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ESTADO DE SANTA CATARINA

PODER JUDICIÁRIO
COMARCA DE ITAJAÍ
2ª VARA CÍVEL
Gabinete do Juiz GILBERTO GOMES DE OLIVEIRA
1
Autos n° 033.05.000424-0 e 033.05.000424-0
Ação: Cominatória/ Ordinário e Cominatória/Ordinário
Requerente: Conselho Brasileiro de Oftalmologia CBO e outro
Requerido: Colégio Nacional de Óptica e Optometria- Policursos Educação Básica e
Profissional Ltda

I - RELATÓRIO:

Referente à cautelar inominada:

Conselho Brasileiro de Oftalmologia - CBO e Sociedade


Catarinense de Oftalmologia - SCO, qualificadas nos autos, ingressaram com o
presente processo contra Colégio Nacional de Óptica e Optometria- Policursos
Educação Básica e Profissional Ltda, igualmente identificada, alegando, em síntese,
que a demandada exerce a medicina de maneira ilegal ao prescrever, indicar e
aconselhar o uso de lentes de grau, incumbência essa de médicos com
especialidade em oftalmologia, atividades essas geradoras de "perigo à saúde
pública".
Discorreu sobre a formação do médico e exclusividade
no tratamento de práticas concernentes à prevenção de saúde (art. 5º, XIII, da CF).
Nominou e descreveu os equipamentos de uso oftalmológico utilizados pela
demandada e apontou condutas ilegais perpetradas pelos optômetros, de encontro
às prescrições dos arts. 10, 38 e 39 do Dec. nº 20.931/32, 1º e 6º, § 5º, 7, 14 e 15
do Dec. 24.492/34 e 8º, 61 e 68 do Código de Defesa do Consumidor.
Explicou o alcance da Portaria nº 2.948/03, do MEC, e a
necessidade de concessão de liminar para inventariar, lacrar e apreender "os
equipamentos médicos oftalmológicos a serem encontrados na sede do
demandado", bem como "as fichas de atendimento de pacientes, receituários,
prontuários e demais documentos relacionados aos pacientes", uma vez presentes
o fumus boni juris e o periculum in mora.
Requereu a concessão da medida de urgência e a
procedência do pedido para tornar definitiva a tutela cautelar. Pugnou a produção
de provas e juntou com a inicial os documentos de fls. 27/412.
Deferida a liminar (fls. 415/417), a medida deixou de ser
cumprida (fl. 559). A demandada apresentou-se espontaneamente ao feito e
postulou reconsideração da decisão (fls. 423/439), indeferido nos termos do ato de
fls. 452/453. Em seguida, a parte em comento ofertou contestação (fls. 455/491) e
argüiu, em preliminar, ilegitimidade ad causam.
No mérito, apontou as distinções existentes entre as
profissões de optometrista e oftalmologista, narrou a legalidade do curso "Técnico
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em Optometria" em Itajaí, amparado em autorização do Conselho Estadual de
Educação e Classificação Brasileira de Ocupações, bem como refutou os
argumentos de que são exclusivos de médicos os equipamentos apreendidos.
Indicou normas legais regulamentando o exercício da
optometria, inclusive as não recepcionadas pela carta política e revogadas pelo
Dec. 77.052/76. Refutou a tese de exercício ilegal da medicina e teceu comentários
sobre profissão em outros estados da federação e autorização do curso.
Requereu o indeferimento da inicial, a extinção do
processo pela ilegitimidade das demandantes e a improcedência do pedido.
Anexou documentos (fls. 492/504 e 588/589) e cópia do
recurso de agravo de instrumento (fls. 507/546), cujo efeito suspensivo almejado
fora negado pelo TJSC, em decisão da lavra do Des. Jaime Vicari (fls. 552/554).
Impugnação à contestação (fls. 561/584) e novo pedido
de reconsideração da decisão liminar exarada às fls. 415/417.
Concernente à ação principal:
As demandantes roboraram os termos expostos na inicial
da cautelar e requereu a procedência do pedido para determinar "que o demandado
se abstenha da prática de adaptar lentes de contato e realizar exames de refração
ou testes de visão, bem como para que não voltem a utilizar os equipamentos" de
uso médico, sob pena de multa. Juntou documentos (fls. 17/83).
Devidamente citada (fl. 90), a demandada ofertou
contestação (fls. 92/150) e asseverou, em preliminar, conexão com a Reclamação
nº 1909 ajuizada no STJ, incompetência do juízo e ilegitimidade ativa ad causam.
No mérito, igualmente reportou-se à resposta da cautelar nº 033.04.025914-8, em
apenso.
Postulou o acatamento das preliminares, a reavaliação
da liminar concedida na cautelar e, no mérito, a improcedência do pedido. Com a
contestação a demandada anexou os documentos de fls. 151/197.
Vieram-me os autos conclusos, que passo ao julgamento
antecipado por ser desnecessária a produção de provas em audiência.
Relatados, decido.

II - FUNDAMENTOS:

Trata-se de ação cominatória precedida de cautelar


inominada, objetivando, as demandantes, com fulcro nos Decretos nº 20.931/32 e

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24.492 /34, Código de Defesa do Consumidor e Constituição Federal, obstarem o
exercício da atividade de optometria pela demandada, de forma que esta não volte
mais a utilizar os equipamentos de uso exclusivo médico, pena de multa e de leilão
dos bens.
1. Alega a demandada a existência de conexão da
cautelar com o mandado de segurança nº 9.469, impetrado no STJ, por força da
Reclamação nº 1.909 ajuizada pela demandada na corte citada.
O pedido, contudo, era manifestamente incabível por
diversas razões e, nos termos do art. 34, XVIII do RISTJ, o Min. Teori Albino
Zavaski, em data de 01.08.05, negou liminarmente o seguimento à reclamação,
decisão esta publicada no DJ em 23.08.05 e transitada em julgado em 23.08.05.
Na reclamação nº 1.909/SC, conquanto o relator
consignasse em seu bojo que a pretensão na cautelar nº 033.04.025914-8 era de
"impedir a realização de aulas práticas do curso de optometrista ministrado por
outra instituição de ensino", os itens "a" e "b" explicitam-na girar em torno da
apreensão de equipamentos e outros objetos e abstenção de prática de atos
médicos.
O reflexo do pedido, aí sim, ensejaria embaraço à
"realização de aulas práticas do curso de optometrista ministrado por outra
instituição de ensino", o que, data venia, não confunde com o petitum.
Na ação cominatória (fl. 15, item "g"), em conformidade
com o processo autônomo acessório, buscam as demandantes a tutela jurisdicional
a fim de "que o demandado se abstenha da prática de adaptar lentes de contato e
realizar exames de refração ou testes de visão, bem como para que não voltem a
utilizar os equipamentos discriminados no requerimento 'a' da exordial da cautelar,
além de outros equipamentos médicos que lá se encontrarem".
A preliminar de incompetência do juízo levantada às fls.
97/98, em cotejo com a delimitação dos objetos das demandas cautelar e principal,
supra, não tem razão de ser, a uma, por não subsumir as hipóteses elencadas nos
incisos I a XI do art. 109 da CF, a duas, pelo fato de as partes discutirem incidenter
tantum – e não como objeto do feito – o alcance de Portaria emanada por Ministro
de Estado, o que não justifica o deslocamento do feito para a Justiça Federal.
Como as pretensões retromencionadas estão
diretamente relacionadas com os objetivos discriminados nos estatutos1 das

1 Art. 1º, "b": O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), (...) tem por finalidades: (...) representar
os oftalmologistas brasileiros na defesa de seus direitos profissionais, sociais e econômicos.
Cláusula 2ª, VII e VIII: São objetivos da Associação promover e contribuir com: (...) A defesa, em
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demandantes às fls. 29 e 45, também deve ser rechaçada a preliminar de
ilegitimidade ativa ad causam, salientando que a distinção das atividades realizadas
entre o médico oftalmologista e optometrista dizem respeito à causa de pedir, cuja
análise é postergada aos itens seguintes deste provimento.
2. Afastadas as preliminares, é imperioso delimitar com
exatidão a extensão do julgado. As partes invocaram em seus petitórios inúmeras
normas legais, as quais, sabe-se, não prestam à individualização da ação, dado que
nada impede ao magistrado aplique texto normativo diverso (da mihi factum dabo
tibi jus). Elas também anexaram e citaram nas petições um grande número de
provimentos judiciais, muitos deles estranhos ao objeto material dos feitos cautelar
e principal, daí ser fundamental identificar a demanda mediante seus elementos.
Não há problemas quanto às partes e os pedidos, mas
da narrativa dos fatos a amparar este último exsurgem questões prejudiciais, ou
seja, antecedentes lógicos ou pontos controversos "cuja apreciação
necessariamente deva anteceder o julgamento da causa de fundo, pois seu
acolhimento poderá, até mesmo, fulminar a pretensão deduzida", segundo leciona
Sérgio Gilberto Porto (Comentários ao código de processo civil, v. 6: do processo de
conhecimento, arts. 444 a 495. São Paulo: RT, 2000, p. 200).
A Portaria nº 2.948/03, discutida pelas partes nas ações
cautelar e principal, reconheceu o Curso Superior de Tecnologia em Optometria da
Universidade Luterana do Brasil, para fins de emissão e registros de diplomas dos
alunos em determinado lapso temporal.
É vazia a controvérsia em torno dela porque a
demandada não se vale dessa norma para praticar os atos que as acionantes
reputam de exclusividade médica, mas de decisão favorável do Conselho Estadual
de Educação de Santa Catarina, alvará de funcionamento e de vigilância sanitária
expedidos pela da Prefeitura Municipal de Itajaí.
As assertivas das demandantes da existência de
garantias legais de exclusividade no tratamento de práticas concernentes à
prevenção da saúde não podem prosperar (fls. 09 – cautelar). O art. 5º, inciso XIII,
da Constituição Federal, ao consagrar a liberdade de exercício profissional, reclama
a reserva legal para que não sejam colocados no mercado profissionais sem
qualificações.
Essa normatividade condicionante do exercício de

juízo ou fora dele, dos interesses profissionais coletivos dos associados; (...) A defesa, em juízo ou
fora dele, dos interesses públicos difusos, nas questões que concernem à preservação da visão e da
saúde ocular.
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profissão deve ser razoável e pode, como toda norma que contrarie a Constituição
Federal, ser passível do decreto de inconstitucionalidade. Este inciso XIII, todavia,
em nada interfere o caso concreto, conforme observação de José Afonso da Silva:
"Quanto a saber se há ou não condições de aquisição de
ofício ou de profissão escolhida, não é tema que preocupe o enunciado formal da norma.
Como todo o direito de liberdade individual, a regra se limita a conferi-lo sem se importar
com as condições materiais de sua efetividade." (Curso de direito constitucional positivo,
24. ed., São Paulo: Malheiros, 2005, p. 257)
A prevenção da saúde é deveras amplo para dar
tratamento de exclusividade a médicos, como ponderam as demandantes.
Interpretar dessa forma esbarraria em princípios de direito econômico e da ordem
social e fulminaria com relevantes segmentos da área em comento: odontologia,
psicologia, nutrição, fonoaudiologia, farmácia, enfermagem etc.
As ações e serviços de saúde obtiveram tratamento de
relevância pública na Constituição Federal, cabendo ao "poder público dispor, nos
termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle" (art. 197). Acerca
das regulamentações, ensinam Girardi, Fernandes Jr. e Carvalho2 que elas
"correspondem ao conjunto de diretrizes, padrões, ou procedimentos instituídos pelo
governo, pelas comunidades e grupos sociais para conformar o comportamento dos
agentes nas diversas atividades econômicas e sociais".
A regulamentação profissional, consoante eles expõem,
"incide sobre os mercados de trabalho e de serviços, definindo campos de trabalho,
procedimentos e atividades de exercício restrito" e podem ser classificados em três
grupos, quais sejam, as não regulamentadas pelo mercado, as denominadas
"fracamente" regulamentadas e, por fim, as "fortemente" regulamentadas.
Nesse contexto a profissão de médico oftalmologista
inserir-se-ia nas fortemente, enquanto a de optometrista nas de fracamente
regulamentada, desde já enfatizando, por relevante, que a narrativa das partes nos
autos coadunam com a existência individual delas. O litígio cinge realidade diversa,
mas não inédita, porquanto sempre houve disputas acirradas desse jaez, v. g.,
quando foram reguladas as atividades de fisioterapia e técnicos em radiologia.
No decorrer da nossa história até os dias atuais a classe
médica sempre exerceu cargos e ocupações em serviços públicos relevantes e
participou intensamente em decisões que influenciaram a formação de opinião e

2 "A regulamentação das Profissões de Saúde no Brasil", de Sábado Nicolau Girardi, Hugo
Fernandes Jr. e Cristiana Leite Carvalho. Artigo retirado do sítio do Centro de Ciências da Saúde da
Universidade Estadual de Londrina (www.ccs.uel.br), acesso em 12.02.06.
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materialização de políticas públicas. Médico ocupou a Presidência da República
(Juscelino Kubitschek de Oliveira) e, momentaneamente, foi membro do Supremo
Tribunal Federal, negada aprovação por interferência do Senado da República
devido a não observância da condição de notável saber jurídico (Candido Barata
Ribeiro)3.
E "como qualquer política pública, a política de saúde é
fruto de um complexo processo de negociações e confrontações entre a burocracia
pública, profissionais de saúde, sindicatos, partidos políticos, grupos de interesses e
organizações da sociedade civil"4. A controvérsia, na espécie, a despeito a
discussão jurídica sobrepujada nesta sentença, exibe sub-repticiamente reserva de
mercado da parte mais forte em detrimento de outros profissionais de saúde.
"Cumpre não perder de perspectiva que o direito público
subjetivo à saúde (...) traduz bem jurídico constitucionalmente tutelado, por cuja
integridade deve velar, de maneira responsável, o Poder Público, a quem incumbe
formular - e implementar - políticas sociais e econômicas que visem a garantir, aos
cidadãos, o acesso universal e igualitário à assistência médico-hospitalar." (STF. RE
393175/RS, rel. Min. Celso de Mello, julgado em 01.02.06)
3. A tal respeito, é oportuno assinalar que a competência
para legislar sobre as condições para o exercício das profissões é privativa da
União, na forma do art. 22, inciso XVI, da Constituição da República. Da leitura das
normas invocadas pelas demandantes, notadamente o Decreto nº 20.931/32, não
se discute a existência da profissão de optometrista.
Ademais, o item "2" desta decisão afastou esse debate,
que se inclina a aferir, repita-se, a legitimidade do exercício das atividades dos
optometristas, as quais não se esgotam, como dão a entender as demandantes, nas
hipóteses descritas nos arts. 9º e 15 do Decreto nº 24.492/34 (ópticos sem
quaisquer formações específicas em optometria).
Cumpre salientar que de todo o corpo normativo indicado
nas exordiais não se vislumbra, a rigor, os campos de atuação dos optometristas,
conquanto as demandantes apóiem suas digressões nos Decretos nº 20.931/32 e
24.492/34, sustentando encontrarem-se "em plena vigência e eficácia, tendo ambos
força de lei federal" (fl. 14 - cautelar).
Ora, inexistindo nos Decretos citados essa lista de

3 Informação obtida no sítio www.stf.gov.br, com acesso em 12.02.06.


4 "O processo decisório nas instâncias colegiadas do SUS no Estado do Rio de Janeiro", dissertação
de mestrado de Ionara Ferreira da Silva apresentado na Escola Nacional de Saúde Pública da
Fundação Oswaldo Cruz, artigo obtido no sítio http://portalteses.cict.fiocruz.br, com acesso em
12.02.06.
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atividades adstrita aos optometristas, nada obstaria que o Poder Executivo viesse a
expedir ato normativo secundário a fim de regulamentar tais normas com força de
lei. Nesse ponto aparece a Classificação Brasileira de Ocupações – CBO5, ao
enunciar a descrição sumária das atividades desses profissionais (código nº 3223-
05):
"realizam exames optométricos; confeccionam lentes;
adaptam lentes de contato; montam óculos e aplicam próteses oculares. Promovem
educação em saúde visual; vendem produtos e serviços ópticos e optométricos; gerenciam
estabelecimentos. Responsabilizam-se tecnicamente por laboratórios ópticos,
estabelecimentos ópticos básicos ou plenos e centros de adaptação de lentes de contato.
Podem emitir laudos e pareceres ópticos-optométricos."6
O Colendo STJ, em MS nº 9.469/03, de relatoria do Min.
Teori Albino Zavascki, afirmou, em data de 10.08.05, que o conteúdo das atividades
do optometrista "está descrito na Classificação Brasileira de Ocupações", refutado
pelas autoras na réplica (fls. 561/564 - cautelar) sob o argumento de estar suspensa
a ocupação nº 3223-05, por decisão da 9ª Vara Federal de Brasília.
Consultando a movimentação dos autos nº 2005.34.00.
07230-3, observa-se que o mencionado julgado fora exarado em data de 12.05.05,
mas ele não tem o condão de interferir na solução deste processo. Não se trata de
provimento definitivo, transitado em julgado e com efeitos erga omnes; se assim
fosse, mesmo o Superior Tribunal de Justiça teria observado a aludida suspensão
ao defender, após três meses, posição contrária (supra).
Mas a CBO tem amparo legal para definir as atividades a
serem exercidas pelos optometristas? A resposta é positiva.
Compete ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE),
órgão da administração direta do Poder Executivo, dentre outros assuntos,
estabelecer diretrizes para a modernização do trabalho, aferir a segurança e saúde
do trabalho, inclusive fiscalizá-lo. Mediante desconcentração, uma das
incumbências do Departamento de Emprego e Salário é supervisionar a atualização

5 "(...) Reconhece, nomeia e codifica os títulos e descreve as características das ocupações do


mercado de trabalho brasileiro. Sua atualização e modernização se devem às profundas mudanças
ocorridas no cenário cultural, econômico e social do País nos últimos anos, implicando alterações
estruturais no mercado de trabalho. (...) Estiveram envolvidos no processo pesquisadores da
Unicamp, UFMG e Fipe/USP e profissionais do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial - Senai.
Trata-se de um trabalho desenvolvido nacionalmente, que mobilizou milhares de pessoas em vários
pontos de todo o País. (...) Terá relevância também para a integração das políticas públicas do
Ministério do Trabalho e Emprego, sobretudo no que concerne aos programas de qualificação
profissional e intermediação da mão-de-obra, bem como no controle de sua implementação."
Informações obtidas no sítio www.mte.gov.br, com acesso em 12.02.06.
6 http://www.mtecbo.gov.br/busca/descricao.asp?codigo=3223-05, acesso em data de 09.02.06.
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da Classificação Brasileira de Ocupações – CBO (Decreto nº 5.063/04), "de modo a
promover sua constante adequação ao mercado de trabalho"7.
A Secretaria de Políticas Públicas de Emprego - órgão
específico singular ao lado do Departamento ora citado e com Regulamento Interno
aprovado pelo Ministro do Trabalho e Emprego -, por meio da Portaria nº 483/04,
tem em sua estrutura organizacional a Coordenação do Sistema Nacional de
Emprego e dentro desta a "Divisão da Classificação Brasileira de Ocupações".
Finalmente, da leitura dos incisos I a XVIII do art. 26 do
aludido Regimento observa-se a delimitação da competência da Divisão da
Classificação Brasileira de Ocupações - DCBO, verbis:
"coordenar, organizar e executar capacitação sobre
metodologia, utilização e aplicabilidade da CBO; organizar e manter a uniformização dos
títulos e códigos das ocupações brasileiras, a fim de possibilitar a análise, em âmbito
nacional, das estatísticas do trabalho; atualizar a CBO quanto às novas ocupações e
alterações ocorridas no mercado de trabalho; subsidiar a participação do Ministério na
Comissão Nacional de Classificação; acompanhar e avaliar os serviços prestados pelos
conveniados; orientar, controlar e analisar a celebração de convênios com órgãos e
entidades federais, estaduais e municipais, visando a atualização da CBO; elaborar e
analisar os relatórios gerenciais solicitados por todas as áreas de interesse do Ministério e
demais entidades parceiras; apresentar à Comissão Nacional de Classificação, a
atualização da CBO, de modo a promover sua constante adequação à realidade nacional,
salvaguardando os padrões definidos pela OIT; analisar as solicitações de inclusão de
ocupações e sinônimos na classificação; participar em workshops nacionais e internacionais
sobre classificação de ocupações; gerenciar informações ocupacionais visando à
elaboração de políticas públicas de emprego e renda; administrar banco de dados contendo
informações sobre a CBO; elaborar sistemas visando à atualização contínua da base CBO;
promover palestras e seminários para atender demandas de entidades interessadas;
atender aos usuários da RAIS, CAGED, intermediação de mão-de-obra e seguro
desemprego, no que se refere às dúvidas relacionadas à codificação da CBO; prestar
orientação quanto à legislação relacionada à codificação da CBO; elaborar manuais de
capacitação e outros materiais didáticos sobre CBO; e subsidiar a Coordenação quanto às
matérias relativas à sua área de competência."

Perceba que a delimitação da competência das


profissões realizada pela Classificação Brasileira de Ocupações, acima transcrita, é
fruto de ingentes esforços para adequar as profissões ao mercado e obedece toda

7 Art. 8º, inciso IV, do Regimento Interno da Secretaria de Políticas Públicas de Emprego.
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uma estrutura criada justamente para aferir a segurança e saúde do trabalho e
fundar diretrizes no escopo de modernizá-lo.
Políticas públicas dessa espécie, perpetrada pelo Poder
Executivo, não podem simplesmente ser ignoradas pelas demandantes, que
pretendem equiparar a realidade de 1932 à de 2006 e forçar uma pobre
interpretação literal de artigos por elas destacados nos Decretos. A linha de
raciocínio explanada harmoniza-se com a lição doutrinária de Celso Antonio
Bandeira de Mello:
"A Constituição prevê os regulamentos executivos porque o
cumprimento de determinadas leis pressupõe uma interferência de órgãos administrativos
para aplicação do que nelas se dispõe, sem, entretanto, predeterminar exaustivamente, isto
é, com todas as minúcias, a forma exata da atuação administrativa pressuposta. Assim,
inúmeras vezes, em conseqüência da necessidade de uma atuação administrativa,
suscitada por lei dependente de ulteriores especificações, o Executivo é posto na
contingência de expedir normas a ela complementares. Ditas normas são requeridas para
que se disponha sobre o modo de agir dos órgãos administrativos, tanto no que concerne
aos aspectos procedimentais de seu comportamento quanto no que respeita aos critérios
que devem obedecer em questões de fundo, como condição para cumprir os objetivos da
lei." (Curso de direito administrativo, 12. ed., São Paulo: Malheiros, 2000, p. 303/304) (grifos
do original)
4. Observada a coerência da CBO para atender a
finalidade pública exigida no texto constitucional acerca dos limites da liberdade de
exercício profissional, insta delimitar o campo de atuação dos optometristas,
incompleta para tanto as descrições sumárias exibidas no item "3".
Consoante informações detalhadas obtidas no Ministério
do Trabalho e Emprego8, nas características do trabalho, como condições gerais de
exercício, os optometristas "exercem suas funções em laboratórios ópticos, em
estabelecimentos ópticos básicos e plenos, em centros de adaptação de lentes de
contato, podendo, ainda, atuar no ramo de vendas e em atividades educativas na
esfera da saúde pública. São contratados na condição de trabalhadores
assalariados, com carteira assinada e, também, na condição de empregador. Atuam
de forma individual e em equipe, sem supervisão, em ambientes fechados e
também em veículos, no período diurno".
Quanto à formação e experiência, o exercício dessas

8 Informações retiradas do sítio http://www.mtecbo.gov.br/busca.asp, com acesso em 12.02.06,


utilizadas no item "4" desta sentença.
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ocupações requer curso técnico de nível médio, oferecido por instituições de
formação profissional, sendo que o pleno desempenho das atividades profissionais
se dá após o período de três a quatro anos de experiência.
Por sua vez, as áreas de atividade dos optometristas são
diversas. Ao realizar exames, estão autorizados a medir acuidade visual, analisar
estruturas externas e internas do olho; medir pressão intra-ocular (tonometria),
identificar deficiências e anomalias relacionadas às alterações da função visual,
encaminhar casos patológicos a médicos, medir refração ocular (refratometria e
retinoscopia) e determinar compensações e auxílios ópticos.
Concernente à adaptação de lentes de contato, estão
autorizados a fazer avaliação lacrimal, definir tipo de lente, calcular parâmetros das
lentes, selecionar lentes de teste, colocar lentes de teste no olho, combinar uso de
lentes (sobre-refração), avaliar adapatação da lente, retocar lentes de contato,
recomendar produtos de assepsia, executar revisões de controle da adapatação de
lentes de contato e medir córnea (queratometria, topografia).
Relativo à confecção de lentes, estão autorizados a
intrerpretar ordem de serviço, fundir materiais orgânicos e minerais, escolher
materiais orgânicos e minerais, separar insumos e ferramentas, projetar lentes
(curvas, espessura, prismas), blocar materiais orgânicos e minerais, usinar
materiais orgânicos e minerais, dar acabamento às lentes, adicionar tratamentos às
lentes (endurecimento, anti-reflexo, coloração, hidratação e filtros), aferir lentes e
retificar lentes.
Atinente à montagem de óculos e auxílios ópticos, estão
autorizados a marcar centro óptico e linha de montagem das lentes, elaborar
gabaritos ópticos, modelar lentes, lapidar lentes, encaixar lentes na armação,
alinhar óculos e outros auxílios ópticos (telesistemas, equipamentos de aferição
óptica), conferir montagem dos óculos e auxílios ópticos e confeccionar óculos de
segurança.
Ao aplicar próteses oculares, os optometristas podem
analisar cavidade orbitária, moldar cavidade orbitária, determinar características da
prótese (diâmetro de pupila e íris, tamanho, cor, etc.), confeccionar prótese ocular,
ajustar prótese ocular, fotografar rosto do cliente e readaptar prótese.
No tocante à promoção de educação em saúde visual,
estão autorizados a assessorar órgãos públicos na promoção da saúde visual,
ministrar palestras e cursos, participar na promoção de campanhas de saúde visual,
auxiliar o cliente na reeducação visual, formar grupos multiplicadores de educação
em saúde visual.
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Quanto à venda de produtos e serviços ópticos e
optométricos, podem eles detectar necessidades do cliente, interpretar prescrição,
assistir cliente na escolha de armações e óculos solares, indicar tipos de lente,
coletar medidas complementares (distância naso-pupilar, altura do centro óptico,
distância do vértice, etc.), ajustar óculos em rosto de cliente, consertar auxílios
ópticos e calibrar equipamentos ópticos e optométricos.
Ademais, os optometristas estão autorizados a gerenciar
estabelecimentos e podem organizar local de trabalho, gerir recursos humanos,
preparar ordem de serviço, gerenciar compras e vendas, controlar estoque de
mercadorias e materiais, controlar qualidade de produtos e serviços, administrar
finanças, providenciar manutenção do estabelecimento.
Nesse último tópico atinente às áreas de atividades, ao
comunicar-se, os optometristas estão autorizados a fazer anamnese, manter
registros de cliente, enviar ordem de serviço a laboratório, orientar cliente sobre uso
e conservação de auxílios ópticos e próteses oculares, orientar família de cliente,
emitir laudos e pareceres, orientar na ergonomia da visão, solicitar exames e
pareceres de outros especialistas.
Por sua vez, as competências pessoais residem em
realizar perícias optométricas e em auxílios ópticos, demonstrar compreensão
psicológica, atualizar-se profissionalmente, evidenciar coordenação motora fina,
revelar senso estético, prestar primeiros socorros oculares, usar equipamento de
proteção individual (EPI).
Cerne da presente contenda, os recursos de trabalho
utilizados pelos optometristas são: queratômetro, máquinas surfaçadoras, lâmpada
de burton, filtros e feltro, lâmpada de fenda (biomicroscópio), produtos para
assepsia, abrasivos, retinoscópio, lensômetro, refrator, oftalmoscópio (direto-
indireto), pupilômetro, topógrafo, caixas de prova e armação para auxílios ópticos,
calibradores, alicates, chaves de fenda, máquinas para montagem, tabela de
projetor de optótipos, torno, tonômetro, corantes e fluoresceína, solventes, polidores
e lixas, foróptero, espessímetro, moldes e modelos, títmus e resinas.
Ressalte-se que o conjunto dessas informações foram
feitas por profissionais especialistas no assunto, ultrapassando os limites desse
julgado (fls. 24/26 da cautelar e 14/16 da principal), a teor do art. 128 do CPC,
perquirir se cada uma delas caracterizam atividades médicas típicas.
5. Fixados os extremos de atuação dos optometristas,
infere-se existir coincidência de atividades com a de óptico, consoante se
depreende do texto legal em destaque à fl. 18 (cautelar), e ainda semelhança com a
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de médico oftalmologista, embora essas profissões, por evidente, não se
confundam.
As demandantes reputam invasivas à área específica da
Medicina e asseveram ser ilegal as seguintes atividades realizadas por
optometristas: prescrição de lentes de grau, adaptação de lentes de contato,
realização de exame de refração (prescrevendo óculos), "exames destinados a
medida da acuidade visual, bem como o trato com o paciente queixoso de baixa
visão".
Na espécie, não há ilegalidade nas atividades citadas à
medida que os optometristas podem, e isso ficou provado no item "4", realizar os
exames considerados proibidos pelas demandantes (medir acuidade visual,
refração ocular etc). Igualmente restou demonstrada a possibilidade de eles
adaptarem lentes de contato, podendo a todo o tempo encaminhar casos
patológicos a médicos.
Na área de atividade do optometrista, não é consentâneo
vedar a eles a prescrição de lentes de grau e aviar receitas, porquanto são
autorizados emitir laudos e pareceres, mister da mesma forma complexo
comparado àqueles. As descrições das competências pessoais e características do
trabalho reportam esse quadro de legalidade.
Com efeito, os equipamentos médicos e demais recursos
de trabalho utilizados por optometristas, descritos às fls. 11/12 e 24 (cautelar), são
adequados ao exercício das atividades declinadas no item "4" e, portanto, não há
motivos para proceder à busca e apreensão deles.
6. O tema em apreço – e não podia ser diferente – tem
nítida influência com os valores neoliberais insculpidos na ordem econômica
preconizada na Constituição Federal de 1998. Eros Roberto Grau9 indica vários
preceitos inseridos dentro e fora do Título VII, merecendo realce os valores sociais
do trabalho e da livre iniciativa (art. 1.º, inciso IV), a valorização do trabalho humano
e da livre iniciativa (art. 170, caput), a livre concorrência e a busca do pleno
emprego.
A concorrência entre as profissões de optometrista e
médico oftalmologista é resultado natural da liberdade de escolha dos consumidores
aos serviços e do livre acesso ao mercado, de modo a "assegurar a todos existência
digna, conforme os ditames da justiça social" (art. 170, caput, da CF).
O médico não terá seu espaço afetado, v. g., nas

9 A ordem econômica na Constituição de 1988. 4. ed., São Paulo: Malheiros, 1998, p. 215.
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cirurgias e inúmeras patologias inerentes a um conhecimento de maior
envergadura. Valiosa a lição do economista Cláudio de Moura Castro1011, ao
explicitar que "as ordens e conselhos profissionais querem proteger o mercado de
seus graduados pela força da lei. A reserva é ótima para quem é protegido da
concorrência. Mas, para a sociedade, só há perdas".
Por isso mesmo é assegurada a liberdade de exercício
profissional (art. 5º, inciso XIII, da CF), conforme fora acentuado no item "2", daí
exsurge incompatível o conteúdo dos arts. 38, 39 e 41 do Dec. nº 20.931/32, 13 e
14 do Dec. nº 24.492/34, com o da matriz inicial do ordenamento jurídico, vale dizer,
a Constituição Federal não recepcionou, no ponto, esses excertos normativos.
Por corolário disso, devem ser afastadas as imputações
nos feitos cautelar e principal de que a demandada está a praticar crimes e suas
atividades apresentam riscos à saúde e segurança dos consumidores, mormente
pelo fato de ela estar resguardada por alvarás de vigilância sanitária e
funcionamento expedidos pela Prefeitura Municipal de Itajaí (fls. 176/179).
7. É o bastante para julgar improcedentes os pleitos,
ciente da controvérsia do tema e de entendimento contrários. Porém, não pode
passar em branco a impropriedade das contínuas assertivas expendidas pelas
acionantes no sentido de que os optometristas colocam em "risco a saúde da
população", generalizando como um todo a atuação temerária dos profissionais
desse ramo.
Ora, profissionais liberais sem ética e despreparados
para atuar no mercado, convém esclarecer, têm em todos os segmentos da
sociedade, e os médicos não escapam desse quadro1213. O CRM de São Paulo, por
exemplo, está sugerindo a criação de um exame de habilitação para formandos em
medicina em razão do aumento significativo de casos de erro.
Este não é, certamente, o espaço para debates, haja
vista a existência de instrumentos de controle para evitar abusos e desrespeitos aos
destinatários de serviços defeituosos. Imprescindível, para tanto, um Ministério
Público atuante, justiça célere e políticas públicas sérias.

10 Revista Veja, ed. nº 1900. Ponto de vista - tapetão medieval.


11 Revista Veja, ed. nº 1900. Ponto de vista - tapetão medieval.
12 Neste ponto, são deveras esclarecedoras as reportagens da Veja "Quando os médicos erram"
(Edição de 07.09.05, nº 1921, p. 110 e ss), "Quando os médicos erram" (Edição de 03.03.99, p. 80 e
ss.) e "Vício de Branco" (Edição de 23.02.00, nº 1637, p. 76 e ss).
13 Neste ponto, são deveras esclarecedoras as reportagens da Veja "Quando os médicos erram"
(Edição de 07.09.05, nº 1921, p. 110 e ss), "Quando os médicos erram" (Edição de 03.03.99, p. 80 e
ss.) e "Vício de Branco" (Edição de 23.02.00, nº 1637, p. 76 e ss).
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III - CONCLUSÃO:

ANTE O EXPOSTO, afas to as preliminares v eic uladas


em ambos os processos e, c om fundamento nos arts. 128, 330, inc iso I, do CPC,
art. 1.º, inciso IV, 5º, inciso XIII, 22, inciso XVI, 170, c aput, da Cons tituição Federal,
JULGO IMPROCEDENTES os pedidos c autelar e princ ipal.
Em c ons eqüência: a) c ondeno as demandantes, em
relação a ambos os proc essos, ao pagamento das des pesas processuais e
honorários advocatícios dev idos ao patrono da demandada, ora fix ados em R$
2.000,00 (dois mil reais), por apreciação eqüitativa, na forma dos §§ 3º e 4º do art.
20 do CPC; b) torno s em efeito a decisão liminar de fls. 415/417 (cominatória).
Comunique o teor des te prov imento judicial ao Des.
Carlos Prudêncio, relator do agravo de ins trumento nº 2005.010998-7.

Publique-s e.
Registre-se.
Inti me m-s e.

Itajaí (SC), 14 de fevereiro de 2006.

Gilberto Gomes de Oliveira


1 Juiz de Direito

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