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ISBN

978-85-472-0672-7

Pinto, Cristiano Vieira Sobral


Direito do consumidor para concursos / Cristiano Vieira Sobral Pinto, Gustavo Santana Nogueira.
– 2. ed. – São Paulo : Saraiva, 2016.
1. Consumidores - Leis e legislação - Brasil 2. Direito do consumidor - Legislação - Concursos I.
Nogueira, Gustavo Santana. II. Título.
CDU-34:381.6(81)(079.1)

Índices para catálogo sistemático:

1. Brasil : Concursos públicos : Consumidores : Direito do consumidor 34:381.6(81)(079.1)

Direção editorial Flávia Alves Bravin


Gerência editorial Thaís de Camargo Rodrigues
Gerência de concurso Roberto Navarro
Editoria de conteúdo Iris Ferrão
Assistência editorial Thiago Fraga | Verônica Pivisan Reis
Coordenação geral Clarissa Boraschi Maria
Produção do E-pub Guilherme Henrique Martins Salvador
Arte, diagramação, preparação e revisão (livro impresso) Microart Design Editorial
Serviços editoriais (livro impresso) Elaine Cristina da Silva | Kelli Priscila Pinto | Tiago
Dela Rosa
Serviços editoriais (livro digital) Surane Vellenich
Capa Guilherme Pinto

Data de fechamento da edição: 14-4-2016

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Acesse www.editorasaraiva.com.br/direito

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estabelecido na Lei n. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
SUMÁRIO

PREFÁCIO À 1ª EDIÇÃO

Apresentação

Parte I
1. Uma abordagem ao Código de Defesa do Consumidor
2. Relação jurídica de consumo
2.1. Quem é o consumidor?
2.2. Quem é o fornecedor?
2.3. Produto e serviço
3. Os princípios do Código de Defesa do Consumidor
3.1. Da vulnerabilidade
3.2. Do dever governamental
3.3. Da harmonização e compatibilização da proteção ao consumidor
3.4. Da boa-fé objetiva
3.4.1. Figuras correlatas6
3.4.1.1. Venire contra factum proprium
3.4.1.2. Supressio
3.4.1.3. Surrectio
3.4.1.4. Tu quoque
3.4.1.5. Duty to mitigate the loss26
3.4.1.6. Adimplemento substancial28
3.5. Da equidade
3.6. Da educação e informação dos consumidores
3.7. Do controle de qualidade e mecanismos de atendimento pelas próprias empresas
3.8. Da racionalização e melhoria dos serviços públicos
3.9. Da coibição e repressão das práticas abusivas
3.10. Do estudo das modificações do mercado
4. Direitos básicos do consumidor
4.1. A proteção da vida, saúde e segurança
4.2. Educação, informação e liberdade de escolha
4.3. Informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços
4.4. Proteção contra a publicidade enganosa e abusiva
4.5. A modificação e a revisão das cláusulas contratuais
4.6. A prevenção e a reparação integral dos danos
4.6.1. Espécies de danos
4.7. Facilitação do acesso à justiça e à administração
4.8. Facilitação da defesa e a inversão do ônus da prova
4.9. A adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral
5. A responsabilidade civil no CDC
5.1. A ocorrência do vício do produto e do serviço
5.2. A decadência. Análise do art. 26 do CDC
5.3. A ocorrência do fato do produto e do serviço
6. Da desconsideração da personalidade jurídica
7. Oferta
8. Da publicidade
9. Das práticas abusivas
9.1. Venda casada
9.2. Venda quantitativa
9.3. Recusa de atendimento
9.4. Fornecimento de produto/serviço não solicitado
9.5. Aproveitamento da vulnerabilidade do consumidor
9.6. Exigir vantagem excessiva
9.7. Serviços sem orçamento
9.8. Repasse de informações depreciativas
9.9. Descumprir normas técnicas
9.10. Recusa de venda direta ou à vista
9.11. Elevação dos preços sem justa causa de produtos e serviços
9.12. Inexistência de prazo para o cumprimento da obrigação
9.13. Aplicar fórmula ou reajuste diverso do legal
10. Cobrança de dívidas
11. Banco de dados
12. Proteção contratual
12.1. Direito de arrependimento
12.2. Da garantia contratual
12.3. Cláusulas abusivas
12.3.1. Da cláusula de não indenizar
12.3.2. Impedimento de reembolso
12.3.3. Transferência da responsabilidade a terceiros
12.3.4. As cláusulas iníquas e abusivas que ferem a equidade e a boa-fé
12.3.5. Inversão do ônus da prova
12.3.6. Utilização compulsória de arbitragem
12.3.7. Imposição de representante
12.3.8. Opção de conclusão do negócio
12.3.9. Variação do preço de maneira unilateral
12.3.10. Cancelamento unilateral do contrato
12.3.11. Ressarcimento de custos
12.3.12. Alteração unilateral do contrato
12.3.13. Violação das normas ambientais
12.3.14. Cláusula contrária ao sistema de proteção ao consumidor
12.3.15. Renúncia à indenização por benfeitorias necessárias
12.3.16. A conservação dos contratos
12.3.17. Controle das cláusulas abusivas
13. Dos contratos de concessão de crédito, financiamento e consórcio
14. A compra e venda de imóveis e móveis
15. Dos contratos de adesão

Parte II
1. Microssistema de tutela coletiva
2. Processo individual e coletivo: quais as diferenças?
3. Acesso à Justiça
4. Interesses ou direitos coletivos?
5. Direitos difusos
6. Direitos coletivos
7. Direitos individuais homogêneos
8. Quadro comparativo
9. Legitimidade ativa
9.1. Ministério Público
9.2. Defensoria Pública
9.3. Administração Pública direta
9.4. Entidades e órgãos da Administração direta ou indireta
9.5. Associações
10. Atipicidade da tutela coletiva
11. Dano moral coletivo
12. Tutela específica
13. Conversão em perdas e danos
14. Perdas e danos
15. Tutela antecipada
16. Multa diária
17. Medidas coercitivas atípicas
18. Custas e despesas nas ações coletivas
19. O direito de regresso no CDC
20. Diálogo das fontes: CDC e LACP
21. O MP como fiscal da lei
22. Competência
23. A competência no CDC
24. Danos nacional, regional e local
25. A exclusividade do foro do Distrito Federal
26. Opt in no direito brasileiro
27. Iliquidez da sentença
28. Liquidação da sentença
29. Qual o foro competente para conhecer da liquidação e execução do julgado?
30. E o indivíduo dispõe de prazo prescricional para requerer a liquidação e a execução
da sentença coletiva que lhe favorece?
31. Execução da sentença coletiva
32. Formalidades
33. Competência para a execução coletiva
34. Concurso de créditos
35. Execução coletiva da sentença em caso de inércia dos titulares do direito
36. Regra de competência
37. Regra de intervenção de terceiros
38. Coisa julgada coletiva
39. Coisa julgada e direitos difusos
40. Coisa julgada e direitos coletivos
41. Coisa julgada e direitos individuais homogêneos
42. Efeitos do opt in
43. Efeitos da coisa julgada penal no processo coletivo
44. Litispendência entre ações individuais e coletivas e entre ações coletivas
45. Relação entre as ações coletivas e as individuais
46. Vale a pena suspender uma demanda individual para aguardar o desfecho da
coletiva?
47. Restrição territorial da coisa julgada

Questões de Concursos
Gabarito

Referências
Cristiano Vieira Sobral Pinto
Advogado. Doutorando. Palestrante. Autor de obras jurídicas.
Instagram: @cristianosobral
Facebook: ProfessorCristianoSobral
Twitter: @profCrisSobral

Gustavo Santana Nogueira


Promotor de Justiça no Estado do Rio de Janeiro. Mestre em Direito pela UNESA. Doutor em Direito pela UERJ. Autor de
livros e artigos jurídicos.
Instagram: @professorgustavonogueira
Facebook: Professor Gustavo Nogueira
Dedico esta obra à minha esposa Cláudia Cosenza,amor mais pleno da minha vida.
Aos meus pais, Maria de Lourdes e José Sobral Pinto, minha estrutura.
À minha pequena Carol, irmã e uma perfeita amiga.
À família que ganhei, Rogério Mendes e Ivone Cosenza, dois amores.
Aos meus anjinhos!
Cristiano Vieira Sobral Pinto

Esta obra é uma bênção do Aba Pai, e a Ele sou grato por todas as bênçãos na minha
vida!
À minha amada mulher, Suzane, companheira de todos os momentos: eu te amo! Você
me completa, você me faz feliz, você é tudo o que eu sempre quis!
“Deus mudou o teu caminho até juntares com o meu e guardou a tua vida separando-a
para mim. Para onde fores, irei; onde tu repousares, repousarei. Teu Deus será o meu
Deus. Teu caminho o meu será” (Rute 1:16,17).
Às minhas filhas amadas e adoradas, Liz Maria e Sofia, meninas abençoadas que alegram
a minha existência: papai ama vocês!
“Trouxeram-lhe, então algumas crianças, para que lhes impusesse as mãos, e orasse. Mas
os discípulos repreendiam. Jesus, porém, disse: deixai os pequeninos, e não os impeçais
de vir a mim, pois dos tais é o Reino dos Céus” (Mateus 18:3).
Gustavo Santana Nogueira
PREFÁCIO À 1ª EDIÇÃO

Vinte e três anos após a promulgação da Lei n. 8.078/90, que agora passa por um
processo de atualização, por meio dos Projetos de Lei do Senado n. 281 (comércio
eletrônico), n. 282 (processos coletivos) e n. 283 (superendividamento), todos de 2012, o
Direito do Consumidor se consolida como direito da cidadania, localizado
topograficamente nos arts. 5º, XXXII, e 170, V, da Constituição da República.
Trata-se da lei principiológica que mais profundamente modificou o direito privado
brasileiro nos últimos 50 anos, deflagrando um verdadeiro repensar crítico a partir da
identificação de um novo sujeito de direitos fundamentais, o consumidor.
A obra de Cristiano Vieira Sobral Pinto e Gustavo Santana Nogueira, Direito do
Consumidor para concursos, é uma excelente leitura para profissionais e estudantes,
enfrentando, de maneira didática, os principais aspectos materiais e processuais da
matéria.
Na Parte I, dedicada ao direito material, após abordar os conceitos básicos de
consumidor e fornecedor de produto e serviço, os autores discorrem sobre os princípios
básicos do Direito do Consumidor, em especial a vulnerabilidade, matriz e ideia-força de
todo o Código de Defesa do Consumidor, lado a lado com os deveres governamentais, a
harmonização dos interesses dos participantes da relação de consumo e a boa-fé objetiva.
Entre os direitos básicos do consumidor são destacados a informação, a educação, o
controle de qualidade pelas próprias empresas, a racionalização e a melhoria de serviços
públicos e a coibição e melhoria das práticas abusivas.
São ainda examinadas, entre outros tópicos, a responsabilidade ci​vil no Código de
Defesa do Consumidor, a desconsideração da personalidade jurídica, a vinculação
decorrente da publicidade e oferta e a proteção contratual.
Na Parte II, os autores se dedicam ao estudo das principais características das normas
processuais do Código de Defesa do Consumidor, abordando as mais importantes
diferenças entre o processo individual e coletivo. São apresentados, entre outros
problemas, a legitimidade ativa na tutela coletiva dos consumidores e as regras sobre
competência e coisa julgada do Código de Defesa do Consumidor.
Recomendo a obra, pela sua análise prática do Direito do Consumidor, sempre à luz de
questões de concursos públicos, como consulta para todos os estudiosos da matéria.
Rio de Janeiro, 14 de outubro de 2013.
Guilherme Magalhães Martins
Promotor de Justiça Titular da 3ª Promotoria Cível da Capital – Rio de Janeiro.
Professor adjunto de Direito Civil da Faculdade Nacional de Direito – UFRJ.
Doutor e Mestre em Direito Civil pela UERJ.
APRESENTAÇÃO

A presente obra visa ofertar um estudo contundente dos principais temas da parte
material e processual do Direito do Consumidor, com fundamento na jurisprudência
avançada, na doutrina mais contemporânea, nos enunciados do CJF, com a utilização de
questões de concursos públicos e, ainda, quadros de atenção.
O texto bastante conciso atende aos operadores do Direito, principalmente aqueles que
buscam os concursos públicos.
Longe de qualquer arroubo e com bastante humildade, podemos mencionar que o
Direito do Consumidor é um dos ramos mais importantes do Direito, e, por essa razão,
tivemos uma grande preocupação em apresentar os temas de maior relevância, assim
como realizar um paralelo com outros ramos do Direito.
Esperamos que a obra seja bem recebida pela comunidade jurídica, desde já
informando que sugestões e comentários serão muito bem recebidos, pois, por isso,
edições futuras serão melhoradas.
Bons estudos!
Cristiano Vieira Sobral Pinto
Gustavo Nogueira
PARTE I

1. Uma abordagem ao Código de Defesa do Consumidor

A nossa Constituição Federal de 1988 destaca em seu art. 5º, XXXII, que “o Estado irá
promover, na forma da lei, a defesa do consumidor”. Assim, é possível afirmar que não
se trata de uma mera faculdade, mas de um dever de o Estado proteger o elo mais fraco
na relação de consumo.
Ainda é possível encontrar uma determinação do constituinte no art. 48 do ADCT.
Observe: “O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da promulgação da
Constituição, elaborará Código de Defesa do Consumidor”.
Não só nesses dispositivos está expressa a defesa do consumidor, como também pode
ser observada nos arts. 24, VIII, 150, § 5º, e 170, I, da nossa lei maior.
A terminologia utilizada pela Lei n. 8.078/90 é perfeita, pois não se está diante de um
código de consumo, mas sim de uma lei que tutela a proteção do consumidor.
Trata-se de uma lei que é um microssistema jurídico multidisciplinar. O que isso
significa? Significa a máxima proteção desse vulnerável, que é transparecida por meio de
tutelas específicas, como nos ramos civil (arts. 8º a 54), administrativo (arts. 55 a 60 e,
ainda, 105 e 106), penal (arts. 61 a 80) e jurisdicional (arts. 81 a 104).
O art. 1º do CDC dispõe: “O presente código estabelece normas de proteção e defesa
do consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos dos arts. 5º, inciso
XXXII, 170, inciso V, da Constituição Federal e art. 48 de suas Disposições
Transitórias” (grifos nossos).
O que é uma norma de ordem pública? Consiste em uma norma cogente, de
observância obrigatória. O CDC é uma norma de ordem pública! Veja decisão:
Recurso especial (art. 105, III, “a”, da CRFB). Demanda ressarcitória de seguro. Segurado vítima
de crime de extorsão (CP, art. 158). Aresto estadual reconhecendo a cobertura securitária.
Irresignação da seguradora. 1. Violação do art. 535 do CPC 1 inocorrente. Acórdão local
devidamente fundamentado, tendo enfrentado todos os aspectos fá​tico-jurídi-​cos essenciais à
resolução da controvérsia. Desnecessidade de a autoridade judiciária enfrentar todas as alegações
veiculadas pelas partes, quando invocada motivação suficiente ao bom desate da lide. Não há vício
que possa nulificar o acórdão recorrido ou ensejar negativa de prestação jurisdicional, mormente na
espécie em que a recorrente sequer especificou quais temas deixaram de ser apreciados pela Corte
de origem. 2. A redefinição do enquadramento jurídico dos fatos expressamente mencionados no
acórdão hostilizado constitui mera revaloração da prova. A excepcional superação das Súmulas 5 e 7
desta Corte justifica-se em casos particulares, sobretudo quando, num juízo sumário, for possível
vislumbrar primo icto oculi que a tese articulada no apelo nobre não retrata rediscussão de fato e
nem interpretação de cláusulas contratuais, senão somente da qualificação jurídica dos fatos já
apurados e dos efeitos decorrentes de avença securitária, à luz de institutos jurídicos próprios a que
se reportou a cláusula que regula os riscos acobertados pela avença. 3. Mérito. Violação ao art. 757
do CC. Cobertura securitária. Predeterminação de riscos. Cláusula contratual remissiva a conceitos
de direito penal (furto e roubo). Segurado vítima de extorsão. Tênue distinção entre o delito do art.
157 do CP e o tipo do art. 158 do mesmo Codex. Critério do entendimento do homem médio. Relação
contratual submetida às normas do Código de Defesa do Consumidor. Dever de cobertura
caracterizado. 4. Firmada pela Corte a quo a natureza consumerista da relação jurídica
estabelecida entre as partes, forçosa sua submissão aos preceitos de ordem pública da Lei n.
8.078/90, a qual elegeu como premissas hermenêuticas a interpretação mais favorável ao
consumidor (art. 47), a nulidade de cláusulas que atenuem a responsabilidade do fornecedor, ou
redundem em renúncia ou disposição de direitos pelo consumidor (art. 51, I), ou desvirtuem
direitos fundamentais inerentes à natureza do contrato (art. 51, § 1º, II). 5. Embora a aleatoriedade
constitua característica elementar do contrato de seguro, é mister a previsão de quais os interesses
sujeitos a eventos confiados ao acaso estão protegidos, cujo implemento, uma vez verificado, impõe
o dever de cobertura pela seguradora. Daí a imprescindibilidade de se ter muito bem definidas as
balizas contratuais, cuja formação, segundo o art. 765 do Código Civil, deve observar o princípio da
“estrita boa-fé” e da “veracidade”, seja na conclusão ou na execução do contrato, bem assim quanto
ao “objeto” e as “circunstâncias e declarações a ele concernentes”. 6. As cláusulas contratuais, uma
vez delimitadas, não escapam da interpretação daquele que ocupa a outra extremidade da relação
jurídica, a saber, o consumidor, especialmente em face de manifestações volitivas materializadas em
disposições dúbias, lacunosas, omissas ou que comportem vários sentidos. 7. A mera remissão a
conceitos e artigos do Código Penal contida em cláusula de contrato de seguro não se compatibiliza
com a exigência do art. 54, § 4º, do CDC, uma vez que materializa informação insuficiente, que
escapa à compreensão do homem médio, incapaz de distinguir entre o crime de roubo e o delito de
extorsão, dada sua aproximação topográfica, conceitual e da forma probatória. Dever de cobertura
caracterizado. 8. Recurso especial conhecido e desprovido (REsp 1.106.827/SP, Rel. Min. Marco
Buzzi, Quarta Turma, julgado em 16-10-2012, DJe 23-10-2012).

Por ser uma norma de ordem pública, o magistrado deveria ter o poder de apreciar
qualquer cláusula abusiva em um contrato de consumo de ofício, mas não é esse o
posicionamento do STJ. Examine:
Agravo regimental no recurso especial. Afastamento de ofício de cláusulas abusivas.
Impossibilidade. Cobrança do coeficiente de equiparação salarial. Possibilidade desde que
pactuado. Agravo regimental a que se nega provimento. 1. Encontra-se consolidado no Superior
Tribunal de Justiça o entendimento acerca da impossibilidade de revisão de ofício de cláusulas
consideradas abusivas em contratos que regulem relação de consumo. 2. Nos termos da
jurisprudência pacífica desta Corte, a cobrança do Coeficiente de Equiparação Salarial – CES é
legal, mesmo antes do advento da Lei n. 8.692/93, desde que previsto contratualmente. 3. Agravo
regimental a que se nega provimento (AgRg no AgRg nos EDcl no REsp 957.158/RS, Rel. Min. Luis
Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 21-8-2012, DJe 29-8-2012).

Tal entendimento fica ainda mais forte diante da leitura da Súmula 381 do STJ que
informa:
Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de ofício, da abusividade das cláusulas.

A seguir julgado confirmando o texto:


Agravo regimental. Ação ordinária e cautelar. Inovação recursal. Nota promissória.
Preenchimento em acordo com o pactuado. Pedido de nulidade. Impossibilidade. Agravo
regimental não provido. Aplicação de multa. 1. Não é possível, em sede recursal, a inovação do
pedido. Se a agravante aforou ação de nulidade de nota promissória vinculada a contrato de abertura
de crédito, ao fundamento de que a cártula teria sido preenchida de forma abusiva e com a cobrança
de juros indevidos sendo, portanto, nula de pleno direito, não pode, em sede de apelação, modificar
o pedido para que se proceda à revisão das cláusulas contratuais que embasaram a cobrança da
referida cártula. 2. Ainda que o exame das alegadas ilegalidades da nota promissória demande o
exame das cláusulas contratuais que a embasam, não poderia o Tribunal de origem, no caso, proceder
à revisão contratual, sem que a parte o houvesse requerido em tempo oportuno ou em sede de ação
própria. 3. Nos termos da jurisprudência do STJ é defeso ao julgador conhecer de ofício da
abusividade de cláusulas nos contratos bancários. Súmula 381/STJ. 4. Agravo regimental não
provido, com aplicação de multa (AgRg no AREsp 75.136/MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão,
Quarta Turma, julgado em 16-10-2012, DJe 22-10-2012).
A Súmula citada está de acordo com o art. 1º do CDC? Entende-se que esta é um
verdadeiro contrassenso jurídico. Viola totalmente o que fora salientado no artigo da Lei
Consumerista. O respeitável magistrado Gerivaldo Neiva faz as seguintes ponderações:
Ora, da forma em que foi editada a Súmula, quando o STJ diz que o Juiz não pode conhecer de ofício
de tais cláusulas, por outras vias, está querendo dizer que os bancos podem inserir cláusulas
abusivas nos contratos, mas o Juiz simplesmente não pode conhecê-las de ofício. Banco manda, Juiz
obedece!
Conforme o jargão de uma comediante da televisão: Cláusula abusiva? “Pooooooode!!” Nesta lógica
absurda, considerando que as cláusulas abusivas são sempre favoráveis aos bancos e desfavoráveis
ao cliente, o STJ quer que os juízes sejam benevolentes com os bancos e indiferentes com seus
clientes. Devem se omitir, mesmo sabendo que esta omissão será favorável ao banco, e não podem
agir, mesmo sabendo que sua ação poderá corrigir uma ilegalidade 2.
Desse modo, descreve o art. 1º da legislação consumerista que norma de interesse
social é aquela que visa à proteção de interesses individuais relativos à dignidade da
pessoa humana e interesses metaindividuais, ou seja, da coletividade. Prolata o Tribunal
da cidadania:
Direito do consumidor. Administrativo. Normas de proteção e defesa do consumidor. Ordem
pública e interesse social. Princípio da vulnerabilidade do consumidor. Princípio da transparência.
Princípio da boa-fé objetiva. Princípio da confiança. Obrigação de segurança. Direito à informação.
Dever positivo do fornecedor de informar, adequada e claramente, sobre riscos de produtos e
serviços. Distinção entre informação-conteúdo e informação-advertência. Rotulagem. Proteção de
consumidores hipervulneráveis. Campo de aplicação da lei do glúten (Lei n. 8.543/92 ab-rogada
pela Lei n. 10.674/2003) e eventual antinomia com o art. 31 do Código de Defesa do Consumidor.
Mandado de segurança preventivo. Justo receio da impetrante de ofensa à sua livre-iniciativa e à
comercialização de seus produtos. Sanções administrativas por deixar de advertir sobre os riscos do
glúten aos doentes celíacos. Inexistência de direito líquido e certo. Denegação da segurança (REsp
586.316/MG, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 17-4-2007, DJe 19-3-2009).
DICA!
Diante do que foi exposto, fica clara a relação entre a Constituição Federal e o Código de Defesa do Consumidor. Por ter sido incluída a defesa do
consumidor no art. 5º, XXXII, no rol dos direitos fundamentais, pode ser sustentado o chamado fenômeno da constitucionalização do direito privado.
Dessa maneira, é possível aplicar os preceitos constitucionais nas relações privadas, a chamada eficácia horizontal dos direitos fundamentais. Um dos
maiores exemplos é a aplicação do princípio da dignidade da pessoa humana nas relações de consumo. Também merece destaque o texto da Súmula
Vinculante 25: “É ilícita a prisão civil de depositário infiel, qualquer que seja a modalidade do depósito”.

Adquirido por : Franklin Carter Lopes De Freitas


Telefone: 8899762640
2. Relação jurídica de consumo E-mail: franklinufc@hotmail.com

Fica estabelecida a relação de consumo com a presença dos elementos subjetivos e


objetivos. Os elementos subjetivos dividem-se em duas partes: consumidor e fornecedor.
Já os objetivos, referem-se à prestação em si, isto é, o produto e o serviço.

2.1. Quem é o consumidor?

A lei transparece o assunto no art. 2º, perceba:


Art. 2º Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como
destinatário final.

Esse é o tipo de consumidor intitulado standard, stricto sensu ou padrão.


O que significa ser um destinatário final? Encontra-se agora um dos pontos mais
discutidos na doutrina e na jurisprudência. Uma primeira corrente sustenta que o
consumidor é o destinatário final fático, isto é, uma pessoa que adquire o produto ou
utiliza o serviço, sem que se releve se eles serão utilizados no desenvolvimento de uma
atividade econômica ou não. Em síntese, não é relevante se o consumidor fará uso
particular ou profissional do bem. Tal corrente é minoritária e chamada de maximalista
ou objetiva. A segunda corrente defende que o conceito de destinatário final significa que
o consumidor valer-se-á do produto ou serviço para fins pessoais. Essa corrente, adotada
por nossos tribunais, é intitulada finalista ou subjetiva.
DICA!
Em certos casos, o STJ busca abrandar o critério subjetivo aplicado pela lei desde que presente a vulnerabilidade, que é a principal característica do
consumidor. Ocorre desse modo a denominada Teoria Finalista Aprofundada. Confira o teor do recente julgado:
Direito do consumidor. Consumo intermediário. Vulnerabilidade. Finalismo aprofundado. Não ostenta a qualidade de consumidor a pessoa física ou
jurídica que não é destinatária fática ou econômica do bem ou serviço, salvo se caracterizada a sua vulnerabilidade frente ao fornecedor. A
determinação da qualidade de consumidor deve, em regra, ser feita mediante aplicação da teoria finalista, que, numa exegese restritiva do art. 2º do CDC,
considera destinatário final tão somente o destinatário fático e econômico do bem ou serviço, seja ele pessoa física ou jurídica. Dessa forma, fica excluído
da proteção do CDC o consumo intermediário, assim entendido como aquele cujo produto retorna para as cadeias de produção e distribuição, compondo
o custo (e, portanto, o preço final) de um novo bem ou serviço. Vale dizer, só pode ser considerado consumidor, para fins de tutela pelo CDC, aquele que
exaure a função econômica do bem ou serviço, excluindo-o de forma definitiva do mercado de consumo. Todavia, a jurisprudência do STJ, tomando por
base o conceito de consumidor por equiparação previsto no art. 29 do CDC, tem evoluído para uma aplicação temperada da teoria finalista frente às
pessoas jurídicas, num processo que a doutrina vem denominando “finalismo aprofundado”. Assim, tem se admitido que, em determinadas hipóteses, a
pessoa jurídica adquirente de um produto ou serviço possa ser equiparada à condição de consumidora, por apresentar frente ao fornecedor alguma
vulnerabilidade, que constitui o princípio-motor da política nacional das relações de consumo, premissa expressamente fixada no art. 4º, I, do CDC, que
legitima toda a proteção conferida ao consumidor. A doutrina tradicionalmente aponta a existência de três modalidades de vulnerabilidade: técnica
(ausência de conhecimento específico acerca do produto ou serviço objeto de consumo), jurídica (falta de conhecimento jurídico, contábil ou econômico
e de seus reflexos na relação de consumo) e fática (situações em que a insuficiência econômica, física ou até mesmo psicológica do consumidor o coloca
em pé de desigualdade frente ao fornecedor). Mais recentemente, tem se incluído também a vulnerabilidade informacional (dados insuficientes sobre o
produto ou serviço capazes de influenciar no processo decisório de compra). Além disso, a casuística poderá apresentar novas formas de
vulnerabilidade aptas a atrair a incidência do CDC à relação de consumo. Numa relação interempresarial, para além das hipóteses de vulnerabilidade já
consagradas pela doutrina e pela jurisprudência, a relação de dependência de uma das partes frente à outra pode, conforme o caso, caracterizar uma
vulnerabilidade legitimadora da aplicação do CDC, mitigando os rigores da teoria finalista e autorizando a equiparação da pessoa jurídica compradora à
condição de consumidora (Precedentes citados: REsp 1.196.951/PI, DJe 9-4-2012, e REsp 1.027.165/ES, DJe 14-6-2011. REsp 1.195.642/RJ, Rel. Min. Nancy
Andrighi, julgado em 13-11-2012).

Veja o recente acórdão:


Processual civil. Agravo regimental no agravo em recurso especial. Relação de consumo.
Existência. Aplicabilidade do CDC. Teoria finalista. Mitigação. Possibilidade. Vulnerabilidade
verificada. Revisão. Análise do conjunto fático-probatório dos autos. Óbice da Súmula 7/STJ.
Decisão mantida. 1. A Segunda Seção desta Corte consolidou a aplicação da teoria subjetiva (ou
finalista) para a interpretação do conceito de consumidor. No entanto, em situações excepcionais,
esta Corte tem mitigado os rigores da teoria finalista para autorizar a incidência do CDC nas
hipóteses em que a parte (pessoa física ou jurídica), embora não seja propriamente a destinatária
final do produto ou do serviço, apresenta-se em situação de vulnerabilidade ou submetida a prática
abusiva. 2. No caso concreto, o Tribunal de origem, com base nos elementos de prova, concluiu pela
vulnerabilidade do agravado em relação à agravante. Alterar esse entendimento é inviável em
recurso especial a teor do que dispõe a Súmula 7/STJ. 3. Agravo regimental a que se nega
provimento (AgRg no AREsp 415.244/SC, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado
em 7-5-2015, DJe 19-5-2015).
Sobre a matéria, insta mencionar o Enunciado n. 20, aprovado na I Jornada de Direito
Comercial, que dispõe que:
Não se aplica o Código de Defesa do Consumidor aos contratos celebrados entre empresários em
que um dos contratantes tenha por objetivo suprir-se de insumos para sua atividade de produção,
comércio ou prestação de serviços.

Destacamos recentes julgados acerca da pessoa jurídica como consumidora:


Direito do consumidor. Aplicação do CDC a contrato de seguro empresarial. Há relação de
consumo entre a seguradora e a concessionária de veículos que firmam seguro empresarial
visando à proteção do patrimônio desta (destinação pessoal) – ainda que com o intuito de
resguardar veículos utilizados em sua atividade comercial –, desde que o seguro não integre os
produtos ou serviços oferecidos por esta. Cumpre destacar que consumidor é toda pessoa física ou
jurídica que adquire ou utiliza, como destinatário final, produto ou serviço oriundo de um fornecedor.
Por sua vez, destinatário final, segundo a teoria subjetiva ou finalista, adotada pelo STJ, é aquele que
ultima a atividade econômica, ou seja, que retira de circulação do mercado o bem ou o serviço para
consumi-lo, suprindo uma necessidade ou satisfação própria, não havendo, portanto, a reutilização ou
o reingresso dele no processo produtivo, seja na revenda, no uso profissional, na transformação do
bem por meio de beneficiamento ou montagem, ou em outra forma indireta. Nessa medida, se a
sociedade empresária firmar contrato de seguro visando proteger seu patrimônio (destinação
pessoal), mesmo que seja para resguardar insumos utilizados em sua atividade comercial, mas sem
integrar o seguro nos produtos ou serviços que oferece, haverá caracterização de relação de
consumo, pois será aquela destinatária final dos serviços securitários. Situação diversa seria se o
seguro em​pre​sa​rial fosse contratado para cobrir riscos dos clientes, ocasião em que faria parte dos
serviços prestados pela pessoa jurídica, o que configuraria consumo intermediário, não protegido
pelo CDC. Precedentes citados: REsp 733.560-RJ, Terceira Turma, DJ 2-5-2006; e REsp 814.060-
RJ, Quarta Turma, DJe 13-4-2010. REsp 1.352.419-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva,
julgado em 19-8-2014 (ver Informativo n. 548).
Direito do consumidor. Pessoa jurídica. Insumos. Não incidência das normas consumeristas.
In casu, a recorrente, empresa fornecedora de gás, ajuizou na origem ação contra sociedade
empresária do ramo industrial e comercial, ora recorrida, cobrando diferenças de valores oriundos
de contrato de fornecimento de gás e cessão de equipamentos, em virtude de consumo inferior à cota
mínima mensal obrigatória, ocasionando também a rescisão contratual mediante notificação.
Sobreveio sentença de improcedência do pedido. O tribunal de justiça negou provimento à apelação.
A recorrente interpôs recurso especial, sustentando que a relação jurídica entre as partes não poderia
ser considerada como consumerista e que não é caso de equiparação a consumidores
hipossuficientes, uma vez que a recorrida é detentora de conhecimentos técnicos, além de possuir
fins lucrativos. A Turma entendeu que a recorrida não se insere em situação de vulnerabilidade,
porquanto não se apresenta como sujeito mais fraco, com necessidade de proteção estatal, mas como
so​ciedade empresária, sendo certo que não utiliza os produtos e serviços prestados pela recorrente
como sua destinatária final, mas como insumos dos produtos que manufatura. Ademais, a sentença e o
acórdão recorrido partiram do pressuposto de que todas as pessoas jurídicas são submetidas às
regras consumeristas, razão pela qual entenderam ser abusiva a cláusula contratual que estipula o
consumo mínimo, nada mencionando acerca de eventual vulnerabilidade – técnica, jurídica, fática,
econômica ou informacional. O art. 2º do CDC abarca expressamente a possibilidade de as pessoas
jurídicas figurarem como consumidores, sendo relevante saber se a pessoa – física ou jurídica – é
“destinatária final” do produto ou serviço. Nesse passo, somente se desnatura a relação consumerista
se o bem ou serviço passam a integrar a cadeia produtiva do adquirente, ou seja, tornam-se objeto de
revenda ou de transformação por meio de beneficiamento ou montagem, ou, ainda, quando
demonstrada sua vulnerabilidade técnica, jurídica ou econômica frente à outra parte, situação que
não se aplica à recorrida. Diante dessa e de outras considerações, a Turma deu provimento ao
recurso para reconhecer a não incidência das regras consumeristas, determinando o retorno dos autos
ao tribunal de apelação, para que outro julgamento seja proferido (REsp 932.557/SP, Rel. Min. Luis
Felipe Salomão, julgado em 7-2-2012, ver Informativo n. 490).
Factoring. Obtenção de capital de giro. CDC. A atividade de factoring não se submete às regras do
CDC quando não for evidente a situação de vulnerabilidade da pessoa jurídica contratante. Isso
porque as empresas de factoring não são instituições financeiras nos termos do art. 17 da Lei n.
4.595/64, pois os recursos envolvidos não foram captados de terceiros. Assim, ausente o trinômio
inerente às atividades das instituições financeiras: coleta, intermediação e aplicação de recursos.
Além disso, a empresa contratante não está em situação de vulnerabilidade, o que afasta a
possibilidade de considerá-la consumidora por equiparação (art. 29 do CDC). Por fim, conforme a
jurisprudência do STJ, a obtenção de capital de giro não está submetida às regras do CDC
(Precedentes citados: REsp 836.823/PR, DJe 23-8-2010; AgRg no Ag 1.071.538/SP, DJe 18-2-
2009; REsp 468.887/MG, DJe 17-5-2010; AgRg no Ag 1.316.667/RO, DJe 11-3-2011, e AgRg no
REsp 956.201/SP, DJe 24-8-2011. REsp 938.979/DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em
19-6-2012, ver Informativo n. 500).

TEMA DE PROVA!
Diferencie vulnerabilidade de hipossuficiência
A doutrina, tradicionalmente, aponta a existência de três modalidades de vulnerabilidade: a técnica (ausência de conhecimento específico acerca do
produto ou serviço objeto de consumo), a jurídica (falta de conhecimento jurídico, contábil ou econômico e de seus reflexos na relação de consumo) e a
fática (situações em que a insuficiência econômica, física ou, até mesmo, psicológica do consumidor, o coloca em pé de desigualdade perante o
fornecedor). Vulnerabilidade então nada mais é do que a condição de inferioridade e está vinculada ao direito material, enquanto a hipossuficiência é a
vulnerabilidade amplificada e está ligada ao direito processual.

Questão interessante diz respeito à relação entre proprietário de imóvel e a imobiliária


contratada, vejamos:
Direito do consumidor. Aplicabilidade do CDC aos contratos de administração imobiliária.
É possível a aplicação do CDC à relação entre proprietário de imóvel e a imobiliária contratada
por ele para administrar o bem. Isso porque o proprietário do imóvel é, de fato, destinatário final
fático e também econômico do serviço prestado. Revela-se, ainda, a presunção da sua
vulnerabilidade, seja porque o contrato firmado é de adesão, seja porque é uma atividade complexa
e especializada ou, ainda, porque os mercados se comportam de forma diferenciada e específica em
cada lugar e período. No cenário caracterizado pela presença da administradora na atividade de
locação imobiliária sobressaem pelo menos duas relações jurídicas distintas: a de prestação de
serviços, estabelecida entre o proprietário de um ou mais imóveis e a administradora; e a de locação
propriamente dita, em que a imobiliária atua como intermediária de um contrato de locação. Nas
duas situações, evidencia-se a destinação final econômica do serviço prestado ao contratante,
devendo a relação jurídica estabelecida ser regida pelas disposições do diploma consumerista
(REsp 509.304/PR, Rel. Min. Villas Bôas Cueva, julgado em 16-5-2013, ver Informativo n. 523).

Além do consumidor standard, a lei apresenta em três artigos o chamado consumidor


equiparado ou por equiparação. O primeiro consumidor equiparado é a coletividade de
pessoas, que se encontra no parágrafo único do art. 2º do CDC. Avalie o texto:
Art. 2º [...] Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que
indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo.

Fica clara a ideia da tutela coletiva nesse ponto. É necessário que o grupo de pessoas
tenha adquirido o produto ou contratado o serviço? A resposta é negativa, ou seja, basta
que haja a possibilidade de um dano, como nos casos de publicidades abusivas. O
segundo consumidor equiparado são as vítimas do evento danoso (vítimas bystanders),
presentes no art. 17 do CDC. Note:
Art. 17. Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento.

Ressalte-se: não há necessidade de a pessoa adquirir ou mesmo utilizar um produto ou


serviço. O artigo suprarreferido é adotado em conjunto com os arts. 12 e 14 do CDC, isto
é, no caso de fato do produto e serviço. Um exemplo bastante utilizado em provas é o da
ocorrência de negativações indevidas quando houver uma abertura de conta corrente
fraudulenta.
O terceiro consumidor equiparado é aquele exposto às práticas comerciais, conforme o
disposto no art. 29 da Lei de Proteção ao Consumidor:
Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas
determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas.
A esse respeito, destacam-se aquelas pessoas que não são identificadas por tais práticas.
Exemplo: relação da imobiliária com o locatário, a qual já fez parte de um julgado. Sabe-
se que a relação entre a imobiliária e o locador é de consumo, mas a do locatário com a
imobiliária possui controvérsias. Imagine um locatário que sofre um constrangimento
dentro de uma imobiliária. Pode ele buscar uma indenização com fulcro no CDC? Com
base no art. 29 desta legislação, entende-se que sim.
Nesta esteira, mencionamos o seguinte julgado do STJ:
1. Cuida-se de agravo contra decisão que inadmitiu recurso especial fundado na alínea “a” da
permissão constitucional, interposto de acórdão do TJRJ, assim ementado: Agravo inominado do art.
557, § 1º, do CPC. Apelação cível. Ação indenizatória. Consumidor que teve seus documentos
roubados. Protesto indevido de cheques não emitidos pelo autor, que sequer participou da relação
jurídica. Sentença procedente em parte. Rejeição do dano moral pelo magistrado, sob o argumento de
que o fato de terceiro afasta o dever de indenizar. Apelo do autor. Decisão do Relator que deu
provimento de plano ao apelo para reconhecer e fixar o dano moral em R$ 8.000,00. Possibilidade.
Manifesta procedência das razões recursais do demandante. Inteligência contida nos arts. 557, § 1º-
A, do CPC 3 e 31, VIII do RITJRJ. Aplicação da Súmula 94 deste E TJRJ.
“Cuidando-se de fortuito interno, o fato de terceiro não exclui o dever do fornecedor de indenizar”.
Na sistemática do Código de Defesa do Consumidor, o qual agasalha a teoria do risco do
empreendimento, a utilização de dados de outrem ou mesmo documentos falsos para a obtenção de
bens e serviços em nome de alguém que sequer participou do negócio jurídico, integram o risco do
negócio praticado pela ré, correndo, assim, por sua própria conta. Decisão proferida pelo ilustre
relator que se mantém. Agravo conhecido e desprovido (e-STJ fl. 166).
Em sede de recurso especial, a recorrente sustenta violação aos arts. 3º, 267, VI, do CPC 4; 14, § 3º, I
e II, do CDC; 186, 393, 927 e 944 do Código Civil, argumentando que: a) é parte ilegítima para
responder à ação de indenização por dano moral; b) não pode prevalecer o entendimento de ocorreu
“fortuito interno”, pois o documento de fl. 70 comprova que o fraudador portava talonário com nome
do autor/recorrido e portava também documentos falsos com aparência de verdadeiros; c) o dano
sofrido pelo recorrido não é responsabilidade da recorrente, pois se deu por culpa de terceiro e é
estranho às atividades por ela desenvolvidas; d) a recorrente não cometeu ato ilícito mas, na
verdade, também foi vítima do terceiro que pagou o serviço com cheque roubado. Contrarrazões (e-
STJ fls. 209-214). Juízo de admissibilidade (e-STJ fls. 216-217).
Relatados, decido.
2. O Tribunal local decidiu a lide suportada em argumentação assim deduzida: Em primeiro lugar,
impende salientar que a relação aventada nos autos é de consumo, enquadrando-se o autor no
conceito de consumidor por equiparação, conforme se extrai dos arts. 2º, parágrafo único, e 29 do
CDC.
A ré nada mais é do que uma fornecedora de produtos e serviços, sendo certo que a sua
responsabilidade é objetiva nos precisos termos do art. 14, caput, da Lei n. 8.078/90, encontrando
fundamento na teoria do risco do empreendimento, segundo a qual, todo aquele que se dispõe a
fornecer em massa bens ou serviços deve assumir os riscos inerentes à sua atividade
independentemente de culpa.
In casu, a responsabilidade da recorrida exsurge do simples fato de se dedicar com habitualidade à
exploração de atividade consistente no oferecimento de bens ou serviços. Assim, pode-se afirmar
que os riscos internos inerentes ao próprio empreendimento correm por conta do fornecedor, que
deverá por eles responder sempre que não comprovada a causa excludente do nexo causal.
Deste modo, a sistemática do Código de Defesa do Consumidor, o qual agasalha a teoria do risco do
empreendimento, a utilização de dados de outrem ou mesmo documentos falsos para a obtenção de
bens e serviços em nome de alguém que sequer participou do negócio praticado pela ré correndo,
assim, por sua própria conta. Nesse sentido, a lição dada pelo Exmo. Desembargador Sérgio
Cavalieri Filho extraído de sua conhecida obra Programa de responsabilidade civil: [...] Dessa
forma, incumbe ao réu, exclusivamente, a assunção dos riscos decorrentes da exploração de sua
atividade significativamente lucrativa, arcando com os prejuízos advindos da utilização de
documentos da autora para a concessão de crédito em nome de outrem. Vale frisar que o art. 29,
CDC, define consumidor como qualquer pessoa exposta às práticas comerciais ainda que não
exista relação jurídica de consumo direta com o fornecedor, como ocorre in casu, sendo o apelante
um bystander atingido pelas técnicas de cobrança de dívidas.
Ademais, a questão tratada invoca a aplicação do art. 14, caput, do CDC, que trata da
responsabilidade objetiva do fornecedor de serviços, não se perquirindo sobre a existência de culpa
para determinar o dever de indenizar. Assim, nos termos do art. 14, § 3º, do CDC, somente se exime
do dever da responsabilidade o fornecedor que provar a ausência de defeito na prestação do serviço,
fato exclusivo do fornecedor ou fato exclusivo de terceiro.
A sentença ora vergastada reconheceu o fato exclusivo de terceiro, entendendo o magistrado a quo
que a abertura de conta bancária e a emissão fraudulenta de cheque realizada por terceiro que se
utilizou dos documentos subtraídos do apelante, configuram causas excludentes do nexo causal e
afastam o dever de indenizar.
Todavia, não deve ser mantido o raciocínio consignado pelo juízo de primeiro grau, pois, como
consagrado pela doutrina e jurisprudência, a emissão fraudulenta de cheque, na hipótese dos autos,
caracteriza fato de terceiro equiparado a fortuito interno, estando abrangido pelo risco do
empreendimento. Assim, não há rompimento do nexo causal.
[...]
Ora, se para proteger o seu crédito o apelado causou danos indevidos a terceiros, resta flagrante o
dever de indenizar. Caso tenha sido induzido a erro por falta do dever de cuidado de terceiros, como
alega, que busque o ressarcimento junto àquele que lhe induziu em erro.
Pelo cotejo do cheque acostado a fl. 70 e da cédula de identidade do apelante à fl. 11, percebe-se a
diferença gritante entre as assinaturas.
Logo, vê-se que a apelada poderia ter evitado o recebimento do título fraudado solicitando a
apresentação de documento de identidade e conferindo as assinaturas, diligência mínima esperada na
condução de um negócio (e-STJ fls. 168-172) [...].
No que toca ao dever de a recorrente indenizar moralmente o recorrido pelo lançamento do seu nome
em cadastro de inadimplentes, não lhe escusa a assertiva de que o dano sofrido não é de sua
responsabilidade, pois o Tribunal local formou seu convencimento no sentido de que a prestadora de
serviço não comprovou ter tomado os cuidados necessários na condução do seu negócio, de forma
que rever tal entendimento em sede de recurso especial, esbarra no enunciado n. 7 da súmula do STJ.
Por outro lado, se o lançamento indevido do nome do recorrido decorreu inequivocamente de ato da
recorrente, patente o dever de indenizar. Aliás, essa é a jurisprudência do STJ acerca da matéria [...].
3. Ante o exposto, nego provimento ao agravo no recurso especial (AREsp 18.793, Rel. Min. Luis
Felipe Salomão, julgado em 28-6-2012, DJe 2-8-2012 – grifos nossos).
Com isso, podemos resumir os consumidores equiparados previstos no CDC:

1º) Art. 2º parágrafo


Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indeterminável, que haja intervindo nas relações de consumo.
único

2º) Art. 17 Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento.

Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às
3º) Art. 29
práticas nele previstas.

Adquirido por : Franklin Carter Lopes De Freitas


2.2. Quem é o fornecedor? Telefone: 8899762640
E-mail: franklinufc@hotmail.com

O Código de Defesa do Consumidor enfatiza:


Art. 3º Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem
como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação,
construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou
prestação de serviços.

DICA!
Segundo o conceito supra, para que haja uma relação de consumo, é necessária a constatação da habitualidade. Exemplo: Se uma pessoa vende o seu
carro para outra, não pode ser aplicado o CDC, mas o CC/2002. Todavia, se essa pessoa que vendeu o carro para outra for uma vendedora com
habitualidade, deve ser utilizada a Lei Consumerista.

2.3. Produto e serviço

Relatam os §§ 1º e 2º do art. 3º da norma consumerista:


§ 1º Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
§ 2º Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração,
inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das
relações de caráter trabalhista.

DICA!
A remuneração citada pela lei na definição de serviço poderá ser direta ou indireta. É muito comum encontrar esse tipo de remuneração nos
estacionamentos de mercados que mencionam ser “gratuitos”, mas o valor já está embutido nos preços dos produtos vendidos.

Súmulas do STJ
Súmula 297. “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras”.
Súmula 469. “Aplica-se o Código de Defesa do Consumidor aos contratos de plano de saúde”.
Súmula 563. “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às entidades abertas de previdência complementar, não incidindo nos contratos
previdenciários celebrados com entidades fechadas”.

Sobre a aplicação do CDC a relação jurídica entre a entidade de previdência privada e


seus participantes citamos recente julgado:
Direito civil. Inaplicabilidade do CDC às entidades fechadas de previdência privada.
O Código de Defesa do Consumidor não é aplicável à relação jurídica entre participantes ou
assistidos de plano de benefício e entidade de previdência complementar fechada, mesmo em
situações que não sejam regulamentadas pela legislação especial. É conveniente assinalar, para
logo, que não se cogita aqui em afastamento das normas especiais inerentes à relação contratual de
previdência privada para aplicação do Diploma Consumerista, visto que só terá cabimento pensar na
sua aplicação a situações que não tenham regramento específico na legislação especial
previdenciária de regência. Dessarte, como regra basilar de hermenêutica, no confronto entre as
regras específicas e as demais do ordenamento jurídico, deve prevalecer a regra excepcional. Nesse
passo, há doutrina afirmando que, como o CDC não regula contratos específicos, em casos de
incompatibilidade há clara prevalência da lei especial nova pelos critérios de espe​cialidade e
cronologia. Desse modo, evidentemente, não caberá, independentemente da natureza da entidade
previdenciária, a aplicação do CDC de forma alheia às normas específicas inerentes à relação
contratual de previdência privada complementar. Esse entendimento foi recentemente pacificado no
STJ, em vista da afetação à Segunda Seção do STJ do AgRg no AREsp 504.022-SC (DJe 30-9-
2014), tendo constado da ementa que “[...] é descabida a aplicação do Código de Defesa do
Consumidor alheia às normas específicas inerentes à relação contratual de previdência privada
complementar e à modalidade contratual da transação, negócio jurídico disciplinado pelo Código
Civil, inclusive no tocante à disciplina peculiar para o seu desfazimento”. Por oportuno, o conceito
de consumidor (art. 2º do CDC) foi construído sob ótica objetiva, porquanto voltada para o ato de
retirar o produto ou serviço do mercado, na condição de seu destinatário final. Por sua vez,
fornecedor (art. 3º, § 2º, do CDC) é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou
estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de prestação de
serviços, compreendido como “atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração”
– inclusive as de natureza financeira e securitária –, salvo as de caráter trabalhista. Nessa linha,
afastando-se do critério pessoal de definição de consumidor, o legislador possibilita, até mesmo às
pessoas jurídicas, a assunção dessa qualidade, desde que adquiram ou utilizem o produto ou serviço
como destinatário final. Dessarte, consoante doutrina abalizada sobre o tema, o destinatário final é
aquele que retira o produto da cadeia produtiva (destinatário fático), mas não para revendê-lo ou
utilizá-lo como insumo na sua atividade profissional (destinatário econômico). No ponto em exame,
parece evidente que há diferenças sensíveis e marcantes entre as entidades de previdência privada
aberta e fechada. Embora ambas exerçam atividade econômica, apenas as abertas operam em regime
de mercado, podem auferir lucro das contribuições vertidas pelos participantes (proveito
econômico), não havendo também nenhuma imposição legal de participação de participantes e
assistidos, seja no tocante à gestão dos planos de benefícios, seja ainda da própria entidade. Nesse
passo, assinala-se que, conforme disposto no art. 36 da LC 109/2001, as entidades abertas de
previdência complementar são constituídas unicamente sob a forma de sociedades anônimas. Elas,
salvo as instituídas antes da mencionada lei, têm necessariamente, finalidade lucrativa e são
formadas por instituições financeiras e seguradoras, autorizadas e fiscalizadas pela Superintendência
de Seguros Privados (Susep), vinculada ao Ministério da Fazenda, tendo por órgão regulador o
Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP). Assim, parece nítido que as relações contratuais
entre as entidades abertas de previdência complementar e participantes e assistidos de seus planos
de benefícios – claramente vulneráveis – são relações de mercado, com existência de legítimo
auferimento de proveito econômico por parte da administradora do plano de benefícios,
caracterizando-se genuína relação de consumo. Contudo, no tocante às entidades fechadas, as quais,
por força de lei, são organizadas “sob a forma de fundação ou sociedade civil, sem fins lucrativos”,
a questão é tormentosa, pois há um claro mutualismo entre a coletividade integrante dos planos de
benefícios administrados por essas entidades. Nesse diapasão, o art. 34, I, da LC 109/2001 deixa
límpido que as entidades fechadas de previdência privada “apenas” administram os planos
(inclusive, pois, o fundo formado, que não lhes pertence), havendo, conforme dispõe o art. 35, gestão
compartilhada entre repre​-sentantes dos participantes e assistidos e dos patrocinadores nos
conselhos deliberativo (órgão máximo da estrutura organizacional) e fiscal (órgão de controle
interno). No tocante ao plano de benefícios patrocinado por entidade da administração pública,
conforme dispõem os arts. 11 e 15 da LC 108/2001, há gestão paritária entre representantes dos
participantes e assistidos – eleitos por seus pares – e dos patrocinadores nos conselhos
deliberativos. Ademais, é bem verdade que os valores alocados ao fundo comum obtido, na verdade,
pertencem aos participantes e beneficiários do plano, existindo explícito mecanismo de
solidariedade, de modo que todo excedente do fundo de pensão é aproveitado em favor de seus
próprios integrantes. Diante de tudo que foi assinalado, observa-se que as regras do Código
Consumerista, mesmo em situações que não sejam regulamentadas pela legislação especial, não se
aplicam às relações envolvendo participantes e/ou assistidos de planos de benefícios e entidades de
previdência complementar fechadas. Assim, a interpretação sobre a Súmula 321 do STJ – que
continua válida – deve ser restrita aos casos que envolvem entidades abertas de previdência. REsp
1.536.786-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 26-8-2015, DJe 20-10-2015 (ver
Informativo n. 571).(Observe que a Súmula 321 do STJ foi recentemente cancelada: A Segunda
Seção, na sessão de 24-2-2016, ao apreciar o Projeto de Súmula 627 e o julgado REsp
1.536.736/MG, determinou o cancelamento da Súmula 321 do STJ – DJe 29-2-2016).

Importa observar que alguns serviços são excluídos como a relação do cotista e o clube
de investimento, os serviços de natureza ut universi (neste âmbito, não se trata de
consumidor, mas de um contribuinte), a relação do franqueado com o franqueador.
Quanto à relação do advogado com o cliente, trata-se de tema controvertido nos tribunais.
Destaca-se que não se aplica o CDC à regulação de contratos de serviços advocatícios:
Responsabilidade civil. Advogado. Exercício da profissão. A Turma manteve a condenação de
advogado ora recorrente ao pagamento de indenização por danos morais ao cliente no valor de R$ 15
mil, em decorrência de sua conduta maliciosa no exercício da profissão. No caso em comento, o
recorrente foi contratado para propor ação ordinária contra o Estado do Paraná, pleiteando
diferenças salariais e gratificações. Procurado diversas vezes pelo recorrido, ele negou o
recebimento de procuração outorgada em seu favor, bem como o ajuizamento de qualquer demanda
judicial em seu nome. Tal fato foi, inclusive, apurado em representação instaurada na OAB, que
resultou em arquivamento diante da negativa do recorrente. Transcorridos quase vinte anos, após
pesquisa realizada pela nova advogada contratada, descobriu-se que a ação havia sido efetivamente
proposta pelo recorrente, até mesmo com recursos especiais para os tribunais superiores, tendo sido
julgada improcedente. Em preliminar, afastou-se a alegada prescrição. Segundo observou o Ministro
Relator, na ação de reparação de danos em apreço, fundada no direito comum, e de acordo com as
regras de transição do CC/2002 (art. 2.028), há de ser aplicado o novo prazo prescricional de três
anos, consoante o disposto no art. 206, § 3º, IV, do referido diploma legal, contado o prazo da data
da entrada em vigor do novo Código, e não da data do fato gerador do direito. No mérito, sustentou
se a inaplicabilidade do CDC nas relações contratuais entre clientes e advogados, que, de fato, são
regidas pelo EOAB e pelo direito comum. Ao final, considerando o patente padecimento moral do
recorrido diante das inverdades perpetradas pelo recorrente e da angústia de não saber o resultado
da demanda, ainda que fosse negativa, manteve-se a responsabilização do advogado (REsp
1.228.104/PR, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 15-3-2012, ver Informativo n. 493).

Citamos recente julgado sobre a não adoção do CDC referente à responsabilidade da


construtora e dos sócios e proprietários de terrenos:
Processo civil. Direito civil. Recurso especial. Incorporação imobiliária. Inexecução contratual.
Ausência de responsabilidade solidária do proprietário do terreno. Inaplicabilidade do direito do
consumidor. Violação do art. 535 do CPC não configurada. 1. O art. 535 do CPC 5 permanece
incólume quando o Tribunal de origem manifesta-se su​ficientemente sobre a questão controvertida,
apenas adotando fundamento diverso daquele perquirido pela parte. 2. A Lei de Incorporações (Lei
n. 4.591/64) equipara o proprietário do terreno ao incorporador, desde que aquele pratique alguma
atividade condizente com a relação jurídica incorporativa, atribuindo-lhe, nessa hipótese,
responsabilidade solidária pelo empreendimento imobiliário. 3. No caso concreto, a caracterização
dos promitentes vendedores como incorporadores adveio principalmente da imputação que lhes foi
feita, pelo Tribunal a quo, dos deveres ínsitos à figura do incorporador (art. 32 da Lei n. 4.591/64),
denotando que, em momento algum, sua convicção teve como fundamento a legislação regente da
matéria, que exige, como causa da equiparação, a prática de alguma atividade condizente com a
relação jurídica incorporativa, ou seja, da promoção da construção da edificação condominial (arts.
29 e 30 da Lei n. 4.591/64). 4. A impossibilidade de equiparação dos recorrentes, promitentes
vendedores, à figura do incorporador demonstra a inexistência de relação jurídica consumerista entre
esses e os compradores das unidades do empreendimento malogrado. 5. Recurso especial provido
(REsp 1.065.132/RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 6-6-2013, DJe 1º-7-
2013).
3. Os princípios do Código de Defesa do Consumidor

3.1. Da vulnerabilidade

Em item anterior explicou-se que a vulnerabilidade é a principal característica do


consumidor. Esta pode ocorrer de quatro formas: técnica; jurídica; fática; e informacional.
Observe o texto do inciso I do art. 4º do CDC:
Art. 4º [...]
I – reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo;

3.2. Do dever governamental

Sendo o consumidor vulnerável, o art. 4º do CDC prevê em seu inciso II uma proteção
efetiva a ele por meio de uma ação governamental, que ocorrerá:
a) por iniciativa direta;
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade,
segurança, durabilidade e desempenho.

3.3. Da harmonização e compatibilização da proteção ao consumidor

Mais uma vez, o Código de Defesa do Consumidor transparece no inciso III do seu art.
4º o dever de harmonização entre o consumidor e o fornecedor e a necessidade de um
desenvolvimento econômico e tecnológico. Veja:
Art. 4º [...]
III – harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e compatibilização da
proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a
viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170 da Constituição Federal)
[...].
3.4. Da boa-fé objetiva

A passagem desse princípio está presente na parte final do inciso III do art. 4º.
Comprove:
Art. 4º [...]
III – [...] sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores;

O termo boa-fé serve para indicar um dever de conduta entre os parceiros contratuais,
baseado na confiança e na lealdade. O tema está desvinculado das intenções íntimas dos
sujeitos da relação de consumo e ligado à lisura, transparência, correção e proteção em
todas as fases da formação do contrato.
Para que ocorra o preenchimento de tal princípio, as partes devem cumprir com os
deveres principais e anexos. A violação de qualquer deles acarreta inadimplemento
contratual.

DICA!
Boa-fé = deveres principais + deveres anexos.
Os deveres principais são as obrigações principais, como as de fazer, de dar e de não fazer. Já os deveres anexos são formados pela proteção, informação,
coope​ração, lealdade e confiança.

3.4.1. Figuras correlatas 6

3.4.1.1. Venire contra factum proprium

O venire contra factum proprium é uma vedação decorrente do princípio da confiança.


Trata-se de um tipo de ato abusivo de direito 7-8.
Referida vedação assegura a manutenção da situação de confiança legitimamente criada
nas relações jurídicas contratuais, em que não se admite a adoção de condutas
contraditórias. Trata-se de “uma regra de coerência, por meio da qual se veda que se aja
em determinado momento de uma certa maneira e, ulteriormente, adote-se um
comportamento que frustra, vai contra aquela conduta tomada em primeiro lugar” 9.
Portanto, o venire contra factum proprium significa a proibição de ir contra fatos
próprios já praticados.
Apresenta-se nas situações em que uma pessoa ou empresa, durante determinado
período de tempo, em geral longo, não necessariamente medido em dias ou anos,
comporta-se de certa maneira, gerando a expectativa justificada para outras pessoas que
dependem desse comportamento, o qual permanecerá acontecendo por prazo razoável, na
mesma direção. Em virtude desse comportamento, há pela outra parte um investimento,
não necessariamente econômico, mas muitas vezes com esse caráter, no sentido da
continuidade do comportamento outrora realizado, e, em seguida, é afetado pelo
comportamento contrário injustificado.
Segundo a doutrina 10, para a aplicação do instituto é necessária a presença de quatro
requisitos:
• um comportamento;
• a geração de uma expectativa;
• o investimento na expectativa gerada ou causada; e
• o comportamento contraditório ao inicial, que gere um dano, ou, no mínimo, um
potencial de dano a partir da contradição.
Dessarte, na vedação ao comportamento contraditório existem dois comportamentos
lícitos, diferidos no tempo, os quais se contradizem de modo direto e não negocial, não
podendo a situação, portanto, ser solucionada pelos remédios obrigacionais gerais. Um
exemplo de comportamento contraditório é a demanda por cumprimento de contrato nulo
quando a nulidade é de responsabilidade do demandante 11. Outro exemplo clássico
acontece na situação em que o credor, durante anos, aceita o pagamento de obrigação em
data posterior ao do vencimento estipulado no contrato – configurando-se uma violação
desse – e, depois, pleiteia a rescisão contratual com base na conduta anteriormente por ele
tolerada. O venire contra factum proprium ocorreu nessa hipótese, quando se criou a
confiança, no sentido de que nada seria feito contra essa violação contratual – pagamento
da obrigação em data posterior à estipulada. Logo, essa rescisão pleiteada com base na
conduta tolerada resulta em uma violação do princípio da confiança, além de se mostrar
um verdadeiro abuso de direito, que gera as consequências já mencionadas.
Importante salientar a orientação dada pelo Enunciado n. 170 da III Jornada do
Conselho da Justiça Federal, que preconiza:
Art. 422. A boa-fé objetiva deve ser observada pelas partes na fase de negociações preliminares e
após a execução do contrato, quando tal exigência decorrer da natureza do contrato.

Nossos Tribunais apresentam julgamentos baseados no venire contra factum proprium.


Do STJ, os acórdãos a seguir, verbis:
Direito civil. Contrato de locação de veículos por prazo determinado. Notificação, pela locatária,
de que não terá interesse na renovação do contrato, meses antes do término do prazo contratual.
Devolução apenas parcial dos veículos após o final do prazo, sem oposição expressa da locadora.
Continuidade da emissão de faturas, pela credora, no preço contratualmente estabelecido.
Pretensão da locadora de receber as diferenças entre a tarifa contratada e a tarifa de balcão para a
locação dos automóveis que permaneceram na posse da locatária. Impossibilidade. Aplicação do
princípio da boa-fé objetiva.
Honorários advocatícios. Julgamento de improcedência do pedido.
Aplicação da regra do art. 20, § 4º, do CPC 12. Inaplicabilidade do § 3º desse mesmo dispositivo
legal. Precedentes.
– A notificação a que se refere o art. 1.196 do CC/2002 (art. 575 do CC/2002) não tem a função de
constituir o locatário em mora, tendo em vista o que dispõe o art. 1.194 do CC/1916 (art. 573 do
CC/2002). Ela objetiva, em vez disso, a: (i) que não há a intenção do locador de permitir a
prorrogação tácita do contrato por prazo indeterminado (art. 1.195 do CC/1916 – art. 574 do
CC/2002; (ii) fixar a sanção patrimonial decorrente da retenção do bem locado. Na hipótese em que
o próprio locatário notifica o locador de que não será renovado o contrato, a primeira função já se
encontra preenchida: não é necessário ao locador repetir sua intenção de não prorrogar o contrato se
o próprio locatário já o fez. A segunda função, por sua vez, pode se considerar também preenchida
pelo fato de que é presumível a ciência, por parte do locatário, do valor das diárias dos automóveis
pela tarifa de balcão. Haveria, portanto, em princípio, direito em favor da locadora à cobrança de
tarifa adicional.
– Se o acórdão recorrido estabelece, contudo, que não houve qualquer manifestação do credor no
sentido da sua intenção de exercer tal direito e, mais que isso, o credor comporta-se de maneira
contraditória, emitindo faturas no valor original, cria-se, para o devedor, a expectativa da
manutenção do preço contratualmente estabelecido.
– O princípio da boa-fé objetiva exerce três funções: (i) a de regra de interpretação; (ii) a de fonte
de direitos e de deveres jurídicos; e (iii) a de limite ao exercício de direitos subjetivos.
– Pertencem a este terceiro grupo a teoria do adimplemento substancial das obrigações e a teoria dos
atos próprios (tu quoque; vedação ao comportamento contraditório; surrectio; suppressio).
– O instituto da supressio indica a possibilidade de se considerar suprimida uma obrigação
contratual, na hipótese em que o não exercício do direito correspondente, pelo credor, gere no
devedor a justa expectativa de que esse não exercício se prorrogará no tempo.
– Nas hipóteses de improcedência do pedido, os honorários advocatícios devem ser fixados com
fundamento no art. 20, § 4º, do CPC, sendo inaplicável o respectivo § 3º. Aplicando-se essa norma à
hipótese dos autos, constata-se a necessidade de redução dos honorários estabelecidos pelo
Tribunal.
Recurso especial parcialmente provido (REsp 953.389/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira
Turma, julgado em 23-2-2010, DJe 15-3-2010, ver Informativo n. 424).

Direito civil e processual civil. Possibilidade de penhora de bem de família por má-fé do devedor.
Não se deve desconstituir a penhora de imóvel sob o argumento de se tratar de bem de família na
hipótese em que, mediante acordo homologado judicialmente, o executado tenha pactuado com o
exequente a prorrogação do prazo para pagamento e a redução do valor de dívida que contraíra em
benefício da família, oferecendo o imóvel em garantia e renunciando expressamente ao oferecimento
de qualquer defesa, de modo que, descumprido o acordo, a execução prosseguiria com a avaliação e
praça do imóvel. De fato, a jurisprudência do STJ inclinou-se no sentido de que o bem de família é
impenhorável, mesmo quando indicado à constrição pelo devedor. No entanto, o caso em exame
apresenta certas peculiaridades que torna válida a renúncia. Com efeito, no caso em análise, o
executado agiu em descompasso com o princípio nemo venire contra factum proprium, adotando
comportamento contraditório, num momento ofertando o bem à penhora e, no instante seguinte,
arguindo a impenhorabilidade do mesmo bem, o que evidencia a ausência de boa-fé. Essa conduta
antiética deve ser coibida, sob pena de desprestígio do próprio Poder Judiciário, que validou o
acordo celebrado. Se, por um lado, é verdade que a Lei n. 8.009/90 veio para proteger o núcleo
familiar, resguardando-lhe a moradia, não é menos correto afirmar que aquele diploma legal não
pretendeu estimular o comportamento dissimulado. Como se trata de acordo judicial celebrado nos
próprios autos da execução, a garantia somente podia ser constituída mediante formalização de
penhora incidente sobre o bem. Nada impedia, no entanto, que houvesse a celebração do pacto por
escritura pública, com a constituição de hipoteca sobre o imóvel e posterior juntada aos autos com
vistas à homologação judicial. Se tivesse ocorrido dessa forma, seria plenamente válida a penhora
sobre o bem em razão da exceção à impenhorabilidade prevista no inciso V do art. 3º da Lei n.
8.009/90, não existindo, portanto, nenhuma diferença substancial entre um ato e outro no que
interessa às partes. Acrescente-se, finalmente, que a decisão homologatória do acordo tornou
preclusa a discussão da matéria, de forma que o mero inconformismo do devedor contra uma das
cláusulas pactuadas, manifestado tempos depois, quando já novamente inadimplentes, não tem força
suficiente para tornar ineficaz a avença. Dessa forma, não se pode permitir, em razão da boa-fé que
deve reger as relações jurídicas, a desconstituição da penhora, sob pena de desprestígio do próprio
Poder Judiciário. REsp 1.461.301-MT, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 5-3-2015,
DJe 23-3-2015 (ver Informativo n. 558).

Direito civil e processual civil. Família. Ação de investigação de paternidade post mortem.
Audiência de conciliação. Exame de DNA. Não realização. Provas testemunhal e documental
suficientes para formar o convencimento do TJPB.
[...]
– A formação do convencimento do i. Juiz, no sentido de reconhecer a paternidade deu-se com base
no conjunto de provas apresentadas no processo, notadamente a prova testemunhal e documental.
Para tanto, identificou o i. Juiz o preenchimento de três requisitos: (i) se houve relações sexuais da
mãe da investigante com o investigado; (ii) se a concepção da investigante coincidiu com o período
de relacionamento sexual entre os pais; (iii) se houve aparente fidelidade da mãe da investigante ao
investigado.
– O Juízo de convicção foi formado a partir desse quadro fático, que se mostrou suficiente para a
declaração de paternidade mantida no acórdão impugnado, sendo vedado, nesta via recursal, o
reexame dos elementos da prova produzida em sua plenitude no processo, cabendo ao Juiz da causa,
rente às circunstâncias específicas do processo e conforme seu prudente arbítrio, modular a prova
necessária para a formação de seu convencimento.
– Não é viável aos recorrentes formular pedido de realização de prova pericial em fase recursal, se
permaneceram inertes no momento processual adequado para a instrução do processo. O pedido de
reconhecimento de paternidade foi julgado procedente, com base na prova existente no processo,
suficientemente produzida, e a não realização da perícia deu-se exatamente por força da conduta
processual dos recorrentes.
– Se o quadro probatório do processo mostra-se suficiente para atestar a paternidade, não há por que
retardar ainda mais a entrega da prestação jurisdicional, notadamente em se tratando de direito
subjetivo pretendido por pessoa que teve sua condição de filha mutilada, material e afetivamente,
ainda na infância, para, somente aos 40 anos, ter seu direito indisponível à filiação restaurado.
Recurso especial conhecido, mas não provido (REsp 914.429/PB, Rel. Min. Nancy Andrighi,
Terceira Turma, julgado em 15-12-2009, DJe 2-2-2010, ver Informativo n. 420).

Recurso especial. Contrato de alienação fiduciária. Violação ao art. 535 do CPC. Não ocorrência.
Tradição do veículo. Contrato de natureza real. Requisito de validade do negócio jurídico. Escada
ponteana. Elementos essenciais do contrato. Negligência da parte autora. Má-fé da empresa
alienante. Matérias que demandam reexame de provas. Súmula 7/STJ. Vedação ao comportamento
contraditório. Validade do contrato. Registro em cartório. Anotação no certificado de registro do
veículo. Necessidade apenas para preservar direitos de terceiro. Súmula 83/STJ. Mora do devedor.
Notificação pessoal. Desnecessidade. Alegação de vulnerabilidade e cabimento de inversão do ônus
da prova. Súmula 7/STJ. Recurso não provido. 1. Não há falar em violação ao art. 535 do CPC 13
quando o acórdão recorrido resolve todas as questões pertinentes ao litígio, tornado-se dispensável
que venha a examinar todos os argumentos trazidos pelas partes. 2. Em negócio de alienação
fiduciária em garantia, por se tratar de contrato de natureza real, a tradição constitui requisito de
validade do negócio jurídico. 3. A análise da pretensão recursal sobre a alegada ausência dos
elementos essenciais do contrato, negligência da parte autora e má-fé da empresa alienante
demandaria a alteração das premissas fático-probatórias estabelecidas pelo acórdão recorrido, com
o revolvimento das provas carreadas aos autos, o que é vedado em sede de recurso especial, nos
termos do enunciado da Súmula 7/STJ. 4. Impõe-se, no caso, a aplicação da máxima venire contra
factum proprium, tendo em vista que parte recorrente primeiro anuiu ao prosseguimento do contrato
e, em seguida, de modo oposto ao primeiro comportamento, questionou sua validade e existência. 5.
A exigência de registro do contrato de alienação fiduciária em garantia no cartório de título e
documentos e a respectiva anotação do gravame no órgão de trânsito não constitui requisitos de
validade do negócio, tendo apenas o condão de torná-lo eficaz perante terceiros. 6. Nos casos
envolvendo contrato de alienação fiduciária, a mora deve ser comprovada por meio de notificação
extrajudicial realizada por intermédio do cartório de títulos e documentos, a ser entregue no
domicílio do devedor, sendo dispensada sua notificação pessoal. 7. A alegação de vulnerabilidade e
da presença dos requisitos necessários ao deferimento da inversão do ônus da prova encontram
óbice na Súmula 7/STJ. 8. Recurso especial não provido (REsp 1190372/DF, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, Quarta Turma, julgado em 15-10-2015, DJe 27-10-2015 – grifos nossos).

Intimação. Devedores. Purgação. Mora. Danos morais. Inexiste o dever do Banco Itaú S/A de
indenizar casal pela ausência de intimação pessoal acerca de leilão extrajudicial do imóvel no qual
residem. Para os ministros da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), somente a
perda de uma oportunidade real, plausível e séria justifica a compensação por danos morais. [...]
Em seu voto, a relatora, ministra Nancy Andrighi, destacou que a sentença e os demais elementos dos
autos permitem concluir que o casal jamais demonstrou a real intenção de purgar a mora. Por esta
razão, concluiu a relatora, não são plausíveis as alegações de que os danos morais que sofreram
foram provocados “pelo ato ilícito do banco em adjudicar-se indevidamente de imóvel em leilão por
ele mesmo realizado sem a observância das devidas precauções legais, promovendo atos ilícitos que
geraram, e continuam criando, desconforto e sofrimento aos autores”.
Segundo a Ministra Nancy Andrighi, tudo indica que a ausência de comunicação pessoal não foi a
causa preponderante para que o casal deixasse de purgar a mora, até porque eles próprios, em sua
inicial, confessam a suspensão dos pagamentos das prestações devidas ao Banco Itaú em razão das
dificuldades financeiras que vêm enfrentando. “Qualquer conclusão em sentido contrário
caracterizaria verdadeiro exercício de futurologia. De fato, é injustificável admitir que o recorrente
(Itaú) possa ser responsabilizado por um dano hipotético que advenha do simples exercício de seu
legítimo direito de realizar o leilão extrajudicial do bem que financiou, conforme a faculdade
conferida pelo Decreto-Lei n. 70/66”, afirmou a relatora (REsp 1.115.687/SP, Rel. Min. Nancy
Andrighi, Terceira Turma, julgado em 8-11-2010, ver Informativo n. 456).

Um fato de grande relevância é a impossibilidade de ser alegada o venire contra factum


proprium quando diante de matéria de ordem pública 14.

DICA!
Note-se que o venire contra factum proprium possui diferença para o aforismo nemo auditur turpidutinem allegans, segundo o qual ninguém pode
alegar a própria torpeza. Enquanto a primeira figura visa tutelar a confiança e as devidas expectativas, a segunda objetiva reprimir a malícia 15.

3.4.1.2. Supressio

A supressio consiste na redução do conteúdo obrigacional pela inércia de uma das


partes em exercer direitos ou faculdades, gerando na outra legítima expectativa 16.
A faculdade ou direito consta efetivamente do pacto; porém a inércia qualificada de
uma das partes gera na outra a expectativa legítima (diante das circunstâncias) de que a
faculdade ou direito não será exercido.
Podemos extrair esta conclusão da decisão emanada por Ricardo Raupp Ruschel,
verbis:
Locação. Ação de despejo por falta de pagamento. Pedido de antecipação de tutela. Não
concessão do pleito. Não verificação dos requisitos legais autorizadores da concessão do pedido
de antecipação de tutela. [...] Verifica-se a supressio quando, pelo modo como as partes vêm se
comportando ao longo da vida contratual, certas atitudes que poderiam ser exigidas originalmente
passam a não mais poderem ser exigidas na sua forma original (sofrem uma minoração), por ter se
criado uma expectativa de que aquelas disposições iniciais não seriam exigidas daquela forma
inicialmente prevista (TJRS, Agravo de Instrumento 700010323012, Rel. Des. Ricardo Raupp
Ruschel, 15ª Câmara Cível, julgado em 22-11-2004).
Não se aplica tal figura ao simples não ajuizamento de uma ação ou de uma
reconvenção. Um exemplo típico é o uso de área comum por condomínio em regime de
exclusividade por período de tempo considerável, que implica a supressão da pretensão
de reintegração por parte do condomínio como um todo. A razão dessa supressão seria o
fato de que o comportamento da parte teria gerado em outra a representação de que o
direito não seria mais atuado. A tutela da confiança, dessa forma, imporia a necessidade
de vedação ao comportamento contraditório.
Verifica-se, então, uma proximidade entre a situação da supressio e a do venire, sendo
o fato próprio, aqui, a não atuação, ou seja, um comportamento omissivo, que implica a
perda do direito ao exercício da pretensão, de modo legítimo.
A aplicação da boa-fé sob a forma da supressio tem recebido respaldo da
jurisprudência, exigindo-se, contudo, para sua configuração: “Decurso de prazo sem
exercício do direito com indícios objetivos de que o direito não mais seria exercido e
desequilíbrio, pela ação do tempo, entre o benefício do credor e o prejuízo do
devedor” 17.
Julgado semelhante do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no qual a relatora explica,
no caso em tela, a aplicação da supressio: “Trata-se, mutatis mutandis, de aplicação, por
analogia, da chamada ‘teoria da supressio’, consagrada pelo STJ, segundo a qual tem por
objetivo sancionar aquele que, por abuso de direito, não exerceu o seu direito subjetivo
por prazo considerável, gerando na outra parte a legítima expectativa de que a sua
situação jurídica será consolidada” 18.
No mesmo sentido, encontramos jurisprudência consolidada no STJ:
REsp 214.680/SP. Condomínio. Área comum. Prescrição. Boa-fé. Área destinada a corredor, que
perdeu sua finalidade com a alteração do projeto e veio a ser ocupada com exclusividade por alguns
condôminos, com a concordância dos demais. Consolidada a situação há mais de vinte anos sobre a
área não dispensável à existência do condomínio, é de ser mantido o statu quo. Aplicação do
princípio da boa-fé (supressio). Recurso conhecido e provido (RSTJ 130:366).
Dessarte, para configuração da supressio, é necessário restar comprovado: (a) decurso
de prazo sem exercício do direito com indícios objetivos de que o direito não mais será
exercido; (b) desequilíbrio, pela ação do tempo, entre o benefício do credor e o prejuízo
do devedor.
Insta mencionar recente julgado que aplica a teoria do adimplemento substancial das
obrigações e a teoria dos atos próprios como meio de rever a amplitude e o alcance dos
deveres contratuais, daí derivando o instituto da supressio:
Direito empresarial. Incidência da boa-fé objetiva no contrato de representação comercial.
Não é possível ao representante comercial exigir, após o término do contrato de representação
comercial, a diferença entre o valor da comissão estipulado no contrato e o efetivamente recebido,
caso não tenha havido, durante toda a vigência contratual, qualquer resistência ao recebimento
dos valores em patamar inferior ao previsto no contrato. Inicialmente, cumpre salientar que a Lei n.
4.886/1965 dispõe serem vedadas, na representação comercial, alterações que impliquem, direta ou
indiretamente, a diminuição da média dos resultados auferidos pelo representante nos últimos seis
meses de vigência do contrato. De fato, essa e outras previsões legais introduzidas pela Lei n.
8.420/92 tiveram caráter social e protetivo em relação ao representante comercial autônomo que, em
grande parte das vezes, ficava à mercê do representado, que alterava livre e unilateralmente o
contrato de acordo com os seus interesses e, normalmente, em prejuízo do representante, pois
economicamente dependente daquele. Essa restrição foi introduzida para compensar o desequilíbrio
entre o representado e o representante, este reconhecidamente mais fraco do ponto de vista jurídico e
econômico. Nesse sentido, nem mesmo as alterações consensuais e bilaterais são admitidas quando
resultarem em prejuízos diretos ou indiretos para o representante. Todavia, no caso em que a
comissão tenha sido paga ao representante em valor inferior ao que celebrado no contrato, durante
toda a sua vigência, sem resistência ou impugnação por parte do representante, pode-se concluir que
a este interessava a manutenção do contrato, mesmo que em termos remuneratórios inferiores, tendo
em vista sua anuência tácita para tanto. Verifica-se, nessa hipótese, que não houve uma redução da
comissão do representante em relação à média dos resultados auferidos nos últimos seis meses de
vigência do contrato, o que, de fato, seria proibido nos termos do art. 32, § 7º, da Lei n. 4.886/65.
Desde o início da relação contratual, tendo sido a comissão paga em valor inferior ao que pactuado,
conclui-se que a cláu​sula que estipula pagamento de comissão em outro valor nunca chegou a viger.
Ainda, observa-se que, nessa situação, não houve qualquer redução da remuneração do representante
que lhe pudesse causar prejuízos, de forma a contrariar o caráter eminentemente protetivo e social da
lei. Se o representante permanece silente durante todo o contrato em relação ao valor da comissão,
pode-se considerar que tenha anuído tacitamente com essa condição de pagamento, não sendo
razoável que, somente após o término do contrato, venha a reclamar a diferença. Com efeito, a boa-fé
objetiva, princípio geral de direito recepcionado pelos arts. 113 e 422 do CC/2002 como
instrumento de interpretação do negócio jurídico e norma de conduta a ser observada pelas partes
contratantes, exige de todos um comportamento condizente com um padrão ético de confiança e
lealdade, induz deveres acessórios de conduta, impondo às partes comportamentos obrigatórios
implicitamente contidos em todos os contratos, a serem observados para que se concretizem as justas
expectativas oriundas da própria celebração e execução da avença, mantendo-se o equilíbrio da
relação. Essas regras de conduta não se orientam exclusivamente ao cumprimento da obrigação,
permeando toda a relação contratual, de modo a viabilizar a satisfação dos interesses globais
envolvidos no negócio, sempre tendo em vista a plena realização da sua finalidade social. Além
disso, o referido princípio tem a função de limitar o exercício dos direitos subjetivos. A esta função,
aplica-se a teoria do adimplemento substancial das obrigações e a teoria dos atos próprios como
meio de rever a amplitude e o alcance dos deveres contratuais, daí derivando o instituto da
supressio, que indica a possibilidade de considerar suprimida determinada obrigação contratual na
hipótese em que o não exercício do direito correspondente, pelo credor, gerar ao devedor a legítima
expectativa de que esse não exercício se prorrogará no tempo. Em outras palavras, haverá redução
do conteúdo obrigacional pela inércia qualificada de uma das partes em exercer direito ou faculdade
ao longo da execução do contrato, criando para a outra a sensação válida e plausível – a ser apurada
casuisticamente – de ter havido a renúncia àquela prerrogativa. Assim, o princípio da boa-fé objetiva
torna inviável a pretensão do representante comercial de exigir retroativamente valores que foram
por ele dispensados, de forma a preservar uma expectativa legítima, construída e mantida ao longo
de toda a relação contratual pelo representado (REsp 1.162.985/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi,
julgado em 18-6-2013, ver Informativo n. 523).

3.4.1.3. Surrectio

A surrectio verifica-se nos casos em que o decurso do tempo permite concluir o


surgimento de uma posição jurídica, pela regra da boa-fé. Normalmente, é figura correlata
à supressio. Entretanto, a surrectio representa uma ampliação do conteúdo obrigacional.
Nessa, a atitude de uma das partes gera na outra a expectativa de direito ou faculdade não
pactuada. A surreição consistiria no surgimento de uma posição jurídica pelo
comportamento materialmente nela contido, sem a correlata titularidade.
Colacionamos julgado do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que, ao apreciar a
alteração tácita de cláusula de preço, assim decidiu:
Direito civil. Locação residencial. Situação jurídica continuada ao arrepio do contrato. Cláusula de
preço. Fenômeno da surrectio a garantir seja mantido o ajuste tacitamente convencionado. Situação
criada ao arrepio de cláusula contratual livremente convencionada pela qual a locadora aceita, por
certo lapso temporal, aluguel a preço inferior àquele expressamente ajustado, cria, à luz do Direito
Civil moderno, novo direito subjetivo, a estabilizar a situação de fato já consolidada, em prestígio
ao princípio da boa-fé contratual (TJMG, ACI 1.0024.03.163299-5/001, Rel. Des. Mauro Soares de
Freitas, 16ª Câmara Cível, julgado em 7-3-2007).

Essa é a orientação do próprio Código Civil, em seu art. 330: “O pagamento


reiteradamente feito em outro local faz presumir a renúncia do credor relativamente ao
previsto no contrato”.
Assim, enquanto a supressio traduz-se em uma limitação – que pode até mesmo chegar
à paralisação total – do direito subjetivo, a surrectio é, justamente, a outra face desse
fenômeno, ou seja, o surgimento ou a aquisição de um direito subjetivo a partir da
cristalização de uma situação de repetida violação contratual ou legal, de modo que se
presuma uma nova conformação jurídica, dadas as circunstâncias objetivas. Na doutrina
afirma-se que a supressio e a surrectio são verso e reverso da mesma moeda, ou seja,
constituem figuras concomitantes 19.

3.4.1.4. Tu quoque

Literalmente, significa “e tu também”, em alusão à frase de Júlio César dita a Brutus. O


tu quoque verifica-se nas hipóteses em que existe um determinado comportamento dentro
do contrato que viola seu conteúdo, o qual, apesar disso 20, propicia que a parte exija um
comportamento em circunstâncias tais que ele mesmo deixou de cumprir.
Em síntese, a parte não pode exigir de outrem um comportamento que ela própria não
observou. O art. 180 do Código Civil é típico exemplo da figura 21.
Portanto, quem viola as suas obrigações contratuais não pode se valer da sua própria
falta para se favorecer diante da contraparte. Assim, conforme o Enunciado n. 24 da I
Jornada de Direito Civil do Conselho Superior da Justiça Federal, a violação dos deveres
anexos decorrentes da cláusula geral da boa-fé objetiva constitui-se espécie de
inadimplemento, independentemente de culpa.
A figura do tu quoque objetiva a vedação de dois pesos e duas medidas, ou seja, da
adoção de comportamentos contraditórios no interior de relações obrigacionais com
referência a determinado direito subjetivo derivado do contrato 22. A esse respeito, bem
observa a doutrina sobre o tema: “Diferencia-se do venire, porque não se objetiva, aqui, a
tutela da expectativa de continuidade do comportamento, mas apenas a sua manutenção
para preservar o equilíbrio contratual, o caráter sinalagmático das trocas” 23.
Assim, por exemplo, têm corretamente tratado as questões referentes a desconto
indevido em contrato de conta corrente os tribunais que determinam a devolução com os
juros do cheque especial, visando a que a parte prejudicada receba igual tratamento ao
dado à instituição bancária, quando atua na posição inversa, emprestando dinheiro.
A figura que melhor representa o tu quoque é a exceção do contrato não cumprido. Por
esse modelo, a pretensão ao cumprimento, nos contratos bilaterais, só é plenamente eficaz
se lhe for subjacente o desempenho da prestação a ela causalmente vinculada, como
preceitua o art. 476 do Código Civil 24-25. Nesse caso específico, a exceção paralisa a
pretensão, ou seja, impede que seja juridicamente tutelada de modo a satisfazer o seu
conteúdo. Em termos de tu quoque, equivale dizer: não se pode cobrar enquanto o débito
não for quitado; se o fizer, sua conduta implicará meios de tutelar o direito do credor.
Devemos ressaltar o previsto no Enunciado n. 412 da V Jornada de Direito Civil, que
prevê que
Art. 187. As diversas hipóteses de exercício inadmissível de uma situação jurídica subjetiva, tais
como supressio, tu quoque, surrectio e venire contra factum proprium, são concreções da boa-fé
objetiva.

Como o Enunciado n. 413 da V Jornada, destaca também que


Art. 187. Os bons costumes previstos no art. 187 do CC possuem natureza subjetiva, destinada ao
controle da moralidade social de determinada época, e objetiva, para permitir a sindicância da
violação dos negócios jurídicos em questões não abrangidas pela função social e pela boa-fé
objetiva.
E, por fim, relacionado ao tema em questão, devemos evidenciar o Enunciado n. 414:
Art. 187. A cláusula geral do art. 187, Código Civil tem fundamento constitucional nos princípios as
solidariedade, devido processo legal e proteção da confiança e aplica-se a todos os ramos do
direito.

Sobre o tema, a jurisprudência a seguir:


Direito civil. Recurso especial. Pactuação, por acordo de vontades, de distrato. Recalcitrância da
devedora em assinar o instrumento contratual. Arguição de vício de forma pela parte que deu
causa ao vício. Impossibilidade. Auferimento de vantagem ignorando a extinção do contrato.
Descabimento. 1. É incontroverso que o imóvel não estava na posse da locatária e as partes
pactuaram distrato, tendo sido redigido o instrumento, todavia a ré locadora se recusou a assiná-lo,
não podendo suscitar depois a inobservância ao paralelismo das formas para a extinção contratual. É
que os institutos ligados à boa-fé objetiva, notadamente a proibição do venire contra factum
proprium, a supressio, a surrectio e o tu quoque, repelem atos que atentem contra a boa-fé objetiva.
2. Destarte, não pode a locadora alegar nulidade da avença (distrato), buscando manter o contrato
rompido, e ainda obstar a devolução dos valores desembolsados pela locatária, ao argumento de que
a lei exige forma para conferir validade à avença. 3. Recurso especial não provido (REsp
1040606/ES, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 24-4-2012, DJe 16-5-2012).
Recurso ordinário em mandado de segurança. Administrativo. Titular de serventia judicial
suspenso preventivamente. Legalidade. Autotutela da moralidade e legalidade. Aplicação da
teoria dos atos próprios (tu quoque). Ausência de direito líquido e certo. 1. No caso dos autos,
alega o recorrente violação de seu direito líquido e certo, em face do afastamento de suas funções –
oficial de registro de imóveis –, pelo Juiz de Direito, com a finalidade de apurar denúncias de
diversos crimes que o recorrente supostamente teria cometido contra a Administração Pública, em
razão da sua função. 2. Observância do devido processo legal para o afastamento do indiciado.
Indícios veementes de perpetração de vários crimes contra a Administração Pública e atos de
improbidade pelo oficial de registro. 3. Alegar o recorrente que o afastamento de suas funções, bem
como a devida apuração dos fatos em face de fortes indícios de cometimento de crimes contra a
administração, inclusive já com a quebra do sigilo bancária decretada, fere direito líquido e certo, é
contrariar a lógica jurídica e a razoabilidade. A bem da verdade, essa postura do recorrente equivale
ao comportamento contraditório – expressão particular da teoria dos atos próprios –, sintetizado no
anexim tu quoque, reconhecido nesta Corte nas relações privadas, mas incidente, também, nos
vínculos processuais, seja no âmbito do processo administrativo ou judicial. 4. Ausência do direito
líquido e certo. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é firme no entendimento de que
nada obsta o afastamento preventivo do titular de serviço notarial e de registro, por prazo
indeterminado, a teor do disposto nos arts. 35 e 36 da Lei n. 8.935/94. A suspensão preventiva não
tem caráter punitivo, mas sim cautelar. Precedentes. Recurso ordinário improvido (RMS 14.908/BA,
Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 6-3-2007, DJ 20-3-2007, p. 256).

3.4.1.5. Duty to mitigate the loss 26

Trata o Enunciado n. 169 da III Jornada de Direito Civil do tema relacionado: “O


princípio da boa-fé objetiva deve levar o credor a evitar o agravamento do próprio
prejuízo”.
O Enunciado é inspirado no art. 77 da Convenção de Viena de 1980, sobre venda
internacional de mercadorias, no sentido de que
a parte que invoca a quebra do contrato deve tomar as medidas razoáveis, levando em consideração
as circunstâncias, para limitar a perda, nela compreendido o prejuízo resultante da quebra. Se ela
negligencia em tomar tais medidas, a parte faltosa pode pedir a redução das perdas e danos, em
proporção igual ao montante da perda que poderia ter sido diminuída 27.

A jurisprudência a seguir aborda o tema:


Direito civil. Contratos. Boa-fé objetiva. Standard ético-jurídico. Observância pelas partes
contratantes. Deveres anexos. Duty to mitigate the loss. Dever de mitigar o próprio prejuízo.
Inércia do credor. Agravamento do dano. Inadimplemento contratual. Recurso improvido. 1. Boa-
fé objetiva. Standard ético-jurídico. Observância pelos contratantes em todas as fases. Condutas
pautadas pela probidade, cooperação e lealdade. 2. Relações obrigacionais. Atuação das partes.
Preservação dos direitos dos contratantes na consecução dos fins. Impossibilidade de violação aos
preceitos éticos insertos no ordenamento jurídico. 3. Preceito decorrente da boa-fé objetiva. Duty to
mitigate the loss: o dever de mitigar o próprio prejuízo. Os contratantes devem tomar as medidas
necessárias e possíveis para que o dano não seja agravado. A parte a que a perda aproveita não pode
permanecer deliberadamente inerte diante do dano. Agravamento do prejuízo, em razão da inércia do
credor. Infringência aos deveres de cooperação e lealdade. 4. Lição da doutrinadora Vera Maria
Jacob de Fradera. Descuido com o dever de mitigar o prejuízo sofrido. O fato de ter deixado o
devedor na posse do imóvel por quase 7 (sete) anos, sem que este cumprisse com o seu dever
contratual (pagamento das prestações relativas ao contrato de compra e venda), evidencia a ausência
de zelo com o patrimônio do credor, com o consequente agravamento significativo das perdas, uma
vez que a realização mais célere dos atos de defesa possessória diminuiriam a extensão do dano. 5.
Violação ao princípio da boa-fé objetiva. Caracterização de inadimplemento contratual a justificar a
penalidade imposta pela Corte originária (exclusão de um ano de ressarcimento). 6. Recurso
improvido (REsp 758.518/PR, Rel. Min. Vasco Della Giustina [Desembargador convocado do
TJRS], Terceira Turma, julgado em 17-6-2010, DJe 28-6-2010, REPDJe, 1º-7-2010, ver
Informativo n. 439).

Direito do consumidor. Instituição financeira. Devolução do bem. Boa-fé objetiva. Dever de


informação. Duty to mitigate the loss. Verifica-se dos autos que o autor adquiriu um trator agrícola
através de financiamento pela ré. Após o pagamento de algumas parcelas, em razão de dificuldades
financeiras, solicitou a devolução amigável do bem. Ocorre que o réu não entrou em contato com o
autor, não fornecendo qualquer tipo de informação. O CC/2002, inspirado em valores éticos nas
relações jurídicas, erigiu como princípio vetor de suas normas a boa-fé objetiva. A cláusula geral de
boa-fé, tanto pelo CPDC como pelo CC/2002, traz deveres anexos aos negócios jurídicos, impondo
aos contratantes a observância de comportamentos leais, probos, exigindo a correta e abrangente
informação sobre todo o conteúdo do contrato. O autor agiu com lealdade e, logo que verificou a
impossibilidade de manutenção do contrato, devolveu imediatamente o bem, sendo certo que deve
merecer tratamento diferenciado daqueles devedores que simplesmente deixam de pagar a dívida,
permanecendo com o bem indistintamente. O réu, por sua vez, além de não informar adequadamente
ao autor sobre o processo de devolução amigável do bem, demorou o equivalente a dois anos e três
meses para notificar o autor da venda do bem. Desta forma, tendo em vista que o art. 39, XII, do
CPDC impede que o réu deixe de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação, impõe-se o
provimento parcial do recurso. Inegavelmente, as instituições financeiras colaboram com o
endividamento exacerbado dos consumidores, infringindo o dever anexo de cooperação, relacionado
diretamente com o princípio da boa-fé objetiva. Nesse contexto, pertinente in specie a construção
“duty to mitigate the loss”, ou mitigação do prejuízo pelo próprio credor que encontra amparo no
Enunciado n. 169 na III Jornada de Direito Civil: “princípio da boa-fé objetiva deve levar o credor a
evitar o agravamento do próprio prejuízo”. Nesse diapasão, a partir da efetiva devolução do bem
(16-11-2006), o autor só arcará com o saldo devedor reajustável pelo índice INPC, havendo a
devida amortização do valor da venda do bem naquela data, considerando que o réu é quem deve
sofrer o ônus de sua desídia, uma vez que o autor entregou o bem imediatamente e não foi informado
prévia e adequadamente sobre a soma total a pagar após a devolução do bem, sendo esta uma
exigência legal, nos termos do art. 52 do CPDC. Provimento parcial do recurso (TJRJ, Apelação
Cível 0010623-64.2009.8.19.0209, Rel. Des. Roberto de Abreu e Silva, 9ª Câmara Cível, julgado
em 2-8-2011).

Direito civil. Termo inicial da taxa de ocupação de imóvel alienado fiduciariamente no âmbito do
SFH. Na hipótese em que frustrados os públicos leilões promovidos pelo fiduciário para a alienação
do imóvel objeto de alienação fiduciária no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), a
taxa de ocupação será exigível do fiduciante em mora a partir da data na qual se considera extinta a
dívida (art. 27, § 5º, da Lei n. 9.514/97), e não desde a data da consolidação da propriedade em
nome do fiduciário (art. 27, caput, da Lei n. 9.514/97). Nos termos da literalidade do art. 37-A da
Lei n. 9.514/97, “o “fiduciante pagará ao fiduciário, ou a quem vier a sucedê-lo, a título de taxa de
ocupação do imóvel, por mês ou fração, valor correspondente a um por cento do valor a que se
refere o inciso VI do art. 24, computado e exigível desde a data da alienação em leilão até a data em
que o fiduciário, ou seus sucessores, vier a ser imitido na posse do imóvel”. O fundamento para que
essa taxa não incida no período anterior à alienação é que a propriedade fiduciária não se equipara à
propriedade plena, por estar vinculada ao propósito de garantia da dívida, conforme expressamente
dispõe o art. 1.367 do CC: “A propriedade fiduciária em garantia de bens móveis ou imóveis sujeita-
se às disposições do Capítulo I do Título X do Livro III da Parte Especial deste Código e, no que for
específico, à legislação especial pertinente, não se equiparando, para quaisquer efeitos, à
propriedade plena de que trata o art. 1.231”. Efetivamente, não se reconhece ao proprietário
fiduciário os direitos de usar (jus utendi) e de fruir (jus fruendi) da coisa, restando-lhe apenas os
direitos de dispor da coisa (jus abutendi) e de reavê-la de quem injustamente a possua (rei
vindicatio). Essa limitação de poderes se mantém após a consolidação da propriedade em favor do
credor fiduciário, pois essa consolidação se dá exclusivamente com o propósito de satisfazer a
dívida. É o que dispõe o art. 1.364 do CC, litteris: “Vencida a dívida, e não paga, fica o credor
obrigado a vender, judicial ou extrajudicialmente, a coisa a terceiros, a aplicar o preço no pagamento
de seu crédito e das despesas de cobrança, e a entregar o saldo, se houver, ao devedor”. No mesmo
sentido, o art. 27, caput, da Lei n. 9.514/97, litteris: “Uma vez consolidada a propriedade em seu
nome, o fiduciário, no prazo de trinta dias, contados da data do registro de que trata o § 7º do artigo
anterior, promoverá público leilão para a alienação do imóvel”. Com efeito, o direito do credor se
limita ao crédito, sendo a garantia (ainda que por meio de alienação fiduciária) um mero acessório,
não podendo o credor se apropriar, simultaneamente, do crédito e da coisa dada em garantia, sob
pena de bis in idem e enriquecimento sem causa. A taxa de ocupação do imóvel, pela sua própria
definição, tem natureza de fruto do imóvel objeto da alienação fiduciária. Ora, se o credor fiduciário
não dispõe do jus fruendi, não pode exigir do devedor o pagamento de taxa de ocupação.
Efetivamente, os únicos frutos que podem ser exigidos pelo credor são os juros, frutos do capital
mutuado. Entendimento diverso geraria bis in idem e enriquecimento sem causa do banco credor,
pois, em razão do mútuo de certa quantia em dinheiro, o banco receberia dois frutos, os juros e a taxa
de ocupação. Nessa esteira, observa-se que a redação do art. 37-A da Lei n. 9.514/97 foi precisa ao
dispor que a taxa de ocupação somente é devida após a “data da alienação em leilão”, pois, antes da
alienação, a propriedade não é plena, mas afetada à satisfação da dívida, não produzindo frutos em
favor do credor fiduciário. Do mesmo modo, a redação do art. 38 da Lei n. 10.150/2000 também foi
precisa ao instituir o arrendamento especial com opção de compra apenas para os imóveis que a
instituição financeira tenha “arrematado, adjudicado ou recebido em dação em pagamento”, não para
os imóveis adquiridos por consolidação da propriedade fiduciária. Sob outro ângulo, cabe destacar
que a Lei impõe um rito célere à alienação extrajudicial, de modo que o primeiro leilão deva ser
realizado no prazo de 30 dias após o registro da consolidação da propriedade, conforme previsto no
art. 27 da Lei n. 9.514/97, independentemente da desocupação do imóvel. A fixação desse prazo
exíguo tem o objetivo de evitar que a instituição financeira permaneça inerte após a consolidação da
propriedade, deixando que a dívida se eleve aceleradamente, por força dos encargos da mora. Há,
portanto, no referido art. 27, um fundamento de boa-fé objetiva, especificamente concretizada no
preceito duty to mitigate the loss, explicado em precedente da Terceira Turma (REsp 758.518-PR,
DJe 28-6-2010). Durante esse curto período de 30 dias, as perdas experimentadas pela instituição
financeira já são adequadamente compensadas pela multa contratual. Aliás, a incidência de taxa de
ocupação geraria o efeito deletério de estimular a inércia da instituição financeira, tendo em vista a
incidência de mais um fator de incremento da dívida. Noutro norte, é certo que a boa-fé também
impõe deveres ao mutuário, como o de desocupar o imóvel, caso não tenha purgado tempestivamente
a mora. Porém, a violação desse dever impõe perdas potenciais ao próprio mutuário, não à
instituição financeira, que já é remunerada pelos encargos contratuais, tendo em vista que o mutuário
tem direito à restituição do saldo que restar das parcelas pagas após a quitação da dívida e dos
encargos. Destaque-se, ainda, que a Lei n. 9.514/97 confere ao mutuário o prazo de 60 dias para
desocupar o imóvel (art. 30), mas prevê o prazo de apenas 30 dias para a realização do leilão,
evidenciando que a lei deu mais relevância à liquidação da dívida do que à questão possessória.
Mas, o que fazer na hipótese de leilão frustrado, em que não há alienação? Nessa hipótese, o art. 27
da Lei n. 9.514/97 prevê a realização de um segundo leilão no prazo de 15 dias, após o qual a dívida
será extinta compulsoriamente, exonerando-se ambas as partes de suas obrigações. Ora, havendo
extinção da dívida, o imóvel deixa de estar afetado ao propósito de garantia, passando a integrar o
patrimônio do credor de forma plena, o que se assemelha a uma adjudicação. A partir de então, o
credor passa a titularizar todos os poderes inerentes ao domínio, fazendo jus aos frutos do imóvel,
inclusive na forma da taxa de ocupação (REsp 1.328.656-GO, Quarta Turma, DJe 18-9-2012).
Esclareça-se que, no âmbito da Terceira Turma do STJ, há um julgado em que se admitiu a cobrança
de taxa de ocupação desde a consolidação da propriedade, antes, portanto, da data do leilão (REsp
1.155.716-DF, Terceira Turma, DJe 22-3-2012). Esse julgado, contudo, diz respeito a uma situação
específica, em que o leilão foi adiado por muito tempo, em razão de decisões judiciais precárias
obtidas pelo mutuário; a taxa de ocupação, portanto, foi deferida como forma de compensar as
perdas e danos acrescidas em razão dessa demora não imputável ao credor fiduciário. REsp
1.401.233-RS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 17-11-2015, DJe 26-11-2015.

São exemplos na legislação civil:


Art. 769. O segurado é obrigado a comunicar ao segurador, logo que saiba, todo incidente suscetível
de agravar consideravelmente o risco coberto, sob pena de perder o direito à garantia, se provar que
silenciou de má-fé.
§ 1º O segurador, desde que o faça nos quinze dias seguintes ao recebimento do aviso da agravação
do risco sem culpa do segurado, poderá dar-lhe ciência, por escrito, de sua decisão de resolver o
contrato.
§ 2º A resolução só será eficaz trinta dias após a notificação, devendo ser restituída pelo segurador a
diferença do prêmio.

Art. 771. Sob pena de perder o direito à indenização, o segurado participará o sinistro ao segurador,
logo que o saiba, e tomará as providências imediatas para minorar-lhe as consequências.
Parágrafo único. Correm à conta do segurador, até o limite fixado no contrato, as despesas de
salvamento consequente ao sinistro.

3.4.1.6. Adimplemento substancial 28

Trata-se de um adimplemento tão próximo do resultado final que, tendo-se em vista a


conduta das partes, exclui-se o direito de resolução, permitindo-se tão somente o pedido
de indenização. Não é justo resolver o contrato neste caso de inadimplemento mínimo,
pois estaríamos violando a função social e a boa-fé objetiva. Em síntese: rejeitar-se-á a
resolução do vínculo obrigacional sempre que a desconformidade entre a conduta do
devedor e a prestação estabelecida seja de pouca relevância 29. Transcreva-se também a
menção das Jornadas de Direito Civil, bem como entendimento do STJ:
Arts. 421, 422 e 475. O adimplemento substancial decorre dos princípios gerais contratuais, de
modo a fazer preponderar a função social do contrato e o princípio da boa-fé objetiva, balizando
a aplicação do art. 475 (Enunciado n. 361 da IV Jornada de Direito Civil).

Art. 475. Para a caracterização do adimplemento substancial (tal qual reconhecido pelo Enunciado
361 da IV Jornada de Direito Civil – CJF), levam-se em conta tanto aspectos quantitativos quanto
qualitativos (Enunciado n. 586 da VII Jornada de Direito Civil).

Recurso especial. Direito civil. Responsabilidade civil. Ação de indenização por danos morais e
materiais. Transtornos resultantes da busca e apreensão de automóvel. Financiamento. Alienação
fiduciária em garantia. Inadimplemento parcial. Ausência de quitação de apenas uma das
parcelas contratadas. Inaplicabilidade, no caso, da teoria do adimplemento substancial do
contrato. Busca e apreensão. Autorização expressa do Decreto-lei n. 911/69. Exercício regular de
direito. Dever de indenizar. Inexistência. Pedido de desistência recursal. Indeferimento. Termo
final para apresentação. Início da sessão de julgamento. 1. Ação indenizatória promovida por
devedor fiduciante com o propósito de ser reparado por supostos prejuízos, de ordem moral e
material, decorrentes do cumprimento de medida liminar deferida pelo juízo competente nos autos de
ação de busca e apreensão de automóvel objeto de contrato de financiamento com cláusula de
alienação fiduciária em garantia. 2. Recurso especial que veicula pretensão da instituição financeira
ré de (i) ver excluída sua responsabilidade pelos apontados danos morais, reconhecida no acórdão
recorrido, por ter agido, ao propor a ação de busca e apreensão do veículo, em exercício regular de
direito e (ii) ver reconhecida a inaplicabilidade, no caso, da “teoria do adimplemento substancial do
contrato”. 3. A prerrogativa conferida ao recorrente pelo art. 501 do Código de Processo Civil 30 –
de desistir de seu recurso a qualquer tempo e sem a anuência do recorrido ou eventuais litisconsortes
– encontra termo final lógico no momento em que iniciado o julgamento da irresignação recursal.
Não merece homologação, no caso, pedido de desistência recursal apresentado após já ter sido
proferido o voto do relator e enquanto pendia de conclusão seu julgamento em virtude de pedido de
vista. Precedentes. 4. A teor do que expressamente dispõem os arts. 2º e 3º do Decreto-lei n. 911/69,
é assegurado ao credor fiduciário, em virtude da comprovação da mora ou do inadimplemento das
obrigações assumidas pelo devedor fiduciante, pretender, em juízo, a busca e apreensão do bem
alienado fiduciariamente. O ajuizamento de ação de busca e apreensão, nesse cenário, constitui
exercício regular de direito do credor, o que afasta sua responsabilidade pela reparação de danos
morais resultantes do constrangimento alegadamente suportado pelo devedor quando do cumprimento
da medida ali liminarmente deferida. 5. O fato de ter sido ajuizada a ação de busca e apreensão pelo
inadimplemento de apenas 1 (uma) das 24 (vinte e quatro) parcelas avençadas pelos contratantes não
é capaz de, por si só, tornar ilícita a conduta do credor fiduciário, pois não há na legislação de
regência nenhuma restrição à utilização da referida medida judicial em hipóteses de inadimplemento
meramente parcial da obrigação. 6. Segundo a teoria do adimplemento substancial, que atualmente
tem sua aplicação admitida doutrinária e jurisprudencialmente, não se deve acolher a pretensão do
credor de extinguir o negócio em razão de inadimplemento que se refira a parcela de menos
importância do conjunto de obrigações assumidas e já adimplidas pelo devedor. 7. A aplicação do
referido instituto, porém, não tem o condão de fazer desaparecer a dívida não paga, pelo que
permanece possibilitado o credor fiduciário de perseguir seu crédito remanescente (ainda que
considerado de menor importância quando comparado à totalidade da obrigação contratual pelo
devedor assumida) pelos meios em direito admitidos, dentre os quais se encontra a própria ação de
busca e apreensão de que trata o Decreto-lei n. 911/1969, que não se confunde com a ação de
rescisão contratual – esta, sim, potencialmente indevida em virtude do adimplemento substancial da
obrigação. 8. Recurso especial provido para, restabelecendo a sentença de primeiro grau, julgar
improcedente o pedido indenizatório autoral (REsp 1255179/RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas
Cueva, Terceira Turma, julgado em 25-8-2015, DJe 18-11-2015). Leasing. Adimplemento
substancial. Trata-se de REsp oriundo de ação de reintegração de posse ajuizada pela ora recorrente
em desfavor do ora recorrido por inadimplemento de contrato de arrendamento mercantil (leasing).
A Turma, ao prosseguir o julgamento, por maioria, entendeu, entre outras questões, que, diante do
substancial adimplemento do contrato, ou seja, foram pagas 31 das 36 prestações, mostra-se
desproporcional a pretendida reintegração de posse e contraria princípios basilares do Direito Civil,
como a função social do contrato e a boa-fé objetiva. Consignou-se que a regra que permite tal
reintegração em caso de mora do devedor e, consequentemente, a resolução do contrato, no caso,
deve sucumbir diante dos aludidos princípios. Observou-se que o meio de realização do crédito pelo
qual optou a instituição financeira recorrente não se mostra consentâneo com a extensão do
inadimplemento nem com o CC/2002. Ressaltou-se, ainda, que o recorrido pode, certamente, valer-
se de meios menos gravosos e proporcionalmente mais adequados à persecução do crédito
remanescente, por exemplo, a execução do título (Precedentes citados: REsp 272.739/MG, DJ 2-4-
2001; REsp 469.577/SC, DJ 5-5-2003, e REsp 914.087/RJ, DJ 29-10-2007. REsp 1.051.270/RS,
Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 4-8-2011) 31.

Adquirido por : Franklin Carter Lopes De Freitas


Telefone: 8899762640
E-mail: franklinufc@hotmail.com
3.5. Da equidade

Atente-se para o disposto no art. 51, IV, do Código do Consumidor:


Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de
produtos e serviços que:
[...]
IV – estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em
desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade.

Uma vez descumprida a equidade, a cláusula ou o contrato terá a sua invalidade


reconhecida, pois estará presente a falta de justiça ao caso concreto.
Sobre o tema, observe a Súmula 543, do STJ: “Na hipótese de resolução de contrato de
promessa de compra e venda de imóvel submetido ao Código de Defesa do Consumidor,
deve ocorrer a imediata restituição das parcelas pagas pelo promitente comprador –
integralmente, em caso de culpa exclusiva do promitente vendedor/construtor, ou
parcialmente, caso tenha sido o comprador quem deu causa ao desfazimento”.

3.6. Da educação e informação dos consumidores

Um grande exemplo do princípio relatado é a Lei n. 12.291/2010, que obriga os


estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços à exposição de um exemplar do
CDC no local. Vale destacar o art. 6º, II, da legislação consumerista. Perceba:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...]
II – a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a
liberdade de escolha e a igualdade nas contratações.

3.7. Do controle de qualidade e mecanismos de atendimento pelas próprias


empresas

O inciso V do art. 4º salienta o assunto:


Art. 4º [...]
V – incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e segurança
de produtos e serviços, assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo.

3.8. Da racionalização e melhoria dos serviços públicos

Neste tópico, deve-se ter atenção a dois artigos do CDC. O primeiro deles é o art. 6º, X,
e o segundo, o art. 22, parágrafo único.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...]
X – a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.

Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob
qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes,
seguros e, quanto aos essenciais, contínuos.
Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das obrigações referidas neste
artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma
prevista neste código.
Esse princípio está capitaneado no inciso VII do art. 4º:
Art. 4º [...]
VII – racionalização e melhoria dos serviços públicos.

3.9. Da coibição e repressão das práticas abusivas

Trata-se de um princípio de grande relevância disposto no inciso VI do art. 4º da


norma consumerista, que determina:
Art. 4º [...]
VI – coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo,
inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e
nomes comerciais e signos distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores.

O art. 39 da legislação exibe um rol exemplificativo das práticas abusivas. Mais adiante
esse assunto será abordado. Sobre o tema, mencionamos a Lei n. 12.529/2011 que
estrutura o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência e dispõe sobre a prevenção e
repressão às infrações contra a ordem econômica.

3.10. Do estudo das modificações do mercado

Nosso mercado de consumo é extremamente mutável e, por essa razão, é preciso um


estudo constante para que não haja qualquer tipo de lesão ao consumidor. O inciso VIII
do art. 4º ressalta o tema, confira:
Art. 4º [...]
VIII – estudo constante das modificações do mercado de consumo.

O mercado online é um grande exemplo do princípio mostrado, pois a todo tempo


necessita de modificações.

4. Direitos básicos do consumidor

O art. 6º propõe uma lista exemplificativa de direitos básicos. Diante desse fato,
examine o dispositivo da Lei Consumerista:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
I – a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento
de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos;
II – a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a
liberdade de escolha e a igualdade nas contratações;
III – a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação
correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como
sobre os riscos que apresentem32;
IV – a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou
desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e
serviços;
V – a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua
revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;
VI – a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e
difusos;
VII – o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou reparação de
danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica,
administrativa e técnica aos necessitados;
VIII – a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu
favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências;
IX – (Vetado).
X – a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.
Parágrafo único. A informação de que trata o inciso III do caput deste artigo deve ser acessível à
pessoa com deficiência, observado o disposto em regulamento.

4.1. A proteção da vida, saúde e segurança

Vivemos em uma sociedade de risco e, por essa razão, o art. 6º, I, apresenta-nos tal
direito básico. Por isso, deve prevalecer a teoria da qualidade dos produtos e serviços
para que não ocorram danos aos consumidores, sejam eles os padrões ou equiparados.
Nesse sentido, veja os seguintes artigos do CDC:
Art. 8º Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou
segurança dos consumidores, exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua
natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações
necessárias e adequadas a seu respeito.
Parágrafo único. Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as informações a
que se refere este artigo, através de impressos apropriados que devam acompanhar o produto.
Art. 9º O fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à saúde ou
segurança deverá informar, de maneira ostensiva e adequada, a respeito da sua nocividade ou
periculosidade, sem prejuízo da adoção de outras medidas cabíveis em cada caso concreto.
Art. 10. O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou
deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança.
§ 1º O fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua introdução no mercado de
consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apresentem, deverá comunicar o fato
imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários.
§ 2º Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão veiculados na imprensa,
rádio e televisão, às expensas do fornecedor do produto ou serviço.
§ 3º Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou serviços à saúde ou
segurança dos consumidores, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão
informá-los a respeito.

4.2. Educação, informação e liberdade de escolha

Em todo contrato de consumo devem reinar a liberdade de escolha e a transparência


máxima e é esse o intuito da lei. Um exemplo claro de tal norma, ou seja, o art. 6º, II, é a
exigência de um exemplar do Código de Defesa do Consumidor em todo estabelecimento
comercial e de prestação de serviços (Lei n. 12.291/2010).

4.3. Informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços

Mais uma vez fica consagrado o princípio da transparência máxima no art. 6º, III. Essa
informação deve estar presente tanto nas fases pré-contratual e contratual quanto na de
execução do contrato. Tem-se aqui a boa-fé objetiva com o cumprimento dos deveres
principais e anexos. O consumidor por intermédio do devido esclarecimento do produto
ou serviço fará uma escolha consciente.
Importa mencionar que o Estatuto da Pessoa com Deficiência, Lei n. 13.146/2015,
incluiu parágrafo único ao art. 6º, dispondo que a informação de que trata o inc. III deve
ser acessível à pessoa com deficiência, observado o disposto em regulamento.
Sobre a matéria, mencionamos os seguintes julgados:
Recurso especial. Civil. Seguro empresarial. Violação do art. 535 do CPC. Inexistência. Proteção
do patrimônio da própria pessoa jurídica. Destinatária final dos serviços securitários. Relação de
consumo. Caracterização. Incidência do CDC. Cobertura contratual contra roubo/furto
qualificado. Ocorrência de furto simples. Indenização devida. Cláusula contratual abusiva. Falha
no dever geral de informação ao consumidor. [...]
4. A cláusula securitária a qual garante a proteção do patrimônio do segurado apenas contra o furto
qualificado, sem esclarecer o significado e o alcance do termo “qualificado”, bem como a situação
concernente ao furto simples, está eivada de abusividade por falha no dever geral de informação da
seguradora e por sonegar ao consumidor o conhecimento suficiente acerca do objeto contratado.
Não pode ser exigido do consumidor o conhecimento de termos técnico-jurídicos específicos, ainda
mais a diferença entre tipos penais de mesmo gênero. 5. Recurso especial provido (REsp
1352419/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 19-8-2014, DJe 8-9-
2014, ver Informativo n. 548).

Contrato de seguro. Cláusula abusiva. Não observância do dever de informar. A Turma decidiu
que, uma vez reconhecida a falha no dever geral de informação, direito básico do consumidor
previsto no art. 6º, III, do CDC, é inválida cláusula securitária que exclui da cobertura de
indenização o furto simples ocorrido no estabelecimento comercial contratante. A circunstância de o
risco segurado ser limitado aos casos de furto qualificado (por arrombamento ou rompimento de
obstáculo) exige, de plano, o conhecimento do aderente quanto às diferenças entre uma e outra
espécie – qualificado e simples – conhecimento que, em razão da vulnerabilidade do consumidor,
presumidamente ele não possui, ensejando, por isso, o vício no dever de informar. A condição
exigida para cobertura do sinistro – ocorrência de furto qualificado –, por si só, apresenta
conceituação específica da legislação penal, para cuja conceituação o próprio meio técnico-jurídico
encontra dificuldades, o que denota sua abusividade (REsp 1.293.006/SP, Rel. Min. Massami Uyeda,
julgado em 21-6-2012, ver Informativo n. 500).

ACP. Legitimidade do MP. Consumidor. Vale-transporte eletrônico. Direito à informação. A Turma,


por maioria, reiterou que o Ministério Público tem legitimidade para propor ação civil pública que
trate da proteção de quaisquer direitos transindividuais, tais como definidos no art. 81 do CDC. Isso
decorre da interpretação do art. 129, III, da CF em conjunto com o art. 21 da Lei n. 7.347/85 e arts.
81 e 90 do CDC e protege todos os interesses transindividuais, sejam eles decorrentes de relações
consumeristas ou não. Ressaltou a Min. Relatora que não se pode relegar a tutela de todos os direitos
a instrumentos processuais individuais, sob pena de excluir do Estado e da democracia aqueles
cidadãos que mais merecem sua proteção. Outro ponto decidido pelo colegiado foi de que viola o
direito à plena informação do consumidor (art. 6º, III, do CDC) a conduta de não informar na roleta
do ônibus o saldo do vale-transporte eletrônico. No caso, a operadora do sistema de vale-transporte
deixou de informar o saldo do cartão para mostrar apenas um gráfico quando o usuário passava pela
roleta. O saldo somente era exibido quando inferior a R$ 20,00. Caso o valor remanescente fosse
superior, o portador deveria realizar a consulta na internet ou em “validadores” localizados em lojas
e supermercados. Nessa situação, a Min. Relatora entendeu que a operadora do sistema de vale-
transporte deve possibilitar ao usuário a consulta ao crédito remanescente durante o transporte,
sendo insuficiente a disponibilização do serviço apenas na internet ou em poucos guichês espalhados
pela região metropolitana. A informação incompleta, representada por gráficos disponibilizados no
momento de uso do cartão, não supre o dever de prestar plena informação ao consumidor. Também
ficou decidido que a indenização por danos sofridos pelos usuários do sistema de vale-transporte
eletrônico deve ser aferida caso a caso. Após debater esses e outros assuntos, a Turma, por maioria,
deu parcial provimento ao recurso somente para afastar a condenação genérica ao pagamento de
reparação por danos materiais e morais fixada no tribunal de origem (Precedentes citados: do STF:
RE 163.231/SP, 29-6-2001; do STJ: REsp 635.807/CE, DJ 20-6-2005; REsp 547.170/SP, DJ 10-2-
2004, e REsp 509.654-MA, DJ 16-11-2004. REsp 1.099.634/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado
em 8-5-2012, ver Informativo n. 497).

4.4. Proteção contra a publicidade enganosa e abusiva

A publicidade é um meio de difusão e informação com um fim comercial. A Lei


Consumerista expressa no art. 37 o conceito de uma publicidade enganosa e abusiva. O
direito básico do art. 6º, IV, do CDC tem como objetivo o equilíbrio da relação de
consumo, evitando-se a configuração do abuso de direito.

4.5. A modificação e a revisão das cláusulas contratuais

Sempre que o contrato de consumo se iniciar desequilibrado pela presença de uma


cláusula abusiva, o consumidor irá requerer a sua modificação em razão da presença de
uma prestação desproporcional, isto é, uma lesão congênere. Contudo, se um fato
superveniente acarretar o desequilíbrio na relação de consumo, o consumidor buscará a
sua revisão. Fica claro então que a primeira parte do art. 6º, V, abordou a teoria da lesão
consumerista, e a segunda, a teoria do rompimento da base objetiva do negócio jurídico.

4.6. A prevenção e a reparação integral dos danos

Educar, orientar e informar os consumidores e os fornecedores são deveres básicos


para que ocorra a devida prevenção dos danos; já com relação à reparação destes, aplica-
se o princípio da restitutio integrum. Assim sendo, qualquer tipo de tarifação ou mesmo
tabelamento será considerado abusivo. A lei enfatiza que deverão ser reparados os danos
materiais e morais, individuais, coletivos e difusos.

4.6.1. Espécies de danos

Os danos materiais dividem-se em:


a) danos emergentes: o que efetivamente fora perdido; e
b) lucros cessantes: aquilo que se deixou de ganhar.
Já os danos morais são aqueles que violam um dos direitos da personalidade.
Conforme destacado anteriormente, poderão eles ser coletivos – aqueles que atingem
pessoas determinadas ou mesmo determiná​veis –, e difusos – os que atingem a sociedade,
aqui as vítimas são indeterminadas 33-34.
DICA!
Destacamos as seguintes Súmulas do STJ:
37 – “São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato”.
227 – “A pessoa jurídica pode sofrer dano moral”.
370 – “Caracteriza dano moral a apresentação antecipada de cheque pré-datado”.
385 – “Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição,
ressalvado o direito ao cancelamento”.
387 – “É lícita a cumulação das indenizações de dano estético e dano moral”.
388 – “A simples devolução indevida de cheque caracteriza dano moral”.
403 – “Independe de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada de imagem de pessoa com fins econômicos ou comerciais”.
420 – “Incabível, em embargos de divergência, discutir o valor de indenização por danos morais”.

Não podemos nos esquecer dos danos estéticos e da perda de uma chance! Dano
estético é aquele que envolve uma lesão de caráter irreversível. A perda de uma chance
está caracterizada, quando ocorre uma perda séria e real. Assim é o entendimento da V
Jornada do CJF. Vejamos:
Enunciado n. 444: “Art. 927. A responsabilidade civil pela perda de chance não se limita à categoria
de danos extrapatrimoniais, pois, conforme as circunstâncias do caso concreto, a chance perdida
pode apresentar também a natureza jurídica de dano patrimonial. A chance deve ser séria e real, não
ficando adstrita a percentuais apriorísticos”.
Destacamos o seguinte julgado:
Direito civil. Aplicabilidade da teoria da perda de uma chance no caso de descumprimento de
contrato de coleta de células-tronco embrionárias.
Tem direito a ser indenizada, com base na teoria da perda de uma chance, a criança que, em razão da
ausência do preposto da empresa contratada por seus pais para coletar o material no momento do
parto, não teve recolhidas as células-tronco embrionárias. No caso, a criança teve frustrada a chance
de ter suas células embrionárias colhidas e armazenadas para, se eventualmente fosse preciso, fazer
uso delas em tratamento de saúde. Não se está diante de situação de dano hipotético – o que não
renderia ensejo a indenização – mas de caso claro de aplicação da teoria da perda de uma chance,
desenvolvida na França (la perte d’une chance) e denominada na Inglaterra de loss-of-a-chance. No
caso, a responsabilidade é por perda de uma chance por serem as células-tronco, cuja retirada do
cordão umbilical deve ocorrer no momento do parto, o grande trunfo da medicina moderna para o
tratamento de inúmeras patologias consideradas incuráveis. É possível que o dano final nunca venha
a se implementar, bastando que a pessoa recém-nascida seja plenamente saudável, nunca
desenvolvendo qualquer doença tratável com a utilização das células-tronco retiradas do seu cordão
umbilical. O certo, porém, é que perdeu, definitivamente, a chance de prevenir o tratamento dessas
patologias. Essa chance perdida é, portanto, o objeto da indenização. REsp 1.291.247-RJ, Rel. Min.
Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 19-8-2014 (ver Informativo n. 549).

Recurso especial. Indenização. Impropriedade de pergunta formulada em programa de televisão.


Perda da oportunidade.
1. O questionamento, em programa de perguntas e respostas, pela televisão, sem viabilidade lógica,
uma vez que a Constituição Federal não indica percentual relativo às terras reservadas aos índios,
acarreta, como decidido pelas instâncias ordinárias, a impossibilidade da prestação por culpa do
devedor, impondo o dever de ressarcir o participante pelo que razoavelmente haja deixado de lucrar,
pela perda da oportunidade.
2. Recurso conhecido e, em parte, provido (REsp 788.459/BA, Rel. Min. Fernando Gonçalves,
Quarta Turma, julgado em 8-11-2005, DJ 13-3-2006, p. 334).

Tema de Prova!
O que é dano in re ipsa?
Vejamos o recente julgado do STJ:
Recurso especial. Responsabilidade civil. Ação de indenização por danos morais e materiais. Direito à imagem. Atleta. Utilização sem autorização
para promoção de evento. Violação de dispositivos constitucionais. Não cabimento. Ausência de fins lucrativos. Irrelevância. Dano moral. Prova.
Desnecessidade. Precedentes. Doutrina.
1. Compete ao Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso especial, a análise da interpretação da legislação federal, motivo pelo qual se revela
inviável invocar, nesta seara, a violação de dispositivos constitucionais, porquanto matéria afeta à competência do STF (art. 102, III, da Carta Magna).
2. A obrigação da reparação pelo uso não autorizado de imagem decorre do próprio uso indevido do direito personalíssimo e não é afastada pelo caráter
não lucrativo do evento ao qual a imagem é associada.
3. Para a configuração do dano moral pelo uso não autorizado de imagem não é necessária a demonstração de prejuízo, pois o dano se apresenta in re
ipsa.
4. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, parcialmente provido.
[...] O direito à imagem, desdobramento do direito da personalidade, na definição de Carlos Alberto Bittar, consiste “no direito que a pessoa tem sobre a
sua forma plástica e respectivos componentes distintos (rosto, olhos, perfil, busto) que a individualizam no seio da coletividade. Incide, pois, sobre a
conformação física da pessoa, compreendendo esse direito um conjunto de caracteres que a identifica no meio social. Por outras palavras, é o vínculo
que une a pessoa à sua expressão externa, tomada no conjunto, ou em partes significativas (como a boca, os olhos as pernas, enquanto
individualizadoras da pessoa” (Os direitos da personalidade. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004, p. 94).
Nas palavras de Pontes de Miranda, direito à imagem “é direito de personalidade quando tem como conteúdo a reprodução das formas, ou da voz, ou
dos gestos, identificativamente” (Tratado de direito privado. Rio de Janeiro: Borsoi, 1955, t. VII, p. 53).

A par das características inerentes aos demais direitos de personalidade (intransmissibilidade, irrenunciabilidade, vitaliciedade, imprescritibilidade,
impenhorabilidade) ao direito à imagem, por exceção, está ligado o atributo da disponibilidade, ainda que relativa, podendo sofrer limitação voluntária, o
que permite a exploração da imagem desde que autorizada pelo titular do direito.
No caso concreto, ambas as instâncias de cognição plena, com base na análise do contexto fático-probatório, concluíram que houve uso não autorizado
da imagem da autora, por meio de reprodução manipulada da sua fotografia, constatada por meio de perícia grafotécnica, na divulgação do evento
esportivo em questão.
O pedido indenizatório, contudo, foi negado, essencialmente por dois motivos: ausência de prova do dano moral e caráter não lucrativo do evento
esportivo ao qual a imagem foi associada.
Quanto ao primeiro aspecto, esta Corte, há muito assentou que, em se tratando de direito à imagem, a obrigação da reparação decorre do próprio uso
indevido do direito personalíssimo, não havendo de cogitar-se da prova da existência de prejuízo ou dano, nem de perquirir-se acerca da consequência
do uso, se ofensivo ou não. [...]
Com relação ao segundo aspecto, também se encontra em descompasso com a orientação jurisprudencial das Cortes Superiores o entendimento
esposado pelo Tribunal local que considerou indispensável à reparação pleiteada a existência de finalidade comercial ou econômica na utilização da
imagem.
Nesse contexto, não há outra solução possível senão a reforma parcial do acórdão estadual a fim de reconhecer o direito à indenização pelos danos
morais que devem ser desde logo quantificados por esta Corte em atenção ao art. 257 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça. [...]
O pedido de reparação pelos danos materiais, por outro lado, não merece provimento porquanto não saiu do plano das alegações (REsp 299.832/RJ, Rel.
Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 21-2-2013, DJe 27-2-2013) 35.

Sobre o tema, convém mencionar o seguinte Enunciado da VII Jornada de Direito


Civil:
Enunciado n. 587: “Art. 927. O dano à imagem restará configurado quando presente a utilização
indevida desse bem jurídico, independentemente da concomitante lesão a outro direito da
personalidade, sendo dispensável a prova do prejuízo do lesado ou do lucro do ofensor para a
caracterização do referido dano, por se tratar de modalidade de dano in re ipsa”.

4.7. Facilitação do acesso à justiça e à administração

É necessário que o consumidor tenha meios para ver os seus direitos sendo
assegurados, seja pelo Judiciário, seja pela Administração Pública. Hoje também se
trabalha com a prevenção e a reparação dos danos. O acesso ao Judiciário é um direito
básico do consumidor, e qualquer cláusula que venha obstá-lo será tida como abusiva.
Vale ressaltar a regra da própria lei em seu art. 5º. Avalie:
Art. 5º Para a execução da Política Nacional das Relações de Consumo, contará o poder público
com os seguintes instrumentos, entre outros:
I – manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor carente;
II – instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no âmbito do Ministério
Público;
III – criação de delegacias de polícia especializadas no atendimento de consumidores vítimas de
infrações penais de consumo;
IV – criação de Juizados Especiais de Pequenas Causas e Varas Especializadas para a solução de
litígios de consumo;
V – concessão de estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de Defesa do Consumidor.

4.8. Facilitação da defesa e a inversão do ônus da prova

Diante da facilitação da defesa do consumidor, será permitido ao juiz realizar uma


análise de critério subjetivo para se inverter o ônus da prova. Destaca a Lei de Proteção
ao Consumidor no inciso VIII de seu art. 6º:
Art. 6º [...]
VIII – a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu
favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências.
Normalmente, o ônus da prova é daquele que alega o fato, conforme previsão do
digesto processual no art. 333 36. A inversão exposta no art. 6º, VIII, do CDC é a
considerada ope iudicis e, por essa razão, poderá o magistrado inverter quando presentes
a hipossuficiência ou a verossimilhança. Importante mencionar que a lei mostra outra
modalidade de inversão presente nos arts. 12, § 3º, 14, § 3º, e 38, denominada de ope
legis. Nessa segunda modalidade, a carga probatória já é transferida ao fornecedor.
Tema controverso no STJ diz respeito se a inversão é discricionária ou vinculada diante
da verossimilhança ou da hipossuficiência. Parte da doutrina entende que, de acordo com
a regra do art. 6º, VIII, estaria o juiz livre para informar se defere ou não a inversão.
Desse modo, se configuraria um critério subjetivo. Procuro defender que, diante da
verossimilhança das alegações ou da hipossuficiência do consumidor, o magistrado
estaria vinculado à inversão.
Processual civil. Ação revisional. S.F.H. Julgado improcedente em 1º grau, por falta de prova.
Apelação do autor que se limita a afirmar que a matéria é de direito e que a documentação
juntada é bastante. Acórdão que de ofício inverte o ônus da prova e aplica a regra do art. 6º, VIII,
do Código de Defesa do Consumidor. Ausência de fundamentação suficiente para tanto. Sentença
restabelecida.
I – Conquanto se aplique aos contratos regidos pelo Sistema Financeiro da Habitação as regras do
Código de Defesa do Consumidor, a inversão do ônus da prova não pode ser determinada, como
aconteceu no acórdão regional, automaticamente, devendo atender, concretamente, às exigências do
art. 6º, VIII, da Lei n. 8.078/90. II – Caso, ademais, em que a apelação do autor interposta contra a
decisão extintiva de 1º grau sequer alegou hipossuficiência ou necessidade de prova pericial,
argumentando, apenas, que a matéria é exclusivamente de direito e que havia documentação
suficiente nos autos para o embasamento do pedido. III – Recurso especial conhecido e provido,
restabelecida a sentença monocrática (REsp 591.110/BA, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, Quarta
Turma, julgado em 4-5-2004, DJ 1º-7-2004, p. 212).
Saque. Conta bancária. Não autorizado. Ônus da prova. Inversão. Responsabilidade objetiva.
Instituição financeira.
A Turma negou provimento ao apelo especial sob o fundamento de que, na espécie, em ação que
versa sobre a realização de saques não autorizados em conta bancária, é imperiosa a inversão do
ônus da prova em favor do consumidor. Entendeu, ainda, que a responsabilidade objetiva da
instituição financeira, ora recorrente, não foi ilidida por qualquer das hipóteses previstas no § 3º do
art. 14 do CDC. A Min. Relatora observou, inicialmente, que o art. 6º, VIII, do CDC, com vistas a
garantir o pleno exercício do direito de defesa do consumidor, autoriza a inversão do ônus da prova
quando sua alegação for verossímil ou quando constatada sua hipossuficiência. Registrou, ademais,
que essa hipossuficiência deve ser analisada não apenas sob o prisma econômico e social, mas,
sobretudo, quanto ao aspecto da produção de prova técnica. Dessa forma, considerando as próprias
“regras ordinárias de experiências” mencionadas no CDC, concluiu que a chamada hipossuficiência
técnica do consumidor, in casu, dificilmente pode ser afastada. Principalmente, em razão do total
desconhecimento, por parte do cidadão médio, dos mecanismos de segurança utilizados pela
instituição financeira no controle de seus procedimentos e ainda das possíveis formas de superação
dessas barreiras a eventuais fraudes. Quanto à reparação dos danos causados ao recorrido pela
instituição financeira, asseverou que, uma vez reconhecida a possibilidade de violação do sistema
eletrônico e tratando-se de sistema próprio das instituições financeiras, a retirada de numerário da
conta bancária do cliente acarreta a responsabilização objetiva do fornecedor do serviço. REsp
1.155.770-PB, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15-12-2011 (ver Informativo n. 489).

Outra questão polêmica nos tribunais é saber qual o momento adequado para a
inversão: na ocasião do recebimento da exordial, no despacho saneador ou, então, na
sentença.
O recebimento da inicial seria uma atitude muito precipitada do magistrado, e por esse
motivo defendo que o melhor momento seria a fase saneatória. Critico a inversão na
sentença, pois tal ocorrência causa surpresa ao fornecedor, afastando o seu devido direito
de defesa. Neste sentido, o TJRJ editou Súmula:
A inversão do ônus da prova, prevista na legislação consumerista, não pode ser determinada na
sentença. Importante observar que, no procedimento da Lei n. 9.099/95, não há a fase de saneamento;
assim o entendimento das Turmas Recursais do RJ (Enunciado n. 9.1.2).
A inversão do ônus da prova nas relações de consumo é direito do consumidor (art. 6º,
caput, do CDC), não sendo necessário que o juiz advirta o fornecedor de tal inversão,
devendo este comparecer à audiência munido, desde logo, de todas as provas com que
pretenda demonstrar a exclusão de sua responsabilidade objetiva. No entanto, conforme
dispõe a Súmula 300 do TJRJ: “Os princípios facilitadores da defesa do consumidor em
juízo, notadamente o da inversão do ônus da prova, não exoneram o autor do ônus de
fazer, a seu encargo, prova mínima do fato constitutivo do alegado direito.”
Sobre a questão discutida, entende o STJ:
Inversão. Ônus. Prova. CDC. Trata-se de REsp em que a controvérsia consiste em definir qual o
momento processual adequado para que o juiz, na responsabilidade por vício do produto (art. 18 do
CDC), determine a inversão do ônus da prova prevista no art. 6º, VIII, do mesmo codex. No
julgamento do especial, entre outras considerações, observou o Min. Relator que a distribuição do
ônus da prova apresenta extrema relevância de ordem prática, norteando, como uma bússola, o
comportamento processual das partes. Naturalmente, participará da instrução probatória com maior
vigor, intensidade e interesse a parte sobre a qual recai o encargo probatório de determinado fato
controvertido no processo. Dessarte, consignou que, influindo a distribuição do encargo probatório
decisivamente na conduta processual das partes, devem elas possuir a exata ciência do ônus
atribuído a cada uma delas para que possam produzir oportunamente as provas que entenderem
necessárias. Ao contrário, permitida a distribuição ou a inversão do ônus probatório na sentença e
inexistindo, com isso, a necessária certeza processual, haverá o risco de o julgamento ser proferido
sob uma deficiente e desinteressada instrução probatória, na qual ambas as partes tenham atuado com
base na confiança de que sobre elas não recairia o encargo da prova de determinado fato. Assim,
entendeu que a inversão ope judicis do ônus da prova deve ocorrer preferencialmente no despacho
saneador, ocasião em que o juiz decidirá as questões processuais pendentes e determinará as provas
a serem produzidas, designando audiência de instrução e julgamento (art. 331, §§ 2º e 3º, do CPC) 37.
Desse modo, confere-se maior certeza às partes referente aos seus encargos processuais, evitando a
insegurança. Com esse entendimento, a Seção, ao prosseguir o julgamento, por maioria, negou
provimento ao recurso, mantendo o acórdão que desconstituiu a sentença, a qual determinara, nela
própria, a inversão do ônus da prova. Precedentes citados: REsp 720.930-RS, DJe 9-11-2009, e
REsp 881.651-BA, DJ 21-5-2007. REsp 802.832-MG, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino,
julgado em 13-4-2011 (ver Informativo n. 469).

Processual civil. Agravo regimental no recurso especial. Inversão do ônus da prova em apelação.
Concessão de oportunidade para apresentação de provas. Necessidade. Cerceamento de defesa. 1.
Determinada a inversão do onus probandi após o momento processual de requerimento das provas,
deve o magistrado possibilitar que as partes voltem a requerê-las, agora conhecendo o seu ônus, para
que possam melhor se conduzir no processo, sob pena de cerceamento de defesa.
2. Agravo regimental provido para se conhecer do recurso especial e dar-lhe provimento (AgRg no
REsp 1520987/GO, Rel. Min. João Otávio de Noronha, Terceira Turma, julgado em 3-12-2015, DJe
14-12-2015).

Inversão do ônus da prova. Art. 6º, VIII, do Código de Defesa do Consumidor. Momento
processual. 1. É possível ao Magistrado deferir a inversão do ônus da prova no momento da dilação
probatória, não sendo necessário aguardar o oferecimento da prova e sua valoração, uma vez
presentes os requisitos do art. 6º, VIII, do Código de Defesa do Consumidor, que depende de
circunstâncias concretas apuradas pelo Juiz no contexto da facilitação da defesa dos direitos do
consumidor. 2. Recurso especial conhecido e provido (REsp 598.620/MG, Rel. Min. Carlos Alberto
Menezes Direito, Terceira Turma, julgado em 7-12-2004, DJ 18-4-2005, p. 314).

Processual civil. Recurso especial. Divergência. Similitude fática. Inexistência.


I – O conhecimento de recurso especial pela alínea “c” do permissivo constitucional depende da
existência de similitude fática a configurar a alegada divergência de soluções jurídicas.
II – Não viola o art. 1.433 do Código Civil decisão que entende aperfeiçoado, independentemente de
apresentação de proposta, contrato de seguro cuja apólice foi diversas vezes aditada e mesmo
discutida judicialmente.
III – A inversão do ônus da prova prevista no inciso VIII do art. 6º da Lei n. 8.078/90 não é
obrigatória, mas regra de julgamento, ope judicis, desde que o consumidor seja hipossuficiente ou
seja verossímil sua alegação.
Recurso especial não conhecido, com ressalvas quanto à terminologia (REsp 241.831/RJ, Rel. Min.
Castro Filho, Terceira Turma, julgado em 20-8-2002, DJ 3-2-2003, p. 314).

DICA!
A fundamentação da decisão que inverte o ônus é obrigatória, consoante regra da Constituição Federal, art. 93, IX. Por se tratar de decisão interlocutória,
o recurso cabível para o ataque será o agravo.


As despesas pelas custas processuais da inversão, se esta for ope legis, correrão por
conta do fornecedor; há dúvida se esta for ope judicis. Segundo entendimentos do STJ, a
inversão do ônus da prova não implica inversão do ônus financeiro, conforme o seguinte
julgado:
Processual civil. Recurso especial. Sistema financeiro de habitação. FCVS. Violação dos arts. 458
e 535 do CPC. Não ocorrência. Inaplicabilidade das normas de proteção ao consumidor
contrárias à legislação específica. Controvérsia decidida pela primeira seção, no julgamento do
REsp 489.701/SP. Adiantamento das despesas decorrentes da perícia. Obrigação da parte autora.
1. Não viola os arts. 458 e 535 do CPC 38, tampouco nega a prestação jurisdicional, o acórdão que,
mesmo sem ter examinado individualmente cada um dos argumentos trazidos pelo vencido, adota,
entretanto, fundamentação suficiente para decidir de modo integral a controvérsia.
2. A Primeira Seção desta Corte, no julgamento do REsp 489.701/SP, de relatoria da Ministra Eliana
Calmon (DJ 16-4-2007), decidiu que: (a) “o CDC é aplicável aos contratos do Sistema Financeiro
da Habitação, incidindo sobre contratos de mútuo”; (b) “entretanto, nos contratos de financiamento
do SFH vinculados ao Fundo de Compensação de Variação Salarial – FCVS, pela presença da
garantia do Governo em relação ao saldo devedor, aplica-se a legislação própria e protetiva do
mutuário hipossuficiente e do próprio Sistema, afastando-se o CDC, se colidentes as regras
jurídicas”.
3. A inversão do ônus da prova não implica a transferência, ao demandado, da obrigação pelo
pagamento ou adiantamento das despesas do processo.
4. “A questão do ônus da prova diz respeito ao julgamento da causa quando os fatos alegados não
restaram provados. Todavia, independentemente de quem tenha o ônus de provar este ou aquele fato,
cabe a cada parte prover as despesas dos atos que realiza ou requer no processo, antecipando-lhes o
pagamento (CPC, art. 19) 39, sendo que compete ao autor adiantar as despesas relativas a atos cuja
realização o juiz determinar de ofício ou a requerimento do Ministério Público (CPC, art. 19, §
2º) 40” (REsp 538.807/RS, 1ª Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ 7-11-2006).
5. Recurso especial parcialmente provido (REsp 797.079/SP, Rel. Min. Denise Arruda, Primeira
Turma, julgado em 18-3-2008, DJe 24-4-2008).

Agravo regimental no agravo em recurso especial. Inversão do ônus da prova. Responsabilidade


pelo custeio da prova pericial requerida pelo consumidor. Agravo regimental não provido. 1.
Quando verificada a relação de consumo, prevalece, no âmbito da Segunda Seção desta Corte
Superior de Justiça que os efeitos da inversão do ônus da prova não possuem a força de obrigar a
parte contrária a arcar com as custas da prova requerida pelo consumidor. Precedentes. 2. Na
espécie, a prova pericial determinada pelo juízo foi requerida pelo consumidor, e, portanto, a ele é
imposto o ônus de arcar com as custas, conforme entendimento já pacificado nesta Corte Superior. 3.
Agravo regimental a que se nega provimento (AgRg no AREsp 246.375/PR, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, Quarta Turma, julgado em 4-12-2012, DJe 14-12-2012).

4.9. A adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral

O Código de Defesa do Consumidor será aplicado quando se tratar de serviços


públicos executados mediante o regime de concessão. Neste sentido, o art. 22 da norma
consumerista institui:
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob
qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes,
seguros e, quanto aos essenciais, contínuos.
Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das obrigações referidas neste
artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma
prevista neste código.
Vale ressaltar que os serviços custeados por tributos serão afastados dos preceitos
consumeristas

5. A responsabilidade civil no CDC


A Lei Consumerista não faz qualquer distinção entre a responsabilidade contratual e a
extracontratual e, além disso, traz duas modalidades de responsabilidades: por vício e por
fato.

5.1. A ocorrência do vício do produto e do serviço

A presente matéria está capitaneada nos arts. 18, 19, 20, 23 e 26 da Lei n. 8.078/90, que
diz:
Vício é a impropriedade ou a inadequação do produto ou serviço que fere a expectativa do
consumidor. Possui o vício uma natureza intrínseca e pode ele ser de fácil constatação, aparente e
oculto.
O vício do produto pela falta de qualidade se encontra presente na regra do art. 18,
quando for pela quantidade, consulte-se o art. 19.
Sendo o vício pela falta de qualidade salienta o art. 18:
Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem
solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao
consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da
disparidade, com as indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem
publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a
substituição das partes viciadas.
§ 1º Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor exigir,
alternativamente e à sua escolha:
I – a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso;
II – a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais
perdas e danos;
III – o abatimento proporcional do preço.
§ 2º Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo previsto no parágrafo anterior,
não podendo ser inferior a sete nem superior a cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão, a
cláusula de prazo deverá ser convencionada em separado, por meio de manifestação expressa do
consumidor.
§ 3º O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1º deste artigo sempre que, em
razão da extensão do vício, a substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou
características do produto, diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.
§ 4º Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1º deste artigo, e não sendo
possível a substituição do bem, poderá haver substituição por outro de espécie, marca ou modelo
diversos, mediante complementação ou restituição de eventual diferença de preço, sem prejuízo do
disposto nos incisos II e III do § 1º deste artigo.
§ 5º No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante o consumidor o
fornecedor imediato, exceto quando identificado claramente seu produtor.
§ 6º São impróprios ao uso e consumo:
I – os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II – os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados, falsificados, corrompidos,
fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo com as normas
regulamentares de fabricação, distribuição ou apresentação;
III – os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao fim a que se destinam.
Deve-se ressaltar que todas as vezes que o CDC mencionar o vocábulo “fornecedores”
a responsabilidade civil será, em regra, solidária. Na hipótese do § 5º do art. 18
transparece o rompimento desta, pois não haverá responsabilidade de todos da cadeia de
consumo quando estivermos diante de um produto in natura, ou seja, aquele que não
sofre processo de industrialização.
Em razão do risco da atividade desenvolvida pelos fornecedores, esta será objetiva, isto
é, independentemente de culpa.
O consumidor, como regra geral, precisa observar o prazo máximo de 30 dias,
conforme narrado no § 1º do art. 18, para que o fornecedor venha a sanar o vício no
produto. Contudo, se ele não for sanado, o consumidor poderá tomar as medidas cabíveis
na lei, como substituição ou restituição mais perdas e danos ou abatimento. Todavia, o
artigo, no seu § 3º, enfatiza que tal prazo não será observado em certas hipóteses, o que
significa que o uso dos pedidos poderá ser realizado de forma imediata.

Atenção!
O prazo supramencionado poderá ser modificado? A resposta será encontrada com a breve leitura do § 2º do art. 18 supracitado.
Tratando-se de vício do produto com relação à quantidade, a leitura do art. 19 deve ser
realizada. Note:
Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de quantidade do produto sempre
que, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às
indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou de mensagem publicitária, podendo
o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I – o abatimento proporcional do preço;
II – complementação do peso ou medida;
III – a substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo, sem os aludidos
vícios;
IV – a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais
perdas e danos.
§ 1º Aplica-se a este art. o disposto no § 4º do artigo anterior.
§ 2º O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem ou a medição e o instrumento
utilizado não estiver aferido segundo os padrões oficiais.

Nessas palavras, prevalecem as mesmas observações iniciais, ou seja, a regra é a da


solidariedade e a responsabilidade civil é objetiva. Porém haverá hipótese de rompimento
dessa solidariedade no caso proposto no § 2º.
Outro ponto importante sobre o vício de quantidade é que não será necessário esperar
o prazo para que ele seja sanado, como ocorre no art. 18. Uma vez que existe o vício, o
consumidor poderá realizar os pedidos apresentados de forma imediata.
Sendo o vício do serviço, o leitor deverá ter atenção ao art. 20. Veja-se:
Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os tornem impróprios ao
consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade com as
indicações constantes da oferta ou mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir,
alternativamente e à sua escolha:
I – a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível;
II – a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais
perdas e danos;
III – o abatimento proporcional do preço.
§ 1º A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros devidamente capacitados, por conta e
risco do fornecedor.
§ 2º São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os fins que razoavelmente deles
se esperam, bem como aqueles que não atendam as normas regulamentares de prestabilidade.
A solidariedade de todos que fazem parte da cadeia de consumo também é muito
importante, embora o artigo não tenha mencionado expressamente como o fez nos
anteriores. A responsabilidade também independe de culpa, isto é, ela é objetiva.
DICA!
Lembre-se de que os vícios do produto ou do serviço são intrínsecos, ou seja, inerentes.
A ignorância do fornecedor sobre os vícios de qualidade por inadequação dos produtos e serviços não o exime de responsabilidade.

TEMA DE PROVA!
O vício do produto ou do serviço pode gerar dupla indenização? Além da reparação do vício em si, ainda cabe indenização por perdas e danos?
Sérgio Cavalieri Filho ensina-nos uma importante distinção entre dano circa rem e extra rem. O dano circa rem é aquele que é inerente ao vício do
produto ou do serviço, que está diretamente ligado a ele, não podendo desgarrar-se. Já o dano extra rem é aquele que indica vínculo indireto, distante
remoto, na realidade, decorre de causa superveniente e que por si só produz o resultado. A rigor não é o vício do produto ou do serviço que causa o
dano extra rem – dano material ou moral –, mas a conduta do fornecedor, posterior ao vício, por não dar ao caso a atenção e solução devidas.

Como supramencionado, o vício de qualidade ocorre quando o produto se torna


impróprio ou inadequado para o consumo. Nessa hipótese, tem o fornecedor o prazo de
30 dias para sanar o vício. Não sanado o vício, tem o consumidor o poder de escolher a
solução que melhor lhe satisfizer, conforme o disposto no § 1º do art. 18. Assim, evita-se
que um pequeno vício, facilmente sanável, enseje a troca imediata do bem, quando ainda
possível sua sanação. Pelo decurso do prazo de 30 dias, por ter o consumidor ficado
privado da utilização do produto, cabe indenização em face do fornecedor, que independe
do resultado final da sanação do vício. Assim, cabe pedir indenização pela perda do
tempo livre 41.
No julgado a seguir, entendo que o STJ aplicou a teoria supra:
Dano moral. Demora. Liberação. Hipoteca.
Após o pagamento das parcelas do contrato de compra e venda de bem imóvel, os ora recorridos
tiveram que se deslocar, por diversas vezes, ora à construtora com quem contrataram, ora ao agente
financeiro e, por fim, até o registro de imóveis, para verem regularizada a situação do imóvel, com a
liberação do gravame hipotecário, obrigação, aliás, que não lhes cabia. Competia ao ora recorrente
proceder ao levantamento da hipoteca, sem que houvesse qualquer necessidade de diligência por
parte dos recorridos, que cumpriram suas obrigações contratuais. Assim, todas essas circunstâncias
levam a concluir pela indenização por dano moral em razão da demora injustificada na liberação do
ônus hipotecário. Logo, não se cuida de mero descumprimento contratual, mas de ato ilícito que deve
ser reparado. Diante do exposto, a Turma negou provimento ao recurso (REsp 966.416/RS, Rel. Min.
Massami Uyeda, julgado em 8-6-2010, ver Informativo n. 438).

5.2. A decadência. Análise do art. 26 do CDC

O prazo para reclamar ao fornecedor sobre os vícios do produto e do serviço é


decadencial de 30 dias para os bens não duráveis e de 90 dias para os bens duráveis. A
contagem desse prazo inicia-se com a entrega efetiva do produto ou do término da
execução dos serviços.
O prazo decadencial será suspenso com a reclamação comprovadamente formulada
pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa
correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca, bem como pela
instauração de inquérito civil, ainda no seu encerramento.
Além disso, tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial começa no momento em
que ficar evidenciado o defeito. Há ainda um critério utilizado baseado na Teoria da vida
útil, em que se avalia a duração do bem ou serviço, para se estender o prazo inicial do
consumidor de reclamar.
Mencionamos a Súmula 477 do STJ sobre a inaplicabilidade do prazo de decadência
disposto no art. 26 do CDC:
A decadência do art. 26 do CDC não é aplicável à prestação de contas para obter esclarecimentos
sobre cobrança de taxas, tarifas e encargos bancários.

DICA!
Conforme abordado, os prazos são decadenciais e também são utilizados para os vícios de fácil constatação, aparente e oculto, o que os diferenciam é o
dies a quo.
5.3. A ocorrência do fato do produto e do serviço

É o acidente consumo ou defeito causado pelo produto ou serviço. Este é tão grave que
gera danos ao consumidor. Fica evidente a diferença para o vício que é um defeito menos
grave e que recai sobre o produto ou o serviço (intrínseco).
O fato do produto está capitaneado nos arts. 12, 13 e 27 da Lei Consumerista. Observe:
Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem,
independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação,
apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou
inadequadas sobre sua utilização e riscos.
§ 1º O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera,
levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I – sua apresentação;
II – o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III – a época em que foi colocado em circulação.
§ 2º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido
colocado no mercado.
§ 3º O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando
provar:
I – que não colocou o produto no mercado;
II – que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III – a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
Art. 13. O comerciante é igualmente responsável, nos termos do artigo anterior, quando:
I – o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem ser identificados;
II – o produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante, produtor, construtor ou
importador;
III – não conservar adequadamente os produtos perecíveis.
Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá exercer o direito de
regresso contra os demais responsáveis, segundo sua participação na causação do evento danoso.
[...]
Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto
ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do
conhecimento do dano e de sua autoria.
A escolha da responsabilidade civil pelo legislador foi clara na leitura do art. 12, isto é,
ela é objetiva (independentemente da existência de culpa). O fato do produto exibe
natureza extrínseca, por causar danos morais, materiais, estéticos e, inclusive, a perda de
uma chance ao consumidor. O defeito do produto pode ser causado por um erro de
concepção ou de comercialização. Exemplo: há pouco tempo um veículo automotor não
mostrava orientação de como manusear determinada peça, e esta estava decepando o
dedo do consumidor. Outro episódio bastante divulgado foi o de uma geleia bem
conhecida, em que uma senhora deu algumas colheradas a seus filhos e, logo depois, eles
morreram. Foi constatada na perícia que havia raticida no produto.
Em conformidade com a matéria, citamos o seguinte julgado:
Dano moral. Preservativo em extrato de tomate.
A Turma manteve a indenização de R$ 10.000,00 por danos morais para a consumidora que
encontrou um preservativo masculino no interior de uma lata de extrato de tomate, visto que o
fabricante tem responsabilidade objetiva pelos produtos que disponibiliza no mercado, ainda que se
trate de um sistema de fabricação totalmente automatizado, no qual, em princípio, não ocorre
intervenção humana. O fato de a consumidora ter dado entrevista aos meios de comunicação não fere
seu direito à indenização; ao contrário, divulgar tal fato, demonstrando a justiça feita, faz parte do
processo de reparação do mal causado, exercendo uma função educadora. Precedente: REsp
1.239.060/MG, DJe 18-5-2011 (REsp 1.317.611/RS, Min. Rel. Nancy Andrighi, julgado em 12-6-
2012, ver Informativo n. 499).

Defeito de fabricação. Relação de consumo. Ônus da prova.


No caso, houve um acidente de trânsito causado pela quebra do banco do motorista, que reclinou,
determinando a perda do controle do automóvel e a colisão com uma árvore. A fabricante alegou
cerceamento de defesa, pois não foi possível uma perícia direta no automóvel para verificar o
defeito de fabricação, em face da perda total do veículo e venda do casco pela seguradora. Para a
Turma, o fato narrado amolda-se à regra do art. 12 do CDC, que contempla a responsabilidade pelo
fato do produto. Assim, considerou-se correta a inversão do ônus da prova, atribuído pelo próprio
legislador ao fabricante. Para afastar sua responsabilidade, a montadora deveria ter tentado, por
outros meios, demonstrar a inexistência do defeito ou a culpa exclusiva do consumidor, já que outras
provas confirmaram o defeito do banco do veículo e sua relação de causalidade com o evento
danoso. Além disso, houve divulgação de recall pela empresa meses após o acidente, chamado que
englobou, inclusive, o automóvel sinistrado, para a verificação de possível defeito na peça dos
bancos dianteiros. Diante de todas as peculiaridades, o colegiado não reconheceu cerceamento de
defesa pela impossibilidade de perícia direta no veículo sinistrado. Precedente citado: REsp
1.036.485-SC, DJe 5-3-2009 (REsp 1.168.775/RS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado
em 10-4-2012, ver Informativo n. 495).

Direito do consumidor. Dano moral decorrente da presença de corpo estranho em alimento.


A aquisição de produto de gênero alimentício contendo em seu interior corpo estranho, expondo o
consumidor a risco concreto de lesão à sua saúde e segurança, ainda que não ocorra a ingestão
de seu conteúdo, dá direito à compensação por dano moral. A Lei Consumerista protege o
consumidor contra produtos que coloquem em risco sua segurança e, por conseguinte, sua saúde,
integridade física, psíquica etc. Segundo o art. 8º do CDC, “os produtos e serviços colocados no
mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores”. Tem-se, assim,
a existência de um dever legal, imposto ao fornecedor, de evitar que a saúde ou segurança do
consumidor sejam colocadas sob risco. Vale dizer, o CDC tutela o dano ainda em sua potencialidade,
buscando prevenir sua ocorrência efetiva (o art. 8º diz “não acarretarão riscos”, não diz
necessariamente “danos”). Desse dever imposto pela lei, decorre a responsabilidade do fornecedor
de “reparar o dano causado ao consumidor por defeitos decorrentes de [...] fabricação [...] de seus
produtos” (art. 12 do CDC). Ainda segundo o art. 12, § 1º, II, do CDC, “o produto é defeituoso
quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera [...], levando-se em consideração
[...] o uso e os riscos” razoavelmente esperados. Em outras palavras, há defeito – e, portanto, fato do
produto – quando oferecido risco dele não esperado, segundo o senso comum e sua própria
finalidade. Assim, na hipótese em análise, caracterizado está o defeito do produto (art. 12 do CDC),
o qual expõe o consumidor a risco concreto de dano à sua saúde e segurança, em clara infringência
ao dever legal dirigido ao fornecedor, previsto no art. 8º do CDC. Diante disso, o dano indenizável
decorre do risco a que fora exposto o consumidor. Ainda que, na espécie, a potencialidade lesiva do
dano não se equipare à hipótese de ingestão do produto contaminado (diferença que necessariamente
repercutirá no valor da indenização), é certo que, mesmo reduzida, também se faz presente na
hipótese de não ter havido ingestão do produto contaminado. Ademais, a priorização do ser humano
pelo ordenamento jurídico nacional exige que todo o Direito deva convergir para sua máxima tutela e
proteção. Desse modo, exige-se o pronto repúdio a quaisquer violações dirigidas à dignidade da
pessoa, bem como a responsabilidade civil quando já perpetrados os danos morais ou
extrapatrimoniais. Nessa linha de raciocínio, tem-se que a proteção da segurança e da saúde do
consumidor tem, inegavelmente, cunho constitucional e de direito fundamental, na medida em que
esses valores decorrem da especial proteção conferida à dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da
CF). Cabe ressaltar que o dano moral não mais se restringe à dor, à tristeza e ao sofrimento,
estendendo sua tutela a todos os bens personalíssimos. Em outras palavras, não é a dor, ainda que se
tome esse termo no sentido mais amplo, mas sua origem advinda de um dano injusto que comprova a
existência de um prejuízo moral ou imaterial indenizável. Logo, uma vez verificada a ocorrência de
defeito no produto, a afastar a incidência exclusiva do art. 18 do CDC à espécie (o qual permite a
reparação do prejuízo material experimentado), é dever do fornecedor de reparar também o dano
extrapatrimonial causado ao consumidor, fruto da exposição de sua saúde e segurança a risco
concreto e da ofensa ao direito fundamental à alimentação adequada, corolário do princípio da
dignidade da pessoa humana. REsp 1.424.304-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 11-3-2014
(ver Informativo n. 537).

Em sentido diverso:
Direito do consumidor. Inocorrência de dano moral pela simples presença de corpo estranho em
alimento.
A simples aquisição de refrigerante contendo inseto no interior da embalagem, sem que haja a
ingestão do produto, não é circunstância apta, por si só, a provocar dano moral indenizável. Com
efeito, a fim de evitar o enriquecimento sem causa, prevalece no STJ o entendimento de que “a
simples aquisição do produto danificado, uma garrafa de refrigerante contendo um objeto estranho no
seu interior, sem que se tenha ingerido o seu conteúdo, não revela o sofrimento [...] capaz de ensejar
indenização por danos morais” (AgRg no Ag 276.671-SP, Terceira Turma, DJ 8-5-2000), em que
pese a existência de precedente em sentido contrário (REsp 1.424.304-SP, Terceira Turma, DJe 19-
5-2014). Ademais, não se pode esquecer do aspecto tecnológico das embalagens alimentícias. No
caso específico dos refrigerantes, verifica-se que os recipientes que recebem a bebida são
padronizados e guardam, na essência, os mesmos atributos e qualidades no mundo inteiro. São
invólucros que possuem bastante resistência mecânica, suportam razoável pressão e carga,
mostrando-se adequados para o armazenamento e transporte da bebida em condições normais, essas
consideradas até muito além das ideais. Desse modo, inexiste um sistemático defeito de segurança
capaz de colocar em risco a incolumidade da sociedade de con​sumo, a culminar no desrespeito à
dignidade da pessoa humana, no desprezo à saúde pública e no descaso com a segurança alimentar.
Precedentes citados: AgRg no AREsp 445.386-SP, Quarta Turma, DJe 26-8-2014; AgRg no REsp
1.305.512-SP, Quarta Turma, DJe 28-6-2013; e AgRg no AREsp 170.396-RJ, Terceira Turma, DJe
5-9-2013. REsp 1.395.647-SC, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 18-11-2014, DJe
19-12-2014.
Deve ser dito que, consoante proposta do texto legislativo narrado, o comerciante fora
excluído da lista do art. 12. Indaga-se: Por que o comerciante foi excluído dessa via
principal? Justamente por ele não possuir o controle sobre a concepção do produto.
Dessa maneira, o CDC lhe atribui uma responsabilidade subsidiária. Seria assim em toda
e qualquer hipótese? Não, somente no caso do fato do produto. Contudo, o comerciante
só responde subsidiariamente, nas hipóteses previstas no art. 13, uma vez que não tem ele
nenhum controle sobre a segurança e a qualidade dos produtos 42.
Tema de grande conotação, abordado no art. 12, § 3º, são as excludentes de
responsabilidade. Percebe-se que não foram citados o caso fortuito e a força maior. Por
essa razão, apesar de não advogar no sentido de ser esse rol taxativo, para as provas
objetivas, recomenda-se seguir o rol do dispositivo sob comento.
Sobre o assunto, interessa citar o Enunciado n. 562 da VI Jornada de Direito Civil,
relativa à inaplicabilidade do art. 931 do Código Civil e às excludentes do art. 12 do CDC:
Aos casos do art. 931 do Código Civil aplicam-se as excludentes da responsabilidade objetiva.
Justificativa: O art. 12 do CDC disciplinou integralmente a responsabilidade civil pelo fato do
produto, exigindo a existência de um defeito no produto posto em circulação para responsabilização
dos fornecedores. Tal dispositivo prevê as circunstâncias que devem ser levadas em conta pelo
julgador para identificar o produto defeituoso e as hipóteses excludentes de responsabilidade civil.
De acordo com Sergio Cavalieri, o fundamento da responsabilidade civil do fabricante por danos
causados pelos produtos postos em circulação é a existência de eventuais defeitos nesses produtos.
O art. 931 do CC dispõe genericamente que os empresários respondem independentemente de culpa
“pelos danos causados pelos produtos postos em circulação”, mas não se refere ao defeito, tratado
no CDC. Isso ocorre porque o art. 931 foi proposto antes da existência do CDC (Projeto de Lei n.
634, de 1975), inicialmente para proteger os consumidores de produtos farmacêuticos e, ainda antes
que entrasse em vigor o CDC, sofreu alteração em sua redação para proteger os consumidores de
produtos de modo geral. Como reconhece explicitamente Rui Stoco em sua obra, “o aparente conflito
tem como origem o fato de que o art. 931 do atual Código Civil foi redigido e incluído no projeto de
lei muito antes do advento do Código de Defesa do Consumidor. Impunha-se sua retirada, posto que
desnecessário”. Além disso, o art. 931 ressalva expressamente os casos já previstos na lei especial,
que, neste caso, é o Código de Defesa do Consumidor. Portanto, o art. 931 do Código Civil não se
aplica à responsabilidade civil pelo fato do produto nas relações de consumo, uma vez que essa
hipótese foi integralmente disciplinada pelo art. 12 do Código de Defesa do Consumidor, lei especial
e de aplicação cogente, que prevê os requisitos para responsabilização objetiva do fornecedor.

Qual seria o prazo para a propositura da ação indenizatória no caso do fato do


produto? São cinco anos prescricionais do conhecimento do dano e de sua autoria.
O fato do serviço possui previsão nos arts. 14 e 27. Examine:
Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela
reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços,
bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
§ 1º O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar,
levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I – o modo de seu fornecimento;
II – o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III – a época em que foi fornecido.
§ 2º O serviço não é considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas.
§ 3º O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar:
I – que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II – a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
§ 4º A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de
culpa.
[...]
Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto
ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do
conhecimento do dano e de sua autoria.

Assim como previsto no art. 12, no caso de fato do serviço a responsabilidade será
objetiva por uma escolha legal; no entanto, existe uma exceção a esse respeito expressa
pelo CDC no art. 14, § 4º. Dessa forma, a responsabilidade do profissional liberal será
apurada mediante a verificação de culpa.
Outra questão importante é a da responsabilidade dos participantes na cadeia de
consumo. É possível fazer as mesmas observações proferidas no art. 12? Não. Nesse
caso, há diferença quanto à responsabilidade civil, pois no fato do produto o CDC
especificou quem são os responsáveis, e, ao falar no fato do serviço, apenas citou o
vocábulo fornecedor. Conclui-se que, no fato do serviço, todos os participantes da cadeia
de consumo respondem solidariamente, conforme podemos observar no julgado do STJ:
Consumidor. Recurso especial. Ação de compensação por danos morais. Embargos de declaração.
Omissão, contradição ou obscuridade. Não ocorrência. Recusa indevida de pagamento com cartão
de crédito. Responsabilidade solidária. “Bandeira”/marca do cartão de cré​dito. Legitimidade
passiva. Reexame de fatos e provas. Incidência da Súmula 7 do STJ.
– Ausentes os vícios do art. 535 do Código de Processo Civil 43, rejeitam-se os embargos de
declaração.
– O art. 14 do CDC estabelece regra de responsabilidade solidária entre os fornecedores de uma
mesma cadeia de serviços, razão pela qual as “bandeiras”/marcas de cartão de crédito respondem
solidariamente com os bancos e as administradoras de cartão de crédito pelos danos decorrentes da
má prestação de serviços.
– É inadmissível o reexame de fatos e provas em recurso especial.
– A alteração do valor fixado a título de compensação por danos morais somente é possível, em
recurso especial, nas hipóteses em que a quantia estipulada pelo Tribunal de origem revela-se
irrisória ou exagerada.
Recurso especial não provido (REsp 1.029.454/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma,
julgado em 1º-10-2009, DJe 19-10-2009, ver Informativo n. 409).

Um exemplo clássico de fato do serviço está contido na Súmula 370 do STJ. Atente-se:
Caracteriza dano moral a apresentação antecipada de cheque pré-datado.

Citamos julgado sobre a matéria e a aplicação da referida súmula:


Agravo regimental. Agravo em recurso especial. Responsabilidade civil. Cheque pré-datado.
Apresentação antecipada. Danos morais. Súmula 370/STJ. Quantum indenizatório. Razoabilidade.
Reexame do conjunto fático-probatório. Impossibilidade. Súmula 7/STJ. Decisão agravada
mantida. Improvimento.
1. Ultrapassar os fundamentos do Acórdão demandaria, inevitavelmente, o reexame de provas,
incidindo, à espécie, o óbice da Súmula 7 desta Corte.
2. O posicionamento adotado pelo colegiado de origem se coaduna com a jurisprudência desta Corte,
que é pacífica no sentido de que a apresentação antecipada de cheque pré-datado gera o dever de
indenizar por dano moral, conforme o enunciado 370 da Súmula desta Corte.
3. É possível a intervenção desta Corte para reduzir ou aumentar o valor indenizatório por dano
moral apenas nos casos em que o quantum arbitrado pelo Acórdão recorrido se mostrar irrisório ou
exorbitante, situação que não se faz presente no caso em tela, em que a indenização foi fixada em R$
5.000,00 (cinco mil reais).
4. O Agravo não trouxe nenhum argumento novo capaz de modificar a conclusão alvitrada, a qual se
mantém por seus próprios fundamentos.
5. Agravo regimental improvido (AgRg nos EDcl no AREsp 17.440/SC, Rel. Min. Sidnei Beneti,
Terceira Turma, julgado em 15-9-2011, DJe 26-10-2011).
Segundo o mesmo entendimento, citamos ainda a Súmula 388 do STJ que dispõe que:
A simples devolução indevida de cheque caracteriza dano moral.

Corroborando o entendimento sumulado, segue o julgado:


Direito do consumidor. Danos morais. Devolução de cheque por motivo diverso.
É cabível a indenização por danos morais pela instituição financeira quando cheque apresentado
fora do prazo legal e já prescrito é devolvido sob o argumento de insuficiência de fundos.
Considerando que a Lei n. 7.357/85 diz que “a existência de fundos disponíveis é verificada no
momento da apresentação do cheque para pagamento” (art. 4º, § 1º) e, paralelamente, afirma que o
título deve ser apresentado para pagamento em determinado prazo (art. 33), impõe-se ao sacador
(emitente), de forma implícita, a obrigação de manter provisão de fundos somente durante o prazo de
apresentação do cheque. Com isso, evita-se que o sacador fique obrigado em caráter perpétuo a
manter dinheiro em conta para o seu pagamento. Por outro lado, a instituição financeira não está
impedida de proceder à compensação do cheque após o prazo de apresentação se houver saldo em
conta. Contudo, não poderá devolvê-lo por insuficiência de fundos se a apresentação tiver ocorrido
após o prazo que a lei assinalou para a prática desse ato. Ademais, de acordo com o Manual
Operacional da Compe (Centralizadora da Compensação de Cheques), o cheque deve ser devolvido
pelo “motivo 11” quando, em primeira apresentação, não tiver fundos e, pelo “motivo 12”, quando
não tiver fundos em segunda apresentação. Dito isso, é preciso acrescentar que só será possível
afirmar que o cheque foi devolvido por falta de fundos quando ele podia ser validamente
apresentado. No mesmo passo, vale destacar que o referido Manual estabelece que o cheque sem
fundos [motivos 11 e 12] somente pode ser devolvido pelo motivo correspondente. Diante disso, se a
instituição financeira fundamentou a devolução de cheque em insuficiência de fundos, mas o motivo
era outro, resta configurada uma clara hipótese de defeito na prestação do serviço bancário, visto
que o banco recorrido não atendeu a regramento administrativo baixado de forma cogente pelo órgão
regulador; configura-se, portanto, sua responsabilidade objetiva pelos danos deflagrados ao
consumidor, nos termos do art. 14 da Lei n. 8.078/90. Tal conclusão é reforçada quando, além de o
cheque ter sido apresentado fora do prazo, ainda se consumou a prescrição (REsp 1.297.353/SP, Rel.
Min. Sidnei Beneti, julgado em 16-10-2012, ver Informativo n. 507).
Citamos ainda o seguinte julgado sobre fato do serviço:
Direito civil e do consumidor. Responsabilidade civil de transportadora de passageiros e culpa
exclusiva do consumidor.
A sociedade empresária de transporte coletivo interestadual não deve ser responsabilizada pela
partida do veículo, após parada obrigatória, sem a presença do viajante que, por sua culpa
exclusiva, não compareceu para reembarque mesmo após a chamada dos passageiros, sobretudo
quando houve o embarque tempestivo dos demais. De fato, a responsabilidade decorrente do
contrato de transporte é objetiva, nos termos do art. 37, § 6º, da CF e dos arts. 14 e 22 do CDC,
sendo atribuído ao transportador o dever reparatório quando demonstrado o nexo causal entre o
defeito do serviço e o acidente de consumo (fato do serviço), do qual somente é passível de isenção
quando houver culpa exclusiva do consumidor ou uma das causas excludentes de responsabilidade
genéricas – força maior ou caso fortuito (arts. 734 e 735 do CC). Deflui do contrato de transporte
uma obrigação de resultado que incumbe ao transportador levar o transportado incólume ao seu
destino (art. 730 do CC), sendo certo que a cláusula de incolumidade se refere à garantia de que a
concessionária de transporte irá empreender todos os esforços possíveis no sentido de isentar o
consumidor de perigo e de dano à sua integridade física, mantendo-o em segurança durante todo o
trajeto, até a chegada ao destino final. Ademais, ao lado do dever principal de transladar os
passageiros e suas bagagens até o local de destino com cuidado, exatidão e presteza, há o
transportador que observar os deveres secundários de cumprir o itinerário ajustado e o horário
marcado, sob pena de responsabilização pelo atraso ou pela mudança de trajeto. Assim, a mera
partida do coletivo sem a presença do viajante não pode ser equiparada automaticamente à falha na
prestação do serviço, decorrente da quebra da cláusula de incolumidade, devendo ser analisadas
pelas instâncias ordinárias as circunstâncias fáticas que envolveram o evento, tais como, quanto
tempo o coletivo permaneceu na parada; se ele partiu antes do tempo previsto ou não; qual o tempo
de atraso do passageiro; e se houve por parte do motorista a chamada dos viajantes para reembarque
de forma inequívoca. O dever de o consumidor cooperar para a normal execução do contrato de
transporte é essencial, impondo-se-lhe, entre outras responsabilidades, que também esteja atento às
diretivas do motorista em relação ao tempo de parada para descanso, de modo a não prejudicar os
demais passageiros (art. 738 do CC). Nessa linha de intelecção, a pontualidade é não só um dever do
transportador como também do passageiro. No caso, tendo havido o chamado, bem como o embarque
tempestivo dos demais passageiros, conclui-se pela culpa exclusiva do passageiro decorrente da
falta do dever de cuidado. REsp 1.354.369-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 5-5-
2015, DJe 25-5-2015 (Informativo n. 562).

Direito civil. Devolução de cheque sem provisão de fundos e responsabilidade civil de instituição
bancária.
O banco sacado não é parte legítima para figurar no polo passivo de ação ajuizada com o
objetivo de reparar os prejuízos decorrentes da devolução de cheque sem provisão de fundos
emitido por correntista. De fato, os arts. 2º, 7º e 10 da Res. Bacen n. 2.025/93 estabelecem regras
para a elaboração da ficha-proposta a ser preenchida pelo cliente e procedimento para entrega de
talonário de cheques. Mas, em nenhum momento, essas regras impõem o ônus da fiscalização
constante do saldo em conta, nem transformam as instituições financeiras em garantes da
solvibilidade de seus clientes. Assim, não se tratando de cheque administrativo ou cheque visado, a
partir do momento em que o cheque é colocado à disposição do correntista não é possível fazer um
controle do valor de emissão do título. Com efeito, na forma do disposto no art. 4º da Lei n.
7.357/85, “a existência de fundos disponíveis é verificada no momento da apresentação do cheque
para pagamento”. Dessa forma, ao receber um cheque para saque, é dever do banco conferir se está
presente algum dos motivos para devolução do cheque, como no caso de o valor do título ser
superior ao saldo ou ao eventual limite de crédito rotativo, conforme previsto no art. 6º da Res.
Bacen n. 1.682/90. A prestação de serviços referente ao portador do título de crédito limita-se a esse
procedimento. Não havendo nenhuma mácula nessa conferência, não há defeito na prestação do
serviço, e, portanto, não cabe imputar ao banco conduta ilícita ou risco social inerente à atividade
econômica que implique responsabilização por fato do serviço. Por isso, não há a responsabilidade
da instituição financeira pelas atividades de seus correntistas na utilização de cheques com má gestão
de seus recursos financeiros. A responsabilidade por verificar a capacidade de pagamento do cliente
em relação a determinado valor é de quem contrata, o qual deve se cercar dos meios necessários
para saber se, em caso de falta de provisão de fundos, terá como cobrar a quantia por outras formas.
Ademais, o credor pode se negar a receber cheques, caso não queira correr o risco da devolução por
falta de fundos, ou, até mesmo, pode transferir o risco da falta de pagamento a outra pessoa, com
custo por esse serviço, como nas taxas pela utilização do cartão de crédito, em que a ausência de
pagamento não é sentida pelo credor, ou no deságio dos contratos de factoring, nos quais a ausência
de fundos é suportada pelo faturizador. O título de crédito é apenas uma forma de facilitar as
relações comerciais postas à disposição daqueles que contratam e não representa a criação de
responsabilidade solidária com o sacado, até porque a solidariedade no direito brasileiro não se
presume, já que depende de lei. Assim, a pretendida solidariedade contraria a norma de regência do
título de crédito em questão (REsp 1.324.125-DF, Terceira Turma, DJe 12-6-2015). Pelo exposto,
não há defeito na prestação do serviço bancário quando ocorre devolução de cheque desprovido de
fundos, sendo o emitente do cheque desprovido de fundos o único responsável pelo pagamento da
dívida, não havendo nexo de causalidade direto e imediato com o fornecimento de talonário pela
instituição financeira ao seu cliente. REsp 1.509.178-SC, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em
20-10-2015, DJe 30-11-2015 (ver Informativo n. 574).

CDC. Seguro automotivo. Oficina credenciada. Danos materiais e morais.


A Turma, aplicando o Código de Defesa do Consumidor, decidiu que a seguradora tem
responsabilidade objetiva e solidária pela qualidade dos serviços executados no automóvel do
consumidor por oficina que indicou ou credenciou. Ao fazer tal indicação, a seguradora, como
fornecedora de serviços, amplia a sua responsabilidade aos consertos realizados pela oficina
credenciada. Quanto aos danos morais, a Turma entendeu que o simples inadimplemento contratual,
má qualidade na prestação do serviço, não gera, em regra, danos morais por caracterizar mero
aborrecimento, dissabor, envolvendo controvérsia possível de surgir em qualquer relação negocial,
sendo fato comum e previsível na vida social, embora não desejável nos negócios contratados
(Precedentes citados: REsp 723.729/RJ, DJ 30-10-2006, e REsp 1.129.881/RJ, DJe 19-12-2011.
REsp 827.833/MG, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 24-4-2012, ver Informativo n. 496).

A quebra da confiança e da lealdade nesse contexto rompe a boa-fé objetiva e gera o


chamado dano moral in re ipsa, ou seja, presumido. Outro caso pode ser mencionado:
quando um paciente é encaminhado para fazer um exame em uma determinada clínica e
sai contaminado por algum vírus.
Sobre o tema dano in re ipsa, veja o julgado:
Direito do consumidor. Hipótese de dano moral in re ipsa provocado por companhia aérea.
No caso em que companhia aérea, além de atrasar desarrazoadamente o voo de passageiro, deixe
de atender aos apelos deste, furtando-se a fornecer tanto informações claras acerca do
prosseguimento da viagem (em especial, relativamente ao novo horário de embarque e ao motivo
do atraso) quanto alimentação e hospedagem (obrigando-o a pernoitar no próprio aeroporto),
tem-se por configurado dano moral indenizável in re ipsa, independentemente da causa originária
do atraso do voo. Inicialmente, cumpre destacar que qualquer causa originária do atraso do voo –
acidente aéreo, sobrecarga da malha aérea, condições climáticas desfavoráveis ao exercício do
serviço de transporte aéreo etc. – jamais teria o condão de afastar a responsabilidade da companhia
aérea por abusos praticados por ela em momento posterior, haja vista tratar-se de fatos distintos.
Afinal, se assim fosse, o caos se instalaria por ocasião de qualquer fatalidade, o que é inadmissível.
Ora, diante de fatos como esses – acidente aéreo, sobrecarga da malha aérea ou condições climáticas
desfavoráveis ao exercício do serviço de transporte aéreo –, deve a fornecedora do serviço amenizar
o desconforto inerente à ocasião, não podendo, portanto, limitar-se a, de forma evasiva, eximir-se de
suas responsabilidades. Além disso, considerando que o contrato de transporte consiste em
obrigação de resultado, o atraso desarrazoado de voo, independentemente da sua causa originária,
constitui falha no serviço de transporte aéreo contratado, o que gera para o consumidor direito a
assistência informacional e material. Desse modo, a companhia aérea não se libera do dever de
informação, que, caso cumprido, atenuaria, no mínimo, o caos causado pelo infortúnio, que jamais
poderia ter sido repassado ou imputado ao consumidor. Ademais, os fatos de inexistir providência
quanto à hospedagem para o passageiro, obrigando-o a pernoitar no próprio aeroporto, e de não ter
havido informações claras quanto ao prosseguimento da viagem permitem aferir que a companhia
aérea não procedeu conforme as disposições do art. 6º do CDC. Sendo assim, inexiste na hipótese
caso fortuito, que, caso existisse, seria apto a afastar a relação de causalidade entre o defeito do
serviço (ausência de assistência material e informacional) e o dano causado ao consumidor. No caso
analisado, reputa-se configurado o dano moral, porquanto manifesta a lesão injusta a componentes do
complexo de valores protegidos pelo Direito, à qual a reparação civil é garantida por mandamento
constitucional, que objetiva recompor a vítima da violação de seus direitos de personalidade (art. 5º,
V e X, da CF e art. 6º, VI, do CDC). Além do mais, configurado o fato do serviço, o fornecedor
responde objetivamente pelos danos causados aos consumidores, nos termos do art. 14 do CDC.
Sendo assim, o dano moral em análise opera-se in re ipsa, prescindindo de prova de prejuízo.
Precedentes citados: AgRg no Ag 1.410.645-BA, Terceira Turma, DJe 7-11-2011; e AgRg no REsp
227.005-SP, Terceira Turma, DJ 17-12-2004. REsp 1.280.372-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas
Cueva, julgado em 7-10-2014 (ver Informativo n. 550).
Diante da ocorrência de dano causado ao consumidor por uma falha na prestação
do serviço, o fornecedor pode sugerir alguma excludente para romper o nexo causal e
consequentemente afastar a sua responsabilidade? Sim. Valem as mesmas observações
feitas para o art. 12, § 3º, pois no art. 14, § 3º, também não foram citados o caso fortuito e
a força maior no rol de excludentes de responsabilidade.
DICA!
Qual seria o juízo competente para a propositura da ação indenizatória por fato e vício? O consumidor poderá, facultativamente, propor a ação tanto
em seu domicílio quanto no do réu, por força da regra dos arts. 101, I, e 6º, VII, ambos do CDC.

Em conformidade com o disposto no art. 27 do CDC, o prazo para o consumidor exigir


indenização pelos danos causados por fato do produto ou do serviço extingue-se em 5
anos a partir do conhecimento do dano e de sua autoria.
Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto
ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do
conhecimento do dano e de sua autoria.
O STJ neste julgado entendeu não aplicar o prazo de 5 anos do CDC na repetição do
indébito da tarifa de água e esgoto.
Administrativo. Serviços de fornecimento de água. Cobrança de tarifa progressiva. Legitimidade.
Repetição de indébito de tarifas. Aplicação do prazo prescricional do Código Civil. Precedentes.
1. É legítima a cobrança de tarifa de água fixada por sistema progressivo.
2. A ação de repetição de indébito de tarifas de água e esgoto sujeita-se ao prazo prescricional
estabelecido no Código Civil.
3. Recurso especial da concessionária parcialmente conhecido e, nessa parte, provido. Recurso
especial da autora provido.
Recursos sujeitos ao regime do art. 543-C do Código de Processo Civil [1973] (REsp 1.113.403/RJ,
Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, julgado em 9-9-2009, DJe 15-9-2009, ver
Informativo n. 406).

O mesmo Tribunal, conforme julgado a seguir, também não vem aplicando o prazo do
art. 27 do CDC nas ações entre segurados e seguradoras:
Civil. Prescrição. Responsabilidade contratual. Contrato de seguro. Art. 178, § 6º, Inc. II, do
Código Civil. CODECON. Súmula 101 do STJ.
I – O Código de Defesa do Consumidor, como lei nova, estabeleceu disciplina especial apenas
quanto à ação de reparação de danos por fato de serviço, não revogando o art. 178, § 6º, II, do
Código Civil[1916], dispositivo mais amplo, pois engloba toda e qualquer ação entre segurado e
segurador.
II – A jurisprudência desta Corte, consolidada por sua Súmula 101, posterior, inclusive, ao Código
de Defesa do Consumidor, é no sentido de que a ação do segurado contra a seguradora, decorrente do
contrato de seguro, prescreve em um ano.
III – Precedente.
IV – Recurso conhecido e provido (REsp 255.147/RJ, Rel. Min. Waldemar Zveiter, Terceira Turma,
julgado em 19-2-2001, DJ 2-4-2001, p. 290).

Vejamos recente julgado também do STJ:


Direito do consumidor. Prazo de prescrição da pretensão de ressarcimento por danos decorrentes
da queda de aeronave.
É de cinco anos o prazo de prescrição da pretensão de ressarcimento de danos sofridos pelos
moradores de casas atingidas pela queda, em 1996, de aeronave pertencente a pessoa jurídica
nacional e de direito privado prestadora de serviço de transporte aéreo. Isso porque, na hipótese,
verifica-se a configuração de um fato do serviço, ocorrido no âmbito de relação de consumo, o que
enseja a aplicação do prazo prescricional previsto no art. 27 do CDC. Com efeito, nesse contexto,
enquadra-se a sociedade empresária no conceito de fornecedor estabelecido no art. 3º do CDC,
enquanto os moradores das casas atingidas pela queda da aeronave, embora não tenham utilizado o
serviço como destinatários finais, equiparam-se a consumidores pelo simples fato de serem vítimas
do evento (bystanders), de acordo com o art. 17 do referido diploma legal. Ademais, não há dúvida
de que o evento em análise configura fato do serviço, pelo qual responde o fornecedor, em
consonância com o disposto do art. 14 do CDC. Importante esclarecer, ainda, que a aparente
antinomia entre a Lei n. 7.565/86 – Código Brasileiro de Aeronáutica –, o CDC e o CC/1916, no que
tange ao prazo de prescrição da pretensão de ressarcimento em caso de danos sofridos por terceiros
na superfície, causados por acidente aéreo, não pode ser resolvida pela simples aplicação das regras
tradicionais da anterioridade, da especialidade ou da hierarquia, que levam à exclusão de uma norma
pela outra, mas sim pela aplicação coordenada das leis, pela interpretação integrativa, de forma a
definir o verdadeiro alcance de cada uma delas à luz do caso concreto. Tem-se, portanto, uma norma
geral anterior (CC/1916) – que, por sinal, sequer regulava de modo especial o contrato de transporte
– e duas especiais que lhe são posteriores (CBA/1986 e CDC/1990). No entanto, nenhuma delas
expressamente revoga a outra, é com ela incompatível ou regula inteiramente a mesma matéria, o que
permite afirmar que essas normas se interpenetram, promovendo um verdadeiro diálogo de fontes. A
propósito, o CBA regula, nos arts. 268 a 272, a responsabilidade do transportador aéreo perante
terceiros na superfície e estabelece, no seu art. 317, II, o prazo prescricional de dois anos da
pretensão de ressarcimento dos danos a eles causados. Essa norma especial, no entanto, não foi
revogada, como já afirmado, nem impede a incidência do CDC quando evidenciada a relação de
consumo entre as partes envolvidas. Destaque-se, por oportuno, que o CBA não se limita a
regulamentar apenas o transporte aéreo regular de passageiros, realizado por quem detenha a
respectiva concessão, mas todo serviço de exploração de aeronave, operado por pessoa física ou
jurídica, proprietária ou não, com ou sem fins lucrativos. Assim, o CBA será plenamente aplicado,
desde que a relação jurídica não esteja regida pelo CDC, cuja força normativa é extraída diretamente
da CF (art. 5º, XXXII). Ademais, não há falar em incidência do art. 177 do CC/1916, diploma legal
reservado ao tratamento das relações jurídicas entre pessoas que se encontrem em patamar de
igualdade, o que não ocorre na hipótese (REsp 1.202.013-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em
18-6-2013, ver Informativo n. 525).
Direito do consumidor. Incidência do art. 27 do CDC ante a caracterização de fato do serviço.
Prescreve em cinco anos a pretensão de correntista de obter reparação dos danos causados por
instituição financeira decorrentes da entrega, sem autorização, de talonário de cheques a terceiro
que, em nome do correntista, passa a emitir várias cártulas sem provisão de fundos, gerando
inscrição indevida em órgãos de proteção ao crédito. Na hipótese, o serviço mostra-se defeituoso,
na medida em que a instituição financeira não forneceu a segurança legitimamente esperada pelo
correntista. Isso porque constitui fato notório que os talonários de cheques depositados em agência
bancária somente podem ser retirados pelo próprio correntista, mediante assinatura de documento
atestando a sua entrega, para possibilitar o seu posterior uso. O Banco tem a posse desse documento,
esperando-se dele um mínimo de diligência na sua guarda e entrega ao seu correntista. A Segunda
Seção do STJ, a propósito, editou recentemente enunciado sumular acerca da responsabilidade civil
das instituições financeiras, segundo o qual as “instituições financeiras respondem objetivamente
pelos danos gerados por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no
âmbito de operações bancárias” (Súmula 479). Sendo assim, em face da defeituosa prestação de
serviço pela instituição bancária, não atendendo à segurança legitimamente esperada pelo
consumidor, tem-se a caracterização de fato do serviço, disciplinado pelo art. 14 do CDC. O STJ,
aliás, julgando um caso semelhante – em que os talões de cheque foram roubados da empresa
responsável pela entrega de talonários –, entendeu tratar-se de hipótese de defeito na prestação do
serviço, aplicando o art. 14 do CDC (REsp 1.024.791-SP, Quarta Turma, DJe 9-3-2009). Ademais, a
doutrina, analisando a falha no serviço de banco de dados, tem interpretado o CDC de modo a
enquadrá-la, também, como fato do serviço. Ante o exposto, incidindo o art. 14 do CDC, deve ser
aplicado, por consequência, o prazo prescricional previsto no art. 27 do mesmo estatuto legal,
segundo o qual prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do
serviço, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria. REsp
1.254.883-PR, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 3-4-2014 (ver Informativo n.
542).

DICA!
Enquanto o vício decai, o fato prescreve.

Adquirido por : Franklin Carter Lopes De Freitas


Telefone: 8899762640
E-mail: franklinufc@hotmail.com
6. Da desconsideração da personalidade jurídica

Com fundamento no princípio da separação patrimonial, as pessoas jurídicas devem


responder por suas obrigações com o seu patrimônio, não podendo a execução, como
regra geral, adentrar no patrimônio particular dos sócios ou administradores 44.
Todavia, em certos casos, o patrimônio dos sócios ou administradores pode ser
executado com a devida aplicação da desconsideração (disregard doctrine).
Desconsideração da personalidade jurídica é a suspensão episódica da eficácia do ato
constitutivo.
No art. 28 do CDC consta o seguinte tema:
Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento
do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou
violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver
falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má-
administração.
§ 1º (Vetado).
§ 2º As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas, são
subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste código.
§ 3º As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes
deste código.
§ 4º As sociedades coligadas só responderão por culpa.
§ 5º Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for, de
alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores.
O CDC optou por adotar a Teoria menor da desconsideração da personalidade
jurídica, pois, com a apresentação da mera prova de insolvência da pessoa jurídica para o
pagamento de suas obrigações, o juiz poderá suspender a eficácia do ato constitutivo,
independentemente de desvio de finalidade ou confusão patrimonial. O CC/2002 escolheu
a Teoria Maior em seu art. 50, exigindo a prova de insolvência, o desvio de finalidade ou
a confusão patrimonial.
Sobre esse tema, o julgado do STJ:
Responsabilidade civil e direito do consumidor. Recurso especial. Shopping Center de Osasco/SP.
Explosão. Consumidores. Danos materiais e morais. Ministério Público. Legitimidade ativa.
Pessoa jurídica. Desconsideração. Teoria maior e Teoria menor. Limite de responsabilização dos
sócios. Código de Defesa do Consumidor. Requisitos. Obstáculo ao ressarcimento de prejuízos
causados aos consumidores. Art. 28, § 5º. Considerada a proteção do consumidor um dos pilares da
ordem econômica, e incumbindo ao Ministério Público a defesa da ordem jurídica, do regime
democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis, possui o Órgão ministerial
legitimidade para atuar em defesa de interesses individuais homogêneos de consumidores,
decorrentes de origem comum. A teoria maior da desconsideração, regra geral no sistema jurídico
brasileiro, não pode ser aplicada com a mera demonstração de estar a pessoa jurídica insolvente
para o cumprimento de suas obrigações. Exige-se, aqui, para além da prova de insolvência, ou a
demonstração de desvio de finalidade (teoria subjetiva da desconsideração), ou a demonstração de
confusão patrimonial (teoria objetiva da desconsideração). A teoria menor da desconsideração,
acolhida em nosso ordenamento jurídico excepcionalmente no direito do consumidor e no direito
ambiental, incide com a mera prova de insolvência da pessoa jurídica para o pagamento de suas
obrigações, independentemente da existência de desvio de finalidade ou de confusão patrimonial.
Para a teoria menor, o risco empresarial normal às atividades econômicas não pode ser suportado
pelo terceiro que contratou com a pessoa jurídica, mas pelos sócios e/ou administradores desta,
ainda que estes demonstrem conduta administrativa proba, isto é, mesmo que não exista qualquer
prova capaz de identificar conduta culposa ou dolosa por parte dos sócios e/ou administradores da
pessoa jurídica. A aplicação da teoria menor da desconsideração às relações de consumo está
calcada na exegese autônoma do § 5º do art. 28 do Código de Defesa do Consumidor, porquanto a
incidência desse dispositivo não se subordina à demonstração dos requisitos previstos no caput do
artigo indicado, mas apenas à prova de causar, a mera existência da pessoa jurídica, obstáculo ao
ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. Recursos especiais não conhecidos (REsp
279.273/SP, Rel. Min. Ari Pargendler, Rel. p/ Acórdão Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma,
julgado em 4-12-2003, DJ 29-3-2004, p. 230) 45.

7. Oferta

O conceito de oferta, bem como o princípio da vinculação, pode ser extraído da leitura
do art. 30 do CDC. Perceba:
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou
meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o
fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.
Desse modo, oferta divide-se em informação e publicidade. Importante observar que
nem toda oferta vincula, mas somente aquela que for suficientemente precisa. Um
exagero publicitário (puffing) não obriga o fornecedor, como no caso da publicidade do
Red Bull. Ninguém processará a empresa por não ter “ganhado asas”. Diante disso, oferta
suficientemente precisa é aquela que mostra termos claros/precisos e está dentro dos
padrões praticados no mercado.
O princípio da veracidade da oferta está intimamente ligado à boa-fé objetiva, referido
no art. 31 da Lei de Proteção ao Consumidor. Sugere-se a leitura desse dispositivo:
Art. 31. A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas,
claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades,
quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como
sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores.
Parágrafo único. As informações de que trata este artigo, nos produtos refrigerados oferecidos ao
consumidor, serão gravadas de forma indelével.

O art. 32 da Lei Consumerista delimita a responsabilidade para o fabricante e o


importador no caso da reposição de peças, enquanto não cessar a fabricação ou a
importação do produto. Uma vez suspensa a fabricação ou importação das peças, elas
deverão ser mantidas por um tempo de vida útil. É o que dispõe a lei:
Art. 32. Os fabricantes e importadores deverão assegurar a oferta de componentes e peças de
reposição enquanto não cessar a fabricação ou importação do produto.
Parágrafo único. Cessadas a produção ou importação, a oferta deverá ser mantida por período
razoável de tempo, na forma da lei.
Caso ocorra venda por telefone ou reembolso postal, o CDC obriga a devida
identificação do fabricante ou do importador para que fique caracterizada a transparência.
Leia-se a lei:
Art. 33. Em caso de oferta ou venda por telefone ou reembolso postal, deve constar o nome do
fabricante e endereço na embalagem, publicidade e em todos os impressos utilizados na transação
comercial.
Parágrafo único. É proibida a publicidade de bens e serviços por telefone, quando a chamada for
onerosa ao consumidor que a origina.
A responsabilidade solidária dos fornecedores do produto ou serviço novamente é
citada pela Lei Consumerista no art. 34. Confira:
Art. 34. O fornecedor do produto ou serviço é solidariamente responsável pelos atos de seus
prepostos ou representantes autônomos.

A regra anteriormente proposta se equipara àquela disposta no art. 932, III, do


CC/2002. A responsabilidade civil aqui independe de culpa, em razão do risco da
atividade.
Caso o fornecedor não cumpra com a oferta, quais medidas o consumidor poderá
adotar? Essa resposta pode ser retirada da leitura do art. 35 da legislação do CDC. Leia-
se:
Art. 35. Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à oferta, apresentação ou
publicidade, o consumidor poderá, alternativamente e à sua livre escolha:
I – exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou publicidade;
II – aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente;
III – rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente antecipada,
monetariamente atualizada, e a perdas e danos.

8. Da publicidade

Na busca de fidelizar cada vez mais os consumidores, os fornecedores atuam de forma


agressiva no mercado de consumo, exibindo publicidades muito criativas; porém deve ser
salientado que todo abuso será recriminado.
O art. 36 da norma consumerista aborda o princípio da identificação obrigatória da
publicidade, que determina:
Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a
identifique como tal.

Diante da regra expressa, a publicidade subliminar é vedada por ferir a transparência


com o consumidor.
O legislador proibiu e conceituou a publicidade enganosa e abusiva no art. 37, §§ 1º e
2º, do CDC. Constate:
Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 1º É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira
ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o
consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem,
preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
§ 2º É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à
violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência
da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se
comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.
§ 3º Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar
sobre dado essencial do produto ou serviço.

DICA!
A publicidade enganosa poderá ocorrer de forma comissiva, ou seja, mencionando algo que não é verdadeiro, e omissiva, que significa deixar de
transparecer uma essencialidade.

O princípio da inversão do ônus da prova fica claro com a leitura do art. 38 do CDC,
visto que se trata de uma das modalidades ope legis, isto é, não ocorre análise do critério
subjetivo do magistrado. Avalie:
Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe
a quem as patrocina.

9. Das práticas abusivas

Com previsão no CDC e um rol exemplificativo, o art. 39 ressalta:


Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas:
I – condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou
serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos;
II – recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata medida de suas disponibilidades
de estoque, e, ainda, de conformidade com os usos e costumes;
III – enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou fornecer
qualquer serviço;
IV – prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde,
conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços;
V – exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva;
VI – executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização expressa do consumidor,
ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores entre as partes;
VII – repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo consumidor no exercício de
seus direitos;
VIII – colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em desacordo com as normas
expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas específicas não existirem, pela
Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho Nacional
de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro);
IX – recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha a adquiri-
los mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação regulados em leis especiais;
X – elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços;
XI – Dispositivo incluído pela MPV n. 1.890-67, de 22-10-1999, transformado em inciso XIII,
quando da conversão na Lei n. 9.870, de 23-11-1999;
XII – deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou deixar a fixação de seu
termo inicial a seu exclusivo critério;
XIII – aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente estabelecido.
Parágrafo único. Os serviços prestados e os produtos remetidos ou entregues ao consumidor, na
hipótese prevista no inciso III, equiparam-se às amostras grátis, inexistindo obrigação de pagamento.

9.1. Venda casada

A lei proíbe a “venda casada”, que se aplica quando o fornecedor de produtos ou


serviços associa o fornecimento destes a outro produto ou serviço. Infelizmente, os
bancos praticam muito isso, como no exemplo de condicionar a contratação do cheque
especial caso o cliente contrate outro seguro qualquer na instituição.
Segue julgado do STJ tratando da matéria:
Recurso Especial – Ação de rescisão de contrato de prestação de serviços de telefonia móvel e de
comodato de aparelhos celulares – Exclusão de multa por inobservância do prazo de carência –
sentença de improcedência – Acolhimento do pleito recursal da autora pela corte a quo –
Reconhecimento, no aresto estadual, de nulidade da cláusula de “fidelização”, por configurar
“venda casada”. Insurgência da concessionária de telefonia. 1. Contratação simultânea de
prestação de serviços de telefonia móvel e de “comodato” de aparelhos celulares, com cláusula de
“fidelização”. Previsão de permanência mínima que, em si, não encerra “venda casada”. 2. Não
caracteriza a prática vedada pelo art. 39, inc. I, do CDC, a previsão de prazo de permanência mínima
(“fidelização”) em contrato de telefonia móvel e de “comodato”, contanto que, em contrapartida, haja
a concessão de efetivos benefícios ao consumidor (v.g., custo reduzido para realização de chamadas,
abono em ligações de longa distância, baixo custo de envio de “short message service – SMS”,
dentre outras), bem como a opção de aquisição de aparelhos celulares da própria concessionária,
sem vinculação a qualquer prazo de carência, ou de outra operadora, ou mesmo de empresa
especializada na venda de eletroportáteis. 3. Superado o fundamento jurídico do acórdão recorrido,
cabe a esta Corte Superior de Justiça julgar a causa, aplicando o direito à espécie, nos termos do art.
257 do RISTJ e da Súmula 456/STF. 4. Em que pese ser possível a fixação de prazo mínimo de
permanência, na hipótese dos autos, o contrato de “comodato” de estações móveis entabulado entre
as partes estabeleceu a vigência por 24 (vinte e quatro) meses, distanciando-se das determinações
regulamentares da ANATEL (Norma Geral de Telecomunicações n. 23/96 e Resolução 477/2007), de
ordem a tornar tal estipulação, inequivocamente, abusiva, haja vista atentar contra a liberdade de
escolha do consumidor, direito básico deste. 5. Recurso especial desprovido (REsp 1.097.582/MS,
Rel. Min. Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 19-3-2013, DJe 8-4-2013).

Direito do consumidor. Venda casada e dano moral coletivo in re ipsa.


Configura dano moral coletivo in re ipsa a realização de venda casada por operadora de telefonia
consistente na prática comercial de oferecer ao consumidor produto com significativa vantagem –
linha telefônica com tarifas mais interessantes do que as outras ofertadas pelo mercado – e, em
contrapartida, condicionar a aquisição do referido produto à compra de aparelho telefônico.
Inicialmente, cumpre ressaltar que o direito metaindividual tutelado na espécie enquadra-se na
categoria de direitos difusos, isto é, tem natureza indivisível e possui titulares indeterminados, que
são ligados por circunstâncias de fato, o que permite asseverar ser esse extensível a toda a
coletividade. A par disso, por afrontar o direito a livre escolha do consumidor, a prática de venda
casada é condenada pelo CDC, que, em seu art. 39, I, prescreve ser “vedado ao fornecedor de
produtos ou serviços, entre outras práticas abusivas: I – condicionar o fornecimento de produto ou de
serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites
quantitativos”, devendo o Estado engendrar todos os esforços no sentido de reprimi-la. Desse modo,
a prática de venda casada por parte de operadora de telefonia é prática comercial apta a causar
sensação de repulsa coletiva a ato intolerável, tanto intolerável que encontra proibição expressa em
lei. Nesse passo, o dano analisado decorre da própria circunstância do ato lesivo (dano moral in re
ipsa), prescindindo de prova objetiva do prejuízo sofrido. Portanto, afastar da espécie o dano moral
coletivo é fazer tábula rasa da proibição elencada no art. 39, I, do CDC e, por via reflexa, legitimar
práticas comerciais que afrontem os mais basilares direitos do consumidor (REsp 1.397.870--MG,
Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 2-12-2014, DJe 10-12-2014 (ver Informativo n.
553).

9.2. Venda quantitativa

Quando o consumidor chega a um estabelecimento, ele está certo do que deseja


adquirir, mas existem muitos outros que praticam a denominada venda quantitativa, que é
a exigência de se adquirir produtos ou serviços em quantidade menor ou maior do que a
desejada.

9.3. Recusa de atendimento

Caso o produto ou o serviço esteja disponibilizado e o fornecedor recusar o seu


cumprimento, além de ocorrer prática abusiva, ficará configurado crime contra as
relações de consumo, conforme prevê o art. 7º da Lei n. 8.137/90, e infração à ordem
econômica, diante do art. 36, § 3º, XI, da Lei n. 12.529/2011. Um exemplo clássico é
aquele em que as lojas se negam a vender a roupa que se encontra na vitrine alegando que
não pode retirar aquela do manequim.
Sobre recusa de prestação do serviço:
Direito civil e consumidor. Ilicitude na negativa de contratar seguro de vida.
A negativa pura e simples de contratar seguro de vida é ilícita, violando a regra do art. 39, IX, do
CDC. Diversas opções poderiam substituir a simples negativa de contratar, como a formulação de
prêmio mais alto ou ainda a redução de cobertura securitária, excluindo-se os sinistros relacionados
à doença preexistente, mas não poderia negar ao consumidor a prestação de serviços. As normas
expedidas pela Susep para regulação de seguros devem ser interpretadas em consonância com o
mencionado dispositivo. Ainda que o ramo securitário consubstancie atividade de alta complexidade
técnica, regulada por órgão específico, a contratação de seguros está inserida no âmbito das relações
de consumo, portanto, tem necessariamente de respeitar as disposições do CDC. A recusa da
contratação é possível, como previsto na Circular Susep n. 251/2004, mas apenas em hipóteses
realmente excepcionais (REsp 1.300.116/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 23-10-2012, ver
Informativo n. 507).

9.4. Fornecimento de produto/serviço não solicitado

Muitos são os exemplos no nosso cotidiano que arrolam pessoas surpreendidas por
produtos/serviços não solicitados. Ao acordar pela manhã, uma pessoa encontra um
jornal de uma determinada empresa na porta de sua casa e sabe-se que ela não o solicitou.
A pessoa vai ter de pagar pelo jornal? A resposta é negativa e a configuração de uma
prática abusiva está estampada. E o jornal? Deve pagar por isso? Novamente a resposta
é negativa e este será considerado uma amostra grátis. Idêntica solução se aplica aos
cartões de crédito não solicitados.
Sobre a matéria, citamos o seguinte julgado:
Direito do consumidor. Envio de cartão de crédito à residência do consumidor. Necessidade de
prévia e expressa solicitação.
É vedado o envio de cartão de crédito, ainda que bloqueado, à residência do consumidor sem
prévia e expressa solicitação. Essa prática comercial é considerada abusiva nos moldes do art. 39,
III, do CDC, contrariando a boa-fé objetiva. O referido dispositivo legal tutela os interesses dos
consumidores até mesmo no período pré-contratual, não sendo válido o argumento de que o simples
envio do cartão de crédito à residência do consumidor não configuraria ilícito por não implicar
contratação, mas mera proposta de serviço (REsp 1.199.117/SP, Rel. Min. Paulo de Tarso
Sanseverino, julgado em 18-12-2012, ver Informativo n. 511).
Observe a Súmula 532 do STJ:
Constitui prática comercial abusiva o envio de cartão de crédito sem prévia e expressa solicitação
do consumidor, configurando-se ato ilícito indenizável e sujeito à aplicação de multa administrativa.

9.5. Aproveitamento da vulnerabilidade do consumidor

Conforme já estudado, a vulnerabilidade é a principal característica do consumidor.


Esta pode ser: técnica, jurídica, fática ou real e informacional. Nesse caso, as práticas
utilizadas pelos fornecedores que manipulam o consumidor para impor-lhe produtos ou
serviços será abusiva.

9.6. Exigir vantagem excessiva

O § 1º do art. 51 da norma consumerista traz essa ocorrência quando está caracterizada


a utilização do fornecedor da superioridade econômica. Note:
Art. 51. [...]
§ 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vontade que:
I – ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II – restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal modo a
ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual;
III – se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do
contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso.

9.7. Serviços sem orçamento

O orçamento é tratado no art. 40 da Lei de Proteção ao Consumidor. Leia-se:


Art. 40. O fornecedor de serviço será obrigado a entregar ao consumidor orçamento prévio
discriminando o valor da mão de obra, dos materiais e equipamentos a serem empregados, as
condições de pagamento, bem como as datas de início e término dos serviços.
§ 1º Salvo estipulação em contrário, o valor orçado terá validade pelo prazo de dez dias, contado de
seu recebimento pelo consumidor.
§ 2º Uma vez aprovado pelo consumidor, o orçamento obriga os contraentes e somente pode ser
alterado mediante livre negociação das partes.
§ 3º O consumidor não responde por quaisquer ônus ou acréscimos decorrentes da contratação de
serviços de terceiros não previstos no orçamento prévio.

Uma vez realizado o serviço sem a prévia autorização do consumidor, constituirá


prática abusiva. Entretanto, poderá ser exonerado de sua responsabilidade o fornecedor
que provar práticas anteriores, ou seja, que eram realizados serviços sem a prévia
autorização do consumidor. Caso o consumidor alegue a abusividade, o fornecedor
poderá alegar o rompimento da boa-fé objetiva (confiança e lealdade) e enfatizar a
presença da venire contra factum proprium (comportamento contraditório).

9.8. Repasse de informações depreciativas

Esse intercâmbio de dados é considerado abusivo pela lei, assim nenhum fornecedor
poderá repassar informações depreciativas sobre o consumidor.

9.9. Descumprir normas técnicas

O padrão de qualidade deverá sempre ser observado pelos fornecedores, sob pena da
violação de um direito básico do consumidor. Um produto em desacordo com as normas
técnicas pode gerar danos aos consumidores.

9.10. Recusa de venda direta ou à vista

Aquele consumidor que deseja adquirir um bem ou um serviço mediante o pronto


pagamento deverá ter o seu direito atendido. Caso o fornecedor venha a descumprir a
oferta, ele poderá valer-se da regra estipulada no art. 84 do Código de Defesa do
Consumidor. Observe:
Art. 84. Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer ou não fazer, o juiz
concederá a tutela específica da obrigação ou determinará providências que assegurem o resultado
prático equivalente ao do adimplemento.
§ 1º A conversão da obrigação em perdas e danos somente será admissível se por elas optar o autor
ou se impossível a tutela específica ou a obtenção do resultado prático correspondente.
§ 2º A indenização por perdas e danos se fará sem prejuízo da multa
§ 3º Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do
provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou após justificação prévia, citado o
réu.
§ 4º O juiz poderá, na hipótese do § 3º ou na sentença, impor multa diária ao réu, independentemente
de pedido do autor, se for suficiente ou compatível com a obrigação, fixando prazo razoável para o
cumprimento do preceito.
§ 5º Para a tutela específica ou para a obtenção do resultado prático equivalente, poderá o juiz
determinar as medidas necessárias, tais como busca e apreensão, remoção de coisas e pessoas,
desfazimento de obra, impedimento de atividade nociva, além de requisição de força policial.

9.11. Elevação dos preços sem justa causa de produtos e serviços

O aumento abusivo dos preços dos produtos e serviços de forma imotivada configura
uma prática abusiva. Como exemplo, tem-se o julgamento no REsp 1.073.595/MG, que
considerou o aumento abrupto nas parcelas de seguro de vida uma violação das normas
consumeristas. Existe, sim, a possibilidade do aumento, desde que este seja realizado de
forma adequada e respeitando um cronograma, o diverso disso não poderá prevalecer.
Sobre o tema, citamos o Enunciado n. 543 da VI Jornada de Direito Civil com o
seguinte teor:
Constitui abuso do direito a modificação acentuada das condições do seguro de vida e de saúde pela
seguradora quando da renovação do contrato.

9.12. Inexistência de prazo para o cumprimento da obrigação

Visando colocar o consumidor no mesmo patamar de igualdade do fornecedor e


firmar, portanto, uma função social do contrato, a lei estabelece como abusiva a não
estipulação de prazo para o cumprimento de sua obrigação.
9.13. Aplicar fórmula ou reajuste diverso do legal

O fornecedor tem o dever de aplicar os índices legais ou mesmo aqueles que foram
contratualmente acordados, sob pena de prática abusiva.

10. Cobrança de dívidas

O fornecedor possui diversas formas de exigir do consumidor o adimplemento da


obrigação, porém nenhuma delas poderá ser feita de forma vexatória, enxovalhando a
imagem daquele que é o vulnerável.
O art. 71 da Lei Consumerista expõe importante passagem sobre o tema. Veja:
Art. 71. Utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação, constrangimento físico ou moral,
afirmações falsas incorretas ou enganosas ou de qualquer outro procedimento que exponha o
consumidor, injustificadamente, a ridículo ou interfira com seu trabalho, descanso ou lazer: Pena.
Detenção de três meses a um ano e multa.

Uma prática muito comum, que infelizmente existe em nosso cotidiano, é a proibição
do ingresso da criança na instituição de ensino quando a mensalidade se encontra em
atraso. Outro caso é o corte de energia elétrica com fundamento em parcelas antigas. Para
que o corte possa ser justo, a parcela deve ser atual e não pretérita.
Vale destacar que toda cobrança realizada pelo fornecedor, segundo a Lei n.
12.039/2009, que introduziu o art. 42-A, deverá possuir as seguintes informações:
Art. 42-A. Em todos os documentos de cobrança de débitos apresentados ao consumidor, deverão
constar o nome, o endereço e o número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou no
Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – CNPJ do fornecedor do produto ou serviço correspondente.
O consumidor que for cobrado em quantia indevida e realizar o pagamento em excesso
terá direito à devolução em dobro, salvo se o for​necedor apresentar engano justificável.
Confira o que determina o CDC em seu art. 42:
Art. 42. Na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem será
submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça.
Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por
valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo
hipótese de engano justificável.

Adquirido por : Franklin Carter Lopes De Freitas


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11. Banco de dados

O art. 43 da legislação consumerista trata do tema de banco de dados e cadastro de


consumidores. Desse modo, são direitos dos consumidores em relação aos bancos de
dados: a) o acesso (art. 43, caput); b) a informação (art. 43, § 2º); c) a retificação (art.
43, § 3º); e d) a exclusão (art. 43, §§ 1º e 5º).
Os bancos de dados e arquivos de consumo surgiram em razão da necessidade de as
empresas de créditos verificarem a vida financeira dos consumidores e o comportamento
deles perante o mercado, todas as vezes que eles viessem solicitar alguma quantia.
Existe distinção entre os bancos de dados e os cadastros de consumo. Os bancos de
dados são arquivos organizados por uma empresa que é alimentada de informações pelos
fornecedores no geral; já os cadastros de consumidores são arquivos organizados por
cada fornecedor para a sua própria verificação, isto é, tais informações não são
compartilhadas com os outros.
O CDC menciona no § 1º de seu art. 43 que:
Art. 43. [...]
§ 1º Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos, claros, verdadeiros e em linguagem
de fácil compreensão, não podendo conter informações negativas referentes a período superior a
cinco anos.
A lei agiu de forma simples e direta, pois o consumidor precisa entender o conteúdo
daquela informação, bem como o seu significado. Caso haja algum tipo de inexatidão ele
poderá exigir a sua retificação.
Essa previsão da retificação encontra respaldo no § 3º do art. 43 da norma
consumerista que salienta:
Art. 43. [...]
§ 3º O consumidor, sempre que encontrar inexatidão nos seus dados e cadastros, poderá exigir sua
imediata correção, devendo o arquivista, no prazo de cinco dias úteis, comunicar a alteração aos
eventuais destinatários das informações incorretas.

Veja a recente Súmula do STJ:


Súmula 548: “Incumbe ao credor a exclusão do registro da dívida em nome do devedor no cadastro
de inadimplentes no prazo de cinco dias úteis, a partir do integral e efetivo pagamento do débito”.

Sobre o tema, referimos o seguinte julgado:


Direito do consumidor e processual civil. Interesse de agir em ação de cancelamento de diversas
inscrições em cadastro negativo de proteção ao crédito.
Há interesse de agir na ação em que o consumidor postula o cancelamento de múltiplas inscrições
de seu nome em cadastro negativo de proteção ao crédito, mesmo que somente uma ou algumas
delas ultrapassem os prazos de manutenção dos registros previstos no art. 43, §§ 1º e 5º, do CDC.
Salienta-se, inicialmente, que nem toda dívida inscrita em cadastro negativo de proteção ao crédito
(a exemplo do SPC e Serasa) é igual, pois cada uma delas apresenta características próprias que as
diferem das demais, tais como as partes contratantes, o valor da obrigação, a data de vencimento, as
garantias contratuais e até eventual foro para dirimir as questões decorrentes do negócio. Assim,
como cada dívida pode gerar uma inscrição distinta, vislumbra-se ser possível que o devedor
inadimplente, sob os mais variados fundamentos, questione individualmente cada registro. Ademais,
quando o art. 43 do CDC utiliza as expressões “cadastros”, “dados”, “fichas” e “informações”, todas
no plural, infere-se a ideia de multiplicidade de registros a respeito do consumidor inadimplente. Em
decorrência disso, o próprio § 3º do referido dispositivo explicita que: “O consumidor, sempre que
encontrar inexatidão nos seus dados e cadastros, poderá exigir sua imediata correção, devendo o
arquivista, no prazo de cinco dias úteis, comunicar a alteração aos eventuais destinatários das
informações incorretas”. Nessa linha de ideias, do ponto de vista do direito material, é plausível
concluir que, no âmbito do cadastro de inadimplentes, não há falar em unicidade, pois é possível a
existência de múltiplas anotações autônomas, porquanto cada inscrição possuirá origem em
diferentes obrigações vencidas e não pagas. De outra banda, sob a ótica do direito processual civil,
observa-se que cada dívida enseja uma causa de pedir e um pedido, podendo ser impugnadas,
conforme o caso, nos autos de um mesmo processo ou em demanda autônoma, sem que, neste último
caso, possa caracterizar eventual litispendência. No ponto, ressalta-se que mesmo quando a petição
inicial impugnar variadas anotações, estar-se-á diante de diversas causas de pedir, fundadas em fatos
possivelmente diferentes, na medida em que, como dito acima, cada registro corresponde a uma
dívida não paga. Por tal razão, se a parte alega que as inscrições deverão ser canceladas em virtude
de estar prescrita a pretensão de cobrança das dívidas ou por fluência do prazo quinquenal, e, ao
analisar o caso, o magistrado ou Tribunal verificar que uma ou algumas ainda estão dentro do lapso
legal de permanência do registro, deverá julgar parcialmente procedente o pedido, com base no art.
269, I, do CPC 46. Outrossim, mesmo na situação em que todos os registros questionados ainda se
encontrarem dentro do prazo de permanência das anotações, o magistrado julgará improcedentes os
pedidos, podendo a ação declaratória de cancelamento de registro ser novamente proposta em razão
da fluência de novo lapso temporal. Desse modo, não parece possível a aplicação do princípio da
“unicidade dos cadastros de inadimplentes” para reconhecer suposta falta de interesse de agir, tendo
em vista que os registros são derivados de débitos distintos, impugnáveis de maneira individual ou
conjunta. Ressalta-se, aliás, que entender o contrário poderia criar uma esdrúxula hipótese de
perpetuidade dos registros negativos, caso o nome do devedor fosse inscrito no cadastro de proteção
ao crédito em momentos diversos, ampliando-se, com isso, o período máximo de permanência da
inscrição negativa, em evidente afronta aos comandos insertos nos §§ 1º e 5º do art. 43 do CDC.
Além disso, não se pode olvidar que os bancos de dados e os cadastros negativos de proteção ao
crédito atingem importante direito da personalidade, qual seja, o nome (art. 16 do CC). Por tal razão,
eventuais restrições ao nome devem ser realizadas com temperamentos e em estrita observância à
ordem jurídica, principalmente diante da tutela constitucional da dignidade da pessoa humana,
imagem e privacidade. Nessa linha de intelecção, há vozes doutrinárias que ensinam que: “A
semieternidade dos sistemas de proteção ao crédito – são conhecidos os exemplos de mortos que
integravam os bancos de dados de consumo – não instiga o funcionamento do mercado. Em vez de
acelerar as transações comerciais, a temporalidade aberta de registros privados (ou mesmo
públicos) amarra a estrutura mercadológica, conquanto cristaliza ad eternum situações excepcionais
que podem não mais representar a realidade do comportamento normal do indivíduo. Um caso
isolado não pode ser usado para macular uma vida inteira, passada e futura, de correção como
contratante e consumidor”. A par disso, nota-se que o enunciado da Súmula 385 do STJ, a despeito
de impossibilitar a obtenção de indenização por danos morais em virtude da existência de diversas
inscrições em nome do devedor inadimplente, assegura o cancelamento de anotação considerada
irregular, permitindo inferir que este Tribunal Superior já reconhece a existência de interesse de agir
em caso de multiplicidade de registros em nome de um único devedor. REsp 1.196.699-RS, Rel.
Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 22-9-2015, DJe 20-10-2015 (ver Informativo n. 571).

Cadastro de inadimplentes. Baixa da inscrição. Responsabilidade. Prazo.


O credor é responsável pelo pedido de baixa da inscrição do devedor em cadastro de inadimplentes
no prazo de cinco dias úteis, contados da efetiva quitação do débito, sob pena de incorrer em
negligência e consequente responsabilização por danos morais. Isso porque o credor tem o dever de
manter os cadastros dos serviços de proteção ao crédito atualizados. Quanto ao prazo, a Min.
Relatora definiu-o pela aplicação analógica do art. 43, § 3º, do CDC, segundo o qual o consumidor,
sempre que encontrar inexatidão nos seus dados e cadastros, poderá exigir sua imediata correção,
devendo o arquivista, no prazo de cinco dias úteis, comunicar a alteração aos eventuais destinatários
das informações incorretas. O termo inicial para a contagem do prazo para baixa no registro deverá
ser do efetivo pagamento da dívida. Assim, as quitações realizadas mediante cheque, boleto
bancário, transferência interbancária ou outro meio sujeito a confirmação, dependerão do efetivo
ingresso do numerário na esfera de disponibilidade do credor. A Min. Relatora ressalvou a
possibilidade de estipulação de outro prazo entre as partes, desde que não seja abusivo,
especialmente por tratar-se de contratos de adesão (Precedentes citados: REsp 255.269/PR, DJ 16-
4-2001; REsp 437.234/PB, DJ 29-9-2003; AgRg no Ag 1.094.459/SP, DJe 1º-6-2009, e AgRg no
REsp 957.880/SP, DJe 14-3-2012. REsp 1.149.998/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 7-8-
2012, ver Informativo n. 501).

Sobre o cadastramento indevido do consumidor, mencionamos o Enunciado n. 553 da


VI Jornada de Direito Civil, que dispõe que:
Nas ações de responsabilidade civil por cadastramento indevido nos registros de devedores
inadimplentes realizados por instituições financeiras, a responsabilidade civil é objetiva.
Havendo abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo, sem a
solicitação do consumidor, esta deverá ser comunicada por escrito ao consumidor.
Reza a Lei de Proteção ao Consumidor no § 2º do seu art. 43:
Art. 43. [...]
§ 2º A abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo deverá ser comunicada
por escrito ao consumidor, quando não solicitada por ele.

O caput do art. 43 da Lei do CDC menciona o direito do consumidor no acesso às


informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de consumo
arquivados sobre ele, mas de que forma ele vai ocorrer? Pelo habeas data, com
fundamento no art. 5º, LXXII, da CF/88. Examine:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
LXXII – conceder-se-á habeas data:
a) para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante, constantes de
registros ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público;
b) para a retificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por processo sigiloso, judicial ou
administrativo;
O art. 86 do CDC foi vetado pelo Presidente da República, que previa o habeas data. É
válido citar o art. 1º da Lei n. 9.507/97 que disciplina o seu procedimento.
Interessante frisar que os bancos de dados e cadastros relativos a consumidores,
serviços de proteção ao crédito e congêneres são considerados entidades de caráter
público, conforme a previsão do § 4º do art. 43 do CDC.
A quem cabe notificar o consumidor antes de uma futura inscrição? Acompanhe o
texto da Súmula 359 do STJ:
Cabe ao órgão mantenedor do Cadastro de Proteção ao Crédito a notificação do devedor antes de
proceder à inscrição.

DICA!
Súmula 404 do STJ. É dispensável o aviso de recebimento (AR) na carta de comunicação ao consumidor sobre a negativação de seu nome em bancos
de dados e cadastros.

Caso o consumidor possua uma legítima inscrição do seu nome em um cadastro de


proteção ao crédito e venha a surgir uma outra indevida, caberá dano moral? Sobre a
indagação, a Súmula 385 do STJ:
Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral,
quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento.

Qual o prazo máximo para que o nome do consumidor fique inscrito nos Serviços de
Proteção ao Crédito? Essa resposta está baseada na Súmula 323 do STJ:
A inscrição de inadimplente pode ser mantida nos serviços de proteção ao crédito por, no máximo,
cinco anos.

Em contratos bancários, segundo a jurisprudência do STJ, alguns pontos devem ser


observados para que ocorra o cancelamento ou abstenção da inscrição. Perceba:
Direito processual civil e bancário. Recurso especial. Ação revisional de cláusulas de contrato
bancário. Incidente de processo repetitivo. Juros remuneratórios. Configuração da mora. Juros
moratórios. Inscrição/manutenção em cadastro de inadimplentes. Disposições de ofício.
Delimitação do julgamento. [...] Orientação 4. Inscrição/manutenção em cadastro de
inadimplentes. a) A abstenção da inscrição/manutenção em cadastro de inadimplentes, requerida em
antecipação de tutela e/ou medida cautelar, somente será deferida se, cumulativamente: i) a ação for
fundada em questionamento integral ou parcial do débito; ii) houver demonstração de que a cobrança
indevida se funda na aparência do bom direito e em jurisprudência consolidada do STF ou STJ; iii)
houver depósito da parcela incontroversa ou for prestada a caução fixada conforme o prudente
arbítrio do juiz (REsp 1.061.530/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 22-10-
2008, DJe 10-3-2009).

Sobre o tema, convém citar a seguinte súmula do STJ:


Súmula 550: “A utilização de escore de crédito, método estatístico de avaliação de risco que não
constitui banco de dados, dispensa o consentimento do consumidor, que terá o direito de solicitar
esclarecimentos sobre as informações pessoais valoradas e as fontes dos dados considerados no
respectivo cálculo”.

Conforme previsão do § 5º do art. 43 do CDC, “consumada a prescrição relativa à


cobrança de débitos do consumidor, não serão fornecidas, pelos respectivos Sistemas de
Proteção ao Crédito, quaisquer informações que possam impedir ou dificultar novo
acesso ao crédito junto aos fornecedores”.
Recentemente foi inserido o § 6º ao art. 43, do CDC, pela Lei n. 13.146/2015, que
institui o Estatuto da Pessoa com Deficiência, dispondo que:
§ 6º Todas as informações de que trata o caput deste artigo devem ser disponibilizadas em formatos
acessíveis, inclusive para a pessoa com deficiência, mediante solicitação do consumidor.

Por fim, com o intuito de informar cada vez mais o consumidor a respeito dos
fornecedores, o art. 44 da Lei Consumerista descreve:
Art. 44. Os órgãos públicos de defesa do consumidor manterão cadastros atualizados de reclamações
fundamentadas contra fornecedores de produtos e serviços, devendo divulgá-lo pública e anualmente.
A divulgação indicará se a reclamação foi atendida ou não pelo fornecedor.
§ 1º É facultado o acesso às informações lá constantes para orientação e consulta por qualquer
interessado.
§ 2º Aplicam-se a este artigo, no que couber, as mesmas regras enunciadas no artigo anterior e as do
parágrafo único do art. 22 deste código.
Na busca da formação de um histórico de crédito das pessoas naturais ou jurídicas, foi
instituída a Lei n. 12.414/2011 e regulamentada pelo Decreto n. 7.829/2012 47.

12. Proteção contratual

Por ser o consumidor o elo mais fraco da relação de consumo, a Lei Consumerista
sugere diversas normas especiais sobre o assunto.
Com base no exposto, os estudos podem ser iniciados com a análise do art. 46 do CDC
que alude ao princípio da transparência máxima com os consumidores. Determina a lei:
Art. 46. Os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores, se não
lhes for dada a oportunidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos
instrumentos forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance.
O destaque dado pela norma supra está em total consonância com o art. 6º, III, já
analisado no item 4 da Parte I desta obra. Menciona a lei:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...]
III – a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação
correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como
sobre os riscos que apresentem.

Nesse sentido, alguns julgados:


Direito do consumidor. Administrativo. Normas de proteção e defesa do consumidor. Ordem
pública e interesse social. Princípio da vulnerabilidade do consumidor. Princípio da
transparência. Princípio da boa-fé objetiva. Princípio da confiança. Obrigação de segurança.
Direito à informação. Dever positivo do fornecedor de informar, adequada e claramente, sobre
riscos de produtos e serviços. Distinção entre informação-conteúdo e informação-advertência.
Rotulagem. Proteção de consumidores hipervulneráveis. Campo de aplicação da Lei do glúten (Lei
n. 8.543/92 ab-rogada pela Lei n. 10.674/2003) e eventual antinomia com o art. 31 do Código de
Defesa do Consumidor. Mandado de segurança preventivo. Justo receio da impetrante de ofensa à
sua livre iniciativa e à comercialização de seus produtos. Sanções administrativas por deixar de
advertir sobre os riscos do glúten aos doentes celíacos. Inexistência de direito líquido e certo.
Denegação da segurança. [...] 3. As normas de proteção e defesa do consumidor têm índole de
“ordem pública e interesse social”. São, portanto, indisponíveis e inafastáveis, pois resguardam
valores básicos e fundamentais da ordem jurídica do Estado Social; daí a impossibilidade de o
consumidor delas abrir mão ex ante e no atacado. 4. O ponto de partida do CDC é a afirmação do
Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor, mecanismo que visa a garantir igualdade formal-
material aos sujeitos da relação jurídica de consumo, o que não quer dizer compactuar com exageros
que, sem utilidade real, obstem o progresso tecnológico, a circulação dos bens de consumo e a
própria lucratividade dos negócios. 5. O direito à informação, abrigado expressamente pelo art. 5º,
XIV, da Constituição Federal, é uma das formas de expressão concreta do Princípio da
Transparência, sendo também corolário do Princípio da Boa-Fé Objetiva e do Princípio da
Confiança, todos abraçados pelo CDC. 6. No âmbito da proteção à vida e saúde do consumidor, o
direito à informação é manifestação autônoma da obrigação de segurança. 7. Entre os direitos
básicos do consumidor, previstos no CDC, inclui-se exatamente a “informação adequada e clara
sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características,
composição, qualidade e preço, bem como sobre os riscos que apresentem” (art. 6º, III). 8.
Informação adequada, nos termos do art. 6º, III, do CDC, é aquela que se apresenta simultaneamente
completa, gratuita e útil, vedada, neste último caso, a diluição da comunicação efetivamente
relevante pelo uso de informações soltas, redundantes ou destituídas de qualquer serventia para o
consumidor. 9. Nas práticas comerciais, instrumento que por excelência viabiliza a circulação de
bens de consumo, “a oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações
corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades,
quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como
sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores” (art. 31 do CDC). 10. A
informação deve ser correta (= verdadeira), clara (= de fácil entendimento), precisa (= não prolixa
ou escassa), ostensiva (= de fácil constatação ou percepção) e, por óbvio, em língua portuguesa. 11.
A obrigação de informação é desdobrada pelo art. 31 do CDC, em quatro categorias principais,
imbricadas entre si: a) informação-conteúdo (= características intrínsecas do produto e serviço), b)
informação-utilização (= como se usa o produto ou serviço), c) informação-preço (= custo, formas e
condições de pagamento), e d) informação-advertência (= riscos do produto ou serviço). 12. A
obrigação de informação exige comportamento positivo, pois o CDC rejeita tanto a regra do caveat
emptor como a subinformação, o que transmuda o silêncio total ou parcial do fornecedor em
patologia repreensível, relevante apenas em desfavor do profissional, inclusive como oferta e
publicidade enganosa por omissão. [...] 15. O CDC estatui uma obrigação geral de informação (=
comum, ordinária ou primária), enquanto outras leis, específicas para certos setores (como a Lei n.
10.674/2003), dispõem sobre obrigação especial de informação (= secundária, derivada ou tópica).
Esta, por ter um caráter mínimo, não isenta os profissionais de cumprirem aquela. 16. Embora toda
advertência seja informação, nem toda informação é advertência. Quem informa nem sempre adverte.
17. No campo da saúde e da segurança do consumidor (e com maior razão quanto a alimentos e
medicamentos), em que as normas de proteção devem ser interpretadas com maior rigor, por conta
dos bens jurídicos em questão, seria um despropósito falar em dever de informar baseado no homo
medius ou na generalidade dos consumidores, o que levaria a informação a não atingir quem mais
dela precisa, pois os que padecem de enfermidades ou de necessidades especiais são frequentemente
a minoria no amplo universo dos consumidores. 18. Ao Estado Social importam não apenas os
vulneráveis, mas sobretudo os hipervulneráveis, pois são esses que, exatamente por serem
minoritários e amiúde discriminados ou ignorados, mais sofrem com a massificação do consumo e a
“pasteurização” das diferenças que caracterizam e enriquecem a sociedade moderna. [...] 21.
Existência de lacuna na Lei n. 10.674/2003, que tratou apenas da informação-conteúdo, o que leva à
aplicação do art. 31 do CDC, em processo de integração jurídica, de forma a obrigar o fornecedor a
estabelecer e divulgar, clara e inequivocamente, a conexão entre a presença de glúten e os doentes
celíacos. 22. Recurso Especial parcialmente conhecido e, nessa parte, provido (REsp 586.316/MG,
Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 17-4-2007, DJe 19-3-2009).

Consumidor. Direito à informação. A questão posta no REsp cinge-se em saber se, a despeito de
existir regulamento classificando como “sem álcool” cervejas que possuem teor alcoólico inferior a
meio por cento em volume, seria dado à sociedade empresária recorrente comercializar seu produto,
possuidor de 0,30g/100g e 0,37g/100g de álcool em sua composição, fazendo constar do seu rótulo a
expressão “sem álcool”. A Turma negou provimento ao recurso, consignando que, independentemente
do fato de existir norma regulamentar que classifique como sendo “sem álcool” bebidas cujo teor
alcoólico seja inferior a 0,5% por volume, não se afigura plausível a pretensão da fornecedora de
levar ao mercado cerveja rotulada com a expressão “sem álcool”, quando essa substância encontra-
se presente no produto. Ao assim proceder, estaria ela induzindo o consumidor a erro e,
eventualmente, levando-o ao uso de substância que acreditava inexistente na composição do produto
e pode revelar-se potencialmente lesiva à sua saúde. Dessarte, entendeu-se correto o tribunal a quo,
ao decidir que a comercialização de cerveja com teor alcoólico, ainda que inferior a 0,5% em cada
volume, com informação ao consumidor, no rótulo do produto, de que se trata de bebida sem álcool
vulnera o disposto nos arts. 6º e 9º do CDC ante o risco à saúde de pessoas impedidas do consumo
(REsp 1.181.066/RS, Rel. Min. Vasco Della Giustina [Desembargador convocado do TJRS], julgado
em 15-3-2011, ver Informativo n. 466).

Outra regra de proteção é a do art. 47, pois retrata o importante princípio da


interpretação mais favorável ao consumidor, pouco importando a natureza do contrato.
O art. 423 da norma civilista, ora estudado nesta obra, na teoria geral dos contratos está
em total sintonia com este, contudo esse último só poderá ser aplicado se o contrato for
de adesão. A Lei Consumerista:
Art. 47. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor.

De acordo com o dispositivo consumerista, o julgado do STJ:


Direito civil. Plano de saúde. Cláusula limitativa. Cirurgia bariátrica. Obesidade mórbida.
É abusiva a negativa do plano de saúde em cobrir as despesas de intervenção cirúrgica de
gastroplastia necessária à garantia da sobrevivência do segurado. A gastroplastia, indicada para o
tratamento da obesidade mórbida, bem como de outras doenças dela derivadas, constitui cirurgia
essencial à preservação da vida e da saúde do paciente segurado, não se confundindo com simples
tratamento para emagrecimento. Os contratos de seguro-saúde são contratos de consumo submetidos
a cláusulas contratuais gerais, ocorrendo a sua aceitação por simples adesão pelo segurado. Nesses
contratos, as cláusulas seguem as regras de interpretação dos negócios jurídicos estandardizados, ou
seja, existindo cláusulas ambíguas ou contraditórias, deve ser aplicada a interpretação mais
favorável ao aderente, conforme o art. 47 do CDC. Assim, a cláusula contratual de exclusão da
cobertura securitária para casos de tratamento estético de emagrecimento prevista no contrato de
seguro-saúde não abrange a cirurgia para tratamento de obesidade mórbida (Precedentes citados:
REsp 1.175.616/MT, DJe 4-3-2011; AgRg no AREsp 52.420/MG, DJe 12-12-2011; REsp
311.509/SP, DJ 25-6-2001, e REsp 735.750/SP, DJe 16-2-2012. REsp 1.249.701/SC, Rel. Min.
Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 4-12-2012, ver Informativo n. 511).
Direito civil e do consumidor. Necessidade de interpretação de cláusula de contrato de seguro de
saúde da forma mais favorável à parte aderente.
No caso em que o contrato de seguro de saúde preveja automática cobertura para determinadas
lesões que acometam o filho de “segurada” nascido durante a vigência do pacto, deve ser
garantida a referida cobertura, não apenas ao filho da “segurada titular”, mas também ao filho
de “segurada dependente”. Tratando-se, nessa hipótese, de relação de consumo instrumentalizada
por contrato de adesão, as cláusulas contratuais, redigidas pela própria seguradora, devem ser
interpretadas da forma mais favorável à outra parte, que figura como consumidora aderente, de
acordo com o que dispõe o art. 47 do CDC. Assim, deve-se entender que a expressão “segurada”
abrange também a “segurada dependente”, não se restringindo à “segurada titular”. Com efeito, caso
a seguradora pretendesse restringir o campo de abrangência da cláusula contratual, haveria de
especificar ser esta aplicável apenas à titular do seguro contratado (REsp 1.133.338/SP, Rel. Min.
Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 2-4-2013, ver Informativo n. 520).
O art. 48 do CDC reza que as declarações de vontade constantes de escritos
particulares, recibos e pré-contratos relativos às relações de consumo vinculam o
fornecedor, ensejando inclusive execução específica, nos termos do art. 84 e seus
parágrafos. Segue o art. 84 da Lei de Proteção ao Consumidor:
Art. 84. Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer ou não fazer, o juiz
concederá a tutela específica da obrigação ou determinará providências que assegurem o resultado
prático equivalente ao do adimplemento.
§ 1º A conversão da obrigação em perdas e danos somente será admissível se por elas optar o autor
ou se impossível a tutela específica ou a obtenção do resultado prático correspondente.
§ 2º A indenização por perdas e danos se fará sem prejuízo da multa.
§ 3º Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do
provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou após justificação prévia, citado o
réu.
§ 4º O juiz poderá, na hipótese do § 3º ou na sentença, impor multa diária ao réu, independentemente
de pedido do autor, se for suficiente ou compatível com a obrigação, fixando prazo razoável para o
cumprimento do preceito.
§ 5º Para a tutela específica ou para a obtenção do resultado prático equivalente, poderá o juiz
determinar as medidas necessárias, tais como busca e apreensão, remoção de coisas e pessoas,
desfazimento de obra, impedimento de atividade nociva, além de requisição de força policial.

12.1. Direito de arrependimento

O direito de arrependimento veio estampado no art. 49 da norma e trata-se de um


direito potestativo do consumidor. A lei apresenta um prazo de 7 dias para ele refletir se
deseja ou não ficar com o produto ou serviço, independentemente de este mostrar vício
ou não. Tal direito somente poderá ser exercido se a compra tiver sido realizada fora do
estabelecimento empresarial. Uma vez exercido o arrependimento, o consumidor terá o
direito de reaver imediatamente tudo o que pagou monetariamente atualizado. Esse é o
sentido da Lei Consumerista no art. 49:
Art. 49. O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar de sua assinatura ou do
ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e
serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio.
Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento previsto neste artigo, os
valores eventualmente pagos, a qualquer título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de
imediato, monetariamente atualizados.

Veja o seguinte julgado:


Direito do consumidor. Aplicação de multa a fornecedor em razão do repasse aos consumidores
dos valores decorrentes do exercício do direito de arrependimento.
O Procon pode aplicar multa a fornecedor em razão do repasse aos consumidores, efetivado com
base em cláusula contratual, do ônus de arcar com as despesas postais decorrentes do exercício
do direito de arrependimento previsto no art. 49 do CDC. De acordo com o caput do referido
dispositivo legal, o consumidor pode desistir do contrato, no prazo de sete dias a contar de sua
assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de
fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por
telefone ou a domicílio. O parágrafo único do art. 49 do CDC, por sua vez, especifica que o
consumidor, ao exercer o referido direito de arrependimento, terá de volta, imediatamente e
monetariamente atualizados, todos os valores eventualmente pagos, a qualquer título, durante o prazo
de reflexão – período de sete dias contido no caput do art. 49 do CDC –, entendendo-se incluídos
nestes valores todas as despesas decorrentes da utilização do serviço postal para a devolução do
produto, quantia esta que não pode ser repassada ao consumidor. Aceitar o contrário significaria
criar limitação ao direito de arrependimento legalmente não prevista, de modo a desestimular o
comércio fora do estabelecimento, tão comum nos dias atuais. Deve-se considerar, ademais, o fato de
que eventuais prejuízos enfrentados pelo fornecedor nesse tipo de contratação são inerentes à
modalidade de venda agressiva fora do estabelecimento comercial (pela internet, por telefone ou a
domicílio). REsp 1.340.604-RJ, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 15-8-2013 (ver
Informativo n. 528).
12.2. Da garantia contratual

De acordo com o art. 50 da legislação em estudo, a garantia contratual é


complementar à legal e será conferida mediante termo escrito. O termo de garantia ou
equivalente deve ser padronizado e esclarecer, de maneira adequada, em que ela consiste,
bem como a forma, o prazo e o lugar em que pode ser exercitada e os ônus a cargo do
consumidor, devendo ser-lhe entregue, devidamente preenchido pelo fornecedor, no ato
do fornecimento, acompanhado de manual de instrução, de instalação e uso do produto
em linguagem didática, com ilustrações.
O texto do art. 24 diz que a garantia legal de adequação do produto ou serviço
independe de termo expresso, vedada a exoneração contratual do fornecedor.
A garantia legal supracitada deverá respeitar os prazos do art. 26 anteriormente
analisado.
O STJ possui o seguinte entendimento: deve-se contar inicialmente com a garantia
contratual e, finda esta, com a legal. Exemplo: Uma determinada pessoa comprou um
computador e o fabricante concedeu um ano de seguro. Por se tratar de bem durável, a
garantia legal do produto será de 90 dias. Dessarte, esse consumidor somará os prazos,
contando inicialmente a garantia contratual de um e depois os 90 dias da lei do CDC.
De acordo com o supradisposto, o entendimento do STJ:

Garantia = Garantia Contratual + Garantia Legal.

Indenização. Código de Defesa do Consumidor. Garantia contratual. O recorrente adquiriu um


automóvel utilitário (zero quilômetro), mas, quando da retirada, logo notou pontos de corrosão na
carroceria. Reclamou 11 meses depois; contudo, apesar da realização de vários reparos pela
concessionária, a corrosão alastrou-se por grande parte do veículo, o que levou ao ajuizamento da
ação de indenização por danos morais e materiais em desfavor da concessionária e da montadora.
No caso, está-se diante de vício de inadequação (art. 12 do Código de Defesa do Consumidor), pois
as imperfeições apresentadas no produto impediram que o recorrente o utilizasse da forma esperada,
porém sem colocar em risco sua segurança ou a de terceiros; daí que, se tratando de bem durável e
de vício de fácil percepção, impõe aplicar-se o prazo decadencial de 90 dias para deduzir a
reclamação, contado, em regra, da entrega efetiva do bem (art. 26, § 1º, do mesmo Código). Sucede
que existe a peculiaridade de que a montadora concedera ao veículo a garantia (contratual) de um
ano, que é complementar à legal (art. 50 da citada legislação). Diferentemente da garantia legal, a lei
não fixou prazo de reclamação para a garantia contratual, todavia a interpretação teleológica e
sistemática do Código de Defesa do Consumidor permite estender à garantia contratual os mesmos
prazos de reclamação referentes à garantia legal, a impor que, no caso, após o término da garantia
contratual, o consumidor tinha 90 dias (bem durável) para reclamar do vício de inadequação, o que
não foi extrapolado. Destarte, a Turma, ao renovar o julgamento, aderiu, por maioria, a esse
entendimento. O voto vencido não conhecia do especial por falta de prequestionamento (Precedentes
citados: REsp 442.368/MT, DJ 14-2-2005; REsp 575.469/RJ, DJ 6-12-2004; e REsp 114.473/RJ,
DJ 5-5-1997. REsp 967.623/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 16-4-2009, ver Informativo
n. 390).

Direito do consumidor. Recurso especial. Art. 177 do Código Civil de 1916. Ausência de
prequestionamento. Súmula 356 do STF. Indenização. Sementes de algodão de qualidade inferior.
Vício de qualidade de produto não durável. Prazo para o ajuizamento da ação indenizatória. Art.
26, I, da Lei n. 8.078/90. Início da contagem. Vício oculto. Momento em que evidenciado. Art. 26,
§ 3º, da Lei n. 8.078/90. Decadência mantida. Dissídio pretoriano não comprovado. [...] 2. Não
enseja interposição de Recurso Especial matéria (art. 177 do Código Civil de 1916) não ventilada
no v. julgado atacado e sobre a qual a parte não opôs os Embargos Declaratórios competentes,
estando ausente o prequestionamento. Aplicação da Súmula 356 do STF. 3. Baseando-se o pedido de
indenização na ocorrência de vício de qualidade de produto não durável (entrega de sementes de
algodão de qualidade inferior à contratada), o prazo decadencial para o ajuizamento da ação é o
previsto no art. 26, I, da Lei n. 8.078/90. Tratando-se de vício oculto, porquanto na aquisição das
sementes, ele não era detectável, a contagem do prazo iniciou-se no momento em que aquele se
tornou evidente para o consumidor, nos termos do art. 26, § 3º, da Lei n. 8.078/90. Logo, o prazo já
havia se escoado, há nove meses, quando da propositura da presente ação. Ademais, o prazo
prescricional estabelecido no art. 27 do mesmo diploma legal somente se refere à responsabilidade
pelo fato do produto (defeito relativo à falha na segurança), em caso de pretensão à reparação de
danos. 4. Precedentes (REsp 114.473/RJ, 258.643/RR). 5. Recurso não conhecido (REsp
442.368/MT, Rel. Min. Jorge Scartezzini, Quarta Turma, julgado em 5-10-2004, DJ 14-2-2005, p.
208).
12.3. Cláusulas abusivas

O rol do art. 51 do CDC é exemplificativo, ou seja, numerus apertus. Serão declaradas


nulas de pleno direito as cláusulas que contrariem as normas estabelecidas na Lei de
Proteção ao Consumidor. Nesse sentido, por tratar o CDC de norma de ordem pública,
qualquer cláusula que contrariá-lo poderá ser decretada de ofício pelo magistrado, porém
não é esse o entendimento do STJ, conforme analisado no início desta obra.
Adiante será abordada uma lista proposta pela lei.

12.3.1. Da cláusula de não indenizar

Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de
produtos e serviços que:
I – impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer
natureza dos produtos e serviços ou impliquem renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de
consumo entre o fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a indenização poderá ser limitada, em
situações justificáveis.

Desse ponto de vista, qualquer cláusula inserida em um contrato de consumo será


considerada nula de pleno direito. Em reforço ao exposto, atente-se para o art. 25 da Lei
de Proteção ao Consumidor:
Art. 25. É vedada a estipulação contratual de cláusula que impossibilite, exonere ou atenue a
obrigação de indenizar prevista nesta e nas seções anteriores.

Vale ressaltar a importante súmula do STJ que faz cair por terra os dizeres clássicos dos
estacionamentos de shoppings:
Súmula 130. A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo
ocorridos em seu estacionamento.

12.3.2. Impedimento de reembolso

Art. 51. [...]


II – subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos casos previstos neste
Código.

Imagine que o consumidor venha a comprar algum produto pela internet e exerça o seu
arrependimento. Caso a fornecedora do produto estabeleça o impedimento do reembolso,
a cláusula será nula de pleno direito.

12.3.3. Transferência da responsabilidade a terceiros

Art. 51. [...]


III – transfiram responsabilidades a terceiros.

A transferência de responsabilidade a terceiros é uma prática muito comum no


cotidiano do consumidor. Operadoras e agências de turismo costumam transferir a sua
responsabilidade para hotéis e pousadas quando ocorre algum tipo de dano. Outro
exemplo muito recorrente diz respeito às empresas de móveis planejados, nesse caso uma
pessoa adquire o armário de sua cozinha em determinado estabelecimento que usa o
nome de uma grande marca. Esse estabelecimento encerra a atividade empresarial e o
consumidor, ao pedir apoio da grande marca, é surpreendido com a seguinte resposta: “A
responsabilidade é daquele que lhe vendeu o produto e não nossa”. Como assim? –
questiona o consumidor. Um estabelecimento usa o nome da grande marca e ele fatura
com isso, mas na hora de assumir a responsabilidade diz que não pode! Tais casos são
comuns, mas o Judiciário vem trabalhando bastante nesse sentido.

12.3.4. As cláusulas iníquas e abusivas que ferem a equidade e a boa-fé

Art. 51. [...]


IV – estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em
desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade.
É importante enfatizar Súmula 302 do STJ que considera abusiva a cláusula que
estabelece período de tempo de internação. Clara fica a quebra da boa-fé e da justiça ao
caso concreto.
Súmula 302. É abusiva a cláusula contratual de plano de saúde que limita no tempo a internação
hospitalar do segurado.

Mencionamos ainda o enunciado da Súmula 543 do STJ, dispondo que:


Na hipótese de resolução de contrato de promessa de compra e venda de imóvel submetido ao
Código de Defesa do Consumidor, deve ocorrer a imediata restituição das parcelas pagas pelo
promitente comprador – integralmente, em caso de culpa exclusiva do promitente
vendedor/construtor, ou parcialmente, caso tenha sido o comprador quem deu causa ao desfazimento.

12.3.5. Inversão do ônus da prova

Art. 51. [...]


VI – estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor.

As modalidades de inversão do ônus da prova já foram estudadas em item anterior. Por


isso, se esta for a favor do fornecedor, será considerada nula de pleno direito.

12.3.6. Utilização compulsória de arbitragem

Art. 51. [...]


VII – determinem a utilização compulsória de arbitragem.

A Lei n. 9.307/96, que fala da arbitragem, tem como objetivo desafogar o Judiciário e
solucionar o quanto antes os conflitos; no entanto, a sua estipulação compulsória veda o
acesso ao Poder Judiciário, considerando sua cláusula abusiva.
Sobre a matéria, importa mencionar o seguinte julgado:
Direito processual civil e do consumidor. Convenção de arbitragem. Nulidade da cláusula.
É nula a cláusula que determine a utilização compulsória da arbitragem em contrato que envolva
relação de consumo, ainda que de compra e venda de imóvel, salvo se houver posterior
concordância de ambas as partes. A Lei de Arbitragem dispõe que a pactuação do compromisso e da
cláusula arbitral constitui hipótese de extinção do processo sem julgamento do mérito, obrigando a
observância da arbitragem quando pactuada pelas partes com derrogação da jurisdição estatal.
Tratando-se de contratos de adesão genéricos, a mencionada lei restringe a eficácia da cláusula
compromissória, permitindo-a na hipótese em que o aderente tome a iniciativa de instituir a
arbitragem ou de concordar expressamente com a sua instituição (art. 4º, § 2º, da Lei n. 9.307/96). O
art. 51, VII, do CDC estabelece serem nulas as cláusulas contratuais que determinem a utilização
compulsória da arbitragem. Porém, o CDC veda apenas a adoção prévia e compulsória da
arbitragem no momento da celebração do contrato, mas não impede que, posteriormente, diante de
eventual litígio, havendo consenso entre as partes (em especial a aquiescência do consumidor), seja
instaurado o procedimento arbitral. Portanto, não há conflito entre as regras dos arts. 51, VII, do
CDC e 4º, § 2º, da Lei n. 9.307/96; pois, havendo contrato de adesão que regule uma relação de
consumo, deve-se aplicar a regra específica do CDC, inclusive nos contratos de compra e venda de
imóvel. Assim, o ajuizamento da ação judicial evidencia, ainda que de forma implícita, a
discordância do autor em se submeter ao procedimento arbitral (Precedente citado: REsp
819.519/PE, DJ 5-11-2007. REsp 1.169.841/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 6-11-2012,
ver Informativo n. 508).

12.3.7. Imposição de representante

Art. 51. [...]


VIII – imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico pelo consumidor.

Bastante conhecida como cláusula-mandato e muito comum nos contratos bancários.


Nesse tipo de cláusula, o consumidor nomeia o banco como o seu próprio procurador,
para que ele possa realizar negócios em seu nome, como, por exemplo, contrair um
empréstimo.

12.3.8. Opção de conclusão do negócio

Art. 51. [...]


IX – deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, embora obrigando o consumidor.
Esta fere a função social do contrato, que objetiva o equilíbrio entre as partes. Uma vez
ofertado o produto ou o serviço pelo fornecedor, poderá o consumidor exigir o
cumprimento forçado, como visto no tópico de oferta.

12.3.9. Variação do preço de maneira unilateral

Art. 51. [...]


X – permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de maneira unilateral.

É inválida a cláusula que estabelece a possibilidade de o fornecedor alterar


unilateralmente o preço. A comissão de permanência, se calculada por índices fixados
pelo credor, será considerada abusiva, de acordo com a orientação do STJ.

12.3.10. Cancelamento unilateral do contrato

Art. 51. [...]


XI – autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que igual direito seja
conferido ao consumidor.

O cancelamento unilateral do contrato fere a sua função social, sendo considerada nula
a cláusula contratual de seguro que prevê o cancelamento automático em caso de atraso
no pagamento do prêmio.

12.3.11. Ressarcimento de custos

Art. 51. [...]


XII – obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação, sem que igual
direito lhe seja conferido contra o fornecedor.

A exigência do pagamento dos honorários advocatícios é muito comum nos contratos


de consumo, sem a ocorrência de uma propositura de ação no caso de atraso no
pagamento por parte do consumidor.

12.3.12. Alteração unilateral do contrato

Art. 51. [...]


XIII – autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a qualidade do contrato,
após sua celebração.

Qualquer tipo de alteração contratual deverá ser pactuado pelas partes, sob pena de
ferimento da função social endógena do contrato 48.
12.3.13. Violação das normas ambientais

Art. 51. [...]


XIV – infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais.
A lei visa à proteção ao meio ambiente, direito esse assegurado pela nossa CF/88 no
seu art. 225. Vale lembrar que o contrato, além de mostrar uma função social endógena
(interna), também traz a exógena, que protege interesses metaindividuais.

12.3.14. Cláusula contrária ao sistema de proteção ao consumidor

Art. 51. [...]


XV – estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor.

O objetivo da lei é afastar literalmente qualquer cláusula que contrarie uma norma de
proteção ao consumidor. Como exemplo, pode ser citada a cláusula de eleição de foro
que gera grande prejuízo àquele que é o elo mais fraco na relação de consumo.

12.3.15. Renúncia à indenização por benfeitorias necessárias

Deve ser estudado o disposto na parte geral desta obra no tópico das benfeitorias. Esse
assunto é narrado pelo Código Civil em seu art. 96. Dessa forma, qualquer tipo de
cláusula que afaste esse direito será considerada nula. Exemplo: O aluguel de bicicleta em
determinada cidade turística. O consumidor sai com a bicicleta e percebe o pneu um
pouco vazio, mas continua a pedalar com os seus amigos. Logo, o pneu fica
completamente vazio e ele está em frente a uma borracharia. Então, se dirige a ela e
conserta o pneu. Chegando ao estabelecimento, o qual ele alugou a bicicleta, pede o
ressarcimento do contrato e é surpreendido com a resposta de que esse tipo de benfeitoria
não é possível. Diante dessa situação, cabe a seguinte conclusão: trata-se de uma
benfeitoria necessária e a resposta exibida pela empresa fundamentada em cláusula
contratual será tida como abusiva.

ATENÇÃO!
Destacamos o § 1º do art. 51 do CDC:
Art. 51. [...]
§ 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vontade que:
I – ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II – restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual;
III – se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras
circunstâncias peculiares ao caso.

12.3.16. A conservação dos contratos

É contemplado no § 2º do art. 51 o princípio da conservação dos contratos que guarda


total sintonia com a sua função social. Diz a Lei de Proteção ao Consumidor:
Art. 51. [...]
§ 2º A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato, exceto quando de sua
ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das partes.

12.3.17. Controle das cláusulas abusivas

Prevê o § 4º do art. 51 do CDC:


Art. 51. [...]
§ 4º É facultado a qualquer consumidor ou entidade que o represente requerer ao Ministério Público
que ajuíze a competente ação para ser declarada a nulidade de cláusula contratual que contrarie o
disposto neste código ou de qualquer forma não assegure o justo equilíbrio entre direitos e
obrigações das partes.

Os citados no art. 82 da Lei Consumerista podem ser somados como legitimados.


13. Dos contratos de concessão de crédito, financiamento e consórcio

O art. 52 da Lei de Proteção ao Consumidor menciona:


Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de crédito ou concessão de
financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá, entre outros requisitos, informá-lo prévia e
adequadamente sobre:
I – preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional;
II – montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros;
III – acréscimos legalmente previstos;
IV – número e periodicidade das prestações;
V – soma total a pagar, com e sem financiamento.
§ 1º As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações no seu termo não poderão ser
superiores a dois por cento do valor da prestação.
§ 2º É assegurado ao consumidor a liquidação antecipada do débito, total ou parcialmente, mediante
redução proporcional dos juros e demais acréscimos.

Alguns destaques devem ser adicionados ao art. 52 da norma consumerista. O primeiro


deles é o da Lei n. 8.880/94 que proíbe a contratação e o reajuste de prestações baseados
em moeda estrangeira, exceto nos contratos de leasing. Tal regra é fundamentada no
princípio do nominalismo expresso no art. 315 do CC. A sua não observação acarretará a
nulidade do contrato, conforme a leitura do art. 318 dessa lei. O segundo refere-se a
algumas súmulas do STJ e do STF. Atente-se:
Súmula 283. As empresas administradoras de cartão de crédito são instituições financeiras e, por
isso, os juros remuneratórios por elas cobrados não sofrem as limitações da Lei de Usura.
Súmula 285. Nos contratos bancários posteriores ao Código de Defesa do Consumidor incide a
multa moratória nele prevista.
Súmula 287. A Taxa Básica Financeira (TBF) não pode ser utilizada como indexador de correção
monetária nos contratos bancários.
Súmula 288. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) pode ser utilizada como indexador de correção
monetária nos contratos bancários.
Súmula 294. Não é potestativa a cláusula contratual que prevê a comissão de permanência, calculada
pela taxa média de mercado apurada pelo Banco Central do Brasil, limitada à taxa do contrato.
Súmula 295. A Taxa Referencial (TR) é indexador válido para contratos posteriores à Lei n.
8.177/91, desde que pactuada.
Súmula 296. Os juros remuneratórios, não cumuláveis com a comissão de permanência, são devidos
no período de inadimplência, à taxa média de mercado estipulada pelo Banco Central do Brasil,
limitada ao percentual contratado.
Súmula 379. Nos contratos bancários não regidos por legislação específica, os juros moratórios
poderão ser convencionados até o limite de 1% ao mês.
Súmula 382. A estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica
abusividade.
Súmula 422. O art. 6º, e, da Lei n. 4.380/64 não estabelece limitação aos juros remuneratórios nos
contratos vinculados ao SFH.
Súmula 454. Pactuada a correção monetária nos contratos do SFH pelo mesmo índice aplicável à
caderneta de poupança, incide a taxa referencial (TR) a partir da vigência da Lei n. 8.177/91.
Súmula 596 do STF. As disposições do Decreto n. 22.626 de 1933 não se aplicam às taxas de juros e
aos outros encargos cobrados nas operações realizadas por instituições públicas ou privadas, que
integram o sistema financeiro nacional.

14. A compra e venda de imóveis e móveis

Reza o art. 53 da Lei de Proteção ao Consumidor:


Art. 53. Nos contratos de compra e venda de móveis ou imóveis mediante pagamento em prestações,
bem como nas alienações fiduciárias em garantia, consideram-se nulas de pleno direito as cláusulas
que estabeleçam a perda total das prestações pagas em benefício do credor que, em razão do
inadimplemento, pleitear a resolução do contrato e a retomada do produto alienado.
§ 1º (Vetado).
§ 2º Nos contratos do sistema de consórcio de produtos duráveis, a compensação ou a restituição das
parcelas quitadas, na forma deste artigo, terá descontada, além da vantagem econômica auferida com
a fruição, os prejuízos que o desistente ou inadimplente causar ao grupo.
§ 3º Os contratos de que trata o caput deste art. serão expressos em moeda corrente nacional.

Inicialmente deve-se dar ênfase para a cláusula de decaimento, isto é, aquela que
prevê a perda total das parcelas. Fica evidente que todo o contrato que busca tal
ocorrência ferirá a função social e a boa-fé objetiva. A cláusula só se torna abusiva
quando prevê o perdimento da totalidade, não sendo assim considerada quando o
perdimento for parcial. Recentemente a Terceira Turma do STJ manteve, por
unanimidade, a decisão que considerou abusiva cláusula de contrato de compra de imóvel
comercializado por empresa, que previa a retenção de 30% dos valores pagos em caso de
desistência do negócio). O julgado do Informativo n. 392 do STJ aborda o tema:
Promessa. Compra. Venda. Valores pagos. Devolução.
A recorrente argumenta não haver qualquer ilegalidade na cláusula inserta em contrato de promessa
de compra e venda de imóvel que prevê, para o caso de inadimplemento contratual, a retenção de
30% dos valores até então pagos pela recorrida promitente compradora. Afirma, outrossim, que a
legalidade da referida cláusula tem respaldo, ainda, na possibilidade de a parte que não deu causa à
rescisão da avença reter o montante dado a título de arras. Porém o Ministro relator destacou que a
2ª Seção deste Superior Tribunal já decidiu que o promitente comprador, por motivo de dificuldade
financeira, pode ajui​zar ação de rescisão contratual, objetivando, também, reaver o reembolso dos
valores vertidos. As arras, quando confirmatórias, constituem um pacto anexo cuja finalidade é a
entrega de algum bem (em geral, determinada soma em dinheiro), para assegurar ou confirmar a
obrigação principal assumida e, de igual modo, para garantir o exercício do direito de desistência.
Por ocasião da rescisão contratual, o valor dado a título de sinal (arras) deve ser restituído ao reus
debendi, sob pena de enriquecimento ilícito. O art. 53 do Código de Defesa do Consumidor não
revogou o disposto no art. 1.097 do Código Civil de 1916 (atual art. 418 do Código Civil de 2002),
ao contrário, apenas positivou, na ordem jurídica, o princípio consubstanciado na vedação do
enriquecimento ilícito. Portanto, não é de admitir-se a retenção total do sinal dado ao promitente
vendedor. Assim, segundo a exegese do art. 418 do Código Civil de 2002 c/c o art. 53 do Código de
Defesa do Consumidor, o percentual a ser devolvido tem como base de cálculo todo o montante
vertido pelo promitente comprador, nele se incluindo as parcelas propriamente ditas e as arras. É
inviável alterar o percentual da retenção quando, das peculiaridades do caso concreto, tal montante
afigura-se razoavelmente fixado. In casu, o imóvel objeto da avença sequer foi ocupado, porquanto o
bem não foi ao menos entregue. Desse modo, na espécie, não há que se admitir a majoração do
percentual nos termos em que fixados pelas instâncias ordinárias, de 10% sobre todos os valores
pagos (Precedentes citados: EREsp 59.870/SP, DJ 9-12-2002; REsp 355.818/MG, DJ 13-10-2003;
REsp 476.775/MG, DJ 4-8-2003; e REsp 896.246/RJ, DJ 15-10-2007. REsp 1.056.704/MA, Rel.
Min. Massami Uyeda, julgado em 28-4-2009, ver Informativo n. 392).
Nos casos em que o negócio tiver sido quase todo cumprido, ou seja, que tenha
ocorrido um inadimplemento mínimo, não caberá a sua extinção. Trata-se da teoria do
adimplemento substancial ou substancial performance. Nesse sentido, a IV Jornada de
Direito Civil no Enunciado n. 361:
Arts. 421, 422 e 475. O adimplemento substancial decorre dos princípios gerais contratuais, de
modo a fazer preponderar a função social do contrato e o princípio da boa-fé objetiva, balizando a
aplicação do art. 475.
Com relação aos consórcios, poderão ser descontadas a taxa de administração e a
vantagem recebida pelo uso do bem nas parcelas pagas. É de suma importância frisar que
o consumidor não terá direito a receber nada, caso o bem apreendido seja alienado e o
seu valor não cubra o débito. Por último, mais uma vez prevê a lei o princípio do
nominalismo, que exige o uso da moeda nacional, sob pena de ser nulo o contrato.

15. Dos contratos de adesão

Pode-se afirmar que 99,9% dos contratos realizados no nosso cotidiano são de adesão.
Mas o que é um contrato de adesão? Responde o CDC em seu art. 54:
Art. 54. Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade
competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços, sem que o
consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo.

Se for inserida alguma cláusula no contrato, será afastado o seu caráter de adesão?
A própria Lei Consumerista em seu § 1º do art. 54 responde a essa indagação. Avalie:
Art. 54. [...]
§ 1º A inserção de cláusula no formulário não desfigura a natureza de adesão do contrato.
A cláusula resolutória é narrada no § 2º do artigo em comento salientando:
Art. 54. [...]
§ 2º Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde que alternativa, cabendo a
escolha ao consumidor, ressalvando-se o disposto no § 2º do artigo anterior.

Vale dizer que essa ressalva feita pela lei se refere ao consórcio.
Mais uma vez visando à aplicação da transparência e protegendo aquele que é o elo
mais fraco na relação de consumo, isto é, o consumidor, a norma consumerista prevê
ainda no referido artigo:
Art. 54. [...]
§ 3º Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com caracteres ostensivos e
legíveis, cujo tamanho da fonte não será inferior ao corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão
pelo consumidor.
§ 4º As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão ser redigidas com
destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão.

Adquirido por : Franklin Carter Lopes De Freitas


Telefone: 8899762640
E-mail: franklinufc@hotmail.com
PARTE II

1. Microssistema de tutela coletiva

Esta parte do Código de Defesa do Consumidor, dedicada à defesa do consumidor em


juízo, é uma das bases do processo coletivo brasileiro, e, portanto, não pode ser estudada
sem as outras leis que falam do mesmo tema.

ATENÇÃO!
Ler também:
Constituição Federal;
Lei de Ação Civil Pública (Lei n. 7.347/85);
Lei da Ação Popular (Lei n. 4.717/65);
Lei de Improbidade Administrativa (Lei n. 8.429/92);
Estatuto da Criança e do Adolescente;
Estatuto do Idoso;
e outras leis que serão mencionadas nestes comentários.

Como no Brasil não existe ainda um Código de Processo Civil Coletivo, as normas
processuais aplicáveis aos processos coletivos estão espalhadas pelas leis
supramencionadas, mas na omissão delas é preciso socorrer-se no Novo Código de
Processo Civil – doravante NCPC. É o que a doutrina e a jurisprudência chamam de
“microssistema de tutela coletiva”.
De acordo com autorizada doutrina:
É simplesmente um conjunto sistemático de normas, com peculiaridades, destinadas a fazer frente às
adversidades inerentes à defesa dos interesses transindividuais em juízo, valendo-se complementar e
subsidiariamente dos institutos e regras do processo civil clássico. Fornece meios de tutela
adequados às particularidades das relações da vida tuteladas, que são de cunho coletivo. A
totalidade destas normas acaba realmente formando um conjunto normativo que interage e se
complementa, fornecendo a mais completa regulamentação para o trato jurisdicional das questões de
índole coletiva 49.
Sobre a matéria apresentamos os seguintes julgados:
É que a Carta de 1988, ao evidenciar a importância da cidadania no controle dos atos da
administração, com a eleição dos valores imateriais do art. 37, da CF como tuteláveis judicialmente,
coadjuvados por uma série de instrumentos processuais de defesa dos interesses transindividuais,
criou um microssistema de tutela de interesses difusos referentes à probidade da administração
pública, nele encartando-se a Ação Popular, a Ação Civil Pública e o Mandado de Segurança
Coletivo, como instrumentos concorrentes na defesa desses direitos eclipsados por cláusulas pétreas
(STJ, AgRg no REsp 752.190/RS, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 10-10-2006, DJ
13-11-2006, p. 231).
1. Os arts. 21 da Lei da Ação Civil Pública e 90 do CDC, como normas de envio, possibilitaram o
surgimento do denominado Microssistema ou Minissistema de proteção dos interesses ou direitos
coletivos amplo senso, no qual se comunicam outras normas, como o Estatuto do Idoso e o da
Criança e do Adolescente, a Lei da Ação Popular, a Lei de Improbidade Administrativa e outras que
visam tutelar direitos dessa natureza, de forma que os instrumentos e institutos podem ser utilizados
para “propiciar sua adequada e efetiva tutela” (art. 83 do CDC) (STJ, REsp 1.221.254/RJ, Rel. Min.
Arnaldo Esteves Lima, Primeira Turma, julgado em 5-6-2012, DJe 13-6-2012).

Para responder às indagações do processo coletivo, é preciso ir ao microssistema,


sendo o NCPC norma subsidiária, porque como é um Código elaborado especificamente
para o processo individual, a sua aplicação direta ao processo coletivo é inadequada.
Vale observar, especificamente sobre o CDC, que não é vedada a aplicação do NCPC,
ela é apenas subsidiária, ou seja, pressupõe uma omissão nas normas do microssistema
para poder ser aplicado. Por todos:
Dada a fundamentalidade do direito do consumidor, curial que também a sua proteção jurisdicional
se mova dentro desse mesmo quadro de densidade normativa, aplicando-se-lhe as formas de tutela
jurisdicional e a maneira de trabalhar com essas que hoje se colocam no direito processual civil
comum. Indispensável, pois, o diálogo das fontes processuais para que se alcance às relações de
consumo também essa efetiva e adequada tutela jurisdicional 50.

ATENÇÃO!
A parte processual do CDC (coletiva) não se aplica apenas aos casos em que o direito material deduzido for consumerista, em razão da existência do
microssistema. Os dispositivos que comentamos nesta obra se aplicam às ações coletivas em geral, independentemente do direito material (ambiental,
saúde, patrimônio histórico e cultural etc.), a não ser que uma lei mais específica disponha em sentido contrário.
Regra: aplicação do CDC às demais ações coletivas.
Exemplo: a divisão tripartida dos direitos coletivos, contida no parágrafo único do art. 81, aplica-se a todo o direito coletivo, e não apenas ao
consumerista.

2. Processo individual e coletivo: quais as diferenças?


Considerando o princípio da instrumentalidade do processo, segundo o qual o
processo não é um fim em si próprio, mas um meio de realização do direito material
(constitucional ou infraconstitucional), temos que, quando o direito material deduzido em
juízo for individual, o processo que servirá de instrumento é o individual (Novo Código
de Processo Civil, basicamente), porém, quando o direito material for coletivo (trans,
meta ou supraindividual), o processo será o coletivo.
Assim sendo, temos que, para realmente servir ao direito material coletivo, alguns
institutos processuais precisam ser adaptados à nova realidade, tais como a legitimidade
ad causam e a coisa julgada.
Da Defesa do Consumidor em Juízo
Capítulo I Disposições Gerais
Da Defesa do Consumidor em Juízo
Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá ser exercida em
juízo individualmente, ou a título coletivo.

3. Acesso à Justiça

A expressão defesa aqui não está colocada em seu sentido restrito, de manifestação do
réu se opondo à pretensão do autor, mas sim de proteção, ou mesmo tutela. Poderíamos
então ler o dispositivo legal dessa forma: a proteção dos interesses e direitos dos
consumidores e das vítimas poderá ser exercida em juízo individualmente, ou a título
coletivo. Assim também prevê a Lei Maior, no art. 5º:
XXXII – o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor.
O dispositivo apenas reproduz, com outras palavras, o acesso à justiça garantido
constitucionalmente, também no art. 5º:
XXXV – a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito.
De acordo com a consagrada obra denominada Acesso à Justiça, de Mauro Cappelletti
e Byant Garth, acesso à justiça implica se ter um sistema
pelo qual as pessoas podem reivindicar seus direitos e/ou resolver seus litígios sob os auspícios do
Estado que, primeiro deve ser realmente acessível a todos; segundo, ele deve produzir resultados
que sejam individual e socialmente justos 51.
Esses autores produziram um trabalho – a obra supramencionada – sobre os obstáculos
do acesso à justiça, e propuseram formas de remover esses obstáculos, chamadas “ondas
renovatórias”, e nesse contexto três são as ondas, a saber:
Três ondas renovatórias:
1ª) assistência judiciária para os pobres;
2ª) representação dos interesses difusos; e
3ª) conjunto geral de instituições e mecanismos, pessoas e procedimentos utilizados
para processar e prevenir disputas nas sociedades modernas.
A primeira onda renovatória garante que o Estado não pode cobrar pelo serviço
jurisdicional daqueles que não podem pagar por esse serviço, de modo que são
essenciais:
a) Gratuidade de justiça:
CF, art. 5º, LXXIV – “o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem
insuficiência de recursos”.

b) Uma instituição pública, prevista constitucionalmente e mantida pelo Estado,


destinada a proporcionar na prática esse direito, que é a Defensoria Pública. Falamos da
Defensoria e da sua função de proteção aos consumidores quando comentamos o art. 82.
A segunda onda renovatória trata exatamente das demandas coletivas, cuja
importância foi muito bem destacada por Aluisio Mendes, considerando
a importância do processo coletivo como instrumento para que os anseios da coletividade, de
grupos, classes e categoria possam chegar ao Judiciário, de modo menos dispendioso e mais
econômico possível, ou seja, através das ações coletivas, propiciando, assim, um número menor de
processos, a isonomia em relação a todas as pessoas envolvidas e o equilíbrio entre as partes na
relação processual, resultados estes que poderiam não ocorrer se os conflitos chegassem à via
pulverizada e multiplicada dos litígios individuais 52.
Citamos o seguinte precedente do STJ:
O que caracteriza os interesses coletivos não é somente o fato de serem compartilhados por diversos
titulares individuais reunidos em uma mesma relação jurídica, mas também por a ordem jurídica
reconhecer a necessidade de que o seu acesso ao Judiciário seja feito de forma coletiva; o processo
coletivo deve ser exercido de uma só vez, em proveito de todo grupo lesado, evitando, assim, a
proliferação de ações com o mesmo objetivo e a prolação de diferentes decisões sobre o mesmo
conflito, o que conduz a uma solução mais eficaz para a lide coletiva (STJ, CC 109.435/PR, Rel.
Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Terceira Seção, julgado em 22-9-2010, DJe 15-12-2010).

Há de se destacar ainda que, mesmo com a gratuidade de justiça (ampliada mais ainda
com a instituição dos Juizados Especiais), existem pretensões que são, no plano
individual, tão pequenas que o custo-benefício de acessar o Judiciário não compensa.
Basta imaginar um dano aos consumidores de valor individual irrisório – R$ 1,00, por
exemplo – praticado por uma instituição financeira. Mesmo com gratuidade, o custo do
litígio não justificaria um processo, porque, certamente, no decorrer do processo –
mesmo com gratuidade, frise-se novamente – os gastos indiretos com esse processo não
compensam a sua existência. O autor ao longo do processo gastaria mais do que R$ 1,00
e, mesmo que experimentasse uma procedência total do seu pedido, sairia perdendo ao
final. Para “compensar” a ida à Justiça, teria de pedir uma indenização por dano moral,
que nem sempre se verifica.
Em casos assim pode-se ver que a proteção individual do consumidor não compensa,
porque o dano é irrisório, porém o lucro ilícito obtido pela instituição financeira pode ser
enorme, dependendo da quantidade de lesados. Nesse caso, somente a proteção de todos
os consumidores, coletivamente considerados, permitirá a reparação dessa lesão a direito.
Daí a importância da tutela coletiva do consumidor.
A doutrina ensina que:
a ação individual mostra-se inapropriada, do ponto de vista econômico, para se pretender uma tutela
jurisdicional adequada, bem como o autor individual vê-se intimidado diante da grandeza da parte
contrária em contraposição à sua pretensão diminuta.
Imagine-se os compradores de veículos que tenham um mesmo defeito de série, como, por exemplo,
ter sido entregues sem a luz de ré. Pois bem, pelo simples fato de ter comprado carros do mesmo
lote, produzidos com o mesmo defeito de série, surge uma situação de fato a ligá-los uns aos outros.
Individualmente talvez fosse até mais econômico se cada lesado comprasse a luz de ré em qualquer
loja de peças e, por si, providenciasse o reparo no veículo. A grande maioria, havendo resistência
por parte da concessionária em entregar a luz de ré, não “bateria às portas do Judiciário”,
principalmente em razão do valor envolvido e dos gastos que poderiam sofrer. Mesmo que um
consumidor, indignado com a atitude do fornecedor, resolvesse demandar em juízo, o reflexo
pedagógico sobre a empresa-ré seria praticamente nulo.
Nesse sentido é que a tutela dos litígios individuais, muitas vezes, faz-se mais satisfatória se
exercida coletivamente. Nessas situações, de violações a direitos produzidas em série e em massa,
recomenda-se a tutela jurisdicional coletiva 53.

A terceira onda renovatória busca a melhora do sistema processual, tornando-o mais


eficiente. Segundo Cappelletti e Garth:
encoraja a exploração de uma ampla variedade de reformas, incluindo alterações nas formas de
procedimento, mudanças na estrutura dos tribunais ou a criação de novos tribunais, o uso de pessoas
leigas ou paraprofissionais, tanto como juízes quanto como defensores, modificações no direito
substantivo destinadas a evitar litígios ou facilitar sua solução e a utilização de mecanismos privados
ou informais de solução dos litígios. Esse enfoque, em suma, não receia inovações radicais e
compreensivas, que vão muito além da esfera de representação judicial 54.

Realmente, de nada adianta termos um acesso à justiça amplo e gratuito, um sistema de


proteção processual de direitos coletivos, quando o próprio processo é lento e
burocrático, não servindo ao que se presta: realização do direito material com celeridade e
qualidade.
Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:
I – interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de
natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de
fato;
II – interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais,
de natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou
com a parte contrária por uma relação jurídica base;
III – interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os decorrentes de origem
comum.

4. Interesses ou direitos coletivos?

O parágrafo único trata da tutela coletiva dos interesses (ou direitos) dos
consumidores, e além de representar um exemplo da ampliação da parte processual do
CDC para ações coletivas que tenham outros direitos pleiteados como o seu mérito, trata
de misturar as expressões interesses e direitos. Daí indagamos: interesses ou direitos?
Sobre a matéria discorrem os seguintes autores:
a) Elton Venturi:
A nova realidade revelada pela dimensão das pretensões coletivas substanciais, comuns aos
integrantes de toda a comunidade, mas não imputáveis exclusivamente a ninguém pessoalmente
considerado, parecia não se encaixar exatamente no conceito tradicional de direito subjetivo. Assim,
para evitar dúvidas na interpretação dessas espécies de pretensões transindividuais e individuais
homogêneos, preferiu-se, estrategicamente, adotar-se alternativamente as expressões “interesses” ou
“direitos” 55.

b) Kazuo Watanabe:
Os termos “interesses” e “direitos” foram utilizados como sinônimos, certo é que, a partir do
momento em que passam a ser amparados pelo direito, os “interesses” assumem o mesmo status de
“direitos”, desaparecendo qualquer razão prática, e mesmo teórica, para a busca de uma
diferenciação ontológica entre eles 56.
c) Fredie Didier Jr. e Hermes Zaneti Jr.:
Rogamos que prevaleça a sua configuração como direitos subjetivos coletivos, mais consentânea à
tradição jurídica nacional e ao direito constitucional positivo vigente que expressamente determina:
“a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito” 57.

Temos aqui a divisão dos direitos coletivos lato sensu em três espécies: direitos
difusos, coletivos stricto sensu e individuais homogêneos, sendo certo que o legislador
não deu o conceito de cada um, mas estabeleceu suas características essenciais. Na teoria
é relativamente fácil perceber a diferença entre esses três direitos, mas na prática a
situação é bem diferente, conforme pode ser visto nos precedentes e nos exemplos
conflitantes fornecidos pela doutrina. A primeira questão consiste em sabermos como se
faz a distinção entre os direitos coletivos, sendo certo que o tema é controvertido.
Posição 1: Ada Pellegrini Grinover
[...] a conceituação de interesses difusos e coletivos, do art. 81, I, II e III, do CDC é uma
conceituação de direito material, pois antes mesmo que surja o processo, e independentemente dele,
pode nascer o conflito sociológico. É a norma de direito material que define quais são os direitos
tutelados 58.
Posição 2: Nelson Nery Junior
[...] a pedra de toque do método classificatório é o tipo de pretensão material e de tutela
jurisdicional que se pretende quando se propõe a competente ação judicial 59.

Em suma: para Ada Pellegrini, é o direito material em jogo que vai determinar o tipo de
direito coletivo tratado na ação coletiva, enquanto para Nelson Nery Junior, é o pedido
formulado na inicial. O STJ já decidiu em um precedente seguir a linha do Professor
Nelson Nery:
Pedido, ademais, cumulado com o de ressarcimento de danos morais coletivos, figura que, em
cognição sumária não exauriente, revela a pretensão a tutela de direito difuso em relação à qual o
Ministério Público tem notórios interesse e legitimidade processual (REsp 797.963/GO, Rel. Min.
Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 7-2-2008, DJe 5-3-2008).

Ressaltamos ainda que não existe nenhuma vedação quanto à possibilidade de serem
cumulados pedidos em ação coletiva que objetive a proteção de dois ou mais direitos
coletivos lato sensu. Assim sendo, em um caso suco de maçã contaminado com soda
cáustica que é colocado à venda no mercado, nada impede que em uma mesma ação
coletiva sejam pedidos: a retirada do produto do comércio (direito difuso) e a indenização
de quem já tenha eventualmente consumido o produto e experimentado algum dano
concreto (direito individual homogêneo). Sobre a matéria, segue o julgado do STJ:
1. À míngua de obstáculo, em abstrato, no ordenamento jurídico, não há impossibilidade do pedido
formulado em ação civil pública no sentido de abster-se a Brasil Telecom S/A de prestar serviço
sem a autorização expressa do consumidor.
2. O Ministério Público tem legitimidade ativa para ajuizar ação em defesa de direito difuso, de
futuras eventuais vítimas, e individuais homogêneos, de pessoas já vitimadas, integrantes do mercado
consumidor. Precedentes (REsp 976.217/RO, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado
em 11-9-2012, DJe 15-10-2012).

5. Direitos difusos

Os direitos difusos possuem as seguintes características: transindividualidade,


indivisibilidade e titularidade de pessoas indeterminadas, ligadas entre si por
circunstâncias fáticas. É um direito coletivo por excelência, posto que pertence a todos e a
ninguém individualmente considerado. Exemplos clássicos são
o direito de respirar ar puro; o direito do consumidor de não ser alvo de publicidade não enganosa e
não abusiva; o direito da comunidade sobre a integralidade do patrimônio público em sentido amplo,
abrangendo o erário, o patrimônio cultural, moral, ecológico etc. 60.

Destacamos o direito que todos os consumidores possuem (titularidade indeterminada


e transindividualidade) de não serem alvo de publicidade enganosa (indivisibilidade).
Caso uma determinada empresa ofereça seus produtos ou serviços valendo-se de uma
propaganda falsa, enganosa, temos que é cabível uma medida judicial para retirá-la de
circulação, e o benefício será para a coletividade como um todo, não podendo ser
individualizado. Ainda que existam pessoas que não possam pagar por aquele produto ou
serviço, ou mesmo não tenham interesse nele, somos todos consumidores em potencial, e
assim todos nós temos o direito de recebermos propagandas com informações corretas,
para que possamos fazer nossas escolhas.
Cumpre salientar o entendimento doutrinário:
a) Sobre a transindividualidade:
[...] perpassa a órbita individual, adquirindo natureza coletiva ampla, sem se restringir a qualquer
grupo, categoria ou classe de pessoas 61.
b) Sobre a indivisibilidade:
Sendo indivisíveis, tornam-se insuscetíveis de apropriação exclusiva. Não é possível atribuir-se a
um indivíduo fruição maior ou diferenciada com relação aos demais integrantes da mesma categoria
de beneficiários, sendo, porém, prescindível a existência de um grupo de titulares devidamente
organizado, salvo, evidentemente, a própria cole​ti​vidade, na medida em que esta se organiza
naturalmente 62.
c) Sobre a titularidade:
Só é difuso um direito quando de fato é difusa a titularidade subjetiva dos bens tutelados, sendo
esses titulares substancialmente anônimos. Dessa forma, interesse difuso é aquele cujos titulares, em
número significativo, não podem ser determinados 63.
d) Sobre as circunstâncias fáticas:
[...] embora o CDC se refira a ser uma situação fática o elo comum entre os lesados que comungam o
mesmo interesse difuso, é evidente que essa relação fática – como sempre ocorre, aliás, com
qualquer relação fática – subordina-se, também, a uma relação jurídica; entretanto, no caso dos
interesses difusos, a lesão ao grupo não decorrerá da relação jurídica em si, mas sim da situação
fática resultante. [...] uma propaganda enganosa pela televisão envolve, sem dúvida alguma, questões
fáticas e jurídicas; contudo, o que reúne o grupo para fins de proteção difusa é o fato do acesso
efetivo ou potencial à propaganda enganosa 64.
Existem diversos julgados que tratam desse tipo de direito coletivo:
Demanda onde se pretende que determinada empresa de telefonia se abstenha de prestar serviço sem
a autorização expressa do consumidor, tanto os atuais, já vitimados (individuais homogêneos) quanto
os futuros, eventuais vítimas (difusos) (STJ, REsp 976.217/RO, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti,
Quarta Turma, julgado em 11-9-2012, DJe 15-10-2012).
Pedido de dano moral coletivo, a ser revertido para o Fundo de Reconstituição de Bens Lesados do
Estado de Santa Catarina num caso em que a empresa de telefonia, que ofereceu um plano sem,
entretanto, alertar os consumidores acerca das limitações ao uso na referida adesão (STJ, REsp
1.291.213/SC, Rel. Min. Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em 30-8-2012, DJe 25-9-2012).
Ação Civil Pública proposta com o fito de obstar a construção de empreendimento imobiliário de
grande porte em Área de Preservação Permanente situada em Jurerê Internacional, sem licenciamento
do Ibama (STJ, REsp 1.161.300/SC, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 22-2-
2011, DJe 11-5-2011).
O Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública objetivando a manutenção do curso de
ensino médio no período noturno oferecido pelo Colégio Pedro II – Unidade São Cristóvão – RJ, que
teria sido ilegalmente suprimido pelo Diretor da referida entidade educacional. O direito à
continuidade do curso noturno titularizado por um grupo de pessoas – alunos matriculados no
estabelecimento de ensino – deriva de uma relação jurídica base com o Colégio Pedro II e não é
passível de divisão, uma vez que a extinção desse turno acarretaria idêntico prejuízo a todos,
mostrando-se completamente inviável sua quantificação individual, porém há que se considerar
também os interesses daqueles que ainda não ingressaram no Colégio Pedro II e eventualmente
podem ser atingidos pela extinção do curso noturno, ou seja, um grupo indeterminável de futuros
alunos que titularizam direito difuso à manutenção desse turno de ensino (STJ, REsp 933.002/RJ,
Rel. Min. Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 16-6-2009, DJe 29-6-2009).
A proteção ao meio ambiente do trabalho insere-se nos chamados direitos difusos (STJ, REsp
240.343/SP, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, Rel. p/ Acórdão Min. João Otávio de Noronha,
Quarta Turma, julgado em 17-3-2009, DJe 20-4-2009).

6. Direitos coletivos

Os direitos coletivos stricto sensu são semelhantes aos direitos difusos porque são
também transindividuais e de natureza indivisível, porém, existem diferenças. A primeira
reside na titularidade, pois enquanto os titulares dos direitos difusos são pessoas
indeterminadas, nos direitos coletivos são um grupo, categoria ou classe de pessoas, ou
seja, nos direitos coletivos existe uma maior limitação na titularidade. Uma eventual ação
coletiva beneficiaria não a coletividade inteira, mas um grupo de pessoas, como ocorre
nas ações que objetivam evitar o aumento abusivo de mensalidades escolares, que afeta
um grupo de pessoas, e não a sociedade como um todo, posto que os estudantes de
outros estabelecimentos não foram sequer atingidos por esse aumento.
Outra diferença está presente no elo que une as pessoas integrantes do grupo, categoria
ou classe de pessoas. Nos direitos coletivos, essas pessoas estão ligadas entre si ou com a
parte contrária por uma relação jurídica base, enquanto nos direitos difusos os titulares,
conquanto indeterminados, estão ligados por uma circunstância de fato.
Sobre o tema em comento, versa a doutrina:
a) Sobre a transindividualidade:
[...] está além do indivíduo, no sentido de que não lhe pertence com exclusividade, mas, sim, a uma
pluralidade de pessoas... 65.
b) Sobre a indivisibilidade:
[...] a indivisibilidade dos bens é percebida no âmbito interno, dentre os membros do grupo,
categoria ou classe de pessoas. Assim, o bem ou interesse coletivo não pode ser partilhado
internamente entre as pessoas ligadas por uma relação jurídica-base ou por vínculo jurídico; todavia,
externamente, o grupo, categoria ou classe de pessoas, ou seja, o ente coletivo, poderá partir o bem,
exteriorizando o interesse da coletividade 66.
c) Sobre o grupo, categoria ou classe de pessoas:
O elemento diferenciador entre o direito difuso e o direito coletivo é, portanto, a determinabilidade e
a decorrente coesão como grupo, categoria ou classe anterior á lesão, fenômeno que se verifica nos
direitos coletivos stricto sensu e não ocorre nos difusos. [...] para fins de tutela jurisdicional, o que
importa é a possibilidade de identificar um grupo, categoria ou classe, vez que a tutela se revela
indivisível, [...] 67.
d) Sobre a relação jurídica base:
A peculiaridade dos coletivos consiste na indivisibilidade decorrente da existência, como reflexo da
situação da vida onde auferem sua gênese, de uma relação jurídica de direito material comum,
inerente a todos os envolvidos na categoria considerada.
Exemplificando, identificam-se interesses coletivos na pretensão dos integrantes de um consórcio
para que não ocorram aumentos ilegais nas prestações a vencer; quanto aos membros de determinada
categoria de trabalhadores representada por certo sindicato, no sentido de que não ocorra alteração
da regulamentação da jornada de trabalho ou do pagamento de horas diferenciadas; [...] 68.
Kazuo Watanabe esclarece que essa categoria de direitos ou interesses coletivos decorre de uma
relação jurídica base já preexistente à lesão ou ameaça de lesão do interesse ou direito pertencente
ao grupo, classe ou categoria de pessoas. Portanto, os direitos ou interesses coletivos em sentido
restrito não decorrem da relação jurídica surgida com a própria lesão ou ameaça de lesão 69.

Os direitos coletivos também mereceram uma atenção dos nossos Tribunais.


Pedido de tutela contra exigência dirigida globalmente a todos os adquirentes de parcelas de um
loteamento: a declaração da nulidade de cláusula contratual que impõe o pagamento da taxa de
conservação aos adquirentes de parcelas nos loteamentos Terras de Santa Cristina – Glebas II e III,
implantados na forma da Lei n. 6.766/79 e situados na cidade de Itaí, no Estado de São Paulo, bem
como a condenação da ora recorrida à não inserção da referida cláusula nos contratos futuros. Atua o
Ministério Público, no caso concreto, em defesa do direito indivisível de um grupo de pessoas
determináveis, ligadas por uma relação jurídica base com a parte contrária, circunstâncias
caracterizadoras do interesse coletivo a que se refere o art. 81, parágrafo único, II, da Lei n.
8.078/90 (STJ, REsp 1.192.281/SP, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado
em 26-10-2010, DJe 10-11-2010).
Ação Civil Pública postulado reserva de vagas aos portadores de deficiência em concurso público
de âmbito nacional. É direito coletivo, já que pertence a uma categoria, grupo ou classe de pessoas
indeterminadas, mas determináveis e, sob o aspecto objetivo, é indivisível, vez que não comporta
atribuição de sua parcela a cada um dos indivíduos que compõem aquela categoria (STJ, CC
109.435/PR, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Terceira Seção, julgado em 22-9-2010, DJe 15-
12-2010).
O caso trata de pedido de tutela de um bem indivisível de todo um grupo de consumidores, de tutela
contra exigência dirigida globalmente a todos os alunos: a suposta ilegalidade ou abusividade da
prestação pecuniária para expedição de diplomas ou de versão deste com padrão de qualidade
superior, bem como o pedido de condenação à obrigação de a União fiscalizar estas instituições de
ensino. Assim, atua o Ministério Público em defesa do direito indivisível de um grupo de pessoas
determináveis, ligadas por uma relação jurídica base, circunstâncias caracterizadoras do interesse
coletivo a que se refere o art. 81, parágrafo único, II, da Lei n. 8.078/90 (STJ, REsp 1.185.867/AM,
Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 4-11-2010, DJe 12-11-2010).
Ação civil pública tutelando direitos coletivos de correntistas, que na qualidade de consumidores
firmam contrato de abertura de crédito com instituições financeiras e são submetidos a cláusulas
abusivas (STJ, REsp 537.652/RJ, Rel. Min. João Otávio de Noronha, Quarta Turma, julgado em 8-9-
2009, DJe 21-9-2009).
Ação civil pública em defesa de interesses coletivos, visando a coibir aumento abusivo de
mensalidade escolar (art. 81, II, da CDC) (STJ, REsp 43.585/MG, Rel. Min. Aldir Passarinho
Junior, Quarta Turma, julgado em 14-12-2000, DJ 5-3-2001, p. 164).

7. Direitos individuais homogêneos

Embora o STJ tenha afirmado que essa categoria foi criada pelo CDC (REsp
1.283.206/PR, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 11-12-
2012, DJe 17-12-2012), não podemos concordar, posto que uma lei anterior ao CDC já
havia reconhecido esse tipo de direito coletivo, bem como a proteção coletiva, em que
pese o CDC ter sido o primeiro diploma legal a dar o nome a esses direitos de
“individuais homogêneos”.

ATENÇÃO!
Lei n. 7.913, de 7 de dezembro de 1989:
Art. 1º Sem prejuízo da ação de indenização do prejudicado, o Ministério Público, de ofício ou por solicitação da Comissão de Valores Mobiliários –
CVM, adotará as medidas judiciais necessárias para evitar prejuízos ou obter ressarcimento de danos causados aos titulares de valores mobiliários e
aos investidores do mercado, especialmente quando decorrerem de:
I – operação fraudulenta, prática não equitativa, manipulação de preços ou criação de condições artificiais de procura, oferta ou preço de valores
mobiliários;
II – compra ou venda de valores mobiliários, por parte dos administradores e acionistas controladores de companhia aberta, utilizando-se de informação
relevante, ainda não divulgada para conhecimento do mercado, ou a mesma operação realizada por quem a detenha em razão de sua profissão ou função,
ou por quem quer que a tenha obtido por intermédio dessas pessoas;
III – omissão de informação relevante por parte de quem estava obrigado a divulgá-la, bem como sua prestação de forma incompleta, falsa ou
tendenciosa.

No destaque que colocamos no art. 1º verifica-se a possibilidade de o Ministério


Público propor ação para obter o ressarcimento de danos aos titulares (quem são?) de
valores mobiliários e aos investidores de mercado. Não há, como vimos, menção alguma
aos direitos individuais homogêneos nessa lei, porém é um caso típico de direito coletivo
que se encaixa nessa categoria. Isso se dá porque os direitos individuais homogêneos,
como o próprio nome revela, são individuais, mas em razão da sua origem comum são
homogêneos e foram “coletivizados” pelo legislador para fins de tutela processual
coletiva.
Entende a doutrina
a) Sobre a individualidade:
[...] é um direito individual na origem, e que nessa perspectiva pode até ser disponível, mas que
alcança toda uma coletividade, e com isso, passa a ostentar relevância social, tornando-se assim
indisponível quando tutelado 70.
b) Sobre a origem comum:
A origem comum que torna viável a reunião das pretensões individuais em uma única ação coletiva
pode decorrer de danos provenientes de quaisquer fatos ou atos (comissivos ou omissivos)
geradores da responsabilidade civil, subjetiva ou objetiva, por eventuais lesões provocadas 71.
Podemos citar como exemplo o conhecido e trágico desabamento do Morro do Bumba,
em Niterói-RJ. Várias residências foram atingidas e várias pessoas morreram nesse
evento, que vamos, para fins didáticos, imputar a responsabilidade ao Município de
Niterói. São vários direitos individuais em jogo (indenizações pelas mortes dos entes
queridos, pelos danos materiais e morais, alocação dos sobreviventes em residências
provisórias etc.), sendo certo que cada qual pode, em demandas individuais, pleitear em
juízo os seus direitos. Ocorre que esses direitos, individuais e divisíveis, têm uma origem
comum, o desabamento. Todas as pessoas atingidas pelo desastre estão ligadas entre si
por uma circunstância de fato: eram moradores do local e foram atingidas pelo
deslizamento de terra. A partir do momento em que o CDC coletivizou esses direitos
individuais, a sua proteção coletiva tornou-se possível, e até preferível.
Citamos a doutrina:
A defesa coletiva de direitos individuais atende aos ditames da economia processual; representa
medida necessária para desafogar o Poder Judiciário, para que possa cumprir com qualidade e em
tempo hábil as suas funções; permite e amplia o acesso à Justiça, principalmente para conflitos em
que o valor diminuto do benefício pretendido significa manifesto desestímulo para a formulação da
demanda; e, salvaguarda o princípio da igualdade da lei, ao resolver molecularmente as causas
denominadas de repetitivas, que estariam fadadas a julgamentos de teor variado, se apreciadas de
modo singular 72.

Vejamos alguns casos em que o STJ entendeu que são de defesa de direitos individuais
homogêneos pela via da demanda coletiva:
Pedido de obrigação de não inclusão do nome de consumidor em cadastro de inadimplente quando
houver discussão judicial da dívida (REsp 1.148.179/MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira
Turma, julgado em 26-2-2013, DJe 5-3-2013).
Pedido indenizatório pelos expurgos inflacionários da caderneta de poupança, feito em benefício dos
consumidores de um determinado banco (AgRg no REsp 1.348.512/DF, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, Quarta Turma, julgado em 18-12-2012, DJe 4-2-2013).
Pedido de revisão dos contratos atrelados ao dólar, que previam o reajuste das prestações pela
variação cambial, celebrados pelos consumidores com várias instituições financeiras (STJ, REsp
609.329/PR, Rel. Min. Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 18-12-2012, DJe 7-2-2013).
Pretensão de tutela de um bem divisível de um grupo: a suposta invalidade da limitação do número
de concessões de isenção de taxas para exame vestibular de universidades federais em Pernambuco
(STJ, REsp 1.225.010/PE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 1º-3-
2011, REPDJe 2-9-2011, DJe 15-3-2011).
Na inicial, as associações postulam a defesa de direitos individuais homogêneos dos consumidores
de automóveis da marca Chevrolet que adquiriram seus veículos por meio de leasing financeiro,
firmado nos termos de um contrato-padrão. Os autores argumentam que há nulidade em três cláusulas
desse contrato: cláusulas 32, 33 e 35. As duas primeiras dispunham sobre a emissão de notas
promissórias como garantia do contrato de leasing. E a última dizia respeito à perda dos valores
pagos, antecipação dos valores vincendos (incluindo VRG) e perda do veículo, em caso de
inadimplemento das prestações (STJ, REsp 1.074.756/MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira
Turma, julgado em 25-10-2011, DJe 9-11-2011).
O Ministério Público postula em prol de, aproximadamente 1.000 famílias de baixa renda, mutuárias
do Sistema Financeiro de Habitação. O interesse é individual, isto é, há o interesse em adquirir a
casa própria; mas cuja origem comum do problema, – evidenciada na possibilidade do emprego de
materiais de construção de qualidade duvidosa e no possível aumento abusivo das prestações –,
recomenda a defesa coletiva, possibilitando tratamento processual unitário e simultâneo com
provimento jurisdicional de conteúdo idêntico para todos os envolvidos (REsp 635.807/CE, Rel.
Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 5-5-2005, DJ 20-6-2005, p. 277).

Todos os exemplos que citamos nas três categorias de direitos coletivos demonstram
bem a confusão que existe quando se trata de diferenciar os três direitos, porém cremos
que pelo menos no plano teórico o quadro que se segue pode ser útil.

8. Quadro comparativo
Difusos Coletivos Individuais Homogêneos

Transindividuais Transindividuais Individuais

Natureza indivisível Natureza indivisível Natureza divisível

Titularidade: pessoas Titularidade: pessoas determinadas ou determináveis (grupo, categoria Titularidade: pessoas determinadas ou
indeterminadas ligadas entre si ou classe de pessoas) ligadas entre si ou com a parte contrária por uma determináveis ligadas entre si por uma
por circunstâncias de fato relação jurídica base origem comum

9. Legitimidade ativa

O dispositivo que se segue – art. 82 – diz respeito a um dos temas que deve mesmo ser
tratado de forma diferenciada no processo coletivo, que é a legitimidade ativa ad causam.
Por ser o direito material deduzido em juízo de natureza coletiva, é essencial a superação
do dogma da legitimidade ordinária, prevista no art. 18 do NCPC, a fim de permitir que
outras pessoas possam, em nome próprio, fazer a defesa de direitos alheios (legitimidade
extraordinária). O Brasil não reconheceu a legitimidade da pessoa física para ajuizar ações
coletivas em defesa dos consumidores, apesar da sua legitimidade, enquanto cidadão,
para a propositura da ação popular, que é uma espécie de ação coletiva.
Vejamos o seguinte julgado:
Processual civil. Administrativo. Ação popular. Concessão de serviço. Suspensão das atividades
de empresa concessionária de serviço de gestão de áreas destinadas a estacionamento rotativo.
Inobservância de direito consumerista. Inépcia da inicial. Ilegitimidade ativa. Ausência de
interesse de agir. Súmula 211/STJ.
1. A Ação Popular não é servil à defesa dos consumidores, porquanto instrumento flagrantemente
inadequado a mercê de evidente ilegitimatio ad causam (art. 1º, da Lei n. 4.717/65 c/c art. 5º,
LXXIII, da Constituição Federal) do autor popular, o qual não pode atuar em prol da coletividade
nessas hipóteses.
2. A ilegitimidade do autor popular, in casu, coadjuvada pela inadequação da via eleita ab origine,
porquanto a ação popular é instrumento de defesa dos interesses da coletividade, utilizável por
qualquer de seus membros, revela-se inequívoca, por isso que não é servil ao amparo de direitos
individuais próprios, como só em ser os direitos dos consumidores, que, consoante cediço, dispõem
de meio processual adequado à sua defesa, mediante a propositura de ação civil pública, com
supedâneo nos arts. 81 e 82 do Código de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078/90) (REsp
818.725/SP, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 13-5-2008, DJe 16-6-2008).

Apesar de a pessoa física não ter a legitimidade para postular a proteção coletiva dos
consumidores, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos da América, por exemplo,
temos um extenso rol de legitimados na legislação brasileira, de modo que é necessário
organizar o assunto para facilitar a sua compreensão.

DICA!
Características da legitimidade para ações coletivas:
Extraordinária: os legitimados vão a Juízo em nome próprio, mas defendendo direitos alheios.
Autônoma: o legitimado inicia a demanda e conduz o processo coletivo sem a participação do titular do direito material deduzido em juízo.
Concorrente: todos os entes são legitimados à propositura de ações coletivas.
Disjuntiva: a legitimidade de todos eles é independente, no sentido de que um legitimado não depende da anuência de outro para deflagrar a ação.
Mista: particulares e entes públicos detém legitimidade.

Passemos, portanto, à análise dos legitimados.


Art. 82. Para os fins do art. 81, parágrafo único, são legitimados concorrentemente:
I – o Ministério Público,

9.1. Ministério Público

A legitimidade do Ministério Público, doravante MP, decorre do texto constitucional:


Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público:
[...]
III – promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e
social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos.

A previsão da legitimidade no CDC só vem a confirmar o que o texto constitucional


consagra: o MP é um legitimado por excelência para a propositura de ações coletivas,
inclusive para a defesa dos direitos dos consumidores, sendo
notório que um dos mais relevantes avanços da Constituição da República foi, justamente, o
fortalecimento que ela atribuiu ao Ministério Público, que passou a dispor de instrumentos
normativos para combater a corrupção, o crime organizado, além de defender os direitos humanos, o
meio ambiente e os interesses e direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos 73.

A legitimidade do MP ainda é reconhecida na sua Lei Orgânica (Lei n. 8.625/93):


Art. 25. Além das funções previstas nas Constituições Federal e Estadual, na Lei Orgânica e em
outras leis, incumbe, ainda, ao Ministério Público:
[...]
IV – promover o inquérito civil e a ação civil pública, na forma da lei:
a) para a proteção, prevenção e reparação dos danos causados ao meio ambiente, ao consumidor, aos
bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico, e a outros interesses
difusos, coletivos e individuais indisponíveis e homogêneos;

Essa legitimidade é reconhecida de forma bastante tranquila pela jurisprudência dos


nossos Tribunais Superiores – STF e STJ – até porque a Constituição e a lei são muito
claras nesse sentido, mas mesmo assim existe controvérsia acerca da legitimidade do MP
para propor ações coletivas na defesa dos direitos individuais homogêneos, uma vez que
essa categoria de direito coletivo não consta no inciso III do art. 129 da CF.
O MP tem legitimidade para propor ações coletivas na defesa de direitos individuais
homogêneos dos consumidores?
Posição 1: Humberto Theodoro Junior
O certo é que o MP não está institucionalmente concebido como defensor de direitos individuais
homogêneos, mas apenas dos interesses sociais (CF, art. 127) 74.

Posição 2: Ada Pellegrini Grinover


[...] cumpre notar que a Constituição de 1988, anterior ao CDC, evidentemente não poderia aludir, no
art. 129, III, à categoria dos interesses individuais homogêneos, que só viria a ser criada pelo
Código. Mas na dicção constitucional, a ser tomada em sentido amplo, segundo as regras da
interpretação extensiva (quando o legislador diz menos de quanto quis), enquadra-se comodamente a
categoria dos interesses individuais, quando coletivamente tratados 75.

Posição 3: Hugo Nigro Mazzilli


Mais especificamente quanto ao âmbito da atuação ministerial na defesa dos chamados interesses
individuais homogêneos, cremos deva firmar-se interpretação de caráter finalístico. O art. 129, III,
da Constituição, comete ao Ministério Público a defesa de interesses difusos e coletivos. Quanto aos
difusos, não há distinguir; por coletivos, entretanto, aí estão os interesses da coletividade como um
todo. A defesa dos interesses de meros grupos determinados de pessoas (como consumidores
individualmente lesados) só se pode fazer pelo Ministério Público quando isto convenha à
coletividade como um todo, como nos exemplos acima invocados: se é extraordinária a dispersão de
lesados; se a questão envolve defesa da saúde ou da segurança dos consumidores; se a intervenção
ministerial é necessária para assegurar o funcionamento de todo um sistema econômico, social ou
jurídico.
Não se tratando de hipótese semelhante, a defesa de interesses de consumidores individuais deve ser
feita por meio de legitimação ordinária, ou, se por substituição processual, por outros órgãos e
entidades que não o Ministério Público, sob pena de ferir-se a destinação institucional deste
último 76.
Na jurisprudência, a questão está pacificada no sentido de reconhecer a legitimidade do
MP, desde que o direito individual homogêneo tutelado pela via da demanda coletiva
tenha relevância social, que é, por natureza, um conceito jurídico indeterminado, porém
muito bem analisado – supra – pelo Prof. Hugo Mazzilli. Porém não podemos deixar de
reconhecer que na prática os Tribunais têm uma margem de liberdade ao “preencher” a
indeterminação do conceito de relevância social.
Humberto Dalla 77, por exemplo, entende que “quando o direito daquele indivíduo é
semelhante ao de vários outros, sendo certo ainda que têm origem comum. A partir dessa
origem comum surge a extensão social do direito, passando aquela situação a produzir
efeitos numa coletividade, obrigando o ordenamento jurídico a tutelar o direito como
coletivo lato sensu. Sendo um direito coletivamente tutelado, passa a ser indisponível em
razão dessa mesma extensão social”. Nessa linha, o direito individual homogêneo
ostentaria sempre a relevância social para ser tutelado pelo MP.
De qualquer forma, segue o entendimento pretoriano:
Processo civil. Ação civil pública. Legitimidade do Ministério Público. Direitos individuais
homogêneos. Sistema financeiro de habitação. Agravo regimental desprovido. Esta Corte firmou
entendimento no sentido de que o Ministério Público tem legitimidade ad causam para propor ação
civil pública quando a controvérsia envolver a defesa de direitos individuais homogêneos. Agravo
regimental desprovido (STF, AI 637.853 AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado
em 28-8-2012, acórdão eletrônico DJe-182, divulg. 14-9-2012, public. 17-9-2012).

Processo civil. Ação civil pública. Legitimidade do Ministério Público. Direitos do consumidor.
Contrato de leasing. Agravo regimental desprovido. O acórdão recorrido prestou, inequivocamente,
jurisdição, sem violar os princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa,
tendo enfrentado as questões que lhe foram postas. Esta Corte firmou entendimento no sentido de que
o Ministério Público tem legitimidade ad causam para propor ação civil pública quando a
controvérsia envolver a defesa de direitos individuais homogêneos de consu​midores. Agravo
regimental desprovido (STF, AI 606.235 AgR, Rel. Min. Joaquim Barbosa, Segunda Turma, julgado
em 5-6-2012, acórdão eletrônico DJe-122 divulg. 21-6-2012, public. 22-6-2012).
De acordo com a jurisprudência atual desta Corte, o Ministério Público tem legitimidade ativa para
propor ação judicial que vise a defesa de direitos individuais homogêneos tendo em vista o relevante
interesse social na causa (STJ, AgRg no REsp 1.174.005/RS, Rel. Min. Maria Thereza de Assis
Moura, Sexta Turma, julgado em 18-12-2012, DJe 1º-2-2013).
1. Não se pode conhecer da violação ao art. 535 do CPC 78, pois as alegações que fundamentaram a
pretensa ofensa são genéricas, sem discriminação dos pontos efetivamente omissos, contraditórios ou
obscuros. Incide, no caso, a Súmula 284 do Supremo Tribunal Federal, por analogia.
2. A jurisprudência desta Corte vem se sedimentando em favor da legitimidade ministerial para
promover ação civil pública visando à defesa de direitos individuais homogêneos, ainda que
disponíveis e divisíveis, quando a presença de relevância social objetiva do bem jurídico tutelado (a
dignidade da pessoa humana, a qualidade ambiental, a saúde, a educação, para citar alguns
exemplos) ou diante da massificação do conflito em si considerado.
3. É evidente que a Constituição da República não poderia aludir, no art. 129, II, à categoria dos
interesses individuais homogêneos, que só foi criada pela lei consumerista. A propósito, o Supremo
Tribunal Federal já enfrentou o tema e, adotando a dicção constitucional em sentido mais amplo,
posicionou-se a favor da legitimidade do Ministério Público para propor ação civil pública para
proteção dos mencionados direitos. Precedentes.
4. No presente caso, pelo objeto litigioso deduzido pelo Ministério Público (causa de pedir e
pedido), o que se tem é pretensão de tutela de um direito divisível de um grupo: o direito de acesso à
informação.
5. Assim, atua o Ministério Público na defesa de típico direito individual homogêneo, por meio da
ação civil pública, em contraposição à técnica tradicional de solução atomizada, a qual se justifica
para (i) evitar as inumeráveis demandas judiciais (economia processual), que sobrecarregam o
Judiciário, e decisões incongruentes sobre idênticas questões jurídicas, mas sobretudo para (ii)
buscar a proteção do acesso à informação, interesse social relevante, cuja disciplina inclusive
mereceu atenção em diplomas normativos próprios – Lei n. 12.527/2011 e Decreto n. 7.724/2012
(este, aliás, prevê a gratuidade para a busca e o fornecimento da informação no âmbito de todo o
Poder Executivo Federal).
6. Nesse sentido, é patente a legitimidade ministerial, seja em razão da proteção contra eventual
lesão ao interesse social relevante, seja para prevenir a massificação do conflito.
7. Recurso especial provido (STJ, REsp 1.283.206/PR, Rel. Min. Mauro Campbell Marques,
Segunda Turma, julgado em 11-12-2012, DJe 17-12-2012).
2. O Ministério Público tem legitimidade processual para a propositura de ação civil pública
objetivando a defesa de direitos individuais homogêneos, mormente se evidenciada a relevância
social na sua proteção.
3. No caso em apreço, a discussão transcende a esfera de interesses individuais dos efetivos
contratantes, tendo reflexos em uma universalidade de potenciais consumidores que podem ser
afetados pela prática apontada como abusiva (STJ, REsp 726.975/RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas
Cueva, Terceira Turma, julgado em 20-11-2012, DJe 6-12-2012).

9.2. Defensoria Pública

A Defensoria Pública não consta como legitimada a propor ações coletivas pelo CDC,
mas a sua legitimidade é inegável diante do que preveem outras leis, bem como pela
teoria do diálogo das fontes que informa o microssistema de tutela coletiva. Vejamos:
Lei de Ação Civil Pública – LACP (Lei n. 7.347/85, alterada pela Lei n. 11.448/2007):
Art. 5º Têm legitimidade para propor a ação principal e a ação cautelar:
[...]
II – a Defensoria Pública;

Lei Orgânica da Defensoria Pública (LC n. 80/94, alterada pela LC n. 132/2009):


Art. 4º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras:
[...]
VII – promover ação civil pública e todas as espécies de ações capazes de propiciar a adequada
tutela dos direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos quando o resultado da demanda
puder beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes;
VIII – exercer a defesa dos direitos e interesses individuais, difusos, coletivos e individuais
homogêneos e dos direitos do consumidor, na forma do inciso LXXIV do art. 5º da Constituição
Federal.

O que poderia ser interpretado contra a legitimidade da Defensoria Pública seria a


necessidade de o “resultado da demanda poder beneficiar grupo de pessoas
hipossuficientes”, como determina a Lei Orgânica, receber uma interpretação restritiva de
tal forma que praticamente inviabilizasse qualquer ação coletiva por ela proposta. Porém
temos de lembrar que as ações coletivas se inserem no direito constitucional de acesso à
justiça, e quanto mais legitimados existirem, melhor e mais amplo será esse acesso.
O fato é que a jurisprudência não parece inclinada a seguir esse caminho – o da
restrição excessiva da legitimidade da DP – até porque pensamos que isso seria uma
flagrante inconstitucionalidade, bem como não vemos essa possibilidade diante do que
dispõe a Lei Orgânica da Defensoria, quando, no art. 4º, elenca uma das suas funções
institucionais:
Art. 4º [...]
XI – exercer a defesa dos interesses individuais e coletivos da criança e do adolescente, do idoso,
da pessoa portadora de necessidades especiais, da mulher vítima de violência doméstica e familiar e
de outros grupos sociais vulneráveis que mereçam proteção especial do Estado.
Precedente:
3. As normas que regem a Ação Civil Pública – símbolo maior do modelo democrático, coletivo,
eficiente e eficaz do acesso à Justiça, na sua concepção pós-moderna – convidam à ampliação
judicial, jamais à restrição, do rol de sujeitos legitimados para a sua propositura. O Juiz, na dúvida,
decidirá em favor do acesso à Justiça, pois a negação da legitimação para agir demanda vocalização
inequívoca do legislador (STJ, REsp 1.075.392/RJ, Rel. Min. Castro Meira, Rel. p/ Acórdão Min.
Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 15-12-2009, DJe 4-5-2011).

A lei é muito clara ao dispor ser função da Defensoria a proteção de grupos sociais
vulneráveis, sem a necessidade de analisar a situa​ção econômica desse grupo, e nos
parece tranquilo também o reconhecimento de que, nas relações de consumo, os
consumidores são as partes vulneráveis, tanto que a Constituição, no art. 5º, XXXII,
dispõe que “o Estado promoverá a defesa do consumidor”.
Vejamos os seguintes julgados:
A Defensoria Pública tem legitimidade ativa ad causam para propor ação civil pública com o
objetivo de defender interesses individuais homogêneos de consumidores lesados em virtude de
relações firmadas com as instituições financeiras (STJ, AgRg no REsp 1.000.421/SC, Rel. Min. João
Otávio de Noronha, Quarta Turma, julgado em 24-5-2011, DJe 1º-6-2011).
Este Superior Tribunal de Justiça vem-se posicionando no sentido de que, nos termos do art. 5º, II,
da Lei n. 7.347/85 (com a redação dada pela Lei n. 11.448/2007), a Defensoria Pública tem
legitimidade para propor a ação principal e a ação cautelar em ações civis coletivas que buscam
auferir responsabilidade por danos causados ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de
valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico e dá outras providências (STJ, REsp
912.849/RS, Rel. Min. José Delgado, Primeira Turma, julgado em 26-2-2008, DJe 28-4-2008).

Após o julgamento de um caso concreto emblemático pelo STJ, porém, o panorama da


legitimidade da Defensoria Pública ficou mais claro. O caso era o seguinte: uma empresa
de plano de saúde promoveu aumentos supostamente abusivos nas mensalidades dos seus
associados, provocando assim um dano de natureza metaindividual. A Defensoria Pública
do Estado do Rio Grande do Sul propôs uma ação civil pública, alegando violação a
preceitos protetivos dos consumidores, respaldada no CDC.
Inicialmente o STJ negou, por meio da sua 4ª Turma, a legitimidade da Defensoria,
fazendo uso do argumento restritivo acerca da necessidade da presença de
hipossuficientes entre os consumidores, entendendo que “sua legitimidade será ampla
(basta que possa beneficiar grupo de pessoas necessitadas), haja vista que o direito
tutelado é pertencente a pessoas indeterminadas”. Porém foi ressalvado que “em se
tratando de interesses coletivos em sentido estrito ou individuais homogêneos, diante de
grupos determinados de lesados, a legitimação deverá ser restrita às pessoas notadamente
necessitadas”.
A questão passa a ser então a seguinte: os consumidores de plano de saúde são
necessitados a ponto de legitimar a Defensoria Pública a propor ação civil pública? O STJ
decidiu que “ao optar por contratar plano particular de saúde, parece intuitivo que não se
está diante de consumidor que possa ser considerado necessitado a ponto de ser
patrocinado, de forma coletiva, pela Defensoria Pública. Ao revés, trata-se de grupo que
ao demonstrar capacidade para arcar com assistência de saúde privada evidencia ter
condições de suportar as despesas inerentes aos serviços jurídicos de que necessita, sem
prejuízo de sua subsistência, não havendo falar em necessitado” (STJ, REsp 1192577/RS,
Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 15-5-2014, DJe 15-8-2014).
Ocorre que esse precedente foi muito criticado no campo acadêmico, e no caso
concreto em si a Defensoria não desistiu e interpôs embargos de divergência, levando a
questão para a Corte Especial do STJ, que aceitou a legitimidade da Defensoria, até
porque ocorreu um fato novo: o STF havia declarado a constitucionalidade da lei que
conferiu legitimidade para a Defensoria Pública ajuizar ações coletivas (Lei n.
11.448/2007).
A questão da legitimidade da Defensoria Pública, portanto, está pacificada nos
seguintes termos:
Embargos de divergência no recurso especial nos embargos infringentes. Processual civil.
Legitimidade da defensoria pública para a propositura de ação civil pública em favor de idosos.
Plano de saúde. Reajuste em razão da idade tido por abusivo. Tutela de interesses individuais
homogêneos. Defesa de necessitados, não só os carentes de recursos econômicos, mas também os
hipossuficientes jurídicos. Embargos de divergência acolhidos.
1. Controvérsia acerca da legitimidade da Defensoria Pública para propor ação civil pública em
defesa de direitos individuais homogêneos de consumidores idosos, que tiveram seu plano de saúde
reajustado, com arguida abusividade, em razão da faixa etária.
2. A atuação primordial da Defensoria Pública, sem dúvida, é a assistência jurídica e a defesa dos
necessitados econômicos, entretanto, também exerce suas atividades em auxílio a necessitados
jurídicos, não necessariamente carentes de recursos econômicos, como é o caso, por exemplo,
quando exerce a função do curador especial, previsto no art. 9º, inciso II, do Código de Processo
Civil 79, e do defensor dativo no processo penal, conforme consta no art. 265 do Código de Processo
Penal.
3. No caso, o direito fundamental tutelado está entre os mais importantes, qual seja, o direito à saúde.
Ademais, o grupo de consumidores potencialmente lesado é formado por idosos, cuja condição de
vulnerabilidade já é reconhecida na própria Constituição Federal, que dispõe no seu art. 230, sob o
Capítulo VII do Título VIII (“Da Família, da Criança, do Adolescente, do Jovem e do Idoso”): “A
família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua
participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à
vida.” 4. “A expressão ‘necessitados’ (art. 134, caput, da Constituição), que qualifica, orienta e
enobrece a atuação da Defensoria Pública, deve ser entendida, no campo da Ação Civil Pública, em
sentido amplo, de modo a incluir, ao lado dos estritamente carentes de recursos financeiros – os
miseráveis e pobres –, os hipervulneráveis (isto é, os socialmente estigmatizados ou excluídos, as
crianças, os idosos, as gerações futuras), enfim todos aqueles que, como indivíduo ou classe, por
conta de sua real debilidade perante abusos ou arbítrio dos detentores de poder econômico ou
político, ‘necessitem’ da mão benevolente e solidarista do Estado para sua proteção, mesmo que
contra o próprio Estado. Vê-se, então, que a partir da ideia tradicional da instituição forma-se, no
Welfare State, um novo e mais abrangente círculo de sujeitos salvaguardados processualmente, isto
é, adota-se uma compreensão de minus habentes impregnada de significado social, organizacional e
de dignificação da pessoa humana” (REsp 1.264.116/RS, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda
Turma, julgado em 18-10-2011, DJe 13-4-2012).
5. O Supremo Tribunal Federal, a propósito, recentemente, ao julgar a ADI 3.943/DF, em acórdão
ainda pendente de publicação, concluiu que a Defensoria Pública tem legitimidade para propor ação
civil pública, na defesa de interesses difusos, coletivos ou individuais homogêneos, julgando
improcedente o pedido de declaração de inconstitucionalidade formulado contra o art. 5º, inciso II,
da Lei n. 7.347/1985, alterada pela Lei n. 11.448/2007 (“Art. 5º Têm legitimidade para propor a
ação principal e a ação cautelar: [...] II – a Defensoria Pública”).
6. Embargos de divergência acolhidos para, reformando o acórdão embargado, restabelecer o
julgamento dos embargos infringentes prolatado pelo Terceiro Grupo Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Rio Grande do Sul, que reconhecera a legitimidade da Defensoria Pública para ajuizar a
ação civil pública em questão (STJ, EREsp 1192577/RS, Rel. Min. Laurita Vaz, Corte Especial,
julgado em 21-10-2015, DJe 13-11-2015).

Se não bastasse a força dos argumentos supraexpostos, bem como a pacificação do


tema, que tende a ser inevitável, tem-se ainda um reforço para a legitimidade da
Defensoria Pública promover demandas coletivas no NCPC. Quando trata dos deveres do
juiz no processo, o inc. X do art. 139 dispõe que o juiz, “quando se deparar com diversas
demandas individuais repetitivas, oficiar o Ministério Público, a Defensoria Pública e, na
medida do possível, outros legitimados a que se referem o art. 5º da Lei n. 7.347, de 24 de
julho de 1985, e o art. 82 da Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990, para, se for o caso,
promover a propositura da ação coletiva respectiva”. Fica mais clara ainda a legitimidade
da Defensoria para as ações coletivas.
9.3. Administração Pública direta

Art. 82. [...]


II – a União, os Estados, os Municípios e o Distrito Federal;
Os órgãos da Administração Pública direta e, em que pese normalmente figurarem no
polo passivo das demandas coletivas, são legitimados ativos e podem demandar em Juízo
para a proteção dos consumidores. Lembramos que a Constituição dispõe – como visto –
que o Estado promoverá a defesa do consumidor.
Precedente:
1. Os órgãos que integram a Administração Pública direta ou indireta são legitimados para a defesa
dos interesses transindividuais dos consumidores por força da prerrogativa que lhes é conferida pelo
art. 82, III, do CDC, que deve sempre receber interpretação extensiva, sistemática e teleológica, de
modo a conferir eficácia ao preceito constitucional que impõe ao Estado o ônus de promover, “na
forma da lei, a defesa do consumidor”.
2. No que concerne à defesa dos interesses transindividuais, o critério para a aferição da
legitimidade do agente público não deve ser limitado à exigência de personalidade jurídica ou
mesmo ao rigorismo formal que reclama destinação específica do órgão público para a defesa dos
interesses tutelados pelo CDC (STJ, REsp 1.002.813/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma,
julgado em 2-12-2010, DJe 17-6-2011).

9.4. Entidades e órgãos da Administração direta ou indireta

Art. 82. [...]


III – as entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade
jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos por este código;
Aqui nos deparamos com uma grande novidade do CDC que visa efetivamente ampliar
o acesso à justiça de modo a permitir uma melhor proteção do consumidor em juízo, que
é o reconhecimento da legitimidade ativa para entidades e órgãos que não dispõem de
personalidade jurídica própria e, como tal, não poderiam demandar em juízo (as Casas
Legislativas – câmaras municipais e assembleias legislativas – não possuem personalidade
jurídica. Só podem figurar em juízo na defesa de suas prerrogativas institucionais; não
possuem legitimidade para recorrer ou apresentar contrarrazões em lide que envolva
direitos estatutários de servidores (STJ, AgRg no AREsp 69.764/AP, Rel. Min. Humberto
Martins, Segunda Turma, julgado em 12-6-2012, DJe 18-6-2012).
Para proteger o consumidor, as entidades e órgãos sem personalidade jurídica própria
ganharam a legitimidade ativa, desde que essas entidades e órgãos tenham como
finalidade – ver próximo inciso – a proteção do consumidor. É o caso típico do Procon
ou mesmo de Comissões com essa temática consumerista criadas em órgãos legislativos.
Sobre o tema apresentamos os precedentes:
De acordo com os arts. 81 e 82 do CDC, os Procons possuem legitimidade ativa ad causam para a
defesa dos interesses dos consumidores. Precedente: REsp 200.827/SP, Rel. Min. Carlos Alberto
Menezes Direito, DJ, de 9-12-02 (STJ, REsp 1.194.767/SP, Rel. Min. Mauro Campbell Marques,
Segunda Turma, julgado em 14-12-2010, DJe 8-2-2011).
1. Cinge-se a controvérsia à legitimidade da Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro para propor Ação Civil Pública visando a obrigar os
associados da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro –
Fetranspor a informar o saldo do Riocard (sistema de bilhetagem eletrônica de ônibus) sobre cada
débito realizado no respectivo cartão.
2. O CDC conferiu legitimação para ajuizamento de demandas coletivas, inclusive para a tutela de
interesses individuais homogêneos, às “entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou
indireta, ainda que sem personalidade jurídica, especificamente destinados a defesa dos interesses e
direitos” do consumidor (art. 82, III).
[...]
4. A recorrente – Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Estado do Rio
de Janeiro – é entidade ou órgão técnico vinculado ao Poder Legislativo Estadual com competência,
expressa e específica, para atuar na tutela do consumidor, integrando o Sistema Nacional de Defesa
do Consumidor.
[...]
6. Na apreciação da legitimação para a proposição de ações coletivas, não se deve entender
restritivamente a expressão “Administração Pública”, referida no art. 82, III, do CDC. Para o
intérprete da lei, como o STJ, importa apenas indagar se o órgão em questão exerce, com base em
autorização legal, função administrativa e, por meio dela, a defesa do consumidor, de modo análogo
ou semelhante ao Procon (STJ, REsp 1.075.392/RJ, Rel. Min. Castro Meira, Rel. p/ Acórdão Min.
Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 15-12-2009, DJe 4-5-2011).
Não podemos esquecer também o Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria
Pública do Estado do Rio de Janeiro – Nudecon, cuja legitimidade para ajuizar ações
coletivas decorre do CDC, que é bem anterior às modificações legais que deram
legitimidade à DP, Instituição a qual o Nudecon pertence. Os núcleos temáticos da
Defensoria não possuem personalidade jurídica própria, porém ostentam até hoje
legitimidade para proteger consumidores. O fato, entretanto, é que, com a legitimidade do
todo, a legitimidade da parte perdeu o sentido, mas foi muito importante para fixar a ideia
de que a Defensoria Pública – seja por ela mesma, seja por núcleos – pode ajuizar
demandas coletivas.
Precedente:
I – O Nudecon, órgão especializado, vinculado à Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro,
tem legitimidade ativa para propor ação civil pública objetivando a defesa dos interesses da
coletividade de consumidores que assumiram contratos de arrendamento mercantil, para aquisição de
veículos automotores, com cláusula de indexação monetária atrelada à variação cambial.
II – No que se refere à defesa dos interesses do consumidor por meio de ações coletivas, a intenção
do legislador pátrio foi ampliar o campo da legitimação ativa, conforme se depreende do artigo 82 e
incisos do CDC, bem assim do artigo 5º, inciso XXXII, da Constituição Federal, ao dispor,
expressamente, que incumbe ao “Estado promover, na forma da lei, a defesa do consumidor”.
III – Reconhecida a relevância social, ainda que se trate de direitos essencialmente individuais,
vislumbra-se o interesse da sociedade na solução coletiva do litígio, seja como forma de atender às
políticas judiciárias no sentido de se propiciar a defesa plena do consumidor, com a consequente
facilitação ao acesso à Justiça, seja para garantir a segurança jurídica em tema de extrema
relevância, evitando-se a existência de decisões conflitantes.
Recurso especial provido (REsp 555.111/RJ, Rel. Min. Castro Filho, Terceira Turma, julgado em 5-
9-2006, DJ 8-12-2006, p. 363).
9.5. Associações
Art. 82. [...]
IV – as associações legalmente constituídas há pelo menos um ano e que incluam entre seus fins
institucionais a defesa dos interesses e direitos protegidos por este código, dispensada a autorização
assemblear.
§ 1º O requisito da pré-constituição pode ser dispensado pelo juiz, nas ações previstas nos arts. 91 e
seguintes, quando haja manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do
dano, ou pela relevância do bem jurídico a ser protegido.
A legitimidade das associações é muito importante, porque é um legitimado que não é
um ente público, mas privado, permitindo assim uma participação mais efetiva da
sociedade civil no processo coletivo.
Reza a doutrina:
Nos últimos anos, tem assumido importância crescente o papel das entidades não governamentais,
seja na defesa de interesses ligados à defesa do interesse público primário, seja à defesa do meio
ambiente, do consumidor e outros interesses transindividuais. Entendemos salutar esse crescimento,
pois o Estado não tem tido capacidade de atender à demanda de serviços sociais, passando essas
entidades a colaborar, controlar e até complementar atividades importantes para o desenvolvimento
social, cultural, político e econômico do País 80.
Porém a legitimidade das associações depende de algumas condições, que são:

Requisito formal: legalmente constituída.


Requisito temporal: há pelo menos 1 ano.
Requisito institucional: incluir entre as suas finalidades institucionais a proteção dos consumidores.

Não é necessária, como diz claramente a lei, a autorização dos associados em


assembleia para a propositura da demanda, porém é razoável exigir que pelo menos a
associação esteja regularmente constituída (Código Civil, arts. 53 a 61).
Quanto ao requisito temporal, temos que a exigência também é salutar porque evita a
criação de “associações oportunistas”, apenas para proporem uma ação coletiva, sendo
razoável exigir que ela tenha pelo menos 1 ano de atividade regular. Porém aqui é
importante destacar a possibilidade de o juiz dispensar o requisito temporal (pré-
constituição, ou seja, 1 ano de existência), quando presentes os requisitos legais que
levam o juiz – em análise individualizada do caso concreto: casuística – a entender que a
dispensa tem fundamento. Suponhamos uma associação criada pelas vítimas de um
desastre aéreo específico. É uma associação que não poderia ser criada antes do acidente,
apenas depois, de modo que estando ela regularmente constituída e tendo como
finalidade a proteção das vítimas do acidente – consumidores – seria um formalismo
exagerado exigir que ela esperasse 1 ano antes de poder demandar coletivamente.

ATENÇÃO!
O juiz não pode dispensar nem o requisito formal nem o institucional, mas apenas o temporal.
Precedente:
Presente o interesse social pela dimensão do dano e sendo relevante o bem jurídico a ser protegido, como na hipótese, pode o juiz dispensar o requisito
da pré-constituição superior a um ano da associação autora da ação de que trata o inciso III do parágrafo único do art. 82 do Código de Defesa do
Consumidor, que cuida da defesa coletiva dos interesses ou direitos individuais homogêneos (STJ, REsp 140.097/SP, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha,
Quarta Turma, julgado em 4-5-2000, DJ 11-9-2000, p. 252).

Já o requisito institucional, também chamado de pertinência temática, é importante


porque
demonstra o liame concreto entre esta [a associação] e a situação jurídica tutelada. Não haveria
razão para que, v.g., uma associação criada para a defesa do meio ambiente demandasse em juízo
com relação a problemas inerentes às relações de consumo ou vice-versa, e tampouco que
propusesse ações relativas a interesses simplesmente individuais de seus associados 81.

DICA!
Pertinência temática não se confunde com representatividade adequada.

A representatividade adequada, criação do direito norte-americano (adequacy of


representation) impõe ao juiz da ação coletiva (class action) que verifique se, naquele
caso específico (controle ope iudicis), e com base na legislação norte-americana e os
precedentes sobre o tema, o autor terá condições de – como diz o nome – representar
adequadamente os interesses da classe ausente (absent parties). Isso se dá porque a coisa
julgada – vide comentários aos arts. 103 e 104 – nas ações coletivas norte-americanas,
vincula não só o autor da ação coletiva (o cidadão que teve a representatividade adequada
reconhecida) como as partes ausentes, então para que isso possa ocorrer é essencial a
análise desse requisito.
Já no Brasil é diferente, porque os legitimados para propositura das ações coletivas já
foram considerados pelo legislador representantes adequados dos consumidores (ope
legis), e se por acaso eles não se mostrarem – no processo – os representantes adequados
para essa demanda, a coisa julgada não prejudica o direito individual das partes ausentes,
os consumidores. No entanto, entendemos que seria possível sim o controle judicial da
representatividade adequada, com base no inciso XXXV do art. 5º da Constituição e no
art. 83 do CDC. O acesso à justiça é algo inseparável do processo coletivo, não sendo
exagero afirmarmos que fonte constitucional imediata da tutela coletiva de direitos é o
próprio acesso à justiça, de modo que o mau uso do processo coletivo poderia não
desvirtuar esse poderoso instrumento de proteção da sociedade, cabendo ao juiz, no caso
concreto, fazer uma análise rigorosa, sempre fundamentada da representatividade
adequada. E o art. 83 do CDC prevê que as demandas coletivas devem, caso procedentes,
propiciar uma adequada e efetiva tutela dos direitos coletivos. Assim sendo, uma
demanda coletiva proposta por um legitimado, mal formulada ou mal conduzida, poderia
representar uma violação a essa proteção que o sistema como um todo confere aos
consumidores.
Mesmo com o diferenciado sistema de coisa julgada, que não prejudica as demandas
individuais, não seria suficiente para afastar in totum o controle judicial da
representatividade adequada, porque seria necessário que o consumidor demandasse
individualmente para tutelar seus direitos – e muitas vezes o custo-benefício não
compensa, como vimos – quando as ações coletivas foram criadas exatamente para evitar
que isso ocorresse. Ações coletivas mal deduzidas ou mal conduzidas fariam com que o
consumidor ficasse desacreditado delas, e provavelmente preferiria ajuizar a sua ação
sozinho em vez de confiar no resultado do processo coletivo. E mesmo com a intervenção
obrigatória do MP como custos legis, temos que a representatividade adequada poderia
sim ser exigida, porque o ingresso do MP no processo coletivo nem sempre é capaz de
corrigir os erros de uma demanda mal formulada e/ou mal conduzida, causando enormes
prejuízos ao nobre instituto do processo coletivo.
O entendimento doutrinário dispõe que
[...] problemas práticos têm surgido pelo manejo de ações coletivas por parte de associações que,
embora obedeçam aos requisitos legais, não apresentam a credibilidade, a seriedade, o
conhecimento técnico-científico, a capacidade econômica, a possibilidade de produzir uma defesa
processual válida, dados sensíveis esses que constituem as características de uma
“representatividade” idônea e adequada.
[...] seria de grande valia reconhecer ao juiz o controle sobre a legitimação, em cada caso concreto,
de modo a possibilitar a inadmissibilidade da ação coletiva, quando a “representatividade” do
legitimado se demonstrasse inadequada 82.
A pertinência temática é o requisito que exige que uma associação, para ajuizar uma
ação coletiva na defesa do consumidor, seja voltada para a proteção do consumidor. Veja
os seguintes precedentes:
A Segunda Seção desta Corte consagrou o entendimento de que os juros remuneratórios pedidos na
inicial da ação civil pública movida pela Apadeco (Associação Paranaense de Defesa do
Consumidor) contra a CEF (Caixa Econômica Federal) e estipulados na sentença transitada em
julgado incidem apenas nos meses de junho de 1987 e janeiro de 1989, quando ocorreu remuneração
a menor das cadernetas de poupança, motivo pelo qual, é possível ao consumidor requerer, em ação
individual autônoma, o pagamento dessa verba, sem que se possa falar em ofensa à coisa julgada
(STJ, AgRg no REsp 1.309.253/PR, Rel. Min. Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 18-12-2012,
DJe 14-2-2013).
Quanto ao cabimento da ação civil pública e a legitimidade ativa da associação, vê-se que no caso
dos autos, a Recorrida ajuizou ação civil pública pleiteando a declaração de nulidade das cláusulas
que previstas em contrato bancário. As Turmas que compõem a 2ª Seção desta Corte já se
manifestaram em sentido positivo quanto à legitimidade ativa da Associações de Consumidores e ao
cabimento da ação civil pública. Precedentes (STJ, REsp 1.346.050/SP, Rel. Min. Sidnei Beneti,
Terceira Turma, julgado em 20-11-2012, DJe 6-12-2012).
2. As entidades de proteção ao consumidor, ante a existência de relação de consumo, têm
legitimidade ativa para propor ação civil pública em face de instituições financeiras para que os
poupadores recebam diferenças de remuneração de cadernetas de poupança eventualmente não
depositadas nas respectivas contas. Precedentes.
3. É ativamente legitimada a associação legalmente constituída há pelo menos um ano e que inclua
entre seus fins institucionais a defesa dos interesses e direitos dos consumidores. Precedentes (STJ,
AgRg nos EDcl no REsp 1.083.547/SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em
10-4-2012, DJe 13-4-2012).
O “Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – IDEC” tem legitimidade para propor ação
coletiva em defesa dos consumidores de planos de saúde (art. 81, parágrafo único, III, c/c o art. 82,
IC, do CDC (STJ, REsp 171.373/SP, Rel. Min. Barros Monteiro, Quarta Turma, julgado em 27-4-
2004, DJ 2-8-2004, p. 395).
– A “Adcon – Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, da Vida e dos Direitos Civis” tem
legitimidade para, em ação civil pública, pleitear o reconhecimento da alegada abusividade de
cláusulas insertas em contrato de cartão de crédito que estipulem a cobrança de juros acima de 12%
ao ano (STJ, REsp 575.102/RS, Rel. Min. Barros Monteiro, Quarta Turma, julgado em 4-10-2005,
DJ 7-11-2005, p. 290).
Precedentes sobre a pertinência temática:
Precedente do STF: “Da mesma forma, a associação de defesa do consumidor não tem legitimidade
para propor ação civil pública na defesa de contribuintes” (AI-AgR 382298/RS, Relator p/ Acórdão
Min. Gilmar Mendes, julgado em 4-5-2004). Agravo regimental improvido (STJ, AgRg no AREsp
247.753/SP, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 6-12-2012, DJe 17-12-2012).
V – A hipótese em tela diz respeito a ação civil pública proposta pela Ordem Nacional das Relações
de Consumo – Ornare, contra o Município de Niterói e a Empresa Municipal de Urbanismo,
Saneamento e Moradia de Niterói – EMUSA, a fim de reconhecer a ilegalidade das multas de
trânsito emitidas por agentes de trânsito irregularmente investidos para tal fim, bem como a
abstenção da promoção de novas autuações por esses agentes.
VI – A recorrida não tem legitimidade para promover ação civil pública visando obstar a cobrança
de multas de trânsito, por se tratar de direitos individuais homogêneos, identificáveis e divisíveis,
pretendendo a defesa do direito dos condutores de veículos do Município de Niterói.
VII – Os sujeitos protegidos pela actio em comento não se enquadram como consumidores, o que não
se coaduna com a previsão do art. 21 da Lei n. 7.347/85 (STJ, REsp 727.092/RJ, Rel. Min.
Francisco Falcão, Primeira Turma, julgado em 13-2-2007, DJ 14-6-2007, p. 256).
Os “Centros Acadêmicos”, nomenclatura utilizada para associações nas quais se congregam
estudantes universitários, regularmente constituídos e desde que preenchidos os requisitos legais,
possuem legitimidade para ajuizar ação civil pública em defesa dos direitos individuais
homogêneos, de índole consumerista, dos estudantes do respectivo curso, frente à instituição de
ensino particular. Nesse caso, a vocação institucional natural do centro acadêmico, relativamente aos
estudantes de instituições de ensino privadas, insere-se no rol previsto nos arts. 82, IV, do CDC, e
art. 5º da Lei n. 7.347/85 (STJ, REsp 1.189.273/SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma,
julgado em 1º-3-2011, DJe 4-3-2011).
As associações que pretendem residir em juízo na tutela dos interesses ou direitos metaindividuais
devem comprovar a chamada pertinência temática. Cumpre-lhes demonstrar a efetiva
correspondência entre o objeto da ação e os seus fins institucionais (STJ, AgRg nos EDcl nos EDcl
no REsp 1150424/SP, Rel. Min. Olindo Menezes (Desembargador convocado do TRF 1ª Região),
Primeira Turma, julgado em 10-11-2015, DJe 24-11-2015).
Precedente sobre a dispensa de autorização assemblear:
2. São legitimados para sua propositura, além do Ministério Público, detentor da função institucional
de fazê-lo no resguardo de interesses difusos e coletivos (CF/88, art. 129, III), a União, os Estados,
os Municípios, as Autarquias, as empresas públicas, as sociedades de economia mista e as
associações civis.
3. Não se exige das associações civis que atuam em defesa aos interesses do consumidor, como sói
ser a ora recorrida, autorização expressa de seus associados para o ajuizamento de ação civil que
tenha por objeto a tutela a direitos difusos dos consumidores, mesmo porque, sendo referidos
direitos metaindividuais, de natureza indivisível, e especialmente, comuns a toda uma categoria de
pessoas não determináveis que se encontram unidas em razão de uma situação de fato, impossível
seria a individualização de cada potencial interessado (STJ, REsp 1.181.066/RS, Rel. Min. Vasco
Della Giustina [Desembargador Convocado do TJRS], Terceira Turma, julgado em 15-3-2011, DJe
31-3-2011).

Não se confundem os institutos da substituição e da representação processual. Na substituição a


Associação age em nome próprio e não depende de autorização de seus filiados para ajuizar ação na
defesa de seus direitos coletivos e individuais homogêneos. Já na representação, os filiados integram
o polo ativo da ação, dependendo o seu ajuizamento, pela Associação, da autorização daqueles (STJ,
AgRg no REsp 1213290/PR, Rel. Min. Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em 19-8-2014, DJe
1º-9-2014).

Art. 83. Para a defesa dos direitos e interesses protegidos por este código são admissíveis todas as
espécies de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela.
10. Atipicidade da tutela coletiva

Trata-se de norma que decorre diretamente do princípio constitucional do acesso à


justiça, mais especificamente com a terceira onda renovatória, que prega uma melhora no
sistema processual para sua maior eficácia.
A atipicidade da tutela coletiva é fundamental porque não permite limitações às ações
coletivas. É certo que existe controvérsia sobre o termo adequado (ação, demanda, tutela
coletiva ou processo coletivo), mas estamos propositadamente utilizando vários termos
para demonstrar que pouco importa o nome que se dá à demanda, e sim o pedido
formulado, que precisa ser capaz de propiciar a adequada e efetiva proteção dos direitos,
inclusive coletivos e inclusive também dos consumidores.
Assim sendo, indagamos: Qual a ação cabível para proteger direitos coletivos lato
sensu do consumidor? Cabe qualquer ação onde tenha sido formulado um pedido
adequado e capaz de proteger de forma efetiva esses direitos. Chamemos de ação coletiva,
de ação civil pública, de ação declaratória etc., porque o nome pouco ou nada importa,
mas sim os elementos da ação (partes, causa de pedir e pedido). Se o pedido ao final for
acolhido, terá havido acesso à justiça se os direitos dos consumidores foram adequada e
efetivamente protegidos.
E podemos fazer essa afirmação mesmo diante do que dispõe o art. 3º da LACP:
Art. 3º A ação civil poderá ter por objeto a condenação em dinheiro ou o cumprimento de obrigação
de fazer ou não fazer.
Primeiro porque esse dispositivo não veda a formulação de outros pedidos em ações
coletivas, apenas ressalta que poderá ser pedida a condenação em dinheiro ou o
cumprimento de obrigação específica. Segundo porque dentro do microssistema existe
norma mais eficaz que essa, e é exatamente o dispositivo ora comentado, que deve ter
primazia sobre a “aparente” limitação do art. 3º da LACP.
Dispõe a doutrina que:
[...] muito embora a Lei da Ação Civil Pública tenha previsto a tutela das obrigações de fazer e a
tutela condenatória como “alternativas” (ou uma ou outra), [...] hoje está pacificado o entendimento
que permite a cumulação dos pedidos de obrigação de fazer, não fazer, entregar coisa e de
condenação em quantia certa, bem como outros – inclusive comando “autoexecutivos” e
“mandamentais” – que forem necessários para a adequada tutela dos direitos coletivos discutidos no
processo 83.
Não se trata de mera enunciação de um princípio vazio e inócuo, de um programa a ser posto em
prática por meio de outras normas legais. Cuida-se, ao revés, de norma autoaplicável, no sentido de
que dela se podem extrair desde logo várias consequências. A primeira delas, certamente, é a
realização processual dos direitos na exata conformidade do clássico princípio chiovendiano,
segundo o qual “o processo deve dar quanto for possível praticamente, a quem tenha um direito, tudo
aquilo e somente aquilo que ele tenha direito de conseguir”. A segunda, que é consectária da anterior,
é a da interpretação do sistema processual pátrio de modo a dele retirar a conclusão de que nele
existe, sempre, uma ação capaz de propiciar, pela adequação de seu provimento, a tutela efetiva e
completa de todos os direitos dos consumidores 84.

Sobre o tema, os seguintes precedentes:


Os arts. 21 da Lei da Ação Civil Pública e 90 do CDC, como normas de envio, possibilitaram o
surgimento do denominado Microssistema ou Minissistema de proteção dos interesses ou direitos
coletivos amplo senso, no qual se comunicam outras normas, como o Estatuto do Idoso e o da
Criança e do Adolescente, a Lei da Ação Popular, a Lei de Improbidade Administrativa e outras que
visam tutelar direitos dessa natureza, de forma que os instrumentos e institutos podem ser utilizados
para “propiciar sua adequada e efetiva tutela” (art. 83 do CDC) (STJ, REsp 1.221.254/RJ, Rel. Min.
Arnaldo Esteves Lima, Primeira Turma, julgado em 5-6-2012, DJe 13-6-2012).

Admite-se a cumulação de pedidos em ação civil pública, desde que observadas as regras para a
cumulação previstas no art. 292 do CPC. O art. 21 da Lei n. 7.347/85 remete-se à regra do art. 83 do
CDC que autoriza a obtenção de provimento jurisdicional de qualquer natureza: condenatório,
mandamental, declaratório ou constitutivo (STJ, REsp 547.780/SC, Rel. Min. Castro Meira, Segunda
Turma, julgado em 2-2-2006, DJ 20-2-2006, p. 271).

10. Sob esse ângulo, é cediço que a possibilidade jurídica do pedido afere-se não pela previsão do
mesmo no ordenamento, mas pela vedação do que se pretende via tutela jurisdicional, por isso que,
em tema de direito processual, máxime quanto ao acesso à justiça, vige o princípio da liberdade,
sendo lícito pleitear-se o que não é vedado.
11. Deveras, a efetividade da prestação jurisdicional implica em resultados práticos tangíveis e não
meras divagações acadêmicas, porquanto, de há muito já afirmava Chiovenda, que o Judiciário deve
dar a quem tem direito, aquilo e justamente aquilo a que faz jus, posto não poder o processo gerar
danos ao autor que tem razão. Ora, é da essência da ação civil pública gerar tutela específica,
inibitória ou repressiva, sendo livre o juiz não só quanto às medidas de apoio para fazer valer a sua
decisão, como também na prolação da mesma, impondo o que no direito anglo-saxônico se denomina
specific performance. In casu, o Tribunal impôs uma prestação específica independentemente das
multas, por isso que cada uma das medidas vem prevista em leis federais distintas a saber: a que
veda as práticas abusivas econômicas (Lei n. 8.884/94) e 7.437/85 (lei da ação civil pública) (STJ,
REsp 677.585/RS, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 6-12-2005, DJ 13-2-2006, p.
679).

11. Dano moral coletivo

Diante de todo o exposto, indagamos, em que pese a resposta ter sido supraindicada: é
cabível ação coletiva com pedido de indenização por danos morais coletivos?
O art. 5º, V e X, da Constituição assegura a indenização por dano moral, sem fazer
nenhum tipo de limitação ao dano causado, se individual ou coletivo, porém o art. 6º, VI,
do CDC, estatui ser direito básico do consumidor a efetiva prevenção e reparação de
danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos. Portanto, não nos resta
dúvida acerca do cabimento da indenização por danos morais coletivos, sendo essa
inclusive a opção do “microssistema”, reforçado pela LACP.
Art. 1º Regem-se pelas disposições desta Lei, sem prejuízo da ação popular, as ações de
responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados.
Diz a doutrina:
Assim, desde que seja alegado atentado aos interesses protegidos pela lei, viável será a propositura,
bem como o pedido de quaisquer das tutelas jurisdicionais (cognitivas, executivas e cautelares)
previstas no ordenamento para a sua proteção 85.
E, por fim, o dano moral coletivo é aquele que envolve uma condenação genérica da pessoa física ou
jurídica que causou o dano, tendo em vista o abalo de toda uma coletividade, perante o bem jurídico
lesado.
Desse modo, o bem jurídico ofendido é de tamanha importância para a sociedade que não poderia a
instituição Ministério Público ficar inerte pela presença do fato gerador.
[...]
Com efeito, o dano moral coletivo é uma forma de se buscar um bálsamo para a sociedade que foi
afetada na sua integridade, em função da gravidade do ato e da natureza do bem corrompido e
também como forma de inibir a ação recidiva.
Quando os fatos demonstrados numa ação civil pública espelharem a violação de vários dispositivos
legais e constitucionais que tutela direitos de subsistência humana de espectro físico, psicológico e
social, é inquestionável o cabimento do pedido de dano moral coletivo, porque ofende frontalmente
um vetor básico do Estado Democrático de Direito brasileiro exposto na CF/88, em seu art. 1º,
inciso III, que é o fundamento da dignidade da pessoa humana 86.

A jurisprudência do STJ já decidiu no sentido do cabimento (AgRg no REsp


1.029.927/PB, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 2-4-2009, DJe
20-4-2009) e também pelo não cabimento (AgRg no REsp 1.305.977/MG, Rel. Min. Ari
Pargendler, Primeira Turma, julgado em 9-4-2013, DJe 16-4-2013, entre outros), sendo
atualmente incerto o entendimento deste Tribunal.
Destacamos dois precedentes, cujos fundamentos são expostos em resumo.
a) Cabimento:
1. A indenização por danos morais aos consumidores, tanto de ordem individual quanto coletiva e
difusa, tem seu fundamento no art. 6º, VI, do Código de Defesa do Consumidor.
2. Já realmente firmado que, não é qualquer atentado aos interesses dos consumidores que pode
acarretar dano moral difuso. É preciso que o fato transgressor seja de razoável significância e
desborde os limites da tolerabilidade. Ele deve ser grave o suficiente para produzir verdadeiros
sofrimentos, intranquilidade social e alterações relevantes na ordem extrapatrimonial coletiva.
Ocorrência, na espécie (REsp 1.221.756/RJ, Rel. Min. Massami Uyeda, Terceira Turma, julgado em
2-2-2012, DJe 10-2-2012).
3. No presente caso, contudo, restou exaustivamente comprovado nos autos que a condenação à
composição dos danos morais teve relevância social, de modo que, o julgamento repara a lesão
causada pela conduta abusiva da ora Recorrente, ao oferecer plano de telefonia sem, entretanto,
alertar os consumidores acerca das limitações ao uso na referida adesão. O Tribunal de origem bem
delineou o abalo à integridade psicofísica da coletividade na medida em que foram lesados valores
fundamentais compartilhados pela sociedade.
4. Configurada ofensa à dignidade dos consumidores e aos interesses econômicos diante da
inexistência de informação acerca do plano com redução de custo da assinatura básica, ao lado da
condenação por danos materiais de rigor moral ou levados a condenação à indenização por danos
morais coletivos e difusos.
5. Determinação de cumprimento da sentença da ação civil pública, no tocante à lesão aos
participantes do “LIG-MIX”, pelo período de duração dos acréscimos indevidos: a) por danos
materiais, individuais por intermédio da devolução dos valores efetivamente cobrados em
telefonemas interurbanos e a telefones celulares; b) por danos morais, individuais mediante o
desconto de 5% em cada conta, já abatido o valor da devolução dos participantes de aludido plano,
por período igual ao da duração da cobrança indevida em cada caso; c) por dano moral difuso
mediante prestação ao Fundo de Reconstituição de Bens Lesados do Estado de Santa Catarina; d)
realização de levantamento técnico dos consumidores e valores e à operacionalização dos descontos
de ambas as naturezas; e) informação dos descontos, a título de indenização por danos materiais e
morais, nas contas telefônicas (REsp 1.291.213/SC, Rel. Min. Sidnei Beneti, Terceira Turma,
julgado em 30-8-2012, DJe 25-9-2012).

b) Não cabimento:
Agravo regimental em recurso especial. Administrativo. Ação civil pública. Serviço de telefonia.
Postos de atendimento. Reabertura. Danos morais coletivos. Inexistência. Precedente. Agravo
improvido.
1. A Egrégia Primeira Turma firmou já entendimento de que, em hipóteses como tais, ou seja, ação
civil pública objetivando a reabertura de postos de atendimento de serviço de telefonia, não há falar
em dano moral coletivo, uma vez que “Não parece ser compatível com o dano moral a ideia da
‘transindividualidade’ (= da indeterminabilidade do sujeito passivo e da indivisibilidade da ofensa e
da reparação) da lesão” (REsp 971.844/RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJe 12-2-2010).
2. No mesmo sentido: REsp 598.281/MG, Relator p/ acórdão Ministro Teori Albino Zavascki, DJ
1º-6-2006 e REsp 821.891/RS, Relator Ministro Luiz Fux, DJe 12-5-2008 (AgRg no REsp
1.109.905/PR, Rel. Min. Hamilton Carvalhido, Primeira Turma, julgado em 22-6-2010, DJe 3-8-
2010).

Julgados mais recentes vêm admitindo o dano moral coletivo:


No que diz respeito à transindividualidade do direito tutelado, a jurisprudência desta Corte firmou-se
no sentido do cabimento da condenação por danos morais coletivos em sede de ação civil pública
(STJ, EDcl no AgRg no REsp 1526946/RN, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado
em 5-11-2015, DJe 13-11-2015).

O dano moral coletivo prescinde da comprovação de dor, de sofrimento e de abalo psicológico, pois
tal comprovação, embora possível na esfera individual, torna-se inaplicável quando se cuida de
interesses difusos e coletivos. Nesse sentido: REsp 1.410.698/MG, Rel. Min. Humberto Martins,
Segunda Turma, DJe 30-6-2015; REsp 1.057.274/RS, Rel. Min. Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe
26-2-2010 (STJ, REsp 1509923/SP, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 6-10-
2015, DJe 22-10-2015).

Art. 84. Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer ou não fazer, o juiz
concederá a tutela específica da obrigação ou determinará providências que assegurem o resultado
prático equivalente ao do adimplemento.

12. Tutela específica

Esse dispositivo complementa o anterior, pois é uma demonstração da tentativa do


legislador que elaborou o CDC de propiciar uma adequada e efetiva tutela dos direitos
dos consumidores. E de tão inovador – para a época em que foi introduzido no direito
brasileiro, em 1990 – que foi reproduzido no CPC/73, em 1994, dando origem ao art. 461.
Temos aqui a chamada tutela específica das obrigações de fazer ou não fazer 87. No NCPC
o dispositivo se mantém, no art. 497, nos seguintes termos:
Na ação que tenha por objeto a prestação de fazer ou de não fazer, o juiz, se procedente o pedido,
concederá a tutela específica ou determinará providências que assegurem a obtenção de tutela pelo
resultado prático equivalente.

Até 1990, as obrigações de fazer e não fazer, tal como disciplinadas no antigo CPC, não
davam ao titular do direito aqui e tudo aquilo que ele tinha o direito de obter. Caso uma
pessoa tivesse uma obrigação de, por exemplo, fazer uma obra para outra, e fosse
condenada em processo com decisão já transitada em julgado, a execução dessa obrigação
invariavelmente terminava sem um resultado satisfatório para o autor da demanda, titular
do direito. Isso porque o processo não possuía mecanismos eficazes para dar ao autor o
direito que ele tinha, já que não havia como pressionar o titular da obrigação, réu já
condenado, a fazer a obra que ele tinha de fazer. A obrigação de fazer acabava se
convertendo em perdas e danos, mesmo que o titular do direito não quisesse essa
conversão, e assim o processo terminava sem que o autor tivesse a sua obra feita, talvez
até sem receber efetivamente suas perdas e danos – muitas vezes por falta de condição
econômica do réu em suportar essa condenação – e assim não havia efetividade do
processo e ele não se prestava a servir de instrumento para a realização concreta do
direito material.
O panorama começou a mudar exatamente com o art. 84 do CDC, que previu um
mecanismo eficiente de pressionar o réu, titular da obrigação de fazer ou não fazer, a
cumprir especificamente aquilo que ele era obrigado, garantindo-se uma maior eficácia ao
processo. Após essa norma, o autor passou, finalmente, a ter condições de exigir do réu a
tutela específica da obrigação de fazer ou não fazer.
Em conformidade com a doutrina:
[...] a tutela jurisdicional a ser entregue à coletividade deve ser a mais próxima possível daquela que
se teria com o cumprimento espontâneo do dever jurídico ambiental. A ideia precípua é que a tutela
jurisdicional a ser entregue seja a mais coincidente possível com o resultado previsto pela norma
ambiental. Enfim, se ela prevê um não fazer, então é esta a tutela que deve ser buscada; se, por outro
lado, prevê um fazer, é este que deve ser adimplido 88.

Em que pese a lição doutrinária supraexposta ser específica para o direito ambiental,
não há nenhum empecilho na sua utilização aos direitos dos consumidores, de modo que
aplicando o dispositivo às demandas coletivas consumeristas, podemos vislumbrar uma
série de possibilidades de concessão de tutelas específicas, quando as perdas e danos
seriam ineficazes para assegurar a proteção dos direitos:

Exemplos de obrigações de não fazer:


a) não veicular propaganda enganosa;
b) não cobrar taxas indevidas;
c) não se recusar a trocar produtos defeituosos dentro do prazo do CDC;
d) não fazer a “venda casada” de produtos e/ou serviços;
e) não interrupção de serviços essenciais etc.
Exemplos de obrigações de fazer:
a) melhorias no atendimento telefônico (call center) de atendimento ao consumidor;
b) constar no estabelecimento comercial um cartaz com os prazos para troca de produtos defeituosos;
c) inserir na embalagem as informações corretas do produto;
d) disponibilizar placas visíveis com o preço dos combustíveis na entrada dos postos;
e) ter um exemplar do Código de Defesa do Consumidor nos estabelecimentos comerciais etc.

Art. 84. [...]


§ 1º A conversão da obrigação em perdas e danos somente será admissível se por elas optar o autor
ou se impossível a tutela específica ou a obtenção do resultado prático correspondente.

13. Conversão em perdas e danos

Se o direito garante ao seu titular que ele receberá um facere ou um non facere, e ele
insiste na tutela específica da obrigação, é isso que o processo deve ser capaz de lhe
proporcionar, porém há, como o dispositivo menciona, duas legítimas exceções à regra. A
norma também se encontra no NCPC:
Art. 499. A obrigação somente será convertida em perdas e danos se o autor o requerer ou se
impossível a tutela específica ou a obtenção de tutela pelo resultado prático equivalente.

DICA!
No processo coletivo, quem “fala” pelo titular do direito é o legitimado ativo que propôs a demanda.

A primeira exceção consiste na renúncia do autor ao direito à obrigação específica,


caso em que, mesmo que possa ela ser cumprida, converter-se-á em perdas e danos. Nos
processos coletivos, entendemos que deva haver um maior controle do juiz nessas
hipóteses, pois como supradestacado, o autor da ação coletiva não é o titular do direito,
de modo que renunciar à obrigação específica quando ela ainda pode ser cumprida pode
ser medida temerária e exemplo de mal condução do processo. Como a intervenção do
MP é obrigatória, entendemos ainda que ele pode se opor à renúncia manifestada pelo
autor quando ficar evidenciado que o requerimento de conversão em perdas e danos não
proporciona uma tutela adequada ao direito da coletividade.
De acordo com Didier Jr. e Zaneti Jr. 89, o ativismo judicial entra “em cena com uma
maior participação do juiz nos processos coletivos – judicial activism –, resultante da
presença de forte interesse público primário nessas causas”, razão pela qual o juiz deve
indeferir o requerimento de conversão em perdas e danos quando verificar a sua
inadequação.
A segunda exceção ocorre quando se torna impossível, com ou sem a culpa do
devedor, o cumprimento específico da obrigação de fazer ou não fazer. Nesses casos, não
há o que ser feito, a não ser a conversão, podendo, inclusive, ser determinada de ofício
pelo juiz, já que a causa da conversão é a impossibilidade do cumprimento específico, e
não uma opção do autor.
Segue precedente:
É lícito ao julgador valer-se das disposições da segunda parte do § 1º do art. 461 do Código de
Processo Civil 90 para determinar, inclusive de ofício, a conversão da obrigação de dar, fazer ou não
fazer, em obrigação pecuniária (o que inclui o pagamento de indenização por perdas e danos) na
parte em que aquela não possa ser executada (STJ, REsp 1.055.822/RJ, Rel. Min. Massami Uyeda,
Terceira Turma, julgado em 24-5-2011, DJe 26-10-2011).
Merece destaque o entendimento pretoriano – correto – no sentido de que a conversão
em perdas em danos, seja qual for o seu fundamento, não precisa estar prevista na inicial,
ou seja, o autor da demanda pode pedir apenas o cumprimento específico da obrigação
sem se preocupar com a eventualidade da conversão.
Sobre o exposto, segue o seguinte julgado:
A conversão do pedido de obrigação de fazer em indenização por perdas e danos não configura
julgamento extra petita, nos termos do art. 461, § 1º, do CPC 91, ainda que não haja pedido explícito
nesse sentido (STJ, AgRg no Ag 1.397.365/SC, Rel. Min. Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em
28-8-2012, DJe 18-9-2012).
E vamos além. Ainda que a sentença coletiva tenha determinado apenas a obrigação de
fazer ou não fazer, a conversão ainda assim é possível, mesmo que a sentença tenha
transitado em julgado, pois se trata de uma decorrência da lei.

ATENÇÃO!
Regra: tutela específica das obrigações de fazer ou não fazer.
Exceções: conversão em perdas e danos quando o autor da demanda requerer; ou se tornar impossível o cumprimento da obrigação.
Art. 84. [...]
§ 2º A indenização por perdas e danos se fará sem prejuízo da multa (art. 287, do Código de
Processo Civil).
14. Perdas e danos

O art. 500 do NCPC possui a seguinte redação:


A indenização por perdas e danos dar-se-á sem prejuízo da multa fixada periodicamente para
compelir o réu ao cumprimento específico da obrigação.
A norma assegura a independência, no caso de conversão em perdas e danos, da multa
com esses valores. Isso porque a multa, que comentaremos adiante, possui natureza
coercitiva, enquanto que as perdas e danos possuem natureza ressarcitória.
A medida coercitiva representada pela multa, concebida para induzir o devedor a cumprir
espontaneamente as obrigações que lhe incumbem, principalmente as de natureza infungível, não tem
caráter reparatório. Vale dizer, sua imposição não prejudica o direito do credor à realização
específica da obrigação ou ao recebimento do equivalente monetário, e tampouco à postulação das
perdas e danos. A multa, em suma, tem função puramente coercitiva 92.

Art. 84. [...]


§ 3º Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do
provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou após justificação prévia, citado o
réu.

15. Tutela antecipada

Temos aqui a possibilidade de concessão de antecipação dos efeitos da tutela


pretendida.
Nas demandas coletivas que buscam a tutela de obrigações de fazer ou não fazer, o juiz
concederá ou não a tutela pretendida, julgando procedente ou improcedente o pedido
formulado, porém isso leva tempo. O processo é informado por uma série de princípios
constitucionais, e mesmo que o direito material dos consumidores, objeto do processo
coletivo, seja “bom”, não é dado ao juiz sentenciar condenando o(s) réu(s) sem o devido
processo legal.
Ocorre que muitas vezes não se pode esperar até o fim do processo para a concessão
da tutela específica, seja porque o processo demora, seja porque enquanto o processo
“demora” existe a possibilidade de serem causados danos aos consumidores. Basta
lembrarmos um caso recente de contaminação de uma bebida muito consumida, que
estava com líquido corrosivo misturado ao suco. Se for ajuizada uma demanda coletiva
com pedido de obrigação de fazer (recolhimento do produto nos pontos de venda), seria
temerário proceder ao cumprimento da tutela específica apenas após a sentença, quiçá
após o trânsito em julgado, porque até esse momento estaríamos todos nós consumidores
expostos a esse produto impróprio para o consumo, com sérios riscos de danos à saúde.
Em casos como esse, e não somente nesse, é que se admite a antecipação dos efeitos da
tutela específica pretendida na inicial, ou seja, a já conhecida tutela antecipada, também
prevista no NCPC.
Trata-se da possibilidade que o juiz tem de conceder uma medida que venha a tutelar
os direitos dos consumidores antes do momento que seria o adequado para isso, o final
do processo. Com a antecipação, o juiz simplesmente antecipa os efeitos da futura e
provável procedência do pedido, ou seja, o juiz entrega a tutela jurisdicional pretendida
antes do momento devido. Trata-se de verdadeira decisão interlocutória, mas com
conteúdo meritório. O recurso eventualmente cabível é o agravo de instrumento.
Vale lembrar que a concessão da tutela antecipada depende de requerimento, não
podendo ser concedida de ofício pelo juiz.
Veja julgado do STJ:
2. Dentre os requisitos exigidos para a concessão da antecipação dos efeitos da tutela, nos termos do
art. 273 do CPC, está o requerimento da parte, enquanto que, relativamente às medidas
essencialmente cautelares, o juiz está autorizado a agir independentemente do pedido da parte, em
situações excepcionais, exercendo o seu poder geral de cautela (arts. 797 e 798 do CPC 93).
3. Embora os arts. 84 do CDC e 12 da Lei n. 7.347/85 não façam expressa referência ao
requerimento da parte para a concessão da medida de urgência, isso não significa que, quando ela
tenha caráter antecipatório, não devam ser observados os requisitos genéricos exigidos pelo Código
de Processo Civil, no seu art. 273. Seja por força do art. 19 da Lei da Ação Civil Pública, seja por
força do art. 90 do CDC, naquilo que não contrarie as disposições específicas, o CPC tem aplicação.
4. A possibilidade de o juiz poder determinar, de ofício, medidas que assegurem o resultado prático
da tutela, dentre elas a fixação de astreintes (art. 84, § 4º, do CDC), não se confunde com a
concessão da própria tutela, que depende de pedido da parte, como qualquer outra tutela, de acordo
com o princípio da demanda, previsto nos arts. 2º e 128 e 262 do CPC.
5. Além de não ter requerido a concessão de liminar, o MP ainda deixou expressamente consignado a
sua pretensão no sentido de que a obrigação de fazer somente fosse efetivada após o trânsito em
julgado da sentença condenatória.
6. Impossibilidade de concessão de ofício da antecipação de tutela (STJ, REsp 1.178.500/SP, Rel.
Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 4-12-2012, DJe 18-12-2012).

Porém a concessão da antecipação dos efeitos da tutela depende ainda dos seguintes
requisitos:
a) relevante fundamento da demanda; e
b) justificado receio de ineficácia do provimento final.
O relevante fundamento da demanda nada mais é do que os elementos que evidenciem
a probabilidade do direito (antiga “prova inequívoca de verossimilhança”) prevista no art.
300 do NCPC, e consiste na probabilidade de o juiz julgar o pedido procedente ao final.
Para chegar a essa conclusão, o juiz deverá analisar não só a matéria de fato, como
também a matéria de direito, ou seja, deverá analisar as provas carreadas aos autos pelo
autor da ação coletiva, e também verificar se os fatos narrados, com as provas
produzidas, induzem no magistrado a conclusão no sentido de que o direito dos
consumidores lhe parece provável. Obviamente que não se pode exigir um juízo de
certeza sobre essas questões (cognição exauriente), posto que a certeza é incompatível
com a antecipação da tutela, de modo que basta a análise da probabilidade (cognição
sumária).
Já o justificado receio de ineficácia da decisão final é o também conhecido periculum
in mora, e consiste no risco da sentença ou acórdão, no caso de procedência do pedido,
não ter nenhuma utilidade porque seria incapaz de proporcionar a tutela dos direitos dos
consumidores. Podemos supor uma sentença que obriga o réu a não mais veicular uma
propaganda enganosa ou abusiva, isso anos depois dela ter saído do ar.
A concessão da tutela “liminarmente” significa que poderá ser concedida sem a prévia
oitiva do réu (inaudita altera pars), o que representa, sem dúvida, uma exceção à regra
que é o contraditório, porém, além de a regra não ser absoluta, o periculum pode ser tão
grande que nem é possível esperar a citação.
Precedente:
2. A antecipação de tutela, assim como as medidas liminares (vinculadas aos pressupostos da
plausibilidade jurídica e do perigo na demora), tem exame célere, dada a urgência natural da
demanda, prescindindo de prévia oitiva da parte contrária.
3. Não demonstrado o risco de dano alegado, impõe-se o indeferimento de pedido de suspensão
proposto como sucedâneo recursal (STJ, AgRg na SLS 18/RJ, Rel. Min. Edson Vidigal, Corte
Especial, julgado em 25-10-2004, DJ 6-12-2004, p. 170).

A justificação prévia consiste na oitiva do réu antes da decisão acerca da antecipação da


tutela, oportunizando o contraditório apenas para que o juiz possa proferir a sua decisão.
O advento do NCPC reorganiza as tutelas jurisdicionais não definitivas, como a tutela
antecipada, agrupando-as de forma distinta daquela prevista no antigo CPC, porém
mantém a antecipação de tutela, de modo que o referido dispositivo do CDC continua
vigendo. O que efetivamente mudou, e por força da aplicação subsidiária pode ser
aplicada às ações coletivas, inclusive as consumeristas, são as novas formas de tutela
provisória do NCPC.
Dispõe o art. 294 do NCPC que “a tutela provisória pode fundamentar-se em urgência
ou evidência”. Essa tutela chamada de provisória é a não definitiva, ou seja, a concedida
pelo juiz antes da coisa julgada, para proteger uma situação que não pode aguardar até o
término do processo. Agora elas são divididas em tutelas provisórias de urgência e tutelas
provisórias de evidência.
TUTELA PROVISÓRIA
Arts. 294 a 311

DE URGÊNCIA DE EVIDÊNCIA
Arts. 300 a 310 Art. 311

A tutela de evidência se aplica ao CDC por não existir nenhuma incompatibilidade com
o processo coletivo, e ela poderá ser concedida na hipótese de – independentemente da
demonstração do periculum in mora – haver uma forte probabilidade de procedência do
pedido, seja porque o réu abusa do direito de defesa, seja porque a prova trazida pelo
autor da demanda é forte o suficiente para convencer o juiz, ou seja porque a pretensão
está amparada em súmula vinculante.
Eis a redação da tutela de evidência no NCPC:
Art. 311. A tutela da evidência será concedida, independentemente da demonstração de perigo de
dano ou de risco ao resultado útil do processo, quando:
I – ficar caracterizado o abuso do direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório da parte;
II – as alegações de fato puderem ser comprovadas apenas documentalmente e houver tese firmada
em julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante;
III – se tratar de pedido reipersecutório fundado em prova documental adequada do contrato de
depósito, caso em que será decretada a ordem de entrega do objeto custodiado, sob cominação de
multa;
IV – a petição inicial for instruída com prova documental suficiente dos fatos constitutivos do direito
do autor, a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida razoável.
Parágrafo único. Nas hipóteses dos incisos II e III, o juiz poderá decidir liminarmente.

A tutela provisória de urgência, como o nome revela, exige o periculum in mora para
ser concedida, e, por sua vez, pode ser dividida em duas categorias: cautelar a antecipada.
Ambas podem ser requeridas de forma antecedente, ou seja, antes mesmo da propositura
da ação, com todos os seus elementos, ou de forma incidental, o que significa dizer que
podem ser requeridas na inicial ou posteriormente, porém no curso do processo.
A tutela antecipada prevista no CDC é a tutela provisória antecipada incidental do
NCPC, porém nada impede que um dos legitimados à propositura de ações coletivas
destinadas à defesa do consumidor requeira a tutela antecipada antecedente, por força da
aplicação subsidiária do NCPC. O mesmo pode-se dizer em relação à tutela provisória
cautelar, perfeitamente compatível com as ações coletivas, inclusive com expressa
previsão no art. 4º da Lei da Ação Civil Pública, e com aceitação do STJ, como no REsp
1177692/SC, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 12-4-2012, DJe 3-
2-2015.
Art. 84. [...]
§ 4º O juiz poderá, na hipótese do § 3º ou na sentença, impor multa diária ao réu, independentemente
de pedido do autor, se for suficiente ou compatível com a obrigação, fixando prazo razoável para o
cumprimento do preceito.

16. Multa diária

A multa diária é um instrumento fundamental para a eficácia da tutela específica das


obrigações de fazer ou não fazer, pois ela pressiona o réu ao cumprimento da obrigação,
impedindo que ele decida se quer ou não cumpri-la.
A sua natureza é coercitiva, ou seja, ela se destina a pressionar o réu ao cumprimento
específico da obrigação, não sendo uma forma de punição, nem de ressarcimento.

ATENÇÃO!
A multa é coercitiva.
Não é punitiva.
Não é ressarcitória.

Citamos o seguinte entendimento: “Evidentemente, a imposição da multa não prejudica


o direito do credor ao cumprimento específico da obrigação, nem ao recebimento de seu
equivalente monetário e nem à reclamação das perdas e danos” 94.
Precedentes sobre a matéria:
9. O Poder Judiciário está autorizado a fixar astreintes para assegurar o cumprimento de sua própria
decisão, sem prejuízo da atuação dos órgãos administrativos competentes no exercício do poder de
polícia ambiental, razão pela qual não há falar em indevida ingerência judicial nas funções da
Administração Pública.
10. Diferem, substancial e finalisticamente, a multa coercitiva judicial (astreintes) e a multa
administrativa, bem como outras medidas que possam ser utilizadas pelo Administrador no exercício
de seu poder de polícia. Primeiro, porque as astreintes não apresentam natureza punitiva (= índole
retrospectiva), mas tão só persuasiva (= índole prospectiva); segundo, porque visam garantir a
autoridade e a eficácia da própria decisão judicial, em nada afetando ou empobrecendo os poderes
inerentes à Administração Pública.
11. Os valores correspondentes à astreinte, por óbvio, somente poderão ser executados se a
Petrobras deixar de atender às obrigações impostas na sentença (STJ, REsp 947.555/MG, Rel. Min.
Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 18-8-2009, DJe 27-4-2011).

3. Definição das funções atribuídas à multa pecuniária prevista no art. 461, §§ 4º e 5º, do CPC:
entendida a razão histórica e o motivo de ser das astreintes perante o ordenamento jurídico
brasileiro, pode-se concluir que o instituto possui o objetivo de atuar em vários sentidos, os quais
assim se decompõem: a) ressarcir o credor, autor da demanda, pelo tempo em que se encontra
privado do bem da vida; b) coagir, indiretamente, o devedor a cumprir a prestação que a ele
incumbe, punindo-o em caso de manter-se na inércia; c) servir como incremento às ordens judiciais
que reconhecem a mora do réu e determinam o adimplemento da obrigação, seja ao final do processo
(sentença), seja durante o seu transcuro (tutela antecipatória).
Assim, vislumbrada uma função também de direito material a ser exercida pela multa pecuniária do
art. 461, §§ 4º e 5º, do CPC, queda induvidosa a titularidade do credor prejudicado pela mora sobre
o produto resultante da aplicação da penalidade.
Ainda no ponto, cumpre firmar outras importantes premissas, principalmente a de que a multa
pecuniária tem campo natural de incidência no estado de mora debitoris, ou seja, enquanto ainda há
interesse do credor no cumprimento da obrigação, descartando-se sua aplicabilidade nas hipóteses
de inadimplemento absoluto.
Por não gerar efeitos com repercussão no mundo dos fatos, mas apenas ressarcitórios e
intimidatórios, a multa deve guardar feição de ultima ratio, cabendo ao magistrado, no momento de
aferir a medida mais adequada para garantir o adimplemento da obrigação de fazer ou não fazer, ter
sempre em mira que o próprio sistema de tutela específica previsto no art. 461 do CPC confere a
possibilidade da adoção de providências muito mais eficazes, que significam a pronta satisfação do
direito do demandante (STJ, REsp 1.006.473/PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Rel. p/ Acórdão
Min. Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 8-5-2012, DJe 19-6-2012).
A natureza jurídica das astreintes – medida coercitiva e intimidatória – não admite exegese que a
faça assumir um caráter indenizatório, que conduza ao enriquecimento sem causa do credor. O
escopo da multa é impulsionar o devedor a assumir um comportamento tendente à satisfação da sua
obrigação frente ao credor, não devendo jamais se prestar a compensar este pela inadimplência
daquele (STJ, REsp 1.047.957/AL, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 14-6-
2011, DJe 24-6-2011).
Vale a leitura atenta do quadro a seguir porque ele resume as principais questões
relacionadas à multa, também chamada de astreintes.

TEMA DE PROVA!
Questões importantes sobre a multa
* O valor da multa deve ser fixado pelo juiz, atendendo às peculiaridades do caso concreto, em especial a capacidade econômica do réu, de modo que a
multa não pode ser fixada em um valor muito baixo a ponto de se tornar irrisória, nem em um valor muito alto a ponto de ser tornar “impagável”.
* A periodicidade da multa pode ser alterada pelo juiz, de acordo com as circunstâncias do caso concreto, de modo que ela não precisa ser
necessariamente “diária” (art. 537, § 1º, do NCPC).
* A multa pode ser fixada de ofício pelo juiz (arts. 536 e 537 do NCPC), não sendo extra petita a decisão que assim o fizer, pois ela é uma medida de apoio
ao cumprimento específico da obrigação, esse sim, pedido que deve ser expresso na petição inicial. A multa é uma medida que o juiz deve aplicar para
garantir a eficácia da tutela dos direitos dos consumidores – CDC, art. 83 – e também a própria eficácia da prestação jurisdicional.
* O prazo para o cumprimento da obrigação específica, fazer ou não fazer, é fixado pelo juiz porque as peculiaridades do caso concreto é que vão dizer ao
magistrado quanto tempo é necessário para que o réu possa fazer ou não fazer algo (art. 537 do NCPC).
* Durante o prazo fixado pelo juiz, não incide multa.
* A multa será devida desde o dia em que se configurar o descumprimento da decisão e incidirá enquanto não for cumprida a decisão que a tiver
cominado (art. 537, § 4º, do NCPC).

* Caso a obrigação específica, por qualquer motivo, se converta em perdas e danos, isso não apaga a multa que já incidiu, ou seja, não produz efeitos ex
tunc (art. 500 do NCPC).
* Após a conversão em perdas e danos, a multa para de incidir automaticamente (ex nunc).
* Quando a obrigação específica se tornar impossível de ser cumprida, a multa para de incidir a partir desse momento, ainda que o juiz só venha a
verificar a impossibilidade depois.
* A multa poderá ser aplicada na fase de conhecimento, em tutela provisória ou na sentença, ou na fase de execução (art. 537 do NCPC).
* O valor da multa será devido ao exequente (art. 537, § 2º do NCPC).
* A decisão que fixa a multa é passível de cumprimento provisório, devendo ser depositada em juízo, permitido o levantamento do valor após o trânsito
em julgado da sentença favorável à parte ou na pendência do agravo fundado nos incisos II ou III do art. 1.042 (art. 537, § 3º, do NCPC).

No entanto, existe uma questão controvertida de suma importância, relacionada ao teto


máximo da multa. Assim sendo, caso a multa seja fixada e venha a ser aplicada, se
acumulando ao longo do tempo, ela tem algum limite máximo de valor? É certo
afirmarmos que o juiz pode, a qualquer tempo, reduzir ou aumentar o valor da multa, de
modo a manter a sua natureza coercitiva “viva”, porém a questão aqui é outra: se a multa
se acumular e chegar a valores bastante elevados, ainda assim ela é devida?
TEMA DE PROVA!
A multa acumulada pode ser reduzida pelo juiz?
* A multa por descumprimento de decisão judicial não pode ensejar o enriquecimento sem justa causa da parte a quem favorece, devendo ser reduzida a
patamares razoáveis (STJ, AgRg no REsp 1.041.518/DF, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, Quarta Turma, julgado em 22-3-2011, DJe 25-3-2011).
* Em situações excepcionais, tem esta Corte Superior admitido a redução da multa diária cominatória, tanto para atender ao princípio da
proporcionalidade quanto para se evitar eventual enriquecimento sem causa de uma das partes, o que não ocorre, todavia, na hipótese vertente (STJ,
AgRg no Ag 1.311.941/SP, Rel. Min. Vasco Della Giustina [Desembargador Convocado do TJRS], Terceira Turma, julgado em 16-11-2010, DJe 24-11-2010).

* 1. A astreinte não deve ser reduzida se o único obstáculo ao cumprimento de determinação judicial foi o descaso do devedor.
2. Na hipótese em que o devedor tome medidas tendentes ao cumprimento da ordem, ainda que tenha obrado com culpa leve pelos atos de
descumprimento, justifica-se a redução da multa, fixada em patamar exagerado (STJ, REsp 1.151.505/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma,
julgado em 7-10-2010, DJe 22-10-2010).
* 1. Cabendo ao magistrado a discricionariedade quanto à aplicação das astreintes, realmente inviável a procedência da alegação de julgamento extra
petita em razão da redução de ofício pela Corte alagoana do valor da multa.
2. No concernente ao valor da multa cominatória, admite-se a intervenção excepcionalíssima desta Corte Superior quando o valor fixado destoa daqueles
adotados em outros julgados, revelando-se irrisório ou exagerado.
3. De nova análise das circunstâncias dos autos, verifica-se que o valor da multa cominatória não se revela irrisório a ponto de ensejar a intervenção
excepcionalíssima desta Corte Superior, porquanto fora estipulada em R$ 500,00 (quinhentos reais) por dia de descumprimento, atingindo o valor total de
R$ 139.500,00 (cento e trinta e nove mil e quinhentos reais) (STJ, AgRg no REsp 1.292.900/AL, Rel. Min. Massami Uyeda, Terceira Turma, julgado em 20-
11-2012, DJe 4-12-2012).

Ocorre, porém, que o STJ pacificou a questão, entendendo pela possibilidade de


redução da multa, como se verifica nestes recentes julgados:
É possível a redução do valor da multa fixada por descumprimento de decisão judicial quando se
verificar que foi estabelecida fora dos parâmetros da razoabilidade, moderação e proporcionalidade
ou quando se tornar exorbitante, caso dos autos. Precedentes (STJ, AgRg no AREsp 643.116/PR,
Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 17-12-2015, DJe 1º-2-2016).
A revisão do valor das astreintes é medida possível quando o seu montante não atende aos
postulados da proporcionalidade e da razoabilidade (STJ, AgRg no REsp 1518816/MS, Rel. Min.
Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira Turma, julgado em 17-11-2015, DJe 20-11-2015).

O NCPC não resolve de forma definitiva a questão, já que a sua redação não foi muito
clara a respeito do tema, senão vejamos:
Art. 537 [...] § 1º O juiz poderá, de ofício ou a requerimento, modificar o valor ou a periodicidade
da multa vincenda ou excluí-la, caso verifique que:
I – se tornou insuficiente ou excessiva;
II – o obrigado demonstrou cumprimento parcial superveniente da obrigação ou justa causa para o
descumprimento.

O legislador poderia ter resolvido expressamente a questão, mas não o fez, de modo
que remanesce a dúvida, já que reduzir (modificar) apenas o valor da multa vincenda
porque ela se tornou excessiva, não resolve o problema do excesso na multa vencida.
Temos que a questão continuará sendo resolvida pela jurisprudência do STJ, tal como se
fez até o presente momento.
CDC: Art. 84. [...]
§ 5º Para a tutela específica ou para a obtenção do resultado prático equivalente, poderá o juiz
determinar as medidas necessárias, tais como busca e apreensão, remoção de coisas e pessoas,
desfazimento de obra, impedimento de atividade nociva, além de requisição de força policial.

17. Medidas coercitivas atípicas

Até mais importante do que a multa, que pode no caso concreto não surtir o efeito
desejado (pressionar o réu ao cumprimento da obrigação de fazer ou não fazer), são as
medidas previstas nesse dispositivo, capazes de pressionar o réu de outra forma.

TEMA DE PROVA!
Que medidas o juiz pode adotar, além da multa, para pressionar o réu ao cumprimento da obrigação?
Quaisquer medidas – a lei utiliza a expressão “medidas necessárias”, a qual se segue um rol meramente exemplificativo de medidas – de modo que caberá
ao juiz no caso concreto encontrar uma maneira de garantir que o consumidor tenha efetivamente a tutela dos seus direitos de forma eficaz e efetiva.
Como essas medidas não estão taxativamente previstas na lei, são chamadas medidas atípicas.

O STJ já decidiu diversos casos não relacionados especificamente à tutela coletiva dos
direitos dos consumidores, mas que servem de exemplo de aplicação das medidas atípicas
por parte do juiz.
O entendimento jurisprudencial sedimentado no âmbito do Superior Tribunal de Justiça é no sentido
de ser legítimo o bloqueio de verbas públicas para o fim de garantir o fornecimento de medicamento
à pessoa que dele necessite, quando houver o risco de grave comprometimento da saúde do
demandante (Precedentes: REsp 900.458/RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, DJ
13-8-2007; REsp 840.912/RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, DJ 23-4-2007;
REsp 851.760/RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, DJ 11-9-2006; EREsp
770.969/RS, Rel. Min. José Delgado, Primeira Seção, DJ 21-8-2006. STJ, RMS 35.021/GO, Rel.
Min. Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 25-10-2011, DJe 28-10-2011).

O precedente selecionado da jurisprudência do STJ nos mostra que o bloqueio de


verbas públicas não é o fim do processo – o fim do processo é a entrega de
medicamentos a pessoas que dele necessitam com muita urgência, mas que não são
encontrados –, mas sim uma medida de apoio atípica que visa garantir o cumprimento
específico de uma obrigação. Qual a base legal para esse bloqueio? É o caput e o § 1º
do art. 536 do NCPC:
Art. 536. No cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de obrigação de fazer ou de não
fazer, o juiz poderá, de ofício ou a requerimento, para a efetivação da tutela específica ou a obtenção
de tutela pelo resultado prático equivalente, determinar as medidas necessárias à satisfação do
exequente.
§ 1º Para atender ao disposto no caput, o juiz poderá determinar, entre outras medidas, a imposição
de multa, a busca e apreensão, a remoção de pessoas e coisas, o desfazimento de obras e o
impedimento de atividade nociva, podendo, caso necessário, requisitar o auxílio de força policial.

Na seara consumerista, podemos citar as seguintes hipóteses de aplicação das medidas


de apoio atípicas:
a) para garantir que melhorias concretas serão feitas em um call center, o juiz poderia
bloquear parte da renda da empresa e condicionar a liberação à apresentação de um plano
concreto, com prazos razoáveis, para implementação das medidas necessárias (aumento
do número de contratados, modernização do sistema etc.);
b) para forçar um fabricante de veículos com defeito a fazer um recall, o juiz poderia
determinar a busca e apreensão de outros veículos, sem defeitos, no pátio da empresa,
impedindo a sua comercialização;
c) para assegurar que a obrigação de uma empresa de fornecer na embalagem de um
determinado produto as informações corretas que não induzem o consumidor a erro, o
juiz pode interditar a linha de produção desse produto, até que a empresa comprove que
as embalagens passaram a ser feitas com a informação.
Em casos extremos, como uma loja que se recusa peremptoriamente a disponibilizar
um exemplar do CDC aos consumidores, para fins de consultas em casos de dúvida, o
juiz poderia chegar ao extremo de interditar o estabelecimento.

DICA!
Nas ações coletivas, consumeristas ou não, repetimos, é perfeitamente possível, e até desejável, que o juiz adote medidas de apoio atípicas, tudo para
assegurar a adequada e efetiva tutela dos direitos. E estas medidas de apoio não visam punir o réu, mas sim garantir o cumprimento da obrigação
específica, e por isso elas, mesmo as que pareçam exageradas, são fundamentais, porque o ideal é que nem sejam necessárias.

ATENÇÃO!
Aplicam-se às ações coletivas, consumeristas ou não, os dispositivos do NCPC que tratam da tutela provisória, satisfativa ou cautelar, inclusive os
dispositivos que tratam do cumprimento dessas decisões, uma vez que a tutela provisória concedida precisa ser efetivada. Para tal, inclusive, aplicam-se
as regras do cumprimento de sentença, como sentencia o parágrafo único do art. 297 do NCPC. A título de exemplo citem-se os seguintes dispositivos:
“Art. 536. [...] § 1º Para atender ao disposto no caput, o juiz poderá determinar, entre outras medidas, a imposição de multa, a busca e apreensão, a
remoção de pessoas e coisas, o desfazimento de obras e o impedimento de atividade nociva, podendo, caso necessário, requisitar o auxílio de força
policial”.
“Art. 537. A multa independe de requerimento da parte e poderá ser aplicada na fase de conhecimento, em tutela provisória ou na sentença, ou na fase de
execução, desde que seja suficiente e compatível com a obrigação e que se determine prazo razoável para cumprimento do preceito.
§ 1º O juiz poderá, de ofício ou a requerimento, modificar o valor ou a periodicidade da multa vincenda ou excluí-la, caso verifique que:
I – se tornou insuficiente ou excessiva;
II – o obrigado demonstrou cumprimento parcial superveniente da obrigação ou justa causa para o descumprimento.
§ 2º O valor da multa será devido ao exequente”.

Art. 87. Nas ações coletivas de que trata este código não haverá adiantamento de custas,
emolumentos, honorários periciais e quaisquer outras despesas, nem condenação da associação
autora, salvo comprovada má-fé, em honorários de advogados, custas e despesas processuais.
Parágrafo único. Em caso de litigância de má-fé, a associação autora e os diretores responsáveis
pela propositura da ação serão solidariamente condenados em honorários advocatícios e ao décuplo
das custas, sem prejuízo da responsabilidade por perdas e danos.

18. Custas e despesas nas ações coletivas

Trata-se de dispositivo que visa facilitar a propositura de ações coletivas, ampliando o


acesso à justiça, de modo a impedir que questões econômicas do autor possam ser um
empecilho à utilização desse fundamental mecanismo de proteção de direitos. E
considerando que a lei não faz distinção alguma, temos que a norma em comento se
aplica a todos os legitimados. Ou seja, ninguém será obrigado a adiantar custas,
emolumentos, honorários periciais ou quaisquer outras despesas.
Porém, adiantar despesas é diferente de arcar com elas no caso de sucumbência, e o
próprio legislador reconheceu isso porque na segunda parte do caput consta que a
associação que promoveu a ação coletiva não será condenada em honorários de
advogados, custas e despesas processuais, salvo em casos de má-fé. O parágrafo único
reforça a punição pela má-fé, prevendo ainda a condenação no décuplo das custas (o
caput menciona apenas a condenação simples, nas custas) e a possibilidade de
responsabilização pelas perdas e danos.
Ocorre que microssistema não elenca em momento algum o que se considera litigância
de má-fé, e nesse caso não nos resta dúvida que temos que aplicar o art. 80 do NCPC:
Art. 80. Considera-se litigante de má-fé aquele que:
I – deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato incontroverso;
II – alterar a verdade dos fatos;
III – usar do processo para conseguir objetivo ilegal;
IV – opuser resistência injustificada ao andamento do processo;
V – proceder de modo temerário em qualquer incidente ou ato do processo;
VI – provocar incidente manifestamente infundado;
VII – interpuser recurso com intuito manifestamente protelatório.
Visto o que se considera, mesmo no processo coletivo, litigar de má-fé, é preciso saber
que norma deve ser aplicada em caso de litigância de má-fé da associação autora: o NCPC
ou o CDC?
O NCPC possui um dispositivo sancionado a má-fé:
Art. 81. De ofício ou a requerimento, o juiz condenará o litigante de má-fé a pagar multa, que deverá
ser superior a um por cento e inferior a dez por cento do valor corrigido da causa, a indenizar a parte
contrária pelos prejuízos que esta sofreu e a arcar com os honorários advocatícios e com todas as
despesas que efetuou.
§ 1º Quando forem 2 (dois) ou mais os litigantes de má-fé, o juiz condenará cada um na proporção de
seu respectivo interesse na causa ou solidariamente aqueles que se coligaram para lesar a parte
contrária.
§ 2º Quando o valor da causa for irrisório ou inestimável, a multa poderá ser fixada em até 10 (dez)
vezes o valor do salário-mínimo.
§ 3º O valor da indenização será fixado pelo juiz ou, caso não seja possível mensurá-lo, liquidado
por arbitramento ou pelo procedimento comum, nos próprios autos.

No entanto, o microssistema possui punição específica para a litigância de má-fé e, por


essa razão, temos que a norma a ser aplicada no caso é o art. 87, caput e parágrafo único,
e não o NCPC, e muito menos uma “terceira norma”, formada pela combinação das duas
já mencionadas, criando uma lex tertius.
ATENÇÃO!
Sanções para a má-fé nas demandas coletivas – art. 87 do CDC:
* honorários advocatícios;
* décuplo das custas;
* despesas processuais;
* perdas e danos.

A condenação em litigância de má-fé é muito importante para resguardar o processo


coletivo, porque
se por um lado o legislador estabelece incentivo para a propositura das ações coletivas,
desobrigando os autores do pagamento antecipado das despesas do processo e determinando sua
gratuidade salvo na hipótese de demanda manifestamente infundada, é justo que estabeleça a sanção
para que não haja mau uso do instrumento. Sendo a demanda coletiva ponto luminoso do cenário
jurídico, pelo qual se torna possível a participação democrática no gerenciamento das questões
relevantes para a Nação, devem ser implementadas com ponderação e responsabilidade, evitando-se
demandas absolutamente temerárias, que venham a desvirtuar as mais nobres finalidades alçadas
pelo ordenamento processual 95.
Agora nos cabe a indagação: apenas a associação autora pode litigar de má-fé?
Evidentemente que não. Qualquer legitimado ativo pode, em tese, litigar de má-fé. E as
sanções são cabíveis apenas quando a associação autora for a litigante de má-fé?
É possível, porém, que outros sujeitos processuais possam ser considerados litigantes de má-fé e,
assim, também possam ser condenados em razão da prática da conduta temerária. O benefício é
atribuído a todos; a sanção pelo abuso, idem.
A sanção poderá atingir o litigante de má-fé independentemente de ser o autor ou o réu, ou mesmo
outro interveniente, a exemplo do Ministério Público, atuando na função de custos legis 96.
Também é importante lembrar que a isenção de adiantamento dos honorários periciais
não pode obrigar o profissional a trabalhar gratuitamente, sendo que ele receberá ao final
a sua legítima remuneração, porém o dispositivo estatui que a associação autora – e os
demais legitimados, obviamente – não serão ao final condenados no pagamento das
despesas processuais (incluindo os honorários periciais), salvo em caso de litigância de
má-fé. Ou seja, se o perito fez o seu trabalho – não raro essencial para o deslinde do
processo coletivo –, mas o pedido do autor foi julgado improcedente sem que o juiz tenha
reconhecido a litigância de má-fé, quem remunerará o perito?
Entendemos que o caso em questão é muito parecido com os casos de gratuidade de
justiça, de modo que a solução análoga não é absurda, ou seja, cabe à Fazenda Pública
arcar com as custas. Inclusive o STJ pacificou a questão através de uma tese de REsp
repetitivo:
Não é possível se exigir do Ministério Público o adiantamento de honorários periciais em ações
civis públicas. Ocorre que a referida isenção conferida ao Ministério Público em relação ao
adiantamento dos honorários periciais não pode obrigar que o perito exerça seu ofício gratuitamente,
tampouco transferir ao réu o encargo de financiar ações contra ele movidas. Dessa forma, considera-
se aplicável, por analogia, a Súmula 232 desta Corte Superior (“A Fazenda Pública, quando parte no
processo, fica sujeita à exigência do depósito prévio dos honorários do perito”), a determinar que a
Fazenda Pública ao qual se acha vinculado o Parquet arque com tais despesas. Precedentes: EREsp
981949/RS, Rel. Min. Herman Benjamin, Primeira Seção, julgado em 24-2-2010, DJe 15-8-2011;
REsp 1188803-RN, Rel. Min. Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 11-5-2010, DJe 21-5-
2010; AgRg no REsp 1083170-MA, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado
em 13-4-2010, DJe 29-4-2010; REsp 928397-SP, Rel. Min. Castro Meira, Segunda Turma, julgado
em 11-09-2007, DJ 25-9-2007 p. 225; REsp 846.529-MS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki,
Primeira Turma, julgado em 19-4-2007, DJ 7-5-2007, p. 288 (STJ, REsp 1253844-SC, Rel. Min.
Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, julgado em 13-3-2013, DJe 17-10-2013).

O NCPC também não deixa o tema sem resposta:


Art. 91. As despesas dos atos processuais praticados a requerimento da Fazenda Pública, do
Ministério Público ou da Defensoria Pública serão pagas ao final pelo vencido.
§ 1º As perícias requeridas pela Fazenda Pública, pelo Ministério Público ou pela Defensoria
Pública poderão ser realizadas por entidade pública ou, havendo previsão orçamentária, ter os
valores adiantados por aquele que requerer a prova.
§ 2º Não havendo previsão orçamentária no exercício financeiro para adiantamento dos honorários
periciais, eles serão pagos no exercício seguinte ou ao final, pelo vencido, caso o processo se
encerre antes do adiantamento a ser feito pelo ente público

Art. 88. Na hipótese do art. 13, parágrafo único deste código, a ação de regresso poderá ser ajuizada
em processo autônomo, facultada a possibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos, vedada a
denunciação da lide.
19. O direito de regresso no CDC

Trata-se de norma aplicável aos processos individuais e coletivos, assegurando o


direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo sua participação na causação
do evento danoso, àquele que efetivar o pagamento ao prejudicado. Porém para não
prejudicar o consumidor com a introdução, em sua demanda, de outra demanda
acessória, em que será discutido o direito de regresso, que em nada aproveita ao
consumidor, andou bem o legislador em vedar a denunciação da lide. Se um consumidor
resolve ajuizar uma ação em face de uma empresa de transporte aéreo em razão de um
prejuízo sofrido por um cancelamento, sem motivo aparente algum (motivos
operacionais) de um voo em cima da hora, sendo que o consumidor chegou atrasado ao
seu destino e perdeu compromissos importantes, a responsabilidade é objetiva e é da
empresa, sendo inútil para o consumidor que a ré denuncie a lide a terceiros que teriam
dado causa ao cancelamento. Em nada interessa ao consumidor essa discussão paralela.
Precedente:
Conforme a jurisprudência desta Corte, tratando-se de relação de consumo, protegida pelo Código de
Defesa do Consumidor, descabe a Denunciação da Lide, a teor do art. 88 do CDC (STJ, AgRg no
AREsp 195.165/MG, Rel. Min. Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em 23-10-2012, DJe 14-11-
2012).
Esse precedente específico se refere a uma demanda individual, mas em processos
coletivos, com mais razão ainda, não pode ser admitida a denunciação da lide.
Conforme disposição doutrinária:
O que impede, melhor analisando a questão, a denunciação da lide em ação coletiva, é que processo
coletivo tem por escopo a composição do conflito coletivo. Admitir-se a demanda secundária em
face do terceiro, consistente na denunciação da lide, é admitir a cumulação de uma ação individual
com uma ação coletiva, desviando o foco do processo coletivo, que deve ser exclusivamente a tutela
do interesse coletivo 97.
Art. 90. Aplicam-se às ações previstas neste título as normas do Código de Processo Civil e da Lei
n. 7.347, de 24 de julho de 1985, inclusive no que respeita ao inquérito civil, naquilo que não
contrariar suas disposições.

20. Diálogo das fontes: CDC e LACP

O art. 90, combinado com o art. 21 da LACP, mostra-nos o diálogo harmônico das
fontes, criando um verdadeiro microssistema de tutela coletiva, já comentada
anteriormente. Eis a redação da LACP:
Art. 21. Aplicam-se à defesa dos direitos e interesses difusos, coletivos e individuais, no que for
cabível, os dispositivos do Título III da lei que instituiu o Código de Defesa do Consumidor.
No STJ a questão já está bem delineada, sem maiores dificuldades. Precedente:
Os arts. 21 da Lei da Ação Civil Pública e 90 do CDC, como normas de envio, possibilitaram o
surgimento do denominado Microssistema ou Minissistema de proteção dos interesses ou direitos
coletivos amplo senso, no qual se comunicam outras normas, como o Estatuto do Idoso e o da
Criança e do Adolescente, a Lei da Ação Popular, a Lei de Improbidade Administrativa e outras que
visam tutelar direitos dessa natureza, de forma que os instrumentos e institutos podem ser utilizados
para “propiciar sua adequada e efetiva tutela” (art. 83 do CDC) (STJ, REsp 1.221.254/RJ, Rel. Min.
Arnaldo Esteves Lima, Primeira Turma, julgado em 5-6-2012, DJe 13-6-2012).

O fato do dispositivo referir-se ao Código de Processo Civil não pode gerar nenhuma
questionamento relevante, porque o CPC é a lei processual em vigor. Antes era o CPC de
1973, agora é o NCPC. O art. 1.046 do Novo Código, por via das dúvidas, esclarece:
§ 4º As remissões a disposições do Código de Processo Civil revogado, existentes em outras leis,
passam a referir-se às que lhes são correspondentes neste Código.

CAPÍTULO II
Das Ações Coletivas Para a Defesa de Interesses Individuais Homogêneos
Art. 91. Os legitimados de que trata o art. 82 poderão propor, em nome próprio e no interesse das
vítimas ou seus sucessores, ação civil coletiva de responsabilidade pelos danos individualmente
sofridos, de acordo com o disposto nos artigos seguintes.
Antes de tudo, é preciso relembrarmos algumas premissas fundamentais para não
incorrermos em erro: a ação coletiva se baseia no princípio constitucional que assegura
acesso à justiça e a demanda coletiva deve ser capaz de proporcionar aos consumidores
uma adequada e efetiva proteção dos seus direitos. Assentadas essas premissas, passemos
à conclusão que queremos – e precisamos – chegar antes de prosseguirmos.

DICA!
As ações coletivas para a defesa de direitos individuais homogêneos não se limitam ao pedido de responsabilização pelos danos individualmente
sofridos. São cabíveis, para a proteção dos direitos coletivos lato sensu, todas as espécies de ações, com os pedidos que se revelem os mais adequados
para propiciar uma efetiva tutela aos direitos.

Forçoso é reconhecer que algumas regras processuais específicas para a ação civil
coletiva de responsabilidade pelos danos individualmente sofridos se encontram nesse
capítulo do CDC, o que não desconstrói a conclusão supra.
Art. 92. O Ministério Público, se não ajuizar a ação, atuará sempre como fiscal da lei.

21. O MP como fiscal da lei

A intervenção obrigatória do MP quando não propõe a demanda coletiva não é


novidade. Já estava prevista na Lei da Ação Popular:
Art. 6º [...]
§ 4º O Ministério Público acompanhará a ação, cabendo-lhe apressar a produção da prova e
promover a responsabilidade, civil ou criminal, dos que nela incidirem, sendo-lhe vedado, em
qualquer hipótese, assumir a defesa do ato impugnado ou dos seus autores.
O mesmo ocorreu com a Lei da Ação Civil Pública:
Art. 5º [...]
§ 1º O Ministério Público, se não intervier no processo como parte, atuará obrigatoriamente como
fiscal da lei.

Essa atuação obrigatória como custos legis nas demandas coletivas decorre na verdade
do texto constitucional:
Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado,
incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e
individuais indisponíveis.

As demais regras atinentes à intervenção do MP como fiscal encontram-se nos arts. 176
a 181 do NCPC, inclusive deve ser ressaltado que o Novo Código abandonou a expressão
“fiscal da lei”, substituindo-a por “fiscal da ordem jurídica”.
ATENÇÃO!
Súmula 99 do STJ: “O Ministério Público tem legitimidade para recorrer no processo em que oficiou como fiscal da lei, ainda que não haja recurso da
parte”.

Art. 93. Ressalvada a competência da Justiça Federal, é competente para a causa a justiça local:

22. Competência

A competência é um dos temas mais delicados do processo coletivo, juntamente com a


legitimidade ativa e a coisa julgada, posto que o microssistema adotou regramento
próprio, fugindo à regra geral prevista no NCPC para as ações individuais, do domicílio
do réu (art. 46).
Mas não se pode ignorar que a LACP também possui uma regra de competência:
Art. 2º As ações previstas nesta Lei serão propostas no foro do local onde ocorrer o dano, cujo juízo
terá competência funcional para processar e julgar a causa.
Parágrafo único. A propositura da ação prevenirá a jurisdição do juízo para todas as ações
posteriormente intentadas que possuam a mesma causa de pedir ou o mesmo objeto.

A LACP menciona a competência para o julgamento das ações civis públicas como
funcional, em que pese vincular o juízo do local do dano, fazendo uma mistura dos
critérios de competência funcional e territorial.
O que na verdade se pretendeu foi “assegurar o interesse público presente no
processamento das demandas coletivas pelo órgão judicial mais próximo dos fatos” 98, na
presunção de que o juízo do local dos fatos é o mais habilitado a julgar a ação civil
pública. Essa presunção não é novidade, já que o NCPC no art. 47, dispõe exatamente
isso, só que para as ações fundadas em direito real sobre imóveis. Presume o legislador –
e essa presunção é correta – que o melhor juízo para julgar as ações dessa natureza é
aquele que está mais próximo do local da situação da coisa, pois terá um contato mais
próximo com as provas a serem produzidas. O mesmo raciocínio, portanto, é válido para
as ações coletivas.
Assim
[...] sob a perspectiva da coleta e obtenção da prova, a competência do “local do dano” deve ser
compreendida como a competência firmada pelo critério geográfico (territorial), inderrogável pelas
partes, cujo fator determinante para a sua fixação deve ser, propriamente, o local onde a obtenção da
prova seja mais eficiente para a futura revelação da norma jurídica concreta 99.

ATENÇÃO!
A competência para a ação civil pública é de ordem pública, de modo que se não for respeitada gera incompetência absoluta.

Precedentes:
2. O art. 2º da Lei n. 7.347/85, que disciplina a Ação Civil Pública, estabelece que ações da norma
elencada “serão propostas no foro do local onde ocorrer o dano, cujo juízo terá competência
funcional para processar e julgar a causa”. [...]
4. Na hipótese de ação civil pública, a competência se dá em função do local onde ocorreu o dano.
Trata-se de competência absoluta, devendo ser afastada a conexão com outras demandas (STJ, AgRg
nos EDcl no CC 113.788/DF, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, Primeira Seção, julgado em 14-11-
2012, DJe 23-11-2012).
A reunião de ações, por conexão, não é possível quando implicar em alteração de competência
absoluta. Nesse sentido: AgRg no CC 107.206/SE, Rel. Min. Nancy Andrighi, Segunda Seção, DJe
10-9-2010; AgRg no CC 117.259/SC, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, Primeira Seção, DJe 6-8-2012
(STJ, AgRg no Ag 1.385.227/MS, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 23-
10-2012, DJe 26-10-2012).

23. A competência no CDC

O advento do CDC trouxe um regramento mais amplo ao tema, posto que é mais
detalhado que a redação contida na LACP, porém mantendo-se a competência para o local
do dano, e que continua sendo de ordem pública.
A primeira diferença entre os dispositivos é a ressalva que o CDC faz à Justiça Federal,
o que seria até desnecessário, posto que a sua competência é constitucional, mas que em
nada conflita com a intenção do legislador infraconstitucional de vincular a competência
ao local do dano, de modo que se a competência for da Justiça Federal porque está
presente uma das hipóteses descritas no art. 109 da Constituição, a competência será da
Justiça Federal do local do dano.
Ação civil pública promovida pelo Ministério Público Federal. Competência da Justiça Federal.
Art. 109, I e § 3º, da Constituição. Art. 2º da Lei n. 7.347/85. O dispositivo contido na parte final do
§ 3º do art. 109 da Constituição é dirigido ao legislador ordinário, autorizando-o a atribuir
competência (rectius jurisdição) ao Juízo Estadual do foro do domicílio da outra parte ou do lugar
do ato ou fato que deu origem à demanda, desde que não seja sede de Varas da Justiça Federal, para
causas específicas dentre as previstas no inciso I do referido art. 109. No caso em tela, a permissão
não foi utilizada pelo legislador que, ao revés, se limitou, no art. 2º da Lei n. 7.347/85, a estabelecer
que as ações nele previstas “serão propostas no foro do local onde ocorrer o dano, cujo juízo terá
competência funcional para processar e julgar a causa”. Considerando que o Juiz Federal também
tem competência territorial e funcional sobre o local de qualquer dano, impõe-se a conclusão de que
o afastamento da jurisdição federal, no caso, somente poderia dar-se por meio de referência expressa
à Justiça Estadual, como a que fez o constituinte na primeira parte do mencionado § 3º em relação às
causas de natureza previdenciária, o que no caso não ocorreu. Recurso conhecido e provido (STF,
RE 228.955, Rel. Min. Ilmar Galvão, Tribunal Pleno, julgado em 10-2-2000, DJ 24-3-2001, p. 70.
Ement. vol. 01984-04, p. 842. Republicação: DJ 14-4-2000, p. 56, RTJ 0172-03, p. 992).
I – no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano, quando de âmbito local;
II – no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Federal, para os danos de âmbito nacional ou
regional, aplicando-se as regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente.

24. Danos nacional, regional e local

Outra novidade foi a classificação da extensão do dano como critério de fixação de


competência, e nisso a norma é autoexplicativa: tratando-se de dano local, a competência
é do juízo do local do dano, se o dano for regional ou nacional, competente será o foro da
Capital ou do Distrito Federal. Porém o CDC – mais moderno que a LACP – admite a
atuação preventiva, ao dispor acerca do “lugar onde deva ocorrer o dano”, de modo que
mesmo sendo preventiva a tutela jurisdicional, a definição da competência está
relacionada ao dano. Pode ocorrer uma hipótese em que o dano aos consumidores nem
sequer chegue a ocorrer, bastando uma ameaça. Neste caso, teremos a competência fixada
em razão de um dano hipotético, e a extensão de um dano hipotético, conquanto possa
ser, por vezes, difícil de precisar, será o fator determinante da competência.
Observe a doutrina:
Quando se pensa em tutela inibitória, imagina-se uma tutela que tem por fim impedir a prática, a
continuação ou a repetição do ilícito, e não uma tutela dirigida à reparação do dano. Portanto, o
problema da tutela inibitória é a prevenção da prática, da continuação ou da repetição do ilícito,
enquanto o da tutela ressarcitória é saber quem deve suportar o custo do dano, independentemente do
fato de o dano ressarcível ter sido produzido ou não com culpa 100.

DICA!
Não esquecer o art. 83 do CDC.

Passemos à análise do que vem a ser um dano de âmbito local, regional e nacional,
uma vez que a lei é silente a respeito.
Quando de âmbito local, a competência territorial é do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano
(inc. I do art. 93).
Será o caso de danos mais restritos, em razão da circulação limitada de produtos ou da prestação de
serviços circunscritos, os quais atingirão pessoas residentes num determinado local.
Mas o produto ou serviço pode acarretar prejuízos de dimensões mais amplas, atingindo pessoas
espalhadas por uma inteira região ou por todo o território nacional.
[...]
Cabe aqui uma observação: o dispositivo tem que ser entendido no sentido de que, sendo de âmbito
regional o dano, competente será o foro da capital do Estado ou do Distrito Federal.
No entanto, não sendo o dano de âmbito propriamente regional, mas estendendo-se por duas
comarcas, tem-se entendido que a competência concorrente é de qualquer uma delas 101.
A Professora Ada também não nos indica, de forma objetiva, o que seria um dano
local, regional e nacional, porém quando ela insinua – mencionando alguns julgados na
nota de rodapé – que se o dano atingiu duas comarcas ele seria local, e não regional, com
competência concorrente de qualquer uma dessas comarcas atingidas, está dando uma
“base” para concretizarmos o problema, nos seguintes termos:

Dano local: atinge até duas comarcas (ou seções ou subseções judiciárias) quando a competência for da Justiça Federal.

Porém, as indagações lançadas por outra parcela da doutrina põem por terra qualquer
tentativa de avançarmos nessa “base”.
Não há uma definição do que seja dano regional. Pode-se compreender como dano regional aquele
que abarca uma das regiões do país (Norte, Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul); ou ainda um
dano que atinja um número mínimo de comarcas. A questão é complicada.
Veja o caso de um dano que ocorra na Região da Estrada Real, que envolve a Bahia e Minas. Seria
um dano nacional? Pode-se argumentar que sim, pois se [trata] de um importante registro da história
brasileira. Seria um dano regional? Também se pode argumentar que sim, pois atinge pedaço
significativo do território nacional, envolvendo cidades em dois Estados 102.
A jurisprudência também não ajuda muito, porque se limita a julgar os casos que lhes
são submetidos, sem que tenham – é verdade – o dever de enunciar soluções “em tese”
para casos hipotéticos.
[...] é insuficiente, senão inútil, inferir-se a solução para a fixação da competência tomando em conta
o fato de as prováveis vítimas do dano residirem em determinado local, ou se espalharem por uma
inteira região ou por todo o território nacional, sem que se consiga objetivar, técnica e juridicamente,
o que se entende por competência territorial local, regional e nacional. [...] A ausência de precisão
legislativa a respeito do que constitua exatamente dano local, regional ou nacional acaba gerando
insegurança num dos momentos cruciais da tutela coletiva, qual seja, o da própria determinação do
órgão julgador 103.

A melhor solução, parece-nos, é mesmo a proposta por Didier Jr. e Zaneti Jr.:
Mais uma vez aparece a importância de aplicar-se o princípio da competência adequada, devendo
prestigiar-se ao máximo o juízo de uma das comarcas envolvidas na situação. A regra geral para a
definição da competência, muito embora não seja absoluta, prevê sempre o local do dano ou ilícito
como juízos preponderantes. Isso porque a definição do juízo tem direta relação com a instrução
probatória, com a sensibilidade do juízo para os fatos ocorridos próximos de si; a competência do
local do dano/ilícito contribui, portanto, para a correção material da decisão 104.
Essa proposta, como pode ser observada, não nos dá uma resposta prévia e pronta para
todos os problemas que podem surgir sobre a competência, deixando certa liberdade ao
juiz para decidir acerca da sua própria competência, mas é importante para evitar
distorções que a aplicação literal do CDC poderia provocar.
Basta imaginarmos um produto fabricado e distribuído pelo interior de um único
Estado da Federação. Vamos supor uma contaminação na maionese caseira, famosa nos
municípios da mesorregião noroeste do Estado do Rio de Janeiro, formada por Itaperuna
e outros 12 municípios menores. Se consumidores espalhados por esses 13 municípios
sofrerem danos causados pelo consumo desse produto, teríamos um dano local, regional
ou nacional? Considerando que essa mesorregião ainda faz divisa com diversos
municípios de Minas Gerais e Espírito Santo, não seria difícil que consumidores desses
dois Estados também fossem atingidos. O dano, a princípio localizado em uma região
(regional), passaria a ser nacional? Quando o dano for nacional, para o CDC, a
competência será do Distrito Federal, bem distante do local do dano. Ou o autor da ação
coletiva poderia simplesmente escolher quaisquer dos foros atingidos pelo dano (forum
shopping)?

ATENÇÃO!
Não existe resposta prévia e pronta para essa questão que seja segura, sendo que consideramos correto o entendimento que busca uma solução
casuística, ou seja, competente será o juízo que se considerar o mais adequado, pelas peculiaridades do caso concreto, para julgar a demanda coletiva,
porém ainda que o dano tenha ocorrido em sua área de competência, ele pode entender que não é o mais adequado para julgar a lide (forum non
conveniens), e assim promover o declínio.

No caso seguinte, a análise foi bastante casuística, mencionando o STJ detalhes do caso
concreto, que se fossem distintos da hipótese descrita, talvez o julgado fosse em outro
sentido.
Processual civil. Recurso especial. Ação civil pública. Dano de âmbito regional. Competência da
vara da capital para o julgamento da demanda. Art. 93 do CDC.
1. O art. 93 do CDC estabeleceu que, para as hipóteses em que as lesões ocorram apenas em âmbito
local, será competente o foro do lugar onde se produziu o dano ou se devesse produzir (inciso I),
mesmo critério já fixado pelo art. 2º da LACP. Por outro lado, tomando a lesão dimensões
geograficamente maiores, produzindo efeitos em âmbito regional ou nacional, serão competentes os
foros da capital do Estado ou do Distrito Federal (inciso II).
2. Na espécie, o dano que atinge um vasto grupo de consumidores, espalhados na grande maioria dos
municípios do estado do Mato Grosso, atrai ao foro da capital do Estado a competência para julgar a
presente demanda.
3. Recurso especial não provido (REsp 1.101.057/MT, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma,
julgado em 7-4-2011, DJe 15-4-2011).
Essa é a solução que consideramos a mais acertada a partir do momento em que o
legislador não definiu, nem poderia, tamanha a complexidade dos casos concretos, o que
seriam danos locais, regionais e nacionais, porém não podemos ignorar a resistência em
se adotar essa solução, em que pese o precedente que segue não se referir às ações
coletivas:
Processo civil. Medida cautelar visando a atribuir efeito suspensivo a recurso especial. Ação
proposta pela requerente, perante justiça estrangeira. Improcedência do pedido e trânsito em
julgado da decisão. Repetição do pedido, mediante ação formulada perante a Justiça Brasileira.
Extinção do processo, sem resolução do mérito, pelo TJRJ, com fundamento na ausência de
jurisdição brasileira para a causa. Impossibilidade.
Pedido de medida liminar para a suspensão dos atos coercitivos a serem tomados pela parte que
se sagrou vitoriosa na ação julgada perante o Tribunal estrangeiro. Indeferimento.
Comportamento contraditório da parte violador do princípio da boa-fé objetiva, extensível aos
atos processuais.
– É condição para a eficácia de uma sentença estrangeira a sua homologação pelo STJ. Assim, não se
pode declinar da competência internacional para o julgamento de uma causa com fundamento na mera
existência de trânsito em julgado da mesma ação, no estrangeiro. Essa postura implicaria a aplicação
dos princípios do “formum shopping” e “forum non conveniens” que, apesar de sua coerente
formulação em países estrangeiros, não encontra respaldo nas regras processuais brasileiras.
– A propositura, no Brasil, da mesma ação proposta perante Tribunal estrangeiro, porém,
consubstancia comportamento contraditório da parte. Do mesmo modo que, no direito civil, o
comportamento contraditório implica violação do princípio da boa-fé objetiva, é possível também
imaginar, ao menos num plano inicial de raciocínio, a violação do mesmo princípio no processo
civil. O deferimento de medida liminar tendente a suspender todos os atos para a execução da
sentença estrangeira, portanto, implicaria privilegiar o comportamento contraditório, em violação do
referido princípio da boa-fé.
Medida liminar indeferida e processo extinto sem resolução de mérito (MC 15.398/RJ, Rel. Min.
Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 2-4-2009, DJe 23-4-2009).

Nós entendemos que o forum shopping e o forum non conveniens encontram respaldo
nos processos coletivos, exatamente no art. 93 do CDC, a partir do momento em que ele
deixa em aberto a extensão do dano (local, regional e nacional) e vincula a competência
ao local do dano.
Adquirido por : Franklin Carter Lopes De Freitas
Telefone: 8899762640
E-mail: franklinufc@hotmail.com
25. A exclusividade do foro do Distrito Federal

Ainda que não tenha o legislador dito o que seria um dano nacional, existe controvérsia
acerca da competência para esses casos, acerca da exclusividade do foro do Distrito
Federal para julgar a demanda coletiva. Vamos a ela.
Posição 1: Ada Pellegrini Grinover
Sendo o dano de âmbito nacional, entendemos que a competência deveria ser sempre do Distrito
Federal: isso para facilitar o acesso à Justiça e o próprio exercício do direito de defesa por parte do
réu, não tendo sentido que seja ele obrigado a litigar na Capital de um Estado, longínquo talvez de
sua sede, pela mera opção do autor coletivo. As regras de competência devem ser interpretadas de
modo a não vulnerar a plenitude da defesa e o devido processo legal. [...]
Essa interpretação reduziria os casos de competência concorrente, que de qualquer modo seriam
solucionados pelos critérios do Código de Processo Civil, inclusive quanto à prevenção. 105
Posição 2: Aluisio Gonçalves de Castro Mendes e a maioria da doutrina
A designação de um único foro, num país com oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados e
contingente populacional de cerca de 170 milhões de habitantes, representaria, sim, barreira
intransponível, desestímulo ou medida encarecedora, para que a maioria das entidades espalhadas
pelo Brasil afora pudesse ajuizar a respectiva ação 106.
Estar-se-ia ainda presumindo que o foro do Distrito Federal é mais habilitado para
julgar a ação coletiva sem nenhum critério, já que não raro esse “foro privilegiado” estaria
distante do local do dano, em clara incompatibilidade com a própria razão de ser das
normas de definição de competência, que é prestigiar o juízo mais próximo do local do
dano, facilitando o acesso à justiça e a produção de provas, nas palavras da própria Ada
Pellegrini Grinover. Se uma associação sediada no Pará quiser propor uma ação coletiva
na defesa dos consumidores, por exemplo, ela teria de se descolar até o Distrito Federal, e
se a questão econômica não ajudar, certamente a ação não será proposta, porque a
dispensa de adiantamento de custas não abrange as despesas do deslocamento.
Outro problema prático: suponhamos um dano causado a consumidores nos três
Estados que compõem a região Sul do Brasil, mais São Paulo. Este dano talvez não
pudesse ser considerado meramente regional, mas sim nacional, de modo que a
competência seria de um juízo, Distrito Federal, que não guarda nenhuma relação com o
local do dano. Ficariam prejudicados o acesso à justiça e a produção das provas. Diversos
outros exemplos poderiam ser citados para ilustrar o descabimento da interpretação
sugerida, de molde a demonstrar a inoperância prática e teórica do que foi proposto.
Precedentes:
Tratando-se de dano de âmbito nacional, que atinja consumidores de mais de uma região, a ação civil
pública será de competência de uma das varas do Distrito Federal ou da Capital de um dos Estados,
a escolha do autor (STJ, CC 112.235/DF, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Segunda Seção, julgado
em 9-2-2011, DJe 16-2-2011).
Em se tratando de ação civil coletiva para o combate de dano de âmbito nacional, a competência não
é exclusiva do foro do Distrito Federal (STJ, CC 26.842/DF, Rel. Min. Waldemar Zveiter, Rel. p/
Acórdão Min. Cesar Asfor Rocha, Segunda Seção, julgado em 10-10-2001, DJ 5-8-2002, p. 194).
No caso de ação civil pública que envolva dano de âmbito nacional, cabe ao autor optar entre o foro
da Capital de um dos Estados ou do Distrito Federal, à conveniência do autor. Inteligência do artigo
2º da Lei n. 7.347/85 e 93, II, do CDC (STJ, AgRg na MC 13.660/PR, Rel. Min. Castro Meira,
Segunda Turma, julgado em 4-3-2008, DJ 17-3-2008, p. 1).

Art. 94. Proposta a ação, será publicado edital no órgão oficial, a fim de que os interessados possam
intervir no processo como litisconsortes, sem prejuízo de ampla divulgação pelos meios de
comunicação social por parte dos órgãos de defesa do consumidor.

26. Opt in no direito brasileiro

Já vimos que os direitos individuais homogêneos são direitos individuais na origem,


mas que foram coletivizados pelo legislador para fins de tutela processual, por isso que,
numa demanda coletiva de defesa desses direitos, é possibilitado o ingresso como
litisconsortes dos interessados.

TEMA DE PROVA!
E quem seriam esses interessados?
Os titulares dos direitos individuais que, semelhantes a outros pela origem comum, estão sendo tutelados na demanda coletiva por um dos legitimados
extraordinários.

Vamos imaginar uma ação coletiva em que um dos legitimados pede uma indenização
aos consumidores vítimas de um alimento contaminado. Não se pode negar que se trata
de defesa de direitos individuais homogêneos: um número considerável de pessoas sofreu
danos pelo consumo desse alimento, e elas estão ligadas entre si pela origem comum (o
fato de terem consumido esse alimento), não existindo entre elas relação jurídica-base
anterior ao evento (esses consumidores por acaso consumiram o mesmo alimento, mas
agora eles já possuem uma relação jurídica-base com a parte contrária, pois são titulares
do direito ao ressarcimento, a ser reconhecido em juízo, obviamente). E os titulares desses
direito podem até não ser determinados no momento da propositura da ação, mas são
determináveis. O que o legitimado pretende na demanda é a indenização a essas pessoas,
que poderiam também, em ações individuais, pretender recebê-la.
Mas o fato é que foi proposta uma ação coletiva em que um dos legitimados quer uma
indenização para essas vítimas – o direito material é delas – então nada mais natural que
essas pessoas possam intervir como litisconsortes.
Trata-se de um litisconsórcio ulterior (será formado após a propositura da ação),
facultativo (não é obrigatório, dependendo da vontade dos indivíduos) e unitário (a
decisão terá de ser uniforme em relação aos litisconsortes).
Para que essas pessoas saibam que existe uma ação coletiva que busca a proteção dos
seus direitos – e possa exercer o seu direito de ingressar como litisconsortes (uma espécie
de opt in) –, o CDC prevê que seja dada publicidade à demanda (uma espécie de fair
notice).
Publicidade da demanda coletiva
Publicação de edital no órgão oficial.
Ampla divulgação nos meios de comunicação social.
Caso o indivíduo opte por ingressar como litisconsorte na demanda coletiva, é preciso
observar o que diz a doutrina:
[...] o interveniente do art. 94, embora litisconsorte, não poderá apresentar novas demandas,
ampliando o objeto litigioso da ação coletiva à consideração de seus direitos pessoais, o que
contraria todo o espírito de “molecularização” da causa. Assim, aqui também há uma inovação nas
tradicionais regras processuais, tanto assim que alguns autores preferem considerar a intervenção do
art. 94 como assistência qualificada ou litisconsorcial 107.

Não vemos, dessa forma, muita utilidade nesse ingresso, a não ser que o indivíduo
realmente queira participar do processo coletivo, porque mesmo que ele não ingresse será
beneficiado pela sentença de procedência, e não será prejudicado pela sentença de
improcedência, como veremos mais adiante.
Vejamos os seguintes julgados:
O descumprimento da exigência prevista no art. 94 do CDC de publicação de edital em órgão oficial
constitui nulidade sanável, porquanto regra criada em prol dos consumidores (STJ, REsp
207.555/MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 6-12-2012, DJe 13-
12-2012).
O descumprimento da exigência prevista no art. 94 do CPC, qual seja, a ausência de publicação de
edital em órgão oficial que comunique aos supostos interessados a possibilidade de intervirem em
ação civil pública como litisconsortes, não constitui nulidade hábil para ensejar a extinção de ação
civil pública. Precedente (STJ, REsp 205.481/MG, Rel. Min. João Otávio de Noronha, Segunda
Turma, julgado em 19-4-2005, DJ 1º-8-2005, p. 369).
Não há nulidade na ausência de citação editalícia dos demais interessados (art. 94 do CDC), pois se
trata, na verdade, de regra de litisconsórcio facultativo criada em benefício dos consumidores. Nada
impede que aqueles que se sentirem prejudicados também proponham ação contra a empresa (STJ,
REsp 138.411/DF, Rel. Min. Eliana Calmon, Rel. p/ Acórdão Ministro Franciulli Netto, Segunda
Turma, julgado em 13-2-2001, DJ 10-9-2001, p. 367).

Art. 95. Em caso de procedência do pedido, a condenação será genérica, fixando a responsabilidade
do réu pelos danos causados.

27. Iliquidez da sentença

A condenação será genérica porque o pedido será genérico também, já que o


legitimado, caso formule pedido condenatório, não poderá individualizar a situação de
cada uma das vítimas, o que será feito posteriormente.

ATENÇÃO!
A ação civil coletiva de responsabilidade pelos danos individualmente sofridos não se confunde com o litisconsórcio ativo, em que vários autores
cumulam ações em face de um ou mais réus. A ação coletiva é proposta por um legitimado do art. 82 do CDC, podendo até eles formarem um
litisconsórcio, em nome próprio, mas defendendo direitos alheios, de modo que o pedido precisa ser genérico porque se trata de uma ação coletiva. No
caso de litisconsórcio ativo, o que temos é uma cumulação de demandas individuais, mas não se trata de uma ação coletiva nem serão aplicadas as regras
processuais do microssistema. No caso de litisconsórcio, os pedidos podem até ser genéricos, porque o NCPC admite em alguns casos no art. 324, porém
são demandas puramente individuais cumuladas por opção dos autores.

O pedido será genérico por absoluta impossibilidade de individualização dos danos de


cada uma das vítimas, e essa individualização é posterior à sentença, de modo que ela é
mesmo genérica.

ATENÇÃO!
Pedido genérico:
Art. 324. O pedido deve ser determinado.
§ 1º É lícito, porém, formular pedido genérico:
I – nas ações universais, se o autor não puder individuar os bens demandados;
II – quando não for possível determinar, desde logo, as consequências do ato ou do fato;
III – quando a determinação do objeto ou do valor da condenação depender de ato que deva ser praticado pelo réu.

Ao contrário do que diz a lei, a condenação, na verdade, é certa, mas os valores


devidos são ilíquidos, bem como os titulares do direito de receber esses valores, por isso,
uma liquidação posterior é essencial. Então a sentença “genérica” ainda não poderá ser
executada, porque é fundamental definir duas coisas: credores e valores. E segundo o art.
783 do NCPC, “a execução para cobrança de crédito fundar-se-á sempre em título de
obrigação certa, líquida e exigível”.
DICA!
Condenação – certa
Valores – iliquidez
Credores – iliquidez

Vale observar alguns precedentes:


Agravo regimental no recurso especial. Precedente da Corte Especial. Recursos representativos da
controvérsia (CPC, art. 543-C 108). Ação coletiva. Sentença. Condenação genérica. Devedor de
quantia certa ou fixada em liquidação. Ausência. Multa. Art. 475-J do CPC. Não incidência.
1. “A sentença genérica prolatada no âmbito da ação civil coletiva, por si, não confere ao vencido o
atributo de devedor de ‘quantia certa ou já fixada em liquidação’ (art. 475-J do CPC) 109, porquanto,
‘em caso de procedência do pedido, a condenação será genérica’, apenas ‘fixando a
responsabilidade do réu pelos danos causados’ (art. 95 do CDC). A condenação, pois, não se reveste
de liquidez necessária ao cumprimento espontâneo do comando sentencial, não sendo aplicável a
reprimenda prevista no art. 475-J do CPC” (REsp 1.247.150/PR, Corte Especial, Rel. Min. Luis
Felipe Salomão, DJe, de 12-12-2011).
2. Agravo regimental a que se nega provimento (AgRg no REsp 1.262.186/PR, Rel. Min. Raul
Araújo, Quarta Turma, julgado em 7-2-2013, DJe 11-3-2013).
A sentença coletiva (condenação genérica, art. 95 do CDC), ao revés da sentença que é exarada em
uma demanda individualizada de interesses (liquidez e certeza, art. 460 do CPC) 110, unicamente
determina que as vítimas de certo fato sejam indenizadas pelo seu agente, devendo, porém, ser
ajuizadas demandas individuais a fim de se comprovar que realmente é vítima, que sofreu prejuízo e
qual o seu valor (STJ, CC 96.682/RJ, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, Terceira Seção, julgado em
10-2-2010, DJe 23-3-2010).

Art. 97. A liquidação e a execução de sentença poderão ser promovidas pela vítima e seus
sucessores, assim como pelos legitimados de que trata o art. 82.

28. Liquidação da sentença

A ação civil coletiva de responsabilidade pelos danos individualmente sofridos é


coletiva até a “segunda página”, porque em determinado momento será necessária a
individualização do que foi coletivizado pelo legislador. E esse momento é o da
liquidação da sentença cuja condenação é certa, mas ilíquida nos valores e credores.
Vamos supor aquela ação coletiva que busca a reparação de danos pelo consumo de
um alimento contaminado, em que agora podemos imaginar umas 50, 60 pessoas vítimas
desse evento. A ação coletiva definirá a responsabilidade do réu – o estabelecimento e/ou
o fabricante do alimento – e caso o juiz se convença dessa responsabilidade, condenará o
réu a indenizar as vítimas, e não o autor da ação (lembremos que a ação é coletiva e a
legitimidade extraordinária).

ATENÇÃO!
A sentença é ilíquida em dois aspectos:
a) Quem são os titulares do direito à indenização?
b) Qual o valor devido a cada um?
São essas as questões que não podem ser decididas enquanto a ação for coletiva, daí a
necessidade de uma liquidação para posterior execução (cumprimento). Essa liquidação
difere das liquidações previstas no NCPC (por arbitramento e pelo procedimento comum)
e assim a liquidação do CDC é chamada pela doutrina de imprópria.
DICA!
Liquidações do NCPC
Por arbitramento e pelo procedimento comum
Art. 509. Quando a sentença condenar ao pagamento de quantia ilíquida, proceder-se-á à sua liquidação, a requerimento do credor ou do devedor:
I – por arbitramento, quando determinado pela sentença, convencionado pelas partes ou exigido pela natureza do objeto da liquidação;
II – pelo procedimento comum, quando houver necessidade de alegar e provar fato novo.

As liquidações do NCPC diferem da liquidação do CDC porque no Novo Código,


havia uma ação individual, onde o titular do direito já era definido desde o momento da
propositura da ação, ficando a iliquidez restrita aos valores eventualmente devidos.
Pressupondo que o réu já foi condenado, é certo partirmos do princípio de que o réu, no
NCPC, foi condenado a pagar um valor a uma pessoa determinada – o autor da ação. A
liquidação será necessária porque não se tem ainda os valores devidos, e se esses valores
dependerem apenas de uma perícia (NCPC, art. 510), far-se-á liquidação por
arbitramento, mas se dependerem de alegações e provas de fato novo, a liquidação será
por artigos (NCPC, art. 511).
ATENÇÃO!
Nas liquidações do NCPC o titular do direito de receber a indenização já está definido.
Na liquidação do CDC faltam ainda as definições de valores e credores.

Assim sendo, a sentença “genérica” dessas ações coletivas é “mais genérica” do que as
sentenças proferidas em processos individuais. E por isso mesmo a liquidação é “mais
aberta”, porque os indivíduos que se habilitarem requerendo a liquidação terão de provar
– com todos os meios de prova em direito admitidos – duas coisas: que ingeriram o
alimento contaminado e que sofreram danos por causa dessa ingestão.
Por isso, a liquidação é mais ampla, e admite também ampla produção probatória.
Precedentes:
1. As ações civis públicas, ao tutelarem indiretamente direitos individuais homogêneos, viabilizam
uma prestação jurisdicional de maior efetividade a toda uma coletividade atingida em seus direitos,
dada a eficácia vinculante das suas sentenças.
2. Assim, em face do escopo jurídico e social das ações civis públicas na tutela dos direitos
individuais homogêneos, busca-se reconhecer, por meio dessas ações, o evento factual gerador
comum, do qual decorrem pretensões indenizatórias massificadas, a fim de facilitar a defesa do
consumidor em Juízo, com acesso pleno aos órgãos judiciários.
3. Diante de tais premissas, o próprio CDC, em seu artigo 95, dita os contornos do conteúdo da
sentença coletiva relativa à pretensão deduzida em Juízo nessa espécie processual, ditando de
antemão aquilo que virá a ser a sua coisa julgada material, no sentido de a sentença se limitar a
reconhecer a responsabilidade do réu pelos danos causados aos consumidores condenando-o, de
forma genérica, ao dever de indenizar.
4. Caberá à parte, diante dessa sentença genérica, proceder posteriormente à sua execução ou
liquidação (art. 97, CDC), a qual se diferencia da execução comum, em razão de demandar ampla
cognição para a individuação do direito do consumidor exequente, e também por conferir ao
exequido a oportunidade de opor objeções relativas às eventuais situações impeditivas,
modificativas ou extintivas da pretensão executiva. Precedentes: EREsp 475.566/PR, Rel. Min. Teori
Albino Zavascki, Primeira Seção, DJ, 13-9-2004; REsp 1.071.787/RS, Rel. Min. Francisco Falcão,
Primeira Turma, DJe, 10-8-2009; REsp 673.380/RS, Rel. Min. Laurita Vaz, Quinta Turma, DJ, 20-6-
2005, entre outros (STJ, AgRg no AREsp 122.031/PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta
Turma, julgado em 8-5-2012, DJe 14-5-2012).
1. É pacífico, na doutrina e na jurisprudência, em face da regra contida no art. 95 do CDC, que, nos
casos de procedência das ações coletivas de tutela de interesses individuais homogêneos, a
condenação será genérica, fixando a responsabilidade do réu pelos danos causados.
2. A execução de sentença genérica de procedência, proferida em sede de ação coletiva lato sensu –
ação civil pública ou ação coletiva ordinária –, demanda uma cognição exauriente e contraditório
amplo sobre a existência do direito reconhecido na ação coletiva, a titularidade do credor, a
individualização e o montante do débito. Precedentes (STJ, AgRg no AgRg no REsp 701.166/RS,
Rel. Min. Laurita Vaz, Quinta Turma, julgado em 15-9-2005, DJ 10-10-2005, p. 424).
3. Na hipótese de Ação Civil Pública relativa a interesses individuais homogêneos, com a finalidade
de facilitar a proteção das vítimas e de agilizar a responsabilização do infrator, dispõe,
expressamente, o Código de Defesa do Consumidor, na parte em que alterou a Lei da Ação Civil
Pública: “Em caso de procedência do pedido, a condenação será genérica, fixando a
responsabilidade do réu pelos danos causados” (art. 95 – grifo acrescentado).
4. A condenação genérica poderá, posteriormente, ser liquidada tanto pelos sujeitos intermediários
como pelas próprias vítimas ou seus sucessores (art. 97).
5. Reconhecida pelo juiz e Tribunal, in casu, a responsabilidade da ré por danos sofridos pelos
moradores, a própria lei se encarrega de admitir que a quantificação em relação a cada um deles seja
feita em liquidação e execução de sentença (arts. 95 e 97 do CDC, aplicáveis à Ação Civil Pública
Ambiental por força do art. 21 da Lei n. 7.347/1995). Precedentes do STJ (STJ, REsp 1.168.045/RS,
Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 28-9-2010, DJe 14-9-2011).
Como o autor – legitimado extraordinário – não é obrigado a formular pedido
condenatório de quantia em dinheiro, por diversos motivos, entre eles as eventuais
dificuldades práticas para liquidação e execução individuais, outros pedidos podem ser
formulados. Podemos citar como exemplo a demanda coletiva que foi proposta, no caso
pelo MP, em face de um posto de combustíveis que ficou com a bomba adulterada
durante uns cinco anos. Nesse período, vamos supor, para cada litro de gasolina, álcool e
diesel que eram colocados nos tanques dos veículos, havia uma perda para o consumidor
de 50 ml (existe uma “perda” tolerada pela Agência Nacional do Petróleo – ANP).
Tratava-se de um caso em que jamais um consumidor poderia imaginar que, mesmo a
bomba marcando um abastecimento de 50 litros, ficava faltando 2,5 litros dentro do
tanque, e também seria muito difícil identificar quem foram os consumidores que
sofreram esse dano, e mais ainda seria para eles se habilitarem para liquidação e
execução.
Em casos assim, seria mais útil “substituir” o pedido condenatório de quantia em
dinheiro por uma tutela específica de obrigação de fazer, como, por exemplo, dar o
desconto corresponde aos danos causados durante cinco anos no preço final do
combustível, em um patamar também que não representasse a falência da empresa, que
em nada interessa a ninguém, nem à sociedade, nem aos consumidores, nem à empresa.
Veja a doutrina:
A tendência, inclusive na prática forense, tem sido a “transformação” da tutela condenatória em
pecúnia em tutela específica ou mandamental, em razão do modo como o pedido, em algumas ações
coletivas, tem sido feito.
Imaginemos o seguinte exemplo: ação civil pública é proposta contra cobrança abusiva de empresa
de planos de saúde. Ao invés de pedido de condenação, pura e simples ao pagamento dos valores
cobrados a mais, o autor pede que a empresa seja condenada a fazê-lo, descontando, em
mensalidades futuras, os valores que foram indevidamente cobrados, comprovando-se o
cumprimento dessa determinação em fase de execução 111.
Porém existem situações em que o pedido condenatório em dinheiro é mesmo a melhor
solução, como no caso do alimento contaminado, e nesses casos a liquidação e a
execução individuais são necessárias, sendo certo que elas ainda suscitam alguns debates.

29. Qual o foro competente para conhecer da liquidação e execução do


julgado?

De acordo com o entendimento do STJ firmado em sede de recurso especial repetitivo:


1. Para efeitos do art. 543-C do CPC:
1.1. A liquidação e a execução individual de sentença genérica proferida em ação civil coletiva pode
ser ajuizada no foro do domicílio do beneficiário, porquanto os efeitos e a eficácia da sentença não
estão circunscritos a lindes geográficos, mas aos limites objetivos e subjetivos do que foi decidido,
levando-se em conta, para tanto, sempre a extensão do dano e a qualidade dos interesses
metaindividuais postos em juízo (arts. 468, 472 e 474, CPC e 93 e 103, CDC) 112 (STJ, REsp
1.243.887/PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Corte Especial, julgado em 19-10-2011, DJe 12-12-
2011).
Doutrina:
E quais são esses foro e juízo da liquidação da sentença, alternativos aos foro e juízo da ação
condenatória? A resposta está no art. 101, inc. I, do Código: a ação de responsabilidade civil do
fornecedor de produtos e serviços pode ser proposta no domicílio do autor 113.
A competência do foro do domicílio do indivíduo é essencial para assegurar não só a
eficácia da ação coletiva – que só terá resultado satisfatório se houver essa liquidação e
posterior execução –, mas também dar significado prático e real ao acesso à justiça.

30. E o indivíduo dispõe de prazo prescricional para requerer a liquidação


e a execução da sentença coletiva que lhe favorece?

Precedentes:
Agravo regimental no agravo em recurso especial. Incidente de uniformização de jurisprudência.
Extemporâneo. Cumprimento individual de sentença proferida em ação coletiva. Prescrição
quinquenal.
1. O pedido de uniformização de jurisprudência é um incidente processual de caráter preventivo,
podendo ser suscitado nas razões recursais, nas contrarrazões ou até o respectivo julgamento do
recurso principal. Não se admite a sua suscitação em sede de agravo regimental, como na espécie.
Precedentes.
2. Cuidando-se de execução individual de sentença proferida em ação coletiva, o beneficiário se
insere em microssistema diverso e com regras pertinentes, sendo imperiosa a observância do prazo
próprio das ações coletivas, que é quinquenal, nos termos do precedente firmado no REsp
1.070.896/SC, aplicando-se a Súmula 150/STF.
3. Assim, no caso concreto, o beneficiário da ação coletiva teria o prazo de 5 (cinco) anos para o
ajuizamento da execução individual, contados a partir do trânsito em julgado da sentença coletiva.
Precedentes: REsps 1.275.215/RS e 1.276.376/PR.
4. Pedido de uniformização de jurisprudência rejeitado. Agravo regimental a que se nega provimento
(STJ, AgRg no AREsp 254.658/MS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 11-
12-2012, DJe 18-12-2012).
Direito civil e processual civil. Execução individual de sentença proferida em ação coletiva.
Apadeco x Caixa Econômica Federal. Expurgos. Planos econômicos. Prazo de prescrição.
1. A sentença não é nascedouro de direito material novo, não opera a chamada “novação necessária”,
mas é apenas marco interruptivo de uma prescrição cuja pretensão já foi exercitada pelo titular. Essa
a razão da máxima contida na Súmula 150/STF: “Prescreve a execução no mesmo prazo de
prescrição da ação”. Não porque nasce uma nova e particular pretensão de execução, mas porque a
pretensão da “ação” teve o prazo de prescrição interrompido e reiniciado pelo “último ato do
processo”.
2. As ações coletivas fazem parte de um arcabouço normativo vocacionado a promover a facilitação
da defesa do consumidor em juízo e o acesso pleno aos órgãos judiciários (art. 6º, VII e VIII, CDC),
sempre em mente o reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor (art. 4º, CDC), por isso que o
instrumento próprio de facilitação de defesa e de acesso do consumidor não pode voltar-se contra o
destinatário da proteção, prejudicando sua situação jurídica.
3. Assim, o prazo para o consumidor ajuizar ação individual de conhecimento – a partir da qual lhe
poderá ser aberta a via da execução – independe do ajuizamento da ação coletiva, e não é por esta
prejudicado, regendo-se por regras próprias e vinculadas ao tipo de cada pretensão deduzida.
4. Porém, cuidando-se de execução individual de sentença proferida em ação coletiva, o beneficiário
se insere em microssistema diverso e com regras pertinentes, sendo imperiosa a observância do
prazo próprio das ações coletivas, que é quinquenal, nos termos do precedente firmado no REsp
1.070.896/SC, aplicando-se a Súmula 150/STF.
5. Assim, no caso concreto, o beneficiário da ação coletiva teria o prazo de 5 (cinco) anos para o
ajuizamento da execução individual, contados a partir do trânsito em julgado da sentença coletiva, e
o prazo de 20 (vinte) anos para o ajuizamento da ação de conhecimento individual, contados dos
respectivos pagamentos a menor das correções monetárias em razão dos planos econômicos.
6. Recurso especial provido (REsp 1.275.215/RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma,
julgado em 27-9-2011, DJe 1º-2-2012).

Art. 98. A execução poderá ser coletiva, sendo promovida pelos legitimados de que trata o art. 82,
abrangendo as vítimas cujas indenizações já tiveram sido fixadas em sentença de liquidação, sem
prejuízo do ajuizamento de outras execuções.

31. Execução da sentença coletiva

Tanto o art. 97 quanto o 98 admitem a possibilidade de a liquidação e a execução serem


iniciadas pelos legitimados do art. 82, o que parece contraditório, já que, neste momento,
a ação coletiva já teria cumprido o seu papel – evitou demandas individuais diversas com
risco de decisões conflitantes, entre outros –, e bastaria apenas a habilitação dos titulares
dos direitos individuais.
O problema é que sendo a sentença condenatória genérica, e versando apenas sobre o aspecto
uniforme e homogêneo da lesão aos interesses individuais homogêneos, na fase de liquidação
prevaleceriam os aspectos desuniformes e heterogêneos do conflito, exigindo tratamento
individualizado 114.
O STJ deixou assentado que a preferência, neste momento, é do titular do direito.
1. A legitimidade para intentar ação coletiva versando a defesa de direitos individuais homogêneos é
concorrente e disjuntiva, podendo os legitimados indicados no art. 82 do CDC agir em Juízo
independentemente uns dos outros, sem prevalência alguma entre si, haja vista que o objeto da tutela
refere-se à coletividade, ou seja, os direitos são tratados de forma indivisível.
2. Todavia, para o cumprimento de sentença, o escopo é o ressarcimento do dano individualmente
experimentado, de modo que a indivisibilidade do objeto cede lugar à sua individualização.
3. Não obstante ser ampla a legitimação para impulsionar a liquidação e a execução da sentença
coletiva, admitindo-se que a promovam o próprio titular do direito material, seus sucessores, ou um
dos legitimados do art. 82 do CDC, o art. 97 impõe uma gradação de preferência que permite a
legitimidade coletiva subsidiariamente, uma vez que, nessa fase, o ponto central é o dano pessoal
sofrido por cada uma das vítimas.
4. Assim, no ressarcimento individual (arts. 97 e 98 do CDC), a liquidação e a execução serão
obrigatoriamente personalizadas e divisíveis, devendo prioritariamente ser promovidas pelas
vítimas ou seus sucessores de forma singular, uma vez que o próprio lesado tem melhores condições
de demonstrar a existência do seu dano pessoal, o nexo etiológico com o dano globalmente
reconhecido, bem como o montante equivalente à sua parcela (STJ, REsp 869.583/DF, Rel. Min. Luis
Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 5-6-2012, DJe 5-9-2012).

Sendo a liquidação requerida por um dos legitimados do art. 82 do CDC para a


individualização dos danos, em que pese a liquidação e posterior execução ter sido
deflagradas por um dos entes que no processo de conhecimento agiu no uso de
legitimidade extraordinária para a defesa de direitos coletivizados, aqui já se trata de
demanda individual.
Doutrina:
[...] as pretensões à liquidação e execução da sentença serão necessariamente individualizadas: o
caso surge como de representação, devendo os entes e pessoas enumeradas no art. 82 agirem em
nome das vítimas ou sucessores 115.

Utilizando novamente o exemplo do desabamento do Morro do Bumba, em Niterói-RJ,


temos a possibilidade de a Defensoria Pública, por exemplo, requerer a liquidação e a
posterior execução agindo como representante das vítimas, e postulando a comprovação
individualizada no sentido de que cada pessoa que ela representa foi atingida pelo
deslizamento (todos os meios de prova são admitidos) e posteriormente comprovando o
prejuízo que cada um sofreu.
A doutrina nega a possibilidade de o MP realizar essa liquidação e execução para
proteção de direitos que agora são puramente individuais e disponíveis.
Art. 98. [...]
§ 1º A execução coletiva far-se-á com base em certidão das sentenças de liquidação, da qual deverá
constar a ocorrência ou não do trânsito em julgado.

32. Formalidades

Trata-se de uma formalidade importante, pois são esses os documentos que


possibilitarão ao juízo competente, que pode ser diferente daquele que prolatou a
sentença, ter conhecimento dos limites da demanda e da decisão que agora sustenta a
liquidação e a posterior execução.
Também é importante deixar registrado que esse dispositivo admite expressamente a
liquidação e a execução provisórias, quando menciona que a certidão terá a informação
da ocorrência ou não do trânsito em julgado. Ideia essa reforçada pelo microssistema, em
que prevalecem – mas não descarta completamente – as regras processuais do NCPC,
feitas para a solução de litígios individuais.
O NCPC prevê que o recurso de apelação terá, em regra, o chamado duplo efeito:
devolutivo e suspensivo. As exceções constam nos incisos do § 1º desse dispositivo.
Art. 1.012. A apelação terá efeito suspensivo.

Mas a LACP prevê algo diferente e, como é parte do microssistema, deve ser aplicada
essa norma às ações coletivas consumeristas:
Art. 14. O juiz poderá conferir efeito suspensivo aos recursos, para evitar dano irreparável à parte.
Assim sendo, as sentenças condenatórias proferidas em ações coletivas para a defesa de
direitos individuais homogêneos poderão ser executadas provisoriamente, quando o réu
apelar, mas o juiz, no caso concreto, não tiver concedido o efeito suspensivo.
Art. 98. [...]
§ 2º É competente para a execução o juízo:
I – da liquidação da sentença ou da ação condenatória, no caso de execução individual;
II – da ação condenatória, quando coletiva a execução.

33. Competência para a execução coletiva

Já vimos que o STJ e a doutrina afastaram a interpretação literal no que tange à


competência para a liquidação e execução quando movidas pelo titular do direito à
indenização, admitindo, em nome do acesso à justiça, que possa ela ser movida no foro
do seu domicílio.
Tratando-se de uma execução movida pelo legitimado do art. 82 do CDC, que é, na
verdade, individual, e não coletiva, não existirá esse empecilho ao acesso à justiça,
exatamente pelo fato de o “autor” da liquidação e posterior execução ser um dos
legitimados do art. 82.

DICA!
Essa execução “coletiva” do legitimado do art. 82 não precisa necessariamente ser promovida pelo legitimado que efetivamente ajuizou a ação. Qualquer
legitimado do art. 82 poderá fazê-lo.

34. Concurso de créditos

Art. 99. Em caso de concurso de créditos decorrentes de condenação prevista na Lei n. 7.347, de 24
de julho de 1985 e de indenizações pelos prejuízos individuais resultantes do mesmo evento danoso,
estas terão preferência no pagamento.
Parágrafo único. Para efeito do disposto neste artigo, a destinação da importância recolhida ao fundo
criado pela Lei n. 7.347 de 24 de julho de 1985, ficará sustada enquanto pendentes de decisão de
segundo grau as ações de indenização pelos danos individuais, salvo na hipótese de o patrimônio do
devedor ser manifestamente suficiente para responder pela integralidade das dívidas.

Esse dispositivo aparentemente “apenas” traz uma regra de preferência, resolvendo um


problema de concurso de créditos, mas, na verdade, ele contém uma norma muito
importante: a expressa possibilidade – que de qualquer forma já decorre do art. 83 do
CDC – de cumulação de pedidos em ação coletiva.
Se não fosse possível a cumulação, por exemplo, de tutela de direitos difusos (danos
causados de forma ampla) e individuais homogêneos (danos individualmente
considerados), não teria sentido o CDC ter estabelecido um concurso de créditos.

35. Execução coletiva da sentença em caso de inércia dos titulares do


direito

Art. 100. Decorrido o prazo de um ano sem habilitação de interessados em número compatível com a
gravidade do dano, poderão os legitimados do art. 82 promover a liquidação e execução da
indenização devida.
Parágrafo único. O produto da indenização devida reverterá para o fundo criado pela Lei n. 7.347, de
24 de julho de 1985.
Vimos que haverá a publicação de edital, bem como a divulgação da ação coletiva nos
meios de comunicação, para que os interessados se habilitem – caso queiram – como
litisconsortes na ação coletiva, mas o dispositivo que previa a publicidade da sentença,
para habilitação em liquidação e execução, que seria o art. 97, foi vetado, sem motivo
justo. Se a ação coletiva beneficiou as vítimas de um evento danoso, a ponto de ter sido
julgada procedente, e bastando apenas o ingresso delas pleiteando liquidação e execução,
a divulgação da sentença seria a exigência mais lógica, mas foi vetado.
Se foi vetado à divulgação, não é obrigatória, mas também não é proibida. O
legitimado que propôs a ação certamente terá interesse na divulgação, e poderá por conta
própria providenciar a devida publicidade para que pessoas que nem sequer sabiam da
ação coletiva possam ir a Juízo, no foro dos seus domicílios, e efetivar os seus direitos
tutelados de forma eficaz na ação coletiva.
Apesar do veto, o STJ já decidiu que o início do prazo de 1 ano começa não do trânsito
em julgado, mas sim da publicação do edital dando ciência da sentença às vítimas.
Somente após é que a execução – agora sim coletiva – poderia ser feita.
6. A legitimidade do Ministério Público para instaurar a execução exsurgirá – se for o caso – após o
escoamento do prazo de um ano do trânsito em julgado se não houver a habilitação de interessados
em número compatível com a gravidade do dano, nos termos do art. 100 do CDC. É que a hipótese
versada nesse dispositivo encerra situação em que, por alguma razão, os consumidores lesados
desinteressam-se quanto ao cumprimento individual da sentença, retornando a legitimação dos entes
públicos indicados no art. 82 do CDC para requerer ao Juízo a apuração dos danos globalmente
causados e a reversão dos valores apurados para o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (art. 13 da
LACP), com vistas a que a sentença não se torne inócua, liberando o fornecedor que atuou
ilicitamente de arcar com a reparação dos danos causados.
7. No caso sob análise, não se tem notícia acerca da publicação de editais cientificando os
interessados acerca da sentença exequenda, o que constitui óbice à sua habilitação na liquidação,
sendo certo que o prazo decadencial nem sequer iniciou o seu curso, não obstante já se tenham
escoado quase treze anos do trânsito em julgado (STJ, REsp 869.583/DF, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, Quarta Turma, julgado em 5-6-2012, DJe 5-9-2012).
Esse precedente apenas reafirma o que consta no art. 100: a preferência é a execução
individual, porque o direito tutelado é individual, somente se podendo fazer a execução
coletiva caso (1º) a sentença seja divulgada e (2º) não tenha havido, no prazo de 1 ano,
liquidações e execuções em número compatível com a gravidade do dano, cuja análise,
obviamente, vai depender do caso concreto.
Sobre a matéria:
[...] não é correto o pedido direto de recolhimento de indenização ao Fundo, sendo censurável o
acolhimento desse mesmo pedido: o pedido indenizatório, em casos que tais, inscreve-se na tutela de
interesses individuais homogêneos, de modo que o recolhimento ao Fundo prejudica o direito às
indenizações pessoais dos consumidores que quiserem habilitar-se à reparação individual 116.

ATENÇÃO!
Liquidação e execução individuais feitas pelos legitimados do art. 82 – é a prevista nos arts. 97 e 98 do CDC.
Liquidação e execução coletivas feitas pelos legitimados do art. 82 – é a do art. 100.

Aqui nós temos o nosso fluid recovery, criação do direito norte--americano que
significa reparação fluida, para os casos em que a reparação direta (a nossa liquidação e
execução individuais) não for possível ou for muito difícil, ocasião em que a quantia
destinada às indenizações será revertida para um Fundo 117.
Em precedente do STJ:
Direito processual coletivo. Recurso especial. Ação civil pública. Condenação cumprida pelo
vencido na fase de conhecimento. Depósito. Habilitação de interessados em número incompatível
com a extensão do dano. Incidência do art. 100 do CDC. Reversão para o fundo público de que
trata a Lei n. 7.347/85. Legitimidade do Ministério Público para propor a solução. Inexistência de
julgamento extra petita nem de alteração do pedido na fase de execução.
1. O Ministério Público é parte legítima para promover execução residual da chamada fluid
recovery, a que se refere o art. 100, do CDC, com o escopo de reversão ao Fundo Público do valor
residual, especialmente quando não houver interessados habilitados em número compatível com a
extensão do dano.
2. A reversão para o Fundo Público dos valores não levantados pelos beneficiários é providência
cabível na fase de execução da sentença coletiva, descabendo por isso exigir que a inicial da ação de
conhecimento já contenha tal pedido, cuja falta não induz julgamento extra petita, tampouco alteração
do pedido na fase de execução.
3. Ademais, independente de pedido na ação de conhecimento, a reversão para o fundo é previsão
legal, sujeitando-se a condições secundum eventum litis, ou seja, somente reverterá caso ocorra, em
concreto e na fase de execução, as circunstâncias previstas no art. 100, CDC.
4. Recurso especial não provido (STJ, REsp 996.771/RN, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta
Turma, julgado em 6-3-2012, DJe 23-4-2012).

CAPÍTULO III
Das Ações de Responsabilidade do Fornecedor de Produtos e Serviços
Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e serviços, sem prejuízo do
disposto nos Capítulos I e II deste título, serão observadas as seguintes normas:
I – a ação pode ser proposta no domicílio do autor;
II – o réu que houver contratado seguro de responsabilidade poderá chamar ao processo o segurador,
vedada a integração do contraditório pelo Instituto de Resseguros do Brasil. Nesta hipótese, a
sentença que julgar procedente o pedido condenará o réu nos termos do art. 80 do Código de
Processo Civil. Se o réu houver sido declarado falido, o síndico será intimado a informar a
existência de seguro de responsabilidade, facultando-se, em caso afirmativo, o ajuizamento de ação
de indenização diretamente contra o segurador, vedada a denunciação da lide ao Instituto de
Resseguros do Brasil e dispensado o litisconsórcio obrigatório com este.
Temos aqui algumas disposições processuais consideradas relevantes pelo legislador a
ponto de dar a elas um tratamento diferenciado, para as ações de responsabilidade civil,
contratual ou extracontratual, do fornecedor de produtos ou serviços.
36. Regra de competência

A primeira regra é sobre a competência. O fato de a ação poder ser proposta no


domicílio do consumidor é um importante mecanismo de facilitação do acesso à justiça,
posto que exigir que o consumidor se desloque até o domicílio do réu, como preconiza a
regra geral do art. 46 do NCPC, poderia ser um sério obstáculo. É de se reconhecer,
entretanto, que muitas relações de consumos são contratualizadas e nesses contratos há
um foro de eleição. Considerando que os contratos de adesão possuem o foro que a parte
mais forte quiser, isso poderia tirar a eficácia da norma do inciso I do art. 101. Porém a
jurisprudência, com razão, firmou-se no sentido de favorecer o consumidor:
2. Segundo entendimento desta Corte, nas ações propostas contra o consumidor, a competência pode
ser declinada de ofício para o seu domicílio, em face do disposto no art. 101, inciso I, do CDC e no
parágrafo único, do art. 112, do CPC.
3. Se a autoria do feito pertence ao consumidor, contudo, permite-se-lhe a escolha do foro de eleição
contratual, considerando que a norma protetiva, concebida em seu benefício, não o obriga, quando
optar por demandar fora do seu domicílio.
4. Não se admite, todavia, sem justificativa plausível, a escolha aleatória de foro que não seja nem o
do domicílio do consumidor, nem o do réu, nem o de eleição e nem o do local de cumprimento da
obrigação (STJ, EDcl no AgRg nos EDcl no CC 116.009/PB, Rel. Min. Sidnei Beneti, Rel. p/
Acórdão Min. Maria Isabel Gallotti, Segunda Seção, julgado em 8-2-2012, DJe 20-4-2012).
Ocorre que existem consumidores e consumidores, não podendo o foro de eleição ser
sempre “demonizado”. Primeiramente, deve ser ressaltado que o foro de eleição só deve
ser declarado nulo pelo juízo quando prejudicar o acesso do consumidor à justiça, o que
deve ser analisado em cada caso concreto. Muitas vezes, o domicílio do consumidor
coincide com o foro de eleição ou fica bem próximo ao foro de eleição. Quando o juízo
verificar que há uma dificuldade no caso concreto, mesmo sendo o foro de eleição
próximo ao domicílio do consumidor, deverá declarar a nulidade da cláusula. Em
segundo lugar, tem-se exigido a hipossuficiência do consumidor, como condição para a
decretação da nulidade do foro. Vejamos:
A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é firme em que o simples fato de a relação jurídica
ser de índole consumerista não acarreta, por si só, a nulidade da cláusula de eleição, havendo a
necessidade de se comprovar a hipossuficiência do consumidor ou a dificuldade de acesso ao
Judiciário, o que, no caso, não restou reconhecido pelas instâncias ordinárias (STJ, AgRg no REsp
594.012/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 4-12-2012, DJe 11-
12-2012).
Ademais, “a só e só condição de a eleição do foro ter se dado em contrato não acarreta a nulidade
dessa cláusula, sendo imprescindível a constatação de cerceamento de defesa e de hipossuficiência
do aderente para sua inaplicação” (REsp 545.575/RJ, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, Quarta Turma,
julgado em 9-9-2003, DJ, 28-10-2003, p. 295) (STJ, AgRg no REsp 1.336.491/SP, Rel. Min. Marco
Buzzi, Quarta Turma, julgado em 27-11-2012, DJe 13-12-2012).
1. A Segunda Seção do STJ, ao julgar o REsp 541.867/BA, Rel. Min. Pádua Ribeiro, Rel. p/
Acórdão o Min. Barros Monteiro, DJ 16-5-2005, optou pela concepção subjetiva ou finalista de
consumidor.
2. Todavia, deve-se abrandar a teoria finalista, admitindo a aplicação das normas do CDC a
determinados consumidores profissionais, desde que seja demonstrada a vulnerabilidade técnica,
jurídica ou econômica.
3. Nos presentes autos, o que se verifica é o conflito entre uma empresa fabricante de máquinas e
fornecedora de softwares, suprimentos, peças e acessórios para a atividade confeccionista e uma
pessoa física que adquire uma máquina de bordar em prol da sua sobrevivência e de sua família,
ficando evidenciada a sua vulnerabilidade econômica.
4. Nesta hipótese, está justificada a aplicação das regras de proteção ao consumidor, notadamente a
nulidade da cláusula eletiva de foro (STJ, REsp 1.010.834/GO, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira
Turma, julgado em 3-8-2010, DJe 13-10-2010).

Processual civil. Contrato de consórcio. Cláusula de eleição de foro. Nulidade. Domicílio do


consumidor. Parte hipossuficiente da relação. Foro eleito.
1. A jurisprudência do STJ firmou-se, seguindo os ditames do Código de Defesa do Consumidor, no
sentido de que a cláusula de eleição de foro estipulada em contrato de consórcio há que ser tida
como nula, devendo ser eleito o foro do domicílio do consumidor a fim de facilitar a defesa da parte
hipossuficiente da relação.
2. Agravo regimental desprovido (AgRg no Ag 1.070.671/SC, Rel. Min. João Otávio De Noronha,
Quarta Turma, julgado em 27-4-2010, DJe 10-5-2010).
Assim o tema foi tratado no NCPC:
Art. 63. As partes podem modificar a competência em razão do valor e do território, elegendo foro
onde será proposta ação oriunda de direitos e obrigações.
§ 1º A eleição de foro só produz efeito quando constar de instrumento escrito e aludir expressamente
a determinado negócio jurídico.
§ 2º O foro contratual obriga os herdeiros e sucessores das partes.
§ 3º Antes da citação, a cláusula de eleição de foro, se abusiva, pode ser reputada ineficaz de ofício
pelo juiz, que determinará a remessa dos autos ao juízo do foro de domicílio do réu.
§ 4º Citado, incumbe ao réu alegar a abusividade da cláusula de eleição de foro na contestação, sob
pena de preclusão.

37. Regra de intervenção de terceiros

A segunda regra é sobre intervenção de terceiros. O CDC veda a denunciação da lide


(art. 88), mas admite o chamamento ao processo. Já vimos na análise do art. 88 a razão
pela qual a denunciação é vedada – não beneficia o consumidor –, mas o chamamento ao
processo é uma medida interessante, porque pode ser uma medida extremamente benéfica
ao consumidor, em que pese provocar a ampliação subjetiva da demanda por meio da
inclusão de uma nova ré, a seguradora do fornecedor de produtos ou serviços.
O STJ já decidiu que as empresas de transportes coletivos respondem perante os
consumidores nos termos do CDC (REsp 330.288/SP, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior,
Quarta Turma, julgado em 27-6-2002, DJ 26-8-2002, p. 230), então vamos imaginar a
seguinte hipótese: em um caso de acidente com um ônibus, o consumidor vitimado
poderia ajuizar uma ação, no seu domicílio, em face da empresa, que responde
objetivamente pelos danos sofridos pelo autor. Se nós, pessoas físicas, temos o hábito de
contratar seguro para nossos automóveis particulares, é de se supor que uma empresa de
ônibus também tenha um contrato de seguro para a sua frota.
Nesse caso, não fosse o CDC, estaríamos diante de uma clássica hipótese de
denunciação da lide, em que o réu demandaria junto à seguradora para exercer o direito
de regresso assegurado pelo contrato de seguro (NCPC, art. 125, II). Mas não. Diante do
que dispõe o CDC, é um caso de chamamento ao processo, que torna a seguradora ré na
demanda do consumidor, em litisconsórcio com a empresa de transportes coletivos.
Precedente:
Responsabilidade civil. Direito do consumidor. Transporte coletivo. Seguro. Chamamento ao
processo. Processo sumário.
– Consoante já decidiu a Eg. Quarta Turma, “é possível o chamamento ao processo da seguradora da
ré (art. 101, II, do CDC), empresa de transporte coletivo, na ação de responsabilidade promovida
pelo passageiro, vítima de acidente de trânsito causado pelo motorista do coletivo, não se aplicando
ao caso a vedação do art. 280, I, do CPC” (REsp’s 178.839-RJ e 214.216-RJ).
– Achando-se a causa, porém, em fase avançada (realização de perícia médico-legal), a anulação do
feito, além de importar em sério tumulto processual, ainda acarretaria prejuízo ao consumidor, autor
da ação.
– Hipótese em que, ademais, a ré não sofre a perda do seu direito de regresso contra a empresa
seguradora.
Recurso especial não conhecido (REsp 313.334/RJ, Rel. Min. Barros Monteiro, Quarta Turma,
julgado em 5-4-2001, DJ 25-6-2001, p. 197).

O chamamento ao processo é benéfico para o consumidor porque coloca lado a lado,


para responder perante ele, a empresa e a seguradora, ampliando as possibilidades de
satisfação concreta do seu direito na fase executiva, em que ele poderá escolher em qual
patrimônio buscará o cumprimento da sentença.
Na denunciação da lide, o consumidor somente poderia satisfazer a sua pretensão em
face da empresa de transportes coletivos, que, por sua vez, exerceria o direito de regresso
em face da seguradora. Mas essa regra só era válida na vigência do CPC já revogado. O
Novo Código admite a possibilidade de o autor da demanda promover o cumprimento da
sentença diretamente em face do denunciado (no caso do exemplo, a seguradora):
Art. 128, parágrafo único. Procedente o pedido da ação principal, pode o autor, se for o caso,
requerer o cumprimento da sentença também contra o denunciado, nos limites da condenação deste na
ação regressiva.
Mesmo com a modificação do sistema de cumprimento da sentença em caso de
denunciação da lide, o CDC a veda expressamente, o que tende a se manter mesmo com o
NCPC.

DICA!
Denunciação da lide no CPC/73
Autor à Réu – Denunciante (empresa de transporte coletivo) à Denunciado (seguradora)
Denunciação da lide no NCPC
Autor à Réu (empresa de transporte coletivo) ou Autor à Denunciado (seguradora)

No chamamento ao processo, haverá a formação de um litisconsórcio passivo entre a


empresa de transportes coletivos e a seguradora, sendo que ambas responderão perante o
consumidor, que terá mais possibilidades de satisfazer seu direito concretamente (NCPC,
arts. 130 a 132).

DICA!
Chamamento ao processo
Autor à Réu 1 (empresa de transporte coletivo) e Réu 2 (seguradora)

Como o CDC determina que a seguradora também responda perante o consumidor,


nada impede que ele demande em face dela desde o início. Basta que o consumidor saiba
quem é a seguradora do fornecedor. Se a seguradora pode ser ré por força do
chamamento ao processo, ela também pode ser ré desde o início.
Para proteger mais ainda o consumidor, afinal este é um dos deveres do Estado –
proteger o consumidor na forma da lei –, prevê o CDC que, no caso de falência do
fornecedor, o síndico deverá informar acerca da existência de contrato de seguro,
podendo o consumidor acionar diretamente a seguradora.
Art. 102. Os legitimados a agir na forma deste código poderão propor ação visando compelir o
Poder Público competente a proibir, em todo o território nacional, a produção, divulgação
distribuição ou venda, ou a determinar a alteração na composição, estrutura, fórmula ou
acondicionamento de produto, cujo uso ou consumo regular se revele nocivo ou perigoso à saúde
pública e à incolumidade pessoal.

Trata-se de uma decorrência dos arts. 83 e 84. Ação que objetiva compelir o Poder
Público a proibir, no Brasil inteiro, a produção, a divulgação, a distribuição ou venda, ou
a determinar a alteração na composição, estrutura, fórmula ou acondicionamento de
produto que possa causar danos à saúde púbica ou à incolumidade pessoal é uma ação
coletiva preventiva (inibitória) para a defesa de direitos difusos.
Qualquer um dos legitimados do art. 82 poderá deflagrar essa demanda, e, a rigor, esse
dispositivo seria até desnecessário porque os dispositivos do CDC já contemplam, por si
só, essa possibilidade, mas essa previsão reforça o dever do Estado de proteger o
consumidor, além de reafirmar a eficácia e a adequação da tutela coletiva como forma de
defesa dos consumidores em juízo.
CAPÍTULO IV
Da Coisa Julgada
Art. 103. Nas ações coletivas de que trata este código, a sentença fará coisa julgada:
I – erga omnes, exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, hipótese
em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação, com idêntico fundamento valendo-se de nova
prova, na hipótese do inciso I do parágrafo único do art. 81;
II – ultra partes, mas limitadamente ao grupo, categoria ou classe, salvo improcedência por
insuficiência de provas, nos termos do inciso anterior, quando se tratar da hipótese prevista no inciso
II do parágrafo único do art. 81;
III – erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para beneficiar todas as vítimas e seus
sucessores, na hipótese do inciso III do parágrafo único do art. 81.

38. Coisa julgada coletiva

Esse é outro instituto que necessariamente precisa ser diferente no processo coletivo,
não sendo possível a importação da coisa julgada tal como prevista no CPC para as
demandas de natureza coletiva, por absoluta inadequação.
Porém é bom ressaltar que os limites objetivos da coisa julgada (que só incide sobre a
parte dispositiva da sentença, tal como previsto no art. 504 do NCPC) são aplicáveis às
demandas coletivas. Estamos nos referindo aos limites subjetivos da coisa julgada (art.
506 do NCPC – a sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não
prejudicando terceiros), que não podem ser aplicados aos processos coletivos. Para os
limites subjetivos, aplica-se o disposto neste artigo, que irradia seus efeitos para todo o
microssistema.

DICA!
Coisa julgada no processo coletivo
Limites objetivos: NCPC, art. 504
Limites subjetivos: CDC, arts. 103 e 104

O legislador avançou em relação à LACP, no art. 16, porque o sistema de coisa julgada
previsto nesta lei do microssistema não faz diferença entre o tipo de direito tutelado, se
difuso, coletivo ou individual homogêneo, de modo que se trabalha com o CDC, e não
com a LACP, salvo a exceção que veremos. De todo modo, comecemos com um quadro
explicativo da coisa julgada coletiva.

DICA!
Direitos difusos
Procedência: faz coisa julgada erga omnes
Improcedência
Por falta de provas: não faz coisa julgada
Por qualquer outro fundamento: faz coisa julgada
Direitos coletivos
Procedência: faz coisa julgada ultra partes
Improcedência
Por falta de provas: não faz coisa julgada
Por qualquer outro fundamento: faz coisa julgada
Direitos individuais homogêneos
Procedência: faz coisa julgada erga omnes
Improcedência: faz coisa julgada

Esse sistema de coisa julgada – tratando-se de direitos difusos e coletivos – é


diferenciado, como pode ser observado, porque não incide coisa julgada mesmo em uma
decisão final de mérito (improcedência por falta de provas). Valendo dizer que se o
pedido for julgado improcedente, a incidência ou não da coisa julgada vai depender da
fundamentação da sentença. Isso não significa dizer que a fundamentação faz coisa
julgada, mas sim que ela é determinante para a coisa julgada. E tudo depende da
suficiência probatória da ação coletiva. É o que se denomina coisa julgada secundum
eventum probationis. Como a improcedência por falta de provas não faz coisa julgada, é
preciso uma prova nova para a demanda ser proposta novamente. E é claro que a
demanda será idêntica (mesmas partes, causa de pedir e pedido), porque se a demanda for
outra, nenhum resultado anterior a impedirá.
Porém o tema não é simples, de modo que, para fins didáticos, vamos analisar a coisa
julgada em cada uma das hipóteses descritas na lei, ainda que possamos soar repetitivos,
mas isso é fundamental quando se trata de um assunto tão importante.

39. Coisa julgada e direitos difusos

A coisa julgada é um tema tão importante para o processo coletivo, e gera ao mesmo
tempo tanta confusão, que achamos melhor explicar a teoria e os exemplos com quadros.

Coisa julgada entre os legitimados – teoria

Direitos difusos

Procedência do pedido: a sentença faz coisa julgada erga omnes (para todos, porque essa é a natureza dos direitos difusos), de modo que os demais
legitimados não poderão repetir a demanda porque vinculados estão à coisa julgada.
Improcedência do pedido por falta de provas: não faz coisa julgada, e em assim sendo os demais legitimados – inclusive aquele que propôs a ação –
poderão repetir a demanda com a presença de uma prova nova, seja ela qual for.
Improcedência do pedido por qualquer outro fundamento: faz coisa julgada, não podendo os demais legitimados – inclusive aquele que propôs a ação –
repetir a demanda porque a coisa julgada impedirá a apreciação de novo do mérito.

Coisa julgada entre os legitimados – exemplos

Direitos difusos

Procedência do pedido: sentença que obriga uma empresa a não veicular uma propaganda de cunho enganoso. Faz coisa julgada, nos limites do pedido,
ou seja, a propaganda não pode mais ser veiculada, e isso não se discute mais. Se algum legitimado – desavisado – ajuizar a mesma ação (pedindo a
retirada e proibição de veiculação da mesma propaganda em face do mesmo réu), a coisa julgada impedirá um novo julgamento.
Improcedência do pedido por falta de provas: sentença que julga improcedente pedido formulado para que os fabricantes de telefones celulares informem
na embalagem os danos que o uso do aparelho pode causar à saúde, nos moldes da advertência que existe nas embalagens de cigarro. Pedido que é

julgado improcedente porque não existem provas de que o uso de aparelhos celulares causa danos à saúde. De acordo com Didier Jr. e Zaneti Jr.:
“Certamente, esse regime jurídico diferenciado de coisa julgada será mais útil nas causas coletivas em que há necessidade de produção de meios de
prova relacionados à tecnologia, como acontece com as causas ambientais e que envolvem o direito à saúde. Nessas hipóteses, é razoável imaginar que,
com o progresso natural da ciência, surjam outras técnicas de provar fatos relevantes para a configuração dos respectivos ilícitos” 118. Qualquer outro
legitimado, inclusive o mesmo que tentou a procedência da primeira demanda, poderá propor a ação, a mesma ação, com os mesmos elementos,
novamente, bastando que disponha de prova nova. Se a ação for proposta sem nenhuma prova nova, prevalece a coisa julgada anterior. Se a ação tiver
uma prova nova, é o suficiente para ser rejulgada, mas isso não garante que agora será procedente o pedido.
Improcedência por qualquer outro fundamento: sentença que julga improcedente pedido formulado para retirada de propaganda considerada enganosa.
Faz coisa julgada para todos os legitimados, que, caso proponham a mesma ação, por causa da mesma propaganda, não verão o mérito sendo julgado.
Coisa julgada coletiva para as vítimas ou sucessores – teoria

Direitos difusos

Procedência do pedido: serão beneficiados pela coisa julgada coletiva, naquilo que se denomina transporte in utilibus da coisa julgada, podendo as
vítimas requerer a liquidação e a execução do julgado (arts. 103, § 3º, c/c 96 a 99 do CDC).
Improcedência do pedido por falta de provas: nos termos do § 1º do art. 103, essa decisão não prejudica os direitos individuais dos integrantes da
coletividade, daí o nome transporte in utilibus, porque a coisa julgada coletiva somente beneficia os direitos individuais.
Improcedência do pedido por qualquer outro fundamento: não há diferença, para fins de extensão aos direitos individuais, se o fundamento da
improcedência foi a falta de provas ou qualquer outro. A coisa julgada “negativa” não prejudicará os direitos individuais dos integrantes da coletividade.

Coisa julgada coletiva para as vítimas ou sucessores – exemplos

Direitos difusos

Procedência do pedido: a sentença que obriga uma empresa brasileira que representa uma multinacional a dar assistência técnica aos consumidores,
presentes ou futuros, que adquirirem seus produtos no exterior, proferida numa ação coletiva, beneficia o indivíduo que futuramente adquirir um produto
desses no exterior. Esse indivíduo poderá requerer, no seu domicílio, a liquidação e a execução da sentença prolatada em uma ação coletiva para a defesa
de direitos difusos, exigindo diretamente a tutela específica da obrigação de fazer (a assistência técnica) ou mesmo requerer desde já perdas e danos,
bastando – obviamente – produzir prova no sentido do dano que sofreu, do nexo e das perdas. Esse indivíduo ficará dispensado de discutir em processo
individual de conhecimento a responsabilidade da empresa de dar assistência técnica a produtos da mesma marca, só que adquiridos no exterior, porque
essa decisão proferida na ação coletiva para a defesa de direito difuso (quem são os consumidores que, no futuro, irão adquirir esses produtos no
exterior?) o beneficia.
Improcedência do pedido por falta de provas ou por qualquer outro fundamento, tanto faz: a sentença que não impõe aos fabricantes de telefone celular a
impressão de um aviso sobre os danos à saúde na embalagem não impede uma pessoa de, em ação individual, pedir uma indenização em razão de um
dano causado pelo uso do aparelho celular, aquele mesmo que na ação coletiva não pôde ser comprovado, porque a coisa julgada no caso de
improcedência, seja qual for o fundamento, não prejudica os direitos individuais da coletividade. É lógico que as conclusões a que o juízo chegou na
ação coletiva poderão persuadir o juízo da ação individual, porque provavelmente o réu tentará alegar que há sentença coletiva o beneficiando, mas a
grande questão é: essa sentença coletiva, no caso de improcedência, não vincula o juízo da ação individual, e no caso supra, de procedência, vincula
tanto que o indivíduo já pode ir direto para a liquidação e execução.

40. Coisa julgada e direitos coletivos

Coisa julgada entre os legitimados – teoria

Direitos coletivos

Procedência do pedido: a sentença faz coisa julgada ultra partes limitada ao grupo, classe ou categoria, porque essa é a natureza dos direitos coletivos,
de

modo que os demais legitimados não poderão repetir a demanda porque vinculados estão à coisa julgada.
Improcedência do pedido por falta de provas: não faz coisa julgada, e em assim sendo os demais legitimados – inclusive aquele que propôs a ação –
poderão repetir a demanda com a presença de uma prova nova, seja ela qual for.
Improcedência do pedido por qualquer outro fundamento: faz coisa julgada, não podendo os demais legitimados – inclusive, é claro, aquele que propôs a
ação – repetir a demanda porque a coisa julgada impedirá a apreciação de novo do mérito.

Coisa julgada entre os legitimados – exemplos

Direitos coletivos

Procedência do pedido: sentença que julga procedente o pedido para anular as cláusulas contratuais consideradas abusivas nos contratos celebrados
entre os consumidores de um determinado banco e esse banco. Faz coisa julgada entre os demais legitimados, que não poderão repetir a ação, e se assim
o fizerem, deverá o juízo reconhecer a coisa julgada e não apreciar o mérito da causa.
Improcedência do pedido por falta de provas: sentença que julga improcedente pedido formulado no sentido de obrigar um consórcio a substituir os
veículos objeto dos contratos porque eles seriam veículos 0 km adquiridos em leilão e com o odômetro adulterado pelo consórcio. O pedido é julgado
improcedente porque não há prova alguma nesse sentido. Surgindo prova nova, de qualquer tipo, admite-se a repropositura da demanda, valendo, no
mais, o que foi dito para os direitos difusos.
Improcedência do pedido por outro fundamento: sentença que não considera “venda casada” a prática de uma empresa de transporte aéreo de oferecer
aos consumidores que adquirem passagens em seu site, um seguro-viagem, porque existiria a opção, clara e fácil de ser adotada, de comprar a passagem
sem esse seguro. A sentença faz coisa julgada entre os legitimados, podendo o réu alegá-la em defesa caso venha a ser demandado novamente com ação
idêntica.

Coisa julgada coletiva para os membros da classe, grupo ou categoria – teoria

Direitos coletivos

Procedência do pedido: serão beneficiados pela coisa julgada coletiva, naquilo que se denomina transporte in utilibus da coisa julgada, podendo as
vítimas requerer a liquidação e a execução do julgado (art. 103, § 3º, c/c os arts. 96 a 99 do CDC).
Improcedência do pedido por falta de provas: nos termos do § 1º do art. 103, essa decisão não prejudica os direitos individuais dos integrantes do grupo,
categoria ou classe, daí o nome transporte in utilibus, porque a coisa julgada coletiva somente beneficia os direitos individuais.
Improcedência do pedido por qualquer outro fundamento: não há diferença, para fins de extensão aos direitos individuais, se o fundamento da
improcedência foi a falta de provas ou qualquer outro. A coisa julgada “negativa” não prejudicará os direitos individuais dos membros do grupo, classe
ou categoria.

Coisa julgada coletiva para os membros da classe, grupo ou categoria – exemplos

Direitos coletivos

Procedência do pedido: sentença que julga procedente pedido formulado para que o banco faça a correção adequada da caderneta de poupança para os
seus clientes que tinham essa aplicação em 1999 (expurgos inflacionários) e pague a diferença. Entre esses consumidores havia uma relação jurídica-base
com a par​te contrária antes do ilícito, de modo que essas pessoas poderão, pura e simplesmente, requerer a liquidação e execução dos seus prejuízos
individualmente considerados. A sentença não beneficia quem tinha caderneta de poupança em outro banco que não foi incluído no polo passivo da
demanda coletiva, mas apenas os consumidores do banco réu.
Improcedência do pedido por falta de provas ou por qualquer outro fundamento, tanto faz: sentença que julga improcedente o pedido formulado em face
de uma universidade para que ela não forneça mais aos seus alunos (relação jurídica-base anterior à lesão e à ação) um material didático inserido em um
tablet que é fornecido com a matrícula porque o conteúdo desse material estaria defasado e/ou errado, causando danos aos alunos daquela universidade
específica. O juízo entende que não são verdadeiras as “acusações” de material defasado e/ou errado, porém isso não prejudica o direito individual do
aluno que se sente lesado pelo mesmo motivo. A sentença coletiva não vincula o juízo da ação individual, podendo ter uma força persuasiva, mas não
vincula, de modo que o juízo da ação individual é livre para julgar a demanda. É livre para julgar procedente; é livre para julgar improcedente.
41. Coisa julgada e direitos individuais homogêneos

Coisa julgada entre os legitimados – teoria

Direitos individuais homogêneos

Procedência do pedido: faz coisa julgada para todos os legitimados, erga omnes, como diz o inciso III. A demanda não poderá ser repetida por força da
res judicata.
Improcedência do pedido: aqui, repetimos, não há a coisa julgada secundum eventum probationis, de modo que o fundamento pouco importa. A sentença
fará coisa julgada entre todos os legitimados.

Coisa julgada entre os legitimados – exemplos

Direitos individuais homogêneos

Procedência do pedido: uma sentença que condena o réu a indenizar todas as vítimas (daí a crítica à lei no sentido de que a coisa julgada não vale para
todos, e sim para todas as vítimas – erga victimae) de uma contaminação alimentar, vincula aos demais legitimados. Então se um legitimado desavisado
ajuizar a ação novamente, a coisa julgada impedirá o exame do mérito.
Improcedência do pedido: a mesma sentença anterior, só que ela julga improcedente o pedido, seja porque não há provas da contaminação, seja porque
não houve mesmo – ficou comprovado – a referida contaminação. Nenhum dos legitimados poderá ajuizar a ação coletiva idêntica à anterior que
terminou com a improcedência, e se o fizer, a coisa julgada deverá impedir a reapreciação do mérito.

Coisa julgada coletiva para as vítimas ou seus sucessores – teoria

Procedência do pedido: beneficia as vítimas, que poderão requerer a liquidação e a execução no foro do seu domicílio.

Improcedência do pedido

Vítima que ingressou como litisconsorte – CDC 94: a coisa julgada vincula essa pessoa, de modo que ela não poderá ter o seu direito reconhecido em
ação individual.
Vítima que não ingressou como litisconsorte – CDC 94: a coisa julgada não lhe atinge, podendo ela ajuizar ação para obter o reconhecimento do seu
direito sem que a coisa julgada seja um obstáculo.

Coisa julgada coletiva para as vítimas ou seus sucessores – exemplos

Procedência do pedido: sentença que condena o réu, fabricante de um achocolatado infantil, a indenizar as vítimas que ingeriram esse produto
contaminado com substância nociva e estranha ao produto. Basta às vítimas, em seus domicílios, requererem a liquidação e a execução do julgado, nos
termos dos artigos anteriormente analisados.

Improcedência do pedido

Vítima que ingressou como litisconsorte – CDC 94: se uma pessoa requer o seu ingresso como litisconsorte na ação coletiva anterior, e o pedido vem a
ser julgado, por qualquer fundamento, improcedente, a coisa julgada impede que essa pessoa venha, em eventual demanda individual futura, a ter o seu
direito reconhecido por força da coisa julgada.
Vítima que não ingressou como litisconsorte – CDC 94: se a pessoa não ingressou como litisconsorte, seja porque não sabia, seja porque sabia, mas
não quis, preferindo assistir “de fora” ao litígio coletivo que envolvia direito individual seu, ela não ficará vinculada à coisa julgada “desfavorável”, e
poderá acionar em demanda individual o mesmo réu que saiu vitorioso na ação coletiva, sem que esse réu possa, nessa ação individual, alegar a coisa
julgada como defesa.

§ 1º Os efeitos da coisa julgada previstos nos incisos I e II não prejudicarão interesses e direitos
individuais dos integrantes da coletividade, do grupo, categoria ou classe.
Cremos que o sentido dessa norma foi exposto anteriormente, por meio dos quadros
explicativos.
§ 2º Na hipótese prevista no inciso III, em caso de improcedência do pedido, os interessados que não
tiverem intervindo no processo como litisconsortes poderão propor ação de indenização a título
individual.

42. Efeitos do opt in

Na análise do art. 94, afirmamos não ver vantagem alguma no ingresso como
litisconsorte do titular do direito individual, e isso se dá por força desse dispositivo.
Vejamos, novamente parecendo repetitivos, mas assim o fazemos pela importância do
tema:

Vítima ingressou como litisconsorte na ação coletiva

Procedência do pedido: beneficia a vítima, que poderá promover a liquidação e a execução.


Improcedência do pedido: prejudica a vítima, que não poderá propor ação de indenização a título individual porque se sujeita à coisa julgada. Na verdade,
propor ação é um direito constitucional, mas a vinculação à coisa julgada impedirá o exame do mérito.

Vítima não ingressou como litisconsorte na ação coletiva

Procedência do pedido: beneficia a vítima, que poderá promover a liquidação e a execução.


Improcedência do pedido: não prejudica a vítima, que poderá ajuizar ação de indenização a título individual sem estar vinculado à coisa julgada.

§ 3º Os efeitos da coisa julgada de que cuida o art. 16, combinado com o art. 13 da Lei n. 7.347, de
24 de julho de 1985, não prejudicarão as ações de indenização por danos pessoalmente sofridos,
propostas individualmente ou na forma prevista neste código, mas, se procedente o pedido,
beneficiarão as vítimas e seus sucessores, que poderão proceder à liquidação e à execução, nos
termos dos arts. 96 a 99.
Cremos que o sentido dessa norma, benéfica aos consumidores, também foi exposto
anteriormente nos quadros explicativos.
§ 4º Aplica-se o disposto no parágrafo anterior à sentença penal condenatória.

43. Efeitos da coisa julgada penal no processo coletivo

Esse dispositivo nada mais é do que um reflexo dos efeitos civis da sentença penal
condenatória em âmbito coletivo, reproduzindo norma semelhante prevista no NCPC para
os casos em que o réu é condenado no processo penal e essa condenação surte efeitos no
cível, bastando a liquidação e a execução pela vítima ou seus sucessores.
Código Penal:
Art. 91 – São efeitos da condenação:
I – tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime;

Novo Código de Processo Civil:


Art. 515. São títulos executivos judiciais, cujo cumprimento dar-se-á de acordo com os artigos
previstos neste Título:
VI – a sentença penal condenatória transitada em julgado.

Existem também crimes que afetam a coletividade inteira, então nada mais justo do que
a previsão legal do CDC.
Doutrina:
O legislador criminaliza diversos comportamentos que violem interesses transindividuais (como
alguns danos ao meio ambiente ou aos consumidores, globalmente considerados) 119.

Vejamos o seguinte exemplo, próprio no CDC:


Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa ou abusiva:
Pena. Detenção de três meses a um ano e multa.

Assim sendo, se houver uma sentença penal condenatória, ela vai se equiparar, para
fins de liquidação e execução, à sentença civil que reconhece ser uma determinada
propaganda enganosa ou abusiva e determinar a sua retirada dos meios de comunicação.
Art. 104. As ações coletivas, previstas nos incisos I e II e do parágrafo único do art. 81, não induzem
litispendência para as ações individuais, mas os efeitos da coisa julgada erga omnes ou ultra partes a
que aludem os incisos II e III do artigo anterior não beneficiarão os autores das ações individuais, se
não for requerida sua suspensão no prazo de trinta dias, a contar da ciência nos autos do ajuizamento
da ação coletiva.

44. Litispendência entre ações individuais e coletivas e entre ações


coletivas
Essa previsão de que as ações coletivas para defesa dos direitos difusos (inciso I do
parágrafo único do art. 81), coletivos (inciso II) e incluímos também os individuais
homogêneos (inciso III), não induzem litispendência para as ações individuais nos parece
óbvia.
O conceito de litispendência encontra-se no NCPC:
Art. 337, § 1º Verifica-se a litispendência ou a coisa julgada quando se reproduz ação anteriormente
ajuizada.
§ 2º Uma ação é idêntica a outra quando possui as mesmas partes, a mesma causa de pedir e o mesmo
pedido.
§ 3º Há litispendência quando se repete ação que está em curso.

A partir do momento em que a litispendência pressupõe a tríplice identidade (mesmas


partes, causa de pedir e pedido), não existe possibilidade de haver litispendência entre
ações coletivas e individuais.
O que pode haver, diante da legitimidade concorrente (todos são igualmente
legitimados) e disjuntiva (um legitimado não depende do outro para propor a ação), é a
litispendência entre ações coletivas. Só que a litispendência entre as ações coletivas deve
se adaptar a esse novo tipo de processo, em que o que impera é a legitimidade
extraordinária.
Nas demandas coletivas, a litispendência não exige tríplice identidade como nas
demandas individuais, de modo que se a Defensoria Pública, por exemplo, ajuíza uma
ação coletiva em face de um réu, com uma causa de pedir X e um pedido Y, e ao mesmo
tempo uma associação de defesa do consumidor ajuíza uma ação em face desse mesmo
réu, com causa de pedir X e pedido Y, haverá litispendência. O que importa na ação
coletiva não é quem está no processo (substituto processual), mas quem os autores
representam (substituídos), de modo que se em ambas as ações se quer a mesma coisa,
para beneficiar a coletividade, um grupo, classe ou categoria ou os titulares de direitos
individuais, teremos litispendência.
Precedente:
Nas ações coletivas, para efeito de aferição de litispendência, a identidade de partes deverá ser
apreciada sob a ótica dos beneficiários dos efeitos da sentença, e não apenas pelo simples exame das
partes que figuram no polo ativo da demanda. Precedente do STJ (STJ, REsp 925.278/RJ, Rel. Min.
Arnaldo Esteves Lima, Quinta Turma, julgado em 19-6-2008, DJe 8-9-2008).

45. Relação entre as ações coletivas e as individuais

Já a segunda parte do art. 104 trata da relação entre as demandas coletivas e as


individuais já propostas, tema bastante interessante, pois, se não há litispendência, é
inegável que o resultado de uma demanda coletiva produz efeitos nas individuais, e o fato
de existirem ações coletivas não pode impedir o acesso à justiça individual. Ou seja, ações
coletivas e individuais podem conviver harmonicamente.
Sobre a matéria, o seguinte julgado:
No caso dos autos, porém, o objeto das demandas são direitos individuais homogêneos (= direitos
divisíveis, individualizáveis, pertencentes a diferentes titulares). Ao contrário do que ocorre com os
direitos transindividuais – invariavelmente tutelados por regime de substituição processual (em ação
civil pública ou ação popular) –, os direitos individuais homogêneos podem ser tutelados tanto por
ação coletiva (proposta por substituto processual), quanto por ação individual (proposta pelo
próprio titular do direito, a quem é facultado vincular-se ou não à ação coletiva). Do sistema da
tutela coletiva, disciplinado na Lei n. 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor – CDC,
nomeadamente em seus arts. 103, III, combinado com os §§ 2º e 3º, e 104), resulta (a) que a ação
individual pode ter curso independente da ação coletiva; (b) que a ação individual só se suspende
por iniciativa do seu autor; e (c) que, não havendo pedido de suspensão, a ação individual não sofre
efeito algum do resultado da ação coletiva, ainda que julgada procedente. Se a própria lei admite a
convivência autônoma e harmônica das duas formas de tutela, fica afastada a possibilidade de
decisões antagônicas e, portanto, o conflito (STJ, CC 48.106/DF, Rel. Min. Francisco Falcão, Rel. p/
Acórdão Min. Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, julgado em 14-9-2005, DJ 5-6-2006, p. 233).

Assim, o legislador cuidou da convivência entre ações coletivas e individuais,


estipulando que os efeitos da coisa julgada ultra partes (direitos coletivos) e erga
victimae (direitos individuais homogêneos) não beneficiarão os autores das ações
individuais que optaram por manter suas ações individuais mesmo tendo ciência da
existência de ação coletiva que poderia em tese, lhe beneficiar.
ATENÇÃO!
Essa situação é diferente daquela já analisada, em que os efeitos da coisa julgada beneficiam os membros da coletividade, grupo, classe ou categoria e
vítimas, que não ajuizaram ações individuais. Aqui estamos falando dos efeitos das ações coletivas em ações individuais propostas.

Porém a doutrina identifica um erro material na 2ª parte do art. 104:


Observe-se e retifique-se, antes de mais nada, um erro de remissão contido no art. 104: a referência
do dispositivo aos “efeitos da coisa julgada erga omnes ou ultra partes a que aludem os incs. II e III
do artigo anterior” deve ser corrigida como sendo à coisa julgada “a que aludem os incs. I, II e III do
artigo anterior” 120.
Portanto, se uma ação individual foi proposta, e existe uma ação coletiva que lhe seja
correspondente (por exemplo, uma ação coletiva que objetiva impor a uma fabricante de
aparelhos eletrônicos a fazer o recall de um determinado modelo de tablet, e uma ação
individual em que um consumidor sozinho pede a troca, a devolução ou uma indenização
por causa do mesmo defeito do tablet que é objeto da ação coletiva), deverá ser dada
ciência ao consumidor, nos autos da sua ação individual, da existência da ação coletiva
para que ele, em 30 dias, decida se quer ou não suspender a sua ação individual para
aguardar o desfecho da coletiva, ou se prefere continuar na sua ação individual,
excluindo-se dos eventuais benefícios da procedência da ação coletiva. É o nosso opt out.

DICA!
* A ciência da existência da ação coletiva deve ser feita na demanda individual, não valendo a publicidade na mídia.
* No ato da ciência, o autor da demanda individual tem o direito de conhecer os termos da demanda coletiva, bem como a fase em que ela se encontra,
para tomar a sua decisão bem informado sobre todos os riscos.
* Caso a demanda individual esteja tramitando nos Juizados Especiais, e o autor esteja sem advogado, como lhe faculta a lei, seria muito prudente que o
juízo lhe desse um advogado dativo, ou nomeasse defensor público, para orientar o leigo sobre os efeitos da sua escolha.
* O prazo para o autor da demanda individual tomar uma decisão sobre o opt out é de 30 dias, mas não há prazo para o seu processo ficar suspenso.
* O processo individual ficará suspenso até o término da demanda coletiva.

* Não se aplica o prazo máximo de 1 ano de suspensão previsto no § 4º do art. 313 do NCPC.
* Não é cabível a suspensão da ação individual se já houve o trânsito em julgado dela.

46. Vale a pena suspender uma demanda individual para aguardar o


desfecho da coletiva?
Teoricamente sim, porque com a suspensão da demanda individual o autor terá uma
série de benefícios, mas a resposta vai depender do caso concreto, pois pode ser que a
demanda coletiva esteja no começo, enquanto a individual está em estágio mais avançado,
e o autor não poderá participar da demanda coletiva. Se a ação individual estiver no
começo, e a coletiva no final, talvez seja uma boa opção a suspensão.
ATENÇÃO!
Efeitos
O autor decidiu pelo opt out: sua demanda individual fica suspensa até o término da coletiva.
Coletiva procedente: o autor pode requerer diretamente a liquidação e a execução a seu favor, havendo perda de objeto da demanda individual porque o
autor já dispõe de decisão judicial favorável.
Coletiva improcedente: a demanda individual volta a correr, sem que o resultado da demanda coletiva lhe prejudique vinculando o juízo da individual à
decisão de improcedência.
O autor decidiu não aceitar o opt out: sua demanda individual prossegue normalmente.
Coletiva procedente ou improcedente: o resultado da demanda coletiva não lhe atinge, porque ele se excluiu.

Em que pese o CDC dizer expressamente que a suspensão deve ser requerida pela
parte, em decisão onde ela vai avaliar os prós e os contras, o STJ já determinou a
suspensão de ofício de diversas ações individuais que tratavam da mesma matéria objeto
de ações coletivas. Vejamos o seguinte precedente:
Recurso repetitivo. Processual civil. Recurso especial. Ação coletiva. Macrolide. Correção de
saldos de cadernetas de poupança. Sustação de andamento de ações individuais. Possibilidade.
1. Ajuizada ação coletiva atinente a macrolide geradora de processos multitudinários, suspendem-se
as ações individuais, no aguardo do julgamento da ação coletiva.
2. Entendimento que não nega vigência aos arts. 51, IV e § 1º, 103 e 104 do Código de Defesa do
Consumidor; 122 e 166 do Código Civil; e 2º e 6º do Código de Processo Civil 121, com os quais se
harmoniza, atualizando-lhes a interpretação extraída da potencialidade desses dispositivos legais
ante a diretriz legal resultante do disposto no art. 543-C do Código de Processo Civil 122, com a
redação dada pela Lei dos Recursos Repetitivos (Lei n. 11.672, de 8-5-2008).
3. Recurso especial improvido (STJ, REsp 1.110.549/RS, Rel. Min. Sidnei Beneti, Segunda Seção,
julgado em 28-10-2009, DJe 14-12-2009).
Sobre a suspensão das demandas individuais pela propositura de uma ação coletiva,
tem-se o quadro traçado anteriormente, porém o NCPC instituiu uma novidade: a
possibilidade de uma ação individual suspender uma coletiva, através da maior inovação
trazida pela nova lei, o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas – IRDR.
O IRDR não é uma ação coletiva, e sim um incidente que busca o gerenciamento de
diversas ações individuais repetitivas, ou seja, que tratam da mesma matéria de direito
(por exemplo, ações consumeristas propostas aos milhares por milhares de
consumidores). Segundo o NCPC:
Art. 976. É cabível a instauração do incidente de resolução de demandas repetitivas quando houver,
simultaneamente:
I – efetiva repetição de processos que contenham controvérsia sobre a mesma questão unicamente de
direito;
II – risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica.

O juiz do caso concreto (eventualmente o relator, se o caso estiver em grau recursal), as


partes, o Ministério Público ou a Defensoria Pública, nos termos do art. 977 do NCPC,
poderão suscitar o IRDR perante o Tribunal (de Justiça ou Regional Federal). O Incidente
será distribuído ao relator, que “suspenderá os processos pendentes, individuais ou
coletivos, que tramitam no Estado ou na região, conforme o caso” (art. 982, I, do NCPC).
Portanto verifica-se a possibilidade de uma ação individual, em que foi suscitado o
IRDR, acabar provocando a suspensão de ações coletivas. Qual seria o objetivo? Permitir
que o Tribunal, através do IRDR, decida qual a tese jurídica que deverá necessariamente
ser aplicada a todos os processos que haviam sido suspensos, inclusive as ações coletivas
(NCPC, art. 985, I).

47. Restrição territorial da coisa julgada

Pelo CDC, a coisa julgada terá os limites que o pedido formulado na demanda
determinar, como é o certo. Se uma ação coletiva pretende a tutela de direito difuso, a
sentença valerá erga omnes. Se pretender a tutela de direitos coletivos, a sentença valerá
para todos os integrantes da classe, grupo ou categoria de pessoas. Se pretender a tutela
de direitos individuais homogêneos, valerá para todas as vítimas.
No entanto, a LACP sofreu uma modificação posterior ao advento do CDC, e incluiu
uma regra nova:
Art. 16. A sentença civil fará coisa julgada erga omnes, nos limites da competência territorial do
órgão prolator, exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, hipótese em
que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento, valendo-se de nova
prova.

A alteração que se processou foi a restrição da coisa julgada aos limites da competência
do órgão prolator, o que se revelou uma catástrofe, um verdadeiro atentado às ações
coletivas, sendo muito claro o objetivo: limitar a eficácia da decisão a ser proferida na
ação coletiva, impedindo que uma sentença tenha validade em todo o território nacional.
Por esse dispositivo, se uma sentença determinar a um fabricante de automóveis que
cumpra uma obrigação de fazer (recall) para providenciar os reparos devidos nos freios
de um determinado modelo de automóvel, vendido no Brasil inteiro, que vieram com
defeito de fábrica e, quando acionados, não funcionam corretamente, essa sentença só
valerá no Estado em que foi proferida. Se essa ação foi proposta em Minas Gerais, apenas
os consumidores desse Estado serão beneficiados, em que pese o problema ser nacional.
Posição 1: a favor da limitação – Eduardo Arruda Alvim
[...] decisões monocráticas com tamanha abrangência, proferidas, algumas vezes, por magistrados
inexperientes, podem causar mais malefícios do que benefícios. 123

Posição 2: contra a limitação – a maioria


[…] no âmbito das ações de tipo coletivo – justamente porque aí se lida com indeterminação de
sujeitos e com indivisibilidade do objeto – o critério deve ser outro, porque impende atentar para a
projeção social do próprio interesse metaindividual. Tudo assim reflui para que a resposta
judiciária, no âmbito da jurisdição coletiva, desde que promanada de juiz competente, deve ter
eficácia até onde se revele a incidência do interesse objetivado, e por modo a se estender a todos os
sujeitos concernentes, e isso, mesmo em face do caráter unitário desse tipo de interesse, a exigir
uniformidade do pronunciamento judicial 124.

A inovação é manifestamente inconstitucional, afrontando o poder de jurisdição dos juízes, a


razoabilidade e o devido processo legal. […] As regras de competência fixarão, sim, quem deva ser
responsável pelo processo, não se prestando, portanto, para tolher a eficácia da decisão,
principalmente sob o prisma territorial.
Da mesma forma, há que ser invocada, mais uma vez, a indivisibilidade do objeto, quando o
interesse for difuso ou coletivo, não sendo possível o seu fracionamento para atingir parte dos
interessados, quando estes estiverem espalhados também fora do respectivo foro judicial 125.

Provocado em ação direta de inconstitucionalidade, o STF não concedeu a liminar para


suspender a eficácia do dispositivo:
Sentença. Eficácia. Ação Civil Pública. Em princípio, não se tem relevância jurídica suficiente à
concessão de liminar no que, mediante o artigo 3º da Medida Provisória n. 1.570/97, a eficácia erga
omnes da sentença na ação civil pública fica restrita aos limites da competência territorial do órgão
prolator (ADI 1.576-MC, Rel. Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 16-4-1997, DJ 6-6-
2003, p. 29. Ement. vol. 02113-01, p. 123).

O STJ possui julgados aceitando a limitação:


Em sede de ação civil pública, a sentença civil fará coisa julgada erga omnes nos limites da
competência territorial do órgão prolator, consoante o art. 16 da Lei n. 7.347/85, alterado pela Lei n.
9.494/97 (STJ, AgRg no REsp 1.134.957/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em
11-12-2012, DJe 17-12-2012).
A sentença proferida em ação coletiva somente surte efeito nos limites da competência territorial do
órgão que a proferiu, e exclusivamente em relação aos substituídos processuais que ali eram
domiciliados à época da propositura da demanda (STJ, AgRg no REsp 1.279.061/MT, Segunda
Turma, Rel. Min. Humberto Martins, DJe 26-4-2012; AgRg no REsp 1.338.029/PR, Rel. Min. Mauro
Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 13-11-2012, DJe 21-11-2012).
2. Os argumentos esgrimidos pelo agravante conflitam com a jurisprudência desta Corte, firmada no
sentido de que os efeitos da sentença proferida em ação coletiva restringem-se aos substituídos que
tenham, na data da propositura da ação, domicílio no âmbito da competência territorial do órgão
prolator.
3. A afirmação de que a limitação territorial do art. 2º-A da Lei n. 9.494/97 não se aplicaria aos
sindicatos não tem como prosperar, pois criaria uma diferenciação não esposada pela lei, que optou
pelo termo “entidade associativa”, que engloba toda e qualquer corporação legitimada à propositura
de ações judiciais, sem restringir-se às associações.
4. A sentença proferida em ação coletiva somente surte efeito nos limites da competência territorial
do órgão que a proferiu, e exclusivamente em relação aos substituídos processuais que ali eram
domiciliados à época da propositura da demanda.
Agravo regimental improvido (AgRg no REsp 1.279.061/MT, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda
Turma, julgado em 19-4-2012, DJe 26-4-2012).

Embargos de divergência. Ação civil pública. Eficácia. Limites. Jurisdição do órgão prolator.
1. Consoante entendimento consignado nesta Corte, a sentença proferida em ação civil pública fará
coisa julgada erga omnes nos limites da competência do órgão prolator da decisão, nos termos do
art. 16 da Lei n. 7.347/85, alterado pela Lei n. 9.494/97. Precedentes.
2. Embargos de divergência acolhidos (STJ, EREsp 411.529/SP, Rel. Min. Fernando Gonçalves,
Segunda Seção, julgado em 10-3-2010, DJe 24-3-2010).

O STJ também possui um julgado que afasta a limitação:


A restrição territorial prevista no art. 16 da Lei da Ação Civil Pública (7.374/85) não opera efeitos
no que diz respeito às ações coletivas que visam proteger interesses difusos ou coletivos stricto
sensu, como no presente caso; nessas hipóteses, a extensão dos efeitos a toda categoria decorre
naturalmente do efeito da sentença prolatada, vez que, por ser a legitimação do tipo ordinária, tanto o
autor quanto o réu estão sujeitos à autoridade da coisa julgada, não importando onde se encontrem
(CC 109.435/PR, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Terceira Seção, julgado em 22-9-2010,
DJe 15-12-2010).

O objetivo, na verdade, é forçar a propositura de diversas ações coletivas pelo


território nacional, para que a coisa julgada só valha nos limites da competência territorial
do órgão prolator. Assim sendo, se o Ministério Público do Estado do Espírito Santo
conseguir declarar a nulidade de cláusulas do contrato de seguro de uma seguradora, a
decisão só valerá dentro dos limites do território do Estado do Espírito Santo, mesmo que
o contrato, declarado nulo, seja o mesmo em todo o território nacional. Fácil é perceber a
inconveniência dessa norma, já que a sentença no Espírito Santo pode ser procedente,
mas na Bahia improcedente, e o mesmo contrato, exatamente o mesmo contrato, pode ter
cláusulas, as mesmas cláusulas, válidas na Bahia e nulas no Espírito Santo.
QUESTÕES DE CONCURSOS

1. (CESPE – 2015 – TJPB – Juiz Substituto) Em relação ao conceito de consumidor e


aos direitos básicos do consumidor, assinale a opção correta.

A) A vulnerabilidade, pressuposto de aplicação do CDC, é presumida para o


consumidor pessoa física, ao passo que, para a pessoa jurídica, tal situação
deve ser demonstrada e aferida casuisticamente.

B) Para se aplicar o conceito de consumidor equiparado, tem de haver prévio


ajuste contratual com o fornecedor do produto ou serviço.

C) A inversão do ônus da prova depende da análise dos requisitos legais


pelo juiz no caso concreto e de requerimento expresso da parte nesse
sentido.

D) Os requisitos para a inversão do ônus da prova são alternativos, razão


pela qual pode o juiz aplicar tal instituto quando presente a hipossuficiência
do consumidor, ainda que o fato alegado seja inverossímil.

E) Segundo entendimento do STJ, o CDC incide na relação jurídica


estabelecida entre o estudante e a pessoa jurídica responsável pelo
gerenciamento do Fundo de Financiamento Estudantil do governo federal.

2. (CESPE – 2015 – TRF-5ª Região – Juiz Federal Substituto) Acerca dos sujeitos
integrantes da relação de consumo nos moldes do que é descrito no CDC,
assinale a opção correta com base na jurisprudência do STJ.

A) Será considerado consumidor pelo CDC o sujeito que for submetido a


publicidade enganosa, desde que ele tenha realizado contrato com
fornecedor de produto ou serviço objeto da referida publicidade.

B) As vítimas de um acidente de consumo, mesmo que não tenham


adquirido o produto como destinatários finais, são consideradas
consumidores pelo CDC.

C) Empresa de transporte de pessoas ou cargas pode ser considerada


consumidora em sua relação com a empresa concessionária de rodovia.

D) O condomínio que utiliza a água para o consumo das pessoas que nele
residem não deve ser considerado consumidor em sua relação com a
empresa concessionária de água.

E) A jurisprudência do STJ consagrou a teoria maximalista para interpretar o


conceito de consumidor, admitindo a aplicação do CDC nas relações entre
fornecedores e consumidores empresários em que fique evidenciada a
relação de consumo.

3. (CESPE – 2015 – TJPB – Juiz Substituto) Com relação ao sistema de proteção ao


consumidor, assinale a opção correta à luz do entendimento jurisprudencial do
STJ.

A) O cabimento de ACP em defesa de direitos individuais homogêneos se


restringe àqueles direitos que evolvam relação de consumo, diversamente
do que ocorre em relação aos direitos difusos e coletivos.

B) É de consumo a relação nos casos em que os produtos ou serviços


destinam-se à implementação da atividade econômica do adquirente.

C) O comerciante, quando concitado pelo consumidor, tem o dever de


receber e de encaminhar produto viciado à assistência técnica, mesmo que
esta esteja localizada no mesmo município do estabelecimento comercial.

D) A eclosão de vício em revestimento (pisos), quando este está


devidamente instalado na residência do consumidor, configura vício do
produto, de modo que o prazo decadencial da ação reparatória é de noventa
dias, a contar da manifestação do defeito.

E) A teoria da base objetiva ou da base do negócio jurídico tem sua aplicação


restrita às relações jurídicas de consumo e não é aplicável às relações
contratuais puramente civis.

4. (CESPE – 2015 – TJPB – Juiz Substituto) A respeito da prescrição e da decadência


nas relações de consumo, assinale a opção correta.

A) O juiz não pode reconhecer de ofício a prescrição e a decadência na


relação de consumo, pois se trata de uma interpretação desfavorável ao
consumidor.

B) Na ação ordinária em que o consumidor almeje a restituição em dobro das


tarifas de água e esgoto, a perda da pretensão ocorre em cinco anos.

C) O prazo decadencial conferido ao consumidor para reclamar das


inadequações dos produtos e serviços na hipótese de vício aparente ou de
fácil constatação diverge daquele previsto para reclamações por vícios
ocultos.

D) A reclamação verbal do vício do produto ou do serviço feita pelo


consumidor ao fornecedor por telefone não obsta o prazo decadencial, pois
o CDC exige que a comunicação seja comprovada por escrito.

E) Na demanda coletiva amparada em direitos difusos dos consumidores,


bem como nas de direito coletivo em sentido estrito em que haja
indisponibilidade do direito material tutelado, a pretensão é considerada
imprescritível.

5. (CESPE – 2015 – TJDF – Juiz de Direito Substituto) Com relação às práticas


comerciais reguladas no CDC, assinale a opção correta à luz da legislação
aplicável e da jurisprudência do STJ.
A) O estabelecimento comercial que vende veículos automotores de
fabricação nacional está obrigado a assegurar ao consumidor a oferta de
componentes e peças de reposição enquanto não cessar a fabricação do
produto e, uma vez cessada a produção, a oferta deverá ser mantida por
tempo razoável, na forma da lei.

B) Os bancos de dados e de cadastros de proteção ao crédito podem manter


em seus registros o nome de consumidor inadimplente por, no máximo, dez
anos.

C) O consumidor que alegar falsidade nas informações ou nas comunicações


em uma relação jurídica de consumo que envolva publicidade deverá
assumir o ônus da prova.

D) Todas as pessoas potencialmente expostas às práticas comerciais


previstas no CDC são equiparadas a consumidores para fins de aplicação
do referido código.

E) Cabe ao consumidor inadimplente, após o pagamento integral da dívida,


requerer a exclusão de seu nome dos bancos de dados e de cadastros de
consumidores de órgãos de proteção ao crédito.

6. (CESPE – 2015 – TJDF – Juiz de Direito Substituto) De acordo com as regras e os


princípios previstos no CDC e com a jurisprudência do STJ, assinale a opção
correta.

A) As cláusulas previstas em contratos de adesão que limitem ou restrinjam


direitos do consumidor aderente devem ser consideradas nulas de pleno
direito.

B) Não se aplica ao fornecedor de serviços a medida administrativa de


cassação da concessão de serviço público por violação reiterada das
normas de proteção ao consumidor.

C) O envio de cartão de crédito a consumidor, sem a sua prévia e expressa


solicitação, é considerado prática comercial abusiva, situação que
caracteriza ato ilícito indenizável e sujeito a aplicação de multa
administrativa.

D) Nas compras realizadas pela Internet, o exercício do direito de


arrependimento é condicionado à indicação do vício de qualidade pelo
consumidor no prazo legal.
E) O CDC deve ser compreendido como um microssistema de função social
que tem a finalidade de proteger a parte vulnerável de uma relação jurídica
e que é integralmente constituído por normas de direito público.

7. (CESPE – 2015 – TJDF – Juiz de Direito Substituto) Um consumidor adquiriu, em


agência de turismo, pacote de viagem – passagens aéreas, seguro-viagem,
transporte terrestre e hospedagem – para um fim de semana em cidade litorânea
do Nordeste brasileiro. No embarque, em razão de problemas técnicos na
aeronave, ocorreu atraso de cerca de oito horas na decolagem do avião, o que
levou o consumidor a ajuizar ação indenizatória contra a agência de turismo para
pleitear reparação pelos danos sofridos. Nessa situação, de acordo com o CDC e
a jurisprudência do STJ,

A) a agência de turismo deverá responder solidariamente pelos defeitos na


prestação dos serviços que integravam o referido pacote.

B) o prazo prescricional para ajuizamento da ação indenizatória pelo fato do


serviço é de três anos, iniciando-se a sua contagem a partir da data do
embarque aéreo.

C) caso a agência de turismo tenha inserido no contrato cláusula que lhe


isente de responsabilidade por danos decorrentes de falha no transporte
aéreo, sua responsabilidade deverá ser excluída.

D) o serviço prestado pode ser considerado seguro, segundo os padrões


estabelecidos pelo CDC, porque o atraso na decolagem ocorreu para
preservar a integridade física dos passageiros.

E) a falha técnica do avião constituiu evento fortuito que interrompe o nexo


de causalidade e, portanto, deverá ser excluída a responsabilidade do
fornecedor.

8. (CESPE – 2015 – TJPB – Juiz Substituto) A respeito da oferta e da publicidade de


produtos e serviços, assinale a opção correta.

A) Cabe ao consumidor a prova da ausência da veracidade da informação ou


comunicação publicitária veiculada pelo patrocinador.

B) A publicidade enganosa resultante de erro de terceiro não obriga a


empresa por ela beneficiada.

C) Cessada a produção ou a importação de determinado produto, sua oferta


deverá ser mantida pelo período de cinco anos.

D) Os fornecedores de produtos ou serviços são subsidiariamente


responsáveis pelos atos de seus prepostos que não possuam vínculo
trabalhista ou de subordinação.

E) Para que ocorra o reconhecimento da publicidade enganosa, exige-se que


haja capacidade de indução a erro do consumidor, sem que seja necessária
a comprovação de qualquer prejuízo.

9. (CESPE – 2015 – TJDF – Juiz de Direito Substituto) Antônio ajuizou ação pelo
procedimento ordinário com pedido de danos materiais e morais contra a
Associação de Beneficência e Filantropia XYZ, entidade sem fins lucrativos que
presta serviços odontológicos mediante pagamento de valor moderado por parte
de seus usuários. O autor alegou que, em razão de falha no diagnóstico de exame
clínico odontológico, teve de submeter-se a procedimento cirúrgico
desnecessário. A respeito dessa situação hipotética, assinale a opção correta de
acordo com o CDC e a jurisprudência do STJ.

A) A responsabilidade da XYZ é de natureza subjetiva e, portanto, o autor da


ação deve demonstrar a existência de culpa da associação ré para que seja
indenizado pelos danos sofridos na situação narrada.

B) Para reclamar pelos danos materiais e morais sofridos em razão do


diagnóstico equivocado e da cirurgia indevidamente realizada, Antônio
deverá ajuizar ação de responsabilidade pelo vício de serviço.

C) A responsabilização da associação XYZ não deve ser feita com a


aplicação do CDC; ela deve ser examinada de acordo com o Código Civil,
porque entidades beneficentes não podem ser consideradas fornecedoras,
já que lhes falta a finalidade lucrativa.

D) Caso estejam presentes na ação os requisitos da verossimilhança e


hipossuficiência do consumidor, o magistrado poderá, em sua sentença,
inverter o ônus da prova quanto aos fatos constitutivos do direito alegado
por Antônio.

E) Eventual requerimento da associação ré para denunciar à lide o dentista


responsável pelo diagnóstico deverá ser rejeitado, haja vista o fornecedor
ser proibido de exercer direito de regresso na ação, por levantar
controvérsia que não interessa ao consumidor.

10. (CESPE – 2015 – DPE-PE – Defensor Público) No item a seguir, é apresentada uma
situação hipotética, seguida de uma assertiva a ser julgada com base nas regras
previstas no CDC e no entendimento do STJ a respeito de cobrança de dívidas,
bancos de dados e cadastros de consumidores.
O nome de Marcos foi incluído, pela segunda vez, no banco de dados de órgão de proteção ao crédito. Apurou-se que a
primeira anotação fora feita de forma regular, mas a segunda ocorrera sem a indispensável notificação prévia a Marcos.
Nessa situação, Marcos tem direito à exclusão da segunda anotação, porém não tem direito à compensação por danos
morais.

( ) Certo ( ) Errado

11. (CESPE – TRF-1ª Região – Juiz Federal Substituto) No que diz respeito à relação
jurídica de consumo, assinale a opção correta.

A) O serviço, como elemento objetivo da relação de consumo, deve ser


prestado pelo fornecedor mediante remuneração direta.

B) De acordo com o princípio da vinculação, a oferta publicitária é irretratável


e ilimitável.
C) Para que haja a responsabilização civil por fato do produto e do serviço, é
necessário que a vítima do evento danoso tenha prévia vinculação
contratual com o fornecedor do produto ou do serviço.

D) O fornecedor equiparado é o terceiro intermediário ou aquele que auxilia


na relação de consumo principal, a exemplo dos bancos de dados nos
serviços de proteção ao crédito.

E) O consumidor potencial é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou


que utiliza o produto como destinatário final.

12. (CESPE – 2015 – DPE-PE – Defensor Público) No item a seguir, é apresentada uma
situação hipotética, seguida de uma assertiva a ser julgada com base nas regras
previstas no CDC e no entendimento do STJ a respeito de cobrança de dívidas,
bancos de dados e cadastros de consumidores.
A fim de promover a exclusão de seu nome do banco de dados de órgão de proteção ao crédito, Fernando pagou
integralmente o montante da dívida inscrita no referido banco de dados. Nessa situação, a obrigação de promover a baixa
do registro será do órgão mantenedor e o prazo para a efetivação dessa obrigação será de cinco dias úteis, a contar do
primeiro dia útil subsequente à completa disponibilização do numerário necessário à quitação do débito vencido.

( ) Certo ( ) Errado

13. (CESPE – 2015 – TJPB – Juiz Substituto) Assinale a opção correta à luz dos
dispositivos do CDC e da jurisprudência do STJ.
A) Em um contrato de compra e venda decorrente de relação de consumo,
será abusiva eventual cláusula contratual que reduza o prazo legal para que
o vício seja sanado pelo fornecedor.

B) É possível indenização por danos morais e materiais causados pela


privação do uso do produto durante o conserto, ainda que o vício seja
sanado no prazo legal pelo fornecedor.

C) O comerciante que vender produto com vício sem saber do defeito não
terá a obrigação de reparar danos ao consumidor, devendo tal obrigação ser
assumida pelo fabricante.

D) Na compra de um produto, a garantia contratual de cobertura sobre


defeitos do produto pode substituir as garantias previstas em lei.

E) Por expressa previsão no CDC, a responsabilidade do comerciante é


subsidiária à do fabricante quanto a vício do produto.

14. (CESPE – 2015 – DPE-PE – Defensor Público) No item a seguir, é apresentada uma
situação hipotética, seguida de uma assertiva a ser julgada com base nas normas
previstas no CDC e no entendimento do STJ acerca de integrantes e objetos da
relação de consumo, cláusulas abusivas, decadência e responsabilidade pelo fato
do produto.
Determinada concessionária de veículos contratou seguro empresarial visando proteger o seu patrimônio, incluindo os
automóveis ainda não vendidos, porém sem prever cobertura de risco aos clientes da concessionária. O contrato
estabelecia que não haveria cobertura de danos no caso de furto qualificado praticado por terceiros, mas não continha
nenhuma especificação jurídica do termo “qualificado”. Na vigência desse contrato, a empresa foi vítima de furto simples
e, após a negativa da seguradora em arcar com a indenização, ingressou em juízo contra esta. Nessa situação, de acordo
com a teoria subjetiva ou finalista, a concessionária não poderia ser considerada consumidora e, ademais, foi correta a
negativa da seguradora, pois era obrigação da contratante conhecer as cláusulas restritivas previstas no contrato.

( ) Certo ( ) Errado

15. (CESPE – 2015 – TJDF – Juiz de Direito Substituto) Em cada uma das opções
seguintes, é apresentada uma situação hipotética, seguida de uma assertiva a ser
julgada. Assinale a opção que apresenta a assertiva correta de acordo com a
jurisprudência do STJ e o CDC.

A) O banco ZYX, ao oferecer serviço de financiamento para compra de


imóvel a Mariana, exigiu que ela contratasse seguro para o financiamento
diretamente com o agente financeiro ou com seguradora que indicasse.
Nessa situação, por ser a aquisição do seguro fator determinante para a
preservação do sistema financeiro habitacional, a conduta do banco foi
lícita.
B) O MP de determinado estado da Federação ajuizou ACP com pedido de
condenação de uma instituição financeira ao pagamento pelos danos
morais coletivos decorrentes de reiterados atos ilícitos no atendimento de
consumidores deficientes físicos. Nessa situação, em razão da
impossibilidade jurídica do pedido, o juiz deverá extinguir o processo sem
resolução de mérito.

C) Conforme contrato de abertura de crédito rotativo celebrado entre Carla e


uma instituição financeira, esta disponibilizará àquela dez mil reais para
empréstimo mediante pagamento de juros remuneratórios. Nessa situação,
se a taxa de juros a ser aplicada não estiver indicada expressamente no
contrato, será indevida a cobrança de qualquer valor a título de juros
remuneratórios.

D) Raysa, estudante de direito, celebrou com uma instituição financeira


integrante da administração pública indireta contrato de concessão de
crédito educativo oferecido por intermédio de programa governamental
para o ensino superior. Nessa situação, existe relação de consumo entre
Raysa e a referida instituição financeira porque é manifesta a
vulnerabilidade da destinatária do serviço.

E) Paloma realizou saque de valores em espécie na agência bancária da


qual é cliente. Ao retornar a seu veículo, foi vítima de roubo dentro do
estacionamento que a instituição financeira oferece a seus clientes. Nessa
situação, a instituição financeira em questão deverá responder
objetivamente pelos danos sofridos por Paloma, e o roubo não caracteriza
causa excludente da relação de causalidade.

16. (CESPE – 2015 – DPU – Defensor Público Federal de Segunda Categoria) João,
por entender ser ilegal o reajuste da prestação mensal realizado pela entidade de
previdência privada da qual é participante, ajuizou ação contra essa entidade.
Pedro, por discordar dos valores corrigidos na sua aplicação em caderneta de
poupança, e Lucas, em razão de contrato de concessão de crédito, ajuizaram
ações contra determinado banco. A respeito dessas situações hipotéticas e do
disposto no CDC, julgue o item a seguir.
O CDC é aplicável às situações apresentadas.

( ) Certo ( ) Errado

17. (CESPE – 2015 – DPE-PE – Defensor Público) No item a seguir, é apresentada uma
situação hipotética, seguida de uma assertiva a ser julgada com base nas normas
previstas no CDC e no entendimento do STJ acerca de integrantes e objetos da
relação de consumo, cláusulas abusivas, decadência e responsabilidade pelo fato
do produto.
Jorge, após constatar que havia sido cobrado indevidamente por encargos bancários, requereu ao banco que
apresentasse extrato referente aos últimos três anos de sua conta bancária, a fim de verificar se havia ou não outras
cobranças irregulares. O banco apresentou somente os extratos dos últimos noventa dias, alegando decadência do direito
de reclamar período superior. Nessa situação, não se aplica o prazo decadencial de noventa dias previsto no CDC, razão
por que errou o banco em questão.

( ) Certo ( ) Errado

18. (CESPE – 2015 – DPE-PE – Defensor Público) No item a seguir, é apresentada uma
situação hipotética, seguida de uma assertiva a ser julgada com base nas normas
previstas no CDC e no entendimento do STJ acerca de integrantes e objetos da
relação de consumo, cláusulas abusivas, decadência e responsabilidade pelo fato
do produto.
Eliana comprou várias garrafas de refrigerante para a festa de aniversário de sua filha. Na comemoração, Eliana serviu sua
filha do líquido de uma das garrafas e imediatamente a criança ingeriu parte, porém rejeitou o restante, após um rabo de
lagartixa grudar em seus lábios. Apurou-se que a criança não sofreu qualquer problema digestivo. Nessa situação, mesmo
expostas a situação desagradável, nem Eliana nem sua filha possuem direito a indenização por danos morais, tendo em
vista que, como não houve a ingestão completa do material orgânico impróprio, não se configurou qualquer lesão à saúde
e à imagem da criança.

( ) Certo ( ) Errado

19. (CESPE – 2015 – TJDF – Juiz) Assinale a opção correta a respeito dos direitos do
consumidor e das práticas comerciais nas relações de consumo.

A) Para ter direito à revisão de cláusulas contratuais em razão de fato


superveniente, o consumidor deverá demonstrar a existência de evento
extraordinário e imprevisível, que torne o adimplemento contratual
excessivamente oneroso a ele.

B) Conforme o CDC, toda propaganda capaz de induzir o consumidor a se


comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança
consiste em publicidade enganosa.

C) A execução de serviços pelo fornecedor condiciona-se, em qualquer


hipótese, à prévia elaboração de orçamento e à autorização expressa do
consumidor.

D) O valor do serviço, constante em orçamento prévio entregue pelo


fornecedor ao consumidor, tem validade de dez dias, não podendo esse
prazo ser alterado por acordo entre as partes.

E) Salvo hipótese de engano justificável, o consumidor tem direito à


repetição em dobro da quantia dele cobrada indevidamente, desde que
demonstre o efetivo pagamento do valor cobrado em excesso.
20. (CESPE – 2014 – PGE-BA – Procurador do Estado) Com base no que dispõe o
Código de Defesa do Consumidor, julgue o item seguinte.
As pessoas jurídicas de direito público podem ser consideradas consumidores, desde que presente a vulnerabilidade na
relação jurídica.

( ) Certo ( ) Errado

21. (CESPE – 2015 – MEC – Analista Processual – Supervisão da Educação Superior)


No que tange à desconsideração da personalidade jurídica prevista no CDC, julgue
o item que se segue.
A responsabilidade das sociedades coligadas, no caso de ocorrência de algum dano ao consumidor, deve ser de natureza
subjetiva e não objetiva.

( ) Certo ( ) Errado

22. (CESPE – 2015 – MEC – Analista Processual – Supervisão da Educação Superior)


Com relação à responsabilidade pelo fato e pelo vício do produto ou serviço,
prevista no CDC, julgue o item.
O comerciante não responde pelos danos causados aos consumidores em razão de defeito do produto, exceto nas
situações em que o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem ser identificados, o produto for
fornecido sem identificação clara do seu fabricante, produtor, construtor ou importador e os produtos perecíveis não
forem conservados adequadamente.

( ) Certo ( ) Errado

23. (CESPE – 2014 – MPE-AC – Promotor de Justiça) Considere que a queda de um


avião de empresa aérea nacional, em via pública, cause a morte de centenas de
pessoas, entre passageiros da aeronave e moradores do local do acidente. Nessa
situação hipotética, de acordo com as normas do CDC e o entendimento do STJ,

A) o prazo prescricional a ser observado para o requerimento de


ressarcimento dos danos materiais e morais causados pela queda do avião
é o previsto no Código Civil de 1916, por ser mais benéfico às vítimas.

B) a responsabilidade civil da empresa aérea é subjetiva, ou seja, a empresa


somente responderá se houver a comprovação de dolo ou culpa.

C) a empresa aérea será compelida a indenizar as vítimas, ainda que se


prove que o acidente foi causado exclusivamente por culpa de terceiro.

D) as vítimas moradoras das casas atingidas pela queda do avião são


consideradas consumidores por equiparação, ou bystanders.

E) prescreve em dois anos o prazo para requerimento de ressarcimento dos


danos materiais e morais causados pela queda do avião, conforme previsto
no Código Brasileiro de Aeronáutica, em razão da especialidade da matéria.

24. (CESPE-2014 – MEC – Analista Processual – Supervisão da Educação Superior)


No que diz respeito às normas previstas no CDC que regem a proteção contratual,
as cláusulas abusivas e os contratos de adesão, julgue o item seguinte.
O contrato não deve ser invalidado em razão da existência de cláusula abusiva, exceto quando da ausência da cláusula,
apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das partes.

( ) Certo ( ) Errado

25. (VUNESP – 2015 – Prefeitura de Caieiras – SP – Assessor Jurídico/Procurador


Geral) Assinale a alternativa correta sobre os princípios fundamentais,
consagrados no âmbito do microssistema do direito do consumidor.

A) De acordo com a Política Nacional das Relações de Consumo, deve-se


garantir a independência do mercado de consumo, evitando-se a presença
do Estado.
B) As associações de defesa do consumidor fazem parte da Política Nacional
de Re-lações de Consumo.

C) A melhoria dos serviços públicos não integra a Política Nacional de


Relações de Consumo.

D) O desenvolvimento econômico e tecnológico deve ser obstado sempre


que representar alguma forma de prejuízo aos consumidores, difusamente
considerados.

E) Os conceitos de vulnerabilidade e hipossuficiência se confundem,


constituindo um só princípio norteador.

26. (UFMT – 2014 – MPE-MT – Promotor de Justiça) NÃO é considerada prática


abusiva pelo Código de Defesa do Consumidor:

A) Negativação do consumidor inadimplente, após sua prévia notificação.

B) Recusa à demanda dos consumidores na medida da disponibilidade do


estoque.

C) Remessa de produto ou serviço sem prévia solicitação

D) Cobrança pelo orçamento, quando há avaliação do produto a ser


consertado, independentemente de prévio aviso ao consumidor.

E) Colocação, no mercado de consumo, de qualquer produto ou serviço em


desacordo com as normas técnicas.

27. (MPE-MA – 2014 – MPE-MA – Promotor de Justiça) Acerca da defesa do


consumidor em Juízo, é incorreto afirmar que:

A) A defesa coletiva será exercida quando se tratar de interesses ou direitos


individuais homogêneos, assim entendidos os decorrentes de origem
comum.

B) São legitimadas as entidades e órgãos da Administração Pública, direta


ou indireta, ainda que sem personalidade jurídica, especificamente
destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos pelo Código de
Defesa do Consumidor.

C) Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer ou


não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou determinará
providências que assegurem o resultado prático equivalente ao do
adimplemento.

D) São legitimadas as associações legalmente constituídas há pelo menos


um ano e que incluam entre seus fins institucionais a defesa dos interesses
e direitos protegidos pelo Código de Defesa do Consumidor, desde que haja
autorização assemblear.

E) Há legitimação concorrente entre o Ministério Público, a União, os


Estados e o Distrito Federal.

28. (FCC – 2014 – MPE-PE – Promotor de Justiça) De acordo com o Código de Defesa
do Consumidor, a responsabilidade civil pelo fato do produto, em virtude de danos
causados aos consumidores, é, como regra geral, do

A) fabricante e do comerciante solidariamente.

B) fabricante, apenas.

C) fabricante e, subsidiariamente, do comerciante.

D) comerciante e, subsidiariamente, do fabricante.

E) comerciante, apenas.

29. (MPE-MG – 2014 – MPE-MG – Promotor de Justiça) Dentro do microssistema de


tutela coletiva, o qual inclui as normas processuais previstas no Código de Defesa
do Consumidor, pode-se afirmar, EXCETO:

A) Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer ou


não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou determinará
providências que assegurem o resultado prático equivalente ao do
adimplemento.

B) A conversão da obrigação em perdas e danos somente será admissível se


por elas optar o autor ou se impossível a tutela especifica ou a obtenção do
resultado prático correspondente.

C) A indenização por perdas e danos se fará sem prejuízo das astreintes


arbitradas.
D) O juiz poderá, na antecipação da tutela ou na sentença, impor multa
diária ao réu, apenas em caso de expresso requerimento do autor, se for
suficiente ou compatível com a obrigação, fixando prazo razoável para o
cumprimento do preceito.

30. (FCC – 2014 – TRT-18ª Região (GO) – Juiz do Trabalho) Em relação ao Código de
Defesa do Consumidor, é correto afirmar:

A) Em relação ao consumidor, os fornecedores respondem subsidiariamente


pelos vícios de quantidade do produto sempre que, respeitadas as
variações decorrentes de sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior ao
indicado no recipiente, na embalagem, rotulagem ou mensagem
publicitária.

B) As normas consumeristas são dispositivas, em regra, visando à proteção


e defesa do consumidor, em juízo e fora dele.

C) Os direitos previstos no texto legal consumerista são taxativos, dada sua


natureza protetiva em face do fornecedor de produtos ou serviços.

D) Entre outras hipóteses, nas relações de consumo poderá ser


desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for, de
alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos
consumidores.

E) A ignorância comprovada do fornecedor sobre os vícios de qualidade por


inadequação dos produtos ou serviços o exime de responsabilidade.

31. (FCC – 2015 – TJGO – Juiz Substituto) Analise as seguintes afirmativas:


I – A denunciação da lide deve ser afastada porque é vedada nas ações de indenização contra o fornecedor, oriundas de
lide de consumo.

II – A denunciação da lide deve ser deferida por ser obrigatória nas hipóteses de solidariedade por vício do produto e do
serviço, para possibilitar ação de regresso.
III – A ilegitimidade ativa ad causam deve ser afastada porque o autor da demanda, apesar de pessoa jurídica, adquiriu o
produto como destinatário final.

IV – A ilegitimidade passiva ad causam deve ser acolhida porque o fabricante do produto só responderia por defeitos
decorrentes do projeto, da fabricação ou da montagem do veículo.

Está correto o que se afirma APENAS em

A) I e III.

B) I, III e IV.

C) II e IV.

D) II e III.

E) I e IV.

32. (FCC – 2015 – TJGO – Juiz Substituto) A pretensão de inversão do ônus da prova
deveria ser

A) apreciada, por ser regra de instrução, mas rejeitada, porque não é


possível considerar-se uma empresa como hipossuficiente.

B) relegada para o término da fase instrutória do processo.

C) acatada porque sendo regra de instrução deve ocorrer preferencialmente


na fase de saneamento do processo, desde que presente a verossimilhança
das alegações do autor.
D) acatada porque é regra absoluta de direito do consumidor.

E) relegada para o momento da sentença, por ser regra de julgamento da


ação.

33. (FCC – 2015 – TJGO – Juiz Substituto) Nesse caso a arguição de decadência
seria rejeitada porque
I – não foi ultrapassado o prazo de 90 dias previsto no artigo 26, inciso II do Código de Defesa do Consumidor, aplicável à
hipótese, por se tratar de bem durável.

II – a reclamação foi feita dentro do prazo da garantia legal e ajuizada a ação dentro do prazo decadencial que voltou a fluir
apenas após a resposta negativa, inequívoca, por parte da concessionária.

III – na hipótese de vício do produto ou do serviço o prazo máximo para sanar o defeito é de 180 dias, correndo daí o
prazo decadencial ou prescricional.

IV – a hipótese seria de prescrição, de 5 anos, e não de decadência.

Está correto o que se afirma APENAS em

A) IV.

B) III e IV.
C) II e III.

D) I e II.

E) I e III.

34. (FCC – 2015 – TJGO – Juiz Substituto) A sentença, tendo em conta o alegado na
defesa de mérito apresentada pela ré, e considerando provada a alegação de que
o defeito surgiu apenas após a primeira revisão feita pela concessionária, não
provado, porém, que em razão desta, deverá julgar o pedido

A) parcialmente procedente porque o pedido de restituição imediata da


quantia paga não tem previsão legal na hipótese de vício do produto ou do
serviço que apenas lhe diminua o valor, e por não ter havido pedido de
abatimento proporcional do preço o que tornaria a sentença extra petita na
parte dos danos materiais.

B) improcedente porque a ação foi proposta após o decurso do prazo da


garantia legal, não compreendido o defeito apresentado no veículo na
garantia contratual.

C) procedente in totum, inclusive no tocante ao dano moral, porque a


jurisprudência do STJ orienta-se no sentido de ser cabível indenização por
dano moral quando o consumidor de veículo zero quilômetro necessita
retornar à concessionária por diversas vezes para reparo de defeitos
apresentados no veículo adquirido.

D) parcialmente procedente, afastada a indenização por dano moral porque


o defeito apresentado, ainda que em veículo novo, implica mero dissabor
pessoal, sem repercussão no mundo exterior.

E) improcedente porque a responsabilidade na hipótese, pelo fato do


serviço, é do fornecedor do serviço, na hipótese a concessionária, que não
foi demandada por escolha do autor.

35. (FCC – 2015 – SEFAZ-PI – Auditor Fiscal da Fazenda Estadual) De acordo com o
Código de Defesa do Consumidor, considera-se consumidor

A) toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço


como destinatário final, a ele se equiparando, para fins de
responsabilização civil, a vítima de dano decorrente da relação de
consumo, ainda que dela não tenha participado.

B) toda pessoa física ou jurídica que adquire produto ou serviço para


atividade-meio ou como destinatário final, a ele se equiparando, para fins
de responsabilização civil, a vítima de dano decorrente da relação de
consumo, desde que dela tenha participado.

C) a pessoa física que adquire ou utiliza produto como destinatário final, a


ele se equiparando, para fins de responsabilização civil, a vítima de dano
decorrente da relação de consumo, desde que dela tenha participado.

D) a pessoa física que esteja em situação de hipossuficiência em relação ao


fornecedor, ainda que não se trate do destinatário final do produto ou
serviço.

E) a pessoa física ou jurídica que esteja em situação de hipossuficiência em


relação ao fornecedor, ainda que não se trate do destinatário final do
produto ou serviço.

36. (FCC – 2015 – MANAUSPREV – Procurador Autárquico) De acordo com o Código


de Defesa do Consumidor,

A) o fabricante responde subjetivamente pelos danos decorrentes de defeito


na fabricação do produto.

B) apenas o contratante pode requerer indenização por danos decorrentes


de serviço defeituoso, excluídas as vítimas que não tinham participado da
relação negocial.

C) o comerciante sempre responde solidariamente com o fabricante pelos


danos decorrentes de defeito na fabricação do produto.

D) para responsabilização de profissional liberal, é necessária comprovação


de dolo ou culpa.

E) não se admite excludente de responsabilidade pelos danos decorrentes


da utilização do produto.

37. (FCC – 2015 – TJPE – Juiz Substituto) Para os fins do Código de Defesa do
Consumidor,

A) as atividades de natureza bancária, financeira ou de crédito não são


consideradas serviços.
B) consideram-se serviços as atividades de natureza securitária.

C) consideram-se produtos apenas os bens materiais.

D) bens imóveis não são considerados produtos.

E) consideram-se serviços quaisquer atividades fornecidas no mercado de


consumo, mediante remuneração, inclusive as decorrentes das relações de
caráter trabalhista.

38. (FCC – 2015 – TJRR – Juiz Substituto) A respeito da proteção ao consumidor, é


correto afirmar que

A) os contratos obrigam o consumidor ainda que não lhe seja dada


oportunidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo.

B) inexiste direito de arrependimento nas relações de consumo, ainda que a


compra tenha ocorrido fora do estabelecimento, somente se podendo
realizar troca de bem em razão de vício do produto.

C) as declarações constantes de recibos e pré-contratos não vinculam o


fornecedor.

D) as cláusulas contratuais, quando claras e precisas, são interpretadas de


maneira mais favorável ao fornecedor.

E) a garantia contratual é complementar à legal e será conferida mediante


termo escrito.

39. (FCC – 2015 – TJRR – Juiz Substituto) Nas ações em que o consumidor for parte,
o juiz inverterá o ônus da prova em seu favor quando,

A) segundo as regras ordinárias de experiência, convencer-se da


hipossuficiência do consumidor, mas desde que a prova seja útil e o
fornecedor tenha meios para sua produção.

B) embasado necessariamente em prova pré-constituída, convencer-se da


hipossuficiência do consumidor, qualquer que seja o objeto da prova, mas
desde que o fornecedor tenha meios para sua produção.

C) embasado necessariamente em prova pré-constituída, convencer-se da


hipossuficiência do consumidor, qualquer que seja o objeto da prova e
ainda que o fornecedor não tenha meios para sua produção.

D) embasado necessariamente em prova pré-constituída, convencer-se da


pobreza do consumidor, mas desde que a prova seja útil e o fornecedor
tenha meios para sua produção.
E) segundo as regras ordinárias de experiência, convencer-se da pobreza do
consumidor, qualquer que seja o objeto da prova, mas desde que o
fornecedor tenha meios para sua produção.

40. (FCC – 2015 – TJPE – Juiz Substituto) Quanto às obrigações da sociedade


fornecedora decorrentes do Código de Defesa do Consumidor,

A) não existe responsabilidade por parte das sociedades meramente


coligadas a ela.

B) independe de culpa a responsabilidade das sociedades coligadas a ela.

C) é subsidiária a responsabilidade das sociedades por ela controladas.

D) é subsidiária a responsabilidade das sociedades consorciadas com ela.

E) não existe responsabilidade por parte das sociedades meramente


consorciadas com ela.

41. (FCC-2015-TJPE – Juiz Substituto) Se o conteúdo líquido de determinado produto


comercializado for inferior às indicações constantes do recipiente, da embalagem,
rotulagem ou de mensagem publicitária, o consumidor poderá exigir

A) cumulativamente, o abatimento proporcional do preço, a complementação


do peso ou medida, a substituição do produto por outro da mesma espécie,
marca ou modelo, sem o aludido vício, ou ainda a restituição imediata da
quantia paga, atualizada monetariamente, sem prejuízo de eventual
indenização por perdas e danos.

B) alternativamente e à sua escolha, o abatimento proporcional do preço, a


complementação do peso ou medida, a substituição do produto por outro da
mesma espécie, marca ou modelo, sem o aludido vício, ou ainda a
restituição imediata da quantia paga, atualizada monetariamente, com
prejuízo de eventual indenização por perdas e danos.
C) alternativamente e à sua escolha, somente o abatimento proporcional do
preço, a restituição da quantia paga, monetariamente atualizada, ou ainda a
substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo,
sem o aludido vício.

D) cumulativamente, a restituição imediata da quantia paga,


monetariamente atualizada, e indenização por eventuais perdas e danos.

E) alternativamente e à sua escolha, somente o abatimento proporcional do


preço, a complementação do peso ou medida, ou a restituição imediata da
quantia paga, monetariamente atualizada.

42. (FCC – 2015 – TJPE – Juiz Substituto) João adquiriu determinado produto, vindo
a constatar que ele possuía vício aparente. Nesse caso, o direito do consumidor
de reclamar do vício caduca em

A) 90 dias, tratando-se de produto durável, contado o prazo a partir da data


da entrega efetiva do produto.

B) 30 dias, tratando-se produto durável, contado o prazo a partir da data da


entrega efetiva do produto.

C) 30 dias, tratando-se de produto não durável, contado o prazo a partir da


data em que constatado o vício pelo consumidor.

D) 90 dias, tratando-se de produto não durável, contado o prazo a partir da


data da entrega efetiva do produto.

E) 90 dias, tratando-se de produto durável, contado o prazo a partir da data


em que constatado o vício pelo consumidor.

43. (FCC – 2015 – TJRR – Juiz Substituto) Analise as proposições abaixo, a respeito
da responsabilidade por fato e vício do produto:
I – Constatado vício do produto, o consumidor pode sempre exigir, de imediato, alternativamente e à sua escolha, a
substituição do produto, a restituição da quantia paga ou o abatimento proporcional do preço, salvo se as partes
tiverem, em separado, convencionado cláusula estipulando exoneração à garantia legal.

II – Em regra, o comerciante é solidariamente responsável pelos danos causados por produtos defeituosos.

III – A responsabilidade pelo fato do produto é objetiva mas admite excludentes de responsabilização.

Está correto o que se afirma APENAS em

A) III.

B) II e III.

C) II.

D) I e II.

E) I e III.

44. (FCC – 2015 – TJRR – Juiz Substituto) Camila teve a perna amputada por Marcelo,
médico cirurgião empregado do Hospital Mais Saúde. Muito abalada, ajuizou ação
contra Marcelo e contra o Hospital Mais Saúde. Em contestação, Marcelo
sustentou ter realizado o procedimento para salvar a vida de Camila, que estava
acometida de grave infecção. O Hospital Mais Saúde sustentou não ter
responsabilidade pela conduta de seus empregados. Comprovado o dano, o
Hospital Mais Saúde será responsabilizado pelo ato de Marcelo

A) objetivamente, mas apenas se ficar caracterizado que há nexo entre sua


conduta e a infecção, não respondendo por atos de terceiros, em nenhuma
hipótese.
B) subjetivamente, mas apenas se ficar caracterizado que teve culpa direta
pela infecção e pela contratação de Marcelo.

C) subjetivamente, por culpa presumida, se ficar caracterizado que Marcelo


agiu com culpa.

D) objetivamente, ainda que Marcelo não tenha agido com culpa.

E) objetivamente, se ficar caracterizado que Marcelo agiu com culpa.

45. (FCC – 2015 – TJRR – Juiz Substituto) Francisco adquiriu um celular da empresa
Linha Ltda. Ao ligá-lo, o aparelho explodiu, causando danos em Francisco, que
ajuizou ação de reparação contra a empresa. O pedido de reparação foi julgado
procedente por sentença transitada em julgado. Quando do cumprimento do
julgado, constatou-se que a Linha Ltda. não possuía recursos para satisfação do
débito, em razão de estado de insolvência causado por má administração.
Descobriu-se, por outro lado, que a empresa Capacidade Ltda., pertencente ao
mesmo grupo societário, possui recursos suficientes para tanto. Nesse caso, o juiz
poderá

A) responsabilizar subsidiariamente a empresa Capacidade Ltda., porém não


desconsiderar a personalidade jurídica da empresa Linha Ltda.

B) desconsiderar a personalidade jurídica da empresa Linha Ltda. e


responsabilizar subsidiariamente a empresa Capacidade Ltda.

C) desconsiderar a personalidade jurídica da empresa Linha Ltda., porém


não responsabilizar subsidiariamente a empresa Capacidade Ltda.

D) desconsiderar a personalidade jurídica da empresa Linha Ltda. e


responsabilizar solidariamente a empresa Capacidade Ltda.

E) de imediato, desconsiderar a personalidade jurídica de ambas as


empresas, Linha Ltda. e Capacidade Ltda.

46. (FCC – 2015 – TJPE – Juiz Substituto) Após introduzir no mercado de consumo
um determinado modelo de liquidificador, sua fabricante descobre que,
funcionando na potência máxima por mais de cinco minutos, o aparelho pode vir a
explodir. Nesse caso,

A) compete a todos os entes federados que tomarem conhecimento da


periculosidade do produto informar os consumidores a respeito.

B) o fornecedor deverá imediatamente, no prazo máximo de 60 dias


contados da ciência do fato, comunicar a periculosidade do produto às
autoridades competentes e aos consumidores, mediante anúncios
publicitários a serem veiculados na imprensa, rádio e televisão.
C) compete ao fornecedor comunicar o perigo às autoridades competentes e
aos consumidores, mediante anúncios publicitários às expensas da União.

D) desde que o fornecedor alerte sobre o perigo na forma prevista na lei,


ficará isento de responsabilidade perante consumidores por conta da
explosão do aparelho, mas apenas em relação aos fatos ocorridos após a
divulgação do alerta.

E) se o fornecedor conhecesse o perigo antes comercializar o liquidificador,


ainda assim poderia introduzi-lo no mercado de consumo desde que
prestasse aos consumidores, de forma ostensiva, as informações
necessárias e adequadas a seu respeito, mediante impressos apropriados
fornecidos juntamente com o produto.

47. (FCC – 2015 – DPE-PB – Defensor Público) De acordo com a jurisprudência do STJ
sobre direito do consumidor,

A) nos contratos bancários, é possível ao julgador conhecer, de ofício, da


abusividade das cláusulas.

B) da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, cabe


indenização por dano moral, ainda quando preexistente legítima inscrição.

C) a Defensoria Pública, na tutela coletiva dos consumidores, só tem


legitimidade para atuar quando tratar de direitos individuais homogêneos.

D) não se aplica o Código de Defesa do Consumidor quando o serviço


prestado pelo banco tratar de política governamental, desfigurando a
relação de consumo, como no caso de financiamento estudantil.

E) as instituições financeiras respondem subjetivamente pelos danos


gerados por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por
terceiros no âmbito de operações bancárias.
48. (FCC – 2015 – DPEPB – Defensor Público) Sobre a proteção contratual do
consumidor, é correto afirmar:

A) É nula a cláusula de eleição de foro, devendo o juiz decretá-la de ofício


quando o consumidor ajuizar a ação no foro eleito que seja diferente do seu
foro de domicílio.

B) É possível a estipulação de cláusula de opção de não renovação de


contrato de seguro de vida em grupo, desde que haja idêntica previsão em
benefício do consumidor, quando houver desequilíbrio econômico-
financeiro no contrato.

C) É possível a estipulação de cláusula de ressarcimento do fornecedor


pelas despesas de envio e devolução decorrentes do arrependimento do
consumidor quando a aquisição do produto dá-se fora do estabelecimento
comercial

D) No caso de reconhecimento da abusividade de uma cláusula, cabe ao juiz


decretar a nulidade de todo o negócio jurídico, de modo a garantir a boa-fé
nas relações de consumo.

E) A nulidade de cláusulas consideradas abusivas só pode ser decretada nos


contratos de adesão, já que nos contratos nos quais as cláusulas foram
discutidas pelas partes deve prevalecer a manifestação e a autonomia da
vontade.

49. (FCC – 2015 – TJRR – Juiz Substituto) Leopoldo consumiu um iogurte adquirido
no supermercado Qui Tuti. O produto estava deteriorado, por falta de
acondicionamento, o que o levou a ser hospitalizado. Pretende ajuizar ação contra
o Supermercado Qui Tuti para ser ressarcido das despesas realizadas com a
internação. A pretensão de Leopoldo

A) prescreverá em 3 anos, contados do conhecimento do dano.


B) decairá em 90 dias, contados da entrega do produto.

C) prescreverá em 5 anos, contados do conhecimento do dano.

D) decairá em 30 dias, contados do conhecimento do vício do produto.

E) prescreverá em 3 anos, contados do conhecimento do vício do produto.

50. (FCC – 2015 – TJPE – Juiz Substituto) Acerca da qualidade dos produtos e
serviços,

A) reputam-se defeituosos os produtos que não oferecem a segurança que


deles legitimamente se espera, assim como aqueles que, embora
inofensivos, contenham vício de qualidade que os tornem inadequados ao
consumo.

B) com exceção dos profissionais liberais, cuja responsabilidade depende da


verificação de culpa, o fornecedor de serviços responde objetivamente pela
reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à
prestação dos serviços.

C) o produto será considerado defeituoso a partir de quando outro mais


seguro tenha sido colocado no mercado.

D) a época em que o produto é colocado em circulação é irrelevante para


determinar-se a segurança que dele se pode legitimamente esperar.

E) é vedada a comercialização de produtos cuja utilização implique quaisquer


riscos ao consumidor.

51. (MPE-SP – 2015 – Promotor de Justiça) Verifique a exatidão dos seguintes


conceitos à luz da Lei n. 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor):
I – Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço para satisfazer suas
necessidades.

II – Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes
despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação,
importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços.

III – Produto é qualquer bem material, móvel ou imóvel.

IV – Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, de natureza bancária,
financeira, de crédito e securitária, inclusive as decorrentes das relações de caráter trabalhista.

Pode-se afirmar que:

A) Apenas as assertivas II e III estão corretas.

B) Apenas as assertivas I, II e IV estão corretas.

C) Apenas as assertivas I, III e IV estão corretas.

D) Apenas a assertiva II está correta.


E) Apenas as assertivas II e IV estão corretas

52. (MPE-SP – 2015 – Promotor de Justiça) À luz da Lei n. 8.078/90 (Código de Defesa
do Consumidor), assinale a alternativa que contém afirmação incorreta:

A) O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o


importador respondem, nos casos de culpa e dolo, pela reparação dos
danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto,
fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação
ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações
insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.

B) O comerciante é igualmente responsável quando: a) o fabricante, o


construtor, o produtor ou o importador não puderem ser identificados; b) o
produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante, produtor,
construtor ou importador; c) não conservar adequadamente os produtos
perecíveis.

C) O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele


legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias
relevantes, entre as quais: a) sua apresentação; b) o uso e os riscos que
razoavelmente dele se esperam; e c) a época em que foi colocado em
circulação.

D) O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será


responsabilizado quando provar: a) que não colocou o produto no mercado;
b) que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste; c) a
culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

E) Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis


respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os
tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes
diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com
as indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou
mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua
natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.

53. (Vunesp – 2015 – Juiz de Direito) Assinale a alternativa correta.

A) O diploma consumerista é aplicável às instituições financeiras, mas não


tem aplicação na relação entre entidade de previdência privada e seus
participantes.

B) As instituições financeiras, assim entendidas como prestadoras de


serviços, respondem, independentemente da existência de culpa exclusiva
de terceiros, pela reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos relativos à prestação de serviço.

C) Não vulnera o Código de Defesa do Consumidor a cobrança de tarifa


básica de assinatura mensal pelo uso dos serviços de telefonia fixa.

D) Nos contratos bancários posteriores ao Código de Defesa do Consumidor


incide multa moratória de até 10% do valor da prestação.

54. (Vunesp – 2015 – Juiz de Direito) Assinale a alternativa correta, no que concerne
ao tema da oferta.

A) Descabe a responsabilidade solidária do fornecedor por ato de seu


representante autônomo.
B) O fornecedor, em caso de descumprimento da oferta, poderá exigir que o
consumidor rescinda o contrato, restituindo-lhe o valor pago,
monetariamente atualizado, além das perdas e danos.

C) Em caso de oferta ou venda por reembolso postal, constarão o nome do


fabricante e endereço na publicidade utilizada na transação comercial.
D) Cessada a produção, a oferta de componentes, via de regra, deverá ser
mantida por noventa dias.

55. (Vunesp – 2015 – Juiz de Direito) Em tema de abusividade contratual, é correto


afirmar que

A) a nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato,


desde que não caracterizada a onerosidade excessiva.
B) é válida a obrigação cambial assumida por procurador do mutuário
vinculado ao mutuante, no exclusivo interesse deste.

C) a estipulação de juros moratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não


indica abusividade.

D) se admite limitação temporal de internação hospitalar do segurado em


contrato de plano de saúde.

56. (Vunesp – 2015 – Juiz de Direito) Quanto à coisa julgada e seus efeitos, conforme
previstos no CDC, é correto afirmar que

A) as hipóteses de efeito ultra partes relacionam-se à ação coletiva que


tratar de interesses ou direitos individuais homogêneos.

B) se aplicam as regras da coisa julgada não só aos direitos do consumidor,


mas também à tutela de interesses difusos ou coletivos de outras espécies
que não consumeristas.

C) os efeitos da sentença penal definitiva não são extensíveis aos direitos


difusos e coletivos, notadamente no que se refere à reparação de danos.

D) a sentença fará coisa julgada erga omnes se o pedido for julgado


improcedente por falta de provas.

57. (CESPE – 2015 – Defensor Público da União) Acerca dos direitos básicos do
consumidor, do fato do produto e do serviço e da responsabilidade civil do
fornecedor, julgue o item a seguir.
Considere que, em determinado supermercado constem nas prateleiras informações referentes à quantidade, às
características, à composição, à qualidade e ao preço dos produtos, bem como as referentes aos riscos a eles
associados, mas não conste informação sobre os tributos incidentes sobre tais produtos. Nessa situação, o
supermercado estará infringindo regra constante no CDC.

( ) Certo ( ) Errado

58. (CESPE – 2015 – Defensor Público da União) Acerca dos direitos básicos do
consumidor, do fato do produto e do serviço e da responsabilidade civil do
fornecedor, julgue o item a seguir.
Considere a seguinte situação hipotética. Beatriz contratou Sílvio para prestar serviço de reparos elétricos em sua
residência. Dias depois, um de seus equipamentos eletrônicos, que estava ligado a uma tomada reparada por Sílvio,
queimou. Beatriz, então, acionou-o judicialmente, pleiteando sua responsabilização pelo ocorrido. Em contestação, Sílvio
apresentou laudo técnico cuja conclusão apontava que Beatriz havia ligado o equipamento em tomada com voltagem
superior à capacidade do aparelho. Nessa situação hipotética, o juiz deverá concluir pela responsabilização de Sílvio,
independentemente de culpa.

( ) Certo ( ) Errado

59. (CESPE – 2015 – Defensor Público da União) No que tange ao contrato de


adesão, às práticas abusivas, ao fato do produto e do serviço, à responsabilidade
solidária e ao direito de regresso, julgue o item subsequente.
Se um liquidificador, após poucos dias de uso, explodir e causar sérios ferimentos ao consumidor que o tiver adquirido, o
comerciante e o fornecedor serão objetiva e solidariamente responsáveis pelos danos a ele causados.

( ) Certo ( ) Errado

60. (CESPE – 2015 – Defensor Público da União) No que tange ao contrato de


adesão, às práticas abusivas, ao fato do produto e do serviço, à responsabilidade
solidária e ao direito de regresso, julgue o item subsequente.
O fornecedor de serviços está obrigado a entregar ao contratante de seus serviços orçamento prévio discriminando o
valor da mão de obra e dos materiais, entre outros aspectos, não respondendo o contratante por eventuais ônus ou
acréscimos decorrentes da necessidade de contratação, pelo fornecedor, de serviços de terceiros surgida durante a
execução do serviço e que não estejam previstos no orçamento prévio.

( ) Certo ( ) Errado

Gabarito126

1. A 2. B 3. E 4. E

5. D 6. C 7. A 8. E

9. E 10. CERTO 11. D 12. ERRADO

13. B 14. ERRADO 15. E 16. CERTO

17. CERTO 18. ERRADO 19. E 20. CERTO

21. CERTO 22. CERTO 23. D 24. CERTO

25. B 26. A 27. D 28. C

29. D 30. D 31. A 32. C

33. D 34. C 35. A 36. D

37. B 38. E 39. A 40. C

41. D 42. A 43. A 44. E

45. B 46. A 47. D 48. B

49. C 50. B 51. D 52. A

53. C 54. C 55. A 56. B

57. ERRADO 58. ERRADO 59. ERRADO 60. CERTO


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WATANABE, Kazuo. Código brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos
autores do anteprojeto. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
1 Correspondente ao art. 1.022 do NCPC.

2 Disponível em: <http://www.bahianoticias.com.br/justica/artigo/3-reflexoes-sobre-a--sumula-381-do-stj.html>.

3 Correspondente ao art. 932, V, do NCPC.

4 Correspondente aos arts. 17 e 485, VI, do NCPC.

5 Correspondente ao art. 1.022 do NCPC.


6 Estudo retirado da obra de Cristiano Vieira Sobral Pinto. Direito civil sistematizado. 4. ed. São Paulo: Gen/Forense, 2012, p. 294-304.

7 “Art. 422. A vedação do comportamento contraditório (venire contra factum proprium) funda-se na proteção da confiança, tal como se
extrai dos arts. 187 e 422 do Código Civil” (Enunciado n. 362 da IV Jornada de Direito Civil).
8 Um bom exemplo dessa figura é o art. 174 do CC.
9 DUARTE, Ronnie Preuss. Questões controvertidas no novo Código Civil. São Paulo: Método, 2004, v. 2, p. 425.

10 SCHEREIBER, Anderson. A proibição do comportamento contraditório. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 133.
11 PENTEADO, Luciano Camargo. Figuras parcelares da boa-fé objetiva. Disponível em: <http://www.flaviotartuce.adv.br/index2.php?
sec=artigosc&totalPage=6>.

12 Correspondente ao art. 85, §§ 3º e 8º, do NCPC.


13 Correspondente ao art. 1.022 do NCPC.

14 “Civil. Consumidor. Reparação de danos. Responsabilidade. Recall. Não comparecimento do comprador. Responsabilidade do
fabricante. A circunstância de o adquirente não levar o veículo para conserto, em atenção a Recall, não isenta o fabricante da obrigação de
indenizar” (REsp 1.010.392/RJ, Rel. Min. Humberto Gomes de Barros, Terceira Turma, julgado em 24-3-2008, DJe 13-5-2008). Explicando:
Por ser o Código de Defesa do Consumidor uma norma cogente, não poderíamos alegar o venire contra factum proprium em desfavor do
vulnerável na relação de consumo.

15 Fabio de Oliveira Azevedo, citando Anderson Schreiber, nos ensina a diferença entre as figuras apresentadas: “A diferença entre as duas
figuras é clara na medida em que o que essencialmente se reprime com o nemo auditur turpidutinem allegans é a torpeza, o dolo, a malícia
de quem praticou a conduta inicial. E o nemo potest venire contra factum proprium, ao contrário, independe da intenção subjetiva do agente;
bastando-lhe a contradição objetiva entre os dois comportamentos” (AZEVEDO, Fabio. Direito civil. Introdução e teoria geral. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 102).

16 Interessante destacar tema de direito de família em que entendo a aplicação da Supressio. Vejamos: “Trata-se de habeas corpus por
inadimplemento de pensão alimentícia. A execução de pensão alimentícia em concomitância com o curso de execução de acordo entre ex-
cônjuges relativo à partilha de bens no qual o ex-cônjuge se comprometeu, ainda, a renunciar aos alimentos caracteriza bis in idem e impede a
execução daquela pelo rito preconizado no art. 733 do CPC [correspondente aos arts. 528 e 911, do NCPC]. O não exercício do direito à
percepção de alimentos pelo lapso temporal de 30 anos, apesar de não importar em exoneração automática da obrigação alimentar, torna
possível afastar a possibilidade de prisão civil do alimentante inadimplente, pois questionável a necessidade do alimentado e, por conseguinte,
desnecessária a coação extrema, que tem o escopo único de resguardar a sobrevida de quem recebe alimentos. Com esse entendimento, a
Turma concedeu a ordem” (HC 187.202/RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 16-8-2011, ver Informativo n. 481).

17 TJRS, Apelação Cível 70003607231.

18 TJRJ, Apelação Cível 11203/08.

19 AZEVEDO, Fabio. Direito civil. Introdução e teoria geral cit., p. 101.

20 PENTEADO, Luciano Camargo. Figuras parcelares da boa-fé objetiva. Disponível em: <http://www.flaviotartuce.adv.br/index2.php?
sec=artigosc&totalPage=6>.

21 “Art. 180. O menor, entre dezesseis e dezoito anos, não pode, para eximir-se de uma obrigação, invocar a sua idade se dolosamente a
ocultou quando inquirido pela outra parte, ou se, no ato de obrigar-se, declarou-se maior.”
22 Disponível em: <www.flaviotartuce.adv.br>.

23 Apresenta o doutrinador Fábio de Oliveira Azevedo que se diferencia a tu quoque da venire contra factum proprium por, na primeira,
serem as condutas isoladamente ilícitas, ao passo que, na segunda, elas, ao menos separadamente, são tidas como lícitas, surgindo a ilicitude no
momento em que são confrontadas a conduta anterior com a posterior (Direito civil. Introdução e teoria geral cit., p. 102).
24 “Art. 476. Nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro.”

25 PENTEADO, Luciano Camargo. Figuras parcelares da boa-fé objetiva. Disponível em: <http://www.flaviotartuce.adv.br/index2.php?
sec=artigosc&totalPage=6>.
26 “Apelação cível. Ação de cobrança. Aplicação do princípio duty to mitigate the loss. Contrato de cartão de crédito. Contrato de adesão.
Aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor. Revisão das cláusulas abusivas. Possibilidade. Juros remuneratórios. Cópia do contrato.
Ausência. Aplicação do art. 333 do Código de Processo Civil. Manutenção da limitação dos juros em 12% ao ano. Comissão de permanência.
Impossibilidade de averiguação da sua cobrança cumulada com outros encargos. Inexistência de cópia do contrato. Manutenção da sentença
que afastou a possibilidade de cobrança. Capitalização mensal de juros – prática ilegal. Anatocismo. Súmula 121 do STF. Usura. Multa 2%.
Falta de interesse recursal. Recurso parcialmente conhecido e improvido” (TJMS, Apelação Cível 2009.022658-4, Terceira Turma Cível, Rel.
Des. Rubens Bergonzi Bossay, julgado em 21-9-2009, Diário n. 2052, 24-9-2009).

27 São Paulo, Juízo da Comarca de Maracaí. Autos n. 473/2005.

28 Inspirada a teoria na substancial performance do Direito anglo-saxônico.


29 SCHEREIBER, Anderson. A boa-fé objetiva e o adimplemento substancial. Direito contratual. Temas atuais. São Paulo: Método, 2008,
p. 138.
30 Correspondente ao art. 998 do NCPC.

31 Ver os seguintes julgados: REsp 76.362/MT, Rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, Quarta Turma, julgado em 11-12-1995, DJ 1º-4-1996, p.
9.917; REsp 272.739/MG, Rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, Quarta Turma, julgado em 1º-3-2001, DJ 2-4-2001, p. 299; REsp 415.971/SP, Rel.
Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 14-5-2002, DJ 24-6-2002, p. 302; REsp 469.577/SC, Rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar,
Quarta Turma, julgado em 25-3-2003, DJ 5-5-2003, p. 310.

32 O dispositivo teve sua redação alterada pela Lei n. 12.741/2012, que também dispõe sobre as medidas de esclarecimento ao consumidor, de
que trata o § 5º do art. 150 da Constituição Federal.
33 Remetemos o leitor para o item 7 da Parte II.

34 Sobre o tema, citamos os seguintes Enunciados da V Jornada de Direito Civil:

445) “Art. 927. O dano moral indenizável não pressupõe necessariamente a verificação de sentimentos humanos desagradáveis como dor ou
sofrimento”.

456) “Art. 944. A expressão ‘dano’ no art. 944 abrange não só os danos individuais, materiais ou imateriais, mas também os danos sociais,
difusos, coletivos e individuais homogêneos a serem reclamados pelos legitimados para propor ações coletivas”.

35 Mencionamos ainda o Enunciado da V Jornada de Direito Civil:

Enunciado n. 455: “Art. 944. Embora o reconhecimento dos danos morais se dê, em numerosos casos, independentemente de prova (in re
ipsa), para a sua adequada quantificação, deve o juiz investigar, sempre que entender necessário, as circunstâncias do caso concreto, inclusive
por intermédio da produção de depoimento pessoal e da prova testemunhal em audiência”.

36 Correspondente ao art. 373 do NCPC.

37 Correspondente ao art. 357 do NCPC/15, ver ainda art. 334, § 4º, do mesmo diploma.

38 Correspondentes aos arts. 489 e 1.022 do NCPC.

39 Correspondente ao art. 82 do NCPC.


40 Correspondente ao art. 82, § 1º do NCPC.
41 STJ, REsp 324.629/MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 10-12-2002. TJRJ, Apelação Cível 2005.001.08100, Rel. Des. Binato de
Castro, julgado em 28-11-2006; Agravos Inominados em Apelação Cível 04809/2008, Rel. Des. Orlando Secco, 8ª Câmara Cível. Julgados
presentes em: PINTO, Cristiano Vieira Sobral. Revista Direito ao Ponto, ano 1, n. 3.

42 Em sentido diverso, REsp 1.118.302/SC:


“Administrativo. Regulação. Poder de polícia administrativa. Fiscalização de relação de consumo. Inmetro. Competência relacionada
a aspectos de conformidade e metrologia. Deveres de informação e de transparência quantitativa. Violação. Autuação. Ilícito
administrativo de consumo. Responsabilidade solidária dos fornecedores. Possibilidade.
1. A Constituição Federal/88 elegeu a defesa do consumidor como fundamento da ordem econômica pátria, inciso V do art. 170, possibilitando,
assim, a criação de autarquias regulatórias como o Inmetro, com competência fiscalizatória das relações de consumo sob aspectos de
conformidade e metrologia.
2. As violações a deveres de informação e de transparência quantitativa representam também ilícitos administrativos de consumo que podem
ser sancionados pela autarquia em tela.

3. A responsabilidade civil nos ilícitos administrativos de consumo tem a mesma natureza ontológica da responsabilidade civil na relação
jurídica base de consumo. Logo, é, por disposição legal, solidária.

4. O argumento do comerciante de que não fabricou o produto e de que o fabricante foi identificado não afasta a sua responsabilidade
administrativa, pois não incide, in casu, o § 5º do art. 18 do CDC. Recurso especial provido” (ver Informativo n. 409).
43 Corresponde ao art. 1.022 do NCPC.

44 Sobre este tema, convém mencionar a inovação processual trazida pelo CPC/2015, que trata do Incidente de Desconsideração da
Personalidade Jurídica, disposto nos arts. 133 e seguintes do novo diploma.

45 Ainda sobre o tema destacamos os seguintes enunciados:

Enunciado n. 51: “Art. 50. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica – disregard doctrine – fica positivada no novo Código Civil,
mantidos os parâmetros existentes nos microssistemas legais e na construção jurídica sobre o tema” (da I Jornada de Direito Civil).

Enunciado n. 281: “Art. 50. A aplicação da teoria da desconsideração, descrita no art. 50 do Código Civil, prescinde da demonstração de
insolvência da pessoa jurídica” (IV Jornada de Direito Civil).

Enunciado n. 282: “Art. 50. O encerramento irregular das atividades da pessoa jurídica, por si só, não basta para caracterizar abuso de
personalidade jurídica” (IV Jornada de Direito Civil).

Enunciado n. 283: “Art. 50. É cabível a desconsideração da personalidade jurídica denominada ‘inversa’ para alcançar bens de sócio que se
valeu da pessoa jurídica para ocultar ou desviar bens pessoais, com prejuízo a terceiros” (IV Jornada de Direito Civil).

Enunciado n. 284: “Art. 50. As pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos ou de fins não econômicos estão abrangidas no conceito
de abuso da personalidade jurídica” (IV Jornada de Direito Civil).

Enunciado n. 285: “Art. 50. A teoria da desconsideração, prevista no art. 50 do Código Civil, pode ser invocada pela pessoa jurídica em seu
favor” (IV Jornada de Direito Civil).

Enunciado n. 406: “Art. 50. A desconsideração da personalidade jurídica alcança os grupos de sociedade quando presentes os pressupostos do
art. 50 do Código Civil e houver prejuízo para os credores até o limite transferido entre as sociedades” (V Jornada de Direito Civil).

46 Correspondente ao art. 487, I, do NCPC.

47 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12414.htm>.

48 Sobre o tema ver ROSENVALD, Nelson. Função social do contrato. Disponível em:
<http://www.professorcristianosobral.com.br/artigos.php?pagina=13>.
49 LEONEL, Ricardo de Barros. Manual do processo coletivo. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 103.

50 MITIDIERO, Daniel. Diálogo das fontes e formas de tutela jurisdicional no Código de Defesa do Consumidor. In: CARVALHO, Fabiano e
BARIONI, Rodrigo (coord.). Aspectos processuais do Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. v. 1, p.
61.

51 CAPPELLETTI, Mauro e GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Tradução e revisão: Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre: Sergio Antonio
Fabris, 1998.
52 MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. O Anteprojeto de Código Brasileiro de Processos Coletivos: visão geral e pontos sensíveis. In:
GRINOVER, Ada Pellegrini; MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro; WATANABE, Kazuo (coord.). Direito processual coletivo e o
Anteprojeto de Código Brasileiro de Processos Coletivos. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 21.
53 LENZA, Pedro. Teoria geral da ação civil pública. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 90.

54 Acesso à justiça cit., p. 26.


55 VENTURI, Elton. Comentário ao art. 1º. In: GIDI, Antonio e MAC-GREGOR, Eduardo Ferrer (coord.). Comentários ao código modelo
de processos coletivos – um diálogo Ibero-Americano. Salvador: JusPodivm, 2009, p. 28.
56 WATANABE, Kazuo. Código brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 9. ed. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2007, p. 819.
57 DIDIER JR., Fredie; ZANETI JR., Hermes. Curso de direito processual civil – Processo coletivo. 5. ed. Salvador: JusPodivm, 2010. v.
4, p. 93.
58 O controle de políticas públicas pelo Poder Judiciário. Disponível em: <http://ww3.lfg.com.br/images/congresso/prof_ada_roteiro.pdf>.
Acesso em: 3 mar. 2013.

59 Código brasileiro de Defesa do Consumidor. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 1024.
60 ALMEIDA, Gregório Assagra de. Direito processual coletivo brasileiro – um novo ramo do direito processual. São Paulo: Saraiva, 2003,
p. 488.
61 LENZA, Pedro. Teoria geral da ação civil pública cit., p. 66.

62 LEONEL, Ricardo de Barros. Manual do processo coletivo cit., p. 91.

63 DINAMARCO, Pedro da Silva. Ação civil pública. São Paulo: Saraiva, 2001, p. 52.

64 MAZZILLI, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo – meio ambiente, consumidor, patrimônio cultural, patrimônio público e
outros interesses. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 46.

65 MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Ob. cit., p. 214.

66 LENZA, Pedro. Teoria geral da ação civil pública cit., p. 71.


67 DIDIER JR., Fredie; ZANETI JR., Hermes. Curso de direito processual civil cit., p. 75.

68 LEONEL, Ricardo de Barros. Manual do processo coletivo cit., p. 96-97.

69 ALMEIDA, Gregório Assagra de. Direito processual coletivo brasileiro cit., p. 490.

70 PINHO, Humberto Dalla Bernardina de. A natureza jurídica do direito individual homogêneo e sua tutela pelo Ministério Público
como forma de acesso à justiça. Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 240.

71 VENTURI, Elton. Comentário ao art. 1º cit., p. 36.

72 MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Ações coletivas no direito comparado e nacional. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2010, p. 226.

73 BRAGA NETTO, Felipe Peixoto. A atuação do Ministério Público na defesa do direito do consumidor. Temas Atuais do Ministério
Público. 3. ed. Salvador: JusPodivm, 2012, p. 337.
74 THEODORO JUNIOR, Humberto. Ação civil pública. Operação bancária de caderneta de poupança. Inaplicabilidade de ação civil
pública. Inocorrência de relação de consumo. Direitos individuais homogêneos. Carência de ação e coisa julgada. In: WALD, Arnoldo.
Aspectos polêmicos da ação civil pública. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 194.

75 Código brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007,
p. 890.
76 Das ações coletivas em matéria de proteção ao consumidor – o papel do Ministério Público. Disponível em:
<http://www.mazzilli.com.br/>. Acesso em: 12 fev. 2013.
77 PINHO, Humberto Dalla Bernardina de. A natureza jurídica... cit.
78 Corresponde ao art. 1.022 do NCPC.

79 Correspondente ao art. 72, II, do NCPC.


80 MAZZILLI, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo cit., p. 238-239.
81 LEONEL, Ricardo de Barros. Manual do processo coletivo cit., p. 162.
82 WATANABE, Kazuo. Código brasileiro de Defesa do Consumidor cit., p. 844-845.

83 DIDIER JR.; ZANETI JR. Curso de direito processual civil cit., p. 125-126.

84 WATANABE, Kazuo. Código brasileiro de Defesa do Consumidor cit., p. 854-855.


85 COSTA, Susana Henriques da. A tutela do patrimônio público e da moralidade administrativa por meio da ação civil pública e da ação de
improbidade administrativa. Processo civil coletivo. São Paulo: Quartier Latin, 2005, p. 575.
86 GÓES, Gisele. O pedido de dano moral coletivo na ação civil pública do Ministério Público. Processo civil coletivo. São Paulo: Quartier
Latin, 2005, p. 474.
87 Os precedentes que mencionam o art. 461 do CPC são perfeitamente aplicáveis ao art. 84 do CDC.

88 RODRIGUES, Marcelo Abelha. Processo civil ambiental. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008, p. 59.

89 Curso de direito processual civil cit., p. 129.


90 Correspondente ao art. 499 do NCPC.

91 Correspondente ao art. 499 do NCPC.

92 WATANABE, Kazuo. Código brasileiro de Defesa do Consumidor cit., p. 862.

93 Corresponde aos arts. 612 e 614 do NCPC.


94 WATANABE, Kazuo. Código brasileiro de Defesa do Consumidor cit., p. 862.

95 LEONEL, Ricardo de Barros. Manual do processo coletivo cit., p. 437.

96 DIDIER JR.; ZANETI JR. Curso de direito processual civil cit., p. 333.

97 LEONEL, Ricardo de Barros. Manual do processo coletivo cit., p. 249.

98 VENTURI, Elton. Comentário ao art. 1º cit., p. 96.

99 RODRIGUES, Marcelo Abelha. Processo civil ambiental cit., p. 92-93.


100 MARINONI, Luiz Guilherme. Tutela inibitória – individual e coletiva. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 26.

101 GRINOVER, Ada Pellegrini. Código brasileiro... cit., p. 898.

102 DIDIER JR.; ZANETI JR. Curso de direito processual civil cit., p. 142.

103 VENTURI, Elton. Comentário ao art. 1º cit., p. 103.

104 DIDIER JR.; ZANETI JR. Curso de direito processual civil cit., p. 142-143.
105 Código brasileiro... cit., p. 898.

106 MENDES, Aluisio Gonçalves Castro. Ob. cit., p. 244.

107 GRINOVER, Ada Pellegrini. Código brasileiro... cit., p. 902.

108 Correspondente ao art. 1.036 do NCPC.


109 Correspondente ao art. 523 do NCPC.

110 Correspondente ao art. 492 do NCPC.

111 LEONEL, Ricardo de Barros. Manual do processo coletivo cit., p. 411.


112 Correspondentes aos arts. 503, 506, 508 e 44 do NCPC.
113 GRINOVER, Ada Pellegrini. Código brasileiro... cit., p. 909.

114 LEONEL, Ricardo de Barros. Manual do processo coletivo cit., p. 412.


115 GRINOVER, Ada Pellegrini. Código brasileiro... cit., p. 907.
116 GRINOVER, Ada Pellegrini. Código brasileiro... cit., p. 914.

117 KARAS, Stan. The role of fluid recovery in consumer protection litigation. California Law Review, v. 90.
118 DIDIER JR.; ZANETI JR. Curso de direito processual civil cit., p. 367-368.

119 MAZZILLI, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo cit., p. 189.

120 GRINOVER, Ada Pellegrini. Código brasileiro... cit., p. 963. No mesmo sentido: LENZA, Pedro. Teoria geral da ação civil pública
cit., p. 242 e 243.

121 Correspondente ao art. 70 do NCPC.


122 Correspondente ao art. 1.036 do NCPC.

123 ALVIM, Eduardo Arruda. Apontamentos sobre o processo das ações coletivas. In: MAZZEI, Rodrigo e NOLASCO, Rita Dias (org.).
Processo civil coletivo. São Paulo: Quartier Latin, 2005, p. 56-61.
124 MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Ação civil pública: em defesa do meio ambiente, do patrimônio cultural e dos consumidores (Lei
7.347/85 e legislação complementar). 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, p. 207.
125 MENDES, Aluisio Gonçalves Castro. Ob. cit., p. 280.
126 Os gabaritos estão de acordo com os publicados pela banca.