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Deus amou o mundo!

E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não


somente pelos nossos, mas também pelos de todo o
mundo. 1 João 2:2

Remonstrantes: Documento entregue ao Sínodo


Por SamCou / 17 de janeiro de 2013 / Arminianismo, Remonstrantes, Sínodo de Dort / Um
Comentário
Caros leitores,

O texto a seguir apresenta as opiniões dos Remonstrantes entregues ao Sínodo de Dort (em latim)
quanto aos “cinco pontos” em disputa entre eles e os Calvinistas. Aviso que essa declaração é uma
resposta  às proposições  do sínodo, por isso, grande parte dos argumentos são estruturados em
negativas. Segundo o Dr. Richard Watson, “os Remonstrantes pretenderam primeiramente expor as
afirmações descuidadas e os dogmas extravagantes de seus adversários teológicos ao invés de exibir
uma simples declaração de seus próprios sentimentos.”

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I. Sobre predestinação.  

1. Deus não decretou eleger qualquer indivíduo para a vida eterna ou reprovar qualquer um dela em
uma ordem anterior àquela pela qual ele decretou criar esse homem, sem qualquer conhecimento
antecedente de obediência ou desobediência, segundo o seu próprio bom prazer, para demonstrar a
glória de sua misericórdia e justiça, ou de seu poder ou domínio absoluto.

2. Como o decreto de Deus a respeito da salvação e da destruição de cada homem não é o decreto de
um fim absolutamente [intenti] determinado, segue-se que os meios não são subordinados a esse
decreto para que através deles os eleitos e os réprobos sejam eficazmente e inevitavelmente trazidos
para o fim destinado.

3. Portanto, Deus não criou, em Adão, toda humanidade em uma condição de integridade; nem
ordenou a queda ou até mesmo a sua permissão; nem retirou de Adão a graça necessária e suficiente;
nem agora faz com que o Evangelho seja pregado e os homens sejam exteriormente chamados,
conferindo a eles os dons do Espírito Santo, de forma que sejam meios pelos quais Deus traz alguns
da humanidade para a vida eterna, e deixa os outros destituídos da vida eterna [ele não fez nenhuma
dessas coisas com a criação]. Cristo, o mediador, não é apenas o executor da eleição, mas também a
fundação do próprio decreto da eleição em si. A razão [causa] pela qual alguns homens são
eficazmente chamados, justificados, perseveram na fé, e são glorificados, não é porque foram
incondicionalmente eleitos para a vida eterna; nem os outros permanecem caídos porque Cristo não
se entregou por eles, ou ainda, porque são ineficazmente chamados, endurecidos, condenados, ou
porque esses homens são incondicionalmente reprovados da vida eterna.
4. Deus não decretou, sem a ocorrência de pecados reais, deixar a maior parte da humanidade no
estado de queda, excluíndo-a de qualquer esperança de salvação.

5. Deus ordenou que Cristo seria a propiciação pelos pecados do mundo inteiro, e, em virtude deste
decreto, ele determinou justificar e salvar aqueles que crêem nele e fornecer aos homens os meios
necessários e suficientes para a fé, de uma forma que ele entende ser condizente com a sua sabedoria
e justiça. Mas ele não tem de algum modo determinado através de um decreto absoluto, dar a Cristo
como mediador somente pelos eleitos, e dotar somente a eles com a fé através de um chamado eficaz,
para justificá-los, preservá-los na fé , e para glorificá-los.

6. Nenhum homem é reprovado da vida eterna por um decreto absoluto antecedente, nem privado
dos meios suficientes para alcançá-la; de forma que, os méritos de Cristo, o chamado e todos os dons
do Espírito são capazes de beneficiar a todos os homens para a sua salvação, e são na realidade
efetivos para todos os homens, a não ser que, por um abuso dessas bênçãos, as pervertam para sua
própria destruição. Mas nenhum homem está predestinado à incredulidade, impiedade, ou a cometer
pecados como meio e causa de sua condenação.

7. A eleição de determinadas pessoas é [peremptoria] definitiva, a partir da consideração de sua fé em


Jesus Cristo e da sua perseverança, mas não sem a consideração de sua fé e de sua perseverança na
verdadeira fé como pré-requisito da eleição.

8. Reprovação da vida eterna é feita de acordo com a presciência da incredulidade e perseverança na


incredulidade, mas não sem a presciência da incredulidade ou perseverança na incredulidade.

9. Todos os filhos dos crentes são santificados em Cristo; de modo que, nenhum daqueles que partem
desta vida, antes do uso da razão, perecem. Alguns filhos de crentes que partem desta vida na sua
infância, antes de terem cometido qualquer pecado, de nenhuma maneira são contados entre os
réprobos; de modo que não são, nem a pia sagrada do batismo, nem as orações da igreja, por
qualquer meio, capazes de obter a salvação deles.

10. Nenhum dos filhos de crentes que foram batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
e que vivem no estado de sua infância, são por um decreto absoluto contados entre os réprobos.

II. Na universalidade do mérito de Cristo.

1. O preço da redenção que Cristo ofereceu ao Pai é, em si mesmo, não apenas suficiente para a
redenção de toda a raça humana, mas também, através do decreto, da vontade e da graça de Deus
Pai, foi pago por todos os homens e por cada homem; e portanto, ninguém é, por um decreto absoluto
e antecedente de Deus, definitivamente excluído de toda participação nos frutos da morte de Cristo.

2. Cristo, pelo mérito da sua morte, reconciliou Deus Pai com toda a humanidade; ele pode e deseja,
sem prejuízo para a sua justiça e verdade, estabelecer uma nova aliança da graça com pecadores e
com homens suscetíveis à condenação.

3. Embora Cristo mereceu por todos e por cada homem a reconciliação com Deus e o perdão dos
pecados, de acordo com o [pactum]  propósito ou os termos da nova e graciosa aliança, nenhum
homem é de fato feito participante dos benefícios adquiridos pela morte de Cristo em qualquer outra
forma que não através da fé; nem os delitos e crimes de homens pecadores são perdoados antes da
sua verdadeira e real fé em Cristo.

4. Somente aqueles por quem Cristo morreu são obrigados a crer que Cristo morreu por eles. Mas
aqueles a quem eles chamam de réprobos, pelos quais Cristo não morreu, não podem ser forçados a
crer desta forma, nem podem ser condenados justamente pela incredulidade, mas se foram
reprovados, seriam obrigados a acreditar que Cristo não morreu por eles.
III. e IV. Sobre a operação da graça na conversão do homem.  

1. O homem não tem fé salvadora em si mesmo, nem tem isso a partir dos poderes de seu próprio
livre arbítrio; porque em um estado de pecado ele não é capaz de a partir de si mesmo pensar,
desejar, ou fazer nada que seja bom, nada que seja realmente bom para salvação; dos quais, em
primeiro lugar, está a fé salvadora. Mas é necessário que, por Deus em Cristo através de seu Espírito
Santo, seja regenerado e renovado em seu entendimento, afeição, vontade, e em todos os seus
poderes, para que possa ser capacitado a corretamente entender, avaliar, desejar, e realizar o que
quer que seja salvificamente bom.

2. Nós propomos que a graça de Deus seja o começo, a continuidade e a consumação de todo bem, de
modo que mesmo o homem que nasceu de novo não é capaz, sem esta graça preveniente e excitante,
seguinte e cooperante, de pensar, querer, ou praticar qualquer bem, ou resistir a quaisquer tentações
para o mal: de modo que as boas obras, e as boas ações que qualquer um é capaz de imaginar, devem
ser atribuídas à graça de Deus em Cristo.

3. Todavia, não acreditamos que todo o zelo, cuidado, estudo, e as dores, que são empregadas para
obter a salvação, antes da fé e do Espírito de renovação, são vãs e inúteis; muito menos acreditamos
que elas são mais prejudiciais ao homem do que úteis e proveitosas. Mas, pelo contrário,
consideramos que ouvir a palavra de Deus, entristecer-se por conta do cometimento de pecado, e
sinceramente procurar e desejar a graça salvadora e o Espírito de renovação, (nenhum dos quais um
homem é capaz de fazer sem a graça divina), não só não são nocivas e inúteis, mas são muito mais
úteis e extremamente necessárias para a obtenção de fé e do Espírito de renovação.

4. A vontade do homem em lapso ou em estado caído, e antes do chamado de Deus, não tem a
capacidade e liberdade de querer qualquer bem que é de natureza salvífica; e, portanto, negamos que
a liberdade de querer tanto o que é bom como o que é mal está presente na vontade humana em todo
estado ou condição.

5. A graça eficaz, pela qual qualquer homem é convertido, não é irresistível: e embora Deus assim
afete a vontade do homem por sua palavra e pela operação interna do seu Espírito, para conferir-lhe
uma capacidade de crer, ou poder sobrenatural, e realmente [faciat] faz o homem acreditar, o homem
de si mesmo ainda é capaz de desprezar e rejeitar esta graça e não crer, e, portanto, também perecer
por sua própria culpa.

6. Embora, de acordo com a mais livre e irrefreável vontade de Deus, haja uma disparidade muito
grande ou desigualdade da graça divina, o Espírito Santo também concede, ou está pronto a
conceder, sobre todos e sobre cada um a quem a palavra fé é pregada, a quantidade suficiente de
graça para promover [suis gradibus] em suas gradações a conversão dos homens; e, portanto, a graça
suficiente para fé e conversão é concedida não apenas àqueles a quem Deus disse estar disposto a
salvar de acordo com seu decreto de eleição incondicional, mas também para aqueles que na
realidade não são convertidos.

7. O homem é capaz, pela graça do Espírito Santo, de fazer mais bem do que ele realmente faz, e
omitir mais mal do que ele realmente omite. Não cremos que Deus [simpliciter] absolutamente deseje
que o homem não deva fazer mais bem do que faz, e que não omita mais mal do que o que omite;
nem cremos que fora determinantemente decretado desde toda a eternidade que cada um desses atos
fossem praticados ou omitidos.

8. Quem quer que Deus chama, ele chama verdadeiramente, isto é, com sincera e não com uma
dissimulada intenção e vontade de salvá-los. Não subscrevemos a opinião das pessoas que afirmam
que Deus chama externamente certos homens que ele não deseja chamar interiormente, ou seja,
aqueles que ele não está disposto a tornar verdadeiramente convertidos, mesmo antes da sua rejeição
da graça do chamado.

9. Não há em Deus uma vontade secreta do tipo que é oposta à vontade revelada na sua palavra, que
de acordo com essa mesma vontade secreta ele não deseja a conversão e a salvação da maior parte
daqueles a quem, pela palavra de seu evangelho, e pela sua vontade revelada, ele sinceramente
chama e convida à fé e à salvação.

10. Nem [hic] sobre este ponto nós admitimos uma dissimulação santa, como é o costume de alguns
homens a falar, ou de uma dupla personalidade na Deidade.

11. Não é verdade, que, por meio da força e da eficácia da vontade secreta de Deus ou do decreto
divino, não só são todas as coisas boas necessariamente feitas, mas também todas as coisas más, de
modo que todos aqueles que cometem pecado não são capazes, no que diz respeito ao decreto divino,
de fazer outra coisa que não seja cometer pecado; nem que Deus deseja, decreta, e [procurat] é o gestor
dos pecados dos homens, e de suas ações insanas, tolas e cruéis, ou também do sacrilégio e blasfêmia
de sua próprio nome; nem que ele move as línguas dos homens para blasfemar, etc.

12. Consideramos também que isso seja um falso e horrível dogma, que Deus por meios secretos
impele os homens para a perpetração de tais pecados que proíbe abertamente; que aqueles que
pecam não agem em oposição à verdadeira vontade de Deus e aquela a qual é propriamente assim
chamada; que o que é injusto, isto é, o que é contrário ao comando de Deus, é agradável à sua
vontade; ou melhor, que isso é um dano real e capital contra a vontade de Deus.

V. Na perseverança dos verdadeiros crentes na fé.

1. A perseverança dos crentes na fé não é o efeito do decreto absoluto de Deus pelo qual ele elegeu ou
escolheu determinadas pessoas sem exigir sua obediência.

2. Deus municia os verdadeiros crentes com poderes sobrenaturais ou força da graça, tanto quanto
considera suficiente, segundo a sua infinita sabedoria, para a sua perseverança, e para a sua vitória
sobre as tentações do diabo, da carne e do mundo; e da parte de Deus não há nada que os impeça de
perseverar.

3. É possível para os verdadeiros crentes se afastar da verdadeira fé, e cair em certos pecados que não
podem ser coerentes com uma fé verdadeira e justificadora; não é somente possível para eles cairem
desta forma, mas tais lapsos não infrequentemente ocorrem.

4. Os verdadeiros crentes são capazes por sua própria culpa de cair em crimes flagrantes e maldades
atrozes, de perseverar e morrer nelas, e, então, finalmente cair e perecer.

5. Entretanto, embora os verdadeiros crentes às vezes caiam em graves pecados e, como tal, destroem
a consciência, não cremos que eles imediatamente se afastam de toda a esperança de arrependimento;
mas reconhecemos que este não é um evento impossível de ocorrer: que Deus, de acordo com a
multidão das suas misericórdias pode voltar a chamá-los por sua graça ao arrependimento; e mais,
somos da opinião que tal chamado ocorre frequentemente, embora tais crentes caídos não podem ser
“mais plenamente convencidos” sobre aquilo que certamente e indubitavelmente acontecerá.

6. Portanto, de todo nosso coração e alma nós rejeitamos os seguintes dogmas, que diariamente são
confirmados em várias publicações que circulam extensivamente entre o povo, a saber: (1.) “Os
verdadeiros crentes possivelmente não podem pecar com proposital conselho e planejamento, mas só
por ignorância e fraqueza.” (2.) “É impossível para os verdadeiros crentes, através de quaisquer
pecados deles, cair da graça de Deus.” (3.) “Mil pecados, ou melhor, todos os pecados de todo o
mundo, não são capazes de tornar a eleição vã e vazia.” Se a isto for acrescentado, “Homens de todos
os tipos são obrigados a crer que eles são eleitos para a salvação e, portanto, são incapazes de cair da
eleição,” nós permitimos aos homens  pensar que uma ampla janela como um dogma se abre para a
segurança carnal. (4.) “Nenhum pecado, por maior e mais graves que sejam, são imputados aos
crentes; ou melhor, todos os pecados deles, presentes e futuros, estão redimidos.” (5). “Embora os
verdadeiros crentes caiam em heresias destrutivas, nos pecados mais atrozes e terríveis, como
adultério e assassinato, em virtude dos quais a igreja, de acordo com a instituição de Cristo, é
obrigada a testemunhar que ela não pode tolerá-los em sua comunhão exterior, e que a menos que
tais pessoas sejam convertidas, elas não terão parte no reino de Cristo; mas é impossível para eles
totalmente e finalmente cair da fé.”

7. Como um verdadeiro crente é capaz de no presente momento estar seguro com respeito à
integridade de sua fé e consciência, então ele é capaz e deve estar neste momento certo de sua
salvação pessoal e da boa vontade salvadora de Deus para ele. Sobre este ponto nós reprovamos
totalmente a opinião dos papistas.

8. Um verdadeiro crente, com respeito ao tempo vindouro, pode e deve, de fato, ter certeza de que ele
é capaz, por meio de vigilância, da oração e outros santos exercícios, de perseverar na fé verdadeira, e
que a graça divina nunca falhará para ajudá-lo a perseverar. Mas não podemos ver como é possível
para ele estar certo de que, mais adiante, jamais se achará deficiente em seu dever, mas que vai
perseverar, nesta escola da guerra cristã, na prática de atos de fé, piedade e caridade, como crentes
dignos; nem consideramos que seja uma questão de necessidade que o crente deva estar seguro de tal
perseverança.

Fonte: Biblical and Theological Dictionary, PP. 896-899

Tradução: Samuel Paulo Coutinho

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Todas as ênfases foram adicionadas pelo blogueiro.

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