira sagrada, quando
classifica o Estado que planifica a natalida"de como " novo Leviatã " ,
"monstro apocalíptico " e "hidra burocrática estendendo seus ten­
táculos sobre aspectos mais íntimos e sagrados da vida " . (Jorge Ivan
Hubner Gallo, O mito da explosão demográfica, Editora Paz e Terra,
1 970.)
Aliás, um outro novelesco exemplo do aturdimento que vai pelo
mundo em geral, com relação aos problemas decorrentes da expan­
são ou explosão populacional, é o que ocorre na própria União
Soviética.
Logo após a Revolução na Rússia, o aborto legal foi uma liberali­
zação conseqüente dos primeiros anos de " amor livre" . Retornando
este, num dos constantes requebros filosóficos soviéticos, à condição
de " animalismo burguês " , a interrupção cirúrgica da concepção
continuou, no entanto, sendo praticada sem mais embaraços até que
a devastação da II Grande Guerra levou as autoridades soviéticas a
declararem o aborto como ilegal e antipatriótico.
Isto porque ninguém poderia prever quantos anos mais ainda dura­
ria o conflito e era necessário, para um futuro que ninguém sabia
prever, recompor os quadros populacionais em termos militares ou
econômicos.
Finda a guerra, o aborto saiu das práticas clandestinas, mas o
comando governamental soviético passou a queixar-se freqüente­
mente da resistência procriativa da .mulher russa, ao mesmo tempo
que um grupo de professores da Universidade de Moscou declarava
que o futuro " pertenceria aos países de grande potencial demo­
gráfico" .
Talvez seja por isto que, até 1 972, o s médicos cientistas soviéticos
não tinham, após nada menos que 10 anos de estudos, podido chegar
a qualquer conclusão, positiva ou negativa, sobre os efeitos das
pílulas anticoncepcionais . . . E nas clínicas, os abortos seriam feitos
" sem uso de anestésicos, para descoroçoar a numerosa clientela que
espera a sua vez ", como descreveu o jornalista Raymond H. Ander­
son, no New York Times, numa visita que fez à URSS em setembro
de 1 968. (Raymond H. Anderson, " Russas querem pílulas ", do New
York Times, O Estado de São Paulo, 5/9/ 1 968, pág. 1 0.)
Como vimos, ainda que resumidamente, todo um exército de sociólo­
gos, economistas, líderes políticos, biólogos e religiosos vêm, com
intensidade crescente, e nervosismo ainda maior, buscando ou ofere­
cendo ora remédios que não atingem a predisposição geral de todos
os "doentes " , ora panacéias que vão da comédia à cirurgia ampu-

92
tadora, para resolver o que já se tornou o quase terrificante pesadelo
humano da explosão da natalidade.
O pavor de que outros bilhões de bocas famintas sejam rapida­
mente acrescentados aos bilhões atuais, convertendo em pandemônio
babélico a distribuição dos pães que já faltam, transforma em insô­
nia o sono de muitos dirigentes e pensadores, e em pesadelo as
preocupações de muitos políticos bem intencionados.
Realmente, quem conseguirá tanto trigo, carne, leite, peixe, ovos,
verduras, casas, vestuário e escolas para os então politizadíssimos
e exigentíssimos 6 bilhões de indivíduos que poderão estar vivendo
neste planeta pelas alturas não longínquas de 1999?
Num ponto de sua análise, quando entram a pesquisar nas alcovas
dos povos e casais prolíficos, concordam todos - os festivos pro­
fetas da multidão e as apavoradas cassandras dos bilhões - que
essa multiplicação humana, centuplicada, astronômica, ocorre exata..
mente a partir das nações de paióis vazios.
Então, no caldeirão fervente das preocupações de todos, aviam-se as
receitas de soluções comedidas ou desesperadas, em que se pres­
crevem bilhões de " pílulas" e preventivos, tabelas mais ou menos
cronológicas, milhões de "prêmios de auditórios" com que presen­
tear os casais "controlados ", bulas e recomendações religiosas, re­
cursos cirúrgicos fáceis, leis condescendentes com o aborto, e até
migrações em massa, de indivíduos dos povos prolíficos para o seio
dos não prolíficos.
Sente-se, da parte de alguns, um desespero tão ascendente face ao
assunto que se esses agoniados cidadãos, de inconteste espírito
público, ·forem deixados por mais tempo desenvolvendo em soli­
lóquio os seus argumentos e monologando seus temores, acabarão
propondo a esterilização em massa dos casais considerados incapa­
zes para arcarem sozinhos com a demanda de alimentos de sua
prole mais numerosa.
Todos querem, a um só tempo e o mais depressa possível, fazer parar
a ensandecida máquina de parição em massa de bebês. E as propo­
sições todas se entrecruzam sobre um mesmo ponto: como conter
ou frustrar os resultados obstétricos das camas e das enxergas.
Pois é dali, e daquilo obviamente - proclama-se a una voce -
que vem a danação futura dos destinos humanos.
Um estudioso europeu, Marcel Niedergang, visitando os EUA regis­
trou o pânico sob que vivem certos setores demo-futurologistas com
relação à própria "explosão populacional " americana. Embora o
país tenha apenas 21 habitantes por km quadrado - enquanto a
França, terra de Niedergang, tem 91 - já há nos EUA quem sugira
a Washington " cobrar novos impostos sobre as famílias, para cada

93
filho excedente, e até a mistura de produtos esterilizantes à água
distribuída para consumo doméstico" . (Marcel Niedergang, " Super­
população nos EUA: novo pesadelo? " , Folha de São Paulo,
1 9/ 1 / 1 972, pág. 2 1 .)
Essa preocupação antinatalista nos EUA parece tomar a forma de
psicose, pelo menos quanto a certos setores, pois além do que
Niedergang descreveu já houve quem propusesse "a esterilização
cómpulsória das mulheres que engravidassem duas vezes" ("Até
quando cresceremos? ", Revista Veja, n.º de 1 6/ 1 / 1 974, págs.
52-57). E os jornais americanos registravam, em fins de 1 973, o
aparecimento esporádico de grupos de ativistas que interpelam agres­
sivamente as mulheres grávidas que passam pelas ruas.
O alarmismo quanto à explosão populacional, registrado por Nie­
dergang, envolveu também o próprio presidente dos EUA, Richard
Nixon. As informações e cálculos que lhe forneceram seus asses­
sores sobre a ameaça de superpopulação no país foram de tal modo
patéticas que o levaram, em 1 969, a afirmar em discurso para toda
a Nação: " Como alojaremos os próximos 1 00 milhões de habitan­
tes ? " [que o país poderá ter até o ano 2000, se não for alterado o
ritmo de crescimento] .
"Seremos obrigados, completou o presidente, a construir uma cida­
de de 250.000 habitantes por mês até o ano 2000." ("Até quando
cresceremos? " , Revista Veja, n.º de 1 6/ 1 / 1 974, págs. 52 e 53.)
Ao descrever a sua teoria das quatro fases do desenvolvimento, o
economista norte-américano W. W. Rostow chega a sugerir que,
no mais alto do patamar da prosperidade, talvez uma das diversões
do leisure dos povos ricos viesse a ser produzir mais crianças.
"Os norte-americanos vêm agindo como se, tendo nascido em um
sistema que garante segurança econômica e consumo em massa,
atribuíssem escasso valorà aquisição de acréscimos adicionais à ren­
da real, sob a forma de uma família maior. ( . . . )
Sem embargo, é verdade que as conseqüências do grande surto de
bebês, a par do deficit não de todo desconexo do capital social fixo,
têm mais probabilidades de dominar a economia norte-americana da
próxima década do que a ulterior difusão de bens duráveis de con­
sumo. " (W. W. Rostow, Etapas do desenvolvimento econômico,
trad. de Octavio Alves Velho, Zahar Editores, 2.ª ed., 1 964, págs.
22 e 23.)
Para tranqüilidade de Rostow e do ex-presidente Nixon, as condi­
ções psicológicas procriadoras ensejadas pela euforia da paz e da
prosperidade do após-guerra, foram logo a seguir suplantadas pelo
histérico martelar dos maltusianistas.
E se viu que, pelo menos no caso da campanha mundial que patro-

94
cina contra a natalidade indiscriminada, os EUA não adotam a polí­
tica do " faça o que eu digo, e não etc.".
:e o que se deduz de um comunicado do Departamento do Recen­
seamento daquele país, publicado em 1 973, e que prevê para 1 985
uma redução brusca no número de escolares norte-americanos de
nível secundário, em virtude da queda da taxa de natalidade do país,
esperando-se que o número de jovens entre 14 e 17 anos caia para
14,3 milhões contra os 16,4 milhões de 1972." (" EUA prevêem
redução de alunos no 2.º grau", Jornal do Brasil - Ensino,
1 3/3/ 1973, pág. 14.)
Continua ainda a mesma nota: " ( . . . ) a alta taxa de natalidade dos
EUA terminou. Os casais atualmente casam mais tarde e têm menos
filhos. O número de filhos nascidos de mulheres entre 18 e 24
anos era de 2,3 em 1972; de 2,4 em 1 9 7 1 e 2,9 em 1967." E o
relatório salienta outras razões: " Os jovens, tanto brancos como
negros, recebem melhor educação. O número de norte-americanos
entre 25 e 29 anos que completaram a Universidade cresceu de
5,8% em 1940 para 1 9 % em 1972. "
O ensaio "Those missing babies", d a revista Time d e setembro de
1974, já por nós referido, reunia informações e cifras que estão
causando uma verdadeira confusão mental entre os intérpretes do
futuro da sociedade e da nação americanas:
"O número de crianças nas escolas primárias foi de 17 milhões em
1970, isto é, uma queda de 3 milhões com relação a 1960; muitas
escolas fecharam-se por falta de alunos; só na cidade de Salt Lake
fecharam-se 20 escolas públicas, incluindo 3 escolas secundárias. O
presidente da Universidade de Boston, prof. John Silber, prevê o
fechamento de 200 escolas superiores, com cerca de 5.000 alunos
cada uma. A Universidade de Massachusets cortou 1 00 milhões de
dólares no seu orçamento de 350 milhões, para construções esco­
lares. Em 1973, registrava-se um excesso de 56.900 professores pri­
mários, sem tarefas. "
A s minudências e m torno d o problema demográfico nos EUA che­
garam ao ponto de a " Comissão para o Crescimento da População"
ter calculado que criar e educar um filho até à universidade custaria
cerca de 78.000 dólares (mais de quinhentos mil cruzeiros), em
dinheiro de 1974. (" Those missing babies " , revista Time.)
Aliás, tempos depois, em artigo no qual versava o problema da
explosão demográfica, o prof. Eugênio Gudin trazia uma informa­
ção que é o inverso de tudo que ocorre no panorama norte-ameri­
cano: " Raros são os países subdesenvolvidos em que uma percen­
tagem significativa de mulheres em idade de reprodução adotam
as práticas do controle da fertilidade. Essa percentagem, nas NA­
ÇÕES DÉSENVOLVIDAS, :e SEIS VEZES MAIOR DO QUE NAS

95
SUBDESENVOLVIDAS. São palavras do presidente da Comissão
Pearson, e também do sr. McNamara, presidente do Banco Mun­
dial." (Eugênio Gudin, "O problema da Explosão Demográfica",
O Globo, 1 4/9/ 1 973, pág. 2.)
A dramaticidade que o problema vai adquirindo para os analistas
é de tal ordem que, no mesmo dia e na mesma página em que se
estampava o artigo do ex-ministro Gudin era publicado o resumo
de um Boletim do " Population Reference Bureau" informando que
já atingiam a 1 1 milhões anuais os nascimentos na América Latina.
Registrando-se 3 milhões de óbitos e uma emigração de mais de 3
milhões, dizia ainda o Population Bureau, ficava um saldo de 5
milhões. E o Boletim finalizava descrevendo o ambiente que esses
recém-chegados encontrariam nesta parte do mundo: " Atualmente,
mais da terça parte da população urbana do Continente carece de
água em sua casa, e mais da metade não dispõe de esgotos. Nas
favelas que rodeiam os centros urbanos, pululam populações em
condições subumanas. " ("América Latina tem aumento anual de
5 milhões de pessoas ", O Globo, 1 4/9/ 1 973, pág. 2.)

Vimos até agora que, tanto nos recintos governamentais, como nos
anfiteatros científicos, as discussões concentram-se em torno das
vantagens dos múltiplos métodos anticoncepcionais e a graduação de
sua compulsoriedade, ou a criação de atrativos materiais compen­
sadores para conter e contentar os assanhados casais prolíficos.
Todos admitem, nas entrelinhas de suas recomendações, que se
trata de um problema cuja solução se assenta, ou se deita, exclusi­
vamente nos leitos. � para ali, e só para ali, para aqueles instantes
da incontível atração genética, que se têm concentrado os esforços
orientadores ou limitadores.
Lamentavelmente, não se viu, e ninguém ainda salientou esse ponto
fundamental entre todos : que a capacidade de procriar resulta pri­
mordialmente da incapacidade de pensar, de raciocinar.
A "eficiência" reprodutiva realmente temida, isto é, a oriunda dos
milhões de pais pobres ou miseráveis, vem exatamente da sua inefi­
ciência econômica e da sua limitação mental. Essa ineficiência e
essa incapacidade os esterilizam e insensibilizam para esta concepção
básica de um autocontrole: a de que não podendo alimentar tantas
bocas, deveriam evitar pô-las no mundo.
O que deve preocupar prioritariamente as lideranças de uma nação
não são apenas as novas bocas que nascem, mas as mentes que não
foram ou não puderam ser adequadamente alimentadas. A explosão
demográfica jamais será contida a partir apenas dos impossíveis
controles draconianos sobre os leitos e enxergas miseráveis, mesmo

96
porque nesse caso à excomunhão dos homens não corresponde a
excomunhão de Deus. Ou de seus representantes. A contenção da
natalidade não depende, assim, da redução, da postergação ou da
regularização dos coitos, mas da fecundação das mentes.

Num ensaio (" Desenvolvimento e Explosão Demográfica") o Bole­


tim Cambial, do Rio, número de 18/4/ 1 966, página 25, informava
que a Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento
Mundial, reunida em 1964, alinhou uma relação de 77 países em
desenvolvimento ou subdesenvolvidos. (Mais tarde, o número deles
atingiria a cerca de 100 em conseqüência da explosão de nacionali­
dades, patrocinada peh1 própria ONU.)
Verificou-se, então, que as deficiências ou dificuldades que iguali­
zam esses povos são elos de uma cadeia fundida com a mesma fer­
rugem: a ignorância.
Eis as características nacionais principais, continua ainda o ensaio,
comuns a essa centena de nações:
1) Educação atrasada.
2) Crescimento demográfico excepcionalmente elevado.
3) Monocultura agrícola.
4) Mercados limitados, e geralmente só locais.
5) Escassez de capital nacional.
6) Baixa renda per capita.
7) Política interna instável.

Por sua potencialidade demográfica e por sua importância mundial,


a lndia talvez seja, entre todos os povos a braços com excedentes
populacionais, o que melhor se presta para uma confrontação do
nosso ponto de vista, já que ali se vem fazendo há mais de duas
décadas um real esforço para obtenção de um vasto sistema de
controle da natalidade.
Depois de tantos anos, esse grande país enfrenta um panorama des­
concertante: é que as percentagens de aumento da população jamais
cresceram tanto como a partir das décadas em que se estabeleceram
suas mais de 15 mil clínicas do " Family Planning Program" .
Num estudo publicado ("A futilidade d o controle populacional" , O
Jornal, do Rio, 27 /9/ 1966, págs. 4 do l .º e 2.º cadernos), o escri­
tor Garibaldi Dantas revela que esse programa dispunha em seu
primeiro plano qüinqüenal de 56 milhões de dólares. Mas já no
quarto plano qüinqüenal, a partir de 1 965, o montante subia à
impressionante cifra de 409 milhões de dólares.

97
Eis o quadro de crescimento da população da fodia:

Alterações sobre
População Total a década anterior
(Milhões de
Anos habitantes) Percentagem
190 1 238,3
191 1 252,0 + 5.7
-
192 1 25 1 ,2 0.3
193 1 278,9 + 1 1 .0
1 94 1 3 1 4,8 + 12.9
195 1 361 ,9 + 1 5.0
1961 439,2 + 2 1 .4

A previsão para 1 97 1 , citada por Garibaldi Dantas, acusava 560


milhões de habitantes para a 1ndia, com um percentual que, assim,
teria crescido de 27.5 sobre 196 1 .
O s dados hoje disponíveis (Encyclopaedia Britannica, Book o f the
Year, 1972) indicam uma população de 549 milhões em 197 1 , com
urrt aumento de 25 % sobre 196 1 .
Já tendo patrocinado o s estudos que resultaram no apocalíptico
Limites do crescimento (Editora Perspectiva, 1973), o famoso Gru­
po de Roma, formado por uma plêiade de altos executivos e milio­
nários obcecados com a projeção do futuro da humanidade, não
receia ser tomado como o mais dramático, e sério, concílio de cas­
sandras modernas. Seu último ( 1974) relatório ("Mankind at the
Turning Point ", ou "Stratégie pour dernain" , na versão francesa) ,
assinado pelos professores Peste! e Mesarovic, prevê os seguintes
pesadelos para a 1ndia, caso se mantenham os seus índices atuais
de natalidade: "O aumento de mão-de-obra disponível que, em
1974, já era de 350.000 pessoas por semana, será de 750.000 até
o fim do século. Isto quer dizer que então será preciso criar qua­
renta milhões de empregos novos por ano, naquele país. "
S e mantiver esse ritmo d e natalidade, até o ano 2000 " a 1ndia terá
que construir por dia, nos próximos vinte anos, 1 .000 escolas, 1 .000
hospitais e 10.000 casas " . ("Vivre, demain . . . ", L'Express, número
especial, dezembro de 1 974, pág. 35.)
Enquanto as autoridades hindus se mostram transtornadas com os
milhões que dia após dia, ou mais apropriadamente, noite após
noite, geram outros muitos milhões, dois países há que não escon-

98
dem sua decepção oficial diante da anti-safra dos berços vazios: a
União Soviética e a Argentina.
Pela importância de ambos, e pela natureza do seu caso, eles nos
interessam como nações-protótipos.
Talvez numa emulação com a prolificidade dos brasileiros, as clas­
ses dirigentes argentinas, sem elas próprias darem o exemplo de sua
descontração genética, esperavam que o censo de 1970 as surpreen­
desse com algarismos que, sem dúvida, no seu caso, significariam
perspectivas futuras de maiores projeções no mercado interno. As
vésperas de 1 970, os jornais portenhos e seus analistas estimavam
que o cômputo final alinharia uns 30, quem sabe até mesmo uns
32 milhões de argentinos. Foi-lhes desencorajador verificar que
passados tantos dias·, e as respectivas oportunidades noturnas, dos
anos todos da década de 60, a população crescera apenas até
24 milhões.
Justamente orgulhosa de seus baixos índices de analfabetismo, a
Argentina apresenta, em conseqüência, uma mobilidade demográfica
que não sabemos como qualificar, se modesta ou pobre, levando-se
em conta o que o Brasil espera obter em significação econômica e
política, de seus algarismos tão mais opulentos.
(Não receiamos assinalar esse ponto, pois temos a esperança de que
nenhum de nossos estadistas populacionistas, em face da decepção
argentina, passe por isto, como meio de aumentar a população, a
favorecer as condições de sobrevivência do analfabetismo em nosso
país. Embora o ar de humor que possa ter essa observação, é de
boa cautela que fique registrada.)
Este é o quadro de crescimento da população argentina:

Anos Habitantes Percentagem


1 920 8.969.000
1 930 1 2.047.000 + 34.3
1 940 14.248.000 + 1 8.6
1 950 1 7 .422.000 + 22.0
1 960 20.669.000 + 1 8.6
1 970 24.352.000 + 1 7 .8

De sua parte, mesmo vivendo no país mais extenso do planeta, O


povo russo reduz suas expansões noturnas a uma faixa populacional
quase estreita, que representa 30% apenas do número de habitantes
do país que lhe tem sido o vizinho mais ranzinza: a China, de 800
milhões.
Numa recente análise da situação e do comportamento familiar da

99
mulher russa, o jornalista francês Alain Mavevy informava que,
atualmente, de cada mil cidadãs soviéticas, nascem por ano apenas
17 crianças, quando em 1 9 1 7 nasciam 50. Nas repúblicas mais
evoluídas, a taxa cai ainda mais, para 14 ou 1 5, enquanto em áreas
de maior atraso, como o Azerbaidjão ou o Turkemenistão, ainda
nascem anualmente 32 a 35 crianças daquele niesmo número de
mulheres.
� por isto que na URSS alguns cientistas oficiais, arquivados em
seus laboratórios e pressionados pelas premissas de Estado-Maior,
apresentam sugestões como a de adoção da inseminação artificial
para forçar a expansão da natalidade, como se isto fosse a solução
líquida e certa do problema.
Tal como a Argentina que, apenas por motivos de mercado e gran­
deza econômica, visa a emular-se com o vizinho Brasil, a Rússia
busca ter mais cidadãos por emulação, esta porém abertamente
diversa, militar e expansionista .
A Rússia soviética paga paradoxalmente o preço por ter dado a
seu povo o único e real benefício que lhe proporcionou o comu­
nismo: a educação em massa para todas as camadas populares.
Enquanto as autoridades continuam a manter com mão forte os
diques da liberdade, os homens e mulheres das duas Rússias man­
têm, provavelmente sem muita alegria, os diques da natalidade,
embora seu país disponha do maior território contínuo entre todas
as nações da Terra.
A Argentina, inserida na área populacionalmente mais explosiva do
mundo - a América Latina - e a Rússia, já demograficamente
uma potência, com seus quase imutáveis e equilibrados 240 milhões
de habitantes - são, a nosso ver, as provas vivas e inquestionáveis
de que qualquer que seja a circunstância continental do país, ou a
monumentalidade do número de seus habitantes, a contenção demo­
gráfica é feita espontaneamente, eficientemente, até mesmo acima
dos próprios " interesses nacionais ", pela massa de seus homens e
mulheres, se estes tiverem um generalizado nível de educação média.
Curioso é como, nesse aspecto, mesmo um acervo modesto de instru­
ção já torna o indivíduo sensível ao assunto e acessível ao enten­
dimento de sua problemática e soluções. Os limitacionistas que não
se desesperem: não é preciso fazer de cada homem ou mulher um
intelectual, para só então obter-se o resultado a que, bem intencio­
nadamente, visam.
Entram aqui como exemplo a Argentina e o próprio Brasil. Embora
quase não haja analfabetos no país irmão, foi divulgado, no segundo
semestre de 1 97 1 , que 45 % da massa operária da Argentina cursa­
ram a escola primária até apenas a terceira série.
E no Brasil da última década, apenas intensificados os esforços

100
contra o analfabetismo, viu-se logo a taxa da natalidade cair dos
3 .2- que já o haviam tornado a nação populosa de mais rápido
crescimento demográfico no mundo - para 2.7, algarismos algo
mais razoáveis.
Aliás, é visível a conotação direta dos percentuais de alfabetização
com os da redução da natalidade, no Brasil:

Alfabetização Taxa de Natalidade


Anos Percentagem Anos Por 1 .000 habitantes
1 950 49.3 1 1940/50 44.00
1 960 60.52 1950/60 43.32
1 970 66.89 1960/70 37.73

Ainda no Brasil, encontramos uma outra claríssima evidência de


nossa tese: é o Estado mais desenvolvido do país, e de nível educa­
cional mais elevado - São Paulo - que apresenta a mais baixa
taxa de natalidade. Enquanto a taxa nacional de 1960/70 baixara,
como vimos, para 37.73, a de São Paulo já estava em 27.57, por
mil habitantes.
Fechando galantemente a sucessão de fatos deste raciocínio, a
Suécia, nação-padrão quanto a nível cultural, traz sua contribuição,
sob a forma de uma revelação indiscreta, muito ao gosto da terra,
contida no relatório " Sobre a vida sexual na Suécia" , feito pelo Dr.
Hans L. Zetteberg, professor da Universidade de Ohio, por enco­
menda da própria Comissão Real Sueca, encarregada de estabelecer
objetivos e estratégias nacionais. O grupo de estudos do prof. Zette­
berg pôde concluir, por extrapolação de resultados dos painéis nos
quais ouviram milhares de casais, que de 9,7 milhões de atos sexuais
havidos em um mês, na Suécia, em 1 967, resultaram apenas 8.800
crianças. Isto é, diz edificantemente o prof. Zetteberg, de cada 1 . 1 00
intercursos nasceu apenas um jovem sueco, cidadão que chega relu­
tantemente ao mundo, mesmo cercado pela certeza de vir a ser ampa­
rado do berço ?.O túmulo, pelo mais perfeito sistema de assistência
social da Terra.
O que mais intranqüiliza os que se preocupam com o problema da
explosão populacional é que, segundo pesquisa da publicação Essên­
cias, n.º 53, de dezembro de 1973, pág. 14 - editada pelo Jornal
do Brasil -, "dos 1 20 países em desenvolvimento, apenas 3 1 têm
planos que visam a diminuir o índice do crescimento demográfico.
Outros 28 encorajam o planejamento familiar como uma forma de
atender aos interesses das mães e à saúde da criança, além de reduzir
as práticas abortivas, mas não têm qualquer preocupação com o
crescimento populacional. As nações restantes (mais de 60, ao todo)

101
ou são indiferentes ou são frontalmente contrárias a medidas de
controle demográfico" .
B verdade que quase todos o s países subdesenvolvidos d e grande
população - a China, a lndia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão -
estão no grupo das nações cujos governos favorecem o controle
populacional. Já se registram resultados obtidos, apesar do maior
de todos os obstáculos, que é a ignorância da massa popular desses
países.
O Brasil é o único país de mais de 1 00 milhões de habitantes, cujo
governo é frontalmente contrário ao controle populacional.

Em uma série de artigos que publicou em julho de 1 973, após assis­


tir às reuniões do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas
daquele ano, o jornalista Rúbens Rodrigues dos Santos, demólogo e
estudioso dos problemas sociais, enfocou mais um ponto curioso da
história da luta entre malthusianistas e natalistas.
Segundo ele, a tese de Malthus "foi violentamente atacada por Marx,
que via na superpopulação, e no caos dela resultante, uma grande
arma para a vitória da revolução proletária mundial. " (Rúbens Ro­
drigues dos Santos, " No limiar da tragédia - A cada dia, 190.000
bocas a mais no mundo", O Estado de São Paulo, 1 3/1 / 1 973,
pág. 1 0.)
Nesse mesmo artigo, Rodrigues dos Santos traça uma interessante
visão. panorâmica da presença do homem sobre a terra. Tendo a
espécie humana surgido há 600 mil anos, até agora já existiram
un::; 77 bilhões de pessoas.
Entretanto, diz Rodrigues dos Santos, tendo atingido o l .º bilhão
há pouco mais de um século ( 1 850), com os índices atuais de nata­
lidade, a humanidade repetirá os 77 bilhões dentro de apenas outros
cem anos.
Porém, estarão todos vivos, desfrutando (?) ou disputando (?) este
mundo de Deus. Ao mesmo tempo.
Diante desses algarismos colhidos por Rodrigues dos Santos nos de­
bates do Conselho Econômico e Social da ONU, ficarão melancoli­
camente ridículos os resultados que, segundo Glycon de Paiva, o
BIRD (Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento)
espera alcançar com seu plano de antinatalidade - evitar 800 mi­
lhões de nascimentos até o ano 2000.
Entretanto, o mesmo Glycon de Paiva, com sua autoridade de estu­
dioso do assunto, informava em depoimento prestado perante a Co­
missão de Saúde da Câmara dos Deputados em Brasília, que "o mer­
cado organizado do aborto movimenta anualmente 1 00 milhões

102
de cruzeiros no Brasil ". ( " A indústria do aborto dá 100 milhões
anuais", O Estado de São Paulo, 29/9/ 1 972, pág. 45.)
Na própria análise que Glycon de Paiva fez para os parlamentares
brasileiros, havia um quadro que deixava à vista a evidência da co­
nexão Educação-redução normal da natalidade. Segundo ele, os índi�
ces do crescimento demográfico, da última década, quanto à própria
taxa, cresceram de 90 por cento na América Latina, de 140 por
cento na África, de 1 50 por cento na Ásia, e de somente 50 e 40
por cento na Europa e Oceania, respectivamente. (A Austrália e a
Nova Zelândia são os dois países básicos da Oceania, ambos de
elevado índice educacional.)
Uma evidência irrespondível de que a elevação do nível educacional
atua como a mais segura contenção às ameaças da explosão popu­
lacional é a redução do crescimento dos países escandinavos, ao
chamado " nível de substituição", isto é, cada casal gera apenas dois
filhos que os substituirão. ("Até quando cresceremos? " , revista Veja
de 1 6/ 1 / 1 974, pág. 56.)

� sempre com um agitar de bandeirolas cívicas que certos países sa­


lientam os elevadíssimos índices de sua população jovem. Quanto
mais altos os algarismos, mais sobem os rojões e balões comemorati­
vos. � que os ventos que enchem esses balões se originam de todos
aqueles sopros que formam a juventude: energia, esperança, pro­
messas, possibilidades, potencialidade, dinamismo.
Mas o lastro de problemas que a realidade social pendura nessas
pandorgas tira-nos do pipocar do foguetório para os rotundos silên­
cios da meditação.
Somos duramente acordados do sonho de que todos aqueles contin­
gentes recém-chegados das alcovas reprodutoras representam, em
termos econômicos, um reforço global e maciço ao nosso mercado e,
em termos militares, constituem novos regimentos e divisões, intei­
riços e compactos, que blindarão ainda mais os contornos de nossa
grandeza.
Acontece que a dura análise das exigências imperativas, ou das con­
seqüências empobrecedoras, da explosão da natalidade leva-nos a
um paradoxo que, de alguma forma, obscurece essa festiva euforia
dos países "de população jovem".
Lamentavelmente, pelo que se vê mundo afora, dentro de uma crua
interpretação sociológica, ter predomínio de população jovem signi­
fica quase apenas atividade reprodutora que suplantou em larga
escala os índices de mortalidade, que os sucessos espetaculares da
ciência empurram cada vez mais para baixo.
Em todos os países de alta fertilidade humana, a proporção de me-

103
nores de 15 anos chega a ser superior até a 50% . Na Europa, no
entanto, esse percentual não atinge nem 25% e nos EUA, limita-se
a 30%.
Quando a tendência geral é usar o argumento da "juventude etária "
como um índice de vitalidade, os analistas advertem e apontam:
isto ocorre exatamente nos países cuja colheita populacional suplan­
ta as colheitas que deveriam encher os seus silos e paióis.
A abundância de frutos nas árvores e arbustos genealógicos não
exprime prosperidade: gravemente, ao contrário, confirma uma forte
presença da extrema pobreza, e uma ameaça, ainda mais temível,
da sua proliferação em forma de diátese maligna.
Algumas revelações do sr. Robert McNamara feitas em 1 969, fa­
lando em sua qualidade de presidente do Banco Mundial, foram
alarmantes. São constrangedoras as conseqüências da subnutrição
sobre a supercolheita dos berçários ou das enxergas miseráveis. Na­
quele ano, disse o sr. McNamara, existiam no mundo nada menos
do que 300 milhões de crianças que acusavam deficiência mental,
a qual se originara pura e exclusivamente da subalimentação, isto
é, da fome ou da meia-fome, nos primeiros meses ou anos de sua
existência. ( " A população está explodindo ", O Estado de São Paulo,
de 1 1 /5/ 1969, págs. 1 07 e 1 08.)
Esses 300 milhões de crianças são o grande exército infantil que
a piedade inteligente chama de " excepcionais" . Ninguém duvida,
entre maltusianistas e natalistas, que este seja o ângulo mais terrível
e mais imediato do problema da explosão populacional.
Antes de tudo que a ciência descobriu e comprovou nas últimas dé­
cadas, as autoridades máximas da Igreja consideravam esses pobres
pequenos seres como sofrendo conseqüências de pecados e de um
inexorável determinismo divino. Hoje, porém, estamos todos, inclu­
sive os bispos e cardeais, em condições de conhecer a vulgar e estú­
pida origem desse sofrimento.
Por isto, quando saudamos com alegria os quase 3 milhões de bra­
sileirinhos que estão reforçando anualmente as nossas estatísticas,
não podemos deixar de meditar na extensão imensa de nossa res­
ponsabilidade nacional para com a maioria, quase sempre extrema­
mente pobre, dos bebês que formam esse fabuloso contingente.
Além do leite e das papinhas, dolorosamente hipotéticos talvez para
quase metade deles, temos que pensar nas outras precisões imedia­
tas desse exigente e berrante exército.
Aproximadamente, cada 40 brasileirinhos que chegam, necessitam
de 2 salas de aulas (na escola primária e na escola secundária),
de meia-sala na Universidade, de 8 professores (1 primário, 4 secun­
dários e 2 universitários), de 1 leito de hospital, e de 8 casas popu-

104
lares. Isto, no que diz respeito ao que cabe indiscutivelmente ao
governo dar, ou ajudar a assegurar-lhes. Não enumeramos, como
se vê, alimentos, vestuário e remédios.
Sabendo-se que a maioria dessa população jovem se aglomera nos
bairros ou regiões pobres, é desalentadora a verificação de que entre
50 a 60% desses moços, por desassistência e despreparo, vivem no
ócio, e sob o rosário de suas conseqüências.
Aliás, o Brasil não pode esquecer-se daquele refugo cívico que teve
de pôr de lado maciçamente, em 1 942, como incapazes para servir
à sua Força Expedicionária - os mais de 90% dos jovens cons­
critos dispensados por absoluta falta de condições físicas, intelec­
tuais ou até psíquicas, oriundas todas da subnutrição, e da ignorân­
cia paterna.
Além das conseqüências encadeadas de ter ultrapassado a infância
quase sempre de estômago vazio, ou erroneamente alimentado, um
terço desses jovens ainda apresentava os sinais da outra fome arra­
sadora: não sabiam sequer ler, ou mal garatujavam os nomes -
o que os tornava totalmente incapazes para qualquer participação
na complexas atividades da guerra moderna.
De nada valia para o país, nem para eles, a juventude de sua idade.
O que os marginalizava, assim moços, não eram os poucos anos já
vividos, mas sua longa convivência com as deficiências da miséria
desassistida.

J: muito provável que a maioria dos brasileiros de nível educacional


médio ou elevado, embora não temendo que a explosão populacio­
nal traga conseqüências dramáticas para o Brasil, não adote tam­
bém a tese simplista de que poderemos encher à vontade o balaio
vazio das nossas vastidões do Oeste. Isto é, como temos milhares e
milhares de léguas de terras, estanos sem problemas para uma con­
tínua procriação em larga escala.
Não é por termos espaços a mais que podemos ter, assim, tanto
mais gente. Um tal raciocínio primário e até irresponsável, soaria
como o lado vice-versa do " Lebensraum", a " teoria do espaço vital" ,
d e Adolph Hitler.
Os sofrimentos e a penúria por que passam quase todos os 580 mi­
lhões de hindus não vêm do fato de estarem ensardinhados sobre um
território que já não lhes basta. Nem também por que, sendo tantos,
ao se movimentarem pisoteiem os campos que eles próprios semea­
ram, ou suas lavouras nascentes. Ao contrário, na lndia viaja-se
por extensas terras semidespovoadas, e onde ainda vivem animais
selvagens em abundância.

105
No Brasil, não teremos, ainda por algumas décadas, o falso proble­
ma da falta de espaço para conter adequadamente maiores contin­
gentes populacionais. Sobram-nos campos para essa colheita.
O que importa, porém, no caso nacional, é a quantidade da dupla
adubação (educação + cuidados assistenciais) com que possamos
condicionar, proteger e garantir o crescimento dessas semeaduras
humanas.
Obviamente - em termos geográficos, e também em termos econô­
micos tanto quanto em termos políticos - ainda dispomos de muita
largueza para afirmar que quanto mais brasileiros, melhor.
:B condição imprescindível, porém, que os governos mantenham a
máquina administrativa completamente voltada para essa produção
daquilo que o Brasil melhor produz - brasileirinhos - e não para
a produção eternamente deficitária das empresas industriais estatais.
A cada berço que se ocupa, deve corresponder uma vaga no jardim
pe infância, na escola primária e secundária, e até na superior, com
todos os serviços assistenciais paralelos, que isto implica.
O que torna a explosão populacional um pesadelo terrificante, que
chega a levar homens e mulheres eminentes e capazes a propor solu­
ções ridículas ou insanas, é ver, em tantas áreas, cidades e vilas
deste país - como nas de dezenas de outras nações em desenvolvi­
mento - que milhões de suas crianças pobres nascem órfãs, às ve­
zes, até mesmo das três mães de que vitalmente necessitam: da geni­
tora, ·da professora e da assistente social; esta última, absolutamente
necessária (e tragicamente faltante) para orientar tal mãe e tais filhos.
O mundo moderno mostra a todo instante e cada vez mais que,
na vida dos povos, o que conta é a qualificação intelectual de seus
indivíduos e de seus núcleos familiares.
O que nos toca saber e indagar, todos os dias, é se o Estado brasilei­
ro está aplicando as já formidáveis energias de sua máquina admi­
nistrativa somente onde a deveria aplicar; se está canalizando o
nosso já volumoso dinheiro público para aquelas coisas que é função
primordial, e exclusiva, do governo conduzir ou proporcionar.
Lamentavelmente, para não dizer quase desgraçadamente, não é isto
que acontece. Raia por cerca de meio milhão o número de crianças
abandonadas, só no eixo Rio-São Paulo. Filhos ilegítimos, filhos de
incapazes ou, em sua maioria, filhos dos pais-animais que os aban­
donam ou indiferentemente os desassistem.
A máquina judicial ou assistencial do Estado para atender a isto -
dar qualquer ajuda ou exercer a mínima coerção - é quase inexis­
tente ou relesmente medíocre, em face do gigantismo e da importân­
cia nacional do problema.

106
Por uma compreensível e até aceitável razão de geopolítica, o Esta­
do no Brasil quer mais berços cheios, o que vale dizer, mais cida­
dãos para os QOssos vazios estratégicos, mais algarismos para as
nossas estatísticas de próxima potência mundial.
Mas se ele, às vezes, já progrediu até o ponto de proporcionar o leito
para que uma boa parte dos partos pobres não ocorra diretamente
sobre as ripas das enxergas, depois daquilo e em face "daquilo"
que nasceu, ele se lava nas mãos como Pilatos. Ou pior, vale-se
de novo, soberanamente, dos apólogos bíblicos: quem pariu Mateus,
que o embale.
Que Deus vele pela criança brasileira - e por sua mãe pobre -
fazendo com que o governo retome seu entusiasmo por uma sua
própria criação, o INAN (Instituto Nacional de Alimentação e Nu­
trição) - instituição da mais importante função, quase morta em
seu nascedouro, em 1 973, pela eclampsia de uma patifaria irres­
ponsável.
Se não se tornar apenas mais uma " repartição", o INAN poderá vir
a ser uma das glórias do serviço público desta Nação. Pois a ele
incumbe a imensa missão de orientar e assistir a gestante pobre,
assim alimentando milhões de brasileirinhos ainda, e desde o ventre
materno .
(0 INAN está inserido no PRONAN - Plano Nacional de Alimen­
tação e Nutrição - do qual nos ocuparemos mais detalhadamente
no capítulo seguinte.)
Se quisermos tornar-nos uma grande nação de fato, e não de boca,
temos que atentar seriamente para as três opções fatais que, ainda
hoje, espreitam os filhos dos nossos milhões de cidadãos mais po­
bres: ou a mortalidade infantil, ceifando-os nos primeiros 36 meses
de vida; ou a troca dos desconfortos de seus tugúrios pela liberdade
escabrosa e pervertida das ruas; ou, finalmente, o hiato nocivo da
puberdade, a distância do vácuo cronológico que acontece entre a
última e inadequada sala de aula e a escola da ociosidade ou do
crime.
Filhos da incapacidade de pais que são intelectualmente cegos, sur­
dos e mudos - pois não entendem, não assimilam, e não podem
se comunic;ir - essas crianças e jovens deixam de receber do Estado
aquilo de que mais precisam: a ação materna-paterna - além e
acima da escola - da assistência social capacitada e da magistra­
tura de Família abundante, das varas e juizados, convicta e sincera
na sua função, e onipresente.
Mas isto "é um luxo", ou é o reino da Utopia, dirão aqueles obser­
vadores sociais que, do alto de suas lunetas, vasculham a extensão
oceânica das misérias humanas.

107
Como é que se vai dar conta, e cuidados, para tanta gente, para
tantos milhões de pequenos seres necessitados?
O Estado moderno, todo poderoso, tem esses meios, e à farta. Mas,
a fascinação das obras que dão rendimento político-publicitário de­
sencaminha sua aplicação na direção daquilo que seria um trabalho
silencioso, imenso e paciente; um trabalho que teria que ser exer­
cido por aqueles e aquelas que nasceram realmente com a vocação
de servir.
Somente o exercício desse sacerdócio, se não houvesse outros servi­
ços sociais igualmente importantes, daria para ocupar todas as mãos
e todas as mentes disponíveis da máquina governamental. Ensinar
compreensivamente pais e mães a irem além da função de animais
paridores; coagi-los, judicialmente, se relapsos e recalcitrantes, a
cumprir seus deveres primários com relação à prole; ajudá-los e
estimulá-los nas suas boas intenções; apoiá-los individualmente e
desdobrar esse apoio na assistência e orientação dos filhos - é uma
obra realmente acima do comum das tarefas a que se tem entregue
comumente o Estado vulgar, medíocre, imediatista e eleitoreiro.
Quando chegar até os homens de governo a compreensão de que
ao Estado lhe cabe imprimir a moeda, mas não produzir pecúnia -
por meio de lucros manipulados, de empresas monopolísticas -
sobrarão dinheiro e imaginação para atender em todos os seus in­
trincados meandros as mil necessidades materiais e espirituais dos
milhões de seres humanos, miúdos e adultos, que em sua fragilidade
dele dependem.
Isto acontecerá no dia em que Pilatos e Midas forem arredados de
entre os símbolos e mitos que infestam os palácios e os bastidores
do Estado.

108
4
analfabetismo adulto:
o círculo vicioso da miséria

·venho agora falar de outra


vergonha pela qual somos também
igualmente responsáveis. Venho
falar do analfabetismo."

Presidente Emfllo Garrastazu Médlcl


na solenidade de criação do Movimento
Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL)
- em setembro de 1970.

•Porque a honra de um pais é


primeiramente constituida por tudo
aquilo de que faz doação ao
mundo.•

André Malraux (Quando ministro de


Assuntos Culturais da França, no
enterro do pintor Georges Braque, em
setembro de 1963.)

•o mais importante das escolas é


ensinar a aprender."

Ruy Barbosa
·o que Joãozinho não aprendeu.
João não saberd nunca. •

Prov4!rblo alcmlo.

•convenhamos, porém, que seria


uma originalidade hist6rica o
desenvolvimento de um pais com
uma população predominantemente
analfabeta.•

Lauro de Oliveira Lima, Tecnologia,


educação e democracia, Editora
Civilização Brasileira, 1965, pág. 19.

•A fome da cabeça é maior que


a fome da barriga.•

Um anõnlmo - aluno da "escola" de


alfabetização de adultos, em Angicos,
R. G. Norte. Citado por Luiz Lobo
- em arttso no suplemento
"Educação", da Folha de São Paulo,
publicado em fevereiro de 1968,
pq. 27.
O Movimento Brasileiro para Alfabetização de Adultos (MOBRAL)
ia sendo mais uma das inúmeras brilhantes idéias natimortas que
jazem ao longo da nossa vida administrativa, pois um burocrata su­
geriu, como base de seu financiamento, uma solução desembru­
lhada, sem dúvida, de entre o seu mneumônico almoxarifado de me­
didas cabralinas. No instante de usar sua autoridade ocasional, esse
alto funcionário sentencia que se deveria criar mais um selozinho
para, com os seus centavos, estipendiar os custos de 'dezenas de mi­
lhares de professores, salas de aula e material escolar, para atender
nada menos que 3 dezenas de milhões de analfabetos adultos com
que o Brasil então contava - no início do governo Costa e Silva.
Exatamente por "fundamentarem-se " em outros tantos selos e cons­
trangidas taxas adicionais, haviam fracassado vários outros movimen­
tos e tentativas para extinção do analfabetismo em nosso país.
Embora a fonte do financiamento que veio a ser adotado não che­
gue a ser um motivo de orgulho cívico, a verdade é que daí, dos
30% dos lucros líquidos da Loteria Esportiva, proveio, enfim, o
"eureka" de um problema que humilhava, envergonhava, mas era
sempre adiado pela clássica " incapacidade financeira" do Tesouro
Nacional, e pela esterilidade mental dos nossos dirigentes, respon­
sáveis diretos ou indiretos pela solução do problema.
Se alguém tivesse dúvida sobre a solução inteligente que foi dar-se
ao Mobral uma fonte financeira permanente de sobrevivência, bas­
taria recordarmos a melancolia com que um educador como Fernan­
do de Azevedo, em seu histórico livro A Educação na encruzilhada,
se referia à falta de meios para uma ação global nos próprios está­
gios inferiores da ação educativa:
" Tudo está por fazer no sentido de pôr o ensino em função das no­
vas necessidades sociais e industriais e preparar o elemento nacional
para as atividades técnicas. A luta esmorecida e hoje praticamente
suspensa, contra o analfabetismo, não se associou ainda a uma cam­
panha em favor do ensino técnico elementar, a que se deveria esten­
der a obrigatoriedade imposta em relação ao ensino primário. " (F.
Azevedo, A Educação na encruzilhada, 2 .ª ed., Edições Melhora­
mentos, pág. 1 7 1 .)
Talvez o leitor indague: mas se agora já estamos a caminho de
livrar-nos 'do problema, por que então dedicar ao tema todo um
capítulo do livro?
E que, nas marés políticas da vida dos povos, seguem alternando-se

111
biblicamente os períodos de vacas magras e vacas gordas - e a
rota das nações necessita de uma sinalização mais ou menos lumi­
nosa, permanente, que perpetue, para a compreensão dos vindou­
ros, as razões das etapas decididàs, ou dos rumos seguidos. As gera­
ções que aí estão, por exemplo, de rostos sadios e lustrosos, nem
sabem mais o que seja a fisionomia de um bexiguento, que tenha
sobrevivido à varíola. No entanto, se não houver a vigilância da
constante imunização, o mal volta endêmico e epidêmico, com toda
a sua virulência e todas as suas vergonhas.
Também, sempre ameaçando a sabedoria ou a execução de qualquer
medida, por mais sábia que seja, há que levar em conta a falta de
continuidade administrativa, um lugar-comum constante, no suceder
de governos, aqui e mundo afora.
Além do mais, apenas o MOBRAL anunciou o sucesso de seus pri­
meiros anos de trabalho, já lhe foi - certamente por isto mesmo -
atribuída outra ampla tarefa: a de suplementar a lamentável defi­
ciência da ação dos Estados e dos municípios em suprir ensino pri­
mário a nada menos que 5 milhões de brasileirinhos que estavam
caminhando para a juventude, já com a sentença de engrossar as
fileiras daqueles que, alguns anos depois, freqüentariam, entre feli­
zes e humilhados, as aulas do mesmo MOBRAL.
Certamente, aquela deficiência ocorre porque nesses Estados e Mu­
nicípios os dirigentes políticos talvez estejam levando muito ao pé
da letra aquela pitoresca frase do então ministro Jarbas Passarinho,
num debate com o Sr. João Calmon: " Não se esqueça, senador, que
a bola da Educação tem que estar nos pés do governo. "
Realmente, o s resultados globais d o trabalho d o MOBRAL vinham
oferecendo cifras tão animadoras que, já em novembro de 1 972,
o Jornal do Brasil (" Informe JB", página 10, edição do dia 23)
registrava o temor - certamente inspirado por um burocrata já
aninhado no quadro dessa entidade - de que, dentro em pouco,
não haveria mais função para aquele órgão.
Alfabetizando tanta gente, com tanta celeridade - preocupava-se o
ghost-writer do editorial - que é que se iria fazer depois com o
MOBRAL, quando o analfabetismo fosse apenas um pesadelo de
décadas defuntas?
Esquecia-se que, desgraçadamente, enquanto alguns, por muitos que
fossem, se iam liberando do curral da ignorância, outros, também
muitos, nele entravam ano a ano, em manadas imensas, nas mesmas
melancólicas condições, e pelas mesmas razões, em que os mais
velhos entraram.
Já em setembro de 1 97 1 , em entrevista à revista Veja, o então se­
cretário-geral do MOBRAL, �adre Felippe Spotorno, chamava dra­
mática, e mesmo agressivamente, a atenção do país e das autorida-

112
des superiores para um ângulo desse problema até então não focali­
zado: a cada ano, por falta de escolas, cerca de 1 ,5 a 2 milhões de
meninos atingiam os 14 anos sem ter passado por nenhuma sala de
aulas.
Quer dizer: apesar de tudo que o Brasil já havia nançado até então
e, depois, até 1974, não fora estancada a fonte que alimenta o
ribeirão dos entulhos humanos. Ao contrário, renovava-se profusa­
mente a avalancha de analfabetos. E renovava-se, advertira padre
Spotorno, numa cifra que destruía tudo o que o MOBRAL conse­
guia fazer até então, isto é, os também cerca de 2 milhões de adultos
que anualmente estava alfabetizando.
O Brasil realizava, assim, uma tarefa indisfarçavelmente farisaica.
Pois, enquanto se esforçava por drenar as águas velhas da ignorân­
cia adulta, vazavam a jorro largo, sobre outras áreas do seu já vasto
território humano, as torneiras abertas do analfabetismo infanto­
juvenil.
O analfabetismo adulto causa ainda tantos males a este país - e a
tantas outras nações mundo afora - que é preciso manter sempre
visível, diante dos olhos dos povos, o rol de suas conseqüências.
Na conjuntura atual, três razões maiores se alinham para impor um
permanente e total combate ao analfabetismo de adultos:
1) A vergonha nacional, de que em 1970 falava ao país o então
presidente do Brasil, sendo o analfabetismo como é, uma mazela,
ferindo o orgulho de qualquer povo.
2) O terrível dilema da recuperação e participação dos analfabetos
nas atividades econômicas, ou sua marginalização cada vez maior.
3) A pouco pressentida, porém, mais grave de todas as conseqüên­
cias: o inexorável " contágio" dos filhos e demais descendentes,
pelo mesmo vírus da ignorância.
E importante, porém, que se ressalte, desde já, que tudo o que pro­
pugnemos em favor da alfabetização a mais ampla e imediata dos
adultos, em nada pode afetar os esforços permanentemente devidos
à educação completa da infância e da juventude. Embora soe estra­
nha, essa ressalva precisa ser feita porque, como veremos mais adian·
te, por mais inadmissível que pareça, já chegou a ser sugerida no
Brasil, em livros de repercussão, que se optasse ou por uma ou por
outra das batalhas, já que "as finanças do país não comportariam a
simultaneidade da luta nas duas frentes " .
E assim, como houve alguém que adotou e m livro a tese d e que
deveríamos optar, de imediato, apenas pela alfabetização dos adul­
tos, deixando a das crianças para " mais tarde" porque elas " têm
tempo pela frente", há também os que, por outro lado, consideram
desperdício o esforço para extinguir o analfabetismo adulto.

1 13
Há quem raciocine que se trata de um empate de energias e de
dinheiro, com exíguo tempo de retorno. Ou ainda, que o analfabe­
tismo adulto é algo assim como um entulho social que irá sendo
removido pela própria dinâmica da sucessão das gerações: os adul­
tos ignorantes vão morrendo, sendo sucedidos por · descendentes es­
colarizados e equipados.
mo adulto é algo assim como um entulho social que irá sendo remo­
vido pela própria dinâmica da sucessão das gerações: os adultos
ignorantes vão morrendo, sendo sucedidos por descendentes esco­
larizados e equipados.
Nisto é que reside um grande e desastroso engano, que certamente
tem sido a base da condescendência e da quase indeferença com que
até há bem pouco se encarava a necessidade da luta pela extinção
do analfabetismo adulto.
O pior desse mal não é ele apenas, em si, com todas as suas multi­
faces negativas. O ângulo mais danoso do analfabetismo adulto é
aquele seu dissolvente poder de "contagiar", a que nos referimos
há pouco.
Um país que tolera a existência de um alto percentual de adultos
analfabetos, ou mesmo de semi-analfabetos, é um comboio que tenta
correr com vagões travados. Porque, por sua incapacidade congê­
nita, o analfabetismo adulto não marcha; nem deixa marchar.
A maior prova do seu reflexo negativo sobre o futuro nacional é a
chocante pirâmide da evasão escolar. O último Censo Escolar reali­
zado no Brasil, em 1964, revelou que 42,7 % das crianças, filhos
de analfabetos, não freqüentavam nem jamais freqüentaram escola.
Acrescente-se ainda a isto os que, tendo vencido inicialmente a indi­
ferença ou o antagonismo paternos, matricularam-se e tiveram apenas
um, dois ou três anos de aulas, terminando por engrossar, assim, os
nossos ainda altíssimos percentuais de desistência escolar.
Até 1 965, de cada mil crianças matriculadas em nossas escolas pri­
márias, menos de duzentas completavam o curso. Isto é, apenas 2
em cada dez. E esse mal se repete, com melhores ou piores cifras,
em todos os outros países com igualmente altos percentuais de adul­
tos analfabetos ou semi-analfabetos.
Num recente trabalho, dentro de suas " Notas Econômicas " da
Folha de S. Paulo, o economista Joelmir Beting revelava dados da
UNESCO, de 1972, sobre o número de crianças que completavam
o curso primário em diferentes países e regiões. De cada 10 alunos
matriculados, S completavam o curso: na Argentina, no Zaire, na
Líbia, no Gabão e na Malásia . Quatro completavam : na Argélia, no
México, na Venezuela e no Burundi. E três: na Colômbia, na Gua­
temala, no Paraguai e na República Dominicana.

1 14
O crescimento do número absoluto de analfabetos no Brasil, entre
as décadas de 40 a 60, mencionado no capítulo " Nações Ricas &
Nações Pobres" deste livro, tem, nos pais analfabetos, a razão capi­
tal, paralela à desídia ou incapacidade dos governos estaduais e
municipais.
E o registro da UNESCO, segundo o qual o número de analfabetos
cresceu mundialmente de cerca de 100 milhões de indivíduos entre
1950 e 1970, vem grandemente do fato de ser ainda de 43 % a per­
centagem de analfabetos entre a população adulta do globo.
(0 Departamento Nacional de Educação, em relatório apresentado
em junho de 1967, ao então ministro Tarso Dutra, sobre as despesas
para alfabetização de adultos, citava uma estimativa da UNESCO
segundo a qual custa US$ 38 a alfabetização per capita.
Existindo no mundo cerca de 800 milhões de iletrados, serão neces­
sários US$ 30,400 bilhões para alfabetizar todos. E apenas para
alfabetizar.) ("Educação: termina o I I I encontro" - O Estado de
São Paulo, 25 de junho de 1 972, pág. 7 .)
Espantoso é que, no caso de nosso país, certos agrupamentos políti­
cos, ao invés de traçar planos e propor idéias para um intenso e,
se possível, fulminante combate ao analfabetismo adulto, quase que
se compraziam em alimentá-lo e, sem dúvida, em acariciá-lo. Medi­
das políticas e sociais, de caráter paternalista e puramente paliativo,
sempre foram propostas visando favorecimentos ao analfabeto adul·
to, não para tirá-lo desta subcondição, mas para ajudá-lo, mantendo,
porém, sua ignorância - fator básico de dependência, e da necessi­
dade de novos favores.
Quando presidente do Banco Nacional de Habitação, a prof.ª Sandra
Cavalcanti revelou que cerca de sessenta das favelas cariocas foram
" abertas" e, depois, indefinidamente mantidas por elementos polí­
ticos locais, interessados em ter, assim agrupados, naquelas estufas
de caixote e zinco, os clientes eventuais de suas "generosidades " .
A desatenção que certas lideranças políticas votavam a o problema
do analfabetismo adulto vinha do fato de que isto não só não lhes
sensibilizava a inteligência, como também nem mesmo consideravam
como problema. Pelo contrário, a condição de analfabeto era até
uma geradora de direitos para esses cidadãos, e um bom tema de
reivindicações políticas e de favores próprios para as vésperas elei­
torais.
A integração cívica do analfabeto, através do voto, também sempre
foi, para muitos, " um bom assunto" . Em comícios e em aulas de
sapiência, na praça pública ou nas faculdades, perorava-se com apai­
xonada argumentação, sobre as vantagens que teria o país em va­
ler-se das luzes político-filosóficas advindas, quem sabe, dos votos
dos analfabetos.

115
E certos indivíduos que faziam carreira partidária nqs Estados de
altos índices de analfabetismo ameaçavam, de peixeira em punho,
até a unidade nacional, caso o número de votos para a eleição de
deputados feêlerais e senadores fosse computado na base de eleitores
supostamente alfabetizados e não pelo total da população adulta,
aí incluídos, obviamente, todos os analfabetos, inclusive os mais
indisfarçáveis e indiscutíveis.
Como o analfabetismo oferecia esse e outros rendimentos políticos,
ninguém nas cúpulas partidárias sentia qualquer constrangimento
em valer-se também de degraus tão fosforescentes para sua escalada
rumo ao poder.
Para esse tipo de dirigentes, o analfabetismo não era uma "vergonha
nacional " como dramaticamente o reconheceu um presidente da Re­
pública. Era, apenas, mais um dos "males inevitáveis" com os quais
a nação já se acostumara a conviver porque também, afinal de
contas - argumentavam eles - ninguém é perfeito neste mundo.

Desgraçadamente, a pior conseqüência humana e social do analfa­


beto adulto nem é ele mesmo. Seu estado de incapacidade atinge
negativamente a pátria, à qual ele já não pode ajudar nestes nos­
sos tempos de batalhas tecnológicas, nem poderá mais servir na
eventualidade da própria guerra das armas. Suas mais próximas víti­
mas são, porém, os que ele contamina: seus filhos e familiares.
Sendo um estado de espírito transmissível, uma forma permanente
de desagregação e erosão das qualidades humanas, o analfabetismo
adulto destrói, por imediatismo ou incompreensão, os impulsos ou
esforços dos dependentes que, assim desestimulados e desorienta­
dos, ainda busquem escapar ao naufrágio da ignorância e do des­
preparo.
O analfabeto adulto não tem condições espirituais, para entender
aquele " esbanjamento" de tempo necessário para que algum de seus
descendentes freqüente metodicamente e longamente a escola, ou o
colégio. Quaisquer exigências curriculares (mais tempo nas aulas,
maior assiduidade), quaisquer dificuldades de assimilação ou adap­
tação (mais dedicação, mais atenção às lições), qualquer precisão
doméstica momentânea ou repetida, qualquer desapontamento da
criança ou do jovem estudante, pode tornar-se a justificativa inexo­
rável para o absenteísmo, para o abandono da escola ou do curso, a
fim de os pais tirarem " melhor proveito� do tempo do menino.
Completando a genealogia do seu desespero, geralmente o filho de
pai analfabeto tem quase invariavelmente mãe analfabeta, tios e
avós analfabetos. De um tal vácuo de trevas, nenhuma luz socorre
essa criança. E nenhuma acústica carinhosa ou superior recolhe ou

1 16
responde suas dúvidas, suas indecisões, seus temores. Para meninos
assim, sem guia, sem nenhum balizamento .humano a nortear-lhes
melhor a rota da vida, a perda de rumo é a conseqüência terrivel­
mente lógica. São raros, e por isto se tornam seres excepcionais, os
indivíduos que, sozinhos, vencem tão compactos fatores de adversi­
dade: a pobreza material do lar e a pobreza mental dos pais e
parentes.
A extensão da influência negativa do analfabeto adulto sempre foi
obscurecida ou menosprezada, por força da exterioridade de fatos
que aconteciam longe de sua ação paterna ou de seu círculo familiar,
embora deles fosse direta conseqüência.
Quando se buscavam as razões fundamentais do absenteísmo a
que eram forçados tantos milhões de crianças, os pesquisadores con­
tentavam-se em registrar o retrato físico-psíquico da própria criança:
era por causa " da fome "; ou por causa da "vergonha da roupa" ;
o µ ainda por causa d a "humilhação d e não ter" : não ter o s objetos
escolares, não ter " nome nem documentos ", não ter coisa nenhuma.
Razões verdadeiras misturavam-se a excusas oriundas de obscuros
complexos e formavam o biombo atrás do qual o culpado, sem inten­
ção nem crime, se escondia, abrigado por suas próprias trevas: o
pai analfabeto.
Para autoridades político-administrativas já de si pouco preocupadas
com o assunto, dois motivos principais camuflavam a gravidade e a
importância do absenteísmo: primeiro, a abundância da explosão
demográfica cobria continuamente os claros nas salas de aula; se­
gundo, estas já eram sempre em número deficitário.
Ninguém sentia falta do menino ou da garotinha que não voltou.
Apenas a professora dedicada registraria sua mágoa, por ver cada
ano tantos joãozinhos e marias, tão inteligentes e promissores, serem
lançados tão prematuramente, desequipados e desprotegidos, às ruas,
ou às sarjetas do mundo.

Mesmo num país com o equipamento escolar e as facilidades de estu­


dos como os EUA, esse reflexo negativo do adulto analfabeto ou
semi-analfabeto acompanha persistentemente os descendentes em to­
das suas escalas escolares, influindo de muitas maneiras, e com dife­
rentes "justificativas ", na paralisação do processo educacional do
menino ou do jovem.
Quando o ensaísta norte-americano C. Wright Mills (White Collar,
the American Middle Class) afirma que o filho de um operário não
especializado (diga-se semi-alfabetizado) tem apenas 6% de possi­
bilidades de entrar na universidade, destaca-se das limitações desse
algarismo até onde se estende a poluição cinzenta do analfabetismo

1 17
adulto, agravada, sem dúvida, no caso daquele país, pelos obstáculos
raciais e por outros fatores universais, ocorrentes também em outras
latitudes.
O educador norte-americano Colin Greer escreveu um livro vee­
mente (The Great School Legend, Basic Books Inc., 1972) para
documentar o que chama de fracasso do sistema escolar de seu país
quanto aos resultados da educação dos filhos dos negros e dos gru­
pos sociais de baixo nível de vida.
Greer fundamenta a existência, e obviamente condena a estúpida se­
gregação, envolvendo na mesma crítica a incapacidade, ou até mes­
mo o desinteresse, do sistema escolar em reter as crianças, de qual­
quer cor, originárias dos bairros pobres ou miseráveis. Para Greer,
os alunos que interrompem o curso fazem-no porque são simples­
mente refugados por um sistema de ensino que não foi feito para
eles, e que até não os quereria em suas aulas.
E conhecida a brutal realidade do s�gregacionismo. Quanto, porém,
ao refugo consciente e deliberado, dos alunos de baixa origem eco­
nômica, há nisto certamente uma forçada interpretação política de
Greer.
E muito provável que, nos EUA, como em qualquer país, grande
parte dos professores primários, e até secundários, jamais se tenha
preocupado em verificar os antecedentes e obstáculos domésticos
contra os quais têm de lutar muitos de seus alunos. E, ao invés de
ampará-los em suas deficiências, travam com eles, num relaciona­
mento às vezes impiedoso, a batalha do tem-que-saber, um arremedo
escolar do crê-ou-morre, esquecidos da fragilidade da retaguarda
de seus atemorizados contendores.
Mesmo num país como os EUA, uma até há pouco ignorada, e sur­
preendente presença de pais analfabetos e semi-alfabetizados põe
em relevo a enorme importância técnico-social do professorado pri­
mário. Pois, cabe exatamente a este, no amparo e orientação dos
filhos de tais pais, ajudar a uns e outros, na interpretação e convic­
ção total das vantagens da escolaridade completa.
Colin Greer condena em seu livro o " fracasso social" da escola e
ignora por completo a terrível força catalítica, negativa, do meio
familiar. Essa mesma força que leva ex-universitários peruanos, de
origem índia, quando retomam às aldeias, a abandonar paulatina­
mente todos os hábitos citadinos, e até mesmo grande parte de seus
conhecimentos, para se reporem integralmente na concha ancestral
da grei e da tribo. A mesma força também que leva brilhantes ex­
alunos de Oxford e Cambridge, feitos reis ou sobas nos nascentes
países africanos, a agirem segundo os impulsos tribais, que incluem
ou absorvem todas as selvagerias das lutas fratricidas.
A ignorância dos pais agiganta, assim, a importância da função guia-

1 18
dora das professoras do primeiro ciclo, de cuja capacidade e habili­
dade resultará o aproveitamento, quase diríamos a salvação daqueles
cérebros em formação, para incorporá-los ao mecanismo da cultura
e da prosperidade dos respectivos países.
Desgraçadamente, porém, por incrível que pareça, uma boa parte
do professorado primário brasileiro (cerca de 60% ) jaz também
naquela penumbra indecisa dos semi: semicapaz, semi-alfabetizado e,
em conseqüência, semi-remunerado. Em 1 970, informava-se que das
350.000 professoras primárias do país, apenas 50% tinham diploma
normal ou mesmo escola primária completa.
Não sabemos se é trágico ou ridículo que, exatamente à sala de
entrada da edificação basilar do saber, as crianças assustadas e des­
prevenidas sejam recebidas com aquilo que é a própria caricatura da
cultura - a cultura minguada, banguela e anêmica de um pobre
professorado, ele próprio carente de instrução.

A nosso ver, a pobreza gera a pobreza unicamente porque o analfa­


beto adulto gera o analfabeto.
Por isto, assume capital importância o trabalho que vem realizando
o Movimento Brasileiro de Alfabetização de Adultos.
Nos países como o Brasil, cuja economia ainda comporta a utiliza­
ção em grande escala da mão-de-obra primária, o serviço prestado
pelo MOBRAL apresenta reflexos sensíveis, embora limitados, nas
oportunidades de vida, e de melhorias para aqueles a quem se des­
tina. Mas, a nosso ver, o resultado mais importante do MOBRAL
não é essa semi-alfabetização, de modesto alcance intelectual e só­
cio-econômico.
O mais proveitoso do trabalho do MOBRAL é a familiarização do
antigo analfabeto adulto com a necessidade e o valor da instrução,
do aprendizado das letras, da Educação, enfim. Esse relacionamento
com a preocupação de saber encaminha os pais analfabetos para
a compreensão das vantagens de os filhas madrugarem ou perma­
necerem na escola.
Ainda que isto não tenha sido até agora um tema de aula nas salas
do MOBRAL, é lógica e espontânea a conseqüência de o pai não
só admitir, mas até mesmo querer ou exigir que os filhos ou outros
dependentes também estudem.
Há uma outra validade - igualmente do mais longo alcance humano
e social: a alfabetização dos adultos restabelece uma parte do equi­
líbrio intelectual-espiritual da família, afetado quando apenas os
filhos se educam e se ilustram. Amplia-se, dentro do lar modesto,
o intercâmbio de impressões, de informações, como quando as pu­
blicações que lá cheguem possam ser lidas e sentidas por todos. Os

1 19
jornais, as revistas, os folhetos carreiam conhecimentos e emoções
que podem tocar a sensibilidade de todos ao mesmo tempo e ser
o elo de novas correntes de estímulo mútuo e participação.
Se os resultados técnicos da ação ilustradora de um movimento como
o MOBRAL são obviamente limitados, as conseqüências éticas e
conjunturais apresentam-se, porém, dignas do maior reconhecimento
e da mais profunda atenção.
Quem sabe mesmo, este efeito paralelo - preparar e convencer os
antigos analfabetos adultos quanto à importância da Educação para
todos os seus dependentes - deva transformar-se em um segundo
objetivo básico, deliberadamente visado, a ser alcançado pelo
MOBRAL? Os monitores do MOBRAL atuariam então orientada­
mente, com a dupla missão de alfabetizar, e de doutrinar os pais
sobre as vantagens da Educação para toda a família, especialmente
para a infância e a juventude.
No ambiente propício das salas de aulas, os analfabetos adultos
adquirirão, de modo muito claro, a noção de porque lhes cabe favo­
recer, ajudar e até impor que seus filhos e dependentes se eduquem
integralmente.
Quando se tiver conseguido isto, estará rompido aquele círculo vi­
cioso que tornava a miséria um mal supostamente hereditário: pais
analfabetos com filhos analfabetos, que também seriam pais de
analfabetos.
Com as células familiares conscientes, no seu todo, e participantes,
quanto à necessidade vital e às vantagens da Educação, caberá o
resto aos governos no cumprimento de seu dever máximo, que é
fornecer oportunidades completas de ensino para todos os filhos
do povo.
Embora possa parecer a muitos que " as vantagens da Educação para
toda a família" já são óbvias por si mesmas para aqueles que pro­
curam o MOBRAL, as autoridades que cuidam e comandam esse
importante empreendimento nacional deveriam providenciar para
que a doutrinação a esse respeito seja incluída oficialmente, e ime­
diatamente, no modesto currículo desse curso.

Pode ser que muita gente suponha que a incapacitação do analfa­


beto adulto termine nele mesmo, nas suas penas e na sua penúria.
De modo duplamente lamentável, assim não é. A presença de ile­
·
trados em grande percentual deforma de tal maneira a problemática
social que todos os males de um país se expandem até às dimen­
sões da elefantíase.
Numa nação de alta percentagem de analfabetos adultos, não há
pequenos problemas, ou problemas transitórios; abundam, ao con-

120
trário, os dramas que forçosamente se tornam coletivos e perma­
nentes, porque o seu lastro de conseqüências aderna perigosamente
o barco inteiro .
O bloqueio mental que cerceia os iletrados estende-se muito além
deles, pois sua presença maciça não apenas desacelera a marcha na­
cional como também empareda o destino do resto da nação, sob
quaisquer aspectos.
Daí a justeza do pensamento do educador e economista Arlindo
Lopes Corrêa, à frente da secretaria geral do MOBRAL em 1 972:
'
" Educar é mais barato do que não educar ".
Isto se patenteia uma vez mais se recorrermos aos informes de um
trabalho da professora e socióloga Mariângela Alves de Lima ("O
dilema do know-how: inventar ou importar."), publicado na Folha
de São Paulo de 10 de maio de 1970, página 34, no qual a autora
nos dava conta da preocupação do governo brasileiro com a "exces­
siva modernização" das indústrias que se estavam estabelecendo
no Nordeste, através dos incentivos fiscais, via SUDENE.
O descompasso total entre a técnica superavançada e a mão-de-obra
retardatária limitaria a um círculo diminuto os benefícios do caudal
de investimentos, que o inteligente e patriótico chamariz dos incen­
tivos canalizava para a região.
Dizia o estudo da sra. Mariângela A. de Lima: "O babaçu já foi
intensamente pesquisado, mas a introdução de um processo raciona­
lizado de aproveitamento deixaria sem emprego dois milhões de
habitantes do Maranhão e do Piauí. O processo de automação pre­
matura nas indústrias tradicionais poderia provocar uma série de
efeitos paralelos numa região com pouco capital e muita mão-de-obra.
Nesse campo, a maior parte dos economistas e técnicos de planeja­
mento considera as centrais hidroelétricas mais recomendáveis que
as centrais termonucleares, porque utilizam mão-de-obra intensiva,
pelo menos em seu processo de instalação. "
E a prof.ª Mariângela revela: " ( . . . ) o Ministério d o Planejamento
fez, recentemente, uma recomendação aos cientistas brasileiros, no
sentido de trabalharem para desenvolver produtos que necessitem
de muita mão-de-obra na aquisição da matéria-prima . "
Pouco depois, coincidentemente, o " Boletim Cambial" asseverava
em seu editorial principal do dia 8 de junho de 1 970: " Tem-se
registrado que para manejar os empreendimentos que ali (nordeste)
se instalam, dotados dos mais modernos equipamentos, tem sido ne·
cessário recrutar operários, técnicos e administradores no Sul, em­
bora de origem nordestina. Mas o homem do local, sem condições
para ser aproveitado e sem meios para se capacitar adequadamente,
não consegue trabalho e renda que correspondam às suas mínimas
necessidades" .

121
Idêntico tipo de migração especializada e qualificada teve que ser
processado na própria I tália, para a Sicília, visando ao melhor ren­
dimento da aplicação dos incentivos, idéia, aliás, originária de lá.
Essa preocupação governamental de praticamente obturar certas
válvulas de expansão do progresso, com o fim de evitar o descarri­
lhamento de milhões de passageiros do comboio nacional, prova o
quanto o analfabetismo adulto também extravasa do terreno fami­
liar para obstruir as rotas de toda a nação.
Socorrer os analfabetos adultos, ajudá-los a safarem-se o mais ime­
diatamente possível dessa condição é, pois, um ato de governança,
e não de simples piedade. Porque o mal que os atinge repercute atra­
vés de sucessivos sintomas concêntricos, de paralisia e ataraxia, por
todo o organismo nacional.
No momento em que o governo brasileiro se dispõe a uma audaciosa
passada de gigante no setor agrícola-pecuário, com a opção pelo estí­
mulo também à formação das grandes empresas rurais - o combate
ao analfabetismo, em todos os seus escalões etários, assume a mais
grave e urgente importância.
Pois, milhões de pessoas devem ser imediatamente preparadas para
deixarem o campo.
Embora o convite às empresas gigantes venha inteligentemente, e
justamente, porque estamos abrindo novas e formidáveis áreas para
as atividades agrícolas e pecuárias - a superrnecanização, envol­
vendo plantio, adubação, proteção química, irrigação e colheita, pres­
cindirá dos vastos exércitos de trabalhadores rurais, comuns '"'aos
sistemas de produção do passado.
O alerta que procuramos fazer com essas considerações se justifica
face à indecisão ou desorientação que se apossou até mesmo de sá­
bios como os cientistas do Massachusets Institute of Technology
(MIT), por causa dos resultados sociais negativos do aumento da
produção agrícola nos países (Paquistão e México) onde primordial­
mente se realizaram os mais amplos experimentos da chamada Re­
volução Verde.
"Dados estatísticos do México, onde a Revolução Verde começou
na década de 40, oferecem outro exemplo. De 1 940 a 1 960, a taxa
média de crescimento da produção agrícola no México foi de 5 %
ao ano. No entanto, de 1 95(> a 1 960, o número médio de dias de
trabalho de um trabalhador rural, sem terras, caiu de 194 para
100, e sua renda real decresceu de 68 dólares para 56. 80% do
aumento da produção agrícola vieram de apenas 3% das fazendas. "
(" Limites d o crescimento ", Equipe d e cientistas d o MIT, trad. de
Inês M.F. Litto, Editora Perspectiva, 1973, pág. 146.)
Conforme já dissemos em outro ponto, o êxodo rural, que tanto
temíamos, é até benfazejo quando sobrevém de uma liberação de

122
mão-de-obra conseqüente da adoção de métodos agrícolas modernos.
Está provado mundo afora que, quanto mais desenvolvida a tecno­
logia das atividades do campo, menos gente é ali necessária. Ao
contrário, a explosiva expansão industrial, e a da área de serviços
urbanos, criaram possibilidades de absorver toda aquela mão-de-obra
que vem deixando os campos e zonas periféricas, como já ocorre
entre nós, na área de São Paulo. Nesse Estado, nos últimos anos,
segundo o Censo de 1 970 e dados posteriores, quase meio milhão
de trabalhadores abandonaram as áreas rurais, sem que isto tivesse
afetado em nada a capacidade de produção agrícola local que, aliás,
continuou crescendo.
Para que os habitantes - de todas as idades - das zonas rurais não
sejam surpreendidos pelo desemprego, devem tornar-se alvo de um
plano efetivo e imediato, que lhes proporcione um mínimo de ins­
trução e Educação, capacitando-os a disputar as felizmente imensas
oportunidades ensejadas pelo vasto aumento da demanda dos mer­
cados urbanos, em produtos e serviços.
A frase de Arlindo Lopes Corrêa - " Educar é mais barato do que
não educar" - adquire a força de um lema nacional quando, se­
gundo o já citado depoimento de Mariângela Alves de Lima, um
órgão de governo, como o Ministério do Planejamento, cujo objetivo
ideal é colocar o Brasil em dia com os mais avançados estágios do
desenvolvimento, se vê forçado a aviar para determinadas áreas do
país uma receita sócio-econômica cuja base precisa ser a obsoles­
cência, porque só ela cabe, sem danos sociais mais graves, dentro
das condições do atraso tecnológico regional.
A decisiva tarefa que incumbe a um organismo como o MOBRAL
- para qualquer país do mundo que registre deficiências educa­
cionais como as nossas - torna essa entidade um dos mais impor­
tantes instrumentos na problemática da recuperação intelectual e
do desenvolvimento econômico, quer com vistas ao presente ime­
diato, quer tendo em mira o futuro.
O trabalho que a Nação precisa fazer junto ao analfabeto adulto
é muito mais extenso e profundo do que pensam, ou pensavam, os
entusiasmados criadores e dirigentes pioneiros do MOBRAL. Ape­
sar das novas tarefas que lhe impuseram, ou a que já se impôs o
próprio MOBRAL - como o encargo de proporcionar instrução
do primeiro ciclo aos 5.000.000 de crianças que não têm escolas,
e o novo curso primário intensivo, de quase um ano, já freqüentado
( 1 974) por mais de 1 .000.000 de adultos - seus dirigentes e profes­
sores muito terão que fazer quando, pelas alturas de 1980, derem
por terminada a sua tarefa de alfabetizar os últimos remanescentes
dos ignorantes adultos.
Aí então o MOBRAL, com toda a extensão de sua organização e

123
toda a voltagem de sua fidúcia lotérica, poderá reforçar poderosa­
mente o trabalho quase nacionalmente desconhecido do PIPMO,
uma sigla certamente misteriosa para muitos leitores - mas que já
vem longe em suas realizações extremamente úteis à coletividade.
O (aparentemente) esotérico PIPMO - Programa Intensivo de Pre­
paração de Mão-de-Obra - do Ministério da Educação e Cultura,
já é, ele próprio, uma completação ou extensão do fabuloso trabalho
que há cerca de 3 décadas fazem o SENAI e o SENAC.
Segundo um de seus dirigentes, o prof. Valdir da Rocha, o PIPMO,
num período de 1 0 anos, já " formou aproximadamente 1 .000.000
de indivíduos" e esperava, em 1 974, " qualificar 250.000 pessoas
em cerca de 400 diferentes ocupações, incluindo os setores primá­
rio, secundário e terciário, em todas as regiões brasileiras " . 1 .500
entidades executoras trabalhavam em convênio com o PIPMO, em
1 974. ( " PIPMO tem por meta formar 250 mil em 74 " , O Globo,
seção de Educação, edição de 1 2/4/ 1 974, pág. 1 0.)
Felizmente, as autoridades brasileiras parecem ter sentido profunda­
mente a importância do trabalho do PIPMO e das entidades parti­
culares, que ensejam o trabalhador ascender profissionalmente, pois,
no dia seguinte ao governo (Geisel) ter lançado o II Plano Nacional
de Desenvolvimento para 1 974- 1 979, assegurando que " ( . . . ) Nesse
sentido, os programas de treinamento profissional, no período, em
esforço conjugado dos Ministérios da Educação e do Trabalho, assim
como das classes produtoras, deverão beneficiar perto de 2.000.000
de trabalhadores" (0 Globo, 1 1 /9/ 1 974, pág. 23-B), já se infor­
mava em telegrama de Brasília que "os responsáveis pela política
governamental de treinamento de mão-de-obra vão se reunir na pró­
xima semana para estabelecer um esquema de ação coordenada a
fim de que a meta de treinamento de 2 milhões de trabalhadores ,
nos próximos cinco anos, prevista no II PND, seja atingida " . ("Trei­
namento de 2 milhões reúne técnicos do Governo" , Jornal do Brasil,
1 2 /9/74, pág. 1 1 .)

Assim como os algarismos e as espantosas perspectivas da explosão


populacional têm gerado tantas idéias ou fórmulas esdrúxulas para
sua solução, como já vimos em outro capítulo, também os números
e os dramas da pobreza e seus desdobramentos levam às equações
do desespero o raciocínio de muitas pessoas ilustres e de boa von­
tade, que dedicadamente procuram analisá-los e receitar-lhes algu1r
remédio.
Em alguns parágrafos de livro (0 País dos coitadinhos, 4.ª ed.,
1 968, pág. 1 50), focalizamos a sugestão que um destacado geólogo
brasileiro, Haraldo Zeferino da Silva, estarrecido com o drama hu-

124
mano decorrente das secas nordestinas, fez perante um Congresso
de Geologia que se realizava em Ouro Preto, em 1 964. Ao expor
aos colegas os resultados negativos de prospecções de lençóis de
água doce, por ele próprio realizadas, no sub-solo da região, o espe­
cialista propunha que, com sua autoridade profissional, os congres­
sistas recomendassem ao governo brasileiro um plano para a trans­
ferência em massa de toda a população do Nordeste (então 27 mi­
lhões de habitantes) para o Centro-Sul do país.
(Três anos depois, eram encontrados extensíssimos e volumosos len­
çóis de água doce no sub-solo nordestino, a partir do Piauí.)
Outra gigantesca migração do desespero, esta não de flagelados pela
seca, mas certamente pelo analfabetismo, foi sugerida pelo secretário
geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) , o ex-presi­
dente do Equador, sr. Galo Plaza. Assombrado com os altos índices
de desemprego nos países da América Latina (cerca de 25 % da
população), o líder equatoriano propôs à Conferência Interameri­
cana de Ministros do Trabalho, em março de 1 970, que a OEA
financiasse e organizasse a viagem de milhões desses desempregados
para tentarem obter trabalho na Europa. A baixa qualificação pro­
fissional dessa mão-de-obra disponível foi o fator que derrotou a
idéia sugerida. ("América Latina: Na hora de emigrar para a Euro­
pa", Boletim Banas, 6/4/ 1 970, pág. 1 6.)
O himalaia de problemas que se amontoam para uma nação de anal­
fabetos como a lndia leva, às vezes, até a distorções de perspectivas
como a contida naquele desesperado anátema do economista J .K.
Mehta, diretor da Universidade de Allahabad, citado por Roberto
Campos: "Um país pobre é pobre não porque seja pobre no sentido
material. E pobre porque é pobre em caráter. " (Roberto Campos:
"A mitologia do futuro" , O Globo, 27/5 / 1 969, pág. 2 .)
E, não fugindo a extremar-se em seu ponto de vista, cacoete encon­
tradiço em muitos profissionais restritamente especializados, o eco­
nomista hindu avança outra conclusão paralela, com a qual procura
explicar a falta de meios, ou a pobreza de seu país ou de países
semelhantes: "O problema da formação do capital é, no fundo, o
problema da formação do caráter. "
Também entre os que analisam as perspectivas sociais e humanas
a partir do problema da Educação, têm surgido raciocínios catapul­
tados aos mais inesperados extremos pela ânsia de soluções ime­
diatas ou fulminantes.
Desesperançada, por exemplo, com os problemas e obstáculos eco­
nômicos encontrados pela juventude estudiosa de limitados recursos,
a renomada educadora paulista, Marialice M. Foracci, em seu livro
O estudante e a transformação da sociedade brasileira, também avan­
çava até à absurdidade, quando propunha um câmbio total das tare-

125
fas escolares desses moços - convertendo-as em puro e incessante
ativismo político, contra a sociedade burguesa, a quem acusa de
bloquear deliberadamente a ascensão econômico-social dos moços
oriundos das classes remediada ou pobre.
Eis as pinceladas finais com que, nas últimas páginas de seu apai­
xonado trabalho, a autora acinzentava os horizontes da vida para
esses jovens:
(pág. 298) " Na experiência familiar, ele (o estudante) como que
reconhece com antecipação as perspectivas de vida que lhe são ofe­
recidas, as oportunidades de êxito com que pode contar e as frus­
trações que, inevitavelmente, o atingirão. Sob este último aspecto,
a história da família de classe média alterna o ímpeto de ascensão
com a frustração de aspirações sociais longamente acalentadas."
E à pág. 301 : " A democratização da cultura é um processo que só
tem beneficiado as camadas sociais que conquistaram uma posição
estabelecida na estrutura de prestígio e de poder. n

Encontramos nesse trabalho tão dedicadamente elaborado a adver­


tência paradoxal de que os livros e os estudos não são o melhor ca­
minho para os que, de baixo, quiserem atingir as culminâncias so­
ciais. A opção preferida pela educadora é o ativismo político.
Outro exemplo de desespero, e neste caso persistente, é a solução
que o prof. Lauro Cle Oliveira Lima recomenda, em dois livros su­
cessivos (Tecnologia, Educação e Democracia, Editora Civilização
Brasileira, 1 965; O impasse na Educação, Editora Vozes, 1 968) .
Partindo do pressuposto de que o país não dispõe de recursos finan­
ceiros suficientes para, ao mesmo tempo, dar escolas a todas as
crianças entre 7 e 14 anos e ainda cuidar dos analfabetos adultos,
o educador, desconcertantemente, opta pela interrupção temporária
da escolarização das crianças, em favor da escolarização exclusiva
dos iletrados mais velhos.
Eis, textualmente, o que diz o prof. Oliveira Lima, à pág. 1 35, de
Tecnologia, Educação e Democracia:
"Assim, pois, às vezes, é necessário fazer grave opção, por exemplo,
entre alfabetizar crianças e alfabetizar adultos. O clássico tem sido
optar-se pela escolarização de todas as crianças na suposição de que
isto levará, a longo prazo, à eliminação do analfabetismo. e. uma
solução corrente de sentido sociológico, político e econômico, como
procuraremos demonstrar. "
E Oliveira Lima desenvolve, então, à s razões d e sua tese:
"A criança, do ponto de vista da participação política ou econômica,
é um elemento ainda não inserido no contexto social. A infância
humana - a mais longa da escala animal - representa pesado en­
cargo para a comunidade. Durante mais de 15 anos, o ser humano

1 26
vive na quase total dependência dos adultos, não participando da
vida social senão em termos muito parciais e dentro de limitadíssimo
condicionamento. "
E Oliveira Lima adverte:
"A se adotar a solução-criança, necessano se faz admitir que no
Brasil o problema do analfabetismo durará ainda mais meio século,
ou mais, pois é provável que toda a população analfabeta de mais
de 15 anos esteja presente no processo social pelo menos durante
as próximas décadas ( . . . ) . Se se considerar que num país como o
nosso 50% da população têm menos de 1 8, poder-se-á concluir do
absurdo de aceitar uma solução a longo prazo. Seria o mesmo que
optar por um desenvolvimento adiado até que as crianças de hoje
viessem a participar da vida econômica, política e social. "
E o autor d e Tecnologia, Educação e Democracia reúne outros argu­
mentos (pág. 1 36), visando a tornar irrespondível seu ponto de
vista:
"A solução-criança (se se tem mesmo que fazer uma opção . . . ) reve­
laria a falta de qualquer critério sócio-econômico para resolver os
problemas que angustiam o País. Toda uma massa de analfabetos
(quase metade da população) aguarda a oportunidade de participar
da vida do país e de beneficiar-se do desenvolvimento. Não se pode
sacrificar esta geração pelas futuras, mesmo que o seu abandono
não significasse a impossibilidade técnica do desenvolvimento. Isto
é o que deve ser, finalmente, compreendido por todos que têm po­
der de decisão. O problema não é alfabetizar adultos ou não: é
desenvolver-se ou regredir, pois em desenvolvimento não há etapas
estacionárias . "
A seguir, o prof. Lauro d e Oliveira Lima fala sobre o s gastos com
Educação no Brasil e a exigüidade dos meios financeiros de que, a
seu ver, o país dispõe. Antes de falarmos sobre este ponto - origem
de suas preocupações e de sua tese - é ilustrativo reproduzirmos
a gradação ou tratamento que esse mestre daria à sua opção para
solução do problema educacional brasileiro (pág. 1 37 de Tecnolo­
gia, Educação e Democracia) :
" Se se considerar, ainda mais, que a escolarização precoce é uma
rotina tipicamente urbana e que os processos de aceleração hoje
adotados em Pedagogia tornam aceitável, numa emergência, o retar­
damento da escolarização das crianças menores, pode-se admitir que
a opção deve, no mínimo, recair sobre os adolescentes. Durante um
breve momento - momento de decisões em favor do rápido desen­
volvimento - pôr-se-iam de lado as preocupações com as crianças
até se ter conseguido razoável solução do problema de alfabetização
dos adultos. Um grupo governamental altamente interessado na ur­
gência do desenvolvimento e na democratização do processo político

127
não titubearia em tomar tal resolução. Evidentemente, a parte da
população já habituada com a escolaridade dos seus filhos, receberia
um forte impacto. "
A seguir, o prof. Oliveira tranqüiliza o s que o lêem:
" � possível mesmo que se acumulassem problemas desagradáveis
em certas áreas. Mas, o problema fundamental seria resolvido defi­
nitivamente e os efeitos de sua remoção se fariam sentir a curto pra­
zo, trazendo ampla justificativa para os sacrifícios feitos. O público
compreenderia que o adulto necessita ser atendido com urgência,
como um doente grave que mobiliza toda a equipe médica do
hospital. A criança pode esperar um pouco, em vista do interesse
da comunidade. Afinal, verifica-se às vezes que a precocidade do
tratamento viola o próprio ritmo do desenvolvimento, resultando em
pura perda, quando não tem conseqüências traumáticas. "
A pág. 1 36 d e Tecnologia, Educação e Democracia, o prof. Lauro
de Oliveira Lima fundamentava sua di.-aconiana proposta na exi­
güidade governamental de meios financeiros:
"A opção, pois, não é simplesmente sentimental como poderia pa­
recer aos mais desavisados. Se a capacidade do País em gastos com
Educação é insuficiente para atender à totalidade das exigências,
alguém deve ser relegado a segundo plano, embora se espere que
isto seja necessário apenas durante um breve momento emergencial
do planejamento. "
E m 1 968, e m O impasse na Educação, o prof. Oliveira Lima voltava
à sua sugestão (pág. 46) :
"O esforço governamental de abrir escolas para todas as crianças
de 7 a 1 1 anos (quase 10 milhões de crianças) pode ser grave equí­
voco na fixação de prioridades na arrancada para o desenvolvimento.
A experiência parece dizer que só países altamente desenvolvidos
podem escolarizar todas as crianças de 7 a 1 1 anos. Quem sabe se
não se deveria fechar, por uns cinco anos, as escolas primárias para
crianças e centrar todo o esforço na educação dos adultos? "
"A educação d e adultos produz rentabilidade imediata e aumenta
rapidamente a renda nacional. O investimento feito para a escola­
rização de crianças é retirado da dinâmica do desenvolvimento por
um espaço de quase 10 anos. Só países extremamente ricos podem
manter uma rede primária que atenda a todas as crianças. "
Antecipando-se a o espanto que sua idéia poderia causar, o autor
afirma ainda à pág. 46:
" �ode parecer fantástico propor o fechamento de escolas primárias
para atender à alfabetização de adultos. Mas se estivéssemos numa
guerra de vida ou morte, todos considerariam razoável que as crian­
ças ficassem sem escolas para se ter mais canhões contra o inimigo.

128
O subdesenvolvimento é uma hidra que consome todas as reservas
do esforço nacional. Para enfrentá-lo é necessário uma " economia
de guerra " ! Além do mais, esta escola primária, sob certo aspecto,
não passa de uma farsa. Fechada, pouco ou nenhum prejuízo cau­
saria. As classes abastadas continuariam com suas escolas particula­
res que são, verdadeiramente, as que abastecem o sistema escolar.
O trauma nacional de uma medida como esta acordaria a nação para
enfrentar realisticamente os seus problemas. " - termina o prof.
Oliveira Lima.
Compreendemos a veemência apaixonada de um educador diante da
magnitude dos dois problemas: a escolarização de todas as nossas
crianças e a imediata alfabetização de todos os adultos analfabetos.
A eficiente organização atual do MOBRAL teria reduzido, em parte,
a enormidade ou a dramaticidade do dilema que, segundo o autor
de O impasse na Educação, se depara a este país, como àqueles outros
povos cuja problemática se assemelhe à nossa.
Porém, mesmo antes do MOBRAL, entendemos que esta nação -
que, então, tinha ainda cerca de 5 milhões de crianças fora das
escolas - conta com meios suficientes para dar instrução a todas,
e a todos (os analfabetos adultos também) - sem que precisemos,
como "opção" alternativa, lançar ribanceira abaixo, pelas tarpéias
da ignorância, quase 12 milhões de brasileirinhos, que hoje fre­
qüentam escolas primárias.
Não podemos aceitar o atarantado desespero que leva um mestre,
com as qualificações do prof. Oliveira Lima, até a proposição de
que se assassinem milhões de esperanças jovens, por supor não haver
mais nenhuma possibilidade de se buscarem recursos financeiros
para a tarefa mais sagrada na vida de um povo.
Por todas as razões, seria inaceitável a sugestão de um compasso
fatídico - quase a eutanásia intelectual eliminadora de uma gera­
ção inteira de milhões de crianças - enquanto a nação recuperaria
os seus analfabetos adultos com o "pouco dinheiro de que dispõe
para isto" .
Mostraremos n o capítulo " Onde está o dinheiro" que a pecúnia
estatal para a Educação poderia quase até sobrar, neste país onde
os governos desperdiçam por todas as janelas e liquedutos de em­
presas industriais que o Estado já não mais precisaria " explorar"
ele próprio, ou em obras públicas faraônicas - como os estadíões
feitos Brasil afora, nos últimos 1 0 anos, quase todos com a finali­
dade, provavelmente didática, de dar dimensões superlativas a no­
mes políticos regionais minúsculos.
Se por falta de um dinheiro governamental que é volumosamente
mal aplicado em certas áreas, tivéssemos que decidir pela opção que

129
nos oferece o prof. Oliveira Lima, estaríamos face a uma certamente
indesejada, porém, monstruosa discriminação. Pois, fechadas as esco­
las públicas, só as crianças pobres, somente elas, ficariam condena­
das ao analfabetismo, porque, como ele próprio adianta, tanto os
ricos como os remediados financiariam ensino particular para seus
filhos.
Deixamos bem claro, em páginas anteriores deste capítulo, as razões
e as vantagens sociais e econômicas da eliminação imediata e total
do analfabetismo adulto.
Mas nem por um instante, nem por um segundo da História deste ou
de qualquer outro país, se poderia admitir que se fechassem as esco­
las à infância e à juventude para que nelas penetrassem os que não
as tiveram, ou as perderam, quando crianças ou infantes.
Quando os governos de países me desenvolvimento ou subdesenvol­
vidos tiverem a noção completa da prioridade máxima da Educação,
verão que basta vencer a tentação do empreguismo eleitoreiro, ou
as vaidades da monumentalidad,e ou as obtusidades pretensiosas do
estatismo, para que surjam recursos públicos em abundância para a
finalidade mais alta qu deve ter o dinheiro do povo - a Educação.

A mesma dúvida que torturou o prof. Oliveira Lima deve ter en­
volvido igualmente um outro mestre de elevado quilate intelectual,
Jacques Lambert. Pois, Lambert também parece se ter confundido
diante do difícil problema de proporcionar Educação às vastas po­
pulações infanto-juvenis de um país, de tão alta taxa demográfica
como o nosso. Num trecho de seu livro, hoje clássico, Lambert
afirma: " Quando o número de crianças é muito grande em relação
ao dos adultos, torna-se necessário que o ensino seja breve e muito
barato, ou então que seja proporcionado a uma parte apenas da
população. " (Jacques Lambert, Os dois Brasis, 8.ª ed., Companhia
Editora Nacional, Coleção Brasiliana, 1 973, pág. 2 10.)
Mais adiante em seu trabalho, o famoso professor francês ainda
mantém a nossa dúvida sobre o que propõe ou pretende, quando
sugere: "E preciso determinar quais as regiões do Brasil em que os
esforços de instrução renderão maiores resultados quer decorram
do desenvolvimento econômico, quer o precedam e originem: E pre­
ciso descobrir os métodos de ensino que melhor se adaptem à estru­
tura econômica e social dessas regiões. " (Os dois Brasis, pág. 2 1 8.)
E num outro trecho da mesma página: " Já que não é possível nem
aconselhável exercer uma ação uniforme em todo o Brasil, pode-se
lançar mão, em matéria de instrução pública, dos mesmos variados
meios que se ofereciam em matéria econômica."
Enfim, pareceu-nos, da imprecisão ou indecisão de seu pensamento

130
exposto ao longo do capítulo " Instrução pública " , que Lambert
tende a sugerir mais ensino (ou mais anos de escola) para as regiões
já desenvolvidas do país, e menos escolaridade para as regiões de
economia mais primária.
Estratégia que, seguida, eternizaria a existência dos dois Brasis -
dicotomia deformante que o próprio Lambert preferiria, muito jus­
tamente, ver desaparecida.

Insistimos em dramatizar, ao longo deste capítulo, as conseqüências


do analfabetismo, porque ele é uma maldição tão terrível que até
mesmo Deus, nem por linhas tortas, põe mesa para a ignorância.
Há milênios, que os povos iletrados curtem fome e, mantendo-se
atrasados, continuarão famintos, como se ricocheteasse sobre eles
uma implacabilidade divina, que não lhes dá nem trégua nem
bonança.
Quando alguns clérigos, aturdias com a existência ainda d tantos
andrajos no mundo - mesmo após vinte séculos de cristianismo -
se levantam contra a própria Igreja, acusando-a do crime de coabi­
tação com a concupiscência egoísta do capitalismo, deveriam me­
ditar que o erro maior dos sucessores de Pedro era pedirem piedade
em vez de pedirem escolas - para aqueles que jaziam e sofriam
sob a excomunhão da ignorância.
E quando umas tantas irmandades e confrarias partiram paralela­
mente da catequese religiosa para o ensino leigo - deixaram-se
empolgar pelas pecúnias que passou a render o n�gócio de livrar
da ignorância os filhos da burguesia, e dos que lhes podiam pagar
as onerosas anuidades.
As escolas de ensinar graciosamente aborígines e autóctones torna­
ram-se, e são, uma exceção no organismo escolar religioso, que por
muitas décadas chegou a ser tão amplo e quase único, em países
como o nosso.
Os setores religiosos ou para-religiosos, que hoje se voltam contra
sua velha Igreja, vêem apenas a sua postura de superfície, distin­
guem tão-somente a contigüidade de suas partes altas, esquecendo
onde se afundam os seus alicerces.
O erro - sincero, assim o cremos - da Igreja, ao longo dos sécu­
los, foi não ter pressentido, e corajosamente reconhecido, que as
letras, mais do que as próprias orações, teriam ajudado os povos a
obterem benesses mais fartas das mãos de Deus - pelos caminhos
da melhor exploração dos bens naturais que Ele espalhou sobre a
Terra.
E dizer-se que a Igreja esteve tão perto de ser a abridora de novos
horizontes do mundo, se os seus dignitários tivessem entendido me-

131
lhor a função, densa de mistério divino, daqueles pequenos sinais
criados pelos fenícios para permitir ao homem fixar no papel tudo
que ia deduzindo de seus erros e experiências neste mundo de Deus.
Por décadas e séculos, eram os regimentos religiosos quase que os
exclusivos donatários dessa frágil ferramentaria - as letras - de
fazer milagres e riquezas entre os homens.
Eis o retrato que Luiz Alves de Mattos nos dá, por exemplo, de
como ainda eram as coisas em Portugal, meio século após a desco­
berta do Brasil:
"E bem verdade que os mosteiros e as catedrais eram quase que 05
únicos asilos das letras, tanto sagradas como profanas: mas sua atua­
ção era modesta e restrita à satisfação de suas necessidades internas.;
não tinham a consciência de estar cumprindo uma missão social. "
(Luiz Alves de Mattos, Primórdios da Educação n o Brasil, Editora
Aurora, 1 958, pág. 38.)
Desgraçadamente para o povo português, e para outros povos da
Europa, e para muitos de outros cantos do mundo, as trevas descri­
tas acima adelgaçaram-se, indissolúveis, ao longo dos séculos; na
Europa, até quase o fim do século XIX; e até nossos dias, pelos
continentes da escuridão: a Ásia, a África e a América Latina.

132
5
merenda escolar:
o estratagema brasileiro

•o drama brasileiro do ensino


primário é a evasão. •

Jarbas Passarinho, Ministro da


Educação, Conferência na XVII
Convenção Nacional de Llons Clubs.
(Estado de São Paulo, 8/5/1970,
pág. 6.)
• ( . . . ) Portanto, para reter estas
crianças na escola, o ensino gratuito
apenas não é suficiente. Seria
necessário o ensino pago, porém em
sentido inverso: os estudantes mais
pobres receberiam bolsas para
gastos pessoais, o que compensaria
seus possíveis salários."

"Chegar às escolas - els a questão",


Ensaio do 1 Caderno de Indústria,
Ciência e Tecnologia. (Correio da
Manhã, 30/4/ 197 1 , pág. 24.)

•Belo Horizonte, 28 (Meridional) -


Alunos de um dos grupos escolares
da Prefeitura enviaram um pedido
ao Secretário Municipal de Educação
para que tivessem aulas também
aos sábados e domingos. O que
�ssas crianças do Grupo Escolar
Eleonora Pierucetti, localizado num
bairro pobre da cidade, querem é
contar, durante toda a semana, com
a merenda escolar, que lhes falta
em casa. "

("Aula todos os dias para comer•.


Dl4rlo de SãD Paulo, 29/5/1973,
pág. 4.)
Uma das ocorrências sociais que mais influem para a maximização
das conseqüências e dos algarismos da miséria, em nosso país - ou
em qualquer outro ainda em estágio de desenvolvimento - é a dupla
evasão escolar: a das crianças que desistem de continuar freqüen­
tando as aulas, e a das que nem chegaram até a própria matrícula.
O percentual de alunos que não mais voltam às aulas, e as vão
abandonando a cada ano, é tão espantosamente elevado que pode­
ríamos emprestá-lo como justificativa subconsciente a que se teriam
dado certos homens de governo, demasiadamente ilustres para terem
sido tão insensíveis quanto se mostraram para com o problema da
Educação, nos gabinetes do Império e em todos os quadriênios da
República.
Houve, no entanto, um brasileiro desajeitado demais para ser um
conformista ou para falar por metáforas e desconversas, que literal­
mente entornou o assunto em praça pública: recusou-se a cumprir
ordens para abrir novas escolas no interior de seu Estado - ele
era secretário de Educação - alegando que as já existentes logo
se esvaziavam, mal se iniciava o período letivo de cada ano.
O governador queria mais · escolas para poder cumprir compromis­
sos de nomeações de novas professoras. Mas o secretário Graciliano
Ramos, apesar de escritor, não conseguia entender aquela tradução
que se queria dar para o problema. Foi demitido.
Essa atitude desabusada do romancista de Vidas secas teve grande
repercussão nos meios intelectuais do país a seu tempo.
Ano� mais tarde, Graciliano explicaria a amigos:
- " Cansei de receber relatórios contando como os bichinhos des­
maiavam de fome nas escolas das zonas mais pobres. Tinha era que
fazer cozinhas. Mas os políticos queriam outras escolas, mesmo que
também ficassem vazias. n

Mais de 35 anos depois, a Comissão de Assuntos Internacionais do


Ministério da Educação fornecia ao ministro J arbas Passarinho os
seguintes dados para um relatório que ele, especialmente convidado,
apresentaria à XXXII I Conferência da UNESCO, realizada em Ge­
nebra, em setembro de 1 97 1 :
índices de evasão escolar
Da l .ª para a 2 .ª série - 56%
Da l .ª para a 3 .ª série - 59%
Da l .ª para a 4.ª série - 73 %

135
E o relatório brasileiro corajosamente completava-se com o seguinte
e dramático panorama geral :
De cada mil alunos, apenas . . .
1 8 1 chegavam ao fim do curso primário;
. . . 35 ao fim do curso secundário;
. . . 1 1 ao fim de um curso superior.
O impressionante na dissecação dessa pirâmide escolar não é apenas
o pequeníssimo número dos que até há bem pouco conseguiam che­
gar ao seu topo, mas principalmente a avalancha dos desertores-mi­
rins que, tão cedo, largavam para sempre as salas de aulas.
� bem provável que a frustração administrativa e funcional causada
por essa evasão em massa tenha fornecido historicamente aos polí­
ticos e aos burocratas das repartições de ensino a muleta incons­
ciente que lhes permitia conviver, sem -escândalo e sem comoção,
com a outra banda desse todo: aqueles ainda mais de 5 milhões
de brasileirinhos que, por falta de todos os meios governamentais
- salas de aulas e professores - nem sequer eram convocados
para a simples matrícula.
Certamente foi da soma dessas duas frações melancólicas - a. dos
que ficam sem escolas e a dos que não chegam ao fim do curso
primário - que o ex-secretário-geral do MOBRAL, o padre Felippe
Spotorno, encontrou aqueles 1 ,5 a quase 2 milhões de jovens que,
atingindo os 14 anos, ainda repunham em 1 974, substancialmente,
as baixas que os esforços de governos e professores causam lenta­
mente nos algarismos globais do nosso analfabetismo adulto. " Se
não se fechar essa porta para o analfabetismo, talvez nosso trabalho
seja inútil " , advertia o padre. ("As primeiras luzes ", Revista Veja,
1 5/9/ 1 97 1 , págs. 38 a 44.)
Aliás, no Censo de 1 970, realizado pelo IBGE, vinham cifras ainda
impressionantes : de 12.8 1 2.000 crianças matriculadas no primário,
no início do ano, chegavam ao fim do ano apenas 10.954.000, ha­
vendo, portanto, uma deserção de 1 .858.000.
Em 1 962, quando a merenda escolar não havia atingido o grau de
desenvolvimento atual, o quadro da evasão era ainda pior. Vejamos
o que diz o prof. Lauro de Oliveira Lima no seu O impasse na
Educação (Editora Vozes, 1 968, pág. 52) :
" Nada há de parecido à capacidade da escola brasileira de eliminar
alunos ao longo de sua duração. Em 1 962, para 4.3 16.7 1 1 matri­
culados na 1 .ª série primária, t.ínhamos apenas 1 .749.425 na 2 .ª
série. "
Isto é , cerca d e 2.550.000 desertaram n a primeira etapa da longa
e útil viagem do espírito.
E certamente aqueles 4.3 16.000 alunos eram algarismos substan-

136
cialmente inflacionados pela repetência. Aliás, esse fenômeno ocone
em escala pior do que se possa imaginar. E o que se deduz de um
dado impressionante que Lauro de Oliveira Lima - no mesmo
livro, à pág. 49 - extraiu do Censo Escolar de 1 964: 43 % dos
alunos da 1 .ª série escolar daquele ano tinham de 10 a 14 anos de
idade - numa promiscuidade totalmente antipedagógica.
Já analisamos em capítulo anterior a ampla influência negativa que
o fator " pais analfabetos " exerce sobre a evasão escolar.
Há quem considere como outra "causa poderosa" o elevado índice
de reprovações do 1 .º para o 2.º ano. Haveria ou incapacidade das
professoras para conduzir a iniciação escolar de crianças que jamais
foram submetidas a qualquer aprendizado ou disciplina ou severi­
dade excessiva em punir com a repetência crianças que não tinham
nenhum outro suporte ou estímulo para continuarem estudando.
Em seu livro O impasse na Educação, o prof. Lauro de Oliveira
Lima, depois de lembrar que " 50% das professoras primárias bra­
sileiras não têm nível de 2.º grau escolar ", chega a levantar a hipó­
tese: "E mais razoável atribuir a evasão ao professorado do que à
incapacidade dos alunos; os que se evadem( . . . ) seriam os inteli­
gentes! " (pág. 53.)
Até o . desencontro do calendário escolar com a época das colheitas
·
- fato que realmente ocorre em várias regiões brasileiras - tam­
bém é indicado como gerador de evasão nas zonas rurais mais
densas.
Mesmo um mestre, com toda a objetividade de sua inteligência,
como Anísio Teixeira atribuía os tremendos índices de deserção
escolar à "franca deterioração do ensino primário" , oriunda da
"exacerbação do caráter seletivo da educação, no seu vezo de pre­
parar alguns privilegiados para o gozo das vantagens de classe e
não o homem comum para a sua emancipação pelo trabalho pro­
dutivo." (Anísio Teixeira, Educação não é privilégio, Liv. José
Olympio Editora, 1957, pág. 33.)
O grande mestre admitia, assim, que as crianças deixavam de ir
à escola como reação - orientadas por quem? - à ineficiência
prática ou à má qualidade do ensino.
Certíssimo na sua crítica à inobjetividade geral do ensino no país,
Anísio Teixeira não via, entretanto, que a influência negativa exer­
cida sobre os baixíssimos índices de freqüência advinha do imenso
conglomerado de pais e responsáveis analfabetos, e de suas condi­
ções de vida.
Atribuir-lhes a subtração dos filhos aos deveres escolares como rea­
ção contra a inocuidade do ensino seria até ridículo considerar.
O máximo que se poderia sacar de sua incapacidade de julgamento

137
para justificar a baixa escolaridade dos filhos, seria o dizerem que
não viam, ou não sentiam, vantagens de os meninos estarem na
escola. Eles não tinham condições de avaliar o que os guris pudes­
sem trazer na cabeça; mas sabiam que eles iam e voltavam de barri­
ga sempre Vl1zia.
Todas as razões negativas apontadas como expelidoras de crianças
das escolas são também logicamente enfrentadas pelas crianças de
pais instruídos que, mesmo assim, as mantêm nos estabelecimentos,
não se deixando vencer pelas condições adversas, a que é fragilmente
sensível a infância oriunda de lares analfabetos.
Nem nós negamos a veracidade dessas razões - que existem e sáo
válidas.
Porém, elas se tomam secundárias se acompanharmos o rastro enver­
gonhado dos pequenos evasores. O fio dessa meada leva-nos a lares
onde quase nada, ou nada-de-nada se sabe sobre Educação, e o que
ela possa dar aos guris (e aos pais) em troca de suas horas no
eito, ou na venda de amendoim, ou da engraxação de sapatos. Ou
em coisas piores.
Viajando no sentido inverso do fio dessa meada, o aroma da comida
da escola traz de volta o bando alacre que vem, feliz da vida, comer
das mãos das professoras, que não são mãos da caridade, mas da
Pátria - que, como Deus, eles pressentem então que deve existir.

Parece ·não haver dúvida que, quando o governo Café Filho instituiu,
em 31 de março de 1955, a Campanha Nacional de Alimentação
Escolar, agia em função de uma tendência paternalista-assistencia­
·
lista, muito lógica, aliás, dentro do "populismo" da época. O que
se visava com a nova entidade era dar uma cobertura governamen­
tal e federal àquele esforço assistencial improvisado e isolado, das
"caixas escolares ", já existentes em centenas de municípios brasilei­
ros, mas não em todos, quase sempre mantidas por iniciativa e
extrema dedicação das professoras, visando a reunir ajuda em ma­
terial escolar, ou em uniformes e, às vezes, em lanche ou pequena
merenàa para os alunos pobres.
O populismo do presidente apiedava-se generosamente de garotos
como aqueles personagens reais do romancista-secretário de Educa­
ção de Alagoas, Graciliano Ramos, que desfaleciam famintos nas
aulas ou aguavam a boca, invejosos e humilhados, vendo os meninos
de posses mastigando seus suculentos sanduíches trazidos de uma
casa farta.
Aqueles que poderiam pensar que avançamos muito no campo d�
alimentação infantil, a partir de onde e da hora em que Graciliano
Ramos quebrou a sua famosa sisudez, ficariam chocados se conhe-

138
cessem os algarismos de uma pesquisa feita por três nutricionistas
em Valinhos, a 50 quilômetros de São Paulo. Segundo o Jornal da
Tarde (7/8/72, pág. 42), esses especialistas encontraram sinais de
desnutrição em 9 1 ,4 % das crianças entrevistadas.
l>or sua vez, a revista Veja revelou em reportagem ("A volta ao
lanche", 1 8/8/7 1 , pág. 39): " Para avaliar concretamente a necessi­
dade da merenda escolar, foi feita uma pesquisa em quinze municí­
pios mineiros do setor de Ubá, na Zona da Mata, região rica do
Estado de Minas, com 33.000 crianças. Os resultados, embora dra­
máticos, não foram surpreendentes: quase 20.000 crianças, no des­
jejum, tomam apenas café puro e, no almoço, raramente comem
carne. Leite e frutas são consumidos em proporções mínimas -
mais de 1 0.000 crianças raramente os vêem. "
Como muitas outras medidas governamentais d e todos o s tempos,
a Campanha lançada pelo presidente Café Filho não se tornou desde
logo uma eficiente realização administrativa. Veio existindo modes­
tamente até que a confluência de várias vontades e de muitos idea­
lismos a transformaram, dez anos depois, em 1 965, na Campanha
Nacional da Merenda Escolar.
Já, então, entrosavam-se no mesmo empenho de alimentar os alunos
pobres as entidades de ajuda internacional - a USAID, com o seu
programa de " Saúde, Nutrição e Alimentos para o Desenvolvimento"
(SNAPD) e o PMA (Programa Mundial de Alimentos) da ONU -
os quais participaram em 1 9 7 1 com 55% da quantidade de alimen­
tos distribuídos, e o governo central, os Estados, municípios e parti­
culares brasileiros, que contribuíram com 45 % do total.
A partir daquele momento, o governo pôs a mão, ainda mais firme­
mente, num instrumento de ação social que mais parece um ovo­
de-colombo, tais as suas conseqüências ao mesmo tempo inesperadas
e óbvias, ainda não convenientemente ressaltadas.
Como, entretanto, dos sucessivos pronunciamentos governamentais,
parece que o que ainda predomina como filosofia da "merenda esco­
lar" é a idéia da mera ajuda alimentar proporcionada ao aluno
pobre, queremos salientar que a esta altura já se impõe, para melhor
orientação de professores e autoridades regionais, atribuir à merenda
escolar uma função definida, ostensiva, de instrumento para atrair
a criança arredia ou desinteressada, oriunda de lares extremamente
pobres e analfabetos.
� preciso que se saliente a importância e a necessidade dessa divul­
gação, pois chegou-se a afirmar em 1972 que um alto dirigente da
organização encarregada da merenda escolar fora punido com de­
missão, por declarar que em certas áreas do país a maioria absoluta
das crianças freqüentava as aulas por causa da alimentação gratuita.
Se essa punição de fato existiu, ela representa apenas mais uma la-

119
mentável manifestação do nosso complexo de pobreza nacional
envergonhada.
Pois, exatamente o que necessitamos é proclamar, para dentro de
todas as nossas vergonhas e deficiências, e para os outros povos que
também as têm na mesma escala, que o Brasil desenvolveu a ma­
neira prática e humana de atrair, e manter nas escolas, os milhões
de filhos dos seus milhões de analfabetos - no passo mais decisivo
e na mais extensa e eficiente manobra de envolvimento em torno
das massas analfabetas.
A merenda não deve ficar escon,dida como uma surpresa que os
alunos pobres encontrem nas escolas, se acaso vencerem os obstá­
culos domésticos e os preconceitos sociais que os impedem de ir até
lá. J: preciso que os velh'-'S olhos e ouvidos paternos, embaçados
pela ignorância ou dessensibilizados pela pobreza, vejam e saibam
dos aprendizados que a escola oferece todos os dias a seus filhos:
o de comer e saber comer, e o de ler e escrever.
Com o desenvolvimento dado à merenda escolar, as autoridades ati­
raram no que viam - a necessidade de reforçar a resistência e a
saúde das crianças pobres que iam à escola - e acertaram, talvez
um tanto inesperadamente, no mais perfeito e saudável estratagema
para manter essas crianças freqüentando as classes, e de também
atrair milhões de outras para simultâneo usufruto desse benefício.
Adquiriu-se, assim, aquela irresistível motivação realista e objetiva
de que o Brasil, ou qualquer outra nação com alto índice de adultos
analfabetos, necessitava vitalmente, para vencer a instintiva oposição
ou a relaxada indiferença com que os pais iletrados encaravam a
"obrigação de ir à escola" .
Pode-se dizer que, a partir do desdobramento da merenda escolar,
as autoridades de ensino primário detêm em suas mãos o mais pode­
roso fator de compulsão e retenção dos alunos pobres nos seus
estabelecimentos.
Arma permanente, de uso diário, contra a evasão escolar dos alunos
que foram e não mais voltaram, e de sedução dos que nunca se
sentiram compelidos ou atraídos para lá ir - a merenda coloca-nos
a um passo da democratização absoluta do primeiro estágio da
Educação no Brasil.
Portanto, a incompreensão ou acanhamento, quanto às vantagens
de salientar esse ângulo mais do que positivo da merenda escolar,
rouba a essa causa sagrada um apoio e uma dedicação que serão
certamente ainda maiores e mais calorosos quando todos - profes­
soras, funcionários, administradores federais, estaduais e munici­
pais, e a própria coletividade - estiverem convictos de que esse
remédio é para essa doença - a tétrica evasão -, para a qual pro­
porciona a cura há tantas décadas esperada. Talvez seja por isto, por

140
falta de uma senha oficial, que as autoridades de varias regtoes
brasileiras ainda não deram à merenda a colaboração que é de seu
dever.
Falando perante a XVI I Convenção Nacional dos " Lions" do Brasil,
o então ministro Jarbas Passarinho, da Educação, afirmou que 68%
das crianças brasileiras de 7 a 14 anos freqüentavam escola, mas
que isto era "um dado otimista com o qual o governo não se deve
iludir". ("Vencida a evasão, o analfabetismo cairá ", O Estado de
São Paulo, 8/5/ 1970, pág. 6.)
E o ministro apresentou então o seguinte quadro de escolarização:
"Guanabara 100% ; São Paulo 1 00% ; D. Federal (Brasília) 83 % ;
Ceará 39% ; Pernambuco e Piauí 43 % " .
Por esses índices - da própria capital do país! - e do Ceará, Per­
nambuco e Piauí, vê-se que grande esforço ainda tem que ser feito,
e que imenso papel caberá à força centrípeta da merenda escolar.
Pois, como lembrava a caturrice profética de Graciliano Ramos, nem
sempre é a falta de escolas que acontece - mas a de alunos.
Com efeito, segundo os dados da Pró Carta Escolar da Guanabara,
o Nordeste tem 7 1 .8 1 7 estabelecimentos de ensino de l .º e 2.º graus,
isto é, quase 20.000 a mais que a região Sudeste (52.970) ; entretan­
to, no Nordeste registram-se quase 4.500.000 alunos a menos que
nas escolas da região Sudeste, ou seja, 5 .255.000 contra 9.734.000.
A região Sul, que tem cerca de metade das escolas do Nordeste
(36.985 contra 7 1 .8 1 7) apresenta-se com um contingente de alunos
bem próximo do nordestino: 4.075.000 contra 5.255.000. (" GB tem
1 .547 colégios e mais de 800 mil alunos" - Levantamento do ensi­
no do Brasil, O Globo, 30/3 / 1 974, pág. 1 2.)
(Aliás, essa tão grande desproporção entre número de escolas e o
de alunos no Nordeste explica muito bem uma outra espantosa cons­
tatação - a de que, neste país ainda sem bastante escolas, uma c<>­
missão de pesquisadores oficiais encontrou, em 1 966, e reconfir­
mou em 1 970, um milhão de vagas nos estabelecimentos públicos
de ensino - assunto que tratamos, com detalhes, no capítulo sobre
a contribuição da imprensa à Educação.)
O problema da larga evasão escolar já figurara, aliás, como uma
das vinhetas cinzentas do famoso (e corajoso) Relatório que o Ins­
tituto Nacional de Estudos Pedagógicos, representado por seu dire­
tor, Prof. Carlos Corrêa Mascaro, apresentara à reunião, realizada
pela UNESCO em dezembro de 1 967, em Paris.
Dos 1 O milhões de crianças que então cursavam o nosso primário,
" ( . . . ) quase um milhão deixa a escola durante o ano, e mais de
um milhão não volta à escola no início do ano." "Menos de um
milhão de alunos terminou a quarta série ", quando o ideal seria de

141
dois e meio milhões. " (" Grave a situação do ensino ", Relatôno do
INEP apresentado à UNESCO em dezembro de 1 967, Resumo de
Magda Sparano, O Estado de São Paulo, 3/ 1 / 1 968, pág. 6.)
Quatro anos depois da reunião da UNESCO, a gravidade desses
algarismos não se havia alterado, segundo levantamento feito pelo
próprio Serviço de Estatística da Educação e Cultura do MEC: " dos
6.035.000 alunos matriculados na 1 .ª série primária em 1 97 1 ,
2.800.000 não cursaram a 2.ª série. " (" Evasão e reprovação preo­
cupa todo o país" , O Estado de São Paulo, 30/4/ 1974, pág. 23.)
Se, então, a respeito da evasão escolar, reunirmos os algarismos dos
últimos 25 anos (de 1 942 a 1 967), como fez o Jornal do Brasil,
encontraremos uma realidade arrasadora: " ( . . . ) de um total de
84.292.833 meninos que se matricularam na 1 .ª série, apenas
18.037.923 completaram o quarto ano." ("Semibrasileiros", Jornal
do Brasil, 27 /4/ 1974, pág. 6.)
Isto é, em um quarto de século, mais de 66.000.000 de brasileiros
abandonaram o curso primário no começo ou no meio da jornada.
Os 1 00% de escolaridade que o então ministro Jarbas Passarinho
atribuíra a São Paulo eram largamente corroídos pela evasão, con­
forme registra o economista Joelmir Beting: "O Serviço de Saúde
Escolar, da Secretaria de Educação (de São Paulo), informa que
problemas de saúde explicam 70% dos casos de abandono de curso
ou de repetência de ano na população escolar de 1 .º grau na Capital
paulista. Os 250 mil repetentes por ano custam ao governo estadual
mais de 20 milhões de cruzeiros. As más condições de saúde da
garotada têm a ver com o baixo padrão sanitário do lar e com o
regime de subnutrição em que vegeta." (Joelmir Beting, Notas Eco­
nômicas, " Indústria da Dieta", Folha de São Paulo, 14/4/ 1 974,
pág. 39.)
Indo, porém, mais longe do que o pessimismo (ou o realismo) de
todos, o deputado Flexa Ribeiro afirmava na Câmara Federal, em
1 973, que "em vários Estados da Federação, as taxas de deserção
do ensino primário alcançam 90% da matrícula inicial " . ("Evasão
Escolar no 1 .º grau é desperdício econômico", Folha de São Paulo,
Supl. Educação, 2 1 /3 / 1 973, pág. 1 1 .)
O deputado Flexa Ribeiro fez essa declaração quando assumia a
presidência da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados,
em Brasília, para a qual fora eleito por unanimidade. Dada a múl­
tipla autoridade do parlamentar carioca, como professor, ex-secre­
tário de Educação da Guanabara, ex-representante do Brasil na
UNESCO, sua declaração corresponde a um brado de alerta até
mesmo sobre o atendimento que possa estar sendo emprestado à
Merenda Escolar " em vários Estados da Federação ".
Registramos essa declaração do deputado Flexa Ribeiro exatamente

142
por partir de um cidadão que, no momento em que a fez, além de
todos os seus títulos, detinha a responsabilidade de presidente da
Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.
De duas uma: ou muitos resultados favoráveis da Merenda Escolar
ainda não chegaram integralmente até mesmo ao conhecimento de
um homem com a qualificação do prof. Flexa Ribeiro, ou mantêm-se
de fato, para tristeza e decepção de todos, os altíssimos índices de
90% de evasão escolar "em certos Estados da Federaçãon.
Em ambas as situações, a máquina governamental estará falhando:
por não comunicar os resultados dos seus próprios esforços quanto
à Merenda Escolar; ou por não fiscalizar adequadamente, diuturna­
mente, a distribuição da Merenda, ocasionando a sobrevivência das
terríveis condições que geram a evasão.
Tudo isto configura a importância de a merenda escolar ser cuidada
por igual, em escala nacional - porquanto o mar da pobreza em
nosso país não é circunscrito a mediterrâneos fechados, pois ainda
envolve tanto o campo, os lugarejos e as cidades, como as metró­
poles.
Não é necessário nenhum esforço de descrição para convencer as
pessoas inteligentes sobre a inesperada importância do efeito "se­
cundário n, ou oficiosamente desconhecido, da merenda escolar: sua
capacidade de atrair e reter milhões de crianças pobres nas escolas.
Médicos e psicólogos unem-se para afirmar unanimemente que a
subalimentação permanente é fator altamente negativo para o desen­
volvimento mental da criança, sendo mais graves suas conseqüên­
cias quanto mais jovem ou tenra for a criatura, e quanto mais pro­
longado o seu período de penúria alimentar.
Haverá casos em que, desgraçadamente, a merenda escolar terá che­
gado tarde. Mas para milhões de alunos de nossas escolas primárias,
ela traz o pão na hora exata da fome, de duas fomes: a do corpo
e a do espírito.
Existem depoimentos de professoras e autoridades do ensino que
podem ajudar-nos a ressaltar ainda mais a necessidade já hoje dra­
mática de fazermos da merenda escolar uma instituição perfeita e
infalível, executada nacionalmente com seriedade e generosidade,
como já se está procurando fazer em vários pontos do país.
e preciso que ressaltemos a conjunção de conseqüências benéficas
que a merenda traz para toda a infância escolar brasileira e, obvia­
mente, para o presente e o futuro próximo do país. Pois de outra
forma, em certas áreas do território nacional, ela pode vir a ser ma­
nipulada como um outro " negócio eleitoraln por aqueles mesmos
sobas políticos que chegavam até a vender o leite em pó enviado
pelas instituições internacionais para as crianças flageladas.

143
Ou, ainda, pode vir a ser destruída pelo desleixo e pela insensibili­
dade criminosa de certos burocratas, como aconteceu em 1 972 no
próprio Estado de São Paulo, segundo o depoimento da técnica
Maria de Lourdes Negrão Moraes, diretora da Seção de Nutrição
do Serviço de Saúde Escolar do Estado, prestado ao jornal da Tarde
de 7 /8/72 (pág. 42) :
" - A verba deste ano só foi liberada n o mês d e julho, apesar de
fixada desde o início do ano. Agora, com o dinheiro na mão, fomos
comprar 1 .300 toneladas de leite em pó. Com a crise do leite, só
conseguimos 1 00 toneladas por enquanto. "
Conseguiram comprar menos d e 10% d o que necessitavam. Isto
aconteceu num Estado como São Paulo, e na sua Capital. Não
aceitemos a hipocrisia de quem tentar "justificar" esse desleixo como
sendo uma suposta ignorância, por parte dos burocratas, quanto à
magnitude do problema da subnutrição infantil numa região tão
próspera.
Pois, dentro da própria Capital paulista, o prof. Paulo Zingg, quan­
do secretário de Educação da Prefeitura na administração Maluf,
fez numerosas declarações assegurando aos pais dos alunos das zo­
nas periféricas que manteria a merenda escolar nos períodos das
férias, a fim de q'Ue as crianças pudessem continuar usufruindo de
mais esse benefício que a escola lhes proporcionava.
Aliás, razão a mais para essa ênfase que estamos procurando dar
ao valor da merenda é a verificação, feita ainda em São Paulo, de
que a rede municipal de estabelecimentos primários da Capital era
muito mais farta no seu cardápio do que escolas estaduais visitadas
pela mesma reportagem (Jornal da Tarde, 7 /8/72, pág. 43) :
" Só um copo de leite e não canjicas, ovos cozidos ou pães (como
nas escolas municipais). Só uma fila no pátio, e não um refeitório
grande e limpo, no Grupo Escolar Adelaide Ferraz de Oliveira, da
rede estadual, onde a distribuição de merendas é muito diferente
das escolas municipais."
Tratava-se de uma escola estadual protótipo, situada na Vila Gui­
lherme, um bairro da capital, " habitado principalmente por operá­
rios. Esse Grupo enfrenta todas as dificuldades das escolas estaduais:
os mantimentos que a Caixa Escolar fornece são insuficientes, e a
Associação de Pais e Mestres sempre precisa comprar açúcar, gro­
selha e chocolate, para acrescentar ao leite. Muitas vezes a distri­
buição de merendas precisa ser interrompida: o leite em pó não
chega com regularidade (este ano a primeira remessa só veio em
abril) ".
Nessa altura, a reportagem atingia uma outra gama de espanto,
documentando a frieza e a absoluta falta de solidariedade humana

144
e cívica com que certos indivíduos atendem suas funções públicas,
principalmente na área assistencial:
"As nutricionistas só aparecem uma ou duas vezes por ano, para
inspecionar a cozinha ou orientar a merendeira, que é paga pela
Caixa Escolar. E são os próprios alunos que devem trazer os copos
de casa, para tomar o leite. "
O estabelecimento visitado " apenas uma o u duas vezes por ano"
pelas nutricionistas - o Grupo Escolar Adelaide Ferraz de Oliveira
- ficava na periferia da Capital bandeirante. Imagine-se o que
ocorrerá aos que se acham à porta de entrada do sertão mato-gros­
sense, ou nesse próprio sertão.
Mesmo, porém, sendo o "cardápio" da merenda dessa escola esta­
dual paulista apenas leite, os meninos que tinham copos " aparecem
duas ou três vezes na fila; querem repetir, muitas vezes acompanha­
dos pelas mães e irmãos mais novos " .
Veja-se esta outra reportagem, d e u m outro grande jornal, descre­
vendo a sofreguidão com que os alunos se sucedem, por turmas, na
sala que lhes serve de refeitório:
" ( . . . ) A professora, de longe, observa. É quase um ritual selvagem,
quando voltam a comer: uma colherada atrás da outra, um pedaço
de pão que alguém trouxe · passando de mão em mão, a disputa até
pelo peitoril da janela para colocar o prato - pois com ele na mão,
é difícil comer depressa. Valderli, o primeiro a chegar, vai para o
quarto prato; parece que nem respira. "
Outro trecho d a mesma reportagem:
"A professora explica que a chuva diminuiu muito pouco a freqüên­
cia. Eles vencem qualquer coisa para chegar aqui na hora, porque,
se voltarem, vão ficar com fome. "
" Outra turma desce a rampa. Agora ninguém entende mais nada.
Os garotos se cruzam no pátio coberto, correndo: uns em busca de
lugar na mesa, outros na corrida para a segunda porção. Atrás de
todos, dois dos mais fortes descem devagar. Carregam um outro,
paralítico. Na mesma hora, abre-se uma vaga na mesa. É dele. Os
outros estavam guardando." ("Alunos do primário vão à aula pen­
sando mais na merenda ", Jornal do Brasil, Suplem. de Educação,
5/7 /7 1 , pág. 5.)
Estas cenas descritas por um jornal carioca podem dar-nos uma
idéia de como nas outras cidades menos prósperas que a Guanabara
e São Paulo, em milhares de lugarejos brasileiros, deve ser acolhida
a hora da merenda, onde houver escolas primárias que as forneçam.
Aliás, ao que parece, a Guanabara é a unidade da Federação que
está mais avançada na regularidade de suprimento e na qualidade
e diversificação da merenda escolar, podendo servir de protótipo

145
para os outros Estados. Isto se deve à feliz coincidência de um
ex-secretário de Educação, prof. Benjamin Albagli, perito da Orga­
nização Mundial de Saúde, ter sido o fundador e diretor por longos
anos do Instituto de Nutrição que, em 1 97 1 , já fornecia 500 mil
refeições diárias às crianças matriculadas no Estado.
Além do óle.o e do leite, distribuídos pela Campanha Nacional de
Alimentação Escolar, do Ministério da Educação, os gêneros básicos
com que o Instituto de Nutrição preparava as merendas nos dife­
rentes dias da semana eram: carne (fresca ou seca) , filé de peixe,
galinha, ovos, açúcar, arroz, feijão, massas, legumes, verduras, frutas
e produtos para enriquecer o leite e as sopas.

Felizmente, podemos registrar uma prova eloqüente da racionali­


dade e visão com que os dirigentes da Campanha Nacional de Ali­
mentação Escolar estão dando cabo de sua tarefa: além dos cursos
realizados em 1 969 (34 7) e em 1 970 ( 428) para supervisoras, pro­
fessoras, merendeiras e público em geral, foram ministrados, em
197 1 , 779 cursos para esse mesmo tipo de pessoas, a fim de trei­
ná-las para administração, produção e distribuição da merenda. Os
cursos tiveram 24.500 participantes, o que é auspicioso.
Os números com que as autoridades da Campanha Nacional de
Alimentação Escolar - CNAE - se referem às suas atividades
chegam quase à escala astronômica.
Segundo o Relatório de 1 97 1 , da CNAE, em 1 18 dias escolares
de 1 97 1 , foram servidas 10.792.000 merendas diárias, totalizando
1 .294.780.000 refeições em 93.200 unidades escolares, de 3.385 mu­
nicípios brasileiros. (Veremos mais adiante, em outro capítulo que,
segundo um relatório oficial que o diretor do Instituto Nacional de
Estudos Pedagógicos, prof. Carlos C. Mascaro, apresentara à
UNESCO, em 1 967 já era de 1 27 .000 o número de escolas primá­
rias no Brasil e de 1 60 dias o ano escolar, logo aumentado, por
decreto do presidente Costa e Silva, nesse ano, para " um mínimo
de 1 80 dias ".)
Em outubro de 1 97 1 , o então Superintendente da Campanha Nacio­
nal de Alimentação Escolar, general José Pinto Sombra, informava
a O Estado de São Paulo que " seis milhões de escolares em todo
o país não recebem merenda escolar e, dos onze milhões que a têm,
60% vão à escola unicamente para receber alimentação" . ("A me­
renda é boa motivação" , O Estado de São Paulo, 8/ 10/ 1 97 1 ,
pág. 1 1 .)
Tal como era de se prever, devido ao maior número de pais analfa­
betos, a taxa de crianças nordestinas que vão à escola atraídas pela
alimentação sobe a 90% - segundo ainda o general Sombra.

146
Embora reconheçamos que já seja extensa e eficiente em certas áreas
a distribuição da merenda escolar, os algarismos da CNAE chocam-se
com o pessimismo dos percentuais de evasão ou abstenção.
Talvez as muitas razões para isto se encontrem condensadas entre
os casos narrados numa reportagem ("A volta do lanche ") com
que a revista Veja (n.º de 1 8/8/ 1 97 1 , págs. 39-4 1 ) registrava como
a merenda escolar estava sendo tratada - exatamente nas áreas
escolares de maiores índices de evasão:
" Há poucos dias" - disse à Veja o representante do CNAE em
Pernambuco, sr. Rosemiro Rodrigues - " recebi uma carta de uma
professora rural que me comoveu. Ela dizia não saber o que fazer
para recuperar seus alunos que, em sua grande maioria, procuravam
outra escola próxima simplesmente porque estava oferecendo uma
maior quantidade de alimentos. "
Nessa mesma reportagem ( " A volta d o lanche", págs. 3 9 e 40) e
tal como o Jornal da Tarde há pouco citado, a Veja revelava que,
no Rio Grande do Sul e em Recife, ainda havia graves deficiências,
principalmente falta de regularidade no fornecimento e falta de va­
riedade nas poucas coisas que ali eram dadas às crianças.

Não há nenhuma razão biológica ou política - salvo o preconceito,


ou a falta de meios - para que os adultos anaifabetos também não
sejam atraídos pela boca, jamais diríamos - nesse caso - pela
gula.
Aqueles 30% de evasão - também acusados pela direção nacional
do MOBRAL em suas aulas, conforme reportagem publicada na
Veja ("As primeiras luzes", 15 /9/7 1 , pág. 38), poderão ser corri­
gidos, se o Movimento adicionar à sua motivação aquele condimento
que desperta até mesmo os cérebros hibernados na mais total igno­
rância: a alimentação gratuita, a merenda escolar.
Embora entre as razões do afastamento do analfabeto adulto venham
mais citados "a falta de interesse ", " os problemas familiares ", " o
fato d e serem empregados ", "as doenças ", e outros menos referidos
- tudo isto será certamente ultrapassado, no momento em que o
MOBRAL, mais provido de fundos, ou incluído entre os beneficiá­
rios da CNAE, estiver em condições de fazer essa produtiva libe­
ralidade.
Nessa mesma reportagem, à pág. 42, encontramos um depoimento
que, sem dúvida, se repete Brasil afora, entre todos os monitores do
MOBRAL:
" ( . . . ) Não são apenas essas as dificuldades que se colocam à frente
do Movimento. Particularmente grave, sobretudo nas zonas rurais,
é a deficiência alimentar. "

147
"Com fome, ninguém freqüenta aula", diz a coordenadora do
MOBRAL na Bahia, Stelita de Oliveira Falcão, para quem a me­
renda é, muitas vezes, um chamariz tão forte quanto a alfabeti­
zação. E cita um exemplo: em Santo Amaro da Purificação, a pre­
feitura assinou convênio com uma padaria para distribuição de pães
entre os freqüentadores dos postos de alfabetização. " No momento
em que foi interrompida a promoção, o índice de interessados caiu
brutalmente" , confessa d. Stelita.
Nessa área do problema, alternam-se o drama e o pitoresco. " Em
Minas (segundo ainda outra reportagem de Veja, "A volta do lan­
che" , 1 8/8/7 1 , pág. 39), um padre preocupado com a ausência de
alunos no primeiro posto de alfabetização do MOBRAL de sua cida­
de lançou do púlpito, durante a missa do domingo, o slogan: "Vá
à escola, e ganhe um prato de sopa e um pão."
" A campanha teve efeitos inesperados ", conta dona Lalá Fernandes,
representante da Campanha Nacional de Alimentação Escolar no
Estado. " Três dos futuros alunos foram presos por tentarem entrar
na sala já superlotada. Houve agressões, chegando um dos candi­
datos à alfabetização a ferir outro à faca. "
Por uma natural coincidência, exatamente a região brasileira com
mais altos índices de analfabetos foi a que também mostrou o per­
centual mais elevado de evasão escolar de adultos, o Nordeste. "Dos
35.000 matriculados iniciais em cinco Estados, apenas 14.000 con­
cluíram, no ano passado ( 1 970) , o curso elementar " . (Veja
1 5/9/7 1 , pág. 4 1 .)
A superposição de fatos e circunstâncias que acabamos de expor
acima, prova que a tese da merenda escolar para atrair também o
analfabeto adulto deve tornar-se uma preocupação do governo, com
vistas a apertar ainda mais o cerco ao exército das Trevas.
Quando em futuro próximo for possível estender a duração do curso
do MOBRAL ou a ele se adicionarem outros aprendizados, a me­
renda escolar, utilizada como atrativo e fator anti-evasão, terá uma
função de relevo para "convencer" ou " coagir" os beneficiários sobre
as vantagens concretas de um mais prolongado convívio com os
estudos.

Felizmente, como já acentuamos. as autoridades governamentais,


declarando-se seriamente preocupadas com a melhoria da alimenta­
ção da infância brasileira, concentraram ainda mais atenções na
merenda escolar.
Chegou-se mesmo a divulgar que estava sendo estudada a viabilidade

148
de ser fornecida a merenda no início e no fim de cada turno de
aulas, duas vezes, portanto, por dia.
Uma tal idéia não deverá, nem poderá, ser levada adiante enquanto
a CNAE não estiver cobrindo toda a rede escolar primária do país,
objetivo que, infelizmente, ainda não foi alcançado.
Mas ela pode muito bem vir a ser a base de uma das mais ambi­
ciosas metas no campo da Educação primária-básica, que é a dupla
escolaridade, isto é, o desdobramento do período escolar diário, de
cada aluno, em dois turnos, que se estendam de manhã à tarde.
Este será, aliás, um tema que discutiremos mais adiante.
Contido dentro de suas linhas de discrição, o governo dá oficial­
mente à merenda escolar uma função, uma finalidade nobilíssima e
objetiva que é a suplementação ou melhoria da alimentação de nossa
infância.
Aparentemente, as autoridades evitam proclamar a outra conseqüên­
cia igualmente grandiosa da merenda - que é ter se tornado num
motivo básico para obtenção de freqüência plena às escolas.
Discordamos dessa discrição - se ela existe - pois só através da
linguagem direta se conseguirá que todas as camadas da população,
principalmente as mais necessitadas, saibam que, indo à escola, seus
filhos " forrarão o estômago" ao mesmo tempo que vencerão a
ignorância.
Por mais obtuso que seja um pai analfabeto, ele não se vai opor
a que sua prole vá à escola "para comer". E considerar essa situação,
e o raciocínio desse cidadão, como uma "vergonha nacional" é
atitude pequeno-burguesa, como diriam certos ideólogos.
Além do mais, há milhares de autoridades estaduais e municipais
direta ou indiretamente afetas aos setores que deveriam prover os
meios ou fornecer a merenda escolar, e que ainda não se capacitaram
nem de sua dupla urgência, nem da sua dobrada eficiência.
Isto torna ainda mais necessário que o governo federal ponha de
lado a cerimônia, e faça com que o país inteiro saiba abertamente
que estamos procurando encher barrigas vazias para simultanea­
mente alimentarmos os cérebros daqueles que serão os cidadãos de
amanhã.
Raras vezes terá acontecido na administração pública um fenômeno
assim, uma dupla colheita carreiando resultados tão valiosos, e
oriunda de um só esforço. O que houvesse de casual no segundo
efeito - maior freqüência escolar - não retfraria a engenhosidade
dessa idéia.
e tão mais estranha essa discrição do governo em dizer para que
está usando a merenda escolar que foi certamente entusiasmadas com

149
seu êxito - ainda que parcial em algumas áreas - que as autori­
dades se inspiraram para uma iniciativa ainda mais ambiciosa, o
Programa Nacitmal de Alimentação e Nutrição, que visa a combater
a carência alimentar da criança brasileira desde a própria gestação,
através do amparo às mães necessitadas, e, depois, aos seus reben­
tos, por todos os anos da infância. ("Criado o Plano de Alimen­
tação", O Estado de São Paulo, 30/3 / 1 973, pág. 1 2.)
Visando a materializar sua ação em algarismos, o decreto que criou
o Programa Nacional de Alimentação e Nutrição (PRONAN) já
estabelecia:
" Nos exercícios de 1 973 e 1 974, o PRONAN objetivará as seguin­
tes metas principais:
" 1 - Prestar assistência alimentar a 3 15 mil e 345 mil gestantes
e nutrizes; 1 .600.000 e 1 .750.000 lactentes e pré-escolares; e
1 1 .000.000 e 1 2.000.000 de escolares matriculados em estabeleci­
mentos oficiais de ensino de primeiro grau, respectivamente."
As metas traçadas pelo governo federal para o PRONAN são de
tal modo ambiciosas que " os 18 milhões de escolares que receberão
a nova merenda padronizada, de acordo com as exigências do Plano
Nacional de Alimentação e Nutrição, formarão dentro de pouco tem­
po o grupo social mais bem nutrido do país" . Isto foi o que decla­
raram os dirigentes do Instituto de Tecnologia de Alimentos -
ITAL - de Campinas. (" Escolares serão o grupo mais alimentado
do país" , O Estado de São Paulo, 7 / 12/ 1972, pág. 8.)
Como se vê, a importância social assumida pela Merenda Escolar,
ampliada ainda mais com seu gigantesco desdobramento do PRO­
NAN, impõe ao governo federal e aos governos estaduais que
exerçam vigilância rigorosa e constante sobre como está sendo pro­
porcionada a alimentação nas escolas em todo o país.
Embora, como vimos, tenhamos bastante o que corrigir ou ampliar,
a experiência brasileira da merenda escolar já atingiu tais proporções
(em 1 974 são distribuídos cerca de 2 bilhões de merendas) que ela
bem pode servir de paradigma para aqueles outros povos que lutam
conscientemente, como nós, para emergir do subdesenvolvimento.
Realmente, a evasão escolar é drama coletivo, entre os povos do
"Terceiro Mundo" . Ela continua causando dantescos percentuais de
baixas na escolaridade de outras nações subdesenvolvidas.
'
" Um levantamento em Uganda, 1957, relatou que, embora houvesse
cerca de 80.000 alunos no primeiro ano da escola primária, havia
apenas 25.000 no sexto ano. A situação no Haiti, em 1960, era
ainda pior - a matrícula na escola primária mostrava a seguinte
distribuição:

150
1 .º grau - 1 68.000
2.0 grau - 28.000
3.º grau - 18.000
4.º grau - 1 2.000
5.º grau - 7 .000
6.º grau - · 5 .000"
(Ed_ucação, mão-de-obra e crescimento econômico, Frederick Harbi­
son e Charles A. Myers, Editora Fundo de Cultura, 1 964, pág. 67.)
Mais de 10 anos depois, L'Observateur divulgava os dados de uma
organização internacional de Educação que ainda registrava: "Tal­
vez uns 40% do total de crianças nos países em desenvolvimento
não têm oportunidade para se matricular nas escolas, e dos 60%
que se matriculam, apenas 10% completam eficazmente o curso
primário. Isto provoca o alarmante fenômeno do aumento de analfa­
betos no mundo. " ("O ritmo acelerado da Educação" , L'Observateur,
O Globo, 1 9/4/ 1 969, pág. 8.)
Quanto a esta parte da terra, à América Latina especificamente, já
sabíamos que a evasão escolar atinge índices arrasadores, por exem­
plo, na zona rural da Colômbia, onde as escolas locais não chegam
a reter 1 % (um por cento) dos alunos matriculados, segundo o
prof. Oscar Vera em seu trabalho " Estado atual da Educação Esco­
lar " . (Apud Desenvolvimento, trabalho e educação, Zahar Editores,
1 9(57, pág. 46.)
Ainda sobre a América Latina como um todo, o prof. Vera afirma
à pág. 6 1 :
" A evasão escolar é muito grande. Ainda nos países mais adianta­
dos da região era, há poucos anos, de aproximadamente 75% para
a educação primária e de 68% para a secundária; mas apenas 5 %
dos alunos que iniciavam a educi;ição primária chegavam a comple­
tar a secundária. "
O ingrediente que h á n a receita brasileira d a merenda escolar - a
audácia de proporcionar esse tipo de programa a uma nação tão
populosa - poderá encorajar e orientar outros povos que ainda
estão manietados, como nós estávamos, ao sortilégio tortuoso de que
"a miséria gera a misérian.

Condições históricas e econômicas têm feito dos negros brasileiros


as mais constantes e numerosas vítimas do analfabetismo entre nós',
geração após geração. A ignorância absoluta, ou quase crassa,
atira-os e em massa à margem da vida, num insulamento quase tão
terrível quanto o do segregacionismo. E estas condições tendem a
espessar-se quanto mais o progresso econômico exige de habilitação
para participação nas benesses da prosperidade. Os observadores

151
superficiais e todos os literatos à cata do exótico ou do impacto
exploram, às vezes, esse ilhamento cultural do negro como a prova
do pecado racial brasileiro - a vergonha que procuramos camuflar.
E comum verem-se executivos de empresas européias e americanas,
ou puros scholars, cobrarem-nos a ausência de negros nos escritórios,
nos comandos ou subcomandos de empresas, ou sua falta nas cáte­
dras, nos púlpitos, ou em quaisquer posições de decisão e supre­
macia. Para eles, essa ausência é resultado do preconceito visível,
mas não admitido. Na sua opinião, o preto brasileiro é barrado des­
culposamente dos lugares mais altos, mais importantes ou rendosos.
Sobram-lhe as sobras, ou o refugo que os outros rejeitam - tal
como nos países onde o preconceito se radicalizou até à boçalidade.
Não é nosso objetivo neste livro discutir ou mensurar preconceitos
raciais - que aqui, como em toda parte do mundo, existem entre­
cruzados de grupos étnicos para grupos étnicos, sejam eles quai&
forem, em forma de restrições ocultas ou proclamadas - mas não
intransponíveis.
Verifica-se, de fato, uma segregação contra o negro brasileiro: a
mesma segregação que há contra todos os indivíduos iletrados ou
ignorantes. A rarefeita presença dos negros, ou mesmo sua total
ausência, em escalões superiores de quase todas as atividades da
vida brasileira provém de uma origem não só cabível como indis­
cutível: a incapacidade intelectual ou funcional para cargos acima
do limitadíssimo horizonte do atraso em que vivem. E esta se esten­
de a qualquer pele.
A repetição histórica desse rebaixamento, inalterado desde a liber­
tação dos escravos, é que confunde o raciocínio desses analistas:
eles vêem nela a prova sedimentada de que a marginalização "vem
de longe" , e é preconcebida. Nisto está, porém, uma das evidências
mais eloqüentes da tese que sustentamos no capítulo sobre os analfa­
betos adultos: largados sozinhos no seu mundo de trevas, eles parte­
jam, e perpetuam, o ciclo da ignorância que os marginaliza.
Ninguém pode afirmar, senão distorcendo malevolamente a verdade
e os fatos, que qualquer escola pública neste país, em qualquer
tempo, tenha tido a audácia ou a petulância de recusar um aluno de
cor. Mas estes vieram sendo consecutivamente eliminados, em bloco,
ano após ano, década após década, pela ignorância e pela incapaci­
dade paternas de levá-los até à escola, ou deixar que nelas con­
tinuassem.
Agora, quase cem anos após a Lei Áurea, é impressionante verifi­
carmos a imensa contribuição que uma despretensiosa iniciativa, de
mera origem caritativo-paternalista, poderá prestar na definitiva
libertação e integração nacional, do negro brasileiro: a merenda
escolar.

152
Se tivermos a coragem de torná-la efetivamente uma medida de sal­
vação pública, destinada aberta e declaradamente a atrair e reter
crianças e também adultos analfabetos nas escolas, teremos adotado
a ação criadora, o gesto de audácia e imaginação que faltava para
solucionar o grave problema do encurralamento econômico-social,
que tem mantido sitiados e rebaixados os negros brasileiros.
A correlação da força centrípeta da merenda escolar com a abertura
de horizontes, e o reacendimento de esperanças maiores também
para a comunidade negra brasileira, é um outro ângulo para levar
o governo deste país a um dimensionamento ainda mais ambicioso
para essa iniciativa do que a que já lhe tenha sido prescrita através
do decreto que institucionalizou a Alimentação Nacional, como de­
ver e meta administrativa.
A participação global das gerações n�gras de após a merenda escolar
completará, na vida brasileira, aquele quadro de democracia social­
racial que Deus parece ter dado como missão maior de nosso país
sobre a terra.

153
6
o segredo japonês:
a dupla escolaridade

•pede-se aos srs. redatores não se


retirarem antes de terem chegado."

Georges Clemenceeu, O tigre


(ex-primeiro ministro de França, de
1917 e 1920) ao assumir a direção do
Jornal parisiense L'Ordre.
•o menininho voltava do primeiro
dia de aula e a mãe perguntou:
- Então, meu filho, aprendeu muita
coisa?
- Quase nada, mamãe. Vou ter
que voltar lá amanhã.•

Luiz Carlos Bravo, A hyena, n.• 7,


Editora Contato, abril, 1973.
Na sua luta para, através da Educação, recuperar o tempo perdido
nos descaminhos e vielas do subdesenvolvimento, nossos países têm
que aplicar imaginação, audácia e sobretudo uma disciplina e uma
vontade férreas. Temos que fazer como o Japão: tornar a Educação
não apenas uma prioridade discursiva ou orçamentária, mas um
sagrado objetivo nacional - que se execute através de uma máquina
administrativa escolar e um sistema de ensino ao mesmo tempo
dinâmico e sólido, com a eficiência funcional necessária para cor­
rigir nosso grave atraso em face da História e da Tecnologia.
Todos os meios têm que ser aplicados, e todos os minutos têm de
ser extremamente utilizados. Pois, trata-se de maratona gigantesca
visando a obter a mais alta capacitação nacional, e para o adestra­
mento em massa dos nossos povos.
Pode ser que no passado remoto uma nação tenha atingido a lide­
rança e nela permanecido alguns instantes, ou alguns séculos, graças
à maior capacidade e aos esforços de somente um grupo, bu de
uma camada limitada, de seus cidadãos. O presente mostra, porém,
que isto hoje é totalmente impossível : aí jazem, universo afora, na
vala éomum do "Terceiro Mundo ", povos meio instruídos, meio anal­
fabetos, que exibem esfusiantes elites douradas, que se comportam
como coberturas de bolo sobre vastas massas ignaras e miseráveis.
O caráter universal e total dessa jornada para dotar e equipar
urgentemente milhões de seres humanos de nossos países, para sua
mais imediata participação e usufruto das benesses do progresso,
impõe uma mobilização geral, com características quase bélicas. Mo­
bilização de meios, talentos e elementos, servidos por uma disciplina
rígida e voluntariosa na execução daquilo que é, sem dramaticidade,
um perfeito movimento de salvação pública.
Ao imenso organismo escolar-educacional, que se formar, não pode
faltar, no seu conjunto e nas suas peças isoladas, o abastecimento
o mais farto possível de tudo aquilo que caracteriza a escola moderna
em qualquer grau.
Tão importante quanto o equipamento que se der a essas escolas,
em qualificação de professores e atualização de material didático
para ilustração ou experimentação, será a outra abundância: a de
tempo para os alunos aprenderem, e tempo também para os alunos
conviverem com o universo escolar - suas bibliotecas, seus profes­
sores, monitores, colegas e folguedos.
O tempo histórico-tecnológico perdido pelos povos ainda em desen-

157
volvimento só será recuperado se forem dobradas ou triplicadas -
porque, como no caso do Brasil, foram extremamente reduzidas - as
horas escolares de .suas atuais novas gerações. Somente nas escolas,
em demorada e intensa convivência com os livros e a experiência,
queimaremos as longas etapas dos caminhos que temos de percor­
rer até o patamar dos grandes objetivos humanos.
Mas jamais conseguiremos encurtar as distâncias da nossa jornada
até à cumiada do desenvolvimento absoluto com a escolaridade
homeopática que a indiferença ou a irresponsabilidade vieram prati­
cando em quase todos os centros de ensino do país, principalmente
no escalão primário.
Essa escolaridade a toque-de-caixa, a escolaridade entrou-saiu, com
apenas 2 a 3 horas de " estada" na escola, é uma caricatura de ensino
e estudos, tolerada por aquelas autoridades e aqueles povos que
simulam medidas que fingem civilização e progresso.
Essa escolaridade corre-corre é também um daqueles fatores da
altíssima percentagem de desistência que vem sendo registrada ao
longo do curso primário. Às deficiências dessa escolaridade em dois­
tempos também se debita o dramático índice de reprovações que até
bem pouco ocorria na primeira série do primário, onde se amon­
toavam alunos "repetentes, birrepetentes, trirrepetentes e quadrir­
repetentes" (segundo revelação da prof.ª Lúcia Marques Pinheiro,
no Suplemento "Educação e Cultura" de O Jornal do Rio de Ja­
neiro, de 23/3/70) .
No estudo em que fez uma análise do Censo Escolar de 1 964, a
prof.ª Zenaide de Cardoso Schultz já advertia contra o mau aprovei­
tamento didático nas escolas em regime de 3 turnos. E a mestra
comentava a impressionante revelação do Censo: atingia a 2 milhões
o número de crianças que estudavam em escolas com 3 turnos
(Prof.ª Zenaide Cardoso Schultz, "Análise do Censo Escolar de
1964 " , O Globo, 1 4/6/ 1 968, pág. 1 1 .)
O abuso da solução de racionar eqüitativamente "um pouco de
instrução" para todos, através de enfiar esses todos quase de uma
vez no (único) estabelecimento de ensino que existisse, chegou a
ponto de fazer com que em certos bairros ou vilas as escolas pare­
cessem gare suburbana de ferrovia para atarantados passageiros de
pouca idade. Levas entravam, levas saíam, enrodilhando-se as filas
dos que iam com as dos que voltavam. Em numerosos Estados, essa
eficiência atingia o máximo: havia escolas dando 6 turnos por dia!
("Espírito Santo quer 80 mil escolas em 1 970 ", O Globo, 23/9/68.)
Mesmo num Estado com o progresso econômico-social de São Paulo,
ocorria pelo menos até 1 969, conforme registrado em editorial de
O Estado de São Paulo, de 9/3/69 (pág. 3), a existência de nume-

158
rosas escolas com 5 períodos diários de aulas. Como se isso não
bastasse, agravando ainda mais as conseqüências do horáricrescolar­
relâmpago, surgiam ali medidas como a que levou o Centro do
Professorado Paulista a emitir um protesto publicado na imprensa
em 1 7 de março de 1 973: a superlotação das classes, "oriunda de
expressa determinação governamental para, com isso, reduzir o
número das unidades oficiais de ensino" . Essa medida, segundo o
documento, vigorava também, e principalmente, "na área metropo­
litana do Grande São Paulo", isto é, na cidade financeiramente mais
bem aquinhoada do país.
Aí mesmo, na Capital paulista, o Departamento de Ensino Básico
dli Prefeitura, alegando que a rede municipal de escolas era menor
que a estadual mas não tinha "nem excesso de alunos nem falta
de prédios " , ao invés de ampliar, adotou estranhamente o critério
de reduzir de 4 para 3 horas e meia o tempo diário de aulas, com­
pensando essa redução "pelo alargamento do ano letivo " .
Sem dúvida que a s autoridades brasileiras d o ensino j á detectaram
o problema, e bem o conhecem, mas infelizmente não o resolveram
de todo, e até estão ainda longe de o resolver como vemos pelos
edificantes exemplos citados.
Em dezembro de 1 967, o prof. Carlos Corrêa Mascaro, como pre­
sidente do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), apre­
sentava, perante a reunião da UNESCO que se realizava em Paris,
um relatório minucioso sobre a situação do nosso ensino primário,
e no qual já se constatava:
" Existem atualmente cerca de 1 27 .000 escolas primárias no Brasil.
Elas têm em média duas salas de aula por escola (80% têm uma
só sala e 20% têm duas ou mais). Isto nos dá um total de 2 10.000
salas de aulas. Existem 10 milhões de alunos. Se fosse possível
uma distribuição uniforme, todas as crianças que freqüentam atual­
mente a escola poderiam ser acomodadas numa base de horário
integral em classes de 40 ou, utilizando dois turnos, em classes
de 25."
Não ocorrendo essa uniformidade ideal, eis o que acontecia, ainda
segundo o relatório do INEP :
"A maioria das escolas primárias brasileiras adota o sistema de
turnos, que variam de 2 a 4 horas cada um. Isto confere à ,criança
média brasileira metade do tempo que recebe a criança da Europa
Ocidental. O ano letivo brasileire compõe-se em geral de 1 60 dias.
Se calcularmos uma média de três horas por dia, isto dará à criança
brasileira, em média, 480 horas de instrução por ano, ou 1 .920
horas de aulas nos quatro anos primários. Na maioria dos países
desenvolvidos� o dia escolar compõe-se de seis horas e o ano letivo
de 1 80 dias ou 1 .080 horas anuais de aula e 4.320 horas em quatro

1 59
anos. Isto representa mais do dobro do tempo de aula recebido pela
criança brasileira. " (" Grave a situação do ensino" , Relatório do
prof. Carlos Corrêa Mascaro apresentado à UNESCO em dezembro
de 1 967, Resumo de Magda Sparano, O Estado de São Paulo,
3/ 1 / 1 968 , pág. 8.)
O prof. Lauro de Oliveira Lima completa esse quadro, mostrando­
nos o que significa, percentualmente, o tempo que a infância e
grande parte da juventude brasileira dedicam à escola propriamente
dita: " Já verificamos que, em muitos casos, no nosso sistema educa­
cional, um aluno não está sob a influência da escola durante mais
de 15% do seu tempo útil. " (Lauro de Oliveira Lima, "Tecnologia,
Educação e Democracia" , Editora Civilização Brasileira, 1 965,
pág. 80.)
Assim, enquanto, no Brasil, o tempo de aula vai de 2 a 3, ou no
máximo 4 horas, nos EUA e na Suécia é de· cinco horas e meia;
na Suíça, França e Inglaterra, de seis horas; e na União Soviética,
de cinco horas. Não mencionamos, porém, o Japão, o recordista,
onde é acima de 8 horas.
Isto mostra que a permanência das crianças nas escolas desses
países - todos eles líderes em progresso técnico e em desenvolvi­
mento - é em média de duas a três vezes maior do que no Brasil.
Assim, os antigos quatro anos de escola primária mantidos no país
até 1 972 não correspondiam nem a três anos letivos desses países
desenvolvidos.
Mesmo a adoção do l .º ciclo de 8 anos não corrigirá a deficiência
se não forem tomadas providências e fornecidos recursos e profes­
sores para uma mais longa permanência das crianças nas escolas.
� preciso persistir e insistir teimosamente nesse ponto vital, porque
a falta de mais tempo escolar proporcionado às criança� leva-as a
serem atochadas --este é o termo - de ensinamentos, nas' suas com­
primidas horas de aulas, na desesperada tentativa que de boa fé
faz a maioria das professoras, a fim de cumprirem a tarefa de
instruí-las ao máximo, naquele mínimo de tempo.
O trabalho apresentado pelas prof.ª5 Lúcia Marques Pinheiro e
Vanda Rolim Pinheiro Lopes (do Centro Brasileiro de Pesquisas
Educacionais) à I I I Conferência Nacional de Educação, e divulgado
em outubro de 1 969 (0 Globo, 1 4/ 10/69, pág. 4) já afirmava que
"pretendemos que nossas crianças - elas, por sua vez, em grande
parte, apresentando más condições de saúde e carentes de motivação
para aprender - realizem o milagre de assimilar, nas quatro ou
cinco séries da escola primária, tanto ou mais que o alcançado pelas
crianças de outros países mais desenvolvidos que o nosso, em cursos
bem mais extensos. Nossas provas de 1 .0 ano primário, em inúmeros
Estados, exigem as 4 operações, cujo domínio nos países estudados

160
é esperado no fim de três anos, ou mesmo quatro de escolaridade.
Também o nosso programa de leitura é igualmente muito exigente."
E simplesmente ridículo alguém pensar que, com apenas duas, três,
ou até mesmo quatro horas de aula ou de convivência escolar por
dia, as gerações estudantis de um país atrasado se habilitarão no
mundo de hoje a recolocá-lo, em pouco tempo, entre as nações que
avançam meteoricamente pelas flutuantes fronteiras das novas con­
quistas da ciência e da tecnologia.
Já é uma verdade sediça que a velocidade dessas conquistas quase
ultrapassa à dos próprios engenhos interplanetários.
Não será, pois, de modo nenhum, com anêmicos conhecimentos, com
bases intelectuais epidérmicas e inconsistentes, amalgamadas às pres­
sas, num convívio fugaz e superficial com os livros e as experimen­
tações, que as massas estudantis de nossos países obterão o equipa­
mento que as capaéite para a mais gloriosa confrontação humana -
a da inteligência criadora.
Passando pelas · escolas - primárias, secundárias, técnicas e supe­
riores - apenas para que se diga que " freqüentaram " tal ou qual
curso, apenas para que as estatísticas oficiais os tenham computado,
ou apenas para que os professores tenham apressadamente "cumpri­
do o seu dever" , ou ainda apenas para que os pais " tirem esse
desencargo da consciência" - isto será o engodo fatal que atrelará
nossos países e nossos povos definitivamente à sentença de tribos
caudatárias.
Como confiar nos resultados didáticos de atividades escolares reali­
zadas em regime de não-demora, com as levas de estudantes empur­
radas como gado, revesando-se apressadamente em turnos ultra­
rápidos - para uns cederem as carteiras aos outros. Isto no mo­
mento exato em que se proclama a fantástica densidade científica dos
nossos dias : nos 15 anos que se seguiram ao término da II Grande
Guerra ( 1 945-1 960), o homem adquiriu mais conhecimentos e reali­
zou mais descobertas que nos 15 SECULOS anteriores.
Quando a criação do computador enseja armazenar conhecimentos
e descobertas que, desdobradas em empreendimentos, "darão traba­
lho ao homem por mais 1 .000 anos" - que bagagem de informações
hodiernamente úteis poderão obter as crianças e os jovens que vão
e voltam correndo da escola, e de lá também se retiram, como os
colaboradores do jornal de Clemenceau, pouco depois de terem
chegado? ! ! . . .
E quase um acinte sádico ao que a infância e a juventude poderiam
esperar da nossa maturidade conceder-lhes algumas poucas horas
de convívio escolar por dia, como sendo o seu "preparo básico"
para sobreviver "e triunfar" na luta pela vida.

161
Com essas migalhas de minutos e horas dedicados aos estudos e
experimentações, que poderão as novas gerações fazer para desamar­
rar nossas nações dos troncos do atraso, se nos países desenvolvidos
( " que chegarão ao ano 2 .000 com um exército de 25 MILHÕES
de cientistas ") o acúmulo de informações tecnológicas já leva à
idéia das Bolsas ou Bancos de Conhecimentos onde, de momento a
momento, se registrará cada avanço de cada setor - a fim de
evitar que se perca tempo em pesquisar novamente sobre áreas já
pesquisadas por outros . . .
A corrida para a sabedoria não tem direção imutável, nem limites,
nem horizontes finitos e tudo que o homem descobre logo se frag­
menta irradiadoramente em mil outros sóis, que iluminam outras mil
perspectivas desafiadoras. A maratona desencadeada pela ciência
avança por milhares de veredas que se bifurcam e projetam novos
atalhos como se esse fosse um desafio para o enlouquecimento e não
para tornar o homem cada vez mais senhor dos segredos do seu
mundo, beneficiário de suas riquezas e da imensa capacidade de sua
própria mente.
Quando essa compactação de conhecimentos acumulados já forma
cordilheiras contínuas, que se desdobram e se alteiam, como vamos
querer que, com tão pouco fôlego e tão curtas asas - ganhos em
restritas horas de trabalho escolar - nossa infância e juventude
se alcem acima dos píncaros e levem, em vôo de águia, seus dese­
quipados países para a estratosfera dos surpreendentes novos mun­
dos que a ciência e a tecnologia nos descortinam?
Um alto dignatário americano, almirante Philip Evans, que fora
membro destacado do corpo administrativo de ocupação do Japão
logo após o fim da II Grande Guerra, exprimiu desta maneira a um
jornalista carioca (0 Globo, 1 5/8/68, pág. 1 1 ) o que mais o impres­
sionara naquele país: fora o espetáculo cotidiano dos milhares e
milhares de escolares saindo, " ainda com o albor da madrugada",
em busca das escolas, inundando as ruas com seus uniformes mono­
tonamente azuis, e só retornando para casa no fim do dia, com as
primeiras trevas do crepúsculo poente. E estudam 10 meses por
ano. O almirante Evans ainda arrematou: "O currículo tiraria de
uma criança ocidental a vontade de viver."
Isto é, a infância e a juventude japonesas dedicam-se integralmente
àquilo a que se deveriam dedicar, na hora exata e mais propícia
para isto, em suas vidas. Cerca de 8 a 10 horas diárias de escola­
ridade, utilizadas em aulas, estudos, recreação e convívio intelectual
com professores e colegas - protegidos, assim, contra as deficiên­
cias e possível pobreza desestimuladora de um ambiente doméstico,
em que os pais ou não teriam tempo ou lhes faltaria capacidade
para compreendê-los e orientá-los.

162
Desgraçadamente, no caso do Brasil, há Estados em que, a começar
pelas capitais até às vilas mais pobres, o número de horas de aulas
chega a baixar, irrisoriamente, a duas apenas. E isto ocorria não há
muito tempo mesmo na própria capital de São Paulo e também na
Guanabara. ("A Escola Rodrigues Alves, 1 .ª série, nível 2, no Ca­
tete, só está com 2 horas de aulas por dia ", " Informe JB", Jornal do
Brasil, 14/8/ 1 973, pág. 1 0.)
Diante das filas que, já em 1 957, se formavam à entrada das esco­
las - de todos os tipos - Anísio Teixeira advertia contra o fato
de a escola 'ter entrado "a funcionar por sessões, como os cinemas,
e a se fazer cada vez menos educativa, por isso mesmo que sem
continuidade nem seqüência". (Anísio Teixeira, Educação não é
privilégio, Liv. José Olympio Editora, 1 957, pág. 45.)
Mais adiante, Anísio Teixeira completava seu pensamento com a
-clareza característica de seu raciocínio:
"A Escola primária que irá dar ao brasileiro esse mínimo funda­
mental de Educação não é, precipuamente, uma escola preparatória
para estudos ulteriores. A sua finalidade é, como diz o seu próprio
nome, ministrar uma educação de base, capaz de habilitar o homem
ao trabalho nas suas formas mais comuns: Ela é que forma o traba­
lhador nacional em sua grande massa. � pois uma escola, que é o
seu próprio fim e que só indireta e secundariamente prepara o pros­
seguimento da educação ulterior à primária. Por isto mesmo não
pode ser uma escola de tempo parcial, nem uma escola só de letras,
nem uma escola de iniciação intelectual, mas uma escola sobretudo
prática, de iniciação ao trabalho, de formação de hábifbs de pensar,
de hábitos de fazer, de hábitos de trabalhar e hábitos de conviver e
participar em uma sociedade democrática, cujo soberano é o pró­
prio cidadão. "
" Não s e pode conseguir essa formação e m uma escola por sessões,
com os curtos períodos que hoje tem a escola brasileira. Precisa­
mos restituir-lhe o dia integral, enriquecer-lhe o programa com ativi­
dades práticas, dar-lhe amplas oportunidades de formação de hábi­
tos de vida real, organizando a escola como miniatura da comunidade,
com toda a gama de suas atividades de trabalho, de estudo, de
recreação e de arte" . (Anísio Teixeira, Educação não é privilégio,
Liv. José Olympio Editora, 1 957, págs. 49 e 50.)
Já sabemos que o esforço nacional brasileiro para a sobrevivência
e para a prosperidade terá de ser feito com base primordialmente
na Educação. Mas para que atinja em profundidade e extensão o
objetivo maior desta nação, é também primordial e básico que se
assente na Dupla Escolaridade, isto é, com as crianças e jovens
passando as duas partes do dia no ambiente escolar, aí usufruindo
de todas as oportunidades de uma convivência criadora, prolongada,

163
plena de orientação, de estímulos, de entretenimentos construtivos e
de saudáveis desafios.
Em outro capítulo deste livro, analisamos exaustivamente a força
centrípeta do ciclo da ignorância: os pais e avós analfabetos que
desestimulam ou criam obstáculos a seus descendentes, quando estes
tentam fugir à infecção de seu analfabetismo adulto.
O "vírus" desse analfabetismo genealógico torna-se tanto mais irre­
sistível quanto mais tempo sua vítima indefesa - sem rumo, e
sem proteção - a ele fica exposta.
Amram Scheinfeld, geneticista e cientista social, professor da Uni­
versidade de Colúmbia e membro do Instituto de Pesquisas Psico­
lógicas do Teachers College, acredita que a inteligência é sempre
uma combinação de hereditariedade com meio ambiente. No seu
entender, a primeira estabelece a potencialidade e a segunda pro­
porciona o alcance do que pode atingir, ou falhar, o engenho
humano.
Pois bem, um dos grandes efeitos positivos da Dupla Escolaridade
é poupar milhões de crianças da inanição intelectual que as cerca,
no estéril ambiente dos milhões de lares analfabetos ou semi-analfa­
betos.
Passando todo o dia no meio escolar, a criança, ou o jovem, usufrui
de tudo que este lhe proporciona harmoniosamente para o espírito
e para o físico. Lá, tem o amparo de luzes e forças guiadoras que
jamais encontraria no vácuo de ignorância e de miséria que o envol­
vem, num lar de iletrados ou semi-iletrados adultos, pais ou avós,
ou outros parentes.
Quase tão importante quanto o que a criança - principalmente
as das famílias incultas ou semi-incultas - capta das aulas é o que
ela também absorve no convívio cordial, mas constantemente crítico,
com os colegas e professores. Sob a pressão saudável dos que a
contestam ou salientam sua ignorância, a maioria dos "agredidos"
tende a reagir buscando as mesmas armas ou tomando-as do " adver­
sário ", pela absorção ou pela osmose da repetição e da convi­
vência.

Alguns analistas, ansiosos por se colocarem em pos1çao incomum,


têm-se valido das distorções e deficiências resultantes da escolari­
dade apressada, ou do "ensino" proporcionado por mistificadores
meramente mercantilistas, para lançarem-se contra o que espalhafa­
tosamente denominam de "o fracasso da escola".
O ambiente universitário norte-americano foi agitado há tempos
pelas idéias e "especulações pedagógicas " de alguns professores,
mais precisamente três deles (John Holt, Ivan Illich e Paul Good-

164
man), os quais partindo das deficiências mais ou menos comuns
que todos reconhecemos nas escolas - como, de resto, em todas
as instituições ou realizações do homem - sugeriam pura e simples­
mente sua eliminação.
As escolas seriam substituídas por um " sistema educacional, não
formal nem coercitivo" , em que cada criança ou jovem aprenderia
o que quisesse, como e quando lhe apetecesse. Cada um desses
educadores apresenta suas críticas e opções, partindo sempre dessa
idéia básica.
O educador norte-americano, Peter Spackman, da Universidade de
Princeton, num excelente ensaio que fez sobre o assunto (" Serão
as escolas necessárias? " , revista Diálogo, n.º IV, 1 972, págs. 2 1
a 29), fornece-nos uma síntese do pensamento d e John Holt,
extraída de seu livro Freedom and Beyond, publicado em 1 972.
Diz Holt:
" Numa sociedade sem ensino formal, ninguém será obrigado a ir
à escola, quer por força de lei, quer pela ameaça de desemprego,
pobreza, discriminação e exclusão da sociedade - coisas que hoje
são vigentes ( . . . ). Em resumo, uma sociedade sem ensino formal
seria uma sociedade em que todos se beneficiariam da opção mais
ampla e mais livre possível de aprender o que quisessem aprender,
seja na escola ou por algum método diferente. "
Mais adiante e m seu estudo, Spackman esclarece-nos ainda mais
sobre o pensamento do autor de Freedom and Beyond:
"A idéia de que a aprendizagem é natural e inevitável leva Holt a
formular a sua principal condenação às escolas: que elas são, em
suas regulamentações repressivas e seus currículos coercitivos, pouco
melhores do que cárceres para as crianças" . " Se as pessoas fizerem
objeção à palavra cárcere, então chamaremos às nossas escolas de
currais diurnos para as crianças" , escreve Holt. "A questão é que
as pessoas querem as crianças aí porque não as querem em qualquer
outro lugar. "
Posteriormente à publicação do estudo analítico de Peter Spackman,
um associado intelectual de John Holt, o ex-padre e também autor
Ivan Illich (Deschooling Society), não se embaraçou em submeter
sua tese à reunião da UNESCO, realizada em 1973. Foi repelido.
Seria o caso de sugerirmos a todos os Holt e Illich dos países satu­
rados ou empanzinados de Educação ou escolas que fizessem um
giro pelo " terceiro mundo" e vissem no que dá a sua tese, aqui já
espontaneamente aplicada há séculos.
Sim, dispomos ainda de amplas áreas ou núcleos populacionais deses­
colarizados em nossos países, com milhões de crianças e jovens
fazendo o que querem, " sem formalismos e sem coerções " , assimi­
lando no aprendizado das ruas, dos bares, das vielas - e dos seus

165
próprios lares - toda aquela fartura de conhecimentos que os tor­
nam aptos a formarem no exército dos que precisam, ou na legião
dos que pedem.
Esses novéis educadores poderiam ir, por exemplo, examinar a fundo
com o governo da fodia as vantagens de que o país desfruta com
os seus 400 milhões de analfabetos, isto é, seus ex-alunos egressos
da livre-escola das ruas.
Outros, mais sérios, porém não menos errados, como o economista
norte-americano Harry G. Shaffer, citado por Theodore Schultz,
partem para deduções que desembocam nas conclusões rombudas do
racismo.
Em seu estudo, " Investment in Human Capital: Comment", publi­
cado em The American Economic Review, n .º 51 (dezembro, 1 96 1 ) ,
parte 2, pág. 1 .030, Harry Shaffer afirma haver estudos específicos
que "mostram claramente que o diferencial de renda correlacionado
com a Educação adicional é consideravelmente mais alto em relação
aos brancos do que aos negros " .
Desse ponto d e vista, Shaffer parte para a área d o irracional quando
chega a concluir que os gastos com a Educação dos negros devem
ser diminuídos e não aumentados, como proposto quanto aos brancos.
O economista Theodore Schultz acerta, porém, duramente na razão
da miopia de Shaffer, contestando-o diretamente, ao ressaltar a
págs. 60 e 6 1 de O capital humano: "A pobre qualidade da esco­
laridade que os negros adquiriram e ainda adquirem" , em conse­
qüência da " peste da discriminação contra os negros" - como
também constatou o economista Finis Welch, em sua tese de douto­
ramento "The Determinants of the return to Schooling in Rural
Farm Areas" - apresentada perante a Universidade de Chicago,
em 1 966.
Esse " fracasso da escola " decorre da falta de tempo ou da falta
de autoridade. Porque, mesmo que haja competência, o regime do
entra-e-sai ou o do a-casa-é-sua eliminam a possibilidade de insti­
lação por parte da escola, ou de assimilação por parte do aluno.
Acrescente-se a · isto - à ligeireza e à permissividade - o inescon­
dível desinteresse dos chefes de governo de nossos países pelo anda­
mento das coisas da Educação. Eles podem reunir, e até "chamar
às falas " , com relativa freqüência, os capitães da guetra e os capi­
tães da economia. Mas é raríssimo saber-se de uma reunião de reito­
res ou outros dirigentes do ensino, convocados para ouvir direta­
mente do chefe de Estado seu agrado ou desagrado pelo que se
esteja fazendo ou descumprindo nas escolas.
Parece que estas são as casas de Pilatos: existem porque é preciso
existir, não importa o que lá falte: tempo, autoridade, responsa­
bilidade, ou simplesmente ensino.

166
A avalancha quase aterradora de conhecimentos e informações de­
sencadeada pelo uso dos computadores, a febre alucinante que abala
sismicamente os laboratórios e os centros de pesquisa e experimen­
tação, estão impondo a extensão, a extremos quase desalentadores,
dos períodos de aprendizado básico do bacharelado e do doutorado
científico em geral.
Já se vão cerca de 20 anos da histórica proclamação dos educadores
da UNESCO, segundo a qual o homem comum precisa em nossos
dias de um mínimo de 12 anos de escola para modestamente habi­
litar-se a sobreviver.
A atropelada tecnológica e a disparada científica ampliaram para
quase 20 anos (nos termos da escolaridade tradicional, não intensiva)
a duração do período de abastecimento intelectual-profissional, da­
queles que aspiram a participar dos primeiros escalões do mérito
e da capacitação, em quaisquer que sejam os setores de atividade.
E ninguém conseguirá um título de pós-graduação, agora cada vez
mais necessário, sem atingir de 22 a 25 •anos curriculares, de esccr
laridade não intensiva.
Diante do avanço da tecnologia impondo a recomendação adotada
pela UNESCO - um mínimo de 12 anos de escolaridade a Cons­
'----

tituição brasileira ficou obsoleta em sua permissão para que um


juiz possa liberar um menor de 12 anos para trabalhar.
A Finlândia, por exemplo, tornou obrigatória a instrução até um
mínimo de 18 anos. Lá, o jovem somente é "considerado apto para
o trabalho quando tem o curso completo correspondente ao cientí­
fico ou clássico, da nossa antiga nomenclatura educacional. " ("O
sol tropical e o homem do Nordeste", O Estado de São Paulo,
26/8/ 1 972, pág. 3 .)
A Inglaterra, por seu lado, também elevou para 1 6 anos (fim da
primeira fase do secundário) a escolaridade mínima para efeitos
jurídiccrsociais. Retirou, assim, do mercado de trabalho uma mãcr
de-obra que, mesmo ainda verde, "fará falta para os empregos que
tradicionalmente não exigem qualificações" . ( " I nglaterra - à situa­
ção agora está bem melhor" , Alan Hamilton, "The Times" apud
Folha de São Paulo, 28/7 / 1 974, pág. ,38.)
À primeira vista, parece desalentadora e frustrante essa contínua
dilatação dos prazos de duração da freqüência escolar.
Felizmente, porém, o aperfeiçoamento incessante dos métodos peda­
gógicos, com o campo infinito aberto pelos instrumentos eletrô­
nicos na área do áudicrvisual, a racionalização dos cursos, a inten­
sificação da Dupla Escolaridade, colocaram à disposição de nossos
povos meios mais do que eficientes para obter-se a condensação
desses prazos sem o sacrifício da qualificação · intelectual necessária
em cada escalão do aprendizado.

167
Essa abreviação pode oferecer resultados ainda mais perfeitos se
realizada exatamente nos mais propícios instantes da vida do ser
humano: na sua infância e na primeira juventude.
A Dupla Escolaridade não é uma opção; é o imperativo que têm
pela frente os povos que dispuserem de determinação e inabalável
seriedade de propósitos, para enfrentar o problema da recuperação
das pelo menos 5 décadas perdidas, que separam nossas massas
humanas das nações que se acham na vanguarda da corrida tecno­
lógica e da maratona da prosperidade.
A Dupla Escolaridade não é decisão para povos-mais-ou-menos, nem
para governos indefinidos e amedrontados, ou céticos, que deixam­
como-está-para-verem-como-fica.
Ela é uma medida tão necessária quanto grave, e que afetará pro­
fundamente, porém beneficamente, a vida dos indivíduos jovens e
das suas famílias.
Al�m de beneficiar as crianças dando, sem dúvida à maior parte
delas, todo um mundo de benefícios espirituais e cuidados cultu­
rais que jamais poderiam receber em casa - a Dupla Escolaridade
permite o reforço do orçamento doméstico, pois libera para o traba­
lho fora do lar a esposa que precise ajudar o marido.
e por isto que nos EUA, segundo um trabalho ("Working Wives:
Revolution in American Family Life") publicado em 17 / 1 1 / 1 969
pelos U. S. News World Report, o número de mulheres que traba­
lham saltou de 1 7.300.000 em 1 950 para 27.800.000 em 1 968; as
mulheres casadas, que representavam, em 1 952, 43 % da força femi­
nina de trabalho eram, em 1 969, 60% de um total então muito
maior. As longas horas que os filhos menores ficam na escola per­
mitem esse grande acréscimo no exército feminino de trabalho.
Além da possibilidade de buscarem mais uma renda para o lar, os
casais mais necessitados, e mesmo os das classes mais abastadas,
em 95% dos casos, jamais estariam em condições de proporcionar
aos filhos o constante estímulo e a incessante ajuda de que irão
dispor no ambiente escolar, em que passarem tão dilatadas horas
do seu dia-a-dia.
A revolução permanente nos métodos didáticos para o ensino de
todas as matérias torna continuamente obsoletas a nomenclatura e
as técnicas de classificação e análises, e invalida os esforços dos
pais que solicitados pelos filhos tentam suplementar em casa o
ensino dos professores, como se fazia no passado.
Em estudo publicado em 21 de setembro de 1969 em O Estado de
São Paulo, o escritor Arnaldo Pedroso D'Horta salientava a estranha
linguagem técnico-científica que os cosmonautas da Apolo 1 1 usa­
ram com as bases da Terra enquanto voavam ou retornavam de
seu histórico vôo à Lua.

168
Tratava-se de um diálogo simples, sem solenidade, puramente fun­
cional, mas sem nenhum pedantismo. Ainda assim, foi totalmente
inacessível às centenas de milhões de pessoas que os viam e ouviam
pela televisão.
� inacessível porque já era a linguagem de um mundo novo, a mis­
tura dos vários dialetos de novos campos que a ciência agora vai
descobrindo quase que a cada hora.
A "corrida espacial " dos novos conhecimentos, adicionados conti­
nuamente à literatura escolar, invalida a capacitação daqueles pais
dedicados a quem os filhos deveriam, como outrora, recorrer em
seus apuros com os deveres colegiais.
Retendo as crianças e os jovens muito mais tempo no ambiente es­
colar, a Dupla Escolaridade estará ao contrário do que seria de
supor beneficiando a vida familiar: pelo que proporciona aos filhos.
e pelo que permite aos pais.
A histórica pressão do progresso social exercida através dos séculos,
e o desenvolvimento tecnológico ensejado pela Revolução Indus­
trial, causaram paulatinamente a redução das pesadas horas de tra­
balho impostas pelo capitalismo ainda em estágio feudal, e também
forçaram o estabelecimento de um limite etário mínimo para início
da luta pela vida.
Em seu livro La Civilization de 1975 (Presses Universitaires de
France) , o economista e sociólogo Jean Fourastié mostra, por exem­
plo, como o trabalho dos ferroviários franceses passou de 3 .876
horas anuais em 1 890 para 2.240 horas em 1 965, e cita também
entre outros o dos operários em fábricas de cigarros que passaram
de 3.876 horas anuais para 1 .870 horas cm 1 965. Fourastié salienta
ainda o fato de que há 90 anos atrás não havia limite, para o menor
começar a trabalhar, o que levava muitos a iniciarem-se com 12 e
até mesmo com 10 anos de idade.
Mas foi de sob os escombros sociais da primeira hecatombe de nosso
século - a Grande Guerra de 1 9 1 4 a 1 9 1 8 -- que tudo se definiu
mais claramente, originando-se o aceleramento do processo. A exis­
tência de milhões de desempregados impunha então como que uma
socialização das oportunidades de trabalho. A conjuntura da vida
dos povos ratificava vigorosamente as prédicas dos militantes sociais.
Consolidou-se a legislação que regulamentava e reduzia as horas de
trabalho, e através de um rígido e humano limite mínimo de idade
fecharam-se os portões das fábricas, dos galpões, dos armazéns, das
usinas, às crianças que ali fossem ter, tão prematuramente levadas
pelas mãos da necessidade, da cobiça ou da inconsciência.
Por sua vez, os solavancos do mundo, revolvido outra vez até às
entranhas com a I I Grande Guerra, introduziram novos fatores
revolucionários - os requisitos tecnológicos. Estes tornaram-se

169
ainda mais coercitivos que as próprias leis, no forçar as novas gera­
ções que buscam trabalho mais destacado e melhor remunerado, a
retardarem sua participação no sistema de produção, obrigando-as
a um mais longo estágio para equipamento intelectual, nas escolas.
Com isto, os filhos de certas categorias bem amplas de trabalhadores
passaram a dispor de mais tempo - ainda além da primeira infân­
cia - para dedicarem-se a mais estudos. Muitos, porém, dos que
não souberam ou não puderam tomar o rumo da escola secundária,
perdiam-se no vácuo do "hiato nocivo" - o maléfico período que
ocorria, antes da atual reforma do Ensino (no caso do Brasil),
entre o término do primário, aos 10, 1 1 ou 12 anos, até a idade
mínima de 1 4 anos, quando lhes é legalmente permitido trabalhar.
Liberados pelo progresso social e protegidos pela lei, os menores
de 14 anos passaram a necessitar também que se lhes assegure um
aproveitamento total desses anos preciosos de sua vida.
Assim como eles não poderiam ser largados à ociosidade do " hiato
nocivo", também não devem ser empurrados para os arremedas de
cursos-foguete, instituídos ao sabor do lamentavelmente oficializado
sistema do entrou-saiu, admitido em nosso país pela filosofia hindu
da escassez global. Escassez de escolas adequadas, "escassez de pro­
fessores habilitados, escassez de material didático.
B a deficiência maior de nosso mecanismo de ensino, seu "deficit"
escolar gigantesco - cerca de 5 milhões de crianças ainda sem
escolas e ainda quase 30 milhões de analfabetos adultos - que
deve ter influído para a elástica tolerância com que se trata o assun­
to em nosso país. Por isto, chega-se a aceitar oficialmente comó
bom e , ainda mais espantoso, a estabelecer-se como regra o pouco
que se fizer ou que se tenha feito.
Porque ainda tenhamos legiões imensas de brasileirinhos sem escà­
las, tem-se admitido como medida do ideal o pouco tempo de
ensino que recebem aqueles que têm o privilégio de poder freqüen­
tar aulas.
Realmente, foi penoso ver-se que ao se elaborar o 1 Plano de Metas
da Educação Nacional, os seus responsáveis, os participantes de 4
Encontros Nacionais de Planejamento (ENPLA) realizados em Ma­
naus, Natal, Brasília e Porto Alegre, entre junho e julho de 1 967 -
"cerca de 600 educadores, economistas, sociólogos e técnicos " -
chegaram a admitir "um mínimo de 20 horas semanais" para o
tempo escolar e outro "mínimo de 1 60 dias " para o ano letivo.
Isto deve ter chocado até o próprio presidente da República, mare­
chal Costa e Silva, que na mesma ocasião - junho de 1 967 -
baixava um decreto, fixando o "mínimo de 1 80 dias de trabalho
escolar para os estabelecimentos de ensino superior". (No decidido

1 70
Japão, sem nenhum mais-ou-menos, não há "mínimos " : são 10 me­
ses redondos, de aulas.)
Porque não haja o número ideal de escolas e de professores, come­
te�se o imenso erro de deixar estabelecido, em preto e branco, que
aquilo que deveria ser uma dieta eventual, pode" ser usado como
receita para o revigoramento do corpo anêmico ou exangue. Dentro
da fórmula admitida, a escola quase parece um lugar de convescote
diário, onde todos vão por um mínimo de tempo, para fazer jus
a um costume civilizado, de pessoas ou povos que desejam ser
reconhecidos como desenvolvidos.
E isto acontece quando vivemos um instante do mundo em que já
há escritores e economistas futurólogos, como Arthur Clark (autor
de Odisséia no Espaço) , que começam a admitir que "o período
de escolaridade deva ser aumentado a fim de que as pessoas pos­
sam ser educadas durante toda a vida ".
A nossa sugestão e observação, no entanto, é no sentido de que a
nação e os indivíduos lucrarão muitíssimo mais se, ao invés destes
ficarem muitos anos nas escolas, ficarem muito mais tempo, diaria­
mente, nas salas de aulas.
Porque o progresso dilate continuamente o cabedal de aprendizado
necessário a cada profissão, isto não quer dizer que se tenha que
conseqüentemente dilatar desmesuradamente o número de anos para
os que nela queiram se diplomar. O recurso da intensificação do
currículo, com o aumento do número de horas de aulas diárias, ou
o da sua condensação conscienciosa permitirá que o aluno capaz
saia da escola com o equipamento perfeito, em modernidade e inte­
gralidade. Pronto assim para a luta pela vida e para a sua contri­
buição à economia do país, e ao bem comum dos cidadãos.
Por outro lado, à medida que a nação pode estender até os escalões
sociais mais profundos os benefícios do seu sistema escolar, brota
dessa mineração em veios e escaninhos humanos outrora inatingi­
dos uma colheita mais farta de cérebros excepcionais, para cuja
rapidez de raciocínio e de absorção os currículos escolares comuns
são estorvos de lentidão.
Assim, pois, além da intensificação, da duplicação em horas de
aulas, da escolaridade para os milhões de alunos de inteligência
média, surge o problema de transcendental importância nacional, e
individual, de atender em benefício coletivo a insaciedade de conhe­
cimentos e a rapidez de raciocínio daqueles milhares que foram
eleitos por Deus com a excepcionalidade do intelecto.
Quando uma nação pretende desatracar-se aceleradamente dos man­
gues do marasmo econômico-social, ela precisa dar também condi­
ções de catapultagem àqueles seus filhos cuja cerebração privilegiada
os coloca em condições de vôo antes da hora da plumagem normal.

1 71
Além dos cursos intensos, é preciso haver a alternativa dos cursos
condens&dos, dando-se a escolaridade devida a cada grande grupo
de alunos segundo os limites, ou ilimites, de sua capacidade.
O governo precisa pôr em diferentes pontos do país, ao alcance dos
estudantes excepcionais, conjuntos escolares abastecidos de profes­
sorado altamente qualificado e de equipamento para estudos avan­
çados. Para esses centros se canalizariam por seleção oficial ou
natural, aqueles indivíduos superdotados cuja velocidade de assimi­
lação intelectual os deixa em situação de desconforto e frustração
nos ambientes letivos comuns, onde o ensino tem que seguir o
marche-marche da rotina.
Na desabalada corrida espacial da inteligência humana, torna-se de
capital importância para os países em desenvolvimento darem todo
o ar e combustível de que necessitam aqueles grupos de jovens
cujas mentes já vêm com a alta octanagem da quase genialidade.
Pois, abastecidas suas inteligências, serão eles os acertadores de
ponteiros que porão nossos países no mesmo fuso horário dos povos
que dispararam antes.
Os chocantes fenômenos escolares negativos - a birrepetência ou a
quadrirrepetência e a evasão em larga escala - não podem con­
tinuar ocorrendo nacional ou regionalmente sem que, tal como nas
epidemias fulminantes ou nas endemias persistentes, não se busquem
de imediato as razões e os respectivos planos para combate e cor­
reção.
Nesse ponto, cabe como uma luva a função proposta pelo senador
João Calmon para os Conselhos Educacionais de Atuação Muni­
cipal - CEDAM - sugeridos em projeto de lei que apresentou ao
Congresso. Aos CEDAM, compostos por homens notáveis de cada
comuna, escolhidos por eleição - incumbiria a tarefa de acompa­
nhar de perto o desenvolvimento dos trabalhos escolares em cada
município, detectar os problemas, proporcionar soluções ou ajudar
a buscá-las.
Nesse projeto, em seu Inciso 1 1 , do artigo 1 7 , o senador capixaba
consagra também a organização do ano-escolar condicionada às
variações climatol6gicas.
Trata-se de possibilitar a ampliação, em escala nacional, da inteli­
gentíssima medida, de alto conteúdo humano, tomada pelas autori­
dades governamentais e de ensino do Estado do Paraná, objeto,
aliás, de uma documentada reportagem ("Na volta às aulas, uma
nova escola "), publicada pela revista Veja em 5/3/69, pág. 59.
Analisando as cifras escolares do ano de 1 967, as autoridades para­
naenses depararam-se com algarismos desconsertantes: dos 820.000
alunos matriculados no primário, 1 00.000 abandonaram a escola e
outros 300.000 foram reprovados.

1 72
As fichas escolares provavam que 70% dos 1 00.000 que deixaram
a escola o fizeram por " necessidade de trabalho" , ou " mudança
de domicílio " .
Aquela " necessidade d e trabalho" que levou tantos a abandonarem
de vez a escola é a mesma raiz das 300.000 reprovações : os pais
tirando os filhos nas épocas das diferentes colheitas, pois colheitas
havia, como a do algodão, em que as crianças devido à baixa altura
da planta se mostram mais eficientes que os próprios adultos.
Levantados os sintomas, o então secretário de Educação do Paraná,
sr. Cândido Oliveira Martins, partiu para a ação de laboratório:
convocou seus técnicos e os 55 delegados regionais de ensino. Uma
semana depois, " surgiram dez calendários escolares - um para as
cidades, com os períodos tradicionais de férias, e nove para as zonas
rurais, encaixando as férias na época das colheitas" . Na região
norte, por exemplo, as grandes férias passaram a ser em agosto e
setembro, pois ali estes são os meses das colheitas mais impor­
tantes.
Outro exemplo de mobilidade ou flexibilidade dos currículos é pro­
porcionado pela idéia dos "Módulos de ensino para a competência "
a caminho d e aplicação disseminada n o país. Por eles, são a própria
vocação e habilitação do aluno que vão compondo o currículo, que
o alçará a um nível superior na área de aprendizagem por ele pre­
ferida.
� lógico que a escolaridade sendo maior, o professor tem que ser
melhor, para planejar e oferecer melhor convivência com a criança;
a escola tem que ser melhor, para proporcionar maior conforto e
prazer aos que a freqüentam; a vida escolar tem que ser mais rica,
muito mais dinâmica e representar uma sucessão de agradáveis e
estimul,antes desafios à curiosidade e à imaginação dos que estudam.
A base educacional integral que se busca com a Dupla Escolaridade
jamais poderá ser obtida na linha do mais-ou-menos, com profes­
sores assim-assim, com escolas meio-termo, com alunos subassisti­
dos e infra-alimentados.
Para ser bem sucedida, a Dupla Escolaridade deve poder oferecer:
muito maior assistência docente aos alunos, através de pro­
fessores e monitores de tempo integral;
equipamento escolar completo no campo técnico-intelectual,
e no esportivo e de diversões;
constante participação e aferição da comunidade e do go­
verno quanto ao desenvolvimento da vida escolar;
alimentação abundante e adequada, oferecida através da
Merenda Escolar.

173
Para que a Dupla Escolaridade seja válida e efetiva, ela tem que
ser praticada com recursos e esforços globais. A criança ou o jovem
não suportariam tão longamente um ambiente escolar inadequado,
com instalações improvisadas ou acanhadas, professores intelectual­
mente insossos e socialmente exíguos; eles também não resistiriam
à falta de uma alternância inteligente entre o tempo de dever e o
tempo de lazer, e entre estes tempos precisariam de uma constante
e farta alimentação, para um lógico maior consumo de energias.
A Dupla Escolaridade ultrapassa em compromissos e objetivos as
medidas administrativas comuns; ela impõe a alunos, pais e pro­
fessores o sacrifício cotidiano de se superarem em tudo. Visando a
um fim absolutamente superior, ela só se pode concretizar e dar
frutos sob um esforço nacional supremo e contínuo.
Por isto precisa ser apoiada por uma vontade popular vigorosa -
como aconteceu no Japão, e vem acontecendo na Argentina - por­
que busca realizar ou oferecer algo próximo da perfeição àquela
parcela do país que é, ao mesmo tempo, a sua melhor sementeira
e a sua melhor colheita - a infância e a juventude.
Sabemos muito bem que montar um organismo que ofereça essa
vivência e essa intensidade de atividades escolares, custa fortunas
que parecem acima da capacidade de nossos países. No capítulo
" Onde está o dinheiro" procuramos pelo menos no caso do Brasil
somar os nossos desperdícios e calcular as extravagâncias em que
se diluem gordíssimas fatias dos orçamentos da União, dos Estados
e municípios.
A Argentina, por exemplo, já partiu desde 1 960 para uma experi­
mentação nessa área e, cautelosamente a princípio, e depois mais
aceleradamente, começou a criar escolas· com instalações, materiais
e equipamento docente para o atendimento cabal dos requisitos da
dupla escolaridade. A contar pelo registro da imprensa e pelo entu­
siasmo dos próprios pais de alunos, agrupados na Comissão Inter­
colegial de Pais em Apoio das Escolas do Estado, CIPAEDE, a
dupla escolaridade poderá sem muita tardança vir a ser adotada em
escala nacional no país irmão. (" Doble Escolaridad - Tema de
Política", Clarin, Buenos Aires, 3 1 /3/66, pág. 40.)
Os governantes argentinos certamente tomaram conhecimento de
resultados tão altamente vantajosos para a infância de seu país com
a dilatação das horas de escolaridade, que a estão pondo em prática
paulatinamente, escola por escola, preferindo a estratégia da execu­
ção parcimoniosa, dentro das dificuldades financeiras do país, a
cruzarem . os braços na esperança de melhores dias em sua vida
econômica.
Isto é um estímulo para que o Brasil e as outras nações analisem
sem tardança a experiência platina, e a tomem como outro estágio

1 74
para o aceleramento ainda maior de nossa marcha. Quem tem sede
ou necessidade de progredir bebe de todas as boas fontes.
O que não é possível é continuarmos assistindo sem nenhuma con­
seqüência a retardados episódios ulteriores da mini-escolaridade,
como aquele dos mil estudantes brasileiros, "excedentes" de medi­
cina e de engenharia que, depois de aprovados no país, foram
" tentar a universidade em Portugal, e colheram uma reprovação em
massa ". (Jornal do Brasil, 23/5/68, pág. 1 0.)
Os pesados encargos técnicos e financeiros impostos pela execução
da Dupla Escolaridade num país das proporções do Brasil, logo
fazem ver que ela não pode logicamente ficar por conta apenas da
duvidosa capacidade administrativo-financeira dos Estados e muni­
cípios, como mandam as leis para o ensino básico. Pois que, mesmo
com a redistribuição de rendas com que os aquinhoou a Revolução
de Março, os Estados e municípios não têm asas para tanto vôo.
O governo da União terá certamente que partir para outros expe­
dientes legais, a fim de ou reforçar substancialmente as dotações
estaduais e municipais para o ensino, ou assumir ele próprio uma
larga parte do encargo monetário e da responsabilidade executiva.
Quando uma nação se propõe a um objetivo nacional de grandeza
e não de agachamento, o esforço para esse alpinismo tem de ser tanto
espiritual quanto físico. Pois nenhum povo entra de graça no clube
das potências. Para atingir o altiplano da prosperidade, o país
inteiro tem que se submeter a condições espartanas de provação e
preparação.
Quando um povo visa não a uma simples disparada de alguns
metros rasos, mas à corrida de fundo que leva de Maratona ao_
Olimpo, então é preciso que se dê aos filhos e aos pais, e aos go­
vernos, os ônus, pesadíssimos é verdade, mas recompensadores da
Dupla Escolaridade.
Se a maior "indústria" do Estado tem que ser fabricar milhões de
cidadãos completos, e não cogestar - com pais analfabetos e semi­
analfabetos - futuros mendigos, marginais ou semi-incapazes, a Du­
pla Escolaridade tem de tornar-se a próxima maior meta econômico­
social de qualquer governo do Brasil, e dos países que compartilham
conosco os mesmos problemas e os mesmos anseios de prosperidade
definitiva e segura.

175
7
a nova doença social:
anaHabetos tecnológicos

•Leibniz foi o último homem que


sabia tudo. ·

Joaeph Ep1teln, professor de flloaofla


da Universidade de Amherst, EUA.
("Unlversltlea - l n Purault of
lndependence•, Rev. Time, 25/2/1966,
pág. 32.)

•A civilização é uma corrida entre


a Educação e a catástrofe."

H. G. Wells.
- "75 % dos diplomandos de todas

as faculdades da Universidade de
Harvard inscreveram-se para cursos
de pós-graduação."

- "Já em 1960, a empresa DuPont


empregava mais cientistas que as
Universidades de Yale ou Harvard;
a General Electric, duas vezes mais
que a Universidade de Princeton;
e o governo americano tanto quanto
suas 10 maiores universidades,
juntas.•

- "Treinar gente desempregada,


para os empregos sem gente.•

(Ensaio sobre Educação. Rev. Time,


ns. de 14/3/1969, de 20/12/1963 e
6/9/1963.)

"O intelectual deslocado, forçado a


um trabalho inferior ou a um
modo de vida em desacordo com
seus méritos; o operário
desqualificado que se considera um
explorado; o camponês que nada
conhece além do campo e que
acha mesquinha a faina agricola -
são produtos típicos de desorientação
ou inadequação educacional. •

"Educatlon ln Technologlcal Society•,


Relatório dos 21 peritos mundiais
sobre eficiência da educação técnica,
UNESCO, Ed. de 1952, pág. 1 1 .
Em agosto de 1 972, o diretor mundial da FAO, Adecke Boerma,
declarava que nos próximos 10 anos o mundo terá 300.000.000
de desempregados. Pouco tempo antes, o presidente Richard Nixon
chocava os seus compatriotas (revista Time, 25/ 1 0/7 1 ) , e surpreen­
dia o mundo, com a declaração de que nos EUA havia naquele
momento cerca de 24 milhões de analfabetos tecnológicos. E um
país, outrora estrela da primeira grandeza, rateava naquilo que aos
espíritos de maior sensibilidade política parecia uma confusão de
caminhos ideológicos, ou, para os afeitos aos fenômenos econô­
micos, uma perda de vapor para os novos empuxes do progresso.
Esse país é a Argentina.
No caso desta nação vizinha, alguns analistas pretendem que se
trata de conseqüências da indecisão ou timidez filosófica de seus
dirigentes, atarantados na encruzilhada entre as perspectivas do
avanço para um moderno capitalismo ou de uma guinada, e retomo,
às idéias do seu poderoso sindicalismo (peronista) .
Talvez um tipo de luz, de outra natureza, provavelmente chocante
para muitos, nos ajude a compreender melhor o que de fato acon­
tece no grande país irmão. Referimo-nos às estatísticas que descre­
vem os estágios educacionais de sua população, já mencionadas no
capítulo " Nações Ricas & Nações Pobres" .
Essas estatísticas contêm provavelmente o segredo que explica o
desconcertante imobilismo que estancou a Argentina, como se um
mar sem ventos desinflasse as suas velas já por quase duas décadas.
Conhecida como uma nação de baixo índice de analfabetos, eis
que aquela radiografia sócio-econômica mais profunda revela uma
grave carência para estes nossos dias tecnológicos - quase 25%
da população argentina (6.332 .000 habitantes) são apenas semi­
alfabetizados.
A opção norte-americana, muito definida e muito clara em favor do
capitalismo, absolve a indecisão ideológica argentina da culpa, sozi­
nha, pela estagnação do país.
O diretor mundial da FAO não apontou, nas suas declarações (uma
entrevista ao jornal Excelsior, 1la Cidade do México) , as fontes de
onde se originava e de que forma se encorpava aquela preamar por
ele anunciada de 300 milhões de desempregados, em cujo bojo por
certo se arrastarão também os seus 1 .200.000.000 de dependentes e
descendentes.
Nos países superdesenvolvidos, é visível e sensível que se estreitam

1 79
cada vez mais os bolsões de sobrevivência dos cidadãos desprepfira­
dos. Numa conferência sobre o problema da Educação, o senador
João Calmon citou uma reportagem do New York Times, publicada
em outubro de 1 97 1 , na qual se revelava que 17 % da força de
trabalho dos EUA ainda podiam encontrar tarefas muito modestas,
nas quais se exigia que o cidadão apenas soubesse ler e escrever.
Mas a previsão era de que, dentro de um máximo de cinco anos,
com o avanço tecnológico, 5% apenas desses trabalhadores ainda
encontrariam esse tipo de empregos. (Diário de São Paulo,
30/ 1 0/ 1 97 1 .)
A observação colhida pelo senador Calmon era o episódio recen­
te de uma situação trágica que começara a definir-se quase 10 anos
antes, quando num " Ensaio sobre Educação" a revista Time
(6/9/ 1 963, págs. 42 e 43) já registrara que, dentro do boom ameri­
cano, circunscreviam-se a apenas 25% as possibilidades de emprego
nos EUA para aqueles que não tivessem o curso secundário com­
pleto. E o estudo aduzia esta informação chocante: "Dos atuais
(ano de 1 963) 4.322 .000 desempregados nos EUA, cerca de dois
terços são co11.1postos de pessoas que não terminaram sua instrução
secundária."
Está, pois, à vista que uma nova leucemia se forma mundo afora,
dissolvendo condições sociais e individuais outrora sadias e seguras:
é a desatualização de camadas após camadas de trabalhadores, cau­
sada pelo novo fenômeno do deslocamento sucessivo e alucinante
dos marcos dos conhecimentos humanos, suas conseqüentes reali­
zações e suas continuamente renovadas exigências técnicas.
As nações e os grupos que exercem as lideranças sobre a Terra
parecem empolgados e envolvidos numa disputa alucinatória - em
que se mesclam a pura ambição mercantil, o simples prazer animal
da luta vitoriosa, ou a atração panteísta pelos caminhos do desco­
nhecido.
Fechados nos seus gabinetes e laboratórios, cientistas e técnicos
manipulam açodadamente a obsolescência de todas as últimas cria­
ções do homem. Em conseqüência, em qualquer ramo da atividade
produtora, a liderança na realização do melhor pode, às vezes, durar
apenas 24 horas. Alguém, então, terá ultrapassado o que no dia
anterior era o mais aperfeiçoado.
O avanço da tecnologia tem sido tão avassalador que não lhe
resiste nenhuma das casamatas do status quo e da inércia. O que
não cede e se adapta - rui ou se desmancha - qualquer que fora
sua solidez antiga. Em certos instantes, entre o pó do que se abate
e a poeira do que se levanta, há algo de babélico, no entrecruzar
das observações dos que não emudecem, enquanto acontecem os
pequenos ou grandes fatos da vida contemporânea.

180
Já houve, por exemplo, quem invectivasse as grandes corporações
de reterem por décadas, lacradas em arquivos de aço, fórmulas
mágicas de produtos ou inventos cujos preços ou benefícios demo­
cratizariam de tal modo a capacidade de consumo e bem-estar, que
igualariam milagrosamente os pobres mais pobres aos ricos mais
ricos. Tudo pronto, mas monstruosamente engavetado; o homem
comum, só por isto, via prolongar-se a sua abstinência de maior
conforto e prosperidade.
Outros, porém, acusam o sistema privado de produção de um ver­
dadeiro genocídio quando, lançando ondas sucessivas de novas cria­
ções e novas técnicas, atira à rocha tarpeia da marginalidade, do
desemprego e da miséria centenas de milhares de modestos e dese­
quipados trabalhadores.
Usando das liberdades de criar, produzir e vender, o sistema de
competição montado pelo mundo livre não se detém porque seu
engenho e suas idéias causem vítimas ao longo do caminho. Na
batalha pela liderança e pela sobrevivência, ele age como um estado­
maior obcecado pela ação, para quem o que conta são as divisões
que prosseguem, e não os pelotões ou as unidades que se atrasaram.
ou se desfizeram.

Enquanto em países que conhecemos alguns indivíduos que sobem a


governos ainda pensam que governar é tão-somente preparar con­
dições para ampliar continuamente suas bases eleitorais, e garantir
cadeiras de deputados para os filhos que estão chegando para as
" bocas ", das urnas e da vida - há setores da ciência social que
já proclamam não mais e apenas a atualização do homem comum
com a tecnologia, mas até a sua reformulação como animal, para
poder usufruir das novas máquinas e técnicas.
"Um instrutor da U. S. Air Force, durante uma conferência na
célebre base de Air Randolph Field, formulara assim o seu pensa­
mento: " Considerado sob o ângulo da técnica aeronáutica futura,
o homem atual é um fracasso". (Robert Jungk, O futuro já começou,
Edições Melhoramentos, 1962, pág. 36.)
Isto é, fisiologicamente - e nisto por certo se incluem suas facul­
dades intelectuais - o homem está despreparado para participação
como engrenagem orientadora das máquinas que criou.
E já se estuda, por isto, o human engeneering na " School of Avia­
tion Medicine", perto de San Antonio, Texas. " Repartidos por uns
cinqüenta pavilhões, laboratórios e gabinetes de trabalho, uma cen­
tena de médicos, biologistas, fisiologistas, neurologistas, físicos atô­
micos, especialistas do ultra-som, da cibernética, da antropologia e
da psiquiatria trabalham para criar o " homem da estratosfera" , à

181
espera com certeza do "espaço sideral ". Os métodos de sua fabri­
cação são decalcados sobre os da indústria. " (Robert Jungk, O futuro
já começou, pág. 37 .)
Estamos, enfim, diante daquilo que o prof. José Medina Echevarria,
em seu trabalho Funções da Educação no desenvolvimento, inserido
em Desenvolvimento, Trabalho e Educação (Zahar Editores, 1 967,
pág. 1 9) chama, sem nenhum espanto, de " tecnificação geral da
existência" . . .

O. grito de alerta da UNESCO - definindo como de 12 anos a


escolaridade mínima para sobrevivência do indivíduo nesta era da
invasão tecnológica global - já quase nem vale para os países arras­
tados na supervelocidade e pelos sucessos de seus astronômicos inves­
timentos em "pesquisa e desenvolvimento" .
O próprio "gap tecnológico" d e que tanto s e fala não escolhe como
vítimas únicas as miríades de "nações pobres " plantadas em quase
todos os continentes. O ainda maior distanciamento entre a fortuna
e a pobreza previsto para a época de esplendor do superindustria­
lismo ocorrerá, e também em profundidade, dentro das próprias
muralhas de ouro das nações super-ricas, como já se antecipa nos
próprios EUA, e em conseqüência das mesmas razões: a superio­
ridade tecnológica adquirida por aqueles setores da população que,
nos períodos escolares, se dedicaram completamente a essa tarefa,
arrebanhando assim maior cabedal de conhecimentos profissionais e
que, prevenida ou ambiciosamente, não cessam de enriquecê-lo.
Tocados pelo azougue da competição, empolgados pela alquimia da
liderança ou hegemonia industrial, os descobridores e criadores, os
inventores, os homens de imaginação aplicada ao desenvolvimento
transformam em sucata toda a enfeitiçada maquinaria apresentada
na véspera em qualquer feira de inovações.
Mas a pior sucata não é a que se amontoa como ferro velho ou
despojos, às margens de todas as rotas por onde correm os comboios
novidadeiros.
O pior restolho largado por essa disparada são os escombros huma­
nos. Aqueles que ficaram sem o que faziam, e que agora não sabem
como se faz o que tem de ser feito. Num "mundo dinâmico e em
transformação" , eles já se amontoam como entulhos, largados à
ilharga da civilização, e à míngua de bem-estar, de conforto e digni­
dade.
Já ocorrem, às vezes, situações em que se justapõem a tragédia da
vida e uma ironia sádica dos fatos, como quando em meados de
1 965 havia na região de Chicago 400 mil desempregados e, simul­
taneamente, anunciadas e proclamadas coexistiam 600 mil vagas em

182
empregos qualificados, para os quais aquelas centenas de milhares
de infelizes não tinham a necessária habilitação. (0 País dos coitadi­
nhos, cap. " Povo burro é povo pobre ", Editora Nacional, 1 966,
pág. 353.)
Aliás, só uma coisa explica por que países em plena carga de pro­
gresso harmônico e sólido apresentem cifras de desempregados que
atingem centenas de milhares ou de vários milhões: é a incapacidade
desses infelizes em atenderem os requisitos da moderna tecnologia,
na medida que esta vai invadindo os galpões das fábricas ou os
recintos dos escritórios em que trabalham.
Essa demanda insaciável das indústrias, e de todas as atividades cria­
doras, por novos talentos, mais bem equipados e obviamente atuali­
zados, chega a explodir, até em países como o Brasil, na espantosa
extensão de 70, 80 e 90 páginas em que se oferecem empregos
qualificados, como vem acontecendo desde dezembro de 1 972
através dos suplementos da edição dominical de O Estado de São
Paulo.
Mas é fácil ver, em consecutivos dias da semana e, se atentarmos
nisto, em semanas consecutivas, que dezenas e dezenas de indivíduos
lêem e relêem aqueles suplementos, e ainda permanecem nos mes­
mos bancos ociosos da Praça , da República, na capital paulista. E
que para cada um daqueles empregos oferecidos, falta-lhes uma,
ou todas as qualificações pedidas - e-sempre alguém mais bem
equipado os preenche imediatamente.
O progresso carrega consigo uma dose tantálica de problemas: quanto
mais ele avança, mais se estendem as obrigações antecipatórias dos
homens de governo.
Sem dúvida nenhuma, nos países ou regiões de maior dinamismo
industrial, a responsabilidade educacional do Estado para com o
homem comum não mais termina nem mesmo ao fim dos 12 anos
escolares sugeridos pela UNESCO. Já vimos anteriormente, no capí­
tulo " Dupla Escolaridade'', que a Finlândia estendeu para 18 anos
a idade da instrução pública obrigatória.
Foi-se o tempo em que a missão educacional dos governos se cumpria
com o fornecer escolas para o começo da vida dos cidadãos. Que­
brou-se a rigidez do preceito segundo o qual o período da vida
humana consagrado à escola e ao aprendizado deveria ir dos 7 até
o máximo dos 25 anos. Os observadores sociais, economistas e
educadores, já consideram que a fase de saber, e procurar saber,
tem que imperiosamente prolongar-se até o fim legal das atividades
produtoras do homem, isto é, pelo menos até os 65 anos.
Agora -os dirigentes nacionais têm que buscar por toda parte, e
incessantemente, os sinais da nova doença econômico-social - a
obsolescência - e tratar de ajudar suas vítimas. Os governos já

183
precisam cuidar da cnaçao e instalação imediata de um amplo e
sensível sistema de aprendizado e atualização, também para os que
estão em meio da vida. Quase tudo que um adulto aprendeu na sua
juventude, nas escolas profissionais de nível médio ou de ciências
exatas e avançadas, já se vai tornando aceleradamente parte da his­
tória daquele ramo do conhecimento ou da atividade humana.
" Pressionados até ao pânico pelo receio de uma palavra - obsoles­
cência - os EE. UU. da América do Norte atiram-se à magia
incessante das buscas e pesquisas tecnológicas, na ânsia de ultrapas­
sarem-se a si mesmos. E a nação inteira é como um trepidante labo­
ratório de experimentos, em que todos, empresas e indivíduos, se
entregam à dúvida de seus próprios sucessos e progridem ainda mais,
pelo próprio temor ao progresso ( . . . ) " . (O País dos coitadinhos,
4.ª ed., pág. 38 1 .)
O mesmo espírito e as mesmas razões que levam as empresas mo -
demas à decisão de manterem seus departamentos de " Pesquisas
e Desenvolvimento " para buscarem novas idéias de produtos ou
serviços, ou o aperfeiçoamento constante dos atuais, deve orientar
aqueles que detêm a responsabilidade do comando político-econô­
mico de uma nação - contra esse grave e crescente perigo social da
obsolescência da mão-de-obra, nos escalões primário e médio da má­
quina de produção.
Uma pesquisa realizada no primeiro semestre de 1 970 pela Social
Research Inc., de Chicago, para a National Science Foundation dos
EUA (comentada, em editorial do número de julho/agpsto de 1 970,
pág. 5 , da revista Personnel da American Management Association),
revelou que os cientistas e técnicos norte-americanos estão neces­
sitando despender pelo menos 10 horas por semana na leitura de
literatura periódica de caráter profissional, e ainda dedicar de 40 a
80 horas por ano em convenções, cursos-relâmpago, ou congressos
ligados às suas atividades, para protegerem-se contra a obsoles­
cência.
85 % dos 400 cientistas e técnicos entrevtstados apontaram a leitura
de literatura técnico-profissional como sendo o método mais impor­
tante para a aquisição de novos conhecimentos da sua especialidade.
E 98% deles declararam ser leitores assíduos de publicações liga­
das ao seu meio de vida.
O problema da reciclagem ou da recarga para os profissionais uni­
versitários chegou a provocar a idéia, largamente discutida nos EUA
no meio da década de 60, de tomar-se obrigatória, a cada cinco
anos, a volta do profissional à sua faculdade, para um breve período
de atualização de conhecimentos.
(Anunciando que era com o intuito de fazer desaparecer o fosso

184
entre as gerações que tiveram apenas sete anos de escola e as que
agora estão tendo compulsoriamente onze, o governo sueco tomava
obrigatórios para os mais velhos, a partir de 1 970, a freqüência de
cursos de atualização cultural-profissional.)
Provavelmente considerada como de execução dificílima, dado o ele­
vado número de profissionais de curso superior nos EUA, a suges­
tão de reciclagem teve, porém, o mérito de, sendo amplamente deba­
tida em seus prós e contras, focalizar a importância capital da
constante atualização profissional para quem quer que deseje sobre­
viver nesta era em que crescem a competição e a competência dos
competidores.
Aliás, essa reciclagem dos profissionais mais conscientes vem sendo
processada por outros meios.
A pesquisa, por exemplo, a que nos referíramos acima foi realizada
através de 17 laboratórios dos EUA. E todos eles ofereciam vários
tipos de cursos de aperfeiçoamento, ou de novos aprendizados, para
os integrantes dt;: suas equipes já tão qualificadas.
Convém aqui ressaltar a total coincidência do interesse das empresas
privadas com essa ação de vigilância educacional que deve ser
estimulada contra a obsolescência ou a estagnação. Quase todas as
grandes corporações, e muitas até de porte médio, mantêm ou finan­
ciam cursos que ensejam a seus funcionários atualização ou, indo
mais adiante, acesso a novos escalões de competência e responsa­
bilidade.
Vivendo em estado de beligerância, reagindo pela necessidade de
sobrevivência num mundo de alta agressividade na competição para
o sucesso, as empresas procuram dar ao seu equipamento humano o
máximo de condições de modo a dele obter o máximo de rendi­
mento.
Mas, às vezes, ocorre que a caquexia do envelhecimento técnico
acontece a frações ponderáveis do seu organismo, quando não a toda
a própria empresa. Essa ou aquela tarefa já não é mais necessária,
ou seu produto principal caiu em desuso. O fechamento de seções,
ou o fechamento de toda uma entidade econômica, ocorrido por
inadequação ou incompetência contemporânea, lança subitamente no
desemprego dezenas, centenas, milhares de pessoas.
� para agir também nesse momento dramático da vida de cidadãos
dedicados e ainda com fôlego de luta, que o Estado deveria se pre­
parar mais e mais.
O estabelecimento de um mecanismo de vigilante atualização pro­
fissional - o que não é difícil nem extremamente dispendioso -
poderia alcançar os milhares desses cidadãos que, ainda sadiamente
ambiciosos mas desatualizados, se desrumam sozinhos, embora refu-

185
gados aos montes, pela terra de ninguém, da desesperança, per­
dendo-se entre a inação e a miséria.
Com um registro de desempregas operando sismograficamente, como
uma entidade viva e não como um poleiro burocrático, o Estado
pode desenvolver sistemas para detectar a origem do insucesso no
trabalho, apontando-se tudo que for obsolescência individual ou
grupal, e sugerindo o " tratamento" ou a recuperação adequada.
Foi agindo dessa forma, pelo menos num caso que mereceu registro
na opinião pública, que o governo inglês e a empresa privada pude­
ram resolver o problema de centenas de mineiros desempregados,
da região de Spennymoor, no norte da Inglaterra.
Para atender o plano de expansão da mais poderosa indústria de
tecidos do país, a Courtaulds Ltd., foi sugerido a essa empresa,
pela Divisão de Treinamento da Indústria Têxtil, que localizasse
sua nova fábrica naquela região para onde se enviariam, então,
equipes profissionais encarregadas de ensinar os antigos mineiros a
lidar com os mais modernos tipos de máquinas de tecelagem (teares,
lançadeiras, espuladeiras, urdume, etc.) .
Doze semanas depois, todas as equipes necessárias estavam prepa­
radas para iniciar a produção. 65 % dos novos tecelões eram
ex-mineiros.
Um outro ponto de grande interesse humano encaixado na moldura
dessa iniciativa inteligente: a direção da fábrica deu preferência, no
treinamento, aos ex-mineiros que tinham 50 anos de idade ou mais.
" Pois, não sendo demasiadamente jovens, não iriam, após domi­
nado o aprendizado, lançar-se à aventura de buscar empregos nas
fábricas da área de Londres, ou de outros grandes centros mais
atraentes para eles . "
O sucesso operacional desse empreendimento d a Courtaulds foi tal
que dois anos depois, em outubro de 1 970, já se iniciava a produ­
ção numa nova unidade, maior ainda que a primeira e construída
como expansão desta. (Personne/, julho/agosto de 1 970, reportagem
" Ex-miners in England Become Textile Workers" .)
O Brasil já dispõe de mais de um embrião para a implantação de
um organismo nacional de proteção do trabalhador contra a obso­
lescência. Referimo-nos ao SENAI, ao SENAC, ao Departamento
Nacional de Mão-de-obra e ao PEBE (Programa Especial de Bolsas
de Estudos), estes dois últimos diretamente integrados no Ministério
do Trabalho.
E até mesmo admirável, embora relativamente pouco - no caso
do SENAI e do SENAC - e certamente limitado - no caso do
Departamento Nacional da Mão-de-obra, e surpreendente - no caso
do PEBE - o que realizam essas quatro entidades.

186
Dissemos relativamente pouco quanto ao SENAI e ao SENAC, por­
que essas duas organizações se preocupam também em dar um
dimensionamento de atendimento social, inclusive de puro entreteni­
mento, às suas funções - o que reserva uma parte pequena de suas
disponibilidades para o ensino profissional. O que o SENAI e o
SENAC fazem nessa área é, contudo, uma excelente amostra da
formidável função dinamizadora e atualizadora que ambos pode­
riam ter, caso fossem mais amplos os seus esforços, e mais definidos
nessa direção os seus objetivos.
Criado somente no governo do Marechal Castello Branco (Lei n.º
4 .923, de 23/ 1 2/65, decreto n.º 58.550, de 30/5/66) , o Departa­
mento Nacional de Mão-de-obra é composto de:
- Conselho Consultivo de Mão-de-obra
Divisão de Estudos do Mercado de Trabalho
Divisão de Colocação e Formação Profissional
Divisão de Migração
Divisão de Identificação e Registro Profissional
Divisão de Administração.
Como estabelecido pelo decreto regulamentador, a Divisão de Colo­
cação e Formação Profissional vem trabalhando em estreito contato
com o Ministério da Educação com o fim de " ( . . . ) estender as
bases do ensino profissional, estabelecendo os currículos, os cursos,
os programas e exames de comprovação para o exercício da espe­
cialidade".
Em nenhum dos 40 artigos (e respectivos parágrafos) do regula­
mento do Departamento Nacional de Mão-de·obra se cuida do pro­
blema cuja extensão e seriedade por certo ainda não tinham sido
pressentidas pelo legislador: a atualização profissional dos que ·
caíram desempregados por obsolescência tecnológica.
Mas, tanto a estrutura pedagógica montada pelo Departamento Na­
cional de Mão-de-obra com a colaboração do Ministério da Educa­
ção, como o espírito pioneiro das unidades letivas do SENAI e do
SENAC podem absorver facilmente a responsabilidade de reequipar
amplas massas de trabalhadores para as novas condições e imposi­
ções da técnica.
Aliás, o P I PMO (Programa Intensivo de Preparação da Mão-de­
obra) já cumpre uma larga faixa desse objetivo - bastando que
se criasse o serviço social direto, a ele agregado, de orientação aos
trabalhadores cujas habilitações em qualquer escala se tornaram
desnecessárias ou drasticamente perderam procura.
Uma prova dramática da validade dessa " recauchutagem " de cére­
bros para atualização de técnicas verificou-se quando, tendo que
empenhar toda sua juventude nas operações militares da II Grande

187
Guerra, o governo norte-americano recorreu à Universidade de Har­
vard para "estabelecer um rápido programa de readaptação de anti­
gos e aposentados e executivos para ajudar na produção bélica.
Os 'recauchutados' voltaram à escola, fizeram cursos rápidos e tor­
naram-se capazes de lidar com novos problemas e métodos típicos
das indústrias de fins militares. Desde então, o número de homens
de negócio, em nível executivo, que voltaram à escola em Harvard
atingiu 6.000 homens e 2 mulheres . Estavam, entre eles, m•litos dos
nomes mais importantes do empresariado norte-americano". (Ar­
mando Moraes Sarmento, "Como o Brasil poderá racionalizar o
esforço para sua arrancada", palestra inaugural do II Congresso
Brasileiro de Propaganda, 1 970, São Paulo.)
Outro importante reforço a esse esquema de assistência educacional
ao trabalhador tecnicamente desajustado poderá ocorrer com a inclu­
são nele do lamentavelmente pouco conhecido, mas eficiente meca­
nismo do PEBE, que já tem a seu crédito 723 .000 bolsas de estudos
concedidas a filhos de trabalhadores, a partir da S.ª à 8.ª séries do
1 .º grau, e em todas do 2 .0 grau - distribuídas através dos res­
pectivos sindicatos, de 1 966 (ano de fundação) a 1 972. Em 1 973,
foram distribuídas mais de 200.000.
Pela estrutura atual do PEBE, as bolsas que existem para o curso
secundário-profissional podem ser conferidas ao próprio trabalhador.
Seu número relativamente limitado impôs, até agora, que cada famí­
lia tivesse direito a apenas uma bolsa.
Daí a importância - e a urgência - de o governo enfocar o ângulo
até há pouco obscuro mas ameaçador da obsolescência - e con­
solidar numa entidade central orientadora o seu pronto-socorro edu­
cacional para aqueles a quem as circunstâncias puseram fora de
combate por inadequação de métodos, ou de instrumentação, mas
não por falta de interesse pela luta.
O desemprego por desatualização é inumano e injusto. E o meio
de impedi-lo não é sobrecarregar as folhas de pagamento com o ônus
da obsolescência incompetente, mas sim dotar suas vítimas com as
novas ferramentas intelectuais de calibre mais versátil, e adaptável
aos novos conceitos de cada profissão e às novas necessidades iecno­
lógicas de cada setor de produção ou serviços.

Sabemos que a generalização de obsolescências provocada pela


explosão de conhecimentos e sua imediata aplicabilidade técnica
ocorre por igual tanto a equipamentos e maquinismos, como aos
próprios trabalhadores.
Quanto às máquinas, elas podem ser rapidamente repostas, e sua
sucata refundida e tomada matéria-prima de novos engenhos. Logi-

188
camente, não é isto o que acontece ao equipamento humano. Este,
porém, toma-se cada vez mais amplamente afetado pelo envelheci­
mento técnico, numa velocidade que se agiganta devido à inexpli­
cável lentidão de raciocínio com que os governos e a comunidade
empresarial mesmo dos países mais desenvolvidos reagem aos desa­
fios do problema.
Nos mesmos subúrbios e praças onde se acumulam ex-trabalhadores
involuntariamente desempregados, desembocam as alamedas que
levam aos estabelecimentos-empregadores que, às vezes, naquele
exato momento podem estar pedindo até ansiosamente nos " qualifi­
cados" dos jornais, mão-de-obra qualificada.
Ao que parece, as lideranças nacionais mundo afora, acostumadas
a lidar com o problema do desemprego à base da crise de quanti­
dade econômica, não o alcançaram ainda em sua faceta de crise de
qualidade técnica.
Em mais de uma ocasião, em diferentes países, tem sido encontrada
uma situação de cara-e-coroa, com as ofertas de empregos qualifi­
cados freqüentemente empatando, ou até mesmo superando, o núme­
ro de pessoas desempregadas na região.
Mesmo que outros povos mais adiantados ainda não tenham tido
sua sensibilidade despertada pela constante distensão dessa face do
problema, o Brasil que já madrugou com o SENAI, o SENAC e o
PIPMO, pode antecipar-se, criando uma organização nacional de
reciclagem profissional, que poupe à Nação ter que criar albergues
para as suas vítimas da Tecnologia.
Ainda uma vez, a sabedoria humana estará voltando às suas fontes.
Pois, a doença social causada pela ciência também se cura por
essa vacinação com vírus novos da ciência.

189
8
educar para viver
- ou ensinar para ilustrar ?

•Poucas coisas haverá mais


desastrosas para os indivíduos, ou
para todo um povo, do que serem
educados para um modo de vida que
não existe.·

"Educatlon ln Technologlcal Society•,


Relatório dos 21 peritos mundiais
sobre a eficiência da educação técnica,
. UNESCO, 1952, pág. 10.

•Apesar de havermos copiado as


instituições políticas à América do
Norte, não lhe copiamos as
instituições educativas. Fomos, antes,
buscar inspiração na França. •
•Fora as 'escolas profissionais',
nenhuma outra escola brasileira
escapou ao espírito de educação da
'elite', profundamente arraigado em
nossa sociedade e agravado ainda
pelo preconceito contra o trabalho
manual, que nos deixou a
escravidão. •

(Anfslo Teixeira, Educação não é


privilégio, Llv. José Olymplo Editora,
1957, págs. 37 e 39.)
"De resto, as nossas escolas não
educam; instruem apenas, quando
instruem. Não confundamos
instrução com a Educação. S6 a
Educação cria forças vivas; a
instrução não pode servir senão
para dirigi-las."

Fernando Azevedo, A Educação na


encruzilhada", 2.• ed. (cap. •Abrindo
o Inquérito"), Edições Melhoramentos.

"O MEC, para introduzir um pouco


de profissionalização na escola
secundária, tem que valer-se de
circunl6quios como 'ginásio
orientado para o trabalho' a fim de
não ferir as suscetibilidades
'humanísticas' dos pedagogos."

Prof. Lauro de Oliveira Lima,


O Impasse na Educação, Editora
Vozes, 1969, pág. 300.

"( . . . ) como signo castrador de uma


escola que pretende esgotar a
personalidade do moço na
profissionalização."

Deputado Ulisses Guimarães, Discurso


de candidato à presidência de
República pelo MDB, na sessão
solene do Colégio Eleitoral, Brasflla,
IS/1/ 1974.
As autoridades brasileiras de Educação já fizeram a opção em favor
da "escola orientada para o trabalho" . Tal, porém, corno as chuvas
criadeiras, as coisas construtivas custam a atingir todas as raízes
da alma e do espírito de um povo. Por isto, é visível e acentuada
a resistência intelectual dos que desejam a continuidade da linha
de ensino puramente humanística, seguida há tantas décadas.
� curioso que essas restrições ou reservas aconteçam num país onde,
até bem pouco - quando seus escalões de alto comando enxamea­
vam principalmente de advogados e outros quantos beletristas -
se vergastava o "bacharelisrno ", corno expressão de um intelectua­
lismo hurnoso, mas estéril. Era a ele, à sua falta de objetividade
e de espírito prático, que se debitavam implacavelmente todos os
males e deficiências que então obstruíam o futuro da nação.
Tudo o que não se fazia, tudo o que nã0 se fizera, tudo o que
ficara apenas no papel - vinha de urna origem, que era quase um
estribilho, e, certamente, um anátema: " País dos Bacharéis" .
Quando, porém, o Brasil acorda para correr e põe-se a despojar-se
dos entulhos mentais ou dos preconceitos, surgem os que querem
soprar de volta o vento das idéias acomodadas, pleiteando a repo­
sição no mesmo lugar do pó que os acontecimentos do mundo
sacudiram.
Admitimos que essa insônia dos "espiritualistas" do ensino venha
do temor da laticinização geral das inteligências, no pão-pão-quei­
jo-queijo da luta pela vida.
A esse respeito, cabe aqui, rnilirnetricarnente, a lapidar explanação
de Jean Fourastié, em La Civilization de 1975 (Presses Universi­
taires de France, pág. 1 1 6) sobre receios $emelhantes que intran­
qüilizavarn seus compatriotas :
"Aturdido pelos fatos de nosso tempo, o francês médio, de cultura
tradicional, teme ver a civilização intelectual ser engolfada pela civi­
lização mecânica. Na realidade, é o contrário que irá acontecer;
pois o progresso técnico liberta o homem do trabalho servil; e,
também, porque, ao mesmo tempo que o liberta do trabalho servil ,
obriga-o ao trabalho do espírito. Nada será menos 'industrial' que a
civilização nascida da Revolução Industrial " .
Muitos dos intelectuais e scholars que ainda s e opõem - o u que,
pelo menos, desdenham - à "escola voltada para o trabalho" fica­
riam certamente desconcertados se lhes lembrássemos do parentesco

193
que tem essa atitude com a origem política da escola para o puro
ensino de amenidades, isto é, de humanidades .
O preconceito contra qualquer adestramento de crianças ou jovens
visando à profissionalização nasceu do fato de que esse era o único
tipo de educação que, na Europa multicoroada dos séculos XVI I I e
XIX, se permitia aos filhos do povo. O ensino geral - História,
Geografia, Filosofia, rudimentos de Ciência e Matemática - esse
reservava-se aos herdeiros do poder e das fortunas. Aqueles eram
os tempos em que também ao filho do sapateiro não era ensejado
ir além do borzeguim.
A má associação espiritual desse conceito de ensino agravou-se,
quando, por todo o mundo, inclusive nos EUA, ele passou a ser
parte predominante da "correção" ministrada nos reformatórios aos
pequenos delinqüentes.
Antes, porém, que o leitor avance uma conclusão sobre o que pen­
samos do ensino humanístico, convém ficar claro que sob nenhuma
hipótese desprezamos a necessidade, e também a . função fundamen­
talmente guiadora e fecundadora do feixe de conhecimentos, per­
quirições filosóficas e científicas ou exercícios intelectuais a que
se convencionou, por sua amplitude enciclopédica, chamar de hu­
manismo.
Seria heresia, senão obtusidade, eliminar de entre as necessidades
do espírito exatamente aqueles conhecimentos e lucubrações que
iluminam os caminhos do homem além do imediato e do cotidiano.
O que defendemos é aquilo que, felizmente, aí já está no cenário
das atividades educacionais brasileiras: o corajoso estabelecimento
da prioridade do ensino de sentido e aprendizado práticos, da ins­
trumentação profissional para a vida.
O humanismo tem o seu ·lugar devido e imprescindível, majestoso
mesmo, porém, no máximo simultâneo. Mas ainda que o colocásse­
mos totalmente como opção ulterior - aquilo que o indivíduo " pre­
cisa saber depois de já conhecer tudo" - sua força de imantação
é tão poderosa que o ser humano, abastecido dos primeiros estágios
da instrumentação intelectual, o buscaria por aquela atração natu­
ral que os caminhos iluminados oferecem aos que querem mais luz
- depois de já terem acumulado energia para a marcha.
Por mais espiritualistas que sejamos, por mais idealistas ou liberto�
das "minúcias vulgares " do cotidiano, não podemos desligar O:·
homem e o seu imenso plural - as classes, e os povos daquelas
---=-

necessidades primárias sem as quais ele cai na inação, no imobilis­


mo e no perecimento.
Avizinha-se do macabro, ou do teratológico, a insistência em man­
ter um cordial mas inarredável desconhecimento entre o que o cé-

194
rebro pensa e o que as mãos não sabem e, por isto, não podem fazer.
Neste caso, em se falando de uma nação, o divisor de capacidades
é tão profundo que de um lado, como parte pensante, ficariam todos
aqueles que acumularam um beletrismo de tal pureza e beleza que
pode ser ostentado nas montras e vitrinas das convenções e simpó­
sios internacionais, como apologia da nossa capacidade de "brilhar"
e de causar sinceros espantos.
De outro lado, ficaria o que sempre existira: a massa ignara, apa­
lermada, marginalizada do espetáculo da inteligência - porque não
o entendia - e marginalizada do progresso - porque não lhe de­
ram condições, nem as mínimas, para acompanhá-lo.

Um dos momentos mais esclarecedores do debate que antecedeu à


adoção do ensino profissionalizante constituiu-se no depoimento de
um dos destacados nomes da nova geração de educadores brasilei­
ros, o prof. Newton Sucupira, publicado na Revista de Estudos Pe­
dagógicos, sob o título "Conceitos básicos para uma filosofia do
currículo na escola secundária" . Nesse estudo, salientado por Gil­
dásio Amado em sua interessante plaqueta " Ginásio orientado para
o Trabalho ", afirmava o prof. Sucupira:
" Toda educação autêntica visando a formar o homem pleno há de
ser necessariamente humanista e liberal. Infelizmente, há uma ten­
dência a identificar educação liberal com certo tipo de humanismo
clássico, e associá-la com a época pré-industrial, pré-científica e pré­
democrática. Trata-se, no entanto, de anacronismo aristocrático, a
formação ornamental do espírito inadequado às exigências culturais
de nossos tempos e de uma sociedade democrática. E nas condições
da vida moderna, numa sociedade democrática, temos que pensar
uma educação liberal, uma formação humanista que, necessária como
processo de humanização do homem, supere a oposição clássica entre
o mundo da cultura intelectual e o mundo do trabalho, e se despoje
de qualquer aristocratismo ou implique quaisquer distâncias sociais."
Outra opinião nítida a esse respeito é a do prof. Lauro de Oliveira
Lima. " e necessário que os educadores se convençam de que a
Educação visa a um objetivo social e econômico bem definido, sem
o que aparecerá como simples movimento filantrópico. De fato,
é difícil para o educador colocar como objetivo de sua sagrada mis­
são meta tão materialista como a da preparação do homem para o
trabalho, depois de séculos de tradição em que a Educação visava
simplesmente à formação do espírito. (Lauro de Oliveira Lima, Tec­
n

nologia, Educação e Democracia, Editora Civilização Brasileir:a,


1 965, pág. 23.)
Por incrível que pareça, apesar de tudo que a Educação objetiva
deu a seu país e a seu povo, uma parte do professorado norte-ame-

195
ricano também padece dos mesmos " escrúpulos antimaterialistas " .
� o que registra Theodore W. Schultz, e m seu j á clássico O valor
econômico da Educação:
" ( . . . ) Os que superestimam a instrução, abrangendo a maioria dos
que são parte da instituição educacional, estão propensos a consi­
derar uma tentativa desse gênero (um ensaio sobre o valor econô­
mico da Educação) como uma intromissão que apenas servirá para
desvirtuar os propósitos culturais da Educação. No ponto de vista
deles, a Educação foge às injunções econômicas, uma vez que eles
a consideram "muito mais que uma operação contábil . " (0 valor
econômico da Educação ", Zahar Editores, 1 967, págs. 10 e 1 1 .)
Quem, desconcertantemente, segue por essa trilha é um pensador do
porte de Jacques Maritain quando, envolvido pela obsessiva pro­
blemática tão a gosto da inteligência francesa, de ensino agnóstico
versus ensino religioso, diz apenas que "a educação é uma arte,
e arte particularmente difícil ". (Jacques Maritain, Rumos da Educa­
ção, Agir Editora, 1 966, pág. 27.) Compreende-se, então, o porque
do desencontro entre a inteligência francesa - geralmente tão sen­
sível e lúcida - quanto aos rumos ou à função da escola.
Se mesmo em nossos dias, um escritor contemporâneo com o estre­
lismo de Maritain ainda pensava desse modo, atribuindo à Educação
um fim muito mais estético e moral do que prático e objetivo -
e essa é toda a tese de seu extenso livro - não admira que se pro­
longassem até nosso século, e quase até nossas décadas, aqueles pre­
conceitos que, em última análise, estabeleciam dois tipos de ensino
na velha Gália - para os meninos que iam ser gente, e para os que
não iriam sair do nada.
Ainda segundo Schultz, o preconceito contra o homus economicus
não se arraigou apenas em certos círculos mais dados ao puro abs­
tracionismo, ou ao contemplativismo inconseqüente, mas em alguns
dos próprios cientistas da produção da riqueza.
E Schultz, que é um dos grandes defensores da tese do investimento
no homem, ao falar do alto nível tecnológico atingido pelos traba­
lhadores dos países mais avançados, EUA à frente, vai até esta
conceituação:
"Os trabalhadores transformaram-se em capitalistas, não pela difu­
são da propriedade das ações da empresa, como o folclore colocaria
a questão, mas pela aquisição de conhecimentos e de capacidades
que têm valor econômico. " (0 capital humano, pág. 35.)
Tão logo o indivíduo se desfaz da opacidade da ignorância, ele pró­
prio começa a identificar quase instintivamente a efetividade da
Educação como instrumento de ascensão econômica e social para si,
e para os seus.

196
Daí em diante, ele se envolve num círculo de relações humanas e
circunstâncias sociais no qual o consumo de educação é crescente,
incessante e cada vez mais necessário.
Daí a afinnativa de Frederick Harbison e Charles A. Myers (Edu­
cação, mão-de-obra e crescimento econômico, Edição Fundo de
Cultura, 1 965, pág. 2 1 6) :
" O saber pelo saber é o nobre objetivo d e alguns raros eruditos,
mas o saber como preparo para empregos e carreiras é o objetivo
da vasta maioria do povo. Assim, as pressões sociais e políticas em
prol da Educação são acionadas por motivos econômicos. E por
esta razão, um sistema educacional que deixe de preparar as pessoas
para os empregos disponíveis acha-se em evidente desequilíbrio e é,
por definição, ineficiente. "
Harbison e Myers chegam a uma constatação extremamente sim­
ples, por sua espontaneidade e lógica: " Em alguns países, a procura
de bens materiais, tais como automóveis, refrigeradores e receptores
de televisão pode saturar-se. Mas a demanda de educação, pelo fato
de na mente popular ser a principal via de acesso a empregos e
carreiras, é quase insaciável. "

Com a Reforma d o Ensino (Lei n.º 5 .692) promulgada pelo governo


Médici (ministro Jarbas Passarinho), já na década de 70, o Brasil
adotou, após um lamentável atraso de 20 anos, a filosofia global da
"escola voltada para o trabalho" - profeticamente recomendada,
em suas linhas gerais, a todos cs povos do mundo, no histórico do­
cumento (Education in a Technological Society), dos 2 1 sábios
e educadores que a UNESCO reuniu em junho de 1 950, na França, e
entre os quais se achava o notável mestre brasileiro, prof. Lourenço
Filho.
Esse encontro de inteligências exponenciais de todo o mundo foi um
grande momento do espírito humano, pela humildade intelectual
com que foi conduzido e pelo milagre de síntese e objetividade a
que chegou.
Aqueles mestres de mestres sintonizaram seus pensamentos na faixa
de onda das precisões humanas, despojaram-se das pomposas togas
do individualismo, desenredaram-se das teias de doutrinas de qual­
quer matiz filosófico ou ideológico - e aviaram para uso dos go­
vernos de todos os países os elementos básicos da receita que
colocará o homem comum a salvo da endemia da miséria ou da
necessidade - em qualquer quadrante da Terra.
Após analisar minuciosamente as condições dos povos e dos países
padrões de cada estágio econômico-cultural, o sistema educacional
de cada um, e as repercussões inovadoras da tecnologia em todas

197
as áreas de ação do homem moderno - aquele colegiado, que mo­
destamente chamou a si mesmo de " Conferência de Peritos ", apre­
sentou sete pontos em suas conclusões sobre o que era essencial
fazer-se, genericamente, em todas as nações da Terra.
São sete pontos em que, como uma via de duas mãos, as palavras
trabalho e tecnologia entrecruzam-se permanentemente com Educa­
ção e ensino.
Eis as proposições dos delegados da UNESCO :

" 1 ) Torna-se necessário (haver) um planejamento social organi­


zado quando o sistema educacional do país visa a preparar sua
infância e juventude para o tipo de vida e de trabalho que eles
gostariam de ter e exercer.
2) Torna-se necessário desenvolver substancialmente a Educação
técnica em todos os níveis.
3) O atual con'teúdo prático da Educação geral (humanística) é
inadequado para atender às necessidades dos futuros cidadãos
de uma socir!dade tecnológica.
4) Por outro lado, o conteúdo cultural da Educação técnica apre­
senta-se, de um modo geral, inadequado e exige consideração
especial.
5) O treinamento para adaptação é um importante requisito na
era das mutações tecnológicas ultra-rápidas.
6) A Educação de moças e mulheres impõe uma atenção parti­
cular em face de seu duplo papel como trabalhadoras ou donas
de casa.
7) Torna-se essencial a adoção de modernos métodos administra­
tivos para que a Educação possa cumprir sua verdadeira função
na sociedade tecnológica. "

Dir-se-ia que depois da clareza, e da ênfase de uma mensagem -


que tem quase um sentido bíblico-jurídico pela isenção e elevação
com que doutrina e orienta - nada mais se precisaria acrescentar
para acelerar a efetividade, e a eficiência, da execução do que nela
se recomenda.
Entretanto, pelo menos no caso de nosso país, contramarchamos
cerca de 20 anos até adotar, através da recente Lei 5 .692, suas
linhas gerais; e ainda estamos longe de dispor dos meios, de todos
os meios integrais, necessários a fazer com que toda a infância
e a juventude brasileiras se beneficiem do conteúdo da tábua de
princípios que os 21 sábios da UNESCO colheram de seu concílio.
Urna das mais humanas conseqüências da tábua da UNESCO foi
a consagração da idéia do ensino integral, sem hiato, do começo

198
da infância ao fim da adolescência, e ao pináculo da juventude.
Por esse documento, fica visível a quaisquer governantes, às comu­
nidades e às entidades socialmente responsáveis que "deve-se com­
preender a Educação como um processo contínuo, por toda a vida" .
Emitido pelo mais alto cenáculo d e Educação jamais reunido, esse
parecer vem tendo mundo afora a força quase imperativa de uma
jurisprudência unanimemente acatada, ou seguida.
Graças a isto, a infância de nossos países - de países como o Brasil,
cujo governo aceitou, enfim, esse pesado desafio - ficará, assim
o esperamos, para sempre livre da tragédia social do hiato nocivo,
aquele período de vazio absoluto a que eram condena�os milhões
de escolares pobres, imediatamente após cursarem os 4 anos do
antigo primário. Bloqueados pelos altos custos do curso médio e
pelo impedimento legal de trabalhar em emprego permanente -
terminado o primário, os meninos entre 1 1 e 14 anos eram forçosa­
mente lançados aos azares do aprendizado das ruas que, no mais
das vezes, era o das próprias sarjetas.
Afigura-se tão absurda a existência do hiato nocivo que, dentro de
alguns anos, nenhum historiógrafo de nossa evolução cultural-social
vai conseguir compreender porque o ensino neste país apresentou,
durante várias décadas deste século XX, a espantosa e desumana
incongruência de ser institucionalmente grátis no primário, gravo­
samente caro no curso médio (pois eram raríssimos os ginásios fe­
derais ou estaduais) e novamente grátis na universidade.
Havia um quase humorismo trágico nesse esquema pavloviano do
Estado - ensino grátis-pago-grátis, pois assim ele dava aos alu­
nos pobres uma escada cujos degraus lhes retirava, irresponsavel­
mente, em meio da ascensão, para repô-los depois de os meninos já
se haverem extraviado, ou de terem caído.
Deve-se debitar à mesma disposição estúpida que gerava o hiato
nocivo a causa também da outra monstruosidade social, que era a
composição dos quadros universitários brasileiros, pelo menos até
1 968: segundo os levantamentos feitos pelo Grupo de Trabalho da
Reforma Universitária (nomeado pelo Governo Costa e Silva em
1 968/69), 53 % desses estudantes eram filhos da classe alta, e 39,2 %
da classe média. Apenas 7,3 % de acadêmicos brasileiros vinham
de famílias pobres. ( " A Universidade: a hora da Reforma" , Suple-
·
mento Especial em O Globo, 1 1 /3/69, págs. 3, 4 e 5 .)
Prenhe de autoridade, mas despojado de paternalismo, o Relatório
dos 21 sábios da UNESCO teve o poder de ajudar nossos povos e
governos a eliminar, sem grandes querelas ou perplexidades formais,
aquela fossa abissal que ameaçava a massa de nossa juventude -
e, mais ainda, o de colocar diretamente ao alcance dos moços o

199
melhor instrumental de preparação intelectual que a experiencia
internacional nos oferecia - a "escola voltada para o trabalho " .
Antecipando-se, por intuição, a o resto d o mundo quanto a o valor
do ensipo objetivo - os norte-americanos colocavam-no, porém, ao
alcance da juventude quase sempre somente no final de uma longa
peregrinação curricular que terminava nos colleges, dentro mesmo
das universidades. Não era fácil o acesso aos cow-colleges criados por
Abraham Lincoln (suas escolas de agricultura, assim ridicularizadas
pelos adversários) . Elas foram, aliás, das primeiras experiências em
larga escala de um ensino profissional global, do qual resultou uma
das raízes mestras da inundante prosperidade estadunidense: a ver­
satilidade de seu agricultor, "combinação de homem de negócios,
nutricionista animal, agrônomo, geólogo, economista e engenheiro" .
(" Agricultura norte-americana do futuro", Suplemento Agrícola do
Diário de São Paulo, 28/5/67, págs. 4 e 5.)
Mas os educadores e dirigentes norte-americanos dispararam, como
sempre, entre os que correm à frente, tão logo sentiram, em anos
recentes, o que a "escola voltada para o trabalho" poderia trazer
de corretivos ou de reforço para o seu . já extraordinário organismo
de ensino. Descobriram, de imediato, a objetividade da idéia, que
lá existia apenas em experiências isoladas, ou fechadas dentro de
umas raras instituições de ensino, precursoras.
Eis como o ensaísta estadunidense, Howard Young, descreve, em
estudo recentemente publicado ("EUA acharam solução para ensino:
escolas técnicas, O Globo, 30/3/7 1 , 2 .º caderno, pág. 6) o que ali
está se passando com o "ensino voltado para o trabalho" .
" O tipo de instituição educacional que apresenta o maior índice
de crescimentos nos EUA é a escola técnica-vocacional, que surgiu
há relativamente pouco tempo e veio preencher uma lacuna existen­
te nos sistemas educacionais do país."
Falando de seu êxito, da opção dos pais e jovens americanos pelo
ensino que a escola oferece, e do seu alto custo de manutenção,
informa Young:
"A necessidade de verbas é enorme, considerando-se os índices de
freqüência. O número total de inscrições nas escolas vocacionais
aumenta em proporção três vezes maior que na instrução como um
todo. Nos últimos 10 anos, as universidades apresentaram um índice
de crescimento de 98 % no volume das inscrições, enquanto que o
das escolas vocacionais foi de 234 % . Segundo o prof. Kenneth Hoyt,
diretor do Programa de Pesquisas em Especialidades Estudantis Ori­
entadas da Universidade de Maryland, esse crescimento está apenàs
no início."
Justificando o êxito do proselitismo dessas escolas, Young apresenta
sua razão imediata:

200
"O Bureau Norte-americano de Educação calcula que cerca de 50%
de todos os empregos disponíveis na década de 70 exigirão conheci­
mentos superiores aos ministrados nos cursos secundários, embora
inferiores aos de nível universitário.
n

Antes, porém, dessa autorizada afirmativa de um órgão com a res­


ponsabilidade do Bureau de Educação dos EUA, já um estudo sobre
o mesmo assunto, divulgado pela revista Time em 6/9/63 informava
que "o fato de Connecticut ter já 14 dessas escolas (vocacionais)
é uma razão por que esse Estado tem o mais baixo índice de jovens
desempregados" .

O "ensino voltado para o trabalho" vem, pois, cobrir uma área da


maior importância para a geografia econômica e social de todos os
povos.
O reconhecimento disto ocorreu quase a um só tempo mundo afora
- e atingiu até mesmo as mais herméticas e vetustas corporações
intelectuais, como a Universidade de Oxford que, após 8 séculos de
formar exclusivamente "o tipo clássico do cidadão inglês - fleug­
mático, elegante, distinto e snob, forte em humanidades mas sabendo
muito pouco ou nada de ciência e técnica ", decidiu, após uma pes­
quisa feita por 7 professores durante 2 anos " empenhar-se mais no
ensino de ciência e técnica, e modificar as normas de admissão para
permitir oportunidades iguais tanto a nobres e ricos como a plebeus
e pobres " . ("Oxford muda após 8 séculos " , Jornal da Tarde, São
Paulo, 1 3/5/66, pág. 7 .)
Uma outra instituição da inteligência e do establishment inglês -
a tradicional publicação - The Economist - dá o maior reconhe­
cimento ao que, nessa área, foi feito também na União Soviética:
" Esse avanço histórico da posição russa no mundo liga-se à segunda
coisa que a União Soviética pode justamente proclamar ter feito
com perfeição: educou seus jovens mais intensivamente que a maio­
ria das outras grandes potências ; acima de tudo, educou-os mais nas
ciências, que as populações não-científicas e culturalmente snobs
das democracias ocidentais negligenciaram gravemente, e freqüen­
temente se orgulharam de negligenciar. " (The Economist, "A Rússia
depois de Marx e Lenine " , novembro, 1 967.)
Rastreando sempre, com humildade e malícia, o seu progresso pelas
trilhas já percorridas por outros povos, o Japão farejou cedo a im­
portância vital do ensino médio como dispositivo tático - e colo­
cou-o em função da estratégia do seu grande salto para o desenvol­
vimento. Foram os seus extensos quadros de ensino médio - afir­
mou a prof.ª Edília Coelho em depoimento perante o " Seminário
de Educação e Trabalho " , promovido pelo Correio da Manhã em

201
dezembro de 1 970 - que permitiram realizar o " milagre japonês " .
Mas é d e novo n o panorama geral d a economia norte-americana que
vamos encontrar a correlação imediata e inconteste, quanto à influ­
ência capital da popularização e da facilidade de acesso ao ensino
médio como fator primordial da prosperidade.
Sob esse aspecto, ainda uma vez, a numerologia da vida norte-ame­
ricana oferece-nos algarismos que devem servir de meditação a todos
os povos que buscam o direito legítimo de alcançar melhores padrões
culturais e de desenvolvimento.
Na plaquete The Education Explosion, editada em 1 965 pela Ma­
gazine Publishers Association, são expostós dados fornecidos pela
Divisão de Pesquisas do Departamento de Comércio dos EUA, se­
gundo os quais o número de anos passados na escola pelo norte-ame­
ricano médio subira de 1 0,5 em 1 960 para 1 1 ,2 em 1 970, e deverá
atingir 1 2 , 1 em 1 975 - exatamente o ideal preconizado pelos téc­
nicos da UNESCO.
Outra informação preciosa para os povos que ainda estão mapeando
as linhas mestras do seu futuro: segundo os mesmos analistas do
Departamento de Comércio, em 25 anos ( 1 940 a 1 965), a percen­
tagem de norte-americanos que se apresentaram para a vida prática
com curso ginasial, ou secundário completo (2.º ciclo) foi 3 vezes
superior à do crescimento da população. Havia em 1 964, 64.000.000
de norte-americanos com esse grau de instrução e seu número deverá
subir para 85 .000.000 em 1 975.

Os fatos do mundo e da vida se atropelam para impor a evidência


de que a intromissão da Tecnologia em todas as tarefas de sobrevi­
vência do homem empurrou, para dentro e além das fronteiras da
puberdade, o período que é necessário para seu adestramento, com
vistas a uma participação razoável nas pelejas do dia-a-dia.
Essa imposição do mundo exterior tem a seu favor o coincidir com
as aberturas biológicas da adolescência, quando o homem anseia por
instinto descer definitivamente do berço protegido para a arena
aberta da vida. � nesse momento solar da existência - em que os
fatos da vida começam a excitar sua nascente personalidade - que
a pedagogia moderna lhe vem oferecer agora a opção de aprendi­
zado do instrumento ou instrumentos, de que necessitará para sobre­
nadar a maré montante da explosão de conhecimentos.
O maremoto da ciência e da técnica disparou de tal modo os sismó­
grafos dó mundo que os homens ou as nações de mentes só limita­
damente equipadas pisarão apenas paisagens de pobreza e miséria.
Pois a marcha do animal pensante agora já não é mais a pé, e por
cenários bucólicos ou tranqüilos. A era fantástica . que se entreabriu

202
para a espécie humana impõe que sejam moldados, às suas próprias
condições, os seres que terão o direito de usufruí-la.
Hoje, a comunicação via satélites acelerou a colocação, literalmente
acima das latitudes, dos acontecimentos do dia-a-dia na vida dos po­
vos, tornando-os preocupação ou lucubração do nosso cogitar coti­
diano. Como povo, ou corno indivíduos, ternos que nos engrenar
com a velocidade de todos - para manter já não apenas o diálogo
do comércio, mas a capacidade para decifrar a terminologia dos no­
vos descobrimentos científicos e para acompanhar a cronologia
dos seus imediatos aperfeiçoamentos. Pois, nos tempos modernos,
a idade da pedra entre um povo e outro já não fica mais a cinco
mil anos de distância, senão a quatro ou cinco decênios apenas -
ou seja, a estagnação por urna ou duas gerações.
Mas a esta altura do mundo, com tantas luzes difundidas de todas
as formas, os caminhos do homem comum estão gizados com muita
clareza pelo raciocínio objetivo dos sábios e pela própria evidência
pedagógica dos fatos.
As lições e os exemplos sobram, para prevenir contra o descaminho
ou a derrota para o insucesso. A esfinge tecnológica fornece ela pró­
pria a equação educacional para os assoberbantes problemas que
impõe a cada ser humano . Apesar de todas as epopéias, os 800 mi­
lhões de analfabetos do mundo não são seres mortos. A tecnologia
pedagógica tem os elementos para acordá-los aceleradamente da ca­
talepsia em que vegetam.
Quando quer, o homem pode corrigir a invelocidade imobilizadora
da estagnação cultural. Aí está o Japão, gizado corno " país bárbaro"
nas cartas geográficas de 1 850, para provar o que pode fazer não
um indivíduo isolado, excepcionalmente dotado, mas até mesmo um
povo inteiro, para adiantar o relógio da História.

Corno documento de comprovação da tendência profissionalizante


no desenvolvimento de urna nação, primeiro em progresso quase
lento e, depois, acelerado - e com a finalidade de fornecer urna
análise didática e panorâmica das necessidades da Educação no
mundo contemporâneo - o Relatório dos sábios da UNESCO
reproduz muito a propósito, após suas " Conclusões . Finais", um
gráfico compi fado de dados oficiais americanos por A. Kahler e
E. Hamburger, e divulgado em seu Education for an Industrial Age,
1 948, pág. 26. Esse gráfico comprova a flutuação e mobilidade dos
percentuais de homens e mulheres ocupados nas atividades econô­
micas básicas dos EUA - país obviamente tomado como padrão
por causa do seu desenvolvimento.
Dali extraímos mais urna lição cujo conteúdo cabe muito bem con­
siderarmos neste capítulo: a avassaladora " liberação de braços ocor-

203
rida ao longo de um século, das ocupações do campo e correlatas
para as da cidade, ensejada sem dúvida pelas profundas alterações
tecnológicas introduzidas na agricultura estadunidense.
Segundo o gráfico de Kahler e Hamburger, em 1 840 nada menos
que 77,6% dos norte-americanos se ocupavam em atividades agrí­
colas, madeireiras e de pesca. Cem anos depois, em 1 940, apenas
1 8,3 % se ocupavam com estes mesmos misteres.
Ao contrário, um dos mais expressivos percentuais de crescimento
numa mesma zona de atividades ocorreu nas áreas do comércio em
geral dos transportes e das comunicações: os algarismos subiram
de 4,3 % de norte-americanos ocupados nessas tarefas em 1 840
para 22,9% em 1 940.
Essa constatação - a simultaneidade da enorme queda em percen­
tuais de trabalhadores no campo com o vigoroso crescimento do
número dos que trabalham "no comércio, transportes e comunica­
ções" - leva-nos a uma meditação maior sobre uma sugestão que
o seu autor, o professor paulista Roque Spencer Maciel de Barros
modestamente considerou um "disparate" quando descreveu o seu
"O Ginásio da Utopia" (em uma série de cinco artigos publicados
no Jornal da Tarde de São Paulo, de 1 8 , 1 9 , 22, 23 e 24/5/67) .
Fazendo uma análise da reforma do ensino médio em andamento, o
prof. Spencer lançou, a nosso ver, aquilo que poderá ser uma sólida
e pertinente terceira avenida de iniciação profissional no 1 .º ciclo,
ao sugerir que nele se inclua um conjunto de quatro línguas estran­
geiras, as quais seriam ensinadas a sério nesse período escolar.
Depois de defender a óbvia e capital importância de um mais inte­
ligente e intenso aprendizado da língua pátria, o prof. Roque Spen­
cer assim justifica sua idéia ("O Ginásio da Utopia" - I I ) :
" Faremos uma afirmação, agora, que vai parecer u m disparate ao
leitor: pedimos-lhe, porém, desde já, que não s.e assuste e continue.
No ginásio da utopia serão ensinadas ao aluno quatro línguas estran­
geiras e, o que é mais importante, ele deverá aprendê-Ias, coisa que
não acontece com o nosso ginásio, que pode ensinar-lhe até vinte
sem nenhum problema, já que ele não aprenderá mesmo nenhuma.
Pensamos, já que o nosso ginásio é brasileiro, no ensino do Francês,
do Italiano, do Inglês e do Alemão, idiomas básicos da cultura oci­
dental. Não precisamos ensinar-lhe Espanhol: ele o aprenderá sozi­
nho como todos nós. O leitor não está acreditando? Mas por quê?
Por que é que um jovem que aprende Inglês, pelo menos o basic
English, em 3 meses, em um sem número de cursos, não pode apren­
dê-lo na escola? Trata-se somente de transportar os métodos aí usa­
dos para o ginásio da utopia . "
E o prof. Spencer aponta a metodologia a ser usada:

204
"E, com esses métodos, com os recursos modernos para o ensino
de línguas, ele aprenderá sucessivamente, em cada ano, o Inglês, o
Francês, o Italiano, o Alemão, na ordem que os técnicos que plane­
jarem o ginásio da utopia considerarem mais conveniente. E esse
aprendizado básico irá sendo enriquecido, ano a ano, pelo uso de
textos didaticamente organizados e com dificuldades graduadas, nas
matérias de " conteúdo" do ginásio. O ensino das línguas deverá estar
entrosado com o ensino dessas matérias de " conteúdo", de maneira
orgânica. É óbvio que isso exigirá toda uma nova programação de
livros didáticos, uma renovação dos conhecimentos, do professo­
rado, etc."
Com o contínuo movimento da curva de decréscimo de "interesse"
(na realidade, decréscimo da necessidade de mais mão-de-obra) pelos
labores do campo, e a igualmente contínua ascensão da curva de op­
ção pelas atividades de comércio, transportes e comunicações - o
gráfico de Kahler e Hamburger põe diante de nossos olhos a evi­
dência de que a modesta " utopia" do mestre paulista tateava numa
rota à qual SQ faltava a bússola comprobatória daqueles dados -
para sentirmos que aí está um caminho novo, atualíssimo, cujos cla­
ros horizontes finais oferecem as luzes vocacionais e profissionais
que muitos buscam.
A experiência de cem anos da nação que mais progrediu no mundo
leva-nos a pedir para a sugestão do prof. Roque Spencer a mais
cuidadosa consideração dos homens e mulheres destacados pelo
governo federal para a alta responsabilidade de definir e renovar
periodicamente as mais importantes linhas estratégicas que esta na­
ção deve seguir daqui para o futuro - as do ensino em todos os
graus.
Não é preciso salientarmos o quanto o conhecimento simultâneo da­
quelas quatro línguas de intenso intercâmbio na vida econômica
e intelectual - está ligado às atividades crescentes de comércio,
transportes e comunicações, diretamente para nós brasileiros, ou
para quaisquer povos. Essa interligação é tão óbvia que dispensa
a apresentação dos argumentos.
Se alguma dúvida houvesse sobre a validade do manejo seguro de
iínguas como instrumental de rendimento econômico, bastaria olhar­
mos apenas um dos ângulos de sua utilização: o panorama do mun­
do ensandecido pela saudável intranqüilidade peripatética do turis­
mo para todos os fins - dezenas de milhões de indivíduos, sempre
em novos milhões, açulados pela prosperidade e pela curiosidade,
atravessando todas as fronteiras, buscando ver, conhecer, comprar e
divertir-se.
Portanto, aqueles jovens que iniciarem a vida com um bom domínio
dos idiomas sugeridos têm assegurado um amplo patamar, de onde

205
poderão partir para novas ascensões e progressos - c:xatamentt>
dentro da filosofia que orienta toda a estrutura do ginásiu voltado
para o trabalho.
Por outro lado, a observação do gráfico de Kahler e Hamburger
induz-nos a uma outra meditação ou advertência: a redução da de­
manda de braços para o campo - conseqüente da maior produtivi­
dade ensejada pela tecnologia - deve alertar-nos contra um possível
exagero de ênfase no ensino no 1 ciclo, de matérias ligadas às ati­

vidades agrícolas.
Como já dissemos, o gráfico de Kahler e Hamburger é um panora­
ma do século que vai de 1 848 a 1 948, e engloba, na área que des­
tacamos, atividades "agrícolas, madeireiras e de pesca " . Porém, um
estudo mais recente (" Ensaio sobre Educação ", Revista Time, 6/9/
63, pág. 42) informava que os indivíduos que dedicavam tempo
integral às atividades exclusivamente agrícolas já estavam reduzi­
dos a apenas 6% da força de trabalho estadunidense.
Advertimos: longe de nós a estupidez de pleitear que, no 1 .º ciclo,
seja abandonado o aprendizado ligado à lavoura ou à pecuária
nas regiões em que isto for cabível e necessário. Apenas devemos
conter-nos de um exagero ou extravasamento, de fundo virgiliano
- de uma romântica "marcha para o campo" - quando a capa­
cidade e a realidade tecnológicas já nos dispensaram da terrível
insônia que nos causava o hoje desbotado espantalho do "êxodo
rural" .
Para quem suponha que estejamos exagerando esse exagero de ensi­
no agrícola : no " Seminário de Educação e Trabalho ", promovido
pelo Correio da Manhã, do Rio, em novembro de 1 970, foi apre­
sentado o case-history de um dos primeiros "ginásios orientados
para o trabalho ", o Colégio Capitão Lemos Cunha, situado na
Ilha do Governador na Guanabara, e integrante dessa admirável
iniciativa que é a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade.
Seguindo automaticamente a orientação superior inicialmente rece­
bida, a direção do colégio informava aos demais participantes do
seminário que:
" Todos os alunos do primeiro e segundo anos ginasial têm aulas
de Português, Matemática, História, Geografia e uma língua, além
dos trabalhos de oficinas gráficas, técnicas agrícolas (existem hortas
no colégio, um canteiro para cada turma), artesanato, educação para
o lar (para meninas) e carpintaria (só para meninos). Em 1 97 1 ,
haverá, também, ensino agropastoril. "
Era na Ilha do Governador, baía da Guanabara, cidade do Rio de
Janeiro. Sem dúvida, mostrava-se ao auditório o que era o cumpri­
mento eficiente e rápido de uma inovação progressista. Ninguém
hesitará, porém, em dizer que, apesar de o ex-Estado da Guanabara

206
ter uma pletórica Secretaria de Agricultura, nem 0,5 % de sua po­
pulação vive ou viverá da venerável ocupação de plantar batatas.
( " � desigual a performance econômica do Rio. Enquanto 79% da
renda são gerados pelo setor de serviços e comércio, 20% cabem
ao segmento industrial de nossa economia e apenas 1 % ao setor
agrário. " O Globo, " Novo pólo a Oeste ", 8/8/ 1 973, pág. 1 .)

As evidências favoráveis ao "ensino para a vida" são tão indiscutí­


veis que só por uma razão se compreende ter a escola permanecido
mesmo contemporaneamente como um centro de apenas declama­
ção: são os ônus materiais de torná-la também uma oficina, não
só pelos custos do equipamento e material para o aprendizado, mas
igualmente pelos salários dos novos mestres, os especializados, acres­
cidos a seu corpo docente.
O governo federal fez a Lei 5.692 - que deveria ser cumprida
principalmente em âmbito e sob responsabilidade estadual. Mas
não deu o dinheiro, nem "a conversa" necessária, deixando tudo
por conta da consciência e da pecúnia das províncias.
Desse modo, o ensino profissionalizante foi jogado abruptamente
contra as duas forças que marcam mais fundamente o homem e
suas instituições: a inércia espiritual e a inércia material.
No momento de promulgação da Lei 5 .692, perdeu-se uma grande
ocasião de realizar aquela sugestão (e velha queixa) de vários se­
cretários estaduais de Educação: convocar os próprios chefes dos
governos regionais para ouvirem de viva voz, do Presidente ou do
Ministro, que aquela lei era para ser cumprida.
Como é o governo federal quem legisla sobre todas as áreas ao
ensino, vem acontecendo uma distonia freqüente: um está plane­
jando mais escolas, quando o outro pode estar votando dinheiro
para mais estádios ou para mais autarquias empregatícias.
Além de tudo, tratava-se realmente de uma intromissão global na
pobreza e na precariedade das nossas escolas - acima, na verdade,
muito acima da capacidade da maioria esmagadora dos tesouros esta­
duais.
A simples integração primário-ginásio, para estabelecer os 8 anos
do 1 .0 ciclo, ainda ( 1 974) não fora levada a efeito nem mesmo num
Estado como São Paulo.
Em alguns dos seus principais municípios, o quadro era o seguinte,
segundo O Estado de São Paulo, de 1 3 / 1 / 1 974 ( " Integração da es­
cola média, realidade distante", pág. 29) :
- Em Presidente Prudente, havia apenas duas escolas integradas
para um total de 33 do antigo primário; em Lins, havia 1 3 7 escolas
primárias e nenhuma integrada; em Ai;açatuba, só 36 primárias,

207
sem integradas ; em Ribeirão Preto, 9 integradas, para 239 do velho
tipo; em São José dos Campos, 7 integradas e 342 não; em Taubaté
5, contra 3 1 5 ; em Cruzeiro, 5, contra 1 90; em Santo André, 22
escolas integradas e 34 não; em Guarulhos, 20 integradas e 76 não.
Isto é, quase por toda parte, as crianças paulistas - e as de muitos
outros Estados - continuavam a fazer os seus quatro anos de primá­
rio e, depois, iam vagamente "para o ginásio", em outra escola.
Pode-se avaliar como foi cumprida Brasil afora a (onerosa) lei do
ensino profissionalizante por este depoimento, levado oficialmente
à própria UNESCO pelo INEP:
" O material didático, instrumento quase tão importante quanto a
formação profissional do professor, tem sido ignorado até hoje,
até mesmo nos grandes centros urbanos. Em 1 964, o Estado do
Rio Grande do Sul gastou um cruzeiro por aluno com material
didático." (" Grave a situação do ensino" , Depoimento do prof.
Carlos Corrêa Mascaro, diretor do Instituto Nacional de Estudos
Pedagógicos (INEP) , como delegado do Brasil à reunião de mes­
tres, da UNESCO, realizada em Paris de 4 a 1 5/ 1 2/ 1 967; Resumo
de Magda Sparano, O Estado de São Paulo, 3/ 1 / 1 968, pág. 6.)
Mas o exemplo, sobre todos chocante, ocorria na própria Guana­
bara, e já diretamente com a execução, ou melhor, a não execução
da lei, quase 5 anos após sua promulgação:
"O problema de falta de professores das disciplinas profissionali­
zantes e de material de ensino para as aulas práticas de laboratório
e oficina se verifica em todos os 27 colégios estaduais de 2.º grau.
"O ensino profissionalizante, conforme obriga a lei da reforma do
ensino, é uma das formas mais caras de educação e consome, nas
aulas práticas, grande quantidade de material que exige imediata
reposição. Na rede estadual, os colégios estavam contando com a
colaboração dos pais através da taxa de Caixa Escolar, mas depois
que o Governador determinou que qualquer contribuição tinha que
ser voluntária, a maioria se recusou a contribuir, o que dificultou
a manutenção dos colégios. " (" Alunos da Escola Visconde de Mauá
se preocupam com a falta de professores ", Jornal do Brasil, 1 6/8/
1 974, pág. 1 0.)
Ao que parece , em muitos casos, a vigência do ensino profissionali­
zante precisará sem dúvida de forte apoio financeiro federal. Vê-se,
porém, que em outros casos é questão de murro na mesa.
Quanto à doutrinação por parte do governo federal junto aos go­
vernos estaduais, esta deve ser feita, e repetida - pois é evidente,
pela famosa queixa dos secretários estaduais de Educação, que
nessa área está faltando sintonia quase total entre Brasília e as outras
capitais - pois para os banquetes que a União quer que sejam
dados, muitas vezes as dispensas estão vazias. Ou as cabeças.

208
No II Plano Setorial do Ministério de Educação e Cultura para o
período 1 975- 1 979, "a segunda prioridade do MEC é a expansão e
melhoria da rede de ensino de 1 .º e 2 .º graus, com orçamento pre­
visto para 2 bilhões e 33 1 milhões de cruzeiros " . (" Plano setorial
do MEC prevê orçamentos de 1 975 até 1 979 " , O Globo, 22/9/ 1 974,
pág. 1 9.)
Apesar de apontada como " segunda prioridade" nos orçamentos do
MEC · (a primeira diz respeito ao ensino superior) , a assistência às
unidades da Federação no esforço de construção, melhoria das ins­
talações físicas da rede de ensino para efetiva implantação do ensino
de 1 .º grau vem como o objetivo número um, dos que serão alcan­
çados no período 1 975-1 979.

Antes de o governo federal ter-se dado conta que a maioria dos


Estados não tem condições de montar sozinha a grande máquina do
ensino profissionalizante, surgiram duras críticas que apostrofavam
o "arremedo " desse ensino que se estava fazendo nas escolas país
afora.
- Hoje, formamos · técnicos em motores de explosão que daqui a
dez anos estarão ultrapassados - ironizou um mestre.
Mas observamos nós, daqui a dez anos, com a velocidade dos novos
conhecimentos humanos, tudo também poderá estar ultrapassado.
O que a nova escola visa é familiarizar o jovem com aquelas ativi­
dades que vai encontrar na vida, e o que nelas predominantemente
se usa e faz. Lógico que não se trata de uma graduação. Mas é a
abertura do conhecimento, da intimidade com a técnica ou os ele­
mentos básicos para o exercício das vocações.
Outra restrição:
- O ensino profissionalizante só deveria surgir em um nível pos­
terior à escola secundária.
Esta objeção, inocentemente, é elitista. Pois desfavorece a maioria
dos estudantes, que são pobres - e não terão condições de ir
além do 2 .º ciclo. E pior: ignora a monstruosidade social que era
o "hiato nocivo".
Aliás, a propósito de observações desse tipo, bem mais acrimoniosa
- feita por um candidato a presidente da República, citada no pór­
tico deste capítulo - escreveu o ex-ministro Jarbas Passarinho:
" Há um repúdio generalizado à escola propedêutica do passado,
em que tudo se preparava para o topo, para o patamar da Univer­
sidade. Como no Brasil até 1 964 o rendimento do sistema não ultra­
passava 1 , 1 % , isto significava que, de cada 1 .000 estudantes que
iniciavam um curso primário, só 1 1 atingiam a Universidade e rece­
biam o grau. Todos os demais - e eram 989 - perdiam-se ao largo

209
dos estágios intermediários, feitos com vistas somente à Universi­
dade. A sociedade não perdoava essa imensa maioria de fracassados,
que passava a disputar empregos de baixa retribuição salarial. "
( J arbas Passarinho, " A reforma e o s equívocos", O Estado de
São Paulo, 20/ 1 / 1 974, pág. 6.)
À pugnacidade de suas palavras, o ex-ministro Passarinho poderia
ter acrescido as observações sobre o mesmo tema feitas também por
um ex-ministro, o sr. Roberto Campos, em depoimento perante a
Comissão Parlamentar de Inquérito sobre Educação, em 19 de se­
tembro de 1 968.
O ex-titular do Planejamento no governo Castello Branco salientou,
então, "a importância de se dar ao ensino secund�rio um 'valor ter­
minai '. f preciso tornar a escola secundária um estágio terminal
para uma grande massa da população. Mesmo no país que mais
desenvolveu o sistema educacional e universitário, os Estados Uni­
dos, apenas 43 % da população na faixa etária de 21 a 24 anos
ascende à Universidade. O restante fica ao nível do primário ou
do secundário. Os outros 2 países de maior sucesso em levarem
mais jovens à Universidade são o Canadá (onde 26% dos jovens
chegam às faculdades) e a Rússia (onde 24 % chegam à Universi­
dade) ".
Um outro ângulo do choque de responsabilidade que deve estar
acontecendo a certos setores do magistério no país, após a opção
nacional pelo ensino profissionalizante, é que todos estavam acos­
tumados ao monótono panorama de última pobreza do miolo de
nossas escolas - um grande número delas, aliás, com apenas uma
sala de aula.
Por isto, a decisão é muito mais histórica do que o que talvez tenha
sido pressentido no momento em que foi tomada.
As gigantescas demandas do ensino profissionalizante são, por si só,
um outro argumento quanto à objetividade e à variedade de alter­
nativas que o organismo escolar passará a oferecer à infância e à
juventude do país.
Só uma nação que deseja de fato que as oportunidades de saber,
de saber-fazer, sejam democratizadas para todos os filhos do povo,
iria tão longe no compromisso de realizar esse ideal dentro desta
geração.
Com os pesadíssimos encargos do ensino profissionalizante, o go­
verno talvez tenha marcado um objetivo além de sua rota. Mas
fez com isto uma sangradura definitiva no pantanal do hiato nocivo.
No calendário das idades de nossa gente, não haverá mais essa terra­
de-ninguém, onde dezenas de milhares se perdiam para sempre, e
onde milhões viam apodrecer suas esperanças.

210
9
bolsa nacional de talentos
o regulador do mercado
tecnológico

•( . . . ) não se escolhe o que se


desconhece, nem se estuda o que
não se ensina. "

Padre José Vasconcellos, presidente do


Grupo de Trabalho que elaborou o
anteprojeto da Reforma do Ensino
(Lei n.0 5.692). ("Documento I l i ",
Correio da Manhã, 26/ 1 1 / 1 970,
pág. 9.)
·universidade - lugar de produção
de tecnologia; instancia de re/lexão
sobre as condições e o sentido do
desenvolvimento.•

Da "Definição de Prlnclplos", do
Relatório do Grupo de Trabalho da
Reforma Universitária, Julho de 1968
(Governo Coata e Silva), edição IBGE.

•( . . . ) o capital humano tem estado


aumentando a um indice
substancialmente mais alto que o
capital reproduzivel (não humano).•

Theodore Schultz (0 capital humano,


Zahar Editores, 1973, p4g. 38.)
Como um definitivo serviço prestado ao desenvolvimento, e sobre­
tudo à democratização do ensino superior no país, o governo Costa
e Silva instituiu a Reforma Universitária, tomada lei em fevereiro
de 1 969, e vazada nos estudos e nos anteprojetos preparados por
um Grupo de Trabalho composto de cidadãos capazes e ilustres,
indicados pelo ministro Tarso Outra.
(Aliás, os membros desse Grupo de Trabalho - todos professores
universitários - tiveram a grandeza moral de sugerir a extinçã0
de um direito feudal que sobrevivia na vida pública e intelectual
brasileira: a cátedra, vitalícia e irremovível
- § 3.0 do artigo 24,
capítulo I I , do anteprojeto.)
Vamos, porém, ao tema deste capítulo.
Um dos primeiros artigos da lei que resultou desse anteprojeto, de­
termina que " será negada autorização para funcionamento de uni­
versidade instituída diretamente ou estabelecimento isolado de ensi­
no superior quando, satisfeitos embora os mínimos requisitos prefi­
xados, a sua criação não corresponda às exigências do mercado de
trabalho em confronto com as necessidades do desenvolvimento na­
cional ou regional. "
Esta e muitas outras medidas, atitudes ou declarações mostram que
os governos recentes estão preocupados com o assunto da pletora
de titulares de determinadas profissões e, por conseqüência, preo­
cupados também com a situação inversa.
Numa análise de quase 10 páginas em que o editorialista da revista
Veja enumerava as razões da Reforma do Ensino Médio (htura Lei
5 .692), cujo teor o presidente Garrastazu Médici e o seu ministro
da Educação, Jarbas Passarinho, antecipavam naquela semana à
Nação como um dos "projetos-impacto" do seu governo, havia a
seguinte observação:
" Mas as informações colhidas sobre a oferta de vagas para profis­
sionais de nível médio - através das quais serão estruturados os
currículos de formação profissional - não parecem seguir ainda o
rigor científico pretendido pela reforma: numa modesta sala, em
Belo Horizonte, diariamente, o professor responsável pela formação
de técnicos de nível médio no Estado lê os jornais, recortando cuida­
dosamente os pequenos anúncios de emprego. � seu sistema para
computar as ofertas de emprego e as oscilações do mercado de tra­
balho mineiro. Por enquanto, nem no nível federal nem no estadual

213
existem avaliações precisas das ofertas de emprego. " ("Na nova
escola, aulas de trabalho ", Revista Veja, 30/6/7 1 .)
Exatamente dois anos depois, jornais do Rio de Janeiro publicavam
uma síntese da conferência que o prof. Moniz de Aragão, ex-minis­
tro da Educação, e então presidente do Conselho Federal de Cultura,
fizera na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Paraíba
e na qual aquele mestre, após assegurar não haver "problemas de
excedentes nas universidades brasileiras ", opinava que "o que há
é uma opção monótona por Medicina ou Engenharia ". Disse não
entender porque outras profissões não são procuradas, como Admi­
nistração, Veterinária ou Enfermagem, das quais o país tem tanta
necessidade. (0 Globo, 29/6/7 1 , pág. 4.)
O artesanal trabalho que o dedicado professor mineiro executava
com humildade e paciência, e a sincera perplexidade que urri ex­
ministro da Educação e um dos mais atuantes educadores brasileiros
confessara como ângulo do mesmo assunto, são algumas das cotidia­
nas e angustiosas manifestações de desorientação sobre o problema
do levantamento das demandas profissionais no país.
Registre-se, também, nesta mesma área, o grande desapontamento
que colheu o economista e professor Luís Arrobas Martins, que,
como secretário sucessivamente do Planejamento e da Fazenda do
governo Abreu Sodré, participou diretamente do esforço pela am­
pliação do sistema escolar do Estado de São Paulo.
Escreveu ele, num estudo sobre o assunto (" Recursos humanos e
Desenvolvimento", Panorama Econômico, O Globo/ APEC, 1 2/3/
7 1 , pág . 1 3) :
" A rede paulista de ensino médio s e expandiu extraordinariamente,
de 1 960 a 1 968. Nesse período, as matrículas se elevaram de 242.302
para 95 1 .52 1 , isto é, 280 % , enquanto a população entre 10 e 1 9
anos d e idade s e terá elevado, n o máximo, d e 5 0 % (não h á dados
muito seguros).
"Entretanto, esse louvável esforço para a criação de mão-de-obra de
nível médio - talvez a mais urgentemente requerida hoje pelo
Estado de São Paulo - não correspondeu, quanto à qualificação,
às reais necessidades do Estado, neste momento: 70 % dos matri­
culados em 1 966 se inscreveram em cursos do tipo 'acadêmico', isto
é, preponderantemente 'humanísticos', 'clássicos', 'literários', ' teóri­
cos', 'abstratos', mesmo livrescos e retóricos, segundo o veza tradicio­
nal de nosso ensino secundário. Para os cursos técnicos de grau mé­
dio, restaram apenas 30% dos adolescentes paulistas. Dentre estes,
25% se dirigiram aos cursos comerciais e normais, bem próximos
dos secundários nas poucas qualidades e nos muitos vícios, sobrando
a insignificância de 5% para os cursos industriais e agrícolas. "

214
A desinformação, que envolve até mesmo importantes autoridades
diretamente ligadas aos nossos mais altos dcalões do ensino, é a
origem da decepção publicamente lamentada pelo ex-secretário de
governo do Estado de São Paulo, e também dos desencontros e con­
traditas que surgem freqüentemente na imprensa, entre quantos ten­
tam avaliar necessidades setoriais, regionais ou nacionais de mão-de­
obra média ou altamente qualificada, inclusive a dos chamados
"profissionais liberais " .
N o seu caderno d e " Educação ", a Folha de São Paulo ( 1 6/7/72,
pág. 1 8) , após descrever o que eram os cursos da Faculdade de
Engenharia de Operação, do novo Instituto Politécnico, da Capital
paulista, estampava, entre outras declarações do diretor desse esta­
belecimento, engenheiro Francisco Antunes, o seguinte:
"O que se verifica no Brasil é que a mocidade carece de informações
adequadas para o exercício de qualquer profissão, ou seja, oportu­
nidades, salários, índices de saturação, etc."
" Preocupado com o deficit de engenheiros em 1 980 - que, segundo
o Ministério da Educação, será de 85.000, mas segundo o dr. Antu­
nes será de 1 60.000 - ao mesmo tempo que a Comissão Regional
de Engenharia diz que haverá um superavit - o diretor do Insti­
tuto PolitécniCo pergunta qual a liderança que se pode oferecer à
mocidade."
Nesse sentido, um clamor direto, geral e dramático foi colhido pela
equipe de entrevistadores organizada conjuntamente pelo Instituto
Nacional de Estudos Pedagógicos, pela Divisão de Aperfeiçoamento
do Magistério, pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais e
pelo Ministério da Educação - com o fim de ouvir alunos de 1 1 5
estabelecimentos - 23 federais e estaduais e 92 particulares, de
cursos clássico e científico, na Guanabara. (" Medicina e Engenharia
são as profissões preferidas pelos estudantes cariocas " , jornal do
Brasil, 2/3/69, pág. 3 3 .)
Apesar de um grupo razoável de estudantes (foram ouvidos 3 .7 1 7)
mencionar sua franca opção por Medicina ou Engenharia, o rela­
tório dos pesquisadores indicava em suas " Apreciações finais" -
inclusive sob a observação " Isso é relativamente grave" - que " a
maioria dos estudantes do 2 .º ciclo do nível médio demonstra igno­
rar as alternativas de profissionalização, e a diversificação de cursos" .
O relatório prossegue:
" - Reforça a suposição de que as opções de trabalho proclamadas
pelos jovens não são, em verdade, claras e objetivas, resultando
menos do seu conhecimento da realidade, do que de estereótipos
inculcados no seio da família ou de outros círculos sociais de que
participa o adolescente, fora da escola."

215
Os próprios alunos afirmaram, nas observações que lhes per­
mitimos apresentar ao fim do questionário, que pouco ou nada sa­
biam a respeito das oportunidades futuras de trabalho e estudo, sendo
freqüentes as solicitações para que as autoridades do ensino pro­
porcionassem a eles todos os esclarecimentos sistemáticos acerca do
assunto. " (0 grifo é nosso.)
Ao final do relatório, a equipe de técnicos responsável pela análise
dos dados reunidos - srs. Jaime Simões de Aguiar, Sérgio Guerra
Duarte e sra .. Maria Laís Mousinho Guidi - fazia a sugestão no
sentido de ser 'criado, junto às escolas, "um serviço permanente e
eficaz de orientação profissional para todos os estudantes do curso
secundário ".
Tão negativo e contraproducente quanto essa hesitação entre os
caminhos - ou a falta destes - é o derrotismo que emana de
reportagens apressadas, nas quais se sente uma preocupação de usar
a� cores mais dramáticas partindo de informações como " Faculdades
formam 28 mil, mas to mil não têm emprego ", gritadas em man­
chete, em jornal de grande categoria intelectual. Era o segundo dia
do mês de fevereiro - com um mês, portanto, após a época normal
das formaturas - e já o redator vislumbrava a sua " tragédia dos
t o mil " . E logo borrava o resto da esperançosa paisagem dos jovens
com" estes conceitos cinzentos: "O mercado de trabalho em todos
os setores está-se tornando cada vez mais rígido, provocando em
ritmo acelerado a ociosidade e a marginalidade da mão-de-obra espe­
cializada, já que não tem condições de absorver nem uma terça parte
dos jovens que se formam" .
Tratava-se d e uma edição dominical e, numa eloqüente coincidência
semanal, naquele mesmo jornal, cerca de 18 páginas de "anúncios
classificados " ofereciam empregos em que se exigiam conhecimen­
tos profissionais especializados. Em outra cidade do pólo econômico
brasileiro, naquele mesmo domingo, outro jornal apresentava mais
de 50 páginas de sua edição daquele dia, repletas de ofertas de
empregos qualificados.
Tempos depois, escrevendo sobre o assunto dos "excedentes diplo­
mados ", o prof. Eugênio Gudin ("O país dos diplomas ", O Globo,
1 3/3/7 1 , pág. 2) testemunhava, como antigo mestre da Faculdade
Nacional de Economia:
"Tive eu próprio várias vezes ocasião de ouvir queixas de ex-estu­
dantes meus, que não conseguiam colocar-se como economistas.
O que tudo denota um lamentável equívoco. Ou antes, dois equí­
vocos " .
"O primeiro consiste n a omissão da circunstância d e que quando
o estudante se matricula numa escola ou curso, fá-lo por sua livre
e espontânea vontade, sem consultar qualquer agência governamen-

216
tal ou profissional sobre a probabilidade ou não de seu futuro apro­
veitamento( . . . ) ". " Não parece ocorrer aos interessados a conside­
ração da demanda, existente ou inexistente, para cada espécie de
profissionais, o que é importante não só quanto às possibilidades de
seu futuro aproveitamento, como quanto à possível criação de esco­
las não correspondentes às solicitações do mercado de trabalho. "
" O segundo equívoco consiste e m desconhecer que o aproveitamento
ou não de cada profissional recém-formado depende da sua capaci­
dade individual. "
A seguir, aquele ex-ministro d a Fazenda transcreve o que o profes­
sor e lorde Lionel Robbins, diretor da London School of Economics,
dissera em discurso recente sobre o aproveitamento de seus alunos:
" Para os primeiros e bons segundos, a tinta ainda não secara em
seus diplomas, quando eles já estavam colocados. Quanto aos demais,
dependia da sorte."
Corroborando essa mesma observação, o " Caderno de Profis­
sões" - excelente suplemento especial publicado pelo Jornal da
Tarde de São Paulo ( 1 9/ 1 /72) - dizia num trecho (pág. 22) :
" Em algumas profissões, segundo o Centro Nacional de Recursos
Humanos, existe uma contradição: uma minoria de profissionais é
disputada e bem remunerada, enquanto a grande maioria não en­
contra emprego. B o que está acontecendo com os psicólogos, os eco­
nomistas e os sociólogos. Os que .não encontram emprego são, geral­
mente, os formados em escolas de baixo nível. "
Aliás, ao que parece, a desinformação vem fazendo com que a car­
reira de economista caminhe para disputar com a dos bacharéis
em Direito a prioridade na abundância de titulares. A situação chega
mesmo às raias do quase inacreditável, informando-se de diversas
fontes que o Brasil os tem em número surpreendentemente maior
que os próprios EUA. Em 1 969, ao divulgar o plano da Associação
das Escolas Católicas, da qual era presidente, o padre Vicente Acla­
mo declarava que "temos 1 5 .300 economistas formados em faculda­
des, enquanto nos EUA existem apenas 14.000 . " ("Ensino técnico é
a nova meta das escolas católicas " , O Globo, 1 5/ 1 0/69, pág. 4.)
Menos de 2 anos depois, Glycon de Paiva, um dos mais argutos e
corajosos analistas dos problemas brasileiros, registrava em obser­
vação integrante de fundamentado estudo ("Capital humano e de­
senvolvimento" , Panorama Econômico, O Globo/APEC, 70/7 1 ,
pág. 30), que o Brasil j á tinha 3 .000 ec,onomistas a mais que os EUA.
Os pronunciamentos nessa área visando ao levantamento do plantel
excedente ou necessário desse ou daquele tipo de talento profissional,
sucedem-se nervosamente. E tanto parte de setores privados, como,
por exemplo, as Associações Médicas - ijue se declaravam preocu-

217
padas com o grande número de escolas de Medicina - como tam­
bém de entidades oficiais, como o Conselho Federal de Engenharia,
Arquitetura e Agronomia que, em junho_ de 1 973, realizava, por
conta própria, um levantamento do número desses profissionais em
atividade no país. Esse levantamento seria entregue ao governo, " a
fim de que este, com dados concretos e m mãos, possa indicar .aos
recém-formados as regiões do Brasil onde há necessidade de enge­
nheiros, arquitetos e agrônomos ". ("Informe J B " , Jornal do Brasil,
30/6/73, pág. 1 0.)
Aliás, o nervosismo que parece predominar nessa área reflete-se na
variedade, na simultaneidade e, quase diríamos, no açodamento das
entidades ou corporações, que acorrem simultaneamente para levan­
tar dados sobre as necessidades ou excesso de talento profissional.
Numa mesma análise sobre o assunto (" O título 'dr.' dá direito a
bons empregos? " , Caderno das Profissões, Jornal da Tarde, São
Paulo, 1 9/ 1 /72, pág. 23), citavam-se as seguintes pesquisas, então,
de recente realização, ou ainda em andamento:
- No Rio de Janeiro, o Instituto Universitário de Pesquisas, das
Faculdades Cândido Mendes, está também fazendo um levantamento
sobre o mercado de trabalho para advogados, engenheiros, econo­
mistas e administradores.
- O Instituto de Desenvolvimento Econômico da Guanabara tam­
bém realiza o levantamento de quantos são os profissionais de nível
superior empregados nas indústrias do Grande Rio.
- O Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São
Paulo parece dispor de mais fôlego, pois fazia levantamentos nas
indústrias para saber qual era o estoque de profissionais de nível
superior em todo o Brasil.
- Alguns ramo� acham-se sob até três pesquisas, como acontece
com os engenheiros: estão sendo contados pelo C.R.E.A., pela Co­
missão encarregada de supervisionar as escolas de Engenharia e ,
como já mencionado, também pelo Instituto Universitário de Pes­
quisas das Faculdades Cândido Mendes.
Pode ser que todas estas pesquisas sejam feitas com auxílio ou sob
orientação do Centro Nacional de Recursos Humanos ou do próprio
IPEA.
Em sua abundância convergente, ou em seu excesso conflitante, elas
demonstram, sem dúvida, uma sadia preocupação em buscar aqueles
dados, de alta utilidade econômica e social, que faltam para balizar
com mais segurança as alternativas profissionais a serem adianta­
damente sugeridas à juventude.
Aquilo que pode parecer um espaço vazio - para onde tantos cor­
rem com os seus questionários perquiridores - talvez já seja uma

218
área bem lavrada e coberta de planos e informações - muito mais
sólidos e extensos do que se supõe. Aliás, toda uma extensa página
do mencionado "Caderno de Profissões " ("O trabalho até 1 976
- as 10 melhores profissões nos próximos cinco anos ", Jornal da
Tarde, 1 9/ 1 /72, pág. 24), apresenta um coovincente resumo do
que devem ser os informes de que o CNRH já dispõe.
Outro caso típico desse desencontro de opiniões é que, enquanto
vinham da cúpula médica do mundo - o OMS, Organização Mun­
dial de Saúde - aplausos ao nosso país, porque " 53 novas faculda­
des de Medicina inauguradas nos últimos dez anos dão ao Brasil
nítida liderança mundial no progresso do ensino da medicina"
(Janos Lengyel, " OMS comprova : Brasil é líder no progresso do
ensino .médico ", O Globo, 9/ 1 1 /7 1 , pág. 1 4)
- certos setores mé­
dicos brasileiros clamavam raivosamente contra o que lhes parecia
a maré montante de uma epidemia de novos esculápios.
Foi, aliás, a celeuma levantada pelas entidades médicas contestando
agressivamente informações e sugestões partidas do Centro Nacional
de Recursos Humanos, que nos chamou a atenção para a injustifi­
cada discreção com que essa entidade tem agido, num ambiente e
numa situação onde exatamente a sua voz é a que mais se. necessita
fazer ouvir, e até com uma constância repetitiva, sacerdotal .
Não há dúvida que, apesar do nome bastante descritivo do CNRH,
parece existir Brasil afora uma generalizada ignorância quanto às
funções, atividades e em conseqüência à majestosa autoridade téc­
nica que cabe ao Centro Nacional de Recursos Humanos.
Tudo indica que o CNRH não só já desenvolveu a técnica para dar
conta da relevante e humaníssima missão que lhe foi confiada, como
também já tem os dados básicos, aliás, constantemente renováveis,
que podem atender à ansiedade dos jovens e orientar as congrega­
ções das faculdades na avaliação das necessidades profissionais.
Todos os fatos que citamos quase exaustivamente prosseguirão se
repetindo, caso o Centro Nacional de Recursos Humanos não adote
imediatamente um programa de comunicação muito mais intensa e
contínua do que a feita até agora, diretamente com o seu público
triangular: as congregações, os estudantes e os seus responsáveis, e
as empresas.
A versatilidade dos dirigentes e dos técnicos integrantes do CNRH
encontrará rapidamente os caminhos através dos quais ele se trans­
forme naquilo que precisa ser: uma atuante bolsa nacional de ta­
lentos e regulador do mercado tecnológico.
Milhões de moços em todo o Brasil, principalmente aqueles para
quem a voéação profissional ainda não se revelou de entre as per­
plexidades de sua juventude - precisam ter à mão, em livretos,
folhetos, ou mensagens periódicas e continuamente atualizadas -

219
as sugestões preciosas com que o Centro Nacional de Recursos Hu­
manos os ajudará em suas opções - conjugando-as o mais possível
às necessidades ou reclamos da prosperidade, do bem-estar e da
saúde coletivos, de qualquer região do país.
Aliás, o economista Carlos Augusto Rodrigues Costa acaba de publi­
car em livro (Manual das profissões, APEC Editora, 1 97 1 ) um
paCiente e excelente trabalho, oferecendo aos estudantes o conheci­
mento das tarefas desenvolvidas por cada profissão, seu currículo
escolar, matérias de vestibular, fontes de emprego e duração do
curso. Nesse livro, são descritas quase 70 carreiras. Através de suas
páginas, pais e alunos verão a versatilidade das opções. O Manual
das profissões oferece uma visão panorâmica geral e é logicamente
neutro quando descreve profissão por profissão.
Quando não houver a vocação ou quase isto, a inclinação, só o
trabalho do Centro Nacional de Recursos Humanos é que evitará
a superprodução de certas categorias profissionais, ou os deficits
que levam às distorções, ainda existentes, de médicos tornarem-se
gerentes de produção industrial, ou um economista gerenciar um
simples posto de gasolina.
Se ainda existem categorias técnicas de alta valia social ou econô­
mica que, mesmo com a divulgação dos deficits profissionais, ainda
permaneçam com as respectivas faculdades ou escolas vazias - co­
mo parece ser o caso dos enfermeiros, agrônomos e veterinários -
cabe ao CNRH fazer o levantamento científico das razões materiais
e psicológicas do desinteresse por parte da juventude e apresentar
sugestões ao governo.
Se a alavanca dos "preços mínimos" estimulou milagrosamente a
policultura no "país do café" - a do salário digno, garantido pelo
governo para certas categorias profissionais que atualmente ele pró­
prio vem desqualificando nas suas classificações, tirará dessas pro­
fissões a imagem negativa de antecipado fracasso.

"O ensino no Brasil é demasiadamente livresco" - tomou-se pra­


ticamente um lugar-comum na expressão de quase todos que anali­
sam o trabalho letivo de nossas escolas, principalmente daquelas que
deveriam ser de formação profissional.
Isto mesmo, usando outras palavras, foi o que reconheceram os
próprios mestres que formaram o Grupo de Trabalho para a Refor­
ma Universitária, quando afirmaram em seu Relatório Geral:
"A Universidade se expandia (em número de faculdades e curs0s),
mas em seu cerne permanece a mesma estrutura anacrônica a entra­
var o processo do desenvolvimento e os germes da inovação (pág.
1 9.)

220
Ou ainda:
"A Universidade, em seu conjunto, revelou-se despreparada para
acompanhar o extraordinário progresso da ciência moderna, ina­
dequada para criar o know-how indispensável à expansão da indús­
tria nacional e, enfim, defasada sócio-culturalmente, porque não se
identificou ao tempo social da mudança que caracteriza a sociedade
brasileira" (pág. 20.)
O notável educador que foi Anísio Teixeira já antecedera o Grupo
de Trabalho nas críticas à falta de objetividade dos currículos uni­
versitários, mas oferecia com entusiasmo incomum o modelo de
nossas escolas de Medicina, como protótipo de organização e men­
talidade que deveriam predominar no ensino superior brasileiro:
"As escolas de Medicina constituem o que há de mais significativo
no desenvolvimento da cultura brasileira: elas efetuaram a transfor­
mação do tipo de saber existente para o tipo experimental e cientí­
fico, transformaram os métodos para o ensino do novo saber, mon­
taram os laboratórios e os biotérios para experimentação científica,
desenvolveram a pesquisa desinteressada e aplicada e formaram
um corpo de cientistas e profissionais que ombreia, à vontade, com
os corpos de cientistas e profissionais dos países avançados, e desen­
volveram na saúde pública e nos hospitais uma prática da Medicina
de alta competência e de teor científico do mais alto padrão. Nessas
escolas, está o modelo para a transformação da universidade bra­
sileira."
E mais adiante: " Com as escolas de Medicina, é que devemos buscar
aprender o que fazer nas demais escolas ou nos demais setores da
cultura moderna ". (Anísio Teixeira, " Modelo para reforma da Uni­
versidade" , Folha de São Paulo, 8/6/68, pág. 4.)
Emperrados, porém, pela humaníssima força da inércia, muitas con­
gregações não se esfalfaram demasiadamente, mesmo diante do apito
oficial dado pelo Grupo de Trabalho da Reforma Universitária.
Se os ventos renovadores estavam anteportas, eles que soprassem e
entrassem por conta própria, trazendo suas novidades arejadoras.
Para que a dura e histórica sentença do Relatório do Grupo de
Trabalho para a Reforma Universitária, recomendando atualização
de currículos e métodos, possa ter seus objetivos acelerados, é pre­
ciso que se favoreça totalmente um arejamento ainda mais amplo da
Universidade - através de uma ajuda que nem sempre ela terá
pedido, mas que certamente não recusará.
Se ainda lhe faltam meios ou estímulos próprios, a Universidade tem
a seu alcance para o trabalho de contínua atualização dos currí­
culos, a máquina de coleta de dados especiais - que é o Centro
Nacional de Recursos Humanos ou o próprio IPEA (Instituto de

221
Pesquisa Econômico-Social Aplicada, do Ministério do Planejamen­
to) ao qual o CNRH é filiado.
Ampliando, aliás, certos pensamentos já adiantados por seu ex-secre­
tário-executivo, Arlindo Lopes Corrêa, em pronunciamento feito no
"Caderno de Profissões ", o Centro Nacional de Recursos Humanos
deveria, a nosso ver, dar uma complementação natural ao seu traba­
lho: além de exibir as contínuas flutuações da demanda de talento,
o CNRH poderia incumbir-se também dessa coleta de dados junto
às indústrias visando a se permitir (e exigir) das congregações das
faculdades a atualização constante de seus currículos. Registrando,
com a ajuda das empresas e entidades operacionais, tudo que de
novo surgir na mecânica ou no processo executivo (ou teórico) de
uma profissão, o CNRH transformaria esses dados em corretivos de
rota que as congregações examinariam continuamente para, por sua
vez, praticar as alterações ou adaptações que não desvirtuassem
o realismo das sugestões.
Insistimos nessa idéia porque, no horizonte do trabalho qualificado,
amontoam-se nuvens de dúvidas sobre a adequação do ensino que
ali se está propiciando.
Referindo-se, por exemplo, mais especificamente a episódios reais,
de desafinação entre a orquestra docente e o burburinho da vida,
o educador e economista, prof. Arlindo Lopes Corrêa, pôs em relevo
um eloqüente case history: quando apareceu a demanda de enge­
nheiros mecânicos, as escolas de Engenharia, que só formavam enge­
nheiros civis, adaptaram-se. "Mas alguns anos depois, já enfrenta­
vam outros problemas: elas formavam engenheiros mecânicos de­
mais, e não estavam preparadas para atender às novas necessidades
do mercado." ( " Os empregos de futuro no Brasil ", Caderno de Pro­
fissões, /ornai da Tarde, São Paulo, 1 9 / 1 /72, pág. 22.)
Nesse mesmo depoimento, o ex-dirigente do Centro Nacional de
Recursos Humanos fere rápido e fundo, com uma lancetada seca,
uma velha calosidade do nosso sistema escolar, quando afirma:
"Nesse ponto - a inadequação do profissional às necessidades do
mercado - a grande culpada é a faculdade que não forma o pro­
fissional para aquilo que ele deve fazer" .
E Arlindo Lopes Corrêa exibe, então, outro flagrante típico d e obso­
lescência e atualização (esta, finalmente, bem sucedida) : " Isto acon­
teceu principalmente com os farmacêuticos. Eles eram formados na
escola como futuros donos de farmácia, para vender remédios e aviar
receitas. Quando se instalou no Brasil a indústria farmacêutica, tra­
zendo consigo um know-how estrangeiro, não havia pessoal para
trabalhar em seus laboratórios " .
" O que aconteceu, então? A s indústrias recor:reram ao� químicos
e a certos tipos de engenheiros, enquanto os farmacêuticos formados

222
perdiam seu mercado. Felizmente, as escolas de farmácia encontra­
ram uma saída, passando a formar agora o que se chama farmacêu­
tico bioquímico. Esse profissional tem o seu campo de trabalho
garantido. "
A parte a fossilização dos currículos freqüentemente encontradiça,
pode ocorrer igualmente uma espécie de hibernação geográfica ou
profissional da congregação, como foi o caso da Escola de Engenha­
ria de Metalurgia de Volta Redonda, exemplo colhido também na
rede de análise de Arlindo Lopes Corrêa que informa a respeito,
ainda no " Caderno de Profissões " : criada para atender a demanda
loi;al de especialistas nesse ramo, " alguns anos depois, a Compa­
nhia Siderúrgica Nacional já não consegue absorver todos os enge­
nheiros formados e a faculdade não sabe formar outros especialistas ".
(A situação do mercado de engenheiros-metalúrgicos deve ter-se alte­
rado profundamente, após a aprovação, em 1 974, do ambicioso
Plano Nacional de Siderurgia.)

Como bem acentua o prof. José Medina Echevarria, em seu estudo


Funções da Educação no desenvolvimento (apud Desenvolvimento,
Trabalho e Educação, Zahar Editores, 1 967, pág. 22) :
" ( . . . ) atualmente, constata-se, por toda a parte, um duplo reco­
nhecimento: o da necessidade do planejamento escolar e o da exigên­
cia de integrar essa planificação com a planificação geral da eco­
nomia."
E Echevarria acrescenta: " ( . . . ) Hoje em dia, é necessário que o
educador se ponha em contato com o economista e o sociólogo;
porém, nenhum destes pode substituí-lo ou suplantá-lo em sua mis­
são essencial."
Aliás, ao propor a parte de " problemas e discussões" , do capítulo
"A organização dos sistemas escolares ", de sua Sociologia educacio­
nal, o prof. Fernando de Azevedo já antevia a importância do le­
vantamento de dados para um abastecimento nacional adequado, de
talentos, quando sugere aos estudantes " proceder a uma pesquisa
sobre alguns dos diversos tipos de profissionais, formados pelas
escolas superiores de São Paulo (ou de outra região do país) e a
sua distribuição ou aproveitamento nos quadros da vida social, pú­
blica ou particular, no Estado . . . " (Fernando de Azevedo, Socio­
logia educacional, Edições Melhoramentos, 6.ª ed., pág. 246.)
Repete-se com os estudantes que se destinam às universidades no
Brasil, em muito mais larga escala, aquela situação do estudante
norte-americano, para a qual o prof. Joseph Katz, da Universidade
Estadual de New York, já pedia o amparo de uma orientação e
assistência, por serem "a primeira geração de suas famílias a expe-

223
rimentar a educação superior e que, por isto mesmo, precisam de
objetivos mais concretos para lhes propiciar um enfoque para seus
esforços " . (Prof. Joseph Katz, "O mundo interior do estudante",
revista Diálogo, n.º I I I , 1 973, pág. 28.)
A função de uma Bolsa Nacional de Talentos cresce, assim, de im­
portância num país como o nosso, onde a esmagadora maioria do
nosso primeiro milhão de universitários é, muito mais que nos EUA,
também oriunda de famílias onde não há ninguém com curso supe­
rior - e, portanto, capaz de transmitir-lhes qualquer experiência
ou orientação profissional ou intelectual.
A situação desses estudantes se agrava face ao mínimo relaciona­
mento pessoal que conseguem ter com os professores, os quais numa
situação quase genérica de "bico" profissional, repetem aquela situa­
ção caricaturada por Georges Clemenceau, pois, vivendo também
de outros ganha-pão, retiram-se da aula " antes de terem chegado" .
E m seu clássico Histoire de Demain, Jean Fourastié e Claude Vi­
mont, ao analisarem otimisticamente o " Progresso técnico, as crises
e o desemprego " (págs. 94- 1 00) , relembram o pânico que se apos­
sou das classes trabalhadoras nos países em que se implantavam
as primeiras realizações da Revolução Industrial, e citam o mas­
sacre de Peterloo, na Inglaterra, em 1 8 1 7 , e outras repressões vio­
lentas contra o desespero e desatino dos operários que se viam subs­
tituídos pelas máquinas que chegavam, naquele começo do século
XIX.
Agora, no entanto, o que nos mostram os jornais de toda a Europa,
dos EUA e do Brasil, nas numerosas páginas de suas seções de anún­
cios "classificados '' , é uma quase angustiada corrida do empresa­
riado atrás da mão-de-obra qualificada.
Entretanto, em meio a essa disputa pelo talento de elite ou pela habi­
litação altamente especializada, já ocorre um outro fenômeno para­
lelo, para o qual a futura Bolsa Nacional de Talentos teria que con­
vergir também suas atenções guiadoras.
A corrida da juventude instruída nos cursos secundários em busca
das profissões de status universitário vem deixando desfalcados, co­
mo já acontece largamente nos EUA, os ofícios de tecnologia ou
aprendizado mais simples, como mecânicos em geral, bombeiros,
eletricistas, soldadores, etc. E surgiu então uma conseqüência óbvia
da lei da oferta e da procura: a maior remuneração financeira que
vem sendo obtida por esses profissionais, muitos deles alcançando
melhores rendimentos que várias categorias universitárias.
Isto nos indica que, num estágio mais avançado de suas preocupa­
ções, a Bolsa Nacional de Talentos poderia orientar também a juven­
tude para aquelas oportunidades que, como tantos outros veios de

224
riqueza, nem sempre se situam nos alcantis, mas no sopé da cordi­
lheira social.
B, pois, imensa, altamente dinâmica e de grande sentido e interesse
humanos, a tarefa que cabe ao CNRH - se sua equipe quiser colo­
car-se, desembaraçadamente, à altura das finalidades para as quais
o Centro foi criado.
O Centro é, sem dúvida, um laboratório de ciência social aplicada.
Se seu trabalho tem que ser feito em silêncio, os resultados preci­
sam, porém, ser proclamados. O CNRH deve criar, com urgência,
a sua caixa acústica - colocando-a na faixa de onda das angústias
e perplexidades da juventude brasileira.

225
10
o banco nacional
dos estudantes pobres

•Não é possível confundir o


princípio democrático de 'dar
Educação a todos' com 'dar a todos
a mesma Educação'. "

Prof.• Edllla Coelho, presidente do


Sindicato de Estabelecimentos de
Ensino da Guanabara, Conferência no
Simpósio de Educação, Correio da
Manhã, Suplemento Econômico,
28/1 1 /1970, pág. 8.
"Aqueles que sofrem de 'catarata
ideológica' ( . . . ) gritam pelo ensino
gratuito, incoerentemente, pois por
conveniência se esquecem de que,
nos países comunistas, o ensino é
pago sob a forma obrigatória de
serviço público. Neste ponto, são
hipócritas quando bradam pelo
imperativo da gratuidade. n

Jarbas Passarinho (Ministro da


Educação), "Estudo pago: fator de
democratização", /ornai do Brasil,
Caderno de Ensino, 6/ 1/ 1974, pág." 30.
Quando se invoca o mm1mo de escolaridade estabelecido pela
UNESCO para garantir ao homem comum um equipamento inte­
lectual que lhe permita disputar empregos também comuns na socie­
dade tecnológica, é lógico que se pense igualmente no quanto do
máximo de ensino o governo pode ou deve proporcionar à infância
e à juventude.
A resposta vem logo: não só o primário e o médio, mas também o
ensino superior deve ser acessível a todos.
f: bom repetir: a todos, e acessível.
Mas há vários pontos para considerar antes que intranqüilizemos
ainda mais os que gerem as finanças públicas, com o tamanhão das
despesas que seriam ou serão necessárias para que nenhum jovem
fique sem oportunidade de acesso à instrução de nível secundário
e superior.
Em primeiro lugar, poderíamos acalmar os guardiões do Tesouro
público com a informação, certamente de seu conhecimento, de que
até pelo menos o meio da década de 70, nem mesmo a Rússia ou
os Estados Unidos, nem o Japão ou a Inglaterra - e muito menos
a França ou a Suécia - tinham mais do que 20% a 45 % de seus
jovens fazendo cursos superiores, antes de ingressarem no mercado
de trabalho.
Aliás, no citado depoimento que prestou a uma Comissão Parla­
mentar de Inquérito sobre Educação, o professor e ex-ministro Ro­
berto Campos informou que nos EUA apenas 43 % dos jovens na
faixa de 2 1 a 24 anos ascendiam à Universidade, e que no Canadá
e URSS era, respectivamente, de 26% e 24 % essa percentagem.
Pode ser que, uma década adiante, as tenazes da pressão tecnológica
e da explosão de conhecimentos venham a encurralar as novas ge­
rações por uma rota que só lhes abra um caminho seguro para a
vida, após a marcha obrigatória, de todos, ou da maioria absoluta,
pelos corredores universitários.
Felizmente - para a massa popular dos países em desenvolvimento
- verificamos que mesmo naquelas nações da mais marcante dian­
teira tecnológica, ainda há centenas de tipos de tarefas, de alto valor
econômico, que podem oferecer dezenas de milhões de empregos
para os indivíduos sem curso profissional superior.
Além disso, no caso do Brasil, a demanda por mais vagas nas fa­
culdades somente dentro de alguns anos poderá atingir o seu limite
biológico, isto é, quando esses estabelecimentos forem chamados a

229
atender cerca de 40% a 50% dos alunos que terminem o 2.º ciclo,
e que tenham vocação e fôlego para o terceiro estágio educacional.
Essa afirmativa baseia-se nos dados do mencionado depoimento do
prof. Roberto Campos e numa pesquisa realizada há pouco no Rio
de Janeiro, onde 22% dos entrevistados declararam francamente
que "não pretendiam seguir nenhum curso superior".
Outros 3 % afirmaram que não sabiam por que curso optar, e 6%
responderam vagamente preferir " outras profissões" universitárias
que não as oito mencionadas, e não souberam precisar o que seriam
essas outras. (Pesquisa JB - Marplan, n.º 1 29, Jornal do Brasil,
8/3 / 1 970, pá� 20J
Se adicionarmos a esses 31 % de abertamente desinteressados ou
indecisos uma outra perc�ntagem razoável de "constrangidos" , que
declinaram o objetivo de alcançar uma profissão superior apenas
para dar-se a importância de visar a um status universitário, ver-se-á
que há um ponto máximo também de saturação do mercado de
candidatos ao ensino superior, podendo a " mercadoria" instrução
ficar sobrando sob a forma de salas de aulas vazias.
Apesar de ainda não termos atingido o que chamamos de o limite
biológico de demanda de ensino superior, também longe estamos
dessa situação de salas vazias - que, nas condições atuais, só pode
ocorrer enquanto a máquina de comunicações do Centro Nacional
de Recursos Humanos não se engrenar intimamente com a comuni­
dade estudantil e com os dirigentes das congregações, para ajudar os
jovens a orientarem-se sobre o que, e onde estudar.
O esforço nacional nesta hora tem de concentrar-se em corrigir
aqueles algarismos que a indiferença, ou a inépcia do passado, trouxe
até bem a nossos dias: 7% apenas dos universitários brasileiros
serem oriundos de famílias pobres.
Já de alguns anos, educadores e pioneiros de diferentes origens,
encorajados pelas novas dimensões da vida nacional, começaram
a bosquejar idéias ou indecisos projetos financeiros, com a generosa
intenção de fazer com que o talento jovem do Brasil, de qualquer
origem econômica, ascenda sem embaraços a todos os níveis do
aprendizado.
Acreditamos que um dos primeiros a mencionar seriamente o assunto
foi o prof. Flexa Ribeiro, ex-secretário da Educação da Guanabara
no governo Carlos Lacerda, e que propôs a criação do "Banco Inter­
americano de Educação" o qual teria a finalidade de " financiar o
talento disponível de milhões de jovens que, por falta de recursos,
não podem completar a sua educação todos os anos ". ( " lnfomie
JB", /ornai do Brasil, 28/5 / 1 966, pág. 1 0.) Esse banco teria função
em toda a América Latina.

230
Ainda em 1 968, a subcomissão especial do Grupo de Trabalho da
Reforma Universitária, coordenada pelo prof. João Paulo dos Reis
Velloso, então secretário-geral do Ministério do Planejamento, e pelo
prof. Fernando Ribeiro do Vai, divulgava o anteprojeto que criava
o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, e mais outros
quatro que visavam à formação ou segmentação de verbas que fi­
nanciassem o Fundo.
Pelo projeto, o Fundo seria uma espécie de Banco Nacional de Edu­
cação, com competência, segundo seu artigo 3 .º, para:
a) financiar os programas de ensino superior, médio e primário atri­
buíveis à União;
b) financiar outros programas e projetos de universidades e esta­
belecimentos isolados de ensino superior;
c) financiar, através de mecanismo de execução descentralizada bol­
sas de estudo e bolsas de manutenção;
d) apreciar preliminarmente as propostas orçamentárias das uni­
versidades federais, dos estabelecimentos isolados de ensino do
governo federal, etc.
(Relatório da Subcomissão Especial do Grupo de Trabalho da Re­
forma Universitária, pág. 3 3 .)
No seu artigo 4, o projeto citava que entre os principais recursos
orçamentários com que o Fundo contaria estariam incentivos fiscais
que antes, em entrevista, o prof. Reis Velloso informara ser nos
moldes da Sudene e outros.
De fato, o artigo 2.º do anteprojeto que instituía incentivos fiscais
para o desenvolvimento da Educação (pág. 36 do Relatório da Sub­
comissão) chegava mesmo a estabelecer que o Fundo receberia 5 %
dos incentivos destinados à SUDENE e à SUDAM, aplicando-os
totalmente em realizações e objetivos escolares nessas respectivas
áreas.
O trabalho da Subcomissão foi refundido e, três meses depois, os
cinco anteprojetos transformaram-se num só decreto (Lei n .º 5.537
de 2 1 / 1 1 /68) . O Fundo Nacional de Educação transformou-se em
Instituto Nacional de Educação e Pesquisas. Cortou-se-lhe (era fácil
de supor-se) a provisão dos 5% de incentivos da SUDENE e
SUDAM. E foi-lhe ampliada a lista de encargos, caracterizando-se
assim ainda mais a fragilidade do sistema das bolsas de manutenção,
em concorrência com tantos outros fins que a nova lei tinha como
escopo atender.
Quase um ano depois, outro Decreto-lei, n.º 872, de 15" de novembro
de 1 969, transformava o Instituto em Fundo.
O artigo 1 1 da primeira lei (5.537, de 2 1 / 1 1 /68) sobre o Fundo

231
(então Instituto) já determinava que "o Ministério da Educação
e Cultura estabelecerá sistema através do qual em relação às novas
matrículas nos estabelecimentos federais de ensino, seja cobrada
anuidade daqueles alunos de alta renda familiar, financiando-se
bolsas de estudo, de manutenção e de estágio, re'embolsáveis a longo
prazo, aos alunos de curso superior, de menores ou insuficientes
recursos".
Apesar de na segunda lei (872 , de 1 5/ 1 1 /69) terem-se reforçado as
fontes de receita da nova instituição com algo que parecia uma
percentagem muito generosa ( 30% da receita líquida da Loteria
"

Esportiva "), foi somente cinco anos ap6s consolidada a idéia do


Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, que o ministro
Jarbas Passarinho pôde anunciar para "o início do próximo ano"
( 1 974) o estabelecimento do sistema de bolsas de manutenção para
universitários, que será lançado "com um programa piloto de 30
mil bolsas financiadas pela Caixa Econômica Federal, de acordo
com os entendimentos que vem mantendo com o ministro da Fa­
zenda" . (" Passarinho anuncia que a Caixa financiará 30 mil bolsas a
universitários ", Jornal do Brasil, 29/6/73, pág. 7.)
Após dar ainda a alentadora notícia de que naquele momento já
eram 830 mil os universitários brasileiros (um crescimento de 700%
em 9 anos), o ministro Passarinho explicou que o sistema de crédito
universitário " ainda está em estudos ".
O estranho retardamento, por alguns anos, da concessão dos pri­
meiros empréstimos de manutenção a estudantes, deixa supor que,
provavelmente por causa das tais fatias dos incentivos fiscais, e de
tantos outros encargos que lhe foram pespegados, a idéia derrapou
na intolerância dos regionalismos vorazes e na areia movediça dos
múltiplos fins. Pelo menos, no que diz respeito à manutenção dos
universitários pobres.
Mas há também outras causas.
Sente-se que o governo central hesita agir nessa área, porque ainda
estão no ar algumas das assombrações com que o te.rror intelectual
amedrontava os ingênuos e os incautos nos idos de 1 963. Por todos
os lados, acendem-se cautelas prevenindo para não se tocar no tabu
do ensino superior totalmente gratuito - situação que gerou du­
rante dez décadas a insultuosa injustiça social caracterizada pela
composição econômica do corpo universitário brasileiro: 93% dos
alunos eram oriundos das classes rica e remediada, e só 7 % , filhos
de pobres.
E porque o go_verno federal tem que destinar para isto - para dar
de graça instrução superior aos filhos dos ricos e dos remediados -
uma imensa massa de seus recursos financeiros, ele, até há pouco
olhava de longe - como se fosse para os filhos de Mateus - para

232
os mais de cinco milhões de brasileirinhos que nem tinham escolas
primárias, por todos os cafundós de nosso país onde a incapaci­
dade financeira e a incompetência se abancam, ou se revezam, nas
administrações dos municípios e dos Estados.
Enquanto as faculdades federais são cercadas diariamente por cin­
turões de automóveis e carangos de seus pobres estudantes, o mi­
nistro Jarbas Passarinho reconhecia dramaticamente que até há bem
pouco havia professores primários que ganhavam Cr$ 4,00 (quatro
cruzeiros) por mês em algumas cidades do interior. (Conferência
pronunciada na Convenção do Lions Club, na Guanabara, O Globo,
8/5/ 1970, pág. 3.)
A alegada necessidade de gratuidade também do último estágio do
ensino é admiravelmente analisada, e colocada em termos muito
claros, num trabalho feito para o Conselho Estadual de Educação
do Estado da Guanabara pelos profs. Edília Coelho Garcia, Don
Lourenço de Almeida Prado O.S.B. e Leônidas Sobrinho Porto, cita­
dos num estudo do prof. José Fernando Carneiro.
Disseram aqueles mestres: "Na verdade, a gratuidade indiscrimi­
nada do ensÍJlo médio e superior não aumenta as oportunidades
de Educação e sim as diminui. Propiciada aos que teriam recursos
para pagar integralmente, impede o acesso de número igual de
estudantes que não poderiam pagá-la. Concedida aos que poderiam
pagar parcialmente seus estudos, impede que outros, na proporção
do que poderia ser pago, tenham igual oportunidade." (José Fer­
nando Carneiro, " Recursos para Educação " , Carta mensal do Con­
selho Técnico da Confed. Nacional do Comércio, agosto/ 1 968,
pág . 36.)
Quando no Brasil ainda estamos discutindo se o ensino público deve
ser pago e por que forma, o prof. Theodore Schultz avança nova
·
indagação:
" Devem os rendimentos do investimento público no capital humano
(através da Educação) caber de direito aos indivíduos em quem é
feito ? " (Theodore Schultz, O capital humano, Zahar Editores, 1 973,
pág. 5 1 .)
E o próprio Schultz responde:
"O capital físico que se forma pelo investimento público não se
transfere, via de regra, aos indivíduos como se fosse uma dádiva.
Simplificaria grandemente o processo da destinação se o investi­
mento público no capital humano fosse posto no mesmo plano de
igualdade. Qual, então, é a base lógica para tratar-se o investimento
público no capital humano de modo diferente? "
Como s e vê, o prof. Schultz encaminha o seu raciocínio para cobrar­
se dos cidadãos educados à custa do Estado, não simplesmente pelo

233
período em que freqüentam as aulas, mas por todo o tempo de sua
existência ativa. Porém, como bom norte-americano, o grande econo­
mista reconhece logo a seguir que a tributação sobre a renda, alcan­
çando mais amplamente os homens mais bem equipados e mais
bem dotados, já é uma forma bem positiva e realística de recuperar
para a comunidade os investimentos feitos pelo Estado em todos que
tiveram oportunidade de estudar às suas custas.
Restou disto o inconveniente da posição inversa, que pode vir a ser
reclamada por aqueles que fizeram seus estudos somente. em esco­
las particulares. Por isto, não é de estranhar-se que algum rico neto
de Harpagão, tomando conhecimento da tese, venha, um tanto por
desfastio, um tanto por cobiça, exigir que o Estado lhe conceda
deduções no Imposto de Renda - já que seu capital humano foi
obtido por conta própria . . . Em nosso país, a família Harpagão é
tão extensa em suas classes abastadas, que não é de estranhar-se
os problemas que o fisco possa vir a ter com a divulgação dessa tese.

Porque a Constituição Federal lhe fornece um velho álibi - é da


competência dos Estados e municípios cuidar do ensino de 1 .º e 2.º
ciclos - o poderoso governo central finge assustar-se com as por­
teiras e paus de fronteiras espalhados pelo país todo, impedindo-o
de participar diretamente da quase hecatombe que ainda são o
ensino e a organização escolar das unidades federativas e em cen­
tenas de nossos municípios.
Mas a razão verdadeira dessa atitude, a razão nua de o governo
central deixar de dar uma ajuda mais vigorosa ao ensino no 1 .º
e 2.º ciclos, é porque tem a quase totalidade de seus empenhos
absorvidos pela voracíssima gratuidade do ensino superior.
Imagine-se, então, o que serão esses custos quando, pela evolução
que já está vista, atingirmos os percentuais de estudantes nas uni­
versidades correspondentes aos de países mais avançados. E será
muito breve que o Brasil terá de 2.000.000 a 2.500.000 de jovens
batendo às portas ou lotando os campus de suas universidades,
vindos de completar o 2.º ciclo. (0 censo de 70 acusou 8.422.000
jovens na faixa de 20 a 24 anos.)
Só haverá uma maneira de ser enfrentada a magnitude do pro­
blema: fazer com que todos paguem o ensino superior, garantindo-se
porém, no próprio ato da matrícula, um financiamento liberal, tam­
bém para todos.
Sim, o Estado, isto é, o governo federal, precisa igualmente ampa­
rar e financiar também o ensino para aquele pequeno segmento
de infelizes alunos oriundos de famílias ricas e remediadas -
cujos pais entendam e insistam em que pagar os estudos superiores

234
dos filhos é sustentar mais outra de suas estroinices, ou caprichos.
Logicamente, deverão ser poucas as famílias ricas e remediadas que
pleitearão para seus rebentos universitários ensino financiado nas
faculdades federais. Mesmo poucas, dever-se-ia proibir, porém, o
Estado de insultá-Ias oferecendo-lhes financiamento também para a
própria manutenção de seus filhos.
Sem abusar do otimismo, é de se supor que esses alunos ricos e
seus pais não se rebelarão com a ostensiva desigualdade de o Esta­
do financiar também até as despesas de manutenção (moradia, ali­
mentação, livros e transportes) para os alunos realmente pobres, e
somente para estes.
Talvez algum leitor menos prevenido ou pouco paciente já esteja
indagando: que mágica tola é essa de o Estado financiar o ensino
superior para todos, se ele atualmente já o dá de graça para todos?
Mas uma coisa é financiar para receber, ainda que daqui a dez anos,
e outra é fazer uma despesa que nunca mais será reembolsada.
E se ainda for preciso explicar por que receber o dinheiro de volta,­
mesmo num futuro quase distante - esclarecemos que será com
esse dinheiro que o governo central ficará em condições financeiras
de corrigir sua atual neutralidade estratégica face ao que ocorre
com o ensino de l .º e 2 .º ciclos em tantas regiões do país.
Como seria resolvido esse financiamento, de tudo para os alunos
pobres e de ensino para os ricos e remediados - se o Fundô
organizado já deu sinais de empacamento?
Realmente, a multiplicidade de operações financeiras, nisto envol­
vidas, sua extensão e volume não podem caber nas várias, porém
exíguas, fontes que foram dadas ao atual Fundo Nacional de Desen­
volvimento da Educação - e que já o levam, como vimos pela
informação oficial do próprio ministro Passarinho, a ter que recor­
rer a outras entidades - estranhas ao seu fim e, portanto, d"!le
automaticamente desinteressadas como a Caixa Econômica Federal,
e outros.
Sabemos que a política econômica do atual governo segue o prin­
cípio doutrinário de não favorecer bancos setoriais, como teria qu.::
ser o que se criasse para financiar os estudos superiores da juven­
tude brasileira. A principal alegação governamental é que "os pro­
blemas mudam ou desaparecem " .
Haveria ainda necessidade, neste caso, d e assegurarmos o óbvio,
isto é, que o problema e a preocupação da Educação serão perma­
nentes, senão eternos, para nosso país e, de resto, para qualquer
outra nação?
Mantido o sistema econômico-social em que vivemos, sempre haverá
centenas de milhares de estudantes mais necessitados querendo

235
chegar até ao fim, até à universidade. Não se trata, pois. de um
problema que se alterará profundamente e, muito menos, que desa­
parecerá.
Por sua grandeza, pelo número de pessoas nele envolvidas, pelos
resultados que se espera da melhor capacitação dessas pessoas, o
Fundo ou o Banco, ou à instituição que disso deve cuidar, não pode
depender de haver ou não encaixe de dinheiro - e de boa von­
tade - nas entidades a que terá ou teria que recorrer.
Antes de recorrer aos planos que existissem em prateleiras ou em
arquivo� particulares, procuramos saber o que haveria no Con­
gresso Nacional a respeito, visando a solucionar especificamente o
problema do financiamento dos estudos para o estudante pobre.
Correra por lá, sim, um projeto, o n.º 754-A, de 1 972, do deputado
Rubem Medina, que fora rejeitado "unanimemente, pela comissão
de Constituição e Justiça, por sua inconstitucionalidade e injuridi­
cidade" , na reunião plenária de 28 de novembro de 1972.
O Projeto visava a "Criar o Banco Nacional de Educação" e já
até lhe dava a sigla: BANED. Logo em seu artigo 1 .º, o projeto
instituía que " através do BANED, o governo federal formulará a
Política Nacional de Educação coordenando a ação dos órgãos públi­
cos e orientando a iniciativa privada" .
Como s e vê, logo d e partida o BANED trocava d e chave e saía
dos trilhos a que por sua designação deveria se destinar. Não
admira, pois, que o projeto tenha descarrilado de maneira tão rápi­
da. E de modo jurídico e constitucional.
:e por isto que desejamos chamar a atenção para um judicioso e
bem fundamentado esquema de criação, financiamento e funciona­
mento do "Banco Nacional de Educação ", proposto em estudo pu­
blicado pelo economista J. Brito Alves, da equipe da APEC (" Banco
Nacional de Educação" , Panorama Econômico 70/7 1 , O Globo/
APEC, 1 2/3/ 1 97 1 , pág. 54.)
Partindo, provavelmente, da declaração, então feita à imprensa,
pelo futuro ministro Reis Velloso, de que "o Banco de Desenvol­
vimento da Educação deverá funcionar nos moldes do BNDE " ou,
"como exemplo mais flexível" , como o Banco Nacional de Habitação
(Jornal do Brasil, 1 8/7 /68, pág. 1 6) , J. Brito Alves apontava, como
fontes de renda da futura entidade financiadora dos estudantes que
ele propõe:
1) os recursos do Programa de Integração Social (PIS) ;
2) os recursos do mesmo programa para funcionários públi­
cos;
3) parte dos depósitos bancários a prazo fixo.
(Como se vê, muito prudentemente, o sr. Brito Alves não foi buscar

236
o mel para o seu plano nos apiários dos incentivos, já ocupados
por abelhas insaciáveis.)
Numa previsão de que o PIS levantaria, em 1 975, Cr$ 5.000.000.000,
Brito Alves sugere, por exemplo, que 1/3 (um terço) desses recursos
sejam investidos na concessão de empréstimos a estudantes.
(Dois anos mais tarde, em conferência que pronunciou na Federação
das Indústrias do Estado da Guanabara, a 17 de julho de 1973,
sobre as perspectivas econômicas brasileiras nos próximos anos, o
prof. Reis Velloso, já com sua autoridade de ministro do Planeja­
mento do governo Médici, fazia a auspiciosa previsão de que os
fundos arrecadados para o FGTS e o PIS estavam crescendo de tal
modo que, em 1978, representariam 1 3 % do Produto Nacional
Bruto.)
Voltemos, porém, à exposição de J. Brito Alves. Aplicando a mesma
filosofia de remuneração ao dinheiro do PIS - que a adotada para
o dinheiro do BNH - afirma o economista que os recursos vindos
das fontes por ele mencionadas, " aplicados em financiamento reem­
bolsável, com juros, à Educação, assegurariam rentabilidade direta
aos recursos; os empréstimos renderiam juros e maxi!llizariam os
benefícios aos trabalhadores, pois além de um fundo de poupança,
ele passaria a ser uma fonte que permitiria aos membros futuros
da força de trabalho, e mesmo aos atuais, acumularem mais capital
humano ou investirem em si mesmos, expandindo seus fluxos futu­
ros de renda e bem-estar. O PIS justificaria o nome" .
J . Brito Alves favorece também a idéia exposta n o relatório inicial
da subcomissão Reis Velloso e Fernando Vai, de que o financia­
mento da manutenção e cursos dos estudantes pobres deveria ser
a razão de existência de uma entidade autárquica financeira
especial:
" A validade da idéia de um fundo federal encontra apoio completo
na necessidade de um ataque global do problema, o que não ocor­
reria se o financiamento dependesse de iniciativas e critérios ato­
mizados. "
Vê-se por todos o s lados a lógica dessa sugestão: o s pedidos dos
estudantes, fundamentados e enquadrados dentro do favorecimento
da lei, não ficariam na dependência das corporações oficiais estra­
nhas ao assunto, as quais sempre se colocarão naquela conhecida
posição burocrática de não ter nada com o assunto, ou de agirem
arrogantemente como se estivessem fazendo favores aos filhos do
povo.
Além disso, se ajudar financeiramente os estudantes pobres a se
manterem e a pagar os estudos for tarefa precípua e única de uma
organizt1ção, seus dirigentes terão que cumprir uma responsabilidade
definida e muito clara no seio da comunidade em geral. Essa enti-

237
dade teria que agir com rapidez e eficiência e, mais ainda, aplicar
talento criativo para resolver problemas novos, seus, intransferíveis,
que ela não poderia inculpar a outros como, mais ou menos, acon­
tece entre entidades governamentais.
Há um outro ponto de concordância entre o projeto da subcomissão
da Reforma Universitária e a propositura do economista Brito Alves:
o " Banco Nacional de Educação " só financiaria, com facilidades,
os estudantes que se dispusessem a seguir cursos de utilidade ime­
diata e direta para a economia e a sociedade brasileiras, segundo
critério flexível decidido pelas autoridades encarregadas dessa defi­
nição. Os que desejassem se aprofundar em conhecimentos que re­
presentem apenas requintes intelectuais de uma estrita vocação e de­
leite individual seriam também financiados, porém, arcariam futura­
mente com todos os ônus do custo do dinheiro.
Neste ponto, Brito Alves focaliza uma questão que merece destaque:
quando se forem computar os algarismos do reembolso que o estu­
dante deverá fazer anos mais tarde, já formado, é preciso que não se
jogue sobre ele também "a parte dos custos da ineficiência adminis­
trativa" das faculdades ou universidades. Pois já se disse que os
gastos das nossas universidades são de tal ordem desordenados e
recheados de despesas desnecessárias, ou suntuárias, que tornam
cada estudante brasileiro mais caro que o próprio universitário esta­
dunidense, cujo país parece fazer do desperdício uma das estranhas
alavancas de sua economia.
Uma outra idéia ponderável inserida no plano do sr. Brito Alves:
os pagamentos que o ex-estudante deverá fazer, após o prazo de
carência (2 anos) posterior à sua formatura, serão relacionados
com a declaração de Imposto de Renda, pois este se torna cada vez
mais um eficiente instrumento de aferição de proventos auferidos
por quem quer que seja.
Talvez o leitor ache que demoramos demais no assunto do financia­
mento da manutenção (a ajuda de custos para as despesas diárias)
e dos cursos dos estudantes pobres.
� que esse ponto tem capital importância para desafunilarmos os
últimos estágios da Educação, comandados entre nós, até bem pouco
tempo, por um sistema da filtros que não obstaculava teoricamente
o talento rico ou remediado, mas era intrincadamente impeditivo
para a pobreza.
Sabemos que há vários países em que fundos particulares e institui­
ções generosas oferecem anualmente dezenas de milhares de bolsas
de estudos para estudantes pobres.
Esta é uma área, aliás, em que a nossa burguesia pouco ou nada
brilha. Por isto, assumem a máxima importância as imediatas ini-

2J8
ciativas que o governo tornar visando a reanalisar a idéia do Fundo,
ou do Banco Nacional de Educação.
Preocupados em financiar apenas a parição de touros de raça e vacas
de pedigree, os onzenários brasileiros omitem-se de mais este campo
da vida pública, deixando ao governo sozinho a glória de fazer,
dos brasileirinhos pobres, sábios e tecnólogos ou profissionais de
reputação, utilíssimos. à sociedade.
Formando o organismo cuja estrutura J .. Brito Alves delineou com
tanta segurança, ele se tornará urna glorificação cuja auréola ultra­
passará nossas fronteiras. Pois, não se contam por muitos os países
em que, entre as entidades administrativas e promotoras do bem
coletivo, se enumere um amplo Banco Nacional de Educação - com
a função precípua de antecipar-se aos problemas financeiros dos
estudantes pobres que tenham fôlego intelectual, e vontade, para
as mais altas realizações profissionais.

239
11
o que já fez
e o que pode fazer -

a imprensa brasileira

•famais reconheceremos que o


ensino do povo seia uma indústria
particular; ;amais admitiremos que
os que ensinam possam ter a
liberdade da ignorância, nem a
liberdade do envenenamento.•

Jules Ferry, ministro da Instruçlo


pública da França (1879 a 1883), apud
Lorenzo Luzurlaga, Hlst6rla da
EducaçiJD Prlbllca, Companhia Editora
Nacional, 1959, pág. 7 1 .
"Fundam-se, de fato, escolas de
todos os graus por toda parte, mas
para cruzar os braços e fechar os
olhos, viciando-as sem remédio nas
suas origens, com a nomeação de
apaniguados e deixando que
vegetem à· mingua de recursos, sem
os indispensáveis elementos
espirituais e materiais, que dão
alento e força às instituições
escolares."

Fernando de Azevedo, A Educação


entre dois mundos, Obras completas,
vol. XVI, Edições Melhoramentos
( 1 .• ed., 1958), págs. 179 e 180.
Os jornais brasileiros em geral tinham até há poucos anos três
"pratos" principais: política, esportes e crimes.
Hoje, vários desses jornais podem oferecer ainda como seu "forte"
esses mesmos três temas; mas apresentam também um novo, cuja
auspiciosa aparição, apesar de paradoxalmente silenciosa, data
igualmente de quase uma década : Educação.
Em todo o mundo ocidental, é a imprensa brasileira, quase com
toda certeza, e de longe, a que mais espaço (e tempo) dedica aos
assuntos do ensino, de alunos e professores.
Esta é, aliás, uma gloriosa realidade, da qual poucos patrícios St:
teriam dado conta até agora.
E este registro que aqui iniciamos nem chega a ser um pobre paga­
mento de um grande mérito. E apenas um aplauso de estímulo - a
tentativa de testemunha despercebida, que talvez surpreenda esses
benfeitores com a existência dessa audiência, ainda que solitária,
da grandeza do seu gesto, tão maior quanto mais repetido incan­
savelmente, espontaneamente - sem outros reconhecimentos ante­
riores - nas colunas e páginas sucessivas dos seus cotidianos,
revistas e emissoras.
Para que esse registro tenha um só tipo de destaque - o de uma
simples rememoração de calendário - lembramos aqui (e espera­
mos não estar cometendo nenhuma injustiça) que foi o jornalista
Orlando Dantas, através de seu Diário de Notícias do Rio de Ja­
neiro, quem persistiu em pôr o assunto ensino na pauta diária siste­
mática, das matérias do jornal, através da famosa coluna " Diário
Escolar" - mais tarde enriquecida com reportagens e outras notas.
Certamente, será justo citar aqui dois outros nomes que se ligaram
a essa mesma tarefa pioneira no Diário: Hermano Requião e Darcy
Evangelista, estes, como Orlando Dantas, falecidos.
Sucessivamente, ampliando o que também já faziam ou incluindo-o
fio seu esquema de paginação e preocupações - no Rio e em São
Paulo, outros grandes órgãos nacionais compuseram, sem nenhuma
combinação prévia, a formidável caixa acústica - que fez das
palavras Educação, ensino, escolas, cursos, universidade - quase
uma das obsessões sagradas da nova mentalidade e das novas gera­
ções brasileiras.
O Correio da Manhã, O Globo, O Jornal, Jornal do Brasil - estes
últimos com suas respectivas emissoras - no Rio, O Estado de
São Paulo, Diário de São Paulo, Jornal da Tarde, e Folha de São

243
Paulo - em São Paulo, as revistas O Cruzeiro, Veja, Visão, Reali­
dade, Manchete e Boletim Cambial - e, certamente, outros jornais
de outras capitais - incluem-se destacadamente entre os chamados
" veículos de massa " , poderosas forças de opinião que, com sensi­
bilidade profética, popularizam insistentemente dentro dos lares, e
também para as elites brasileiras, os problemas, a idéia e as possi­
bilidades decorrentes da Educação.
Por inspiração de seu presidente, senador João Calmon, os " Diários
e Emissoras Associados" lançaram até um movimento cívico -
" Década da Educação" - para divulgar a temática educacional em
todo o país.
Graças a essa fabulosamente benéfica popularização que a imprensa
deu aos assuntos da Educação, as ·grandes cidades brasileiras, prin­
cipalmente Rio e São Paulo, até oferecem um espetáculo inédito
na clientela publicitária do mundo: anúncio de páginas inteiras de
cursos vestibulares ou de novas escolas de ensino médio ou supe­
rior, e também uma impressionante presença de cartazes e painéis -
fazendo ofertas de milagres de progresso ou prosperidade individual
para aqueles que seguirem os cursos anunciados.
E isto em termos desafetadqs e sem-cerimoniosos, que não se distan­
ciam muito dos que são usados para vender geladeiras, sabonetes
e outras comodidades.
Já por anos seguidos, em dado momento das atividades escolares -
às vésperas dos vestibulares do meio e do fim de ano, ou no início
das atividades curriculares - os jornais, revistas e emissoras do
país espraiam-se com tão generosa abundância de espaço, tempo,
palavras, números, dramas e alegrias - sobre os assuntos e preocu­
pações estudantis que parece estarem disputando quem oferece a
melhor cobertura jornalística, sobre movimentadas e periódicas cor­
ridas para o ouro. E certamente o são.
Não é por outra razãõ que, como o leitor deve ter percebido ao
longo deste livro, fizemos um constante uso e consulta também do
conteúdo dessas publicações periódicas - porque com os sérios e
numerosos estudos e ensaios que apresentam, e os trabalhos de seus
colaboradores especiais, os periódicos transformam-se cada vez mais
no espelho da vida corrente, e nos ajudam a garimpar lições ou
observações, para um raciocínio adequado aos problemas e ansie­
dades sociais, da hora presente.
E porque a imprensa fez tudo isto, e poderá fazer muito mais ainda
pela Educação - ousamos aqui propor-lhe um outro desafio.
Que ao papel de catequese - tão admiravelmente cumprido numa
espontaneidade patriótica incomum - ela junte o de agressiva vigí­
lia. Vigt1ia, ainda uma vez, em nome do bem público. Vigília, de
novo, pela pátria, pelo que a pátria tem de melhor: sua infância e

244
sua juventude. Vigília, também, por exercício de uma função natu­
ral e biológica, que à imprensa está reservada no corpo da socie­
dade.
Eis porque e pelo que apelamos:
Parodiando uma famosa frase de Georges Clemenceau, primeiro­
ministro francês durante os dois anos finais do I .º Conflito Mundial
de 1 9 14-1 8 ("A guerra é um assunto demasiado importante para
ficar por conta só dos generais"), há alguns anos, a revista norte­
americana Time encimou a capa de um de seus números que tinha
como prato-forte os problemas do ensino naquele país, com esta
manchete: "A Educação é um assunto demasiadamente importante
para ficar por conta só dos professores" .
Esses episódios interligados pela extrapolação acrobática d e uma
frase vêm à lembrança porque, muito amiúde recentemente - cer­
tas autoridades federais do Ensino proclamam ou chamam a atenção
para o fato de que cabe aos Estados cumprir por si sós esta ou
aquela parte da tarefa da instrução pública - a aplicação da
Reforma, Lei 5.692, por exemplo. Estas declarações têm sido feitas
a propósito da verificação de que há Estados - e ao que parece,
muitos até - que têm deixado de pôr em vigor a reforma. Delica­
damente, evitou-se sempre mencionar os Estados cujos governos
são omissos ou relapsos.
A última manifestação importante nesse sentido foi a do Diretor
do Departamento de Educação Complementar do Ministério da Edu­
cação, e ocorreu por ocasião do 1 Simpósio sobre Ensino e Profis­
sionalização realizado no Rio de Janeiro em junho de 1973. Essa
autoridade declarou, então, abertamente, que temia que a Lei 5.692
- tão importante para o futuro deste país e para o destino de
milhões de jovens brasileiros - poderia ter o mesmo destino da
Lei de Diretrizes e Bases, " morta sem ter tido sequer muitos de
seus capítulos aplicados " . (" Diretor informa que o sistema escolar
atende só 1 5 % dos brasileiros" , Jornal do Brasil, 27 /6/ 1 972,
pág. 12.)
Reafirmou ainda o representante do governo federal, que "o minis­
tério da Educação não pretende interferir nas políticas educacionais
dos Estados, mas somente oferecer assistência técnica e financeira
para que eles, por si próprios, conduzam seus sistemas escolares
conforme as necessidades e realidades regionais " .
Dias antes, falando em Belo Horizonte, num simpósio oficial de
Educação, outro alto representante do Ministério da Educação, tam­
bém Diretor do Departamento de Ensino Médio, salientava de novo
a polític:a de "não interferência" das autoridades federais nos seto­
res de ensino a cargo dos Estados. Darão ajuda, sim, mas tudo
ficará por conta - e graça - da capacidade da máquina adminis-

245
trativo-educacional de que o Estado dispuser. ("Diretores de esta­
belecimentos técnicos participam de encontro em Belo Horizonte" ,
Minas Gerais, 23/6/ 1 973, pág. 3 .)
Podem ser hierarquicamente ou, se quiserem, constitucionalmente
perfeitos esse raciocínio e esse comportamento a que se propõem
essas e outras destacadas autoridades federais do Ensino.
Já foi citado mais de uma vez néste livro que, em outro relativa­
mente recente conclave ofioial de Eduq:1ção, reunindo nada menos
que os próprios secretários de Educação dos Estados, foi estri­
bilho - porque repetido por vários deles - que de nada adiantavam
aqueles debates e suas conclusões, pois os chefes de governos regio­
nais não davam ouvidos às coisas que aí se decidiam, consideradas
que eram - por eles - como " tolices" ou "exageros" da Corte.
Por outro lado, um homem público da experiência do Sr. José Maria
Alkmin, que foi ministro da Fazenda e até vice-presidente da Repú­
blica, sendo secretário de Educação de Minas, quase ao fim de
sua carreira política, convoc;,ado nessa qualidade para a IV Confe­
rência Nacional de Educação realizada em junho de 1 969, compa­
receu ao conclave dizendo que " Minas não traz estudos ou sugestões
para o certame, porque a ação do governo estadual no setor tem
caráter apenas complementar". (" Professoras, problema mineiro",
O Estado d e S. Paulo, 22/6/ 1 969, pág. 32.)
Famosamente manhoso, o falecido Sr. Alkmin invocou Pilatos:
como ao Estado cabe apenas executar, não tem, por isto, o que
dizer.
Em que ficamos então?
Quem vai atender o problema das crianças e dos jovens brasileiros
nos Estados em que suas excelências não tiverem a já hoje rasteira
capacidade de compreender a gravidade, a urgência e a importância
humana e nacional do problema?
Quem vai coibir a situação de desmantelo, desorganização ou mesmo
penúria em que sabidamente se encontram o mecanismo e as ativi­
dades letivas em muitas unidades da Federação?
Essa situação chegara ao ponto de em 1 965 o próprio Estado líder,
São Paulo, ter ainda 735 .000 crianças sem escolas, sendo 1 1 3.234
delas em plena Capital bandeirante. Esses foram os algarismos da
chocante revelação do Censo Nacional de Educação, publicado em
dezembro de 1 964. (0 País dos coitadinhos, cap. " Povo burro é
povo pobre ", Cia. Editora Nacional, 4.ª ed., págs. 399-40 1 .)
São Paulo atravessara assim todas as suas fases de ouro e patacas e,
mesmo com toda essa pletora de dinheiros públicos e particulares,
levava às escondidas, nos descaminhos de suas bibocas interioranas
e nos bolsões de suas favelas urbanas, aquela supercarga de crian-

246
ças proscritas - não conhecida nem pressentida pelo escandaloso
número de fugazes secretários de Educação - quarenta e cinco! -
que passaram por aquela Secretaria em apenas 22 anos, de 1 9 3 1
a 1 9 5 3 . (Maria José Garcia Werebe, Grandezas e misérias d o ensino
no Brasil, Difusão Européia do Livro, 1 968, pág. 57.)
Ainda, ressaltando uma impressionante característica da irresponsa­
bilidade de grupos políticos regionais, a prof.ª Maria José Garcia
Werebe completa o quadro desse descalabro com mais esta infor­
mação, à mesma pág. 57 de seu livro: "( . . . ) só em 1 93 1 , no ano
de plena efervescência política, nove secretários passaram pela pasta
da Educação. "
S e o espírito d e Pilatos comanda a s repartições executaras o u fisca­
lizadoras de Brasília, quem poderá impedir que prossiga esta outra
paradoxal e chocante situação: num país em que faltam escolas,
havia em 1 966 centenas de milhares de vagas não preenchidas
em todo o país, principalmente em escolas de nível técnico-ginasial;
em 1 970, não tendo sido tomada nenhuma medida, essas vagas já
eram avaliadas em 1 milhão.
Com efeito, mesmo diante dos resultados levantados em 1 966 por
uma comissão de educadores (José Martins de Santa Rosa, da Gua­
nabara; Dalton de Oliveira, do Paraná, e Luiz Pasquale, de São
Paulo), nomeada especialmente pelo então ministro Tarso Outra,
"as conclusões do relatório não foram postas em prática" , até
4 anos depois, segundo o depoimento do prof. Santa Rosa. (" Pro­
fessor afirma que há atualmente nas escolas do país um milhão de
vagas ", Jornal do Brasil, 24/ 1 / 1 970, pág. 1 2.)
E quanto aos municípios?
E quanto também aos problemas das próprias universidades, cujas
reitorias continuam - apesar da lei que quebrou esse monopólio -
sendo cadeiras cativas para usufruto " só de professores " - ainda
mesmo quando o mestre indicado, sumidade em sua cátedra, venha
a atuar, quando guindado a um gabinete de administração, como
um arrasador símio em loja de louças?
Há alguma coisa, corrigimos, há muita coisa acontecendo na área
do ensino, aquém e além do Planalto, que nos leva num safanão à
crueza lógica da frase de Clemenceau e da legenda da revista ame­
ricana. Por que o pilatismo " constitucional" de deixar seus pesados
problemas da Educação popular por conta somente de governadores,
de prefeitos e de reitores?
f preciso que alguém - a imprensa de cada Estado e, quando
necessário, o governo federal - assuma o dever de velar pelos
direitos da infância regional, quando desatendidos pela indiferença
ou pela incapacidade daqueles governadores ou prefeitos que ainda
não tenham desembarcado em nosso século.

247
Aliás, mesmo antes da avalancha de escolas públicas, necessaria­
mente impostas para atendimento global do direito à Educação, j á
Anísio Teixeira, e m 1 957, esboçava .um quadro pouco animador d o
que ia intramuros pelos estabelecimentos d e ensino e nos órgãos
estatais encarregados de geri-los ou fiscalizá-los:
" Por outro lado, o professor, integrado em quadro único perten­
cente a todo o Estado, desligou-se da escola, para pertencer às
Secretarias de Educação, onde vive numa competição dolorosa por
promoções, remoções e comissões, que se fazem os objetivos da
profissão" . (Anísio Teixeira, Educação não é privilégio, Liv. José
Olympio Editora, 1 957, pág. 46.)
Se estivesse sujeito às conseqüências críticas da bisbilhotice benfazeja
da imprensa da época, jamais aquele diretor da Escola Luiz de
Queiroz, de Piracicaba, teria devolvido intata, ao governo do Estado,
"a verba de 6 contos de réis " para aquisição de livros e revistas,
"sob a alegação de que era exagerada e desnecessária " - segundo
o depoimento de Navarro de Andrade, ao descrever a inadequação
do material escolar que ali encontrara quando assumiu a direção do
estabelecimento . (Fernando de Azevedo, A Educação na encruzi­
lhada, 2.ª ed., 1 960, Edições Melhoramentos, pág. 140.)
Não pode ser invocada aqui uma abstrusa extraterritorialidade para
respeitar muretas divisórias ou galões políticos, e assim encobrir
deficiências ou proteger incompetências, em área de tão terríveis
danos sociais. Além disso, onde houver crianças ou adolescentes
brasileiros necessitando de ajuda para sua formação profissional e
espiritual, até aí devem avançar sem-cerimoniosamente as fronteiras
das autoridades encarregadas da política de orientá-los e salvaguardar
seu destino. Ou a voz de alerta da imprensa.
A ignomínia do hiato nocivo sobreviveu na cara de todos - políti­
cos e sociólogos - principalmente porque o ensino secundário fora,
como o primário, deixado totalmente à responsabilidade dos gover­
nos estaduais - que, além de insensibilidade para o problema,
tinham sempre como exígua prioridade as manobras políticas cons­
tantes, visando ao domínio ou à manutenção do status quo eleito­
reiro.
Um outro ângulo da vigilância criadora que a imprensa poderia to­
mar a seu cargo, com relação à Educação, é a batalha pelas
novas idéias centrais, das quais dependem rumos e soluções básicos
para os problemas e impasses do ensino.
Muitos, por exemplo, viram a adoção do ensino profissionalizante
como uma inovação quase esdrúxula, mais uma idéia que estaríamos
importando do país do não-sei-onde, em aberto antagonismo com a
nossa tradição puramente humanística.

248
No entanto, a idéia, além de ser velha de quase meio século entre
nós, também não surgiu como manifestação isolada de algum tei­
moso pioneiro. Em amplo inquérito que Fernando de Azevedo fez
entre educadores do mais alto gabarito, em 1926, por solicitação
do jornal O Estado de São Paulo, ouvindo professores do maior
destaque no tempo - como Paulo Pestana, Navarro de Andrade,
J. Mello Morais, Roberto Mange, Teodoro Braga e Paim Vieira -
todos solicitavam enfaticamente que fosse dada imediata e ampla
atenção ao ensino profissional, que cada um analisava sob os ângu­
los de suas especialidades.
Em suas " Conclusões" sobre o inquérito em tomo do ensino pro­
fissional, já afirmava Fernando de Azevedo: " Onde está a solução
do problema da Educação popular é, pois, na aprendizagem para a
vida, procurada nas escolas de trabalho em que ao lado do ensino
da escrita, da leitura e da aritmética, se ministre o ensino técnico
elementar, agrícola ou fabril, conforme a variedade das condições
locais. " (A Educação na encruzilhada, Edições Melhoramentos,
2.ª ed., 1960, pág. 1 72.)
Mas estas vozes, embora doutas e visionariamente lúcidas, perde­
ram-se porque afora os efeitos do elogiável impulso inicial, faltou
aquela força construtora, ou demolidora, que surge quando a im­
prensa exerce o poder do seu martelamento constante e persistente,
de um tema de interesse coletivo.
O papel reservado à imprensa brasileira ficou posto em evidência
dramática por ocasião da interpelação, pelas Comissões de Educa­
ção e Cultura do Senado e da Câmara, do ministro Jarbas Passa­
rinho (governo Médici), em 25 de outubro de 1 973.
Durante 4 horas, o titular da Educação expusera minuciosamente
aos deputados e senadores, o que vinha sendo realizado em sua
pasta em 4 anos de ação; o que não pudera ainda ser concretizado
e o que estava sendo planejado.
Iniciados os debates, informaram os jornais, os parlamentares que o
interpelaram não se alçaram além da estratégia dos desinformados:
levantar questões de ordem política, e provinciana. A discussão
ficou ao rés do chão dos fatos miúdos, verberando-se as punições
por indisciplina ou rebeldia (" 38, ao longo de 4 anos, numa popu­
lação universitária que, no instante do debate, já atingia a cerca de
850 mil estudantes ", respondera o ministro) . ( " Passarinho nega vio­
lência", O Estado de São Paulo, 26/ 10/ 1 973, pág. 22; " Ministro
responde críticas contra o decreto 477 " , O Globo, 26/ 10/ 1 973,
pág. 13; " Ministro expõe na Câmara a atual política educacional ",
Jornal do Brasil, 26/ 10/1973, pág. 4.)
Enquanto o senador João Calmon procurava acordar a sensibili­
dade intelectual do Parlamento, levando o ministro de Estado a

249
explicar porque ainda se estava aplicando relativamente tão pouco
em Educação, outros congressistas baixavam a carpintaria daquele
cenáculo, insistindo em igualar a um recinto de política municipal
aquilo que deveria ser o anfiteatro de provas das grandes idéias bási­
cas nacionais.
Isto quer dizer que a preocupação daqueles classificados represen­
tantes do povo era fazer uma interpelação meramente política à
autoridade que acabara levando-os a perder tanto tempo, ao falar
dos desdobramentos que o poder executivo procurava dar às suas
responsabilidades quanto à Educação pública.
O fato mostra, por mais este ângulo, que se o dia-a-dia da Educação
no Brasil depender da vigilância ou da colaboração do Congresso,
o mecanismo do ensino emperrará e desmontará por falta de estí­
mulo e de interesse sincero e legítimo.
Uma prova da desproteção que cerca o corpo discente brasileiro
está no reconhecimento expresso pelo próprio Relatório do Coronel
Meira Mattos, de que nem o próprio governo tem forças para agir
contra os mestres descumpridores do dever, já qu� o "sistema implan­
tado pela Lei de Diretrizes e Bases pressupõe, da parte dos que
devem cumpri-la, uma consciência perfeita de deveres e obrigações,
atributo esse inexistente em vários setores do complexo educacional
brasileiro. " ("A Reforma Universitária - O Relatório Meira Mat­
tos ", Suplemento Especial de O Estado de São Paulo, 3 1 /8/ 1 968,
pág. 3.)
Em outras palavras, a Lei de Diretrizes e Bases não prevê punição
para o professor faltoso pois entende, em seu espírito, que um
mestre jamais pode ser um irresponsável.
Se a imprensa brasileira não tomar o ensino e as escolas como seu
maior campo de ação e vigilância, ficarão para sempre impunes,
sob o silêncio das coisas ignoradas ou acomodadas sob a proteção
das conveniências políticas, fatos como o citado pelo prof. Lauro de
Oliveira Lima, infelizmente sem indicar qual a unidade, ou as uni­
dades da Federação, em que isto ocorreu:
" Evitaria, com isto, entre outros males, a politicagem estadual, que
elimina do planejamento os municípios dominados por adversários
do governo, como verificaram muitas vezes, estarrecidos, os técni­
cos encarregados da aplicação dos recursos do Plano Trienal. "
(Lauro d e Oliveira Lima, Tecnologia, Educação e democracia, Edit.
CivilizaÇão Brasileira, 1 965, pág. 52.)

Se as autoridades maximamente responsáveis da Educação procla­


mam tão consecutiva e tão ciosamente o pilatismo que lhes foi
estabelecido por filosofia própria, por regulamento planejado ou

250
por lei nova - quem irá zelar ou quem irá exigir abundância e
qualidade de ensino, ou um máximo de bom ensino, que evite sejam
totalmente reais ou exatos os algarismos que já começam a ser
mencionados, de " excedentes " de diplomados? Quem impedirá ·que
excedam não propriamente em número, mas em falta de competên­
cia, por terem sido formados em faculdades e colégios que apenas
faturam o ensino?
No capítulo em que estudamos o problema da organização do qua­
dro variável de nossas necessidades de talento profissional, vimos
diversos depoimentos, que acusam um volumoso desleixo ou uma
baixa qualidade do ensino proporcionado em todos os níveis. Quem
lancetará esses tumores se os esculápios que detêm o bisturi minis­
terial se declaram gentilmente espectadores no anfiteatro?
Num problema que tem a imperiosidade da Educação, é preciso
que fique claro e sabido que haverá sanções ostensivas para as
autoridades relapsas. Se atualmente não há lei que as permita, que
se crie a lei. Pois., desassistir crianças e jovens desprotegidos, filhos
já da pobreza, gerando assim novos milhões de analfabetos ou semi­
analfabetos, é neste mundo supercientífico e tecnológico, sem ne­
nhum exagero, um ato de paragenocídio - uma vez que se estarão
empurrando esses brasileirinhos irremediavelmente para os álgidos
crematórios da miséria.
:i;: insatisfatório, porque remoto e muito posterior, o controle que os
tribunais de contas estaduais, ou o federal, possam fazer sobre a
obrigatoriedade da aplicação pelos municípios, em Educação, de
20% de sua renda tributária (artigo 59 da Constituição Federal) .
A esses tribunais, desvinculados do problema educacional, cabe
apenas contar o dinheiro, utilizado, mas não vigiar de perto a
técnica, a qualidade, a adequação das escolas instaladas, ou do
ensino nelas proporcionado.
Não se pense que foi totalmente por intuição sociológica ou cons­
ciência administrativa que as autoridades menores nos EUA, prefei­
tos e governadores, levaram a sério, desde muito cedo, as coisas do
ensino. Havia punição severa no calcanhar dos desleixados: em
1 827, no Estado de Massachusets, por exemplo, já se legislava obri­
gando os mayors dos condados a construírem a high-school (a escola
primária já nem se discutia) , em toda localidade com mais de 500
famílias. Seriam drasticamente demitidos os prefeitos que não pro­
videnciassem também o ensino secundário gratuito. (0 País dos
coitadinhos, cap. " Povo burro é povo pobre", 4.ª ed., Cia. Editora
Nacional, 1 968.)
Desgraçadamente, existe uma covardia circular ou viciosa - que
começa no estudante amedrontado diante das notas do professor
relapso ou incompetente, e se estende aos pais que receiam o boom-

251
erang de prejudicar os filhos ante a vindita de mestres que se mos­
tram intelectualmente medíocres, ou espiritualmente mesquinhos.
Então, as queixas morrem nos concílios domésticos, ou geram uma
contínua romaria em busca de colégio melhor ou mais bem orga­
nizado.
Por muitos anos ainda, será o ensino de l .º e 2.º graus o que a
nação poderá oferecer ao máximo de sua infância e juventude - e,
simultaneamente, o máximo período de tempo que a maioria dos
jovens, por motivos econômicos ou por predisposição psíquica, po­
derá dedicar à sua preparação para a luta pela vida.
Foi certamente tendo isto em vista que o Relatório do Grupo de
Trabalho para a Reforma Universitária crismou esse período das
atividades letivas como "escolas de cidadania" - pois são " desti­
nadas a dar a cada um os elementos indispensáveis para que com­
ponha a sua imagem do mundo e do homem com as idéias vivas
de seu tempo, de forma a situar-se diante da natureza e da cultura,
e poder participar produtivamente da vida de sua comunidade " .
(Pág. 4 7 , Edição IBGE, agosto/ 1 968.)
Como deixar que exatamente as " escolas de cidadania ", as escolas
do mínimo necessário, fiquem insuladas, sob a quarentena constitu­
cional deliquescente de Estados e municípios que, no mais das
vezes, apresentam administrações débeis de meios, ou falhas de
capacidade?
Sabemos que no magistério, como em todas as atividades intelectuais,
há uma generalizada tendência para o contemplativismo procrasti­
nante. Se não existir o temor da sanção ostensiva da crítica (da
imprensa) ou do enquadramento (da lei) - os mestres descansados
descansarão, e os incompetentes continuarão engrolando.
Numa como que demonstração da abertura que a imprensa deve dar
às suas funções públicas para com a Educação, O Globo publicou,
em 9 de outubro de 1 973, um editorial de primeira página em que,
criticando a existência dos "cursinhos" de pré-vestibular, apresen­
tava-os como sintoma de uma doença. " Por ironia, a decadência
maior da educação de nível médio ocorre nos estabelecimentos
oficiais, onde o l:>enefício da gratuidade nem sempre compensa a
irresponsabilidade de diretores ou professores, e a indisciplina ou a
desídia de grande parte dos alunos " . ("A doença e o sintoma",
O Globo, 9/ 1 0/ 1 973, l .ª pág.)
Os diplomados que, em qualquer nível, permanecem prolongada­
mente desempregados são, na sua maioria e sem sombra de dúvida,
as vítimas a posteriori da mentalidade da média 75. Eles se vicia­
ram, no ambiente escolar negligente, ao entorpecimento da facili­
dade, do mais-ou-menos, do dá-para-passar. Obtida de qualquer
modo a modesta nota salvo-conduto, o resto se empurrava à altura

252
do abdômen. Daí por diante, o mal-fazer de todos os dias, o estudo
pela metade, entortaram-lhe de tal modo sua postura intelectual, que
esse aleijão - a média 75 - é logo descoberto pelo olho clínico
dos que têm experiência em recrutar pessoal qualificado para qual­
quer empresa.
Para que a praga do desleixo não alargue os seus domínios, e a
doença não se comunique de mestres a alunos, é preciso que alguém
saia a campo, de apito ou de manchete na boca, contra o achata­
mento intelectual nacional.
Só dispomos de duas forças, com poder de alarme e socorro para
deter a expansão das trevas causadas pelos obscurantistas guindados
nos poleiros mais-ou-menos altos do poder. � a agora vara encur­
tada das autoridades federais do ensino, e o grito longo da imprensa.
A imprensa brasileira descobriu a Educação como notícia, através
da divulgação das dificuldades e dos abusos que se verificavam com
a industrialização eleitoral de matrículas para crianças e ginasianos
pobres, e dos dramáticos congestionamentos pré-universitários, com
centenas de milhares de jovens disputando poucas dezenas de milha­
res de vagas às portas das faculdades.
Agora, está nas suas mãos transformar e estender essa honrosa res­
ponsabilidade cívico-social, à medida que sua intimidade com o
problema levanta outras deficiências - algumas delas de capital
importância para os resultados que a Nação busca de seu orga­
nismo escolar.
Os sucessivos pronunciamentos pilatistas de autoridades federais
do ensino, em escalão médio fugindo de qualquer responsabilidade
quanto ao ensino primário - " por ser da alçada estadual e muni­
cipal� - e o que já vem acontecendo largamente nas escolas de
nível secundário e superior, com abusivo e até cínico absentismo
de professores, ou sua insuficiente preparação profissional - deixam
a Educação semi-órfã de comando e proteção.
O generoso bom-mocismo daqueles burocratas delicados que, numa
linguagem significativamente freudiana, "têm horror" de vir a ser
algozes dos seus colegas - os professores relapsos - transfere para
outrem, fora dos quadros normais da burocracia galardoada, a res­
ponsabilidade e a coragem de descobrir e protestar contra o des­
cumprimento do dever sob qualquer de suas formas.
Por sua vez, os políticos - vereadores e deputados - pensam logo
nos votos que perderiam se fossem clamar contra os que empurram
com a barriga aquilo que deveria ser feito com a cabeça e o coração.
Abrindo decisivamente suas colunas e páginas para os problemas da
Educação, a Imprensa brasileira fez uma opção cujo significado
ultrapassa de muito o espírito do profissional da notícia, que apenas
registra os fatos principais do cotidiano.

253
Os chamados homens-de-jornal entraram numa arena atraídos pelo
alarido das queixas e angústias que, num certo momento, geravam
manchetes sofridas.
Entraram corno simples espectadores ou escrivães do registro dos
fatos. Mas a importância do que acontece nessa área impõe ao
patriotismo ou ao espírito público do jornalista que, agora, dê a
boiada para não sair. Tendo descoberto na Educação outros ângulos
de manchete, seu dever agora é vasculhar continuamente o que acon­
tece nas escolas de todos os graus - e divulgar o que falta, o que
não foi feito e também o que daí resultar de grandioso e humano.
O destino do país e o êxito de cada um dos milhões de jovens
das novas gerações brasileiras precisam que cada jornal, de cada
cidade brasileira, ajude os governos e os pais na observação do que
acontece de mau, ou de bom, em quaisquer de nossas escolas.
Ternos que apelar para a Imprensa, estimular a Imprensa, urgir à
Imprensa, que assuma definitivamente a iniciativa da vigilância e
iniciativa nos assuntos de Educação, ajudando as autoridades, Pois
a insensibilidade dos políticos brasileiros em entender a importân­
cia da Educação tem sido tão desastrosamente universal e histórica,
que segundo Lauro de Oliveira Lima, ontem mesmo, " em 1 930,
eram apenas 30.000 os estudantes secundários" no país. (Lauro
de Oliveira Lima, O impasse na Educação, Introdução, Editora Vo­
zes, 1 968, pág. 24.)
A Educação é um assunto demasiadamente importante para jazer
corno terra-de-ninguém, ao "cuidados" dos que lhe são indiferen­
tes, ou corno intocável latifúndio - sob os pés dos que dela não
sabem corno cuidar.

254
12
a profissão sagrada

•Diga qual foi o primeiro


pensamento que Cle6patra teve ao
trair o seu primeiro marido. "

(Pergunta Inserida e m u m exame


vestibular - apud Jarbas Passarinho,
ministro da Educação, em "Ministro
tem as soluções", O Estado de São
Paulo, 23/5/1970, pág. l i .)

- Não tem problema. Eu também


não sei ler.

(Resposta de uma professora de escola


primária da Ilhe de Merejó, e um
Inspetor que fiscalizava sua sala de
•aula•.
Citada pelo ministro de Educação do
Governo Médlcl, em conferência na
Escola Superior de Guerra, no Rio,
em 29/5/1970. "Educação - Uma
situação triste, mas real•, Correio da
Manhã, 30/5/1970, pág. l i .)

•o Ministério do Trabalho proibiu


o agenciamento de empregadas
domésticas para os EUA ( . . . ). As
autoridades do Ministério do
Trabalho /icaram surpreendidas
com o número de professoras e
/uncion4rias públicas que
atenderam às chamadas da
agência ( . . . ) 9

(Nota oficiei dlstrlbulda aos Jornais


pela Assessoria de Imprensa do
Ministério do Trabalho. "Governo
proíbe americano de agenciar
empregadas domésticas para seu pais",
Tomai do Brasil, 17/8/1968, pág. 12.)
Professor ganha menos que zelador
do cemitério, zelador do matadouro
e ajudante de pedreiro - todos
como ele, funcionários municipais.

("Professor ganha menos que


pedreiro", Diário de São Paulo,
17/4/1 966 , 2.0 caderno, pág. 3.)

"A Faculdade de Filosofia do Recife


foi intimada a pagar Cri 33.307,76
à professora Maria do Carmo
Tavares de Miranda e, alegando não
ter todo o dinheiro em espécie,
ofereceu 10 gaiolas de ratos, uma
guilhotina e uma enceradeira . . . A
professora disse que não lhe
interessavam as gaiolas. •

("Mestre quer salário, não gaiolas


pare reto•, O Estado de São Paulo,
13/12/1969, pág. 8.)

"Em 1965, quando os calouros do


curso de Ciências Sociais da
Faculdade de Filosofia da
Universidade Federal do Rio de
Janeiro chegaram para o primeiro
dia de aulas tiveram informação de
que o catedrático de Sociologia -
principal matéria do currículo -
seria o professor Hildebrando Leal.
Agora, os alunos voltam às aulas, já
no quarto ano, e recebem a noticia
de que o prof. Hildebrando acaba
de aposentar-se. Para eles,
entretanto, a aposentadoria do
mestre pouca diferença faz: em três
anos, não foi visto uma só vez
pelos alunos que, desta maneira,
ficaram privados de usufruir de
sua erudição e autoridade na
matéria. •

("Turma diploma-se e nunca vul


catedrático", O Globo, 8/4/1968,
pág. 8.)

"A Reitoria da Universidade Federal


do Rio de Janeiro desconhece o
número de professores não
regulares, e quanto ganham. •

("Reitores ped em reforma d o ensino


com urgência", O Globo, 5/6/1968,
pág. 5.)
Vêm do fundo dos séculos a mesquinhez e a sovinice com que os
dirigentes políticos da maioria dos países encaram a Educação e a
função do professor.
Não compreendendo em toda sua profundidade e conseqüências a
necessidade primacial da Educação - e a importância político­
social de seus militantes ativistas, os professores - os governos,
de um modo desastradamente global, os trataram e tratam, quase
por toda a parte, como uma categoria de indivíduos que exercem
uma função secundária - cercada de características de desimpor­
tância, ou ociosidade.
Descrevendo uma "escola" em Roma, no 3.º século depois de
Cristo, informa o prof. Henri-Irinée Marrou, em sua História da
Educação na Antiguidade (Editora Herder e Editora da USP, 1 966,
págs. 4 1 4 e 4 1 5) :
" Não nos deixemos impressionar por esta encenação; o mestre das
primeiras letras continua sendo, em Roma como na Grécia, um
João-ninguém; sua profissão é a última das profissões, rem indignis­
simam, fatigante e penosa, mal paga: em 301 D . C . , o Edito de
Diocleciano fixa o salário do magister no mesmo nível que o do
pedagogo " (como era denominado o escravo mais " instruído" , encar­
regado de acompanhar pelas ruas, e à "escola", os jovens rebentos
dá nobreza).
Da urbs romana até agora, da miopia de seus homens públicos
até os atuais, não se caminhou muito no reconhecimento da impor­
tância capital da Educação e dos servidores que a ministram.
Pela remuneração que até hoje lhe é aquinhoada, o magistério -
em todos os níveis - ainda é um " bico " . Pela desatenção com
que se o acompanha ou assiste no exercício de suas funções - ainda
é uma subalternidade no escalão governamental-administrativo.
Mesmo a Constituição brasileira de 1 967, isto é, a da Revolução de
3 1 de março, institucionalizou definitivamente, em seu artigo 97,
a profissão de professor assim - como um "bico" - quando
quebra sua própria rigidez contra a acumulação de cargos em todas
as funções públicas, para admitir que um professor "pode acumular
dois cargos de professor" ou " um outro cargo técnico ou científico" .
Isto foi como que a oficialização d a acrobacia profissional d e certos
mestres que, forçados à busca de melhores honorários, já nem se
contentavam mais em apenas usar os colégios ou as faculdades de

257
uma mesma cidade como o autódromo de sua maratona interurbana,
saltando de uma para outra escola. Com sua fragilidade econômica
amparada por essa muleta que lhes foi "generosamente" garantida
pela Lei Máxima da Revolução, eles puderam partir até para a cor­
rida de obstáculos, saltando mesmo fronteiras interestaduais, " exer­
cendo uma função pública num Estado da Federação, e acumulando
função com o magistério em outro Estado" , conforme registrou o
Relatório Meira Mattos. ("A Reforma Universitária - O Relatório
Meira Mattos ", Suplemento especial de O Estado de São Paulo,
3 1 /8/ 1 968, pá� 2J
Não se deu - há 20 séculos passados - nem se reconhece - ainda
hoje - a dignidade sacerdotal e funcional que cabe ao profes­
sorado. E o lógico aconteceu: são relativamente poucos os homens
equipados e ao mesmo tempo entusiastas que optam com alegria
pela profissão de lecionar. Ao contrário, mal recompensadas e mal
reconhecidas, as cadeiras de ensinar são deixadas vagas para os
transeuntes da disponibilidade - aqueles que buscam o magistério
como um último recurso, ou uma atividade passageira de circuns­
tância.
("Um apanhado de opiniões dos principais especialistas em ensino
médio no Brasil revela que o súbito desenvolvimento do país após
a guerra tomou necessário organizar um magistério secundário de
emergência, aliciado nas sobras de outras profissões, ou entre can­
didatos sem profissão alguma. " Do relatório do prof. Carlos Corrêa
Mascaro, diretor do INEP, representante do Brasil na reunião da
UNESCO em Paris, em 1 967, citado pormenorizadamente, mais
adiante, neste capítulo.)
Aliás, por causa dessa subaltemidade social e econômica, o des­
preparo do professorado é endêmico em toda a América Latina.
Em seu estudo Estado atual da Educação Escolar, o prof. Oscar Vera
revela que "por volta de 1 957, de um total de 436.000 professores
de escolas primárias em 16 países (latino-americanos) - os quais
representam mais de 80% da população total da região - só
22 1 .000, ou seja, 51 % , tinham recebido preparação específica para
o magistério. " (Apud Desenvolvimento, Trabalho e Educação, Zahar
Editores, 1 967, pág. 5 1 .)
Como se vê, ainda nesse aspecto, as origens de nossos problemas
e as dos demais países subdesenvolvidos são extraordinariamente
coincidentes. Entretanto, essa ampla companhia não alegra, nem
consola .

Registram-se, é verdade, em nosso magistério milhares de casos de


vocações apostolares. São homens e mulheres que assumem o ofício

258
como um impulso irreprimível para um sacerdócio. E às vezes o
· fazem na pleniluz de sua juventude, tornando-se mestres pela mesma
força vocacional daqueles que saem em busca dos mais fracos, dos
necessitados e doentes para, seja como for, ampará-los ou ajudá-los.
Mas as estatísticas sobre o preparo do nosso professorado, em todos
os graus, são decepcionantes.
O quadro, porém, nem poderia ser outro, Pois, o que aí está é
o que as classes dirigentes do país pensavam, ou ignoravam, sobre a
objetividade da função do mestre.
A cadeira, ou a vaga do professor ou professora primária, por
exemplo, vêm sendo vistas há mais de um século entre nós como
a oportunidade da premiação barata ou da barganha eleitoreira fácil.
Escolher um professor tem sido apenas a ocasião de ajustar favoreci­
mentos ou encontro de contas de eleitorado.
" ( . . . ) A Educação no Brasil sempre foi deficiente devido principal­
ménte a esse tipo de arranjos . " " As soluções devem ser pedagógicas
e não políticas. " Este foi o desabafo do prof. Valnir Chagas, um
dos mais destacados mestres brasileiros da atualidade, analisando a
história do ensino no país. ("Valnir prevê a supletivação do ensino
regular em 15 anos ", O Globo, 3 /4/73, pág. 1 6.)
Agravando isto, registra-se um requinte do menosprezo à dignidade
da função. Em alguns Estados de políticos mais marotos, existe a
indústria - evidentemente de fins eleitoreiros - do " professor
contratado", e sempre pelo período de um ano. Onde a maldade?
O pobre do professor torna-se " freguês de caderneta " do vereador
ou do deputado para obter, a cada ano, o favor da renovação do
contrato.
Aliás, a propósito desses "arranjos" dos políticos em torno do fun­
cionário-professor, diz Lauro de Oliveira Lima: " Nomear profes­
sores com apenas o curso primário deveria ser crime catalogado
no Código Penal: quase nenhum administrador escaparia à puni­
ção . . . Não é admissível formarmos 30.000 professores por ano e
nomearmos analfabetos regentes de classes. " (Lauro de Oliveira
Lima, O impasse na Educação, Editora Vozes, 1 968, pág. 55.)
E para "aquilo" - como era considerada a função de ensinar -
destinou-se sempre um atendimento financeiro mesquinho, ajeitado
com sobras e tutaméias.
As verbas orçamentadas para o ensino e para professores eram
somadas das migalhas e das aparas que restassem. E, mesmo sendo
curtas e parcas, ainda se atirava sobre elas o enxame das nomea­
ções de todos os que, com meia ou nenhuma competência, traziam
os vales de boca de urna.
Aliás, nada exprime melhor o enfoque liliputiano com que a classe

259
política em geral via os assuntos públicos - de poucos votos -
do que o enquadramento econômico-social a que as administrações
estaduais e municipais comprimiam e relegavam a função de ensinar.
Há tempos, o Diário de São Paulo pinçou, do panorama de uma
administração municipal do interior paulista, este retrato dramatica­
mente eloqüente, e que, com variantes mais ou menos elogiáveis,
exprime o padrão por que, ainda hoje, é bitolado estadual ou muni­
cipalmente o ensino e os ensinadores Brasil afora:
"Tabela anexa à Lei Municipal n.º 350, do Município de Monte
Azul Paulista ( 1 966) .

Cargos isolados de provimento efetivo


Padrão Cri
1 .º) Contador Secretário V- 1 0 102,00
2.º) Tesoureiro V-1 9 102,00
3.º) l .º Escriturário B-1 9 98,00
4.º) 2 .º Escriturário L 18
- 95,00
5.º) 3 .º Escriturário L-1 8 95,00
6.º) 1 .º Fiscal L-1 8 95,00
7.º) 2 .º Fiscal V-1 5 8 1 ,00
8.º) 3 .º Fiscal V-1 5 8 1 ,00
9.º) Porteiro V- 1 5 8 1 ,00
10.º) Secretário da J . A . M . L-1 8 95,00
1 1 .º) Fiscal arrecadador de Mar V-1 5 8 1 ,00
1 2 .º) Zelador do Matadouro G-1 5 78,00
1 3 .º) Zelador do Cemitério B-1 4 72,00
14.º) Encarregado da Limpeza Pública G-1 5 78,00
1 5 .0) Encarregado da Limpeza Pública
do Distrito de Marcondesia G-1 5 78,00
1 6 .º) Bombeiro V-1 5 8 1 ,00
1 7 .º) Jardineiro G-1 6 83,00
1 8 .º) Ajudante de Jardineiro G-1 5 78,00
1 9 .º) Fiscal de Turma V- 1 5 8 1 ,00
20.º) Chofer V-1 5 8 1 ,00
2 1 .º) Mecânico operador Motorista V-1 5 8 1 ,00
22.º) Motorista V- 1 5 8 1 ,00
23.0) Pedreiro V-1 5 8 1 ,00
24.º) Ajudante de Pedreiro G-1 5 78,00
25.º) PROFESSOR 0-1 2 65,00"

(" Professor ganha menos que ajudante de pedreiro ", Diário de São
Paulo, 1 7 /4/ 1 966, 2 .° caderno, pág. 3.)
Nem se pode alegar que isto dizia respeito a professor primário
municipal e se passava numa humilde comuna do interior (ressai-

260
ve-se que é município de nosso mais rico Estado), e que ocorreu
já há alguns anos.
Em julho de 1 974, o presidente da Associação dos Professores Para­
naenses, prof. Eduardo Tavares, apoiava a divulgação do quadro
de mesquinhas dificuldades a que haviam chegado doze mil profes­
sores suplementaristas (o "eleitorado" preso pelo umbigo da reno­
vação do contrato) do Paraná, " responsáveis por 80 por cento do
ensino ministrado em todo o Estado. Muitos foram despejados no
interior pela falta de pagamento dos aluguéis e, em Londrina, até
o Banco Nacional de Habitação ameaçou executar a cobrança das
prestações em atraso, de imóveis financiados aos mestres. Carros
confiscados, títulos protestados e suspensão pelos armazéns do for­
necimento de gêneros de primeira necessidade são outros exemplos
da situação enfrentada pela classe " . ("O Paraná não paga a 80%
dos mestres" , O Estado de São Paulo, 28/7 / 1 974, pág. 33.)
Os professores suplementaristas estavam, até aquele mês de julho,
sem receber os vencimentos do ano. E o presidente da Associação
dos Professores Paranaenses completava !! informação: " ( . . . ) a
situação se repete todos os anos. " E finalizava melancólico: "O mais
grave é que o processo (do contrato) tem de ser renovado anual­
mente."
Além da dieta já normal dos baixos salários, o professorado ainda
é submetido quase por toda a parte ao racionamento do recebi­
mento, de uma forma que acaba se tornando ironicamente equâni­
me. Pois não se pode dizer que esses cuidados seletivos do tesouro
público sejam limitados apenas aos mestres do primeiro ou, no
máximo, do segundo ciclo.
Ainda não há muito tempo, os professores de uma Faculdade de
Medicina, a de Sorocaba (também São Paulo) chegaram a ficar
16 meses sem receber vencimentos. (" Dívida agita Faculdade ", O
Estado de São Paulo, 8/5/1 970, pág. 36.)
Que tranqüilidade de espírito e, portanto, que qualidade de ensino,
podem ter ou oferecer professores a braços com esse tipo de pro­
blemas, e classificados e tratados dessa maneira - mesmo nas
unidades mais florescentes da Federação?
Por sua vez, entre reivindicativo e envergonhado, o Sindicato dos
Professores Primários e Secundários, da Guanabara, fez publicar
há tempos os resultados de um " levantamento sobre as condições
em que vivem seus associados " . (" Professor primário precisa traba­
lhar em 3 escolas para ganhar Cr$ 700,00 por mês " , jornal do
Brasil, 25/2/ 1 969, pág. 5.)
Mesmo que a amostragem dessa pesquisa ( 1 2 % apenas de professo­
res primários, 80% de nível médio e 8% do magistério superior)
pudesse resultar "num quadro mais benévolo do que real", por ter

261
sido ouvida a ma1or1a de professores "melhor aquinhoados ", os
fatos e hábitos da vida cotidiana dos mestres explicam porque
tantos deles se escondem nas omissões e escusas sociais da chamada
"pobreza envergonhada".
"Vinte por cento deles moram em residências com um ou dois
cômodos (sala e quarto), 50% em três cômodos e 30% em casas
ou apartamentos com mais de 3 cômodos. Mas 30% não têm lugar
para guardar livros em casa. "
Isto é, não tinham sequer biblioteca.
Outros dados chocantes da pesquisa na Guanabara: "Vinte e cinco
por cento não têm tempo para ler, a não ser nas férias; 25% só
podem ler aos sábados e domingos; 40% têm algum tempo (pouco)
diariamente, e só 10% podem ler sempre que desejam . "
S e juntarmos a s respostas (sinceras) dos que não têm tempo para
ler com as dos que lêm apenas quando Deus é servido, verificare­
mos que 90% dos entrevistados passam meses, talvez anos, sem
abrir um livro.
Outras cifras da "pobreza envergonhada" : "A maioria dos profes­
sores, 60% , passa as suas férias no Rio, por falta de recursos para
viajar; 25% fora do Rio e 1 5 % de uma forma variada. "
Mesmo levando-se e m conta que a maioria absoluta dos entrevis­
tados (80% ) era de professores secundários, estas foram as cifras e
percentagens quanto a salários: " 65 % dos professores declararam
receber menos de Cr$ 500,00 mensais; 27% entre Cr$ 500,00 e
Cr$ 1 .000,00; e 8% mais de Cr$ 1 .000,00 mensais. "
Isto é, u m total d e 9 2 % dos professores "fazia menos d e Cr$
1 .000,00 por mês ". (Na época, 1 969, um lavador de sentina do mo­
nopólio estatal, com cinco anos de casa, e as várias gratificações
anuais, realizava a média salarial mensal de Cr$ 900,00.)
Cinco anos mais tarde, o Sindicato de Estabelecimentos Particulares
de Ensino da Guanabara pronunciava-se, através de seu presidente,
o prof. Luiz Gonzaga Carneiro, e revelava que o salário do pro­
fessor primário na cidade do · Rio de Janeiro estava planejado para
crescer ao ritmo correspondente a 4,5 % ao ano. (" Sindicato culpa a
Reforma pela demissão de professores" , O Globo, Educação,
8/9/ 1974, pág . 20.)
Devemos reconhecer que, num país que se amaridou com a infla­
ção, isto é praticamente uma contagem regressiva.
Assim, começando a carreira com Cr$ 791 ,66, isto é, dois salários
mínimos mensais (de 1 974), o mestre-escola carioca atingirá a apo­
sentadoria, 30 anos depois, com Cr$ 1 .866,00, ou seja, com o equi­
valente a 5 salários mínimos atuais. Note-se que não se trata do
território do Amapá. Mas da Guanabara.

262
(Por essa altura, o sombra-salarial do professor primário, o lavador
de sentina da Petrobrás, está com um sólido pé-de-meia, graças ao
reconhecimento que tem essa empresa pela aplicação da tecnologia
que ele utiliza no exercício de seu complexo ganha-pão.)
Cinco anos depois (outubro de 1 97 4), o Sindicato dos Professores
do ainda Estado da Guanabara fez publicar uma outra . pesquisa
na qual, entre outros dados, se confirmava o que Anísio Teixeira
já detectara havia vinte anos - a fuga do professorado, já quase em
massa:
"Com 5 a 10 anos de exercício do magistério, o professor, em geral,
abaRdona a carreira, indo ocupar profissões mais rendosas. Na faixa
de 18 a 33 anos (de exercício), 44,7 % dos professores não têm
turma: abandonam o magistério ou vão exercer atividades buro­
cráticas . . . Muitos dos professores estão em atividades burocráticas
nos Distritos Educacionais, Secretaria de Educação, Administração,
Saúde, Ministérios, Tribunal de Contas do Estado, Casa Civil, Pio­
neiras Sociais, Procuradoria Geral do Estado, Campanha de Alimen­
tação Escolar" . ("Baixa remuneração é a causa principal da desva­
lorização do magistério ", O Globo, 1 3/ 10/ 1 974, pág . 1 4.)
Outras informações dessa pesquisa:
"Em 1 972, 22 professores deixavam o cargo diariamente ". Em 1 973,
o êxodo ainda continuava alto: " Num só mês, deixaram o magis­
tério 257 professores do l .º grau. " Nos oito primeiros meses de
1974, "deixaram o magistério 386 professores " , segundo os dados
fornecidos pela Secretaria da Educação. Mas dos 30.535 professo­
res de 1 .º grau, "estão de licença 3.887 professores" .
Ainda como ênfase desse aspecto d o problema, a pesquisa revelava:
"Segundo os cálculos oficiais, de 1940 até 1 97 1 , o total de pro­
fessores formados pelas escolas especializadas da rede estadual foi
de 3 1 .363 . Em 1 972, havia no magistério 1 2 .552 professores (for­
mados), calculando-se que pelo menos 1 6.000 professores - mais
da metade - abandonaram a carreira nos últimos 3 1 anos."
A conseqüência lógica dessa situação é que os concursos realizados
nos fins de 1 973 para preencher os claros no magistério estadual
alcançaram apenas parcialmente seu objetivo. "O Estado precisava
de 10 mil professores. Os concursos aprovaram 8 mil e apenas 6 mil
se apresentaram para tomar posse" . "Daí ter acontecido que três
meses depois de iniciado o ano letivo, mais de 400 mil alunos ainda
não tinham tido nenhuma aula de matérias essenciais. "
Comentando então esse quadro e suas tintas, disse o prof. Luiz
Gonzaga Carneiro, agora ( 1 974) presidente do Sindicato dos Pro­
fessores da Guanabara:
"Mas agora a situação piorou, pois o salário/aula é de apenas Cr$
1 0, 1 1 por aula. Um funcionário de um posto de gasolina consegue

263
por hora Cr$ 1 5,00 de gorjetas, enchendo tanques de carros" .
("Baixa remuneração é causa principal d a desvalorização d o magis­
tério", O Globo.)

A miniatura profissional que foi demarcada administrativamente


para o ofício de ensinar produziu, em nosso país, uma sucessão
de conseqüências humilhantes para os titulares de uma função tão
nobre. Felizmente, as autoridades mais capazes e mais responsáveis
do ensino têm tido a coragem moral de, suportando a realidade,
mostrá-la, embora ela ainda não nos engrandeça.
Já nos referimos em outros capítulos deste livro (sobre a merenda
escolar e sobre a dupla escolaridade) ao Relatório apresentado pelo
Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos à UNESCO em dezem­
bro de 1 967. Nesse documento, o BrasH, através da palavra do prof.
Carlos C. Mascaro, diretor do INEP, deu um exemplo de humildade
e autoconfiança, ao proclamar suas terríveis debilidades em vários
aspectos do magistério nacional.
Corajosamente, e oficialmente, o proC : Mascaro expôs aos demais
técnicos e mestres do mundo que " ( . . . ) Atualmente o Brasil possui
cerca de 300.000 professores primários, sendo que 1 29.000 (43 % )
não possuem preparação pedagógica. Destes, 90.000 (30 % ) não
chegaram mesmo a completar a escola primária; são os chamados
'professores leigos', dos quais o país é obrigado a lançar mão para
suprir a carência de professores que, no ensino primário, é atual­
mente de 250.000." ( " Grave a situação do ensino", Relatório do
prof. Carlos Corrêa Mascaro. Resumo de Magda Sparano, O Estado
de São Paulo, 3/ 1 / 1968, pág. 6.)
Duas imensas cifras negativas apresentadas desembuçadamente
nesse relatório mostram que, apesar de tudo que melhorou e evo­
luiu neste país nesta última década, a verdade é que os homens
de governo ainda estão pensando pequeno em matéria de Educação.
Em 1 967, o diretor do INEP depunha num cenáculo internacional
que já era de 250.000 o nosso .deficit de professores. E o Censo
Escolar de 1 964 previa que a "explosão educacional" demandaria
"mais 8 milhões de vagas no ensino primário, para 1 970" - con­
forme também o relatório Mascaro.
Mesmo com a nação acossada pela violência desses números, chega­
mos ao meio da década de 70 sem ter os professores necessários,
nem as salas de aula para comportá-los com seus alunos. Daí o
recurso à capacidade supletiva do MOBRAL, que descrevemos em
outra parte deste capítulo.

264
Encaixado no conjunto geral da burocracia e, por isto, tratado como
um qualquer de seus ramos parasitários e sem valor econômico, o
magistério acaba de fato sendo invadido também por uma aterra­
dora soma de incapazes - como ocorre em nossos cursos primários
e secundários - e infiltrado por indivíduos complexados, e encapu­
çados ideológicos, naqueles escalões etariamente mais politizáveis
do estágio escol11:r.
Outra conseqüência da deplorável e soberana indiferença das clas­
ses dirigentes para com a significação ou a eficiência do ensino é a
proliferação do absenteísmo de professores que cinicamente descum­
prem seus deveres, e desprezam chocantemente suas obrigações para
com os alunos. Tanto quanto os "mestres" incompetentes, os
"gênios" relapsos destroem os mais belos sentimentos do homem,
que são as esperanças e os sonhos que o animam na juventude.
Quando certo dia um jornal carioca decidiu conferir como andavam
as coisas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, encontrou
a classe de calouros de Engenharia daquele ano, da Escola Nacio­
nal de Engenharia, recebendo o seu batismo de cinismo catedrático:
mesmo as atividades escolares tendo se iniciado com um atraso de
1 1 dias, já estavam quase a meio do segundo "mês de aulas ", e
nenhum professor ou mesmo assistente de cálculo vetorial - ma­
téria básica - tinha aparecido para ministrar as primeiras aulas.
Do mesmo modo, "no 2 .º ano do Instituto de Física, tampouco come­
çaram as aulas de Matemática " . (" Turma diploma-se e nunca viu
catedrático", O Globo, 8/4/ 1 968, pág. 8 .)
Quanto ao Instituto de Matemática, da mesma Universidade e na
mesma ocasião, a decepção dos calouros "começou no primeiro dia
de aula quando, com a única exceção da professora Moema de Sá
Carvalho, nenhum outro catedrático apareceu para estabelecer con­
tato com os novos discípulos; nem no primeiro dia, nem nos dias
subseqüentes ".
Em seu lugar tinham ido alguns assistentes que "surgem rapida­
mente, dão a aula e desaparecem tão rapidamente como chegaram".
E os alunos calouros completavam sua decepção: "Aí, ficamos sozi­
nhos, largados ao Deus-dará, sem ter a quem recorrer para fazer
consultas e dirimir dúvidas. "
Chegando a novembro desse ano ( 1 968) , era a vez dos alunos da
terceira série da Faculdade de Arquitetura da mesma universidade
tornarem público o seu desespero, declarando "considerar nulo o
aproveitamento escolar este ano e que irão repetir, em 1 969, por
vontade própria, a terceira série. Como exemplo da ineficiência de
algumas cadeiras, citam o exemplo de um professor que, ao chegar
ao fim do ano, dera apenas duas aulas ". (" Informe JB", Jornal do
Brasil, 30/ 1 1 / 1 968.)

265
Deve ser esse o espírito que presidiu aos " trabalhos" da IV Confe­
rência Nacional de Educação, realizada em junho de 1 969. " Depois
de cinco dias de muita conversa e passeios pela cidade, encerrou-se
ontem mais uma Reunião da Conferência Nacional de Educação, a
quarta desde 1 965. Os secretários de Educação e os membros dos
conselhos estaduais voltam agora para suas capitais. Satisfeitos,
levando boas recordações de São Paulo, dos paulistas, da Cidade
Universitária . . . Desta vez, Ensino Médio, 2.º ciclo, foi o tema . . .
Todos, no plenário, mantiveram-se praticamente alheios à razão cen­
tral da Conferência. " ("E foi apenas mais uma conferência", repor­
tagem de Allen Augusto Dupré e Paulo de Tarso Costa, O Estado
de São Paulo, 28/6/1 969, pág. 1 4 .)
Outro jornal testemunhava a "eficiência" técnica da mesma Confe­
rência : " 65 milhões de cruzeiros novos foi a despesa da reunião de
educadores de todo o BrasiL De todos os Estados brasileiros, apenas
um trouxe a sua contribuição: foi a Guanabara, que teve o seu
trabalho discutido, assim, como o documento básico do INEP -
Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. " ( " 65 milhões para exa­
me da Educação ", Diário de São Paulo, 27 /6/ 1969, l .ª pág.)
Analista profundo e crítico sincero dos males do ensino em nosso
país, eis como o prof. Lauro de Oliveira Lima vê a solene e into­
cável regalia de que, por sua vez, desfruta o professor incapaz:
" ( . . . ) é o único profissional que não se sente obrigado a demons­
trar competência" . (" Oliveira Lima propõe que a eficiência do pro­
fessor seja aprovada por aluno" , Jornal do Brasil, 25/9/ 1 974,
pág. 13.)
E mais adiante: "Comparando com os outros profissionais, o pro­
fessor é o único que não se sente obrigado a prestar conta de suas
atividades aos clientes e ao público, segundo Lauro de Oliveira Lima.
" Se cai um pontilhão", disse ele, "o engenheiro vai preso; se o
médico não cura seus doentes, sua reputação fica comprometida. O
professor, entretanto, se reprova metade da turma, é considerado
exigente, e nunca se atribui a ele incompetência para ensinar."
(Jornal do Brasil, idem, idem).

Ninguém ainda teve notícia de qualquer punição a um professor·

relapso, que rouba sadicamente o tempo e as esperanças da juven­


tude. A não ser essas acusações esporádicas da imprensa, ninguém
pune os cínicos, tolerados que são pelo " espírito de classe" do
colega que eventualmente ocupa a direção da faculdade ou a reito­
ria. Isto, aliás, constitui uma das mais graves inconveniências ou
debilidades dessa regra de compadres, de somente serem nomeados
professores para tais cargos, puramente administrativos, e cujas ca-

266
racterísticas executivas se chocam frontalmente com a sensibilidade
biotípica do puro profissional do magistério.
Essa impunidade, e a falta de espírito administrativo no comando
das faculdades e universidades, é que devem ter ensejado os dados
que o professor e economista Arlindo Lopes Correia colheu em
seus estudos sobre a "produtividade" do magistério superior no
Brasil: " ( . . . ) O professor universitário, de modo geral, dedica ao
ensino de três a seis horas semanais. ,, ("Turma diploma-se e nunca
viu catedrático ", O Globo, 8/4/ 1 968, pág. 8.)
Arlindo Lopes Correia chegou a esse resultado "com base no se­
guinte raciocínio: em 1 963, existiam 29.803 professores para 124.2 14
alunos do curso superior. Supondo que a turma média brasileira
tivesse trinta alunos, existiriam, então, 4 . 1 44 turmas.
Sendo a carga horária semanal, em média, de 20 horas, tais turmas
receberiam 82.880 horas de aulas. Os 29.803 professores teriam
ministrado, então, menos de 3 horas de aula por semana " .
Sem dúvida, devia ser por uma razão parecida que a Universidade
Federal de Pernambuco, em julho de 1 963, precisava ter 4.372
funcionários (e professores), para atender os seus 4.300 alunos . . .
(0 País dos coitadinhos, 4.ª ed., Cia. Editora Nacional, 1 968.
pág. 1 00.)
O dinheiro que os professores dedicados e conscientes não recebiam
era aplicado tão suntuariamente em muitas das universidades que o
chefe de uma delegação de professores norte-americanos, após visi­
tar as instalações da Universidade de Santa Maria da Boca do Monte,
em 1 969, declarou cordialmente ao sr. Peracchi de Barcelos, então
governador do Rio Grande do Sul :
- Quando meu país for suficientemente rico, teremos uma univer­
sidade como aquela.
Mesmo tendo o governador gaúcho citado publicamente esse reparo
- numa complementação à crítica que o senador João Calmon fize­
ra, em conferência pronunciada em Porto Alegre, aos gastos excessi­
vos das administrações universitárias - há pouco tempo o monu­
mental conjunto escolar gaúcho voltava ao cartaz pela mesma razão:
"A Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, foi bene­
ficiada com uma verba de Cr$ 4 milhões e 500 mil para a cons­
trução de umaº piscina térmica e olímpica, e o Grupo de Trabalho
(do Ministério da Educação) quer saber os resultados, pois até hoje
não se viu um nadador que se destacasse, pertencente a essa Univer­
sidade . " ( " Esporte vai ser logo reformulado", jornal do Brasil,
1 7/8/ 1 974, pág. 24.)
Os que procuram acompanhar os acontecimentos da Educação no
Brasil não entenderam bem a soberana indiferença com que, pelos

267
idos de 1966 a 1 968, os dirigentes da maioria de nossas faculdades
e universidades reagiam à angústia de dezenas de milhares de estu­
dantes, transformados em "excedentes ", e vagando em bandos desa­
tinados e desamparados pelas ruas por eles justamente agitadas de
nossas principais cidades.
Membro de um Grupo de Trabalho a quem o governo incumbira
de fazer um estudo imediato do assunto, o economista e professor
Davi Carneiro revelou entre outras coisas:
"As universidades ainda são muito autônomas, entendendo e apli­
cando essa independência em termos de quase isolamento. Se uma
verba é cortada ou mesmo reduzida, logo reagem em uníssono.
Quando chamadas a apresentar programas de ensino, limitam-se a
elaborar projetos de obras suntuárias. Ainda recentemente, quando
as universidades foram solicitadas a encaminhar estudos prévios
para justificar investimentos a serem incluídos no Plano Trienal do
Governo, não houve um único estabelecimento que apresentasse
um plano racional de utilização de seu corpo docente e de suas
instalações disponíveis para absorver número consideravelmente
maior de matrículas em cursos específicos. " ("Universidade: Revo­
lução, Ano V " , O Globo, 9/4/ 1968, pág. 5.)
Na mesma ocasião em que os desesperados estudantes levavam o
seu protesto a ponto de desafiarem as autoridades e fazerem acam­
pamentos em torno de ministérios ou repartições ligadas ao ensino,
o Grupo de Trabalho dos professores Davi Carneiro e Arlindo Lo­
pes Correia havia constatado uma ampla capacidade ociosa nas
nossas faculdades.
"Enquanto em certos setores vitais (da economia do país) o núme­
ro de graduados é insuficiente até para a reposição do pessoal habi­
litado, os estudos realizados por técnicos do Ministério do Planeja­
mento comprovam a existência nos estabelecimentos de ensino supe­
rior de cerca de 60 mil vagas que não foram ocupadas adequada­
mente. Tão espantoso coeficiente de vagas praticamente ociosa cor­
responde a 30% do total de matrículas nas escolas superiores do
país . " (" Universidade: Revolução, Ano V", O Globo, 9/4/ 1 968,
pág. 5.)
Foi por conhecer as conclusões desse trabalho, e as condições que
as geraram, que um homem habitualmente sereno como o ministro
Hélio Beltrão chegou a dizer-nos quando ocupava a pasta do Plane­
jamento no governo Costa e Silva:
- Eu, por mim, não daria nem um tostão a mais às universidades.
Sabedor das resistências que quase deliberadamente provocavam o
afunilamento nos portões das faculdades oficiais, o mesmo ministro
avançou-nos uma confidência que agora achamos oportuno divulgar:
- " Essa agitação dos estudantes contra a situação das universida-

268
des em geral é utilíssima, mesmo com a inconveniência da infiltra­
ção ideológica. O governo tem muito menos força do que se pensa.
E os estudantes estão nos ajudando a romper a muralha dos privi­
légios da incompetência ou da inoperância catedrática."
No seu livro Grandezas e misérias d o ensine n o Brasil (Edição Difu­
são Européia do Livro, 1 968, pág. 264), a educadora Maria José
Garcia Werebe assim registra o que chegou a ocorrer: " Em 1 966,
o governo federal estimulou a luta dos estudantes, pressionando ele
próprio as Universidades, para aceitarem os excedentes" .
Segundo a professora Maria José, o estranho conflito criara-se em
razão· da "política aristocrática imperante em muitas de nossas esco­
las superiores, interessadas em formar apenas elites pequenas e bem
preparadas" .
Certamente estimulada pelo quadro apresentado pelo ministro Jar­
bas Passarinho, da Educação (Governo Médici), ao lhe descrever a
situação anterior da pasta e do comando do ensino superior, urna
equipe jornalística que o entrevistou em mesa-redonda, fez o seguin­
te relato do que fora até então a função daquele ministério:
" Nos trinta anos que separam as reformas de Gustavo Capanema
das reformas de Jarbas Passarinho, o Ministério da Educação trans­
formou-se num imenso, lento e obsoleto trem-pagador, sem com­
bustível, sem lubrificação, sem destino e quase sempre sem maqui­
nista" . (" Passarinho e o Ensino em Mudança", Revista Veja,
30/6/ 1 97 1 , pág. 56.)
Mais ou menos por essa época, uma Comissão Parlamentar de
Inquérito, da Câmara dos Deputados, analisava as respostas que
mais de 1 .000 professores universitários brasileiros deram a um
questionário formulado pelos congressistas Evaldo de Almeida Pinto
e Lauro Cruz.
As observações críticas dos mestres concentram-se em três pontos
básicos: falta de equipamento para pesquisas, a desatualização do
ensino e a baixa remuneração.
Um depoimento, entre muitos, foi ressaltado pela imprensa, o do
prof. Olinto Pereira da Silva, da cadeira de Metalurgia Física da
Escola de Engenharia da Universidade Federal do Espírito Santo:
"A atual situação do nosso ensino superior é o retrato da adminis­
tração pública do país. As escolas superiores são repartições públi­
cas onde os funcionários públicos adquirem direitos "contra" a
nação, em troca de cumprir - como normal - os mínimos deve­
res estabelecidos em lei. Ressalta daí que o empreendimento reali­
zado pelas universidades espanta por sua insignificância. Bastaria,
para prová-lo, mostrar qual o número de horas realmente utilizadas
por dia de ano letivo, dedicadas ao ensino. O corpo discente cor-

269
responde, então, a uma massa à qual se oferece um mm1mo de
trabalho e que, levada ao ócio, viciosamente reage, procurando
aumentá-lo. O mesmo acontece com o corpo docente. Como con­
seqüência, temos a indisciplina e a desonestidade. " (" Professores
apontam o que acham errado à CPI que investiga o ensino Supe­
rior", Jornal do Brasil, 2 1 /5/ 1 968; " Inquérito sobre Universidade
revela sobretudo a frustração dos mestres ", Folha de São Paulo,
2 1 /5/ 1 968, pág. 8.)
Por outro lado, explicando o rotundo fracasso da nossa máquina
de ensino primário - com os seus 3 milhões de reprovações num
ano escolar - o prof. Carlos Corrêa Mascaro apontava, em seu
depoimento perante a UNESCO, em 1 967, além do curto período
de escolaridade diária e anual, o problema psicológico de milhares
de professores.
"Os professores que ingressam na Escola Normal não passam por
nenhuma prova para determinar sua vocação para o magistério. "
(" Grave a situação do ensino", O Estado de São Paulo, 3/ 1 / 1 968,
pág. 6.)
A falta dessa avaliação psicotécnica nos umbrais das Faculdades de
Filosofia ou de outro tipo de escolas formadoras de mestres é que
deve ensejar o grave equívoco, de que resultam os aleijões pedagó­
gicos que são os professores relapsos ou os simplesmente incapazes
para o ofício do ensino - mesmo tendo os diplomas de habilitação.

Mesmo seis anos após o prof. Lauro de Oliveira Lima haver clamado
em um de seus livros: "Fazer planos de Educação como se faz no
Brasil - sem pensar em decuplicar o salário dos professores, é uma
trágica ironia " (Lauro de Oliveira Lima, "O impasse na Educação" ,
Editora Vozes, 1 968, pág. 25) - a imprensa carioca ainda regis­
trava, em meio a 1 974:
"Na Faculdade de Direito da Universidade do Estado da Guana­
bara, um professor chega a ganhar Cr$ 1 mil e 1 00. Em pelo menos
um Ministério, há três contínuos ganhando mais." (" Informe JB",
Jornal do Brasil, 9/5/ 1974, pág. 10.)
Quando, num país, um contínuo de ministério ou um lavador de
sentina de uma refinaria estatal, ganham mais, às vezes muito
mais, que professores de não importa que grau, não é de ..:stra­
nhar-se que essa nação se veja numa situação comb, por exemplo,
a da França, descrita por um categorizado professor, em aula da
Aliança Francesa, no bairro do Paraíso, em São Paulo, no dia 2 1 de
novembro de 1973. Disse ele:
" O ensino primário na França está nas mãos do professorado socia-

270
lista; o ensino secundário, nas mãos dos comunistas; e o superior,
nas mãos dos anarquistas. "
� muito provável que haja exagero nessa síntese tão simplista. Mas
deve existir uma realidade muito lamentável, a mesma que se repete
em muitos outros países do mundo, onde o magistério tem sido
tratado pelos homens de governo quase como uma profissão subal­
terna, como se fosse destinada a recolher os frustrados e os res­
sentidos de toda origem.
O leitor que conseguiu chegar até este ponto do livro deve ter
sentido que não é por motivação de nenhum colorido que pleiteamps
muito melhor remuneração para os professores. E quando também
opinamos por uma melhor qualificação profissional dos mestres
também não é uma exigência de fundo beletrista-decorativo.
Os que clamam por essa eficiência fazem-no por conhecer os desas­
trosos resultados dessa olimpíada de chefes incapazes e de monito­
res desarticulados.
Aí está, chocando a face da nação uma das pesadas conseqüências
da baixa qualificação do professorado primário - e também de
outros fatores coadjuvantes, como os curtos horários de escolaridade:
o quase asfixiante montante de "3 milhões de reprovações anuais,
ao longo do curso, quando este ainda era de 4 anos" . ("Grave a
situação do ensino", do depoimento apresentado pelo representante
do Brasil, prof. Carlos Corrêa Mascaro, perante a UNESCO, em
dezembro de 1 967, O Estado de São Paulo, 3/ 1 / 1 968, pág. 6.)
O Brasil inteiro - seu governo central, os dos Estados e dos
municípios - seus deputados, senadores, vereadores e governado­
res, têm que reformular urgentemente sua ótica política quanto à
função social e econômica do professor.
A carreira do magistério precisa constituir-se numa motivação pola­
rizadora de entusiasmo e vocações. E tomar-se, como outras profis­
sões dignificadas econômica e socialmente, também a primeira
opção de ofício, buscada por dezenas de milhares de jovens, ou
mesmo adultos, neste país que já está precisando de cerca de um
milhão de professores.
Ensinar tem que ser reconhecido pelo governo e pela comuniãade
como um instante destinado a gerar conseqüências espirituais e
objetivas infinitas - para o indivíduo e para o país. Não pode
ser uma ação que se admita seja desempenhada sob desinteresse
ou mediocridade.
O professor tem que ser um homem dotado daquelas qualidades
próprias que façam dele o mestre e amigo - pela qualificação e
pela constância do que dá de si ao aluno. Mas para isto tem que
receber condições positivas, de dignidade e de sobrevivência.

271
O mais importante produto e riqueza de um país - sua juventude
- é longamente modelado e preparado em suas escolas. Que pre­
conceito é esse que não aceita os professores capazes e dedicados
serem equiparados, em efetividade e valor, aos vitoriosos executivos
de outras centrais de produção?
Não admitimos a imposição de que o reitor de uma universidade
só possa ser um professor. Mas também por que o reitor de uma
universidade de 20.000 alunos tem que ganhar dez vezes menos
que o presidente de uma empresa de 20.000 funcionários?
Do mesmo passo, quando acentuamos tanto a importância do magis­
tério, face aos que o desprezavam ou desprezam social e economi­
camente, não podemos ignorar também os que, aqui e em outros
países, querem partir para o pólo oposto: atribuir ao professor
prerrogativas só reconhecidas ao pátrio poder, como ocorre na
Inglaterra, ou atribuir à universidade a liderança político-filosófica
do país.
Essa liderança não pode pertencer a classe ou grupo nenhum, mas
a todas as classes e grupos. Assim como não deve ser decidida nos
armazéns, nas docas, nos gabinetes confinados dos chefes partidá­
rios, nem apenas nos quartéis, também não pode vir dos " comandos "
universitários.
A liderança da vida nacional se constrói a céu aberto, na praça
pública, do lado de fora dos muros de todas as instituições, nas
colunas desinibidas dos jornais, e não em salas de reunião privada
de quaisquer grupos.
Assim como as decisões nacionais não podem ser avaliadas à base
de computação eleitoral - dá voto, não dá voto - nem o destino
do país pode ser alterado em cima de um mapa de campanha, tam­
bém a química social não é para ser instilada nas aulas de química,
em vez da própria química.
Também não se pode admitir que caiba aos professores uma exten­
são abusiva e totalmente distorcida do pátrio poder - como se
verifica, ainda hoje, na Inglaterra, onde sobrevive o castigo cor­
poral, aplicado nas próprias escolas secundárias.
Eis o que nos informa a respeito a síntese de uma reportagem do
/ournal de Geneve, feita pela publicação Essências:
"O pioneirismo e a inovação que se verificam atualmente nas esco­
las primárias e maternais da Grã-Bretanha estão longe de beneficiar
as escolas secundárias, pelo menos a julgar pelas persistências nes­
tas de uma relíquia bárbara do relacionamento autoritário mestre­
aluno: o expediente dos castigos corporais, a presença da vara como
arma definitiva de dissuasão. "

272
" Em setembro de 1 972, o governo britânico decidiu-se pela manu­
tenção da prática e, a propósito, Terry Gasey, secretário-geral da
Association of School Masters, falava sobre o direito do professor
ao uso do chicote, . igual, segundo ele, ao direito do cirurgião de
escolher e usar seu bisturi. "
Mais adiante, informa ainda o relato d o /ournal de Geneve:
"O direito do professor de castigar seu aluno é admitido convicta­
mente pelo público (inglês) em geral,- e foi preciso muita coragem
para que o Inner London Education Authority (ILEA), atualmente
sob orientação do Partido Trabalhista, abolisse os castigos corporais
nas escolas primárias da área metropolitana: a grita dos professores
- 80 a 90% do total, segundo The Guardian foi grande demais."
"A tradição, entretanto, continua arraigada e o castigo físico é
uma instituição britânica" . (Educação - " Castigos corporais nas
escolas inglesas ", /ournal de Geneve - apud Essências, publicação
do jornal do Brasil, n.º 48, semana de 10 a 17 de agosto de 1 973,
págs. 1 6 e 1 7.)
Para que o professorado não se constitua nessa maioria . sádica ou
ressentida do magistério· inglês que, até hoje encurralado econômica
e socialmente, luta por manter freudianamente um "privilégio" me­
dieval - é preciso que se outorgue ao professor, em todos os
escalões, aquelas condições de dignidade material e social que sejam
o reconhecimento da contribuição que lhe incumbe dar à comuni­
dade estudantil e ao país.
� porque nossos países, nossa infância e juventude necessitam urgen­
temente que os professores possam exercer de maneira total a sua
função, que não se pode mais tolerar a docência minimizada à
categoria de " bico" . Também não se pode mais tolerar a incompe­
tência entronizada.
Nem as antigas cátedras irremovíveis e fossilizadas. Nem o absenteís­
mo cínico e desagregador.
O professor não tem que parecer um santo ou um asceta. Mas deve
ser um · cidadão exemplar. Não tem que ser um estivador vergado
sob suas tarefas. Mas um homem totalmente dedicado a seus altís­
simos afazeres. Não precisa ser um gênio. Mas um navegante seguro,
meticuloso, senhor dos segredos dos seus mares.
Quando pleiteamos que o professor ganhe MUITO MAIS, é exata­
mente para que disponha de mais dinheiro e tempo para atualizar-se
incessantemente, face à gravitação e translação alucinantes e acele­
radas, que passaram a ter todos os ramos do saber e da técnica nesta
era de pesquisas intensas e comunicações instantâneas. A rotina será
sua morte, seu fracasso profissional. Assim como a evolução cons-

273
tante é o seu seguro de sobrevivência, a sua apólice contra a obsoles­
cência.
O Brasil só poderá grimpar o altiplano do bem coletivo que almeja
para sua gente, se os seus mestres forem provadamente versados,
exercitados e continuamente atualizados, no hoje velocíssimo alpi­
nismo da inteligência.
Reconhecemos a altíssima função espiritual do sacerdócio religioso.
Mas ousamos dizer que, por serem diariamente exercidas sobre o
destino dos homens ou por demarcar-lhes para sempre o espírito,
não há funções tão sagradas sobre a terra quanto a magistratura e
quanto o magistério.
São estas duas missões em cujo exercício cotidiano o homem leigo
mais se aproxima de Deus, ou de Cristo.
De Deus, quando, como juiz de qualquer instância, tem nas suas
mãos a sorte, a liberdade, os direitos, os bens ou o futuro de seu
semelhante. De Cristo, quando, como mestre, ele se investe da
auréola apostolar do magistério, e ensina para o bem ou para o
mal, para a solidariedade ou para o ódio, ou o ressentimento.
Não pleiteamos em todo este capítulo que o magistério se transforme
numa nova coorte de privilegiados, protegidos pelos sortilégios per­
niciosos da inamovibilidade e da intocabilidade, como ainda acon­
tece com a magistratura.
Não pleiteamos direitos claros e elevados para alguém levantar mu­
ralhas chinesas em torno do exercício de seu ofício de educar os
filhos do povo.
Uma sala de aulas não pode ser uma cela de torturas freudianas
(como na Inglaterra) . Nem de curras ideológicas (como na França).
As classes e as instituições intocáveis é que petrificam as naÇões
e as tornam monumentos, mas de mediocridade, ou iniqüidade.

274
13
onde está o dinheiro

•A educação é a mais fecunda de


todas as medidas financeiras. •

Ruy Barbosa

•o potencial das nações será


medido, antes de mais nada, pela
solidez de sua economia, pela
produtividade de seu povo, pelo
aperfeiçoamento de suas indústrias.
As ações bélicas cada vez
dependerão mais de cientistas,
técnicos e administradores, e cada
vez menos do militar de caserna, do
homem educado especificamente
para a guerra."

Documento de Escola Superior de


Guerra (Jornal da Tarde, de S. Paulo,
12/10/66, pág. 9.)
•A verdade é que, apesar do
enorme esforço realizado, mal
podemos festejar a vitória na
batalha dos números. O que nos
resta por fazer é simplesmente
gigantesco. O que se impõe corrigir
é impressionante. A desproporção
entre os meios e os objetivos a
atingir é, por vezes, desalentadora.•

Jarbas Passarinho, ministro da


Educação. (Palestra na Escola Superior
de Guerra, 1970.)

·� velha mania brasileira falar uma


linguagem futurista e realizar
uma política colonial. •

Lauro de Oliveira Lima, O Impasse


na Educação, Introdução, Editore
Vozes, 1968, pág. 26.

·o Sputnik não foi um fruto do


acaso, como muitos poderão pensar;
mas o último elo de uma cadeia
que começa com a Educação. •

Fritz Baade, •A corrida pera o ano


2.000 " , tred. de Macedo Neto, Editora
Nova Fronteira, 1966, pág. 212.

"Eu sei onde está o dinheiro.•


José Américo de Almeida
(Discurso de candidatura à presidência
da República, setembro de 1937 .)
A comunidade mundial dos pratos vazios, as nações do chamado
"Terceiro Mundo" , têm todas em comum o mesmo " decifra-me ou
te devoro". Mas este é um claro e transparente enigma, tanto mais
claro e transparente, quanto mais se acentuam as diferenças entre
os povos que têm muito de tudo, e os que têm pouco de quase nada.
A chave desse enigma dos tempos modernos está ao alcance imediato
dos futuros príncipes, ou do homem de governo - em qualquer
escala de poder, nacional ou regional.
Nem é preciso que se recorra a uma radioscopia profunda em busca
dos sintomas, pois há uma síndrome agressivamente evidente, enfei­
xando em tomo de si todos os fatores dessa mal - a miséria - que
amesquinha os indivíduos e humilha os povos.
No labirinto social dessas nações submersas, também existe, tal qual
em outra lenda, um fio de meada prendendo fortemente o começo
e o fim, a razão e a conseqüência - a razão sendo a ignorância, e
a pobreza sendo a conseqüência.
Não há aí nem mesmo o gosto do desafio de uma matemática socio­
lógica, pois o problema proposto encaixa-se em teorema de equação
facilmente articulável.
Entretanto, até aqueles povos cujas lideranças já entreviram o pro­
blema e desencantaram sua face esfingética, continuam aplicando
soluções relativamente parciais - que se tomam tão monstruosa­
mente desumanas quanto quaisquer discriminações.
Pois não há outro ferrete, senão desumano, para qualificar o con­
formismo de aceitar que, por já darmos escolas para 12 milhões
de crianças, possamos " tolerar" que 5 milhões de outras não tenham
acesso a elas.
E que também se perpetuem, com solução para quando Deus for
servido, tantas outras deficiências e absurdos - corno a "competên­
cia " de uma grande parte do professorado primário, a desmoronante
inadequação de metade dos prédios escolares, ou o número de anal­
fabetos antigos e modernos - os de letras e, agora, os de ofícios
e técnicas.
Talvez alguém, para justificar, se lembre de uma paródia grotesca
corno a da anedota: há 1 4 razões para não existir escolas para todos;
a primeira, é que não há dinheiro,
Se não fosse trágico, seria cômico esse argumento.

277
Contemporâneos de um mundo que disparou pelo espaço sideral da
ciência e da tecnologia, participantes (ou assistentes?) de uma corri­
da que reduz à Jentidão da tartaruga tudo o que o homem avançou
nos vinte séculos anteriores, deparamo-nos naquela esquina exata
da História em que se marca o rumo de uma opção. Opção que,
desta vez, não pode ser nem tímida, nem retardada sob pena de
esta Nação baixar do palco aonde quer subir, para o picadeiro a
que pode rolar. A dramaticidade desse instante não vem de nenhu­
ma vocação para o desespero, mas dos fatos que desafiam. Abrin­
do, por exemplo, os mapas do nosso posicionamento escolar, e ana­
lisando os elementos básicos da logística dessa cartada, ainda encon­
tramos grandes e trágicas lacunas.
O rebanho de cerca de 20 milhões de adultos analfabetos ( 1 974),
cuja ignorância total deve ser inicialmente a tarefa desbastadora do
MOBRAL, fornecerá, somente ele, um contingente de quase 15 mi­
lhões de futuros ex-analfabetos na faixa etária de 18 a 45 anos,
portanto em plena capacidade para o trabalho.
Desse grupo, destacar-se-á inelutavelmente um subcontingente tam­
bém de alguns milhões de indivíduos, os quais mesmo alfabetizados,
certamente acabarão marginalizados pela rapidez do progresso tec­
nológico, se não lhes dermos meios e assistência profissional para
sobrenadarem o dilúvio das inovações. Isto precisará ser feito, po­
rém, em escala nacional, através dos cursos já delineados pelo De­
partamento Nacional de Mão-de-Obra e pelo Ministério da Educa­
ção, por intermédio do PIPMO.
Para os 5 milhões de brasileirinhos até há pouco impedidos do aces­
so ao próprio ensino primário, serão necessárias 100 mil novas salas
de aulas, e 100 mil professores. Se juntarmos esse número de novos
mestres ao daqueles que devem ser eliminados por total despreparo,
ou " recondicionados" em seus conhecimentos - vê-se que s6 esse
ângulo do problema já demandará muito fôlego de um muito bom
governo.
Por outro lado, a sábia e necessária inovação do ensino profissio­
nalizante ampliou enormemente a importância e os custos de insta­
lação e operacionais das unidades escolares do 1.0 e mesmo do 2.º
ciclos. O impasse que isso criou em vários Estados da Federação
dá uma dimensão das dificuldades, que se originam simultaneamente
da falta de recursos financeiros e da de recursos humanos.
Toda a fundamentação do novo sistema escolar brasileiro, com
vistas à era tecnológica, desaguará no vazio e no fracasso se o ciclo
secundário, por deficiência de meios e de elementos, não puder dar
aos estudantes a objetividade que lhe foi planejada.
Eleva-se a alguns milhares o número dos colégios públicos, e parti-

278
culares, que terão que se equipar aceleradamente para a inovação
imperiosa. E são necessários centenas de novos outros.
Pois, muito cedo, o Brasil estará com 12 milhões de jovens regor­
gitando as salas de aulas das últimas séries do 1 .0 ciclo e de todas
as do 2.0•
A incorporação de mais 8 milhões de estudantes secundaristas em
geral demandará o preparo e, depois, a manutenção de mais 200
mil professores pelo menos para esse estágio.
Esse aumento do número de estudantes secundários é visível dentro
de nossos algarismos demográficos e pode ocorrer de 1 974 até 1 979.
Por maior que seja o afunilamento nos portões das universidades,
esses 12 milhões de secundaristas resultarão nos 2 milhões de alu­
nos que, idealmente, já até deveriam estar em nossas faculdades e
cursos superiores, e de pós-graduação.
Outra lacuna importante em nosso organismo escolar - e que
nos dá a idéia de quanto ainda de altamente necessário temos que
atender - é a ausência total de estabelecimentos de ensino que pos­
sam abrigar, principalmente na fase do 2.º ciclo, aqueles alunos de
inteligência excepcional, sujeitos por essa razão a conseqüências
intrínsecas e extrínsecas que freqüentemente se tornam danosas à
sua formação ou à sua convivência com o meio.
De sua experiência direta como educador, o filósofo Bertrand Russell
recomenda:
" Não vemos argumentos contra a criação de tais escolas. Salvo difi­
culdades de ordem administrativa e essa forma de sentimento demo­
crático que tem sua origem na inveja. Na verdade, todo jovem inteli­
gente se julga superior aos demais, e essa idéia desapareceria no
ambiente de uma escola especial." (Bertrand Russell, Educação e
ordem social, Cia. Editora Nacional, trad. de Leônidas Gontijo de
Carvalho, 1 956, pág. 1 25.)
Quando tivermos os 2 milhões de universitários - 1 .000.000 a
mais do que o milhão atual - precisaremos de mais 50.000 profes­
sores, isto se atribuíssemos às congregações de nossas faculdades
um aumento de produtividade professor-aluno de cerca de 100%
(20 alunos por professor, quando em 1970 a média geral das facul­
dades brasileiras ainda era de menos de 10 ! ) .

Ascenderá, então, a cerca de 1 .000 o número de novas faculdades


e institutos superiores necessários para comportar o novo milhão
de universitários.
Quando juntamos todos esses algarismos e os custos neles envolvi­
dos para material escolar, laboratórios, equipamentos, prédios esco­
lares, professores e funcionários - compreendemos aquele outro
"absurdo" da vida norte-americana: nos seus gráficos de investi-

279
mentos, a Educação é o business que, isolado, movimentava a mais
volumosa cifra da vida· daquele país - 80 bilhões de dólares.
Chega-se, então, facilmente, à conclusão de que, mesmo com tudo
que se possa corrigir dos atuais enormes desperdícios financeiros
causados pelos administradores das nossas universidades, ainda fal­
tará dinheiro, um oceano de dinheiro, para a montagem e aparelha­
gem material e humana das imensas e complexas máquinas do ensino
de que carecem nações como o Brasil.
Poderíamos mesmo, numa divagação de grave para sombria, fazer
um exercício literário com as volutas emaranhadas de um círculo
vicioso: não há dinheiro suficiente para a Educação nos países po­
bres, porque são pobres; não havendo Educação, eles continuarão
pobres. Em outras palavras: as condições de pobreza mantêm as
condições do atraso, que gera a pobreza, que mantém o atraso.
Seria, assim, dantesco, o sem-fim desse paradoxo se, no caso de
países como o Brasil, não se pudesse divisar os meios por onde
se vai dar nos canais através dos quais o ouro público é contraban­
deado para o desperdício ou para a irresponsabilidade.
Pena que o país tenha perdido tão cedo aquela inteligência vibrante
que foi Fernando Carneiro, escritor e professor que preparara, como
um de seus últimos e substanciosos trabalhos, exatamente uma con­
ferência sobre " Recursos para Educação" . Àquela altura ( 1 968),
o Brasil ainda se esforçava sofridamente por alçar-se dos círculos
do inferno, de cujas bordas tanto se aproximara no começo da déca­
da de 60.
Por isto é que o admirável patriota iniciava seu estudo com uma
premissa que lhe deve ter sido angustioso enunciar: " ( . . . ) há des­
proporção entre nossas necessidades, ou se quiserem aspirações e
recursos. Não há dúvida que as necessidades educacionais do Brasil
estão muito além da capacidade nacional de investimento público
e particular neste setor." (José Fernando Carneiro, " Recursos para
Educação" , Carta Mensal do Conselho Técnico da Confed. Nacio­
nal do Comércio, n.º de agosto de 1968, págs. 1 5-40.)
Fernando Carneiro procurou, através de seu trabalho, provar a im­
portância que havia para o Brasil em reunir todas as aparas finan­
ceiras do que então ainda era um combalido orçamento nacional,
e convergir todas essas economias para a Educação.
Se tivesse sobrevivido até nossos dias, o mestre voltaria por certo
à tribuna pública para, com a sua cavalheiresca combatividade, re­
ver o ponto de vista pessimista sobre nossos recursos, e então exigir
generosidade e largueza nos investimentos nacionais em Educação.
Pois não é difícil, nem chega a ser pretensioso, com tantas evidên­
cias e aberrações até agressivas, dizer-se e provar que o dinheiro
nos bolsos governamentais é muitíssimo mais abundante do que

280
apresenta sua crônica "falta de verbas" e seus até bem recentemente
anacrônicos superdeficits orçamentários.
Na paisagem financeira da nação, onde parecem abundar apenas
fossos e lacunas de pecúnia faltante, há, afogadas e submersas, invi­
síveis ao olho nu do cidadão desprevenido, montanhas de boa pa­
taca, cordilheiras e cordilheiras de cifrões, erodidas dia a dia pelo
desleixo intrínseco e por todas as abusões características dos " ne­
gócios feitos pelo Estado", ou em nome dele comprando, vendendo
ou "administrando" .
(Ainda e m 30 d e novembro d e 1 974,. a imprensa d o país registravà
que o ministro da Fazenda explicara perante um amplo auditório
de exportadores e jornalistas em São Paulo que a maior percentagem
do deficit de nossa balança comercial corria por conta (do desregra­
mento) das autarquias e empresas governamentais. Mesmo a san­
gria causada pelos novos preços do petróleo não emocionara essas
filhas da viúva: elas continuavam o seu festival de importações.)
Nos países democráticos semi-socialistas - ou assistencialistas -
como o Brasil, a grande indústria de que o Estado deveria ocupar-se
é a da produção, em escala global, de cidadãos completos. De cida­
dãos profissionalmente equipados para viver dentro das condições
tecnológicas do seu tempo.
No entanto, ocorre que, acutilados pelos ingentes problemas sociais,
esses países são conduzidos a um erro fatal de opção. A falta de
base filosófica e ideológica, que é a debilidade comum a seus líderes
partidários, leva-os, quando sinceros, ao juvenilismo ,impaciente das
soluções prá-hoje-mesmo, com vista ao que eles babelicamente cha­
mam de "justiça social ".
Debaixo desse piedoso pálio assistencial, vem o faz-de-conta do falso
dinamismo do Estado Industrial, alternativa ingênua que visa a
manter nas mãos governamentais, para um mirífico falacíssimo " bem
de todos" , o que se supõe serem os melhores negócios ou ramos de
atividade econômica, particularmente a exploração das chamadas
" riquezas nacionais".
E, então, em nossos países em desenvolvimento, o Estado desvia
ora para empreendimentos suntuários, ora para suas empresas cujas
engrenagens administrativas estão sempre de parafusos frouxos - o
dinheiro, a catadupa de dinheiro, que deveria ser sagradamente
aplicado na produção de homens completos, tomados válidos para
a família e para a pátria, através da instrumentação da Educação.
Nos países subdesenvolvidos, por causa dessa visão predominante
entre suas lideranças políticas, o Estado, ao invés de proporcionar
escolas para erradicar o tracoma da ignorância, entrega-se ao diver­
sionismo de fabricar bengalas para os cegos de cultura - que ele
próprio gerou.

281
Pois, é apenas isto o que faz esse Estado, que se enfeita de dina­
mismo para produzir vergalhões de aço e tonéis de vaselina, que se
distrai em apitar locomotivas ou docar navios, e supõe enfaticamente
que "justiça social" é fazer donativos de. peixes e não ensinar a
pescar; ou garantir um salário mínimo aos incapazes ao invés de
tomá-los mais capazes; e ajudá-los através da distensão demagógica
dos direitos trabalhistas, quando a perdição desses infelizes é o seu
encurralamento pela ignorância.

Poderá haver quem se deixe levar pela argumentação maliciosa de


que, não considerando o governo como capaz de gerir indústrias,
como então querer atribuir-lhe a tarefa mais do que importante e
complexa da Educação?
Apesar da inescondível rabulice da proposição, o desafio do seu
absurdo impõe uma resposta.
Em primeiro lugar, as Constituições de quase todas as nações da
Terra incluem a Educação entre as tarefas básicas e primordiais do
Estado. Mas são poucas as que, embora reconhecendo ao governo
central o dever do estímulo e orientação da produção econômica,
impõem ao Estado o dever também de ele próprio produzir batatas,
ou óleo de bronzear.
A participação direta do Estado na economia, como industrial ou
como revendedor de querosene, só é consagrada de forma absolu­
ta pelos sistemas marxistas, alguns dos quais começam a recuar
acanhadamente daquelas áreas menos intocáveis do poder econômico
do Estado.
(Para espanto dos que aceitam as idéias-clichês ou as informações­
slogans, a Suécia-socialista é altamente socialista nos fins sociais,
mas não nos meios de produção. Pois, 94% da economia sueca são
geridos pela empresa privada.)
A origem histórica do Estado situa sua ação insubstituível na área
da justiça, da segurança, da ordem, do bem-estar. Pelo fato de esses
fatores serem moldura onde se encaixam a paisagem e as coisas da
prosperidade, não quer dizer que cabe precipuamente ao Estado,
além de promovê-la e estimulá-la, produzi-la.
Principalmente, não cabe porque, também historicamente, ninguém
jamais atribuiu como função específica do Estado aquilo que é vital
e essencialíssimo na atividade econômica: produzir lucros.
Aliás, os que, fora dos enquadramentos do marxismo, defendem o
Estado-industrial têm sempre o cuidado de apresentar as incursões
governamentais nos campos da indústria como ação " de caráter pio­
neiro" e " temporário" - o Estado produzindo apenas aquelas coisas

282
para as quais a iniciàtiva privada não estava preparada, ou não se
sentia atraída.
Os cidadãos que estão no poder em nossos países, e os que amanhã
poderão vir a exercê-lo, precisam dar-se conta de que as demais na­
ções não irão fazer nenhuma parada de espera em sua arrancada,
para aguardar que acertemos o passo com elas.
Por causa mesmo das alturas em que seu progresso já os colocou, os
países que assumiram a dianteira têm uma visão panorâmica muito
mais ampla e profunda dos fatores que influem nos acontecimentos
econômico-sociais. E é isto que os leva aos maiores esforços em
prol da Educação de seus povos, a fim de manterel)l e ultrapassa­
rem o ritmo de velocidade que atingiram em sua prosperidade. Por
sua vez, muitas nações "em desenvolvimento" passaram a atribuir
uma importância crescente aos investimentos educacionais.
Assim, a viagem para o futuro não se delineia como um convescote
em família. E, sim, uma maratona rija e rude, em que os desequipa­
dos, os frágeis, os desatualizados e os sem rumo ficarão irremedia­
velmente a reboque, ilhados pelo seu imobilismo ou extraviados
pelas trilhas enganadoras das grandes ilusões nacionais, como esse
gigantismo balofo, característico da elástica consistência do estatismo
industrial.
As Nações Unidas divulgaram em 1 969 que "os sistemas educacio­
nais do mundo inteiro têm estado em expansão nos últimos quinze
anos, num ritmo jamais alcançado anteriormente. Durante esse pe­
ríodo, as matrículas duplicaram e as verbas oficiais para Educação
elevaram-se numa média de 6,5 % ao ano nos países industrializados,
e de 12,5% nos países em desenvolvimento".
E verdade que, no Brasil, o governo já vem aplicando anualmente
cerca de 1 bilhão e 600 milhões de dólares para Educação, nisto so­
madas as verbas alocadas pelo novo regime aos Estados e municípios
como reforço a suas dotações para esse fim.
São inegáveis a atenção, o dinamismo - até então inéditos entre
nós - que o novo grupo de homens públicos brasileiros vem dedi­
cando à Educação, e com alto espírito de criatividade.
Mas o destino do Brasil (e, similannente, o de outros países em
situação semelhante) impõe que as grandes franquezas sejam ditas
para que as ilusões - menores - não ceguem esta nação, cujos
olhos foram destinados por Deus para as miradas dos horizontes
altíssimos.
As defonnações sociais do nosso atraso e os 50 anos de retarda­
mento em todos os campos da tecnologia - estão a exigir uma
cirurgia universal e não o cataplasma de meias medidas.
O organismo desta nação precisa ser submetido imediatamente à
ação da mais complexa instrumentação cirúrgica da Educação, por-

283
que, com a velocidade dos descobrimentos científicos, nenhum povo
dispõe hoje de muito tempo para convalescer-se de todas as doenças
do atraso, e construir a vitalidade global de que precisa.
Desgraçadamente, os ainda milhões de adultos analfabetos e os ainda
milhões de crianças sem escolas não são tudo que pesa nas nossas
costas. Quando ministro do Planejamento do Governo Médici, João
Paulo dos Reis Velloso lembrava em entrevista:
" No sistema educacional brasileiro, 40% dos professores primários
não são titulados e 60% dos mestres do ensino médio não têm diplo­
ma." ( "Analfabetismo pode acabar na década de 1970", Jornal do
Brasil, 1 6/3/70, pág. 3 1 .)
O professor e deputado Nina Ribeiro completa o cinzento dessas
tintas:
"Até 1 965, em 1 .866 municípios brasileiros entre 3.956 não havia
qualquer estabelecimento de ensino ginasial. " (Professor Nina Ri­
beiro, "Corno transformar urna nação grande em grande nação?",
Diário de Notícias do Rio, Caderno Escolar, 1 1 /5/69, pág. 1 .)
Quando o Brasil deu acordo de si em meio à década de 60, e ocor­
reu a explosão da demanda escolar, o nosso organismo de ensino,
principalmente na área dos cursos superiores, estava tão aquém da
extensão angustiosa do problema que um ministro da Educação pro­
pôs, no VI I I Forurn de Reitores, realizado em novembro de 1 967,
"que se resolvesse o caso dos excedentes queimando as provas dos
alunos que, ainda que aprovados no vestibular, excedessem o número
de vagas de cada Faculdade. Muita gente pensou que fosse brinca­
deira, mas a comissão organizadora do vestibular à Universidade
Federal de Pernambuco já adotou o sistema. A fim de evitar os pe­
didos de revisão, vai queimar as provas dos excedentes." ("Fogo nas
provas ", Jornal do Brasil, 6/ 1 / 1 968, pág. 6.)

Por várias razões, o que os últimos governos estão fazendo, mesmo


sendo muito em relação ao pouco que se fazia, ainda é fração ape­
nas do que se precisa e que, urgentemente, deve ser feito.
A montanha de dinheiro que são 1 bilhão e 600 milhões de dólares,
que o Brasil investia em Educação em 1 973, apequena-se frente a
çluas outras cifras. Três anos antes, em 1 970, o mundo, com exclu­
são dos EUA, já estava aplicando 100 bilhões de dólares anualmente
em Educação. Portanto, aplicávamos apenas 1 ,6 % do investimento
mundial quando ternos quase 3% da população da terra, e avança­
mos rapidamente - indormidarnente - para urna percentagem tal­
vez maior.
E justa, até certo ponto, a euforia dos patriotas quando afirmam que
os investimentos brasileiros em Educação, em 1 973, já representa-

284
vam quase 4% do Produto Nacional Bruto, percentual próximo ao
dos países desenvolvidos.
Além do fato de 4% do nosso PNB ser 4% de algo ainda pequeno,
temos de nos lembrar que esses países não têm, como nós, a cacunda
sobrecarregada de tão volumosos contrapesos negativos que exigem
imediatíssima correção: os milhões de analfabetos adultos, os mi­
lhões de crianças desescolarizadas, as centenas de milhares de "pro­
fessores" primários e secundários que deveriam ser ainda alunos
de si mesmos, e os extensos percursos a palmilhar nos mil caminhos
da tecnologi� .
Quando uma qualquer das cassandras "futuristas" enfocava o nosso
destino rio ano 2000, situando-nos entre o gado-de-coice do rebanho
humano, levantavam-se assanhadas todas as irritações e erisipelas na­
cionais.
Na hora, porém, da coragem para as medidas que serão, estas sim,
a resposta máscula e lúcida, aí arreiam-se de imediato todos os nos­
sos sangrantes pudores - e a nação cede, concede, e entrega-se aos
fantasmas do terrorismo intelectual.
São raros os que se colocam contra o exibicionismo das obras sun­
tuárias ou que apontam destemidamente a tirânica camisa-de-força,
tecida de trilhos, vergalhões, oleodutos, âncoras, serpentinas e tubu­
lações estatais - que amarra, sufoca e quase enforca esta nação no
pau-de-sebo das suas "contribuições" para a prosperidade do país.
Este gigante, secularmente atacado pela anemia perniciosa do anal­
fabetismo e descamado pela sarna da ignorância, não se cura de to­
do, não tem como curar-se de vez, porque cerca de 50% de sua
força burocrática - quase metade dos homens e mulheres que rece­
bem dinheiro do povo em todos qs tipos de guichês do governo -
são amarrados a "tarefas" e "funções" sem estímulos das superem­
presas estatais.
Nem 5% da energia da aparatosa máquina governamental são diri­
gidos para a Educação. De cerca de um milhão e 500 mil nomes
que figuram nas variadíssimas folhas de pagamento de entidades
oficiais, e paraestatais, federais, no Brasil, apenas algumas magras
dezenas de milhares são de professores ou funcionários çle estabe­
lecimentos de ensino.
A Nação mantém uma imensa força de "trabalho" nas autarquias
industriais; . e estas então deslumbram os ingênuos, vendendo-lhes
largueza empregatícia por dimensão operacional.
Um país que não tem dinheiro para dar salas de aulas para cinco
milhões de suas crianças, suporta deficits, ou "lucros" eufemísticos,
que anualmente dariam para botar nas escolas não apenas cinco
mas dez milhões de crianças . ..

285
Há, porém, ingênuos patriotas que enchem a boca com o fato de
um mastodonte estatal ter-se alinhado entre as dez maiores empresas
mundiais.
Que adianta essa teratologia de efeito publicitário, se estamos cor­
rendo o risco de ficar para sempre como nação pagadora de royal­
ties, bons e constantes clientes das criações alheias?
Na era da cibernética e da tecnologia, só os tolos ainda podem ser
engambelados com a desconversa de que as riquezas de uma nação
estão sob as botas dos geólogos, ou onde quer que as localizem as
patas do estatismo.
E ocioso repetir, mas temos que dizê-lo até o fim dos tempos, que
não há minas nem jazidas de minério nenhum, nem poços ou gale­
rias de fantásticos tesouros, que dêem a um país as rendas, as con­
tribuições e vantagens miliardárias que ele pode obter dos cérebros
equipados de todos os milhões de seus filhos.

Um documentário contemporâneo e impressionante de como, seja


lá por qual "justificação" for, a Educação ainda é tratada no Brasil
como a "enteada" das preocupações governamentais, surge no qua­
iro do conjunto de investimentos que o governo Costa e Silva auto­
rizaria para livrar o Rio Grande do Sul, aliás sua terra natal, da
dispnéia econômico-social em que caíra (abril de 1 969) . Eis os
dados fornecidos oficialmente pela caravana do presidente ao jor­
nalista Aluísio de Toledo César, que a acompanhava coino enviado
especial ("Viagem ao Sul deixa otimismo", O Estado de S. Paulo,
9/4/68, pág. 5):
Em Cr$ MILHÕES SETORES
263,4 Energia
45,l Petróleo
24,4 Comunicações
1 79,4 Transportes rodoviários
1 4, l Transportes fluviais
53,3 Transportes ferroviários
18,8 Portos
1 1 9,7 Agropecuária
1 2,2 Armazenagem
106,9 Indústria, Mineração e Pesca
9,9 EDUCAÇÃO
5.0 Saúde
50,2 Saneamento
1 30,1 Habitação
3,8 Desenvolvimento regional e urbano
Total: 1 .040,6

286
De um bilhão e 40 milhões de cruzeiros que, de uma só vez, o Go­
verno Central anunciava solenemente aplicar no Rio Grande do Sul,
apenas 9,9 milhões iriam para a Educação . . . Isto é, MENOS DE
UM POR CENTO de todo o dinheiro que a cornucópia federal ali
despejaria.
Este é um dos mais melancólicos flagrantes, recente e tomado ao
vivo, de como até mesmo a objetividade característica dos governos
da Revolução de Março ainda se move tangida pelo medo de em­
pregar em escolas as verbas que os resíduos inarredados do terror
intelectual lhe impõem que se destinem aos investimentos indus­
triais estatais.
Aliás, como salientamos no capítulo sobre o papel da imprensa, em
começos de 1 974, três anos após a lei que tornou obrigatório o
ensino integrado de primeiro grau, abrangendo os antigos cursos
primário e ginasial, um Estado da potencialidade econômica de
São Paulo, por "dificuldades técnicas " só tinha implantado 70 esco­
las integradas em 9 municípios (Presidente Prudente, Lins, Araça­
tuba, Ribeirão Preto, S. José dos Campos, Taubaté, Cruzeiro, Santo
André e Guarulhos) onde havia 1 .402 escolas primárias do tipo
antigo . ( " Integração da escola média, realidade distante " , O Estado
de S. Paulo, 1 3 / 1 / 1 974, pág. 29.)
Enquanto isto, o tesouro estadual proclamava a sua triunfal pros­
peridade, que lhe permitia financiar 90% de um empreendimento
de porte mundial como o conjunto hidrelétrico de Urubupungá, e
outros. E registrava jubilosamente a doação de instalações espor­
tivas completas (ginásios, piscinas, campos de esportes menores,
etc.) a cerca de duzentos municípios do interior. Embora todos eles
já dispusessem de clubes locais, geralmente bem equipados para a
prática de esportes.

Seria, repetimos, injustiça não registrar ou não reconhecer o esforço,


a compreensão e a atenção - absolutamente superiores a tudo que
se fez antes - dedicados à Educação pelos quatro últimos governos
(de 1 964 até 1974), através de seus ministros (Supplicy de Lacerda,
Moniz de Aragão, Tarso Outra, Jarbas Passarinho e Ney Braga).
Mas a "criatividade" para buscar mais fundos destinados à monta­
gem do gigantesco aparelhamento escolar de que o Brasil precisa
tem ficado restrita a ações tímidas e de resultados quase ridículos:
pedidos de empréstimos a entidades internacionais, uma inócua e
quase fictícia extensão do " incentivo fiscal para investimentos
n

educativos e 30% da receita " líquida" das Loterias Federal e


Esportiva.
Os empréstimos de entidades internacionais têm sido conseguidos,

287
e são até demonstração de remarcado reconhecimento pela obra
edacativa que se está fazendo no Brasil: por causa das realizações
já em curso, nosso país tem obtido as mais altas cifras entre todos
os que têm competido pelos dólares da ajuda internacional para Edu­
cação. Mas exatamente por existirem mais de 80 nações disputando
o mesmo dinheiro, é que este é cotizado e fracionado, quase pulveri­
zado, representando o que vem para cá apenas 4 a 5% do que nós
próprios já estamos aplicando, em cruzeiros.
Quanto à dedução de impostos (incentivos fiscais) para aplicação
em Educação - foi ela sugerida pela primeira vez, em 1 966, em
tema de aula magna diante da Congregação da Faculdade de Farmá­
cia da Universidade do Rio de Janeiro, por um homem de empresa,
sr. Oswaldo Ballarin, tecnólogo de bioquímica e um dos dirigentes
da Federação das Indústrias de São Paulo.
Era de supor-se que essa idéia, imediatamente apoiada pela impren­
sa e por entidades públicas, fosse desde logo incorporada, com des­
taque, na relação de incentivos fiscais que o governo já então estu­
dava e preparava. Em fevereiro de 1 967, surgiria finalmente o de­
creto n.º 1 57 que sabiamente possibilitou ao contribuinte deduções
de investimentos feitos em praticamente todas as atividades econô­
micas, no mar e na terra, na lavoura e na floresta, em coisas do
governo e em negócios particulares, deduções em iniciativas no cam­
po e em empreendimentos nas cidades.
Houve, porém, no extenso elenco de incentivos fiscais então estabe­
lecidos uma lamentável e provavelmente deliberada omissão. Talvez
oriunda de um arraigado preconceito, ou da velha idéia feita de
que Educação não devendo ser considerada um " negócio", não
pode também ser catalogada como um empreendimento econômico.
E assim, deduz-se (do Imposto de Renda) dinheiro que vai para tudo.
Menos para Educação. (Admite-se dedução dos custos escolares na
renda bruta. Mas não do montante a ser pago como imposto de ren­
da, propriamente dito - que é o que caracteriza o incentivo fiscal.)
Dir-se-ia que os estabelecimentos de ensino poderiam, se quisessem,
beneficiar-se dos incentivos fiscais, tornar-se, como outras organi­
zações, empresas "de capital aberto" . (A Universidade de Harvard,
depois da Igreja Protestante, foi a segunda " corporation " a orga­
nizar-se na antiga colônia inglesa, que se transformaria em Estados
Unidos da América do Norte.)
Mas as empresas " abertas " visadas pelos nossos investidores indi­
viduais ou para as aplicações orientadas pelos grandes fundos finan­
ceiros, são obviamente aquelas que representam negócios de verdade:
sólidas e extensas entidades industriais ou cadeias de lojas, super­
mercados, etc., etc. - que produzem ou vendem mercadorias
ou serviÇos para milhões ou centenas de milhares de consumidores.

288
Apesar de logicamente visarem a lucros para sobreviver, os colégios
particulares, com raras exceções, não têm as características totais
de gerar atrativos dividendos ou amealhar crescentes patrimônios
- normais aos grandes empreendimentos econômicos.
Talvez os leitores familiarizados com a legislação fazendária obje­
tem que já há "deduções permitidas na área da Educação". Mas a
dedução atualmente ( 1 974) admitida só é reconhecida se essas enti­
dades destinarem o dinheiro "para realização de programas espe­
ciais de ensino tecnológico ou de pesquisas de recursos naturais e
de potencialidade agrícola ou pecuária, aprovados pela SUDAM e
de recursos pesqueiros aprovados pela SUDEPE".
Todo esse cipoal de dificuldades tem suas raízes no velho ranço
e nos preconceitos da política administrativa que só entende como
grande governo o que realiza ou propicia majestosas, suntuárias
obras públicas.
Seria duro termos que admitir que essa estranha resistência à exten­
são dos incentivos fiscais para a área da Educação seja oriunda de
um mesquinho estratagema, visando a impedir que o reforço de
verba desses fundos reabra uma nova era de prosperidade e efi­
ciência para os colégios e faculdades particulares, concorrentes sa­
dios do ensino público.
O alcance do fecundo decreto 1 57 tem que ser urgentemente am­
pliado. E preciso voltar-se também para o campo da Educação ge­
nerosamente, abundantemente, o mesmo jorro germinador dos in­
centivos, que está fazendo proliferar e crescer empreendimentos eco­
nômicos de g1ande importância para o Brasil.

A criatividade com que as autoridades financeiras dos governos pos­


teriores a 1 964 revolucionaram a legislação fazendária e a vida eco­
nômica do país, encontrará facilmente meios e modos de beneficiar
quaisquer estabelecimentos de ensino - público e particulares -
com as doações e investimentos que a eles, ou neles, quiserem fazer
os contribuintes de rendas mais fartas.
Assim, das três fontes extraordinárias mencionadas há pouco (a
aleatória ajuda externa, o mirífico incentivo fiscal e os "lucros" das
Loterias), restariam realmente para reforço das verbas necessárias
à Educação, apenas os 30% da renda UQUIDA das Loterias.
E ocioso dizer que não será com migalha de dinheiros, e de atitudes,
que se resolverá o problema da Educação no Brasil.
Esse é um campo de ação em que os pensamentos miúdos, as idéias
tímidas, as sugestões circunscritas, as doações de vinténs e os remen­
dos ocasionais, despegarão por falta de consistência e se esboroarão
diante do poder corrosivo das realidades que nos perseguem, sem­
pre em cifras de milhões: milhões de analfabetos adultos, milhões

289
de crianças marginalizadas, centenas de milhares de professores
incapazes, centenas de milhares de salas de aulas faltando, etc.
Não será jamais com muito pouco que iremos sair da área dos países
do Nada. Queremos construir uma Nação em tudo e por tudo maiús­
cula. E não, simplesmente, rebocar um pardieiro sociológico. Ou
ampliar um albergue de dimensões continentais.

Ao invés de o governo ter que dobrar ou multiplicar seus investi­


mentos diretos em Educação e, por conseqüência, estender até o
infinito uma já imensa máquina para fiscalização da aplicação de
verbas pelas administrações das universidades - algumas delas
ingênuas, bisonhas ou mesmo irresponsáveis - melhor seria abrir
a oportunidade para que a iniciativa privada brasileira entrasse tam­
bém no " negócio" da Educação, porém, de uma forma especial:
logicamente, sem lucros.
Como, porém, atrair administrações de empresas para um negócio
sem lucros?
Em primeiro lugar, seria permitido que as organizações econômico­
financeiras de origem nacional aplicassem, como incentivo fiscal,
anualmente até 20% de seus lucros taxáveis em estabelecimentos
de ensino de sua criação e propriedade.
Em segundo lugar: seria reservado à empresa o direito de sugerir às
'
autoridades do Ensino (Conselho Federal de Educação) ou ao Centro
Nacional de Recursos Humanos, os currículos dos estabelecimentos
escolares que fundassem, de modo a que pudessem atender à sua
própria demanda de mão-de-obra qualificada ou altamente especia­
lizada, e estenderem-se também às outras áreas que julgassem con­
veniente, sempre sob aprovação oficial.
Além da obrigação legal de submeter suas finalidades e currículos
às autoridades planejadoras, haveria uma outra obrigação básica
que logicamente seria a contrapartida social do direito transferido
às empresas: os estabelecimentos escolares assim criados teriam que
fornecer anualmente ao Ministério da Educação, ou ao do Trabalho,
um número determinado de bolsas de estudos, em quantiddde equi­
valente ao valor das deduções; o custo-aluno dessas bolsas jamais
poderia exceder o custo-aluno das faculdades ou escolas similares
do Estado.
Dessa forma, a estratégia brasileira para a Educação receberia o
formidável reforço da ação rápida e eficaz da iniciativa privada na­
cional, de cujo dinamismo e potencial já ninguém mais duvida. E
isto se ajustaria de modo perfeito às finalidades nacionais buscadas
através da criação do Centro Nacional de Recursos Humanos.
Por outro lado, as corporações estrangeiras presentes no país tam-

290
bém poderiam, sem exercer nenhum cargo de direção, aplicar dinhei­
ro nas escolas e faculdades fundadas e exclusivamente orientadas
pelo empresariado brasileiro.

Para aqueles que acham que cabe ao Ministério da Educação desdo­


brar-se sozinho para dar conta de todos os problemas dessa área,
convém lembrá-los da confissão feita em 1 970 pelo inspetor de fi­
nanças daquela repartição, quando declarou que os seus doze audi­
tores estavam a braços com 140 mil processos atrasados. (" MEC tem
140 mil processos atrasados �. O Globo, 28/4/70, pág. 1 9.)
No Brasil, o governo está arcando quase sozinho com o ônus finan­
ceiro e administrativo da máquina da Educação.
Em artigo publicado na última Hora, do Rio, de 29 de março de
1973, na primeira página da seção " Diretor Econômico" , o ministro
do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso, detalhava a partici­
pação governamental no suprimento de educação aos filhos do povo:
" ( . . . ) o setor público financia 90% das matrículas de nível primá­
rio, de 60 a 70% das de nível médio e de 70% das de nível
superior. "
Foi por uma fêliz combinação d o incentivo fiscal com o alto espírito
público dos cidadãos mais abonados, que os EUA conseguiram o
magnífico equilíbrio que apresentam nessa área.
Seg__undo informa o senador João Calmon (entrevista a programa
de televisão, reproduzida pelo Diário de S. Paulo, de 30/ 1 0/7 1 ,
págs. 6 e 7), nos Estados Unidos, " 70% da responsabilidade educa­
cional estão afetos ao setor público e 30% ao privado. Aqui no
Brasil, 85% estão afetos ao setor público e 10% apenas ao setor
privado. Os outros 5% são recursos externos como os da USAI D " .

E m junho d e 1 969, u m repórter d e O Estado de S . Paulo, presente


à IV Conferência Nacional de Educação, realizada na capital pau­
lista, assim resumia, sem nenhuma intenção de ênfase ou dramati­
cidade, o quadro do "desenvolvimento" da Educação do Estado de
Sergipe, tal como fora apresentado aos convencionais:
"A preocupação em buscar um entrosamento entre o curso médio e
a Universidade ainda não atingiu Sergipe. Em verdade, não há se­
quer a preocupação de iniciar o curso secundário. Durante o primá­
rio, os alunos já são obrigados a trabalhar. Daí a preocupação maior
em adequar o ensino às condições regionais para que, mesmo preca­
riamente, o indivíduo possa ser útil mais cedo. A miséria não per­
mite aspirações culturais. Os problemas precisam de soluções ime­
diatas. E a maioria acha perda de tempo esperar por soluções
que exigem vários anos de estudo."

291
"Esse é o retrato do interior de Sergipe, onde, no pequeno povoa­
do de Pedreiras, no município de São Cristóvão - que foi capital
da província de Sergipe, durante o Império - os hábitos e as con­
dições não mudaram com os anos. Lá, todo o prédio da escola é
uma sala de aulas. Os alunos ficam espremidos uns contra os outros.
Não há carteiras adequadas. A professora, magra e mal vestida, que
recebe um salário de 25 cruzeiros mensais, já ensinou várias turmas.
Não importa que não tenha concluído o curso primário ou jamais
tenha feito um curso de aperfeiçoamento. Os alunos precisam, sim­
plesmente, conhecer a cartilha e as quatro operações fundamentais.
Com isso, já estão aptos a integrar a comunidade, que só lhes ofe­
rece duas opções profissionais: a pesca e a agricultura. "
"Até parece situação criada, o u exceção. Mas infelizmente, é regra.
As escolas não dispõem das condições mínimas. Não há carteiras;
quando muito, bancos. Não há cursos noturnos, pois não há sequer
lampiões. E, em algumas outras cidades, como Capela, Aquidabã
e Porto da Folha, as escolas municipais funcionam embaixo das
árvores, não havendo aula nos dias de chuva, e os alunos assistem
as aulas sentados no chão."
"Em Aracaju, a situação melhora ligeiramente. Contudo, o ensino
não obedece a uma orientação pedagógica básica. Além disso, as
verbas pedidas pela Secretaria da Educação sofrem, sistematica­
mente, cortes de até 50% . Há 32 escolas municipais e outras 2 1
funcionando em convênio com a Prefeitura. Para todas, a Secreta­
ria da Educação dispõe de uma verba de pouco mais de 850 mil
cruzeiros."
"A Universidade. Em Sergipe, há vários anos, funcionam seis Facul­
dades, independentemente. Em fevereiro de 1 967, o governo Castelo
Branco sancionou o Decreto-lei 269, criando a Universidade Federal
de Sergipe. E um dos artigos do dispositivo legal determina a aber­
tura de um crédito de seis milhões de cruzeiros para a implanU1ção
da Nova Universidade. Mas, até agora, o dinheiro não foi liberado
e as dificuldades são cada vez maiores, para a implantação dos
trabalhos."
"As verbas que até agora foram liberadas são muito pequenas. Natu­
ralmente, os salários oferecidos aos professores são, também, baixos.
Os professores qualificados não se sentem atraídos pela Universi­
dade. E aqueles que trabalham período dobrado ou tempo integral
recebem apenas por um período. Mas, mesmo assim, diante das
necessidades, a Universidade pediu ao Ministério da Educação a
concessão de tempo integral a mais 30 professores e período dobra­
do para outros 30". ("No interior sergipano, a escola fica sob a
árvore" , O Estado de S. Paulo, 22/6/ 1 969, pág. 37.)
Em verdade, captou o jornalista do que viu e ouviu nos debates e

292
do que leu nas teses - que não havia no interior de Sergipe, naquele
ano da graça de 1 969, SEQUER A PREOCUPAÇÃO DE INICIAR
O CURSO SECUNDÁRIO. E as professoras primárias, elas também
semi-analfabetas, recebiam por seu duplo heroísmo - de ensinar
sem saber e de não ter como ensiruir - o salário de 25 cruzeiros,
mesmo com a experiência de já terem lecionado " para várias
turmasn.
Na mesma ocasião, · um dos mil lavadores de sentina das refinarias
governamentais, mesmo recém-admitido, ganhava mensalmente cerca
de 35 V.!zes mais que a professorinha do sertão sergipano.
E na Capital de Sergipe se inaugurava em 1 969 "o maior estádio de
futebol do Nordesten, capaz de conter folgadamente - segundo a
ufanística literatura oficial - 50% da população de Aracaju.
Era a pequena brasília do balipódio que, tal como a original, um
governador fizera para ter seu nome também perpetuado na me­
mória dos pósteros.
Traduzida em miúdos, dentro do tamanho e da realidade das coisas
sergipanas ou mesmo brasileiras, aquela monumentalidade arquite­
tônica teria dado para construir modernas escolas e ginásios em
cada uma das sedes de todos os municípios do Estado.

Mas onde se colocaria a placa de bronze, provavelmente com 2 me­


tros de extensão, com o nome do governador?
Ai de nós que, em nossa humildade, já nos alegraríamos bastante
com dezenas de placas pequenas, em dezenas de escolas modestas,
para emoldurar as fosforescências da nossa humana vaidade. Pois
não é que, em abril de 1 970, o jornal O Globo trazia outras novi­
dades sobre o mesmo assunto, governador e estádio: "O governador
sergipano, que passou ontem cinco horas no Rio, disse que inaugu­
rará MAIS DOIS ESTADIOS de futebol em Sergipe, até DEIXAR
O EXECUTIVO PARA SE CANDIDATAR A SENADO:a. Locali­
zam-se nas cidades de Itabaiana e Lagarto. Um já ganhou ape-­
lido: . . . n
E a nota acrescentava, em carinhoso diminutivo, o nome de Sua
Excelência. (O Globo, 1 8/4/70, pág. 4.)
(Isto nos faz recordar o fato já citado, e segundo o qual a legislação
do Estado norte-americano de Massachusets, no longínquo ano de
1 827, determinava a demissão dos mayors das cidadezinhas que� até
após dois anos de sua eleição, não tivessem dotado suas comunidades
de uma high-school.)
Deve-se, de justiça, reconhecer que, a partir daquele estádi�mons­
tro, alterou-se a posição hegemônica de Sergipe no conserto da Fe­
deração. Pois, para orgulho de seus políticos profissionais, outras

293
unidades acorreram açodadamente para a maratona nacional de ci­
mento armado.
Em outubro de 1 970, era a vizinha Alagoas que não ficava para
trás, inaugurando o estádio " Pelé" (nome dado por evidente modés­
tia do governador local), com capacidade para 1 00 mil pessoas, isto
é, mais que toda a população adulta da capital e arredores.
Em maio de 1 97 1 , registrava-se uma curiosa crise política na
ARENA do Pará porque um membro de seu diretório, encarregado
de dirigir as obras do novo estádio local, queria fazê-lo prudente­
mente para uma capacidade de 60 mil espectadores, seguindo, aliás,
as recomendações da própria CBD e do Conselho Nacional de Des­
portos. A ARENA local exigia gigantismo: capacidade para 1 20
mil. O líder arenista foi forçado a renunciar ao cargo e ao diretório.
(" Estádio abre crise política", Correio da Manhã, 1 4/5/ 1 97 1 , pág.
20.)
Logo a seguir, eram os mentores políticos do Piauí que surpreendiam
o país fazendo-o tomar conhecimento de suas importantes atividades
administrativas:
O Globo (9/ 1 1 /7 1 , pág. 27) noticiava em destaque que os presi­
dentes da CBD e da Confederação Nacional de Desportos haviam
partido em caravana para, atendendo a convite do governador
piauiense, "visitar as obras do novo estádio local " .
Essa notícia recordava-nos uma outra ( 0 País dos coitadinhos, ca­
pítulo " Povo burro é povo pobre") na qual o falecido jornalista
Rogaciano Leite nos mostrava, em reportagens publicadas nos Diá­
rios Associados em 1 966, fotografia de belas crianças do vilarejo
piauiense de Guadalupe, carregando na cabeça as cadeiras com
que, diariamente, iam e voltavam da aula, pois a "escola" não dis­
punha desse luxo de mobiliário.
Por essa época, 1 97 1 , o Piauí ainda ostentava um triste campeonato:
seus 80% de analfabetos, razão número dois de sua celebrada odis­
séia no regaço da Federação Brasileira. (A outra fora o total insula­
mento econômico quanto ao resto do país.)
Na austera Minas, foi a partir de eleitoralíssima construção do está­
dio de futebol da Pampulha, com o qual o governador J. M. Pinto
visava à perpetuação de seu nome, e certamente outros dividendos
ainda mais realistas, que as professoras começaram encabuladamente
as primeiras manifestações públicas contra os atrasos de seus salários.
Aliás, essa febre de estádios aumentativos, " Magalhão", " Manuelão" ,
" Vargalhão", "Zebrão", deu ensejo a u m magnífico ensaio, publi­
cado sob a forma de cinco artigos, pelo jornalista Joelmir Beting,
na Folha de S. Paulo.

294
Com cada governo estadual querendo fazer a sua brasília-mirim
sob a forma de estádios-açu, não admira que esteja havendo tantas
dificuldades (e resistências) para ser posta em prática a reforma que
institui o ensino profissionalizante - para compra de cujo equipa­
mento é trazida à tona a velha desculpa da "falta de recursos" .
Aliás, .é simplesmente desconcertante a frieza e a incompreensão
com que certo tipo de altos burocratas trata ou "entende" o pro­
blema da Educação. Pouco tempo depois de um presidente da Com­
panhia Sidei:úrgica Nacional ter "justificado", perante uma Comis­
são Parlamentar de Inquérito, em 1 965, o débito de Cr$ 2.640.000
da " sua" empresa para com a Universidade de Brasília - alegando,
do alto de suas responsabilidades, que não via a razão por qu� a
lei estabelecera que a Siderúrgica devesse contribuir com 1 0 % de
seus lucros para manutenção daquele centro educacional - outro
sólido grupo de dirigentes de autarquia estatal agia de maneira
semelhante.
Segundo o pronunciamento do reitor, prof. Zeferino Vaz, divulgado
em 24 de dezembro de 1 966 ("C.ampinas: reitor fala sobre a Uni­
versidade" , Estado de S. Paulo, 24/ 1 2/66, pág. 1 3 ) , a direção do
Instituto Brasileiro do Café resistiu monoliticamente aos insistentes
pedidos e a todas as iniciativas e gestões feitas por um dos mais
credenciados parlamentares brasileiros, o deputado Herbert Levy,
para que o IBC cedesse 13 alqueires que possuía na região de Cam­
pinas, para neles ser instalada a eficiente Universidade local. Alegava
o IBC: precisava do terreno para " fazer um hotel para fazendei­
ros" . . .
Felizmente, aquilo que os dirigentes da bilionária autarquia acha­
ram que ela não poderia fazer, foi realizado por um cidadão de
alto espírito cívico: o sr. Adernar de Almeida Prado doou não 1 3 ,
mas 3 0 alqueires d e terra para instalação d a Universidade d e Cam­
pinas, localizados a apenas 4 quilômetros do centro da cidade.
Bilionária autarquia não é exagero nosso: por coincidência, no mes­
mo dia em que o reitor Vaz revelava o fato acima narrádo, o jorna­
lista Teóphilo de Andrade comentava os dados com que o então
Ministro da Fazenda, Prof. Octavio de Bulhões, atendera um pedido
de informações feito pelo deputado paranaense, Renato Celidônio,
sobre o status financeiro do IBC. (Teóphilo de Andrade, " IBC rico
e lavoura pobre", Diário de S. Paulo, 24/ 1 2/66, pág. 4.)
As disponibilidades com que o IBC contava na ocasião somavam
a impressionante cifra de UM BILHÃO DE CRUZEIROS ! (0 IBC
só não era, ainda, bilionário quanto ao número de funcionário�:
estava, na ocasião, com apenas 8 mil para atender à "complexíssi­
ma" tarefa de comprar, armazenar e embarcar café. E estes funcio-

295
nários custavam à nação Cr$ 350.000.000.) (Sérgio P. Mellão, " O
café" , Boletim Cambial Semestral, 4 a 9/ 1 /7 1 , pág. 3 .)
Aliás, enriquecendo o rosário das atitudes absurdas de autoridades
ou dirigentes de autarquias governamentais com relação à Educação,
deve-se juntar o que revelou o ministro Jarbas Passarinho, na sole­
nidade de inauguração das novas instalações do Centro de Seleção
de Candidatos ao Ensino Superior do Grande Rio, CESGRANRIO
(Jornal da Tarde, de São �aulo, 17 /3/72, pág. 1 1 ) :
"As sonegações das empresas e instituições governamentais para o
salário-educação são da ordem de 1 2 5 milhões de cruzeiros. Essa
importância corresponderia a 25% da arrecadação prevista para
este ano (no ano passado, foram arrecadados Cr$ 500 milhões) . "
"Essas informações são d o ministro Úrbas Passarinho. Ele disse
que o Ministério da Educação está acompanhando atentamente a
situação e pretende recolher todos os impostos atrasados. "
"O Grupo-Tarefa do Salário-Educação apurou também que grande
parte do débito no recolhimento de contribuições é proveniente de
empresas públicas, prefeituras e governos estaduais. "

No ano d e 1 968, Brasília, que fora erguida para ser a cidade con­
temporânea do futuro, tinha 1 1 mil crianças sem escolas.
Em 1 969, ainda havia ali mais de 10 mil crianças sem escolas, nos
seus bairros mais distantes e nas cidades satélites.
Em 1 970, continuava existindo em Brasília cerca de uma dúzia de
milhares de crianças fora das salas de aulas.
Completamente diversa desse número invariavelmente trágico, era
a progressão dos investimentos imobiliários governamentais. A
Superintendência de Coordenação do Desenvolvimento de Brasília
(CODEBRÁS) proclamava em abril de 1 968, com cimentado
orgulho, a sua crescente capacidade de construir.
Na cidade fantástica (onde era sempre de 10 mil o número de crian­
ças anualmente sem escolas), construíram-se, somente em 1 968,
67 blocos de apartamentos para famílias " ricas ou remediadas " e
outros 80 blocos de apartamentos populares. Cada bloco tinha a
média de 50 apartamentos. ("Apartamentos para Brasília" , Diário
de S. Paulo, 1 2 /4/68, l .ª pág.)
Se algum patriota conseguir desembaraçar-se da lembrança incô­
moda dessas 10 mil crianças sem escolas, poderá saber com orgulho
que os quase 8 mil apartamentos construídos em Brasília só em 1 968
custaram à nação a também edificante soma de 200 milhões de
cruzeiros.

296
Cada bloco construído daria para erguer uma faculdade altamente
equipada para qualquer ramo da tecnologia.
Ou, mais modestamente, com o dinheiro gasto em apenas dois blo­
cos, teríamos todas as moderníssimas salas de aulas necessárias para
abrigar aquelas insistentes 10 mil crianças�
A partir de 1 969, por alguma desconhecida conveniência, o volume
dos investimentos e das construções passou a ser modestamente
omitido . . . Mas, a julgar-se pela firme decisão oficial de mudança
total para Brasília, o ritmo das edificações deve ter feito com que,
pelas alturas de 1 973, os gastos de construções da nova capital,
desde a fundação, atingissem cerca de 3 bilhões de dólares. Uma
cifra, sem dúvida, como a própria cidade: faraônica.
Mesmo com tanto dinheiro gasto, e com tantos palácios que con­
tinuam sendo erguidos em Brasília, divulgava-se em abril de 1 970,
após um rumoroso incidente entre o seu novo governador e um dos
arquitetos planejadores que, até aquele ano - uma década depois
de fundada a cidade - só se havia construído UMA escola-parque,
"porque ela ficou muito cara e faltou dinheiro para as outras".
(" Uma cidade ameaçada", Revista Veja, 22/4/70, págs. 34 e 3 7 .)
Naturalmente, na cidade espetaculosa e futurológica, fizera-se "outro
tipo qualquer" de escola, e com o dinheiro que fosse sobrando.
Esse incidente em torno das requintadas escolas-parques, certamente
planejadas para enquadrarem-se nas linhas de monumentalidade de
Brasília, levou-nos à memória o duro realismo de algumas das infor­
mações levantadas pelo Censo · Escolar Nacional de 1 964 - infor­
mações tão contundentes que até hoje não se fizeram novas pes­
quisas globais como aquela.
O Censo de 1 964 revelara que, das 1 07 mil "escolas" primárias
existentes em todo o país em fins de 1 964, apenas 49 mil (45 % )
eram instaladas e m prédios próprios, adredemente construídos para
isto. O resto " se arranjava" em pardieiros, casebres, taperas, quios­
ques, caramanchões, tulhas, galpões, paióis - e onde mais Deus
ajudasse - para se dar às crianças brasileiras o seu primeiro ponto
de encontro com as coisas e as realidades da pátria. ("Salas de
aulas: nosso deficit é de 142 mil", Diário de S. Paulo, 24/6/69,
pág. 6.)
(Esquecemos de citar acima um outro tipo inesperado de "prédio
escolar" que existe em Rondônia: os " tapiris". Tapiris, para quem
não sabe, são casas de palha. Esse tipo de "estabelecimento" repre­
sentava mais de 50% das " construções escolares " do território -
o total era de 1 74, em 1 969- segundo o que o secretário de Edu­
cação honesta e corajosamente informou aos demais participantes
da IV Reunião da Conferência Nacional de Educação, realizada em

297
jupho de 1 969, em São Paulo.) (" Rondônia só pensa é na alfabeti­
zação" , O Estado de São Paulo, 26/6/69, pág. 14.)
:!! certo que, em situações de emergência e momentâneas, pode-se
ministrar aulas tanto numa tapera, como num tapiri. O primitivismo
será sempre o mesmo. Porém, é inconcebível que se use até garagem
para "escola", e por largo ten'l.po, quando isto ocorre na própria
área do Grande São Paulo. ("Uma aula especial para deputados:
reforma do ensino" , Palestra da professora Esther de Figueiredo
Ferraz, secretária de Educação do Estado de S. Paulo, na Assembléia
Legislativa Estadual, Jornal da Tarde, 5/ 1 0/ 72 , pág. 19.)
Pinçando informações recolhidas do Censo Escolar Nacional de
1964, o Correio da Manhã relembrava em 24/5/67 : "84% das
escolas não dispõem de abastecimento interno de água, enquanto
67% não contam com instalações sanitárias próprias".
Mas no Estado do Acre, a Educação era de tal modo enjeitada
que, ao invés de abrirem-se mais escolas, fecharam-se 100, em 1 966.
" Ninguém sabe porque e muita gente nem sabe disto", dizia uma
reportagem publicada na revista Realidade. ("O Brasil não conhece
Cruzeiro", outubro de 1968, págs. 193-208.)
Aliás, a IV Conferência Nacional de Educação, já mencionada pági­
nas atrás, deu ensejo a que se comprovasse que Sergipe, além de
antecipar-se gloriosamente ao Piauí na construção de um estádio­
monstro, também o superava na remuneração às professoras porque,
enquanto no interior sergipano se pagava Cr$ 25,00 por mês a uma
professora rural, havia no Piauí professoras ganhando cerca de
Cr$ 1 0,00 e Cr$ 1 5 ,00.
Mas a fita azul cabia mesmo ao Maranhão - cujos índices de
analfabetismo praticamente empatavam com os do Piauí - pois
em suas reportagens publicadas nos Diários Associados em 1 966,
o jornalista Rogaciano Leite revelara que, em Nova Iorque do Ma­
ranhão, havia professoras vencendo o "salário" de Cr$ 2,00 - dois
cruzeiros - por mês!
Quatro anos depois, era o próprio Ministro da Educação, Jarbas
Passarinho, quem sinceramente confessava - na palestra que fez
perante a XVI I Conferência Nacional do Lions Clube, no Rio: " Há
professoras ganhando Cr$ 4,00 - quatro cruzeiros - mensais em
algumas cidades do interior. Como vamos exigir dessa gente mais
eficiência?" (" Passarinho anuncia sistema de créditos na Educação",
O Globo, 8/5/70, pág. 3 .)
M�s essas são as velhas rugas . na face madrasta do Estado; são as
ulcerações do seu lado magro e os ossos descarnados da sua mão
avarenta.

298
Porém, o Estado não é sempre esse espantalho de sovinice, decorado
com os amuletos das dificuldades e misérias coletivas.
Basta vermos o seu lado estróina, a face perdulária, a mão fácil
e aberta, enfim o Estado-cornucópia que despeja milhões de fartas
patacas para os que, por privilegiadas razões, lhe caem nas rendosas
graças.
Coisas miúdas - crianças sem escolas ou sem nenhuma assistência,
professorinhas sem receber, ou professorinhas ganhando tutaméias
- não esvaziaram jamais o venturoso balão das intermináveis "ex­
periências " industriais, do eternamente solitário "pioneirismo" do
Estado.
Estas seguem avante, há décadas já - apesar de serem "experiên­
cias" , e ocasional "pioneirismo" - indiferente até mesmo a anún­
cios dramáticos, como o feito no início do ano de 1 970, de que
todo o conjunto de obras educacionais e assistenciais da Legião Bra­
sileira de Assistência iria fechar-se por falta de verbas - da verba
de Cr$ 25 milhões de cruzeiros.
Num orçamento miliardário, sobrecarregado pelos orçamentos para­
lelos de empresas públicas empanturradas e intocáveis, não fora
possível encontrar sobras para uma entidade nacional da natureza
e do porte da LBA. Para salvá-la, chegaram a sugerir, da copa-e-co­
zinha de um palácio de governo, que se recorresse oficialmente a
uma espécie de "Bichobrás" , ou seja, a · industrialização e taxação
do jogo-do-bicho.
A LBA sobreviveu à custa de algo mais digno: a Loteria Esportiva.
Logo ao mesmo tempo, com a sua outra face - a da irresponsabili­
dade e da amnésia - o Estado trombeteava euforicamente a sua
bilionária prosperidade financeira: uma das empresas governamen­
tais, a mais decantada de todas, aquela que se intitula a própria
"glória nacional " , divulgava em seu balanço de 1 969 haver distri­
buído, como presente de fim de ano, aos seus já muito bem pagos
funcionários (33 mil) a quantia de 41 M ILHÕES de cruzeiros.
A mesma distribuição, relativa ao ano de 1 972, foi de 70 M I LHÕES
em números redondos, como aí está (ver pág. 10, 2.º caderno,
Jornal do Comércio do Rio, 1 5/3/73) . Isto é, cada funcionário
recebeu, em média, mais de Cr$ · 2.000, como gratificação, oriunda
de uma generosidade discretamente classificada nos balanços como
·
"participação estatutária" .
Isto é, no país onde as professoras primárias, em algumas regiões,
ainda venciam salários que equivaliam ao custo de rações para
sobrevivência suína, os funcionários de um monopólio estatal parti­
cipavam sob grande fervor "nacionalista" - mas evidentemente
contrafeitos - de uma simples gratificação que lhes empurrava pe­
los bolsos contrariados uma pequena fortuna.

299
Esse dinheiro todo, da gratificação de 1 972, com que era violen­
tado o fogoso patriotismo dos empregados do monopólio, daria para
pagar os salários anuais de 29 . 1 00 professoras primárias em todo
o país, à base de Cr$ 200,00 mensais - média, como acabamos
de ver, superior à que era paga pela maioria dos Estados e muni­
cípios brasileiros.
Quase ao mesmo tempo, em meados de 1 969, o mais alto dirigente
da maior autarquia de transportes nacionais, certamente vivéndo
um grande momento de sinceridade, afirmava à imprensa que os
deficits de sua empresa estatal eram " insanáveis" - e que a direto­
ria se dava por satisfeita com ter um prejuízo de "em tomo de 380
M ILHÕES de cruzeiros" .
Pelo valor das construções d a época ( 1 970), com o s 380 milhões
do, deficit daquele ano, já se teria dinheiro para fazer, e equipar,
20.000 salas de aulas, onde poderiam estudar quase um milhão
de crianças, num só turno de 4 horas. Desde que as escolas não
fossem construídas de mármore, nem ostentassem móveis de jaca­
randá.
Segundo informa uma empresa do governo federal, em seu luxuoso
" Relatório das Atividades de 1 972 ", pág. 1 7 , somente no ano de
1 972, ela gastou 228 milhões de cruzeiros cavocando o chão pátrio.
Se ela deixasse isto por conta dos particulares brasileiros, estes fa­
riam o jogo da fortuna - e teriam que entregar forçosamente o
que encontrassem para o monopólio, pois este detém nada menos
que 1 00% da capacidade nacional de industrialização dessa matéria­
prima.
Com esses Cr$ 228 milhões sobrantes (deixariam?) - não aplica­
dos em fazer o que os cidadãos nacionais já podem fazer tão bem,
senão melhor que a empresa oficial - o governo estaria capacitado
a construir 2.280 escolas, de 4 salas de aulas, no interior do país,
à base de Cr$ 1 00.000 cada escola. Ou contratar milhares de profes­
sores novos, e capacitados, para qualquer dos graus escolares.
Aliás, se fosse necessário buscar algum exemplo maior de como eram
tratadas as coisas de Educação no Brasil, bastaria citar as obras de
construção da Cidade Universitária da Guanabara.
Iniciaàas em 1 949, quando a universidade a que vai dar sede ainda
era nada menos que a "Universidade do Brasil " - isto é, a univer­
sidade-padrão - " só em 1 975 estará pronta. " Um prédio, por ironia,
o da Faculdade de Arquitetura, levou 12 anos para ser terminado,
de 1950 a 1 962. ( "Cidade Universitária começou em 49 e em 75
estará concluída" , O Globo, 30/7 /72, pág. 1 6.)
Nesse meio-tempo, um dos governos que cozinharam a construção

300
daquela faculdade, e da universidade, fez uma cidade chamada
Brasília.

No século passado, e até o fim da década de 1 920, bastava o indiví­


duo saber ler adequadamente para sobreviver, em condições razoá­
veis, como fator prestante na engrenagem econômica. A lentidão
das inovações técnicas e seu relativo primarismo permitiam que
esse colaborador pobremente equipado se ajustasse ao existente
mecanismo da produção.
Por isto, os investimentos em Educação que seriam necessários fa­
zer, pela Nação ou pelo próprio indivíduo, não tinham que ser tão
extensos e tão profundos como os que hoje se fizeram tão imperio­
samente exigidos pela invasão universal da tecnologia em todos os
setores das atividades humanas.
A instrução a varejo, aquela que apenas fornece "o suficiente para
ler", é hoje um anacronismo inadmissível.
De há muito, a Educação deixou de ser um item da despesa pública
cujas verbas possam obter-se das porções sobrantes de outras "prio­
ridades nacionais" a ela antepostas.
As nações que almejam participação entre os povos catistas do pro­
gresso, e querem dividendos como acionistas da prosperidade, têm
que investir pesadamente, intensamente e, se forem ainda " pobres" ,
quase que exclusivamente n a Educação.
Quando um governo de um país em desenvolvimento faz a opção
de seus investimentos máximos, pelo alto-forno e não pela escola;
quando o Estado, ao invés de equipar-se para modelar e fabricar
milhões de cidadãos capazes, prefere produzir ele próprio milhões
de toneladas de lingotes de aço e vidrinhos de líquido para isqueiro,
então essa nação está sendo impelida à alternativa de ser (ou conti­
nuar) o albergue de novas gerações e de novas multidões de párias
- pois assim já o são, e pior serão os analfabetos e os semi-analfa­
betos, hoje e no futuro.
O dinheiro público que falta para aplicar em salas de aulas, em
laboratórios escolares e em salários de professores - mas que é
posto em obras suntuárias, em estádios faraônicos, ou nas folhas
de pagamento de monopólios industriais do Estado, é um dinheiro
danado, um dinheiro desgraçado que irá amontoar tragédias nacio­
nais para o futuro.
Quando todas as lições da vida de todos os povos provam irrefuta­
velmente, e até matematicamente, que a miséria está na razão dire­
tíssima da ignorância ou do despreparo, é antinacional e anti-humano
desviar das mentes sedentas de instrução aquilo que vai para o

301
exibicionismo monumentalista, ou para as fornalhas perdulárias do
empreguismo estatal.
A radiografül de cada país da terra, " rico" ou "pobre", mostra,
sem nenhum ponto obscuro, a verdade de que essa riqueza ou po­
breza dependem mil vezes menos . do que tenha seu solo. do que
daquilo que houver no cérebro de seus cidadãos.
Os próprios economistas modernos confessam humildemente que
não é do seu instrumental ou do seu receituário, e nem mesmo do
fermento multiplicador do capital, que provém o fator energético
maior e mais decisivo da riqueza de uma nação; ele brota de uma
causa muito mais simples e espontânea: o equipamento intelectual
que cada indivíduo desse país carrega em sua mente.
Por que impulso de estupidez e ridículo deve o Estado transformar-se
em garimpeiro de autarquias, e sair de sondas e brocas na mão a
fingir atividade criadora, furando buracos amanuenses e buscando
jazidas de empregos e minas de sinecuras, quando tem à altura de
suas mãos as riquezas mais legítimas, as riquezas mais puras deste
mundo de Deus, que estão na mente de sua juventude?
Por que deve o Estado �ujeitar-se a uma alquimia envergonhada,
que força uma falsa eficiência financeira para suas empresas através
do jogo contábil das isenções de impostos, de benefícios e privilé­
gios, quando ele poderia, e deveria, e tem como sua obrigação su­
prema, cuidar da fortuna miliardária de um país que são os seus
milhões de prianças e jovens?
O Projeto do 1 Plano Nacional do Desenvolvimento Econômico
"

e · Social" para os anos de 1 972 a 1 974, apresentado pelo governo


federal ao Congresso Nacional em setembro de 1 97 1 , previa um
investimento global brasileiro (União, Estados e municípios) em
Educação, de Cr$ 3 1 .200.000.000, nisto incluídos também os inves­
timentos particulares e os auxílios externos, o conjunto dessas duas
últimas fontes representando cerca de 10% do - dinheiro oficial.
Era então uma montanha equivalente a 5 bilhões de dólares a serem
aplicados no ensino em três anos, quantia rêspeitável, mas não con­
vincente - por não suficiente - em face de nossas quase astronõ­
mi�as e urgentes necessidades em matéria de ensino e Educação.
Além do que nos impõem todos os algarismos que já conhecemos -
quanto ao que é preciso fazer, corrigir, construir e prepai:ar - há
um testemunho imperioso, de quem entende do que fala, uma enti­
dade internacional arejada e ainda. não poluída pelo partidarismo
ideológico, a UNESCO.
" ( . . . ) a UNESCO estimou em 25Ó bilhões de dólares o custo das
salas de aulas convencionais de que necessita a América Latina, ou
seja, o equivalente ao dispêndios com Educação no Brasil durante

302
250 anos! Durante dois e meio séculos ! " (Senador João Calmon,
Conferência na Escola Superior de Guerra, Rio de Janeiro, outubro
de 1 969, "Obsessão Nacional na Década de 1 970- 1 980 " , Editora
Jornal do Comércio, 1 970.)
(Felizmente, o Brasil hoje já está investindo em Educação substan­
cialmente mais do que aquele momento, há cinco anos, em que o
senador e jornalista falara perante seu augusto auditório.)
Dirão alguns que os algarismos da UNESCO referem-se a toda a
América Latina. Mas nós somos, em população, e em deficiências,
um terÇo dela. Não temos, por isto, a menor dúvida em reconhecer
que desgraçadamente os dados referentes às necessidades brasileiras
em matéria de ensino e educação ainda representam muitos dos
cifrões ·citados pelos técnicos.
Por outro lado, não é nossa intenção negar o que já tem sido feito
em prol da Educação no Brasil nos últimos dez anos. O salto espe­
tacular do número de universitários é de uma evidência agressiva:
de 1 1 3 .000 em 1 963, para 850.000 no começo de 1 973, e 1 milhão
em 1 974.
Quanto ao ensino médio, segundo o deputado Amaral Neto, é tam­
bém impressionante o esforço governamental, principalmente em
razão do sentido social da mudança. " Em 1 963, 74% das vagas
do ensino médio no Brasil eram pagas, e as 26 % restantes, gratuitas.
Hoje, 70% das vagas são gratuitas e apenas 30% pagas. " (" Amaral:
Crescimento do país mostra que o povo tinha razão", O Globo,
29/3/73, pág. 1 2.)
E certo que estamos marchando, e firmemente, no melhor caminho.
Mas é preciso que todos os brasileiros, absolutamente todos, possam
ter condições de marchar, e aceleradamente, sem que deixemos
pelas margens os "pingentes" da vida - que são exatamente os
que ficarem do lado de fora das escolas.
E lógico que, pela mesma razão que pedimos maiores, cada vez
maiores recursos do Estado para a Educação, também reconhece­
mos o seu direito absoluto de exigir uma perfeita aplicação desses
gastos astronômicos, e certificar-se continuamente dos resultados
que professores e alunos estão obtendo com seu trabalho.
Sob esse aspecto, os soviéticos estão certos em 3 coisas básicas a
respeito de Educação: 1 ) na ênfase total que deram a essa respon­
sabilidade primeira de um governo, ou de um sistema; 2) na exi­
gência de que alunos e professores dediquem seu tempo integralmente
às atividades escolares, não admitindo desvios extracurriculares; 3)
na permanente participação do Estado sob todas as formas, na vida
escolar, a fim de certificar-se de que os deveres do ensino e do
estudo estão sendo adequadamente cumpridos pelos beneficiários
desses imensos cuidados e recursos.

303
Eis, ainda, em março de 1970, " as características indesmentíveis do
sistema educacional brasileiro ", analisadas corajosamente, em aula
magna, perante a congregação e alunos da Universidade Federal de
Minas Gerais, pelo conferencista convidado, que era nada menos
que o próprio Ministro da Educação, Coronel Jarbas Passarinho:
" ( . . . ) índices vergonhosos de analfabetismo e evasão escolar, gra­
ves defeitos de organização (desconexão entre os diversos graus,
currículos irrealísticos, desperdício, ociosidade de meios, crescimen­
to desordenado e falta de planificação da oferta), didática obsoleta
(ensino discursivo) ; ausência de profissionalização do magistério,
dando lugar ao professor ocasional ou o itinerante, de grande par·
cela do corpo docente; perplexidade e insatisfação do corpo dis­
cente. " (" Passarinho faz raio X do ensino no país'', O Jornal, do
Rio de Janeiro, 1 /3/70, pág. 2.)
Algumas dessas deformações já estavam, em fins de 1973, sob pro­
cesso cirúrgico de correção. Mas o conjunto dos males ainda debi­
litava o aparelhamento de ensino do país, ora apoucando sua capa­
cidade de atendimento frente a uma avassaladora e saudável deman·
da, ora rebaixando gravemente a qualidade da instrução ou do
aprendizado oferecidos nos diferentes tipos de escolas.
Mais do que qualquer outro problema dos povos em desenvolvi­
mento, principalmente no caso de uma nação como o Brasil, de tan­
tas e imensas possibilidades e de tantas e amplas ambições, o pro­
blema da Educação não pode ser resolvido com meias-medidas e
meios-dinheiros.
Para fazer deste país uma das usinas centrais do mundo contempo·
râneo, as meias-medidas, os paliativos seriam como as barragens
de terra para as grandes centrais-elétricas: insuficientes, aleatórias
e fragílimas.
Se, como deve ser, existe um Estado-maior de homens capazes, exa­
minando e decidindo continuamente o sim e o não para o nosso po­
vo, para hoje e para amanhã - é preciso que tenham a coragem de
dar aos recursos destinados à Educação prioridade absolutamente
superior a tudo, inclusive com relação aos privilégios com que se
cercam os pomposos monopólios estatais.
Se há funcionários neste país que devam merecer 16 saláriàs anuais,
ou aiudas de custo, não por " riscos" artificiosamente criados, mas
por fatores reais que tomam inóspita a sua profissão, esses deve­
riam ser os professores, principalmente aquelas professoras que,
Brasil afora e sertão adentro, insistem num sacerdócio cuja recom­
pensa material chega a ser a mais mesquinha entre todas.
Meia-escola, meio-tempo escolar, meio-equipamento, recursos educa­
cionais pela metade e professores pagos a salários dizimais deixarão
o Brasil na estrada, do lado de fora çla pista, engolindo a poeira

304
cosmogônica dos outros países cujos orçamentos nacionais não são
pulverizados entre a Empregobrás, a Cabidebrás ou a Encostobrás,
etc.
Segundo os estudos do economista Rubens Vaz da Costa, sucessi­
vamente presidente do Banco do Nordeste e do Banco Nacional da
Habitação, "o ritmo de crescimento populacional do Brasil tem sido
bem mais rápido do que o da população do mundo como um todo,
e mais veloz do que o da América Latina, região de mais célere
crescimento demográfico do planeta". (Rubens Vaz da Costa, "A
explosão demográfica no mundo e no Brasil ", Edição da Secretaria
de Divulgação do BNH, Rio, 1 973.)
Essa afirmação de Rubens Vaz da Costa encontra apoio numa frifor­
mação surpreendente trazida a público pelo sociólogo J. O. de Meira
Penna, sobre a fertilidade das mulheres brasileiras:
" ( . . . ) Uma comparação das mulheres brasileiras é igualmente im­
pressionante. No Brasil, o índice médio é de mais de 200 filhos
nascidos vivos por mil mulheres (média por ano de vida fértil) ,
ao passo que, no Japão, é de 1 34; nos EUA, 8 1 ; em Portugal, 124;
e na Inglaterra, apenas 58. Isto quer dizer que a mãe brasileira é
quatro vezes mais fértil que a inglesa e mais do dobro da
americana."
" No recenseamento de 1 950, verificou-se que o número de filhos
havidos - por cem homens que tiveram filhos - atingiu 553! O
Brasil detém provavelmente o recorde mundial de fertilidade indi­
vidual: o daquela heróica mãe de Brasília, que já deu à luz 32 filhos,
dos quais 26 estão vivos. Ou daquele pai que, de três mulheres
legítimas e sucessivas, já procriou mais de setenta herdeiros. Gene­
rosamente, no Brasil, a Magna Mater distribui a vida e a morte . . . "
(J. O. de Meira Penna, Psicologia do subdesenvolvimento, APEC
Editora, 1 972, pág. 1 00.)
� sabido que um poderoso grupo dentro das forças dirigentes do
país favorece essa acelerada expansão populacional, tendo em vista
os imensos espaços vazios, ainda por ocupar, praticamente em todas
as latitudes brasileiras.
A política do "neutralismo" ou de quase incentivo face ao cresci­
mento demográfico seguida pelo governo brasileiro admite a vinda,
à vontade de Deus, de mais e mais milhões de brasileirinhos. Ora,
já demonstramos à saciedade no capítulo sobre a explosão popula­
cional porque a massa dos casais mais prolíficos situa-se exatamente
nas classes de menores rendas, ou rendas quase nulas.
Para que o sistema político vigente neste país consiga harmonizar
essa bem vista multiplicidade prolífica dos casais mais pobres com
os objetivos nacionais de potência, e de prosperidade, fica evidente
uma única e insubstituível solução: o governo terá que garantir,

305
religiosamente, o leite, o médico e o mingau para os berçários; e
o jardim de infância, a escola e os professores para as multidões
infantis e juvenis nascidas dessas safras não mencionadas, mas dese­
. jadas, em nossos Planos Trienais de Expansão e Desenvolvimento.
De outra forma, "mais bebês" apenas para reforçar as estatísticas,
além de irresponsável e desumano, seria antipatriótico. E isto é exa­
tamente o inverso do que desejam os livre-natalistas, pois ao invés
de uma abundância de cidadãos, teremos apenas uma proliferação
de nossos problemas - inundando afogadoramente a nação sob
irreprimível elefantíase demográfica.
Ou será que alguém admite que tal ocupação de nossos "desertos"
populacionais seja feita com gerações que continuem enodoadas por
uma indesgarrável taxa de 20 a 25% de analfabetos - em decor­
rência das limitações de um aparelhamento escolar sempre em estado
de deficit, em todos os seus escalões?
No mundo atual, que adiantarão, econômica, demográfica - ou
militarmente - novos contingentes de milhões de brasileiros, para
os quais faltem escolas, instrução, treinamento, capacitação tecno­
lógica?
Sem escolas ao lado, os berçários carregam muito mais condições
ou convicções de intranqüilidade e subversão do que os livrinhos
de todos os estrategistas da " guerra revolucionária " .
Porque, cheios; o s berçários gritam por direitos humanos absoluta­
mente inalienáveis e impreteríveis.

� paradoxal a atitude de alguns de nossos líderes políticos e outros


dirigentes públicos, que se arrogam a hegemonia de uma certa va­
riante do patriotismo cuja agressiva característica é não admitir a
superioridade de nenhum outro povo sobre o nosso. Mas na hora
de apostar muito mais dinheiro na inteligência e na capacidade dos
filhos desse povo - murcham o topete com a desconversa de que
é preciso investir no monopólio estatal da vaselina, ou nas fábricas
de trilhos de ouro, ou na de barrilha de custo de diamante.
Se rodarmos para trás o filme da História de nossos dois povos -
o estadunidense e o brasileiro - veremos que americano iletrado
é tão incapaz quanto o piauiense analfabeto ou mineiro caipira.
Aí estão, aliás, Santarém do Pará, Nova Iorque do Maranhão e
Americana de São Paulo - colonizadas por "sulistas" fugidos dos
"ianques" - para provar mais uma vez que os glóbulos sangüíneos
não influem, nem corrigem a mediocridade intelectual daqueles,
seja quem for, cuja mente não foi burilada ou cultivada.
"Enquanto a coisa foi taco-a-taco quanto à capacidade de explora­
ção das oportunidades e das riquezas da terra, isto é, enquanto o

306
confronto foi entre nação de semi-analfabetos versus nação de semi­
analfabetos, entre país de despreparados versus país de desprepara­
dos - os americanos marchavam à nossa retaguarda. Na era uni­
versal dos carros de bois, eles também tinham apenas carroças.
A enxada que usavam era igual à nossa, e também importada. As
ferramentas de suas toscas oficinas vinham, como as nossas, da
mesma velha Inglaterra, ou de algum outro país madrugador da
Europa. Talvez seja inacreditável, mas nós até os abastecemos de
trigo. E os superávamos largamente no volume e valor das expor­
tações, no início do século XIX." (0 País dos coitadinhos, capítulo
" Povo burro é povo pobre" , Companhia Editora Nacional, 4.ª ed.,
.

1 968, pág. 387.)


"Enquanto todos produziam por métodos igualmente primitivos ou
rotineiros, enquanto a tecnologia não era tão necessária, enquanto
praticamente a massa populacional de todos os países era quase por
igual ignorante, nós exercemos, muito mais vezes, muito mais lide­
ranças que os americanos no terreno econômico."
" Quando os EUA ainda nada eram, o Brasil já tinha sido o maior
produtor de madeiras do mundo, o maiot produtor de açúcar do
mundo, o maior produtor de ouro do mundo, o maior produtor de
trigo das Américas, o maior produtor de borracha do mundo, o
maior produtor de café do mundo. "
" Que fizemos das oportunidades e vantagens ensejadas por todas
essas lideranças - algumas delas exercidas já como nação inde­
pendente?"
" Enquanto Pedro I I fazia o tricô de seus versos, os líderes america­
nos erguiam high-schools, e chamavam 40 milhões de imigrantes
para irem ensinar-lhes tudo que soubessem de qualquer ofício ou
arte, qualquer serviço ou profissão. " (O País dos coitadinhos, capí­
tulo " Povo burro é povo pobre'', Companhia Editora Nacional,
4.ª ed., 1 968, pág. 370.)
Quando chegamos a 1 889, proclamamos uma república que, a rigor,
nem eleitores poderia ter, pois havia no país 90% de analfabetos,
- aliás, o brasão intelectual que nos legou a família Orléans e
Bragança.
E passamos mais outras oito décadas cerrando fileiras em tomo
de um discursivo orgulho nacional, e supondo ingenuamente que
bastaria isto, o palavrório dos bacharéis aglomerados, para gerar
a grandeza do país.
Quanto ao progresso de outros povos, era cômodo reduzi-lo à sua
própria desimpot1ância, enfocando-o sob o ângulo de pura obsessão
materialista.
Entretanto, por causa do apego a essa obsessão mesquinha, os EUA

307
pretendem manter-se a maior nação do mundo, pois continuam
acreditando pouco nos dons naturais, espontâneos, de cada indiví­
duo do país - e aplicando fortunas quase inimagináveis, para
corrigir-lhes suas sagradas deficiências - tão salientadas e trom­
beteadas pelos intelectuais de toda a Terra.
Acicatados pelo medo da perda de liderança - bendito medo -
os EUA alargam incessantemente o jorro de dinheiro na área da
Educação.
"O maior gasto público são agora as escolas, que representam mais
de 80 BILHÕES de dólares anuais, a mais; mais inclusive que o
Pentágono, que paga as guerras passadas, presentes e futuras, e só
gasta 65 BILHÕES de dólares anuais. " (Paul Goodman, "Confusão
e desordem na invasão tecnológica" , Vida Moderna, Boletim Cam­
bial, 18/ 1 0/ 1 972, pág. 3.)

Convocamos aqui o machismo moral daquelas forças que são hoje


as detentoras do poder nacional executivo. Convocamos a sua cons­
ciência patriótica, a sua cansativamente repetida vocação democrá­
tica, para a mais histórica decisão da vida nacional:
Ou transformamos o Brasil, através da opção pela Educação, na
superpotência para a qual não lhe falta nenhum requisito, humano
ou material, de máxima grandeza, ou abandonamos de uma vez
por todas essa quimera verde-amarela, largando nosso país defini­
tivamente como pasto para os devoradores de orçamentos, ou para
os megalômanos das obras monumentais que são feitas com fins
auto-endeusativos.
Por um capricho do destino, o Brasil está convocado a travar -
através da Educação em larga escala - a batalha absolummente
decisiva do seu futuro exatamente quando ascendeu ao poder um
organizado sistema político, que tem o patriotismo como sacerdócio
e profissão. Esse imenso grupo agora investido da força e da ação
políticas é o único que traz para a vida pública uma blindagem
natural, espontânea, imune aos xingamentos e às calúnias.
Sua permanência no poder representa a última oportunidade histó­
rica que o Brasil tem, em favor do destino de sua juventude, de
podar as alucinações das suntuosidades consagrativas e despojar-se
ou limitar a expansão de toda a maquinaria sanguessuga, que
o maquiavelismo ideológico de uns e o cinismo fisiológico de outros
grudaram ao organismo da Nação.
t preciso decidir antes que seja tarde. Antes que decorra mais uma
outra década deste século, . década que a arrancada da tecnologia
faz equivaler a séculos inteiros deste milênio que se extingue.
t preciso decidir em favor das crianças e dos jovens brasileiros,

308
antes que a fertilidade imaginativa dos demagogos e dos empreguis­
tas volte a chafurdar todas as esperanças de grandeza desta nação
no mar das suas idéias mesquinhas e do seu imediatismo eleitoreiro.
O tempo não espera pelos povos sem bússola, pelas nações desan­
dadas, pelos países desarranjados, nem pelas multidões acocoradas,
ou pelas massas humanas aparvalhadas pelo analfabetismo cultural
ou tecnológico.
Será ridículo diante da História se exatamente aqueles que juraram
lutar pela pátria se detiverem diante do cuspe dos xingadores, ou
do tubo digestivo dos parasitas.
Será desastroso, se homens cultos não compreenderem o truísmo
de que a fortidão da pátria não está no erguimento de monolitos
que extasiem os pósteros nem na ampliação contínua das casamatas
do estatismo. Mas, sim, na multiplicação dos campi dinâmicos e
dos laboratórios criadores, das escolas e das universidades.

São Paulo
Rio
Bicas (MG)
1 969, 1 970, 1 97 1 , 1 972, 1 973, 1 974.

309
b i b l i o g r a fi a

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Este livro foi


impresso pela EDIPE Artes
Gráficas, Rua Domingos
Paiva. 60 - São Paulo.

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