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A PROTEÇÃO DA NATUREZA NO

BRASIL: EVOLUÇÃO E CONFLITOS DE


UM MODELO EM CONSTRUÇÃO

Rodrigo Medeiros1 , Marta Irving2 e Irene Garay3

Resumo to management. A protectionistic antagônicas: a natureza a serviço do


No Brasil, a institucionalização polí- view in the legal and institutional homem ou o homem subordinado a
tica e administrativa da proteção da apparatus only began to be consoli- ela? Em síntese, a natureza como
natureza se processou de forma len- dated throughout the Republic externalidade ou internalidade?
ta e gradual, se consolidando somen- which favored the creation of several Ora,em que medida a evolução e o
te na primeira metade do século XX. protected areas all over the country. debate político incorporam ou supe-
Enquanto nos períodos colonial e Such consolidation and evolution as ram esse antagonismo e, ainda,
imperial a visão predominante de we analyze and discuss in this work como o traduzem operacionalmente?
proteção era tipicamente gerencial é were results of different facts and Questões à base, elas perpassam
somente na República que se inicia circumstances, among them: a) the os principais aspectos envolvidos
um processo de consolidação de um strengthening and equipment of the numa prática, socialmente definida
ideário protecionista no aparato jurí- State; b) the participation and in- e normatizada como proteção da na-
dico-legal e institucional brasileiro fluence of different segments of the tureza, que o presente trabalho visa
que favoreceu a criação de áreas pro- society; c) the international context. apresentar e discutir focalizada no
tegidas no país. Tal consolidação e caso brasileiro.
evolução, grosso modo, como se pro- Key words: Protected areas; Conser- No escopo aqui proposto, a pro-
cura analisar e discutir neste traba- vation units; Environmental policy; blemática central “proteção da na-
lho, foi decorrência de uma série de Public policies; Geopolitic. tureza” se congrega essencialmente
fatos e circunstâncias, dentre eles: a) em torno do referencial “área prote-
o fortalecimento e aparelhamento do gida” que representa, hoje, uma das
Estado; b) a participação e influência
Introdução principais estratégias de conserva-
de diferentes segmentos da socieda- A proteção da natureza tem se ção. Área protegida que, no presente
de; c) o contexto internacional. constituído em um dos desafios mais contexto, define-se como “uma área
antigos das sociedades humanas terrestre e/ou marinha especialmen-
Palavras-chave: Áreas protegidas; cuja premência se acentua nos dias te dedicada à proteção e manuten-
Unidades de conservação; Política de hoje. No entanto, a rede comple- ção da diversidade biológica e dos
ambiental; Políticas públicas; Geo- xa de motivações e contradições se recursos naturais e culturais associ-
política. exprime num apaixonante jogo, ali- ados, manejados através de instru-
ás de difícil solução, que se resume mentos legais ou outros instrumen-
Abstract em abordagens com perspectivas tos efetivos” (IUCN, 1984).
In Brazil, the political and admi-
nistrative institutionalization of the 1
Doutor em Geografia. Pesquisador do Laboratório de Gestão da Biodiversidade e do Núcleo de
nature protection occurred in a slow Ciências Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E-mail: medeiros@bio-
logia.ufrj.br.
and gradual way, with its consoli-
2
dation in the first half of the XXth Doutora em Ecologia. Professora do Instituto de Biologia da UFRJ/Laboratório de Gestão da
Biodiversidade. Pesquisadora Convidada no Depto. de Ecologia e Gestão da Biodiversidade
century. The predominant vision of do Museu Nacional de História Natural de Paris (França). E-mail: mirving@mandic.com.br.
protection, during the colonial and 3
Doutora em Oceanografia. Professora do Instituto de Psicologia/Programa EICOS. E-mail:
imperial periods, was tipically turns garay@biologia.ufrj.br.

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Para nortear a análise desta pro- maioria dos Estados imperialistas sileiro, que pregava a criação de áre-
blemática e ponderar a sua comple- europeus e suas colônias -, todas as as protegidas para a preservação da
xidade, optou-se ainda por uma nar- iniciativas estavam focadas, em ge- natureza – uma tendência interna-
rativa essencialmente historiográfi- ral, sobre a proteção de recursos cional - encontrou terreno fértil.
ca, estabelecendo os contrapontos e renováveis de reconhecida relevân- A consolidação deste novo ideá-
debates pertinentes, a fim de possi- cia econômica, principalmente, ma- rio de desenvolvimento para o Bra-
bilitar uma interpretação seqüencial deira para a construção civil e naval sil ficou registrada na segunda cons-
de como esta prática surgiu e se con- e minérios. Todavia, essa prática era tituição republicana brasileira de
solidou no cenário brasileiro. exercida de maneira incipiente e de- 1934. Nela, pela primeira vez, a pro-
É importante enfatizar que este sarticulada, por meio de poucos ins- teção da natureza figurava como um
trabalho representa, além uma sín- trumentos legais, por vezes sem princípio básico para o qual deveri-
tese, um convite à reflexão sem pre- vinculação a uma política de Estado am concorrer o Governo Federal, Es-
tender esgotar debates e desdobra- ou mesmo a uma estratégia geral cla- tados e municípios. Em seu texto fi-
mentos portanto essenciais à com- ra e definida. cou definida como responsabilida-
preensão do rol das áreas protegi- Por fim, no século XX, a década de da União “proteger belezas natu-
das para a proteção da natureza em de 30 representa um marco haja vista rais e monumentos de valor históri-
território brasileiro. da criação de um conjunto mais am- co e artístico”4.
plo de instrumentos legais e de uma Com a incorporação na Consti-
estrutura administrativa no aparelho tuição de 1934 de um ideário que
A Construção de um do Estado voltada especificamente outorgava à natureza um novo va-
Modelo Brasileiro de Áreas para a gestão das áreas protegidas. lor, i. e., ela passa a ser considerada
Protegidas Estes avanços institucionais, aconte- como patrimônio nacional a ser pre-
cidos cerca de 40 anos após a procla- servado, sua proteção ganha um
O Brasil, país de megadiversi- mação da República, se processaram novo status na política nacional, con-
dade biológica, é portanto conside- precisamente em função de um cená- sistindo em tarefa ou dever a serem
rado país estratégico no âmbito dos rio favorável marcado por uma im- cumpridos e fiscalizados pelo poder
desdobramentos da Convenção da portante mudança no quadro políti- público. Desta forma, proteger a na-
Diversidade Biológica. Contudo, o co e social brasileiro até então domi- tureza entra definitivamente na
processo de elaboração e definição nado pelas elites rurais pois, com a agenda governamental brasileira,
de uma política para os espaços Revolução de 30, inicia-se o processo passando a configurar um objetivo
territoriais considerados de alto va- de transição do país para um cenário complementar da política de desen-
lor em recursos renováveis é de fato dominado pela industrialização e volvimento nacional.
muito recente. urbanização crescentes, principal- Com conseqüência disto, ainda
Durante os seus mais de 500 anos mente na região sudeste (CUNHA & em 1934, os principais dispositivos
de existência, o país passou por di- COELHO, 2003). Na esteira das mu- legais de proteção da natureza, que
ferentes formas de administração danças em curso, a questão ambien- levariam inclusive à criação dos pri-
política – colônia portuguesa entre tal se impôs na agenda de reformas meiros Parques Nacionais, são cria-
os séculos XVI e XVIII, um curto que visaram o fortalecimento do Es- dos no Brasil. Entre eles destacam-
Império monárquico do século XVII tado e de suas instituições, sendo in- se o Código Florestal (1934), o Códi-
ao XIX e, finalmente, República Fe- corporada no aparato jurídico e go de Caça e Pesca (1934), Código de
derativa a partir do final do século institucional brasileiro. Águas (1934) e o Decreto de Prote-
XIX - experimentando diversas es- Um fator preponderante foi, sem ção dos Animais (1934).
tratégias de apropriação e gestão dos dúvida, o ambiente político propício De todos eles, o Código Florestal
seus recursos renováveis. ao processo de modernização que se tornou um dos mais importantes
Porém, a instituição de áreas pro- caracterizou o país nessa época. A instrumentos da política de proteção
tegidas, que é entendida como a deli- partir dos anos 30, com Getúlio da natureza da época, pois definiu,
mitação de parcelas do território nacio- Vargas, diversas estratégias políti- em bases sólidas e concretas, um pro-
nal para a preservação e/ou conservação cas foram adotadas com o intuito de jeto brasileiro com este enfoque. Além
da natureza, pelo ou com o aval do Esta- colocar o Brasil rumo à moderni- disso, o Código Florestal está cultu-
do, foi um fenômeno típico do perío- dade: novas leis trabalhistas, incen- ral e historicamente relacionado à
do republicano, sobretudo no decor- tivos à industrialização e à expan- tradição brasileira de proteção da
rer do século XX. Antes disso, nos são e ocupação do oeste brasileiro natureza, uma vez que nele são esta-
períodos Colonial e Imperial, tal ditaram o ritmo das mudanças. Nes- belecidos, pela primeira vez, os crité-
como vinha ocorrendo em outras te cenário de ambiciosas transforma-
4
partes do mundo - notadamente na ções, o movimento ambientalista bra- Capítulo I, artigo 10.

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rios para a proteção dos principais Tabela 1: Categorias de Manejo e dispositivos legais com relação à
ecossistemas florestais e demais for- criação de Áreas Protegidas no Brasil, anteriormente ao Sistema
mas de vegetação naturais do país Nacional de Unidades de Conservação em 2000 (Lei 9985/2000) .
além de introduzir a idéia de catego-
rias de manejo em função dos objeti-
vos e finalidades da área criada5
(MEDEIROS, 2003). A partir dele hou-
ve, portanto, um cenário favorável
para a formalização da criação dos
primeiros Parques e Florestas Nacio-
nais do Brasil, o que ocorreu três anos
mais tarde, em 1937, com a criação
do Parque Nacional de Itatiaia.
A tradição brasileira de criação
de espaços protegidos seguindo a
lógica da categorização em função
dos objetivos e finalidades da área
criada, estabelecida pelo Código Flo- tão bem definidas - genericamente sos biológicos cuja exploração é in-
restal de 1934, foi uma de suas he- denominadas de Unidades de Con- terdita, quanto para conter os exces-
ranças mais importante. Todos os servação (UCs) - e que fazem parte sos na exploração e ocupação em
instrumentos legais de proteção pos- do SNUC (Lei 9985/00); e b) espaços áreas de vegetação nativa. Tal prin-
teriores, apesar de criados segundo protegidos através de instrumentos cípio se mantém efetivo, até a atuali-
dinâmicas e contextos específicos, legais pelos seus atributos e serviços, dade, na política de proteção brasi-
seguiram essa mesma tendência, o sobretudo ecológicos, mas sem uma leira e é uma de suas principais mar-
que resultou, no país, em quase uma prévia delimitação territorial (como cas, como discutiremos em maiores
dezena de dispositivos voltados a ocorre no caso anterior) – as Áreas detalhes a seguir.
criação de tipologias distintas de de Preservação Permanente (APPs) Porém, antes disso é preciso ain-
espaços protegidos (Tabela 1). e as Reservas Legais (RL) – incluí- da salientar que, em certa medida, a
Como conseqüência, instituiu-se das na segunda versão do Código iniciativa brasileira de institucionali-
no país até o início dos anos 90, um Florestal de 1965 (Lei 4771/65). zação do tema de criação e gestão de
sistema de criação de áreas protegi- Tal distinção, deriva de uma idéia áreas protegidas se inseriu e foi pres-
das complexo e desarticulado, cuja presente, desde o primeiro Código sionada pelo crescente movimento
conseqüência mais perversa era a sua Florestal de 1934, reforçada na ver- internacional de criação de Parque
precária gestão, com enorme desper- são de 1965, a qual enfatiza que, no Nacionais, segundo a ideologia
dício de recursos e oportunidades. Pais, a proteção da natureza seria preservacionista de proteção do
Esta situação fez com que, a par- tarefa ou função executada solidari- “wilderness” que, iniciada nos Es-
tir do final dos anos 70, se iniciasse amente entre o Estado e a sociedade. tados Unidos da América, no final
uma reflexão sobre a necessidade de Desta forma, caberia, não somente ao do século XIX, já havia influenciado
concepção de um sistema mais inte- Estado, instituir áreas protegidas sob outros países da América Latina, vi-
grado para a criação e o gerencia- sua gestão em território estritamente zinhos ao Brasil, como a Argentina
mento das áreas protegidas. Entre- de domínio público ou em áreas por (1903) e o Chile (1927).
tanto, esse sistema só se efetivou ele adquiridas, materializadas inici- Entretanto, apesar de inspirado
aproximadamente 20 anos mais tar- almente sob a forma de Parques Na- nestas iniciativas e integrado ao es-
de, em 2000, com a aprovação da Lei cionais e Florestas Nacionais e, em forço global de diversos países das
9985/2000, que instituiu o Sistema seguida, pelas diversas outras cate- Américas de criação de áreas prote-
Nacional de Unidades de Conserva- gorias de manejo criadas. Mas essa gidas, o modelo de proteção desen-
ção da Natureza (SNUC). responsabilidade caberia também ao volvido no Brasil não se resumiu à
O resultado prático deste proces- conjunto da sociedade, nas áreas de “cópia” do modelo norte-americano,
so de construção resultou, hoje, num domínio privado, onde a proteção se como alguns autores pretenderam
modelo brasileiro que é composto fizesse necessária, justificada tanto demonstrar6. Em grande parte, isto
basicamente por duas tipologias dis- pela presença de sistemas e recur- se deu em resposta a diversos fato-
tintas de espaços destinados à prote- 5
O Código Florestal de 1934, declarava de “interesse comum a todos os habitantes do país” o
ção dos recursos naturais: a) as áreas conjunto das florestas existentes e demais formas de vegetação, classificando-as em quatro
protegidas territorialmente demar- categorias: protetoras, remanescentes, modelo e de rendimento.
6
cadas e com dinâmicas de uso e ges- Entre eles destacam-se Diegues (2001), Ribeiro (2001) entre outros

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res, dos quais podem ser destacados: nais). Uma outra característica im- uma expansão do sistema, quantita-
1) a lógica da conservação e uso, com portante do modelo brasileiro, já nes- tivamente, em termos do número de
participação da sociedade civil, pa- ta fase, é que este vislumbrava o novas áreas criadas e, qualitativa-
ralela à lógica da preservação; 2) a compartilhamento entre o poder pú- mente, com relação a novas catego-
preservação – conservação como ins- blico e a sociedade, na responsabili- rias de manejo, atingindo assim di-
trumento geopolítico e, por fim, 3) a dade pela proteção dos recursos ferentes regiões e biomas, segundo
necessidade de adequar o sistema de renováveis. Esta concepção se conso- as suas singularidades e demandas.
áreas protegidas à dimensão conti- lidou, inicialmente, pela figura jurí- Com isto, novas categorias de mane-
nental, pluri-cultural e megadiversa dica das Reservas Legais, instituída jo, que não encontram equivalentes
do Brasil. Como corolário emerge um pelo novo Código Florestal de 1965 e, em outros países, acabaram sendo
modelo caracterizado pela diversi- em vigor até os dias atuais. As Reser- criadas. Neste sentido, a diversida-
dade de tipos de áreas protegidas, vas Legais, que representam porcen- de de biomas que se distribui pelo
que é inclusive um instrumento tagens definidas das propriedades território brasileiro, em termos de
geopolítico e que se expande ainda privadas para a proteção dos recur- biodiversidade e sócio-diversidade,
hoje por conta da singularidade do sos renováveis, compulsoriamente contribuiu para conformar o atual
País. determinadas pelo Estado, deve ter, mapa brasileiro de proteção dos re-
em tese, a sua manutenção garantida cursos renováveis, tornando-o úni-
1) Uma lógica diversificada de pelos proprietários das terras onde co e singular e, estabelecendo eixos
preservação – conservação elas se encontram. Nessa seqüência, e tendências prioritários. A Mata
Em sua gênese, o modelo brasi- somente muitos anos mais tarde, a Atlântica, recobrindo boa parte das
leiro já expressava, desde seu primei- criação das denominadas Reservas regiões nordeste, sudeste e sul, foi o
ro instrumento legal, o Código Flo- Particulares de Patrimônio Natural primeiro grande eixo nacional de
restal de 1934, a idéia de criação de (RPPN’s) viria a estabelecer que a proteção dos recursos renováveis,
espaços protegidos que atendessem “proteção privada” também pode se basicamente em função de sua his-
aos objetivos não só de preservação realizar, de maneira voluntária, pela tória de devastação. Mas, sem dúvi-
dos recursos renováveis, tal como sociedade com o reconhecimento do da, a Floresta Amazônica, este imen-
privilegiava o modelo norte ameri- Estado. so cobertor verde de floresta tropical
cano, mas também vinculados à sua sobre a região norte, ponto focal de
conservação, englobando já a pers- 2) A conotação geopolítica disputas e valorização internacio-
pectiva de uso sustentável. Neste Um outro fator importante é que nal, se consolidou como eixo princi-
sentido, o modelo em evolução no o país passou por diversas mudan- pal das intervenções de proteção
país não rompia totalmente os laços ças políticas e sociais que alteraram adotadas no país, pós década de 70,
que o ligavam a uma noção de prote- a política de proteção dos recursos e tem atraído os principais investi-
ção mais voltada ao manejo dos re- renováveis, condicionando-a a ou- mentos externos até o momento.
cursos, típica daquela criada pelos tros interesses internos, subordina-
Estados Europeus e exportada para dos principalmente ao Estado. Nes-
as suas colônias. Isso aconteceu, te sentido, a proteção da natureza As duas faces do processo de
uma vez que grande parte da comu- adquiriu uma forte conotação geopo- proteção no Brasil: as
nidade intelectual brasileira, tanto lítica, sobretudo durante os 20 anos Unidades de Conservação e
no período colonial quanto imperi- em que o país viveu sob uma ditadu- as Áreas de Preservação
al, como aponta Pádua (2002), teve ra militar (1964-1984). Durante este Permanente/Reservas Legais
sua formação em escolas européias, período, o expediente de criação de
sobretudo em Portugal (Lisboa e áreas protegidas compôs o instru- A terminologia “Unidades de
Coimbra) e na França (Paris). Em mental estratégico utilizado pelo Conservação” vem sendo historica-
função deste contexto, a instituição Estado nas ações de expansão, mente utilizada no Brasil para de-
de espaços protegidos que se inicia- integração e controle do território signar todas as diferentes áreas pro-
va no país, contemplava duas tradi- nacional. tegidas criadas no país, à exceção de
ções distintas: uma, na qual os re- terras indígenas, seja pelo Poder
cursos renováveis poderiam ser ex- 3) A singularidade territorial, Público ou pela sociedade civil, para
plorados sob a concessão e controle biológica e sócio-cultural atender aos objetivos específicos da
do Estado (Florestas Nacionais), e Finalmente, dadas às dimensões proteção dos recursos renováveis.
outra, que privilegiava a noção de continentais e à grande heteroge- Mas, apenas recentemente, através
uma natureza sacralizada e “into- neidade espacial, ecológica e cultu- da Lei 9985 de 2000, essa terminolo-
cada”, que deveria ser mantida sob ral do país, o modelo brasileiro foi gia teve a sua conceituação legal de-
proteção do Estado (Parques Nacio- pressionado, progressivamente, a finitivamente estabelecida. Conside-

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rando as especificidades das diferen- Tabela 2: Tipologias e Categorias de Unidades de Conservação Previstas
tes categorias de manejo – Parques pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei 9985/2000) -
Nacionais, Reservas Biológicas, Áre- SNUC, 2000
as de Proteção Ambiental, Florestas
Nacionais, entre outras – o princi-
pal objetivo das designadas Unida-
des de Conservação é a instituição
de uma nova dinâmica de proteção
territorial nos espaços destinados à
sua implementação, no processo que
vai desde a sua criação/delimitação
até a sua gestão. Portanto, as Unida-
des de Conservação constituem uma
terceira via de percepção e apropria-
ção do espaço pela sociedade. A par- em dois grandes grupos: as Unida- apresenta as tipologias e categorias
tir dessa lógica, juntamente à dinâ- des de Conservação de Proteção In- de manejo previstas atualmente pelo
mica do “espaço urbano” e do “es- tegral e as Unidades de Conserva- Sistema Nacional de Unidades de
paço rural/agrícola”, soma-se ou ção de Uso Sustentável, o que mais Conservação.
acomoda-se o espaço natural espe- uma vez ilustra a integração de per- Por outro lado, as denominadas
cialmente protegido pelo Estado. Isto cepções distintas da sociedade com Áreas de Preservação Permanente e
ocorre, como argumenta Derani relação ao significado da natureza: as Reservas Legais, como anterior-
(2001:240), porque “onde há unida- a percepção e a ideologia dos deno- mente discutido, não se enquadram
de de conservação, ou não há urba- minados “preservacionistas”, inspi- nas tipologias de Unidades de Con-
nização ou agricultura (unidades de rada na intocabilidade dos recur- servação previstas no SNUC pois
proteção integral), ou estas ativida- sos renováveis e, a concepção de in- respondem a uma dinâmica de ges-
des antrópicas submetem-se a limi- clusão social na gestão das áreas tão diferente e foram instituídas por
tes e zoneamentos específicos (uni- protegidas, originária do grupo dos um outro instrumento legal, o Códi-
dades de uso sustentável)”. denominados “socioambientalis- go Florestal de 1965.
Inicialmente objeto de diferentes tas” (ver IRVING, op. cit.). Inúmeras vezes modificado atra-
leis, criadas em distintos momentos Pelo SNUC são previstas 12 cate- vés de emendas e medidas provisóri-
como resposta às demandas nacio- gorias de manejo distintas: – cinco de as, o Código Florestal foi um instru-
nal e internacional de proteção, as Proteção Integral e sete de Uso Sus- mento criado com o objetivo de esta-
categorias de manejo de Unidades tentável. A responsabilidade pela cri- belecer os marcos regulatórios da ex-
de Conservação foram, em 2000, re- ação, manutenção e gestão destas ploração dos recursos florestais em
conceituadas, agrupadas e apresen- áreas é realizada majoritariamente solo brasileiro. Entretanto, seguindo
tadas segundo uma visão estratégi- pela União, através do Governo Fe- uma tradição já iniciada em outros
ca e sistêmica, dirigida à gestão, em deral, estados e municípios (11 das países, ele também trata da proteção
um único instrumento legal, o “Sis- 12 categorias existentes atualmente), destes recursos e dos espaços onde
tema Nacional de Unidades de Con- mas pode ser exercida voluntaria- os mesmos ocorrem, em determina-
servação da Natureza (SNUC)”, re- mente pela sociedade civil, através das circunstâncias, e em função de
sultado de aproximadamente dez das Reservas Particulares do Patri- alguns atributos específicos. No tex-
anos de discussões entre governo e mônio Natural – RPPNs. Entretanto, to de 19658, as “Áreas de Preserva-
sociedade, conforme discute Irving é importante salientar que a criação ção Permanente” e as “Reservas Le-
(2002). Segundo o SNUC, o princi- de novas categorias de manejo é tam- gais” são definidas como instrumen-
pal objetivo das Unidades de Con- bém garantida no texto do SNUC, que tos de proteção das “florestas existen-
servação é atender, de maneira pre- reconhece, inclusive, aquelas criadas tes no território nacional e as demais
cisa, a determinados imperativos da por estados e municípios, através de formas de vegetação, reconhecidas de
proteção como, por exemplo, a pro- legislações específicas. A Tabela 2 utilidade às terras que revestem”.
teção de ecossistemas e espécies
7
ameaçadas de extinção ou ainda de São comuns as dissonâncias no emprego dos termos “proteção”, “conservação” e “preserva-
ção” quando aplicados à questão das áreas protegidas. Enquanto “proteção” deve ser emprega-
paisagens singulares, contemplan- do como um conceito integrador e agrupador de diversas práticas e estratégias voltadas para
do estratégias tanto de preservação a criação e implementação de espaços protegidos que gozam de um regime especial de uso e
quanto de conservação7. demarcação, “conservação” e “preservação” são entendidas como estratégias diferenciadas de
proteção dos recursos naturais, visando exatamente estabelecer a práxis da proteção - (parcial,
O SNUC divide as Unidades de no primeiro caso e, integral, no segundo).
Conservação no território nacional, 8
Artigos 1°, 2°, 16 e 44.

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Porém, diferentemente de uma
Unidade de Conservação, que prevê
a intervenção sobre um espaço pre-
viamente delimitado e definido, com
uso e fins específicos, visando a sua
proteção através de um ato do Poder
Público (lei, decreto, etc), as Áreas de
Preservação Permanente e as Reser-
vas Legais são decorrentes de um
único instrumento legal, que colocou
sob um regime de intocabilidade
grandes parcelas do território brasi-
leiro. Estas áreas são conceitualmen-
te aquelas que ocorrem nas margens
de cursos d’água, lagos, lagoas, re-
servatórios, montes e encostas (Áre-
as de Preservação Permanente), ou
que consistem em parcelas (expres-
sas em percentuais por bioma) de
floresta nativa9, presentes no interi- Figura 1: Esquema da proteção pública e privada no Brasil em resposta
or de propriedades privadas e que aos dois principais dispositivos legais (Código Florestal e Sistema
têm o corte e a exploração limitados Nacional de Unidades de Conservação)
(Reserva Legal). Toda a área que
tipifica essas condições, segundo o
ria constituíam áreas públicas, o gais – o SNUC (Lei 9985/2000) e o
Código Florestal, tem seu uso direto
Poder Público impôs à sociedade, a Código Florestal (Lei 4771/1965) –
interditado pelo Poder Público, não
proteção da natureza através de es- apesar da existência de diversos ou-
havendo a necessidade de nenhum
paços territoriais de domínio priva- tros dispositivos legais que tratam
outro instrumento normativo espe-
do, através das Reservas Legais, pe- da proteção dos recursos renováveis
cífico para sua instituição. Os objeti-
las quais os proprietários de terra e da gestão ambiental que devem ser
vos desta iniciativa eram prioritaria-
são obrigados a manter preservados, também considerados relevantes no
mente assegurar que não houvesse
no mínimo10 50% de suas proprie- cumprimento desta função.
a sobre-exploração do recurso ma-
dades (nas regiões Norte e parte da Dentre eles, chama a atenção a
deireiro ou a substituição de ecossis-
Centro-Oeste)11, e 20%, no restante questão das Áreas Indígenas brasi-
temas ou biomas originais por áreas
do país12. No total, a sua abrangência leiras que estão subordinadas a um
de pasto ou cultivo, sobretudo em
geográfica, em termos quantitativos, outro arcabouço legal e institucional.
áreas críticas para a manutenção de
acaba sendo, em teoria, muito maior Atualmente recobrindo cerca de 12%
estoques de água e a integridade dos
do que o total do território protegido do território nacional (20% se consi-
solos, e também garantir a preserva-
sob a forma de Unidades de Conser- derada apenas a Amazônia), estas
ção de significativas parcelas territo-
vação. áreas não estão integradas formal-
riais dos diversos biomas existentes
Assim, conforme esquematizado mente à política de proteção da na-
no Brasil.
na Figura 1, pode-se afirmar que o tureza expressa pelo Sistema Nacio-
Do ponto de vista preventivo ou
modelo atual de proteção da nature- nal de Unidades de Conservação,
da precaução, o Código Florestal, em
za, no Brasil, está praticamente apesar de sua inegável contribuição
tese, parece ter representado um bom
centrado nestes dois dispositivos le- nesse sentido.
instrumento para a preservação de
biomas relevantes, já que colocou e
vem mantendo sob proteção integral 9
Para fins de melhor diferenciação, no texto do Código Florestal de 1965, a idéia de floresta
e permanente significativa parcela nativa é colocada apenas como contraposição às florestas plantadas ou cultivadas para o
corte de madeira.
do território nacional. No entanto,
10
ele tem sido alvo de inúmeras dis- Estes valores são os que constam no texto original da Lei que institui o Código Florestal em
1965 e são sistematicamente alterados por medida provisória pelo governo em resposta a
cussões pela sociedade brasileira, diferentes pressões – como exemplo, a dos ruralistas, que sistematicamente buscam sua
uma vez que afeta diretamente a di- diminuição e, a dos ambientalistas, que frente aos crescentes índices de desmatamento
em determinadas regiões, militam pelo seu aumento.
nâmica das áreas produtivas.
11
Assim, além das Áreas de Preser- Leia-se Floresta Amazônica.
12
vação Permanente, que em sua maio- Leia-se Floresta Atlântica, Cerrado, Caatinga e os Campos Sulinos.

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Figura 2: Evolução da área acumulada das Unidades de Conservação por tipo de uso por quinqüênio.

O Mapa da Proteção no em torno de 6% do território, sendo, domínio privado, registradas sob a


Brasil portanto, a parcela mais significati- forma de RPPNs, que hoje somam
va do atual patrimônio nacional efe- cerca de 300 unidades, representam
Desde a criação da primeira Uni- tivamente protegido sob a forma de ainda uma pequena porcentagem
dade de Conservação federal no Bra- Unidades de Conservação (Tabela deste total mas tendem a um aumen-
sil, após um longo período de dis- 3). As Unidades de Conservação de to progressivo.
cussão e de frustradas tentativas em
anos anteriores, a instituição destes Tabela 3: Número e área total (ha) de Unidades de
espaços passou a se tornar uma es- Conservação Federais criadas no Brasil segundo a tipologia
tratégia contínua e crescente, confor- de uso e as categorias de manejo1
me ilustrado pela Figura 2. Na atua-
lidade, não há uma só unidade da
federação que não possua uma área
protegida legalmente instituída pelo
Poder Público.
Coube essencialmente ao Estado
a tarefa de criar e implementar áreas
protegidas no país. Atualmente, se-
gundo as estimativas mais recentes
(IBAMA, 2003a), o total de Unida-
des de Conservação apenas sob con-
trole e gestão do Poder Público (fe-
deral, estadual ou municipal) reco-
bre o equivalente a cerca de 8% do
território nacional. As Unidades de
Fonte: Diretoria de Ecossistemas do IBAMA, dados atualizados em 15/06/2004
Conservação federais, que somam 1
Classificação segundo o SNUC, 2000; 2 área expressa em hectares. As sobreposições entre as UCs
256 áreas protegidas, correspondem foram processadas incluindo-as na categoria de maior restrição; 3 baseia-se na malha municipal
a mais de 85% deste total, ou seja, digital do Brasil de 1996, fornecida pelo IBGE. Não inclui ilhas oceânicas.

RDE – REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Ano VI • Nº 9 • Janeiro de 2004 • Salvador, BA 89


Entretanto, a maior extensão do na com a instituição do primeiro 6938/81), que estabelece um Siste-
território dirigida à proteção dos re- Parque Nacional do país em Itati- ma Nacional de Meio Ambiente
cursos renováveis, de domínio pú- aia/RJ, sinaliza um marco institu- (SISNAMA) e cria a figura do Con-
blico ou privado no país, expressa cional. Como conseqüência, outras selho Nacional de Meio Ambiente
pelas Reservas Legais e Áreas de Unidades de Conservação são gra- (CONAMA), com participação pre-
Preservação Permanente, não está dativamente criadas no país. Esta vista da sociedade civil.
quantificada ou sistematizada com evolução ocorre, basicamente, em
precisão13, nem tampouco dispõe de resposta aos movimentos que, des- c) O período pós 1985
um sistema de gestão ou monitora- de o período imperial, se mobilizam A redemocratização do país, a
mento integrado, à exceção de algu- em torno da defesa de biomas, partir de 1985, e a posterior crise do
mas experiências pontuais, como é notadamente a Mata Atlântica, de- Estado brasileiro, originaram uma
o caso do Estado de Mato Grosso e gradados pelo processo de coloniza- nova fase de expansão e re-estrutu-
outros da Amazônia Legal, que vem ção e ameaçados pelo avanço do es- ração da questão ligada à proteção
desenvolvendo esforços para o paço urbano e rural. Estes movimen- da natureza no país, com uma ten-
mapeamento e controle de desmata- tos, liderados por personalidades dência clara à “simplificação” da
mento em Reservas Legais. Uma con- públicas, políticas e a elite científica política, mas com alguns avanços
seqüência perversa dessa dinâmica da época, apóia-se no movimento evidentes: i) a nova Constituição Bra-
é que os ecossistemas que se encon- internacional de criação de áreas sileira (1988), com um capítulo es-
tram nestas áreas, e não são protegi- protegidas e seus discursos tradici- pecificamente dirigido à temática
dos através da existência formal de onais. Contudo, sua expansão pelo ambiental; ii) a criação de um único
uma Unidade de Conservação, são território é limitada e fortemente con- órgão vinculado ao Estado para
os que mais sofrem com a degrada- centrada no eixo sul-sudeste. implementação e administração das
ção, desmatamento, extinção de es- áreas protegidas (IBAMA); iii) o up
pécies e fragmentação. Esses espa- b) O período que compreende a grade da temática ambiental sob a
ços certamente deverão ser melhor ditadura militar (1964-1984) ótica político-institucional, através
incorporados às Políticas Públicas, É sobretudo na década de 70, da criação do Ministério do Meio
principalmente no âmbito da Políti- quando os instrumentos políticos Ambiente (MMA); iv) a criação de
ca Nacional de Áreas Protegidas, em criados no período anterior são revi- um sistema integrado de áreas pro-
construção no país. sados e outros novos são instituídos. tegidas (SNUC), em 2000, com o ob-
A criação de novas áreas protegidas jetivo simultâneo de reduzir as
toma uma dimensão nacional, fruto sobreposições e antagonismos da
Marcos históricos da da estratégia do Estado de integrar e política anterior mas também expan-
construção de áreas desenvolver todas as regiões do país. dir os objetivos da proteção. Neste
protegidas e debate atual Nesta fase, a proteção dos recursos cenário, cresce a participação dos
renováveis adquire um sentido geo- movimentos ambientalistas - nacio-
Na lógica da retrospectiva para a político mais intenso, já que a cria- nais e transnacionais - na vida polí-
projeção de cenários futuros, de ma- ção de áreas protegidas é de forma tica nacional que, progressivamente
neira resumida e em linhas gerais, a recorrente utilizada e justificada pelo se tornam importantes agentes, tan-
materialização das áreas protegidas Estado nas ações de controle do ter- to no planejamento quanto na exe-
no território brasileiro se expressou ritório. Este período marca também cução e gerenciamento de ações vol-
como o resultado de um longo e len- a criação de organismos governa- tadas à política de proteção dos re-
to processo de aparelhamento e mentais, i. e., o Instituto Brasileiro de cursos renováveis. A cooperação
estruturação do Estado, o que con- Desenvolvimento Florestal e a Secre- internacional adquire nova face e se
duziu ao gradativo desenvolvimen- taria de Meio Ambiente, instituídos fortalece através de programas e pro-
to de uma Política Pública voltada especificamente para implementar e jetos bilaterais ou multilaterais de
para a proteção da natureza. Esta gerir a política ambiental. A crescen- desenvolvimento, num primeiro
política teve pelo menos três momen- te mobilização internacional em tor- momento, e de conservação de recur-
tos marcantes: a) a década de 30, b) o no da questão ambiental, que se re- sos renováveis, posteriormente, atra-
período da ditadura militar (1964- flete no país, é também um impor- vés da negociação de complexos pro-
1984), c) o período pós 1985. tante ponto de pressão. Ironicamen- jetos/programas, entre os quais po-
te, nessa fase, se estrutura a Política dem ser citados o Plano de Desen-
a) A década de 30 Nacional de Meio Ambiente (Lei volvimento Agroambiental de Mato
O surgimento dos primeiros ins-
trumentos legais voltados para a cri- 13
Pelas informações disponíveis é possível estimar que elas recubram cerca de 30% do
ação de áreas protegidas, que culmi- território

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Quadro 1: Síntese do processo político-institucional de construção e consolidação da política brasileira de
proteção da natureza

Grosso (PRODEAGRO), o Plano de mas ambientais, sustentada em pes- ticas ambientais e ganham “interlo-
Desenvolvimento Florestal de Ron- quisas realizadas por diferentes gru- cutores” capazes de gerar uma forte
dônia, o Projeto de Desenvolvimen- pos de cientistas, contribui para o influência sobre os processos decisó-
to Turístico do Nordeste (PRODE- surgimento de uma nova “ordem rios. No Brasil, tais organizações
TUR), o Programa Piloto para a Pro- ambiental”, pós década de 70, que começam a adquirir um relevante
teção de Florestas Tropicais (PPG7) impõe uma agenda ambiental pla- espaço de atuação a partir da déca-
e, mais recentemente, o Projeto ARPA netária, que se sobrepõe aos interes- da de 80, com a abertura política, se
(Áreas Protegidas da Amazônia). Por ses nacionais e locais, com metas e tornando influentes atores no pro-
meio destas cooperações, novos estratégias comuns a vários países, cesso, tanto de elaboração quanto de
aportes de recursos são destinados na qual a questão da proteção dos execução de políticas de proteção da
ao país e novas exigências são recursos renováveis se apresenta natureza, em parceria com o Estado.
formatadas em direção ao fortaleci- como central. Tal percepção, tam- Em alguns casos, estes se transfor-
mento da política de proteção de re- bém gera, em todo o mundo (e no mam em “poder paralelo”, em fun-
cursos naturais renováveis (IRVING, Brasil, de maneira significativa), o ção de seus meios, sua agilidade e
2002 a). surgimento de movimentos organi- capacidade operacional.
A construção deste arcabouço zados em torno da questão ambien- Neste cenário de mudanças, o
político-institucional que hoje, no tal. Estes movimentos, cuja expres- Estado assume cada vez mais o pa-
país, funciona de maneira mais in- são jurídica mais evidente são as pel de “arbitro”, tendo em vista a
tegrada e concentrada no que tange ONGs, contribuem para estabelecer necessidade de serem contempladas
às ações voltadas para a proteção dos uma nova via de comunicação e re- todas as demandas e expectativas
recursos renováveis, não foi decor- presentação da sociedade frente aos dos diferentes segmentos da socie-
rente apenas de uma ação isolada poderes políticos constituídos. Eles dade. No caso das Unidades de Con-
ou imposição do Estado. Diversas se organizam, inicialmente, em al- servação, esse papel se traduz numa
foram as exigências, setores e atores guns países europeus e nos Estados complexa rede de negociação com
que se somaram, formando uma Unidos, mas rapidamente internaci- diferentes agentes atuantes no pro-
imbricada rede de interesses e de- onalizam suas atividades promo- cesso. O resultado prático de todo
mandas, atuando em diferentes ní- vendo alianças com organizações esta dinâmica, em cada um dos perí-
veis (nacional e internacional) e es- locais e movimentos sociais distin- odos indicados acima, é sintetizado
calas (local, regional, nacional e pla- tos, em diversas partes do mundo. no Quadro 1.
netária). Em pouco tempo, a questão das mi- Assim, desde a criação da primei-
No cenário internacional, a cres- norias e os temas sociais passam a ra Unidade de Conservação federal
cente percepção mundial dos proble- ser incorporados, assim, pelas polí- no país e, ao longo dos últimos 70

RDE – REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Ano VI • Nº 9 • Janeiro de 2004 • Salvador, BA 91


anos, houve uma mudança gradati- perdas e ganhos, e se concretiza num estabelecem em função da dissonân-
va no papel exercido pelo Estado desafio sem precedente para os pró- cia de Políticas Públicas, que resul-
com relação à política de proteção ximos anos. Apesar de toda a evolu- ta, freqüentemente, no direciona-
dos recursos renováveis. No início ção empreendida no plano institu- mento de uso do mesmo espaço geo-
do processo, o Estado era responsá- cional, legal e de Políticas Públicas, gráfico e apropriação da terra para
vel pela concepção da política e prin- o que resultou indiretamente na mul- diferentes formas de uso (cultivo,
cipal implementador das diversas tiplicação e expansão das áreas pro- extrativismo, caça, exploração da
ações propostas (gestão, fiscaliza- tegidas pelo território nacional, são madeira, implantação de assenta-
ção, projetos experimentais, educa- inúmeros os condicionantes históri- mentos e áreas indígenas, constru-
ção etc). Mas, gradativamente, seu cos e indefinições que impedem o seu ção de estradas, exploração mineral,
eixo de atuação passou a se concen- efetivo funcionamento e interferem etc), formas estas que contrariam o
trar na concepção e coordenação de em tendências futuras. Em particu- estatuto de proteção da área em ques-
políticas e projetos voltados às Uni- lar, merecem ser destacados, em pri- tão. Além disso, temáticas recentes,
dades de Conservação, delegando a meiro lugar, as limitações financei- como o uso e acesso à biodiversidade
execução de algumas das ações lo- ras e de recursos humanos e, em se- e sua exploração, por meio da biotec-
cais para diferentes parceiros institu- guida, os problemas ligados à inte- nologia ou usos industriais diversos,
cionais (ONG’s, associações locais, gração da dimensão local e global. tem inspirado novas formas de con-
Fundações, Universidades, entre A falta de recursos humanos e fi- flitos e disputas, à medida que con-
outras). nanceiros constitui um problema ferem uma tripla valorização, em al-
Este processo resultou do enten- crônico no modelo brasileiro que guns casos, aos espaços protegidos,
dimento das dificuldades – sobretu- impôs sérias restrições ao funciona- expressa tanto em função do preço
do financeiras e estruturais - que se mento de muitas Unidades de Con- da terra quanto pelo valor dos recur-
impuseram ao Estado na execução servação. Muitas sobreviveram ape- sos renováveis presentes ou, ainda,
de todas as ações necessárias ao fun- nas “no papel”, sem que qualquer pelo patrimônio em saber acumula-
cionamento e manutenção das uni- intervenção fosse realizada ou mes- do pelas populações tradicionais
dades de conservação. A situação mo que seus Planos de Manejo fos- que ali residem. No entanto, apesar
pode ser paulatinamente equaciona- sem elaborados. Com isto, gerou-se destes conflitos gerarem, freqüente-
da com o estabelecimento, em níveis um enorme passivo no sistema, tra- mente, efeitos perversos à consolida-
nacional e internacional, de diver- duzido sob a forma de áreas protegi- ção do Sistema Nacional, eles tem
sas parcerias com organismos e ins- das em mal estado de conservação, contribuído também para o estabe-
tituições de apoio ao desenvolvi- recentemente objetos de um enorme lecimento de uma “agenda positiva”
mento, que passaram a colaborar e esforço do Estado, visando sua re- para a proteção da natureza no país,
garantir um maior aporte de recur- cuperação e reaparelhamento. Co- que vem produzindo resultados sig-
sos à proteção da biodiversidade mo conseqüência, apesar dos recur- nificativos, tais como: 1) o incremen-
(BID, BIRD, PPG7, GEF, Comunida- sos para a proteção da natureza te- to do processo participativo na cria-
de Européia, etc). Esta nova estraté- rem aumentado significativamente a ção e gestão da Unidades de Con-
gia política de proteção se consoli- partir de anos 80/90, provenientes servação, 2) a definição de novas
da, de maneira mais evidente, a par- de fontes externas (Projetos e progra- categorias de manejo mais flexíveis
tir dos anos 90 e se materializa, de mas bilaterais e/ou multilaterais ) e diante das demandas sociais, 3) o de-
forma definitiva, com a Lei 9985, que também oriundas do próprio orça- senvolvimento de modelos inovado-
estabeleceu o SNUC e, posteriormen- mento da União, boa parte destes res de gestão e parceria, 4) a articu-
te, com a Política Nacional de Biodi- teve que ser investida na recupera- lação progressiva de Políticas Públi-
versidade (Decreto 4339/02). O mai- ção deste passivo. cas, manifesta nas noções de “trans-
or desafio em Políticas Públicas, no A inexistência de uma estratégia versalidade” e “internalização” da
momento atual, se refere à constru- clara de integração da Unidade de Política Ambiental pelos demais mi-
ção participativa e democrática da Conservação à dinâmica local e às nistérios. É importante assinalar,
Política Nacional de Áreas Protegi- questões globais, ligadas aos princi- também, que a Política Nacional de
das, prevista para 2005. pais acordos internacionais, gerou e Áreas Protegidas, a ser formalmente
gera diversos conflitos, em distintas instituída em 2005, pelo Ministério
localidades, conseqüentes, em geral, do Meio Ambiente é decorrência do
Conclusões à criação e implementação de áreas “amadurecimento” da sociedade
protegidas, de forma autoritária e brasileira, da difusão e discussão
O histórico de proteção da natu- pouco negociada com os diferentes pública do Sistema Nacional de Uni-
reza, no caso brasileiro, reflete uma segmentos locais pelo Estado. Estes dades de Conservação e dos desdo-
dinâmica de avanços e recuos, de conflitos, em sua grande maioria, se bramentos políticos e institucionais

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da Política Nacional de Biodiversi- do aperfeiçoamento do sistema em FBCN. 1986. Legislação de Conservação
dade. A elaboração e consolidação termos conceituais e operacionais, da Natureza. Rio de Janeiro: Fundação
Brasileira para a Conservação da Na-
desta futura Política Nacional de da integração harmônica de Políti- tureza – FBCN. 720p.
Áreas Protegidas certamente dará cas Públicas mas, sobretudo, do for-
IBAMA. 2003a. Análise Estatística Es-
uma sustentação maior aos esforços talecimento de canais de diálogo pacial das Unidades de Conservação
empreendidos com esse objetivo. entre os diferentes setores nacionais Federais do Brasil. Disponível em
Efetivamente, o Estado, a partir e internacionais, e da compreensão http://www2.ibama.gov.br/unida-
dos anos 90, vem procurando desen- da perspectiva social associada à des/geralucs/estat/metodologia.htm.
volver, de forma mais consistente, proteção da natureza. Este é um pro- Acessado em 23/06/2003.
uma série de iniciativas nesta dire- cesso em franca construção, com des- IBAMA. 2003b. Lista das Unidades de
ção, ainda que, em pequena escala e, fecho imprevisível, mas que pode vir Conservação Federais. Disponível em
http://www2.ibama.gov.br/unida-
freqüentemente em caráter demons- a estabelecer ou fortalecer modos de
des/geralucs/fr_tabl.htm. Acessado
trativo – como os projetos apoiados ação pautados cada vez mais na de- em 23/06/2003.
pelo FNMA14, o PROBIO15 etc, com mocracia e eqüidade política e soci-
IRVING, M.A. 2002. Ecoturismo em
resultados bastante satisfatórios e al. Nesse contexto, certamente o mo- áreas protegidas: um desafio no con-
promissores. delo brasileiro poderá contribuir com texto brasileiro. In: IRVING, M.A. et
Há ainda que considerar que a lições aprendidas para o modelo glo- AZEVEDO, J. (Org.) Turismo: o desa-
Política de Áreas Protegidas só al- bal de proteção da natureza. fio da sustentabilidade. São Paulo: Fu-
tura, 2002.
cançará seus objetivos se ela for
implementada, de forma integrada IRVING, M.A. 2002a. Participação:
a outras ações do Estado (infra-es-
Referências Questão central na sustentabilidade de
projetos de desenvolvimento. In:
trutura, energia, planejamento, agri- BRASIL. 1965. Lei 4771/65 que Institui IRVING, M.A. et AZEVEDO, J. (Org.)
cultura, questão agrária, saúde, edu- o Novo Código Florestal. Turismo: o desafio da sustentabilidade.
cação etc). Apesar se vincular institu- BRASIL. 1998. Ministério do Meio Am- São Paulo: Futura, 2002.
cionalmente a um único ministério, biente, dos Recursos Hídrico e da Ama- IRVING, M. A. 2004. La conservation en-
o seu desafio maior será o de buscar zônia Legal. Diretrizes para a política de vironnementale et la qualité de vie:
a articulação e a transversalidade conservação e desenvolvimento sustentá- nouveaux défis sur une scène en muta-
vel da mata atlântica. Brasília/DF, 29p. tion. In : ROLLAND,D. Et CHASSIN, J.
necessárias entre os diferentes níveis
BRASIL. 2000. Lei 9985/00 que Institui (Orgs) Pour Comprendre le Brésil de
governamentais (federal, estadual e Lula. Paris : L’Harmattan, 2004.
o Sistema Nacional de Unidade de
municipal) e seus diferentes setores, Conservação da Natureza. MEDEIROS, R. 2003. A Proteção da Na-
aumentando a colaboração e a si- tureza: das Estratégias Internacionais e Na-
CABRAL, N. R. A. J. & SOUZA, M. P.
nergia entre os mesmos, condição 2002. Área de Proteção Ambiental: plane- cionais às demandas Locais. Rio de Janei-
sine qua non para o seu êxito. Da jamento e gestão de paisagens protegidas. ro: UFRJ/PPG. 391p. Tese (Doutorado
mesma forma, essa política não po- São Carlos: Rima Editora. 154p. em Geografia).
derá negligenciar as demandas so- CUNHA, L. H. & COELHO, M. C. N. MMA – Ministério do Meio Ambiente.
ciais e econômicas de um país emer- 2003. “Política e Questão Ambiental”. 2003b. Histórico do Processo de Con-
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RA, A. J. T. (org.). Rio de Janeiro: Ed.
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Finalmente, é necessário enfatizar ção – Pensamento político e crítica ambiental
DEAN, W. 2002. A Ferro e Fogo: A Histó-
que a temática da proteção da natu- ria da Devastação da Mata Atlântica Brasi- no Brasil escravista (1786-1888). Rio de
reza no Brasil não pode se ater a leira. São Paulo: Cia das Letras. 484p. Janeiro: Jorge Zahar Editor. 318p.
modelos ou sistemas “importados” PRADO JUNIOR, C. 1987. História Eco-
DERANI, C. 2001. A estrutura do Sis-
ou “pré-fabricados”, uma vez que a tema Nacional de Unidades de Con- nômica do Brasil. São Paulo: Editora
percepção do espaço e os modos de servação – Lei n°9.985/2000. In: Direito Brasiliense. 364p.
uso e apropriação da natureza se Ambiental das Áreas Protegidas: o regime UICN. 1994. Guidelines protected Area
modificam com o tempo e com a jurídico das unidades de conservação. Management Categories. Gland: UICN.
BENJAMIM, A. H. (Org.). Rio de Janei-
complexa dimensão cultural, carac- UICN. 2001. New Directions for the 21st.
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terística de um país de enorme di- Century: results of the world conservation
DIEGUES, A. C. 2001. O mito moderno da congress interactive session. Jeffrey A.
versidade humana.
natureza intocada. São Paulo: Ed. Huci- McNeely (ed). Gland: UICN. 131p.
Assim, o futuro do Sistema Nacio- tec. 161 p.
nal de Áreas Protegidas, em seus di-
ferentes aspectos, vai depender sig-
nificativamente de ações integradas 14
Fundo Nacional do Meio Ambiente
15
e sinérgicas do Governo brasileiro, Projeto de Conservação e Utilização da Diversidade Biológica Brasileira

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