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Revista
de estudos
ibericos

N. 14
2018
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Coordenação deste número
Rui Jacinto
Alexandra Isidro

Apoio à Coordenação
Ana Margarida Proença
Ana Sofia Martins

Revisão de Textos e Suporte Informático


Instituto Politécnico da Guarda (IPG)

Capa e conceção gráfica


Márcia Pires

Impressão
Pride Colour

Edição
Centro de Estudos Ibéricos
Rua Soeiro Viegas, 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

ISSN: 1646-2858

Depósito Legal:

dezembro 2018

Os conteúdos, forma e opiniões expressos nos textos


são da exclusiva responsabilidade dos autores.
in
di
ce
Conhecimento, Cultura, Cooperação, Pilares do desenvolvimento 9
Rui Jacinto

AS NOVAS GEOGRAFIAS DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA: 15 > 76


PATRIMÓNIOS E TERRITÓRIO

A candidatura da Estrela a Geopark Mundial da UNESCO 17


Emanuel Castro, Magda Fernandes e Fábio Loureiro

A classificação dos jardins históricos portugueses: 29


evolução e caracterização
Susana Silva

Montes Sagrados: 43
um projeto mútuo de promoção e ordenamento da paisagem
Miguel Sopas de Melo Bandeira

Inventário do geopatrimônio de João Pessoa e Cabedelo (Paraíba), 47


Nordeste do Brasil
Luciano Shaeffer Pereira
Ingrydy Shaeffer Pereira

Francisco de Paula Ribeiro e a Cartografia do Sertão Maranhense 65


Alan Kardec Pachêco Filho e Helidacy Maria Muniz Correa

OFICINA DE HISTÓRIA DA GUARDA 79 > 120

A Judiaria da Guarda em 1395 81


Rita Costa Gomes (Coordenação); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José
Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos
Quando o Metro chegou à Guarda: 107
a geografia dos pesos e medidas da região beirã
Rita Costa Gomes (Coordenação); Isabel Lopes; Isabel Nabais; Margarida
Paulino; Cátia Ramos; Jorge Sousa; Jorge Torres
TRANSVERSALIDADES. IMAGEM & TERRITÓRIO: 123 > 156
PATRIMÓNIO VISUAL, MEMÓRIA LOCAL

Retratos 125
Alfredo Cunha
Volver sobre mis pasos 129
Rui Jacinto
Santiago Santos
O sentido dos lugares. 143
Património visual, memória local
Dulce Helena
Mundo português 153
Duarte Belo

PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO 2018 159 > 201

Basilio Losada Castro: breve perfil 161


Galeria de Premiados 162

Álvaro dos Santos Amaro 165


Eduardo Lourenço 169
Jordi Cerdà 175
Basilio Losada Castro 179

Duas entrevistas inéditas de Eduardo Lourenço 183


Camila do Valle

Rua do Loureiro, 9 189


António Pedro Pita

CEI. ATIVIDADES 2018 205 > 229

Ensino e Formação 207


Investigação 214
Eventos e Iniciativas de Cooperação 219
Edições 227
CONHECIMENTO, CULTURA, COOPERAÇÃO,
PILARES DO DESENVOLVIMENTO

RUI JACINTO

A presente Iberografias, Revista de Estudos Ibéricos, que o CEI edita anual-


mente, espelha tanto as atividades desenvolvidas pelo Centro como o seu com-
promisso com o território, local e transfronteiriço, a que está particularmente
vinculado. As suas raízes mergulham, pois, nos espaços de baixa densidade, par-
ticularmente os mais adjacentes aos dois lados da fronteira, com os quais se iden-
tifica e onde pretende intervir, em obediência a uma missão que se baseia numa
trilogia cujos vértices assentam no Conhecimento, na Cultura e na Cooperação.

O potencial da Cultura para gerar novas dinâmicas de desenvolvimento é,


hoje, pacificamente aceite. Foi isto que, premonitoriamente, sugeriu o patrono
do CEI quando as encruzilhadas da história nos colocou perante novos desafios
e a necessidade duma identidade renovada: “a mais lusitana das fronteiras, no
momento em que elas se apagam, podia ser a mais ibérica e dialogante das
terras, a do diálogo aberto e vivificante com o deserto de que nos separámos e
continuou a florir em nós no silêncio. Cumpre-nos a nós ser o elo natural do novo
diálogo em que a invenção da Europa converteu a Península” (Eduardo Lourenço,
Oito séculos de altiva solidão, 1999).
O reconhecimento da obra ímpar deste autor em prol da cultura portuguesa
conduziria, em jeito duma justa homenagem, à instituição do Prémio Eduardo
Lourenço, que se destina “a galardoar personalidades ou instituições de língua
portuguesa ou espanhola que tenham sido protagonistas de uma intervenção re-
levante e inovadora no âmbito da cooperação e no domínio das identidades, das
culturas e das comunidades ibéricas”. Levando em consideração o mérito como
filólogo e investigador da língua e cultura galega e portuguesa, o júri da 14ª
edição acabaria por reconhecer Basilio Losada de Castro com o Prémio Eduardo
Lourenço (2018). Além de professor, investigador, crítico literário e escritor foi um
profícuo tradutor com uma interminável lista de autores traduzidos onde se in-
clui, além da sua conterrânea Rosalía de Castro, Jorge Amado e José Saramago,
cuja tradução do “Memorial do Convento” havia de ser reconhecida, em 1991,
com o Prémio Nacional de Tradução.
Além dum inédito de Eduardo Lourenço (“Do Homem como Literatura”), a
Revista inclui ainda neste apartado dois textos como ele relacionados: “Duas
10 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

entrevistas inéditas de Eduardo Lourenço” (Camila do Valle) e “Rua do Loureiro,


9” (António Pedro Pita), uma das entradas na atual Casa da Escrita, localizada
em Coimbra, onde viveu o poeta João José Cochofel, ligada à génese dum movi-
mento literário a que Eduardo Lourenço estaria fugazmente ligado.

A Cooperação sempre mereceu a melhor atenção do CEI, seja pela gené-


tica que o institucionalizou, fruto duma parceria que assenta na cooperação
transfronteiriça, seja pela convicção que é “a coesão que une, a competição
que estimula, a cooperação que reforça”. Com o decorrer do tempo os hori-
zontes da cooperação alargaram-se a outras geografias, incorporaram articu-
lações e parcerias com diferentes redes de investigadores sediadas noutras
latitudes. A permanência do profícuo diálogo transfronteiriço não invalida o
intercâmbio com instituições dos Países de Língua Portuguesa. A cooperação
patrocinada pelo CEI tem vindo a alargar-se no seio da lusofonia segundo uma
geografia variável, propícia a múltiplos diálogos, que tem nas universidades
interlocutores indispensáveis para os intercâmbios estimulantes e proveitosos
que tem vindo a promover.
Entre as várias ações levadas a cabo a partir dum qualquer tipo de coope-
ração (Workshop “Guarda a saúde em casa”, p. ex.) importa referir o Curso de
Verão por ser uma das marcas da programação anual do Centro de Estudos Ibé-
ricos. Concebido para reforçar o diálogo além-fronteiras e afirmar o CEI como
plataforma de intercâmbio, debate e difusão de conhecimentos sobre os ter-
ritórios e as culturas ibéricas, aponta-se entre os seus objetivos a importância
de “incentivar o diálogo entre saberes e investigadores visando alargar redes e
consolidar parcerias com entidades do espaço ibérico, tanto europeu e africano
como latino-americano, afirmando o CEI como centro de transferência de conhe-
cimento designadamente entre os países de língua portuguesa”.
A XVIII Edição do Curso de Verão, realizada no Ano Europeu do Património
Cultural, teve por tema “Novas fronteiras, outros diálogos: Património Cultural,
Cooperação e Desenvolvimento Territorial”. Coincidido com a celebração do VIII
Centenário da Fundação da Universidade de Salamanca (1218-2018), em cujo
programa oficial foi incluído, a edição de 2018 assentou num itinerário trans-
fronteiriço que teve como “fio condutor dois grandes pensadores iberistas com
indubitável capacidade reflexiva e critica: Miguel de Unamuno, que foi Reitor da
Universidade de Salamanca, e Eduardo Lourenço que, além de ser um grande
pensador de Portugal e da sua cultura, foi quem inspirou a criação do Centro
de Estudos Ibéricos”. Estruturado a partir deste Roteiro Miguel de Unamuno –
Eduardo Lourenço, as andanças e reflexões transfronteiriças percorreram um
itinerário que, passando pela Guarda, uniu simbolicamente a Universidade de
Coimbra, onde o Curso teve a sua sessão de abertura, com a Universidade de
Salamanca, onde decorreu a sessão de clausura.
CONHECIMENTO, CULTURA, COOPERAÇÃO, PILARES DO DESENVOLVIMENTO
11
Rui Jacinto

O Conhecimento, outro pilar que estrutura a atuação do CEI, tem sido su-
portado pelo apoio à investigação, dinamizando projetos indispensáveis para
alimentar a divulgação científica e a sociabilização do saber. A par de atividades
de ensino e formação, dos eventos, iniciativas de cooperação e edições, a Ibe-
rografias divulga outras iniciativas que resultam de projetos que tem vindo a ser
estimulado, designadamente do que foi intitulado Investigação, Inovação & Ter-
ritório (Prémio CEI – IIT). O projeto Investigação, Inovação & Território foi criado
para distinguir trabalhos, projetos de investigação e outras iniciativas inovado-
ras, que contribuam para divulgar estudos, experiências e boas práticas que con-
corram para reforçar a coesão, a cooperação e a competitividade dos territórios
fronteiriços e de baixa densidade, tendo sido distinguidos dois projetos na sua
primeira edição: “Iniciativas de “ageing in place” – Valorizar e Divulgar” (António
Manuel Godinho da Fonseca) e “Pontes entre agricultura familiar e agricultura
biológica” (Cristina Amaro da Costa). Estamos, pois, perante dois temas que fa-
zem parte de qualquer agenda que se debruce sobre o desenvolvimento dos
espaços mais débeis do interior.
O Seminário “Envelhecer no Lugar” foi a primeira iniciativa publica realizada
neste âmbito, tendo por objetivo apresentar “experiências inovadoras e boas
práticas de coesão social, designadamente, no que respeita ao combate ao iso-
lamento e à promoção da inclusão social dos cidadãos mais velhos nas respeti-
vas comunidades, valorizando o que é habitualmente designado por “ageing in
place” (envelhecer na comunidade)”. A par deste projeto importa destacar outros
projetos estruturantes, desenvolvidos com o patrocínio do CEI, cujos resultados
suportam os conteúdos deste número da Iberografias:

(i) As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa. O amadurecimento e


o caminho feito por esta ideia têm permitido aprofundar um diálogo multiterri-
torial, multiescalar e transdisciplinar entre diversas redes de investigadores dis-
persos em alguns Países de Língua Portuguesa. Além de promover a internacio-
nalização do CEI, os estudos comparados sobre matérias tão distintas quanto o
impacte das políticas públicas ou a difusão de boas práticas de desenvolvimen-
to local, representam um património acumulado, como atesta o acervo editorial
considerável que já concentra. O CEI afirma-se, por esta via, uma referência no
âmbito da cooperação, um ponto focal onde se trocam de experiências e parti-
lham conhecimentos sobre dinâmicas e processos de reestruturação territorial,
verificados em diferentes contextos regionais de diversos continentes. Inscrito
neste âmbito e integrado na 20ª edição da Semana Cultural da Universidade de
Coimbra realizou-se o Seminário “Ca(u)sas Comuns: as Novas Geografias dos
Países de Língua Portuguesa – Patrimónios e Território” que se tornaria respon-
sável por diversos estudos de caso sobre vários tipos de património (cultural,
geopatrimónio, etc.), em Portugal e no Brasil, incluídos nesta edição.
12 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

(ii) Oficina de História da Guarda. A aposta na “compreensão do passado


da cidade da Guarda e da sua região levou ao acolhimento duma oficina de
escrita e de pesquisa aberta aos cidadãos e profissionais interessados” coor-
denada pela Professora Rita Costa Gomes, Professora na Universidade de
Towson (Estados Unidos da América). Do material já produzido e divulgado
em plataforma digital inclui-se nesta edição um trabalho sobre “A Judiaria
da Guarda em 1395” e outro intitulado “Quando o metro chegou à Guarda: a
geografia dos pesos e medidas da Região Beirã”.

(iii) Transversalidade. Fotografia sem fronteiras. A imagem tem uma im-


portância critica nas sociedades contemporâneas pelo que mostra e dá a
conhecer, mas, sobretudo, pelo que esconde, oculta e torna invisível. Esta
constatação foi o ponto de partida para o projeto Transversalidades, que vai
na sua oitava edição, que tem como principal objetivo contribuir para, através
da imagem, dar visibilidade e promover a inclusão de territórios, sobretudo
os mais votados a processos de exclusão ou que permanecem esquecidos
pelos media, responsáveis por deixarem em branco vastas áreas do planeta.
A tentativa de aproveitar o valor estético, documental e pedagógico da imagem
para promover a inclusão dos territórios menos visíveis, inventariar recursos,
valorizar paisagens, culturas e patrimónios locais tem levado ao desdobramen-
to do projeto em dois tipos de iniciativas complementares: (a) Encontros que
visam promover o debate em torna da Imagem & Território, este ano sob o lema
património visual, memória dos lugares; (b) Exposições, sob vários formatos e
diferentes temáticas, bem como a edição dos respetivos catálogos, que se dis-
persam em 2018 por seis lugares da cidade, com o objetivo de definir um roteiro
urbano que dê visibilidade a lugares e consiga maior interação como o público.
Importa assinalar que a edição de 2018 do Concurso Transversalidade. Fotogra-
fia sem fronteiras foi a mais concorrida, tendo sido submetidas mais de 750
candidaturas provenientes de mais 70 países. Os países com mais de cinco
representantes foram Brasil (193 concorrentes), Portugal (145), Irão (97), Rús-
sia (63), Espanha (62), India (32), Bangladesh (21), Argélia (10) Ucrânia (8),
Itália (8), Colômbia (7), Turqui (6); com cinco surge o México, Perú, Marrocos,
Iraque e Síria. A difusão do Transversalidades atinge países como Argentina
(4), Venezuela (3) e o Chile (3), Nepal (3) e Sri Lanka (3) ou China (4), Indonésia
(4), Malásia (4), Vietnam (4), Myanmar (2) e Filipinas (2); sem esquecer o Egip-
to (3), Quénia (3) e Austrália (2) e outros países mais próximos como Polónia
(2), Roménia (2), Suécia (2), Croácia (2) e Grécia (2).

Uma palavra de gratidão é devida a quantos colaboraram pessoalmente para


tornar possível o número 14 da Revista Iberografias e os que, de alguma manei-
ra, através das instituições que representam, viabilizaram as várias atividades e
iniciativas que o CEI concretizou ao longo de 2018.
As Novas
Geografias
dos PAIses de
LIngua
Portuguesa:
PatrimOnios e
TerritOrio
A CANDIDATURA DA ESTRELA A GEOPARK
MUNDIAL DA UNESCO
EMANUEL CASTRO*
MAGDA FERNANDES*
FÁBIO LOUREIRO*

Um Geopark Mundial da UNESCO é muito mais que uma classificação. Estes


são territórios de Ciência, Educação e Cultura, onde o substrato geológico serve
de âncora a múltiplas estratégias de desenvolvimento. De facto, através da clas-
sificação e caracterização do património geológico, podem ser criados novos
paradigmas baseados na sustentabilidade dos territórios. Através de uma visão
holística, pretende-se articular o turismo, a educação, a ciência e o desenvolvi-
mento das comunidades de forma a gerar novas oportunidades de desenvolvi-
mento, de geração de valor social e económico, partindo do princípio de que as
rochas que “pisamos” e a paisagem que “observamos” contêm uma memória
única. Em suma, um Geopark assume-se como um território onde duas histórias
fazem parte do mesmo património, a geológica e a das populações.

INTRODUÇÃO
O Programa de Geoparks Mundiais da UNESCO constitui, na atualidade, um
novo paradigma de valorização, promoção e desenvolvimento dos territórios,
ancorado na importância do património geológico. Neste sentido, um Geopark
é um território bem delimitado, detentor de uma notável história geológica que,
pela sua relevância, singularidade e significado, constitui um legado comum que
importa salvaguardar e valorizar para as gerações futuras. No corolário destas
preocupações, os Geoparks Mundiais da UNESCO defendem uma visão holística
do território, uma ação concertada entre os diferentes agentes de desenvolvi-
mento, uma estratégia de conservação e valorização dos seus locais de inte-
resse geológico e uma política de desenvolvimento de base territorial que seja
efetivamente integrada e participativa, centrada na sustentabilidade e na valori-
zação dos recursos endógenos de cada território.

*
Associação Geopark Estrela, Av. Francisco Sá Carneiro, n.º 50, 6300-559 - Guarda, PORTUGAL.
18 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

No cumprimento destas premissas, a Associação Geopark Estrela entregou


em novembro de 2017 a candidatura da Estrela a Geopark Mundial da UNESCO,
na qual se inscreve uma estratégia de promoção, desenvolvimento e refunciona-
lização de um território de 2.216 km2 que integra 9 municípios e no qual residem
aproximadamente 170 mil habitantes. Através da inventariação e classificação
de 124 locais de interesse geológico (geossítios), esta candidatura pretendeu
demonstrar a importância do património geológico para o desenvolvimento do
território, assim como a sua relação com os valores culturais, biológicos e paisa-
gísticos desta que é a Montanha mais importante de Portugal Continental. Contu-
do, este é um trabalho que se inicia muito antes e que traduz um enorme desafio
para a Estrela, as suas gentes e para esta geografia que, não raras vezes, dividiu
em vez de unir.

A REDE MUNDIAL E NACIONAL DE GEOPARKS MUNDIAIS


DA UNESCO
A Rede Mundial de Geoparks teve a sua criação no ano de 2004, depois
de anos de trabalho em prol da promoção e proteção do património geológico
através do desenvolvimento sustentável dos territórios. Foi inicialmente criada,
no ano de 2000, a Rede Europeia de Geoparks (EGN), tendo por base quatro
Geoparks: Reserva Geológica de Haute-Provence (França), Floresta Petrificada
de Lesvos (Grécia), Geopark Vulkaneifel (Alemanha) e Maestrazgo Cultural Park
(Espanha). Esta, oficializada em 2001 através da assinatura de um acordo formal
entre a EGN e Divisão da UNESCO para as Ciências da Terra (Zouros, 2004), teve
uma evolução bastante positiva, com a inclusão de vários territórios que viram
nas potencialidades desta classificação uma estratégia a adotar.
Com base neste modelo de sucesso, o interesse neste tipo de estratégias
tomou uma nova escala, com interesse internacional, sendo então criada a Rede
Mundial de Geoparks (GGN) sob os hospícios na UNESCO. Este passo permitiu o
desenvolvimento de um trabalho mais alargado e integrado, com troca de expe-
riências e sinergias, resultando nos números atuais que englobam 140 Geoparks
em 38 países.
Destes, importar destacar a rede nacional que incorpora neste momento 4
Geoparks Mundiais da UNESCO. O primeiro a obter a classificação, o Geopark
Naturtejo da Meseta Meridional, integrou a GGN em 2006, tendo como princi-
pais valores geológicos, por exemplo, os Icnofósseis de Penha Garcia, rastos
de antigos animais que habitavam o fundo dos oceanos. Seguiu-se, em 2009, o
Geopark Arouca, famoso pelas suas trilobites gigantes e pelas “Pedras Paridei-
ras”. Em 2013, o Geopark Açores obteve a chancela UNESCO, assente nos fenó-
menos vulcânicos que caracterizam o arquipélago, e tendo por base um conceito
A CANDIDATURA DA ESTRELA A GEOPARQUE MUNDIAL DA UNESCO
19
Castro, E., Fernandes, M., Loureiro, F.

diferente, classificando as 9 ilhas e partes do fundo oceânico. Por fim, o Geopark


Terras de Cavaleiros obteve a classificação no ano de 2014, território este onde
é possível encontrar rochas de uma antiga placa oceânica. No entanto, apesar
do sucesso da estratégia da GGN, apenas em 2015 foi criado pela UNESCO o
Programa Internacional de Geociências e Geoparks (IGGP), compreendendo o já
existente Programa Internacional de Geociências, uma iniciativa conjunta com
a União Internacional das Geociências (IUGS), e o novo programa de Geoparks
Mundiais da UNESCO. Com esta meta alcançada foram criados mecanismos de
cooperação internacional que, tendo por base o substrato geológico, através de
uma estratégia de bottom up, permitindo um trabalho conjunto de conservação
do património bem como de envolvimento das comunidades, focado no desen-
volvimento sustentável dos territórios (UNESCO, 2015).
Desta forma, e assente numa estratégia holística que tem por base a preser-
vação, educação, a ciência e desenvolvimento sustentável, a UNESCO criou uma
estratégia de promoção da agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável
promovido pelas Nações Unidas (Henriques M. H., Brilha, J., 2017).

O TERRITÓRIO DA ESTRELA: DO PATRIMÓNIO GEOLÓGICO


AO CULTURAL
O conhecimento relativo ao património geológico deste aspirante a geo-
parque resulta de anos de trabalho e pesquisa por parte de diversas entida-
des, entre as quais a Universidade de Lisboa, a Universidade da Beira Interior,
o Instituto Politécnico da Guarda e o Laboratório Nacional de Energia e Geolo-
gia. Com base nesta longa tradição de disseminação do património geológico,
foi possível partir para um extenso trabalho de pesquisa e de campo que per-
mitiu a identificação de aproximadamente 200 geossítios. Estes foram poste-
riormente hierarquizados segundo uma série de parâmetros, entre os quais
os seus valores (científico, educativos, ecológicos…), a sua acessibilidade e a
existência de infraestruturas de apoio, permitindo desta forma obter no final
uma lista de 124 geossítios. Devido ao seu considerável número, foi necessário
agrupar estes geossítios em diferentes categorias, tendo em conta as suas
características geológicas e geomorfológicas, tendo sido criadas para tal 8
categorias temáticas, as quais são descritas de seguida.
A ação dos processos glaciários e fluvioglaciários durante as glaciações do
Plistocénico (Vieira G., 2004) contribuiu para os principais valores que estão na
base da candidatura à UNESCO. São classificados 35 geossítios que apresentam
efeitos da erosão e acumulação glaciária em diversas escalas, desde o nível pai-
sagístico até às microformas. Aqui enquadram-se vales glaciários, vales suspen-
sos, bacias de sobreexcavação (covões), circos glaciários, till e moreias.
20 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Diretamente ligados a estes processos encontra-se outra categoria de geos-


sítios, os periglaciários. Aqui possuem especial relevância os geossítios ligados
aos fenómenos de crioclastia, com a formação de cascalheiras e outros depósi-
tos de vertente. Esta categoria inclui diversos exemplos de bastante relevância
não só a nível pedagógico como também de interpretação dos fatores associa-
dos a riscos naturais.
Outra das categorias com bastante representatividade no território do As-
piring Geopark Estrela é a do modelado granítico. Aqui é possível enquadrar
diversas formas com elevado valor paisagístico e que abrangem escalas qui-
lométricas, como é o caso do inselberg de Belmonte, bem como outras de
menor escala como tors, castle koppies (Ferreira N., Vieira G., 1999), caos de
bolas e formas antropomórficas, como são exemplo a Cabeça da Velha e a
Cabeça do Velho. Esta categoria apresenta um elevado valor científico uma
vez que permite o estudo da taxa de alteração e, por conseguinte, o estudo
da evolução da paisagem em função deste e de outros fatores, entre os quais
aspetos estruturais e petrográficos, bem como uma análise sobre a evolução
do clima.
Em outro grupo incluem-se os geossítios de origem fluvial. Condicionados
por alinhamentos tectónicos e pelas características do substrato, estes incluem
formas de grande escala como vales, e outras de menor escala como “sumos” e
marmitas de gigante.
Ainda associados ao património hidrológico, são enquadrados na categoria
de geossítios hidrogeológicos os locais referentes às águas em profundidade,
que evidenciam a relação entre as águas meteóricas, os processos de alteração
e a tectónica. Esta relação origina águas de origem mineral e termal que, pela
sua importância e qualidade, têm sido secularmente exploradas pelas comuni-
dades, quer para utilização e comercialização como águas de mesa, quer para o
uso terapêutico, com a criação de unidades termais no território.
No que diz respeito aos geossítio petrológicos, são aqui incorporados os
locais com relevância estratigráfica, mineralógica e tectónica. São focados os
processos que se encontram na génese destas rochas, permitindo desta for-
ma estabelecer uma relação entre o substrato geológico e o desenvolvimento
da paisagem atual. Aqui enquadram-se as formações metassedimentares, as
rochas resultantes de metamorfismo de contacto, bem como de metamorfismo
regional, filões de quartzo e rochas básicas (Ferreira N., Vieira G., 1999).
Relacionados com a categoria anterior, encontram-se os geossítios de ori-
gem mineira, que foram ao longo do tempo importantes para a economia desta
região, fazendo por esse motivo parte da cultura deste território. Estes locais
são caracterizados por explorações mineiras, ativas e inativas, que permitem
compreender a importância dos recursos geológicos e as suas aplicações, bem
como as consequências negativas desta exploração mineira.
A CANDIDATURA DA ESTRELA A GEOPARQUE MUNDIAL DA UNESCO
21
Castro, E., Fernandes, M., Loureiro, F.

Por fim, a última categoria engloba os pontos de observação da paisagem,


comummente designados como miradouros. A partir destes locais é possível
analisar e interpretar as principais formações geomorfológicas a nível regional,
bem como a organização paisagística, permitindo uma abordagem holística ao
património natural, na sua relação com a atividade e intervenção humana.
No entanto, nem só de património geológico é feito um Geoparque. Ligados
a este é possível enumerar outros elementos patrimoniais que contribuem para o
enriquecimento e consolidação da candidatura deste território à UNESCO (Henri-
ques M. H., Brilha J., 2017).
A Estrela, pelas suas características biogeogeográficas, representa um re-
fúgio para a fauna e flora que sobreviveram aos efeitos das últimas glaciações.
É possível encontra aqui alguns endemismos, como é o caso de lagartixa-da-
-montanha (Iberolacerta monticola subsp. monticola) para a fauna, ou da Silene
(Silene phoetida subsp. phoetida) para a flora (Jansen J., 2002). De facto, a área
da serra da Estrela compreende quase um terço da flora portuguesa, dois terços
dos briófitos portugueses e uma enorme diversidade de líquenes. Alberga pelo
menos 5 endemismos estrelenses e uma enorme variedade de endemismos ibé-
ricos, sendo que existem 70 espécies de flora que em Portugal se encontram
circunscritos à serra da Estrela. Quanto à fauna, existem aproximadamente 40
espécies de mamíferos, 150 espécies de aves (dois terços das quais nidificantes),
30 espécies de répteis e anfíbios (um endemismo), e algumas espécies de peixes
(Jansen J., 2002, Jansen J., 2011, Van den Boom P. P. G., Jansen J., 2002, Garcia
C. et. al. 2008).
Por fim, importa referir a longa história de ocupação humana deste território,
elemento que lhe confere um inestimável valor cultural. Historicamente, ligada
às características geológicas e geomorfológicas da Estrela, bem como ao clima
desta montanha, a atividade humana moldou a paisagem, criando um mosaico
cultural que enriquece esta candidatura.
A ocupação humana possui na Estrela registos desde os 7.6 mil anos B.P., no
sopé da montanha, tendo posteriormente expandido até altitudes superiores.
(Van der Knaap W. O., Van Leeuwen J. F. N., 1994). Os registos arqueológicos
mais antigos datam do Neolítico tardio e do Calcolítico (Cardoso J. L., González
A., 2002), sendo a maioria dos vestígios caracterizados pela presença de estru-
turas megalíticas (antas e dólmens), havendo já alguns registos de movimentos
transumantes nesta época.
No entanto, estes registos anteriores refletiam populações nómadas, sen-
do a construção de castros, aquando da época das invasões romanas, a prova
de que foi por estas datas que o assentamento das populações se começou a
desenvolver. Foi nesta época, há aproximadamente 2.6 mil anos, que se ins-
talaram na Estrela os Lusitanos, um povo de origem Indo-Europeia (Alarcão J,
1993) que, na conquista do território aos romanos, batizou a serra de Montes
22 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Hermínios, um nome que é ainda usado pelos portugueses para se referirem à


serra da Estrela.
Seguiram-se ocupações por parte de diversos povos, com destaque para o
povo romano, que introduziu elementos como a mineração e spas, e para a ocupa-
ção muçulmana que trouxe avanços a nível da engenharia como os sistemas de irri-
gação que permitiram uma agricultura mais intensiva e a criação de novas culturas.
Com as grandes reconquistas do século X e XI, todo o território sofreu um
enorme declínio populacional, passando estas áreas a ser frequentemente usadas
para a prática da pastorícia. De facto, esta foi a principal atividade durante milé-
nios, tendo fomentado a criação da indústria dos lanifícios no início do século XVII.
Já durante o século XX, assistiu-se a uma secundarização da economia, ocor-
rendo um grande desenvolvimento da indústria extrativa, ainda hoje um forte
elemento identitário de algumas áreas deste aspirante.
Apesar de atualmente o setor dos serviços e o do turismo serem os principais
sustentadores da economia, ao longo do território é possível encontrar e viven-
ciar um enorme património cultural, reflexo de milénios a milénios de ocupação
humana que, influenciado pela orografia da Estrela, o tornam um elemento iden-
titário deste território.
É com base nos elementos patrimoniais atrás mencionados que assenta esta
candidatura à Rede Mundial de Geoparks da UNESCO. De facto, não podemos
dissociar o diversificado património deste território, uma vez que as caracterís-
ticas geológicas e geomorfológicas têm influência direta sobre a distribuição da
biodiversidade desta montanha, bem como sobre os seus modos de vida e ocu-
pação humana milenar. Assim, é imperativo que a abordagem ao património seja
feita de forma holística e integrada.

A CANDIDATURA DA ESTRELA À UNESCO: MOTIVAÇÕES


E DESAFIOS
Apesar de o nome e a própria marca “serra da Estrela” serem já um forte
atrativo turístico, não se tem verificado o devido impacte e desenvolvimento ter-
ritorial que seria espectável com base nesta notoriedade. Como tal, uma abor-
dagem holística tendo por base um novo paradigma de desenvolvimento é um
ponto fulcral nesta candidatura à UNESCO.
Compreender todo o potencial associado a esta geografia permite afirmar
que existem elementos suficientes para sustentar este projeto. Existem valores
de enorme relevância, alguns reconhecidos internacionalmente, associados ao
património geológico deste território, valores estes quantificáveis a nível cientí-
fico, educativo, ecológico, cénico e turístico, sendo a soma de todos aquilo que
torna estas paisagens de montanha únicas no contexto nacional, servindo de
A CANDIDATURA DA ESTRELA A GEOPARQUE MUNDIAL DA UNESCO
23
Castro, E., Fernandes, M., Loureiro, F.

motivação na entrega desta candidatura. No entanto, não só o património geoló-


gico caracteriza esta montanha, sendo a biodiversidade e as suas gentes outros
dos atributos que marcam claramente esta geografia.
Por outro lado, é relevante reforçar a estratégia de coesão territorial que se
pretende afirmar. Pela primeira vez foi possível associar nove municípios que
reconhecem na serra da Estrela o seu elemento identitário, e que viram neste
projeto uma oportunidade de contribuir de forma positiva para as populações
que neles residem. Salienta-se, ainda, a ligação às duas instituições de ensino
superior do território (Instituto Politécnico da Guarda e Universidade da Beira In-
terior), que com o seu conhecimento científico permitiram fortalecer ainda mais
os argumentos para esta candidatura.
Também de relevância, a presença de um Parque Natural dentro do território
a classificar pela UNESCO. A relação com o ICNF (Instituto de Conservação da
Natureza e das Florestas) tem desde o início demonstrado ser uma mais valia,
resultando atualmente em algumas ações que têm contribuído para o desenvolvi-
mento da área tutelada por esta estrutura do Estado Português, como por exem-
plo a implementação de painéis interpretativos, a organização de um festival de
natureza e paisagem inserido na rede nacional de “Observas” do ICNF, ou a dina-
mização do atual Centro de Interpretação do Geopark Estrela, localizado na Torre.
No entanto, apesar de os pontos referidos representarem uma forte motiva-
ção para o futuro, é preciso olhar de forma cuidada para os desafios que este
território apresenta. O passo inicial de criação deste projeto foi já um grande
marco para a região, com a assinatura de um memorando de entendimento en-
tre os diversos municípios envolvidos. É, pois, necessário que a partir deste se
continue a trabalhar numa estratégia para o território como um todo e não a
soma das partes, garantindo desta forma coesão territorial que, a longo prazo,
mostra ser a opção mais viável para estes territórios pouco competitivos e de
baixa densidade populacional.
Apesar de esta montanha ter sido durante décadas um fator de divisão, con-
tribuindo para falta de coesão e de uma estratégia de desenvolvimento holístico,
pela análise dos pontos fortes do território é possível perceber que com estes
recursos estão criados os alicerces para superar os desafios que uma candidatu-
ra à UNESCO representa, bem como a idealização de um novo paradigma para
a Estrela.

O GEOPARK ESTRELA: EIXOS DE AÇÃO


A obtenção da marca UNESCO não é per si significado de resolução dos
problemas territoriais e demográficos que os territórios que se candidatam pos-
suem. Alavancada nesta, é necessária uma abordagem muito mais profunda e de
24 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

base que contribua para a mitigação destes. Assim, foram traçados objetivos a
implementar, num Plano de Ação desenvolvido pelo Geopark Estrela, onde foram
definidas áreas de atuação concretas com linhas estratégicas que permitissem
assegurar esta visão. Desta forma, as áreas definidas foram: Geoconservação e
Ambiente, Ciência, Educação e Formação, Turismo e Comunicação.
Para a Geoconservação e Ambiente, pretende-se estabelecer uma estraté-
gia de geoconservação em que deverão ser incluídos todos os valores naturais,
abrangendo não só a biodiversidade, mas também a geodiversidade, trabalhan-
do todo este património de uma forma holística e assegurando que os procedi-
mentos de gestão tenham em consideração a vulnerabilidade deste património
natural.
Sobre a Ciência, é necessário implementar no território uma estratégia que
vise o incremento do conhecimento científico, permitindo desta forma tornar o
Geopark Estrela um polo competitivo ao nível da investigação em áreas de mon-
tanha. Pretende-se estabelecer parcerias com as instituições de ensino superior
já presentes no território, bem como com outras que possuem um historial de
estudos na serra da Estrela. Assim, e com um foco em diversas áreas, como
geologia, biologia ou turismo, poderão ser postas em prática novas estratégias,
melhor fundamentadas, que contribuirão para o desenvolvimento sustentável
do território.
No que diz respeito à Educação, ou Geoeducação no contexto dos Geo-
parques, esta constitui uma ferramenta fundamental para a sensibilização de
crianças, jovens e adultos para a importância do património geológico e para
a necessidade da sua preservação, uma vez que só se pode valorizar e, conse-
quentemente, preservar aquilo que verdadeiramente se conhece. Neste sentido,
a Educação é essencial para estimular o sentimento de pertença, em relação ao
seu território e ao património natural e cultural que este encerra, contribuindo
desta forma para a sua conservação.
Sobre o Turismo, e tendo em conta que este é um dos pilares de um Geopark
Mundial da UNESCO, foram selecionadas ações que visam, entre outros: dinami-
zar o turismo no território Geopark Estrela; reforçar as parcerias; contribuir para
a continuidade da identidade da Estrela; contribuir para a criação de uma marca
turística forte, assente no património e na cultura; incitar o aumento do nº de
visitantes e da despesa média/dia por visitante; além de contribuir para colmatar
a sazonalidade turística.
Por fim, relativamente à Comunicação, este aspirante a integrar a rede Mun-
dial de Geoparques da UNESCO assume que a comunicação possui um papel de
destaque na sua estratégia transversal de desenvolvimento. Em cada um dos
seus eixos vitais, o turismo, a ciência, a educação e a sustentabilidade, a comuni-
cação procura atingir três objetivos essenciais: em primeiro lugar uma maior no-
toriedade da marca Geopark e do seu próprio conceito, em segundo uma maior
A CANDIDATURA DA ESTRELA A GEOPARQUE MUNDIAL DA UNESCO
25
Castro, E., Fernandes, M., Loureiro, F.

divulgação e disseminação do território que o compõe e, em terceiro, uma maior


capacidade de atratividade, de turistas, de residentes e investidores.
Desta forma, tal como referido anteriormente, estão delineados eixos que
permitem de uma forma mais abrangente estruturar uma estratégia para este
futuro território UNESCO.

UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO PARA O SÉ-


CULO XXI
De forma a garantir uma estratégia sustentável para este território, é neces-
sário idealizar uma abordagem a longo prazo que englobe de forma holística
todo o potencial deste território. Como já referido, o património natural e cultural
desta região são um elemento bastante forte que serve de base e alavanca para
esta estratégia. É necessário valorizar aquilo que são os recursos endógenos do
território, nos quais a identidade das populações se encontra bastante vincada.
Com base em uma análise demográfica dos municípios que integram a candi-
datura, é possível observar que o índice de envelhecimento tem vindo a crescer
de forma exponencial, sendo necessárias medidas e incentivos que permitam
fixar estas populações.
Sendo o turismo um dos pilares de um Geopark, e constituindo este um fator
determinante na economia da região, deverá reforçar-se a aposta neste, tendo
em vista uma oferta mais sustentável e diversificada. É importante que possam
ser atraídos novos visitantes, com outras especificidades. Para tal é necessário
ser feita uma aposta em outras vertentes turísticas tais como o Turismo de Na-
tureza, o Turismo Cientifico e o Turismo de Saúde e Bem-Estar. Isto irá combater
a sazonalidade que se verifica neste território, que continua ainda muito ligado
ao recurso “neve”. Esta aposta pode contribuir também para a diminuição da
massificação da serra da Estrela, que a longo prazo revela impactes bastante
negativos para o território. Focada numa nova política de desenvolvimento ba-
seada nos elementos anteriormente referidos, esta estratégia permitirá a criação
de novas oportunidades de investimento que podem contribuir, por conseguinte,
para a mitigação das tendências demográficas observadas atualmente.
Estando em curso uma classificação a um programa da UNESCO, é impor-
tante que sejam tidos em conta os Objetivos para o Desenvolvimento Susten-
tável da Agenda 2030. De facto, o Programa Internacional de Geociências e
Geoparks (IGGP) é um dos instrumentos da Organização das Nações Unidas
para colocar em prática esta agenda, sendo possível por em prática alguns
dos seus objetivos, como a Redução de Desigualdades (ODS 10), reduzindo
as desigualdades no interior dos países e entre países, a Ação Climática (ODS
13), adotando medidas urgentes para a mitigação deste problema global, ou
26 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

as Cidades e Comunidades Sustentáveis (ODS 11), contribuindo para a susten-


tabilidade dos territórios classificados.
Caso as diversas estratégias propostas sejam frutíferas a médio e longo pra-
zo, pode afirmar-se que este território vai ao encontro daquilo que é um Geopark
Mundial da UNESCO.

NOTAS FINAIS
Claramente marcada pela presença da mais alta montanha de Portugal Conti-
nental, o território do Geopark Estrela apresenta um inequívoco património geo-
lógico, sendo o seu foco as mais importantes formas associadas ao glaciarismo,
periglaciarismo e fluvioglaciarismo em Portugal, algumas delas de relevância
internacional. As suas paisagens e ambiente de montanha tornam a Estrela um
laboratório vivo para o estudo das dinâmicas ligadas às alterações climáticas e
riscos naturais, ecossistemas de montanha e turismo.
No entanto, apesar deste património geológico, nem só de rochas é feito um
Geopark, sendo o restante património natural bem como a antiquíssima história
de ocupação humana elementos que enriquecem esta candidatura, sendo exem-
plo a ancestral prática da transumância, que faz parte da cultura deste território
e que está na origem do próprio nome desta serra.
Assim, esta candidatura a Geopark Mundial da UNESCO proporciona uma
oportunidade de promoção de um desenvolvimento sustentável que de forma
transversal irá ao encontro daquilo que são as necessidades desta região e das
suas gentes. Mais do que alcançar uma classificação internacional, esta é uma
oportunidade para encontrar novas estratégias de desenvolvimento, novas abor-
dagens de sustentabilidade, fomentando o trabalho em rede entre os diferentes
agentes do Território. Esta candidatura é, de facto, o espelho da ambição desta
serra, traduzindo-se numa enorme viagem pela geologia e geografia de uma
Montanha que é muito mais do que isso, é sinónimo de identidade e de pertença.

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A CANDIDATURA DA ESTRELA A GEOPARQUE MUNDIAL DA UNESCO
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A CLASSIFICAÇÃO DOS JARDINS
HISTÓRICOS PORTUGUESES: EVOLUÇÃO
E CARACTERIZAÇÃO

SUSANA SILVA*

INTRODUÇÃO
Os jardins históricos constituem um tipo particular de património cultural e
paisagístico onde a componente natural e cultural se conjugam de forma har-
moniosa. A eles lhe é imputada uma importância maior resultante do seu papel
enquanto documentos culturais e históricos uma vez que são presença assídua
nas diferentes civilizações, sociedades e territórios. Ao tamanho da sua riqueza
intrínseca corresponde, na mesma proporção, a vulnerabilidade a que estão su-
jeitos, devido a fatores vários.
Não obstante ter constituído durante largas décadas um património menor,
secundarizado e tratado de forma superficial nos amplos e vastos debates inter-
nacionais sobre património, resultando, tal descaso e inércia, em perdas irrepa-
ráveis, a partir do final da década de 60 assiste-se a uma nova atitude face aos
jardins. A salvaguarda, a conservação, a investigação e a valorização de jardins
históricos torna-se assim mais efetiva através da definição e aplicação de várias
medidas decorrentes sobretudo da fundação do Comité Internacional de Jardins
e Sítios Históricos, da realização de diversos eventos com destaque para o Sim-
pósio de Fontainebleau ou ainda da assaz defesa deste património comandada
por René Pechère. As orientações presentes na Carta de Florença vêm reforçar
a necessidade de preservação dos jardins históricos uma vez que o seu artigo
9º reitera que aquela depende da identificação e da classificação destes. Uma
premissa que é de igual modo assumida pela atual Lei do Património Cultural
Português.
Embora as preocupações nacionais relativamente ao património jardins ti-
vessem despontado tardiamente, sobretudo no meio académico, e apenas na
década de 60 ter sido realizado um levantamento de jardins históricos, estes têm

*
CEGOT – Universidade de Coimbra (Portugal) [susanageog@sapo.pt].
Doutora em Geografia pela Universidade de Coimbra, Investigadora do Centro de Estudos de Geografia e
Ordenamento do Território (Universidades de Coimbra, Porto e Braga) e Assistente Convidada da Escola
Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança.
30 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

sido alvo da medida de salvaguarda que lhes confere estatuto de bem protegido
– a classificação.
Este artigo propõe assim analisar e refletir sobre o percurso de mais de um
século da classificação de jardins em Portugal e a sua evolução em termos quan-
titativos e qualitativos chamando a atenção, por um lado, para a evolução do
conceito de património, no sentido de uma cada vez maior abrangência e inclu-
são, como fator determinante nesta evolução, por outro, para a necessidade de
mais classificações face ao imenso espólio de jardins históricos existente em
Portugal e para a sua capitalização.

O JARDIM HISTÓRICO PORTUGUÊS: ORIGINALIDADE E


DIVERSIDADE
O jardim português com génese no pomar-jardim e no conceito de jardim de
estar, enquanto espaço habitável, de recantos, de refúgio, intimista e criptomági-
co soube, ao longo dos tempos, adaptar-se às circunstâncias e absorver as diver-
sas influências que iam chegando. Construiu-se, no entender de Caldeira Cabral
(1993), um conceito próprio de jardim português resultante de um conjunto de
circunstâncias variadas e de uma mescla de influências que o tornou diferente
e único. Desta forma, o jardim português traduz na perfeição a ideia de jardim
como reflexo da cultura, da identidade e da história de um povo, já que, fruto de
circunstâncias particulares em termos territoriais, históricos, culturais, políticos,
religiosos, económicos e sociais, este encerra um conjunto de traços culturais
característicos diferenciadores (Caldeira Cabral, 1993; Castel-Branco, 2010). Na
opinião de Castel-Branco (2010), a diversidade de árvores e arbustos com flor,
as vistas profundas e as perspetivas, os azulejos e os grandes planos de água
constituem os elementos-chave do jardim português. Mas não só. Também as
latadas e os caramanchões, os alegretes, os embrechados, os bancos e outros
elementos decorativos (naturais e artificiais), os caminhos, os jardins-terraço e
os altos muros/sebes, constituem importantes elementos identificadores que, de
forma isolada ou combinada (em particular nas quintas de recreio do século XVI
ao XVIII), definem aquilo que é a essência do jardim português (Araújo, 1962;
Carita & Cardoso, 1987; Caldeira Cabral, 1993; Carapinha, 1995; Castel-Branco,
2010) e fazem com que seja tão diferente, original e atrativo.
Segundo Caldeira Cabral (1993: 83), “Não faltam os jardins em Portugal, das
mais variadas épocas (…)”. De Norte a Sul, incluindo as ilhas, Portugal detém
um amplo e diverso espectro de jardins com bons representantes de cada épo-
ca, embora em diferentes níveis de conservação. Desde os peristilos romanos
de Conímbriga e claustros medievais aos parques públicos do século XX, pas-
sando pelas cercas conventuais, santuários, jardins botânicos, jardins privados
A CLASSIFICAÇÃO DOS JARDINS HISTÓRICOS PORTUGUESES: EVOLUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO
31
Susana Silva

e públicos, parques, avenidas e largos de interesse histórico e artístico até às


quintas de recreio, consideradas o tipo de espaço mais característico da Arte de
Jardinar em Portugal e consequentemente onde melhor se expressa o conceito
de jardim na cultura lusíada, a diversidade de tipos de jardins e a mescla de esti-
los caracteriza a originalidade da arte paisagista em Portugal (Carita & Cardoso,
1987; Caldeira Cabral, 1993). Estes sítios, independentemente da sua escala e da
sofisticação dos seus traçados e materiais, representam um valor patrimonial e
cultural inestimável, fundamental para o entendimento da cultura portuguesa e
para a preservação da memória e identidade nacionais.

A CLASSIFICAÇÃO DOS JARDINS HISTÓRICOS: O CASO


PORTUGUÊS
A classificação tem sido referida sistematicamente nos sucessivos quadros
normativos nacionais alusivos às questões do património como necessária ao
cumprimento dos objetivos de salvaguarda e valorização do património daí ten-
do resultado a classificação de diversos bens móveis e imóveis ao longo do tem-
po, nomeadamente de jardins.
A atual Lei do Património Cultural Português, de 2001 (artigo 16º), prevê a
instituição de dois níveis de registo patrimonial – o de classificação e o de in-
ventário – com vista à sua proteção legal e valorização, sendo este processo
revestido da maior relevância para a compreensão, permanência e construção
da identidade portuguesa e para a democratização da cultura. Ainda de acordo
com este quadro normativo, a classificação corresponde ao ato final do proce-
dimento administrativo mediante o qual se determina que certo bem possui um
inestimável valor cultural e que os bens imóveis de interesse cultural podem ser
classificados como de Interesse Nacional (designados de Monumento Nacional),
de Interesse Público ou ainda de Interesse Municipal.
Data de final da década de 30 do século XX a formalização institucional da
preocupação com o património paisagístico através do Decreto-Lei n.º 28468
de 15 de fevereiro de 1938 que cria a figura das “árvores de interesse público”
e onde o arvoredo é assumido como uma “(…) interessante moldura decorativa
dos monumentos arquitectónicos e valoriza grandemente as paisagens (…)”,
motivo suficiente para se protegerem todos os arranjos florestais e de jardins
de interesse artístico ou histórico e ainda exemplares isolados de espécies
vegetais. Este diploma foi revogado pela Lei n.º 53/2012 de 5 de setembro que
aprova o regime jurídico de classificação de Arvoredo de Interesse Público
(AIP) que, pela sua representatividade, raridade, porte, idade, historial, signifi-
cado cultural ou enquadramento paisagístico, possam ser considerados de re-
levante interesse público, e esclarece ainda que a classificação de “interesse
32 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

público” atribui ao arvoredo um estatuto similar ao do património construído


classificado.
A Portaria n.º 124/2014 de 24 de junho, que regulamenta esta lei, determina
que o AIP pode ser classificado no seio de duas categorias: a) Conjunto arbóreo
– povoamentos florestais, bosques ou bosquetes, arboretos, alamedas e jardins
de interesse botânico, histórico, paisagístico ou artístico; e b) Exemplar isolado
– indivíduos de espécies vegetais.
Do Registo Nacional do Arvoredo de Interesse Público (RNAIP), disponibili-
zado e atualizado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas
(ICNF), que inclui apenas o arvoredo de Portugal continental, constam mais de
500 árvores isoladas (85%) e cerca de 80 conjuntos (15% entre alamedas, maci-
ços, arvoredos, bosquetes e alinhamentos) perfazendo um total de quase 600
elementos classificados até então. No RNAIP não figura qualquer jardim histórico
(ICNF, 2018).
Embora as preocupações com os jardins despontassem e se desenvolvessem
sobretudo no meio académico, certo é que os jardins foram sendo classificados
ao abrigo de quadros normativos gerais relativos ao património, em grande par-
te dos casos como elemento integrante do património imóvel a classificar.
De acordo com a Lei do Património Cultural Português, a iniciativa para a
abertura de um procedimento administrativo de classificação pode provir de
qualquer pessoa ou organismo, público ou privado, nacional ou estrangeiro e à
Direção Geral do Património Cultural (DGPC) compete, por lei, instruir o proce-
dimento administrativo de classificação de um bem imóvel em articulação com
as direções regionais de cultura, sendo um trabalho constante e em permanente
alargamento.
A partir da base de dados disponibilizada pela DGPC (sistema Ulysses), que
se cruzou com a base do Inventário do Património Arquitetónico, com informa-
ção proveniente dos estudos de Silva (1998), Castel-Branco (2002), Estadão
(2005) e ainda com a mais recente base de dados de jardins históricos criada
pelo Centro de Ecologia Aplicada Baeta Neves do Instituto Superior de Agro-
nomia de Lisboa em parceria com o Institut Européen des Jardins & Paysages,
foi realizado um trabalho de recolha, sistematização e análise da informação
relativa a este mecanismo de proteção dos jardins portugueses – a classifica-
ção – permitindo um mais amplo conhecimento da sua evolução e das suas
principais características.
Através da análise deste conjunto de dados confirmou-se a classificação efe-
tiva de cerca de 200 jardins entre 1910 e meados de 2018 (correspondendo a 5%
A CLASSIFICAÇÃO DOS JARDINS HISTÓRICOS PORTUGUESES: EVOLUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO
33
Susana Silva

do total de bens imóveis classificados em Portugal Continental, que são pouco


mais de 4000, neste momento), aos quais se acrescentam 22 casos em processo
de classificação. Não obstante os resultados apurados, é devida a ressalva de
que é possível a existência de mais jardins com esta distinção, especialmente
no seio das que ocorreram no século passado. Tal justificar-se-á pelo facto de
nos diplomas mais antigos apenas surgir a denominação/menção do bem a clas-
sificar, nomeadamente o monumento principal, por tipo de proteção, distrito e
concelho, em modo listagem. Há ainda situações em que mesmo com o mapa
disponível, a sua baixa qualidade/percetibilidade aliada à mera referência ao
bem continua a não ser suficientemente esclarecedora. Deste modo, a ausência
de mapas ou a sua fraca qualidade e ainda a falta de descrições mais porme-
norizadas inviabiliza o apuramento com todo o rigor da inclusão dos jardins na
classificação de determinado bem imóvel. Desde há cerca de 10 anos a esta par-
te os documentos de classificação já disponibilizam descrições e enquadramen-
tos mais extensos dos bens classificados assim como a definição mais concreta
do que está abrangido pela classificação e mapas que ajudam a perceber com
maior certeza a inclusão dos jardins, caso a própria denominação não os inclua.
Note-se que, neste conjunto de jardins classificados 67% têm na denominação
do bem a referência aos jardins. Nos restantes, só através da análise dos textos
de enquadramento e mapas se conseguiu apurar a integração dos jardins na
classificação.

EVOLUÇÃO DO PROCESSO DE CLASSIFICAÇÃO

A classificação de jardins, de forma individual ou mais recorrentemente


associados a outro bem patrimonial, foi irregular ao longo do tempo e muito
residual até final da década de 60, com apenas 9% de jardins classificados,
sendo sobretudo a partir da década de 70 do século XX até à atualidade que
se tem verificado uma maior dinâmica neste processo, tal como revela a figura
1. Tendo em conta os dados apurados, quase metade do total de jardins clas-
sificados obtiveram esta distinção ao longo de todo o século XX, em particular
nas décadas de 70, 80 e 90. Só nestas três décadas foram distinguidos mais de
80% do total de jardins classificados durante o século XX, o que corresponde a
cerca de 40% do total de jardins classificados durante todo o período temporal
considerado.
34 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 1. Classificação de jardins por década

%
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
1910

1920

1930

1940

1950

1960

1970

1980

1990

2000

2010
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da DGPC (2018a, 2018b)/Considerado o ano da 1ª classificação.

Embora o primeiro decénio do século XXI tenha apresentado números mais


modestos, este início de centúria revela-se mais dinâmico. Note-se que os jar-
dins classificados em quase duas décadas já representam mais de metade (51%)
do total dos jardins classificados apurados.
O Palácio Nacional de Queluz e os seus jardins com a designação “Paço de
Queluz, comprehendendo os jardins” detêm a classificação mais antiga deste
grupo, datada de 1910, como Monumento Nacional (MN). Já o Palacete Loures
incluindo o jardim, em Lisboa, como Monumento de Interesse Público (MIP) e o
Paço Episcopal de Castelo Branco, incluindo o Jardim Episcopal e o passadiço
(correspondendo a uma ampliação da classificação), como MN, constituem as
classificações mais recentes, datadas do primeiro semestre de 2018.
O tipo de classificação mais comum, durante todo o século XX, e no geral,
é a de Imóvel de Interesse Público (IIP), representando a totalidade ou a quase
totalidade dos bens classificados em diversos anos. A classificação de MN é re-
sidual neste período tornando-se mais recorrente a partir do final do século XX,
mormente da década de 90. Na segunda década deste novo milénio ganham
destaque as classificações de MIP (Figura 2).
A CLASSIFICAÇÃO DOS JARDINS HISTÓRICOS PORTUGUESES: EVOLUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO
35
Susana Silva

Figura 2. Tipo de classificação de jardins por década

45

40

35

30

25

20 Outras
CIP
15
IM
10 IIP

5 MIP
MN
0
1910

1920

1930

1940

1950

1960

1970

1980

1990

2000

2010
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da DGPC (2018a, 2018b)

Deste padrão temporal não está alheio o facto de as classificações refletirem


o modo como a sociedade olha para o património em cada época, já que se
valorizam aspetos diferentes ao longo do tempo. Como tal, a leitura das clas-
sificações no decurso do tempo é demonstrativa da evolução da disciplina da
conservação do património cultural, inicialmente quase única e exclusivamente
centrada no monumento edificado, mas cujo conceito se alarga ao de paisagem
cultural, sobretudo a partir da segunda metade do século XX (Henriques, 2003).
Note-se que entre 1910 e 1950 a referência concreta à inclusão dos jardins na
designação do imóvel a classificar apenas surge por pouco mais de meia dúzia
de vezes. Em contrapartida, após 1950 até final do século XX surge em sete de-
zenas de referências, ultrapassando já as seis dezenas nas quase duas décadas
deste milénio.
Com a distinção tipológica e cronológica do património (Henriques, 2003),
é assim possível encontrar hoje em dia uma maior incidência de classificações
de objetos e conjuntos arquitetónicos de tipologias mais variadas, como sejam
a arquitetura modernista e do movimento moderno, a arquitetura vernacular, os
sítios arqueológicos, as cercas monásticas, a arquitetura do espetáculo, a arqui-
tetura industrial e também os jardins históricos, entre outras (Henriques, 2004).
36 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

CARACTERÍSTICAS DOS JARDINS CLASSIFICADOS

Os jardins distinguidos estão, na quase totalidade, associados a outros ele-


mentos construídos e fazem parte sobretudo de conjuntos, cujos jardins surgem
desta forma como parte integrante de um conjunto a preservar. Com base nas
tipologias definidas pela DGPC, os jardins classificados estão distribuídos pelas
tipologias Arquitetura Civil, Arquitetura Mista, Arquitetura Religiosa, Arquitetura
Militar, Não Definida, existindo ainda um conjunto de referências que não estão
incluídas em qualquer uma destas. É no âmbito da tipologia Arquitetura Civil que
se encontram, neste momento, cerca de 75% dos jardins classificados (Figura 3).
Dentro de cada tipologia os bens imóveis estão alocados a diversas categorias
e, neste caso, quase metade dos jardins classificados distribuem-se pelas cate-
gorias Quinta (18,4%), Palácio (15,0%) e Casa (12,6%), que integram a tipologia ar-
quitetura civil. Note-se que na categoria Jardim constam apenas três referências:
o Jardim/Clautro da Manga, o Jardim Botânico de Lisboa e o Jardim Botânico
de Coimbra. No âmbito da Arquitetura Religiosa (9%) destacam-se as categorias
Convento e Mosteiro (Figura 4).

Figura 3. Classificação de jardins por tipologia

Arq. Mista
1%
Arq.
Religiosa
9%
Arq. Militar
Arq. Civil 0%
75% Não
Sem
tipo 1./categ. Definida
15% 0%

Fonte: Elaboração própria com base nos dados da DGPC (2018a, 2018b)

O tipo de classificação mais comum é a de IIP representando pouco mais de


40% do total de jardins classificados, seguido da de MIP que abarca 33%, domi-
nando as classificações dos jardins neste século, como já referido. Apenas 13%
A CLASSIFICAÇÃO DOS JARDINS HISTÓRICOS PORTUGUESES: EVOLUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO
37
Susana Silva

estão classificados como MN e 7% têm como categoria de proteção Interesse


Municipal (IM). É residual a expressão das classificações como Sítio de Interesse
Público (SIP), Monumento Regional (MR), Valor Regional (VR) e Valor Local (VL)
englobadas em Outras, cada uma delas ao nível de um único exemplar (Figura 5).
Os jardins classificados como IIP destacam-se nas categorias Casa, Quinta
e Palácio, de resto as que encerram maior número de bens classificados, clas-
sificação predominante inclusive na maior parte das categorias analisadas. Já
a distinção de MN destaca-se na categoria Palácio e a classificação de MIP tem
uma maior expressão na categoria Quinta.

Figura 4. Classificação de jardins por categoria

%
20%

18%

16%

14%

12%

10%

8%

6%

4%

2%

0
Área urbana
Casa
Conjunto
Edifício
Jardim
Paço
Palacete
Palácio
Parque
Quinta
Solar
Outras
Conjunto
Convento
Igreja
Mosteiro
Paço
Outras
Castelo
Conjunto
Sem tip./cat.

Arq. Civil Arq. Arq. Arq. Não


Mista Religiosa Militar definida

Fonte: Elaboração própria com base nos dados da DGPC (2018a, 2018b)

Para além deste painel classificativo de âmbito nacional é imperativo men-


cionar a distinção de Património Mundial da Humanidade. Refira-se que alguns
dos sítios classificados, nomeadamente Centros Históricos e/ou Conjuntos Pa-
trimoniais, integram jardins ou estes estão englobados nas respetivas zonas de
proteção. Nestes casos, destaque para o conjunto de jardins que está incluí-
do na Paisagem Cultural de Sintra, embora muitos deles beneficiem das suas
respetivas classificações atribuídas pelas entidades nacionais, ou ainda para o
38 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra inserido no conjunto Universidade


de Coimbra – Alta e Sofia. Na atual lista do património indicativo constam ainda,
por exemplo, o Parque e edifício da Fundação Gulbenkian, o Palácio e Tapada
Nacionais de Mafra e Jardim do Cerco, o Santuário do Bom Jesus do Monte em
Braga e o Buçaco.

Figura 5. Tipo de classificação dos jardins

Outras
2%
CIP
4% IM MN
7% 13%

MIP
33%
IIP
41%

Fonte: Elaboração própria com base nos dados da DGPC (2018a, 2018b)/ Considerada classificação atual.

Quanto à distribuição territorial dos jardins classificados verifica-se três gran-


des núcleos: a região da Área Metropolitana de Lisboa (38%) com maior inci-
dência e mais concentrada no próprio concelho, seguida do Norte (32%) com os
distritos de Braga e Porto a destacarem-se, e do Centro (17%), sobretudo nos dis-
tritos de Viseu, Aveiro e Coimbra, com uma distribuição mais dispersa. O restante
território, assim como a Madeira e os Açores, tem uma parca representação em
termos de jardins classificados. A figura 6 dá uma perspetiva da distribuição do
tipo de classificação por região. Jardins classificados como MN e como IIP detêm
uma maior representação na área de Lisboa e a região Norte revela maior preva-
lência de jardins classificados como MIP, em muito relacionados com a arquitetu-
ra religiosa que tem maior incidência nesta região.
A CLASSIFICAÇÃO DOS JARDINS HISTÓRICOS PORTUGUESES: EVOLUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO
39
Susana Silva

Figura 6. Tipo de classificação dos jardins por NUTS II

100%

90%

80%

70%

60%

50% Outras
40% CIP

30% IM
IIP
20%
MIP
10%
MN
0%
Norte

Centro

AMLisboa

Alentejo

Algarve

Madeira

Fonte: Elaboração própria com base nos dados da DGPC (2018a, 2018b) Açores

NOTAS FINAIS
Os jardins, em particular os que se identificam como históricos, constituem
uma CA(U)SA Comum num duplo sentido: por um lado, são um elemento presen-
te em todas as sociedades e territórios, por outro, a proteção/salvaguarda deste
património é um dever de todos. Neste contexto, constata-se que há um efeti-
vo reconhecimento da importância deste património, sendo crucial conhecê-lo,
identificá-lo e localizá-lo para o desenvolvimento de políticas de ordenamento
do território.
Portugal possui um conjunto rico de jardins históricos com características ím-
pares e portanto com argumentos capazes de justificar a sua classificação, à qual
estão afetas várias premissas de salvaguarda e proteção. De acordo com a Lei
do Património Cultural Português, a classificação constitui “o acto final do proce-
dimento administrativo mediante o qual se determina que certo bem possui um
inestimável valor cultural”. Deste modo, este processo assume-se como meio de
salvaguarda, de qualificação e de valorização do património, pelo menos em ter-
mos teóricos, já que por vezes, na prática, tal não acontece e estes são alvo de
alienações e transformações várias. Veja-se os casos da Quinta de Villar d’Allen,
da Quinta da Prelada (Porto), da Quinta da Bacalhoa (Azeitão) ou da Quinta do
Relógio (Sintra). Não obstante os progressos nesta matéria, é necessário apontar
40 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

que a existência de uma lei pouco clara e específica, as constantes mudanças


institucionais e consequente sucessão ou coexistência de organismos estatais
na tutela do património cultural sem a necessária coordenação e as consecutivas
alterações metodológicas, a falta de uma categoria específica de Jardim Históri-
co tanto ao nível da inventariação como da classificação e ainda a desarticulação
entre estes dois processos têm tido repercussões na real e eficiente salvaguarda
do património paisagístico.
Conclui-se que a distinção é insuficiente e pouco ou nada capitalizada em prol
da valorização do jardim. Por um lado, apurou-se que se trata de um quantitativo
de jardins classificados demasiado reduzido face não só ao grande número de
jardins existentes e já inventariados, mas também ao valor patrimonial e cultural
conhecido de muitos deles, o que seria justificação mais do que suficiente para
haver mais jardins classificados e protegidos, o que, a tardar a acontecer, em
muitos casos, poderá levar a que passe despercebido o seu valor cultural, ad-
quirido e transmitido ao longo do tempo. Por outro lado, a classificação constitui
um elemento valorativo, uma forma de enaltecer as qualidades/características
excecionais de um bem, pois trata-se de uma distinção, mas os jardins não estão
a capitalizar essa distinção para acrescentar valor, sendo raros os casos em que
assumem e indicam a classificação patrimonial que lhe foi atribuída.

REFERÊNCIAS
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A CLASSIFICAÇÃO DOS JARDINS HISTÓRICOS PORTUGUESES: EVOLUÇÃO E CARACTERIZAÇÃO
41
Susana Silva

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(2001). Lei nº 107/2001, D.R. n.º 209/2001, Série I-A de 8 de setembro de 2001.
(2012). Lei n.º 53/2012, D.R. n.º 172, Série I de 5 de setembro de 2012.
(2014). Portaria n.º 124/2014, D.R. n.º 119, Série I de 24 de junho de 2014.

.
MONTES SAGRADOS: UM PROJETO
MÚTUO DE PROMOÇÃO E ORDENAMENTO
DA PAISAGEM
MIGUEL SOPAS DE MELO BANDEIRA*

Imaginamos que serão poucos aqueles que se demarcarão da ideia de que


a paisagem só faz verdadeiramente sentido quando pode ser vivida e fruída na
imersão dos ambientes que proporciona. Para lá da polissemia dos conceitos,
das abordagens reflexivas e impressivas, a paisagem afirma-se pelas asserções
fenomenológicas e generalistas que oferece, sobretudo, na impressão do ob-
servador. Mas é muito mais, admitimos, do que uma deriva semântica do olhar,
para se estender, sobretudo, aos sentidos, que promovem a interação com os
outros e o meio. E porém, como tudo o que se generaliza, que é constante-
mente invocado e apropriado pelo senso-comum, adquire foros de linguagem e
comunicação mais ou menos inequívoca. Assume uma conquista, ou o que lhe é
imposto, através de um conceito tipológico, normativo, quando não mesmo uma
figura de lei. Um arquétipo que determina a sua aplicação. Pelo que estaremos
todos de acordo que o valor insubstituível da paisagem é hoje um desígnio dos
nossos dias. Mais concretamente, um fator de planeamento territorial que tem
vindo a ser crescentemente reconhecido e utilizado como instrumento de or-
denamento do mesmo, para lá do recato concetual de todos os seus modos de
representação.
A este propósito, e do ponto de vista formal, recordamos a instituição do
primeiro tratado internacional exclusivamente dedicado à paisagem, que surgiu
no ano 2000 com a Convenção Europeia da Paisagem, assinada em Florença,
1
Itália, por quase uma vintena de países europeus . Entre nós, já a partir da Lei
2
de Bases do Património Cultural Português (2001) , que o valor da paisagem
viria a merecer a explicitação como referência em si mesma indeslindável do
património. Desde então, passou a nobilitar-se de reconhecimento público pelo
modo como tem vindo a integrar o léxico do ordenamento do território, no caso
particular, a nova geração dos Planos Diretores Municipais. Mais recentemente,
e ainda, através da inscrição que mereceu na Política Nacional de Arquitectura
3
e Paisagem .
*
Centro de Estudos Lusíadas, Universidade do Minho.
1
Foi assinado em 20 de outubro de 2000, entrando em vigor em março de 2004, sendo ratificado por Portugal
em 14 de fevereiro, pelo Decreto-Lei nº 4/2005.
2
Lei nº 107/2001, aprovada pela Assembleia da República, sendo promulgada em 22 de agosto de 2001.
3
Resolução de Conselho de Ministros n.º 45/2015, DR, 1ª S., Nº130, 7 julho 2015.
44 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Vemos, pois, que o espectro de utilidades é amplo, já que assume os domí-


nios cultural, ambiental e social que projetam a paisagem igualmente como um
recurso económico, cuja proteção e gestão articuladas favorecem a criação de
riqueza e de emprego, por via da exploração turística sustentada. Todavia, mais
especificamente, é pelo contributo que dá à qualidade de vida, ao nível do bem-
-estar das populações, ao reforço dos seus laços identitários e da consciência
cooperativa entre elas, que mais torna oportuno o agendamento da paisagem
nas prioridades das políticas do território.

OS SACRO MONTES: DESDE E PARA A PAISAGEM


Da nossa recente experiência, aplicada ao plano da investigação/ação, par-
tilhamos hoje o auspicioso Programa Intermunicipal de Salvaguarda dos Sacro-
-montes (PISacromontes), dinamizado em comum entre os municípios de Braga
e de Guimarães, e que teve por motivo inicial o reconhecimento do valor exce-
cional dos principais núcleos patrimoniais situados no alinhamento montanhoso
comum que divide os concelhos (Sta. Marta, Monte Frio e Sameiro), mas que os
une na expressão de uma estrutura de paisagem comum e naquele que será em
Portugal um ensaio pioneiro enquanto instrumento de ordenamento do território.
O pretexto inicial partiu da oportunidade de convergência de vários fatores
favoráveis. Em primeiro, o particularismo simbólico da Capela de Santa Maria
Madalena da Falperra, voltada para a cidade de Braga, através de um escadório
monumental, sendo atravessada pela estrema de fronteira municipal, que faz
situar o altar do lado de Guimarães, integrando-a assim administrativa e canoni-
4
camente neste território . Aquele que poderia representar um lugar de contro-
vérsia e disputa, por via de rivalidades ancestrais, oferece-se assim como um
espaço comum de cooperação particularmente desde que foi classificado como
5
monumento nacional, em 2 de janeiro de 2017 . Mais do que um dos melhores
exemplos do Rocaille em Portugal constitui ainda uma das principais manchas
de sobreiros da serra. A acompanhar a mesma pretensão para o fim anterior
decorre, em simultâneo, a candidatura do Santuário do Bom Jesus do Monte
como bem Património Mundial da Humanidade, a inscrever na lista da UNESCO
(janeiro de 2014), precisamente no domínio das paisagens culturais, aguardando
neste momento a decisão final.
Contribuindo igualmente para articular este vasto território de intervenção
de cerca de 2 500 hectares, temos que desfrutar da inclusão de três das princi-
pais referências do património castrejo nacional, a citânia de Briteiros, o castro

4
Freguesia de Longos (Guimarães) e União de Freguesias de Nogueira, Fraião e Lamaçães (Braga).
5
Decreto n.º 1/2017, DR, 1.ª série, n.º 1, de 2-01-2017.
MONTES SAGRADOS: UM PROJETO MÚTUO DE PROMOÇÃO E ORDENAMENO DA PAISAGEM
45
Miguel Sopas de Melo Bandeira

de Sabroso e de Santa Marta das Cortiças. Tal não bastasse, faz ainda parte
da ampla área alvo o Santuário de Nossa Senhora do Sameiro, segundo centro
mariano de peregrinação no País, a Capela de Santa Marta do Leão e, ainda,
diversas explorações agrícolas e núcleos de património vernacular rural, como
cruzeiros, alminhas, levadas, tanques, e moinhos, dos quais sobressai o sistema
de moinhos de Portuguediz. Uma nota também para a densa rede de caminhos
que trilha toda a área e que vem sendo objeto de um trabalho de identificação
e preservação, nos quais se releva a reconstituição do Caminho Real que liga a
Capela de Santa Maria Madalena da Falperra a Guimarães.
Finalmente não podemos deixar de aludir aos fatores circunstanciais que
vieram a potenciar o presente Programa Intermunicipal. Por um lado, as candi-
daturas europeias de Guimarães, Capital Verde Europeia 2020 e Braga, Capital
Europeia da Cultura 2027, e o imperativo de se proceder ao ordenamento do ex-
tenso coberto florestal, cuja emergência operativa veio a ser dramatizada pelos
terríveis fogos de 15 de outubro de 2017.

DA DEMARCAÇÃO ADMINISTRATIVA À COOPERAÇÃO


PELA PAISAGEM
O programa deu então os seus primeiros passos sob o mote, “dois terri-
tórios e uma paisagem”, alicerçado na vontade comum dos municípios qua-
lificarem o território a partir da paisagem cultural, para além das fronteiras
concelhias e sub-regionais, reunindo para o efeito uma equipa técnica multi-
disciplinar comum de técnicos municipais, integrando consultores externos,
com envolvimento de entidades públicas e privadas, designadamente a Igreja,
detentora dos santuários. Contudo, o programa não teria condições para avan-
çar se não se tivesse contado desde logo com o apoio direto e empenhado da
Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N).
De facto, não só o Programa Intermunicipal é uma novidade sem precedentes
de aplicação entre nós, prevista no Regime Jurídico dos Instrumentos de Ges-
tão Territorial, como favorece o quadro de intermunicipalidade, inscrito na Lei
de Bases Gerais da Política de Solos, de Ordenamento do Território e de Urba-
nismo. Mais ainda no caso em que Braga e Guimarães integram comunidades
intermunicipais distintas, respetivamente, a do Cávado e do Vale do Ave. Com
este propósito ambos os Presidentes de Câmara subscreveram, em conjunto,
um pedido de impulso procedimental, tendente ao reconhecimento do inte-
resse e alcance do Programa, que carece da prévia anuência da Secretaria de
Estado do Ordenamento do Território e Conservação da Natureza, sob parecer
6
da referida CCDR-N .

6
Previsto na alínea b) do n.º 2 do artigo 61.º do RJIGT.
46 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O Programa sustenta-se na recuperação e salvaguarda dos valores patrimo-


niais e ambientais em causa, envolvendo um domínio complexo de enfoques
transversais que se conjugam ao nível do diagnóstico e à execução de um pro-
grama detalhado, com identificação expressa das ações a desenvolver, fasea-
mento, agentes envolvidos e fontes de financiamento. Este será constituído por
duas fases, compreendendo os Estudos Prévios e o Relatório do Programa, a
desenvolver em dois anos. Ao mesmo tempo deverá decorrer o processo rela-
tivo à qualificação ambiental estratégica, formalizado no relatório respeitante
7
à “Avaliação Ambiental Estratégica” . Por seu turno, este deverá ser elaborado
nos termos do RJIGT, centrado na salvaguarda da área de intervenção, definindo
uma proposta conjunta, abrangente e o mais precisa possível, de ajustamento às
novas dinâmicas territoriais de ocupação e uso do solo, bem como à promoção
de novas oportunidades nas áreas do turismo e do lazer.
De um modo muito geral, podemos enunciar os seus principais objetivos
gerais, que se fundamentam numa visão holística do território e da paisagem,
pela definição de uma estratégia de atuação concertada e conjunta ao nível da
floresta, turismo, paisagem, património, partilha de informação e conhecimento.

• A segurança de pessoas e bens, a proteção de bens patrimoniais incluindo a


proteção e valorização da área florestal que envolve os espaços sagrados ou
sacralizados através de uma estratégia de defesa contra incêndios;
• A valorização, reabilitação, restauro e promoção do património construído e natural;
• A definição dos mecanismos de operacionalização do Programa, através da de-
terminação de ações para a gestão ativa e valorização da paisagem florestal;
• A promoção de modo integrado de toda a área e de todos os recursos, como
conjunto de elevado valor patrimonial e turístico.

Por fim, desta breve apresentação do PISacromontes, diríamos que o Pro-


grama, estando sustentado na reabilitação da paisagem, sendo inédito entre
municípios tidos como antagónicos, é mais do que um conceito de abordagem
do território, que não sendo novo, é verdade, contribui hoje de um modo reno-
vado para a regeneração do mesmo. Daqui se extrai o importante significado
da concentração de um elevado número de núcleos religiosos, elementos de
diversidade natural, abundância de águas, e de agrupamento de povos, que não
resulta de um qualquer acaso. Lugares místicos, favoráveis ao contacto com a
natureza e a contemplação, atraíram desde tempos imemoriáveis, peregrinos,
romeiros, turistas e, mais recentemente, desportistas e outros viandantes mo-
vidos por motivações várias. Facto que contribui para o relançamento da paisa-
gem como domínio do ordenamento do território e afirmação internacional das
duas grandes cidades minhotas.

7
Exigido no DLnº. 232, de 15 de junho de 2007, alterado pelo DL nº. 58, de 4 maio de 2011.
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO
DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA),
NORDESTE DO BRASIL

LUCIANO SCHAEFER PEREIRA*


INGRYDY SCHAEFER PEREIRA**

INTRODUÇÃO
A temática acerca do Patrimônio Natural é relativamente nova nas Geociên-
cias e não há unanimidade em sua definição e caracterização. A partir da Confe-
rência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizado nos mês de
junho de 1972, em Estocolmo, os problemas ambientais passaram a ser discuti-
dos em uma escala amplificada e adentrando personagens que até então esta-
vam secundarizados nesta pauta de discussões. Assim, em outubro e novembro
do mesmo ano, em Paris, a temática ambientalista foi inserida na visão patrimo-
nial do espaço, através da Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial,
Cultural e Natural, sob a égide da UNESCO, onde os aspectos da natureza foram
separados dos humano-culturais, pelo menos na prática, pois sabe-se que o re-
conhecimento e proteção de uma cultura nacional se dá pela “integração dos
elementos naturais e sus processo com as ações humanas, devido à identidade,
sensibilidade e significados (religiosos, míticos, históricos, simbólicos, afetivos,
entre outros)” (PINTO e OLIVEIRA FILHO, 2014, p. 23), estabelecidos entre o ser
humano e a natureza.
O Geopatrimônio (do inglês, ‘Geoheritage’) corresponde à porção abiótica do
Patrimônio Natural, podendo ser subdividido em Patrimônio Geológico, Geomor-
fológico, Pedológico e Hidrológico (RODRIGUES, 2009). Assim, neste trabalho, foi
dissociado do patrimônio geológico, que consideramos corresponder a concei-
tos complementares, mas distintos, sendo ambos enquadrados no patrimônio
natural abiótico, conjuntamente com os elementos do património hidrológico e
pedológico. O termo sítio foi introduzido nas Geociências por Panizza (2001),
consistindo em uma porção do geopatrimônio que possui uma importância

*
Doutoramento em Geografia Física, Departamento de Geografia, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra,
Portugal. [ischaefer2@gmail.com]
**
Departamento de Sociologia, Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra, Portugal. [ingrydymota@hotmail.pt]
48 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

particular para o conhecimento da evolução da Terra, do clima e da história


de vida (GRANDGIRARD, 1997; PANIZZA, 2001), possuindo, portanto, valores atri-
buídos que lhe conferem um significado de herança e, assim, a possibilidade
de ser inserido em um contexto de patrimonialização. Pode ser um geossítio,
geomorfossíto, hisrossitio ou pedossítio, dependendo do bem patrimonial em
questão.
Numa visão mais abrangente, estes valores podem ser científicos, estéti-
cos, culturais, ecológicos e/ou econômicos (PANIZZA e PIACENTE, 1993; REYNARD,
2005). Ademais, a identificação, classificação, avaliação, cartografação, prote-
ção e promoção (PANIZZA, 2001; 2003; PEREIRA et al., 2007) deste tipo de pa-
trimônio acrescenta uma mais-valia para as atividades turísticas no âmbito do
geoturismo, através da interação entre os aspectos culturais e naturais da pai-
sagem (PANIZZA e PIACENTE, 2003). A área deste trabalho, que se estende da foz
do Rio Gramame à fronteira com Pernambuco, possui uma geodiversidade extre-
mamente interessante, que entrelaça elementos fluviais, marinhos e fluviomari-
nhos, assentado sobre uma bacia sedimentar, considerando-se, no âmbito deste
trabalho, seus aspectos geológicos e geomorfológicos. Assim, no momento em
que a percepção humana valoriza os materiais geológicos (substrato rochoso e
seus elementos – texturas, estruturas, minerais, minérios e fósseis) com suas
feições geológicas (dobras, falhas, juntas e brechas), assim como o conjunto de
formas de relevo (e de depósitos correlativos) com interesse científico, pedagó-
gico, cultural ou estético, temos a definição de geopatrimônio (PANIZZA, 2001;
REYNARD e PANIZZA, 2005), o qual, pelo seu significado, merece ser estudado,
preservado e valorizado.
O objetivo deste trabalho é apresentar uma visão preliminar do geopatrimô-
nio dos municípios de João Pessoa e de Cabedelo. A produção destas infor-
mações, levada a uma grande gama de pesquisadores, cientistas, estudantes e
turistas, entre outros, é uma peça importante para a construção de uma cultura
que seja capaz de compreender que a região em que vivemos é muito mais
complexa que a dos nossos antepassados e que o geopatrimônio tem um papel
importante na compreensão desta complexidade.

MATERIAIS E MÉTODOS
O presente trabalho envolve três fases sequenciais. São elas:

1. Referencial bibliográfico: nesta fase, toda a produção científica que en-


volva estudos históricos, geomorfológicos e geológicos da área, foi ana-
lisada, para incrementar os conhecimentos que envolvam a gênese da
paisagem, assim como o entendimento do valor cultural e funcional da
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
49
Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira

geodiversidade, quando relacionada à fixação e evolução urbana da re-


gião;
2. Trabalho de campo: nesta etapa, reconheceu-se potenciais locais de inte-
resse geomorfológico no campo, com o intuito de identificar valores geo-
turísticos, o que contribuiu na seleção daqueles que serão inseridos nas
fases posteriores do projeto. Para tanto, foram utilizadas cartas topográ-
ficas, como a Folha João Pessoa, escala 1: 100.000 e a folha João Pessoa
SB.25-Y-C-III-1-NE, Nossa Senhora da Penha SB.25-Y-C-III-1-SE, Jacumã
SB.25-Y-C-III-3-NE, Pitimbu SB.25-Y-C-III-3-SE, escalas 1: 25.000, além de
fotografias áreas na escala 1:8000 e imagens orbitais, como Imagens do
sensor ASTER/TERRA, bandas VNIR, resolução espacial 15m.
3. Inventariação: considerando a escala analisada, do afloramento (metros)
à paisagem (quilômetros; CARVALHO, 1999; CUNHA e VIEIRA, 2004), criou-
-se um banco de dados com os sítios que possuam valores, em função
de sua importância científica, beleza cênica, valor pedagógico-didático,
entre outros, através do preenchimento de fichas de avaliação que cons-
tem uma série de informações do local amostrado, dados estes que foram
obtidos na 2ª etapa.

CONTEXTO GEOLÓGICO E GEOMORFOLÓGICO DA ÁREA


A geologia da área de estudo está associada à bacia sedimentar marginal
da Paraíba, com sedimentos que foram depositados à medida que o continente
sul-americano se afastava do africano (FRANÇOLIN e SZATMARI, 1987), sobrepos-
tos a um embasamento cristalino deformado por zonas de cisalhamento (JARDIM
DE SÁ, 1994). Esta bacia pode ser subdivida em três sub-bacias: Sub-bacias de
Olinda, Alhandra (onde está a área) e Miriri.
Os eventos sedimentares da deposição da Bacia da Paraíba remontam ao
final do Turoniano, quando os terrenos a norte e a sul da Zona de Cisalhamen-
to de Pernambuco foram reativados (PETRI, 1987), à medida que o continente
sul- americano se afasta do africano, iniciando a subsidência da Bacia da Paraí-
ba (PETRI, 1987, BARBOSA e LIMA FILHO, 2006). Este pacote clástico-carbonático,
pertencente ao Grupo Paraíba, está representado pelos arenitos e conglomera-
dos da Formações Beberibe e pelos calcários da Formação Itamaracá (ambos
não existentes na área), na base; pelos calcários da Formação Maria Farinha e
Gramame, no topo, cobertos por sedimentos mal selecionados mio-pliocênicos
da Formação Barreiras e pelos sedimentos pós-Barreiras, ou seja, já de idade
quaternária (terraços marinhos, depósitos fluviolagunares, de mangue, eólicos,
recifes de corais, beach rocks, de origem marinha-transicional; e leques aluviais,
depósitos fluviais, coberturas elúvio-coluvionares e coluvionares de origem
50 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

continental). A partir do Plioceno, como resultado do estabelecimento de um


campo de tensão na placa sul-americana, com compressão de orientação E-W e
extensão N-S, reativou-se uma série de falhamentos que atingiram os sedimen-
tos do Grupo Paraíba, tendo um papel crucial na morfologia costeira e no traçado
da rede hidrográfica (BEZERRA et al., 2001).
Esta reativação tem um papel fundamental na geomorfologia da área. Pode-
mos identificar três compartimentos morfoesculturais na área deste estudo: a
baixada litorânea (ou Planície Costeira), os baixos planaltos costeiros (ou tabu-
leiros litorâneos) e as planícies aluviais, que podem ainda ser subdivididas em
fluviais e/ou fluviomarinhas. O topo dos tabuleiros é unido à planície costeira
por vertentes relativamente íngremes, na forma de falésias, de grande beleza
cênica, no litoral. A planície costeira está em contato direto com o mar, possui
altitude entre 0 e 10 m, e tem sedimentação quaternária de origem fluvial, ma-
rinha e fluviomarinha, gerando sítios por sua beleza cênica e/ou pela pertinente
história geológica e geomorfológica.

UMA VISÃO DO GEOPATRIMÔNIO DA ÁREA


O município de João Pessoa é a capital do estado da Paraíba, o mais oriental do
Brasil. Aliás, João Pessoa é conhecida mundialmente como o ‘extremo oriental das
Américas’, o que, só por si, já lhe reserva um potencial turístico. Suas coordenadas
geográficas são 7º 7’ S e 34º 53’ W, e a proximidade do Equador lhe proporciona
muita insolação e temperatura elevada durante todo o ano. Possui uma área de
211,5 Km2 e uma população é de 723.515 habitantes (IBGE, 2010), resultando em
uma densidade demográfica de 3421 hab/ Km2, a mais alta do Estado.
O município de Cabedelo possui uma população de 57.944 hab. (Censo 2010) em
uma área de 31,915 Km2, o que resulta em uma densidade demográfica de 1815,6
hab/Km2, a segunda maior do Estado, inferior apenas a João Pessoa. Corresponde
a uma imensa restinga, com 18 Km de extensão e 3 Km de largura, banhada, a
oeste, pelo Rio Paraíba. Faz fronteira, a sul, com João Pessoa, a norte, com Lucena,
após a foz do Rio Paraíba, e a oeste, com Santa Rita, ao se traspor o supracitado rio.
De acordo com os valores estético, cultural, científico, econômico e ecológi-
co, foram selecionados seis sítios geopatrimoniais no litoral desses municípios
(figura 1). São eles:

Sítio 1: TERRAÇOS MARINHOS HOLOCÊNICOS


Corresponde a um geomorfossítio que pode ser visualizado a partir de um
local com vista panorâmica também da maior parte da orla urbana de João Pes-
soa e Cabedelo (figura 2). Os terraços holocênicos correspondem a depósitos
arenosos, com não mais do que 4 m acima do nível de preiamar atual, que foram
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
51
Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira

formados durante a regressão marinha subsequente à Última Transgressão (BIT-


TENCOURT et al., 1979) ou Transgressão Santos (SUGUIO e MARTIN, 1978), entre 5 e
7 Ka AP (MARTIN et al., 1979), segundo estudos acerca da deposição quaternária
do litoral entre o Rio de Janeiro e o Estado de Alagoas.
Na zona urbana costeira de João Pessoa, os terraços apresentam caracte-
rísticas físicas que possibilitaram que fossem selecionados como um importante
Local de Interesse a ser analisado: são densamente ocupados por bairros que
possuem o metro quadrado mais caro do Estado; representam a planície costei-
ra, sendo separados dos tabuleiros por uma linha contínua de falésias inativas
florestadas que podem ser visualizadas há uma longa distância, possibilitando
discriminar com facilidade seus limites, em especial no setor norte (Praia de Tam-
baú e Cabo Branco); e são importantes indicadores da dinâmica costeira, espe-
cialmente nos últimos 7 Ka.

Figura 1. Localização da área de estudo.


52 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Os terraços holocênicos são mais extensos e contínuos que os pleistocênicos,


podendo ou não apresentar cristas de cordões litorâneos na superfície, dependen-
do do nível de ocupação urbana. São representados por areias quartzosas incon-
solidadas, com cores claras, granulometria fina, medianamente selecionada, com
estratificação plano-paralela (ALHEIROS et al., 1990) e granulometria predomi-
nantemente fina (FURRIER, 2007).
Em uma datação pelo método C-14, ocorrida em sedimentos lagunares no
litoral norte do Estado de Sergipe resultou em idade de 7,2 ± 200 ka AP (BITTEN-
COURT et al., 1983), enquanto conchas inclusas nestes terraços na costa alagoa-
na apresentaram em idades entre 2,57 ± 170 ka AP e 3,69 ± 180 ka AP (BARBOSA
et al., 1986).

Figura 2. Foto de satélite mostrando as praias e o entorno dos terraços marinhos holocêni-
cos, na sua retaguarda, em sua porção meridional, mais estreita. Vê-se a localização da falésia
inativa urbana florestada (flechas), que delimita a planície costeira,
representada pelos terraços e os baixos planaltos, mais a oeste (linha tracejada).
Vê-se também o assentamento da população de baixa renda da Comunidade São José,
entre o sopé da falésia e o Rio Jaguaribe.
Legenda: *localização do mirante do geomorfossítio. [Fonte: modificado do Google Earth (Junho/2016)]

Seu excepcional valor funcional, aliado aos altíssimos valores econômico


e cientifico possibilitam inferir que se trata de um exemplar geopatrimonial na
área.
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
53
Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira

Sítio 2: FALÉSIA DE CABO BRANCO


Este local tem um papel fundamental no turismo da capital paraibana, pois
dele é vendida a imagem da cidade mais oriental das Américas, a mais próxima
da África. Corresponde a um geomorfossítio com uma área que compreende
a supracitada falésia, com cerca de 30 metros de altura, com o Farol do Cabo
Branco e a Estação Ciência, construídas no alto e das quais se tem uma visão
quase completa de toda a orla de João Pessoa, a norte, e da Ponta do Seixas,
este sim o extremo oriental das Américas (figura 3), no Parque Municipal do Cabo
Branco. Nos primeiros mapas produzidos sobre a costa brasileira já constava
este acidente geográfico costeiro, cuja nomenclatura provavelmente tenha rela-
ção com a coloração que os viajantes tinham, do alto-mar, da referida falésia. Em
1506 e 1507, o Cabo Branco aparece com o nome de Vicenso na obra anônima
Kunstmann III e do cartógrafo alemão Waldseemuller, respectivamente. A Ponta
do Seixas é batizada de Cabo Spichell, na carta náutica de Reinel (1516) e de
Maggiollo (1519).

Figura 3. Visão panorâmica da Falésia do Cabo Branco e arredores.


[Foto: modificado de Felipe Gesteira]

A falésia do Cabo Branco é uma das várias representantes deste tipo de for-
ma de relevo no litoral paraibano, sendo formado pelos sedimentos Plio-pleisto-
cênicos da Formação Barreiras.
54 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Parte das camadas das rochas desta falésia apresentam um dobramento an-
ticlinal, com eixo sub-horizontal, o que evidencia a ação neotectônica nesta for-
mação, influenciando em sua deposição e afetando os sedimentos quaternários
sobrepostos. Esta atividade neotectônica é importante para desmistificar que
as bacias marginais brasileiras, em especial as nordestinas, são essencialmente
do tipo passivo, como durante muito tempo foi propagado nos meios científicos
(ASMUS, 1982; MOHRIAK, 2003, entre outros).
Apesar de pertencer a um parque municipal, pouco se faz para preservar a
falésia, que sofre intenso solapamento marinho. Um somatório de fatores (naturais
e antrópicos) acabou por causar o desabamento de parte desta, em janeiro de
2018, atingindo, inclusive, as proximidades do Farol do Cabo Branco (figura 4a).
Segundo cálculos executados por professores da UFPB e da Universidade Estadual
da Paraíba (UEPB), a erosão avança cerca de um metro por ano (figura 4b). Assim,
se a inércia do poder público continuar, a tendência é que em 20 anos este farol,
símbolo importante da capital paraibana, deixará de existir.
Pelo excepcional valor cultural, aliado aos altíssimos valores científico e esté-
tico, a falésia do Cabo Branco é um exemplo de geopatrimônio na área.

Figura 4 – Situação atual da falésia de Cabo Branco. a) Foto aérea do farol do Cabo Banco,
mostrando o desabamento de parte da falésia. Foto: Portal Correio; b) base da falésia,
com placa advertindo a possibilidade de desmoronamento da área.
Foto: do autor.

Sítio 3: BARRA DE GRAMAME


Consiste na desembocadura do Rio Gramame, misturando elementos geo-
morfológicos e hidrológicos (portanto tanto um geomorfossítio quanto hidros-
sítio, respectivamente), sendo uma planície fluviomarinha, com presença de
mangues. Corresponde a uma calha de vale preenchida por aluviões e com a
meandrização do rio, em uma região de baixa energia, facilmente inundada
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
55
Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira

pelas águas do mar por ocasião das marés altas e que é ponto turístico de inten-
sa visitação pela sua beleza cênica.
Ali, uma infraestrutura de bares foi montada em meio aos coqueirais e sobre
a areia fina, para receber os turistas que aportam em grande número, especial-
mente no verão (figura 5). A palavra ‘Gramame’ é derivativa de grama, ou onde
houver grama (MACHADO, 1993), provavelmente associada à presença de uma vas-
ta planície intertidal, que se prolonga vários quilômetros rio adentro, preenchida
por frondosos manguezais, que dão aspecto de um alto gramado.
Desde o encontro com o Rio Mumbaba, no curso médio-inferior, o Rio Gra-
mame adquire um sentido oeste-leste e um padrão fortemente meandrante, em
contraste com seu padrão linear no curso superior e intermediário. Furrier (2007)
sugere que a mudança no curso do Rio Gramame, após o encontro com o Rio
Mumbaba, de sudoeste-nordeste para oeste-leste, somado ao padrão assimétri-
co dos afluentes das duas margens e ao aparecimento de calcários da Formação
Gramame (Maastrichtianos), onde está a seção-tipo que dá nome à formação,
em sua margem direita, em detrimento da esquerda, seja explicado pelo soer-
guimento na porção sul do terreno, onde o rio se encaixou em uma falha. Se-
gundo o autor, os afluentes da margem direita entalham com mais intensidade
os sedimentos Plio-pleistocênicos da Formação Barreiras, que possuem maiores
declividades, diferentemente dos afluentes da margem esquerda. O afloramento
do calcário da Formação Maria Farinha (Daniano), no limite da praia de Gramame
com a de Jacumã, parece corroborar com esta hipótese de soerguimento do ter-
reno ao sul do Rio Gramame. Ademais, a atual localização da Barra de Gramame
encontra-se em outra posição quando comparada a 40 anos.

Foto 5. Vista área da Barra de Gramame, com a grande densidade de bares em sua margem
direita, em meio aos coqueirais. [Foto: Ricardo Paulo]
56 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Pelos seus excepcionais valores estéticos e ecológicos, somados ao altíssimo


valor científico, representa um bem de caráter geopatrimonial na área.

Sítio 4: PICÃOZINHO
Os recifes algálicos/coralinos, ao longo da costa paraibana, apresentam-se
alongados e descontínuos, paralelos à linha de costa, podendo se estender por
até 4 Km, cujos corpos mais proeminentes localizam-se em frente à cidade de
João Pessoa (figura 1). Picãozinho corresponde a um destes corpos, um geo-
morfossítio localizado a cerca de 1500 metros na antepraia em frente ao Hotel
Tambaú e possui 45 mil m2 de área. Segundo pesquisas da FECOMÉRCIO (IFEP,
2014), corresponde a um dos locais mais visitados pelos turistas, que nadam
por entre as estruturas recifais nas marés baixas, onde as águas são límpidas e
pode-se ver, com facilidade, uma grande variedade de peixes (figura 6).
Os recifes com corpos alongados possuem dezenas de metros de largura en-
quanto os irregulares podem chegar a centenas de metros. A profundidade das
águas circundantes não passa de 10 m, sendo que, no litoral da Bahia, o topo trun-
cado e o fato de nunca emergirem, mesmo na maré baixa, foi proposto por Leão et
al. (1985), como justificativa de sua erosão quando expostos na fase regressiva que
sucedeu à Última Transgressão marinha. Estes recifes possuem uma estreita rela-
ção com os ‘beach rock’ (BRANNER, 1904), tendo sido sugerido por Laborel (1969)
que estes recifes se instalaram e cresceram sobre os ‘beach rocks’ submersos,
quando a costa foi inundada na Última Transgressão.

Figura 6. Vista área dos recifes algálico-coralinos de Picãozinho. [Foto: Cacio Murilo]
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
57
Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira

Considerando-se a idêntica morfologia dos ‘beach rocks’ e recifes de algas e


corais na Bacia da Paraíba, não podemos descartar esta possibilidade. Em Pernam-
buco, algumas amostras dos recifes de corais foram datadas pelo método C-14,
resultando em idades entre 1,8 ± 110 Ka e 3,1 ± 120 ka (DELIBRIAS e LABOREL, 1971).
Segundo Press et al. (2003), os recifes algálico-coralinos são pequenas es-
truturas orgânicas na forma de montículos ou elevações formadas por milhões
de organismos com esqueleto carbonático. São característicos de águas quen-
tes, onde estes organismos calcificantes, principalmente corais, foraminíferos,
moluscos e algas, crescem rapidamente e precipitam carbonatos, como a ara-
gonita, formando uma estrutura rígida, que resiste ao embate das ondas. Com
a subida do nível do mar, os recifes acompanham esta elevação à procura de
luz e calor, podendo ou não emergir nas marés de águas mortas, algo que não
acontece no caso do litoral paraibano.
Seu excepcional valor funcional (ecológico) e estético, aliado aos altíssimos
valores científico e econômico propicia classificá-lo como um importante bem
geopatrimonial da área.

Sítio 5: PRAIA DO JACARÉ


A Praia do Jacaré consiste em uma praia fluvial, localizada na margem direita
do Rio Paraíba, a cerca de 7 Km da foz do rio, sobre os sedimentos holocênicos

Figura 7. Vista aérea das adjacências da Praia do Jacaré, com alguns elementos discriminados.
Vê-se a ampla faixa de manguezais, que se estreitam na área da praia, em consequência da urbani-
zação e desmatamento. Os terraços fluviais, na margem oposta, foram ocupados por canaviais.
Legenda: * Praia do Jacaré. Escala 1: 50.000. [Foto: Incra/Terrafoto (1998)]
58 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

da Restinga de Cabedelo. A partir deste geomorfossítio, tem-se uma ampla vi-


são da planície fluviomarinha do Rio Paraíba, a maior do Estado, seus depósitos
paludiais que ocupam as margens do rio, atingindo 20 Km estuário adentro e os
terraços fluviais da margem esquerda (figura 7). Ademais, destaca-se o papel
exercido pelo controle tectônico sobre o curso inferior do rio.
Através de informações orais fornecidas por moradores locais, a praia leva este
nome porque, na década de 1960, o pouso de hidroaviões na área geravam, com
as ondas, o formato de um jacaré na água, daí o apelido dado ao local. Entretanto,
1
em documentação histórica datada de 1630 , foi encontrado a descrição de “hua
paragem que chamão o Jacaré [...] porque tudo o demais de hua parte e da outra
são mangais e arvoreda serrada com o mesmo rio onde se não pode desembarcar
por respeito dos muitos braços que faz o rio com muito grandes lamas”, ou seja,
o nome pode ter etimologia indígena.
Desde 2000, Jurandy do Sax, um músico local, executa, no saxofone, o Bolero
de Ravel à medida que o sol se põe. A beleza cênica da paisagem, aliada à sono-
ridade inserida, transformou o local no terceiro ponto mais visitado pelos turistas
na região, segundo o IFEP (2014). O espetáculo pode ser apreciado a partir do píer,
construído em substituição aos bares e restaurantes, até então sobre palafitas, re-
tirados em 2014, ou em chalanas que se encontram ancoradas a metros da costa.
Ressalta-se o papel do Rio Paraíba na conquista da Capitania da Parahyba,
seja do ponto de vista estratégico, na instalação de um triângulo defensivo de
fortificações, seja na consolidação, em seus terraços fluviais, de incontáveis en-
genhos de cana-de-açúcar, importantes para a expansão da capitania de acordo
com os interesses ultramarinos (NIEUHOF, 1942). Diariamente, várias chalanas
partem do píer da Praia do Jacaré e realizam uma jornada até a foz do rio, rea-
lizando um trajeto em uma área de crucial importância histórica, geocientífica e
ecológica, o que denota a importância geoturística da região.
O geomorfossítio pode ser considerado um bem geopatrimonial na área, de-
vido ao excepcional valor ecológico e aos altíssimos valores estético, científico,
cultural e econômico.

Sítio 6: AREIA VERMELHA


Areia Vermelha é a denominação de um banco de areia, depositado sobre
arenitos praiais, que afloram nas marés baixas, localizado a cerca de 1000 me-
tros da costa (figura 8). Faz parte do Parque Estadual de Areia Vermelha, insti-
tuído em agosto de 2000, a partir de um decreto estadual, sendo um atrativo
turístico desde meados dos anos 1990.
Este banco de areia foi depositado sobre uma vasta superfície de arenitos
praiais ou beach rocks que marcam a paisagem e sobre os quais se formaram

1
B.N.M. - MSS 1.185 - fl. 131-133.
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
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Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira

recifes algálico-coralinos. Portanto, corresponde a um ecossistema que mistura


elementos geológicos (arenitos) e geomorfológicos (superfície arenosa) a um
ecossistema recifal que aloja crustáceos, peixes, moluscos, corais, entre ou-
tros organismos. Além da Ilha da Areia Vermelha, faz parte do Parque a Ilha de
Areia Dourada, mais a norte, de menor dimensão.

Figura 8. Visão aérea de Areia Vermelha. [Foto: site Hotelhardmann]

Parte dos arenitos de praia se formaram em um ambiente com nível do mar


mais elevado que o atual, o que explica o fato de aflorarem em baixamar atual-
mente. Em Pernambuco e Paraíba, algumas amostras de gastrópodes vermití-
deos inclusos nestes arenitos praiais foram datados pelo método de radioacar-
bono, resultando em idades entre 6,9 Ka-2,8 Ka AP, onde cinco das seis amostras
2
resultaram em idades superiores a 5,5 Ka (BARRETO et al., 2010 e SUGUIO et al.,
2013), mais altas que a idade de 4,83 ± 210 Ka, proposta por Dominguez et al.
(1990). Duas amostras de conchas de bivalve, datadas da Paraíba, localizadas
no litoral norte do Estado, fronteira com o Rio Grande do Norte, resultaram em
idades em torno de 6,0 Ka. Se os arenitos praiais do Parque possuírem similari-
dade temporal com os arenitos do litoral norte, pode-se concluir, portanto, que
a litificação que deu origem ocorreu num momento evolutivo que marca uma
transgressão marinha após a sua formação, visto que, considerando a curva de

2
Arrecifes, a calçada do mar de recife. Publicado on line em 2010. Acesso em http://sigep.cprm.gov.br/sitio040/
sitio040_impresso.pdf. Visualizado em 17 abril 2018.
60 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

mudança relativa do nível do mar obtida nestas datações, entre 5 Ka e 4 Ka AP o


nível do mar subiu ao seu máximo, chegando a quase 3 metros acima do atual.
Ao formar linhas contínuas que podem, ou não, aflorar nas marés baixas, aca-
bam por ser responsáveis pela dissipação parcial dos trens de onda que incidem
sobre a costa, tendo papel crucial em seu traçado e favorecendo a navegabili-
dade dos navios.
Neste contexto, foi produzida uma imensa gama de mapas e documentos
históricos datados dos séculos XVII e XVIII, com os arenitos sendo denominados
de ‘barreta’. Nieuhof (1942) descreveu estes corpos como sendo

[...] recifes ou rochedos que, em sua maioria, se alinham a cerca de meia milha da
praia. Isto faz com que as águas situadas entre êles e a terra seja muito calma e
permita o tráfego marítimo mesmo em época tempestuosa, quando a navegação se
torna quase impossível para fora dêsses escolhos, devido à violência da corrente pro-
cedente do norte e ao vento sul que lá sopra continuamente (NIEUHOF, 1942, p. 52).

Pelo seu excepcional valor funcional, aliado aos altíssimos valores estético,
científico e cultural, Areia Vermelha configura-se em um importante representan-
te do geopatrimônio costeiro da área da tese.

CONCLUSÕES
A tectônica teve um papel fundamental na configuração do relevo litorâneo,
enquanto os agentes exógenos, como as regressões e transgressões marinhas, os
climas atuais e pretéritos, os agentes biológicos e antrópicos, entre outros, mode-
laram e formaram as belíssimas formas de relevo existentes. No momento em que
o ser humano valora locais de interesse, estes sítios passam a ter valor patrimonial,
merecendo ser salvaguardados para as gerações futuras, o que é um dos princí-
pios da geoconservação.
À partir de estudos prévios acerca da geologia e geomorfologia da área e de
critérios pré-estabelecidos, como o valor científico, cultural, estético, ecológico e
econômico, foram identificados uma série de sítios em várias escalas. A região é
um destino turístico conhecido no Brasil, do ponto de vista do turismo de sol e mar.
É pertinente, portanto, entrelaçar este patrimônio ao turismo na área, para
que mais uma motivação desperte o interesse dos turistas, agora voltado para o
viés da litosfera e hidrosfera. Conclui-se que os municípios de João Pessoa e Ca-
bedelo possuem potencial geopatrimonial. Esta prática ainda se mantem incipien-
te, e o inventário deste patrimônio com a intenção de divulgar as Geociências,
faz-se necessário e é de suma importância para a gestão e planejamento costeiro.
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
61
Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira

AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à Capes- CSF pelo financiamento desta pesquisa,
através da bolsa de estudos para o Doutoramento em Geografia Física, pela Uni-
versidade de Coimbra (processo nº 11988-13/4).

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UM OLHAR PORTUGUÊS AO SERTÃO DO
BRASIL: FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO
E O SERTÃO DO MARANHÃO

ALAN KARDEC GOMES PACHÊCO FILHO*


HELIDACY MARIA MUNIZ CORRÊA**

Nos comentários iniciais do livro Caminhos do Gado: conquista e ocupação


do Sul do Maranhão, Socorro Cabral contrapõe os duplos movimentos da ocu-
pação portuguesa do Estado do Maranhão, ocorridos nos séculos XVII e XVIII.
A autora estabelece uma distinção entre a ocupação portuguesa do litoral e do
sertão com fins de colonização e enfatiza que a primeira experiência de ocupa-
ção do litoral aconteceu “com o apoio direto do Estado português”, enquanto a
“frente de expansão sertaneja” foi um desdobramento da exploração agropas-
toril proveniente da Bahia, na qual a iniciativa particular foi decisiva. A autora su-
blinha ainda que com o processo da frente de expansão pelo interior do Estado
1
surgiu uma “civilização do couro” . Recentemente, demonstrou-se a importância
da navegação fluvial do sul para a economia do Estado, revelando-se mais uma
faceta do sertão do Maranhão: um sertão em cujas águas circulavam produtos
2
comerciais que ligavam as economias do sul e do norte .
Ao mesmo tempo em que sublinham as características de um sertão vivo e ati-
vo política e economicamente, rico em águas, verde e produtivo economicamente,
estes e outros estudos, filiam-se, fundamentalmente, às tendências da geo-histó-
ria. Seja pela indissociabilidade entre espaço e tempo, seja pela singularidade do
3
cotidiano, economia e política decorrentes de um amplo processo histórico .
Estruturalmente, esse processo de ocupação do sertão do Maranhão tem sido
avaliado a partir de duas dimensões: a territorial e sócio-econômica. Na primeira,
a apropriação e exploração da terra dá sentido à construção da configuração es-
pacial do sertão maranhense e estabelece elementos para uma distinção entre
os mecanismos da conquista e ocupação do Maranhão. Na segunda, o sertanejo,
*
Universidade Estadual do Maranhão (Brasil) [alankardecpacheco@uol.com.br].
**
Universidade Estadual do Maranhão (Brasil) [helidacy.correa@yahoo.com.br].
1
CABRAL, Maria do Socorro Coelho. Caminhos do gado: conquista e ocupação sul do Maranhão. São Luís,
Sioge, 1992, p. 132.
2
PACHÊCO FILHO, Alan Kardec Gomes. Varando mundos: Navegação no vale do rio Grajaú. São Luís, Editora
UEMA, 2016.
3
RIBEIRO, Guilherme. Fernand Braudel e a geo-história das civilizações. História, Ciências, Saúde – Manguinhos,
Rio de Janeiro, v. 18, n. 1, jan-mar. 2011, pp. 67-83
66 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

sujeito e objeto de uma nova existência forjada pelas mutações do espaço, da


historicidade dos processos e pelas peculiaridades dos costumes, caracteriza a
pluralidade da dinâmica colonizadora e da própria noção de sertão. Nessa pers-
pectiva, sertão e sertanejo tornam-se categorias de um processo histórico na
construção de um vasto espaço conhecido como “sertões de Pastos Bons”.
Se, a primeira dimensão tem potencializado discussões acerca das noções
do sertão do Brasil, das diferenças entre os modelos de ocupação portuguesa
com fins de colonização, ou mesmo sobre a noção de fronteira, a segunda pro-
blematizou a própria existência sertaneja, na sua atuação política, econômica
e social. Tais vertentes passaram a ser teorizadas em estudos resultantes de
Programas de Pós-graduação no Brasil e têm marcado um tipo de interpretação
acerca do sertão e do sertanejo do Maranhão.
Se os atuais fundamentos teórico-metodológicos dessa reavaliação do ser-
tão do Maranhão são frutos de reflexões acadêmicas, as impressões deixadas
4
pelos “intérpretes do sertão” constituíram-se em documentações primárias
para os estudiosos. Um exemplo é a reedição, há cerca de dezoito anos, da
5
obra O sertão, de Carlota Carvalho , que possibilitou o acesso a uma percepção
singular e complexa de uma paisagem cheia de vitalidade política, econômica
e social surpreendentes, sobretudo, para os habituados à noção euclidiana de
sertão, sem vida, permeado de fome e seca. Da mesma forma, os escritos do
português Francisco de Paula Ribeiro têm dado um importante suporte para o
entendimento do sertão e da própria vida sertaneja.
Embora não seja nossa pretensão, no âmbito deste ensaio, realizar um exaus-
tivo estudo sobre a formação territorial do sul do Maranhão, identificaremos al-
guns traços sumários das configurações das percepções de Francisco de Paula
Ribeiro sobre o sertão e o sertanejo, procurando abstrair dessas narrativas, o
universo das atitudes que permeiam a cultura do viajante.
Iniciaremos pela trajetória de nosso militar/viajante para, em seguida, per-
cebermos nas configurações de sertão construídas por Paula Ribeiro, os afetos
resultantes das reflexões que faz, sobre o mundo que vê, possibilita-nos proble-
matizar, por exemplo, a própria noção de ocupação do espaço que, na percep-
ção do militar/viajante, desconsidera as sociedades locais.

OS CAMINHOS DE FRANCISCO PAULA RIBEIRO (1774-1823)


Grande parte da trajetória de Paula Ribeiro ainda é uma incógnita para os
que se dedicam ao estudo de seus escritos. Das poucas notícias que se tem do

4
PACHÊCO FILHO, 2016, p. 41-126.
5
CARVALHO, Carlota. O sertão: subsídio para a história e a geografia do Brasil. Imperatriz: Ética, 2000.
UM OLHAR PORTUGUÊS AO SERTÃO DO BRASIL: FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO E O SERTÃO DO MARANHÃO
67
Alan Kardec Gomes Pachêco Filho e Helidacy Maria Muniz Corrêa

nosso militar/viajante sabe-se que, como era habitual na época, seguiu a carreira
do pai e entrou para o exército, em 1789. Após o período de sua formação foi
nomeado, em 1793, para servir na Índia. Sem demorar por lá, retornou a Lisboa,
em 1795, e foi nomeado por D. Maria I para servir no Maranhão por interferência
6
direta do duque de Lafões . Paula Ribeiro “deveria servir debaixo das instru-
ções do Coronel Anacleto Franco e das ordens do Capitão General D. Fernando
Noronha”. Realçava ainda as qualidades do jovem: “é muito vivo, tem grande
7
talento e é hábil militar”. Mas, o Duque não se esqueceu também de ressaltar
as qualidades de seu pai: “Tenente-Coronel de regimento de Artilharia da Corte,
8
bem conhecido pelo seu merecimento”. Embora os registros da nomeação não
mencionem o nome do pai de Paula Ribeiro, acreditamos se tratar do tenente-
9
-coronel João Pedro Ribeiro .
O certo é que, a partir desse momento, Paula Ribeiro reúne uma vasta expe-
riência na sua longa folha de serviços prestados à coroa. No Maranhão, passou
a trabalhar direto com os governadores da província de sua época e, por meio
destes teve contato com as maiores autoridades locais. Assim, ascendeu a todos
os níveis da carreira militar, culminando, em 1818, com o posto de sargento-mor.
Mas, quais as circunstâncias da nomeação de Paula Ribeiro? Para qual servi-
ço exatamente fora designado?
Os primeiros esforços de que se tem notícia da coroa portuguesa tentar obter
informações mais precisas sobre o sertão do Maranhão estão registradas em
uma carta régia de 12 de maio de 1798, na qual o soberano exigia dos governos
locais a exploração dos rios do sul da capitania do Maranhão, especialmente, do
rio Tocantins, recomendando que dessem atenção àqueles rios a fim de facilitar
10
a navegação entre as capitanias do Pará e de Goiás .
A região correspondente ao noroeste do Maranhão recebeu inúmeros colo-
nos vindos das capitanias do Pará e de Goiás. Porém, dentre essas ocupações,
a que mais marcou foi a de pecuaristas que se estabeleceram no centro sul da
capitania do Maranhão, e que originou a vila de São Bento dos Pastos Bons,
11
denominada por Paula Ribeiro de “capital do país” . Partiram dali muitas expedi-
ções de “bandeiras” com o propósito de novas explorações.
É nesse processo que o português fazendeiro Elias Ferreira de Barros teve
notícias da existência de um grande o rio e, por intermédio de um índio que lhe

6
O Duque de Lafões, com a morte de D. José I, foi alçado por D. Maria I à condição de General em Chefe do
Exército Português. Aconselhado pelo Abade Correia de Sá criou a Academia das Ciências de Lisboa. Jornal
do Comércio, Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 1828, p. 2.
7
AHU_ACL_CU_09 Cx. 86, Doc. Nº 07183.
8
AHU_ACL_CU_ 09 Cx. 86, Doc. n. 7208.
9
Arquivo Histórico Militar – PT, Livros Mestres, série B, Arma de Infantaria (PT/AHM/G/LM/B-04/05). Subsérie
4, Regimento de Infantaria nº 4. Livro nº 5: registro de assentamento dos oficiais e praças do Regimento de
Infantaria, de 1789 a 1795. Francisco de Paula Ribeiro, nº 1612.
10
AHU_ ACL_ CU_009, Cx. 98, Doc. n. 07943.
11
A expressão é de Francisco de Paula Ribeiro.
68 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

passara todas as instruções para chegar ao rio Tocantins e lá estabelecer uma


12
nova fazenda de gado vacum .
A negligência no cumprimento das ordens régias de 1798 ensejou uma dis-
puta entre os conquistadores das capitanias de Goiás e do Maranhão. Fran-
cisco José Pinto de Magalhães, um militar e regatão que vivia principalmente
da mercancia de índios escravizados, vendidos em Belém do Pará, transfe-
riu moradores da vila de São João do Araguaia, em Goiás para as terras de
Elias Ferreira. Pinto de Magalhães implantou, no lado maranhense às margens
do rio Tocantins, um arraial com sessenta agregados da capitania de Goiás e
comunicou a criação do Arraial ao governo da referida capitania, originando,
assim, um litígio de fronteiras. A partir desse acontecimento, colonos e fazen-
deiros de ambas as capitanias disputariam as férteis terras do Maranhão. O
crescente conflito pressionou a coroa portuguesa a fixar os limites entre as
duas capitanias, por meio do Aviso de 11 de agosto de 1813.
Contudo, antes de Paula Ribeiro caberia ao naturalista e advogado Vicente
Jorge Dias Cabral, a missão demarcatória da capitania do Maranhão. Dias Cabral
era um homem de importantes relações e de formação sólida. Amigo do anti-
13
go governador do Maranhão, D. Diogo de Souza (1798-1806) desde os tempos
de estudante na Universidade de Coimbra quando cursava Direito e Filosofia,
provavelmente na década de 1780, Dias Cabral também tinha conhecimentos
em História Natural, Química e Física. Tal formação o credenciou para ser o res-
ponsável pelo Horto Botânico de São Luís. Habituado a viajar pelo interior da
capitania foi firme ao receber o convite do governador do Maranhão, Paulo José
da Silva Gama (1811- 1819) para realizar a viagem demarcatória da capitania, con-
forme o fragmento seguinte:

[...] por isso antecipo vossa excelência para pôr na presença do mesmo soberano o
serviço que eu fizer e de que estou encarregado, sem interesse pessoal de salários,
mas antes com prejuízo da advocacia a fim de vossa excelência despachar-me se
eu merecer para alguns dos empregos que já requeri, ou para que parecer a vossa
excelência. Deus guarde a vossa excelência para mim e para o bem do Estado do
14
Maranhão .

Dias Cabral havia percorrido os sertões do Maranhão e do Piauí à procura


de produtos dos três reinos da natureza; encontrou salitre, quina, ferro, cobre
e árvores utilizáveis em tinturaria. Porém, o naturalista adoeceu às vésperas da

12
BERFORD, Sebastião Gomes da Silva, Roteiro e Mapa da Viagem da Cidade de São Luís do Maranhão até a
Corte do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Imprensa Régia, 1910 p. 17.
13
D. Diogo de Sousa governou o Maranhão de (1798 -1804).
14
AHU_ACL_CU_009 Cx. 128, Documento n. 09574.
UM OLHAR PORTUGUÊS AO SERTÃO DO BRASIL: FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO E O SERTÃO DO MARANHÃO
69
Alan Kardec Gomes Pachêco Filho e Helidacy Maria Muniz Corrêa

viagem demarcatória. Diante de tal situação, o governador Paulo Gama (1811-


1819) não teve outra saída a não ser substituí-lo: “Vi-me, portanto, quase repen-
tinamente obrigado a nomear para esta comissão ao capitão do Regimento de
Linha Francisco de Paula Ribeiro, por haver estado também no Real Serviço por
15
vários anos naquele contorno” .

Fonte: CHAVES, Mariana Lopes. Em busca de riquezas pelo império: Reformismo Ilustrado
português, os naturalistas e a expedição pela capitania do Maranhão e do Piauí (1796-18039). 66f.
Monografia (Curso de História). Universidade Estadual do Maranhão, p. 48.

A noticia da existência de salitre no sertão do Maranhão, chegou a Lisboa em


1794, quando D. Fernando Noronha (1792-1798) enviou aproximadamente 247
quilos do produto. Foi exatamente para explorar os três reinos da natureza, que
o naturalista “brasileiro” nascido em Minas Gerais, empreendeu a viagem cuja
representação cartográfica está no mapa anterior. Entre 1800 e 1802, Vicente
Jorge Dias Cabral e o Vigário de Valença, percorreram mais de dois mil quilôme-
tros, principalmente a procura de salitre e quina.

15
APEM, Objetos Diversos: 1814-1816, Códice 05, Doc. n. 755.
70 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO VERSUS SOCIEDADES


INDÍGENAS: GUERRAS NO SERTÃO
Paula Ribeiro também estava habilitado para a missão. Conhecia o sertão do
16
Maranhão, tendo servido em São José das Aldeias Altas e no comando do Des-
tacamento Militar de Pastos Bons. Encontramo-lo fazendo sua primeira viagem ao
sertão dos Pastos Bons, em 1800, onde foi substituir o alferes Raimundo José Viei-
ra no comando do destacamento. Nos dois anos que lá permaneceu e percorreu
várias vezes todo o território entre os rios Parnaíba e Tocantins: “Só em missão
17
contra o gentio, esteve quatro vezes” . Não se tratava, portanto, de um neófito.
Paula Ribeiro estava, pois, no lugar e na hora certos. Assim, no ofício de sua no-
meação recebia as seguintes instruções para a tarefa a qual fora designado:

A sua comissão, portanto, é marchar com a maior brevidade possível até a raia limí-
trofe desta capitania com a de Goiás nas extremas de Pastos Bons, cabeceiras do
Tocantins; lugar por vossa mercê já conhecido. Ali se deve encontrar com o sargen-
to-mor José Antônio Ramos e o capitão Francisco Pinto de Magalhães, vindo autori-
zados pelo excelentíssimo governador e capitão-general daquela capitania para com
Vossa Mercê (que vai autorizado por mim para o mesmo) observarem e designarem
18
a raia divisória e terminal das duas capitanias .

O espaço territorial denominado Sertão dos Pastos Bons, na província do Ma-


ranhão foi o lócus no qual Francisco de Paula Ribeiro desempenhou, por exce-
lência, suas funções de militar, e arriscamos dizer que seu olhar de explorador o
transformou num autodidata nos conhecimentos de Geografia, História e Antro-
pologia. Mas, conforme podemos observar no mapa a seguir, apesar de toda a
experiência, o espaço a ser percorrido pelo viajante não era pequeno. O desafio
colocaria em cheque toda a experiência do militar.
Paula Ribeiro permaneceu em Pastos Bons até junho de 1802, quando foi
transferido para São Luís, por ordem do governador D. Diogo de Souza. Nessa
ocasião, voltava a integrar o Regimento das Tropas de Linhas da capital da pro-
víncia. Sempre em ações militares ou em missões contra as sociedades locais,
Paula Ribeiro foi designado, em 1810, para conter e, se possível, apaziguar os
19
índios timbira e gamela que ameaçavam os colonos em Viana , na baixada oci-
dental da capitania do Maranhão. As ordens expedidas pelo governador D. José
Tomás de Menezes (1809-1811) expressavam a “gravidade” da situação:

16
Atual Caxias-MA.
17
NIMUENDAJÚ, Curt. The Eastern Timbira. University of California: Pres. Berkeley and Los Angelis, 1946, p. 14.
18
APEM, Objetos Diversos: 1814-1816, Códice 05, Doc. n. 755, 1815.
19
APEM, Objetos Diversos: 1811-1814 Códice 3 Doc. 215, 1812.
UM OLHAR PORTUGUÊS AO SERTÃO DO BRASIL: FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO E O SERTÃO DO MARANHÃO
71
Alan Kardec Gomes Pachêco Filho e Helidacy Maria Muniz Corrêa

Finalmente se formará o ataque, e serão seguidos os inimigos até as maiores alturas,


sem que se perdoem as vidas que o Direito das gentes permite se tirem no calor da
guerra, e só dispensando-as quando eles entregarem, ou depondo as suas armas
derem algum sinal de amizade, sem, contudo, isentá-los de serem remetidos presos
a esta capital, principalmente alguns de seus companheiros que constam daquelas
20
vizinhanças .

O sertão dos Pastos Bons baseado na cartografia de Paula Ribeiro.

20
APEM, Objetos Diversos: 1811-1814 Códice 3 Doc. 215, 1812.
72 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

No comandando de uma tropa de quarenta e cinco militares, além de muitos


21
civis e milicianos armados com um vasto arsenal bélico, Paula Ribeiro acirrou
a guerra já deflagrada contra as sociedades indígenas, em defesa dos morado-
res não-índios da vila de Viana. Apesar da luta intensa, mas diante de tamanho
arsenal, os timbira e gamela não conseguiram evitar a expulsão de suas terras.
Assim, Paula Ribeiro aumentava a sua lista de serviços prestados à coroa, cum-
prindo, fielmente, a missão que recebera.
Certamente, a obstinação de Paula Ribeiro lhe conferiria mais um degrau na
escalada da ascensão social. Em 1812, promovido a tenente do Regimento de
Linha serviu em São José das Aldeias Altas. Após baixar algumas normas que
não foram obedecidas, entrou em atrito com o juiz ordinário daquela jurisdição.
Paula Ribeiro alegava que o conflito ocorreu porque o juiz não cumpria suas fun-
ções específicas, além de se intrometer no serviço inerente ao chefe do destaca-
mento, no caso, ele, Paula Ribeiro. Diante do impasse envolvendo os dois mais
importantes representantes da coroa naquela localidade, o governador Paulo
José da Silva Gama (1811-1819) fez a seguinte repreensão a ambos:

Assaz tenho conhecido pelas suas próprias cartas e das do Juiz ordinário desse Jul-
gado, a rivalidade entre Vossas Mercês ambos; e o quanto por ela estão sofrendo
esses tristes povos, agitados por Vossas Mercês, para continuarem em opostos par-
tidos; quando o era de sua rigorosa obrigação promover o sossego público, serenan-
do as antigas desordens. Portanto: assim como admoesto nesta data aquele juiz para
entrar no cumprimento dos seus deveres, recomendo a Vossa Mercê outro tanto para
22
que não me obrigue a providenciar sobre sua conduta.

Mesmo a vasta folha de serviços prestados à monarquia portuguesa desde


que fora nomeado, em 1789, para servir na Índia, depois em São Paulo, no Pará
e no Maranhão e, o reconhecimento de sua atuação como militar e súdito exem-
plar, não pouparam Paula Ribeiro do constrangimento de uma advertência, afi-
nal, algo ainda maior estava em jogo e era preciso dar continuidade ao trabalho.

FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO: O MILITAR-EXPLORADOR-


-VIAJANTE
Uma vez investido de explorador do sertão, Paula Ribeiro recebera ordens
para registrar minuciosamente o máximo de informações que conseguisse

21
Era comum no vasto Império português, a utilização de mão de obra de civis armados, não incorporados à
tropa, em casos pontuais como o enfrentamento de índios, por exemplo.
22
APEM, Objetos Diversos: 1811-1814, Códice 3 Doc. 215, 1812.
UM OLHAR PORTUGUÊS AO SERTÃO DO BRASIL: FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO E O SERTÃO DO MARANHÃO
73
Alan Kardec Gomes Pachêco Filho e Helidacy Maria Muniz Corrêa

coligir a fim de repassá-las às autoridades portuguesas. Desse modo, o olhar


militar era substituído por uma percepção exploratória da paisagem. Roteiros,
diários, mapas pouco a pouco foram substituindo a geografia do imaginário por
uma geografia do real. As observações sobre as capacidades do solo, a forma-
ção de herbários, a autossuficiência do “país”, as especulações e a curiosidade
deram lugar ao saber. Somente dessa forma o explorador pode cumprir fielmen-
te a finalidade de sua missão: “O explorador viaja em cumprimento de uma mis-
são organizada que conta com o financiamento de um príncipe, com objetivos
23
precisos”. Aliás, a respeito do investimento da expedição, o governador Paulo
da Silva Gama não se furtou de dizer:

Deve Vossa Mercê levar dois livros com todas as folhas numeradas e rubricadas por
Vossa Mercê, um de receitas e outro de despesas pelos quais carga e descarga a
quem competir nomeando um dos indivíduos mais aptos dos da sua partida para
servir de fiel da arrecadação.
Como Vossa Mercê leva da Junta da Real Fazenda um conto de réis em moeda para
as precisas despesas e pode acontecer-lhe seja necessário fazê-las maiores deve
proporcionar o pagamento destas de modo que não pese sobre indivíduos impos-
sibilitados ou com poucas proporções de poderem vir cobrar a esta Junta da Real
24
Fazenda o valor do que lhe prestaram por título .

Os preparativos, inclusive financeiros, foram para uma longa viagem. Mes-


mo conhecedor daqueles sertões, Paula Ribeiro sabia das imensas dificulda-
des que enfrentaria até seu destino final. Viajaria por semanas, quiçá meses.
Seus companheiros de viagem, desconhecedores do sertão, marchariam sob
seu comando em obediência, primeiro como súditos e depois como militares.
Partindo do porto de São Luís do Maranhão, a vinte e três de fevereiro de mil
oitocentos e quinze, a missão era chegar ao coração do sertão, no povoado
de São Pedro de Alcântara, atual Carolina e, no percurso, anotar o máximo de
informações sobre aquele vasto e indefinido mundo, e cartografar as configu-
rações das paisagens.
As dificuldades enfrentadas ao longo do trajeto foram inúmeras. Seja pelas
condições do deslocamento, ora de barco, ora de animais, pelo tempo gasto a
espera de canoas que pudessem levar a comitiva, ou mesmo pelo cansaço que
acometia até os animais, obrigando-lhes a constantes paradas para descansarem
das extenuantes jornadas. Como se não bastassem tais desafios, precisavam

23
BOURGUET, Marie-Noelle. In: VOVELLE, Michel. O Homem do Iluminismo. Editora Presença, Lisboa – PT, 1997,
p. 212.
24
GAMA, Paulo José da Silva. [APEM. Objetos Diversos: 1814-1816 (Códice 05, Doc. 755).]
74 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

enfrentar as estradas interrompidas por árvores caídas, falta de ponte nas tra-
vessias dos rios, ataques indígenas, e até mesmo a falta de caminhos, já que
aquele território, àquela altura ainda era desconhecido para a maioria daqueles
homens e, ficavam distantes das escassas fazendas ali existentes.
No mapa a seguir percebemos o longo trajeto feito por Paula Ribeiro e seus
comandados, na viagem demarcatória. As datas assinaladas correspondem aos
locais de paradas da missão, onde o militar-viajante registrou suas impressões.
Paula Ribeiro procurou registrar o máximo do que via e ouvia, ao longo dos três
meses, até chegar a Pedro de Alcântara. Obteve informações dos moradores
da região, mas, principalmente, por meio dos contatos com as etnias indíge-
nas, nas diligências que realizou no sertão. Dos habitantes mais antigos colheu
depoimentos sobre o povoamento e indagou acerca dos rios da região. Todas
essas informações foram devidamente anotadas e enviadas ao governador da
província com suas impressões.

Fonte: Fundação da Biblioteca Nacional, 1819. Cart 529483USU.


UM OLHAR PORTUGUÊS AO SERTÃO DO BRASIL: FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO E O SERTÃO DO MARANHÃO
75
Alan Kardec Gomes Pachêco Filho e Helidacy Maria Muniz Corrêa

A despeito da contestação de algumas dessas informações, estudiosos reco-


nhecem o trabalho realizado pelo militar-viajante classificando-o como “o maior
25
historiador dos sertões do Maranhão” . A paciência, observação e seu poder de
persuasão e aglutinação foram características muito proveitosas para os interes-
ses dos governos da capitania do Maranhão e da coroa.
Quando, finalmente chegou a São Pedro de Alcântara (atual município de
Carolina), Paula Ribeiro passou meses em longas conversações com um dos
representantes do governo de Goiás, o sargento-mor José Antônio Ramos
Jubé, até conseguir convencê-lo de que as terras situadas do lado direito do
rio Tocantins pertenciam à capitania do Maranhão. Como não se chegava a
um acordo Paula Ribeiro se retirou para o distrito de Pastos Bons, onde ficou
aguardando ordens superiores.
Pela riqueza de detalhes contidos nos relatórios de Paula Ribeiro, acredi-
tamos que ele iniciara a narrativa de suas percepções do sertão do Maranhão
desde 1800, quando esteve pela primeira vez em Pastos Bons. Foram tantas
as observações coligidas pelo militar-viajante que seria impossível reuni-las em
apenas um ano, período em que ficou nos sertões, durante a viagem demar-
catória. Povoados, fazendas, rios, vales, serras, clima, solo, economia, projetos
de fazendas reais no sertão dos Pastos Bons, vida material do sertanejo, socie-
dades indígenas locais, tudo era minuciosamente observado e registrado pelo
militar-viajante.
Somente após cerca de vinte anos da sua viagem é que se teria conhecimen-
26
to das anotações feitas por Paula Ribeiro, em três memórias publicadas, res-
pectivamente, pelo IHGB, em 1870, 1874 e 1841. Por meio delas pudemos, enfim,
dar a conhecer as paisagens e a vida sertaneja.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao nos referirmos sobre a construção do sertão dos Pastos Bons e a impor-
tância das memórias de Francisco de Paula Ribeiro, militar, explorador, geógra-
fo, historiador e antropólogo quisemos dar ênfase à espacialidade territorial
do sertão do Maranhão, ao “caráter de seus colonos”, das “nações gentias” e
dos conflitos em torno dos limites “desde as margens nordeste do rio Manoel

25
NIMUENDAJÚ, Curt. The Eastern Timbira. University of California: Pres. Berkley and Los Angeles, 1946, p.18.
26
As obras escritas por Francisco de Paula Ribeiro são: Roteiro da viagem que fez o capitão Francisco de
Paula Ribeiro às fronteiras da Capitania do Maranhão e da de Goiáz no ano de 1815; Descrição do território
de Pastos Bons, nos sertões do Maranhão; Memória sobre as nações gentias que presentemente habitam
o continente do Maranhão; Mapa geográfico da Capitania do Maranhão, que pode servir de memória sobre
a população, cultura e coisas mais notáveis da mesma Capitania.
76 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

27
Alves Grande até a beira-mar” . Por outro lado, a noção de fronteira, limite e
divisa que, para o senso comum possuem o mesmo significado é, sobretudo,
uma construção humana. Rios, lagos, montanhas, desertos e, mesmo os ocea-
nos foram compreendidos como fronteira “natural”. Contudo, a natureza não
os colocou “ali” com a finalidade de demarcar absolutamente nada. São, pois,
criação humana: fronteira norte, sul, leste, oeste, cultural, econômica, civilizacio-
nal e ambiental. “O território, com contornos e limites precisos é uma categoria
histórica, construída socialmente. Para além das fronteiras naturais, a fronteira
28
política é sempre uma linha abstrata e convencionada por alguns” .
Assim, as fronteiras, mesmo socialmente construídas foram e são objetos de
disputas entre indivíduos. Paula Ribeiro compreendia que a construção social e
dos espaços estavam intimamente ligado ao deslocamento da fronteira econô-
mica da cotonicultura do vale do rio Itapecuru, para os sertões de dentro, isto é,
o sertão dos Pastos Bons, cujas fronteiras por ele construídas chegavam até as
províncias de Goiás e Pará.

27
RIBEIRO, Francisco de Paula. Descrição do Território do Sertão de Pastos Bons nos Sertões do Maranhão. In:
FRANKLIN, Adalberto; CARVALHO, João Renôr Ferreira. Francisco de Paula Ribeiro: desbravador dos sertões
dos Pastos Bons: a base geográfica e humana do sul do Maranhão. Imperatriz - MA, Ética, 2005, p.145
28
BUENO, Beatriz Piccolotto Siqueira. Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania
de São Paulo (1532-1822). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, 17(2). 251-294. https://doi.
org/10.15907S0101-47142009000200013.
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
77
Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira
A Oficina de História da Guarda é um projeto coordenado por
Rita Costa-Gomes, Professora de História na Universidade de Towson
(Maryland, Estados Unidos da América), que tem como principal
objectivo oferecer aos seus utilizadores conteúdos para
divulgação sobre a história da Guarda e da sua região, incluindo
fontes de arquivo e patrimoniais, trabalhos inéditos devidamente
licenciados pelos seus autores, e trabalhos publicados em edição
impressa, com salvaguarda dos respectivos direitos.
Mais informação em: http://www.cei.pt/ohg/
oficina
de historia
da guarda
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
RITA COSTA GOMES (Coordenação)
BERTA JACOB
DANIEL MARTINS
MARIA JOSÉ NETO
ANTONIETA PINTO
TIAGO PINHEIRO RAMOS

INTRODUÇÃO
Para governar e decidir, os reis da Idade Média lançaram mão de múltiplos
instrumentos visando avaliar e recolher informações sobre os territórios e co-
munidades a eles sujeitos. Sobretudo a partir do século XII, ou seja o século da
constituição do reino português entre os restantes da Península Ibérica, multipli-
caram-se por toda a Europa os inquéritos directos. Faziam-se com a deslocação
de agentes e oficiais interrogando as populações e localmente coligindo infor-
mação à escala de toda uma região e, até, de áreas mais vastas, como fizeram
os reis normandos em Inglaterra com o famoso Domesday Book, ou os de Leão
e Castela com o Libro Becerro de las Behetrias.
Só em Portugal, sobreviveram os textos de dezenas de inquéritos deste tipo,
cobrindo várias regiões do país durante os séculos XIII e XIV: são as igualmente
famosas Inquirições Gerais. Algumas dessas inquirições cobrem também partes
da região da Beira. Havia inquéritos de tipo mais restrito, no entanto. Fosse para
efeitos de reforma da governação da justiça, para recuperar propriedade alie-
nada, ou para previsão de réditos e recursos financeiros, a prática do inquérito
directo através de agentes específicos e procedimentos bem conhecidos tor-
nou-se rotina nos finais da Idade Média, levando até alguns historiadores mais
recentes a duvidar da sua real influência na governação, tal a sua natureza repe-
titiva, omnipresente, e cumulativa.
Em 1395, o rei D. João I tinha atrás de si uma agitada década de governo,
marcada por uma conjuntura inicial de guerra e dificuldades económicas para
o reino, e pontuada por tréguas sempre precárias com o rei castelhano. A des-
truição e demolições que tiveram lugar na cidade da Guarda e seus arredores,
entre as décadas de 1370 e 1390, no contexto quer das guerras fernandinas quer
joaninas, certamente justificariam que se procurasse saber o estado das pro-
priedades do rei. Mas o agente do monarca, a avaliar pelo que nos resta do
registo escrito do resultado dos seus esforços, inquiriu sobre este assunto mais
82 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

largamente. Visitou grande parte das localidades da Beira interior, e coligiu in-
formações de modo sistemático sobre propriedade urbana e rural com a coope-
ração preciosa dos agentes da administração local, quer régia quer municipal. O
registo ficou classificado, no arquivo régio, como “Tombo da Comarca da Beira”.
Este registo precioso encontra-se hoje no arquivo nacional da Torre do Tom-
bo, juntamente com numerosos outros exemplos provenientes do antigo arquivo
régio que igualmente sobreviveram às destruições e perdas dos séculos sub-
sequentes, como a grande catástrofe do terremoto de 1755. São estes, afinal,
os “tombos” que deram nome ao próprio arquivo. O seu estudo e publicação
alimenta a curiosidade e responde às perguntas de sucessivas gerações de es-
tudiosos. Um simples recenseamento actualizado de quantos e quais dizem res-
peito à Guarda e à sua região, no entanto, seria da maior utilidade para o estudo
do passado da cidade. [RCG]

Tombo da Comarca da Beira, início do fólio 88 – Arquivo Nacional da Torre do Tombo


(Contos do Reino e Casa, Núcleo Antigo, número 292).

A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395


No ano de 1395, D. João I mandou apurar o estado das suas propriedades na
Comarca da Beira.
1
O inquiridor e demarcador das propriedades do rei, Rui Peres, percorreu a
dita comarca, registou em cada localidade os bens do rei, as suas caraterísticas, o
seu estado de conservação, as confrontações de cada uma, quais os usufrutuários

1
Rui Peres, no início do Tombo da Comarca da Beira, é apresentado como “enqueredor e demarcador”.
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
83
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

desses bens e os valores devidos ao rei em rendas e direitos. Para este fim,
contou com a colaboração de várias autoridades locais (juízes, tabeliães, pro-
curadores) e com a informação preciosa de “homens antigos”. Não se tratando
2
estritamente de uma inquirição , no sentido específico do termo, o oficial recorreu
a esse mesmo modo de proceder, pontualmente, como método de apuramento
da verdade. Usou igualmente registos escritos e outros documentos disponíveis
nas localidades.
3
O manuscrito produzido nessa ocasião, o Tombo da Comarca da Beira ,
transformou-se num manancial de informação para o monarca poder controlar
as suas herdades e respetivos rendimentos, sucessivamente consultada e atua-
lizada pelos seus sucessores. Esta utilização originou numerosos acrescentos e
anotações marginais ao texto, sendo os mais interessantes aqueles que se refe-
rem, por exemplo, à reforma manuelina dos forais antigos. O manuscrito ainda
hoje se conserva no Arquivo Nacional – Torre do Tombo (Contos do Reino e Casa,
Núcleo Antigo, número 292).
Em 1916, Anselmo Braamcamp Freire publicou a transcrição desse manus-
crito no volume X do Arquivo Histórico Português, alargando a possibilidade
4
de utilização do mesmo . O objetivo do texto que agora apresentamos não
difere muito daquele que Braamcamp Freire realizou. No âmbito do primeiro
workshop de verão da Oficina de História da Guarda, fez-se a atualização do
texto do Tombo da Comarca da Beira, visando um público de leitores não
eruditos. A atualização contemplou apenas a secção do texto relativa à zona
urbana da Guarda, correspondendo à curiosidade crescente que hoje rodeia o
bairro da judiaria antiga da Guarda. Este texto excecional descreve justamente
essa área da cidade, que era de propriedade régia, mas também casas adja-
centes onde viviam cristãos.
Trabalhou-se, assim, a partir da edição de 1916 feita por Braamcamp Frei-
re, mas fizeram-se verificações pontuais da transcrição deste autor a partir
da digitalização do manuscrito. O texto foi lido, interpretado, e actualizado
segundo regras previamente definidas ou ajustadas à medida que o trabalho
5
ia sendo realizado .

2
Arrecifes, a calçada do mar de recife. Publicado on line em 2010. Acesso em http://sigep.cprm.gov.br/sitio040/
sitio040_impresso.pdf. Visualizado em 17 abril 2018. Inquirição: “Prova, por via de justiça, que se faz ouvindo
as testemunhas, e lançando por papel o seu depoimento” in Rafael Bluteau, Vocabulário português e latino,
Coimbra, Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1713, folio 143.
3
Tombo: “Catálogo das terras, ou Escrituras de um reino, de uma Igreja, ou Convento” in Rafael Bluteau,
Vocabulário português e latino, Coimbra, Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1713, folio 196.
4
Anselmo Braamcamp Freire, “Tombo da Comarca da Beira”, Arquivo Histórico Português, Vol. X (1916), p.
313-325. Para além da Guarda, este manuscrito inclui as localidades de Trancoso, Pinhel, Castelo Rodrigo,
Castelo Bom, Vilar Maior, Alfaiates, Sabugal, Sortelha, Covilhã, Belmonte, Penamacor, Linhares, Seia, e
Marialva. A secção relativa à Guarda inclui ainda a descrição dos “reguengos” ou propriedades rústicas do
rei, localizadas no termo da cidade, da qual não nos ocupámos por agora.
5
Vejam-se as “Normas seguidas na actualização do texto”, in fine.
84 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

ESTAS SÃO AS CASAS QUE EL REI TEM NA DITA VILA DA


GUARDA
Item [G1] Primeiramente uma casa que traz João Vasques [arrendada], sobradada,
junto da Porta d’ El-Rei, do lado esquerdo quando se entra nela. Confronta, por um
lado com a muralha, por outro lado com o campo do rei e com a rua pública.

Item [G2] Um campo do rei, o qual confronta com a casa acima mencionada, que traz
[arrendada] o dito João Vasques; da outra parte confronta com a muralha da dita
cidade e da outra parte com casas do rei que traz Baril judeu e confronta com a rua
pública.

Item [G3] Três casas que traz [arrendadas] Abraão Mamom, judeu sapateiro. Uma delas
confronta, ao fundo, com o sobredito campo, a dita rua pública e com a casa de Isaac
Cacez. Da dita casa vai um balcão, por cima da dita rua para as outras duas casas.
Essas casas são sobradadas e confrontam com as ruas públicas, com as casas que traz
[arrendadas] Judas de Linhares e do outro lado com casas de João Afonso Mageto.
Paga por elas em cada ano _____ 6 libras.

Item [G4] Isaac Cacez, judeu, traz [arrendada] uma casa sobradada que confronta com
o campo do rei, de outro lado com a casa que traz [arrendada] Mestre Moisés, com a
Rua do Concelho e com as casas de Abraão Mamom, sapateiro.
Paga por elas em cada ano _____ 3 libras.

Item [G5] Abraão sapateiro, filho de Judas de Linhares, traz [arrendada] uma casa
sobradada que confronta com as casas de Abraão Mamom e, do outro lado, com as
casas de Judas ferreiro e com o campo que traz [arrendado] Mestre Moisés e com a
rua pública.
Tem-as emprazadas para sempre e paga delas ao rei, em cada ano _____ 2 libras.

Item [G6] Um pardieiro que está emprazado a Mestre Moisés, para fazer casa. Con-
fronta de um lado com a casa de Isaac Cacez, de outro com o campo do rei e do
outro com um pardieiro que está emprazado a Juça de Leiria e confronta com a rua
do concelho.
Paga por ele, em cada ano _____ 15 soldos.

Item [G7] Um pardieiro que tem emprazado Juça de Leiria, o qual confronta com o
campo do rei, contra a muralha, com o pardieiro de Mestre Moisés e com a rua públi-
ca e do outro lado [pardieiro] que foi de Abraão ferreiro.
Paga dele, em cada ano ao rei _____ 10 soldos.
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
85
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

Item [G8] Outro pardieiro sem paredes que foi de Abraão ferreiro. Confronta com o
campo do rei, com a casa de Samuel da Faia, com a rua do concelho, com o pardieiro
sobre dito. Não está emprazado a ninguém.
<Agora o traz [arrendado] Vicente Arragel, por _____ 20 soldos.>

Item [G9] Uma casa que traz [arrendada] Samuel da Faia que confronta com o par-
dieiro deste sobredito e com a muralha da dita cidade e de outro lado com a casa de
Munhom e com a rua do concelho.
Paga por ela, em cada ano ao rei _____ 10 soldos.

Item [G10] Outra casa que traz [arrendada] Judas ferreiro, sobradada que confronta
com as casas que foram de Judas de Linhares, de outra parte com o chão de Mestre
Moisés e de outro lado com João Afonso Mageto e com a rua do concelho.
Paga dela, em cada ano ao rei _____ 2 libras.

Item [G11] Uma casa que traz [arrendada] Samuel de Munhom, sobradada, e confron-
ta com casas de Samuel da Faia e com a muralha da dita cidade, com Isaac Cacez e
com a rua pública.
Paga, em cada ano ao rei _____ 4 libras.

Item [G12] Uma casa que traz [arrendada] Isaac Cacez, reparada, térrea, que confron-
ta com as casas de Samuel de Munhom e pela sobredita muralha e com o pardieiro
de Isaac de Crasto e com a rua do concelho.
Paga por ela ao rei, em cada ano _____ 50 soldos.

Item [G13] Um pardieiro que traz [arrendado] Isaac de Crasto que confronta com ca-
sas do sobredito e com o pardieiro de Dom Falilhom e com a dita muralha e com a
rua do concelho.
Paga ao rei por ela, em cada ano _____ 50 soldos.

6
Item [G14] Um pardieiro de David Favilhom que confronta com este sobredito e com
a dita muralha e com a rua do concelho.
Paga por ele ao rei, em cada ano _____ 30 soldos.

Item [G15] Mestre Moisés traz [arrendada] uma casa do rei, que é sobradada e con-
fronta com este sobredito, com a dita muralha e com a rua do concelho e com um
chão do rei.
Paga por ela ao rei, em cada ano _____ 4 libras.

6
Pode tratar-se de David Falilhom, repetidamente mencionado nesta versão.
86 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Item [G16] A sinagoga dos judeus que confronta com o chão de Mestre Moisés, com
casas de Mestre Juça, com casas do rei que traz [arrendadas] Pedro Afonso e com a
rua do concelho.
Pagam por ela os judeus, em cada ano _____ 30 soldos, a qual lhes é emprazada por
carta do rei D. Dinis, que mostraram.
7
Item [G17] Uma casa que traz [arrendada] Infante Jude que é térrea que confronta
com a atafona de Abraão de Leiria e com chãos do concelho por dois lados e com a
rua do concelho.
Paga por ela em cada ano ao rei _____ 3 libras.
8
<Foi acrecentado por partir na[?] de Samuel Querido que ora traz esta casa>

Item [G18] Uma casa que traz [arrendada] Mestre Juça, que é sobradada e confronta
com casas desse sobredito Infante e, de outro lado, com a casa do rei da atafona que
traz [arrendada] David Falilhom e com a rua pública. <Esta casa anda com a atafona>

Item [G19] Uma casa de atafona que trazem [arrendada] Davi Falilhom e Abraão de
9
Leiria e confronta com esta casa sobre dita e com a casa de Bel Infante e com casas
de Álvaro Gil e com o campo do rei, que está ao lado da muralha e confronta com a
rua do concelho.
Pagam por ela ao rei, em cada ano _____ 30 soldos.

Item [G20] Uma casa que traz [arrendada] Álvaro Gil, judeu, que é sobradada. Con-
fronta com a sobre dita atafona e com a Rua do Concelho e de outro lado com a dita
atafona e com Abraão Mamom.
Paga por ela ao rei, em cada ano _____ 25 soldos.

Item [G21] Uma casa que traz [arrendada] Abraão Mamom, que é do rei, sobradada.
Confronta com a casa deste sobre dito e com a Rua do Concelho e com o pardieiro do
10
rei que traz arrendado Afonso Giraldes e com casas de Dona Fordonha [sic] .
Paga dela por ano, ao rei, por ano _____ 25 soldos.

Item [G22] A casa que traz [arrendada] Suas Judeu. Confronta com [a] casa de Mestre
Juça, com casas de Daniel, com a rua do concelho e com curral de Mestre Juça.
Paga por ela ao rei, em cada ano _____ 30 soldos.

Item [G23] Uma casa que traz [arrendada] Daniel Judeu que confronta com a casa do
sobre dito Suas, com o curral de Mestre Juça, com a rua do concelho e com casa de

7
“Jude” significaria eventualmente “Judeu”.
8
Anotação à margem que não foi inserida na transcrição de Braamcamp Freire.
9
“Bel” poderá ser eventual corruptela de “Abel”?
10
Deve corresponder a “Dona Fadona”.
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
87
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

Antom Ergas.
Paga por ela em cada ano, ao rei _____ 30 soldos.

Item [G24] Uma casa que traz [arrendada] Dona Fadona que confronta com Abraão
Mamom, seu filho, com Isaac Ferreiro, com pardieiro de Afonso Geraldes e de outro
lado com a muralha e com a rua do concelho.
Paga por ela ao rei, em cada ano _____ 48 soldos.

Item [G25] Uma casa que traz [arrendada] Antom Ergas, do outro lado que confronta
com casas do rei que traz [arrendadas] Daniel e do outro lado, com casas do dito
Antom Ergas de dois lados e como entesta na rua do concelho.
Paga por ela ao rei, em cada ano _____ 3 libras.

Item [G26] Outra casa do dito Antom Ergas que confronta dos dois lados com o dito
Antom Ergas e com Almofacem e com a rua do concelho.
Paga por ela ao rei, por ano _____ 45 soldos.

Item [G27] Uma[s] casa[s] de Isaac Ferreiro que são novas e sobradadas e confrontam
11
com Dona Fadona, com Santem , com Domingos Martins e com a rua do concelho.
Paga por ela ao rei, em cada ano _____ 3 libras.

Item [G28] Uma[s] casa[s] de Almofacem, térreas, que confrontam com Antom Ergas
12
e do outro lado com Fabibi e com o curral de Antom Ergas e com a rua do concelho.
Paga por ela, em cada ano _____ 30 soldos.
<70 soldos>

Item [G29] Uma casa de Fabibi que confronta com esta casa acima escrita e com
David Falido, com curral de Gonçalo Pais e entesta na rua do concelho.
Paga por ela ao rei, em cada ano _____ 70 soldos.
13
Item [G30] A casa de Santom Mamom que confronta com casa de Isaac Ferreiro e
de outros lados pelas ruas do concelho.
Paga por elas ao rei, foro de cada ano _____ 3 libras.

Item [G31] Uma casa do rei que traz [arrendada] Domingos Martins, carniceiro, que
confronta com a casa de Isaac Ferreiro, com pardieiro de Afonso Giraldes, com a casa
de Santom e com a rua do concelho.
Paga por ela ao rei, em cada ano _____ 3 libras.
<destruída>

11
Talvez correspondendo a Sem Tob, nome hebraico comum na Península Ibérica.
12
Embora o nome apareça escrito com v, e não b, optámos por esta grafia porque é provável que se trate de
nome arabizado (habibi ou fa-habibi), ou seja “querido”.
13
Talvez correspondendo a Sem Tob, nome hebraico comum na Península Ibérica.
88 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Item [G32] Uma casa do rei que traz [arrendada] Isaac Ferreiro, que confronta com a
atafona, de David Favilo e de Abraão de Leiria, e com a casa de Álvaro Gil, e com o
pardieiro de Afonso Geraldes.
Paga por ela em cada ano, ao rei _____ 3 libras.

Item [G33] Um pardieiro do rei que traz [arrendado] Afonso Geraldes, que confronta
com casas de Dona Fadona e com Domingos Martins, carniceiro, e com casa que foi
de Gil Afonso e com a rua do concelho.
Paga por ela em cada ano, ao rei _____ 21 soldos.

Item [G34] Uns açougues que jazem na judiaria, que ao tempo deste inquérito estavam
todos derrubados, e mandou-os fazer El Rei, os quais confrontam com a muralha da
dita vila e de outros lados confrontam com os chãos do rei e com a rua do concelho.

Item [G35] Umas casas de Rabi David, que foram de Salomão Adida, as quais são
sobradadas e estão juntas e balcoadas contra a muralha. Confrontam com Moisés de
Crasto e, do outro lado, com eixido do dito Moisés, com outro eixido do dito David
Falilho, e com eixido de Domingos Apariço e com a rua do concelho.
Paga por elas em cada ano ao rei _____ 30 soldos, e mostrou carta do rei Dom Fer-
nando em como lhe eram emprazadas para sempre, pelo dito foro.

Item [G36] Um pardieiro, derrubado de todo ponto, que foi de Clara Clemente, que
está emprazado a David Falilho, que confronta com o próprio e, do outro lado, com a
casa de Moisés de Crasto e dos outros lados com as ruas do concelho.
Paga por ele em cada ano ao rei _____ 20 soldos.

Item [G37] Uma casa do rei, que traz [arrendada] Rabi David, que confronta com o
14
próprio e, do outro lado, com Franca, a “Cucaracha” , e com casas de Moisés de
Crasto e com duas ruas do concelho.
Paga por ela em cada ano ao rei _____ 50 soldos.

Item [G38] Uma casa que foi de Salomão e agora é de David Falilho, sobradada, con-
fronta com casa de Fabibi, com Gonçalo Pais, com casas que foram de João Pascoal,
com casas de Samuel Cacez e com a rua do concelho.
Paga por ela em cada ano ao rei _____ 10 soldos.

Item [G39] Umas casas sobradadas que traz emprazadas Samuel Cacez e confrontam
com o sobredito David Falilho, com Abraão Rodrigo, com Fernão Gonçalves e com a
rua do concelho.
Paga por elas em cada ano ao rei _____ 4 libras.

14
Tratar-se-ia certamente de uma alcunha.
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
89
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

15
Item [G40] Uma casa da “Corocha” que é térrea, e a meia sobradada, confronta com
David Falilho, com casas de Jacob Pernica e com a rua do concelho.
Paga por elas ao rei em cada ano _____ 50 soldo.

Item [G41] Uma casa sobradada de Jacob Pernica, que confronta com a casa sobre-
dita e com Isaac de Crasto e, do outro lado, com Moisés de Crasto e com a rua do
concelho.
Paga por ela em cada ano ao rei, de foro _____ 3 libras.

Item [G42] Uma casa sobradada de Abraão Rodrigo, que confronta com Samuel Ca-
cez, com Abraão Sofel, com azinhaga de David Favilho [sic] e com a rua do concelho.
Paga por ela em cada ano ao rei, de foro _____ 3 libras.

Item [G43] Uma casa sobradada de Abraão Sofel, que confronta com casas do rei,
que traz [arrendadas] Domingos Afonso, com Abraão Rodrigo, com o adro de São
Vicente e com a rua do concelho.
Paga por ela de foro em cada ano ao rei _____ 2 libras e meia.

Item [G44] Uma casa sobradada, que traz [arrendada] Isaac de Crasto, que confronta
com Jacob Pernica, com Moisés de Crasto e com a rua do concelho.
Paga por ela em cada ano ao rei, de foro _____ 3 libras e 15 soldos.

Item [G45] Duas casas sobradadas, que traz [arrendadas] Moisés de Crasto, que con-
frontam com casas do rei, que traz [arrendadas] seu irmão Isaac de Crasto, com Cide,
com David Falilhom, com a Rua dos Açougues e com o adro de São Vicente.
Paga por elas de foro ao rei em cada ano _____ 5 libras e quarta.

16
Item [G46] Uma casa sobradada e o sótão que traz [arrendados] Cide e o sobrado
David Favilho [sic], confrontam com Moisés de Crasto, com Salomão Pernica, com o
adro de São Vicente e com casas de David Falilho.
O Cide paga pelo sótão em cada ano 30 soldos, e Davi pelo sobrado _____ 10 soldos.

Item [G47] Uma casa sobradada de Salamom Pernica, que confronta com Cide, com
eixido de David Falilho, com Domingos Apariço e com o adro de São Vicente.
Paga por ela de foro ao rei em cada ano _____ 40 soldos.

Item [G48] Uma casa térrea que traz [arrendada] Domingos Apariço, confronta com
a sobredita, com seu eixido, com chão do rei, onde chamam o Muro das Vacas. Esta

15
Eventual corruptela de “Cucaracha”, a alcunha transcrita em [G37].
16
Piso térreo ou cave.
90 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

casa entesta na rua pública e confronta com casas que foram de Sancha Anes.
Paga por ela em cada ano de foro ao rei _____ 4 libras e meia.
<[N]estas estão os açougues do concelho>

Item [G49] Uma casa térrea que traz [arrendada] Maria Abril, que confronta com San-
cha Anes e, do outro lado, com Domingos Apariço, com eixido que foi de Sancha
Anes e com a rua pública.
Paga por ela de foro em cada ano ao rei _____ 35 soldos.

Item [G50] Uma casa que foi de Sancha Anes, que agora traz [arrendada] Gil Vicente,
confronta com a sobredita Maria Abril, com Geraldo Domingues, a qual tem um eixido
junto ao Muro das Vacas, e confronta, do outro lado, com a rua do concelho.
Paga por ela em cada ano ao rei de foro _____ 50 soldos, segundo mostrou por carta
17
de compra .

Item [G51] Duas casas que traz [arrendadas] Geraldo Domingues, uma sobradada e a
outra térrea, que confrontam com a sobredita casa que foi de Sancha Anes e, do outro
lado, com o Poço do Gado. Estas casas têm um eixido junto ao Muro das Vacas, que
confronta com chão do rei, e com a rua pública.
Paga por elas em cada ano, ao rei _____ 10 soldos de foro. Mostrou carta do rei Dom
18
Dinis, em como lhe foram aforadas para sempre .

Item [G52] Uma casa que traz [arrendada] Domingas Aparício, que é térrea, e con-
fronta com casas do rei, que foram de João de Deus, com casas de Branca Peres,
com casas do rei que traz [arrendadas] Vasco Esteves, e com duas ruas públicas.
Paga por elas em cada ano ao rei, de foro _____ 30 soldos.

Item [G53] Uma casa térrea que traz [arrendada] Branca Peres, que foi manceba do
prior, confronta com a sobredita casa e, do outro lado, com casas do rei que traz
[arrendadas] Estevão Peres, almoxarife, e com casas de Estevão Afonso; entesta na
rua do concelho.
Paga por ela ao rei de foro, em cada ano _____ 30 soldos.

Item [G54] Uma casa que foi de João de Deus, que agora traz [arrendada] Estevão Pe-
res, almoxarife, que confronta com a casa da sobredita Branca Peres, com a de Gonçalo
Martins, peleiro, entesta na rua do concelho, e com João Pais.
Paga por ela de foro em cada ano ao rei _____ 40 soldos.

17
Tratar-se-ia da transação do contrato, e não da própria casa.
18
Ou seja, teriam sido aforadas aos seus antepassados.
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
91
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

Item [G55] Duas casas sobradadas do rei que traz [arrendadas] João Pais, confrontam
com o sobredito Estêvão Peres e, do outro lado, com Pedro Afonso, com João Coelho
e com a rua pública.
Paga por elas em cada ano ao rei, de foro _____ 50 soldos.

Item [G56] Duas casas que traz [arrendadas] Pedro Afonso, confrontando com as
sobreditas casas, com Gonçalo de Avelãs, com outras casas do rei que traz [arrenda-
das] Estevão Peres, e com a rua pública.
Paga por elas em cada ano, ao rei _____ 3 libras.

Item [G57] Uma casa que traz [arrendada] Gonçalo de Avelãs, que confronta com
casas de Pedro Afonso, com Gonçalo Geraldes, com o adro de São Vicente e com
a rua pública.
Paga por ela de foro em cada ano, ao rei _____ 5 libras.

Item [G58] Uma casa que traz [arrendada] Gonçalo Geraldes, confrontando com
a casa sobredita, com casas do rei que traz [arrendadas] Afonso Domingues;
entesta no adro de São Vicente dos dois lados.
Paga por ela de foro ao rei em cada ano _____ 4 libras.

Item [G59] Uma casa sobradada que traz [arrendada] Afonso Domingues, confrontan-
do com a casa de Gonçalo Geraldes, com Afonso Martins, e com casas do rei que traz
[arrendadas] Estêvão Peres; entesta no adro de São Vicente.
Paga em cada ano ao rei de foro _____ 30 soldos.

Item [G60] Uma casa sobradada que foi de Janeiro, agora traz [arrendada] Afonso
Martins. Confronta com Afonso Domingues e com casas de Estevão Peres; entesta
no adro de São Vicente.
Paga cada ano de foro _____ 45 soldos.

Item [G61] Uma casa que foi de Joana Peres, que agora traz [arrendada] a Estevão
Peres almoxarife; confronta com casa do sobredito Janeiro, com um bueiro entre
casas, com casas de Gonçalo Geraldes e com rua pública.
Paga cada ano <acho que por costume paga> _____ 30 soldos cada ano.

Item [G62] Uma casa, metade sobradada, que traz [arrendada] Bento Gonçalves,
confronta com o sobredito bueiro, com casas do rei arrendadas a João Coelho, com
casas arrendadas a João Pais e com rua pública.
Paga por elas de foro cada ano _____ 3 libras.
92 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Item [G63] Uma casa que traz [arrendada] João Coelho, metade dela sobradada; con-
fronta com as sobreditas de Bento Gonçalves, com Gonçalo Martins peleiro, com
casas de João Pais e com rua pública.
Paga cada ano ao rei de foro _____ 3 libras.

Item [G64] Uma casa que traz [arrendada] Gonçalo Martins peleiro que confrontam
com casa do dito João Coelho, com casa do rei que traz [arrendada] arrendada Este-
vão Afonso, com casa que tem arrendada Estevão Peres e com rua pública.
Paga dela de foro ao rei, em cada ano _____ 3 libras.

Item [G65] Duas casas que foram de Martim Gavião, agora traz (arrendadas] Estevão
Afonso, Vasco Esteves e Maria Anes, sobradadas, confrontam com casas deste so-
bredito, com casa do rei que traz [arrendada] André da Faia, com Domingas Aparício
e com rua do concelho.
Pagam por elas de foro, por cada ano ao rei, por metade delas o Estevão Peres 45
soldos, a Maria Anes _____ 22 soldos e meio
e o Vasco Esteves _____ 22 soldos e meio.

Item [G66] Uma casa de André Domingues da Faia que confronta com as casas so-
breditas, com casa de Domingas Aparício e das outras partes entesta nas ruas do
concelho.
Paga ao rei de foro, por ano _____ 5 libras e meia.

Item [G67] Umas casas que traz [arrendadas] Gil Vicente tabelião, não são sobra-
dadas; confrontam com casas do rei que traz [arrendadas] Martim Anes, das outras
partes com campo do rei e entesta nas ruas públicas.
Paga por elas de foro em cada ano ao rei _____ 4 libras e 11 soldos. Mostrou carta do
Rei D. Afonso, selada com o seu selo, como a dita casa lhe foi aforada para sempre.

Item [G68] Uma casa que traz [arrendada] Martim Anes, almocreve, confronta com
as casas sobreditas, com casas do rei que traz [arrendadas] Afonso Vicente, clérigo,
com rua pública e com chão do rei.
Paga dela de foro em cada ano, ao rei _____ 25 soldos.

Item [G69] Uma casa que traz [arrendada] Afonso Vicente, clérigo, confronta com
casa do dito Martim Anes, com a azinhaga da estalagem do rei, com chão do rei e
com rua pública.
Paga dela cada ano ao rei, de foro _____ 25 soldos.

Item [G70] Uns pardieiros que não têm telha nem madeira, dizem que os destruiram
na guerra; confrontam com casas que foram de Rodrigo Afonso, com a muralha da
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
93
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

cidade e com a azinhaga que vai entre a dita casa e a casa do sobredito Afonso
Vicente.
_____ Não rendem nada.
19
<quebra>

Item [G71] Uma casa que foi de Rodrigo Afonso, confronta com a sobredita estala-
gem, com a muralha da vila, com chão do rei e com rua do concelho.
Paga de foro ao rei em cada ano _____ 18 soldos.

Item As casas do rei que estão na Rua Direita que vai de São Vicente para a porta
d’El Rei.

Item [G72] Primeiramente uma casa que traz [arrendada] Domingos Afonso que é
sobradada, confronta com Fernão Gonçalves, com casa que traz [arrendada] Abraão
Sofel, com adro da dita igreja e com Abraão Rodrigo.
Paga de foro em cada ano, ao rei _____ 3 libras e meia.

Item [G73] Um campo onde estava alpendre em que costumavam estar as regateiras,
que está sob a cabeceira da igreja de São Vicente e confronta com a rua pública.
No tempo em que havia alpendre tinham que estar ali as regateiras, ainda que não
quisessem; cada uma pagava ao rei, cada dia, dois dinheiros da moeda antiga.

Item [G74] Um alpendre que o rei tem na dita cidade, o qual o dito Rui Peres mandou
fazer por ordem do dito senhor, no qual estão seis tendas. Situado no campo da
Igreja de São Vicente, da parte da Rua Direita. O almoxarife do rei arrenda-as no dia
da feira aos mercadores que nelas queiram estar.

Item [G75] Uma casa que traz [arrendada] Fernão Gonçalves alfaiate, sobradada, con-
fronta com Domingos Afonso, David Favilho, com Aparício Fernandes e com o adro
de São Vicente.
Paga dela ao rei, de foro, em cada ano _____ 50 soldos.

Item [G76] Duas casas sobradadas que traz [arrendadas] Aparício Fernandes, con-
frontam com a casa sobredita, com casa do rei que traz [arrendada] Fernão Peres,
com David Favilho e com rua pública.
Paga delas ao rei de foro, cada ano _____ 55 soldos.

Item [G77] Uma casa sobradada que traz [arrendada] Fernão Peres, confronta com as
casas sobreditas, com David Favilho, com casa do rei que traz [arrendada] Gonçalo
Pais e com a rua pública.
Paga de foro ao rei em cada ano _____ 3 libras.

19
Inserto à margem, não transcrito por Braamcamp Freire.
94 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Item [G78] Uma casa sobradada que traz [arrendada] Gonçalo Pais, confronta com a
casa sobredita, com David Favilho, com Aparício Domingues e com rua pública.
Paga dela em cada ano ao rei _____ 3 libras.

Item [G79] Uma casa sobradada que traz [arrendada] Aparício Domingues, confronta
com casas do rei que traz [arrendadas] Gonçalo Pais, da outra com casas também do
rei que traz [arrendadas] Antom Ergas e com rua pública.
Paga dela foro em cada ano ao rei _____ 45 soldos.

Item [G80] Uma casa que traz [arrendada] Domingos Bento, confronta com casas do
rei que traz [arrendadas] Antom Ergas e da outra com a rua pública.
Paga dela de foro, por ano ao rei _____ 21 soldos.

Item [G81] Uma casa sobrada que traz [arrendada] Antom Ergas que lhe foi empra-
zada sendo um pardieiro. Confronta com casas do sobredito Domingos Bento e da
outra com Vasco Lourenço, genro de Garcia, e da outra parte com casas do rei que
traz [arrendadas] o dito Antom Ergas e pela rua pública.
Paga dela por foro ao rei, em cada ano _____ 40 soldos.

Item [G82] Uma casa sobradada que traz [arrendada] Vasco Lourenço, genro de Gar-
cia. Confronta com casas do rei que traz [arrendadas] o dito Antom Ergas, da outra
parte com casas que foram de Vasco Peres que agora traz [arrendadas] Vasco Bentes
e pela rua pública.
Paga dela por foro ao rei, em cada ano _____ 4 libras.

Item [G83] Duas casas sobradas que traz [arrendadas] Vasco Bentes, sobradadas.
Confrontam com as sobreditas casas do dito Vasco Lourenço, da outra [parte] com
André, genro de Garcia, e pela rua pública.
Paga delas por foro em cada ano _____ 40 soldos de uma e da outra 30 soldos.

Item [G84] Uma casa sobradada de André Domingues que confronta com as casas
do sobredito Vasco Bentes, com casas de Pedro Afonso, escudeiro e pela rua do
concelho.
Paga dela de foro em cada ano, ao rei _____ 25 soldos.

Item [G85] Uma casa que traz [arrendada] Pedro Afonso da outra parte da rua. Con-
fronta com casas que foram de Aldara Anes, da outra parte com casas de Vasco
Fernandes da Corujeira, com a rua pública e com pomar de Diego Peres. As quais são
sobradas e com três portais.
Paga delas por foro em cada ano, ao rei _____ 6 libras.
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
95
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

Item [G86] Uma casa sobradada que traz [arrendada] Fernando Esteves. Confronta
com as sobreditas casas, com casas do rei que traz [arrendadas] António Domin-
20
gues escudeiro [sic] , pela rua do concelho e com a sinagoga.
Paga dela ao rei por foro em cada ano _____ 40 soldos.

21
Item [G87] Uma casa que traz [arrendada] António Domingues, esqueireiro . Con-
fronta com esta casa sobredita, com casas de Afonso Anes, sapateiro, com campo
que traz [arrendado] Mestre Moisés, e com a rua do concelho.
Paga dela de foro ao rei em cada ano _____ 30 soldos.

Item [G88] Uma casa sobradada que traz [arrendada] João Domingues. Confronta
com a casa sobredita, com casas do rei que traz [arrendadas] Afonso Anes, com chão
que traz [arrendado] Mestre Moisés, e com a rua pública.
Paga dela por foro ao rei, em cada ano _____ 30 soldos.

Item [G89] Uma casa sobradada que jazia em pardieiro. Confronta com esta casa so-
bredita, com João Afonso Mageto, com campo que traz [arrendado] Mestre Moisés,
e com a rua do concelho.
Paga dela por foro ao rei, em cada ano _____ 20 soldos.

Item [G90] Uma casa sobradada que traz [arrendada] João Afonso Mageto, que lhe
foi emprazada sendo pardieiro. A qual confronta com casas do sobredito Afonso
Anes, com Abraão Mamom e com a rua do concelho.
Paga dela por foro ao rei _____ 20 soldos.

Item [G91] Uma torre que o rei tem na dita vida (aliás, vila). Uma torre que chamam a
Torre Velha que está na metade da muralha nova, por onde é agora a vila departida.
22
<aqui torna-se acabado o caderno do papel>

Item [G92] As casas assim sobreditas, assim todas vistas e escritas por mim, escrivão,
o dito Rui Peres, o dito juiz, vereadores, procurador, homens bons e tabeliães sobre-
ditos, a saber, para ser[em] demarcado[s] as ruas do dito senhor e as casas e chãos
que ele tem na dita vila, foram postos estes marcos nas divisões por onde partem as
casas do rei, nestes lugares que adiante seguem:

Item [G93] Primeiramente à Porta d’El Rei, na muralha da dita vila foi figurado um
escudo com os sinais do rei. E da dita divisão parte o do rei com a muralha, vindo

20
A palavra deve ser “esqueireiro”, pois assim se encontra emendada na rubrica seguinte.
21
Palavra entrelinhada em correcção de outra. Refere-se a profissão artesanal do couro.
22
Inserto à margem, mas não transcrito por Braamcamp Freire.
96 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

pela Rua Direita como se vai a São Vicente, pelo alpendre das tendas do rei e no fim
das ditas tendas; por onde parte o alpendre da dita igreja, foi posto um marco com os
sinais do rei. E foi posto um padrão com os sinais do rei, sob o adro da dita igreja de
São Vicente, num chão do rei em que costumava estar um alpendre em que estavam
as regateiras. E do dito padrão parte o do rei para fundo [da] Rua Direita indo para a
muralha nova por onde atalharam a vila. E a par de uma escada da muralha principal
foi posto um padrão, além da estalagem do rei e de todas as casas, por onde parte
com o chão de Gil Vicente, tabelião, no qual padrão foram figurados os sinais do
rei. E por estas divisões sobreditas partem as ruas, casas, judiaria, e chãos do rei e
entestam na muralha da dita vila, sobre si, não tendo aí outrem, nenhuns chãos, nem
nenhumas casas; partem pela dita muralha em diante como se vai juntar à Porta d’el
Rei, onde se pôs o dito primeiro marco.

Item [G94) Tem o dito senhor rei uma casa à Porta dos Ferreiros, fora destas sobre-
ditas. A qual trazem [arrendadas] os filhos do falecido Martim Barreiros, a qual con-
fronta com casas da Sé em que mora Leonarda Lourença; da outra parte com casas
da igreja que traz [arrendadas] Álvaro Martins, cónego, prior da [igreja] de Pêro Viseu
e pela rua pública.
Pagam dela de foro ao rei, em cada ano _____ 55 soldos.

BREVE GLOSSÁRIO
• “aforamento” – designação de um tipo de contrato, correspondendo ao
pagamento de um foro, geralmente anual
• “arrendamento” – designação de um tipo de contrato, correspondendo
ao pagamento de uma renda
• “balcão” – acrescento numa casa ao nível dos pisos superiores; se juntava
duas casas era um passadiço;
• “bueiro” – buraco, rego ou cano para esgoto de águas;
• “contrato“ “ēfatiota” – contrato enfitêutico (enfiteuse), geralmente por
um período mais longo;
• “é testa” ou “ētesta” – entesta, confronta, confina com;
• “eixido” – pátio, quintal;
• “emprazamento” – designação de um tipo de contrato, geralmente feito
“em vidas”;
• “ousyáá” (ousia) – capela-mor, arco do cruzeiro sob a capela- mor;
• “sobradada” (casa) – edifício com um andar superior.
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Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

NORMAS SEGUIDAS NA ACTUALIZAÇÃO DO TEXTO


a. As palavras que se acrescentaram no texto surgem entre parênteses rectos.
b. As designações de “vila” e de “cidade” aplicavam-se ambas, nesta época,
à cidade da Guarda, por isso mantiveram-se.
c. Onde, na transcrição de Braamcamp Freire, foi colocada uma barra (/) ou
dupla barra (//), presumindo-se uma tentativa de pontuar, substituiram-se
esses sinais por ; (ponto e vírgula) e por . (ponto), respetivamente.
d. O “E” das frases “E paga del “ ou “E paga dellas” foi convertido em ponto
final, fazendo-se parágrafo.
e. Sempre que no texto de Braamcamp Freire tenha sido acrescentada uma
nota contendo anotações marginais do manuscrito, essas anotações fo-
ram reintegradas no texto, em itálico e sinalizadas por parênteses angu-
lares, por exemplo: <ora o tras Vicente Arragel por 20 soldos>.
f. O vocábulo inicial “Item” manteve-se mas foi acrescentada uma numera-
ção entre parênteses rectos, iniciada por [G1], o G referindo-se à Guarda.
g. Desenvolveram-se todas as abreviaturas, que passaram a ser escritas por
extenso (incluindo vocábulos onde o til ~ é sinal de abreviatura, como em
hũa que foi atualizada para uma);
h. Actualizaram-se os nomes próprios pela grafia atual;
i. À forma verbal “traz” foi acrescentada “arrendada”, em parênteses retos
[arrendada];
j. Nos numerais, na referência ao século foi adotada a numeração romana,
e nas datas e pagamentos foi usado o algarismo;
k. Normas gerais da atualização ortográfica:
• as letras maiúsculas no meio de um vocábulo actualizaram-se para
minúsculas;
• foram eliminadas as consoantes que não se leem (p. ex. h);
• eliminaram-se as duplas consoantes se essa for a ortografia atual (p.
ex. cassa foi atualizada para casa);
• as duplas vogais foram eliminadas, exceto quando se trata de uma
contração com valor fonético (p. ex. aa passa a à; ee passa a eis);
• nos vocábulos onde, numa sílaba central, existe uma consoante
maiúscula, foi duplicada essa consoante;
• o y e o j foram substituídos por i (p. ex. Faja ou Faya, correspondente
a Faia);
• substituiu-se o b por v, e o u por v seguindo a grafia atual;
• sempre que existe uma apócope foi inserido um ‘ (apóstrofo) (p. Ex.
dellRey passou a d’el Rei;
98 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

• todos os nomes de pessoas e de lugares passaram e ser escritos com


inicial maiúscula;
• “casa tyreira” ou “casa tireyra” foi atualizada para casa térrea. As ca-
sas com um andar superior são designadas por “sobradadas”;
• a contração “cõ A” foi substituída por da;
• “é testa” ou “ētesta” foi atualizada para entesta, significando nas de-
marcações antigas “confina com”;
• “as quaes casas” foi atualizada para essas casas;
• “da outra parte” foi atualizada como do outro lado;
• “de contra o muro” foi atualizada para contra a muralha, significando
por vezes face à muralha;
• “e parte” foi atualizada como confronta com, e foram suprimidas re-
petições deste vocábulo;
• “El Rei” foi atualizado para o rei (p. ex. “campo do rei”);
• “hũa” foi atualizada para uma;
• “jazem trala judaria” foi atualizada por na judiaria;
• “muro” foi atualizado por muralha;
• “outro sy” foi atualizado para também;
• “paga dellas” foi atualizada para paga por elas;
• “paradeyro” foi atualizada para pardieiro;
• “per fundo” foi atualizada para ao fundo, significando por vezes a úl-
tima parcela do terreno;
• “suso dicta” e “sobre dicta” foram atualizadas para sobredita;
• “suso escrita” foi atualizada para acima escrita.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A actualização que apresentamos, e a interpretação do texto que lhe está
subjacente, representam um contributo preliminar a estudos de maior pormenor
sobre esta área da cidade amuralhada da Guarda. A riqueza deste documento
abre caminho para investigações sobre aspetos sociais, económicos, profissio-
nais, patrimoniais, entre outros, da vida desta comunidade durante a Baixa Idade
Média – período marcante para a cidade da Guarda.
A atualização de qualquer texto histórico é sempre um desafio e um risco.
Mas pode ser também a forma de o dar a ler a um público que, de outra forma,
lhe seria alheio. Este é apenas um primeiro contributo nesse sentido.
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
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Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

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100 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Quadro/Resumo das informações contidas no documento

Ref. Tipo de Propriedade Titular do contrato


[G1] Uma casa sobradada João Vasques
[G2] Um campo João Vasques
[G3] Três casas Abraão Mamom, Judeu Sapateiro
[G4] Uma casa sobradada Isaac Cacez Judeu
[G5] Uma casa sobradada Abraão Sapateiro, filho de Judas
de Linhares
[G6] Um pardieiro Mestre Moisés
[G7] Um pardieiro Juça de Leiria
[G8] Um pardieiro, sem paredes (que foi de) Abraão Ferreiro
[G9] Uma casa Samuel da Faia
[G10] Uma casa sobradada Judas Ferreiro
[G11] Uma casa sobradada Samuel de Munhom
[G12] Uma casa térrea Isaac Cacez
[G13] Um pardieiro Isaac de Crasto
[G14] Um pardieiro David Favilhom
[G15] Uma casa sobradada Mestre Moisés
[G16] A Sinagoga [Comuna de] Judeus
[G17] Uma casa térrea Infante Jude
[G18] Uma casa sobradada Mestre Juça
[G19] Casa da atafona David Falilhom e Abraão de Leiria
[G20] Casa sobradada Álvaro Gil, judeu
[G21] Casa sobradada Abraão Mamom
[G22] Uma casa Suas Judas
[G23] Uma casa Daniel Judeu
[G24] Uma casa Dona Fadona
[G25] Uma casa Antom Ergas
[G26] Uma casa Antom Ergas
[G27] Uma casa nova sobradada Isaac Ferreiro
[G28] Uma casa térrea Almofacem
[G29] Uma casa Fabibi
[G30] Uma casa Santom [Sem Tob] Mamom
[G31] Uma casa Domingos Martins, carniceiro
[G32] Uma casa destruída Isaac Ferreiro
[G33] Um pardieiro Afonso Geraldez
[G34] Uns açougues derrubados _________
[G35] Umas casas balcoadas Rabi David
[G36] Um pardieiro derrubado David Falilho
[G37] Uma casa Rabi David
[G38] Uma casa sobradada David Falilho
[G39] Umas casas sobradadas Samuel Cacez
[G40] Uma casa térrea meia Corocha
sobradada
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
101
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

[G41] Uma casa sobradada Jacob Pernica


[G42] Uma casa sobradada Abraão Rodrigo
[G43] Uma casa sobradada Abraão Cofell
[G44] Uma casa sobradada Isaac de Crasto
[G45] Duas casas sobradadas Moisés de Crasto
[G46] Uma casa sobradada David Favilho (o sobrado), Cide (o sótão)
e um sótão
[G47] Uma casa sobradada Salomão Pernica
[G48] Uma casa térrea Domingos Apariço
[G49] Uma casa térrea Maria Abril
[G50] Uma casa Gil Vicente
[G51] Duas casas aforadas Giral Dominguez
(uma sobradada, uma térrea)
[G52] Uma casa térrea Domingas Apariço
[G53] Uma casa térrea Branca Peres
[G54] Uma casa Estevão Peres, almoxarife
[G55] Duas casas sobradadas João Pais
[G56] Duas casas Pedro Afonso
[G57] Uma casa Gonçalo de Avelãs
[G58] Uma casa Gonçalo Geraldez
[G59] Uma casa sobradada Afonso Domingues
[G60] Uma casa sobradada Afonso Martins
[G61] Uma casa Estevão Peres, almoxarife
[G62] Uma casa metade sobradada Beito Goncalves
[G63] Uma casa metade sobradada João Coelho
[G64] Uma casa Gonçalo Martins, peleiro
[G65] Duas casas sobradadas Estevão Peres (metade); Maria Anes;
Vasco Esteves
[G66] Uma casa André Domingues da Faia
[G67] Umas casas Gil Vicente, tabelião
[G68] Uma casa Martim Anes, almocreve
[G69] Uma casa Afonso Vicente, clérigo
[G70] “Uns pardieiros sem telha, ___________
nem madeira”
[G71] Uma casa Não identificado
[G72] Uma casa sobradada Domingos Afonso
[G73] Um campo que costumava Regateiras em dia de feira
ser alpendre das regateiras
de S. Vicente
[G74] Um alpendre no campo Mercadores em dia de feira
de S. Vicente
[G75] Uma casa sobradada Fernão Gonçalves, alfaiate
[G76] Duas casas sobradadas Apariço Fernandes
[G77] Uma casa sobradada Fernão Peres
[G78] Uma casa sobradada Gonçalo Paes
[G79] Uma casa sobradada Apariço Domingues
[G80] Uma casa Domingos Beito
102 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

[G81] Uma casa sobradada Antom Ergas


[G82] Uma casa sobradada Vasco Lourenço, genro de Garcia
[G83] Duas casas sobradadas Vasco Bentes
[G84] Uma casa sobradada André Domingues
[G85] Uma casa Pedra Afonso
[G86] Uma casa sobradada Fernande Esteves
[G87] Uma casa António Domingues, esqueireiro
[G88] Uma casa sobradada João Domingues
[G89] Uma casa sobradada ___________
que jazia em pardieiro
[G90] Uma casa sobradada João Afonso Mageto
[G91] Uma torre (Torre velha) ____________
[G94] Uma casa fora da Porta Filhos de Martim Barreiros
dos Ferreiros
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
103
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

Quadro/Resumo da Onomástica (Nomes de pessoas)

Nomes com grafia original Referência/Localização


no texto
Abraão / Abrááo Çofell G42; G43; G72
Abraão de Leyreea G17; G19; G32
Abraão fereiro / fereyro G7; G8
Abraão / Abrááo Mamõ G5; G20; G21; G90
Abraão Mamom (filho de Dona Fadona) G24
Abraão Mamõ Judeu, Çapateiro G3
Abraão Mamõ çapateiro G4
Abrááo Rodrigo G39; G42; G43; G72
Abraão Çapateiro, filho de Judas de Lynhares G5
Afonse Annes Çapateyro G87
Afonse / Afomso Annes G88; G90
Afomso Dominguez G58; G59; G60
Afomso Giraldez G21; G24; G31; G32; G33
Afomso Martīz / Martjnz G59; G60
Afomso Viçente G70
Afomso Viçente clerigo G68; G69
Aldara Annes G85
Almofaçem G26; G28
Aluar Gil G19; G32
Aluar Gil Judeu G20
Aluaro Martīz Coonygo (prior da de Pero Viseu) G94
Andre (genro de Garçia) G83
Andre da Faiya G65
Andre Domjnguez G84
André Domynguez da Faya G66
Antom / Antõ Ergas G23; G25; G26; G28; G79;
G80; G81; G81; G82
António Dominguez escudeyro G86
Antonio Domjnguez esqueireyro G87
Apariço Dominguez / Domjnguez G78; G79
Apariço Fernandez G75; G76
Baril Judeu G2
Beito Gonçalluez G62; G63
Bell Jfante G19
Branca Perez (foi manceba do prior) G52; G53; G54
Cide / Cyde G45; G46; G47
Corocha G40
Crara Cremente G36
Danyell G22; G25
Dannyell Judeu G23
Dauy Falido G29
104 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Daui / Dauy / Falylhõ / Falilho / Falylho G18; G19; G35; G36; G38;
G39; G40; G45; G46; G47
Daui / Dauy Fauyllõ / Fauyllo / Fauylho G14; G32; G42; G46; G75;
G76; G77; G78
Diego Perez G85
Dom Falylhõ G13
Domyga Apariço G52; G65; G66
Domygo / Domingos / Domygos Apariço / Aparyço G35; G47; G48; G49
Domygos / Domygos Afomso G43; G72; G75
Domygos Beito G80; G81
Domygos Martjnz G27
Domygos Martīz / Martjnz (carnyçeiro) G31; G33
Dona Fadona G24
Dona Fadonha G27; G33
Dona Fordonha G21
Fauyuy / Fauyue G28; G29; G38
Fernãde Esteuēz G86
Fernã / Fernan Gonçalluez G39; G72
Fernan Gonçalluez Alfaite G75
Fernam Perez G76; G77
Franca, a Cucaracha G37
Gill Afomso G33
Gill Viçente G50
Gill Viçente (tabaliom) G67; G93
Girall Dominguez G50; G51
Gonçallo d[e]Auelláás G56; G57
Gonçallo Giraldez G57; G58; G59; G61
Gonçallo Martiz piliteyro (peleiro) G54; G63; G64
Gonçalo / Gonçallo Paez / Paaez G29; G38; G77; G78; G79
Jfante Jude G17; G18
Jsaque de Crasto G12; G13; G41; G44;
Jsaquy de Crasto (irmão de Mousem) G45
Issaque / Jsaque Cacez G3; G6; G11; G12
Isaque / Jsaque Cacez Judeu G4
Isaque / Jsaquy fereiro / fereyro G24; G27; G30; G31; G32;
Jaco Pernyca G40; G41; G44
Janeyro G60; G61
Johana Perez G61
Johã Afomso Mageto G3; G10; G89; G90
Joham / Johã Coelho G55; G62; G63; G64
Johã / Joham de Deos G52; G54
Joham Domjnguez G88
Joham / Johã Paez / Paaez G54; G55; G62; G63
Johã Pascooal G38
Johã Vaasquez G1; G2
Juça de Leireea G6; G7
A JUDIARIA DA GUARDA EM 1395
105
Rita Costa Gomes (Coord.); Berta Jacob; Daniel Martins; Maria José Neto; Antonieta Pinto; Tiago Pinheiro Ramos

Judas de Lynhares G3; G10


Judas fereyro G5; G10
Lionarda Lourença G94
Maria Abril G49; G50
Maria Ãnes G65
Martjm / Martim Annes G67; G69
Martim Annes Almocreue G68
Martim Gauyam G65
Martim Bareiros (filhos de) G94
Meestre Juça G16; G18; G22; G23
Meestre Mousem G4; G5; G6; G7; G10; G15; G16;
G87; G88; G89
Mousem de Crasto G35; G36; G37; G41; G44;
G45; G46
Munhum G9
Pedro Afomso G16; G55; G56; G57; G85
Pedro Afomso escudeyro G84
Raby / RRaby Dauy G35; G37
Rodriga Afomso G70; G71
Salamõ G38
Salamõ Adida G35
Salamõ Pernyca G46; G47
Samuel / Samuell Cacez G38; G39; G42
Samuell / Samuel da Faja G8; G9; G11
Samuell de Munhõ G11; G12
Sancha Annes / Ãnes /Anes G48; G49; G50; G51
Santem / Santom G27; G31
Santõ Mamõ G30
Steuam Afomso G53; G64; G65
Steuam Perez G55; G56; G59; G60; G64; G65
Steuam Perez Almuxarife G53; G54; G61
Suas Judeu G22; G23
Vaasco Bentez G82; G83; G84
Vaasco Esteuēz G52; G65
Vaasco Fernandez da Curugeyra G85
Vaasco Perez G82
Vicento aRagel G8
Vaasco Lourenço (genro de Garçia) G81; G82; G83
QUANDO O METRO CHEGOU À GUARDA:
A GEOGRAFIA DOS PESOS E MEDIDAS
DA REGIÃO BEIRÃ
RITA COSTA GOMES (Coordenação)
ISABEL LOPES
ISABEL NABAIS
MARGARIDA PAULINO
CÁTIA RAMOS
JORGE SOUSA
JORGE TERRAS

INTRODUÇÃO
Muitos de nós lembramos ainda a adoção da moeda única europeia, o euro,
e a sua substituição da antiga moeda nacional portuguesa. Foi transformação de
grande significado e consequências para o país mas que ocorreu, do ponto de
vista prático e da vida quotidiana, de modo relativamente fácil e sem sobressal-
tos. Ambos sistemas monetários são de base decimal, representando portanto
um mesmo modo de calcular e realizar as operações aritméticas simples do nos-
so dia-a-dia. Um mesmo modo fundamental de relacionamento com as realida-
des monetárias encontrava expressão, numa ou noutra moeda.
Bem diferente era a situação da sociedade portuguesa no século XIX, quan-
do o governo do país resolveu adotar o sistema métrico decimal. Não se con-
fundam, no entanto, a diversidade dos antigos instrumentos de medida, na sua
distribuição no espaço ou na sua variação ao longo do tempo, com o sistema de
medidas que então vigorava, permitindo o cálculo simplificado de equivalências
entre unidades dentro de cada conjunto, e a sua interrelação com outros siste-
mas através de equivalências externas, necessárias à troca mercantil e facilita-
das por tentativas de unificação promovidas pelos soberanos renascentistas. A
“reforma” (palavra fundamental no vocabulário político coevo) das medidas que,
em Portugal como em Espanha, se incentivou na mesma conjuntura de meados
do século XIX (entre 1849 e 1852), visava com audácia substituir um universo de
variabilidade regional e imprecisão relativa, onde o forte e o poderoso se impu-
nham ao fraco no acto mesmo da medição, por um universo de precisão que se
queria universal.
108 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Havia que recensear e conhecer as realidades de cada região, objectivo con-


sensual bem estabelecido desde o século anterior. Já os Forais manuelinos, na
viragem do século XV para o século XVI, geralmente traduziam e interpretavam
as medidas constantes dos antigos forais, dando-nos hoje preciosas informa-
ções sobre as medidas e as equivalências em uso nas várias localidades da Bei-
ra. Na mesma conjuntura, ideava-se e executava-se uma unificação das medidas
à escala do reino, realizada pelo governo do Rei D. Manuel.
Criada em Dezembro de 1855, a Inspeção Geral dos Pesos e Medidas do
Reino enviou os seus agentes para os distritos, com o fito de recensear e ava-
liar a situação em cada território. A elaboração de um relatório geral, publi-
cado em 1859 por Fradesso da Silveira, utilizaria de modo sintético os dados
então recolhidos.
Relendo as comunicações enviadas, com disciplinada regularidade, pelo
inspetor local da Guarda para Lisboa, posicionamo-nos na charneira de duas
realidades em confronto: as de um país em laboriosa transformação política e
económica, e as de um país projetado pelo governo central oitocentista. Com a
extinção das inspeções em 1868, encerrava-se este episódio da lenta penetra-
ção do sistema métrico decimal na Guarda, processo muito mais longo e que im-
plicou várias gerações. Processo que permanece largamente por estudar, tanto
na sua dimensão local como na dimensão comparativa ibérica. [RCG]

Metro Standard, Etienne Lenoir, 1799 (creativecommons).

A GEOGRAFIA DOS PESOS E MEDIDAS DA REGIÃO BEIRÃ


A medição é uma componente essencial da vida económica das sociedades
e também, em muitos aspetos, da sua vida social. Da procura de trocas justas
decorre a necessidade de dispor dos mecanismos adequados para as confirmar.
QUANDO O METRO CHEGOU À GUARDA: A GEOGRAFIA DOS PESOS E MEDIDAS DA REGIÃO BEIRÃ
109
Rita Costa Gomes (Coord.); Isabel Lopes; Isabel Nabais; Margarida Paulino; Cátia Ramos; Jorge Sousa; Jorge Torres

Ao longo dos tempos, muitas foram as formas de medir bens e produtos.


No passado, quando as comunidades viviam num relativo isolamento, as suas
trocas eram efetuadas numa área limitada e realizadas, na maior parte dos
casos, segundo um sistema de troca direta. Tornava-se assim fácil chegar a
um entendimento sobre as formas de medição a usar, nos casos em que esta
pudesse ser relevante.
Com o desenvolvimento da atividade comercial, cada produto passou a sujei-
tar-se, tendencialmente, a sucessivas transações, podendo percorrer longas dis-
tâncias. Por outro lado, a generalização do uso do dinheiro fez com que se passas-
se de um sistema de trocas diretas para outro em que a moeda ia intermediando as
transações. Era então imperativo criar padrões que permitissem avaliar de forma
clara as dimensões e peso dos produtos, área dos terrenos ou duração do tempo.
Alguns dos mais antigos instrumentos de medição de que dispomos fazem
parte do legado que os romanos espalharam pelo seu império e que perdura-
ram após a sua extinção. Sofrendo uma inevitável sucessão de alterações ao
longo dos tempos, acabaram por surgir discrepâncias entre as dimensões das
diferentes unidades de medida, quando avaliadas com distintos instrumentos
e em locais afastados. O contacto com diferentes povos que usavam outras
unidades de medição, como por exemplo os árabes, resultou na adoção de
outras unidades de medidas, aumentando a diversidade de padrões em uso.
Ao longo da Idade Média, foram sendo marcados na superfície de paredes
ou muralhas os padrões oficiais em uso nos respetivos municípios. Estas foram
as primeiras manifestações no sentido de uniformizar as medidas. De forma a
tornar mais fácil a cobrança de diferentes taxas, impostos ou outros pagamentos
de que beneficiavam, alguns monarcas tentaram criar um sistema uniforme de
medidas a nível nacional. Os primeiros monarcas a tomar medidas neste senti-
do foram D. Afonso IV (lineares) e D. Pedro I (de capacidade). No entanto, terá
sido o rei D. Manuel I a concretizar a principal reforma, cujas bases vigoraram
em Portugal praticamente até ao século XIX. O monarca procedeu igualmente à
distribuição de cópias dos padrões dos pesos a muitas localidades do reino. Mais
tarde, foi D. Sebastião que tomou iniciativa idêntica relativamente às medidas de
capacidade.
Com o século XVIII, dentro da lógica do espírito do Iluminismo, acabou por
ser adotado em França um novo sistema de medição, baseado no metro, defini-
do a partir do comprimento estimado do meridiano terrestre.
Adotado naquele país em 1795, embora com resistências internas, acabou
por ser definitivamente aceite em 1840. Aos poucos, os restantes países foram
aderindo a este novo sistema. Portugal, apesar dos atrasos provocados pela
instabilidade interna das primeiras décadas do século XIX, acabou por ser dos
primeiros a aderir oficialmente, em 13 de dezembro de 1852, apenas antecedido
pela Bélgica, Luxemburgo, Holanda, Chile e Espanha.
110 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Esta decisão régia definia em Portugal um prazo de dez anos para a concreti-
zação a nível nacional da generalização do novo sistema. Durante este período,
diversas iniciativas foram sendo levadas a cabo a fim de assegurar o cumprimen-
to do disposto. Foram feitos levantamentos das medidas em vigor pelo país, foi
feita a divulgação do novo sistema, formados os professores que iriam poder
transmiti-lo às gerações seguintes, etc.
No âmbito deste processo, no ano de 1859 foi enviado para o distrito da
Guarda o inspetor Francisco António da Silva Neves, acompanhado por um aferi-
dor. Ao longo de vários anos, Silva Neves dedicou-se a fazer o levantamento das
medidas utilizadas em cada concelho, verificando a sua nomenclatura e dimen-
sões, a equivalência destas com o novo sistema métrico, e o modo como eram
aferidas; contactou igualmente com professores para divulgar e promover o
novo sistema. Ao mesmo tempo, foram-lhe sendo solicitadas informações diver-
sas sobre a atividade económica da região, destinadas aos inquéritos à atividade
industrial que iam sendo publicados. De toda a sua ação foi dando conhecimento
aos seus superiores em Lisboa através de numerosa correspondência, de que
existe, no Arquivo Distrital da Guarda, o respetivo livro de registo.
Com base, essencialmente, na consulta deste documento, sistematizou-se
primeiro a informação relativa aos percursos realizados pelo inspetor no decur-
so do seu levantamento no terreno, quais as medidas que encontrou e a sua
equivalência no sistema métrico decimal, os diferentes contactos estabelecidos,
e algumas das suas ideias relativamente à concretização da sua tarefa e face
ao panorama encontrado no distrito. O nosso objetivo é, a partir desta fonte,
construir uma geografia do sistema de pesos e medidas utilizadas no distrito da
Guarda na conjuntura inicial da introdução do sistema decimal. Por fim, impor-
tou-nos identificar algumas linhas de investigação que posteriormente poderão
vir a complementar e enriquecer este primeiro contributo.

O INSPETOR DE PESOS E MEDIDAS DO DISTRITO DA GUARDA


No dia 23 de setembro de 1859, após uma viagem inicial de barco até Abran-
tes e posteriormente por terra atravessando a serra da Gardunha, chegou à
Guarda Francisco António da Silva Neves. Tinha sido nomeado Inspetor dos
Pesos e Medidas do Distrito da Guarda e vinha acompanhado por um aferidor,
além de transportar consigo todo o material necessário para o funcionamento
da repartição.
Trazia como função implementar o novo sistema métrico decimal junto dos dife-
rentes municípios do distrito, e fazer o levantamento das antigas medidas em uso,
determinando a sua equivalência no novo sistema. Uma tarefa adicional consistia
em formar os professores locais, para que pudessem ensinar corretamente o novo
QUANDO O METRO CHEGOU À GUARDA: A GEOGRAFIA DOS PESOS E MEDIDAS DA REGIÃO BEIRÃ
111
Rita Costa Gomes (Coord.); Isabel Lopes; Isabel Nabais; Margarida Paulino; Cátia Ramos; Jorge Sousa; Jorge Torres

sistema. A par destas tarefas principais, foi-lhe sendo solicitado que recolhesse
outras informações sobre a atividade económica do distrito.
De todo o seu trabalho fez um registo metódico no livro de correspondência
enviada, deixando nele, para além da informação factual, muitas opiniões pes-
soais sobre a situação que encontrou, queixas relativas a situações irregulares,
preocupações com necessidades por colmatar.
Tal como a maioria dos responsáveis distritais, era militar, tendo permanecido
na Guarda até 1862. Localmente, beneficiou, para as suas deslocações, da logís-
tica do Regimento de Infantaria 12.

O ITINERÁRIO PERCORRIDO NO LEVANTAMENTO


O seu périplo inicial foi bastante rápido. Em cerca de mês e meio, percorreu
todos os concelhos do distrito, levando às suas Câmaras Municipais o novo sistema
e fazendo, ao mesmo tempo, o levantamento das medidas antigas aí existentes.

Mapa 01. Itinerário do Inspetor de Pesos e Medidas do Distrito da Guarda.


112 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fez o seu trabalho em duas longas viagens, com uma passagem pela Guarda.
Começou o percurso partindo desta cidade em direção a Manteigas, seguindo
depois por Gouveia, Seia, Fornos de Algodres, Aguiar da Beira, Trancoso e Ce-
lorico da Beira, regressando então à Guarda. Daqui partiu de novo para a zona
fronteiriça do distrito, visitando primeiro o Sabugal, seguindo de Almeida, Figuei-
ra de Castelo Rodrigo, Vila Nova de Foz Côa, Meda e Pinhel.
Deu esta tarefa por terminada no dia 19 de novembro de 1959 enviando no
dia seguinte para Lisboa o respetivo relatório.

LEVANTAMENTO DE MEDIDAS
Foram apresentados ao inspetor do distrito padrões de todo o tipo. Ele regis-
tou cuidadosamente a presença e omissão de padrões de medidas, e a utilização
de padrões incompletos, mutilados, ou irregulares. Por exemplo, ele questio-
nou-se como seria possível medir azeite com padrões apresentados como quar-
tilhos, ou por medidas feitas de madeira? Como é que nos antigos e extintos
concelhos de Valhelhas e Famalicão podiam aferir medidas uma vez que existia
apenas uma medida que lhe era apresentada, o cubo?
Em 30 de Novembro de 1859, Francisco Neves referia as suas preocupações
na correspondência da Inspeção das Peças e Medidas do Distrito da Guarda:

“Que os padrões de que se não comparou o côvado, não o tinham nos respectivos
distritos, ninguém afere semelhante medida, nem se serve dela” (Folio 35 verso)

“Que o motivo de esses alguns padrões se não compararem as séries completas de


medidas de capacidade para secos ou para líquidos, e dos pesos, foi por não haver
as que deveriam de se apresentar (…) para aferição (…)”. (Folio 35 verso)

“Que do que digo, de ser o azeite comprado e vendido n’alguns concelhos por al-
queires, se não deve esconder que se não compra e vende também por medidas
mais pequenas, porque efectivamente, nada se encontra até ao quarto de quartilho
nalgumas terras”.

“(…) que em concelho nenhum pude descobrir qualquer escrito sobre as respectivas
medidas (…).” (Folio 36)

A relação de achados que Francisco Neves apresenta inclui as inscrições que


vai encontrando nos diferentes padrões que lhe são apresentados. É o caso da
inscrição existente na parte superior de um marco de duas arrobas da Câmara
Municipal de Trancoso:
QUANDO O METRO CHEGOU À GUARDA: A GEOGRAFIA DOS PESOS E MEDIDAS DA REGIÃO BEIRÃ
113
Rita Costa Gomes (Coord.); Isabel Lopes; Isabel Nabais; Margarida Paulino; Cátia Ramos; Jorge Sousa; Jorge Torres

Figura 01. Desenho da Inscrição de um marco de duas arrobas constante na documentação


da Inspeção Geral de Pesos e Medidas do Distrito. Extrato do fólio 33 verso.

Na Guarda, foram então encontrados num armário padrões de medidas de


capacidade datados de 1575, reinado de D. Sebastião. Francisco Neves repro-
duziu no seu livro de registo a imagem identificativa destes padrões, em tudo
semelhantes aos que se conservam no espólio do Museu da Guarda (por ex.
Inventário número 3-C-D).

Figura 02. Desenho da marca de identificação do padrão de D. Sebastião, constante da documentação


da Inspecção Geral de Pesos e Medidas do Distrito. Extrato do fólio 59 verso. Compare-se
114 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

PADRÕES DE MEDIDAS UTILIZADAS NO DISTRITO DA


GUARDA
MEDIDAS LINEARES
Vara
Côvado

MEDIDAS DE CAPACIDADE
Para secos Para Líquidos
Alqueire Meio Almude Cântaro ou Alqueire
Meio Alqueire Cântaro de 1/3 de Almude
Quarta Quartão do Almude ou Meio Alqueire
Oitavo Canada
Meia Canada
Quartilho
Meio Quartilho
Quarto de Quartilho
Quarta de 1/2 Almude, e Quarta a 15 Quartos

MEDIDAS ESPECIAIS
Para secos Para Líquidos
Cubo Alqueire para Azeite
Meio Cubo Meio Alqueire
Cubo Panela ou 4.º do Alqueire
Quartilho
Meio Quartilho

PESOS
Duas Arrobas
Uma Arroba
Meia Arroba
Oito Arrateis
Quarto Arrateis
Dois Arrateis
Um Arratel
Quarta
Duas Onças
Uma Onça
Meia Onça
Duas Oitavas
Uma Oitava
Meia Oitava

Quadro 01. Padrões de Medidas registados por Francisco Neves


no Distrito da Guarda.

OUTRAS MEDIDAS AINDA HOJE EXISTENTES E NÃO REFE-


RIDAS PELO INSPETOR
Em alguns edifícios da região, existem gravadas algumas medidas-padrão,
que não foram referidas pelo autor. Apresentam-se a seguir alguns exemplos.
QUANDO O METRO CHEGOU À GUARDA: A GEOGRAFIA DOS PESOS E MEDIDAS DA REGIÃO BEIRÃ
115
Rita Costa Gomes (Coord.); Isabel Lopes; Isabel Nabais; Margarida Paulino; Cátia Ramos; Jorge Sousa; Jorge Torres

Figura 03. Côvado da Igreja da Misericórdia do Sabugal (1250).

Figura 04. Côvado de Moreira de Rei.


116 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 05. Côvado e vara inscrito na muralha da Sortelha.

EQUIVALÊNCIA DAS MEDIDAS COM O SISTEMA MÉTRICO


O levantamento de pesos e medidas, realizado por Francisco Neves em mea-
dos do século XIX, revelou a diversidade de padrões utilizados, como se pode
verificar pelo quadro de Padrões de Pesos e Medidas utilizados no Distrito da
Guarda. De uma análise breve ao sistema de pesos utilizados no reinado de
D. Manuel I podemos afirmar que subsistiram no Distrito da Guarda a Arroba, o
Arrátel, a Onça, e a Oitava ou Cruzado.
A equivalência em Quilogramas destas unidades de medida manteve-se no
1
distrito até meados do século XIX. Tal também acontecia com as medidas li-
neares portuguesas usadas desde a Idade Média, com a permanência da Vara
2
(1,10m) e do Côvado (0,66m).
Na relação com a vizinha Espanha, sobretudo nos concelhos portugueses
mais próximos da fronteira, como Almeida e Sabugal, a equivalência em litros
do Cântaro, também designado de Meio Almude ou Alqueire, aproximava-se dos
15,98 litros usados em Salamanca. Em Almeida, o Cântaro equivalia a 15,70 litros
3
e em Sabugal 14,32 litros.

1
Luís Seabra Lopes, “Sistemas legais de Medidas de Peso e Capacidade, do Condado Portucalense ao Século
XVI”, Portugália, nova série, vol. XXIV (2003), p.150. Ver também a transcrição da tabela de equivalências
realizada pelo inspetor Francisco das Neves.
2
Mário Jorge Barroca, “Medidas-Padrão Medievais Portuguesas”, Revista da Faculdade de Letras. História,
2ª Série, vol. 9 (1992), p.55
3
Gustavo Puente Feliz, “El sistema Métrico Decimal. Su importancia e implantación en España”, Cuadernos
de Historia Moderna y Contemporánea, 2 (1982), pp. 95-125.
QUANDO O METRO CHEGOU À GUARDA: A GEOGRAFIA DOS PESOS E MEDIDAS DA REGIÃO BEIRÃ
117
Rita Costa Gomes (Coord.); Isabel Lopes; Isabel Nabais; Margarida Paulino; Cátia Ramos; Jorge Sousa; Jorge Torres

TRABALHOS EMPREENDIDOS E DIFICULDADES SENTI-


DAS PELO INSPETOR
Através da correspondência expedida foi possível perceber os trabalhos
e dificuldades encontradas no processo de implementação inicial do Sistema
Métrico Decimal. De entre os trabalhos empreendidos pelo inspetor, e no que
concerne à verificação do modo como o novo sistema métrico era introduzido
e divulgado junto das populações, verifica-se que as suas tarefas incluíam ma-
pas de vendas de pesos, a relação dos aferidores de medidas do Distrito, e a
relação dos professores do ensino particular e público que estavam habilitados
para ensinar aos seus alunos o novo sistema. Na implementação do sistema,
o inspetor foi também assinalando as principais dificuldades que encontrou: a
resistência dos negociantes, a incapacidade administrativa para fazer cumprir a
lei, e os prejuízos que derivavam da não utilização do sistema. Francisco Neves
reclamava ainda a atuação das autoridades nesta matéria como se pode ver por
este excerto dirigido ao Chefe da Repartição de Pesos e Medidas:

“… cumpre-se lembrar a V.ª Ex.ª (baseando-me no grande desleixo que tenho visto
n’estes Districto da parte das autoridades em fazer cumprir a lei) que do Ministério
competente baixe uma Portaria às Cammaras e Administrações do Concelho para
que os oficiais de diligências e aferidores deem immediatamente parte às auctori-
dades competentes de qualquer de qualquer irregularidade que encontrem sendo
logos os infractores ponidos com o rigor da lei, e força bastante aos empregados da
Repartição de Pezos e Medidas para per si só poderem multar e prender (dando em
seguida parte) qualquer pessoa que nas suas tranzacções se afaste do que exige o
novo systhema.” (Folio 80 rosto)

Seguindo as diretivas da administração central, o Inspetor avaliava o modo


como o ensino ia aplicando o novo sistema e ia explicando o modo como prosse-
guia esse ensino e a formação dos professores:

“Nas escolas em que os professores teem diploma do systema métrico encontrão-se


muitos alunos bem instruídos no mesmo systema. Há algumas cujos professores ain-
da não foram leccionados, e outras que sendo creadas recentemente foram os seus
professores aprovados sem saberem o systhema métrico.” (Folio 80 verso)

Além destas tarefas, Francisco Neves foi responsável pela recolha de infor-
macões e dados quantitativos sobre as indústrias do concelho, pela aferição do
número das praças do Regimento de Infantaria 12, e foi também elaborando uma
listagem de todos os professores do distrito.
118 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

CONCLUSÕES
Pela informação recolhida a partir do manuscrito consultado, podemos cons-
tatar que havia uma situação muito diversa nos catorze concelhos do distrito,
embora se possa dizer, com uma boa dose de certeza, que a regra era haver
muito pouco cuidado com a conservação e uso dos padrões oficiais.
O inspetor considerou essa situação extremamente desvantajosa para as
populações locais, pois os comerciantes usavam uma tal variedade de medidas
– principalmente para os cereais, vinho e azeite – que era impossível assegurar
a justiça das transações.
Da sua diligência e curiosidade em inquirir os costumes e práticas locais re-
sultou também uma constatação do muito que haveria a fazer, em particular no
âmbito da sociedade rural. Por exemplo, o inspetor lamentou não haver uma me-
dida para o cálculo das superfícies, tão importante para a medição dos terrenos.
Tanto se usava como unidade a área que se podia lavrar num dia, como o que se
podia semear com um alqueire de centeio, ou ainda, para o caso das vinhas, o
que um homem podia cavar num dia.
Os aferidores dos concelhos foram geralmente vistos por ele como inaptos e
infiéis, o que agravava a falta de zelo por parte das Câmaras Municipais, factores
de que se queixou amargamente aos seus colegas de Lisboa.
A aferição de medidas e a aquisição de jogos de pesos e balança tinham
custos elevados, pelo que não estavam ao alcance de todos, havendo mesmo
quem, não podendo deixar de o fazer, tivesse que optar pela compra em pres-
tações.
Sendo uma das suas tarefas mais persistentes, o inspetor deixou bem claro
nos seus escritos o zelo que dedicou ao controlo e à formação dos professores,
tarefa fundamental para a correta implementação do novo sistema.
A riqueza e diversidade de informação contida neste manuscrito não se pode
esgotar no trabalho agora apresentado, que deve ser encarado apenas como
uma primeira achega para o conhecimento de um tema de grande importância
na história da Guarda e da sua região.
Outras pistas nos gostaria seguir para aprofundar o que se sabe sobre a vin-
da do sistema métrico para esta região e as realidades que aqui vigoravam nesta
conjuntura de meados do século XIX.
Eis algumas que nos pareceram de grande interesse, a partir da leitura e
estudo inicial desta fonte histórica durante o workshop da Oficina de História:

• Levantamento de outras medidas antigas existentes hoje em dia em mu-


seus, autarquias ou noutros espaços, e que não tenham sido menciona-
das pelo autor;
QUANDO O METRO CHEGOU À GUARDA
119
Rita Costa Gomes (Coord.); Isabel Lopes; Isabel Nabais; Margarida Paulino; Cátia Ramos; Jorge Sousa; Jorge Torres

• Aprofundamento do conhecimento sobre a evolução da medição de áreas


de terrenos na sociedade rural;
• A atuação que teve lugar na época oitocentista no campo do ensino, com
vista à implementação do sistema métrico decimal;
• Identificação de fabricantes privados de pesos e medidas com ação neste
território;
• Comparação das medidas antigas com aquelas que estavam em uso do
outro lado da fronteira;
• Estudo da correspondência recebida pelo inspetor através de documenta-
ção arquivada em Lisboa, uma vez que o seu registo se encontra incom-
pleto no arquivo local;
• Levantamento bibliográfico o mais completo possível sobre as medidas
anteriores ao sistema métrico existentes no distrito;
• Levantamento das informações relativas à atividade económica deste ter-
ritório recolhidas pelo inspetor, em resposta a solicitações pontuais;

Seria ainda interessante, de modo a facilitar o acesso destes textos a todos


os interessados, a transcrição integral dos livros de registo de correspondência.

REFERÊNCIAS
ARQUIVO DISTRITAL DA GUARDA. Repartição de Pesos e Medidas da Guarda. Cor-
respondência Expedida 23/09/1859 a 16/06/1865. (http://digitarq.adgrd.ar-
quivos.pt/details?id=1225031, acedido em 10/07/2017)
ARQUIVO DISTRITAL DA GUARDA. Repartição de Pesos e Medidas da Guarda. Corres-
pondência Recebida 30/01/1861 a 19/02/1868. (http://digitarq.adgrd.arquivos.
pt/details?id=1225035, acedido em 20/07/2017)
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120 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

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INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
121
Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira
transversalidades.
Imagem
&
Territorio::
patrim0nio visual,,
memoria local
RETRATOS
FOTOGRAFIA: ALFREDO CUNHA*

Eduardo Lourenço
[2015]

*
Retratos de galardoados com o Prémio Eduardo Lourenço fotografados por Alfredo Cunha.
126 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Agustina Bessa-Luís
[1996]
RETRATOS
127
Alfredo Cunha

Luis Sepúlveda
[2018]
128 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Mia Couto
[1997]
“VOLVER SOBRE MIS PASOS”.
EN ALABANZA DE LA GEOGRAFÍA DE LA
MEMORIA Y DE LAS AUSENCIAS
RUI JACINTO (Texto)
SANTIAGO SANTOS (Fotografia)

“Las tierras marginales son predilectas del turismo. El viajero no es turista, es viaje-
ro. Hay una gran diferencia. Viajar es descubrir, el resto es simple encontrar” (Sara-
mago, 1981: 466).

Memoria y viaje: mirar más allá de las evidencias y de las apariencias.


La demanda de lugares donde alguna vez imaginó haber sido feliz ha llevado
Santiago Santos a incesantes viajes de (re)descubrimiento de sus más íntimas
geografías. Esta nostálgica vuelta al pasado, como nos propone en un “viaje
por mis recuerdos entre la frontera con Portugal y el País Vasco” es un pretexto,
trillando caminos ya transitados, para llevarnos por los meandros de la memoria.
Las excelentes imágenes captadas en estas divagaciones permiten compartir
placenteros viajes con compañeros de jornadas que, aunque desconocidos y
ausentes, presentimos bien presentes.
Las imágenes que nos proporciona son instantáneas sencillas, breves apun-
tes aparentemente banales que puntúan y esbozan el telúrico mapa del univer-
so donde se mueve en términos reales, simbólicos y virtuales, fragmentos que
desvelan su imaginario más allá de ciertas evidencias y de las más inmediatas
apariencias. Por todo esto, la muestra es un llamamiento a nuestra complicidad
para aprehender juntos el verdadero espíritu de lugares de referencia que, por
esta razón, adquieren una innegable y notoria topofilia. Es indiscutible el vínculo
afectivo que lo ata a los lugares elegidos envolviendo los ambientes físicos y hu-
manos de una elevada carga simbólica con razones motivadoras para continuar
su registro.
El proyecto acaba por ser la tregua posible en una actividad profesional que
exige rigor y dedicación, sin margen para concesiones, aprovechando los viajes
a tales lugares, perdidos en el mapa y en los laberintos del olvidado para, en un
saludable ejercicio de libertad creativa, dar rienda suelta a la imaginación. Al
apartarlos de la invisibilidad estos sitios recónditos están alimentando la secreta
ambición personal de rehabilitar una geografía cándida, pura, quizá ingenua,
130 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A-2522 Aranbio, Alava. (De la serie Indicios)

perdida en la penumbra de la infancia, definida por espacios idílicos, que nos


gustaría ver inmunes a los efectos del tiempo y al desgaste de la acción antró-
pica. Cualquier hijo pródigo aspira a regresar a los lugares que mitificó, sin ser
corrompidos por el tiempo, ese eterno escultor sin capacidades para conferir
nuevas configuraciones a las múltiples geografías que envuelven nuestras pa-
trias adoptivas. Las imágenes captadas aspiran a rescatar esta geografía inma-
culada, sin pecado original, último intento de recuperar el paraíso perdido, ese
espacio maternal, seguro, plano, sin rugosidades, preservado de la erosión del
tiempo y de la predación de los hombres.
El viajero prosigue su utópica caminata en la expectativa de encontrar estos
lugares encantados, refugios donde estaría al abrigo de las incertidumbres, per-
plejidades y contingencias que constantemente nos asaltan. Pero, como alguien
sabiamente nos avisó, «el viaje no termina nunca. Sólo los viajeros acaban. Y
aun éstos pueden prolongarse en memoria, en recuerdo, en narrativa. Cuando
el viajero se sentó en la arena de la playa y dijo: “No hay más que ver”, sabía
que no era así. El fin del viaje es sólo el comienzo de otro. Es necesario ver lo que
no se vio, ver otra vez lo que se vio ya, ver en la primavera lo que se ve en el ve-
rano, ver de día lo que se vio de noche, con sol donde primero la lluvia caía, ver
la cosecha verde , el fruto maduro, la piedra que cambió de lugar, la sombra
que aquí no estaba. Es necesario volver a los pasos que se han dado, para
“VOLVER SOBRE MIS PASOS”. EN ALABANZA DE LA GEOGRAFÍA DE LA MEMORIA Y DE LAS AUSENCIAS
131
Rui Jacinto

Algún lugar entre Valladolid y Burgos

repetirlos, y para trazar caminos nuevos al lado de ellos. Es necesario recomen-


zar el viaje. Siempre. El viajero vuelve ya» (Saramago, 1981).

“Poco importa el soporte desde el que la memoria produzca recuerdos, extraiga la


quintaesencia, fabrique referencias con las que podamos más tarde reconstruir el
viaje en su totalidad. En la desorganización y en la amalgama de la experiencia vivi-
da, el indicio cartografía y permite el levantamiento de una geografía sentimental”
(Onfray, 2009: 55).

Imagen y territorio: una cierta poética de la mirada. La conciencia de que


“todo viaje oculta y revela una reminiscencia” (Onfray, 2009: 34) es equivalente
a la convicción de que el límite entre lo visible y lo invisible, y lo material de lo
intangible está asegurado por una tenue e impredecible frontera. Las imágenes
reflejan la lucha del autor contra el abandono de los lugares, las exclusiones
imaginarias y los procesos de desarrollo, el olvido y el ostracismo a que son
sometidos por los poderes y por los actuales cánones mediáticos. Es en las már-
genes de las más lejanas periferias y más allá de las fronteras que anuncian el
olvidado donde Santiago Santos insiste en buscar las telúricas raíces y afirmar su
apego a la tierra. La imagen es un medio, no un fin, la estrategia a la que recurre
para denunciar la fragmentación de los territorios y el abandono de las personas
132 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Silo en la estación de ferrocarril de Pollos, Valladolid

Antigua N620, Venta de Baños


“VOLVER SOBRE MIS PASOS”. EN ALABANZA DE LA GEOGRAFÍA DE LA MEMORIA Y DE LAS AUSENCIAS
133
Rui Jacinto

Villar Formoso, Portugal

a la aplastante ola devastadora y globalizante que todo parece sumergir y uni-


formizar.
La fórmula encontrada para luchar contra el olvido y pugnar por la rehabili-
tación de la memoria es fijar lo que queda de lo que pasa, registrar la geografía
mutable que, a cada instante, se pierde y renueva en la volatilidad neta e ines-
table de la espuma de los días. La demanda de referencias y la afirmación de
la pertenencia a un determinado territorio constituye, en esta perspectiva, una
terapia y el tónico posible para las identidades locales y regionales más debili-
tadas. Por todo esto, las fotografías ya publicadas son “símbolos icónicos car-
gados de connotación histórica (política, arquitectónica, religiosa, ...), y por ello
con una gran influencia en la configuración visual de un territorio. Esta perdida
de relación con el tiempo histórico que definían, efecto que está reforzado por
el tratamiento visual que les aplica, viene a conferirles un sentido enigmático.
El enigma de la indeterminación, de aquello que se remite tanto al pasado y al
futuro, de aquello que lleva en sí tanto la esperanza de una transfiguración como
la raíz de una desaparición” (Expósito, 1997: 19).
Las imágenes publicadas a lo largo del tiempo revelan tanto una evolución
estética como un cierto modo de mirar, leer e interpretar el mundo. Las fotogra-
fías iniciales, que se inscriben en un estilo más experimental, proporcionaron
una exposición individual (1996) y otra colectiva, fruto de la asociación con Cris-
tina Zelich y Javier Ayarza (Espacio Interior, 1997).
134 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Monasterio de Tibães. Braga. 1995 Convento de las Huelgas. Burgos. 1994

Museo de los Biscainhos. Braga. 1995 Monasterio de Piedra. Zaragoza. 1995

Otras más recientes, sobre los Arribes del Duero, que ilustran la Ruta Miguel
de Unamuno - Eduardo Lourenço (2018), muestran el cambio estético y visual,
entretanto operado. A pesar de todo, después de dos décadas, todavía podemos
seguir hablando de “lugares perdidos, de sueños reales, de cicatrices del tiempo
que persisten eternamente, del dolor de la memoria, de lo infinito sucedido y de
lo infinito narrado y contado. Observé la obsesión por no precisar la evidencia, la
obsesión de escuchar los ecos que se han ido amontonando entre las grietas y el
musgo. En estas imágenes observé la dignidad de las ruinas que se abaten ante
el tiempo manteniendo siempre su estructura esencial y configurando un orden
de perfecto caos. Ruinas que se resisten a ser restauradas, para deleite de una
humanidad superflua y estética, incompleta, mutilada” (Roncero, 1996: 8).
“VOLVER SOBRE MIS PASOS”. EN ALABANZA DE LA GEOGRAFÍA DE LA MEMORIA Y DE LAS AUSENCIAS
135
Rui Jacinto

La traslación observada entre los dos períodos no significa, sin embargo,


una ruptura abisal en los objetivos, en los temas y en los lugares que motivan
el acto de fotografiar. Aunque los mismos ojos pasan a mirar de otra manera,
persiste el interés por lugares marcados por alguna singularidad y que encier-
ran suficiente carga histórica y afectiva, personal y colectiva, para continuar el
juego de luz y sombra ya considerado de “Artificios de ficciones” Rafael Doctor
Roncero). La mirada se volvió más amplia, abandonó la fijación exclusiva en los
espacios restringidos, en las piedras desnudas y en los monumentos históri-
cos, escenarios abatidos, casi ausentes, por la intencionalidad del movimiento
de cámara. Se asume un mayor compromiso con los territorios cuando pasa a
captar paisajes amplios, horizonte rasgados, arquitectura vernácula, en las al-
deas paradas en el tiempo, a merced del clima y de la erosión que el abandono
siempre provoca.

Sin titulo. 2005 Sin titulo. 2009

Sin titulo. 2009 Sin titulo. 2009


136 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Sin titulo. 2010

Estos nostálgicos Lugares Intermedios, situados en algún lugar entre los


íntimos paisajes afectivos y los más remotos espacios de la raya profunda, si-
guen siendo fotografiados con precisión, afecto y depurada sensibilidad plás-
tica. Es un trabajo obstinado que apunta a dotar a sus imágenes de esa marca
sensible que a través de la apropiación-interpretación del espacio permite ir
más allá de la simple visión objetiva del territorio. Su planteamiento responde
a la búsqueda de una “geografía poética”, un espacio que contiene las señales
de una unión personal, esto es, “la experimentación subjetiva de un territorio”
(Expósito, 1997: 12).
El rico acervo personal que resulta de este laborioso trabajo ha generando
un precioso atlas visual que, además de perpetuar el cambio que recorre los
paisajes naturales, económicos, sociales y culturales, reúne material funda-
mental para la memoria futura colectiva. Esta afectuosa lectura del mundo,
resultado de una mirada propia y sin concesiones, de un modo de vivir y estar
en el mundo, testimonia los cambios que ocurren a nuestro alrededor con
un enlevo poético que se plasma en las imágenes y en la retina de quien las
observa.

“La desterritorialización está ligada a la hibridación cultural que impide el recono-


cimiento de identidades claramente definidas - el territorio aquí es, ante todo, un
territorio simbólico, o un espacio de referencia para la construcción de identidades”
(Haesbaert, 2004).
“VOLVER SOBRE MIS PASOS”. EN ALABANZA DE LA GEOGRAFÍA DE LA MEMORIA Y DE LAS AUSENCIAS
137
Rui Jacinto

Algún lugar entre Venta de Baños y Magaz de Pisuerga

Geografía de las ausencias: una mirada contra la invisibilidad y el olvido.


El presente proyecto de Santiago Santos se aleja de una fase que asumía el
movimiento de la imagen como forma de abordar la lectura del territorio aban-
donado, en una clara demostración de afecto a los lugares y de respeto a la
autenticidad del entorno. El enfoque no es asumido sólo por “amor por lo que
existe” sino por corresponder a la manera más acertada de revelar lo que está
“en el centro de nuestros procesos de territorialización”, en la “construcción de
territorios que no fueran simples territorios funcionales de re-exploración (explo-
tación) económica y dominación política, sino espacios de apropiación e identifi-
cación social, en cuya transformación nos sentíamos efectivamente identificados
y comprometidos “(Haesbaert, 2004: 369).
Al asumir este nuevo modo de mirar, el autor no deja de colocarse a contra
corriente cuando apuesta por una fotografía despojada, limpia, sin pretensiones,
desnuda de ornamentos barrocos, relativizando el ejercicio conceptual y técnica-
mente sofisticado a favor de una preocupación centrada en el mensaje. La even-
tual desvalorización del perfeccionamiento técnico y de lo que se ha convenido
designar como hermoso es compensada por la rara sensibilidad y fina emoción
que coloca en las imágenes. Esta carga emotiva acaba por ser la invitación hecha
al observador para explorar las capas más profundas, las dimensiones menos
visibles que siempre se esconden detrás de cada fotografía.
138 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

AP-68, Paso de Subijana, Alava


“VOLVER SOBRE MIS PASOS”. EN ALABANZA DE LA GEOGRAFÍA DE LA MEMORIA Y DE LAS AUSENCIAS
139
Rui Jacinto

La aparente precariedad y fragilidad actúa como estímulo a las interpreta-


ciones sugeridas por las imágenes, pero, fundamentalmente, alientan a pen-
sar lo subentendido, lo que les está subyacente. Sobre nuestros ojos desfilan
fragmentos, piezas de un puzzle más complejo, que buscan restar del anoni-
mato lugares que la geografía y la historia imponen una pesada soledad. No
estamos ante territorios distantes ni destinos exóticos, pero paradas cerca
de nosotros, que fácilmente identificamos por formar parte de una geografía
cercana, íntima, familiar.
La grafía de las fotos soporta una literatura imaginética que enriquece el pa-
trimonio visual y aporta una inestimable contribución a la cultura territorial de
la Región. Este viaje por tierra de Castilla y León, entre la frontera portuguesa
y el País Vasco, tiene las características de un viaje iniciático que termina (con)
fusión de la realidad y la imaginación: (re)visitar los lugares de la infancia per-
dida en el tiempo, soñados a lo largo de la vida, se recuerdan personas que se
quedaron por el camino, ya ausentes, que hicieron los mismos itinerarios. No
podemos descartar, sin embargo, que este tipo de viaje esconde, tantas veces,
motivaciones más profundas, sea el inconsciente deseo de descubrirnos y, así,
(re)encontrarnos con nosotros mismos.
Una fotografía es siempre una selección, el compromiso posible entre lo
que se decidió incluir en el rectángulo y lo que de él se excluyó. En el presente
caso, fue intencional recorrer las geografías de la memoria para dar visibilidad
a los lugares más simples y banales, evitando lugares más icónicos, de fácil
adhesión, ya inscritos en los mapas mentales. Como en el caso de las perso-
nas, dar espacio a lugares aparentemente sin historia, retirándolos del olvido,
no deja de representar el esfuerzo por intentar rehabilitarlos. Las imágenes que
se nos ofrecen reflejan los contrastes y dicotomías que atraviesan los territorios
transfronterizos, periféricos y marginales, aislados, profundamente rurales y en
acelerado proceso de despoblación, ahora apodados, por todo esto, de espacios
de baja densidad.
El discurso pictórico que nos es presentado, formalmente coherente y temá-
ticamente ecléctico, replica las metáforas que se construyeron sobre las rayas
olvidadas y soportan los actuales discursos, de los políticos y académicos a los
de los ciudadanos comunes. Las imágenes suscitan sentimientos contradicto-
rios, que se comparten con el autor, revelan la nostalgia de los que regresa y
constatan que el territorio ya no es el mismo, que cambió, que poco queda de
lo que fue vivido e idealizado. El perplejo creado por este cambio de referencias
lleva a la búsqueda de señales remotas, retenidas en la memoria, desvía la
mirada, se fija en el revés, busca en ese lado las construcciones abandonadas,
perdidas en medio del paisaje. Para situarse, inicia un nuevo e imaginético via-
je exploratorio a través de las fluidas e inciertas fronteras que, entretanto, se
impusieron: las que delimitan lo rural de lo que ya no es, sin dejar de ser rural;
140 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

las que cruzan paisajes despojados de personas, levemente humanizados, con


marcas de su paso.
Los contrastes que las imágenes nos muestran son múltiples y variados: en-
tre una u otra deriva minimalista identificamos nuevos usos y nuevos modos de
ocupación del suelo, los cambios de escala alternando entre las microescalas,
de los espacios confinados, que resaltan espacio y pequeños detalles, y las ma-
croescalas, donde se encuadran paisajes amplios, abandonados a la inclemencia
de barbechos, a veces desnudos o recortados por siluetas de árboles. En este
universo sobresale una amplia gama de estructuras con volúmenes y formas dis-
tintas: circulares, redondeados (copas de árboles), rectilíneas (carreteras, via-
ductos, líneas férreas, etc.). La mirada fue resbalando hacia sitios abandonados
que por efecto del tiempo, por períodos más cortos o más largos, acentuó la
tensión entre ausencias y permanencias. La coexistencia de lo efímero y precario
con lo más perenne sólo contribuyó a profundizar el sentimiento de ausencia,
abandono y decrepitud que acabó por instalarse.
No hay aldeas ni personas retratadas en el portafolio que se refiere a un ter-
ritorio que comienza a sucumbir cuando el éxodo intenso degeneró en una des-
población abisal y en una fantasmagórica ausencia. La emigración fue la madre
de la profunda crisis demográfica que se abatió sobre la región: se ven autovías,
estaciones de servicio y lugares de borde de la carretera donde se prestan todos
los servicios, ejes viales que son los símbolos del paso o del flujo de los pocos
recursos que aún pudieran existir. Las imágenes transmiten la idea de abandono,
de partida; los sedentarios agricultores ya no compiten con los nómadas pasto-
res, ya que fueron sustituidos por nuevos arrieros, conductores de camiones que
rasgan el paisaje en una frenética y permanente circulación.
Este nomadismo y la consiguiente desterritorialización, inherentes a dicha
condición de posmodernidad, son indisociables de una nueva concepción y ex-
periencia de espacio-tiempo que, desestabilizando la “estructura metonímica
que relaciona presencia y ausencia con proximidad y distancia”, acaba conde-
nándonos a la multiterritorialidad. Por eso, “de forma aparentemente contra-
dictoria, podemos decir que el próximo-presente (el aquí y ahora) pasa a tener
mayor importancia, o mayor “visibilidad” y valor estratégico, justamente por el
sentido contrastado, o sea, por la emergencia de su antípoda, el lejano-presen-
te”. Se ha operado así un profundo cambio en el significado y en el sentido de
las fronteras, informales e institucionales, próximas y distantes, personales y co-
lectivas, que parecen disolverse como el papel que tradicionalmente les estaba
confiado, cuando dejaron de ser barricadas impermeables, que limitan y separan
territorios (el ordenado del no ordenado, el conocido de lo desconocido, etc.), de
funcionar como umbrales, “el límite donde la ausencia se convierte en presencia”,
convirtiéndose en lugares de comunicación entre personas de diferentes cate-
gorías (local y local) distante, nativo y extranjero, etc.) (Haesbaert, 2004: 168).
“VOLVER SOBRE MIS PASOS”. EN ALABANZA DE LA GEOGRAFÍA DE LA MEMORIA Y DE LAS AUSENCIAS
141
Rui Jacinto

Las imágenes que hemos venido a observar confieren a los lugares “una
dimensión simbólica cada vez más importante, donde es imposible establecer
límites entre las dimensiones material e inmaterial de la territorialización” (Haes-
baert, 2004: 346). Los relatos de estos viajes que nunca terminan, como nunca
se rehacen los mundos fotografiados, anuncian la intención del autor de conti-
nuar cubriéndolos punto por punto, de fotografiarlos desde todos los ángulos,
como el mapa paradójico de la narrativa de Borges sobre el rigor de la ciencia.
La máxima perfección, imposible e inútil, como “el mapa de una sola Provincia
ocupaba toda una ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiem-
po esos Mapas desmedidos satisfizo y las Escuelas de Cartógrafos levantaron
un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente
con él. “Tanto más que .... “Menos dependientes del Estudio de la Cartografía,
las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era inútil y no
sin impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y de los inviernos. En los
desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Ani-
males y Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográ-
ficas “(Jorge Luis Borges,” Del rigor en la ciencia “).
Las fotografías de Santiago Santos, estamos seguros, no tendrán el mis-
mo destino de dicho mapa, cumpliendo con su labor de imagen al menos la
importante misión de ayudar a reconciliarnos con los territorios que más nos
tocan.

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O SENTIDO DOS LUGARES.
PATRIMÓNIO VISUAL, MEMÓRIA LOCAL

DULCE HELENA PIRES BORGES*

Pormenor do centro histórico fotografado por António Correia, a partir do terraço da Catedral,
no início da década de 50 do século passado.

*
Museóloga e investigadora. Membro do CLEPUL.
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Pormenor da fachada sul da Catedral da Guarda fotografada por António Correia


no final da década de 40 do século passado.

A exposição subordinada ao tema Património visual, memória local privile-


giou a imagem fotográfica na construção de um discurso visual onde se reconhe-
cem as singularidades identitárias da cidade da Guarda. Sabemos que a imagem
fotográfica, enquanto parceira da memória, ajuda a exorcizar a ação do tempo,
ajuda a vencer o perecimento da matéria, tem a capacidade de ajudar a compen-
sar a nostalgia sobre tudo o que o tempo levou e democratiza o conhecimento. É
suporte e é linguagem de testemunho, expressão e comunicação.
A preservação, o estudo e a divulgação desta memória são formas de valo-
rização da identidade, um exercício de memoração que contribui para o desen-
volvimento social e cultural da comunidade constituindo-se como uma prática
de cidadania que permite criar laços de afeto e sentimentos de pertença. De
todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o
instante preciso e transitório. “Nós fotógrafos, lidamos com coisas que estão
continuamente a desaparecer e, uma vez desaparecidas, não há mesmo forma
de as fazer voltar. Não podemos revelar ou copiar uma memória” (Cartier Bres-
son, 1971: 34).
Na realidade se fizermos um exercício mental e compararmos a missão do
fotógrafo com a de um escritor, constatamos que, este, no seu ofício, tem tempo
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Dulce Helena Pires Borges

Aspeto de um gradeamento com neve, no Largo Eduardo Proença,


fotografado por António Correia em 1952.

para pensar, analisar, discernir, escrutinar antes de definitivamente concluir a


escrita, enquanto, o tempo do fotógrafo é bem diferente. Se calhar é mesmo um
tempo único!
A fotografia, enquanto imagem e como meio de expressão quer do autor ama-
dor quer do profissional, tal como qualquer outra linguagem comunicacional,
permite, como já referimos democratizar o conhecimento ao ampliar a capaci-
dade de divulgação e comunicação. É, também, centralidade no âmbito da his-
toriografia e valor plural ao identificar-se com uma comunidade. Por sua vez, a
fotografia, aumenta a capacidade, imagética, do controle do homem sobre o
tempo “congelando o instante para a eternidade (…) a fotografia é uma ferra-
menta da significação do tempo” (Natalício Batista, 2006: 45) mas, a fotografia,
como fonte de pesquisa, propicia ao historiador acrescentar novas e diferentes
interpretações da história.
Da mesma forma que os arquivos documentais são de primordial impor-
tância para a escrita da história também os arquivos fotográficos são fontes
privilegiadas do conhecimento por possuírem informações que muitas vezes
não se encontram nas fontes escritas. “Os fotógrafos assemelham-se aos
historiadores, pois ambos trabalham com realidades, as fotografias são frag-
mentos de uma determinada forma de ver o mundo, um recorte preciso que
146 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Pormenor da Catedral da Guarda fotografada por António Correia


no inicio da década de 50 do século passado.

enquadra na bidimensionalidade uma rutura temporal, produzindo um indício


de que algo aconteceu ou esteve ali por um determinado tempo. Os historiado-
res apropriam-se destes indícios para a construção do conhecimento histórico.
A aproximação dos fotógrafos com os historiadores, acontece na tentativa de
perceber e conceber que o visual pode ser uma possibilidade de entendimen-
to da história. Trabalhar com a visualidade requer pensar toda uma perspetiva
fragmentária da realidade, é um olhar sobre o que já foi visto, ou seja, olhar
através de um outro olhar. O fotógrafo lança o seu olhar sobre a realidade, en-
quadra os fragmentos e os perpetua para a memória, os historiadores se apro-
priam deste mesmo olhar na tentativa de buscar os significados destes fragmen-
tos materializados na imagem. Os historiadores que trabalham com fotografias
sempre tiveram este interesse em entender a atuação dos fotógrafos nos seus
O SENTIDO DOS LUGARES. PATRIMÓNIO VISUAL, MEMÓRIA LOCAL
147
Dulce Helena Pires Borges

Pormenor da Rua Alves Roçadas fotografada por António Correia


no final da década de 40 do século passado.

contextos, pois a sua inserção numa determinada realidade vai influenciar o seu
olhar sobre a mesma. O olhar do fotógrafo é uma construção desenvolvida em
todo o seu período de atuação e que depende de uma serie de experiências. (…)
O que chama a atenção dos historiadores é como o fotógrafo olha a sociedade,
se o seu olhar é o mesmo de qualquer pessoa ou se ele é singularizado por uma
determinada forma de ver, se ele olha exatamente como nós mesmos olhamos,
ou se ele exacerba o simples olhar e lança uma outra perspetiva sobre a socie-
dade” (Ivo Canabarro, 2005: 21).
Sendo um fundo documental todo o conjunto de documentos de arquivo,
que necessitem de ser salvaguardados, conservados, estudados e divulgados, é
exigível que, construir um arquivo seja feito com critério e rigor, aplicando nor-
mas de recolha, seleção e identificação criteriosas, fazendo dele um lugar de
148 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Pormenor da Rua Francisco de Passos fotografada por António Correia


no final da década de 40 do século passado.
O SENTIDO DOS LUGARES. PATRIMÓNIO VISUAL, MEMÓRIA LOCAL
149
Dulce Helena Pires Borges

construção de identidades. Esse arquivo necessita também, e muito, de quem o


trabalhe com espirito crítico e análise consciente, fundamentada e lúcida. O tra-
tamento arquivístico deve oferecer um procedimento de qualidade que respeite
as práticas e técnicas protagonizadas pela área. Um arquivo fotográfico é uma
instituição de saber científico e não uma questão de passado, sendo, antes de
mais, uma questão de futuro e uma assumida responsabilidade com o amanhã.
A sua importância é, ainda, reconhecida e demonstrada através das inúmeras
realizações em seu redor: conferências, ciclos temáticos, seminários, comunica-
ções, teses, exposições, publicações, organismos tutelares, etc..
As fotografias de uma vivência urbana, por exemplo, são registos de um ter-
ritório, de uma geografia urbana, de um pulsar das gentes que usam as ruas,
utilizam os comércios, os quais permitem retirar um conjunto diversificado de
informações e análises. Como escreveu Pierre Nora, “a partir dos anos 70 do
seculo XX, o texto visual, principalmente a fotografia, começava a fazer parte
da escrita da história”.
O título da exposição Património visual - memória local é um exercício men-
tal de semiótica, história e fenomenologia e, se numa fotografia, a sua essência
é precisamente a obstinação de estar sempre aí, como escreveu Barthes (2006:
24), e se nela “há sempre um referente, ou seja uma coisa necessariamente
real, que foi colocada como objetivo, sem o qual na haveria registo” (Barthes,
2006: 135), então António Correia, autor da maioria das imagens presentes na
exposição e que, quase obrigatoriamente, tem que ser considerado o fotógrafo
da Guarda, cumpriu esses normativos. Ele olhou para os concretos referentes
da Guarda e da região e fotografou-os nas tradições, no património e urbanis-
mo, nas gentes e nos fenómenos climáticos. Transformou-os em testemunhos
patrimoniais, os quais, da maior legitimidade, relevância, valor, “porque se en-
contram em evolução ou mutação, precisam de se exteriorizar, recrear para se
manterem ativos” (Sanchez Ulluo, 2006: 43). “Quando revisitamos as imagens
podemos transladarmo-nos, imaginariamente, ao lugar onde ocorreram os
acontecimentos, ao lugar onde existiu o referente, o objeto que deixou a sua
marca na imagem fotográfica onde se produziu o encontro que jamais voltará a
repetir-se” (Barthes, 2006: 202).
As imagens deste fotógrafo parecem dar-nos a bidimensionalidade dos
edifícios, os cheiros das ruas, dos produtos, das lojas, a alma das gentes, o
ar frio da neve e do gelo. Além de António Correia, a Guarda foi registada
fotograficamente por outros grandes fotógrafos. De entre muitos, destaca-
mos pela singularidade e notoriedade, Aurélio da Paz dos Reis, João Ayres,
Rozendo de Carvalheira, Clemente Gomes. As imagens captadas pelo olhar
dos autores percorrem a história, registam a beleza presente nos instantes
150 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Venda de queijo no mercado municipal fotografada por António Correia


no final da década de 40 do século passado.

fugidios, documentando a vivência da cidade na sua construção polissémica.


A imagem fotográfica tanto regista o momento fugaz das gentes que habitam
a urbe como perpetuam o edificado que se julga ser eterno e imutável. A foto-
grafia tem o poder de nos revelar como isso é praticamente inexequível, pois
assistimos às alterações no edificado patrimonial, às destruições de peças do
nosso património, às mudanças de usos e costumes.
A seleção fotográfica escolhida permite fazer uma crónica da cidade e parti-
cipar na sua vida em distintas e variadas épocas passadas. Através delas, vemos
a Catedral como um poema de fé e de arte, um capricho do homem a dominar
o duro granito. O contraste entre o espaço de espiritualidade, de retiro, de paz
e o mistério, o imaginário, os medos presentes nas gárgulas e ornatos decora-
tivos. O gozo estético da arte construída na dura matéria granítica ganha uma
incontornável beleza com a neve e o gelo. Sentimos o pulsar dos lugares onde
os homens se encontram, o registo dos dinamismos comerciais e vemos o cres-
cimento da cidade para nascente, para o raiar do Sol.
A fotografia espraia-se entre o real e o imaginário, o perto e o distante, a
evocação e o afeto, o registo e a efemeridade, a sedimentação e a volatilidade.
Por ela podemos ver a coexistência do passado com o presente, as fases recen-
tes com a subsistência das fases antigas. A construção da identidade da Guarda
O SENTIDO DOS LUGARES. PATRIMÓNIO VISUAL, MEMÓRIA LOCAL
151
Dulce Helena Pires Borges

Venda de batata no mercado municipal fotografada por António Correia


no final da década de 40 do século passado.

passa, e muito, pelo arquivo documental onde a imagem fotográfica esteja pre-
sente. A fotografia não faz a história da Guarda, faz, sim, a sua redescoberta, per-
mitindo a reconstrução da memória social. A imagem fotográfica não é apenas
ilustração visual de um texto. É, sobretudo, um campo de pesquisa através do
qual se ampliam as fontes documentais. Segundo Marina Tavares Dias, grande
olisipógrafa, arquivadora das imagens sobre a capital e historiadora, “a herança
fotográfica das cidades não é obra daqueles que julgavam estar a criá-la. A
herança fotográfica das cidades é obra de contingências várias, determinantes
do destino de cada pessoa e de cada espólio”.
Por esta razão é que outros importantes fotógrafos da Guarda, como João
Ayres, não atingiram a notoriedade do já citado António Correia, em virtude do
seu espólio ter desaparecido e a dimensão que hoje temos sobre a sua obra estar
confinada às imagens reproduzidas em postais ou na imprensa local e nacional.
O estudo das coleções fotográficas permite ainda perceber o percurso, técnico e
profissional e a dimensão da obra do fotógrafo autor. É, também, através da análise
das obras fotográficas que se faz, por exemplo, a historiografia da arquitetura, das
linguagens artísticas, da publicidade, dos usos e costumes e de tantas outras áreas.
A sua importância é, hoje em dia, quase inesgotável tal é o seu contributo nas diver-
sas áreas do conhecimento. Contribuem ainda para demonstrar a multiplicidade e
152 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

a importância dos debates concernentes ao património da mesma forma que têm


a capacidade de os conceber, promover, estimular e divulgar.
Mas estas imagens podem ser, apenas e só, documentais ou, também, po-
dem possuir uma dimensão artística? Será que quando o autor pretendeu fazer
uma imagem para a posteridade, atribuindo-lhe uma função específica deixou
de ter a componente artística? Acreditamos e cremos que não. A imagem foto-
gráfica que nos é dada a observar resulta sempre de um escrutínio e, por isso,
ficamos sempre a pensar se as que foram rejeitadas não seriam também, para
nós, objeto de admiração, fruição e até mesmo preferenciais, mas, aqui, a ordem
e o critério são-nos dados pelo autor. Certo é que, com a evolução tecnológica,
a fotografia que hoje em dia se produz já não faz parte da fotografia física a que
durante décadas nos habituámos. Ela é, hoje em dia, maioritariamente um pro-
duto da tecnologia da imagem.
O património visual e a memória local são passiveis de serem referenciados,
identificados e classificados através das imagens fotográficas como identidade
de uma cidade, sem deixarem de ser, bastas vezes, também, uma expressão
artística dos seus autores.

BIBLIOGRAFIA
BARTHES, Roland (2006). “A Câmara Clara”, Edições 70.
BARUKI, Sandra, Conservação e preservação de fotografias, www, foto.art.br/
cursobaruki.
CANABARRO, Ivo, “A utilização da fotografia para construção do conhecimento
histórico”. <http://www.ufrgs.br/biev/?p=3134>.
CANABARRO, Ivo, “Fotografia, história e cultura fotográfica”, <http://dx.doi.or-
g/10.15448/1980-864x.2.1336>.
CARTIER BRESSON, Henri (1971). “O Momento decisivo”, Revista Fotografia e Jor-
nalismo, ed. SP.
FREUND, Gisile (1974). “Photografie et société”, Paris, ed. Seuil.
LE GOFF, Jacques (1988). “História e Memória”, ed. Gallimard.
NATALICIO BATISTA, ME., “Fotografia e Memória: Contra a ação do tempo, a foto
fortalece a tradição das técnicas de memorização”. <http://www.belasartes.
br/revistabelasartes/downloads/artigos/1/revista-ba-foto-memoria>.
NORA, Pierre (1977). “Lugares de Memória”, Edições 70.
SANCHEZ ULLUO, Verónica, ”Puede la fotografia artística ser considerada pa-
trimónio?” <http://www.tesis.uchile.cl/tesis/uchile/2006/sanchez_v/sour-
ces/sanchez_v.pdf>.

Imagens cedidas por João Pena Fonseca.


MUNDO PORTUGUÊS
DUARTE BELO*

Gravura rupestre, Ribeira de Piscos, Vila Nova de Foz Côa. 1996

*
Duarte Belo (Lisboa, 1968). Formação em arquitetura. Desde 1986 que trabalha no levantamento fotográfi-
co sistemático da paisagem, formas de povoamento e arquiteturas em Portugal. Este trabalho continuado
em mais de 750.000 quilómetros percorridos, deu origem a um arquivo fotográfico de mais de 1.600.000
fotografias.Publicou vários livros sobre o tempo e a forma do território português, de que se destacam: Por-
tugal — O Sabor da Terra (1997-1998) e Portugal Património (2007-2008). Desenvolve atualmente projetos
em suporte digital sobre Portugal. É editor do blog Cidade Infinita. Expõe desde 1987 e participa regular-
mente em conferências e mesas redondas em temas relacionados com paisagem, arquitetura, Portugal e
fotografia, nomeadamente metodologias de registo e arquivo de imagem.
154 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Poderiam ser paisagens, ou detalhes de lugares, fragmentos das maiores


cidades, ou pequenas aldeias, uma mariola a marcar um caminho de montanha,
ou um monumento histórico, arquitetura de poder, ou o diálogo entre diferentes
regiões, entre as terras banhadas pelo Atlântico, ou aquelas onde o ar é seco
e frio. Que imagens podem representar um país? Todas e nenhuma, o infinito
e o vazio. Construímos discursos de aproximação. Selecionamos um pequeno
conjunto de monumentos e outros que nem talvez o sejam. São propostas con-
traditórias e díspares de leitura fragmentada sobre alguns lugares históricos de
Portugal, marcas de civilização e erudição de períodos muito distintos. O mos-
teiro dos Jerónimos, a Batalha, Tomar, as gravuras do Côa, sem esquecer a con-
temporaneidade. Como que rostos deixados lavrados em arquiteturas, erguidos
em pedra para a afirmação de poder sobre lutas desconexas para a construção
de uma identidade frágil. É o erguer de uma “casa” ao longo de séculos. Fascínio
pelo silêncio, a velocidade da fuga, o desenho de uma cidade.

Capelas Imperfeitas, Mosteiro de Santa maria da Vitória, Batalha. 2015


MUNDO PORTUGUÊS
155
Duarte Belo

Fonte do Ídolo, Braga. 1995

Tronco de Oliveira, Museu de Faro. 2004


156 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Estádio Municipal de Braga. 2005

Convento de Cristo, Tomar. 2007


Premio
Eduardo
Lourenço
2018
BASÍLIO LOSADA CASTRO:
BREVE PERFIL

BASILIO LOSADA CASTRO nasceu em Láncara, Lugo em 1930, foi o primeiro


professor catedrático de Filologia Galega e Portuguesa na Universidade de Bar-
celona. É autor de numerosos estudos críticos sobre aa literatura galega, por-
tuguesa e brasileira. Traduziu 150 livros, de autores franceses, portugueses e
brasileiros como Jorge Amado, Márcio Souza, Clarice Lispector, Rubem Fonseca,
José Saramago, José Cardoso Pires e Rosalía de Castro entre outros. Pelo seu
trabalho como acadêmico e como divulgador das culturas lusófonas em Espa-
nha recebeu entre outros galardões o Premio Nacional de Traducción, a Creu de
Sant Jordi (máxima honra da Generalitat de Catalunha), a Comenda da Ordem do
Infante Dom Henrique, a Ordem do Cruzeiro do Sul, do Brasil e a Medalla Caste-
lao de la Xunta de Galicia. Em 2018 foi-lhe atribuído o Prémio Eduardo Louren-
ço. Reformou-se da cátedra no ano 2000 e, com 70 anos publicou seu primeiro
romance, La peregrina, ambientada na Idade Média, período do que é grande
especialista.
GALERIA DE PREMIADOS

2004 2006 2007


MARIA HELENA DA ROCHA AGUSTÍN REMESAL MARIA JOÃO PIRES
PEREIRA Jornalista Pianista
Catedrática jubilada
da Universidade de Coimbra

2008 2009 2010


ÁNGEL CAMPOS PÁMPANO FIGUEIREDO DIAS CÉSAR ANTONIO MOLINA
Poeta, tradutor, editor Catedrático jubilado Autor de obras de ensaio, prosa
e professor da Universidade de Coimbra e poesia

2011 2012 2013


MIA COUTO JOSÉ MARÍA MARTÍN PATINO JERÓNIMO PIZARRO
Escritor, jornalista Escritor e Teólogo Jesuíta espanhol Professor de Literaturas
e biólogo moçambicano Hispânicas e investigador da obra
de Fernando Pessoa
2014 2015 2016
ANTONIO SÁEZ DELGADO AGUSTINA BESSA-LUIS LUIS SEPÚLVEDA
Professor de Filologia Hispânica Escritora Escritor
na Universidade de Évora

2017 2018
FERNANDO PAULOURO BASÍLIO LOSADA
Jornalista e Escritor Professor e Escritor
ÁLVARO DOS SANTOS AMARO
PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DA GUARDA

É com renovada honra e satisfação que nos reunimos anualmente nesta ses-
são em torno de um prestigiado e reconhecido Prémio que distingue persona-
lidades com intervenção relevante na cultura, cidadania e cooperação ibéricas.
Saúdo os representantes das Universidades de Coimbra e de Salamanca e do
Instituto Politécnico da Guarda, nossos parceiros neste projeto de cooperação
que é o Centro de Estudos Ibéricos.
Permitam-me uma saudação especial ao Senhor Reitor da Universidade de
Salamanca, instituição maior da Cultura ibérica e europeia que comemora este
ano o seu oitavo centenário.
Estar à frente de uma instituição como a Universidade de Salamanca num
momento tão simbólico é certamente uma grande honra. E é também um motivo
de orgulho para a Guarda estar ligada a tão importante Centro de Ciência e de
Saber, através do Centro de Estudos Ibéricos.
Como dizemos por cá, bem-haja pelo seu compromisso para com este proje-
to e com estes territórios de fronteira.
Ao Senhor Professor Eduardo Lourenço dou as boas-vindas, mais uma vez,
a esta sua Casa. Em nome da Guarda, bem-haja também pela amizade e pela
disponibilidade.
E, claro, uma palavra muito especial ao nosso premiado deste ano. Seja bem-
-vindo à Guarda, Professor Basilio Losada. Como bibliófilo e amante de livros,
estou certo que se sentirá em casa nesta nossa Biblioteca.
Depois de termos já premiado importantes e destacadas personalidades, en-
tregamos este ano a distinção a uma das mais proeminentes personalidades da
Cultura Galega, Basilio Losada Castro.
O Júri da 14ª edição do Prémio Eduardo Lourenço entendeu reconhecer a
trajetória ímpar do filólogo, professor, investigador, tradutor, crítico literário e
escritor.
Natural da Galiza, terra que o viu nascer há 88 anos, apaixonado pela língua
e cultura da sua terra, foi o primeiro catedrático de Filologia Galega e Portuguesa
na Universidade de Barcelona, onde desenvolveu a sua vida profissional e se
tornou uma referência para várias gerações de iberistas.
166 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O interesse pela difusão da cultura e da literatura norteou um percurso ímpar


no campo da tradução tendo como base as línguas portuguesa e espanhola:
traduziu mais de 150 livros em sete línguas (português, inglês, francês, alemão,
catalão, galego e russo) criando uma autêntica rede de mediação cultural entre
os diferentes espaços linguísticos da Península. Foi Basilio Losada quem deu a
conhecer em Espanha o grande Jorge Amado e o nosso Nobel José Saramago,
entre tantos outros.
Tive apenas agora a oportunidade de conhecer pessoalmente tão proemi-
nente intelectual. Mas do que pude ler sobre o seu percurso e monumental obra
permito-me adivinhar que foi o amor à sua Galiza natal que norteou toda a sua
vida.
Falamos da Galiza como falamos de Portugal, pedaço de terra desta grande
Ibéria com tantas ligações e afinidades culturais.
Premiar Basilio Losada é reconhecer a força da cultura, da literatura, da poe-
sia na construção de um espaço com identidades próprias, mas aberto ao diálo-
go, permeável e solidário.
É este o paradigma por que lutamos: uma Ibéria onde a coesão e a coopera-
ção sejam palavras de ordem num espaço verdadeiramente europeu, sem fron-
teiras e sem barreiras de nenhuma ordem. A construção por um projeto comum
de Europa passa por iniciativas como estas, de partilha e de mútuo conhecimento.
A Guarda tem apostado desde há muito neste espírito de abertura: de cidade
fortaleza, passámos a espaço de encontro e diálogo; de guardiã da fronteira,
passámos a lançar pontes de cooperação.
Por isso abraçamos nesta altura um novo e ambicioso desafio: a Guarda quer
ser Capital Europeia da Cultura em 2027. Assumindo o espírito de pertença euro-
peia e abertura ao exterior, mas reafirmando a nossa identidade e promovendo
os valores europeus tão caros a Eduardo Lourenço.
O crescimento inteligente, sustentável e inclusivo que a Europa preconiza
passa também pelo desenvolvimento cultural dos seus territórios e pela criação
de sinergias entre o setor cultural e outros setores da economia. Acreditamos
que a Cultura é uma aposta de futuro para o desenvolvimento económico e so-
cial. Queremos vencer!
A experiência da cooperação transfronteiriça das últimas duas décadas, no-
meadamente através deste belo projeto sonhado pelo nosso Professor Eduardo
Lourenço, será certamente uma mais-valia para o caminho que agora iniciamos.
Uma cooperação e abertura que queremos reafirmar e alargar a outras ins-
tituições e territórios para que desta união se consiga um projeto forte, con-
gregador de vontades em torno da Cultura e que valorize o importante legado
histórico e cultural desta região de fronteira.
PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO
167
2018

Permita-me, pois, Senhor Reitor Ricardo Rivero, um agradecimento especial


ao apoio já manifestado pela Universidade de Salamanca à candidatura da Guarda.
O saber e a experiência de Salamanca Capital Europeia da Cultura constituirão
uma importante mais-valia para o enorme trabalho que temos pela frente.
A colaboração da Universidade de Coimbra, Senhor Reitor João Gabriel Siva,
do Instituto Politécnico da Guarda, Senhor Professor Constantino Rei, e da Uni-
versidade da Beira Interior são outros pilares fundamentais da Comissão Execu-
tiva da Candidatura cujos membros aqui presentes aproveito para saudar, agra-
decendo-lhes o empenho ao serviço da Guarda. Juntos saberemos trilhar este
caminho.
Professor Basilio Losada,
Esta histórica cidade de Fronteira, esta fortaleza de granito, porém aberta e
fraterna, aspirante a Capital Europeia da Cultura, orgulha-se de o receber e de
lhe entregar um Prémio que valoriza a cultura, a cidadania e a cooperação na
Ibéria e nos mundos que a Ibéria deu ao Mundo.
Reafirmamos hoje aqui o espírito de amizade galaico-português, ibérico e
europeu, assente na cooperação, no entendimento e no diálogo.
E assim continuaremos a defender a Cultura como pilar do sonho europeu.

Discurso proferido na sessão de entrega do Prémio Eduardo Lourenço


DO HOMEM COMO LITERATURA
EDUARDO LOURENÇO
Diretor Honorífico do CEI

Quero agradecer à Guarda o convite que me fez para estar aqui, por ocasião
da homenagem que prestamos ao Prof. Basilio Losada.
Para celebrar digamamente uma personalidade como o Professor e Escritor
Basilio Losada seria preciso uma enciclopédia. Ele não é apenas um escritor, um
poeta, um filólogo, mas, verdadeiramente, uma enciclopédia de vida. Só posso
responder, de algum modo, tendo audácia de tocar o tema de todos os temas
de alguém que está há muitos anos empenhado numa série de coisas que têm
a ver com a cultura propriamente dita. Seria ocasião de evocar a temática “Do
Homem como Literatura”:

Le seul moyen de supporter l’existence, c’est de s’étourdir


dans la littérature comme dans une orgie perpétuelle.
FLAUBERT

De certos sonhos, como o narrador da Recherche, acordamos com a sensa-


ção de ressuscitar. Ou até de nascer. Não como Colombo avistando terra desco-
nhecida, mas a mais conhecida, a que chamamos vida, a nossa vida, a realidade.
A sonhos onde perdemos a identidade, por monstruosos, como um quadro de
Bosch, apelidamos de pesadelos. Têm a sua lógica, são mesmo os morfemas da
sintaxe oculta da vida, mas, como sonhos, são para quem os vive a versão do-
méstica e íntima do inferno. É por isso que quando dizemos “sonho” e “sonhos”
pensamos antes naquela imersão num universo sem peso, num voo com pássaro
dentro, numa viagem num mundo de que não desejaríamos acordar. Quando
saímos deles o regresso à realidade oscila entre a incredulidade e a tristeza. Na
sua luz é a vida que parece pura decepção e irrealidade.
O Sigismundo de Calderón vive alternadamente esta dupla face da vida
como “sonho e anti-sonho”, tudo pertence à lógica da realidade. Aquela que
170 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

psicólogos ou analistas visitam ou revisitam para descobrir neles, ou sob eles,


o sujeito que nele se sonha, des-sonha, ou é sonhado como no célebre apólo-
go chinês da borboleta como sonho do homem, ou do homem como sonho de
borboleta. O Oriente começa sempre pelo fim, sabe, quando nós ignoramos os
termos da questão. É por isso que desde os pré-socráticos, anacronizando um
pouco, nós entrámos no labirinto daquela insólita perplexidade que veio a au-
todesignar-se por “antropologia”, ciência ou melhor “logos”, discurso acerca do
Homem, como se o Homem fosse um objecto e não seu sujeito. Quem é esse
“ser que sonha” sem se reconhecer no que sonha em sentido psicológico e on-
tológico, ou é sonhado sem saber por quem e com que fim?
Do Homem, e por consequênca das múltiplas imagens que condicionam as
não menos múltiplas “antropologias” ou a única Antropologia intrinsecamente
aberta sobre a questão que a legitima (qual é o ser do Homem?), clássicas
definições foram dadas. Que por definição, acertando sempre, o não definem.
No pressuposto ou na evidência empírica do seu género entre os outros entes, o
Homem é “animal que ri”, à espera de Victor Hugo para glosar a tragédia do seu
riso sem fim, do “animal que chora” para consolo de Heráclito, que dança para o
olhar de Nietzsche, que “pensa” para se compreender a si e ao universo na lumi-
nosidade sem sombra da evidência do que se pensa e sabe que se pensa. E, com
mais modéstia, mas essa sem partilha, “o ser que fala” e falando a si se nomeia
passando pelo circuito da nomeação de todos os outros seres e do universo.
Curiosamente, neste quadro um pouco borgiano não figura, ou raramente, a
ideia de confinar a “essência” do Homem ao sonho, talvez porque seja tão óbvio
que os homens sonham e essa “propriedade” não tivesse, por assim dizer, res-
sonâncias tão específicas, como as de ser “falante” ou “ridente”, ou “racional” e
de tão palpáveis efeitos como os de ser o “célebre animal político”. Na verdade,
essa não-significância de “sonhar” como traço de definição antropológica tem
a sua razão de ser. Todos os seres “sonham”, asseverava o mágico Novalis, re-
metendo assim o “sonho” para a Natureza ou a natureza em nós. E quem não
“sonha” nesse mero sentido natural, confirmam doutamente sábios americanos
a respeito dos ratos, morre. Sem metáfora. Mas é de uma outra espécie de so-
nho, um sonho que não vem da Natureza para nós, um sonho que não somos nós
fugindo à realidade, mas investindo-a, revestindo-a com uma segunda vida, em
todos os sentidos sobre-natural, que em vez de apenas sobre-viver sem mudar
de essência ontologicamente nos transfiguramos. O lugar, ou antes, o acto dessa
transfiguração chama-se, para empregar uma expressão moderna de um acto
intemporal, Literatura.
Numa fórmula de recorte elitista, Ortega Y Gasset escreveu: “só há duas es-
pécies de homens: os poetas e os outros.” Não estou certo que os aqui deno-
minados “outros” não sejam também “poetas”, e os chamados “poetas” outros,
mas suponho que Ortega quis apenas assinalar que a assumpção plena do
“humano”, ou mesmo a essência da humanidade, era a sua poeticidade.
DO HOMEM COMO LITERATURA
171
Eduardo Lourenço

Desde que Heidegger glosou Hölderlin, não há consideração sobre o “literário”


em geral que, em alemão, se separe do poético, que não reitere essa intuição
da essencialidade poética do que chamamos Homem. E sem lembrar que para o
autor de Hyperion “é poeticamente que o Homem habita a terra”.
Mas não é precisamente nesta linha, que facilmente deriva numa espécie
de idolatria ou sacralização da literatura, que se situam estas considerações
sobre o “Homem como literatura”. Também nada têm a ver com a História
específica de uma expressão entre outras, da capacidade de simbolização
da linguagem que permite ao universo interior dos homens dar-se a ler, ou
a ver, no chamado universo escrito, aquela que indiferente à maldição de
Babel, se converteu em livro e enche as bibliotecas, as livrarias ou as estan-
tes do mundo inteiro. A literatura, como englobante ou campo da actividade
literária, actividade sociológica ou culturalmente apropriada para caracterizar
antropologicamente como signo de particular relevância a Humanidade, está
fora dos meus propósitos. Melhor, temo que este género de considerações
des-legitime, de raiz, toda a espécie de pretensão antropológica, quer dizer,
toda a tentativa não só de encontrar uma resposta, mas até de conferir um
sentido à questão “o que é o Homem?”.
Em certas culturas, para quem a actividade literária é o paradigma da mais
alta expressão criadora, costuma dizer-se de muitos escritores que escrevem
como quem professa, que entram na literatura como se ela tivesse portas ou
como quem entra para um convento. Isto dá a medida da sacralização de que
a criação literária é exemplo nos tempos modernos. A modernidade em última
análise é precisamente a sublimação da escrita até então reservada ao texto
sagrado. As feiras literárias do mundo inteiro, a sua proliferação — que também
pode ser lida como banalização do objecto literário — testemunha o impacto, a
centralidade como referente simbolizante privilegiado da criatividade humana —
a par da música — do planeta literatura.
Desde Guttenberg, até hoje, a famosa galáxia da coisa escrita envolve-nos,
ou envolvia-nos, como se desde sempre nós tivéssemos nascido, respirado, à
sombra da imensa floresta escrita. E se, de maneira sensível, uma parte da hu-
manidade não se dá conta dessa presença, ou por não saber ler ou por indife-
rença, é fácil imaginar o que seria o mundo se subitamente nos convertêssemos,
por qualquer acidente como um apocalíptico incêndio de todas as nossas biblio-
tecas de Alexandria, num universo sem livros. Do que neles está, naturalmente,
e tão misterioso é. A hipótese de um mundo, em sentido banal, sem livros, como
até agora os conhecemos, nem sequer é do domínio da ficção. Dentro em pouco
transportaremos connosco todas as bibliotecas do planeta. Se viajamos ainda
na literatura como mundo naquilo que justifica que o “homem como literatura”
não é apenas o homem que escreveu livros, que leu livros, para quem os livros
são como uma segunda e original maneira, ontologicamente falando, de “ser
humanidade”, é outra coisa.
172 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A literatura, embora o seu conceito seja recente, é antiquíssima. Pode até


supor-se que seja co-essencial à linguagem que, falando o mundo, o fabula.
Como actividade distinta, autónoma, como a dos escribas e — porque não? —
a daqueles a quem devemos os monumentos que a História da Literatura sa-
cralizou — Bíblia, Homero, Mahabarata, Popol Vuh — é relativamente recente.
Mas desde o início modificou a relação dos homens consigo mesmos. Ou, antes,
criou-lhe uma imagem, e uma imagem renovável, sem a qual se pode dizer que
não tinham imagem. Todas as águas do rio não podiam inventar Narciso, nem
obscuros cercos da Ásia Menor, Aquiles, se alguém não tivesse fixado em coisa
recitável ou escrita o amor de preferência a si mesmo, ou a fúria heróica de to-
dos os Westerns futuros, numa narrativa imortal. É tentador imaginar que esses
“criadores” — e jamais será possível empregar o conceito com mais propriedade
que para esses inventores ou recitadores de mitos — não fazem mais que trans-
por, ou transcrever “sonhos”. Quer dizer que a ficção é de uma natureza análoga
àquela que tem lugar no sonhador. Esta ideia é tão óbvia que mesmo um tão
profundo e original espeleólogo do imaginário como Bachelard julgou apropria-
do assimilar o poema, o ficcional, ao sonho acordado.
Mas o sonhador não é, em sentido próprio, o sujeito do seu sonho. Alguém
sonha nele. Nem por outro motivo os interpelados pelo sonho o atribuíam aos
deuses e requeriam adivinhos ou profetas para lhes decifrar a divina men-
sagem. Nabucodonosor, o Faraó, Sócrates não procedem de outra maneira.
A nenhum ocorreria a ideia-chave da futura idade, não apenas da Literatura,
mas do Homem-como-Literatura: Madame Bovary, a minha obra, o meu sonho
fora de mim, sou eu. Mesmo com a adição futura de Proust — um eu, sim, mas
não o que frequentava os salões de Madame Verdurin —, o sonho escrito, so-
bretudo o mais escrito — como o Surrealismo o desejou —, está fora da esfera
dos sonhos de que se acorda para entrar na “Realidade”. Não escapou ao
homem antigo que as míticas narrativas, esta primeira aparição da Literatura
na sua inocência devastadora, eram um mundo paralelo ao outro, mas miste-
riosamente exemplar. Ou, mais precisamente, que as suas criaturas, Ulisses,
Aquiles, Nausica, Helena, participavam da vida divina. E sobretudo que daí
em diante, a vida real, mesmo a mais mítica, seria em relação à existência
puramente literária, muito platonicamente, a sombra de um ideal. Nas suas
campanhas, Alexandre imitava e invejava Aquiles como os leitores de Tintim
(pequenos e até grandes) o acompanhavam ao seu Oriente de ficção.
Pode considerar-se a mais memorável encarnação do Poder, Alexandre im-
pregnado e fascinado pela Ilíada, como expressão natural do Homem-como-Lite-
ratura. Quer dizer, com mais precisão, da Literatura como forma do mundo, fora
da qual tudo existe ou pode existir, mas não resiste, não perdura, não fulgura,
transfigurando sem fim a nossa relação com a realidade. Os guardiões sem dono
da cidade, os seus filósofos — entre eles o maior — cedo se deram conta de
DO HOMEM COMO LITERATURA
173
Eduardo Lourenço

que na exigência, não menos divina, ou a única divina, da Verdade, de que o


conhecimento exigido e requerido pelo que é e é eternamente verdadeiro é este
mundo de ficção que como Helena atrai após si os olhares dos velhos troianos —
e menos velhos — há um problema, uma querela, em todo o caso, uma perplexi-
dade. Não vou relembrar se a forma como Platão o entendeu — e à sua maneira
resolveu — é a única ou a melhor. Mas seria petulância de gente que se crê mais
lúcida só por vir depois ignorar que aquilo que ele designava já como “a eterna
querela entre Poesia e Filosofia”, sob outra roupagem, deixou de existir ou não
tem razão de ser.
Não estava contudo nas mãos de ninguém que o surgimento do “homem
como literatura”, não só perturbasse a relação abstracta do Homem com a
Verdade, como investisse por dentro a fortaleza pura do saber e a forma huma-
na que a sua perspectiva induz a ponto de inverter os termos da querela. Sem
dúvida, uma outra imagem, mais conforme ao sonho de Platão e filho dele, infor-
ma e condiciona a figura do Homem moderno, a do Homem-como-Ciência. Os
seus efeitos na ordem antropológica não têm rival em termos de magia natural,
assegurando-lhe a posse e domínio da Natureza que Descartes nos promete-
ra. Mas não o mudam por dentro, não lhe dão uma outra alma, porque o não
mudam para quem é. Quer dizer, para quem se sonha. Só o imaginário escrito,
onde se perde quem sonha arrastado sob as figuras dos Dom Quixote, Don Juan,
Hamlet, Julien Sorel, Mister Pikwick, Ivan Karamazov, a Catarina d’O Monte dos
Vendavais, Anna Karenina, a Joaninha dos Olhos Verdes ou suas irmãs gémeas
contemporâneas, tem esse poder. É esse poder, essa existência outra, aquela
através da qual a humanidade se torna, não episodicamente, mas essencialmen-
te, Literatura.
Durante milénios, a humanidade teve literatura mas não era, seriamente fa-
lando, literatura. Literatura, o único sonho de onde uma vez imersos não pode-
mos acordar. É uma história sem fim, como a de um filme célebre onde somos
apenas aquilo que lemos e o que lemos nos converte em «anjos», indiferentes
ao espaço e ao tempo. Seria longo, ou impossível, evocar aqui os avatares desta
metamorfose do homem que tem literatura no homem que é literatura e mais
difícil ainda explanar as modalidades deste ser-literatura da Humanidade. O “ser
literatura”, que a invenção de Dom Quixote mitifica, na verdade não pode ser
ultrapassado. Todo o leitor, para quem realmente um livro existe e lhe rouba a
sua realidade imediata, é Dom Quixote, mas não tem o mesmo significado em
Chateaubriand, em Goethe, em Flaubert, onde a humanidade como literatura
toma a forma mesma da tentação e deixa de ser apenas a quinta essência da
nossa vontade de sermos deuses, para se tornar na fonte envenenada do deses-
pero mais raro, aquele a que Claude Edmond Magny numa carta célebre sobre o
poder da escrita — só comparável à Carta a Um Jovem Poeta de Rilke, ou à Carta
de Lord Chandos de Hugo von Hofmannsthal — chama o desespero literário.
174 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Flaubert conheceu-o, Mallarmé fez dele um jogo, e depois dele essa consciência
da mortalidade do que em si mesmo é imortal, ou bem pior, da inacessibilidade
intrínseca da ficção onde, como Deus em Cristo, os autores põem toda a sua
complacência, tornou-se, por assim dizer, o a priori de toda a criação literária.
Enquanto tais, eles não são o homem-como-literatura. São só aqueles que per-
mitem aos outros, graças a uma privação sem nome, de adquirir uma existência
lendo-os. Pensar que o não alcancem justifica esse famoso desespero literário,
quer dizer “celui / qui s’empare de l’écrivain lorsqu’il desespère de la littérature
et à cause d’elle”.
Felizmente o homem-como-literatura está todo do lado do leitor que pode
ser e começou por ser fatalmente todo o autor digno desse nome. É como
leitores que nós somos “literatura”, paisagem invadida, submersa, iluminada por
todas as emoções, sentimentos, angústias, alegrias que, para parafrasear Pes-
soa, não damos a nós mesmos nem à vida, mas estão lá, inscritas, incoativas,
nesse lugar sem lugar nem espaço mais virtual que todos os espaços virtuais
que chamamos livro e em virtude do qual somos literatura. É nesse lugar que
se inverte a desesperada sentença de que em face da tragédia da nossa verda-
deira vida como esperança realmente ferida de morte tudo o resto é literatura.
Não, a literatura é o resto, um pouco como Pascoaes dizia da Saudade que é o
que fica quando tudo morreu. Num filme célebre de François Truffaut, inspirado
de Bradbury, o cineasta mostra-nos homens que não são mais que livros: como
loucos circulam nos jardins de um mundo onde a literatura perdeu o direito de
cidade, cada um recitando as palavras onde a essência da Humanidade é supos-
ta preservar-se. Um é a Odisseia, outro a Divina Comédia, outro Dom Quixote,
outro Madame Bovary, outro O Processo. Em suma, bibliotecas vivas para que
o Homem não possa morrer. Em tempos de Salman Rushdie aquela alegoria da
ciência-ficção não perdeu actualidade. O interesse dela não seria grande se só
a tomássemos como reverência ou até idolatria de uma particular criação do
espírito e da imaginação dos homens que no livro e na Literatura se encarnam.
Mas é outra coisa: esses homens-livros são só a Humanidade tornada Literatura,
não por escrever ou ler livros que contêm a nossa realidade ou a nossa verdade
como uma estela dá conta de uma batalha ou de uma legenda, mas antes por
serem o espelho infinitamente reflectido do nosso sentimento de nós mesmos,
dos outros e do mundo como incuravelmente ávidos de mais realidade e ver-
dade que só o imaginá-los inventa para que possamos suportar a existência na
sua opacidade absoluta. Não são os livros que conservam a cidade, é a nossa
imaginação, nós como Literatura, que inventamos a verdade. A verdade segundo
Xerazade, aquela que afasta os muros da Morte enquanto ela acrescenta um
conto a outro conto. Sem fim.

Discurso proferido na sessão de entrega do Prémio Eduardo Lourenço


A BASILIO LOSADA
JORDI CERDÀ*

Faz que sejam seguras as pontes do diálogo


e tenta compreender e estimar
as razões e as falas várias dos teus filhos.
Salvador Espriu**

Eu ouvi um professor meu dizer que a modéstia era um dos piores usos da
ironia. Digo isto porque, em primeiro lugar, não quero que se confunda o que
pretende ser apenas um mero desabafo, com uma forma de modéstia, desne-
cessária e, por natureza, falsa. Não sou a melhor pessoa para fazer a laudatio
a Basilio Losada, um professor que ao longo de um vasto percurso de docência
teve alunos muito mais competentes e adequados do que eu para a realizar. Foi
isso que lhe disse quando o professor sugeriu que o acompanhasse neste ato.
No entanto, como diz a sabedoria popular espanhola, «las ocasiones las pintan
calvas.» E, de facto, este provérbio que com um ar de absurdo, mantém uma bela
imagem clássica, mostra-nos que quando a roda da fortuna está a nosso favor,
não a podemos desperdiçar, porque, infelizmente, o dia a dia de todos nós já
se encarrega de nos trazer calvícies e rapadas inesperadas. Por isso, agradeço
de todo o coração a possibilidade que agora tenho nesta laudatio de expressar
publicamente a minha admiração e estima pelo professor Basilio Losada, o meu
mestre.
Mas quem é Basilio Losada?
Basilio Losada é um senhor que madruga. Que quando lecionava as aulas de
doutoramento, programava-as para as oito da manhã, um horário que parecia
ser feito para dissuadir ou diretamente chatear os alunos. Apesar de tudo, ele

*
Professor Universitat Autònoma de Barcelona.
**
Versos extraídos de A Pele de Touro de Salvador Espriu, traduzidos em 1974 para o português por Manuel
de Seabra, amigo de Basilio Losada. Este livro de poemas de Espriu é um canto a Sepharad, isto é, a toda
a Península Ibérica para que «viva eternamente / na ordem e na paz, no trabalho, / na difícil e merecida /
liberdade».
176 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

tinha sempre uns quantos que ganhavam à preguiça matinal ou às ressacas juve-
nis para o ouvir. Quando entrávamos no seu gabinete, ele já estava a trabalhar
há horas, e ouvíamos, no dizer de Álvaro de Campos: «o tic-tac estalado das má-
quinas de escrever» com o boletim rotativo de notícias da RNE. Sons que, agora,
parecem de outro tempo.
Basilio Losada é um professor, um professor magnífico, que eu acho que
nunca fez nenhuma programação dos cursos, nenhum relatório sobre os cri-
térios pedagógicos empregados ou qualquer tipo de avaliação da empregabi-
lidade dos estudos que ele lecionava. Uma aula sua sobre uma cantiga gale-
go-portuguesa podia terminar, porque não?, numa dissertação sobre a pintura
informal de Antoni Tàpies. Nunca sabíamos sobre o que falaria, porém tínhamos
sempre a convicção de que acabaria por nos cativar e de que aprenderíamos.
Talvez porque o conhecimento, o autêntico conhecimento, não viaja frequente-
mente pelos caminhos previsíveis, mas acomete — assalta-nos — sem estarmos
à sua espera.
Basilio Losada é um homem com uma persistente teimosia pela heterodoxia,
com uma simpatia inveterada pelos derrotados. Nas suas aulas ouvi pela pri-
meira vez falar sobre o priscilianismo. Ou do adocionismo, uma heresia que, de
passagem, nos conduzia pelos trilhos do diálogo, o essencial para reduzir fana-
tismos e intransigências de todos os tipos. As tristes constantes que num século,
o nosso século XX, marcaram Basilio Losada e toda a sua geração através de
ideologias e sectarismos.
Basilio Losada é um homem que gosta muito de livros, que leva consigo
constantemente de um lugar para outro papel encadernado. Isto ainda aconte-
ce, com a dificuldade adicional de carregar a sua bengala, e também acontecia
quando levava para a sala de aula uma montanha de livros para os folhearmos.
Lembro-me especialmente de numa aula dedicada à saudade, como não podia
deixar de ser num curso de literatura portuguesa, ter entre as mãos um livro
que tinha sido apresentado por Losada como a recente grande contribuição
à temática; aquela obra intitulava-se O Labirinto da saudade e era, claro, de
Eduardo Lourenço. Era a primeira vez que ouvia o nome deste ensaísta portu-
guês. Foi também naqueles finais dos anos oitenta que Lourenço coincidiu com
Losada numa conferência sobre Fernando Pessoa que teve lugar em Barcelona,
na altura do boom do poeta em diferido. Que hoje celebremos a concessão do
Prémio Eduardo Lourenço a Basilio Losada apraz-me particularmente: pois sem-
pre os tinha associados e porque eu conheço o grande cuidado e carinho que
Lourenço tem para com Barcelona e a Catalunha. E, de facto, o prémio deste
ano atinge diretamente o nordeste desta península ibérica. Porque Losada é um
referente inescusável da lusitanística nesta zona: é o único catedrático numa
universidade catalã de filologia galega e portuguesa. Por este labor foi-lhe con-
cedida a Creu de Sant Jordi da Generalitat de Catalunya em 1984. Também
A BASILIO LOSADA
177
Jordi Cerdà

mereceu reconhecimentos em Portugal, como a Comenda da Ordem do Infante


D. Henrique, em 1993, ou no Brasil como a Ordem do Cruzeiro do Sul em 1995.
Basilio Losada é galego, galego de nação, como ele gosta de lembrar que dizia
o seu admirado Álvaro Cunqueiro. E se uma pátria, como foi dito e repetido, tem
muito a ver com a infância, a de Basilio Losada é a da Galiza ancestral, a da aldeia
quando era criança, acabada por um facto extraordinariamente doloroso que pre-
cipitou a expulsão daquele paraíso — como tantos outros, perdido —: a guerra civil.
O professor Basilio Losada fez-nos descobrir e fez-nos amar, a muitas ge-
rações de estudantes catalães, o seu país, a Galiza. Um país, talvez o único no
mundo, que não tem um escritor nacional, mas uma escritora: a poeta Rosalia de
Castro. A ela, justamente, Basilio Losada dedicou-lhe a tese de doutoramente, e
sobre ela fez a última aula na Universidade de Barcelona. De Rosalia, o profes-
sor Losada gosta de enfatizar a sua categórica expressão da dor. E sempre que
penso em Rosalia vem-me à mente — graças à influência direta de Basilio Losada
que sei que a estima muito — outro poeta: Luis Pimentel, que disse de Rosalia
que ela chorou «pra todos e pra sempre.» Este médico-poeta de Lugo, que tanto
sabia sobre o sofrimento quotidiano, escreveu Cunetas, um poema sobre a guer-
ra incivil, sobre a morte, sobre o caos da dor e do acaso. E conseguiu com a sua
poesia, tal como Rosalia, sublimar a dor. Uns versos dele dizem:

Teñen que se encher aínda


as cunetas
con sangue de mestres o de obreiros.
Lama, sangue e bágoas nos sulcos
son semente.

E, de facto, esta semente deu os seus frutos: como o próprio Basilio Losada
e homens e mulheres da sua geração puderam fazer florescer uma renovada
cultura galega — apesar da guerra, da ditadura ou de tantos e tristes impedi-
mentos —. Losada é, segundo Manuel Rivas, a abita da Galiza na Catalunha. E
ainda que sempre tenha tido uma relação distante com os poderes, os governos
da Catalunha e da Galiza, reconheceram o seu trabalho como académico, como
intelectual e como divulgador. Recebeu em 2016 a máxima honra da Galiza: a
Medalla de Galicia de Ouro.
Basilio Losada é tradutor, um grande e extraordinário tradutor, que mereceu
as mais altas distinções por este ofício como o Premio Nacional de Traducción
em 1991. Traduziu do francês ou do alemão, mas é principalmente reconhecido
pelas inúmeras e extraordinárias traduções entre as línguas ibero-românicas: do
galego, do catalão e, claro, do português. De Basilio Losada são as traduções
para o espanhol, na prestigiada editora Seix Barral, da nova narrativa portugue-
sa do início dos anos setenta: de Vergílio Ferreira e de José Cardoso Pires, os
178 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

protomártires. E convém lembrar que Basilio Losada foi o tradutor para o espa-
nhol, desde meados dos anos oitenta, de José Saramago na altura em que este
escritor atingiu a aclamação unânime da crítica e dos leitores entre o mundo
hispânico; a glória celestial. Losada é diretamente responsável pela febre hispâ-
nica de Saramago, o primeiro autor português que eu saiba, que foi publicado
simultaneamente em tradução para o espanhol. Um momento excitante em que
chegámos a acreditar que os autores portugueses teriam um espaço privilegiado
nos catálogos espanhóis. Que a jangada de pedra se construía de um imaginário
partilhado e respeitoso da extraordinária diversidade da Península Ibérica.
No entanto, Losada não é apenas um tradutor. Ele também tem sido um me-
diador, um apóstolo da boa nova literária em língua portuguesa. Um homem com
uma extraordinária capacidade empática para que alguns dos autores por ele tra-
duzidos se tornassem também em confidentes e amigos. Como bom galego é um
ótimo conversador. E também um ótimo fabulador. Segundo Losada, foi desafiado
por um editor para escrever A peregrina, a única incursão à ficção que fez, com
um prólogo de José Saramago, e que saiu no prelo em espanhol e em galego.
Basilio Losada é um homem que tem trabalhado arduamente no entendimen-
to entre todos os povos ibéricos. Ele porfiou nisso por ofício e vocação. Cético em
quase tudo, tem sido capaz de lançar as bases para as diversas culturas ibéricas
e, tal como Saramago disse, transibéricas, terem um espaço de conhecimento e
diálogo na universidade ou no mundo editorial. Sem palavreados, sem brindes
honoríficos e circunstanciais, mas com um trabalho constante e obstinado para
aproximar línguas, terras e culturas ibéricas.
Um dos grandes narradores catalães, Josep Pla, um mestre de alfinetadas,
disse uma vez que «Si parlen del bacallà amb un portuguès, hi trobaran una
evident curiositat. Si li parlen de la unió ibèrica, potser no tant» [se falarem de
bacalhau com um português, encontrarão uma curiosidade evidente. Se lhe fa-
larem sobre a união ibérica, talvez não tanto.] Josep Pla era outro cético, um
teimoso desiludido, e deste jeito bania qualquer véu ideológico e oportunista
dum suspeito iberismo político. Basilio Losada, que detesta o bacalhau — não
pode com ele — construiu um autêntico e palpável iberismo baseado no diálogo,
na compreensão do outro, na liberdade e no risco que todo o pensamento crítico
deve assumir.
Por tudo isto, e muitas outras coisas que os dez minutos protocolares não
me permitem, gostaria de agradecer mais uma vez ao professor Losada a sua
mestria. Que sorte, que fortuna tê-lo conhecido, ter convivido com ele, ter po-
dido ouvi-lo, e aprendido tanto dele. Não seria o que sou e, naturalmente, não
estaria aqui.

Discurso de homenagem a Basilio Losada proferido na sessão de entrega


do Prémio Eduardo Lourenço
BASILIO LOSADA CASTRO

En mi tiempo, en los años 50, cuando uno empezaba a hablar en público,


decía las palabras elementales: “Seré breve”. Yo voy a ser breve y voy a hablar
en mi lengua, la lengua que yo defendí siempre en mi actividad pública: el galle-
go. La lengua gallega es mi portugués. Hablaré también en castellano que es mi
lengua de actividad docente. Por defender la lengua gallega la policía me llevó
varias veces para interrogarme. La verdad es que salí bien librado.
También se valoraba el índice de saludos a los patrocinadores del acto que
uno iniciaba. En esto sí seré breve: un abrazo a todos los asistentes a este acto.
Gracias a todos. En gallego decimos: “Unha aperta a cantos estades aquí”. Pero
hay gente e instituciones a quienes debo una gratitud individualizada: a todos
los que se acordaron de mí. Soy un viejo profesor con 88 años cumplidos y cin-
cuenta de ellos de actividad en diversas universidades de veinte países, y como
centro la de Barcelona. Ahora a la ciudad de Guarda y sus autoridades, al jurado
del Premio a las universidades de Coimbra y Salamanca, que resumo con un
nombre el “Centro de Estudios Ibéricos”. Y por encima de todos, con mi admira-
ción emocionada, al Profesor Eduardo Lourenço. De él podría hablar mucho pero
entonces, me doy cuenta de que no estoy siendo breve. Me limito a enviarle un
abrazo cordial.
Cuando yo tenía menos de cinco años, me hicieron cambiar de lengua. Mi
padre fue nombrado en Madrid para un cargo policial de confianza: proteger
al presidente de la República Española. Si se acercaba un monárquico con una
pistola mi padre tenía que recibir los tiros. Afortunadamente, no se acercó al
estrado nadie con intenciones asesinas, pero mi padre decidió que en Madrid
había que hablar castellano. Mi madre, cuando mi padre no estaba presente,
siguió hablándonos en gallego. Mi gratitud para ella por tanto como le debo.
En 1958 entré en la Universidad de Barcelona como profesor. En 1968 se creó
el Departamento de Filología Gallega y Portuguesa. Logré que se introdujera el
gallego y también la modalidad del portugués de Brasil y las variantes lusófonas
africanas. Mis gestiones fueron siempre bien recibidas por los rectores de mi
universidad. El profesor encargado de la modalidad brasileña asistía a mis con-
ferencias sobre el tema, y siempre empezaba la presentación con la misma frase
180 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

inicial: “El Dr. Losada va a empezar diciendo, como siempre, que la literatura bra-
sileña es la más interesante del mundo.” Tras esta frase inicial yo tenía que decir
el porqué: En ningún otro país del mundo se podía pasar en un viaje de dos horas
desde el Neolítico a las tecnologías punta. Y aún hoy estoy convencido de que
las grandes literaturas de nuestro tiempo, afloran lentamente en los países del
Tercer Mundo porque solo en ellos ocurren cosas dramáticamente interesantes.
Soy hombre de muchas patrias. En primer lugar el valle de Láncara, donde
nací, y elegiría para acabar mi vida donde la empecé. Descubrí Portugal como
una patria. En Portugal se hablaba normalmente la lengua que todos hablaban
en mi patria inicial, el valle de Láncara. Ya en Barcelona, con mi familia, descubrí
que en mi parroquia anunciaban una peregrinación a Fátima. En aquellos años
de terrible escasez, en definitiva años del hambre, oí decir que en Portugal to-
das comían pan todos los días. Hablé con el párroco, pero me dijo que el viaje
costaba 200 pesetas. En mi casa nadie tenía 200 pesetas para aquella aventura.
Tuve que hacer de monaguillo durante dos meses para ir a Portugal. Yo no sabía
ayudar a misa pero un amigo me guiaba con la mano, y con el cura de espaldas,
para colocar el libro sagrado en su sitio. ¿Cómo no amar al país dónde uno ha
podido hartarse de pan por primera vez en su vida? Yo llevaba unas monedas y
compré pan, y me harté, me harté, en los años hambrientos de España.
Yo no he querido ser escritor, aunque tuve que escribir mucho durante mi
larga vida universitaria. En vez de escritor quise ser lector. La vida de escritor
es un trabajo muy duro: escribir una novela durante todo un año pensando que
va a tener un éxito enorme, y luego vende dos ejemplares ¡un horror! Después,
en las ferias del libro, ponen al lado de ese escritor a un autor lamentable con
un montón de libros suyos y los vende todos. Preferí ser lector y hablar de los
libros que me emocionaban, decir a mis alumnos: “Esto tenéis que leerlo”. Por
ejemplo cuando cogía en mis manos La correspondencia de Fradique Mendes.
Hace poco un excelente escritor, que fue alumno mío, me ha dicho: “gracias por
recomendarme a Fradique, es uno de mis libros de cabecera.”
Hablando de los grandes libros en la comida, antes de este acto, hice una
referencia a una novela brasileña: Mad Maria, de Márcio Souza, un autor que
en España nadie conoce, o casi nadie. La traduje yo hace muchos años. Es una
novela impresionante: habla de la construcción de un ferrocarril en la selva
del Brasil, de ninguna parte a ninguna parte. Mad María (María la loca) es la
locomotora. El proyecto del ferrocarril era un pretexto para obtener subven-
ciones y ayudas oficiales, es decir un tema muy de hoy. En la construcción
murieron cientos de obreros, Es el verdadero retrato de lo peor de la economía
moderna. Cuando se publicó la traducción, no se vendió. Ahora, una editorial
modesta ha hecho una nueva edición y me pidió que les cediera, gratuitamen-
te, los derechos que me corresponden como traductor. No les cobré nada, me
enviaron dos ejemplares.
BASILIO LOSADA CASTRO 181

Mi carrera docente se inició como encargado de curso y terminó casi cincuen-


ta años después, como catedrático y director del Departamento de Filologías
Gallega y Portuguesa. Teníamos un problema, la escasez de libros portugueses y
brasileños. Estuve muchas veces en Portugal y volvía siempre cargado de libros.
También, aunque con menos frecuencia, fui a Brasil y volví también con los libros
que no encontraba en España. Formé así una biblioteca – evidentemente no
solo de libros en portugués – que he cedido en gran parte a la Cidade da Cultura
de Santiago de Compostela. Me dicen que la “Biblioteca Basilio Losada” tiene
por ahora alrededor de 20.000 volúmenes. Allí están una parte de mis libros. La
mayoría de lo qe quedó de mis libros en portugués forman la biblioteca de mi
hija Elena, profesora en el área de Filología Portuguesa para seguir la tradición
familiar.
Fui feliz en mis clases. Durante veinte años, cuando prácticamente nadie sa-
bía nada en España sobre Pessoa, di cursos de nueve meses sobre su obra. Tam-
bién otros tantos años, sobre literatura medieval galaico-portuguesa. Yo aprendí
mucho de mis alumnos, de sus preguntas. También fui durante cuarenta y cinco
años profesor de los programas en España de las universidades de California,
Illinois y, Knox College. Fui feliz.
Como lector me interesó siempre especialmente la poesía. Recuerdo una
conversación con Salvador Espriu. Me decía él que sus poetas preferidos fuera
del ámbito catalán eran Antonio Machado, Rosalía de Castro y Joan Maragall.
Y me dijo también que un gran poeta nunca ha logrado escribir más de ocho
grandes poemas. Esto lo utilizaba en mis clases para decirlo y leer los poemas
que a mí me gustaban. Luego les pedía que los leyeran si querían, y que los co-
mentaran luego para mí. Pessoa fue durante años, y hoy sigue siéndolo, uno de
esos grandes poetas.
¿Qué libros portugueses me han impresionado más? No puedo hacer una lis-
ta. Empecé con Eça de Queirós. Ahora esa lista sería interminable, pero por decir
uno mencionaré Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, la lírica de Camões o toda la
obra de Antero de Quental.
Yo fui editor. No dueño de una editorial, sino colaborador de las más impor-
tantes. Mi misión era descubrir libros, especialmente libros portugueses que pu-
dieran interesar a un lector español. Hablaré de Saramago: compré en Lisboa un
ejemplar de Memorial do Convento. Lo llevé a varios editores con una especial
recomendación. Me decían que el libro portugués no tenía salida. Lo llevé a Pere
Gimferrer, director de Seix Barral. Me dijo que él ya tenía un ejemplar pero no se
atrevía a publicarlo. “¿No tiene más obras este portugués?”, me dijo. “Tiene una
obra extraordinaria también: O Ano da Morte de Ricardo Reis”, respondí. Gimfer-
rer dijo: “Pues un heterónimo de Pessoa siempre interesa. Luego veremos.” El
éxito fue inmediato y se editaron todas las novelas iniciales de Saramago. Las
traduje yo, porque traducía siempre lo que me interesaba como lector. El resto
182 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de la obra de Saramago lo tradujo su esposa Pilar del Río, excelente traductora.


Las clases y la traducción llenaban mi vida. Hace una semana un periodista
me preguntó de qué materia me gustaba más hablar. Le dije que de las clases
que le di durante tres meses a mi madre. Yo iba a comer siempre a casa de mi
madre, que vivía sola y cerca de la Universidad. Le puse un teléfono y ella me
decía si había alguna llamada. Un día me dijo: “Ha llamado este señor”. Me en-
señó un papel con un nombre que parecía un garabato. Me enfadé: “Esto no se
lee. ¿Por qué no escribes más claro?”. Me dijo: “En mi aldea no había escuela.
Hacía de maestro uno que sabía leer y las cuatro reglas. Le pagábamos con un
saco de patatas.” “Pues ahora – dije yo – el maestro seré yo. Todos los días a
las 8 de la mañana tendrás una hora de clase.” Me emocionaba aquella clase.
Para asistir a clase, ella se ponía su mejor vestido. Las clases duraron tres meses.
Aprendió a leer y a escribir correctamente. Fueron las clases cuyo recuerdo aún
me emociona.
Veo que no he sido breve, y terminaré: creo que he tenido la más hermosa
profesión del mundo. En definitiva lo único que he hecho en mi vida es enseñar
a leer.
Termino con mi gratitud para todos y para mi admirado Profesor Eduardo
Lourenço. Coincidí con él en varios congresos y siempre quería tenerlo cerca,
esperando que alguien nos presentara. Nadie lo hizo y yo era demasiado tímido
como para presentarme a mí mismo. Hoy lo he conocido debidamente. Ya no
conozco solo sus libros: Heterodoxia (también yo soy un heterodoxo) y, sobre
todo, Tempo e Poesia, y O Labirinto da Saudade.
Yo llevaré la saudade de estos amigos de Guarda. Una saudade hasta la
muerte, tan próxima. De la generosidad, la cortesía y el afecto con que me ha-
béis tratado.

Discurso proferido na sessão de entrega do Prémio Eduardo Lourenço


DUAS ENTREVISTAS INÉDITAS
DE EDUARDO LOURENÇO

CAMILA DO VALLE*

I. FOUCAULT, LOURENÇO, LORCA, MUSEU NACIONAL


“(...) o mar recordou – de imediato! – os nomes de todos os seus afogados.”
(Federico García Lorca)

Em 1967, o pensador português que sempre se identificou com uma (auto)


classificação como ensaísta – seguindo a tradição de Montaigne –, mais do que
com uma classificação como filósofo, Eduardo Lourenço, escreve um texto in-
titulado “Michel Foucault ou o fim do Humanismo”, texto este que serve como
1
prólogo à edição portuguesa do livro As palavras e as coisas . Em tal texto de
apresentação, Lourenço aproxima a “arqueologia” foucaultiana de uma “teoria
da Linguagem” (p.15) e de uma “filosofia da Ordem, quer dizer, da ordenação
(...) do espaço ideológico do Ocidente, onde o que não aparece funda a lógica
paradoxal do que aparece como estrutura susceptível de ser descrita e com-
preendida” (p.13).
É dentro desta moldura de pensamento que se faz presente a pertinência de
transcrever aqui um fragmento do depoimento do referido ensaísta português
a respeito da tragédia recente que foi o incêndio do Museu Nacional no Rio de
Janeiro. Em seu depoimento a respeito, Eduardo Lourenço começa, de maneira
aparentemente inusitada, por nomear o poeta espanhol Federico García Lorca,
iniciando a construção da ponte histórica entre as situações. Recordemo-nos
que, ainda hoje, o assassinato do poeta espanhol em 1936, durante a Guerra
Civil espanhola, suscita dúvidas não só acerca do modo de sua execução como,
também, sobre onde estariam seus restos mortais, perpetuando um eterno adiar
da construção da ausência – o trabalho de luto propriamente dito – do poeta,

*
Professora Doutora do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ e do programa de pós graduação em Cartografia Social
e Política da Amazônia na UEMA. Atualmente em pós doutoramento do programa de Literatura Comparada do
Instituto Margaria Llosa da Universidade do Porto, sob supervisão da Prof. Dra. Isabel Pires de Lima, com bolsa de
pesquisa atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2018.
1
LOURENÇO, Eduardo. “Michel Foucault ou o fim do Humanismo”. In: FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas.
Lisboa: Edições 70, 2018 (1ª ed. 1989).
184 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

dramaturgo, compositor e pintor nascido em Granada. Essa morte deixa, pairan-


do no ar, sobre todos nós – qual a cachoeira de sangue e memória executada por
Lygia Pape em homenagem aos mortos do Carandiru e aos indígenas dizimados
representados no Manto Tupinambá, manto também referido em trabalho ante-
rior da artista –, a ferida aberta provocada pela barbárie do confronto contra os
fascistas que deram um golpe militar em Espanha que durou cerca de 40 anos.
A eloqüência do mistério que ronda García Lorca e a impossibilidade de um luto
que seja concluído em relação ao que se perdeu no Museu – irreparável perda –
conduzem a comparação feita por Lourenço, aos 95 anos, no dia 5 de setembro
de 2018, poucos dias depois do incêndio que deixou em ruínas o Museu Nacional
na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, antiga residência da família real portu-
guesa no Brasil. Ruínas de uma Guernica local. Como aquela, destruída em 1937,
e imortalizada por Picasso, a despeito de controvérsias ulteriores sobre a origem
do quadro e do bombardeio, nossa Guernica também era um local de confronto
e resistência identitária, onde o étnico se conflitava com os projetos nacionalis-
tas rasteiros, excludentes, preconceituosos, homogeneizadores. Linguagem ruí-
na, a que fala Eduardo Lourenço a respeito de nossa tragédia: “onde o que não
aparece funda a lógica paradoxal do que aparece como estrutura susceptível de
ser descrita e compreendida”.
O depoimento do ensaísta português foi gravado na Fundação Calouste Gul-
benkian, Lisboa, fundação com um imenso acervo artístico e documental que
também se dedica à pesquisa científica. Lourenço faz parte como membro do
Conselho administrativo desta fundação, além de exercer a função de Conse-
lheiro de Estado em Portugal, desde que voltou de França, onde morou e deu
aulas por mais de 40 anos, tendo se aposentado pela Universidade de Nice,
onde esteve mais de vinte desses longos anos. Recebeu inúmeros prêmios e
condecorações em diversos países, entre eles um Doutoramento Honoris Causa
pela Universidade de Bolonha e o Prêmio Pessoa em 2011. Há uma Biblioteca
com seu nome, na Guarda, região da Beira Interior, fronteira com Espanha, que
oferece um prêmio literário anual a autores da Ibéria, prêmio que também leva
seu nome. O fragmento reproduzido desta entrevista faz parte do projeto de
pós doutorado que resultará em uma publicação a ser intitulada Conversas com
Eduardo Lourenço.
“O assassinato do Lorca... Sobre o assassinato do poeta Lorca. Foi morto
numa revolta franquista que eclodiu. Não é¿ Certas confusões... é uma coisa
que está obscura até hoje... Era um poeta... não tinha uma poesia revolucionária
no sentido mais avançado do termo daquela época, mas quando foi a golpada
do Franco, ele pagou pelos outros. E ele pertencia à classe mais importante,
culturalmente falando, em Espanha, ou o que se pode dizer que era isso naquela
altura... Toda a nossa geração foi influenciada pelo que se passava em Espa-
nha, que era ao nosso lado, e, particularmente, pelo assassinato do Lorca. Mas
DUAS ENTREVISTAS INÉDITAS DE EDUARDO LOURENÇO
185
Camila do Valle

essa coisa aqui (e apontava para os jornais europeus sobre a mesa, falando do
incêndio no Museu Nacional)... é um assassinato sem sem sem sem sem... sem
autor... Como é que vou dizer isso... Uma espécie de terremoto cultural¿ Crepita
uma parte da memória brasileira fundadora. Isso é coisa insuportável, penso eu.
Provavelmente... o mais que se pode esperar é que essa coisa tão dramática,
tão trágica, no sentido forte da palavra, possa servir duma espécie de revolta
moral profunda que se ocorra ao Brasil e que o Brasil encontre qualquer coisa de
positivo mesmo para colmatar esse buraco negro de sua própria história que a
gente nem quer acreditar que foi tão cedo. É como se a gente estivesse a fazer
defuntos conhecidos nossos que amamos. Inacreditável. Uma tragédia. Uma tra-
gédia para a cultura mundial. Não é só para o Brasil. Mas quando a gente sabe as
carências particulares de certa ordem que têm os antigos países colonizados, e o
Brasil é um deles, naturalmente, não será o mais poupado de coisas graves, se-
não que era, realmente, naquelas épocas... isso era considerado qualquer coisa
de normal... Mas isso não pode justificar uma coisa dessas.” (Eduardo Lourenço)

II – “DA VIOLÊNCIA INERENTE À VIDA”


Entrevista concedida por Eduardo Lourenço a Camila do Valle, então mes-
tranda em Letras, em 13 de agosto de 1999. Niterói, corredor em frente ao
auditório da reitoria da UFF

CV: Alguns pensadores da cultura portuguesa acreditam numa rivalidade


entre seu pensamento e o de Boaventura de Sousa Santos.

EL: Bom, eu não creio, não é que... Eu, em todo caso, até por razões de idade,
de geração, era um pouco absurdo que eu sentisse da parte de um autor, ensaís-
ta, sociólogo brilhante como ele, Boaventura Santos, que eu sentisse qualquer
espécie de ciúme, ou coisa parecida, não é o caso. O que é natural é que alguém
que pertence a uma outra geração, um outro prisma, que tem uma formação
de alguém que está voltado para a leitura da realidade em termos de ordem
sociológica, que tenha, de fato, uma visão diferente, sobretudo a visão de como
o mecanismo da cultura portuguesa realmente funciona, tenha outra diferente
da minha, é natural e é bom que seja assim. De maneira que, como não havia, já
há muito tempo, jovens ensaístas que tivessem uma posição que se demarcas-
se desta minha, que, sendo conhecida, eu penso, que não é assim muito bem
compreendida, alguém que pensasse que está impugnando esse discurso, e, no
entanto, realmente não está, é bom porque isso suscita uma releitura minha e
também uma leitura dele... Eu penso que não há, é só uma questão de focagem,
realmente diferente. Só, agora... o problema é que eu não considero uma leitura
186 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

sociológica, seja do que for, como algo, não só interessante, mesmo necessário,
mas considero que a sociologia, pela natureza mesma do seu olhar, não é, tem
uma limitação realmente precisa, ela não pode ir mais do que aquilo, e eu penso
que só o ver, mesmo o mais sorrateiro possível, não compreende o objetivo real-
mente em questão, que é preciso. Na verdade, nós já vimos bem miticamente,
nós não medimos nada. Portanto, nós também não precisamos estar medindo as
coisas, ou medindo as relações entre as coisas, nós nunca chegamos realmente
à compreensão delas porque nós já mitificamos. O nosso olhar já é. É preciso
encontrar ou descodificar essa mitificação que nós fazemos pelo simples fato de
olhar, pelo simples fato de estarmos em relação com as coisas. E com as pessoas
ainda é pior naturalmente, porque são elas que têm outro código, portanto, se
nós nem sequer nos apercebermos do código que rege realmente o olhar do
outro, o discurso do outro, então, ficamos fora, é apenas uma análise exterior.

CV: Boaventura de Sousa Santos diz que a tradição da antropofagia, tal qual
a conhecemos na Literatura Brasileira, e que procurava romper com traços
da herança lusitana, já era proveniente de uma herança portuguesa...

EL: Bom, na tradição portuguesa, no léxico português, até hoje a antropo-


fagia é qualquer coisa que é remetida para a etnologia e para uma das figuras
do comportamento humano considerado como um elemento arcaico ou aber-
rante. De maneira que não (é) uma figura de leitura da nossa realidade, a não
ser na ordem genérica, não da realidade portuguesa enquanto tal. Que essa
possibilidade humana seja a possibilidade mais recalcada de todas as culturas,
e particularmente daquelas que pensou que efetivamente esse fantasma já não
existe... É evidente que não é verdadeiro. A humanidade é antropófaga. Só há
inteligência antropófaga, no sentido orgânico das coisas, é devoradora, quer in-
tegrar. O Hegel, que não era etnólogo, não era sociólogo, tem uma frase capital
nesse capítulo: “Toda consciência persegue a morte da outra.” E esse é o... o
outro que quer converter em objeto. Nós queremos convertê-lo em objeto para
realmente o possuir e, em última análise, o manipular e exercer a nossa vontade
sobre a sua vontade. O que é verdadeiro. Para o indivíduo, em particular, e para
o grupo, em geral. Há, de fato, uma vontade, um tema da ordem, não direi do
mistério, mas da ordem da violência inerente à vida mesma, que se destrói, é
um processo contínuo de crescimento e de criação e de destruição. Não tem,
digamos, grande tradição literária.

CV: Mas há uma afirmação de sua autoria dizendo “somos todos canibais”...

EL: Na medida em que todos o são. Não escapamos a essa regra. Embora
não penso que seja mais do que outras culturas. Mas essa idéia de antropofagia,
DUAS ENTREVISTAS INÉDITAS DE EDUARDO LOURENÇO
187
Camila do Valle

que é uma idéia de gênio, gênio de provocação, em todo caso, que é o Oswald
de Andrade, é alguma coisa que se impunha na revisitação radical de todo o dis-
curso sobre o Brasil. Ao mesmo tempo, as imagens exteriores reenviam para a
cultura brasileira essas origens um pouco tenebrosas, numa óptica racionalista,
iluminista e ocidental, de canibal. E, por conseguinte, o Oswald de Andrade reen-
via a bola à precedência: quer dizer, não só generaliza naturalmente a antropo-
fagia toda em geral, mas diz que não, eu assumo essa antropofagia: aquilo que
vocês consideram como negativo, eu considero como positivo. Portanto, esse é
um ato fundador, uma espécie de segundo ato.

CV: Este segundo ato fundador teria alguma relação com o que, a partir de
Nietzsche, convencionou-se chamar como “a morte de Deus”¿

EL: É um pouco paradoxalmente que se poderia comparar às coisas do Niet-


zsche em relação ao Cristianismo, na medida em que se pensa que o Cristianis-
mo tem a noção do pecado, tem a noção da culpa, da culpabilidade, e essa coisa
toda, e Nietzsche diz que a noção da humilhação, do sofrimento, não, o valor
positivo não é o sofrimento, o sofrimento é o uso da vida, e a vida é positiva, e a
vida é delírio, e a vida é Dionisos, não é realmente o Cristo; e então, ele inverte,
há uma transmutação de valores, um avanço profundo. Não sei se seria alguma
influência de Nietzsche ou não, mas faz, sim, esse processo de dizer: “Ah! Vocês
dizem que somos todos canibais¿ Pois eu sou canibal. E gosto.”

CV: Há um texto seu muito combativo, e com um tom muito pessoal, contra o
que se erigiu em torno do que seria o pensamento de Gilberto Freyre. Como
é um texto mais antigo, gostaria de saber se ainda concorda com as idéias
expressas no texto.

EL: Não, é um pouco injusto, naturalmente. Mas é pelo seguinte... Eu conheci


o senhor... O senhor era muito vaidoso. Não era vaidoso: era uma montanha de
vaidade. Era tão vaidoso que nem era vaidoso. Mas... a verdade é que era uma
personalidade. Mas era uma realidade difícil, ele tinha uma obra original, era um
senhor... Não sei se era isso também, as pessoas também obrigam as pessoas
a ser vaidosas, projetam sobre os outros com alguma notoriedade. Uma pessoa
não tem o controle, fica tão louca com os idólatras. A verdade é o seguinte:
talvez isso não se saiba, mas tenho de explicar que aquilo é um artigo de raiva.
Polêmico, naturalmente. O Gilberto Freyre, dada justamente sua notoriedade,
e porque ele era o homem da Casa Grande e Senzala, porque era o teórico do
luso-tropicalismo, etcétera; tudo isso era uma ideologia sobre a qual se fundava
a defesa do nosso colonialismo e da nossa guerra da África. E Salazar citava-o,
era uma grande caução. A grande caução da nossa luta em África era o Brasil em
188 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

geral. O Brasil é que era quem nos defendia na ONU, quando nos acusavam de
colonialismo e de racismo: “Não, nós temos o Brasil, o Brasil é um país multicul-
tural, não é racista.” E o Embaixador do Brasil levantava-se. E o Gilberto Freyre
era a caução intelectual. Em Portugal não havia interesse nenhum que qualquer
homem do regime tivesse esse interesse... O Gilberto Freyre era um intelectual
prestigiado. É por isso que Salazar citava-o no discurso para levar a cabo aquela
cruzada da guerra e do colonialismo em África. Sem querer, ou por querer, ou por
inocência... Também foi convidado a ir a Angola. Não foi lá passear para escrever
um livro.

CV: Como eu tomo seus ensaios, de uma certa forma, como ficção, gostaria
de saber...

EL: (risos e interrompe) Eu também, eu também. De outro modo, não agüen-


tava. E estou à espera que alguém a tome.

CV: E sobre seu encontro com Glauber¿

EL: O Glauber era muito jovem quando eu o conheci na Bahia. Aliás, ele apa-
receu lá, uma vez, num curso, aquela turma e tal, depois não foi mais. Aí, eu o
encontrei outras vezes, já cá fora. Assisti ao casamento dele. Acho que foi com
uma menina que era a rainha da beleza lá da terra, não é¿ E depois, quando o
encontrei mais tarde, já o encontrei muito doente já. Não escrevi sobre ele...
Escrevi, sim! Quando fui ao I Ciclo consagrado ao Cinema Novo, escrevi. Pelo
menos, dois artigos que estão publicados pela Cinemateca de Portugal.
RUA DO LOUREIRO, 9

ANTÓNIO PEDRO PITA

1.
A atual Casa da Escrita foi onde viveu o poeta João José Cochofel, durante
um período intenso e longo.
O poeta João José Cochofel Ayres de Campos nasceu (em 17 de julho de 1919)
do casamento de Pedro Mexia Aires de Campos Vieira da Mota, 2º Conde do
Juncal, com Maria Albina de Melo Cochofel, neta do Doutor João Jacinto da Silva
Correia (1843-1913), lente da Faculdade de Medicina e personalidade de grande
prestígio local e nacional, o qual adquirira a casa, em 1883, aos Viscondes de
Espinho.
O poeta faleceu em 14 de março de 1982. A Casa foi adquirida pela Câmara
Municipal de Coimbra em 2003 e requalificada, com objetivos de refuncionaliza-
ção, pelo Arquiteto João Mendes Ribeiro.

2.
Num texto magnífico, intitulado “O puzzle”, João José Cochofel ensaia um
aclaramento, das suas relações com a Casa:

“esta casa em que vivi parte de uma infância triste, ensombrada de doenças, as
deslumbradas descobertas da adolescência, as certezas e os entusiasmos da juven-
1
tude” .

Não deverá passar em claro a referência à “infância triste” e ao seu contra-


ponto tensional, as ”descobertas”, os “entusiasmos” e os “deslumbramentos” da
adolescência e da juventude. Entre essas descobertas e deslumbramentos, esta-
vam a poesia e a música. Desde os inícios dos anos trinta, frequenta a Academia
de Música de Coimbra, onde conhece o compositor Fernando Lopes-Graça por
ele aí ser professor, entre 1932 e 1936 e ao qual ficara ligado por uma longa
amizade.

1
João José Cochofel, «Obras Completas – Iniciação Estética seguido de Críticas e Crónicas». Lisboa: Editorial
Caminho, 1992, p. 162.
190 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A Academia de Música de Coimbra era muito próxima da casa de Cochofel.


Na realidade, bastava percorrer poucos metros da Rua dos Coutinhos para de-
sembocar no Largo da Sé Velha onde a Academia estava instalada – a mesma
Rua dos Coutinhos onde, entre residências altivas de universitários ilustres, ha-
via residências de estudantes. Numa delas, residia por essa altura o futuro poeta
Joaquim Namorado, então estudante do curso de Matemática, que chegara a
Coimbra em 1929, instalando-se na Couraça dos Apóstolos de onde se desloca
para a Rua dos Coutinhos. Escreve mais tarde:

“Via muitas vezes passar na minha rua aquele jovem sobraçando a sua caixa de violi-
no. Éramos vizinhos: eu vivia numa velha casa da Rua dos Coutinhos, a que um pátio
antigo dava um certo ar, ele morava ao voltar da esquina, num palácio com frente
para a rua a que haviam dado o nome do bisavô, o Doutor João Jacinto, pessoa de
imenso prestígio, não só na Universidade, mas em toda a cidade de Coimbra e no
país. O seu ar ao mesmo tempo concentrado e distraído chamava a minha atenção e
tomava-o por um desses “meninos prodígios” que por vezes aparecem à nossa volta
2
e depois se somem, como meteoros, sem deixar rasto”

A Guerra Civil de Espanha acelera uma tomada de consciência individual e


coletiva: o ano de 1937 é crucial para a definição das grandes coordenadas de
uma nova consciência intelectual.
Nascido numa família aristocrática, mais próximo da Mãe que do Pai, João
José Cochofel aprofunda progressivamente os seus interesses culturais e agu-
ça o interesse pelo mundo. Frequenta o Curso de Ciências Histórico-Filosóficas
(como então se designava), amplia as suas competências teóricas com leituras
muito para além do curriculum escolar e reúne uma enorme biblioteca onde, na
3
expressão de Joaquim Namorado, “havia tudo” . Começa a escrever e publica
em 1937 o livro de poemas «Instantes».

3.
Conhece então Joaquim Namorado, pessoalmente:

“Foi na ocasião em que publicou «Instantes», o seu primeiro livro de versos (…) não
me lembro bem em que circunstâncias, talvez na roda em volta da mesa de café do
Afonso Duarte (…). Pelo contrário recordo muito bem a nossa primeira conversa a

2
Joaquim Namorado, “Evocação de João José Cochofel” in «Diário de Lisboa / Suplemento Ler Escrever»,
22. abril. 1982.
3
Idem, ibidem.
RUA DO LOUREIRO, 9
191
António Pedro Pita

sério, na álea dos plátanos do Parque, à beira-rio. João Cochofel já possuía então
uma cultura fora do comum, apesar da sua pouca idade, e dominava campos que
4
eram completamente alheios à generalidade dos jovens.”

A casa de João José Cochofel torna-se um dos focos da profunda transfor-


mação cultural que será designada, mais tarde, em Portugal, por “neorrealismo”.
A dimensão social inerente à consciência de si de cada um dos jovens que se
sente mobilizado pelo horizonte de um mundo novo leva-os, nas palavras exatas
5
de Mário Dionísio, “ao encontro uns dos outros pelo seu pé” .
Em Coimbra, o acolhimento compreensivo da Mãe de Cochofel, o conforto
do espaço e o apelo de uma invejável biblioteca tornam a casa de João José
Cochofel um lugar de encontro insubstituível.
Escreve, ainda, Joaquim Namorado:

“O ambiente, sem formalismos de qualquer espécie e nenhuma forma de


pretensão, favoreceu o estabelecimento de uma grande amizade e cama-
radagem entre todos. Ali se discutiram as mais variadas questões e tiveram
origem algumas iniciativas que são marcos na trajetória das letras portugue-
6
sas do nosso tempo”

Prossegue Cochofel, no texto referido:

“esta sala por onde passaram quase todos os amigos (poucos mais haveria de ter)
e onde tanto sonhámos juntos, onde o Lopes-Graça me revelaria as primeiras no-
ções teóricas da música, onde nos reuníamos em discretos encontros ou em largas
assembleias tempestuosas, para discutir os problemas de que dependia a sorte do
mundo (e então, com o nazismo à porta e as incertezas da última guerra, dependia
a valer) ou para sessões de trabalho submersas em fumo de cortar à faca, onde se
7
entreteceram verdes amores, efémeros uns, duradoiros outros” .

Por isso, a casa de João José Cochofel – esta casa onde nos encontramos –
é indicada como “redacção e administração” de uma das primeiras publicações
produzidas por essa nova consciência intelectual. No fundo da primeira página
de «Altitude / boletim de literatura e arte», visualmente organizada por um gosto
modernista próximo da revista «presença», que ainda se publicava nesta mesma

4
Idem, ibidem.
5
Mário Dionísio, Prefácio à 2ª edição de «Poemas Completos» de Manuel da Fonseca. Lisboa: Portugália
Editora, Col. Poetas de Hoje, 1963; in: Mário Dionísio, «Prefácios». Lisboa: Casa da Achada-Centro Mário
Dionísio, 2014, p. 11.
6
J. Namorado, o.c..
7
João José Cochofel, o.c., p. 162.
192 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

cidade de Coimbra, lemos a referência: “Rua do Loureiro, 9”. E por cima a data:
nº 1, fevereiro de 1939 – o jovem (e já poeta publicado) João José Cochofel ainda
não completara vinte anos.
Percebe-se que é uma aventura coletiva. O Editor é Augusto dos Santos
Abranches: viera de Paúl, perto do Fundão e fundara a Livraria Portugália no Lar-
go da Sé Velha, perto da Academia de Música de Coimbra (como vimos, não mui-
to longe da própria casa de Cochofel). Ambicionava para o seu estabelecimento
comercial muito mais do que a venda de cadernos e lápis e mesmo mais do que
a venda de livros: ambicionava que Portugália fosse também (sobretudo?) uma
chancela editorial, quer dizer: interviesse ativamente na renovação do panorama
cultural fazendo entrar no mercado as novidades que estavam a surgir da efer-
vescência literária coimbrã. «Altitude» não é a sua primeira experiência editorial.
No ano anterior, Abranches publicara a novela «Sedução» do seu conterrâneo
José Marmelo e Silva, obra perturbante, sem dúvida inscrita nesse movimento
de transformação da consciência intelectual mas que alguns dos próprios corre-
ligionários vão incompreender profundamente. E ainda a primeira edição de «As
Sete Partidas do Mundo», romance de Fernando Namora, rapidamente reconhe-
cido pela crítica, impondo o nome do jovem escritor.
Fernando Namora é, aliás, um dos nomes que compõem a direção da revista.
Como Cochofel, nascera em 1919 e, como Cochofel, publicara em 1938, além do
seu romance de estreia, o livro de poemas «Relevos». Além disso, estivera ligado
à edição de «Cadernos da Juventude», revista cujo projeto de ser a voz coletiva
de uma “nova geração” os esforços conjuntos da censura e da polícia política
fizera abortar completamente. Em 1937: no mesmo ano em que figura numa obra
coletiva, com os Amigos Artur Varela (conterrâneo condeixense) e Carlos de Oli-
veira (ainda mais jovem, pois nascera em 1921 e irmão de Fernando de Oliveira,
colega do Curso de Medicina). E, ainda antes disso, dirigira «Alvorada», o jornal
dos estudantes do Liceu de José Falcão.
Coriolano Ferreira (1916-1998) pertenceu também à direção de «Altitude». A
historiografia do neorrealismo não conserva traços significativos da sua perso-
nalidade e do seu itinerário, certamente porque o percurso decorreu fora do
âmbito literário ou cultural estrito. Teve, porém, intervenção de destaque na área
da administração hospitalar; e os seus estudos no âmbito da etnografia são reco-
nhecidos. Licenciado na Universidade de Coimbra, em Ciências Jurídicas (1939)
e em Ciências Politico-Económicas (1940), cedo se interessou pelos problemas
da previdência e da assistência, âmbito no qual vai decorrer a parte mais signifi-
cativa da sua vida profissional. No período a que se reporta esta nota, Coriolano
Ferreira colabora em jornais de referência como «Sol Nascente» e «O Diabo» e
marca presença nas páginas de «Gazeta de Coimbra».
Joaquim Namorado (1914-1996) é o mais velho dos diretores. É também, reco-
nhecidamente, um ativista com temperamento de líder, cuja atividade cultural e
RUA DO LOUREIRO, 9
193
António Pedro Pita

artística se prolongava numa intervenção política intensa, com forte componente


clandestina, que já o levara a uma primeira prisão em 1938. A sua estreia poética
ocorrera em 1936 na revista «Manifesto», de Miguel Torga e Albano Nogueira. Em
dezembro de 1938, publicara em «O Diabo» (nº 223) o artigo “Do neo-realismo.
Amando Fontes”, que rapidamente se celebriza ao pôr em circulação a expres-
são “neo-realismo”. Ainda não publicara livros mas é muito possível que a obra
intitulada «Aviso à Navegação» estivesse já, nesse ano de 1939, senão pronta
pelo menos em estado desenvolvido de preparação.
A todos estes, na direção de «Altitude», junta-se João José Cochofel. É já,
pois, em plenitude, elemento do grupo (amplo e heterogéneo mas grupo) agre-
gado por uma forte consciência coletiva que, retroativamente, Carlos de Oliveira
identifica com precisão: “éramos uma só voz”. E a casa de João José Cochofel
torna-se, cada vez mais, o lugar por excelência onde acontece o debate artísti-
co-cultural.
A mesma equipa, publica o segundo número de «Altitude» no mês de abril
seguinte. Recupera um belo quadro de Alvarez para a zona central da primeira
página, publica o longo e significativo poema “Não” de Mário Dionísio e uma
curiosa página ficcional de Fernando Namora sob o pseudónimo feminino de
Mariana Campos e confronta-se com as tendências estéticas presencistas por
intermédio de duas recensões a livros de Alberto de Serpa e João Campos.
Em 1940, João José Cochofel junta-se ao grupo fundador do Ateneu de Coim-
bra, coletividade popular também sediada no Largo da Sé Velha, a dois passos
de sua casa e da Academia de Música de Coimbra e a três passos da Livraria-
-Editora Portugália. Percebe-se que o envolvimento politico-social de Cochofel
não é superficial nem ocasional, muito menos constitui mero diletantismo. Está
numa trajetória de progressivo afastamento da aristocracia paterna que o levará
mais tarde à ruptura completa. A cumplicidade da Mãe abre a casa aos jovens
amigos do filho, cuja maturação social e cultural acontece rápida e segura mas
ao arrepio do que poderia considerar-se a sua destinação natural. A participação
nas atividades do Ateneu de Coimbra mostra-o muito bem.
Nesse mesmo ano de 1940, são extintas as publicações centrais da nova inte-
lectualidade, «Liberdade», fundado em 1927, «O Diabo», fundado em 1934 e «Sol
Nascente», fundado em 1937 – cujas histórias editoriais complexas convergiram
durante os finais dos anos trinta para o ideário dessa nova intelectualidade,
ideologicamente informada (e enformada) pela recepção das teses fundamen-
tais do marxismo.
Como a socialização das novas ideias e atitudes era um ponto estratégico
dessa movimentação e como não fora extinto, mas simplesmente suspenso, o
projeto de criação de uma voz coletiva, esse mesmo grupo reativa a dinâmica
que levara em 1937 à criação de «Cadernos da Juventude» e projeta a criação de
duas coleções, uma de poesia e outra de ficção, incumbidas de constituírem, no
194 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

plano literário, a expressão polifónica da nova sensibilidade. Por razões circuns-


tanciais, a coleção de poesia ganha primazia. Chamou-se «Novo Cancioneiro» e
8
os primeiros títulos apareceram em 1941 . Uma obra de João José Cochofel, «Sol
de Agosto» é o terceiro título de série, depois de «Terra» de Fernando Namora
e «Poemas» de Mário Dionísio. Integrada mas singular no quadro dessa voz co-
letiva, a poesia de Cochofel está muito longe da poética narrativa de Namora
ou da tonalidade épica otimista de Joaquim Namorado, ainda inédita em livro
mas já conhecida de jornais e revistas. Trata-se, para Cochofel, de celebrar a
intensidade dos instantes e tornar a poesia o lugar onde o devir existencial pode
suspender-se e durar.
Mas o que me parece relevante, no presente contexto, é o facto de vários
exemplares dos volumes de «Novo Cancioneiro» estarem identificados com um
carimbo que os reportam a um centro editorial: Rua do Loureiro, 9. Lembro:
«Novo Cancioneiro» não é uma publicação periódica, nem sequer, em rigor, uma
publicação seriada pois os seus volumes não estão ligados por qualquer nume-
ração. É uma coleção: mas, de facto, uma coleção cuja maior singularidade resul-
ta de se querer a expressão poética pública dessa “única voz” que, no período
em referência, ganha tonalidade, volume e identidade.
Não é este o momento próprio para nos alongarmos em considerações sobre
9
a coleção «Novo Cancioneiro» . Nesta ocasião, basta sublinhar um aspeto da sua
pré-história recordado por Fernando Namora nos inícios de 1942:

“O «Novo Cancioneiro» é um projeto de há seis anos e não – como alguns quiseram


crer – um enxerto numa ideia gorada de um grupo de Lisboa. Há seis anos pensámos
na edição de um volume de poesia de vários poetas novos. A ideia, porém, ficou
sem realização. Surgiu há um ano o “Novo Cancioneiro»: pensamos que seria bem
mais de desejar uma colecção de volumes e não uma colecção de poesias de vários
num único livro – que forçosamente teria de dar uma impressão deficiente de cada
10
colaborador” .

É plausível que «Cadernos da Juventude» tenha sido uma variação desse pro-
jeto inicial mas é claro que o projeto da coleção terá sido longamente acalentado,

8
A outra iniciativa editorial, como se sabe, é a coleção «Novos Prosadores», em íntima associação com a
chancela comercial da Coimbra Editora. O primeiro título será também uma obra de Fernando Namora, o
romance «Fogo na Noite Escura».
9
Embora significativa, a bibliografia existente está longe de ser esclarecer aspetos fundamentais relativos
à dimensão material da coleção: na sua maior parte, está inédita a correspondência trocada entre os seus
colaboradores; desconhecem-se os responsáveis ou a metodologia de seleção dos volumes; é pouco
conhecido e valorizado o ambiente crítico que acolheu os títulos publicados; desconhecemos tiragens e
modos de difusão (no estado atual da nossa exigência histórico-cultural, é muito insuficiente dizer que de
alguns volumes circulavam cópias datilografadas); ignoramos aspetos relevantes da elaboração plástica
dos volumes, área onde, como se percebe, tratada com especial cuidado.
10
Via Latina, nº 8, 28. fevereiro. 1942
RUA DO LOUREIRO, 9
195
António Pedro Pita

sem dúvida, a partir de certa altura, na tranquilidade alvoroçada da casa de João


José Cochofel.
Recordou Luís de Albuquerque:

“nesses encontros ouvia-se música (o João trazia ao nosso conhecimento obras


musicais que eram ainda consideradas insólitas), discutiam-se alguns livros recen-
temente aparecidos e chegava-se até à leitura de uma ou outra composição literária
de alguns dos presentes. Enfim, o Cochofel criara uma espécie de “salão” do sécu-
lo XIX, renovado nas ideias e nos propósitos! Reconheço hoje que essas reuniões
eram bastante menos “inocentes” do que a sua atividade “primária” podia fazer crer
(sobre este ponto a polícia política teria talvez razão, se alguma vez pudesse tê-la).
Pela minha parte, pelo menos, posso dizer que tive nelas oportunidade de encontrar
respostas para muitas das minhas interrogações de ordem filosófica, política e literá-
ria. (…) absorvia sofregamente tudo quanto os mais velhos ou intelectualmente mais
avançados debitavam e me parecia correcto. Posso até dizer que essas reuniões
criaram em mim tal entusiasmo pelos problemas da Filosofia, de Sociologia e da
Literatura, que passei a deixar arrefecer um pouco a paixão pela Matemática que me
abrasava ao entrar na Faculdade. E não estou nada arrependido de me ter deixado
empolgar pela construção de um mundo novo, projecto em que quase sem excepção
11
desaguavam as reflexões de quantos, no grupo, tinham voz activa” .

O pormenor e a vivacidade da reconstrução memorial bem justificam a longa


transcrição. Nesse “salão” renovado desenrolava-se um debate ininterrupto em
que o curto prazo das atividades previstas se inscrevia na longa duração de uma
transformação civilizacional. Nas salas da casa poderiam ocorrer, simultanea-
mente, alargadas e intempestivas discussões, reuniões discretas, distendidos
períodos de lazer, refeições retemperadoras. Personagem central da rememora-
ção de João José Cochofel:
12
“esta mesma pesada mesa de castanho” .

“A esta mesma pesada mesa de castanho” trabalhou ao longo de anos o gru-


po de amigos (já vimos: “poucos mais haveria de ter”) que foi fazendo «Altitude»
e «Novo Cancioneiro». Deste, foram publicados seis volumes ao longo de 1941:
«Terra» de Fernando Namora; «Poemas» de Mário Dionísio; «Sol de Agosto» de
João José Cochofel; «Aviso à navegação» de Joaquim Namorado; «Os Poemas
de Álvaro Feijó» e «Planície» de Manuel da Fonseca. Em 1942, aparecem mais
três títulos: «Turismo» de Carlos de Oliveira; «Passagem de nível» de Sidónio

11
Luís de Albuquerque, “Uma carta” in «Vértice», nº 428-429, janeiro-fevereiro. 1980, pág. 70.
12
J.J. Cochofel, o.c., p. 162.
196 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Muralha; «Ilha de Nome Santo» de Francisco José Tenreiro. Em março desse


mesmo ano de 1942, Raúl Gomes, estudante de Curso de Histórico-Filosóficas,
funda a revista «Vértice», em iniciativa completamente desligada do grupo de
que venho falando. Mas os elementos do grupo estão atentos. Pouco depois
do aparecimento do segundo número, nos inícios de 1943, Joaquim Namorado
escreve a Mário Dionísio:

“Agora um assunto importante e urgente: existe aqui em Coimbra uma revista, Vérti-
ce, que publicou dois péssimos números. O diretor e proprietário procurou os nossos
amigos propondo-lhe a constituição de um núcleo redatorial com inteira responsa-
bilidade na escolha dos originais. Aceitámos e temos nesse corpo redatorial uma
13
maioria de 5 para 2 (pelo menos) garantida . Nesta ordem de ideias queremos fazer
do próximo número alguma coisa de definitivo que corte com o passado de maneira
absoluta. A revista tem 90 páginas de modo que cabemos todos lá dentro.
Pretendo que V. e os nossos amigos nos dêem uma colaboração efectiva e já para
este número. Daqui colaboraremos eu, o Cochofel, Carlos de Oliveira, Fernando Bar-
reiro, Namora, etc; do Porto, pelo menos o Ramos de Almeida e o Afonso Ribeiro; de
Lisboa, vocês dirão mas parecem-nos essenciais todos”.

O processo de efetiva refundação de «Vértice» está desencadeado. Passa,


evidentemente, pela casa de João José Cochofel e “pela pesada mesa de cas-
tanho”. É uma operação delicada: manter o Diretor, Raúl Gomes; assegurar um

13
De acordo com o seu testemunho, Raul Gomes propôs a Augusto dos Santos Abranches diligenciarem, “em
comum, a organização de um grupo redactorial”. Na sequência de algumas reuniões, “Santos Abranches
convidaria, para a redacção da revista, além de [Francisco Salgado] Zenha, João José Cochofel e Carlos
de Oliveira” aos quais se juntará Jorge Emílio Barbosa. (Cf.: “Sobre os primeiros tempos de VÉRTICE – Carta
de Raul Gomes a Eduardo Lourenço”, p. 768). Será a este convite que Joaquim Namorado se refere. Em
sequência, como vemos, Cochofel e Carlos de Oliveira são, em 1943, integrados na redação da revista. É
possível que a ida de Augusto dos Santos Abranches para Lourenço Marques (atual Maputo), em fins de 1943
ou início de 1944 (cf.: ) tenha contribuído para o aprofundamento da instabilidade em que, notoriamente, a
revista vive, para a qual confluem também a desconfiança política em relação à revista e a obrigatoriedade
imposta pela Comissão de Censura de depositar uma avultada quantia em dinheiro. Seja como for, o número
3, publicado em 1944, não será o princípio da nova existência projetada por Joaquim Namorado mas um
magríssimo fascículo integralmente composto por textos poéticos. Compreende-se, por isso, o desgosto de
Raul Gomes: “que não pudéssemos ter dado, através dos três números publicados até aí, uma medida mais
justa das nossas possibilidades, quer do ponto de vista ideológico, quer do ponto de vista literário” (“Sobre
os primeiros tempos de VÉRTICE – Carta de Raul Gomes a Eduardo Lourenço”, p. 765). Mas compreende-se
também a insistência no aprofundamento esclarecedor da relação entre estes dois grupos, que terá êxito
após conversações entre Carlos de Oliveira e Eduardo Lourenço, após frustrada tentativa idêntica entre
Raul Gomes e Joaquim Namorado (cf.: o.c., p. 769). Carlos de Oliveira e Eduardo Lourenço, como se sabe,
eram colegas no Curso de Ciências Histórico-Filosóficas e entre ambos estabeleceu-se, desde cedo, um
clima de empatia. Esse clima facilitou a solução: Carlos de Oliveira reuniu de amigos seus o dinheiro que foi
devolvido a Eduardo Lourenço, Raul Gomes mantém a direção da revista e a redação é reforçada de acordo
com as novas condições. Sabemos quem são os amigos de Carlos de Oliveira: Joaquim Namorado, João
José Cochofel, Carlos de Oliveira e José Ferreira Monte, todos elementos do Setor intelectual de Coimbra
do PCP, como Arquimedes da Silva Santos, também elemento do grupo, vai recordar mais tarde.
RUA DO LOUREIRO, 9
197
António Pedro Pita

corpo de colaboradores que preencha simultaneamente os requisitos da plura-


lidade e da consonância ideológico-doutrinária; reunir as condições financeiras
necessárias; consolidar a estabilidade administrativa; garantir a saída regular.
Ao arrepio do que pretendia Joaquim Namorado, o “corte com o passado de
maneira absoluta” só acontece em 1945. Com uma subtil renumeração e novo
ambiente visual marcado pelo ousado elemento plástico do título, a revista apa-
rece em fevereiro, abril, maio e novembro. Apresenta-se como “revista de cultu-
ra e arte” e traz às suas páginas os nomes mais ilustres da elite cultural progres-
sista e as referências mais destacadas da nova intelectualidade que se afirma.
Relembra Cochofel:

“a esta mesma pesada mesa de castanho, que serviu de banca de estudo e de apren-
dizado literário, centro de tradutores (Steinbeck, Aragon, Sherwood, Anderson, La-
clos… e comigo à roda da mesa o Rui Feijó, o Carlos de Oliveira, o Veludo, o Henrique
Santo), secretária de redacção e administração (todas as publicações começaram
por ter sede na Rua do Loureiro, número nove), balcão de empacotamento (quando
os primeiros Vértices eram levados para o correio dentro da capa do Arquimedes,
14
segura por três pontas)” .

4.
Relevantes de um ponto de vista histórico-cultural, todos estes elementos
(todos estes factos) podem e devem ser vistos como as circunstâncias em que
um subterrâneo processo de mutação de consciências ganha visibilidade. A
casa de João José Cochofel é o ambiente em que decorre esse movimento –
que só se torna percetível ao consumar-se.
Na exaltação, na tranquilidade, na euforia ou no desassossego de muitas ho-
ras – recordo: Luís de Albuquerque fala de encontros semanais – está em devir
o “tornar-se outro” para muitos desses jovens. Reconverter o olhar, mudar de
pele, transformar o pensamento, transfigurar a sensibilidade para cada um ser
“si-mesmo” capaz de responder aos interpelações da circunstância histórica – é
isso que acontece na casa de João José Cochofel e é isso que se torna legível
nas páginas de «Fogo na Noite Escura» de Fernando Namora.
O romance foi escrito entre janeiro de 1939 e novembro de 1942, ao longo do
seu curso de Medicina e publicado em abril de 1943. Mais do que uma autobio-
grafia individual ou de grupo, o romance é a ficção desse devir, é – como ficção
– o lugar onde esse devir ganha espessura e duração e pode ser analisado em
todas as suas múltiplas implicações. E, neste sentido, é relevante para o nosso

14
J.J.Cochofel, o.c., p. 162.
198 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

propósito, que nessa ficção uma casa ocupe uma centralidade excepcional e
que, se quisermos aceitar esse jogo arriscado, identifiquemos nessa casa a casa
de João José Cochofel.
As profundas transformações a que Fernando Namora sujeitou a 1ª da obra
aconselharia a fazer depender quaisquer considerações de uma atenta análise
dasreedições. É uma tarefa incompatível com o propósito desta intervenção.
Sigo, pois, a edição estabelecida por José Manuel Mendes, publicada na cri-
15
teriosa coleção «Obras de Fernando Namora» e a partir dela farei as rápidas
considerações seguintes, concentrando-me na importância da Casa como privi-
legiado espaço de ocorrência desse devir.
Em primeiro lugar, a Casa apresenta-se-nos como um espaço percorrido pe-
las inevitáveis conflitualidades que cada um dos jovens, pelos seus respetivos
itinerários de vida, traz consigo e por uma outra conflitualidade, de segundo
nível digamos assim, em que aqueles conflitos estão sempre na iminência de
ameaçar a possibilidade de que seja possível gerar uma consensualidade doutri-
nária, estética e política, suficientemente mobilizadora para o objetivo último da
“transformação do mundo”. Um diálogo entre Luís Manuel (o filho dos donos da
Casa) e Júlio é muito expressivo a este propósito:

“Hoje, a literatura, a arte, afinal – divagou ainda Luís Manuel –, só se justifica quan-
do se revela actuante, direta, intencional. Os valores artísticos dependem, evidente-
mente, da época que os determina.
(…)
Júlio olhou-os sonolento. Estava dentro daquela sala, o bule de prata fumegante, uma
criada de uniforme a servi-los com discrição profissional que a tornava quase incorpó-
rea, cercados de dezenas de coisas imperceptíveis que contribuíram para lhes afofa-
rem o cérebro e os sentidos, mergulhando-os no doce tédio dos ambientes fartos – e
atreviam-se a discutir problemas que necessitavam de uma experiência rude com a
vida. Poucos deles podiam fazer ideia do mundo de ansiedades, esforços, clamores,
que se traduziam no bolinho saboroso que os dentes enjoadamente mastigavam, nos
16
discos, nos tapetes, na música. Em cada gota de conforto, um oceano de lágrimas” .
A Casa é como uma revelação (no sentido fotográfico da palavra) da dimensão fática
desses conflitos e da aspiração de os superar pelo ajustamento da consciência de
cada um a partir da consciência de uma universalidade futura. Mas, em jeito quase
paradoxal, todo o romance – mas não só este romance: toda a estrutura doutrinária
do “neorrealismo” – coloca como condição de possibilidade fundamental dessa su-
peração o trabalho de desvelação que cada um deve exercer sobre si próprio para
encontrar a verdade de si que se encontra na sua juventude. Nas presentes condições

15
Fernando Namora, «Obras Completas / Fogo na Noite Escura». Lisboa: Círculo de Leitores, 1996.
16
Idem, ibidem, 178-179.
RUA DO LOUREIRO, 9
199
António Pedro Pita

civilizacionais, a captação dos indivíduos pelas condições reais de existência desvia,


recalca ou anula as possibilidades de alteridade que cada indivíduo traz consigo. É o
que lemos num outro passo:
“A juventude é a única justificação que temos para a vida. Os problemas do mundo
foram os homens exaustos e ressentidos que os inventaram ou provocaram. Mas
a mocidade denuncia-os, salta-lhes por cima. Ah, Zé Maria: tenha a juventude as
17
perplexidades e as dúvidas que tiver, ela será sempre um fogo na noite escura” .
Do mesmo passo, mobilizado pela fidelidade a uma juventude reativada na consciên-
cia da sua força e não só vivida na afirmação das suas intuições, cada homem deste
grupo adensa um sentido do comum, de que a Casa pode ser uma pré-figuração.
Neste sentido, é esclarecedor o seguinte passo:
“Nenhum deles poderia aceitar que, um dia, a vida chegasse a separá-los. Era neces-
sário defender essa comunhão de ideias, hábitos e esperanças, prolongando-a atra-
vés das contingências do futuro. Quando Luís Manuel lhes propunha residirem mais
tarde na mesma casa, sempre solidários e desprendidos das aliciações burguesas,
interpretava um desejo que até aí cada um receava exprimir por o julgar fantasio-
so, mas que, confessado, lhes parecia agora de uma realização maravilhosamente
simples. E discutiam o projeto até ao auge do deleite, gozando antecipadamente os
pequenos nadas do dia-a-dia e os comoventes gestos de amizade que a vida em
comum lhe ia proporcionar.
Júlio refreava o que podia haver de pieguice nesse entusiasmo, mas não lhe era
fácil resistir ao contágio. Havia nele o apelo do imprevisto e da temeridade e ainda a
chama da camaradagem, o bastante para o inflamar também.
– Sim – concordava ele, com uma sobriedade rebuscada. – Creio que será possível
descobrirmos uma cidade qualquer onde cada um de nós encontre uma oportunida-
de para a sua profissão.
18
– Juntos seremos uma força – anuía Zé Maria, de olhos meditabundos” .

A Casa é, pois, o nome para a utopia de um espaço pleno: a Cidade é a am-


pliação da Casa – uma ampliação de escala da Casa.

5.
… E, ao mesmo tempo, a Casa perde solidez, torna-se uma “poeira luminosa”
em que as vozes, os movimentos e os tempos se confundem. A Casa não está no
passado, não é um ideal, não é uma utopia: “é um jogo demorado e laborioso, a
19
que sempre falta qualquer coisa para acabar de compor o puzzle” .

17
Idem, ibidem, p. 56.
18
Idem, ibidem, p. 241.
19
J.J. Cochofel, o.c., p. 162.
200 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Escreve Cochofel:

“Sobre a mesa de castanho, as peças do puzzle começam a ligar-se. Outro elemento


surge: o som de um piano, muito nítido, vinda do rua que tem o nome do meu bisa-
vô, e que de todo me desperta. Aquele música distinta e inidentificável, entrecorda,
hesitante, conheço-a bem. Tocava-a uma rapariguinha ruiva que se mudou e nunca
mais tornaria a ver, e me forneceu matéria para uns versos adolescentes, de 1938
ou 1939: “Acordes soltos/dum piano, longe/vêm até mim, na tarde magoada./E vem
o seu calor suave/até este frio de estar só.” Já a tenebrosa solidão interior que só a
criação, amor, a luta por uma ideia, a leitura ou a música são capazes de preencher.
Esta música, quem voltará a tocá-la Acerco-me da varanda. Os sons flutuam mais
perto e cobrem a rua do silêncio e do sol de outros versos: “O som/de um piano
antigo/atravessa vinte anos/para vir tocar na minha rua./Que menina será/a mãe ou
a filha/que veio dar-me/o passado a ouvir?” Debruçado da varanda, ouço e vejo o
20
passado” .

Desta coexistência de temporalidades João José Cochofel fará matéria de


grande parte da sua poesia. Melhor: na obra de Cochofel, é na poesia que essa
coexistência de temporalidades acede à expressão – como se conclui do frag-
mento de uma entrevista que o poeta colocou com epígrafe ou limiar de «O Bispo
de Pedra»:

“Mesmo em frente da velha casa onde nasci, em Coimbra, no alto da fachada do


Colégio Novo, um nicho abriga uma escultura do século XVII, representando Santo
Agostinho, de mitra e báculo, e um livro aberto na mão esquerda. O “bispo de pedra”
existe portanto na realidade. E a mais antiga recordação de infância que dele tenho
é um nevoeiro de temor e de respeito. Daí tê-lo convertido agora, meio consciente
meio inconscientemente, num mito ou num símbolo plurivalente em que entre mui-
ta coisa díspar e antagónica: autoritarismo, conformismo, preconceito, banalidade,
passadismo, mas também amiga presença familiar, solicitude protectora, segurança,
tranquilidade, nem eu sei bem: tudo isso de que, por acção reflexa de oposições e
atracções afectivas e intelectuais, se vai formando dialecticamente uma personalida-
de e uma consciência”.

É um passo muito rico: qualquer ensaio de interpretação excederia os limites


desta fala. Publicado em 1975, «O Bispo de Pedra» é a última obra de poesia pu-
blicada em vida por João José Cochofel. Seguindo a chave proposta pelo poeta,
agora mesmo lembrada, o “Bispo de pedra” não é só um motivo de admiração,
entre outros motivos, nem um elemento de “inspiração”. É a instância mítica

20
J.J.Cochofel, o.c., p. 163.
RUA DO LOUREIRO, 9
201
António Pedro Pita

finalmente explicitada de todo a aventura (de todo o trabalho poético) de João


José Cochofel. É, transfigurado em personagem, o correlato dialógico dessa
aventura (desse trabalho) – finalmente (o tempo passa…) silencioso, enfim emu-
decido de tudo o que não seja “A música. / Só a música”.
No derradeiro poema da obra, intitulado “Música”, como vários outros poe-
mas do livro, a música (no caso, o Quarteto de Ravel) “desafia o tempo”.
Desafia, quer dizer: desorganiza a linearidade cronológica, recoloca o pas-
sado, o presente e o futuro, faz o acaso entrar em cena, produz esquecimentos,
reaviva memórias – tudo com-fundido na “poeira luminosa dos paraísos reavi-
vidos”.
É na Casa, nesta Casa, que tudo se passa – uma Casa que não é simples-
mente cenário mas o rumor vivo e vivido de um por-vir tecido de passados in-
tempestivos.
No texto que vimos seguindo, João José Cochofel conclui:

“À mesa a que escrevo e medito sobra os acasos, encontros e desencontros de que a


poesia nasce e se alimenta antes de chegar às palavras que a realizam, vem apoiar-
-se a minha neta mais velha. Tira os lápis e as tintas e absorve-se, silenciosa, um
dos seus desenhos rutilantes de flores e de pássaros. Quem me lembra ela, assim
concentrada e decidida, sôfrega de histórias e de cores, senão minha mãe, os seus
interesses literários, a sua habilidade de mãos, o seu requinte estético, de que toda
a casa continua a viver? A bisneta que ela não conheceu levanta-se e estende-me um
papel em que rabiscou com a caligrafia incerta das primeiras letras: “avô eu gosto
21
de ti” .

O regaço da rainha apareceu, a princesinha dança. Este lado do puzzle está


completo”.

21
Idem, ibidem, p. 164.
cei
atividades
2018
CEI ACTIVIDADES
207
2018

ENSINO E FORMAÇÃO

[http://www.cei.pt/cv/]

XVIII CURSO DE VERÃO


NOVAS FRONTEIRAS, OUTROS
DIÁLOGOS: PATRIMÓNIO
CULTURAL, COOPERAÇÃO
E DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL
O Centro de Estudos Ibéricos (CEI), enquanto plata-
forma de intercâmbio, debate e difusão de conhe-
cimentos sobre os territórios e as culturas ibéricas,
promoveu a XVIII Edição do Curso de Verão, de 9 a
13 de Julho de 2018, subordinada ao título genérico
“Novas fronteiras, outros diálogos: Património Cul-
tural, Cooperação e Desenvolvimento Territorial”.
O CEI, ao reforçar com esta iniciativa o diálogo além-fronteiras, honra os seus
compromissos com os espaços fronteiriços apostando num curso que prosse-
gue os seguintes objetivos: incentivar o diálogo entre saberes e investigadores
visando alargar redes e consolidar parcerias com entidades do espaço ibérico,
tanto europeu e africano como latino-americano, afirmando o CEI como centro
de transferência de conhecimento designadamente entre os países de língua
portuguesa; identificar e valorizar os recursos do território, naturais e humanos,
materiais e intangíveis, enquanto fatores críticos e estratégicos do desenvolvi-
mento (património cultural, paisagem, cultura, etc.); analisar comparativamente
dinâmicas económicas e sociais em diferentes contextos espaciais, estimulando
a apresentação e o debate de programas, iniciativas e boas práticas que concor-
ram para a coesão económica, social e territorial; e valorizar o trabalho de cam-
po como estratégia pedagógica e de promoção do património natural e cultural,
208 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

sobretudo o localizado em geografias e contextos regionais mais remotos como


são os do interior raiano.
Associando-se à comemoração do XVIII Centenário da Universidade de Sala-
manca, e unindo simbolicamente esta Universidade à sua congénere de Coimbra,
passando pela Guarda, o Curso teve um formato diferente. Os trabalhos começaram
em Coimbra, no dia 9 de julho, na Faculdade de Letras da Universidade de Coim-
bra, continuaram na Guarda no dia 11 de julho, na Biblioteca Municipal Eduardo
Lourenço e terminaram em Salamanca, na Faculdade de Geografia e História no dia
13 de julho. Os dois trabalhos de campo completaram este percurso: dia 10 de julho
a Rota Ibérica “Paisagens e Territórios” tem início em Coimbra, passa por Tondela,
Viseu, Penalva do Castelo e terminou na Guarda; no dia 12 de julho a Rota “Eduardo
Lourenço – Miguel de Unamuno” começou na Guarda, passou por Almeida, Vilar
Formoso e terminou em Salamanca.
A sessão de abertura realizou-se na Faculdade de Letras da Universidade
de Coimbra, e contará com a presença do Presidente da Câmara Municipal da
Guarda, Dr. Álvaro dos Santos Amaro, do Reitor da Universidade de Coimbra,
Prof. Doutor João Gabriel Silva, e do Vice Reitor da Universidade de Salamanca,
Prof. Enrique Cabero.
Destaque para a apresentação dos livros “Andanças e reflexões transfrontei-
riças: roteiro por territórios de Miguel de Unamuno e de Eduardo Lourenço” (vol.
34 da Coleção Iberografias), dia 9 de Julho, na Casa da Escrita, em Coimbra, e
“Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial” (vol.
33 de Coleção Iberografias), dia 11 de Julho, na Biblioteca Municipal Eduardo
Lourenço, na Guarda.
Participaram no curso investigadores e professores de quinze Universida-
des e Institutos de Portugal, Espanha, Brasil e EUA: Universidade de Coimbra,
Instituto Politécnico da Guarda, Universidade de Aveiro, Universidade de Évo-
ra, Universidade de Trás os Montes e Alto Douro, Universidade de Salamanca,
Universidade de Towson (EUA), Universidade Estadual de São Paulo – Campus
de Presidente Prudente, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universi-
dade Federal de Campinas Grande, Universidade Luterana do Brasil, Universi-
dade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Estadual do Maranhão, Universi-
dade Federal do Ceará e Universidade Federal de Rondônia, com um total de
cerca de 45 intervenções.
O Curso incluiu Conferências, Mesas Redondas e Oficinas, além de Comuni-
cações e os Trabalhos de Campo, que permitiram apresentar e debater temas
afins aos enunciados como eixos temáticos.
CEI ACTIVIDADES
209
2018

O programa foi o seguinte:


9 Julho – Coimbra (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
Patrimónios, paisagens e desenvolvimento local
Painel I. Património Cultural
Painel II. Patrimónios e paisagens
Coimbra (Percurso urbano) – Tempos de Coimbra. Rota Eduardo Lourenço –
Miguel Unamuno

10 Julho – Trabalho de campo: Rota Ibérica I. Paisagens e Territórios


Roteiro: Coimbra – Tondela – Viseu – Penalva do Castelo – Guarda

11 Julho – Guarda (Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço)


Patrimónios, paisagens e desenvolvimento local
Painel III. Paisagens e Patrimónios
Painel IV. Paisagem e ambiente
Dinâmicas socioeconómicas em diferentes contextos territoriais
Painel V. Iniciativas de desenvolvimento local
Painel VI. Desenvolvimento rural
Painel VII. Cidade e desenvolvimento urbano
Cooperação e desenvolvimento: novas fronteiras, outros diálogos
Mesa redonda: Património e cultura: múltiplos olhares
Lançamento do livro “Lugares e territórios: património, turismo sustentável,
coesão territorial”. Coleção Iberografias Nº 33 (Edição: CEI – Âncora Editora).
Guarda: percurso urbano: Rota Eduardo Lourenço – Miguel de Unamuno

12 Julho – Trabalho de campo: Rota Eduardo Lourenço – Miguel de Unamuno


Roteiro: Guarda – Jarmelo – S. Pedro do Rio Seco / Vilar Formoso / Almeida
– Salamanca

13 Julho – Salamanca: Faculdade Geografia e História - Univ. de Salamanca


Conferências: La gestión y conservación del patrimonio natural y cultural en
la raya hispanolusa
Salamanca (Percurso urbano): Rota Eduardo Lourenço – Miguel de Unamuno
Clausura: Universidade de Salamanca (Sala …. Miguel Unamuno)
210 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
CEI ACTIVIDADES
211
2018

SEMINÁRIO
CA(U)SAS COMUNS: AS NOVAS GEOGRAFIAS DOS PAÍSES
DE LÍNGUA PORTUGUESA – PATRIMÓNIOS E TERRITÓRIO
O CEI levou a efeito no dia 18 de abril, em Coimbra, o Seminário “Ca(u)sas Co-
muns: as Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa – Patrimónios e Ter-
ritório”. A iniciativa inseriu-se na 20ª edição da Semana Cultural da Universidade
de Coimbra, e teve lugar na Biblioteca do Departamento de Geografia e Turismo
da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

O programa foi o seguinte:


Painel 1: Património natural
Apresentação e Moderação: Lúcio Cunha
Intervenções:
Luca Dimuccio
Luciano Shaeffer
Gisela Firmino e Magda Fernandes

Painel 2: Património cultural


Apresentação e Moderação: Fernanda Delgado

Intervenções:
Susana Silva
Paulo Carvalho
212 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

WORKSHOP
GUARDA A SAÚDE EM CASA
Realizado no dia 19 de abril, no âmbito da 20ª Semana Cultural da Univer-
sidade de Coimbra, este workshop, que contou com Professores da Faculdade
de Medicina da Universidade de Coimbra, pretendeu dar a conhecer um modelo
simples de literacia em saúde integrando o corpo humano na estrutura e fun-
cionalidade de uma casa. Conceitos como reparar previamente uma casa e não
esperar pelo seu desmoronamento; ter sistemas de segurança e de alarme para
prevenir prejuízos; gerir os consumos; entre outros, podem ser transportados
para a ideia de prevenirmos a doença, de realizarmos check-ups; de gerirmos a
alimentação (aporte energético) e o consumo energético (atividade física). Reali-
zação de um modelo interativo em que o corpo humano é simbolizado por uma
casa no conceito de estrutura e funcionalidade.
CEI ACTIVIDADES
213
2018

SEMINÁRIO
ENVELHECER NO LUGAR

No âmbito da atribuição do Prémio CEI-IIT 2017, rea-


lizou-se a 19 de outubro, na Guarda, o Seminário
“Envelhecer no Lugar”, que visou dar a conhecer os
resultados do estudo “Iniciativas de Ageeing in Pla-
ce – Valorizar e Divulgar”, premiado na modalidade
“Investigação”, coordenado por António Manuel Go-
dinho da Fonseca, Psicólogo e Professor na Univer-
sidade Católica Portuguesa. O estudo centra-se no
levantamento de experiências inovadoras e boas
práticas de coesão social, designadamente, no que
respeita ao combate ao isolamento e à promoção da
inclusão social dos cidadãos mais velhos nas respeti-
vas comunidades, valorizando o que é habitualmen-
te designado por “ageing in place” (“envelhecer na
comunidade”)
O Seminário contou também com a intervenção do
Prof. Manuel Teixeira Veríssimo, professor da Faculda-
de de Medicina da Universidade de Coimbra, um dos
mais conceituados especialistas de Envelhecimento
Ativo.
Numa perspetiva de divulgação de boas práticas e
promoção do debate em torno desta temática, o Se-
minário contou ainda com a apresentação de casos
práticos e experiências locais.
214 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

INVESTIGAÇÃO

[http://www.cei.pt/iit/]

INVESTIGAÇÃO, INOVAÇÃO & TERRITÓRIO.


PRÉMIO CEI-IIT 2017
O Prémio CEI-IIT (CEI - Investigação, Inovação & Ter-
ritório) tem por objetivo distinguir trabalhos, proje-
tos de investigação e outras iniciativas que revistam
uma dimensão inovadora, contribuam para divulgar
estudos, experiências e boas práticas que concorram
para reforçar a coesão, a cooperação e a competiti-
vidade dos territórios fronteiriços e de baixa densi-
dade.
O Prémio CEI-IIT teve duas modalidades, cabendo a
cada uma um apoio financeiro de 2.500 euros. A pri-
meira apoia trabalhos e projetos de investigação nas
áreas de dinâmicas territoriais e iniciativas de desen-
volvimento local, património, recursos do território
e riscos naturais, coesão social e governança, capacitação e modernização
institucional.
Os projetos distinguidos foram:
Na modalidade 1, Investigação: “Territórios e sociedades em tempo de
mudança”, o projeto “Iniciativas de “ageing in place” – Valorizar e Divulgar”
de António Manuel Godinho da Fonseca, Psicólogo e Professor na Universida-
de Católica Portuguesa, doutorado em Ciências Biomédicas pelo Instituto de
Ciências Biomédicas “Abel Salazar” da Universidade do Porto.
Na modalidade 2, Projetos e iniciativas inovadoras: “Inovação em territó-
rios de baixa densidade”, o projeto “Pontes entre agricultura familiar e agri-
cultura biológica” de Cristina Amaro da Costa, Professora e Investigadora no
Instituto Politécnico de Viseu, doutorada em Engenharia Agronómica pelo Ins-
tituto Superior de Agronomia.
CEI ACTIVIDADES
215
2018

OFICINA
HISTÓRIA DA GUARDA

[http://www.cei.pt/ohg/]

A Oficina de História da Guarda é uma iniciativa que


pretende reunir todos os interessados em colaborar
na pesquisa e produção de conteúdos sobre a Guarda
e a região através do tempo, que serão postos à dis-
posição do público através da página do CEI na inter-
net. A segunda edição desta Oficina teve lugar de 25
de junho a 06 de julho. A iniciativa foi dirigida por Rita
Costa Gomes (Professora de História na Universdade
de Towson – Estados Unidos da América).
Esta segunda edição teve como focos temáticos:

– “Um tema de história ibérica: os Costumes medie-


vais da Guarda e os Costumes de Salamanca”
Através da colação do texto medieval dos Costumes da Guarda com o seu
modelo - os Costumes de Salamanca – estudaremos em pormenor as trans-
formações e adaptações à realidade local da cidade portuguesa. Que precei-
tos foram eliminados e porquê? Como se traduziu e adaptou cada norma às
realidades da Guarda? Que tipo de comunidade e que dinâmicas de poder se
expressam nesta compilação? Como usaram outras cidades o mesmo mode-
lo textual e o que nos revela a comparação com outras regiões da Península
Ibérica? Eis algumas das questões a debater no workshop de Verão.
– “Um arquiteto brasileiro na Guarda Setecentista”
Associando um bispo-inquisidor e um artista oriundo de Mariana (Minas Ge-
rais, Brasil), a construção no século XVIII de uma nova igreja numa das praças
mais antigas da Guarda transformou radicalmente o espaço do velho burgo.
Que percurso foi o do primeiro autor da traça deste edifício, quem foi o seu
patrono, e que escolhas e obstáculos determinaram esta transformação urba-
na serão três vertentes principais da nossa indagação no workshop de 2018.
216 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

– “Bibliografia anotada sobre sinagogas medievais na Península Ibérica”


Recolha bibliográfica e anotação de uma seleção de obras recentes sobre
o tema.
– “A Guarda ontem e hoje – Banco de imagens”. Recolha e catalogação de
imagens fotográficas dos séculos XIX e XX relativas à cidade da Guarda e
produção de imagens fotográficas dos mesmos locais, propostas em con-
fronto visual com as imagens antigas.
INVENTÁRIO DO GEOPATRIMÔNIO DE JOÃO PESSOA E CABEDELO (PARAÍBA), NORDESTE DO BRASIL
217
Luciano Schaefer Pereira e Ingrydy Schaefer Pereira

TRANSVERSALIDADES
FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS

[http://www.cei.pt/transversalidades17/2018/]

A aposta do Centro de Estudos Ibéricos (CEI) no


reforço do eixo cultural e científico organizado por
Coimbra, Guarda e Salamanca e na superação do
âmbito estritamente transfronteiriço passa pela coo-
peração e o envolvimento ativo de pessoas e institui-
ções de todos os países de expressão ibérica. Con-
jugando este pressuposto com a importância que a
imagem assume nas sociedades contemporâneas,
tem o CEI vindo a desenvolver o projeto Transversa-
lidades – Fotografia Sem Fronteiras com um duplo
objetivo: aproveitar o valor estético, documental e
pedagógico da imagem para promover a inclusão
dos territórios menos visíveis, inventariar recursos
e valorizar paisagens, culturas e patrimónios locais;
fomentar a troca de informação e de conhecimentos
entre territórios de matriz ibérica, sejam os Países de Língua Portuguesa espa-
lhados por vários continentes ou os que se localizam na América Latina.
As imagens recolhidas no âmbito deste concurso documentam a diversidade
de territórios, sociedades e culturas de diferentes continentes, e foram agrupa-
das nos seguintes temas: património natural, paisagens e biodiversidade; espa-
ços rurais, agricultura e povoamento; cidade e processos de urbanização; cultura
e sociedade: diversidade cultural e inclusão social.
O Júri do “Transversalidades 2018. Fotografia sem Fronteiras”, constituído
por Rui Jacinto, Lúcio Cunha, da Universidade de Coimbra, Valentín Cabero e
María Isabel Martín Jiménez, da Universidade de Salamanca, e pelos fotógrafos
Jorge Pena, Santiago Santos, Clara Moura, Susana Paiva e Victorino García, sele-
cionou fotografias submetidas a concurso por perto de 800 concorrentes, oriun-
dos de mais de 70 países. As fotografias repartem-se pelas categorias de Melhor
Portfólio, Melhor Portfólio Temático e Menções Honrosas repartidas pelos vários
temas do Concurso.
218 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

PREMIADOS
Melhor Portfólio: Atrem Tikhonkov (Ucrânia)

Tema 1 – Património natural, paisagens e biodiversidade


Vencedor: Alberto Picco (Portugal)
Menções Honrosas: Yuri Pritisk (Rússia); José Carlos Nero (Portugal); João
Pedro Costa (Portugal); Patrícia Naré Agostinho (Portugal)

Tema 2 – Espaços rurais, agricultura e povoamento


Vencedor: Sujit Saha (Índia)
Menções Honrosas: Budanova Mary (Rússia); Alfonso Ferrer Yus (Espanha)

Tema 3 – Cidade e processos de urbanização


Vencedor: João Antonio Benitz Rangel dos Santos (Brasil)
Menções Honrosas: Fereydoon (Irão); Nuno Henrique Rolo Morais (Portugal)

Tema 4 – Cultura e sociedade: diversidade cultural e inclusão social


Vencedor: Zahra Akhavan Saraf (Irão)
Menções Honrosas: Kaveh Zakariaei Nejad (Irão); Farhad Motaei (Irão); San-
dipani Chattopadhyay (Índia); Jesús Hellín (Espanha)

Atrem Tikhonkov (Ucrânia) - Vencedor do Melhor Portfólio


CEI ACTIVIDADES
219
2018

EVENTOS E INICIATIVAS DE COOPERAÇÃO


PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO 2018
SESSÃO DE ENTREGA A BASILIO LOSADA CASTRO

[http://www.cei.pt/pel/]

Instituído em 2004, o Prémio Eduardo Lourenço, destina-se a galardoar per-


sonalidades ou instituições de língua portuguesa ou espanhola que tenham sido
protagonistas de uma intervenção relevante e inovadora no âmbito da coope-
ração e no domínio das identidades, das culturas e das comunidades ibéricas.
Nesta 14ª Edição o Júri entendeu atribuir o galardão ao professor, invstigador,
tradutor, critico literário e escritor, Basilio Losada Castro.
220 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O júri desta Edição foi constituído pelos membros da Direção do Centro de


Estudos Ibéricos (Presidente da Câmara Municipal da Guarda, Reitor da Universi-
dade de Coimbra e Reitor da Universidade de Salamanca), membros das Comis-
sões Científica e Executiva do CEI e por mais quatro personalidades convidadas:
Fernando Paulouro das Neves (jornalista e escritor, galardoado com o PEL 2017)
e Raquel Freire (investigadora do Centro de Estudos Sociais e Prof.ª Associada
com Agregação de Relações Internacionais da Faculdade de Economia da UC),
indicados pela Universidade de Coimbra, e Sonsoles Sánchez-Reyes Peñamaría
(Prof. do Dep. de Filología Inglesa da Escola Universitária de Educação e Turismo
de Ávila) e Soledad Murillo de la Vega (Prof.ª Titular na Fac.de Ciências Sociais da
USAL) indicados pela Universidade de Salamanca.
Em reunião realizada na Guarda, a 4 de maio, o Júri reconheceu o mérito
de Basilio Losada como filólogo e investigador da língua e cultura galega e
portuguesa, que reúne na sua biografia uma característica que o singulariza no
contexto das relações e estudos de natureza ibérica: é natural da Galiza e estu-
dioso da sua cultura e literatura e foi o primeiro catedrático de Filologia Galega
e Portuguesa na Universidade de Barcelona, onde desenvolveu a sua vida pro-
fissional. Realizou a sua monumental obra como tradutor tendo como base as
línguas portuguesa e espanhola, materializando desta forma a sua condição do
intelectual ibérico, aberto ao diálogo e à permeabilização entre as diferentes
línguas e culturas do nosso território. Soube também acrescentar a este mosaico
a componente ibero-americana, uma vez que fez da literatura brasileira um dos
seus espaços favoritos, tanto para a investigação como para a tradução.
O Júri valorizou também o seu trabalho como tradutor notavelmente invul-
gar desde o ponto de vista das línguas de trabalho utilizadas: traduziu mais de
150 livros em sete línguas (português, inglês, francês, alemão, catalão, galego
e russo) - uma autêntica rede de mediação cultural entre os diferentes espa-
ços linguísticos da Península. Da lista de autores traduzidos por Basilio Losada
destacam-se, entre outros, Jorge Amado, José Saramago (por cuja tradução do
“Memorial do Convento” recebeu, em 1991, o Premio Nacional de Tradução),
Rosalía de Castro, Pere Gimferrer. A sua obra é exemplo de uma abertura de
olhares paradigmáticos no contexto peninsular. O seu trabalho continua a ser
uma referência indubitável para várias gerações de iberistas em todos os terri-
tórios culturais que abarcam a sua obra gigantesca: Espanha, Portugal, Galiza,
Catalunha, Brasil. Ainda hoje, octogenário, Basilio Losada continua a publicar e
a traduzir autores lusófonos.
A sessão solene de entrega do galardão a Basilio Losada teve lugar, na Guar-
da, no dia 07 de setembro de 2018, tendo sido presidida pelo Presidente da Câ-
mara Municipal da Guarda, Álvaro dos Santos Amaro. A cerimónia contou ainda
com a intervenção de Eduardo Lourenço, sendo o elogio ao premiado feito por
Jordi Cerdà, professor na Universitat Autònoma de Barcelona.
CEI ACTIVIDADES
221
2018

ITINERÂNCIA DA EXPOSIÇÃO TRANSVERSALIDADES 2017.


FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS
Salamanca
Esteve patente em março, na Faculdade de Geografia e História da Universi-
dade de Salamanca, a exposição Transversalidades 2016. Fotografia sem Fron-
teiras.

Coimbra
Esteve patente de 22 de março a 27 de abril de 2018, na Biblioteca das Ciên-
cias da Saúde da Universidade de Coimbra a exposição Transversalidades 2016.
Fotografia sem Fronteiras.

II ENCONTRO
IMAGEM E TERRITÓRIO

A segunda edição do “Encontro Fotografia sem


fronteiras (FsF): Imagem & Território”, decorreu nos
dias 7 e 8 de dezembro, compreendendo uma se-
quência de atividades que incluiu mostras, deba-
tes, publicações e exposições.
O programa foi o seguinte:

7 de Dezembro
17h30 - Inauguração de Exposições
. Transversalidades. Fotografia sem Fronteiras: Re-
trospetiva (Centro Comercial La Vie)
. Guarda I Património visual, memória local (Galeria
da Muralha)
. Guarda I Património Cultural Local (Rua 31 de Janeiro (Espaço Comercial);
Estação CP da Guarda)
18h30 - Inauguração de Exposição
. Fotografia sem Fronteiras: Pessoas, Lugares, Outros Olhares (Galeria do
Paço da Cultura)
21h00 - Inauguração de Exposição
. Mundo Português Exposição de Duarte Belo (Café Concerto - Teatro Muni-
cipal da Guarda)
222 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

21h30 - Conversa com Alberto Prieto (Fotojornalista) (Café Concerto - Teatro


Municipal da Guarda)

8 de Dezembro
9h00 - Roteiro Fotográfico Fuji - “Patrimónios locais: a Guarda e seu entorno”
(Sede do Centro de Estudos Ibéricos)
. Roteiro 1. Jarmelo
. Roteiro 2. Ramela
13h00 - Seleção de fotografias do Roteiro Fotográfico Fuji (Café Concerto -
Teatro Municipal da Guarda)
14h45 - Lançamento da Revista “Iberografias” nº 14|2018 (Café Concerto -
Teatro Municipal da Guarda)
15h00 - Masterclass com Alfredo Cunha e apresentação do livro “Retratos”
(Café Concerto - Teatro Municipal da Guarda)
15h45 - Mostra/Debate: Roteiro Fotográfico Fuji - “Patrimónios locais: a Guar-
da e seu entorno” (Café Concerto - Teatro Municipal da Guarda)
. Comentários: António Alves Tedim; Jorge Bacelar; Alberto Picco; João Anto-
nio Benitz; Nuno Morais Hélder Sequeira
17h30 - Transversalidades 2018. Fotografia sem Fronteiras (Galeria de Arte do
Teatro Municipal da Guarda)
. Inauguração da Exposição; Entrega de Prémios; Lançamento do Catálogo

TRANSVERSALIDADES:
FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS
O Centro de Estudos Ibéricos levou a efeito, nos dias 7 e 8 de dezembro, na
Guarda, a 2ª edição do Encontro “Fotografia sem Fronteiras: Imagem e Terri-
tório”. Seis exposições em vários locais da cidade convidaram a um percurso
fotográfico de memórias e de novos olhares. Mostras, masterclasses, deba-
tes e um roteiro fotográfico marcaram estes dias em que se deu destaque à
Fotografia e ao Território.
A iniciativa teve por base o projeto Transversalidades – Fotografias Sem
Fronteira, que teve início em 2011, lançado com o objetivo de aproveitar o
valor estético, documental e pedagógico da fotografia para valorizar territó-
rios com menos visibilidade, fomentar o diálogo entre territórios, pessoas e
instituições de matriz ibérica.
CEI ACTIVIDADES
223
2018

EXPOSIÇÃO
TRANSVERSALIDADES:
FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS 2018
A exposição principal do Encontro, “Trans-
versalidades: Fotografia sem Fronteiras 2018”
reuniu os portefólios vencedores e uma sele-
ção das fotografias submetidas a concurso,
organizada em torno de quatro núcleos te-
máticos: Património natural, paisagens e biodiversidade; Espaços rurais, agri-
cultura e povoamento; Cidade e processos de urbanização; Cultura e sociedade:
diversidade cultural e inclusão social.
A mostra facultou uma viagem por amplas e diversas geografias, permitindo ler
e interpretar as paisagens naturais, económicas, sociais e culturais representa-
tivas de distintos contextos dos cinco continentes. Através destas imagens os
nossos olhares cruzam processos de mudança em várias regiões do mundo,
observam diferentes modos de organização social e espacial, captam sinais de
arcaísmos e de inovações, percorrem quer as metrópoles mais populosas como
as áreas rurais mais remotas e recônditas.
A Exposição esteve patente na Galeria de Arte do Teatro Municipal da Guarda, de
8 de dezembro a 26 de janeiro de 2019.

EXPOSIÇÃO
FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS:
PESSOAS, LUGARES, OUTROS OLHARES
A diversidade, a qualidade, a inovação de
algumas abordagens e o elevado número
de trabalhos apresentados à edição de
2018 do Concurso Transversalidades levou
ao destaque dum conjunto de imagens a
que se dá a devida visibilidade através
desta mostra fotográfica. A exposição, que
ilustra a diversidade social e cultural de di-
versas regiões do mundo, foi estruturada a
partir de três núcleos temáticos: Pessoas, Lugares e Outros Olhares.
A Exposição esteve patente na Galeria do Paço da Cultura da Guarda, de 7 de
dezembro a 17 de janeiro de 2019.
224 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

EXPOSIÇÃO
GUARDA: PATRIMÓNIO VISUAL,
MEMÓRIA LOCAL
Exposta de forma singular numa galeria envi-
draçada, a exposição privilegia a utilização da
imagem fotográfica para construir um discurso
visual onde se reconheçam as singularidades
da identidade da Guarda. A imagem fotográ-
fica, enquanto parceira da memória, ajuda a
exorcizar a ação do tempo e a democratizar o
conhecimento. A preservação e a divulgação
desta memória são uma forma de valorização
da identidade e uma prática de cidadania crian-
do laços de afeto e sentimentos de pertença.

EXPOSIÇÃO
GUARDA: PATRIMÓNIO CULTURAL
LOCAL
Organizada em parceria com o Foto-
clube da Guarda, a exposição assen-
tou em distintos olhares fotográficos,
abrangendo múltiplas sensibilidades e
registos que convergem na perceção
da riqueza multifacetada dos valores
identitários e culturais da Guarda; são monumentos, artesanato, tradições, ruas,
arquitetura, o frio, a neve, rostos, cenas da ruralidade, arte sacra, azulejaria, arte
de rua, vivências académicas de uma cidade histórica…
Preservar a memória é, pois, dever de todos enquanto salvaguarda da nossa
identidade, conhecimento do passado e compreensão do presente. Indo além
da vertente expositiva, estas fotos pretendem ser um ponto de partida para no-
vos projetos fotográficos, pois, como escreveu Torga, “em qualquer aventura, o
que importa é partir, não é chegar”.
A Exposição esteve patente, na Guarda, em dois locais: Loja n.º 20 da Rua 31 de
Janeiro e Estação CP da Guarda, de 7 de dezembro a 3 de janeiro de 2019.
CEI ACTIVIDADES
225
2018

EXPOSIÇÃO
TRANSVERSALIDADES: FOTOGRAFIA
SEM FRONTEIRAS – RETROSPETIVA
Tendo como objetivo divulgar o projeto
“Transversalidades” e o percurso desde
2011, a mostra reunida neste núcleo expo-
sitivo integrou um conjunto de fotografias
que se distinguiram nas seis edições an-
teriores do concurso Transversalidades:
Fotografia sem Fronteiras.
A mostra esteve patente no Centro Co-
mercial La Vie, na Guarda, de 7 de dezem-
bro a 26 de janeiro de 2019.

EXPOSIÇÃO
MUNDO PORTUGUÊS – DUARTE BELO
Esta foi uma proposta de leitura fragmentada
sobre alguns lugares históricos de Portugal,
marcas de civilização e erudição de períodos
muito distintos. O mosteiro dos Jerónimos,
a Batalha, Tomar, as gravuras do Côa, sem
esquecer a contemporaneidade. Como que
rostos deixados lavrados em arquiteturas, er-
guidos em pedra para a afirmação de poder
sobre lutas desconexas para a construção
de uma identidade frágil. É o erguer de uma
“casa” ao longo de séculos. Fascínio pelo silêncio, a velocidade da fuga, o dese-
nho de uma cidade.
O seu autor, Duarte Belo (Lisboa, 1968), com formação em arquitetura, desde
1986 que trabalha no levantamento fotográfico sistemático da paisagem, formas
de povoamento e arquiteturas em Portugal. Publicou vários livros sobre o tempo
e a forma do território português, de que se destacam: Portugal — O Sabor da
Terra (1997-1998) e Portugal Património (2007-2008).
A Exposição esteve patente no Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda, de
7 de dezembro a 26 de janeiro de 2019.
CEI ACTIVIDADES
227
2018

EDIÇÕES

REVISTA DE ESTUDOS
IBÉRICOS
IBEROGRAFIAS 14 (2018)
Este número da Revista Iberografias compila as
comunicações proferidas no âmbito do Seminário
“Ca(u)sas Comuns: as Novas Geografias dos Países
de Língua Portuguesa – Patrimónios e Território”,
sendo dado destaque ao Prémio Eduardo Lourenço
atribuído, em 2018, a Basilio Lousada. Finalmente, é
feito o registo das atividades realizadas pelo CEI, em
2018.

COLEÇÃO IBEROGRAFIAS
N.º 33 . LUGARES
E TERRITÓRIOS: PATRIMÓNIO, TURISMO
SUSTENTÁVEL,
COESÃO TERRITORIAL
O 33.º da Coleção Iberografias, coordenado por Rui
Jacinto e Valentín Cabero, reúne textos de mais de
trinta autores, resultantes de intervenções realizadas
durante o XVII Curso de Verão 2017, subordinado ao
tema “Lugares e territórios: novas fronteiras, outros
diálogos”.
A declaração de 2017 pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Ano
Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento levou o Centro de
Estudos Ibéricos (CEI) a incluir este tema no Curso que promove regularmente
quando estão prestes a terem inicio as férias escolares. A XVIIª Edição do Cur-
so de Verão, realizada entre 28 de junho e 1 de julho, sob o lema “Lugares
e territórios: novas fronteiras, outros diálogos”, além de afirmar o CEI como
228 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

uma plataforma de difusão de conhecimento, aberta à cooperação cientifica e


ao diálogo institucional, deu publica expressão do seu compromisso para com
os territórios mais débeis, onde relevam os espaços de baixa densidade e fron-
teiriços. As dezenas de investigadores participantes, onde se incluem muitos
provenientes de diferentes universidades do espaço lusófono, testemunham a
aposta do CEI em aprofundar, aquém e além-fronteiras, parcerias e diálogos que
o articulem com diferentes redes de investigação.

N.º 34 . ANDANÇAS
E REFLEXÕES
TRANSFRONTEIRIÇAS:
ROTEIRO MIGUEL DE UNAMUNO –
EDUARDO LOURENÇO –
VALENTÍN CABERO; RUI JACINTO
Colectânea de textos de Eduardo Lourenço e Miguel
de Unamuno, tendo como fio condutor a itinerário
transfronteiriço Coimbra – Guarda – Salamanca.
Por ocasião da celebração do VIII Centenário da Fun-
dação da Universidade de Salamanca (1218 – 2018), o Centro de Estudos Ibéricos
(CEI) junta-se com espírito fraterno e com olhar posto na “comum alma ibérica”
à comemoração de tão longa vida académica e da sua frutífera e precoce pre-
sença no mundo peninsular, na Europa, no Mediterrâneo e no Novo Mundo. Os
Cursos de Verão, que têm sido orientados, por todas estas razões, para cons-
tituírem um encontro de culturas, de reflexão sobre a coesão do território e os
processos de desenvolvimento, promoveu na sua edição de 2018 um itinerário
transfronteiriço que tem como fio condutor dois grandes pensadores iberistas
com indubitável capacidade reflexiva e crítica: Miguel de Unamuno, que foi Rei-
tor da Universidade de Salamanca, e Eduardo Lourenço que, além de ser um
grande pensador de Portugal e da sua cultura, foi quem inspirou a criação do
Centro de Estudos Ibéricos.
Tomam-se como referências as cidades de Coimbra e de Salamanca e as suas
Universidades, unidas há seculos por fraternos laços históricos e pessoais, acadé-
micos e culturais, bem como a cidade da Guarda, convertida em marco de confluên-
cia que, através do CEI, renova os seus vínculos com o iberismo e a cooperação
transfronteiriça. O itinerário percorre territórios com os quais Miguel de Unamuno e
Eduardo Lourenço estabeleceram uma íntima relação, visitando lugares represen-
tativos, que lhes são queridos, sem esquecer o mundo rural e a própria raia, tantas
vezes olvidados, que deixou de representar a antiga fronteira soberana, fechada e
impermeável a uma salutar circulação de pessoas, bens e ideias.
CEI ACTIVIDADES
229
2018

CATÁLOGOS
TRANSVERSALIDADES 2018
FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS

O Catálogo Transversalidades reúne um conjunto


significativo de fotografias submetidas à edição de
2018 do Concurso Transversalidades 2018 – Foto-
grafia Sem Fronteiras, estruturado em quatro temas
– “Património natural, paisagens e biodiversidade”,
“Espaços rurais, agricultura e povoamento”, “Cidade
e processos de urbanização” e “Cultura e socieda-
de: diversidade cultural e inclusão social”. O catálogo
conta com textos de: Rui Jacinto, Ana Monteiro, Sain-
t-Clair Cordeiro da Trindade Júnior, João Guerreiro,
Neli Aparecida de Mello-Thery, Paula Santana, Pedro
Vasconcelos, Jorge Malheiros, Carlos Valter, Jorge
Gaspar, Rogério Haesbaert e Margarida Medeiros.

FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS:


PESSOAS, LUGARES, OUTROS OLHARES
A diversidade, a qualidade, a inovação de algumas
abordagens e o elevado número de trabalhos apre-
sentados à edição de 2018 do Concurso Transversali-
dades levou ao destaque dum conjunto de imagens a
que se dá a devida visibilidade através desta mostra
fotográfica. A exposição, que ilustra a diversidade so-
cial e cultural de diversas regiões do mundo, foi es-
truturada a partir de três núcleos temáticos: Pessoas,
Lugares e Outros Olhares.
O Catálogo conta com textos de: Jorge Gaspar e Ro-
gério Haesbaert.