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Identidades Coletivas e Conflffllitos Territoriais no Sul do Brasil. Aline Miranda Barbosa Dimas Gusso Douglas
Identidades Coletivas e Conflffllitos
Territoriais no Sul do Brasil.
Aline Miranda Barbosa
Dimas Gusso
Douglas Ladik Antunes
Ezequiel Antonio de Moura
Jorge Montenegro
José Carlos Vandresen
Letícia Ayumi Duarte
Marcelo Cunha Varella
Marina Eduarda Armstrong de Oliveira
Marina Gomes Drehmer
Mercedes Solá Pérez
Rafael Palermo Buti
Roberto Martins de Souza

© Roberto Martins de Souza et al., 2015

Editor

Alf redo Wagner Berno de Almeida

UEA, pesquisador CNPq

Projeto Gráfico e diagramação

Grace Stefany Coelho

Fotos

Arquivo Projeto Nova Cartografia Social Sul

Ficha Catalográfica

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Identidade coletiva e conflitos territoriais no Sul do Brasil / Roberto

Martins de Souza 250 p. : il. Color.

[et

al]. – Manaus, AM: UEA Edições, 2014.

ISBN 978-85-7883-317-6

1. Faxinais– Povos e comunidades tradicionais. 2. Pescadores Artesanais 3. Conflitos sociais. 4.Territorialidade. I. Souza, Roberto Martins. II. Título

CDU 342.726

UEA - Edifício Professor Samuel Benchimol Rua Leonardo Malcher, 1728 Centro Cep.: 69.010-170 Manaus, AM

E-mails:

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pncsa.ufam@yahoo.com.br

www.novacartografiasocial.com

Fone: (92)

3878-4412

Prefácio

Sumário

Apresentação

Nas tramas da construção de uma rede de povos e comunidades tradicionais no Paraná e Santa Catarina:

histórias de sempre, histórias de hoje

Narrativa sobre a sistematização das experiências da Rede Puxirão de Povos e Comunidade Tradicionais

Comunidade de Pescadoras e Pescadores Artesanais Organizados – Processos de R-existência na Vila do Superagüi-PR

Da sustentabilidade manifesta à dominação latente: cartografias participativas e conflitos territoriais

A tutela das plantações industriais de árvores e a resistência camponesa no município de Imbaú - PR

R-Existência da Comunidade de Agricultores e Pescadores Artesanais dos Areais da Ribanceira, Imbituba - SC

Tempo, território e conflitos sociais: práticas tradicionais e desterritorialização de cipozeiros.

Nas Margens do Fundão: Política, Expropriação, Direito e História da Comunidade Quilombola Invernada Paiol de Telha/PR

Notas Biográficas

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PREFÁCIO
PREFÁCIO

No planalto meridional do País, tanto quanto no cerrado, no litoral e nas regiões pantaneira e amazônica, verifica-se, nesta primeira década e meia do século XXI, um fortalecimento das mobilizações étnicas e das lutas por direitos territoriais. O reconhecimento da sociodiversidade pelo Decreto n. 6.040, de 07 de fevereiro de 2007, parece consolidado a partir do funcionamento efetivo da Comissão Na- cional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais, propiciando condições de possibilidade para uma ação política permanente. Nas reuniões desta Comissão paritária, entre 2008 e 2014, os representantes, titulares e suplentes, de trinta diferentes movimentos sociais, de regiões as mais diversas, estreitaram seus laços, firmando pactos tácitos de solidariedade e realizando in- tensas cooperações inter-regionais a partir de conflitos localizados. Embora ainda não tenham acionado todo o potencial político desta Comissão de maneira apro- priada, pode-se dizer que tal ação política apóia a criação de Comissões Regionais, de mecanismos de consulta e de Câmaras Técnicas, ampliando a representação da Comissão em diversos Conselhos, além de pretender articular as representações nacionais e inter-estaduais com as entidades locais de representação 1 . A questão da representatividade diferenciada e suas implicações encontram nesta Comissão, composta de faxinalenses, seringueiros, ciganos, quilombolas, indígenas, pomera- nos, povos de terreiros, quebradeiras de coco babaçu, pantaneiros, pescadores, rep- resentantes de comunidades de fundos de pasto e caiçaras; uma experiência de di- versidade identitária e de critérios de mobilização os mais heterogêneos, bem como de territorialidades específicas construídas consoante as particularidades de cada uma destas unidades sociais. Semelhante experiência deve ser levada em conta quando analisamos as articulações das diversas formas de lutas e pautas reivindi- catórias face aos direitos territoriais. No contexto das mobilizações políticas veri- fica-se ademais que as reivindicações econômicas mostram-se indissociáveis das

1Desde as discussões da Constituinte de 1987 foram realizados os denominados “encontros”, agrupando seringueiros, povos indígenas, quebradeiras de coco babaçu, castanheiros e demais unidades sociais que compunham os chamados “povos da floresta”. A difusão desta forma organizativa na virada do século transcendeu à região amazônica. O I Encontro dos Povos dos Faxinais ocorreu em Irati (PR), em agosto de 2005, e teve como lema “Terras de Faxinal: resistir em puxirão pelo direito de repartir o pão”. O I Encontro Regional dos Povos e Comunidades Tradicionais, mobilizando faxinalenses, quilombolas, cipozeiros, pescadores, ilhéus e indígenas ocorreu quase três anos depois, em 27 e 28 de maio de 2008, consolidando a Articulação Puxirão dos Povos dos Faxinais.

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reivindicações identitárias e que os territórios possuem evidente dimensão sim- bólica. As mobilizações organizadas no Paraná pela Articulação Puxirão, pelos pes- cadores artesanais, pelos ilhéus, pelos quilombolas e pelos indígenas bem ilustram isto e propiciam, como exposto neste livro, um debate aberto e fecundo. Nos meandros deste debate é que é possível, no plano teórico, rever instru- mentos analíticos e repensar criticamente certos esquemas interpretativos. Assim, contrapondo-se às explicações metafóricas, que tratam estas mobilizações como “em rede”, a partir da metáfora weberiana da “teia de aranha”, pode-se asseverar que a complexa sociodiversidade permite-nos advertir que as formas heterogêneas de mobilização não seriam fios de uma mesma teia, compondo uma rede de tecido e textura uniformes. Esta sociodiversidade tão pouco consiste numa trama que en- reda ou emaranha, formando uma espécie de “rede elástica” projetada como laços complementares, araneíferos. As metáforas, que insistem em figuras de aproxi- mação, configurando geometricamente limites relativamente precisos, esbarram no infinito dos significados desta diversidade complexa e dinâmica, que parece driblar as delimitações usuais, apoiadas numa noção estritamente formal de ação coletiva e de participação política. Transcendendo às demandas de reconhecimento a Comissão Nacional tem con- tribuído na articulação de estratégias localizadas de resistência e de reivindicações de apropriação de territórios tradicionalmente ocupados, como no caso do recente apoio à participação das comunidades caiçaras da Juréia 2 em audiência pública na Assembléia Legislativa de São Paulo. Ao fazê-lo, a Comissão admite, de maneira implícita, que cada associação comunitária delineia uma forma peculiar de luta, consoante suas condições intrínsecas de organização política, de mobilização e as particularidades de suas respectivas territorialidades específicas. As lutas por direitos territoriais, no presente, balizam os laços de solidariedade numa quadra em que o governo praticamente não demarca terras indígenas e não titula territórios de comunidades quilombolas, ribeirinhas e dos demais povos e comunidades tradicionais. Justificar esta inocuidade pela “ausência de regulamen- tação” contraria o que já está plenamente ratificado. No âmbito estrito da Con- venção 169 há dispositivos operacionais reconhecidos e consolidados de maneira explícita para povos indígenas e quilombolas. Mesmo que não haja dispositivos específicos direcionados para todos os demais povos e comunidades tradicionais, eles encontram-se implicitamente contemplados pela ratificação. Esta distinção operacional não teria significação maior. Prova disto é que não dividiu a Comissão Nacional e, ao contrário, tem facilitado os laços de solidariedade entre os repre- sentantes dos diferentes povos e comunidades tradicionais em suas reivindicações

2 Num processo de lutas contra tentativas de deslocamento compulsório de famílias de moradores a União dos Mo- radores da Juréia apresentou em audiência pública na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo uma proposta, fundamentada na Convenção 169, para recategorização do chamado “Mosaico da Juréia”, propondo a criação de quatro reservas de desenvolvimento sustentável (RDS) nas terras tradicionalmente ocupadas pelos moradores, além da criação de dois parques estaduais. No dia 06 de março de 2013 foi votado, entretanto, em sentido contrário, um Projeto de Lei de n.60-12 que prevê a reclassificação da Estação Ecológica para um Mosaico de Unidades de Conservação, prevendo a criação de apenas duas RDS o que acarretará na expulsão de grande parte dos moradores que tradicionalmente ocupam a região da Juréia. Vide União dos Moradores da Juréia - PNCSA – “Comunidades tradicionais caiçaras da Jureia,Iguape-Peruibe”. Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil - São Paulo. Fascículo n.1, junho de 2013.

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pelos territórios ocupados 3 . Deste modo, na percepção dos membros da Comis- são parece prevalecer um princípio operativo: mais que as lutas pelo reconheci- mento de identidades são as reivindicações de posse de um território, reforçadas coletivamente, que constituiriam um fator de mobilização política para legitimar as lideranças e os próprios representantes na Comissão Nacional. A participação direta e diferenciada nas medidas de implementação dos direitos territoriais torna- se, portanto um elemento central na estratégia destes movimentos sociais articula- dos com as reivindicações de comunidades locais 4 . A força política construída pelas mobilizações em torno do território institui uma dinâmica que emancipa, portanto, estas comunidades locais das amarras burocráticas, que visam emparedar definiti- vamente suas fronteiras. A luta pelos direitos territoriais e as distintas práticas de delimitação das territorialidades específicas, fundamentais à reprodução social de cada comunidade, evidenciam uma forma de autoconsciência cultural coextensiva à capacidade de ampliar suas relações, consolidando de maneira dinâmica o ter- ritório. (relações sociais) Ao cotejar diversas possibilidades, sob o critério da divisão em biomas e ecossistemas, verifica-se que no sertão nordestino, na floresta amazônica ou na floresta atlântica e no planalto meridional não há uma identidade unitária e as mesmas práticas que nivelem as comunidades tradicionais. Não há entre os povos indígenas, nem entre estes e os quilombolas e não há entre as comunidades de faxinais e de fundos de pasto. A imperiosidade do “denominador comum”, como elemento explicativo, mais sugere um artifício de pesquisadores acadêmicos do que uma realidade empírica. As unidades sociais, não obstante uma identidade co- letiva a mesma, mostram-se heterogêneas e expressas por diferentes formas or- ganizativas e de mobilização identitária, que enfatizam um processo de relações associativas marcado por profundas distinções históricas e processos de lutas os mais variados. A diversidade das unidades sociais aponta para uma difícil articu- lação de diferenças, que se apóiam em relações quase institucionais e em modus operandi que aparentemente se contraditam uns aos outros, desdizendo, como já foi sublinhado, a produção linear da seda de que é feita a “teia de aranha”, que é uma expressão metafórica do senso-comum erudito, e chamando a atenção para vínculos hierarquizados, distintos e complexos que não formam necessariamente laços geometrizados e complementares, característicos de figuras zoológicamente compostas 5 . A fronteira identitária não passa necessariamente, portanto, por con- dicionantes do quadro natural. Não é inspirada na fauna, nem nas comunidades tal como biologicamente definidas. A metáfora araneiforme consiste numa “verdade

3 Conforme pronunciamento da representante das comunidades pantaneiras na Comissão Nacional, Claudia de Pinho,

em reunião promovida pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) para avaliação da Política Nacional de Desenvolvi- mento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais, realizada no Cenaflor-Ibama, em Brasília, no dia 03 de dezem- bro de 2012.

4 O geógrafo T. Paoliello estuda a relação entre a luta pelo território e a consolidação de uma identidade coletiva em sua dissertação defendida, em 2012, junto ao Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. De acordo com a abordagem do autor, em sua pesquisa sobre os Atikum e Pankará, no sertão pernambucano, não seriam

necessariamente as demandas pelo reconhecimento, mas as reivindicações de posse de um território, feitas de maneira coletiva no tempo presente, que constituiriam “o gatilho que dispara o processo de etnogênese.” Leia-se Paoliello P. de Oliveira, Tomas – Revitalização étnica e dinâmica territorial: alternativas contemporâneas à crise da economia sertaneja. Rio de Janeiro. Contracapa. 2012

5 Para maiores esclarecimentos consulte-se: Almeida, A. W. B. de, e Dourado, S. - Consulta e Participação: a crítica à metáfora da teia de aranha. Manaus. UEA Edições. Coleção Documentos de Bolso n.5. 2013 pp.11-34.

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científica aparente”, com todos os atributos acríticos da autoevidencia e todas as ilusões derivadas. De igual modo a aludida fronteira não se prende a essencialis- mos ou a características físicas, raciais ou de origem. Ela se mostra balizada por experiências político-organizativas, de lutas concretas e de resistências cotidianas refletidas em autorepresentações coletivas e por uma infrapolítica produtora de dispositivos jurídicos apropriados. Em outros termos, a análise concreta de uma situação concreta e a própria descrição etnográfica de uma ocorrência de conflito, reforçada pelas relações sociais próprias do processo de produção cartográfica, po- dem propiciar uma ruptura crítica com a generalidade dos fatores invariantes deste modelo de explicação metafórica. No reforço desta abordagem é que enfatizamos como dispositivo a Conven- ção 169 da OIT ao apresentar aqui, para efeitos de discussão ampla e difusa, um repertório de artigos e análises críticas que objetivam um aprofundamento das questões sociológicas referidas ao entendimento das mobilizações políticas e das reivindicações identitárias e econômicas dos povos e comunidades tradicionais no momento atual.

6 Antropólogo, professor da UEA e pesquisador do CNPq.

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Alfredo Wagner Berno de Almeida 6

Apresentação Nas tramas da construção de uma rede de povos e comunidades tradicionais no Paraná
Apresentação
Nas tramas da construção de uma rede de povos e comunidades
tradicionais no Paraná e Santa Catarina: histórias de sempre, histórias
de hoje

Jorge Montenegro 1

I

Os contadores de histórias, desde sempre, abrem mão de recursos sutis para desafiar a imaginação do público, prendendo assim sua atenção com artimanhas de todo tipo, alimentando a curiosidade de quem os escuta e estabelecendo cum- plicidades imediatas. Um olho que brilha, um sorriso que se esboça. Mas, essa curiosidade crescente e essa folia da imaginação não se desvanecem no final da história, senão que marcam profundamente o silêncio que o desfecho do relato irremediavelmente provoca. O final da história, abrupto ou esperado, arruma a re- bentação dos sentidos, sopra forças e abre caminhos para continuar em frente. São essas estórias de sempre, que contadas uma e outra vez, contadas de formas diferentes, contadas com protagonistas outros, nos fazem e nos refazem também hoje. Constroem-nos como partes de uma comunidade ampla de indivíduos talvez esparsos, mas que se juntam ao redor do calor que irradia uma boa história, uma história que no final das contas também acaba sendo, se olho brilhar, se o sorriso esboçar, de quem a escuta. A história, ou melhor, as histórias que este livro conta compõem um olhar cuida- doso e próximo do processo de organização que os povos e comunidades tradicio- nais de Paraná e Santa Catarina vêm realizando desde metade dos anos 2000. São faxinalenses, indígenas, quilombolas, ilhéus, pescadoras e pescadores artesanais, cipozeiras e cipozeiros, benzedeiras e benzedores e religiosas e religiosos de matriz africana que com seus próprios ritmos e interesses foram se aproximando em movimentos sociais específicos que lhes dessem fortaleza e lhes representassem:

a Articulação Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais (APF), a Articulação

1 Professor dos cursos de graduação e pós-graduação em Geografia na Universidade Federal do Paraná (Curitiba-Brasil). e-mail: <jorgemon00@hotmail.com>.

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dos Povos Indígenas do Sul (ARPIN-Sul), a Federação de Comunidades Quilom- bolas do Paraná (FECOQUI), o Movimento dos Ilhéus do Rio Paraná (MOIRPA),

o Movimento dos Pescadores Artesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR), o Movi-

mento Interestadual das Cipozeiras e Cipozeiros (MICI), o Movimento Aprendizes da Sabedoria (MASA) e o Fórum Paranaense de Religiões de Matriz Africana (FPR- MA). Porém, são histórias que contam também como eles conseguiram ir além dessas organizações específicas. Todos esses povos e comunidades tradicionais juntaram forças, pulando preconceitos e dificuldades, para criar, em 2008, a Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais. Movimento de movimentos que se apresenta na areia política para mostrar a vida e o dinamismo do caleidoscópio de identidades

coletivas que existem em estados como Paraná e Santa Catarina, apesar da omissão dos discursos oficiais. Os autores dos textos deste livro acompanharam esses processos de perto e de longe, em um movimento que lhes permitiu viver a história para poder contá- la. De perto, porque mais do que uma metodologia, a relação social de pesquisa estabelecida com esses sujeitos que constroem suas identidades coletivas exige uma interlocução edificada desde a proximidade, o respeito e a participação nos pro- cessos. De longe, não por um suposto pré-requisito necessário de distanciamento científico, e sim pela possibilidade de dar dois passos para trás e enxergar elemen- tos que pudessem trazer para os textos, leituras ainda mais densas, universais e articuladas das práticas e dos conflitos que identificam esses povos e comunidades tradicionais. Este livro retrata um primeiro intento. Um processo iniciático que pretende registrar práticas, pesquisas e intuições de um grupo heterogêneo de pesquisadores que foram se encontrando no rasto das problemáticas que tentam compreender e divulgar: “Identidades coletivas e conflitos territoriais”. Em alguns casos, esses pes- quisadores já estavam no acompanhamento dos primeiros eventos que marcam a conformação da Rede Puxirão, como o I Encontro de Povos Faxinalenses, em 2005. Em outros casos, essas pessoas foram se agregando ao calor da construção de treze fascículos de cartografia social com faxinalenses, quilombolas, cipozeiras e cipozei- ros, pescadoras e pescadores artesanais, ilhéus e benzedeiras e benzedores, entre os anos de 2007 e 2011 2 , além de três mapeamentos situacionais de faxinalenses, cipozeiras e cipozeiros e benzedeiras e benzedores, também realizados nesses anos. Desse encontro fecundo de organizações, caminhos sofridos e alegrias de se reconhecer no outro, foram aparecendo, desde meados dos anos 2000, demandas concretas que deveriam restabelecer uma justiça social e ambiental sempre esca- moteada para estes grupos. Registrados nos textos deste livro aparecem algumas das interpelações que os movimentos de representação desses grupos, por separado

e em conjunto, realizam ao Estado e à sociedade em geral. São demandas para par-

ticipar da necessária redistribuição que o Estado deveria enfrentar e a sociedade em seu conjunto assumir como projeto nunca mais adiado: terra, renda, acesso a recur- sos, etc. Mas também são demandas que pedem garantias de reconhecimento para as especificidades manifestas que os povos e comunidades tradicionais mostram:

2 No momento em que escrevemos estas linhas (dezembro de 2014), há processos abertos de cartografia social com pescadoras e pescadores artesanais, indígenas, faxinalenses e moradores de bairro.

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condições de vida nos territórios tradicionalmente ocupados, participação social como iguais com reconhecimento das diferenças, reconhecimento pleno de uma identidade autodefinida que se constrói sobre uma tradicionalidade em construção, etc. Redistribuição e reconhecimento: demandas apresentadas desde a contundên- cia da experiência, da vida, de um cotidiano que contra toda lógica subsiste e se recria, ao mesmo tempo, na manutenção dos tempos passados e na negociação com os tempos presentes. Resulta difícil estabelecer uma hierarquia clara e consensual sobre o que se- ria mais importante nesse processo de construção de uma rede de povos e comu- nidades tradicionais no Paraná e Santa Catarina, mas sem dificuldade podem ser elencados uma série de situações e processos que ajudaram nessa questão: a em- patia de lutas e desafios compartilhados recentemente e desde sempre; os avanços na criação de uma legislação nacional sobre povos e comunidades tradicionais (es- pecialmente a Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Co- munidades Tradicionais que permitiu reunir em um foro de escala nacional povos e comunidades com práticas e conflitos similares); a participação dos grupos na construção de cartografias e mapeamentos sociais que deram a oportunidade do mutuo reconhecimento e da soma de experiências em comum, não só no Sul do país, mas também com grupos de todo o Brasil que realizaram experiências simi- lares; a colaboração de outras organizações, assessorias e pesquisadores, no pro- cesso de apoio, diálogo e reivindicações, etc. No entanto, resulta bastante fácil enxergar qual de todos esses elementos ficou sempre muito aquém dos desafios, personificando a inação em um contexto de ação necessária e omitindo-se em seu papel de fundamental mediador: o Estado e sua proposta de Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais. Seja como for, o que resulta evidente é que fruto concreto dessa mescla de elementos geradores, tanto vindos de longe como recentes, e desses desencantos com a resposta do Estado na escala nacional, foram aparecendo simultaneamente reivindicações concretas e contundentes nas agendas destes grupos. E a lista não é pequena, nem leviana. Entre outras podemos destacar as seguintes demandas:

• Necessidade de construir uma Política Estadual de Povos e Comunidades

Tradicionais que aproxime as discussões dos seus protagonistas (tanto os dedica- dos à execução como dos beneficiários).

• Estabelecimento de uma Comissão Estadual de Povos e Comunidades Tradi-

cionais (recentemente instituída e nomeada) que seja um fórum de debate para a

consolidação de uma política estadual 3 .

• Participação ativa nas políticas que incorporam esses grupos como sujeitos

com formas de produção diferenciadas (soberania e segurança alimentar, assistên- cia técnica, etc.). • Participação com plenos direitos nas legislações que se referem ao uso dos ter- ritórios tradicionalmente ocupados por eles (como a regulamentação da consulta livre, prévia e informada existente na Convenção 169 da Organização Internacional

3 Depois de vários anos de negociações, foi criado o Conselho Estadual de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais pela Lei 17.425 de 18 de Dezembro de 2012. No entanto, a nomeação de seus membros só aconteceu em 26 de março de

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do Trabalho). • Estabelecimento de um marco de referência e de respeito na relação com os órgãos de fiscalização do meio ambiente, desativando a concepção meramente re- pressora instalada até hoje nessas instâncias. • Negociação renovada e em base a novos paradigmas acerca da sobreposição de unidades de conservação em territórios tradicionalmente ocupados (rever as uni- dades de conservação de proteção integral com povos e comunidades tradicionais em seu interior, proteger o meio ambiente, as populações pré-existentes e os usos tradicionais através de figuras de conservação de desenvolvimento sustentável, se- gundo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação). • Necessidade de discutir novas abordagens acerca do que se considera patrimônio material e imaterial e como apoiar o esbanjo de vida que existe em sua recreação cotidiana.

A possibilidade de captar toda essa generosa e transbordante realidade ao re- dor das práticas, conflitos e identidades dos povos e comunidades tradicionais do Paraná e Santa Catarina, resulta o grande desafio para os textos deste livro. No mo- mento em que os mesmos foram escritos, discutidos e, em alguns casos, modifica- dos e atualizados, uma conjuntura complexa e carregada de entraves se apresenta. Uma pluralidade de sujeitos se debruça sobre múltiplas possibilidades de nego- ciação e confronto. Sem possibilidade de uma leitura distanciada (que não captaria a riqueza do real), os textos optam por uma leitura que dialogue francamente e mostre os limites e as contradições entre os elementos que contribuem a consolidar a construção de uma rede de povos e comunidades tradicionais e o conjunto de relações sociais em que essa construção se realiza. Este é um livro de histórias não encerradas. Contra os relatos sobre povos e ”

comunidades tradicionais que começam com “era uma vez

finais felizes em passados tão bucólicos como distantes, os textos reunidos aqui se propõem narrar as histórias desses grupos desde a vertigem do real inacabado, dos processos em marcha. Contra a “museificação” das práticas, das identidades ou dos conflitos que desarraigam os povos e comunidades tradicionais do seu presente e do seu território de vida, as histórias deste livro se desafiam a participar, junto aos seus protagonistas diretos, na compreensão das múltiplas dimensões que os enraíza ao tempo presente e os permite desafiar o futuro. Uma tarefa imensa que precisa não só de um livro, mas sim de impulsionar formas de construção do conhecimento que permitam se aproximar dessas realidades sem as dicotomias empobrecedoras habituais: desenvolvido-atrasado, moderno-tradicional, sujeito-objeto, natureza- cultura, senso comum-conhecimento científico, etc. Nesse sentido, dedicamos os dois próximos itens da apresentação a percorrer brevemente dois caminhos que permitam conectar a construção da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais com duas questões estratégicas na hora de pensar como as práticas, as identidades e os conflitos dessas comunidades provo- cam uma reflexão necessária sobre como se organiza e se pensa a sociedade em geral: a construção epistêmica dos/sobre os povos e comunidades tradicionais e os

ou que prometem

conflitos do desenvolvimento. Um exercício de reflexividade que mostra a riqueza da experiência acumulada

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por esses grupos e a premente necessidade de escutar socialmente suas demandas e suas histórias, de conhecer as formas em que se relacionam entre eles e com a natureza, de não deixar perder a sociobiodiversidade que os define e, em muitos casos, que os faz únicos.

II

Não perder a riqueza da experiência que esses povos e comunidades tradicio- nais oferecem, nem enclaustrá-la nos museus ou no preconceito, são desafios de primeira ordem frente a um mundo que se mercantiliza, se homogeneiza e se indi- vidualiza rapidamente, dissolvendo-se em um presente míope e autorreferenciado. Nesse sentido, os saberes acumulados nesses grupos se constituem em um ponto de referência mais (tão importante e necessário como outros muitos) para refazer o rumo e repensar a construção dessa sociedade, hoje sem passado nem futuro. Por isso, a construção epistêmica que esses povos e comunidades realizam a cada dia, na minuciosidade de um cotidiano que reflete a riqueza do passado e a peleja do futuro, configura-se em aspecto essencial de suas contribuições para um mundo que, geralmente, os nega como sujeitos sociais por inteiro. No entanto, aproximar-se da forma em que é moldado esse conjunto de conhecimentos especí- ficos apresenta duas dificuldades que se complementam: como abordar os saberes dessas comunidades? Como socializar esses saberes? Entre o folclore e a ingenuidade new age, portanto, entre a supervalorização do que já não é mais e a supervalorização do que de repente se converte em tábua de salvação única, as comunidades constroem seus conhecimentos em uma nego- ciação sempre tensionada entre passado, presente e futuro. Uma negociação que envolve acima de tudo sobrevivência, tanto material como do conjunto de saberes que dão sentido a suas práticas cotidianas. Não se trata de saberes menores, atrasados ou pertencentes a um senso comum mais próximo da intuição natural que da sofisticação da cultura. Ao contrário, o relato construído ao longo dos textos deste livro está marcado pelo convívio desses grupos com saberes que reúnem um amplo espectro de elementos definidores: forte arraigo dos conhecimentos, sempre vinculados estreitamente com a natureza cir- cundante e com a reprodução da vida; são saberes que se fazem e refazem nas práti- cas do dia a dia e nos conflitos internos e externos; as mudanças dos mesmos se realizam habitualmente em processos de longo prazo, sopesando com calma a ver- dadeira necessidade das modificações; densidade relacionada não só com o acúmu- lo de tempos ou com o domínio do espaço, mas também com a ampla participação da comunidade em seu conjunto nesses processos; os conhecimentos construí- dos conjuntamente também são utilizados de forma conjunta ou apropriáveis por qualquer membro da comunidade, reduzindo as interdições ao caráter de exceção; apesar das condições de vida específicas dessas comunidades, não são isoladas, os processos de construção do conhecimento, portanto, estão sempre condicionados pelo encaixe das mesmas na sociedade em geral Na leitura atenta dos capítulos deste livro, essa lista pode ser ampliada e apro- fundada, no entanto, sirva esse esboço apenas para introduzir um corolário dual:

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por um lado, a importância maior de esses saberes é a especificidade comunitária, histórica e espacial que apresentam e não a abstração teórica que se possa fazer deles; por outro lado, os profundos processos de subalternização que sofrem essas comunidades tem um caráter material evidente, mas também um importante viés de negação e imposição epistêmica. Ao longo do livro, pode-se constatar um tratamento dado às comunidades, que tenta se aproximar com atenção à especificidade de cada experiência, em função de cada comunidade, expressa em um tempo histórico e em um lugar determinado, situando em primeiro lugar o respeito às formas de construção de conhecimentos que cada uma realiza nas suas práticas, através dos seus conflitos e na formação de suas identidades. Afastando-se ao mesmo tempo dos estudos de caso que fragmen- tam a realidade até esvaziá-la dos seus sentidos comuns e também das extrapo- lações que permitissem atingir alguma lei geral da formação de identidades ou da resolução de conflitos em comunidades tradicionais, os trabalhos que formam este livro principiam leituras e interpretações amarradas a essas racionalidades outras que como já foi dito estão expressas no cotidiano dessas comunidades. Racionalidades que significam uma leitura própria do mundo em um mundo que está precisando de múltiplas leituras. Menos do que conceitos que abstraem as realidades concretas que conformam as comunidades, os textos tentam dar conta dos sentidos próprios que os conheci- mentos próprios de cada comunidade têm na comunidade em si e o eco que os mes- mos provocam nas formas de entender e pensar a sociedade como um todo. Não como receita ou como um corolário imprescindível e sim como aquelas histórias que fazemos nossas… se o olho brilhar, se o sorriso esboçar. A segunda parte do corolário permite situar a importância desses saberes es- pecíficos das comunidades em um contexto maior dos processos de disputa e domi- nação existentes na sociedade em geral. Esses saberes que ganham um sentido con- creto e fundamental quando considerados nas comunidades onde são produzidos e que ampliam ainda mais a lista de possibilidades com as quais pensar e impul- sionar transformações sociais, situam-se em um campo escancarado de conflitos. Uma parte importante dos processos de controle e/ou dominação que essas comu- nidades experimentam por parte do Estado (mediante as diretrizes modernizantes das políticas públicas ou mediante as atitudes preservacionistas das unidades de conservação) ou do capital privado (através da mercantilização dos seus bens co- muns), fortalecem-se pela negação/deslegitimação dos saberes comunitários. As dicotomias acima elencadas (desenvolvido-atrasado, moderno-tradicional, natureza-cultura, senso comum-conhecimento científico, etc.) são mobilizadas como forma de reduzir os saberes das comunidades a meros produtos desprezíveis diante dos desafios do mundo atual. Como expressões de um mundo que não cabe mais neste mundo, seus saberes deveriam ser substituídos, segundo o pensamento hegemônico, pelo conhecimento técnico-científico da sociedade moderna, prepara- do para enfrentar um mundo ávido por eficiência, rapidez e sofisticação tecnológi- ca, supostamente capaz de reduzir os problemas a soluções padronizadas. Em função desse corolário duplo, a forma em que são abordados e considera- dos os saberes dos povos e comunidades e as estratégias de produção dos mes- mos não são questões secundárias, nem muito menos. Significam uma toma de

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posição, a construção de um lugar de enunciação que leva a considerar a dimensão epistêmica dos processos de dominação, mas também dos processos de resistên- cia e da construção de outras possibilidades societárias. A maneira em que os próprios povos e comunidades tradicionais incorporam essa dimensão epistêmica na gramática dos conflitos que enfrentam, ainda não faz parte do que os textos do livro refletem, apenas se intui como caminhos para continuar em frente. Quem sabe em um próximo livro? No entanto, essa percepção nos remete à segunda pergunta que encabeça esta parte II da apresentação e que serve como provocação para problematizar o papel da construção dos saberes na criação de uma rede de povos e comunidades tradicio- nais no Paraná e Santa Catarina: como socializar esses saberes das comunidades? Após a leitura dos textos que compõem este livro resulta evidente que não existem convergências definitivas, nem filiações teórico-metodológicas unívocas, apenas a construção de uma reflexão coletiva, um lugar comum de enunciação que envolve também as comunidades que participam da Rede Puxirão de Povos e Co- munidades Tradicionais e que versa sobre: as formas em que se constroem e se so- cializam as identidades coletivas; e os modos em que se apresentam e se estruturam os conflitos territoriais, assim como as consequências que provocam. Portanto, um dos desafios que agrupa estes trabalhos, consiste em que, sem es- conder, nem substituir as vozes das comunidades, os autores consigam se somar

aos relatos comunitários de desafios cotidianos, reivindicações frente aos poderes públicos ou reconstrução de um passado comum que não se descarta para pensar

o futuro. Ainda que, sem decálogos nem cartas de intenções explícitas, alguns dos caminhos percorridos em comum e que, acima de tudo, provocam encruzilhadas mobilizadoras mais do que oferecem certezas complacentes são: as formas de aproximação às comunidades, a relação que se estabelece com as mesmas, o equilí- brio sempre em tensão que o conhecimento do real junto às comunidades e as pos- sibilidades da teoria provêm. Assim, nesse assumir que mais se tateia do que se avança a passo firme, começam

a se configurar então aproximações e distanciamentos epistêmicos na hora de pen-

sar e dialogar sobre as práticas, os conflitos e as identidades dos povos e comuni- dades tradicionais do Paraná e Santa Catarina, os sujeitos protagonistas deste livro. Talvez não seja muito por enquanto, mas nessas incertezas se configura também um alerta face às formas em que os saberes das comunidades são apresentados fora das comunidades, seja nos espaços acadêmicos, nos ligados aos poderes públicos ou como conhecimento que a iniciativa privada possa aproveitar. Por adotar o conhecimento construído por esses grupos o caráter de um bem comum que se constrói e se utiliza de forma comunitária, sua apropriação de forma individual significa uma violência. A socialização desse conhecimento deve se colo- car o desafio de ampliar e não desvirtuar esse caráter de bem comum. Por isso, todas as precauções são poucas na hora de decidir junto às comunidades com quem se estabelecem relações sociais de pesquisa quais são as questões que podem ser socializadas e como utilizar esses conhecimentos. Seguramente, a especificidade e a diversidade dos saberes e das comunidades inviabiliza ex ante qualquer pretensão de uma deontologia estrita e universal sobre

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a socialização desses conhecimentos, no entanto, das práticas habituais de pesquisa

que se podem observar, várias afrontam a importância de considerar a relação es- treita entre o saber como bem comum e a comunidade que ao mesmo tempo em que

o cria e o cuida, se cria e se cuida. Por exemplo: a falta de retorno que as pesquisas feitas sobre povos e comunidades tradicionais oferecem aos mesmos; a falta de con- sulta prévia com o grupo sobre o que a pesquisa pretende divulgar; outorgar o papel de mero objeto de pesquisa a(s) comunidade(s) estudada(s), roubando-lhe(s) seu papel ativo e insistindo nesse trejeito residual de um positivismo científico desfo- cado; a mercantilização dos saberes conhecidos durante as pesquisas na comuni- dade, como uma “epistemopirataria” espúria que possa se voltar contra ela, seja via expropriação dos bens comuns, seja fortalecendo novos mecanismos de subalterni- zação; legitimar qualquer utilização dos saberes comunitários em função de um desenvolvimento abstrato que melhoraria abstratamente a vida das comunidades e da sociedade em geral (este aspecto será ampliado na sequência, na parte III desta apresentação)

A lista não se fecha aqui, nem pretende ser mais do que um alerta sempre

necessário na prática autorreflexiva dos pesquisadores que entram em contato com

a riqueza de conhecimentos que acumula uma comunidade tradicional. No fim das

contas, trata-se de lidar de igual a igual com o saber do outro, com a construção epistêmica do outro que desafia a própria construção epistêmica.

III

Essa parte final da apresentação está dedicada a outro grande eixo de problemáti- cas que os textos deste livro escancaram: os conflitos do desenvolvimento que os

povos e comunidades tradicionais sofrem. Um texto atrás do outro, percebe-se que as práticas, conflitos e identidades que fazem parte da construção epistêmica desses grupos enfrentam/padecem a poderosa construção epistêmica do desenvolvimento com seus discursos, práticas e institucionalidade.

A ideia de desenvolvimento na sociedade atual está atrelada a um imaginário de

crescimento infinito, a práticas que sustentam a reprodução, cada vez mais rápida e mais ampla, do capital e à formação de uma institucionalidade de controle cada vez mais poderosa. Longe de qualquer reminiscência de um ideal de melhora da quali- dade de vida geral, o desenvolvimento realmente existente se constitui como uma estratégia de controle e de acumulação de capital cujo papel consiste em simplifi- car a complexidade social a alguns parâmetros que supostamente identificam “uma vida melhor”. A educação reduzida a anos de escolaridade formal, uma vida com saúde simplificada no número de anos que se espera viver ou a satisfação de uma vida plena condicionada à renda que uma pessoa possui, são algumas das formas de resumir e dirigir o que entendemos pela sempre positivada e autorreferenciada ideia do desenvolvimento. No entanto, décadas de fracassos dos programas de desenvolvimento auspicia- dos pelas instituições internacionais de controle, assim como do desenvolvimento espontâneo prometido pela “mão invisível do mercado” mostram como a padro- nização que o desenvolvimento empreende não incorpora, nem muito menos, as

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diversas possibilidades de inserção social e de uma vida repleta de sentidos. As formas com que o desenvolvimento se apresenta e se impõe, às vezes como mal menor e necessário, às vezes como melhor dos mundos possíveis, mas sempre como única opção no “mundo possível” são diversas: substituição de mata nativa

por plantações industriais de árvores ou de policultura camponesa pelas monocul- turas do agronegócio; instalação de megaempreendimentos (estradas, portos ou barragens) que aceleram a reprodução de um capital que nunca distribui suas be- nesses de forma equitativa; universalização de uma educação formal sem quali- dade ou medicalização de um atendimento sanitário excludente em sua prática; generalização do consumo de bens que apenas satisfazem momentaneamente o de- sejo imediato e compulsório de consumir e não a satisfação ampla de necessidades (alimentação ou moradia, mas também de participação, proteção ou identidade)

O desenvolvimento se constitui assim em medida e objetivo de todas as coisas

e sujeitos. Apesar de expressar uma ideia poderosa, o desenvolvimento nasce da

cultura moderno-ocidental, masculina, branca e cristã na sua fase de domínio de um capitalismo de reconstrução de pós-guerra no sistema-mundo, portanto, trata- se de uma ideia parcial que não incorpora, nem muito menos, a diversidade de formas de pensar e de viver que o mundo alberga. No final da 2ª Guerra Mundial e frente ao duplo desafio de, primeiro, reerguer

a economia e a sociedade europeias, e depois de enfrentar os desejos de descoloni- zação na África e na Ásia, já em um mundo bipolar, o desenvolvimento se institu- cionaliza como uma estratégia geopolítica de incorporação dos anseios de melhoras das populações por dentro do que seria o campo capitalista, diante da ameaça de um socialismo real que fazia promessas de um mundo menos desigual e sem explo- radores.

O American way of life que serviu naquele momento como linha que dividiria os

desenvolvidos dos subdesenvolvidos, hoje se naturalizou definitivamente e se com- plexificou. Porém, continua sendo uma ideia alheia para muitos que, no entanto, se erige na medida de tudo. Independentemente das especificidades históricas e

espaciais, os diferentes grupos sociais têm que enfrentar uma poderosa constelação semântica, de práticas e de instituições que promovem como uma missão evange- lizadora a ideia da supremacia e da bondade do desenvolvimento, que se expressa com múltiplas faces, atreladas a um núcleo duro de controle social e acumulação do capital: eficácia econômica; aceleração dos processos de mudança social sem rumo; impulso modernizador incutido na prática do Estado; papel protagonista da ciência

e da tecnologia; liberdade formal; concorrência; aumento indefinido da produção e

do consumo; alimentação, educação, saúde e acesso à moradia padronizadas mun- dialmente, entre outros. Como a modernidade anunciadora do progresso e da liberdade que leva sem- pre atrelada uma colonialidade que subalterniza e explora o outro (aquele não su- ficientemente moderno), assim também, a promessa do desenvolvimento sempre está acompanhada da destruição, da homogeneização e da ampliação das diferen- ças que o crescimento nessa sociedade capitalista provoca. Como duas caras de uma mesma moeda. Essa releitura pouco complacente do desenvolvimento não se constrói apenas no abstrato de uma filiação teórica determinada, reflete a forma em que os povos e

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comunidades tradicionais são atingidos pela missão desenvolvimentista. Os textos deste livro, explícita ou implicitamente, revelam como nas suas diversas modali- dades o desenvolvimento impacta as comunidades gerando conflitos: conflitos do desenvolvimento. Cada comunidade conta sua particular relação com esse desen-

volvimento que se imiscui nas suas práticas, que questiona suas identidades e nega seu cotidiano em prol de uma teleologia associada a um fundamentalismo do pro- gresso e, como a outra cara da moeda sempre presente, da própria dissolução. Se acima foi considerado como núcleo duro do desenvolvimento, a dupla face de controle social e acumulação do capital, nesse momento parece interessante diferenciar as diversas formas em que o desenvolvimento se apresenta no dia a dia dos povos e comunidades tradicionais do Paraná e Santa Catarina, na tentativa de conhecer as modalidades diferenciadas de conflitos que cria. Porém, mais do que uma classificação, trata-se nesse momento apenas de oferecer um panorama que permita reconhecer a estreita ligação entre uma parte importante dos problemas que enfrentam as comunidades tradicionais em função do discurso, das práticas

e da institucionalidade estreitos, impositivos e descentrados do desenvolvimento.

No fim das contas o desenvolvimento não é mais que uma construção epistêmica da sociedade moderno-ocidental-masculina-branca-cristã que hierarquiza os saberes dos outros como não saberes, apenas como folklore ou como ideias frágeis e descar- táveis. Um dos principais problemas que os povos e comunidades do Paraná e San- ta Catarina enfrentam se refere à disputa territorial que significa a execução de megaempreendimentos nas suas terras. No caso dos grupos retratados neste livro, temos a construção da Usina de Itaipu e as consequências que provocou o alaga- mento do seu reservatório, expulsando os ilhéus que moravam às suas margens e nas ilhas do Rio Paraná que foram cobertas pelas águas e que até hoje demandam uma saída justa para essa situação. Também podemos considerar dentro desse tipo de empreendimento desenvolvimentista de grandes dimensões, macro, a expansão das monoculturas de eucalipto em terras dos camponeses de Imbaú-PR, eliminan- do a policultura, reduzindo a quantidade disponível de água e roubando até o sol necessário para que as colheitas de alimentos das comunidades rurais do municí- pio vinguem. A construção da fábrica de cimento da Votorantim no território dos agricultores e pescadores artesanais dos Areais da Ribanceira (Imbituba-SC) seria igualmente um exemplo de como o desenvolvimento de enormes dimensões e im- pactos conflita na hora de disputar o mesmo território eliminando as terras onde se planta mandioca e se aproveita o butiá. Deve-se destacar que a assimetria de recursos financeiros, de apoio institucional

e de legitimidade diante da sociedade da escassez forçada em que vivemos é mani- festa e que as possibilidades dos direitos territoriais e de vida que essas comuni- dades conseguem fazer valer são mínimos e insuficientes, o que provoca a expulsão e, acima de todo, a invisibilização do grupo e o silenciamento das suas demandas e dos mais básicos direitos sociais. O desenvolvimento macro também provoca con- flitos macro. Com efeitos menos espetaculares, mas não menos impactantes nos povos e comunidades tradicionais, o desenvolvimento incutido nas políticas públicas modernizadoras das formas de vida das classes desfavorecidas apontam para outras

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formas de desapropriação e de conflitos na implementação do desenvolvimento. Trata-se de um desenvolvimento micro, dedicado a um público específico (agricul-

tores familiares, povos e comunidades tradicionais, etc.) e centrado na superação da pobreza e na inclusão das classes marginalizadas. São, por exemplo, políticas públicas de financiamento da agricultura familiar que obriga aos beneficiários a adotar as mesmas formas de produção do agronegócio de grande escala (sementes melhoradas, agrotóxicos, etc.) ou programas de modernização da frota pesqueira mediante empréstimos. Estas políticas incorporam esses grupos em dinâmicas de um mercado que afunila o sucesso de poucos. Na maior parte das circunstâncias,

a vantagem de um empréstimo para modernizar a produção significa o fracasso

de não se adaptar à lógica mercantil exigente e seletiva, o que pode até chegar a expulsar o beneficiário (faxinalense, pescador artesanal, quilombola, etc.) de sua

comunidade por não poder cumprir com as condições desse empréstimo. As diferentes formas de turismo no meio rural, na natureza ou comunitário, nas suas expressões normalmente exógenas ao controle dos povos e comunidades tradicionais e reificadoras de seus costumes também provocam impactos ligados

a um desenvolvimento micro. Até o turismo comunitário realmente existente, sig-

nifica na prática uma alteração das formas de vida, fora do controle dos supostos beneficiários (as comunidades), que nem sempre se compensa com uma fonte de renda durável e que traga uma qualidade de vida significativa. A insistência do Estado em converter esses grupos em um outro modernizado, em mercantilizar suas formas de vida para vendê-las aos turistas ou em reduzir seus múltiplos significados a um folclore de museu, mostra a preponderância da estratégia de controle social que o desenvolvimento possui. Se o desenvolvimento macro agudizava a face de acumulação do capital, o desenvolvimento micro parece impulsionar acima de tudo formas de ordenamento social em que a racionali- dade hegemônica moderno-ocidental se instala como alternativa sem alternativas. Qualquer outra forma de pensar e construir o mundo se descarta por irracional, impossível ou irrelevante. O desenvolvimento sustentável, última dessas tipologias do desenvolvimento que estão sendo consideradas por mostrar elementos importantes dos conflitos que as comunidades enfrentam, representa paradigmaticamente um desenvolvimento micro que de forma sutil confronta os grupos com a expropriação ou com mudanças radicais nas suas formas de vida. Diante dos evidentes limites naturais, o capital da reprodução sem limites en- controu uma saída mais discursiva do que efetiva no desenvolvimento sustentável. Para conservar a lógica e as formas de reprodução do capital era imprescindível incorporar minimamente uma preocupação com os recursos naturais e uma preservação de suas fontes. Nesse sentido, e simplificando em função dos objetivos deste texto, se instalou uma lógica tão publicitada como ilógica: a poluição e o con- sumo voraz de recursos naturais a escala planetária poderia ser compensada com a criação de unidades de conservação locais onde ter um cuidado maior desses recur- sos, expulsando as populações que ali viviam ou limitando suas práticas. Os conflitos do desenvolvimento que o desenvolvimento sustentável provoca são especialmente observados nos casos de ilhéus e pescadores artesanais. A criação do Parque Nacional de Ilha Grande no caso dos primeiros e do Parque Nacional do

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Supergüi no caso dos segundos mostra como as populações que contribuíram com manter a biodiversidade em seus territórios são penalizados, expulsos ou cerceados nas suas práticas em prol de uma sustentabilidade de fachada que não coloca em questão as verdadeiras causas dos problemas ambientais do mundo. Aparentemente se trata de empreendimentos com fins tão louváveis como o cui- dado do meio ambiente, mas quando enfrentados com as práticas tradicionais das comunidades e com o tratamento de bens comuns que as comunidades geralmente oferecem para os bens naturais dos seus territórios se percebe a irracionalidade de um desenvolvimento que mais disciplina do que avança na melhora das condições de vida da sociedade em geral e dos povos e comunidades tradicionais em particu- lar. O desenvolvimento, macro ou micro, desativado de sua representação habitual carregada de legitimidade e de positividade, mostra sua face mais sombria. Os con- flitos que se observam quando o lugar de enunciação se aproxima de quem padece o desenvolvimento como violência material e epistêmica, neste caso os povos e comunidades tradicionais, ao mesmo tempo em que revelam a espoliação e a ex- pulsão que acompanha ao empreendimento desenvolvimentista, também mostra seu absurdo como projeto de socialização, como um dos princípios fundamentais da sociedade atual. *** Esta longa apresentação acabou misturando “o que é” dos textos que compõem

o livro e o “que ainda não é” do grupo que os escreveu e que se tenta entender como

“identidades coletivas e conflitos territoriais”. Entre os ecos dos trabalhos do livro (trabalhos comprometidos com uma realidade complexa e uns sujeitos em luta por seus direitos e pela defesa de sua autonomia nos territórios que tradicionalmente ocupam) e os ecos das práticas dos pesquisadores que assinam os textos (práticas de longo prazo e proximidade com o que contam) a apresentação foi se conver- tendo, não apenas na descrição do realmente existe, mas também um desiderato para pensar a continuidade dessas práticas de pesquisa junto aos povos e comu- nidades tradicionais do Paraná e Santa Catarina que têm desafiado todas as coisas em contra para pensar outras formas de pensar o que significa o desenvolvimento,

a organização social, a construção dos saberes, o território e a vida. Uma lutadora incansável pela visibilização dos conflitos dos povos originários e camponeses em Argentina e em América Latina em geral, quando se refere ao papel dos pesquisadores nas relações sociais de pesquisa que constroem, afirma com con- tundência e como quem lança um desafio: “escrever com eles e não sobre eles” 4 . O conjunto de textos e de autores que se reúnem neste livro como ao redor de um fogo para escutar e contar histórias de sempre, mas também histórias atuais, refletem

esse desafio. Um desafio que se “ainda não é” em todas suas premissas e consequên- cias, se pensa como caminho possível para perceber e acompanhar a alegre rebeldia

e a tenaz resistência de formas sociais que colocam a vida plena em primeiro lugar.

4 Norma Giarracca, professora da Universidad de Buenos Aires e coordenadora do Grupo de Estudios de los Movimien- tos Sociales de América Latina (GEMSAL).

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Narrativa sobre a sistematização das experiências da Rede Puxirão de Povos e Comunidade Tradicionais
Narrativa sobre a sistematização das experiências da Rede
Puxirão de Povos e Comunidade Tradicionais

José Carlos Vandresen 5 Rafael Palermo Buti 6 Roberto Martins de Souza 7

Resumo

O presente artigo resulta da sistematização da experiência da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais realizada nos anos de 2009 e 2010 a pedido da coordenação da Rede. A reflexão crítica que deriva desse estudo construído coleti- vamente com representantes dos grupos sociais, buscou identificar o processo de constituição dessa nova forma de mobilização das identidades étnicas e coletivas no Estado de Paraná sob a denominação de povos e comunidades tradicionais, fenô- meno até então de pouca visibilidade social no cenário de lutas políticas por terra e território no Sul do Brasil. Por ocasião dessa reflexão, naquele momento interes- sava a esses novos movimentos sociais identificar limites, dificuldades e desafios das estratégias políticas para alcançar seus direitos étnicos e coletivos.

Os Primeiros Passos: na caminhada, refletir a caminhada

Refletir é se posicionar, no tempo e no espaço. Se posicionar é partir de um lugar. Partir de um lugar é agir. Aqui, na Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais, o agir vem mediante (ou mediado por) uma identidade coletiva, a um sujeito político que luta pelo reconhecimento formal de sua existência e elabo- ração de políticas públicas que contemplem direitos fundamentais. Ao agir na Rede

5 Mestre em Geografia, INFOCOS/CRESOL-PR. Email: jcvandresen@yahoo.com.br

6 Mestre em Antropologia e Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGAS/UFSC). Email: rafaelpbuti@gmail.com

7 Doutor em Sociologia, IFPR. Email: roberto.souza@ifpr.edu.br

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Puxirão os indivíduos acionam suas identidades coletivas, constroem o reconheci- mento formal dos coletivos sociais perante o mundo. O tema do reconhecimento formal passa necessariamente pelo tema e pelo dilema da identidade coletiva. Estão como que imbricados, fazem parte de um mesmo e único fenômeno: a busca pela

visibilidade, pelo direito, pela necessidade de mostrar ao mundo sua singularidade.

O projeto da sistematização teve como foco os processos de articulação e ex-

periência em rede dos Povos e Comunidades Tradicionais no reconhecimento for- mal e elaboração de políticas públicas. Estruturamos as vivências e oficinas de sis- tematização a partir de dois eixos, a saber: aquele que deu conta do processo de mobilização dos povos e comunidades tradicionais mediante uma identidade cole- tiva (os históricos, tanto de envolvimento dos grupos com a Rede Puxirão quanto de formação da própria Rede, seu funcionamento e organização); e aquele que deu conta das relações estabelecidas com o Estado, os avanços e obstáculos gerados nessa relação. Uma vez que reconhecimento formal e identidade coletiva caminham juntos, pois implicados em um movimento singularizador, foi-nos importante refletir e melhor problematizar sobre os modos como estas lideranças, que representam gru- pos e coletivos sociais, formam, pensam, concebem e representam as identidades coletivas de suas comunidades articuladas no espaço de uma Rede de Povos e Co- munidades Tradicionais.

A primeira parte dos trabalhos de sistematização foi feita tendo como preocu-

pação esta dimensão: saber o quão a Rede Puxirão possibilitou a produção de novos sujeitos políticos articulados mediante uma identidade coletiva e o quão estes novos sujeitos políticos possibilitaram a articulação da Rede Puxirão. Em suma, procura- mos discutir e problematizar como estes grupos, a partir de suas identidades cole- tivas, se articulam na, e articulam a Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradi- cionais. Para isso elaboramos uma oficina, a Linha do Tempo, que nos permitiu visualizar a caminhada das lideranças, lugares, demandas, lutas e conflitos dos grupos. Com a Linha do Tempo, buscamos resgatar o vivido, mapear os percursos de cada indi- víduo e coletivo social, evocando o “tempo dos antigos”, seus conflitos, assim como as “boas lembranças”, percebendo sempre o caminho das estratégias destes sujeitos em relação à outras configurações sociais e ao Estado. Uma vez mapeado o processo de articulação, mobilização e reconhecimento, em rede dos povos e comunidades tradicionais, foi importante inquirir sobre os novos tipos de relações que estas articulações geram entre os Povos e Comunidades Tradi- cionais e as instituições, secretarias, autarquias, fundações e órgãos dos poderes públicos, responsáveis pela garantia e preservação dos direitos demandados. Em outras palavras, no plano jurídico e político, as comunidades tradicionais tiveram avanços e obstáculos neste percurso. Importa frisar também que o ato de sistematizar o conhecimento sempre es- teve presente nas práticas diárias e coletivas da Rede Puxirão. Muitas são as cartas oficiais, os panfletos, os periódicos, as cartografias e as assinaturas já produzidos que condensam e sintetizam um enorme conjunto de informações e reivindicações

sobre os movimentos e encontros que a Rede fez gerar, mover, ativar, informar e provocar.

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Em suma, na caminhada, buscamos refletir sobre a caminhada, agir sobre ela, e é justamente a isso que se presta um trabalho de sistematização: apreender e fixar o fluxo do vivido, e transformá-lo em objeto de reflexão crítica. É neste movimento, o de transformar o sujeito da ação em objeto de reflexão, que o trabalho de sistemati- zação de experiências se pretende uma ferramenta importante para a própria ação (HOLLIDAY, 1996). 8 Por andarem juntas, as lutas pela afirmação e reconhecimento da identidade coletiva e direitos étnicos, que pensamos que estes dois eixos dão conta de nossa preocupação maior, de nosso foco, que é a experiência social da articulação em rede destes grupos sociais na busca pelo reconhecimento de seus direitos territoriais e a efetivação das respectivas políticas públicas. Tudo o que será exposto ao longo do texto tem como base as oficinas, entrevis- tas, conversas informais, bate-papos, rodas de conversa, vivências, entre outros, experimentadas no espaço da Rede Puxirão. Falemos, portanto, um pouco da Rede Puxirão e do muito que ela é.

A Rede Puxirão em Foco: estruturas, agentes e parceriais

A Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais foi constituída infor- malmente em maio de 2008, no I Encontro dos Povos e Comunidades Tradicio- nais do Paraná, encontro ocorrido em Guarapuava-PR. Participaram do encontro as representações dos seguintes movimentos: Faxinalenses, Quilombolas, Ilhéus do Rio Paraná, Pescadores Artesanais da Ilha de Superaguí – Guaraqueçaba-PR, Cipozeiras de Guaruva-SC e representações de indígenas Xetás, Guarani e Kain- gang. Somaram-se 9 a Rede no II Encontro dos Povos e Comunidades Tradicionais do Paraná ocorrido em Faxinal do Céu-PR, em outubro 2009, o Movimento Aprendizes da Sabedoria (representante das Benzedeiras) e o Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africana. A Rede Puxirão é um espaço de formação e articulação política destes movimen-

tos sociais. Ela não é uma organização, um instituto, uma central, um órgão, uma ONG, tampouco uma pessoa jurídica. Seus membros gostam de pontuar e afirmar

a informalidade da Rede Puxirão. Nas palavras de José, um de seus assessores:

“ela [a Rede] existe quando as pessoas estão reunidas. Quando não estão reunidas

existem tarefas” (21/06/2010). A Rede é um espaço, um lugar, uma referência, uma possibilidade de diálogo, que permite com que lideranças (estas sim, vinculadas a institutos, movimentos sociais, comissões, ONGs) pensem ações para efetivar as políticas públicas para as comunidades tradicionais no Paraná. Basicamente duas são as organizações que dão suporte formal à Rede Puxirão. São elas, a Cempo (Centro de Apoio ao Campesinato Antônio Tavares, com sede em Guarapuava) e o IEEP (Instituto Equipe de Educadores Populares, com sede em Irati-PR). Além dessas, a Terra de Direitos (com sede em Curitiba) faz asses- soria jurídica à Rede, sendo um dos apoiadores. São essas organizações que apoiam

a Rede, na assessoria jurídica e política, além de apoio logístico e contatos para apoios orçamentários.

8 HOLLIDAY, Oscar Jara. Para Sistematizar Experiências. João Pessoa: Editora Universitária. UFPB, 1996

9 A Associação Brasileira de Ciganos do Paraná participou do II Encontro da Rede, porém não participou das atividades sequentes.

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À época do projeto da sistematização, as tarefas e ações da Rede estavam dis-

tribuídas em coordenações, secretarias e setores, dentre as quais:

- Coordenação Executiva: responsável pela articulação e ação política da Rede,

cujo papel era realizar as estratégias e tarefas de representação e negociação junto aos órgãos do Estado e a relação com outros movimentos sociais;

- Secretarias: responsáveis pela assessoria técnica (elaboração de projetos e cap- tação de recursos), política (articulação da Rede com as comunidades em vistas a demanda por direitos), jurídica e de comunicação;

- Setor financeiro: responsável pela administração financeira e contábil dos pro- jetos da Rede. Os encontros entre os membros da Rede Puxirão seguiam um calendário especí-

fico, oficializado no início de cada ano: havia a Reunião Mensal (somente da coorde- nação executiva); a Reunião Bimestral, ou Reunião da Equipe (formada pela Rede Puxirão e por outros movimentos sociais, cuja finalidade é planejar as ações entre todos os representantes dos movimentos sociais envolvidos na Rede); e a Reunião Trimestral, ou Reunião Ampliada (realizadas nas comunidades com o objetivo de conhecer a realidade social das comunidades envolvidas) 10 .

A Rede Puxirão, portanto, estava apoiada em instituições formais para viabilizar

seu funcionamento, sem ser, necessariamente, ela mesma, uma instituição formal:

mas um espaço de articulação e formação, um encontro entre diferentes grupos

étnicos da sociedade para lutar pela efetivação das políticas públicas e direitos fun- damentais dos povos e comunidades tradicionais participantes, um espaço forta- lecedor do poder de negociação com representantes do poder público. No que trata da relação com as instituições de pesquisa, desde sua formação, a Rede dialoga com o Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil (PNCSA), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em So- ciedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), tendo por objetivo a realização de cartografias sociais. Mais do que exer- citar uma nova cartografia, tal pesquisa tem estimulado processos organizativos associados ao autorreconhecimento e reconhecimento público da existência cole- tiva desses grupos sociais. Outro importante parceiro da Rede puxirão foram os projetos e pesquisadores vinculados ao curso de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A inserção da Rede Puxirão no projeto da Nova Cartografia Social permitiu a

abertura de um diálogo entre as diversas comunidades tradicionais no âmbito na- cional, possibilitando a autonomização dos movimentos sociais. Sete foram as co- munidades ligadas à Rede Puxirão já contempladas pelo projeto, o que mostra o nível de engajamento e avanço de seus membros na luta reivindicatória pelos direi- tos das comunidades tradicionais. Neste percurso de quase três anos de envolvimento com o Projeto da Nova Cartografia Social, foram realizados diversos fascículos 11 de povos e comunidades tradicionais participantes da Rede, interessados em qualificar suas formas organi- zativas e repensar o padrão das relações políticas internos aos grupos, bem como as

10 Ver em anexo as tabelas elaboradas no planejamento da Rede para 2010.

11 Entre 2006 e 2011 foram realizados 4 fascículos da Série Faxinalenses no Sul do Brasil; 1 Fascículo dos Ilhéus do

Rio Paraná, 1 Fascículo dos Pescadores Artesanais; 3 Fascículo dos Quilombolas, além de 1 Mapeamento do Social dos Cipozeiros e Cipozeiras e 1 Boletim Informativo das Benzedeiras na Região Centro Sul do Paraná.

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estratégias de negociação 12 com o Estado.

O espaço da sistematização

Quando falamos da vivência e das experiências de sistematização da Rede Puxirão no período de 2009 a 2011, estamos situados em um comum espaço de discussão e organização política de um movimento que reunia uma gama de movi- mentos sociais camponeses paranaenses: a Reunião da Equipe. Sob essa denomi-

nação, essa reunião ocorria a cada dois meses, com duração de dois dias, formada por grupos que se organizavam a partir de três diferentes “setores”: o das comuni- dades tradicionais, o dos movimentos sociais históricos (MST, MMC, MAB e MPA)

e o dos agroecologistas. Os trabalhos para sistematização foram realizados neste

comum espaço da Reunião da Equipe 13 , um dos tantos, vale dizer, que organizam a

Rede Puxirão.

À época, os grupos que participavam da Reunião da Equipe estavam inseridos

em cada um destes três setores, de acordo com suas características históricas e de- mandas reivindicatórias. Uma vez iniciada a Reunião da Equipe, os grupos dis- cutiam suas pautas nos setores e as encaminhavam posteriormente para todo o coletivo, em uma reunião que agregava todos os movimentos. O encontro tinha duração de dois dias, à época sediado na Rureco 14 , em Guarapuava. Em suma, eram

dois dias bastante intensos e de muita discussão, regadas à cafés, almoços, músicas, brincadeiras e jantas coletivas.

A frase de José, um dos mediadores da Rede vinculado a Cempo, nos ajuda

entender a importância da Reunião da Equipe: “O espaço da reunião é onde se pensa e se articula as possibilidades de ações coletivas, um lugar de formação de lideranças.” (11/02/2009). Formar lideranças para mobilizar pessoas e comuni-

dades. Este sempre foi o intuito deste espaço chamado Reunião da Equipe. Articu- lar e discutir possibilidades de ações coletivas, de diferentes segmentos dos movi- mentos sociais, distribuídos nos setores. Os setores eram: o da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais (for- mada por nove representações comunitárias, ou “segmentos da Rede”, como são chamados internamente); o dos Movimentos Sociais Históricos (formados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), pelo Movimento dos Atin- gidos por Barragens (MAB) e pelo Movimento das Mulheres Camponesas (MCC));

e o do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e dos agroecologistas. Estes três setores formavam, portanto, a “Equipe”, que agregava diferentes gru- pos, demandas e estratégias dos movimentos sociais camponeses paranaenses. Esta Equipe, reunida, formava este comum espaço da Reunião da Equipe, onde se

12 A criação da Frente Parlamentar dos Povos e comunidades tradicionais criado no âmbito da Assembleia Legislativa

do Estado do Paraná e a criação do Grupo de Trabalho coordenado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos – SAE do Governo do Paraná, ilustra as mudanças nas relações políticas geradas pela Rede.

13 A denominada Reunião da Equipe tem sua origem em 1995, sendo coordenada pela Comissão Pastoral da Terra –

CPT de Guarapuava. Alguns dos grupos das comunidades tradicionais já participam desde antes da fundação da Rede – quilombolas, Ilheús e faxinalenses – outros passaram a participar depois da criação da Rede. Nesse espaço ampliado, a Rede constituiu seu espaço específico – Setor das Comunidades Tradicionais - de discussão em paralelo com momentos de troca de experiências coletivas com outros movimentos sociais do campo.

14 A Fundação RURECO é uma ONG que atua na região com a temática da agricultura familiar e desenvolvimento

sustentável. O espaço da RURECO possui refeitório, alojamento e auditório viabilizando a realização dos encontros.

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discutiam aspectos da realidade de cada grupo e setor, os andamentos de pautas reivindicatórias, análise de conjuntura, além do encaminhamento das propostas e projetos para os poderes públicos. No contexto do projeto de sistematização, a Rede Puxirão se inserida em algo que não estava a ela circunscrito: pois compunha uma equipe, sendo um pedaço, portanto, da diversidade. Contemos um pouco sobre a história deste encontro da diversidade.

A história da Reunião da Equipe: um caminho para a diversidade

Conforme informações advindas do contexto das oficinas da Linha do Tempo

(que estará em anexo mais adiante), a primeira Reunião da Equipe (que era bem diferente dessa, pois não incluía a organização em setores) foi feita no ano de 1995, anterior, portanto, à criação da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais. Mediada pela Comissão Pastoral da Terra em Guarapuava (então local sede do en- contro), ela agregava principalmente os diálogos e demandas reivindicatórias de três “movimentos sociais históricos”: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem- Terra (MST), o Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Não havia, nestas reuniões, nada parecido com o que hoje chamamos “Rede Puxirão”, “comunidades tradicionais”, tampouco o conhecimento e formalização de grupos tais quais “cipozeiros”, “pescadores artesa- nais” ou “religiões de matriz africana”, dentre outros. Àquele formato (que no ano de 1995 já recebia o nome de “Reunião da Equi- pe”) foram se agregando outras demandas de grupos sociais emergentes, como a oriunda da comunidade negra Invernada Paiol de Telha, os Povos Faxinalenses e os Ilhéus do Rio Paraná. Todavia, a inclusão dos grupos mencionados não signifi- cava o reconhecimento de uma identidade “étnica”, uma vez que a abordagem das discussões apoiava-se na perspectiva teórica da “luta de classes”. De outra forma, foi a posição política desses grupos, internamente à Reunião da Equipe, o que con- quistou o espaço da Rede Puxirão entre os movimentos sociais do campo. Nesse ín- terim, estes três grupos (que hoje recebem a denominação de “comunidades tradi- cionais”), foram os que formaram as bases para a atual Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais, criada em 2008.

O amadurecimento destes diálogos, com o envolvimento de novos protagonis-

tas, possibilitou a formação e a articulação da Rede Puxirão, composta por grupos

cujos membros, apesar de há muito se inserirem em um histórico de conflitos liga- dos à ocupação da terra, não estavam articulados politicamente para lutar por seus direitos. A emergência destas comunidades está ligada, em um âmbito mais geral, aos avanços das próprias políticas públicas federais, pós 2002, de reconhecimento jurídico-formal, mediante a criação da Comissão 15 Nacional de Povos e Comuni- dades Tradicionais e da promulgação do Decreto Federal 6040/2007, que dispõe sobre a Política Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais.

O que estava, portanto, circunscrito aos movimentos que já possuíam algum

tipo de reconhecimento formal frente ao Estado e à sociedade civil se ampliou na noção “comunidades tradicionais”, cuja ênfase recai sobre as identidades de gru-

15 Desde sua criação a Comissão Nacional tem a participação dos faxinalenses, o que viabilizou a comunicação das de- mandas dos grupos locais para dentro da pauta da referida Comissão.

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pos que passam a esboçar um novo padrão de relações políticas com o Estado. Estas identidades sociais emergem em um contexto no qual a luta pelo direito à

terra está ligada aos modos específicos e tradicionais de sua ocupação, aquilo que

o antropólogo Alfredo Wagner (2006) 16 chamou de “territorialidades específicas” e “existência coletiva” em torno de uma identidade étnica.

A Rede Puxirão, ao compor um destes setores, atuava na Equipe, influenciando e

sendo influenciada política e metodologicamente por ela. Sua especificidade decorre justamente do fato de se tratar de grupos que evocam identidades emergentes, com características culturais singulares e modos específicos de territorialidade. A luta pela manutenção deste ambiente está ligada à luta pela vida, pela reprodução de um modo próprio de ser e estar no mundo. E isso significa essencialmente lutar pelo direito aos usos tradicionais da terra, usos estes que não necessariamente seguem a lógica do capital (especulativa e da propriedade privada) sobre ela.

O uso tradicional da terra diz respeito, portanto, à lógica central dessa diversi-

dade social: seja o gado criado em sistema comum pelos faxinalenses; seja o direito ao livre acesso dos cipozeiros e benzedeiras ao cipó e às plantas de cura, seja a luta dos pescadores de Superaguí pelos espaços que permitam a pesca artesanal, seja

a luta contra a intolerância religiosa por parte dos grupos ligados às religiões de matriz africana, enfim, todas essas diferentes demandas dizem respeito aos modos tradicionais de viver, de criar e de existir.

É isso o que consiste a Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais. Um

movimento que articula diferentes modos de ser e estar no mundo, e a partir desta articulação permite agregar o valor do direito à existência destes diferentes modos

de existir socialmente. Essas diferenças, mobilizadas e articuladas em rede, ao seu tempo e maturidade política, provocam os órgãos públicos a se posicionarem, pres- sionam as velhas categorias do Estado a se transformarem.

É esta a finalidade da Rede Puxirão: uma vez que o reconhecimento formal des-

tas comunidades seja alcançado, novos padrões de relações político-organizativas são estabelecidos com o Estado. E uma vez formados, políticas públicas que con-

templem o direito à diferença são demandadas, discutidas e promulgadas 17 : novos decretos, novas portarias, novas resoluções, passam a fazer destas comunidades tradicionais, agora na condição de sujeitos de direito. Para entender melhor a atuação da Rede Puxirão é necessário desenhar em que contexto da política nacional para as comunidades tradicionais ela se insere. Sabemos que, se os encontros introdutórios entre aqueles três movimentos sociais históricos (MST, MMC e MAB) possibilitaram a emergência de novos protagonistas

e a criação do que hoje conhecemos como Rede Puxirão, importante salientar que

tudo isso está em relação a um contexto maior de lutas e conquistas acumuladas ao longo de décadas pelos movimentos que se organizam na categoria das comuni- dades tradicionais, e que encontram espaço para expansão de seus direitos a par- tir de 2003. Vamos ao contexto, é ele quem nos melhor fará entender a emergên- cia deste fenômeno que atende pelo nome Rede Puxirão de Povos e Comunidades

16 Almeida, Alfredo Wagner B. de. Terras de quilombo, terras indígenas, “babaçuais livres”, “castanhais do povo”, faxinais

e fundos de pasto: terras tradicionalmente ocupadas”. Manaus: FUA, 2006.

17 Ver Lei 15.673 que dispõe sobre o autorreconhecimento dos faxinalenses e seus acordos comunitários, ou as Leis

municipais aprovadas pelos movimentos faxinalenses e benzedeiras nos municípios de São Mateus do Sul, Rebouças, Rio Azul, Pinhão, Antonio Olinto e São João do Triunfo.

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Tradicionais.

Do contexto geral e local: a rede numa rede

A Rede Puxirão foi formada um ano após a promulgação do Decreto Federal

6040, de fevereiro de 2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT), política esta gerida pela Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comuni- dades Tradicionais (CNPCT), esta última recriada pelo Decreto de 13 de julho de 2006. Tendo como objetivo geral “promover o desenvolvimento sustentável dos

Povos e Comunidades Tradicionais” (cf. Decreto 6040/07). Esta Política Nacional foi resultado direto das lutas das comunidades tradicionais, e seu esforço de dis- cussão permitiu a visibilidade de vários grupos sociais, reconhecendo formalmente, pela primeira vez a existência das comunidades tradicionais no país.

É de carona com este contexto político maior (à luz dos movimentos sociais de

comunidades tradicionais 18 espalhadas pelo território nacional) que muitos dos coletivos sociais, até então sem visibilidade política, existência coletiva e amparo jurídico, passaram a emergir e, assim, serem reconhecidos por suas identidades es- pecíficas. Estes são os casos de algumas das comunidades que fazem parte da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais. De distintas maneiras, a partir de diferentes formas organizativas e contribuições políticas, as comunidades que compõe a Rede Puxirão estão irmanadas com este contexto político maior, seja porque agenciaram a demanda para a construção da política nacional (como é o caso dos faxinalenses, que possuem assento na Comis- são Nacional), seja porque passaram a se articular coletivamente a partir da partici- pação na Rede (como é o caso das benzedeiras, cipozeiros e pescadores artesanais do Litoral, que tiveram sua emergência e publicização de identidades nas ações propostas nesse espaço de articulação). A própria organização da Rede Puxirão avança neste contexto maior, no caminho para viabilizar, no plano estadual paranaense, a política nacional voltada para os povos e comunidades tradicionais, com a criação do Grupo de Trabalho para Elabo- ração da Política Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais. Se até o ano 2005 e 2006 não se via notícias no Paraná sobre reivindicações por terras e visibili- dade étnica desses grupos que não estivessem atreladas às demandas dos pequenos agricultores, camponeses ligados ao MST, indígenas, comunidades atingidas por barragens e posseiros, de lá pra cá, o panorama reivindicatório da luta por direitos étnicos e territoriais sofreu uma gradual transformação, o que permitiu pensarmos em uma nova fisionomia étnica do Estado do Paraná. Novos protagonistas foram aparecendo e deste modo novas demandas ao Esta- do foram surgindo, não somente devido à necessidade de criação de leis de amparo aos direitos fundamentais específicos de acesso à terra e preservação cultural, mas

à urgência na aplicabilidade destas leis e configurando novas atribuições de órgãos

18 Dentre os movimentos sociais com maior capital político que se engajaram nessa conquista foram o Conselho Na- cional dos Seringueiros – CNS, a Comissão Nacional das Comunidades Quilombolas – CONAQ e o Movimento Inter- estadual das Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB compõe os grupos que atuaram diretamente na construção dessa política pública.

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públicos (como o IAP, o INCRA e o SEED 19 ), visando o atendimento e execução da legislação federal e estadual. Essas afirmações sociais e políticas fizeram consonân- cia com a tônica dos relatos e manifestações empreendidas em razão do lançamento da Frente Parlamentar de Apoio aos Povos e Comunidades Tradicionais que reuniu mais de 600 representantes desses grupos étnicos na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná, no dia 29 de abril de 2009. Visando suprir a fragilidade dos marcos legais que garantam direitos aos povos e comunidades tradicionais no Estado do Paraná, bem como reforçar os já existentes no plano nacional, surgiu a proposta de elaboração da Política Estadual de Povos

e Comunidades Tradicionais, em audiência pública realizada na ocasião do lança-

mento da Frente Parlamentar. Para tanto, neste momento foi acordada a necessi- dade de constituir um grupo de trabalho com representantes de comunidades tradi- cionais e órgãos do governo Estadual com a finalidade de preparar uma Minuta de Decreto Estadual que dispusesse sobre a criação da Comissão Estadual de Povos

e Comunidades Tradicionais, tendo como um dos seus objetivos a elaboração da

Política Estadual para esses grupos sociais. Todas essas ações foram resultado de um acúmulo de forças entre uma demanda que diz respeito às comunidades localizadas em todo o território nacional e uma demanda das próprias comunidades situadas no Paraná que, a cada ano, passaram

a se mobilizar e mobilizar outras, gerando a possibilidade de proposições no plano

político paranaense. Uma rede maior, portanto, implicada nas demandas de uma Comissão Nacional para os povos e comunidades tradicionais, em relação a uma rede menor que, articulada na Rede Puxirão, reivindicava a efetivação de uma Co- missão Estadual e criação de política voltada aos povos e comunidades tradicionais paranaenses. Parafraseando José, um dos agentes mediadores vinculados à Cempo:

a Comissão é o espaço entre os Povos e Comunidades Tradicio-

e

nais e o Estado (

construir a política é mudar de verdade. José, 11/08/2009

)

um jeito de construir a política estadual (

),

É neste contexto que muitas pessoas, que representam grupos sociais historica- mente marginalizados, passam a agir em rede, a encarnarem a existência coletiva

de suas identidades emergentes: quilombolas, faxinalenses, ilhéus, cipozeiros, ben- zedeiras, religiões de matriz africana, pescadores artesanais, passam a existir en- quanto sujeitos de direito, sujeitos que não somente se fundamentam em direitos já estabelecidos (como a Constituição Federal de 1988, a convenção 169 da OIT

e o decreto 6040/2007), mas que passam a participar da criação e elaboração de

leis, decretos, resoluções, portarias, fiscalizações para a preservação de seus modos específicos de reprodução física e social. Ou seja, uma luta que se inicia de modo atomizado se transforma em mobili- zação coletiva. Esta mobilização, uma vez que galga visibilidade, tenciona o Estado ao reconhecimento. Uma vez que o Estado a reconheça, abre-se a necessidade do

diálogo. E uma vez que o diálogo se torna possível há participação ativa na elaboração

e proposição de políticas públicas que garantam os direitos demandados. A questão

é saber até que ponto este diálogo entre Estado e Rede Puxirão tem realmente pos-

19 O IAP é o Instituto Ambiental do Paraná. O INCRA é o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. O SEED é a Secretaria de Educação do Estado do Paraná.

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sibilitado a efetivação de políticas públicas para as comunidades tradicionais.

Acionando e Costurando Identidades: a questão da emergência

O tema da “identidade coletiva” passou a ser trabalhado na Reunião da Equi-

pe desde o começo de 2008. Como já mencionado, foram os sujeitos ligados às questões e causas dos movimentos sociais históricos paranaenses (como o MAB, MMC, MST) quem acionaram e incorporaram a mobilização das identidades. A questão que se coloca é: como os diferentes grupos (“históricos” e “emergentes”) construíram suas estratégias organizativas e políticas no Paraná? Há, por exemplo, o MST, que possui uma marcha de reivindicações datada da década de setenta. Como já mencionado, para o caso específico paranaense, os diálogos entre a então Pastoral Rural e o MST se deram nos anos oitenta, se intensificaram nos anos no- venta e culminaram nas primeiras reuniões agregando outras demandas dos movi- mentos sociais, como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movi- mento das Mulheres Camponesas (MMC). Na ocasião, a experiência de lutas e resistência daqueles movimentos sociais considerados “históricos” foi objeto de estranhamento e reflexão disponibilizados

para outros coletivos sociais “emergentes”. Para o caso que se segue, são eles: os Faxinalenses, os Ilhéus do Rio Paraná e os Quilombolas, sobretudo, os membros da comunidade Invernada Paiol de Telha. Estes três grupos foram os que compuseram, no ano de 2007, a “Reunião do Setor”, na CPT-Guarapuava, já introduzindo a questão dos direitos étnicos ligados às comunidades tradicionais. Considera-se que eles possibilitaram, portanto, a formação da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais. Interessante notar que a entrada de novos coletivos sociais na Reunião da Equi- pe não significou literalmente entrada de novas lideranças: alguns dos atores en- volvidos naquele espaço, que antes respondiam enquanto pequenos agricultores, trabalhadores rurais sem-terra, atingidos por barragens, camponeses, posseiros, entre outros, passaram a responder enquanto faxinalenses, quilombolas, ilhéus. Ou seja, passaram a se articular mediante uma identidade coletiva emergente.

O faxinalense Sr. Hamilton é um destes casos, bem como o Ilhéu do Rio Paraná,

Sr. Tavares. Estavam desde o início do ano de 1995 vinculados à luta camponesa junto à CPT por serem, ambos, pequenos agricultores, camponeses e, um deles, atingido por barragem e morador de um assentamento do MST no Candói-PR. Ta- vares foi, como outros antigos moradores da Ilha Grande-PR, realocado para tal Assentamento devido tanto às enchentes ocasionadas pela hidrelétrica de Itaipu, no início dos anos oitenta, quanto pela criação do Parque Nacional de Ilha Grande em 1997, que os expulsou definitivamente das Ilhas. Ambos passaram da condição de camponeses, assentados, atingidos por bar- ragens e pequenos agricultores, à de faxinalense (Hamilton) e ilhéu do Rio Paraná (Tavares), sem que, no entanto, a “nova” categoria negasse a “antiga” condição:

continuam eles camponeses, pequenos agricultores, atingidos por barragens, ex- propriados, passando a assumir, por isso, uma nova condição no mundo, ligada às especificidades étnico-culturais de seus diferentes modos de existência social e trajetórias de vida.

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Se trata da “descoberta” desses sujeitos de sua identidade coletiva, que possi- bilita que eles continuem sendo o que sempre foram. Essas identidades “emergem” porque estavam “imersas”. Dona Ana, Benzedeira, nos disse, em uma das oficinas de sistematização, algo bastante ilustrativo sobre esta “emergência”: “a prática das benzedeiras sempre existiu, estamos valorizando, mapeando, no movimento, para criar a Rede.” (11/10/2010). Portanto, a Rede acelera o processo de emergir e visibilizar, num movimento singularizador de publicização e evidência social. As oficinas para sistematização

indagaram sobre o fenômeno da emergência das identidades coletivas inseridas na Rede. Uma questão central, colocada por nós, e que nos permitiu boas reflexões, foi essa: “o que é identidade coletiva?”; ou, “o que significa ser faxinalense, cipozeira, quilombola, benzedeira?” Por exemplo, assim como nos casos do faxinalense Hamilton e do ilhéu Tavares, se hoje eu pergunto para Mariluz o que ela é, ela vai dizer que é quilombola. Se eu pergunto pra Dona Maria o que ela é, ela vai dizer que é cipozeira. Se eu pergunto pro Tarcísio o que ele é, ele vai dizer que é faxinalense. Isto é a identidade deles, uma identidade que é coletiva pelo fato de ser acionada por um grupo de pessoas que possui uma trajetória histórica em comum, muitas vezes ligados por vínculos de parentesco e afeto, bem como por uma memória acerca dos fatores que deter- minaram suas existências e dos eventos que culminaram em expropriações territo- riais. Mas se há 10 anos eu perguntasse pra Mariluz, pra Dona Maria e pro Tarcísio o que eles eram, eles certamente não responderiam o que hoje respondem. Mas, se antigamente eles não se diziam quilombolas, faxinalenses e cipozeiros, e hoje se assumem enquanto tais, isso quer dizer que esta é uma identidade inventada, falsa, forjada? Certamente não. Como já mencionado, existe um contexto especial, atual, ligado às políticas for- mais estatais, que possibilita que Mariluz se diga quilombola, que Dona Maria se diga cipozeira e que Tarcísio se diga faxinalense. Esse contexto é fruto tanto da mobilização, a nível nacional, das comunidades que passaram a discutir a questão da política nacional dos povos e comunidades tradicionais, quanto dos esforços que os movimentos sociais históricos, mediados pelo CPT, engendraram na região de Guarapuava desde a década de oitenta, permitindo que esses coletivos reivindi- cassem, através das categorias identitárias, a condição de sujeitos de direito junto ao Estado, vis-a-vis ao movimento singularizador mediante a afirmação de uma identidade coletiva. O próprio Tavares tem três interessantes definições sobre seu envolvimento na Rede, por ele colocadas em uma das oficinas: “Eu era pessoa, depois sou o movi-

mento. A nossa identidade sempre existiu, mas estava abafada (

A partir do

diálogo com o outro é que sabemos quem somos.” (06/10/2009). Sem dúvida nenhuma essas reflexões militantes nos ajudam a compreender este fenômeno das identidades emergentes e a importância de uma rede que as arti- cule. Estas pessoas, que hoje respondem como ilhéus, faxinalenses, quilombolas, cipozeiros, entre outros, sempre foram o que sua identidade recentemente revela, mas nunca fizeram disso a bandeira pela luta dos direitos, seja porque ser Ilhéu, ser Faxinalense, ser Banzedeira, ser Quilombola nunca foram modos de ser bem

)

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vistos pela sociedade hegemônica geral, seja porque nunca foram identidades nor- matizadas e reconhecidas no mundo jurídico, nunca foram sujeitos de pleno direito diante do Estado. Podemos dizer que um grande desafio da Rede é o avanço no debate acerca dos direitos diferenciados. É justamente para mostrar estes impasses que a Rede Puxirão organizou dois seminários de direitos étnicos que contribuíram para o re- finamento da questão, em um espaço de diálogos institucionais entre secretarias do governo, órgãos federais, promotores públicos, deputados estaduais, lideran- ças comunitárias e agentes mediadores ligados aos movimentos sociais. A própria Sra. Margit, chefe do Departamento Socioambiental do IAP presente na Reunião da Equipe de junho de 2010, fez uma importante afirmação:

Deve-se levar em conta as questões culturais. Culturalmente o agricultor constrói a casa na beira do rio, e também coloca os ani- mais em volta da casa. Temos que trabalhar com direitos diferencia- dos. (Margit, 08/06/2010)

Isso leva a entender que era preciso mudar a concepção, o discurso e as ações dos agentes públicos no trato com esses grupos sociais. Nesse campo simbólico, reconhecer pela identidade específica cada grupo passa a ser o alvo da disputa. Como afirma Tavares “nossa identidade sempre existiu”, e por não ser reconhe- cida e valorizada, estava “abafada”. Hoje não está mais. Porque é no “diálogo com o outro” que juntas, estas identidades abraçam uma causa, uma causa que passa

pela visibilidade e pelo reconhecimento. A “pessoa” Tavares se tornou o “movimen- to”, um movimento de milhares de Ilhéus, tornando-as, também, movimentos que movimentarão outras, e assim por diante, criando-se a rede, criando-se em rede. Roberto, um dos agentes mediadores vinculados a CEMPO, ilustra bem este fenômeno. Diz ele que: “É no encontro em rede que há o reconhecimento. É no comum enfrentamento que elas [as comunidades] vão se identificando como rede

O cruzamento das mesmas demandas faz com que eles fortaleçam suas articu-

) (

lações em rede.” (07/04/2009). O pescador artesanal Samuel também pontuou, em uma reunião do setor, a im- portância do “diálogo com o outro”:

Estamos na busca por direitos humanos. As políticas públicas es-

taduais devem contemplar esses direitos. É isso o que harmoniza as

Nós não tínhamos força,

não éramos movimento. Havia rejeição dos órgãos do governo em relação às comunidades tradicionais. Agora parece que estão nos vendo, sinto que pra eles [os representantes do Estado] nós estamos existindo. Estão dando credibilidade pra nós. (11/08/2009)

demandas das diferentes comunidades (

)

Tavares também nos diz algo sobre a importância da rede: “Não éramos

legitimados” (

é ter credibilidade, é ser ouvido, é ser visto, é ganhar legitimidade, é fazer jun- to. E fazer junto não é esperar que os governantes, as secretarias e os órgãos do governo elaborem a política estadual dos povos e comunidades tradicionais. Não! A reclamação das lideranças comunitárias é que o diálogo com o Estado está sempre

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“hoje estamos mais fortes, mais preparados”. E estar mais forte

)

orientado pelo próprio Estado.

A Rede Puxirão sempre se pretendeu o contrário: são as comunidades quem

devem chamar o Estado, coordenar os encontros, e a Comissão Estadual está para criar este espaço de interlocução entre os povos e comunidade tradicionais e o Es- tado. Um exemplo destes se deu no encontro com o ITCG (Instituto de Terras, Car- tografia e Geociências do Paraná), no dia 04 de agosto de 2009. Ao falarem dos tra- balhos do ITCG com as comunidades tradicionais do Paraná, os técnicos do órgão mencionaram somente os indígenas e os quilombolas. Sobre esse episódio, há um interessante relato de um dos agentes da Rede Puxirão:

se o Estado estava com um discurso que no Paraná só existem ne- gros e índios, a Rede Puxirão estava para confirmar a participação no evento de outros grupos tradicionais do Paraná, como as cipozei- ras, os faxinalenses e os ilhéus, que acabaram compondo a “mesa ofi- cial” do encontro (11/08/2009).

Dessa maneira, manifestaram o interesse em serem reconhecidos como repre- sentantes diretos de grupos específicos, e não mais representados ou confundidos com outros grupos sociais. Esta é a emergência: de uma identidade que estava aba- fada e ocultada, mas que ganha substância e se afirma face aos conflitos. O manto da bandeira das comunidades tradicionais no Paraná é tecido por estas identi- dades coletivas, ainda que existam outras que não encontraram caminhos para sua manifestação. Isso é a Rede Puxirão: a diversidade, pluralismo e polifonia, de onde emergem novos protagonistas. Estes novos protagonistas são os faxinalenses, os quilombolas, as benzedei- ras, os pescadores artesanais, as cipozeiras e as religiões de matriz africana. Junto com estes se manifesta o movimento dos indígenas, antigo protagonista de reivin- dicação por direitos étnicos. Algumas, no entanto, se reconheciam desde antes, outras a fizeram acontecer, e outras só foram reconhecidas coletivamente após sua formação. Cada qual ao seu modo e ao seu tempo, estas comunidades estão lutando pela garantia de seus direitos étnicos e coletivos. Falemos um pouco da formação desta Rede, e de como alguns grupos sociais fizeram a “roda girar”, enquanto outros embarcaram já nos “trilhos”.

As Oficinas da Linha do Tempo: um caminho que se faz ao caminhar

À época das oficinas para sistematização, somente os pescadores artesanais, os

indígenas e os ciganos não estavam representados por nenhuma de suas lideranças ligadas ao espaço da Rede. Essas ausências tem algumas implicações: uma delas é a não inclusão destes segmentos no gráfico da Linha do Tempo, oficina esta que tinha como principal intuito acionar e enquadrar a memória dos participantes sobre os históricos de luta das comunidades, possibilitando a reconstrução das experiências vivenciadas, quer pelos próprios participantes, quer pelas pessoas àqueles vincula- das. Além de não estarem presentes nas oficinas, estes segmentos não constaram na Linha do Tempo porque nenhum dos então participantes os mencionou diretamente, por justamente pensarem que cada movimento deve falar por si mesmo. Ou seja, a

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Linha do Tempo, assim como outras oficinas e formas de reflexão e construção de saber coletivos, foi fruto de uma construção datada e com um número específico de participantes. Embora tais limitações tenham determinado algumas ausências no gráfico da Linha do Tempo, buscamos, através da narrativa que segue, evidenciar a importância desses segmentos no cenário dos movimentos sociais paranaenses, bem como sua relação no espaço da Rede Puxirão. Para a elaboração da Linha do Tempo, uma linha foi traçada em um quadro- negro e, a partir dela, foram sendo colocadas as datas e os períodos que represen- tam momentos marcantes na trajetória de cada grupo social desde seus primeiros conflitos territoriais e processos mobilizadores. O resultado desta dinâmica está colocado na imagem que segue.

34

TABELA

35

O propósito desta visualização geral do movimento foi permitir aos agentes a re- construção da sua própria experiência em conjunto com as experiências de agentes de outras comunidades. Eles eram provocados a discorrerem acerca dos aconteci- mentos marcantes da vida de seu grupo, e relacioná-los com os acontecimentos e momentos da Rede Puxirão e de outros grupos. Conseguimos mapear o histórico de luta que vai do ano de 1983, com a criação do Movimento dos Ilhéus, até o ano de 2010, com a lei municipal das Benzedei- ras. Nossa memória marchou, portanto, ao longo destes 27 anos. Passamos, por exemplo, pela criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pinhão em 1984, tivemos conhecimento sobre a criação da APIG (Associação dos Pescadores e Il- héus da Ilha Grande) em 1997, além da primeira Reunião da Equipe na CPT, em

1995.

Conversamos sobre a primeira reunião do setor, em 2007, mapeamos o início do resgate das práticas das benzedeiras, naquele mesmo ano, descrevendo o I Encon- tro Regional dos Povos e Comunidade Tradicionais, ocorrido em 2008. Refletimos sobre a criação da Federação Quilombola do Paraná, em 2009, além do lançamento da Frente Parlamentar, dentre outros episódios importantes da trajetória histórica dos movimentos. O sentido era avançar da existência atomizada para a existên- cia coletiva objetivada em movimentos sociais, como condição para a formação da Rede. De um período ao outro, mapeamos o histórico de luta e conflito de oito grupos sociais: os Ilhéus, os Quilombolas, os Faxinalenses, as Cipozeiras, as Benzedeiras, os Indígenas (kaingang e guarani), Pescadores Artesanais e as Religiões de Matriz Africana. Nossa preocupação era fazer uma relação entre os períodos marcantes dessas coletividades e os momentos em que passaram a se articular mediante uma identidade coletiva. Assim, abaixo da linha do tempo marcada no quadro-negro, colocávamos as datas históricas pontuadas pelos agentes, e acima da linha colocá- vamos o período em que cada grupo passou a se mobilizar mediante uma identi- dade coletiva. Esta dinâmica permitiu às lideranças dos movimentos reflexões bastante inter- essantes. A partir dos posicionamentos, percebemos que há diferentes tempos de mobilização dos grupos ao longo do histórico de luta. Há movimentos que são an- teriores à Rede Puxirão e outros que são posteriores a ela. Estes diferentes movi- mentos refletem também os diferentes níveis de maturidade política e engajamento das comunidades em relação às demandas da Rede Puxirão. Pelo tempo na luta reivindicatória, há movimentos que de algum modo “sustentam” politicamente a Rede, e que esperam a maturidade dos outros grupos para “caminharem juntos” em Rede. Há aspectos positivos e negativos neste nivelamento, que pretendemos explorar adiante. Falemos um pouco dos movimentos que formaram a Rede, são deles as bases que traçaram as linhas de ação da Rede Puxirão. Depois falaremos dos movimentos que entraram na Rede, e que com as outras comunidades compõe a Rede Puxirão de Povos e Comunidade Tradicionais.

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Dos que fizeram acontecer a Rede

Os Faxinalenses

Dados produzidos por levantamento preliminar coordenado pela Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses, Instituto Equipe de Educadores Populares (IEEP) e Projeto Nova Cartografia Social indicam a presença de aproximadamente 227 faxinais no Paraná, com uma estimativa populacional de 40.000 faxinalenses. Na Carta Final do II Encontro dos Povos e Comunidades Tradicionais, ocorrido em Faxinal do Céu-PR entre os dias 19 e 22 de outubro de 2009, os faxinalenses exter- nam sua preocupação com

o abandono do Estado, pois segundo levantamento feito por este,

os faxinais estariam acabando, e que, portanto não haveria a necessi-

dade de política pública. Em 1994 o Estado mapeou 121 comunidades,

e em 2004 em seus registros constavam apenas 44 faxinais. O que

nos anos de 2007 e 2008 foi desmentido pelos próprios faxinalenses que sozinhos mapearam 227 faxinais e cerca de 40 mil faxinalenses.

(Carta Final do II Encontro dos Povos e Comunidades Tradicionais,

OUT/2009).

Este mapeamento foi consequência da mobilização e engajamento dos própri- os faxinalenses. A formação do movimento reivindicatório faxinalense iniciou em 2005, no I Encontro dos Povos de Faxinais. A legitimidade social da “identidade coletiva” faxinalense nascia aí. A partir daquele momento muitas pessoas, que até então se diziam ou eram classificadas como camponesas, pequenos agricultores, posseiros, e que acompanhavam o discurso do Estado, no qual os faxinais estavam se extinguindo, passaram a se autodefinir faxinalenses e a reivindicar os direitos de preservação do modo e vida faxinalense. Ainda em 2005, suas ações conjuntas receberam o nome público de Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses (APF), marcada por encontros entre membros das comunidades autodefinidas faxinalenses em um formato que é muito parecido ao da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais. Dividindo suas ações em cinco níveis de atividades (os Encontros Estaduais, as Coordenações, Geral, Ex- ecutiva, de Núcleos e Comissões Locais) são os faxinalenses o movimento politica- mente mais organizado da Rede Puxirão. A estrutura de ação da Rede Puxirão de algum modo se valeu da estrutura de ação da APF. Segundo o faxinalense Tarcísio, em termos de organização política, a estrutura da Rede Puxirão tem suas bases no movimento dos faxinalenses: o mes- mo formato criado pelos faxinalenses, com apoio da CPT, do IEEP e da CEMPO. Es- timulada pela inspiração mobilizadora dos faxinalenses, a Rede Puxirão se mantém aberta como espaço de acolhimento das visões de mundo, formas e estratégias de lutas de cada grupo que vai compondo sua formação. O ato de conhecer faz-se pela troca constante de experiências e aprendizados entre os grupos, onde as demandas, as estratégias de mobilização e de reivindicação confluem para o planejamento das ações coletivas. São elas que movem esse espaço de formação e articulação.

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Segundo o mesmo Tarcísio, foi a APF que iniciou, em 2007, as tentativas, junto a Assembleia Legislativa do Paraná, da criação da Frente Parlamentar de Apoio aos Povos e Comunidades Tradicionais do Paraná. Mas a proposta se efetivou quando a maioria dos grupos percebeu a necessidade estratégica, o que impulsionou os faxinalenses a levarem a discussão para outras comunidades tradicionais do Es- tado. Como os diálogos iniciais agregavam os grupos dos ilhéus e dos quilombolas, foram estes três quem formaram as bases para a própria criação da Rede Puxirão, embora suas estratégias de ação tenham se espelhado apenas no formato do movi- mento dos faxinalenses (politicamente autônomo) representado pela APF. Com a adesão de mais movimentos e a oficialização da Rede Puxirão no ano de 2008, no- vas formas de organização da luta e resistência foram se engajando, sobretudo o Fórum das Religiões de Matriz Africana e o movimento indígena, representado pela ARPINSUL (Articulação dos Povos Indígenas do Sul do Brasil). Foi também o movimento faxinalense quem esteve à frente das discussões sobre a Política Nacional para os Povos e Comunidade Tradicionais, sendo atualmente um dos grupos que compõe a Comissão Nacional dos Povos e Comunidades Tradi- cionais. De um modo bastante claro, os faxinalenses são o grupo que mais avanços no plano político e efetivo tem alcançado, e por isso, servido de força motriz para os demais grupos que compõe a Rede Puxirão. A própria trajetória de reivindicações e conquistas dos faxinalenses já os coloca, frente aos outros movimentos, como referência quando se trata do reconhecimento formal dos “acordos comunitários”, priorizando ações de uso comum da terra dos recursos naturais e sua conservação através da aprovação de leis, à nível munici- pal e estadual, o que evidencia os consideráveis avanços nas negociações com os poderes públicos. Ainda que suas demandas territoriais tenham permanecido es- tagnadas, as políticas de reconhecimento da identidade e das práticas sociais fazem dos faxinalenses precursores dessas conquistas. No Paraná, os faxinalenses estão amparados pela lei Estadual 15.673, de novem- bro de 2007, que dispõe sobre o reconhecimento dos faxinais, dos modos especí- ficos de sua territorialidade e dos seus acordos comunitários. O processo de auto- definição coletiva passou a ser formalmente reconhecido pelo Estado do Paraná, assim como em cinco leis municipais. O direito ao modo de vida faxinalense está amparado por um documento do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), conhe- cido por Procedimento Operacional Padrão (POP), criado em outubro de 2009 em vistas a regulamentar sobre o uso das terras tradicionalmente ocupadas pelos faxinalenses. Tal documento coloca os técnicos do IAP como fiscalizadores do cum- primento dos acordos comunitários elaborados pelos faxinalenses. 20 Embora tais ganhos à nível jurídico (Lei Estadual e o POP) sejam resultado das reivindicações e lutas da Articulação Puxirão, o reconhecimento formal dos faxinais (e não dos faxinalenses) diante do Estado é anterior a ela. Data, por exemplo, de agosto de 1997 a criação do Decreto Estadual n. 3446 que reconhece a existência “do modo de produção denominado Sistema Faxinal” (cf. decreto n. 3446/1997). É devido a este reconhecimento que o mesmo decreto cria, para a preservação das

20 A elaboração deste documento foi determinada por constantes pressões da APF junto ao IAP. O evento emblemático para sua efetividade foi a ocupação da própria sede do Instituto por parte de mais de 100 militantes.

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populações inseridas neste sistema, as Áreas Especiais de Uso Regulamentado, conhecidas como ARESUR. Os faxinalenses também estão amparados por leis municipais, todas elas decor- rentes das reivindicações mediadas pela Articulação Puxirão, tais quais: as leis municipais, de Rebouças (n.1.235/2008), de Pinhão (n.1.354/2007), de Antonio Olinto (n. 1.354/2007) e de São Mateus (n.1.780/2008). Ante o avanço jurídico e simbólico, os faxinalenses veem poucas conquistas na criação de ARESUR’s e das Reservas de Desenvolvimento Sustentável – RDS via ICMBio, enquanto políticas de acesso e controle do território, o que fragiliza as conquistas anteriores. Soma-se a essas dificuldades a falta de sensibilidade dos órgãos ambientais (como o IBAMA e a Força Verde) na aplicabilidade de suas leis, desvalorizando os modos específicos de ocupação territorial faxinalense. Segundo o faxinalense Hamilton, a discussão sobre legislação ambiental

não deve ser somente sobre as leis, mas sobre a quem se deve

aplicar as leis. O que é e o que não é crime. (

diferentes tem que ter tratamento diferenciado. Para o nosso órgão [IAP], o porco pode fuçar na água, para a Força Verde isso é crime. Deve haver diferença no tratamento. O problema não é o porco, mas a moto-serra do agronegócio. A legislação ambiental é nossa inimiga. Não foi feita pra pegar a gente, mas pra pegar o grande, o agronegócio. (Hamilton, 08/06/2010).

Os modos de vida

)

Nesse período, muitos faxinalenses são indiciados, multados e criminaliza- dos por não cumprirem stricto sensu as premissas do Código Florestal Brasileiro, acarretando no impedimento do modo tradicional faxinalense que em muito, vale dizer, contribui para a preservação ambiental. O procedimento leniente e parcial dos órgãos ambientais é também resultado de uma visão de mundo apoiada numa interpretação preservacionista que credita ao uso comum o motivo da degradação dos recursos naturais. Das principais lideranças faxinalenses à época vinculadas à Rede Puxirão es- tavam Hamilton, Tarcísio, Ivan, Dimas e Ismael. Todos estes tinham participação ativa, não somente nas coordenações da Rede Puxirão, mas na própria Articulação Puxirão. Hamilton, como já mencionado, foi quem esteve desde os primórdios da discussão, participando inclusive da primeira Reunião da Equipe. Os outros entraram posteriormente no movimento.

Os Ilhéus

“Ilhéus” é a autodenominação de todos aqueles que vivem e trabalham no com- plexo de ilhas do Rio Paraná chamadas de Ilha Grande. Ser ilhéu é, portanto, ter uma memória e uma herança em comum com aquele conjunto de ilhas, estar vin- culado àquele território específico. Atualmente, boa parte dos Ilhéus está fora da Ilha Grande, tanto em decorrência do alagamento provocado pela hidrelétrica de Itaipu, construída entre as décadas dos anos setenta e oitenta, quanto pela criação do Parque Nacional da Ilha Grande, oficializado em 1997, e da Área de Proteção Ambiental das Várzeas do Rio Paraná.

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Conforme os dados obtidos durante a Reunião da Rede foram aproximadamente dez mil os Ilhéus afetados, direta e indiretamente, pela hidrelétrica. Destes, poucos ficaram nas ilhas. Muitos saíram sem nenhum amparo do governo, “com uma mão na frente e outra atrás”, como costumam dizer em várias das reuniões no espaço da Rede. Aproximadamente dois mil Ilhéus se organizaram para trocar as terras alaga- das por outras. Destas, trezentas e setenta famílias foram assentadas pelo INCRA. Dos que ficaram na Ilha, todos foram atingidos tanto pelo decreto federal que oficializou a criação do Parque Nacional da Ilha Grande, em 1997, quanto pela im- plementação da Área de Proteção Ambiental Federal dos Rios e Várzeas do Rio Paraná (APA), ambas sobrepostas às áreas tradicionalmente ocupadas pelos Ilhéus. Tais normatizações não somente dificultaram a vida dos que estavam na ilha, dada a impossibilidade de plantio, manejo da terra, pesca, entre outras atividades tradi- cionais dos habitantes das ilhas, quanto impossibilitaram o retorno daquelas outras famílias expropriadas no início dos anos oitenta. A fala de Tavares, principal liderança dos Ilhéus do Rio Paraná no contexto da Rede Puxirão, ilustra a mobilização do segmento: “Em 1983 nasceu o movimento dos Ilhéus, e isso é uma identidade. Daí ela se apagou, e depois ela foi crescendo. Nós, ilhéus, temos três momentos. (Tavares, 06/10/2009). Este movimento pode melhor ser visualizado no gráfico da Linha do Tempo: o primeiro momento é o da expulsão e da diáspora dela consequente. O movimento dos Ilhéus nasce daí, da condição de expropriados. O segundo é o da mobilização decorrente da oficialização do Parque Nacional de Ilha Grande. Logo após sua criação, em 1997, os Ilhéus instituíram a Associação dos Atingidos pelo Parque Na- cional da Ilha Grande (APIG), no intuito de oficializar uma entidade jurídica que os representasse e que respondesse pelos problemas advindos da criação do parque. O terceiro é o da inserção dos ilhéus no movimento de povos e comunidades tradicio- nais, consequência dos diálogos do próprio Tavares, este, a principal liderança do Ilhéus no âmbito das Reuniões da Equipe. Como dito, assim como o faxinalense Hamilton, Tavares esteve na primeira Re- união da Equipe, na condição de Ilhéu morador do assentamento do Candói-PR, no ano de 2000, e de algum modo encarna o próprio movimento dos Ilhéus no contexto da Rede Puxirão. Ele foi a via de acesso do movimento dos Ilhéus com a própria Rede Puxirão, principal articulador do movimento no âmbito do reconheci- mento formal enquanto comunidade tradicional. O fato, no entanto, de ser Tavares a única liderança de peso traz algumas fragilidades ao movimento dos Ilhéus no âmbito da Rede. De alguma forma a representatividade dos Ilhéus na Rede Puxirão parecia estar circunscrita aos ilhéus que vivem no Candói-PR, ou seja, aqueles que saíram em decorrência das enchentes ocasionadas pela hidrelétrica. Este foi, inclusive, um de- sabafo feito pelo próprio Tavares em uma das reuniões do Setor:

Muitas vezes não sabemos quem estamos representando. Eu sei das coisas da base do Candói, mas do Parque Nacional não, e isso

Dizer uma coisa pelo segmento, sem a con-

sulta, é feio. Tavares (06\10\2009).

me traz insegurança. (

)

Como o próprio Tavares aponta, o problema do movimento dos Ilhéus no con-

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texto da Rede é o da representatividade. Quando ele fala pelos Ilhéus, está falando de uma parcela deles. Esta dificuldade se deve a dois fatores principais. O primeiro é

a condição de espalhamento em que se encontram os expropriados da Ilha Grande:

estão por todo Paraná, Região Sul do país e Paraguai, o que dificulta o diálogo, o mapeamento e o comum sentido de pertencimento enquanto grupo, enquanto luta.

O segundo diz respeito aos diferentes momentos e antagonistas ligados à de-

manda em e pela Ilha Grande. Alguns brigam pra retornar à Ilha, expropriados

que foram, na década de oitenta, pelas enchentes de Itaipu. Outros brigam contra

o Parque Nacional e a criação da APA. Não que estas demandas não possam andar

juntas, mas elas dizem bastante sobre as dificuldades de se unificar a luta pelos di-

reitos tradicionais na Ilha Grande. Tendo como ponto de partida estas dificuldades, os Ilhéus articulados no espaço da Rede Puxirão estavam, à época da sistematização, tentando aproximar as de- mandas dos membros de seu grupo, formando lideranças que consigam articular

ações coletivas. Uma dessas ações estava implicada no já referido projeto da “Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais”, importante ferramenta para visibilidade do movimento e reivindicação de seus direitos.

O grande desafio do movimento dos Ilhéus no âmbito da Rede Puxirão é, além

de fomentar a criação de leis que reconheçam e preservam o modo de vida ilhéu, coletivizar a demanda geral dos ilhéus, tanto os que foram “atingidos” pelas barra- gens de Itaipu quanto os que foram “afetados”, mais recentemente, pela criação do Parque Nacional e da APA. Em ambos os casos, o principal antagonista é o Estado, seja “enchendo” de água o mundo dos Ilhéus, seja criando restrições ambientais que excluem os sujeitos de seu território tradicional.

As comunidades remanescentes de quilombo

Segundo levantamento realizado pelo Grupo de Trabalho Clóvis Moura, vincula- do à Secretaria Estadual de Assuntos Estratégicos (SEAE), até o ano de 2010 foram identificados no Paraná 86 comunidades negras rurais quilombolas. Em 2008, na ocasião do Encontro Regional das comunidades tradicionais, o movimento quilom- bola apresentou estimativas que indicam a existência de 20.000 quilombolas no Estado paranaense. Assim como para o caso dos Ilhéus e dos Faxinalenses, o movimento Quilom- bola em relação ao contexto de reivindicações junto à antiga CPT-Guarapuava é anterior à criação da Rede Puxirão. Data de início dos anos noventa a assessoria da CPT-Guarapuava à comunidade negra Invernada Paiol de Telha, cujos membros na década de setenta foram expulsos das terras chamadas Fundão, doadas a 15 es- cravos seus ascendentes pela então senhora destes, na segunda metade do século dezenove. Foi a assessoria que a CPT prestou aos herdeiros do Fundão o que permitiu a aproximação entre as demandas que dizem respeito ao direito étnico quilombola com as demandas de direito ao acesso à terra que embasam a luta dos movimen- tos sociais históricos do Paraná. A ligação, portanto, entre os movimentos sociais históricos e as demandas de uma comunidade remanescente de quilombo se deu via CPT. Assim como os ilhéus e os faxinalenses, os quilombolas estiveram pre-

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sentes na primeira reunião do Setor de Povos e Comunidades Tradicionais, no ano de 2007. É válido dizer que a comunidade Invernada Paiol de Telha foi a primeira do Paraná a receber, no ano de 2005, a certidão de autorreconhecimento enquanto quilombola, emitida pela Fundação Cultural Palmares. Ou seja, nos primeiros diálogos entre CPT e a comunidade Invernada Paiol de Telha (datados do início dos anos noventa) não havia a referência à categoria jurídica “remanescentes de quilombo”. Ela só foi possível graças à mobilização das comunidades que objeti- varam o cumprimento do decreto federal 4887/2003, que regulamenta o artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias de 1988. Desde então, muitas comunidades que possuem uma comum herança histórica com a escravidão pas- saram a se autodefinir remanescentes de quilombo, assumindo assim a identidade quilombola e a luta pelos direitos que o artigo 68 da ADCT da Constituição Federal garante. Podemos dizer que, à nível legal, os quilombolas (juntamente com os indíge- nas) são os grupos da Rede melhor amparados juridicamente. Foi a partir do de- creto 4887/2003 que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (IN- CRA) ficou responsável pelos procedimentos necessários aos trabalhos técnicos de reconhecimento, demarcação e identificação das terras quilombolas. O decreto também delega à Fundação Cultural Palmares a responsabilidade nas emissões da certidão de autorreconhecimento quilombola por parte das comunidades propo- nentes. De lá para cá, muitas comunidades quilombolas localizadas no Paraná rece- beram a certidão de autorreconhecimento como requisito necessário para abertura do processo administrativo junto ao INCRA. Das que deram entrada em tal pro- cesso, nenhuma comunidade teve suas terras tituladas, uma vez que os processos estão em litígio judicial. As ações comunitárias estão, ao que parece, circunscri- tas aos esforços das próprias comunidades, não havendo uma articulação coletiva quilombola de peso, um movimento auônomo que fiscalize, presencie e pressione as atividades do Estado representado pelo INCRA. As dificuldades de uma articulação e existência coletiva quilombola se devam, como já mencionado, ao caráter emergente do fenômeno, o que refletia as dificul- dades de articulação do movimento quilombola no âmbito de sua relação com a Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais. Não havia, como para o caso dos faxinalenses, um movimento coletivo autônomo das comunidades remanes- centes de quilombo no Paraná: somente ações atomizadas de cada comunidade frente ao Estado, ou tentativas de agrupamentos por parte do próprio Estado 21 . Tendo como ponto de partida estas dificuldades, os quilombolas articulados no espaço da Rede Puxirão estavam, à época das oficinas, tentando aproximar as demandas comunitárias, em um processo de formação de lideranças. Uma dessas ações estava também implicada no já referido projeto da “Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais”. Foram contemplados no projeto as co- munidades quilombolas Paiol de Telha, João Surá e Rocio. Desses diálogos, a Rede conseguiu mobilizar mais comunidades quilombolas e assim aumentar os planos de

21 O Grupo de Trabalho Clóvis Moura, sediado na Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Estadual, estimulou o processo de criação da Federação Quilombola do Paraná.

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mobilização coletiva frente o Estado (no caso, o INCRA), além de formar algumas lideranças que passaram a assumir papel junto a Rede Puxirão. Na Rede, Mariluz, membro da comunidade Invernada Paiol de Telha, é a prin- cipal liderança quilombola. Além dela, participam das ações políticas, Alcione, da comunidade do Rocio e Adir representando a comunidade de Manoel Ciríaco dos Santos. Estes dois últimos se vincularam ao movimento a partir dos trabalhos de assessoria da Rede, posteriormente, portanto, à sua criação. À nível dos diálogos com o Estado, os quilombolas do Paraná estão represen- tados pela Federação das Comunidades Quilombolas do Paraná, criada em 2009. Tal Federação, embora simbolize um avanço para o movimento, pouco representa, conforme o posicionamento da própria Rede, os reais anseios das comunidades quilombolas paranaenses. Como resultado da falta de representatividade da Fed- eração Quilombola, foi criada no contexto da Rede, neste ano de 2010, a Coorde- nação Regional Quilombola do Vale do Iguaçu (COREQ), responsável por articular as ações coletivas e mobilizar as lideranças das comunidades remanescentes de quilombo localizadas nesta região específica, o Vale do Iguaçu. Segundo Mariluz,

a Federação Quilombola é do Estado, ela não existe, pois não há uma demanda de reuniões. É quando o Estado chama e elabora a pauta que a Federação existe. A COREQ se reúne mensalmente, é um movimento informal, que já tem agenda no INCRA. (Mariluz,

21/06/2010).

Como para o caso dos Ilhéus, o principal desafio dos quilombolas no contexto da Rede Puxirão era dar conta da representatividade do movimento entorno das muitas e diferentes comunidades que hoje respondem pelo nome de remanescentes de quilombo. Seria necessário criar, a exemplo dos faxinalenses, um movimento engajado e autônomo, que tivesse capacidade mobilizadora e resistisse para além dos espaços das ações coletivas da Rede Puxirão. Este é um problema que transcendia a própria atuação da Rede, pois se enraiza- va nas dificuldades inerentes a quaisquer grupos sociais que, em interlocução com o Estado, aderem a uma categoria jurídica englobante para lutarem por seus direitos fundamentais. Se havia um comum entendimento dos membros da Rede Puxirão acerca dos quilombolas era o da necessidade de tirar do Estado o monopólio da mediação entre os quilombolas e a efetivação de seus direitos. É pra dar conta desse problema que a COREQ foi criada. De todo modo, estes três grupos foram os que impulsionaram a formação da Rede Puxirão de Povos e Comunidade Tradicionais. A articulação política en- tre Faxinalenses, Ilhéus e Quilombolas, ainda com representação parcial de cada grupo, nos diz muito sobre a importância da mobilização de diferentes identidades coletivas e contextos sociais em prol da defesa de seus direitos étnicos e coletivos. Há aspectos positivos já mencionados anteriormente, no fato da Rede ser “puxada” pelos faxinalenses, mas há também os aspectos negativos, ligados tanto às dificuldades de mobilização e representação dos outros grupos, quanto o “desgaste” dos faxinalenses em aguardar o estabelecimento das estratégias de formação e diálo- go dos outros grupos, assim como compreender suas formas sócio-organizativas

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diferenciadas.

Dos que chegaram depois

Se tomarmos como referência a Linha do Tempo, percebemos que tanto os quilombolas quanto os ilhéus e os faxinalenses têm sua mobilização política ini- ciada anteriormente à Rede Puxirão. São eles quem, de algum modo, formaram o espaço da Rede e possibilitar que outros grupos se aliem à causa. Estes são os casos das cipozeiras, das benzedeiras, dos pescadores artesanais, dos indígenas, das re- ligiões de matriz africana e dos ciganos.

As Cipozeiras, as Aprendizes da Sabedoria e os Pescadores Artesanais

O Movimento Interestadual de Cipozeiras e Cipozeiros (MICI), o Movimento

Aprendizes da Sabedoria (MASA) e o Movimento dos Pescadores e Pescadoras Ar-

tesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR) foram criados no âmbito de interlocução

e da influencia política refletida pela Rede Puxirão. Não havia, até a criação da Rede, uma demanda reivindicatória organizada na forma de movimento ou articulação política de base que representasse a causa dos cipozeiros e benzedeiras. No caso dos pescadores artesanais, sempre existiram representações mobilizadas no litoral paranaense, porém, nunca na forma de um movimento social e, sim, de grupos atomizados em função de demandas contingenciais. A demanda pelos seus direitos,

a formalização jurídica da identidade ocorreram por influencia da Rede Puxirão. Os povos autodenominados “cipozeiros”, por viverem e se identificarem en- quanto grupo étnico (justamente pelo trabalho tradicionalmente desenvolvido de extração do cipó imbé) constituem outro tipo de comunidade que busca sair da

invisibilidade social e jurídica fazendo valer seus direitos históricos. Estes grupos, atualmente, se concentram no litoral norte de Santa Catarina e em todo o litoral paranaense. Além da extração do cipó imbé, coletam diversos outros recursos natu- rais na floresta e desenvolvem agricultura de autoconsumo de base familiar.

A mobilização política dos cipozeiros se objetiva no I Encontro dos Povos e

Comunidades Tradicionais, em 2008. Nesse espaço, duas são as lideranças que representam os cipozeiros: Dona Maria e Seu Avelino. Conforme percepção dessas lideranças o trabalho dos cipozeiros foi fortalecido em decorrência das oficinas que subsidiaram os trabalhos do Mapeamento Situacional dos Cipozeiros nos estados de Santa Catarina e Paraná. Mas é a experiência política dos grupos que compõe a Rede que lhes fornece conhecimento militante para organizarem o MICI. Segundo seu Avelino,

Em Garuva nosso movimento ainda depende do nosso povo se mexer e lutar pelos seus direitos, assim como acontece com as outras comunidades daqui. Mas a gente tá aprendendo com eles – Rede – nesse ponto, mas também ensinando (Avelino, 11/08/2009).

Até o fechamento das oficinas, havia poucas informações sobre os cipozei- ros. Representantes do movimento apontam para existência de 10.000 membros

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no litoral do Paraná e Santa Catarina. O principal antagonista do modo de vida cipozeiro é o impedimento do “livre acesso” ao Cipó-Imbé e outras fibras da floresta utilizadas para a produção de artesanatos. Além disso, o movimento reivindica o fim das restrições impostas pelo IBAMA, FATMA e IAP para coleta desses produ- tos, bem como o retorno de seus territórios tradicionalmente ocupados. Diferentemente do caso das cipozeiras, o Movimento Aprendizes da Sabedoria foi formalizado no I Encontro Regional das Benzedeiras, Rezadeiras, Curadores, Costureiras e Parteiras, realizado na cidade de Irati-PR, em setembro de 2008. Ou seja, a formalização da identidade de benzedeira, curandeiro, costureira e parteira

é posterior à criação da própria Rede Puxirão. A criação daquele espaço de articu-

lação foi o que permitiu às benzedeiras iniciarem seu movimento reivindicatório a partir de uma identidade coletiva. Segundo o Movimento Aprendizes da Sabedoria são estimadas 7.000 pessoas no Paraná praticantes do ofício de curar e ensinar remédios caseiros, colaborando di- retamente para a saúde de milhares de pessoas todos os dias. Os principais conflitos relativos a esses grupos se encontram na repressão dos conhecimentos e práticas

tradicionais de cura, praticada por diversas pessoas ligadas a instituições religiosas

e a medicina oficial. Outra situação enfrentada por esses grupos se traduz na dis-

puta pelo acesso aos recursos florestais medicinais, com a privatização do uso, além

de diversas formas de preconceitos praticadas por diversos atores da sociedade, dentre eles padres, pastores, médicos e enfermeiras. No âmbito da interlocução com a Rede Puxirão, o Movimento Aprendizes da Sabedoria impulsionou a criação, no início de 2010, da Lei 1401, aprovada por una- nimidade pela câmera de vereadores de Rebouças-PR. Tal lei é pioneira no gênero em todo país ao reconhecer os donos de ofícios tradicionais como agentes promove- dores da saúde popular através de suas práticas. Entre os direitos garantidos pela lei aos benzedores estão a carteirinha, o certificado de reconhecimento e o livre acesso às ervas e plantas medicinais do município. Do litoral do Paraná grupos de Pescadores Artesanais localizados na Vila de Su- peragui iniciam um processo mobilizador em 2008. Nesse contexto a produção da cartografia social foi instrumento fundamental para reflexão que derivou em mo- bilização dos pescadores. Uma das contribuições da Rede, segundo as lideranças do MOPEAR, foi a necessidade de ampliar sua base, fazer formação e organizar

a coordenação do movimento. Os pescadores artesanais vinculados ao MOPEAR

receberam fortes estímulos para o fortalecimento de sua organização, da assessoria

da Rede e, especialmente dos faxinalenses. O processo de mobilização possibilitou a articulação de várias comunidades pesqueiras, e não mais somente a da vila de Superaguí. Os principais conflitos ligados a esses grupos se traduzem na disputa pelo acesso aos recursos pesqueiros com as embarcações industriais, além de restrições oriun- das do IBAMA, projetos de pesquisa (Recifes Artificiais), impedimentos e limites de uso dos recursos naturais resultante da sobreposição do Parque Nacional de Su- peragui aos seus territórios tradicionais, além das áreas limitadas para pesca de arrasto (conhecidas como milha de pesca) instituídas por normativa do Ministério do Meio Ambiente. O ano de 2010 foi particularmente promissor para a articulação do movimento

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dos pescadores artesanais paranaenses. Através da mobilização conjunta com a Rede, foi realizado, em novembro de 2010, o I Encontro dos Pescadores e Pescado- ras Artesanais do Sul do Brasil, que agregou organizações de pescadores do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Os Indígenas, os Ciganos e as Religiões de Matriz Africana

Diferentemente dos grupos anteriores (cipozeiros, pescadores artesanais e ben- zedeiras) que formalizaram seu movimento no período posterior à Rede Puxirão, o Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africana (FPRMA), a Articulação dos Povos Indígenas do Sul, bem como a Associação Brasileira dos Ciganos do Paraná, são representações que articulam demandas de grupos sociais anteriores e de for- mas políticas distintas à Rede Puxirão. Todos estes são movimentos que represen- tam, à nível regional, trajetórias próprias de reivindicações já existentes à nível na- cional. As demandas e articulações políticas que fundamentam a existência coletiva dos indígenas, religiões de matriz africana e ciganos nascem em contextos históricos específicos muito distintos dos que originaram a Rede. Tais grupos somente guar- dam relações com os novos movimentos de comunidades tradicionais na medida em que as ações da Rede ganham repercussão política através do I e II Encontro Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais. Todavia, cada grupo participa de modo peculiar na Rede Puxirão.

Os Ciganos

Destes três, apenas os ciganos não participaram de nenhuma das reuniões da Rede que subsidiaram os trabalhos para a sistematização. Por esse motivo, pouco temos a refletir sobre seu envolvimento e interesse dessa proposta. Dos espaços de articulação organizados pela Rede o grupo dos ciganos esteve presente somente no II Encontro em 2009. Prova disso é que a Associação dos Ciganos não constou na cartilha oficial da Rede Puxirão de 2010, intitulado “Processo de Construção da Política Estadual de Povos e Comunidade Tradicionais”.

Os Indígenas

Apesar de não dispormos de um levantamento censitário oficial, dados coletados junto ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI-PR, 2009) revelam a presença de 93 Xetás, 3.500 Guaranis e cerca de 10.000 Kaingangs no Paraná. Os conflitos a que estão submetidos são basicamente de acesso ao território tradicionalmente ocupado e de políticas públicas referentes à saúde e à educação que respeitem as especificidades culturais de cada etnia. Sua primeira participação ocorreu no I Encontro dos Povos e Comunidades Tradicionais em 2008. Nos espaços sequentes a ARPINSUL (Articulação Regional dos Povos Indígenas do Sul do Brasil) passou a participar com representantes dos espaços das reuniões e ações coletivas da Rede Puxirão de forma intermitente, uma vez que internamente ao movimento indígena havia questionamentos acerca dessa

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aliança. Os representantes indígenas mais presentes eram os Guarani e, nas ações coletivas, os Kaingangs.

A troca de experiências políticas entre os indígenas e os grupos da Rede foi fun-

damental para os novos movimentos, sobretudo no que se refere ao processo de formação de lideranças e as estratégias de negociação com o Estado. Em muitas ocasiões como no acampamento da Rede 22 e na criação da Frente Parlamentar dos Povos e Comunidades Tradicionais, a presença dos indígenas foi fundamental para pressionar as autoridades públicas. Observa-se, no entanto, que as pautas dos indígenas tinham em suas nego- ciações agentes públicos e legislações distintas, o que dificultava aproximações nas mobilizações. Por exemplo: na questão do território, enquanto o movimento indí- gena negociava com a Funai a demarcação de suas terras, os quilombolas tinham no INCRA suas demandas territoriais, os faxinalenses, pescadores, ilhéus e cipozeiros no ICMBio a criação de seus territórios tradicionais.

As Religiões de Matriz Africana

O Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africana (FPRMA) foi criado em

2009, por iniciativa de um grupo de religiosos que, durante as discussões da cri- ação do Fórum Nacional das Religiões de Matriz Africana - realizado durante a Segunda Conferencia Nacional de Promoção da igualdade Racial (II CONAPIR)

-, orientou a instituição de fóruns estaduais, visando propor formas de contribuir para a solução de problemas existentes nas comunidades de Religiões de Matriz Africana. Tal movimento mobilizou grupos de Ilês, Terreiros, Tendas, Abassás, roças, instituições, além de adeptos e simpatizantes pela causa.

O FPRMA, incentivado pelo êxito das iniciativas já implantadas em outros esta-

dos brasileiros, constitui-se numa instância de caráter deliberativo sem fins lucra- tivos, reforçando seu potencial de articulação e representatividade para o apoio à implantação de políticas públicas de inclusão social e promoção das comunidades de Religiões de Matriz Africana em âmbito estadual. No contexto da Rede Puxirão, a entrada do Fórum Paranaense de Religiões de Matriz Africana ocorreu no II Encontro dos Povos e Comunidades Tradicionais do Paraná, em Faxinal do Céu-PR. Ou seja, apenas alguns meses após a criação do Fórum Nacional, em junho de 2009, estava sendo oficializado o Fórum Paranaense, no contexto daquele segundo encontro das comunidades tradicionais paranaenses. Podemos dizer que os grupos ligados às religiões de matriz africana vieram à Rede em razão da proposta de criação da Política Estadual dos Povos e Comuni- dades Tradicionais, da qual participaram de modo efetivo, inclusive, a mobilização do Fórum foi fundamental para a criação do Grupo de Trabalho sobre a Política Estadual em 2009. Importa ressaltar o estranhamento inicial que resulta do encontro e mobilização conjunta entre os representantes do Fórum (Candomblé e Ubanda) com grupos sociais que possuem membros com fortes vínculos com a fé católica e neopente-

22 O Acampamento foi uma ação coletiva realizada em outubro de 2010 organizada pela Rede Puxirão. Na ocasião os representantes dos grupos envolvidos com a Rede armaram acampamento na frente do Palácio do Governador do Paraná

Palácio Iguaçu – por 3 dias a fim de pressionar pela criação da Politica Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais

e

da Comissão Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais.

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costal. Os relatos mais abaixo dão conta do que foi um exercício de relação com a alteridade por parte dos sujeitos protagonistas da rede (nesse caso de ecumenismo “às cegas”), pois, face às estratégias comuns que mobilizavam ambos os grupos,

para articular era preciso conhecer o outro, compartilhar de sua luta. Nesse espaço, os preconceitos eram tratados de modo silencioso para evitar constrangimentos 23 .

O Fórum trouxe três contribuições importantes. A primeira é o ganho que a Rede

Puxirão teve com a entrada destes novos protagonistas, suas articulações e estra- tégias de mobilização (como, por exemplo, a Parada da Diversidade). A segunda é pelo fato de tirar da Rede sua característica de lidar somente com territorialidades vinculadas a grupos camponeses. São urbanas as terras tradicionalmente ocupadas pelos grupos que compõe o Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africana. Reivindicam seus direitos em um contexto urbano, de luta pela preservação e au- toestima da religiosidade afrodescendente, onde a preservação destes territórios

existenciais, religiosos, simbólicos e efetivos está intimamente ligada às formas de ser e estar no mundo de seus adeptos. Tal característica alarga também o campo de articulação, contatos e atuação da Rede Puxirão para Curitiba, capital do Estado paraense.

E terceiro: ao abraçar a causa dos grupos e expressões de matriz africana, a

Rede Puxirão está lidando com a verdadeira dimensão do respeito e do diálogo com a diferença. Se até então a Rede mobilizava as diferentes comunidades tradi- cionais do Paraná, todas estas diferenças estavam como que mediadas por um co- mum modo de ver e entender o mundo, por um comum fundo religioso ligado ao cristianismo. Hoje não: os grupos ligados às religiões de matriz africana mostram, ensinam e dialogam diferentes maneiras de ver o mundo, relacionar-se com as coi- sas do mundo, além ter diferentes expressões, referências e símbolos religiosos. Ou

seja, possibilitam o contato e a valorização com a verdadeira diferença: aquela que, num primeiro momento, causa espanto. Isso ficou claro em uma dos espaços de vivências religiosas que dão início a todos os encontros da Reunião da Rede: a “mística”. Comumente feita pelos membros dos grupos tradicionais, e sempre regada às leituras dos versículos bíblicos, a mística do dia 01 de dezembro de 2009 teve como mediador Rômulo: principal liderança do FPRMA vinculada à Rede Puxirão. Ali ele mostrou aspectos de cura de algumas plantas, além da relação entre os elementos da Terra com os poderes das entidades espirituais ligadas à religiosidade afro-brasileira. Pedindo a permissão para todos que ali estavam, Rômulo, além de cantar refrões que remetem à religiosidade afro, benzeu cada um dos participantes com a erva que portava nas mãos. Foi um momento emocionante, e por dois motivos: o primeiro é que a mística foi realmente emocionante. O segundo é talvez a causa do primeiro:

havia pessoas ali que estavam com receio, e que de algum modo estranharam todo aquele discurso pautado na umbanda, macumba e no candomblé, estas, referências vistas como “coisas do diabo e da bruxaria” no imaginário de muitas das populações tradicionais paranaenses.

E estranharam por quê? Ora, porque desconheciam, porque nunca tinham ex-

perimentado, porque nunca tinham conversado sobre, porque nunca tinham senti-

23 Em novembro de 2009, membros do Fórum realizaram reunião da Rede no Terreiro de Candomblé. Ao final re- alizaram uma cerimonia para proteger e abençoar os diferentes grupos na sua luta.

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do o cheiro, porque nunca tinham visto. O fato é que no contato com o diferente sur-

giu a possibilidade da atenuação de certos preconceitos, surgiu a possibilidade do diálogo, da tolerância e do respeito religiosos. E isso basta para que seja construído um mundo novo, admiravelmente novo.

E isso para ambos os lados. O próprio Rômulo afirmou o pavor que os religiosos

de matriz africana têm dos dogmas das religiões cristãs, porque é no discurso pau-

tado na bíblia e no cristianismo que tem se dado a maioria das desautorizações

e dos desrespeitos às crenças e religiosidade de matriz africana. No contexto da Rede, não somente as comunidades tradicionais cristãs camponesas aprendem

com as comunidades de religiosidade africana, mas estas também aprendem muito do modo de vida cristão das comunidades tradicionais. Modos este que, vale dizer, estão falando de uma mesma coisa: do respeito à natureza, do amor ao próximo e da organização dos diferentes e excluídos como meio de transformar as relações de poder na sociedade.

E essa abertura é, sem dúvida, o exemplo do verdadeiro diálogo com a alteridade

e o grande desafio deste novo momento da Rede, um momento onde ela se abre para

o novo, desvincula territorialidade do campesinato e religiosidade do cristianismo, abrindo as portas para movimentos que lutam, sobretudo, pela justiça e o direito à existência social, estes sim norteadores de quaisquer lutas e sonhos.

Considerações Finais

Como mencionado no início do texto, a finalidade da sistematização foi refle- tir sobre as experiências da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais,

apreendendo o fluxo da experiência. Este experiência, no entanto, continua se realizando, porque é dinâmica. Assim, ao apreender o fluxo da experiência, a apri- sionamos. Em verdade, ela é inapreensível, ilimitada. Toda apreensão é, portanto, limitação de algo que é infinito e muito mais complexo, intangível. Ou seja, o que podemos apreender são somente aspectos, esboços, tentativas de aproximação de uma experiência infinita, que não se traduz em um texto.

O trabalho para sistematização apreendeu aspectos do vivido em Rede. Retemos

aqui o que se passou, com a certeza de que a condição deste material produzido é

a sua própria limitação. Muito, mas muito mais há que se narrar, e mesmo assim,

toda narrativa estará fadada a ser somente um testemunho (o que é muito), uma semente da reflexividade, da memória e da autoconsciência, uma forma de contar a história a partir de outros marcos e referências, recontá-la, portanto. Enquanto estas linhas foram escritas, muitas ações, práticas, encontros, senti- mentos, concernentes às experiências disso a que chamamos Rede Puxirão, acon- teceram. No meio disso tudo, e cada vez mais forte, a Rede Puxirão vem fincando sua realidade, efetivando-se enquanto espaço de mediação entre os movimentos sociais e a garantia de seus direitos. Esses movimentos sociais representam e tra- duzem o afã de um sem fim de pessoas e coletivos na busca por seus direitos à vida plena, à justiça e à dignidade. Como já destacado, todas as comunidades vinculadas à Rede Puxirão têm na mobilização entorno de uma identidade coletiva a via para o reconhecimento for- mal diante do Estado, em especial de seus direitos territoriais. Em se tratando da

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Rede Puxirão, cada uma vai compor, em seu tempo, um tipo de relação consigo mesma e com o mundo que a cerca. Há grupos e consciências de sua identidade anteriores à Rede. Há, também, movimentos e consciências que foram formados por ela. É neste movimento de for- mar e ser formado que pudemos vivenciar a riqueza e as limitações da mobilização entorno de uma identidade coletiva, além de tudo o que este encontro de diferenças permite gerar, tanto à nível dos diálogos formais com Estado, como novas formas de mobilização política integradas. Procuramos mostrar ao longo do texto que, por mais que oficialmente a Rede Puxirão tenha sido formada no ano de 2008 (no I Encontro dos Povos e Comu- nidades Tradicionais), é anterior a tal data o início das mobilizações dos grupos e atores que a formaram. Ela é, portanto, produto de um sem fim de articulações, ações, passeatas, acampamentos, demandas, resistências, diálogos e reivindicações feitas pelos movimentos sociais paranaenses desde, no mínimo, o início dos anos oitenta. Daquele tempo até o momento, as condições políticas se transformaram e no- vas formas de luta atreladas ao localismo e os particularismo dos conflitos sociais encontrou pontos de contato que esboçam essa articulação que atende pelo nome de Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais. A Rede, no entanto, é uma articulação ou espaço de congregação de um processo em que algumas identidades coletivas categorizadas como povos e comunidades tradicionais em luta no Paraná projetam possibilidades de efetivação de direitos em um contexto novo da política nacional voltada às comunidades tradicionais. Apesar da multiplicidade de demandas, atores, comunidades, encontros, o caminho para que a Rede efetivamente se consolide no campo político e reivindi- catório paranaense é um só: a continuidade de sua marca, que é agregar diferentes movimentos sociais, e daí fazer surgir um corpo de referência que permita o em- poderamento desses agentes sociais e a efetivação dos seus direitos fundamentais. Ou seja, não há outro caminho para a Rede senão continuar suas estratégias de mobilização comunitária agregando um número cada vez maior de grupos e agen- tes sociais: é isso o que fez com que ações atomizadas, de pessoas e movimentos sociais, adquirissem o caráter de mobilização coletiva e étnica engendrada por uma rede de comunidades tradicionais. Vimos que é nesse encontro de diferentes gru- pos sociais e suas demandas que as bases para a luta foram alicerçadas, que novos padrões de relacionamento com o Estado foram criados, que novos aprendizados foram potencializados, que velhos preconceitos foram revistos, que novas alianças foram efetivadas, que novas realidades e tornaram possíveis. Cabe pensar nos dilemas relacionados a continuidade da Rede e seu papel de articulação e formação, e não de representação, evitando com isso a concen- tração de tarefas, a fragilidade organizacional de alguns grupos, a não substituição das representações dos movimentos pela Rede. São essas algumas preocupações apontadas pela sistematização com os representantes das diferentes comunidades tradicionais. Para tanto, propõe-se estimular trabalhos de formação de base, for- talecer as coordenações dos movimentos, abrir canais de negociação permanentes dos órgãos públicos com os movimentos e suas demandas. A continuidade da Rede depende, portanto, tanto da permanência de sua agenda

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aglutinadora e agregadora quanto de sua abertura para novas alianças e possibi- lidades. É assim que ela fortaleceu suas bases e fundamentos históricos ligados à proposta de viabilizar condições para o fluxo das demandas dos movimentos sociais aqui mencionados, bem como permitiu que novas propostas, demandas e grupos sociais a ela se aliassem. São esses dois movimentos, o de continuar a proposta histórica e o de se abrir para os novos movimentos sociais, que possibilitarão que a Rede se efetive como um espaço de articulação política não somente circunscrita ao contexto paranaense, mas nacional e internacional. Podemos dizer que a via para a efetivação desses direitos passa pela visibilidade das comunidades diante do Estado e do mundo que as cerca. Esse primeiro passo, o de mostrar as marcas, as trajetórias, as histórias, as demandas, as vozes, as bandei- ras, está sendo dado. No encontro em rede, cipozeiras, pescadores artesanais, re- ligiões de matriz africana, faxinalenses, benzedeiras e ilhéus têm lutado para emer- girem enquanto sujeitos jurídicos, de pleno direito. Daí o rótulo de emergente a todas essas comunidades que aos olhos do mundo e do Estado pareciam até então inexistir. A Rede permite essa emersão, possibilitando o fortalecimento de uma política estadual voltada aos povos e comunidades tradicionais. É sob o manto da bandeira da Rede Puxirão que as vozes desses segmentos, dessas identidades cole- tivas, passaram a aparecer e se fortalecer politicamente. Um segundo passo também está sendo dado: o de, a partir da visibilidade, fazer com que o Estado reconheça esses modos culturais específicos e defina um com- promisso de amparo e proteção jurídica. Embora em fase germinal, esse amparo já se esboça, de diferentes maneiras, para as comunidades tradicionais. Decretos federais e estaduais, portarias, leis municipais, minutas, entre outros mecanismos estatais, são tanto resultado da mobilização dos movimentos sociais quanto conse- quência de um diálogo inicial entre sociedades civil, movimentos sociais e os po- deres públicos brasileiros. Com todas as limitações inerentes ao processo, a Rede Puxirão tem sido um importante espaço de diálogo e mediação entre as comuni- dades tradicionais e o Estado brasileiro.

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Comunidade de Pescadoras e Pescadores Artesanais Organizados – Processos de R-existência na Vila do Superagüi-PR
Comunidade de Pescadoras e Pescadores Artesanais Organizados –
Processos de R-existência na Vila do Superagüi-PR 24

Resumo

Dimas Gusso 25 Marina Drehmer 26 Marina Eduarda Armstrong de Oliveira 27 Mercedes Solá Pérez 28

Os pescadores artesanais da Vila do Superagüi enfrentam diversos conflitos nos seus territórios de vida. Analisam-se aqui dois principais. O primeiro é em decor- rência das proibições de reproduzir os seus modos de vida específicos devido à su- perposição dos seus territórios com o Parque Nacional do Superagüi. Diante das restrições impostas, os pescadores se especializam no trabalho da pesca no mar. Assim, o segundo conflito implica diretamente a atividade da pesca artesanal em relação às políticas de modernização da pesca e à concorrência desigual com a pesca industrial. Ambos os conflitos geram a indignação dos pescadores artesanais que, buscando encontrar soluções, se organizam como movimento social e se inserem na categoria política de povos e comunidades tradicionais. Propõe-se aqui tratar sobre o processo de organização da r-existência dos pescadores e pescadoras artesanais do Superagüi-PR.

Introdução

24 Este texto é realizado com concordância dos pescadores e pescadoras da Vila do Superagüi – sujeitos da pesquisa –,

buscando privilegiar o olhar desses sujeitos e em diálogo permanente com eles.

25 Faxinalense, estudante do Curso de Direito e assessor político do MOPEAR.

26 Estudante do Mestrado do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) e integrante do

ENCONTTA - Coletivo de Estudos sobre Conflitos pelo Território e pela Terra.

27 Estudante do Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Geografia pela Universidade Federal do Paraná, integran-

te do ENCONTTRA – Coletivo de Estudos sobre Conflitos pelo Território e pela Terra e assessora política do MOPEAR.

28 Estudante do Doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Pernambuco. Integrante do ENCONTTRA – Co-

letivo de Estudos sobre Conflitos pelo Território e pela Terra –, CEGeT – Centro de Estudos de Geografia do Trabalho – e NEACA – Núcleo de Estudos sobre Espaço Agrário, Campesinato e Agroecologia.

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O extenso litoral brasileiro é marcado por distintos e recorrentes conflitos terri- toriais atrelados ao contemporâneo panorama global cuja lógica econômica pauta- se, entre outros aspectos, na mercantilização da natureza 29 (CECEÑA, 2008). O litoral norte do Estado do Paraná não é diferente. Os conflitos territoriais decor- rem da disputa entre as comunidades locais – caiçaras e pescadores artesanais – e os órgãos públicos ambientais – Instituto Ambiental do Paraná, Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, Ministério de Meio Ambiente. Essa região caracteri- za-se pela presença da natureza exuberante – mangue, mata atlântica e restingas – devido às práticas das comunidades locais de manutenção da mesma. Marcada pela diversidade ambiental e cultural, essa região viu-se alvo de diversos interesses, públicos e privados, especialmente a partir de meados do século XX. Esse cenário de mercantilização da natureza – cujas ações são orientadas por uma perspectiva na qual esta aparece como uma fonte infinda de mercadorias reais ou potenciais que configura “uma paisagem de oportunidades” (CORONIL, 2005, p. 111), foi acarretando conflitos e consequente mobilização de algumas comunidades locais que viam seus territórios de vida ameaçados diante dos interesses de outrem. Este artigo propõe um relato sobre o processo de organização dos pesca- dores e pescadoras artesanais da Vila de Superagüi, município de Guaraqueçaba que em decorrência de conflitos socioambientais, viram a necessidade de se organizar como movimento social diante desse cenário de conflitos relacionados especial- mente às proibições devido à implementação do Parque Nacional do Superagüi e aos impactos da pesca industrial. Ambas as políticas – de conservação da natureza e de modernização da pesca - comprometem a continuidade do acesso e manutenção dos territórios e modos de vida tradicional desses pescadores, constituindo uma disputa que envolve os próprios pescadores artesanais, o Estado – aqui represen- tado por órgãos ambientais – e a iniciativa privada. O processo de organização social do grupo teve como marco inicial o pro- cesso da cartografia social que resultou – além da confecção do fascículo 16 da Nova Cartografia Social publicado em 2010 – na formação do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR) - em 2008, bem como no autorreconhecimento como “pescadores e pescadoras artesanais”, o que permitiu sua inserção na categoria política de Povos e Comunidades Tradicionais e a auto- demarcação dos seus territórios de vida. Para compreender melhor esse processo, é importante debruçar-se sobre os aspectos conjunturais que ajudaram a conformá-lo. Para tanto, daremos início ao relato, por meio de uma contextualização da região para compreender o panorama no qual as lutas e reivindicações dos pescadores e pescadoras artesanais do Superagüi foram se delineando e ganhando força. A Vila do Superagüi, comunidade situada na Ilha do Superagüi, teve um grande protago- nismo nesse processo de mobilização política, o que a coloca no foco deste texto. A realização do fascículo 16 da cartografia social contou com a participação de inte- grantes da comunidade de Barbados – também trabalhada neste livro por Duarte e Varella – e da comunidade da Vila das Peças. A estrutura deste artigo divide-se em quatro partes. Após breve apresen- tação da comunidade de pescadores artesanais de Superagüi passa-se à descrição

29 “Todo mundo parece concordar com este preceito [desenvolvimento sustentável], porém trata-se de um conceito vazio que só aponta a um fim: desenvolvimento sustentável implica entregar a natureza para ser valorizada, para ser desapropriada, para ficarmos despossuídos mais uma vez daquilo que nos pertence” (CECEÑA, 2008, p. 152).

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dos conflitos – com o Parque Nacional do Superagüi e a pesca industrial, ao pro- cesso de mobilização e conquistas do MOPEAR e finaliza-se com a agenda de ações do Movimento.

Panorama das comunidades da Ilha do Superagüi

Na Ilha do Superagüi vivem atualmente seis comunidades: Vila do Superagüi, Colônia, Barbados, Canudal, Vila Fátima e Barra do Ararapira. Sendo a mais den- samente habitada, a Vila do Superagüi, com 280 famílias. A Vila do Superagüi en- contra-se na parte sudoeste da Ilha do Superagüi. Esta Ilha é costeira e pertence ao município de Guaraqueçaba, litoral norte do Paraná. Está situada na extensa Baía de Paranaguá, fazendo parte da região do Complexo Estuarino Lagunar de Iguape– Cananéia e Paranaguá, que se localiza na fronteira entre os estados do Paraná e São Paulo e é formado por um conjunto de baías, morros, desembocadura de rios e ilhas litorâneas costeiras que auxiliam na proteção desse complexo ecossistema (WHINTER; RODRIGUES; MARICONDI, 1990). Esta baía é constituída por cinco setores denominados de, no eixo leste-oeste, Baía de Antonina e de Paranaguá, e no eixo norte-sul, Baía de Pinheiros, de Laranjeiras e de Guaraqueçaba. Em seus setores mais interiores possui características propriamente estuarinas, com exten- sas áreas de manguezal e forte influência continental das serras e rios, já em suas porções mais externas, encontradas próximas às barras de mar, há maior influência do oceano adjacente. A região é historicamente ocupada por comunidades cuja reprodução social está associada a modos específicos de produção e ocupação de seus territórios. Relacio- nadas à sua descendência – indígena, negra, branca – têm como práticas: a pesca artesanal, o roçado, a caça e o extrativismo, uma combinação de múltiplas ativi- dades que, conjuntamente, ajudam a compor seus modos específicos de ser/viver. E estão nas ilhas há cerca de trezentos anos (NOVA CARTOGRAFIA SOCIAL, 2010). Relatos históricos da ocupação da Ilha de Superagüi datam do século XVI, época na qual era habitada por índios carijós e tupi-guarani e passou por fases distintas de ocupação. Resumidamente, essas fases são: segunda metade do século XIX; início do século XX e década de 1980. Na segunda metade do século XIX, constitui-se um núcleo urbano devido à exportação de produtos agrícolas por vias marítimas e fluviais (BAZZO, 2010). No início do século XX devido à decadência das atividades econômicas houve um êxodo populacional, mas ao mesmo tempo, a consolidação de diversas comunidades (WHINTER; RODRIGUES; MARICONDI, 1990). Em 1970, Superagüi já começou a ser alvo de políticas ambientalistas sendo inscrita, sob o n° 27, no Livro de Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico da Divisão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Paraná. Ainda assim, no começo da década de 1980 houve uma tentativa da Companhia Agropastoril Litorânea do Paraná S.A. (CAPELA) de criar búfalos, mas a pressão das comunidades, apoiadas pelo ITC Instituto de Terras e Cartografia (hoje Instituto de Terras, Cartografia e Geociências - ITCG) não permitiu a continuação das atividades. Bazzo (2010), Duarte (2013) e lideranças do MOPEAR (informação verbal) 30 ,

30 Informação verbal em trabalho de campo realizado por Mercedes Solá Pérez por motivo da dissertação de Mestrado em Geografia (2011).

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compreendem que a luta contra essa Companhia foi um dos elementos que influ- enciou a atuação ambientalista na região, tendo sido uma ação que fortaleceu a implementação do Parque Nacional do Superagüi (PARNA do Superagüi). Isso, aliado à “falta de importância econômica” 31 da região que permitiu a manutenção da natureza e a reprodução da vida dessas comunidades não ligada totalmente ao modelo de produção capitalista, mas a um modo específico de reproduzir a vida. E

é exatamente por essa causa, que a região se torna alvo de políticas de desenvolvi-

mento sustentável, através da criação de diversas unidades de conservação (UC) da natureza, que não levam em consideração os modos de vida das comunidades locais. Dentre as seis UCs existentes em Guaraqueçaba estão a Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba e três Reservas Particulares de Patrimônio Natural (Figueira, Sebuí, Salto Morato) como UCs de Uso Sustentável, e a Estação Ecológica

de Guaraqueçaba e o PARNA de Superagüi como – UCs de Proteção Integral.– A criação e implementação do PARNA do Superagüi foi um dos marcos que deu início

aos conflitos de ordem socioambiental, relacionados às restrições legais referentes

a esta categoria de UC delimitada sobre os territórios tradicionalmente ocupados 32

dos grupos locais. Na área que atualmente constitui o Parque Nacional do Superagüi, há aproxi- madamente 15 comunidades, sendo cinco na Ilha das Peças (Vila das Peças, Laran- jeiras, Guapicum, Tibicanga e Bertioga), seis na Ilha do Superagüi (Vila do Super- agüi, Colônia, Barbados, Canudal, Vila Fátima, Barra do Ararapira) e três, bastante próximas, na área continental (Sebuí, Saco da Rita, Abacateiro), que por vezes, são agrupadas e nomeadas como Costão do Sebuí. Dentre as comunidades, sete estão dentro dos limites do PARNA: seis na Ilha do Superagüi (todas, com exceção da Vila do Superagüi) e uma na área continental (Abacateiro) (FIGURA 1). Porém, todas as outras ainda que recortadas dos limites do PARNA encontram-se impactadas pela sobreposição com essa UC, uma vez que o território de vida dos pescadores não se restringe aos limites da vila, estendendo-se, não só aos espaços das práticas produtivas (pontos de pesca, coleta, roçado), como também aos espaços sociais e culturais. Um território sobre o qual, como alegam Whinter, Rodrigues e Maricon- di, “é impossível delimitar um perímetro exato, contíguo e permanente, (…), uma vez que, por exemplo, a própria dinâmica do ecossistema alterna, sazonalmente, as possibilidades de realização das práticas produtivas” (1990, s/p).

31 A falta de importância econômica remete, segundo Bazzo (2010), a que não havia na Ilha do Superagüi nenhum ciclo

que se inserisse na economia do país, como poderia ser o açúcar, o café, a borracha, etc.

32 Conceito cunhado por Almeida (2005) para referir àqueles territórios que possibilitam a partir de modos específicos

a reprodução da vida das comunidades que têm um histórico identitário neles.

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FOTO MAPA
FOTO MAPA

FIGURA 1 – Comunidades e área do Parque Nacional do Superagüi. Fonte: RÖSLER 2006 apud BAZZO,

2010.

Este panorama apresentado permite perceber que há grande diversidade so- cioambiental, ou seja, da natureza e das práticas produtivas das comunidades dis- tribuídas nessa área. Uma vez que as comunidades têm uma relação estreita com a natureza, dependendo de suas características locais para reprodução de seus mo- dos de ser e viver podem-se notar algumas diferenças nas práticas preponderantes entre as comunidades locais. Um exemplo disso é o tipo de pesca, se dentro da baía ou em mar aberto, ou a importância do extrativismo de mangue, que varia de comu- nidade para comunidade. Isso evidencia que há uma heterogeneidade de práticas e especificidades que devem ser respeitadas na íntegra, mas a luta que articulam é co- mum, uma vez que todas as comunidades se veem impactadas, em maior ou menor grau, pelos mesmos antagonistas.Entre os principais antagonistas, encontram-se os agentes responsáveis por implementar e executar as políticas públicas de desen- volvimento pensadas para região, quais sejam: a instalação de áreas protegidas que responde às políticas ambientais de desenvolvimento sustentável referentes à con- servação e às políticas de modernização da pesca e da aquicultura, que incentivam a pesca industrial, a incorporação de equipamentos modernos e estabelecem áreas aquícolas para criação de ostras, camarões, ou peixe (SOLÁ PÉREZ, 2012).

Processo de organização da comunidade e conflitos

Diante dos permanentes conflitos vividos, os pescadores artesanais de Vila de Superagüi procuraram estratégias de luta para garantir a manutenção dos seus territórios. Nessa procura, em 2008, foram convidados pela Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses (APF) a participar do I Encontro Regional de Povos e Co- munidades Tradicionais 33 . Nesse encontro participam sete grupos étnicos – Xetás,

33 Esse Encontro é produto da criação da Comissão Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (Lei 10 884/06),

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Kaigangs, Guaranis, Quilombolas, Cipozeiras, Ilhéus e Pescadores artesanais, que trocaram experiências e resolveram unir as lutas na articulação da Rede Puxirão dos Povos e Comunidades Tradicionais do Paraná (REDE, 2013). A Rede visa o fortalecimento político e institucional dos movimentos tanto individual quanto co- letivamente, de modo que a luta por direitos se torne mais viável. Estes direitos se referem especialmente ao acesso e manutenção dos seus territórios tradicional- mente ocupados, e portanto, à sua identidade. Os pescadores artesanais da Vila do Superagüi, diante desse fervilhar dos diver- sos segmentos congregados também pelo Projeto da Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais, solicitam o auxílio para o automapeamento de sua comunidade. O processo durou em torno de oito meses, nos quais a comunidade se reunia, discutia diversas questões relativas às formas de organização da própria comuni- dade (infraestrutura, legislação, direitos), práticas sociais (autorreconhecimento coletivo, identidade e os limites impostos para sua reprodução por determinadas políticas públicas), os conflitos no território (conflitos socioambientais) e as pos- síveis formas de resistência (OLIVEIRA et al, 2012). Durante o tempo de trabalho e elaboração do seu mapa, do qual resultou, em 2010, o Fascículo n.º 16 dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil “Pesca- dores Artesanais da Vila do Superagüi”, eles fizeram um resgate da memória co- letiva, trocaram experiências, compartilharam e sistematizaram as dificuldades que passam. Todo esse processo de cartografia social fortaleceu a comunidade especialmente no que diz respeito à construção da sua identidade coletiva e seu autorreconhecimento 34 enquanto comunidade tradicional, enquanto pescadores e pescadoras artesanais. Ainda que para o Estado, a pesca artesanal seja reconhecida estritamente como uma atividade econômica 35 , para as comunidades dessas ilhas, a pesca artesanal é uma arte 36 que permite o ser/viver específico. Os pescadores artesanais têm lógicas territoriais de relação estreita entre a água e a terra. Na água (rio, mar ou man- gue), eles desempenham a atividade da extração do pescado e na terra têm suas moradias, os espaços de beneficiamento do pescado para venda e espaços para ali-

da Política de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (Decreto 6040/07) e da articulação

entre movimentos sociais e o Projeto Nova Cartografia Social (atuando no Paraná desde 2005), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia –PPGSCA- da Universidade Federal do Amazonas – UFAM - com apoio do Instituto Equipe de Educadores Populares –IEEPE- e Centro Missionário de Apoio ao Campesinato (CEMPO) na produção da Autocartografia Social.

34 O autorreconhecimento é promulgado no Brasil através do Decreto Nº 5051/04 que institui a Convenção 169 da

Organização Internacional do Trabalho no país. Esse Decreto, aliado aos Decretos 6040/07 da PNPCT, 6476 do Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e Agricultura e, 2519 sobre a Convenção da Diversidade

Biológica; , trazem à tona os direitos territoriais, étnicos e culturais dos povos e comunidades tradicionais, reconhecendo também a relevância dos saberes tradicionais.

35 Lei n.º 11.959 de 29 de junho de 2009, classifica-se a pesca artesanal a atividade comercial “quando praticada direta-

mente por pescador profissional, de forma autônoma ou em regime de economia familiar, com meios de produção próp- rios ou mediante contrato de parceria, desembarcado, podendo utilizar embarcações de pequeno porte” (Art. 8º §I, a).

36 Em depoimento colhido para o fascículo da cartografia social, Azuir Barboza diz: “Ser um pescador artesanal é viver

da arte, a gente vive da arte manualmente, a gente sai pesca sete hora da manhã, seis hora da manhã, volta às três da tarde e o trabalho é tudo manual, não tem nada de guincho, de equipamento sofisticado como: GPS e a sonda. O barco de pequeno porte trabalha das sete às três, volta pra casa e lá no mar começa as se cria o pescado de volta, das três às seis da manhã do outro dia. Viver da arte é desse tipo: pesca um dia, à noite descansa. Como não temos equipamento sofisticado pra fica à noite lá fora, pra pesca à noite, dia e noite, então o nosso tipo de vida é esse aí” (NOVA CARTOGRAFIA, 2010). Para informações sobre a arte da pesca, consultar Ramalho (2007).

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mentação (CARDOSO, 2009). Quer dizer que a pesca artesanal é um modo de vida que não se restringe à arte da pesca na água, mas inclui outras atividades em terra, constituindoseus territórios de vida. Neste sentido, a discussão identitária adquire papel central no contexto desses grupos que recorrem à identidade coletiva como uma forma de bandeira mobili- zadora, de articular suas lutas. Inserem-se, assim, no âmbito político-jurídico por meio da categoria de Povos e Comunidades Tradicionais e r-existem aos processos expropriatórios que dificultam ou coíbem a reprodução de suas vidas e o acesso aos seus territórios. Por isso, torna-se muito importante insistir nessa discussão do autorreconhecimento – que é pauta de muitos debates atuais - relatando o processo pelo qual os moradores da Vila do Superagüi se autoidentificaram como pescadores artesanais 37 , uma identidade que reflete a sua principal atividade, na qual foram se especializando após as restrições impostas pelas políticas ambientais à boa parte de suas outras práticas. Além do autorreconhecimento, nesse processo de construção do fascículo da cartografia social realizado pela comunidade, evidenciaram-se diversos conflitos, entre os quais se foca na instalação do Parque Nacional do Superagüi e na pesca industrial.

O Parque Nacional do Superagui

O estabelecimento de uma unidade de proteção integral, tanto em sua primeira legislação – Decreto Nº 84.017/79 – quanto na atual – Sistema Nacional de Uni- dades de Conservação (SNUC – Lei Federal Nº 9985/01) – proíbe a presença hu-

mana dentro da área instituída. Isso significa, o impedimento da coexistência entre

o

ser humano e a natureza. Em outras palavras, este tipo de unidade considera que

o

ser humano não faz parte da natureza, antes, constitui um predador em relação à

mesma, devendo um e outro serem separados, e a natureza ser mantida intocada, estabelecendo-se, dessa maneira, “santuários naturais” (DIEGUES, 2000). Especificamente, a superposição do PARNA de Superagüi afetou a vida, dire- ta ou indiretamente, de doze comunidades 38 que tradicionalmente ocupam esses territórios. Essa superposição acontece desde 1989, quando da criação do Parque Nacional do Superagüi (Decreto 97.688/89), mas piorou a situação especialmente depois da ampliação da sua área em 1997 ( Decreto 9513/1997). As consequências são a impossibilidade de: ter áreas de roçado, caçar, coletar produtos na floresta, criar animais, coletar caranguejo e ostras e, inclusive construir ou reformar suas casas (SOLÁ PÉREZ, 2012). Ou seja, todas as práticas tradicionais de reprodução da vida dos pescadores e pescadoras artesanais são proibidas. Isso é devido ao mito da natureza intocada, que limita os usos da natureza, acreditando que só assim será possível a sua preservação. Ainda que as comunidades locais, especificamente

aqui, os pescadores artesanais não possam obter plantas medicinais e madeira para construção de ferramentas de trabalho, instrumentos musicais ou canoas (NOVA

37 Para uma discussão sobre a identidade das comunidades locais de Superagüi, consultar Duarte (2013).

38 As doze comunidades são, na Ilha do Superagüi: Vila de Superagüi, Saco do Morro (Colônia), Barbados, Canudal,

Vila Fátima e Barra do Ararapira. Na Ilha das Peças: Vila das Peças, Laranjeiras, Guapicum, Tibicanga e Bertioga. E no continente, o Costão do Sebuí, que compreende as comunidades de Sebuí, Rita e Abacateiro.

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CARTOGRAFIA SOCIAL, 2010). Claramente, isso repercute na manutenção de seus modos de reproduzir a vida que são cerceados pelas proibições e fiscalizações dos órgãos ambientais. E, se já é comum os pescadores frequentemente transitarem pelas ilhas e pelo interior da baía, inclusive mudando de comunidade, conforme as relações sociais e de parentesco; as pressões fruto da política de desenvolvimento sustentável têm provocado a ida de muitos pescadores artesanais à Ilha de Vala- dares (periferia de Paranaguá) e, em menor grau, à sede do Município de Gua- raqueçaba. Outro aspecto importante, relacionado ao contexto do conservacionismo, é a presença de inúmeras instituições não governamentais (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental - SPVS -, Fundação O Boticário, SOS Mata Atlântica, dentre outras) com interesses de realizar projetos e pesquisas vincula- das à preservação da natureza excluindo as comunidades tradicionais desses ter- ritórios (KASSEBOEHMER, SILVA, 2008). É exatamente o que o pescador da Vila do Superagüi retrata em diálogo de campo 39 quando comenta que vai “colocar uma máscara de mico leão dourado para ver se nos preservam”. Ou seja, essa situação provoca em seus moradores a sensação de que as questões ambientais são muito mais valorizadas do que a sobrevivência das populações locais. Recentemente os guaraqueçabanos organizaram uma campanha de denúncia intitulada de “Gua- raqueçaba: Meio Ambiente Preservado & Autoestima Destruída” 40 na qual alegam que o Município possui os piores indicadores de desenvolvimento humano – IDH – no ranking estadual e municipal. Quer dizer, que a preservação da natureza – como natureza intocada – não garante a sobrevivência das comunidades, além disso, o IDH, não incorpora a dimensão da biodiversidade. A questão do lixo 41 também gera controvérsias e justifica a intromissão dos órgãos gestores ambientais. Segundo um funcionário da Força Verde(informação verbal) 42 , o excesso de lixo acumulado se deve à ignorância das comunidades locais às quais falta capacitação para gerenciá-lo. Isso evidencia a responsabilização atribuída ao grupo por suas ações, postura que prevalece nas correntes ambientalistas he- gemônicas, que tendem a deslocar as responsabilidades para os sujeitos, tirando de cena os reais causadores dos impactos que, no limite, encontra-se associado à produção massiva de plástico, sustentáculo do modo de produção capitalista cuja principal matriz é o uso de petróleo e seus derivados. Esse comentário carregado de preconceito expressa bem os posicionamentos dos executores das políticas am- bientais, que, pensam ter como uma de suas “missões” levar às comunidades locais o desenvolvimento para que deixem de ser atrasadas e, ao mesmo tempo, retira a responsabilidade da Prefeitura de Guaraqueçaba de dar um destino ao lixo da Vila do Superagüi. O excesso de lixo acumulado torna-se, então, mais um elemento, en- tre muitos, para legitimar a ação tutelada dos gestores ambientais.

39 Informação oral em trabalho de campo realizado por Mercedes Solá Pérez por motivo da dissertação de Mestrado em

Geografia (2011).

40 Disponível em: http://vozdoguara.blogspot.com.br/

41 Solá Pérez (2012), em sua dissertação de Mestrado em Geografia, explica que a Prefeitura argumenta haver poucos

barcos para coletar o lixo e, por isso, somente é possível realizar a coleta uma vez por mês, o que implica uma carga em torno de duas a três toneladas. Como essa carga de lixo não é a total produzida na Ilha o IBAMA pretende que os turistas

levem seu lixo de volta às cidades de origem onde há coleta frequente de lixo.

42 Informação verbal em trabalho de campo realizado por Marina Drehmer em 2012.

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Políticas setoriais e a pesca industrial

Diante das proibições já citadas referentes à instalação do Parque Nacional do Superagüi, os pescadores artesanais voltam suas atividades produtivas à especiali- zação na pesca. Isso leva a novos confrontos com os órgãos ambientalistas não so- mente pelas restrições do PARNA, mas devido às restrições na pesca. O principal conflito é relacionado à Instrução Normativa do Ministério do Meio Ambiente – a IN/MMA n.º 29 – que estabeleceu, em 2004, que a pesca de arrasto só seria permitida a partir de uma milha náutica da costa (1.852m). Segun- do a carta de denúncia realizada pelo MOPEAR, dirigida ao promotor da Comarca de Antonina/PR, em 5 de março de 2009, há vários argumentos para revogar essa Instrução: 1) não há estudos que determinem que, de fato, a pesca artesanal gera qualquer dano aos recursos pesqueiros se pescar na primeira milha náutica, e inclu- sive com a prancha, petrecho de baixo impacto utilizado para captura de no mais de 15 kg. de camarões e pescado; 2) a ausência de fiscalização da pesca industrial que causa altos impactos ambientais devido ao uso de petrechos de grande porte e por se localizar ilegalmente dentro das milhas (após 1,5 milha é permitido, sendo que costumam estar a 250 metros da costa) não permitidas para esses tipos de embar- cação; 3) faltam referências evidentes da milha náutica e os pescadores artesanais não têm GPS para saber o posicionamento exato das suas embarcações e; 4) a IN não diferenciar entre a pesca industrial e a artesanal sendo que a última implica um modo de vida e, portanto a reprodução integral da vida dos pescadores. Este fato contradiz o Decreto Nº 5051 – que promulga a no país a Convenção 169 da OIT do autorreconhecimento – e o Decreto Federal 6040 de 2007 que institui a Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e versa sobre a existência de comu- nidades com modos de vida específicos que devem ser respeitados.

Os conflitos que dificultam mais os pescadores artesanais seriam as formas como os órgãos ambientais colocam as leis deles, porque eles colocam as mesmas leis que eles colocam pros pescadores indus- triais eles colocam para o pescador artesanal e deveria ser diferen- ciado. O pescador industrial fica dias, quinzenas, meses no mar, a noite toda virando. Não tem hora pra eles pescarem o peixe. Não tem limite, o mar pode tá manso, como pode tá bravo, eles tão pescando, dia e noite, enquanto eles não lotam o convés deles, as geladeiras de- les, eles não vão embora. Outro conflito é o parque nacional, que se- ria a mata, mas também o próprio mar que, teria que ser fiscalizado por parte dos órgãos ambientais pra pegar quem destrói e não quem pesca como nós. Ser fiscalizado assim, só assim o pescador artesa- nal conseguia sobreviver, seria mais pescado no mar. Ivair José da Silva, Pescador Artesanal da Vila de Superagüi (NOVA CARTOGRAFIA SOCIAL, 2010).

A diferença entre o barco industrial e o artesanal, segundo o relato de um pes- cador da Vila do Superagüi, é que as duas portas 43 dos barcos dos pescadores arte-

43 A rede de arrasto com portas é uma estrutura com forma cônica que mede 8 metros de comprimento e 9 metros de boca, com malhas de 4 cm. na boca, 3 cm. no meio e 2 cm no copo. As portas são peças de madeira de 0,70 m. de com- primento aproximadamente e 0,50 m. de largura. Nelas, amarram-se os cabos da rede e servem para abrir a boca da rede horizontalmente (LOYOLA e SILVA et. al. 1977).

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sanais pesam juntas, em torno de 24 quilos e as da pesca industrial chegam a pesar aproximadamente 150 quilos cada uma. Além disso, comenta que, as redes que os pescadores artesanais utilizam não são pesadas o suficiente para atingir o fundo depois da primeira milha, ao contrário das utilizadas na pesca industrial que são bem pesadas e por isso conseguem varrer o fundo. Por esse fato, os pescadores ar- tesanais acabam querendo pescar dentro da milha. A questão é, portanto, qual tipo de portas e quais redes se utilizam e quais se proíbem: as dos pescadores artesanais ou da pesca industrial (SOLÁ PÉREZ, 2012). Ainda com respeito à concorrência entre a pesca artesanal e a industrial, “Os conflitos internos à pesca resultam da competição pelos recursos entre diferentes grupos de interesse. Em particular, o desenvolvimento da pesca empresarial na plataforma costeira paranaense gerou uma série de conflitos com a pesca de menor escala” (ANDRIGUETTO FILHO, 1999, p. 210). Embora tais grupos não tenham limites precisos, os pescadores paranaenses conflitam com os grandes barcos de outros estados que fazem pesca de arrasto pescando camarão rosa e sete barbas, ou utilizam portas e parelhas, bem mais pesadas que aquelas dos pescadores artesa- nais, que varrem o fundo do mar. Segundo os pescadores do Paraná, os barcos da pesca industrial degradam o meio ambiente acabando com a biodiversidade e não respeitam o limite de três milhas da costa reservados para os pescadores artesanais (ANDRIGUETTO, 1999). Somente apontando os principais conflitos dos pescadores e pescadoras artesan- ais identifica-se a negação da vida 44 deles por parte do Estado com base na aplicação de políticas públicas de conservação da natureza e modernização da pesca. Tanto a sua identidade como os seus territórios estão sendo espremidos, reduzidos para inseri-los marginalmente ao modo de produção e consumo capitalista. As práticas produtivas, a transmissão de saberes e os acordos comunitários são desqualificados como formas possíveis de reproduzir a vida.

As conquistas do MOPEAR

Como dito anteriormente, no contexto do processo da cartografia social, os pes- cadores e pescadoras artesanais fundaram o Movimento dos Pescadores e Pesca- doras Artesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR). Desde então, o MOPEAR con- seguiu importantes conquistas locais como: deter o processo de instalação de recifes artificiais, autonomia da escola de Superagüi, aulas de reforço para os estudantes e construção e melhoramento dos trapiches em comunidades do interior das ilhas. Especificamente, a respeito da atividade de pesca, em 2010, o MOPEAR con- seguiu o cancelamento da instalação de recifes artificiais e antiarrasto nas proximi- dades de Superagüi após a decisão do Ministério Público Federal que intercedeu em favor dos pescadores artesanais que eram contrários à colocação. O Movimento declarou que os pescadores artesanais não tinham sido devidamente consultados, que a instalação de blocos de concreto não garantiria a proliferação de diversidade marinha e, ainda, que se fosse estritamente necessária, a colocação a fizessem em áreas de pesca industrial em lugar de colocá-los nos territórios dos pescadores ar-

44 Este termo de “negação da vida” faz referência àquilo que Boaventura de Souza Santos (2006) chama de sociologia das ausências. Invisibiliza-se aquilo que não interessa, aquilo que não é hegemônico, que “o que não existe é produzido ativamente como não existente” (SANTOS, 2006, p. 23).

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tesanais. Sobre a Instrução Normativa Nº 29/04, que proíbe a pesca na primeira milha, o MOPEAR enviou ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP) uma contraproposta, que ainda aguarda resposta, na qual se solicita a sua modificação. Essencialmente trata de três pontos: não incluir aos pescadores artesanais na proibição; dar ênfase na especificidade das artes do pescador artesanal e, em função delas; permitir a pesca em distâncias determinadas segundo as artes de pesca. O MOPEAR também fez uma proposição de lei municipal junto à Câmara de Vereadores de Guaraqueçaba em 2011, que ainda tramita, sobre o patrimônio ima- terial que representam os pescadores e pescadoras artesanais. Essa lei reconhece- ria no âmbito municipal aos pescadores artesanais como comunidade tradicional e lhes permitiria o reconhecimento de suas práticas culturais. A organização social, junto às oficinas sobre direitos na comunidade realizadas pela cartografia social, gerou diminuição da repressão de órgãos ambientais que, por vezes, abusava do poder chegando a prender os petrechos e os próprios pesca- dores artesanais por pescarem antes da milha náutica ou por estarem com alguma caça. Ainda por conta da organização, através do MOPEAR, os pescadores unem suas lutas com a Rede Puxirão dos Povos e Comunidades Tradicionais 45 ; estreitam o diálogo com o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal e; cri- am parcerias com diversos grupos, por exemplo, o Núcleo de Prática Jurídica, a Terra de Direitos, o Coletivo de Estudos sobre Conflitos pelo Território e pela Terra (ENCONTTRA) 46 , entre outros. As ações do MOPEAR – como visto – trouxeram diversas conquistas no âmbito da vida dos pescadores artesanais da Vila do Superagüi e em 2010, a partir da reali- zação do I Encontro de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Sul do Brasil na sede do Município de Guaraqueçaba, conseguiram organizar a Articulação Sul do Brasil de Pescadores e Pescadoras Artesanais (REDE, 2010). Foi também a partir deste encontro que as outras comunidades da Ilha vêm se interessando pela inserção na organização social do MOPEAR e, por isso, há dois anos que se realiza o processo de mapeamento social – a cargo da Nova Cartografia Social – de todas as comunidades atingidas pela instalação do Parque Nacional do Superagüi 47 . Até o momento foram realizadas entrevistas, registro fotográfico e coleta de pontos de GPS nas comunidades Tibicanga, Barbados, Sebuí e Abacateiro e várias lideranças têm intensificado as relações com o MOPEAR. O mapeamento tem sido um grande desafio para o Movimento, já que além de persistir na lida cotidiana da

45 Em setembro de 2010 a Rede Puxirão dos Povos e Comunidades Tradicionais organizou o I Acampamento dos Povos

e Comunidades Tradicionais do Paraná. O intuito era aprovar uma proposta de lei estadual de reconhecimento da cat- egoria Povos e Comunidades Tradicionais. Em 18 de dezembro de 2012, através da publicação da Lei 17.425 foi criado o Conselho Estadual de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais do Estado do Paraná.

46 Entre os dias 19 e 21 de maio, foi realizado o curso de extensão “Cartografia social: uma ferramenta para o for-

talecimento identitário e a mobilização social” junto à Rede Puxirão dos Povos e Comunidades Tradicionais e pes-

quisadores da UFPR, IFPR, UNICENTRO, UDESC e UFSC. Os jovens pescadores artesanais ligados ao MOPEAR

participaram desse curso. Mas informações, consultar o site da Rede Puxirão < http://redepuxirao.blogspot.com.br/ search?q=curso+de+cartografia >.

47 Se o mote inicial é o conflito da superposição entre os territórios de vida e o PARNA do Superagüi, ao longo do pro-

cesso visibilizaram-se outros conflitos que as comunidades vivem, mas também o fortalecimento do movimento de luta

pela manutenção dos modos de vida – que claramente implicam em seu autorreconhecimento e autodemarcação territo- rial – dos pescadores e pescadoras artesanais das Ilhas das Peças e do Superagüi.

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pesca, os pescadores artesanais buscam driblar as dificuldades e continuar organi- zados para manter seus territórios de vida. Todos esses mecanismos que o MOPEAR vai criando, junto à Rede Puxirão e às outras parceiras, permitem demonstrar que os pescadores e pescadoras artesa- nais da Vila do Superagüi se reinventam a cada dia. Fortalecem a sua organização através do autorreconhecimento com o objetivo de manter os seus territórios e, com eles os seus modos de vida. Não somente resistem, mas se resignificam, r-existem (PORTO-GONÇALVES, 2006).

Agenda das ações do MOPEAR 48

As estratégias para finalizar o mapeamento social levam em conta o atual mo- mento do PARNA do Superagüi que, diante da elaboração do Plano de Manejo, mostra-se uma boa oportunidade para a reivindicação de regulamentação das práticas dos pescadores que se viram afetadas ou impossibilitadas por conta das proibições impostas pela unidade de proteção integral. Nos próximos passos o MOPEAR propõe aproximar às lideranças das outras comunidades e promover re- uniões acompanhadas de formação com todos os moradores. Outro debate pautado pelo Movimento diz respeito à Reserva Extrativista – RE- SEX – Marinha requisitada ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodi- versidade (ICMBio) vinculado ao Ministério de Meio Ambiente (MMA). Buscando pressionar o órgão para agilizar os processos de realização dos estudos, o Movimen- to conta com o apoio de pesquisadores e se articula junto a deputados estaduais e federais favoráveis à causa. Uma das intenções é esclarecer melhor do que se trata a RESEX, sua importância e como deve ser pensada para assegurar a atividade pesqueira. A área da RESEX devido à área que se procura demarcar beneficiará, principalmente, quatro comunidades locais: Vila do Superagüi, Vila das Peças, Ber- tioga e Barbados, as quais realizam pesca em mar aberto. Também tem ocorrido uma aproximação de lideranças de outras comunidades dispersas pela Baía de Paranaguá ao MOPEAR, como os moradores das comuni- dades de Ilha Rasa e da Ilha de Valadares (zona urbana de Paranaguá) que vêm par- ticipando de espaços de articulação internos e externos ao grupo. Esses membros agregam outros debates, como, por exemplo, a necessidade de confrontar os dados apresentados pelo Porto de Paranaguá sobre a pesca no interior da baía. Essa tem sido uma aproximação importante diante da necessidade apresentada pelas lider- anças do MOPEAR de descentralizar o movimento procurando dar voz a outras lideranças, tanto no contexto do Superagüi, como no de outras localidades. A pesca no interior da baía, segundo relato dos membros do MOPEAR encontra- se bastante escassa, acarretando em dificuldades para as comunidades locais que necessitam dessa atividade para assegurar seu sustento. Essa é uma das questões levantadas pelos moradores das comunidades que pescam predominantemente no

48 Esse quadro correspondia ao momento em que o artigo foi escrito, em meados de 2013. De lá para cá, diante de novas circunstâncias, outras estratégias foram traçadas, e os ventos apontaram para direções distintas (e bastante profícuas) que aqui não cabem ser exploradas, sendo tema de futuras exposições. Porém, não deixa de contribuir para retratar um certo momento específico do movimento. O importante desta ressalva é que ajuda atentar para o dinamismo da luta social, além de refletir partes dos percalços que encontramos para realizar a publicação deste livro.

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interior da baía. Segundo relato obtido em entrevista com pescadores da comuni-

dade de Tibicanga, localizada na Ilha das Peças, essa escassez tem muito a ver com

o acidente de derramamento de óleo ocorrido no Porto de Paranaguá em 2004 49 .

A Petrobrás já foi sentenciada a pagar uma multa de alto valor, porém as comuni-

dades pesqueiras impactadas ainda não conseguiram obter essa indenização.

O MOPEAR também vem dialogando com pescadores artesanais de outros mu-

nicípios numa tentativa de ampliar, fortalecer e visibilizar a luta dos pescadores artesanais no Estado do Paraná. No fim de junho, foi sancionada a criação de um Parque Nacional Marinho (PARNA Marinho dos Currais) no município de Pontal do Paraná. Os pescadores artesanais desse município mostram-se apreensivos com

a criação dessa UC devido ao seu grau de restrição, e têm procurado os membros do MOPEAR para articularem uma luta conjunta.

A Campanha Nacional pela Regularização do Território das Comunidades Tradi-

cionais Pesqueiras 50 , fomentada pelo Movimento Nacional dos Pescadores Artesa- nais, também é um ponto de convergência entre os pescadores artesanais do MO- PEAR, que têm colocado a campanha como pauta em todo o estado. Esta campanha propõe uma lei federal de iniciativa popular que, através de abaixo-assinado, busca garantir o acesso e manutenção dos territórios de vida das comunidades tradicion- ais de pescadores e pescadoras artesanais em todo o país.

Considerações finais

Os pescadores e pescadoras artesanais da Vila do Superagüi ao se organizarem como movimento social no Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Paraná – MOPEAR – e ao se inserirem na categoria política de povos e comuni- dades tradicionais; têm se deparado com algumas barreiras diante dos conflitos que se apresentam nos seus territórios. A política de desenvolvimento sustentável mediante a instalação do Parque Nacional do Superagüi e a política de moderni- zação da pesca com suas instruções normativas e o incentivo à pesca industrial vêm ameaçando os modos de ser/viver das comunidades que tradicionalmente ocupam os territórios do Superagüi. Em nome do desenvolvimento sustentável, parafrase- ando Porto-Gonçalves (2006), se tira o envolvimento das comunidades e se despro- tege a natureza ao não permitir o manejo tradicional. Se a política dos povos e comunidades tradicionais realmente começar a validar, será imprescindível repensar as unidades de conservação integral, especialmente nos territórios de vida de diversos povos que são os que efetivamente mantêm em pé a natureza. Se o verdadeiro interesse fosse manter a natureza e não mercantilizá- la a legislação seria outra, inclusive seria possível recategorizar o PARNA a uma RESEX. Os diferentes interesses que conflitam entre a manutenção da natureza e o uso de recursos naturais implicam na reprodução da vida ou na reprodução do capi- tal. A diferença fundamental entre a primeira lógica e a outra segunda é que na última não há possibilidade de coexistência com outras racionalidades. O modo

49 Mais informações, consultar o Relatório de acompanhamento do acidente do navio Vicuña, porto de Paranaguá. Dis-

ponível em: <http://www.neivoberaldin.com.br/downloads/naviovicuna-relatorio.pdf>.

50 Para mais informações, consultar o site da Campanha: <http://peloterritoriopesqueiro.blogspot.com.br/>

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de produção e consum(ism)o capitalista é perverso e avassalador. Nega qualquer outro modo de vida que não participe do círculo vicioso da acumulação de capital. A lógica de sustentação é justamente privar, des-envolver, negar, mercantilizar todas as esferas da vida. Uma possível saída diante do panorama de conflitos posto parece ser r-existin- do, se organizando socialmente e se envolvendo em modos de vida, de ser/fazer que não busquem a cobiça, a privação, o individualismo, um como único caminho a ser seguido. Provavelmente não haja “a” resposta, mas um leque de possibilidades que se abrem quando se propõem novas experiências, caminhos a serem percorridos.

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66

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Da sustentabilidade manifesta à dominação latente: cartografifififififififififififififififififififififfiias
Da sustentabilidade manifesta à dominação latente: cartografifififififififififififififififififififififfiias
participativas e conflffllitos territoriais

Resumo

Letícia Ayumi Duarte 51 Marcelo Cunha Varella 52

O presente estudo visa fazer uma análise sobre os processos metodológicos empregados nos estudos cartográficos realizados na comunidade de Barbados, encomendados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) como subsídio ao Plano de Manejo do Parque Nacional de Superagui (Guaraqueçaba-PR). Para tanto, são utilizados, como instrumentos metodológicos deste artigo, princípios da etnografia e da entrevista semiestruturada, além de re- visão bibliográfica. O artigo vale-se, ainda, das seguintes categorias teóricas: terri- tório, territorialidade específica e discurso. Concluímos que o processo cartográfico não teve como fim permitir a resolução do conflito territorial existente na região, visto que a pretensão do órgão foi tão-somente utilizar as produções cartográfi- cas participativas meramente como instrumentos administrativos para a gestão do Parque, sem preocupar-se, de fato, com a compreensão e regularização da territo- rialidade específica dos grupos afetados pelo protecionismo ambiental da referida Unidade de Conservação (UC).

Notas para uma leitura sobre a realidade da comunidade de Barba- dos (PR).

O objetivo central deste artigo é discutir as latentes nuances políticas que per-

51 Doutoranda em Geografia na Universidade Federal do Paraná – lecayumi@hotmail.com

52 Professor substituto de Geoprocessamento na Universidade Federal do Paraná (Setor Litoral) e doutorando em Geo-

grafia na mesma instituição – mvarella@hotmail.com

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mearam os estudos cartográficos realizados na comunidade de Barbados como fun- damento ao Plano de Manejo do Parque Nacional do Superagui (PNS), em Gua- raqueçaba, no Estado do Paraná, a partir da análise de dados colhidos durante o estudo que embasou a dissertação de mestrado de um dos autores e cujo conteú- do possuía um caráter territorial, baseado no método etnográfico e em entrevis- ta semiestruturada com um dos gestores do Parque. Sem querer desviar o foco do tema central deste estudo, julgamos necessário fazer um breve esclarecimento quanto a alguns princípios que norteiam a discussão aqui proposta. Salientamos que não é nossa intenção posicionarmo-nos contra as discussões científicas que se prontificam a estudar as características e/ou a diminuição dos impactos ambientais causados pela ação antrópica em Áreas Naturais Protegi- das - não se nega, aqui, a importância e credibilidade destes estudos. Contudo, levando-se em consideração que a ciência é vista nas sociedades hodiernas como o principal instrumento “revelador da verdade”, e considerando-se, também, que sua produção não possui um caráter de neutralidade (MINAYO, 2001), devemos alertar quanto a algumas consequências desta tecnocracia aplicada à resolução de conflitos territoriais entre comunidades autoidentificadas como tradicionais e Unidades de Conservação. As leis ambientais acabam vigorando impositivamente acima das leis sociais locais, recriando culturas e territorialidades específicas. Tal imposição justifica- se, nesse caso, a partir do conceito da “sustentabilidade”, apreciado como um dos objetivos do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC - Lei Federal 9985/2000). Para a citada lei, é sustentável aquele uso que é socialmente justo, eco- nomicamente viável e que garante a perenidade dos recursos naturais renováveis e dos processos ecológicos (art. 2º, inciso XI) - assim, sempre que possível, os ge- stores das UCs devem assegurar a “sustentabilidade econômica” das Unidades (art. 5º, inciso VI) a partir dos recursos naturais (art. 4º, inciso IV) - e não das comuni- dades que tem seus territórios tradicionalmente ocupados por UCs. Tal “sustentabilidade” e “Desenvolvimento Sustentável” apresentados na lei são pautados no tripé “economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto” - e este, por sua vez, traz consigo latentes verdades do modelo de desen- volvimento dominante, que se embasa, entre outras coisas, no modelo capitalista/ industrialista/ consumista (BOFF, 2012, p. 44): “economicamente viável” significa “lucrar” e, assim, manter a ordem vigente. Vale lembrar, aqui, as palavras de Almeida (2008a, p. 17) sobre a utilização de conceitos científicos: estes não podem ser frigorificados, ou seja, não podem ter uma definição pré-determinada, como se fossem consensuais, neutros e lidos em eterna sinonímia pelos pesquisadores. Os conceitos científicos não têm uma definição, mas, do contrário, assumem significados específicos para cada cientista que reivindica para si a verdade sobre um determinado assunto - destarte, os con- ceitos são sempre passíveis à contestação. Neste sentido, antes de tratar sobre a sustentabilidade ou não de um grupo so- cial que está em conflito territorial com uma UC, deve-se ter em mente quais são as pretensões dos pesquisadores que arvoram discursivamente a “verdade científica” sobre o que é ser “sustentável” - e de como, a partir disso, assumem para si o direito

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e o poder de ditar como usar o território de acordo com suas convicções. Como já afirmou Varella (2013, p. 190), o conceito da sustentabilidade pode “pro- var” que empresas como a gigante suíça Eternit agem em prol do Desenvolvimento Sustentável: algo extremamente contestável, uma vez que a empresa é proibida de atuar em determinados países da Europa, dado o comprovado impacto ambiental que ela gera. Por outro lado, o mesmo conceito pode aferir um caráter de “insus- tentáveis” às diversas comunidades que se autoidentificam por identidades cole- tivas que estão em conflito com Áreas Naturais Protegidas. Ainda que não se diga isto de maneira explícita, muitas das proibições (diretas e indiretas) que sofrem as comunidades que vivenciam este tipo de conflito provêm da aplicação (justifi- cativa) genérica do discurso hegemônico sobre o que é sustentável (ignorando as possibilidades dos grupos sociais contribuírem – o que muitas vezes já ocorre – na conservação ambiental). Em Barbados, comunidade autoidentificada como tradicional de Guaraqueçaba, uma nova lógica de uso e apropriação territorial vem sendo imposta por agentes externos a partir da aplicação do discurso hegemônico da sustentabilidade - o que, por sua vez, vem desencadeando um complexo conflito territorial. Uma das princi- pais causas deste conflito vem a ser o próprio Parque Nacional de Superagui, que se manteve 24 anos sem um Plano de Manejo. Segundo Duarte (2013), mesmo com a ausência deste documento, moradores de Barbados relataram que diversas práti- cas tradicionais foram afetadas ou proibidas (formal ou informalmente) desde o advento da Unidade de Conservação.

Conceitos norteadores

Apresentamos os seguintes conceitos teóricos como norteadores para nossa linha de pensamento: território, territorialidade específica e discurso. Para Santos (1997), o “espaço” é apenas uma categoria abstrata, sem delimi- tações físicas determinadas. O “espaço” apresenta-se genericamente como o palco onde acontecem as manifestações naturais, sociais e geográficas, de maneira con- junta e indissociável (SANTOS, 1997, p. 27). Para o autor, nenhuma sociedade pode existir independente da natureza/espaço (SANTOS, 1982), ou seja, “o conteúdo (a sociedade) não é independente da forma (os objetos geográficos)” (SANTOS, 1997, p. 27). Neste sentido, tudo que é incorporado pela sociedade acaba também sendo materializado no espaço geográfico. O território, por sua vez, diz respeito à materialização espacial do poder: cor- responde às frações do espaço que estão sobre o controle de um grupo social, que determina as normas e o funcionamento interno de uso e ocupação do solo. A categoria teórica “território”, enfim, diz respeito ao espaço vivido e apropriado (usado e ocupado) pelos seres humanos. Souza (2005, p. 99), contudo, adverte:

Não é só o espaço em seu sentido material que condiciona as relações sociais! Também as relações de poder projetadas no es- paço (espaço enquanto território) e os valores simbólicos e culturais inscritos no espaço (espaço vivido e sentido, dotado de significado

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pelos que nele vivem), tudo isso serve de referencia paras as relações sociais: barreiras ou fronteiras físicas ou imaginárias (SOUZA, 2005, p. 99).

Os lugares, enfim, estão conectados dentro do espaço social - e, assim, não se pode esquecer que a relação homem-território não obedece tão-somente à lógica local, visto que recebe influencias diretas de decisões externas. O poder, deve-se lembrar, é e não é local: é local porque nunca é global; mas não é local, porque nunca é localizável (DELEUZE, 1988:36). A segunda categoria teórica essencial a este estudo é a territorialidade específica, cujo significado é dado por Almeida:

[tratam-se das] delimitações físicas de determinadas uni- dades sociais que compõem os meandros de territórios etnica-

mente configurados. As “territorialidades específicas” [

ser consideradas, portanto, como resultantes de diferentes proces-

sos sociais de territorialização e como delimitando dinamicamente terras de pertencimento coletivo que convergem para um território (ALMEIDA, 2008b, p. 29, grifo nosso).

podem

]

À medida que os grupos sociais se apropriam e modificam determinados fragmentos do quadro natural, o espaço, pela dialética e por não ser um palco inerte, também determina a dinâmica das sociedades - ou seja: conforme as sociedades produzem suas territorialidades específicas em um lugar, o território produz, con- comitantemente, culturas específicas. Atualmente, como afirma Almeida (2008a, p. 82), o governo brasileiro vem tentando buscar figuras de direito que sejam mais adequadas a tais realidades sociais e identitárias. Destarte, populações tradicionais que eram ignoradas nos mapeamentos dos órgãos públicos, como se suas territori- alidades específicas fossem meros espaços naturais, passam a lutar por direitos no interior do Estado: este processo pode ser denominado “politização da natureza”. O terceiro conceito importante utilizado para este estudo diz respeito à catego- ria teórica do “discurso”, defendida por Foucault (2011, p. 53) como sendo “uma violência que fazemos às coisas, como uma prática que lhes impomos em todo o caso”. Em outras palavras, o discurso não é somente a tradução em palavras das lu- tas e/ou dos sistemas de dominação - ainda mais, representa o próprio motivo pelo que se luta: “o poder do qual nós queremos nos apoderar” (FOUCAULT, 2011, p. 10). Por isso, para o autor, o discurso, em toda a sociedade, é produzido, controla- do, selecionado, organizado e redistribuído segundo um determinado número de procedimentos que têm por fim “conjurar seus poderes e perigos, dominar seu ac- ontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade” (FOUCAULT, 2011, p. 09). Ao organizarem a realidade, os discursos impõem uma ordem subja- cente, que, dentre outras coisas, separa a sociedade a partir de determinados con- ceitos – aqui, o discurso que se lerá será o da sustentabilidade, reificado nos ter- mos das leis ambientais (como o SNUC). Mais que encontrar um significado oculto, quer-se compreender as consequências diretas da aplicação deste discurso sobre a realidade. Por fim, como última categoria teórica, trazemos a ideia do “discurso hegemôni- co de sustentabilidade”: queremos dizer, com isto, que o discurso sobre a temática

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ambiental no Brasil é tratado a partir das premissas do “Desenvolvimento Susten- tável” que, por sua vez, enuncia de maneira sempre questionável a possibilidade da congregação entre a manutenção do capitalismo (dado no crescimento econômico, ou seja, o lucro implícito na máxima “economicamente viável”) e a justiça socio- ambiental 53 – concordamos com Acselrad (2001), que afirma não haver uma úni- ca matriz discursiva possível sobre o “Desenvolvimento Sustentável”. Contudo, acreditamos que suas lacunas têm sido preenchidas, em muitos casos, não para se buscar uma solução aos problemas postos pelo Desenvolvimento Econômico, mas, sim, para conciliar este a um novo discurso que o justifica. Tal discurso funciona, nestes casos, como instrumento de controle dos corpos, almas e territórios, justifi- cados pela “sustentabilidade” de uma região: dominar o discurso, enfim, reflete em dominar as práticas em uma determinada região do território.

Aspectos metodológicos

A ciência, assim como proposto inicialmente sobre os conceitos científicos, não

é consensual ou neutra. Sua construção é produzida socialmente e, assim, submete-

se a um teor ideológico na qual ela é tanto produto como produtora. A ciência per- mite o estudo de uma determinada realidade a partir de um dado método de análise

e se realiza em um momento histórico específico. Para garantir a confiabilidade nos dados produzidos cientificamente é imprescindível explicitar com clareza os per-

cursos de cada pesquisa e indicar opções metodológicas uma vez que essas escolhas

e estratégias influenciam diretamente nos resultados alcançados. De acordo com a necessidade de compreensão acerca o objeto de estudo, optamos pela abordagem qualitativa que propicia, segundo Goldenberg (1999) e Haguette (2005), uma aproximação em relação a dinâmica, origem e justificativa dos fenô- menos sociais. Estruturamos o estudo, primeiramente, em um levantamento teórico temático embasado em pesquisas bibliográficas e documentais e, posteriormente, um levantamento empírico inspirado no método etnográfico. A vivência da cultura

estudada buscando captar a significação que os indivíduos dão aos seus compor- tamentos para além de uma leitura dos aspectos exteriores de um grupo social é o que Laplantine (1993) define como a etnografia. Geertz (1989) complementa sobre

a perspectiva etnográfica caracterizando-a como uma descrição densa de estruturas conceituais complexas e que supõe a diferença

que surge nas ciências experimentais ou observacionais entre

“descrição” e “explicação” [que] aqui aparece como sendo, de forma

ainda mais relativa, entre “inscrição” (“descrição densa”) e “especifi- cação” (“diagnose”) – entre anotar o significado que as ações sociais particulares têm para os atores cujas ações elas são e afirmar, tão explicitamente quanto nos for possível, o que o conhecimento assim atingido demonstra sobre a sociedade na qual é encontrado e, além

Em etnografia o dever da

disso, sobre a vida social como tal. [

teoria é fornecer um vocabulário no qual possa ser expresso o que o

53 Não se quer, com isto, afirmar que exista um discurso homogêneo no globo sobre a sustentabilidade, mas, do con- trário, que a existência de um discurso hegemônico faz-se a partir de regras variáveis e facultativas, de maneira que se pode definir regularidades, e não homogeneidades (DELEUZE, 1988, p. 17).

73

] [

]

ato simbólico tem a dizer sobre ele mesmo – isto é, sobre o papel da cultura na vida humana (GEERTZ, 1989, p. 37).

A presente pesquisa conta com dados coletados desde o ano de 2009, e teve

como instrumentos de pesquisa a observação participante, diários de campo, en- trevistas semiestruturadas e mapeamentos temáticos. Entendendo que para captar o sentido dos acontecimentos e dos discursos sociais dos moradores locais era necessário “estar lá”, no cotidiano da comunidade estudada, como ressalta Geertz (1989). A permanência em Barbados ocorreu em cinco visitas curtas (ficando na co- munidade entre quatro e nove dias) e uma visita prolongada (de aproximadamente

três meses) ao longo dos anos de 2011 e 2012 (período de elaboração da dissertação de um dos autores deste artigo). As visitas anteriores, desde o ano de 2009, tiveram duração entre dois e quinze dias; no ano de 2013 realizaram-se duas visitas de qua- tro dias para a atualização dos dados. Em 2014 foram realizadas visitas mensais (com duração de dois dias).

O universo de pesquisa refere-se às comunidades tradicionais que têm suas

territorialidades específicas atingidas pelo “discurso hegemônico da sustentabili- dade”, no Estado do Paraná, região Sul do Brasil, e o recorte do objeto consiste na comunidade de Barbados, localizada no interior do Parque Nacional do Superagui, situada na baía de Pinheiros. Barbados possui, em média, 69 moradores, divididos em 19 famílias. Foram re- alizadas entrevistas com a gestora do Parque, com representantes de 12 famílias de Barbados, além de conversas informais com os moradores de vilas vizinhas (em especial com aqueles mobilizados em torno do enfrentamento ao PNS). Dentre os momentos da pesquisa em campo, destacamos a observação que fizemos da primei- ra reunião dos moradores para fazer o mapeamento coletivo solicitado pelo ICMBio para fundamentar o Plano de Manejo e a reunião promovida pelos moradores, de- nominada de “Encontro sobre a Violação de Direitos Humanos Provocados pelos Parques Nacionais em Territórios de Comunidades Caiçaras e Pescadores e Pes- cadoras Artesanais no Paraná” – esta última será mais frisada no decorrer deste artigo.

Discursos sobre o território: notas sobre os estudos preliminares do Plano de Manejo do PNS

Diversos autores já abordaram a temática que envolve as UCs em Guaraqueça- ba e sua relação com as comunidades locais, como Vivekananda (2001), Lourei- ro (2002), Teixeira (2003, 2004) Kasseboehmer (2007), Uejima (2009), Bazzo (2010), Kashiwagi (2011), Glass (2012), Duarte (2013). Esta última autora relatou o processo sócio-histórico da proteção ambiental no município e suas consequên- cias na reprodução social de grupos locais. A autora identificou que parte das trans- formações culturais das comunidades locais são apontadas pelos moradores como consequências das interpretações e aplicações da legislação ambiental - ou seja: por controle externo de sua cultura e de sua territorialidade específica. A título de exemplificação do que foi citado no parágrafo anterior, podemos sali- entar a proibição da técnica de pesca tradicional denominada de “cerco” no Estado

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do Paraná: ora, como lembra Adams (2000), o próprio termo que dá origem ao nome “caiçara” (como se autoidentificam parte dos moradores de Barbados) advém do tupi guarani “Caá-içara”, que diz respeito à prática do cerco. Ou seja, umas das principais práticas fundantes da cultura em questão é proibida e criminalizada por uma imposição exterior às lógicas locais, pautada no discurso hegemônico da sus- tentabilidade. Outra questão polêmica refere-se ao cultivo de roças de subsistência. De acordo com o SNUC o objetivo básico de um Parque Nacional é o de preservar os “ecos- sistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica”, permitindo-se apenas o desenvolvimento de pesquisas científicas, de atividades de educação am- biental, de recreação e de turismo ecológico (Art. 11 da Lei 9.985 de 2000). Seg- undo essa mesma lei (parágrafo 1º do Art. 11), por ser de posse e domínio públicos, deve ocorrer a desapropriação de áreas particulares inclusas em seus limites. O estabelecimento do Parque, por si só, impede o uso direto dos recursos, como o cultivo de roças ou produção artesanal de determinados objetos (como canoas e re- mos), prevendo, portanto, não só a interrupção de determinadas atividades, como, também, a retirada das populações que poderiam desenvolvê-las. Diversas outras práticas culturais foram afetadas direta e indiretamente pelo estabelecimento da UC, como é o caso do fandango, dos mutirões e do extrativismo. É importante lembrar que as práticas citadas não estão “desaparecendo esponta- neamente” (Duarte, 2013), tampouco foram extintas: a modificação destas práticas são consequências do processo sócio-histórico atual, consequência de outras causas e eventualidades. Duarte (2013) aponta que o conflito territorial local tem gerado uma articulação entre os moradores das comunidades do interior e entorno da UC, que passam a adotar estratégias de enfrentamento à questão, através de práticas como o boicote coletivo ao estudo do Plano de Manejo e do Conselho Gestor da UC. Além disso, passaram a desenvolver algumas de suas práticas (hoje criminalizadas) de forma escondida. Foi em meio a este turbulento processo de conflito territorial que o processo de cartografia que aqui será relatado ocorreu, ainda no ano de 2012. Em meados deste ano, sem grandes explicações, a comunidade de Barbados recebeu pessoalmente de funcionários do ICMBio um mapa da região que, segundo os próprios moradores, deveria ser preenchido coletivamente pela comunidade, de maneira a mapear todos os usos territoriais que os moradores faziam, a fim de regularizar tais atividades no Plano de Manejo da UC. Durante o primeiro encontro para o mapeamento da comunidade, o qual par- ticipamos como observadores, os moradores apresentaram dificuldades em inter- pretar e preencher a carta do ICMBio - e isto se deu por diversos fatores como, por exemplo, pela ausência de uma orientação sobre o que e como fazê-lo, como interpretá-lo (localizar objetos espaciais) e preenchê-lo. Outro aspecto que intrigou os moradores foi a ausência de algumas vilas no mapa: para alguns moradores isto poderia ser estratégico, a fim de se criar a im- pressão de um “vazio demográfico” - fenômeno este já identificado em outros lu- gares por Almeida (2008a, p. 33). Vale frisar que um mapa é sempre um recorte e um discurso sobre o mundo e, por isso, visa apresentar uma realidade a partir de

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um documento técnico e científico – trata-se, portanto, de um discurso oficial que visa retratar a própria realidade do local. Dados os empecilhos encontrados, a comunidade decidiu e produziu, coletiva

e independentemente do órgão e dos pesquisadores, uma maquete de Barbados. Julgaram que, assim, seria mais fácil apontar seus usos territoriais naquele instru- mento que em um mapa: assim, poderiam animar (ou seja, explicitar os objetos mapeados) de maneira dinâmica, à medida que a explicassem verbalmente aos gestores do Parque. Apesar deste processo, a equipe gestora dos estudos preliminares da UC optou por outras estratégias “complementares” de mapeamento - a própria gestora nos explicou em entrevista que depois deste mapeamento do uso e ocupação do solo, houve um segundo mapeamento (realizado por uma bióloga) baseado no que a gestora denominou de “mapa falado”. Segundo ela, foram produzidos dois mapas:

“[um mapeamento era para] falar sobre as coisas que eles têm orgulho e localizá-

las, como a paisagem, rio, manguezal. O outro era dos problemas [

Vivekananda em entrevista concedida em 2012). De toda a forma, quando os estudos preliminares que foram encomendados pelo ICMBio para servirem de subsídio ao Plano de Manejo do Parque foram entregues aos moradores e ao público em geral, pelo menos três fatos chamaram nossa atenção: 1) os estudos não apresentavam os mapas – nem os produzidos pelos mo- radores (que, ainda que não possuíssem detalhes técnicos, como escala ou uso de equipamentos de localização por satélite, apresentavam ricos detalhes sobre o uso e ocupação do solo de parte do PNS), nem os produzidos pelos técnicos contratados:

isto, claro, impede uma real análise crítica do documento, uma vez que os mapas do Plano de Manejo ditarão o uso territorial da UC; 2) os discursos dos moradores não foram relatados: não se encontra, nos estudos preliminares, que tanto arvoram o título de “participativo”, nenhuma menção ao processo de automapeamento pro- duzido pela comunidade de Barbados: não se trata apenas de ignorar o produto (a maquete), mas, também, de tornar invisível o próprio processo de politização da natureza que ali acontece – ou seja, ignora-se o processo de mobilização política e identitária dos moradores Barbados, que, atualmente, apresenta uma organização social em torno da defesa de suas práticas territoriais tradicionais: é por isso que em dezembro de 2013 aconteceu uma reunião organizada pelos moradores atingi- dos pelo PNS, envolvendo mais de 200 moradores 54 . A intenção do encontro era, resumidamente, tratar sobre os conflitos territoriais advindos do PNS; 3) as conse- quências da participação local nos estudos preliminares - que fora resumida a uma tutela. A prova maior disso é o fato do estudo ter ignorado as propostas elaboradas pelos moradores diretamente afetados pelo PNS – ao invés da “participação” en- volver os moradores como sujeitos da pesquisa, foram vistos/utilizados como ob- jetos de pesquisa. Os dados extraídos deles foram (e serão) utilizados para se fazer (direta ou indiretamente) a gestão do território da UC - incluindo, aqui, espaço, re-

cursos naturais (fauna e flora) e as próprias populações humanas - mas não foi in- corporada ou sequer questionada a opinião dos moradores acerca suas demandas. Ainda tratando da reunião de dezembro de 2013, cita-se que por se sentirem

]” (Guadalupe

54 Encontro sobre a Violação de Direitos Humanos Provocados pelos Parques Nacionais em Territórios de Comunidades Caiçaras e Pescadores e Pescadoras Artesanais no Paraná, ocorrido na Ilha de Superagui, em Guaraqueçaba-PR.

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disciplinados por estudos científicos que não dominavam, os moradores buscaram

apoio de alguns pesquisadores e de algumas universidades para tentar contrapor os estudos preliminares do ICMBio – 20 pesquisadores se uniram para realizar uma análise crítica do documento, a fim de demonstrar as inconsistências teóricas

e metodológicas dos estudos. Além disso, os pesquisadores acionados pelos mora-

dores realizaram análises dos documentos visando possibilitar uma tradução da linguagem acadêmica e técnica para uma mais acessível aos moradores, uma vez que grupos de diferentes comunidades reclamavam não compreender tais docu- mentos e se mostravam preocupados com os conteúdos que seriam validados sem o seu conhecimento pleno. Estas e outras críticas foram repassadas diretamente aos gestores do PNS durante o evento de dezembro de 2013 (citado no parágrafo aci- ma), juntamente com um abaixo-assinado com mais de 450 assinaturas de comuni- tários que se autoidentificavam como pescadores tradicionais e caiçaras. No evento, ao cabo de seu fim, fora produzida uma “Carta aberta à sociedade brasileira”, onde podia se ler, entre outras coisas:

Estamos organizados para denunciar o preconceito e o descaso sobre nossas comunidades tradicionais que tem caracterizado as ações da gestão do ICMBio e outros órgãos ambientais do Paraná, ao criminalizar nossas comunidades e impedir o avanço de iniciativas e entendimentos baseados no diálogo democrático, uma vez que nosso interesse é verdadeiramente participar da elaboração do Plano de Manejo do PNS, para tanto o ICMBio necessita reconhecer nossos direitos territoriais (trecho da Carta aberta à sociedade brasileira elaborada pelo Movimento dos Pescadores e Pescadoras do Litoral do Paraná - MOPEAR e Movimento dos Pescadores e Pescadoras Ar- tesanais do Brasil - MPP em 2013).

Percebe-se, no trecho acima, que o conflito territorial existe na percepção dos moradores – e isto já havia sido relatado em outro momento pelo MOPEAR, du- rante o processo de automapeamento feito pelos moradores da Vila de Superagui, no projeto Nova Cartografia Social, em 2010. Este mapeamento, qual aconteceu com o de Barbados, fora ignorado pelos estudos preliminares do Plano de Manejo. A fim de fazer valer a ordem imposta pela UC para os moradores locais, os gestores

utilizam um discurso coercivo que visa contextualizar o conflito territorial do PNS

a partir da incompatibilidade dos moradores em viver em seu próprio território. A fim de se exemplificar isto, cita-se a fala de um membro da gestão da UC:

eu acho que é complicado [existirem pessoas dentro do Parque Nacional], porque se não tivessem pessoas naqueles ambientes, não se precisaria levar energia elétrica e toda infra-estrutura de um modo geral. Mas a gente conseguiu observar que dá, sim, para con- viver: quando não se tem outra solução, você tem que se adaptar à realidade e tentar fazer algo bom. De toda forma, ali isto só está sen- do compatível porque eles [moradores] são pescadores - se tivessem atividades extrativistas, como existe em outras áreas, aí seria incom- patível (Guadalupe Vivekananda em entrevista concedida em 2012).

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A gestora posiciona-se à favor de um protecionismo ambiental regulado pelas leis reificadas – assim, a presença humana em um Parque Nacional só pode ser vista como um empecilho. Nota-se que, em geral, se ignora o próprio processo histórico de surgimento da UC e a toma como um fato dado: encarada como um processo, pode-se afirmar que o conflito não é da comunidade com o Parque (os moradores, alias, não se colocam contra a proteção ambiental), mas, sim, do Parque com a co- munidade (que, de maneira preconceituosa, impede ou considera como negativa a existência dessas comunidades em seu interior). Os estudos preliminares do Plano de Manejo apresentam outra característica marcante: tratam a experiência da identidade coletiva (e, consequentemente, a for- ma de construir uma territorialidade específica e uma cultura específica) de manei- ra também tutelada, explicitando o discurso hegemônico da sustentabilidade que ali se impõe. Neste caso, o ponto de apoio de tal discurso se dá no próprio SNUC:

a permanência da comunidade de Barbados acontece a partir do disciplinamento desta à atividades condizentes com as premissas do PNS. Indiferente à autoiden- tificação e à identidade territorial da comunidade, esta (e outras) são induzidas a terem sua existência material pautada em um “turismo ecológico/comunitário/de base comunitária”: atividade esta preconizada como uma das únicas a poder existir em um Parque Nacional. Ou seja: nenhuma atividade entra no escopo de discussão do Plano de Manejo, senão aquelas que o órgão ambiental prevê como possíveis. Como preconiza o discurso hegemônico da sustentabilidade do PNS, a sustenta- bilidade da área só é atingível com a viabilização plena do Plano de Manejo que está sendo elaborado – sustentabilidade, esta, que está diretamente ligada à ação de manejar o território do Parque e, consequentemente, a territorialidade específica das populações locais. O controle territorial (material) incide, claro, necessari- amente sob o controle cultural da população: o Plano de Manejo não definirá so- mente o que se pode fazer naquele lugar, como, também, que tipo de atividades as populações poderão realizar ali. Tudo isto, enfim, balizando-se no discurso (cientí- fico) sobre a sustentabilidade hegemônica.

Análise dos dados

De acordo com os processos atuais, pode-se perceber a mobilização de dois dis- cursos antagônicos sobre a sustentabilidade da área: de um lado, tem-se a manuten- ção da realidade e das disciplinas discursivas trazidas pela hegemonia (ou seja, pela manutenção da ordem vigente) – pautada em leis ambientais, o órgão ambiental assume uma posição que coage os moradores locais a aceitarem lógicas externas de uso, ocupação e manutenção do território, em nome da sustentabilidade; por outro lado, sem se colocar contra a sustentabilidade, as pessoas afetadas por este discurso se mobilizam para terem suas experiências identitárias e territoriais reconhecidas pelos órgãos. Durante a reunião realizada e organizada pelos moradores, já citada neste ar- tigo, pôde-se perceber que o processo de participação da comunidade nos estudos foi pífio ou, no mínimo, falho: por diversas ocasiões, os moradores se mostraram insatisfeitos com os resultados e os procedimentos tomados nos estudos. Muitas falas tratadas na ocasião sustentavam que alguns moradores sequer sabiam o que

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se tratava o Plano de Manejo. O fato dos mapas autoproduzidos terem sido ig- norados apontam para que tipo de participação o Plano de Manejo irá se munir:

daquela que possui menor caráter de espontaneidade e de polêmica – afinal, estas eram as principais características dos produtos produzidos pelos moradores, visto que questionavam diretamente as ordens impostas pelo discurso hegemônico da sustentabilidade travada pelo órgão gestor da UC. Além disso, os estudos ignoram os processos de mobilização em torno das práticas territoriais do grupo: as falas dos moradores atingidos pelo PNS nos estudos preliminares resumem-se a citações indiretas e, em grande medida, são relacionados a uma prática de turismo tute- lado pelo órgão – assim, tem-se a impressão que esta atividade é prioridade para o grupo. Por fim, acreditamos que os estudos e proposições referentes ao Plano de Mane- jo da UC enveredam à gestão dos conflitos existentes (ou seja, não discutem os conflitos existentes, mas, sim, tentam modular a realidade e os moradores, de ma- neira a inseri-los na realidade legal que se impõe sobre eles), de maneira que as populações locais continuarão submetidas às imposições de um controle territorial (e, assim, da própria vida material e imaterial) exógeno, embasado, por sua vez, no discurso científico sobre a sustentabilidade hegemônica. A partir dos discursos acerca a suposta busca pela “sustentabilidade”, o órgão gestor centraliza as decisões territoriais locais - modificando não só a territorialidade específica das comuni- dades que habitam o local onde o Parque instaurou-se, como, também, a própria cultura da população em questão. Neste sentido, acreditamos que a produção dos “estudos cartográficos” partici- pativos realizados em Barbados, que tiveram origem de uma necessidade exógena (leia-se: exigência do ICMBio), não serviu como um instrumento para uma reso- lução real dos conflitos territoriais enfrentados naquele lugar: quando os mora- dores apresentaram um discurso de práticas territoriais incompatíveis à UC, estes dados simplesmente foram deixados de fora dos estudos, como se nunca tivessem sido exigidos ou realizados. Com isto, tanto o processo quanto os produtos desta politização da natureza vão sendo perdidos e, com isto, diminui-se cada vez mais a possibilidade de uma discussão franca e democrática sobre a gestão de um ter- ritório tradicionalmente ocupado e atingido por um Parque Nacional. O desenrolar dos processos de mapeamento para os estudos do Plano de Manejo não tiveram como premissa uma discussão efetiva sobre o uso e apropriação do território, sequer sobre seus recursos. Ora, o estudo tinha apenas duas finalidades claras: fornecer subsídios para a gestão e controle do território da UC; e para, no máximo, servir de subsídio a possível criação de uma regionalização específica à comunidade, como uma “zona histórico-cultural”, que possuiria, como fim maior, novamente, o controle da população naquele território. Além disso, Souza (2007), em estudo sobre os conflitos territoriais enfrentados pelos faxinalenses, observou que a elaboração de leis e políticas públicas que não tornavam explícitas a existência do grupo étnico mobilizado acabaram sendo insu- ficientes para resolver as questões fundiárias e os conflitos do grupo, visto que tais medidas mantinham “na invisibilidade o sujeito coletivo e o contexto em que nele atuam e se manifestam” (SOUZA, 2007, p. 577). Um dos moradores locais faz a crítica sobre os processos participativos para a

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fundamentação do Plano de Manejo:

Essas categorias de unidade não são feitas pra humanos, então

porque você acha que eles [os gestores] perderiam tempo tentan-

do fazer a comunidade entender o que é isso? [

servação? Faça, mas conserva tudo, conserva o homem dentro tam- bém. De que adianta uma floresta inteira preservada, com um país inteiro pobre? Qual é o sentido disso? De que adianta a gente discutir o Plano de Manejo se o tipo de UC que a gente tem aqui não nos per- mite nada? Estamos na discussão errada! (Relato de um morador da região do Parque Nacional de Superagui extraído da dissertação de Duarte, 2013, p. 144).

Quer fazer con-

]

Pode-se notar na fala acima, que o morador da região percebe que a sustentabi- lidade visada nos Planos de Manejo a partir da participação dos moradores locais serve tão-somente para fazer o controle social do território: como o SNUC apregoa, esta categoria de UC não permite sequer a existência de comunidades habitando

seu interior. “Participação”, neste contexto, significa legitimação das ordens exóge- nas ditadas pelo órgão ambiental e pelos reprodutores do discurso hegemônico da sustentabilidade. A participação da comunidade no processo mapeamento poderia ser um dos principais instrumentos para indicar a sua territorialidade específica, como já sa- lientamos em outro momento (VARELLA; DUARTE; MARTINS, 2013) - mas vale destacar, também, aquilo que Acselrad & Coli (2008) alertaram: existe a possibi- lidade destes mapeamentos participativos servirem como instrumentos de domi- nação contra os próprios mapeados, caso estes não compreendam técnicas empre- gadas e a importância de seus usos. Enquanto o instrumento for utilizado por e para agentes externos, os grupos continuarão sendo meros objetos de pesquisa. A participação da comunidade em processos cartográficos que não visam servir às comunidades mapeadas, mas somente à legitimação do controle externo sob o território, pode dar à comunidade a ilusão de possuir algum controle sobre o terri- tório. Mas, ao discutir o espaço sem abordar suas nuances sociais (o controle sobre

o território), estes processos podem desviar o foco dos questionamentos sobre a

própria formulação de políticas e distribuição do poder nas sociedades (ACSELRAD

& COLI, 2008, p. 37). Daí deriva a importância de se compreender as diferenças

entre espaço, território e territorialidade específica – categorias estas que foram renegadas pelo órgão gestor: a única territorialidade percebida e concebida nos estudos preliminares tem sido aquela que genericamente impede a existência de comunidades no interior do PNS. Além disso, se os mapas podem incorporar os conceitos da comunidade, podem, da mesma forma, “excluir os de quem não participa” (ACSELRAD & COLI, 2008, p. 37). Neste sentido, ressaltamos que a metodologia consagrada e utilizada conven- cionalmente em estudos de Planos de Manejo de UCs que têm populações em seu interior, o DRP (Diagnósticos Rurais Participativos, que alega ter como vantagem a rápida aplicação e que fora incorporado nos estudos preliminares do Plano de Manejo do PNS), ao pautar-se em representantes da comunidade acaba recortando

e forjando uma “opinião pública” sobre a visão da coletividade. O recorte, em boa

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verdade, não é o problema: afinal, isto é parte de qualquer estudo científico. Porém, ao optar por um método de curta duração, os pesquisadores realizaram um estudo sobre a realidade de cada comunidade em questão de horas: acreditamos que mais de 20 anos de conflito não podem ser apreendidos em poucas horas de estudos, feitos por pessoas estranhas à comunidade e que representavam, acima de tudo, o interesse dos órgãos gestores (lembramos, aqui, que os moradores não se sentiram representados nos estudos, e que tampouco este levou em consideração a visão e as propostas espontâneas e polemicas trazidas pelos atingidos pelo PNS). O valor intrínseco ao Plano de Manejo da referida UC advém do fato de balizar- se em um discurso científico sobre a sustentabilidade, o que permite ao órgão aferir

o “grau de sustentabilidade” das culturas locais. A partir dessa lógica, estes estudos servirão para legitimar o poder do órgão gestor da UC para controlar a cultura e

a territorialidade específica dos moradores, que passarão a ter de existir segundo

os preceitos da preservação ambiental compatíveis com os interesses do Parque Nacional. Em um panorama mais crítico, onde a lei é lida e aplicada tal qual está prevista, ou seja, como uma noção operacional, a própria permanência das comuni- dades em seu território tradicionalmente ocupado torna-se inviável. De maneira geral, pode-se afirmar que o conflito no lugar ainda vem sendo encarado de maneira alienada: ignoram-se os processos sociais históricos que pro- duziram o Parque Nacional de Superagui, e enfatiza-se a necessidade de se aplicar as diretrizes impostas por “estudos científicos”, feitos por pessoas externas ao lu- gar, que ditam quais os meios e formas mais “sustentáveis” de se usar o território:

mais que gerir o território, o Plano de Manejo do PNS apresenta-se potencialmente como um discurso hegemônico da sustentabilidade.

Considerações finais

Acreditamos que ao longo do processo de estudos para a elaboração do Plano de Manejo do Parque Nacional do Superagui, a discussão acerca o controle do ter- ritório foi renegada, sendo resumida a uma mera descrição espacial e ignorando os conflitos territoriais. O problema oriundo do fato do Plano de Manejo ter resumido as questões territoriais a questões espaciais não se resume ao aspecto semântico:

trata-se da fundamentação conceitual. A questão espacial não engloba as nuances

sociais de controle do território - e, assim, o intuito da participação no mapeamento foi tão-somente adquirir informações pertinentes ao controle do órgão sob a terri- torialidade específica de Barbados. Isso nem sempre se dá pela falta de planejamento - pelo contrário: a ausência da discussão sobre o controle social do espaço serve, justamente, para manter o con- trole já exercido por alguém. Isto alias, nunca foi a pauta da discussão, uma vez que

o próprio Plano de Manejo vem sendo utilizando (mesmo durante a sua ausência)

como um instrumento para se fazer valer o discurso hegemônico da sustentabili- dade - discurso este validado por uma abordagem científica e balizada por justifi- cativas (já aceitas pelo senso comum) de uma sustentabilidade condizente com os objetivos específicos de cada UC. Os automapeamentos poderiam ter servido para dar voz às comunidades dentro dos estudos preliminares, mas a efetivação destas territorialidades muitas vezes

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“mostra-se dependente da estrutura de poder na qual ele se instaura” (ACSELRAD

& COLI, 2008, p. 40) - como foi o caso dos processos que observamos. Destarte,

é necessário identificar e relacionar as tramas territoriais do espaço mapeado (a

disputa territorial), e as tramas dos sujeitos relacionados ao mapeamento (disputa cartográfica), para então questionar: “qual é a ação política a que o gesto cartográ- fico serve efetivamente de suporte?” (ACSELRAD & COLI, 2008, p. 41). Ao ignorar os automapeamentos, os estudos preliminares perderam dupla- mente: primeiro, porque acabaram estrategicamente com a perspectiva da comu- nidade sobre a sobreposição de territorialidades - os dois processos de automapea- mentos (feitos pelos moradores de Barbados e outro anterior, feito pelos da Vila de Superagui) apontavam para uma mobilização social em torno dos conflitos territo- riais que existem na região, frutos do discurso hegemônico da sustentabilidade; em segundo lugar, os estudos perderam a oportunidade de se munirem de um produto realmente participativo: o mapa e a maquete produzidos pela comunidade tinham o potencial de servir como um instrumento jurídico para a regularização de questões fundiárias do conflito territorial em questão. Por fim, concluímos que os mapeamentos participativos ou qualquer outra es- tratégia semelhante de identificação das territorialidades específicas de comuni- dades afetadas pelo discurso hegemônico da sustentabilidade só servirão como instrumentos contra hegemônicos quando deixarem de servir unicamente à repre- sentação espacial da noção operacional do desenvolvimento sustentável e passarem

a questionar a essência dos processos cartográficos, ou seja, quando tratarem de fato sobre a democratização dos territórios e o acesso aos recursos.

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A tutela das plantações industriais de árvores e a resistência camponesa no município de imbaú
A tutela das plantações industriais de árvores e a resistência camponesa
no município de imbaú - PR 55
e a resistência camponesa no município de imbaú - PR 55 Roberto Martins de Souza 5

Roberto Martins de Souza 56

Resumo

O discurso socialmente justo e ambientalmente sustentável se tornou o man- tra do setor de papel e celulose, cujo interesse principal é estruturar sua visão de desenvolvimento, com interesse de ser a única explicação possível da realidade re- gional. No entanto, tal pretensão demonstra não resistir a uma aproximação crítica de seus efeitos socioambientais negativos, quando confrontada com a realidade dos atingidos pelas plantações industriais de árvores, o que torna seu discurso em uma peça de ficção nessa região do Paraná. O campo de debates aqui examinado obje- tiva apresentar discursos e práticas acerca dos efeitos socioambientais produzidos por este modelo dominante de desenvolvimento, tendo por objeto de análise as posições contestatórias de agricultores familiares, assentados de reforma agrária, povos e comunidades tradicionais, que baseiam sua existência social em formas diferenciadas de produção, trabalho e cultura. No período de um ano e meio, pro- cedemos a coleta de dados em 12 comunidades rurais no Município de Imbaú - PR, além de realizarmos 8 oficinas de mapas com a participação dos “Atingidos”. Os resultados do projeto indicam contradições do discurso empresarial, frente nar- rativas e registros de seus efeitos nocivos à sociabilidade nas comunidades, suas práticas culturais e a degradação dos recursos naturais. A execução deste projeto de extensão pretendeu servir de base para revelar a violação de direitos humanos fundamentais de grupos sociais denominados de “Atingidos”, ao permitir sua visi-

55 Este artigo é o resultado parcial das discussões empreendidas durante a realização do Projeto de Extensão intitulado

Cartografia Social dos Impactos dos Monocultivos de Eucaliptos no Município de Imbaú – PR. A pesquisa somente foi possível com apoio da CRADE, IFPR/PROEPI/Diext e dos bolsistas de extensão: Damaris Garces, Gislaine Lacerda, Suzana Figueirdo e Simeia França.

56 Doutor em Sociologia - Docente Campus Paranaguá – IFPR. Coordenador do Projeto. roberto.souza@ifpr.edu.br

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bilidade e situação de vulnerabilidade social decorrente de ameaças que assolam às plurais formas de existência da cidadania no Município e região.

PALAVRAS-CHAVE: Plantações arbóreas; Atingidos; Conflitos ambientais.

Introdução

No mundo todo, o monocultivo industrial de eucaliptos gera inúmeras práticas lesivas as comunidades rurais, tais como a ocupação de grandes extensões de terra, a secagem e poluição dos recursos hídricos, bem como a desestruturação dos siste- mas produtivos tradicionais e condições de vida dos povos tradicionais 57 que viviam anteriormente no lugar. Na região de Telêmaco Borba, especificamente no Município de Imbaú 58 , os agentes empresariais deste setor promovem a mais de meio século mudanças sig- nificativas das relações entre agricultores familiares e povos tradicionais e o seu território. Ante o argumento pautado pelo empresariado e reforçado pelos agen- tes governamentais, de uma pretensa “vocação natural” da região, o que justifi- caria a contínua ampliação de investimentos – públicos - na expansão do setor, organizações da sociedade local, em resistência há mais de duas décadas contra este modelo, solicitaram a realização de uma cartografia social dos conflitos decor- rentes da desregulamentada e autoritária expansão das plantações de eucaliptos 59 no município. Uma das tarefas iniciais da proposta apontava para o trabalho de desoculta- mento das formas sociais diferenciadas presentes na região. Desacreditadas em sua existência econômica, cultural e social, face o domínio dos monocultivos, esses grupos se veem suprimidos de direitos diferenciados de cidadania, ausentes no ter- ritório em estudo. De fato, é a ocultação e a assimetria de poder enfrentada por essa diversidade social a fonte para a violação de direitos humanos relativos a garantias de seus modos de vida, motivos pelo qual, nos últimos dez anos, se acentuam confli- tos entre populações locais e o complexo de celulose e papel. Tais conflitualidades, ainda que não publicizadas, estão na base da formação e agregação da categoria 60 emergente sujeitos sociais em Imbaú, autodenominados de “Atingidos” pelo De- serto Verde. Diante o exposto, o registro e análise dos conflitos socioambientais, por este procedimento que associa pesquisa/extensão, intencionou criar condições para a desnaturalização e problematização do modelo autoritário de desenvolvimento de plantações industriais arbóreas, que se impõe na região há muitas décadas. Ao tra- tar oficialmente de uma ação de extensão, interessou-nos desenvolver inicialmente

57 No Município de Imbaú encontram-se terras tradicionalmente ocupadas pelos povos faxinalenses e indígenas.

58 O Município de Imbaú viu em quase duas décadas o incremento da área de plantações industriais de árvores crescer

em mais de 150%.

59 As plantações industriais aqui mencionadas se referem aos monocultivos de eucaliptos e pinus. Entretanto, no Mu-

nicípio de Imbaú, prevalecem as plantações de eucaliptos. Por este motivo, cita-se de modo corrente a expressão “mono- cultivos de eucaliptos”.

60 O debate que convergiu para essa definição surgiu em uma das oficinas de mapas realizada em julho de 2012. Nela os

participantes, após perceberem a similaridade dos conflitos que as plantações de eucaliptos provocavam em suas comu- nidades, manifestaram pertencer ao grupo de “Atingidos”, no caso específico, por plantações industriais de eucaliptos. A partir daí deu-se início a Comissão Regional dos Atingidos pelo Deserto Vede – CRADE.

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uma relação social de pesquisa com os “Atingidos” pelas plantações arbóreas, a fim de produzir conhecimentos e disseminar tecnologias apropriadas ao monitoramen- to dos impactos pelas comunidades afetadas. Durante o período de um ano visita- mos comunidades e participamos de reuniões com representantes de comunidades para compreender a dinâmica dos conflitos sociais. Destaca-se especial atenção as recorrentes violações de direitos fundamentais evidenciadas pelo conhecimento das realidades localizadas de grupos socialmente vulneráveis, em situação de injustiça ambiental, uma vez que sua existência social no território se encontra fortemente ameaçada pelos planos de expansão 61 do setor de papel e celulose na região.

Os Procedimentos da Análise

Para conhecer as distintas posições nesse campo de lutas simbólicas e materi- ais, estabelecemos o confronto entre os diferentes discursos presentes no campo socioambiental em análise: de um lado, a versão anunciada pelo modelo domi- nante, tomada como oficial, que produz efeitos simbólicos e ideológicos capazes de subverter a realidade social e ambiental, de outro, os agentes portadores de inter- esses diversos, agrupados na categoria dos “Atingidos” pelos impactos das práticas produtivas empresariais, em especial, os promovidos pela expansão das plantações industriais. No primeiro caso 62 focalizamos o discurso dos representantes da em- presa KLABIN Papel e Celulose, do poder público e da mídia, sendo selecionadas e ordenadas amostras da prática discursiva – escrita -, na forma de relatórios anuais, boletins, reportagens, entrevistas e documentos da empresa e dos demais partici- pantes do campo social estudado. A exposição das contradições, facilitado pelo exercício de comparação entre os diferentes discursos, o empresarial e dos atingidos, pretendeu servir como uma fer- ramenta de visibilidade e de legitimação de demandas de comunidades envolvidas em conflitos territoriais e ambientais ante o processo de expansão capitalista em escala regional e suas implicações na intensiva exploração e ordenamento dos re- cursos naturais sobre territórios ocupados pela agricultura familiar e povos tradi- cionais. Conquanto, reafirmam em seu discurso a insustentabilidade do modelo dominante, considerando as ameaças à diversidade dos arranjos sociais, culturais e produtivos locais e, a materializam seus conhecimentos na aprendizagem dos pro- cedimentos de georreferenciamento - GPS, imagens, fotografias - na qualidade de tecnologias de controle social utilizadas para diagnosticar, planejar e democratizar o acesso ao planejamento territorial, tanto quanto, diminuir a assimetria de poder entre agentes e redes que desenvolvem diferentes dinâmicas produtivas e educacio- nais no território de maneira desigual. Os procedimentos da cartografia social resultaram nas oficinas de mapeamento, nas quais as fronteiras entre os sujeitos e o objeto de pesquisa procuram desfazer- se. Pesquisadores apoiam o processo em que agentes sociais embasados, princi- palmente, em conhecimentos cartográficos elementares e em seus próprios depoi-

61 No início de 2012, a KLABIN anunciou a construção de sua nova fábrica no município de Ortigueira, adjacente a

Imbaú.

62 No início de 2012, a KLABIN anunciou a construção de sua nova fábrica no município de Ortigueira, adjacente a

Imbaú.

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mentos para registrar histórias sociais, de trabalho, da relação com o ambiente, resistência e lutas contra a expansão dos monocultivos arbóreos. As coordenadas geográficas foram marcadas pela própria comunidade por meio de GPS, as localidades foram nomeadas e narradas em detalhes, juntamente com os conflitos e/ou práticas produtivas que ganham forma nas legendas do mapa final. Os expoentes nesse debate são o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida (PPGSA - UFAM) e o geógrafo Henri Acselrad (IPPUR – UFRJ). Ambos esclarecem que nessa forma de mapeamento, há uma interrelação entre as ferramentas tec- nológicas e os conhecimentos tradicionais. O resultado é uma autodemarcação sufi- cientemente precisa dos conflitos socioambientais a partir do que denominamos de processos sociais de territorialização 63 narrados pelos agentes sociais “Atingidos” nas referidas comunidades. Ao todo foram realizadas 8 “oficinas de mapas” ao longo do ano de 2012, onde os agentes sociais utilizaram 3 formas de narrativas para exporem os conflitos entre seus modos de vida e a expansão dos monocultivos: croquis (desenhos), entrevis- tas e imagens (fotográficas). No entremear das oficinas, foram colhidas imagens fotográficas e georreferenciados conflitos pelos “Atingidos”, a fim de qualificar o banco de dados de conflitos de cada uma das comunidades afetadas. Tais dados, organizados em entrevistas transcritas, imagens e croquis foram coligidos e os ma- pas reelaborados, segundo revisões dos “Atingidos”. Identifica-se nessa interação de pesquisa, novos conhecimentos 64 sendo produzidos e apropriados pelos agri- cultores, estudantes – bolsistas - e organizações que são colocadas em confronto com as informações pretensamente triunfalistas sobre o desenvolvimento da região produzidas pela empresa e reproduzidas pela mídia e agências governamentais. No entremear da pesquisa documental e dos procedimentos cartográficos, man- tivemos vigilância e aproximação crítica através da observação direta e a coleta de relatos orais a campo, empreendidas ao longo de um ano e meio e, nas mais di- versas situações de pesquisa e extensão. A metodologia constituiu uma busca de- liberada pela comparação entre os discursos, na tentativa de exercitar a contra- dição e a manifestação do antagonismo entre a realidade vivida pelos atingidos e a publicidade empresarial. Para tanto, o esforço de análise exigiu a decomposição dos elementos fundamentais presentes nos relatos orais obtidos nas “oficinas de mapas” e, em visitas realizadas em 12 comunidades rurais, onde foram entrevis- tados 22 agricultores “Atingidos” pelos monocultivos arbóreos. À confirmação dos argumentos seguia-se o registro de imagens e coleta de dados georreferenciados sobre situações conflituosas mencionadas que indicavam a espacialização dos im- pactos socioambientais relacionados à redução dos espaços sociais na agricultura camponesa; desestruturação dos sistemas produtivos tradicionais; degradação dos

63 Segundo ALMEIDA (2004) trata-se do processo de reorganização social decorrente de situações de conflito territorial

envolvendo grupos sociais que historicamente se contrapuseram ao modelo agrário exportador, apoiado no monopólio da terra, no trabalho escravo e em outras formas de imobilização da força de trabalho. No entanto, o processo de ter- ritorialização é um fenômeno complexo que não deve ser simplesmente considerado como uma imposição exógena e

hegemônica do Estado sobre a diversidade de expressões territoriais. Apesar de seus dispositivos de dominação e de re- ordenamento da vida desses grupos sociais, ele também é reapropriado e reinterpretado pelos mesmos, que lhe atribuem

64 O conjunto desses dados ganhou o formato de Boletim Informativo n° 1, tendo como autores os próprios participantes

das oficinas de mapas. No dia 06/06/2013 foi realizado evento, intitulado: Seminário Regional sobre Violação dos Direitos

Humanos e as Plantações Arbóreas de Eucaliptos, que contou com a participação de 250 pessoas, momento em que ocor- reu o lançamento público do Boletim.

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recursos naturais, em detrimento de outros projetos sócioterritoriais para a região. A Hegemonia Empresarial e a Resistência Camponesa

Silenciar as histórias sociais e ocultar os sujeitos – atingidos – são regras básicas do discurso empresarial em análise. Assim como a recorrente produção de infor- mações de uma realidade social segundo os moldes idealizados pelo discurso da sustentabilidade. Ao olhar dos atingidos, esses argumentos são uma ficção, quando o assunto é a realidade das comunidades camponesas. O mapa da ocupação do solo no Município de Imbaú foi apresentado em períodos – 1990, 2006 e 2011 – o que permitiu visualizar nas imagens de satélites 65 , a evolução da área ocupada por plan- tações industriais no período de 1990 a 2011. A evidência dessas informações serviu como explicação da intensificação dos conflitos socioambientais e, abriram possi- bilidades a troca de experiências do grupo sobre os impactos dessas plantações em suas comunidades, criando condições para a formação de um discurso específico em torno das práticas de resistência dos atingidos, consoante as tensões entre a visão empresarial e seus conhecimentos e práticas locais. Nesse cenário, os mon