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Filosofia

no Enem
Um estudo analítico
dos conteúdos
relativos à filosofia
ao longo das edições
do Enem entre
1998 e 2011

Brasília-DF
AGOSTO/2015
© INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP)
É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação, desde que citada a fonte.

DIRETORIA DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA (DAEB)

O conteúdo dessa obra é produto da Consultoria OEI, termo de referência 1180, realizada pela Drª
Ester Pereira Neves de Macedo, cujo objetivo foi analisar a abordagem das questões de Filosofia no
Exame Nacional de Ensino Médio nos anos de 1998 a 2011. O produto apresentado pela consultora
foi avaliado e validado pela equipe técnica da Diretoria de Avaliação da Educação Básica – Inep.

ASSESSORIA TÉCNICA DE EDITORAÇÃO E PUBLICAÇÕES

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

M141f Macedo, Ester Pereira Neves de.


Filosofia no Enem : um estudo analítico dos conteúdos relativos à filosofia ao
longo das edições do Enem entre 1998 e 2011 / Ester Pereira Neves de Macedo.
– Brasília, DF : Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira, 2015.
121 p.

ISBN : 978-85-7863-041-6

1. Exame Nacional do Ensino Médio. 2. Filosofia (disciplina). 3. Avaliação da


Educação. I. Título.
CDU 373.5:37.001.7
SUMÁRIO

Apresentação.................................................................................................................... 5

INTRODUção....................................................................................................................... 7

1 Panorama da Filosofia nas Provas do Enem entre 1998 e 2011................. 9


Distribuição Cronológica......................................................................................9
Aspectos Formais..................................................................................................... 12
Distribuição de Conteúdos.................................................................................. 14
Primeira Matriz de Referência (1998-2008)................................................. 14
PCN (1999)............................................................................................................... 16
PCN+ (2002)............................................................................................................. 19
Ocem (2008)............................................................................................................ 21
Segunda Matriz de Referência (2009).......................................................... 24
Competências................................................................................................. 25
Habilidades...................................................................................................... 28

2 Análise dos Itens de Filosofia (1998-2003)....................................................... 31


1999................................................................................................................................ 34
2000................................................................................................................................ 42
2001................................................................................................................................ 51
2003................................................................................................................................ 63
3 Análise dos Itens de Filosofia (2009-2011)....................................................... 67
2009 (Anulada)........................................................................................................... 69
2009 (Aplicada)........................................................................................................... 72
2010 (1ª Aplicação)................................................................................................... 75
2010 (2ª Aplicação)................................................................................................... 91
2011................................................................................................................................ 99

Conclusões.................................................................................................................. 101

Quadro-Resumo.......................................................................................................... 105

Referências Bibliográficas................................................................................... 107

ANEXO I: Matriz de Competências e Habilidades do Enem (1998)................ 109

ANEXO II: PCN: Competências e Habilidades a serem Desenvolvidas


em Filosofia (1999)..................................................................................................... 113

ANEXO III: PCN+: Eixos Temáticos em Filosofia (2002)...................................... 115

ANEXO IV: Conteúdos de Filosofia das Orientações Curriculares


para o Ensino Médio: Ciências Humanas e suas Tecnologias (2008)........ 117

ANEXO V: Matriz de Referência de Ciências Humanas


e suas Tecnologias (2009)........................................................................................ 119

4 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
APRESENTAÇÃO

O desenvolvimento de tecnologias de avaliação educacional requer a realização


de estudos de cunho pedagógico com fundamentação em dados empíricos. O Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), com dedicação espe-
cial da Diretoria de Avaliação da Educação Básica (Daeb), vem incentivando a promoção de
uma série de estudos que forneça evidências para orientar o aprimoramento metodológico
de seus exames e avaliações, bem como para disseminar resultados de análises de cunho
pedagógico que orientem professores, estudantes e pesquisadores sobre suas concepções
teóricas.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi instituído no final da década de
1990, modificou seu modelo em 2009 e tornou-se o principal mecanismo de seleção para
o ingresso no ensino superior. Este estudo analisa, de forma abrangente, a incidência dos
temas da disciplina filosofia – componente curricular da área de Ciências Humanas e suas
Tecnologias – em questões dos testes do Enem de 1998 a 2011. Destaca a diferença de
abordagem temática marcadamente entre as edições de 1998 a 2003 e as edições subse-
quentes, principalmente a partir de 2008, com a publicação da Lei n° 11.684, de 2 de junho
de 2008, que torna a filosofia disciplina obrigatória nos currículos do ensino médio, e a
reformulação da Matriz de Referência do Enem em 2009. Cada um dos 22 itens de filosofia
do Enem nesses 14 anos é analisado em termos de forma e conteúdo, considerando os
preceitos dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – PCN (1999), das

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Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 5
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN+
(2002) e das Orientações Curriculares para o Ensino Médio – Ocem (2008), além da distri-
buição das habilidades do componente curricular de filosofia em relação às habilidades das
matrizes de referência do Enem.
Este texto visa a servir de recurso na elaboração, revisão e análise de itens de ciências
humanas para o Enem, em particular itens na área de filosofia, apontando direções para
futuras revisões da atual Matriz de Referência de Ciências Humanas e suas Tecnologias, de
forma a fortalecer a reinserção e consolidação da filosofia como disciplina no ensino médio.

Frederico Neves Condé


Doutor em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (UnB)
Diretor de Avaliação da Educação Básica (Inep)

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Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
INTRODUÇÃO

Este estudo analisa a abrangência e a recorrência dos temas de filosofia no Enem


entre 1998 e 2011. A primeira de suas duas seções apresenta um panorama geral das
provas de ciências humanas nesses 14 anos e analisa a presença de itens de filosofia
nelas. A segunda apresenta uma análise individual de cada um desses itens, tomando
como ­parâmetro a Matriz de Referência do Enem, os Parâmetros Curriculares Nacionais
para o Ensino Médio – PCN (1999), as Orientações Educacionais Complementares aos
Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN + (2002) e as Orientações Curriculares para o
Ensino Médio – Ocem (2008).
Este trabalho tem como objetivo servir de recurso à elaboração, revisão e análise
crítica do componente de filosofia do Enem. Além disso, as informações e observações aqui
presentes visam a apresentar sugestões pertinentes para uma futura reelaboração tanto da
Matriz de Referência quanto dos outros documentos curriculares.

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ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
1 Panorama da
Filosofia nas
Provas do Enem
entre 1998 e 2011

Distribuição Cronológica

A presença de filosofia no Enem é pequena e irregularmente distribuída. Nos 14


anos entre o surgimento do exame em 1998 e a prova de 2011, que é a mais recente anali-
sada neste estudo, o Enem contou com 22 itens de filosofia. Numa distribuição regular, 22
itens em 14 anos resultariam na média de 1,57 por ano (1,37 por prova, se contarmos as
duas aplicações tanto em 2009 quanto em 2010). No entanto, é significativo que 9 desses
22 itens (40%) tenham ocorrido no ano de 2010 (6 na primeira aplicação e 3 na segunda),
enquanto 7 desses 14 anos não tenham contado com item algum de filosofia (1998, 2002,
2004, 2005, 2006, 2007 e 2008). O gráfico e a tabela a seguir mostram a distribuição dos
itens de filosofia nesses 14 anos.

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Gráfico 1 Quantidade de Itens de Filosofia em cada Prova do Enem – 1998-2011
Fonte: Elaboração própria

Tabela 1 Quantidade de Itens de Filosofia em cada Prova do Enem – 1998-2011

  1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005


Itens de
0 2 3 4 0 1 0 0
Filosofia

2006 2007 2008 2009a 2009b 2010a 2010b 2011


Itens de
0 0 0 1 1 6 3 1
Filosofia
Fonte: Elaboração própria

Temos, então, duas fases principais: 1999-2001 e 2009-2011, divididas por um


período de sete anos (2002-2008) em que tivemos um único item de filosofia (2003). É
interessante observar que marca o começo e o fim desse período de quase completa au-
sência de filosofia no Enem a publicação dos PCN+ em 2002 e das Ocem em 2008. Seria
possível supor que o lançamento dos PCN+ tenha dificultado a inclusão de itens de filosofia
no Enem, ao passo que as Ocem tenham, por sua vez, ocasionado a retomada da elabo-
ração de itens de filosofia. Todavia, como será apresentado de forma mais aprofundada,
os itens de filosofia da segunda fase (2009-2011) têm em grande parte maior alinhamento
com os PCN+ do que com as próprias Ocem.
Visto isoladamente, o ano de 2010 poderia sinalizar a tendência a maior presença
de filosofia na prova, ocasionada pelas Ocem de 2008 e pela nova matriz de 2009. Nos

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outros dois anos desse núcleo – 2009 e 2011 –, porém, temos novamente uma questão de
filosofia em cada prova. Proporcionalmente, uma questão por prova em 2009 e 2011 tem
um peso menor que em 2003 uma vez que, com a mudança da matriz em 2009, o número
total de questões e o número de questões da prova de ciências humanas, em particular,
aumentaram: enquanto antes tínhamos 63 itens na prova, com número variável de ques-
tões de ciências humanas, a partir de 2009 a prova passou a ter 180 questões, com 45 só
de ciências humanas.
Por mais que em 2009 tenhamos um único item em cada uma das provas, podemos
ver nesses dois itens um retorno, ainda que tímido, da filosofia ao Enem, depois de pratica-
mente sete anos. As provas de 2010 reforçariam tal ideia, porém, a prova de 2011 mostra
uma queda quantitativa e qualitativa preocupante.
Na análise que se segue, a referência a cada item dar-se-á no formato “prova.
item”, em que “prova” é o ano da prova, considerando que 2009a e 2009b se referem,
respec­tivamente, à prova anulada e à prova aplicada em 2009. Da mesma maneira, a
primeira e a segunda aplicação das provas de 2010 serão referidas como “2010a” e
“2010b”, respectivamente. Os itens analisados e suas respectivas provas estão listados
na tabela a seguir:

Tabela 2 Itens de Filosofia Analisados em cada Prova do Enem – 1999-2011

Prova Cor da Prova Nº de Itens de Filosofia Itens

1999 Amarela 2 10, 31

2000 Amarela 3 4, 52, 53

2001 Amarela 4 18, 30, 31, 57

2003 Amarela 1 48

2009a Branca 1 46

2009b Azul 1 58

2010a Rosa 6 27, 28, 34, 38, 42, 44

2010b Azul 3 27, 34, 45

2011 Azul 1 2

Fonte: Elaboração própria

O Quadro-Resumo ao final deste estudo reúne os principais dados desta análise.

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ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Aspectos formais

Quanto ao texto-base do enunciado, a distribuição entre fontes, bem como entre


textos originais e textos adaptados, ocorre conforme o gráfico a seguir:

Gráfico 2 Quantidade de Itens de Filosofia de acordo com a Fonte do Texto-Base – 1998-2011


Fonte: Elaboração própria

Dos textos originais, 11 eram de filósofos, mas, nos anos recentes, estes têm perdido
espaço para textos adaptados de manuais de filosofia. Essa mudança contraria a orientação
do Guia de Elaboração e Revisão de Itens (GERI), publicado em 2008, que, no item 3, seção
Etapas para Elaboração de Item, recomenda: “Dê preferência a fontes primárias, originais
e sem adaptações” (Brasil. Inep, 2008, p. 10).
É importante observar que com o passar dos anos a proporção entre textos originais
e adaptados tem mudado de forma acentuada. Até 2000, todos os textos-base eram origi-
nais, enquanto da segunda aplicação de 2010 até a prova de 2011 temos somente textos
adaptados, conforme o gráfico a seguir:

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Gráfico 3 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Texto-Base (Original ou Adaptado)
– 1998-2011
Fonte: Elaboração própria

O próximo gráfico mostra essa mudança item a item:

Gráfico 4 Discriminação Item por Item de Filosofia segundo Texto-Base (Original ou


Adaptado) – 1999-2011
Fonte: Elaboração própria

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Distribuição de Conteúdos

Primeira Matriz de Referência (1998-2008)

Ao analisar o conteúdo dos itens de filosofia do Enem nesses 14 anos, é importante


ter em mente os documentos curriculares que norteiam esses itens. Os itens do primeiro
grupo (1999-2003) seguem a Matriz de Referência de 1998, segundo a qual a prova con-
tinha 63 itens, distribuídos em 5 competências e 21 habilidades (Ver anexo I).
Na época da elaboração dessa matriz, o principal (senão único) marco sobre o ensino
de filosofia no ensino médio era a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)
de 1996, que exigia que ao final do ensino médio o aluno deveria dominar os conteúdos
de filosofia e sociologia necessários à cidadania. Sem maiores especificações sobre o que
seriam esses conteúdos, não houve, nessa primeira matriz, muito espaço para conteúdos
especificamente filosóficos. Os dez itens de filosofia entre 1998 e 2003 se distribuem entre
as quatro habilidades seguintes:

18. Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos, identificando-a em


suas manifestações e representações em diferentes sociedades, épocas e lugares.

19. Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-


geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando diferentes
pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação e analisando a
validade dos argumentos utilizados.

20. Comparar processos de formação socioeconômica, relacionando-os com seu contexto


histórico e geográfico.

21. Dado um conjunto de informações sobre uma realidade histórico-geográfica,


contextualizar e ordenar os eventos registrados, compreendendo a importância dos fatores
sociais, econômicos, políticos ou culturais.

Dos dez itens de filosofia entre 1998 e 2003, quatro contemplavam a h19, três a h18,
dois a h21 e um a h20, conforme o gráfico seguinte:

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Gráfico 5 Quantidade de Itens de Filosofia conforme Habilidades da Primeira Matriz de
Referência do Enem (1998) – 1999-2003
Fonte: Elaboração própria

Em termos cronológicos, essas habilidades foram bem distribuídas, conforme ilustra


o gráfico a seguir:

Gráfico 6 Distribuição de Habilidades da Primeira Matriz de Referência do Enem (1998) entre


os Itens de Filosofia – 1999-2003
Fonte: Elaboração própria

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ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Nesse primeiro período, tivemos a publicação dos PCN (1999) e dos PCN+ (2002).
Não se percebe influência direta desses dois documentos na composição dos itens de filo-
sofia: de fato, como veremos abaixo, percebe-se uma influência maior desses documentos
nos itens do segundo grupo, que surgiram depois das Ocem de 2008 e da reformulação da
Matriz de Referência em 2009. No primeiro momento, portanto, a maior correlação que
se encontra entre os PCN e os PCN+ e os itens de filosofia no Enem é cronológica: itens de
filosofia começaram a aparecer no ano da publicação dos PCN (não há itens de filosofia
na primeira prova, em 1998) e deixaram de aparecer logo após a publicação dos PCN+ em
2002, ficando ausentes por seis anos até voltarem em 2009.

PCN (1999)

Os PCN listam três competências na área de filosofia: 1) Representação e comuni-


cação, 2) Investigação e compreensão e 3) Contextualização sociocultural (Ver Anexo II).
Dentro da primeira competência (Representação e comunicação), estão as seguintes
habilidades:

• Ler textos filosóficos de modo significativo.


• Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.
• Elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo.
• Debater, tomando uma posição, defendendo-a argumentativamente e mudando
de posição face a argumentos mais consistentes.

Dada a própria natureza da prova objetiva, as duas últimas habilidades (“Elaborar


por escrito...” e “Debater...”) não foram contempladas em nenhuma questão. Todos os
22 itens de filosofia do Enem no período em análise se enquadram em uma das duas
primeiras habilidades: 11 na primeira, 6 na segunda e 4 em ambas. Vale notar que os itens
que contemplaram ambas as habilidades ocorreram entre 1999 e 2001, e envolviam o
contraste de dois textos-base.
Todos os seis itens que compreendiam “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes
estruturas e registros” atendiam também à segunda competência, “Investigação e

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compreensão”. Isso se explica porque a habilidade envolvida nessa competência é “Articular
conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais
e humanas, nas artes e em outras produções culturais”, o que condiz com a leitura filosófica
de textos de diferentes estruturas e registros exigida pela primeira dessas habilidades.
Quanto à terceira competência, “Contextualização sociocultural”, observou-se,
da mesma forma, que 7 dos 11 itens que atenderam a essa competência eram os que
envolviam “Ler textos filosóficos de modo significativo”. A habilidade em questão aqui
consistia em “Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem
específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico
e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica”. As exceções foram 2001.30,
2009b.58, 2010a.38 e 2010b34: dois itens por envolverem a tarefa de articular e não de
contextualizar (2001.30 e 2010b34) e dois por não parecerem solicitar tarefa alguma além
da leitura e interpretação do texto.
Dos quatro itens que exigiram tanto a habilidade 1a) “Ler textos filosóficos de
modo significativo” quanto a 1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas
e registros”, três exigiram também a habilidade 2) “Articular conhecimentos filosóficos e
diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em
outras produções culturais” e a habilidade 3) “Contextualizar conhecimentos filosóficos,
tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o
entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica”.
Como expresso acima, o fato de utilizarem dois textos-base permitiu a esses itens atender
de forma coesa a todas essas quatro tarefas. Infelizmente, esses três itens ocorreram nas
provas de 1999 e 2000, não tendo ocorrido itens desse tipo desde então.
Como casos atípicos em relação às tarefas descritas segundo os PCN, temos dois
itens com propostas bastante interessantes, ambos pertencentes à prova de 2001: 2001.31
e 2001.57. O primeiro solicita que o respondente, tendo lido um texto de Hobbes e um
de dicionário de filosofia sobre guerra e paz, encontre a alternativa em que se defende a
invasão da Otan ao Iraque e à Síria na década de 1990. O item, dessa forma, trabalha com as
habilidades: 1a) “Ler textos filosóficos de modo significativo”, 1b) “Ler, de modo filosófico,
textos de diferentes estruturas e registros” e 2) “Articular conhecimentos filosóficos e
diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em
outras produções culturais”.

FILOSOFIA NO ENEM
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ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Tabela 3 Itens de Filosofia conforme as Habilidades dos
PCN (1999) – 1999-2011

 Item 1a 1b 2 3
1999.10 x x x x
1999.31 x x x x
2000.04 x x x x
2000.52 x x
2000.53 x x
2001.18 x x
2001.30 x x
2001.31 x x x
2001.57 x x x
2003.48 x x
2009a.82 x x
2009b.58 x
2010a.27 x x
2010a.28 x x
2010a.34 x x
2010a.38 x
2010a.42 x x
2010a.44 x x
2010b.27 x x
2010b.34 x x
2010b.45 x x
2011.02 x x
Fonte: Elaboração própria

O segundo item (2001.57) pede ao respondente que leia um texto de Shakespeare


e assinale a teoria científica descrita nele, no caso, a teoria heliocêntrica de Copérnico.
Trabalha, assim, com as habilidades: 1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estru-
turas e registros”, 2) “Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais”
e 3) “Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica,
quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural;
o horizonte da sociedade científico-tecnológica”.

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PCN+ (2002)

Os PCN+ acrescentam aos PCN algumas sugestões de conteúdo, que se dividem em


três eixos temáticos: I) Relações de poder e democracia; II) A construção do sujeito moral;
e III) O que é filosofia (ver Anexo III).
Dos 13 itens de filosofia elaborados após a publicação dos PCN+, 10 se encaixam no
eixo II, “A construção do sujeito moral”, sendo dois no tema 11 e oito no tema 32, que, so-
zinho, teve mais que o dobro de itens que a soma de itens dos outros dois eixos temáticos.
Em segundo lugar veio o eixo I, “Relações de poder e democracia”, com dois itens no tema
33 e um no tema 14. O eixo III, “O que é filosofia?”, não teve item algum.

Gráfico 7 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Eixos Temáticos e Temas dos PCN+ (2002)
– 2002-2011
Fonte: Elaboração própria

Analisando os itens das provas anteriores à publicação dos PCN+, vemos que nesse
primeiro bloco o eixo I não teve ocorrência, ao passo que o eixo III, que não teve ocorrência
nas provas posteriores à publicação, teve apenas um item a menos do que o eixo II:

1
Eixo II, Tema 1: “Autonomia e Liberdade”
2
Eixo II, Tema 3: “Ética e Política”
3
Eixo I, Tema 3: “O Avesso da Democracia”
4
Eixo I, Tema 1: “A Democracia Grega”

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 19
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Gráfico 8 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Eixos Temáticos e Temas dos PCN+ (2002)
– 1998-2001
Fonte: Elaboração própria

O gráfico item a item deixa bem clara essa mudança de foco temático:

Gráfico 9 Distribuição de Eixos Temáticos dos PCN+ (2002) entre os Itens de Filosofia
– 1999-2011
Fonte: Elaboração própria

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Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
O gráfico anterior mostra que até 2001 os temas dos itens de filosofia das provas do
Enem oscilavam entre os eixos II e III, conforme a classificação dos PCN+. Após a publicação
dos PCN+ em 2002, a alternância com o eixo II se manteve; os itens do eixo III, porém,
deram lugar a itens do eixo I. O panorama geral da ocorrência dos temas relacionados aos
eixos temáticos dos PCN+ ao longo dos 14 anos do Enem fica da seguinte maneira:

Gráfico 10 Quantidade de Itens de Filosofia segundo Eixos Temáticos e Temas dos


PCN+ (2002) – 1998-2011
Fonte: Elaboração própria

Ocem (2008)

Dos documentos oficiais analisados neste estudo, as Orientações Curriculares para


o Ensino Médio (Ocem) são menos representadas nas provas de filosofia do Enem. Isso se
deve em parte ao fato de as Ocem serem recentes, porém, em grande parte ao fato de o
exame, com seu foco em ética e cidadania, se alinhar mais aos PCN e PCN+ do que às Ocem.
Dos 12 itens de filosofia presentes na prova do Enem após a publicação das Ocem
em 2008, 7 se enquadram no conteúdo 22) “Éticas do dever; fundamentações da moral;
autonomia do sujeito”. Somente outros cinco conteúdos das Ocem foram abordados,
com um item cada: 18) “Vontade divina e liberdade humana”; 28) “Marxismo e Escola de
Frankfurt”; 30) “Filosofia francesa contemporânea; Foucault; Deleuze”. Um item, por seu
foco em despotismo e democracia (2010a.42), não encontra espaço nas Ocem.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 21
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Gráfico 11 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) – 2009-2011
Fonte: Elaboração própria

Seria possível supor que o motivo dessa discrepância é que as Ocem são recentes, mas,
na análise cronológica da ocorrência dos seus conteúdos nas provas do Enem, observa-se que
os itens anteriores a sua publicação distribuem-se mais regularmente por seus conteúdos do
que os itens posteriores: são dez itens distribuídos em quatro conteúdos, dos quais apenas
dois se enquadram no tema 22, tão predominante nos anos mais recentes:

Gráfico 12 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) – 1998-2008
Fonte: Elaboração própria

22 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Isso ocorre porque, como veremos, com a publicação da nova Matriz de Referência
do Enem em 2009, o foco em ética e cidadania ficou mais evidente do que na matriz
­anterior, em especial nas habilidades das competências 3 e 5.
Combinando os dois gráficos anteriores para que se tenha um panorama da ocor-
rência dos temas relacionados aos conteúdos das Ocem ao longo de 14 anos do Enem,
obtemos o seguinte gráfico:

Gráfico 13 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) – 1998-2011
Fonte: Elaboração própria

São 22 itens divididos em 8 conteúdos: 9 itens no conteúdo 22; 4 itens no conteúdo


20; e 3 itens no conteúdo 1. Um item não se enquadrou em nenhum conteúdo das Ocem e
22 de seus conteúdos não foram contemplados nas provas de filosofia do Enem no período
em análise.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 23
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Gráfico 14 Quantidade de Itens de Filosofia por Conteúdos das Ocem (2008) – Todos os
Conteúdos – 1998-2011
Fonte: Elaboração própria

Segunda Matriz de Referência (2009)

Com a publicação da nova Matriz de Referência em 2009, a prova do Enem passou a


contar com 180 itens em vez de 63. A prova de ciências humanas, no novo modelo, passou
a ter 45 itens, divididos em 6 competências e 30 habilidades.

24 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Competências

Os itens de filosofia na prova do Enem desde a publicação da nova matriz são os


mesmos doze posteriores à publicação das Ocem em 2008 (já que não houve itens de fi-
losofia na prova de 2008). Quanto às competências da nova matriz, elas se distribuem da
seguinte maneira:

Gráfico 15 Quantidade de Itens de Filosofia por Competências da Segunda Matriz de


Referência do Enem (2009) – 2009-2011
Fonte: Elaboração própria

Em termos de competências, as habilidades que atendem à disciplina de filosofia


se distribuem entre C1 (“Compreender os elementos culturais que constituem as identi-
dades”), C3 (“Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas
e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais”) e C5
(“Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da
cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na socie-
dade”). Tendem a extrapolar o escopo da disciplina as competências C2 (“Compreender
as transformações dos espaços geográficos como produto das relações socioeconômicas
e culturais de poder”), C4 (“Entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu im-
pacto nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social”)
e C6 (“Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço
em diferentes contextos históricos e geográficos”).

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 25
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Observamos no gráfico anterior uma clara predominância da C5 entre 2009 e 2011,
com 7 de 12 itens, seguida da C3, com 3 itens, e da C1, com 2 itens apenas. A C5, que exige
“Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da
cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na socie-
dade”, é uma competência mais alinhada aos PCN de 1999 e aos PCN+ de 2002 do que às
Ocem de 2008.
Isso fica particularmente evidente se tentarmos ver como os itens do primeiro grupo
(1998-2008) se comportariam em termos da nova matriz. Por questão de uniformidade,
portanto, a cada item desenvolvido na matriz antiga, este estudo atribuiu uma habilidade
e competência da matriz atual. Tais escolhas são notadas e justificadas caso a caso na se-
gunda parte deste trabalho, que traz uma análise individual de cada item.

Gráfico 16 Quantidade de Itens de Filosofia por Competências Transpostas da Segunda Matriz


de Referência do Enem (2009) – 1999-2008
Fonte: Elaboração própria

O gráfico 16 elucida que entre os itens do primeiro grupo há correspondência apenas


com as competências C1 e C3 da nova matriz, distintamente dos itens do segundo grupo,
em que predomina a C5, que contempla as questões de democracia e cidadania. Somando
a ocorrência das competências ao longo de 14 anos do Enem, vemos uma distribuição
equilibrada dos itens nessas três competências (sete ou oito itens em cada), conforme o
seguinte gráfico:

26 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Gráfico 17 Quantidade de Itens de Filosofia por Competências da Segunda Matriz de
Referência do Enem (2009) – 1999-2011
Fonte: Elaboração própria

Observando item a item, a diferença temática entre os dois blocos fica particular-
mente clara:

Gráfico 18 Distribuição de Competências Transpostas da Segunda Matriz de Referência do


Enem (2009) por Item de Filosofia – 1999-2011
Fonte: Elaboração própria

Por mais que tal exercício de transposição seja anacrônico, já que as propostas dos
itens do primeiro grupo se norteiam por uma matriz própria, ele permite, primeiramente,
evidenciar a mudança de foco na segunda matriz acompanhando a ênfase dos PCN e PCN+
em cidadania e transdisciplinaridade. Em segundo lugar, analisar os itens da primeira fase

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 27
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
do Enem em termos da matriz atual é uma maneira de auxiliar os elaboradores de itens de
filosofia a vislumbrar modelos de itens que atendam a outras competências e habilidades.

Habilidades

Detalhando a distribuição de conteúdos em termos de habilidades, vemos que os 12


itens de filosofia que seguem a matriz atual distribuem-se da seguinte maneira:

Gráfico 19 Quantidade de Itens de Filosofia por Habilidades e Competências da


Segunda Matriz de Referência do Enem (2009) – 2009-2011
Fonte: Elaboração própria

Temos em primeiro lugar, com cinco itens, a H23, “Analisar a importância dos valores
éticos na estruturação política das sociedades”. Em segundo lugar vem a H12, “Analisar o
papel da justiça como instituição na organização das sociedades”, e a H24, “Relacionar cida-
dania e democracia na organização das sociedades”, com dois itens cada. Aqui fica claro o
foco em ética e política que marca os itens de filosofia do Enem, especialmente nos últimos
anos. Em terceiro lugar, vem a H15, a H36 e a H147, com um item cada.

5
H1: Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura.
6
H3: Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos históricos.
7
H14: Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de
natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

28 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Mais uma vez, para deixar mais clara a diferença de conteúdos entre os dois períodos
do Enem e indicar modelos de como algumas habilidades da matriz atual podem ser tra-
balhadas pela área de filosofia, vale o exercício de analisar os itens da matriz anterior em
termos das habilidades da matriz atual. Tal transposição gera o gráfico seguinte:

Gráfico 20 Quantidade de Itens de Filosofia por Habilidades e Competências Transpostas da


Segunda Matriz de Referência do Enem (2009) – 1999-2008
Fonte: Elaboração própria

Combinando os dois gráficos acima para que se tenha um panorama temático ao


longo de 14 anos do Enem, tendo como referência as habilidades e competências da matriz
atual, obtemos o seguinte gráfico:

Gráfico 21 Quantidade de Itens de Filosofia segundo as Competências da Segunda Matriz de


Referência do Enem (2009) – 1999-2011
Fonte: Elaboração própria

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 29
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Na seção que se segue, é oferecida uma análise individualizada de cada um dos 22
itens de filosofia da prova do Enem entre 1998 e 2011, justificando, quando for o caso,
cada uma das classificações e transposições, assim como os principais aspectos positivos e
negativos do item.

30 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2 Análise dos
Itens de Filosofia
(1998-2003)

A análise dos dez itens de filosofia da primeira fase do Enem seguirá o seguinte
formato: logo após a apresentação do item, serão dadas informações como as seguintes:

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
% % % % %

Em destaque, o gabarito do item.


Esse primeiro bloco de informações é retirado do relatório pedagógico do respectivo
ano. Entre os anos de 1999 e 2003, vemos uma queda na porcentagem de acertos, isto é,
os itens de filosofia foram ficando cada vez mais difíceis:

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 31
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Gráfico 22 Percentual de Acertos nos Itens de Filosofia – 1999-2003
Fonte: Elaboração própria

Como os relatórios pedagógicos da segunda fase do Enem (a partir de 2009) não


tinham sido publicados à época de conclusão deste estudo, não fornecemos esse tipo de
informação em relação aos itens mais recentes.
Após a tabela com o percentual de respostas de cada alternativa, seguirá um quadro
como o seguinte:

Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza


histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano,
h1998 19
comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de
cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.
1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.
3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem
1a
PCN1999 específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno
3
sócio-político, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-
-tecnológica
PCN+2002 III.2? O que é filosofia? Filosofia e ciência
1) Filosofia e conhecimento; filosofia e ciência; definição de filosofia;
Ocem 2008 1, 29? 29) Epistemologias contemporâneas; filosofia da ciência; o problema da
demarcação entre ciência e metafísica;
C2009 C1? Compreender os elementos culturais que constituem as identidades
Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais
H2009 H1?
acerca de aspectos da cultura.
+ Tema: filosofia da ciência
Texto-base: citação dentro de citação
- Enunciado: “pode-se afirmar que”
Extensão das alternativas

32 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
O objetivo do quadro é oferecer um sumário para rápida referência. Nele encontram-se,
em primeiro lugar, a habilidade e a competência do item, conforme publicado no rela-
tório pedagógico. Em seguida, vem sua classificação quanto aos PCN. Esta e as informações
que se seguem são mais subjetivas, tendo sido atribuídas por este estudo e justificadas
caso a caso após o quadro. Em destaque, está a parte “anacrônica” da análise, ou seja,
como o item se posicionaria em relação a documentos que lhes são posteriores. O objetivo
desse exercício, como indicado anteriormente, é duplo: 1) indicar como os diferentes do-
cumentos acomodam diferentes tipos de itens; 2) oferecer aos elaboradores de itens mo-
delos de como outros temas e aspectos dos documentos podem ser abordados. O ponto
de interrogação que segue a classificação da parte anacrônica do quadro visa a indicar o
caráter subjetivo da classificação: é uma sugestão que este trabalho oferece de como ver o
item, e não um objetivo oficial do elaborador original.
Para cada item, houve o esforço de destacar pelo menos um aspecto positivo e um
negativo. Essa lista não visa a ser um rol completo de acertos e defeitos: o objetivo é ofe-
recer ao elaborador um ou dois exemplos claros de pontos que devem ser replicados e
pontos que devem ser evitados.
Após cada quadro, apresenta-se uma breve análise do item em questão, elucidando
em maior profundidade o que o quadro apresenta resumidamente.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 33
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
1999
Prova Amarela – Item 10

Considere os textos abaixo.

(...) de modo particular, quero encorajar os crentes empenhados no campo da filosofia para que
iluminem os diversos âmbitos da atividade humana, graças ao exercício de uma razão que se torna
mais segura e perspicaz com o apoio que recebe da fé.
(Papa João Paulo II. Carta Encíclica Fides et Ratio aos bispos da igreja católica
sobre as relações entre fé e razão, 1998)

As verdades da razão natural não contradizem as verdades da fé cristã.


(São Tomás de Aquino-pensador medieval)

Refletindo sobre os textos, pode-se concluir que

(A) a encíclica papal está em contradição com o pensamento de São Tomás de Aquino,
refletindo a diferença de épocas.
(B) a encíclica papal procura complementar São Tomás de Aquino, pois este colocava a
razão natural acima da fé.
(C) a Igreja medieval valorizava a razão mais do que a encíclica de João Paulo II.
(D) o pensamento teológico teve sua importância na Idade Média, mas, em nossos dias,
não tem relação com o pensamento filosófico.
(E) tanto a encíclica papal como a frase de São Tomás de Aquino procuram conciliar os
pensamentos sobre fé e razão.

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
7 9 5 6 72

34 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos,
h1998 18 identificando-a em suas manifestações e representações em diferentes
sociedades, épocas e lugares.

II. Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento


para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-
II geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas.
c1998
III III. Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações
representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar
situações-problema.

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.


1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.

1a 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos


1b discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
PCN1999 produções culturais.
2
3 3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua
origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o
entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade
científico-tecnológica.
PCN+2002 III.1? O que é filosofia? Filosofia, mito e senso comum.

Ocem 2008 14? Teoria do conhecimento e do juízo em Tomás de Aquino.

C2009 C1? Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre


H2009 H4?
determinado aspecto da cultura.
Texto-base: comparar um texto contemporâneo com um texto clássico.
+
Tema: filosofia da ciência, filosofia da religião, fé e razão.
- Enunciado: “pode-se concluir que”.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 35
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (1999.10)

Este é um item típico da primeira fase do Enem (1999-2003), com algumas ­excelentes
características que infelizmente deixaram de ocorrer nos anos mais recentes. A primeira
delas é o tema “fé e razão”, uma questão clássica da filosofia, que, como parte da filosofia
do conhecimento como um todo, tem pouco espaço tanto na matriz antiga quanto na atual.
Na matriz antiga, é enquadrada na h18, que consiste em “Valorizar a diversidade dos patri-
mônios etnoculturais e artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações
em diferentes sociedades, épocas e lugares”. É difícil ver exatamente como essa habilidade
se aplica à questão, a menos que se considere a relação entre fé e razão um patrimônio
etnocultural expresso em épocas diferentes em cada um dos textos.
O relatório pedagógico de 1999 aponta ainda que este item aborda as competências
II e III. A CII consiste em “Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento
para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da pro-
dução tecnológica e das manifestações artísticas”. Mais uma vez, é preciso considerar o
debate sobre fé e razão como um processo histórico-geográfico ou uma manifestação ar-
tística para enquadrar o item nessa competência, o que não faz de todo jus à importância
filosófica deste tema.
A CIII, “Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações represen-
tados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema”, por sua
vez, remete ao segundo mérito do item, que é o exercício de articular dados em textos e
contextos diferentes. De fato, a presença de dois textos clássicos no texto-base permite ao
item atender não só à CIII, mas também a quatro habilidades dos PCN de 1999:

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo – o texto de Tomás de Aquino


1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros: o texto de
João Paulo II.

36 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos ­discursivos
nas ciências naturais e humanas, nas artes e em ­outras produções culturais – a
relação entre fé e razão nos dois textos.
3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem espe-
cífica, quanto em outros planos – o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico,
histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica: a maneira
que a exortação do Papa João Paulo II, no final do século XX, retoma uma questão
filosófica central também na Idade Média, como mostra o texto de Tomás de
Aquino.

Usando esta questão para avaliar os documentos curriculares que vieram depois,
vemos que, por retomar uma questão canônica da história da filosofia, ela tem o perfil de
item das Ocem, enquadrando-se perfeitamente no conteúdo 14, “Teoria do conhecimento
e do juízo em Tomás de Aquino”. Por outro lado, nem os PCN+, de 2002, nem a matriz
de 2009 dão muita margem para o conteúdo da questão. Nos PCN+, o eixo mais próximo
seria o terceiro “O que é filosofia”, de cujos temas o mais próximo talvez seja o primeiro,
“Filosofia, mito e senso comum”, embora este seja um título extremamente problemático
para uma questão central tanto da filosofia do conhecimento quanto da filosofia da religião.
Este também é um ponto cego na nova Matriz de Referência. A habilidade mais pró-
xima para contemplar esse tipo de item seria a H4, “Comparar pontos de vista expressos
em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura”, inclusa na C1, “Compreender
os elementos culturais que constituem as identidades”. Mais uma vez, classificar o debate
entre fé e razão como elemento da cultura simplesmente deixa muito a desejar não só em
relação ao debate em si, mas também quanto ao campo da filosofia do conhecimento e da
filosofia da religião como um todo.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 37
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
1999
Prova Amarela – Item 31

(...) Depois de longas investigações, convenci-me por fim de que o Sol é uma estrela fixa rodeada de
planetas que giram em volta dela e de que ela é o centro e a chama. Que, além dos planetas princi-
pais, há outros de segunda ordem que circulam primeiro como satélites em redor dos planetas prin-
cipais e com estes em redor do Sol. (...) Não duvido de que os matemáticos sejam da minha opinião,
se quiserem dar-se ao trabalho de tomar conhecimento, não superficialmente mas duma maneira
aprofundada, das demonstrações que darei nesta obra. Se alguns homens ligeiros e ignorantes qui-
serem cometer contra mim o abuso de invocar alguns passos da Escritura (sagrada), a que torçam
o sentido, desprezarei os seus ataques: as verdades matemáticas não devem ser julgadas senão por
matemáticos.
(COPÉRNICO, N. De Revolutionibus orbium caelestium.)

Aqueles que se entregam à prática sem ciência são como o navegador que embarca em um navio
sem leme nem bússola. Sempre a prática deve fundamentar-se em boa teoria. Antes de fazer de um
caso uma regra geral, experimente-o duas ou três vezes e verifique se as experiências produzem os
mesmos efeitos. Nenhuma investigação humana pode se considerar verdadeira ciência se não passa
por demonstrações matemáticas.
(VINCI, Leonardo da. Carnets.)

O aspecto a ser ressaltado em ambos os textos para exemplificar o racionalismo


moderno é

(A) a fé como guia das descobertas.


(B) o senso crítico para se chegar a Deus.
(C) a limitação da ciência pelos princípios bíblicos.
(D) a importância da experiência e da observação.
(E) o princípio da autoridade e da tradição.

38 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
3 3 12 80 2

Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza


histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano,
h1998 19
comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de
cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.

III. Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações


representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar
III situações-problema.
c1998
IV IV. Relacionar informações, representadas em diferentes formas, e
conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir
argumentação consistente.
1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.
1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.
2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
1a
discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras
1b
PCN1999 produções culturais.
2
3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem
3
específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno
sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-
tecnológica.

PCN+2002 III.2? O que é filosofia? Filosofia e ciência.

1) Filosofia e conhecimento; filosofia e ciência; definição de filosofia.


1
Ocem 2008 29) Epistemologias contemporâneas; filosofia da ciência; o problema da
29?
demarcação entre ciência e metafísica.
C2009 C1? Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.
Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre
H2009 H4?
determinado aspecto da cultura.
Texto-base: textos clássicos.
+
Tema: filosofia da ciência.
- Extensão do texto-base.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 39
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (1999.31)

Este item proporciona ótimo contraste com o item anterior, sendo também um
clássico da filosofia da ciência, com repercussões relevantes na filosofia da religião.
Como o item anterior, ele reflete um ponto cego tanto da matriz antiga quanto da nova,
no que diz respeito às questões de filosofia do conhecimento. Ele foi elaborado segundo a matriz
antiga conforme a h19, que prevê como tarefa “Confrontar interpretações diversas de situações
ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano,
comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação
e analisando a validade dos argumentos utilizados”. Temos, com efeito, neste item, um fato
que tem natureza não só técnico-científica, mas também profundamente filosófica, que tanto a
matriz antiga quanto a nova são incapazes de refletir. Na matriz atual, o único espaço para ele –
assim como para o item anterior – seria a H4, que solicita “Comparar pontos de vista expressos
em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura”. Mais uma vez, reduzir o contexto
da revolução científica a um “aspecto da cultura” não capta a importância do tema.
O relatório pedagógico de 1999 aponta que este item corresponde às competências
III e IV. A CIII consiste em “Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações
representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema”.
Como este item contém dois textos clássicos da história do pensamento ocidental, é bastante
propício para exercitar essa competência, assim como a CIV, “Relacionar informações,
representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas,
para construir argumentação consistente”.

40 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
A presença de dois textos clássicos confere ainda ao item a possibilidade de trabalhar
quatro habilidades dos PCN de 1999. Uma vez que ambos os textos são simultaneamente
filosóficos e científicos, o item exercita tanto a habilidade 1a) “Ler textos filosóficos
de modo significativo” quanto a 1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes
estruturas e registros”. Pelo mesmo motivo, por serem textos de articulação entre
áreas de conhecimento, o item exige do respondente também a habilidade 2) “Articular
conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências
naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais” e a 3) “Contextualizar
conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros
planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da
sociedade científico-tecnológica”.
Já, ao avaliar os documentos curriculares posteriores a essa prova com base neste
item, nota-se que, ao contrário do item anterior, o tema aqui tratado tem um espaço mais
apropriado nos PCN+ e menos apropriado nas Ocem. Nos PCN+, ele se enquadraria no
segundo eixo, “O que é filosofia?”, no segundo sub-eixo, “Filosofia e ciência”, ao passo que
nas Ocem, se não fosse o elemento “contemporâneo”, o conteúdo 29 seria adequado, ao
abordar “Filosofia da ciência; o problema da demarcação entre ciência e metafísica”, mas,
como as Ocem incluem esse conteúdo no contexto de epistemologias contemporâneas, a
outra opção seria 1) “Filosofia e conhecimento; filosofia e ciência; definição de filosofia”,
que é um tanto quanto amplo.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 41
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2000
Prova Amarela – Item 4

“Somos servos da lei para podermos ser livres.”


Cícero

“O que apraz ao príncipe tem força de lei.”


Ulpiano

As frases acima são de dois cidadãos da Roma Clássica que viveram praticamente no
mesmo século, quando ocorreu a transição da República (Cícero) para o Império (Ulpiano).

Tendo como base as sentenças acima, considere as afirmações:

I A diferença nos significados da lei é apenas aparente, uma vez que os romanos não
levavam em consideração as normas jurídicas.
II Tanto na República como no Império, a lei era o resultado de discussões entre os re-
presentantes escolhidos pelo povo romano.
III A lei republicana definia que os direitos de um cidadão acabavam quando começavam
os direitos de outro cidadão.
IV Existia, na época imperial, um poder acima da legislação romana.

Estão corretas, apenas:

(A) I e II.
(B) I e III.
(C) II e III.
(D) II e IV.
(E) III e IV.

42 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
7 8 21 23 41

Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza


histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano,
h1998 19 comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos
de cada interpretação e analisando a validade dos argumentos
utilizados.
1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.
1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.

1a 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos


1b discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
PCN1999 produções culturais.
2
3 3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua
origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o
entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade
científico-tecnológica.
PCN+2002 II.1? Autonomia e liberdade.
Ocem 2008 22? Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.
Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,
C2009 C3? políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.

Analisar o papel da justiça como instituição na organização das


H2009 H12?
sociedades.
+ Texto-base: clássicos.
Formato “V ou F”.
-
Erro factual.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 43
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2000.04)

Apesar de também utilizar dois textos que poderiam ser considerados clássicos, este
item é inferior aos anteriores em muitos aspectos.
Primeiro, no aspecto factual: Cícero (106 a.C - 43 a.C) morreu mais de duzentos
anos antes do nascimento de Ulpiano (170 d.C - 228 d.C). Desse modo, é incorreto afirmar
que “viveram praticamente no mesmo século”. Tal afirmação, embora irrelevante, talvez
tentasse dar ênfase à diferença no teor das afirmações, justapondo-as como se fossem
cronologicamente mais próximas do que na verdade são, não atentando que na época de
Ulpiano o Império Romano – com seus quase duzentos anos – já estava bem estabelecido.
No aspecto formal, vemos a primeira de muitas questões de filosofia no formato
“verdadeiro ou falso”. As alternativas são confusas, o que explica em parte o baixo índice de
acerto da questão. A alternativa I carece de plausibilidade, e, pelo baixo índice de marcação
das alternativas A e B, podemos deduzir que ela foi facilmente eliminada.
Quanto ao conteúdo, vemos um tema que será bastante abordado em anos
mais recentes: o fundamento das leis. Na matriz antiga ele atendia à h19, “Confrontar
interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-
científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando diferentes pontos de vista,
identificando os pressupostos de cada interpretação e analisando a validade dos argumentos
utilizados”. Mais uma vez, é impreciso classificar o tema da fundamentação legal como fato
de natureza “artístico-cultural” ou “do cotidiano”, mas, dado o pouco espaço para questões

44 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
especificamente filosóficas na matriz antiga, a h19 realmente é a que mais dá margem para
esse tipo de questão. O relatório pedagógico de 2000 não indica a(s) competência(s) dos
itens desta prova, mas, por exercitar a h19, podemos inferir que este item, como o anterior,
trabalha as competências III e IV.
Como os itens anteriores, os dois textos permitem trabalhar quatro habilidades
dos PCN: 1a) “Ler textos filosóficos de modo significativo”, 1b) “Ler, de modo filosófico,
textos de diferentes estruturas e registros” e, por serem textos de articulação entre áreas
de conhecimento, o item exige do respondente também as habilidades 2) “Articular
conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais
e humanas, nas artes e em outras produções culturais” e 3) “Contextualizar conhecimentos
filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-
biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade
científico-tecnológica”.
Comparando o tema deste item com os documentos curriculares que vieram depois,
vemos que os PCN+ abrem espaço para esta questão no segundo eixo “Construção do
sujeito moral”, dentro do tema “Autonomia e liberdade”. Nas Ocem ele entraria no âmbito
do conteúdo 22) “Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito”; já
a matriz atual aborda esse tema na H12, “Analisar o papel da justiça como instituição na
organização das sociedades”, uma habilidade que tem sido de fato bastante recorrente em
anos recentes.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 45
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2000
Prova Amarela – Itens 52 e 53

O texto abaixo, de John Locke (1632-1704), revela algumas características de uma


determinada corrente de pensamento.

“Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua
própria pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade,
por que abandonará o seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder?

Ao que é óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a utilização do mesmo
é muito incerta e está constantemente exposto à invasão de terceiros porque, sendo todos senhores
tanto quanto ele, todo homem igual a ele e, na maior parte, pouco observadores da equidade e da
justiça, o proveito da propriedade que possui nesse estado é muito inseguro e muito arriscado. Estas
circunstâncias obrigam-no a abandonar uma condição que, embora livre, está cheia de temores e
perigos constantes; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com ou-
tros que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e
dos bens a que chamo de propriedade.”
(Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991)

Item 52

Do ponto de vista político, podemos considerar o texto como uma tentativa de


justificar:

(A) a existência do governo como um poder oriundo da natureza.


(B) a origem do governo como uma propriedade do rei.
(C) o absolutismo monárquico como uma imposição da natureza humana.
(D) a origem do governo como uma proteção à vida, aos bens e aos direitos.
(E) o poder dos governantes, colocando a liberdade individual acima da propriedade.

46 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
8 6 19 45 21

Dado um conjunto de informações sobre uma realidade histórico-


geográfica, contextualizar e ordenar os eventos registrados,
h1998 21
compreendendo a importância dos fatores sociais, econômicos,
políticos ou culturais.

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.


1a 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
PCN1999
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.

PCN+2002 II.1? Autonomia e liberdade.

Ocem 2008 20? O contratualismo.

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,


C2009 C3? políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos
e movimentos sociais.
Analisar o papel da justiça como instituição na organização das
H2009 H12?
sociedades.

+ Texto-base: clássico.

- Distratores C e E: ambíguos.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 47
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2000.52)

Este item trabalha a antiga h21: “Dado um conjunto de informações sobre


uma realidade histórico-geográfica, contextualizar e ordenar os eventos registrados,
compreendendo a importância dos fatores sociais, econômicos, políticos ou culturais”.
Difícil identificar qual a realidade histórico-geográfica em questão, já que a saída do estado
natural para a vida em sociedade e o estabelecimento de governos, foco do contratualismo,
não se baseiam em fatos históricos, mas em justificativas teóricas.
A temática é a mesma do item anterior, a fundamentação do sistema legal, inserindo
o item no eixo II, tema 1, dos PCN+, que trata de autonomia e liberdade, porém, desta
vez, essa temática é abordada no âmbito do contratualismo, que se tornará recorrente nas
edições mais recentes do Enem. O item trabalha a H12 da matriz atual “Analisar o papel da
justiça como instituição na organização das sociedades”. É um tópico canônico com lugar
bem definido também nas Ocem, já que o conteúdo 20 é dedicado ao contratualismo.
Por utilizar um texto só, de um filósofo, este item trabalha somente duas habilidades
dos PCN, quais sejam: 1a) “Ler textos filosóficos de modo significativo” e 2) “Articular
conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais
e humanas, nas artes e em outras produções culturais”.
A extensão do texto-base talvez seja responsável em parte pelo baixo percentual de
acerto deste item e do próximo, que utiliza o mesmo texto-base. O enunciado tem uma
proposta clara, porém, uma contextualização maior poderia direcionar melhor o aluno. As
alternativas A e B são mais curtas e mais facilmente elimináveis. Os distratores C e E são
mais ambíguos, e tiveram alta atratividade.

48 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Item 53

Analisando o texto, podemos concluir que se trata de um pensamento:

(A) do liberalismo.
(B) do socialismo utópico.
(C) do absolutismo monárquico.
(D) do socialismo científico.
(E) do anarquismo

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
39 19 25 11 6

Comparar processos de formação socioeconômica, relacionando-os


h1998 20
com seu contexto histórico e geográfico.
1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.

1a 3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem


PCN1999 específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno
3
sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-
tecnológica.
PCN+2002 II.1? Autonomia e liberdade.

Ocem 2008 20? O contratualismo.

C2009 C1? Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.


Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais
H2009 H1?
acerca de aspectos da cultura.
+ Texto-base: clássico.
- Alternativas curtas.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 49
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2000.53)

Este item, que utiliza o mesmo texto-base do anterior, trabalha também os mesmos
conteúdos, enquadrando-se no tema II.1 dos PCN+, “Autonomia e liberdade”, e no con-
teúdo 20 das Ocem, “O contratualismo”. Ele prevê, porém, um exercício diferente, que é,
fundamentalmente, o de contextualizar o liberalismo. Esta tarefa provou-se mais difícil do
que a proposta pelo item anterior, de modo que o percentual de acertos foi de apenas 39%.
O enunciado é claro e conciso, assim como as alternativas. O texto-base é um clás-
sico da história da filosofia. O baixo nível de acerto deste item é indicativo, talvez, não de
problema estrutural do item, mas de trabalho insatisfatório do conteúdo nas escolas.
Na matriz antiga, ele aborda a h20, “Comparar processos de formação socioeconô-
mica, relacionando-os com seu contexto histórico e geográfico”, no caso, o contexto do li-
beralismo e sua relação com o absolutismo monárquico, comparação que os respondentes
tiveram dificuldade de traçar. Nos PCN, além da tarefa de 1a) “Ler textos filosóficos de
modo significativo”(o texto de Locke), o item também trabalha a tarefa 3) “Contextualizar
conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros
planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da
sociedade científico-tecnológica”.
Na matriz atual, o item se enquadraria na H1, “Interpretar historicamente e/ou geo-
graficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura”, em se considerando a
origem do pensamento liberal como aspecto cultural abordado no item.

50 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2001
Prova Amarela – Item 18

O franciscano Roger Bacon foi condenado, entre 1277 e 1279, por dirigir ataques aos
teólogos, por uma suposta crença na alquimia, na astrologia e no método experimental, e
também por introduzir, no ensino, as ideias de Aristóteles. Em 1260, Roger Bacon escreveu:

“Pode ser que se fabriquem máquinas graças às quais os maiores navios, dirigidos por um único
homem, se desloquem mais depressa do que se fossem cheios de remadores; que se construam
carros que avancem a uma velocidade incrível sem a ajuda de animais; que se fabriquem máquinas
voadoras nas quais um homem (...) bata o ar com asas como um pássaro.(...) Máquinas que per-
mitam ir ao fundo dos mares e dos rios”
(apud. BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII,
São Paulo: Martins Fontes, 1996, vol. 3.).

Considerando a dinâmica do processo histórico, pode-se afirmar que as ideias de


Roger Bacon

A) inseriam-se plenamente no espírito da Idade Média ao privilegiarem a crença em Deus


como o principal meio para antecipar as descobertas da humanidade.

B) estavam em atraso com relação ao seu tempo ao desconsiderarem os instrumentos


intelectuais oferecidos pela Igreja para o avanço científico da humanidade.

C) opunham-se ao desencadeamento da Primeira Revolução Industrial, ao rejeitarem a


aplicação da matemática e do método experimental nas invenções industriais.

D) eram fundamentalmente voltadas para o passado, pois não apenas seguiam Aristóteles,
como também baseavam-se na tradição e na teologia.
E) inseriam-se num movimento que convergiria mais tarde para o Renascimento, ao
contemplarem a possibilidade de o ser humano controlar a natureza por meio das
invenções.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 51
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
8 6 12 13 60

Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos,


h1998 18 identificando-a em suas manifestações e representações em diferentes
sociedades, épocas e lugares.

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.

1a 3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua


PCN1999 origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o
3
entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade
científico-tecnológica.

PCN+2002 III.2? O que é Filosofia? Filosofia e ciência.

1) Filosofia e conhecimento; Filosofia e ciência; definição de Filosofia.


1
Ocem 2008 29) Epistemologias contemporâneas; Filosofia da ciência; o problema
29?
da demarcação entre ciência e metafísica.

C2009 C1? Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais


H2009 H1?
acerca de aspectos da cultura.

+ Tema: filosofia da ciência.

Texto-base: citação dentro de citação.


- Enunciado: “pode-se afirmar que”.
Extensão das alternativas.

52 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2001.18)

Este item retoma em parte o padrão dos itens de filosofia da prova de 1999, ao utilizar
um texto canônico para abordar questões de filosofia do conhecimento, apesar de o texto-
base trazer uma fonte original dentro de uma segunda fonte, o que não é recomendável. O
enunciado, baseado na fórmula “pode-se afirmar”, acaba por propor um exercício de “V ou
F”, em que cada item exige uma tarefa diferente, mas cuja resposta pode ser encontrada
mediante a interpretação do texto. A implausibilidade dos distratores, todos claramente
negados no texto, explica o alto índice de acertos (60%).
Trabalha a antiga h18, “Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e
artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações em diferentes sociedades,
épocas e lugares”. O aspecto a ser interpretado neste caso é a evolução da visão científica,
apesar de a interpretação, mais uma vez, ser mais filosófica do que histórica ou geográfica.
Quanto aos PCN, exige as seguintes tarefas: 1a) “Ler textos filosóficos de modo
significativo” – neste caso, o texto de Bacon; e 3) “Contextualizar conhecimentos filosóficos,
tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o
entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica” –
no item, as ideias de Bacon como precursor da revolução técnico-científica.
Em relação aos PCN+, poderia juntar-se ao terceiro eixo, “O que é filosofia?”,
tema “Filosofia e ciência”. Quanto às Ocem, visto que se identifica com filosofia da
ciência, seria mais um item que se enquadraria no tema 29 se não fosse a especificação
“Epistemologias contemporâneas”. Por não ter enfoque contemporâneo, o conteúdo
1) “Filosofia e conhecimento; filosofia e ciência; definição de filosofia” é o mais
adequado para descrevê-la.
Este item, na matriz atual, atende à H1, “Interpretar historicamente e/ou
geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura”. Mais uma vez, o
aspecto da cultura é a evolução técnico-científica, e a interpretação exigida é filosófica e
não histórica ou geográfica, no entanto, este é o espaço que a matriz atual oferece para
questões desse tipo.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 53
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2001
Prova Amarela – Itens 30 e 31

I - Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), o estado de natureza é um ­estado de guerra
universal e perpétua. Contraposto ao estado de natureza, entendido como estado de guerra, o es-
tado de paz é a sociedade civilizada.

Dentre outras tendências que dialogam com as idéias de Hobbes, destaca-se a definida pelo texto
abaixo.

II - Nem todas as guerras são injustas e correlativamente, nem toda paz é justa, razão pela qual a
guerra nem sempre é um desvalor, e a paz nem sempre um valor.

BOBBIO, N. MATTEUCCI, N PASQUINO, G. Dicionário de Política, 5ª ed. Brasília: Universidade de


Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000.

Item 30

Comparando as ideias de Hobbes (texto I) com a tendência citada no texto II,


pode-se afirmar que

(A) em ambos, a guerra é entendida como inevitável e injusta.


(B) para Hobbes, a paz é inerente à civilização e, segundo o texto II, ela não é um valor
absoluto.
(C) de acordo com Hobbes, a guerra é um valor absoluto e, segundo o texto II, a paz é
sempre melhor que a guerra.
(D) em ambos, a guerra ou a paz são boas quando o fim é justo.
(E) para Hobbes, a paz liga-se à natureza e, de acordo com o texto II, à civilização.

54 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
7 38 9 36 10

Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza


histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano,
h1998 19
comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de
cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.


1a 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
PCN1999
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.
PCN+2002 II.3? Ética e política.

Ocem 2008 20? O contratualismo.

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,


C2009 C3? políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.

Analisar o papel da justiça como instituição na organização das


H2009 H12?
sociedades.

Proposta: comparação de um texto contemporâneo com um texto


+
clássico.

Texto-base: extraído de dicionário de filosofia.


Autoria do texto II não é clara.
-
Enunciado: “pode-se afirmar que”.
Alternativas sem paralelismo: “em ambos”, “para Hobbes”, “de acordo
com Hobbes...”.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 55
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2001.30)

Este item trabalha a antiga h19, “Confrontar interpretações diversas de situações ou


fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano,
comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação
e analisando a validade dos argumentos utilizados”. As situações a serem interpretadas são
a guerra e a paz na visão dos dois autores. Não é claro, porém, de quem é a autoria do
segundo texto, o que é um problema comum em textos extraídos de dicionários de filosofia
ou de fontes secundárias.
Uma vez que propõe ao respondente a comparação entre as ideias de um autor
clássico da filosofia e de outro, ao que tudo indica, mais contemporâneo, o item trabalha
as seguintes habilidades dos PCN: 1a) “Ler textos filosóficos de modo significativo” e 2)
“Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas
ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais”. Na proposta
dos PCN+, ele se localiza no segundo eixo, no tema “Ética e política”. É um tema fácil de
enquadrar nas Ocem, no conteúdo 20) “O contratualismo”.
Na matriz atual, corresponderia à H12, “Analisar o papel da justiça como instituição
na organização das sociedades”, por examinar a justiça das guerras e à C3, “Compreender a
produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as
aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais”. No caso, o item examina conflitos.
Sob o aspecto formal, as alternativas não contêm termos absolutos, mas ficariam
menos cansativas se as expressões “Em ambos...”, “para Hobbes...”, “de acordo com
Hobbes....” tivessem sido dispostas de maneira mais sucinta. Apesar de a diferença em
extensão não ser grande, as alternativas poderiam ter sido dispostas por ordem de extensão.
Mais uma vez, o enunciado, baseado na expressão “pode-se afirmar”, é muito aberto.
Temos também uma questão de interpretação de texto no formato “V ou F”. Foi um item
difícil, com apenas 38% de acertos, e com um distrator (D) altamente atrativo (36%). Este
parece ser um item em que três alternativas (A, C e E) são facilmente eliminadas por serem
explicitamente negadas no texto, restando ao respondente optar entre duas alternativas. A

56 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
segunda parte do gabarito é clara no segundo texto; é mais difícil, porém, extrair do texto
que “para Hobbes, a paz é inerente à civilização”. Algo semelhante acontece com o distrator
D, “em ambos, a guerra ou a paz são boas quando o fim é justo”: a informação pertinente
ao segundo texto é clara, mas não ao primeiro. A operação mental do aluno, portanto,
parece ter sido a de decidir qual afirmação era mais próxima do texto de Hobbes: “a paz é
inerente à civilização” ou “a guerra ou a paz são boas quando o fim é justo”. Apesar de a
segunda afirmação extrapolar o texto, ela pareceu quase tão plausível quanto a primeira.

Item 31

Tropas da Aliança do Tratado do Atlântico Norte (Otan) invadiram o Iraque em 1991


e atacaram a Sérvia em 1999. Para responder aos críticos dessas ações, a Otan usaria,
possivelmente, argumentos baseados

(A) na teoria da guerra perpétua de Hobbes.


(B) tanto na teoria de Hobbes como na tendência expressa no texto II.
(C) no fato de que as regiões atacadas não possuíam sociedades civilizadas.
(D) na teoria de que a guerra pode ser justa quando o fim é justo.
(E) na necessidade de pôr fim à guerra entre os dois países citados.

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
6 19 11 32 32

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 57
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dado um conjunto de informações sobre uma realidade histórico-
geográfica, contextualizar e ordenar os eventos registrados,
h1998 21
compreendendo a importância dos fatores sociais, econômicos, políticos
ou culturais.

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.


1a 1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.
PCN1999 1b
2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
2
discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.

PCN+2002 II.3 Ética e política.


Ocem 2008 20? O contratualismo.
Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,
C2009 C3? políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.

Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e


H2009 H14? interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica
acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

+ Proposta: comparação de um fato contemporâneo com um texto clássico.

Texto-base: extraído de dicionário de filosofia.


-
Autoria do texto II não é clara.

58 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2001.31)

Este item trabalha a antiga h21, “Dado um conjunto de informações sobre uma realidade
histórico-geográfica, contextualizar e ordenar os eventos registrados, compreendendo a
importância dos fatores sociais, econômicos, políticos ou culturais”. A realidade, no caso, são
as invasões da Otan ao Iraque e à Sérvia na década de 1990. A tarefa, porém, não é tanto
de “contextualizar e ordenar eventos registrados”. Espera-se que o respondente extraia dos
textos-base argumentos em defesa da invasão da Otan a esses países.
Temos o pensamento de um autor clássico aplicado a contexto contemporâneo,
exercitando, portanto, as seguintes habilidades dos PCN: a) “Ler textos filosóficos de modo
significativo”; 1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros”; e
2) “Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas
ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais”. A atratividade
da alternativa E mostra que a tarefa proposta não ficou clara, dado que a opção oferecida
por esse distrator não se refere aos textos. Um paralelismo maior das alternativas (sem
a alternância entre “teoria”, “fato” e “necessidade”) talvez pudesse ter deixado menos
confusa essa tarefa.
Como o item anterior, abordaria o tema “Ética e política” dos PCN+ e o conteúdo
20 das Ocem, “O contratualismo”. Na matriz atual, provavelmente se enquadraria na H14,
“Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos,
sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais,
políticas e econômicas”; o fato de natureza histórico-geográfica seria a invasão da Otan à
Síria e ao Iraque na década de 1990.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 59
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2001
Prova Amarela – Item 57

O texto foi extraído da peça Tróilo e Créssida de William Shakespeare, escrita, prova-
velmente, em 1601.

“Os próprios céus, os planetas, e este centro


reconhecem graus, prioridade, classe,
constância, marcha, distância, estação, forma,
função e regularidade, sempre iguais;
eis porque o glorioso astro Sol
está em nobre eminência entronizado
e centralizado no meio dos outros,
e o seu olhar benfazejo corrige
os maus aspectos dos planetas malfazejos,
e, qual rei que comanda, ordena
sem entraves aos bons e aos maus.”
(personagem Ulysses, Ato I, cena III).
SHAKESPEARE, W. Tróilo e Créssida: Porto: Lello & Irmão, 1948.

A descrição feita pelo dramaturgo renascentista inglês se aproxima da teoria

(A) geocêntrica do grego Claudius Ptolomeu.


(B) da reflexão da luz do árabe Alhazen.
(C) heliocêntrica do polonês Nicolau Copérnico.
(D) da rotação terrestre do italiano Galileu Galilei.
(E) da gravitação universal do inglês Isaac Newton.

60 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
12 12 26 32 18

Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos,


h1998 18 identificando-a em suas manifestações e representações em diferentes
sociedades, épocas e lugares.

1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.


2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
1b
produções culturais.
PCN1999 2
3 3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem
específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno
sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-
tecnológica.

PCN+2002 III.2? O que é Filosofia? Filosofia e Ciência

1) Filosofia e conhecimento; Filosofia e ciência; definição de Filosofia.


1
Ocem 2008 29) Epistemologias contemporâneas; Filosofia da ciência; o problema da
29?
demarcação entre ciência e metafísica.

C2009 C1? Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre


H2009 H1?
determinado aspecto da cultura.

Proposta: comparação de um texto literário clássico com seu contexto


+ filosófico-científico.
Tema: filosofia da ciência.

- Extensão e complexidade do texto-base.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 61
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2001.57)

Este item trabalha a antiga h18, “Valorizar a diversidade dos patrimônios


etnoculturais e artísticos, identificando-a em suas manifestações e representações em
diferentes sociedades, épocas e lugares”. É um item notável, que cumpre de maneira
excelente a função de valorizar a diversidade de patrimônios, identificando-a em diversas
manifestações: temos aqui um valioso patrimônio filosófico e técnico-científico manifesto
num dos maiores expoentes da dramaturgia ocidental. Na matriz atual, trabalharia a H1,
“Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da
cultura” – no caso, a visão heliocêntrica do mundo.
A proposta feita pelo enunciado é clara, e as linhas 5-7, que versam sobre o “glorioso
astro Sol ... centralizado no meio dos outros”, remetem diretamente ao conceito de
heliocentrismo. Ainda assim, um dos distratores foi mais atrativo que o próprio gabarito:
enquanto o gabarito teve 26% das respostas, o distrator D, que apresentava a teoria da
rotação terrestre de Galileu Galilei, teve 32%.
O Relatório Pedagógico de 2001 apresenta a seguinte hipótese para essa atratividade:
“Possivelmente, os participantes que optaram pela alternativa D (32%) confundiram a ideia
central do texto com os conceitos de translação e de rotação, ainda que este último não
seja tratado no texto” (RP, 2001). Mais do que essa confusão entre rotação e translação,
é possível que o mero nome de Galilei tenha exercido uma forte atração, sobretudo nos
respondentes com pouca familiaridade com o estilo poético do texto.
Nos PCN, trabalha de maneira exemplar as tarefas 1b) “Ler, de modo filosófico,
textos de diferentes estruturas e registros” e 2) “Articular conhecimentos filosóficos e
diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em
outras produções culturais”. Nos PCN+, corresponderia ao terceiro eixo, “O que é filosofia”,
segundo tema, “Filosofia e ciência”. Nas Ocem, por ser mais um item de filosofia da ciência,
se orientaria pelos conteúdos 1 e 29.

62 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2003
Prova Amarela – Item 48

Observe as duas afirmações de Montesquieu (1689-1755), a respeito da escravidão:

A escravidão não é boa por natureza; não é útil nem ao senhor, nem ao escravo: a este porque nada
pode fazer por virtude; àquele, porque contrai com seus escravos toda sorte de maus hábitos e se
acostuma insensivelmente a faltar contra todas as virtudes morais: torna-se orgulhoso, brusco, duro,
colérico, voluptuoso, cruel.

Se eu tivesse que defender o direito que tivemos de tornar escravos os negros, eis o que eu diria:
tendo os povos da Europa exterminado os da América, tiveram que escravizar os da África para
utilizá-los para abrir tantas terras. O açúcar seria muito caro se não fizéssemos que escravos culti-
vassem a planta que o produz.
(Montesquieu. O espírito das leis.)

Com base nos textos, podemos afirmar que, para Montesquieu,

(A) o preconceito racial foi contido pela moral religiosa.


(B) a política econômica e a moral justificaram a escravidão.
(C) a escravidão era indefensável de um ponto de vista econômico.
(D) o convívio com os europeus foi benéfico para os escravos africanos.
(E) o fundamento moral do direito pode submeter-se às razões econômicas.

Dados do item:

PERCENTUAIS DE RESPOSTA

A B C D E
8 28 29 5 29

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 63
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza
histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano,
h1998 19
comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de
cada interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados.

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.

1a 3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem


PCN1999 específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno
3
sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-
tecnológica.

PCN+2002 II.1? Autonomia e liberdade.

Ocem 2008 22? Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,


C2009 C3? políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.

Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e


H2009 H14? interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica
acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

+ Texto-base: clássico.
- Enunciado: “podemos afirmar que”.

64 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2003.48)

Questão difícil: em termos de porcentagem de acerto, teve apenas 29%, ficando em


9° lugar de dificuldade entre os 63 itens da prova. Mais do que isso, dois distratores foram
praticamente tão atraentes quanto o gabarito: B, com 28%, e C, com 29%. Segundo o
Relatório Pedagógico de 2003:

Este era um item difícil de ser respondido (pois apresentava duas formulações contrárias
a serem relacionadas), mas que discriminou adequadamente os participantes segundo
a habilidade requerida. Assim, podemos deduzir das proporções de respostas que 57%
dos participantes (os que assinalaram as respostas B, 28%, e C, 29%) só compreenderam
um dos textos propostos para análise, e provavelmente se identificaram com um dos
enunciados contidos nas alternativas (justificativa econômica da escravidão ou condenação
da escravidão), não percebendo a contrariedade existente entre os textos e, também, não
relacionando os textos entre si.

No entanto, parte da dificuldade da questão deve-se ao vago enunciado “podemos


afirmar que...”, que não deixa claro ao respondente qual é a tarefa pedida. O item torna-se,
então, uma questão de interpretação em formato “V ou F”, em que cada alternativa tem
que ser individualmente comparada aos textos. É compreensível, portanto, que uma
porcentagem tão alta dos respondentes se desse por satisfeita ao validar um dos distratores
com base em um dos textos, já que o enunciado não deixava claro que a tarefa pedida era
a comparação entre os dois textos.
Este item atende à antiga h19, “Confrontar interpretações diversas de situações
ou fatos de natureza histórico-geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do
cotidiano, comparando diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada
interpretação e analisando a validade dos argumentos utilizados”. O fato ou a situação que
se deve interpretar é a escravidão. O que torna o item peculiar é que as “interpretações
diversas” neste caso são do mesmo autor: os aspectos moral e econômico da escravidão.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 65
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Transpondo para a matriz atual, a habilidade mais próxima para esse tipo de questão
seria a H14, que consiste em “Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos
analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica
acerca das instituições sociais, políticas e econômicas”. Aqui, mais uma vez, estaríamos
comparando Montesquieu consigo mesmo. Outra habilidade da matriz nova relevante a
este item seria a H12, “Analisar o papel da justiça como instituição na organização das
sociedades”. Neste caso, é evidente, no raciocínio de Montesquieu, o papel submisso da
justiça em face de questões econômicas.
Em termos das competências e habilidades dos PCN, esse item exige as tarefas de
leitura significativa de textos filosóficos (1a) e de contextualização no plano sociopolítico
e histórico (3). Quanto aos PCN+, ele se insere no segundo eixo, “A construção moral do
sujeito”, tema 1, “Autonomia e liberdade”, subtema que trata das “Várias dimensões da
liberdade (ética, econômica, política)”. Quanto às Ocem, ele atenderia ao conteúdo 22)
“Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito”.

66 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
3 Análise dos
Itens de Filosofia
(2009-2011)

O segundo grupo de itens de filosofia, referente às provas do Enem de 2009 a 2011,


é bem diferente do primeiro. Os seis anos entre os dois grupos trouxeram algumas mu-
danças importantes, em particular a publicação das Ocem em 2008, da nova Matriz de
Referência em 2009 e mesmo dos PCN+ em 2002.
Embora a publicação desses documentos possa ter sido, em parte, causa do retorno
da filosofia ao Enem, eles não significaram uma melhora na qualidade desses itens. De fato,
a matriz de 2009 contempla habilidades mais especificamente relacionadas com a filosofia
do que a de 1998, e isso é um avanço importante. Ainda assim, os itens de filosofia da pri-
meira fase do Enem em geral têm uma proposta melhor do que itens mais recentes, em
termos de texto-base e tarefa pedida ao aluno.
São duas as principais diferenças entre os dois grupos: as fontes dos textos-base e
a temática mais recorrente. Temos somente três questões com texto-base de autoria de
filósofos: Maquiavel, em 2010a.27, Foucault, em 2010a.34, e Habermas, em 2010b.34. Dos
doze itens publicados nos três anos, cinco tiveram seu texto-base extraído de antologia ou
manual de filosofia (2009.82, 2010a.28, 38 e 44 e 2010b27), todos abordando o tema de
ética e política.
A análise que se segue levará em consideração o fato de que não haviam sido publi-
cados à época de conclusão deste estudo os Relatórios Pedagógicos relativos às provas de
2009 a 2011. Assim, não apresentamos as estatísticas oficiais sobre o padrão de respostas

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 67
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
e de acerto das questões, como tínhamos nas questões anteriores. A análise seguirá, por-
tanto, o seguinte modelo:

Dados do item:

1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.


1b 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
PCN1999
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.
PCN+2002 II.3 Ética e política.
Ocem 2008 22 Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.
Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,
C2009 C3 políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.
Analisar o papel da justiça como instituição na organização das
H2009 H12
sociedades.
+ Alternativas com extensão equivalente e sem termos absolutos.

Texto-base: extraído de uma Antologia de Textos Históricos.


Autoria do texto II não é clara.
-
Enunciado: “pode-se afirmar que”.
Alternativas sem paralelismo: “em ambos”, “para Hobbes”, “de acordo
com Hobbes...”.

Como todos os itens deste bloco são posteriores às Ocem e foram elaborados de
acordo com a matriz de 2009, essas informações agora aparecem em destaque. O campo
dedicado à matriz antiga foi excluído, assim como os pontos de interrogação. Nos demais
aspectos, o quadro segue as mesmas características do modelo anterior.

68 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2009 (Anulada)
Prova Branca – Item 82

A lei dos lombardos (Edictus Rothari), povo que se instalou na Itália no século VII e era considerado
bárbaro pelos romanos, estabelecia uma série de reparações pecuniárias (composições) para punir
aqueles que matassem, ferissem ou aleijassem os homens livres. A lei dizia: para todas estas chagas
e feridas estabelecemos uma composição maior do que a de nossos antepassados, para que a vin-
gança que é inimizade seja relegada depois de aceita a dita composição e não seja mais exigida nem
permaneça o desgosto, mas dê-se a causa por terminada e mantenha-se a amizade.
Espinosa, F. Antologia de textos históricos medievais. Lisboa: Sá da Costa, 1976 (adaptado).

A justificativa da lei evidencia que

(A) se procurava acabar com o flagelo das guerras e dos mutilados.


(B) se pretendia reparar as injustiças causadas por seus antepassados.
(C) se pretendia transformar velhas práticas que perturbavam a coesão social.
(D) havia um desejo dos lombardos de se civilizarem, igualando-se aos romanos.
(E) se instituía uma organização social baseada na classificação de justos e injustos.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 69
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.


1b 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
PCN1999
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.

PCN+2002 II.3 Ética e política

Ocem 2008 22 Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito;

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,


C2009 C3 políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.
Analisar o papel da justiça como instituição na organização das
H2009 H12
sociedades.

+ Alternativas com extensão equivalente.

Texto-base: extraído de uma antologia de textos históricos


Enunciado aberto: “evidencia-se que”
-
Alternativas: D destoa sintaticamente das demais, sendo a única a se
iniciar com verbo.

Análise (2009a.82)

Por considerar o fundamento e a justificativa das leis, este item, criado já de acordo
com a atual Matriz de Referência, atende à H12, “Analisar o papel da justiça como instituição
na organização das sociedades”. Apesar de ser um enfoque diferente para uma temática
recorrente, o texto-base, sendo um fragmento adaptado de uma antologia, é um exemplo
de algo que o GERI, publicado no ano seguinte, orienta evitar, ao indicar preferência por
fontes originais sem adaptações (Brasil. Inep, 2010, p. 10).

70 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Embora não estivessem disponíveis até o término deste estudo as estatísticas
referentes ao percentual de acertos de cada questão, este item é do tipo que geraria
um percentual baixo de acerto, pela ausência de clareza na tarefa exigida. Ao perguntar
sobre o que se evidencia, o enunciado é muito aberto e de difícil interpretação. Falta
contextualização para o problema sugerido: por mais que o texto-base mencione um
povo específico numa época específica, um enunciado que pergunta “o que evidencia a
justificativa da lei?” deixa de perguntar “que lei? De quem? E o que ela tem a ver conosco
hoje?”
O tema é próprio da filosofia, apesar de o texto-base ser extraído de uma antologia
de textos históricos. Por essa característica do texto-base e da tarefa pedida pelo item,
ele se enquadra, quanto aos PCN, no grupo de itens que trabalham as tarefas 1) “Ler de
modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros” e 2) “Articular conhecimentos
filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas
artes e em outras produções culturais”. O item ganharia muito, porém, se além ou em vez
do texto utilizado houvesse o texto de um filósofo clássico. Não se trata aqui de defender
a supremacia dos textos clássicos só por serem clássicos haja vista que a diversidade de
fontes assim como a articulação do clássico com o atual devem ser encorajadas. No entanto,
o maior uso de textos filosóficos clássicos no Enem serve a outro objetivo importante:
fortalecer o espaço da filosofia, tanto no Enem quanto no ensino médio.
Quanto aos PCN+, ele se insere no segundo eixo, “A construção moral do sujeito”,
tema 3, “Ética e política”, subtema “Cidadania: os limites entre o público e o privado”. Quanto
às Ocem, o conteúdo 22 é o que mais se aproxima: “Éticas do dever; fundamentações da
moral; autonomia do sujeito”.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 71
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2009 (Aplicada)
Prova Azul – Item 58

Segundo Aristóteles, “na cidade com o melhor conjunto de normas e naquela dotada de homens
absolutamente justos, os cidadãos não devem viver uma vida de trabalho trivial ou de negócios —
esses tipos de vida são desprezíveis e incompatíveis com as qualidades morais —, tampouco devem
ser agricultores os aspirantes à cidadania, pois o lazer é indispensável ao desenvolvimento das
qualidades morais e à prática das atividades políticas”.
VAN ACKER, T. Grécia. A vida cotidiana na cidade-Estado. São Paulo: Atual, 1994.

O trecho, retirado da obra Política, de Aristóteles, permite compreender que a


cidadania

(A) possui uma dimensão histórica que deve ser criticada, pois é condenável que os
políticos de qualquer época fiquem entregues à ociosidade, enquanto o resto dos
cidadãos tem de trabalhar.
(B) era entendida como uma dignidade própria dos grupos sociais superiores, fruto de
uma concepção política profundamente hierarquizada da sociedade.
(C) estava vinculada, na Grécia Antiga, a uma percepção política democrática, que levava
todos os habitantes da pólis a participarem da vida cívica.
(D) tinha profundas conexões com a justiça, razão pela qual o tempo livre dos cidadãos
deveria ser dedicado às atividades vinculadas aos tribunais.
(E) vivida pelos atenienses era, de fato, restrita àqueles que se dedicavam à política e que
tinham tempo para resolver os problemas da cidade.

72 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

PCN1999 1a Ler textos filosóficos de modo significativo.

PCN+2002 I.1 A democracia grega.


Ocem 2008 8 A política antiga; a República de Platão; a Política de Aristóteles.

C2009 C1 Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais


H2009 H1
acerca de aspectos da cultura.

+ Texto-base: referência a autor clássico

Texto-base: citação de citação.


Enunciado sem contextualização.
-
Alternativas sem paralelismo sintático.
Distratores C e E ambíguos.

Análise (2009b.58)

Este item oficialmente corresponde à H1, que exige do respondente “Interpretar


historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura”,
no caso, o conceito de cidadania do ponto de vista de Aristóteles. Poderia atender também
à H24, “Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades”, no caso, o
caráter elitista do conceito de cidadania em Aristóteles. É um texto clássico, que pertence
ao conteúdo 8 das Ocem, “A política antiga; a República de Platão; a Política de Aristóteles”,
e ao eixo I dos PCN+, “Relações de poder e democracia”, tema 1, “A democracia grega”.
Quanto aos PCN, ele corresponde às habilidades 1a) “Ler textos filosóficos de
modo significativo” e 3) “Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua
origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico,
histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica”. Porém, tal tarefa

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 73
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
de contextualização não é solicitada explicitamente: o enunciado apresenta o termo
“cidadania” fora de contexto, e o respondente deve, em cada alternativa, refletir sobre um
contexto diferente. A falta de paralelismo sintático nas alternativas torna essa tarefa ainda
mais difícil.
Os distratores C e E induzem ao erro: o primeiro porque, de fato, em Atenas havia
um sistema de democracia direta. A pegadinha aqui é que nem todos os habitantes eram
cidadãos (mulheres e escravos não tinham cidadania) e que esse sistema não se estendia
a toda Grécia Antiga (nem geograficamente nem historicamente). O segundo pode
ser considerado duplo gabarito pela ambiguidade do termo “de fato”. Possivelmente,
corresponde ao que ocorria “de fato” mas não “de direito”, ou seja, apesar de o ideal
expresso por Aristóteles no texto-base pregar que agricultores não devessem ter cidadania,
eles, naquela época, a possuíam mesmo que não a exercessem.
O trecho é mais uma citação indireta de um autor, o que é problemático, em virtude
do perigo de distorção do que foi expresso pelo autor original.

74 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2010 (1ª Aplicação)
Prova Rosa – Item 27

O príncipe, portanto, não deve se incomodar com a reputação de cruel, se seu propósito é manter o
povo unido e leal. De fato, com uns poucos exemplos duros poderá ser mais clemente do que outros
que, por muita piedade, permitem os distúrbios que levem ao assassínio e ao roubo.
MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo: Martin Claret, 2009.

No século XVI, Maquiavel escreveu “O Príncipe”, reflexão sobre a Monarquia e a


função do governante. A manutenção da ordem social, segundo esse autor, baseava-se na

(A) inércia do julgamento de crimes polêmicos.


(B) bondade em relação ao comportamento dos mercenários.
(C) compaixão quanto à condenação de transgressões religiosas.
(D) neutralidade diante da condenação dos servos.
(E) conveniência entre o poder tirânico e a moral do príncipe

Dados do item:

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.

1a 3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua


PCN1999 origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o
3
entorno sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade
científico-tecnológica.

PCN+2002 II.3 Ética e política.

Ocem 2008 22 Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.


Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,
C2009 C3 políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.
Analisar o papel da justiça como instituição na organização das
H2009 H12
sociedades.
+ Texto-base: clássico.
- Distratores implausíveis.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 75
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2010a.27)

Como o anterior, este item também trabalha a H12, “Analisar o papel da justiça
como instituição na organização das sociedades”. Quanto aos PCN, aborda as tarefas de
leitura significativa de textos filosóficos (1a) e de contextualização no plano sociopolítico e
histórico (3).
De fato, o texto-base é um clássico da filosofia, mas a tarefa exigida ao aluno fica
aquém do potencial do texto. Embora as informações sobre o padrão de resposta não
estivem disponíveis à época da conclusão deste estudo, este item parece pertencer ao
grupo daqueles que devem ser respondidos por eliminação: se, por um lado, o gabarito é
confuso, os distratores, por outro lado, são claramente falsos. Enquanto o texto defende
“uns poucos exemplos duros”, as alternativas A, B, C e D falam de “inércia”, “bondade”,
“compaixão” e “neutralidade”, respectivamente, as quais claramente vão de encontro à
ideia de “dureza”. A única alternativa que não é claramente implausível é a E, que, de fato,
é o gabarito.
Quanto aos PCN+, ele se enquadra no segundo eixo, “A construção moral do sujeito”,
tema 3, “Ética e política”, que tem um subtema específico intitulado “Maquiavel: as
relações entre moral e política”. Quanto às Ocem, o tema de ética e política faz com que
seja mais um item no âmbito do conteúdo 22) “Éticas do dever; fundamentações da moral;
autonomia do sujeito”.

76 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2010 (1ª Aplicação)
Prova Rosa – Item 28

A política foi, inicialmente, a arte de impedir as pessoas de se ocuparem do que lhes diz respeito.
Posteriormente, passou a ser a arte de compelir as pessoas a decidirem sobre aquilo de que nada
entendem.
VALÉRY, P. Cadernos. Apud BENEVIDES, M. V. M. A cidadania ativa. São Paulo: Ática, 1996.

Nessa definição, o autor entende que a história da política está dividida em dois
momentos principais: um primeiro, marcado pelo autoritarismo excludente, e um segundo,
caracterizado por uma democracia incompleta. Considerando o texto, qual é o elemento
comum a esses dois momentos da história política?

(A) A distribuição equilibrada do poder.


(B) O impedimento da participação popular.
(C) O controle das decisões por uma minoria
(D) A valorização das opiniões mais competentes
(E) A sistematização dos processos decisórios.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 77
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.


1a
PCN1999 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.

PCN+2002 I.3 O avesso da democracia.

Ocem 2008 22 Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,


C2009 C3 políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.

Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e


H2009 H14 interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica
acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

+ Extensão das alternativas

Texto-base: citação de citação.


- Enunciado extenso e impreciso.
Distratores implausíveis.

Análise (2010a.28)

Este item também apresenta muitas ambiguidades. Trabalhar com um texto retirado
de outro é problemático pelo perigo de distorção da intenção do autor original pelo autor
que o cita. Mais uma vez, vale ressaltar a orientação do GERI de preferir “fontes primárias,
originais, sem adaptações” (Brasil. Inep, 2010, p. 10). Além disso, seu enunciado é longo,
maior até que o texto-base, e traz em si uma terceira opinião sobre o tema.
Oficialmente, o item visa a enquadrar-se na H14, “Comparar diferentes pontos de
vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza

78 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas”. O ponto de
vista exposto no texto-base, porém, é um só, sobre momentos diferentes. Uma habilidade
mais adequada talvez fosse a H24, “Relacionar cidadania e democracia na organização das
sociedades”, embora o foco do texto seja justamente situações de ausência ou de limitações
da democracia.
É difícil classificar este item quanto aos PCN, pois, dada a natureza do texto e
da proposta, não é claro se demanda a tarefa 1a) “Ler textos filosóficos de modo
significativo” ou 2) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros”;
se exige articular conhecimentos filosóficos (2) ou contextualizar conhecimentos
filosóficos no plano sociopolítico e histórico (3). Sua correspondência com os PCN+ é
mais clara, incluindo-se no primeiro eixo, “Relações de poder e democracia”, tema 3, “O
avesso da democracia”, que trata de conceitos de cidadania e de totalitarismos de direita
e esquerda. Quanto às Ocem, mais uma vez o conteúdo 22 é o que mais se aproxima da
temática política do item: “Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do
sujeito”.
Trata-se de mais um item a ser resolvido por eliminação, dada a implausibilidade
dos distratores e a força dos termos utilizados. A alternativa A é eliminada, pois logo no
começo do texto fala-se em “impedir as pessoas de se ocuparem do que lhes diz respeito”.
Além disso, o enunciado menciona autoritarismo excludente e democracia incompleta,
invalidando veementemente a ideia de distribuição equilibrada do poder. O trecho sobre
“compelir as pessoas a decidirem sobre aquilo de que nada entendem” ajuda a descartar
a alternativa B, sobre impedimento da participação popular. Mais uma vez, “compelir”
e “impedimento” são quase termos absolutos, deixando a alternativa implausível. O
mesmo trecho ajuda também a eliminar a alternativa D, pela contradição entre “compelir
as pessoas a decidirem sobre aquilo de que nada entendem” e “valorização das opiniões
mais competentes”. Finalmente, o termo do enunciado “democracia incompleta” ajuda
a eliminar a ideia de “sistematização” dos processos decisórios, restando como plausível
apenas a alternativa C, que, de fato, corresponde ao gabarito.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 79
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2010 (1ª Aplicação)
Prova Rosa – Item 34

A lei não nasce da natureza, junto das fontes frequentadas pelos primeiros pastores; a lei nasce das
batalhas reais, das vitórias, dos massacres, das conquistas que têm sua data e seus heróis de horror:
a lei nasce das cidades incendiadas, das terras devastadas; ela nasce com os famosos inocentes que
agonizam no dia que está amanhecendo.
FOUCAULT, M. Aula de 14 de janeiro de 1976. In: Em defesa da sociedade.
São Paulo: Martins Fontes, 1999.

O filósofo Michel Foucault (séc. XX) inova ao pensar a política e a lei em relação ao
poder e à organização social. Com base na reflexão de Foucault, a finalidade das leis na
organização das sociedades modernas é

(A) combater ações violentas na guerra entre as nações.


(B) coagir e servir para refrear a agressividade humana.
(C) criar limites entre a guerra e a paz praticadas entre os indivíduos de uma mesma nação.
(D) estabelecer princípios éticos que regulamentam as ações bélicas entre países inimigos.
(E) organizar as relações de poder na sociedade e entre os Estados.

Dados do item:

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.


1a 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
PCN1999
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.

PCN+2002 II.3 Ética e política.


Ocem 2008 30 Filosofia francesa contemporânea; Foucault; Deleuze.
Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os
C2009 C5 fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação
consciente do indivíduo na sociedade.
H2009 H24 Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades.
+ Texto-base: clássico, original, sem adaptações.
- Distratores mutuamente excludentes.

80 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2010a.34)

Este é mais um item com um texto-base excelente que ficou aquém de seu potencial.
Oficialmente contempla a H24, “Relacionar cidadania e democracia na organização das
sociedades”. Ainda que abordem a organização das sociedades, nem o texto, nem o
enunciado, nem as alternativas falam sobre cidadania ou democracia. Por esse motivo, e
por seu foco nos fundamentos da lei, atende melhor à H12, que envolve “Analisar o papel
da justiça como instituição na organização das sociedades”.
Analisando as alternativas, o distrator A parece ter o mesmo teor do distrator D, e o B
o mesmo do C. Por eliminação, resta somente a alternativa E, que corresponde, de fato, ao
gabarito. A questão de escopo intra ou interestatal, que é central tanto no gabarito quanto
nos distratores, não está presente, contudo, no texto-base, mas apenas no enunciado.
Quanto aos PCN, este item exige a tarefa de 1a) “Ler textos filosóficos de modo
significativo” e 2) “Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais”.
Quanto aos PCN+, pertenceria ao segundo eixo, “A construção moral do sujeito”, tema 3,
“Ética e política”, subtema “Cidadania: os limites entre o público e o privado”, ao passo
que em relação às Ocem ele se insere explicitamente no conteúdo 30) “filosofia francesa
contemporânea; Foucault; Deleuze”.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 81
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2010 (1ª Aplicação)
Prova Rosa – Item 38

A ética precisa ser compreendida como um empreendimento coletivo a ser constantemente reto-
mado e rediscutido, porque é produto da relação interpessoal e social. A ética supõe ainda que cada
grupo social se organize sentindo-se responsável por todos e que crie condições para o exercício de
um pensar e agir autônomos. A relação entre ética e política é também uma questão de educação e
luta pela soberania dos povos. É necessária uma ética renovada, que se construa a partir da natureza
dos valores sociais para organizar também uma nova prática política.
CORDI et al. Para filosofar. São Paulo: Scipione, 2007 (adaptado).

O Século XX teve de repensar a ética para enfrentar novos problemas oriundos de di-
ferentes crises sociais, conflitos ideológicos e contradições da realidade. Sob esse enfoque
e a partir do texto, a ética pode ser compreendida como

(A) instrumento de garantia da cidadania, porque através dela os cidadãos passam a


pensar e agir de acordo com valores coletivos.
(B) mecanismo de criação de direitos humanos, porque é da natureza do homem ser ético
e virtuoso.
(C) meio para resolver os conflitos sociais no cenário da globalização, pois a partir do en-
tendimento do que é efetivamente a ética, a política internacional se realiza.
(D) parâmetro para assegurar o exercício político primando pelos interesses e ação pri-
vada dos cidadãos.
(E) aceitação de valores universais implícitos numa sociedade que busca dimensionar sua
vinculação a outras sociedades.

82 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

PCN1999 1a Ler textos filosóficos de modo significativo.

PCN+2002 II.3 Ética e política.

Ocem 2008 22 Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.

Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os


C2009 C5 fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação
consciente do indivíduo na sociedade.
Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das
H2009 H23
sociedades.
+
Texto-base: extraído de manual de filosofia.
- Temática recorrente.
Alternativas extensas.

Análise (2010a.38)

Este item é um modelo clássico dos itens de filosofia na prova do Enem entre
2010 e 2011. É o primeiro em uma série de cinco itens que contempla a H23, “Analisar a
importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades”.
Ele trabalha os PCN de forma tangencial. O texto-base, retirado de um manual de
filosofia, é, por assim dizer, meta-filosófico: não é um texto filosófico em si, nem um texto
de outro registro a ser lido de maneira filosófica. A tarefa exigida também não é articular
nem contextualizar um conhecimento filosófico, mas interpretar o texto para responder à
questão: “O que é ética, de acordo com o texto”. O enunciado e as alternativas são longas e
com termos difíceis (“oriundos”, “primando”). Apesar do paralelismo sintático e semântico,
a utilização de sinônimos (“instrumento”, “mecanismo”, “meio”) é cansativa.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 83
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Quanto aos PCN+, o item é um entre os seis que pertencem ao segundo eixo, “A
construção moral do sujeito”, tema 3, “Ética e política”, subtema “Cidadania: os limites
entre o público e o privado”, sendo um dos sete que abordam o conteúdo 22 das Ocem:
“Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito”.

84 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2010 (1ª Aplicação)
Prova Rosa – Item 42

Democracia: “regime político no qual a soberania é exercida pelo povo, pertence ao conjunto dos
cidadãos.”
JAPIASSÚ, H.; MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

Uma suposta “vacina” contra o despotismo, em um contexto democrático, tem por


objetivo

(A) impedir a contratação de familiares para o serviço público.


(B) reduzir a ação das instituições constitucionais
(C) combater a distribuição equilibrada de poder.
(D) evitar a escolha de governantes autoritários.
(E) restringir a atuação do Parlamento.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 85
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.


1b
PCN1999 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.

PCN+2002 I.3 O avesso da democracia.

Ocem 2008 N/A Democracia.

Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os


C2009 C5 fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação
consciente do indivíduo na sociedade.

H2009 H24 Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades.

+ Proposta: relação entre textos filosóficos e textos de outros registros.

Texto-base: extraído de dicionário de filosofia.


-
Distratores implausíveis.

Análise (2010a.42)

Se o item anterior é um exemplo típico dos itens de filosofia no Enem entre 2009 e
2011, este é um exemplo atípico. Trata-se do único item de filosofia do Enem que contém um
quadrinho e da ocorrência mais recente de texto original, sem adaptações, ainda que não deixe
de conter um fragmento de dicionário de filosofia, que não só vai contra a orientação de textos
originais e sem adaptações, como é completamente desnecessário à resolução da questão.
Quanto ao conteúdo, o item contempla a H24, “Relacionar cidadania e democracia
na organização das sociedades”. A tarefa solicitada, porém, é simplesmente responder “o
que é o despotismo?”. Sem acesso às estatísticas sobre a resposta a este item, acredita-se,

86 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
porém, que tenha tido um alto percentual de acertos, dado que todos os distratores
carecem de plausibilidade.
Quanto aos PCN, o item é o único dos seis desta prova a retomar as tarefas 1b) “Ler de
modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros” e 2) “Articular conhecimentos
filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas
artes e em outras produções culturais”, pelo caráter diferenciado de seu texto-base.
Quanto aos PCN+, ele se enquadra no primeiro eixo, “Relações de poder e
democracia”, tema 3, “O avesso da democracia”, que trata de conceitos de cidadania e de
totalitarismos de direita e esquerda. Quanto às Ocem, o conteúdo 22 é o mais próximo:
“Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito”.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 87
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2010 (1ª Aplicação) – Prova Rosa – Item 44

Na ética contemporânea, o sujeito não é mais um sujeito substancial, soberano e absolutamente


livre, nem um sujeito empírico puramente natural. Ele é simultaneamente os dois, na medida em que
é um sujeito histórico-social. Assim, a ética adquire um dimensionamento político, uma vez que a
ação do sujeito não pode mais ser vista e avaliada fora da relação social coletiva. Desse modo, a ética
se entrelaça, necessariamente, com a política, entendida esta como a área de avaliação dos valores
que atravessam as relações sociais e que interliga os indivíduos entre si.
SEVERINO, A. J. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992 (adaptado).

O texto, ao evocar a dimensão histórica do processo de formação da ética na socie-


dade contemporânea, ressalta

(A) os conteúdos éticos decorrentes das ideologias político-partidárias.


(B) o valor da ação humana derivada de preceitos metafísicos.
(C) a sistematização de valores desassociados da cultura.
(D) o sentido coletivo e político das ações humanas individuais
(E) o julgamento da ação ética pelos políticos eleitos democraticamente.

88 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:
1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.
1a 3) Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem
PCN1999 específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno
3 sociopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-
tecnológica.
PCN+2002 II.3 Ética e política.

Ocem 2008 22 Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,


C2009 C5 políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.
Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das
H2009 H23
sociedades.

+
Texto-base: extraído de manual de filosofia.
- Temática recorrente.
Gabarito com termos atraentes.

Análise (2010a.44)

O item é o segundo que se orienta pela habilidade H23, que exige “Analisar a
importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades”, nos últimos dois
anos do período em análise. Como o primeiro item na série (2010a.38), o texto-base extrai
de um manual de filosofia um conceito sobre ética e política, não sendo, portanto, nem uma
questão de filosofia em si, nem um texto de outro registro a ser lido de maneira filosófica.
Trata-se de uma questão de interpretação de um fragmento de texto sobre filosofia. Desse
modo, com relação aos PCN, é difícil classificá-lo como se exercitasse as tarefas 1a) “Ler
textos filosóficos de modo significativo” ou 1b) “Ler textos de diferentes registros de
modo filosófico”. Da mesma forma, não se demanda articular (2) nem contextualizar (3)

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 89
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
conhecimentos filosóficos. O item ganharia bastante, portanto, se contivesse, além do
fragmento utilizado ou em lugar dele, um excerto de filósofo clássico representativo da
ideia apresentada.
Quanto aos PCN+, o item pertence ao segundo eixo, “A construção moral do sujeito”,
tema 3, “Ética e política”, subtema “Cidadania: os limites entre o público e o privado”;
quanto às Ocem, ele retoma o conteúdo 22) “Éticas do dever; fundamentações da moral;
autonomia do sujeito”.
Em relação às alternativas, o gabarito é mais atrativo que os distratores, por conter
duas palavras-chave presentes no texto-base: “coletivo” e “político” (o texto não menciona
“ideologias político-partidárias”, “preceitos metafísicos”, “eleições”, “valores” ou “cultura”,
que são palavras-chave dos distratores).

90 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2010 (2ª Aplicação)
Prova Azul – Item 27

A ética exige um governo que amplie a igualdade entre os cidadãos. Essa é a base da pátria. Sem
ela, muitos indivíduos não se sentem “em casa”. Experimentam-se como estrangeiros em seu próprio
lugar de nascimento.
SILVA, R. R. Ética, defesa nacional, cooperação dos povos. OLIVEIRA, E. R (Org.)
Segurança & Defesa Nacional: da competição à cooperação regional. São Paulo:
Fundação Memorial da América Latina, 2007 (adaptado).

Os pressupostos éticos são essenciais para a estruturação política e integração de


indivíduos em uma sociedade. De acordo com o texto, a ética corresponde a

(A) valores e costumes partilhados pela maioria da sociedade.


(B) preceitos normativos impostos pela coação das leis jurídicas.
(C) normas determinadas pelo governo, diferentes das leis estrangeiras.
(D) transferência dos valores praticados em casa para a esfera social.
(E) proibição da interferência de estrangeiros em nossa pátria.

Dados do item:
1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.
1b
PCN1999 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.
PCN+2002 II.3 Ética e política.
Ocem 2008 22 Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.
Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,
C2009 C5 políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.
Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das
H2009 H23
sociedades.
+ N/A
Temática recorrente.
- Falta contextualização.
Gabarito questionável.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 91
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2010b.27)

O item é o terceiro na série referente à H23, “Analisar a importância dos valores


éticos na estruturação política das sociedades”, embora envolva também a H25, “Identificar
estratégias que promovam formas de inclusão social”. Ainda que o vínculo a mais de uma
habilidade não seja por si só um defeito do item (Eixos Cognitivos do Enem, p. 108, item 5),
neste caso, porém, é reflexo de falta de coesão entre texto-base, enunciado e alternativas.
O texto-base, que tem por fonte o artigo “Segurança & Defesa Nacional: da compe-
tição à cooperação regional”, da coletânea intitulada Ética, defesa nacional, cooperação
dos povos, não é um texto estritamente filosófico. Esse fato em si mesmo, se bem
contextualizado, não é um problema: por exemplo, se a tarefa solicitada ao respondente
for relacioná-lo com um texto clássico. A proposta do enunciado, porém, assume não so-
mente que a visão do texto é universal, mas traz como alternativa correta uma visão de
senso comum que não está necessariamente contida no texto-base.
No enunciado, como na questão anterior, pergunta-se tão somente: “De acordo com
o texto, o que é ética?”. Tal pergunta não exige do respondente nenhum conhecimento
prévio de filosofia (até porque não está lidando com nenhum filósofo em particular). Esta
poderia parecer mais uma questão típica de interpretação de texto, porém, a visão contida
no gabarito é uma opinião de senso comum que não necessariamente condiz com o texto.
Muitos filósofos, pensadores e movimentos sociais têm falado sobre a questão da exclusão
social como “ser estrangeiro na própria casa” ou “cidadão de segunda classe”.
Em relação aos PCN, o item exige 1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes
estruturas e registros” e 2) “Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e
modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções cul-
turais”. Quanto aos PCN+, trata-se de mais um item que pertence ao segundo eixo, “A
construção moral do sujeito”, tema 3, “Ética e política”, subtema “Cidadania: os limites
entre o público e o privado”; quanto às Ocem, pertence ao conteúdo 22) “Éticas do dever;
fundamentações da moral; autonomia do sujeito”.

92 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2010 (2ª Aplicação)
Prova Azul – Item 34

No século XX, o transporte rodoviário e a aviação civil aceleraram o intercâmbio de pessoas e


mercadorias, fazendo com que as distâncias e a percepção subjetiva das mesmas se reduzissem
constantemente. É possível apontar uma tendência de universalização em vários campos, por exemplo,
na globalização da economia, no armamentismo nuclear, na manipulação genética, entre outros.
HABERMAS, J. A constelação pós-nacional: ensaios políticos. São Paulo:
Littera Mundi, 2001 (adaptado).

Os impactos e efeitos dessa universalização, conforme descritos no texto, podem ser


analisados do ponto de vista moral, o que leva à defesa da criação de normas universais
que estejam de acordo com

(A) os valores culturais praticados pelos diferentes povos em suas tradições e costumes
locais.
(B) os pactos assinados pelos grandes líderes políticos, os quais dispõem de condições
para tomar decisões.
(C) os sentimentos de respeito e fé no cumprimento de valores religiosos relativos à jus-
tiça divina.
(D) os sistemas políticos e seus processos consensuais e democráticos de formação de
normas gerais.
(E) os imperativos técnicos-científicos, que determinam com exatidão o grau de justiça
das normas.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 93
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:

1a) Ler textos filosóficos de modo significativo.


1a
PCN1999 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.
PCN+2002 II.3 Ética e política.
Ocem 2008 28 Marxismo e Escola de Frankfurt.
Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,
C2009 C5 políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.
Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das
H2009 H23
sociedades.
+ Texto-base: autor clássico.
- Falta coesão entre texto-base, enunciado e alternativas.

Análise (2010b.34)

Este é um item cuja habilidade exigida é difícil identificar. Oficialmente orienta-se


pela H23, “Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das socie-
dades”, mas compreende também a H25, “Identificar estratégias que promovam formas de
inclusão social”, e a H16, “Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na
organização do trabalho e/ou da vida social”, que são habilidades com potencial filosófico
que tem sido pouco explorado no Enem. Mais do que isso, essa variedade de habilidades
exigidas se deve à falta de coesão entre texto-base, enunciado e alternativas. Não há no
texto-base em si algo que remeta ao tema da H23: a questão ética só surge no enunciado.
O item exige do aluno um conhecimento do pensamento de Habermas que vai além do
texto, mas que não está explícito no enunciado.

94 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Com relação aos PCN, o item trabalha as tarefas 1a) “Ler textos filosóficos de modo
significativo” e 2) “Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais”.
Quanto aos PCN+, se considerado do ponto de vista ético, ele se enquadra no recorrente
tema II.3, “Ética e política”. Contudo, o texto-base remete também ao terceiro eixo, “O que
é a filosofia”, tema 2, “Filosofia, ciência e tecnocracia”, subtema “A tecnologia a serviço de
objetivos humanos e os riscos da tecnocracia”. Quanto às Ocem, talvez o conteúdo 28 seja
o mais próximo: “Marxismo e Escola de Frankfurt”, pela linha seguida por Habermas.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 95
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2010 (2ª Aplicação)
Prova Azul – Item 45

Quando Édipo nasceu, seus pais, Laio e Jocasta, os reis de Tebas, foram informados de uma profecia
na qual o filho mataria o pai e se casaria com a mãe. Para evitá-la, ordenaram a um criado que ma-
tasse o menino. Porém, penalizado com a sorte de Édipo, ele o entregou a um casal de camponeses
que morava longe de Tebas para que o criasse. Édipo soube da profecia quando se tornou adulto.
Saiu então da casa de seus pais para evitar a tragédia. Eis que, perambulando pelos caminhos da
Grécia, encontrou-se com Laio e seu séquito, que, insolentemente, ordenou que saísse da estrada.
Édipo reagiu e matou todos os integrantes do grupo, sem saber que entre eles estava seu verdadeiro
pai. Continuou a viagem até chegar a Tebas, dominada por uma Esfinge. Ele decifrou o enigma da
Esfinge, tornou-se rei de Tebas e casou-se com a rainha, Jocasta, a mãe que desconhecia.
Disponível em: http://www.culturabrasil.org. Acesso em: 28 ago. 2010 (adaptado).

No mito Édipo Rei, são dignos de destaque os temas do destino e do determinismo.


Ambos são características do mito grego e abordam a relação entre liberdade humana e
providência divina. A expressão filosófica que toma como pressuposta a tese do determi-
nismo é

(A) “Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.” Jean Paul
Sartre
(B) “Ter fé é assinar uma folha em branco e deixar que Deus nela escreva o que quiser.”
Santo Agostinho
(C) “Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte.” Arthur Schopenhauer
(D) “Não me pergunte quem sou eu e não me diga para permanecer o mesmo.” Michel
Foucault.
(E) “O homem, em seu orgulho, criou a Deus a sua imagem e semelhança.” Friedrich
Nietzsche

96 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Dados do item:
1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.
1b
PCN1999 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.
PCN+2002 II.1 Autonomia e Liberdade.

Ocem 2008 18 Vontade divina e liberdade humana.

C2009 C1 Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.


Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos
H2009 H3
históricos.
+ Proposta: relação entre textos filosóficos e textos de outros registros.
Extensão do texto-base e do enunciado.
-
Distratores implausíveis.

Análise (2010b.45)

Este item é o primeiro desde 2001 a retomar a C1, “Compreender os elementos


culturais que constituem as identidades”, enquadrando-se na H3, “Associar as
manifestações culturais do presente aos seus processos históricos”, embora, por não
lidar com aspectos propriamente históricos, talvez fosse mais adequada a H5, “Identificar
as manifestações ou representações da diversidade do patrimônio cultural e artístico em
diferentes sociedades”.
Apresenta uma proposta excelente ao articular a leitura de uma fonte contemporânea
com conhecimentos filosóficos esperados de um aluno do ensino médio. Em termos das
competências e habilidades dos PCN, ele é o único da prova a retomar as habilidades
1b) “Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros” e 2) “Articular
conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais
e humanas, nas artes e em outras produções culturais”. O enunciado e o texto-base

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 97
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
parecem, porém, desnecessariamente extensos, e os distratores parecem muito distantes
da questão exposta no texto e repetida no enunciado.
Quanto aos PCN+, o item pertence claramente ao segundo eixo, “A construção
do sujeito moral”, tema 1, “Autonomia e liberdade”, subtema que trata de liberdade e
determinismo. Também é clara nas Ocem sua correspondência ao conteúdo 18) “Vontade
divina e liberdade humana”. Trata-se do primeiro item desde 2003 a lidar com o tema da
liberdade.

98 FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
2011
Prova Azul – Item 2

O brasileiro tem noção clara dos comportamentos éticos e morais adequados, mas vive sob o es-
pectro da corrupção, revela pesquisa. Se o país fosse resultado dos padrões morais que as pessoas
dizem aprovar, pareceria mais com a Escandinávia do que com Bruzundanga
FRAGA, P. Ninguém e inocente. Folha de S. Paulo. 4 out. 2009 (adaptado).

O distanciamento entre “reconhecer” e “cumprir” efetivamente o que é moral


constitui uma ambiguidade inerente ao humano, porque as normas morais são

(A) decorrentes da vontade divina e, por esse motivo, utópicas.


(B) parâmetros idealizados, cujo cumprimento é destituído de obrigação.
(C) amplas e vão além da capacidade de o individuo conseguir cumpri-las integralmente.
(D) criadas pelo homem, que concede a si mesmo a lei a qual deve se submeter.
(E) cumpridas por aqueles que se dedicam inteiramente a observar as normas jurídicas.

Dados do item:

1b) Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.


1b
PCN1999 2) Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos
2 discursivos nas Ciências Naturais e Humanas, nas Artes e em outras
produções culturais.

PCN+2002 II.3 Ética e política.


Ocem 2008 22 Éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito.
Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais,
C2009 C5 políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e
movimentos sociais.
Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das
H2009 H23
sociedades.
+ Proposta: relação entre textos filosóficos e textos de outros registros.

Enunciado: Falta contextualização.


- Ambiguidade nos distratores.
Temática recorrente.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 99
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
Análise (2011.02)

Este item é o quinto da série que explora a H23, “Analisar a importância dos valores
éticos na estruturação política das sociedades”. Em termos das competências e habilidades
dos PCN, como o anterior, ele compreende a habilidade 1b) “Ler, de modo filosófico, textos
de diferentes estruturas e registros” e 2) “Articular conhecimentos filosóficos e diferentes
conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras
produções culturais”, que são tarefas relativamente pouco exploradas nos itens de filosofia
nos últimos anos. Porém, o conteúdo filosófico a ser articulado – a concepção kantiana de
autonomia – não está explícito no item, o que é problemático.
Para Kant, de fato, normas morais são “criadas pelo homem, que concede a si mesmo
a lei à qual deve se submeter”, como afirma o gabarito. O que o texto-base mostra, porém,
é um exemplo que vai contra essa teoria: pessoas que não cumprem o que julgam ser
certo. Na ética kantiana, este “distanciamento entre ‘reconhecer’ e ‘cumprir’” poderia ser
considerado um exemplo de comportamento ambíguo: o ser humano recusa-se a obedecer
à lei que ele mesmo fez. Todavia, outros pensadores poderiam considerá-lo, por exemplo,
uma limitação da teoria kantiana, um motivo para rejeitá-la. Isso explica a alta atratividade
de outras alternativas, que chegaram a ser postadas em diversos sites como gabarito (ver
http://filoescola.blogspot.com.br/2011/10/questao-do-enem-2011-mal-formulada.htm).
O item falha por não contextualizar: coloca a alternativa correta como se fosse uma
verdade universal, e não uma visão específica articulada por um filósofo específico. O item
ganharia bastante, portanto, se contivesse, além do fragmento utilizado, um fragmento de
Kant representativo dessa ideia.
Seu tema recorrente, quanto aos PCN+, pertence ao segundo eixo, “A construção
moral do sujeito”, tema 3, “Ética e política”, subtema “Cidadania: os limites entre o público
e o privado”. Em relação às Ocem, é mais um item do conteúdo 22) “Éticas do dever;
fundamentações da moral; autonomia do sujeito”.

100 FILOSOFIA NO ENEM


Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
conclusões

Este estudo apontou que houve poucos itens de filosofia (22) nas provas do Enem
entre 1999 e 2011 e que 40% desses itens se concentraram no ano de 2010. O fato de cada
uma das provas de 2009 e 2011 ter somente um item de filosofia entre os 45 de ciências
humanas (uma percentagem menor do que durante a vigência da matriz anterior) indica que
os mecanismos que conduzem à maior presença de filosofia nas provas do Enem ainda são
precários. É necessário, portanto, um maior esforço no sentido de capacitar elaboradores e
revisores de itens de filosofia para o Enem, a fim de aumentar tanto o número de itens na
prova quanto sua qualidade.
Dispondo os primeiros itens de filosofia das provas de 1999 ao lado dos itens das
provas de 2009 a 2011, nota-se claramente uma primeira diferença entre as primeiras provas
e as mais recentes: a proporção do uso de textos filosóficos originais. Enquanto os primeiros
itens de filosofia em 1999 e 2000 continham dois textos extraídos de fontes clássicas, sem
adaptações, os últimos geralmente contêm somente um fragmento adaptado, publicado
em um manual de filosofia ou em um jornal. Temos somente três questões com textos-
base de autoria de filósofos clássicos: Maquiavel, em 2010a.27, Foucault, em 2010a.34,
e Habermas, em 2010b.34. Em contrapartida, cinco de doze itens foram retirados de
antologias ou manuais de filosofia (2009.82, 2010a.28, 38 e 44 e 2010b27).
Por mais que a diversidade de fontes seja algo positivo, assim como a tarefa de incitar
o respondente a ver a relevância de questões filosóficas clássicas em textos cotidianos

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 101
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
atuais, tal tarefa perde o sentido se somente os textos atuais forem incluídos. Não se trata
aqui de defender a supremacia dos textos clássicos só por serem clássicos. A diversidade
de fontes assim como a articulação do clássico com o atual devem ser encorajadas, mas
o maior uso de textos filosóficos clássicos no Enem serve a outro objetivo importante:
fortalecer o espaço da filosofia, tanto no exame quanto no ensino médio.
Mais problemático é o número de itens que tinham seu texto-base extraído de
manuais ou antologias, pois isso pode sugerir que mais importante do que ler os textos
clássicos é ler o manual. Infelizmente tivemos uma abundância deste, em geral com questões
de ordem meta-ética. Tais itens apresentam a definição de um manual ou antologia, em
que a proposta poderia ser reduzida a uma questão de interpretação de texto no seguinte
formato: “segundo o texto-base, o que é ética/política?”. Tanto o texto quanto o enunciado
não apresentam nenhuma contextualização da questão, colocando-a como se tivesse uma
resposta única ao longo da história da filosofia.
Em termos de conteúdo, de fato, vemos entre 2010 e 2011 uma queda no número
de itens na competência 18 e um aumento no número de itens na competência 59, que até
então não tinha sido contemplada. Isso mostra um foco cada vez maior em questões de
ética, cidadania e democracia, que aproxima o Enem dos PCN, ao passo que o distancia das
Ocem.
Por outro lado, quanto às competências e habilidades sugeridas pelos PCN,
observou-se que, apesar do equilíbrio numérico entre itens que exigiam a tarefa de articular
e de contextualizar, a mudança no tipo de fonte utilizada favoreceu, a partir de 2010, uma
tendência maior à tarefa de contextualizar conhecimentos filosóficos, em detrimento da
tarefa de articular conhecimentos filosóficos em textos de diferentes registros.
Em relação aos eixos temáticos dos PCN+, notou-se a predominância do eixo II, “A
construção do sujeito moral”, que concentra mais da metade das questões, com ênfase
especial no tema 3, “Ética e política”. Essa tendência tem se acentuado nos anos mais
recentes, após a publicação da matriz atual em 2009, o que significa que os outros eixos
têm sido cada vez mais subutilizados.
Algo semelhante se aplica em relação às Ocem: o que é usado é pouco em
comparação ao total disponível. É certo que as reservas apresentadas pelas Ocem em

Competência de área 1: “Compreender os elementos culturais que constituem as identidades”.


8

Competência de área 5: “Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania
9

e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na sociedade”.

102 FILOSOFIA NO ENEM


Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
relação à transdisciplinaridade (Brasil. MEC, 2008, p. 18, 27) dificultam a tarefa, proposta
pelos PCN e favorecida pela matriz de 2009, de reconhecer e articular conhecimentos
filosóficos presentes em diferentes registros. No entanto, há na lista de 30 conteúdos
das Ocem (22 dos quais não foram utilizados em nenhuma questão do Enem no período
analisado) potencial muito rico de fontes para questões de leitura e contextualização de
conteúdos filosóficos (vide gráfico na página 24).
Os aspectos positivos e negativos indicados para cada item visam a oferecer sugestões
sobre o que vale a pena replicar e o que é melhor evitar na elaboração de itens de filosofia
para o Enem. Em particular, itens que relacionam ideias de filósofos clássicos com textos
de outros registros oferecem ricas possibilidades, como mostram os itens de 1999, o item
2001.57 e o item 2010.45.
Idealmente, uma matriz com mais espaço para itens especificamente filosóficos,
com questões de filosofia do conhecimento, por exemplo, ajudaria a fortalecer o espaço da
filosofia no Enem e no ensino médio. Isso, por sua vez, contribuiria para tornar realidade
a injunção da LDB de que, ao final do ensino médio, o aluno demonstre “domínio dos
conhecimentos de filosofia e de sociologia necessários ao exercício da cidadania” (Brasil,
1996, art. 36, 1, III). Até que tal matriz seja realidade, porém, temos que encorajar os
elaboradores de itens de filosofia a explorar o potencial que a matriz atual e os documentos
curriculares de fato oferecem. Este trabalho teve como objetivo tornar-se uma contribuição
nesse sentido.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 103
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
QUADRO-RESUMO

h PCN PCN+ OCEM C H


Item Prova Texto-Base Fonte %
(1998) (1999) (2002) (2008) (2009) (2009)
1 1999.10 Amarela Aquino, JPII original h18 1ab, 2, 3 III.1? 14? C1? H4? 72
Copernico,
2 1999.31 Amarela original h19 1ab, 2, 3 III.2? 1/29? C1? H4? 80
Da Vinci
3 2000.04 Amarela Cícero, Ulpiano original h19 1ab, 2, 3 II.1? 22? C3? H12? 41
4 2000.52 Amarela Locke original h21 1a, 2 II.1? 20? C3? H12? 45
5 2000.53 Amarela Locke original h20 1a, 3 II.1? 20? C1? H1? 39
6 2001.18 Amarela Bacon original h18 1a, 3 III.2? 1/29? C1? H1? 60
7 2001.30 Amarela Hobbes, Bobbio adaptado H19 1a, 2 II.3? 20? C3? H12? 38
8 2001.31 Amarela Hobbes, Bobbio adaptado h21 1ab, 2 II.3? 20? C3? H14? 32
9 2001.57 Amarela Shakespeare original h18 1b, 2, 3 III.2? 1/29? C1? H1? 26
10 2003.48 Amarela Montesquieu original h19 1a, 3 II.1 22? C3? H14? 29
11 2009a.82 Branca Manual adaptado - 1b, 2 II.3 22 C3 H12 -
12 2009b.58 Azul Aristóteles original - 1a I.1 8 C1 H01 -
13 2010a.27 Rosa Maquiavel original - 1a, 3 II.3 22 C3 H12 -
14 2010a.28 Rosa Valéry original - 1a, 2 I.3 22 C3 H14 -
15 2010a.34 Rosa Foucault original - 1a, 2 II.3 30 C5 H24 -
16 2010a.38 Rosa Manual adaptado - 1a II.3 22 C5 H23 -
17 2010a.42 Rosa Quino original - 1b, 2 I.3 0 C5 H24 -
18 2010a.44 Rosa Manual adaptado - 1a, 3 II.3 22 C5 H23 -
Segurança & Defe-
19 2010b.27 Azul adaptado - 1b, 2 II.3 22 C5 H23 -
sa Nacional
20 2010b.34 Azul Habermas adaptado - 1a, 2 II.3 28 C5 H23 -
21 2010b.45 Azul culturabrasil adaptado - 1b, 2 II.1 18 C1 H3 -
22 2011.02 Azul Folha adaptado - 1b, 2 II.3 22 C5 H23 -

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 105
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
referências
bibliográficas

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Relatório


pedagógico do Enem 2003. Brasília, DF: Inep, 2007.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Guia de


elaboração e revisão de itens. v. 1. Brasília, DF: Inep, 2008.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Guia de


elaboração e revisão de itens. v. 1. Brasília, DF: Inep, 2010.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Matrizes de


Referências do Enem. v. 4. Brasília, DF: Inep, 2009.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de diretrizes e bases da educação


nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996.

BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Orientações curriculares nacionais para o ensino


médio: ciências humanas e suas tecnologias. v. 3. Brasília, DF: MEC, 2008.

BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Secretaria de Educação Média e Tecnológica (SEMTEC).


Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino médio. Brasília, DF: SEMTEC/MEC, 1999.

BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Secretaria de Educação Média e Tecnológica


(SEMTEC). Orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares
Nacionais. Brasília, DF: SEMTEC/MEC, 2002.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 107
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
ANEXO I:
Matriz de
Competências
e Habilidades
do Enem (1998)

O Enem é estruturado por uma matriz que indica a associação entre conteúdos,
competências e habilidades básicas próprias ao jovem e jovem adulto, na fase de
desenvolvimento cognitivo e social correspondente ao término da escolaridade básica.
Considera como referências norteadoras: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB), os Parâmetros Curriculares Nacionais, as Diretrizes do Conselho Nacional de
Educação sobre a Educação Básica e os textos da Reforma do Ensino Médio. Cada uma
das cinco competências que estruturam o exame, embora correspondam a domínios
específicos da estrutura mental, funcionam de forma orgânica e integrada e expressam-se,
especificamente no caso do Enem, em vinte e uma habilidades.

Competências

I. Dominar a norma culta da língua portuguesa e fazer uso das linguagens


matemática, artística e científica.
II. Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a
compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da
produção tecnológica e das manifestações artísticas.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 109
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
III. Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados
de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema.
IV. Relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos
disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente.
V. Recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaboração de
propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores
humanos e considerando a diversidade sociocultural.

Habilidades

1. Dada a descrição discursiva ou por ilustração de um experimento ou fenômeno, de


natureza científica, tecnológica ou social, identificar variáveis relevantes e selecionar
os instrumentos necessários para realização ou interpretação do mesmo.
2. Em um gráfico cartesiano de variável socieconômica ou técnico-científica,
identificar e analisar valores das variáveis, intervalos de crescimento ou
decréscimo e taxas de variação.
3. Dada uma distribuição estatística de variável social, econômica, física, química
ou biológica, traduzir e interpretar as informações disponíveis, ou reorganizá-las,
objetivando interpolações ou extrapolações.
4. Dada uma situação-problema, apresentada em uma linguagem de determinada
área de conhecimento, relacioná-la com sua formulação em outras linguagens
ou vice-versa.
5. A partir da leitura de textos literários consagrados e de informações sobre
concepções artísticas, estabelecer relações entre eles e seu contexto histórico,
social, político ou cultural, inferindo as escolhas dos temas, gêneros discursivos
e recursos expressivos dos autores.
6. Com base em um texto, analisar as funções da linguagem, identificar marcas
de variantes linguísticas de natureza sociocultural, regional, de registro ou de
estilo e explorar as relações entre as linguagens coloquial e formal.
7. Identificar e caracterizar a conservação e as transformações de energia em
diferentes processos de sua geração e uso social, e comparar diferentes recursos
e opções energéticas.

110 FILOSOFIA NO ENEM


Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
8. Analisar criticamente, de forma qualitativa ou quantitativa, as implicações
ambientais, sociais e econômicas dos processos de utilização dos recursos
naturais, materiais ou energéticos.
9. Compreender o significado e a importância da água e de seu ciclo para a
manutenção da vida, em sua relação com condições socioambientais, sabendo
quantificar variações de temperatura e mudanças de fase em processos naturais
e de intervenção humana.
10. Utilizar e interpretar diferentes escalas de tempo para situar e descrever
transformações na atmosfera, biosfera, hidrosfera e litosfera, origem e evolução
da vida, variações populacionais e modificações no espaço geográfico.
11. Diante da diversidade da vida, analisar, do ponto de vista biológico, físico ou
químico, padrões comuns nas estruturas e nos processos que garantem a
continuidade e a evolução dos seres vivos.
12. Analisar fatores socioeconômicos e ambientais associados ao desenvolvimento,
às condições de vida e saúde de populações humanas, por meio da interpretação
de diferentes indicadores.
13. Compreender o caráter sistêmico do planeta e reconhecer a importância da
biodiversidade para preservação da vida, relacionando condições do meio e
intervenção humana.
14. Diante da diversidade de formas geométricas planas e espaciais, presentes na
natureza ou imaginadas, caracterizá-las por meio de propriedades, relacionar
seus elementos, calcular comprimentos, áreas ou volumes, e utilizar o
conhecimento geométrico para leitura, compreensão e ação sobre a realidade.
15. Reconhecer o caráter aleatório de fenômenos naturais ou não e utilizar em
situações-problema processos de contagem, representação de frequências
relativas, construção de espaços amostrais, distribuição e cálculo de probabilidades.
16. Analisar, de forma qualitativa ou quantitativa, situações-problema referentes
a perturbações ambientais, identificando fonte, transporte e destino dos
poluentes, reconhecendo suas transformações; prever efeitos nos ecossistemas
e no sistema produtivo e propor formas de intervenção para reduzir e controlar
os efeitos da poluição ambiental.
17. Na obtenção e produção de materiais e de insumos energéticos, identificar
etapas, calcular rendimentos, taxas e índices, e analisar implicações sociais,
econômicas e ambientais.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 111
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
18. Valorizar a diversidade dos patrimônios etnoculturais e artísticos, identificando-a
em suas manifestações e representações em diferentes sociedades, épocas e
lugares.
19. Confrontar interpretações diversas de situações ou fatos de natureza histórico-
geográfica, técnico-científica, artístico-cultural ou do cotidiano, comparando
diferentes pontos de vista, identificando os pressupostos de cada interpretação
e analisando a validade dos argumentos utilizados.
20. Comparar processos de formação socioeconômica, relacionando-os com seu
contexto histórico e geográfico.
21. Dado um conjunto de informações sobre uma realidade histórico-geográfica,
contextualizar e ordenar os eventos registrados, compreendendo a importância
dos fatores sociais, econômicos, políticos ou culturais.

A concepção de conhecimento subjacente a essa matriz pressupõe colaboração,


complementaridade e integração entre os conteúdos das diversas áreas do conhecimento
presentes nas propostas curriculares das escolas brasileiras de ensino fundamental e médio
e considera que conhecer é construir e reconstruir significados continuamente, mediante o
estabelecimento de relações de múltipla natureza, individuais e sociais.
O Enem busca verificar como o conhecimento assim construído pode ser efetivado
pelo participante por meio da demonstração de sua autonomia de julgamento e de ação,
de atitudes, valores e procedimentos diante de situações-problema que se aproximem, o
máximo possível, das condições reais de convívio social e de trabalho individual e coletivo.
A Matriz de Competências pressupõe, ainda, que a competência de ler, compreender,
interpretar e produzir textos, no sentido amplo do termo, não se desenvolve unicamente
na aprendizagem da Língua Portuguesa, mas em todas as áreas e disciplinas que
estruturam as atividades pedagógicas na escola. O participante deve, portanto, demonstrar,
concomitantemente, possuir instrumental de comunicação e expressão adequado, tanto
para a compreensão de um problema matemático quanto para a descrição de um processo
físico, químico ou biológico e, mesmo, para a percepção das transformações de espaço/
tempo da história, da geografia e da literatura.

112 FILOSOFIA NO ENEM


Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
ANEXO II:
PCN: Competências
e habilidades
a serem
desenvolvidas
em Filosofia (1999)

Representação e comunicação

• Ler textos filosóficos de modo significativo.


• Ler, de modo filosófico, textos de diferentes estruturas e registros.
• Elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo.
• Debater, tomando uma posição, defendendo-a argumentativamente e mudando
de posição face a argumentos mais consistentes.

Investigação e compreensão
• Articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos
nas Ciências Naturais e Humanas, nas artes e em outras produções culturais.

Contextualização sociocultural
• Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica,
quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sociopolítico, histórico
e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica. (PCN, 1999, p. 64)

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 113
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
ANEXO III:
PCN+: Eixos
Temáticos em
Filosofia (2002)

I. Relações de Poder e Democracia

Temas Subtemas
• A ágora e a assembleia: igualdade nas leis e no
direito à palavra
1. A democracia grega
• Democracia direta: formas contemporâneas
possíveis de participação da sociedade civil

• Antecedentes:
– Montesquieu e a teoria dos três poderes
2. A democracia contemporânea
– Rousseau e a soberania do povo
• O confronto entre as ideias liberais e o socialismo

• O conceito de cidadania
3. O avesso da democracia
• Os totalitarismos de direita e esquerda

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 115
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
II. A Construção do Sujeito Moral

Temas Subtemas
• Descentração do indivíduo e o reconhecimento do
outro
1. Autonomia e liberdade • As várias dimensões da liberdade (ética,
econômica, política)
• Liberdade e determinismo

• O individualismo contemporâneo e a recusa do


outro
2. As formas da alienação moral
• As condutas massificadas na sociedade
contemporânea

• Maquiavel: as relações entre moral e política


3. Ética e política
• Cidadania: os limites entre o público e o privado

III. O que é Filosofia

Temas Subtemas
• Mito e Filosofia: o nascimento da Filosofia na
Grécia
1. Filosofia, mito e senso comum
• Mitos contemporâneos
• Do senso comum ao pensamento filosófico

• Características do método científico


• O mito do cientificismo: as concepções
reducionistas da ciência
2. Filosofia, ciência e tecnocracia
• A tecnologia a serviço de objetivos humanos e
os riscos da tecnocracia
• A bioética

• Os diversos tipos de valor


• A arte como forma de conhecer o mundo
3. Filosofia e estética
• Estética e desenvolvimento da sensibilidade e
imaginação

116 FILOSOFIA NO ENEM


Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
ANEXO IV:
Conteúdos de
Filosofia das
Orientações
Curriculares para
o Ensino Médio:
Ciências Humanas e
suas Tecnologias
(2008)

1) Filosofia e conhecimento; Filosofia e ciência; definição de Filosofia;


2) validade e verdade; proposição e argumento;
3) falácias não formais; reconhecimento de argumentos; conteúdo e forma;
4) quadro de oposições entre proposições categóricas; inferências imediatas em con-
texto categórico; conteúdo existencial e proposições categóricas;
5) tabelas de verdade; cálculo proposicional;
6) filosofia pré-socrática; uno e múltiplo; movimento e realidade;
7) teoria das ideias em Platão; conhecimento e opinião; aparência e realidade;
8) a política antiga; a República de Platão; a Política de Aristóteles;
9) a ética antiga; Platão, Aristóteles e filósofos helenistas;
10) conceitos centrais da metafísica aristotélica; a teoria da ciência aristotélica;
11) verdade, justificação e ceticismo;
12) o problema dos universais; os transcendentais;
13) tempo e eternidade; conhecimento humano e conhecimento divino;
14) teoria do conhecimento e do juízo em Tomás de Aquino;
15) a teoria das virtudes no período medieval;
16) provas da existência de Deus; argumentos ontológico, cosmológico, teleológico;
17) teoria do conhecimento nos modernos; verdade e evidência; ideias; causalidade; in-
dução; método;

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 117
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
18) vontade divina e liberdade humana;
19) teorias do sujeito na filosofia moderna;
20) o contratualismo;
21) razão e entendimento; razão e sensibilidade; intuição e conceito;
22) éticas do dever; fundamentações da moral; autonomia do sujeito;
23) idealismo alemão; filosofias da história;
24) razão e vontade; o belo e o sublime na Filosofia alemã;
25) crítica à metafísica na contemporaneidade; Nietzsche; Wittgenstein; Heidegger;
26) fenomenologia; existencialismo;
27) Filosofia analítica; Frege, Russell e Wittgenstein; o Círculo de Viena;
28) marxismo e Escola de Frankfurt;
29) epistemologias contemporâneas; Filosofia da ciência; o problema da demarcação
entre ciência e metafísica;
30) Filosofia francesa contemporânea; Foucault; Deleuze. (Brasil. MEC, 2008, p. 34-35)

118 FILOSOFIA NO ENEM


Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
ANEXO V:
Matriz de
Referência
de Ciências
Humanas e suas
Tecnologias
(2009)

Competência de área 1:
Compreender os elementos culturais que constituem as identidades

H1 Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de as-


pectos da cultura.
H2 Analisar a produção da memória pelas sociedades humanas.
H3 Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos históricos.
H4 Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto
da cultura.
H5 Identificar as manifestações ou representações da diversidade do patrimônio cultural
e artístico em diferentes sociedades.

Competência de área 2:
Compreender as transformações dos espaços geográficos como
produto das relações socioeconômicas e culturais de poder.

H6 Interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 119
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
H7 Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.
H8 Analisar a ação dos estados nacionais no que se refere à dinâmica dos fluxos
populacionais e no enfrentamento de problemas de ordem econômico-social.
H9 Comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socio-
econômicas em escala local, regional ou mundial.
H10 Reconhecer a dinâmica da organização dos movimentos sociais e a importância da
participação da coletividade na transformação da realidade histórico-geográfica.

Competência de área 3:
Compreender a produção e o papel histórico das instituições
sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos,
conflitos e movimentos sociais.

H11 Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço.


H12 Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.
H13 Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou
rupturas em processos de disputa pelo poder.
H14 Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos,
sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais,
políticas e econômicas.
H15 Avaliar criticamente conflitos culturais, sociais, políticos, econômicos ou ambientais
ao longo da história.


Competência de área 4:
Entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu impacto
nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento
e na vida social.

H16 Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do


trabalho e/ou da vida social.
H17 Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de terri-
torialização da produção.

120 FILOSOFIA NO ENEM


Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011
H18 Analisar diferentes processos de produção ou circulação de riquezas e suas implicações
socioespaciais.
H19 Reconhecer as transformações técnicas e tecnológicas que determinam as várias
formas de uso e apropriação dos espaços rural e urbano.
H20 Selecionar argumentos favoráveis ou contrários às modificações impostas pelas novas
tecnologias à vida social e ao mundo do trabalho.

Competência de área 5:
Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar
os fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma
atuação consciente do indivíduo na sociedade.

H21 Identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social.


H22 Analisar as lutas sociais e conquistas obtidas no que se refere às mudanças nas
legislações ou nas políticas públicas.
H23 Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades.
H24 Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades.
H25 Identificar estratégias que promovam formas de inclusão social.

Competência de área 6:
Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas
interações no espaço em diferentes contextos históricos e
geográficos.

H26 Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações
da vida humana com a paisagem.
H27 Analisar de maneira crítica as interações da sociedade com o meio físico, levando em
consideração aspectos históricos e(ou) geográficos.
H28 Relacionar o uso das tecnologias com os impactos socioambientais em diferentes
contextos histórico-geográficos.
H29 Reconhecer a função dos recursos naturais na produção do espaço geográfico,
relacionando-os com as mudanças provocadas pelas ações humanas.
H30 Avaliar as relações entre preservação e degradação da vida no planeta nas diferentes
escalas.

FILOSOFIA NO ENEM
Um estudo analítico dos conteúdos relativos à Filosofia 121
ao longo das edições do Enem entre 1998 e 2011