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GARVIN , Paul. Linguagem Humana e outras Manifestações de linguagem. 1974.

This paper represents introductory class material on linguistics.

Linguagem humana e outras manifestações de linguagem


Paul Garvin

O tenno linguagem é usado em sentido muito amplo, tanto na conversação di~a quanto na
terminologia de muitas ciências. Assim, ouvimos as. pessoas falarem da '1inguagem do
amor''. os biólogos da '1inguagem das abelhas", os cibemeticistas _da ''linguagem _dos
computadores", os matemáticos referirem-se à matemática como uma linguagem. os lógicos
mencionarem a "linguagem do cálculo proposicional" e lWÍnl por diante.
Todos cssc:s empregos do termo ''linguagem., são basta.nte conhecidos e não · ~
maiores dificuldades aos que nasceram oos países onde se fula a maioria das lingua.s
européias. É evidente, por outro lado, para muitos de nós, que tais usos do tcrmO
"linguagem" referem-se a um tipo de fenômenos diferente d_a.qud~ em que -~~os quan<;to
falamos de línguas como o inglês e o francês, ou mesmo o troques e o suaili. Alem ~o ma.is,
quem quer que já tenha lidado com a lingüística sabe que é de lingu~ como o mglês, o
francês, o iroquês ou o suaili que os lingüistas se ocupam, e não com linguagens de outra
espécie. Qual, ent!o, a diferença crni:e ~ dois tipos de linguagem e como estabelccct
limites mais preciosos à linguagem do lingilista?
Línguas como o inglês, o francês, o iroquês ou o suaili têm pelo menos dois aoibutos que
faltam às demais linguagens. Um, é o fato de serem linguagens humanas; o outro, é serem
linguagens naturais.
A expressão "linguagem humana" fà1a por sj mesma. Através do seu emprego pode-se
diferenciar todas as numerosas línguas faladas pelos povos do globo dos modos de
comwúca.ção usados pelas espécies - não humanas. É possível, assim, diferenciar a·
linguagem do homeru não apenas da linguagem ·das abelhas, mencionada acima, mas
também de todas as formas de comunicação _ por vezes altamente complexas _ utilizadas
pelas demais espécies animais. Embora esta distinção pareça inteiramente óbvia. ioda wna
série de problemas interessantes vêm à' tona no momento em que nos pomos a indagar qual a
exata natureza das diferenças entre a linguagem humana e a comunicação animal. Tais
problemas têm despertado interesse nao apenas entre os lingl.listas, mas também entre
psicólogos, antropólogos, biólogos e esrudiosos de outras disciplinas. Todos os
observadores parecem concordar que a diferença fundarr.-~tal entre os dois tipos de
comunicação encontra sua expressão característica na complexidade da linguagem humana,
largamente maior do que a de qualquer forma de comun.icaçio animal. As diferenças de
opinião .a istentes referem-se. ao problema de saber se as diferenças entre a língilag~
humana e a comunicação animal s!o diferenç.as de grau ou de essência. A questAo
reiaciona-se à maneira como é concebida a evolução do homem dentro do reino animal.
Qual a relação entre a origem da linguagem hwnana e a transição do animal _ isto e, o(s)
nosso(s) ancestral(is) subumano(s) _ao homem?
Aqui, também, é extensa a área da concordância: a maioria dos estudiosos aceita a
concc~ão de que a linguagem, em sentido humano, é um dos atributos es sencialmente
caractcristicos do homem e que, por conseguinte, a origem do homem como espécie acha-se
estreitamente ligada à origem da linguagem. ~ discrepâncias cxisteP. tes dizem respeito à
natureza da transição da linguagem animal à linguagem humana. A maioria dos lingüistas,
juntamente com um grande número de antropólogos, pensa que essa tr2.0Sição se deu de
maneira abrupta. Em outras áreas científicas as opiniões se dividem de maneira mais
equilibrnda entre a transição abrupta e a gradual.

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Um dos caminhos seguidos na procura de respostas ao problema da natureza da diferença
entre a linguagem humana e a comunicação animal, é a série de tentativas de ensinar aos
macacos mais evoluídos, cspcciatmente·os chimpanzés, alguma forma de fala humana. Essas
tentativas foram realizadas de início por psicólogos interessados no comportamento animal e
com ele familiarizados. A3 primeiras experiências consistiram na tentativa de ensinar ao
chimpanzé wna expressão autenticamente vocálica. O fracasso de tais experimentos deve-se
principalmente ao fato de não existirem, naquela pane da anatomia do maça.co que
corresponde ao aparelho vocal do homem, as estruturas ncccssárias a produção de soa.5
semelhantes aos da fala humana. Mais recentemente, procurou-se contornar essa dificuldade
arravés da tentativa de ensinar ao chimpanzé uma forma de comunicação que, embora
asscmcllwldo-sc: estruturalmente à fala humana, n!o exija meios vocais de expressão. Dois
modos de comunicação foram considerados em tais experiêoci.as . No primeiro e.aso,
ensinou-se o chimpanzé a comunicar-se através de . g~~~; no segundo, a estabdoccr a
comuniCAÇio por meio de símbolos vi.suais, confcccíorur.dos em material plástico montado
sobre pequenas peças de metal, as quaiS. deviam ser movimentadas em uma supcrficie
magnetizada Em ambos os casos, o chimpanzé cm questão foi capaz de comunicar-se~
wn ruvcJ razoavelmente complexo; ainda U!im, a maioria dos lingüistas conhecedores da
experiência uniram-se na afirmação de q~e tal modo de comUPJcação, apesar de bem
sucedido, está muito longe de ser uma autêntica forma de linguagem humana. Outro aspecto
do problema assina.lado pelos lingüistas: por mais complexo que seja o sistema de
comwúcaç.ão aprendido pele chimpanzé, este processo de aprcnd..i.z.agem foi iniciado por um
pesquisador humano~ noutras palavras, o.Ao se trata de uma forma de com1.m.icaç!o surgida
espontaneamente no seio daquela espécie animal, rrw lá introduzida e por mediaçio do
homem.
Tanto na perspectiva da evoluç4o quando esse tipo de experiência com animais contribuíram
para que se · pusesse em destaque dois problemas básicos, que há algwn. tempo vêm
interessando os profissionais da lingüística. O primeiro, rcfere-se àquilo que poderiamas
chamar os pré-requisitos biológicos da fala hwnana. Grosso modo, deve-se levar em conta,
neste caso, dois sistemas do organismo humano. Um deles é o sistema respiratório,
especialmente a sua parte superior, onde se acha o que a rn.-.ioi:la dos lingüistas costuma
chamar de região vocal. ou articuJatória. na qual se produz a fala. O outro, claro, é o sistema
nervoso, particularmente o cérebro. A região articulatória diz respeito à capacidade hwnaJlA
de vocalizaç.ão; o cérebro relaciona-se à capacidade do homem para manejar um complexo
sistema de comunicação. A região vocal se caractcrizA pelos seguintes elementos: um par
de cordas vocais, altamente flexíveis, localizadas na garganta ~ duas cavidades ressonantes e
interconoctadas, o nariz e a boca (eh.amadas, respectiva.mente, cavidades nasal e oral); WJ'I..!
língua de grande flexibilidade, a quaJ. movendo-se, juntamente com o maxilar inferior,
modifica a forma da cavidade' oral, possuindo, além disso, capacidade para fechá-la..
completamente; um par de lábios que completam o encerramento da boca, evitando a
existência de qualquer abertura, mesmo no caso em que os dentes apres~ntcm uma
proeminência exagerada. O cérebro humano caracteriza-se por ser muito maior e muito n1ai5
complexo do que os dos animais, especialmente no que tange aos cham~dos hemi sferios,
que além de volumosos são organizados de maneira fortemente convoluta, de ond<! a sua
aparência tipicamente rugosa; graças s essa forma c.onvoluta, a superíicíe do cérebro
humano toma-se muitas vezes mais ampla do que a dos anímai5 subumanos NCS!l
amplitude superficial parece encontrar-se o pré-requisito anatômico para o funcionamento
dos chamados processos mentais superiores do homem, entre os quais costuma-~ incluir a
linguagem.
O segundo problema suscitado é o da caracterização da linguagem hwnana como um.a forma
de comwúcação; trata-se de uma questão básica para a compreensAo & linguagem humana
do ponto de vistA lingüístico e respondida de difeTentes formas pelos seguido res da;) diverSAS
teorias da linguagem.
Até agora tratamos da noção de ·11nguagem humana... O que d.i.z.er sobre a noçAo de
..linguagem naturaJ"?
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Esta última expressão é menos comwnentc empregada e compreen&da do que a primeira.
Enquanto a noção de linguagem huma.oa quue sempre aparece por oposição à linguagem
animal, a de linguagem.natural surge como o contrário da noçio de linguagem artificial. A
entrada em uso da expresslo '1inguagem natura.I" dev~se. pois, ao interesse de cenos
setores, COIJ?O a lógica e a ciência dos computadores, pela linguagem de modo geraJ e
especificamente pelas linguagens artificia.is. Todavia. estas nio s!o as únicas áreas onde &3
linguagens anificiais entram cm uso.
Como as próprias expressões o dizem, linguagem natural é aquela que surgiu
"naturalmente" no decorrer da história hunwla, ao passo que a linguagem anificial é aquela
criada "artificialmente", isto é, uma linguagem deliberadamente projetada para um certo fim.
No caso da lógica, as linguagens artificia.is vêm sendo criadas para permitir o manejo dos
conceitos lógicos e a realização das opcraçôcs lógicas. Na computação o papel d!.s
linguagens artificiais é facilitar o processamento dos dados pcJo computador . Em outros
campos da ciência e da tecnologia, tais liflBuagens são usadas com objetivos semelhantes:
isto é, para o registro e a manipulação de da.dos. Pode-se dizer que as linguagens lógicas,
as linguagens dll computação e as linguagens artificiais usadas por outras ciências cabem
numa única categoria, a das linguagens cientificas. Um tipo completamente diverso de
linguagem artificial são as chamadas línguas auxiliares internacionais. O objetivo de Slla
criação foi facilitar a comunicação verbal de natureza comum entre indivíduos de línguas
diversas, na esperança de contribuir assim para melhorar o entendimento e promover as
relações entre os povos. O esperanto é a mais conhecida dessas línguas auxiliares
internacionais.
Qua.js, então, as diferenças mais significativas entre wm. língua natural e wna artificial?
A criação das linguagens artificiais dos dois tipos mencionados _ isto é , cienúficas e
auxiliares internacionais se tem devido ªº·desejo de eliminar o que se considera os defeitos
básicos das línguas naturais. Grosso modo, tais defeitos resumem-se a uma objeção
fundamental: as linguagens naturais não são muito reguJares. _Suas irregularidades podem
dividir-se cm duas grandes categorias: formais e semânúcas. fü irregularidades formais
compreendem., basjcamcnte, aqueles casos cm que uma determinada fonna gramatjcaJ se
apresenta de maneira diversa da que se espera. Deparamo-nos freqüentemente com elas no
estudo das línguas: quem não se recorda das inúmeras dificuldades criadas pelos verbos
irregulares quando estudava francês ou italiano? As irreguWidades semânticas relacionam-
se aos significados das palavras usadas por wna língua. Três tipos básicos de irregularidades
semânticas são apontados com frcqüêo~ a ambigüidadc, a sinooim.ia e a homonímia. /\
ambigüidade caracteriza a situação na qual uma determinada palavra ostenta mais de um
sigrúfir.ado, sem que se saiba clararocntc a qual deles se aplica. A situação da sinonímia é.
aquela cm que várias paJavra.s possuem significados mu.ito próximos entre: si, sem que fique
claro, sempre, em que medida tais significa.dos diferem uns dos outros. A homoní.mia é
aquele .caso no qual várias palavras de significados diferentes apreSe!ltarn·se com a mesma
forma gráfica ou fonética. Não há dúvída de que e.ada um desses tipos de irregularidades
semântica vade interferir na inteligibilidade das mensagcru produzidas em uma determinada
língua.
Os objetivos das línguas auxiliares internacionais são semelhantes aos das línguas naturais:
daí porque o seu traçado arquitetônico se assemelha mais ao~ línguas naturais do que se
verifica no tocante ao das linguagens cientificas. A diferença fundamental entre wna lingua
natural e uma língua auxiliar internacional está no fato de que, pelo menos cm princípio, esta
última foi libertada de todas as irregularidades. Em alguma3, tentou-se eliminar tamb6n as
irregularidades semânticas, mas o resultado não foi satisfatório. De um modo geral, pode--
se dizer, portanto, que as línguas auxiliares internacionais sAc urna espécie de versão regular
das línguas narurais.

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Não é este porém. o caso das linguagens cientificas. O seu propósito fwldMnental é
elaborar para os fuu científicos atrás mencionados, uma notaç.à.o inteiramente regular e
desprovida de ambigilidade. Daí porque elas n!o põem a tônica apenas nas regularidades
formais, mas também nas de natureza semântica; os fuu específicos a que se destinam faz
com que a estrutura de tais linguagens, cm muitos casos, se diferencie largamente da
estrutura das línguas naturais.
No pcriodo entre as duas guerras mWldiais, as línguas auxiliares i.nterna.cionais alcançaram
grande popularidade; já hoje, quando falam de linguAgens artificiais, os que os lingüims e
estudiosos de disc:ipl.ina aparenta.das têm em mente ,quase sempre, são as linguagens
cientificas.