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Crítica

18 de Maio de 2010 ⋅ Filosofia da linguagem

Introdução à teoria das descrições


de Russell
Sagid Salles Ferreira

Usamos cotidianamente um conjunto de expressões para captar,


selecionar ou referir uma determinada coisa particular e podermos em
seguida dizer algo sobre essa coisa. Expressões desse tipo incluem
nomes próprios, como “Platão” ou “João”, descrições definidas, como “o
rei da França” ou “o autor da República”, demonstrativos, como “este”
ou “isto”, etc. O uso cotidiano de tais expressões pode parecer não
envolver problema filosófico algum. Afinal, o que poderia haver de mais
banal? Mas, infelizmente (ou felizmente?) há problemas filosóficos
dificílimos envolvidos aí. Bertrand Russell notou isso, e desenvolveu
uma curiosa análise das expressões do segundo tipo mencionado,
estendendo-a, posteriormente, às do primeiro tipo. Russell pensava que
se a sua análise estivesse correta, seria capaz de resolver um conjunto
de problemas filosóficos que vão da filosofia da linguagem à metafísica.
O principal objetivo deste trabalho é propor uma introdução acessível a
essa análise, conhecida como Teoria das Descrições , sem esquecer o
número gigantesco de críticas e defesas levantadas a favor e contra ela.
Em 1905 Russell publicava um pequeno artigo chamado “On
Denoting”, onde apresentou sua famosa teoria das descrições. Esta
teoria tornou-se um verdadeiro paradigma da discussão na filosofia
contemporânea. Consiste num método de análise de descrições
definidas (expressões do tipo “o tal-e-tal”) e indefinidas (expressões do
tipo “um tal-e-tal”). Ainda hoje, a teoria das descrições recebe muitas
críticas e elogios. Deu origem a novos debates sobre temas como
referência, nomes próprios, análise, problemas metafísicos relativos à
existência de certas entidades, etc. Não me ocuparei de qualquer destes
problemas exaustivamente, embora cada um mereça uma discussão
isolada. O meu interesse neste texto é uma questão mais geral:
oferecer uma introdução à teoria das descrições e um ligeiro debate
sobre o valor do método de análise oferecido por Russell como um todo.
Embora a teoria das descrições se tenha tornado bastante popular e
por algum tempo quase imune a críticas (na verdade, foram quarenta e
cinco anos sem críticas influentes, o que é um grande feito em filosofia),
em 1950 P. F. Strawson publicou uma vasta crítica, que pretendia atacar
praticamente toda teoria de Russell. Daí para frente, as críticas não
pararam mais, passando por Donnellan, Kripke e muitos outros. Essas
críticas podem dividir-se em dois grupos (distinção de Peter Hylton
2003: 228): as que dizem respeito à correção da análise de Russell para
descrições definidas e as que dizem respeito à extensão dessa análise
para os nomes próprios. Neste texto apresento apenas as primeiras.
Este trabalho está dividido em quatro partes. Na primeira, faço uma
pequena explicação de funções proposicionais e quantificadores. As
noções de função proposicional e de quantificador são de extrema
importância para a compreensão da teoria das descrições. Em “On
Denoting” Russell expõe essas noções de modo um tanto complicado.
Acabei optando por dedicar a Parte I a uma exposição informal desses
conceitos. Penso que isso facilitará a leitura do restante do texto, mas,
para aqueles que já têm um conhecimento mínimo desses tópicos, nada
será perdido se começarem a leitura diretamente pela segunda parte.
Na segunda, exponho os três enigmas que, segundo Russell (e neste
ponto tinha razão), uma teoria satisfatória da denotação deve resolver.
Nas Partes III e IV exponho respectivamente a teoria das descrições e as
suas críticas.
I. Noções fundamentais

As noções que serão explicadas nesta parte são as de função


proposicional e de quantificador. O intuito, como já foi dito, é facilitar a
compreensão do que vem a seguir, e a exposição será bastante
informal. Comecemos por função proposicional.
E m Introdução à Filosofia Matemática Russell afirma que muitos
lógicos foram levados a erros por falta do aparato das funções
proposicionais1 (Russell 1919: 202). Esse aparato é uma ferramenta
importante na tentativa do filósofo de resolver problemas filosóficos
com a teoria das descrições. Russell define funções proposicionais da
seguinte maneira:

Uma função proposicional, de fato, é uma expressão que contém um ou


mais constituintes indeterminados, tais que, quando se atribui valores a
esses constituintes a expressão se torna uma proposição. Em outras
palavras é uma função cujos valores são proposições. (Russell 1919:
188)

Deste modo, “x é mortal” é uma função proposicional, e quando se


atribuir um valor a x, torna-se uma proposição verdadeira ou falsa. Por
exemplo, se x for substituído por Sócrates, tornar-se-á uma proposição
cujo valor é verdadeiro. Enquanto x permanecer indeterminado, a
função não é verdadeira nem falsa. A função “x é mortal” pode ser
simbolizada como M(x) onde M simboliza o predicado mortal e x é a
variável. Neste contexto, exemplos de funções proposicionais seriam os
seguintes:

1) x é mortal, ou M(x)
2) x é bonito, ou B(x)
3) x é uma girafa, ou G(x)

Vimos que em 1 a substituição de x por Sócrates gera uma proposição


verdadeira. Mas se substituirmos x por Sócrates em 2 teremos “Sócrates
é bonito” e, portanto, uma proposição falsa (todo mundo sabe que ele
era feio). Do mesmo modo, se substituirmos x por Sócrates em 3
teremos uma proposição falsa. Visto isso, passemos aos quantificadores.
Mencionei que uma função não é nem verdadeira nem falsa, pois
não é uma proposição; contudo, podemos dizer quantas vezes uma
função forma uma proposição verdadeira. Para isso usamos
quantificadores. Note-se os seguintes exemplos:

1) Todo x é mortal.
2) Nenhum x é mortal.
3) Algum x é mortal.

4 significa que qualquer valor que atribuirmos a x em “ x é mortal”,


resultará numa proposição verdadeira. 5 significa que as substituições
nunca resultarão numa proposição verdadeira, e 6 significa que pelo
menos uma vez a substituição resultará numa proposição verdadeira2.
Assim, poderíamos dizer o seguinte:

“4” significa que: “x é mortal” é verdadeira para todo valor de x.3


“5” significa que: “x é mortal” é falsa para todo valor de x.
“6” significa que: “x é mortal” é verdadeira para pelo menos um valor
de x.4

Se, como antes, formalizarmos a função “ x é mortal” como M( x), e


formalizarmos “para todo (valor de) x” como (x) e “para algum (valor
de) x” como (∃x). Teremos que:

4: (x) M(x)
6: (∃x) M(x)

A partir daqui, podemos formalizar 5, nenhum x é mortal, como a


negação de 6:

5: ~(∃x) M(x)

Portanto, “todo o x é mortal” seria equivalente a “para todo o x, x é


mortal”, “algum x é mortal” seria equivalente a “existe um x que é
mortal” e “nenhum x é mortal” seria equivalente a “não existe um x
que é mortal”. Por hora isto é suficiente.5
II. Três enigmas

Finalmente, podemos passar para os três enigmas. Todos os enigmas


que mencionarei surgem de concepções aparentemente legítimas e que
não deveriam nos levar a problema algum — mas levam. Em primeiro
lugar, há uma classe de termos, chamados termos singulares, que
servem de exemplos aparentemente incontroversos de termos que
utilizamos para selecionar ou referir coisas no mundo. Dentre esses
termos, estão os nomes próprios e as descrições definidas. (Qual é o
significado dos nomes próprios e das descrições definidas? O que mais
poderia ser se não o objeto referido por eles?). Pode parecer muito
plausível alegar, com relação a esses termos, que a única contribuição
que fazem para o significado das frases a que pertencem é a introdução
de um referente. Desse modo, a única contribuição que o nome
“Sócrates” faz para o significado da frase “Sócrates é mortal” é
introduzir um objeto (nomeadamente, a própria pessoa Sócrates) no
discurso e, em seguida, com o resto da frase, lhe predicamos uma
propriedade (obviamente, a propriedade de ser mortal).
O mesmo aconteceria com descrições definidas como “O atual
presidente do Brasil”. Se digo “O atual presidente do Brasil gosta de
cachaça”, estou selecionando um objeto particular (Lula) e lhe
atribuindo uma propriedade (a propriedade de gostar de cachaça). Para
ver como isso é plausível à primeira vista, tente encontrar outro
significado para essas expressões, que não o objeto selecionado por
elas, e provavelmente encontrará bastante dificuldade. À teoria que
afirma que a única função semântica de nomes, descrições ou qualquer
outro termo singular é introduzir um referente chamarei teoria da
referência direta.6
Nem sempre as coisas são tão simples. Como veremos a seguir,
essas intuições aparentemente óbvias nos deixam numa situação difícil,
colocando três problemas dificílimos de serem resolvidos. Esses
problemas foram uma das principais razões para Russell ter recusado
que a única função das descrições definidas é introduzir um referente
no discurso (posteriormente, alegou o mesmo em relação aos nomes).
Vejamos, então, os enigmas.7

Primeiro enigma: o problema da substituibilidade

Russell expõe este problema da seguinte maneira:

“Se “a” é idêntico a “b” o que quer que seja verdadeiro de um é


verdadeiro do outro, e até se pode substituir um pelo outro em
qualquer proposição sem alteração da verdade ou falsidade dessa
proposição. Ora, George IV desejava saber se Scott era o autor de
Waverley; e de fato Scott era o autor de Waverley. Conseqüentemente,
podemos substituir “o autor de Waverley” por “Scott” e dessa maneira
provar que George IV desejava saber se Scott era Scott”.8 (Russell
1905: 35; tradução minha)

Vimos que aparentemente não haveria problema algum em presumir


que o significado de uma descrição definida ou um nome próprio é o
objeto selecionado ou referido por eles. Conforme sabemos, Lula é o
presidente do Brasil, e, portanto, as expressões “Lula” e “o atual
presidente do Brasil” selecionam ou referem o mesmo objeto. Ora, uma
vez que supomos antes que o significado de uma descrição ou nome é o
objeto referido por eles (e o objeto referido por ambas expressões é o
mesmo), devemos presumir também que “Lula” e “O atual presidente
do Brasil” signifiquem a mesma coisa. Assim, essas expressões seriam
semanticamente equivalentes, ou seja, contribuem da mesma forma
para o significado das frases que as contêm.
Se isto for assim, então a substituição de um pelo outro não deveria
alterar a verdade da proposição. Desse modo, a substituição de “Lula”
em “Lula gosta de cachaça” por “o atual presidente do Brasil”, resultaria
em “O atual presidente do Brasil gosta de cachaça”. Essa substituição
não muda o valor de verdade da proposição. Se a primeira é verdadeira,
então a segunda também será, e se a primeira for falsa, então a
segunda também será.
Agora, imagine que João deseja saber se Lula é o atual presidente
do Brasil. Podemos expressar o desejo de João dizendo que “João deseja
saber se Lula é o atual presidente do Brasil”. Ora, seguindo o que foi
dito acima, eu poderia substituir “o atual presidente do Brasil” por
“Lula”, nessa frase. E o resultado seria que “João deseja saber se Lula é
Lula”. O problema é que nesse caso, diferentemente do caso citado
anteriormente, a substituição de um termo singular por outro termo
singular co-referencial (ou seja, que refere a mesma coisa) parece ter
alterado a verdade da proposição. Afinal, do fato de que João deseja
saber se Lula é o presidente do Brasil não podemos concluir que ele
deseja saber se Lula é Lula. “Lula é Lula” é uma identidade trivial e, com
certeza, não era isso que João queria saber. Assim, alguma coisa parece
estar errada com a noção de referência direta.

Segundo enigma: o enigma do terceiro excluído

Pense-se nos seguintes exemplos:

1) Lula é careca.
2) Lula não é careca.

Lembrando que a expressão “Lula” é um termo singular (um nome


próprio), o seu significado deveria ser, segundo a teoria da referência
direta, o objeto referido por ela. Desse modo, o significado do nome
“Lula” é a pessoa Lula. Assim, 1 diz que essa pessoa é careca, e 2 que
não é careca. Uma das duas será verdadeira, e a outra falsa. A verdade
de uma implica a falsidade da outra. Isso significa dizer que “ou Lula é
careca, ou Lula não é careca”, e não há uma terceira opção. Mas agora
pense-se em:

3) O atual rei do Brasil é careca.


4) O atual rei do Brasil não é careca.

A expressão “O atual rei do Brasil” também é um termo singular e,


assim, o seu significado deveria ser o objeto referido por ela. 3 diz,
desse objeto, que é careca. 4 diz que não é careca. Do mesmo modo
que no caso anterior, uma dessas duas teria de ser verdadeira. Não há
terceira opção. Mas não existe atualmente rei do Brasil, e por isso ele
não está nem entre as coisas carecas nem entre as coisas não carecas.
Isso contraria a lei do terceiro excluído, que afirma que dada uma frase
e sua negação, uma delas é verdadeira.
Poderíamos alegar que estas frases que dizem respeito ao atual rei
do Brasil são destituídas de significado, e por isso não possuem valor de
verdade. Uma vez que o significado da expressão “O atual rei do Brasil”
é o objeto referido por ela, e dado que não há um objeto que essa
expressão refira, também não tem significado. E já que essa expressão
ocupa o lugar de sujeito gramatical nas frases 3 e 4, essas frases
também não têm significado.
Mas isto parece absurdo, pois todos somos capazes de entendê-las
perfeitamente. Assim, 3 e 4 devem ser dotadas de significado (pelo
menos assim parece), e uma vez que “o atual rei do Brasil” é uma
descrição definida, deve seu significado ao fato de selecionar um objeto.
Entretanto, se essas frases têm significado, devem possuir valor de
verdade e uma delas será verdadeira e a outra falsa. Mas, novamente,
não há um atual rei do Brasil nem entre as coisas carecas nem entre as
coisas não carecas.
Acabamos entrando no seguinte dilema: ou alegamos que essas
frases acerca do atual rei do Brasil não têm significado, e isso seria
muito contra-intuitivo. Ou teremos de explicar como uma dessas frases
pode expressar uma verdade ou falsidade acerca de um rei que não
existe. Em resumo, temos a seguinte pergunta: Como podemos dizer
coisas verdadeiras ou mesmo falsas acerca de um ser que não existe?

Terceiro enigma: o problema das existenciais


negativas

Pensemos na seguinte frase:

1) O atual rei do Brasil não existe.

Quem está informado sobre a história do Brasil sabe que atualmente


não temos um rei. Portanto, o atual rei do Brasil não existe. Por sua vez,
se não existe, então 1 expressa uma proposição verdadeira. Mas se 1 é
verdadeira, é verdadeira acerca de quem?
Novamente, lembro que estamos supondo que a única contribuição
que a descrição “o atual rei do Brasil” faz para o significado de 1 é o seu
referente. Mas essa frase afirma justamente que essa descrição não
tem referente, e se não tem referente, não pode ter significado. Como é
óbvio que 1 é dotada de significado, a expressão “o atual rei do Brasil”
deve ter referente. O problema é que se essa expressão tem um
referente, então 1 deve ser falsa (e sua negação verdadeira). E assim, o
atual rei do Brasil existe. E o tempo todo nós tínhamos um rei, e nem
sabíamos.
O problema aqui é que isto acontecerá todas as vezes que
tentarmos negar a existência de algo. Logo, é impossível negar a
existência de algo sem implicar que existe.
O lógico Alexius Meinong (1904) ofereceu uma polêmica solução
para este problema. Segundo ele, as confusões como estas surgem
porque não notamos a distinção entre ser, não-ser e o que ele chamou
d e sosein. Por um lado, tanto eu como você, o Cristo Redentor (a
estátua), o planeta Terra, etc., temos ser. Por outro, Pégaso, Papai Noel
e o atual rei do Brasil não têm ser. Podemos dividir as coisas em seres e
não-seres. Até aí tudo bem.
Mas Meinong acreditava que isso não bastava, pois havia uma coisa
que seres e não-seres tinham em comum e, até ele, ninguém havia
percebido isso. Todas as coisas (incluindo seres e não-seres) possuiriam
sosein. Ou seja, todas elas poderiam possuir propriedades. E isso não
vale apenas para Papai Noel ou o atual rei do Brasil, mas também para
objetos que consideramos impossíveis, como o quadrado-redondo.
Assim, em suas palavras:

o princípio não se aplica somente a objetos que de fato não existem,


mas também a objetos que não poderiam existir porque são
impossíveis. Não somente a tão solene montanha de ouro é feita de
ouro, mas também o quadrado redondo é tão seguramente quadrado
como redondo. (Meinong 1904: 82; tradução minha)
O quadrado redondo, a montanha de ouro e o atual rei do Brasil são
objetos, assim como o Cristo Redentor, eu ou você, embora sejam
objetos irreais.
Esta tese parece um pouco estranha; mas pensemos no seu poder
explicativo. De acordo com ela, podemos perfeitamente negar a
existência das coisas sem, com isso, implicar que elas existam. Assim,
posso dizer que o atual rei do Brasil, ou o quadrado redondo, não
existem, e dizer isso significa dizer que não são objetos reais.
Entretanto, dizer que são não-seres ou objetos irreais não significa
afirmar que não possuam propriedades. O atual rei do Brasil tem a
propriedade de ser rei, e o quadrado redondo tem a propriedade de ser
quadrado e redondo. O que falta a esses objetos é simplesmente a
propriedade de existir. Em resumo, a tese de Meinong é simplesmente
esta: todos os objetos têm propriedades, e “todos” inclui aqueles que
existem e aqueles que não existem.9
Note-se que esta tese considera que existência é uma propriedade.
Por outras palavras, dizer que um objeto existe é como dizer que é
branco ou vermelho. Quando digo que uma coisa é branca, digo que
tem a propriedade de ser branca e, do mesmo modo, dizer que algo
existe é atribuir a propriedade da existência a essa coisa. No caso do
atual rei do Brasil, posso dizer que tem a propriedade de ser rei, mas
não tem a propriedade de existir.
Russell não ficou satisfeito com a solução de Meinong, alegando que
feria o que denominou o nosso “sentido da realidade”, de modo que
uma teoria que evitasse essas conseqüências deveria sempre ser
preferível.
Vejamos então como Russell lidou com estes enigmas.

III. A teoria das descrições

Nesta parte exponho a teoria das descrições de Russell, e explico como


esta teoria permite lidar com os três enigmas mencionados acima.
A teoria das descrições é uma tentativa de explicar tanto descrições
indefinidas como descrições definidas. A diferença entre uma descrição
definida e uma indefinida é que enquanto a primeira supostamente
seleciona um objeto particular determinado, a segunda não. Ou seja, só
as descrições definidas são, pelo menos aparentemente, termos
singulares; as descrições indefinidas são termos gerais. Assim, “o atual
presidente do Brasil” é uma descrição definida, enquanto “algum
presidente do Brasil” ou “um presidente do Brasil” são descrições
indefinidas. A primeira refere um objeto determinado, Lula, as outras
referem qualquer presidente do Brasil. Russell dá muito mais atenção às
descrições definidas do que às indefinidas. Isto porque está interessado
em resolver os problemas abordados na parte anterior, e estes
problemas afetam diretamente as descrições definidas.
Antes, porém, preciso explicar o que são proposições dependentes
de objetos e proposições independentes de objetos .10

Proposições dependentes de objetos

Começo por dizer algo sobre o que é uma proposição. É possível


compreender o conteúdo de algumas frases ou seqüências de palavras,
enquanto outras parecem não ter conteúdo algum. Considere-se a frase
“as idéias verdes dormem furiosamente juntas”. Essa seqüência de
palavras, embora pareça ter uma estrutura gramatical perfeita, não
parece expressar conteúdo algum. O que entendemos quando
entendemos tal frase? Um exemplo mais claro seria “iefg xnyrrcn
e8yrcb”, se alguém estava relutante em atribuir ou não algum conteúdo
a frase anterior que pudesse ser compreendido, com certeza não estará
relutante quanto a esta última. Sem dúvida, esta última não expressa
coisa alguma. Em contrapartida, é claro que a frase “o gato está à
janela” pode ser compreendida por qualquer falante competente da
língua portuguesa. O que compreendemos quando compreendemos
uma frase como essa é a proposição que a frase expressa.
Há ainda muito debate sobre a natureza de uma proposição ou
mesmo se tal coisa é aceitável. Não entrarei em debates desse tipo
aqui. Russell pensava que as proposições não podiam ser itens mentais,
e sustentou que eram completamente independentes de nós. Na
verdade, sustentou que as proposições eram entidades abstratas e que,
de algum modo, poderiam conter objetos.11 Tudo isto é disputável e não
entrarei nos méritos ou deméritos de Russell nesse ponto. O mais
importante para o nosso trabalho é que uma proposição é o conteúdo
expresso por uma frase declarativa, como “o gato está na janela” ou “a
porta está aberta”, e que só esse conteúdo pode ser verdadeiro ou
falso. Ou seja, a própria frase é só uma seqüência de sons (se for dita
por alguém) ou de marcas de tinta (se for escrita), que não pode ser
verdadeira ou falsa. Mas pode expressar algo, a proposição, que será
verdadeira ou falsa.
Ora, o conteúdo de uma frase, a proposição que a frase exprime,
pode depender ou não de objetos.
Pensemos no seguinte exemplo. Imagine que está numa aula
entediante quando ouve dois garotos (que não sabe onde estão)
conversando. Ouve um deles dizer “esta garota é uma beleza”. Você
imagina que alguma garota passou por lá no momento em que o rapaz
proferiu essa frase, e que o rapaz se referia a ela. Mas uma vez que
você não podia ver a garota passar por lá e nem sabe a que garota ele
se referiu, não pode saber que proposição foi expressa pela frase
proferida pelo garoto.
É claro que neste momento você poderia alegar que sabe o que o
garoto disse: sabe que ele disse, de alguma garota, que ela é uma
beleza. Ao dizer isso, você não estará completamente errado, pois
conhece as palavras usadas por ele e também sabe usá-las. E sabe que
naquele contexto ele se referiu a alguém. Mas note-se que o que ele
falou não foi que alguma garota é uma beleza, ele falou que esta garota
é uma beleza. Para compreender completamente o que ele disse é
necessário conhecer em alguma medida a garota referida por “esta”.
Dizer isto é dizer que “esta garota é uma beleza” exprime uma
proposição que depende do objeto. Deste modo, uma proposição
dependente do objeto é uma proposição que só podemos compreender
se conhecermos ou pudermos identificar que coisa foi referida. (É muito
comum que frases que contenham demonstrativos como “esta” ou
“isto” expressem proposições desse tipo).
Agora imagine que no caminho para casa você encontra um amigo
que lhe diz o seguinte:

1) Uma garota da sua classe me ama.

Nesse caso, não parece necessário conhecer qualquer garota particular


para entender o que seu amigo disse. Por outras palavras, pode saber
que proposição é expressa por 1 sem precisar de conhecer ou saber
identificar uma garota em particular.
Imagine, por exemplo, que na sua classe só há meninos. Acaso isso
o impediria de entender o que seu amigo disse? A resposta é que não.
Você pode saber que proposição 1 exprime mesmo que não existam
garotas na sua classe. Nas palavras de Blackburn (1984: 303) você pode
saber que verdade ou falsidade particular a frase comunica. O que 1
afirma é que, dentre as pessoas da sua classe, há uma que é garota e
ama o seu amigo. Entender 1 é entender isso, e nada mais.
O mesmo ocorre com as seguintes frases:

2) Todos os rapazes da sua classe são canalhas.


3) Nenhum rapaz da sua classe é fiel.

Tanto 2 como 3 podem ser compreendidas mesmo que a sua classe só


tenha meninas. Ou mesmo que você não conheça qualquer rapaz da sua
classe. O que 2 afirma é que de todas as pessoas da sua classe, se
alguma é um rapaz, então é um canalha. E o que 3 afirma é que de
todas as pessoas da sua classe, se alguma é um rapaz, então não é fiel.
Assim, 1, 2 e 3 expressam proposições independentes de objetos.
Ou seja, podemos compreender a informação comunicada por elas sem
precisar identificar um objeto determinado. Podemos saber em que
circunstâncias essas proposições seriam verdadeiras ou falsas sem
precisar identificar a coisa referida (na verdade, nem precisa de haver
uma “coisa referida”).
Isto é importante porque as proposições dependentes de objetos e
as independentes de objetos representam dois modos distintos de a
linguagem se relacionar com o mundo. Russell pensava que a tese que
afirma que o significado de um termo singular é o objeto referido por ele
só faz sentido se a frase que contém o termo expressar uma proposição
dependente do objeto. De outro modo essa tese não é possível.
A razão disso é bem simples. Parece perfeitamente legítimo alegar
que o significado de “esta” em “esta garota é uma beleza” é a própria
pessoa referida. Um indício disso é que para compreendermos a
informação comunicada por essa frase precisamos de identificar essa
pessoa. Mas não podemos dizer o mesmo de 1, 2 ou 3, pois, como
vimos, podemos compreender a informação comunicada por elas
mesmo que não haja uma coisa referida (ou que não saibamos qual é).
Portanto, nesses casos o significado não pode depender da referência.
As frases que contêm quantificadores como “todos”, “pelo menos
um”, “nenhum” podem não exprimir proposições dependentes de
objetos.12 1 afirma que, considerando as pessoas da sua classe, existe
uma que é menina e ama seu amigo. 2 afirma que, considerando as
pessoas da sua classe, se for um menino, então é um canalha. 3 afirma
que, considerando as pessoas da sua classe, se for um menino, então
não é fiel.
Deve-se observar também que uma proposição pode ser
dependente de objetos com respeito a uma coisa, mas não a outras. Por
exemplo: “algum homem ama esta garota”. Não precisamos saber
quem é o homem para compreender a proposição expressa por essa
frase, mas temos que saber quem é a garota referida por “esta”.

Descrições definidas

Anteriormente, mencionei uma perspectiva que considera que as


descrições definidas são termos singulares, à semelhança de nomes e
demonstrativos. Vimos que esta perspectiva pode parecer bastante
natural e não problemática. Mas também vimos que apresenta
problemas difíceis, tendo de enfrentar os três enigmas mencionados.
Seja como for, se descrições definidas são termos singulares, então as
frases que as contém deverão expressar proposições dependentes de
objetos. Ora, a principal tese de Russell em “On Denoting” é que as
frases da forma “O F é G” não expressam proposições dependentes de
objetos, mas, ao contrário, expressam proposições independentes de
objetos. Tais frases não são realmente da forma sujeito-predicado: são
frases quantificacionais complexas.
Para começar, as descrições definidas são expressões da forma “o
tal e tal” ou “a tal e tal”, que se supõe selecionar um objeto
determinado. Dessa maneira, as seguintes frases teriam a mesma
estrutura:

1) Esta mochila é bonita.


2) O atual presidente do Brasil é baixo.

Estas frases são constituídas de um termo singular, que ocupa a posição


de sujeito, e um termo predicado. Ou será que não? Russell argumentou
veementemente que esse não é o caso de 2.
É fácil notar a diferença entre 1 e 2. No caso da primeira, só
podemos entender a proposição expressa se pudermos identificar a
coisa referida por “esta”. No caso da segunda, isso não é necessário.
Posso não conhecer o presidente do Brasil e ainda assim entender o que
2 significa. Eu poderia saber o que significa mesmo que não houvesse
um presidente do Brasil. Pensemos na frase seguinte:

2) O homem mais alto do mundo tem mais de dois metros.

Todo o lusófono competente entende 3, mas provavelmente a maior


parte das pessoas não conhece o referente de “O homem mais alto do
mundo”; conhecer a referência dessa expressão não é necessário para
entender 3.
Assim, o significado ou conteúdo semântico das descrições definidas
não pode ser o objeto referido por elas. Frases da forma “O F é G” não
expressam proposições dependentes de objetos. Mas então, qual é a
análise correta de tais expressões? Qual é o seu real significado? É aqui
que entra a teoria das descrições.
Russell não forneceu uma resposta direta a esta pergunta. Não
ofereceu uma definição de descrições no mesmo sentido em que a
teoria da referência direta oferece. Esta última, como vimos, afirma que
o significado de uma descrição definida é o objeto referido por ela, e
ponto final. Ao contrário, Russell alega que explicar o papel semântico
dessas expressões é explicar a sua contribuição para o significado das
frases que as contêm. Por isso, a definição de Russell é uma definição
contextual. As descrições definidas nada significam isoladamente; são
símbolos incompletos .
Pensemos novamente em 2: “O atual presidente do Brasil é baixo”.
A análise Russelliana interpreta 2 como a conjunção de três afirmações,
que são:

2a) Existe atualmente um presidente do Brasil,


2b) existe no máximo um presidente do Brasil,
2c) seja quem for que é presidente do Brasil é baixo.

2b expressa a cláusula de unicidade. Quando dizemos “ o presidente”, a


presença do artigo definido “o” indica que não há mais do que um. É
claro que muitas vezes dizemos coisas do tipo “o filho de João”, mesmo
quando João tem mais de um filho. Mas nesses casos o contexto deixa
claro de que filho estamos a falar, e a expressão é como se abreviasse
“o filho do João de que estamos a falar”. (Como vimos, as descrições
definidas diferem das descrições indefinidas. Quando dizemos “um
presidente baixo” dizemos apenas que “existe um presidente baixo”.)
Em linguagem mais simples, “o atual presidente do Brasil é baixo”
expressa a idéia de que “existe um único presidente do Brasil e ele é
baixo”. Isso pode ser formalizado como

(∃x) [[(Px ∧ (y) (Py → y = x)] ∧ Bx]

A cláusula da unicidade é indicada pela fórmula em azul.


Um aspecto muito importante dessa análise é que, após análise, o
suposto termo singular desaparece. A expressão “o atual presidente do
Brasil” não aparece em “existe no máximo uma pessoa que é
atualmente presidente do Brasil, e essa pessoa é baixa”. Não há mais
um termo singular aqui sobre o qual possamos dizer que refere
diretamente um objeto particular. Isso permitirá Russell resolver o
primeiro enigma. Contudo, a solução do segundo e terceiro enigmas
depende da distinção entre ocorrência primária e secundária de uma
descrição definida. Por isso, falarei primeiro dessa distinção e, em
seguida, da solução dos enigmas.

Ocorrência primária e secundária de descrições


definidas

Quando a ocorrência de uma descrição definida implica a existência de


um objeto que satisfaça a descrição, a ocorrência é primária; quando
não o implica, a ocorrência é secundária.13
Podemos interpretar a frase “O João desejava saber se o autor da
República era Platão” dos seguintes modos:

1) O João desejava saber se existe um e somente um homem que


escreveu a República e se Platão era esse homem.
2) Existe um e somente um homem que escreveu a República e o João
desejava saber se Platão era esse homem.

Em 1 a ocorrência é secundária, em 2 é primária. Para entender isso


basta notar que 1 não implica a existência de um e somente um homem
que tenha escrito a República; afinal, isso é uma das coisas que João
deseja saber. Por outro lado, 2 implica a existência de tal homem.
Podemos expressar isso dizendo que em 2 o âmbito da descrição “o
autor da República” é maior que o do operador “deseja saber que...”, ou
que a descrição ocorre antes do operador. No primeiro caso, a descrição
ocorre depois do operador. Passemos então à solução dos enigmas.

Solução dos enigmas: substituibilidade

Vimos que a teoria da referência direta tinha dificuldade em explicar


como pode a substituição de um termo por outro termo co-referencial,
em certos contextos, alterar o valor de verdade de uma frase. Agora já
temos uma solução para esse enigma. Voltemos à frase problemática:

1) O João deseja saber se o atual presidente do Brasil é o Lula.


Vimos anteriormente que se dois termos singulares são co-referenciais,
então a substituição de um pelo outro não deveria alterar o valor de
verdade da proposição. As expressões “Lula” e “o atual presidente do
Brasil” são co-referenciais. Portanto, a substituição de “o atual
presidente do Brasil” por “Lula”, em 1, não deveria alterar seu valor de
verdade. Mas o resultado dessa substituição seria que “O João deseja
saber se Lula é Lula”. Nesse caso, parece que a substituição altera o
valor de verdade da proposição. Do fato de o João desejar saber se Lula
é o presidente do Brasil, não podemos concluir que deseja saber se Lula
é Lula.
Russell argumenta que o enigma surge apenas se considerarmos
que as descrições definidas são termos singulares, à semelhança dos
nomes próprios. Desse ponto de vista, a única contribuição que uma
descrição faz para o significado da frase que a contém é a introdução de
um referente. Mas se levarmos em conta a análise russelliana,
poderemos parafrasear 1 do seguinte modo:

2) O João desejava saber se existe uma e somente uma entidade que


preside atualmente o Brasil e se essa entidade é Lula.14

Agora pergunte-se o seguinte: quantos termos singulares 2 contém,


além de “João”? Se prestarmos atenção, veremos que contém apenas
um termo singular (nomeadamente, a expressão “Lula”). Após análise, o
suposto termo singular “o atual presidente do Brasil” já não ocorre. Por
outras palavras, o que parecia um termo singular, já não o parece. Já
não há uma expressão na frase que possa, de modo óbvio, ser
substituída por “Lula”; e se não há tal expressão, então já não temos o
problema da substituição. Assim, o problema da substituibilidade
desaparece, e acabou a conversa.15
Se antes parecia haver um problema, foi porque tratamos as
descrições definidas como se fossem nomes próprios. Mas descrições
não são como nomes. Um nome próprio limita-se a selecionar um
objeto, e a única contribuição que faz para o significado das frases que
os contêm é a introdução de um referente. Podemos expor essa
diferença alegando que o modo como um nome e uma descrição
referem é diferente. Uma descrição seleciona um objeto (quando há um)
pelo fato de ser o único que satisfaz tal e tal característica. O nome
“Paula” refere-se à Paula, mas não porque ela seja a única a possuir tais
e tais características. A descrição “a minha namorada” também
seleciona a Paula, mas só a seleciona porque ela é a única que tem a
propriedade de ser a minha namorada.

Solução dos enigmas: terceiro excluído

Este enigma diz respeito ao modo como podemos formar proposições


verdadeiras acerca de entidades que não existem. Vimos que a sua
solução dependia da distinção entre ocorrência primária e ocorrência
secundária de descrições definidas.
Russell pensava que em casos como “o atual rei do Brasil é careca”,
ou seja, casos que envolvem descrições definidas que não têm
denotação, quando a descrição tem uma ocorrência primária a
proposição onde ela ocorre é falsa, e quando a ocorrência é secundária
a proposição pode ser verdadeira.
Na sua ocorrência primária, a frase é analisada como se segue:

3) Existe uma e somente uma entidade que é agora rei do Brasil e esse
rei é careca.

Neste caso, considera-se que a descrição eliminada, “o rei do Brasil”, é


primária, pois implica a existência de um único rei do Brasil. Ora,
sabemos que o Brasil atualmente não tem rei, portanto 3 é falsa.
Quanto à negação da frase com a descrição definida, temos dois
casos: um em que é verdadeira e outro em que é falsa. É falsa se
significar

4) O atual rei do Brasil não é careca.

Neste caso a ocorrência de “o atual rei do Brasil” é primária. A


proposição analisada ficaria: “existe uma e somente uma entidade que
é agora rei do Brasil e não é careca”. Visto que a propriedade de ser
agora rei do Brasil não pertence a qualquer entidade, 4 é falsa. No
entanto a negação é verdadeira se significar

5) É falso que o atual rei do Brasil é careca.

Ou seja, “É falso que existe uma e somente uma entidade que é agora
rei do Brasil e é careca”. Neste caso é verdadeira; porém, a ocorrência
da descrição é secundária. A descrição não implica aqui a existência de
coisa alguma. Pelo contrário, nega-se que a descrição refira algo. Isto
porque no segundo caso a negação ocorre antes do quantificador
existencial, enquanto no primeiro a negação aparece depois do
quantificador (no meio da frase). Por outras palavras, no primeiro caso o
âmbito do quantificador é maior do que o da negação, enquanto no
segundo o âmbito da negação é maior. Para entendermos isto basta
notar como ambas ficariam se fossem totalmente formalizadas. A
primeira poderia ser expressa por

(∃x) [[(Bx ∧ (y) (By → x = y)] ∧ ∼Cx];

E a segunda poderia ser expressa por

∼(∃x) [[Bx ∧ (y) (Cy → x = y)] ∧ Cx].

Mais uma vez, o problema surgiu por termos confundido descrições com
termos singulares. A frase “O atual rei do Brasil é careca” não expressa
uma proposição dependente de objetos.16 Para que a frase expresse
uma proposição verdadeira ou falsa não é necessário que introduza
diretamente um objeto no discurso.

Solução dos enigmas: existenciais negativas

Este enigma diz respeito a como podemos negar consistentemente a


existência de algo. Assumir a teoria da referência direta levou ao difícil
problema de não poder negar a existência de coisa alguma. Pois ao
negarmos a existência de algo, sempre implicávamos que ela existia. E
assim, acabamos chegando à conclusão de que o Brasil deverá ter um
rei, embora ninguém saiba. A outra alternativa era a de Meinong, que
sustentou que, embora o atual rei do Brasil não existisse, era um objeto.
Nenhuma dessas alternativas parecia muito agradável. Por um lado,
Russell não queria aceitar a conseqüência da teoria da referência direta;
por outro, também não estava satisfeito com a idéia de postular objetos
irreais.
Se o problema com a tese da referência direta era considerar que as
descrições definidas são termos singulares, o problema de Meinong foi
considerar que a existência não era senão mais um predicado. Russell
argumenta que existência não é um predicado, mas um quantificador. A
análise correta de “O atual rei do Brasil não existe” não seria “Existe
uma e só uma entidade que é agora rei do Brasil e essa entidade não
existe”. Ao contrário, a análise correta seria:

6) É falso que existe uma e só uma entidade que é agora rei do Brasil.

O que é equivalente a:

6') É falso que pelo menos uma , e no máximo uma, entidade é agora
rei do Brasil.

Que por sua vez podemos exprimir deste modo:

6'') Nenhuma substituição de x em “x é agora o único rei do Brasil”


resultará numa proposição verdadeira.

Desse modo, 6 é verdadeira, e sua verdade não implica a existência de


um atual rei do Brasil. Quando dizemos “O atual rei do Brasil não existe”
não estamos dizendo que o atual rei do Brasil não tem a propriedade da
existência ou que é um objeto irreal. Pelo contrário, estamos dizendo
que a função “x é agora o único presidente do Brasil” nunca dá origem a
uma proposição verdadeira. E não há contradição alguma nisso.
Mais uma vez, a proposição expressa por 6 é independente de
objetos, e não precisa haver referente algum para que seja dotada de
significado. Ainda, repare-se que a ocorrência da descrição “O atual rei
do Brasil” é secundária, e portanto, 6 pode ser verdadeira, mesmo que
não haja um referente. Assim, resolve-se o problema das existenciais
negativas.
O resultado final de tudo isto seria uma elegante teoria e nenhum
problema. Mas Strawson não pensou assim.

IV. Críticas à teoria das descrições

Strawson

Quarenta e cinco anos depois da publicação de “On Denoting”,


Strawson publicava “On Referring”, um pequeno artigo que disputava
praticamente todos os pontos da teoria das descrições definidas de
Russell.
A intenção principal de Strawson não era disputar se Russell
resolveu ou não os enigmas que se propôs resolver. Ao contrário, a sua
intenção era oferecer um método alternativo de análise de descrições,
que não apresentasse tantas conseqüências indesejáveis e que fizesse
justiça ao matizes da linguagem comum. O que está em jogo é saber se
Russell realmente fornece uma análise correta das expressões da forma
“o tal-e-tal”. Antes de entrarmos nas críticas, é preciso explicar algumas
coisas.

Frase, expressão e suas utilizações

A palavra “utilização” é uma palavra-chave para entendermos a crítica


de Strawson a Russell. Strawson pensava que “fazer referência”, “ser
acerca de” e a verdade e falsidade eram características da utilização de
uma expressão ou frase. Para tornar isso mais claro, falarei brevemente
sobre essas distinções.
Tomemos como exemplo a frase “o atual presidente do Brasil é
sábio”. É natural dizer que esta frase já foi utilizada em diferentes
épocas e situações. Alguém que a proferisse hoje parece estar
proferindo a mesma frase que alguém que a proferiu durante a
presidência de Fernando Henrique. Mas na verdade não é literalmente a
mesma frase; é apenas uma frase igual. Por outras palavras, quem
profere esta frase hoje e quem a proferia durante a presidência de
Fernando Henrique proferia uma frase do mesmo tipo. Neste contexto,
uma frase é um tipo.
Se isto não ficou totalmente claro, considere-se o seguinte exemplo.
Imagine que você e eu vamos à banca logo de manhã e que cada um de
nós compra um exemplar da última edição do jornal Folha de São Paulo .
Num certo sentido, ambos temos o mesmo jornal nas mãos: ambos
temos a Folha de São Paulo . Mas noutro sentido cada um de nós tem
um jornal diferente nas mãos; cada um está com uma cópia ou
exemplar diferente da Folha. Por outras palavras, temos exemplares
diferentes nas mãos, mas são exemplares do mesmo tipo. Do mesmo
modo, se eu proferir hoje a frase “o atual presidente do Brasil é sábio”,
estarei proferindo uma frase do mesmo tipo daquele que a proferiu no
ano de 1994. Contudo, as frases proferidas por cada um de nós são
exemplares ou espécimes diferentes.
Também não é difícil perceber que essa frase pode ser utilizada de
diferentes maneiras. Por exemplo, duas pessoas que a proferem, uma
durante a presidência de Fernando Henrique e outra durante a
presidência de Lula, fizeram utilizações diferentes dela. Mas duas
pessoas que a proferem durante a presidência de Lula fizeram a mesma
utilização. Isto porque no primeiro caso cada utilização expressa uma
proposição diferente, enquanto no segundo as duas utilizações
exprimem a mesma proposição. Ou seja, uma pessoa que profere a
frase “o atual presidente do Brasil é sábio” durante a presidência de
Lula faz uma afirmação diferente daquele que profere a mesma frase
durante a presidência de Fernando Henrique. A frase pode expressar
uma proposição verdadeira no primeiro caso e falsa no segundo, e é
usada para falar acerca de pessoas particulares diferentes em cada
caso.
Por fim, afirma Strawson, duas pessoas que proferiram a mesma
frase durante a presidência de Lula, embora tenham feito a mesma
utilização, fazem elocuções diferentes. Sendo assim, cada elocução é
uma elocução diferente. Strawson considerava que se podia fazer
distinções análogas entre uma expressão, a sua utilização e a sua
elocução. Isto é, uma expressão pode ser utilizada de diferentes
maneiras, para mencionar diferentes indivíduos, e duas pessoas que
utilizam uma expressão da mesma maneira, como “o presidente do
Brasil”, estão, ainda assim, fazendo elocuções diferentes.
Pensemos na conclusão que emerge do que foi dito até aqui.
Strawson pensava que uma mesma frase poderia ser falsa ou
verdadeira dependendo da utilização que fazemos dela. Uma mesma
frase pode, em diferentes utilizações, “ser acerca de” diferentes
pessoas. Do mesmo modo, uma mesma expressão pode ser utilizada
para mencionar ou fazer referência a diferentes indivíduos, coisas,
lugares, etc. Conclui-se daqui que a verdade, a falsidade, o “ser acerca
de”, não são funções de uma frase (ou da proposição expressa por ela),
tal como mencionar ou fazer referência não são funções de uma
expressão. A verdade, a falsidade, o “ser acerca de”, o fazer referência,
são funções das utilizações que fazemos de uma frase ou expressão.
Strawson acusa Russell de confundir uma frase ou expressão com as
suas utilizações. Ao fazer as distinções de que falei, Strawson pretende
distinguir entre o que podemos dizer acerca de frases e expressões e o
que podemos dizer acerca de utilizações das mesmas. Russell, afirma
Strawson, não atentou no fato de que fazer referência, dizer verdades e
falsidades, são funções da utilização de uma frase ou expressão.
Veremos que, ao sustentar isto, Strawson chega a concepções
consideravelmente opostas às de Russell no que diz respeito a muitos
pontos importantes. Segundo Strawson, Russell teria ignorado as
diferentes maneiras de se utilizar uma frase ou expressão e, com isto,
chegou a uma noção equivocada de significado, confundindo o
significado de uma frase com uma utilização num contexto particular.
Subjacente a todas as críticas de Strawson está uma concepção
radicalmente diferente de significado.17 Vimos que Russell pensava que
o significado de uma frase era a proposição expressa por ela e que as
proposições eram entidades abstratas e independentes de nós. Se
Russell queria analisar o significado de uma frase, então bastava ver
que proposição ela expressava. Também vimos que, no caso de
proposições independentes de objetos, não era necessário identificar
objeto algum para compreendê-la. Em exemplos como “O atual
presidente do Brasil é sábio”, a proposição expressa por essa frase
acaba por ter uma forma completamente diferente da frase original. A
frase original tem uma estrutura sujeito-predicado e aparentemente
contém um termo singular. Mas, depois da análise, percebemos que o
que é dito por essa frase é que “existe uma e no máximo uma entidade
que é agora presidente do Brasil e ele é sábio”. Russell considerava que
a análise revelava a verdadeira forma lógica da frase. Nesse caso, a
forma real da proposição seria a forma lógica e não a forma gramatical.
Gramaticalmente, é uma frase sujeito-predicado; mas sua forma real é
uma afirmação existencial complexa. Com isso, Russell conseguiu evitar
vários problemas.
Quando uma frase expressa uma proposição dependente de objeto,
algum tipo de conhecimento acerca do objeto é necessário para
compreendê-la, e assim, o contexto da elocução desempenha um papel
mais importante. Vimos que para compreender “esta menina é uma
beleza” temos que saber que menina foi referida, quem passou por lá
no momento da elocução. Por outro lado, quando uma frase expressa
uma proposição independente de objetos, podemos conhecer o
significado dessa frase sem prestar muita atenção ao contexto da
elocução. Strawson pensava que essa desatenção de Russell no que diz
respeito ao contexto era um erro. Como vimos, Strawson pensava que
falar acerca de coisas, fazer referência, etc., são ações humanas; somos
nós que referimos as coisas e não as expressões. Não podemos
simplesmente encarar o significado de uma frase ou expressão como
uma abstração. Se prestarmos mais atenção às circunstâncias em que
as pessoas proferem frases e referem coisas, veremos que a análise de
Russell é, em muitos pontos, insuficiente. Vejamos então as críticas que
emergem dessa concepção.

Crítica à análise das descrições

Depois de fazer estas distinções básicas entre expressão e frase e suas


utilizações, Strawson começa a sua crítica a Russell. Critica vários
aspectos da noção russelliana de descrições definidas. As críticas mais
importantes dizem respeito a) à noção russelliana de significado, b) ao
valor de verdade das proposições que contêm estas descrições no lugar
de sujeito gramatical, e c) à afirmação de Russell de que as pessoas que
utilizam tais frases afirmam ou implicam logicamente a existência de
uma e somente uma entidade que obedece à descrição. Discutirei cada
um destes pontos por ordem.

a) A noção russelliana de significado

Voltemos à frase

1) Esta menina é uma beleza.

É claro que para compreender o que alguém, ao proferir 1, está dizendo,


temos de saber a que pessoa “esta” se refere. Mas isso, argumenta
Strawson, não significa que o significado de “esta” seja a pessoa
referida. Para o compreender, basta notar que se uma criança pergunta
à sua mãe qual é o significado de “esta”, a mãe não vai apontar para
um ou outro objeto. Ao contrário, vai ensinar a criança a usar essa
expressão corretamente. Saber o significado de “esta” é saber como
usar essa expressão em vários contextos, e não saber a que coisa
particular a expressão refere num contexto particular. Do mesmo modo,
saber o significado de “o atual presidente do Brasil é sábio” é saber usar
essa frase em vários contextos que, como foi mencionado, podem
originar usos bem diferentes (por exemplo, usada no ano de 1994 e
usada em 2009). Mesmo Russell teria de aceitar que a frase “O atual
presidente do Brasil é sábio” poderia expressar diferentes proposições
em diferentes contextos. E Strawson argumenta que conhecer uma
dessas proposições não é saber o significado dessa frase. Contra
Russell, afirma:

“Se falo a respeito do meu lenço, posso, talvez, tirar do meu bolso o
objeto ao qual me refiro. Mas não posso tirar do meu bolso o
significado da expressão “o meu lenço””. (1950: 45).

Esta crítica de Strawson é um erro. Conforme o próprio Russell


menciona no artigo “Mr. Strawson on Referring” (1957), esta crítica só
funciona porque Strawson escolhe muito bem os exemplos que utiliza. O
que faz Strawson pensar que o problema depende das diferentes
circunstâncias em que podemos usar frases ou expressões é o fato de
oferecer exemplos envolvendo expressões indexicais, como “atual”,
“meu” ou “isto”. O significado destas expressões muda facilmente com
o contexto. Por exemplo, “atual” pode significar diferentes momentos
do tempo dependendo da época em que é utilizada. Embora o próprio
Russell tenha dado exemplos que envolvem essas expressões, poderia
tê-los modificado. Ao invés de “o atual presidente do Brasil” poderíamos
ter falado de “o presidente do Brasil em 2009”. Voltando ao exemplo 1,
Russell não pretendia dar uma explicação semântica de “esta” naquele
contexto, mas apenas notar que entender o que é dito nesse contexto
envolve a identificação de uma coisa referida. E isso até Strawson
poderia aceitar. Voltaremos depois a debates que envolvem contextos.

b) Valor de verdade

Vimos que Russell considerava que qualquer pessoa que proferisse


agora a frase “o atual rei do Brasil é careca” estaria expressando uma
proposição verdadeira ou falsa. Strawson disputará fortemente essa
afirmação, argumentando que em casos como esses a questão de saber
se o que foi dito é verdadeiro ou falso simplesmente não se coloca.
Para responder à pergunta “como podemos formar proposições
verdadeiras acerca de entidades que não existem?” Russell se valeu de
sua distinção entre ocorrência primária e ocorrência secundária de
descrições definidas. Argumenta que, em casos como “o atual rei do
Brasil é careca”, a proposição é falsa se a ocorrência da descrição for
primária, podendo ser verdadeira se a ocorrência for secundária. Em
todo caso, quem profere essa frase sempre expressa uma proposição
verdadeira ou falsa. Contudo, Strawson argumenta que embora Russell
acerte ao afirmar que qualquer um que proferisse agora essa frase
estaria proferindo uma frase dotada de significado, erra ao concluir que
qualquer um que a proferisse agora estaria dizendo algo verdadeiro ou
falso.
Strawson pensa que se alguém proferir agora a frase mencionada,
não estaria dizendo algo verdadeiro ou falso. Pergunta o que
responderíamos a uma pessoa que proferisse, com ar de seriedade, a
frase “o atual rei do Brasil é careca”. Provavelmente, afirma, não
diríamos “não é verdade”. Mas e se essa pessoa nos perguntasse se o
que ela acaba de dizer é verdadeiro ou falso? Diríamos que é falso ou
diríamos que é verdadeiro? A resposta de Strawson: “nenhuma das
duas; que a questão de saber se a sua afirmação é verdadeira ou falsa
simplesmente não surge” (1950: 46).
O que Strawson quer dizer é que seria de algum modo estranho
afirmar que, nesse caso, a frase proferida expressa uma proposição
verdadeira ou falsa. Num caso como o exposto, não diríamos que a
pessoa disse algo verdadeiro ou falso, mas apenas que está equivocada,
ou seja, que o Brasil não é uma monarquia. Por outro lado, essa frase
não é destituída de significado; o fato de que poderia ser utilizada para
dizer algo verdadeiro ou falso mostra que é dotada de significado. Uma
frase, como vimos, é um tipo, e esta mesma frase poderia ser utilizada
noutras circunstâncias para dizer coisas verdadeiras ou falsas. Mais uma
vez, se Russell não percebeu isso, foi porque não prestou atenção
suficiente nos diferentes contextos de uso de uma determinada frase ou
expressão.
Contudo, esta crítica de Strawson tem um ponto fraco. Strawson só
mostra que algumas vezes as pessoas hesitam em dizer que uma frase
é verdadeira ou falsa; mas daí não se segue que não é verdadeira nem
falsa. Além disso, Strawson é ambíguo em relação à sua tese. É difícil
saber se o que pretende sustentar é que as frases contendo descrições
vazias no lugar do sujeito gramatical não têm valor de verdade; ou se
pretende que essas frases têm um terceiro valor de verdade, a que
chama nem verdadeiro nem falso . Se optar pela primeira, então poderia
dizer que nesse caso a pessoa simplesmente não faz uma afirmação, e,
por isso, não pode dizer que o que disse é verdadeiro ou falso. Se optar
pela segunda, então terá de aceitar que, embora a pessoa tenha feito
uma afirmação, esta não é verdadeira nem falsa.
Ambigüidades à parte, não é óbvio que em casos onde uma
descrição vazia é usada, não dizemos algo verdadeiro ou falso.
Pensemos no seguinte exemplo:

2) O atual rei do Brasil é careca.

Segundo Strawson, 2, se proferida hoje, não é nem verdadeira nem


falsa. Segundo Russell, é falsa. Strawson pensa que os usos cotidianos
da linguagem favorecem a sua tese (afinal, ninguém diria que 2
expressa uma proposição verdadeira ou falsa). Mas agora considere-se o
seguinte:

3) É falso que o atual rei do Brasil é careca.

Strawson alegaria que 3 também não seria nem verdadeira nem falsa,
pois não existe atualmente um rei do Brasil — a descrição é vazia. Mas
o que dizer de 4?

4) Se não há qualquer rei do Brasil, então é falso que “o atual Rei do


Brasil é careca”.

Neste caso, as nossas intuições já não estão do lado de Strawson. É


legítimo supor que a maior parte das pessoas diriam que 4 é verdadeira.
Mas Strawson teria de admitir que não é verdadeira nem falsa, pois “o
atual rei do Brasil” é uma descrição vazia. Note-se que para que a teoria
das descrições esteja correta, basta que 4 seja verdadeira. Pois o que 4
mostra é justamente que o fato de não existir atualmente um rei do
Brasil é suficiente para tornar falsa a proposição expressa por “o atual
rei do Brasil é careca”. E isso é exatamente o que Russell queria.
Considere-se também o seguinte exemplo:

A minha namorada traiu-me com o atual rei do Brasil.

Intuitivamente esta frase é falsa, e é difícil supor que as pessoas diriam


que não é falsa. Mas novamente, Strawson teria de admitir que não é
verdadeira nem falsa. São possíveis muitos outros exemplos (ver
Kempson 1977: 139-158; Ludlow 2004; Neale 1990: 15-47), mas como o
próprio Strawson admite (1964: 313), isso pode apenas significar que há
exemplos que favorecem os dois lados. Deste modo, seria preferível que
fosse possível explicar por que hesitamos em dizer que 3 é falsa.
Russell poderia esboçar uma resposta aqui do seguinte modo: É
verdade que se alguém dissesse agora que o atual rei do Brasil é
careca, não diríamos que é falso. Mas quando uma pessoa afirma “o
atual rei do Brasil é careca” e nós replicamos que está enganada, que o
Brasil não é uma monarquia, o que estamos fazendo é justamente negar
a frase proferida. O que ocorre neste caso é aquela ambigüidade quanto
à negação referida anteriormente. (Vimos que a negação de 3 tanto
pode ser “é falso que existe um único rei do Brasil e ele é careca” como
“existe um único rei do Brasil e é falso que seja careca”.) Neste
exemplo, a negação seria verdadeira, pois a ocorrência da expressão “o
atual rei do Brasil” é secundária. Portanto, o que estaríamos dizendo de
fato é que “é falso que existe uma e somente uma entidade que é agora
rei do Brasil e é careca”. Se hesitamos em dizer que 3 é verdadeira ou
falsa é justamente porque essa ambigüidade não está clara na nossa
linguagem comum. Ao afirmarmos que 3 é falsa, o nosso interlocutor
poderia entender que estaríamos afirmando a existência de um atual rei
do Brasil que, no entanto, não é careca. Por outras palavras, as pessoas
poderiam ter a impressão que ao afirmar que “o atual rei do Brasil é
careca” é falsa, estaríamos afirmando que “o atual rei do Brasil não é
careca”. É justamente por haver essa ambigüidade na negação de 3 que
as pessoas hesitam. A teoria das descrições não só explica
perfeitamente essa hesitação como também justifica o fato de ser
natural que ocorra em alguns contextos.
No entanto, as críticas de Strawson não param aí.

c) Uma só entidade

Como vimos, Russell pensava que alguém que proferisse a frase “o


atual rei do Brasil é careca” estaria implicando logicamente que “existe
uma e somente uma entidade que é agora rei do Brasil”. Strawson
contestará tanto a cláusula da existência como a cláusula da unicidade.
Strawson argumenta que quem profere agora a frase “o atual rei do
Brasil é careca” não está afirmando a existência de um atual rei do
Brasil. Ao contrário, quem profere tal frase está pressupondo isso. Se eu
digo que o atual rei do Brasil é careca, é porque acredito que existe um
atual rei do Brasil, mas a existência não é afirmada na minha elocução.
Embora inicialmente essa objeção pareça plausível, dissolve-se mal
vemos que Russell não precisa alegar que quem profere “o atual rei do
Brasil é careca” está afirmando que exista um atual rei do Brasil. A
única coisa que Russell precisa alegar é que quem profere essa frase
implica logicamente a existência de um rei. Como Lycan (2000: 30)
observa, implicar não é o mesmo que afirmar. A frase “Toninho tem um
metro e setenta” implica que Toninho tem menos de trinta metros, mas
não afirma isso. Se Strawson pretende sustentar que implicar é o
mesmo que afirmar, então o ônus da prova é dele.
Além disso, há um certo mistério envolvido na noção de Strawson de
pressuposição. O que é uma pressuposição? Será um fenômeno
pragmático (ou seja, algo que as pessoas fazem)? Ou será um fenômeno
semântico (algo que as frases ou as expressões fazem)? Strawson
parece optar pelo segundo.18 A pressuposição seria uma relação lógica,
de modo que P pressupõe P' se, e só se, P' é uma precondição tanto
para verdade como para falsidade de P. Por exemplo, vimos que
Strawson pensava que se alguém proferisse 2 (“o atual rei do Brasil é
careca”) não estaria dizendo algo nem verdadeiro nem falso, porque a
descrição “o atual rei do Brasil” é vazia. Nesse caso, a existência de um
atual rei do Brasil é uma precondição tanto para a verdade como para a
falsidade de 2. Em casos onde o atual rei do Brasil não existe, 2 não é
nem verdadeira nem falsa. Isso leva de volta à discussão acerca do
valor de verdade; se as críticas de Strawson não funcionam quanto
aquele ponto, não funcionarão aqui também.
Outro ponto disputado por Strawson é a cláusula de unicidade. Essa
parece a crítica mais poderosa. Russell pensava que a presença do
artigo definido indica unicidade. Deste modo, quando dizemos que x é o
atual presidente do Brasil, não estamos dizendo apenas que x preside
atualmente ao Brasil, mas também que x é o único presidente do Brasil.
Strawson argumenta que há casos em que isto é manifestadamente
falso. Por exemplo, quando alguém diz:

6) A mesa está coberta de livros.

A expressão “a mesa” é, sem dúvida, uma descrição definida. Todavia,


é evidentemente falso que a expressão “a mesa” só tenha aplicação no
caso de existir uma e não mais que uma mesa no universo. O que é
indicado pela presença do artigo definido em questão é que há uma
mesa, e não mais que uma, que está sendo referida; e não que há uma
e apenas uma mesa em todo universo. A teoria das descrições parece
comprometer-nos com a alegação de que quem profere a frase acima
está implicando que há uma única mesa no universo, e isso é um
absurdo. E não é nem um pouco difícil pensar noutros exemplos onde
isso ocorra (“o gato está à janela”, “a panela está destapada”, etc.).
O problema aqui é o seguinte: A descrição definida “a mesa” parece
ter uma aplicação perfeitamente legítima nesse caso, mesmo que não
exista somente uma mesa no universo. Existem vários objetos que
satisfazem essa descrição, mas ainda assim em vários contextos
podemos usá-la para referir uma e somente uma coisa. Essas
descrições, que podem ser aplicadas com sucesso mesmo quando mais
de uma coisa as satisfaz, são denominadas descrições incompletas. Ao
problema envolvendo essas descrições chamarei problema das
descrições incompletas.
Em primeiro lugar, note-se que não é um problema que diga
respeito particularmente ao caso das descrições definidas. Ocorre para
praticamente qualquer quantificador19 (ver Neale 1990: 94-98 e
Soames: 2005: 394-396). Imagine o leitor que acaba de chegar de um
jantar e alguém lhe pergunta como foi; em resposta, você diz:

7) Estava todo o mundo doente.

Obviamente “todo o mundo” não quer dizer todas as pessoas do mundo;


quem afirma 7 nem tem a intenção de que assim fosse. Portanto, o
problema aparece aqui também.
É aqui que Strawson parece ter mais força; nesses casos, o contexto
parece desempenhar um papel importantíssimo. De algum modo, o
contexto parece permitir-nos restringir o domínio de quantificação. O
que garante que eu consiga referir uma e só uma mesa com 6 é um
fator contextual, e a teoria das descrições não abarcaria isso.
Num primeiro momento, alguém poderia pensar que o que ocorre
nestes casos é que todos envolvem situações onde podemos identificar
um determinado objeto e, por este motivo, as proposições aí expressas
são dependentes, e não independentes, de objetos.20 Assim, nesses
exemplos, as descrições definidas ocorrem na verdade como termos
singulares. Por exemplo, todos os contextos onde é natural proferir 6
são contextos em que há uma mesa diante de nós e que supomos que
nosso interlocutor será capaz de compreendê-la. A expressão “a mesa”
poderia, ou até deveria, ser substituída por “aquela mesa”. Uma vez
que os casos com os quais Russell está preocupado são aqueles em que
a frase contendo a descrição expressa uma proposição independente de
objetos (frases cuja compreensão do significado não envolvem a
identificação de um objeto), esses exemplos não seriam problemáticos
para ele. Mas infelizmente essa estratégia não funciona. Pensemos
noutro exemplo:

8) O assassino deve ser insano.

Imagine-se que alguém profere 8 ao ver um corpo de um bom rapaz que


foi violentamente assassinado. Ora, não há um assassino identificado
neste caso; ainda assim, é uma descrição incompleta. A expressão “o
assassino”, em 8, não indica que há um e só um assassino no universo.
E assim, o problema permanece.
Outra estratégia para escapar deste problema é a estratégia da
elipse. Essa estratégia alega que o contexto da elocução fornece o
material para completar a descrição incompleta, que abreviaria esse
material. Grice (1981: 277), por exemplo, argumenta que a descrição “a
mesa” em 6 poderia ser só uma abreviatura de “a mesa nesta sala”, e
esta última seria univocamente satisfeita (ou seja, só haveria um objeto
que a satisfizesse). No caso de 8, poderíamos supor que a descrição “O
assassino” abrevia a descrição “o assassino da pessoa tal e tal”, e assim
por diante.
Esta estratégia entra em alguns apuros no que diz respeito à forma
lógica. Se a descrição “a mesa”, em 6, abrevia uma descrição maior,
então a forma lógica da proposição expressa por ela não é “existe uma
e somente uma mesa que está cheia de livros” e sim “existe uma e
somente uma mesa, nesta sala, que está cheia de livros”. E o mesmo
ocorreria com 8. Assim, a análise russelliana será enormemente
relativizada a contextos, pois diferentes contextos podem fornecer
diferentes materiais para serem abreviados. A forma lógica de 6 e 8
dependeria desses contextos.
Outra estratégia ainda seria alegar que Russell realmente forneceu
a análise correta acerca do que é realmente dito com 6 e 8, mas que
essas frases podem gerar proposições pragmaticamente enriquecidas;
que seriam o que o falante realmente tencionaria comunicar. Essa é a
estratégia de Soames (2005: 377-399). Há muitos pontos a explicar
aqui, pois a estratégia dele é complicada. Grosso modo, é o seguinte. O
conteúdo semântico ou significado de 8 é realmente como se segue:

8') Existe um e só um assassino e ele é insano.

Mas esse conteúdo, combinado com um dado contexto de elocução, o


contexto já mencionado, pode gerar uma proposição totalmente
diferente que nem sequer implique 8'. Se supomos que estamos à
frente da vítima e em posição de identificá-la, essa proposição
pragmaticamente enriquecida pode ser:

8'') Existe um e só um assassino dessa pessoa e esse assassino é


insano [onde “dessa pessoa” se refere à vítima].

Uma vez que 8'' não implica 8', a segunda nem sequer foi afirmada em
qualquer sentido que seja.21 Na verdade, a combinação da elocução
com o contexto gerou uma proposição completamente diferente.
Esta solução é diferente da elipse porque não considera que a
descrição “o assassino” (em 8) abrevia uma descrição maior; considera
que a descrição “o assassino” nem sequer ocorre na proposição
pragmaticamente enriquecida. Não se dá o caso de a forma lógica de 8
ser diferente em cada contexto; ao contrário, a forma lógica é sempre a
mesma. A forma lógica de 8 é sempre 8', mas a proposição expressa em
8' não é a proposição expressa no contexto considerado. Contudo,
Soames não diz muito sobre como 8'' é um enriquecimento pragmático
de 8'. Uma vez que muito raramente usamos frases como “o assassino é
insano” para expressar uma proposição que contenha a forma lógica
russelliana, ainda fica a dúvida de saber como os outros usos podem ser
meros enriquecimentos de “existe um e somente um assassino”.
Seja como for, parece que num ponto Strawson tem razão: qualquer
que seja a saída para a sua objeção, terá de ser mais sensível aos
contextos de elocução do que Russell gostaria. Mas, novamente, esta
não é uma objeção exclusiva à teoria das descrições.

Donnellan

Vimos que Russell e Strawson discordam quanto ao que seria correto


sobre o valor de verdade de frases como “o atual rei do Brasil é careca”.
Enquanto para o primeiro essa frase expressa uma proposição falsa, o
segundo alega que não é falsa nem verdadeira. Mas Donnellan (1966,
1968), pelo menos num caso específico, discorda de ambos.
Donnellan pensa que nenhum dos dois foi capaz de perceber a
diferença entre o que denomina uso atributivo e uso referencial de uma
descrição definida. Donnellan alega que se existem dois usos distintos
de descrições definidas, pode ser que o valor de verdade seja diferente
em cada caso. No caso do uso referencial, uma frase contendo uma
descrição definida pode expressar uma proposição verdadeira mesmo
quando nada obedece à descrição. Vejamos exemplos de cada caso:

1. Uso atributivo: Suponhamos um caso em que uma pessoa chamada “João”


foi injustamente assassinada. Suponhamos também que costumava ser uma
pessoa boa e que aparentemente não tinha inimigos. Devido à maneira que
o crime foi cometido, alguém pode afirmar “o assassino de João é insano”.
Se a pessoa que profere essa frase não tem idéia de quem seja o assassino
e apenas acusa de insanidade quem quer que seja o autor do crime, então
está fazendo o uso atributivo de uma descrição definida. Neste contexto,
uma pessoa usa uma descrição definida atributivamente para declarar algo
sobre quem quer ou o que quer que satisfaça univocamente a descrição.
2. Uso referencial: Suponhamos que Pedro foi acusado de assassinar João e
esteja sentado na cadeira do réu num julgamento. Imaginemos também que
começou a exaltar-se e a comportar-se de maneira indevida. O promotor,
aproveitando-se da situação, diz que “o assassino de João é insano”. As
pessoas que assistem ao julgamento não teriam dificuldade de entender
que o promotor, ao dizer isso, referiu-se a Pedro. Este seria um exemplo de
uso referencial de uma descrição definida. Neste contexto, um falante usa
uma descrição definida referencialmente numa afirmação para a audiência
captar de quem ou de que coisa está falando, declarando então algo sobre a
pessoa ou coisa referida.

Donnellan pretendia mostrar que as conseqüências da descoberta de


que o João não foi afinal assassinado são diferentes em cada caso.
Suponhamos que o João faleceu por outro motivo qualquer e que tudo
não passou de um engano. Russell deveria dizer que no primeiro
exemplo (uso atributivo) a frase “o assassino de João é insano” expressa
uma proposição falsa — porque não há qualquer assassino. Strawson,
por sua vez, deveria dizer que não é falsa nem verdadeira, já que nada
obedece à descrição. Portanto, retornaríamos ao antigo ponto de
divergência.
Contudo, Donnellan argumenta que o segundo exemplo (uso
referencial) seria problemático para ambos filósofos. No segundo
exemplo, ainda que o Pedro não tenha assassinado o João, o promotor
estava falando dele, do seu comportamento. Poderíamos imaginar
perfeitamente que a platéia entendeu a quem o promotor se referia, ou
que o Pedro poderia acusar o promotor de dizer falsidades sobre ele. O
caso é que Donnellan argumenta que a frase proferida (ou a proposição
expressa) pelo promotor pode ser tanto verdadeira (no caso de o Pedro
ser realmente insano) como falsa (no caso de não ser). Por um lado, isso
seria problemático para Strawson, que deveria afirmar que não é
verdadeira nem falsa. Por outro, Russell deveria afirmar que nunca
poderia ser verdadeira, já que nada satisfaz a descrição “o assassino de
João”.
A importância disso é que, ao contrário do que Russell e Strawson
pensaram, Donnellan considera que no uso referencial essa frase
poderia expressar uma proposição verdadeira, mesmo que nada
satisfizesse univocamente a descrição usada. E a moral da história é
que existem dois usos das descrições e não um. A teoria das descrições
não reconhece essa ambigüidade, e conduz a suposições falsas acerca
do valor de verdade das proposições contendo descrições usadas
referencialmente.
Donnellan cita outros exemplos. Imagine-se que você está numa
festa e, ao ver um homem com uma taça com um líquido transparente,
diz ao seu amigo:

1) O homem bebendo Martini é muito elegante.

Agora imagine-se que este homem não estava bebendo Martini; que o
líquido na sua taça era água mineral, embora você não o soubesse.
Teria isso tornado 1 falsa? Parece que não. O seu amigo seria
perfeitamente capaz de entender de quem você estava falando, mesmo
que a pessoa referida não se encaixasse na descrição “o homem
bebendo Martini”. E se esse homem realmente fosse elegante, então 1
seria verdadeira. E assim por diante.
Evans (1982: 52) esboça uma resposta não muito satisfatória a essa
objeção. Alega que as objeções de Donnellan não são relevantes para a
teoria das descrições. Considera que Russell estava preocupado com o
que Evans denomina usos puros de descrições definidas, onde não se
põe a questão de invocar conhecimento identificativo. Se prestarmos
atenção aos exemplos de usos referenciais de descrições mencionados
acima, vemos que envolvem situações onde o ouvinte pode identificar a
pessoa ou coisa referida (na verdade, os ouvintes podem mesmo ver ou
apontar para a coisa referida). A teoria das descrições ocupa-se
principalmente de casos onde este tipo de conhecimento identificativo
não existe.
Devitt (1981: 36-42), embora tenha objetivos bem diferentes de
Evans, também aceita que os casos de usos referenciais envolvem um
tipo especial de relação com o objeto referido. Alega que, em todos
esses casos, temos uma conexão causal com o objeto referido. Essa
conexão causal só ocorre quando temos alguma experiência do objeto.
Nesse caso, o promotor usou a descrição “o assassino de João”
referencialmente, pois estava em condições de ver o objeto ao qual se
referiu (podia ver o Pedro).
O problema destes pontos de vista é que Donnellan poderia
perfeitamente recorrer a exemplos onde este tipo de conhecimento
identificativo, ou experiência do objeto, não existe. Imagine-se que o
seu país é uma monarquia e que todos sabem (embora tenham medo
de dizer) que o rei foi enganado por um usurpador, que finge ser o rei
enquanto mantêm o verdadeiro rei sob prisão. Como você é uma pessoa
da classe mais abastada, foi convidado (pelo usurpador) para uma festa
no castelo. Ao chegar lá, encontra dois guardas em frente ao portão
principal e diz-lhes o seguinte:

2) O rei convidou-me.

Ora, podemos perfeitamente supor que os guardas entendem que você


está falando do usurpador, mesmo que não obedeça à descrição “o rei”.
E, neste caso, 2 parece verdadeira, ainda que seja o usurpador que o
tenha convidado. Mas aqui não estamos em posição de apontar ou ter
qualquer conhecimento identificativo do usurpador. Podemos imaginar
também que nem você nem os guardas o tenham visto alguma vez, ou
tido qualquer experiência desse tipo.22
Entretanto, embora estes exemplos levantem uma dificuldade à
teoria das descrições, talvez seja um exagero supor que a explicação
correta do que ocorre é haver uma ambigüidade no uso de descrições.23
Kripke (1977), com base numa distinção feita por Grice (1975)
argumentou nessa direção. Comecemos pela distinção de Grice. Pense-
se na seguinte frase:

3) Paula é uma linda garota.

3 parece significar nada mais nada menos que Paula é uma linda
garota. É isto que é literalmente dito pela frase. Mas agora suponha-se
que alguém profere 3 com um tom de voz inequivocamente sarcástico
ou irônico. Ainda diríamos que esse é o significado de 3? Nesse
contexto, 3 parece implicar justamente o contrário, que Paula não é
uma linda garota, ou até mesmo que é uma garota muito feia.
É aqui que entra a distinção de Grice. Se não conhecêssemos o
contexto particular onde 3 foi proferida, não teríamos pudor em dizer
que significa literalmente que Paula é uma linda garota. Mas não foi isso
que a pessoa do exemplo quis dizer ao proferi-la; esta não tinha a
intenção de comunicar o significado literal da frase. Grice expressou isso
dizendo que nesses casos o significado literal é diferente do significado
do locutor (ou significado de quem fala). Chama-se significado literal ao
conteúdo literal ou semântico da frase. Ou seja, aquilo que a frase
significa por si. E chama-se significado do locutor ou do falante ao que o
falante tenciona dizer com a frase.
Note-se que esta diferença acontece devido a aspectos pragmáticos,
que dizem respeito aos contextos de elocução e ao modo como as
elocuções são feitas. No primeiro exemplo, a pessoa poderia ter
proferido 3 com um tom de voz irônico ou mesmo ter feito uma careta. É
isso que lhe permite comunicar, proferindo 3, algo diferente do seu
significado literal. Obviamente, aceitar que esse tipo de fenômeno
ocorre não implica que a nossa análise do significado literal, ou
conteúdo semântico, de 3 esteja equivocada.
Kripke considera que algo de muito semelhante ocorre com os
exemplos de usos referenciais de descrições. Donnellan não teria
percebido que a mesma diferenciação pode ser feita no que diz respeito
à referência de uma descrição. Assim, Kripke distingue entre referência
semântica e referência de quem fala. A referência semântica de uma
descrição é o objeto (se existir) que univocamente a satisfaz. A
referência de quem fala é o objeto que o falante deseja referir, o objeto
para o qual tenciona chamar a atenção dos interlocutores.24
Voltemos ao exemplo de uso referencial de uma descrição. No
exemplo do tribunal, onde o promotor diz “O assassino do João é
insano”, a referência semântica de “o assassino do João” é quem quer
que seja aquela única pessoa que satisfaz essa descrição, e neste ponto
Russell tinha razão. Mas, por outro lado, o promotor tinha a intenção de
referir o Pedro e, por isso, a referência de quem fala era o Pedro.
Por uma razão ou outra, podemos ser bem-sucedidos ao fazer os
nossos ouvintes conhecer as nossas intenções, de modo que possam
saber a quem temos a intenção de referir ou de quem queremos falar.
Porém, parece que mais uma vez serão fatores contextuais que o
determinarão. No exemplo do tribunal, como Evans mencionou,
podemos supor que os ouvintes podem identificar o Pedro e entender
que o promotor fala dele. No exemplo do rei, poderíamos supor que os
guardas sabiam que era mais apropriado dizer “o rei” do que “o
usurpador”, para evitar sofrer retaliações. Seja como for, o uso
referencial de uma descrição parece ser mais um fenômeno pragmático
do que semântico, em nada mudando a análise de Russell.
Deste modo, quando o promotor disse que “o assassino do João é
insano”, o que literalmente disse foi que “existe uma e só uma pessoa
que matou o João e ela é insana”. Se o João não foi assassinado, então o
que o promotor disse é literalmente falso. Contudo, esta não era a
intenção do promotor; o que ele queria dizer era que o Pedro é insano.
Por fatores deste gênero, os ouvintes poderiam perfeitamente entender
o que o promotor queria dizer, mas isso em nada muda a análise do
significado literal ou semântico de “o assassino do João é insano”. Há
apenas uma análise semântica correta das descrições, e essa seria a de
Russell. Não há aí ambigüidades. Há muito a ser explicado, temos de
explicar como os interlocutores podem conhecer as nossas intenções,
como o contexto o permite fazer, etc. Mas esse é o papel da
pragmática.25
Espero ter conseguido oferecer uma introdução acessível e
relevante ao problema das descrições definidas. Mas devo notar que
muitos pontos não foram apresentados. As descrições definidas podem
ser usadas para explicar o significado ou a referência dos nomes
próprios, mas não o mencionei nem expliquei como isso se faz, pois
trata-se de um debate autônomo. Também não mencionei os debates
sobre a ficção, que envolve descrições como “o detective mais famoso
de Baker Street”, que é uma personagem de ficção. O problema das
descrições é hoje central em filosofia da linguagem, extravasando para
outras áreas; é utilizada, por exemplo, nas discussões ontológicas sobre
o que há (Quine: 1953) e nas discussões em filosofia da arte sobre a
razão pela qual nos emocionamos com obras de ficção (Chisholm:
1972).26

Sagid Salles Ferreira

Notas
1. Russell refere-se aqui sem dúvida a Meinong (1904), cuja tese veremos na
Parte II.
2. Note-se que “algum” quer dizer “pelo menos um”; assim, “algum x é
mortal” é equivalente a “existe pelo menos um x que é mortal”. Não há
problema se existir apenas um, ou mais do que um.
3. O que é o mesmo que dizer que qualquer substituição de x resultará numa
proposição verdadeira.
4. Que é o mesmo que dizer que pelo menos uma substituição de x resultará
numa proposição verdadeira. Quem ler o “On Denoting” encontrará uma
notação muito mais complicada, porque Russell (por motivos que não nos
dizem respeito aqui — mas ver Hylton 2003) define a noção de “sempre
verdadeira” ou “verdadeiro para qualquer valor de x” como fundamental e
indefinível e, em seguida, define as outras com base nela.
5. Em Haack (1978: 71-90), Blackburn (1984: 303-306) e Inwagen (2000)
encontra-se explicações bem claras e completas dos quantificadores.
6. Embora a teoria da referência direta envolva, à primeira vista, os problemas
mencionados em seguida, há muitas tentativas de torná-la imune. A teoria
da referência direta não precisa sustentar que todos os termos que estou
chamando aqui de termos singulares funcionam da mesma maneira. Pode-se
argumentar, e de fato é isso que é feito hoje, que embora descrições
definidas não sejam diretamente referenciais, os nomes próprios e
demonstrativos são. Ver, por exemplo, Nathan Salmon (1998) e David Braun
(1993).
7. Na verdade, existem quatro, e não três, enigmas a que hoje se supõe ser
possível responder recorrendo à teoria de Russell das descrições. Mas
Russell, em “On Denoting”, preocupou-se apenas com três. Não trabalharei
aqui esse outro enigma, conhecido como “quebra-cabeças de Frege”,
apresentando por Frege em seu “Über Sinn und Bedeutung” (1892).
8. Russell, Bertrand (1905) “On Denoting”. In Analytic Philosophy: An
Anthology. Edited by Martinich, A. P. and Sosa, David. University of Texas at
Austin: Blackwell. 2006. PP. 35 (tradução minha).
9. É comum interpretar a tese de Meinong erroneamente. Lycan (2000: 19)
interpreta Meinong como se afirmasse que existem coisas que não existem.
Isso é um erro; como vimos, o que Meinong alega é que tanto o que existe
como o que não existe possuem sosein, ou seja, podem possuir
propriedades. Na verdade, parece que o próprio Russell o interpretou
erroneamente. Uma boa defesa e exposição da tese meinongiana
encontram-se em Chisholm (1972).
10. Na verdade, é possível expor a teoria das descrições sem falar de
proposições dependentes e independentes. Contudo, isso implicaria ocultar
muito do que Russell pensou sobre a relação entre a linguagem, o
pensamento e o mundo. Em qualquer caso, esta não é a razão principal pela
qual decidi expor as coisas deste modo. Algumas discussões irão depender
em alguma medida do que será dito aqui. A mesma estratégia que adoto
aqui foi adotada por Stephen Neale (1990) e por Blackburn (1984). O
segundo desenvolve uma ampla discussão sobre proposições dependentes e
independentes.
11. Para críticas à noção russelliana de que uma proposição pode conter objetos
como constituintes ver Plantinga (1983) e M. Davidson (2007). A melhor
exposição que conheço da tese de Russell está em Wettstein (2004).
Wettstein não trata especificamente a tese de Russell das proposições, mas
desenvolve muitos pontos importantes acerca do modo como Russell viu a
relação entre linguagem e mundo.
12. É importante frisar o “podem”, pois, como menciono no parágrafo seguinte,
também é possível que uma frase contendo um quantificador expresse uma
proposição dependente de objetos. Encontrar condições necessárias e
suficientes que uma proposição deve satisfazer para depender ou não de
objetos pode ser mais difícil do que parece. Até agora, notei apenas que a
compreensão de uma proposição dependente de objetos exige a
identificação de um objeto, enquanto a compreensão de uma proposição
independente não o exige. Ou ainda, saber que verdade particular é
expressa por uma proposição dependente de objetos requer a identificação
de um objeto. Por exemplo, para saber que verdade particular “esta menina
é uma beleza” expressa, tenho de conhecer a referência de “esta menina”.
Mas outras coisas poderiam ser ditas. Não me arriscarei indo muito além.
Para os nossos propósitos, isto é suficiente.
13. Numa apresentação deste texto no Grupo de Estudos em Filosofia Analítica
da UFOP pude notar, pelas perguntas que me foram feitas, que o modo
como Lycan (2000: 25) e Salmon (1998: 876) expõem essa distinção pode
gerar confusão. Pode parecer (embora essa não seja a intenção desses
autores) que a distinção entre ocorrência primária e secundária é uma
distinção que apenas se aplica ao âmbito da negação (discuto isso depois),
mas isto é falso. O primeiro exemplo de Russell para explicar essa distinção
é de duas frases que não contêm o operador de negação. Ver Russell (1905:
37). Ver também Donnellan (1966).
14. Alguém poderia perguntar por que não interpretar essa frase de modo que a
ocorrência da descrição fosse primária e não secundária. Contudo, em
ambas as interpretações a descrição “o atual presidente do Brasil”
desaparece após análise. Assim, em nenhuma das interpretações o enigma
apareceria. Mas há outros problemas relacionados com essa interpretação
alternativa; ver Blackburn (1972).
15. Contudo, Russell enfrenta aqui um problema curioso. Uma vez que, devido a
problemas que não tratarei aqui, Russell acaba por considerar que os nomes
próprios são, na maior parte das vezes, equivalentes a descrições, o
problema da substituibilidade volta com toda força. Imaginemos que o nome
“Lula” é equivalente à descrição “o atual presidente do Brasil”. Se isso for
assim, então poderemos substituir “Lula” em 2 por “o atual presidente do
Brasil”, e assim, provar que “João desejava saber se o atual presidente do
Brasil era o atual presidente do Brasil”. É claro que não é isso que João
desejava saber. Mas essa é outra história, e não é meu objetivo tratar aqui
da tese de Russell acerca dos nomes.
16. Claro que “Brasil” é um termo singular, e a frase expressa uma proposição
dependente de objetos com respeito ao Brasil, mas não com respeito ao
homem que atualmente reina no Brasil. E isso é o que nos interessa aqui.
Não precisamos conhecer ou identificar qualquer rei para compreender a
frase.
17. Sobre isso ver Grayling (1982: 109).
18. Alguns autores sugerem que Strawson tinha em mente uma noção
semântica de pressuposição. Ver, por exemplo, Haack (1978: 106) e Neale
(1990: 54). Haack cita Strawson (1964) como indício; porém, não consigo
ver tal indício no texto de Strawson. Dummett (1960) tem também uma
interessante discussão sobre o tema.
19. Mas, é claro, é bem provável que Strawson ficasse feliz com isso, e isso de
modo algum transforma o problema num pseudoproblema ou algo do tipo.
20. Donnellan (1968: 204) pensou algo bem próximo disso. Segundo ele, o
problema das descrições incompletas só ocorria para o que denominou
“usos referenciais de descrições”. Veremos o que Donnellan queria dizer por
“usos referenciais de uma descrição” na próxima secção.
21. Se não ficou claro por que 8'' não implica 8', note-se que de “existe um e só
um assassino dessa pessoa” não se segue que “existe um e só um assassino
em todo universo”.
22. Para outro exemplo desse tipo ver Searle (1979: 216).
23. Note-se que ocorrem casos semelhantes com os nomes próprios, e nem por
isso postulamos dois usos dos nomes. Suponha-se que vejo alguém à
distância e penso que é Jorge e digo “Jorge está vindo”. Mas na verdade
acabo descobrindo que era Marcos, e não Jorge, que estava vindo em minha
direção. Parece que eu disse algo verdadeiro acerca de Marcos, mesmo que
tenha usado o nome “Jorge”. O exemplo é de Kripke (1977: 395).
24. Kripke (1977: 399) define a referência de quem fala como o objeto que
quem fala deseja referir e que essa pessoa pensa preencher as condições
para ser o referente semântico. A parte em itálico gera um problema. Não é
necessário que quem fala acredite que o objeto satisfaz as condições do
referente semântico. Por exemplo: podemos imaginar que o promotor nem
acreditava que o Pedro era o assassino do João (e, portanto, o referente
semântico de “o assassino do João”), tendo usado “o assassino do João”
como um mero artifício retórico.
25. Para mais discussões sobre usos referenciais de descrições, ver Lycan
(2000: 32-37), Searle (1979: 213-250), MacKay (1968), Soames (1994: 360-
376) e (2005: 392-394) e Loar (1976: 496-516). Soames, como era de
esperar, apresenta a mesma solução que apresentou para descrições
incompletas, defendendo que no uso referencial o que temos é o gerar de
uma proposição pragmaticamente enriquecida.
26. Gostaria de agradecer a algumas pessoas. Ao professor Sérgio Miranda, por
intermináveis discussões em filosofia da linguagem e por ler uma primeira
versão desse trabalho e criticá-lo completamente. A todos os integrantes do
Grupo de Estudos em Filosofia Analítica da UFOP (GEFA) por discutirem
várias vezes as minhas interpretações e cada argumento apresentado aqui.
Ao professor Desidério Murcho por me dar a oportunidade de terminar esse
trabalho, e ler, corrigir e fazer mais críticas. À Paula Akemy que sempre tem
a paciência de ler e criticar tudo que escrevo.
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