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Introdução ao

Estudo do
Novo Testamento
Um Guia Prático
Para o Estudo do
Novo testamento

Anísio Renato de Andrade


Índice

Introdução aos Evangelhos........................................................................................... 4


O Evangelho de Mateus ............................................................................................................ 9
Evangelho de Marcos .............................................................................................................. 22
Evangelho de Lucas................................................................................................................. 28
Evangelho de João................................................................................................................... 32
Atos dos Apóstolos................................................................................................................... 41
Carta de Paulo aos Romanos ................................................................................................ 47
Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios ............................................................................. 59
Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios ................................................................... 69
Epístola de Paulo aos Gálatas ............................................................................................... 78
Epístola de Paulo aos Efésios ................................................................................................ 87
Epístola de Paulo aos Filipenses ........................................................................................... 96
Epístola de Paulo aos Colossenses .................................................................................... 105
Primeira Epístola de Paulo aos Tessalonicenses ............................................................. 110
Segunda Epístola de Paulo aos Tessalonicenses ............................................................ 114
Primeira Epístola de Paulo a Timóteo ................................................................................. 119
Segunda Epístola de Paulo a Timóteo................................................................................ 122
Epístola de Paulo a Tito ........................................................................................................ 124
Epístola de Paulo a Filemom ................................................................................................ 128
Epístola aos Hebreus............................................................................................................. 131
Epístola de Tiago .................................................................................................................... 148
Primeira Epístola de Pedro ................................................................................................... 161
Segunda Epístola de Pedro .................................................................................................. 175
Primeira Epístola de João ..................................................................................................... 181
Segunda Epístola de João .................................................................................................... 188
Terceira Epístola de João ..................................................................................................... 192
Epístola de Judas ................................................................................................................... 195
Apocalipse ............................................................................................................................... 199
BIBLIOGRAFIA ..................................................................................................................... 221
Introdução aos Evangelhos

EVANGELHO – BOAS NOVAS

A palavra evangelho não foi criada por Jesus nem por seus
discípulos. Era uma palavra de uso comum nas comunidades antigas.
As guerras entre os povos eram constantes. As dificuldades de
comunicação entre os guerreiros e suas cidades de origem eram
muito grandes. As famílias, principalmente, aguardavam
ansiosamente por notícias de seus filhos nos campos de batalha. O
meio utilizado para isso era o envio de mensageiros, os quais traziam
notícias sobre o sucesso ou fracasso dos soldados. A chegada do
mensageiro era muito esperada. Quando ele chegava com boas
notícias, então recebia uma recompensa por seu esforço. Esse
presente era chamado "evangelho". Era também realizada uma festa
comemorativa, que também passou a ser chamada "evangelho".

Jesus é o mensageiro de Deus que veio anunciar sua própria


vitória sobre as forças das trevas e a libertação do homem. Assim, no
Novo Testamento, a palavra evangelho adquire o significado de
mensagem da salvação através da obra de Cristo a favor do homem
(Mt.4.23; 24.14). A tradição cristã estende esse significado, usando a
palavra evangelho para identificar cada um dos quatro primeiros
livros do Novo Testamento, os quais apresentam relatos sobre a vida
de Cristo. Assim, surge o uso plural da palavra. Nos tempos da igreja
primitiva, isso seria considerado absurdo, uma vez que, para os
primeiros cristãos, o evangelho era único. Outro evangelho seria
considerado anátema. Como então poderia haver evangelhos?
Entretanto, tal designação para os quatro evangelhos se firmou e se
tornou definitiva.

ASPECTOS GERAIS DOS QUATRO EVANGELHOS

Pluralidade – Poderíamos ter 1 evangelho nas Escrituras e isso


poderia ser satisfatório. Contudo, Deus quis que fossem quatro. Esta
pluralidade tem sua razão de ser e seu objetivo. Um dos motivos nos
parece ser o valor do número de testemunhas. A lei mosaica
determinava que o testemunho contra alguém deveria ser dado por
duas ou três pessoas e nunca por uma só (Dt.17.6). O mesmo
princípio é utilizado por Cristo em Mt.18.16. O número de
testemunhas é importante na determinação da veracidade de um
fato. Assim, era importante que duas ou três testemunhas dessem
testemunho sobre a vida, a morte e a ressurreição de Jesus. Nos
processos jurídicos as testemunhas continuam sendo muito
importantes até hoje. Em muitos casos não é possível a prova
científica. Cabe então a prova testemunhal. Todo testemunho deve
ser registrado por escrito. Assim também aconteceu com os relatos
sobre Cristo. Alguns escritores dos evangelhos podem não ter sido
testemunhas oculares dos fatos ali narrados. Entretanto, escreveram
o que as testemunhas disseram. A pluralidade dos evangelhos é
também valiosa por nos apresentar a mesma história vista sob
ângulos diferentes.

Objetividade – Os evangelhos foram escritos tendo-se em vista


um objetivo definido: anunciar as boas novas de salvação. Por esta
causa, os escritores não se dedicaram a registrar pormenores da vida
de Cristo, sua infância, seus hábitos diários, seu trabalho na
carpintaria, etc. Eles se limitaram a mencionar a origem de Cristo
(humana e divina), seu ministério (ensinamentos, milagres), sua
morte, ressurreição e ascensão. Uma grande parte de cada evangelho
se dedica a narrar os fatos da última semana do ministério de Cristo.
(Veja João 21.25).

Unidade - Apesar de serem quatro os evangelhos, eles são


harmônicos entre si. É possível se construir um relato coerente
reunindo os 4 evangelhos. Eles se completam.

Diversidade – Apesar da unidade entre os evangelhos, eles não


são iguais. Se assim fosse, não faria sentido a existência de quatro.
Bastaria um. Existem diversas diferenças entre eles. Contudo,
diferença não significa contradição. São quatro relatos distintos sobre
os mesmos fatos. Algumas narrativas ou ensinamentos são
apresentados exclusivamente por um escritor ou apenas por dois ou
por três ou pelos quatro E mesmo entre narrativas do mesmo fato,
existem diferenças entre os detalhes. Por exemplo, autor diz que
Jesus curou um cego em Jericó. O outro diz que foram dois cegos.
Um não contradiz o outro. Se Jesus curou um cego, ele pode muito
bem ter curado outro. A contradição haveria se um autor negasse a
afirmação do outro. As diferenças podem advir de várias causas.
Duas narrativas normalmente relacionadas podem, na verdade, ser
referência a dois episódios distintos. Uma outra possibilidade é a
omissão de algum detalhe, já que tais relatos foram, no princípio,
transmitidos oralmente. Assim, algum ponto poderia ser esquecido
por um narrador, mas lembrado por outro. Nesse processo, o que
prevalece é a nossa fé no cuidado divino para que a essência do
evangelho chegasse a nós de forma íntegra. Entre os evangelhos,
observa-se maior semelhança entre Mateus, Marcos e Lucas. Por isso,
são chamados sinóticos, ou seja, possuidores da mesma ótica. Esse
termo foi usado pela primeira vez por J.J. Griesbach, em 1774. O
evangelho de João, por sua vez, apresenta um estilo todo particular.
Ordem - Os livros não se encontram dispostos em nossas Bíblias
na mesma ordem em que foram escritos. Além disso, os próprios
fatos narrados não seguem ordem cronológica, principalmente no
livro de Mateus.

Motivos – Os evangelhos foram escritos para responder aos


questionamentos da comunidade do primeiro século e também para
combater as mentiras dos inimigos a respeito de Jesus. Os apóstolos
começavam a morrer e tornava-se então imperioso que se
registrassem suas memórias sobre o Salvador. Além disso, existiram
também os motivos particulares de cada escritor, conforme veremos
no estudo de cada livro.

FORMAÇÃO DOS EVANGELHOS SINÓTICOS

Sobre a formação de todos os evangelhos podemos considerar a


seguinte equação:

Fonte oral + fonte escrita + testemunho pessoal (em alguns


casos) = evangelho

Sobre os evangelhos sinóticos, existem várias sugestões do


processo de formação. Isto se deve às semelhanças observadas entre
Mateus, Marcos e Lucas, o que leva a se supor que um tenha utilizado
o escrito do outro, ou que tenham tido acesso às mesmas fontes.

Uma das principais hipóteses das fontes apresenta o evangelho


de Marcos como o primeiro a ser escrito. Além deste, haveria
também uma fonte denominada "Q", contendo relatos sobre a vida de
Cristo. Mateus e Lucas teriam então se utilizado do evangelho de
Marcos e da fonte "Q" para produzirem seus evangelhos. Teriam
também usado material exclusivo. Mateus teria tido acesso a uma
fonte "M" exclusiva e igualmente Lucas a uma fonte "L".

Assim, os relatos comuns entre Mateus, Marcos e Lucas, seriam


material original de Marcos. Os relatos comuns entre Mateus e Lucas
e desconhecidos por Marcos seriam o conteúdo da fonte "Q". O
material exclusivo de Mateus seria da fonte "M" e o material exclusivo
de Lucas seria da fonte "L". Contudo, existem muitas dúvidas sobre a
existência dessas fontes (Q,M,L) e se elas seriam escritas ou orais.
Sobre a fonte "Q", por exemplo, existe a hipótese de que a mesma
não tenha existido, mas que todo esse material tenha sido transferido
de Mateus para Lucas ou vice-versa.

Marcos possui 678 versículos.

Mateus possui 1071 no total. Destes, 600 versículos


correspondem a 606 de Marcos, ou seja, Mateus faz as mesmas
narrativas de modo quase idêntico. Mateus possui 300 versículos
exclusivos (M). Os outros 171 podem ter vindo da fonte "Q" e
encontram semelhança com parte de Lucas.

Lucas possui 1151 no total. Destes, 380 versículos correspondem


a 280 de Marcos, ou seja, Lucas faz as mesmas narrativas de modo
mais extenso. Lucas possui 520 versículos exclusivos (L). Os outros
251 podem ter vindo da fonte "Q" e encontram semelhança com
parte de Mateus.

Isolando-se o material atribuído à fonte "Q", obtém-se um


escrito semelhante ao estilo profético do Velho Testamento. Seriam
partes referentes a João Batista, o batismo, a tentação, muitos
ensinos, pouca narrativa, e nada sobre a morte de Cristo.

PROPAGAÇÃO DO EVANGELHO E TIPOS DE EVANGELHO

Motivo, conteúdo e objetivo estão interligados. Motivo é o


elemento que impulsiona alguém para determinada ação. Objetivo é
o que se espera atingir ou realizar. No caso dos evangelhos, os
motivos foram as necessidades da comunidade, a carência de
registros fidedignos sobre Cristo. O objetivo maior é a salvação das
almas. O evangelho é o "poder de Deus para a salvação..."
(Rm.1.16). A preposição "para" determina o objetivo.

Precisamos questionar hoje os motivos que nos movem como


pregadores do evangelho. Nos dias de Paulo, foram observados
motivos diversos (Fil.1.15-19): inveja, contenda, boa mente e amor.
Contudo, disse o apóstolo, importa que o evangelho seja pregado.
Isto porque, mesmo com motivos errados, o objetivo pode,
eventualmente, ser atingido, ou seja, mesmo que alguém pregue por
inveja muitos podem ser salvos, já que o evangelho é o poder de
Deus. Não obstante, o mau obreiro não ficará impune. Poderá até
mesmo ser alguém que ajudou a construir a arca mas não entrou
nela, ou como uma placa que aponta o caminho mas não o segue.

O problema torna-se maior quando aos motivos errados somam-


se objetivos estranhos ao evangelho. Então, o próprio conteúdo passa
a ser deformado a fim de atingir propósitos escusos (II Pd.2.1-3).
Observa-se então o surgimento de um "evangelho comercial", onde
as pessoas são estimuladas a fazerem negócios com Deus. Desse
pensamento surge o "evangelho da prosperidade", o qual deixa para
segundo plano a questão da salvação das almas e se dedica à
salvação do orçamento. Toda benção material sempre será bem-
vinda. Contudo, não podemos fazer disso o propósito do evangelho
nem efeito essencial da sua eficácia. Zacarias profetizou sobre Cristo,
apresentando-o como um rei pobre, humilde e que vinha montado
em um jumentinho, quando o natural seria um rei rico montado num
elegante cavalo. Contudo, o profeta diz que o Messias é justo e
salvador. Eis aí o valor e o propósito do evangelho: justiça e salvação
(Zc.9.9). Cai no mesmo erro a Teologia da libertação, a qual
interpreta a salvação e a libertação oferecidas por Cristo como um
rompimento das opressões sociais.

Cabe a cada um de nós o zelo pelo evangelho bíblico e por seu


legítimo objetivo. Que não sejamos mercadores da palavra de Deus.
É legítimo o sustento aos que trabalham na obra de Deus. O erro
consiste em fazer do benefício pessoal a causa da obra. Igreja não é
empresa. Ministério não é profissão. Evangelho não é negócio.
O Evangelho de Mateus

AUTORIA – Mateus. Seu nome significa "dom de Deus".


(Mat.9.9-13; 10.3 Mc.2.13-17 - Lc.5.27-32). Era também conhecido
pelo nome de Levi (Associado). Era um judeu cristão, discípulo e
apóstolo de Jesus Cristo. Antes de ser chamado pelo Mestre, exercia
a função de publicano, isto é, coletor de impostos para o Império
Romano. Os publicanos eram tão desprezados pelos judeus que não
podiam falar nos tribunais, nem se aceitava seu dízimo no templo.
Sobre sua autoria em relação ao primeiro livro do Novo Testamento,
tem-se o testemunho de Papias, bispo de Hierápolis (Frígia), do
2o século d.C..

DATA - 60 d.C.? (existem muitas opiniões datando entre 45 a 85


d.C.)

LOCAL - Antioquia da Síria.

DESTINATÁRIOS - Judeus

VERSÍCULO CHAVE - 27.37

PALAVRA CHAVE - cumprir (Mt.5.17). O Novo Testamento não


deve ser visto como oposição ao Velho Testamento mas como seu
cumprimento. O verbo "cumprir" e algumas de suas variações são
encontrados em muitas passagens de Mateus. Ele pretendia mostrar
na vida de Cristo o cumprimento das profecias do Velho Testamento.
Sobre a lei, Jesus disse que veio para cumprir e não para revogar.
Isso significa não apenas a obediência de Jesus à lei, mas também
indica que, em alguns aspectos especiais, a obra de Cristo
representou o cumprimento último e definitivo da lei, a consumação.
Podemos afirmar isto, principalmente em relação aos sacrifícios de
animais, cuja determinação teve no calvário seu cumprimento
suficiente e eterno.

Em Mateus 3, no episódio do batismo, temos o questionamento


de João Batista quanto ao ato de batizar Jesus. Este respondeu que
era necessário cumprir toda a justiça. Era, de fato, estranho que
Jesus viesse se submeter a um ato representativo de arrependimento
sendo que ele nunca havia cometido nenhum pecado. O batismo é
um símbolo da morte e da ressurreição de Cristo. Da mesma forma
como era estranho o fato de Cristo ser batizado, seria também
estranha sua morte numa cruz, considerando-se que a crucificação
era destinada a pecadores. Podemos até mesmo imaginar que Deus,
sendo o todo poderoso, poderia salvar toda a humanidade sem que
Cristo morresse. Contudo, a resposta que lemos em Mateus 3 é
suficiente para explicar tudo isso: "É necessário para que se cumpra
toda a justiça". A justiça exige que para todo pecado seja imposta a
punição correspondente. Impunidade seria injustiça. Assim, se
fôssemos salvos sem que ninguém morresse em nosso lugar, a
justiça não seria cumprida.

OBJETIVO PARTICULAR - Mateus procurou apresentar os vínculos


de Jesus com a nação judaica e com o Velho Testamento,
demonstrando que ele era o Rei Messias esperado por Israel. Por
isso, o livro começa com a genealogia de Cristo, ligando-o a Abraão e
a Davi. Como foi dito no tópico da palavra chave, o autor apresenta a
ligação da vida de Cristo com o Velho Testamento através da
freqüente expressão: "Para que se cumprisse o que foi dito pelo
profeta..." Nota-se nessa expressão a soberania divina em ação. Os
fatos da vida de Jesus não foram obra do acaso, mas o cumprimento
do propósito predito na escrituras. Compare os textos a seguir:
Mt.1.23 (Is.7.14) Mt.2.6. (Mq.5.2) Mt.2.18 (Jer.31.15) Mt.21.4
(Zc.9.9). Mateus apresenta mais de 60 citações do VT em seu
evangelho.

CARACTERÍSTICAS E CONTEÚDO

Apologético - apresenta defesa do evangelho diante do judaísmo.

Doutrinal - com destaque para os ensinamentos de Cristo.

Narrações breves – Os fatos narrados são poucos e sucintos, já


que a doutrina tem prioridade.

Sem ordem cronológica – O livro não apresenta fatos e ensinos


na ordem em que ocorreram ou foram ditos. A ordem só é seguida
em parte: no início do livro (nascimento, batismo, tentação) e no
final (última semana, morte, ressurreição e ascensão). No meio, as
parábolas, milagres e ensinamentos não se encontram ordenados
cronologicamente.

Organização temática – Mateus faz apresenta um arranjo


temático em seu conteúdo. Os ensinamentos são reunidos em cinco
grandes blocos. As parábolas e os milagres também são organizados
convenientemente.

Escrito para um público religioso: os judeus.

Escrito em hebraico – já que se dirigia aos judeus. Apesar desse


direcionamento aos judeus, Mateus não se apresenta como um
bajulador de seus compatriotas. Ele demonstra claramente que os
judeus tinham prioridade no ministério de Cristo (Mt.15.24 10.6),
mas mostra também a perda do espaço para os gentios, que vão
dominando a cena. Mateus começa mencionando os magos no
capítulo 2. Eles eram gentios e foram presentear o menino Jesus,
enquanto que os judeus que serviam a Herodes não se dirigiram a
Belém, embora estivessem bem informados sobre o local onde o
Messias haveria de nascer. Finalmente, Mateus cita a ordem de Cristo
de se pregar o evangelho e se fazer discípulos em todas as nações.
(Mt.4.15; 8.10-12; 12.18-21; 21.42-34; 28.18-20.)

Mateus é o único evangelho a apresentar a palavra igreja (3x)


(16.18 e 18.17).

O evangelho de Mateus contém 6 discursos de Cristo: Mt.5-7;


10; 13; 18; 23; 24-25.

Contém 15 parábolas (10 exclusivas). Um dos efeitos das


parábolas é a fixação do ensinamento. Isto quando o mesmo é
compreendido. Trata-se então de um recurso didático. Aliás, tal
propósito encontra-se subjacente a muitos elementos e práticas do
judaísmo e do cristianismo. As festas judaicas continham propósito
didático. O mesmo acontece com a ceia e o batismo, embora seu
sentido e objetivo não esteja restrito a esse propósito.

Mateus narra 20 milagres (3 exclusivos). Embora o número seja


grande, as narrativas são resumidas.

Mateus apresenta Jesus como Rei. Tal propósito já se nota na


apresentação da genealogia. A expressão "Filho de Davi" ocorre 9
vezes no livro. A palavra reino aparece 55 vezes.

MACRO DIVISÃO DO LIVRO

I - genealogia, nascimento e infância - 1 - 2

II - Ministério na Galiléia - 3 - 18

III - Ministério na Judéia - 19-28

ESBOÇO DO LIVRO (adaptado do esboço de Scroggie)

I - A preparação do rei 1.1 a 4.11

1 - a descendência do Rei 1.1-17

2 - O advento do Rei - 1.18 a 2.13

3 - O embaixador do Rei - 3.1-17


4 – A prova do Rei – 4.1-11

II - O programa do rei - 4.12 a 16.12

1 - O começo do reino 4.12-25

2 - O manifesto do reino - 5-7

3 - Os sinais do Reino 8-9

4 - Os mensageiros do Reino - 10-11

5 - Os princípios do reino - 12

6 - Os mistérios do reino 13.1-52

7 - A ofensa do reino 13.53 a 16.12

III - A paixão do Rei - 16.13 a 28.20

1 - A revelação do rei 16.21 - 17.27

2 - A doutrina do rei 18-20

3 - A rejeição do rei 21-22

4 - As censuras do rei 23

5 - As predições do rei 24-25

6 - Os sofrimentos do rei - 26-27

7 - O triunfo do rei 28

ESBOÇO COMENTADO

Todo os esboços de livros bíblicos dependem muito de quem os


elabora. Podem ser encontrados diversos esboços de Mateus
diferentes entre si. Isto se deve ao fato de que o texto original não
continha divisões em capítulos, versículos e blocos como temos hoje.
Assim, o presente esboço é uma entre tantas maneiras de se
apresentar o evangelho de Mateus. Scroggie trabalhou sobre o tema
do reino. O esboço mostra o conteúdo de Mateus como a
apresentação do reino de Deus na pessoa do Rei Jesus.

I - A preparação do rei 1.1 a 4.11


1 - A descendência do Rei 1.1-17 – a genealogia.

2 - O advento do Rei - 1.18 a 2.13 – advento = vinda.

3 - O embaixador do Rei - 3.1-17 – Era comum entre os reis o


envio de mensageiros diante de si para anunciar a aproximação da
comitiva real. Iam estes anunciando em alta voz a chegada do rei. Os
súditos deviam então se colocar em atitude e posição de reverência.
Muitas vezes era comum que todos se prostrassem diante do rei. Da
mesma forma, João Batista foi enviado na frente de Jesus para
anunciar a sua chegada, cumprindo-se assim a profecia de Isaías
(40).

4 – A prova do Rei – 4.1-11 – A tentação no deserto.

Dr. G. Campbell Morgan apresenta as passagens acima como a


relação de Cristo com a terra (genealogia), o céu (a pomba e a voz
no batismo), e o inferno (tentação).

II - O programa do rei - 4.12 a 16.12

1 - O começo do reino 4.12-25 – Jesus começou a pregar


dizendo: arrependei-vos. O arrependimento é o começo do reino de
Deus na vida do homem. A seguir Jesus escolhe seus discípulos.
Depois do arrependimento deve vir o compromisso de seguir o
Mestre. No capítulo 4 aparecem os discípulos (4.22) e
as multidões (4.25). A grande diferença entre os discípulos e as
multidões é o compromisso com Jesus. No fim do dia as multidões
vão para suas casas, mas os discípulos continuam com Jesus. As
multidões só querem receber as bênçãos. Os discípulos deixam tudo
para seguir o Mestre (4.22).

2 - O manifesto do reino (as leis) - 5-7 – Manifesto = declaração


pública. Jesus vem a público apresentar as propostas do seu reino.
Assim como Moisés recebeu no monte Sinai as leis da antiga aliança,
Jesus também sobe ao monte e promulga a lei do reino. Pode parecer
estranho se falar em lei no Novo Testamento. Contudo, Paulo chega a
usar a expressão "lei de Cristo" (Gálatas 6.2). Seus mandamentos
atingem o interior do homem, enquanto que a lei mosaica se aplicava
principalmente ao exterior. A lei de Moisés proibia o homicídio. Jesus
foi além quando falou do ódio contra o próximo. Ele foi mais fundo.
Como disse João Batista: "O machado está posto à raiz das árvores."
(Mt.3). No Novo Testamento, Deus atinge a raiz do pecado no
coração humano. Encontramos em Mateus o constante confronto
entre questões exteriores e interiores. A religiosidade judaica,
constituída de rituais exteriores, é permanentemente confrontada
pelos ensinamentos de Cristo, não exatamente para condenar os
aspectos exteriores mas para mostrar o vazio interior daqueles
religiosos. Jesus veio levar o povo de Deus de um estágio superficial
para um relacionamento de intimidade com o Senhor. Ao invés da
idéia de um Deus distante, Jesus nos ensinou a chamar o Senhor de
"Pai nosso". Vejamos uma relação dos elementos apresentados no
texto e que mostram esse confronto:

Folhas e frutos são igualmente produções da árvore. Contudo, o


fruto só é produzido no tempo oportuno. Nos momentos em que
podemos agir com espontaneidade é que o fruto aparece. Nos nossos
momentos de maior liberdade de expressão é que os nossos frutos se
manifestam. Em outras circunstâncias podemos estar agindo apenas
em cumprimento às exigências e expectativas sociais, atendendo a
ordens ou pressões diversas. São folhas que se multiplicam, mas não
são suficientes para a identificação da árvore. "Pelos seus frutos os
conhecereis." Estas palavras de Jesus nos levam a concluir que
podemos identificar o joio no nosso meio. Contudo, não vamos
condená-lo. "Não julgueis para que não sejais julgados." (Mt.7.1).

Ainda no capítulo 5, Jesus fala sobre o caráter do cidadão do


reino de Deus. Logo se observa que tudo o que ali se encontra é
contrário aos ditames mundanos. É por essa diferença que os
discípulos podem ser sal e luz (Mt.5.14). Sendo positivamente
diferentes, poderão ser força de influência. O sal dá sabor e evita a
putrefação. Porém, se o sal vier a cair por terra, será pisado pelos
homens. Este é o caso daqueles servos de Deus que se tornam
motivo de escândalo e vergonha para o evangelho.

3 - Os sinais do Reino 8-9 – Nessa parte Mateus apresenta


alguns milagres de Jesus. Seu reino não é composto apenas de
palavras, ensinamentos, mas demonstração de poder. Vemos então
nesses capítulos a autoridade do Rei Messias sobre: homens, toda
sorte de enfermidades (Mt. 9.35), deficiências físicas, morte, pecado,
natureza, demônios. Fica em evidência o absoluto alcance do Reino
de Deus. Ele abrange todas as áreas. Temos referência ao natural, ao
humano e ao espiritual. Poderíamos considerar o humano como parte
do natural, mas dividimos assim para visualizarmos o homem em
relação ao que é natural e ao que é espiritual. É importante
separarmos bem essas coisas. Nem toda doença é provocada por
demônios, mas algumas são. Nem toda ventania é provocada por
demônios, mas algumas podem ser, conforme se vê no livro de Jó. O
que não se deve fazer é generalizar. Em muitos casos será necessário
o discernimento dado por Deus. Seja de que tipo e origem for o fato,
nada se encontra fora do alcance do poder de Deus.

4 - Os mensageiros do Reino - 10-11 – Os mensageiros aqui


citados são: João Batista, seus discípulos, e os discípulos de Jesus.
João estava passando por uma crise de dúvidas. O rei Jesus, que ele
mesmo anunciara não havia tomado nenhuma providência para
libertá-lo do cárcere. Surgiu então o questionamento: "Será este
mesmo o Cristo?" Muitas vezes o evangelho pode não atender às
nossas expectativas particulares. Alguns problemas podem persistir e
isso pode trazer a frustração. Contudo, os propósitos divinos são
superiores aos nossos. "E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide, e
anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: Os cegos vêem, e os
coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos
são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho." O plano
de Deus está se cumprindo e se alguma tribulação é permitida em
nossas vidas, ela também faz parte desse plano.

Quanto aos discípulos, Jesus os envia para uma espécie de


treinamento. São enviados a pregar o evangelho do reino e operar
milagres. Sua missão estava restrita ao ambiente judaico. Estavam
proibidos de se dirigirem aos gentios e aos samaritanos. Tais pessoas
não estavam eliminadas do plano de Deus. Entretanto, para tudo há
um tempo apropriado. Os judeus tinham primazia no objetivo de
Cristo. Por outro lado, os próprios discípulos ainda não estavam
preparados para fazer a obra entre os gentios e samaritanos. Em
Mateus 28, Jesus lhes dá a ordem de pregarem a todas as nações,
mas não sem o revestimento do Espírito Santo que lhes seria dado
(Lc.24.49 At.1.8).

5 - Os princípios do reino – 12 – Jesus dá destaque para a


misericórdia e o amor em detrimento de uma observação apenas
literal da lei. Apresenta-se nesse trecho a superioridade de Cristo
sobre o templo, o sábado, o profeta Jonas e o rei Salomão.
(Mt.12.6,8,41,42.). O rei Jesus é superior a todos os valores e figuras
importantes do judaísmo. Isso foi um choque para os religiosos
tradicionais. Em seguida, observa-se o reconhecimento de Cristo por
parte da multidão como sendo "Filho de Davi" (12.23). Diante de
tudo isso, manifesta-se o ciúme dos líderes religiosos contra Cristo,
os quais se dedicam a persegui-lo e tomam a decisão de matá-lo
(Mt.12.14,15,24). Observam-se então diferentes reações diante de
Cristo, e assim ocorre até hoje.

Os fariseus, saduceus, escribas e sacerdotes são mencionados


nas seguintes passagens do evangelho de Mateus: 3.7; 5.20; 7.29;
8.19; 9.11,14; 12.14; 13.52; 15.12; 16.1,21; 21.23; 22.23;
23,2,13,14,15; 23.23,25,27; 27.1,41. Ao observarmos a grande
quantidade de referências, notamos que esses religiosos eram
assíduos seguidores de Cristo (perseguidores). Eles compareceram a
todos os eventos mais importantes da vida de Cristo, desde o
batismo até a cruz. O que poderia ter sido um experiência
transformadora em suas vidas foi perdido por um erro de propósito.
Estavam seguindo a Cristo para matá-lo. Que tipo de seguidores
somos nós? Judas também era um seguidor. Seu propósito em seguir
o Mestre era a obtenção de vantagem pessoal, financeira. Tal
ganância era tão grande que, não satisfeito com as ofertas que
furtava, vendeu o próprio Senhor para obter mais 30 moedas.

6 - Os mistérios do reino 13.1-52 – Jesus apresenta, por meio de


parábolas, diversas características do reino, as quais se encontram ao
mesmo tempo ocultas e reveladas. Ocultas para a multidão e
reveladas para os discípulos. O início é uma semente: a palavra de
Deus. A obra criadora começa com a palavra dita pelo Senhor: "Haja
luz." (Gn.1). Este é o padrão divino para as suas obras. Por isso ele
nos envia sua palavra para que se produza em nós a sua vontade.
Voltando a Gênesis, encontramos, no capítulo 3, a palavra do Diabo,
a semente do maligno. Esta se encontra sempre agindo
paralelamente à palavra de Deus. O Senhor nos fala algo e logo vem
o inimigo com sua versão. "É assim que Deus disse?..." Esta
mensagem pode vir de várias formas. Uma delas é o conselho dos
ímpios (Salmo 1) ou o conselho de um cristão vacilante (Mt.16.22).
Como se vê na parábola do trigo e do joio, cada tipo de semente gera
um tipo de caráter. Em Gênesis 3.15 temos a palavra semente como
sinônimo de descendência. Aparecem ali duas descendências: a
semente da mulher e a semente da serpente. Seriam então os filhos
de Deus e os filhos do Diabo que se encontrariam misturados durante
a história e inclusive no reino apresentado por Cristo (trigo e joio).
Essas duas linhagens se encontram representadas em indivíduos
como Abel e Caim, Isaque e Ismael, Jacó e Esaú, Davi e Saul, etc.
Em todos os casos, o joio está perseguindo o trigo e tentando
destruí-lo. No Novo Testamento, vemos os fariseus perseguindo
Cristo e tentando destruí-lo. João os chamou de "raça de víboras".
Jesus também usou a mesma expressão (Mt.23.31-35) e acrescentou
que eles seriam réus do sangue dos justos, desde Abel até Zacarias.
Observe o vínculo que Cristo fez entre os justos. Não seria um vínculo
genealógico natural, pois tudo indica que Abel tenha morrido sem
deixar descendência. Outro detalhe importante é que Jesus
estabeleceu uma ligação entre Caim e os fariseus ao cobrar destes o
sangue de Abel, morto por Caim. Sendo raça uma descendência e
víbora uma serpente, temos então uma ligação com Gênesis 3.15 e a
semente da serpente. Além disso, Cristo chamou os fariseus de
"filhos do Diabo" (João 8.44).

As parábolas nos mostram essa mistura até mesmo no


reino. Trigo e joio crescem juntos. O reino é também comparado
à rede que apanha toda espécie de peixe. Contudo, Cristo avisa sobre
o juízo final, quando haverá a separação. Isso se mostra também na
parte profética do livro (cap.24/25), quando se fala das virgens
prudentes e das néscias, do servo fiel e do infiel, dos bodes e das
ovelhas. Nesse ponto, Cristo é apresentado como juiz, pois a ele cabe
a decisão que separa os bons dos maus.

Apesar de mostrar essa diferença entre as pessoas, Jesus não


apresenta tudo isso como um quadro imutável. Há esperança para o
ímpio, o joio, o injusto. A palavra de Deus, a santa semente divina,
nos é enviada com o propósito de nos transportar do império das
trevas para o reino da luz (Colos.1.13). Todos nós éramos, por
natureza, filhos da ira (Ef.2.3), filhos da desobediência (Ef.5.6;
Colos.3.6), mas fomos regenerados pela palavra de Deus (I Pd.1.23).
Foi enxertada em nós a semente bendita do Senhor, por meio da
qual somos feitos filhos de Deus (João 1.12).

Outro aspecto abordado por Jesus é o crescimento do reino. Ele


começa do interior do homem para o seu exterior. O reino de Cristo
começa nos corações, mas no futuro atingirá todo o mundo
(Apc.11.15). Outra figura para o crescimento do reino é o fermento, o
qual não se vê, mas apenas seu efeito é notado. Nota-se novamente
o aspecto do reino com algo interior, oculto, guardado no íntimo. O
mesmo se observa em sua comparação com a pérola e
o tesouro escondido. Nessas parábolas, acrescenta-se ao reino a
característica de grande valor, ao ponto de ser sensata toda a
renúncia que se fizer para alcançá-lo. Tal renúncia não é
compreendida pelas pessoas, pois não estão vendo a pérola nem o
tesouro (II Cor.4,2,3,4,7).

7 - A ofensa do reino 13.53 a 16.12 – Após encerrar suas


parábolas, Cristo se dirigiu à sua Nazaré, onde foi rejeitado por seus
compatriotas. Em seguida temos o relato da morte de João Batista.
As reações negativas contra o reino tornam-se mais intensas. Os
fariseus entram em cena novamente em perseguição ao Mestre
(15.2; 16.1). Surge então o fermento maligno contra o fermento do
reino (16.6). As obras malignas também crescem. A perseguição
contra Cristo estava crescendo. As falsas doutrinas, as palavras do
inimigo, podem produzir algum tipo de crescimento. A serpente disse
que Adão e Eva iriam adquirir conhecimento. Isso poderia ser visto
como um tipo de desenvolvimento para eles. Contudo, tal
crescimento não estava no plano ou na hora de Deus para o homem.
Da mesma forma, existem muitas maneiras de se crescer na vida.
Algumas delas incluem a exploração ao próximo e a transgressão de
normas. Não deixa de ser um crescimento, porém cresce também o
ônus para quem assim age. É o fermento maligno, acerca do qual o
apóstolo Paulo adverte os coríntios (5.7). Dentro desse raciocínio
alegórico se encaixam as determinações de abstinência de tudo o que
fosse fermentado ao se realizar a páscoa. A fermentação, vista sob o
seu aspecto negativo, está relacionada à putrefação.

III - A paixão do Rei - 16.13 a 28.20

1 - A revelação do rei 16.13 - 17.27 – Embora Jesus já fosse


publicamente conhecido há um bom tempo, as pessoas não sabiam
muito bem quem ele era. Sabiam apenas que Jesus curava os
enfermos e multiplicava os alimentos. Nem os discípulos possuíam
uma visão definida sobre ele. Ocorre então a revelação. Primeiro
Jesus pergunta: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?" E
eles disseram: Uns, João Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias,
ou um dos profetas." (Mt.16.13-14). Notamos a confusão de opiniões
sobre Jesus. Eram muitas e todas equivocadas. A mais absurda era
de quem pensava se tratar de João Batista ressuscitado, uma vez que
João e Jesus foram contemporâneos. A confusão de opiniões persiste
ainda hoje. Muitos dirão que Cristo foi um grande mestre, um
profeta, um filósofo, um revolucionário, um fundador de religião, um
espírito de luz, etc. Mesmo sendo verdade sua qualidade de Mestre e
profeta, essas palavras são totalmente inadequadas para defini-lo.
Jesus continua interrogando os seus discípulos: "Disse-lhes ele: E
vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu
és o Cristo, o Filho do Deus vivo." (Mt.16.15-16). Pedro recebeu uma
revelação divina, como se faz necessário até hoje. Jesus é o Filho de
Deus e isso supera todas as definições anteriores. Desse modo, fica
evidente a superioridade de Cristo sobre João Batista, Elias, Jeremias
e todos os outros profetas (Hb.1.1-3). No capítulo 17, aparecem no
monte Elias e Moisés. Ouve-se então uma voz do céu que diz a
respeito de Cristo: "Este é o meu Filho amado. A ele ouvi." Nesse
momento, Moisés entra para a lista. Fica demonstrado que Cristo é
superior à lei e aos profetas. Até esse ponto do livro, já foi
apresentada a supremacia de Jesus em relação a todos os valores e
figuras importantes do judaísmo.

A revelação do rei estava se desenvolvendo de forma muito


agradável para os discípulos até que Cristo passa a dizer-lhes que era
necessário sua ida a Jerusalém para morrer e ressuscitar (Mt.16.21;
17.22-23). A revelação da morte do Rei foi assustadora para os
discípulos. Isso era totalmente contrário à expectativa que eles
haviam alimentado em relação ao reino de Deus. Pedro chegou a
dizer que de maneira nenhuma aquilo aconteceria. Jesus lhe
repreendeu dizendo: "Para trás de mim, Satanás, que me serves de
escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas
só as que são dos homens." (Mt.16.21-23). Tal decepção pode
acontecer com muitos cristãos que possuem apenas uma expectativa
humana em relação ao evangelho. Muitos pensam que o cristianismo
deverá nos proporcionar apenas alegrias, felicidade, bem estar,
prosperidade e satisfação. Contudo, Jesus nos advertiu: "No mundo
tereis aflições." (João 16.33). Na seqüência de Mateus 16, Jesus diz
aos seus discípulos: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si
mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me" (Mt.16.24). A cruz faz
parte deste caminho. As provas, as tribulações, as tentações, fazem
parte do plano de Deus. Paulo escreveu aos romanos: "...também
nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a
paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança."
(Rm.5.3-4). Se não tivéssemos a tribulação também não teríamos os
resultados positivos que ela produz em nós. "Se o grão de trigo,
caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito
fruto." (João 12.24). Se não houver morte também não haverá
ressurreição.

2 - A doutrina do rei 18-20 - Conforme deduzem alguns


comentaristas, uma das preocupações de Mateus era o atendimento
das necessidades da sua comunidade, a igreja. Por isso ele selecionou
e organizou seu material da forma com o temos hoje. Nesses
capítulos encontramos ensinamentos de Jesus sobre humildade, o
valor de uma alma, o perdão, decisões da igreja, divórcio, o perigo
das riquezas e as recompensas aos seus seguidores.

3 - A rejeição do rei 21-22 – Os judeus recebem Jesus em


Jerusalém com entusiasmo. Porém, estranham sua atuação no
templo, quando ele expulsa os comerciantes e derruba suas
mercadorias. Da mesma forma muitos estranham as mudanças que
Jesus deseja fazer em suas vidas após terem-no recebido como
Salvador. Na seqüência, Jesus conta uma parábola que mostra a
chegada dos gentios para o reino, enquanto que os judeus ficam em
último lugar. Em todo tempo os fariseus ouviam tudo isso. Porém,
nunca entendiam o alerta de Jesus. Sempre se viam ameaçados por
ele, quando deviam vê-lo como salvador. E assim, se punham sempre
em atitude de perseguição e isto apenas se tornava cumprimento das
próprias palavras de Cristo.

4 - As censuras do rei 23 – Até então, os fariseus vinham


praticando um tipo de "perseguição teológica" contra Jesus.
Tentavam colocá-lo em dificuldade afim de apanhá-lo em alguma
palavra. Jesus, por sua vez, vinha administrando o conflito de forma
amigável. Porém, no capítulo 23, Jesus parte para o confronto. Ele
usa palavras duras e revela publicamente toda a corrupção dos
fariseus. Com tudo isso acrescentado ao episódio do templo, aqueles
religiosos já se consideravam de posse de motivos suficientes para
condenar Jesus à morte.

5 - As predições do rei 24-25 - Temos nesse trecho um discurso


apocalíptico de Jesus. É a escatologia do Mestre tratando dos sinais
dos últimos tempos, o surgimento de falsos cristos, sua segunda
vinda, o arrebatamento, o juízo e a eternidade. Fica demonstrada
então o conhecimento de Cristo sobre os eventos futuros, exceto
sobre o dia da sua vinda. Já que ninguém sabe esse dia, senão o Pai,
Jesus reforça bem a necessidade de vigilância por parte de seus
seguidores. Alguns fatos previstos nesses capítulos relacionam-se à
destruição de Jerusalém no ano 70. Isso é claro em relação ao templo
(Mt.24.1-2). No texto dos versículos 15 a 21, temos uma referência à
Judéia e ao lugar santo. Nota-se, portanto, uma indicação específica
para os fatos que haveriam de acontecer em Jerusalém. Não
obstante, algumas profecias podem se aplicar a mais de um momento
histórico. Além disso, muitos versículos dos referidos capítulos não
tiveram seu cumprimento no ano 70. Sobre o próprio templo, uma de
suas paredes ainda se encontra de pé até hoje e recebeu o nome de
Muro das Lamentações. Jesus disse que ali não ficaria pedra sobre
pedra. Então, resta ainda um cumprimento final para aquela profecia
do Mestre.

6 - Os sofrimentos do rei - 26-27 – As autoridades religiosas


levaram às últimas conseqüências sua perseguição ao mestre. Essa
parte trata da traição de Judas, prisão e morte de Jesus. Até nesse
momento, o título real acompanha o Messias. Sobre sua cruz se
coloca a inscrição em caracteres romanos, gregos e hebraicos: "Este
é Jesus, o Rei dos judeus." (Mt.27.37 Lc.23.38). O que, para os
algozes era uma acusação contra Cristo, tem maior significado como
acusação contra seus próprios malfeitores. Mataram o rei dos judeus.
Tal escrita torna-se mais significativa ainda quando a vemos como
uma declaração para o mundo a respeito de Cristo. Ali estava a
verdade. A partir de então, cabe a cada ser humano aceitá-la ou
rejeitá-la. Contudo, isso não mudará a essência da afirmação, a qual
foi escrita nos três principais idiomas daquela região. Embora o
aramaico não tenha sido usado, bastavam os caracteres romanos,
hebraicos e gregos para que qualquer pessoa que por ali passasse
pudesse ser capaz de ler aquela frase. A mensagem da cruz é para
todos, a todos foi dirigida e quem quiser ignorá-la não terá outro
caminho de salvação.

7 - O triunfo do rei 28 – Encerrando seu livro, Mateus fala sobre


a ressurreição de Jesus. Está então demonstrado o poder triunfal do
Rei Messias sobre sua própria morte. Agora, tendo recebido todo
poder nos céus e na terra, ele dá ordens aos seus discípulos para que
levem o evangelho a todas as nações.
Evangelho de Marcos

AUTORIA: João Marcos, um judeu. João é nome hebraico que


significa "graça de Deus". Marcos vem do latim e significa "martelo
grande".

O parecer favorável à autoria de João Marcos conta com o


testemunho de Papias, bispo de Hierápolis, conforme registro de
Eusébio: "Marcos era intérprete de Pedro." Escreveu de acordo com
as informações e ensinos de Pedro. Irineu diz que Marcos era
discípulo de Pedro e escreveu em Roma. Teríamos então nesse
evangelho a mão de Marcos e a voz de Pedro. Observe o resumo do
evangelho no sermão de Pedro em At.10.36-43, inclusive a ordem
dos fatos.

CITAÇÕES SOBRE MARCOS

Mc. 14.51-52 – Supõe-se que o moço que foge nu seja o próprio


Marcos. A omissão do nome e a exclusividade da narrativa são
elementos que levam alguns comentaristas a julgarem que o autor
está falando de uma experiência pessoal.

At.12.12 – A casa de Maria, mãe de Marcos, era um dos locais


utilizados pelos apóstolos para suas reuniões em Jerusalém. Pedro,
ao sair da prisão, foi direto para lá, sabendo que encontraria os
irmãos. Tal fato demonstra a normalidade das reuniões cristãs
naquela casa.

At.12.25 – Viagem de Marcos, com Paulo e Barnabé, de


Jerusalém para Antioquia.

At.13.5 – Participação na primeira viagem missionária de Paulo


(Selêucia, Chipre, Salamina).

At.13.13 – Enquanto Paulo vai para Perge, Marcos abandona a


missão e volta para Jerusalém.

At.15.37-39 – Devido à deserção recente, Paulo não quis levar


Marcos em outra viagem, motivo pelo qual houve grande contenda
com Barnabé, o qual decide viajar com Marcos para Chipre.

O nome de Marcos não aparece mais em Atos dos Apóstolos.


Evidentemente, isso se deve ao fato de ter abandonado a equipe
missionária. Entretanto, as epístolas paulinas nos mostram que
Marcos voltou a trabalhar com o apóstolo Paulo. Parece ter havido um
amadurecimento do jovem Marcos e o perdão por parte de Paulo, o
qual chega a fazer declarações positivas e raras a respeito do
companheiro de ministério.

Col.4.10 – Marcos encontra-se em companhia de Paulo na prisão


em Roma. Aquele que havia abandonado o trabalho cristão agora
está em situação de risco. Não estava preso mas se submetia ao risco
de prisão estando junto de Paulo. Este versículo apresenta diferença
entre as versões bíblicas. Em uma encontramos a informação de que
Marcos era primo de Barnabé. Outra nos informa que Marcos era
sobrinho. Esta última versão tem sido mais aceita.

II Tm.4.11 – Marcos estava com Timóteo em Éfeso. Paulo pede


que ambos se dirijam ao lugar onde ele se encontra, pois, de acordo
com as palavras de Paulo, Marcos lhe era "muito útil para o
ministério."

I Pd.5.13 – Marcos encontra-se com Pedro na Babilônia. Há


quem diga que se trata de uma referência à cidade de Roma. Pedro
se refere a Marcos como filho. Tal tratamento tem sido normalmente
entendido como uma indicação de que Marcos era discípulo de Pedro,
conforme escreveu Irineu, ou ainda, que Marcos tinha se convertido
pela pregação de Pedro.

Fm. 23-24 – Novamente Marcos aparece como cooperador de


Paulo.

Observamos a relação estreita que Marcos teve com os apóstolos


e outros líderes da igreja primitiva. Por isso, ele teve acesso a fontes
primárias de informações sobre a vida de Cristo. Seu evangelho é,
portanto, um relato tomado diretamente das testemunhas oculares
dos fatos narrados.

A tradição cristã nos informa que Marcos foi para Alexandria,


onde fundou a igreja local, tornando-se bispo. Nessa mesma cidade
seria martirizado.

DESTINATÁRIOS – Cristãos gentios, provavelmente romanos.


Alguns detalhes do livro nos mostram que Marcos não estava
escrevendo para judeus.

- Ao contrário de Mateus, ele não se preocupa prioritariamente


em demonstrar o cumprimento do V.T. Marcos explica termos
aramaicos e costumes judaicos nas seguintes passagens: 3.17; 5.41;
7.1-4,11 (corbã – Hb.); 7.34; 10.46 14.36; 15.22,34. Informa a
localização do monte das Oliveiras em 13.3. Ele tem em mente
destinatários que não possuíam conhecimento desses elementos.
Portanto, não eram judeus.

IDIOMA – O evangelho de Marcos foi escrito em grego. Alguns


teólogos argumentam a favor de um original em aramaico. Isto se
deve à freqüência de termos aramaicos no livro. Contudo, tal
hipótese não foi comprovada e não conseguiu grande aceitação.

DATA – Foi o primeiro evangelho a ser escrito. Data provável:


ano 55. As datações dos comentaristas oscilam entre os anos 50 e
69.

FONTE – Suas informações se originaram principalmente da


pessoa de Pedro. Hipótese não comprovada: existência de uma fonte
complementar em aramaico.

VERSÍCULO CHAVE: 10.45 – "Pois o próprio Filho do Homem


não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em
resgate de muitos."

LOCAL E CONTEXTO DO AUTOR – Marcos escreveu em Roma


numa época de grande perseguição à igreja e conflitos violentos.
Tudo isso parece interferir nas características do livro.

PALAVRA CHAVE: imediatamente (40x), ou "logo" dependendo


da versão. "Em seguida" também aparece com freqüência, indicando
movimento constante e urgente.

CARACTERÍSTICAS

Urgência, rapidez, texto simples, resumido, prático, vívido,


dinâmico.

Conteúdo breve mas rico em detalhes. Demonstra testemunho


ocular (de Pedro).

Mostra efeitos das palavras de Jesus sobre as multidões e os


discípulos - 1.22-27; 2.12; 6.56 etc.

Marcos é mais narrativo. Apenas para fins de entendimento,


vamos comparar o livro de Marcos ao script de uma peça teatral,
enquanto que Mateus poderia ser comparado a um livro didático.
Assim como o texto de uma peça, encontramos em Marcos mais
detalhes dos fatos observados.

Não tem ordem cronológica rigorosa, mas é mais ordenado do


que Mateus.
Apresenta Jesus como servo (Compare com Filipenses 2.5-11).

Marcos apresenta apenas 4 parábolas (Mateus tem 15, e Lucas,


23). Conta 19 milagres (Mateus e Lucas tem 20). Enfatiza as obras e
não as palavras de Jesus. – 1.35-37; 3.20,21; 6.31-34.

Jesus, que foi apresentado por Mateus como rei, é apresentado


por Marcos como servo. Temo então um Rei-servo. Isso parece uma
contradição. Contudo, é a realidade. O rei Jesus se humilhou ao ponto
de servir a todo tipo de pessoas, chegando até a lavar os pés aos
seus discípulos. Tal contraste pode também ser observado em nossas
vidas. Somos chamados reis e sacerdotes (I Pd.2.9). Porém, não
podemos deixar de ser servos (Rm.6.18). Como disse Salomão:
"príncipes como servos sobre a terra" (Ec.10.5-7).

ESBOÇO

I – O Servo do Senhor prepara-se para servir – 1.1-13.

Sem genealogia – a ninguém interessa genealogia de um servo.


Interessa sua capacidade para o trabalho.

Narrativas sobre João Batista, o batismo e a tentação de Cristo.

Em destaque: a necessidade de preparação para servir bem – o


melhor para Deus. Até mesmo a tentação, as provações, as
dificuldades fazem parte do processo de preparação do homem para
o propósito divino.

II – O Servo do Senhor trabalha – (Não apenas teoria).

1. Na Galiléia – 1.14 a 9.50. Diante do seu trabalho


surgem: oposição, rejeição, perseguições. O servo serve, nada
ganha e ainda é perseguido.
2. Na Peréia (Judéia) – 10.1-34. (Ao leste do Jordão)
(Indo para Jerusalém).
3. Em Jerusalém (Judéia) – 10.35 a 13.37 (Entrada,
purificação do templo, exortações, monte das Oliveiras)

III – O Servo do Senhor obediente até a morte – 14.1 a 15.47.

A palavra "até" inclui a idéia de perseverança, persistência.

Até onde iremos com o Senhor? Seguir a Jesus é muito bom


enquanto ele opera milagres, curas, multiplica pães e peixes. Porém,
no meio deste caminho existe uma cruz. Vida cristã não é apenas
prosperidade e êxito. É também renúncia e morte (Lc.9.23; Col.3.5).
Sem morte não pode haver ressurreição e sem ressurreição não
haverá glória. "Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida."
Apc.2.10. "Aquele que perseverar até o fim será salvo" Mt.24.13.

IV – O Servo do Senhor ressuscitado e recebido no céu – 16

A recompensa aguarda o servo no céu. Queremos recompensa


aqui? Na terra temos algum adiantamento, mas não o nosso
galardão.

POLÊMICA SOBRE O EPÍLOGO DE MARCOS.

O texto de Marcos 16.9-20 é apontado por alguns críticos como


adição posterior. Tal trecho é encontrado em alguns manuscritos e
não em outros. Contudo, verificou-se a presença desse versículos no
manuscrito mais antigo entre os que foram comparados. Sua
ausência em alguns manuscritos pode ter sido causada pelo próprio
desgaste daqueles escritos devido ao uso excessivo e à má
conservação. Nessas condições é compreensível que se perca a
última página ou um pedaço final de uma obra.

Sem o texto citado, o livro de Marcos terminaria de forma brusca


em 16.8, o que não seria natural. Verifica-se em 16.20 um término
mais convincente. O versículo dá idéia de conclusão em que o autor
termina falando sobre a pregação do evangelho em toda parte.

COMPARAÇÃO COM ISAÍAS

Assim como Marcos apresenta Jesus com o servo, o profeta


Isaías escreve sua profecia referindo-se ao Messias como "O Servo do
Senhor".

Exaltação: 52.13-15

Rejeição - 53.1-2

Dores - 53.3

Expiação - 53.4-6 -Referência evidente a Jesus. Qualquer servo


do Senhor poderia sofrer e morrer, mas só a morte de Cristo poderia
ter valor expiatório.

Sofrimento - 53.7

Morte - 53.8-9
Triunfo - 53.10-12 - Referência evidente a Jesus. Qualquer
homem poderia morrer, mas somente Jesus teria triunfo após a
morte. A profecia alcança então o tema ressurreição.
Evangelho de Lucas

AUTORIA – Lucas, nome grego que significa "aquele que traz a


luz". Era médico e passou a ser considerado historiador devido,
principalmente, à produção do livro de Atos. Nascido em Antioquia da
Síria, Lucas é o único escritor bíblico do qual podemos afirmar que
era gentio. A autoria lucana para o terceiro evangelho foi testificada
por Tertuliano e Irineu. Este último registrou: "Lucas escreveu em um
livro o evangelho que Paulo pregava."

Enquanto o evangelho de Mateus foi escrito por um judeu para


judeus e Marcos foi escrito por um judeu para gentios, o evangelho
de Lucas foi escrito por um gentio para os gentios. Temos, portanto,
testemunhos diversos a respeito de Jesus os quais são vistos sob
ângulos diferentes e procurando atingir objetivos variados. Sobre o
valor dessa diversidade, é bom lembrarmos que muitos foram os que
testemunharam sobre Jesus: os discípulos, os inimigos, os demônios,
e, no fim dos tempos, toda língua confessará que ele é o Senhor
(Fp.2.10-11).

REFERÊNCIAS A LUCAS

Cl. 4.7-15 – Fm.23-24 - Lucas com Paulo e Marcos.

At.16.10; 20.6; 21.18; 27.1; 28.16; At.1.1; Lc.1.1-3. –


Referências veladas. Em todos esses textos, o escritor é o próprio
Lucas. Sua presença se mostra discretamente através da conjugação
verbal em primeira pessoa. Em seus escritos, Lucas não menciona
seu próprio nome.

II Tm.4.11 - Nos momentos finais do ministério de Paulo, Lucas


continuava em sua companhia.

Segundo a tradição, Lucas evangelizou o sul da Europa e foi


martirizado na Grécia aos 84 anos de idade. Por falta de cruz, foi
pregado numa figueira.

DESTINATÁRIO

O livro foi destinado a Teófilo. Seu nome significa "amigo de


Deus". O tratamento que Lucas lhe dispensa: "excelente",
"excelentíssimo" ou "digníssimo", conforme a versão que se utilize,
tem levado a crer que Teófilo era uma autoridade pública, um oficial
romano. Tem-se deduzido que Lucas viu naquele homem a pessoa
adequada para publicar sua obra entre os gentios, o que ocorreu com
pleno êxito.

DATA – Por volta do ano 60. As datações têm oscilado entre os


anos 58 e 65.

TEXTO CHAVE – 19.10 – "Porque o Filho do Homem veio buscar


e salvar o perdido."

FRASE CHAVE – "O Filho do Homem" – Tal terminologia não é


exclusiva de Lucas. Ezequiel traz a expressão 91 vezes. Esta era a
forma como Deus chamava o profeta. Mateus, Marcos e João também
se referem a Jesus através deste título. O próprio Lucas usa o mesmo
tratamento em Atos 7.56. Esse foi um título que Jesus deu a si
mesmo. Observa-se nesse detalhe a humildade do Mestre. Podendo
usar nomes gloriosos, ele se chamava apenas de "Filho do Homem".
Apesar da ausência de exclusividade para o uso do título, o mesmo é
apresentado como frase chave do livro de Lucas porque o autor
apresenta Jesus como homem, destacando assim a humanidade de
Cristo sem omitir sua divindade. Sendo perfeitamente humano, Jesus
estava habilitado a ser o representante legítimo dos seres humanos.

- Só Lucas menciona o choro de Jesus por Jerusalém, numa


demonstração de sensibilidade humana.

- Em sua apresentação de Jesus como homem, Lucas menciona


a genealogia do Senhor até Adão. Fica demonstrada a humanidade de
Cristo. A genealogia é uma forma de demonstrar que Cristo não
apareceu magicamente, mas nasceu de uma descendência, embora
de modo sobrenatural.

- Lucas oferece mais informações sobre o nascimento e a


infância de Jesus do que os outros evangelhos.

- Lucas destaca a atitude ou menção amável de Cristo em


relação: aos pobres (6.20); à mulher pecadora (7.37); mendigos
(16.20-21); samaritanos (10.33); leprosos (17.12 – narrativa
exclusiva); publicanos e pecadores (17.12); O ladrão na cruz (23.43
– narrativa exclusiva).

CARACTERÍSTICAS

As características dos evangelhos vão variando de acordo com a


"lente" pessoal do autor. Os assuntos que interessam aos
destinatários, sua profissão pessoal, a ênfase que deseja dar à
mensagem, tudo isso vai moldando o livro.

- Lucas apresenta mais parábolas que os outros evangelhos.


Mateus inclui 15; Marcos, 4 e Lucas, 23, dentre as quais duas são
exclusivas: O Filho Pródigo e a Dracma Perdida. O caráter dessas
duas parábolas confirmam o texto chave.

- Lucas apresenta tom poético, exultante, festivo. Só ele


registrou os cânticos, orações e declarações de Zacarias, Isabel,
Maria, Simeão e dos anjos.

- A universalidade do evangelho é uma tônica do livro – 2.32;


3.6; 24.47. O autor mostra a receptividade de Cristo para com todo
tipo de pessoas: Samaritanos – 9.52-56; Pagãos (2.32; 3.6-8);
Judeus (1.33; 2.10); Mulheres; Publicanos; Pessoas respeitáveis
(7.36; 11.37; 14.1); pobres (1.53; 2.7; 6.20); ricos (19.2; 23.50).
Mateus até cita alguns desses fatos, mas Lucas entra em detalhes.

- O livro enfatiza a oração em parábolas e relatos: o amigo


importuno (11.5-8); o juiz iníquo (18.1-8); o fariseu e o publicano
(18.9-14 – narrativa exclusiva). Além disso, menciona várias orações
de Jesus. Mateus se referiu a 3 orações do Mestre. Marcos citou 4,
João, também 4. Lucas apresenta 11 momentos de oração de Cristo:
No batismo (3.21); no deserto (5.16); antes de escolher os discípulos
(6.12); na transfiguração (9.29); no Getsêmani (22.44); na cruz
(23.46). etc.

- Lucas honra a mulher em seu livro: Isabel e Maria (1); Marta e


Maria (10); Filhas de Jerusalém (23.27 – narrativa exclusiva); As
viúvas (2.37; 4.26; 7.12; 18.3; 21.2).

- Observa-se nesse evangelho um equilíbrio de conteúdo: 23


parábolas, 20 milagres, e um boa quantidade de texto biográfico.

- O livro de Lucas é mais literário e mais bonito que os outros


evangelhos. Comparando, podemos dizer que Mateus é didático e
religioso. Marcos é teatral e prático. Lucas é biográfico e literário. O
aspecto literário indica a habilidade de trabalhar com as palavras.
Lendo nossas traduções portuguesas não notamos grande diferença
literária entre os evangelhos. Isso ocorre porque o trabalho do
tradutor produziu o efeito de um filtro. Agora, vemos mais a
característica literária do tradutor e menos a do autor. Contudo,
ainda é possível se apreciar a beleza do evangelho de Lucas.
Observe-se, por exemplo, a introdução (Lc.1.1-4). Apresenta um
cuidado e um arranjo que evidenciam o alto nível intelectual do autor.
- Lucas escreve em ordem cronológica semelhante a Marcos (Lc.
1.3).

ESBOÇO

I – Introdução – 1.1-4.

II – O parentesco humano de Jesus – 1.5 a 2.52

III – Batismo, genealogia e provação de Jesus – 3.1 a 4.13

IV – O ministério do Filho do Homem na Galiléia – 4.14 a 9.50

V – A viagem do Filho do Homem da Galiléia a Jerusalém – 9.51


a 19.44.

VI – O Filho do Homem é rejeitado e crucificado – 19.45 a 23.56.

VII - A ressurreição, ministério após a ressurreição e ascensão


do Filho do Homem – 24.1-53.
Evangelho de João

AUTORIA – João, o apóstolo (21.24). Seu nome significa "graça


de Deus". Era judeu, pescador (Mt.4.21), irmão de Tiago, filho de
Zebedeu e Salomé (Compare Mt.27.56 e Mc.15.40). Foi chamado de
discípulo amado – Jo.13.23; 19.26; 21.20. Enquanto Lucas precisou
fazer uma pesquisa para escrever seu evangelho, João foi
testemunha ocular da maior parte dos fatos que escreveu (1.14;
19.35; 21.24) O registro da hora de alguns acontecimentos destaca a
presença do relator ou, em alguns casos, uma relação bem próxima
com os protagonistas (1.39; 4.6,52; 19.14). Até no momento da
crucificação João estava presente. Isso mostra sua disposição de
correr risco de vida para ficar ao lado do Mestre. Apesar de ter fugido
no momento da prisão de Cristo, João voltou pouco tempo depois.

Jesus chamou João e Tiago de boanerges, "filhos do trovão",


referindo-se ao seu temperamento indócil, violento (Mc.3.17;
Mc.9.38; Lc.9.54). A última referência mostra que naquele tempo,
aqueles discípulos apresentavam algum conhecimento das escrituras
(sobre Elias), uma grande fé, ao ponto de crer que poderiam fazer
descer fogo do céus, mas nenhum amor. Estavam prontos a usar o
conhecimento e a fé para matar as pessoas. O próprio João não
mencionou esses episódios. Nota-se sua discrição diante de um
episódio vergonhoso.

Alguns dos seus discípulos foram: Policarpo, Papias e Inácio.


Irineu, discípulo de Policarpo, mencionou a autoria de João para o
4o evangelho. Disse que João estava em Éfeso quando escreveu.
Note-se a autoridade do testemunho de Irineu em virtude de sua
proximidade com fontes fidedignas. Teófilo de Antioquia (ano 170) e
Clemente de Alexandria (ano 200) também testificaram a favor da
autoria de João. Clemente chega a denominar o livro como
"evangelho espiritual".

São várias as citações a respeito de João nos evangelhos de


Mateus, Marcos e Lucas. Seu nome é omitido no seu evangelho
(20.2; 19.26; 13.23; 21.2). A omissão do próprio nome por parte dos
autores tem sido observada com freqüência entre os escritores
estudados. Encontram-se referências ao apóstolo também em
At.4.13; 5.33,40; 8.14; Gl.2.9; 2 Jo.1; 3 Jo.1; Apc.1.1,4,9. Na
segunda e na terceira epístola, ele se apresenta como "o presbítero".
Podendo se apresentar como apóstolo, demonstrou humildade ao
utilizar título mais simples. Em Apocalipse, apresenta-se como
"servo".
Após o exercício do seu ministério em Jerusalém, João foi pastor
em Éfeso, onde morreu entre os anos 95 e 100. Policrates (ano 190),
bispo de Éfeso, escreveu: "João, que se reclinara no seio do Senhor,
depois de haver sido uma testemunha e um mestre, dormiu em
Éfeso."

OBJETIVO – João escreveu para que pudéssemos crer em Cristo


e ter vida. O conhecimento conduz à fé em Cristo e este produz vida
espiritual e eterna naquele que crê (20.31). Secundariamente, João
parecia estar interessado em combater o gnosticismo. Os gnósticos
pregavam a total separação entre Deus e a matéria. Diziam que a
matéria era má. A partir desse raciocínio, uns reprimiam os desejos
físicos, outros os liberavam. Eles negavam a humanidade de Cristo, a
encarnação e a ressurreição. A salvação, de acordo com os gnósticos,
seria conseqüência do conhecimento. Criam em anjos e outros seres
intermediários para se chegar a Deus. João toma a questão do
conhecimento ligado à salvação. Contudo, fala do conhecimento de
Deus através do verbo encarnado, Cristo (17.3).

DATA – O evangelho de João foi escrito, provavelmente no ano


95. As datações têm variado entre 90 e 95. Nesse tempo, o autor já
era idoso. Seus escritos trazem a marca da maturidade e
demonstram profundo entendimento dos assuntos tratados.

DESTINATÁRIOS – João escreve para o mundo (João 3.16). A


palavra "mundo" aparece várias vezes no livro. Nota-se que ele pensa
nos não judeus ao dizer "festa dos judeus" – 5.1; 6.4; 2.13; 18.28.
Explica o significado de "rabi" e "Messias" (1.38,41), e fala sobre a
oposição entre judeus e samaritanos: 4.9. Tudo isso seria
desnecessário se seus destinatários fossem especificamente os
judeus.

TEXTO CHAVE – 20.31 – "Estes, porém, foram escritos para


que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo
tenhais vida em seu nome."

PALAVRA CHAVE – crer

RELAÇÃO DE JOÃO COM JESUS – A relação de Jesus com as


pessoas se dava em vários níveis: Ele falava a grandes multidões.
Dentre estas, ele separou 82 discípulos (Lc.6.13 - menciona os 12;
10.1 menciona outros 70), muitos dos quais abandonam-no depois
(João 6.66). Entre os 82, 12 eram especiais. Tinham uma missão
especial. Entre os 12, 11 se destacavam por sua sinceridade. Nesse
ponto, Judas fica para trás. Entre os 11, havia 3 que eram chamados
em particular em determinados momentos: Pedro, Tiago e João
(Mt.17.1/ Mc.5.37/ Mt.26.37). Observe-se que o próprio João, numa
atitude de humildade, não mencionou esses episódios particulares.
Dentre os três, João tinha o mais íntimo relacionamento com o
Mestre. Foi chamado de "o discípulo a quem Jesus amava". Durante a
última ceia, reclinou-se no peito do Senhor (João 13.25). Ouviu e
registrou a oração sacerdotal de Jesus (17). Foi o 1 o a voltar para o
acompanhar o Mestre após a sua prisão. Assiste o julgamento e a
crucificação de Cristo (João 18.16; 19.26). Recebe a incumbência de
cuidar da mãe de Jesus (João 19.27). Foi o 1o discípulo a chegar ao
túmulo após a ressurreição (João 20.4). Devido à sua proximidade
constante com o Mestre, alguns relatos do seu evangelho são
exclusivos. Em alguns momentos, só ele viu, só ele ouviu, só ele teve
informações para escrever. Seu exemplo deve nos servir como
estímulo para uma comunhão íntima com o Senhor, condição
essencial para que recebamos suas revelações. Afinal, "revelação" é o
significado de "Apocalipse". E quem poderia tê-lo escrito, senão o
próprio João?

APRESENTAÇÃO DE JESUS NO EVANGELHO DE JOÃO

João apresenta Jesus de uma forma bastante rica e diversificada.


Utiliza figuras de linguagem, busca conceitos importantes para os
filósofos da sua época e também linguagem teológica, o que seria
bastante significativo para os judeus. Vemos assim a diversidade de
destinatários que o livro alcança. Apresentamos os termos associados
à pessoa de Cristo separando por sentido figurado e sentido literal. É
interessante que analisemos tudo isso separadamente, apesar de
que, em alguns casos, fica difícil dizer a que classe determinado
termo pertence.

Apresentação figurada ou conceitual - Ao utilizar termos diversos


para se referir a Cristo, o evangelho vai ampliando a revelação
cristológica. Isso vai, ao mesmo tempo, aumentando o entendimento
de alguns e servindo de choque para outros. (Observe João 6.51-66).
Na maioria das vezes, João apresenta Jesus através da citação das
próprias palavras do Mestre iniciadas pela declaração "Eu sou" (João
4.26; 8.24,28,58; 18.6). Tal expressão, que nos lembra o nome de
Deus dito a Moisés (Êx.3.14), aparece diversas vezes no evangelho.
Isto tem sido entendido como um indicativo da divindade de Jesus,
que vai se apresentando através de palavras que expressam o
suprimento de toda necessidade do ser humano. Ele fala de conceitos
simples, como pão, porta, pastor, e também de conceitos filosóficos
como a verdade e a vida. Ele vai tomando idéias já conhecidas e
dando-lhes um novo sentido, uma nova aplicação e, em alguns casos,
mostrando que ele é o único sentido real para idéias discutidas
inutilmente pelos sábios da época. Isso foi um escândalo para muitas
pessoas, como não poderia deixar de ser.
TERMO SENTIDO REFERÊNCIA
Pão Provisão de 6.35,48,51
necessidades,
satisfação para a alma.
Luz Conhecimento 8.12
Porta Acesso ao Pai, 10.7
oportunidade, solução,
refúgio, saída.
Pastor Orientação, cuidado 10.11
Ressurreição Esperança, nova vida 11.25
Vida Novo nascimento, vida 11.25; 14.6.
espiritual; vida eterna.
Videira Compromisso, 15.1
comunhão, nossa
dependência em
relação a Cristo, vida
cristã produtiva,
crescimento.
Caminho Desenvolvimento, 14.6
progresso
Verdade Oposição à mentira 14.6

Apresentação literal:

Verbo - Logos – a palavra – Esta expressão fazia sentido tanto


para judeus quanto para gregos e cristãos, embora seu significado
fosse um pouco diferente ou muito diferente dependendo do
destinatário. De qualquer forma, João utiliza o termo centralizando-o
na pessoa de Cristo, eliminando assim qualquer entendimento
distorcido que o mesmo poderia ter (João 1.1). Observe-se a
importância de uma introdução que chama a atenção de vários tipos
de leitores, criando interesse para o exame da obra.

Messias – 1.41; 4.29; 11.27; 20.31

Filho do Homem – 3.14; 5.27; 3.13; 9.35; 12.23,34 – João


aborda a natureza humana de Cristo, embora este não fosse seu
principal objetivo. Ele mostra que o homem Jesus nasceu, viveu na
Palestina, bebia água (João 4), se alimentava (João 4), sofreu e
morreu (João 19).
Filho de Deus – 1.14,18,34,49 ; 3.16; 19.7; 5.19-29; 11.27;

Jesus é apresentado como Deus (1.1; 20.28; 5.18; I Jo.5.20) – e


nos torna filhos de Deus (1.12). Mateus apresentou o divino Rei-
Messias. Marcos apresentou o divino servo. Lucas escreveu sobre o
divino homem. João foi o mais ousado. Apresentou Jesus como sendo
o próprio Deus (João 1.1,18; 10.30,38; 14.10,11; 17.21). Jesus é
então mostrado como "objeto de fé", ou seja, aquele em quem
devemos depositar a nossa fé (João 3.16), pois é o próprio Deus.

PALAVRAS E TEMAS EM DESTAQUE

Colocamos também algumas referências à primeira epístola de


João devido à grande identificação de seu conteúdo em relação ao
evangelho.

A igreja - é referenciada mas não por este nome. Podemos vê-la


no evangelho representada pelo rebanho do Bom Pastor (cap.10),
pela videira (cap.15) e pelos próprios discípulos.

Amor – É de João a célebre declaração: "Deus é amor" – I


Jo.4.8. É também de sua autoria aquele que, provavelmente, seja o
mais conhecido versículo sobre o amor de Deus: Jo.3.16. O "amor" é
um dos temas preferidos do apóstolo. Ele fala do amor apesar das
perseguições da época e sua prisão em Patmos. O amor estabelece
as relações entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo e também deve ser
a base da relação entre os discípulos, ou seja é a base para a igreja.
Outros elementos podem estabelecer relações humanas ou com
Deus: medo, sentimento de dever, etc. Contudo, o amor é o vínculo
desejável. (João 13.1,34; 14.21,23,24; 16.27; 21.15-17).

Luz – Jo.15-10; 3.19-21; 8.12; I Jo.1.9 – João explora a


contraposição de conceitos, luz x trevas e outros, conforme se vê no
quadro a seguir. Em outras palavras, ele está confrontando a nova
realidade da vida em Cristo com o estado pecaminoso do homem.

CONCEITO CONCEITO ALGUMAS


POSITIVO NEGATIVO REFERÊNCIAS
Luz (8x) Trevas (4x) João 3.19; I João 1.9
Verdade (17x) Mentira (2x) João 8.32,44; 14.6,17;
17.17; 18.37.
Vida (15x) Morte (6x) João 11.25
Fé (crer e derivados: Incredulidade (não João 3.16,18
11x) crer)
A palavra "verdade" só não aparece nos capítulos 2, 7, 9, 11. A
palavra "luz" ocorre nos capítulos 1,3,5,8,9,11,12,16. A palavra
"vida" só não ocorre nos capítulos 2,7,9,16,19,21. Embora o número
de ocorrências possa variar em virtude da versão utilizada, a
observação dessa freqüência nos chama a atenção para a importância
que determinados temas têm para o autor e que, portanto, devem
também ser cuidadosamente estudados por nós.

Comunhão – É também um tema importantíssimo para João no


evangelho, assim como na primeira epístola (João 14.11; 15.4,12;
17.21; I Jo.1.3,6,7). A comunhão ocorre basicamente em 3 níveis:

Comunhão entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Comunhão


celestial.
Comunhão entre os discípulos e a trindade, tendo Cristo como
elo de ligação. Comunhão individual com Deus. Ligação entre o céu e
a terra.
Comunhão dos discípulos entre si, tendo Cristo como elo de
ligação. Comunhão entre os irmãos na igreja.

Novo nascimento – 3.3,5 e 1.12

Conhecimento – 8.55; 14.17; 17.3,7,8,23,25,26

Glória – 1.14; 5.44; 7.18; 8.54; 11.4,40; 17.1,4,5

Obra – 4.34; 5.36; 6.28,29; 8.39; 9.3; 10.25,32,37,38

Sinal – 2.11,18,23; 3.2; 4.48,54; 6.2,14; 9.16

Juízo – 5.22,24,30; 7.24; 8.10,15,26; 12.47-48; 16.8,10,11.

Consolador – João enfatiza mais que os outros evangelhos a


pessoa do Espírito Santo e a trindade como um todo. (7.39; 14.16-
17,26; 16.7,8).

Testemunho – Estão em evidência diversos testemunhos a


respeito de Jesus: o auto-testemunho -18.37; testemunho da
multidão - 12.17; dos discípulos - 15.27; das pessoas que assistiram
à crucificação - 19.35; testemunho do próprio João - 21.24;
testemunho da escrituras - 5.39; testemunho do Pai - 5.37;
testemunho dos sinais - 10.25; testemunhos de João Batista –
1.19,29,32. O objetivo do testemunho: fé para a salvação (4.39;
5.34; 20.31).

CARACTERÍSTICAS
Estilo simples – pensamento profundo.

Mais íntimo – pessoal.

Fatos exclusivos – 14 a 17 – discurso no cenáculo.

Sem parábolas, sem profecias escatológicas.

Discursos diferentes dos sinóticos. Vinculados aos milagres,


explicando-lhes o sentido espiritual.

Os milagres: São relatados 8, inclusive o 1o. 6 são exclusivos.

Os não exclusivos: Multiplicação dos pães e o andar sobre as


águas.

Os exclusivos: transformação da água em vinho, a cura do filho


do centurião, a cura do homem que estava enfermo há 38 anos, a
cura do cego de nascença, a ressurreição de Lázaro, a pesca
maravilhosa. Milagres para os alegres, moribundos, enfermos,
famintos, fiéis, cegos e mortos.

O evangelho de João completa os sinóticos. Quando o quarto


evangelho foi escrito, os outros já deveriam estar circulando há muito
tempo entre os cristãos, sendo, naturalmente, do conhecimento do
apóstolo João, o qual não achou necessário repetir o que os outros já
tinham escrito. Por isso, seu evangelho vem acrescentar o que faltava
nos demais. Os trechos que constituem repetições de conteúdo são
poucos e, quando ocorrem, vêm seguidos de um discurso de Cristo
que os outros escritores não haviam relatado.

João enfatiza a pessoa de Cristo e não seus milagres, parábolas


ou ensinamentos. Enfatiza também a nova vida do crente e a rejeição
de Cristo pelo mundo (1.10; 3.19) e não apenas pelos judeus (1.11).

ESBOÇO COMENTADO

I - Prólogo - 1.1-14 – Apresentação de Jesus – Divindade – O


verbo era Deus.

Genealogia espiritual – Jo.1.1 – Sua visão foi além dos outros


evangelistas. Sentido mais profundo.

Humanidade – O verbo se fez carne.

Sua missão – tornar os crentes filhos de Deus – 1.12.


II - Ministério público na Judéia e arredores. (Revelando-se ao
mundo) (narrativa exclusiva).

1o período – 6 meses – (em 27 d.C.) 1.15 a 4.42 – O


testemunho de João Batista –

Início ministério PÚBLICO de Jesus – Bodas, Nicodemos, a


mulher samaritana.

Os trechos que relatam o encontro de Jesus com Nicodemos e


com a samaritana destacam o valor de uma alma para Deus. Jesus
não mandou que voltassem no dia seguinte junto com a multidão,
mas deu-lhes toda a atenção, revelando-lhes maravilhas do plano de
Deus. Jesus atendeu tanto a um homem importante com Nicodemos
quanto a uma mulher marginalizada como a samaritana, mostrando
assim o valor da pessoa humana e não da sua posição social.

III - Ministério público na Galiléia (Revelando-se ao mundo).

2o período – 2 anos e ½ - (de 27 a 30 d.C.) – 4.43 a 7.9 –


Milagres – Declaração de ser Filho de Deus – Pão da Vida – Confissão
de Pedro. – Cresce a revelação, cresce a fé e cresce a oposição. A
chuva faz crescer o trigo e a erva daninha. Cada solo reage de uma
forma. Existe o solo resistente e o solo receptor.

IV - Ministério público na Judéia (Revelando-se ao mundo).

3o período – 6 meses – (em 30 d.C.) – Disputa com fariseus.


Jesus fala sobre sua missão, declara ser o Bom Pastor, ressuscita
Lázaro. Os fariseus decidem matar Jesus. (7.10 a 11.57).

V - Ministério oculto junto aos discípulos. (Revelando-se aos


discípulos).

4o período – Uma semana (+ ressurreição) – (em 30 d.C.) –


Jerusalém e arredores – Últimas instruções, oração, morte,
ressurreição. 12 a 21.

OBSERVAÇÕES

Ao falar sobre a relação de João com Jesus, vimos a progressiva


intimidade entre Jesus e um número cada vez menor de seguidores.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado sobre o esquema do evangelho
de João. Jesus vai se revelando cada vez mais para um grupo cada
vez mais seleto. A partir de certo ponto do livro, Jesus se oculta das
multidões e passa a se revelar exclusivamente aos discípulos (12.36).
Em certo momento, Judas Iscariotes sai da cena íntima (13.30), só
encontrando-se com o Mestre novamente para dar-lhe o beijo da
traição. No Getsêmani, só Pedro, Tiago e João estão próximos a
Jesus, enquanto ele ora. Ao ser preso pelos soldados, Jesus é
abandonado por todos os discípulos (16.32). Depois, só João volta
para perto do Mestre (19.26).

Algumas partes do evangelho de João têm sido questionadas


quanto à sua autenticidade. Isto se deve à presença desses blocos
em alguns manuscritos e à sua ausência em outros. São eles: 7.53 a
8.11; 5.4; e capítulo 21. Esses textos aparecem entre colchetes em
algumas versões indicando sua ausência em algumas fontes. O
questionamento do capítulo 21 é agravado pelo fato de que 20.31
parece uma conclusão.
Atos dos Apóstolos

AUTORIA

Lucas - Citações por Clemente de Alexandria e Tertuliano.

DESTINATÁRIO - Teófilo.

DATA - próximo de 65 d.C. As datações têm variado entre os


anos 61 e 96. O ano 61 corresponde ao período final da prisão de
Paulo em Roma descrita no último capítulo de Atos. O livro parece ter
sido escrito antes do ano 70, já que não menciona a destruição de
Jerusalém ocorrida naquele ano. Isso, porém, não constitui prova
concreta para determinação de data.

CONSIDERAÇÕES GERAIS

- Atos dos Apóstolos - nome dado no fim do 2o século.

- Livro eixo do NT.

- Provê fundo histórico para todo o NT. (Reforço para os


evangelhos).

- Elo entre os evangelhos e as epístolas.

- Documento histórico do início do cristianismo.

- Cobre período de 29 a 61 d.C.

O conteúdo de Atos começa onde o evangelho de Lucas termina:


com o período pós-ressurreição e a ascensão do Senhor Jesus.

O livro de Atos apresenta um novo tempo para o povo de Deus.


O Velho Testamento se refere ao tempo antigo. Os evangelhos
mostram um curto período de transição. Por isso, algumas vezes
temos dificuldades para situar alguns fatos dos evangelhos como
pertencentes à lei ou à graça. São referências do Novo Testamento
mas, em sua maioria, anteriores à morte e ressurreição de Cristo. Tal
indefinição termina em Atos dos Apóstolos. O primeiro capítulo já nos
mostra o confronto final desses dois tempos, dessas duas realidades:
o tempo dos evangelhos e o tempo de Atos. No tempo dos
evangelhos os discípulos iam a Cristo para receber suas bênçãos e
ensinos. Agora, no tempo de Atos, período pós-ressurreição, é hora
dos discípulos darem algo ao mundo. Eles é que devem fazer a obra
de Deus. Eles são agora o corpo de Cristo na terra. Nos evangelhos, o
Filho glorifica o Pai. Em Atos, o Espírito Santo glorifica o Filho.

Em Atos 1, temos um diálogo entre Jesus e os discípulos. Jesus


está falando de uma nova realidade, mas os discípulos ainda estão
presos a uma realidade passada, conforme demonstramos a seguir.

JESUS E A NOVA REALIDADE OS DISCÍPULOS E A VELHA


REALIDADE
Reino de Deus – Atos 1.3 Reino de Israel – Atos 1.6
Confins da terra – Atos 1.8 Uma nação: Israel – Atos 1.6
Tempo futuro (até os nossos Tempo presente - Atos 1.6
dias) – Atos 1.8
Batismo com o Espírito Santo – Batismo nas águas – Atos 1.5
Atos 1.5

Jesus estava apresentando aos discípulos o tempo de romper


com os limites humanos, sociais, culturais, geográficos, etc. Eles
deveriam fazer a obra de Deus em Jerusalém. Esta era a cidade onde
estavam. Precisamos fazer a obra de Deus no próprio local onde
moramos, trabalhamos ou estudamos. É o início da missão. Contudo,
Deus não quer que sejamos comodistas. Jerusalém pode estar muito
confortável. Os discípulos deveriam alcançar toda a Judéia. Essa
parte já idéia de movimento. É preciso caminhar. É preciso sair do
"ninho", assim como Abraão saiu de Ur dos Caldeus em obediência à
ordem do Senhor. Depois da Judéia, eles deviam ir a Samaria. Esta
cidade representa os lugares onde não queremos ir e aquilo que não
queremos fazer, mas que são parte do plano e do roteiro de Deus
para nós. Os discípulos não queriam ir a Samaria. Havia uma grande
barreira social, cultural, e religiosa a ser rompida. Depois, restavam
os confins da terra, representando tudo o que Deus pode fazer
através de nós, mas que não podemos alcançar nem mesmo com
nossa imaginação. Os discípulos não tinham a mínima idéia do que
pudessem ser os confins da terra. Contudo, Jesus sabia que os
horizontes eram muito mais distantes do que seus apóstolos
imaginavam. E tudo isso somente seria possível através da operação
do Espírito Santo. "Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito
Santo e ser-me-eis testemunhas..."

DESTAQUES DO CONTEÚDO

Ação - Pregação do evangelho.

Atividade missionária da igreja. Uma igreja voltada para fora e


não para dentro de si mesma.
Agentes – Os apóstolos e demais cristãos.

Destaque ao valor dos apóstolos. O livro de Atos atesta o caráter


apostólico de quase todos os autores do NT.

Poder - do Espírito Santo.

Propósito (da ação) - Exaltação de Jesus e salvação das


almas.

Resultado - Aceitação e rejeição - (At.2.) - Perseguição e


julgamento. Os perseguidores são judeus e romanos - como nos
evangelhos. Observa-se a crescente aceitação do evangelho pelos
gentios e a crescente perseguição por parte dos judeus.

- Ressurreição – Principal tema da mensagem apostólica. Eram


testemunhas da ressurreição (At.1.22; 2.24,31; 3.15,26; 4.2,10,33;
), a qual se constitui até hoje como sinal da supremacia do
cristianismo e da divindade de Cristo (I Cor.15.17). O diabo faz
muitos sinais e prodígios mas não tem o poder de dar vida, seja pelo
nascimento, seja pela ressurreição.

- 24 sermões (ou resumos) - 9 de Pedro, 9 de Paulo, e outros.

- 5 visitas de Paulo a Jerusalém.

- Mais de 100 nomes pessoais citados (destaca o valor do


indivíduo).

CARACTERÍSTICAS

Eclesiástico – Início da igreja, organização básica e


acompanhamento aos fiéis nas igrejas (não um manual mas exemplo
histórico). A igreja para os judeus - começa com Pedro - Cap.2 – A
igreja para os gentios começa com Pedro - Cap. 10.

Apologético (Ex. cap.15)- Basicamente, ao escrever o livro de


Atos, Lucas tem o mesmo propósito que possuía ao escrever o
evangelho: informar a Teófilo acerca da verdade sobre Jesus e a
igreja. Analisando mais profundamente, alguns comentaristas
sugerem que Lucas também pretendia apresentar um tipo de defesa
do evangelho perante as autoridades romanas, mostrando que o
cristianismo não constituía ameaça às leis e ao Império. Há quem
chegue a dizer que, ao escrever Atos, Lucas se preocupava
especificamente com a defesa de Paulo, que estaria sendo julgado
por Roma. Por isso é que o apóstolo seria a figura central do livro.
Atos cita julgamentos diversos. No evangelho, Pilatos inocenta
Jesus (Lc. 23.4,14,22).

Em Atos, as acusações não são comprovadas: Em Filipos


(16.19,35); em Tessalônica (17.6-9); em Corinto (18.12); em Éfeso
(At.19,31,35); na Judéia (At.26.32 – Paulo poderia ser inocentado
mas apelou para César).

Os tumultos eram normalmente incitados pelos judeus. Enquanto


nos evangelhos, os fariseus perseguem a Cristo, em Atos o principal
perseguido é um ex-fariseu.

Teológico (Ex. cap.17- os deuses e o Deus desconhecido) -


Atividade do Espírito Santo (Atos do Espírito Santo) - 1.4,8 Cap.2
Cap.10.

Os apóstolos são cheios do Espírito Santo. Pelo poder do Espírito


Santo realizam sinais. Os apóstolos são guiados pelo Espírito Santo -
8.29,39; 10.19; 16.6.

O Espírito Santo orienta a igreja: 13.2; 15.28; 11.28; 20.23;


21.4,11.

O livro de Atos faz referências à atuação do Espírito Santo no


VT: 1.16; 28.25; 20.28; 5.32.

Caráter histórico. O livro cita reis, magistrados, governadores,


contextualizando historicamente o início da igreja cristã. Possui
também muitas citações geográficas.

AUTORIDADES MENCIONADAS EM ATOS:

Antipas - Anos 4 a.C. - 39 - Atos 4.27 13.1

Cláudio Nero - anos 41 a 54 - Atos 11.28; 28.2 - Expulsa judeus


de Roma.

Nero - anos 54 a 68 - Atos 25.21-25; 27.1; 28.19 - Paulo apela


para Nero.

Agripa I - anos 37 a 44 - At.12 - Decapita Tiago. Prende Paulo.

Félix Antônio - anos 52 a 58 - Atos 23 e 24 - Procurador na


Judéia e Samaria. Prendeu Paulo.

Pórcio Festo - anos 58 a 62 - Atos 24.27; At.25; At.26 - Mantém


Paulo preso e o envia a Roma.
Agripa II - anos 52 a 70 - Atos 25 e 26 - Galiléia, Peréia e Ituréia
- Ouviu defesa de Paulo.

Ênfase sobre o ministério de Paulo.

Cap. 9 - Sua conversão

13-14 - Paulo com Barnabé em Antioquia e depois em viagem


para ilha de Chipre e Galácia.

15 - Paulo no concílio em Jerusalém.

16-18 - Paulo em viagem com Silas e Timóteo - Filipos,


Tessalônica, Macedônia, Grécia e Corinto.

19 - Paulo na Ásia (Éfeso).

20-26 - Paulo na Palestina (2 anos)

27-28 - Paulo preso em Roma (provavelmente nos anos 60 e


61).

Obs.: Paulo teria sido solto em 64, ido a Creta (Tt.1.5) e talvez à
Espanha (Rm.15.28). Foi preso em Nicópolis e morto em Roma por
ordem de Nero(ano 67?), o mesmo imperador a quem Paulo havia
apelado tentando se livrar da condenação.

ESBOÇO 1 (comentado)

(os esboços podem variar de acordo com o enfoque no conteúdo,


nos lugares, nos fatos ou nas pessoas. O nível de detalhamento
também influencia.)

I- Início da igreja, perseguição e dispersão. 1-12.

Difusão do evangelho a partir de Jerusalém, tendo como


promulgadores principais Pedro, João

e demais apóstolos.

Ênfase inicial sobre a evangelização dos judeus, de modo


coerente com a orientação de Jesus em At.1.8.

Depois, os gentios passam a ter destaque: Samaria (8) Romanos


(10) Gregos (11).

II - Antioquia da Síria passa a ser o principal polo missionário.


Pedro sai de cena e Paulo passa a ser o
apóstolo mais evidente na companhia de seus cooperadores:
Barnabé, Silas, Timóteo e Lucas: Atos 13.1 a 21.15. Obs.: A
destruição de Jerusalém no ano 70 não destruiu a igreja porque esta
já tinha se expandido pelo mundo.

III - Paulo nas prisões - 21.16 a 28.31 - O evangelho chega à


"capital do mundo", Roma.

ESBOÇO 2

I - Os primórdios da igreja - 1.1 a 2.47.

II - O evangelho em Jerusalém - 3.1 a 7.60.

III - Propagação do evangelho em Samaria, Jope e Antioquia -


8.1 a 12.25.

IV - Viagens missionárias de Paulo - 13.1 a 21.16.

V - Prisões de Paulo e viagem a Roma - 21.17 a 28.31.

ESBOÇO 3

O evangelho no poder do Espírito Santo - 1.1 - 2.47

O evangelho em Jerusalém - 3.1 - 6.7

O evangelho na Palestina - 6.8 - 9.31

O evangelho em Antioquia - 9.32 - 12.31.

O evangelho na Galácia - 13.1 - 14.28.

O evangelho é de graça, através da fé - 15.1 - 15.40.

O evangelho na Macedônia - 16.1 - 17.15.

O evangelho na Acaia e na Ásia - 17.16 - 19.40

O evangelho na Ásia e de volta à Palestina - 20.1 - 21.17.

O evangelho leva Paulo à prisão em Jerusalém e Cesaréia -


21.18 - 26.32.

O evangelho conduz Paulo a Roma - 27.1 - 28.31.


Carta de Paulo aos Romanos

ROMA – "A CIDADE ETERNA"

INFORMAÇÕES HISTÓRICAS E GEOGRÁFICAS

Localização – Roma está localizada no continente europeu, na


região central da península Apenina ou Itálica, que hoje corresponde
ao território italiano. Nos primórdios da história romana, não existia
um país chamado Itália. A península era ocupada por várias cidades-
estado independentes.

Fundação – A cidade foi fundada em 735 a.C. às margens do rio


Tibre, sobre 7 colinas. Sua origem está envolta em lendas. A principal
está relacionada às figuras dos irmãos Rômulo e Remo, os quais
teriam sido amamentados por uma loba. Outra versão nos informa
que naquela região foi montado um posto militar dos povos do norte
com o objetivo de resistir às invasões dos povos do sul,
principalmente dos etruscos. Esse posto teria dado origem à cidade
de Roma.

Formação da população – os povos latinos, sabinos, e até


mesmo os etruscos participaram da formação inicial da população
romana. Posteriormente, outras etnias se introduziram no processo.

Organização social – A população romana, já nos seus


primeiros séculos, dividiu-se em classes: patrícios, plebeus, clientes e
escravos. Patrícios eram os nativos da cidade, os quais estavam
ligados às famílias tradicionais (gens). Eram os donos da terra,
possuíam cidadania e status de nobreza. Tais famílias se organizavam
em "cúrias" que, por sua vez, formavam as tribos. Daí vinham os
membros do senado e o rei.

Os plebeus constituíam a classe popular, a plebe. Eram aqueles


indivíduos sem raízes hereditárias entre as famílias importantes.
Normalmente eram imigrantes e não possuíam nenhum direito à
terra. Contudo, exerciam alguma atividade que lhes garantia uma
renda. Portanto, pagavam impostos. Os clientes eram aqueles
indivíduos que ocupavam um pedaço de terra de um patrício e, em
troca, devia-lhe determinado pagamento. Os escravos eram aqueles
que, por motivo de dívida ou de guerra, tornavam-se propriedade dos
patrícios. De uma mistura de lenda e história vem a tradição de que
Roma teve 7 reis. A monarquia acabou quando os próprios patrícios
se ressentiram da tirania do poder real. Inicia-se então a república
romana.

Com o passar dos séculos, a plebe cresceu demasiadamente.


Muitos plebeus se tornavam escravos por não poderem quitar seus
compromissos financeiros. Desse modo, a classe dos escravos
também crescia. Os menos favorecidos eram então a maioria da
população. Nesse tempo, os patrícios controlavam o Estado, tomando
todas as decisões como bem lhes parecia. Muitos indivíduos da plebe
prosperaram por suas atividades comerciais ou por sua participação
no exército. Muitas atividades indispensáveis eram desempenhadas
por essa classe sem, contudo, terem direito à cidadania. Explode
então a luta de classes em Roma. Em 494 a.C., os plebeus resolvem
abandonar Roma. Eles saem da cidade, deixando os patrícios sem
proteção e serviços. Diante disso, e vendo sua dependência, os
patrícos resolvem dar direitos aos plebeus, os quais passaram a ter
representantes eleitos na Assembléia. Exigiram também a elaboração
de leis escritas pois, até então, só havia leis orais em Roma e
mudavam de acordo com a vontade dos patrícios.

Império Romano – Tendo formado um poderoso exército,


Roma conquistou toda a península itálica, a Espanha, Portugal, Sicília,
e todas as nações em volta do Mar Mediterrâneo. Forma-se então o
Império Romano. Roma se torna a "capital do mundo", dominando
sobre povos de diversas nacionalidades, línguas, religiões e
costumes.

Guerra, riqueza, e desenvolvimento – As guerras de


conquista aumentaram excessivamente a riqueza romana através do
espólio das outras nações. Todo esse poderio econômico
proporcionou um desenvolvimento muito grande na cidade. As
famílias ricas passaram a contratar professores gregos para seus
filhos. Além disso, muitos literatos e artistas gregos se deslocavam
para Roma. Comerciantes de várias nacionalidades iam morar em
Roma ou fazer ali os seus negócios. Desenvolveu-se então a
literatura, a engenharia, a arquitetura e as artes. Nesse tempo, a
cidadania romana já não estava restrita aos patrícios. Ser cidadão já
não dependia apenas da hereditariedade mas se tornara uma questão
financeira.

As construções romanas – Até hoje, o que mais impressiona o


visitante de Roma são suas edificações. Entre elas podemos destacar:

O Panteon, onde se encontravam os deuses romanos;


O Coliseu, grande estádio onde se realizavam as lutas
entre os gladiadores e onde muitos cristãos foram lançados às
feras.
 Os aquedutos – canais que conduziam água das
montanhas para as cidades.
 Os relevos – esculturas feitas sobre monumentos.
 Além disso, podemos citas os templos, palácios,
monumentos (ex.: arcos), estátuas, castelos, e as estradas que
ligavam Roma a todas as partes do Império.

As obras romanas foram muito influenciadas pelo estilo grego.


Contudo, os romanos eram mais realistas. Enquanto que os gregos
faziam monumentos em homenagem às figuras mitológicas, os
romanos honravam pessoas reais, principalmente seus heróis de
guerra e seus governantes.

As catacumbas – eram buracos cavados em volta da cidade


para extração de areia. Eram tão profundos que acabavam formando
túneis e galerias. Na época da perseguição, os cristãos se escondiam
nesses lugares e ali milhares deles morreram e ficaram sepultados.

Religião

Politeísmo – Desde a antigüidade, a religião romana se


caracterizava pela adoração a diversos deuses. Inclusive, chegaram a
adorar muitas divindades da mitologia grega.

Culto aos antepassados – As famílias tradicionais adoravam seus


próprios ancestrais em seus cultos domésticos.

Culto ao imperador – Estabelecido por Augusto, o culto ao


governante tornou-se parte da religiosidade romana.

Cristianismo clandestino – O cristianismo entrou em Roma sem


reconhecimento oficial. A recusa dos cristãos em relação ao culto ao
imperador foi um dos motivos que deflagraram a perseguição. Após
ter incendiado Roma, o imperador Nero acusou os cristãos. Este foi
um dos momentos de maior perseguição. Segundo a tradição
católica, nessa ocasião Paulo e Pedro foram mortos naquela cidade.

Cristianismo oficial – A partir do governo de Constantino, o


cristianismo foi autorizado. Algum tempo depois, o imperador
Teodósio tornou o cristianismo religião oficial do Império. As práticas
religiosas antigas passaram a ser proibidas. Contudo, continuaram a
existir no campo, nas regiões afastadas dos centros urbanos. Com
isso, entrou no vocabulário religioso o termo "pagão" que significa
"do campo".

Referências bíblicas a Roma: A bíblia se refere a Roma em


Atos, Romanos e II Timóteo. Existem comentaristas que interpretam
a "Babilônia" de I Pedro 5.13 como sendo a cidade de Roma. Bem
maior é o número dos que tem essa interpretação com relação à
"Babilônia" do Apocalipse (cap.17 etc.). O texto fala de uma mulher
sobre 7 montes e embriagada com o sangue dos seguidores de Jesus.
Com efeito, quando João escreveu aquele livro, muitos cristãos já
tinham sido mortos em Roma, a cidade das 7 colinas.

Influência romana – Roma marcou a história da humanidade e


até hoje carregamos suas influências em diversas áreas. Alguns
exemplos: o direito romano, o estilo artístico, o calendário, os
algarismos, o catolicismo, etc. Este último, com sua estrutura de
domínio mundial, nos faz lembrar o antigo Império.

A IGREJA EM ROMA

Fundação : Em sua epístola, Paulo deixa claro que ainda não


conhecia Roma. Logo, a igreja ali não foi por ele fundada.
Entendemos que Pedro também não participou desse processo pois,
se este ou outro apóstolo fosse responsável por aquela igreja, Paulo
não escreveria uma carta doutrinária para aqueles irmãos. Por outro
lado, se Pedro estivesse em Roma, o mesmo teria sido mencionado
nas saudações do último capítulo. Ambrosiastro, escritor do século IV
disse: "Os romanos abraçaram a fé em Cristo sem ver nenhum sinal
de obras poderosas e nenhum dos apóstolos." No século II surgiu a
tradição segundo a qual Pedro teria exercido ministério em Roma. No
século IV iniciou-se a tradição de que ele teria sido o 1o bispo
romano. Quem então teria fundado aquela igreja? De fato, isso não
tem grande importância, mas sempre gostamos de ter um nome para
a atribuição das honras. É isso que fomenta o surgimento das
tradições. Uma das hipóteses mais prováveis é que a igreja tenha
sido fundada no ano 30 pelos judeus de Roma que estiveram em
Jerusalém no Pentecostes – At.2.10,11.

A colônia judaica em Roma - Desde a conquista de Jerusalém por


Pompeu no ano 63 a.C., muitos judeus foram morar em Roma. No
governo de Cláudio foram expulsos – (At.18.2). A ordem foi revogada
por Nero poucos anos depois. Quando Paulo chegou a Roma, no ano
60 (At.28) ele encontrou judeus que ali residiam. (É bom lembrar que
o envio da epístola é anterior a essa "visita").

A igreja em Roma era composta de judeus e principalmente


gentios. Na epístola, Paulo fala aos judeus e aos gentios de forma
específica e direta alternadamente (Rm.1.5-7,13; 2.17-24). Sendo
pessoas de origens, tradições e costumes tão distintos, era natural
que a convivência entre eles apresentasse suas dificuldades. O
apóstolo procura tratar dessa questão no capítulo 14.

A EPÍSTOLA AOS ROMANOS


"O EVANGELHO SEGUNDO PAULO" (RM.2.16)

Autor: Apóstolo Paulo

Escritor: Tércio – Rom.16.22.

Data – Ano 58 – entre 53 e 58 (3ª viagem


missionária).

Local – Corinto.

Portadora – Febe – (Rm.16.1-2).

Tema- O evangelho de Cristo

Texto chave: 1.16 e 5.1

Classificação: soteriologia (doutrina da salvação).

A epístola de Paulo aos Romanos é uma obra prima da teologia


cristã, destacando-se entre os livros do Novo Testamento. É um
tratado teológico sobre a salvação. Lutero chegou a dizer: "Se
tivéssemos de preservar somente o evangelho de João e a epístola
aos Romanos, ainda assim o cristianismo estaria a salvo."

A carta nos apresenta um resumo da bíblia e da história humana


sob o ponto de vista teológico. O autor menciona Adão (5.14),
Abraão (4.13), Moisés (5.14), Israel (11.25), o Velho Testamento
(1.2), Jesus (10.9), a salvação (10.9), a igreja (16.1), o juízo (2.16)
e a glorificação dos salvos (8.30). Esses versículos são apenas alguns
exemplos dentre tantos que mencionam tais temas e pessoas.

Objetivo de Paulo - Paulo queria expor aos romanos seu


entendimento a respeito do evangelho e prepará-los para sua futura
visita, quando estivesse a caminho da Espanha. (Rm.15.22-24).

ESBOÇO (RM.)

I – Introdução – 1.1-17

Apresentação pessoal, saudação, tema (16-17).

II – O problema humano – 1.18 a 3.20.

O pecado, sua universalidade e suas conseqüências.

III – A solução divina – A salvação: 3.21 a 5.21.


A origem do pecado e a origem do perdão.

O método da salvação: justificação pela fé no sacrifício de Cristo.

IV – A santificação – 6 a 8.

Ação do Espírito Santo na vida do salvo.

V - A soberania divina – 9 a 11.

Judeus e gentios no plano de Deus.

VI – O cristianismo prático – 12 a 15.13.

A vida cristã na igreja, na sociedade e nas relações pessoais.

O serviço cristão.

V – Conclusão – 15.14 a 16.27.

Assuntos pessoais, admoestações e saudações finais.

COMENTÁRIO

Deve-se observar a organização de Paulo. A carta apresenta um


desenvolvimento em uma seqüência bem ordenada. Temos:
Introdução, histórico, ilustração (Abraão), teoria e exemplos de
aplicação prática.

I – Introdução – 1.1-17

Apresentação pessoal, saudação, tema (1.1, 16-17).

As cartas antigas eram iniciadas com três elementos:


identificação do remetente, identificação do destinatário e saudação.
Vemos isso na epístola aos Romanos. Paulo se apresenta de forma
humilde, como servo, chamado para o apostolado e separado para o
evangelho. Desse modo, a autoria fica bem definida. Os destinatários
são claramente indicados no verso 7. No próprio verso 1, o tema já
surge: "o evangelho de Deus". A partir desse ponto, o autor pára de
falar de si mesmo e passa a discorrer sobre a trindade, destacando o
Filho. O Pai é mencionado nos versos 1, 2 e 7. O Espírito Santo é
mencionado no verso 4. Jesus é mencionado em vários versículos,
pois ele é o personagem principal no tema escolhido.

Em sua introdução, Paulo apresenta o vínculo entre a história, a


humanidade e a divindade. O elemento histórico é o rei Davi. A
questão humana é a descendência carnal de Cristo. O elemento
divino é a declaração da sua filiação divina. Esta abordagem
demonstra que o evangelho de Deus está cravado no contexto
humano de forma historicamente comprovada. O ápice da
apresentação do tema se dá nos versos 16 e 17.

II – O problema humano – 1.18 a 3.20.

O pecado, sua universalidade e suas conseqüências (condenação


e morte).

No desenvolvimento da epístola, Paulo vai falar do evangelho,


mas os romanos poderiam perguntar: para quê evangelho? O
apóstolo, em sua excelente organização literária, vai demonstrar aos
seus leitores os fatores que evidenciam a necessidade que os homens
têm do evangelho. Este seria apresentado como um "remédio", mas,
para isso, torna-se imperioso que a "doença" seja diagnosticada. Isto
é feito de forma magistral pelo "doutor" Paulo. Nesse momento ele
quer despertar a consciência dos romanos, então chama a atenção
para práticas pecaminosas tais como a idolatria (1.23-25), o
homossexualismo (1.27), a prostituição, o homicídio, e uma lista que
inclui até à desobediência aos pais (1.29-31).

Os romanos eram a elite política do império. Os judeus eram a


elite religiosa, pelo menos para si mesmos. Os gregos eram a elite
cultural. Eles poderiam se considerar acima das questões apontadas
por Paulo. Entretanto, o autor apresenta, de forma contundente,
a universalidade do pecado. Ao citar gentios, judeus, bárbaros,
romanos, gregos, sábios e ignorantes, ele não deixa ninguém de fora
da sua abordagem (1.13-16). Isso se evidencia de forma definitiva no
capítulo 3, onde lemos: "Não há um justo sequer", (3.10). "Toda
boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus"
(3.19). "Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (3.23).

O pecado é, em si mesmo, maligno. Contudo, muitas vezes só


conseguimos ver essa malignidade através das suas conseqüências. É
como uma doença que só é notada e sentida quando surgem os
sintomas. Contudo, a doença é muito mais profunda do que os
sintomas. As conseqüências do pecado são diversas e se apresentam
nas mais variadas esferas da vida humana. Contudo, os piores efeitos
são: a morte, que é o salário do pecado (6.23), e a condenação
divina (3.19). Se a morte fosse o fim, tudo estaria então resolvido.
Porém, o pior vem depois. Conforme diz a epístola aos Hebreus,
depois da morte vem o juízo (Hb.9.27).

III – A solução divina – A salvação: 3.21 a 5.21

A origem do pecado e a origem do perdão.


O método da salvação: justificação pela fé no sacrifício de Cristo.

Fazendo um exame mais profundo, Paulo vai explicar como o


pecado entrou na história humana. Após ter diagnosticado a
"doença", o autor vai buscar sua causa. Então, ele menciona Adão,
como sendo o primeiro pecador humano. Na condição de
representante da humanidade, o primeiro homem passou a natureza
pecaminosa a todos os homens. Novamente, a universalidade do
pecado está evidente (3.23). Para o alívio dos leitores, não só o
pecado é universal, mas também o amor de Deus possui a
característica da universalidade. Já no capítulo 1 o autor diz que os
destinatários são "amados de Deus". Afinal, o amor de Deus é o
pressuposto fundamental do evangelho, conforme se observa em
João 3.16.

Paulo não se limita a mostrar o problema humano e suas


conseqüências. Afinal, mostrar o problema é muito fácil e muitos
estão fazendo isso a todo tempo. As religiões, as ciências humanas e
os meios de comunicação estão mostrando o pecado humano e suas
conseqüências diariamente, embora utilizem outros nomes para tudo
isso. O tema da epístola aos Romanos é o evangelho e o objetivo do
evangelho é a salvação (1.16), e não o enriquecimento material dos
convertidos. Depois que o homem está convencido do seu pecado e
da respectiva condenação, a salvação se torna muito interessante.
Mas, como ela ocorre? E por quais meios? Faz parte do evangelho a
resposta a essas questões. E Paulo se dedica a explicar o método
divino para a salvação do homem.

A salvação não ocorre por meio das obras e nem através da lei.
Os mandamentos da lei são santos, justos e bons (Rm.7.12), porém
não salvam. A lei serve para mostrar o pecado e determinar a
condenação. Mostrando o pecado, a lei é útil. Porém, não salva. A lei
serve para mostrar ao homem a necessidade que ele tem da obra de
Jesus Cristo. Tal obra foi o seu sacrifício na cruz, sua morte.
Entretanto, tal obra não tem efeito automático. Se assim fosse, toda
a humanidade estaria salva a partir do momento em que Cristo
expirou. Ao sacrifício de Cristo deve ser aplicada a fé, pois
a salvação é para "todo aquele que crê" (Rm.1.16).

A fé no sacrifício de Jesus produz a justificação. Conforme diz


Paulo: "sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por
meio de nosso Senhor Jesus Cristo." (Rm.5.1). Justificação é o ato
divino de nos declarar justos. Voltando a Romanos 3.10, temos as
palavras de Paulo dizendo: "Não há um justo sequer."

No capítulo 5, este problema está resolvido, pois Deus nos


declara justos pelos méritos de Cristo. Por natureza, não somos
justos, mas pela graça de Deus somos, pois a justiça de Jesus nos é
imputada. "Imputar", de acordo com o dicionário Aurélio, significa
"aplica um pagamento a determinada dívida". Podemos entender a
imputação como um crédito aplicado a uma conta corrente. Paulo
disse que Abraão creu e sua fé lhe foi imputada como justiça, ou
seja, a fé de Abraão foi considerada como justiça. Da mesma forma a
justiça do homem Jesus, sua vida santa, é imputada a todo aquele
que nele crê. Sua justiça é creditada em nossa "conta" que estava
"negativa" por causa da dívida do pecado. Assim, nossa débito é pago
e ficamos em paz com Deus, a quem jamais poderíamos pagar. Por
isso, a salvação é o "dom gratuito de Deus" (Rm.6.23). Sendo
gratuito, não faz sentido nenhum tipo de pagamento que se pretenda
estabelecer para a obtenção do perdão divino. A gratuidade da
salvação não significa que ela não tenha um preço, mas indica que
esse preço já foi satisfatoriamente pago através do sangue do nosso
Senhor e Salvador Jesus Cristo.

IV – A santificação – 6 a 8.

Ação do Espírito Santo na vida do salvo.

"Onde abundou o pecado, superabundou a graça." (Rm.5.20).


Tamanha graça divina poderia ser erroneamente interpretada como
licença para o pecado. "Permaneceremos no pecado para que a graça
abunde? De modo nenhum. Nós que estamos mortos para o pecado,
como viveremos ainda nele?" (Rm.6.1-2).

A obra de Deus na vida do crente não se resume à justificação.


Podemos comparar a justificação à saída dos israelitas do Egito. Esta
é uma ilustração excelente para a salvação. Porém, após retirar o
povo do Egito, Deus precisava tirar o Egito do coração do povo
israelita. Foi o processo do deserto, o qual nós podemos comparar
com a santificação do salvo. Este consiste na formação do caráter de
Cristo em nós. É uma parte essencial do que costumamos chamar de
"crescimento espiritual". Pela justificação, Deus perdoou todos os
nossos pecados passados. Pela santificação, vamos nos livrando dos
hábitos pecaminosos. Embora muitos possam alegar que tudo isso
acontece instantaneamente quando se aceita a Jesus, a realidade nos
mostra o contrário. O próprio Paulo demonstra esse conflito quando
diz: "não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse
faço." (Rm.7.19). Qual seria o escape para esse dilema prático? A
operação do Espírito Santo na vida do crente em junção com a
vontade humana e o exercício pessoal da obediência. "Portanto,
agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus,
que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito." (Rm.8.1).
Nesse processo, entra, de forma determinante, a Palavra de Deus. O
Espírito Santo opera em nós na medida em que conhecemos a
Palavra de Deus e procuramos aplicá-la (Rm.10.17; Ef.5.26).
Santificar é "separar". Santificação é a separação do salvo de tudo
aquilo que não condiz com sua nova condição espiritual. Lembremo-
nos do relato da ressurreição de Lázaro. Estando já ressuscitado, ele
ainda se encontrava imobilizado por muitas ataduras mortuárias. Era
um vivo com cara de morto, cheiro de morto, aspecto de morto. Era
preciso que tudo aquilo fosse removido. A santificação dos crentes é
uma das principais funções do Espírito Santo no mundo. É a
preparação da noiva, a igreja, para o seu encontro com o noivo,
Jesus.

V - A soberania divina – 9 a 11

Judeus e gentios no plano de Deus.

Nessa parte da epístola, o apóstolo Paulo se dedica a mostrar


aos Romanos o valor dos judeus e sua posição no plano de salvação.
Se os romanos não valorizassem os judeus e não reconhecessem
neles a origem da revelação divina, como poderiam valorizar a
pessoa de Jesus? Mesmo nós, hoje, aceitamos o cristianismo porque
entendemos que "a salvação vem dos judeus" (João 4.22). Esse
destaque para Israel parecia incompatível com a rejeição que os
próprios judeus demonstraram à pessoa de Cristo. Paulo então,
expõe alguns detalhes históricos do povo de Deus, sua incredulidade,
sua desobediência e seu distanciamento do evangelho. Dizer que
Israel era o povo escolhido de Deus poderia soar muito estranho para
os romanos. Paulo demonstra enfaticamente que Deus é soberano.
Ele escolhe a quem quer e rejeita a quem quer. Logo, se Deus
escolheu Israel, não se deve questioná-lo por isso. Deus tem razões
anteriores às suas soberanas decisões. Sua presciência,
conhecimento antecipado, faz com que as evidências das suas
escolhas apareçam antes dos fatos que lhes deram causa. Então, a
situação pode ter aparência de injustiça aos olhos humanos. Antes
que Jacó e Esaú nascessem, Deus disse: "Amei a Jacó e aborreci a
Esaú." (Rm.9.11-13). Então, Jacó já nasceu como escolhido de Deus,
enquanto que Esaú nasceu rejeitado, mas tudo isso porque Deus já
via qual seria, no futuro, a decisão de cada um daqueles meninos
diante do plano divino. Deus, em sua presciência, sabia que o
"enganador" se converteria e que o primogênito desprezaria sua
primogenitura. Contudo, tais atitudes não foram determinadas por
Deus, mas por eles mesmos.

O conceito de soberania poderia nos levar a pensar que abaixo


de Deus, apenas a sua vontade é feita. Mas não é assim. A soberania
divina significa que acima dele não existe mais ninguém. Abaixo dele,
nem todos obedecem à sua vontade. Contudo, até a desobediência se
encontra debaixo da soberania. Os homens desobedecem porque
Deus lhes deu um limitado campo de ação onde a vontade humana
prevalece.
Quando pensamos em soberania divina, eleição e predestinação,
podemos pensar que toda a história e o destino humano dependem
única e exclusivamente de Deus que, por sua absoluta decisão,
escolheu quem haveria de se salvar e quem haveria de se perder,
independentemente de qualquer ato ou vontade dos seres humanos.
Esta posição é defendida por muitos teólogos. A outra maneira de se
entender tudo isso é através da consideração da presciência de Deus
como base da eleição e da predestinação. Assim, Deus elegeu e
predestinou as pessoas porque já sabia antecipadamente qual seria a
decisão de cada uma delas em relação à pessoa de Jesus Cristo.
Como disse Pedro, somos "eleitos segundo a presciência de Deus" (I
Pd.1.2). E voltando a Romanos, "os que dantes conheceu, também os
predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho Jesus..."
(Rm.8.29). Antes da predestinação existe um conhecimento. Esta é a
presciência de Deus a respeito das decisões humanas no uso de seu
livre-arbítrio.

A soberania divina não anula a liberdade humana. Paulo mostra


que podemos escolher. Ele diz: "Não sabeis vós que a quem vos
oferecerdes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a
quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a
justiça?" (Rm.6.16). "Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de
Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e
agradável a Deus, que é o vosso culto racional." (Rm.12.1). Nesses
textos, observamos a vontade humana em ativa participação no
destino espiritual de cada um.

VI – O cristianismo prático – 12 a 15.13.

A vida cristã na igreja, na sociedade e nas relações pessoais.

A transformação operada pelo evangelho na vida humana deve


ter dois aspectos: a pessoa deve deixar de fazer o mal e começar a
fazer o bem (Is.1.16-17). A justificação é quase um sinônimo de
perdão. A santificação seria o "deixar de fazer o mal". É o abandono
de práticas pecaminosas. Contudo, o processo de ação do evangelho
ainda não está concluído. Deixamos de fazer as coisas erradas e
agora precisamos começar a fazer as coisas certas. Deixamos de
servir ao Diabo e precisamos servir a Deus ativamente. Libertos do
pecado, tornamo-nos servos da justiça (Rm.6.18). Os mandamentos
divinos se dividem em proibições e ordens. São mandamentos
negativos e positivos. Os negativos são aqueles que começam com o
advérbio "não" e nos mostram os atos e atitudes que devem ser
abandonados: "Não matarás", "Não adulterarás", etc. (Rm.13.9-10).
Os mandamentos positivos são aqueles que nos ordenam à ação. Por
exemplo, "honra teu pai e tua mãe." No desenvolvimento da vida
cristã, temos a fase que podemos comparar `a limpeza de um
terreno. Talvez haja alguma construção a ser demolida, algum lixo a
ser removido, etc. Depois, deve vir a fase de edificação de acordo
com o novo propósito. Por isso Paulo nos admoesta a apresentarmos
os nossos corpos para o trabalho cristão. Entendemos assim pela
análise do conteúdo do capítulo 12. O cristianismo não se resume em
espiritualidade, mas em ação. As obras não salvam, mas o salvo
pratica boas obras.

Paulo nos convida ao serviço cristão. O apóstolo usa sempre os


conceitos de servo e senhor, figuras tão presentes na organização
social do Império Romano. Ele mesmo fora chamado para ser
apóstolo. Sua vocação não era apenas para a salvação, mas para o
serviço sagrado. Somos convidados a apresentar os
nossos corpos (12.1) para o serviço no corpo de Cristo (12.5). Orar é
bom e necessário, mas não é tudo. É preciso ação na igreja através
dos dons espirituais e dos ministérios.

A igreja não é o único campo de ação do cristão nem deve ser


um esconderijo ou lugar de alienação. Precisamos enxergar além dos
limites do nosso grupo de irmãos, não para lançar mão das
imundícies do mundo mas para desempenharmos nele o nosso papel
como bons cidadãos e agentes do bem. Por isso Paulo insere a
questão da sujeição às autoridades, o pagamento dos impostos e de
toda dívida (Rm.13.1,6,7,8). Deve haver coerência entre nossa ação
na igreja e no mundo. Quando Jesus perguntou: "Quem dizem os
homens ser o Filho do Homem?", ele só obteve respostas positivas,
embora nem todas estivessem corretas. E quais serão as respostas se
fizermos a mesma pergunta a respeito de cada um de nós? O que as
pessoas dizem a nosso respeito? Que "títulos" receberemos delas?
Ainda que os títulos não tenham grande valor, se forem negativos
podem ter grande peso contra o evangelho e contra o nome de Jesus.

Além das relações a nível social ou institucional, temos relações


pessoais diversas. Depois de termos consciência do nosso papel na
igreja e na sociedade, precisamos ter bem em mente alguns
princípios que irão reger nossos relacionamentos individuais. Então,
Paulo chega ao nível do tratamento com "o próximo". O evangelho
deverá reger tudo isso.

V – Conclusão – 15.14 a 16.27

Assuntos pessoais, admoestações e saudações finais.


Primeira Epístola de Paulo aos
Coríntios

A CIDADE DE CORINTO – GRÉCIA

Localização

As quatro cidades mais importantes do Império Romano eram:


Roma, Corinto, Éfeso e Antioquia da Síria. Portanto, Corinto era
célebre. A cidade localizava-se em um istmo, que é uma porção de
terra que liga uma península ao continente. Possuía dois portos.
Assim, além de ser a única passagem por terra entre o norte e o sul
da Grécia, era também passagem entre a Ásia, a Palestina e a Itália.
Os navegantes poderiam dar a volta pelo sul da península. Porém, o
mar na região era muito tempestuoso. Corinto era então um corredor
de mercadorias. Além disso, suas terras eram férteis. A cidade era
rica e tinha localização estratégica no cenário mundial.

História

Corinto grega

No auge da civilização grega, Corinto já ocupava lugar de


destaque. Em 146 a.C., a cidade foi destruída pelo cônsul romano
Mummius.

Corinto romana

Devido à sua posição estratégica, a cidade foi reconstruída em


46 a.C. por Júlio César, tornando-se capital da Província Romana da
Acaia. A nova Corinto possuía ruas amplas, praças, templos (Netuno,
Apolo, etc), estádio (I Cor.9.24), teatros, estátuas, e o santuário de
mármore branco e azul (Rostra), onde se pronunciavam discursos e
sentenças.

A idolatria de Corinto

A idolatria fazia parte da cultura grega com seus inúmeros


deuses mitológicos. Ao sul de Corinto havia uma colina chamada
Acrocorinto, que se elevava a 152 metros acima da cidade. Ali estava
o templo de Afrodite, também chamada Astarte, Vênus ou Vésper, –
deusa do amor e da fertilidade.
A corrupção de Corinto

Os cultos a Afrodite incluíam ritos sexuais realizados por 1000


sacerdotisas, ou seja, prostitutas cultuais. O fato de ser cidade
portuária, contribuía para que uma série de problemas se
estabelecessem. Muitos viajantes que por ali passavam se
entregavam à prostituição e à prática de outros delitos. O fato de
estarem de passagem criava uma sensação de impunidade, o que de
fato se concretizava normalmente. Estes e outros fatores contribuíam
para uma corrupção generalizada na cidade.

História recente

A cidade de Corinto foi destruída por um grande terremoto em


1858. Em seguida foi reconstruída a 6 km do local anterior.
Escavações na cidade antiga permitiram diversas descobertas
arqueológicas, tais como monumentos, imagens e ruínas de casas,
templos e palácios.

A IGREJA EM CORINTO

A igreja em Corinto foi fundada pelo apóstolo Paulo durante sua


a
2 viagem missionária, entre os anos 50 e 52 d.C. Ali, Paulo
permaneceu durante dezoito meses (At.18.1-8). A igreja era
composta por judeus e gentios. Entre seus membros havia ricos e
pobres, inclusive escravos.

AS EPÍSTOLAS AOS CORÍNTIOS

Em nossas bíblias, temos duas epístolas de Paulo aos Coríntios.


Entretanto, sabemos que elas seriam pelo menos três. Em I Cor.5.9,
Paulo se refere a uma carta anterior, a qual não chegou às nossas
mãos. Em II Cor. 7.8 existe referência a outra carta que pode ser I
Coríntios. Alguns comentaristas sugerem que a carta mencionada em
II Cor.7.8 seja uma outra epístola. Nesse caso, teríamos quatro
epístolas. Trabalhando ainda com hipóteses, sugere-se que essa
epístola corresponda aos capítulos 10 a 13 de II Coríntios, os quais
poderiam ter sido ali agrupados posteriormente.

Temos então o seguinte esquema:

1a carta - desaparecida - existência garantida por I Cor.5.9

2a carta - é a que chamamos I Coríntios.

3a carta - desaparecida – existência hipotética.

4a carta – é a que chamamos II Coríntios.


A PRIMEIRA EPÍSTOLA DE PAULO AOS CORÍNTIOS

Autor: Paulo (1.1)

Escritor: Sóstenes (1.1)

Data: 56 d.C.

Local: Éfeso (16.8)

Texto chave: 5.7

Tema: o comportamento do cristão.

Classificação: eclesiologia (Estudos referentes à igreja).

Principais motivos da carta

Nessa epístola, Paulo não expõe os fundamentos do evangelho,


como fez na carta aos Romanos. Afinal, ele já estivera doutrinando os
coríntios pessoalmente durante um ano e meio. Paulo escreveu
àquela igreja depois de receber uma carta com perguntas dos
coríntios (I Cor. 7.1; 8.1-13) e a visita de pessoas que vieram
trazendo más notícias (1.11; 16.17). Os problemas dos coríntios
eram muitos. Em destaque estavam a divisão e a imoralidade.

Divisão na igreja

Logo que Paulo saiu de Corinto, após ter fundado a igreja, Apolo
chegou e deu prosseguimento ao trabalho (At.18.24-28). Como disse
o apóstolo: "Eu plantei, Apolo regou.." (I Cor.3.6). Sua obra foi
importante e digna de reconhecimento. Ele era homem eloqüente e
conseguiu conquistar a simpatia de muitos coríntios. Ao que parece,
os irmãos ficaram impressionados com a pessoa de Apolo e
começaram a fazer comparações com Paulo, que talvez não falasse
tão bem. (I Cor.2.1-5; II Cor. 10.10). Muitos chegaram a desprezar o
apóstolo Paulo, questionando sua autoridade e seu ministério. (I
Cor.1.11-14). Formaram-se então partidos dentro da igreja: os de
Paulo, os de Apolo, os de Cefas (Pedro em Aramaico) e os de Cristo (I
Cor.1.12). Não sabemos se Pedro esteve pessoalmente em Corinto.
Pode ser que sim. De qualquer forma, é mais provável que o nome de
Pedro tenha sido levado por judeus cristãos que vieram de Jerusalém.
Talvez esse grupo corresponda aos judaizantes que tantos problemas
criaram para Paulo.

O fato de alguns se intitularem "de Cristo" pode ter sentido


positivo ou negativo. Isso poderia significar uma consagração maior,
uma rejeição ao partidarismo, mas pode também indicar
independência, rejeição a todo tipo de liderança e uma manifestação
"orgulho espiritual". Conquanto não possamos tirar conclusões sobre
isso na primeira epístola, o texto de II Cor. 10.7 parece mostrar que
aqueles que se diziam "de Cristo" eram os mais problemáticos.

Influências da cidade

Como vimos, a cidade de Corinto estava dominada pela idolatria,


pela imoralidade e pela corrupção generalizada. Tais fatores estavam
"batendo à porta da igreja". Esta situação não é diferente nos nossos
dias, quando o "modernismo" e o "mundanismo" estão querendo
entrar no nosso meio. Não podemos simplesmente nos fechar para
tudo o que nos rodeia. Nesse caso, teríamos que "sair do mundo".
Contudo, precisamos discernir o que é aceitável e o que não é. Muitas
influências podem até ser positivas. O que não se pode admitir é a
entrada do pecado na igreja. Por exemplo, se usamos instrumentos
musicais que foram inventados por ímpios, isso não é problema, mas
se trouxermos a sensualidade mundana para a igreja estaremos
recebendo o lixo do mundo. Em Corinto, as influências da cidade
estavam fazendo apodrecer a igreja. Os costumes pagãos estavam
influenciando até mesmo a (des)organização dos cultos.

A carnalidade dos cristãos coríntios

A influência externa só produz resultado quando encontra


receptividade interna. A carnalidade daqueles cristãos era a porta
aberta para os males externos. Assim, surgiam diversos problemas
na vida da igreja. No capítulo 2, Paulo fala sobre o "homem natural"
(v.14) e o "homem espiritual" (v.15). O homem natural é o ímpio. O
espiritual é o cristão controlado pelo Espírito Santo. No capítulo 3,
verso 1, o autor se refere ao "homem carnal". Carnalidade é o modo
de vida de acordo com os desejos descontrolados da natureza
pecaminosa. O homem carnal é o crente sem o controle do Espírito
Santo. Sua vida se torna semelhante à do homem natural, onde o
domínio do pecado é visto com naturalidade.

Especificando as influências

Na seqüência, procuraremos expor o "pano de fundo" dos


problemas da igreja de Corinto. Vários elementos estavam
contribuindo para aquela situação de caos. A epístola apresenta o
esforço de Paulo para colocar as coisas em seus devidos lugares.
Muitas delas deveriam ser colocadas para fora da igreja.

Religião e imoralidade (I Cor.5.1; 6.15-18; 7.2)

A cultura de Corinto misturava religião e imoralidade. Além


disso, a vida passada (6.9-11) de muitos daqueles irmãos constituía
um ponto fraco, motivo pelo qual alguns (ou muitos?) se deixaram
levar pelos pecados sexuais. Paulo deixa bem claro que essa mistura
não poderia existir dentro da igreja. O padrão de religiosidade da
cidade não servia para os cristãos. O caso mais grave está relatado
no capítulo 5: um homem da igreja havia cometido incesto com a sua
madrasta. O apóstolo aconselhou que o mesmo fosse expulso da
igreja. Em casos assim, muitos poderiam apelar para a tolerância, o
amor, etc. Contudo, a impunidade seria um forte incentivo para que
outros se deixassem levar por pecados semelhantes. A exclusão
precisava ser feita. Posteriormente, o irmão poderia ser re-admitido
na congregação, como parece ter ocorrido (II Cor.2).

A imoralidade de Corinto acabava por desvalorizar o casamento.


Por isso, Paulo lhes dá diversas orientações no sentido de que o
casamento fosse visto como uma instituição divina. Embora o
apóstolo afirme que é melhor estar solteiro para servir a Deus, ele
também deixa claro seu conselho no sentido de que os casados não
se separem. O casamento é colocado como um importante antídoto
contra a imoralidade.

O problema sexual deturpava também o conceito de amor.


Afrodite era considerada a deusa do amor e este possuía uma
conotação principalmente sexual. Desse contexto grego vem a
palavra "erotismo", que é derivada do nome "Eros", um deus da
mitologia. Paulo parece estar preocupado com essa questão quando
dedica o capítulo 13 ao amor. Ele quer formar um conceito correto a
respeito do amor, mostrando o que ele é e o que ele não é.

Religião e ordem no culto (I Cor.14.23,26-35)

A desordem pagã e a ordem cristã.

Sabendo que o culto a Afrodite era uma orgia, deduzimos que ali
não se encontravam ideais de reverência, ordem, decência e
organização. Os cultos da igreja, embora não incluíssem práticas
sexuais, estavam bastante tumultuados. Paulo escreveu então,
procurando estabelecer princípios que pudessem regulamentar as
reuniões da igreja. Por isso ele diz para que se evite o falar em
línguas sem interpretação. E quando houver, que não se manifestem
mais do que três profetas. Aconselha que as mulheres fiquem caladas
durante o culto e que guardem as perguntas para seus maridos em
casa. Entendemos que Paulo não pretendia criar uma "camisa de
força" para nós, como se estivesse ditando um conjunto de "leis
eclesiásticas". Tais orientações foram assim radicais pois a situação
dos coríntios era grave. De tudo isso, precisamos guardar os
princípios de ordem, decência, reverência e que só se faça no culto
aquilo que puder promover a edificação da igreja.
Religião e comportamento feminino

Por quê será que Paulo foi tão rigoroso em relação às mulheres
cristãs? Lembremo-nos de que as mulheres ocupavam lugar de
proeminência na religião pagã de Corinto. A principal divindade era
uma deusa. As mulheres oficiavam os cultos a Afrodite. Eram 1000
sacerdotisas que se prostituíam no templo. Além disso, as prostitutas
proliferavam-se pela cidade. Comentaristas nos informam que,
quando uma mulher usava o véu, isso significava que ela estava
submissa a um homem, quer seja seu marido, seu pai ou um parente
responsável. Quando se via uma mulher sem véu e com o cabelo
tosquiado ou mesmo raspado, já se deduzia que a mesma estava
totalmente disponível. Essa era a maneira como as prostitutas eram
identificadas. Sendo assim, as mulheres cristãs precisavam agir com
modéstia, precisavam usar o véu e manter seus cabelos compridos.
Nos cultos não lhes seria dado lugar de destaque ou liderança. Não se
poderia deixar que o estilo pagão de culto influenciasse a igreja. O
uso do véu era importante naquele contexto cultural. Deixar de usá-
lo naqueles dias seria motivo de mal testemunho ou escândalo.
Então, era prudente que as mulheres cristãs usassem o véu.
Podemos comparar isto ao uso da aliança hoje como sinal de
compromisso matrimonial. Se o homem casado ou a mulher casada
deixam de usar aliança, não estarão desobedecendo a um
mandamento bíblico específico mas estarão levantando suspeitas e
maus juízos, o que não é edificante para o cristão nem para o
evangelho. Reforça-se então a necessidade que temos de extrair os
princípios que tais passagens nos trazem e não sua aplicação literal.
Paulo está ensinando o uso do bom senso em relação aos costumes
culturais e também está orientando sobre a autoridade do homem
sobre a esposa.

Religião e alimentação (I Cor.8.10; 10.27).

Assim como ocorria no judaísmo, os sacrifícios de animais eram


comuns em diversas religiões. Parte do animal era queimado sobre o
altar. Outra parte era servida aos ofertantes, sacerdotes e
convidados. Eram, portanto, freqüentes as refeições nos templos
pagãos. Desta influência surgiram dois problemas para a igreja:

1 – Os cristãos realizavam refeições na igreja em ambiente


tumultuado e chamavam isso de ceia do Senhor. Os ricos levavam
grande quantidade de comida e bebida para a igreja. Chegavam até a
ficar embriagados (I Cor.11.20-22). Enquanto isso, os irmãos pobres
muitas vezes não tinham o que levar. Isso se tornava então uma
situação constrangedora e humilhante. Por isso, Paulo perguntou:
"Não tendes, porventura, casas onde comer e beber?" As reuniões da
igreja não podiam reproduzir as refeições dos templos pagãos. Então,
o apóstolo orienta como deve ser a ceia do Senhor: com reverência,
ordem e santidade (I Cor.11.23-34).

2 – Outro problema é que as refeições nos templos pagãos eram


acontecimentos sociais e, eventualmente, os cristãos poderiam ser
convidados para participar. Estariam então diante de um alimento
sacrificado aos ídolos. Paulo diz que, já que o ídolo é nada, é uma
ilusão, então a carne sacrificada é como outra carne qualquer. Ali não
existe nenhuma maldição nem contaminação. Porém, se um cristão,
que antes adorava naquele templo pagão, vê um irmão comendo ali a
carne do sacrifício, ele pode se sentir tentado a voltar à sua prática
antiga. Cria-se então uma situação de tropeço e confusão. Se a
participação em tais refeições pode se tornar motivo de escândalo,
então é melhor evitá-las (I Cor. 8). Ele diz também que o cristão não
pode participar da mesa do Senhor (ceia) e da mesa dos demônios
(refeições pagãs). Muitas vezes, a carne desses animais sacrificados
ia parar até nos mercados. Sobre isso, Paulo diz que o cristão deveria
comprar sem preocupação (10.25). Não deveria nem perguntar sobre
a origem da carne. Da mesma forma, se o cristão fosse almoçar na
casa de um ímpio, deveria comer de tudo sem perguntar (10.27).
Entretanto, se o anfitrião dissesse que aquela carne era de um
sacrifício aos ídolos, o cristão deveria recusá-la, não por causa do
ídolo ou por causa do animal, mas porque o comer poderia ser
interpretado como participação na idolatria ou, no mínimo, aprovação
(10.28).

Religião e Filosofia

Se, naquele tempo, a filosofia grega era influente em todo o


mundo, quanto mais em Corinto, que estava na Grécia. A filosofia
clássica se caracteriza pela interpretação humana da realidade. Tal
pensamento formou e ainda forma muitos conceitos que são
geralmente aceitos como verdade. As palavras de Paulo nos fazem
entender que os coríntios possuíam conceitos distorcidos sobre o
amor, a liberdade e a sabedoria. Muitas vezes, a filosofia é utilizada
para montar justificativas para o pecado.

Os gregos eram orgulhosos por seu conhecimento filosófico. O


apóstolo se esmera por mostrar que o entendimento humano é
loucura. Ele procura mostrar o verdadeiro sentido do amor, da
liberdade, da sabedoria, etc.. No texto que vai de 1.18 a 2.16, Paulo
confronta a sabedoria humana com a sabedoria divina. Estava em
alta o pensamento gnóstico, o qual supervalorizava o conhecimento,
associando-o à salvação humana. A ciência tomava ares de virtude
espiritual. Além de enfatizar a sabedoria divina contra a sabedoria
humana, Paulo também afirma: "A ciência incha, mas o amor edifica"
(I Cor.8.1). A matéria era vista pelos gnósticos como maligna. Daí
surgem várias heresias:
 Se a matéria é má, o casamento também. Paulo combate
essa idéia em I Cor. 7.5.
 A ressurreição do corpo era vista como "materialista". Por
isso Paulo expõe e defende a doutrina da ressurreição no
capítulo 15.
 Enquanto que alguns gnósticos, diante da suposta
malignidade da matéria, optavam pelo ascetismo, ou seja, pela
negação dos desejos sexuais e a total abstinência, outros,
combinando gnosticismo e cristianismo, julgavam-se protegidos
contra todos os males e, assim, podiam, supostamente, se
entregar aos desejos sem restrições.

Conhecimento, liberdade e amor eram elementos mal


interpretados, mal colocados e mal valorizados em Corinto. Isso veio
a causar uma série de problemas na igreja. Alguns julgavam que a
liberdade cristã lhes dava direito de fazer tudo, quer seja a
participação nas refeições dos templos pagãos ou mesmo a união
carnal com as meretrizes.

Paulo se posiciona contra todas essas variações da influência


filosófica e da falsa interpretação do cristianismo. Assim, ele condena
a libertinagem sexual, ao mesmo tempo em que defende a
legitimidade do sexo dentro do matrimônio (I Cor. 6.15-16 e I Cor.7).
A liberdade cristã é, de fato, ampla. Contudo, o amor é o seu
parâmetro maior. Assim, se, no uso da nossa liberdade,
ultrapassamos os limites do amor a Deus e ao próximo, saímos da
liberdade cristã e entramos nos domínios do pecado. Por isso, Paulo
diz: "Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convém." (I
Cor.10.23). "Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de
Cristo? Tomarei, pois, os membros de Cristo e fá-los-ei membros de
meretriz? Não, por certo" (I Cor.6.15). Ao usar a expressão "não
sabeis", fica evidente a questão do conhecimento. Os coríntios
sabiam muita coisa, mas era urgente que soubessem sob o ponto de
vista de Deus, conforme Paulo estava procurando expor.

Com relação aos alimentos sacrificados aos ídolos, Paulo deixa


claro que a liberdade cristã, em princípio, nos permitiria participar
deles, uma vez que o ídolo é uma ilusão. Entretanto, vêm novamente
à tona a questão do amor. Se tal exercício extremo da liberdade for
causar escândalo ao próximo, ou ao irmão, então o amor não estaria
operando. "Ninguém busque o proveito próprio, antes cada um o que
é de outrem." (I Cor.10.24).

A solução

Paulo lembra aos coríntios que Jesus é o fundamento de suas


vidas. Entretanto, sobre esse fundamento, estava sendo utilizado
material estranho para a construção. Entra aí a questão da
responsabilidade dos líderes eclesiásticos. Não sabemos quem
liderava a igreja em Corinto. Ao que tudo indica, faltava ali uma
liderança forte que conseguisse conduzir a igreja. Vemos que a
mesma estava dividida em grupos. Certamente, havia líderes, mas
estes não estavam conseguindo uma coesão entre si e entre os
membros da igreja. Paulo precisou enviar Timóteo (I Cor.4.17;
16.10). Ele insistiu para que Apolo fosse até lá, mas isso não foi
possível (I Cor.16.12).

O apóstolo chama a atenção da igreja para o seu fundamento:


Cristo (I Cor.3.11). Ele é também a solução para todas aquelas
questões e problemas. A edificação precisa ser coerente com o
alicerce. O nosso desenvolvimento na fé precisa utilizar doutrinas e
conceitos coerentes com a pessoa e o ensino de Cristo. Ele apresenta
Jesus como a sabedoria de Deus, justiça, santificação e redenção
(1.30). Esses elementos precisam estar combinados na vida do
cristão: sabedoria, justiça, santificação e redenção. A sabedoria
humana não produz a justiça divina na vida do homem. O
conhecimento humano não se vincula à santificação e, muitas vezes,
abona o pecado. O resultado de tudo isso jamais será redenção, mas
sim perdição. A filosofia como material de edificação da igreja não lhe
daria firmeza. Pelo contrário, causaria sua queda e ruína.

Paulo apela para a lembrança da história de Israel no capítulo


10.1-13. Seu objetivo era mostrar que, embora aquele povo tenha
saído do Egito sob a poderosa manifestação do poder de Deus,
pereceu depois no deserto pelo fato de ter se deixado levar por
tentações diversas. Fica então traçado um paralelo dessa narrativa
com a experiência dos coríntios, aos quais o apóstolo adverte contra
os riscos de fracasso na fé (10.12).

Macro divisão da carta

- Purificação da igreja (1.1 a 11.34);

- Orientação doutrinária (12.1 a 16.24).

ESBOÇO (I COR.)

I – Saudação – 1.1-9

II – Necessidade de purificação da igreja – 1.10-31.

o Divisões.
o Culto ao homem.
o Glória pela sabedoria humana.

III – Exemplo de Paulo – 2.1-16.


o Sabedoria humana x sabedoria
divina.

IV – Divisão: imaturidade e carnalidade – 3.1-4.

V – Os ministros na igreja – 3.5 a 4.21.

o Quem são? 3.5


o Como agricultores – 3.6-8.
o Colaboradores – 3.10.
o Edificadores – 3.10.
o Despenseiros – 4.1.
o Ministros (servos) – 4.1.
o Sofredores! – 4.9-13 (Paulo se refere aos ministros
como: últimos, condenados, espetáculo, loucos, fracos,
desprezíveis. Esta seria a visão do mundo a respeito deles).
o Exemplo para a igreja – 4.16.

VI – O dever de purificar a igreja – 5.1 a 6.20.

o Da imoralidade – 5.1-13; 6.9-20.


o Dos litígios entre irmãos – 6.1-8.

VII – O casamento e a vida cristã – 7.1-40.

VIII – A liberdade e o amor (liberdade com responsabilidade) –


8.1-13.

IX – O exemplo de renúncia de Paulo – 9.1-27.

X – Exemplos da história de Israel. Riscos para a igreja. 10.1-15.

XI – A mesa do Senhor e a mesa dos demônios. 10.16-21.

o A idolatria e as relações sociais.

XII – A liberdade e o amor – 10.23-33.

o Os alimentos sacrificados aos ídolos.

XIII – Observação dos costumes sociais – 11.1-16.

o O risco dos escândalos (obs.: 10.32).

XIV – A ceia do Senhor – 11.17-34.

XV – Os dons espirituais e o corpo de Cristo – 12.1-31.


XVI – A supremacia do amor – 13.1-13.

XVII – O dom de línguas, as profecias e a ordem no culto – 14.1-


40.

XVIII – A doutrina da ressurreição – 15.1-58.

XIX – Instruções finais. As ofertas para Jerusalém. Saudações. –


16.1-24.

Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios

HISTÓRICO ENTRE AS EPÍSTOLAS AOS CORÍNTIOS.

Ao escrever a primeira epístola, Paulo se encontrava em Éfeso.


Ali ocorreu grande tumulto porque os comerciantes de imagens
estavam perdendo seus lucros após as pregações de Paulo. Diante da
perseguição, o apóstolo vai para Trôade. Por esse tempo, ele se
sentia angustiado pela expectativa em relação à igreja de Corinto.
Eram "combates por fora e temores por dentro". Paulo aguardava a
chegada de Tito. De Trôade, Paulo vai à Macedônia. Pouco depois,
Tito chega com notícias de Corinto. (At.19.30 a 20.1 II Cor.2.12-13;
7.5-10,13).

De acordo com as informações de Tito, a epístola enviada


recentemente, havia provocado tristeza e arrependimento em alguns
e rebeldia em outros. O pecador de I Cor. 5 estava arrependido e
acerca dele Paulo dá instruções em II Cor.2 para que a igreja o
receba e o perdoe.

Havia falsos apóstolos agindo entre os coríntios (II Cor.11.3,13;


12.11), os quais procuravam desmoralizar a pessoa e a mensagem
de Paulo (I Cor.1.17; 10.9-10; 11.1,6,16).

A HIPÓTESE DA CARTA DESAPARECIDA

Normalmente, se considera que as reações relatadas por Tito se


refiram à epístola que conhecemos como I Coríntios. Entretanto,
existe a hipótese de que, após o envio da primeira epístola, Paulo
tenha visitado Corinto. Nessa oportunidade, ele teria sido gravemente
ofendido por alguém (II Cor.2.5-11; 7.12). Logo depois, teria enviado
uma epístola muito emocionada, a qual não teria chegado ao nosso
conhecimento ou então seria correspondente aos capítulos 10 a 13 de
II Coríntios. De acordo com essa hipótese, as reações mencionadas
em II Cor.7.8-12 seriam referentes a essa suposta epístola e o
homem de II Cor.2.5 seria aquele que ofendeu pessoalmente o
apóstolo. Contudo, essa suposição não foi comprovada.

INFORMAÇÕES GERAIS

Autor: Paulo (e Timóteo)

Data: 57 d.C.

Local: Macedônia

Classificação: eclesiologia

Tema: Defesa do apostolado de Paulo

Texto chave: 3.1; 5.12; 6.3; 7.2; 10.2-3; 11.5-6; 12.11; 13.3.

CARACTERÍSTICAS DA EPÍSTOLA

Bastante pessoal e emocionada. Mistura amor, censura e


indignação. Fala a dois grupos na igreja: os obedientes e os rebeldes.

OS OBEDIENTES E OS REBELDES.

No estudo da primeira epístola, vimos que a igreja de Corinto


estava dividida em partidos, de acordo com as preferências
individuais. Na segunda epístola vemos a igreja dividida em dois
grupos: os obedientes e os rebeldes. Afinal, esta é diferença que
importa. É sob esse ponto de vista que Deus nos observa. Seja qual
for a nossa preferência política ou pessoal, precisamos examinar a
nós mesmos afim de sabermos a qual grupo pertencemos no que diz
respeito à obediência.

OS ATAQUES AO MINISTÉRIO DE PAULO

Como acontecia em vários lugares, muitos judeus convertidos ao


cristianismo queriam impor a lei mosaica aos cristãos gentios. Tais
judeus são, normalmente, chamados de "judaizantes" devido ao seu
esforço por judaizar o cristianismo. Estes, fizeram diversos ataques
ao ministério de Paulo. Os ataques aos ministros de Deus sempre
ocorrem. O ataque é normal. As perseguições fazem parte da vida
cristã. Contudo, é preciso ver se as acusações contra nós são justas
ou não. Como disse Pedro, nenhum de nós deve padecer como
transgressor, mas como cristão (I Pd.4.15-16).

Como não havia nenhum motivo concreto com que pudessem


acusar Paulo, os judaizantes apelavam para quaisquer argumentos
possíveis. Até mesmo uma mudança dos planos de viagens de Paulo
foi usada por eles para o acusarem de leviandade, ou imprudência (II
Cor.1.17).

Outro ponto muito explorado foi a expectativa grega em relação


aos líderes. Ao que tudo indica, Paulo não correspondia ao padrão
grego . As credenciais gregas de um grande líder seriam, entre
outras, uma ótima aparência e admirável eloqüência. Apolo estaria
mais próximo desse paradigma (At.18.24). Talvez isso tenha
contribuído para que muitos coríntios tenham se unido em torno do
seu nome, formando um partido na igreja (I Cor.1.12). Enquanto
isso, Paulo era alvejado pelas infâmias dos falsos apóstolos que
pesavam o seu ministério com base em valores humanos e
filosóficos. Tais argumentos não eram associados ao judaísmo mas
bem poderiam servir como excelentes armas circunstanciais para os
ataques dos judaizantes contra o ministério de Paulo. Além de
derrubar do pedestal as credenciais da aparência e da eloqüência,
Paulo atinge frontalmente o legalismo dos judaizantes ao se referir à
lei como "ministério da morte" (3.7) e "ministério da condenação"
(3.9). Desse modo, Paulo não ridiculariza a lei, mas coloca-a no seu
devido lugar em relação à obra de Cristo.

A DEFESA DO MINISTÉRIO DE PAULO

Assumindo o papel de seu próprio advogado, Paulo se lança em


seu discurso de defesa pessoal. No embasamento de suas colocações,
ele trata da expectativa e da perspectiva da igreja em relação aos
ministros de Deus. A expectativa se refere àquele padrão que temos
em mente em relação aos requisitos que um "homem de Deus" deve
preencher. Será que tais requisitos correspondem aos padrões
divinos?

A perspectiva é a visão que temos acerca dos líderes que


conhecemos. Esta visão pode até não corresponder à realidade, mas
estar alterada por conceitos que formamos em nossa mente a
respeito da pessoa. A perspectiva pode estar errada. Isso acontece
quando temos uma idéia a respeito do líder que difere de sua própria
realidade ou do padrão bíblico. Esta abordagem se encontra também
na primeira epístola. Os cristãos formavam partidos em torno dos
líderes. Então, Paulo lhes escreve dizendo que os líderes deviam ser
vistos de maneira mais simples, embora importantes quanto à sua
missão. Então, em I Coríntios, o apóstolo questiona: "Quem é Paulo?
Quem é Apolo?" (I Cor.3.11). Na seqüência, utilizando figuras de
linguagem, ele apresenta os líderes como:

- Agricultores – aqueles que semeiam, plantam,


cuidam e colhem – 3.6-8.

- Colaboradores – aqueles que ajudam - 3.10.


- Edificadores – aqueles que constroem - 3.10.

- Despenseiros – aqueles que alimentam no tempo


certo - 4.1.

- Ministros (= servos) – aqueles que servem - 4.1.

- Sofredores! – 4.9-13 – (Paulo se refere aos ministros


como: últimos, condenados, espetáculo, loucos, fracos,
desprezíveis. Esta seria a visão do mundo a respeito deles).

- Exemplo para a igreja – 4.16.

Tipos de perspectiva em relação aos ministros de


Deus.

Vasos de ouro ou de barro?

A perspectiva é a visão que se tem de alguma coisa. Isso varia


de acordo com a posição em que o observador se encontra em
relação ao objeto observado. Essa posição pode ser inferior, superior,
distante, longínqua, etc. Essas variações vão alterar, não o objeto,
mas a visão que se tem dele. Assim também, a perspectiva a respeito
dos ministros varia e, algumas vezes, torna-se distorcida por
posições extremadas.

Erro 1 – Valorização exagerada

Alguns vêem os ministros como vasos de ouro. Assim, o valor


não estaria no conteúdo mas no recipiente. Já não interessa mais o
que está dentro do vaso, nem se existe ali algum conteúdo. O valor
está no vaso em si. Vistos como vasos de ouro, os ministros são
considerados inquebráveis, infalíveis. Isso pode conduzir
ao enriquecimento material do líder e a idolatria da sua pessoa.
Parece que esta era a visão dos coríntios ao formarem partidos em
torno dos nomes dos apóstolos. A história mostrou o agravamento
desse problema, ao ponto de hoje haver quem se refira aos apóstolos
como santos, como ídolos, no sentido mais grave do termo. O próprio
apóstolo Paulo recebeu o título de "São Paulo" e inúmeras são as
homenagens póstumas à sua pessoa.

Erro 2 – Desvalorização e desprezo

O outro extremo é a consideração do ministro como um vaso de


material desprezível, vazio e inútil. Essa perspectiva traz como
conseqüência a falta de submissão, falta de reconhecimento e até a
falta de sustento material para o ministro.
A perspectiva correta – ponto de equilíbrio

"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a


excelência do poder seja de Deus, e não de nós." (II Cor.4.7). Os
ministros devem ser vistos como vasos de barro contendo um tesouro
precioso, que é Cristo. O servo de Deus não deve ser idolatrado, nem
desprezado, mas amado. Sendo de barro, o vaso é quebrável. O
servo de Deus não é infalível. O vaso é quebrável mas não pode estar
quebrado. Embora sejamos sujeitos ao erro, não podemos nos dar ao
direito de cometer determinados erros. Evidentemente, precisamos
combater todo tipo de erro, mas alguns são mais destrutivos do que
outros, principalmente para a reputação o líder. O vaso quebrado não
tem utilidade. O vaso de barro é frágil e precisa ser tratado com
cuidado. O vaso não pode cair. Como disse Paulo, "aquele que pensa
estar de pé, cuide para que não caia." ( I Cor.10.12). Embora seja de
barro, esse vaso contém um grande tesouro. O maior valor está no
conteúdo e não no vaso. Contudo, o vaso se reveste de grande
importância em função do seu conteúdo e da sua utilidade.

O mais importante é a mensagem, a notícia, e não o


mensageiro. Porém, o mensageiro deve ter credibilidade para que a
mensagem não seja rejeitada ou desacreditada.

Ao falar da fragilidade do vaso, Paulo menciona a mortalidade


humana. O corpo humano é um vaso de barro. É corruptível (II
Cor.4.16). É mortal (5.4). Vai se desfazer (5.1). Sua abordagem se
concentra então sobre a questão da morte física. Isso precisava ser
enfatizado para combater a supervalorização grega em relação à
aparência. (II Cor.4.16 a 5.12; 10.7). Seu enfoque sobre a fragilidade
do vaso inclui também aspectos circunstanciais em confronto com a
condição interna do servo de Deus (II Cor.4.8-11):

Por fora Por dentro


Atribulados não angustiados
Perplexos não desanimados
Perseguidos não desamparados
Abatidos não destruídos
Morte vida

Paulo não deixa o assunto terminar numa atmosfera negativa.


Ele diz que a vida de Cristo vai se manifestar em nossa carne mortal
(II Cor.4.11). A manifestação do poder de Deus supera os nossos
limites e isso alcançará seu maior significado na ressurreição dos
justos, quando "o mortal será absorvido pela vida" (II Cor.5.4).
Através de suas colocações, Paulo apresentou a fragilidade das
credenciais aparentes que os coríntios esperavam ver nos líderes
cristãos (5.16).

CARACTERÍSTICAS DO MINISTÉRIO DE PAULO

 Sem lucro pessoal. II Cor.11.9.


 Exercido com grande esforço e sacrifício (6.3-10; 11.23-
29).
 Consolador – 1.4-7.
 Sofredor – 1.5-9; 4.8-12; 5.4; 6.4-10; 7.5; 11.24-28.
 Santo, simples, sincero, verdadeiro – 1.12; 2.17; 4.2;
7.2.
 Constante –1.17-19; 4.1,16.
 Interessadopelo bem da igreja, zeloso – 2.3-4; 7.7-8;
11.2-3,7; 12.20-21.
 Triunfante – 2.14; 4.8-9; 12.10.
 Abnegado (desprendido) – 4.5,11; 5.13; 11.7,9.
 Motivado pelo amor de Cristo – 4.5,11; 5.14.
 Espiritual – 4.18; 5.16; 10.4.
 Persuasivo – 5.11,20; 6.1; 10.1-2.
 Reconciliador – 5.19-21.
 Produtivo – 12.12.
 Com autoridade – 2.9; 13.2; 10.1-11.
 Capacitado por Deus – 3.5.

CREDENCIAIS DO MINISTÉRIO DE PAULO

Para combater os esforços daqueles que procuravam


desmoralizar o ministério de Paulo, ele apresentava suas credenciais.
Credencial é "aquilo que atribui crédito". O que podemos apresentar
às pessoas para que creiam na legitimidade do nosso ministério? Um
diploma? Terno e gravata? Um documento de identidade?

As credenciais esperadas pelos coríntios eram apenas boa


aparência e eloqüência. Tais fatores não são negativos em si
mesmos. São até desejáveis. Porém, podem constituir meios
facilitadores do engano. Portanto, a beleza e a boa comunicação não
servem como parâmetros para se julgar um servo de Deus. Jesus
disse: "Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós
disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores.
Pelos seus frutos os conhecereis..." (Mt.7.15-16). Alguns queriam
também que Paulo mostrasse cartas de apresentação (II Cor.3.1),
talvez emitidas pelos apóstolos de Jerusalém.

Paulo não tinha tais cartas, nem beleza, nem eloqüência. Então,
quais seriam suas credenciais?
As credenciais do servo de Deus são, primeiramente, espirituais.
É o selo do Espírito Santo, a vocação e aprovação divina, os dons
para o ministério, etc. Contudo, isso só serve como testemunho no
mundo espiritual. Diante dos homens, precisamos apresentar
credenciais visíveis. Nessa hora, a fé não é suficiente. É necessário
que se apresentem obras. Pedro disse ao aleijado: "Olha para nós!"
(At.3.4). As pessoas estão nos olhando e precisam ver alguma coisa
para que creiam. Precisam ver o nosso testemunho.

Isso nos leva a um cuidado para com a nossa vida, afim de que o
nosso ministério não seja censurado (II Cor.6.3). Isso pode levar até
à renúncia de coisas legítimas pelo bem da obra de Deus (II
Cor.11.9). Por incrível que pareça, o ministério do servo de Deus
precisa de aprovação humana (Rm.14.18). Isso não significa que
todos vão aprová-lo. Contudo, se todos o reprovarem, ele será inútil,
pois não alcançará ninguém. A relação do ministro com o poder, o
dinheiro e o sexo são pontos em destaque dentro do testemunho e
das credenciais do ministério.

Credenciais do apostolado de Paulo

 Autenticado pelo Senhor – II Cor.1.1,21,22; 3.5,6; 4.6.


 Pelas obras – II Cor. 12.12.
 Pelos perigos e sofrimentos – II Cor.6.4-10; 11.23-27.
 Pelas revelações divinas – II Cor.12.1-5.

Paulo se admira de que os coríntios estivessem se deixando levar


pela idéia de exigir-lhe credenciais. Eles próprios eram frutos do
trabalho de Paulo. "Vós sois a nossa carta, escrita em nossos
corações", disse o apóstolo (II Cor.3.2). Eles seriam ainda a glória de
seu ministério diante de Deus (II Cor.1.14).

Entre suas credenciais, Paulo dá destaque ao sofrimento. Isso


não é o tipo de credencial que os gregos esperavam. Eles devem ter
ficado decepcionados. Aliás, isso deve decepcionar a muitos que têm
uma expectativa colorida a respeito do evangelho, aguardando
apenas benefícios sem tribulações. Pelo cristianismo poderemos
sofrer muitas perseguições e possíveis privações (II Cor.11.27). Isso
não combina com o "evangelho da prosperidade". Paulo e sua
experiência também não combinam com um discurso que promete
riqueza e ausência de sofrimento. Jesus não prometeu isso (João
16.33).

Paulo até se gabava de ter sofrido mais do que outros que se


diziam servos de Deus (11.23-28; 12.10). Aquele que nada sofre,
que nenhum risco corre, que nenhum fruto produz, poderá ter o seu
ministério desacreditado até por si mesmo.
GLORIANDO NA TRIBULAÇÃO E NAS FRAQUEZAS

Paulo nos surpreende quando se gloria na tribulação (II


Cor.11.30). Isso nos parece estranho, mas tal atitude se dá porque
Paulo tem em vista o resultado de um processo, e também considera
umahonra sofrer pelo nome de Jesus. Como escreveu aos Romanos,
"a tribulação produz perseverança" (Rom.5.3). A tribulação não é
inútil. Ela produz alguma coisa. Nisso está o seu valor. Assim como
uma cicatriz é um tecido mais resistente do que a pele normal, a
tribulação vai produzindo em nós maior resistência, de modo que nos
tornamos cada vez mais capazes para enfrentarmos diversas
dificuldades futuras.

Gloriar-se nas fraquezas não significa gloriar-se no pecado, mas


nas limitações e incapacidades próprias do ser humano. Novamente,
a proposição nos surpreende. Qual será o valor da fraqueza? É por
causa das nossas fraquezas que recebemos as manifestações do
poder de Deus.

Desenvolvendo o tema, relacionamos então os seguintes


elementos:

Fraqueza humana poder de Deus.


Problemas milagres
Crises oportunidades
Desafios crescimento
Necessidades provisão.
Incapacidade capacidade (II Cor.3.5).

Paulo tinha um "espinho" na carne, o qual não foi tirado pelo


Senhor. Isso talvez seja uma enfermidade nos olhos, conforme
dedução incerta de Gálatas 4.15. O certo é que Paulo tinha um
problema que Deus não solucionou no momento em que o apóstolo
orou. Isso nos mostra que nem todos os nossos pedidos serão
atendidos. Devemos nos lembrar de que em tudo isso Deus tem um
propósito.

ESBOÇO (II COR.)

I – Saudações – 1.1-2.

II – Tribulações antes da volta de Tito – 1.3-14.

III – Primeiro plano de visita. Defesa de Paulo. 1.15-24


IV – Mudança de planos. Arrependimento e perdão. – 2.1-11.

V – Credenciais do ministério – 2.12-17.

VI – Contrastes entre a velha e a nova aliança. – 3.1-18.

VII – A responsabilidade de Paulo.

Sua idoneidade e dependência de Cristo – 4.1-18.

VIII – A vitória sobre a morte – 5.1-9.

IX – O juízo e a urgência da mensagem de salvação.

O ministério da reconciliação – 5.10-21.

X – Os sofrimentos de Paulo e exortação à santidade. 6.1 a 7.1.

XI – Recomendações diversas. Os efeitos da primeira carta –


7.2-16.

XII – A coleta para os irmãos de Jerusalém – 8.1 a 9.15.

XIII – Defesa da autoridade apostólica de Paulo – 10.1-18.

XIV – Defesa diante dos judaizantes. Os falsos apóstolos.

Os sofrimentos de Paulo – 11.1-29.

XV – Os sofrimentos de Paulo. Suas revelações, sinais e receios


– 11.30 a 12.18.

XVI – A próxima visita. Saudações – 12.19 a 13.13.


Epístola de Paulo aos Gálatas

DATA – Entre 55 e 60

TEXTO CHAVE – 5.1

TEMA – A justificação pela fé sem as obras da lei.

ÁSIA MENOR

A Galácia era uma região da Ásia Menor. Para localizarmos


melhor, vamos diferenciar Ásia de Ásia Menor. A Ásia é um
continente que inclui diversos países: Rússia, Índia, países do Oriente
Médio, países do Extremo Oriente, etc. A Ásia Menor, por sua vez,
corresponde a território bem menor, que hoje é ocupado pela
Turquia.

GALÁCIA

O nome Galácia é derivado de gaulês. Os gauleses eram


originários da Gália (França hoje), que dominaram a região centro-
norte da Ásia Menor por volta do ano 300 a.C.. Em 189 a.C., esse
território foi conquistado pelos romanos. Em 25 a.C., Roma
estabeleceu ali uma província que manteve o nome de Galácia.
Contudo, seus limites eram maiores que a região original. Assim, ao
norte havia os gálatas étnicos. Ao sul havia outros grupos que faziam
parte da província mas que não tinham a mesma origem genealógica
gaulesa. Por essas questões, quando o Novo Testamento menciona os
gálatas, existe dificuldade em se determinar se os autores se referem
a todo o povo da província ou apenas ao grupo étnico descendente
dos gauleses. A qual grupo o apóstolo Paulo teria escrito?

AS IGREJAS DA GALÁCIA

Enquanto que as epístolas aos coríntios eram destinadas a uma


igreja específica, a carta aos gálatas destina-se a várias igrejas,
acerca das quais não temos muitas informações específicas. Sabemos
que, entre tantas cidades localizadas na província da Galácia, Paulo
fundou igrejas em Antioquia da Psídia, Icônio, Listra e Derbe, durante
sua primeira viagem missionária (At.13-14).

MOTIVO DA CARTA
Os judeus estavam presentes em todo o Império Romano,
principalmente nas cidades mais importantes. Muitos deles se
converteram ao cristianismo e, dentre os convertidos, havia aqueles
que queriam impor a lei mosaica sobre os cristãos gentios. São os já
mencionados "judaizantes". Assim como os fariseus e saduceus
perseguiram Jesus durante o período mencionado pelos evangelhos,
os judaizantes pareciam estar sempre acompanhando os passos de
Paulo afim de influenciar as igrejas por ele estabelecidas. Essa
questão entre judaísmo e cristianismo percorre o Novo Testamento,
tornando-se até um elemento que testifica a favor da unicidade e
autenticidade histórica dessas escrituras.

Os judaizantes estavam também na Galácia, onde se tornaram


forte ameaça contra a sã doutrina das igrejas.

O ATAQUE DOS JUDAIZANTES CONTRA PAULO E O


EVANGELHO

Aqueles judeus davam a entender que o evangelho estava


incompleto. Para conseguirem uma influência maior sobre as igrejas,
eles procuravam minar a autoridade de Paulo. Para isso, atacavam a
legitimidade do seu apostolado, como tinham feito em Corinto. Pelas
palavras de Paulo, deduzimos os argumentos de seus acusadores.
Eles não admitiam que Paulo pudesse ser apóstolo já que não era um
dos 12 nem tinha andado com Jesus.

O EVANGELHO JUDAIZANTE

Os judaizantes chegavam às igrejas com o Velho Testamento


"nas mãos". Isso se apresentava como um grande impacto para os
cristãos. O próprio Paulo ensinava a valorização das Sagradas
Escrituras. Como responder a um judeu que mostrava no Velho
Testamento a obrigatoriedade da circuncisão e da obediência à lei?
Além disso, apresentavam Abraão como o modelo para os servos de
Deus. Só a revelação e a experiência com Deus poderiam vencer esse
desafio. O conhecimento não seria suficiente.

Os judaizantes ensinavam que a salvação dependia também da


lei, principalmente da circuncisão. Segundo eles, para ser cristão, a
pessoa precisava antes ser judeu (não por descendência mas por
religião).

POR QUÊ NÃO GUARDAMOS A LEI?

1o – A lei de Moisés foi dada aos filhos de Israel (Êx.19,3,6).


Nós, cristãos gentios, não somos filhos de Israel.
2o – Jesus cumpriu a lei cerimonial. Tal cumprimento significa
não apenas sua obediência mas a satisfação das exigências da lei
cerimonial através da obra de Cristo.

Precisamos entender que os mandamentos da lei mosaica se


dividem em vários tipos. Vamos, basicamente, dividi-los em
mandamentos morais, civis e cerimoniais.

Os mandamentos morais dizem respeito ao tratamento para com


o próximo: Não matarás; Não adulterarás; Não furtarás, etc. Tais
ordenanças estão vinculadas à palavra amor.

Os mandamentos civis são aqueles que regulamentavam a vida


social do israelita. São regras diversas que se aplicam às relações da
sociedade. Um bom exemplo é o regulamento da escravidão.

Os mandamentos cerimoniais são aqueles que se referem


estritamente às questões religiosas. São as ordenanças que
descrevem os rituais judaicos.

A classificação de um mandamento dentro desses tipos nem


sempre é fácil. Algumas vezes, uma lei pode pertencer a dois desses
grupos ao mesmo tempo, já que a questão religiosa está por trás de
tudo. A sociedade israelita era essencialmente religiosa. O Estado e o
sacerdócio nem sempre se encontravam separados. Contudo, tal
proposta de classificação já serve para o nosso objetivo.

A lei moral se resume no amor a Deus e ao próximo (Gálatas


5.14). Os princípios morais permanecem válidos no Novo
Testamento. Hoje, não matamos o próximo, mas não por causa da lei
de Moisés e sim por causa da lei de Cristo (Gálatas 6.2), à qual os
gálatas deviam obedecer. A lei de Cristo é a lei do amor a Deus e ao
próximo.

As leis civis do povo de Israel não se aplicam a nós. Além dos


motivos já expostos, nossas circunstâncias são bastante diferentes e
temos nossas próprias leis civis para observar. O cristão deve
obedecer as leis estabelecidas pelas autoridades humanas enquanto
essas leis não estiverem ordenando transgressão da vontade de Deus
(Rm.13.1).

As leis cerimoniais judaicas foram abolidas por Cristo na cruz.


Por esse motivo, mesmo os judeus que se convertem hoje ao
cristianismo estão dispensados da lei cerimonial judaica. Por isso, não
fazemos sacrifícios de animais, não guardamos o sábado, não
celebramos as festas judaicas, etc.
Se alguém quiser observar algum costume judaico, isso não
constituirá problema (Rm.14.5), desde que a pessoa não veja nisso
uma condição para a salvação, porque, se assim for, a obra de Cristo
estará sendo colocada em segundo plano, como algo incompleto e
insuficiente (Gálatas 5.4).

Além de tudo isso, é bom que citemos as palavras de Paulo:


"..não estais debaixo da lei mas debaixo da graça." (Rm.6.14) (Veja
também Gálatas 3.24-25).

A RESPOSTA DE PAULO

Diante das alegações e acusações dos judaizantes, Paulo elabora


sua resposta: a carta aos gálatas com amor e censura. Sua epístola
apresenta:

- Defesa do seu ministério. Nessa parte, a carta aos


gálatas parece continuação de II Coríntios.

- Defesa do seu evangelho – sua origem e conteúdo.

Origem do evangelho de Paulo: revelação direta de Jesus Cristo.


No início da epístola, após expor sua perplexidade diante da
inconstância dos gálatas, o autor relata suas viagens e seus poucos
contatos com os apóstolos de Jerusalém. Ele deixa claro que não
recebeu o evangelho de homem algum, mas através de uma
revelação direta do Senhor Jesus. Tal colocação tinha o objetivo de
demonstrar e defender sua autoridade apostólica.

Conteúdo do evangelho

A perniciosidade da influência judaica na Galácia estava no fato


de atentar contra a essência do evangelho. Os judeus queriam
acrescentar a circuncisão como condição para a salvação. Se assim
fosse, o cristianismo seria apenas mais uma seita do judaísmo.
Então, Paulo vem reforçar o ensino de que a salvação ocorre pela fé
na suficiência da obra de Cristo. Para se conhecer a suficiência é
preciso que se entenda o significado. Em sua exposição, Paulo toma
Abraão como exemplo, assim como fez na epístola aos Romanos,
afirmando que o patriarca foi justificado pela fé e não por obediência
à lei. Tal exemplo era de grande peso para o judeu que lesse a
epístola. Na seqüência, o apóstolo expõe diversos aspectos da obra
de Cristo e do Espírito Santo na vida do salvo sem as imposições da
lei.

COMPARAÇÃO ENTRE CARACTERÍSTICAS

E EFEITOS DA LEI E DA GRAÇA


LEI / MOISÉS GRAÇA / JESUS / CRUZ / EVANGELHO
Mostra o pecado Perdoa o pecado.
Traz maldição Leva a maldição
Traz prisão e morte Traz libertação e vida
Enfatiza a carne Enfatiza o espírito
Infância Maturidade
Conduz a Cristo Conduz ao Pai

ÊNFASE NA CARNE E ÊNFASE NO ESPÍRITO

A lei mosaica se concentrava em questões visíveis, embora não


fosse omissa com relação ao espiritual. Os pecados ali proibidos
eram, principalmente, físicos. Assim também, a adoração era
bastante prática. Seus preceitos determinavam o local, a postura, a
roupa, o tempo apropriado, etc. No Novo Testamento, Jesus vem
transferir a ênfase para o espiritual, embora não seja omisso em
relação ao físico. Ao falar com a mulher samaritana, Jesus observa
que ela estava muito preocupada com os aspectos exteriores da
adoração a Deus. Isso era característica da ênfase do Velho
Testamento. Jesus lhe disse: "A hora vem e agora é em que os
verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade."
(João 4.23). Vemos nisso a ênfase do Novo Testamento: o que é
espiritual.

No sermão da montanha, Jesus cita a lei mosaica, dando-lhe


uma ênfase espiritual, interior. As questões morais são levadas para
uma visão mais profunda. Jesus alcança a raiz do problema humano.
Cortada a raiz, o fruto exterior também seria eliminado.

INFÂNCIA E MATURIDADE

A lei servia para regulamentar a vida dos servos de Deus num


tempo em que pouco se conhecia a respeito do Senhor. Ainda que
não conheçamos muito sobre Deus, conhecemos bem mais do que as
pessoas do Velho Testamento. Aquele tempo primordial da revelação
progressiva de Deus pode ser considerado como a infância do povo
de Deus. Algumas exigências que os pais fazem aos filhos quando
estes são crianças já não se aplicam aos mesmos filhos quando são
adultos. Assim, a parte cerimonial da lei já não mais se aplica após a
vinda, morte e ressurreição de Cristo. A igreja representa um estágio
de maturidade do povo de Deus. Os que hoje se convertem, não
precisam repetir toda a experiência de Israel no Egito, no deserto, no
cativeiro, etc. Já recebemos todo o resultado desse processo através
da bíblia e da pessoa de Jesus. Os gentios são "os trabalhadores da
última hora" (Mt.20.1-16). Os judeus são representados pelos que
trabalham desde o início do dia e ficam indignados que os que
chegam no fim do expediente não tenham passado por tantas horas
de labor e estejam recebendo o pagamento integral.

SALVAÇÃO E LIBERDADE CRISTÃ

Salvação é libertação. Quando falamos sobre a salvação,


normalmente nos referimos ao livramento eterno da alma e à vida
eterna. Entretanto, a obra de Cristo tem também outros efeitos
salvíficos. Ele nos salva do castigo, da lei, do reino das trevas, e "de
nós mesmos".

Livres do castigo – Tendo assumido a pena que sobre nós seria


imposta, Jesus sofreu o castigo que merecíamos pelo nosso pecado.
Não devemos confundir castigo com disciplina, a qual, muitas vezes
vem sobre nós como um método que Deus usa para nos ensinar.
Castigo é punição. Disciplina é correção e instrução. Também não
devemos confundir castigo com conseqüência do pecado. Deus nos
livra do castigo, mas, a conseqüência vem naturalmente. Deus pode
retê-la, mas não é garantido que ele o faça. Por exemplo, um
fumante pode ser perdoado por ter destruído o seu corpo e mesmo
assim vir a morrer de câncer. Fica livre do castigo mas não da
conseqüência.

Livres da lei – Jesus nos livrou do domínio da lei. Essa frase é


mais aplicável aos judeus, já que a lei foi a eles dirigida. Porém, os
gentios também podiam se submeter a ela tornando-se prosélitos do
judaísmo. Seja como for, Cristo libertou da lei a todos os que nele
crêem.

Livres do reino das trevas – Esse livramento ocorre no momento


em que a pessoa se rende a Cristo. É algo imediato. Quando o
homem se sujeita a Deus, o Diabo foge. Nenhum demônio permanece
dominando aquele que é salvo. Não existe possessão demoníaca
sobre o cristão. O Diabo só poderá fazer o que Deus permitir. Haverá
tentação, perseguição, sugestão e até opressão se Deus autorizar.
Possessão, jamais.

Livre "de si mesmo" - Esta é a parte mais difícil. Refiro-me a


sermos liberto de nossas próprias limitações, nossas próprias
fraquezas, nossos conceitos errados, nossa natureza pecaminosa,
nossos hábitos pecaminosos, etc. A experiência nos tem mostrado
que isso ocorre em duas etapas: uma imediata e outra gradativa.
Usemos como ilustração a ressurreição de Lázaro. Quando Jesus
orou, o milagre ocorreu imediatamente. Ele passou a viver.
Entretanto, o "ex-falecido" ainda estava com cara de morto, cheiro de
morto, roupa de morto, etc. Jesus disse: "Desatai-o e deixai-o ir."
(João 11.44). A vida já estava nele, mas, além disso, muitas coisas
que nele estavam não combinavam com o seu novo estado. Esse
processo de transformação pelo qual passamos dia a dia recebe
também o nome de santificação. É o desenvolvimento da salvação
(Fp.2.13). Muitas mudanças que precisam ocorrer em nós vão
depender do conhecimento que adquirimos da Palavra de Deus.
Alguém pode alegar que, quando aceitarmos a Cristo, somos
plenamente transformados imediatamente, mas, se assim fosse, já
seríamos perfeitos, não precisaríamos conhecer a bíblia nem crescer
espiritualmente. Paulo exortou os cristãos romanos dizendo:
"Transformai-vos pela renovação da vossa mente." (Rm.12.2).

PRESERVAÇÃO DA LIBERDADE

Paulo admoestou os gálatas para que se lembrassem do


significado da obra de Cristo, a qual teve o objetivo de libertá-los.
Agora que eram livres, não deveriam voltar ao domínio da lei.

Voltar à lei é negar a graça e perder os seus efeitos (Cap.5). É


renunciar aos direitos de filho e voltar a viver como servo (Sara e
Hagar). É renunciar à liberdade cristã, a qual foi comprada pelo
precioso sangue do nosso Senhor. A história de Israel foi uma
seqüência de cativeiros e libertações. Não podemos permitir que a
nossa vida seja assim.

Os gálatas precisavam se apegar à liberdade cristã. Essa questão


se mostrou complexa na experiência das primeiras igrejas cristãs. Os
gálatas corriam o risco de perder a liberdade. Os coríntios, por sua
vez, abusavam da liberdade. Escrevendo a estes, o apóstolo foi muito
enérgico no sentido de expor-lhes os limites que a santidade e o
amor colocam para a liberdade. O diabo sempre quer nos prender.
Para isso, ele às vezes nos oferece uma "liberdade" maior do que a
que possuímos (II Pd.2.19). Na linguagem do maligno, liberdade
significa ausência de compromisso com Deus, ausência de limites.
Entretanto, aqueles que se aventuram por essa trilha acabam
comprometidos com Satanás e presos em suas redes.

Escrevendo aos gálatas, Paulo tinha em mente a consciência do


risco que havia em se ter uma interpretação errada acerca da
liberdade cristã. Depois de insistir no fato de que os gálatas estavam
libertos e não deviam se prender, ele disse: "Não useis, porém, a
liberdade para dar ocasião à carne; mas servi-vos uns aos outros
pelo amor." (Gálatas 5.13). O amor é o parâmetro da nossa
liberdade. Isto é focalizado também nas cartas aos Romanos e aos
Coríntios. Não existe liberdade absoluta. Ou somos servos do pecado
ou servos da justiça (Rm.6.18).

A liberdade cristã existe dentro dos limites estabelecidos por


Deus. Os limites não são necessariamente contrários à liberdade.
Somos como os passageiros de um navio, que podem andar para
onde quiserem mas sempre dentro dos limites da embarcação. As
restrições que Deus nos propõe são para o nosso próprio bem. São
como cercas à beira do abismo. Só não somos livres para fazer o que
destruiria a nossa liberdade.

MARCAS IDENTIFICADORAS

A circuncisão era símbolo de status religioso para os judeus. Era


a marca que identificava um adepto do judaísmo. As marcas sempre
foram importantes. Uma marca pode ter vários objetivos. Um dos
principais é o seu uso como sinal de propriedade. Os animais eram e
ainda são marcados com ferros em brasa contendo o sinal de seus
donos.

Hoje em dia, estamos bastante habituados ao valor das marcas.


Sejam marcas de carros, roupas, etc. Elas representam origem,
propriedade, qualidade, ou até a ausência ou falsificação de tudo isso.
As grandes marcas tornam-se símbolos de status social.

Até no Apocalipse, observa-se o valor das marcas: a besta


imporá sua marca sobre seus seguidores.

Os judaizantes estavam querendo impor a marca da circuncisão


como se esta fosse um valor cristão. Entretanto, Paulo conduz os
gálatas a um exame mais profundo da questão. O sinal exterior tem
valor quando corresponde à condição interior. Como disse aos
Romanos, "a circuncisão é proveitosa se tu guardares a lei."
(Rm.2.25). Então, o que seria evidência fiel do interior humano? As
obras da carne e o fruto do espírito. São marcas do caráter e se
revelam nas ações. Estas são as marcas mais importantes na vida de
um ser humano. Entretanto, se os judaizantes faziam mesmo questão
de marcas físicas, Paulo possuía as "marcas de Jesus", sinais de todo
o seu sofrimento pela causa do evangelho (Gálatas 6.17).

ESBOÇO (GÁL.)

1 - Introdução 1.1-9

1. – Saudação – 1.1-5.
2. – A inconstância dos gálatas – 1.6-9.

2 - Paulo defende o seu apostolado - 1.10 a 2.10.

2.1 – As viagens de Paulo após a conversão

e a origem do seu evangelho


3 - Paulo defende o seu evangelho - 2.11-21.

3.1 – O conflito com Pedro

4 - A salvação pela fé e os seus benefícios - 3.1 - 4.31.

4.1 – O evangelho e a lei.

4.2 – O exemplo de Abraão.

4.3 – A lei e a graça nas figuras de Hagar e Sara.

5 - A liberdade que Cristo nos dá - 5.1 a 6.18.

5.1 – As obras da carne.

5.2 – O fruto do Espírito.

5.3 - Conselhos práticos e saudações.


Epístola de Paulo aos Efésios

A cidade de Éfeso

Era uma das maiores cidades do Império Romano, capital da


província chamada Ásia Menor, cujo território pertence hoje à
Turquia. Localizava-se às margens do rio Caístro. Entre suas
construções, destacava-se o templo da deusa Diana, também
conhecida como Artêmis. Os cultos ali realizados incluíam a
prostituição em seus rituais. Tal edifício estava entre as sete
maravilhas do mundo antigo. O templo foi incendiado no dia em que
nasceu Alexandre Magno. Posteriormente, o próprio Alexandre
ofereceu-se para reconstruí-lo. Contudo, sua oferta foi recusada pelos
efésios, os quais reconstruíram o santuário, tornando-o mais
esplêndido do que antes. Quando escreveu a primeira carta aos
coríntios, Paulo estava em Éfeso. Talvez por isso, diante da
grandiosidade daquela construção, o apóstolo fala sobre a igreja de
Cristo, comparando-a a um edifício. Ele menciona o processo de
edificação, o fundamento, os construtores e o material utilizado (I
Cor.3.9-17). Mais tarde, quando escreve aos Efésios, Paulo volta a
essa comparação (Ef.2.19-22).

Havia em Éfeso uma grande biblioteca e um teatro com lugares


para 25 mil pessoas assentadas. A cidade possuía o principal porto da
Ásia, colocando-se, assim, na rota comercial do Império. Foi
construído naquela cidade um templo para a realização de cultos ao
imperador romano. Hoje, existem apenas ruínas daquele grande
centro urbano, entre as quais se destaca a fachada da antiga
biblioteca.

Fundação da igreja

Paulo fundou a igreja em Éfeso por ocasião da sua primeira


visita, durante a segunda viagem missionária (At.18.19). Na segunda
vez em que foi à cidade (At.19.1), permaneceu lá durante um período
superior a dois anos. Éfeso tornou-se o centro dos trabalhos
missionários do apóstolo. Naquele período, toda a Ásia Menor foi
evangelizada (At.19.10). Pode ser que nessa ocasião tenham sido
fundadas as sete igrejas mencionadas no Apocalipse (2 e 3).

A permanência de Paulo em Éfeso foi interrompida por uma


grande perseguição. Através de suas pregações, muitos se
converteram a Cristo. Com isso, o comércio das imagens da deusa
Diana estava se enfraquecendo. Tomados de ira, os fabricantes de
ídolos provocaram grande tumulto, tentando fazer com que Paulo
fosse publicamente condenado por pregar uma doutrina que estaria
"prejudicando" a cidade (At.19.21-40; I Cor.15.32). Afinal, o turismo
e o comércio estavam estabelecidos sobre a idolatria. Diante de
disso, Paulo se retira. Depois de algum tempo, mandou chamar os
líderes da igreja de Éfeso para se encontrarem com ele em outra
cidade, Mileto. Ali, Paulo se despede deles, dizendo que não mais o
veriam (At.20.16-38).

Timóteo, Apolo, Áquila e Priscila trabalharam na igreja de Éfeso


(At.18.18,19,24; I Tm.1.3; II Tm.4.19). De acordo com a tradição, o
apóstolo João também exerceu ministério naquela cidade e ali
morreu. A bíblia não confirma isso. O que temos de concreto é que
João escreveu uma carta à igreja de Éfeso assim como fez a outras
seis igrejas da Ásia (Apc.2.1).

A EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS

Local de origem: Roma.

Data: entre 60 e 61 d.C.

Portador: Tíquico (Ef.6.21-22).

Tema: a unidade da igreja.

Texto chave – Ef.4.13.

Seqüência chave – Ef.1.10; 2.6, 14-22; 4.3-16.

Palavras e expressões em destaque: Mistério; "em Cristo";


graça; salvação; riqueza; igreja; unidade; vida; armadura.

ESBOÇO

1 – A igreja e o plano de salvação – 1.1-23

Saudação – 1.1-2

A origem divina da igreja – 1.3-6.

O plano de salvação – 1.7-23.

2 – A ressurreição espiritual e a exaltação do salvo – 2.1-6.

Salvação pela fé e não por obras – 2.7-10.

Os gentios estão incluídos no propósito de Deus – 2.11-13.


Não há barreiras entre judeus e gentios – 2-14-22.

3 – Os mistérios e as revelações divinas – 3.1-13.

A oração de Paulo e o amor de Cristo – 3.14-21.

4 – A unidade dos cristãos – 4.1-16.

A vida cristã prática – 4.17-21.

Velha vida x Nova vida – 4.22-32.

5 – Valores da vida cristã – 5.1-21

Amor, pureza, luz, zelo, plenitude do Espírito.

Deveres da vida cristã – 5.22 a 6.9.

6 – A luta espiritual – 6.10-18.

7 – Palavras finais e bênção – 6.19-24.

COMENTÁRIO

A carta que hoje conhecemos como "Epístola de Paulo aos


Efésios", parece ter sido uma correspondência circular destinada às
diversas igrejas da Ásia Menor. Seu conteúdo não é pessoal nem
trata de questões ou problemas específicos de uma comunidade em
particular. Não possui saudações pessoais, como seria natural em
uma carta dirigida a um grupo determinado. De acordo com os
estudiosos dos manuscritos do Novo Testamento, a expressão "que
vivem em Éfeso" (1.1) não aparece em todas as cópias antigas.
Supõe-se então que poderia se tratar de uma carta circular e que,
eventualmente, alguém tenha acrescentado essas palavras quando
endereçou uma cópia para os efésios. Alguns comentaristas sugerem
que essa epístola possa ser a mesma que Paulo menciona em
Colossenses 4.16, quando fala da carta enviada aos Laodicenses e
que deveria ser lida também em Colossos.

Motivo de envio da carta

As igrejas cristãs estavam se estabelecendo em diversas cidades


do Império Romano, começando dos principais centros, onde Paulo
procurava concentrar suas atividades evangelísticas. Nesses mesmos
centros, encontravam-se colônias judaicas, já que, por motivos
diversos, milhares de judeus estavam espalhados por vários lugares.
Eles se estabeleciam com mais freqüência nas principais cidades,
como seria natural, uma vez que nesses locais se concentravam as
atividades comerciais, culturais e religiosas, sendo os melhores
campos para o trabalho e o enriquecimento.

Desse modo, em todos os lugares Paulo encontrava uma


sinagoga e ali pregava para os judeus. Assim, apesar dos protestos e
perseguições, alguns se convertiam. Logo estava estabelecida a
igreja e sua formação incluía gentios e judeus. Percebe-se então uma
dicotomia imediata na comunidade. Além disso, como era natural, a
igreja era formada por homens e mulheres, servos e senhores,
escravos e livres, ricos e pobres. Bem sabemos que esse cenário não
era uma particularidade de Éfeso, mas característica comum a
diversas igrejas. Essa diversidade de componentes da igreja, faz com
que ela seja um organismo bastante eclético. Essa variedade se
tornava, muitas vezes, causa de divisão, partidarismo, dentro das
igrejas. Por isso, Paulo escreve aos efésios, tendo como principal
tema a unidade da igreja. Seu foco está principalmente sobre a
questão entre judeus e gentios. Por um lado, os judeus se
consideravam como a "nata" religiosa do mundo. Então, os gentios
eram vistos por eles como uma segunda categoria, até mesmo dentro
da igreja. Os gentios, por sua vez, poderiam se sentir inferiorizados.
Contudo, nas cidades fora da Palestina, os gentios eram os "donos da
casa". Então, os judeus poderiam ser vistos como estrangeiros
arrogantes que se achavam superiores aos próprios cidadãos do
lugar.

Tudo isso nos mostra que era fácil que a igreja se dividisse
internamente entre o grupo dos judeus e o grupo dos gentios. Então,
Paulo insiste na doutrina da unidade da igreja. Afinal, Cristo chamou
pessoas tão diferentes e as uniu em um corpo para que aprendessem
o amor que supera todas as desigualdades e até mesmo ajuda a
minimizá-las ou eliminá-las quando possível.

Unidade da igreja

Paulo menciona a localização de gentios e judeus dentro do


plano de salvação e da igreja. Seu objetivo é demonstrar que no
corpo de Cristo, esse tipo de diferença é irrelevante. Ele tenta fazer
com que seus leitores vejam que, no passado, todos eles eram
pecadores (Ef.2.1-3) e que agora todos são salvos. Estes são os
adjetivos que importam. Não interessa saber quem é judeu e quem é
gentio. Essas verificações só serviam para dividir a igreja. Paulo diz
que agora, após a conversão, ninguém era mais estrangeiro, como se
tivesse um tratamento diferente dentro da igreja. Somos todos
concidadãos (Ef.2.19). Dizer isso para gentios e judeus era mostrar
que não mais importava o lugar onde nasceram nem a sua origem
genealógica. Agora, somos cidadãos na mesma cidade, a Nova
Jerusalém. Afinal, nascemos de novo. Agora somos parte da
mesma família.
Precisamos deixar de lado muitos conceitos plurais, que
destacam nossas diferenças, e voltar para afirmações singulares. Por
isso, Paulo usa tanto a palavra "um" e seus derivados na epístola aos
Efésios:

 "de ambos (judeus e gentios) fez um" (Ef.2.14);


 "um novo homem" – Ef. 2.15.
 "um só corpo" – Ef.2.16.
 "um Espírito" – Ef.2.18.
 "unidade do Espírito"- Ef.4.3.
 "um corpo" – Ef.4.4.
 "um Espírito" – Ef.4.4.
 "numa só esperança" – Ef.4.4.
 "um só Senhor" – Ef.4.5.
 "uma só fé" – Ef.4.5.
 "um só batismo" – Ef.4.5.
 "um só Deus e Pai" – Ef.4.6.
 "unidade da fé" – Ef.4.13.
 "comunidade" - Ef.2.12.
 "unirá" - Ef.5.31.
 "uma só carne" - Ef.5.31 (fala sobre o casal e sobre Cristo
e a igreja).

A palavra "todos" também demonstra o desejo pela unidade ou


fala de uma situação comum: 1.15; 2.3; 3.8,9,18; 4.6,13; 6.18,24

A palavra "congregar" em 1.10, a preposição "com", o advérbio


"juntamente" e outros termos semelhantes reforçam a doutrina da
unidade dos irmãos em torno da pessoa de Cristo. Ele é a base da
nossa unidade.

"Com" - 1.15; 2.5,6; 2.16; 3.18; 4.25; 4.28 ("com o que


tiver..."); 6.9.

Em 5.7, a preposição aparece mostrando "com" quem não


devemos nos associar. Não existe unidade entre o cristão e o
mundano. Convivência, sim. Unidade, não.

"Co-herdeiros" e "co-participantes" - 3.6.

"Juntamente" - 2.5,6,22.

"Juntas" - 4.16.

A expressão "em Cristo", bastante freqüente nos escritos de


Paulo, mostra a centralidade do Senhor Jesus no plano de Deus, na
igreja e na vida do cristão. Observe esta e outras expressões
similares em Efésios:
"Em Cristo" - 1.1,3,6,10,12,15,20; 2.6,7,10,13; 3.11,21; 4.32.

"Em Jesus" - 4.21.

"Com Cristo" - 2.5.

Observe a relação entre 2.12 ("sem Cristo") e 2.13 ("em


Cristo"), demonstrando a situação antes e depois da conversão.

A igreja - edifício de Deus

Continuando sua doutrina, Paulo mostra que somos parte do


edifício de Deus, a igreja (Ef.2.20-22). Não podemos criar divisões,
como se o tijolo quisesse ser superior à pedra, ou a areia melhor do
que o cimento. Se formos fazer uma classificação por valor ou por
importância na construção, veremos que, separado, cada item tem
um preço diferente. Contudo, enquanto não for utilizado na obra,
cada tipo de material corre o risco de se contaminar, tornar-se inútil
e se perder. Depois de construído o prédio, este tem um valor único e
muito elevado. Quando se pergunta o preço de um prédio, ninguém
quer saber o valor da areia ou do cimento. A construção vale mais do
que a soma dos valores nela aplicados. Juntos valemos mais do que
separados. Juntos fazemos mais do que faríamos isoladamente.

Na construção, os elementos que parecem ser os mais fortes,


encontram-se absolutamente dependentes dos que são reputados
como inferiores. O cimento é visto como aquele que dá firmeza.
Contudo, o que faríamos com ele se não tivéssemos a areia, que
muitas vezes é vista como frágil e inconstante? Um vai suprir a
fraqueza do outro e juntos vão formar o sólido concreto. A pedra
poderia se gabar de ser a mais forte. Contudo, não se constrói um
prédio usando apenas pedras. Os tijolos, apesar de mais frágeis,
podem ser trabalhados com mais facilidade, podem ser quebrados,
cortados e posicionados com mais flexibilidade. Sua fragilidade será
superada pelo uso da areia, do cimento e da água. Os tijolos, para
que fiquem mais resistentes, são submetidos à ação do fogo, o qual
pode ser comparado às dificuldades, tribulações e sofrimentos da
vida, que vão nos tornando mais fortes e mais resistentes (I
Pd.4.12).

Depois de pronto o prédio, não se fala mais em areia, em


cimento, em tijolos. Fala-se em um prédio. Apesar de estarem ali
presentes as características de cada material, todos eles "perderam"
sua própria identidade e são agora conhecidos como prédio. Até
mesmo aquele ínfimo grãozinho de areia, agora é prédio. Assim
somos nós na igreja. Ainda que você se veja como o menor, como
insignificante, como fraco, Deus o vê como igreja, como corpo de
Cristo. Nessa condição, consciente disso e vivendo de modo coerente,
você estará revestido de uma armadura (Ef.6.10-18) e,mesmo sendo
fraco, você será invencível "Quando sou fraco, então é que sou forte"
(II Cor.12.10). As forças espirituais do mal não poderão tocá-lo (I
Jo.5.18).

Quando o prédio está pronto, o que mais aparece não é o mais


importante. Então, temos em posição de honra aqueles elementos
que mais precisam dela e não os que já a possuem naturalmente.
Deus coloca em destaque os mais humildes, enquanto que muitos
que se julgam elevados, ficam encobertos. Isso não muda o valor de
nenhum deles, apenas a aparência. A tinta, que até não está entre os
itens fundamentais, é a que mais aparece e torna-se importante. A
pedra, que é mais forte, torna-se invisível, colocada em lugares
inferiores, fazendo parte do alicerce. Estaria ela esquecida? Talvez
sim, mas desvalorizada jamais.

Em toda construção em que se usem pedras, areia, tijolos e


cimento, deverá ser usada a água, que é um símbolo da Palavra de
Deus (Ef.5.26). A água não fica retida na construção. Ela não faz
parte do prédio, embora seja utilizada desde o alicerce até o
acabamento. Da mesma forma, a bíblia não faz parte da igreja, mas
sem ela a igreja não existiria.

Unidade e individualidade

Apesar de ser comparado a um edifício, a igreja não tem a


mesma rigidez. As pedras vivas que compõem a igreja (I Pd.2.5) nem
sempre querem ficar na posição e na função que receberam. O autor
roga, suplica, aos irmãos de Éfeso que eles adotem uma postura de
humildade, mansidão, e amor uns para com os outros. Com tantas
diferenças dentro da igreja, essas atitudes eram imprescindíveis para
que a igreja não se extinguisse (Ef.4.1-6).

Muitas vezes, os irmãos começam a promover disputas e


contendas entre si. Isso, além de ser destrutivo, desvia o cristão de
seu papel espiritual. Paulo diz que "a nossa luta não é contra o
sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os
dominadores deste mundo tenebroso e contra as forças espirituais do
mal, nas regiões celestiais" (Ef.6.12). Se os irmãos guerrearem entre
si, estarão dando trégua na guerra contra Satanás e, assim, só ele
ficará satisfeito.

A unidade deve ser buscada mesmo que mediante o esforço.


"Esforçai-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no
vínculo da paz" (Ef.4.3). A palavra vínculo significa nó ou tudo o que
estabelece ligação. Nós, como cristãos, precisamos enfatizar os
nossos vínculos acima das nossas diferenças. O mesmo Senhor, o
mesmo Espírito, o mesmo batismo, a mesma fé, a mesma esperança,
tudo isso são vínculos que nos unem. São os fundamentos do
cristianismo. Não devemos nos separar por causa de questões tão
menores do que o amor de Cristo. Seria correto uma igreja se dividir
por causa da forma de culto, ou por causa do tipo de roupa ou por
causa da comida e outras coisas semelhantes?

Em uma família, cada membro é diferente. Contudo, não vamos


dispersar o grupo familiar por causa disso.

Apesar de unidos, não somos iguais. As diferenças existem e


sempre existirão. Vivemos em unidade sem anular a individualidade.
Por isso Paulo fala, no capítulo 4.7-16, dos dons ministeriais: "uns
para apóstolos, outros para profetas..." Não devemos confundir
unidade com igualdade. "A graça foi concedida a cada um de nós
segundo a proporção do dom de Cristo" (Ef.4.7). Afinal, a unidade
existe para que as diferentes partes se auxiliem e se completem
(Ef.4.16). Assim, Paulo passa a usar o corpo humano como ilustração
para a igreja. Cada cristão é chamado de membro, tendo posição e
função definidas.

O tema da unidade nos chama a atenção para a ajuda mútua. O


tema da individualidade nos lembra da responsabilidade pessoal. A
obra de Deus é missão da igreja. Contudo, cada tarefa deve estar
designada individualmente, pois se um serviço é de todos,
normalmente ninguém o executa.

Na igreja existem homens, mulheres, servos, senhores, etc. A


doutrina da unidade poderia levar a crer que agora todos são iguais.
Até certo ponto, a afirmação é correta. Contudo, Paulo, no final da
carta, fala diretamente às mulheres, aos maridos, aos filhos, aos
pais, aos servos e aos senhores, mostrando que cada um tem um
papel definido e que a situação individual deve ser respeitada
(Ef.5.22 a 6.9).

Observe os textos de Efésios que tratam da individualidade por


meio da expressão "cada um" ou "uns":

Ef.4.7 - Oportunidade individual.

Ef.4.11 - Dom individual.

Ef.4.25 e 5.33 - Deveres individuais.

Ef.6.8 - Recompensa individual.

Efésios – espiritualidade em alta


Havendo unidade dentro dos padrões divinos, haverá ambiente
para que se desenvolva a espiritualidade. Esta palavra caracteriza
bem a epístola aos Efésios. Enquanto que, aos coríntios, Paulo não
pode falar como a espirituais, visto que eram carnais (I Cor.3.1), com
os efésios foi diferente. O apóstolo falou sobre:

 Os mistérios de Deus – Ef.1.9; 3.3; 4.9; 6.19.


 Lugares celestiais – Ef.1.3,20; 2.6; 3.10; 6.12.
 A graça de Cristo – Ef.1.6,7; 2.5,7,8; 3.2,7; 4.7,29; 6.24
 As riquezas da sua graça – Ef.1.7; 2.7.
 As riquezas de Cristo – Ef.3.8.
 As riquezas da glória – Ef.1.18; 3.16.
 A armadura de Deus – Ef.6.12-17.

A prática da doutrina

A espiritualidade deve se expressar na vida prática. Paulo tinha


em mente essa preocupação. Vemos em algumas de suas epístolas
essa divisão: em primeiro lugar ele fala da doutrina, depois ele dá
conselhos práticos. A parte espiritual (Ef.1 a 3) se relaciona ao verbo
"ser". A parte prática (Ef. 4 a 6) se relaciona aos verbos "andar" e
"combater". Embora não sejamos salvos pelas obras (Ef.2.8-9),
fomos designados para executá-las (Ef.2.10). A posição espiritual de
qualquer pessoa vai produzir evidências visíveis. Ninguém poderia se
esquivar dos ensinamentos do apóstolo dizendo que não tinha
entendido a aplicabilidade de suas palavras. Depois de falar de fatos
espirituais e regiões celestiais, Paulo parte para situações do dia-a-
dia.

Se ele dissesse apenas que os efésios deveriam se revestir do


novo homem (Ef.4.24), eles poderiam questionar o sentido dessas
palavras. Mas o próprio Paulo explica na seqüência do texto, de 4.25
até 5.21: "Deixando a mentira, fale cada um a verdade." "Aquele que
furtava não furte mais; antes trabalhe." "Não saia da vossa boca
nenhuma palavra torpe". "Não vos embriagueis com vinho". A seguir,
o autor fala sobre as relações entre marido e mulher, pais e filhos,
servos e senhores. Seu último assunto é a armadura de Deus, que é
composta por convicções interiores e práticas exteriores, (fé e obras).
Ele adverte que tomemos "toda" a armadura de Deus (Ef.6.11).
Tomar apenas uma parte é inútil. De que adianta ao guerreiro
proteger o coração e deixar a cabeça exposta? Que adiantará se,
estando a cabeça e o coração protegidos, as pernas forem quebradas
pelo inimigo? Assim, precisamos da verdade, da justiça, do
evangelho, da fé, da salvação, da Palavra de Deus e da oração em
Espírito. Se faltar um desses elementos, esta pode ser a brecha por
onde o inimigo tentará nos destruir.
Epístola de Paulo aos
Filipenses

A CIDADE DE FILIPOS

Filipos era a capital da província romana chamada Macedônia,


localizada em território que hoje pertence à Grécia. Seu nome
significa "pertencente a Filipe". A cidade foi fundada por Filipe, pai de
Alexandre Magno, em 358 a.C. Era importante devido à sua
localização junto à principal estrada que cortava a Macedônia no
sentido leste-oeste, servindo de caminho entre a Ásia e Roma. Além
disso, a cidade possuía minas de ouro e prata.

A IGREJA EM FILIPOS

Foi a 1a igreja cristã na Europa. Foi fundada por Paulo durante a


segunda viagem missionária - At.16.11-40. Ali chegando, o apóstolo
foi bem recebido juntamente com Silas. Os primeiros convertidos
foram Lídia, vendedora de púrpura, e (talvez) uma jovem que
adivinhava, da qual foi expulso um espírito imundo. Sendo liberta,
cessaram os seus prognósticos. Diante disso, cessou também o lucro
dos seus senhores, os quais se enfureceram contra Paulo e Silas,
incitando contra eles as autoridades locais. Como resultado, aqueles
irmãos foram espancados e lançados na prisão (I Tss.2.2). Estando
orando e louvando à meia-noite, Deus os libertou por meio de um
terremoto que abriu as cadeias. Diante de tão grande acontecimento,
o carcereiro se converteu e também a sua família.

Algum tempo depois, os irmãos filipenses enviaram ajuda


financeira para Paulo - II Cor.8.2 Fil. 4.10,15.

A SITUAÇÃO DE PAULO

Ao escrever a epístola aos filipenses, Paulo se encontrava preso,


correndo risco de vida, distante de muitos irmãos e amigos e em
dificuldade financeira. Na carta, ele fala da morte várias vezes: 1.20;
2.8; 2.27; 2.30; 3.10. Entretanto, a mesma epístola enfatiza a
alegria, a gratidão (1.3; 4.6), e ainda admoesta contra a
murmuração (2.14).

Isso é testemunho (2.15). Alegria e gratidão no meio do


sofrimento é tão contrastante quanto a luz no meio da escuridão,
como uma estrela refulgente no meio do negro céu. Não dá para
ignorar. Paulo compara os cristãos aos luzeiros, aos astros, e não a
uma vela ou a um pavio de lamparina (2.15). O luzeiro produz
abundante luz, a qual não se apaga com o vento nem com a
tempestade.

Normalmente, se existe luz, existe fogo. Algo está se


consumindo. Algo está queimando. Não seremos luz gratuitamente.
Não seremos luz sem sacrifício, sem dor, sem renúncia, sem
sofrimento ou sem tribulações.

Até a sua própria morte é vista por Paulo como um meio pelo
qual o Senhor Jesus seria glorificado (1.20). Segundo a visão do
apóstolo, sofrer pelo evangelho é um privilégio (1.29).

A EPÍSTOLA AOS FILIPENSES

Autor: Paulo (e Timóteo)

Portador: Epafrodito

Data: 60 ou 61.

Local: prisão em Roma.

Tema: Alegria no Senhor.

Motivo da carta: gratidão pelo auxílio enviado pelos filipenses.

Versos chave: 1.21 e 4.4

ESBOÇO

I - Introdução e saudação - 1.1-2.

II - Conceito que Paulo tem sobre os filipenses e sua oração por


eles - 1.3-11.

III - A prisão de Paulo contribui para o progresso do evangelho. -


1.12-26.

IV- Exortação à perseverança, unidade, humildade e santidade

conforme o exemplo de Cristo - 1.27 a 2.18.

V - Elogio a Timóteo e Epafrodito - 2.19-30.

VI - Confiança em Cristo e não na carne - 3.1-21.


VII - Exortação à vida santa - 4.1-9.

VIII - Gratidão de Paulo pelo auxílio dos filipenses - 4.10-20.

IX - Saudações finais - 4.21-23.

COMENTÁRIO

OS SANTOS FILIPENSES

Paulo usa a palavra "santos" para se referir aos filipenses (1.1).


Esse termo na bíblia não se refere a cristãos mortos e que, ainda
assim, tenham poder para interferir no mundo dos vivos e fazer
milagres. Nada disso. "Santo" significa "separado", "consagrado".
Todo cristão é santo, ou pelo menos deveria ser. Todo servo do
Senhor é separado do mundo e separado para Deus. Essa separação
não significa alienação. O cristão não deve viver como um alienígena,
indiferente a tudo, longe de todos, isolado e estranho. Podemos e
devemos participar de tudo o que acontece em nossa volta, exceto
daquelas coisas que podem interferir na nossa comunhão com Deus e
contrariar o nosso compromisso com Cristo. Quando a questão
ameaça esse ponto, então nos separamos, pois somos santos.

"Santo" não significa perfeito ou alguém que esteja livre da


possibilidade de pecar. Somente alcançaremos essa condição quando
deixarmos esta terra e formos para o nosso lar celestial. Antes disso,
devemos viver num processo de aperfeiçoamento. Pelas palavras de
Paulo, vemos que os filipenses não eram perfeitos, mas estavam
caminhando nessa direção. Ele disse: "Estou plenamente certo de que
aquele que começou a boa obra em vós há de completá-la até o dia
de Cristo Jesus." (1.6). O próprio apóstolo disse a respeito de si
mesmo: "Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a
perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também
fui conquistado por Cristo Jesus..." (3.12-14). Vejo nesse processo de
aperfeiçoamento o desenvolvimento da salvação mencionado em
Fil.2.12. Não que sejamos "meio salvos". A obra está consumada no
coração de Deus, mas, na prática, os efeitos da salvação ainda se
estabelecem gradativamente até que o nosso corpo seja
transformado em um corpo incorruptível, em semelhança do corpo
ressurreto do nosso Senhor Jesus Cristo.

PERDAS E GANHOS

O evangelho envolve perdas e ganhos (3.7-8). Isso não combina


com certas pregações de prosperidade. Paulo estava preso, privado
de muitas coisas, mas certo do seu ganho espiritual. Será que Paulo
pensava em um evangelho que lhe proporcionaria riqueza material,
uma grande casa, um lindo carro, o seu próprio negócio, etc? De
modo nenhum. Ele assumia as tribulações e os sofrimentos como
fatores naturais no caminho do cristão e que tudo isso até contribuiria
para o avanço do reino de Deus. "... As coisas que me aconteceram
têm antes contribuído para o progresso do evangelho." (1.12). Ele
destacou ainda, de modo comemorativo, que sua prisão tinha se
tornado oportunidade para evangelizar os soldados romanos (1.13).

Quando, ao fim da epístola, Paulo diz: "Tudo posso naquele que


me fortalece" (4.13), ele não estava ensinando uma declaração do
pensamento positivo, como se quisesse colocar o cristão numa
posição de sucesso absoluto, conforme a visão que o mundo tem de
sucesso. Lendo 4.12, entendemos que Paulo estava dizendo que ele
foi capacitado por Deus para passar por qualquer situação, fosse de
abundância ou escassez, de humilhação ou honra, de fartura ou de
fome. Certamente, o obreiro de Deus precisa estar pronto para tudo
isso e não apenas para ser rico.

É verdade que Deus pode nos dar todo tipo de bens materiais.
Entretanto, isso depende do plano dele para cada pessoa. Não
podemos colocar a riqueza material como conseqüência natural do
evangelho. Isso não é bíblico. Na parábola dos talentos, aquele
senhor deu uma quantidade de dinheiro correspondente à capacidade
de cada um. É assim que Deus faz conosco. Ele não vai colocar em
nossas mãos algo superior à nossa capacidade de administrar.

Precisamos focalizar o ganho espiritual, o galardão celestial e


não o galardão terreno. Este, se vier, será bem-vindo. Porém, não
pode ser o nosso objetivo.

OS INIMIGOS DA CRUZ

"Pois muitos andam entre nós, dos quais repetidas vezes eu vos
dizia e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de
Cristo; O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a
glória deles está na sua infâmia; visto que só se preocupam com
as coisas terrenas. Pois a nossa pátria está nos céus, de onde
também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual
transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo
da sua glória..." (Fil.3.18-21).

Cruz é renúncia, é entrega, é perda, é humilhação, é morte.


Disse Jesus: "Se alguém quiser vir após mim, a si mesmo se negue,
tome cada dia a sua cruz e siga-me. Porque qualquer que quiser
salvar a sua vida, perde-la-á, mas qualquer que, por amor de mim,
perder a sua vida, a salvará.". (Lc.9.23-24). Se não estivermos
dispostos a perder nada pelo evangelho e ainda quisermos fazer dele
uma ferramenta para o enriquecimento material, estaremos
desvirtuando sua essência e negando a cruz.
Corremos o risco de colocar o ser humano como o centro do
cristianismo, como se este existisse para atender a todos os nossos
desejos terrenos. Desse modo, muitas pessoas estão nas igrejas com
a expectativa de que Deus resolva todos os problemas delas e vêem
nele apenas um solucionador de problemas e não um Senhor.

"Buscai primeiro o Reino de Deus." (Mt.6.33a). Muitos precisam


corrigir a orientação de sua busca ao Senhor. Precisamos buscá-lo,
primeiramente, para sabermos a sua vontade para nós, e não para
fazê-lo conhecer a nossa vontade. Precisamos perguntá-lo sobre o
que devemos fazer para ele antes de apresentar o que queremos que
ele faça para nós. Nós é que somos os servos. Ele é o Senhor.

Além disso, precisamos colocar os valores espirituais acima dos


valores terrenos. Em sua oração pelos filipenses, Paulo pede que eles
tenham amor, conhecimento, discernimento e fruto de justiça para a
glória de Deus (Fil.1.9-11). São valores espirituais, os quais devem
ser enfatizados, acima das nossas ambições materiais.

Colocando cada coisa no seu devido lugar e nível de importância,


entenderemos a disposição de Paulo até para sofrer e morrer pelo
evangelho. Em algum tempo da nossa vida podemos estar vivendo na
abundância. Em outro tempo podemos estar sofrendo privações sem
que isso signifique pecado nem fracasso espiritual. O cristão pode ser
rico (II Tm.6.17-19) e pode ser pobre (II Cor.8.1-2; Fil.4.11). O que
não se pode é vincular o evangelho à riqueza material. Afinal, Jesus
disse que os ricos dificilmente se salvarão. E Paulo acrescentou que
os que querem ser ricos caem em muitas tentações. (Lc.18.24; II
Tm.6.9-10).

DEUSES ESTRANHOS

Paulo disse que "andam entre nós" muitas pessoas "cujo deus é
o ventre." Entre nós significa dentro da igreja. São pessoas que não
estão servindo ao verdadeiro Deus, mas estão procurando apenas
seu próprio interesse. Eram como aquela multidão que acompanhava
Jesus apenas por causa dos pães e dos peixes que ele multiplicava
(João 6.26). Isso é até admissível por algum tempo. Muitos só vão
atrás de Jesus motivados por uma necessidade pessoal. Porém,
chega um momento quando todos são desafiados a assumirem uma
posição de compromisso com o Senhor. Seguir a Cristo nos faz passar
por momentos de milagres, de pão e peixe multiplicados, de cura, de
libertação, etc, mas nesse caminho também existe uma cruz.

O "deus" daquelas pessoas era o ventre. A alimentação estava


acima de tudo para elas. Existem hoje tantos deuses sendo adorados
e servidos. Na sociedade atual, o futebol é um deus ou uma religião.
Não é à toa que os grandes jogadores são considerados "ídolos". Os
estádios reúnem pessoas como não acontece em nenhum templo
religioso do mundo. Elas vão ali, pagam para entrar, nada ganham, e
algumas chegam a matar ou morrer pelo seu time. As copas do
mundo reúnem povos de muitas nações num congraçamento jamais
realizado por nenhuma religião.

Outro deus da atualidade que podemos mencionar é o sexo. A


sexualidade extrapola as portas conjugais e se manifesta nas
músicas, nos comerciais, nos filmes, nas novelas, etc. Deixa de ser
um componente do casamento e passa a ser usado como produto
comercial. Aqueles que servem a esse deus tornam-se escravos de
suas práticas extra-conjugais.

O dinheiro é também um deus da humanidade. Cristo mesmo já


mencionou algo semelhante quando disse: "Não podeis servir a Deus
e a Mamom" (Mt.6).

Os exemplos que mencionamos não são coisas intrinsecamente


más. O futebol não é algo mau. O dinheiro também não. O sexo, por
sua vez, foi criado por Deus e é correto desde que praticado dentro
do matrimônio. O problema é quando essas coisas são colocadas
acima de Deus, como se fossem mais importantes do que ele. Se
trocamos o compromisso com Deus por uma outra coisa, então essa
coisa é o nosso deus.

Através do jejum, das ofertas e da abstinência pelo tempo


necessário, nós demonstramos, na prática, que o Senhor Jesus está
acima de tudo para nós.

REGOZIJAI-VOS NO SENHOR

Paulo, mesmo preso, estava se regozijando (1.18). Possuía uma


alegria sem motivo aparente (1.4,18,25). Ele usa não apenas a
palavra alegria, mas gozo e regozijo, que são termos ainda mais
fortes, que falam de uma alegria intensa, grande satisfação ou prazer
(2.2; 2.17,18,28,29). A chave do contraste entre a prisão de Paulo e
sua alegria é a expressão: "Regozijai-vos no Senhor (3.1; 4.1,4,10).
A alegria do cristão não vem de fora para dentro, mas de dentro para
fora. Alegria no Senhor não depende de circunstâncias mas depende
do Senhor, e ele não muda. Um cristão alegre no meio da tribulação?
Isso é loucura para o mundo. Tal alegria provém de uma paz que
excede todo entendimento (4.7).

Em meio a tantas expressões de alegria, o texto de 2.28


menciona a "tristeza". Isso é bom para que não falemos do
cristianismo como se fosse algo irreal, utópico. Paulo esteve triste por
causa da doença de Epafrodito. Nesse mundo podemos passar por
momentos de tristeza. Porém, ela não pode nos dominar, não pode
ser nossa companheira constante. Observe que, embora a tristeza
tenha sido mencionada, ela não se tornou característica nem tema da
epístola. Da mesma forma como não se tornou característica de Paulo
nem será nossa. Podemos ficar tristes por alguns momentos ou até
por alguns dias? Sim. Daniel esteve triste durante 21 dias (Dn.10.2).
Podemos nos entristecer pelo pecado cometido (I Cor.5.2; II Cor.7.8-
10), por uma perda, pelo sofrimento próprio ou alheio. Entretanto,
não seremos pessoas tristes nem viveremos na tristeza. É verdade
que Jesus chorou, conforme nos informa o menor versículo da bíblia
(João 11.35). Porém, Jesus não viveu chorando e nem nós podemos
viver assim. Paulo também chorou por causa daqueles que se
perdiam (Fil.3.18). Que a tristeza em nossas vidas seja o menor
versículo e que a alegria preencha longos capítulos da nossa
existência.

A expressão "alegrai-vos no Senhor" nos dá uma idéia de uma


alegria que não depende de outros fatores, mas depende do Senhor.
Assim, temos também uma idéia de condicionamento. Nossa alegria
depende da nossa relação com Deus. Se esta relação estiver
interrompida de alguma forma, então estaremos desligados da nossa
fonte de alegria. Ficaremos tristes. Precisamos então eliminar o que
se pôs entre nós e Deus, seja um ídolo ou outro pecado qualquer.
Religados à fonte da alegria, nosso rosto volta a brilhar como uma
lâmpada que se acende.

ALEGRIA X ANSIEDADE

Ao escrever aos filipenses sobre a alegria, Paulo estava


consciente de que a ansiedade poderia ser um empecilho nesse
caminho (4.4-7). Talvez deixemos de usufruir em plenitude da alegria
do Senhor (Neemias 8.10), porque estamos ansiosos.

Algumas vezes, a ansiedade, ou preocupação, ocorre por um


motivo legítimo. Estamos nos sentindo ameaçados, então ficamos
ansiosos. Entretanto, em muitos casos a ansiedade se manifesta sem
fundamento real.

Podemos estar ansiosos porque buscamos algo e ainda não


alcançamos. Pode ser algo necessário, mas, em muitos casos, trata-
se de uma busca ambiciosa pelo excesso, por aquilo que é supérfluo.
Não seria melhor fazer calar a nossa alma, como disse o salmista?
(Salmo 131.2). "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus", diz o Senhor.
(Salmo 46.10). Ele está no controle da nossa vida. Ele nos dará o que
precisamos e até o que não precisamos, se isso for bom para nós.
"Não andeis ansiosos", disse Jesus aos seus discípulos (Mat.6.25-34).

Em todas essas situações, a fé, a oração e a gratidão são os


remédios prescritos pelo apóstolo Paulo. Se cremos em Deus e no seu
cuidado para conosco, isso já é um forte motivo para o nosso
descanso. Em segundo lugar vem a oração. Nossa fé se expressará
através das nossas palavras. Estamos nos sentindo ameaçados por
alguma coisa ou oprimidos por alguma necessidade? Vamos levar
tudo isso diante de Deus através da oração. Quando oramos,
dividimos a responsabilidade com Deus. Se você faz tudo na vida sem
orar, então a responsabilidade é toda sua. Se der errado, a culpa é
sua. Quando oramos, estamos pedindo que Deus faça a parte que
não está ao nosso alcance. Contudo, continuamos responsáveis por
aquilo que podemos fazer.

Tendo orado, temos mais um motivo para descansar. Em nossa


oração, precisamos também agradecer. A gratidão, mais do que uma
expressão verbal, é um exercício. Precisamos, freqüentemente, olhar
para tudo o que Deus já nos deu e agradecer. É bom que
agradeçamos por cada coisa, cada pessoa, cada conquista, cada
realização, e até mesmo pelo que não conseguimos, pois até isso foi
livramento do Senhor, embora possamos não ter compreendido. Esse
exercício é um antídoto contra as ambições excessivas. Normalmente
vivemos olhando para o que falta e nos esquecemos de agradecer
pelo que já temos. Valorizamos demasiadamente o que falta e
desvalorizamos o que já temos. Isso é um erro do ser humano que
aumenta a ansiedade e diminui a alegria.

A ansiedade, seja por motivo legítimo ou não, é resultado dos


nossos pensamentos. Paulo nos aconselha a selecionar nossos
pensamentos. Se podemos agir para resolver determinado problema,
então devemos fazê-lo, mas ficar apenas cultivando a preocupação
não vai nos levar a nada. Precisamos então, pensar em coisas boas,
positivas, agradáveis, e isso será favorável ao nosso bem estar e à
nossa alegria. Embora tais palavras possam parecer apenas a
valorização do pensamento positivo, Paulo coloca a pessoa de Deus
como a fonte da nossa paz (4.9).

UNIDADE E HUMILDADE (1.27; 2.2)

Os filipenses haviam mandado uma ajuda financeira para o


apóstolo (4.16-18). Ele se regozijou muito pela comunhão que os
irmãos tiveram com ele naquele momento difícil. É na dificuldade que
a comunhão e a unidade se tornam mais necessárias e importantes.
"Na angústia nasce o irmão" (Pv.17.17). É nessa hora que se
descobre o verdadeiro amigo. Os falsos desaparecem.

O tema da unidade também se apresenta na epístola quando


Paulo fala de um "companheiro de jugo" (provavelmente Síntique –
4.2-3,14) O jugo, também chamado "canga", "é uma peça de
madeira que une dois bois e os prende ao carro ou ao arado"
(Aurélio). Companheiro de jugo é companheiro de trabalho. É um tipo
de sociedade num momento de dificuldade.

A unidade depende da humildade (2.3-4). O orgulho e o egoísmo


trazem divisão. Para demonstrar o valor da humildade, Paulo usa a
pessoa de Cristo como exemplo (2.5-11). Afinal, não haveria exemplo
melhor. O texto do capítulo 2.5 a 11, nos mostra a trajetória de
Jesus. É um quadro de humilhação progressiva até a morte na cruz.
Em seguida, vem sua exaltação acima de toda a criação.

"Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada


qual também para o que é dos outros." (2.4). Cuide do problema do
seu irmão como se fosse seu, desde que não esteja havendo abuso
nem aconteça de você estar atrapalhando o crescimento da outra
pessoa. Ajude o seu próximo, mas, de preferência, ensine o seu
próximo a ajudar a si mesmo. Existe um momento em que devemos
carregar a carga uns dos outros (Gál.6.2) e outro momento em que
cada um deve levar sua própria carga (Gál.6.5). É preciso sabedoria
para discernir essas ocasiões e agir da maneira correta.
Epístola de Paulo aos
Colossenses

Autor: Paulo (e Timóteo). 1.1; 4.18.

Data: 60 ou 61 d.C.

Local: Prisão em Roma (4.3; 4.18).

Tema: A supremacia de Cristo

Classificação: cristologia (doutrina de Cristo).

Texto chave - 3.11.

A CIDADE DE COLOSSOS

Colossos ficava a sudoeste da Frígia, na Ásia Menor, às margens


do rio Lico. A cidade foi importante no século V a.C.. Depois foi
perdendo sua importância diante do crescimento de Laodicéia, a 18
km, e Hierápolis (Col.4.13). O livro de Apocalipse confirma que
Laodicéia era uma cidade rica (Ap.3.18).

Colossos perdeu sua importância devido à mudança no sistema


de estradas. Isso passou a beneficiar Laodicéia.

A cidade dos colossenses foi destruída no século 12 d.C..


Escavações arqueológicas realizadas em 1835 descobriram um teatro
e um cemitério da cidade.

FUNDAÇÃO DA IGREJA

A igreja em Colossos deve ter sido fundada por Epafras. Isso não
está claro no Novo Testamento, mas parece ser uma dedução
coerente com as palavras de Paulo (Col. 1.7,8). É provável que Paulo
nunca tenha estado em Colossos. Isso é deduzido de Col. 2.1. Apesar
de tantas questões incertas sobre a fundação da igreja, o que
sabemos com certeza é que a mesma estava sob a liderança de
Epafras, como também ocorria com as igrejas de Laodicéia e
Hierápolis (Col. 4.12-13). O texto de Colossenses 4 e também o de
Filemom 23 nos dão a entender que Epafras estava preso juntamente
com Paulo, quando este escreve as chamadas "epístolas da prisão":
Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Essa circunstância
comum às quatro cartas faz com que haja algumas semelhanças
entre elas, principalmente entre Efésios e Colossenses (Exemplo:
Ef.6.21-22 e Col. 4.7,9 e Fm.10,23,24.)

ESBOÇO

I - Introdução - 1.1-8

II - Oração pelos colossenses - 1.9-12. (por riquezas espirituais)

III - A excelência da pessoa e da obra de Cristo. - 1.13-23

IV - Trabalhos, sofrimentos e cuidado de Paulo pelos colossenses


- 1.24 a 2.7.

V - Exortação contra filosofias e heresias - 2.8-23.

VI - Exortação à santidade e ao amor fraternal - 3.1-17.

VII - Exortação quanto aos deveres domésticos,

à oração, e às relações sociais - 3.18 a 4.6

VIII - Conclusão e saudações - 4.7-18.

COMENTÁRIO

DIVISÃO DO LIVRO

Como já é comum no estilo paulino, a epístola apresenta duas


partes: doutrina (cap. 1 e 2) e aplicação prática (3 e 4). Paulo mostra
de modo bastante consciente o valor do conhecimento e da
experiência. Precisamos também valorizar as duas coisas, as quais
precisam andar juntas (Os.4.6; Tg.1.22). O conhecimento isolado é
inútil. Na oportunidade em que puder ser aplicado, então torna-se
proveitoso. Se conhecermos a doutrina mas não a colocarmos em
prática, a mesma será inútil. Por outro lado, a busca da experiência
por parte de quem despreza o conhecimento, torna-se uma aventura
perigosa. Quem busca apenas experiências espirituais e não quer
aprender nada sobre Deus e sobre a bíblia, poderá, eventualmente,
ter uma experiência com o inimigo e ser enganado. Observe em
Colossenses 2.18, que as visões podem estar ligadas ao engano.
Sabemos que Deus também dá visões (Joel 2.28), mas estas estarão
sempre coerentes com a bíblia. Portanto, o conhecimento será o filtro
para a experiência. O conhecimento é a base para o discernimento.
Em Mateus 4, Jesus, ao ser tentado, combateu o inimigo através da
Palavra de Deus, à qual Cristo conhecia de cor, sabendo também o
seu real significado.
Na parte prática, Paulo dá instruções para os pais, esposas,
maridos, filhos, servos e senhores. Orienta também em relação à
oração, à pureza e liberdade cristã.

O PROBLEMA DOS COLOSSENSES

JUDAÍSMO E GNOSTICISMO

Epafras levou ao conhecimento de Paulo a situação dos


Colossenses. O "relatório" apresentava dois aspectos importantes. Em
primeiro lugar, foi dado testemunho a respeito da fé, do amor e do
crescimento daquela igreja (1.4-8; 2.5). A outra informação dava
conta de que alguns líderes estavam se infiltrando na comunidade e
levando influências judaicas e filosóficas (2.8). Esses elementos
estavam se misturando e produzindo heresias. A parte filosófica em
questão era a doutrina dos gnósticos. Juntando tudo isso, os irmãos
estavam sendo pressionados em relação aos seguintes pontos:

 Valorização dos mistérios do gnosticismo.


 Adoração a anjos, aos quais os gnósticos atribuíam a obra
da criação.
 Ascetismo exterior: abstinência de comidas e bebidas
(influência gnóstica e judaica).
 Observância da lei mosaica (influência judaica).

- Prática da circuncisão.

- Comemoração das festas judaicas.

- Guarda do sábado.

Os gnósticos acreditavam que o mal estava ligado à matéria.


Este conceito produzia outros bastantes perigosos. Criam que, sendo
a matéria má, então não foi Deus quem a criou, mas sim os anjos. Se
a matéria é má, então a encarnação divina não poderia ser
considerada um fato nem uma possibilidade. Assim, estava criado um
sistema doutrinário que negava a divindade de Cristo e a obra da
cruz.

Apesar de não ser diretamente responsável pela igreja em


Colossos, Paulo reage energicamente contra aquelas heresias que
ameaçavam a sã doutrina. Em seu combate, Paulo destaca a
supremacia de Cristo. A sua divindade e a sua obra na cruz eram
elementos plenamente suficientes para a refutação de todos aqueles
ensinamentos judaicos e filosóficos (2.8-10). Se forma incisiva, Paulo
derruba todos aqueles sofismas. Ele destaca que o mistério que nos
interessa é Cristo, o qual já foi revelado a nós. Então, de nada
importam os mistérios gnósticos (Col. 1.26-27; 2.2-3; 4.3). Se
conhecemos a Cristo, não precisamos inquirir sobre nenhum outro
mistério religioso ou filosófico. O nome gnosticismo vem do termo
"gnose", que significa conhecimento. Paulo usa a mesma palavra para
mostrar que o conhecimento de Deus através de Cristo é suficiente
para suprir as necessidades espirituais do homem (Col. 1.9-10,27-
28; 2.2-3; 3.16)

O gnosticismo atribuía a criação aos anjos, colocando-os como


objeto de culto (2.18). A isso, Paulo combate ao dizer que Cristo,
sendo Deus, é o criador de todas as coisas, inclusive dos anjos (1.13-
17). Acrescenta ainda, que o Senhor Jesus está acima de todos os
poderes angelicais, sejam eles principados ou potestades, os quais
estão sujeitos ao senhorio de Cristo (2.10,15). Adorando anjos, os
gnósticos estavam, de fato, adorando demônios, pois os anjos de
Deus não recebem culto. Paulo associa os "anjos dos gnósticos" aos
demônios quando diz que Cristo despojou os principados e
potestades, expondo-os ao desprezo.

Com relação às questões judaicas, Paulo insiste naqueles pontos


já presentes nas outras epístolas. Cristo já nos resgatou do domínio
das exigências cerimoniais da lei. Ele a cravou na cruz (2.14). O
significado de Cristo em nós (1.27) supre totalmente o que
poderíamos buscar através da circuncisão (2.11; 3.11), ou das festas,
ou dos sábados (2.16-17). Já temos Cristo. Então não precisamos
mais desses elementos judaicos, os quais possuíram o seu valor
numa época em que Cristo não tinha vindo ao mundo. Paulo diz que
aqueles elementos do judaísmo eram "sombra". Cristo é a realidade.
Não precisamos mais da sombra. O autor da carta aos Hebreus usa a
mesma linguagem para comparar a lei e o judaísmo com a realidade
cristã (Hb.8.5; 10.1).

Os judaizantes e os gnósticos traziam um fardo de mandamentos


exteriores para os gentios convertidos ao cristianismo. Contudo, suas
leis atingiam apenas questões superficiais e até supérfluas. Afirmando
que a matéria é má, os gnósticos impunham severas regras de
alimentação e disciplina. Contudo, nada disso seria útil ao espírito.
Tal rigor poderia até ter utilidade para o corpo, mas era inútil para a
alma e não poderia ser colocado como questão espiritual, religiosa,
ou relacionada à salvação eterna. No capítulo 3, Paulo fala do que
realmente afeta a alma humana: o pecado. De que adiantariam
tantas ordenanças e rituais se o pecado continuasse ocorrendo
livremente. Então, o apóstolo toca no que realmente era importante
para os colossenses e continua importante para nós. Ao invés de ficar
preocupados com questões de alimentação, eles deviam se preocupar
em combater a prostituição, a avareza, a impureza, etc, pois estes
elementos atrairíam a ira de Deus sobre os homens (Col. 3.5-6).
Falando assim, Paulo mostra que, enquanto os gnósticos associavam
o mal à matéria, o mal está é no pecado, na natureza pecaminosa do
homem, e não na matéria em si.

O ATAQUE DE PAULO CONTRA AS HERESIAS

DESTAQUE PARA A SUPREMACIA DE CRISTO

A natureza de Cristo – Sua divindade e usa unidade com o Pai


- (Col. 1.15-19)

Imagem do Deus invisível – Col. 1.15.

Criador – Col. 1.16.

Mantenedor da criação – Col. 1.17.

A vinda de Cristo ao mundo e sua obra na cruz – (Col. 1.


20-23; 2.13-15).

Os colossenses precisavam ser conscientizados ou lembrados a


respeito da pessoa de Cristo, sua natureza e sua obra. A
periculosidade de muitas correntes filosóficas e religiosas reside no
fato de valorizarem muitos elementos, personagens, práticas e
conceitos, tirando assim a atenção e a fé que deveriam estar
concentradas na pessoa de Jesus. Ensinamentos, aparentemente
inofensivos, estarão causando danos profundos na alma humana. Por
exemplo, se começarmos a fazer do "pensamento positivo" a causa
do nosso sucesso, então estaremos, sutilmente, negando a Cristo.

Assim acontece também com aquelas pessoas que dizem


acreditar em Cristo, mas são devotas de uma série de "santos" ou
"guias". O acontece com elas? Fazem suas orações a Jesus? Não.
Acabam por ignorá-lo. Assim, de uma forma sutil, o diabo conseguiu
o seu objetivo. Aparentemente, ele não quer substituir Cristo, apenas
"acrescentar" um "personagem" aqui e outro ali. No final, Cristo já foi
substituído na vida de muitas pessoas.

Paulo colocou em destaque a natureza e a obra de Cristo. Sendo


quem ele é e tendo feito o que ele fez por nós, não precisamos de
nenhum outro "personagem" espiritual que venha nos oferecer
alguma coisa. Cristo é tudo o que precisamos para a nossa salvação.
Seus ensinamentos são os únicos que vão reger a nossa vida
espiritual. Nele estão todas as riquezas espirituais de Deus para os
seus filhos. (1.27; 2.2; 3.16).
Primeira Epístola de Paulo aos
Tessalonicenses

Autor: Paulo

Data : 50 ou 51 d.C.

Local de origem: Corinto

Tema principal: segunda vinda de Cristo.

Textos-chave (no final de cada capítulo): 1.10; 2.19-20; 3.13;


4.13-18; 5.23.

Classificação: escatologia.

Fundação

A igreja dos tessalonicenses foi fundada por Paulo em sua


ª
2 viagem missionária. Tendo se levantado grande perseguição contra
Paulo, este fugiu para Corinto. Depois Timóteo voltou a Tessalônica
para saber a situação da igreja afim de informar ao apóstolo. Alguns
irmãos haviam morrido e isso preocupava a igreja. Será que os
irmãos mortos ficariam para trás quando Jesus voltasse? Para
esclarecer o assunto, Paulo escreveu a primeira epístola aos
tessalonicenses.

Esboço

1 - Saudações, elogios e exortações - 1.1-10.

2 - O ministério de Paulo em Tessalônica – 2.1-20

3 - Alegria de Paulo com as notícias de Timóteo. 3.1-13

4 - Admoestações sobre questões morais - 4.1-12.

5 - A volta de Cristo, a ressurreição, o arrebatamento,

e a necessidade de vigilância. 4.13 a 5.24.

6 - Saudações finais - 5.25 -28.


Esboço comentado

1 - Saudações, elogios e exortações - 1.1-10.

Em sua introdução, Paulo elogia a igreja. Os motivos de elogio


são: a fé, o serviço, a influência exemplar, o abandono da idolatria, a
esperança, a paciência e receptividade à palavra. Observe o destaque
dado a questões espirituais.

O serviço, ou trabalho, está em destaque. Vejamos os verbos


empregados nos versículos 9 e 10 do capítulo 1: "Convertestes ....
para servirdes ..... e esperardes ..." 1.9-10. A preposição "para" nos
dá idéia de objetivo. Nós nos convertemos para servir e não para
sermos servidos. Estamos neste mundo para fazer a vontade Deus e
não para que ele faça a nossa. A igreja espera a segunda vinda de
Cristo (v.10), mas, não espera ociosa. Esperamos trabalhando.

A questão do exemplo também está em destaque. Paulo seguia o


exemplo de Cristo. Os tessalonicenses seguiam o exemplo de Paulo e
tornavam-se exemplo para as outras igrejas (1.6-8). Vemos então
uma seqüência de modelos que, assim como os tijolos de uma
construção, se sobrepõem e se sustentam. Está aí a importância de
nos mantermos em posição de firmeza espiritual. Se cairmos,
poderemos causar a queda de outros que se inspiram em nosso
exemplo.

2 - O ministério de Paulo em Tessalônica – 2.1-20

No capítulo 2, Paulo fala sobre seu ministério, irrepreensível e


baseado em boas motivações. Em suas cartas, muitas vezes o
apóstolo fala de seu trabalho nas igrejas. Embora pareça que o autor
está muito envolvido com sua própria biografia, isso é de grande
importância para nós pois, de outro modo, como teríamos acesso a
essas informações? A auto-apresentação de Paulo nos fornece muitos
parâmetros para os ministérios eclesiásticos da atualidade.

Sendo perseguido, o apóstolo não recuava, mas se tornava mais


ousado ao evangelizar (2.2).

3 - Alegria de Paulo com as notícias de Timóteo. 3.1-13

Paulo saiu de Tessalônica em meio a uma grande perseguição.


Ficou então preocupado com os novos convertidos daquela cidade.
Será que eles iriam permanecer firmes diante de tanta oposição?
Timóteo trouxe então notícias da firmeza espiritual dos
tessalonicenses. Isso foi motivo de grande alegria para o apóstolo.

4 - Admoestações sobre questões morais - 4.1-12.


A epístola nos mostra que a igreja dos tessalonicenses estava
bem. Contudo, Paulo diz que eles podiam alcançar um estado ainda
melhor (4.1,9,10). Sempre existe um nível superior a ser alcançado.
Além disso, o autor admoesta contra alguns riscos que poderiam
ameaçar a estabilidade espiritual daqueles irmãos. Por isso, o capítulo
4 toca na questão moral. A admoestação que se destaca é a que se
refere à prostituição. Entre tantos pecados que poderiam ser citados,
por quê Paulo mencionou a prostituição? Esse pecado é mencionado
de forma destacada em algumas partes das escrituras porque,
juntamente com o adultério, tem se mostrado uma das principais
causas de quedas e escândalos (Ap.2.14; I Cor.10.8; Jz.16.1,4;
At.15.20; I Cor.7.2).

O capítulo 4 enfatiza a santificação (4.3) pela observância de


alguns preceitos fundamentais.

- Abster-se da prostituição (4.3).

- Não enganar nem oprimir. (4.6).

- Amor fraternal (4.9).

- Cuidar dos próprios negócios (4.11).

- Trabalhar (4.11).

- Ser honesto (4.12).

Conseqüência: não ter necessidade (4.12).

Depois de apresentar mandamentos aos tessalonicenses, Paulo


diz: "Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes..." A parte dos
mandamentos nos admoesta à obediência. O versículo 13 do capítulo
4 nos chama a atenção para o valor do conhecimento. Sejamos
obedientes mas não ignorantes. Os tessalonicenses eram obedientes
mas não se destacavam pelo exame das escrituras (At.17.11). Isso
era um risco para aqueles irmãos. Quem é obediente e ao mesmo
tempo ignorante pode acabar obedecendo ordens contrárias à palavra
de Deus. Nesse texto específico, Paulo chama a atenção para o
conhecimento a respeito da segunda vinda de Cristo e os fatos a ela
relacionados. O objetivo era mostrar que os irmãos que haviam
morrido não ficariam para trás no dia do Senhor.

5 - A volta de Cristo, a ressurreição, o arrebatamento, e a


necessidade de vigilância. 4.13 a 5.24.

Nessa parte, temos um quadro escatológico resumido. Apesar de


breve, constitui-se uma passagem obrigatória para os estudiosos do
assunto. Paulo destaca a ordem cronológica dos fatos. A trombeta
tocará anunciando a chegada de Cristo. Nesse instante, os justos
mortos ressuscitarão. Em seguida, todos os salvos serão arrebatados
para encontrarem com o Senhor nos ares.

Na seqüência, o apóstolo adverte a respeito da necessidade de


vigilância enquanto Cristo não volta. Já que não se sabe o dia da sua
vinda, é necessário que a igreja esteja em constante vigilância para
que seja achada preparada no momento em que Jesus voltar. Assim,
o autor prescreve um estilo de vida apropriado para quem está
aguardando o Senhor.

Nós não estamos nas trevas (5.5). As trevas caracterizam a


condição daquele que é cego ou de quem está dormindo. A cegueira
representa a ignorância. O sono representa indiferença ou
incredulidade. Se temos conhecimento sobre os últimos dias, não
sejamos indiferentes ou incrédulos, pois assim, o conhecimento não
nos seria útil.

De acordo com o texto de I Tessalonicenses 4.13, precisamos


saber, precisamos do conhecimento. Porém, não saberemos tudo a
respeito da segunda vinda de Cristo (5.2). Está então demonstrado o
limite do nosso conhecimento e também o limite da nossa pregação e
da nossa profecia. Jamais poderemos dizer algo sobre uma possível
data da vinda de Cristo. Os que se atreveram a fazê-lo caíram em
descrédito e vergonha.

Portanto, "quando disserem: Há paz e segurança, então lhes


sobrevirá repentina destruição." (5.3). Muitos estão dizendo muitas
coisas por aí a respeito da vinda de Cristo e do fim do mundo. Alguns
marcam datas, outros negam que tais fatos venham ocorrer.
Acreditaremos? Se temos conhecimento e conhecemos bem o limite
do que podemos conhecer, então poderemos discernir o erro ou
identificá-lo.

O versículo 3 do capítulo 5 nos mostra ainda a impossibilidade da


paz mundial até que Cristo volte. Isso pode estar relacionado aos
conflitos do Oriente Médio, principalmente a Israel, cuja menção é
clara nas profecias dos combates escatológicos.

6 - Saudações finais - 5.25 -28.


Segunda Epístola de Paulo aos
Tessalonicenses

Autor: Paulo

Data : 51 d.C.

Local: Corinto.

Tema: 2a vinda de Cristo.

MOTIVO DA CARTA

Paulo escreveu a segunda epístola pouco tempo depois da


primeira. Os tessalonicenses ainda estavam confusos e perturbados
sobre os fatos dos últimos dias, "como se o dia de Cristo já tivesse
chegado." (2.2). Talvez tenham recebido uma falsa carta com o nome
de Paulo. Por isso, o apóstolo coloca sua assinatura em 3.17. Talvez
tenha havido um erro de interpretação dos ensinos da primeira
epístola. Observe que nela, o próprio Paulo se incluía no
arrebatamento da igreja: "Nós, os que ficarmos vivos..."(I Tss.4.17).

Alguns membros da igreja parecem ter deixado o trabalho,


considerando que a 2a vinda era iminente (3.6-12). Esse problema
pode ocorrer ainda hoje, e até de forma mais intensa. O cristão não
pode usar a segunda vinda de Cristo como uma desculpa para a
preguiça. Espere a sua vinda, mas espere trabalhando, afim de que
ele nos ache servindo bem (Lc.12.43).

Na primeira epístola, Paulo falou sobre a segunda vinda de


Cristo. Depois, escreveu a segunda para avisar que antes deveriam
ocorrer a manifestação do iníquo e a apostasia.

ESBOÇO

I - Introdução e saudações - 1.1-2.

II - A igreja dos tessalonicenses e a 2a vinda de Cristo - 1.3-12.

III - Os eventos que devem preceder a 2a vinda - 2.1-17.

IV - Exortações éticas e práticas à luz da 2a vinda - 3.1-15.


V - Saudação final - 3.16-18.

COMENTÁRIO

Novamente, Paulo faz elogios à igreja em relação à sua fé, seu


amor e firmeza no meio das tribulações. A tribulação pode tê-los feito
pensar que já se tratava da "grande tribulação" escatológica.

Capítulo 1 - A segunda vinda de Cristo

Ao introduzir o assunto da segunda vinda de Cristo, Paulo mostra


que ele trará recompensa para os justos e ímpios (1.6-10), os quais
serão encaminhados aos seus destinos eternos. Não se assombre
com a situação dos ímpios hoje (Sal.73). Sua eventual prosperidade é
passageira, mas sua perdição é eterna, a não ser que se convertam e
se salvem, motivos pelos quais a igreja deve trabalhar.

Capítulo 2 – A apostasia

Apostasia significa abandono da fé. O apóstolo sempre se


preocupava com a saúde doutrinária das igrejas, temendo que elas
fossem desviadas do caminho cristão (II Cor.11.3; I Tm.4.1; II
Tm.4.3). Afinal, não se tratava apenas de um temor mas de uma
certeza: a apostasia aconteceria. Mas.. que apostasia é essa? Em
todos os tempos houve quem se desviasse do caminho. Porém, o
desvio mencionado por Paulo parece assumir características
peculiares, talvez em função de sua profundidade doutrinária e da
quantidade de desviados. Há quem relacione tal apostasia ao
estabelecimento do catolicismo romano sobre as bases da verdadeira
igreja. O desvio da fé teria ocorrido mediante a imposição de
doutrinas estranhas aos ensinamentos de Cristo. Tal hipótese é digna
de reflexão.

Capítulo 2 – O iníquo

O homem da iniqüidade, mencionado por Paulo, é normalmente


identificado como o Anticristo. Paulo mesmo nunca usou essa
expressão em suas epístolas. João foi o único que falou
explicitamente em "anticristo" e "anticristos" (I Jo.2.18-22; 4.3; II
Jo.7). É bastante comum a posição dos comentaristas sobre a
identificação do anticristo no texto de II Tessalonicenses 2. Além
disso, as próprias editoras que imprimem a bíblia colocam tal
entendimento no título do capítulo.

Anticristo é, antes de tudo, um espírito, ou uma atitude contra


Cristo. Sob esse enfoque, João diz que "muitos anticristos têm
surgido". Uma forma de sua manifestação é a oposição a Cristo.
Outra maneira é a tentativa de se fazer passar por Cristo, tentando
assumir o seu lugar e tomar a sua honra.

A expectativa a respeito do Anticristo vem do Velho Testamento.


O reino do Messias deveria ser precedido por uma grande
manifestação maligna. Tal personagem é, muitas vezes identificado
como um homem, um grande líder político. Sob esse ponto de vista
são interpretadas algumas profecias do VT. O mesmo indivíduo é
simbolizado através da figura de animais. Estaria então relacionado
com pelo menos uma das bestas do Apocalipse. De acordo com a
visão escatológica pré-milenista, o Anticristo se manifestará e será
aceito pela nação de Israel como se fosse o Messias. Em seguida,
haveria um curto período de paz. Seu governo incluiría um rigoroso
controle econômico. Na seqüência, viria a grande tribulação, ainda
sob o domínio do Anticristo. Ao fim desse período haveria a segunda
vinda de Cristo e a destruição do iníquo.

Textos geralmente associados ao assunto: Ez.38 e 39; Dn. 7.9-


12; Dn.9.24-27; Dn. 11.21,36 a 12.2; Mt.24.5-30;
Apc.13.1,11,12,13; 19.19-20; Jo.5..43.

Os títulos do Anticristo:

Homem violento - Is.16.4.

Homem do pecado - II Tss.2.3.

O príncipe que há de vir - Dn.9.26

O rei do norte - Dn.11.40.

O angustiador - Is.51.13.

O filho da perdição - II Tss.2.3.

O iníquo - II Tss.2.8.

O mentiroso - I Jo.2.22.

O enganador - II Jo.7

O anticristo - I Jo.2.18,22; 4.3.

A besta - Apc.11.7; 13.1,7.

O rei feroz - Dn.8.23-25.


Muitas têm sido as tentativas de se identificar o Anticristo na
história. Grandes líderes mundiais têm sido apontados como possíveis
anticristos. Podem realmente ter sido no sentido lato mas não no
restrito. Se Hitler ou Napoleão tivessem sido o Anticristo, então Jesus
teria voltado naquela época.

O texto diz que algo ou alguém impede a manifestação do


Anticristo. Quem ou o quê o detém? Ninguém sabe dizer. As
especulações a esse respeito são tão variadas que há quem diga que
Satanás impede tal manifestação. Um grupo bem maior acredita que
o Espírito Santo o detém. No meio termo há quem proponha que o
empecilho seja o próprio Paulo, ou o Império Romano ou o
Imperador.

Suas ações - sinais e injustiça. Ele mostrará o poder do diabo


em ação. Embora muitos digam o contrário, o Diabo tem poder.
Ele pode fazer o que Deus permite que ele faça. O Diabo faz sinais. E
é importante que se diga que a realização de sinais não determinam
a origem divina de um fato ou a autoridade divina de um líder. O
Diabo faz sinais mas não ensina a justiça. O objetivo dos seus sinais
é manter o homem preso.

Assim aconteceu no Egito. O objetivo dos sinais dos magos de


Faraó era perpetuar a escravidão dos israelitas. Então, como vemos
hoje, o maligno oferece "trabalhos" para cura e "trabalhos" para
matar as pessoas; "trabalhos" para o sucesso e "trabalhos" para
tomar o cônjuge de outra pessoa.

Em II Tss. 2, temos a associação dos seguintes elementos: sinais


(poder) + mentira + engano + injustiça + iniqüidade. Daí a
importância de relacionarmos: poder (eventual manifestação) +
verdade (palavra / constante) + justiça (ação / constante).

Os judeus querem sinal: I Cor.1.22. Então, terão sinais. João


Batista não fez nenhum sinal mas tudo o que ele disse era verdade.
Os sinais são importantes, mas são secundários. Jesus falou sobre
sinais que seguiriam os que cressem (Mc.16). Não somos nós que
vamos seguir os sinais. A verdade está em primeiro lugar.

A identificação do Anticristo: O sinal, o número 666 e o seu


nome. Ap.13-16-17.

Sua destruição: aniquilado por Cristo, na sua 2a vinda.

Capítulo 3 – Exortações éticas e práticas


A ênfase nesse capítulo está sobre o trabalho. Não devemos usar
a expectativa da segunda vinda de Cristo como desculpa para a
preguiça, a ociosidade e a negligência.

Existe nesse ponto o risco de se adotarem posições extremas.

1 - Viver como se Cristo não fosse voltar. Isso poderia levar a


um comportamento errado como aconteceu com os israelitas quando
pensaram que Moisés não desceria mais do monte.

2 - Viver como se ele fosse voltar imediatamente.

É necessário que tenhamos uma postura equilibrada conjugando


fé, trabalho e vigilância.
Primeira Epístola de Paulo a
Timóteo

Autor: Paulo

Texto chave – 3.15.

Local: Macedônia.

Data: 64 d.C. (datas prováveis variam entre 64 e 67) (entre as


duas prisões em Roma).

Timóteo estava em Éfeso.

Essa foi uma das epístolas pastorais de Paulo (I Tm, Tt, II Tm.),
escrita com o objetivo de animar, estimular e instruir o jovem
Timóteo a respeito de questões bastante práticas. Com Paulo surgiu o
que poderíamos chamar de uma "escola ministerial". Paulo ensinou a
Timóteo que, por sua vez, deveria ensinar a outros e estes
continuariam a transmissão do ensinamento.

Timóteo

Seu nome significa: "que adora (ou honra) a Deus". Seu pai era
grego. Sua mãe (Eunice) e avó (Lóide) eram judias cristãs. Elas
foram o exemplo e a origem dos primeiros conhecimentos que
Timóteo recebeu a respeito de Deus. Quando Paulo esteve em Listra,
encontrou Timóteo, o qual passou a acompanhá-lo em suas viagens
(At.16.1; II Tm.1.5; 3.14-15).

Timóteo foi circuncidado por Paulo. Sua condição de filho de


grego não favorecia seu livre curso na comunidade judaica. Paulo
então o circuncidou. Tal ato faria com que ele fosse tratado como se
fosse um prosélito judaico (At.16.3).

Paulo o chama de filho amado. Diz que ele é fiel. Além de ter
sido companheiro de viagens de Paulo (2a e 3a viagens missionárias),
Timóteo foi enviado pelo apóstolo a vários lugares. (At.16.1-4;
17.13-15; 18.1,5; 19.22; 20.4; Rm.16.21; I Cor.16.10-11; II
Cor.1.1,19; Col.1.1; Fp.1.1; 2.19; Fm.1; I Tss.1.1; 3.2; II Tss.1.1; II
Tm.4.9,21). Por fim, foi encarregado de cuidar da igreja em Éfeso – I
Tm.3.2. Em alguma ocasião esteve preso e depois foi solto –
Hb.13.23. A tradição informa que Timóteo foi o 1o bispo de Éfeso. Se
for verdadeira a informação, então podemos vislumbrar a progressão
daquele ministro, que começando como evangelista, tornou-
se pastor da igreja de Éfeso e acabou chegando ao bispado (I
Tm.4.14; I Tm.1.3; II Tm.1.6; 4.5). Ainda, segundo a tradição,
Timóteo foi martirizado em Éfeso.

ESBOÇO

1 – Saudação – 1.1-2.

2 – A incumbência de opor-se aos falsos mestres – 1.3-11.

3 – O testemunho de Paulo – 1.12-17.

4 – Exortação a que se milite a boa milícia – 1.18-20.

5 – A oração – 2.1-8.

6 – Os deveres das mulheres cristãs – 2.9-15

7 – Oficiais da igreja – bispos e diáconos – 3.1-13.

8 – Admoestações contra a apostasia e as doutrinas de demônios


– 3.14 a 4.5.

9 – Instruções sobre a conduta do ministro – 4.6 a 6.19.

10 – O tratamento com os transgressores, as viúvas, os anciãos,


os escravos e os ricos. 5.1 a 6.19.

11 – Conclusão – 6.20-21.

Esboço comentado

1 – Saudação – 1.1-2.

2 – A incumbência de opor-se aos falsos mestres – 1.3-11.

Os gnósticos e os judaizantes estavam em plena atividade. Isso


se constituía em problema para a igreja. Paulo estava preocupado
com as falsas doutrinas e a futura apostasia.

3 – O testemunho de Paulo – 1.12-17.

Destacado como exemplo para Timóteo.

4 – Exortação a que se milite a boa milícia – 1.18-20.


A vida cristã e o ministério não são apresentados como meio de
enriquecimento nem como um descanso confortável. É uma milícia,
um combate constante.

5 – A oração – 2.1-8.

6 – Os deveres das mulheres cristãs – 2.9-15

(veja 3.11 e Rm.16.1 – mulheres no serviço da igreja).

(Confira com I Cor.11.3-16 e 14.34-40 e I Pd.3.1-6.

7 – Oficiais da igreja – bispos e diáconos – 3.1-13.

Paulo especifica qualificações, requisitos, o caráter, as


capacidades e os deveres dos líderes eclesiásticos. Isso era
extremamente necessário para que se evitasse a infiltração dos falsos
mestres na igreja.

8 – Admoestações contra a apostasia e as doutrinas de demônios


– 3.14 a 4.5.

Apesar de todo o cuidado de Paulo, o Espírito Santo já o tinha


avisado que a apostasia seria inevitável. As doutrinas de demônios
seriam adotadas por muitos. Observe as estratégias do maligno. Em
algumas circunstâncias ele quer nos fazer acreditar que tudo é
permitido. Em outros momentos, ele nos diz que não podemos fazer
nada. É o tipo de estratégia apresentada em I Tm.4.3: "Proibindo o
casamento e ordenando a abstinência de alimentos que Deus criou
para os fiéis."

É preciso preservar a liberdade cristã. Sem manipulações (4.1-


10). As necessidades básicas são legítimas, mas não podem nos
dominar através do excesso ou da licenciosidade.

9 – Instruções sobre a conduta do ministro – 4.6 a 6.19.

O valor do estudo e do ensino para combater o erro. (4.13).

Santidade pessoal. 4.11-16.

10 – O tratamento com os transgressores, as viúvas, os anciãos,


os escravos, os ricos. 5.1 a 6.19. Confira com Tito 1.10 a 3.11.

11 – Conclusão – 6.20-21.
Segunda Epístola de Paulo a
Timóteo

Autor: Paulo

Data: Entre 64 e 66 d.C.

Esboço

I – Saudações – 1.1-5

II – Incumbência para Timóteo: desperte o dom – 1.6-18.

III – 2a incumbência – seja forte – 2.1-19.

IV – 3a incumbência – seja vigilante – 2.20 a 3.17.

V - 4a incumbência – pregue a palavra – 4.1-8.

VI – Saudações finais – 4.9-22.

Comentário

Paulo se encontrava preso novamente em Roma. Dessa vez,


seria morto. Essa foi sua última epístola, embora não esteja em
último lugar na ordem adotada para o Novo Testamento. O apóstolo
demonstra coragem, mesmo estando consciente do seu destino (4.6-
8). Ele não se entrega a murmurações. Apenas relata que foi
abandonado por todos, exceto por Lucas (1.15; 4.11). Encontra-se
velho e teme pelo inverno que se aproxima. Pede que Timóteo vá ter
com ele levando sua capa e seus livros (4.13,21).

A segunda epístola tem muita semelhança com a primeira. Paulo


se aplica a encorajar Timóteo, orientado-o no que diz respeito à vida
cristã e ao ministério. Lembrando os ensinamentos que o jovem
pastor recebera na infância, bem como as profecias a respeito de seu
ministério e também sua consagração mediante a imposição de
mãos, o apóstolo o encoraja a assumir seu papel de obreiro de Deus.
A epístola fala dos desafios e da postura determinada do obreiro.
Timóteo deveria despertar o dom ministerial (1.6) e defender a sã
doutrina contra o erro (1.13).
Paulo compara o obreiro ao soldado (2.3). Na prisão, Paulo
estava cercado por soldados. Assim, observava a disciplina militar e
aplicava tudo isso à sua própria vida espiritual. Como um soldado, o
obreiro de Deus deve ser:

 Forte (2.1).
 Disciplinado.
 Submisso.
 Preparado para o combate.
 Firme e constante em seu objetivo, sem desistir.
 Vestido com a armadura de Deus (Ef.6.12-17).

O ministro é ainda comparado ao atleta (2.5), o qual persegue


um objetivo e para isso se aplica, se disciplina e de muitas coisas de
abstém (I Cor.9.24-27). A cultura grega havia valorizado muito o
atleta. Foi desse contexto que surgiram as olimpíadas em
homenagem aos deuses mitológicos.

Paulo também compara o obreiro de Deus a um lavrador (2.6),


com seu exemplo de trabalho e paciência na expectativa dos frutos
(Tg.5.7-8; Lc.9.62).

Utilizando de comparações, Paulo passa a Timóteo a orientação


para que ele fosse um ministro fiel, cuidando do rebanho, pregando e
sendo, antes de tudo, exemplo. Deveria também ser vigilante e evitar
contendas. De nada adiantaria se Timóteo fosse forte mas não
vigilante. Seria como um forte que está dormindo. Assim poderia ser
destruído.
Epístola de Paulo a Tito

Local de origem: Macedônia.

Data: Entre 64 e 66 d.C. Após a libertação de Paulo de sua


primeira prisão em Roma.

Essa é uma das epístolas pastorais. (Em ordem cronológica: I


Tm. Tito e II Tm.)

Tema: Organização da igreja e comportamento cristão.

Texto chave: 1.5

Classificação: eclesiologia.

TITO

Embora fosse grego, seu nome vem do latim e significa


"louvável". As referências a Tito no Novo Testamento apresentam seu
itinerário ministerial:

Tito 1.4 – Paulo o trata como "filho na fé", dando a entender que
sua conversão se deu mediante a pregação do apóstolo. Paulo
demonstra ligação espiritual e fraternal com Tito.

Gálatas 2.1,3 – Tito acompanhou Paulo na viagem a Jerusalém e


esteve presente no concílio de Atos 15, embora não tenha sido
mencionado naquele livro.

II Cor.2.13; 7.6-7; 7.13-15; 8.6; 8.16-18; 8.23-24; 12.18 – Tito


trabalhou em Corinto e levou relatório para Paulo sobre a situação da
igreja.

Tito 1.5 – Trabalhou também em Creta.

Tito 3.12 – Foi encontrar-se com Paulo em Nicópolis.

II Tm.4.10 – Trabalhou também na Dalmácia.

De acordo com a tradição, Tito se estabeleceu em Creta, ficando


ali até a sua velhice.

CRETA
É uma ilha do Mar Mediterrâneo, pertencente à Grécia e ao
continente europeu.

Passagens de Paulo por Creta – At.27.7-13,21 (A caminho da


prisão em Roma). Tito 1.5 (Fazendo trabalho missionário após sua
libertação).

Os cretenses eram imorais e preguiçosos. O Trabalho seria difícil


para Tito.

Seu poeta famoso, Epimênides (600 a.C.), foi citado por Paulo
(1.12).

Havia em Creta muitas cidades e, conseqüentemente, muitas


igrejas (1.5), as quais podem ter sido fundadas por Paulo, conforme
nos parece pela epístola. Entretanto, algumas podem ter surgido pela
ação de judeus convertidos no dia de Pentecostes (At.2.11).

ESBOÇO

1-Introdução – 1.1-4.

2 – Deveres e qualificações dos ministros – 1.5-9.

3 – Os falsos mestres – 1.10-16.

4 – Instruções em relação ao comportamento cristão – 2.1-10.

5 – A salvação – 2.11-15.

6 – A vida cristã na sociedade – 3.1-11.

7 – Conclusão – 3.12-15

ESBOÇO COMENTADO

1-Introdução – 1.1-4.

2 – Deveres e qualificações dos ministros – 1.5-9.

Essa parte é bastante semelhante à primeira epístola a Timóteo.


Apresenta requisitos para os obreiros da igreja.

1.5 - "Por esta causa te deixei em Creta". Se em algum


momento Tito se sentisse incomodado com os problemas das igrejas
e do povo de Creta, deveria então se lembrar das palavras do
apóstolo. "Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em
boa ordem o que ainda resta." Não devemos reclamar daquilo que faz
parte do propósito de Deus para nós. A situação em Creta poderia
não ser muito confortável para Tito mas, se tudo estivesse bem, sua
presença não seria necessária.

Tito recebeu a incumbência de constituir ministros. Observamos


nisso a capacidade de Tito e confiança de Paulo em sua pessoa.

3 – Os falsos mestres – 1.10-16.

Paulo demonstra novamente sua constante preocupação com os


falsos mestres e a saúde doutrinária das igrejas. Entre esses,
estavam "os da circuncisão" (1.10,14). Tal expressão designava os
judaizantes, aqueles que queriam impor a lei judaica sobre os gentios
convertidos ao cristianismo. Em 3.10-11, Paulo instrui Tito a como
tratar o herege, o qual deveria ter oportunidade, através de
admoestações. Contudo, isso também teria um limite: "Depois da
primeira e segunda admoestação, evita-o". Não devemos perder o
nosso tempo com discussões infindáveis sobre questões polêmicas.
Se não chegarmos a um acordo rapidamente, então não permitamos
que isso vire contenda (3.9).

4 – Instruções em relação ao comportamento cristão –


2.1-10.

Assim como ocorre em várias epístolas, Paulo apresenta


instruções práticas para a vida cristã. Ele se refere a várias classes de
pessoas que faziam parte da igreja. Sabendo que o povo de Creta era
imoral e preguiçoso, os convertidos deveriam ter um padrão de
comportamento diferente.

5 – A salvação – 2.11-15.

Como sempre, Paulo dedica parte de sua epístola para reforçar o


ensinamento a respeito dos fundamentos da fé cristã.

2.11 – Universalidade da graça divina: "a todos os homens".


Esse texto é um dos que derrubam a teoria da predestinação absoluta
para a salvação ou para a perdição.

2.13 – Divindade de Cristo.

2.14; 3.1,8,14 – Essas passagens destacam o valor das boas


obras, ou frutos do cristão. Não se trata apenas de obras de caridade,
mas ações justas de modo geral. A salvação é pela graça e pelo amor
de Deus (3.4-5), mas as boas obras acompanham a salvação. É o
testemunho diário do cristão.

6 – A vida cristã na sociedade – 3.1-11.


A epístola fala das relações na igreja, na família, no trabalho e
na sociedade. Em todos esses lugares existe o conceito de autoridade
e governo. O evangelho afetará todas as áreas da vida do convertido.

7 – Conclusão – 3.12-15

Paulo parece apressado ao escrever essa epístola. Não especifica


nomes na saudação e abrevia a benção final (3.15).
Epístola de Paulo a Filemom

Data: 60 ou 61 d.C.

Local: Roma. Epístolas da prisão: Ef. Col. Fm. Fp.

Tema: Retorno do escravo Onésimo.

Epístola de caráter pessoal.

FILEMOM

Era um homem rico da cidade de Colossos. Seu nome grego


significa "amável".

ESBOÇO

1 – Saudações e ações de graças – 1-7.

2 – Apelo de Paulo a favor de Onésimo – 8-21.

3 – Saudações finais – 22-25.

ESBOÇO COMENTADO

v.1,9,10,13 – Paulo estava velho e preso em Roma.

v.2 – Na casa de Filemom se reunia uma igreja. De acordo com


os comentaristas, Áfia seria o nome da esposa de Filemom e Arquipo,
seu filho.

v.8-20 – Retorno do escravo Onésimo.

Onésimo havia fugido para Roma. Era um escravo esperto e


visionário. Foi logo para a capital do Império. Talvez tenha furtado de
Filemom antes de fugir. Em Roma, encontra-se com o apóstolo Paulo
e se converte ao evangelho. Em seguida retorna a Colossos junto
com Tíquico, levando a carta a Filemom e também a epístola aos
Colossenses - Col.4.9.

O nome Onésimo significa "útil", exatamente o que não tinha


sido para Filemom, mas passaria a ser (v.11).

A carta enfatiza a transformação de uma vida. O convertido


precisa reparar o erro cometido, se isso for possível. Para Onésimo,
era possível voltar à casa do seu senhor. Portanto, devia fazê-lo.
Restituir o dinheiro furtado, entretanto, não era possível (v.18).

Nessa carta, chama-nos a atenção a questão da escravidão.


Paulo não condenou tal prática. Afinal, estava mandando o escravo
de volta ao seu dono. Temos uma idéia de escravidão muito
vinculada à prática portuguesa no Brasil. Entretanto, podemos
amenizar esse conceito quando estudamos a respeito da servidão
entre os judeus. Um judeu poderia se tornar escravo do outro como
forma de pagar uma dívida. O contexto de Onésimo não era judaico,
mas devemos observar que Paulo aconselhou Filemom a tratar o
escravo como um irmão amado. Então, o texto não está endossando
a prática de crueldades contra os escravos. Mesmo assim, a questão
parece não estar ainda resolvida. Talvez esperássemos que Paulo
"proclamasse a liberdade" de Onésimo. Contudo, não o fez. O fato é
que o evangelho não é uma metodologia de revolução social, mas de
revolução pessoal. Paulo não poderia simplesmente dizer que
Onésimo estava livre. Onde ele iria morar? Quem garantiria o seu
sustento. Então, o melhor a fazer era retornar à casa de Filemom.

Manter Onésimo como escravo é totalmente contrário à "teologia


da prosperidade" e a "teologia da libertação". Entretanto, o cristão só
não pode ser escravo do pecado nem do Diabo. (I Cor.7.20-21).
Escrevendo aos Coríntios, Paulo mostra que não importa se o cristão
é servo ou senhor. Contudo, se tiver oportunidade de se libertar, não
deve perdê-la. A libertação dos escravos era ideal e desejável.
Contudo, isso não poderia ocorrer de modo temerário, mas
dependeria da situação de cada um. Do mesmo modo, muitos
empregados hoje vivem em situação semelhante à de escravos. É
verdade que ganham o seu salário mensal, mas este é tão "mínimo"
que talvez fosse melhor morar na casa do patrão e ter roupa, comida
e um teto. Proclamar a libertação de Onésimo seria como dizer a um
empregado de hoje: "Saia desse serviço. Deus tem algo melhor para
você." Poderíamos fazer isso sem ter algo a oferecer para a pessoa?
Tal questão não pode ser definida através de uma regra, pois trata-se
de algo pertencente ao plano de Deus para cada cristão
individualmente. Acima de todas essas considerações, Deus tem todo
controle sobre a história e pode permitir ou encerrar os períodos de
escravidão de acordo com os seus soberanos e inescrutáveis
propósitos. Lembremo-nos de Israel, o povo de Deus, que foi
escravizado no Egito durante 430 anos, mas, no tempo certo foi
liberto pelo Senhor. Nada disso acontece sem um propósito e sem
uma razão, embora nem sempre a conheçamos.

v.17-19 – A epístola a Filemom mostra o empenho de Paulo a


favor de um escravo, a fim de que seu senhor o recebesse
pacificamente. O escravo convertido passa a ser chamado
de irmão amado(v.16), filho (v.10) e fiel (Col.4.9). É fácil ver alguém
se empenhando a favor dos abastados. Entretanto, o amor de Cristo
deve nos fazer agir a favor dos menos favorecidos.
Epístola aos Hebreus

Autoria : incerta. Paulo é um dos mais prováveis nomes


sugeridos.

Data : entre 60 e 70 d.C.

Local de origem: talvez Itália (Hb.13.24).

Tema principal: A superioridade de Cristo.

Palavra-chave: melhor (ou superior, ou mais excelente).

Classificação: cristologia

Destinatários: judeus cristãos que talvez residisssem em


Jerusalém.

O NOME DA EPÍSTOLA

"Hebreu" era o nome dados aos israelitas pelas nações vizinhas.


Talvez tenha derivado de Éber ou Héber, que significa "homem vindo
do outro lado do rio" (Jordão ou Eufrates) (Gn.10.21,24; 11.14-26;
14.13 Js.24.2). Abraão foi chamado de "hebreu".

Temos então várias designações para o mesmo povo:

- Hebreu: designa descendência.

- Israel: destaca o aspecto religioso.

- Judeu: da tribo de Judá ou habitante do reino de Judá.

Alguns desses termos foram mudando um pouco de sentido com


o passar do tempo. O "judeu" do Velho Testamento estava
estritamente ligado à tribo de Judá. Depois do cativeiro, a maior
parte dos que regressaram a Canaã eram da tribo de Judá. Então,
"judeu" tornou-se quase um sinônimo de israelita, já que quase todos
os israelitas eram judeus. O termo tem esse mesmo sentido genérico
até hoje.

O "hebreu" do Velho Testamento era todo indivíduo israelita. No


Novo Testamento, esse termo passa a designar mais especificamente
aquele israelita que fala aramaico e é mais apegado ao judaísmo
ortodoxo, em contraposição ao "helenista", que é o israelita que fala
grego e está mais influenciado pela cultura grega. Nesse sentido, veja
Filipenses 3.5 e II Coríntios 11.22, nos quais o apóstolo Paulo cita
com orgulho o fato de ser "hebreu" , assim como eram seus pais.

OS DESTINATÁRIOS

A epístola aos hebreus nos mostra que seus destinatários eram


judeus cristãos. Ao mesmo tempo em que o autor está se dirigindo a
pessoas convertidas a Cristo (Hb.10.19), ele dá a entender que elas
tinham um passado de vínculo com o judaísmo. Tais irmãos
pertenciam a uma igreja, cujos líderes são anonimamente
referenciados no capítulo 13 (versos 7, 17 e 24). A localização de tal
igreja é objeto de especulação por parte dos estudiosos e
comentaristas. As sugestões mais comuns são: Roma, Jerusalém,
Antioquia, Cesaréia e Alexandria. Como se vê, as possíveis cidades
eram grandes centros. Jerusalém e Cesaréia eram cidades da Judéia.
Nas outras localizavam-se grandes colônias judaicas. Naturalmente,
em todas elas havia igrejas locais que contavam com a presença de
muitos judeus cristãos.

AUTORIA

A epístola não apresenta o nome do seu autor. Muitos são os que


atribuem a Paulo sua escrita. Em alguns manuscritos antigos
encontra-se o título: "Epístola de Paulo aos Hebreus". Evidentemente,
o título traz a conclusão de algum copista ou autoridade religiosa,
visto que não faz parte do texto. Alguns "pais da igreja" atribuíam a
autoria a Paulo sem dificuldades. Os defensores dessa hipótese,
utilizam as palavras de Pedro em sua segunda epístola (3.15). A
passagem nos informa que Paulo escreveu aos judeus. Contudo, isso
não encerra a questão, pois tal escrito pode ter sido a chamada carta
aos hebreus, mas pode também ter sido outra. A referência que o
autor faz a Timóteo (Hb.13.23) também é usada como argumento.
Além disso, a epístola está dividida em dois blocos: doutrinário
(capítulos 1 a 11), e prático (capítulos 12 e 13). Isso nos lembra o
método paulino. No texto prático do capítulo 13, temos uma lista de
admoestações curtas, à maneira de Paulo. A doxologia (13.20-21) e a
bênção final (13.25) também reforçam a tese.

Os comentaristas que se opõem à autoria paulina, argumentam


sobre a diferença de estilo da carta aos Hebreus quando comparada
às epístolas paulinas. Alguns creditam a autoria a Barnabé, Lucas,
Apolo, ou Priscila.

DATA

A referência a Timóteo e ao fato de sua prisão fazem a datação


do livro se projetar para o final dos anos 60 do primeiro século. Já
que as epístolas paulinas não dizem que Timóteo tenha sido preso,
então é possível que a carta aos Hebreus tenha sido produzida depois
daquelas identificadas paulinas. O livro fala de um sacerdócio em
funcionamento no templo de Jerusalém (10.1,11; 9.6-8). Isso nos faz
concluir que o livro não pode ter sido escrito depois do ano 70, data
da destruição do templo. Portanto, a datação, embora indefinida, fica
entre 60 e 70 d.C.

CARACTERÍSTICAS

O livro tem teor cristológico, ou seja, apresenta um verdadeiro


tratado sobre a pessoa de Cristo, principalmente no que tange à sua
obra vicária.

O livro é apologético. Seu discurso é um forte pronunciamento


em defesa da fé cristã contra recuos ou desvios.

A carta aos Hebreus liga o Velho e o Novo Testamento de modo


brilhante. Temos na obra os seguintes confrontos:

- Valores da lei X valores da graça

- Símbolos X realidade

- Antiga aliança X nova aliança

- Passado X futuro (Hb.2.5)

TEMA

A superioridade de Cristo sobre os profetas, os anjos, a lei, sobre


Moisés, Josué, Aarão e sobre os sacerdotes (Hb.1.4; 6.9; 7.7,19,22;
8.6; 9.23; 10.34; 11.16,35,40; 12.24).

ESBOÇO

1 - A glória e a superioridade de Cristo - 1.1 a 4.13.

2 - O novo sacerdócio de Cristo - 4.14 a 8.13.

3 - Contraste entre o velho e o novo - 9.1 a 10.39.

4 - A glória da fé - 11.1-40.

5 - A vida de fé - 12.1 a 13.25.

O PROBLEMA - ENTRE O PASSADO E O FUTURO.


Lendo a epístola, podemos delinear o problema que deu ensejo à
sua produção. Os hebreus, a quem a carta foi destinada, eram judeus
que, tendo se convertido ao cristianismo, se sentiam tentados a
recuar, retornando ao judaísmo. Estavam em uma situação de
paralisação espiritual. Viviam em um dilema e, com isso, não
cresciam espiritualmente (Hb.5.11-14). O autor escreveu para
mostrar a esses irmãos que eles estavam livres da antiga aliança. Tal
propósito era de grande envergadura. Se já era difícil provar aos
gentios convertidos que eles não precisavam observar a lei, quão
árdua seria a tarefa de demonstrar o mesmo princípio para judeus
cristãos! Eles estavam presos ao passado, assim como acontece hoje
com alguns cristãos que querem obedecer a lei de Moisés. As
realidades da graça já eram presentes. Contudo, ainda se
encontravam no futuro para aqueles que hesitavam em relação à
apropriação das mesmas.

O PASSADO O PRESENTE / FUTURO


Lei Graça, evangelho
Valores da lei Valores da graça
Templo (material) Igreja (espiritual)
Personagens: Moisés, Aarão, profetas, Jesus e o Espírito Santo
anjos
Símbolos Realidades
Sombras Realidades
O visível O invisível
Aparência Essência
Material Espiritual
Transitório Permanente
Temporário Eterno
Realidade física Realidade espiritual
Cópia Modelo original
Figura Verdadeiro
Antiquado, envelhecido Novo
Terreno Celestial

Diversos elementos da Velha Aliança podem ser comparados à


maquete de uma obra futura. Diante daquele modelo, todos ficam
entusiasmados e esperançosos. É o que existe de mais semelhante ao
resultado almejado. Depois que a obra é realizada, então o apego à
maquete torna-se motivo de zombaria. A obra de Cristo está
consumada. Não precisamos mais ficar apegados aos símbolos do
passado que apontavam para Cristo. Seria como ficar extasiado
diante de uma placa indicativa ao invés de se dirigir ao lugar que ela
aponta. Paulo diz que a lei era o aio que nos conduziu a Cristo. O aio
era o servo que levava a criança para a escola. Lá chegando, o
interesse se voltava para o mestre. Se encontramos o Mestre Jesus,
já não faz sentido o apego ao aio lei.

A situação dos hebreus foi ilustrada através de uma etapa de sua


própria história. O autor demonstra que, assim como seus
antepassados estavam no deserto, hesitando diante de Canaã
(Hb.4.1), os hebreus estavam hesitantes diante da graça de Deus e
seus benefícios. O livro admoesta radicalmente a respeito dos riscos
representados pelo retrocesso, pela apostasia (Hb.4.1; 6.1-6; 10.38-
39). O desvio encontra-se relacionado à incredulidade, desobediência
e rebelião (Hb.2.1-3; 3.12,16-19; 4.11). Em lugar do desvio, os
hebreus são aconselhados a avançar com ousadia (Hb.10,19).

O aspecto cerimonial da velha aliança era algo grandioso. Como


exemplo, podemos citar a grandeza do templo e os belos trajes
sacerdotais. Diante de tudo isso, a igreja aparece como algo muito
simples. Ela não precisa de um templo, embora possa utilizá-lo. Seus
ministros não precisam de belas vestes para a direção do culto. A
igreja do Senhor Jesus encontra-se onde estiverem dois ou três
reunidos em nome do Senhor. É tudo tão simples que poderia parecer
vazio aos olhos dos hebreus. Eles ainda estavam apegados ao templo
judaico, mas precisavam se acostumar a viver sem ele, pois sua
destruição estava bem próxima (Hb.8.13 ?).

O VISÍVEL E O INVISÍVEL (Aparência x essência)

Os hebreus estavam muito apegados aos aspectos visíveis do


judaísmo. Aliás, o ser humano, em geral, tem essa tendência. Por
isso é que muitos objetos acabam sendo incorporados à prática
religiosa que, em princípio, é essencialmente espiritual. Na igreja,
podemos usar recursos visíveis, uma vez que a Bíblia nos dá
exemplos disso. Os lenços de Paulo curavam (At.) Contudo,
precisamos ter cuidado para não elaborarmos doutrinas e
condicionamentos para a nossa fé.

No Velho Testamento, Deus usa recursos visíveis com restrições.


Ele mandou fazer a arca da aliança, a serpente de bronze e outros
objetos, mas proibiu a fabricação de imagens de escultura como
representação de Deus ou de deuses (Dt 4.12, 15-19).

Deus pode usar o visível, mas "bem-aventurados os que não


viram e creram" (João 20.29). A experiência de Tomé, ao ver o
Senhor Jesus ressuscitado, foi autêntica, maravilhosa, importante,
mas melhor seria se ele não tivesse dependido disso. Sua fé não foi
suficiente.

Em Mateus 8.5-10, temos o elogio de Jesus ao centurião que não


dependia nem da presença física do Mestre para que seu servo fosse
curado. Jesus disse que nem em Israel havia encontrado tanta fé.
Quanto mais dependentes nós formos de elementos visíveis para
sermos curados ou abençoados, menor é a nossa fé. Recursos, tais
como objetos ungidos, podem até ser importantes para os neófitos na
fé, mas devem ser abandonados na medida em que vai se chegando
à maturidade espiritual. Não podemos fazer de um objeto ungido um
amuleto.

O autor aos hebreus se esforçava por conduzi-los a um novo


nível, em que não dependeriam de objetos sagrados, lugares físicos
ou sacerdotes terrenos.

O autor coloca em destaque: a fé. O capítulo 11, tão utilizado


quando se estuda sobre a fé, ali está com esse objetivo: mostrar aos
hebreus que até mesmo seus antepassados, os pais, juízes e
profetas, viveram e serviram a Deus e venceram pela fé e não por
vista. Portanto, convinha que os hebreus seguissem tal exemplo e se
desvencilhassem de toda dependência visual contida no cerimonial
judaico.

Hb.11.1 - A fé é a certeza das coisas que não se vêem. Os


leitores precisavam entrar nessa nova realidade. Não podiam mais
depender da aparência. O autor enfatiza que tudo o que vemos foi
feito do que não é aparente. Logo, o invisível é anterior e superior ao
visível. O visível é a aparência das coisas. É algo que impressiona as
pessoas e causa emoções e reações. Muitas religiões usam de grande
pompa para impressionar seus fiéis. Com isso, passam a idéia de
uma essência que, de fato, não existe. As pinturas, esculturas, a
arquitetura e a música são alguns elementos que ajudam a montar
um cenário impressionante, mas não constituem essência espiritual
(Obs. II Tm.3.5).

O mundo espiritual é invisível para nós hoje, mas um dia


poderemos vê-lo. Hoje, podemos falar apenas de uma "visão
espiritual", como acontecia com os patriarcas (Hb.11.13,26,27). Pela
fé, "vemos" o cumprimento das promessas. Um dia porém, Cristo
aparecerá (Hb.9.28). Então, o invisível se tornará visível.

TERRA E CÉU

Utilizando os termos "terra" e "céu", o autor tenta fazer com que


seus destinatários "mudem o foco" de sua espiritualidade.
Jesus já havia apresentado essa ênfase em sua mensagem ao
ensinar sobre o Reino dos céus, tesouro nos céus, Pai nosso que
estais no céu, assim na terra como no céu. Qual é a ênfase do nosso
evangelho: a terra ou o céu? Valores terrenos ou valores celestiais?

Hb. 1.10 - Terra e céu.

Hb. 4.14 - Penetrou nos céus

Hb. 7.26 - Mais sublime que os céus.

Hb. 8.1 - Assentou nos céus.

Hb. 9.23 - Figura das coisas que estão no céu.

Hb. 9.24 - santuário no céu.

Hb. 12.23 - Primogênitos inscritos nos céus.

Hb. 12.25 - Aquele que é dos céus.

Hb. 12.26 - Terra e céus.

A realidade celestial

3.1 - Vocação celestial (passado). Deus nos chama.

6.4 - dom celestial (presente). Deus nos capacita.

8.5 - coisas celestiais (embora já existam, são futuras para nós).

9.23 - coisas celestiais (futuras para nós).

11.16 - pátria celestial (futura para nós).

12.22 - Jerusalém celestial. (futura para nós).

Para o escritor aos hebreus, o céu não é um lugar vazio, envolto


em névoa branca. Ele fala de uma cidade celestial, de um santuário
celestial e coisas celestiais, as quais se constituem em mistério para
nós. Em destaque está o santuário celestial, o qual foi visto por
Moisés no monte e serviu de modelo para a construção do santuário
terreno. Portanto, os hebreus não deveriam ficar apegados ao
terreno, mas sim ao santuário celestial, onde Cristo entrou depois de
oferecer sua própria vida como sacrifício.

A SOLUÇÃO
O problema dos hebreus consistia no apego a algo bom. Como
disse o apóstolo Paulo em Romanos 7, "a lei é santa e o mandamento
é santo, justo e bom". O apego ao que é bom pode nos privar daquilo
que é melhor. A epístola vem mostrar "o melhor" para os hebreus.
Esta é a palavra chave da carta. As expressões "superior", ou "tão
superior", ou "maior" ou "mais excelente", variando conforme a
tradução, também são freqüentes e demonstram o pensamento do
autor no seu esforço por apresentar a superioridade de Cristo e do
evangelho no confronto com a lei e a velha aliança.

Melhor: Hb.1.1-4; 6.9; 7.4,19-22; 8.6; 9.23; 10.34; 11.16;


11.35; 11.40; 12.24;

Tão superior: Hb.1.4

Maior: Hb.3.3; 7.7; 9.11; 10.29; 11.26;

Mais excelente: Hb.1.4; 8.6; 11.4.

As expressões "tão superior" e "mais excelente" contém uma


ênfase muito forte. Bastaria dizer que Cristo é superior ou excelente.
Contudo, o autor utiliza uma terminologia que demonstra a
insuperabilidade do Senhor Jesus.

A palavra de Deus nos convida à excelência (I Cor.12.31). Não


devemos, pois, ter uma atitude comodista, mesmo que nossa
situação espiritual seja boa. "Quem é santo, seja santificado ainda."
(Ap.22.11). Avance, suba, progrida. Não existem limites para a nossa
experiência com Deus.

Mostrar algo melhor para um povo que já tem um pacto com


Deus é um desafio muito grande. Contudo, o autor se saiu muito bem
na produção de sua apologia. Seu argumento central é a
apresentação da pessoa de Jesus. É verdade que ele estava
escrevendo para cristãos, pessoas que já conheciam a Cristo. Porém,
ainda não haviam compreendido plenamente sua personalidade e sua
obra.

Os hebreus estavam ainda apegados aos personagens do Velho


Testamento: Abraão, Moisés, Aarão, Josué, Davi, profetas, anjos, etc.
Então, a epístola apresenta afirmações contundentes sobre Cristo. Ele
é apresentado como:

 Filho de Deus - Hb.1.1; 4.14.


 Sumo sacerdote - Hb.6.20
 Autor da salvação - Hb.2.10.
 Autor e consumador da fé. - Hb.12.2. etc.
Tais afirmações destroem qualquer tentativa de comparação ou
desejo de exaltação de homens ou anjos. Todos se reduzem
drasticamente diante da grandeza do Senhor Jesus Cristo. Sendo
assim, a graça por ele oferecida, a nova aliança, o evangelho e a
igreja, estão suficientemente afiançadas para que sejam aceitos sem
hesitação. Jesus é o fiador e o mediador da nova aliança (Hb.7.22;
9.15).

Na apresentação da superioridade de Cristo, apresenta-se um


paradoxo. Os grandes, na concepção humana, são exaltados,
servidos, obedecidos e fazem sofrer. Jesus, o maior, foi humilhado,
servo, obediente e sofredor. Contudo, todo o seu sofrimento era
necessário para ser nosso legítimo representante no exercício do seu
sacerdócio (Hb.2.14-18).

Ao se falar no sacerdócio de Cristo, os hebreus poderiam


levantar o seguinte questionamento: Como Cristo poderia ser sumo
sacerdote tendo nascido da tribo de Judá? Os sacerdotes vinham da
tribo de Levi. Por isso, o autor diz que Cristo era sumo sacerdote da
ordem de Melquisedeque, a qual é anterior e superior à ordem de
Aarão, que descendia de Levi.

Para que o impasse dos hebreus se resolvesse, eles deveriam


entrar na nova realidade apresentada por Cristo: a nova aliança com
Deus. A nova realidade é acessada por meio da fé. De fato, sendo
judeus convertidos, eles criam em Cristo, mas ainda não usufruíam
de todos os recursos da graça.

FUNDAMENTOS DA NOVA PROPOSTA

A fé e o invisível podem parecer propostas bastante vagas e


propiciadoras de infinita especulação imaginativa. Já que o objeto da
fé é invisível, então qualquer sugestão pode ser aceita, mesmo que
seja algo inexistente? De fato, é o que ocorrido muitas vezes.
Homens influentes acabam por convencer muitas pessoas a respeito
de uma suposta realidade espiritual. Assim, surgem muitas religiões e
seitas. Outras vezes, tal realidade é um fato, mas pertence ao
domínio do mal.

Diante disso, perguntamos: qual é o fundamento da nossa fé? A


fé é o fundamento das coisas que se esperam (Hb.11.1) e o
fundamento da fé é a palavra de Deus. "A fé vem pelo ouvir... a
palavra de Deus". (Rm.10.17). O autor da epístola aos Hebreus faz
então um exame de toda a estrutura cristã, a qual poderíamos
comparar a uma construção, onde cada parte está firmada sobre a
anterior, que, por sua vez, precisa ser sólida e bem fundamentada.
O fundamento da nossa fé é aquilo em que nós cremos. Pela fé
aguardamos que um fato aconteça. Então vem a questão crucial: o
fato que se espera foi prometido por Deus? Se a resposta for positiva,
então nossa fé está fundamentada na promessa, na palavra de Deus.
Se a resposta for negativa, então estamos esperando algo que não
virá.

Quando Pedro andou sobre as águas, seu passo de fé estava


firmado na palavra de Jesus que lhe disse: Vem! O mesmo ocorreu
na pesca milagrosa. Pedro disse: "Sobre a tua palavra lançarei as
redes." (Lc.5.5).

Muitas pessoas dizem crer em algo apenas porque isso


corresponde ao seu desejo pessoal. Se tal realização estiver no
âmbito das possibilidades humanas, então pode mesmo acontecer,
mas se depender de uma ação de Deus, então precisa estar
fundamentada na palavra de Deus. Além da palavra escrita na Bíblia,
Deus pode nos falar de modo específico, visando situações
particulares da nossa vida.

Quando se faz um exercício de fé sem uma palavra de Deus


como base, o resultado pode ser a frustração.

Havendo fé na palavra dita por Deus, ainda cabe, em muitos


casos, a ação humana coerente com a palavra. É a obediência.
Algumas profecias divinas são absolutas e incondicionais. Vão
acontecer de qualquer forma. Outras vêm acompanhadas de uma
ordem ou mandamento e estão condicionadas à obediência. Por
exemplo, a promessa de Deus a Abraão estava ligada a uma ordem:
"Sai da tua terra e da tua parentela." Sobre esta palavra, Abraão
depositou sua fé e acrescentou a obediência. Abraão saiu sem saber
para onde ia. Desse modo, "o que se espera" (Hb.11.1) vem. "O que
há de vir virá e não tardará." (Hb.10.37). Se, por outro lado, formos
incrédulos e desobedecermos à palavra, estaremos também juntando
elementos que trarão o castigo, que também é um cumprimento da
palavra de Deus. Contudo, sempre há um tempo para o
arrependimento e a retomada do rumo certo.

Para ilustrar o conceito dos fundamentos, construímos o quadro


a seguir:
O que você espera... virá???

O que você não vê... existe??

Sua fé tem base na palavra de Deus ou base na imaginação


humana?

Tem base na vontade de Deus ou na vontade humana?

Seu fundamento é rocha ou areia? Jesus comparou sua palavra à


rocha (Mt.7.24). A obediência, que pressupõe fé, seria a construção
sobre a palavra. A desobediência também seria um tipo de
construção, destinada a ruir sobre o seu construtor.

A palavra é verdadeira, mas sem fé ou sem obediência não


produz o efeito desejado (Hb.3,18,19; 4.1,2,11). Aqui temos um lado
positivo e um lado negativo. No esquema abaixo, temos o vazio de
uma falsa fé ou uma falsa palavra.
Poderíamos desenhar um esquema semelhante a este em
representação de questões legítimas de execução da vontade humana
no mundo natural. Nesse caso não incluiríamos o diabo. O homem
pode ter seus desejos, fazer seus planos, empenhar sua palavra,
promover suas ações e fazer com que o que se espera venha a se
concretizar. Contudo, isso não funciona do mesmo modo no mundo
espiritual, a não ser que a vontade de Deus seja a base (I Jo.5.14-
15). Podemos aplicar fé sobre tudo que pedimos a Deus? Apenas
quando o nosso pedido estiver coerente com a sua palavra. Algumas
vezes pedimos algo que não está contra a Bíblia, mas pode estar
contra o plano específico de Deus para cada um de nós. Por exemplo,
se alguém pede que Deus lhe dê riqueza, isso não está contra a
Bíblia. Por outro lado, o Senhor nunca prometeu que todos os seus
filhos seriam ricos materialmente. Se alguém pede, deve fazê-lo com
fé. Porém, se tal pessoa não tiver recebido uma palavra específica de
Deus, então sua fé pode ser como uma parede construída sobre a
areia. Veja como foi diferente o caso de Salomão. Deus lhe disse:
"Pede-me o que quiseres." Então, se ele tivesse pedido riqueza, sua
fé estaria totalmente fundamentada. Fez melhor pedindo sabedoria. É
o que precisamos para fazermos os próximos pedidos.

Às vezes pensamos que estamos fundamentados na palavra


quando, na realidade, trata-se de um falso entendimento da mesma.
Por exemplo, em Atos 16.31 Paulo disse: "Crê no Senhor Jesus e
serás salvo, tu e a tua casa." Muitos usam esse versículo para
esperar ou "cobrar" de Deus a salvação da família. Contudo, tal
palavra foi dirigida especificamente ao carcereiro de Filipos e não se
trata de uma doutrina, a qual possa ser aplicada genericamente. Um
entendimento errado conduzirá à frustração. Toda a minha família
pode se converter ao Senhor, mas isso não tem nada a ver com Atos
16.31, pois aquele texto não traz uma promessa para nós. O própria
Paulo escreveu aos Coríntios: "Como sabes tu, ó mulher, se salvarás
teu marido? ou, como sabes tu, ó marido, se salvarás tua mulher?" (I
Cor.7.16). No caso do carcereiro, creio que Paulo falou por uma
revelação específica destinada àquela família. O mesmo Deus pode
revelar hoje. Só não podemos fazer uma regra a esse respeito.

Quando Pedro andou sobre as águas, a palavra de Jesus foi


dirigida especificamente a ele. Os outros discípulos não poderiam
descer do barco. Nós também não estamos autorizados a fazer
viagens a pé pelo oceano.

Muitos citam Mateus 6.33 da seguinte forma: "Buscai primeiro o


reino de Deus e a sua justiça e as outras coisas vos serão
acrescentadas." Desse modo, poderíamos esperar de Deus tudo o que
pudéssemos pedir e imaginar. Essa distorção às vezes acontece
quando se fazem músicas com os versículos. Para encaixar na
melodia, o versículo é mudado. Então as pessoas aprendem dessa
forma. Contudo, a Bíblia diz: "Buscai primeiro o reino de Deus e a sua
justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas." O significado é
bem mais restrito do que normalmente se diz. "Estas coisas" são as
que Jesus mencionou no versículo 25: comida, bebida e vestuário. É
verdade que Deus pode nos dar infinitamente mais. Contudo, o
versículo não está prometendo isso. Não podemos ver ali casas
luxuosas, carros, navios, empresas, etc. Seria muita criatividade da
nossa parte.

A fé precisa estar fundamentada na palavra. Precisamos,


portanto, entender a palavra (Dn.10.1) e saber a quem ela foi
dirigida.

Observe que, em Hebreus, a "palavra", ou "promessa", ocupam


lugar de destaque. A "fé" e a "esperança" do mesmo modo. A
"incredulidade" é condenada. Nesse caso, a fé na promessa é
substituída pela fé no castigo, a qual é chamada de "expectação
terrível" (Hb.10.27).

Vejamos as ocorrências dessas palavras e outras derivadas no


texto:

Palavra(s) - Hb.1.3; 2.2; 4.2,12; 5.13; 6.5; 7.28; 10.28; 11.3;


12.19,27; 13.7,22. Temos nessas passagens, quase sempre, a
palavra de Deus. Aparecem também as palavras dos anjos, das
testemunhas e do próprio autor da carta.

Promessa(s) - Hb.4.1; 6.12,13,15,17; 7.6; 8.6; 9.15; 10.23,36;


11.9,13,17,33,39.

Prometido - Hb.11.11; 12.26.

Fé - Hb.4.2-3; 6.1,12; 10.22,38; 11.1,3,4-9,11,13,17,20-


25,27,29-31,33,39; 12.2; 13.7.

Creia - Hb.11.6.

Esperança - Hb.3.6; 6.11,18; 7.19; 10.23.

Esperando - Hb.6.15

Esperam - Hb.9.28; 11.1.

Esperando - Hb.10.13.

Esperava - Hb.11.10.

Expectação - Hb.10.27.
Incredulidade - Hb.3.12,19

Obediência - Hb.5.8.

Desobediência e desobedientes - Hb.2.2; 3.18; 4.6,11; 11.31.

Para os irmãos do primeiro século, a palavra escrita de Deus era


apenas o Velho Testamento. A carta aos hebreus está bem
fundamentada nessa porção das Escrituras. Afinal, não pretende
negar o Velho Testamento, e sim mostrar o seu cumprimento em
Cristo e no evangelho.

CITAÇÕES DO V.T. NA EPÍSTOLA AOS HEBREUS

Hebreus Velho Testamento


1.5 a Salmo 2.7
1.5 b I Samuel 7.14; I Crônicas 17.13
1.6 ?
1.7 Salmo 104.4
1.8-9 Salmo 45.6-7
1.10-13 Salmo 102.25-27
2.6-8 Salmo 8.4-6
2.12 Salmo 22.22
2.13 Isaías 8.17-18
3.7-11 Salmo 95.7-11
3.15 Salmo 95.7-8
4.3 Salmo 95.11
4.4 Gênesis 2.2
4.5 Salmo 95.11
4.7 Salmo 95.7-8
5.5 Salmo 2.7
5.6 Salmo 110.4
6.14 Gênesis 22.16-17
7.17 Salmo 110.4
7.21 Salmo 110.4
8.8-12 Jeremias 31.31-34
10.5-9 Salmo 40.6-8
10.16-17 Jeremias 31.33-34
10.30 Deuteronômio 32.35
10.37-38 Habacuque 2.3-4
11.4-37 Diversos episódios do VT
12.5-6 Provérbios 3.11-12
12.20 Êxodo 19.12-13
12.26 Ageu 2.6
13.5 Deut.31.6-8; Josué 1.5
13.6 Salmo 118.6

É digna de destaque a leitura messiânica que o autor faz dos


textos citados. Temos, portanto, sólida base, para ver Cristo no Velho
Testamento. É bastante forte a expressão do autor ao escrever:
"Assim, pois, como diz o Espírito Santo." (3.7-11). As palavras
seguintes são do Salmo 95, escrito por Davi. Notamos então que o
autor reconhecia e declarava claramente que o salmo foi inspirado
pelo Espírito Santo, ou podemos até dizer, "ditado" por ele. Tal
reconhecimento é óbvio, mas é bom sabermos que o texto está
mostrando isso, de modo que temos uma prova inequívoca de tal
afirmação.

EXORTAÇÕES

O autor da epístola mostra o problema dos Hebreus e a solução


necessária. Se conhecemos a doença e o remédio, o que nos resta? O
tratamento. Da mesma forma, o escritor apresenta diversas
exortações aos seus leitores. Não basta saber. É preciso fazer
algumas coisas, enquanto outras são evitadas. As exortações são
expressões imperativas que pretendem induzir à ação, ao
movimento, à iniciativa. Existem atitudes a serem tomadas e acões a
serem executadas em relação ao passado e ao futuro. O passado
precisa ser abandonado. O futuro precisa ser focalizado, crido e
realizado.

Se alguém se encontra à beira de um abismo, diversas


orientações podem ser dadas. Poderíamos dizer: "Não se mova!
Acalme-se! Vire-se lentamente! Dê um passo! Agora ande mais
rápido! Corra!" A primeira preocupação é evitar o pior, evitar a
queda. Depois procuramos mudar a situação, eliminar o risco,
colocando a pessoa a salvo.

Do mesmo modo, a epístola contém exortações que podem ser


agrupadas da seguinte forma:
Para evitar o pior Para deixar o Para conquistar o
passado presente /futuro
Não abandone - Deixemos - Esforcemo-nos por entrar -
Hb.10.25 Hb.12.1 Hb.4.11
Não se endureça - Saiamos - Cheguemo-nos - Hb.4.16
Hb.3.8 Hb.13.13
Temamos - Hb.4.1 Tendo intrepidez para
entrar - Hb.10.19
Aproximemo-nos -
Hb.10.22
Guardemos - Hb.10.23
Consideremo-nos -
Hb.10.24
Corramos - Hb.12.1
Prossigamos - Hb.6.1
Sirvamos - Hb.12.28
Ofereçamos - Hb.13.15
Conservemos - Hb.4.14
Retenhamos - Hb.12.28
Apeguemos - Hb.2.1

Seja qual for a sua situação, "não abandone a congregação",


"nem endureça o coração". Pior do que cair é desistir de caminhar.
Não fique indiferente, como se nada estivesse acontecendo. Pelo
contrário, reconheça sua posição de risco e "tema" pelo mal que pode
vir. Até agora, estamos tratando com atitudes. Observadas tais
admoestações, outras atitudes devem ser tomadas. Existe um
passado a ser deixado. O pecado e o embaraço precisam ser
abandonados a fim de que, livres de todo peso, possamos avançar na
direção que o Senhor nos apresenta. Os hebreus precisavam sair de
uma situação indesejável e entrar na nova realidade proposta.

Os hebreus estavam um tanto quanto deslocados em relação ao


propósito de Deus. Por isso são convidados a entrar. Estavam
distantes. São convidados a se aproximar do trono da graça. Não
podemos seguir a Cristo de longe. Estavam lentos (5.11-12) em sua
jornada espiritual. O autor os convida a "correr" (12.1). O plano de
Deus é urgente. O Senhor não está limitado pelo tempo, mas nós
estamos e, por isso, não podemos demorar.
O verbo "cheguemo-nos" encontra-se na voz reflexiva. Indica um
tipo de ação em que nós somos, ao mesmo tempo, sujeito e objeto. É
uma ação que o indivíduo executa sobre si mesmo. Isso significa algo
pessoal e intransferível, como acontece com muitas atitudes humanas
diante de Deus. Nosso posicionamento espiritual não pode ser
decidido ou resolvido por outra pessoa. Ninguém vai nos aproximar
de Deus. O que ele decidiu fazer por nós nesse sentido, ele já fez.
Jesus já veio e já subiu "abrindo um novo e vivo caminho"
(Hb.10.20). O caminho está aberto. Entrar, caminhar, correr,
aproximar, são ações que dependem de cada um.

A observação dos verbos mencionados, seu tempo, modo e


pessoa, muito nos ensina. A maioria dos verbos se encontra
conjugada na primeira pessoa do plural. Isso mostra que o autor se
inclui em quase tudo o que diz, em quase todas as propostas que faz.
Temos aí uma nota de humildade. Ele não apenas aponta o caminho
e o trabalho, mas se coloca em posição de também fazer tudo o que
está sendo comandado. É uma atitude desejável para os que pregam,
ensinam ou lideram.

Os verbos "retenhamos", "apeguemos", "guardemos" e


"conservemos" nos mostram claramente que algo podia ser perdido
pelos hebreus. O risco da apostasia está evidente em todas essas
expressões.
Epístola de Tiago

ESBOÇO

1 - Prefácio e saudações - 1.1

2 - As provas e tentações - 1.2-18.

3 - A prática da palavra de Deus - 1.19-27.

4 - A acepção de pessoas - 2.1-13.

5 - A fé e as obras - 2.14-26.

6 - Os males da língua - 3.1-18.

7 - Várias exortações práticas - a oração e a paciência - 4.1 -


5.20.

AUTORIA

De acordo com o primeiro versículo da epístola, o nome do autor


é Tiago, que se apresenta como "servo de Deus e do Senhor Jesus
Cristo". "Tiago" é a forma grega do nome hebraico "Jacó", que
significa "suplantador". Em princípio pode parecer que a autoria
esteja clara e bem definida. Contudo, não é assim. Já que o Novo
Testamento menciona várias pessoas com o nome de "Tiago", surge a
questão de qual deles teria sido o autor da carta. Temos, no mínimo,
três personagens distintos com o nome de Tiago:

1 - O maior, irmão de João, filho de Zebedeu (Mt.10.1-4)

2 - O menor, filho de Alfeu. (Mc.15.40).

3 - O irmão de Jesus (Mt.13.55; Mc.6.3).

Em Atos 1.13-14 os três estão presentes, mas o texto fala de um


certo Judas, que era filho de Tiago. Não fica claro se esse Tiago era
um dos três já citados ou se poderia ser um quarto personagem. As
passagens dos evangelhos que citam Tiago, geralmente estão se
referindo ao irmão de João. Sua morte é mencionada em Atos 12.2.
Não sabemos o que aconteceu com o filho de Alfeu. A partir daí,
existem outras referências que citam Tiago, em Atos e nas epístolas.
Tais passagens são normalmente relacionadas à pessoa do irmão de
Jesus. Em Gálatas, Paulo fala de seus contatos com Tiago, irmão do
Senhor, que estaria em Jerusalém. Com base nesse texto, os outros
também são associados, por dedução, à mesma pessoa. Tal
associação é bastante aceita pelos críticos e parece muito coerente.
Quem segue essa ligação de textos acaba por atribuir ao irmão de
Jesus a autoria da epístola em epígrafe. Alguns comentaristas
preferem não seguir essa tendência e se abstêm de apontar o autor.

Considerando que Tiago, irmão do Senhor Jesus, escreveu a


carta, destacamos algumas informações sobre a sua pessoa,
conforme nos auxiliam o Novo Testamento, as conjecturas e a
tradição eclesiástica.

Tiago não cria em Jesus antes da crucificação (João 7.5). É


possível que sua conversão tenha se dado após a ressurreição de
Cristo, quando este lhe apareceu (I Cor.15.7). Juntou-se então aos
discípulos (At.1.14), tornando-se apóstolo (Gál.1.19) e uma das
"colunas" da igreja em Jerusalém (Gál.2.9). Sua liderança obteve
grande destaque, conforme se observa em Atos 12.17; 15.13-29;
21.18 e Gálatas 2.12. Tiago veio a ser chamado "o justo", por sua
integridade, e "joelho de camelo" devido as marcas que possuía em
virtude de suas constantes orações. Segundo Flávio Josefo, o irmão
de Jesus morreu em 63 d.C. Sendo pressionado pelos judeus para
que negasse a Cristo e tendo permanecido firme em suas afirmações,
Tiago foi arremessado de um lugar alto nas dependências do templo.
Não tendo morrido com a queda, foi apedrejado até a morte.

Data - A data de produção da carta se situa entre os anos 45 e


48 d.C. Alguns comentaristas sugerem um período ulterior às
epístolas paulinas, na segunda metade do primeiro século.

Tema principal - A religião prática.

Textos chave - 1.27 e 2.26.

Características

O livro tem teor prático, rigoroso, usa muitas ilustrações, é


direto, tem estilo semelhante ao sermão da montanha. Apresenta
diversos preceitos morais. A carta contém 108 versículos, entre os
quais temos 54 mandamentos.

Sobre seu rigor, destacamos: Tg.1.7; 1.26; 2.9; 2.10; 2.19; 3.6;
3.8; 3.14-15; 4.1-4; 4.8-9; 4.16; 5.1-6.

Paralelo entre o livro de Tiago e o Sermão da Montanha.

Assunto Tiago Sermão da


Montanha
Juramento 5.12 Mt.5.34-37
Resposta à 1.5; 5.16-18 Mt.7.7
oração
Prática da 1.22 Mt.7.24-27
palavra
Julgamento 4.11 Mt.7.1

O uso de ilustrações

Tiago, como bom pregador, utiliza de forma magistral as


ilustrações, como meio de representar, de modo claro, as verdades
ensinadas. Tal recurso ajuda a entender o ensinamento e também a
fixá-lo na memória.

A epístola utiliza fatos reais, eventos hipotéticos, elementos da


natureza e até obras das mãos humanas para expressar suas idéias.

Fatos reais:

o Abraão - Tg. 2.21-23.


o Raabe - Tg.2.25
o Jó - Tg.5.11.
o Elias - Tg. 5.17-18

Eventos hipotéticos:

o O pobre e o rico na sinagoga - Tg. 2.2-4.


o O irmão necessitado - Tg.2.15-16.
o O doente e os presbíteros - Tg. 5.14-15
o Os planos de viagens e negócios - Tg.4.13.

Elementos da natureza:

o O mar e as ondas - Tg.1.6.


o A fonte e a água - Tg. 3.11-12
o A figueira - Tg.3.12.
o Os figos - Tg.3.12.
o A videira - Tg.3.12.
o As azeitonas - Tg.3.12.
o O vapor - Tg.4.14.
o A chuva e o fruto da terra - Tg.5.7.
o O vento - Tg.3.4.
o O bosque e o fogo - Tg.3.5.
o Os cavalos - Tg.3.3.
o Feras, aves, répteis, animais marinhos -
Tg.3.7.
o Frutos - Tg.3.17.
o A erva, a flor e o sol - Tg.1.10-11.
o Luz e sombra - Tg.1.17.
o A traça - Tg.5.2.

Obras das mãos humanas:

o O enxerto - Tg.1.21.
o O espelho - Tg. 1.23.
o Os navios e o leme - Tg.3.4.
o Vestes e anel - Tg.2.2-3.
o Estrado - Tg.2.3.

Figuras de linguagem:

o A língua é um fogo - Tg.3.6.


o Está cheia de veneno mortal - Tg.3.8.
o A cobiça concebe e dá à luz o pecado. Este
gera a morte. - Tg.1.15.
o Alimpai as mãos, pecadores - Tg.4.8.
o Vossas riquezas estão apodrecidas - Tg.5.2.
o Vossos vestidos estão comidos de traça -
Tg.5.2.
o Vosso ouro e vossa prata se enferrujaram -
Tg.5.3.
o Sua ferrugem dará testemunho contra vós -
Tg.5.3.
o E comerá como fogo a vossa carne - Tg.5.3.
o O jornal dos trabalhadores... clama - Tg.5.4.
o Engordaste os vossos corações - Tg.5.5 .
o O juiz está à porta - Tg.5.9.

Em alguns textos, não é fácil saber se o autor usa determinada


palavra com sentido figurado ou literal. Por exemplo, as "guerras" em
Tiago 4.1.

Destinatários

A carta é destinada às 12 tribos da diáspora (dispersão). São


judeus cristãos que se encontravam dispersos entre várias nações.
(Tg. 1.1; 2.2).

Provas e tentações

Tiago introduz o assunto com palavras de impacto: "Tende


grande gozo quando vos forem enviadas várias provações." (Tg.1.2).
Não faz parte do nosso pensamento moderno uma idéia como essa.
Em nosso tempo, procura-se o menor esforço e o maior prazer. A
epístola nos mostra que as tentações e as provações são elementos
presentes e importantes na vida cristã. Por quê essa importância?
Tiago responde: "sabendo que a prova da vossa fé produz a
paciência." (Tg.1.3). Precisamos saber isso para termos uma atitude
positiva diante daquilo que Deus nos envia ou permite. Tudo o que
Deus permitir de negativo em nosso caminho terá
um propósito e produzirá alguma virtude em nós. Isso, evidentemen-
te, se sairmos vencedores desse processo.

É importante discernir entre prova e tentação e suas respectivas


origens. Tiago diz que ninguém pode dizer que é tentado por Deus
(Tg.1.13). Deus nos prova, nos coloca em teste. Ele não nos tenta.
Entretanto, permite a tentação. Esta vem de dentro de nós, atraída
por fatores externos (Tg.1.14-17). A isca é exterior. A tentação está
no apetite do peixe. Casos diferentes foram as experiências de Adão,
Eva e Cristo. Como não tinham pecado, a tentação foi totalmente
exterior (Gên.3; Mt.4).

Prova é teste. Tentação é indução ao erro. Toda tentação pode


ser vista como prova. Contudo, nem toda prova é tentação. Por
exemplo, se Deus nos permite passar por uma situação de dificuldade
financeira, isso pode ser uma prova para demonstrar se
continuaremos confiantes e fiéis ao Senhor ou não. Se, em meio a
tudo isso, aparecer uma oportunidade de ganho ilícito, isso será uma
tentação. Estar no deserto é prova. Oferta de "pedras no lugar de
pães" é tentação (Mt.4.3).

A prova e a tentação revelam o que há em nossos corações. São


formas de manifestar o que somos interiormente. Tal demonstração
não serve para que Deus nos conheça, pois ele já nos conhece
plenamente. A prova e a tentação mostram para nós mesmos a nossa
natureza e fraquezas que talvez não conhecêssemos.

Além do auto-conhecimento, provas e tentações são


oportunidades de aprendizagem, até mesmo quando fracassamos. Tal
conhecimento será útil para as próximas vezes.

A Religião Prática

Confrontando a epístola aos Hebreus com a de Tiago,


verificamos que Hebreus contém uma ênfase sobre a fé. Os
destinatários precisavam se livrar da dependência que tinham em
relação aos elementos visíveis do judaísmo. O valores invisíveis e
celestiais são enfatizados. Tiago também escreve aos hebreus.
Porém, seu discurso tem uma ênfase diferente. Ele está enfatizando o
visível. Enquanto a epístola aos Hebreus fala do céu, Tiago "põe os
pés no chão" e nos convida a encarar necessidades e desafios do dia-
a-dia. Não existe nisso nenhuma contradição. Os hebreus não deviam
depender de elementos visíveis, tais como o templo, os sacerdotes e
os sacrifícios, para estabelecer ou manter sua relação com Deus.
Então, a fé no invisível é enfatizada. Entretanto, nosso cristianismo
não pode ser invisível. Ele precisa se manifestar através de ações no
mundo físico. Nessa parte entra a ênfase de Tiago sobre o valor
das obras.

O invisível não depende do visível, mas precisa produzir


evidências visíveis, sob pena de ser considerado inexistente. Por isso
Tiago diz: "mostra-me a tua fé sem as tuas obras." (Tg.2.18). Se a
minha fé não produz obras, então tenho uma fé tão "eficaz" quanto a
própria incredulidade. Precisamos mostrar alguma coisa, pois o
mundo espera pra ver. E isso só é possível através de obras.

Tiago enfatiza o valor do caráter cristão. Seu livro não se aplica à


exposição doutrinária, mas ao apelo veemente à prática de toda a
doutrina cristã que já se conhece. O conhecimento da palavra é
fundamental (Tg.1.18,21). Ouvir é bom hábito (Tg.1.19). A fé é
indispensável (Tg.1.6-7). Mas o processo não pode parar nesse
estágio, pois crer, os demônios também crêem. A insistência do autor
é a fim de que seus leitores coloquem em prática a palavra de Deus.

A epístola mostra o contraste que muitas vezes ocorre entre a fé


e a prática. Conhecemos muito, cremos na palavra de Deus, mas
praticamos pouco e falamos uma palavra diferente da que ouvimos.
Tiago expõe essa contradição e exorta no sentido de corrigir tamanha
distorção.

ALGUMAS CONTRADIÇÕES OBSERVADAS POR TIAGO

 Ouve-se a palavra mas não se cumpre (Tg.1.23).

 Considera-se religioso mas não se refreia a língua (Tg.1.26).

 Reúne-se em nome de Cristo e comete-se a acepção de pessoas na mesma


reunião (Tg.2.1-4).

 Alguém tem fé mas não tem obras (Tg.2.14).

 Deseja-se o bem ao próximo mas não se pratica esse bem (Tg.2.15-16).

 De uma mesma boca procede bênção e maldição (Tg.3.10-12).


 Alguém é considerado sábio mas tem inveja e sentimento faccioso (Tg.3.13-
16).

 "Cobiçais e nada tendes" (Tg.4.2). (Até no erro ficava evidente a


contradição)

 "Pedis e não recebeis" (Tg.4.3).

 Deseja-se ser amigo de Deus e, ao mesmo tempo, amigo do mundo (Tg.4.4).

 Sabe-se fazer o bem mas não se faz (Tg.4.17)

ALGUMAS EXORTAÇÕES CORRETIVAS


 Pedi sabedoria a Deus (Tg.1.5)

 Sede prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar (Tg.1.19).

 Rejeitando toda a imundície, recebei com mansidão a palavra (Tg.1.21)

 Sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes (Tg.1.22).

 Mostrai pelo bom trato as obras em mansidão de sabedoria (Tg.3.13)

 Sujeitai-vos a Deus (Tg.4.7).

 Resisti ao Diabo (Tg.4.7)

 Chegai-vos a Deus (Tg.4.8)

 Alimpai as mãos (Tg.4.8)

 Purificai os corações (Tg.4.8)

 Senti as vossas misérias, lamentai e chorai (Tg.4.9)

 Sede pacientes (Tg.5.7)

 Orai (Tg.5.13)
 Cantai louvores (Tg.5.13)

 Confessai as vossas culpas uns aos outros (Tg.5.16)

A prática proposta por Tiago pode ser traduzida pela expressão


"boas obras". Isso inclui:

- Ações a favor do próximo. Exemplo: "visitar os órfãos e as


viúvas nas suas tribulações" (Tg.1.27).

- Bom comportamento: "guardar-se da corrupção do mundo"


(Tg.1.27).

Normalmente nos preocupamos em não fazer mal ao próximo.


Está certo, mas além disso precisamos fazer-lhe o bem, pois, se não
fizermos, estaremos pecando (Tg.4.17).

Conhecimento da palavra, fé em Deus e rituais podem muito


bem constituir uma religião falsa se não estiverem associados
à obediência, a qual se traduz em prática do que a palavra manda. A
prática revela sabedoria, que é o conhecimento introjetado,
assimilado e aplicado. Tiago apresenta uma hipotética reunião
religiosa onde se peca pela acepção de pessoas. É a religiosidade
desprovida de sabedoria, amor e obediência aos preceitos divinos
(Tg.2.1-4).

Observe que em todos os capítulos do livro encontramos


ocorrências do termos "sabedoria", "sábio" ou conjugações do verbo
"saber": Tg.1.3,5; 2.20; 3.1,13,15,17; 4.4,14,17; 5.20. Em algumas
passagens, o uso do verbo parece ser apenas com fim sintático. Em
outras, torna-se evidente a questão do conhecimento e da sabedoria.
O livro de Tiago tem sido também considerado por alguns como o
"livro de sabedoria" do Novo Testamento, não apenas pelos versículos
mencionados, mas pelo uso que faz dos conselhos morais práticos, da
mesma forma como se vê nos livros sapienciais do Velho Testamento,
principalmente Provérbios.

O CUIDADO COM AS PALAVRAS

Além das obras, Tiago coloca em evidência o que falamos. Se


cremos na palavra de Deus precisamos falar de acordo com essa
palavra e também proceder desse modo (Tg.2.12). As admoestações
em relação à língua são diversas:

- Não falar precipitadamente. Seja tardio em falar (Tg.1.19).


Uma vez falada, a palavra não pode ser recolhida. Portanto, é bom
que se reflita antes de se pronunciar algo. Assim, evitaremos
ofensas, pedidos mal feitos (Tg.4.3), planos incertos (Tg.4.13-15) e
até mesmo votos que não podemos cumprir (Obs. Ec.5.4-6).

- Não falar demais. Tiago usa a expressões "frear",


"refrear" e "domar" a língua. (Tg.1.26; 3.1-12).

- Não mentir (Tg.3.14).

- Não amaldiçoar (Tg.3.10).

- Não acusar a Deus (Tg.1.13).

- Não usar palavras vãs no lugar da ação necessária (Tg.2.16).


Esse falar vão pode até ser uma oração. Existem momentos em que
não adianta orar. É preciso agir. Lembre-se de Moisés diante do Mar
Vermelho. Deus disse: "Por quê clamas a mim. Diga ao filhos de
Israel que marchem" (Êx.14.15).

- Não falar mal nem julgar os irmãos (Tg.4.11). Se existe um


problema a ser resolvido com uma pessoa, então não adianta
comentar o fato com outros. Talvez, o mal falado até seja verdade.
Contudo, ainda assim trata-se de maledicência. Mesmo que o irmão
esteja errado, nós não devemos difamá-lo. Quando Noé se desnudou
em sua tenda, seu filho Cão foi logo espalhar a notícia e por isso foi
amaldiçoado. Os filhos Sem e Jafé tomaram a providência de cobrir a
nudez paterna e por isso foram abençoados.

- Não reclamar dos irmãos (Tg.5.9).

- Não jurar (Tg.5.12).

Na seqüência do capítulo 5, versos 13 em diante, o autor nos


indica o que devemos falar no lugar das queixas, ou dos juramentos:
Ore, cante louvores, confesse seus pecados.

Sintetizando, Tiago relaciona:

o A palavra de Deus, a qual deve ser ouvida e


recebida;
o A fé que depositamos em Deus e em sua palavra;
o Nosso falar e nosso agir, os quais devem ser
coerentes com a palavra, conseqüências e evidências
indispensáveis da nossa fé.

Ouvir Crer Falar Agir

(a palavra) (fé)
(O falar certo e o errado) (Boas obras)

(inclusive oração e louvor) (Em benefício do


próximo)

(Manifestação da
sabedoria)
1.18,21,25 1.6 1.5,13,19,26 1.4,22-27
2.14-26 2.3,12,14,16 2.12,14-26
3.1-12,14 3.13-17
4.311-12,13-15 4.17
5.4,9,10,13,14,15,17,18 5.20

ARREPENDIMENTO E JUÍZO

Diante de uma realidade religiosa tão contraditória e tendo em


vista o juízo divino, Tiago convida seus leitores ao arrependimento.

Juízo, justiça e termos derivados Convite ao arrependimento, ao choro,


à confissão
Tg.1.20; Tg.4.7-10
Tg.2.4,9,12,13,21,23,24,25 Tg.5.1,15-16; 5.19-20.
Tg.3.1,18
Tg.4.11,12
Tg.5.6, 9,12, 16

A FÉ E AS OBRAS

Um dos assuntos mais polêmicos que envolvem o livro de Tiago


é o confronto entre fé e obras. Tiago valoriza tanto uma coisa (1.6)
quanto a outra (2.14). Porém, sua carta fala mais das obras, já que o
autor observou a gravidade da ausência das mesmas na vida religiosa
do povo. É como um médico que está indicando um reforço alimentar
para suprir a falta de determinado nutriente, sem, contudo,
menosprezar os outros.

A fé é tão importante quanto fica demonstrado em Romanos e


em Hebreus. Entretanto, se essa fé não produzir evidências visíveis,
ela será como um plano que nunca foi realizado e seremos como
árvores infrutíferas. Obra é fruto (Tg.3.13,17). O fruto do Espírito é
amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão
e domínio próprio (Gálatas 5.22). Não obstante, tais virtudes
precisam se manifestar através de atos e fatos. O fruto não pode ser
abstrato. Precisa ser concreto. De que adianta um amor não
revelado, não transmitido por meio de ações? (I João 3.18). A fé
opera pelo amor (Gálatas 5.6). O amor é o canal por onde flui a fé. O
resultado é obra.

A fé se mostra superior nessa questão porque a nossa salvação


depende dela. "Pela graça sois salvos mediante a fé" (Ef. 2.8). "Quem
crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado."
(Mc.16.16). Crer é fé. Batismo é obra, ato físico. Observe que
ninguém será condenado pela falta do batismo e sim pela falta de fé.
Entretanto, aquele que tem fé deverá manifestá-la através de atos de
obediência, inclusive batizando-se. As obras devem ocorrer de acordo
com os recursos e o tempo que Deus tiver nos concedido. Por
exemplo, o ladrão que se converteu na cruz ao lado de Cristo, não
teve tempo de se batizar nem fazer obra alguma. Contudo, foi salvo.
Nós porém, que temos tempo e recursos devemos fazer boas obras,
não para sermos salvos mas como fruto natural da nossa fé.

A fé é superior porque produz as obras e não o contrário. Tiago


diz: "... se alguém disser que tem fé e não tiver as obras...
porventura a fé pode salvá-lo?" (Tg.2.14). O autor não está
condicionando a salvação à prática de boas obras. O sentido é o
seguinte: se a fé de alguém não produz obras, pode-se concluir que
essa mesma fé não produzirá salvação, pois é ineficaz ou inexistente.

CONFLITO APARENTE ENTRE TIAGO E PAULO

"Vedes então que o homem é justificado pelas obras e não


somente pela fé." -Tiago 2.24.

"Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as


obras da lei" - Paulo, em Romanos 3.28.

Lendo estes dois versículos, podemos pensar que Tiago e Paulo


estão se contradizendo. Alguns comentaristas afirmam que a
contradição existe e que é inexplicável. O próprio reformador
Martinho Lutero tinha essa posição e chegou a usar a expressão
"epístola de palha" para se referir ao livro de Tiago. Há quem diga
que Tiago tenha escrito para atacar Paulo e seus ensinamentos. Tais
hipóteses atentam contra a inspiração divina das Sagradas Escrituras.
Outros teólogos apresentam a seguinte solução:

Ao escrever aos Romanos, Paulo apresentou argumentos que


tinham por objetivo combater a tese judaizante daqueles que exigiam
dos gentios o cumprimento da lei mosaica. Diante disso, o apóstolo
deixou claro que a salvação não depende das obras da lei, não
depende dos rituais judaicos. Em sua exposição, Paulo lembra aos
leitores que Abraão não foi justificado pelas obras da lei nem mesmo
pela circuncisão, já que o patriarca teve sua experiência com Deus
num tempo em que a lei mosaica não existia e até mesmo antes de
ser circuncidado. Portanto, sua experiência foi baseada na fé.

Paulo não estava falando de boas obras, de modo geral. Ele


estava se referindo especificamente àquelas obras exigidas pela lei.

Por sua vez, Tiago está preocupado com "o outro lado da
moeda". Muitos cristãos estavam reduzindo o cristianismo a uma
religião teórica, apenas espiritual, sem efeitos visíveis. A estes, Tiago
diz que as obras são importantes. Abraão é usado novamente como
exemplo. Depois de ter sua experiência pela fé, Abraão não cruzou os
braços. Abraão agiu. Ele saiu da sua terra, se dispôs a oferecer
Isaque, e fez tudo aquilo que Deus queria que ele fizesse.

Imagine que alguém entra no prédio de uma escola e queira logo


apresentar trabalhos de pesquisa, fazer provas e exercícios. Será que
a direção acadêmica aceitará tudo isso? De maneira nenhuma. Se o
indivíduo não está matriculado, ainda não é aluno da escola. Então,
não tem nenhum valor qualquer trabalho apresentado por ele. O que
é necessário? A matrícula, o compromisso, o vínculo. Então, depois
de matriculado, imagine que esse novo aluno resolva ficar em casa,
totalmente alheio aos seus deveres escolares. Então a direção da
escola irá procurá-lo para cobrar tudo o que ele deveria estar
fazendo. Assim, antes de sermos cristãos, de nada adiantam as
nossas boas obras. "Paulo está dispensando". Entretanto, agora que
estamos salvos pela fé, precisamos executar as obras como fruto
normal de um cristianismo autêntico e sadio. "Tiago está cobrando".

Em Romanos 3, Paulo está apresentado a futilidade das obras da


lei no plano de salvação. Em outros escritos seus, o apóstolo deixa
claro o quanto valoriza as boas obras de modo geral. Não que elas
possam nos salvar. "Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isso não
vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém
se glorie." (Efésios 2.8-9). Entretanto, devemos fazer boas
obras, porque este é um dos motivos da nossa permanência neste
mundo. Caso contrário, poderíamos ter sido arrebatados no momento
da conversão. "Porque somos feitura sua, criados em Cristo
Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que
andássemos nelas." (Efésios 2.10). Observe que são palavras de
Paulo, na continuação do texto mencionado anteriormente.

Quando escreveu a Tito, Paulo colocou nas boas obras a maior


ênfase da carta (Tito 2.7,14; 3.1,8,14). Contudo, no mesmo texto, o
apóstolo deixa claro que as obras não salvam (Tito 3.4-5).

Considerando suas epístolas de modo geral, Paulo enfatiza a fé,


sem desvalorizar as obras. Tiago enfatiza as obras, sem desvalorizar
a fé. De fato, ambas as coisas são importantes. A fé sem as obras é
morta. Da mesma forma, as obras sem fé são obras mortas (Hb.6.1).

Glossário de termos do livro de Tiago

Improperar - censurar (1.5).

Dobre - dupla face (versão católica); vacilante (Thompson).


(1.8)

Andrajoso - esfarrapado (2.2).

Estrado - tablado ou piso acima do nível do chão (2.3).

Deferência - respeito. (2.3).

Régio - real (do reino). (2.8).

Argüido - censurado. (2.9).

Peçonha - veneno (3.8).

Jactância - orgulho (4.16).

Jornal - salário por um dia de trabalho (5.4).

Cevaste - engordaste (5.5).

Presbíteros - anciãos, pessoas maduras, pastores (5.14).


Primeira Epístola de Pedro

ESBOÇO

1 - Natureza da salvação - 1.1-21

2 - Crescimento do cristão - 1.22 - 2.10.

3 - Vida cristã prática - 2.11 - 3.22.

4 - Exortações diversas - 4.1-19

5 - Admoestações aos líderes - 5.1-14.

Texto chave - 4.1

Palavra chave - sofrimento (1.11; 2.20; 3.17; 4.19; 5.1,9,10)

Autoria

Apesar de ter sido considerado homem inculto e iletrado


(At.4.13), Pedro escreveu uma epístola de alto nível. Talvez aquele
rótulo advenha do fato de Pedro não ter freqüentado as universidades
gregas da época, nem ter sido um escriba ou doutor da lei. Contudo,
isso não significa que ele fosse analfabeto e ignorante. Se lhe faltava
muito da vasta cultura grega, o mesmo não se pode dizer quanto ao
idioma, pois o grego era falado por todas as classes sociais. Além
disso, falava o aramaico e talvez o hebraico.

Como todo bom judeu, Pedro tinha todo o conhecimento da lei


de Moisés e demais Escrituras do Velho Testamento.

A forma do seu texto pode também ter sido influenciada pela


mão de Silvano, que foi seu amanuense (I Pd.5.12).

A autoridade do autor fica evidente. Além de ser apóstolo (I


Pd.1.1), Pedro foi "testemunha das aflições de Cristo" (I Pd. 5.1). Seu
ensino estava, portanto, bem fundamentado, sendo digno de
aceitação.

Além de Silvano, também Marcos estava na companhia de Pedro


quando escreveu a primeira epístola (I Pd.5.13).

Data - Os comentaristas sugerem datas entre 63 e 68 d.C. O


ano mais indicado é 64.
Destinatários - cristãos dispersos na Ásia Menor (judeus e
gentios) - 1.1; 2.10.

Durante algum tempo, Pedro foi contrário à evangelização dos


gentios. Vemos, portanto que, por ocasião do envio dessa epístola,
tal problema já tinha sido superado. Agora Pedro já aceita os gentios
e os considera tão dignos do evangelho e do reino de Deus quanto os
judeus.

O apóstolo chega a tomar palavras ditas a Israel no Velho


Testamento, aplicando-as aos gentios que fazem parte da igreja.
"...Antes não éreis povo, mas agora sois povo de Deus...". (I Pd.2.9-
10). Outros textos desenvolvem esse paralelismo entre a igreja e
Israel, citando o sacrifício e o templo numa nova perspectiva (I
Pd.1.19; 2.4-5).

A epístola foi dirigida aos irmãos que moravam em regiões por


onde Paulo passou e fundou igrejas. Por quê Pedro escreveria para
eles? Isso faz com que alguns entendam que, quando essa epístola
foi produzida, Paulo já teria morrido. O fato Silvano e Marcos, antigos
companheiros de Paulo, estarem com Pedro também é usado como
argumento a favor dessa hipótese.

Circunstância - A carta foi escrita numa época de grande


perseguição imperial contra a igreja após o incêndio em Roma. No
livro de Atos, os principais perseguidores eram os judeus. No período
em que Pedro escreveu, os perseguidores passaram a ser os gentios
(4.3,4,12).

Características - O livro é exortativo, consolador, cristológico,


"cristocêntrico". Observamos que Tiago quase não cita Jesus em sua
carta. Pedro, porém, cita-o a todo momento. Aquele que o havia
negado, agora tem no seu nome a base de sua doutrina.

Pedro apresenta Jesus como:

Fonte de esperança - 1.3

Cordeiro do sacrifício - 1.19.

Pedra angular - 2.6

Exemplo perfeito - 2.21-23.

Aquele que levou nossos pecados - 2.24.

Sumo pastor - 2.25.


Bispo das nossas almas - 2.25.

Aquele que está assentado à destra de Deus - 3.22.

Coisas preciosas para Pedro

Provas - 1.7

Sangue - 1.19

Pedras - 2.4

Cristo - 2.6

Espírito manso - 3.4

Propósito da carta - firmar, orientar, confortar.

Para os irmãos atribulados, Pedro oferece uma palavra de


esperança, menciona os fundamentos da fé cristã e o que Deus tem
para nós no futuro. Quando as tribulações se multiplicam, é bastante
oportuno que essas verdades sejam mencionadas para renovação da
fé e do ânimo. A obra de Cristo no passado (1.3) e a herança cristã
no futuro (1.4-5) são mencionados como estímulo para se
enfrentarem as dificuldades presentes (1.6).

Em tais circunstâncias, é necessário que nos lembremos


de quem somos. Nossa identidade pode estar sendo questionada
pelos homens, pelo diabo (Mt.4.2) ou até mesmo por nós mesmos.
Pedro então enfatiza essa realidade espiritual que, muitas vezes, é
desafiada por uma realidade aparente adversa. Ele utiliza
enfaticamente o verbo ser: "Não éreis povo..."; "Agora sois... povo
de Deus, geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo
adquirido..." (2.9-10). "Sois guardados, mediante a fé, para a
salvação." (1.5). "Sois edificados como casa espiritual." (2.5).

O autor lembra aos seus leitores o que Cristo fez por eles
(1.2,3,19; 2.5,21; 3.18). Nos momentos difíceis é bom lembrarmos o
que Jesus fez por nós e qual é o nosso vínculo com ele. O inimigo
procura colocar tudo isso em dúvida na hora da tentação.

ESBOÇO COMENTADO

Podemos delinear uma seqüência de pensamento na epístola,


embora os temas às vezes se intercalem.

1 - Natureza da salvação - 1.1-12


Salvos pela obra de Cristo

O autor começa sua epístola falando sobre a salvação e


a herança no céu. Os irmãos que estavam padecendo perseguições
poderiam questionar sobre o efeito de sua conversão. Talvez alguns
estivessem esperando uma herança na terra, uma vida tranqüila e
próspera. Deus pode nos dar todo tipo de bênção material, mas isso
não é uma promessa de Cristo para todo aquele que nele crê. Isso
depende da vontade de Deus para cada pessoa. O que ele promete a
todos nós é a vida eterna, uma herança nos céus.

Não podemos esperar conquistas materiais como efeito


obrigatório do evangelho. O resultado pode ser a frustração. Por
outro lado, nada impede que o cristão trabalhe para conseguir o que
lhe for lícito, assim como também fazem os não salvos. Entretanto, a
busca material não se tornará o objetivo principal da nossa vida ou
da nossa fé.

2 - Crescimento do cristão - 1.13 - 2.10.

O que somos e o que devemos ser

Tendo falado da salvação, Pedro poderia agora expressar


palavras comemorativas e congratulatórias para seus destinatários
como se tudo estivesse resolvido. Contudo, não é assim. Agora que
estamos salvos, precisamos do crescimento espiritual, que só é
possível mediante o legítimo alimento espiritual: a palavra de
Deus (1.23-25; 2.1-2). A palavra "portanto", de 1.13, liga as duas
seções do texto. O "portanto" indica que considerando tudo o que foi
dito antes, seriam apresentadas, a seguir, admoestações que
estariam relacionadas às conseqüências naturais ou necessárias ao
bom andamento da questão anterior. Como dissemos, Pedro utiliza
bastante o verbo "ser". Observamos principalmente as conjugações:
"sois" e "sede" em referência ao que já "somos" pelos méritos de
Cristo e por nosso compromisso com ele, e o que devemos "ser".
Observe na palavra "sede" o modo imperativo indicando uma ordem.
Pedro já disse que somos salvos... portanto... precisamos ser:

- Santos (separados da corrupção do mundo) 1.15-16.

- Sóbrios (conscientes, atentos e vigilantes) (1.13).

- Obedientes (1.14).

Essas poucas palavras resumem tudo o que Deus espera de nós.

3 - Vida cristã prática - 2.11 - 3.22.


O risco do pecado; vigilância; oração; serviço; comportamento;
sofrimento e glória.

Após a conversão, temos um caminho pela frente: é a vida cristã


prática. Pedro menciona situações e relações do cotidiano. O pecado
é mencionado como um risco constante (2.11-12; 4.1-6; 1.13-16).
Pedro, que um dia disse que não negaria a Cristo e acabou negando
três vezes, está bem consciente de que o pecado pode acontecer,
embora não deva. Diante desse risco real, o autor nos aconselha
a orar e vigiar (4.7; 5.8-9) .

Contudo, a vida cristã apresentada por Pedro não é apenas


espiritual. Não se resume à oração e à vigilância. Ele ensina o serviço
cristão, exemplificado através da hospitalidade e do ministério (4.9-
11). Não basta orar; é preciso agir, trabalhar.

Outro item abordado é o comportamento. As falhas nesta área


podem invalidar nossas orações (3.7) e nosso serviço. Pedro
menciona então a vida social e civil (2.12-17), familiar (3.1-7),
profissional (2.18). Aconselha maridos, esposas e servos.

O Sofrimento é o tema principal da epístola. Esse elemento


também faz parte da vida cristã. Esta era a situação vivida pelos
destinatários da carta. O autor diz que não devemos estranhá-lo,
como se fosse algo anormal (4.12). Então, devemos concluir que o
mesmo faz parte do plano de Deus para nós, pois ele assim o
quer (3.17). Trata-se de algo necessário (1.6). Tais afirmações
podem ser chocantes. Por quê Deus quer que soframos? Não é que
ele queira o sofrimento em si, mas sim o resultado do processo.
Existem virtudes que não serão adquiridas de outra forma. O
sofrimento tem grande força didática. "Te deixei ter fome... para te
dar a entender que nem só de pão viverá o homem..." (Dt.8.3).

Pedro menciona dois tipos de sofrimento: um pelo evangelho


(perseguição, tentações e perseguições) e outro pelo pecado
(conseqüências e punições). O autor adverte que se sofremos como
cristãos, sem culpa, então somos bem-aventurados. Se sofrermos
merecidamente, então nenhuma honra receberemos (2.19-20; 4.14-
16). Lembremo-nos do Calvário. Dois tipos de sofrimento ali
aconteciam: Jesus morria inocente, enquanto que os ladrões morriam
em conseqüência dos seus próprios erros.

O sofrimento pela causa do evangelho trará como conseqüência


a glória. Esta é outra palavra importante na epístola, indicando glória
presente na vida do cristão, glória futura e também a vanglória
(1.24); (1.7,8,11,21; 2.12,20; 4.11,13,14,16; 5.1,4,10). O
sofrimento é de pequena duração quando comparado com a
glória eterna que nos aguarda (1.6; 5.10. Veja também Rm.8.18).
Queremos a glória (e às vezes até mesmo a vanglória), mas
sofrimento... jamais. Queremos colher o fruto sem plantar sua erva.
Queremos participar da glória de Cristo em sua vinda, mas não
queremos participar dos seus sofrimentos. Pedro vincula tais
elementos (1.11; 4.13; 5.1). Para justificar a necessidade e a
utilidade do sofrimento, Pedro cita Cristo como exemplo (2.21; 3.18).
O mesmo apóstolo se diz testemunha das aflições de Cristo e
participante da glória. Com isso, ele deixa subentendida sua própria
participação nos sofrimentos pelo evangelho.

Diante do sofrimento somos levados a procurar seus motivos.


Perguntamos: por quê está acontecendo isso? O que eu fiz para
merecer isso? Assim, olhamos para trás em busca da causa. O
sofrimento pelo pecado pode ser assim compreendido. Podemos olhar
para trás e reconhecer nossa falha. Muitas vezes, porém, não
conseguimos ligar o fato presente ao erro cometido. No caso do
sofrimento permitido por Deus sem que tenhamos pecado,
devemos olhar para frente e perguntar: para quê está acontecendo
isso? Mesmo que não possamos, em muitos casos, saber o propósito
específico, sabemos, de modo geral, que toda adversidade que nos
ocorre vem para o nosso próprio crescimento. Todo exercício físico,
corretamente realizado, contribui para o desenvolvimento e
manutenção da boa forma muscular. Tais exercícios não são leves
nem suaves. Se assim fossem, seriam inúteis. Assim são as
provações e adversidades que enfrentamos. São exercícios para o
espírito e para o caráter. Por meio deles nossa fé cresce, nossa
paciência e nossa experiência se desenvolvem. O produto do
sofrimento faz com ele se justifique e seja até mesmo valorizado por
escritores bíblicos como Pedro e Paulo (Rm.5.3-5).

O ouro é retirado da jazida em estado bruto, cheio de sujeira e


deformidades. Contudo, não será rejeitado por isso. Da mesma forma
Deus nos resgata: sujos e deformados. Ele não rejeita a sua vida, por
mais sujo que você esteja. Podemos até lavar aquela pepita de ouro,
mas isso não será suficiente. Algumas impurezas estão encrustadas
no metal. Então, o ourives precisa levá-lo ao fogo (Malaquias 3.2).
Pedro compara o fogo às tribulações e diz que assim como o ouro
precisa passar pelo fogo, da mesma forma nossa fé precisa ser
provada para que sejamos aprovados (I Pd.1.7). O fogo, por mais
destruidor que seja, só destrói as impurezas do ouro. No final do
processo, o metal está limpo, brilhante, e muito mais valorizado.
Assim acontece conosco.

Em sua primeira epístola, Pedro menciona muitos termos


negativos e muitos outros positivos. Pode parecer conflito ou
paradoxo, mas não é. Nossa vida é assim. Todos os elementos
negativos do processo são necessários para que os positivos se
manifestem. É uma relação necessária. Sem morte não haverá
ressurreição. Primeiro vem o fogo, depois o brilho e o valor. Só não é
necessário o pecado nem o sofrimento que dele advém, já que não
produz nenhum benefício, exceto uma lição que deveria ter sido
aprendida de outra forma.

Vejamos então as palavras negativas e positivas encontradas em


I Pedro

NEGATIVAS
Sofrimento - 5.9
Fogo - 1.7.
Provação - 4.12
Tristeza - 1.6; 2.19.
Aflição - 4.13; 5.1
Vitupério - 4.14
Padecimento - 5.10

POSITIVAS
Fé - 1.21; 5.9
Glória, honra -
1.7,8,21; 2.17,20;
4.11,14; 5.1,10
Esperança - 1.21
Alegria, exultação,
gozo inefável - 1.8;
4.13
Amor - 1.20,22; 2.17;
3.8; 4.8
Misericórdia - 1.3;
2.10
Paz - 1.2; 3.11; 5.14.
Graça - 1.2; 5.5,12
Louvor - 1.7; 2.14
Dias felizes - 3.10

Muitas vezes, as experiências negativas são presentes, enquanto


que o benefício está indicado para o futuro (I Pd.1.4-5; 4.13;
5.1,4,6,10). Contudo, já no tempo presente experimentamos a
esperança, a paz, a alegria, o amor, a misericórdia, etc. A glória, ou
exaltação, é o principal elemento localizado no futuro, vinculado à
segunda vinda de Cristo.

4 - Exortações diversas - 4.1-19

Nesse bloco são incluídos diversos conselhos sobre


comportamento, amor mútuo, serviço e novamente sobre o
sofrimento.

5 - Admoestações aos líderes - 5.1-14.

Pedro se dirige especialmente aos anciãos, os presbíteros da


igreja, dizendo que os mesmos deviam ser exemplo para o rebanho e
não dominadores. O líder não deve agir como se fosse dono das
ovelhas, como se fosse senhor de suas vidas. Liderança não é
manipulação nem opressão, mas orientação amável. A ovelha deve
ser vista como alvo de cuidado e proteção e não como fábrica de leite
e lã, embora ela os produza.

DESTAQUES DA CARTA

PEDRAS VIVAS

O texto de Mateus 16.16-18 tem sido objeto de muitas


discussões. Seria Pedro a pedra fundamental da igreja? Em sua
primeira epístola, o apóstolo diz que todos os cristãos são "pedras
vivas" e que Cristo é a principal pedra da construção que é a igreja.
Se é assim, então Pedro continua pedra, como é o significado do seu
nome. A igreja está firmada sobre o fundamento dos apóstolos e
profetas. Eles foram as pedras fundamentais da igreja. Porém, Cristo
é a pedra principal. Sem ele, a construção não existiria.

Qual é a relação entre tais pedras e a igreja? Tal fundamento


está diretamente ligado às vidas, obras e ensinamentos desses
homens, os apóstolos e profetas. Eles foram os primeiros a compor a
igreja do Senhor. O próprio Jesus, por sua vez, é a pedra principal
pois deu sua própria vida para que a igreja existisse. Foi ele quem
resgatou com seu sangue todos aqueles que fariam parte dessa
construção espiritual.

Voltando às palavras de Pedro, todos nós somos pedras vivas,


fazendo parte da igreja. Não fazemos parte do fundamento, pois a
igreja já existia antes de nós. Porém, fazemos parte da obra, estando
apoiados sobre os que nos antecederam e servindo de base para os
que se inspiram em nosso testemunho e palavra ( I Pd.2.4-8; I
Cor.3.11; Ef.2.20-22).

A PREGAÇÃO AOS MORTOS


"Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o
justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; sendo, na verdade,
morto na carne, mas vivificado no espírito; no qual também foi, e
pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram
rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava, nos dias de
Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas, isto é, oito
almas se salvaram através da água." (I Pd.3.18-20).

Este é um dos textos mais misteriosos das Sagradas Escrituras.


As polêmicas em torno do seu significado não têm fim. Procuraremos
expor resumidamente as principais linhas de interpretação do assunto
em questão. Leia também I Pd.4.5-6, Rm.10.7, Salmo 16.10 e Ef.4.9.
Neste assunto, além dos católicos não concordarem com os
protestantes, estes últimos não concordam entre si. Encontramos
posições diferentes de uma denominação evangélica para outra.

A pergunta inicial é: Jesus foi ao inferno? O texto de Pedro não


está dizendo isso, mas esta tem sido, muitas vezes, a interpretação
adotada, principalmente por causa de outros textos bíblicos, dos
credos da igreja católica e dos livros apócrifos, alguns dos quais
mencionam explicitamente a descida de Cristo ao inferno entre sua
morte e sua ressurreição. Por exemplo podemos citar o chamado
"credo dos apóstolos" e os apócrifos: "Evangelho de Bartolomeu" e
"Evangelho de Nicodemos". Um paralelo entre tais escritos e os
textos bíblicos mencionados produzem a interpretação
correspondente.

Questão Respostas encontradas nos comentários


Jesus foi Sim Não
ao
inferno?
Como Em seu em Através do Espírito Santo De jeito
ele foi? espírito carne e nenhum.
humano espírito
A quem Aos justos Aos A justos e Aos anjos A
ele ímpios ímpios. caídos. ninguém
pregou? (todos
ou só
aos da
época
de Noé)
O que O Sua O evangelho e sua vitória Nada
ele evangelho vitória
pregou?
Com que Salvar os Salvar Salvar a Declarar Sofrer Nenhum
objetivo? justos os todos sua
ímpios vitória (batismo
de
fogo?)
Qual foi Salvação e Salvação Salvação Conde- Nenhum
o efeito? ressurreição dos de nação
dos justos. ímpios. todos. dos
ímpios

O quadro apresentado assemelha-se a uma prova de múltipla


escolha onde existem alternativas para todos os gostos, inclusive
para quem não gosta de nenhuma. Contudo, trata-se apenas da
exposição das diversas interpretações do texto de I Pedro 3.18-20,
juntamente com uma série de pressupostos considerados em cada
caso.

Cada alternativa traz uma série de conseqüências naturais (?) ou


teologicamente necessárias, formando assim um intrincado conjunto
de perguntas intrigantes, respostas incertas e dúvidas crescentes.
Uma vez que o próprio texto bíblico não foi claro sobre o assunto,
torna-se muito improvável que possamos sê-lo. Contudo, tal
exposição poderá ajudar o estudante a tirar suas próprias conclusões.

Algumas alternativas apresentadas podem ser refutadas pelo


simples retorno ao texto de I Pedro. A passagem não diz que ele foi
pregar aos justos e nem que teria sido a todos os mortos ou a todos
os ímpios. São mencionados apenas os ímpios que viveram nos dias
de Noé. Alguns comentaristas estendem tal pregação a todos os
mortos, utilizando o texto de I Pedro 4.5-6, onde isso fica mais
evidente.

Dizer que Cristo foi em carne e espírito ao inferno, seria o


mesmo que ele estava vivo antes da ressurreição. Se carne e espírito
estão juntos, então não estamos falando de Cristo durante seus três
dias em estado de morte.

Dizer que o Espírito Santo foi ao inferno resgatar alguém é fazer


uma grande confusão entre as funções das pessoas da trindade. Tal
equívoco se dá pelo fato de que algumas traduções usam a palavra
"Espírito" com letra maiúscula em I Pd.3.18.

Aqueles que dizem que Cristo não foi ao inferno, afirmam que
ele foi se apresentar ao Pai após sua morte. Mencionam como
argumento as palavras de Jesus ao ladrão crucificado: "Hoje estarás
comigo no paraíso." (Lc.23.43 e 46). Como explicariam então o texto
de Pedro? Calvino chegou a afirmar que a cruz foi o "inferno"
experimentado por Cristo. Para os anabatistas, este mundo foi o
"inferno" ao qual Cristo desceu ao encarnar.

Pelo que ficou registrado nos livros, até o século IV d.C. era
plenamente aceita a idéia de que Cristo tenha mesmo descido ao
inferno, assim identificado como o "lugar dos mortos". Somente a
partir do século V é que passou-se a questionar tal sentido. Nesse
tempo, Agostinho propôs o seguinte entendimento para o texto de
Pedro: o evangelho teria sido anunciado aos mortos no tempo em
que os mesmos estavam vivos. Assim, os contemporâneos de Noé
teriam ouvido a pregação antes do dilúvio. O espírito de Cristo,
mencionado em I Pd.3.18, estaria agindo através de Noé, o pregoeiro
da justiça. Tal interpretação, bastante inteligente, não explica o texto
de I Pd.4.5-6, onde todos os mortos parecem estar envolvidos. Além
disso, o texto de I Pd.3.18-20 fala que a pregação foi dirigida a
"espíritos em prisão" e não a pessoas vivas.

O texto de Atos (2.27-31) talvez seja o mais claro para que se


conclua que Cristo foi ao inferno. O autor utiliza a palavra Hades.
Esta palavra estaria sendo usada em referência a um lugar espiritual?
ou simplesmente à sepultura? (2.29) ou apenas ao estado de morte?
(2.31). Algumas versões usam a palavra "hades" (A.R.C.) enquanto
outras a traduzem como "morte" (Thompson e A.R.A). A versão
católica dos Monges de Maredsous menciona "região dos mortos", o
que não indica um sentido estritamente físico ou espiritual. A bíblia
das Edições Loyola utiliza a expressão "mansão dos mortos". A
versão do padre Antônio Pereira de Figueiredo traduz "hades" como
"inferno".

A palavra "hades" é grega e se origina da mitologia dos gregos,


sendo utilizada para identificar o lugar espiritual para onde vão os
mortos. O hades estaria divido em duas partes: O "elísio" para os
bons e o "tártaro" para os maus. Os hebreus tinham uma concepção
semelhante sobre a região dos mortos. Chamavam-na de seol, ou
sheol, também com um lugar para os justos e outro para os ímpios.
Entretanto, sheol também significa sepultura. Como o Novo
Testamento foi escrito em grego, então foram usadas as palavras
gregas que mais se aproximavam do conceito hebraico. Assim, a
dúvida sobre lugar físico ou espiritual prevalece.

Sheol (ás vezes traduzido como inferno ou sepultura): Gn.37.35;


Nm.16.30; Jó 21.13; Salmo 9.17; Pv.5.5; 7.27; 9.18; 15.24; 23.14;
Dt.32.22; Jó 26.6; Pv.15.11; 27.20; II Sm.22.6; Salmo 18.5; 116.3;
Os.13.14.

Hades (às vezes traduzido como inferno): At.2.27,31; Mt.11.23;


16.18; Lc.10.15; Lc.16.23; Ap.1.18; 6.8; 20.13-14.
Geena (às vezes traduzido como inferno): Mt.5.22,29,30; 10.28;
18.9; 23.15; 23.33; Lc.12.5; Tg.3.6; Mc.9.43-48.

Tártaro (às vezes traduzido como inferno): II Pd.2.4.

O Velho Testamento passa a idéia de que o Sheol é um lugar


para onde vão todos os mortos, bons e maus. É normalmente
identificado com o hades do Novo Testamento. Veja que em Atos 2, a
citação do Salmo 16, troca Sheol por Hades.

Os luteranos interpretam hades como sinônimo de inferno e seio


de Abraão como paraíso. Utilizam a passagem de Lucas 16.22-25. O
paraíso seria o lugar para onde o cristão iria imediatamente após a
morte, a encontrar-se com Cristo (Filipenses 1.23).

Os católicos romanos dividem o hades em: inferno, purgatório,


limbus patrum e limbus infantum. Eles entendem que Cristo tenha ido
ao limbus patrum ou seio de Abraão, onde estariam os justos do
Velho Testamento aguardando a salvação cristã. Apesar da boa
organização de idéias, tal teoria não tem apoio bíblico, já que a Bíblia
não menciona purgatório nem limbus.

É bastante antiga a idéia de que alguém pudesse descer ao


hades com alguma missão. De acordo com a mitologia grega,
Hércules teria ido até lá. Histórias semelhantes são encontradas na
literatura babilônica, egípcia, e romana. Conforme Orígenes, houve
entre os judeus a crença de que os profetas do Velho Testamento
tenham ido ao seol, onde continuariam seu ministério de pregação.
Tal suposição aparece também no Talmude. Assim, a crença de que
Cristo teria ido ao inferno não seria de difícil aceitação. Alguns, como
Clemente de Alexandria, chegaram a dizer que os apóstolos também
teriam ido ao hades após suas mortes para pregar e que também os
demais cristãos teriam essa missão. Isso seria usado por alguns para
justificar mortes de pessoas jovens (J.Paterson Smith). Afinal,
segundo essa tese, essas pessoas teriam grande trabalho a executar
na região dos mortos.

Apresentamos, a seguir, outro quadro comparativo sobre o


assunto, destacando a posição denominacional e de alguns líderes e
teólogos.

Cristo foi e Cristo foi e Cristo não Cristo foi Cristo


salvou os salvou a foi ao mas não salvou
justos todos inferno. salvou apenas
ninguém algumas
pessoas
Defendido Algumas Anabatistas Luteranos Lutero, mais
por católicos igrejas tarde
reformadas assumiu
essa posição.
Algumas Arminianos * Calvinistas Flacius
igrejas
reformadas.
Zwínglio Agostinho Calov
Marcion Wolf
Tertuliano Buddeus
Aretius
* Calvino

Encontramos duas posições distintas atribuídas a Calvino em


relação à ida de Cristo ao inferno. Não sabemos se ele mudou de
idéia como ocorreu com Lutero. Uma das fontes consultadas foi
escrita por um calvinista e nega a ida literal de Cristo ao inferno.

Alguns livros apócrifos afirmam que Cristo esvaziou o inferno,


salvando todos os que ali estavam. Essa idéia serve bastante aos que
pregam o "universalismo", que consiste na crença em uma salvação
universal. Tais teólogos afirmam que ninguém escapará do alcance da
graça de Deus e, finalmente, todos serão salvos, até mesmo os anjos
caídos. Se assim fosse, então não precisaríamos pregar o evangelho.

Para o melhor entendimento possível a respeito desse assunto é


fundamental que consideremos o ensino geral da Bíblia. Qualquer
suposição deve ser confrontada com outros textos das escrituras para
que se conclua sobre sua prevalência ou não.

Jesus teria ido pregar aos mortos para que estes se salvassem?
Tal entendimento não parece coerente com outras passagens das
escrituras. Se, depois de viverem e morrerem no pecado, todos os
ímpios ainda pudessem se salvar, então de nada teria valido a vida
de justiça dos justos, já que todos acabariam no mesmo lugar e na
mesma situação: salvos.

É bem provável que Jesus tenha anunciado o evangelho aos


justos do Velho Testamento, embora o texto de I Pedro 3.18-20 não
os mencione. O fato é que muitos deles ressuscitaram após a
ressurreição de Cristo, conforme está em Mateus 27.51-53. Davi
disse: "Não deixarás minha alma no hades." Além de estar
profetizando sobre Cristo, ele não poderia também estar falando
sobre sua própria alma, conforme uma interpretação literal do
Salmo?
Os ímpios mortos também teriam ouvido a respeito do evangelho
mas não poderiam ser salvos. Contudo, tal conhecimento serviria
para legitimar a autoridade de Cristo para julgá-los no último dia. "...
Áquele que está preparado para julgar os vivos e os mortos. Pois é
por isto que foi pregado o evangelho até aos mortos..." (I Pd.4.5-6).

Jesus teria descido para tomar as chaves da morte e do inferno


das mãos do Diabo? Os calvinistas dizem que isso não faz sentido, já
que o Diabo nunca teve tais chaves. Por outro lado, podemos
também questionar: quem disse que o Diabo mora no inferno? Pelo
que sabemos, ele habita o planeta terra e circula pelas regiões
celestiais. Muitas vezes o inferno é mencionado pelas pessoas como
um lugar onde o Diabo mora e faz suas reuniões estratégicas com os
seus demônios. Em algumas dessas supostas reuniões, eles estão
eufóricos com seus planos e realizações. Não estaríamos alimentando
um folclore religioso com tudo isso? Afinal, a bíblia mostra o inferno
como um lugar de tormento e não de reuniões satânicas. Se o Diabo
lá estivesse, estaria sofrendo tormentos e não fazendo planos.
Segunda Epístola de Pedro

Autoria

No primeiro versículo, o autor já se apresenta como "Simão


Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo." Pouco adiante, Pedro
menciona que presenciou o episódio da transfiguração (I Pd.1.16-18;
Mt.17.5). No capítulo 3, versículo 1, o autor se refere à primeira
epístola.

Data - 64 d.C.

Destinatários - por 3.1 entendemos que os destinatários são os


mesmos da sua primeira carta: cristãos dispersos na Ásia Menor. O
primeiro versículo do livro parece sugerir que o autor pretendia que
seu escrito tivesse um alcance maior: ele se dirige "aos que conosco
alcançaram fé igualmente preciosa..."

Temas e Objetivos - Animar os irmãos (cap.1); Denunciar os


falsos mestres (cap.2); Falar sobre a segunda vinda de Cristo.

Textos chave - 2.1 e 3.1-4.

ESBOÇO

1. Caminho 1 - A vida cristã - uma palavra de estímulo - 1.1-21.


2.
3. Caminho 2 - Os falsos mestres - denúncia - 2.1-22.

3- A segunda vinda de Cristo e o juízo - 3.1-18.

A segunda epístola de Pedro nos fala de dois caminhos. O


primeiro, apresentado no capítulo 1, é chamado de "caminho da
verdade" (2.2), "caminho direito" (2.15) e "caminho da justiça"
(2.21). Embora essas expressões estejam no capítulo 2, é no início
da carta que o autor fala sobre o procedimento do cristão. O outro
caminho, o dos falsos mestres, é apresentado no capítulo 2 e
chamado "caminho de Balaão" (2.15). É interessante notarmos que,
ao falar do caminho de Balaão, Pedro não está se referindo àqueles
que nunca conheceram o Senhor, mas ele fala de pessoas que foram
resgatadas (2.1), mas desviaram-se das veredas da justiça
(2.15,20,21,22). O próprio Balaão era um profeta verdadeiro até que,
pelo interesse financeiro, desviou-se da verdade.
Em cada um desses caminhos temos: ponto de partida, modo de
caminhar e ponto de chegada, conforme fica evidente na epístola.

1 - Caminho 1 - A vida cristã - uma palavra de estímulo -


1.1-21.

O capítulo 1 está falando da trajetória cristã. O ponto de


partida está em 1.4: "...havendo escapado da corrupção que pela
concupiscência há no mundo". Trata-se da conversão. Quem se
converte não pode achar que já tem tudo o que Deus pode oferecer.
A partir do versículo 5, o autor apresenta uma lista de qualidades ou
capacidades que devem ser alcançadas pelo cristão. Aquele se
converte tem fé. A fé foi alcançada (1.1), mas ela não é um fim em si
mesma. Pelo contrário, é o início de uma jornada. Com diligência (ou
zelo) (1.5), o cristão deve buscar: virtude (bondade ou bom
procedimento), conhecimento, temperança (ou domínio próprio),
paciência (ou perseverança), piedade, amor fraternal (fraternidade),
amor (ágape).

Essas qualidades são mutuamente dependentes e


complementares. Pedro está propondo um plano de crescimento, o
qual deve ser o alvo de todo cristão. É desse modo que a natureza
divina se desenvolve em nós (1.4).

A fé sem conhecimento pode resultar em fanatismo e heresia. O


conhecimento sem fé é intelectualismo ou legalismo. Imaginemos que
alguém tem fé, conhecimento, mas não tem amor. Tal pessoa pode
ser perigosa, tornando-se um manipulador e até mesmo agressor.
Quando Tiago e João quiseram pedir fogo do céu para destruir os
samaritanos, eles demonstraram que tinham conhecimento e muita
fé, mas nenhum amor ao próximo, nenhuma bondade, nenhuma
paciência, nenhum domínio próprio. Felizmente, Jesus impediu aquela
tragédia e, mais tarde, aqueles discípulos aprenderam a amar.

No relato de toda essa experiência cristã, Pedro utiliza diversas


palavras que podem ser divididas em dois grupos: ações divinas e
ações humanas. O início da nossa caminhada se dá pela operação do
"divino poder" do Senhor (1.3). A partir daí, o homem tem muito a
fazer.

PARTE DIVINA PARTE HUMANA


Seu poder (1.3) Empregando diligência (zelo) (1.5)
Seus dons (1.3) - ele nos deu Acrescentai bondade, conhecimento,
tudo. temperança, paciência, piedade,
amor fraternal, amor ágape. (1.5)
Sua glória (1.3) Procurai confirmar vossa vocação e
eleição (1.10)
Sua virtude (1.3)
Suas promessas (1.4)
Sua natureza (1.4)
Sua vocação (1.10) - ele nos
chamou
Sua eleição (1.10) - ele nos
elegeu

Se Pedro estava exortando (1.12-15) os irmãos a fazerem a sua


parte no que diz respeito ao crescimento espiritual, é porque eles
poderiam, depois de tudo o que Deus fez, ter cruzado os braços e
parado no meio da estrada. Nesse caso, o resultado seria: a visão
curta ou mesmo a cegueira espiritual, o esquecimento das primeiras
experiências com Deus e o tropeço que poderia levar à queda(1.9-10;
3.17).

Os tempos e modos dos verbos encontrados no texto nos


ajudam a ver uma trajetória traçada e uma ordem de avanço. Alguns
verbos estão no passado, indicando o lugar de onde saímos e aquilo
que Deus já fez por nós. Alguns deles, no pretérito perfeito, indicam
ações consumadas por Deus. È algo que foi feito e não se vai se
repetir. Outros verbos estão no gerúndio e indicam uma ação
constante. É presente, mas ainda não foi encerrada. São ações
contínuas de Deus a nosso favor e ações contínuas da nossa parte em
busca do alvo. Outros verbos estão no futuro e apontam para o
resultado desejado. Destacam-se também aqueles que estão no
modo imperativo e indicam ordem para que avancemos em nosso
caminho com Deus.

PASSADO PRESENTE IMPERATIVO FUTURO


CONTÍNUO
Alcançaram fé Nos tem Acrescentai(1.5) Não vosdeixarãoociosos
(1.1) dadopromessas (1.4) (1.8).
Nos deu tudo Empregandodiligência Procurai (1.10) Jamaistropeçareis(1.10)
(1.3) (1.5)
Nos chamou(1.3) Vos seráconcedida
entrada no reino
(1.11).
Havendo
escapado da
corrupção (1.4)
Lendo o quadro anterior, cada coluna, da esquerda para a
direita, percebemos a idéia de movimento, de progresso com o
passar do tempo.

No caminho da vida cristã, o modo de caminhar se define por


alcançar, praticar e manter as qualidades e capacidades já
mencionadas. Esse deve ser o nosso modo de vida (3.11).

O ponto de chegada ou objetivo a ser alcançado pode ser


compreendido através das expressões: "para que por elas vos torneis
participantes da natureza divina" (1.4), ".. não vos deixarão ociosos
nem infrutíferos" (1.8) e "vos será amplamente concedida a entrada
no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (1.11).

2 - Caminho 2 - Os falsos mestres - denúncia - 2.1-22.

No capítulo 2, o autor muda para um assunto extremamente


oposto ao que estava sendo tratado até então. Seu conteúdo é muito
semelhante à epístola de Judas.

Enquanto que no capítulo 1, Pedro falava a respeito dos cristãos


fiéis, agora ele passa a se referir aos falsos mestres, seu caráter,
suas obras e o conseqüente castigo. Esses são os que andam pelo
"caminho de Balaão" (2.15). Sabendo de sua morte iminente (1.14),
o autor está preocupado com aqueles que talvez o sucederão e aos
demais apóstolos na liderança da igreja.

Os falsos mestres:

 Foram resgatados mas desviaram-se (2.1,15,19,20,21,22).


 Contudo, continuam dentro das igrejas (2.1,13).
 Estão na liderança (2.2 - muitos os estão seguindo).
 Seu interesse primordial é o dinheiro. Assim como Balaão
(2.3,14,15).
 São comparados aos anjos caídos, aos contemporâneos de
Noé e aos habitantes de Sodoma e Gomorra (2.4,5,6).

O ponto de partida desse caminho é o mesmo daqueles


mencionados no primeiro capítulo. Já que foram resgatados (2.1), o
lugar de onde saíram está identificado como as "contaminações do
mundo", de onde escaparam mediante o conhecimento do Senhor e
Salvador Jesus Cristo (2.20). Contudo, desviaram-se da rota traçada
pelo Senhor (2.15), sendo envolvidos e vencidos pelo mundo,
terminando por se afastarem do santo mandamento de Deus (2.20-
21).
O seu modo de caminhar é identificado através de seu
comportamento. O texto apresenta verbos e adjetivos que nos fazem
compreender o caráter desses homens:

- Falsos, dissimulados, hereges, destruidores, negam a Cristo,


libertinos, avarentos, mentirosos, fazem comércio de vidas, são
carnais, seguem paixões imundas, são rebeldes, atrevidos,
obstinados, como animais irracionais, blasfemos, injustos, luxuriosos,
enganadores, adúlteros, insaciáveis, malditos, vaidosos, arrogantes,
inconstantes, escravos da corrupção (2.1,2,3,10,12,13,14,18,19;
3.3). Tais palavras variam um pouco de uma versão bíblica para
outra.

- Apesar de todo esse conteúdo maligno, tais homens


apresentam uma aparência positiva. Afinal, são líderes, são mestres,
e prometem liberdade aos seus seguidores (2.1,2,19). São fontes...
sem água. São nuvens .... também sem água (II Pd.2.17; Jd.12). O
aspecto é promissor mas não produzem nada de positivo.

Dentre tantas características apresentadas, percebemos que se


destacam as atitudes desses falsos mestres em relação à autoridade,
ao dinheiro e ao sexo. Eles são rebeldes, avarentos e adúlteros, entre
outros adjetivos a estes relacionados.

O ponto de chegada desse caminho está demonstrado pelas


expressões:

 "... a sentença..." (2.3).


 "... a perdição..." (2.3).
 "... inferno..." (2.4).
 "... cadeias da escuridão..." (2.4).
 "... juízo.." (2.4).
 "... destruição..." (2.6).
 "... o dia do juízo, para serem castigados." (2.9).
 "... a negridão das trevas" (2.17).
 "... o último estado pior do que o primeiro" (2.20).
 "... juízo e destruição..." (3.7).

3 - A segunda vinda de Cristo e o juízo - 3.1-18.

Pedro encerra sua obra com um capítulo escatológico. Após ter


falado sobre dois caminhos, dois tipos de vida, o apóstolo fala sobre a
segunda vinda de Cristo (3.4) e, novamente, trás à tona o tema do
juízo, comparado ao dilúvio dos dias de Noé (3.7). Está em destaque
a aparente demora da "parousia".

Pedro adverte que o tempo de Deus é diferente do nosso. "Um


dia para Deus é como mil anos e mil anos como um dia". (3.8).
Sobre a segunda vinda precisamos de duas atitudes: fé e
paciência. A aparente demora de Deus é manifestação da sua
misericórdia. Ele está dando tempo para muitos ainda se arrependam
e se convertam (3.9).

Enquanto que o dilúvio foi a destruição dos ímpios e suas obras


através da água, Pedro nos diz que o fim desta nossa era se dará por
meio de um "dilúvio de fogo". O apóstolo "desenha" um cenário
"apocalíptico" iluminado pelas chamas da ira divina. O fogo abrasará
(3.10,12), destruirá (3.7) e fará derreter (3.12). Serão atingidos: os
céus (3.7,10,12), a terra (3.7,10) e todas as coisas que nela há
(3.10-11). Semelhantemente ao texto de Apocalipse 21.1, Pedro
também fala de novos céus e nova terra (II Pd.3.13; Is.65.17).
Primeira Epístola de João

AUTORIA - João, o apóstolo. Seu nome não é mencionado em


suas três epístolas. Não obstante, sua autoria foi confirmada por
Policarpo, Papias, Eusébio, Irineu, Clemente de Alexandria e
Tertuliano. O nome "João" significa "graça de Deus". Era judeu,
pescador (Mt.4.21), irmão de Tiago, filho de Zebedeu e Salomé
(Compare Mt.27.56 e Mc.15.40). Foi chamado de discípulo amado -
Jo.13.23; 19.26; 21.20. Foi o discípulo mais íntimo do Mestre. Até no
momento da crucificação, João estava presente. Isso mostra sua
disposição de correr risco de vida para ficar ao lado de Jesus. Apesar
de ter fugido no momento da prisão de Cristo, João voltou pouco
tempo depois.

Jesus chamou João e Tiago de boanerges, "filhos do trovão",


referindo-se ao seu temperamento indócil, tempestuoso, violento
(Mc.3.17; Mc.9.38; Lc.9.54).

São várias as citações a respeito de João nos evangelhos de


Mateus, Marcos e Lucas. Seu nome é omitido no seu evangelho (João
20.2; 19.26; 13.23; 21.2). Encontram-se referências ao apóstolo
também em At.4.13; 5.33,40; 8.14; Gl.2.9; 2 Jo.1; 3 Jo.1;
Apc.1.1,4,9. Na segunda e na terceira epístola, ele se apresenta
como "o presbítero". Podendo se apresentar como apóstolo,
demonstrou humildade ao utilizar título mais simples. Em Apocalipse,
apresenta-se como "servo".

Após o exercício do seu ministério em Jerusalém, João foi pastor


em Éfeso, onde morreu entre os anos 95 e 100. Policrates (ano 190),
bispo de Éfeso, escreveu: "João, que se reclinara no seio do Senhor,
depois de haver sido uma testemunha e um mestre, dormiu em
Éfeso."

Palavras chave: Conhecimento (ou saber) , amor e comunhão.

Data de escrita da primeira epístola - Final do primeiro


século, entre os anos 95 e 100.

Local de origem - Éfeso

Destinatários - Por não conter saudações, despedidas ou


menção de nomes, tem-se considerado que a carta foi destinada à
igreja em geral. O apóstolo trata carinhosamente os destinatários
como "meus filhinhos" (2.1,18,28; 3.7,18; 4.4; 5.21) e "amados"
(3.2,21; 4.1,7,11). Isso parece indicar que, embora não tenha
vinculado a epístola a uma comunidade específica, o autor tem em
mente pessoas conhecidas, as quais seriam as primeiras a receberem
aquela mensagem.

CARACTERÍSTICAS

A carta apresenta denúncia contra os falsos e incentivo aos


verdadeiros cristãos. O autor é incisivo, direto, totalmente convicto.
Sua afirmações são muito fortes no sentido de apontar o erro e a
verdade.

O propósito da carta está bem definido com também vimos no


evangelho (João 20.31). A epístola foi escrita:

1 - "Para que a nossa alegria seja completa" - 1.4

2 - "Para que não pequeis" - 2.1.

3 - Para advertir contra os enganadores - 2.26.

4 - "Para que saibais que tendes a vida eterna" - 5.13.

Entendemos que o autor estava bastante preocupado com a


igreja, em seu estado presente e futuro. Os demais apóstolos já
haviam morrido e falsos mestres apareciam por toda parte. Alertando
os irmãos, o apóstolo ficaria mais tranqüilo e sua alegria seria
completa (1.4). Seu alerta é contra o pecado (2.1) e contra as
heresias (2.26). São duas portas para o diabo entrar nas vidas e nas
igrejas. Embora as duas coisas estejam intrinsicamente ligadas, as
heresias apresentam um elemento muito perigoso. Todo tipo de
pecado deve ser evitado, mas se, eventualmente, cometermos
algum, confessaremos e seremos perdoados (1.7,9; 2.1). A heresia
entretanto, constitui-se num caminho de afastamento de Deus. A
heresia, do tipo mencionado por João, leva à apostasia. Então, tem-
se uma situação muito perniciosa em que a pessoa está errada mas
pensa que está certa. Trata-se de um estado de pecado sem
reconhecimento, sem confissão, sem arrependimento e,
consequentemente, sem perdão. Aquele que passa a crer numa
doutrina contrária à cruz, como pode ser perdoado? Não é que Deus
se recuse a perdoá-lo, mas a própria pessoa não acredita na única
solução divina, que é o sacrifício de Cristo. A reversão desse quadro é
possível, mas muito difícil. O melhor é a prevenção contra as heresias
e isso se faz através do conhecimento e apego à Palavra de Deus.

CENÁRIO OBSERVADO POR JOÃO


A situação da igreja inspirava cuidados. Notamos isso pelo que
se lê nas cartas às sete igreja da Ásia (Apc.2 e 3).
As heresias grassavam em muitas comunidades. Em Apocalipse, livro
escrito na mesma época, João menciona as expressões "sinagoga de
Satanás" (Ap.2.9), "nicolaítas" (Ap2.6,15), "doutrina de Balaão"
(Ap.2.14), etc.

O gnosticismo, sistema que mistura idéias filosóficas, crenças


judaicas e cristãs, era uma das principais fontes de heresias da
época. Assim, muitos cristãos se tornaram gnósticos. Criam em Jesus
mas negavam a realidade de sua encarnação e morte. O fato de se
denominarem cristãos criava uma situação confusa. Quem eram os
verdadeiros cristãos? Os que criam de uma forma ou os que criam de
outra?

João observou a necessidade de identificação, discernimento,


definição e posicionamento. Observemos as perguntas-chave que
autor apresenta:

1 - "Quem é o mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o


Cristo?" (I Jo.2.22).

2 - "Quem é o que vence o mundo senão aquele que crê que


Jesus é o Filho de Deus?" (I Jo.5.5).

O autor se mostra bastante interessado em mostrar "QUEM É O


QUÊ". São usados pronomes demonstrativos e indefinidos para
apresentar especificações bem definidas que permitem identificar os
indivíduos em relação a Cristo. João usa repetidamente a fórmula:
"Quem não faz isso não é aquilo". ou "Quem faz tal coisa é outra
coisa".

Aquele - 2.6,11,17,22,23,26,29; 3.4,6,17; 5.1,5,16,18 (Veja


também II João 1.9).

Alguém - 2.1,15,27; 4.20; 5.16.

Quem - 4.7,8,9,10.

O mentiroso e o verdadeiro precisam ser identificados. Essa é a


missão de João em sua primeira epístola. O autor ajuda a identificar
os personagens do cenário e a situação dos próprios leitores no
contexto da verdade e da mentira. O exemplo clássico utilizado é o
de Caim e Abel (I Jo.3.11-12), representando dois grupos de pessoas
que estavam dentro da igreja. O autor identifica quem está em
comunhão com Deus e quem não está. No quadro a seguir, listamos
diversas expressões da epístola através das quais se traça uma linha
divisória entre os dois grupos. Vamos chamá-los, alegoricamente, de
"grupo de Abel" e "grupo de Caim".

"Grupo de Abel" "Grupo de Caim"


Vida (1.1,2; 2.16,25; 3.14,15,16; Morte (3.14; 5.16-17)
5.11,12,13,16,20)
Verdade - 1.6,8; 2.4,5,8,21,27; Mentira - 1.6,10; 2.4,21,22,27;
3.18,19; 4.6; 5.7,20. 4.20; 5.10

Erro - 4.6 Engano - 1.8; 2.26; 3.7


Verdadeiro (2.8,27; 5.20) Falso ou mentiroso (2.22)
Espírito da verdade (4.6) espírito do erro (4.6)
Cristo (1.3, etc) Anticristo (2.18,22)
Amor ao irmão (2.10) Amor ao mundo (2.15)
Sofre ódio do mundo (3.13) Ódio ao irmão (2.11; 3.15)
Luz - 1.5,7; 2.8,9, 10. Trevas - 1.5,6; 2.8,9,11.

É possível passar de um lado para o outro. Esse trânsito pode


ser chamado conversão ou, no sentido contrário, apostasia. João
disse que "passamos da morte para a vida." (3.14). E o seu cuidado
era para que não acontecesse o processo contrário com alguns
irmãos que, envolvidos pela heresia, pudessem passar da verdade
para a mentira.

IDENTIFICANDO A DOUTRINA, O MESTRE E O ESPÍRITO

A heresia é uma doutrina errada, mas isso pode não estar tão
claro no início. O que chega até nós é simplesmente uma doutrina.
Esta deve ser então identificada. Por meio dos parâmetros
encontrados na epístola, o autor identifica a doutrina, o mestre e
o espírito que está por trás (2.22-23, 4.1-6). As chaves
identificadoras são:

 Relação com Cristo (2.22-23);


 Relação com os irmãos. (3.10,17).
 Relação com o mundo (2.15).

Estes são os "instrumentos" que nos farão identificar a verdade e


a mentira. Tais indicadores são complementares entre si. Se alguém
negar que Cristo é o Filho de Deus, estará reprovado. Não está na
verdade. Se alguém afirma que Cristo é o Filho de Deus mas nega
sua encarnação e morte, estará reprovado. Se alguém diz ter uma fé
correta a respeito de Cristo, então o próximo teste é a relação com os
irmãos. Se a pessoa odeia os irmãos ou lhes nega auxílio nas
necessidades, então estará reprovada. Se a pessoa ama o mundo,
anda segundo o mundo, vive de modo agradável ao mundo, pecando
habitualmente, então está do lado da mentira. A relações com os
irmãos e com o mundo constituem evidências visíveis do tipo de
relação que temos com Cristo, uma vez que esse vínculo é espiritual
e invisível.

O objetivo dessas colocações não é sairmos julgando as pessoas


dentro da igreja. Em primeiro lugar, cada um deve julgar e purificar a
si mesmo (I Jo.3.3; 5.10; I Cor.11.28,31; II Cor.13.5; II Jo.1.8).
Depois, é preciso que saibamos julgar as profecias e as doutrinas que
recebemos (I Cor.14.29; I Tess.5.20-21; I Cor.10.15). Se uma
doutrina é contrária a Cristo, contrária à comunhão dos irmãos ou
favorável ao mundanismo, então deverá ser rejeitada. Finalmente, a
vida de um mestre deverá ser avaliada para que se decida sobre a
sua doutrina. "Pelos seus frutos os conhecereis." (Mt.7.15-16). Muitos
irmãos podem apresentar uma série de erros e até mesmo pecados
por uma questão de imaturidade, fraqueza, ignorância, etc. Não
devem ser alvos de julgamentos mas de orientação. O objetivo de
João era alertar contra aqueles que se colocavam como mestres da
igreja.

ESTAR E PERMANECER - POSIÇÃO E PERSEVERANÇA

No cenário da verdade e da mentira precisamos nos


localizar. Onde estamos? João usa diversas vezes o verbo "estar". Em
algumas delas, ele se preocupa em "localizar" espiritualmente as
pessoas. Se guardamos a palavra e amamos os irmãos, isso indica
que "estamos" em Cristo. Quem não ama seu irmão, "está" nas
trevas. Finalizando, o autor diz que "estamos" em Cristo, que é o
verdadeiro Deus. (I Jo.2.5,6,9; 5.20).

Podemos ter nossa posição muito bem definida. Entretanto,


vamos mantê-la? Um outro verbo muito importante para João é
"permanecer". Lembre-se do capítulo 15 do evangelho de João:
"Permanecei em mim e eu permanecerei em vós". "Se alguém
permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto." "Se alguém não
permanecer em mim, será lançado fora." "Se vós permanecerdes em
mim e as minhas palavras permanecerem em vós pedireis o que
quiserdes e vos será feito." "Permanecei no meu amor...", etc.

Na primeira epístola, a ênfase continua nos seguintes textos:


2.10,14,17,19,24,27,28; 3.6,9,14,15,17,24; 4.12,13,15,16. Em
todos esses versículos aparece o verbo "permanecer". Isso demonstra
a preocupação do autor com a perseverança dos irmãos no caminho
da verdade. (Veja também II João 1.2,9).

COMBATE AO GNOSTICISMO
João se mostrou bastante combativo em relação ao gnosticismo.
Esta palavra vem do termo grego "gnosis" que significa
"conhecimento". Os gnósticos criam e ensinavam que a salvação da
alma dependia do conhecimento de alguns mistérios só revelados aos
que participavam de seus rituais de iniciação. O apóstolo usou então
a mesma palavra, "conhecimento", para combater as heresias
gnósticas. Tanto no evangelho como na primeira epístola, ele
mostrou o que realmente importa conhecer: A verdade, que é o
próprio Cristo e o amor, que é o próprio Deus.

O conhecimento sem amor pode causar tragédias. A bomba


atômica é um exemplo clássico.

O verbo "conhecer" aparece nos seguintes versículos: I Jo.


2.3,13,14,18,20; 3.1,6,16,19,20,24; 4.2,6,7,8,13,16; 5.2.20. (II
João 1.1).

A carta destaca também a palavra "luz", que também é um


símbolo do conhecimento: 1.5,7; 2.8,9, 10.

Outro verbo similar é o "saber". Essa palavra tem um sentido


muito forte, pois não admite dúvida, insegurança, medo nem
ignorância. O comentário da Bíblia Thompson chama a primeira
epístola de João de "a carta das certezas". O autor usa o verbo
"saber" de uma forma bastante clara e determinada. (I
Jo.2.3,5,11,21,29; 3.2,5,14,15; 5.15). Ele diz: "Sabemos que somos
de Deus." Não estamos perdidos nem confusos. SABEMOS quem
somos, onde estamos e para onde vamos.

O gnosticismo afirmava que o mal residia na matéria. Portanto,


negavam que Deus pudesse se encarnar. Em relação a Cristo, João
escreveu: "nós ouvimos, vimos, contemplamos, nossas mãos
tocaram..." (I Jo.1.1-3). Ou seja, o apóstolo estava afirmando
insistentemente que o corpo de Cristo era matéria, pois poderia ser
tocado, como de fato o foi. Não se tratava de um espírito, uma
aparição, como os gnósticos afirmavam. (I Jo.4.2; 5.6)

OUTRAS PALAVRAS, EXPRESSÕES E CONCEITOS EM


DESTAQUE

VIDA - 1.1,2; 2.16,25; 3.14,15,16; 5.11,12,13,16,20

Vida de Deus para nós por meio de Cristo.

MUNDO - nosso posicionamento: não amamos o mundo; somos


odiados por ele; haveremos de vencê-lo (I Jo.2.2,15,16,17;
3.1,13,17; 4.1,3,4,5,9,14,17; 5.4,5,19).
VERDADEIRO - Mandamento - 2.8. Luz - 2.8. Unção - 2.27.
Jesus - 5.20. Deus - 5.20.

AMOR ( e verbo amar) 2.5,10,12,15; 3.1,10,14,16 (x Jo.3.16).


3.17,18,23; 4.7,8,9,10,11,12,16,17,18,19,20,21; 5.1,2,3. (Obs. II
Jo.1,3,6 III Jo.1,6,7 Apc.2.3,4,19; 3.9,19). São da autoria de João
alguns dos mais famosos versículos bíblicos sobre o amor: "Deus é
amor" e "Porque Deus amou o mundo de tal maneira..."

Na primeira epístola, o autor usa o verbo amar em diversas


conjugações: ama, ameis, amamos, amemo-nos, amado, amados,
amou, amar-nos, amo, amar, ame, amemos.

O amor vem de Deus, através de Jesus. "Ele nos amou


primeiro". Daí em diante, o amor deve ter livre curso em direção aos
irmãos, mas não em direção ao mundo. O amor deve "circular como
sangue" no Corpo de Cristo, que é a igreja.

COMUNHÃO - 1.3,6,7.

MANDAMENTO(s) - 2.3,4,7,8; 3.22,23,24; 4.21; 5.2,3.

O QUE SE DIZ E O QUE SE É - 1.6,8,10; 2.4,6,9; 4.20;

MANDAMENTOS NEGATIVOS

NÃO AMEIS o mundo - 2.15.

NÃO CREIAIS a todo espírito - 4.1.

O amor e a fé só são positivos quando bem direcionados.


Segunda Epístola de João

Autor: Apóstolo João

Data: entre 90 e 95 d.C.

Propósito: Alertar contra os enganadores; combater a mentira.

Palavra-chave: verdade.

ESBOÇO

1 - Saudações - 1-3.

2 - O caminho da verdade e do amor - 4-6.

3 - Os enganadores e como tratá-los - 7-11.

4 - Saudações - 12-13.

O autor não menciona seu próprio nome. Apresenta-se como


"presbítero", que significa "ancião", conforme já consta em algumas
versões bíblicas. Os anciãos, desde os tempos do Velho Testamento,
eram os homens mais velhos, mais experientes, e, por conseqüência,
líderes do povo (Êx.3.16,18; 4.29; 12.21 etc.). Ao escrever seu
evangelho e epístolas, o apóstolo João já era idoso.

Estando já familiarizados com os escritos do apóstolo, logo


reconhecemos sinais de sua autoria na segunda epístola. Por
exemplo, a ênfase sobre os temas: "verdade", "amor",
"mandamento", "permanecer", e o combate às falsas doutrinas. Tudo
isso constitui marca de João em seu evangelho, na primeira epístola,
e também na segunda. Afinal, dos 13 versos da segunda epístola, 8
se encontram quase idênticos na primeira.

Destinatária - A segunda epístola é dirigida a uma senhora e


seus filhos. Tal mulher não é identificada pelas escrituras. Há quem
defenda a tese de que a "senhora eleita" seja Maria, irmã de Marta, a
qual estaria mencionada no versículo 13. Há quem tome o termo
"senhora" em grego, (kuria), considerando-o como nome
próprio. Outras hipóteses sugerem que João estivesse chamando de
"senhora eleita" a uma igreja específica ou à igreja em geral. Nada
disso se comprova. Seguindo a mais rigorosa interpretação, não
podemos afirmar qual tenha sido essa mulher. Apenas entendemos
tratar-se de uma senhora que, provavelmente era viúva. Caso tivesse
marido, não seria natural que o apóstolo lhe dirigisse diretamente
uma carta. O texto parece indicar que em sua casa aconteciam
reuniões da igreja (vs.10). De qualquer forma, trata-se de uma
mulher amada e respeitada por todos os irmãos que a conheciam
(vs.1).

Tema - todas as epístolas de João foram escritas na mesma


época. Nota-se na segunda, que os assuntos da primeira ainda
persistem na mente no apóstolo. Ele ainda se mostra combativo em
relação aos enganadores. Seu esforço é a favor da verdadeira
doutrina de Cristo.

NOSSA RELAÇÃO COM A DOUTRINA DE CRISTO

Cristo veio e nos deu sua doutrina, seu mandamento, que


consiste no amor a Deus e ao próximo. O amor determina nosso
vínculo com Deus e com os irmãos. Já recebemos a sua doutrina. A
questão agora é: vamos andar nesse mandamento? O verbo "andar"
é muito utilizado por João e também por Paulo, indicando nosso
modo de vida, nossas decisões, nossos rumos, nossas ações. Se
praticamos a vontade de Deus, então estamos andando em espírito
(Gál. 5.16), andando com Deus (Gn.5.22,24), no caminho que é
Cristo (Jo.14.6). Contudo, de nada adianta estarmos no caminho por
algum tempo se sairmos dele antes de chegarmos ao lugar onde ele
nos levaria. Portanto, precisamos permanecer no caminho, por mais
difícil que isso possa ser. Aos que permanecerem, Deus dará a
devida recompensa.

Os enganadores ameaçam o êxito desse processo (vs.7 a 10).


Isso ocorre com aqueles que abandonam o caminho da verdade e do
amor, não permanecendo na doutrina de Cristo (vs.9). Os que se
desviam perdem a recompensa, perdem o fruto do seu trabalho e
fazem perder-se o fruto do trabalho daqueles que os conduziram a
Cristo (vs.8). João disse que alguns "vão além" da doutrina. Esta é
uma forma sutil da heresia:

 Exigir mais do que o que Deus exigiu.


 Esperar mais do que o que Deus prometeu.

Precisamos ser cuidadosos no sentido de não criarmos doutrinas


extra-bíblicas, como se a palavra de Deus precisasse de
complemento. Os que lideram precisam estar atentos em relação ao
que exigem de seus liderados. Estaremos indo além da palavra de
Deus? Vemos em Gênesis que, ao repetir o mandamento divino, Eva
lhe acrescentou as palavras: "nem nele tocareis" (Gn.3.3). Paulo
profetizou que nos últimos dias, surgiriam doutrinas de demônios,
proibindo o casamento e determinando a abstinência de manjares
que Deus criou para os fiéis (I Tm.4.1-3).

A bíblia fala em dízimo, que significa 10%. Se alguém quiser dar


100%, fique à vontade. Será uma oferta voluntária. Entretanto, se
algum líder exigir 100%, estará indo além, muito além, da doutrina
bíblica.

Esperar mais do que aquilo que Deus prometeu pode ser uma
atitude inofensiva ou não, dependendo da situação. Se alguém
espera que Deus lhe dê uma casa na praia, isso não é pecado.
Contudo, não sabemos se Deus fará isso. Pode ser que sim e pode
ser que não, uma vez que a bíblia nunca nos prometeu esse tipo de
coisa. Então, se Deus não der, qual será a reação daquele que pediu
e esperou? O problema se agrava quando esse tipo de expectativa é
alimentada por formas doutrinárias, como as que temos ouvido hoje
em dia, e que estão destituídas de fundamento bíblico. Esta é uma
das formas de "ir além" da doutrina de Cristo. A palavra do Senhor
nos ensina que ele atende aos nossos pedidos desde que estejam
coerentes com a sua vontade (I Jo.5.14; Tg.4.3).

A doutrina gnóstica, tão influente nos dias de João, negava a


humanidade de Cristo, atribuindo-lhe apenas caráter espiritual. Era
então um ensinamento espiritualista, o que, aparentemente,
demonstrava elevação, desapego em relação à matéria. Estavam indo
muito além da espiritualidade bíblica, a qual não nos nega o
provimento às nossas legítimas necessidades físicas (I Tm.4.1-3;
Col.2.16-23). O cristianismo mostra o espiritual se encontrando com
a matéria. "O verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1.14). E
este era o principal ponto negado pelos enganadores a quem João
combatia (II João 7). O próprio batismo e a ceia do Senhor fazem
com que os nossos corpos participem das nossas experiências com
Deus. Palavras de João: "vimos com os nossos olhos... e as nossas
mãos tocaram..." (I João 1.1). Era uma experiência física com o
verbo encarnado.

Uma espiritualidade exagerada, que vai além dos parâmetros


bíblicos, é algo que deve ser questionado. Como exemplos podemos
mencionar certas abstinências alimentares ou o celibato. Tudo isso
pode ser praticado, desde que seja voluntário. Se for doutrina, será
humana.

Sobre os enganadores, aqueles que não trazem a doutrina de


Cristo, João diz: "Não os recebais em casa nem tampouco os
saudeis." Está estabelecido o limite para a hospitalidade cristã, tão
valorizada pelos escritores do Novo Testamento. Não devemos ser
tão bons ao ponto de acolher os lobos que vêm para ameaçar nossa
firmeza na fé. O apóstolo não está nos aconselhando a sermos
rigorosos contra os fracos na fé, mas sim contra aqueles que nos
procuram com o objetivo de corromper a doutrina que recebemos do
Senhor. Não trate bem uma serpente. Ela te matará na primeira
oportunidade.

Deduzimos que a "senhora eleita" era uma viúva. Seria mais um


motivo para que ela ficasse atenta em relação àqueles que
desejassem entrar em sua casa. Muitos exploradores, disfarçados de
mensageiros de Deus, "devoravam as casas das viúvas" (Mt.23.14; II
Tm.3.6).

PALAVRAS EM DESTAQUE

Verdade - II João 1,2,3,4.

Mandamento - II João 4,5,6.

Amor - II João 3,6 Ensino (doutrina) - II João 9,10.

Permanecer - II João 2,9. Anticristo - II João 7.


Terceira Epístola de João

Autor: Apóstolo João

Data: entre 90 e 95 d.C.

Tema: Caráter cristão.

Palavra-chave: verdade.

ESBOÇO

1 - Saudações - 1-4.

2 - O bom exemplo de Gaio - 5-8.

3 - Diótrefes - o ambicioso - 9 - 11.

4 - Demétrio - o cristão fiel - 12.

4 - Considerações finais e saudações - 13-15.

A epístola em estudo é de autoria do apóstolo João. Para


confirmação compare os versículos:

III João 1 II João 1


III João 13- II João 12
14
III João 11 II João 9

A terceira epístola de João é uma correspondência particular


dirigida a um irmão chamado Gaio. Este nome era bastante comum
naquela época. Temos sua ocorrência em At.19.29, At.20.4,
Rm.16.23, I Cor.1.14, além de III João. Contudo, tais passagens não
se referem sempre à mesma pessoa.

Não temos muitas informações sobre Gaio, a quem João escreve.


Entendemos que ele não era o líder de sua igreja local. O versículo 9
indica que o líder é outro.

A QUESTÃO DA PROSPERIDADE
O verso 2 diz: "Amado, desejo que te vá bem em todas as
coisas, e que tenhas saúde, assim como bem vai à tua alma." Este
talvez seja o versículo mais conhecido dessa pequena carta, o qual é
muitas vezes utilizado como apoio para a doutrina da prosperidade.
Devemos observar que a única certeza do texto está relacionada à
alma do destinatário, ou seja, seu bom estado interior. No mais, o
verso expressa apenas o desejo de João no sentido de que Gaio
tivesse boa saúde e fosse próspero em todas as coisas. Não temos ali
uma promessa nem uma doutrina sobre prosperidade material. Tal
êxito depende do propósito de Deus para cada pessoa.

Gostaríamos de ser bem sucedidos em tudo e em todo o tempo.


Porém, essa trajetória certamente será muitas vezes interrompida
por tribulações, as quais fazem parte da nossa experiência cristã.

ANDAR NA VERDADE (vs.3-4).

Tal expressão, tão importante para João, significa praticar, viver


de acordo com a verdade. O verbo andar foi também muito utilizado
pelo apóstolo Paulo em seus ensinamentos sobre a vida cristã (Gál.
5.16,25; Ef.4.1; 5.15; etc.). Trata-se do "procedimento" mencionado
no verso 5.

PROCEDIMENTO, TESTEMUNHO E EXEMPLO (vs.3,4,6,10,12)

A palavra testemunho tem destaque em todos os escritos de


João, desde o evangelho até o Apocalipse. Como cristãos, damos
testemunho a respeito do Senhor Jesus, e isso vai gerar um outro
testemunho que será dado a nosso próprio respeito. O procedimento
será observado e produzirá um testemunho positivo ou negativo.

João se alegrou pelo testemunho dado pelos irmãos a respeito


de Gaio. Contudo, os estranhos também dão testemunho. Nesse
contexto, os "estranhos" são irmãos vindos de outros lugares. No
verso 12, todos dão testemunho, inclusive o próprio apóstolo e a
própria verdade. Parece que a verdade, nesse contexto, está
relacionada à doutrina, a qual serviria como parâmetro para
confirmar determinado testemunho.

Vemos portanto, que as nossas obras geram testemunhos a


nosso respeito e essas mensagens circulam rapidamente e
estruturam ou derrubam nossa reputação.

A epístola destaca o procedimento de Gaio, Diótrefes e Demétrio.


Daí surgiram testemunhos positivos e negativos, fazendo com que
essas pessoas se tornassem bons ou maus exemplos, a serem
imitados ou evitados.
Gaio e Demétrio são apresentados como cristãos fiéis (vs.3-
6,12). Diótrefes é visto como ambicioso. Estava na liderança, mas
João não o reconhece como tal. O apóstolo diz que Diótrefes "gosta
de ter entre eles a primazia." (v.10). Ele gostava de ser líder,
contudo não era vocacionado para aquele trabalho. Seu caráter se
manifesta por suas palavras e ações:

- Profere palavras maliciosas.

- Não recebe o apóstolo João na igreja. É rebelde contra as


autoridades espirituais.

- Proíbe que os irmãos o recebam.

- Exclui da igreja quem o faz. (v.10).

Gaio, que já andava na verdade, deveria se inspirar nos bons


exemplos (v.11).
Epístola de Judas

Autor: Judas, irmão de Jesus.

Data: entre 64 e 70 d.C.

Tema: Defesa da fé cristã.

Palavra-chave: guardar.

Texto chave - 3,4.

ESBOÇO

1 - Saudações - 1-2.

2 - Defesa da fé cristã - 3-4.

3 - Os deturpadores do evangelho - 5-16.

4 - Instruções práticas - 17-23.

4 - Doxologia - 24-25.

GUARDADOS EM CRISTO JESUS (v.1).

Estar em Cristo, expressão importante na teologia de Paulo, é


uma realidade espiritual que expressa nosso vínculo com Jesus e
nossa posição espiritual. Trata-se de uma união mística. Estamos
ligados a ele como os membros se ligam ao corpo e este à cabeça ou
como os ramos se ligam à videira. Judas diz que estamos
guardados em Cristo. Ele é o nosso refúgio, nossa fortaleza.

Lendo apenas o versículo 1 e o 24, poderíamos pensar que a


nossa situação e futuro dependem unicamente de Deus. Se assim
fosse, não precisaríamos de tantas palavras de advertência como
temos na bíblia. Contudo, o verso 20 muda a conjugação verbal e nos
exorta dizendo: "Guardai-vos no amor de Deus" (ou conservai-vos).
O autor nos repassa uma grande responsabilidade no sentido de nos
mantermos na posição que obtivemos em Cristo mediante a salvação.
Nosso estar em Cristo pode ser comparado à condição da família de
Noé dentro da arca, a qual representou a salvação daquelas pessoas.

O problema central apresentado pela epístola de Judas é o caso


daqueles que não guardaram suas posições e se perderam,
tornando-se exemplos do juízo divino (v.6). O autor cita como
exemplos: o povo de Israel no deserto, os anjos, Sodoma, Gomorra,
Caim, Balaão e Coré. Ele fala de experiências coletivas e individuais.
Menciona desde pessoas que conheciam bem pouco sobre Deus,
passando por aquelas que conheciam muito e chegando a mencionar
os anjos, que viam a Deus face a face. O que todos tiveram em
comum foi a corrupção e a conseqüente destruição. É impressionante
observarmos que o povo de Israel, por sua rebelião e incredulidade,
entra para uma lista de exemplos ao lado de Sodoma e Gomorra. Da
mesma forma, um profeta ganancioso, Balaão, é listado juntamente
com Caim, o irmão homicida. Isso mostra que, seja qual for a nossa
posição, devemos ser cuidadosos para não entrarmos nas listas
daqueles que não guardaram sua condição original e se
corromperam. "Guarda o que tens, para que ninguém tome a tua
coroa" (Apc.3.11).

HERESIA - CAMINHO DA PERDIÇÃO

Por quê alguém deixaria sua posição de obediência a Deus para


se tornar um infiel? Tal pergunta fica muito difícil de ser respondida
se indagarmos a respeito da queda de Satanás. Daí em diante, um
dos meios mais utilizados foi a persuasão. Assim, os anjos foram
levados, e também Adão e Eva. O infiel vai propagando a infidelidade.
Judas estava preocupado com essa prática, pois os hereges se
manifestavam dentro da igreja e ameaçavam a firmeza dos irmãos
através de doutrinas erradas.

A epístola diz que eles "convertem em dissolução a graça de


Deus" (v.4). Aqueles falsos mestres transformavam a graça de Deus
em libertinagem, como se a misericórdia de Deus representasse
conivência em relação ao pecado. O fato de Deus não punir
imediatamente o pecador significa que este tem oportunidade para se
arrepender. Contudo, isso não significa que o juízo foi esquecido.
Caso não haja arrependimento, haverá o castigo.

OS MENSAGEIROS DO MAL

Tais elementos são muito perigosos porque entram nas igrejas


(v.12) e conseguem posições de liderança e ensino (v.8,12). A sua
aparência não é ameaçadora. Pode até ser agradável. Contudo, seu
procedimento denuncia seu caráter. O autor utiliza muitas figuras de
linguagem para mostrar tal realidade.

APARÊNCIA CARÁTER
Nuvens sem água
Árvores sem fruto, sem vida, sem raiz firme
Ondas bravias
Estrelas errantes
Rochas submersas
Pastores que apascentam a si mesmos

A aparência pode ser muito boa, mas o conteúdo deixa a


desejar. Apresentam um potencial muito grande, mas não utilizado
como deveria. Por exemplo, a rocha, que poderia servir como base
em uma construção, encontra-se submersa, representando um perigo
oculto e fatal.

As figuras de linguagem utilizadas nos falam de elementos que


não se encontram fixos, não têm firmeza, encontram-se em
movimento constante: nuvens levadas pelo vento, árvores que não
estão presas por suas raízes, ondas do mar, estrelas cadentes. Os
falsos mestres não conseguem se firmar dentro da verdadeira igreja
do Senhor. Por isso é que acontecem os escândalos e eles se vão.
Vemos no texto também a questão da inutilidade de tais pessoas.
Uma estrela cadente não serve como ponto de referência. Ondas
bravias só causam destruição. Nuvem sem água não produz chuva.
Além disso, é levada pelo vento e nem sombra produz. O mesmo
acontece com a árvore que, além de não ter frutos, foi arrancada.
Nesse caso, o que não é útil pode se tornar uma ameaça. Então,
nada lhe resta senão o fogo, que representa o juízo divino.

Assim, Judas apresenta o caráter dos falsos mestres, o perigo de


sua mensagem e o destino que lhes cabe, a exemplo do que
aconteceu com os rebeldes israelitas do deserto, e Sodoma, Gomorra,
etc.

Não devemos olhar para os fracos na fé e vê-los como falsos na


fé. Por isso, Judas adverte que devemos ter compaixão daqueles que
estão em dúvida (v.22). Devemos salvá-los (v.23), tomando cuidado
para não sermos contaminados com seus erros práticos ou
doutrinários.

Judas adverte a respeito dos falsos, mas tem uma expetativa


positiva em relação aos verdadeiros irmãos. "Mas vós, amados,
lembrai-vos das palavras que foram preditas pelos apóstolos de
nosso Senhor Jesus Cristo; " (v.17). "Mas vós, amados, edificando-
vos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, conservai-
vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor
Jesus Cristo para a vida eterna". (v.20-21). A conjunção "mas"
introduz um texto com teor contrário ao anterior. Depois de falar
sobre a mensagem, a vida e o destino dos falsos mestres, o autor
exorta que os destinatários se firmassem na palavra ensinada pelos
apóstolos de Cristo. Desse modo, teriam uma vida livre da corrupção
e, consequentemente, seriam apresentados imaculados diante de
Deus para a vida eterna. Por essa razão, Judas encerra sua epístola
de modo tão exultante, com uma expressão de louvor a Deus.

PARALELO ENTRE JUDAS E II PEDRO

II PEDRO ASSUNTO JUDAS


2:1 Falsos mestres 1:4
2:4 Anjos que pecaram 1:6
2:6 Sodoma e Gomorra 1:7
2:10 Contaminados e atrevidos 1:8
2:11 Contenda de anjos 1:9
2:15 Animais irracionais 1:10
2:17 Caminho de Balaão 1:11
2:18 Nuvens levadas pelo vento 1:12,13
3:2-5 Falando coisas arrogantes 1:16
3:2 Lembrai-vos das palavras 1:17
3:3 Escarnecedores dos últimos 1:18
tempos
Apocalipse

O Apocalipse desperta interesse em quase todas as pessoas,


principalmente nos últimos anos, por ocasião da mudança de milênio.
Cristãos ou não, religiosos ou não, muitos são os que têm grande
curiosidade em relação ao livro. Entretanto, o medo e a falta de
compreensão acabam por afastar o interessado. O que resta,
normalmente, são informações obscuras e bastante distorcidas.
Apocalipse, Armagedom, Anticristo, Juízo Final e fim do mundo são
temas reincidentes nos filmes de Hollywood, que vão dando sentido
lendário e fantasioso aos assuntos extraídos das Escrituras.

Neste estudo, temos o objetivo de conhecer o livro sem a


pretensão de desvendá-lo completamente. Trata-se de uma
introdução ao estudo do Apocalipse. Apresentaremos, porém,
algumas hipóteses de interpretação em linhas gerais. Quando
mencionarmos teorias a respeito de determinado ponto, não significa
que adotamos esta ou aquela posição, exceto quando declararmos
nossa postura.

O Apocalipse contém, logo no início, uma mensagem de bênção


para os seus leitores. "Bem-aventurado aquele que lê, e bem-
aventurados os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as
coisas que nela estão escritas, porque o tempo está próximo."
(Ap.1.3). O texto nada diz sobre a compreensão, mas sobre o
conhecimento. É desejável que entendamos o Apocalipse. Se, porém,
não entendermos, este não deve ser o motivo para que o
abandonemos. Precisamos ler, ouvir, estudar, guardar o seu
conteúdo. Pode ser que muitas de suas profecias não possam ser
compreendidas antes de se cumprirem. Contudo, se as conhecemos,
poderemos reconhecê-las quando se cumprirem e, reconhecendo,
poderemos tomar as atitudes certas no momento certo. Jesus disse:
"...quando virdes... a abominação da desolação... então, os que
estiverem na Judéia fujam para os montes." (Mt.24.15). Portanto,
quando certos fatos ocorrerem, nós poderemos identificá-los, caso
estejamos munidos do conhecimento profético.

O GÊNERO APOCALÍPTICO

Esse foi um estilo literário que se destacou principalmente entre


os anos 210 a.C. e 200 d.C. Seu ambiente de origem era uma época
de tribulação para povo de Deus. Diante de circunstâncias que
incluíam opressão, perseguição, exílio ou domínio estrangeiro, os
escritos apocalípticos traziam uma mensagem de esperança através
de uma linguagem enigmática. Seu objetivo era reanimar judeus ou
cristãos, trazendo-lhes profecias a respeito da futura intervenção
divina para libertar o seu povo, restituindo-lhe a glória usurpada.

Muitos "apocalipses" surgiram, tendo como principal modelo o


livro de Daniel. Este foi escrito durante o exílio Babilônico e trazia
uma mensagem sobre o Reino de Deus que viria destruindo todos os
reinos opressores. Daí em diante, muitos livros apocalípticos foram
produzidos. Um dos momentos de opressão vividos por Israel foi o
domínio romano, produzindo assim mais uma ocasião propícia a esse
tipo de literatura, que muitas vezes incluía profecias messiânicas.
Diversos escritos desse tipo não foram reconhecidos como canônicos.
Como exemplos podemos citar o Apocalipse de Baruque, Apocalipse
de Pedro, O Pastor de Hermas, A Assunção de Moisés, A Ascensão de
Isaías, O livro de Jubileus, Os Salmos de Salomão, Os Testamentos
dos Doze Patriarcas, I Livro de Enoque, II Livro de Enoque, II Esdras
e IV Esdras.

O Apocalipse de João se encaixa perfeitamente nessa corrente


literária. Contudo, seu messianismo não se encontra vago como em
outros escritos. Nele, o Messias é claramente identificado como sendo
o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Este é o único livro desse
gênero no Novo Testamento. Contudo, existem blocos apocalípticos
em outras partes da bíblia. Por exemplo: Daniel 7 a 12, Isaías 13,14,
24, 25, Ezequiel 1, 28 a 39, Zacarias 9 a 14, Mateus 24, Marcos 13,
Lucas 21, I Tessalonicenses 5 e II Tessalonicenses 2. .

CARACTERÍSTICAS, CONTEÚDO E

AUTORIA DOS LIVROS APOCALÍPTICOS

Características e conteúdo: Mensagem de esperança,


escatologia, intervenção divina, visões, símbolos, criaturas estranhas,
mensagem oculta, uso de pseudônimos, profecias e apelo à
imaginação.

O Apocalipse de João só não se encaixa no quesito pseudônimo.


Os escritores apocalípticos normalmente não assinavam suas obras.
Muitos colocavam algum outro nome famoso e reconhecido, como
Enoque, Salomão, etc., para darem mais credibilidade ao livro. João,
porém, colocou seu próprio nome, conforme vemos no livro
(Ap.1.1,4,9-11). Tal autoria é reconhecida pela maior parte dos
críticos e comentaristas. Há quem diga que alguém usou o nome de
João, mas essa hipótese não tem muitos adeptos.

Alguns detalhes do livro reforçam a crença na autoria joanina.


Jesus é apresentado como o Verbo de Deus e o Cordeiro
(Ap.19.7,13), exatamente como acontece no evangelho de João
(1.1,29). A palavra "testemunho" se destaca assim como acontece no
evangelho e na primeira e terceira epístolas. Notamos assim "a mão"
de João no Apocalipse.

O QUE É APOCALIPSE?

Esta palavra, de origem grega, significa "revelação". Revelar é


mostrar, tirar o véu, desvendar. Falamos do Apocalipse como algo
oculto. Porém, trata-se de uma revelação. O livro revela que Deus
tem um plano, cujo desfecho é a vitória de Cristo. Podemos não
saber o que é a besta, mas sabemos que ela será vencida pelo poder
de Deus. Esta revelação está clara e evidente no Apocalipse.

DADOS GERAIS

Autor - O apóstolo João - 1.1,4,9-11;

Destinatários - As 7 igrejas da Ásia (em geral, fundadas por


Paulo).

Data - 95 ou 96 d.C.

Local - Patmos - ilha vulcânica, rochosa e estéril, localizada a 56


km da costa da Ásia Menor (Turquia). Para lá eram enviados os
prisioneiros na época do imperador romano Domiciano (81 a 96).
Outra hipótese defendida por alguns é a de que João tenha estado lá
em algum momento do governo de Nero (54-68).

Idioma - Grego (Ap.1.8; 21.6; 22.13).

Tema - Conflito entre o bem e o mal. A vitória de Cristo e a


implantação do seu Reino.

Versículo-chave - Apc.1.7.

Versículo-esboço - Apc.1.19.

Características particulares - Único livro bíblico com bênção e


maldição relacionadas ao seu uso (1.3 e 22.18-19).

Classificação - livro profético. (único do NT embora haja blocos


proféticos em outros livros como em Mt.24, Mc.13, Lc.21, etc.).

Personagem central - O Cordeiro.

Destaques - Verbo vencer (Apc. 2 e 3; 12.11; 15.2; 17.4;


21.7); Testemunho (Apc.1.2,9; 6.9; 12.11,17; 19.10; 20.4;
22.18,20). Verbo vir (referente à vinda de Cristo) (Apc. 1.4,7,8;
2.5,16; 3.3,11; 4.8; 22.20).
GÊNESIS X APOCALIPSE

Existe um paralelo evidente entre Gênesis e Apocalipse,


conforme se observa pelos itens a seguir:

GÊNESIS APOCALIPSE
Início Fim
Criação da terra Nova terra
Criação do céu Novo céu
Criação do sol A Nova Jerusalém não precisa do sol
Vitória de Satanás Derrota de Satanás
Adão Cristo
Eva Igreja (noiva)
Entrada do pecado Fim do pecado
Maldição Fim da maldição
Bloqueado caminho à árvore da vida. Acesso à árvore da vida.

CIRCUNSTÂNCIAS E OBJETIVO

Na época em que o Apocalipse foi escrito, a igreja estava


sofrendo muito por causa da perseguição do Império Romano. João
estava preso em Patmos e todos os outros apóstolos do primeiro
grupo haviam morrido. Seria natural que muitos começassem a
questionar se aquele não seria o fim do cristianismo. Será que a
igreja resistiria àquela fúria das forças do mal?

O livro de João vem mostrar o futuro: o castigo dos ímpios, a


volta de Cristo, seu triunfo juntamente com a igreja e o
estabelecimento do Reino de Deus. O Império Romano não
prevaleceria contra os desígnios divinos.

A LINGUAGEM SIMBÓLICA

A linguagem direta tem suas limitações. A transmissão de uma


mensagem complexa pode exigir uma infinidade de palavras e ainda
assim ficar obscura. Alguns fenômenos, experiências e elementos
naturais não podem sequer ser explicados de modo compreensível.
Como podemos explicar a um cego de nascença o que seja cor?
Qualquer explicação, por mais correta e científica que seja, não lhe
dará nenhuma idéia a respeito do assunto.

Como explicar um sabor, um cheiro ou um som? Nenhuma


informação substituirá a experiência. As palavras serão inúteis.
Nesses momentos de dificuldade, sempre procuramos um elemento
de comparação. Buscamos algo que já seja do conhecimento do
ouvinte e usamos para dar uma idéia a respeito do que queremos
dizer sem ter encontrado palavras adequadas.

Se temos esse problema em relação a elementos naturais, o que


dizer dos espirituais, cuja essência nem sabemos definir? O espírito é
uma realidade bíblica. Contudo, sua definição ou identificação de
"substância" é algo fora do nosso alcance. O que dizer então de Deus,
da trindade, do céu e das realidades celestiais? Por isso, a bíblia usa
tanto a linguagem simbólica. Por outro lado, como se diz, "uma
imagem vale mais que mil palavras". Então, até mesmo lições
relativamente simples são transmitidas através de figuras,
propiciando assim um recurso poderoso que leva a mensagem de
forma concentrada, fixando-a na mente do receptor.

Por exemplo, quando Jesus disse que era o "pão da vida"


(Jo.6.35), ele buscou um elemento do cotidiano dos seus ouvintes
para mostrar que ele vinha suprir a necessidade espiritual do homem.
Quando a bíblia fala em "reino de Deus", está buscando na
monarquia, sistema de governo comum naquela época, uma série de
princípios existentes na relação rei-súdito que deveriam existir na
nossa relação com Deus. A linguagem simbólica traz muito conteúdo
em poucas palavras. Assim, se usamos o leão como símbolo, logo nos
vem a mente sua ferocidade, sua coragem, sua força, sua fome, sua
beleza, sua "majestade", etc. Se falamos em cordeiro, estamos
destacando sua cor e sua índole como símbolos de pureza, inocência,
docilidade, submissão, etc.

Todos nós estamos bastante acostumados à linguagem


simbólica. Utilizamos diariamente tais recursos para enriquecer nossa
fala. Estamos sempre fazendo comparações implícitas ou explícitas de
modo automático.

Os escritos apocalípticos têm ainda um motivo a mais para usar


a linguagem simbólica: era a necessidade de criptografar a
mensagem, de modo que os inimigos nada compreendessem a
respeito da mesma. Só os destinatários poderiam decifrá-la.

QUESTÕES DE INTERPRETAÇÃO

TEXTO SIMBÓLICO OU LITERAL?

Este é um dos maiores dilemas que envolvem o estudo bíblico. O


que é literal e o que é simbólico? Encontramos ambos os casos dentro
das Escrituras. Então o problema se torna maior: como discernir o
literal do simbólico? Tal tarefa nem sempre é fácil. Muitas vezes é
difícil e, em algumas situações, parece impossível, a não ser que
tenhamos uma iluminação divina.

A história de Adão e Eva é literal ou simbólica? Tais personagens


são reais ou fictícios? O profeta Jonas foi mesmo engolido por um
peixe ou trata-se de uma parábola? Entendemos como literais ambos
os casos, uma vez que o próprio Jesus citou a história de Jonas como
fato e Paulo citou Adão e Eva da mesma forma. Contudo, isso não
convence àqueles que vêem toda a bíblia como algo figurativo. Se
todo o conteúdo bíblico for simbólico, então anula-se o seu aspecto
concreto. A bíblia seria então comparável a qualquer obra de ficção e
o cristianismo seria lendário. Por outro lado, se todo o seu conteúdo
for considerado literal, então muitas passagens se tornarão
inexplicáveis ou absurdas. Por exemplo: "Quem come a minha carne
e bebe o meu sangue tem a vida eterna." (João 6.54). Logicamente,
Jesus estava utilizando linguagem simbólica. Muitos dos seus
ouvintes o interpretaram literalmente e o resultado foi o escândalo
(João 6.52). Da mesma forma, quando Jesus disse que Nicodemos
precisava nascer de novo, aquele doutor da lei tomou suas palavras
de modo literal. O mesmo entendimento foi aplicado sobre "derrubar
o templo e reconstruí-lo em três dias". Precisamos de discernimento
para não cairmos no mesmo erro.

Muitas vezes, é a falta de fé que faz com que algumas pessoas


considerem como simbólico um texto literal. Por exemplo, a
ressurreição de Cristo pode ser tão inacreditável para alguns, que
podem acabar considerando-a um símbolo.

Encontramos na bíblia diversas situações que envolvem o


literalismo e o simbolismo:

Texto literal

É aquele que se refere a fatos. São histórias ou profecias. Se


desconsiderarmos seu caráter literal, estaremos anulando as palavras
de Deus. Por exemplo, a crucificação de Jesus está relatada em um
texto literal (Mt.27).

Texto simbólico

É aquele que utiliza linguagem figurada. Por exemplo, a parábola


do filho pródigo (Lc.15).

Termo literal e simbólico alternadamente

Uma palavra pode ser usada literalmente em uma passagem


bíblica e como símbolo em outra. Por exemplo, as estrelas no Salmo
8.3 são literais. Em Apocalipse 1.20, as estrelas são simbólicas,
representam anjos. Em Apocalipse 9.1, a estrela é simbólica e parece
representar uma pessoa ou um anjo. Em Apocalipse 8.10-12, a
estrela pode ser simbólica ou literal. Nesse caso, não podemos
afirmar com certeza. Vemos, portanto, que uma palavra pode ser
usada de várias formas na bíblia. Isso mostra que não podemos fazer
uma regra e achar que toda estrela na bíblia seja um símbolo.

Texto literal e simbólico simultaneamente

A história de Abraão é literal. O povo de Israel está aí para


comprovar isso. Aquele episódio de Abraão levando Isaque para ser
sacrificado é literal. Foi um fato histórico. Mas, ao mesmo tempo,
usando de alegoria, Abraão pode representar Deus, Isaque pode ser
visto como um símbolo de Jesus e o sacrifício pode representar a
crucificação. Assim, um texto literal pode ter um aplicação simbólica.
Desse modo podemos ver inúmeros fatos no Velho Testamento. É
possível, numa visão simbólica, extrair-lhes as lições sem negar-lhes
o aspecto literal.

O batismo e a ceia mencionados na bíblia são literais e ao


mesmo tempo simbólicos. São fatos ocorridos mas sempre
representando uma realidade espiritual. O mesmo acontece com a
ceia do Senhor.

Símbolo com mais de um sentido alternadamente

Alguns termos, quando usados como símbolos, podem ter um


sentido em um texto e sentido diferente ou até contrário em outra
passagem. Por exemplo, o leão representa Cristo em um texto
(Ap.5.5) e Satanás em outro (I Pd.5.8). A "estrela da manhã"
representa Cristo em um texto (Apc.22.16) e o Diabo em outro
(Is.14.12). Não temos nisso nenhuma confusão. Um símbolo é usado
na bíblia como um recurso didático e não de forma mística, como se
aquele animal estivesse "consagrado" para representar sempre
determinada pessoa. Não podemos, portanto, fazer uma regra. Cada
texto pode apresentar uma situação diferente. Existem porém,
elementos na literatura ou na tradição judaica que nos permitem
enxergar alguns padrões de simbologia, conforme veremos na
seqüência.

O SIMBOLISMO NO APOCALIPSE

João viu realidades espirituais indescritíveis. Notamos seu


esforço para explicar o que estava vendo, ouvindo e sentindo. Ele faz
diversas comparações na tentativa de transmitir aos leitores suas
impressões. Assim, os termos "como", "semelhante" e o verbo
"parecer" são utilizados para dar uma idéia das extraordinárias visões
do autor. Em outros momentos ele não faz comparações explícitas
mas usa as figuras de forma direta, fazendo comparações implícitas.

Algumas ocorrências de "como" - 1.10,14,15; 2.18,27; 4.1,6,7;


6.1,6,12,13.

Algumas ocorrências de "semelhante" - 1.13; 2.18; 4.3,6,7.

Verbo "parecer" - 9.19.

Os símbolos usados pelo autor eram bem familiares para os seus


destinatários. Livros selados, trombetas, carros puxados por cavalos,
letras gregas, tudo isso era do conhecimento das pessoas que
receberiam o Apocalipse. Ao lermos, precisamos saber o que cada
coisa significa e qual era o seu sentido naquela época. Talvez não
consigamos isso para todos os itens envolvidos, mas este é o
caminho a ser trilhado pelo intérprete.

Quando pensamos em livros, logo imaginamos blocos de páginas


de papel envolvidas por capas protetoras. Os livros mencionados em
Apocalipse, porém, eram rolos de pergaminho, peles de animais.
Eram livros selados. Quando pensamos em selo, logo imaginamos
pequenos adesivos utilizados pelos correios. Porém, os selos do
apocalipse são lacres, a exemplo daqueles que os reis usavam para
fechar suas correspondências, de modo que as mesmas não
pudessem ser violadas no meio do caminho. O selo tinha a marca do
anel do rei. Portanto, se alguém o quebrasse, não poderia fazer outro
igual para substituí-lo.

Estes são apenas alguns exemplos para mostrar que a


interpretação do Apocalipse, como também de outras passagens
bíblicas, depende muito do conhecimento sobre a antigüidade,
principalmente do que se refere ao povo judeu, sua história, seus
costumes e tradições. Sem esse conhecimento, sempre correremos o
risco das interpretações anacrônicas. Não podemos interpretar o
texto bíblico apenas com o sentido atual das palavras ou com base no
gosto ou na opinião pessoal. A hermenêutica agradece.

O simbolismo do Apocalipse utiliza como figuras: fenômenos


naturais, cores, minerais (pedras preciosas), animais, relações
humanas e até nomes significativos da história judaica como Jezabel
e Balaão.

Fenômenos ou elementos naturais e seus significados

ELEMENTO SIGNIFICADO OBSERVAÇÃO


Ar Vida É nossa necessidade mais
urgente
Tempestade (raios, Perturbações na vida
trovões, relâmpagos,
saraiva)
Fogo Purificação ou destruição
Pedras preciosas Algumas vezes representa
pessoas.
Mar Insegurança, perigo, algo oposto da terra firme.
sinistro.

Cores e seus significados

COR SIGNIFICADO OBSERVAÇÃO


Preto Luto, sofrimento
Vermelho (sangue) Morte ou redenção relacionado a Cristo às
vezes
Vermelho (púrpura) Realeza roupa dos reis
Amarelo pálido Fome
Amarelo ouro Santidade de Deus Obs. elementos do
tabernáculo
Verde Esperança
Branco Pureza, justiça Trono, vestes, cabelos, etc.

NUMEROLOGIA

A numerologia tem sido bastante valorizada atualmente devido à


onda crescente de misticismo que envolve nossa sociedade. Os
números têm sido considerados elementos de sorte e azar, e, por
meio deles, muitos adivinhadores tentam prever o futuro das
pessoas. Alguns povos utilizaram as próprias letras do alfabeto como
algarismos, atribuindo-lhes valor numérico. Assim, um nome pode
ser transformado em números e ter seu valor totalizado. Isso
ocorreu, por exemplo, com algumas letras do alfabeto romano e
também com o hebraico. O fato de se obter um valor para um nome
não nos diz nada, a não ser que os números representem algum valor
moral ou espiritual, uma bênção ou uma maldição.

A tradição judaica relaciona alguns números a determinados


conceitos religiosos ou cósmicos:

NÚMERO SIGNIFICADO SENTIDO


REFORÇADO
1 Unidade
2 Fortaleza, confirmação
3 Divindade
4 Mundo físico
5 Perfeição humana
6 Homem, falha humana 666
7 Perfeição, plenitude
40 Provação
70 Sagrado
12 Religião organizada. 24, 144 mil
1000 Grande quantidade

A bíblia utiliza muito o simbolismo numérico. O livro de


Apocalipse usa tal recurso de forma intensa, principalmente o número
7. Temos 7 igrejas, 7 candeeiros, 7 selos, 7 anjos, 7 trombetas, 7
taças, 7 espíritos, 7 estrelas, etc.

ALGUNS PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO

Para entender um livro, precisamos lê-lo por completo. Assim,


teremos uma visão geral do mesmo. Perceberemos a intenção do
autor e a sua mensagem geral. Caso contrário, se lermos um verso
aqui e outro lá de modo desordenado, terminaremos com uma
coleção de retalhos desconexos. Lendo todo o livro, vamos descobrir
que ele é auto-explicativo em alguns pontos, como se vê em
Apocalipse 1.20.

Podemos ler o capítulo 12, verso 5, onde o autor menciona o


"filho varão", aquele que "regerá as nações com vara de ferro".
A comparação com 19.13 a 16 nos fará compreender que aquele que
"regerá as nações com vara de ferro" chama-se "Verbo de Deus",
"Rei dos reis" e "Senhor dos Senhores". Logo, o próprio texto já nos
mostrou quem é o "filho varão": o próprio Senhor Jesus. Tal
conclusão também se utiliza do conhecimento geral que temos da
bíblia. O Salmo 2 chama de "Filho" aquele que "regerá as nações com
vara de ferro". O livro de Hebreus, no capítulo 1, nos informa que
esse "Filho" é o Senhor Jesus. Além disso, o evangelho de João (1)
nos diz que Cristo é o Verbo que se fez carne.

Fizemos então um rastreamento de várias expressões que nos


possibilitam uma interpretação inequívoca sobre o "filho varão" de
Apocalipse 12.
Outro exemplo: que dragão será aquele mencionado em
Apocalipse 12.3? Se lermos até o versículo 9, teremos a resposta. No
capítulo 20, verso 2, a explicação é repetida. O próprio texto diz que
o dragão é o Diabo, também conhecido como "antiga serpente". Que
serpente é essa? Aquela de Gênesis 3. Observa-se então que existe
uma "linguagem bíblica" que muitas vezes permite que o texto de um
livro possa ser interpretado por outro livro bíblico.

Quem é o Cordeiro de Apocalipse 5? Não existe nenhum mistério


sobre tal figura, uma vez que João Batista apresentou Jesus como "o
Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (João 1.29), sendo ele
o definitivo sacrifício tantas vezes representado pelos cordeiros
mortos durante as páscoas realizadas desde a saída de Israel do
Egito (Êx.12).

O mesmo Jesus é chamado "Leão da Tribo de Judá" (Ap.5.5). A


origem de tal expressão encontra-se em Gênesis 49, quando Jacó,
próximo da morte, abençoou cada um dos seus filhos. Ao falar de
Judá, Jacó profetizou sobre a vinda do Messias (Gn.49.8-12).

É conclusivo também que, se alguém não conhece a bíblia de


modo geral, não deve se arriscar no terreno das interpretações
apocalípticas. Precisa começar por Gênesis.

Outros exemplos:

A ceifa - Compare Ap.14.16-20 e Mt.13.39-43.

Muitas águas - Ap.17.1 e 17.15

Noiva - Ap.19.7; 21.9-10; 22.17 e Ef.5.25-27.

O fundamento da Nova Jerusalém - igreja - Ap.21.14 e Ef.2.20-


21.

PRINCIPAIS CORRENTES DE INTERPRETAÇÃO DO


APOCALIPSE

1 - Pretérita.

Afirma que todo o apocalipse já se cumpriu. Seus defensores


vêem o Império Romano como a representação dos inimigos descritos
no livro. A queda do Império teria sido então o ápice do juízo divino
profetizado por João. A destruição de Jerusalém, no ano 70, também
é vinculada ao Apocalipse por aqueles que localizam sua escrita
durante o período de Nero (54-68).

2 - Futurista.
Os futuristas projetam todo o cumprimento do Apocalipse para
os últimos dos últimos dias, às vésperas da consumação dos séculos.
Afirmam que nada se cumpriu nem está se cumprindo, mas tudo se
cumprirá repentinamente no futuro e em um curto espaço de tempo.
Esta é a mais escatológica das interpretações, no sentido mais
extremo da palavra.

3 - Histórica.

Essa corrente defende a tese de que o Apocalipse vem se


cumprindo desde os dias de João até o fim dos séculos. São muitos
os que concordam com essa posição. Entretanto, surgem muitas
dificuldades e divergências quando se tenta uma identificação entre
os fatos ou personagens históricos e os relatos apocalípticos.

4 - Simbólica, ou espiritual.

Os adeptos dessa visão se abstêm de fazer ligações entre as


profecias e os fatos. Procuram apenas extrair do Apocalipse as lições
e os princípios morais ou espirituais ali contidos.

Não devemos tomar uma postura extremista nessa questão, mas


buscar uma visão equilibrada, que pode levar em conta todas as
quatro correntes de interpretação. Cremos em um
cumprimentohistórico que, automaticamente, engloba a
visão pretérita e a futurista. Por exemplo, as cartas às 7 igrejas se
referiam a problemas existentes nos dias de João. Está cumprido.
Entretanto, osprincípios espirituais ali presentes são perfeitamente
aplicáveis aos nossos dias. Pela sua infinita sabedoria, Deus nos
deixou uma Palavra que não perde sua validade.

Devemos nos lembrar que um relato sobre fatos ocorridos nos


dias de João pode também ser uma profecia para outra época. Por
exemplo, quando escreveu o Salmo 22, o autor estava falando de
suas próprias experiências e, ao mesmo tempo, estava profetizando
sobre os sofrimentos de Cristo. Vistas sob este ângulo, várias
profecias apocalípticas podem ter se cumprido na queda do Império
Romano e terem ainda outro cumprimento mais amplo nos últimos
dias. A profecia de Jesus em Mateus 24 parece estar ligada à
destruição de Jerusalém e também aos últimos dias. "Os que
estiverem na Judéia fujam para os montes... Não passará esta
geração sem que todas estas coisas aconteçam." (Mt.24,16,34).

ESBOÇO DO APOCALIPSE

1. Introdução e saudações - 1.1-8


2. Visão de Jesus glorificado - 1.9-20
3. Cartas às 7 igrejas - 2.1 a 3.22
4. Cartas às 7 igrejas da Ásia
5. Carta à Igreja de Éfeso
6. Carta à Igreja de Esmirna
7. Carta à Igreja de Pergamo
8. Carta à Igreja de Tiatira
9. Carta à Igreja de Sardes
10. Carta à Igreja de Filadélfia
11. Carta à Igreja de Laodicéia
12. Visão do trono no céu - 4.1-11
13. O livro selado e o cordeiro - 5.1-14.
14. Abertura dos 6 primeiros selos - 6.1-17.
15. Os 144 mil selados - 7.1-8.
16. Visão dos santos na glória - 7.9-17
17. Abertura do sétimo selo. As quatro primeiras
trombetas - 8.1-13.
18. A quinta e a sexta trombetas - 9.1-21.
19. O anjo e o livrinho - 10.1-11.
20. As duas testemunhas - 11.1-14.
21. A sétima trombeta - 11.15-19.
22. A mulher e o dragão - 12.1-18.
23. A besta que subiu do mar - 13.1-10.
24. A besta que subiu da terra - 13.11-18.
25. O cordeiro e os remidos no monte Sião - 14.1-5.
26. Os 3 anjos e suas mensagens - 14.6-13.
27. A ceifa sobre a terra - 14.14-20.
28. As 7 taças - 15.1 a 16.21.
29. A grande Babilônia - 17.1-18
30. A queda da Babilônia - 18.1-24.
31. As bodas do Cordeiro - 19.1-10.
32. O cavaleiro do cavalo branco - 19.11-21.
33. O milênio - 20.1-6.
34. A derrota de Satanás - 20.7-10.
35. Juízo Final - 20.11-15.
36. Novo céu e nova terra - 21.1-8.
37. A Nova Jerusalém - 21.9 a 22.5.
38. Encerramento e saudação final - 22.6-21.

COMENTÁRIO GERAL

APRESENTAÇÃO DE JESUS NO APOCALIPSE

1.5 - Fiel testemunha, primogênito dentre os mortos, soberano


dos reis da terra.

1.13 - Semelhante a filho de homem.

2.18 - Filho de Deus.


3.14 - Amém, testemunha fiel e verdadeira, princípio da criação
de Deus.

5.5 - Leão da Tribo de Judá, Raiz de Davi.

5.6 - Cordeiro

6.1 - Cordeiro (e em muitos outros versos).

12.5 - Filho varão

17.14 - Cordeiro, Senhor dos senhores, Rei dos reis.

19.11 - Fiel e verdadeiro.

19.13 - Verbo de Deus.

19.16 - Rei dos Reis, Senhor dos senhores.

22.16 - Raiz, geração de Davi, brilhante estrela da manhã.

CARTAS ÀS 7 IGREJAS

Esta é a parte mais simples e, consequentemente, a mais citada


do Apocalipse. O livro foi enviado às 7 igrejas da Ásia e para cada
uma delas havia uma mensagem específica. As cartas seguem quase
sempre este esboço:

o Destinatário: o anjo da igreja (seu líder).


o Autor: o Senhor Jesus.
o Conhecimento do Senhor sobre a igreja.
o Elogio em relação às qualidades da igreja..
o Repreensão contra os erros da igreja.
o Aviso sobre a vinda do Senhor e o juízo divino.
o Conselho para solução dos problemas mencionados.
o Promessa aos vencedores.

A igreja de Filadélfia não foi repreendida. A de Laodicéia não


recebeu nenhum elogio. Curiosamente, um sínodo realizado em
Laodicéia no século IV negou reconhecimento ao Apocalipse como
livro canônico [Champlin].

Em algumas das cartas, percebemos uma relação direta entre a


apresentação que o Senhor faz de si mesmo e o conteúdo da
mensagem.

Éfeso Candeeiro em 2.1 e 2.5


Esmirna Morte e vida em 2.8 e 2.10-11
Pérgamo Espada em 2.12 e 2.16
Filadélfia Porta aberta ou fechada em 3.7 e 3.8.

Nas outras cartas, essa relação não está tão clara. Talvez,
tenhamos perdido um pouco das características originais quando o
texto foi traduzido.

Entre as teorias existentes sobre as 7 igrejas destacam-se as


seguintes:

Teoria 1 - As 7 igrejas representam a história judaica. Observe a


citação de Balaão, Jezabel, sinagoga, etc. Não nos parece razoável
essa suposição.

Teoria 2 - As 7 igrejas representam a história eclesiástica. Cada


igreja representaria um período da história da igreja desde o seu
nascimento até a vinda de Cristo. Alguns defensores dessa idéia
chegam a dividir a história entre as igrejas. Uma das divisões
sugeridas é a seguinte: Éfeso (até o ano 100 d.C.); Esmirna (100-
316); Pérgamo (316-500); Tiatira (500-1500); Sardes (1500-1700);
Filadélfia (1700-1900); Laodicéia (1900 - fim). Tal possibilidade é
bastante interessante, mas não encontramos fundamentos suficientes
para comprová-la. Por outro lado, a colocação de datas é bastante
temerária. Por mais razoável que possa ser tal interpretação, não
podemos perder de vista o fato de que a mensagem de Deus é para
nós hoje.

Teoria 3 - As 7 igrejas são apenas aquelas da Ásia, às quais o


Apocalipse foi endereçado. Essa posição é literal e perfeita em sua
afirmação. Contudo, se a aplicabilidade das cartas fosse restrita
àquelas igrejas, então não haveria motivo para que tais mensagens
chegassem às nossas mãos. Enfim, todo o livro de Apocalipse nos
seria estranho e inútil, pois foi originalmente destinado às 7 igrejas
da Ásia. O entendimento literário está exato, mas não podemos
desconsiderar o peso simbólico do texto. O próprio número 7,
significando perfeição, totalidade ou plenitude, faz com que as 7
igrejas representem a totalidade da igreja de Cristo em todos os
tempos e em todos os lugares.

A ADORAÇÃO NO APOCALIPSE

A adoração é elemento de grande destaque no Apocalipse. O


tema central é o combate entre o bem e o mal. Os seres humanos ou
celestiais demonstram seu posicionamento nesse conflito através da
adoração que prestam. Um dos grandes desejos de Satanás é
conseguir para si a adoração que é devida a Deus (Mt.4.9).
TEXTO ADORAÇÃO A
Apc.4.10 Deus
Apc.5.12-14 Deus e o Cordeiro
Apc.9.20 Demônios e ídolos
Apc.11.1,16 Deus
Apc.13.4 O dragão e a besta.
Apc.13.12 A besta
Apc.13.15 A imagem da besta
Apc.14.2 Deus
Apc.14.9,11 A besta e sua
imagem.
Apc.16.2 A imagem da besta
Apc.19.4 Deus
Apc.19.10 Um anjo (recusada) e
Deus
Apc.19.20 A imagem da besta
Apc.20.4 A besta e sua
imagem
Apc.22.8-9 Um anjo (recusada) e
Deus

Em Apocalipse 8.1 verificamos que houve silêncio no céu durante


meia hora. Isso nos faz deduzir que existe um som de louvor e
adoração constante no céu. João viu os 24 anciãos e os seres
viventes que adoravam a Deus e ao Cordeiro. As impressionantes
profecias do livro estão intercaladas com manifestações de adoração
e cânticos. Em sua visão do céu, João viu um santuário e peças que
nos lembram o tabernáculo e o templo do Velho Testamento. Existe
no céu um lugar de culto utilizado pelas hostes celestiais. Ali também
adoraremos a Deus e ao Cordeiro pelos séculos dos séculos.

AMOR E JUÍZO

João, o discípulo amado, fez do amor um de seus principais


temas, seja no seu evangelho ou em suas epístolas. Em Apocalipse,
porém, o amor de Jesus e da igreja é mencionado apenas até o
capítulo 3. Ao falar à igreja de Filadélfia, Jesus declara: "Eu te amo."
(Apc.3.9). Filadélfia significa "amor fraternal".
A partir do capítulo 4, o tom da mensagem muda
completamente. Não mais se menciona o amor de Deus mas apenas
sua justiça. A santidade divina foi afrontada pelo pecado. Sua ira
manifesta sua justiça através de guerras, pestes e catástrofes
naturais.

Sabemos, porém, que o amor de Deus é eterno e sua


manifestação ocorre através das bodas do Cordeiro e da recepção dos
salvos na glória.

VISÃO GERAL - uma hipótese de interpretação

A experiência pessoal de João pode representar a experiência da


igreja. No início do livro ele se encontra vivendo sua própria
tribulação, preso e exilado. Então o Senhor Jesus vem até ele. No
capítulo 4, João é arrebatado ao céu e passa a ver o derramamento
da ira divina sobre a terra. Assim, a vinda de Cristo proveria socorro
à igreja atribulada, levando-a consigo no arrebatamento. Em seguida,
a terra ficaria submersa na Grande Tribulação. Tal interpretação é
frágil em sua consistência pois o texto bíblico não diz que João possa
estar representando a igreja. Os que defendem o paralelo na questão
do arrebatamento de João, chamam a atenção para o fato de que a
partir do capítulo 4 a igreja não é mais mencionada com este nome
dentro do ciclo de visões do Apocalipse. Supostamente, teria sido
encerrado seu período histórico terreno representado pelas 7 cartas.
Os fatos apresentados em relação à igreja são bíblicos. A dificuldade
está em localizá-los em determinados símbolos e estabelecer-lhes a
ordem de ocorrência.

De acordo com esta hipótese, que é muito aceita e


essencialmente futurista, a abertura do primeiro selo seria o início da
Grande Tribulação (Ap.7.14), que incluiria os selos, as trombetas, as
taças e todos os flagelos destinados aos ímpios e às forças do mal.
No meio da cena encontram-se o dragão e as duas bestas tentando
usurpar a glória que é devida ao Cordeiro. O dragão é Satanás. As
duas bestas são o Anticristo e o Falso Profeta.

Durante a Grande Tribulação muitos seriam salvos e morreriam


por sua fé. Enquanto isso, estaria acontecendo no céu as bodas do
Cordeiro. Ao fim desse período, Cristo desceria do céu para aniquilar
a besta e o falso profeta. O dragão seria preso por mil anos e nesse
período Cristo reinaria com todos os santos sobre a terra. Estaria
encerrada a Grande Tribulação e inaugurado o milênio, ao fim do
qual, Satanás seria solto e tentaria novamente uma reação contra
Cristo. Entretanto, seus agentes seriam consumidos antes de
iniciarem a batalha.
Na seqüência ocorre o juízo final, que será o julgamento de
todos os homens. Aqueles cujos nomes não se encontram no livro da
vida serão lançados no lago de fogo, onde serão atormentados
eternamente. Em seguida, João vê a Nova Jerusalém. Essa passagem
é vista como uma descrição do estado eterno dos salvos. A cidade
seria o lugar onde viveremos para sempre com Cristo.

QUESTIONAMENTOS E OBSERVAÇÕES

Algumas dessas afirmações são amplamente aceitas. Tal arranjo


escatológico pode parecer bastante apegado ao texto. Contudo,
observamos que essa interpretação contém alguns pontos
questionáveis e incertos. Outros parecem perfeitos.

A primeira dificuldade é entender o arrebatamento de João como


arrebatamento da igreja, conforme já mencionamos. O
arrebatamento de João se deu antes de se tocarem as 7 trombetas.
Paulo, escrevendo aos Tessalonicenses, disse que o arrebatamento da
igreja aconteceria quando a última trombeta fosse tocada. Disse
também que a ressurreição dos santos acontecerá antes do
arrebatamento. Encaixando isso no quadro apocalíptico, teríamos o
arrebatamento da igreja junto com a ressurreição no capítulo 20.
Sendo assim, a igreja teria participado ou, pelo menos, presenciado a
Grande Tribulação. Em Mateus 24, Jesus menciona a Grande
Tribulação (v.21) antes do fato que parece ser o arrebatamento
(v.31). No meio da tribulação estarão os escolhidos (v.22). Estes
podem indicar toda a igreja, mas alguns comentaristas dizem que são
apenas os que forem salvos durante o período.

Outro problema ocorre em relação à Nova Jerusalém do capítulo


21. Considerando a hipótese de que o livro apresenta os fatos em
ordem cronológica, então, ao chegarmos ao capítulo 21, já passamos
pelo milênio e pelo juízo final. A Nova Jerusalém descreve então o
estado eterno dos salvos. Contudo, o texto cita ainda nações que
vivem fora da cidade santa, às quais se destinam as folhas da árvore
da vida, afim de que sejam curadas. Esses detalhes parecem
ameaçar o quadro escatológico descrito. Se os ímpios já estão no
lago de fogo e os salvos estão na Nova Jerusalém, que nações são
essas que o autor cita? Uma solução proposta é que o relato sobre a
Nova Jerusalém se refira ao milênio e não ao estado eterno. Sendo
assim, o texto não se encontraria em ordem cronológica.

Observamos que o Apocalipse não contém as expressões: "juízo


final", "Anticristo", "milênio" ou "arrebatamento". Então, de onde
tiramos tal vocabulário? Das interpretações correntes, que, de tanto
serem faladas, já se confundem com o próprio texto bíblico. Sabemos
que a idéia de "milênio" e "juízo final" encontra-se em outras
palavras no capítulo 20. O verbo "arrebatar" é encontrado em
Ap.1.10; 4.2; 12.5,15, podendo ser substituído dependendo da
versão utilizada. Trata-se dos arrebatamentos de João, do Filho
Varão, e uma tentativa de Satanás no sentido de arrebatar a mulher.
Outra situação semelhante, mas com verbo diferente, trata da subida
das duas testemunhas ao céu. Não obstante, cremos no
arrebatamento da igreja, o qual ser encontra de forma mais clara em
I Tessalonicenses 4.17. Sobre o Anticristo falaremos de modo mais
específico.

Todo esse questionamento, feito por comentaristas e teólogos,


cria uma série de correntes de interpretação designadas como:
milenistas, pré-milenistas, amilenistas, pré-tribulacionistas, pós-
tribulacionistas, etc.

O ANTICRISTO E O FALSO PROFETA

O único autor bíblico que usa a palavra "anticristo" é João, mas


não no Apocalipse. A citação é nas epístolas. Tal personagem
escatológico é normalmente entendido como sendo o "iníquo" ou
"homem do pecado" ou "filho da perdição" mencionado por Paulo (II
Tss.2.3,8). Da mesma forma, a besta que sobe do mar, em Apc.13, é
identificada pelos intérpretes como o Anticristo. Embora o texto não
diga isso, o modo de agir da besta parece dize-lo. Sua ação é
sobretudo anti-cristã. A besta quer para si a adoração que é devida
ao Cordeiro. Então, encaixa-se no perfil traçado por Paulo.

Quem é o Anticristo? Alguns dizem que é um sistema político,


mas a maioria dos estudiosos o vêem com sendo um homem. Isto é
bastante coerente com as citadas palavras de Paulo. O texto de II
Tessalonicenses não é essencialmente simbólico. Então, quando o
apóstolo diz que é um homem, devemos entender literalmente.
Afinal, aquela igreja já estava com muitos problemas de
entendimento escatológico e Paulo precisava ser o mais claro
possível.

Se o Anticristo é um homem, quem é ele? Não nos arriscaremos


a responder tal pergunta, mas muitos já se arriscaram no decorrer da
história. Sempre há quem queira "eleger" um Anticristo. Quando João
escreveu, ele poderia estar se referindo a Nero ou a Domiciano, sem
prejuízo do sentido escatológico da profecia. O culto ao imperador era
uma prática oficial no Império Romano. Domiciano, aquele que
provavelmente mandou João para Patmos, considerando-se um deus,
mandou que imagens suas fossem espalhadas pelo Império. Os que
se recusavam a adorá-las eram condenados à morte. Portanto,
aquele imperador se encaixou no perfil do Anticristo.

O próprio João disse que muitos "anticristos" tinham se


levantado (I João 2.18,22; 4.3; II João 7). Contudo, é bastante
aceita a crença numa personificação do mal através de um Anticristo
escatológico, aquele que estará no mundo no dia da segunda vinda
de Cristo (II Tss.2.8). Hitler, alguns líderes religiosos e outros
malfeitores da história foram apontados como sendo o Anticristo.
Porém, Jesus não voltou em suas épocas e o "cargo" ficou para outra
pessoa.

Conquanto não possamos identificar o Anticristo, sabemos


contudo as linhas gerais do seu caráter e atuação. Através das
interpretações mais aceitas, compreende-se que ele poderá ser um
líder político de projeção mundial. O atual fenômeno da globalização
seria ideal como preparação para um governo mundial. Os conflitos
internacionais e a fome seriam solucionados por algum tempo
mediante um plano econômico extraordinário. A besta que sobe do
mar (Ap.13.2) receberá o poder do dragão (Satanás) e em seu nome
dominará sobre toda tribo, povo, língua e nação (13.7). A
interpretação desse texto é feita normalmente em relação com a
profecia das setenta semanas de Daniel (9).

Em todas as épocas da história, o poder político teve alguma


ligação com o poder religioso. Os déspotas eram avalizados pelo
clero. Assim, o povo reconhecia o origem divina da autoridade
absoluta e permanecia submisso. Da mesma forma, o Anticristo
precisará do Falso profeta, que é a besta que sobe da terra. O Falso
Profeta parece representar o poder religioso que fará parceria com o
Anticristo, talvez numa manifestação ecumênica.

BABILÔNIA X NOVA JERUSALÉM

A Babilônia do Apocalipse parece ser a "sede de governo do


Anticristo". Nos dias de João, era uma referência a Roma
(Ap.17.9,18), capital do Império, lugar onde se encontrava
Domiciano, que se fazia passar por deus.

A Babilônia representa a independência humana em relação a


Deus, e isso significa rebeldia. A origem de Babilônia foi Babel, lugar
onde Ninrode, descendente de Cão, construiu sua cidade, tornou-se
célebre, e projetou uma torre para alcançar o céu por suas próprias
forças. Babilônia tem sua própria organização. Sua política (Ap.17.12)
e seu comércio funcionam muito bem.

O comércio, prática tão comum na vida humana, toma aspectos


malignos quando se comercializa o que não deveria ser vendido. Por
exemplo, podemos mencionar o episódio quando Esaú vendeu seu
direito de primogenitura. Assim, o comércio da grande Babilônia inclui
uma abominável troca de valores. O ápice de tal negociação é
expresso através do comércio de almas humanas (Apc.18.13). A mais
clara forma de comércio de almas é através de uma falsa religião que
se pratica apenas por motivos financeiros.

O que será a Grande Babilônia? Uma hipótese é que a cidade


com esse nome, às margens do Rio Eufrates, hoje reduzida a ruínas,
venha a ser reconstruída e volte a ter projeção mundial. Outra teoria
associa a cidade a uma religião de alcance mundial.

Como religião mundial, alternativa plausível, a Grande Babilônia


poderia ser vista como uma falsa igreja, em contraposição à Nova
Jerusalém, que desce do céu. João viu as duas cidades e seus
destinos. A Nova Jerusalém é a noiva. Babilônia é meretriz. A Grande
Babilônia será destruída pelos juízos divinos, enquanto que a cidade
santa será a morada de Deus e do Cordeiro.

A Nova Jerusalém muitas vezes é tomada de forma literal. É


vista como uma cidade onde os salvos vão morar. Contudo, o texto é
carregado de símbolos, levando a crer que própria cidade é apenas
um símbolo da igreja triunfante. Veja o paralelo.

NOVA JERUSALÉM IGREJA


Chamada noiva e esposa do Chamada noiva de Cristo (Ef.5.25-
Cordeiro (Ap.19.7; 21.2,9; 22.17) 26).
Possui 12 fundamentos (Ap.21.14) Fundada sobre os 12 apóstolos
(Ef.2.19-21)

OS PARÊNTESES DO APOCALIPSE

O relato de João parece apresentar uma série de fatos que vão


ocorrendo de modo consecutivo, embora exista uma hipótese de que
as várias visões apocalípticas se refiram aos mesmos fatos históricos.
Assim, as 7 trombetas, as 7 taças e os 7 selos seriam diferentes
versões dos mesmos juízos. Uma base para esse tipo de visão está
em Gênesis 41, onde "vacas" e "espigas" eram dois símbolos para um
só fato.

De qualquer forma, o texto apresenta uma seqüência e esta


parece interrompida em alguns pontos. João interrompe a narrativa
sobre as catástrofes mundiais para falar sobre o anjo e o livrinho no
capítulo 10, as duas testemunhas no capítulo 11, e a mulher e o
dragão no capítulo 12.

- Comer o livrinho significa tomar conhecimento das profecias


acerca dos últimos dias. O livro é doce na boca mas amargo no
ventre. A mensagem apocalíptica fala de esperança e glória, mas
também de grande tribulação.
- As duas testemunhas são objeto de muita polêmica. Eis
algumas interpretações sugeridas: "Moisés e Elias", "Enoque e Elias ".
Os fatos mencionados no capítulo 11 nos fazem lembrar as
experiências de Moisés e Elias narradas no Velho Testamento.
Contudo, tais testemunhas serão mortas. Os melhores candidatos
então seriam pessoas que nunca experimentaram a morte. Logo, são
mencionados Enoque e Elias.

Alguns eruditos se recusam a ver as duas testemunhas como


dois homens. Daí surgem outras hipóteses. Seriam elas o Velho e o
Novo Testamento? Tal sugestão não parece razoável. Há quem
entenda que as testemunhas sejam apenas um símbolo da igreja em
seu papel de evangelização.

- O dragão do capítulo 12 é Satanás. A mulher representa a


nação de Israel. O Filho Varão é Cristo. O resto da semente parece
representar a igreja.

As menções a Israel no Apocalipse constituem pontos de dúvida.


Elas podem se referir à nação de Israel ou simplesmente à igreja, o
"novo Israel". Assim acontece com os 144 mil eleitos de Deus
(Apc.7.4). São 12 mil de cada uma das tribos. Como sabemos, tais
números têm valor simbólico. Portanto, não faz sentido pensarmos
que 144 mil seja o número final dos salvos. Na seqüência do mesmo
capítulo, João vê os remidos de toda tribo, língua, povo e nação, cujo
número era incontável (Apc.7.9).

CONCLUSÃO

O Apocalipse trata dos últimos lances da guerra histórica entre o


bem e o mal. Satanás usa suas últimas armas durante o tempo que
lhe resta. Contudo, a vitória divina é inevitável. Em meio a todo esse
combate estão os homens, servindo a um dos lados.

A mensagem apocalíptica é um aviso divino para a humanidade.


Não existe esperança para as forças demoníacas, mas para os
homens sim. Ignorar o Apocalipse seria como rasgar uma notificação
judicial sem tê-la lido. O prazo está se esgotando. Ainda que o mundo
dure mais 1000 anos, é o nosso tempo de vida que determina nossa
chance de deixar o mal e escolher o bem.

O arrependimento é também um tema em destaque no


Apocalipse (2.5,16,21,22; 3.3,19; 9.20,21; 16.9,11). Deus poderia
extinguir a raça humana em um instante. Porém, ele manda seus
castigos aos poucos, esperando que os homens sintam a culpa pelo
pecado e se arrependam. Devemos ouvir a sua voz enquanto temos
tempo. Antes que o juízo venha, existe uma porta aberta para o
Reino de Deus através do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
"O Espírito e a noiva dizem: Vem. Quem ouve diga: Vem. Quem
tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida."
(Ap.22.17).

Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.

Para esclarecimento de dúvidas em relação ao conteúdo, encaminhe


mensagem para anisiora@mg.trt.gov.br

BIBLIOGRAFIA

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Apostila do SEBEMGE – Pastor Delmo Gonçalves
Bíblia de Referência Thompson - Tradução de João Ferreira de
Almeida - Versão Contemporânea - Ed. Vida