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OMAR KHOURI

TEXTOS BREVES SOBRE


COMUNICAÇÃO, SEMIÓTICA,
ARTES, (EX-) VIVENTES ETC ET AL

SÃO PAULO
NOMUQUE EDIÇÕES
2011
Copyright © 2011 Omar Khouri

Capa e projeto gráfico


Fábio Oliveira Nunes

Organização
Omar Khouri
omarckhouri@gmail.com

Nomuque Edições
www.nomuque.net

KHOURI, Omar
O livro das mil e uma coisas: textos breves sobre
comunicação, semiótica, artes, (ex-) viventes etc et al /
Omar Khouri. São Paulo: Nomuque Edições, 2011.

ISBN 978-85-902139-4-9

1. Artes 2.Comunicação 3. Poesia 4.Semiótica


5.Biografia 6.Crônica
ste (agora) livro-eletrônico reúne artigos de
divulgação, pequenos ensaios e comentários
críticos publicados de 29 de janeiro de 2000 a
21 de junho de 2008 no semanário o alfinete,
de pirajuí sp br, a convite do editor Marcelo
Pavanato. Nesses anos todos, essa colaboração
sofreu, por um motivo ou outro, algumas
pequenas interrupções e, muito embora estivesse
escrevendo para um hebdomadário de pequena
cidade interiorana, foi-me concedida toda liberdade para tratar de
quaisquer assuntos e eu abordei temas de minha preferência com maior
ou menor aprofundamento, sem a oca sofisticação que de mim exigiria
a Academia à qual, de qualquer maneira, pertenço e de bom-grado.
Procurei ser simples, sem rebaixar o repertório, colocando minha alma
professoral a serviço de um tipo especial de informação, dentro de minha
especialidade, que é a das Comunicações e Artes, teorias e práticas. Estão
aqui reunidos os textos, na ordem de publicação original, com pequenas
correções e ajustes mínimos, acréscimos, os quais comparecerão entre
colchetes, e alguma supressão, que também estará indicada. A ortografia
original foi mantida. Estas cerca de 700 laudas dariam, caso fossem
reunidas por assuntos, 4 pequenos volumes, coisa que, por ora, não
entra nas cogitações do autor. Em tempo: alguns textos, por motivos
vários, foram republicados – incluindo, aí, a mídia eletrônica - porém,
não chegaram a fazer parte de volumes ou sites autônomos.

Omar Khouri
São Paulo, junho de 2010.
ÍNDICE 22 de julho de 2000. o signo fotografia
29 de julho de 2000. de pirajuí para o
mundo: fins dos anos 50 e os 60
2000 05 de agosto de 2000. o/a poeta
12 de agosto de 2000. o bom poema. o que
seria?
29 de janeiro de 2000. tarsila do amaral
19 de agosto de 2000. e pra essa dor tem
05 de fevereiro de 2000. paulo miranda
cura?
12 de fevereiro de 2000. de olho no livro
26 de agosto de 2000. manifestos
19 de fevereiro de 2000. de olho na poesia
02 de setembro de 2000. dona amábile
26 de fevereiro de 2000. são paulo: capital
09 de setembro de 2000. god bless the
cultural do brasil
teachers
04 de março de 2000. jorge luis borges
16 de setembro de 2000. erthos albino de
11 de março de 2000. tito madi
souza
18 de março de 2000. a linguagem em estado
23 de setembro de 2000. quem é poeta?
de poesia
30 de setembro de 2000. joão cabral de melo
25 de março de 2000. poesia/poema
neto
01 de abril de 2000. maud pires arruda
07 de outubro de 2000. futebol
08 de abril de 2000. marcel duchamp
14 de outubro de 2000. poesia: ver ouvir
15 de abril de 2000. revistas
pensar
22 de abril de 2000. tradução de poesia
21 de outubro de 2000. livros de poemas
29 de abril de 2000. um fragmento de safo
28 de outubro de 2000. poesia e teoria: o que
06 de maio de 2000. poesia fora do poema
ler?
13 de maio de 2000. verso
04 de novembro de 2000. masp – museu
20 de maio de 2000. revolução na poesia
de arte de são Paulo “assis
27 de maio de 2000. recomendações
chateaubriand”
03 de junho de 2000. ritmo
11 de novembro de 2000. (errâncias de)
10 de junho de 2000. recomendações ii
décio pegnatari
17 de junho de 2000. métrica
18 de novembro de 2000. josé lino
24 de junho de 2000. RIMA
grünewald
01 de julho de 2000. um soneto de camões
25 de novembro de 2000. Uma certa
08 de julho de 2000. sem título
fotografia
15 de julho de 2000. santo de casa


02 de dezembro de 2000. LIVROS: POR QUE LÊ-LOS 28 de abril de 2001. bossa nova
09 de dezembro de 2000. MEU AVÔ: O CHICO 05 de maio de 2001. são paulo. futuro.
TURCO futurismo
16 de dezembro de 2000. A ESCOLA DO FUTURO 12 de maio de 2001. um verso de eurípides
23 de dezembro de 2000. DO DIREITO À 19 de maio de 2001. neologismos
BELAMORTE 26 de maio de 2001. manuel bandeira e o
30 de dezembro de 2000. ENFIM, O FIM DO sonhar poemas
SÉCULO 06(?02) de junho de 2001. mallarmé e degas:
com quantas idéias se faz um poema?
2001 09 de junho de 2001. a maldição de cassiano
16 de junho de 2001. interferência dos
06 de janeiro de 2001. informar-se deuses?
13 de janeiro de 2001. tv/censura 30 de junho de 2001. o caso do mensagem, de
20 de janeiro de 2001. maria yolanda lopes f. pessoa
manso da costa reis 07 de julho de 2001. o idioma do poeta
27 de janeiro de 2001. uma estirpe em extinção 14 de julho de 2001. perturbações/ruídos
03 de fevereiro de 2001. acaso e necessidade 21 de julho de 2001. cinco minutos é tempo
10 de fevereiro de 2001. o quibe pouco!
17 de fevereiro de 2001. minha mãe 28 de julho de 2001. a semana de arte
24 de fevereiro de 2001. o kitsch moderna de 1922
03 de março de 2001. augusto de campos: um 04 de agosto de 2001. manuel bandeira
poeta para muitos e muitos séculos versus oswald de andrade
10 de março de 2001. sim e não (anfitriões e 11 de agosto de 2001. tradução
convidados) – parte a 18 de agosto de 2001. quantos meses há
17 de março de 2001. sim e não (anfitriões e para a poesia?
convidados) – Parte b 25 de agosto de 2001. decifração
31 de março de 2001. vilela: a dimensão 01 de setembro de 2001. pound: o poeta não
trágica de uma existência modesta mais enxerga? o poeta envelhece?
07 de abril de 2001. dona cida 08 de setembro de 2001. albano: néctar para
14 de abril de 2001. ranchinho: presente de os poetas!
deus 15 de setembro de 2001. braga e a produção
21 de abril de 2001. josé pancetti presente


22 de setembro de 2001. a prolixidade de 26 de janeiro de 2002. mário de andrade
xisto tarsila mário de andrade
29 de setembro de 2001. drummond e os 02 de fevereiro de 2002. regina silveira
concretistas 09 de fevereiro de 2002. lothar charoux
13 de outubro de 2001. qualidade da 16 de fevereiro de 2002. re - capitu – lando
produção artística/poética 23 de fevereiro de 2002. ivete curi
27 de outubro de 2001. herrmann tripulando 02 de março de 2002. edgar (allan) poe
um ovni 09 de março de 2002. sobre a escravidão
03 de novembro de 2001. dona célia 16 de março de 2002. adentrando são paulo
10 de novembro de 2001. turco? quem é que é pela vez primeira
turco? 30 de março de 2002. roberto miguel attuy
17 de novembro de 2001. minha avó lula 13 de abril de 2002. ainda a fotografia…
24 de novembro de 2001. o poeta necessita 27 de abril de 2002. além da semântica
conversar? 04 de maio de 2002. paulo leminski
01 de dezembro de 2001. de olho (-ouvido) 11 de maio de 2002. a bienal de são paulo
no vídeo 18 de maio de 2002. julio plaza
08 de dezembro de 2001. santaella: a 25 de maio de 2002. sede de fábula
padroeira da semiótica 01 de junho de 2002. distúrbios na
15 de dezembro de 2001. uma biblioteca comunicação
pessoal 08 de junho de 2002. o rei édipo: OIDUPOUS
22 de dezembro de 2001. poemas: sob a égide TURANNOS

de eros 15 de junho de 2002. o que é atuar ou não a


29 de dezembro de 2001. crônica da partir de um centro hegemônico
passagem do ano 22 de junho de 2002. se é velho é bom?
29 de junho de 2002. a façanha da código
13 de julho de 2002. futebol: algumas
2002 reflexões em tempo de copa
20 de julho de 2002. sofrimento e resignação
05 de janeiro de 2002. o signo na semiótica
ou deus abençoe os que padecem
peirceana
03 de agosto de 2002. A fotografia-arte
12 de janeiro de 2002. um certo grupo de
10 de agosto de 2002. antonio lizárraga:
poetas dos anos 70
rigor e busca
19 de janeiro de 2002. signos são signos


17 de agosto de 2002. noigandres e 25 de janeiro de 2003. tarsila: um pouco
invenção mais – parte ii
31 de agosto de 2002. ronaldo azeredo 01 de fevereiro de 2003. divulgação e a
07 de setembro de 2002. polem academia
14 de setembro de 2002. artéria . parte i 08 de fevereiro de 2003. isso e aquilo (parte
21 de setembro de 2002. artéria . parte ii i)
28 de setembro de 2002. navilouca 15 de fevereiro de 2003. isso e aquilo (parte
05 de outubro de 2002. balalaica e artéria 4 ii)
(arteriv): as fitas 22 de fevereiro de 2003. walter silveira
12 de outubro de 2002. zero à esquerda 01 de março de 2003. tadeu jungle
19 de outubro de 2002.artéria . parte iii 08 de março de 2003. uma atuação conjunta:
09 de novembro de 2002. artéria . parte iv walter e tadeu
16 de novembro de 2002. poesia em greve e 15 de março de 2003. observando i
qorpo estranho 29 de março de 2003. os modernistas de são
23 de novembro de 2002. muda paulo e a (re-) descoberta do barroco
30 de novembro de 2002. atlas – parte i
07 de dezembro de 2002. jornal dobrábil, 19 de abril de 2003. os modernistas de são
revista dedo mingo e agráfica paulo e a (re-) descoberta do barroco
14 de dezembro de 2002. surpresa, pólo – parte ii
cultural/inventiva e viva há poesia 26 de abril de 2003. os modernistas de são
21 de dezembro de 2002. caspa, i, paulo e a (re-) descoberta do barroco
almanaque… bric a brac e paranga hum – parte iii
28 de dezembro de 2002. 2002 ad 05 de julho de 2003. dos percalços de nossa
efemeridade : julio plaza passou por
2003 aqui . JP ii
12 de julho de 2003. do celibato como uma
04 de janeiro de 2003. DeSignos, através e das belas artes
tantas outras revistas 26 de julho de 2003. observando ii
11 de janeiro de 2003. um balanço das 09 de agosto de 2003. observando iii
revistas 16 de agosto de 2003. observando iv
18 de janeiro de 2003. tarsila: um pouco 06 de setembro de 2003. haroldo de campos
mais – parte i 13 de setembro de 2003. observando v


27 de setembro de 2003. observando vi 28 de fevereiro de 2004. júlio mendonça
04 de outubro de 2003. arte/poesia 06 de março de 2004. john cage
e tecnologia: asa novas mídias- 13 de março de 2004. arnaldo antunes
linguagens (a internet) 20 de março de 2004. tito madi ii
11 de outubro de 2003. observando vii 27 de março de 2004. josé luiz valero
18 de outubro de 2003. klebher inforzato figueiredo
01 de novembro de 2003. observando viii 10 de abril de 2004. villari herrmann
08 de novembro de 2003. observando ix (a 17 de abril de 2004. observando xv
propósito de algumas fotos) 01 de maio de 2004. observando xvi
15 de novembro de 2003. observando x 08 de maio de 2004. arte e publicidade
22 de novembro de 2003. observando xi 15 de maio de 2004. mãe é mãe
29 de novembro de 2003. edgard braga 22 de maio de 2004. observando xvii
06 de dezembro de 2003. protéica: uma 29 de maio de 2004. colecionismo e
metamorfose arterial (editorial de uma dinheiro
revista eletrônica) 05 de junho de 2004. aster . artes
13 de dezembro de 2003. observando xi 12 de junho de 2004. tadeu jungle ii:
(xii?) artista 24h por dia
24 de dezembro de 2003 (quarta-feira). 19 de junho de 2004. dois filmes memoráveis
observando xii (xiii?) 26 de junho de 2004. observando xviii
10 de julho de 2004. priscilla davanzo : uma
2004 mulher : uma vaca (uma artista de corpo
e alma)
03 de janeiro de 2004. o caso do cavalo 17 de julho de 2004. um filme é um filme
10 de janeiro de 2004. observano xiv 24 de julho de 2004. observando xix
17 de janeiro de 2004. o líbano é aqui i 31 de julho de 2004. madame bovary
24 de janeiro de 2004. o líbano é aqui ii 07 de agosto de 2004. para impressionar
31 de janeiro de 2004. judith lauand alunos
07 de fevereiro de 2004. a teimosia burra 14 de agosto de 2004. fenícios: história e
ou da insistência em se emitirem maus mito
juízos 21 de agosto de 2004. pelé eterno: o filme
14 de fevereiro de 2004. aldo fortes 28 de agosto de 2004. observando xx
21 de fevereiro de 2004. lenora de barros 04 de setembro de 2004. observando xxi


18 de setembro de 2004. observando xxii 16 de abril de 2005. observando 27 (28?)
25 de setembro de 2004. observando xxiii 23 de abril de 2005. observando 28 (29?)
02 de outubro de 2004. nomuque edições: à 30 de abril de 2005. julio plaza iii
margem do sistema editorial brasileiro 14 de maio de 2005. poesia: considerações
09 de outubro de 2004. arte e política gerais sobre a arte da palavra
16 de outubro de 2004. poesia (ruminando idéias)
intersemiótica: uma exposição 28 de maio de 2005. poesia e ensino
23 de outubro de 2004. observando 23 (24?) 04 de junho de 2005. ainda em torno da
06 de novembro de 2004. nina hagen poesia i
13 de novembro de 2004. uma biblioteca, uma 11 de junho de 2005. ainda em torno da
casa. uma bibliocasa poesia ii
20 de novembro de 2004. noigandres e 18 de junho de 2005. ainda em torno da
invenção: revistas-portavozes do poesia iii
concretismo paulista 25 de junho de 2005. marcelo pavanato
16 de julho de 2005. Sobre o que estou
2005 mesmo escrevendo?
23 de julho de 2005. São paulo ao rés do
15 de janeiro de 2005. artéria: está chão
pintando o 7 30 de julho de 2005. Bom ou mau poema?
29 de janeiro de 2005. observando 24 (25?) 06 de agosto de 2005. o conhecimento acima
05 de fevereiro de 2005. observando 25 (26?) de tudo
12 de fevereiro de 2005. observando 26 (27?) 13 de agosto de 2005. matheus josé da
19 de fevereiro de 2005. anita malfatti: costa: do desdizer do desenho ao
pintora despudor da cor
05 de março de 2005. a (s) academia (s) 20 de agosto de 2005. haicai: parcimônia e
12 de março de 2005. poesia: ilustração X prodigalidade
intersemiose . parte i 27 de agosto de 2005. lenora de barros: a
19 de março de 2005. poesia: ilustração x fotografia como recurso expressivo
intersemiose . parte ii 03 de setembro de 2005. paulo ludmer:
02 de abril de 2005. poesia: ilustração x falésia
intersemiose . parte iii 17 de setembro de 2005. erivelto busto
09 de abril de 2005. marineide de moraes garcia: mínimalâmina

10
01 de outubro de 2005. vítor mizael: 08 de abril de 2006. poesia em todos os
liberdade e busca da forma lugares: os ditos populares/provérbios
08 de outubro de 2005. anotações 15 de abril de 2006. o signo novo e a
15 de outubro de 2005. pop art: um pouco comunicação
29 de outubro de 2005. blaise cendrars: 22 de abril de 2006. arte: um pouco
um suíço-francês no modernismo 29 de abril de 2006. mais que o melhor: o
brasileiro extraordinário i
05 de novembro de 2005. modernismo 06 de maio de 2006. mais que o melhor: o
brasileiro: o editorial de klaxon 1 extraordinário ii
12 de novembro de 2005. modernismo 13 de maio de 2006. cinema, de vez em
brasileiro: o manifesto da poesia pau- quando
brasil 20 de maio de 2006. sérgio buarque, o pai
19 de novembro de 2005. o plano-piloto para do chico
poesia concreta 27 de maio de 2006. degas no masp
26 de novembro de 2005. considerações 03 de junho de 2006. meus primeiros
sobre televisão contatos com o concretismo i
03 de dezembro de 2005. cinema, um pouco i 10 de junho de 2006. meus primeiros
10 de dezembro de 2005. cinema, um pouco ii contatos com o concretismo ii
17 de dezembro de 2005. cinema, um pouco 17 de junho de 2006. tanto barulho por tão
iii pouco: comentários a propósito de um
24 de dezembro de 2005. revistas do nosso filme
concretismo i: noigandres 24 de junho de 2006. villa-lobos em pirajuí?
01 de julho de 2006. saber, saberes i
2006 08 de julho de 2006. saber, saberes ii
15 de julho de 2006. repertório e
14 de janeiro de 2006. revistas do nosso performance i
concretismo ii: invenção 22 de julho de 2006. repertório e
21 de janeiro de 2006. alfredo volpi i performance ii
28 de janeiro de 2006. alfredo volpi ii 29 de julho de 2006. repertório e
25 de março de 2006. coisas do coração performance iii
01 de abril de 2006. culinária: 05 de agosto de 2006. repertório e
perturbações/ruídos performance iv

11
12 de agosto de 2006. repertório e 09 de dezembro de 2006. ouvir (vacinado) as
performance v críticas
19 de agosto de 2006. rio de muitos 16 de dezembro de 2006. o poético na fala
janeiros i cotidiana
26 de agosto de 2006. rio de muitos 23 de dezembro de 2006. são paulo, sempre
janeiros ii 30 de dezembro de 2006. feliz ano novo
02 de setembro de 2006. comentários (Vários)
09 de setembro de 2006. oswald de andrade: 2007
alçar alturas sem sair dos pés
16 de setembro de 2006. escrever e o 03 de fevereiro de 2007. tarsila cronista ou
projetar-se para o futuro uma cosmopolita confinada
23 de setembro de 2006. poesia e prosa. 10 de fevereiro de 2007. o aquecimento
teoria e prática global: mais essa!
30 de setembro de 2006. comentários 17 de fevereiro de 2007. outros (tantos)
(Vários) ii carnavais
07 de outubro de 2006. espaço dos satyros 24 de fevereiro de 2007. comilança aqui e no
14 de outubro de 2006. acaso e criação cinema
artística i 03 de março de 2007. reverberações
21 de outubro de 2006. acaso e criação modernistas: os descendentes
artística ii 10 de março de 2007. encontros
28 de outubro de 2006. parreiras brotando modernistas na paulicéia
de novo: feliz ano novo 17 de março de 2007. ler ou não ler livros:
04 de novembro de 2006. rogério duprat: eis a questão
era uma vez 24 de março de 2007. para que serve saber
11 de novembro de 2006. a são paulo dos isso?
modernistas (finados) 31 de março de 2007. a coleção adolfo
18 de novembro de 2006. ronaldo azeredo: Leirner
poetas são eternos? 07 de abril de 2007. anita malfatti, vida-
25 de novembro de 2006. comentários obra: o livro
(vários) iii 14 de abril de 2007. tuta, meu tio, faz 80 anos
02 de dezembro de 2006. mais um prêmio na 21 de abril de 2007. criadores: viajar é
praça preciso?

12
28 de abril de 2007. aracy amaral e os 08 de março de 2008. lição de professores
estudos sobre o modernismo no brasil 22 de março de 2008. tarsila do amaral e
16 de junho de 2007. a estrela dalva (re-) lasar segall à mostra
desponta 05 de abril de 2008. uma santa semana
23 de junho de 2007. ainda a estrela dalva 19 de abril de 2008. fragmentos de
30 de junho de 2007. conversa captada num pensamentos
trem (o som não pede licença) 03 de maio de 2008. língua-linguagem
07 de julho de 2007. pathé baby, o livro 17 de maio de 2008. reuniões lítero-
14 de julho de 2007. a fome fez o homem artísticas
falar 31 de maio de 2008. andarilho : exposição
21 de julho de 2007. rubai, rubaiyat de leopoldo ponce
28 de julho de 2007. flashes 14 de junho de 2008. poetas da era pós-
04 de agosto de 2007. décio pignatari: 80 verso: um mapeamento por meio de
anos! algumas constantes
11 de agosto de 2007. barroco mais além 21 de junho de 2008. poetas da era pós-
18 de agosto de 2007. concretismo verso: um mapeamento por meio de
brasileiro em revista algumas constantes (cont.)
01 de setembro de 2007. das agruras da
ancianidade
08 de setembro de 2007. o caso do pato
15 de setembro de 2007. ah! os livros
22 de setembro de 2007. obrigado. gracias.
grazzie. thank you. merci beaucoup!

2008

02 de fevereiro de 2008. benfeitores da


humanidade
23 de fevereiro de 2008. zéluiz valero
figueiredo: o difícil adeus
01 de março de 2008. zéluiz valero
figueiredo: o difícil adeus (cont.)

13
2000
curiosidade de procurar seu nome na lista
telefônica e achei! Dos contatos telefônicos
resultaram três visitas ao apartamento da
rua Albuquerque Lins, bairro de Higienópolis,
nos anos de 68 e 69, das quais participei
de duas. Compartilharam desse estranho
encontro Paulo Miranda, [Antônio Eduardo]
Pinatti e Arnaldo Caiche.
Na época, nós jovens, com forte dose
de ambição artística, não tínhamos uma
real medida da grandeza da pintora, mas
a admirávamos. Rolou um papo agradável
entre aquela velha senhora presa à cama e os
2000 jovens curiosos. Ainda se encontravam com
ela quadros como o auto-retrato “Manteau
Rouge”, “Operários”, um retrato de Oswald de
Andrade - seu marido nos anos 20 - e alguns
outros que se encontram hoje distribuídos
TARSILA DO AMARAL pelos museus brasileiros. Desenhos seus se
encontravam sobre uma mesa aguardando
Não me lembro bem, mas, parece- montagem para a grande retrospectiva que
me, ouvi o nome de Tarsila do Amaral pela aconteceu no Rio e em São Paulo nesse final
primeira vez numa das memoráveis aulas da dos sessenta.
professora Maud Pires Arruda, nos anos 60. Com o tempo, pude saber pelas
O nome incomum e a obra minhas próprias pesquisas que Tarsila era
personalíssima me atraíram prontamente. mais importante para a evolução das formas
2001

Numa de minhas idas a São Paulo, tive a na arte brasileira, do que o tão falado

15
Cândido Portinari. Há alguma originalidade vida de Tarsila, perdi-os. Valho-me de minha
na leitura que ela fez do Cubismo, no uso da memória e de um ou outro livro, como o que
cor. É admirável a economia de meios que encerra a grande pesquisa feita por Aracy
notamos em seus desenhos feitos em 1924, Amaral.
por ocasião da viagem feita a Minas. Sempre que falo de Tarsila, nunca
É lamentável que a parte realmente deixo de mencionar sua ambição artística,
importante de sua obra se restrinja aos anos seu refinamento intelectual e sua grande
20, o mesmo podendo ser dito da obra de beleza física, presente mesmo depois dos
seu marido mais famoso, o genial Oswald quarenta anos, o que podemos atestar
de Andrade. Seu quadro mais famoso - por meio de fotos. Porém, Tarsila é antes
“Abaporu” - acabou indo parar numa coleção de tudo capítulo importante da história do
argentina e, ironicamente, tem sido mostrado Modernismo brasileiro.
com alguma freqüência em São Paulo. (29 de janeiro de 2000)

2000 Por ocasião do cinqüentenário da


Semana de 22, da qual Tarsila não participou,
ela foi muito requisitada pela mídia impressa.
Era o ano de 1972. Em janeiro de 73 ela
veio a falecer, tendo sido enterrada no PAULO MIRANDA
Cemitério da Consolação, o mais célebre da
Paulicéia, onde já se encontravam Mário e Imagine alguém que passe uma vida
Oswald de Andrade; no cemitério contíguo, inteira tentando disfarçar que possui uma
o dos Protestantes, encontra-se o corpo inteligência privilegiada, cultivada e, como
da pioneira Anita Malfatti. Por ocasião da conseqüência, um repertório raro, de um
morte de Tarsila, Dona Maud comentou nível elevadíssimo. Imagine alguém que,
com estranheza o fato de o caixão da por outro lado, não faça a mínima questão
pintora ser branco. Meus recortes de jornal, de se mostrar poeta, no mínimo muito
2001

documentando momentos derradeiros da bom e, quase sempre, excepcional. Pois é,

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esse alguém se chama Paulo José Ramos pudesse estabelecer, fazia com que alguns
Miranda, nascido em Pirajuí, no ano de dos mestres chegassem a pôr em dúvida a
1950, signo: Escorpião. Paulo Miranda, o autoria de seus textos. Não os amigos, que
Paulinho para aqueles que, aficionados da sabiam que um simples bilhete seu dava
poesia, conhecem-no e o reconhecem como gosto ler, tinha sempre algo de inventivo.
um dos maiores fazedores, dentre aqueles Bem, Paulo Miranda fez questão de
que começaram a publicar - embora muito não obter nenhum diploma universitário.
pouco - a partir de meados dos anos 70. Foi cada vez mais elevando o seu repertório
Meu conhecimento de Paulo Miranda específico acerca da Poesia, principalmente
data de fins dos anos 50: ele declamando as expressas em Português e Inglês, língua
com uma desenvoltura espantosa nas esta que ele aperfeiçoou com a estada de
festividades de escola, poemas de Gonçalves um ano nos EUA, inúmeras passagens curtas
Dias, entre outros. Porém, amizade mesmo por Londres e Nova York e muita leitura: de
2000 começou quando eu, atrasado nos estudos, Shakespeare a Ezra Pound.
dadas algumas reprovações, encontrei-me Desde muito cedo começou na Arte da
com ele na então segunda série ginasial - Poesia, escrevendo versos (um poeta se faz
era o ano de 1963. Um garoto prodígio no lendo/ouvindo outros poetas) o que culminou
que diz respeito ao domínio do código verbal. com um prêmio importante em 1968, ano em
Dizer que escrevia bem, era pouco. Seus que fixou residência em São Paulo e em que
professores sempre ficaram embasbacados começou a trabalhar como aeroviário. Seu
frente aos trabalhos que apresentava: do domínio técnico e sensibilidade fazem com
Grupo Escolar Anexo ao IEDAP, passando que até hoje possamos ler os versos daquele
pelo Ginásio e Clássico, até a Universidade. adolescente, com bastante interesse.
Passou duas vezes pela LETRAS da USP e A seguir, houve um período em que
uma pelo Jornalismo da FAAP, de 1969 à cada vez produzia menos, até que cessou
segunda metade dos anos 70; o fato de por completo a produção. Quando voltou a
2001

estar muito acima de qualquer média que se produzir, já operava dentro de um universo

17
intersemiótico, ou seja, fundindo o verbal DE OLHO NO LIVRO
com outros códigos. Porém, passou a fazer
pouquíssimos poemas: menos de vinte em Um livro, hoje, só pode ser pensado como
um quarto de século! Conhecimento da uma forma de entretenimento - o que não
tradição, senso crítico, sensibilidade à flor exclui atividade com esforço mental até
da pele, fina ironia e humor possibilitaram sofisticado - a consumir o mínimo possível do
poemas como o reviravolta, o soneto-fita- tempo do destinatário, ou seja, a brevidade
métrica, o poema de valor, a crônica da continua na ordem-do-dia. Produzir hoje um
passagem do ano etc. É de se notar que livro significa despender um grande esforço
poucas pessoas - leitores privilegiados - têm para fazer algo denso e de aparência leve e
tido acesso a essas faturas admiráveis. que ofereça vários níveis de leitura: desde
“A Poesia viveria muito bem sem nós”, aquela superficial, consumindo apenas, no
disse-me certa vez Paulo Miranda, para máximo, uma hora e vinte do leitor (se tanto)
2000 detonar qualquer pretensão minha e dele até a que se transforma num verdadeiro
mesmo quanto à realização de uma obra trabalho de garimpagem e decifração frentre
de invenção, como pregavam os nossos ao material riquíssimo, mas que não se
amigos poetas concretos. Tendo horror ao mostra a um repertório qualquer (trata-se
gênero vida de artista, Miranda vai liberando de uma viagem: do texto ao hipo-texto
o seu finíssimo humor e ironia e fazendo - a coisa palimpséstica - que acaba por se
cada vez menos ou, simplesmente, nada configurar em hiper-texto). Você saberia
produzindo… distinguir entre dois pratos bem feitos qual
(05 de fevereiro de 2000) seria o melhor e por quê? É esse grau de
sutileza que possui o leitor ideal, mas
nenhum pode ser excluído (lembro-me de
poemas aparentemente difíceis, que eram
decodificados satisfatoriamente por pessoas
2001

com baixo repertório específico em termos

18
de poesia tradicional, coisa que não era (e isto significa: 400, 700, 1000 páginas).
alcançada pelos de alto repertório, pois só Um livro, hoje, deverá oferecer outros
eram capazes de uma leitura viciada). De atrativos: brevidade, tactilidade, visualidade
qualquer modo as coisas têm sido sempre trabalhada, disposição para algo outro,
assim: possibilidade de vários níveis de deverá despertar, num primeiro momento, a
leitura, dependendo do repertório do fruidor. satisfação que fornece um desses CLIPS tão
Esse livro-de-hoje pode ser um livro-objeto, na ordem-do-dia. Um livro-papel, hoje, deve
livro-de-artista, exemplar único, porém, ser um não-livro, para poder ser de fato um
que possa ser recodificado, sem perda de LIVRO. Julho de 1999
qualidade/informação, para ser CD ROM, [Manifesto]
vídeo, performance, fatura disponível na (12 de fevereiro de 2000)

Rede. Como os poemas da era pós-verso,


esse livro (com a aparência tradicional) poderá
2000 transformar-se, adaptando-se, possibilitando
a veiculação das mensagens de que é o
portador, por outros meios; deixa que aquilo DE OLHO NA POESIA
que contém migre... Um livro eletrônico, ou
melhor, um texto eletrônico não deverá ter É consagrada e persistente a idéia de POESIA
mais que doze ou quinze minutos de duração, como a ARTE DA PALAVRA, por excelência,
sob pena de desinteressar o destinatário. o que não deixa de corresponder à verdade,
O livro tradicional é o livro tradicional, não a uma parte da verdade, digamos. De fato
desaparecerá, forma sábia que é, mas se mesmo, a poesia sempre esteve envolvida
transformará, sofrerá, como vem sofrendo, com outros códigos/outras artes, em alianças
o impacto dos novos meios, mas também mais ou menos explícitas. Com a eclosão
atuará sobre eles, além de embasá-los. dos modernismos e seus desdobramentos, a
Quem quer que venha a se interessar por poesia se assume como arte intersemiótica,
2001

volumes, deverá entrar na sintonia da coisa invadindo outros campos, casando-se com

19
outros universos, rompendo com quaisquer POESIA: é poesia toda forma de organização
delimitações, o que, de resto, aconteceu sígnica com certo grau de complexidade
com as outras áreas da criação artística. que, visando a um fim estético, traz consigo
POESIA E VISUALIDADE: embora a questão uma carga conceitual, própria do mundo das
não seja nada nova e muita água já tenha palavras. É poesia tudo aquilo que o poeta
rolado desde fins do século passado, provoca quer que o seja [parafraseando Mário de
discussões acirradas e a reprovação por parte Andrade quanto (des)definiu CONTO]; pelo
daqueles que, verbalistas conservadores simples fato de ele ser poeta, suas faturas
(fazedores de versos, livres ou não) pensam serão poemas. Voltando à questão POESIA/
ser seu o território e se julgam no direito OLHO: há três formas principais de visualidade
de reservar para si o rótulo POETA. (Quem na poesia: 1. Aquela evocada pelas palavras
estaria interessado na disputa?) Discussões (a projeção de uma imagem na retina da
infrutíferas à parte, fazedores (poetas) mente - “fanopéia”, Pound). 2. A emprestada
2000 operam, tomando os códigos da visualidade ao poema, necessariamente, pelo registro
(onde se inclui a escrita) como elementos da escrita. 3. A visualidade que entra como
constitutivos estruturais da fatura (poema). um propósito do fazedor, que explora os
Daí, que a denominação POESIA VISUAL recursos da escrita, do desenho, da cor etc.
seja insuficiente, porque essa poesia é mais, Ela comparece tanto nos poemas figurativos
nem sequer exclui sonoridades! Melhor seria como nas verdadeiras fusões de códigos. E
chamá-la POESIA INTERSEMIÓTICA INTER/ a poesia que aqui se situa não teme as mais
MULTI-MÍDIA DA ERA PÓS-VERSO, pois utiliza avançadas tecnologias; transita pelos vários
vários códigos e meios e já é concebida para meios; poesia aberta às possibilidades-mil
ser veiculada do papel ao CD ROM, passando do hoje. POESIA INTERSEMIÓTICA MULTI/
pelo vídeo. Essa é a poesia que nos últimos INTERMÍDIA: a POESIA DA ERA PÓS-VERSO.
vinte e cinco anos vem provando que a 1997
experimentação é companheira inseparável [Manifesto]
2001

do exercício artístico. Retomando a questão (19 de fevereiro de 2000)

20
SÃO PAULO: CAPITAL CULTURAL DO USP. Abrigando o mais importante conjunto
BRASIL internacional de obras de arte do Brasil,
tais museus tiveram importante papel na
A cidade de São Paulo, no século XX, formação global de gerações que se seguiram
abrigou eventos e processos de fundamental e, em particular, dos artistas e estudiosos de
importância para a cultura brasileira, o que Arte.
a fez tomar para si o papel que até então . As Bienais Internacionais de Arte, tendo
coubera à ex-capital, o Rio de Janeiro. sido realizada a primeira, em 1951.
Vejamos o que há de mais relevante nessa . O Concretismo, nos anos ‘50, com o Grupo
história: Noigandres [e o Ruptura, ambos em 1952],
. A primeira exposição de pintura moderna sendo que a Exposição Nacional de Arte
em solo brasileiro, foi realizada em São Paulo Concreta foi realizada em São Paulo, em
(e Campinas), em 1913, pelo judeu lituano dezembro de1956 (deslocando-se, depois,
2000 Lasar Segall. para o Rio de Janeiro).
. Em 1917, Anita Malfatti inaugurou a célebre . O Tropicalismo eclodiu em São Paulo, na
exposição, que é considerada o ponto segunda metade dos anos ‘60, com criadores
de partida para o Movimento Modernista não só, mas principalmente do Nordeste
Brasileiro. [Bahia], não se resumindo ao fenômeno
. A Semana de Arte Moderna de 1922: São conhecido como parte integrante da MPB
Paulo: centro de irradiação do Modernismo (nesse tempo todo, o Rio de Janeiro continuou
no Brasil. tendo um papel privilegiado na cultura
. Fundação do que seria a Universidade de brasileira, muito embora tenha perdido
São Paulo, que se tornou a maior e a mais sua hegemonia. Dos processos culturais de
importante do País. grande importância, saídos de fato da Cidade
. Fundação, na segunda metade dos anos Maravilhosa, temos o da Bossa Nova, que
40, do MASP e do MAM, cujo acervo (o eclodiu na segunda metade dos anos ‘50 e
2001

núcleo principal) acabou formando o MAC- alcançou o mundo).

21
. Nos anos ‘70, São Paulo também foi centro das manifestações culturais de ponta do
de irradiação da poesia mais empenhada País.
com a experimentação, embora o País (26 de fevereiro de 2000)

possuísse centros outros, ou focos mais


ou menos direcionados para o mesmo
objetivo, como era o caso de Salvador-
Bahia, Curitiba, Rio de Janeiro, Brasília,
Belo Horizonte, numa época em que a JORGE LUIS BORGES
poesia parecia pipocar por todo o Brasil,
não só nas capitais, mas até em cidades Minha primeira saída do Brasil se deu
interioranas, como é o caso, por exemplo, tardiamente, em 1984, época em que eu
de Pirajuí. já adentrara a casa dos trinta. Em janeiro
. Dos 70 aos 90, no âmbito da MPB, São daquele ano resolvi ir até à Argentina,
2000 Paulo ainda abrigou as manifestações Buenos Aires, mais especificamente. Pois
de Walter Franco, de Arrigo Barnabé, de justamente nesta primeira viagem para o
Itamar Assumpção e de Arnaldo Antunes. exterior, embora um exterior tão próximo,
O Rio de Janeiro continuou a promover estive por duas vezes com aquele que era,
o seu espetaculoso carnaval, hoje, mais então, o maior narrador vivo do mundo:
uma espécie de “macumba pra turistas” e, Jorge Luis Borges.
como escreveu Décio Pignatari, a cidade A aventura que foi localizá-lo na cidade
só tem uma real existência porque sedia a mereceria um escrito à parte; entre outras
Rede Globo. coisas, o telefone de seu apartamento na
Não só pelo fato de São Paulo ser Calle Maipú com a Marcelo T. de Alvear
o centro do capitalismo no Brasil, mas ainda se encomtrava no nome da mãe -
por possuir uma elite artística/intelectual Leonor Acevedo de Borges - pessoa que o
verdadeiramente cosmopolita, tem acompanhou desde que ficou cego, tendo
2001

desempenhado o papel de centro irradiador morrido aos 99 anos de idade.

22
Bobagem, nas vezes que estive a sós tramar sua literatura”. Esse incrível escritor,
com ele, ter evitado falar em visualidade na que não escondia a paixão que tinha pelas
poesia e coisas mais que se referissem à enciclopédias (eu cheguei a ler verbetes para
visão, já que ele tratava do assunto cegueira ele) trazia consigo um saber imenso, que
com a maior naturalidade, tendo dado até reunia Ocidente e Oriente e elaborou uma
conferência sobre ela. Além do mais, ia a obra além de admirável. O poeta não foi tão
cinemas, visitava lugares... grande quanto o narrador e o comentador
Borges foi um grande prosador. Por de Literatura e outras coisas mais, mas era
detrás de uma aparência tradicional de no mínimo finíssimo.
narrativa, há todo um trabalho envolvendo É óbvio que, já com idade bastante
tramas surpreendentes, numa escrituração avançada e solitário momentaneamente
cheia de artifícios, o que chegava a exacerbar naquele escaldante verão portenho, ele
o ficcional da ficção (fingimento): o foco receberia qualquer pessoa, porém quem
2000 narrativo, o trânsito entre o sono/sonho estava lá era eu e ansioso para ver o gênio.
e a vigília, a metalinguagem... Sua prosa Tudo colaborou para que eu viesse a conhecer
possuía uma espécie, não de ritmo, como o autor de Ficciones, o homem que disse
se entende o ritmo na poesia, mas uma ter lido primeiramente em inglês o Quijote
respiração marcante. Daí que é fundamental e, quando leu o texto espanhol, este lhe
lê-lo no original espanhol. Parerce-me parecer uma obra mal traduzida!
que seus tradutores para o Português não Guardo ainda, com cuidado, as
perceberam isso. cerca de trinta fotos que fiz dele naquela
Ficcionista acima de tudo, Borges ocasião [e volume de suas Obras Completas
elaborou em torno de si uma nuvem autografado].
ficcional, a ponto de se ter duvidado mesmo (04 de março de 2000)

de sua existência. Num belíssimo escrito


Borges e Eu, ele chega a afirmar: “Vivo,
2001

eu me deixo viver para que Borges possa

23
TITO MADI suave, com uma afinação irrepreensível,
sem trejeitos nem cacoetes daqueles
Se alguém me perguntasse quem é a que, ainda pensando estar na era dos
pessoa mais simpática do mundo, eu diria: a captadores dinossáuricos, não perceberam
mais, não saberia dizer, mas, dentre as que que o microfone havia evoluído a ponto de
conheci e conheço, posso citar uma moça que permitir maviosos cantos configurados por
há muito reside nos EUA, a Soninha Gaiani e vozes pequenas, mas sábias. Era o caso
dois rapazes da família Madi: Reinaldo, que é de Tito Madi, que teve os seus precursores
meu primo e Tito, o músico-cantor. Tito Madi e que entra, ele mesmo, como precursor
é possuidor de um beleza/bondade que brota da Bossa Nova, que estouraria nacional e
de dentro e que parece ser uma marca da internacionalmente.
sua família. Amor e Alegria de Viver sempre Tão pouco ou quase nada daquele
acompanharam seus pais - é o que me conta bel canto que insistia em massacrar os
2000 deles minha mãe. ouvidos dos radiouvintes e, também dos
Bem, Tito Madi aprendi a gostar desde telespectadores. Tito Madi, que chegou a
muito cedo, primeiro pelo fato de ele ter conviver com o admirável João Gilberto (este
nascido em Pirajuí e por ser cantor, também radicalizou a coisa que chegou às últimas
autor, de maravilhas com “Não diga não” e conseqüências com o canto-sussurro de
“Chove lá fora”, composições que parece que Walter Franco), criou escola: muitos dos
sempre soube de cor; em segundo, por ser cantores cuja contenção chega a ser a marca
descendente de árabes libaneses como eu e registrada, têm apontado Tito Madi como o
ser parente de meus pararentes (uma das seu mestre.
irmãs de minha avó materma era casada Tito Madi, há tempos anda mais ou
com um Madi). menos fora da mídia - entenda-se: TELEVISÃO
Do Rio de Janeiro, anos 50, Tito Madi - mas é sempre evocado por aqueles que de
chegou ao sucesso nacional, cantando fato conhecem a MPB e o papel importante
2001

composições suas de uma forma terna, que teve para ela esse rapaz, que canta na

24
noite, como é tão comum entre grandes A LINGUAGEM EM ESTADO DE POESIA
nomes que atuam fora do Brasil (aqui, é
aquela coisa de programas de televisão e os .O que chamamos POESIA é algo geral, que
mega-shows, com suas coisas de sempre). engloba toda uma arte: A ARTE DA PALAVRA,
Lembro-me das passagens de Tito por excelência, como normalmente se afirma
Madi por Pirajuí, quando ele, já famoso, e ela se configura num território específico
ainda solteiro, vinha visitar parentes e (não exclusivamnte): o POEMA.
amigos. Vi-o algumas vezes - poucas - na .A linguagem está preparada para que nela
TV, presença de classe, cantor impecável. se configurem FUNÇÕES, dependendo, isto,
Nos anos 80 ele estava se apresentando em dos fatores que estarão sendo colocados
São Paulo, numa casa noturna, à Rua Santa em evidência e isto vai da necessidade
Isabel, chamada VIVA MARIA; encontrei-o, nos processos de comunicação. A Função
à noite, ali perto, numa banca de revistas Poética é uma entre outras funções. Só que
2000 da Amaral Gurgel. Aproximei-me e me no poema ela é a dominante, convivendo
apresentei; ele me recebeu calorosamente com outras.
e perguntou de algumas pessoas de Pirajuí .Todo idioma está apto a produzir poesia da
e me convidou para ver a sua apresentação. melhor qualidade.
Despedimo-nos. Eu não fui ver o seu show. .Um poeta pode até dominar vários idiomas,
Andei comprando os CDs encontráveis nas mas opta por um: nesse é que ele vai
lojas. Cada vez mais penso no como ele é concentrar todo o seu poder de fogo - um
um fino intérprete e quando terei - de novo poeta só é excepcional num único idioma.
- oportunidade para ver uma apresentação .A função poética se configura quando
sua... a seleção se superpõe à combinação
(11 de março de 2000) e determina o arranjo, evidenciando a
mensagem-ela-mesma, o que significa que
em poesia a forma é fundamental, sendo
2001

que a função poética expõe a materialidade

25
dos signos (verbais: as palavras). principalmente de Roman Jakobson - autor
.Embora o território por excelência da de um dos mais importantes textos teóricos
FUNÇÃO POÉTICA seja o poema, ela aparece sobre poesia, desde Aristóteles - tendo
em outros territórios, como na fala cotidiana sido escrito em fins dos anos 50, é o último
(Maria Miranda? Deus sabe onde anda!), grande texto teórico sobre poesia entendida
na publicidade (quem compara compra como a arte da palavra por excelência. Quem
cônsul), em manchetes de jornais (Viola tiver a oportunidade que o leia: “Lingüística
sai no pau com torcedor pentelho). Isto e Poética”.
daria um bom artigo... (18 de março de 2000)

.O fato de o poético comparecer nos


territórios acima mencionados, não significa
que ali você tenha poesia, da melhor; só que
a função poética ali interfere e de forma até
2000 exagerada, jogando um pouco de areia na POESIA/POEMA
referencialidade.
.Procure o poético em poemas. Veja como É muito comum entre nós o uso indistinto
exemplo o trecho final de famoso poema de de poesia e poema para designar o
Sá de Miranda, poeta português que viveu mesmo fenômeno, ou seja, a fatura
de fins do século XV a meados do XVI: em que predomina a função poética da
[...] linguagem. É claro que ambas as palavras
Que meio espero ou que fim têm a mesma origem grega, passando pelo
Do vão trabalho que sigo, Latim e vindo até nós: do verbo grego que
Pois que trago a mim comigo, significa fazer, daí que POESIA significa o
Tamanho imigo de mim? ato de fazer e POEMA a feitura, a fatura,
o fazimento (ΠΟΙΕΩ= POIÉO = EU ESTOU
As reflexões acima tiveram por base FAZENDO) donde se conclui que POETA é
2001

trabalhos de inúmeros estudiosos, mas aquele que faz. Muitos dizem: “Esta poesia

26
de Manuel Bandeira é a minha preferiada”. Sob o azular do luar...
Ou: “Naquele sarau foram lidas muitas E ouve-se no ar a expirar -

poesias dos modernos”. Até alguns eruditos


A expirar mas nunca expira -
chegam a utilizar os termos indistintamente Uma flauta que delira,
para não destoarem da maioria. Porém, é
bom saber que há diferenças e que o mais Que é mais a odéia de ouvi-la
correto (...os erros se consagram...) é dizer Que ouvi-la quase tranqüila

POESIA quando se trata de algo mais geral.


Pelo ar a ondear e a ir...
Exemplos: “A POESIA é a arte da palavra,
Silêncio a tremeluzir...
contaminada de outros códigos”. “ A POESIA
Grega”. “A POESIA épica”. “A POESIA (25 de março de 2000)
simbolista”. “A POESIA de Drummond”. Por
outro lado: “Meus POEMAS preferidos”. “Li
2000 um belo POEMA de Camões”. “O POEMA mais
conhecido de Manuel Bandeira é o ‘Vou-me
embora pra Pasárgada’”. Sempre que se
MAUD PIRES ARRUDA
trata de uma unidade, por mais extensa que
seja, eu devo dizer POEMA.
Talvez que ela não se lembre, mas eu
Agora, dentro da tradição da POESIA
a conheci antes mesmo de ser seu aluno -
em Língua Portuguesa, transcreverei o
por muitos anos - no IEDAP: passava com
POEMA “Plenilúnio”, de Fernando Pessoa:
a cabeça protegida do Sol por uma toalha -
voltando da natação no Parque Clube - a qual
As Horas pela alameda
Arrastam vestes de seda, fazia as vezes de um tarbuch, componente
do vestuário árabe típico e ela me chamava
Vestes de seda sonhada da varanda do casal Poli, onde conversava,
Pela alameda alongada e me falava coisas bonitas, como se fala a
2001

27
uma criança, no mínimo curiosa. Também, conhecimentos faziam com que ela pudesse
de tanto ouvir alunos seus que eram de transitar pelas mais diversas das Artes, do
minha família. Ainda, de apresentações Desenho à Música, da Arquitetura à Poesia,
teatrais inesquecíveis, peças de Maria Clara da Pintura ao Teatro e ao Cinema. Sabia o
Machado, como “Pluft, o fantasminha”, no que era um Michelangelo e um Matisse, um
palco do Cine São Salvador e “A bruxinha Vivaldi e um Stravinsky, Camões e Bandeira,
que era boa”, no salão nobre do IEDAP Shakespeare e Suassuna, Chaplin e Fellini.
(não me lembro se, em fins dos anos 50, Seus conhecimentos permitiam comentários
já possuía esse nome). Teatro de fantoches, pertinentes, como os de alguém que sabe
coro falado, exposições anuais de quadros o que diz: tanto era capaz - como sempre
pintados por seus alunos normalistas (eram fazia - de analisar a estrutura composicional
mais ALUNAS, mais de 95%). Anos depois, de um quadro como de citar e tocar ao piano
cheguei a fazer um dos papéis principais - o alguma peça de compositor famoso. Ia do
2000 do Burro - na peça por ela dirigida: “O Boi comentário sobre a atuação de uma certa
e o Burro a caminho de Belém”, da mesma atriz num dado filme à encenação - dirigindo
Maria Clara Machado, apresentada na Sede - de algum texto teatral, principalmente
Cristo-Rei. infantil, que era o público a quem mais visava.
Bem, mas vamos ao que mais O que havia de mais surpreendente no dia-
interessa. A excepcional professora que a-dia de suas aulas eram as análises que
foi Dona Maud, numa época em que as fazia das tarefas artísticas que determinava:
escolas estaduais eram as melhores, as todos os cadernos eram expostos na frente
mais fortes, as que possibilitavam um mais da sala (tendo por suporte o aparador de giz
elevado repertório a seus alunos e ainda do quadro) e ela comentava um a um!
mais os Institutos, como era o caso da que Nos anos 60 ela trouxe dezenas de
ela acumulava duas cadeiras: a de Desenho filmes 16 mm, principalmente versando
e a de Desenho Pedagógico. Seu alto sobre arte; lembro-me de que os de
2001

repertório específico e a amplitude dos seus procedência holandesa eram os que mais

28
me entusiasmavam: daquele que tratou ela me estimulou a criação, entregando-me a
exclusivamente de Rembrandt ao que reprodução em xerox de uma sua fotografia,
trouxe a obra de Appel. Muito do que vim a ao que respondi fazendo um soneto visual,
desenvolver mais tarde, descobri nas aulas um dos meus trabalhos sempre citados pelos
de Dona Maud. Minha inclinação para as aficionados do tipo de poesia que eu faço.
Artes Plásticas encontrou muito incentivo de Sempre em atividade, mil atividades
sua parte. (assistência social, pedagógica, religiosa),
Como desenhista e pintora, parece- Dona Maud intensificou, após sua
me que preferiu renunciar a uma carreira aposentadoria como professora, a atividade
individual em prol do Ensino, o que fez dela de escritora-cronista e, há cerca de três
uma das melhores professoras que este décadas, tem brindado semanalmente os
nosso país já conheceu. Sempre aberta pirajuienses com seus textos.
às novas tecnologias de então, recebeu Para mim, é impossível estudar Arte,
2000 de braços abertos a reforma, a partir dos coisa que faço praticamente todo dia, sem
70, que pedia um professor polivalente que me venham à mente aquelas bases que
no ensino das Artes, ao invés de um para adquiri em suas aulas. Sempre que posso,
Música, outro para as Artes Plásticas; isto estando em Pirajuí, eu a visito e me sinto
porque ela possuía um repertório incomum um privilegiado por ser recebido por ela.
e já antecipara de muitos anos o que muitos (01 de abril de 2000)

pensavam ser novidade. Suas qualidades,


porém, eram raras e, portanto, não estavam
presentes em mais de 90% dos professores
da área disponíveis na Rede Estadual. Mas
esta é uma outra história. MARCEL DUCHAMP
No ano de 1974, ano fundamental
em minha vida de artista gráfico/poeta, pois O que pensar de alguém que determine
2001

passava de pintor a fazedor intersemiótico, para o seu túmulo o seguinte epitáfio: ALIÁS,

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SÃO SEMPRE OS OUTROS QUE MORREM! O tal Nu, participando de importante mostra
Pois é, o artista francês Marcel Duchamp nos EUA, Nova Iorque, em 1913 - Armory
(1887-1968) fez isso... Duchamp, ao que Show - causou sensação e transformou
me consta, era uma pessoa feliz, possuía Duchamp numa celebridade entre os artistas
essa vocação e um dos motivos que tenho e aficionados das Artes daquela cidade.
para desconfiar de que era feliz, é o fato de Poderia ter pintado mais de uma centena de
ele não ter o dinheiro como algo importante. quadros que seriam variações do “Nu”, mas
Teve tudo para ficar rico rapidamente: não não o fez. Célebre antes nos EUA, este país
se interessou, pois nunca passou por sua acabou ficando com o núcleo principal de sua
cabeça ser um moderno acadêmico ou um obra, que se encontra no Museu de Arte de
vanguardista profissional. Possuía, sim, uma Filadélfia. Da pintura puramente retiniana,
grande ambição artística talvez a maioir das àquela que comporta uma fortíssima dose
ambições artísticas deste século. Quase de conceptualismo, trabalhou durante anos
2000 nunca se repetiu. Em 1912 pintou um quadro no “Grande Vidro”, que acabou danificado
a que nomeou “Nu descendo uma escada”. por um acidente, tendo sido incorporado
Quanto à forma/estilo, os estudiosos o têm tal acaso. Mas o que de mais notável há
classificado como cubo-futurista. Além do que na obra duchampiana é ter ele chegado
tem de formalmente espetacular, o quadro a assumir como arte algo já pronto, com
traz o seu nome inscrito na parte inferiror: ou sem algumas alterações: concebeu os
Duchamp fez com que os títulos de suas obras READY-MADES. O projeto - Duchamp foi um
entrassem como elementos constitutivos artista-pensador - contém a anulação do
estruturais, além do grande impacto que gosto pessoal: isto norteava a escolha de
alguns trazem, pois fazem trocadilhos, criam um determinado objeto ao qual imputava
uma aparente distância - muito grande - com o teor estético, de par com a possibilidade
relação àquilo que se vê, são a incorporação de reprodução, evitando, assim, a coisa do
de valores propriamente literários numa obra objeto único. Se é ou não possível zerar-se o
2001

que pertence ao universo das Artes Plásticas. gosto pessoal, não importa tanto; o que mais

30
importa é ter isso como projeto. Tem de se ser masculina, a fonte: um liberador de água
radical. Há momentos que pedem o máximo ou de qualquer outra coisa. Formalmente,
de radicalidade. E a ambição duchampiana esse objeto faz lembrar a genitália feminima
não deixava por menos. Alguns ready- agigantada, exposta, remetento, esta
mades são objetos industriais, fabricados configuração, ao quadro do pintor realista
em série, podendo ser feitos outros iguais. do século XIX Gustave Courbet L’ORIGINE
Com isto, Duchamp dá um tiro certeiro no DU MONDE = uma mulher de pernas abertas
artesanato. (A revolução picassiana na arte, com o sexo exposto, porém encimado por
por outro lado, foi diferente: sempre esteve uma pelugem: uma fonte. De VIDA. Na
calcada no artesanato. Picasso, um produtor última obra de Duchamp, uma instalação
compulsivo de objetos de arte, nunca abriu que foi montada no Museu de Arte de
mão do artesanal em prol de um conceitual, Filadélfia, após sua morte, em 1968, o
embora todo ato que resulte em arte tenha voyeur, pela fresta de uma velha porta
2000 muito de cérebro; Picasso necessitava do [em verdade, através de dois orifícios] vê
empenho braçal que o artesanato exige). O uma mulher deitada, tridimensional, com o
mais famoso Ready-Made de Duchamp foi sexo, sem pelugem expoxto, mas não vê o
por ele nomeado FONTE e trata-se de um rosto, como no quadro de Courbet. É dia,
mictório masculino, desses parafusados na mas a mão esquerda sustenta um lampião
parede. Ele o descontextualizou, assinou-o, aceso. ÉTANT DONNÉS. A FONTE. Duchamp
datou-o e o colocou numa posição que não é desses artistas inventores, dos que abrem
é aquela que permitiria um uso adequado picadas para serem trilhadas pelos que vêm
(na concepção do ready-made, não consta em seguida. Duchamp e seus intermináveis
mudança de função, mas a função-nenhuma caminhos...
a não ser a estética que é imputada ao (08 de abril de 2000)

objeto pelo artista). na FONTE, Duchamp,


conceptualmente inverte as funções: de
2001

mictório, portanto, sorvedouro de urina

31
Revistas intersemiótica/intermídia e chegou ao nº 6.
Justamente a revista de nº 6 constituiu-se na
Num artigo publicado em 1982, o de mais longa gestação na história da cultura
poeta Paulo Leminski colocava o conjunto de brasileira: mais de dez anos, da concepção
revistas de invenção como o maior poeta dos ao lançamento no MIS-SP, em abril de 1993.
anos 70. De fato, aquelas publicações eram o POESIA EM GREVE continuou em
maior barato e traziam grande alegria para os QORPO ESTRANHO, que teve o seu melhor
que as faziam, colaboravam ou simplesmente no nº 1.
liam. Em verdade, não eram bem revistas, MUDA pretendeu marcar uma mudança,
pois nunca mantiveram uma periodicidade, a começar, cortando os concretistas históricos,
mesmo aquelas que conseguiam passar do que haviam colaborado em todas as outras
nº 1. revistas. Em verdade, MUDA revelou de vez
Das tais “revistas”, três saíram em os que estavam empenhados na restauração
2000 1974: POLEM, CÓDIGO e NAVILOUCA, depois do verso e os que pretendiam uma verdadeira
vieram ARTÉRIA, POESIA EM GREVE, QORPO fusão de códigos em poesia.
ESTRANHO, MUDA e outras. Na segunda metade dos anos 80,
POLEM foi publicada porque se pensou ATLAS pretendeu reunir todos os que haviam
que NAVILOUCA não sairia. Mas saiu. CÓDIGO colaborado nas famosas revistas. Quase
foi um verdadeiro prodígio, pois conseguiu conseguiu realizar tal ambição: foi a maior
chegar ao nº 12, sempre editada – financiada em formato e a que teve o maior número de
– por Erthos Albino de Souza. colaboradores, mas lá não estavam todos.
ARTÉRIA começou ser editada pela Alguém que hoje for pesquisar tais
Nomuque Edições em Pirajuí e continuou revistas vai ter várias surpresas, vai poder
em São Paulo, capital. Das revistas mais delinear toda uma época da melhor poesia
empenhadas com a experimentação, foi que se fazia no Brasil! E isto é assunto para
ARTÉRIA a que mais se metamorfoseou, um outro escrito.
2001

a que mais se especializou numa poesia (15 de abril de 2000)

32
tradução de poesia veio, entre humorístico e sério, tenho dito
translusificação.
Em escrito anterior, expus as Mas voltemos aos problemas envolvidos
peculiaridades da linguagem poética. Entre pela tradução de poesia. Jakobson chegou
outras coisas escrevi – calcado em teorias de a afirmar que a tradução de texto poético
outrem – que todo idioma possui qualidades é tarefa impossível, a não ser que haja re-
tais que lhe possibilitam poesia e da melhor criação, donde se conclui que, por ser o
qualidade. Por outro lado, veio a afirmação de poema uma obra de arte, a tradução também
que um poeta só pode ser excepcional num deverá sê-lo; daí que o tradutor de poesia só
único idioma: nesse ele vem a concentrar poderá ser, também, um poeta.
todo o seu poder de elaboração do texto Calcado principalmente em Haroldo de
poético. Hoje eu acrescentaria: a não ser que Campos – nosso maior teórico de tradução
ele conte com um tradutor-recriador, como de poesia – trago algumas afirmações.
2000 poetas de vários idiomas têm podido contar: Tradução de poesia é recriação. Resulta,
com o trabalho de tradução, para o português, desse trabalho, uma obra de arte: ela
dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, terá autonomia enquanto tal, porém, trará
os irmãos Campos do Concretismo. sempre a memória da obra que a motivou.
Nós podemos saber quando um poema Considerando as peculiaridades dos idiomas,
está bem traduzido, principalmente se ele nem tudo, em termos formais, poderá
continua a ser poema na nova língua. É o ser conseguido numa tradução: daí que
que, através dos irmãos Campos, se tem a compensação entrará como um recurso
visto com peças de Safo, Horácio, Catulo, importante (perde-se num lugar, ganha-se
Arnaut Daniel, Guido Cavalcanti, Dante noutro).
Alighieri, John Donne, Mallarmé, Cummings Para os amantes da poesia, nenhum
e tantos outros. A esse trabalho de recriação, idioma é suficiente enquanto formação ou
Augusto chama de tradução-arte; Haroldo mesmo satisfação. O amante de poesia tem
2001

prefere chamar de transcriação. Nesse de transitar por várias tradições. Por outro

33
lado, boas traduções são fundamentais Safo viveu entre os séculos VII e VI
para esse conhecimento e entram até como a.C. na ilha de Lesbos, Mundo Grego. Quase
um estímulo para o aprendizado de outros nada se sabe com certeza sobre ela: a lenda
idiomas. Boas traduções acabam sendo parte penetra o pouco de que dispomos sobre sua
integrante da poesia das várias tradições vida; sua obra – tão admirada e louvada na
idiomáticas. Antigüidade – chegou até nós aos pedaços:
Vejamos, agora, o trabalho de fragmentos de um canto lírico que mantêm
recriação, ou melhor, de transcriação feito um frescor e beleza admiráveis. Somente
por Haroldo de Campos com um fragmento um poema chegou até nós integralmente: a
da poeta grega Safo: intraduzível “Ode a Afrodite”.
em torno a Selene esplêndida E aqui não posso deixar de mencionar
os astros
(de novo) Haroldo de Campos, que coloca o
recolhem sua forma lúcida
seguinte: quanto mais difícil, quanto mais
quando plena ela mais resplende
2000 alta impossível a tradução do poema, mais
argêntea instigadora será a tarefa do tradutor-poeta.
(22 de abril de 2000) Re-criar é a questão.
Um certo fragmento de Safo – apenas
dois versos – fascinou-me desde o primeiro
contato: caco precioso a me perturbar, a me
desafiar. Li muitas traduções do tal texto;
um fragmento de safo nenhuma, porém, dava conta, mesmo em
parte, da beleza do original grego (Safo
Na semana passada escrevi sobre operou no dialeto eólico). O primeiro verso
tradução de poesia, de sua especificidade e traduzi com alguma facilidade, até imitando
dificuldades. Hoje, trago mais um fragmento a sonoridade grega. O segundo, porém,
da poeta grega Safo, desta vez, por mim perseguiu-me por dois anos e meio, até
2001

traduzido. que saiu inteiro, de modo a me satisfazer.

34
Daí, assumi a tradução (translusificação)
publicando-a diversas vezes.
Uma observação: na tradução de textos
que nos chegam fragmentários, costumamos
fazer com que a seqüência tenha uma poesia fora do poema
completude, inexistente no original, posto
que pedaço. Embora o poético se configure, por
Eis o texto de Safo (Sapphó): excelência, no poema, ou seja, na feitura
assumidamente poema, como colocou
1. texto grego: Roman Jakobson, não é exclusividade dele.
EROS DHUTE M’O LUSIMELHS DONEI, E exemplos disso teríamos às dezenas, mas
GLUKUPIKRON AMAXANON ORPETON vou me deter em apenas dois, nos quais,
Transliteração: o que seria secundário, passou como que
2000 Eros deute m’o lusimeles dónei, para o primeiro plano: a função poética
Glukúpikron amákhanon órpeton sobrepujando a conativa e a referencial. Eis
os dois exemplos (sendo que o primeiro foi
3. Tradução literal: ligeiramente alterado):
O amor, o que deixa bambos os membros, 1º Junto ao viveiro de carpas (Casa
de novo me atormenta, Japonesa, Parque do Ibirapuera, SP) uma
monstro doceamargo, contra quem não tabuleta dirigida aos visitantes:
se pode lutar
DEIXE
4. A re-criação: O PEIXE
(o lesamembros) EM PAZ
Eros deu de m’infernar de novo, 2º Na primeira página do jornal
Doceamara feramá queaferra notícias populares de 18-11-1991, uma
2001

(29 de abril de 2000) manchete secundária:

35
passaram pirama”, de Gonçalves Dias.
a broxa Nesse exemplo, extraído de NOTÍCIAS
no Cristo POPULARES, o dístico em redondilhas
carioca menores traz o par de rimas toantes broxa/
Nos dois casos temos pentassílabos carioca e a aliteração bem a propósito
perfeitos, apesar da quebra representada Cristo carioca, pois, não se falou em Cristo
pela disposição gráfica das palavras que Redentor ou Cristo do Corcovado (o que
compõem os textos. No primeiro exemplo: manteria a aliteração mas quebraria metro
Dei xeo pei xeem paz e ritmo). O fato, em verdade, diz respeito à
1 2 3 4 5 grafitagem feita por dois paulistas na base
com o seguinte esquema rítmico: / . / . / do Cristo (não propriamente no corpo da
(acentos na primeira, terceira e quinta estátua gigantesca) e que foi notícia até do
sílabas). FANTÁSTICO, da Rede Globo de Televisão.
2000 No segundo exemplo, as quatro linhas A destacar, também, a malícia, como que
formam, em verdade, dois pentassílabos profano-sacrílega, ao tratar tão vulgarmente
ou redondilhas menores: a. passaram a a figura sagrada, valendo-se de um
broxa; b. no Cristo carioca, observando vocabulário com conotações que remetem
no segundo pentassílabo a sinérese em ao chulo, fazendo lembrar certas expressões
carioca, ri ó formando uma única sílaba. comuns (o termo “broxa”, espécie de pincel,
Então, temos: que pode remeter a pênis, mas também
ao adjetivo broxa = impotente, incapaz
Pa ssa ram a bro (xa) / no Cris to ca rio (ca) de ereção. E a expressão toda: passaram
1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 a broxa – instrumento não utilizado pelos
autores da façanha – profanação maior que
com o seguinte esquema rítmico: . / . . / a dos menores grafitadores – não-artistas,
para ambas as partes (versos), música no caso). No primeiro exemplo, o da
2001

que remete a uma certa parte do “I: Juca tabuleta, há toda uma riqueza sonora que

36
acaba por obscurecer as funções conativa maior era desconsiderar o Oswald de
e referencial: o deixe passa para o peixe Andrade poeta.
que, de distinto tem apenas uma letra/ (06 de maio de 2000)

fonema, configurando a aliteração quando


aparece a última palavra: paz. Jakobson
gostaria disso.
De brinde, trancrevo outras pérolas
do NOTÍCIAS POPULARES. Entenda-se:
isso não é POESIA (aquela arte nobre…):
trata-se apenas do poético interferindo verso
em algo que seria meramente referencial,
colocando umas pedrinhas no caminho do Sempre que falamos em verso, versos,
leitor comum. Pedrinhas enriquecedoras, versinhos, a POESIA vem à nossa cabeça.
num jornal que tem como ingredientes E nem imaginaríamos poesia sem verso. O
2000
principais sexo, humor e violência: que é VERSO, afianal? Verso não é uma linha
1. dou meu feto por um teto qualquer, com um certo número de sílabas.
2. viola sai no pau com torcedor VERSO é uma linha perpassada de RITMO.
pentelho
É, de 2700 anos para cá, falando apenas
3. raia quer fazer nenê na grécia
na tradição ocidental escrita. Veja-se, de
4. Doença no Bráulio/derruba tim
maia Camões (séc. XVI):
5. bimbo do capado levantou Leva-lhe o vento a voz, que ao vento
sozinho deita.
Leitor, passe a prestar mais atenção Versos há com várias extensões,
na fala cotidiana, nos anúncios publicitários respondendo às necessidades da tarefa a que
e nas manchetes de jornais. se propõe o poeta. O nosso sistema é silábico
Dedico este escrito ao grande poeta e o ritmo é o resultado da combinação/
e cronista Manuel Bandeira, cujo defeito
2001

distribuição de sílabas fortes e fracas na linha-

37
verso. O verso é uma unidade, o que implica do verso. O ritmo associado a uma medida
numa certa completude da linha; porém, é elemento que auxilia na memorização
isso nem sempre acontece e o sentido de do poema e sua em reprodução oral - via
um verso acaba se completando no início do de regra - com um máximo de correção
verso seguinte, ocorrendo o que chamamos (fidelidade à peça original).
de cavalgamento (enjambement) como É interessante observar que
por exemplo, em Sá de Miranda: etimologicamente, a palavra VERSO tem a
Agora já fugiria ver com a lida no campo: o ir e vir do sulcar
de mim se de mim pudesse
a terra, preparando-a para o plantio.
Como, então, poderíamos definir Num próximo escrito, tratarei do
verso, agora que já contamos com algumas destino do verso nos últimos 150 anos, ou
informações importantes sobre o mesmo? melhor, da revolução pela qual passaram as
Vejamos: VERSO vem a ser a linha/unidade várias ARTES, destacando a POESIA.
que, perpassada de ritmo (donde deve (13 de maio de 2000)
2000
resultar uma eurritmia/eufonia) ao seu
término, como que exige outra unidade
análoga. Veja-se, por exemplo, esse trecho
do poema de Manuel Bandeira “Vou-me
embora pra Pasárgada”: REVOLUÇÃO NA POESIA
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a louca de Espanha Toda uma revolução - das linguagens
Rainha e falsa demente e das Artes - começou a se processar
Vem a ser contraparente
no século XIX, sendo que seu apogeu se
Da nora que nunca tive
deu neste século que está por terminar:
Todos os fenômenos observáveis no
revolução na Pintura, na Música, na Poesia -
verso servem para reiterar a importância
nada ficou fora das transformações radicais
do ritmo, elemento propriamente definidor
2001

que se observaram numa época em que se

38
verificou uma grande aceleração no próprio produção poética.
andamento das mudanças. Embora desde antes já se observasse
Na Poesia, essa revolução representou a ausência de verso em Poesia, foi em 1958
mudanças estruturais que apontaram que isto foi assumido, alto e bom som, pelos
na direção da abolição do verso! Ou poetas concretistas de São Paulo: Augusto
seja, apontaram para uma poesia que e Haroldo de Campos e Décio Pignatari:
sobreviveria sem o verso, aquela unidade era publicado na revista NOIGANDRES 4
rítmico-formal do poema, de tradição o Plano-Piloto para Poesia Concreta.
milenar (a Pintura marchou em direção ao Este, um dos mais importantes manifestos
banimento do referente externo, chegando poéticos do século, inicia-se assim: “poesia
aos abstracionismos; a Música chegou ao concreta: produto de uma evolução crítica de
atonalismo etc) [e ao desmantelamento formas. dando por encerrado o ciclo histórico
das fronteiras entre sons musicais e não- do verso (unidade rítmico-formal), a poesia
2000 musicais]. concreta começa por tomar conhecimento
Essa revolução foi, em verdade, um do espaço gráfico como agente estrutural”.
processo que se estendeu do século passado Os poetas concretos assumiram teórica
ao terceiro quartel do século presente. Foi e praticamente o esgotamento do verso,
do verso livre e do poema em prosa, fazendo poemas sem verso, não abdicando,
passando pela experiência gráfico-poética de porém, da utilização das palavras. E olha
Mallarmé, cuja obra Um Lance de Dados... que antes da revolução concretista eles,
(1897) funda toda uma vertente: a mais muito jovens, tinham demonstrado que eram
conseqüente das poéticas do século XX. E, grandes verse makers.
depois, adentrando os Modernismos, houve De fato mesmo, muito embora tenham
as experiências futuristas, dada, as de sido feitas verdadeiras obras-primas de
poetas como Cummings e de alguns outros. poemas sem a utilização da unidade verso, o
Do verso ao verso livre e, deste, ao não- “fazer versos” foi um know how que nunca
2001

verso, chegou-se à abolição desse modo de perdemos. 1º Porque muita gente continuou a

39
fazer versos como se faziam antes da eclosão vinte e cinco anos para cá, a uma completa
dos Modernismos. 2º Grandes poetas, como volta ao verso. Um verso apequenado, diga-
João Cabral de Melo Neto, um dos maiores se. Seria possível, hoje, fazerem-se grandes
artistas da palavra deste século, em âmbito versos? Só vendo ... e ouvindo!
internacional, continuaram com seus versos (20 de maio de 2000)

raros e vivos; Cabral publicou seu maior


livro em 1966: A Educação pela Pedra. 3º
Os próprios concretistas, que dominavam a
arte do versejar, como grandes tradutores
de poesia de vários tempos, faziam seus RECOMENDAÇÕES
versos em português (sempre encararam a
tradução de poesia como uma categoria da Como alguém sempre me pergunta -
criação. Como traduzir um poema em versos geralmente jovem que pretende adentrar o
2000 se não se sabe fazer versos?). complexo universo da Arte da Poesia - vão,
Mas a revolução processada pelos aí, algumas dicas, sugestões, recomendações
Modernismos na Poesia deixaria marcas que, espero, venham a ser de alguma
significativas. Hoje se fala em Pós- utilidade:
Modernidade e há aqueles que a encaram 1. Tenha em casa, sempre à disposição,
como uma época do vale-tudo em que até obras de autores como: Manuel Bandeira
atitudes reacionárias, como voltar a uma (imprescindível o Estrela da Vida Inteira.
poética pré-22 (para ficar apenas no Brasil) Bandeira é um de nossos maiores poetas e
são aceitáveis. Reacionários como foram sua obra é uma espécie de síntese de toda
aqueles ledos e ivos, poetas da Geração de a Lírica Ocidental), Drummond, Oswald de
45. Andrade, João Cabral, Fernando Pessoa,
Muitos voltaram ao verso, desde, já, os Gregório de Matos, Camões, Gonçalves Dias,
anos 70, abandonando qualquer vestígio de Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa, entre alguns
2001

experimentação. Assiste-se, de fato, de uns outros poucos no âmbito de nossa língua.

40
2. Leia, pelo menos, um poema por está abaixo da crítica. Se disser não está
dia (de preferência em voz alta), muito mal é porque não está mesmo mal, mas
bem lido ou, até mesmo, tente decorá-lo (é tampouco está bem; porém, há algo, há
importante ter memorizados certos desenhos indícios de que você poderá melhorar e até
rítmicos, certas conformações sonoras). Ao chegar a fazer um bom poema! Se disser
final de um ano você terá lido, pelo menos, está bom, é porque está bom mesmo!
365 poemas e saberá que “Pneumotórax” Se perguntar se você leu obra de autores
é muito mais que simplesmente um poema (poetas): Drummond, por exemplo, é porque
autobiográfico de M. Bandeira. ele acha que você não leu. Então, leia! O
3. Anote (você, candidato a poeta) que é que você está esperando? A pergunta
toda e qualquer idéia - num caderno, ou ele a fez com base no que leu de você e acha
abra um arquivo exclusivamente para isto que falta você enriquecer, e muito, o seu
em seu computador - trabalhe essa idéia ou repertório poético. Um lembrete: nunca leve
2000 guarde-a. Ela poderá, um dia, resultar num calhamaços para alguém mais experiente ler,
poema, de fato. você o deixará, de saída, desesperado e o
4. Tenha contato com pessoas que entediará com a sua imaturidade volumosa.
possuam interesses semelhantes aos seus e Leve, no máximo umas dez pequenas peças,
discuta com elas. Mostre as suas realizações, coisa que ele possa ler rapidamente e até
veja e comente as delas. Se conversar com reler e possa dar uma opinião, que é o
alguém mais velho e que já tenha produzido que você está esperando. Nunca o aborde
algo digno de nota, ouça com atenção os em lançamentos e festas (esse negócio de
conselhos. Porém, pense bem antes de os levar pastinhas recheadas de textos e ficar
seguir, pois, às vezes, trata-se de um mal- cercando famosos): são as ocasiões menos
humorado que fala qualquer coisa para adequadas para se conversarem coisas
se ver livre do jovem inoportuno. Só que, sérias, como Poesia e projetos, por exemplo.
outras vezes, ele aconselha mesmo! Se Nem Augusto de Campos, com toda sua
2001

disser interessante é sinal que seu poema paciência, suportaria.

41
5. Atente para outros códigos,
linguagens. Utilize-os se acha que
acrescentam algo ao seu poema.
6. Ligue-se nos novos meios/
linguagens. Mesmo que você venha a
utilizar o verbal e os meios tradicionais, não RITMO
pode ignorar os progressos por que passa
o Planeta. São muitas as possibilidades Fala-se normalmente em ritmo, tanto
gráficas que alguns programas oferecem, na Poesia como na Música e RITMO nem é
assim como, em termos de sonoridade, um exclusividade dessas duas artes nem da arte,
estúdio modesto: coisas incríveis podem ser sequer. Acontece que, primordialmente,
feitas! as mencionadas artes estiveram ligadas: a
Por último, procure revistas de escola, poesia era feita para ser cantada, entoada,
2000 dos C/DAs etc. e publique seus melhores como, às vezes, até hoje. Ritmo, de qualquer
poemas, mesmo que depois você venha a se modo, é o elemento propriamente essencial
arrepender. De qualquer modo, as correções ao verso, por sua vez, unidade rítmico-formal
poderão ser feitas: corrija-os. Você não será do poema. A linha-verso é perpassada de
o primeiro poeta a fazer isso (as obras dos ritmo e este é como que um desenho, que se
grandes poetas estão cheias de poemas repete... Ritmo: a palavra é grega, porém de
ruins. O que interessa, mesmo, são os bons, etimologia difícil, mas o que importa é tentar
em última instância). Rejeite aquilo que defini-lo (interessante é que compreender,
for conveniente rejeitar (sempre haverá todos nós compreendemos, pois nós o
um excelente e chato pesquisador que irá percebemos, sentimos e vivemos). RITMO: é
encontrar as peças indesejáveis. Portanto, a ocorrência de algo no tempo (e até espaço)
não se aborreça). Ou, acolha certos poemas a intervalos regulares.
como provas de como você já era bom!!! Diferentemente da poética clássica
2001

(27 de maio de 2000) (grega e romana) onde o ritmo era construído

42
através da disposição de [sílabas] longas e 6. Os deuses vendem quando dão, . / . / . /
breves (que formavam na seqüência, pés, . / (F. Pessoa)
que formavam versos), o nosso sistema Na seqüência, como que naturalmente,
é silábico, sendo que o ritmo se configura sílabas fracas tornam-se fortes e sílabas
por meio do jogo de sílabas fortes e fracas. fortes tornam-se fracas em função do ritmo,
Porém, a terminologia da poética clássica assim como acrescentam-se ou suprimem-
contamina a nossa. Por exemplo: uma breve se sílabas, através de inúmeros artifícios,
e uma longa formavam um pé chamado em prol do ritmo, pois o metro (a medida
iambo; entre nós, quando jogamos com utilizada) está a seu serviço. Por outro lado,
fraca e forte, fraca e forte, fraca e forte... temos acentos principais e secundários. Por
dizemos que o ritmo é iâmbico. exemplo, n’Os Lusíadas, de Camões, todos
Na seqüência, que é o verso - seqüência os versos são decassílabos heróicos, ou seja,
de extensão variável, diga-se - o jogo de são versos de dez sílabas, sendo que seus
2000 fortes e fracas faz configurar no poema um acentos principais recaem na sexta e décima
desenho, espécie de coluna dorsal da peça. sílabas:
Convencionemos sinais: . para fraca e / para As armas e os barões assinalados
forte. Vejamos exemplos concretos desse Que, da Ocidental praia Lusitana,
jogo: Por mares nunca dantes
1. E assim então, amor, tu explodirias: . / . navegados,
/./././. Mas isso tudo vai-se aprendendo à
2. Tu choraste em presença da morte? . . / . medida que se toma gosto pela poesia. O
. / . . / . (G. Dias) menos importante é a terminologia ligada à
3. Meu canto de morte, . / . . / . (IDEM) poesia em geral, mas, dominá-la não faz mal
4. Reconheci Homero, o mero mercenário, . a ninguém (um repertório mais amplo não
../././.../. faz pesar a cabeça). Livros sobre o assunto,
5. A Terra erra pelo espaço afora: . / . / . / há muitos. É só consultá-los. Por agora, só
2001

././. resta lembrar que há ritmos agradáveis e não

43
tão agradáveis. Se a linha é perpassada por cuja leitura é o melhor a se fazer. Esse é
um ritmo agradável, dizemos: há eurritmia: um trabalho para alguns anos e até para
Busque Amor novas artes, novo toda a vida. Se tem conhecimento de algum
engenho, outro idioma, mergulhe, se não, vá devagar,
para matar-me, e novas começando pelo Espanhol, passando pelo
esquivanças; Italiano, Provençal, Francês. O Inglês nos
que não pode tirar-me as rodeia: adentre a poesia dos muitos autores
esperanças, desse idioma.
que mal me tirará o que eu não Não se imponha, de saída, leituras sem
tenho. (Camões) fim. Limite o que vai ler. Pegue antologias,
[...] mesmo as criticáveis – em verdade, todas
o são. Mais tarde você organizará as suas
(03 de junho de2000) antologias [pessoais]. À medida que for
2000 tomando gosto pela poesia, você, por conta
própria, procurará ler as obras completas de
muitos poetas.
Leia, sempre que puder, em voz
recomendações ii alta. Embora o poema crie o seu próprio
vocabulário, sempre existe o referencial,
Nenhuma tradição idiomática, a rigor, é mesmo que ambíguo. Portanto, não deixe
suficiente para alguém que queira ir além de passar palavras desconhecidas: consulte o
um conhecimento limitadíssimo da matéria dicionário.
POESIA. É importante entrar em contato Leia um poema de todas as maneiras
com outras tradições poéticas, a começar possíveis: você sempre encontrará coisas
pelas das línguas próximas da nossa. Uma novas a cada leitura. O complexo sígnico
coisa boa é utilizar edições bilíngües, para que é o poema é inesgotável. Novos leitores:
2001

se ir preparando e entendendo o original, novas leituras: novos significados. O poema

44
pode permitir leituras diferentes porque o _) para a obtenção de um certo ritmo, a
signo artístico traz uma interpretabilidade extensão dos versos dependia do número e
que não se esgota. O Camões de agora, não tipo de pés que o compunham. Pé era uma
é o do século XVI, bem como seus leitores unidade formada por duas ou mais sílabas.
são outros, com outros repertórios etc. Por exemplo: o iambo era composto de uma
Nunca sucumba à primeira dificuldade breve e uma longa; troqueu: longa, breve;
na leitura. Há sempre um ponto através dátilo: longa, breve, breve; anapesto: breve,
do qual você poderá adentrar o poema. breve, longa. Então se fala, por exemplo, em
Insista. versos hexâmetros datílicos, o que significa
Critérios para julgar obras você só terá um verso com seis pés dátilos; pentâmetro
depois de muita leitura e todo um trabalho iâmbico etc etc etc. Mas isto não serve
de comparação entre poemas, poetas. para nós, para a nossa versificação. Nosso
Portanto, o tempo bem empregado nas sistema de versificação é silábico e joga com
2000 leituras é a condição indispensável para que sílabas fortes e fracas para fazer configurar
você possa, algum dia, emitir juízos sobre um certo ritmo e a medida existe em função
poetas e poemas. do ritmo e não o contrário. Daí, dependendo
(10 de junho de 2000) das necessidades que tem o poeta para a
feitura de uma peça, ele optará por uma
medida - verso com um certo número de
sílabas - ou até poderá combinar medidas
diferentes. Do mesmo modo, poderá blocar/
MÉTRICA agrupar versos em estrofes que podem
ser de dois (dístico), três (terceto), quatro
O metro, a métrica, como o próprio (quadra ou quarteto), oito (oitava) mais ou
nome já diz, é uma medida para a linha- menos. Cada medida comporta um certo
verso. Em outro sistema, o quantitativo, número de configurações rítmicas - número
2001

que jogava com breves (U) e longas (_ limitado, diga-se. No poema, no verso,

45
sílabas se juntam em prol do metro/ritmo, alexandrino), só a partir de duas sílabas
suprimem-se, ou, pelo contrário, separam- a coisa vem a funcionar, assim mesmo,
se, acrescentam-se. Pelo nosso sistema, compondo cada dois versos. Além de doze
a contagem (que é o mesmo do francês, sílabas, há o problema de o verso não se
porém diferente do espanhol e do italiano, sustentar enquanto tal, desfazendo-se em
que são também idiomas neolatinos), conta- dois ou mais versos menores; porém, não
se até a última sílaba tônica, desprezando o é proibido tentar. Versos podem ter divisões
restante na contagem (não na leitura!). De precisas, do mesmo modo que certas pausas
fato, para a configuração rítmica, as sílabas são obrigatórias. Num certo dodecassílabo,
finais fracas quase nada pesam. Assim, por temos a divisão (cesura) mediana, sendo ele
exemplo, temos: composto de duas metades que se equivalem
Uma orquídea forma-se (os hemistíquios), como em:
Vou-me embora pra Pasárgada Eu hoje estou cruel, frenético,
2000 Lá sou amigo do rei exigente; (Cesário Verde)
Escandir um verso significa desdobrá- Bem. Veja tudo isso, começando -
lo em suas sílabas constitutivas. E isto se talvez - pela obra de manuel Bandeira, que,
aprende com muita prática e é melhor por sinal, foi quem introduziu o verso-livre
fazer a escansão de um verso em seu no Brasil.
contexto, ou seja, no poema, para que o (Um poema em versos livres é aquele
trabalho seja feito com mais segurança e, que não obedece a uma medida única para
para tal, usam-se os dedos da mão. Veja suas peças componentes: os versos já não
isto com alguém experiente nesta matéria. têm sequer uma contagem de sílabas, nas
Embora se fale em versos de uma a doze fluem sob uma eurritmia. Bandeira fala que
sílabas (monossílabo, dissílabo, trissílabo, é mais difícil de fazer, Eliot diz que não é tão
tetrassílabo, pentassílabo, hexassílabo, livre assim. Décio Pignatari chamou a atenção
heptassílabo, octossílabo, eneassílabo, para a importância do corte da linha-verso).
2001

decassílabo, hendecassílabo e dodecassílabo/ (17 de junho de 2000)

46
RIMA provençais (Baixa Idade Média). A rima,
porém, além de elemento embelezador e
O fenômeno RIMA pode ser definido mnemônico, como foi tratado a partir de
como uma identidade sonora entre palavras, uma certa época, é como que reiterador do
ou melhor, partes delas: seus finais. A rima que de fato é essencial ao verso, que é o
consoante na total correspondência de sons RITMO. A RIMA não é elemento essencial
entre palavras, a partir da última vogal ao verso, ao poema, à POESIA, embora seja
tônica, como um sorriso e conciso (sons um recurso poético que exige até muito
vocálicos e consonantais). Rima toante é engenho na aplicação - a POESIA viveria
aquela em que a identidade/correspondência muito bem sem a RIMA, ou muito bem
diz respeito aos sons vocálicos, sem que as com ela. Os gregos e latinos não a tinham
consoantes sejam as mesmas, como em como um recurso do qual viessem a lançar
açúcar e fruta: trata-se de uma rima menos mão. Utilizavam outros recursos sonoros,
2000 perceptível, mais sutil e refinada, a não ser como a ALITERAÇÃO, por exemplo, que
naqueles casos surpreendentes de rimas consiste na repetição de sons não só, mas
consoantes, como no poema “Visita à Casa principalmente nos começos das palavras
Paterna”, de Luís Guimarães Filho, em que duma seqüência (“Leva-lhe o vento a voz
quem há-de, rima com saudade! que ao vento deita.” Camões). Dentro
Quando se fala em rima pensa- de nossa tradição, que tem a rima como
se geralmente em rimas finais, naquela recurso importante, poema sem rimas finais
identidade que ocorre nos finais dos versos, consoantes é chamado de poema em versos
mas as rimas podem podem acontecer em brancos.
qualquer lugar do verso, no mesmo verso Toda aquela classificação das rimas
- meio e fim, por exemplo. Há esquemas em “pobre”, “rica”, “rara” etc. pode ser
de rimas nos poemas. Há poetas que desprezada em prol da rima que informa ou
elevaram a utilização desse recurso poético não, da rima que traz consigo um elemento
2001

a um máximo grau, como os trovadores de surpresa, como por exemplo:

47
Verme sonhando o impossível,
Sapo com ares de símio!

Rimas adivinháveis são ruins, têm um alto
UM SONETO DE CAMÕES
grau de redundância, são KITSCH, como a
maior parte do que se obseva nas letras de
O soneto, nos seus muitos séculos
música pupular.
de existência (nasceu no complexo cultural
Vejamos como trabalhou, em termos
itálico, na Baixa Idade Média e seu nome
rímicos, João Cabral de Melo Neto, nesta peça
vem do provençal sonet, que significa
intitulada AS FRUTAS DE PERNAMBUCO:
“sonzinho”, “cançãozinha”) é a forma
fixa de maior sucesso dentro da lírica
Pernambuco tão masculino,
Que agrediu tudo, de menino, ocidental. Em Portugal, foi introduzido por
Francisco de Sá de Miranda, depois de ter
2000 É capaz das frutas mais fêmeas viajado para a Itália, na primeira metade
E da femeeza mais sedenta. do século XVI. Com Camões, no mesmo
século, o soneto português alcança nível
São ninfomaníacas, quase,
No dissolver-se, no entregar-se, estratosférico, ou seja, vai além daquilo que
poderíamos chamar de excelência. Não se
Sem nada guardar-se, de puta. sabe exatamente quantos sonetos Camões
Mesmo nas ácidas, o açúcar, deixou (este poeta, que nos bancos de escola
é lembrado principalmente por ser autor do
É tão carnal, grosso, de corpo,
De corpo para corpo, o coito, épico Os Lusíadas, foi um grande lírico;
Que mais na cama que na mesa além dos sonetos, deixou outros tipos de
Seria cômodo querê-las. composição, com peças admiráveis). Talvez,
com certeza, uns cento e cinquënta, talvez
(24 de junho de 2000) um pouco mais... É muitíssimo difícil fazer
2001

48
uma seleção de dez, por exemplo. Porém as considerando apenas as rimas consoantes.
seleções são necessárias, constituindo-se Aí, há a ocorrência de rimas toantes). Como
num desafio para o crítico. em todo o soneto que se preza, nas quadras
Hoje trago apenas um, do qual gosto muito é lançda uma questão, é criada uma tensão,
e quereria que fosse lido com o máximo de que encontra uma resoluçnao, nos tercetos.
atenção: O tema é fundamentalmente o da beleza de
uma mulher, cuja contemplaçnao não tem
Quem vê, Senhora, claro e manifesto
preço. Mas, diga-me o leitor: de que cor são
o lindo ser de vossos olhos belos,
seus olhos? Para facilitar, releia este verso:
se não perder a vista só com vê-los,
já não paga o que deve a vosso gesto. o lindo ser de vosso olhos belos.
Ainda não deu para ter certeza? Então
Este me parecia preço honesto; veja:
mas eu, por de vantagem merecê-los,
dei mais a vida e alma por querê-los,
2000 o lindo SER DE VOSSOS olhos belos
donde já me não fica mais de resto.
o lindo sER DE VossoS olhos belos
SER DE VOSSOS = VERDES!
Assi que a vida e alma e esperança
e tudo quanto tenho, tudo é vosso,
e o proveito disso eu só o levo. Alguém poderia dizer que isto é forçar
a barra e eu diria que não: 1º porque a coisa
Porque é tamanha bem-aventurança está expressa no poema, embora camuflada;
o dar-vos quanto tenho e quanto posso,
2º Camões é siderado em olhos e claros; 3º
que, quanto mais vos pago, mais vos devo.
a cor VERDE para olhos é recorrente na lírica
camoniana.
Bem, esse é um soneto do tipo italiano:
Com isso tudo quero dizer que há
formam-no duas quadras e dois tercetos.
leituras e leituras de poemas e que doravante,
Os versos são decassílabos (de acordo
com o nosso sistema) e obece ao segujinte para utilizar uma expressão que quase
ninguém mais usa, o paciente leitor tenha
2001

esquema de rimas: abba/abba/cde/cde (isto

49
um pouco mais de cuidado com as leiturar suas obras, entrando mesmo como parte
que vier a fazer. integrante estrutural das mesmas.
(01 de julho de 2000) Daí é que, hoje, muito me estranha
ver em exposições obras até avançadas em
cujas etiquetas de identificação consta SEM
TÍTULO.
Que chance perde o artista de
SEM TÍTULO enriquecê-la com algo interessante. A não
ser em casos extremos, em que o título
As obras das artes plásticas via de regra visse a empobrecer o trabalho, pois traria
prescindiram de título, embora para efeitos um direcionamento indesejável para a
de catalogação sempre se inventou um título, leitura da obra. Há já algum tempo o poeta
sugerido pela carga de referencialidade Paulo Miranda coleciona títulos para poemas
pelo tema, tal como: “Natureza-morta com a serem feitos. De um, por exemplo, ele
2000
maçãs”. No caso de poemas originalmente se apropriou: “Nem por Todo o Petróleo do
sem título, inventa-se um: o primeiro verso, Iraque” e que pertencia a um desenho do
parte dele ou o tema central, como o único início dos anos 70, de Arnaldo Caiche de
poema de Safo que veio para nós na íntegra: Oliveira. Outro, com ambigüidades, “Movido
costuma ser chamado “Ode a Afrodite”. Mas, a Álcool”. Um outro, ainda, ele enviou como
em se tratando de obra de Poesia e das Letras colaboração à revista ATLAS, por falta do
em geral, a coisa parece mais pertinente. poema que havia sido solicitado: ERRAR NA
Nas Artes Plásticas, Marcel Duchamp, MOSCA. Foi um sucesso. A integração do
DADA antes de DADA, começa a impregnar título à obra é a chance que o artista/poeta
suas obras de elementos literários, poéticos, tem, a mais, para mostrar o quanto é bom.
conceituais, a começar pelo “Nu descendo Tudo isto já estava pensado quando,
uma escada”, de 1912. Cada vez mais os em visita a uma exposição no Instituto
2001

títulos foram ficando imprescindíveis em Cultural Itaú (Programa Rumos Visuais

50
Itaú Cultural 1999/2000, seção Pintura: SANTO DE CASA
Repertórios Alternativos), topei com
um trabalho de Luiz Flávio Silva , que não Inúmeras vezes, em minha vida de
existia, mas existia: eram cem etiquetas de professor, tem acontecido de eu ter dito
identificação em formato grande, dispostas coisas para as quais os alunos não atentaram
na parede formando um painel retangular, muito: eu estava ali mesmo, à disposição,
sendo que em cada uma delas havia escrito para que prestar atenção? Porém, em
o nome do autor (LFS), “Sem título”, mais seguida a coisa era martelada na mídia ou
a técnica utilizada , as dimensões e datas, por alguém com trânsito na mídia que era
despontando aqui e ali o humor. Ao lado a convidado para falar para os alunos, como
etiqueta que identificava a façanha: Cem foi o caso de duas passagens comigo e meus
Títulos ou Cem Identificações para Cem alunos do Jornalismo da PUC-SP.
Obras Não Realizadas. 1998. Impressão Disse, eu, certa vez aos alunos:
2000 gráfica sobre cem placas de material um jornalista tem de saber muito bem o
plástico. 204 X 279 cm. Coleção do português e isto só é possível lendo muito os
artista. A coisa parodístico-trocadilhesca ficcionistas e cronistas; tem de saber História,
- cem/sem título - dá força ao trabalho e pois como poderá entender o presente de
mostra como o artista plástico sempre foi um que se ocupa se não compreende o passado?
ser pensante sendo que, de um tempo para E tem de saber inglês, para poder dispor
cá, explicita e até exacerba essa necessária de muito mais facilidade para ter acesso à
atividade. informação, já que a língua inglesa é a de
(08 de julho de 2000) trânsito internacional (hoje eu acrescentaria
a coisa da informática como uma necessidade
primária).
Noutra ocasião, falei do espaço de
liberdade que a PUC oferecia e sobre o
2001

favorecimento à pesquisa e liberdade de

51
pensamento; enfim a PUC oferecia aos O SIGNO FOTOGRAFIA
seus alunos algo essencial a todo cidadão
para exercer plenamente a tão propalada A palavra fotografia significa
cidadania: a vivência universitária. literalmente escrita com a luz luzescrita
Foi preciso que, numa certa semana luzescritura, já que é formada pelos radicais
de jornalismo eles, os meus alunos de gregos de luz e escrita. FOTOGRAFIA é,
Comunicação Comparada ouvissem, em verdade, o processo mecânico de
primeiro, de Octavio Frias Filho, que eram captação da imagem, o que pressupõe algo
essenciais a qualquer pretenso jornalista: a ser captado, fotografado: ondas luminosas
saber português para poder escrever, saber que impressionam uma superfície foto-
história e ter um certo domínio da língua sensível. O princípio da câmara-escura já
inglesa... Depois, de Bárbara Gancia, que era conhecido há séculos, porém, somente
lhes disse o seguinte: “Cheguei aqui muito durante a terceira década do século XIX,
2000 antes da hora marcada para esta conferência na França, é que a fotografia foi inventada,
e fiquei andado por aí: rastreei o campus. passando por progressos, chegando ao
Que maravilha! Vocês não têm idéia da negativo e dando origem na última década
riqueza de que dispõem. Essa liberdade, do mesmo século, na mesma França, ao
a possibilidade de uma vivência rara, essa cinema (irmãos Lumière, Paris, 1895: 1ª
energia incrível. Isso tudo não tem preço!” sessão). O advento da fotografia mexeu
Estando, nesta ocasião, na platéia, com tudo, principalmente com as Artes
experimentei um certo sabor de vitória. Plásticas. Imaginem: um processo mecânico
(15 de julho de 2000) de captação da imagem. A fotografia foi o
primeiro processo revolucionário de produção
de imagem: acontece em pleno processo
de Revolução Industrial, que se espalhava,
então, pela Europa (processo que tivera
2001

início,no século anterior na Inglaterra).

52
Processos de reproduçnao registram-se credibilidade que ela empresta a uma
desde tempos remotos, mas a fotografia, de mateeria jornalística, diferente se a mesma
fato vai provocar profundas transformações matéria viesse ilustrada com um desenho.
no que diz respeito à imagem (veja-se, de Essa credibilidade é dada justamente pelo
Walter Benjamin: A obra de arte na época de fato de a fotografia ser um signo que mantém
sua reprodutibilidade técnica.). A fotogarfia e com seu objeto uma conexão física. Hoje
sua conseqüIencia inevitável, o cinema, eles é relativamente fácil forjarem-se imagens
mesmos se tornam arte e atentam contra no computador, alterarem-se fotos. Bem,
aquela coisa do objeto único, portador de aí já entra em jogo uma outra questão: a
uma aura. Mas isso é assunto para uma da ética jornalística. A alteração já existia
outra ocasião. Agora vamos nos deter no desde antes do advento da info-imagem
signo FOTOGRAFIA. (um outro modo de produção de imagens),
Tudo pode funcionar como um signo: embora precária, através de retoques,
2000 uma palavra, um som musical ou não, fotomontagem, truques de laboratório.
um rabisco, um gesto, uma fotografia. Por outro lado, os modos de produção da
Na Semiótica fundada pelo filósofo imagem, misturam-se, sobrevivem todos: do
estadunidense Charles Sanders Peirce, o que se originou, acreditamos, no Paleolítico
signo FOTOGRAFIA, principalmente as fotos Superior , passando pela revolucionária
instantâneas tem uma conexão física com seu fotografia, no século XIX, às info-imagens
objeto (com aquilo que foi fotografado), pois que, prescindindo de um objeto (o que não
trata-se da impressão de ondas luminosas acontece com a fotografia), brotam de um
sobre uma superfície foto-sensível. Portanto, matriz algorítmica. A Fotografia eterniza
com relação ao seu objeto, a FOTOGRAFIA um momento, fixando-o e tornando, esse
é um índice. Um ÍNDICE com forte grau de signo passível de reprodução, sem perda de
iconicidade, ou seja de semelhança com informação.
o tal objeto. Para melhor entendermos a (22 de julho de 2000)
2001

Fotografia como índice, é só vermos quanta

53
de pirajuí para o mundo: fins dos embora nem todos atentassem para elas,
anos 50 e os 60 coisas aconteciam: uns aproveitavam bem,
outros, nem tanto, outros, ainda, nada.
A memória expressa é o passado Passemos pelos anos 50 (parte deles) e
editado: o essencial, nem sempre bom, 60, sem observar uma ordem cronológica
quase sempre ótimo, MEMORÁVEL. Quando rigorosa.
alguém diz: no meu tempo, é óbvio que se As brincadeiras no coreto do Jardim
refere à época em que gozava do máximo dos Turcos (Praça Luís Gama/João Augusto
que as coisas do corpo podem proporcionar: Ribeiro). Na rádio Pirajuí: “O telefone é
adolescência e juventude, pois se ele está seu amigo” e “As mais belas histórias para
vivo, sempre o tempo será seu também. crianças”. Bailes e “brincadeiras” no Parque
Concordo com o argumento de que as Clube, aos sábados. No carnaval, o corso na
citadas fases sejam ótimas, mas não as Rua 13. Uma canção de Tito Madi entoada por
2000 únicas boas: outras também proporcionam ele mesmo. A quentura da musica cubana.
coisas que justificam o estar vivo. De minha A Bossa Nova pelo rádio e orquestras que
parte, lembro, sem aquela saudade aflita, abrilhantavam os bailes freqüentes. O
das coisas de minha infância e adolescência, Rock’n’roll made in USA e sua reverberação
porém, nem por nada gostaria de retornar. no Brasil.Celly Campello [afinadíssima] e
Só desejaria ter hoje, da infância, aquele turma no rádio do Elery Ghiotto. As fanfarras
sono maravilhoso. De resto… nada. Bem, nos desfiles comemorativos (Ah! O desfile
mas o título desta crônica põe em evidência comemorativo dos 40 anos de nossa cidade:
o final de minha infância, minha pré- PIRAJUÍ!!!QUARENTÃO!!!) Os simulacros de
adolescência e toda a adolescência em cidades egípcias feitos por Roberto Miguel
Pirajuí. Nossa cidade, que experimentava Attuy no quintal da casa de sua avó. A
um longo período de decadência econômica saída da missa das 10h00, aos domingos.
e estagnação, nem por isto estava isolada A orquestra BLUE STAR. Os festivais – a TV
2001

do mundo. As informações aqui chegavam, chegando em Pirajuí – de MPB, revelando

54
Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, As intermináveis conversar com os amigos,
Os Mutantes. A audição de cada novo LP dos na Praça Rui Barbosa/Dr. Pedro da Rocha
Beatles. Uma camisa feita por Dona Virgínia Braga, à noite, qualquer dia da semana.
Travalon. Uma refeição tomada no Hotel Idas a Bauru, Cafelândia, Lins, para assistir
Pirajuí, cozinha sob o comando de Dona a filmes que aqui demoravam a chegar. A
Olga. As estórias – sim, estórias – contadas mudança de hábitos em nossa cidade, com a
por Maria Batalha, agregada da casa de chegada da TV. As cores vivas que passaram
minha avó Lula. As balas de coco de Dona a ser normais nas roupas masculinas. As
Amábile. A inauguração do campo de aviação mini-saias mostrando as lindas pernas das
de Pirajuí, o atraso, a minha sede e eis que meninas. Shows em lugares improvisados,
chega o avião da REAL! A criação dos galos de artistas hoje históricos na MPB, como
de briga do Sr. Galeno Loureiro. Um quibe Germano Matias, Nora Ney, Jorge Goulart. O
frito feito por minha avó, naquele sempre Cinema Velho, memória de um tempo que não
2000 domingo. Uma aula da Dona Yola. Uma era o meu. A Biblioteca Municipal: freqüência
panela de charutinho de folha de uva feita diária, com a Lourdinha Chade Franco a
por minha mãe. Um sundae de morango das me receber. O café do Bar Bandeirantes.
Lojas Americanas de Bauru. O Bauru feito no A lembrança do Bar Paulista. A quadra do
Bar do Jacinto. A comida do Hotel Central, Pirajuí C. C. que, parece-me, estão demolindo
Rua 1º de Agosto, Bauru. Um banquete e aqueles Jogos Noroestinos aqui sediados.
preparado por Dona Ida. Meu pai ao volante, A beleza inesquecível de Nidelce Britz. As
em direção a qualquer lugar. As sessões de Feiras Agro-Pecuárias no Mercado Municipal.
durante a semana no Cine São Salvador, As épocas de eleições (pré-Período Militar) e
quando eram exibidas obras-primas: de a passagem de políticos famosos com seus
Bergman a Antonioni. As vesperais, as comícios lotados. As rivalidades políticas. A
sessões de domingo, à noite. As encenações anfitriã irrepreensível que era a Detinha. Os
dirigidas por Dona Maud. As partidas de tênis poemas de Paulo Miranda. Minha descoberta
2001

no Parque Clube, nas manhãs de domingo. do MASP. A poesia de Bandeira, Drummond

55
e Oswald. O sonho indigenista de Marco POETA e vem para nós nessa mesma forma.
Paterlini. Um vislumbrar da Poesia Concreta. Poeta; indivíduo artista da palavra; aquele
A minha sede de São Paulo, para onde haviam que faz do banal algo raro ou que causa
migrado, em sua maioria, meus amigos do estranheza frente ao coloquial, à linguagem
IEDAP. O pensamento numa carreira de do dia-a-dia (isto quando ele não a utiliza
pintor. E eis que despontam fulgurantes propositadamente!). As normas dizem
Hendrix e Joplin; Woodstock; e… passam… e de POETA, que se trata de uma palavra
ficam! masculina (ao longo da história, a maioria
Toda época é rica. Principalmente esmagadora de artistas da palavra, como
depois que passa. Tudo depende de onde de outras áreas era de homens), sendo o
você se coloca – mesmo enquanto espectador seu feminino POETISA. Melhor seria tratar
– frente aos acontecimentos. O passado, a palavra como sendo comum de dois
condensado que é - em nossa memória, gêneros, ou seja, utilizar a mesma forma
2000 nos livros – sempre desperta interesse e se para homem e mulher, variando apenas o
mostra, principalmente em épocas de vacas- artigo: o poeta, a poeta. Faz muitos anos
magras, mais atraente do que o presente. O – que eu me lembre, desde os anos 70 –
presente é rico! Sempre. que assim faço e muita gente, até da mídia
(29 de julho de 2000) impressa faz. Cecília Meireles é uma poeta,
das maiores que a nossa tradição já produziu.
É dela a afirmação de sua condição de poeta,
em peça famosa, que ora transcrevo:

o/a poeta MOTIVO

Eu canto porque o instante existe


Poeta: termo que vem do grego E a minha vida está completa.
POIHTHS (poietés), significando “aquele Não sou alegre nem sou triste:
2001

que faz”, o fazedor. Passa para o latim Sou poeta.

56
artesanato de sua poesia, que oscilou entre
Irmão das coisas fugidias, lusa e brasílica. Presença um tanto arcaizante
Não sinto gozo nem tormento.
na panorâmica do nosso Modernismo. De
Atravesso noites e dias
No vento. qualquer maneira, uma fina presença.
(05 de agosto de 2000)
Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo. o bom poema. o que seria?


Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo: Um jovem amigo perguntou-me,
- mais nada.
entre irritado e desafiador: “Mas o que é,
2000 para você, um bom poema?” Primeiro, fiquei
Há outros termos para significar aquele
preocupado, pensando que o teria ofendido
que opera milagres com as palavras, tais
de alguma forma, através desta coluna, em
como CANTOR, VATE, AEDO, TROVADOR,
alguns dos meus rompantes professorais,
CANTADOR. Porém, nenhum é tão exato
enquanto escrevia sobre a Arte da Poesia.
como POETA. Penso que a palavra POETA,
Em seguida, pensei que seria útil deixar
como algumas outras de nossa língua
claras algumas idéias e que ele até estaria
deveria ser, quanto ao gênero, substantivo
interessado em saber o que penso sobre
sobrecomum, como a palavra criança.
poemas serem bons ou não. Por último, a
complexidade da questão exigiria muitas
Em tempo: Cecília Meireles nasceu no Rio
horas para ser apenas contornada. Como
de Janeiro em 1901, onde também veio
quem é capaz de horas, também o seria com
a falecer em 1964. Uma bela mulher, foi
relação a alguns poucos minutos, tentarei
poeta extremamente habilidosa quanto ao
2001

dizer com centenas de palavras, o que teria

57
de dizer com muitos milhares. encaixa nesta categoria) é aquele que,
1. Um bom poema é o que se nos chegando à excelência, ultrapassa-
apresenta perfeito, perfeito no sentido a, trazendo inovações, acrescentando
de que nada falta e nada sobra a ele e coisas à tradição à qual pertence.
isto é o que sentimos ao lê-lo. Seria o Para sabermos o que é bom, é preciso
caso, por exemplo, do “Plenilúnio” de que tenhamos um alto repertório específico
Fernando Pessoa, já estampado nesta em poesia – muita leitura/audição, de toda
coluna. a tradição idiomática e de outras, até: daí
2. Um bom poema é aquele que, malgrado é que sai o discernimento. O bom é bom
a data da composição, sobrevive através relativamente a outro que lhe é comparável,
das décadas, dos séculos e continua ou a outro que não chega a sê-lo, ou a outro,
e continua despertando o interesse ainda, que o ultrapassa. Então, para alguém
das sucessivas gerações, como os ambicioso, não basta ser apenas bom:
2000 fragmentos da poeta grega Safo. é preciso ir além, romper (nem sempre é
3. Um bom poema é aquele que, dentro possível; sempre é muito difícil), inovar,
da tradição na qual se insere, alcança o acrescentar um mínimo que seja ao já feito
nível de excelência enquanto fatura, ao e assimilado pelos fruidores/ aficionados.
mesmo tempo em que exala um certo O que é bom depende do nível de
frescor. Peças da lírica camoniana. exigência de quem julga – e, diga-se, todos
4. Um bom poema pode ser aquele que julgam, mesmo quando a coisa fica só
nos paralisa e entra em nossa corrente em pensamento. Ou seja, é uma questão
sangüínea, acompanhando-nos onde de repertório: quanto mais alto for o seu
quer que estejamos e que sempre o repertório em poesia, maior será a sua
recordamos com satisfação, pois ele exigência em tal campo (e assim acontece
continua novo para nós. em todos os outros). Vinicius de Moraes é um
5. Um poema além de bom (e tudo bom poeta? A resposta é sim. SIM naquilo em
2001

o que foi citado aqui até agora se que ele é (foi) bom, pois, apesar do grande

58
domínio do métier do verse maker, há seu trabalho. Mas poesia – como qualquer
obras em que ele barateou de fato, fazendo arte - sempre envolve algo de pesquisa/
concessões, ganhando público. experimentação e devo encontrar sinais
Por outro lado, posso provar por A + disso num poema.
B que um certo poema é ruim, redundante, Espero que de tudo isto que aqui foi
cheio de defeitos e, assim mesmo, gostar falado, tenha ficado o mais importante:
dele (às vezes, algo assim não sai da nossa a questão do empenho na aquisição de
cabeça). Gosto pessoal está dentro, mas é um repertório elevado para poder estar
outra coisa. Estamos falando de crítica, de exercendo, de modo conseqüente, o
discernimento. discernimento, a crítica. Comparar peças,
Goste do que gostar. Leia o que lhe der diria o poeta Ezra Pound.
alegria. Os textos mais elaborados (difíceis, (12 de agosto de 2000)

mesmo) lhe proporcionarão alegria se o seu


2000 repertório estiver afinado com eles.
O grande poeta e crítico estadunidense
Ezra Pound elaborou uma classificação para
escritores (poetas) que também serve para
quaisquer dos artistas (pintores, escultores, E PRA ESSA DOR TEM CURA?
músicos…): inventores, mestres,
diluidores etc. Um inventor pode também Há vários tipos de exposições,
ser um mestre e, num certo momento, ser considerando as individuais e as coletivas.
diluidor da própria obra. Um mau poeta pode As coletivas têm sido as mais interessantes,
ter, em meio ao entulho, uma preciosidade. desde aquelas em que pessoas com
No fim das contas, é tão pouco o que sobra afinidades formais se reúnem para motrar
(o tempo se incumbe de fazer a melhor seu trabalho, até as que, organizadas sob
das críticas). Poucos são aqueles, de longa grandes patrocínios, envolvendo um curador
2001

vida, que mantêm um nível apreciável em geral e vários sub-curadores para cuidarem

59
de seções específicas. Essas exposições são e acha que pesquisou sobre a jovem
as mais interessantes porque costumam produção cearense. Artista que não tenha já
trazer muitos nomes ainda não consagrados. ingressado no circuito comercial das artes,
As grandes retrospectivas individuais são mesmo que apenas na província, não tem
importantes, porém, já trazem - pelo menos chance de ser escolhido. O artista tem de
em quase 100% dos casos, perguntas (se batalhar, dizem. Mas eu pergugunto: Onde
tanto) com as devidas respostas. está a pesquisa que a curadoria deveria
No mundo hoje, das grandes exposições fazer? Daí, o resultado que essas exposições
de Artes Plásticas, temos a Bienal de Veneza, de abrangência nacional realizadas no eixo
a de São Paulo e a Documenta de Kassel. Rio-São Paulo, não dão sequer uma pálida
Grandes vedetes têm sido os curadores, que idéia da produção artística do Brasil. Aos
procuram aparecer muito mais do que aquilo injustiçados, por terem sido ignorados, resta
que se propõem mostrar. Se assim nas mega esperar que o tempo venha a revelar os reais
2000 exposições coletivas, o mesmo nas menos valores...
grandes, mas também coletivas e recheadas Coisa desse tipo já aconteceu e tem
de muito dinheiro. acontecido no glorioso e pobre mundo
Ao curador cabe fixar uma linha a partir da POESIA: antologias da “nova” poesia
da qual a exposição será montada. É óbvio brasileira em que poetas fundamentais
que tudo deveria partir de um conhecimento de nossa contemporaneidade. Têm sido
o mais completo possível do que se está sistematicamente ignorados por não terem
produzindo no âmbito que a mostra deseja publicado em volume os seus poemas.
abranger. Porém, uma pesquisa de fato em Se publicar em volume é critério, onde
que se vai atrás da produção não chega a chegaremos? Onde está a pesquisa que
existir. O que se vê é curadodores pedindo o crítico/antologista deveria fazer? Que
sugestões a donos de galerias e críticos estudioso é esse?
regionais. Por exemplo: chega em Fortaleza Hoje, o artista que está fora da mídia
2001

e, bem instalado, aciona os seus contatos é alguém semi-morto. Admiro aqueles

60
que desenvolvem um trabalho - poetas e e, portanto à “política das artes”. Conclama à
artistas plásticos - quase anônimo, tendo ação. Pode vir assinado por uma pessoa, um
um compromisso apenas com a Linguagem grupo (quando se trata de um grupo, deve
e a Humanidade, não se importando com haver concordância geral, pois para fazer
a politicagem que existe no meio, onde se parte de um grupo - de qualquer natureza -
observam exércitos (lobbies) a serviço de tem de se renunciar ao meramente individual,
artistinhas que não passa, às vezes, de em prol do coletivo, ou seja tem de se estar
esécie de 14 Bis de chumbo - não há o que de acordo com o programa do grupo) ou
os faça alcar vôo! toda uma comunidade. Um manifesto é
(19 de agosto de 2000) uma tomada de posição pública frente a
destinatários específicos, tendo portanto de
ter o seu repertório adequado, visando a
esse público (a adequação repertorial é tão
2000 necessária como num anúncio publicitário.
MANIFESTOS Um manifesto pode ter de uma lauda a cento
e oitenta páginas: tudo vai depender do que
Muita coisa pode ser considerada como um se pretende expor e do público para quem
MANIFESTO: de um discurso improvisado se destina o tal texto. Um manifesto tem
(oral) a um texto político ou poema que de ser publicado e isto varia de um simples
explicite uma estratégia, que seja uma folheto/panfleto, passando por um livreto,
plataforma de ação. Manifestos existem há um volume, parte de um página de jornal,
muito tempo, mas dentro dos chamados revista etc. O que justifica um manifesto
Modernismos - e é no compo das artes que é a proposta que a pessoa, o grupo ou a
a coisa nos interessa por agora - tornaram- comunidade têm a fazer: uma proposta
se mais do que comuns: obrigatórios. Um que traga alguma novidade! Um manifesto
MANIFESTO é um texto que torna pública conclama à ação. Os manifestos, tanto os
2001

uma posição: diz respeito à arte de programa políticos como os artísticos, têm um mesmo

61
teor, espírito e podem ter a mesma estrutura DONA AMÁBILE
enquanto texto.
Num manifesto clássico, de cartilha as coisas Quando de um de seus retornos da
estariam assim dispostas: Europa, o grande poeta Décio Pignatari,
Uma introdução: situação da questão/ reunido com amigos (eu incluído) falava
problema. Às vezes, o próprio título já faz sobre qualidade de produtos e começou
esse papel. a discorrer sobre a qualidade interna
O histórico da questão (um corte do que era oferecido a consumidores.
cronológico). Não nos EUA (que ele conhecia) mas da
Análise da situação presente, com forte teor Europa, e nas coisas mínimas que eram
crítico. oferecidas, havia a tal qualidade interna.
Apresentação das soluções apresentadas Naquele exato momento lembrei-me de
para o problema por outrem, seguida de duas grandes mulheres artesãs de Pirajuí,
2000 crítica pesada. as quais tive o prazer de conhecer e ter até
Apresentação da solução dos signatários do amizade durante décadas: Dona Amábile
manifesto, como sendo a melhor. (em italiano, sem acento) a dos doces
Conclamação à ação. incomparáveis e Dona Virgínia Travalon,
Hoje? das camisas impecáveis, que duravam o
Manifesto do Partido Comunista tempo de uma geração. Duas mulheres
Manifesto Futurista de 1909 admiráveis, dois sorrisos tão diferentes:
Manifestos Oswaldianos o de Dona Virgínia, a alegria pelo simples
Plano-Piloto para Poesia Concreta fato de existir; o de Dona Amábile, de
(26 de agosto de 2000) uma tristeza nobre... É bom lembrar que
o artesão é alguém que domina todo o
processo de feitura de uma determinada
coisa, é dono de seu estabelecimento
2001

e ferramentas e, às vezes, ele mesmo

62
comercializa o seu produto. Mas hoje o iguarias?) era uma finíssima artesã: tudo o
espaço é de Dona Amábile. que fazia tinha um aspecto dos melhores,
Soube da morte de Dona Amábile por um acabamento perfeito, de fazer inveja a
terceiros e, mesmo assim, tempos depois. qualquer dessas confeitarias famosas dos
Nos últimos anos de sua vida eu não a vi. grandes centros urbanos. Quem seria digno
Nem sequer sabia se ela se encontrava em de tanto? E cobrava pelo seu trabalho o que
Pirajuí, na casa da rua Riachuelo, ou se estava considerava justo. E eu digo: esse justo era
morando com algum filho ou filha... Quase muito pouco! Quem terá herdado esse talento
nunca vi um nome cair tão bem para uma e o terá desenvolvido? Nos últimos tempos,
pessoa: Amábile. Amável figura. Amábile quando ainda trabalhava, passou a aceitar
Romano Ghiotto Bonadio sempre delicada cada vez menos encomendas, só acolhendo
ao receber-me, como era de costume, na os pedidos dos fregueses mais antigos, como
varanda de sua casa, para as constantes era o caso de minha mãe, através de mim.
2000 encomendas, geralmente daquela deliciosa Dona Amábile, alquimista-artesã, pessoa
bala de coco, ou da cocada branca, como rara. Trabalhava como um ourives. Uma
nunca provei de outra igual. Isto durante maga. Delírio dos diabéticos. Uma educação
muitos, mas muitos anos, mesmo depois de irrepreensível. Pensando em quem, Dona
eu já estar morando e estudando em São Amábile fazia aqueles doces e salgados?
Paulo. Lembro-me: um halo de santidade Concluo que ela fazia o melhor possível (e
envolvia a sua figura... a suavidade de o seu melhor era elevadíssimo), como se
sua voz, a fala pouca. Raramente um fosse oferecer aos deuses olimpianos. Mal
riso iluminador. Bolos de casamento e poderia ela saber que nós, os consumidores
aniversário. Salgados cuja aparência e sabor de suas delícias, éramos simples mortais.
não encontravam rivais. Bem, aqui cheguei Ambrosia para os humanos!
ao ponto: além de grande alquimista (quem Em tempo: Recentemente conversei por
sabe juntar matérias diversas e compor uma telefone com seu filho Antônio Carlos, que
2001

maravilha - quem mereceria comer daquelas reside em Bauru. Ele me passou algumas

63
informações. Poucas. Em verdade eu já sabia Paulo. E, diga-se, foi governo reeleito por
o que queria dizer sobre essa tão querida voto direto. É impressionante: os governos
pessoa. Precisava de algumas confirmações. democráticos, a partir de Montoro, têm sido
Amabile Romano Ghiotto, depois, Bonadio cada vez piores e Covas vem a coroar, com
nasceu em São Joaquim da Barra em 1916, sua Secretária da Educação, Dona Rose
vindo a falecer em Pirajuí, em 1994. Dona Neubauer, esse vergonhoso processo de
Amábile merece um lugar de honra na sucateamento do ensino de 1º e 2º graus,
história de nossa cidade. Seu lugar no ceú cujos nomes foram novamente mudados:
- se é que há céus, como disse um famoso para Ensino Fundamental e Ensino Médio.
poeta estadunidense - já estava garantido. Achatamento salarial e diminuição de aulas
(02 de setembro de 2000) para “enxugar a folha de pagamento”: de cada
sala-de-aula foi surripiada uma aula por dia,
o que significa que cada criança que estuda
2000 em escola estadual perdeu 25 aulas por
GOD BLESS THE TEACHERS mês! E a arrogância frente aos professores,
como se não devessem satisfação ao povo.
Pobre do país que, desprezando a Atitudes autoritárias se viram, como nem na
Educação, maltrata seus professores. Isto época dos governos indiretos e o Governador
significa que ignora o óbvio: que somente ainda vem dizer que foi vítima da Ditadura.
através da Educação se pode elevar o Foi e foi premiado em seguida, como muitos
repertório médio da população a níveis outros sobreviventes do Regime Militar.
consideráveis, elevando o nível de exigência, Que necessidade é essa que o
o que obriga mudanças que venham a Governador tem de ser agredido física e
favorecer a grande maioria... moralmente? Que misteriosa culpa ele quer
Foi com enorme tristeza que vi - de expiar? Expôs-se aos professores, mas
novo - a profunda humilhação impingida aos estes, pacíficos em sua quase totalidade,
2001

professores pelo Governo do Estado de São mal esboçaram agressões. Mas ele queria

64
mais, muito mais! Por que essa medição de não nos deixarmos enganar por aqueles
forças? falsos democratas, que nunca perdem uma
Se o Governador pensa que ganhou chance de exercer o autoritarismo e mostrar
a parada, enganou-se. Ninguém ganhou, o quão arrontes são.
a população é que perdeu. A tendência do Somente um povo com elevado
ensino é cair ainda mais. Quando é que repertório médio apresenta, também, um
teremos condições de reverter o processo? alto grau de exigência e daí, exige, e daí,
Tem faltado aos governos um empenho de as coisas necessariamente mudam. Diga-
fato, um compromisso com a Educação e, se: mesmo o grau de manipulação por que
enquanto isso, sofrendo, porém reagindo, passa a população (e isto ocorre até nas
esperamos por dias melhores. sociedades mais avançadas) pode diminuir
Reposição de aulas? Não há reposição em função da elevação do repertório do povo.
que reponha. Castigar professores com E é aí que a Educação - Escola, Professores
2000 corte de vencimentos, tampouco diminui o - desempenha o papel fundamental.
problema. Ao contrário: agrava-o. Para lugar de honra na História rumam
Durante e depois do período de greve, mestres maravilhosos como Dona Yola, Dona
que atingiu também as três universidades Maud, Donas Cida, Nancy e Nair Manso,
públicas estaduais paulistas, o articulista da José Conti, Célia Gomes da Silva Barros,
FOLHA DE SÃO PAULO, José Simão, dentro Deca Cury, as Leilas Cury (Ah! a epopéia da
de suas peculiaridades escriturais apontou docência nas escolas rurais) Jeanete Cury
coisas exatas, acertou sempre na mosca Rachid, Lolita Ramos Miranda, Anna Lia
em tudo o que abordou sobre a greve e Amaral de Almeida Prado e tantos outros.
a política educacional do governo Covas. A História possui uma espécie de saco-
Mas os nossos dirigentes não levam a sério sem-fundo que se constitui numa lixeira.
o maior bobo da corte que o país já teve. Muitos de nossos dirigentes (em todos os
Resta-nos, não apenas impedir o acesso ao níveis) terão um lugar garantido no LIXO DA
2001

poder das crias da Ditadura, mas também, HISTÓRIA.

65
Em tempo: Fui professor em escolas de 1º ERTHOS ALBINO DE SOUZA
e 2º graus durante quase trinta anos e por
vocação. Só em escolas estaduais trabalhei .Nasceu em Ubá (MG), em 1932.
23 anos. Era feliz como profissional - embora Poeta e estudioso da Literatura.
o salário nunca tivesse sido bom - trabalhava Editor da revista CÓDIGO que, desde
naquilo que queria. Duas dezenas de greves 1974, veicula parte da produção mais
- justas, mas desgastantes e mal sucedidas experimental da poesia brasileira. Vive
- levaram-me à exaustão. Sempre estive em Salvador (BA).
na ativa, quero dizer, em sala-de-aula. Na Assim dizia o verbete que elaborei
mídia são sempre os mesmos burocratas os para uma publicação coletiva sobre poesia
que dão opinião. Façamos esforços para que visual brasileira, que sairia publicada (1991)
as coisas mudem, se quisermos, de fato, um na Alemanha, mas que ficou inédita. Pois é,
país melhor, pois tudo passa necessariamente Erthos Albino de Souza, sofrendo há alguns
2000 pela Educação. E mais: pobre País (Estado) anos do mal de Alzheimer, veio a falecer em
o nosso em que, num passado recente uma julho último e isto eu vim a saber pelo amigo
autoridade declarou: “A greve é justa mas Walter Silveira que soube de outro amigo...
é ilegal”. E em que o governador do Estado Uma das marcas maiores dessa figura
mais rico disse que o professor que o agrediu, singularíssima foi a generosidade: sendo ele
por receber mensalmente R$1.200,00, está mesmo um poeta visual e dos bons, sempre
entre os 25% mais ricos do País! Por hoje preferiu publicar a obras de outros à sua. Foi,
chega! entre nós um pioneiro na poesia que veio
(09 de setembro de 2000) a utilizar o computador, quando ainda uma
máquina primitiva, mas com a qual - ele que
era engenheiro de formação - chegou a fazer
peças admiráveis. Porém, a grande façanha
de Erthos foi editar a revista CÓDIGO, a qual
2001

financiou sempre sozinho e que teria tido mais

66
números se ele tivesse podido contar sempre Não tendo tido resposta liguei pra Salvador e
com alguém que fizesse o projeto gráfico (a ele: “Omar, quem é Omar?” Isto foi em 1995.
falta de alguém que se dispusesse a tal era De lá para cá, poucas notícias. Parece que
a sua mais constante reclamação). Mesmo uma irmã acabou indo cuidar dele, trazendo-
assim, de 1974 a 1990, saíram 12 números o de volta para Minas. Erthos sempre será
de CÓDIGO! Um prodígio em se tratando lembrado como o editor da CÓDIGO, como
de revista que acolhia parte da poesia mais colecionador de livros - um verdadeiro
experimental que se fazia no Brasil. Conversei bibliófilo - como alguém que dava assessoria
algumas vezes com Erthos por telefone (ele sobre assuntos literários - Euclides da Cunha
residia em Salvador-Bahia); trocamos poucas e Pedro Kilkerry, por exemplo - para muita
cartas, bilhetes diria de algumas; cheguei a gente: de Walnice Nogueira Galvão a Augusto
participar, com um poema gráfico, do nº 10 de Campos. Este último, o grande poeta, em
de CÓDIGO (1985). Esteve em São Paulo recente conversa comigo disse que guarda
2000 no começo dos anos 90 para o lançamento muito material produzido por Erthos e que, a
de ARTÉRIA 5, revista da qual fui editor, partir do próximo ano pretende organizá-lo e
juntamente com Paulo Miranda. Na ocasião editá-lo. Erthos merece ter uma bem cuidada
fizemos - inclui-se aí Walter Silveira - uma edição de seus belos poemas.
grande exposição da NOMUQUE EDIÇÕES no (16 de setembro de 2000)

MASP, possibilitada pela anuência do então


diretor técnico Fábio Magalhães. Erthos, uma
finíssima presença, tudo observava. Pouco
falava. Chegamos a ir jantar num restaurante
chinês da Liberdade. Quando escrevi sobre
QUEM É POETA?
as revistas em minha tese de doutorado,
ainda cheguei a falar com ele por telefone.
No início do século, mais precisamente
Quando da distribuição do meu primeiro livro
em sua primeira década, o grande poeta
2001

de prosa ficcional, enviei um exemplar a ele.

67
de língua alemã Rainer Maria Rilke dirigiu então, construa a sua vida de acordo com
(respondendo) cartas a um jovem poeta, esta necessidade. Sua vida, até em sua hora
donde podem ser pinçadas algumas dicas mais indiferente e anódina, deverá tornar-se
incríveis. O tal jovem era Franz Xavier o sinal e o testemunho de tal pressão. [...]
Kappus, que veio a publicar as tais cartas. 17.02.1903.
Para os que têm dúvidas quanto à prática (23 de setembro de 2000)

de alguma arte, aí vai trecho de carta. A


tradução é de Paulo Rónai.
[...] Pergunta se os versos são bons. Pergunta-
o a mim depois de ter perguntado a outras
pessoas. Manda-os a periódicos, compara-
os com outras poesias e inquieta-se quando
suas tentativas são recusadas por um ou
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
2000 outro redator. Pois bem - usando da licença
que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que
Não cheguei a conhecer João Cabral
deixe tudo isso. O senhor está olhando para
(Recife 1920, Rio de Janeiro 1999 e, nesse
fora, e é o que menos deveria fazer neste
interregno muitas, mas muitas cidades
momento. Ninguém o pode aconselhar ou
também fascinantes, como Sevilha,
ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho.
Barcelona, Porto). Não pessoalmente e
Procure entrar em si mesmo. Investigue
isto parece uma trama do destino, que
o motivo que o manda escrever; examine
não permitira o encontro. Porém, houve
se estende suas raízes pelos recantos
três ocasiões - excluindo-se as várias e
mais profundos de sua alma; confesse a si
excepcionais sessões de leituras feitas
mesmo: “Sou mesmo forçado a escrever?”
pelo poeta Luiz Antônio de Figueiredo que,
Escave dentro de si uma resposta profunda.
dizendo poemas como “O sim contra o
Se for afirmativa, se puder contestar àquela
sim”, explicitava as maravilhas do trabalho
2001

pergunta severa por um forte e simples “sou”,

68
de um verse maker que alcançava níveis entregasse um exemplar da CAIXA PRETA,
estratosféricos: ninguém leu João Cabral obra sua e de Julio Plaza. Acontece que
como LAF, nem o próprio João Cabral - em de Portugal só conheci Lisboa e Sintra. Da
que o encontro com a poesia cabralina se simpática capital lusitana enviei o material
efetivou, sendo que o cara-a-cara quase por correio para o Porto. Depois, soube por
aconteceu em duas delas : Augusto de Campos, que ele havia recebido
1. Nos anos 60 o seu “Auto de Natal as publicações...
Pernambucano”: MORTE E VIDA SEVERINA, 3. Quando do lançamento de suas obras
tedo sido musicado por Chico Buarque de completas pela Nova Aguilar, em São Paulo
Holanda e encenado pelo grupo do TUCA - meados dos anos 90 - ele compareceu e
(Teatro da Universidade Católica de São era a chance que eu tinha de vê-lo. Porém,
Paulo) ganhou prêmio no Festival de Teatro obrigações profissionais me impediram de
de Nancy, na França. De Volta ao Brasil, ir ao evento. Minhas amigas Vilma Maggio
2000 grande sucesso e muitas apresentações. O e Samira Chalhub foram, compraram um
grupo excursionou pelo interior e, quando da exemplar que ele autografou e me ofereceram
apresentação em Marília, tive a oportunidade como presente de aniversário.
de ver a encenação, com aquele elenco Mesmo dispondo de seu endereço no
original. Foi lindo! Mais tarde vim a conhecer Rio de Janeiro, bairro do Flamengo, onde veio
melhor a obra de Cabral e percebi que o a residir depois que se aposentou do serviço
“Morte e Vida Severina” era o menos bom diplomático, não cheguei a procurá-lo. A
de seus textos, o menos difícil... fama do mau humor cabralino me impediu
2. Viajando para a Europa em 1985 e de fazê-lo, muito embora eu o admirasse
sabendo que ele se encontrava na cidade do sobremaneira.
Porto, em Portugal, como Cônsul, pensei em Cabral ultimamente era considerado
procurá-lo e levar-lhe material poético do por muitos o maior poeta do mundo. O que
meu grupo, no que fui ajudado por Augusto eu sei é que ele foi um dos maiores poetas
2001

de Campos que o conhecia e pediu que lhe de língua portuguesa de todos os tempos e

69
que considero A EDUCAÇÃO PELA PEDRA, de Sim, é isto. O time brasileiro sempre
1966, seu maior livro. Preciosidade maior fala um repertório futebolístico altíssimo, de
entre outras tantas preciosidades. Eis aí quem já teve Leônidas, Garrincha, Ademir
um poeta cuja leitura pode ser tida como da Guia, Pelé entre outros tantos; de quem
indispensável! já foi tetracampeão do mundo; de quem já
(30 de setembro de 2000) teve um Santos FC; de quem já contou com
seleções como a de 1970 e a de 1982 que,
sendo a melhor equipe do mundo e tendo
feito uma campanha irrepreensível, perdeu
para a Itália e voltou para casa antes do
FUTEBOL esperado; de quem começa na prática do
“esporte bretão” antes mesmo de se iniciar
“Os outros times entram em campo nas primeiras letras. ALTO REPERTÓRIO.
2000 para destruir. O Brasil, ao contrário, entra É aí que, encontrando pela frente times
para construir. Os outros vão com tudo, a de baixo repertório, mas com vontade de
ponto de agredir o adversário Brasil: vale vencer, a seleção brasileira acaba sendo
um gol. Glória. Se perderem para o Brasil, derrotada, por lhe faltar o famoso “jogo de
tudo bem, mas se vierem a ganhar, será o cintura” (adequação do repertório à situação
máximo”. Foi mais ou menos isto que eu específica). Disparidade repertorial. Quem
ouvi de meu jovem amigo Alexandre. Eram conhece estratégia acaba sendo derrotado
considerações sobre o Brasil, com seu futebol pelo que não a conhece e por isso mesmo!
de resultados ultimamente deploráveis, e Na cabeça do brasileiro o gol é
isto me fez pensar nas razões para os tais importante, mas é apenas o coroamento de
resultados e a explicação a que cheguei um processo que consiste em belas jogadas
pode parecer paradoxal, mas é para pensar: - fala-se em futebol-arte. Acontece que, no
o Brasil perdeu (tem perdido) porque não final das contas o que conta são os gols e,
2001

tem tido adversários à altura. como se diz: “Quem não faz, toma!”

70
Eu compreendo as derrotas de Pound falou em três espécies de poesia: a
seleções brasileiras (inclusive a da seleção que é perpassada de forte musicalidade e
principal, recentemente, frente ao Paraguai) que é denominada melopéia; a que consiste
mas não me conformo. Fico triste. Nem numa espécie de “dança do intelecto entre as
gosto de pensar. Só espero que, com todo o palavras”, a logopéia e a que evoca, através
know how que têm com relação ao futebol, das palavras, uma imagem visual ( a que
nossos times não dêem chance ao acaso que “projeta uma imagem na retina da mente”),
desfavorece e que venham a proporcionar a fanopéia.
ao povo brasileiro - independentemente A primeira quadra - hiper-famosa -
de governos oportunistas que costumam do poema “Autopsicografia”, de Fernando
capitalizar os feitos dos meninos - grandes Pessoa contém, de maneira clara, as duas
alegrias. Pé na bola! primeiras:
Em tempo: Lembro-me da Copa de 1974,
2000 quando o time holandês forçou mudanças O poeta é um fingidor.
em tudo - impôs uma nova estratégia - e, Finge tão completamente
entre outras coisas, fez o Brasil voltar cedo Que chega a fingir que é dor
pra casa. Os holandeses, naquele ano, não A dor que deveras sente.
levaram a Taça. E nem depois. [...]
(07 de outubro de 2000) Ou, do mesmo poeta, o verso
logopaico:

[...]
Nem sei bem se sou eu quem em mim
sente.
POESIA: VER OUVIR PENSAR
O já citado “Plenilúnio” (As horas pela
2001

O poeta e crítico estadunidense Ezra alameda...) reúne as três águas: MELOPÉIA

71
LOGOPÉIA FANOPÉIA. roupas!
O “Comigo me desavim”, de Sá de [...]
Miranda, já citado na íntegra nesta coluna, é (Cesário Verde)
perpassado de elementos de musicalidade e
de jogos cerebrais. longo da linha
Gostaria de, agora, destacar a
ocorrência da Fanopéia que, como já foi dito Coqueiros
evoca imagens: o poeta torna-se um pintor, Aos dois
pinta com palavras, transforma o leitor Aos três
num espectador de cenas, faz com que ele Aos grupos
veja com os olhos da mente. Vejamos três Altos
exemplos: Baixos
(Oswald de Andrade)
2000
SATÉLITE (14 de outubro de 2000)

Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
LIVROS DE POEMAS
Satélite.
[...]
Há livros e livros de poemas. Há
(Manuel Bandeira)
alguns que são simples reuniões de poemas
[...] em volumes, coisa que muitos poetas
fazem periodicamente, dada uma produção
2001

Pobre esqueleto branco entre as nevadas

72
incessante. Outros livros, porém, são ser feito por você! Porém, compare, você já
inteiros, pensados, são redondos, como os terá critérios. Poema isolado é uma coisa,
de João Cabral de Melo Neto, que concebia conjunto é outra.
um livro como um todo, com unidade, Em tempo: Mensagem é uma espécie de
mesmo sendo composto por poemas curtos. épico: o épico possível apresentado num
Da produção poética em Português, no concurso por Fernando Pessoa. Épico
século XX, tenho alguns poucos livros em estranho, pois que é feito de quadros
alta conta, justo aqueles que proporcionam congelados, não tendo, portanto, a
prazer por inteiro, e vou enumerá-los movimentação que caracteriza os épicos.
agora: Tem, sim, muito de histórico, de referencial,
mesclado a um lirismo sutil, que se utiliza
.De Oswald de Andrade: Pau-Brasil (1925) de poemas curtos, com versos de diferentes
e Primeiro Caderno do Aluno de Poesia medidas que não chegam a seiscentos
2000 Oswald de Andrade (1927); (contra os mais de oito mil decassílabos
.de Manuel Bandeira: Libertinagem dos Lusíadas, de Camões!). São quadros
(1930); precisos da saga lusitana, só que estáticos...
.de Fernando Pessoa: Mensagem (1934); Peças pequenas, os poemas que compõem o
.de Carlos Drummond de Andrade: Alguma livro são verdadeiras jóias. Foi o único livro
Poesia (1930) e A Rosa do Povo (1945); de poemas que Fernando Pessoa publicou
.de João Cabral de Melo Neto: A Educação em Português (1934), pois muito de sua
Pela Pedra (1966). obra poética saiu em revistas. Pessoa veio
São Livros que podem ser lidos em a falecer em 1935, aos 47 anos de idade.
uma hora e meia ou em duas horas, mas Bem, e o tal concurso? Pela obra-prima da
depois ocuparão muitas horas do resto Mensagem Fernando Pessoa recebeu um
de nossas vidas, tão belos são: trazem a prêmio de “segunda categoria”...
poesia em versos, da melhor. É claro que (21 de outubro de 2000)
2001

essa lista poderá ser ampliada e isto pode

73
POESIA E TEORIA: O QUE LER? úteis: dos de rimas aos que trazem toda a
terminologia do mundo da Poesia (figuras
Em matéria de poesia, é melhor etc).
começar com poemas e esta recomendação Quanto aos textos que refletem,
já foi feita anteriormente. A partir daí, um teríamos de começar pelos gregos e chegar
pouco de teoria não faria mal a ninguém. à segunda metade do século XX. Porém, não
No universo do teórico, há dois tipos é para ninguém se assustar, são poucos os
de leituras: as que são técnicas, como os textos realmente fundamentais, os quais
tratados de versificacão e as que refletem podem esperar até que o seu repertório
sobre o fenômeno poético; aí, um atalho possa dar conta deles. Depois, lê-se tudo.
diria respeito a comentários e à crítica Bem, os textos são os seguintes: a Poética de
propriamente dita e quem melhor faz isso Aristóteles (deixar Platão para depois, com
são os próprios poetas - de Manuel Bandeira, seus textos que tocam a questão da poesia
2000 passando por Borges e Octavio Paz, a Décio e dos poetas, pois, num primeiro momento,
Pignatari. É importante ler sempre o que aquela discussão toda não interessa). “A
dizem os poetas sobre poesia, além daquela Filosofia da Composição”, de Edgar Allan
que eles fazem. Essa reflexão poderá estar Poe. “Poesia e Pensamento Abstrato”, de
num artigo (numa prosa metalingüística) ou Paul Valéry. “Os caracteres da escrita chinesa
até num poema (vide “Poética”, de Manuel como um meio para a poesia”, de Ernest
Bandeira, “Procura da Poesia”, de Drummond, Fenollosa. ABC da Literatura, de Ezra Pound.
“Anti-ode”, de João Cabral, por exemplo). “A Arte como Procedimento”, de Chklóvsky.
Tratados de versificação, temos de recorrer “Lingüística e Poética”, de Roman Jakobson.
ao de Olavo Bilac e Guimarães Passos e ao E, especialmente para os de lusilíngua,
de Said Ali (este, com um certo cuidado, pois mormente os brasileiros, “Texto e História”,
o sistema que ele adota não é o que acabou de Haroldo de Campos.
ficando consagrado entre nós, o de contar Isto já é um material que dará o que
2001

até a última sílaba forte...).Há dicionários pensar por, pelo menos, uma década. Parta,

74
depois, para outros autores, pois você já penso que mais de quatrocentas vezes (em
terá parâmetros teóricos para julgá-los. algumas para ver três ou quatro peças, as
(28 de outubro de 2000) minhas preferidas: um Toulouse-Lautrec, um
Cézanne, um Monet, um Manet, a “Bailarina
de Catorze Anos”, bronze de Degas). O MASP
é um pequeno grande museu. Isto quer dizer
que possui um acervo pequeno, se formos
MASP – MUSEU DE ARTE DE SÃO compará-lo com museus da Europa e dos
PAULO “ASSIS CHATEAUBRIAND” Estados Unidos, mas grande no sentido de
que as obras que lá se encontram são da mais
Criado em 1947, o maior museu alta qualidade: qualquer museu do mundo
de arte da América Latina, o MASP, traz desejaria tê-las. Um museu, em verdade não
consigo o peso de três nomes, a saber: precisa ter cem mil peças. Com quinhentas
2000 Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, obras se faz um grande museu, bastando
Pietro Maria Bardi e Lina Bo Bardi. Mortos, para isto que elas tenham qualidade. Um
já, os três, o Prof. Bardi recentemente, aos museu serve para dar uma idéia de como a
99 anos. Pietro e Lina cheguei a conhecer Arte se comportou num determinado período
pessoalmente, ainda que pouco. Conversei ou desde sempre, mas, antes de tudo, serve
com ambos, mais com ele, pois era comum para possibilitar o acesso de todos ao que
que o encontrasse no elevador do museu e de melhor se produziu em termos de arte,
isto era oportunidade para cumprimentá- além da preservação e conservação das
lo. Visito o MASP desde os anos 60, quando obras. Mas um museu, que não precisa ser
ainda se encontrava no prédio dos Diários necessariamente completo, tem como papel
Associados, na 7 de Abril, centro de São principal possibilitar ao fruidor a experiência
Paulo. Talvez que, excetuando-se as pessoas que é aquele de estar frente a frente com um
que trabalham no museu, eu seja quem objeto único, aurático. Todo Museu interessa
2001

mais tenha estado em suas dependências: porque é constituído de objetos únicos.

75
Mário Pedrosa , grande crítico de arte, em o museu como um todo. Para se estudarem
carta de 1958 a Oscar Niemeyer, propõe um certas fases da Arte Ocidental, é preciso
museu para Brasília que seria feito, não de sair-se do Brasil, porém o MASP já oferece
obras, mas de cópias e reproduções, dada aos aficionados um mínimo que não é nada
a impossibilidade de se formar, na nova pouco.
capital, um museu realmente importante. (04 de novembro de 2000)

Com toda a grandeza e sabedoria de que


era portador, Mário Pedrosa não pensou que
as coisas mais importantes que um museu
pode oferecer são - mesmo que poucos -
objetos únicos que possibilitem a experiência (ERRÂNCIAS DE) DÉCIO PIGNATARI
acima mencionada. Em outras propostas
o crítico foi mais feliz. Hoje falamos em Se conheci pessoas absolutamente
2000 banco de dados, banco de imagens. Nada geniais e que tive a sorte de ter uma longa
disso substitui a tal experiência. Quanto ao convivência, Décio Pignatari é uma delas.
MASP, continuo um seu admirador, só não Uma coisa que chega a incomodar em Décio é
concordo com o processo de kitschização o excesso... de inteligência. Sim, excesso de
por que tem passado, pois as curadorias têm inteligência. Em tudo o que diz e/ou escreve:
construído um museu (falso) antigo dentro formulações claras e contundentes, sempre.
do moderno, destruindo o projeto original Tudo isto me vem à cabeça a propósito da
de Lina Bo e expondo as obras de uma leitura de seu último livro (terminei de lê-
maneira tradicional. Cada vez gosto mais do lo ontem, 23 de maio de 2000) Errâncias,
projeto de exposição da arquiteta italiana: publicado pela Editora do SENAC. Belo
sem paredes, suportes de vidro, uma visão volume, bem cuidado graficamente, mas
geral do que está sendo exposto. O MASP sem nenhum arrojo. Textos são escritos a
de Lina Bo: arquitetura e exposição, eram propósito de fotografias curtidas ou tiradas
2001

elementos diferenciadores que valorizavam pelo próprio Décio. Elas seriam o ponto

76
de partida para digressões e para uma 1 (1975) e nunca mais publicou. Não o
escrituração maravilhosa. Décio tem assumiu em se POESIA POIS É POESIA
uma escolha lexical e uma articulação do PO&TC:
verbal raras. Os textos ficam entre a prosa
histórica - à maneira de uma crônica - e
a prosa ficcional artística, de uma força Ai!cai
não encontrada na atual prosa de ficção
brasileira. Tem cara de testamento, em que signos que ficam - faço!
o autor aborda pessoas - principalmente porém, signo dos signos,
- que mereceram a sua atenção. E estas não fico - passo.
acabam sendo bem poucas, pouquíssimas,
dentre as milhares com quem Décio (11 de novembro de 2000)

conversou mais de meia dúzia de vezes


2000 nesses seus mais de setenta anos. Muito
embora alguns resenhadores tenham
colocado livros outros como antecessores
do de Décio, para mim, o livro mais próximo
de Errâncias é o Atlas (1984) de Jorge Luis JOSÉ LINO GRÜNEWALD
Borges. A prosa de Décio, ali é tão refinada
que chega às alturas de um Machado de
Assis, assim como sua poesia se aproxima Com quantas palavras se faz um
muito da de E. E. Cummings, por serem poema? O que a poesia tem a ver com o
ambos( Décio e Cummings) os maiores espaço em branco - o silêncio - da página?
olhos tipográficos deste século. Um poema pode induzir a brincadeiras e
Bem, a propósito da obra de Décio jogos? As respostas podem ser obtidas
Pignatari, veio-me à memória um poemeto olhando o poema que se segue, de autoria
2001

que ele mandou para a revista ARTÉRIA de José Lino Grünewald:

77
- ambos nascidos em 1931: Zélino dia 13 e
vai e vem Augusto no dia 14 de fevereiro.
José Lino, além de importante poeta,
e e foi jornalista, crítico de cinema, tradutor,
grande conhecedor de poesia além da
vem e vai tradição de Língua Portuguesa e um expert
em música popular brasileira e outras, que
Este é o mais famoso poema concreto conhecia como poucos (principalmente a
de José Lino Grünewald, de 1959 (primeira que foi feita antes da Bossa Nova).
publicação em NOIGANDRES 5, de 1962) Faleceu, José Lino Grünewald, em
poema que espanta pelo que nele há de julho deste ano. O corpo não agüentou tanta
simplicidade, economia e sabedoria. Correu extravagância e se desincumbiu da alma...
o mundo. É um dos cariocas mais ilustres deste século
2000 Morando no Rio de Janeiro - carioca e isto não é pouco. Gostava das frases de
que era Zélino - poucas vezes estive com efeito, como que sentia prazer em chocar
ele: que eu me lembre duas: uma em 1975, ouvintes menos avisados. Teve o grande
logo depois de lançada a revista ARTÉRIA 1. mérito de produzir poesia boa e pouca.
O encontro foi num bar de Copacabana e ele Numa época de excessos, teve a coragem
ficou impressionado com o poema reviravolta de ser parcimonioso e simples.
de Paulo Miranda que, por sinal possuía uma (18 de novembro de 2000)

grande afinidade com o seu “vai e vem”,


porém o que o outro obrigava em termos
de passeio do olho, o de Miranda exigia em
termos de manuseio. Em ambos a dimensão
lúdica importante. O segundo encontro se
deu nos anos 80, em São Paulo, em casa de
2001

Augusto de Campos, companheiro e cunhado

78
UMA CERTA FOTOGRAFIA de 2000, falando com meu irmão Válter
ao telefone, ele me disse: “O Volpato me
Aquela fotografia havia me provocado entregou uma foto sua, talvez dos anos 60
náuseas: tal compleição física me causava e que ele encontrou entre os encalhes da
repugnância e o maior desejo meu era firma. Não sei se você se lembra dela. Deve
não vê-la e, a seguir, esquecê-la. Como?! ter sido em sua formatura. Está guardada.
Como poderia o fotógrafo ter flagrado algo Quando você vier para Pirajuí, eu lha darei”.
inimaginável? Não, não era eu aquele ser Estremeci, mas nem tanto. Aquela fotografia
puro nariz, que faria mirrar o poemeto célebre me veio à lembrança como, nada mais nada
de Bocage (Nariz, nariz e nariz), parodiado/ menos, que uma FOTOGRAFIA: a prova da
recriado belamente por Juca Chaves. Uma minha feiúra juvenil. Mesmo assim, fiquei
magreza de fazer dó: um nariz amparado ansioso para revê-la. Aquele esqueleto
por um esqueleto andante (ou supostamente coberto com panos de cor cáqui!
2000 andante). Um braço-só-osso estendido, Examinando a foto calmamente,
apanhando das mãos da paraninfa aquele percebi que não sentia nenhum asco, não
diploma. Era o ano de 1969 e eu acabava de tinha nenhum pejo. Sem problemas, eu
concluir o Curso Clássico, no IEDAP. a mostraria a qualquer pessoa, dizendo
É, a fotografia como um signo que era eu e como eu era magro e como
indicial, ou seja, como um signo que traz parecia deprimido naquela solenidade de um
as marcas físicas do seu objeto (no caso, dezembro escaldante. Guardei-a com muito
eu) incomodou-me além do normal. Fosse cuidado, do mesmo modo que conservo
um desenho, uma caricatura (um nariz com fotos, para mim, preciosas.
uma pessoa por detrás) seria tolerável, mas Já que fiz referência ao grande Bocage,
uma fotografia?! Abominei aquele registro, poeta português que viveu de 1766 a 1805,
não o adquiri do fotógrafo e releguei o fato vai aí, como brinde aos meus leitores, seu
(a foto) ao esquecimento. precioso poema por mim acima referido:
2001

Eis que um dia, neste Ano da Graça

79
Nariz, nariz e nariz pela estante, olhar com desprezo e sequer
Nariz que nunca se acaba, tocá-lo. Por outro lado as pessoas esperam
Nariz que se ele desaba
que, se você está na posse de um livro é
Fará o mundo infeliz!
porque deve tê-lo lido.
Nariz que Newton não quis Engano. Um livro pode esperar anos,
Descrever-lhe a diagonal, até décadas ou até mesmo não ser lido por
Nariz de massa infernal, aquele que o possui. Às vezes temos um
Que, se o cálculo não erra
livro pelo simples prazer de termos ao nosso
Posto entre o Sol e a Terra
Faria eclipse total. alcance uma fonte de conhecimentos: a
coisa fica ali, disponível. Mas por falar em
(25 de novembro de 2000) disponibilidade, eis aí a INTERNET. Então,
não é necessário ter em casa um volume ou
muitos, que venham a ocupar um grande
2000 espaço e até atrapalhar (não para quem ama
livros e não apenas o seu suposto conteúdo:
LIVROS: POR QUE LÊ-LOS? gosta, curte o livro enquanto objeto e fatura
gráfica).
Para que serve um livro? Para ler, diriam Bem, livros eu os adquiro desde a
todas as pessoas que têm a palavra livro adolescência e gosto de possuí-los. Alguns
como parte integrante de seu vocabulário. adquiro para uso imediato, outros para suprir
Porém, eu diria diferente: um livro não deve a falta, completar conhecimentos específicos,
necessariamente ser lido: ele até pode ser porém, alguns outros compro na certeza de
lido. poder lê-los no futuro. E o futuro chega e
É muito bom saber que as coisas são se torna presente e passado, bastando que
ou podem ser assim. Acontece que os livros estejamos vivos para ver (ler).
“querem” ser lidos e o pior desafio que se De todos os casos de livros que em
2001

pode fazer a um deles é não lê-lo: passar minha estante esperaram muito para

80
serem lidos, um é o mais interessante: de quem passou por anos de psicanálise,
As Palavras, do filósofo existencialista com alguns acertos de contas e injustiças
Jean-Paul Sartre. Trata-se de um texto - com Rogério Duprat, o grande arranjador
autobiográfico, permeado de refexões da Tropicália, por exemplo - bom porque
complicadas sobre o existir. Diria: um texto Caetano é bom em quase tudo o que fez e
difícil, não tanto pelo emprego lexical como faz, mas, convenhamos, ninguém tem tanto
pela complexidade da carga semântica e de para dizer, que precise de 510 páginas!).
sua articulação narrativo-pensamental. Um Na obra, Caetano faz referência ao texto
texto pesado. Bem, durante meu Curso sartreano, mostrando a maior consideração
Clássico li, juntamente com alguns amigos, por ele.
textos de Sartre, principalmente os de ficção: Foi aí que me lembrei de procurar a
contos, teatro etc. Textos propriamente obra em casa de minha mãe. Lá estava o
filosóficos, pouca coisa. Foi nessa época, volume intacto, aguardando ainda que eu
2000 segunda metade dos anos 60, numa de me dispusesse a lê-lo. E foi o que fiz, sem
minhas viagens a São Paulo, que adquiri nenhum prazer e eu o li na íntegra. Percebi
vários volumes do filósofo francês, entre os que, se por um lado, literariamente, não
quais o mencionado As Palavras. Era o ano de era uma escritura excepcional, por outro, o
1967 (na época, tinha o costume de colocar pensamento de Sartre era uma coisa datada
meu nome nos volumes que comprava, mais e, portanto, out of date, demodé(e).
o ano. Hoje - de duas décadas e meia, para Essa experência de ler uma obra
cá - deixo que o livro seja um objeto ao adquirida trinta anos depois, eu a relato aos
portador...). De sua leitura, não passei da alunos que me olham, via de regra, descrentes.
décima página. Abandonei a empreitada. Mas é esta a verdade verdadeira.
Tudo transcorria normalmente quando, Amo os livros. Faço-os, compro-os,
lendo, em 1997, o volume autobiográfico ofereço-os de todas as maneiras. Porém
de Caetano Veloso Verdade Tropical (diga- penso que um livro não deva necessariamente
2001

se: interessante, excessivo, narcísico, obra ser lido, mas a leitura entra como uma

81
possibilidade. Porém, um livro quer mesmo fez com que a região se fosse povoando de
é ser lido! gente de todo o mundo, a qual se superpôs
(02 de dezembro de 2000) ao estrato nativo - o dos indígenas (havia
muitos índios em nossa região; a maioria
acabou perecendo) - e da população de
origem luso-brasileira. Vieram italianos,
espanhóis, portugueses, árabes cristãos,
MEU AVÔ: O CHICO TURCO principalmente do que depois seria o
Líbano (antiga Fenícia), russos, poloneses,
Pirajuí é das cidades que nasceram japoneses (1908, Santos: a primeira leva de
nesta Noroeste do Estado de São Paulo, na imigrantes nipônicos).
virada do século XIX para o XX e nasceu em Há mais ou menos cem anos, chegava
função do café, que se alastrava por estas ao Brasil meu bisavô, pai de minha avó Lula,
2000 paragens, chegando a ser precedido pela fixando-se na região de Pederneiras, São
estrada-de-ferro, café que atingiria o norte Paulo. Meu avô, pai de minha mãe, nascido
do Paraná, mas que, antes, trouxe muita no Líbano em 1888, época em que a área
glória para esta região - toda aquela glória estava sob o domínio do Império Turco (daí
que o dinheiro pode proporcionar, na sua o equívoco de chamar os de cultura árabe de
exata medida. Pirajuí chegou a ser o maior turcos, erro que se consagrou em nosso país,
município cafeeiro do mundo. mas não só) chegou ao Brasil em inícios do
Uma das coisas a se notar (e o café, século XX (1910) e acabou por se fixar em
que fez com que a gloriosa São Paulo dos Pirajuhy, abrindo firma já em 1912: a que
desbravadores, sempre pobre, começasse a veio a ser a CASA ÚNICA (é o que consta
conhecer a cor do dinheiro quando atingiu no registro da Associação Comercial de São
a Província, ainda na primeira metade do Paulo).
século XIX): o cheiro do dinheiro propiciado Rachid Cury, que ficou conhecido como
2001

pelo ouro-verde despertou interesse, o que Chico Turco, casou-se com sua prima-irmã

82
Lula Neme, em 1915. Constituiu família - continuou freqüentando a loja diariamente,
numerosíssima: o casal teve 12 filhos - e mesmo depois da morte de meu avô. Havia
manteve lojas em Pirajuí e no Balbinos. uma cadeira sempre esperando por ele, que
A mais antiga loja ainda viva de Pirajuí era recebido pelo Mude - Edmundo - irmão
(a Casa Única resiste!) já teve de tudo: de de minha mãe).
arroz e feijão a tecidos e gasolina. Casa de meus avós: uma mistura de
A casa (que, como de costume, ficava Líbano com Brasil paulista: quibe com arroz
acoplada ao estabelecimento comercial) e feijão. Café: a síntese Arábia-Brasil.
sempre aberta: não havia dia em que Meu avó Rachid Cury: o Chico Turco,
duas ou três pessoas de fora não ficassem como todos o conheciam. Não éramos
para almoçar e/ou jantar. Muitos dos que turcos (trata-se de uma outra etnia) e sim
chegavam da terrinha lá se hospedavam. pertencentes a povo de cultura árabe não-
Hóspedes? De três dias a três semanas, a islâmica que adotou o Brasil como moradia
2000 três anos!... Já não existe essa hospitalidade perene: descendentes em linha direta de
ou generosidade - são outros os tempos. Abraão, árabes cristãos, em definitivo nos
Ninguém mais se dispõe a tanto! Quando trópicos.
nasci, em 1948, ainda foi em casa de meus Pirajuí era um fragmento da cidade que
avós. se tornava uma metrópole nacional. Pirajuí,
Lembro-me de alguns dos grandes como muitas outras cidades paulistas, era
amigos da casa, como o Dr. Jorge Meirelles uma espécie de miniatura da Capital: São
da Rocha (conduta irrepreensível: correto, Paulo de Piratininga.
sempre disposto, generoso, simpático. A Em tempo: Era numerosíssima a colônia
conta: uma vez por ano e bem aquém do árabe em Pirajuí (talvez que só perdesse
que deveria ser) os Santaroza (fazendeiros para a italiana e a portuguesa) que chegou
de café, família muito numerosa, cuja a ter uma escola onde se ensinava a língua
amizade com minha família se conserva até árabe. Hoje, muitos dos nomes de famílias
2001

hoje) Sr. Chico de Góes (pessoa finíssima, já não existem em nossa cidade. Meu avô

83
chegou a fazer fortuna, mas, num único A ESCOLA DO FUTURO
negócio (por confiar na palavra dos
outros: ele era um homem de palavra), Em fins do ano passado, alunas
perdeu sete mil sacas de café: todo o seu minhas do IA-UNESP, não sei se para se
capital móvel. Porém caiu de pé. Seus desincumbirem de uma tarefa vieram me
filhos mais velhos (Salim, Miguel, Carlos, perguntar sobre como eu achava que seria
o “Gidala”) chegaram a estudar em São a escola do futuro. Sendo alguém que
Paulo, em escola árabe. Chico Turco não sempre gostou de questões e tendo sido
chegou a ficar muito velho: um diabetes quase sempre professor, atrevi-me a lhes
aliado à má vontade com relação a regimes responder, embora calmamente, sobre
alimentares fez com que perdesse uma como eu pensava o problema ESCOLA.
perna e em seguida morresse. Foi no ano O problema. Sim. Numa sociedade que
de 1956. cresceu como cresceu a nossa (refiro-me à
2000 Obs.: Interessante seria se, neste sociedade do Planeta) nos últimos duzentos
periódico, pessoas de Pirajuí escrevessem e cinqüenta anos, a escola foi-se tornando,
sobre suas respectivas famílias. Que a cada dia que passava, mais e mais
os muitos relatos fossem formando importante. Porém, a sua configuração e o
uma certa história do Município. Que a processo de ensino/aprendizagem poderão
memória dessas famílias fosse preservada estar mudando radicalmente. E tudo tem a
pelos depoimentos, incluindo os registros ver com as mais avançadas tecnologias, com
fotográficos e outros. aquilo que está tão em moda falar, que é a
(09 de dezembro de 2000) chamada EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA. Bem,
tudo de que necessitará a escola do futuro
já está aí, mas a viabilidade econômica para
uma aplicação geral terá de esperar mais
algum tempo . Por isso dizemos, ainda,
2001

ESCOLA DO FUTURO. Numa tal escola , o

84
professor ou instrutor continuará a ter um de não escrever, não falava? A escola tem de
papel fundamental, só que, de uma central, julgar o aluno, mas sempre julga com uma
que cobrirá uma pequena cidade, ou parte única medida, quando sabemos que há tipos
de uma megalópole, dará intruções a um diferentes de inteligência. Como reprovar
número muito maior de alunos que terão um aluno numa única disciplina? Ele poderá
a chance de perguntar ou responder no ser tão bom em outras... Não subestimo
ato a estímulos. Ao mesmo tempo, vai ser meus alunos. O tempo me ensinou que, às
visto pelo mestre e demais participantes do vezes, o melhor não é o que sempre se saiu
processo: da AULA. TV e INTERNET, tudo bem nas coisas escolares, embora até possa
acoplado, com telão plano de alta definição vir a ser. Atualmente, nas duas instituições
nas casas. Periodicamente, um encontro de de ensino superior onde trabalho, encontro
participantes com aula cara-a-cara, até ao alunos com repertório acima de qualquer
ar livre, como eram as preleções socráticas média e sei que eles contam com muitas
2000 na Antiga Grécia. A abrangência, de tempos fontes para obter informação: do convívio
em tempos poderá aumentar até uma escala com os colegas (onde brotam discussões)
nacional, ou mesmo mundial, dependendo ao livro, INTERNET, discos, TV, rádio, aulas,
dos conteúdos a serem ministrados e dos conferências, viagens freqüentes... Por quais
interesses que estiverem em jogo. razões eu complicaria a a vida dos alunos
.......................................................... com provas dificílimas se, no presente e
Sempre fui contra reprovações. num futuro próximo, eles disporão de toda
Difícil foi a vez que não tive problemas em informação essencial para que tenham um
conselhos de classe nas escolas estaduais bom desempenho na vida? Minha grande
onde trabalhei. Sempre considerei uma preocupação é dar boas aulas. Quando
barbaridade alguém falante e pensante do avalio através dos instrumentos tradicionais,
Português, aluno freqüentador das aulas procuro medir a aplicação, pois a inteligência
vir com zero ou E em Língua Portuguesa. - muito embora transpareça em tudo o que
2001

Como seria possível? Afinal, o aluno, além ele fizer - poderá sonegá-la e só mostrá-

85
la plenamente em ambiente completamente do fim. Na Holanda, mesmo não legalizada,
outro. Que a avaliação tradicional não seja já era praticada e agora se encaminha para
algo intimidador ou o melhor juiz. ser um procedimento legal. Permissão para
Espero que a ESCOLA DO FUTURO provocar a morte.
resolva esse tipo de problema. O desempenho Não quero fazer média com religião,
na vida é que fará a melhor avaliação. Que o nem ser politicamente correto, tampouco
diga Einstein! moderninho, mas a Holanda, país que nós
(16 de dezembro de 2000) pirajuienses conhecemos, principalmente
pelos padres católicos que de lá vieram
para nossa paróquia, permanecendo
durante anos – e, é claro, o Padre João,
inesquecível figura, sobressai – Holanda que
já esteve na vanguarda de tanta coisa de
2000 ordem comportamental, vem agora reiterar
DO DIREITO À BELAMORTE sua posição com o encaminhamento da
legalização da eutanásia.
Assim como euforia, eufemismo, Doença é coisa dura, o envelhecimento
eufonia, eurritmia, evangelhotêm algo de é terrível. Tudo se torna suportável desde
positivo, bem belo, bom, agradável, dado que a pessoa possua a alegria de viver: o
pelo prefixo grego EU, eutanásia significa a bem-estar-no-mundo é fundamental para
morte agradável, bela, ou, pelo menos, morte qualquer idade, onde quer que se esteja
que vem para bem. Sabemos que a palavra nesse nosso pequeno planeta. A velhice traz
tem a ver com uma certa ação, que esbarra consigo uma série de desvantagens: processo
em questões éticas e religiosas e que consiste de enfeamento, enfraquecimento,perda da
no abreviamento do sofrer: a EUTANÁSIA objetividade, perda da curiosidade (ou sua
(THÁNATOS = morte) seria a indução à morte diminuição), indisposição, falta de vontade,
2001

frente ao inevitável sofrimento a caminho tédio. Dizem que se ganha em sabedoria

86
(se tanto). Isso consolaria alguém? De pessoas levantarão a bandeira do direito
qualquer modo, velhos são fundamentais nas à morte, mesmo gozando de plena saúde.
comunidades, assim como crianças e jovens. E haverá departamento especialmente
Só que poucos são os que têm paciência com destinado a examinar os pedidos e executá-
os idosos, que ficam sem interlocutores. los. A realidade estará se encontrando com
O escritor argentino Jorge Luis Borges o que já expusera a ficcão. Isto não será
falava com tranqüilidade sobre a morte, bom nem mau. Será o inevitável.
dizendo estar pronto para desacontecer. Eu, por meu turno, louvo os que
Contava também sobre uma sua avó e sua suportam até o fim natural uma existência
mãe, Dona Leonor Acevedo de Borges, que medíocre, inútil e entediante. Já basta a
esperando morrer durante o sono, chorava angústia da certeza da morte. E que vivam
ao se dar por viva no dia seguinte. Só os vivos!
desencarnou, a velha mãe, aos 99 anos. (23 de dezembro de 2000)

2000 Pessoas velhas podem chegar a um estado


de tédio total e apenas suportar a existência.
Mas suportam! Pessoas louváveis essas
que suportam o tédio por anos a fio e não
provocam a própria morte (não foi o caso ENFIM, O FIM DO SÉCULO
do filósofo Sócrates que, no ano de 399 aC,
preferiu tomar a cicuta a que foi condenado, A história é construída. Construída por
mesmo ante a possibilidade de fugir). aqueles que selecionam temas sobre os quais
Porém, num futuro não muito distante, dada vão escrever e escrevem. Escrevem com
a superpopulação da Terra e ao aumento base em documentos por eles selecionados e
da média de vida (dizem que, em alguns interpretados à luz de teorias que funcionam
países, passará dos cem anos. Deus me com uma espécie de “filtro”. O que escrevem
livre! Minha parte eu quereria em céu, um passa, obviamente, pela visão de mundo,
2001

céu católico) o tédio grassando as cidades, pela visão da classe social/comunidade a

87
que pertencem os historiadores. Eles, então, um categórico não. Porém, sempre havia
constróem. aqueles mais rápidos no gatilho, como foi
Tempo: está intimamente ligado à o caso de um certo Germano – inteligência
História (o nome e a origem do campo de fulgurante – que me respondeu: “É claro,
estudo são gregos). “História é a ciência que professor, senão, como é que eu estaria aqui
estuda o homem no tempo” (sem deixar hoje?” Isto servia para detonar qualquer
de considerar o espaço). O termo grego preconceito em relação à antigüidade no
khronos, significando tempo, entra em Planeta. Já bastavam as questões que
muitas palavras por nós utilizadas, a começar envolviam a aristocracia nos vários lugares
por cronologia. E a cronologia foi e é uma e, em São Paulo, os quatrocentões, já tão
preocupação das mais variadas civilizações. decadentes e mesmo os apenas centenários.
Tendo sido formado em História e tendo Acontece que, às vezes, não temos à mão as
exercido por quase três décadas o ofício de referências quanto à origem… Quando temos,
2000 professor,, sempre tive preocupações com nós as usamos com orgulho. Como, por
a questão tempo – não com a péssima exemplo, eu me colocar como descendente
obrigação de decorar datas, pois o importante em linha direta de Abraão – pelo menos,
é saber das coisas, se se colocam antes é o que diz a tradição – já que os árabes
ou depois de outras que lhes são postas e judeus, semitas que são, descendem do
como referências. As próprias questões que Patriarca. E para chocar principalmente os
envolvem o ser humano sobre a face da evangélicos (sempre sabidos nas questões
terra eram por mim cogitadas. E nós? E a das Sagradas Escrituras) eu dizia: “Jesus
nossa família? Quanto tempo tem a nossa Cristo é meu primo!” Bem, as brincadeiras
família? Uma pergunta que eu fazia sobre eram bastante sérias. O que não diriam os
isto para as quintas séries no primeiro dia de de ascendência africana, então? Tudo indica
aula: “Alguém, aqui, tem algum parente que que o ser humano surgiu primeiro na sofrida
viveu há cinco mil anos?” Fazia, geralmente, e gloriosa África!
2001

um grande silêncio, seguido, às vezes, de Bem, mas retomemos a coisa da

88
cronologia: cada civilização tem a sua,
estabelece (determina, escolhe) seu ano
1. Este é diferente para chineses, judeus,
cristãos, muçulmanos, assim como o foi
para os gregos da Antigüidade. O nosso
ano 1 – nós, pertencentes à Civilização
Cristã Ocidental – corresponde ao ano do
nascimento de Cristo. Mesmo aí, porém,
houve problema, pois quem tardiamente
calculou, calculou errado o nascimento de
Jesus Cristo. Este teria nascido cerca de
quatro anos antes e, portanto, já teríamos
mudado de século e milênio, bem antes.
2000 Mas, do jeito que as coisas ficaram, é melhor
deixar… O erro se consagrou e é o que vale.
Já que vale isto, é bom saber
que o ano que termina em zero encerra a
década, em zero zero, o século, e, em zero
zero zero, o milênio. Porém, toda a graça
estava na coisa dos três zeros de 2000 e até a
mídia cometeu erros em função disto. 2000,
em verdade, está encerrando a década, o
século (XX) e o milênio (2º dC). 2001: novo
milênio, século década.
SALVE! AUGURI! XAIPE!
(30 de dezembro de 2000)
2001

89
2001
significa que basta estar em São Paulo para

2000
se estar por dentro das coisas. O informar-
se requer esforço. Possuir alto repertório dá
trabalho.
Democracia quanto ao conhecimento
é permitir o acesso de todos à informação
e não obrigá-los a engolir informações
altamente complexas. Nem todos estão a
fim de adquirir certas informações, aquelas
que uma elite presunçosa acha que o povo
deva ter. Ser bem informado não significa
ter lido três mil volumes etc etc etc. Ser bem
informado é ter o conjunto das informações
2001 necessárias para um bom desempenho no
campo em que se atua.
Oswald de Andrade, acusado de ler
pouco, dispunha, no entanto, das informações
informar-se necessárias (sabia onde buscá-las) para
ter uma performance das mais destacadas
Alguém pode viver em meio a um em nosso Modernismo, tendo feito obra
mar de informações e não ter interesse em substancial no campo da Poesia, da Prosa
absorvê-las. O contrário pode ocorrer: num Ficcional, da Teoria/Crítica e do Teatro. A
lugar afastado do burburinho dos grandes tão propalada pouca leitura de Oswald não
centros, dependendo do interesse e das correspondia à verdade; ele simplesmente
fontes necessárias, uma pessoa poderá não era um rato de biblioteca, mas informava-
estar bem informada. São Paulo é a mais se também nos livros. É importante destacar
2002

bem informada cidade do País, o que não que o livro é apenas uma dentre as muitas

91
fontes de aquisição de conhecimentos, não emprestada de outrem, ganhou colorido

2000
a única, embora importantíssima. poundiano). Organizar um paideuma significa
Se, em outros tempos, era difícil dar selecionar tão rigorosamente peças da
conta das informações disponíveis, hoje, tradição, que o leitor iniciante, com o mínimo
é impossível: somos bombardeados pelas de esforço, venha a ter em mãos o melhor do
mídias. É óbvio que 90% do que aparece é que se produziu. O máximo de informação
lixo cultural, na melhor das hipóteses. Mas estética num mínimo, quantitativamente
aí é que está: não é fácil selecionar, extrair falando.. Um mínimo em quantidade com
as pérolas em meio ao estrume. Precisamos o máximo de qualidade. Non multa sed
contar com quem nos ajude na seleção multum. Não muito mas muito. Pouco, mas,
daquilo a ser digerido: professores e críticos o melhor!
(aqueles que têm prazer em transmitir (06 de janeiro de 2001)

conhecimentos e os que fazem uma crítica


2001 iluminadora). Sempre se pode contar com os
mais velhos próximos de nós, que deverão
nos auxiliar no trabalho de seleção estética e
outros. Nisso tudo, algo de muita importância
é o domínio da língua, no sentido de uma tv/censura
expressão clara e correta do pensamento, o
que não se confunde com a mesquinhez dos Liberdade de expressão. Você já pensou
purismos. sobre isto? Hoje, no Brasil, há liberdade de
O poeta e crítico Ezra Pound, muitas expressão? Há limites para a tal liberdade?
vezes citado nesta coluna teve, entre outras, A TV apresenta qualidade? A censura é
a preocupação da transmissão do melhor da legítima? Todas essas são questões que
tradição poética. Como passar adiante tais acabam por envolver todos nós e deveríamos
conhecimentos? Daí ter trabalhado a noção nos preocupar com as possíveis respostas.
2002

de Paideuma (a palavra é grega e a noção, Eu diria que hoje, no Brasil, há

92
liberdade de expressão, legalmente falando mundo todo. A mediocridade, o KITSCH não

2000
e de fato (quem viveu a recente Ditadura têm fronteiras, diga-se.
Militar, principalmente a época do Governo A TV não tem obrigação de levar ao ar
Médici, haverá de concordar comigo). “papos cabeça” mas até chega a fazer isto.
A liberdade, porém, tem limites. Um Para certos tipos de informação devemos
é mais prosaico e diz respeito ao próprio procurar livros, filósofos, jornais e desligar
emprego: uma pessoa (jornalista etc) não a TV. Cultura de massa é isso mesmo: pura
pode se posicionar contra a linha editorial diluição de quaisquer complexidades, mas,
do órgão de imprensa onde trabalha. Outro, às vezes, há abuso no sentido de se ser
mais importante e mais difícil de observar, é ruim e a-ético, num desrespeito flagrante
o limite de caráter ético. A questão ética é ao telespectador que quase nunca tem a
sempre a mais delicada… consciência disto. Pior que o sábado, na
Como disse um desconhecido filósofo: TV brasileira, é o domingo. Na guerra pela
2001 “Liberdade é como dinheiro: melhor tê-la. audiência, ganha quem conseguir fazer o
Não é bom usá-la em sua totalidade”. pior.
Isso tudo também me faz lembrar Porém, a nossa TV é das melhores
de um aforismo/título de Millôr Fernandes: do mundo e tem sido, de fato, um sucesso.
“Livre pensar é só pensar”. Daqueles mencionados 10% salvam-se
Adentrando a questão da TV brasileira: trechos de novelas, reportagens, noticiários,
a TV é, hoje, o mais importante dos veículos mini-séries, entrevistas etc. A qualidade
de comunicação do Brasil e já faz algum tempo televisual (a maioria diz televisiva) existe e
(a 1ª transmissão ocorreu em São Paulo, é pouca, mas, para os que podem ver TV
no ano de 1950). Na melhor das hipóteses, (os que têm tempo para), a não ser que se
salvam-se 10% de toda a programação. E, contentem com muito pouco ou quase nada,
em se tratando de TV comercial, que depende predomina a salsicharia.
de anunciantes, que exigem retorno em Um desafio para os alunos de
2002

termos de audiência, é assim mesmo e no Comunicação era o de selecionar, numa

93
semana, o pior da TV brasileira, condensando- MARIA YOLANDA LOPES MANSO DA

2000
o em 50 minutos. Seria um trabalho com COSTA REIS
chances a prêmios. Veneno de cascavel!
(Alguém se lembra da série “Mondo Cane” Só quem assistiu durante alguns anos
dos anos 60?) às suas aulas pode ter uma idéia do que seja
A censura, pensada como uma uma AULA fora do comum e da magnífica
instituição superior, ditando regras, nunca é professora que foi Dona Yola, pessoa ainda
legítima – “legitima-se” pela força. Não deve bastante ativa na comunidade católica de
existir. Chega de arbitrariedades! Esse filme Pirajuí.
eu já vi (nós já vimos). O melhor a fazer Era uma professora pra ninguém botar
será a pressão exercida através de cartas, defeito: porte imponente (uma mulher alta,
telefonemas, e-mails etc, ou mesmo a corpo cheio sem obesidade e bonita; roupas
atitude extrema de desligar o aparelho de TV. geralmente neutras, nunca chamando a
2001 O público que é quem , em última instância, atenção) com uma desenvoltura de fazer
paga, é que deve exigir o aprimoramento da inveja a qualquer repórter de televisão. Dona
programação. Yola tinha tudo: uma inteligência perceptível
Recentemente, gente boa cometeu em tudo o que fazia, conhecimento profundo
o deslize de falar, sugerindo algo como a dos assuntos sobre os quais discorria, um
volta da censura, de uma certa censura, timbre especial de voz, que teria feito
mas corrigiu a tempo. Vade retro! Abaixo a sucesso em rádio e que, dada a maneira
censura! E que viva a qualidade. como articulava as mensagens, passava
(13 de janeiro de 2001) a necessária credibilidade. Geografia era
a sua disciplina e ela honraria todos os
que se ocuparam do estudo desse Nosso
Planeta, desde os gregos, até seus colegas
contemporâneos, como é o caso do Professor
2002

Aziz Nacib Ab’Sáber.

94
Eu era simplesmente siderado em alunos) com as descrições das paisagens

2000
suas aulas no “Pujol”. Fascinavam-me naturais: formações florestais homogêneas,
seus conhecimentos que eram originários heterogêneas, savanas, estepes, tundra,
de leituras de livros, jornais, revistas desertos… Nas tarefas: mapas que, com um
especializadas que ela assinava, como a simples olhar, ela detectava falhas e dizia
National Geographic, ainda em inglês (língua um “refaça!” Assim, aprendíamos.
que ela dominava, assim como espanhol e Lembro-me do meu vestibular, em
francês, passando pelo latim), da observação, inícios de 1970: das 25 questões de Geografia
das viagens que fazia sistematicamente pelo do exame de Conhecimentos Gerais, só errei
Brasil, o que foi ampliado com viagens para uma e por mera distração… As aulas de Dona
outros países sul-americanos, para países Yola estavam vivas em minha cabeça.
da Europa e para os Estados Unidos. Quando Seu amor pelo Rio de Janeiro, sua
explicava, portanto, sabia do que estava paixão pela Civilização Estadunidense davam
2001 falando: conhecia por ter visto/estado, além um colorido especial às suas aulas. Dona
das informações hauridas em livros e outros Yola, em seu ofício de docente fez sempre o
fontes. Isto me faz lembrar das viagens do melhor que pôde. E ela sempre pôde muito.
“pai da história”, Heródoto, que resultaram Muitíssimo!
nos famosos e fascinantes “nove livros”. (20 de janeiro de 2001)

Dona Yola utilizava um mínimo


de recursos didáticos, com um máximo
de rendimento: sua presença, com a
irrepreensível comunicação verbal-oral, giz,
quadro-negro. Neste, uma quase taquigrafia
ilustrada… Suas aulas: verdadeiras uma estirpe em extinção
reportagens. Aulas quentes. Quentura como
a que coloca McLuhan com relação aos meios Uma estirpe em extinção. Conheço
2002

de comunicação. Sonhávamos (nós, seus algumas mulheres que, parece-me,

95
pertencem a um pequeno grupo que já não não era preciso pedir nem lembrar: uma

2000
terá mais razão de ser. Mulheres que foram percepção (desconfiômetro, em termos algo
educadas para servir – dos pais, aos irmãos, vulgares) aguda fazia dela um radar que,
marido, filhos e netos. Têm a vocação – como uma vez detectando problemas, fazia tudo
os santos – de viver em função do bem-estar para extirpar ou minorar a dor. Hospitaleira.
dos outros. Como os santos! Servir. O que Chegar em sua casa era certeza de
para elas importa é saber se o outro está acolhimento: recebia sempre com alegria
bem, se se alimentou, se precisa de algo. e como que revivendo séculos de tradição,
Em minha família existiram muitas oferecia água para abluções e, em minutos,
e ainda há algumas. É claro que não é uma farta mesa estava posta.
privilégio [exclusividade] de minha família, Chegou a ser, embora por pouco tempo,
mas esta eu observo desde sempre e de bisavó. Não suportou a morte do marido,
bem perto e posso, portanto, falar com com quem experimentava uma espécie de
2001 propriedade. Algumas dessas mulheres já se simbiose, de quem cuidou com esmero nos
foram, outras mantêm acesa essa chama, últimos anos.
estranha em época de egoísmo desenfreado. Tia Salime faleceu numa tarde
Generosidade é pouco para nos referirmos à de domingo, num leito de hospital, em
sua melhor qualidade. Pederneiras. Naquele dia, eu, com dois irmãos,
Mas hoje, a homenagem vai para uma lá estivemos, visitando-a. Agonizante, ela
tia – Tia Salime – irmã mais velha de minha nos reconheceu, dizendo os nomes dos três,
mãe e que, tendo nascido em Pirajuí, aqui demonstrando surpresa e alegria. Sedada,
se criou, residindo, após o casamento, no parecia querer dormir.
Balbinos, Guarantã, Bauru e, por último, em Eu ainda fiquei alguns minutos com
Pederneiras (cidade onde, há cerca de cem ela. Num momento, deu a prova extrema de
anos, se estabeleceu um seu avô libanês, sua rara educação: pediu-me desculpas por
pai de sua mãe Lula Neme Cury). Um anjo- não poder me dar atenção, não conseguia
2002

da-guarda, era daquelas pessoas a quem evitar o sono que estava chegando. Cerrou

96
os olhos. Dormiu. Saí do quarto do hospital. invenções que, patenteadas ou não,

2000
À tardinha, já em Pirajuí, recebemos acabam sendo patrimônio da Humanidade.
o telefonema comunicando a sua morte, Não importa que uma empresa que financie
enquanto dormia. Fui a última pessoa a falar um grupo de cientistas esteja pensando
com ela. apenas nos lucros que os resultados
E nós, sobreviventes, vamos nos trarão. Uma vez chegando a resultados
lembrando desses seres maravilhosos, que satisfatórios, estes acabarão sendo de
pediram demissão da vida e não deixaram todos. Conquistas da Espécie. Agora, o
substitutos. acaso: é preciso estar atento, é necessário
(27 de janeiro de 2001) que se tenha repertório para percebê-lo e
para vislumbrar a sua importância. Alguém
envolvido em alguma pesquisa estará
sempre atento a tudo e considerará as
2001 ocorrências e procurará saber das causas
e das implicações advindas dali. Que o
acaso e necessidade diga Alexander Fleming!
(03 de fevereiro de 2001)
Acaso e necessidade têm sido os
motores dos progressos humanos. Acaso
envolve uma discussão complexíssima, que
não caberia aqui desenvolver – há livros
inteiros tratando disso. Acaso pode ser
qualquer fenômeno (fenômeno: aquilo
que se nos apresenta), aquilo com o que
não se contava. Acaso existe. Por outro
lado, a necessidade que obriga à busca,
2002

à pesquisa que resulta em descobertas,

97
O QUIBE São Paulo. Lá, carne de carneiro, aqui, sem

2000
perda da qualidade, carne bovina, que pode
É óbvio que eu não me lembre da ser coxão mole, patinho ou alcatra. Para
primeira vez em comi quibe - eu, descendente uma porção de trigo, um pouco menos de
de árabes libaneses, que mantiveram no carne (há quem iguale as porções). Trigo de
Brasil alguns de seus hábitos alimentares molho na água, no máximo, uma hora antes
e pratos típicos. Da riquíssima e deliciosa do preparo, o qual será espremido com as
culinária árabe libanesa, é o quibe o mais mãos, para poder ser misturado com a carne
famoso dos pratos, bastante divulgado no moída e sal a gosto (há quem não coloque
Brasil, também entre os não-árabes. ainda os demais temperos, para conservar
(Não só o Brasil tem a maior colônia a cor da carne, mas podem ser juntados,
de japoneses fora do Japão, mas a maior nessa massa, cebola, pimenta e erva-de-
colônia de árabes libaneses fora do Líbano. E cheiro).
2001 a maior concentração de descendentes, tanto Em outros tempos (mesmo no Brasil,
de japoneses como de libaneses, encontra- embora apetrechos tenham sido trazidos de
se no Estado de São Paulo. Asiáticos do lá da terra dos fenícios) o quibe, essa massa,
Próximo-Oriente os libaneses, do Extremo- era socada num pilão de pedra com mão de
Oriente, os japoneses.) madeira. A seguir, foi utilizada a máquina de
QUIBE: trigo, carne, sal. Erva-de- moer carne, tração muscular humana. (Minha
cheiro (aqui, mais o hortelã), pimenta (dita) avó Lula fazia quibe, religiosamente, aos
síria. Cebola. Para o recheio: carne, cebola, domingos. Eu era um dos que ficavam para
sal, pimenta e snobar (pinholes). Varia o moer duas, três vezes aquela massa. Como
modo de preparar e temperos, de região compensação, porções generosas daquela
para região do pequeno país do Mediterrâneo delícia. Poucos quibes se comparavam ou
Oriental, que nasceu modernamente em se comparam ao que minha avó fazia. O
1945 - de uma civilização milenar, o Líbano de minha mãe, que cozinha desde os doze
2002

caberia cerca de 24 vezes no Estado de anos (ou antes) iguala-se em sabor, mas é

98
diferente...) Depois, veio a máquina elétrica tiver os pães árabes, a experiência estará

2000
para facilitar as coisas. Há quem só moa enriquecida. A tal ráchua (recheio) pode ser
bem a carne e depois mistura-a com o trigo comida junto (assim sempre foi em minha
deixado de molho, sovando o conteúdo. casa): carne moída refogada na manteiga e
Água fresca ou mesmo gelada deve estar à temperada com cebola branca, sal, pimenta
disposição para o ir umedecendo. mais os pinholes, se houver. Delícia das
Não há segredos para se obter um bom delícias, mas sendo uma comida pesada,
quibe. Trigo bom, carne boa, temperos: é é bom rogar a Deus pela boa saúde, para
só preparar... Porém, muitas pessoas diziam que se possa comê-lo sempre. Pode ainda
que as mulheres árabes não davam a receita acompanhar o quibe cru, para se ter uma
completa, o que não corresponde à verdade. refeição completíssima, coalhada seca com
A questão é a seguinte: além da receita, azeite e zattar, azeitonas pretas curtidas no
deve-se fazer tudo o que um verdadeiro óleo, uma salada de folhas (alface, rúcula)
2001 mago da cozinha faz: observar em ação com tomate, cenoura crua, pepino. Limão,
alguém que saiba fazer. Aí é que se dará o tanto para a salada como para o quibe cru.
aprendizado. Enrolar o quibe para que seja O quibe ainda pode ser cozido numa
frito (e, além do formato mais conhecido, sopa de coalhada - labania - ou numa sopa
há outros dois) é preciso, pelo menos, uns comum de arroz com caldo de carne. Pode
três anos de prática - é como o candidato a ser assado em forma: é o o chamado quibe
ceramista, para poder fazer com perfeição de assadeira. E, por último, frito.
um certo tipo de vaso. Atenção: muita carne Não sei dos limites do quibe no mundo
na massa, o quibe estoura, abre, na hora de árabe, nem mesmo sei se é conhecido em
fritar. todos os países de cultura árabe: no Líbano
O quibe pode ser cru - é servido com e na Síria, é certeza. Sei que é um prato
cebola crua branca. Pode-se adicionar, na delicioso e nutritivo e que não chega a fazer
hora, manteiga derretida ou azeite. Pode mal àqueles que são parcimoniosos no
2002

ser comido com qualquer pão, mas se comer.

99
No Brasil, o quibe tem sido um Santa dos árabes cristãos. Daí se conclui

2000
sucesso há mais de cem anos e os árabes que, para os árabes, o trigo paira acima de
e descendentes são identificados com a todas as coisas (comestíveis)!
iguaria e até chamados de “comedores de 2. O quibe, mormente o que se assemelha a
quibe”. Eu colocaria o quibe como uma das uma bolacha redonda, o quibe chato, pode
melhores comidas do mundo, assim como ser assado na brasa. Deve ser colocado sobre
a combinação do arroz com feijão mais uma esteira metálica própria, creio.
acompanhamentos (bife, batata frita, salada 3. Essa coisa do braseiro para certas comidas
de alface com tomate e cebola branca, árabes é algo que só comendo para saber.
abóbora verde refogada). Mesmo com todos os confortos, no interior
Interessante é que o Líbano é o país do Estado de São Paulo, minha avó Lula
das frutas. As frutas típicas de lá, dizem, são (LÚLO, em árabe = PÉROLA) manteve por
incomparáveis. Porém, no Brasil, nenhum muito tempo fogão a lenha, na cozinha de
2001 libanês trocaria a banana nanica por qualquer fora, e o braseiro. A panela de charutinho
outra fruta. Quanto à comida, os libaneses de folha-de-uva ficava cerca de quatro
souberam apreciar a riqueza dos pratos horas cozinhando, nos domingos, em que
típicos brasileiros, assimilando-os, sem abrir tampouco faltava o quibe.]
mão de sua tradição, também tão rica. (10 de fevereiro de 2001)

Em matéria de comida, eu prefiro


todas as melhores do mundo! Do vatapá,
passando pelo risotto e arroz com feijão, ao
quibe...

[PS. 1. Há uma espécie de quibe que é MINHA MÃE


feito com peixe, ou seja, ao invés da carne
vermelha, usa-se o cação, por exemplo. Ela não se sentava à mesa conosco
2002

Parece-me que tem a ver com a Semana quando tomávamos as refeições. Porém,

100
estava sempre à disposição, trazendo os as mais diversas: uma casa com doze filhos,

2000
bifes, fritos um a um; as batatas: fritas na mais agregados e visitas. Às vezes, exercia
hora, por etapas. Água gelada ela trazia a a autoridade da mãe no comando da casa,
um pedido - era o líquido que tomávamos estando já casada a irmã mais velha. Aos
durante as refeições, coisa que eu, indiferente doze anos já podia cozinhar (contou-me
ao álcool, considero a bebida mais acertada Pedro Rachid que, quando nasceu a Odetinha,
para acompanhar pratos, já que não altera nos anos 30 - que recebeu o nome em
o seu sabor. Ela era a última a se sentar e homenagem à minha mãe - ela foi cozinhar
isto parecia a coisa mais natural do mundo. em lugar de tia Ramzia, que era prima de
Normalmente atarefada com as coisas da meu avô Chico Turco, mas que veio do Líbano
casa, costumada desabafar: Sou escrava com meu pai, tio Daud e seu irmão Elias,
do dever! tendo desembarcado em Santos, em 1º de
Nascida em Pirajuí, em 1925, minha fevereiro de 1930. Para que a menina pudesse
2001 mãe (Salme no registro, Odete para todos cozinhar, teve de colocar junto ao fogão um
os demais efeitos e por gosto de minha avó caixotinho para que ela subisse e alcançasse
Lula) foi educada para servir e da melhor as panelas). Casou-se, em outubro de 1945,
maneira possível. Desde sempre soube que depois de recusar pedidos muitos: todos de
seria uma dona-de-casa e tudo giraria em pessoas de origem árabe libanesa e, hoje,
torno disto, inclusive a não-necessidade todos mortos, inclusive o felizardo Sáber,
de prosseguir com os estudos: já sabia o o escolhido. As bodas, não representaram
suficiente para um bom desempenho no propriamente um desligamento da casa
lar, quando resolveu não mais freqüentar paterna: dos cinco filhos que minha mãe
as aulas, com a anuência dos pais. Daí que, teve, os dois mais velhos (sou o segundo)
apesar de muito mimada por seu pai, o nasceram lá. De todos os netos de meus
Chico Turco, preparou-se para o futuro papel avós Lula e Rachid, os filhos de minha mãe
e, naquela casa, grande e povoada, não foram os que mais presentes estiveram em
2002

faltaria a oportunidade para viver situações todos os momentos daquela casa.

101
Nas raras vezes em que meu pai tinha que minha mãe fazia). Delicioso café. É claro

2000
convidados, geralmente para o jantar, que que, nessas ocasiões, minha mãe jamais se
começava cedo - 19h00 - era mais ou menos sentava à mesa - apenas servia, com aquela
assim: Mesa arrumada sem excessos, mas sua timidez frente a pessoas de cerimônia,
com alguns requintes: toalha e guardanapos mas exalando a beleza e refinamento de
de linho, da Ilha da Madeira, louça inglesa, maneiras que a acompanharam sempre e
talheres - os melhores da casa (de um sempre. Belos jantares!
faqueiro para ocasiões especiais). Água A lembrança mais antiga com relação
gelada. Como entrada: tomate cortado em às letras é a de minha jovem mãe lendo
quatro, pepino (como só os de origem árabe para os então quatro filhos, na casinha da
sabem escolher) azeitonas pretas, coalhada Rua 7 de Setembro, todos acomodados
seca, pão, azeite. Quibes fritos. Uma canja em sua cama de casal, crônicas de David
feita com galinha caipira (naquela época só Nasser e de Rachel de Queiroz, da revista
2001 se comia frango, galinha provindos da roça) O CRUZEIRO (RQ tinha, no periódico, uma
que podia ser tomada ao mesmo tempo em página, a “Última Página”). Porém, grande
que se comiam quibes. Uma salada simples saudade da infância é de como eu dormia
de folha, tomate e cebola branca. Arroz à bem - como um anjo, dir-se-ia. Todas as
moda árabe (feito na mateiga - derretia- tardes íamos para a casa de minha avó Lula
se manteiga para se fazer comida - com e, na volta, já noitinha, eu vinha dormindo
carninha moída e snobar, quando tivesse) em pé e Dona Adiba Tuma, com uma porta
carneiro aos pedaços, feito na panela. Senão, da loja levantada, uma cadeira para fora,
costela de carneiro recheada com arroz. ainda parava minha mãe para conversar
Sobremesa simples: um creme que era um pouco. Eu chorava de sono, mas tinha
comido com algum doce de fruta em calda de esperar. Minha mãe, com sua sempre
e frutas frescas da estação. O infalível café presente amabilidade, conversava com a
que não era coado, mas assentado depois anciã libanesa; mais respondia às perguntas
2002

de passar por uma peneirinha (era assim que ela lhe fazia. Enfim, chegávamos em

102
casa! Bendito o sono que eu dormia... gustativo!). Ou:

2000
Minha mãe, felizmente vive. Suas - São Paulo tem tudo, mas nada que se
grandes qualidades esmagam seus poucos compare com essa sua comida!
defeitos. É generosa, o que faz dela uma E trata-se da verdade mais verdadeira.
pessoa popular na cidade, principalmente (17 de fevereiro de 2001)

entre os mais humildes. É uma muralha.


Espero que dure muitos anos e gozando de
boa saúde.
Esta é a minha visão da mãe que
tenho. Presente no meu dia-a-dia. Cada um
que esteja lendo que tente encontrar na
O KITSCH
minha a sua.

A palavra KITSCH é de etimologia


2001 Em tempo: Sempre que como em casa
meio complicada, mas, de qualquer maneira,
de minha mãe - e, invariavelmente, é uma
vem do alemão e já é utlizada, desde algum
comida pra lá de boa, costumo elogiar, no
tempo, pelas pessoas de um certo repertório,
ato:
em várias partes do mundo (afinal, não é
- Isto não é comida de gente! Esta comida é
só o português, mas outras tantas línguas
para deuses. Ou:
utilizam o conceito eficaz de KITSCH). Em
- Este é o melhor arroz-feijão que comi nos
português, não temos palavra que dê conta
últimos dez anos! Ou:
de tudo o que a dos alemães abrange.
- Hoje, no mundo, ninguém comeu melhor
BREGA: é apenas um aspecto do fenômeno.
do que nós. Onde este quibe? Onde este
JECA. CAFONA: de origem italiana, foi muito
charutinho de folha de uva com frango?
utilizada por nós nos anos 60, é pobre.
(Certas comidas chegam a um sabor tal,
limítrofe: dali para diante, o desconhecido. KITSCH: existe desde tempos remotos,
mas se tornou marca definidora de uma
2002

Impossível ultapassar aquele nível de prazer

103
época que, emergindo com as Revoluções de alto repertório: certas composições

2000
Industriais, elevou o consumo à categoria musicais eruditas, poemas, pinturas. E aqui
de valor maior. KITSCH envolve tudo: de poderíamos citar Portinari, entre outros, que
um objeto, passando por um texto, até uma possuía um grande talento e domínio técnico
atitude. Pode existir em tudo, porém, às extraordinário, mas que utilizava estilemas
vezes, não se mostra tão facilmente: é uma do cubismo sem vivê-lo e fora de época, o
questão de grau, a incidência. KITSCH pode mesmo fazendo, quando artista já maduro,
ser a diluição de estruturas complexas e aí com o “Guernica”, de Picasso: sua série
temos um barateamento, uma facilitação, “Bíblica” (acervo do MASP) é quase cópia da
como das composições de música erudita famosa obra do pintor de Málaga. Bom gosto
para toda a música popular (e aí teríamos também carrega sua parcela de KITSCH,
vários graus de KITSCH: de Zezé de Camargo pois gosto é coisa convencionada, portanto,
e Wando, a Chico Buarque e Caetano redundante. Não sem razão Marcel Duchamp
2001 Veloso). Exagero/ostentação: coisa de novo considerava o gosto - o bom e o mau - o
rico, o qual tem todo o dinheiro necessário, maior inimigo da arte. E todos consomem
mas falta-lhe repertório. Exibicionismo/ arte, alguma forma ou modalidade de arte,
intimidação (coisa para impressionar os nem que seja algo extremamente diluído.
menos favorecidos): torneiras de ouro (uso de Para se perceber o KITSCH é preciso que
materiais luxuosos, sem melhoria das funções o fruidor, o leitor, o apreciador tenha um
- Bruno Munari). O decorativo suplantando certo repertório específico, senão, ele não
o funcional (de uma xícara enfeitada a um estará nem aí. Consumirá gato por lebre, na
texto com excesso de adjetivação). Mentira maior.
estética, como colocou Umberto Eco: como Se a coisa é KITSCH, não significa
exemplo: traços modernóides numa pintura que seja barata, pecuniariamente falando.
de alma (estrutura) acadêmica. KITSCH não Condomínios de alto luxo, concreto armado
é necessariamente mau gosto. Mau gosto em estilo neoclassicóide: KITSCH. A tal
2002

é KITSCH de baixo repertório. Há KITSCH torneira de ouro. Uma “perua” (que peca

104
sempre pelo excesso). Uma limousine

2000
branca. A chegada, de helicóptero, em uma
festa. A festa do Oscar. Casamento em
Las Vegas. Todas as cartas de amor (“são
ridículas”, disse Pessoa/Campos). O AMOR
não é KITSCH, natureza não é KITSCH. A
AUGUSTO DE CAMPOS: UM POETA
tradução do sentimento em palavras é que é
PARA MUITOS SÉCULOS
KITSCH: baba-se mel. Filosofias baratas são
KITSCH. Seção souvenir em posto de beira
Conheci pessoalmente Augusto de
de estrada: um museu não-intencional, um
Campos no ano de 1974 (era o mês de
mostruário exemplar do KITSCH.
novembro). Foi a propósito do meu livro de
O KITSCH pode ser apropriado
poemas Jogos e Fazimentos, que lhe havia
criticamente: a obra daí resultante não
entregue pouco antes mas, principalmente
2001 é KITSCH, propriamente, mas utiliza-
devido à grande vontade de conhecer o autor
se do KITSCH, como no caso da POP ART
de poemas que eu admirava sobremaneira.
estadunidense, de Warhol a Lichtenstein e
Tendo entregue o livrinho, fui ter com ele
Rauschenberg. A POP é grande arte.
algumas semanas depois e o poeta foi
Não devemos temer o KITSCH, pois
direto ao que havia de melhor naquela obra
ele impregna tudo em maior ou menor
imatura e fez comentários precisos. Deu-
grau. É bom que tenhamos repertório para
me inúmeros trabalhos (edições de autor)
poder abordá-lo - e, por que não? - adotá-lo
dele e de outros poetas, mostrando - de
criticamente.
cara - o grande divulgador que era e é das
Em tempo: Quanto mais básica for uma
coisas novas. Num dado momento me falou
coisa, menos kitsch ela será. [O afastar-se
das dificuldades do caminho que eu havia
das essencialidades implica um aproximar-
escolhido, pois, se fazer poesia já não era
se do kitsch.]
fácil, aquela pela qual eu havia optado e que
2002

(24 de fevereiro de 2001)

105
envolvia experimentação, era mais difícil de EXTRAORDINÁRIO que ele fez e tem

2000
ainda. Na saída, como era noite e chovia, feito.
acompanhou-me com guarda-chuva à rua, Preocupado com inventar, Augusto
até que eu pudesse pegar um táxi. De lá em de Campos foi co-fundador da Poesia
diante, tornamo-nos amigos e ele, assim Concreta, movimento que nasceu no Brasil
como seu irmão Haroldo de Campos (se e na Alemanha, espalhando-se pelo mundo.
os Andrades do Modernismo sequer eram Em 1953, o poeta já elaborara a série
parentes, os Campos do Concretismo são POETAMENOS, poemas onde a utilização
irmãos, ambos geniais) e Décio Pignatari da cor entrava como elemento de ordem
sempre colaboram com as publicações estrutural, o que bastaria para lhe garantir
coletivas da NOMUQUE, editora que fundei um lugar entre os poetas-inventores do
com Paulo Miranda, naquele mesmo ano de século XX. Mas não parou por aí, continuou
1974, e que sempre funcionou à margem produzindo poemas que formaram um corpus
2001 do sistema editorial brasileiro. fundamental, indispensável em termos de
Já me referi, nesta coluna, ao fato Planeta Terra. Foi co-fundador e colaborador
de que toda época é rica, dependendo do das célebres revistas NOIGANDRES e
lugar onde nos colocamos, com relação aos INVENÇÃO, portavozes da Poesia Concreta
acontecimentos. Pois é: em minha época no Brasil. Como teórico/crítico, exerceu
de juventude, em São Paulo (e nunca desde cedo uma metalinguagem mais do
deixei de estar - no mínimo mensalmente que conseqüente: iluminadora, assinando,
- em Pirajuí) pude conviver e ter, portanto, entre outros, o importante e coletivo Plano-
como interlocutores, alguns dos maiores Piloto para Poesia Concreta, de 1958.
poetas do século XX, donde destaco, agora, Quando escreve sobre Poesia e Música –
Augusto de Campos. E é apropósito dos duas de suas paixões - é aquela maravilha
70 anos que o poeta completa: nasceu, de texto, texto de quem, além de saber o
AC, em São Paulo, em 14 de fevereiro que está dizendo, faz a coisa com o máximo
2002

de 1931. Data comemorável por tudo de prazer. O tradutor de poesia Augusto

106
de Campos mereceria ser abordado com a século/milênio a todo vapor, pesquisando as

2000
maior atenção e o será oportunamente. AC mais avançadas tecnologias, colocando-as a
já foi considerado o maior tradutor de poesia serviço do seu ofício de poeta . Poeta maior,
para o Português, de todos os tempos. eu diria. God bless the Poet!
Sendo grande poeta e encarando a tarefa (03 de março de 2001)

impossível da tradução como uma categoria


da criação, ele tem recriado, desde os anos
50 do século que passou (!): Mallarmé,
Dante, Cummings, Donne, Arnaut Daniel,
Rilke, Hopkins, Maiakóvski, Rimbaud e tantos SIM E NÃO (ANFITRIÕES E
outros. CONVIDADOS) – PARTE A
Grande divulgador da poesia mais
avançada e o melhor interlocutor que um Há muitas culinárias em que você
2001 outro poeta possa ter, Augusto de Campos pode passar três, quatro meses sem repetir
sempre primou pela generosidade. Quando o cardápio. Porém, o que temos observado
habitava, com sua bela, atenciosa e sensível é que nenhuma delas mata seus detentores
esposa Lygia Azeredo Campos (irmã do de fome. Bem ou mal, os membros de uma
poeta Ronaldo Azeredo) o apartamento 63, certa comunidade sobrevivem, pois podem
do número 23 da Rua Bocaina, nas Perdizes, ser determinantes, numa dieta alimentar,
em São Paulo, eram constantes as reuniões as condições locais somadas ao estágio de
que promovia com os amigos poetas, onde a desenvolvimento cultural. Há cozinhas de
conversa rolava por horas sempre agradável uma sofisticacão e criatividade admiráveis
e proveitosa, com almoços e jantares (e é isto que aqui nos interessa): a francesa,
memoráveis. a italiana, a chinesa, a japonesa, a árabe,
Nesses seus setenta anos, Augusto de a espanhola, a brasileira… Nesses casos,
Campos produziu uma obra que só honra mesmo com poucos recursos, fazem-se
2002

o Brasil e a Humanidade. Adentra o novo pratos dignos de figurarem na memória. Há

107
todo um know how, que integra a tradição são desagradáveis em 97,5% dos casos.

2000
e que garante qualidade com um mínimo Uma refeição deve ser uma espécie de ritual
de recursos. Para quem aprecia, belos e em que se celebra o bem-comer. Deixe as
saborosos pratos. aventuras gustativas para os muito jovens
Trago este texto pensando no Estado e/ou para quando você estiver viajando.
de São Paulo, onde se observa uma grande Refeição: reiteração de experiências
diversidade étnica, valores mil, mistura… O agradáveis. Informação tendente a 0.
que vai escrito abaixo destina-se, não aos .Não há falta maior de imaginação do que
que tendo muito, delegam tarefas a outrem, um almoço em que se conversa acerca de
mas aos que tendo o suficiente, põem a mão negócios. Certos assuntos não deveriam ser
na massa. São conselhos não solicitados e tratados durante uma refeição. Incluem-se,
que podem ser encontrados no livro Cru aí, aqueles que reviram o estômago.
ou Cozido : uma aproximação à arte do .Você que adora um álcool: não faça com
2001 bem-comer, do Dr. Ângelo Monaqueu, autor que dez pessoas fiquem em função de sua
pirajuhyense, desconhecido em sua própria bebericagem.
terra. .Você que conversa demais. Procure comer
Em sendo anfitrião ou convidado, há mais - embora devagar - e falar menos. Não
coisas com relação às quais se deve estar deixe que o seu papo excessivo atrapalhe a
atento. Senão, vejamos: degustação alheia.
.Se você sabe que terá problemas, dê um .Não vá a refeições sociais (nem a recitais
jeito de evitar o almoço ou jantar: recuse e concertos) se estiver gripado, com
polidamente o convite. Em último caso, tosse indiciadora de catarro. Volte no mês
marque-o em um território neutro, num seguinte… e são!
restaurante, de preferência. .Sal: melhor pouco. Melhor não colocar que
.Uma refeição - almoço, jantar, ou mesmo um colocar demais. Comida salgada - a não
lanche (como nós brasileiros entendemos) ser aquelas que requerem o sal a mais (e
2002

- não pode ser uma aventura. Surpresas existem as tais) - não tem conserto: você

108
aumenta os ingredientes e, pela quantidade, de sua etnia, qualquer que ela seja (veja

2000
a comida acaba perdendo a qualidade. Pior a que os franceses comem escargot, além
emenda que o soneto. de não cultivarem certos hábitos básicos
.Nunca convide para um jantar em sua de higiene) principalmente se ela diferir
casa se você não domina o métier: melhor fundamentalmente da dos convidados.
trazer um cozinheiro, encomendar de fora a Haverá tempo para isso, sempre com aviso
refeição completa ou levar a visita a um bom prévio.
restaurante (com algum dinheiro tudo isso .Alguns répteis, ou mesmo mamíferos
é possível, em São Paulo ou Pirajuí). Agora, roedores, cérebros (miolos) não importa de
se você é um mago da cozinha, com pouco que animais, moluscos, crustáceos, testículos
fará muito. de carneiro, peixe cru, rim bovino, fígado
.Nunca teste prato novo com visitas. cru de carneiro, bucho de boi ou carneiro,
.Se você estiver fazendo regime alimentar, língua… Delícias para quem aprecia de longa
2001 não tente impingi-lo às visitas (ódio será o data, não devem entrar como prova de
mínimo que elas poderão sentir por você). amizade dos comensais.
.Não deixe animais circulando junto à mesa (10 de março de 2001)

de refeições (o argumento de que em casas


nobres etc etc etc, não vale - é coisa de
outros tempos, tempos em que a higiene
não era valor maior, ou era considerada de
modo diverso). SIM E NÃO (ANFITRIÕES E
.Tenha uma pia para abluções (num lavabo, CONVIDADOS) – PARTE B
de preferência).
.Não repare em gafes imperdoáveis à mesa. .Uma abóbora refogada feita com ciência é
Da próxima vez, escolha melhor os seus mil vezes melhor que um filé mignon mal
convivas. preparado (em que tenha minado água).
2002

.Não queira mostrar as maravilhas culinárias .Pimenta: na maior parte dos casos - há

109
exceções - deverá ser servida à parte. máximo, duas vezes.

2000
.Água fresca ou gelada é o melhor .Se se convida alguém para uma refeição,
acompanhamento para refeições, mas se sonda-se o seu gosto ou se elabora um
você é conhecedor de vinhos etc, pode servi- menu bastante variado.
los, sem obrigar os convidados. Geralmente .Você, visita, elogie na medida do mérito
os que apreciam o álcool, não têm medida. culinário, mas nunca deixe de elogiar.
CUIDADO! Por outro lado, não mencione, na ocasião
.Quando tiver convidados, não os mate presente, banquetes memoráveis em que
de fome em função de uma espera: à sua você esteve. Evite as comparações: pense,
chegada, comeretes já deverão estar à apenas.
disposição, por simples que sejam. Refiro- .Não coma demais, nem de menos.
me a gente saudável e não anoréxica. .Música: não é necessária para pessoas que
.As crianças pequenas deverão comer em estão à mesa trocando cordialidades.
2001 separado: porque têm os seus horários, .Temperos fortes: cuidado (não mascare,
sempre dão trabalho e requerem uma nem disfarce o verdadeiro sabor dos
atenção em excesso e as visitas não poderão alimentos ou suas deficiências em termos
ficar à disposição, à sua mercê. Por outro de dotes culinários).
lado, o paladar infantil é muito diferente do .Comidas que favoreçam a formação de
de um adulto, assim como os interesses na gases: cuidado. As que, mesmo saborosas,
tagarelagem. Para se ser um bom apreciador fedem: evite-as.
de comida é necessário ter, pelo menos, .Não coloque os mesmos temperos em
duas décadas e meia de Planeta Terra. tudo. Perdem-se as sutilezas do paladar.
.Não coloque na mesma mesa pessoas que É importante perceber o sabor dos
não se toleram. As pessoas à mesa devem componentes de um dado prato.
estar à vontade, pois que a conversa deve .Embora o alimentar-se envolva os cinco
fazer parte da celebração. sentidos, a audição é o menos importante.
2002

.Nunca insista com visitas: ofereça, no Não exagere naqueles alimentos - como

110
cenoura crua, por exemplo - que dão a

2000
impressão que o Universo estará ouvindo a
sua mastigação.
.Comidas - algumas - podem ser preparadas
com antecedência, outras, não.
.Cuidado com excessos. Variedade é bom,
mas não exagere. Senso, muito senso no VILELA: A DIMENSÃO TRÁGICA DE
que disser respeito a: quantidade, variedade UMA EXISTÊNCIA MODESTA
e qualidade. Com pouco você poderá fazer
muito: arroz feito na hora, uma carne, Dentre as tragédias sofocleanas que
um molho ou creme ou feijão, uma salada nos chegaram, Édipo Rei é a mais célebre
simples. e a que tem rendido o maior número de
.Nunca peça a receita, para ser agradável. comentários ao longo do tempo. Texto
2001 Por outro lado, não insista em dar a escrito para ser encenado, no século V aC,
receita. sobreviveu por obra do feliz acaso. Estudos
.Não leve convidados quando o convidado é e mais estudos foram feitos: de Sigmund
você, a não ser que a coisa esteja liberada. Freud a Foucault, a admiração por aquela
.Não apareça sem avisar. Avise se você tem que, no século IV aC, Aristóteles colocou
a liberdade de se convidar, mas avise. como um modelo dentro do gênero. Pois é,
.Em última instância, o que vale mesmo é na fala final do referido texto, diz o Corifeu
o prazer de estar com pessoas, podendo que ninguém pode ser considerado feliz
despender um tempo enorme com o antes de chegar ao termo da existência e
degustar, mesmo que sejam os pratos mais sem ter provado do amargor do infortúnio.
simples do mundo. Às vezes, a companhia E o exemplo era daquele Édipo que caíra em
enriquece e justifica o ato da refeição. E desgraça.
bom, mesmo, é quando isso acontece. Isso tudo me vem à mente motivado
2002

(17 de março de 2001)


pelo sucedido com o gráfico (sim, gráfico!)
111
Paulo Vilela, pessoa que quando eu estava na UTI de um hospital de Bauru e

2000
freqüentava as oficinas do “jornal” do saudoso falou-me sobre o ocorrido. Fiquei espantado
Basílio Autran lá estava, mas que me passou com o fato de Pirajuí possuir violência digna
completamente despercebido e que vim de da pior periferia de São Paulo ou do Rio
fato a conhecer a propósito d’O ALFINETE, de Janeiro. Como poderia acreditar que o
semanário em que passei a ser colaborador. Vilela, que não era de briga, acabasse sendo
Vilela, sempre uma presença leve, sem aquela vítima do pior vandalismo? Como pode
de ocupar espaço: uma pessoa simples, de alguém, neutralizando uma pessoa, agredi-
uma modéstia que acabava por chamar a la fisicamente, com socos e pontapés na
atenção. Com a maior calma fazia revisão cabeça, até levá-la ao coma? Não há motivo
de textos ou escrevia pequenas matérias. que venha a justificar tal atitude. Como se
Numa certa ocasião, quando mencionei poderia esperar esse desfecho para uma
Mário Alves dos Santos Júnior, o Marinho, vida tão modesta, simples, despojada? Vilela
2001 figura singular, inteligentíssimo e que teve deixa este nosso insensato mundo sem o
morte prematura, envolvida até num certo peso de alguém que teria tido demais: ele
mistério (teria sido atropelado ou se deixado sempre sobreviveu com a medida certa,
atropelar?) Vilela se lembrou de muitas sem a apropriação do que poderia ser útil
coisas e falou do Mário como colaborador a outrem. É lamentável que o termo de
do “jornal” do Seu Basílio e até da última sua existência tenha ganho essa dimensão
matéria que ele havia escrito para aquele, trágica: morto a pontapés!
em verdade, semanário. Pretendia até obter No início da tragédia mencionada de
mais informações sobre o meu amigo, com Sófocles, aguarda-se uma mensagem que
o Vilela, pois queria escrever uma matéria vem do deus Apolo, cujo portador é Creonte
para lembrar a inteligência que foi o nosso e ela tem a ver com as dificuldades pelas
Mário. Quem diria que, agora, seria o Vilela quais Tebas está passando: dizia o oráculo:
o meu assunto?! Marcelo Pavanato contou- “É preciso punir o assassino do rei Laio!”
2002

me, por telefone, da situação do Vilela, que E a tragédia se desenrola em torno dessa

112
questão, o que faz com que concluamos nas coisas do verbal. Dos irmãos que

2000
que se trata de uma trama policial. E é. E conheci, três possuíam uma voz de timbre
o assassino do rei Laio, ninguém menos mais que interessante, dicção impecável,
era que Édipo, também seu filho, descobre- correção admirável: Dona Yola, Dr. Zinho
se. No caso trágico do nosso amigo Vilela, (inteligência prodigiosa, advogado brilhante,
o aspecto policial fica na lateralidade. É poderia muito bem ter sido um diplomata;
preciso que o Ministério Público aja e não se não foi, é porque não o quis) e Dona
deixe impunes atitudes brutais, como essa Cida. Dona Cida: aquela mesma, amada por
a que nossa cidade acabou de assistir. Nada seus alunos e alunas, que disputavam para
poderá repor aquele sopro de vida ao Vilela, resolver quem levaria, ao final das aulas,
porém, nossa sociedade não deverá ficar o material da professora até sua casa. Sua
à mercê de indivíduos que agem como se beleza física impressionava os meninos, a
fossem leões ensandecidos. mesma beleza que causou admiração no
2001 Vilela: descanse em paz! pintor José Pancetti, em encontro fortuito,
(31 de março de 2001) num saguão de hotel. Disse-lhe o artista ter
encontrado a sua Musa!
O domínio verbal de Dona Cida, sua
desenvoltura, eram coisa incomum: de a
ouvir falar, aprendia-se um português vivo
e correto. Quando contava um caso para
DONA CIDA ilustrar algum item do programa, a narrativa
era viva e não dava para não prestar atenção.
CIDA MANSO, Maria Apparecida Lopes “Por que não escreve?”, eu pensava, “alguém
Manso da Costa Reis... Sim, irmã das demais que articula tão bem”… Ainda hoje fico a
professoras: exemplares todas elas: Dona pensar se Dona Cida não possui cadernos
Yola, Nair (não fui seu aluno e considero isto e cadernos com belos textos. Que grande
2002

uma pena) Nancy. Uma pessoa tão articulada cronista ela não seria? Em classe, a elevação

113
do Rio de Janeiro como sendo o máximo

2000
dos máximos, criava alguma indisposição Ao Omar
Com os meus parabéns pelo brilhante curso que
(leve) em alunos, que tentavam contra-
você vem fazendo, os meus votos de contínuo
argumentar; mas ela sempre vencia com progresso no futuro.
sua capacidade de articulação do discurso. Sua professora muito amiga
A uma brincadeira ou deslize de aluno, Maria Aparecida
ela dizia, carinhosamente: “Dou-lhe um Pirajuí, 12 de outubro de 1965.

murro!”, ou: “Seu cara de gato!” E as coisas


ficavam amenizadas como convinha num Lá se vão 35 anos!
relacionamento professor-aluno, numa Aproveito este espaço para enviar um
época em que cerimônia ainda era algo para grande abraço para Dona Cida e reiterar o
ser observado. Dona Cida jamais foi flagrada que ela com certeza sempre soube: que fez
em atitudes que não fossem de refinamento um importante trabalho como professora:
e bom humor. presença marcante nas vidas de centenas e
2001
Ainda hoje conservo intacto o centenas de alunos, …ex-alunos.
(07 de abril de 2001)
exemplar do Memórias Póstumas de
Brás Cubas, de Machado de Assis, com que
ela me presenteou, o qual sempre releio.
A dedicatória, que mostro com orgulho
para meus alunos universitários, foi muito
importante para mim e tenho a obra como
marco do meu despertar para a literatura e RANCHINHO : PRESENTE DE DEUS
do amor que tenho por Machado, que nasceu
no mesmo 21 de junho que eu. É, para mim, Sebastião Theodoro o seu nome.
um desafio essa obra: é a prosa que eu Ranchinho porque - esclarece seu sobrinho
gostaria de ter escrito. É uma meta-desafio Juvenil - viveu durante algum tempo em
2002

para minhas ambições literárias. uma casa muito modesta, um ranchinho. O

114
apelido, antes detestado, passou a ser aceito interesse vinha tardiamente, já que o

2000
e adotado pelo pintor. Ranchinho descobriu artista havia morrido há mais de dois anos.
na pintura a sua maneira de dialogar com o Lamentei. As imagens sempre voltavam
mundo. à minha cabeça. Foi então que agora, em
Vi pinturas suas pela primeira vez no fevereiro, dia 21, quarta feira, estando no
setor ARTE POPULAR da exposição dos 500 Instituto de Artes da UNESP com a Profa.
ANOS, realizada em São Paulo, no Parque Claudete, eu disse: “Claudete, tinha algo a
do Ibirapuera e fiquei impressionado: num lhe perguntar, mas não me lembro o que.
desenho vigoroso, uma pintura forte! Voltei Não era sobre o Ranchinho, penso”. Ela me
mais duas vezes à mostra e fui rever os olhou com um ar entre espantado e contente,
seus trabalhos. Nasceu, daí, o meu interesse dizendo: “Omar, você nem sabe: encontrei o
pelo pintor. Havia naqueles trabalhos, além Ranchinho no Shopping, em Assis. Ele está
de talento, o que chamo de “inteligência vivo! Em verdade, ele tinha estado doente um
2001 artística”. tempo e deixado de pintar, mas está bem e
Daí, então, fui descobrindo que muita pintando”. Nem saberia dizer como fiquei feliz
gente o conhecia ou sabia dele: A Profa. com a notícia. Sabendo que estaria em Pirajuí
Claudete Ribeiro, que havia morado por na semana seguinte (Carnaval) dispus-me a
muitos anos em Assis - cidade onde atuou o dar uma chegada em Assis. Claudete me deu
pintor - meu aluno Vanderlei Lopes Richarde, o telefone de Oscar D’Ambrosio, pessoa que
grande desenhista, Jorge Anthonio e Silva, me forneceu as coordenadas para executar
estudioso e crítico de arte, que possuía um a empreitada.
seu trabalho… Foi então que me lembrei de Em Pirajuí, pensei em alugar um táxi,
uma conversa que tive com minha colega mas Heloísa Leal Lopes se dipôs a levar-me
Marina Goldman, que havia feito referência até Assis, que eu já conhecia de outras vezes
a um pintor, de quem possuía trabalhos, que e outros motivos. A marca da viagem foi um
agora eu sei: era Ranchinho. calor insuportável (mas que suportamos) na
2002

O que me haviam dito é que meu segunda-feira, dia 26 de fevereiro. Fomos,

115
eu e Heloísa (tinha já estabelecidos Disse seu sobrinho que Ranchinho

2000
contatos através do telefone) recebidos (Sebastião Theodoro Paulino da Silva)
pelo sobrinho do pintor e, em seguida, nasceu em Oscar Bressane, em 07 de
pelo próprio. Recebeu-nos, Ranchinho, janeiro de 1923, mas certos dados estão
alegre como uma criança, mostrando envolvidos na incerteza. Theodoro, nome
quadros, fotos, livros. Estava incansável grego, significa dom, dádiva, presente de
na recepção às suas visitas. Eu olhava Deus - ou dos deuses - e é o que ele é: um
as dezenas de quadros dependurados presente que Deus deu a nós mortais, para
nas paredes de seu atelier e notei que enriquecer visualmente com suas pinturas
apresentavam uma grande diferença com as nossas vidas (Sebastião, também de
relação aos que havia visto na exposição origem grega, significa augusto, magnífico,
dos 500 ANOS, nas continuavam com venerável. Sebastião Theodoro= magnífico
grande vigor. Um colorido, às vezes, algo presente de Deus!).
2001 impregnado. Citações, como a do “Caipira Foi, para mim, uma grande alegria
picando fumo” de Almeida Júnior, tema saber saber que ele estava vivo. Conhecê-
recorrente, recriado e identificado com o lo e relacioná-lo com o trabalho que fez e
Jeca do Mazzaropi/Lobato. Dos cartões ao faz, levou-me mais uma vez a acreditar
duratex, agora pinta em telas preparadas em milagres. Ranchinho pintor: presente
pelo sobrinho. Pedi para fotografá-lo, de Deus.
no que recebi prontamente a resposta (14 de abril de 2001)

afirmativa. Fiz 28 fotos, boas em sua


maioria. Consegui comprar seis de seus
quadros e ganhar uma pintura sobre
cartão. Enquanto fotografava, o pintor
continuava em sua faina de mostrar coisas
à Heloísa por quem ficou encantado. Sua
2002

alegria infantil era de admirar.

116
JOSÉ PANCETTI consistiu num processo de despojamento,

2000
que quase chegou à abstração. Reduziu a
Dentre os artistas dum Modernismo um mínimo os elementos da paisagem. O
brasileiro já avançado, Giuseppe, ou melhor, difícil estava aí: ser simples, e Pancetti soube
José Pancetti ocupa um lugar de grande fazê-lo.
importância, não se encontrando entre Quando morreu - relativamente cedo
os notórios - não fez obra monumental - em 1958, a abstração no Brasil, que
patrocinada por Governo, nem foi de badalação dera seus primeiros passos em fins dos
como muitos de antes, mas principalmente anos 40, estava em sua época de grande
os de hoje, que comparecem com freqüência florescimento, com os concretistas, Volpi -
nas chamadas “colunas sociais”. De pai que viria a ser considerado o maior pintor
e mãe italianos, como muitos de nossos brasileiro de todos os tempos - chegava ao
pintores - e Portinari é o mais notório, um máximo de depuração de formas e cores,
2001 exato contemporâneo de Pancetti; Volpi com uma abstração peculiar e, logo mais,
nasceu na Itália e veio muito cedo para o com os neo-concretistas, sediados no Rio
Brasil - nasceu Pancetti em Campinas, no de Janeiro. Pancetti nos trouxe uma pintura
ano de 1902 (faleceu no Rio de Janeiro, em limítrofe que, sem chegar a ser abstrata,
1958). Tendo sido marinheiro, isto marcou reduziu-se a um mínimo dos mínimos de
a sua vida, comparecendo como tema - as elementos gráficos e picturais, alcançando
MARINHAS - na maior parte de seus quadros. uma qualidade rara entre nós, que só gente
Pancetti chegou a estudas pintura, ganhou como Tarsila, Guignard e alguns outros
prêmios, pintou, principalmente paisagens poucos alcançaram.
e, quando retratos, era melhor nos que fazia Esta exposição que aconteceu
uma auto-abordagem. recentemente na FAAP (de 06 a 28 de
Pancetti, como paisagista, deu o melhor fevereiro) depois de ter estado na Bahia
de si. Tendo recebido influências várias, (Salvador - Pancetti chegou a morar na
2002

acabou por descobrir um caminho prório, que Bahia e a produzir muito lá) e Rio de Janeiro

117
só vem a confirmar, com suas cem telas, anos 50, possuía a cara de São Paulo (e os

2000
a excelência de um pintor chamado José paulistas, freqüentemente, eram acusados de
Pancetti. serem por demais racionalistas, cerebrais).
(21 de abril de 2001) Bem, a Bossa Nova nasceu na Zona Sul
do Rio de Janeiro e teve em São Paulo
uma receptividade sem par. Interessante
relembrar que o pirajuiense Tito Madi,
uma das vozes mais contidas e bonitas da
BOSSA NOVA música popular brasileira, residindo no Rio
de Janeiro, entra como um dos precursores
Em um artiguete sobre São Paulo, daquela tendência musical.
neste mesmo semanário, referi-me ao Rio Época linda na memória daqueles que
de Janeiro como cidade que vinha, desde a a têm - para me referir à Bossa Nova algo
2001 2ª década do século XX (século passado!) pessoanamente.
perdendo a hegemonia cultural para a Para alguém que gostaria de começar
Paulicéia e que, das coisas notáveis que a entender um mínimo de Bossa Nova eu
a Cidade Maravilhosa havia produzido, indicaria apenas cinco canções (que depois
em termos de “movimento”, teria apenas serão cinqüenta ou mais):
a destacar a BOSSA NOVA. Continuo a 1. Chega de Saudade . Jobim-Vinicius
2. Desafinado . Jobim-Newton Mendonça
pensar quase assim, porque acrescentaria,
3. Samba de uma Nota Só . Jobim-Newton
nas Artes Plásticas, o Neo-Concretismo que, Mendonça
diga-se, não é superior ao Concretismo 4. Corcovado . Jobim
paulista, mas, da mesma forma, grande. 5. Garota de Ipanema . Jobim-Vinicius
E o Neo-Concretismo, puxado pelo poeta Jobim, como se vê, está em todas e
maranhense Ferreira Gullar, apresenta- será um dos músicos mais tocados no mundo
se como uma dissidência da Arte Concreta depois da conquista dos EUA pela Bossa Nova,
2002

Brasileira, que àquela altura, 2ª metade dos a partir de inícios dos anos 60. Seu disco

118
com Sinatra é magnífico e demonstra o como entrar numa História da Bossa Nova: dos

2000
a Bossa Nova, que nasceu sob a influência precursores, passando pelos protagonistas,
do Jazz (do cool jazz) se casava bem com aos filhos da Bossa. Porém, na sua
o espírito estadunidense. Excelente letrista configuração diferenciada dentro do universo
Newton Mendonça, que teve morte prematura. da Música Popular, bastaria citar dois nomes
Vinicius, que já era uma celebridade dentro mais um: Tom Jobim, João Gilberto mais
da poesia erudita, diplomata, acabou sendo Vinicius de Moraes.
o maior dos letristas da Bossa, tendo em (28 de abril de 2001)
Jobim seu melhor parceiro. O próprio Tom
Jobim chegou a fazer letras belíssimas para
sua canções (entre outras, a tardia e bela
“Águas de Março”).
Volta e meia entra na moda a curtição
2001 da Bossa Nova. João Gilberto é festejado SÃO PAULO. FUTURO. FUTURISMO
dentro e fora do Brasil por um público
refinadíssimo. João mostrou, como alguns Lembro-me de que, lá pelo ano de
já vinham percebendo - dentro e fora do 1959, numa aula no Grupo Escolar “Olavo
Brasil - que a tecnologia existente à época, Bilac”, tendo feito um desenho não-figurativo,
possibilitada performances vocais sutis como algo multifacetado e colorido, a professora -
a sua, não necessitando, o cantor, de volume Dona Nancy Manso - olhou com admiração e
considerável para se fazer ouvir e trazia, disse: “É um desenho futurista”. Aquilo ficou
com a batida de seu violão, originalidade. em minha cabeça e percebi depois que, no
Isto é o que muita gente que se considera Brasil, dentre os de um certo repertório,
cantor hoje, não compreende, quando se Futurismo era praticamente sinônimo de
aventura a cantar as acima referidas peças Modernismo e não simplesmente uma
antológicas. escola, uma tendência de origem italiana
2002

São muitos os nomes que podem que teve larga influência no Mundo e

119
que, entre outras coisas, fazia o elogio da italiano nascido no Egito, deitaria enorme

2000
máquina, do progresso, tendo como uma de influência, muito embora sua posterior
suas palavras-chave VELOCIDADE. Além opção por ideologia de direita - o Fascismo
disso, tirei uma lição para a minha vida de de Mussolini - tivesse empanado um pouco
professor: nunca reprimir o aluno que está o seu brilho e prejudicado o seu julgamento
desenhando em aula (ao que juntei, depois: como poeta e agitador cultural, precursor
deixe dormir aquele que tem sono). de tanto que se viu depois de suas famosas
Bem, o Futurismo nasceu com T. F. Marinetti, investidas e as de seus companheiros. O
ao publicar no jornal LE FIGARO, em Paris, Futurismo atingiu tudo: da poesia às artes
o seu famoso manifesto que, não sendo o visuais, ao teatro, happenings, música
primeiro manifesto artístico/poético, teve, (Luigi Russolo propôs um “rumorismo” que
no entanto, larga influência sobre todos os antecipou muita coisa, inclusive um certo
manifestos que vieram depois. Em Paris, John Cage). Todo o elogio do progresso,
2001 porque publicar em órgão da imprensa de da máquina e de multidões agitadas nos
lá, era publicar para o mundo (como seria grandes centros, reverberaria no Brasil e em
publicar, hoje, no NEW YORK TIMES). Mas especial na cidade de São Paulo e não à toa.
era para a Itália que ele se dirigia, visando Não só São Paulo havia recebido um grande
à situação daquele país, que, no momento número de imigrantes italianos, que já
(1909) estava atrasado com relação a outros possuíam até filhos nascidos no Brasil, jovens
países europeus. O país de Garibaldi se e adultos, mas, principalmente a partir da
apresentava de norte a sul como um museu, segunda década do século XX, a riqueza que
infestado de professores e cicerones, contra o começou a namorar São Paulo no século XIX
que se deveria lutar. E Marinetti brada contra (graças ao café) e que tendeu a aumentar
tudo isso. O Futurismo, diferentemente de cada vez mais, começa a se mesclar de
outros movimentos que foram batizados à indústria e crescimento urbano acelerado.
revelia e pejorativamente, escolheu o próprio Então, toda aquela apologia do progresso,
2002

nome. O rico e agitado Marinetti (1876-1944) da máquina, da velocidade, mais a maneira

120
como Marinetti expôs o seu programa para a de se encontrar com ele, para não cair em

2000
poesia, encontrou aqui terreno fertilíssimo. “malentendidos”! Interessante é que o
O Modernismo no Brasil, diferentemente trabalho mais belo e consistente que conheço
daquelas histórias que dão importância muito sobre VELOCIDADE, é o poema do então
grande a uma tal transição - que até chegou jovem concretista (1957) Ronaldo Azeredo,
a existir - desembarcou na base da paulada, carioca residente em São Paulo: uma
chutes e pontapés, com o Expressionismo obra prima. O VELOCIDADE, de Ronaldo,
de Anita Malfatti. Já tínhamos pinceladas de responde magistralmente a um apelo
Futurismo e a terceira grande influência veio futurista e o Futurismo foi uma das muitas
a ser a do Cubismo, com Tarsila e outros, influências recebidas e reconhecidas pelos
nos anos 20. Bem, o Futurismo aportou poetas do Concretismo. Da arte italiana do
cedo no Brasil: no mesmo ano em que saiu começo do século XX, o MAC-USP (Museu de
o manifesto de fundação do movimento, o Arte Contemporânea da Universidade de São
2001 mesmo é traduzido e publicado em jornal da Paulo) possui duas obras-primas (duas das
Bahia. Porém, seria São Paulo o lugar para peças de escultura mais importantes de todos
sua frutificação, mesmo que, pouco depois, os tempos e em âmbito mundial) justamente
modernistas como Mário de Andrade, se do Futurismo, do seu mais importante artista
empenhassem em se livrar da pecha de plástico: Umberto Boccioni (1882-1916):
futurista. No editorial de KLAXON - primeira “Formas únicas de continuidade no espaço”,
revista modernista do Brasil, editada em de 1913 e “Desenvolvimento de uma garrafa
São Paulo 1922-23 - o grupo modernista no espaço”, de 1912. De ambas, as matrizes
propõe-se a construir - diferentemente em gesso e cópias em bronze. Doações
da destruição da tradição, apregoada por de Francisco Matarazzo Sobrinho. Isto faz
Marinetti - e diz textualmente: Klaxon não de São Paulo, uma referência obrigatória
é futurista. Klaxon é klaxista (valendo a em termos de Arte e arte do Futurismo.
negação e o trocadilho). Marinetti chegou a Quando leio o famoso manifesto de 1909,
2002

estar em São Paulo e houve quem evitasse não consigo deixar de pensar o que diria

121
Marinetti hoje, estando em São Paulo, se se apresentada na 2ª metade do século V a.C.)

2000
encontrasse na 25 de Março, em pleno dia de Ei-la:
semana (trabalho), na Ladeira Porto Geral,
na General Carneiro, na Direita, na Estação
Sé do Metrô, às seis da tarde! Como não dores, dores!
pensar no trecho do manifesto que evoca as
multidões agitadas pelo trabalho etc? São pra os mortais, grande mal:
Paulo, com seu crescimento desenfreado,
estando sempre num “por enquanto”, “nunca amores.
fica pronta” e encarna, como nenhuma
outra, uma dinâmica - mesmo que não Explicação necessária:
tão desejável - quase sem par neste nosso
mundo. Texto grego:
(05 de maio de 2001) FEU FEU, BROTOIS ERWTES WS KAKON MEGA
2001

Transliteração:
PHEÛ PHEÛ! BROTOÎS ÉROTES HÓS KAKÓN
MÉGA.
UM VERSO DE EURÍPIDES
Tradução tanto o quanto literal:
Das minhas incursões pelo mundo AAI AAI! PARA OS MORTAIS, COMO OS
helênico, resultaram algumas traduções- AMORES (SÃO UM/O) GRANDE MAL.
recriações. Poucas. Poucas mesmo, mas que
considerei muito felizes, todas feitas em fins Traduzir de um idioma para outro é
dos anos 80 e durante os 90 do século XX sempre tarefa difícil, quando não impossível,
d. C. Dentre elas, destaco a do verso 330 em se tratando de poesia: como fazer de
2002

da Medéia, de Eurípides (tragédia escrita e uma obra de arte, uma outra obra de arte

122
em novo idioma? Pois é, o problema todo de formas, mas pelo achamento de

2000
é este. O tradutor deverá ser, também, um equivalências lusas para a materialidade
artista da palavra, um poeta. Tradução de dos signos na língua original (grega)
texto poético só é possível recriando-se, signos estes em estado de poesia. Mas fui
achando equivalências no outro idioma (é adiante, conseguindo, além da eufonia, a
claro que é sempre melhor estudar, curtir aplicação de um recurso muito caro à nossa
poesia no original, porém, a tradução entra tradição, mas não à civilização grega, que
como um desafio para o fazedor, uma dela não fazia uso: a rima. E, aí, uma rima
categoria - mesmo - da criação). Daí que, surpresa: se é intolerável a rima amor e
vivendo o original, o tradutor transcria. dor, amores e dores, causa surpresa: e
Trabalho resultante: obra autônoma que é como está no grego - amores, plural:
traz, ao mesmo tempo, a memória daquela ERWTES. A interjeição FEU, indica dor e vem
que a motivou. Em outras palavras: o novo reiterada - daí, utilizei, com o mesmo valor,
2001 texto tem vida própria, ao mesmo tempo em o substantivo no plural: dores, repetido. A
que aponta para o original. não necessidade do uso do verbo em grego,
No mais, o que têm sido esses coincidiu com a possibilidade de tampouco
milênios de prática artística, senão um utilizá-lo em português.
constante diálogo entre artistas/fazedores A referencialidade do original transita,
e obras? O que é a intertextualidade senão outrossim, quase que inteiramente para a
esse dialogar que forma um tecido chamado língua de Camões.
patrimônio artístico? O próprio inserir-se Deixo públicas, aqui, minhas dívidas
numa tradição, para produzir algo já implica, artísticas e intelectuais, ao mesmo tempo em
necessariamente, esse diálogo. que agradeço a Ezra Pound, Roman Jakobson,
Faço aqui, de uma linha (verso) Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo
da referida tragédia euripidiana, uma de Campos, Paulo Miranda, Luiz Antônio de
peça autônoma em português. Trabalhei Figueiredo, Anna Lia Amaral de Almeida
2002

considerando a impossibilidade da tradução Prado e Filomena Yoshie Hirata Garcia.

123
Recriação ou tradução-arte ou eficácia: ou porque para algo novo (desde

2000
transcriação, para ficar com os Campos, uma invenção, até um novo comportamento/
irmãos do Concretismo ou, à maneira algo procedimento) é preciso um novo termo, ou
paródica, de minha lavra: translusificação. porque expressões antigas perderam a sua
Se traduzir um verso é difícil, imagine- eficácia; então, necessita-se de uma nova
se uma peça inteira! maneira para abordar aquelas questões.
Num arroubo de desgosto, num Gíria é neologismo, porém condenado
desabafo, a preterida Medéia maldiz o que já pelos gramáticos, onde podemos incluir os
havia sido a mola de seus prazeres, então, professores de português (no nosso caso
motivo das suas dores. Amor, amores. específico de nossa língua): gramáticos,
Vida. acadêmicos, uma certa mídia e a escola
(12 de maio de 2001) fazem o papel de polícia do idioma e sua
atuação não é de todo má. Um certo controle
2001 é importante, senão cairíamos num caos
total, proliferariam os idioletos (idioleto:
modo particular de um indivíduo se expressar
NEOLOGISMOS verbalmente, ou de um grupo específico: as
tribos urbanas, por exemplo) e se chegaria
O termo “neologismo”, de origem a uma incompreensão total, insuportável.
grega, significa, literalmente, “palavra De qualquer modo, há uma fala média, há
nova”. Porém, envolve desde a palavra nova, a erudita e até mesmo solene; há uma fala
propriamente, até a antiga a que se deu vulgar e aquela permeada de termos chulos:
um novo sentido; também, as expressões para alguém de alto repertório quanto ao
criadas, as quais sempre abrigam uma verbal, é importante ter domínio sobre todos
metáfora. Um neologismo responde a uma esses campos. Bem, os idiomas vivos são
necessidade do indivíduo, da comunidade, organismos crescentes e mutantes. Portanto,
2002

da sociedade de se expressar com maior evoluem, modificam-se, mesmo que à revelia.

124
Línguas mortas - citem-se, entre outras, o para o dicionário e acaba fazendo parte

2000
grego antigo e o latim - ficam onde pararam. “oficialmente” do idioma. Geralmente nem
A quem pertencem os idiomas? - Aos seus temos idéia de quem criou determinado
falantes e escreventes - e, portanto, aos neologismo; de outros, é fácil saber quem
seus pensantes. Por outro lado, os idiomas introduziu: é o caso de termos e expressões
vivem sendo bombardeados por palavras criados por jornalistas, escritores, cientistas
novas (via de regra, nem tão novas assim): (que publicam em revistas especializadas).
o caso da Informática, por exemplo: o Eu mesmo tenho criado centenas de palavras
inglês se torna onipresente e, ironicamente, e expressões, desde a adolescência, mas
com palavras, às vezes, de origem grega e principalmente agora, na maturidade e para
latina e que passam pelo crivo da língua de fins literários e/ou poéticos, com um certo
Shakespeare. Não adiantam leis regulando teor humorístico (porém, nem sempre).
ou proibindo palavras estrangeiras: tais leis Vejamos alguns: dormidouro, eroto-
2001 permanecerão “letra morta”. Não devemos anorexia, erotografia, amnêmico, 14 Bis
temer novas maneiras de expressão, que de chumbo, síndrome de Frankenstein ou
entram e saem de uso. Perguntem aos de MEDENSTEIN (Medéia com Frankenstein)
seus pais e avós quais as expressões que etc. Para se criarem palavras, há muitas
se usavam em sua época de adolescência maneiras, como transliterar de outros idiomas,
e juventude: tudo parecerá tão engraçado! dando uma roupagem local, tirar do nada
Há pessoas que têm facilidade para inventar uma seqüência fônica, emprestando-lhe um
expressões e cunhar palavras ou introduzir significado etc. Porém, a maneira erudita de
novos sentidos em palavras de uso comum. proceder, a tida como boa pelos gramáticos
Para que um neologismo se consagre é é a de recorrer a radicais gregos e latinos. É
preciso que seu uso seja difundido: de o caso, entre tantos outros, de FOTOGRAFIA
boca em boca ou através das mídas - dos e CINEMATOGRAFIA (referindo-se a
livros ao rádio, TV, Internet etc. Mas sua invenções técnicas do século XIX). A língua
2002

consagração definitiva se dá quando entra evolui, quer se queira, quer não. Portanto,

125
não é recomendável o dispêndio de energia pedantes o português do Brasil, isto, para

2000
policiando-a ostensivamente. Deixe essa não falar do uso de puras expressões latinas,
tarefa aos professores de línguas. Por outro para impresionar os menos inteirados de um
lado, para fazer uma verdadeira revolução na repertório lexical sofisticado). DEIXE O PEIXE
língua-linguagem é preciso conhecê-la bem e EM PAZ! Que as pessoas possam se expressar
este foi o caso de muitos escritores-artistas, com eficácia e conhecimento de causa. Mais
como Lewis Carroll, James Joyce, Guimarães grave são pessoas que têm acesso às mídias
Rosa, Décio Pignatari. As investidas contra e fazem mal uso delas (e ganhando salários
as normas ditas cultas constituiu-se numa milionários para vomitar um português todo
luta travada no Brasil pelos modernistas do coalhado de erros crassos). Um português
primeiro momento, como Oswald e Mário inventivo deve ser visto com admiração:
de Andrade, Manuel Bandeira e outros. O do escritor-poeta ao menino que procede à
mais radical, teoricamente, foi Oswald que, desmontagem de um sistema inadequado
2001 em seu Manifesto da Poesia Pau-Brasil, para a sua expressão verbal, mesmo que
de 1924, chegou a escrever: “A língua temporariamente. A língua, embora mesma,
sem arcaísmos, sem erudição. Natural e nunca mais volta a ser a mesma.
neológica. A contribuição milionária de todos
os erros. Como falamos. Como somos”. No NEOLOGISMO
Brasil, ensinava-se um português como M. Bandeira
Beijo pouco, falo menos ainda.
se estivéssemos no país de Camões.
Mas invento palavras
Ignoravam - gramáticos e professores - as Que traduzem a ternura mais funda
transformações pelas quais havia passado o E mais cotidiana.
português no Brasil, desde o século XVI. Hoje, Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
alguns poucos se revoltam contra os falares Intransitivo:
Teadoro, Teodora.
de “tribos” e contra a invasão de termos da
língua inglesa (antes, era o francês a língua
(19 de maio de 2001)
2002

que povoava de termos chiques, eruditos e

126
HISTORINHAS DE POETAS 1: MANUEL poema continuasse bom ou excelente! Se

2000
BANDEIRA E O SONHAR POEMAS Manuel Bandeira era capaz de sonhar bons
poemas, é porque ele era capaz de fazê-los
Manuel Bandeira (1886-1968) poeta quando acordado. E sempre fez bem melhor
essencialmente lírico, construiu uma quando acordado. O seu lindo “Oração no
solidíssima obra dentro do Modernismo do Saco de Mangaratiba” seria final de um longo
Brasil. O poeta conhecia várias línguas e poema, a única parte em versos regulares
havia visitado praticamente toda a tradição (eneassílabos) poema que ele concebeu
poética do Ocidente, e alguma coisa de num estado de semi-demência (dormência)
Oriente. Isto quer dizer que possuía um como narra em seu Itinerário de Pasárgada.
repertório invejável em termos de Poesia Ou seja: você só sonha mesmo um poema,
(um poeta se faz lendo/ouvindo outros quando tem repertório para sonhá-lo e até
poetas) o que lhe possibilitava, somando a reconstituí-lo quando em estado de vigília.
2001 tudo isso, o seu talento/sensibilidade, fazer A inspiração, entendida como momento
poesia, e da melhor. Pois é, Bandeira sonhava em que tudo contribui para que a obra se
poemas inteiros ou os concebia em estado perfaça, só acontece quando a pessoa possui
entre o sono e a vigília - num quase delírio, já a informação, quando tem repertório
eu diria. Após conceber poemas nessas para isso. Intuição, IDEM: não se intui do
circunstâncias, Bandeira ou conseguia nada: já se possui repertório e a intuição,
reconstituí-los inteiros ou parcialmente. portanto, é informada. Nada vem do nada,
Seria possível a qualquer pessoa sonhar assim como nada garante nada. Dados
uma obra de arte de qualquer natureza? emergem do Inconsciente, principalmente
Poderia - alguém - sonhar um grande em sonhos: Freud colocou o sonho como a
poema, por exemplo, ou, mesmo, um poema porta de entrada para o Inconsciente, mas
simplesmente bom? Eu diria que a resposta até acordado pode acontecer um fluxo do
é não. A não ser que o sonhador fosse capaz Inconsciente (atos-falhos...). Se você vier
2002

de reconstituí-lo quando acordado e o tal a sonhar um poema tão lindo como aqueles

127
de Safo, que nos chegaram aos pedaços, HISTORINHAS DE POETAS 2:

2000
reconstitua-o e publique-o. Divida-o com MALLARMÉ E DEGAS: COM QUANTAS
os outros mortais e… tenha bons sonhos! IDÉIAS SE FAZ UM POEMA?
Em tempo: Na relação Poesia-Sonhos,
podemos considerar fundamentalmente Mallarmé (1842-1898) poeta francês
três aspectos: 1. O sonho enquanto tema associado ao Simbolismo, tido como poeta
para poemas: registro de lembranças hermético, foi daquelas sensibilidades para
do universo onírico. 2. O poema que é a poesia, como raros o foram ao longo da
sonhado e que se é capaz de reconstituí- tradição ocidental. Já era uma celebridade
lo total ou parcialmente, porque se é no meio literário quando publicou seu
capaz de elaborá-lo em estado de vigília. poema Um lance de dados jamais abolirá
3. A utilização tanto quanto possível, nos o acaso, no ano de 1897, poema fundante,
poemas do modo como se organizam os pois que está nas origens das poéticas mais
2001 sonhos. Isto tudo eu tentei desenvolver radicais que se desenvolveram no século
numa conferência na PUCSP, durante XX. E, mesmo depois de morto, deixou
semana de comemoração dos cem anos claro que tinha muito mais coisas a mostrar,
do advento da obra de Sigmund Freud para intrigar o mundo. Incompreendido
Interpretação dos Sonhos, época em que por alunos (foi professor de inglês) mas
Samira Chalhub, grande amiga, estudiosa amado e cultivado por colegas da poesia e
da psiquê e das linguagens, já não doutras artes, assim como por discípulos,
desfrutava dos ares deste nosso Planeta. Mallarmé viveu numa época de grande
A ela dedico este escrito. efervescência, numa França com grande
(26 de maio de 2001) densidade de gênios, em todos os campos,
sendo o próprio Mallarmé, gênio maior
entre gênios: Degas, Cézanne, Debussy,
Rimbaud, Zola, Rodin, Irmãos Lumière,
2002

Monet… Precisaria citar mais alguém? Bem,

128
conta o grande poeta-pensador Paul Valéry HISTORINHAS DE POETAS 3: A

2000
que, certa feita o pintor Degas comentou MALDIÇÃO DE CASSIANO
com o amigo Mallarmé que possuía boas
idéias, mas que as mesmas acabavam por Cassiano Ricardo (1895-1974) esteve
não resultar poemas. Mallarmé, certeiro, sempre na rabeira dos acontecimentos
disparou que poemas não se faziam com poéticos: de 22 ao Concretismo. Nos anos
idéias, mas com palavras! É óbvio que 60 esteve associado à página “Invenção”, do
palavras são entidades prenhes de idéias, CORREIO PAULISTANO e, temporariamente,
mas o que Mallarmé quis dizer - é a à revista INVENÇÃO, porta-voz dos
interpretação mais plausível - é que para Concretistas e chegou a colaborar em seus
se fazerem poemas é preciso que idéias se dois primeiros números. Mas a raposa velha
corporifiquem em palavras. Que o código - famosa no meio literário, bi-acadêmico,
de domínio de Degas não era o verbal, com alguma força junto às autoridades
2001 mas o gráfico, o das linhas, formas, cores - não tardaria a mostrar o seu verdadeiro
e que ele - Degas - não dizia ter idéias lado: conservador com vernizes reformistas:
para quadros: ele simplesmente os fazia foi rompida a amizade/colaboração entre
(e, genialmente, diga-se). Ou seja, Degas o ancião e os jovens Décio, Haroldo,
não era um poeta, no sentido de que poeta Augusto… Nesse fim de romance, durante
é aquele que, manipulando palavras faz uma discussão, Cassiano disse : “O arco não
delas obras de arte: os poemas. Degar pode permanecer o tempo todo teso; uma
era um desenhista-pintor. Então, que hora tem de afrouxar” (A maldição: Um dia
pintasse! vocês terão de afrouxar). Ao que detonou
(02 de junho de 2001) Décio Pignatari: “Na geléia geral brasileira
alguém tem de exercer as funções de medula
e de osso”. O contato com os concretistas
possibilitou alguns poemas curiosos da Raposa
2002

Velha que, no mais, possuía algum talento.

129
Diferentemente, Manuel Bandeira, poeta HISTORINHAS DE POETAS 4:

2000
célebre em fins dos anos 50, compreendeu INTERFERÊNCIA DOS DEUSES?
em parte e fez belas e poucas experiências
dentro de um repertório concretista; chegou Poesia, Inspiração, Musa. Como toda
a defender os então meninos em crônicas, Arte, a Poesia resulta de um processo
hoje publicadas em volume. Bandeira nunca dialético em que, de um lado temos a pura
deixou de ser bandeiriano. A trazida de sensibilidade e do outro a mais completa
Cassiano para o seio do grupo concretista racionalidade/cerebralismo. O poeta, ou
foi obra de Décio Pignatari, que apontou fazedor, é o artista que tradicionalmente
o fato como uma grande jogada política trabalha com palavras, elevando-as à
de sua autoria. Opinião da qual discordei, categoria de ARTE. Para que possa vir a fazer
sempre que presente em ocasiões em que isto, um poeta teve toda uma formação que
Décio afirmava isso. Talvez que a presença dependeu de muito ouvido ou muita leitura de
2001 da Raposa tivesse ajudado na divulgação do textos poéticos. Portanto, ele tem o domínio
movimento. Eu penso que mais atrapalhou. de toda uma tecnologia que lhe possibilita, de
Senão, por que o promotor da façanha teria quando em quando, uma composição feliz.
dado, no velho bardo, a tacapada mortal? Contribui, ele, para o enriquecimento de sua
Como todos os jovens empenhados em criar- tradição poética e os poemas são a mais
inventando, os concretistas não tolerariam elevada manifestação que o código verbal
alguém que viesse tentar lhes cortar o possibilita. Platão colocou o poeta como
barato (entenda-se: ENTUSIASMO). alguém que recebia, via divindade, a poesia:
(09 de junho de 2001) o poeta era meramente um meio através
do qual a divindade se manifestava. Uns
fazedores evocavam a Musa, a começar pelo
insuperável e fictício Homero. Inspiração?
Bem, pouca inspiração e muita transpiração
2002

disse o cientista-inventor Thomas Edison.

130
Inspiração só acontece para quem possui acontece”. E meu amigo e grande poeta

2000
repertório e, portanto, os meios para - um quase desconhecido - Aldo Fortes,
fazer corporificar o poema. Alguns poetas recentemente elogiando uns versos disse:
colocaram a inspiração como o momento “Um grande achado, sabe, um daqueles
ou processo em que tudo colabora para presentes dos deuses”… Pois é, mesmo
que a obra aconteça. Todo poeta é um ser acreditando que tudo depende do repertório
pensante, cerebral, porém há os que pensam e que intuição é coisa informada, não
tudo e explicitam esse pensamento através deixamos de recorrer a antigos expedientes
do exercício da metalinguagem - não têm para explicar ocorrências fora do comum
problemas para falar sobre seus poemas, a em Poesia (que já é linguagem fora do que
começar pelo querido Edgar Allan Poe (1809- ordinariamente acontece)!
1849) que, através do seu “A Filosofia da (16 de junho de 2001)

Composição”, explicou o processo de feitura


2001 de “O CORVO”. No Brasil, de Drummond
aos Concretistas, passando por João Cabral
de Melo Neto - da metalinguagem nos
próprios poemas, à prosa metalingüística
militante. Os concretistas se caracterizaram HISTORINHAS DE POETAS 5: O CASO
por serem muito cerebrais. Os paulistas DO MENSAGEM, DE F. PESSOA
sempre foram acusados de cerebralismo
exacerbado. Concretista paulista?! Cérebro Fernando Pessoa (1888-1935)
puro! Certa vez, conversando com Augusto aliás, PESSOAS. Trata-se de Fernando
de Campos, sobre soluções geniais que ele António Nogueira Pessoa, do festejado,
encontrava para suas traduções-recriações, do grande poeta poeta poertuguês dos
ele disse entre sério e brincando: “Tudo heterônimos. Todos sabem dizer, nem que
pode estar dando certo, mas se não houver seja alguma sua estrofe, como a primeira do
2002

uma interferência dos deuses, a coisa não “AUTOPSICOGRAFIA”, uma quadra:

131
excepcional. Nem tudo, porém são flores no

2000
O poeta é um fingidor. Jardim das Musas. No ano de 1934, Fernando
Finge tão completamente Pessoa concorreu a um prêmio de poesia:
Que chega a fingir que é dor
enviou nada, mais nada menos, que o seu
A dor que deveras sente.
Mensagem: uma espécie de épico possível
em seu tempo, impregnado de lirismo: um
Sempre lembrada a questão da
épico anti-épico, feito de poemas curtos
heteronímia (vários poetas por um só, que,
com medidas diversas: quadros congelados
de vez em quando, era ele-mesmo). Numa
de um Portugal já ido, mas contaminado
Lisboa provinciana, sem interlocutores à
de messianismo. Eu diria que esta obra-
altura, o aparentemente pacato Fernando
prima (e prima sempre o é em termos
era um vulcão por dentro. Produzia
qualitativos) constitui-se num dos mais
compulsivamente e não se contendo em
belos livros de poemas do século XX: um
si, desdobrou-se em vários: era Pessoa-
2001 livro inteiro, com uma cara única, não um
ele-mesmo, Alberto Caeiro, Ricardo Reis,
ajuntamento de poemas em volume. Pois
Álvaro de Campos e muitos outros. É
é, foi criado um prêmio de 2ª categoria e
elevada a qualidade de sua produção
atribuído ao poeta. Foi o único livro seu, de
poética. Também produzia teoria e era
poemas, publicado em português. Poemas,
muito bom tradutor de poesia. Enchia a
ele publicou em revistas várias: ORPHEU,
cara: preferiu morrer de cirrose a esperar
PORTUGAL FUTURISTA, ATHENA e tantas
que o tédio o detonasse em mais alguns -
outras. Tive chance de consultar a 1ª edição
talvez muitos - anos. Morreu aos quarenta
de Mensagem, em inícios dos anos 90, da
e sete anos e meio, mas nunca deixou de
biblioteca da LETRAS-USP. Foi uma emoção
dar trabalho aos que se dedicaram à sua
para mim, eu que possuo umas oito edições
obra. Sabendo perfeitamente o inglês e
diferentes do livro. Se alguém se lembra
tendo inclusive escrito nessa língua, fez
do nome do poeta que recebeu o primeiro
opção pelo português e foi, nesta, um poeta
2002

prêmio, é em função do Pessoa injustiçado.

132
Os contemporâneos são, geralmente, os HISTORINHAS DE POETAS 6: O IDIOMA

2000
que menos compreendem a obra dos grandes DO POETA
artistas, dos artistas excepcionais. Vejamos
com que poema (conservo a grafia original, Poderia um poeta ser excepcional em
como ele quis que fosse) F. Pessoa abre o mais de um idioma? Não é o que a vida e a
seu mencionado livro: história nos têm mostrado. Um poeta está
sempre ligado a um idioma e este é, via de
A Europa jaz, posta nos cotovellos: regra, aquele da comunidade na qual ele
De Oriente Occidente jaz, fitando,
nasceu e se criou. Um poeta se faz lendo/
E toldam-lhe romanticos cabellos
ouvindo outros poetas e, nisto, tem muita
Olhos gregos, lembrando.
importância a leitura de textos originais,
O cotovello esquerdo é recuado; quero dizer, no idioma em que os poemas
O direito é em angulo disposto. foram originalmente escritos. Daí que muitos
Aquelle diz Italia onde é pousado;
2001 poetas são, por esse motivo ou por outro,
Este diz Inglaterra onde, afastado,
versados em vários idiomas. Alguns até
A mão sustenta, em que se apóia o rosto.
chegam a escrever também num segundo
Fita, com olhar sphyngico e fatal, idioma, ou num terceiro, ocasionalmente.
O Occidente, futuro do passado. Temos notícias de escritores, poetas que
escrevem num para, em seguida, escrever
O rosto com que fita é Portugal.
noutro, como que traduzindo a própria
(30 de junho de 2001) criação. Prevalece aquele com o qual tem
muito maior familiaridade, aquele dentro
do qual nasceu. O nosso - dos portugueses
e do mundo - Fernando Pessoa possuía um
grande domínio do idioma inglês, escreveu
em inglês: poesia e prosa, teoria. Porém, no
2002

idioma de Shakespeare ele é apenas bom.

133
Excepcional, Pessoa é na língua de Camões, PERTURBAÇÕES/RUÍDOS

2000
que honrou como ninguém, lá em Portugal,
depois do autor de “Amor é fogo que arde Em Teoria da Informação e da
sem se ver”. Foi uma opção mais do que Comunicação RUÍDO vem a ser toda e
consciente, de Pessoa, a língua portuguesa: qualquer perturbação no processo de
“Minha pátria é a língua portuguesa”, disse. E comunicação, podendo, em verdade, afetar
fez obra monumental. É que um poeta, para todos os cinco sentidos, não apenas a
exercer em sua plenitude o seu ofício, tem audição. Daí termos ruídos visuais, táteis,
de operar em um idioma, a partir do qual ele gustativos, olfativos, além dos auditivos.
irá concentrar todo o seu poder de trabalhar Em todo processo de comunicação há ruídos
a linguagem, criando, a partir de um léxico em maior ou menor grau. A coisa só é de
e de uma sintaxe conhecidos, um idioma fato problemática quando o nível de ruído
novo: POESIA. Um poeta só é grande em um vem a ser tal que inviabiliza o processo
2001 único idioma. A não ser que ele conte com comunicacional. É, por outro lado, impossível
a graça de tradutores recriadores, como foi comunicação sem ruído, por menor este que
o caso de Vladímir Maiakóvski, entre outros, seja. Em processos altamente satisfatórios,
que contou com o maravilhoso trabalho de o teor de ruído tenderá a zero. Bem, tato,
recriação - tradução-arte - dos irmãos Haroldo olfato, e paladar não chegam a constituir
e Augusto de Campos, assistidos por Bóris códigos verdadeiros, diferentemente da
Schnaidermann. Maiakóvski em português, visão e da audição, mas há linguagens
não só se tornou legível, como pôde vir a ser originadas desses sentidos e, portanto,
considerado um poeta excepcional! comunicação. Daí, termos, nos processos
(07 de julho de 2001) que envolvem linguagens que tomam por
base aqueles sentidos, também a incidência
de ruídos, elementos perturbadores dos
processos, podendo até ainviabilizá-los.
2002

No que diz respeito à alimentação, trago a

134
seguinte relação de perturbações, de coisas . Sal em excesso, o que obriga as pessoas

2000
indesejáveis: a se socorrerem na água (além de nocivo à
. Um espirro sobre a travessa com comida. saúde, o excesso de sal pode inviabilizar a
. A tagarelice que faz respingar saliva, como refeição).
uma garoa. Isto é visível e horrível. . Semente de cítricos na salada ou no
. Uma pedra no feijão (de quebrar dente, refresco.
dir-se-ia). . Gente colocando comida em seu prato, sem
. Um caruncho no arroz. que você a solicitasse.
. Uma mosca na carne de panela. . Comida que é servida quente e está gelada
. Um fio de cabelo na sopa ou em qualquer por dentro.
outra iguaria. . Qualquer iguaria que não tenha sido
. Uma lesma na verdura de folha. apurada: da feijoada ao doce de abóbora.
. Cartilagem no recheio da coxinha. . Gás que acaba momentos antes de concluído
2001 . Pedaço de osso no recheio da torta. o cozimento.
. Cheiro de um alimento passado para outro . Acabou o azeite!
dada a proximidade (o melhor/pior exemplo: . Convite aceito e não cumprido.
pão impreganado do odor de banana . Chegar a um evento que não irá mais se
nanica). realizar.
. Telefone toca, há mais pessoas à mesa e . Notícia corta-barato que vem provar que
você vai atender e se demora. há coisas mais urgentes que uma celebração
. Gente fumando à mesa, enquanto outros gratuita.
comem. . Estar na berlinda, alvo dos comentários de
. Gente chegando fora de hora e interrompendo toda a mesa, quando na verdade o que você
a todos com cumprimentos efusivos. quer é comer.
. Pimenta inteira na comida, sem aviso .Vasilha com cheiro/gosto de rato/barata.
prévio. . Mãos lavadas com sabonete perfumado,
2002

. Nervos no quibe cru ou na almôndega. odor que passa para a comida.

135
. Discussões familiares enquanto se come. não teriam importância para a minha vida

2000
Sei que isto tudo é apenas aperitivo e de poeta e de professor, portanto eu os
que você tem muito mais coisas a acrescentar desprezava, assim como os concretistas o
a esta lista inicial. faziam. Daí é que, às vezes, topava com
(14 de julho de 2001) parte de obra de um desses autores que
- notava - possuía algum interesse, como
era o caso de Gonçalves Dias, Olavo Bilac,
Raimundo Correia e até Castro Alves.
Foi aí que, um dia, estando com o poeta
Haroldo de Campos, que sempre batalhou
- teorizando - pela organização de uma
HISTORINHAS DE POETAS 7: CINCO antologia da poesia brasileira de invenção,
MINUTOS É TEMPO POUCO! “antes feita de fragmentos que de poemas
2001 inteiros”, resolvi perguntar-lhe sobre Castro
Os poetas concretistas tiveram uma Alves: - Haroldo, você poderia me expor
enorme influência na minha formação. Isto o que pensa sobre Castro Alves, em cinco
nunca me deixou angustiado, antes, pratiquei minutos? (Hoje, eu diria: “em dois minutos
um ato de antropofagia, oswaldianamente e meio”). Haroldo, com todo o seu polimento
(como diria José Celso Martinez Correia): e erudição, mais a calma intelectual que os
tudo o que eu não possuía mas que desejava e anos lhe emprestaram, levou meia hora,
que via que eles (os concretistas) possuíam, numa bela explanação, para me justificar
degluti. Assimilei. “Só me interessa o que porque é que ele não poderia me resumir
não é meu”… ( O. de Andrade, Manifesto Castro Alves em apenas cinco minutos!
Antropófago . 1928) deles absorvi aquela Fiquei satisfeito e, entre as conclusões que
coisa do rigor extremo na elaboração de pude tirar disto ficou a de que, em certas
seleções, de antologias. Daí que, como eles, épocas - como já observara Ezra Pound
eu refugava muitos autores. Alguns criadores
2002

- é preciso ser-se radical ao máximo… Em

136
outras, sem que haja a perda do rigor, há lugar, a partir de inícios do século XIX, ao

2000
que se ponderar e encontrar a qualidade Neoclassicismo, que chega oficialmente ao
onde quer que ela esteja, mesmo que em País com a Missão Artística Francesa de
poemas/poetas anteriormente ignorados de 1816, encomendada pelo Príncipe Regente
maneira proposital, em prol de um programa D. João (futuro D. João VI).
poético, de uma postura coerente. Com algumas insignificantes
(21 de julho de 2001) variações, o Academismo Neoclássico,
incentivado principalmente pelo nosso
segundo imperador, deu seus melhores
frutos justamente durante a segunda metade
do século XIX e, com a República, adentra o
século XX.
A SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922 Costuma-se apontar uma transição
2001 dessa arte acadêmica crepuscular para
No Brasil, país integrado à Civilização a Arte Moderna, no Brasil, colocando
Ocidental por obra dos portugueses, a Arte principalmente as obras de um Almeida Júnior
se desenvolveu como uma necessidade, não e de um Eliseu Visconti - ambos pintores
dependendo de qualquer planejamento ou admiráveis, que já traziam algo de diferente:
boa vontade por parte dos colonizadores o primeiro, em termos de uma atmosfera
(o episódio holandês do século XVII escapa mais naturalista e, portanto, menos próxima
destas considerações). Como se diz: a Arte de um cenário teatral, tão caro à Academia;
se desenvolve apesar de, ou, mesmo que à o segundo, por meio de um impressionismo
revelia. tardio e não tão bem digerido.
O Barroco, identificado como arte Em verdade, a Arte Moderna chega
colonial, pois o seu desenvolvimento ao Brasil, aos tapas e pontapés, não com
coincide - em termos de Artes Plásticas - as exposições de Lasar Segall, de 1913,
com essa divisão da História Brasileira, cede
2002

em São Paulo e Campinas (que certamente

137
não mostrou o que havia produzido modernização que vinha desde a segunda

2000
de mais radical na Europa, dentro do metade do século XIX e que muito tinha a
repertório expressionista) mas com a de ver com o café, a riqueza que ele trazia,
Anita Malfatti, de 1917-18. Esta exposição com a imigração, com o enriquecimento de
causou espanto e, se por um lado trouxe uma aristocracia que se formara ao longo
problemas insanáveis à artista, por outro, dos séculos, o surgimento de um mercado
serviu para despertar alguns jovens quanto interno, mesmo que incipiente, o despontar
à necessidade de se renovarem as Artes no de uma burguesia. Ou seja, em nenhum
Brasil: Artes Plásticas, Poesia, Música. outro lugar do Brasil se observava tanto
Naquela exposição realizada em São dinamismo como na cidade de São Paulo.
Paulo e que dera ensejo ao famoso artigo A Arte Moderna chegou ao Brasil
de Monteiro Lobato, desqualificando a Arte com a chegada de tendências européias,
Moderna e a pintora, Anita Malfatti havia como o Expressionismo, o Futurismo e o
2001 apresentado algumas das pinturas mais Cubismo (este último, principalmete a partir
fortes de quantas foram realizadas até então dos anos 20). Quem detonou o processo
por artistas brasileiros, obras de sua “fase conhecido como Modernismo, no Brasil,
americana” (ela passara parte dos anos de foi Anita Malfatti, com a já mencionada
1915 e 1916 nos Estados Unidos, estudando exposição e, muito embora se detectassem
pintura e desenho). sintomas de mudança em outras Artes, o
Sintomaticamente, a exposição Malfatti nosso Modernismo teve início, mesmo, com
se realizou em São Paulo, assim como foi a as Artes Plásticas.
paulicéia o centro irradiador do Modernismo Em torno de Anita Malfatti foram
no Brasil. São Paulo era, à época, o centro se reunindo pessoas que viriam - com o
urbano mais dinâmico do País, o lugar onde apoio de uma aristocracia endinheirada e
se observavam as maiores transformações inteligente (à qual pertencia Paulo Prado e
e uma maior necessidade de fazer chegar outros) - promover, em fevereiro de 1922,
2002

às Artes as conquistas de um processo de no Teatro Municipal de São Paulo, a SEMANA

138
DE ARTE MODERMA (a SEMANA DE 22, Lobos.

2000
como é conhecida). Há quem, como Yan de Almeida Prado,
A Semana constituiu-se num detrate a Semana: puro despeito e/ou
marco importante dentro do processo incompreensão. A Semana de Arte Moderna
modernista brasileiro - foi o coroamento teve importância fundamental no processo
de uma fase, podemos até dizer. Constitui- modernista, como arregimentadora de forças
se na demonstração de que as linguagens e divulgadora das já consumadas conquistas
estavam mudando, no Brasil. A Semana de de linguagem.
Arte Moderna contou com a participação Após a Semana, saiu (maio de 1922)
de representantes das mais diversas áreas o primeiro número da primeira revista
artísticas: alguns estiveram no Municipal, modernista do Brasil: KLAXON, editada
em pessoa, outros, com obras. Na seção de em São Paulo, que foi seguida por outras
Artes Plásticas, a pintura de Anita Malfatti em outras cidades brasileiras. Como revista
2001 continuou a ser o que de melhor havia, porta-voz dos modernistas, KLAXON foi a
mas participaram da mostra: Di Cavalcanti mais bela graficamente falando, mas durou
(um dos idealizadores da Semana, carioca apenas 9 números em 8 volumes (o último
residente à época em São Paulo, desenhista foi duplo 8-9).
de humor e pintor, que teve, após o famoso Tarsila do Amaral, embora já
evento, um maior desenvolvimento de pertencente ao círculo de modernistas
sua carreira de artista), Vicente do Rego- de São Paulo, não participou da Senama,
Monteiro, Vítor Brecheret, John Graz, Yan nem com obras - estava em Paris, onde
de Almeida Prado (mais por troça que por bebia de muitas fontes, naquela que era,
crença) e outros. Das Letras, Mário e Oswald então, a capital cultural do mundo, mas
de Andrade, Menotti del Picchia, Manuel absorvia tenazmente o repertório cubista,
Bandeira, Guilherme de Almeida, Graça que lhe serviria (juntamente com Oswald de
Aranha e outros. Da música, o maior nome Andrade), a partir de 1924, para proceder
2002

era o do compositor e maestro Heitor Villa- a uma peculiar leitura do Brasil. Uma das

139
façanhas dos Modernistas de São Paulo foi a fato de Oswald de Andrade se intrometer

2000
retomada da herança colonial - entenda-se: nos negócios da Poesia. Nunca admitiu,
do Barroco - a partir de viagem de 1924, Bandeira, o Oswald poeta. Sempre acusado
que ficou famosa. de ler pouco - injustamennte, pois lia, muito
A Semana de Arte Moderna de 1922 embora não fosse um rato de biblioteca -
fica como marco fundamental de nosso Oswald sabia donde extrair as informações
Modernismo: encontro das Artes/Linguagens, adequadas para as suas performances. Ou
certeza de que as mudanças haviam chegado seja, era alguém bem informado. Quando
para continuar. Também, ajudou a colocar OA lançou seu manifesto da poesia pau-
a cidade de São Paulo como grande centro brasil (1924), Bandeira escreveu um artigo
irradiador de cultura no Brasil. detonando, dizendo, entre outras coisas que
(28 de julho de 2001) não suportava poesia de programa (ou seja,
não assinaria um manifesto). Então, digam-
2001 me: o que seria o seu posterior “Poética”,
publicado no livro Libertinagem? No livro
Apresentação da poesia brasileira,
HISTORINHAS DE POETAS 8: MANUEL Bandeira desconsidera o Oswald poeta,
BANDEIRA VERSUS chamando o seu trabalho de “versos de
OSWALD DE ANDRADE um romancista em férias”; por outro lado,
exclui o autor de Pau-Brasil, da antologia
Manuel Bandeira (1886-1968) poeta que figura no final do volume, mas premia
essencialmente lírico, construiu uma mediocridades. Mesquinhezas dos grandes.
solidíssima obra dentro do Modernismo do É bem provável que a briga de Mário com
Brasil, tendo sido o introdutor do verso-livre Oswald deva ter contribuído para piorar as
entre nós. Sua obra pode ser considerada coisas: Oswald era do tipo que arriscava
uma espécie de resumo da Lírica Ocidental. perder o amigo, mas não a piada e tinha
2002

Uma coisa sempre irritou Bandeira: o grande verve humorística. As paródias

140
brilhantes do Romantismo também devem dos 80 anos de Bandeira, em 1966, saiu o

2000
ter contribuído para o agravamento da Estrela da vida inteira; POESIAS REUNIDAS.
situação. De passagem, diria que a influência Dois grandes poetas, mais vivos que nunca
oswaldiana na poesia brasileira foi enorme no panorama da poesia brasileira, porém, o
(é claro que o grande poeta de 22 foi Mário, piadista Oswald, sempre desponta com mais
aliás seu livro Paulicéia desvairada, mas força, dando o ar de sua graça. Bandeira é
salvo um ou outro poema posterior, muito o introdutor do verso-livre no Brasil, porém,
bom, a poética marioandradina se constituiu Oswald foi o autor dos primeiros versos
num grande equívoco, o maior do nosso verdadeiramente modernistas entre nós,
Modernismo. Bandeira não chega a chamar sem ranços virtuosísticos. Leiam a bela
o amigo Mário de grande poeta, mas, de paisagem tarsiliana escrita por Oswald de
grande artista), inclusive na obra do próprio Andrade:
Bandeira. Livros como Pau-Brasil e Primeiro
longo da linha
2001 Caderno do aluno de poesia Oswald de
Coqueiros
Andrade continuam no centro das cogitações Aos dois
de quem faz poesia no Brasil, hoje. Bem, o Aos três
outro Andrade, o Carlos Drummond, super- Aos grupos
poeta do segundo momento modernista, Altos
Baixos
em seu livro de estréia - Alguma poesia,
1930 - obra em que a influência oswaldiana
(04 de agosto de 2001)
é notória, dedica poemas a todo mundo,
menos a Oswald … sintomaticamente…
Em 1945, Oswald de Andrade reuniu sua
produção poética e deu o título de POESIAS
REUNIDAS OSWALD DE ANDRADE, dizem
que parodiando as IRFM (Indústrias Reunidas
2002

Francisco Matarazzo). Na comemoração

141
TRADUÇÃO na passagem de uma obra, de um código para

2000
outro. (Esse terceiro tipo foi desenvolvido, à
Tradução pode ser considerada um luz da Semiótica peirceana, por Julio Plaza,
expediente que viabiliza um processo de em um estudo que se constituiu em sua tese
comunicação verbal e nós, no dia-a-dia, de doutorado.)
fazemos traduções o tempo todo, sem Versando sobre as dificuldades da
nos darmos conta disto, muito menos nos tradução interlingual, Jakobson chama a
preocupando com teorias. Mas elas existem atenção para a impossibilidade de tradução
e são importantes. Tanto é verdade, que há de textos poéticos, a não ser que haja uma
quem delas se ocupa em tempo e dedicação re-criação, ou mesmo, uma transmutação.
exclusivos. Por pensar a linguagem, o O grande problema que se coloca quando o
código, toda operação tradutora é também texto a traduzir é poema é o de se entregar,
uma operação metalingüística. Segundo o após o labor da tradução, também uma obra
2001 pensador da linguagem Roman Jakobson (em de arte no novo idioma. Ou seja: um poema
um célebre ensaio: “Aspectos lingüísticos da é uma obra de arte e o tradutor, ao fim de
tradução”), há três tipos fundamentais de seu labor, deverá apresentar, também, uma
tradução, a saber: obra de arte. Daí que o tradutor de poesia
1. tradução intralingual ou reformulação, deva ser - preferentemente - um poeta.
como acontece nas paráfrases, por exemplo, Há quem encare a tradução de poesia
nas adequações repertoriais ou, mesmo, como uma categoria da criação (nesse
barateamentos (kitschização); afazer, paira, acima de todas, a figura de
2. tradução interlingual ou tradução Ezra Pound): é o caso dos irmãos Haroldo
propriamente dita - de um idioma para e Augusto de Campos, tradutores de poesia
outro. Do grego antigo para o português, (só traduzem peças por eles escolhidas) nos
por exemplo; e últimos cinqüenta anos. Haroldo fala em
3. tradução intersemiótica ou transcriação. Augusto prefere tradução-
2002

transmutação, quando a operação consiste arte.

142
Haroldo de Campos, nosso maior tarefa como uma categoria da criação.

2000
teórico da tradução de poesia, diz que a obra Vejamos um exemplo desse trabalho
traduzida deverá ser autônoma e recíproca. numa peça de Augusto de Campos: recriou
Ou seja: a obra resultante de tradução em português - sem perder o que havia de
deverá ter autonomia como obra de arte essencial na peça em inglês: a efemeridade
e trazer consigo a memória da obra que a do processo vida - texto de Edward FitzGerald
motivou: o original. Fala, também, em lei (poeta inglês do século XIX- 1809-1883)
da compensação: o que o tradutor - em sua apresentado, por sua vez, como tradução de
busca de equivalências formais - perder num um rubai (dos Rubaiyat) de Omar Khayyam.
certo ponto, compensará em um outro. Isto Seguem os textos inglês e português do
tudo sem a perda da dimensão semântica. Brasil:
Obviamente, a melhor maneira de
apreciar poesia é o exame dos originais, Edward FitzGerald

2001 porém há traduções que vêm a enriquecer


Oh threats of Hell and Hopes of Paradise!
a tradição poética na qual desembocam. É One thing at least is certain - This Life flies;
o caso de tudo o que os Campos, Haroldo e One thing is certain and the rest is Lies;
Augusto, irmãos do Concretismo têm feito: The Flower that once has blown for ever dies.
traduções de Homero, Cummings, Arnaut Augusto de Campos
Daniel, Dante Alighieri, Donne, Mallarmé e
Inferno ou Céu, do beco sem saída
outros tantos.
Uma só coisa é certa: voa a Vida,
Esses poetas-tradudores, repudiam e E, sem a Vida, tudo o mais é Nada.
contrariam a máxima traduttore traditore. A Flor que for logo se vai, flor ida.
Também mostram que, diferentemente do
que disse Robert Frost - poesia é aquilo que (11 de agosto de 2001)
se perde na tradução - a poeticidade pode
migrar de um idioma a outro, quando quem
2002

faz o trabalho procura equivalências e tem a

143
HISTORINHAS DE POETAS 9: QUANTOS com os meses todos, sendo um poema para

2000
MESES HÁ PARA A POESIA? cada um dos doze, explorando o que cada
um tivesse de mais característico… Passou
Não me lembro bem se em fins o tempo e o Paulo nada. Certo dia, vendo
dos anos 70 ou inícios dos 80 (do século que o Paulo nada dizia e tendo, Reinaldo,
passado!). Reinaldo Rizzo dava aulas numa de dizer alguma coisa à moça-professora-
escola estadual, em São Paulo, bairro da noiva-do-poeta, sua colega, perguntou ao
Casa Verde. Morava, então, à rua Dr. Villa amigo:
Nova, repartindo apartamento com Paulo - E então, Paulo, o que você achou do
Miranda (eu já não morava com eles naquela livro? O que eu digo para Fulana?
república - “Consulado de Pirajuí”). Reinaldo, - Diga que está faltando o décimo-
na escola, comentou que seus amigos terceiro!
eram poetas e gráficos, o que despertou o Quando Reinaldo me contou, dias
2001 interesse de uma professora, cujo noivo, depois, quase morremos de rir. Não me
além de poeta, era um poeta de obra recém- lembro se ele passou o recado à moça.
publicada. Conversa vai, conversa vem, (18 de agosto de 2001)

Reinaldo prontificou-se a levar a publicação


do tal poeta para o Paulo, com quem se
encontrava diariamente (já que habitavam
o mesmo apartamento) e arrancar dele um
parecer, uma opinião. (Até me pareceu que DECIFRAÇÃO
Reinaldo desconhecia Paulo Miranda. Paulo
sempre detestou esse negócio de ficar Somos todos leitores de tudo. Do
dando opinião, embora fosse das pessoas Mundo. Os signos (os complexos sígnicos) se
mais categorizadas do País para fazê-lo.) nos impõem: obrigam-nos a lê-los. Estamos
Paulo examinou o volume: era nada mais, constantemente fazendo leituras, mas raras
2002

nada menos, que uma espácie de folhinha, vezes nos apercebemos disto. Tudo pode

144
vir a funcionar como um signo (lemos, enigma, livrando Tebas da Esfinge, aquele

2000
por exemplo, pessoas: a primeira leitura é que interpretou o sonho de Alexandre o
sempre a da aparência - físico, vestimentas, Grande, Champollion, William Legrand-Poe e
gestos etc; a segunda é a leitura de sua eu acrescentaria, entre outros tantos, Décio
fala: timbre, modo, vocabulário empregado, Pignatari. Há, é certo, leitores - como os acima
sotaque - esta chega a ser mais importante e citados - privilegiados. Ainda bem! Assim,
corrige ou reitera a primeira, já que o código sempre poderemos contar com quem se
verbal, sendo o código hegemônico, impõe- desincumba dessas tarefas complexíssimas,
se a outros fatores em nossa leitura de quando nós mesmos não somos capazes.
pessoas. Ex: “É um cara tão alinhado, bonito Porém, nós também podemos ser leitores
e arrogante e tem um português vergonhoso. privilegiados em campos específicos: desde
Deveria calar a boca!” Ou, então: “Ninguém ler almas, até analisar fatos que envolvam
dava nada por ele e veja como é alguém o nosso dia-a-dia, passando por poemas
2001 diferenciado, culto!”). Nossas leituras, e outras coisitas mais. Alguns conselhos,
nossa leitura do mundo está diretamente como sempre, de graça: 1. Nunca tomar
subordinada ao nosso repertório. Todos atitudes precitadas e recusar-se à leitura,
temos repertório, com carências específicas, frente a algo que se nos apresenta com
elevado em alguns campos. Para se ter um dificuldades intransponíveis; 2. começar
repertório elevado num dado assunto é procedendo a um exame cuidaoso da coisa
preciso um grande empenho: tempo para como se nos apresenta: na sua aparência
despender grandes esforços, o que pode (exterioridade) mesma; 3. ir detectando
também implicar gastos em pecúnia. A indícios de coisas mais ou menos conhecidas
leitura ou decodificação de tudo aquilo que e ir testanto a sua veracidade, assumindo
se nos impõe - os signos querem ser lidos - o certo e descartando o inverossímil; 4. ir
é o mesmo que uma decifração. Temos visto num crescendo até chegar a resultados
ao longo da história (e também da estória) satisfatórios - aceitáveis - em termos de
2002

grandes decifradores: Édipo, que decifrou o decodificação. Tenha sempre em mente que

145
ninguém tem a resposta definitiva para tenha sido dissecado e temporariamente se

2000
nada; signos não se esgotam no que têm de mostre sem interesse. Obras de arte têm
interpretabilidade (num dia desses tentarei sido lidas ao longo de suas existências.
expor o conceito de SIGNO de Charles Sempre sobra algo para um leitor a mais
Sanders Peirce, detendo-me na questão do descobrir. Nem que seja em termos de uma
Interpretante). O que se pode ter é, não a relação do signo em questão com outros.
verdade absoluta, mas parcelas satisfatórias Quanto à Arte Moderna, há problemas:
de uma verdade maior, que estará sempre esta exige, para uma apreciação/fruição,
num futuro, como meta a ser alcançada. um certo conhecimento a mais, o que vale
O importante é que, de algum modo dizer uma visão geral de como evoluíram
nós venhamos a ter leituras que possam as coisas da Arte no Ocidente. (Não é
satisfazer, embora temporariamente nossa que as coisa fossem fáceis na época de
sede de compreensão do mundo. Não há Rafael, ou de Rubens, ou de Vivaldi, ou
2001 nada que não possa ser lido por algum de Mozart. É que aquelas artes ofereciam
representante de nossa espécie (Poe- mais elementos de aproximação para
Legrand, em “O Escaravelho de Ouro”, diz com os possíveis fruidores. Porém, eles -
que não há nada de tão engenhoso que certamente - não compreendiam aquelas
tenha sido elaborado por um ser humano, obras na sua mais completa complexidade.
que outro ser humano não possa decifrar), E a Arte Moderna oferece bem menos
nem que seja arranjando uma explicação elementos de aproximação, mas oferece,
de como é impossível até o momento de qualquer modo). Mas as coisas estão aí
a compreensão de um dado fenômeno. e não devemos fugir de nossa obrigação
Ninguém esgota um signo, mas consegue de proceder a leituras. Por exemplo: como
explicações satisfatórias para o mesmo. entender o “Branco sobre branco”, de
Leitores diferentes em épocas diferentes Kasimir Maliévitch? Ou o poema de E. E.
= leituras diferentes. Sempre sobra um Cummings que se segue?
2002

pouco para nós, por mais que o signo

146
l(a HISTORINHAS DE POETAS 10: POUND:

2000
O POETA NÃO MAIS ENXERGA?
le O POETA ENVELHECE?
af
fa Ezra Pound (1885-1972) o grande
poeta estadunidense, crítico de suma
ll importância, tradutor-inventor, protetor de
poetas, pintores e músicos, teve uma das
s) influências maiores no século que acabou de
one passar. Vanguardista, no início do século XX,
l é um dos fundadores do Imagismo, entre
outras tendências artísticas; teve um papel
iness importantíssimo na divulgação da cultura
2001 oriental (mormente a chinesa, no Ocidente).
Ezra Pound: um dos valores maiores para o
Uma dica: começar sondando o movimento da Poesia Concreta brasileira: o
que há fora e dentro dos parênteses. Um poeta, o crítico, o tradutor de poesia. Pound
incentivo: trata-se de uma obra-prima de passou por mil e uma aventuras, inclusive
poesia do não-verso, em que o olho gráfico prisão-humilhação (preço por ter apoiado
do poeta, norteado pelo cerebralismo e idéias do fascismo italiano, num equívoco
pela sensibilidade, constrói uma obra limite que, aliás, caiu muita gente boa) e prisão
entre as Artes Plásticas (Gráficas) e a Poesia em manicômio judiciário. Terminada a pena,
propriamente dita. voltou para a amada Itália. Pound, com toda
(25 de agosto de 2001) a sua incomparável grandeza, na elaboração
de seu Paideuma (conjunto mínimo de
poemas, com um máximo de informação
2002

poética, objetivando facilitar as coisas

147
para as novas gerações) exclui Mallarmé, da tirada genial de Eric Satie, que disse

2000
em prol de outros simbolistas, também que quando era jovem as pessoas lhe
enormes poetas. Mallarmé é o autor do diziam que, aos cinqüenta ele iria ver e
Lance de dados, poema fundamental para que, tendo chegado àquela idade, não via
as poéticas mais radicais dos Modernismos. nada, ou seja, continuava com a mesma
Estando, já, velho, rapazes do Brasil, irreverência da juventude. A perda da
fundando um movimento poético radical, curiosidade, mais do que a flacidez e as
escrevem-lhe e obtêm resposta. Mas parece rugas, é o principal sintoma de que se está
que Pound não gostou muito da Poesia velho. Pound queria sossego. Espero que
Concreta, que o colocava com destaque a curiosidade persista nos nossos amigos
em muitos de seus escritos teóricos (talvez concretistas (Décio, Haroldo, Augusto), que
que o de que menos gostasse fosse o que já entraram na casa dos setenta. Saúde!
havia de Pound na Poesia Concreta: não
2001 queria se reconhecer naquilo que era ele- [Na ocasião da feitura deste texto, houve um
mesmo!) O poeta estava velho. As pessoas engano: Haroldo de Campos falou em Volpi,
envelhecem, as plantas envelhecem, as na convesa que teve com Pound, porém, a
instituições envelhecem. Cansaço, tédio… referência ao cansaço do velho bardo veio
Haroldo de Campos chegou a estar com quando HC tentou falar-lhe de Francisco de
o poeta, na Itália, em fins da década de Sá de Miranda, o poeta português, autor
50. O velho já não demonstrava vontade do “Comigo me desavim”.]
de conhecer coisas novas (isto a propósito (01 de setembro de 2001)

de Volpi, citado por Haroldo na conversa


que tiveram, e que depois se transformou
num belo escrito que foi publicado com o
título de “Ezra Pound: I Punti Luminosi”).
O direito à velhice sem perturbações… As
2002

pessoas envelhecem, diferententemente

148
HISTORINHAS DE POETAS 11: teriam direito ao néctar. A verdade é que,

2000
ALBANO: NÉCTAR PARA OS POETAS! salvo raras exceções, os grandes poetas têm
colhido mais sofrimento que glória e que esta
José de Abreu Albano (1882- vem, quase sempre após a morte (poesia
1923) excelente poeta que, dadas certas não dá dinheiro). Albano, por quem acabei
circunstâncias de sua vida e obra (a vida nutrindo enorme simpatia, deixou alguns
descuidou, não das faturas, mas de sua belíssimos poemas - a língua do poema, para
divulgação. A obra ficava num fim de linha, ele, tinha de adentar o sublime e o solene -
com todo o perfeccionismo que caracteriza entre os quais aparece um longo: “Triunfo”
poéticas de decadência) ficou relegado ao (em parte, um diálogo com a célebre “Ode
ostracismo, só saindo do esquecimento total a Afrodite”, de Safo) em decassílabos,
graças, principalmente, à admiração que a utilizando a terza rima e do qual transcrevo
ele devotou Manuel Bandeira. Este soube apenas três versos:
2001 apreciar o seu trabalho permeado de cores Ó meu sonho de amor, tu me
arcaizantes, mas de um fatuta artesanal acompanha
admirável. Bandeira o recolocou através de Por esta vida às vezes tão escura,
crônicas e de estudo crítico que acompanhou Por esta vida às vezes tão
volume de sua poesia completa. Os poetas estranha.
e seu lado folclórico. Albano transitou No mais só poderia dizer que José de
por paragens, entre as quais se destacou Abreu Albano teve a fortuna de encontrar
Paris, onde vivia dissipando tudo o que em Manuel Bandeira um admirador. E eu, a
ocasionalmente consiguia sob a desculpa sorte de contar com Paulo Miranda que foi
de subscrições para a edição de suas obras quem me revelou Albano.
completas. Certa vez, flagrado bebemdo (08 de setembro de 2001)

champagne, por Graça Aranha, o poeta teria


dito que era só champagne e que numa
2002

sociedade de fato evoluída os poetas

149
HISTORINHAS DE POETAS 13: BRAGA E pela concisão que poemas poderiam ter e

2000
A PRODUÇÃO PRESENTE fez coisas como:

Edgard Pimentel Braga (1897-1985) ilha


alagoano que se radicou em São Paulo. brilha
Médico obstetra, criou fama no meio tranqüila
médico de São Paulo. Milhares de crianças
nasceram em suas mãos, incluindo filhos ou o admirável ungarettiano:
de muitos poetas hoje célebres. Disse acordei de rolar brancura!
Braga que, ainda estudando, Oswald de
Andrade não o deixou participar da Semana A Poesia Concreta dos jovens de
em 22, pois ele deveria cuidar é de ser quem passou a ser amigo, frutificou em
médico. Verdade verdadeira ou não, Braga sua obra. Sua poesia, além da projeção
2001 foi grande amigo do autor de Memórias que passou a ter entre os experimentalistas
sentimentais de João Miramar, até que este brasileiros, ganhou o mundo, participando
veio a falecer, em 1954 e ainda chegou de várias antologias. Mas Braga ainda faria
a assistir o filho Paulo Marcos, menino mais: descobriria um caminho seu dentro
poeta que desencarnou tão cedo! Braga se do universo de experimentação instaurado
mostrou poeta desde cedo, mas sempre pela poesia concreta. Seus grafismos - um
esteve atrás dos acontecimentos poéticos garfismo “sujo” - passaram a ser a sua
mais importantes. Publicou, além de livros marca, já que traziam a incorporação do
de Medicina, muitos de poesia. Mas o que há gesto. Braga conseguiu uma legião de fãs
de mais interessabte é que Edgard Braga, entre os muito mais jovens, em fins dos 70 e
à medida que foi envelhecendo, foi também inícios dos 80: Walter Silveira, Tadeu Jungle,
aguçando a sua sensibilidade poética e Arnaldo Antunes e Gilberto José Jorge,
ficando cada vez mais arrojado, o contrário entre outros. Conheci-o em fins de 1975,
2002

do que comumente se vê. Acabou fascinado por recomendação de Augusto de Campos.

150
Sempre me tratou com a maior cortezia, dos anos 70, fortemente gráficos com a

2000
chamando-me de Khouri. Cheguei a fazer, incorporacão do gestual, assemelhavam-se
com Paulo Miranda e Sônia Fontenezi, edição a projetos para garffiti. Seus trabalhos mais
de alguns de seus poemas - tão visuais importantes estão reunidos em Soma, Algo,
- em serigrafia. Nas nossas publicações Tatuagens e Murograma. Desbragada,
coletivas, sempre colocávamos trabalhos reunindo quase toda a sua produção poética,
seus, tão apreciados por nós. Uma coisa merecerá uma edição mais bem cuidada
nos espantava em Braga: enquanto poetas graficamente.
e mais poetas brigavam em prol do recuo [Houve uma troca do 13 pelo 12, o que em
das datas de seus poemas, na tentativa de nada prejudica uma possível seqüência.]
provar alguma primazia, Braga chegava (15 de setembro de 2001)

a raspar a data original, mais antiga para


colocar, por cima data mais recente, a do
2001 ano então presente. Talvez, a necessidade
de mostrar que continuava - septuagenário
e mesmo octogenário - a produzir poemas.
Braga chegou a produzir mais do que publicar HISTORINHAS DE POETAS 12: A
e, sempre que desejava fazer a edição de PROLIXIDADE DE XISTO
um conjunto de poemas, o árduo trabalho de
seleção ficava a cargo de alguém: geralmente Pedro Xisto Pereira de Carvalho (1901-
um amigo poeta. Ainda guardo alguns 1987), poeta pernambucano radicado em
inéditos seus com que me presenteou. São Paulo, possuía grande afinidade com a
PS. Era comum, quando alguém que não o cultura japonesa, o que resultou na produção
conhecesse, falavasse de seus poemas, se de centenas de haicais, alguns muito bonitos.
referisse a ele como o jovem Edgard Braga, Sua melhor produção teve a ver com sua
pensando tratar-se de um adolescente, descoberta das possibilidades gráficas que a
2002

já que alguns de seus trabalhos, a partir poesia concreta oferecia e data dos anos 60

151
e teve repercussão internacional. Conheci na Pós da PUC-SP, iniciou uma conferência

2000
Xisto em casa de Edgard Braga, que se às nove da manhã: todos muito satisfeitos
tornara meu amigo e soube que se tratava com a sabedoria do poeta e crítico. Meio-
do poeta Pedro Xisto, num momento em que dia. Meio-dia e meia, uma da tarde. A
ele, tendo falado incessantemente sobre a fome foi vencendo a platéia que, pouco a
cultura japonesa - falava dos três alimentos pouco se retirou do recinto, o que deixou
sagrados no Japão: o arroz, o peixe e o Xisto furioso e sem saber do porquê de tal
chá, mas ainda não havia saído do arroz! atitude. De outra feita, recebeu em sua
- pediu licença para ir ao banheiro. Disse- casa o casal Clüver, Claus, um professor e
me Braga: Esse é o Xisto, grande pessoa e pesquisador alemão radicado nos Estados
poeta, mas é um falador compulsivo e isto Unidos e que estava estudando a Poesia
até faz com que os meninos das Perdizes Concreta Brasileira; Maria, sua simpática
se afastem dele (os meninos: Décio esposa, que era brasileira. Sabia-se que
2001 Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos). havia um bolo na geladeira, na cozinha, o
Retomando a conversa, a explanação qual, em algum momento, seria servido.
continuou e se mostrava interminável. Eu, Porém, a entrevista foi-se arrastando,
tendo hora para tomar ônibus com destino arrantando por horas e nada do Xisto
a Pirajuí, desculpei-me e saí. A outra vez lembrar que os visitantes eram humanos
que vi Xisto (a última) foi no lançamento, e necessitavam de alimentos. Num dado
no Centro Cultural São Paulo, do livro momento, a doce Maria, desesperada,
Desbragada, de E. Braga, ocasião em que levantou-se e se dirigiu à geladeira onde a
houve uma grande exposição de poemas estava esperando o bolo mais desejado do
do velho Braga. Pedro Xisto era um erudito. mundo.
Estimulado, seria capaz de falar horas Toda grande figura carrega consigo
sobre um assunto, o que se convertia em algo de folclórico. Esse é o folclore do Xisto
problema para os ouvintes, já que suas que, e é isto o que conta, deixou alguns
2002

explanações eram intermináveis. Certa vez poemas de qualidade gráfico-semântica

152
fora do comum (veja-se o livro de obra ensaio sobre livro do veterano, Décio fez

2000
completa Caminho): patrimônios da a mais bela análise de quantas já li sobre
Humanidade. poema do itabirano: sua “leitura” do Áporo
(22 de setembro de 2001) é um modelo e coloca o poeta Drummond
em alturas consideráveis. Augusto, num
soneto satírico - SONETERAPIA - escreve
(1º verso): drummond perdeu a pedra:
é drummundano. Porém, críticas, mesmo,
HISTORINHAS DE POETAS 14: não faltaram e as mais terríveis vieram da
DRUMMOND E OS CONCRETISTAS parte do mesmo Décio Pignatari, em diversas
ocasiões: em verdade, bofetadas e afagos.
Quando, nos anos 50 do século Nos oitenta anos do poeta, não poupou
passado, surgiu o movimento concretista, críticas em artigo de suplemento da FOLHA
2001 muitos figurões (não todos) se posicionaram DE SÃO PAULO, jornal em que, por ocasião
contra aquelas ousadias que aqueles rapazes da morte, escreveu um artigo denominado
propunham e entre os opositores estava “O enigma Drunmmond”, fazendo alusão
Carlos Drummond de Andrade (1902- clara ao Claro Enigma, livro de poemas
1987) cuja obra o coloca como um dos do poeta em questão. O enigma consistia
grandes poetas do século XX, em âmbito numa pergunta que era a seguinte: Como
mundial. Mas como todo grande tem as suas pôde tão grande poeta ter sido um
mesquinhezas, Drummond não seria uma intelectual tão medíocre? Pois é, Décio
exceção. Posicionou-se contra aquela poética, é assim mesmo. Nunca deixa por mesnos,
porém, não se livrou da influência, que lhe como não deixava de ter razão. E isso me fez
rendeu alguns poemas, até importantes. lembrar de uma conversa que tive com ele
Mesmo não deixando as coisas baratas, o em sua casa, então nas Perdizes, São Paulo.
trio concretista sempre teve olhos para as Lamentava ele o fato de os poetas brasileiros
2002

grandezas de Drummond. Haroldo escreveu - onde o trio concretista não se incluía - não

153
serem capazes de demonstrar consistência abstrato é condição indispensável para que

2000
intelectual em seus escritos extra-poéticos, ele seja, de fato, um poeta.
como havia demonstrado um Edgar Poe, um (29 de setembro de 2001)

Paul Valéry, um Ezra Pound, por exemplo.


Daí, citou Octavio Paz, o poeta e ensaísta
mexicano, ainda vivo na época. Disse-me:
“Veja você, o Paz é um ensaísta de uma
grandeza que não encontramos entre os
poetas brasileiros. Ele é capaz de escrever HISTORINHAS DE POETAS 15:
coisas substanciais sobre culturas orientais, QUALIDADE DA PRODUÇÃO ARTÍSTICA/
culinária mexicana, sobre Marcel Duchamp POÉTICA
e Mallarmé. Drummond, por exemplo, nas
crônicas que escreve, é uma lástima, não Seria mera ilusão pensar que tudo o
2001 demonstra grandeza intelectual”. Fez uma que os geniais poetas escreveram é coisa
pausa e sentenciou: “Mas, enquanto poeta, digna de nota. Há peças bastante ruins de
Drummond é infinitamente superior a Octavio grandes poetas e artistas em geral. Cheguei
Paz!” Cheguei a adivinhar o que Décio iria até a sugerir, numa prosa de ficção meio
dizer e concordava inteiramente com ele. humorística fazer-se uma antologia dos
Bobagem achar que artistas - e aí incluo os piores poemas dos melhores poetas do
poetas - não devam fazer teoria. Uma das mundo. Nessa coisa de obra ruim, ninguém
marcas dos grandes artistas, desde o século que tenha produzido obra vasta - de Camões
XIX é essa capacidade de teorizar. Evoco, aqui, e Shakespeare a Bandeira e Fernando Pessoa
mais uma vez, o poeta francês Paul Valéry, - escapa. Porém, é óbvio, o que interessa
também grande teórico que, em célebre é o que o poeta, artista tenha produzido
ensaio - “Poesia e Pensamento Abstrato” - de melhor. Lembro-me de ter visto, no
afirmou que um poeta não só é capaz de Guggenheim, em NYC dois dos piores Renoirs
2002

pensamento abstrato, como o pensamento do mundo (o MASP possui uns dois ou três

154
horríveis e uns outros tantos bons). É claro pouco o que realmente conta, ou seja, o

2000
que, numa obra de muitas páginas, escapem que acrescenta algo à tradição em que se
coisas menos boas e até mesmo ruins. Afinal, insere a obra. É um mínimo que fica. No
é tão pouco o que realmente vale, para ficar mais, há é um exercício de reiteração do
com Pound e o préoprio Pessoa que, sendo talento. É fazer, porque aquilo responde a
um escrevedor compulsivo, primou pela uma necessidade interior, como a linguagem
qualidade, mas deixou escapar peças que com informação estética responde a uma
não fariam a grandeza de nenhum poeta. Por necessidade específica da comunicação, do
outro lado, poetas tidos como menores em mesmo modo quando a linguagem encarna
seu tempo, produziram uma ou outra peça qualquer outra função que não a função
isolada que acabam por ser antológicas e, poética.
nisso, equiparam-se aos melhores, mesmo (13 de outubro de 2001)

não tendo um número grande de poemas


2001 com aquele qualitativo. Há os que aproveitam
a carona e vão na onda da qualidade dos
companheiros. Há os que mesmo sendo
excelentes, ficam minimizados pela grandeza HISTORINHAS DE POETAS 16:
de alguns companheiro de aventura (e aqui HERRMANN TRIPULANDO UM OVNI
citaria o caso dos fauves: Vlaminck, Derain,
Marquet, Dufy que, mesmo sendo mais Lá pelos idos dos 70, nas muitas
que bons, ficaram pequenos diante da obra reuniões que aconteciam em bares da
monumental e genial de Henri Matisse. O Paulicéia - e o Chrystal Chopp, Perdizes,
mesmo se diria dos outros cubistas frente esquina da Cardoso de Almeida com a Dr.
a Picasso. E Picasso sempre teve como Homem de Mello - poetas e artistas plásticos
parâmetro contem-porâneo ninguém mais, se reuniam para trocas de idéias e desfrute
ninguém menos que Matisse!). Daí é que, do prazer da bebida e do privilégio de se
2002

de tudo o que alguém produz, é muito terem interlocutores. Jovens e veteranos

155
conversavam e polêmicas sempre pintavam, instigar para ter o que falar. Numa dessas

2000
bastando que para isto estivessem presentes noites, no Chrystal Chopp, Villari Herrmann,
pessoas como Décio Pignatari (um dos aproveitando a presença de Décio Pignatari,
maiores poetas brasileiros e terráqueos de começou a sonhar acordado, falando de
todos os tempos) e Villari Herrmann (criador OVNIs, de passeios em naves com ETs etc.
raro, autor de alguns dos mais belos poemas Décio, incrédulo e irônico, porém, sem baixar
intersemióticos de quantos foram roduzidos o tom e nem subir o volume lhe retrucou:
nos últimos trinta anos, no mundo!). Daí, “Pois é, você sai num passeio de nave
polemizava-se pela polêmica. Um dos extraterrestre e capta tantas informações
expedientes mais recorrentes era insultar - inimagináveis para nós - que, na volta,
Décio para que ele, numa investida genial, também estará fazendo poemas jamais
dissesse as verdades para quem tivesse sonhados por qualquer terráqueo!” O mal-
desferido o golpe. Por exemplo: um pintor estar que se seguiu dispensa comentários.
2001 como Fiaminghi precisava saber a opinião de Não se falou mais em poesia naquela noite.
Décio sobre sua última produção e o Décio Nem em Discos Voadores…
nada. Então, o jeito era atacá-lo para que (27 de outubro de 2001)

ele disparasse suas setas mortíferas, porém,


nem sempre. Havia sempre os maledicentes
que, sob o pretexto da coragem e da verdade
diziam coisas que até cheiravam a grosseria.
Por exemplo: “Fulano entregou o ouro (está
fazendo concessões, facilitando as coisas)”, DONA CÉLIA
“Aqueloutro passou a falar o brasileirês,
agora fará sucesso junto à oficialidade”, ou Célia Gomes da Silva, a Celita de Dona
“Nesses poemas ele faz concessões ao verbal” Amélia e do Seu Silva. A caçula de nove
etc. Às vezes, eram meras provocações, irmãos, a sétima mulher da família. Aquela
2002

de quem nada tinha a fazer, que não fosse moça bonita - tão parecida com Martha

156
Rocha - que tocava piano divinamente e Arte da Leitura e Escrita, possibilitar-lhes

2000
que se tornou Célia Gomes da Silva Barros, a interiorização de estruturas essenciais
mãe de três filhas e um filho, avó de nove para uma boa performance nesta nossa
netos: quatro meninas e cinco meninos. sociedade.
Dona Célia - nascida em 21 de outubro de Trabalhando por trinta e um anos, dez
1931 - é exatamente da geração de Tito dos quais na zona rural (com todos aqueles
Madi, a quem chegou a acompanhar muitas problemas: desde o de ter de morar no local,
vezes ao piano, em Pirajuí, e a transcrever até lecionar, numa mesma sala, para 1ª, 2ª e
suas composições, transformando-as 3ª séries); depois, no “Olavo Bilac”, fez o seu
em partituras. Até hoje ela conserva um mais importante trabalho, só se afastando
precioso caderno contendo letras do cantor- por motivo de um grave problema de saúde
compositor pirajuiense (Chauki, como é o que, felizmente, foi sanado. Dedicou-se
seu nome verdadeiro) sendo que as melodias fundamentalmente à alfabetização. Tanta
2001 se perderam quase todas e que nem mesmo delicadeza, empenho e talento fez dela uma
o próprio autor delas se lembra. Tendo, alfabetizadora como poucas neste País, pois,
Dona Célia, começado os estudos de piano além de tudo, chegou a elaborar um método
com Dona Maria Baptista, quase chegou a próprio para introduzir as crianças na leitura e
completá-los no conservatório, em Bauru. escrita: um método muito pessoal e com forte
Celita foi do grupo das chamadas originalidade, em que mobilizava historinhas
Normalistas: moças que faziam uma espécie - “historinha do Maneco” - cores, gestos,
de Colegial, que formava professoras para desenhos, o próprio alfabeto e formação de
ensinar da primeira à quarta série do Grupo sílabas e palavras, orações. A criança estava
Escolar. Foi das que se formaram em Pirajuhy alfabetizada. De sua eficácia, que o digam
e se tornaram, turma após turma, professoras os seus ex-alunos: privilegiados, antes de
admiráveis, no mínimo. O Magistério: questão mais nada.
de vocação. A obediência ao chamamento Lembro-me de Dona Célia, ainda
2002

de uma voz interior. Iniciar as crianças na solteira, morando na casa da mãe, ali na

157
ex-Pedro II, hoje Rua Rachid Cury. Cheguei TURCO? QUEM É QUE É TURCO?

2000
a ir várias vezes - criança inconseqüente -
pedir para que ela tocasse piano e cheguei Os árabes são um povo de origem
a ouvi-la tocar em algumas ocasiões. Que semita, como alguns outros que habitaram
simpatia, que mulher prosa e educada, de o Oriente Médio. Conta a tradição que
uma atenção tão rara, mesmo para aquela descendem do Patriarca Abraão, com Agar:
época em que uma moça tinha como que a o filho Ismael deu origem ao povo árabe,
obrigação de tratar bem a todos. (Quando que habitou por muitos séculos a Península
um rapaz era distintamente polido, dizia-se: Arábica. Porém, só a partir de Maomé –
“É uma moça”. E isto era tomado como um Muhammad
elogio. Um baita elogio!) (570-632 dC) - e a codificação do Islamismo
Esse meu escrito vai para homenagear é que os árabes tiveram o seu [grande] papel
aquela que foi uma das melhores professoras na História.
2001 que o Brasil já conheceu: Dona Célia: a Celita, Árabes no Brasil: grande parte dos
como a ela se referem os seus contemporâneos árabes vindos para o Brasil veio antes de
de escola e os entes queridos. Hoje, voltou 1918, época em que o Líbano e Síria estavam -
à ativa como professora, dando aulas de juntamente com outras áreas - sob o domínio
reforço aos pequenos, atuando no Olavo do Império Turco. Esta a razão pela qual -
Bilac, como ‘amiga da escola’. Não cheguei a erroneamente - os árabes do Brasil ficaram
ter a sorte de ser seu aluno, porém, possuo sendo chamados de turcos, mesmo sendo
duas sobrinhas que são suas netas. Dona de uma outra etnia; os árabes são de origem
Célia: saúde! semita, os turcos são mongóis e saíram da
(03 de novembro de 2001) barbárie absorvendo muito da cultura árabe
islâmica (mas esta já é uma outra história).
Embora se utlizassem do alfabeto árabe -
que depois foi trocado pelo latino - falavam
2002

uma outra língua. (Nem todo país islâmico

158
é árabe. Nem todo árabe é muçulmano). algum tipo de preconceito (em área do Brasil

2000
Na Argentina ocorreu o mesmo: os árabes com tanta diversidade étnica!) Eu, por meu
foram chamados de turcos - revelou-me turno, sempre me senti brasileiro e jamais
o escritor Jorge Luis Borges, no janeiro pensei em ir morar em outro país. Nasci
escaldante de 1984, em Buenos Aires. aqui e procurei fazer aqui o que teria de
O erro se consagrou e penso que hoje fazer. Dediquei-me a ensinar e a escrever,
seria impossível corrigi-lo. Mas é sempre utilizando o português e, se fiz algo por
bom esclarecer as coisas. Eu mesmo fui, aqui, foi com o espírito construtivo. Afinal,
como muitos outros descendentes de meu avô, o Chico Turco, ajudou a construir
árabes cristãos, discriminado e vítima esse interior do Estado de São Paulo,
(leve eu diria, porém inesquecível) do assim como o seu tio, pai de minha avó
preconceito de pessoas de outras etnias, Lula. Diferenças sempre haverá. O homem
desde a mais tenra idade, aqui em Pirajuí: sempre estará sujeito às pulsões de vida
2001 turco, rabatacho, comedor de quibe e de e morte - Freud dixit. Mas, discriminação,
criancinha, nariz de tucano!… etc etc etc. com toda a história da Humanidade como
Desde cedo, porém, aprendi em casa a ter lição, é o fim da picada. Todas as etnias são
orgulho de minhas origens e é o que sempre agraciadas com o dom da inteligência: é só
ensinei aos meus alunos, principalmente uma questão de cultivá-la. A beleza está
os do ensino elementar. Procurei estudar a em toda parte, mas tem uma preferência
Civilização Árabe e tive surpresas. Só sinto quase exclusiva pela juventude. O resto são
meus pais não terem ensinado a língua coisas de importância menor. Com tudo o
dos nossos ancestrais para nós, os filhos, que a Grécia Antiga é louvada e endeusada,
que possuímos daquela, apenas algumas por estar nas origens de nossa civilização,
noções. Seria todo um universo que para o que aconteceria se hoje um Platão
nós se abriria. Talvez que quisessem desenbarcasse na costa leste dos Estados
que nossa integração fosse mais eficaz e Unidos, entre os WASPs? Seria discriminado,
2002

completa aqui no Brasil, mesmo sofrendo segregado, a não ser que revelasse sua

159
grandeza: então, seria contratado por uma sem ter perdido, ao logo dos séculos, sua

2000
daquelas universidades! identidade. O Islamismo é uma força e
Na atualidade, no mundo, dois fatos em expansão, na atualidade. Joguete no
impedem uma melhor e, talvez, definitiva Ocidente (uma certa Europa e os Estados
avaliação da Civilização Árabe, de sua Unidos), que nunca permitiu um governo
importância para o mundo que está aí: decente nos países que estão sob sua
1. Preconceito com relação ao Islamismo, influência, apoiando títeres que eternizam
religião que causou terror na Europa o atraso naqueles países, tão ricos em
principalmente a partir do século VIII dC, petrodólares.
fazendo com que ela temporariamente Sou brasileiro que traz marcas de
se recolhesse na defensiva e, depois, uma etnia que só não foi mais discriminada
pelejasse na expulsão dos muçulmanos porque a maioria se enriqueceu e se ilustrou
de parte do território europeu (os árabes e se destacou. Por outro lado tenho orgulho
2001 permaneceram na Península Ibérica por da visibilidade - obviedade - de minha
muito tempo, a Reconqista durou séculos. origem semita e de ser reconhecido como
Portugal nasceu dentro desse processo). tal, quanto mais velho vou ficando: um
Após a Reconquista, que se completou descendente em linha direta de Abraão,
com a tomada de Granada, em 1492, o costumo dizer. Que come muito quibe. E
anti-islamismo se planta em definitivo arroz com feijão.
naquela área e isto repercutiu na avaliação Em tempo: Este artigo foi escrito em julho
da civilização maometana na Espanha e do corrente ano.
em Portugal. E, mesmo com a onda de (10 de novembro de 2001)
estudos árabes nos mencionados países,
falta muito, ainda, para se chegar a fazer
justiça a essa cultura dos descendentes
em linha direta de Abraão. 2. Pelo fato
2002

de os árabes continuarem um povo vivo,

160
MINHA AVÓ LULA prefeito de Pederneiras e veio a falecer com

2000
quase cem anos de idade, recentemente.
Em verdade Lúlo = Pérola, em árabe. Minha avó Lula, que chegou a freqüentar por
Lula Neme Cury. Formas possíveis de pouco tempo a escola, que lhe possibilitou
pronúncias muito difíceis para um falante a leitura em português, que ela gostava de
do português que não tenha sido treinado, praticar, principalmente a leitura de jornal,
desde a infância, naqueles sons corriqueiros/ casou-se com seu primo Rachid Cury, no ano
peculiares na/da língua árabe. Peculiaridades de 1915 e passou a morar em Pirajuí, onde
têm todos os idiomas. Como um árabe, ou um teve doze filhos, vindo a falecer em dezembro
escocês diria Pindamonhangaba, Umuarama de 1983. Na ocasião, desloquei-me de São
ou Jequitinhonha? Ou muiraquitã, coração, Paulo para o enterro e tive a surpresa de
pães, mãe, grãos, pinhões? assistir ao velório em sua casa, época em
Bem, minha avó nasceu ao sul do Líbano que, em Pirajuí, já não era mais usual velar-
2001 em 10 de outubro de 1896 (supostamente). se o morto em sua própria casa. Insistência
Seu pai chegou ao Brasil na passagem do de meu tio Edmundo, o Mude. Muito se
século XIX para o XX, estabelecendo-se em chorou a sua morte. Quanta memória não
Pederneiras, interior de São Paulo. A família estaria indo junto, irremediavelmente!
já constituída no Líbano - então em posse do Das coisas memoráveis que envolveram
Império Turco - veio em seguida, não sem a sua pessoa:
antes viver peripécias inesquecíveis, como a 1. Uma gravidez e um aborto espontâneo:
da menima Lula se perder em Beirute e ser continuou grávida, tendo perdido uma das
encontrada por um milagre e a de tia Naíma, crianças gêmeas - a outra: tia Salime!
irmã mais nova, quase ter sido atirada 2. Quando do nascimento de um dos meus
ao mediterrâneo por um padre italiano, irmãos mais novos, penso que do Richard.
por causa de um menu não resolvido na Eu e o Tanel por conta de minha avó. Ela
embarcação: macarrão ou mjádara? Apenas deve ter perdido a paciência com os pirralhos
2002

o irmão Michel nasceu no Brasil, chegou a ser e os trancou num banheiro de fora da casa,

161
ao que os dois diziam num tom desafiador: charutinho de folha-de-uva cozinhava num

2000
RABUGENTA! Sem ter idéia do significado, braseiro durante umas quatro horas e dizer
mas sabendo tratar-se de xingamento. que era delicioso é dizer pouco!
Meu primeiro xingamento, justo com quem Passada já dos oitenta, ainda gostava
menos mereceria tal tratamento. Mas de ir ao quintal tratar de sua hortinha. Sua
as lembranças de minha avó são sempre parcimônia no comer lhe permitiu uma
positivas. Ela nunca alterava a voz, quanto elegância rara para aquela idade. Seu sorriso
ao volume. sempre iluminador acontecia mais do que
3. Um tal doce que tia Norma levou para uma a fala. Fiz algumas belas fotos dela nessa
festa de escola e que foi instantaneamente época. Sua presença me fazia acreditar em
devorado e que ninguém, nem minha avó seres superiores dentre os humanos, tal a
tinha a receita. Seu pudim-de-pão, por sua postura respeitosa ao mesmo tempo que
outro lado, era incomparável. altiva. Vigilante. A tal superioridade, que
2001 4. A carne de panela que ela preparou em não advinha da arrogância proporcionada
minha casa, enquanto minha mãe dava à pelo poder, tampouco tem a ver com etnia,
luz meu irmão Válter. mas com a conformação distinta na biosfera
5. O pão com erva-doce, ao qual, ainda desse nosso planeta: presença respeitável e
quente, foram acrescentados nata e respeitadora. Outras raras pessoas conheci
açúcar e que meu amigo, o historiador assim.
Modesto Florenzano, provou e nunca mais Quando minha avó Lula morreu, um
esqueceu. pedaço da eternidade pareceu desabar sobre
6. Até o Roger de tia Norma, os primeiros minha cabeça, por mais que eu soubesse que
banhos eram sempre dados por ela. Somente aquela biografia estivesse se aproximando
ela possuía a prática e merecia a confinça de um desfecho. Absorvi algumas de suas
para tal tarefa, tão delicada. lições, mas seu repertório único foi-se para
7. Uma alquimista: não apenas sabia cozinhar sempre. Aqui, tento recuperar alguma idéia
2002

sem receita, mas inventava maravilhas. Seu do que ela foi. Vigilante. Mulher pertencente

162
àquela já mencionada estirpe. Tudo em mulheres, não perdia a piada, muito embora

2000
função do bem-estar do outro. esta pudesse vir a lhe valer a perda de uma
(17 de novembro de 2001) amizade, como foi o ocorrido com Mário
de Andrade - ninguém nunca esclarece os
reais motivos da briga, mas devem ter sido
as piadas de Oswald envolvendo o autor
de Macunaíma, mexendo certamente com
a sua sexualidade. Mário jamais perdoou
Oswald, nunca aceitou reatar a velha e boa
HISTORINHAS DE POETAS 17: O POETA
amizade. Quando em 1945 Mário morreu,
NECESSITA CONVERSAR?
Oswald recebeu a notícia chorando, contou-
me certa vez Edgard Braga, que conheceu
Dizem que o pior da velhice não é bem
os dois e que foi muito amigo de Oswald.
o enfraquecimento, enfeamento ou coisas
2001 Pois é, em fins dos anos 40, Décio,
mais por aí, mas a falta de interlocutores,
Haroldo e Augusto de Campos estiveram com
coisa que - diga-se - pode até acontecer bem
Oswald de Andrade, tendo sido muito bem
antes de idade provecta (veja-se o caso de
recebidos e até foram presenteados, cada
Fernando Pessoa em Lisboa, principalmente
um, com exemplar das Poesias Reunidas
depois que seu amigo, o poeta Mário de Sá-
Oswald de Andrade. Oswald chegou a se
Carneiro, cometeu suicídio em Paris, em
referir a eles num “Telefonema”, crônica
1916). O principal preço da longevidade é
que manteve durante anos (1945-1954)
a solidão e a pior solidão é a ausência de
no jornal CORREIO DA MANHÃ, do Rio de
interlocutores.
Janeiro. O que mais se notou e continuou
Oswald de Andrade, o mais radical de
se notando até a morte do guerreiro Oswald
nossos modernistas do Primeiro Momento
de Andrade, foi a sua falta de interlocutores
era, além de tudo, um piadista que não
enquanto poeta, o desprezo com que muitos
poupava ninguém: de amigos a ex-
2002

medíocres das Letras o tratavam, a solidão,

163
muito embora estivesse casado e bem. tecnologia? Invasão de ETês ou evasão de

2000
Aquele declínio, doente, longe da agitação vocês? Até parece que as tais tecnologias
de que tanto gostava, quase sempre excluído sejam artifícios transplantados do planeta
dos debates. Saturno, entrando como um corpo mais que
Com base nos fatos acima observados, estranho nas sociedades humanas. Artifícios
parece, os concretistas aprenderam uma sim, porém, criados pelos próprios humanos,
grande lição e resolveram não permitir que respondendo a necessidades específicas,
aquilo viesse a acontecer a eles. Décio, certa ou induzidas por um acaso construtor. As
vez me disse (em verdade, chegou a dizer tecnologias são parte integrante disso que
também outras vezes): se chama Cultura e resultam justamente
- Combinamos - eu, Augusto e Haroldo da capacidade que o ser humano tem de
- que jamais brigaríamos, por mais que entre compensar suas carências. Da mesma forma,
nós houvesse desacordos de ordem poética, mensagens que veiculam informação estética
2001 para que não ficássemos como o Oswald: respondem a necessidades específicas. Estão
sem interlocutores. nos objetos de arte: do poema à vídeo-
Triste fim de um grande criador. instalação, passando pelos graffiti e facturas
(24 de novembro de 2001) que envolvem imagens infográficas. É a
linguagem em estado de poesia, em estado
de arte. Toda arte utiliza tecnologia: esse
domínio é importante para que o objeto se
conforme, se plasme no tempo-espaço: das
DE OLHO (-OUVIDO) NO VÍDEO pinturas nas cavernas aos poemas inscritos
com raios laser. Os artistas, em todos
Sim. Constitui-se num antigo e falso os tempos, valeram-se das tecnologias
problema aquele de que a tecnologia rouba o disponíveis para corporificar as suas idéias.
lugar do ‘humano’. E mais: o que acontecerá Idéias? Vídeos não se fazem com idéias,
2002

com a Arte no futuro? Será destruída pela mas com imagens em permanente estado

164
de mutação/movimentação - tal qual o rio dentre as muitas opções de ferramentas/

2000
heraclitiano - com ou sem cores, reforçadas tecnologias, o vídeo atende a muitos dos
por sons ou prescindindo destes. É preciso requisitos de uma época que quer imagem
que as idéias se manifestem através de em movimento e som sintonizado com o
imagens videográficas, incorporando - processar-se das coisas. Para quem lida com
inclusive - os ruídos inerentes ao meio- a elaboração de imagens, as possibilidades
linguagem. O vídeo, já disponível como oferecidas pelo vídeo (videoarte) vêm a
tecnologia há algumas décadas, continua calhar: cinema sem ser cinema, o vídeo
na ordem-do-dia, absorvendo sofisticações é escrita desenhada no ar pela câmera e,
que vêm dos avanços na área das enquanto escrita-desenho, acasala-se com
tecnologias digitais. Vídeo: fatura artística a dança. A técnica do corte borrifa formas-
intersemiótica, por excelência. Embora não cores, de dentro para fora: chuva eletrônica
seja uma obrigatoriedade, a duração curta a nos massagear a retina. A concentração e
2001 responde a necessidades do hoje, em que dispersão da atenção, definidas pela visão
não há disponibilidade de horas ou mesmo centrada na telinha (ou telão) e a visão
dias para a fruição de uma única obra. periférica afetada por outras imagens. Na
Brevidade tornou-se uma palavra-chave. disputa, ganha a imagem reticulada que,
Uma prática recomendável. Numa época em parece, está com os dias contados (a retícula).
que todas as tecnologias se encontram à Vídeo: um recorte, uma delimitação dentro
disposição dos fazedores - de remotas eras, do nosso campo de visão. O som. O som?
até hoje - o vídeo-ele-mesmo ou compondo O som simplesmente aparece, adentra,
com outras linguagens-meios um complexo invade. Videoarte: campo firmado e aberto,
que pode ser uma instalação, dá respostas que convida à experimentação. Tecnologia
adequadas à necessidade que a nossa cada vez mais acessível. Numa época em
psykhé tem de mensagens portadoras de que a dificuldade de selecionar, de discernir
informação estética. Necessidade de Arte, é agravada pelo excesso, pela avalanche
2002

que se corporifica nos objetos artísticos. Uma de dados envolvendo linguagens muitas,

165
apelando - mormente na megalópole - para as aulas poemas do grupo dos concretistas,

2000
os nossos sentidos todos, o vídeo, ou melhor, o que dava um colorido especial às letras
a videoarte nos dá, em minutos, comprimidos puquianas de São Paulo e fazia dos alunos
de informação com teor estético. Mata nossa pessoas com repertório mais amplo, elevado,
sede do inútil-essencial. Informação de refinado e arejado. Repertório distinto no
encher os olhos. E - quem sabe? - os ouvidos. Brasil. Pois é, Maria Lúcia Santaella desde
Afine o olhar. Foque os ouvidos. Vide o vídeo. cedo mostrou-se ousada: um (a) intelectual
Vide-o-poema. Videoarte. Sim. tem de ter coragem. Se Lúcia (é assim que
[Manifesto] gosta de ser chamada de uns anos para cá)
(01 de dezembro de 2001) já possuía uma disposição para a polêmica,
isto se acentuou depois de inúmeros cursos
feitos como aluna na Pós da PUCSP (então,
Teoria Literária), com o poeta Décio Pignatari.
2001 Grande professor-poeta-teórico. Brilhante a
SANTAELLA: A PADROEIRA DA aluna que, dado o devido tempo, tomou rumo
SEMIÓTICA próprio para se tornar grande conhecedora
da Semiótica peirceana - introduzida no
Conheci Lúcia Santaella lá pelos Brasil por seu mestre Décio Pignatari -
idos de 1975, através de minha grande a maior do Brasil e uma das maiores do
amiga Samira Chalhub: ambas lecionavam mundo, sendo muito respeitada lá fora,
na PUCSP e, como Maria Rosa Duarte de onde tem participado de praticamente todos
Oliveira e Dirce Ceribelli, eram docentes os grandes congressos, discutindo de igual
incomuns: eram capazes, em suas aulas, para igual com os maiores especialistas.
de ousadias teóricas e de abordagem de Ela é até mais ousada, pois, sendo grande
textos extraordinariamente avançados, o comentadora, vai além, apontando
que ninguém ainda fazia no Brasil. Sendo importantes desdobramentos da teoria geral
2002

professoras da área de Letras, traziam para dos signos. E o que a diferencia, é o fato de

166
não se limitar ao campo da Semiótica - o fazer algo, vai até o fim): na manhã do dia

2000
que já seria demais - mas interessar-se por 20 de agosto de 2001, uma segunda-feira,
Comunicação, Mídias, Artes, que ela conhece na FAAP, daria uma conferência, espécie de
em profundidade, desde a poesia, passando Aula Magna de abertura do semestre, com
pela pintura, até a música e as faturas multi o tema Comunicação e Semiótica. Mal
e intermídia, que têm caracterizado a Arte começou a sessão, acabou a energia elétrica
ultimamente. É brincadeira falar da produção no Bairro, o que não pôde ser contornado
intelectual de Lúcia Santaella: professora pela luz de emergência. Não deu outra: ela
e conferencista na Pós-Graduação em pediu silêncio, pois assim, falando alto como
Comunicacão e Semiótica, que ela ajudou a era capaz, todos no auditório poderiam
criar e se empenhou para que se tornasse ouvi-la. E foi o que aconteceu: mesmo no
um dos programas de Pós mais conceituados escuro ela falou tudo o que teria de falar e
e produtivos do Brasil, orientou dezenas de brilhantemente, como são brilhantes as suas
2001 pesquisas (talvez que ninguém em nosso aulas. Conhecendo-a de longa data, como
país tivesse tido um númeuro tão alto de aluno da Pós e seu orientando no Mestrado e
comandos de defesa pública de Dissertações no Doutorado, eu sabia que ela não deixaria
de Mestrado e Teses de Doutorado). Livros por menos. Falou menos de Semiótica e mais
teóricos: mais de duas dezenas, em que o da Comunicação Humana, mais uma fala de
assunto soberano é a Semiótica de Charles quem pensa semioticamente o mundo. O
Sanders Peirce. Santaella é hoje uma das que ela sabe não a deixa satisfeita: continua
maiores inteligências do Brasil e isto porque pesquisando como há vinte e cinco anos.
ela sempre a cultivou - inteligência é coisa A nossa Santa padroeira da Semiótica. A
que se cultiva. Sempre teve uma capacidade Santaella.
de trabalho incomum e uma determinação
admirável. Um fato ocorreu recentemente, Em tempo: Lúcia desenvolve há muitos
o qual vem a comprovar a determinação e o anos um trabalho de prosa ficcional, o qual
2002

empenho de Lúcia (quando ela se propõe a mantém inédito e quase que em segredo. Em

167
1975 já havia escrito uma longa prosa - um milionário (bibliófilo: aquele que ama os

2000
romance? - experimental, que permaneceu livros e os coleciona e os lê e estuda). Para
inédita. Espero que ela venha a publicar - e formar uma Biblioteca - de uma instituição,
logo - esse texto que, certamente, revelará por exemplo - mobilizam-se intelectuais e
o seu lado de artista da palavra. verba; aceitam-se doações, compram-se
(08 de dezembro de 2001) bibliotecas formadas de pessoas a um passo
da eternidade - o livro aspira à condição
do eterno - ou de herdeiros sedentos de
dinheiro e doidos para se livrar do entulho-
papel-couro etc. Pois é: ENTULHO. É assim
UMA BIBLIOTECA PESSOAL que os herdeiros de dez mil volumes
encaram o legado: um estorvo, quase que
Uma biblioteca é uma biblioteca. Lugar um presente de grego (e não deixam de ter
2001 onde se depositam e/ou colecionam livros. As razão). Livros: a pior herança possível. Mas
bibliotecas podem ser públicas, particulares o LIVRO não é fonte de conhecimentos? As
de instituições ou de indivíduos. Da palavra BIBLIOTECAS não são necessárias? O livro o
grega BIBLION= livro + TIQHMI= colocar, é; as bibliotecas o são. Porém, carregar dez
donde sai o TECA. Uma biblioteca pode mil volumes é como ser obrigado a cursar
ser especializada, geral ou mesmo eclética Medicina, quando o que se queria era fazer
(não ter propriamente uma ‘cara’). É um Artes Cênicas. Diferente seria, entre dez mil
pouco museu quando tem sob sua guarda volumes, poder escolher apenas 30. Mas,
obras raras, edições esgotadas ou mesmo dez mil?! É demais. Mesmo para aqueles
livros (-objeto) únicos: livros manuscritos que gostam de ler. Não é bom deparar com
remanescentes, da era pré-Gutenberg. dez mil volumes, ainda mais quando não se
Com o advento da tipografia - meados do teve o trabalho e a satisfação de escolhê-
século XV - os primeiros livros impressos: los e comprá-los. Suponhamos que alguém,
2002

os incunábulos: raridades, coisa de bibliófilo amigo da leitura e dos livros, de repente

168
herdasse dez milhões de reais e, já morando o acesso àquele material precioso. Não

2000
confortavelmente, resolvesse formar uma queira mal a seus parentes por isto. Afinal,
biblioteca de cinco mil volumes em apenas ninguém estará disposto a ceder espaço a
três meses. Consultando pessoas e com livros, nem a ficar a vida inteira a tirar-lhes
dinheiro, isto é possível em até menos tempo. a poeira!
O tal dono-dos-cinco-mil-volumes teria a seu (15 de dezembro de 2001)
dispor, depois de ter despendido o tempo de
três meses, uma bela biblioteca, com livros
bem acomodados em estantes adequadas,
tudo catalogado e no computador… e teria,
também, o resto da vida para se arrepender. POEMAS: sob a égide de Eros
Por quê? Porque uma biblioteca pessoal é
algo para ser formado lentamente, ao longo Fosse eu espírita e acreditaria ter recebido,
de uma vida, na medida das necessidades durante aqueles três meses e meio - fins
2001
intelectuais: é por isto que as bibliotecas de 1996, inícios de 1997 - alguns ilustres
têm as caras de seus respectivos donos poetas já idos e tidos como representantes
e deixá-las por herança é transformar o máximos da poesia fescenina ou um pouco
legado em pena. Ninguém gostaria de herdar menos que isto ou nada disto, tais como
tantos livros. As pessoas têm preferido Mimnermo, Catulo, Marcial, Villon, Aretino,
dinheiro, jóias, imóveis e obras de arte de Góngora, Gregório de Mattos, Bocage - sem
fácil comercialização. Portanto, antes de ter esquecer a onipresente Safo - assim como o
sua ex-biblioteca vendida por peso ou por magno bruxo Machado e o finíssimo portenho
unidade a um alfarrabista (dono de loja de Jorge Luis, o Borges, prosadores-ficcionistas
livros usados; sebo como se diz de ordinário e o furacão-encoberto Pessoa, nas suas
no Brasil) destine-a você mesmo, enquanto várias pessoas, mormente na de Álvaro
está vivo, a uma instituição que conservará os de Campos; Bandeira e Oswald - brigando
- se me apresentaram. Acreditasse, eu,
2002

livros e possibilitará a pessoas interessadas

169
em Platão e me menosprezasse enquanto passou por uma elaboração, às vezes pelo

2000
ser-pensante e diria ter recebido os versos crivo de uma poética em que se observam,
- sim, versos! - de uma entidade, sendo ainda, procedimentos, como por exemplo, o
eu um mero meio através do qual ela, a do metro regular. E o autor se mostra um
divindade, viria se manifestar. Porém, sei que exímio verse-maker, um virtuose do verso
possuía o repertório, o qual maturou e foi-se e d’outros recursos que têm caracterizado
enriquecendo durante mais de vinte anos, poemas nos últimos 2700 anos - pelo
desde que os latinos Catulo e Marcial foram- menos, a partir dos gregos. Aos eus líricos
me revelados por Luiz Antônio de Figueiredo dos poemas, junta-se o eu do comentador
- Bocage eu já conhecia razoavelmente que se assume enquanto pessoa: Prof. Omar
e os demais - posso dizer - amigos meus Khouri. Para mim, pornografia e erotismo
conquistados em horas diversas… Foi tudo são até a mesma coisa: sexo explícito. Não
inspiração, ou seja, um momento privilegiado, quero ver o erótico como diferente do
2001 de grande facilidade, em que tudo contribuiu pornográfico ou o erótico como um mero
para que a obra acontecesse. Foi o momento eufemismo ou como sendo o lado sutil das
certo. Intuição informada; ninguém intui coisas do Reino de Eros. E nem quero que o
do nada: nada vem do nada. Deixei pornográfico tenha a ver com o mercadejar
mais uma vez que Dr. Ângelo Monaqueu do corpo, muito embora isso de prostituição
assumisse o meu trabalho. Em verdade, esteja contido na etimologia da palavra
uma metalinguagem sobre poemas fictícios, PORNOGRAFIA. Gosto de putaria total.
uma ficção metalingüística. Os comentários Costumo falar em Reino de Eros (de par
sobre os poemas acabam por formar uma com Ares, o deus da guerra. Guerra aos
ficção de retalhos - chegando a ter uma certa malquistos) em que mimos e cacetadas
autonomia. O tema: coisas do erotismo e da podem conviver naquele universo em que,
maledicência, que dizem respeito menos ao quem comanda é o corpo, o tesão. Você já
autor e mais - cerca de 95% - a experiências ouviu dizer de alguém que anunciasse um
2002

a ele narradas por outrem, material que livro, filme, poema, peça de sexo implícito?

170
Para mim é só uma questão de elaboração crônica da passagem do ano

2000
e não propriamente de utilização de um
léxico, baixo ou não. Fenda. Aranha. Boceta. Na passagem de 1977 para 1978,
Xoxota. Vulva. Chav(b)asca. Perigosa. Onde Samira Chalhub, organizando a publicação da
cabe o quê? Eis a questão. O que é a peça PUC-SP, PORANDUBAS, pediu um trabalho a
enquanto fatura? É isto o que importa. Paulo Miranda, o qual fosse alusivo à ocasião.
Nunca se sabe do público que lerá o livro. Paulo não disse “não” e ficou a matutar. Na
Digo que é um mais-que-bom livro para data marcada, entregou a Samira um “texto”
muitos sexos e idades, mas principalmente intitulado CRÔNICA DA PASSAGEM DO
para os que possuam a maturidade de depois ANO, que apareceu em PORANDUBAS, sem
dos 25 anos. Quem o saberá? O volume, os devidos créditos. Reproduzo o referido
juntamente com muitos outros, forma um trabalho, em sua segunda versão:
corpus significativo dentro do universo das
2001 Letras Eróticas, sendo o conjunto, a obra
do Dr. Ângelo Monaqueu. Um autor, ainda,
quase desconhecido, além de desaparecido,
mas que, ao que tudo indica, estará na
berlinda, assim que seus trabalhos vierem a
ter edições maiores e mais bem distribuídas,
como a que ora apresenta a Nomuque
Edições. XAIPE!São Paulo, 15 de setembro
de 2001.
(22 de dezembro de 2001)


A ironia, para quem conhece Paulo Miranda
– autor, também, do soneto-fita-métrica e
2002

171
do poema de valor, valor transitório, sem

2000
esquecer da Torre de Pisa: entorta-se o
mundo e endireita-se a torre – não é algo
estranho, ao contrário. A fina ironia de Paulo
Miranda (de uma raridade planetária, sendo
parte constante dos poucos poemas que
tem feito nos últimos anos). Esta fatura,
com aquele sutil 32, indicia a mesmice que
tem sido a vida, apesar dessa impressão
de mudança que um ano novo sempre
traz. Porém, é possível uma outra leitura:
a de que mudanças de fato, rápidas, são
difíceis de acontecer e requerem um esforço
2001 extraordinário. Difícil é bem-administrar o
processo vida e mais difícil ainda é mudar
radicalmente de direção, com o propósito de
melhorá-la. Feliz 2002!
(29 de dezemvro de 2001)
2002

172
2002
a admiração por Edgar Allan Poe. Peirce

2001
foi um grande pensador e um escrevedor
compulsivo, que deixou mais de cem mil
páginas, muitas das quais permaneceram
manuscritas. Falei dele e de sua Semiótica,
a propósito do signo FOTOGRAFIA, como
sendo um índice, com fortes traços de
iconicidade. Agora, aos poucos, falarei de
tópicos importantes dessa teoria.
SIGNO. Alguns pensam que signo só
tem a ver com os do Zodíaco. Estes também
são signos, mas signo é muito mais do que
isto. Signo pode ser tudo: toda e qualquer
2002 coisa. Melhor dizendo: tudo pode funcionar
como um signo, pois signo ou representame
é tudo aquilo que em certa medida ou sob
algum aspecto, representa alguma coisa
para alguém (o signo representa alguma
O SIGNO NA SEMIÓTICA PEIRCEANA coisa, substitui-a, está no lugar da coisa). Tal
entidade (signo) cria na mente de alguém um
Já me referi à Semiótica peirceana signo equivalente ou melhor desenvolvido,
- Teoria Geral dos Signos, do filósofo ao qual Peirce chamou de interpretante
estadunidense Charles Sanders Peirce do primeiro signo (não confundir com o
(1839-1914): exato contemporâneo de intérprete, que é aquele ‘alguém’, o leitor,
nosso Machado de Assis (1839-1908) tendo, a inteligência que se debruça sobre o
inclusive, coisas em comum com o autor do signo para lê-lo, para decodificá-lo). O
2003

Memórias póstumas de Brás Cubas, como interpretante é parte do signo e diferere um

174
pouco do significado do signo língüístico de objeto e interpretante. O tal objeto dinâmico

2001
Ferdinand de Saussure. Diferentemente, do pode ter uma existência real ou fictícia. No
signo saussuriano que se apresenta como caso da fotografia, por exemplo, o fundamento
uma entidade dúplice, formada por uma será a conexão dinâmica, portanto, o objeto
imagem acústica (significante) e um conceito dinâmico da fotografia, assim como o dos
(significado), o signo peirceano envolve três demais índices, será sempre um existente.
partes, das quais já me referi a duas. Bem, Há três tipos de interpretante: 1.
voltando ao assunto: o que é que o signo interpretante imediato: é tudo aquilo que
representa? O seu objeto, não sob todos os um signo poderá suscitar numa mente
aspectos, pois um signo não tem por função interpretadora, é a interpretabilidade do
cobrir o objeto, mas representá-lo. O signo signo; 2. interpretante dinâmico: o que,
representa o seu objeto segundo o seu de fato, é suscitado no intérprete, é o
fundamento, ou seja, o que fundamenta um desdobrar de um signo pela ação da leitura,
2002 signo pode fazer com que ele se assemelhe que desencadeia a semiose (ação do signo,
ao objeto (sendo um hipo-ícone), com que processo de significação) - dependendo
haja uma conexão dinâmica com o objeto do repertório do leitor eu terei uma leitura
(índice) ou que o signo esteja fundamentado mais ou menos satisfatória: ele poderá ficar
numa convenção (símbolo). Esse objeto que apenas no nível do interpretante dinâmico
está fora do signo, mas que o determina e, emocional, mas poderá empreender um
portanto, o signo o representa é o objeto esforço, gastar uma energia considerável,
dinâmico e está em algum lugar do passado, para chegar ao interpretante dinâmico lógico,
pois já determinou o signo. O signo tem um ou seja, dar respostas satisfatórias quanto à
outro objeto, que é o objeto imediato: que leitura daquele signo ou complexo sígnico.
é como o objeto dinâmico está presente Porém, ele, nesse processo conhecido como
no signo (isto se assemlha um pouco ao semiose, estará sempre no meio do caminho.
significante saussuriano). O intérprete/interpretante dinâmico
2003

Quando se fala em signo, já se inclui encontram-se no presente; 3. interpretante

175
final: estará sempre no futuro, como uma exemplo para que se certifique de que muitas

2001
meta a ser alcançada. Nunca se chega ao leituras - desde que fundamentadas podem
interpretante final, que equivaleria à verdade ser feitas de um mesmo complexo. A teoria
absoluta, muito embora, às vezes, se tenha também pode dar prazer àqueles que têm a
a ilusão de se ter chegado lá - daí arrisco um sede de ler, de modo mais conseqüente, o
“interpretante final temporário”, pois logo Mundo!
será desbancado por novas leituras. Não (05 de janeiro de 2002)

se chega ao interpretante final, à verdade


absoluta, mas pode-se alcançar parcelas
satisfatórias de uma vedade maior sempre
a ser atingida. Então, no passado, temos o
objeto dinâmico, no futuro o interpretante
final e, no presente, o intérprete/interpretante
dinâmico. HISTORINHAS DE POETAS 18:
2002
A definição, o conceito de Signo de UM CERTO GRUPO DE POETAS DOS
Peirce (em verdade ele cunhou inúmeras, ANOS 70
umas mais complexas que as outras, que
não chegam a ser contraditórias) é a mais Às vezes, uma revolução está a
geral possível e comporta signos das mais acontecer em nossa frente e dela não nos
diversas naturezas, de todas as linguagens. apercebemos. Às vezes, estamos na periferia
Muito útil para leitores especiais dos signos a dos acontecimentos, às vezes, em seu centro
noção de interpretante, que vai de tudo o que e como participantes, até protagonistas.
o signo possa despertar no leitor, passando Nos anos 70, retomava-se uma
pelo que de fato desperta, até à verdade certa atitude de experimentação na poesia
- interpretante fianal, caso a semiose se brasileira, atidude essa tão cara a 22 e
esgotasse. Os signos, principalmente os que que teve o seu paroxismo com a Poesia
Concreta. Eu descobri a poesia enquanto
2003

veiculam informação estética, são o melhor

176
fazedor - pois como apreciador isso é já eram feitas, na linha das revistas

2001
anterior - nos ditos 70 e, além do grande experimentais, como NOIGANDRES,
amigo, o poeta Paulo Miranda, enturmei-me INVENÇÃO, NAVILOUCA.
com criadores de Presidente Alves, rapazes Nós, então jovens, tínhamos a
muito bem informados e talentosos, como oportunidade de conviver com poetas e
os irmãos Figueiredo (Valero Figueiredo) - intelectuais que considerávamos os maiores
Luiz Antônio, Carlos e Zéluiz - mais Renato e do mundo. Das casas dos famosos, a sempre
Roberto Ghiotto, Beto Xavier e outros tantos aberta aos jovens poetas, às discussões,
de São Paulo e doutras paragens. era a de Augusto de Campos - Rua Bocaina,
São Paulo já havia vivido grandes Perdizes - com sua esposa, a sensível
períodos de efervescência criativa na 2ª Lygia, sempre presente e participativa. Dos
e 3ª décadas do século XX. Os anos 50 mais jovens: a república onde eu morava,
haviam sido o máximo, com as Bienais entre outros, com Paulo Miranda, todos de
2002 e o Concretismo. Nos 70, jovens poetas Pirajuí, a de Renato Ghiotto e, depois, o meu
tinham como principais referências vivas apartamento à Rua Dona Veridiana, onde
os concretistas Décio Pignatari, Augusto moro até hoje e que, tendo montado uma
e Haroldo de Campos e Ronaldo Azeredo mesa para impressão serigráfica, fizemos
e, procurando-os, tornaram-se amigos e (uma equipe) belas edições de poemas,
interlocutores. revistas, cartazes.
Havia encontros semanalmente, no Algo de muito interessante, mais do
mínimo: nas Perdizes (Krystal Chopp), no que a teoria que discorre sobre as relações
Centro (Amigo Leo, Amaral Gurgel), em entre Arte e Ciência e que ocupou parte
Moema etc. As conversas rolavam até altas das preocupações de Décio Pignatari, entre
horas e sempre produtivas, informativas outros, foi a convivência com aficionados
- havia a chance da entrega de trabalhos: da poesia e das artes em geral, mas que
poemas editados autonomamente e que eram, em primeira instância, cientistas em
2003

eram distribuídos de mão em mão. Revistas formação, principalmente ligados à Física. Era

177
o caso de Renato Ghiotto e Roland de Azeredo intermediação: espessa cortina de signos.

2001
Campos, que chegaram a produzir e ainda O realismo não é o real. O Realismo na
produzem belos poemas intersemióticos. Literatura, no Cinema (mesmo em se tratando
Ivan Pérsio de Arruda Campos, químico, de um documentário, ou do antigo cine-
pouco participou desses papos, mas também jornalismo), na Pintura é sempre construído,
chegou a mostrar o seu lado criativo (Pérsio é resultante de toda uma elaboração de
de Arruda) como poeta. linguagem com um determinado propósito.
Já disse, certa vez, que toda época A História é construída, muito embora com
é rica, principalmente depois que passa… base em documentação - pretendendo não
Nós, naquele momento, tínhamos plena o verossímil, mas o verdadeiro - resulta de
consciência da importância de nossos escolhas: temas, os próprios documentos, o
interlocutores e de nossos próprios trabalhos. tipo de enfoque. Daí, que o texto de História,
Não tínhamos necessidade de manifestos. por mais bem feito que seja e por mais
2002 Nós éramos o nosso público! que pretenda uma objetividade, sempre
(12 de janeiro de 2002) estará respondendo a exigências de uma
classe, de uma categoria, de um grupo de
indivíduos. Nunca ninguém fala por todos,
apesar de a habilidade com o discurso
fazer transparecer que sim. Documentos
não falam por si: é preciso que alguém os
selecione e os apresente e os interprete. A
SIGNOS SÃO SIGNOS História é sempre construída, pois resulta
de todo um trabalho de historiadores que
Signos são signos. Tudo pode vir a tentam recuperar o passado, reconstituir
funcionar como signo. Signo não é a realidade. processos, interpretando-os. Mas é sempre
A realidade é a realidade, muito embora a visão do presente sobre o passado o que
só venhamos a percebê-la com toda uma
2003

temos, pois que, de outra maneira, não seria

178
possível. A História é sempre reescrita, noticiosos da TV? Não, o que você vê são

2001
não apenas porque pesquisas trouxeram signos, é um texto elaborado a partir da
novos dados, mas porque novos tempos observação do que está acontecendo, do
exigem novas leituras. É por isto que que o jornalista está recebendo de alguma
eternamente se escreve sobre Grécia e que agência ou de algum colega da empresa.
muitas das interpretações que vêm desde Mesmo que o escritor-jornalista tivesse
o século XIX são postas abaixo, em prol liberdade completa, mesmo assim, seria a
de novas leituras. Há tendências de época visão que ele tem dos fatos e processos e não
que fazem com que tudo seja revisto e algo que estivesse acima do Bem e do Mal.
reinterpretado, como comentava comigo, Os intérpretes estão sempre condicionados
ainda há pouco, a arqueóloga Maria Beatriz por valores de época, que dizem respeito
Borba Florenzano, minha contemporânea à classe social a que pertencem etc. Por
na História-USP, de 1970 a 73. Os signos, isto é que um mesmo signo em épocas
2002 ou melhor, os complexos sígnicos não se diferentes ou não, suscitará novas leituras,
esgotam: o Interpretante Final é nosso diferentes leituras. Um mesmo leitor,
objetivo, mas estará sempre no futuro. O dependendo do momento, poderá fazer
Jornalismo - o texto jornalístico - trata do leituras completamente diferentes de
presente-hoje, porém só pode fazer isso um mesmo complexo sígnico. “Eu nem
com um grande conhecimento do passado. O sempre sou da minha opinião”, afirmou
jornalista precisa saber muito História para certa vez o poeta-pensador Paul Valéry.
poder abordar esse presente e ele também Considerando ainda o Jornalismo, alguém
constrói o texto jornalístico, selecionando poderia perguntar: “Há, hoje, liberdade
e considerando o que interessa a seus de expressão no Brasil?” A resposta é
propósitos ou aos da empresa jornalística “Sim”. A própria Constituição garante isto.
em que trabalha ou para a qual trabalha. Porém, essa liberdade tem limites: 1. a
Então, não é a realidade que eu vejo garantia do seu emprego (não se pode
2003

nas páginas de jornais, nos programas bater de frente com a linha editorial da

179
empresa na qual se trabalha. Daí, jogo de

2001
cintura, auto-censura); 2. o limite imposto
pela Ética, que é aquela que vale naquele
momento específico (isto é bem mais difícil
de ser observado. Vide sensacionalismo das
mídias, não só no Brasil: tudo é feito para se MÁRIO DE ANDRADE TARSILA MÁRIO
alcançar audiência). Como disse um amigo DE ANDRADE
meu, um meio-filósofo: “Liberdade é como
dinheiro: importante ter; mais importante, Ouso dizer que depois do Macunaíma
ainda, é não usar na sua totalidade”. Dados (publicado em 1928) o melhor de Mário de
são dados e tudo depende de como são Andrade são suas cartas. Destas, diria que
utilizados. E sempre sofrem um processo as mais deliciosas são as que escreveu para
de manipulação, mesmo que o manipulador o amigo-poeta Manuel Bandeira, por pouco
2002 não tenha, disto, consciência plena. Estamos mais de duas décadas. Mário, em São Paulo
fadados a ter da realidade apenas indícios, (principalmente); os destinatários, no Rio de
os quais acabam passando, apesar de Janeiro, em Paris, Belo Horizonte etc. Grande
toda a intermediação que existe. Mesmo escrevedor de cartas o Mário de Andrade.
a Fotografia - que empresta credibilidade Sua correspondência epistolar forma um
ao texto jornalístico - não é o real, apesar corpus considerável, em grande parte já
da conexão dinâmica (exige como objeto publicada - o ativo da correspondência.
dinâmico um existente). Fotografia é signo. Agora, de 1995 para cá, que é quando o
Signos: frutos do trabalho de construção: seu legado inédito pôde ser publicamente
leituras do mundo. De Homero a Sófocles vasculhado, pesquisado, passados cinqüenta
e Heródoto, a Platão a Cervantes a Marx a anos da sua morte, também o passivo
Mallarmé a Benjamin e a Borges: leituras da correspondência, ou seja, as cartas,
do Mundo. Belas e importantes leituras. bilhetes, cartões-postais que recebia o autor
2003

(19 de janeiro de 2002) de Namoros com a Medicina, pôde também

180
vir a público, para o enriquecimento das Drummond de Andrade, Anita Malfatti (já

2001
informações de que já dispúnhamos. falecida na ocasião da publicação do volume
… de cartas recebidas do amigo Mário, contou
No último ‘Finados’, estive no complexo com o empenho de Marta Rossetti Batista).
Consolação de Cemitérios - Cemitério da As cartas de Mário a Manuel Bandeira, a
Consolação, o da Venerável Ordem Terceira primeira edição, Bandeira vivo (a edição é dos
do Carmo e o dos Protestantes; estes dois anos 50 e o autor de Libertinagem durou até
últimos com entrada pela Rua Sergipe; 1968) eu as li na primeira metade dos anos
aquele, pela própria Consolação, é a mais 70, época em que concentrei meus estudos
consagrada das necrópoles paulistanas. No no Modernismo brasileiro. Por problemas
Cemitério dos Protestantes visitei o túmulo do momento, Bandeira omitiu trechos e
de Anita Malfatti, Krugg (protestantes: nomes.
alemães com passagem pelos EUA) por As atuais edições das cartas, que
2002 parte de mãe. No da Consolação visitei os incluem o passivo da correspondência,
túmulos de Oswald de Andrade e de Mário - saem a partir do IEB e da EDUSP (ambos
na mesma rua 17 - e o de Tarsila do Amaral. partes integrantes da Universidade de São
Faço esse ritual há tempos, quando não Paulo, a USP). A edição da Correspondência
estou em Pirajuí na referida data, ou mesmo Mário-Manuel já está em segunda edição
independentemente da data. Emocionei-me eduspiana e somente agora adquiri o volume
no de Anita e no de Oswald: como que senti que, pareceu-me é, além de portentoso,
o peso de suas histórias particulares… uma edição bem cuidada, com mil e uma
… notas esclarecedoras. Na ocasião da compra,
Mário de Andrade, polígrafo, como adquiri o que mais me interessava: o volume
dele se diz, morreu em 1945. Foi tendo suas da correspondência Mário-Tarsila.
cartas publicadas pelos destinatários ilustres Pouco volumosa, é mais Mário quem
- uns mais, outros menos - dentre os quais escreve. Algumas informações interessantes
2003

(mais-que-ilustres) Manuel Bandeira, Carlos do tipo Mário encomendando e Tarsila

181
comprando e enviando para ele - da Europa - de Mário e a disposição de Tarsila. Depois

2001
Picasso, Lothe, e sobre pessoas. O que há de de 1929, as coisas mudaram para todos,
mais interessante mesmo é a documentação principalmente para o casal, que passa a
fotográfica e as reproduções facsimilares ser ex-casal Tarsiwald. Outros tempos.
de cartas-cartões: Tarsila possuía uma bela Mário nunca quis reatar a velha amizade
grafia e escrevia bem. Mário escreve mais, com Oswald. Contou-me o velho Edgard
porém o volume de escrita a Tarsila é bem Braga que Oswald chorou quando soube da
menor do que o que teve por destinatário morte de Mário, em 1945.
Anita Malfatti - circunstâncias explicariam As notas de Aracy Amaral,
isto. A carta dirigida a Tarsila, em que organizadora do volume, são mais extensas
Mário expõe o caso do rompimento com que os textos das cartas. Esclarecedoras,
o companheiro dos tempos heróicos do porém, repetitivas às vezes. Especialista
Modernismo Oswald de Andrade (marido em Modernismo e, especilmente, em
2002 mais célebre de Tarsila), carta da qual Tarsila, Aracy Amaral, como os demais
se esperavam grandes esclarecimentos, especialistas, não se contém e não resiste
uma possível verdade fica no que não a ir além do necessário. Mas é sempre um
foi dito, ou seja, é mais uma justificativa trabalho feito com grande base documental
para a amiga Tarsila, única que poderia e seriedade.
compreender integralmente a mensagem De qualquer modo, esse volume
(Mário mais expõe a sua alma que os fatos, de cartas Mário-Tarsila. Tarsila-Mário -
que poderiam fazer as delícias de curiosos que, traz também um conjunto de textos
décadas depois). A tal carta é de 1929 (na escritos por Mário de Andrade sobre Tarsila
edição que fez da pesquisa efetuada sobre do Amaral, uma cronologia e uma seção de
Tarsila, Aracy Amaral havia omitido a carta, documentação - vem a proporcionar poucas
por motivo de ordem ética, justifica). boas horas de leitura para os aficionados de
Bem, provavelmente, a ligação de nossas Letras Modernistas.
2003

Tarsila com Oswald tenha inibido a pena (26 de janeiro de 2002)

182
REGINA SILVEIRA ‘geração Basquiat’) que contaram com

2001
todo um lobby de galeristas e críticos de
Ontem - 18-01-2002 - estive na arte, Regina teve um percurso de longo
famosa Speranza, incrível pizzaria de São aprendizado, desde os tempos em que foi
Paulo, Bairro da Bela Vista (o Bixiga), aluna de escola de Belas Artes e aprendiz,
comemorando o aniversário de Regina em curso livre, do pintor Iberê Camargo,
Silveira (nascida em Porto Alegre no Ano da até a longa convivência com o raro artista
Graça de 1939). Presentes os amigos, entre Julio Plaza (de quem foi esposa por muitos
os quais Gerty Sarué - uma grande artista anos). Viagens muitas, estudos, prática
gráfica - Guto Lacaz, Nelson Leirner - cada docente com muito empenho (daí o amor
vez melhor, quanto mais velho fica - críticos, dos ex-alunos por ela) a devoção à gravura.
professores, poetas (Paulo Miranda, Walter Regina passou do figurativismo tradicional
Siveira e, mesmo, este que ora escreve), a um abstracionismo lírico-expressionista,
2002 artistas jovens, de talento, pupilos de chegando, numa curta fase, à abstração
Regina e que por me parecerem um tanto geométrica. Daí, uma longa pesquisa
arrogantes, irritam-me (um dias desses com imagens encontradas prontas nas
eles melhoram. Talvez espelhando-se no mídias impressas e que eram retificadas,
exemplo da artista Regina, espécie de mãe- descontextualizadas e recontextualizadas.
de-todos e que é toda disciplina e empenho, Crítica social profunda, transitando por
norteados pelo talento e por um projeto de um repertório que remetia à Pop Art.
vida-arte, por um pensamento maior. Talvez Metalinguagem: a arte abordada na arte.
que essa minha indisposição vá pelo que de Interferências em imagens cristalizadas
mim reconheço neles e não suporto. Ou, que se tornavam novas pelo que de
quem sabe?, até ciúme, de minha parte). estranhamento colocava nelas a artista.
Com seu largo conhecimento da história
Diferentemente dessas crianças dos da arte - de Altamira e Lascaux a Duchamp,
2003

anos oitenta (hoje não tão crianças assim, Escher, Bacon e Rauschenberg - Regina

183
passou a subverter os códigos ocidentais de porém, esse diálogo rende quando é Marcel

2001
representação: perspectiva e sombra. Daí, Duchamp o seu interlocutor, que embasa, é
todo um trabalho que se desenvolveu durante citado e homenageado com originalidade.
anos, sempre evoluindo, e que, extrapolando Regina é uma incansável trabalhadora, uma
o bi-, passou ao tridimensional: objetos, já trabalhadora compulsiva, uma workaholic,
não apenas recortados, mas em suas três como se diz… Regina não encontrou nada
dimensões. Um trabalho não-aurático: de mão-beijada. Regina Silveira conquistou
trabalho passível de ser reproduzido, sem com arte o seu espaço. Salve Regina!
perda da informação estética. (02 de fevereiro de 2002)

Essa obra, há anos, extrapolou as


fronteiras do Brasil: a artista ganha o mundo:
de São Paulo a Nova Délhi, Toronto, Nova
Iorque e Rio de Janeiro.
2002 Regina Silveira tem um trabalho LOTHAR CHAROUX
diferenciado, nesse mar de mesmice que se
observa no meio erudito das artes plásticas, O primeiro contato que tive com a
de algumas décadas para cá. Um trabalho obra de Lothar Charoux se deu em Santos,
que chama a atenção pelo engenho e ciência. em 1968, quando eu participava do 1º Salão
Regina já possui o que poderíamos chamar Oficial de Arte Moderna daquela cidade. Seus
de “uma obra”. É uma mestra, em qualquer trabalhos chamaram-me a atenção pela
dos possíveis sentidos dessa palavra. utilização de um mínimo de elementos: linhas
Pensa e faz. Os trabalhos apresentados aos sobre um fundo escuro detonavam formas.
públicos resultam de inúmeros estudos que Vi-o, em pessoa, num seminário na ECA-
são - eles-mesmos - obras dignas de serem USP, promovido pela crítica e historiadora da
mostradas. Lembram os estudos de Leonardo arte Aracy Amaral, se não me engano no ano
da Vinci. Trazem a memória de toda a história de 1973 (ou 74?): era sobre o Concretismo.
2003

da arte. Dialogam com muitos artistas, Estavam presentes os convidados Décio

184
Pignatari (brilhante como sempre), Willy minimizar o papel dos artistas de São Paulo.

2001
Correa de Oliveira, Hermelindo Fiaminghi Porém, seu lugar na história não poderá
e o Charoux, tão simples ao falar sobre os ser negado por muito tempo. Este, por
seus trabalhos; até havia trazido alguns sinal - o TEMPO - se incumbe de revelar,
múltiplos quadrados (serigrafia sobre cartão inteira, a verdade, já diziam os gregos da
prensada em chapa de acrílico protetor). Dos Antigüidade.
concretistas artistas plásticos era, talvez, o A Poesia Concreta mostrou-
mais modesto (Sacilotto era uma outra figura se imbatível, entrando como a grande
de aparência humilde: havia sido um operário contribuição do Brasil para a poesia planetária
e, velhinho, está vivo e morando em Santo no século XX. Poesia Concreta é São Paulo,
André). Nunca alardeou a sua grandeza que a cara e a alma de São Paulo. Os artistas
cada vez mais se evidenciaria com o passar concretos de São Paulo, liderados por
do tempo pelo menos para os apreciadores Valdemar Cordeiro não eram muito dados
2002 de uma arte de invenção e pesquisa formal. a teorizações por escrito. Valdemar era um
É impressionante como esse pessoal do polemista, cérebro e ação. Talvez que não
Concretismo paulista nas artes plásticas - fosse tão bom como os companheiros em
os de São Paulo - tem sido injustiçado pela termos das faturas plásticas, mas era quem
história oficial das artes plásticas do Brasil: discutia e abria picadas, chegando a ser um
o Neo-Concretismo, irradiando-se a patir dos pioneiros, em termos internacionais, na
do Rio de Janeiro, roubou a cena. Não que arte por computador - máquinas aquelas,
não possua grandes artistas: possui, porém, para nós, hoje, dinossáuricas - a então dita
nesse odioso confronto Rio-São Paulo, o ARTEÔNICA. No Rio de Janeiro, o poeta
Neoconcretismo nas artes plásticas levou a maranhense Ferreira Gullar, acabou liderando
melhor: contou com um lobby mais eficaz, uma ruptura (manifesto assinado por vários
congregando até nomes importantes da artistas, em 1959): a do Neoconcretismo,
crítica, provenientes de São Paulo, como é acusando os paulistas de excesso de
2003

o caso de Aracy Amaral. Muito se fez para cerebralismo. Promovendo os artistas que

185
operaram a partir do Rio de Janeiro, criou uma paisagem como que expressionista,

2001
diferenças formais que um apreciador de ainda dentro do que poderíamos chamar de
hoje verá que são apenas mínimas. “a grande pintura”.
Mas voltemos ao nosso artista: a Os concretistas pintores de SP merecem
grandeza de Charoux reside, penso, no uma avaliação, alguns já estão tendo. O
menos, na recusa de excessos, no simples grande Charoux merece ser estudado e
- “o menos é mais”, para ficar com Mies van deverá ocupar o verdadeiro lugar que lhe
der Rohe - em pontos que se tornaram linhas, cabe na [história da] arte do Brasil. E, por
que compõem uma estrutura e que tomam certo, será um lugar distinto, elevado. E
para si coloracões: sutileza de linhas sobre para começar, irei colocar na parede as duas
o preto. O difícil é justamente - dispondo belas serigrafias dele, que guardo há anos.
de inumeráveis recursos plásticos/visuais - Lothar Charoux fecit.
ser simples. Era simples [aparentemente]
2002 a arte de Charoux. Uma arte difícil, pois Em tempo: Lothar Charoux nasceu em
esconde complexidades calcadas em toda Viena, Áustria, em 1912, vindo a falecer em
uma sabedoria acerca da arte e do fazer São Paulo, em 1987. Trabalhos seus podem
arte. O trabalho de alguém que não forçava ser vistos na Pinacoteca do Estado SP e no
circunstâncias para aparecer. MAC-USP. Coleções particulares guardam a
Na única vez que estive na residência maior parte do que produziu.
de um outro grande artista concretista de (09 de fevereiro de 2002)

São Paulo (estava eu, então, com a artista


Sônia Fontanezi), Hermelindo Fiaminghi,
este me mostrou, na parede, uma pintura
sobre duratex e disse: “Este quadro do
Charoux eu o salvei. Estava no tempo,
estragando, servindo de tapume para a casa
2003

do cachorro”. Era ainda um quadro figurativo:

186
RE - CAPITU – LANDO como da melhor prosa que já se fez em

2001
língua portuguesa.
Volta-e-meia aparece alguém que, no Vejamos seus melhores romances e
estrangeiro, descobre Machado de Assis com alguns de seus melhores contos (é como
suas maravilhas do narrar. Joaquim Maria querer escolher os cinco melhores sonetos
Machado de Assis nasceu e morreu no Rio de Camões): Memórias póstumas de
de Janeiro (1839-1908) sendo, portanto, um Brás Cubas (maravilha de livro; ainda
homem do século XIX. Mesmo vivendo a era conservo o exemplar com dedicatória que
de grandes romancistas, percebeu que um me foi oferecido por Dona Cida Manso), Dom
romance, malgrado sua complexa trama, Casmurro, Quincas Borba, Esaú e Jacó
não precisaria ter 1000, 700 ou 500 páginas (para quem quiser saber o que é escrever
e escreveu romances bem mais curtos, bem em português, ou, quando o português
divididos em capítulos curtos (necessidade é a língua mais eficiente do mundo para
2002 de publicação aos pedaços, em jornais e uma prosa ficcional artística), Memorial de
periódicos). Aires (romance em forma de diário: uma
Escreveu, também, contos. Nem vem beleza!); dentre as obras-primas de contos:
ao caso, aqui, falar do poeta e do cronista, O Alienista, A causa secreta (o orgasmo
mas do prosador: fazedor de uma prosa pela dor do outro), A cartomante (que traz
ficcional artística de babar! Aquela de um um incrível índice do desfecho e que valeria
Machado com o senso do EPOS (ÉPOS) já um estudo comparativo com Famigerado,
amadurecido. Há quem o coloque - com de João Guimarães Rosa), A Missa do
justiça, diga-se - entre os maiores prosadores Galo (a sensualidade no ar… sem nenhuma
do século XIX, em âmbito internacional vulgaridade).
(muito embora tivesse contra si o fato de No ginasial do IEDAP, Pirajuí, mas
escrever em Português, língua solenemente principalmente no Clássico, o assunto Capitu
ignorada por leitores de outras línguas). Há (personagem do romance Dom Casmurro)
2003

quem coloque os seus melhores escritos, estava sempre em evidência nas aulas de

187
português, ministradas pela professora inquiridor-narrador não chega a nenhuma

2001
Chainy João Racy, que apresentava a questão conclusão de fato. E essa é uma dentre
com entusiasmo e se recordava das aulas de as grandezas do livro, a de terminar sem
Literatura Brasileira na USP - a Faculdade de conclusão-solução para o problema lançado.
Filosofia Ciências e Letras ainda se situava à O resto todo é a maravilhosa escritura
rua Maria Antônia - com o professor Antônio machadiana, que tem conquistado geração
Soares Amora, genro do filólogo Fidelino de após geração de leitores. Machado: um autor
Figueiredo. Na sala do Clássico, no Pujol, para ser lido principalmente depois dos 20
colegas inteligentíssimas, como a escritora anos, até os noventa. Quanto mais velhos
Marineide de Moraes, a artista plástica e vamos ficando, mais Machado nos parecerá
escritora Selma de Oliveira, a sensibilíssima maior/melhor.
para as coisas da poesia Kikue Uski. Bem, essas reflexões me vieram a
Capitu, alvo da desconfiança do propósito de Machado, mas do Machado
2002 marido - o Bentinho - talvez seja a figura discutido nas salas de aula do Pujol. O que
mais celebrada (discutida, lembrada) de veio depois, só acrescentou ao já sabido.
toda a prosa brasílica de ficção, porque Naquela época, a classe já havia chegado a
justamente cria-se - o narrador-personagem- interpretantes satisfatórios acerca do Dom
protagonista cria - uma dúvida sem chance Casmurro.
de solução em torno dela: Capitu teria ou Machado é a medida para quem escreve
não traído Bentinho? prosa ficcional em português. Machado é
Acontece que muito se conjecturou parâmetro.
em torno disso. Até julgamentos - dignos de (16 de fevereiro de 2002)

um Tribunal do Santo Ofício - se fizeram nas


escolas do Ensino Médio: erro de princípio!
Pois que a dúvida do leitor é a dúvida
do narrador-personagem-protagonista-
2003

suposta-vítima. Apesar dos indícios (?), o

188
IVETE CURI infra-estrutura proporcionada pela família

2001
para fazer um excelente curso, sem outras
Nascida em Pirajuí, em 17 de agosto preocupações além do estudo).
de 1954, Ivete Curi chegou a residir, com Um dado interessante e conflituoso
seus pais, por algum tempo, no Balbinos. envolvia a questão religiosa: por parte do
Depois, nesta nossa cidade, passou a morar, pai: batizada na Igreja Católica, embora
pois seus pais se tranferiram definitivamente a família fosse tradicionalmente (desde o
para cá. Seus pais eram: Salim Curi - o Líbano) Grega-Ortodoxa; por parte de mãe,
primogênito do Chico Turco - aqui nascido e também cristã, era neta de David José
sua mãe, Lídia Ashkar Curi, natural de Novo Ashkar, um ministro muito culto da Igreja
Horizonte. Presbiteriana Independente, libanês que se
Era a mais nova de três filhos, tendo sido havia fixado em Novo Horizonte. Não sei até
criada, desde o berço, como um ser precioso. que ponto isto poderia ter sido um problema
2002 O pai, em especial, a tinha como um bem para ela, pois eu, um de seus primos mais
acima de qualquer outro e ela correspondeu chegados e um interlocutor contumaz, não
sempre em amor e dedicação. Como todos me lembro de ter conversado com ela sobre o
da família - e isto inclui outras crianças: assunto. De qualquer maneira, dentro de um
os seus primos - foi amamentada por um Cristianismo coração-de-mãe, sem nenhum
longuíssimo período, o que fez - penso - com fanatismo, ela vivia a oscilar, de acordo
que se sentisse atada eternamente à casa com as poucas obrigações de celebrações
dos pais (não sei o quanto esta afirmação religiosas.
teria um respaldo científico). Em Pirajuí fez As complementações dos estudos
os seus estudos, até o Colegial, sempre da Medicina cursada em Marília, ela as fez
como uma aluna exemplar; daí, resolveu os principalmente em São Paulo, passando,
seus estudos superiores pela Medicina, que como era obrigatório, pela Santa Casa
cursou em Marília (os pais a queriam mais e outros hospitais. A Cardiologia foi o
2003

ou menos perto e a boa aluna teve toda a departamento por ela escolhido e aí,

189
recebeu instruções, que eu me lembre, dos brilhantemente me falou de Pneumotórax,

2001
Doutores Adib Jatene e Michel Batlouni, que em termos médicos, pois que eu deveria saber
se tornaram seus amigos e que chegaram disso para poder estar prepado para perguntas
a insistir para que ela fizesse carreira em de alunos-crianças quando estivesse falando
São Paulo, o que ela não quis. Acabou por de Manuel Bandeira e seu famoso poema
se fixar definitivamente em Pirajuí. Porém, autobiográfico PNEUMOTÓRAX.
sempre participava, como observadora, de Além de uma ligação de amadora
Congressos de Cardiologia (em Campos do com a música popular - e eu, durante anos
Jordão, entre outros lugares, cidade que ia à sua casa ouvir Beatles e depois da
ela adorava. Seus antigos mestres, quando separação dos componentes do grupo de
também presentes, vinham lhe dar um Liverpool, os discos de Paul, John, George
afetuoso abraço). Seu medo extremo de avião e Ringo, separadamente - às vezes se
a impediu de viagens ao exterior e, talvez, de maravilhava com algum conto, filme, poema
2002 alguma especialização dentro de sua área, e me comunicava. Surpreendeu-me, certa
nos Estados Unidos, por exemplo. Excelente vez, sua referência, com grande admiração,
médica, ficava, às vezes, aflita ao ver que não ao Ficções, de Jorge Luis Borges. Doutras
poderia fazer uso de todos os procedimentos feitas, chegou a descrever, emocionada - ela
com relação a um paciente, pois nem sempre que passava a idéia de possuidora de uma
certos recurcos se encontravam disponíveis. fria objetividade - episódios de vida-morte
Tinha grande paciência, principalmente com experienciados por sua atividade de médica
os mais humildes, para os quais explicava as e que eu, com modificações, utilizei em meu
coisas adequando o repertório, reformulando trabalho ficcional.
para tornar inteligíveis as coisas. Nisto, Há pessoas que não aceitam o desligar-
lembrava um pouco o Dr. Dráusio Varella. se do núcleo familiar de origem. Não aceitam
Professoral às vezes: sempre que eu para si outra família além daquela dentro na
precisava de explicações, recorria a ela que qual nasceram. Não aceitam vir a formar um
2003

as dava pacientemente. Lembro-me de quão outro núcleo, apartado daquele originário.

190
Conheço, de perto, muitas pessoas assim e assistiu nos últimos momentos, no Hospital

2001
elas são tudo o que, em última instância, da Beneficência Portuguesa, em São Paulo
um pai, uma mãe podem esperar, pois são (para onde fora transferida de Bauru, por
os filhos que têm os maiores cuidados com avião!), às 15h45 do dia 14 de fevereiro deste
os seus genitores. Era o caso de Ivete que, a 2002. As causas da morte, relacionadas pela
partir do momento em que o pai apresentou médica foram: a. Parada cárdio-respiratória;
problemas delicados de saúde, não poupou b. Insuficiência respiratória aguda; c. Infarto
esforços. O pai era uma espécie de ente cerebral extenso; d. Acidente vascular
superior, amado, idolatrado e ela fez tudo encefálico embólico maciço; e. Hipertensão
o que pôde para mantê-lo vivo e sem muito arterial sistêmica.
sofrimento (não permitiu, por exemplo, uma Tudo indica que houve resistência ao
cirurgia de risco, o que veio a provar que tratamento por parte da paciente: teria ela
ela tinha razão, pois o pai sobreviveu por consciência da extensão do problema? No
2002 muitos anos, tendo chegado aos 84). hospital, nas visitas que fiz a ela na UTI,
Ela não suportou a morte do pai, pelo menos em três vezes ela pareceu ter
ocorrida em julho de 2001, tendo sido melhorado e reconhecido a mim, ao Carlos
acometida de uma tisteza que, aliada ao Cury, à Jamila Neme e ao Camal Rachid.
descuido com relação a si própria (que Depois, desandou a dormir, sedada ou não.
necessitava de cuidados) acabou causando Na visita de 5ª feira à tarde, dia 14 de
os problemas que a levaram à morte. Com fevereiro, não pudemos, eu e Jamila entrar,
seus pacientes - basta perguntar a qualquer e tivemos de aguardar a médica, que veio
um deles - continuava com o mesmo rigor com a notícia-bomba.
nas prescrições. Desespero. Choro. Telefonemas.
Pouco mais de duas semanas sofridas Comoção geral na cidade. Dor da mãe e
para ela e para seus familiares, amigos demais familiares e dos amigos e amigas
e clientes bastaram para levá-la de nós. e clientes-amigos. O choro sentido das
2003

Faleceu, segundo relatório da médica que a pessoas que estavam sob os seus cuidados

191
pôde ser visto nas várias horas que durou pouco mais de quarenta anos, em Baltimore,

2001
o seu velório em Pirajuí. A Profilaxia é mais em 07 de outubro de 1849, encerrando um
importante. As Terapias (terapia quer dizer processo vital que acumulou glórias (mais
cuidado com alguém) sempre envolvem póstumas) e dissabores - menos alegrias
perigos maiores… que sofrimento.
Jamais saberão os Beatles, do amor de Os muito jovens ouvem falar dele como
Ivete por sua música. Seus clientes, parentes de alguém admirado por algum rock’n’roller
e amigos, ao contrário, terão motivos para que o cita, assim como cita o misterioso
dela se lembrar sempre e sempre. Suas Rimbaud, o menino-poeta que fez tudo - e
qualidades maiores: Honestidade, Dedicação, esse tudo foi muito - antes de completar 20
Competência, Discrição. anos de idade, embora tenha morrido com
Ela sobreviverá rigorosa, aflita e trinta e tantos. O papa das comunicações,
amorosa em nossas memórias! Mas deixa Marshall McLuhan fala de Poe como sendo
2002 um pouco mais vazias as nossas vidas, nós o inventor do moderno conto policial e do
que a amávamos. REQUIESCAT IN PACE. poema simbolista.
(23 de fevereiro de 2002) Há muito de verdade nessas afirmações.
Poe foi descoberto, amado, traduzido e
cultuado na França, a começar, por Charles
Baudelaire - o poeta e comentador de seu
tempo, que inaugura a Modernidade - e,
EDGAR (ALLAN) POE daí, por toda uma plêiade que se estende de
Mallarmé a Barthes, passando por Verlaine,
Nascido em Boston (EUA), em 19 de Rimbaud, Debussy, Lacan e muitos outros. O
janeiro de 1809, esse exato contemporâneo nosso Machado de Assis, não só leu e amou
de Chopin - o músico polonês romântico, Poe, como traduziu seu mais célebre poema:
gênio de composições para piano - Edgar O Corvo, também traduzido magistralmente
2003

Poe (Edgar Allan Poe) veio a falecer com por nosso irmão luso Fernando Pessoa.

192
Porém, o mundo veio a conhecer Poe geração, coleciona aficionados de suas arte

2001
através da França, ou melhor, do trabalho e manhas.
de tradução e divulgação feito por poetas É interessante que Edgar Poe, em sua
franceses, do quilate de um Baudelaire e ficção, quando coloca inteligência extraordinária
de um Mallarmé. numa personagem, esta é sempre francesa (ou
Más línguas pensam ser Poe um de origem francesa). É o caso de seu detetive
escritor menos grande do que o que diz (pai de Sherlock Holmes) Auguste Dupin,
a sua fama, chegando a dizer que sua francês que opera em Paris e que resolve
grandeza - suposta - seria invenção dos problemas aparentemente insolúveis (veja-se
franceses, que gostariam em Poe o que “A Carta Surripiada”). No maravilhoso conto “O
há de francês nele. Falta de sensibilidade Escaravelho de Ouro”, a personagem principal
seria o que se poderia dizer para essas decifra uma mensagem criptografada e chega
pessoas, sem precisar ter de ofender. Poe a um fabuloso tesouro: trata-se, o decifrador,
2002 foi um grande escritor, ou melhor: foi um de William Legrand, natural da Luisiana (área
grande narrador (contos sempre escritos de colonização francesa incorporada pelos
em primeira pessoa), poeta e teórico Estados Unidos) e descendente de protestantes
(seu texto “A Filosofia da Composição” calvinistas franceses (huguenotes). O próprio
é obrigatório para quem estuda Teoria nome Legrand é francês (legrand = le grand =
Literária, em especial Poesia). o grande).
Seu inglês, tido como pedante, é Não se pode saber até que ponto isso
carregado de francesismos e de expressões tudo influenciou o juízo dos franceses. O que
de cunho erudito; o ritmo em sua poesia é é óbvio é que aquela legião de admiradores
um tanto monótono, dizem; na teoria, ele não estaria enganada com relação ao valor de
é por demais cerebral! Poe. Antes, percebeu a genialidade do criador
Defeitos para uns, qualidades estadunidense, genialidade da qual também
para outros. Acontece que Poe foi (e é) compartilhavam!
2003

absolutamente genial e, geração após (02 de março de 2002)

193
SOBRE A ESCRAVIDÃO normal a sua condição… até que surge a

2001
revolta: da antiga Roma ao Brasil-Colônia
A escravidão foi (e pode até estar e Independente: houve muitas formas de
sendo) uma instituição de muitas das resistência à escravidão: da conservação
sociedades humanas de que possuímos de traços da cultura original às rebeliões,
documentação. Existiu com maior ou passando pelo aborto.
menor intensidade, em diversas épocas e A guerra é uma das máquinas de
lugares. Temos dela muitos registros na se fazerem escravos: já em Heráclito de
Antigüidade: no “Código de Hamurábi”, Éfeso, Frag. 53: “A guerra é pai de todas
que é da 1ª metade do II milênio aC (e as coisas, de todas, rei. Alguns revelou:
não é o primeiro código escrito de leis da deuses; outros: humanos. De uns fez
História - pois que já havia leis escritas - escravos; de outros, homens livres”. Veja-se
mas é a primeira grande compilação de leis o comércio de escravos ao longo dos séculos
2002 que se conhece), nas sagradas escrituras do na costa africana: europeus (a começar
“Velho Testamento”, nos textos dos filósofos pelos portugueses) incentivavam guerras
gregos: de Heráclito de Éfeso a Aristóteles entre tribos para conseguirem os escravos:
(interessante dar uma olhada no que disse objeto de um lucrativo comércio. Perder
Aristóteles da escravidão) - a escravidão uma guerra: ó infortúnio. Veja-se a tragédia
corria solta na civilizadíssima Grécia Antiga de Eurípides As Troianas. Pobres mulheres.
(ou melhor, no Mundo Grego). Realezas, nobrezas, ralé: todo perdedor é
As sociedades que possuíam escravos, um desgraçado e se torna um cativo. Da
achavam aquilo a coisa mais mormal do África, príncipes e princesas vieram para o
mundo e desgraça mesmo era, por um Brasil: escravos!
motivo ou outro, tornar-se um escravo (gente O que faria de alguém, um escravo?
famosa era ou se tornou escravo, mas isto É bom logo dizer que não é a etnia, a cor
já é uma outra história). O escravo, como da pele, a falta de refinamento intelectual.
2003

os despossuídos, podem acabar achando O que seria, então? O poder que uns têm

194
de subjugar os outros. É isto: o poder. Agora, como é que alguém poderia

2001
Quaisquer outras explicações entram como se tornar escravo? De muitas maneiras:
meras justificativas de ordem ideológica. Ao a. Perdendo uma guerra. Prisioneiros:
longo da História, as mais variadas etnias escravos. b. Sendo filho de escravos. c.
foram vítimas da escravidão: brancos, negros, Por endividamento. d. Através do rapto:
vermelhos e amarelos. O poder de subjugar! pessoas eram raptadas e vendidas em
Imaginem em outros tempos: escravas lugares distantes do de origem. e. Crianças
jovens e belas como, por exemplo: Carolina abandonadas poderiam ser acolhidas como
Ferraz, Tânia Nomura, Cléo Brandão, Isabel escravas. Felizmente a escravidão acabou,
Valença, Letícia Sabatella, Luísa Brunet! tendo sido o Brasil, no Ocidente, um dos
(Quem se interessar, poderá procurar as últimos países a aboli-la. Nossa Constituição
versões masculinas para esses monumentos garante que somos todos livres.
femininos). Pois é, muitas etnias foram Porém, de vez em quando aparecem
2002 vítimas do jugo dos mais poderosos. notícias estarrecedoras de escravização de
O que caracterizaria um escravo? No pessoas em fazendas da Amazônia brasileira
sentido mais geral, um “escravo de cartilha” e outras tantas áreas de nosso País. É óbvio
seria assim: 1. Ele é tido como propriedade do que, uma vez detectado o problema, a coisa
seu senhor (e, aí, difere do servo medieval, é debelada pela polícia. Mas é inconcebível
que era um explorado que estava preso que deixemos a coisa chegar a esse ponto.
à terra), uma mera mercadoria, passível A Profilaxia é o melhor dos remédios.
de compra, venda, troca, podendo até ser Como se pode ver, a Humanidade, tão
libertado pelo seu senhor. 2. Todo o fruto do capaz das mais belas coisas, é, também,
seu trabalho pertence ao seu senhor (que capaz das maiores vilezas!
até, caso queira, pode destinar-lhe uma (09 de março de 2002)

pequena parte). 3. A condição de escravo


é transmissível aos filhos (ou seja, filho de
2003

escravo: escravo).

195
ADENTRANDO SÃO PAULO PELA VEZ qual ou pouco modificados - as pessoas,

2001
PRIMEIRA porém, em grande parte, já se foram,
inclusive meu pai.
Foi em 1954 a primeira vez em que O elevador do hotel. Minha primeira
estive na cidade de São Paulo. Era o ano refeição, em que, aperitivando um tomate,
do IV Centenário da capital do Estado (de o prato foi recolhido pelo garção enquanto
sua fundação oficial). Tínhamos ido: minha eu, curioso, debruçava-me na janela do
mãe, eu e mais meus três irmãos - éramos restaurante para apreciar a festa que era o
quatro irmãos; o quinto só viria a nascer movimento de rua. O Largo do Paissandu,
em 1961. Meu pai já se encontrava na onde meu pai mantinha um apartamento
Paulicéia e nos esperava. num edifício recém-inaugurado, prédio
De Bauru a São Paulo, uma divertida cujo saguão, decorado com pinturas,
e confortável viagem (pareceu-me. Talvez impressionou-me.Revisitando-o
2002 não para minha mãe, sempre preocupada recentemente, vi que o aspecto mantém-
com tudo). Trem da Companhia Paulista. se o mesmo: as tais pinturas ainda estão
Desembarque na Estação da Luz, uma lá. Os bondes e automóveis pelas ruas. A
maravilha para meu universo visual: a Praça Buenos Aires, em frente à casa de
grandeza, a beleza, o movimento de gente, uma irmã de meu pai (hoje há um alto
como até então eu não havia visto. De lá edifício no lugar) e a empregada de nome
para o hotel, Palace Hotel, cuja entrada Clara - nome estranho, para mim, que logo
principal dava para a Rua Florêncio de o associei com gema… de ovo! O Largo do
Abreu. Centro de São Paulo! Café, no centro velho (hoje restaurado),
Dessa estada, numa São Paulo já onde o caríssimo tio Daud possuía um
impressionante, mas tão diferente daquela pequeno bar. A conversa que tive com ele,
em que vivo hoje, ficaram-me lembranças irmão de meu pai e companheiro de viagem
muitíssimo vivas de gentes e lugares, de Judaida Mardjayun a Tiro a Beirute a
2003

sendo que alguns ainda remanescem - tal Santos e a Bocaiúva, hoje Macatuba. A

196
minha agressividade com relação a uma enfrentar. Depois, fui estudar lá: foi um

2001
moça que pensei ser, em São Paulo, a período muito sofrido, em que era infeliz
namorada de meu pai: desarrumei, num e sabia, mas durante o qual procurei tirar
rompante de raiva, uma cama do tal o maior proveito em termos de angariar
apartamento do Paissandu, ao que ela me informações adequadas para minha
disse: “Nem te ligo, a cama é do seu pai sobrevivência futura.
mesmo!” No Instituto Butantã com meu Voltei para Pirajuí formado em
pai: os fossos e as cobras; vitrines ao ar História pela FFLCH da USP e não consegui
livre com aranhas, cobras etc. Em casa me encaminhar profissionalmente como
de um outro tio, o Michel: televisão; foi professor. Daí é que, retornando, encontrei
a primeira vez em que vi um aparelho o meu lugar e vivi dois dos períodos mais
de TV ligado e parece que não fiquei tão felizes de minha vida: 1º lecionando numa
curioso (lembro-me do chuvisco próprio escola de Vila Granada (a EEPG “Almirante
2002 da televisão em pb dos primeiros tempos; Custódio José de Mello”) e 2º cursando
ou talvez fosse momento de intervalo na Comunicação e Semiótica na PUC, em nível
programação que, naquele tempo, não era de pós-graduação (Mestrado e Doutorado).
contínua). As brincadeiras no elevador do São Paulo, para mim, passou a ter um
hotel (minha mãe deveria estar louca com outro sentido: voltei a amar a cidade e
meninos tão levados). Não me lembro de a fazer coisas, além de simplesmente
nada que não tivesse sido agradável, a não trabalhar para o meu sustento: toda uma
ser as caixas coloridas que eu colecionei atividade como poeta, editor e impressor.
no hotel e que, vindo embora, lá ficaram. Amo São Paulo. Amo Pirajuí.
Nos anos 60, fui inúmeras vezes a Dificilmente deixei de vir para cá, pelo
São Paulo, quase sempre sozinho, embora menos uma vez por mês, ou telefonar
menor de idade: pegava a autorização toda semana, ou até mesmo diariamente,
no Juizado de Menores e me mandava e para minha mãe. Aqui fica metade do
2003

adorava a cidade, que nunca tive medo de meu coração. A outra está em São

197
Paulo. Lá estão os meus mais pacientes a Via Dutra? O que teria ido fazer no Rio

2001
interlocutores… de Janeiro e por tão pouco tempo? Por que
Pirajuí, 27 de janeiro de 2002. levou consigo entes queridos? Quereria que
(16 de março de 2002) eles conhecessem a Cidade Maravilhosa? O
acidente aconteceu na volta, quase chegando
em São Paulo e até virou notícia de 1ª página
de jornal sensacionalista.
Em conversa com o pai (que
chorava sentidamente), no dia do trágico
acontecimento, ouvi a seguinte história:
O automóvel - um fusca - havia saído da
ROBERTO MIGUEL ATTUY estrada em alta velocidade e mergulhado
em cheio numa árvore, o que causou a
2002 Egito Antigo. Gauguin. Billie Holiday. morte instantânea dos três ocupantes.
Como abordar os três mencionados assuntos Porém, no tal fusca, havia marcas de tinta
sem me lembrar, imediatamente de Roberto de um outro veículo, o que fazia crer que
Attuy? Mal completou vinte e três anos e se havia sido abalroado e, daí, Roberto ter
foi, tragicamente, por conta de um acidente perdido o controle e ter saído da estrada.
de automóvel que levou mais dois: a tia O dono do automóvel - provavelmente um
Leontina (Nenê), que o tinha como filho e o amigo que eu não conhecia - parecia muito
irmão René, menino adorável e amado por mais preocupado em reaver uma bolsa que
todos que o conheciam. continha documentos do que com a tragédia
Mistérios cercaram os acontecimentos: em si: isto intrigou o pai e irmão das vítimas,
Como é que alguém (um amigo) empresta um o Xixo. Ninguém nunca se preocuparia em
automóvel para um motorista que, embora verificar e talvez que nem desse para fazê-lo:
habilitado, não possuía prática de volante, houve mesmo o abalroamento? Quem teria
2003

principalmente em se tratando de enfrentar feito isso sem prestar socorro às vítimas? O

198
pior já havia acontecido. Era o ano de 1972 saímos de automóvel com Roberto - um

2001
(31 de julho), eu havia acabado de regressar Sinca - da Rua Dr. Villa Nova à Consolação:
das férias de julho, de Pirajuí, e a notícia me susto após susto: demos a ele uma grande
chegou como uma bomba. Estive na casa prova de amizade. Ele era decidido, arrojado,
onde então morava com a família, em Santo mas estava longe de ser considerado um
Amaro: a mãe, Dona Neusa, em estado de motorista, sequer razoável.
choque, estava sendo assistida por médico; o Nascido em Andradina (SP), em 1949 (28
pai, desesperado, contava-me coisas e fazia de julho), criou-se em Pirajuí, principalmente
observações - sempre chorando - como que na casa da avó Dona Miriam Attuy e sob os
querendo recuperar, agarrar com as mãos cuidados da tia Nenê, aí permanecendo até
da memória, algum fato… mostrou-me seu o início da adolescência (fez até a 2ª série
último quadro: um paredão vermelho, uma ginasial no IEDAP, em 1963), quando partiu
grade simples de cela com barras dispostas de vez, com a tia, para São Paulo, juntando-
2002 na vertical, uma tênue fumaça branca saindo se ao restante da família (pai, mãe, mais
e, embaixo (se bem me recordo), escrito três irmãos), retornando de raro em raro
pequeno: “aqui estamos, até quando?” para rever a avó, tios (as queridas tias
Parecia algo profético e que evocava o título Helena e Edith; esta, uma grande mulher,
de uma pintura do seu amado Gauguin. falecida há pouco), primos e amigos. Seu
Na república em que eu morava, a talento para o desenho, a pintura, mais a
última pessoa a ver Roberto foi Reinaldo modelagem apareceram desde muito cedo:
Rizzo. Roberto - grande amigo meu, desde chegou a construir complexos arquitetônicos
a infância - havia ido me procurar e eu não em miniatura, contendo figuras, os quais
estava. Conversou com Reinaldo e este me evocavam o Antigo Egito. Seus desenhos
disse que ele falava com a tranqüilidade de sempre causavam surpresa e admiração em
um deus, como alguém que havia encontrado nós, os amigos, e na professora, Dona Maud
a (ou, pelo menos, uma) verdade. Dias Pires Arruda. Recentemente, conversando
2003

antes, porém, eu com meu irmão Richard com Paulo Miranda, este me disse que

199
Roberto seria mais um grande publicitário rara amizade, que terminou com sua morte

2001
que um pintor, numa época em que a pintura há alguns anos.
já era uma ilustre e finada arte. Roberto chegou a trabalhar como
Extremamente simpático, publicitário, projetista e pintor decorador,
possuía, também, como qualidade, uma executando painéis que não sei se ainda
generosidade rara. Em tudo que fazia se existem em estabelecimentos comerciais da
notava diferenciação: era uma espécie de cidade de São Paulo. Tão novo e desapareceu
Midas, que valorizava tudo o que tocava. assim, tão tragicamente. Penso que a sua
Era uma figura bela e elegante, de uma morte tenha sido determinante para que eu
beleza mais árabe que lusa. Gauguin: o seu abandonasse a pintura - sempre sonhei ser
pintor preferido e grande influência (seguido pintor - o que de fato ocorreu em 1974.
do Van Gogh dos girassóis). Billie Holiday, No ano passado, quando da realização
uma descoberta, quando já vivia em São da exposição sobre arte do Antigo Egito, na
2002 Paulo e que procurou passar para quantos FAAP, fiquei a imaginar coisas, como a de
freqüentassem a sua casa, sempre aberta um encontro marcado com ele em frente ao
e acolhedora. Tinha grande estima por Prédio 1 daquela instituição, para visitarmos,
mim e procurou me colocar no circuito das juntos a mostra… (sempre que penso no
artes, através de exposições em galerias, ocorrido, tento fantasiar como a coisa teria
como a Vila Rosa e a Scala, e de contatos sido: não fosse a tal árvore e todos estariam
que possuía em jornais. Foi através dele sãos e salvos; não fosse a imprudência de ter
que conheci o casal João Jorge Rosa Filho voltado à noite, cansado - o acidente se deu
e Samira Chalhub: ele, na época, um dono de madrugada; se vivo, hoje, Roberto seria,
de galeria, além de artista plástico; ela sem dúvida alguém de sucesso, cavador e
uma ainda estudante universitária, mas já talentoso, como era. Mas - aprendi - em
professora de literatura. Seriam grandes História lidamos com o ocorrido, não há
amigos meus, mais Samira que, depois de se…). O sonhar conforta e não é proibido!
2003

encontros e desencontros, cultivamos uma Cheguei a organizar uma exposição

200
com trabalhos seus no Salão Nobre do IEDAP, considerando a classificação da Semiótica

2001
lá pelos idos dos anos 70; foi um mínimo (o Signo com relação ao seu objeto) como
que pude fazer, por Roberto Attuy, pessoa um símbolo (um 3º) mais do que como um
que, de fato, deixou um grande vazio com Índice (um 2º), justificando que a captação
o seu passamento. Paulo Miranda chegou a da imagem real tem tanta intermediação até
escrever para o JORNAL DE PIRAJUÍ (dirigido se corporificar signo (fotografia), que está
pelo Sr. Basílio Altran) um belo artigo, que mais para símbolo. Arlindo Machado não
eu gostaria de ver republicado agora, neste é, de fato, um semioticista e não chegou a
semanário. perceber que o que interessa aí é a questão do
Numa próxima oportunidade, enviarei fundamento do signo e o que fundamenta
reproduções de desenhos seus, que conservo a fotografia (estou falando numa “fotografia
em meu arquivo e talvez uma preciosa foto de cartilha”) é a conexão dinâmica com
que fiz dele à Rua 7 de Setembro, em frente o objeto, daí a necessidade de um objeto
2002 à extinta Riachuelo. Ao fundo pode-se ler o dinâmico real, existente. Nem é o caso de
texto: CORES FIRMES. Ah! a memória… evocar as mais avançadas tecnologias,
(30 de março de 2002) capazes de manipular e alterar a imagem
captada. Fotografia é fotografia, mesmo sem
negativo, utilizando equipamento digital.
A fotografia é um índice porque
tem por fundamento a conexão dinâmica
AINDA A FOTOGRAFIA… exigindo, portanto, como objeto dinâmico,
um existente. É claro que é um índice com
No último ensaio de seu último forte teor de iconicidade (semelhança
livro - uma reunião de ensaios: O quarto com o objeto, mas não é isto, porém, que
iconoclasmo e outros ensaios hereges - a fundamenta enquanto signo); todo índice
Arlindo Machado, um dos maiores estudiosos é fortemente icônico e mais, no caso da
2003

das comunicações/meios coloca a fotografia, fotografia, há fortes traços de simbolicidade

201
pelo fato de ela mobilizar, como os hipo- estaria bem próxima, já que teria de ser algo

2001
ícones imagens, muitas convenções até se de dentro de sua própria casa; em terceiro
corporificar signo. Porém, o que importa é lugar, veria que Historia é tudo e todos têm
o seu traço indexical: é isto que faz com a sua, que pode ser reconstituída tendo por
que fotografias emprestem, por exemplo, a base uma variada documentação.
matérias jornalísticas, credibilidade. Porém, Uma aluna, certa vez, selecionou como
o signo fotográfico - mesmo no caso do documento uma foto de família que retratava
fotojornalismo - é apenas um signo, não o real, um jovem rapaz, de pijama, reclinado, numa
mas um signo especial, porque traz marcas cama. A pose indiciava alguém que sabia
físicas do seu objeto (o jornal também não é que estava sendo fotografado - olhava,
a realidade: são apenas signos intentando, então, para a lente da câmera e consentia.
através de uma linguagem referencial, Tratava-se de um belo rapaz, tipo do William
apresentar um recorte da realidade, daquela Holden jovem dos filmes que eu havia visto.
2002 que a linha editorial do jornal admite). Discorrendo sobre o documento, a aluna-
Bem, em minhas aulas de História, menina disse tratar-se de um seu tio. A foto
no antigo primeiro grau, determinava aos fora tirada num certo dia… Uma semana após
alunos trabalhos que não dessem chance a a fixação da cena, ele morria! A foto do rapaz
cópias: o que é mais cômodo fazer, já que doente foi feita como que prevendo o triste
nem é preciso pensar. Alguém mais velho até desfecho. Não é de se estranhar isto: o fato
poderia auxiliar (feliz de quem dispõe, em de se posar para a posteridade, contando,
casa, de um leitor contumaz e palpiteiro), é claro, com alguém que tenha interesse
porém, o aluno deveria compreender a em preservar aquela memória. Documento
tarefa. Um dos trabalhos era localizar um privilegiado, a fotografia tem a vantagem de
bom documento fotográfico envolvendo a trazer as marcas mesmas do objeto que a
própria família. Em primeiro lugar, o aluno determinou (a tal menina tivera, de fato, um
compreenderia que documentos não eram tio…). Em outros tempos - nem tanto assim
2003

apenas os escritos; em segundo, a coisa - faziam-se máscaras mortuárias: o molde

202
era feito por contato direto com o morto, ALÉM DA SEMÂNTICA

2001
processo indexical, portanto. Era muito
comum, também, fotografarem-se crianças As obras de arte possuem qualidades
mortas, costume que acabou caindo em tais que, sem que haja delas um entendimento
desuso. Hoje, quando tenho chance, digo às global - o que, de qualquer maneira, não
pessoas que se deixem fotografar bastante, as esgota - é possível apreciá-las naquilo
para que tenham documentada a sua beleza que elas têm de mais evidente, que é a sua
jovem - a beleza tem preferência quase forma. FORMA é fundamental em se tratando
exclusiva pelos jovens. Mas esse é apenas de Arte, muito embora não se possa separar
um dos múltiplos aspectos da fotografia que, conteúdo de forma, mormente nas artes.
de técnica, passou a ser ela mesma arte, A poesia, tida como a arte da palavra,
recusando o papel de mero documento, de por excelência, põe em destaque o aspecto
simples, embora privilegiado registro de material dos signos lingüísticos, como
existentes. colocou Roman Jakobson, que escreveu
2002
Lembrando-me da foto daquele jovem o último (até agora) dos grandes textos
trazida pela aluna, inevitável ocorrer o “a teóricos sobre poesia. Diz ele que a função
vida inteira que podia ter sido e que não foi”, poética se configura quando se dá a projeção
para ficar com Bandeira, que não teve a vida do eixo de seleção sobre o de combinação,
desejada, mas sobreviveu até se tornar um determinando o arranjo. Isto significa que o
octogenário. É correto pensar assim? som é fundamental em poesia e que, a rigor,
(13 de abril de 2002) textos poéticos são intraduzíveis, a não ser
que - como diz ele em outro ensaio - haja
uma re-criação.
Muitos autores, alguns poetas-
teóricos, outros apenas teóricos sensíveis
(Pound, Eliot, Steiger) têm dito quer a poesia,
2003

principalmente a Lírica, apresenta qualidades

203
tais que podem ser apreciadas mesmo conteúdo e não percebem que a forma é

2001
por pessoas que desconheçam o idioma que atrai e convence. Quem quiser que tire
no qual o texto poético está expresso. Ou a prova ouvindo textos poéticos em línguas
seja: estabelece-se um tipo de comunicação estranhas, tentanto perceber belezas.
em termos de uma seqüência significante Belezas além de uma semântica, que às
especial, que resulta de um trabalho especial vezes pode vir a parecer tão banal. Digam
com as palavras, especialidade dos poetas. em voz alta:
Ou, em outros termos: há uma seqüência de Tyger, tyger burning bright, de William
tal modo eufônica, que um ouvido sensível vai Blake ou o Comigo me desavim, de Sá de
logo perceber: essa beleza - som agradável. Miranda, esquencendo-se de que sabem o
E a tal beleza é percebida desvinculada da inglês e o português!
dimensão semântica. Recapitulando: a poesia, especialmente
É isto que muitos não percebem e a lírica, apresenta qualidades tais que vão
2002 criticam os jovens que, mesmo não sabendo além da dimensão semântica das palavras,
inglês, por exemplo, podem apreciar qualidades que possibilitam algum tipo de
dezenas de composições cantadas e até comunicação com todos, o que - desconfio
cantam junto, como que num processo de - faz muito bem para a alma.
captação onomatopaica (repetem o que (27 de abril de 2002)

ouvem ou o que pensam ouvir, criando


um estranho idioma). Isto demonstra que
há uma comunicação de sonoridades que
se estabelece, independentemente de um
sentido que corre junto e mesmo que sem
os atrativos propriamente musicais. PAULO LEMINSKI
Isso que eu estou dizendo com base
no que li e vivi costuma ser abominado Paulo Leminski (Curitiba.PR.1944-
2003

por aqueles que vivem em busca de um 1989), precocemente contava com um

204
repertório, em termos de cultura geral, acima Oswald de Andrade, de mistura com o haiku,

2001
da média e muito cedo entrou em contato do Japão, que tanto admirava. Aí, acabou
com a poesia e crítica mais avançadas que se tendo alguma afinidade com os poetas ditos
faziam no Brasil, pois travou conhecimento marginais, mas muito superior a eles em
com os poetas concretos (o encontro, anos qualidade, pois que era muito mais bem
‘60, em MG). Publica poemas em INVENÇÃO informado e com coragem artística. Aliás, dos
4 e 5 (1964-67), porém, foi nos anos ‘70 poetas de linha construtiva mais verbais, ele
que realmente alçou vôo como poeta e como foi o que realmente encontrou um caminho
autor de uma prosa experimental, de fato e um público. Sua poesia (engenhosa e sem
admirável, do livro Catatau, que tem como hermetismos) e sua metalinguagem (sem
ponto principal do argumento o transplante propriamente originalidade, trocando em
do filósofo René Descartes para o Brasil claros miúdos complexidades de outrem)
tropical holandês, à época de Maurício de encontaram o público que o Catatau não
2002 Nassau. Prosa densa, posto que muito havia encontrado.
trabalhada, o Catatau não teve até hoje Agitador cultural, publicou nas revistas,
muitos leitores, embora tenha sido feita uma das marginais às não tão marginais e nas
segunda edição do livro. Porém, juntamente do Sistema e editou suplementos. Chegou
com algumas poucas obras, o Catatau, de a freqüentar a mídia; havia sido publicitário
Leminski se integra ao melhor conjunto de e esteve apaixonado pelo métier de letrista
prosa que se fez no Brasil, depois de 1950. de música popular. O melhor Leminski
Leminski publicou livros de poemas poeta: aquele dos poemas os mais breves,
(dizia-se que estava inflacionando a arte de verdadeiros tiros, golpes de ar e caratê. Em
João Cabral), nem sempre mantendo o nível MUDA, recebeu dos editores um tratamento
de excelência que ele conseguiu firmar: uma de grande poeta (era visto como a grande
dicção cada vez mais distante das conquistas figura), opinião que nem sempre foi mantida
dos amigos concretistas, uma redescoberta depois.
2003

de um certo Modernismo, com Bandeira e Nos anos ‘70, quando editava o PÓLO

205
CULTURAL/INVENTIVA, chegou a articular o que tivéssemos laços de amizade mais

2001
que acabou sendo um esboço de movimento estreitos, mesmo ele passando temporadas
ou de grupo, encontrando afinidades que na capital paulista, onde eu residia e resido.
justificariam, já, uma poesia bem diferenciada Foi pena. Poderíamos ter trocado mais
das anteriores, ao que ele proclamou em figurinhas. Penso que quem mais perdeu fui
artigo no PÓLO: o “X poetas & uma geração eu, mas, o que fazer diante do irremediável?
possível”. Possível, mas inviável. Como o Leminski se foi prematuramente por descuido
Tempo veio a mostrar pouco depois. próprio. Deixa uma obra que necessita de
MUDA e a ANTOLOGIA que foi maior exame para que se chegue, de fato,
organizada no PÓLO constituíram-se no a uma avaliação global da mesma. Fica -
coroamento de todo um processo: as coisas sem dúvida alguma - uma obra de grande
se tornaram claras: dentre os poetas que importância para a Literatura Brasileira da
nos anos ‘70 mais se empenhavam com segunda mentade do século XX. Curitiba,
2002 a experimentação, havia como que duas sem Leminski, parece erma e sem graça.
vertentes - uma mais ligada às coisas Em tempo. O livro de Toninho Vaz ( Paulo
do verbo e outra mais envolvida com a Leminski: o bandido que sabia latim.
fusão de códigos, mais, digamos assim, Rio de Janeiro, Record, 2001) - em muitos
intersemiótica. momentos, mal escrito, mas que, apesar
Conheci Leminski pessoalmente nos das várias incorreções (como a de colocar
anos 70 e cheguei a encontrá-lo algumas Augusto de Campos como organizador da
vezes, sempre em São Paulo (conheci, revista MUDA!) consolida o mito Paulo
também, sua esposa, a poeta Alice Ruiz e, Lemiski. Décio é visto pelo autor com
depois, suas lindas filhas: Áurea e Estrela). nenhuma simpatia; chega a utilizar de
Houve uma espécie de empatia entre nós, que maneira pejorativa o título de “professor”:
se traduzia em algumas gentilezas dele com o professor Décio Pignatari… Décio
relação a mim, como o envio de trabalhos, é colocado como uma espécie de vilão,
2003

principalmente. Interesses outros impediram entidade repressora, cortadora de baratos.

206
O biógrafo opta por traçar um percuso, diga-se) a Ciccilo Matarazzo (o idealizador),

2001
mais de envolvimento de Leminski com agora estamos apenas na 25ª, quando
vários tipos de droga, do que enfatizar deveríamos ter a 27ª em 2003. É uma das
grandezas e pequenezas literárias do moço mega-exposições do mundo e já foi mais
das araucárias. O delicado assunto drogas importante do que é hoje, muito embora
acaba sendo viável com o objeto de estudo ainda tenha importância. A 1ª realizou-se no
morto. Não chega a tecer um juízo - tarefa antigo Trianon (onde foi construído o MASP,
do crítico - sobre a obra do artista da palavra projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi),
Leminski. Apesar de tudo isso, a leitura não porém, a partir da 2ª, já contou com prédio
deixa de ser obrigatória para quem queira próprio, projetado por Oscar Niemeyer, no
conhecer o autor do Catatau. Parque do Ibirapuera, onde até hoje se
Pirajuí, 06 de junho de 2001. realiza. Entre outras tantas coisas, as Bienais
(04 de maio de 2002) de São Paulo colocaram o Brasil no circuito
2002 internacional das Artes e serviram para
reiterar a importância cultural da Paulicéia
no País, importância esta que se impôs
desde a exposição de Anita Malfatti de 1917-
18 e da Semana de Arte Moderna de 1922.
A BIENAL DE SÃO PAULO Essa 25ª não traz grandes furos, apenas
evidencia que a mostra empobreceu, que as
Tendo sido a 1ª Bienal realizada no mega-exposições se encontram em crise e
ano de 1951, era de se esperar que todas se que há uma grande diversidade dos fazeres
realizassem de dois em dois anos, portanto, artísticos no mundo. Embora não a tenha
em anos ímpares. Mas não: primeiro porque visitado inteiramente, percebi que é marcante
houve um pulo e, segundo, tendo sido a presença da fotografia, assim como do
realizada a Mostra dos 500 Anos e, em vídeo, configurando vídeo-instalações. A
2003

seguida, uma espécie de homenagem (fraca, área com mais status, climatizada e que

207
abriga não mais celebridades museológicas, da Cultura passa o chapéu. Instituições

2001
mas ainda assim, celebridades, tem como poderosas ficam no chove-não-molha,
ponto alto, não os trabalhos dos que vieram contentando-se com realizações-anãs,
de fora, mas as realizações de Nelson como fazem o Itaú e a Fundação Moreira
Leirner (cada vez melhor) e de Fajardo. Salles (entenda-se: UNIBANCO). E o
Ao longo da mostra, nas áreas plebéias, Bradesco? Vai continuar a fingir que faz
alguns excelentes trabalhos convivendo caridades na área educacuional? O que faz a
com coisas de uma medianidade irritante. Votorantim escondida atrás de sua capa de
Um mega-espaço, nem sempre bem benemerência? Sem saudosismo (pois penso
aproveitado, sequer artefinalizado: como que todo presente tem lá suas riquezas),
sempre, a Bienal abriu sem que as obras eu perguntaria: Onde aquela coragem e
de montagem fossem ultimadas. Alguma grandeza de projetos dos anos 40 e 50, que
diversão com artistas estrangeiros e suas viram nascer o MASP, o MAM de São Paulo
2002 performances, requisitando brasileiros que e do Rio de Janeiro, a Bienal de São Paulo,
acharam o máximo tirar a roupa em meio a a Arte e a Poesia Concreta, a Bossa Nova?
uma multidão que se formou. Qualquer coisa Onde estarão pessoas que, como Ciccillo
para aparecer (ou desaparecer naquele Matarazzo, adquiriram obras como as que
anonimato). De qualquer modo, a mostra fazem a grandeza do MAC-USP (herdeiro
continua com importância, hoje tão menor. do acervo do 1º MAM-SP) e permitem que
Faltam, no Brasil, pessoas empreendedoras aqui no Brasil se vejam obras das melhores
do estilio - mesmo que passível de produzidas pela Humanidade do século XX?
críticas - de um Ciccillo Matarazzo e de Onde é que estão os riquíssimos homens
um Assis Chateaubriand, com um projeto de indústria que, mesmo tirando vantagens
mega. Há empreendedores hoje em São de seus atos de bondade (pagando menos
Paulo, mas com projetos e mentalidade impostos) deixaram sair do País obras
“micro”. Milionários mesquinhos dão suas como o Abaporu, de Tarsila do Amaral?
2003

contribuições quando alguém em nome Talvez que tudo isso esteja por aí - o óbvio

208
ululante - sem que eu tome conhecimento, grande conhecimento das artes gráficas,

2001
mas onde? a curiosidade e a capacidade de trabalho
(11 de maio de 2002) de Julio Plaza, que promoveu inúmeros
eventos, mormente os que dizem respeito
a Arte e Tecnologia, já desde os anos ‘70,
teve importância considerável no florescer
poético da ERA PÓS-VERSO (“era” à qual já
me referi nesta coluna).
JULIO PLAZA No que tange o livro-objeto, livro de
artista, Julio Plaza é teórico e prático, tendo
O artista plástico/gráfico e teórico Julio operado nesse universo desde os anos ‘60.
Plaza González sempre colaborou nas revistas Nos ‘70, entrou como co-autor (dividindo
que veicularam trabalhos de poetas da Era com Augusto de Campos) de obras que
2002 Pós-Verso. No caso de POESIA EM GREVE, tiveram fundamental importância para
QORPO ESTRANHO, além do projeto gráfico, as artes gráficas e suas relações com a
cuidou de aspectos de ordem técnica, como poesia no Brasil: Poemóbiles, Caixa Preta e
a feitura de fotolitos, encaminhamento para ReDuchamp.
a gráfica etc, o que implicava barateamento Considerado inicialmente um artista
de custos. QORPO ESTRANHO 3, já é CORPO plástico, com trabalho onde o conceitual e a
EXTRANHO e bancada pela Ed. Alternativa. metalinguagem têm um peso muito grande,
Em MUDA, Plaza não teve participação no Julio Plaza pode também ser considerado um
projeto gráfico, que ficou por conta de José poeta em qualquer dos sentidos implicados
Augusto Nepomuceno. No jornal/revista pela palavra, ou melhor, um maker. Lidando
VIVA HÁ POESIA (editado e financiado com palavras e imagens, criou trocadilhos
totalmente por Villari Herrmann), Julio Plaza surpreendentes (intersemióticos, diga-se).
fez todo o planejamento gráfico, dentro Muitos de seus trabalhos são, ou
2003

dos limites impostos pela forma jornal. O invendáveis, por não atenderem em nenhum

209
aspecto às exigências mercadológicas, que alguns artistas fazem. Não suporta

2001
ou por serem instalações, ou, prevendo a redundância. Aposentado da ECA-USP e
reprodução sem perda da qualidade, dão um afastado da UNICAMP, viaja, elabora, de vez
golpe de misericórdia na “aura”, pois evitam em quando, algo ligado às mais avançadas
o culto pelo objeto único. tecnologias e curte o seu filho. Sua presença
Seus títulos fazem parte dos trabalhos, no Brasil honra a todos nós que valorizamos
chegando a desempenhar papel fundamental a qualidade artística e o rigor.
para a sua fruição. Num programa de TV, (18 de maio de 2002)
Décio Pignatari disse que a POESIA não era
um meio de vida, mas um modo de vida; para
Julio Plaza, a ARTE é um modo de vida.
Ele é autor de uma exposição/instalação
que foi das mais belas e inteligentes de
2002 quantas São Paulo já pôde assistir no
século que acabou de passar: LA(O)S SEDE DE FÁBULA
MENINA(O)S, na Galeria Arte Global, em
1977: um diálogo trans-espacial/temporal O ser-humano (em grego ou latim eu
com Velázquez, um outro espanhol (Julio usaria apenas ANQRWPOS ou HOMO, já que,
Plaza nasceu em Madrid, em 1938. De três HOMEM, em português, denota o machismo
casamentos - que eu saiba - do primeiro, da civilização) é sedento de fábula. FÁBULA:
teve a filha Elisa que reside na Espanha; estória, estorinha, narrativa, processo
nas segundas núpcias, viveu com Regina verbal com um encadeamento de causa e
Silveira, a grande artista e tudo indicava efeito, organização hipotática do discurso,
que seria para sempre; agora, no terceiro linear preferentemente, uma epopéia ou um
casamento, veio-lhe um menino, Ángel, que causo, digamos, enfim. Sim todos somos
deve estar fazendo um aninho). Artista raro, ligados numa estorinha e desde a mais tenra
2003

Plaza quase não faz. Tem horror ao gênero idade.

210
Quando alguém vem nos contar algo, indiscretos. Porém, quem conta em público,

2001
se percebemos coisas além da parlapatice quer mais destinatários do que aqueles que
compulsiva, botamos atenção e mergulhamos estão mais próximos e percebe que conseguiu
com vontade naquela onda de palavras, despertar o interesse das demais pessoas e
atrelando-nos aos detalhes, deixando-nos se compraz com isto. Se temos de deixar
levar pelos momentos de suspense, até que um local antes que o narrador encaminhe
um desfecho completa o processo, o qual as coisas para um desfecho, sentimo-nos
pode nos deixar espantados, contentes, roubados, subtraídos de uma espécie de
gratificados por aquela comunicação inútil, catarse (ah! Artistóteles…).
mas que - parece-me - é essencial para Quando, ao telefone, pegamos uma
suportar essa vida, tão cheia de verdades linha cruzada, desligamos e retomamos o
que se nos impõem. processo e a linha continua cruzada e se
Há os que sabem, têm o dom de percebemos algo sendo contado, atentamos
2002 contar. Há os ouvintes, por excelência, e que para a coisa e esperamos para saber onde
são sempre requisitados pelos que gostam aquilo vai dar. Essa indiscrição é apenas uma
de contar. É óbvio que, daí a ser um grande resposta à nossa sede de fábula, senão, o
narrador, vão muitos anos-luz de distância, que nos interessaria saber que uma certa
já que, entre o falar e o escrever, existe Maria, num bairro distante, talvez esteja
muito mais do que uma simples questão de facilitando as coisas para os rapazes ou que
tempo. Quem escreve crê na eternidade. o etc etc etc…?
Crê, no mínimo, na perenidade emprestada Sempre fui um bom ouvinte e as
pelas letrinhas que, organizadas, garantem pessoas, por seu turno, sempre tiveram
permanência. prazer em me contar coisas, até íntimas.
Quando, num ônibus ou elevador ou Colecionei muitas histórias nesse saco-sem-
sala-de-espera, pecebemos um fio narrativo, fundo chamado memória, as quais tenho
prestamos atenção, mesmo que, às vezes, utilizado em minhas narrativas ficcionais e
2003

tenhamos de disfarçar para não parecermos poemas (porém, sempre mudando nomes

211
ou não nomeando e reelaborando). Desde as (his)estórias já contadas e inventar

2001
criança - como toda criança - adorava ouvir outras, até a partir de fatos reais. Mesmo
estorinhas: das que Maria Batalha (uma como professor universitário, tenho-me
agregada muito querida da casa de meus valido de minha capacidade de narrar para
avós maternos) me contava, às que ouvia tornar mais digeríveis aulas que poderiam
na rádio Pirajuí, às 17h30, pela boca de ser maçantes, meramente técnicas. Sei de
Dona Maud Pires Arruda, num programa pessoas com essa mesma capacidade e via
diário chamado “As mais belas histórias de regra paro para ouvi-las.
para crianças” (a Rádio ficava - eram, então, Dos poemas homéricos fixados em
os anos 50 do século passado - no porão escrita - a Odisséia, principalmente (em
da Sede Cristo-Rei). Eu era feliz e sabia e verdade, desde muito antes, pois havia
pedia mais e mais estórias (parece-me que toda uma tradição oral da epopéia grega
hoje só se utiliza a forma HISTÓRIA, com e, por outro lado, o tal do Homero bem
2002 “H” - diz-se, por exemplo, histórias em provavelmente nem tenha existido) ao
quadrinhos - mesmo existindo a outra Guimarães Rosa do Famigerado, sem
para a ficção, exclusivamente). desprezar as narrativas televisuais - bem
Certo dia li para alunos de 1º grau menos artísticas, por certo - a mesma
- EEPG “Almirante Custódio José de Mello”, sede de fábula. A mesma curiosidade com
São Paulo capital - O Gato Preto de relação a um processo que exige um final.
Edgar Allan Poe: … Silêncio total. Atenção. Nem que seja um FELIZES PARA SEMPRE!
Um interesse raro. Percebi que, sempre (25 de maio de 2002)

que propunha uma estória, o alunado


se dispunha a ouvir. E assim, ao mesmo
tempo em que obtinha colaboração no
meu ofício de docente (professor de
História!), aperfeiçoava-me na arte de
2003

contar. Hoje, posso dizer que sei contar

212
DISTÚRBIOS NA COMUNICAÇÃO profecias, não o é em outras ocasiões. Se a

2001
Sibila de Delfos dissesse: “O futuro lhe fará
Em todo ato de comunicação verbal justiça”, você entenderia assim: “o futuro
ou não, entra - inevitavelmente - o ruído. lhe fará justiça”, mas qual? a justiça que
Toda comunicação é permeada de ruídos apequena ou a que engrandece?
(ruído pode ser considerado toda e Porém, há outras perturbações
qualquer perturbação num dado processo de propositais ou não, que levam a um completo
comunicação tendo, portanto, uma conotação desentendimento. Vejamos algumas falas
de negatividade, de anti-informação; e que conduzem a uma decodificação errada,
aqui, não estou querendo entrar nos casos colhidas aqui e ali:
em que os ruídos/acasos, são incorporados Luz apaga…
por artistas, entrando como elementos (Lusa paga…)
constitutivos estruturais das obras). Um ato A bicha já era célebre nos EUA, mas
2002 de comunicação jamais abolirá o ruído, pouco conhecida no Brasil…
para ficarmos com Mallarmé, o grande (A Bishop [Elizabeth Bishop] já era célebre
poeta-autor de Um lance de dados jamais nos EUA, mas pouco conhecida no Brasil…)
abolirá o acaso. Só que, se o nível de ruído Deus apagando os relânpagos…
ultapassa um certo patamar, isso inviabilizará (Deusa pagã dos relâmpagos… Iansã)
o processo comunicacional. Acontece que o O Professor Edipiano
que se procura fazer é diminuir o seu teor, (O Professor de piano)
quase zerá-lo, para se alcançar um certo O ânus dele
qualitativo. Todo planejamento e cuidado (O ano deles)
existem em função de não dar chance a um Lis… Luís?
acaso indesejável e, portanto evitar ruídos (Ulisses)
(que podem existir no nível do suportável). Sonho. Que mera ilusão!
A ambigüidade, desejável em certas Sonho, quimera, ilusão…
2003

mensagens, como as poéticas e a das Delfim…

213
(Fidel) que comparece com a intenção de assistir a

2001
O que atrasa o Oriente? uma representação) - não a dramatização,
(O que a traz ao Oriente?) que é bem mais antiga e esteve ligada à
Tenho má notícia para vocês! religião e às narrativas de mitos - foi criação
(Tenho uma notícia para vocês!) grega e, na sua origem, esteve também
O soneto é um ultraje ao rigor do ligada à religião (ao culto do deus Dioniso),
pensamento. porém, depois se desprendeu, ganhando
(O soneto é o traje a rigor do pensamento.) autonomia.
E poderia colecionar um outro tanto de A tragédia - TRAGWIDIA (TRAGOIDIA) =
frases, até engraçadas. Porém, vou deixar CANTO DO BODE - é criação do gênio grego:
essa tarefa para você, Leitor, que deve suas origens estão no século VI aC, na região
estar ansioso para comunicar exemplos que do Peloponeso, porém, o seu florescimento
já vivenciou vida afora. Boa Sorte! Sem se deu em Atenas, no século V; depois, a
2002 ambigüidades… decadência. Isto quer dizer que, à época
(01 de junho de 2002) de Aristóteles, a tragédia já era um gênero
decadente, justo no momento em que o sábio,
mestre de Alexandre, o Grande, penetra em
sua estrutura, como se pode depreender da
Poética, que nos chegou fragmentária, mas
O REI ÉDIPO : OIDUPOUS TURANNOS que tem uma importância fundamental para
os estudos de poética e estética em geral.
Calcula-se que, de tudo o que os Aristóteles, além de apontar as
gregos antigos escreveram, apenas uns partes constitutivas de uma tragédia -
dez por cento - se tanto - chegaram até ‘de cartilha’, diria Paulo Miranda - fala
nós. O teatro como nós o entendemos em verossimilhança e em cartarse,
(texto especialmente concebido para ser coisas que os que vieram depois usaram e
2003

representado por atores para um público, discutiram à exaustão. O sábio grego chega

214
a apontar como modelo de tragédia a do rei conformem-se os helenistas, pois Jocasta

2001
Édipo a qual, felizmente chegou até nós na foi tomada como esposa pelo herói Édipo e
íntegra, assim como outras seis, de Sófocles ela possuía, no mínimo, idade para ser sua
(enquanto que de muitas outras só temos mãe…
referências ou fragmentos). Bem, mas uma das coisas mais
Mesmo assim, das tragédias instigadoras na trama do Édipo (que significa
remanescentes, muita coisa não sabemos, ‘pés inchados’) é que esta se configura uma
como por exemplo a parte de música (a trama policial completa, detetivesca, poderia
melopéia) que se perdeu inteiramente. assim dizer: há um problema central, que
Apenas atores homens tomavam é o de se descobrir o assassino do rei Laio
parte nas encenações, mesmo para os e tudo - as insvestigações - gira em torno
papéis femininos e sabe-se que, à época disto, até que se descobre que não só Édipo
dos festivais, na Atenas do século V aC, até é o assassino, como filho de Laio, o que se
2002 escravos tinham acesso às apresentações, complica quando também se dá conta de
mas não se sabe ao certo se mulheres eram que é casado com a própria mãe, com quem
permitidas. teve filhos. Ela - Jocasta - se mata, ele -
Houve mais do que uma versão do Édipo - cega-se e parte para o exílio.
mito de Édipo, mas a que prevaleceu foi a O filósofo francês Michel Foucault
versão sofocleana, onde se baseou Sigmund - disseram-me - possui um estudo que
Freud para batizar aquela fase de nosso diz justamente da trama policial do Édipo
desenvolvimento bio-psicológico e o famoso de Sófocles, texto ao qual até hoje não
complexo - Complexo de Édipo. tive acesso. E por falar em trama policial,
É claro que os helenistas (que são os impossível não lembrar de Edgar Allan Poe, o
especialistas em Grécia Antiga) abominam criador do gênero policial - em contos como
a atitude de Freud, apontando enganos no A carta surripiada, Os assassinatos da
basear-se no mito (versão de Sófocles) para Rua Morgue, O mistério de Marie Roget
2003

nomear a tal fase. Mas Freud tinha razão - - Poe que era um edipiano (Ed Poe, como

215
notou certa vez o poeta Luiz Antônio de limites, mesmo que ela não tenha um nome

2001
Figueiredo). que seja Jocasta!
Da única vez que vi encenado o Édipo (08 de junho de 2002)

Rei em São Paulo, detestei (em verdade, só


apreciei a música, composta especialmente,
por Lívio Tragtenberg). Textos gregos
dramáticos: prefiro lê-los.
Quando professor de escola de 1º
Grau - EEPG “Almirante Custódio José de O QUE É ATUAR OU NÃO A PARTIR DE
Mello” - dava o texto sofocleano como leitura UM CENTRO HEGEMÔNICO
obrigatória para os alunos de 7ª série.
Nem todos liam, mas todos participavam O aluno me pergunta na sala-de-aula: -
das discussões que, de qualquer maneira, Professor, é difícil colocar um brasileiro
2002 acrescentavam algo ao seu repertório. Os na História da Arte? A pergunta, assim de
que que liam, liam até mais: passavam supetão, poderia parecer descabida, porém,
para a tragédia de Antígone e alguns iam com um pouco de cautela, percebe-se que
ainda mais adiante. Penso que, das aulas tem sua razão de ser. Como, lendo as Histórias
de História comigo, esta foi das experências da Arte, principalmente as que tratam da
inesquecíveis para aqueles alunos, que eu Arte do século XX, não encontramos nenhum
acompanhava da 5ª à 8ª série, num dos brasileiro? …a não ser que, abordando a
períodos mais felizes de minha vida. Arquitetura e o Urbanismo mencionam-se
Somos - penso - todos um pouco Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, a propósito
edipianos: uns mais, outros menos. Mãe é de Brasília.
mãe. Filho é filho e é sempre bem menos É, além de ser considerado país
que a genitora e do que esta pensa dele. Não periférico - exceções feitas ao futebol
há filho que esteja à altura da mãe. Amor de e à música popular (se tanto) como à
2003

mãe é incomparável, sem restrições e sem poesia erudita: caso da Poesia Concreta,

216
especificamente - o Brasil fala uma língua lugares levam a vantagem do espanhol,

2001
solenemente ignorada fora do âmbito dos língua muito mais falada e até ensinada em
países lusófonos. Sabem muito pouco de escolas de países não-hispânicos (vejam-
nós e quando sabem, sabem mais das coisas se as diferenças dos destinos de obras de
exóticas, como a Amazônia, por exemplo, um Machado de Assis e de João Cabral, por
área que cobiçam para si, disfarçando a um lado, e de um Borges ou Cortázar, por
coisa sob a capa da internacionalização. outro. É claro que há sempre uma elite da
Veja-se: até hoje não conseguimos elite intelectual que conhece Drummond,
impor Santos Dumont como um dos Guimarães Rosa e outros tantos, mas o país
inventores do avião! E ele o foi de fato: pessoa é ignorado e até mesmo a sua geografia,
genial, um inventor por excelência; e olha país tão óbvio, pelas dimensões, num
que desenvolveu suas pesquisas na França, mapa-múndi! Todos estão interessados no
incluindo aí o vôo do 14 Bis em Paris, Campos que acontece em Nova Iorque, Paris, Milão,
2002 de Bagatelle, em outubro de 1906, vôo visto Frankfurt, Londres, Amsterdam, enquanto
por milhares de pessoas e documentado por que o Rio de Janeiro - para citar um centro
cinema (uma outra injustiça acontece com urbano brasileiro mundialmente famoso - só
o santista Bartolomeu de Gusmão, inventor aparece enquanto cidade cercada de belezas
dos balões, no século XVIII). naturais, praias, sensualidade e… carnaval!
Digo que é diferente quando se é Para responder ao aluno referido
representante de país poderoso, hegemônico acima, argumentei da maneira que se
mesmo (que tem papel fundamental na segue: Já possuímos artistas plásticos de
condução do mundo ou de parte dele), como primeira categoria, que precisam ser melhor
é o caso dos estadunidenses. Ser lançado a avaliados - e serão - no circuito internacional
partir de Nova Iorque é diferente de querer das artes, tais como Alfredo Volpi, Mary
aparecer para o mundo a partir de São Paulo, Vieira, Lygia Clark, Hélio Oiticica, entre
Buenos Aires ou Santiago do Chile, se bem outros tantos. Porém, isto levará tempo. Por
2003

que os representantes desses dois últimos enquanto, ocupemo-nos de nosso trabalho e

217
façamo-lo com ambição e seriedade, porque com relação às obras do período e, depois

2001
o que é bom acaba aparecendo. Um dia, os ainda, com relação à evolução das formas
críticos e historiadores dos países que ditam na tradição a que pertence, a qual ultrapassa
as verdades olharão para além de seus limites de país e, mesmo, continente. Não é
próprios umbigos. porque a obra tem trezentos anos que lhe
Como alguém já disse: Quando será dado um atestado de qualidade que ela
guaraná for coca-cola… realmente não possui (a velhice não confere
(15 de junho de 2002) atestados de idoneidade artística).
Refugos não são privilégio da
Contemporaneidade. Toda época é pródiga
em bagulhos, da Antigüidade Grega,
passando pela Renascença Italiana, até o
SE É VELHO É BOM? século XIX. Numa exposição que teve lugar
2002 na FAAP, em São Paulo, há cerca de dois anos
O que é bom, é bom segundo - “Nins” (penso que “Crianças”, em catalão)
parâmetros de que dispomos, segundo - só havia refugos de época, do século XVI
medidas que, estando ao lado, ajudam-nos ao XIX. Nem tudo era Velázquez no século
a avaliar, são as nossas maiores referências XVII espanhol. Machado era único no Rio de
para operarmos comparações: um quadro Janeiro do final do século XIX.
ou um poema, por exemplo, serão bons se A maior parte do que se produz é, no
resistirem às comparações. mínimo, desprezível. É pouquíssimo o que
Assim, quando vamos apreciar alguma realmente conta, como sabiam Ezra Pound e
obra, mais do que a sua idade (tempo de Fernando Pessoa, entre outros tantos que se
feitura), dois, três ou mais séculos, iremos pre-ocuparam com o destino das obras de
ver como é que ela se comporta diante de arte, dos poemas, especificamente.
uma comparação, primeiro, com relação No Brasil, em época mais recente,
2003

às outras obras do próprio autor e, depois, tem sido assim: pessoas que tiveram uma

218
certa atividade dita artística, se resistiram eles na sua sabedoria, conferida pela

2001
e sobreviveram, estão dando entrevista na longa vivência. Seria a sabedoria o prêmio
TV, mesmo que as realizações do passado invariável para a velhice?
não passem no teste da qualidade. Tudo (22 de junho de 2002)

acaba virando CULT. De Jerry Adrianni e Rita


Cadilac ao Zé do Caixão (este é idolatrado
por cineastas experimentais dentro e fora
do Brasil e talvez até chegue a ter algum
mérito). A recente onda de bundolatria da TV A FAÇANHA DA CÓDIGO
brasileira fez com que até a Gretchen fosse
“reavaliada” e reconsiderada e ela volta toda
Num artigo publicado no ano de
recauchutada para a mídia e… dá-lhe BUM
1982, no FOLHETIM, suplemento dominical
BUM!
do jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Paulo
2002 Felizmente, por outro lado, grandes
Leminski apontou as “revistas” como sendo
valores esquecidos ou semi-esquecidos têm
o maior poeta dos anos 70 (os humanos
sido recolocados no centro das cogitações,
que segurassem essa!). Bem, ele não deixou
como foi a o caso de Souzândrade e será o
de ter razão, pois as chamadas “revistas
de Walter Franco e está sendo o do nosso
de invenção” foram o fenômeno de maior
admirável Tito Madi (bela a recente recepção
destaque, numa época em que as coisas, em
feita na cidade para o artista. Parabéns
termos de poesia, pululavam e se retomava,
aos organizadores! Fiquei admirado ao ver
após o encerramento da feitura da revista
a atenção dada ao cantor-compositor e o
INVENÇÃO - o nº 5, de 1967, marca esse
contentamento dos bem jovens, motivado
fim - portavoz dos concretistas. O espírito
pela presença de Tito em Pirajuí).
de investigação, a ânsia de experimentação
Feliz da sociedade que trata com
e tudo o mais eram perpassados de grande
reverência os seus velhinhos ou não tão
alegria e embasados por uma notória
2003

velhos ainda, podendo vir a contar com

219
ambição poética dos integrantes dos grupos - o outro era Waly (Sailormoon) Salomão -

2001
que tramavam aquelas publicações. Entre depois, com a falta de dinheiro, o que foi
as revistas editadas a partir dos anos 70, resolvido em fins de 1974, pela intervenção
ainda em sua primeira metade, CÓDIGO da Polygram, que desenbolsou a grana e
desempenhou um importantíssimo papel NAVILOUCA dividiu o final de 1974 com POLEM
e teve força e resistência para chegar ao (que foi criada para cobrir NAVILOUCA, que
número 12! não havia meio de sair, mas saiu) e CÓDIGO.
As revistas, seguidas das edições Depois vieram outras como ARTÉRIA,
autônomas de poemas, foram responsáveis POESIA EM GREVE, QORPO ESTRANHO etc.
por boa parte da melhor produção poética MUDA, de 1977, deliberadamente excluiu o
do Brasil, porém o fenômeno havia sido trio concretista (sempre presente nas outras
observado em outras épocas, aqui e fora. publicações da mesma estirpe).
Isto mostra que não há ineditismo no tipo de O que animava as tais “revistas” era a
2002 procedimento, mas que publicações coletivas crença de que algo novo, desvestido de toda
e as de poemas isolados são expedientes aquela conotação propriamente Concretista,
de que se valem poetas - e artistas em Processo etc., apesar da presença do trio
geral - em momentos específicos, quando concreto, composto por Décio Pignatari,
a criação não só não se contém, mas que Augusto e Haroldo de Campos. Era como que
quer escoar e encontra, inevitavelmente, um uma retomada pública da experimentação
tipo de veículo que não é o livro, meio que que havia sido cara às vanguardas.
aspira à eternidade. A REVISTA fica entre o O Brasil, ainda sob a ditadira militar,
eterno, corporificado pelo livro, e o efêmero, já podia começar a sonhar com uma maior
encarnado pelo jornal. liberdade que viria gradativamente. Participar
NAVILOUCA teria sido a primeira das de uma publicação coletiva era ter a chance
revistas experimentais dos anos 70, mas de, além de divulgar seu trabalho - junto a
andou complicada, primeiro com a morte um público pequeno, mas muito especial de
2003

de um de seus idealizadores: Torquato Neto aficionados da poesia - ter interlocutores com

220
preocupações semelhantes. Era uma época Um dos primeiros poetas a utilizar programa

2001
em que tinha início uma festa, que não era de computador, num momento ainda
só dos experimentais, mas de outros poetas ante-diluviano: fazia um uso estrutural
e poéticas menos comprometidos com os da visualidade em seus poemas, de uma
aspectos propriamente formais. CÓDICO, linhagem Pedro Xisto. Tendo nascido em
nessa festa que se armava, estava já na 1932, Erthos teve na generosidade uma de
largada. suas marcas distintivas: preocupou-se mais
O nome CÓDIGO: de um poema com a obra de outrem do que com a sua
gráfico - CÓDIGO . GOD . DOG . CODE - própria. A última conversa que tive com ele
de Augusto de Campos, de 1973, enviado sobre a revista, ele simplesmente falou:
a Erthos Albino de Souza e que acabou por “[CÓDIGO] está parada”. Não demonstrou
dar nome à publicação, bem como servir de interesse en continuar a revista, alegando a
capa [e quarta-capa] ao número 1, de 1974, falta de pessoas com quem pudesse contar
2002 ao mesmo tempo em que corporificava um na parte de organização e programação
logotipo/logomarca, que compareceu nos visual (26-11-1995).
demais números: a partir do nº 2, adentrou Para aqueles que se interessam por
a segunda capa, depois compareceu como poesia e experimentação, CÓDIGO entra
logomarca dentro e fora da publicação, como um documento de grande importância,
respondendo a uma necessidade gráfica não apenas em termos de Brasil, mas do
mesmo, variando as dimensões da mancha que era produzido no Planeta, nos anos 70
por ela ocupada). O poema acabou integrando e 80 do século passado. Outras “revistas”
a Caixa Preta, de Augusto de Campos e Julio também se integram nessa tradição de
Plaza, obra portentosa, editada em 1975. rigor e ousadia e serão por mim abordadas,
Erthos Albino de Souza, editor de oportunamente, nesta coluna.
CÓDIGO, seu único financiador, mineiro (29 de junho de 2002)

de Ubá radicado em Salvador-Bahia,


2003

engenheiro, foi funcionário da PETROBRAS.

221
futebol: algumas reflexões em professor, tive de fazer uma opção, por

2001
tempo de copa cobrança dos meus alunos, e fiquei com
o São Paulo FC. Mas torço para qualquer
Ser vice-campeão é mau, porque se é time de São Paulo contra o de qualquer
segundo, perdendo o último jogo. Campeão, outro Estado do Brasil e, pelo Brasil, contra
bi-, tri-, tetra-, pentacampeão! Isto é bom. qualquer outro time do mundo.
Não é de se estranhar que o Brasil tenha Dificilmente vejo trechos de jogos
aí chegado e que até venha a ser hexa-, transmitidos ao vivo – nem a final, agora,
hepta, octo-, enea-campeão, alcançando o contra a Alemanha, a fim de evitar uma
decacampeonato! Afinal, este é o país do indesejável taquicardia – mas percebo a
futebol, deixando a inventora Grã-Bretanha beleza que se tornou a coisa, com muitas
para trás. E dificilmente algum outro câmeras, o que possibilita a repetição de
país poderá alcançar o nosso nível médio um mesmo lance por inúmeros ângulos,
2002 em termos de futebol. E, num país rico- enriquecendo ainda mais o espetáculo (e
paupérrimo, o tal esporte (podosfera?!) a TV encontra aí o melhor que pode dar
tem propiciado a alguns ascensão sócio- a sua linguagem). Sim, um verdadeiro
econômica de embasbacar. Nem o rei Pelé, espetáculo.
uma glória brasileira e mundial, ganhou Uma das conclusões que tirei das
tanto dinheiro como jogador do Santos; partidas que eu mais ou menos segui é
ganhou dinheiro, mas, muito mais como a de como, além de belo, o futebol é um
garoto-propaganda, de três décadas para jogo difícil. Dificílimo. O que faz com que
cá, rosto dos mais conhecidos do Planeta. o melhor time do mundo possa temer um
Pelé. adversário medíocre.
Eu nunca fui um aficionado do futebol Antes dessa surpreendente copa ter
– em casa não se ouviam pelo rádio, desde tido início, conversei com meus alunos,
a infância, as transmissões das partidas, principalmente com os da FAAP, sobre
2003

naquele narrar empolgante… Como futebol: alguns deles eram verdadeiros

222
experts e até havia um (de 19 anos) isto conseguiu encobrir por mais horas a

2001
excelente cronista. Falei numa sala: “A crise em que o Brasil está mergulhado!
minha impressão é a de que o Brasil vai estar Antes do jogo contra a Inglaterra, eu
jogando na final”. E contra o argumento da disse: “Não consigo ver nada de diferente
debilidade da equipe enquanto tal, mesmo de 2 X 1; para o Brasil, é claro! E foi o que,
tendo cinco dos melhores jogadores do coincidentemente, aconteceu.
mundo, eu disse que em 1982, na copa da Na FAAP, quando os jogos eram pela
Espanha, o Brasil não só possuía a melhor manhã, a Escola colocava à disposição dos
equipe do mundo, como estava fazendo alunos, professores e funcionários um telão,
a melhor das campanhas: perdeu para a num auditório que, lotado, dava gosto de
itália e voltou para casa. ver: uma torcida a se exaltar de alegria!
Quanto ao uso do Tricampeonato de Quando em casa, mesmo nas madrugadas,
1970, no México, pela ditadura Médici, eu eu não via os jogos, mas o Brasil inteiro,
2002 disse que a ditadura, realmente, usou o ligado, não me deixava dormir com aquelas
fato para se engrandecer, mas que isto não explosões de fogos e contentamento.
tirava o mérito da equipe: foi o maior time Há quem diga que o futebol aliena.
de todos os tempos e fez por merecer o Seria de se perguntar se o basquete, o vôlei,
título, que alcançou brilhantemente. Todos a música de concerto, a grande literatura
os governos – ditaduras ou não – procuram e as teorias, os bailes e baladas também
capitalizar esses acontecimentos, tiram não alienariam. Alegria e arrebatamento e
todo o proveito possível dos méritos que satisfação e êxtase alienam? Revigoram.
possam ser creditados ao país, através (13 de julho de 2002)

de seus filhos. E completei, dizendo que


mesmo agora, se os meninos trouxessem
o Penta, o governo FHC procuraria tirar a
sua casquinha. Dito e feito! Ainda bem que
2003

o nosso futebol foi premiado. Porém, nem

223
SOFRIMENTO E RESIGNAÇÃO OU DEUS do qual consumimos até hoje os resíduos

2001
ABENÇOE OS QUE PADECEM ou até muito mais do que isto. O Homem
nasceu para viver bem, porque, tendo uma
Algum dia já se perguntou a uma inteligência privilegiada, pode planejar a
formiga, a uma coruja, a uma vaca se existência e defender-se dos predadores.
ela é feliz? Por que é que se pergunta ao Aí é que está: seu maior predador
semelhante humano, escravo de uma psykhé é o próprio Homem. Mas, vá lá… Ele pode
complexíssima, se ele é feliz? Porque é a administrar a existência e minimizar o
coisa mais difícil de se encontrar: alguém sofrimento, enfim, poderá se encontrar no
feliz. estar-bem-no-mundo-sempre-e-sempre.
Entre os gregos, a felicidade Porém, a Felicidade é uma outra questão,
(eudaimonía) era cogitada e já se sabia que um estado a que poucos têm acesso, porque
era tão rara como encontrar uma agulha num é uma vocação, uma pré-disposição. É para
2002 palheiro. A última fala da tragédia sofocleana quem tem vocação e não para quem acha
do Édipo, que é do corifeu, traz a máxima de que a quer.
que não se pode considerar feliz qualquer Felicidade não passa pelo dinheiro,
pessoa, antes que, tendo chegado ao termo nem pelo sexo (embora ambos sejam
de sua existência, não tenha conhecido o imprescindíveis). Mas se o bem-estar-no-
infortúnio. mundo é o que interessa, isto deve ser
Pois é, quando algo é muito cogitado procurado, não individualmente, mas pela
é porque não existe ou é raríssimo. Fala-se sociedade que consentiu em ser organizada,
em governo, quando ele não funciona, em com governo e tudo o mais.
cidadania quando nem todos - ou mesmo a Uma sociedade digna do nome deve
maioria - dela está excluída. organizar-se de tal maneira a permitir
Dizer que o Homem nasceu para ser que os seus componentes tenham acesso
feliz é uma besteira e das maiores e isto a todas as benesses que ela venha a
2003

é herança principalmente do Iluminismo, oferecer. Socialismos históricos à parte, uma

224
sociedade não pode permitir que muitos fazer. A sociedade como um todo é que

2001
de seus integrantes não disponham de um deveria cuidar de ter os seus componentes
mínimo para uma existência suportável. em condições, no mínimo, aceitáveis de
Daí que, quando vejo em São Paulo, por existência (o Ser-Humano não se contenta
exemplo, indigentes numa espécie de “pátio com o básico, nem que seja para trocar o azul
dos milagres”, filas para albergues, gente pelo amarelo. Tampouco quer fazer parte de
mexendo no lixo à cata de algo aproveitável, uma massa amorfa). Porque a FELICIDADE,
favelas feitas com sobras de caixas e aquela Felicidade-estado-de-graça-perene
caixotes, passo a execrar a Espécie, sinto é privilégio dos raros que têm tal vocação.
vergonha pela minha Condição Humana e, se Vocação para a Felicidade! Em toda a minha
pudesse, até renunciaria a ela: não chego a existência tive notícia de uns dez humanos
me orgulhar por ser gente. Outrossim, penso felizes, incluindo os de séculos passados.
que a sociedade brasileira se encontra num Marcel Duchamp - penso - era um deles.
2002 estágio de organização aquém do desejável Observações. Frente à injustiça que a
e além do deplorável. sociedade, como um todo, comete podem
Não creio no Juízo Final, mas a idéia me existir (e isto tem base histórica) quatro
é simpática. Nos meus 54 anos de existência, principais conseqüências/atitudes:
vejo em Pirajuí pessoas que, há décadas, 1. A resignação frente ao sofrimento
sofrem privações e têm um ar conformado, material-moral, geralmente facilitada por
resignado, sem revolta, como se aquilo algum “ópio do povo”.
fosse mesmo uma sina. Seria deles o Reino 2. O banditismo desenfreado, que, mesmo
dos Céus? Mas que céu compensaria tanto terminando mal, provoca grandes estragos
sofrimento, vendo, à sua volta, semelhantes e faz com que a sociedade despenda muita
vivem uma fartura digna das Mil-e-uma- energia para freá-lo, porém, sem resolver os
noites? problemas de base.
Às vezes choro pelos resignados- 3. Uma revolta organizada, dirigida por
2003

sofredores-perenes e quase nada posso mentores que têm poder muito grande

225
sobre as massas e as manipulam. Isto A FOTOGRAFIA-ARTE

2001
resulta em revoluções, banhos de sangue
que, temporariamente, dão cor à desforra De simples técnica - revolucionária,
para, a seguir, permitirem todo um novo diga-se - a Fotografia detonou um processo,
processo de injustiças. Todo PODER quer se mormente afetando a pintura, que culminou
manter poder. Infelizmente, os Socialismos, com o total banimento do referente externo
como foram implantados a partir de 1917, das faturas pictóricas, no 1º quartel do
não conseguiram se firmar de fato e se século XX.
desvincular do autoritarismo/totalitarismo. A Fotografia, signo indexical que é
Daí, concluímos que o maior dos problemas - o que a fundamenta enquanto signo é a
que as sociedades humanas enfrentam é o conexão dinâmica, física com o seu objeto:
do Poder que uns querem exercer ou, de exige como objeto dinâmico (para utilizar
fato, exercem sobre os outros. a terminologia/conceitos da Semiótica
2002 4. Uma oposição pacífica à sociedade, Peirceana) um existente. Índice impregnado
saindo-se por aí a vagar, ou formando de iconicidade, tem toda a intermediação
comunidades apartadas do sistema (como de aparatos técnicos para se corporificar
foi o caso ainda recente dos Hippies). signo, mas seu fundamento a coloca - a
Deus abençoe os que sofrem, mas que FOTOGRAFIA - como Índice, um 2º (todo
os que sofrem, não se contentando com tal índice traz consigo forte iconicidade: de uma
estado de coisas, lutem por transformações impressão digital à fotografia, passando
na sociedade, transformações estas que pelas pegadas de um animal no solo).
venham beneficiar a todos. Auguri! Além de revolucionar os modos de
(20 de julho de 2002) elaboração de imagens, a Fotografia fascinou
artistas que a utilizaram enquanto técnica de
fixar momentos e, o que é mais importante,
fonte inesgotável de abordagem de ângulos,
2003

alguns dos quais nunca dantes pensados.

226
Daí é que a Fotografia-ela-mesma mostrou Numa época em que a info-imagem

2001
(antes mesmo de ser considerada algo ‘cult’) maravilha a todos, colocando-se no centro
suas possibilidades enquanto arte autônoma, de cogitações dos artistas mais antenados,
em namoro ininterrupto com a pintura. a Fotografia continua na ordem-do-dia,
No século XIX isso já é percebido: apresentando-se como uma possibilidade
acaso e busca contribuindo para que a para aqueles que se comunicam pelas faturas
Fotografia adentrasse o reino das faturas que veiculam informação estética. Artistas.
que trazem consigo informação estética. Aí
é que o seu caráter indexical (traz as marcas Em tempo: Este texto constitui-se na
físicas de seu objeto) passa a ser secundário primeira parte de um texto maior sobre o
porque, ela aspirará à condição de hipoícone- trabalho do fotógrafo-artista Peter de Brito,
imagem: técnica através da qual se obtêm a propósito da exposição LUCESCRIPTURA:
formas, mesmo que isto implique a captação fazimentos foto-gráficos de Peter de
2002 de existentes. Brito e constou do catálogo da mostra,
Do mesmo modo que a Fotografia que aconteceu no mês de maio de 2002,
repercutiu na Pintura, esta teve sua influência em São Bernardo do Campo. O artista,
naquela, desde as origens. É um toma-lá-dá- oportumamente, exporá seus foto-poemas
cá sem fim. Todo objeto artístico é fruto de em Pirajuí.
um processo dialético, em que entram em (03 de agosto de 2002)

jogo sensibilidade e racionalidade. O artista é


alguém que, tendo inclinação para o trabalho
com a linguagem, passa por um aprendizado
para que chegue a dominar técnicas e
materiais e possa fazer corporificar o objeto ANTONIO LIZÁRRAGA: RIGOR E BUSCA
artístico. O fazedor (artista, poeta) faz por
sentir, pensar e ter a posse da tecnologia Conheci-o pessoalmente no estúdio-
2003

necessária para tal. casa de Regina Silveira e Julio Plaza, há

227
aproximadamente duas décadas, ocasião linhas, fundamentalmente. No mais,

2001
em que percebi seu incomum senso de passei a ter um conhecimento maior do
humor, o qual se indiciava em toda e seu trabalho em exposições pós-AVC
qualquer de suas observações, numa (sofreu um sério derrame, que o deixou
conversa que versava sobre generalidades. tetraplégico): desenhos, pinturas, faturas
Nada daquela coisa do gênero ‘vida de tridimensionais. Vontade e rompimento de
artista’: uma pessoa como as outras, limites/limitações.
aparentemente. Interessei-me cada vez mais por seu
Antes, já tinha conhecimento de trabalho, procurando saber das condições
sua obra através da capa e programação da concepção, projeto e execução, em
visual do livro Panaroma do Finnegans que entravam técnicos (quase sempre
Wake, trabalho feito em associação com mulheres) sensíveis, que viabilizavam uma
Gerty Sarué, artista gráfica admirável obra de um rigor cada vez mais notório. E
2002 como ele, o Lizárraga. Naquela empreitada notável, acrescentaria.
dos Irmãos Campos a partir de Joyce (o Observando a obra de Lizárraga, de
Panaroma), as faturas gráficas de Gerty fins dos anos 50 até os dias de hoje, percebo
se integravam ao volume, rompendo com o quanto já trazia algo construtivo que se
os limites impostos pela forma-livro e foi acentuando, rigor sempre presente: os
faziam do livro um livro-objeto: aqueles fenômenos linha, forma, cor, volume.
complexos sígnicos - da maneira como Lizárraga, em seu não-figurativismo
foram concebidos e programados - não geométrico, apresenta grande afinidade
ilustravam, mas falavam a linguagem com os pintores concretos que floresceram
experimental do texto verbal. nos anos 50, porém, mesmo sendo daquela
Tive, outrossim, o privilégio de geração de artistas (Lizárraga nasceu
participar de uma que outra exposição em 1924), não chegou a compor com
de poéticas visuais onde Lizárraga eles. Antes, possuía uma mesma filiação,
2003

também expunha a sua poética de pertencia a uma mesma linhagem: a da

228
vertente mais radical que operou nas Artes NOIGANDRES E INVENÇÃO

2001
Plásticas, no século que acabou de passar.
Primado de uma sensibilidade inteligente. Foi ainda nos anos sessenta do século
Parece que, quanto mais passa o tempo, o que acabou de passar (!), lá por 68 que tomei
trabalho de Lizárraga fica mais consistente conhecimento da Poesia Concreta, numa
e digno de admiração. aula de Português em que, um professor
De uma estirpe rara e que valoriza convidado - docente em Marília, Faculdade de
a invenção no âmbito da linguagem. O Letras - professor Ataliba Teixeira, num certo
terráqueo Antonio Lizárraga, argentino momento de sua preleção falou em poesia
de nascimento, só faz honrar, com sua avançada e mostrou o poema Organismo,
presença, as Artes no Brasil, país que de Décio Pignatari. O poema era encarte de
escolheu para viver. INVENÇÃO 5.
Aquilo me impressionou, bem porque,
2002 Em tempo: Este texto, com ligeiras logo após, a professora insistiu em mostrar
diferenças, foi escrito para constar de o cine-livro-poema e tentar uma análise,
orelha de livro sobre Antonio Lizárraga: ainda que breve. A professora Chainy João
Quadrados em quadrados, de Maria Racy, mostrou, comentou, tornou a mostrar.
José Spiteri, pesquisadora-artista que Aquilo ficou em minha cabeça como uma
conhece como poucos o seu trabalho (um fotografia.
bom crítico se vê pela escolha do objeto, Porém, meu grande interesse pela
para ficar com Ezra Pound) vem trazer Poesia Concreta e por toda a atividade que
mais esclarescimentos - mormente no que seus integrantes vinham desenvolvendo
respeita ao processo de feitura - sobre um em termos da própria poesia, da teoria e
fazedor do maior interesse. Lizárraga. crítica e da tradução de textos poéticos só
(10 de agosto de 2002) me ocuparam sistematicamente a partir de
1973-74.
2003

A Poesia Concreta foi uma grande

229
descoberta para mim, que passei a me PAULISTANO. A Revista INVENÇÃO, que

2001
dedicar à apreciação-estudo da obra manteve a forma-livro em seus cinco
concretista e, na medida do possível, tornei- números, traz encartes que demonstram
me um colecionador de livros, poemas em o quanto os textos, ou melhor, as faturas,
edições autônomas e revistas. Tornei a não mais se adequavam a amarras daquele
ver INVENÇÃO e descobri NOIGANDRES, tipo: os números quatro e cinco são os mais
a primeira publicação coletiva dos poetas belos, num crescendo.
concretos. NOIGANDRES teve o seu primeiro INVENÇÃO, encerrando as atividades
número em 1952, data da fundação do em 1966-67, deixou uma lacuna; as revistas
grupo do mesmo nome, formado por Décio mais empenhadas com a experimentação só
Pignatari e pelos irmãos Campos: Augusto seriam retomadas na primeira metade dos
e Haroldo. O nome estranho - noigandres anos 70, com NAVILOUCA, POLEM e CÓDIGO
- vem do Provençal, língua do sudeste da (da qual já tratamos nesta coluna). Em São
2002 França - da região da Provença - na qual Paulo, centro de irradiação do Concretismo
trabalharam grandes poetas líricos: os e das poéticas mais radicais dos anos 70
trovadores, que maravilharam (a começar (poéticas intersemióticas) essa retomada
pelo mais célebre Arnaut Daniel) de Dante se deu primeiramente com ARTÉRIA (1975)
Alighieri a Ezra Pound e Augusto de Campos editada em Pirajuí, seguida de POESIA EM
que o traduziu magistralmente e na íntegra. GREVE E QORPO ESTRANHO.
A palavra enigmática, maravilhou os então De NOIGANDRES, consegui os dois
jovens que se constituíram em grupo (há últimos números. De INVENÇÃO só não
cinqüenta anos!). Houve cinco números da obtive o primeiro, mas pude sempre contar
revista, sendo que na de número 4, de 1958, com a boa vontade de amigos, com seus
saiu o famoso plano-piloto para poesia acervos particulares, em especial com a
concreta. paciência do poeta Augusto de Campos que,
Entre NOIGANDRES e INVENÇÃO, por diversas vezes, franqueou a mim sua
2003

houve a página INVENÇÃO, no CORREIO biblioteca e coleção de objetos-poemas.

230
Meu estudo, propriamente, dessas se as rápidas passagens dos notórios (que

2001
revistas, teve início em 1974, com maior ou participaram da 1ª Exposição Nacional de
menor intensidade, até a presente data e Arte Concreta em 1956-57, São Paulo-Rio de
pretendo concluí-lo e publicá-lo. Pelo que me Janeiro) Wlademir Dias-Pino e Ferreira Gullar,
consta, não há nenhum estudo sistemático juntaram-se ao grupo pessoas de geração
publicado sobre NOIGANDRES e INVENÇÃO. mais velha que fizeram obra importante a
Se houver algum em andamento, ótimo! partir da assimilação da Poesia Concreta,
Essas publicações merecem a atenção de encontrando caminhos próprios: Edgard
historiadores da cultura e de críticos literários Braga e Pedro Xisto de Carvalho. O namoro
e das Artes em geral. com a velha raposa Cassiano Ricardo durou
NOIGANDRES E INVEÇÃO foram pouco: do afastamento à inimizade foi um
publicações dos concretistas de São Paulo, passo. Muito embora se comemorem os 50
que tiveram um alcance mundial, já que a anos do Grupo Noigandres, inclusive com
2002 Paulicéia e os referidos poetas foram dos exposição no Centro Cultural Maria Antônia
criadores de uma das tendências poéticas (da USP), o Concretismo (que ainda provoca
mais importantes do século XX: a da POESIA polêmicas em nosso País) merece ser mais
CONCRETA. bem estudado no Brasil e São Paulo deveria
abrigar um grande centro: O Centro de
Em tempo: O GRUPO NOIGANDRES Estudos das Artes Construtivas e Poéticas
foi fundado em 1952 pelos já amigos, da Visualdade (Museu, Biblioteca, Centro de
estudantes de Direito (Largo São Francisco) Pesquisas). Já estou pensando num site:
Décio Pignatari, Augusto de Campos e antecipação do projeto ambicioso.
Haroldo de Campos (irmãos Campos). (17 de agosto de 2002)

Juntaram-se, depois, a eles Ronaldo Azeredo


(que já aparece em NOIGANDRES 3) e
José Lino Grünewald (NOIGANDRES 5: do
2003

verso à poesia concreta). Excetuando-

231
RONALDO AZEREDO deixando, portanto, de ser poesia.

2001
(Os poemas de Ronaldo Azeredo e o Ronaldo Azeredo, nos anos ‘70, aqui
episódio do seu livro ‘obra completa’). em São Paulo, era dos poetas veteranos, dos
mais admirados pelos então jovens poetas.
Passada a fase inicial da Poesia Alguns de seus poemas, trabalhando com
Concreta, em que Ronaldo Azeredo, o mais semi-transparência, tecido etc, assim como
jovem integrante do grupo Noigandres, seus livrinhos, nem trazem títulos, sendo
já se tornara célebre, com poemas como conhecidos por algum sinal/aspecto. Outros
“velocidade”, e “ruasol”, ambos de 1957, ele têm título, como o “Labirintexto”, um mapa
partiu cada vez mais para uma poética de biográfico, impresso em serigrafia, por
incansáveis experimentações, incluindo, aí, Julio Plaza, de 1976. “CÉU MAR”, de 1978,
novos materiais para a poesia, poemas sem poema-cartazete, traz impressas palavras
palavras, livros-poemas etc. Embora tendo que se acoplam a imagem, podendo ou não
2002 manipulado palavras e continuado, até certo ser encaradas como título de poema, em
ponto, a utilizá-las, Ronaldo Azeredo não verdade, não-verbal.
chegou a fazer versos, não chegou a passar Um de seus últimos trabalhos dados
por esse exercício que, se por um lado é a público foi exposto na mostra POESIA
necessário (disciplina para um determinado INTERSIGNOS, exposição organizada por
tipo de coisa) por outro pode colocar Philadelpho Menezes, no Centro Cultural São
limitações castradoras ao poeta. Paulo, em 1985, e constava de uma frase:
Como podemos observar em toda a “enquanto durou” com algumas flores vivas
obra de Ronaldo Azeredo, o não fazer versos fazendo as vezes de letras e que foram,
não implicou a insensibilidade para as obviamente, murchando. Uma maneira que
sutilezas do verbal, que ele utilizou, quando o poeta encontrou para capturar uma espécie
utilizou, com propriedade. Porém, sua obra de tempo. Mais recentemente, editou, com
tendeu para algo em que a visualidade, número limitado de exemplares, um poema-
2003

de par com o conceitual, predominou, não objeto em alumínio, com impressão serigráfica

232
colorida: “noite noite noite” (1989), poema O que eu gostaria mesmo é de ver a

2001
este republicado em ARTÉRIA 6. obra de Ronaldo Azeredo editada com todo
Com sua radicalização, Ronaldo o cuidado e refinamento gráficos que ela
Azeredo, afastado da mídia, cada vez merece. Assim, muito mais pessoas teriam
mais ficou restrito a um grupo pequeno a chance de entrar em contato com um
de ardorosos admiradores. Em 1985, foi trabalho raro no mundo e que, juntamento
lançado um volume com sua obra completa: com alguns outros poucos, só tem dignificado
Pensamento Impresso; 1984-1954 que, a poesia no e do Brasil. E olha que no século
dado o fato de em nada corresponder às passado, poucos países tiveram a glória de
exigências, em termos de cuidado gráfico contar com tantos poetas extraordinários
que a sua obra exigia, foi desautorizado como o nosso. E que viva Ronaldo Azeredo!
pelo autor, sendo que a editora não pôde Em tempo: Ronaldo Azeredo lança, agora,
distribuí-lo. novo trabalho, na terça-feira, 20 de agosto de
2002 Realmente, considerando a grande 2002. Diz o convite de lançamento: ronaldo
importância da obra de Ronaldo Azeredo e azeredo convida para o lançamento de
os cuidados que a mesma sempre exigiu, seu poema-álbum lá bis os dois - de
foi um verdadeiro desrespeito o que se leitura tátil - que será realizado no dia
observou por parte dos editores de sua poesia 20 de agosto de 2002, às 20:00h, na
completa. As Artes do Brasil é que perdem mercearia do Jockey Club. Certamente
com isso. Meu exemplar, eu o adquiri na mais um de seus poemas-bomba, como já
noite do lançamento: 11-12-1985. Por isto é disse deles, certa vez, o poeta Wlademir
que o possuo. Nem Erthos Albino de Souza, Dias-Pino. Ronaldo Azeredo, nascido no Rio
pelo que me consta, havia conseguido um de Janeiro, em 1937 (irmão de Lygia Azeredo
exemplar (sua grande biblioteca na Bahia, Campos, esposa de Augusto de Campos e de
parece-me, foi vendida, após sua morte, a Ecila Azeredo Grünewald, mulher do Zélino
José Mindlin, outro bibliófilo, possuidor da Grünewald, falecido em julho de 2000 e,
2003

maior biblioteca particular do País). também grande poeta, que acabou fazendo

233
parte do Grupo Noigandres, a partir da revista suas mais de noventa páginas, bicrômicas

2001
NOIGANDRES 5) reside em São Paulo, há (porém, predomina o preto-e-branco), nos
décadas. Décadas, também, de uma prática seus cerca de 18 X 25 cm.
rigorosa da poesia. (Este texto foi escrito em Na capa, complexo urbano de edifícios
dois momentos diversos, sendo que alguns com interferências de tiras coloridas,
anos os separam). jogando com verticalidade e horizontalidade,
São Paulo, 19 de agosto de 2002. contendo dados técnicos. O nome da revista
(31 de agosto de 2002) em caixa alta, tipo fantasia, imitando certos
luminosos (pequenos círculos amarelos
formando as letras, contra um céu fabricado,
meio azul, meio roxo, servindo de fundo para
os edifícios recortados).
POLEM POLEM não existiria se a NAVILOUCA
2002 não tivesse existido, foi o que me disse Duda
POLEM 1 saiu em 1974, publicação Machado, poeta e, juntamente com Hélio
da Editora Lidador, tendo tido apenas esse Santos, um dos mentores da publicação, que
número, apesar de ter sido pensada para possuía, também, uma editoria internacional.
sair semestralmente. O fracasso de vendas, Então, POLEM, idealizada em função da não-
embora ela tenha sido melhor distribuída que saída imediata da NAVILOUCA, acabou sendo
a NAVILOUCA, e o conseqüente não-retorno lançada antes desta.
financeiro, impediram a continuidade; mas o Embora o planejamento gráfico seja
mais importante foi que a repercussão zero de outra autoria (Ana Maria Silva de Araújo),
na mídia afugentou os poucos anunciantes, tem grande afinidade com NAVILOUCA, cujo
que compareciam no número 1, (depoimento espaço procurou cobrir, porém, mais contida
de Duda Machado, a mim, por telefone, em (até sob o aspecto físico, já que seu formato
30-10-95). A publicação apresenta capa e era bem menor), mais “clean”. Interessante
2003

quarta-capa em quadricromia e algumas de que, além de participantes da NAVILOUCA

234
(mantendo o trio NOIGANDRES), incluía obra que marcou definitivamente a

2001
Erthos Albino de Souza e Antonio Risério minha passagem da pintura para a poesia
Filho, como poetas-colaboradores. intersemiótica.
Para o relativamente pequeno público Diga-se: a nomuque jamais recebeu
(principalmente de poetas) que a consumiu, patrocínio: foi sempre financiada pelos
POLEM trouxe alegria, informação e incentivo seus editores/colaboradores. De todas as
para que outras publicações brotassem, revistas que estou abordando, ARTÉRIA foi
assim como também tiveram esse papel de a que mais se metamorfoseou, a que mais
estimuladoras, NAVILOUCA e CÓDIGO. se comprometeu com uma poesia de cunho
(07 de setembro de 2002) mais experimental e intersemiótico, a que
mais valorizou, ao longo de seus mais de vinte
anos, a poesia que coloca a visualidade como
algo realmente estrutural. No mais, é aquela
2002 que se considera ainda viva, preparando o
seu sétimo número, que deverá ser lançado
ARTÉRIA . PARTE I Deus sabe quando.
Após a publicação de INVENÇÃO 5
ARTÉRIA começou sendo publicada (1967), ARTÉRIA foi a primeira revista
em Pirajuí, em 1975 (o seu nº1), deslocando- experimental que saiu em São Paulo, seguida,
se, depois, para São Paulo. Tudo tem a imediatamente de POESIA EM GREVE. Isto
ver com a fundação por mim e por Paulo significava a retomada coletiva daquela linha
Miranda da nomuque, edições, editora à de experimentação poética tão característica
margem do sistema editorial brasileiro, que da Poesia Concreta.
não visava lucros mas previa despesas e ARTÉRIA 1, tendo sido planejada por
que, modestíssima, operou e opera até hoje, mim, Paulo Miranda, Luiz Antônio de Figueiredo
cada vez mais raramente, porém. Nasceu e Carlos Valero, contando com o apoio de
2003

em função de meu livro Jogos e Fazimentos, José Luiz Valero de Figueiredo, o Zéluiz

235
(que, fotógrafo, acabou por se embrenhar da dos editores, do Trio Noigandres: Décio

2001
no mundo das artes gráficas, tornado-se um Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos,
expert, dominando toda uma parte prática que haviam, generosamente, fornecido
que envolvia, desde diagramação, passando colaborações, frente a solicitações de nossa
pela feitura de fotolitos, até impressão offset parte (Luiz Antônio de Figueiredo já possuía
e serigráfica. Fina sensibilidade, operou, relações de amizade com Décio Pignatari,
como alguns outros, num mundo de sutilezas desde a segunda metade dos anos ‘60,
que exigiam alto repertório, a Bauhaus nos também, a partir de uma época posterior, com
Trópicos - costumo dizer - assim como seus os irmãos Campos; meu conhecimento com o
irmãos mais velhos Luiz Antônio e Carlos. Trio começou a partir de fins de 1974, quando
Do lápis, régua e papel, Zéluiz chegou ao conheci pessoalmente Augusto de Campos, a
computador, instrumento para o seu talento propósito de meu livro Jogos e Fazimentos).
de artista gráfico, que se aplica mais na feitura Num artigo que publicou (JORNAL DA TARDE)
2002 de trabalhos alheios do que no próprio). em 1976 sobre as revistas, J. J. de Moraes fala
ARTÉRIA 1 sofreu bastante a influência/ no não-provincianismo de ARTÉRIA, apesar
incentivo, principalmente de CÓDIGO 1 e de ser revista editada no interior de SP.
POLEM, mas também de NAVILOUCA e, já (14 de setembro de 2002)

em seu primeiro número, mostrou a sua


vocação anti-acadêmica, pois, mesmo sendo
um modesto caderno, de formato pequeno,
visando a um melhor aproveitamento do
papel, traz, solto, em meio a suas páginas, o
poema “reviravolta”, de Paulo Miranda. ARTÉRIA . PARTE II
Impressa na gráfica Souza Reis, em
Bauru, ARTÉRIA 1 teve seu lançamento oficial Daí, para a de nº 2, ARTÉRIA sofreu
em 15 de julho de 1975, em São Paulo, no grandes mudanças, pois se pretendia fazer
2003

Krystal Chopp, Perdizes, com a presença, além algo completamente diferente em termos

236
de revista, algo que estourasse os limites offset, carimbos, tipografia e serigrafia.

2001
daquele veículo acadêmico; então, planejou- Apesar de possuir, ainda, um caderno, o
se uma sacola, que saiu por milagre, pois corpo principal da publicação era composto
teve mil contratempos: desde dificuldades de poemas soltos. A grande lição que se
financeiras, passando por censura de gráficas tirou daí foi a de que era possível, com
que se recusaram a imprimir trabalho de muito esforço, viabilizarem-se projetos mais
Julio Plaza (“Alechinsky-Lichtenstein”, depois ou menos ambiciosos, já que a serigrafia,
impresso em serigrafia por nós editores, para processo artesanal e barato, possibilitava
ser veiculado em ZERO À ESQUERDA, 1981) isso (havíamos conseguido viabilizar o
até a refeitura do caderno que acompanhava “Soneto” colorido - quatro impressões - de
os trabalhos soltos, mais a questão da Paulo Miranda. Em seguida, procuramos nos
embalagem. Os envelopes que constituiriam interar dessa técnica: eu, Paulo Miranda e
o receptáculo para os trabalhos soltos, Zéluiz).
2002 passaram por uma odisséia, nas idas e vindas Interessante é que o formato não-
São Paulo-Bauru. No caderno, consta o local convencional de ARTÉRIA 2, encontrou
Pirajuí, mas ARTÉRIA 2 foi realizada a partir resistências por parte de algumas livrarias de
de SP, utilizando os serviços de gráficas da São Paulo, que não a aceitaram (geralmente
Paulicéia, de Pirajuí e Bauru. deixávamos essas publicações em
Constando a data de 1976, seu consignação). Dado o fato de ser ARTÉRIA,
lançamento, ou melhor, sua liberação ao das revistas, a mais empenhada com a
público só pôde se dar em abril do ano POESIA VISUAL, vou-me deter mais nela,
seguinte, embora já estivesse praticamente não abordando todo o seu percurso num só
pronta em fins de 1976. ARTÉRIA 2, cuja fôlego, mas interrompendo e voltando.
evolução se deve mormente graças às ARTÉRIA 3, ART3RIA, praticamente
pressões dos irmãos Figuiredo, Luiz Antônio não existiu: Carlos Valero encomendou,
à frente, utilizou papéis e formatos diversos, numa empresa, caixas de fósforos, dessas
2003

assim como processos de impressão: que se dão como brinde, com a impressão,

237
em ouro, do logotipo que acima comparece KATALOKI, ATLAS.

2001
em negrito. Tendo sido distribuídas, as caixas Umas mais, outras menos, publicaram
incendiárias acabaram por não causar muitos a poesia mais instigadora, mais inventiva
danos, nem na vontade de novas edições que se produziu no Brasil, a partir dos anos
pelos então editores. ‘70, seguindo o exemplo de suas precursoras
(21 de setembro de 2002)
NOIGANDRES e INVENÇÃO, dos anos ‘50 e
‘60, portavozes/portatraços dos poetas do
Concretismo.
NAVILOUCA tornou-se uma lenda.
Seu projeto marca, primeiramente, no mundo
NAVILOUCA da poesia, uma preocupação em reunir num
mesmo veículo, poetas experimentais (não
Muitas e variadas foram as revistas só poetas; daí, explícito está o seu caráter
2002 interdisciplinar-intersemiótico) muito jovens,
que apareceram a partir da primeira metade
dos anos ‘70, pipocando ainda pelos ‘80 e, com poetas que, continuando sua pesquisa de
também, atingindo os ‘90, das quais citarei linguagem, já eram verdadeiras celebridades
apenas as que mais interessam para os que (embora com público diminuto), como era
curtem o trabalho com a linguagem, ou o caso dos concretistas; a música popular
seja, aquelas que veicularam uma poesia brasileira mais ousada comparecia na pessoa
mais comprometida com a experimentação: de Caetano Veloso e de outros letristas/
NAVILOUCA, POLEM, CÓDIGO (que já foi poetas, alguns dos quais despontavam.
apresentada nesta coluna), ARTÉRIA, POESIA Há toda uma história envolvendo
EM GREVE, QORPO ESTRANHO, MUDA, essa nave muito doida, essa NAVILOUCA,
JORNAL DOBRABIL, ZERO À ESQUERDA, planejada por Torquato Neto e Waly Salomão
CASPA, AGRÁFICA, VIVA HÁ POESIA, I, (Sailormoon, como assinava na época),
com programação visual de Óscar Ramos e
2003

PÓLO CULTURAL/INVENTIVA, ALMANAK ‘80,

238
Luciano Figueiredo, começando pelo precoce já, no mundo da mitologia: um “mistério”

2001
falecimento de Torquato Neto e terminando de que se ouve falar. Projeto ambicioso de
com o grave problema de ordem financeira, Waly Salomão e Torquato Neto, teve formato
que impedia a liberação da revista, grande - 27 X 36 cm - e não só teve número
impossibilitando a sua circulação. único, como se concebeu e pretendeu ser
Lúcio de Abreu, proprietário da assim: NAVILOUCA; almanaque dos
pequena Ed. Gernasa, quase falida, aparece aqualoucos, primeira edição ÚNICA,
na página de rosto como “editor responsável” com distribuição pela capa, em que uma
(depoimento de Waly Salomão a mim, estrutura/malha geométrica de retângulos
por telefone, em 02 de julho de 1995). com medidas diversas alterna reproduções
Em verdade, a revista teve o início de sua de fotos dos participantes (poetas/artistas),
gestação, em fins de 1971. A idéia de Waly com os textos nada convencionais: nome da
e Torquato, o nome: NAVILOUCA, daquele. revista, subtítulo etc. O vermelho e laranja do
2002 Dada a questão financeira, W. Salomão título NAVILOUCA, todo em caixa alta (fundo
entrou em entendimento com Caetano vermelho/ texto laranja), lembram de longe
Veloso, que conseguiu apoio de Midani, da as capas da revista MANCHETE. Entre o rigor
Polygram; isto (os acertos) assegurou a sua e a algazarra (a Bauhaus e o trash proposital,
saída em 1974, podendo ter sido brinde de a contracultura), corporificou-se uma
publicação, uma antologia, uma nave doida,
Natal. Em 1975, melhor distribuição e pôde
louca-varrida, que marcou grande presença
ser encontrada em algumas livrarias de
na primeira metade dos anos ‘70, uma revista
grandes cidades do País.
que bagunçava o coreto, apresentando, de
Das revistas onde a experimentação
cara, as caras dos poetas, antes mesmo dos
teve voz e vez, NAVILOUCA acabou por se
poemas, uma revista que, embora tivesse
tornar a mais célebre, tendo sido também, de
afinidades, contrastava enormemente com o
toda uma leva de publicações dos anos ‘70, a
último número da revista INVENÇÃO. Porém,
primeira a ser concebida, tendo ingressado,
2003

o diálogo estava estabelecido: a questão de

239
uma visualidade (embora diversa) importante do que estava à margem da margem, luxo

2001
e a participação, como colaboradores, dos e lixo, macumba em palácio de cristal. Esse
três componentes iniciais/fundadores do espírito e essa gráfica comparecem, em
“Grupo Noigandres”: Augusto e Haroldo de parte, em publicações posteriores, ou seja,
Campos e Décio Pignatari, experimentadores NAVILOUCA foi uma espécie de matriz. Alguns
de um tempo anterior, que continuavam dos colaboradores comparecerão muitas
experimentando e jovens experimentadores vezes em muitas publicações coletivas que
(isto, sem falar nos artistas plásticos Hélio se seguiram e que também tiveram, como
Oiticica e Lygia Clark). Poderíamos até falar figuras admiradas, os poetas concretos.
num “Concretismo Pós-Tropicália”, onde sub Além de NAVILOUCA, no Rio de Janeiro,
e superjaz o riso oswaldiano. idealizada por não-cariocas, saiu, em 1974,
Com capas, externas e internas POLEM, uma publicação importante e bem
quadricrômicas e corpo com páginas mono aparentada com aquela. Desse mesmo ano é
2002 e bicrômicas, a hoje lendária NAVILOUCA a CÓDIGO nº 1, editada em Salvador-Bahia,
escancarou textos e imagens, numa estética revista que realizou a proeza de chegar ao
que não era bem a depois explicitada pelos número 12; ambas foram distribuídas já
poetas visuais que começaram a publicar a desde antes de a NAVILOUCA ser liberada. No
partir da primeira metade dos anos ‘70. O ano seguinte saem em São Paulo, ARTÉRIA
que nela comparece, além de experimental, e POESIA EM GREVE, das quais me ocuparei
dessacralizador por si só, recebeu um num futuro próximo.
tratamento gráfico, teve uma programação (28 de setembro de 2002)

que, propositadamente, dialogava com as


primeiras páginas de jornais sensacionalistas
e cartazes de divulgação de filmes.
NAVILOUCA foi um encontro de águas:
de um rigor geométrico a um informalismo
2003

aparentemente descuidado, do marginal e

240
BALALAICA e ARTÉRIA 4 (ARTERIV): e estudiosos do “grupo”, muito ligado às

2001
AS FITAS avançadas tecnologias, procurando estar
atualizado com equipamentos audiovisuais,
As pessoas que se empenharam, de entre o caseiro e o semi-profissional.
fins de 1974, mas principalmente a partir Grande era a seriedade com que
de 1975, no projeto ARTÉRIA, malgrado o Carlos Valero conduzia seus projetos,
fato de não constituírem propriamente um alguns dos quais eram veiculados como que
grupo, com coesão interna (mesmo que subterraneamente, numa época em que a
temporária), pois já se vivia um período repressão ainda estava à solta e que havia
pós-vanguarda, “pós-tudo”, mantiveram- perigo, mesmo para um trabalho tido como
se, com empreendimentos comuns por mais formalista e que atingia um número muito
seis ou sete anos, antes que houvesse uma limitado de pessoas.
dispersão do grupo inicial. Desde cedo se Dessa época (segunda metade dos
2002 colocou a questão da não-repetição, se anos ‘70) são alguns audiovisuais, como
não de poemas, pelo menos, dos projetos o que fez sobre a Revolução Russa (este
coletivos, como as revistas (Luiz Antônio audiovisual, excetuando-se o que preparou
de Figueiredo bateu-se por uma ARTÉRIA 2 para divulgação de ARTÉRIA 4, foi o único
que não fosse mero caderninho e, enfim, ela que eu vi na íntegra, de fato, pois certos
saiu, como já expus, feito sacola de poemas, procedimentos eram mantidos em segredo
uma quase caixa-de-surpresas). ou quase - eu percebia - mesmo para mim
O nível de exigência de si e dos que, embora amigo, entrava mais na área
outros era muito grande: tudo em nome do propriamente poética, apesar da formação
rigor. Então, de saída, ARTÉRIA se mostrou de historiador. A coisa era tão bem feita
mutante, metamorfoseante... Foi assim que que parecia profissional) com preocupação
veio a idéia de uma obra coletiva, que seria didática. Por outro lado, Carlos era um
uma fita cassette, engendrada a coisa por estudioso da obra de Eric Satie.
2003

Carlos Valero de Figueiredo, um dos poetas BALALAICA, cassette, reuniu peças de

241
muitos poetas: desde trabalhos já gravados de Estúdio OM e Nomuque Edições. Foram

2001
até - principalmente - peças sonorizadas feitas as gravações e as cópias em casa de
especialmente para a publicação: era a poesia Carlos Valero, situada em Vila Mariana, São
fortemente visual, mostrando a sua face Paulo, à Rua Madre Cabrini, 22. Carlos Valero
sonora; era a dimensão sonora da poesia, ainda fez uma fita MUSAS, onde tocavam
num momento em que ainda não era moda, e cantavam futuros integrantes dos TITÃS,
entre nós, discorrer sobre “poesia sonora”. inclusive Arnaldo Antunes.
Corria o ano de 1979 e já estava pronta e A segunda fita - ARTERIV - era ainda
parcialmente distribuída. Seu lançamento mais ousada pois, além de trazer também
“oficial”, porém, se deu em 08 de maio de uma audionovela de teor tétrico-erótico,
1980, na livraria Muro, no Rio de Janeiro (no redimensionava até poemas não-verbais,
convite consta: BALALAICA : o som da numa verdadeira façanha de transmutação
poesia). ou tradução intersemiótica, como colocou
2002 O que havia de mais ou menos Roman Jakobson. Todo um trabalho
novo, além de certos trabalhos serem experimental comparece, como o poema
surpreendentes, era o fato de ser uma fita “você eu”, de Tadeu Jungle, até simples
(revista) coletiva de poetas. No ano de 1980, oralizações, como a que fiz de um poema de
no final, foi lançado um estojo de papel, José Lino Grünewald.
com impressão em serigrafia, contendo um O lançamento foi algo à parte, com
caderno/índice cuidadosíssimo (em xerox) apresentação de um audiovisual produzido
que valia por uma revista, e uma fita cassette: por Carlos Valero, que já podia ser
era ARTERIV - ARTÉRIA 4 - tecnicamente considerado trabalho multimídia.
superior à primeira. Esse trabalho com as fitas teve grande
Ambas as fitas foram um importância, não que houvesse novidade em
empreendimento fundamentalmente de poeta gravar poema (em disco etc.), pois
Carlos Valero, com participação vária dos dentro, mas principalmente fora do Brasil,
2003

colaboradores; elas trazem as indicações esse procedimento era comum. Sua grande

242
importância reside em três pontos: 1º) o de como foi o caso do lançamento/happening

2001
evidenciar a dimensão sonora de poemas de ZERO À ESQUERDA (revista-caixa), em
(não só poemas) tidos, à primeira vista, maio de 1981.
como ilegíveis, posto que valorizavam até (05 de outubro de 2002)

em excesso, a visualidade; 2º) ter sido um


trabalho pioneiro no Brasil enquanto obra
realmente coletiva e 3º) ter mostrado a todos
quantos se interessavam em fazer obras
coletivas, que esse era mais um caminho, ZERO À ESQUERDA
uma possibilidade a mais (o vídeo coletivo,
outra e, mais recentemente o CD ROM, como Para nós da nomuque, edições,
o que o poeta André Vallias chegou a pensar essa revista marcou, praticamente o
em 1995). encerramento de toda uma atividade ligada
2002 Esses feitos - as fitas - quase sempre à edição de poesia sobre papel, pois seu
têm sido ignorados pelas pessoas que, em formato rompia praticamente com tudo o
época recente, têm-se interessado pela que até então se havia feito em termos de
chamada “poesia sonora” [a exemplo de publicação coletiva.
Philadelpho Menezes que, na introdução Em ZERO À ESQUERDA, que teve como
que fez a um livro por ele organizado, não idealizadores Omar Khouri e Paulo Miranda,
menciona as fitas como um feito precursor mais toda uma equipe de realização (pois,
que foi no Brasil: BALALAICA e ARTÉRIA 4, em grande parte os trabalhos foram por
trabalhos coletivos. P. Menezes (org.). Poesia nós impressos em serigrafia, técnica que
Sonora; poéticas experimentais da voz no aprendemos a executar), a liberdade dos
século XX. São Paulo, Educ, 1992]. colaboradores foi quase total, sendo que, em
As publicações da Nomuque Edições termos de formato, cada um fez o que bem
continuaram em sua metamorfose e o quis e o invólucro é que teve de se adequar
2003

aspecto multimídia chegou a se acentuar, aos trabalhos: ou seja, não se impôs aos

243
colaboradores o formato final e, no final de (1975), de Augusto de Campos e Julio Plaza.

2001
tudo, ainda apareceu o trabalho de Villari Foi difícil pensar publicações coletivas depois
Herrmann que, com a embalagem já pronta dessa, mas, no mesmo ano, já começamos
e não cabendo, teve que ser diminuído na a fazer projetos para quatro revistas, duas
guilhotina. das quais só sairiam nos anos ‘90.
A apresentação de ZERO À ESQUERDA, (12 de outubro de 2002)

a caixa-capa recebeu, por motivos de ordem


prática, uma grande etiqueta auto-adesiva:
fundo laranja, letras azuis, helvética caixa-
alta, a palavra ZERO, invertida a ordem dos
grafemas, para que o “o” (zero), ficasse ARTÉRIA . PARTE III
mesmo à esquerda: OREZ, idéia de Walter
Silveira. ARTÉRIA 5 e 6. Quando do
2002 A festa representada pelos trabalhos lançamento de ZERO À ESQUERDA, no
se prolongou no espetáculo multimídia primeiro semestre de 1981, pensou-se, por
(como se entendia, então: com a utilização um lado, que revistas do tipo convencional,
de vários meios/linguagens) em que se de virar página, já não teriam razão de
constituiu seu lançamento, na discoteca ser, mas, por outro, foram pensados vários
“Paulicéia Desvairada”, em 06 de maio de projetos, considerando um longo prazo
1981, em que a música popular e a erudita que, em verdade, ficou longuíssimo. Alguns
estiveram presentes, a dança, um som ficaram no papel e talvez até possam vir
ambiente preparado especialmente, um a ser concretizados; outros, porém, foram
vídeo que passava em dezoito monitores de descartados, como o da revista, projetada
TV e cerca de mil pessoas. por Zéluiz, que chegou a ser iniciada (reunião
A revista se constituía numa exposição de colaborações...), e que consistia de três
portátil, tendo como antecessoras, no Brasil, grandes folhas - cartazes - 96 X 66 cm, nas
2003

NOIGANDRES 4 (1958) e a Caixa Preta quais estariam impressos trabalhos vários,

244
com diagramação adequada no sentido de bem recentemente quando, em sua maior

2001
preservar a individualidade, ao mesmo tempo parte, foi doado.
em que o conjunto não destoaria formando, 3. Uma revista que teria o formato de 31 X 31
verdadeiramente um todo; a impressão cm, toda em serigrafia, a cores, encadernada
seria em offset. Hoje nós, os editores, não com espiral, podendo funcionar como objeto
teríamos problemas em aceitar patrocínio, porta-poemas (exposição-de-poemas-um-
mas, naquele momento, ninguém se dignou por-vez). Esta demorou quase dez anos
a procurá-lo, única forma de viabilizar o para ser impressa (mais de dez, do projeto
projeto. ao lançamento) e acabou sendo ARTÉRIA 6,
Os outros projetos, todos coletivos, lançada em abril de 1993.
foram os seguintes: 4. Uma revista que compreenderia trabalhos
1. Uma revista em que, primeiramente, o dos mais diferentes formatos, bem como
destinatário receberia um invólucro, e, aos papéis; em serigrafia, porém não excedendo
2002 poucos, os trabalhos, sendo que, por fim o ao tanho “oficício” ou aproximado (isso tudo
índice (relação de colaboradores/trabalhos, dava aos autores uma liberdade controlada).
indicações técnicas etc.). O projeto ficou Por outro lado, essa revista abrigaria
apenas no papel. trabalhos que, por um motivo ou outro não
2. Uma que seria a “maior revista do Brasil” coubessem no QUADRADÃO (ARTÉRIA 6)
(talvez recebesse, mesmo, esse nome), e, também, haveria o aproveita-mento das
formato 65 X 47 cm, em papel kraft, toda em sobras de papel. Esse projeto foi concluído
serigrafia, com poemas-cartazes a cores; a em 1991. Deu em ARTÉRIA 5 (FANTASMA),
peça, incômoda, seria até indesejada pelos lançada no MASP, com grande exposição dos
destinatários, não tendo como ser guardada. trabalhos editados ao longo de dezessete
Papel comprado (dinheiro que havia sobrado anos pela nomuque, edições (abril de
das vendas de ZERO À ESQUERDA), 1991). ARTÉRIA 5 (FANTASMA) constituiu-se
permaneceu apenas projeto. Incômoda ficou numa verdadeira exposição portátil, tal como
2003

a guarda do papel, esperando utilização até pretendeu ser NOIGANDRES 4 (de 1958,

245
dos poetas concretos daquela “fase heróica”, A nomuque estava se especializando

2001
com seus poemas-cartazes impressos em edições demoradíssimas, o que já havia
tipograficamente e capa, invólucro, com sido o caso de ARTÉRIA 5 (FANTASMA).
serigrafia de Hermelindo Fiaminghi). Nessa leva de revistas, das que acabaram
(19 de outubro de 2002) saindo, NAVILOUCA havia tido problemas,
atrasando; porém, tempo não tão extenso
(o número três de ORPHEU - revista do
Modernismo português - ficou apenas em
provas, que depois foram recuperdas, mas
ARTÉRIA . PARTE IV o número não saiu). Projetada inicialmente
para conter vinte ou vinte e dois poemas
Aqui, seria interessante deter-me um (um por folha, utilizando-se apenas uma das
pouco mais em ARTÉRIA 6, não apenas pelo faces, ficando a outra em branco), o tempo
2002 fato de nela predominar a visualidade, mas foi passando, o projeto se foi modificando
também pelo fato de ter sido (o que não e as páginas-poemas chegaram a mais de
lhe garantiria idoneidade poética caso não trinta. Como ZERO À ESQUERDA e ARTÉRIA
tivesse qualidades) a revista de mais longa 5, ARTÉRIA 6 teve como idealizadores Omar
gestação da história da Cultura Brasileira, Khouri e Paulo Miranda, mas contou com uma
que eu saiba. Se ARTÉRIA 5 teve nome equipe de realização onde estavam Sônia
duplo, a seguinte teria triplo: 31 X 31 Fontanezi, Walter Silveira, Zéluiz, Arnaldo
(QUADRADÃO) ARTÉRIA 6. Mais de dez Antunes, Júlio Mendonça e outros.
anos entre projeto e lançamente; quase A demora em sair foi tanta, que
dez anos para a impressão. Se a poesia alguns colaboradores até se esqueceram de
realmente aspira à eternidade e os poemas que eram colaboradores. Trabalhos inéditos
veiculados na publicação merecem mesmo o quando do envio, deixaram de sê-lo. Como
nome poema, o que serão esse míseros dez o número anterior, ARTÉRIA 6 foi totalmente
2003

anos, ou cerca de? impressa em serigrafia, em minha casa,

246
em condições as mais improvisadas, mas mas sempre atual no Brasil (aqui, parece,

2001
que eram o suficiente para que a coisa se os problemas se eternizam).
concretizasse. A demora deveu-se a vários De qualquer maneira, com pausas de,
fatores, exceto dinheiro, que é o que se às vezes, um ano, o trabalho prosseguiu e foi
pensaria em primeiro lugar (quase nunca concluído. Edgard Braga, com cujo trabalho
deixamos que a falta de recursos financeiros iniciamos a impressão da revista e o artista
fosse desculpa para a não-realização de plástico e grande serígrafo Omar Guedes,
projetos): desapareceram; também Paulo Leminski,
1. Transtornos por falta de espaço adequado com quem não chegamos a estabelecer
para a feitura dos trabalhos em serigrafia (a contato, mas conseguindo um seu trabalho,
secagem dos mesmos era um dos problemas em parceria com João Virmond Suplicy, em
enfrentados); 1991 (o autor de Caprichos e relaxos havia
2. uma certa dispersão do grupo (que nunca falecido em 1989) - pela primeira vez Leminski
2002 se configurou movimento) que se encontrava era publicado pela Nomuque. [Por ocasião
mais ou menos coeso até a feitura de ZERO do lançamento de ARTÉRIA 5 (FANTASMA),
À ESQUERDA; em 1991, no MASP, Erthos Albino de Souza,
3. um certo cansaço com a falta de perspectiva que se encontrava em São Paulo, referiu-
frente à conclusão de algo que parecia cada se, como que espantado, ao fato de nunca
vez mais interminável; havermos publicado Leminski. Na mesma
4. algumas dificuldades de ordem técnica ocasião, Glauco Mattoso reclamou pelo fato
desanimavam, já que certos resultados de não ter sido convidado para colaborar.
gráficos não satisfaziam; De nossa parte, nunca houve problemas
5. uma depressão - embora a conciência com relação a ele, que tanto admirávamos,
não fosse tão clara - uma angústia frente mas nenhum dos editores tinha intimidade o
ao desmoronamento das perspectivas de suficiente para solicitar a colaboração, o que
modificação mais globais da sociedade; acabou sendo feito. Glauco enviou trabalho,
2003

coisa superada, já, em outras paragens, que foi publicado em ARTÉRIA 6 e, em

247
seguida, forneceu mais um para o próximo tirar o maior proveito, resolvendo da

2001
número, que será (espero que se concretize) seguinte maneira: o índice traria todas as
em offset, um caderno tradicional, que está especificações, pela ordem de aparecimento
sendo preparado há anos. Pela primeira vez na dos trabalhos, com numeração de 1 a 35, só
nomuque, também o raro Ronaldo Azeredo, que as páginas não eram numeradas e, para
com um poema-objeto (com indicações para saber a autoria, o leitor teria de contar! Porém,
ser montado) “noite noite noite”, não inédito, a grande vantagem da solução imposta pelo
mas, assim mesmo, pouco conhecido]. problema, é a anonimização aparente do
Com trinta e cinco trabalhos de trinta material que comparece na revista - coletiva
e oito poetas (incluindo aí Safo de Lesbos, que é, a revista, não importaria, pelo menos
poeta da Antigüidade Grega, transcriada por num primeiro momento, saber quem seria
Haroldo de Campos), dispostos de maneira autor do quê.
tal a formar uma sintaxe interna ditada pela A capa já havia sido pensada desde
2002 configuração dos trabalhos: as analogias muito tempo por Paulo Miranda, que chegou a
determinando o arranjo: a seqüência foi algo fazer rascunhos, os quais foram aproveitados.
estudado e executado a várias mãos. Daí, por ocasião dos trabalhos de conclusão
Algo que pode causar incômodo à da revista, a capa foi reelaborada com
primeira vista, é o fato de os trabalhos não Arnaldo Antunes, utilizando um Macintosh.
terem as especificações, a começar pela Foram feitos testes de cores no computador;
autoria, na própria página e essa não era a porém, quando da impressão em serigrafia
primeira revista que fazia isto. Antes, entre - verde, azul e magenta - esta última causou
outras, MUDA e KATALOKI já haviam feito. péssima impressão, uma coisa escandalosa,
Acontece que, problemas de ordem técnica o que nos fez parar os trabalhos no décimo
impediram as indicações, pois, imprimir os exemplar. Só retomamos os trabalhos
dados no verso da página, poderia arruinar quando, com Sônia Fontanezi, olhando
o trabalho seguinte, já que se tratava de o já feito com luz natural, achamos uma
2003

serigrafia. A partir do problema, procuramos beleza. Sônia Fontanezi deu novo ânimo, o

248
que foi reiterado por Júlio Mendonça. Daí, Presidente Alves colaborou com soluções

2001
concluímos o trabalho de impressão. gráficas preciosas para a revista. O nome de
As demais tarefas (acabamento) foram Zéluiz só viria e vem a engrandecer toda e
feitas e a revista - finalmente! - ficou pronta qualquer publicação. Salve, salve Pantera!
em dezembro de 1992. Eram apenas cento (09 de novembro de 2002)

e oitenta exemplares. ARTÉRIA 5 havia


tido apenas cento e sessenta e o cassette
ARTÉRIA 4, cerca de cem. Não só pela fato
de ser edição artesanal, mas as próprias
dificuldades de distribuição faziam com
que não se sonhasse com edições de mil POESIA EM GREVE e QORPO ESTRANHO
exemplares ou mais.
ARTÉRIA 6 é uma publicação que POESIA EM GREVE (alusão a Mallarmé,
prima pela excelência na escolha do que nela o “poeta em greve”: uma homenagem,
2002
comparece e quase sempre pelos resultados certamente) em verdade, POESIAEM G,
em termos de impressão/configuração dos como consta da capa e página de rosto,
trabalhos. Rara não apenas por já surgir contingências de uma época: ainda se vivia
com tiragem reduzidíssima e por ter sido no Brasil a ditadura militar naquele 1975 e
feita artesanalmente, mas pela qualidade de certas palavras eram tabu. Daí o perigo e
fato que traz consigo e pela dificuldade de a camuflagem. Na quarta capa, espelhada
se encontrar quem se digne a editar uma REVE de G R E V E, que se pode ler E VER
revista/álbum/antologia verdadeiramente de / RÊVE (capa de autoria de Julio Plaza e
poesia visual (intersemiótica) de tal porte. Pedro Tavares de Lima). Os editores: Lenora
Em Tempo: Por um lapso de nossa parte, de Barros, Pedro Tavares de Lima e Régis
o nome de Zéluiz Valero Figueiredo não Rodrigues Bonvicino; projeto gráfico de Julio
aparece no rol dos realizadores de ARTÉRIA Plaza.
2003

6. Em verdade, o competentíssimo rapaz de Costuma-se dizer: trata-se do nº 0

249
de QORPO ESTRANHO. Forte a presença CORPO EXTRANHO. QORPO ESTRANHO

2001
de artistas plásticos, como o próprio Julio 1; revista de criação intersemiótica.
Plaza, mais Hermelindo Fiaminghi, Geraldo Editores: Julio Plaza, Pedro Tavares de
de Barros e Regina Silveira, artista que Lima e Régis Rodrigues Bonvicino. QORPO
sempre fez questão de enviar colaborações ESTRANHO 2; criação intersemiótica.
para as revistas, assim como Julio Plaza. O Editores: Julio Plaza e Régis Bonvicino.
Trio Noigandres, mais o quarto componente (Nesse ínterim saiu MUDA, que anunciou
Ronaldo Azeredo, com Edgard Braga (e o mudanças; o PÓLO CULURAL/INVENTIVA,
seu belíssimo “uivôo”) e José Paulo Paes. suplemento editado por Paulo Leminski,
Os jovens comparecem e destaque-se a lançou o manifesto-proposta “X poetas &
“Homenagem a George Segal”, de Lenora de uma geração possível”). CORPO EXTRANHO
Barros e encarte de Pedro Tavares de Lima. 3; revista semestral de criação (sem
Podemos concluir que POESIA EM GREVE especificação, talvez vista como limitadora
2002 realmente evoluiu para QORPO ESTRANHO, ou direcionadora). Coordenação editorial:
bem porque, tratava-se, em boa parte, da Julio Plaza e Régis Bonvicino, pois a nova
mesma equipe de realização. A mais “clean” revista formato pocket book, é bancada
das revistas de invenção, POESIA EM GREVE, pela Editora Alternativa, chegando quase a
chega a ser de uma assepsia irritante. QORPO duzentas páginas.
ESTRANHO, enquanto fatura gráfica, estará Dos três números que a revista teve,
mil passos à frente. o 1 foi o mais belo, um primor gráfico,
QORPO ESTRANHO teve três perfeita, não fora a interferência dos
números, sempre trazendo subtítulos, nos anúncios publicitários. De qualquer modo,
anos de 1976 (números 1 e 2) e 1982 (o os dois primeiros números estiveram mais
nº 3), transformando-se, mais no que diz em sintonia com alguma irreverência, o que
respeito ao formato. Foi diminuindo de não ocorre com o terceiro, apesar de trazer
tamanho, sempre com projeto gráfico de entre os seus colaboradores, a maior parte
2003

Julio Plaza. A de número 3 aparece como dos que haviam colaborado em revistas

250
dos anos ‘70. Aí, também a metalinguagem mudança de peles pelos penas

2001
comparece com mais força. Há algum tempo, de certos animais e aves
MUDA quer dizer
Julio Plaza vinha com um projeto de reunir
cavalos ou muares folgados
ARTÉRIA e QORPO ESTRANHO num único e colocados de distância a distância
elaborado volume, o que acabou por não se para substituir os animais cansados
concretizar. ao longo de longas jornadas
(16 de novembro de 2002) MUDA quer dizer
arranhar a lira da laringe
vozes da voz
planta que sai do viveiro

para se plantar além

Nem seria preciso reiterar a que


MUDA
veio a revista, o desdobramento acima dá
conta de suas pretensões, num momento
2002 MUDA: o feliz nome foi sugerido aos
decisivo de explicitação das duas principais
editores Antonio Risério e Régis Bonvicino,
vertentes da poesia jovem experimental,
pelo poeta Paulo Leminski. A revista, editada
que se encontravam mormente em São
em 1977, traz na primeira capa interna,
Paulo, seu centro de irradiação: uma linha
uma espécie de manifesto/palavras-de-
mais verbalista (que é a que predomina
ordem, desdobramento do vebete “muda”,
na revista) e a outra, que colocava a
constituindo-se poema, um ready-made
visualidade com um peso muito grande,
retificado:
como um elemento estrutural no poema.
Os editores e boa parte dos colaboradores
MUDA quer dizer
acharam por bem cortar um possível
um silêncio uma aventura
mudar mudar-se mudança cordão umbilical com a Poesia Concreta,
transportar a mobília tanto que, propositadamente, os mestres,
MUDA quer dizer que naturalmente participavam de outras
2003

251
revistas, não foram convidados, foram da poesia e traz um poeta que destoaria,

2001
deliberadamente excluídos, não implicando, não fora a sua inclusão no rol de estrelas de
o fato, em inimizade. NAVILOUCA: Chacal.
Por outro lado, o projeto gráfico, desta Além da arregimentação de poetas
vez, não ficou por conta do veterano Julio do maior número possível de unidades
Plaza, como havia sido em outras revistas da federação brasileira, MUDA, salvo em
em que Régis Bonvicino entrava como algumas páginas, para registrar alguma
editor, mas foi entregue a José Augusto diversidade, tentou ser anti-concreta ou, de
Nepomuceno, poeta sensível, possuidor de alguma forma, pós-concreta. De qualquer
know-how gráfico, mas que, como era um forma, marcou momento importante, como
caso de mudanças, tentou fazer algo que se já disse, de explicitação de diferenças e, o
distanciasse daquela limpeza gráfica, como que é muito importante, mostrou, como já
era encontrada em outras publicações - ficou se vinha percebendo, que, apesar da grande
2002 algo impessoal e inexpressivo, salvo apenas admiração que se tinha pela Poesia Concreta
pela excelência de alguns dos trabalhos que e a consciência do seu peso na Cultura
comparecem na revista. Brasileira, o que se estava fazendo era outra
A capa é de Marcelo Nepomuceno que, poesia, mesmo tendo, com aquela, afinidades.
autor também do logotipo MUDA, fez algo MUDA deixou claro que as diferenças poéticas
cursivo, manual, distanciando a publicação afastavam pessoas. Aparece, aí, um encarte
do “paulistismo” verificável em outras serigráfico de Walter Silveira (“entanto”) e,
revistas. sintomaticamente, Lenora de Barros não
Revista em que, além dos poemas, está entre os colaboradores.
encontramos alguns manifestos. Dá (23 de novembro de 2002)

especial destaque a Paulo Leminski e traz,


pela primeira vez impressos coloridos, os
“Babilaques” de Waly Salomão. Marca a
2003

entrada de Aldo Fortes no público mundo

252
ATLAS acabou alcançando um nível mais alto

2001
de sofisticação, o que foi favorecido pela
ATLAS (teve seu lançamento no MASP, utilização de um papel de qualidade - um
em 15 de dezembro de 1988). A revista cuchê fosco - pelas dimensões - 30,5 X 44,5
de maior formato dentre as revistas de cm - e pelo número de páginas: 144, somado
invenção, ATLAS (ALMANAK 88) pretendeu o fato de não sonegar cor ao que possuía
ser a “revista das revistas” e conseguiu o cor.
seu intento, ou seja, pretendeu reunir todo Mesmo sendo uma “revista-de-virar-
o pessoal, ou a maior parte dos poetas/ a-página”, cada poema apresentava a feição
artistas que haviam participado das revistas de um cartaz, dadas as referidas dimensões.
dos anos ‘70 e 80. Com número de trabalhos/páginas variando,
Projeto gráfico ambicioso, tendo como colaboraram: Arnaldo Antunes, Paulo
editores: Arnaldo Antunes, Beto Borges, Leminski, Júlio Mendonça, Mário Ramiro, León
2002 Gilberto José Jorge, João Bandeira, Sergio Ferrari, Gilberto José Jorge, Filipe Moreau,
Alli, Sergio Papi, Walter Silveira e Zaba Duda Machado, José Guilherme Rodrigues
Moreau, mais a colaboração de Moneya Ferreira, Walter Silveira (Walt B. Blackberry),
Ribeiro e Tadeu Jungle. A capa foi concebida Augusto de Campos, Edgard Braga, Régis
por Arnaldo Antunes, Beto Borges e Zaba Bonvicino, Leonardo Fróes, Brenda Novak,
Moreau. Cristina Fonseca, Jac Leirner, Tunga, Mônica
Conseguiu a sua realização, reunindo Bonvicino (Costa), Júlio Bressane, Sebastião
um elenco de fazer inveja a qualquer editor Uchoa Leite, Sergio Papi, Helena Kolody,
mais comprometido com a experimentação Alice Ruiz, José Lino Grünewald, Marcelo
em artes gráficas e poesia, tendo como Tápia, Beto Borges, Anna Muylaert, Lívio
suporte o papel. Teve patrocínio, o que Tragtenberg, Décio Pignatari, Paulo Miranda,
a viabilizou. Supera suas antecessoras Hélio Oiticica, Erthos Albino de Souza, Regina
ALMANAK 80 e KATALOKI, dada a excelência Silveira, André Vallias, José Agrippino de
2003

gráfica: das revistas em offset, foi a que Paula, Glauco Mattoso, Go, Nuno Ramos,

253
Haroldo de Campos, Fausto Fawcett, Omar inédito, o que era uma exigência (houve

2001
Khouri, João Bandeira, Antonio Cícero, falecido participando e falecido ausente).
José Simão, Luciano Figueiredo, Vitória A ausência mais flagrante dentre os vivos
Taborda, Zaba Moreau, Francisco Costa, foi a de Lenora de Barros, participante de
Marcelo Dolabela, Pedro Xisto, João Carlos outras publicações, desde 1975, e uma
de Carvalho, Sergio Alli, Sérgio Britto, Tadeu poeta verdadeiramente intersemiótica.
Jungle, Matinas Suzuki Jr., Noris Lisboa, Villari Herrmann e Zéluiz, raramente se
Alberto Marsicano, Fernando Zarif, Carlos interessaram em participar de publicações;
Rennó, Tastin Nühr, Carlos Ávila, André também, considere-se o fato de primarem
Toral, Fábio Moreira Leite, Ana Tatit, Alex pela produção pouca: não estão entre os
Cerveny, Waly Salomão, Luiz Antônio de colaboradores de ATLAS.
Figueiredo, Renato Maia, Maria Sofia Nunes (30 de novembro de 2002)

Camargo, Guto Lacaz, Luis Dolhnikoff, Gisa


2002 Bustamante, Maria Cardoso, Marta Nehring,
Nina Moraes, Renato de Cara, José Thomaz
Brum, Aldo Fortes, Carlos Matuck, Aguilar,
Laura Vinci e José Guilherme Rodrigues
Ferreira.
JORNAL DOBRÁBIL, REVISTA DEDO
Embora possa parecer excessiva,
MINGO e AGRÁFICA
foi em verdade, uma festa, um encontro
onde estiveram, não todos, mas boa parte
JORNAL DOBRABIL. Página
dos colaboradores de revitas anteriores,
datilografada numa Olivetti, como o
de NAVILOUCA, passando por CÓDIGO e
ARTÉRIA, até o KATALOKI. Algumas ausências trabalho de ourivesaria, operando como que
um milagre com as letras “o”, por Glauco
justificam-se, ou pelo fato de os poetas não
Mattoso, pseudônimo de Pedro José Ferreira
terem enviado colaboração a tempo, ou por
da Silva - Pedro o Podre (São Paulo, 1951-),
2003

não possuírem, naquele momento, material

254
de 1977 a 1981. Folhas soltas reproduzidas na Antologia do Poema Pornô, organizada

2001
em xerox, no Rio de Janeiro e em São Paulo por Cairo Trindade e Eduardo Kac.
(a maior parte). Depois, tais folhas foram REVISTA DEDO MINGO. São Paulo,
reunidas em volume, com programação Ed. Glauco Mattoso, 1982 (dois fascículos).
visual de Julio Plaza, bela edição em papel Espécie de extensão do JORNAL DOBRABIL.
cuchê (São Paulo, Ed. do Autor, 1981), com AGRÁFICA: Álbum contendo poemas-
tiragem de 500 exemplares. cartazes onde o gráfico-gestual é a marca
O poeta, escritor, pesquisador, letrista dominante. Trabalhos todos impressos
e designer Glauco Mattoso, é presença com a técnica da serigrafia, nas oficinas
singular no panorama das “Letras” do da Entretempo, tendo à frente o grande
Brasil a partir dos anos ‘70, pertencendo serígrafo e artista plástico Omar Guedes
a uma linhagem de escritores-poetas que Abigalil, então, um dos melhores, senão, o
seguem o veio erótico-escatológico, porém, melhor serígrafo do Brasil.
2002 indo além disso, mum trabalho pensado, Idealizada por Gilberto José Jorge,
elaboradíssimo, onde inclusive a questão da AGRÁFICA colocou como exigência aos
autoria é posta em questão, contribuindo convidados a participarem da publicação, a
para isto, desde o uso de pseudônimo, até dimensão caligráfica da fatura. Juntou poetas
citações, que tanto podem ser como não ser e artistas plásticos/gráficos; a bela capa é
de fato citações, comparecendo com ou sem de Walter Silveira (São Paulo, Entretempo
créditos. Edições Serigráficas, 1987). Entre outros
Na época em que surgiram os ditos importantes trabalhos poéticos realizados
“poetas pornô”, Glauco Mattoso foi elevado serigraficamente por Omar Guedes (falecido
à condição de guru, porém era bem melhor prematuramente em 1989), temos o álbum
do que eles, sempre fez um trabalho mais de poemas de Augusto de Campos EX-
elaborado, preocupado com a linguagem e POEMAS.
mais contundente. Para certificar-se disto (07 de dezembro de 2002)
2003

basta ver o que comparece de outros e dele

255
SURPRESA, PÓLO CULTURAL/ principalmente do grupo experimental de

2001
INVENTIVA e VIVA HÁ POESIA uma linha mais verbalista.
O acesso à mídia em capitais fora do
SURPRESA, de 1978, Ed. dos eixo Rio-São Paulo é coisa mais simples. Em
Autores, é de São Paulo e se constitui num São Paulo, por exemplo, há dificuldades quase
envelope, trazendo um caderno e folhas que intransponíveis, se não se conta com
soltas, com textos teóricos - espécie de “apoios” de dentro da própria mídia. Por outro
manifestos - e poemas, dos makers: lado, acontecer no Brasil, obter notoriedade
Júlio Mendonça, Maurizio Prati e Lívio em termos nacionais, só ocorre se se acontece
Tragtenberg. na mídia do eixo Rio-São Paulo. Felizmente
Houve lançamento no “Café sabemos que há grande diferença entre o
Maravilha”, Bairro do Paraíso, São Paulo, notório e o notável. O trabalho de Leminski, aí,
em que compareci, com Augusto de foi, de qualquer maneira, muito importante.
2002 Campos e mais duas ou três pessoas, além VIVA HÁ POESIA foi uma coletânea de
dos autores. Júlio Mendonça mostrou ser poemas, ensaios e até manifestos e palavras-
um dos melhores poetas intersemióticos de-ordem, publicada em 1979, em São
do Brasil, Lívio um músico importante. Paulo, sendo editor-financiador o poeta Villari
Maurizio, fina sensibilidade, de raro em Herrmann, com projeto gráfico de Julio Plaza.
raro aparece com algum poema. Reunindo poetas e artistas plásticos,
apresentava-se sob a forma de jornal. Por
PÓLO CULTURAL/INVENTIVA. sinal, foi impressa nas antigas oficinas do
Suplemento editado em Curitiba (PR), tendo DIÁRIO DE SÃO PAULO. Diagramação muito
à frente o poeta e agitador cultural Paulo interessante, mais tudo o que os trabalhos
Leminski como editor, mentor. Aconteceu possibilitavam, já que muitos possuíam forte
nos anos ‘70, em sua segunda metade. carga de visualidade ou tinham aí a sua razão
Constituiu-se num importante veículo de ser.
2003

da poesia e metalinguagem, não só, mas Como muitas outras publicações, foi

256
muito mal distribuída VIVA HÁ POESIA. Por estudantes da Letras e ECA-USP, mas não

2001
outro lado, foi bastante grande a tiragem. só.
A destacar, trabalhos que têm como crédito Em grande parte, sua importância
“anônimo século XX”, mas que são de reside no fato de fazer circular no campus
autoria de Carlos Valero, que hoje podem uspiano um tipo de informação que ali não
ser encarados como verdadeiros projetos era comum - entre anárquica e construtivista
para serem feitos, utilizando computação - já que um certo tipo de sociologismo
gráfica. dominava a área.
(14 de dezembro de 2002) I: foi uma revista publicada em Belo
Horizonte (MG), possibilitada pelo Conselho
Estadual de Cultura, tendo como editor/
organizador o poeta Carlos Ávila. Essa
publicação reúne quase duas dezenas de
2002 colaboradores, alguns dos quais presentes
CASPA, I, ALMANAQUE… BRIC A BRAC em outras revistas (excetuando-se o “Trio
e PARANGA HUM Noigandres”), como CÓDIGO, QORPO
ESTRANHO, MUDA etc. e que mantém o
CASPA: anos ‘70 CAEL/CALC -USP, caráter de antologia coletiva. É de 1977.
durou três números [teve, também um nº ALMANAQUE BIOTÔNICO
0]. Tendo à frente Walter Siveira, [Cristina VITALIDADE 1 e 2, Rio de Janeiro, Nuvem
Fonseca, Mônica Costa] Tadeu Jungle e Dulce Cigana, 1976-77. Publicação ligada ao
Horta. Formato pequeno, as duas primeiras pessoal da “poesia marginal”, é um festival
em papel kraft e a última num sulfite. de imagens do mundo da visualidade, que
Caspa publicou poemas, outros tipos chega a predominar nos dois números,
de texto experimental e entrevistas, como, numa configuração algo anárquica. Tem
por exemplo, com Paulo Leminski e Antonio um parentesco óbvio com a gráfica da
2003

Risério. Circulou principalmente entre NAVILOUCA, porém não o seu nível em termos

257
de colaborações, tampouco possui a magia. Um pouco de contracultura,

2001
Seu modo como que descuidado, inclusive construtivismo e establishment, deram o
o “informalismo” do logotipo da editora, colorido a essa publicação, que chegou a
chegou a fascinar editores mais formalistas ser bem distribuída, tendo sido encontrada
radicados em São Paulo, preocupados em em livrarias de grandes cidades. Pode voltar
evitar um certo geometrismo asséptico (pelo a ser editada (foi o que sugeriu a mim,
menos sob o ponto de vista de pessoas que recentemente, Antonio Risério).
ansiavam pelo diferente). PARANGA HUM. Teve, parece-me,
BRIC A BRAC. Revista em formato um número único. Vem datada “Verão de
grande, vinda de Brasília, editada de 1985- oitenta&um”, sob a responsabilidade editorial/
86 a 1991, tendo durado seis números, de arte de André Luyz e Antonio Risério. Papel
organizada/editada por Luís Turiba e sulfite, sendo a capa branca com impressão
outros. vermelha e o miolo, papel amarelo-claro
2002 Apesar de possuir um certo ecletismo, com impressão vermelha. Visualmente
a revista, a partir do segundo número, foi-se meio confusa, meio festeira, insere-se na
aprimorando graficamente e enriquecendo- categoria de publicações que se rebelevam
se com colaborações de peso, como as dos contra uma certa assepsia verificável em
irmãos Campos, e de poesia experimental publicações paulistas do mesmo gênero. De
dos mais jovens, a exemplo de Arnaldo qualquer modo, arejada.
Antunes, Roland de Azeredo Campos (físico (21 de dezembro de 2002)
e poeta) e outros.
Trouxe poesia, prosa, metalinguagem e
matéria do tipo jornalístico, como entrevistas.
Deve ter encerrado suas atividades por
dificuldades em obter patrocínio, presente
em todos os números.
2003

258
2002 ad de se esperar, neste ano em que os eventos

2001
excederam.
O ano de 2002, para mim, pode ser 3. Eleições: Lula no poder. Lula foi
sintetizado em alguns pontos, de vivência, eleito presidente do Brasil. Era o melhor e
por um lado, de observação, por outro. o único que possuía – de fato – propostas.
1. Vulnerabilidade: a morte de minha Propostas do seu partido – o PT – diga-
prima Ivete Curi mostrou-me, entre outras se. Um ex-operário é sempre um ex-. Um
coisas, o como vamos ficando sozinhos, sem operário no poder é um poderoso e não
interlocutores e o quanto somos vulneráveis! um operário que se encontra no poder. E
Sim, vulneráveis. Até então, embora tivesse Lula é político profissional há mais de duas
sofrido imensamente com muitas mortes, a décadas. Todos sabemos que não poderá
de Ivete inaugurou as mortes na geração dos fazer grandes coisas, dadas as conjunturas
netos de meus avós Rachid (o Chico Turco) interna (jogo entre forças conservadoras e
2002 e Lula. Não se registravam perdas nessa progressistas) e externa (Globalização etc).
geração da família, sequer de criancinhas – Concessões já começaram a ser feitas – não
coisa tão comum em outros tempos – e isto sendo assim, não haverá possibilidade de
me fazia crer que éramos (nós, os netos) governar. Porém, o que se espera é que
imortais deste lado de cá. Vulneráveis somos, haja sensível aprimoramento no sistema de
embora não o aceitemos. distribuição dos dinheiros. Mais empregos.
2. Copa do Mundo: para essa Copa do Melhor atendimento nas áreas de Saúde
Mundo, cheguei a antecipar, para alunos da e Educação… para todos! Resolução do
FAAP, que o Brasil estaria jogando na final problema agrário. Auguri!
(“Vejo o Brasil jogando na final”). Mas, o que 4. Gilberto Gil ministro. É e não é uma
tivemos de espantoso foi que o pior time boa. Ele não é um artista médio. Ele está
do mundo se metamorfosou no melhor e muito acima de qualquer média. Talentoso,
faturou a copa. Brasil pentacampeão! A festa inteligente, belo, finíssimo: um príncipe na
2003

da vitória não foi tão expressiva como era terra dos homens! Negro. Dado o fato de ser

259
um afro-brasileiro, Gil não pode e não pôde uma aula, mas um curso inteiro, como disse

2001
dizer não ao convite, principalmente porque um colega professor. O ABAPORU de Tarsila
será mais um representante afro a ocupar do Amaral está lá. Menções devem ser feitas
cargo de destaque no Governo Federal. É também à exposição do MAM: “Tarsila e Di
vergonhoso o pequeno número de negros e Cavalcanti” e a da “Coleção Fadel”, no Centro
mulheres, no Brasil, ocupando altos cargos Cultural Banco do Brasil. Lindos Modernismos
na vida política. Que Gil faça pela Cultura o do Brasil!
que fez em particular pela MPB: um de seus 8. Mundo de mentiras. Estamos
maiores criadores, em qualquer tempo. submersos num mundo de mentiras que,
5. Pobre País Rico. A miséria visível nas obviamente, dada a insistência acabam
ruas de São Paulo me entristece e incomoda. passando por verdades. O atual governo dos
Quando é que nossa sociedade vai tomar EUA é um dos maiores (ou melhor, o maior)
vergonha na cara? responsáveis por este mar de engodo no qual
2002 6. Mudança. Mudei de casa nos afogamos. Mas a mentira promocional
(apartamento, São Paulo) depois de vinte não é exclusividade da terra de Tio Sam.
e quatro anos: da Rua Dona Veridiana para Como já diziam os gregos da Antigüidade:
a Piauí. Setecentos metros separando uma O TEMPO, SOZINHO, SE ENCARREGA DE
da outra. Numa das aulas que ministro no REVELAR TODA A VERDADE. Haja paciência,
IA-UNESP, perguntado por um aluno sobre Santo Deus!
a casa velha, emocionei-me e tive de me 9. Fábio Tardin poeta. Muito boa,
retirar de sala. Em trinta e dois anos como pareceu-me, ao longo do ano, a produção
professor, chorei pela primeira vez em sala. poética de Fábio Tardin, com qualidades
Porém, já me adaptei à nova situação. evidentes, principalmente no que diz respeito
7. Belíssima a exposição que se à economia de meios. Já deve ter pronto um
encontra na FAAP: DA ANTROPOFAGIA A livro inteiro que, espero, venha a publicar
BRASÍLIA, que aconteceu anteriormente na logo.
2003

Espanha. Uma surpresa atrás da outra. Não 10. O direito ao bem-estar-no-mundo

260
é coisa que precisa ser observada e que

2001
depende do esforço da sociedade como um
todo (senão, sempre haverá uma maioria
de mal-viventes). NINGUÉM MERECE VIVER
MAL. Sociedade desenvolvida, evoluída é
aquela que não permite o viver-mal entre
os seus componentes. Possui mecanismos
de funcionamento que não deixam que isso
venha a acontecer. Se não se pode garantir
a felicidade, que é uma questão de vocação
de cada um, que cada um possa dispor das
condições para uma existência digna. Que
todos possam ter as condições para um
2002 bem-viver!
Um feliz 2003 para todos!
(28 de dezembro de 2002)
2003

261
2003
Muito embora tenha veiculado mais

2002
metalinguagem produzida na Universidade,
essa, às vezes, tinha alguma ousadia. Trouxe,
também, trabalhos de criação, destacando-
se algumas faturas intersemióticas (poemas
visuais).
Do zero, em meados dos anos ‘70, ao
seis, em 1981, primeiro semestre, DeSignos
foi publicada mais pela força que lhe davam
Samira Chalhub e Maria Rosa Duarte de
Oliveira. Teve como programadores gráficos
Marcelo Nepomuceno, Omar Khouri e Julio
Plaza.
2003 ATRAVÉS foi uma publicação da
Livraria Duas Cidades, na segunda metade
dos anos ‘70 e que chegou ao número 3,
tendo em seu conselho editorial Bóris
Schnaiderman, Décio Pignatari, Leyla
DeSignos, ATRAVÉS e tantas
Perrone-Moisés e Lucrécia D’Alessio Ferrara,
outras revistas
com programação visual de Julio Plaza.
Apesar de ser editada por uma
DeSignos: Foi uma publicação do
empresa (de pequeno porte), a revista
Departamento de Arte da PUC São Paulo,
apresentou bastante abertura em termos de
que teve seu número 0 (ao qual não tive
material de colaboração - metalinguagem e
acesso) e, do 1, chegou ao 6, assumindo,
poemas. Porém, nem de longe tinha o sabor
neste último, o formato da ATRAVÉS, edição
de irreverência saudável das publicações
2004

da Duas Cidades.

263
bancadas total ou parcialmente por poetas. poderão ganhar relevo e até protagonizar a

2002
Nem Julio Plaza com seu know-how em História. Sem me prender a detalhes, citaria:
matéria gráfica pôde fazer muita coisa. Mas JOSÉ (Ed. Fontana), ESCRITA (como a
a revista (formato livro/brochura) chegou primeira, mais institucional, embora mais
a publicar muita coisa importante, como o eclética e menos rigorosa), POETAÇÃO (da
texto “A ilusão da contigüidade” (nº 1) e FAU-USP, circulou no meio universitário),
“Teleros” (nº 3), de Décio Pignatari. ANIMA, MALASARTES, GAM, A PARTE
Depois, o nome ATRAVÉS foi passado DO FOGO, QUAC!, GANG (esta, dos poetas
à Livraria Martins Fontes Editora, que fez um pornô, do Rio de Janeiro, tendo à frente Cairo
generoso e único nº 1 - janeiro de 1983 - Trindade e Eduardo Kac), ON/OFF e LEI
, com o mesmo conselho editorial, sendo o SECA (EN-CARTE) pubicações de artistas
projeto gráfico de Alexandre Martins Fontes plásticos cujas obras possuíam forte carga
e Alexandre B. Moreira. conceitual, daí a grande afinidade com os
2003 Tantas outras revistas poderiam ser poetas que, por sua vez, eram intersemióticos
citadas, tendo sido editadas nos anos 70 e nos e que abriram suas revistas para artistas
80, algumas mais, outras menos arejadas; dessa estirpe, ESCRACHO (poetas pornô),
algumas feitas na raça, outras tendo uma ARJUNA, NICOLAU, ÍMÃ, POESIA LIVRE,
editora/empresa na retaguarda; umas quase K’AN e, talvez, muitas outras.
que totalmente teóricas, com pouca abertura (04 de janeiro de 2003)

para a criação propriamente; às vezes, mais


Artes Plásticas do que Poesia, mas com
abertura para esta. Porém, considerando
o objeto deste trabalho [minha tese de
Doputorado], sua relevância não chega a UM BALANÇO DAS REVISTAS
ser considerável, mas fica aí o registro para
estudos futuros em que, dependendo do As revistas cumpriram um
2004

enfoque que se queira dar, tais publicações importantíssimo papel, nos anos ‘70 e

264
‘80, no trânsito da informação poética no áreas, mas principalmente das chamadas

2002
Brasil, da informação mais “quente”, da “Artes Plásticas”, porém, sem excluir os
poesia mais empenhada com o novo, com músicos e mesmo cientistas, como alguns
a experimentação. Depois, esse papel físicos! Agora, alguém poderia dizer que isto
diminuiu, o que não chega a tirar a razão de não constitui novidade em publicações desse
existir de certas publicações que persistiram tipo e eu diria que realmente: na história de
e persistem. nosso Modernismo, isso é observável desde
Essas revistas, assim como as edições KLAXON (1922-23), entre outras, sendo
autônomas de poemas, possibilitaram a algo por demais notório em INVENÇÃO
divulgação, mesmo que entre um pequeno (anos ‘60). Porém, no caso das revistas que
público de aficionados, de novos valores, brotaram a partir dos anos ‘70, mais uma
alguns dos quais, com o passar do tempo, vez se evidenciou o caráter intersemiótico do
reiteraram a excelência de seus primeiros fazer artístico, agora, com uma muito maior
2003 trabalhos ou se mostraram melhores que consciência disso, que veio se acentuando
antes (alguns poucos desistiram, sentindo- no extenso processo chamado Modernismo
se menos poetas do que se julgavam e seus desdobramentos pós, na segunda
anteriormente, ou, simplesmente optaram metade do presente século [XX].
por outra “linha de produção”). Além disso, as revistas se nos
As primeiras revistas do período, apresentam como que em bloco: não seria
incentivaram o aparecimento de outras, NAVILOUCA, CÓDICO, ARTÉRIA, QORPO
assim como, veiculando uma produção ESTRANHO, mas, simplesmente, AS
poética instigadora, estimulavam novos REVISTAS! No mais, aquela sintaxe interna
valores. Embora em outras ocasiões a coisa ditada pelos trabalhos, lhes dá um toque
fosse possível, nas revistas, mesmo naquelas singular.
em que, em se tratando de POESIA, o visual As revistas, de qualquer maneira,
não era colocado como primordial, houve guardam, ou mais precisamente, preservam
2004

felizes encontros com makers de diferentes toda uma produção que acabou por se

265
restringir a elas e que, de qualquer maneira, as edições autônomas de poemas, para que

2002
estimulará, assim como surpreenderá futuros não corramos o risco de, em pleno final do
pesquisadores. segundo milênio depois de Cristo, contarmos
Enfim, as revistas cumpriram, para com referências a obras, sem que possamos
toda uma geração de fazedores, um papel encontrá-las para examiná-las; penso
de primordial importância, assim como em edições reduzidíssimas de poemas de
outras revistas cumprirão relevante papel Ronaldo Azeredo (concreto histórico), de
para outras gerações (revistas em vídeo, CD Paulo Miranda, de Carlos Valero, de Zéluiz e
ROM e até utilizando o suporte papel. Por que de outros tantos, que operam nesse universo
não?). O coletivo, em termos de veiculação, do já raro pela qualidade que traz, tornando-
empresta uma grande força, o que nem se ainda mais raro, pelas diminutas tiragens.
sempre ocorre quando da publicação de um De qualquer modo, uma desafio para críticos
trabalho autonomamente, ou de livro de e historiadores.
2003 autor único. AS EDIÇÕES AUTÔNOMAS DE
No mais, devo reiterar o que, de POEMAS. Em verdade, não foram apenas as
alguma forma já deve ter ficado claro acima: revistas as responsáveis pela divulgação de
as R E V I S T A S são, de qualquer maneira, uma certa poesia, mas também, as edições
as principais fontes para o estudo de uma autônomas de poemas. Variando de 10, 22,
certa poesia, na recente história brasileira. a 1000 exemplares, tais edições acabavam
Formam, em seu conjunto, o principal banco circulando, como as revistas, num meio
de dados estéticos de todo um pessoal que muito restrito, de pessoas que estavam
começou a operar poeticamente no Brasil enfronhadas nesse mundo que compreendia,
a partir da primeira metade dos anos ‘70 em sua maioria, aqueles comprometidos -
e daí para diante. Necessário estudá-las; ainda que temporariamente - com certo tipo
necessário preservar esse material para de fazer.
futuros pesquisadores. Quanto a essa Deve ficar claro, também, que essas
2004

última advertência, é também válida para edições autônomas de poemas eram

266
bastante comuns, não se restringindo aos como problemas, o que diríamos das revistas

2002
poetas da vertente por mim estudada. Os não-acadêmicas e dos poemas em edições
poetas da chamada “poesia marginal”, autônomas? Enfim, editar autonomamente
tinham isso como uma prática “normal”, da poemas, era e é prática corrente, que, como
mesma forma que elaboravam e imprimiam, as revistas, deixa a obra no estágio do “por
no geral precariamente (essa foi até uma enquanto”, aguardando uma edição em
de suas características) seus livrinhos moldes tais, que possa vir a assegurar sua
(que eram, geralmente de fomato muito preservação, assim como permitir o acesso
pequeno). Só que, em alguns casos, as a um número maior de pessoas.
tiragens e edições sucessivas chegam a (11 de janeiro de 2003)

espantar, como no caso de Nicolas Behr que


teve livro que ultrapassou a casa dos quinze
mil exemplares, um espanto para um meio,
2003 como o brasileiro, onde as tiragens de livros
de poemas, mesmo daquelas celebridades,
figuras já históricas, não ultrapassam a casa
TARSILA: UM POUCO MAIS – PARTE I
dos três mil exemplares. Isto, os poetas
“marginais” conseguiram, um público muito
Tarsila do Amaral (1886-1973) deixou
maior para a poesia, a que faziam.
gravada, em cerca de uma década, trajetória
Até para fins de armazenamento, os
das mais importantes dentro do desenho e
poemas veiculados autonomamente são
pintura brasileiros. Em verdade, menos de
problemáticos, pois requerem cuidados
uma década, que começaria em 1922-23 e
especiais. Com aquelas exceções dos que
terminaria em 1929. Esta data, emblemática
colecionam, ou mesmo dos próprios autores,
para o Brasil e para o mundo. Para Tarsila
que guardam com cuidado, poucos se dão
também: não só marca a grande crise
ao trabalho de preservar tais peças.
financeiro-econômica que grassou o mundo
2004

Se as revistas já se apresentavam

267
a partir do crash da Bolsa de Valores de dinheiro que milionários brasileiros não

2002
Nova York, mas a derrocada do setor cafeeiro quiseram despender - e tudo indica que não
paulista/brasileiro. haverá mais chance de reavermos a obra,
Tarsila e a travessia do deserto: de fundamental para a compreensão de nosso
1930 até à morte, em janeiro de 1973, um Modernismo, que se encontra integrada
ano depois do festejado cinqüentenário da ao acervo do MALBA, Coleção Costantini,
Semana de Arte Moderna, da qual ela nem Buenos Aires).
participou, mas, sendo uma importante Consta que a obra foi feita para
modernista do primeiro momento, tomou presentear Oswald de Andrade - seu mais
parte - mesmo em cadeira-de-rodas - das famoso marido - pelo aniversário. A partir
comemorações. Uma que outra obra é sempre disto, teria inspirado o movimento da
evocada depois de 1929 - OPERÁRIOS (1933), Antropofagia, cujo manifesto (Manifesto
por exemplo - mas nada se compara à sua Antropófago) saiu publicado em maio de
2003 produção dos anos 20. Parece que, de par 1928), na REVISTA DE ANTROPOFAGIA
com a perda do dinheiro e, gradativamente, 1. Inaugura Tarsila, também, sua fase
da beleza, Tarsila perdeu o ímpeto criativo, antropofágica - antropófaga que já era,
sem nunca ter abandonado a arte: prática desde que que ingeriu/digeriu a lição cubista
artística e exercício crítico… que norteou sua leitura do país, na fase que
Bem, em 1928 (11 de janeiro), levou o nome de Pau-Brasil. Também fase
Tarsila pintou aquele que seria o quadro de Oswald, que escreveu o brasílico-não-
mais famoso da Arte Moderna brasileira: nacionalista Manifesto da Poesia Pau-Brasil,
ABAPORU (= homem que come, em em 1924 e que inaugura a re-descoberta do
tupi). Trata-se de uma pintura não muito Brasil pelos brasileiros do Modernismo.
grande: 85 X 73 cm, óleo sobre tela e que Porém, A NEGRA, de 1923, pintado em
hoje faz parte de coleção na Argentina (foi Paris, antecipava aspectos da Antropofagia,
arrematada num leilão, em Nova York, por como A CAIPIRINHA, do mesmo ano, já
2004

cerca de um milhão e trezentos mil dólares, dava o tom Pau-Brasil de geometrização

268
via Cubismo, mas como que retornando aos Cendrars acompanhando e cujo documento-

2002
conselhos de Paul Cézanne, no que respeita marco é o já mencionado MANIFESTO
à redução das formas a cones, cilindros, DA POESIA PAU-BRASIL, de Oswald de
esferas. Tarsila volta os olhos-cérebro para a Andrade (“A língua sem arcaísmos, sem
fonte. Na questão do Cubismo, por exemplo, erudição. Natural e neológica. A contribuição
penso que Tarsila fez até o caminho inverso: milionária de todos os erros. Como falamos.
do Cubismo, chegou até Cézanne, em sua Como somos. “. E isto pode ser passado
geometrização/simplificação de formas, na tranqüilamente para o âmbito da pintura…).
dita fase Pau-Brasil (numa de suas voltas É de Tarsila a capa do livro do suíço-francês,
da França, completando tardiamente sua do mesmo ano de 1924 (Paris, Au Sans
formação de pintora, com mestres em Paris, Pareil): Feuilles de route . I. le Formose:
ligados ao Cubismo, disse que a mencionada magnífico desenho de A NEGRA.
escola era uma espécie de exercício militar, Na fase que tem início a partir de
2003 pelo qual todo artista deveria passar). Não 1928, encontramos Tarsila com alguma
repetiu o Cubismo dos mestres. Antes, influência da Metafísica/Surrealismo (sem
digeriu a lição e desenvolveu uma obra os exageros deste), mas tão melhor que a
com um considerável grau de originalidade, produção pictórica do Surrealismo (salvo
como apregoaria mais tarde, no famoso uma ou outra obra dessa escola), dada a
MANIFESTO ANTROPÓFAGO, Oswald de parcimônia na utilização de recursos gráficos
Andrade: Só me interessa o que não é e pictóricos. É antes a coisa do onírico que
meu. Lei do homem. Lei do Antropófago. o do malabarismo/virtuosismo e metáforas
Tupy or not Tupy: that’s the question. retumbantes de alguns representantes da
Pau-Brasil é fase resultante da re- Escola de Breton. Veja-se o espantoso O
descoberta do Brasil, cujo fato motivador SAPO, 1928, coleção do MAB-FAAP: sapo
maior foram: viagens ao Rio de Janeiro/ solitário sob um arco: claridade; sobre o arco
carnaval e a viagem famosa a Minas Gerais um céu escuro carregado; cactus com base
2004

- às cidades históricas - 1924, com Blaise na pedra do cometimento arquitetônico que

269
lembra os arcos romanos da arquitetura da Europa que ela freqüentava (era detentora,

2002
metafísica de De Chirico. junto com Oswald de Andrade, de um dos
Como Tarsila foi grande naquilo em melhores trabalhos da melhor fase de Giorgio
que foi grande! Os anos 20: tudo se resume De Chirico - ENIGMA DE UM DIA, 1914,
praticamente, como já disseram alguns hoje parte integrante do acervo do MAC-
estudiosos, aos anos 20. Para Oswald, USP - e, em Paris, teve conhecimento da
também, em grande parte. origem e desenvolvimento do Surrealismo,
(18 de janeiro de 2003) juntamente com a teoria que o motivou -
Freud por detrás).
Mas Tarsila é de uma economia de meios
admirável; parcimoniosa quanto à utilização
de recursos. No ABAPORU, predomina a
forma cilíndrica, seguida da esférica e da
TARSILA: UM POUCO MAIS – PARTE II cônica, que é insinuada. Sol, céu, chão.
2003
figura humana e cactus. As formas que
Mas, voltemos ao ABAPORU, quadro definem o humano/humanóide não diferem
que já voltou pelo menos três vezes ao Brasil essencialmente das que definem o vegetal.
para participar de exposições - agora, para a Cores: amarelo, laranja, azul, verde o que,
exposição DA ANTROPOFAGIA A BRASÍLIA, inevitavelmente remete ao Brasil, às cores
na FAAP - 1ª dez. 2002 a 2 de março de convencionais do nosso País. Uma leitura,
2003). O quadro mais famoso de nossa um retrato do Brasil, diria. Uma figura de
pintura moderna (e Tarsila muito contribuiu cabeça mínima, pé e mão direitos enormes,
para a formação de uma “visualidade encontra-se sentada e é como que abordada
brasílica”), ABAPORU lembra, dada a sua por uma câmera/olho em contre-plongée.
atmosfera estranha e onírica, a Pintura Daí, deformações decorrentes e a cabeça
Metafísica e o Surrealismo, informações minúscula, que, apoiada no braço esquerdo,
que Tarsila possuía, hauridas na fonte: a
2004

faz lembrar O Pensador, de Rodin -

270
referência óbvia (citação como dizem). feio. Admirável é a palavra!

2002
Porém, o pensador de um pensar pequeno: Como Santos-Dumont e Oswald,
uma pessoa que pensa, mas pensa pequeno, Tarsila tinha tudo e mais um pouco para ser
que está a matutar. Um país que pensa uma libélula deslumbrada. Porém - como
pequeno? Sentada num chão que indicia um eles - portadora de um cérebro, possuía um
precipício e que faz simetria com as costas projeto para a sua arte. Pensava o Brasil e
da figura. Um país à beira do precipício? um Brasil integrado ao mundo, cosmopolita
Uma ante-visão do desastre de 1929 que, que era. O resto era lamentar. Os anos vinte
afetando gravemente o setor cafeeiro, se constituíram em sua glória e o resto
afetaria fatalmente Tarsila? Premonição? O foram tentativas e lembranças. Admirada
fundo: um cenário com sol/olho/rodela de e admirável. Salve, salve Tarsila, a do
laranja que fita antes o espectador: não é a Amaral!
fonte de luz que inside sobre a figura, sobre (25 de janeiro de 2003)

2003 o cactus, que projeta uma quase-sombra


no céu-cenário, ou uma espécie de aura.
Nenhum compromisso com uma suposta
verdade, sequer com a verossimilhança. Um
máximo de informação com um mínimo de
recursos gráficos/pictóricos. DIVULGAÇÃO E A ACADEMIA
Noutros quadros da mesma fase, a
mesma parcimônia e a mesma grandeza, O professor é um diluidor do
mas ABAPORU - humanóide-cabeça-de-tênia conhecimento - considerando-se as estruturas
- permanece insuperável e imbatível (nem a mais complexas do saber - porque um dos
própria pintora conseguiu igualar esse feito pontos básicos para se assumir o papel de
em pinturas posteriores, a propóisito de docente (aquele que conduz: um pedagogo)
Antropofagia) pela sua estranheza e beleza é o de ser capaz de uma operação - às vezes
2004

extraídas daquilo que poderia ser o mais complicadíssima - que é a da adequação de

271
repertório: quem seriam os destinatários mensagem viabiliza o trânsito da informação.

2002
da mensagem (o público-alvo, como diriam O bom professor sabe disto. Conta histórias
os publicitários, outros que também têm para tornar as coisas compreensíveis (esse
a obrigação de saber a quem se destina a expediente - de Sócrates, mesmo antes,
mensagem, assim como os jornalistas. Isto a Jesus Cristo, nossa avó e outras tantas
é dito porque artistas, por exemplo, não têm pessoas - tem sido recorrente ao longo
essa obrigação, porém, isto não foi sempre da história). As sociedades necessitam de
assim e nem a Arte foi como passou a se professores: desde aqueles da família - os
configurar a partir do Romantismo. E há mais velhos da casa - àqueles profissionais
quem assim não pense). do ensino, que trazem consigo algo de
Os bons professores não são sacerdotes - não que devam trabalhar de
aqueles grandes intelectuais (podem até graça, mas que acreditem no ensino como
ser) que se sentam à mesa e dali lêem uma missão. Os que divulgam, tornam mais
2003 seus textos originalíssimos (pensam) de popular o conhecimento, são mal olhados por
uma complexidade de espantar filósofos, aqueles que se sentem habitando o Olimpo,
numa atitude de semi-deuses-donos-da- diga-se: a Academia.
verdade. Mesmo os que nada entendem Da mesma forma, textos de divulgação
- eles não fazem concessões de repertório em periódicos e jornais: não têm de ser
- maravilham-se frente aos jogos verbais hiper-complexos, mas ter uma linguagem
por eles ostentados. Professor não é isso: decodificável por um determinado público
professor é diluidor no melhor sentido, (lembro-me de Manuel Bandeira, em artigos,
pois, visando a um determinado público, criticando a sofisticação do crítico Mário
ele descomplexifica a informação para Pedrosa: “ele não escreve para o homem de
torná-la acessível a repertórios que ainda rua”). Não são, por outro lado, necessárias
não estão preparados para recebê-la, mas grandes demonstrações como num escrito
que se encontram a caminho de. Uma acadêmico, científico ou pretensamente
2004

certa porcentagem de redundância numa científico. Um texto de divulgação em que

272
se possa dizer: “Marcel Duchamp mudou porque tais diluições têm um propósito maior.

2002
a concepção de objeto artístico”, ou coisa Há mais coisas por detrás dos conhecimentos
que o valha, não necessita de grandes do que possa imaginar nossa arrogância
demonstrações, porém não deverá indiciar intelectual. Alguém, por exemplo, se lembra
leviandade intelectual, pois tem de parecer de agradecer-indicar fontes, no final de uma
informação leve, mesmo que venha a tese, aos Fenícios pela invenção do alfabeto?
esconder enormes complexidades, levando Um médico se lembra de que grande parte
o leitor sutilmente a pensar um mínimo, de sua terminologia específica vem da língua
mas não necessita de dezenas de páginas dos Helenos e agradece? E aos Chineses?
de justificativa. Só é capaz de ser simples E aos povos de África as maravilhas dos
aquele que possui grande conhecimento ritmos e cantos que desenvolveram na
e maturidade intelectual. É preciso ter América? E aos Italianos? A partir de um
coragem intelectual ou, como disse Ezra dado momento, as coisas passam a ser bens
2003 Pound, em certos momentos tem de se da Humanidade.
ser arrojado. É assim que as coisas vão Até hoje, lembro-me de todos os meus
para a frente. Uma dada informação não professores, a quem sou muitíssimo grato:
foi simplesmente haurida numa fonte que de Dona Zélia Genovez (a personificação da
estaria sendo escamoteada, mas possui por delicadeza, no Jardim da Infância, no “Olavo
detrás 25 ou 30 anos de estudo, pesquisa, Bilac”) a Dona Maud, Cida, Yola, Olavo Pereira
reflexão. Se necessário, pode-se explicar… Eça (Pujoj) e a Lúcia Santaella, Fernando
academicamente. Segolin e Décio Pignatari (PUCSP), passando
Professores, assim como os que fazem por Pedro Moacyr Campos e Mariano Carneiro
trabalho de divulgação em jornal, estão nas da Cunha (História-USP).
origens de todo grande pensamento e de Sou professor e tenho consciência
toda obra e descoberta. Preparam para as do meu papel, assim como o de escritor-
complexidades maiores. Professores são os divulgador de idéias através das publicações
2004

diluidores mais necessários da sociedade, deste hebdomadário O ALFINETE (além

273
de artista gráfico, poeta e ficcionista). corpo atlético perfeito (perfeito = aquilo com

2002
Escolhi minha profissão. Sou dotado da relação ao qual nada falta… nada sobra)!
generosidade daqueles que, não só divulgam Com sua rara ironia Samira (saudosa) dizia
conhecimentos com prazer, mas que os em seu texto: “Andei por toda Atenas e
tornam viáveis. não vi ninguém parecido!” Óbvio, mas nem
(01 de fevereiro de 2003) no século V aC encontraria, pois aquilo,
embora partisse da observação de corpos
reais (e os gregos é que deram esse grande
passo em termos de representação, no
Período Clássico) era idealizado, reunindo
as maiores qualidades de várias pessoas.
Beleza é algo convencionado. Hoje vemos
jovens - semi-divindades - nos anúncios
2003 da Ellus, por exemplo; ou aquelas figuras
ISSO E AQUILO
deslumbrantes dos anúncios de cerveja.
Será que daqui a mil anos alguém dirá:
1. Belezas. Fico pasmo ao ver como as
“Como eram belos os brasileiros! Deveriam
pessoas se deixam levar pelos padrões
ser todos assim”… Bem, mas nossa época,
impostos pelas mídias. Todas as épocas
que elevou o consumo à categoria de valor
impõem suas belezas. Para o caso da Antiga
maior, cria a cada ano um padrão diferente.
Grécia tenho uma anedota exemplar: recebi,
Vaidade é própria do ser-humano. Não há mal
há muitos anos, um cartão postal de minha
nenhum em ser-se vaidoso, porém quando,
amiga Samira Chalhub da terra de Sócrates,
a partir de modelos impostos pelas mídias,
o filósofo, que trazia estampada uma figura
se chega a sacrifícios inimagináveis, é de se
em bronze - Zeus ou Posseidon - há dúvidas.
lamentar. A beleza sempre esteve e estará
Dúvida não há no que diz respeito à beleza
com os jovens (é a Beleza uma qualidade
física daquela figura masculina com seu
2004

quase que exclusivamente dos jovens,

274
portanto, tem seu prazo de validade). Um e do orientador da Joana Prado?… Ceder às

2002
jovem não precisa de quase nada para se pressões da mídia é uma demonstração de
fazer notar: a juventude tem luz própria. fraqueza, pouca inteligência, futilidade. A
É de se lamentar que jovens de vinte anos beleza é importante. Beleza não se confunde
enfrentem mesas de cirurgia para atingir um com aquilo que nos é imposto pelas mídias
certo padrão imposto pelas mídias. Por outro (se assim fosse, a maior parte das etnias
lado, os de mais idade tentam ludibriar o seria excluída desse território) e felicidade é
tempo. Isto adianta muito pouco, pois o que vocação e não pode estar calcada na mera
deveria saber - e que a Medicina está longe aparência física. A Beleza maior é a que brota
de resolver - é como se repõem aquelas de dentro, vindo a compor com a de fora.
gordurinhas subcutâneas que emprestam 2. As escaramuças de Paulo Herkenhoff.
esplendor ao corpo! Esticar a pele, só faz No ano que acabou de passar e em que se
com que se insinue mais o esqueleto. Com comemorou o octogésimo aniversário da
2003 o avançar dos anos, o que acontece é que o Semana de de Arte Moderna, muita gente
esqueleto quer passar à frente, até que vem falou, re-falou, foi perguntada e depreciou o
a conseguir, de fato. Por outro lado, como papel daqueles dias de fevereiro de 1922. De
é que médicos concordam com as loucuras fato, comemorações a cada dez anos acabam
de seus pacientes. A sociedade brasileira saturando, porém, até hoje digerimos a
deveria processar o médico que arrancou herança do primeiro tempo modernista, que
parte do nariz de Fábio Júnior - o cara ficou teve em São Paulo - quer queiram ou não
desfigurado. O mesmo para o dentista de Gal os seus invejosos detratores - o seu centro
Costa, a moça do sorriso-gengiva, da rara de irradiação. Falar em transição para o
voz - uma Gal só aparece de 50 em 50 anos. modernismo é montar uma passagem
A dona ficou dentuça e isso afetou o seu gradativa, do acadêmico ao moderno que,
canto o que, somando-se a outros fatores, de fato, não houve. O que houve foram
como o cansaço pela idade, destruíram a indícios, sinais de algo diferente do que era
2004

sua voz. O que se diria, enfim, do médico costumeiro no Brasil e não é só no campo

275
artístico, mas até da Medicina e Saúde consistentes. Quer se queira, quer não, São

2002
Pública, passando pelo Jornalismo. Dizer Paulo - paulistismos à parte - a partir da
que Belmiro de Almeida ou mesmo Eliseu Exposição Malfatti, esteve e está no centro
Visconti já haviam chegado lá não é bem da vida cultural brasileira.
verdade. Visconti, um talento extraordinário, (08 de fevereiro de 2003)

um quase-genial pintor, digeriu mal o


Impressionismo francês e está mais para
século XIX que XX. A Belmiro de Almeida
- artista de méritos - faltou um pensamento
modernista. Anita Malfatti é que, de fato,
introduziu, de supetão (parafraseando isso e aquilo (parte ii)
a estudiosa Martha Rossetti Baptista) o
Modernismo no Brasil, com suas pinturas 3. O ‘suicídio’ de Roland Barthes. Já tive
e desenhos que falavam um repertório a oportunidade de me referir a livros nesta
2003
fundamentalmente expressionista. Dizer que coluna, e ao fato de um livro não ter de ser
o Modernismo não começa em São Paulo, necessariamente lido: ele até poderá ser
para apresentar uma opinião diferente, é lido. Também me referi ao fato de, às vezes,
uma bobagem para atrair as atenções e ter ter lido um livro muito tempo depois de tê-
mais espaço na mídia impressa. Desde os lo adquirido. Pois é. Recentemente li pela
anos 40 do século XX, Mário de Andrade primeira vez um livro que havia comprado
explicou o porquê de ter sido São Paulo e não há muitos anos, uma obra famosa do não
a capital Rio de Janeiro o centro propulsor e menos célebre Roland Barthes: lingüista,
propagador do Modernismo no Brasil. Resta, crítico, escritor. Sim, escritor Roland Barthes
agora, rever as questões, mais no sentido de - quanto refinamento, civilidade e até
buscar um entendimento maior do processo sabedoria em seus textos. Bem, o texto em
e não simplesmente com o intuito de se ser questão é A câmara clara, livro que traz
2004

original, mesmo que não haja argumentos reflexões sobre a fotografia. O interessante

276
é que, quando, a propósito de fotografia outro, não ultrapassou o limiar da alcova,

2002
começa a comentar uma em que aparece sua não se consumou. Esse fica para sempre;
mãe e o assunto mãe toma conta, Barthes existe para sempre na memória daqueles
se mostra um edipiano sem reservas. Como que o vivenciaram e isso implica uma
aquela mãe era importante para ele e que vivência mental. Esse é que costuma ser
como a vida dele não fazia sentido sem ela eternizado pelos grandes artistas em suas
etc. Acontece que, por ocasião da morte obras. Mas ninguém vive de utopias e o que
de Roland Barthes, em 1980, em Paris, precisamos é de experiências que tragam o
atropelado por uma caminhonete, Décio amargor da realidade. Porém, doçura… às
Pignatari afirmou: “Foi suicídio! Não houve vezes. Felicidade é felicidade. Afortunado
acidente. Ele não pôde suportar a morte aquele que tem o privilégio de tal vocação:
da mãe!” Lendo a obra acima referida, a de ser feliz.
escrita em 1979, compreendi o que disse (15 de fevereiro de 2003

2003 Décio e percebi que havia fundamento na


afirmação.
4. Felicidade não é prática sexual.
Felicidade não é o que passam os jovens ou
mais ou menos jovens casais de artistas de
TV: aquele entusiasmo dos primeiros dias. WALTER SILVEIRA
Nem digo semanas, meses ou anos. São
amores meteóricos. Amores de televisão!
Walter Silva Silveira nasceu em São
As ‘crianças’ expõem seus amores - eternos
Paulo, SP, em 1955, onde vive e trabalha
enquanto duram e duram tão pouco! Antes
como homem de televisão. Formado pela
se dizia: lágrima de cinema. Hoje podemos
ECA-USP em “Comunicação Social”, com
dizer: amor de TV. Fogo-de-palha, amor
especialização em Rádio e TV, atua, desde
efêmero. Propaganda enganosa. O amor
os anos ‘70, como poeta, tendo sido um
2004

maior é aquele que, por um motivo ou

277
dos pioneiros da arte dos graffiti, na e é executada com muito rigor, o qual

2002
Paulicéia. atinge as raias do perfeccionismo e que,
Teve participação, como poeta, em por outro lado, traz necessariamente a
revistas, dentre as quais destaco: CASPA, dimensão sonora: as caligrafias, que devem
MUDA, DeSignos, que publicaram seus ser vistas, são sonorizáveis e sonorizadas
primeiros trabalhos poéticos, e mais: em pelo poeta, cujas leituras são admiráveis
ZERO À ESQUERDA, KATALOKI, ARTÉRIA, (isto se observa, também, em trabalhos de
AGRÁFICA, ATLAS. Tadeu Jungle e Arnaldo Antunes).
Videomaker com importante Walter Silveira, então, valoriza a palavra
atuação no Brasil, pensa o vídeo enquanto enquanto signo portador de uma dimensão
singularidade no âmbito dos fazeres: pensa sonora, visual (escrita) e semântica, criando,
o vídeo como arte, a arte do vídeo e por com seus grafismos, uma pertinência
isso mesmo, sabe que vídeo não é cinema, entre significante e significado (para usar
2003 não é teatro, não é pintura - a câmara-na- a terminologia da Lingüística saussuriana,
mão-no-olho é instrumento que desenha o que desagradaria aos semioticistas
no espaço, corta-o com sua movimentação, peirceanos, entre os quais me incluo).
captando o movimento com o movimento. O seu rigor extremo, já mencionado,
Essa linha-desenho, ela mesma é o a busca da (ou de uma) perfeição faz com
resultado que se tem ao apreciar a coisa que ele execute cem vezes um grafema,
num monitor de TV: o vídeo é o vídeo. por exemplo o “a”, para aproveitar apenas
Isto, obviamente, tem tudo a ver um gesto caligráfico, uma única ocorrência.
com a arte da caligrafia, da qual Walter Também, isto explica o pouco que ele publicou
Silveira é, sem dúvida, um dos maiores até agora, apesar do aparentemente muito
representantes do Brasil, em qualquer que produz. Tendo horror à imperfeição,
tempo. Porém, deve-se ressaltar que essa não percebe que a perfeição não existe
caligrafia não se confunde com “artes neste mundo dos mortais ou, se existe, só
2004

decorativas”: é pensada com profundidade o tempo - a sua passagem - é que a torna

278
reconhecível enquanto tal (perfeito é aquilo Performer nato, vem atuando desde

2002
ao qual nada falta, sequer sobra!). fins dos anos ‘70 (uma de suas performances
Walter Silveira tem sido promotor memoráveis foi o lançamento de um seu
de eventos, como o espetáculo multimídia trabalho que, por correio ele anunciava:
OUVER, que tem sido apresentado “lançamento neste local”, e não trazia o
praticamente em todo o Brasil. Sendo um endereço do tal lugar; até que um certo dia
homem de mídia - é diretor de programação chega, pelo correio, o tal trabalho: Suruba
da TV Cultura - dificilmente comparece na (1980, dentro das práticas correntes da
mesma enquanto poeta. Dessas ironias que “mail art”). O local era a própria residência
até compreendemos, mas não aceitamos. O do destinatário, que não havia atentado
tempo se incumbirá de pôr em destaque o para o texto “lançamento NESTE local”!
poeta Walter Silveira. E, com o livrinho, um anel de papel
(22 de fevereiro de 2003) com o texto: “******LANÇAMENTO A
2003 DOMICÍLIO******”).
Foi um dos pioneiros, juntamente com
Walter Silveira, da arte dos graffiti [em
São Paulo], numa época em que a coisa
ainda não se havia tornado moda/mania nos
centros urbanos brasileiros. Seu primeiro
TADEU JUNGLE trabalho foi veiculado autonomamente, em
1977: poema em papel auto-adesivo “FURE
Tadeu Jungle (Junges), nasceu em FILA”.
São Paulo, SP, em 1956, cidade onde reside. Além de poeta-performer, Tadeu Jungle
É formado em “Comunicação Social” (ECA- é videomaker, editor e promotor de eventos,
USP), com especialização em Rádio e TV. Lida homem de televisão e publicitário. Publicou
com palavras, assim como com elementos em veículos coletivos, como CASPA, ZERO
2004

da pura visualidade: funde-os. À ESQUERDA, ARTÉRIA, ATLAS e outras.

279
Participou, também, de mostras nacionais valor estrutural em seus poemas (também

2002
e internacionais, como a MULTIMEDIA nos vídeos), adquirindo dimensão estética.
INTERNACIONAL, ECA-USP, 1979, da qual No poema “O lance do gago”, publicado em
foi um dos organizadores, juntamente com ARTÉRIA 6, além da gagueira tipográfica,
Walter Silveira, e da TRANSFUTUR, em diálogo em alto nível com o Mallarmé do
Kassel, Alemanha, em 1990 (organizada por “Um lance de dados”: O LANCE DO GAGO
André Vallias), exposição que se repetiu em JAMAIS ABOLIRÁ O RUÍDO”. Poetas como
Berlin. Tadeu Jungle colocam a poesia brasileira
Entre seus trabalhos em vídeo, notável num patamar muito elevado.
sua vídeo-instalação “Sleep Television”, (01 de março de 2003)

apresentada no MIS-SP, que explorou um


quase-nada, o momento em que, num
piscar de olhos, figuras famosas da mídia
2003 televisual, se deixam flagrar no ar com os
olhos fechados, momento prolongado com
os recursos disponíveis no meio. E, da
UMA ATUAÇÃO CONJUNTA: WALTER E
instalação, constam peças de dormitório,
TADEU
entre as quais, uma cama toda branca,
realçada por luz-negra.
Walter Silveira (Walt B. Blackerry) e
É muito forte o peso da caligrafia
Tadeu Junges (Ted Jungle), nos anos ‘70,
em seus poemas que, de resto, podem
foram, como já foi dito anteriormente, dos
ser perfeitamente oralizados. No que há
primeiros a fazer uso artístico dos graffiti
de gráfico, nos trabalhos de Tadeu Jungle,
em São Paulo. Walter Silveira é autor de um
notamos o seguinte: ele persegue a gralha,
dos que ficaram mais famosos, já reunindo
o defeito, a gagueira, o ruído... persegue
a beleza do gestual caligráfico com os níveis
mesmo! Busca freneticamente os ruídos para
sonoro e semântico:
2004

incorporá-los. Daí que os ruídos acabam tendo

280
do texto poético, num espaço desfrutável

2002
por um número muito grande de pessoas/
HENDRIX passantes e, jogando com o verbal escrito,
poético-humorístico, nas paredes/muros da
MANDRAKE cidade, o que nada tinha a ver com o veículo
livro, individualizado e acanhado quanto às
MANDRIX dimensões, impressionados com Oswald de
Tadeu Jungle, é autor de: Andrade, que estavam descobrindo enquanto
teórico: O RECLAME PRODUZINDO LETRAS
MAIORES QUE TORRES... (“Manifesto

ORA H e da Poesia Pau-Brasil”, 1924). Essas


performances dos graffiti atingiram o seu

édificil ápice em 1980-81, quando trabalharam


com José Celso Martinez Correa no projeto
2003 (o escrito em cursiva, seguido pelo perfil de
Usyna Uzona, nas dependências do ex-
uma cidade, numa incursão trocadilhesca
Teatro Oficina, situado na Bela Vista, à Rua
edifício/é difícil).
Jaceguai (São Paulo, capital), tendo sido o
O ser consumido por milhares de
prédio totalmente “decorado” internamente
passantes fascinava os makers (fazedores,
com letras/créditos do filme “O rei da vela”,
poetas), que programavam as façanhas.
baseado em peça de Oswald de Andrade,
Como sempre, era o gráfico, valendo,
encenada nos anos ‘60, com estrondoso
também, a oralização. Tradição e coragem,
sucesso, com direção do mesmo José Celso
domínio e espírito adolescente (como, de
Martinez Correa.
resto, possuía o velho/jovem Edgard Braga,
No lançamento, no TBC, do envelope
que a novíssima geração admirava e com
de Tadeu Jungle Freqüência das Aranha
cujo trabalho tinha afinidades). Entre outras
(SIC), teve lugar uma exposição em que
coisas, perseguiam a corporificação gráfica
2004

havia um trabalho/poemaço: uma porta de

281
madeira colocada na parede, na horizontal, as mais “vulneráveis”. Atrás, o calendário

2002
com um enorme coração vermelho, tendo propriamente com a interferência dos dois:
em si cravado um machado de verdade e texto em provençal, de Bernart de Ventadorn,
o texto grafitado: FISSURO NAQUELA com a tradução de Augusto de Campos,
BUCETINHA. constando os seus nomes, com prováveis
Foi um momento de grande produção datas de feitura:
em que, a quatro mãos, Jungle e Silveira
fizeram o cartaz de lançamento do filme SIse eunãoNOUS VveEIjo
“O Rei da Vela”, bandeira do Brasil, onde aDOMNAmulher
o informalismo corrói aquele geometrismo DONqueeuPLUSmaisMICALdesejo
NEGUSnada queVEZEReuveja
provinciano rígido, dialogando com a bela
MON BELvale o PENSARque
capa, pré-Jasper Johns, feita por Tarsila para euNnãoO VALvejo
o livro de Oswald de Andrade, Pau Brasil,
2003 impresso em Paris, em 1925.
encimando dias e meses; assinado: Ted e
Dessacralizadores, às vezes
Waltão - c. 1981, numa flagrante paródia ao
trabalhando em dupla, Walter e Tadeu
trabalho de Augusto de Campos.
possuíam o dom de desestabilizar os lugares
Tentando evitar possíveis
onde quer que se apresentassem, com um
constrangimentos, aconselhei Walter (exerci
humor que chegava a ferir suscetibilidades.
uma espécie de censura) a não distribuir o
Por ocasião do lançamento de ZERO À
trabalho, do qual eu havia gostado bastante
ESQUERDA, eles apareceram com um novo
e do qual guardo alguns exemplares. Penso
trabalho, o qual pretendiam distribuir no
que até hoje Augusto de Campos não conheça
espetáculo multimídia que teria lugar na
essa versão de seu trabalho e ficamos sem
discoteca Paulicéia Desvairada - um quase
saber qual seria a sua reação caso a visse na
ready-made: um daqueles calendários
pequeninos, com reproduções de fotos época.
Muito embora não tenham mais
2004

coloridas de mulheres nuas, em poses,

282
trabalhado conjuntamente, estão entrando esta venha a durar cem anos!

2002
sempre em cooperação na feitura de vídeos, 2. Leitura. Decodificação. Fruição.
principalmente. Essa dupla do barulho Interpretação. O que seria uma boa leitura?
trouxe muita alegria e ajudou a engrossar o Seria aquela norteada pela curiosidade
caldo poético da equipe que fazia a revista (a mesma de que era acometido Leonardo
ARTÉRIA. da Vinci), pelo amor (amor pelo objeto
(08 de março de 2003) de estudo, de investigação, por aquilo que
está no centro de nossos interesses) e
pelo rigor (um cuidado extremo no trato
com o objeto de abordagem). Cada cabeça
uma leitura, mesmo que haja afinidades
observando i entre as abordagens. Épocas diferentes,
leituras diversas. Leituras: possíveis tantas
2003 1. Aquisição de repertório dá trabalho. quantas se queiram (vide o Interpretante
Não existe Van Gogh sem dor nem é possível Peirceano). Os signos não se esgotam.
ser-se o Gauguin do acaso. Ou seja, é Nós é que interrompemos, por fadiga,
preciso um projeto conduzido com a firmeza temporariamente, o processo da Semiose. A
de alguém que, flagrando-se na vocação, verdade absoluta, o Interpretante Final, tem
seja uma espécie de santo ou, no mínimo, o seu lugar no futuro. Sempre. Inalcançável.
um sacerdote. Sem um empenho fora do Temos de nos contentar com parcelas da
comum, no sentido inclusive da aquisição verdade. Embora satisfatórias, parcelas.
de um repertório específico, nada feito! Os 3. Das agruras da ancianidade. A.
artistas acima citados - assim como outros Processo de enfeamento físico. Quem vai
tantos e até não-artistas - levaram o seu acreditar que aquela pessoa já foi dona de
projeto às últimas conseqüências e fizeram uma beleza de fechar o comércio, como se
obra admirável e imortal. Ninguém é herói dizia? Mas, nem o Alain Delon, aquele moço
2004

impunemente: paga-se com vida, nem que que trabalhou com o Luchino Visconti, é

283
mais nenhum Alain Delon. Nem a Bardot inteligentes). Tenho muito dó dos cachorros,

2002
uma Bardot. Nem a Martha Rocha uma pois, além de dependerem dos humanos
Martha Rocha! B. Cansaço físico e mental. para alimentá-los, dependem do carinho
Taedium vitae. C. Deficiências hormonais que lhes devotam os descendentes de Adão.
e grande fragilidade, muito maior que a dos Eles querem carinho! E, no mais, como seus
humanos jovens. D. Emotividade a toda donos, adoram passear de automóvel…
hora. E. Falta de interlocutores. F. Perda (15 de março de 2003)

da objetividade. O outro lado: sabedoria


ou, no mínimo, um banco de dados que a
memória se incumbe de guardar e editar,
sempre que ela se manifestar em forma de
narrativa (principalmente). Velhos e crianças
são essenciais numa sociedade: garantia OS MODERNISTAS DE SÃO PAULO E A
da permanência da tradição mais viva e de (RE-) DESCOBERTA DO BARROCO -
2003
continuidade da mesma (a sua identidade) PARTE I
em crianças que serão jovens, adultos,
velhos etc. ocaso
4. Tenho muito dó dos cachorros. Sim,
No anfiteatro de montanhas
morro de dó dos cachorros, mamíferos
Os profetas do Aleijadinho
como nós. Tudo indica que foi o cachorro Monumentalizam a paisagem
o primeiro animal a ser domesticado pelo As cúpulas brancas dos Passos
Homem. Meus Deus!, como dependem, os E os cocares revirados das palmeiras
cachorros, de nós humanos. São de fato São degraus da arte de meu país
Onde ninguém mais subiu
fiéis, quando somos deles donos e seu
amor por nós é incondicional. São muito Bíblia de pedra sabão
amorosos (esqueço, aqui, daquelas raças de Banhada no ouro das minas
2004

cães que nada respeitam - e são os menos

284
e mais alguma produção tardia, inclusive

2002
Oswald de Andrade . 1924 paisagens retomando aquelas da fase Pau-
Pau-Brasil . 1925
Brasil, anos 20, em que Tarsila começava
- de par com uma especial leitura que fizera
do Cubismo de seus mestres em França,
Quando, em 1968, estive pela mais um colorido inusitado para aqueles
primeira vez com Tarsila do Amaral, em com um repertório pictural impregnado das
sua residência, um apartamento à Rua chamadas “Belas Artes” - o melhor de sua
Albuquerque Lins, bairro de Higienópolis, carreira como pintora.
na cidade de São Paulo, quase nada havia Cores caipiras? Bem, era necessária
das impressões que eu guardara de algumas toda uma essencial coragem para que
leituras sobre a época “maravilhosa” do Tarsila, assim como Oswald de Andrade,
primeiro momento modernista, fase sobre a seu companheiro de aventuras artísticas,
2003 qual se debruçaram muitos pesquisadores, amorosas e intelectuais, operasse uma
com resultados que se configuraram livros, leitura do Brasil, com um nacional que não
que se tornaram “clássicos” sobre o assunto. descambava para o nacionalóide. Tarsila
Os anos 20 haviam sido importantíssimos contribuiu enormemente para fundar,
para a renovação das Artes no Brasil e a dentro de um repertório modernista, uma
“caipirinha vestida por Poiret” se apresentara visualidade brasílica, de um Brasil-parte-da-
como uma das figuras mais proeminentes civilização-ocidental.
dessa história. Alguns indícios da época Quanto mais fui aprofundando meus
de produção mais conseqüente da artista, estudos sobre Modernismo brasileiro (e
como o lindo auto-retrato: “Manteau mundial) fui descobrindo com pessoas (-
Rouge”, desenhos e mais desenhos sobre a obras) como Oswald e Mário de Andrade,
mesa, aguardando arrumação para a grande Tarsila do Amaral e Manuel Bandeira um
retrospectiva que seria realizada no Rio e Brasil interessante e belo.
2004

em São Paulo, logo mais. “Os Operários” No mesmo ano em que morreu Tarsila

285
- 1973 - fiz uma viagem a Minas e fiquei diversas manifestações artísticas.

2002
boquiaberto com uma Ouro Preto ainda Bem, o maravilhamento dos
inteira (praticamente) e fiquei a imaginar modernistas frente à herança barroca das
com que deslumbramento a comitiva de 1924 Minas Gerais daria os seus frutos, chamaria
não teria flagrado aquela cidade! Por outro a atenção dos próprios mineiros para os
lado, veio-me o barroco anterior, literário tesouros escancarados que possuíam. Era
(poesia não é bem literatura, diria Ezra como se os paulistas estivessem tentando
Pound) de Gregório de Matos que - através recuperar para o Brasil um Barroco maior,
dos escritos de Haroldo de Campos, poeta e que a pobreza paulista dos séculos XVII e
estudioso, tradutor, um dos fundadores da XVIII não permitira - a não ser em migalhas
Poesia Concreta, manifestação (a última?) - à terra bandeirante. Também, como já
ainda dentro do Processo Modernista - fora referido pelos Andrades: a memória
redimensionou-se para mim. O enfoque de uma façanha paulista na área das
2003 haroldiano era embasado pela formulação de Minas. Um Mário, antes, referindo-se aos
Roman Jakobson de uma Poética Sincrônica bandeirantes descobridores, um Oswald
(“A descrição sincrônica considera não após, poeticamente registrando os fatos:
apenas a produção literária de um período
dado, mas também aquela parte da tradição
literária que, para o período em questão, [...]
Ide a São João del Rei
permaneceu viva ou foi revivida.”). Embora
De trem
eu já conhecesse algo de Gregório desde a Como os paulistas foram
época da adolescência, aquilo foi para mim A pé de ferro
uma revelação: um novo Gregório, um novo
Barroco. Um Barroco viável, cogitável como (29 de março de 2003)

valor artístico para o meu presente. Esse tipo


de enfoque - o de uma Poética Sincrônica
2004

- serviria, de qualquer modo, para as mais

286
OS MODERNISTAS DE SÃO PAULO E A às áreas coloniais. Esse mesmo Barroco que

2002
(RE-) DESCOBERTA DO BARROCO - aqui se adapta, manifesta-se até com alguma
PARTE II majestade e, necessariamente, acaba sendo
considerado o “estilo da época colonial”.
Uma coisa é inventariar um legado, Esse Barroco aportou no Brasil e deu
conservá-lo, até classificá-lo, desenvolver frutos admiráveis, nas Letras e nas Artes
estudos exaustivos sobre etc. Esse trabalho Plásticas e a maior ou menor riqueza das
é importante. Outra, porém, é perceber o manifestações seguiu o roteiro das riquezas
que tal legado traz de grandeza e, num ato da colônia lusa: Bahia, Pernambuco, Minas
de ousadia e mesmo coragem, emitir opinião Gerais. Não deixa de existir em outras áreas,
sobre, tecer um juízo verdadeiramente mas existiu sem a pujança daquelas acima
crítico. Mesmo o historiador da Arte, mencionadas.
especificamente, tem de fazer um trabalho Marcante, no primeiro quartel do século
2003 crítico, um esforço de discernimento, saber XIX é a chegada oficial do Neoclassicismo
o que realmente é informação estética nas ao Brasil, durante a estada de D. João no
obras remanescentes de um dado período. Rio de Janeiro. A herança da Missão Artística
Sabe-se que o Barroco foi mal julgado por Francesa, mais o reforço obtido por artistas
um longo tempo - internacionalmente - brasileiros que iam estudar na Europa,
tendo sido considerado uma arte menor, até trouxe, podemos mesmo dizer, um novo
que todo um processo de re-consideração paradigma para nossas Artes Plásticas: a
dessa tendência aconteceu, processo esse coisa da Academia - da transição para a
que se prolonga aos dias de hoje. independência política, ao fim do Segundo
Nem é mais cabível, hoje, discutir Reinado, mais parte da República Velha.
sobre a importância do Barroco. No caso da O cansaço/esgotamento da herança
América Ibérica, então, a coisa é vital: trata- neoclássica, as transformações econômicas
se da consideração de séculos de história em e sociais por que passavam algumas áreas
2004

que o Barroco, através das Metrópoles, chega do Brasil e mudança de paradigma que se

287
observava na Europa desde a Revolução do sem premeditação, sem desejo de fazer

2002
Romantismo, mais os avanços técnicos, como escola, realizei, em 1924, a pintura a
que chamaram Pau-Brasil.
o das técnicas de reprodução, a começar pela
Impregnada de cubismo, teórica
Fotografia, acabaram ecoando aqui e dando e praticamente, só enxergando Léger,
frutos. Dos tímidos indícios que se notam, Gleizes, Lhote, meus mestres em Paris;
de um Almeida Júnior a um Visconti, chega- depois de diversas entrevistas sobre
se à Exposição Malfatti de 1917-18. o movimento cubista, dadas a vários
jornais brasileiros, senti, recém-chegada
Nosso Modernismo, preocupado num
da Europa, um deslumbramento diante
primeiro momento com a atualização das das decorações populares das casas de
Artes no Brasil, vai voltar-se, a seguir, para a moradia de São-João-del Rei, Tiradentes,
descoberta de um país quase desconhecido e Mariana, Congonhas do Campo, Sabará,
isto significava voltar-se para outras áreas e Ouro Preto e outras pequenas cidades de
Minas, cheias de poesia popular. Retorno
olhar para o passado, não o passado próximo,
à tradição, à simplicidade.
2003 mas aquele distante, que produziu coisas Íamos num grupo à descoberta
antes da chegada do neoclassicismo, o que do Brasil, Dona Olívia Guedes Penteado
vale dizer “olhar para a herança barroca”. à frente, com a sua sensibilidade, o seu
É aí que o ano de 1924 entra como marco encanto, o seu prestígio social, o seu
apoio aos artistas modernos. Blaise
fundamental de renovação e re-descoberta
Cendrars, Oswald de Andrade, Mário de
do Brasil para os modernistas paulistas, que Andrade, Goffredo da Silva Telles, René
recebiam ilustre visitante: o poeta suíço- Thiollier, Oswald de Andrade Filho, então
francês Blaise Cendrars, cuja obra poética e menino, e eu.
pensamento muito pesaram nesse processo As decorações murais de um
modesto corredor de hotel; o forro das
sobre os brasileiros. Passemos a palavra a
salas, feito de taquarinhas coloridas
Tarsila do Amaral: e trançadas; as pinturas das igrejas,
simples e comoventes, executadas com
Foi por ocasião da visita de amor e devoção por artistas anônimos; o
2004

Blaise Cendrars à nossa terra que eu, Aleijadinho nas suas estátuas e nas linhas

288
geniais da sua arquitetura religiosa, tudo Não se tratava apenas da abordagem das

2002
era motivo para as nossas exclamações Minas Gerais enquanto tema: o referente aí
admirativas. Encontrei em Minas as cores
vem corporificado numa nova forma.
que adorava em criança. Ensinaram-
(19 de abril de 2003)
me depois que eram feias e caipiras.
Segui o ramerrão do gosto apurado...
Mas depois vinguei-me da opressão,
passando-as para as minhas telas: azul
puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo,
verde cantante, tudo em gradações mais
ou menos fortes, coforme a mistura de
branco. Pintura limpa, sobretudo, sem
OS MODERNISTAS DE SÃO PAULO E A
medo de cânones convencionais. [...]
Tarsila do Amaral, de PINTURA PAU- (RE-) DESCOBERTA DO BARROCO -
BRASIL E ANTROPOFAGIA. In: RASM, PARTE III
1939.
2003
Por essa época, Tarsila, que já vinha longo da linha

passando por todo um processo de mudança


Coqueiros
em sua obra, produziu algumas de suas mais Aos dois
importantes pinturas, assim como criou Aos três
o melhor de sua obra gráfica: desenhos Aos grupos
de uma simplicidade admirável, onde a Altos
Baixos
economia de meios faz a grandeza, obtém
o máximo de expressão. Isso tudo vai de Oswald de Andrade
par com o que de melhor produziria Oswald In: Pau Brasil, seção “Roteiro das Minas”
de Andrade. No poema que transcrevo a
seguir, Oswald de Andrade pinta um quadro, Fanopéia, como apontaria Ezra Pound,
ou melhor, desenha uma paisagem. A obra para denominar o tipo de poema em que as
2004

de Tarsila remete à de Oswald e vice-versa. palavras remetem a uma imagem visual,

289
evocam-na. Tem tudo a ver: essa paisagem anos 20 até os dias de hoje! O Barroco se colocou

2002
que pinta Oswald de Andrade como os de lá para cá como um valor viável, colocou-
desenhos de Tarsila da mesma fase, mesma se no centro das cogitações de alguém que
época: o extremamente pouco, o máximo se preocupa com as Artes Plásticas no Brasil:
da parcimônia na utilização de recursos enquanto historiador/crítico ou enquanto
com um máximo de rendimento: linhas/ artista/fazedor, independentemente de uma
palavras sem aquela impregnação poético- onda programaticamente neo-barroca, de
acadêmica, ou mesmo parnasiana, como essência conservadora. O Barroco está aí,
pôde ser observado no belíssimo soneto vivo!
“Vila Rica”, de Olavo Bilac, que pinçava Ouro Interessante é notar que um outro
Preto como tema. Os desenhos de Tarsila do estrangeiro, pessoa muito especial, andou
Amaral, dessa fase, são admiráveis tendo, pelas Minas Gerais, agora em fins dos anos
alguns, servido como ilustrações para o livro 60, e ficou muitíssimo impressionado com
2003 Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, cuja a obra do Aleijadinho, que havia merecido
capa também é dela, como que antecipando dos Andrades tanta reverência: o lingüista-
coisas da Pop Art, o que já foi notado por pensador Roman Jakobson.
muitos críticos (o trabalho desenvolvido
por um Jasper Johns, decênios após, com a No anfiteatro de montanhas...
bandeira estadunidense), livro que traz um
(26 de abril de 2003)
prefácio indispensável de Paulo Prado.
Tarsila com sua obra plástica, Oswald
com seus poemas, Mário com poemas,
mas principalmente com o estudo sobre
o Aleijadinho (1928) foram os grandes
responsáveis pela onda de revalorização do
Barroco das Minas Gerais.
2004

Quanto já não se caminhou daqueles

290
DOS PERCALÇOS DE NOSSA filha adulta, Elisa, que deve se encontrar na

2002
EFEMERIDADE : JULIO PLAZA PASSOU Espanha. Deixa-nos aos 65 anos.
POR AQUI . JP II Julio Plaza nasceu em Madrid, em 1º
de fevereiro de 1938, essa figura enigmática
São Paulo, 18 de junho de 2003. que, como disse hoje Paulo Miranda, parecia
Já tive a oportunidade de escrever de pedra e Sonia Fontanezi - como que
nesta coluna sobre o artista-pensador Julio numa antevisão da morte - (quando lhe dei
Plaza González, em melhores momentos. a notícia do derrame, devendo ele já estar
Hoje, de volta do Crematório de Vila Alpina, morto) ex-aluna da FAAP e amiga: “Que
onde tentei lhe dar um adeus (não estive repertório o mundo está perdendo!”
em seu velório na capela do Cemitério O bem-apessoado Julio Plaza,
São Paulo, onde estiveram Donato Ferrari, falante do portunhol, muito desejado pelas
Milton Sogabe, Inês Raphaelian e Ronaldo mulheres. Tristeza. Do trabalho - tendo
2003 Entler, entre outros amigos), é com imensa sabido do ocorrido às 13h30 - rumei para o
tristeza e sentimento de perda que faço este Crematório de Vila Alpina e, do táxi, avistei
registro. Paulo Miranda, com quem eu havia falado no
Na madrugada de ontem Julio Plaza dia anterior. Em seguida, chegou o cortejo e
sofreu um AVC irreversível e veio a falecer o corpo. Ana Bela (a viúva), Regina Silveira
no Hospital Universitário da USP, cerca de (que foi sua companheira por cerca de duas
21h. Soube agora que, tendo pessão alta - décadas), Gilberto Prado, Jorge Carvajal,
como dizemos nós, os mortais comuns - não Mônica Tavares, Evandro Carlos Jardim,
se cuidava, fumando três maços de cigarros Walter Zanini e mais umas dez pessoas. Eis
por dia, mais o seu indispensável whisky (por que aparece Augusto de Campos, amigo e
ser um europeu do contimente, pensei que com quem Julio fez alguns de seus melhores
apreciasse mais o vinho). O que ele mais trabalhos nos anos 70 - Poemóbiles e
curtia ultimamente era o seu filhinho de Caixa Preta, por exemplo, referências
2004

apenas dois anos, Ángel. Julio possuía uma internacionais de intersemioticidade - que

291
soube por mim (pela metade) do ocorrido. o pioneirismo: do vídeo-texto à INTERNET,

2002
Não chegou a haver uma cerimônia passando pelos mais avançados programas
na sala do crematório em que o caixão foi de computador. Em todo caso, escreveu
exposto por alguns minutos, ao sons de muito, fez teoria saindo, desse exercício,
música triste - Villa Lobos etc. Fim do ritual: livros hoje indispensáveis para aqueles se
despedidas e volta para casa. preocupam com questões de linguagem,
A última vez que estive com Julio Plaza como Tradução Intersemiótica, sua tese
foi numa banca de Mestrado na ECA-USP, de Doutorado. Fizemos, em 05 de agosto de
acho que de sua última orientanda na Pós- 2000, eu e Peter de Brito, fotos suas em sua
Graduação, ele já aposentado (cheguei a residência e na pracinha em frente, à Rua
participar de várias bancas por ele presididas Agissê, Bairro do Sumaré e que pretendo
e ele participou da de uma orientanda minha publicar um dia.
no IA-UNESP). Julio Plaza era um mistério aparente,
2003 Figura firme em seus propósitos, já que sabia que as essencialidades eram
nunca falou português sem um forte sotaque tão diminutas, que não valeria a pena o
espanhol. Artista dos melhores que o Brasil estar-se manifestando sobre efemérides.
adquiriu (só o tendo perdido, por algum Havia absorvido, além de toda a tradição da
tempo, para Porto Rico, onde esteve como Arte Ocidental - enveredando pelo Oriente,
artista-professor), construiu uma obra seca, em especial, China e Japão - as linguagens
inventiva, com forte teor metalingüístico - dos modernismos: Duchamp, Bauhaus, Pop
teve uma atuação impecável como poucos. Art, Arte Conceitual, Grupo Fluxos, as Novas
De muitos anos para cá, deu as Tecnologias (a começar, como já foi dito,
costas para a mídia e para a crítica em pelo hoje dinossáurico videotexto). Não
geral e passou a fazer uma arte ligada às dava a mínima para críticos e para o mundo
mais avançadas tecnologias, que ele tinha frívolo das galerias. Abandonou em grande
em alta conta e não como algo que, como parte os fazeres tradicionais, ligados ao
2004

alguns tratam, era feito apenas para constar artesanato, que ele dominava como poucos:

292
desde o simples desenho de observação, à que ele, até pouco, impediu que se fizesse).

2002
feitura manual de um livro. Deixou (talvez Artista que ora adentra a eternidade. Fazedor
nem tenha começado) de ganhar dinheiro que preferiu abandonar o Perecível em prol
com a Arte (objetos) que produziria, assim do Reprodutível e do Disponível. Julio Plaza:
como acontece com todos aqueles que fica um vazio que se aproxima do quase-
conseguem criar um estilo pessoal marcante nada a que pretendeu chegar.
(como Duchamp, fugiu do estilo pessoal, Em tempo:
adentrando o mundo dos conceitos e da São Paulo, 23 de junho de 2003:
reflexão). Missa de 7º dia, pela alma de Julio Plaza,
Foi professor, por muitos anos, na na Igreja de Nossa Senhora do Rosário de
FAAP e marcou gerações com seu rigor e Fátima, à Rua Dr. Arnaldo, Sumaré, São
crítica do fazer. Produziu ao mesmo tempo Paulo cap. Que é quando, tendo encontrado
uma arte metalingüística e conceitual, amigos, concluo este escrito.
dialogando com artistas da tradição - de (05 de julho de 2003)
2003
Velázquez a Duchamp. Valorizou a palavra,
maravilhando-se com os jogos por elas
propiciados, em casamento com as formas
visuais. Casou imagem e palavra e, sob esse
aspecto, era um verdadeiro poeta. Como
gráfico, participou de muitas produções do celibato como uma das belas
coletivas e/ou individuais, contribuindo para artes
elevar o nível das publicações que se faziam
à margem do sistema editorial brasileiro. Você já pensou em coisas
Produziu e teorizou sobre o livro-de-artista. desinteressantes? Eu já. E concluo que uma
O futuro próximo poderá avaliar a das coisas mais desinteressantes do mundo
singular e importante contribuição de Julio é um solteirão (celibatário): um homem
2004

Plaza para o Brasil e para o Planeta (coisa solteiro, avançado nos anos, sem filhos,

293
mas com algum dinheiro (alvo da cobiça uma relação sexual e este é um sintoma

2002
principalmente de sobrinhos gananciosos), de que o esqueleto está tentando passar à
com um passado rico em acontecimentos no frente, ou seja: o que em nós é vida começa
âmbito de Eros e Afrodite (quem acreditará a mostrar sinais de cansaço).
que Don Juan foi, de fato, Don Juan, se Das solteiras, nem é direito falar, já que
hoje não passa de uma bem posta galinha o senso comum as aceita como solteiras, pelo
depenada? Nem o Alain Delon é nenhum Alain fato (contestável) de não terem encontrado
Delon hoje-em-dia!), cheio de sobrinhos, alguém que as quisesse. Daí que a figura da
enfim, um solteirão clássico. solteirona é mais assimilável pelas famílias,
Desinteressante! Só mesmo Machado comunidades e pela nossa sociedade. A
de Assis para fazer de algo como a vida virgindade lhes é permitida. Não aos homens,
de um solteirão uma obra-prima da arte que passam a ser tidos como anormais, com
da narrativa ficcional. O seu Brás Cubas é tendências a beatos – o que necessariamente
2003 o retrato do dito solteirão que, com muita não são. Ah! O direito à virgindade! (Há mais
ironia – a do próprio Machado (e aí eu virgens – homens inclusive – sobre a face da
lembraria que um casado sem filhos – caso Terra do que possa imaginar a nossa vulgar
de Machado de Assis – avançado nos anos, erotomania).
assemelha-se ao solteirão e, se for viúvo, A pressão com relação aos homens
a coisa se aproxima ainda mais. Porém, solteiros é muito grande, a começar pela
é mais fácil encontrarem-se viúvas. Um própria família. E os de fora perguntam: Por
viúvo é raridade digna de ser festejada. As que não se casou? É santo, putanheiro ou
mulheres têm a mania de sobreviver aos seus veado?
respectivos maridos) sobrevive, enquanto Às vezes, por detrás de um solteirão,
ele sobrevive, passados os anos de glória, existe um amor que não se viabilizou, porém
em que o pênis apontava para as estrelas não deixou espaço para remédio – uma
(a idade vai fazendo com que o ângulo de doença de amor se cura com outro amor.
2004

ereção vá diminuindo, até tornar impossível A certeza que fica no que respeita

294
a condição do celibato é que atrás de um solteiros, homens que desempenharam,

2002
solteirão existe um mãe forte, fortíssima, com excelência, a arte de ser solteiro e
mesmo que ele não seja veado. Isto quer cujos nomes não citarei, mas que honrariam
dizer que os edipianos (homens ligados à qualquer grande romance e cujas histórias se
mãe, uma hiperprotetora) dividem-se em perderão, assim que os que as guardam na
machos e misóginos (os que têm aversão a memória também desaparecerem. Algumas
mulheres… na cama, posto que para eles, celebridades têm registro garantido: Jorge
uma mulher nessas circunstâncias, equivale luis Borges era, em essência, um solteirão,
à mãe e, por ser o incesto um tabu…): os um edipiano evidente: Dona Leonor Acevedo
machos são trepadores compulsivos e os de Borges, que acompanhava o filho cego e
misóginos se trancam ou optam pelas que morreu aos 99 anos de idade, é quem
práticas homoeróticas (Décio Pignatari, em poderia falar melhor sobre isso. Porém, o
nada edipiano, disse algumas vezes que o portentoso escritor portenho se casou duas
2003 cara muito ligado à mãe acaba se tornando vezes: uma, já passado dos sessenta e
bicha e que Oswald de Andrade [que teve outra, às vésperas de sua morte, com Maria
inúmeras mulheres] seria o único edipiano Kodama, que o secretariava e acompanhava
que ele conhecia e que desbancava a regra. em viagens, conferências etc (penso que
Com todo o respeito que tenho pelo genial Borges se casou para não deixar bens para
Décio, penso que o seu argumento peca seus sobrinhos).
pelo simplismo. Mas, sobre o edipianismo do Figura social, de qualquer maneira
macho Oswald, vem-me à mente um belo importante, o solteirão é antes de tudo um
poema de Edgard Braga, dedicado ao seu herói. No fim da vida não tem com quem
amigo, autor de Pau-Brasil: miramar/ dividir obrigações, nem as memórias. Quem
miramãe). Mas, os mais interes… digo, as quereria ouvir? Quem choraria pelos
os menos desinteressantes dos solteiros solteirões de sua família? Quem se lembrará
são os heterossexuais, como o Brás Cubas deles depois de algum tempo? Nessa
2004

do nosso Machado. Pirajuí teve célebres sociedade, os papéis vão sendo assumidos

295
pelas pessoas, mesmo que à revelia. Alguns usa. O francês está em baixa há décadas:

2002
têm de encarnar o papel daquele que sobrou. ninguém mais diz avant première!) do que
O solteirão, o celibatário. Seja lá o que Deus a moda do ano passado. E é assim mesmo:
quiser. moda é coisa que passa e é para passar
(12 de julho de 2003) mesmo, principalmente quando se trata
- e é quase sempre assim - do consumo
desenfreado, que faz com que uma menina
classe média abra o seu guarda-roupas
superlotado com oitenta vestidos e conjuntos
OBSERVANDO II e diz “Não tenho o que vestir”, ou “Eu não
tenho roupa”. Se alguém me pergunta se a
1. Andragógico? Fico pasmo ao ver como moda é arte, se os estilistas são designers,
pessoas apressadas se deliciam ao pensar se a moda é kitsch, depois de muitos rodeios,
que são portadoras de uma nova terminologia respondo que a moda é arte e o estilista é um
2003
e que estão fazendo o favor de passá-la para artista/designer quando - de fato - concebe
os outros, pobres mortais. Andragógico em algo que, atendendo a necessidades do
lugar de pedagógico, porque pedagógico momento, seja admirável. Do contrário, o
remete à criança. Mas andragógico se estilista será um mero decorador de corpos,
refere a adultos do sexo masculino! A tal alguém que só responde às necessidades do
da andragogia estaria limitada à condução consumo: atende a esse chamado. Gosto é
de machos adultos? Além de inadequada, a gosto e todo gosto é codificado e, portanto,
palavra é por demais desagradável. Espero sempre tem uma ponta de kitsch e ninguém
que essa não tenha muito trânsito e que se precisa se incomodar com isto, pois é
invente outra que, sendo mais adequada, impossível ter-se 100% de informação.
soe melhor aos nossos ouvidos. Não é à toa que Marcel Duchamp dizia ser
2. A moda. Nada mais demodé (para utilizar o gosto o maior inimigo da arte: tanto o
2004

um termo francês que quase ninguém mais bom como o mau. Porque ele entendia a

296
arte como algo que roça o desconhecido, o questão de descobrir qualidades onde quer

2002
inusitado e gosto é coisa codificada e varia que elas estejam.
conforme a época e a cultura (etnia). Moda: (26 de julho de 2003)

os mais jovens gostam de segui-la para não


serem discriminados. Ou então, atendem ao
chamado de sua tribo. Paciência…
3. Ninguém contesta os murais de
Pompéia. Tudo vira cult. Por mais que em
sua época de feitura tenha sido deplorado OBSERVANDO III
por ser diluição, barateamento repertorial ou
1. Diploma universitário, para quê?
coisa que o valha. O tempo acaba conferindo
Lula teve tempo de sobra para ter dois ou
uma certa “nobreza” ao que era abaixo do
três diplomas universitários, mas não quis:
plebeu. Porém, salvo os casos de obras que
talvez que não tivesse tempo para perder
2003 tenham sido incompreendidas em sua época,
com a garotada de 17, 18, 19 anos. Talvez
nós teremos sempre parâmetros, termos
tenha faltado paciência a alguém que já
de comparação. A própria pornografia de
freqüentava as altas rodas intelectuais e uma
lupanar acaba se tormando algo digno de
suposta vanguarda política. Por outro lado
nota, principalmente quando, além de velha,
seria dar muita importância para aqueles
seja composta por obras raras (dos únicos
que, tentando desqualificá-lo, exigiam dele
remanescentes), testemunhos de hábitos e
um diploma universitário. Não me comovi
costumes etc. Mas, em meio ao entulho pode
com o seu choro, quando do recebimento
haver alguma preciosidade. Dos murais de
do diploma de Presidente da República do
Pompéia, às gravuras japonesas, chegando
Brasil. Lula é mais inteligente que a maioria
a Tom of Finland e aos poemas de Glauco
dos brasileiros de sua idade, justamente
Mattoso, é difícil separar o criativo da simples
diluição. De qualquer forma, o tema atrai e porque cultivou a inteligência através de
papos, discussões com as celebridades com
2004

distinguir o erótico do pornográfico é uma

297
quem conviveu. Precisaria tão somente de mais distante do herói do que um homem

2002
algumas aparas. Mas tem grande mérito: vivo. Heróis vivos, só os anônimos!
chegar onde chegou… Agora ele começa a 3. CLARA LUZ. É este o título da exposição
ter idéia do abacaxi que FHC deixou para ele que abriu ao público, recentemente no
e para o PT. E está vendo que é necessário Centro Cultural Banco do Brasil (e já fechou,
fazer concessões, ter jogo de cintura, como já que este escrito não sai do computador
se diz por aí. O PT, enquanto parte atuante do para o semanário!), à Rua Álvares Penteado,
Legislativo, foi um sucesso. No Executivo está no centro velho de São Paulo. Pois é, Regina
vendo que as coisas são diferentes e… Porém Silveira, reiterando sua excelência com um
a Direita apoiará as suas próprias reformas e exemplo fantástico de ocupação de espaço.
assim, matará o PT enquanto partido que se Regina não faz trabalhos para serem
apresentava como agremiação progressista. expostos, seja lá onde for. Faz trabalhos
Infelizmente, Lula, atualmente fascinado após ter estudado o espaço a ser por eles
2003 com o poder desfrutável do Presidente da ocupado. Vale a pena ir até o belo centro
República e toda a pompa que isto possibilta da Paulicéia para ver esse exemplo de
(viagens e mais viagens, dona Marisa na capa ocupação do espaço. Um belo espaço, diga-
da VEJA etc), estará servindo, com todos os se. Sensibilidade e cérebro se encontram
seus correligionários à Centro-Direita. Com nesse novo cometimento de Regina Silveira,
mais poder (à Direita) que Pedro I e o Médici como já era de se esperar - não os trabalhos,
e mais pompa que D. Pedro II, lá vai o Lula. mas a inteligência etc etc etc.
Deus nos acuda! (09 de agosto de 2003)

2. Herói? O herói é herói por uma propiciação


do acaso, por uma conjunção de fatores,
não porque ele tenha planejado ser herói.
E o que quase sempre acontece é que ele é
herói post mortem. Essse negócio de bon-
2004

vivant bem intencionado está por fora. Nada

298
OBSERVANDO IV boa reprimenda. Bem… Nem vou falar aqui

2002
de como esses anglófonos que movem tal
Alugam-se salas. Pois é, isto deveria estar guerra vêem os iraquianos: ratos terão
afixado no prédio-sede da ONU em Nova maior consideração. O mesmo espírito
Iorque. Melhor: Alugam-se salas para Truman, que despejou as bombas sobre
fins comerciais. Depois desse desrespeito o Japão e que fez os estragos no Vietnã,
flagrante por parte dos EUA. Eles queriam sem contar outros tantos, detona bombas
a guerra e a fariam de qualquer modo. Que de nove e meia toneladas no Iraque. O
moral terá a ONU daqui pra diante quando que move essa guerra? Penso que quatro
resolver alguma coisa? Exigir o quê? De são os principais fatores: 1. O interesse
quem? Abominável guerra contra boa parte pelo petróleo iraquiano; o lobby pretolífero
da opinião pública mundial. O Iraque não estadunidense quer ter acesso a essa riqueza.
está guerreando: está sendo guerreado. 2. Interesse da indústria bélica que vive da
Daí, frente à arrogância do poder, além desgraça alheia e que quer vender e sair do
2003
dos protestos, só poderemos esperar pela vermelho. Que importariam vidas árabes? 3.
vingança dos deuses mesopotâmicos. Não Bush percebeu que estragos o colocam na
se tratra de Saddam Hussein, mas de toda mídia. Ele, cuja eleição esteve envolvida em
uma população civil, que vem padecendo dúvidas, desde o 11 de setembro, com seus
em função de guerras, em grande parte arroubos de psicopata, quer continuar a ser
insufladas pelos interesses pecuniários/ notícia e está continuando. A guerra contra
estratégicos do Ocidente. Saddam é cria o Iraque é, portanto, um prato cheio. 4.
do Ocidente. Príncipes árabes muçulmanos Uma grande demonstração de força, calcada
são a favor do Ocidente (EUA). Esses num domínio tecnológico sem par, para
machos abichalhados, trejeitosos, vestidos deixar claro que os EUA são a única grande
a caráter, hipercivilizados que estudaram na potência do Planeta. Abomino essa guerra e
Inglaterra e que confundem cofres públicos todos que a ela conduziram, um dos berços
2004

com bens familiares, deveriam receber uma da Civilização que é o Iraque/Mesopotâmia

299
(temo pela população civil pobre; temo pelos nascido em São Paulo, em 19 de agosto

2002
tesouros arqueológicos - parte substancial de 1929, irmão de Augusto de Campos,
da memória da Humanidade). Mesmo sem também poeta/criador múltiplo, sempre foi
poder impedir tal ato agressivo, devemos o mais erudito dos concretistas: um dos
protestar contra o mesmo. Como colocou há maiores intelectuais que o Brasil já teve,
muitos anos, num desenho, um amigo, hoje pois reunia em si inteligência, alto repertório
diplomata: NEM POR TODO O PETRÓLEO DO e criatividade. De todos, o mais ligado à
IRAQUE. Deus salve o Planeta! palavra. Um homem de Letras, como poucos
Em tempo: Este texto foi escrito logo que em nosso País e no mundo.
teve início a tal guerra. Haroldo agora se foi, deixando uma
(16 de agosto de 2003) obra cuja avaliação deverá ocupar gerações,
mas que para aqueles que com afeição o
acompanharam nos últimos trinta anos
2003 (pelo menos) não há dúvidas: trata-se de
uma obra de gigante: um Pound, um Pessoa
HAROLDO DE CAMPOS podem se comparar a ele que, como seus
companheiros de aventura concretista da
Conheci Haroldo de Campos lá pelos linguagem, acabou por ter muitos inimigos
idos de 1975, quando estava preparando, (tão menores que ele, que nem valeria a
com Paulo Miranda e os irmãos Figueiredo, pena mencionar). Porém, por outro lado,
o número 1 da revista ARTÉRIA. O poeta, possuía amigos-companheiros que honrariam
generoso, enviou um fragmento de Galáxias, qualquer complexo artístico, em qualquer
inédito e depois outro, já que a CÓDIGO 2, parte do mundo.
saindo antes, publicou o primeiro. Então, Visitei pouco Haroldo em sua casa à
ficamos com dois fragmentos do texto de Rua Monte Alegre, Bairro de Perdizes (ou,
prosa inventiva de HC e os publicamos. quando ia para entregar-lhe algum trabalho
2004

Haroldo Eurico Browne de Campos, novo, chegava sem avisar e nem entrava,

300
apesar da insistência), mas fui sempre hospital, evitou a divulgação do fato), o

2002
bem recebido, inclusive na última vez cortejo seguiu até o Crematório de Vila
em que estive em sua casa - uma casa Alpina. Um frio, que compunha com fina
pequena, pois nunca aceitou morar em goroa, tornava a situação ainda mais difícil,
apartamento, uma bibliocasa de fato, para todos nós, abalados com o ocorrido.
como costumava dizer - fazendo umas Parecia mentira o desaparecimento de um
fotos (fotografei-o em pelo menos três poeta cuja exuberância no falar era o que
ocasiões diferentes). Ele estava triste, de nos vinha à mente.
uma tristeza profunda: o diabetes havia Sua última grande empreitada (de
minado sua saúde; um problema de coluna um homem que pensava grande e que
trazia-lhe dores constantes. A isto, foram- produzia muito e de um qualitativo sempre
se somando outros problemas, até que, elevado): tradução integral da Ilíada, de
tendo ficado por cerca de duas semanas Homero, trabalho em que foi assistido pelo
2003 na UTI do Hospital Alemão Osvaldo Cruz, jovem helenista Trajano Vieira.
veio a falecer na madrugada do último dia É tão grande o seu legado (poesia,
16 de agosto, um sábado. Faria, poucos teoria/crítica, tradução de poesia -
dias depois, 74 anos. Eu havia estado no transcriação como batizou a tarefa) e tão
hospital dias antes e vi-o no leito, rodeado frágil o fio que prende alguém à existência.
de aparelhos: dormia, sedado (numa Haroldo: o mais cerebral dos concretistas
segunda vez, os encarregados do HO não (os cerebrais paulistas, como gostavam de
autorizaram a minha entrada, já que não se referir a eles os desafetos de fora - Rio
era parente. Seu estado - disse-me o rapaz de Janeiro…).
do guichê - era grave, continuava grave). Se é que há o Além, ele é aguardado
Do velório (no final havia umas por Jakobson, Pound, Maiakóvski,
cinqüenta pessoas - não era um homem de Mallarmé, Octavio Paz e tantos outros que
mídia, apesar da celebridade internacional; mereceram a sua devoção de estudioso
2004

a família, durante o grave período de e amante da arte da Poesia e doutras.

301
Haroldo de Campos: o mundo sente esta OBSERVANDO V

2002
grande perda. Um homem que ainda tinha
projetos. 1. Solidão. Certa vez, Dona Maud [Pires
Hoje, 21 de agosto de 2003, a missa de Arruda], em conversa comigo, contestava
sétimo dia na capela da PUC, Perdizes, Bairro os reclamos de uma senhora que, em um
sempre ligado à sua atuação de poeta e de suplemento feminino - se não me engano, do
professor, que ministrou belas aulas na pós- ESTADÃO - reclamava de uma solidão doída,
graduação daquela instituição. Padre Edênio muito doída. Dona Maud chegou a escrever
- um filósofo com sensibilidade para a poesia para a tal senhora (endereçando a carta à
- celebrou a cerimônia que contou com dois seção do jonal) perguntado o que que ela
integrantes da colônia judaica de São Paulo havia plantado durante a vida. Não tinha feito
e que leram texto hebraico do Qohélet e amizades? Não havia preparado a velhice?
tradução famosa de HC (trechos). Haroldo, Por quê? Muito embora os argumentos de
2003 católico, gozava de grande prestígio entre Dona Maud parecessem plausíveis - e eram
os letrados das colônias judaica e japonesa inteligentes - a questão era um pouco mais
desta Paulicéia, que ele muito amava. São complicada e envolvia peculiaridades da
Paulo é como uma mulher, uma mulher velhice, tais como a perda da objetividade,
difícil - dizia - ela só se entrega aos poucos… o cansaço e a falta de pessoas da mesma
portanto, para gostar da assustadora São geração com quem conversar. O que nós
Paulo de Piratininga, há que se ter paciência, temos mesmo é de nos preparar para a solidão
leva tempo. Haroldo de Campos. São Paulo. e que esta seja suportável na companhia dos
Galáxias. livros ou coisas mais, que possam vir a nos
(06 de setembro de 2003) ocupar na vigília.
2. Post Scriptum a Do Celibato como uma
das Belas Artes. Tanto é desinteressante a
vida de um solteirão que morre aos sessenta
2004

e poucos anos e com posses, porém, sem

302
filhos, que o Brás Cubas, para garantir sua espanta mais na TV (veículo do qual eu até

2002
posteridade, narrou sua vida depois de gosto) não é bem a falta de qualidade, às
haver morrido. (É óbvio que eu sei que se vezes total, mas a falta de originalidade,
trata de ficção! Porém, o próprio Machado de mesmo no que há de pior. Programas -
Assis já havia pensado no desinteresse por muitos - além de péssimos, são cópia do que
tal biografia e quis homenagear o homem há de mais reles e torpe na TV dos EUA e de
nas ditas condições. E, diga-se, dedicou-lhe outras paragens. O que tem de bom é tão
uma obra-prima!) Por que gostaríamos de pouco, mas basta. Pelo menos para nós que
ser lembrados pelos outros humanos? Por dispomos de inúmeras fontes para obtenção
vaidade. Pura vaidade, é claro. de informação.
3. Dona Amábile e a questão do qualitativo 5. Comida. Não sei se é um sintoma da idade
perene. Logo que publiquei, neste que se vai avançando, junto com o fato de
semanário, um artigo sobre a memorável as coisas irem se tornando proibitivas com
2003 Dona Amabile Ghiotto Bonadio, fui saudado o avançar dos anos (os exames de sangue
por minha amiga Iolanda Barbanti, que costumam nos denunciar), mas a comida vai
concordara com tudo o que eu havia escrito ficando cada vez melhor: o simples refogado
e comentou: - Você apenas se esqueceu de de abobrinha torna-se um banquete!
dizer que tudo o que Dona Amabile fazia, Acontece que a vida nos prega boas peças,
mantinha a extrema qualidade sempre e vivemos a sua ironia: no momento em que
sempre e isto durante décadas. É verdade e estamos com o paladar afinadíssimo, no
fica aí a informação complementar. Manter momento em que nos encontramos aptos a
o qualitativo ao logo do exercício de uma degustar, é justo o momento de fecharmos a
atividade: eis a questão. boca. Temos de regular, de medir tudo. Ah!
4. TV. Mediocridade sem fronteiras. um ovo por semana, frito na manteiga! Para
Chacrinização e cópia nos programas de mim, cada refeição, por mais simples que
auditório, sem a grandeza do Chacrinha. seja, tem sido um acontecimento: o melhor
2004

Informação? De raro em raro. O que me acontecimento do dia. De qualquer dia.

303
Poder comer de tudo e até exageradamente vivido um sonho: como eram excelentes e o

2002
é uma bênção. quanto de sabedoria cosmopolita tinha aquela
6. Ranchinho. Sebastião Teodoro da Silva, mulher! Eram aulas que me alimentavam,
o Ranchinho, pintor naïf (do francês, que atendiam, de fato, a necessidades espirituais
significa “ingênuo”) de Assis (SP) faleceu, minhas - saciavam a minha curiosidade, o
em 2 de fevereiro de 2003. Tinha oitenta meu interesse pelo Mundo das Artes e como
anos e deixa um trabalho que emociona ela trazia coisas e participava, através de
e causa admiração, pelas condições em seus alunos, de eventos os mais variados,
que foi produzido. Estive em Assis com alguns até no exterior, como foi o caso dos
meu irmão Válter e acabei adquirindo, de desenhos que foram enviados ao Japão,
seus sobrinhos, mais alguns quadros, que para um concurso, sendo que alguns alunos
enriquecem artisticamente a minha pequena faturaram prêmios. De Paim, que decorou
coleção. Os ingênuos do Brasil - assim como a Igreja Nossa Senhora do Brasil, nesta
2003 Ranchinho - deverão ser melhor avaliados Paulicéia, ao genial holandês Rembrandt,
pela crítica. Espero que o prometido MUSEU Dona Maud possuía uma desenvoltura rara.
NAÏF de São Paulo venha a colaborar para Pudesse voltar àquele tempo e procuraria
que isso aconteça. aproveitar muito mais, aprender mais coisas
(13 de setembro de 2003) com ela. Mas o passado existe na memória
daqueles que o tenham vivido e nas coisas
remanescentes e só persiste em forma
de relato. Dona Maud marcou com sua
generosidade de mestra a minha existência
e dizer-lhe que eu lhe sou muito grato seria
OBSERVANDO VI
muito pouco. Deus salve a mestra!
2. Arte Abstrata. Por mais que se queira
1. Dona Maud Pires Arruda. Cada vez que
explicar a difícil Arte Abstrata - cujas bases
me lembro das aulas de Dona Maud, penso ter
2004

são Kandinski, Maliévitch e Mondrian -

304
através de teorias filosóficas de fato, ou fotografia (FOTOFORMAS) em fins dos anos

2002
teorias um tanto barateadas, mas que 40 e inícios dos 50 do século passado;
ocuparam as mentes de nosso gênios depois, veio a integrar o grupo Ruptura
acima referidos (uns místicos, diga-se), (1952) de tendência abstrata geométrica
ou remontando ao Neolítico, com aquelas (o concretismo paulista).
decorações abstratas geométricas ditadas 3. beba coca cola. Pois é: o antigo
pela trama da tecelagem (o que não deixa slogan da Coca-Cola foi traduzido do
de ter o seu papel para o advento da inglês ao pé-da-letra. E ficou melhor em
abstração no século XX, a partir de 1910), português. Muito melhor. Em português
o Abstracionismo vem a ser o coroamento ficou perfeito: três unidades sígnicas
de todo um processo deflagrado pelo (duas, sendo uma composta) dissílabas
advento da fotografia na primeira metade paroxítonas, com quatro letras cada,
do século XIX. A pintura teve de evoluir criando um ritmo trocaico / . / . / . O “a”
2003 muito rapidamente a partir da referida aberto perpassando a frase - comparece
invenção (primeira técnica revolucionária nas três unidades - e sempre participando
de reprodução, no dizer de Walter Benjamin) da sílaba átona. Às vezes, uma tradução
e mostrar que a mimese era apenas literal é a melhor solução. Os slogans são,
um detalhe dessa milenar arte, ou mero via de regra, difíceis de serem traduzidos,
pretexto para se distribuírem cores por uma justamente porque fazem uso de recursos
superfície. No mais, a própria fotografia se poéticos. Aí, a questão não é apenas
tornou arte e quando pôde, até se livrou traduzir, mas encontrar, na nova língua,
da obrigação de ser meramente figurativa equivalências formais, transcriar (vide
ou reprodutora de objetos reconhecíveis: Haroldo de Campos…). Décio Pignatari,
muitas são as experiências não-figurativas o grande poeta do Concretismo, partindo
com a fotografia e o Brasil não ficou de do famoso slogan em português, criou,
fora: Geraldo de Barros, pintor, fotógrafo, não acrescentando uma letra diferente,
2004

designer fez belas experimentações com um poema-anti-anúncio, com caco, cola,

305
babe e cloaca!

2002
4. você
está
aqui
Tadeu Jungle foi muito feliz em seu trabalho:
o readymade acima transcrito. Mais uma arte/poesia e tecnologIA : AS
vez, melhor no português. Perfeito! Três NOVAS MÍDIAS-LINGUAGENS
palavras (dissílabas) de quatro letras cada, (A INTERNET)
oxítonas, encadeadas pelas vogais: eeaa.
Do acento circunflexo, passando pelo Toda arte implica utilização de
agudo, até o pimgo do “i”, uma diminuição Tecnologia: a da sua época e a que a tradição
dos apêndices. O ritmo: jâmbico: . / . / . conserva. E, diga-se, é importante que
/ Essa frase-esclarecimento, comumente não se percam as tecnologias do passado:
2003 encontrada em mapas de edifícios etc. foi elas sempre estarão modificadas pela nova
transposta por Tadeu Jungle em pequenos visão das coisas e só poderão apresentar
e grandes cartazes, em caixas de fósforos, acréscimos à sociedade. Isto tudo para dizer
em pequenas etiquetas auto-adesivas. Onde que o uso de tecnologia não significa apenas
quer que você esteja, você estará lá. Ou seja, a utilização das mais avançadas existentes
qualquer lugar poderá ser o seu aqui. Tendo em nossa época.
sido contemplado por Tadeu com um cartaz Uma nova tecnologia pode transformar
de 2 X 2 m, coloquei-o no hall do andar do a prática artística; uma necessidade
edifício onde resido. Quem chega - e vê o específica das artes poderá gerar uma nova
escrito branco sobre fundo vermelho - tem tecnologia. Ainda se pode praticar a técnica
a plena consciência de onde se encontra. do afresco e do óleo, da “cera perdida” etc,
VOCÊ ESTÁ AQUI. E esta afirmação sempre assim como a da revolucionária fotografia e
corresponderá à verdade. os mais atuais dos programas de computador.
2004

(27 de setembro de 2003) Conhecimentos só enriquecem.

306
Muito embora o exercício consciente surpresa. É necessário fazer uso adequado

2002
e conseqüente das Artes hoje exija o do meio (-linguagem) específico. Um erro,
conhecimento da tradição, mais o das mais de saída, é, por exemplo, querer usar o
avançadas tecnologias, a utilização destas videotexto (hoje, um tanto dinossárico e
nem sempre é necessária: basta uma parede já absorvido pela internet) para veicular
branca e um carvão, uma folha de papel e sonetos em alexandrinos. Uso adequado do
um lápis, madeira e goiva… Uma utilização meio é o que fez Walter Siveira, no vídeo “ O
inadequada de uma tecnologia resulta em Elogio da Xilo” que, utilizando a linguagem
obra inconsistente. Como sempre, aquele que do meio, fez de um poema verbal (de Haroldo
desejar alcançar numa certa arte, no mínimo, de Campos) um videopoema. De qualquer
o nível de excelência, deverá conhecer modo, os meios aí estão e não podem ou
profundamente materiais e técnicas e ter o não devem ser ignorados pelos multimídia
que chamaria consciência de linguagem, o ou não de agora em diante, capazes que são,
2003 que não faltou a Monet, Mallarmé, Debussy, se for o caso, de operar com lápis e papel.
Machado de Assis, Picasso, Marcel Duchamp, A INTERNET aí está e, como qualquer
Alfredo Volpi e tantos outros. dessas maravilhosas bancas de revistas da
Reiterando: Os artistas não devem e cidade de São Paulo, contém mais de 95%
não podem ignorar o progresso técnico (às de lixo. LIXO. A questão maior é justamente
vezes eles até o antecipam ou o exigem...), a de selecionar - em meio à avalanche -
que não vem sozinho, mas com toda uma a informação que de fato virá a contribuir
série de modificações, até da própria noção para que se tenha uma boa performance no
de Arte/Criação/Poesia. Porém, as técnicas campo de atuação.
e os meios novos, por si sós, não garantem Bem, todos dizem com orgulho e vaidade
obras realmente sintonizadas com o tempo; que possuem um site etc etc etc. Porém,
a simples utilização de um meio não é na maior parte das vezes, principalmente
suficiente para produzir algo novo, com alto os que atuam como artistas/poetas, não
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teor informativo, com o necessário grau de sabem muito bem do que se trata, do que

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cabe na REDE ou do que pode simplesmente Comunicação Social, ouvem falar no mestre,

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ser da conta de um livrinho tradicional, de no teórico das comunicações, no tradutor
uma simples carta ou de uma conversa de McLuhan - Understending media - no
informal. É preciso adequar a linguagem, é debatedor de idéias brilhantes, no poeta). O
preciso pensar em termos de internet, ou poder da palavra. Sim, Décio tem o poder da
seja, em termos planetários. Um poema na palavra. Ou seja, a palavra, o código verbal
INTERNET deve ser aquele que visa a um quando utilizado por ele é poderoso. Sabe
público certo/incerto: o dos usuários do falar, possui um repertório lexical invejável
sistema em todo o Planeta que, como disse e - embora advogado formado que nunca
há décadas Marshall McLuhan, transforma- tenha exercido a profissão, pois, foi professor
se numa “aldeia global”. Destinatários de e publicitário - possui o dom da persuasão.
um poema da REDE: terráqueos do Brasil, Muito do que ele falou era novidade para
da Rússia, do Japão, do Líbano, do Vietnã, os alunos. Para mim, em parte: Décio
2003 da Lituânia, do Senegal, de Angola, Nova sempre surpreende pela variedade dos seus
Zelândia, Zâmbia… conhecimentos e pelas opiniões (juízos), às
(04 de outubro de 2003) vezes, paradoxais. Continua residindo em
Curitiba, para onde rumou há alguns anos,
porém tem freqüentado mais São Paulo. Ele
acha que o século XXI, o presente século, será
do Brasil e da Rússia e, indagado por uma
professora por quê o Brasil, ele respondeu
OBSERVANDO VII que todos os países com mais de 4,5 milhões
de km2 fatalmente se tornam potências - o
1. Décio Pignatari na FAAP, em 19 de que era o caso dos dois mencionados. (A tal
setembro de 2003. Décio Pignatari, um mito afirmação ele a havia feito a um jornalista,
vivo (principalmente para os alunos da FAAP, que ficou estupefato e perguntou: “Por que
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que desde os primeiros dias do curso de a Rússia?!”). Não houve tempo para maiores

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explicações, porém, eu, otimista, fiquei com a que o velho já ficou - glorioso - para trás.

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sua (dele Décio) opinião. Havia feito algumas Freud não curtiu o Surrealismo, que sugou
fotos logo na chegada, à FAAP, de Décio (que muito de sua teoria do Inconsciente (muito
conheço desde 1974) que ficaram até boas discursivo o Surrealismo, trabalhando
e que virão a integrar o meu arquivo. Tanta qualquer dos códigos. Vejo o Surrealismo -
defesa do Ícone (sob a forma de diagrama) Décio Pignatari é da mesma opinião - como
por parte de Décio e isto há décadas, quando uma subcorrente do Modernismo, que fez
o que se nota é um fascínio pela palavra e muito mal para alguns dadaístas que para
uma cobrança que ele exerce nesse sentido. ali descambaram). O pai não se reconhece
Aos 76 anos, Décio Pignatari está ótimo, no filho para assim sentir-se mais seguro.
mais tendente a filosofar. Sinal dos tempos. Pound estava cansado. Freud viu ali um
Peso dos anos. Tem-se uma medida disto desvirtuamento de suas teorias. Décio não
no maravilhoso livro Errâncias: uma espécie tem muita paciência com os poetas ditos
2003 de livro-de-memórias-livro-testamento que experimentais. Filhos honram seus pais. Um
parte de fotos apreciadas e ou feitas pelo escritor (artista) cria os seus precursores,
próprio Décio. Uma prosa digna de um disse Jorge Luis Borges. Os novos conferem
Machado de Assis. Décio de Jundiaí-Osasco- aos velhos uma existência…
São Paulo-Curitiba-cidadão-do-mundo. 3. Dona Virgínia Travallon. Uma
2. Este filho não é meu. O pai não se costureira sob medida. Nem haveria outra
reconhece no filho. O mentor artístico não igual. As camisas: incomparáveis. Deixavam
se reconhece na obra do seguidor-cultor. qualquer um elegante. Difícil conseguir uma
Justamente por serem tão parecidas as vaga. Semanas ou até meses de espera.
atitudes. Ezra Pound não gostou muito Impecáveis. Muitas camisas fez para mim.
da Poesia Concreta… O mais velho não se Botões: dez anos depois ainda estavam no
vê no mais moço, justo porque, não só é lugar. Eu usava ano após ano as camisas
continuação de atitude, como representa feitas por ela, que sempre me recebeu com
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uma evolução na forma, o que significa simpatia em sua casa. Casa? Era um pequeno

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palácio encantado: tudo arrumado como num KLEBHER INFORZATO

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conto de fadas, como se fosse um sacrilégio
tirar alguma coisa do lugar. Uma limpeza Klebher Wagner Nardoto Inforzato
absoluta! Um mundo sem poeira e com muito (Pirajuí . 18-10-1954 / 05-11-1984).
brilho. Dos móveis ao assoalho. A sua figura Klebher se foi tão cedo e em circunstâncias
de um asseio ímpar, parecendo sempre ter inacreditáveis. Não cheguei a ser seu amigo,
acabado de sair do banho e de vestir uma mas nós nos cumprimentávamos. Enfim,
roupa limpa e nova. Impecável. Sua casa nossas relações eram cordiais, pirajuienses
sua figura suas camisas: de uma correção que éramos e com família já há algum tempo
encontrável em tão poucos humanos. Mas no lugar. Tinha amizade, sim, desde os anos
encontrável. Dona Virgínia nos fazia crer 60, com a doce Neusa Vilela - sua esposa e
que nós humanos poderíamos alcançar altos mãe dos seus três filhos - antes mesmo dela
patamares como seres aperfeiçoados. E o vir estudar Artes Plásticas na FAAP.
2003 seu trabalho como costureira nos deixava Klebher era uma espécie de Marcello
exigentes. Como comparar o seu com outros Mastroianni dos trópicos. Era de uma admirável
trabalhos? Um nível de exigência que deveria elegância (natural, diga-se) e de um charme
nortear as nossas vidas. Dona Virgínia: fica indisfarçável, que derramava nos ambientes
o seu sorriso sereno com sua simpatia. por onde passava. Independentemente de
Fica o exemplo de trabalho. Fica o nível de ele namorar ou não às escondidas - mesmo
excelência a que pode chegar um trabalho que quisesse, não daria conta da legião de
artesanal. mulheres que arrastavam as asas para ele -
(11 de outubro de 2003) coisa sobre a qual eu nem sei e nem gostaria
de magoar a delicadíssima Neusa, Klebher,
parece, tinha plena consciência de seu
magnetismo pessoal. Certa vez, presenciei
uma seqüência digna de um filme italiano
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dos bons:

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- Era uma véspera de feriado Foram raras as vezes em que tornei

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prolongado em São Paulo (feriado nacional, a ver o Klebher e, num certo dia, soube da
não me lembro de qual), na época em sua morte, acho que por telefone. Porém,
que a estação rodoviária ainda era aquela a imagem dele que me ficou é a do cara
antiga, próxima à praça Princesa Isabel, nos sedutor, que jamais perdia a chance de
Campos Elíseos. E era aquele sofrimento do colocar à prova junto às mulheres o seu
atraso das partidas: três, quatro horas de charme: um Mastroianni que morreu jovem
espera, nas piores condições: milhares de e, portanto, belo.
pessoas nas mesmas condições, sonhando Não conheço os seus filhos (sei que
com uma cidade do interior do Estado. possui até netos), mas espero que estejam
Pois é: lá estavámos nós: eu e o Klebher, bem. Aproveito esta oportunidade para enviar
que gentilmente se deslocou e veio me um abraço afetuoso à Neusa e perguntar-lhe
cumprimentar retornando, depois, ao seu se ainda possui aquela cabeça de gesso feita
2003 posto. Eu, curiosamente, passei a observar na FAAP: um auto-retrato. Auguri!
o que se passava no entorno e era mulher (18 de outubro de 2003)

atrás de mulher que flertava com ele e com


quem ele ia conversar: de adolescentes a
mulheres já maduras, sentiam-se lisonjeadas
com a sua corte, que durou horas e umas
vinte e tantas mulheres! Era de fazer inveja
a qualquer macho interessado em pôr à
OBSERVANDO VIII
prova o seu poder de sedução, através de
olhares, gestos e conversas até ao pé-do-
1. Martha. A sempre Suplicy Martha se
ouvido. Don Juan sentir-se-ia diminuído em
casa. Em seu caso, que não é bem uma obra
sua fama. É claro que, na ocasião, a coisa só
ficou nisto, bem porque finalmente chegou a do acaso, capitalizando a façanha para a
carreira política, o que dá um toque a mais de
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hora do embarque.

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humanidade à mãe do Supla (Martha Suplicy antiga Fenícia e que Beirute está de novo

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é uma marca e ela não quererá perdê-la). uma maravilha, o que é confirmado por meu
“Ela também tem o direito de ser feliz”, dirão médico (também de minha mãe) Dr. Michel
os incautos, que pensam estar a felicidade Batlouni. O arquifomoso cardiologista voltou
vinculada a uma vida sexual e a uma gorda agora do Líbano e conta coisas a respeito
conta bancária. Pois é! Tudo indica que, em da reconstrução da capital libanesa: está até
se recandidatando no ano que vem para melhor que em outros tempos e recupera a
as eleições municipais de São Paulo - que confiança dos que têm dinheiro. Um aterro
estará completando 450 anos - ela fatura. será construído com os entulhos-frutos-da-
Martha é uma mulher de pulso. Segura. destruição e formará um jardim, adentrando
Arrogante. Arrogância calcada na suposta o Mediterrâneo. As frutas do Líbano são um
aristocracia da sua família e na riqueza de dislumbro, mesmo, disse ele: incomparáveis,
fato (muito mais tradicional e rica que a do como contavam nossos pais e avós, do
2003 Matarazzo Suplicy, o simpático senador em figo branco à uva e à romã. Deus salve o
quem eu votei e não me arrependo). Pois Líbano, terra de navegadores-comerciantes,
é: a segurança de Martha tem sua origem inventores do alfabeto!
aí. É uma m