Você está na página 1de 9

TURMA MEDICINA 2018 SETOR 1520

VINICIUS FIGURAS DE LINGUAGEM (I)


Giuliana Miranda
De São Paulo - 20/08/2014 01h50
1. (Fac. Albert Einstein - Medicin 2016) Ode no
Cinquentenário do Poeta Brasileiro Médicos expõem pacientes em redes sociais
Médicos e outros profissionais da saúde registram cada vez
(...) mais suas rotinas nas redes sociais. O problema é que,
Certamente não sabias
frequentemente, expõem também os pacientes, algumas
que nos fazes sofrer. vezes em situações constrangedoras.
No aplicativo de paquera Tinder - em que os usuários
É difícil de explicar exibem uma seleção de fotos para atrair a atenção do
esse sofrimento seco (...) potencial pretendente -, é possível encontrar imagens de
profissionais em centros cirúrgicos, UTIs e outros ambientes
Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da
hospitalares.
Lapa, Em busca feita pela reportagem, foram encontradas fotos
anunciando que tua vida passou à toa, à toa. em que era possível ver o rosto dos pacientes, incluindo de
Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango um homem sendo operado e uma criança que fazia
argentino, tratamento contra um câncer.
diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão
"Colocar foto de jaleco e dentro do hospital é 'ímã de
direito infiltrado. mulher' no Tinder", diz um médico de 30 anos da rede
Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando encarapitados pública de São Paulo que costuma usar o aplicativo.
nos burros velhos. Ele diz que já usou uma foto sua operando, mas agora tem
Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na apenas imagens em que não é possível identificar outras
noite. pessoas ou a instituição de saúde em que trabalha. "Fiquei
Nem é tua vida, nem a vida do major veterano da guerra do
com medo de que desse problema", explicou.
Paraguai, Segundo o CFM (Conselho Federal de Medicina), o registro
a de Bentinho Jararaca de pacientes, identificando-os ou não, é irregular.
ou a de Christina Georgina Rossetti: "É proibido tirar essas fotos. Existe uma resolução bem
és tu mesmo, é tua poesia, rígida sobre o assunto", diz Emmanuel Fortes, coordenador
tua pungente, inefável poesia,
do departamento de fiscalização do CFM.
ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,
Ele diz que a única situação em que o registro de pacientes
queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las; é permitido é para fins científicos, como a exibição em
é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso congressos médicos.
portador "Mas tem de haver consentimento do paciente, além da
e que vem trazer-nos na aurora o sopro quente dos preservação de sua imagem."
mundos,
Médicos que desrespeitarem a norma estão sujeitos a
das amadas exuberantes e das situações exemplares que punição, inclusive com a perda de registro profissional, em
não suspeitávamos. casos julgados graves.
O trecho acima integra o poema “Ode no Cinquentenário do
Poeta Brasileiro”, da obra Sentimento do Mundo de Carlos
Drummond de Andrade. Dele NÃO É CORRETO afirmar
que
a) utiliza construção que se faz por um jogo antitético
consubstanciado por significativo uso de anáforas.
b) indicia a figura do poeta Manuel Bandeira, objeto da Ode
(homenagem), pelas citações de expressivos poemas que
conformam seu universo estético.
c) revela que o que importa não são os poemas nas
particularidades de seus temas, mas o fenômeno poético Folha de S.Paulo. Disponível em:
mesmo em sua essência e que faz do poeta seu misterioso http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/08/1503
portador. 001-medicos-expoem-pacientes-em-redes-sociais.shtml.
d) apresenta uma quebra do ritmo poético motivada pelo Acesso em: 5 set. 2015.
uso reiterado do gerúndio e pela ausência de correlação
sintática entre as orações que se mostram propositalmente
incompletas. 2. (Fac. Albert Einstein - Medicin 2016) "Colocar foto de
jaleco e dentro do hospital é 'ímã de mulher' no Tinder", diz
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: um médico de 30 anos da rede pública de São Paulo que
costuma usar o aplicativo. Publicação oficial do Conselho Federal de Medicina. Janeiro
2016.
Nessa declaração, o efeito de sentido decorrente do uso da
linguagem figurada revela
a) os propósitos do aplicativo. 3. (Fac. Albert Einstein - Medicin 2016) “[...] estado de
b) a indicação do local de trabalho do jovem médico. coma em que se encontra o Sistema Único de Saúde [...]”
c) a intenção do médico.
d) a frequência com que o aplicativo é acessado. Nesse trecho do último parágrafo, a metáfora médica foi
empregada para significar que o SUS
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: a) está muito mal.
Editorial b) é o único responsável pelos problemas com a saúde no
Brasil.
O valor da vida c) não tem solução.
Hermann A.V. von Tiesenhausen d) está se recuperando.
Diretor executivo do jornal Medicina
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A mistanásia é um termo pouco utilizado nas conversas do Texto para a(s) questão(ões) a seguir.
dia a dia, mas, que, infelizmente, não está tão distante de
nossa realidade. A imprensa registra, sem filtros, o drama Sarapalha
de milhares de pacientes e profissionais nos postos de
saúde, hospitais e prontos-socorros e traduz a dura – Ô calorão, Primo!... E que dor de cabeça excomungada!
proximidade com a expressão. – É um instantinho e passa... É só ter paciência....
O significado de mistanásia remete à omissão de socorro, à – É... passa... passa... passa... Passam umas mulheres
negligência. Ela representa a morte miserável, antes da vestidas de cor de água, sem olhos na cara, para não terem
hora. É conhecida como a eutanásia social. No Brasil, seu de olhar a gente... Só ela é que não passa, Primo
flagelo atinge, sobretudo, os mais carentes, que dependem Argemiro!... E eu já estou cansado de procurar, no meio das
exclusivamente do Estado quando o corpo padece. outras... Não vem!... Foi, rio abaixo, com o outro... Foram
Um exemplo do que a mistanásia pode causar apareceu em p’r’os infernos!...
série de reportagens exibida pelo Jornal Nacional (Rede – Não foi, Primo Ribeiro. Não foram pelo rio... Foi trem-de-
Globo), em janeiro, que dissecou o drama dos pacientes ferro que levou...
com câncer no país. A falta de tudo torna a larga espera – Não foi no rio, eu sei... 1No rio ninguém não anda... 2Só a
pelo atendimento um duro calvário e, em meio ao maleita é quem sobe e desce, olhando seus mosquitinhos e
desespero, centros de excelência, como o Instituto Nacional pondo neles a benção... Mas, na estória... Como é mesmo a
do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, minguam a céu aberto. estória, Primo? Como é?...
A falência do sistema público de saúde não é só um – O senhor bem que sabe, Primo... Tem paciência, que não
fenômeno administrativo ou contábil. Quem dera o fosse. é bom variar...
Assim, seria mais fácil suportá-la, pois contas se arrumam. – Mas, a estória, Primo!... Como é?... Conta outra vez...
A questão é que o desequilíbrio causado por uma gestão – 3O senhor já sabe as palavras todas de cabeça... “Foi o
feita de pessoas perdidas em meio ao tiroteio entrou em moço-bonito que apareceu, vestido com roupa de dia-de-
nossas casas pela porta da frente. domingo 4e com a viola enfeitada de fitas... E chamou a
A situação grave, contornada com paliativos, ceifa vidas, moça p’ra ir se fugir com ele”...
inclusive de crianças e jovens, impedidos de receber aquilo – Espera, Primo, elas estão passando... Vão umas atrás
que a Constituição lhes garante como direito cidadão: o das outras... Cada qual mais bonita... Mas eu não quero,
acesso universal, integral, gratuito e com equidade a nenhuma!... Quero só ela... Luísa...
serviços de saúde de qualidade. – Prima Luísa...
Nesta edição do jornal Medicina, apresentamos números do – Espera um pouco, deixa ver se eu vejo... Me ajuda, Primo!
valor da vida e da saúde de cada brasileiro para o setor Me ajuda a ver...
público. A média nacional não supera os R$ 4,00 ao dia, ou – Não é nada, Primo Ribeiro... Deixa disso!
seja, quase nada se comparado a outros países com – Não é mesmo não...
modelos assistenciais semelhantes. – Pois então?!
Essa conta acentua a tragédia da morte anunciada em – Conta o resto da estória!...
corredores e filas de espera e suscita um questionamento – ...“Então, a moça, que não sabia que o moço-bonito era o
importante, pois os dados evidenciam que, apesar do pouco capeta, 5ajuntou suas roupinhas melhores numa trouxa, e
destinado, é o mau uso dos recursos que estão disponíveis foi com ele na canoa, descendo o rio...”
que aprofunda a crise.
O Brasil está diante de um dilema. É hora de rever Guimarães Rosa, Sarapalha.
caminhos, adotar novas posturas, corrigir falhas para não
sentenciar a população à doença e tirar do estado de coma
em que se encontra o Sistema Único de Saúde (SUS), uma
das maiores políticas sociais do mundo e balizador de todo 4. (Fuvest 2018) No texto de Sarapalha, constitui exemplo
modelo de atenção no País. de personificação o seguinte trecho:
a) “No rio ninguém não anda” (ref. 1).
Jornal Medicina
b) “só a maleita é quem sobe e desce” (ref. 2).
c) “O senhor já sabe as palavras todas de cabeça” (ref. 3). Capítulo CVIII
d) “e com a viola enfeitada de fitas” (ref. 4). Que se não entende
e) “ajuntou suas roupinhas melhores numa trouxa” (ref. 5).
Eis aí o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em
CAPÍTULO LIII partes, machucado das mãos, era um documento de
análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro, nem
Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o
estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicácia e o
vida, no meu pensamento; – era o que dizia, e era verdade. ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa; e por trás
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras delas a tempestade de outro cérebro, a raiva dissimulada, o
são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou desespero que se constrange e medita, porque tem de
com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lágrimas?
mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não
lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-
se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um
beijo que ela me deu, trêmula, – coitadinha, – trêmula de 6. (Fuvest 2015) Ao comentar o bilhete de Virgília, o
medo, porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse narrador se vale, principalmente, do seguinte recurso
beijo único, – breve como a ocasião, ardente como o amor, retórico:
1prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos,
a) Hipérbato: transposição ou inversão da ordem natural
de 2prazeres que rematavam em dor, de aflições que das palavras de uma oração, para efeito estilístico.
desabrochavam em alegria, – uma 3hipocrisia paciente e b) Hipérbole: ênfase expressiva resultante do exagero da
sistemática, único freio de uma 4paixão sem freio, – vida de significação linguística.
agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma c) Preterição: figura pela qual se finge não querer falar de
hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e coisas sobre as quais se está, todavia, falando.
engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as d) Sinédoque: figura que consiste em tomar a parte pelo
agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a todo, o todo pela parte; o gênero pela espécie, a espécie
saciedade: tal foi o 5livro daquele prólogo. pelo gênero; o singular pelo plural, o plural pelo singular etc.
e) Eufemismo: palavra, locução ou acepção mais agradável,
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. empregada em lugar de outra menos agradável ou
grosseira.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:


5. (Fuvest 2017) Dentre os recursos expressivos Leia a crônica “Premonitório”, de Carlos Drummond de
empregados no texto, tem papel preponderante a Andrade (1902-1987), para responder à(s) questão(ões):
a) metonímia (uso de uma palavra fora do seu contexto
semântico normal, com base na relação de contiguidade Do fundo de Pernambuco, o pai mandou-lhe um telegrama:
existente entre ela e o referente). “Não saia casa 3 outubro abraços”.
b) hipérbole (ênfase expressiva resultante do exagero da O rapaz releu, sob emoção grave. Ainda bem que o velho
significação linguística). avisara: em cima da hora, mas avisara. Olhou a data: 28 de
c) alegoria (sequência de metáforas logicamente setembro. Puxa vida, telegrama com a nota de urgente,
ordenadas). levar cinco dias de Garanhuns a Belo Horizonte! Só mesmo
d) sinestesia (associação de palavras ou expressões em com uma revolução esse telégrafo endireita. E passado às
que ocorre combinação de sensações diferentes numa só sete da manhã, veja só; o pai nem tomara o mingau com
impressão). broa, precipitara-se na agência para expedir a mensagem.
e) prosopopeia (atribuição de sentimentos humanos ou de Não havia tempo a perder. Marcara encontros para o dia
palavras a seres inanimados ou a animais). seguinte, e precisava cancelar tudo, sem alarde, como se
deve agir em tais ocasiões. Pegou o telefone, pediu linha,
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: mas a voz de d. Anita não respondeu. Havia tempo que
TEXTO PARA A(S) PRÍXIMA(S) QUESTÃO(ÕES) morava naquele hotel e jamais deixara de ouvir o “pois não”
melodioso de d. Anita, durante o dia. A voz grossa, que
Capítulo CVII resmungara qualquer coisa, não era de empregado da
Bilhete casa; insistira: “como é?”, e a ligação foi dificultosa, havia
besouros na linha. Falou rapidamente a diversas pessoas,
“Não houve nada, mas ele suspeita alguma cousa; está aludiu a uma ponte que talvez resistisse ainda uns dias,
muito sério e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, teve oportunidade de escandir as sílabas de arma virumque
para Nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. cano1, disse que achava pouco cem mil unidades, em tal
Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vai acontecer; emergência, e arrematou: “Dia 4 nós conversamos.” Vestiu-
Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita se, desceu. Na portaria, um sujeito de panamá bege,
cautela.” chapéu de aba larga e sapato de duas cores levantou-se e
seguiu-o. Tomou um carro, o outro fez o mesmo. Desceu na
praça da Liberdade e pôs-se a contemplar um ponto 1 arma virumque cano: “canto as armas e o varão” (palavras
qualquer. Tirou do bolso um caderninho e anotou qualquer iniciais da epopeia Eneida, do escritor Vergílio, referentes
coisa. Aí, já havia dois sujeitos de panamá, aba larga e ao herói Eneias).
sapato bicolor, confabulando a pequena distância. Foi
saindo de mansinho, mas os dois lhe seguiram na cola.
Estava calmo, com o telegrama do pai dobrado na carteira, 7. (Unifesp 2018) Metonímia: figura de retórica que
placidez satisfeita na alma. O pai avisara a tempo, tudo consiste no uso de uma palavra fora do seu contexto
correria bem. Ia tomar a calçada quando a baioneta em riste semântico normal, por ter uma significação que tenha
advertiu: “Passe de largo”; a Delegacia Fiscal estava relação objetiva, de contiguidade [vizinhança, proximidade],
cercada de praças, havia armas cruzadas nos cantos. Nos material ou conceitual, com o conteúdo ou o referente
Correios, a mesma coisa, também na Telefônica. Bondes ocasionalmente pensado.
passavam escoltados. Caminhões conduziam tropa, jipes (Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2009.)
chispavam. As manchetes dos jornais eram sombrias;
pouca gente na rua. Céu escuro, abafado, chuva próxima.
Pensando bem, o melhor era recolher-se ao hotel; não Verifica-se a ocorrência de metonímia no trecho:
havia nada a fazer. Trancou-se no quarto, procurou ler, de a) “‘São unidades de penicilina que um colega tomou para
vez em quando o telefone chamava: “Desculpe, é engano”, uma infecção no ouvido.’” (5º parágrafo)
ou ficava mudo, sem desligar. Dizendo-se incomodado, b) “Ia tomar a calçada quando a baioneta em riste advertiu:
jantou no quarto, e estranhou a camareira, que olhava para ‘Passe de largo’;” (3º parágrafo)
os móveis como se fossem bichos. Deliberou deitar-se, c) “Tirou do bolso um caderninho e anotou qualquer coisa.”
embora a noite apenas começasse. Releu o telegrama, (3º parágrafo)
apagou a luz. d) “Puxa vida, telegrama com a nota de urgente, levar cinco
Acordou assustado, com golpes na porta. Cinco da manhã. dias de Garanhuns a Belo Horizonte!” (2º parágrafo)
Alguém o convidava a ir à Delegacia de Ordem Política e e) “Dizendo-se incomodado, jantou no quarto, e estranhou a
Social. “Deve ser engano.” “Não é não, o chefe está à camareira, que olhava para os móveis como se fossem
espera.” “Tão cedinho? Precisa ser hoje mesmo? Amanhã bichos.” (4º parágrafo)
eu vou.” “É hoje e é já.” “Impossível.” Pegaram-lhe dos
braços e levaram-no sem polêmica. A cidade era uma praça TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
de guerra, toda a polícia a postos. “O senhor vai dizer a Leia o soneto “Aquela triste e leda madrugada”, do escritor
verdade bonitinho e logo” – disse-lhe o chefe. – “Que sabe português Luís de Camões (1525? – 1580), para responder
a respeito do troço?” “Não se faça de bobo, o troço que vai à(s) questão(ões).
estourar hoje.” “Vai estourar?” “Não sabia? E aquela ponte
que o senhor ia dinamitar mas era difícil?” “Doutor, eu falei Aquela triste e leda madrugada,
a meu dentista, é um trabalho de prótese que anda abalado. cheia toda de mágoa e de piedade,
Quer ver? Eu tiro.” “Não, mas e aquela frase em código enquanto houver no mundo saudade
muito vagabundo, com palavras que todo mundo manja quero que seja sempre celebrada.
logo, como arma e cano?” “Sou professor de latim, e corrigi
a epígrafe de um trabalho.” “Latim, hem? E a conversa Ela só, quando amena e marchetada
sobre os cem mil homens que davam para vencer?” “São saía, dando ao mundo claridade,
unidades de penicilina que um colega tomou para uma viu apartar-se de uma outra vontade,
infecção no ouvido.” “E os cálculos que o senhor fazia que nunca poderá ver-se apartada.
diante do palácio?” Emudeceu. “Diga, vamos!” “Desculpe,
eram uns versinhos, estão aqui no bolso.” “O senhor é Ela só viu as lágrimas em fio
esperto, mas saia desta. Vê este telegrama? É cópia do que que, de uns e de outros olhos derivadas,
o senhor recebeu de Pernambuco. Ainda tem coragem de se acrescentaram em grande e largo rio.
negar que está alheio ao golpe?” “Ah, então é por isso que
o telegrama custou tanto a chegar?” “Mais custou ao país, Ela viu as palavras magoadas
gritou o chefe. Sabe que por causa dele as Forças Armadas que puderam tornar o fogo frio,
ficaram de prontidão, e que isso custa cinco mil contos? e dar descanso às almas condenadas.
Diga depressa.” “Mas, doutor…” Foi levado para outra sala,
onde ficou horas. O que aconteceu, Deus sabe. Afinal, (Sonetos, 2001.)
exausto, confessou: “O senhor entende conversa de pai pra
filho? Papai costuma ter sonhos premonitórios, e toda a
família acredita neles. Sonhou que me aconteceria uma
8. (Unifesp 2018) A imagem das lágrimas a formarem um
coisa no dia 3, se eu saísse de casa, e telegrafou
“largo rio” (3ª estrofe) produz um efeito expressivo que se
prevenindo. Juro!”
classifica como
Dia 4, sem golpe nenhum, foi mandado em paz. O sonho se
a) paradoxo.
confirmara: realmente, não devia ter saído de casa.
b) pleonasmo.
c) personificação.
(70 historinhas, 2016.)
d) hipérbole.
e) eufemismo.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: É dela que resulta largamente a singular tibieza das
Leia o trecho inicial de Raízes do Brasil, do historiador formas de organização, de todas as associações que
brasileiro Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), para impliquem solidariedade e ordenação entre esses povos.
responder à(s) questão(ões) a seguir: Em terra onde todos são barões não é possível acordo
coletivo durável, a não ser por uma força exterior
A tentativa de implantação da cultura europeia em respeitável e temida.
extenso território, dotado de condições naturais, se não
adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, Raízes do Brasil, 2000.
nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e
mais rico em consequências. Trazendo de países distantes
nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas 9. (Unifesp 2017) No primeiro parágrafo, o autor recorre a
ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente uma construção paradoxal em:
muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns a) “condições naturais, se não adversas, largamente
desterrados em nossa terra. Podemos construir obras estranhas à sua tradição milenar”.
excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos b) “somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”.
novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização c) “timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas
que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso vezes desfavorável e hostil”.
trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um d) “enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e
sistema de evolução próprio de outro clima e de outra imprevistos”.
paisagem. e) “o fato dominante e mais rico em consequências”.
Assim, antes de perguntar até que ponto poderá
alcançar bom êxito a tentativa, caberia averiguar até onde
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
temos podido representar aquelas formas de convívio, Leia o trecho do conto “A igreja do Diabo”, de Machado de
instituições e ideias de que somos herdeiros. Assis (1839-1908), para responder à(s) questão(ões) a
É significativa, em primeiro lugar, a circunstância de seguir:
termos recebido a herança através de uma nação ibérica. A
Espanha e Portugal são, com a Rússia e os países Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto.
balcânicos (e em certo sentido também a Inglaterra), um Deu-se pressa em enfiar a 1cogula beneditina, como hábito
dos territórios-ponte pelos quais a Europa se comunica com de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e
os outros mundos. Assim, eles constituem uma zona extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do
fronteiriça, de transição, menos carregada, em alguns século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias
casos, desse europeísmo que, não obstante, mantêm como da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos.
um patrimônio necessário. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para
Foi a partir da época dos grandes descobrimentos retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as
marítimos que os dois países entraram mais decididamente histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
no coro europeu. Esse ingresso tardio deveria repercutir – Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das
intensamente em seus destinos, determinando muitos noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças,
aspectos peculiares de sua história e de sua formação mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da
espiritual. Surgiu, assim, um tipo de sociedade que se natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do
desenvolveria, em alguns sentidos, quase à margem das coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso
congêneres europeias, e sem delas receber qualquer verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado
incitamento que já não trouxesse em germe. para meu 2desdouro, fazei dele um troféu e um 3lábaro, e eu
Quais os fundamentos em que assentam de vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
preferência as formas de vida social nessa região indecisa Era assim que falava, a princípio, para excitar o
entre a Europa e a África, que se estende dos Pireneus a entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma,
Gibraltar? Como explicar muitas daquelas formas, sem as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram,
recorrer a indicações mais ou menos vagas e que jamais o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que
nos conduziriam a uma estrita objetividade? podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à
Precisamente a comparação entre elas e as da substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil,
Europa de além-Pireneus faz ressaltar uma característica outras cínica e deslavada.
bem peculiar à gente da península Ibérica, uma Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser
característica que ela está longe de partilhar, pelo menos na substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A
mesma intensidade, com qualquer de seus vizinhos do soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim
continente. É que nenhum desses vizinhos soube também a avareza, que declarou não ser mais do que a
desenvolver a tal extremo essa cultura da personalidade, mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta,
que parece constituir o traço mais decisivo na evolução da e a filha uma 4esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na
gente hispânica, desde tempos imemoriais. Pode dizer-se, existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria
realmente, que pela importância particular que atribuem ao a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu”...
valor próprio da pessoa humana, à autonomia de cada um [...] Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do
dos homens em relação aos semelhantes no tempo e no Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução
espaço, devem os espanhóis e portugueses muito de sua direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o
originalidade nacional. [...] fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja,
pregou friamente que era a virtude principal, origem de
prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a e) “uma voz que reboava nas entranhas do século” (1º
suprir todas as outras, e ao próprio talento. parágrafo) e “a que se deu aquele nome para arredá-lo do
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O coração dos homens” (2º parágrafo).
Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a
nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo 11. (Unicamp 2017) Em depoimento, Paulo Freire fala da
amar as perversas e detestar as sãs. necessidade de uma tarefa educativa: “trabalhar no sentido
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição de ajudar os homens e as mulheres brasileiras a exercer o
que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do direito de poder estar de pé no chão, cavando o chão,
homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos fazendo com que o chão produza melhor é um direito e um
homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que dever nosso. A educação é uma das chaves para abrir
todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns essas portas. Eu nunca me esqueço de uma frase linda que
fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos eu ouvi de um educador, camponês de um grupo de Sem
os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais Terra: pela força do nosso trabalho, pela nossa luta,
rigorosa e profunda, foi a da 5venalidade. Um 6casuísta do cortamos o arame farpado do latifúndio e entramos nele,
tempo chegou a confessar que era um monumento de mas quando nele chegamos, vimos que havia outros
lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um arames farpados, como o arame da nossa ignorância.
direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua Então eu percebi que quanto mais inocentes, tanto melhor
casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são somos para os donos do mundo. (…) Eu acho que essa é
tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, uma tarefa que não é só política, mas também pedagógica.
estão fora de ti, como é que não podes vender a tua Não há Reforma Agrária sem isso.”
opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são
mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto (Adaptado de Roseli Salete Galdart, Pedagogia do
é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Movimento Sem Terra: escola é mais que escola. São
Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 172.)
um homem vender uma parte do seu sangue para
transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os
cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao No excerto adaptado que você leu, há menção a outros
caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o arames farpados, como “o arame da nossa ignorância”.
princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens Trata-se de uma figura de linguagem para
de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda a) a conquista do direito às terras e à educação que são
que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o negadas a todos os trabalhadores.
exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao b) a obtenção da chave que abre as portas da educação a
mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer todos os brasileiros que não têm terras.
duplicadamente. c) promoção de uma conquista da educação que tenha
como base a propriedade fundiária.
(Contos: uma antologia, 1998.) d) a descoberta de que a luta pela posse da terra pressupõe
também a conquista da educação.
1cogula: espécie de túnica larga, sem mangas, usada por 12. (Unicamp 2016) Leia o poema “Mar Português”, de
certos religiosos. Fernando Pessoa.
2desdouro: descrédito, desonra.
3lábaro: estandarte, bandeira.
MAR PORTUGUÊS
4esgalgado: comprido e estreito.
Ó mar salgado, quanto do teu sal
5venalidade: condição ou qualidade do que pode ser
São lágrimas de Portugal!
vendido. Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
6casuísta: pessoa que pratica o casuísmo (argumento
Quantos filhos em vão rezaram!
fundamentado em raciocínio enganador ou falso). Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

10. (Unifesp 2017) Estão empregados em sentido figurado Valeu a pena? Tudo vale a pena
os termos destacados nos seguintes trechos: Se a alma não é pequena.
a) “a que podia ser na boca de um espírito de negação” (3º Quem quer passar além do Bojador
parágrafo) e “sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada” Tem que passar além da dor.
(4º parágrafo). Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
b) “incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência” (5º Mas nele é que espelhou o céu.
parágrafo) e “a definição que ele dava da fraude” (6º
parágrafo). (Disponível em
c) “retificar a noção que os homens tinham dele” (1º http://www.jornaldepoesia.jor.br/fpesso03.html.)
parágrafo) e “congregar, em suma, as multidões ao pé de
si” (3º parágrafo).
d) “Sou o vosso verdadeiro pai.” (2º parágrafo) e “as No poema, a apóstrofe, uma figura de linguagem, indica
virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras” (4º que o enunciador
parágrafo)
a) convoca o mar a refletir sobre a história das navegações do aprender com o outro. Todos são educadores, porque
portuguesas. estão preocupados com a aprendizagem. É uma construção
b) apresenta o mar como responsável pelo sofrimento do coletiva”, explica.
povo português. O educador diz que a roda constrói consensos. “Porque
c) revela ao mar sua crítica às ações portuguesas no todo processo eletivo é um processo de exclusão, e tudo
período das navegações. que exclui não é educativo. Uma escola que seleciona não
d) projeta no mar sua tristeza com as consequências das educa, porque excluiu alguns. A melhor pedagogia é aquela
conquistas de Portugal. que leva todos os meninos a aprenderem. E todos podem
aprender, só que cada um no seu ritmo, não podemos
13. (Unicamp 2016) Morro da Babilônia uniformizar.”
À noite, do morro Nesses 30 anos, o educador foi engrossando seu dicionário
descem vozes que criam o terror de terminologias educacionais, todas calcadas no saber
(terror urbano, cinquenta por cento de cinema, popular: surgiu a pedagogia do abraço, a pedagogia do
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua brinquedo, a pedagogia do sabão e até oficinas de cafuné.
Geral). Esta última foi provocada depois que um garoto perguntou:
“Tião, como faço para conquistar uma moleca?” Foi a deixa
Quando houve revolução, os soldados para ele colocar questões de sexualidade na roda.
espalharam no morro, Para resolver a falência da educação, Tião inventou uma
o quartel pegou fogo, eles não voltaram. UTI educacional, em que “mães cuidadoras” fazem “biscoito
Alguns, chumbados, morreram. escrevido” e “folia do livro” (biblioteca em forma de festa)
O morro ficou mais encantado. para ajudar na alfabetização. E ainda colocou em uso
termos como “empodimento”, após várias vezes ser
Mas as vozes do morro questionado pelas comunidades: “Pode [fazer tal coisa],
não são propriamente lúgubres. Tião?” Seguida da resposta certeira: “Pode, pode tudo”.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado Aos 66 anos, Tião diz estar convicto de que a escola do
que domina os ruídos da pedra e da folhagem futuro não existirá e que ela será substituída por espaços de
e desce até nós, modesto e recreativo, aprendizagem com todas as ferramentas possíveis e
como uma gentileza do morro. necessárias para os estudantes aprenderem.
“Educação se faz com bons educadores, e o modelo
(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. São escolar arcaico aprisiona e há décadas dá sinais de
Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.19.) falência. Não precisamos de sala, precisamos de gente.
Não precisamos de prédio, precisamos de espaços de
aprendizado. Não precisamos de livros, precisamos ter
No poema “Morro da Babilônia”, de Carlos Drummond de todos os instrumentos possíveis que levem o menino a
Andrade, aprender.”
a) a menção à cidade do Rio de Janeiro é feita de modo Sem pressa, seguindo a Carta da Terra e citando Ariano
indireto, metonimicamente, pela referência ao Morro da Suassuna para dizer que “terceira idade é para fruta: verde,
Babilônia. madura e podre”, Tião diz se sentir “privilegiado” de viver o
b) o sentimento do mundo é representado pela percepção que já viveu e acreditar na utopia de não haver mais
particular sobre a cidade do Rio de Janeiro, aludida pela nenhuma criança analfabeta no Brasil. “Isso não é uma
metáfora do Morro da Babilônia. política de governo, nem de terceiro setor, é uma questão
c) o tratamento dado ao Morro da Babilônia assemelha-se ética”, pontua.
ao que é dado a uma pessoa, o que caracteriza a figura de
estilo denominada paronomásia. (Qsocial, 09/12/2014. Disponível em
d) a referência ao Morro da Babilônia produz, no percurso http://www.cpcd.org.br/portfolio/e_possivel_fazer_educacao
figurativo do poema, um oxímoro: a relação entre terror e _de_qualidade_100_escola/.)
gentileza no espaço urbano.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: 14. (Unicamp 2016) Em relação ao trecho “E ainda colocou
É possível fazer educação de qualidade sem escola em uso termos como ‘empodimento’, após várias vezes ser
questionado pelas comunidades: ‘Pode [fazer tal coisa],
É possível fazer educação embaixo de um pé de manga? Tião?’ Seguida da resposta certeira: ‘Pode, pode tudo’”, é
Não só é, como já acontece em 20 cidades brasileiras e em correto afirmar:
Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. a) A expressão “Seguida da resposta certeira” indica a
Decepcionado com o processo de “ensinagem”, o elipse de uma outra expressão.
antropólogo Tião Rocha pediu demissão do cargo de b) A criação da palavra “empodimento” é resultado de um
professor da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) e processo: sufixação.
criou em 1984 o CPCD (Centro Popular de Cultura e c) A repetição do verbo no enunciado “Pode, pode tudo”
Desenvolvimento). exemplifica o estilo reiterativo do texto.
Curvelo, no Sertão mineiro, foi o laboratório da “escola” que d) O discurso direto presente no trecho tem a função de dar
abandonou mesa, cadeira, lousa e giz, fez das ruas a sala voz às comunidades.
de aula e envolveu crianças e familiares na pedagogia da
roda. “A roda é um lugar da ação e da reflexão, do ouvir e 15. (Unicamp 2017) Leia a seguir a crônica adaptada “O
crítico teatral vai ao casamento”, de Millôr Fernandes.
Eu sou a Amazônia, a maior floresta tropical do
Como espetáculo, o casamento da Senhorita Lídia Teles de mundo. Eu mando chuva quando vocês precisam. Eu
Souza com o Sr. Herval Nogueira foi realmente um dos mantenho seu clima estável. Em minhas florestas, existem
mais irregulares a que temos assistido nos últimos tempos. plantas que curam suas doenças. Muitas delas vocês ainda
A noiva parecia muito nervosa, nervosismo justificado por nem descobriram. Mas vocês estão tirando tudo de mim. A
estar estreando em casamentos (o que não se podia dizer cada segundo, vocês cortam uma das minhas árvores,
do noivo, que tem muita experiência de altar) de modo que enchem de sujeira os meus rios, colocam fogo, e eu não
até sua dicção foi prejudicada. O noivo representou o seu posso mais proteger as pessoas que vivem aqui. Quanto
papel com firmeza, embora um tanto frio. Disse “sim” ou mais vocês tiram, menos eu tenho para oferecer. Menos
“aceito” (não ouvimos bem porque a acústica da abadia é água, menos curas, menos oxigênio. Se eu morrer, vocês
péssima). Fora os pequenos senões notados, teremos que também morrem, mas eu crescerei de novo...
chamar a atenção, naturalmente, para o coroinha, que a
todo momento coçava a cabeça, completamente indiferente a) Por estar em primeira pessoa, o texto constitui exemplo
à representação, como se não participasse dela. A música de uma determinada figura de linguagem. Identifique essa
também foi mal escolhida, numa prova de terrível mau- figura e explique seu uso, tendo em vista o efeito que o
gosto. O fato de a noiva chegar atrasada também deixou filme visa alcançar.
altamente impacientes os espectadores, que mostraram b) No referido áudio, é possível perceber, no final da
evidentes sinais de nervosismo. A sua entrada, porém, foi locução da atriz, uma entonação especial, representada na
espetacular, e rendeu-lhe os melhores parabéns ao fim do transcrição por meio de reticências. Tendo em vista que
espetáculo. Lamentamos apenas – e tomamos como um uma das funções desse sinal de pontuação é sugerir uma
deplorável sinal dos tempos – a qualidade do arroz jogado ideia não expressa que cabe ao leitor inferir, identifique a
sobre os noivos. ideia sugerida, neste caso.

Adaptado de Millôr Fernandes, Trinta anos de mim mesmo.


São Paulo: Círculo do livro, 1972, p. 78.

a) O cronista recorre à analogia para construir uma


aproximação entre o casamento e uma peça teatral. Mostre,
com trechos do texto, dois usos desse recurso: um com
referência à noiva e outro com referência ao noivo.
b) Identifique duas expressões adverbiais que foram usadas
pelo cronista para acentuar sua crítica humorística ao
casamento como espetáculo.

16. (Fuvest 2017) Considere a imagem abaixo, extraída da


apresentação do filme A Amazônia, que faz parte da
campanha “A natureza está falando”.

No áudio desse filme, a atriz Camila Pitanga interpreta o


seguinte texto:
GABARITO: Floresta Amazônica, com o objetivo de aproximar o
Resposta da questão 1: expectador de sua realidade, levando-o a comover-se
[D] com a situação imposta à floresta, a de destruição;
movendo-o a tornar-se um dos defensores de seu
Resposta da questão 2: ecossistema.
[C] b) O uso das reticências nesse caso deixa implícita a ideia
de que a Floresta renascerá, mas os seres humanos, não.
Resposta da questão 3:
[A]

Resposta da questão 4:
[B]

Resposta da questão 5:
[C]

Resposta da questão 6:
[C]

Resposta da questão 7:
[B]

Resposta da questão 8:
[D]

Resposta da questão 9:
[B]

Resposta da questão 10:


[E]

Resposta da questão 11:


[D]

Resposta da questão 12:


[A]

Resposta da questão 13:


[A]

Resposta da questão 14:


[A]

Resposta da questão 15:


a) Em vários excertos do texto, Millôr Fernandes usa
expressões que estabelecem analogia entre a cerimônia
do casamento e uma peça teatral, como no segmento
inicial “Como espetáculo!”. Ao justificar o nervosismo da
noiva (“nervosismo justificado por estar estreando em
casamentos”), alude à ansiedade característica dos
atores durante a primeira apresentação do espetáculo,
que se contrapõe à segurança demonstrada pelo
comportamento do noivo que já tinha vivenciado essa
experiência anteriormente (“O noivo representou o seu
papel com firmeza”).
b) Os advérbios de modo terminados em “mente”
(“realmente”, “naturalmente”, “completamente”, “altamente”)
reforçam ironicamente a ideia de que a cerimônia não
passa de uma farsa representativa da hipocrisia social.

Resposta da questão 16:


a) O texto constitui exemplo da figura de linguagem
personificação ou prosopopeia. Seu uso visa dar voz à